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O TRABALHO DO PSICOPEDAGOGO DIANTE DAS DIFICULDADES

ESPECIFICAS DE LEITURA E ESCRITA


Gerlane Machado Sales1 *

RESUMO

Neste artigo propomos um estudo sobre as dificuldades específicas de leitura e


escrita, pois esta tem sido a causa mais frequente de baixo rendimento e evasão
escolar. Dentro desse contexto, surgiu o interesse pela pesquisa, partindo do
problema: De que forma o psicopedagogo poderá intervir na dificuldade específica
de leitura e escrita do aprendente? Tendo como suporte o estágio clínico em um
espaço escolar (AEE) da Escola M.N.Senhora da Paz. Diante dessa realidade,
este artigo tem como objetivo geral: relatar uma experiência psicopedagógica com
uma criança de 9 anos que apresenta dificuldades na leitura e escrita. Tendo como
objetivos específicos: caracterizar o relato de experiência e descrever o aprendente
a partir de um olhar psicopedagógico; e propor estratégias de intervenção
diferenciadas. Com a justificativa de ajudar o aprendente a resgatar a relação com
a aprendizagem. Como método de análise foi utilizado pesquisa bibliográfica e
relato de experiência cliníca. Para embasamento teórico, tivemos como suporte os
estudos dos seguintes autores: Sampaio (2007/2011), Weiss (2012), Chamat
(2004), Snowling (2004), Relvas (2015), Fernandez (1991), estes que retratam as
dificuldades de aprendizagem, dando-nos um suporte para intervir junto a elas. A
intervenção clínica foi de grande valia, pois através das atividades diferenciadas
(contos) e lúdicas, exercícios que estimulam o raciocínio possibilitaram ao
aprendente melhorias no desenvolvimento de sua consciência fonológica e nos
aspectos comportamentais e afetivos.
PALAVRAS CHAVE: Dificuldades de aprendizagem. Consciência fonológica.
Intervenção psicopedagógica.
1 INTRODUÇÃO
Atualmente, a Psicopedagogia tem alcançado avanços no sentido de
resgatar e trabalhar as causas do não aprender, atuando sobre o sujeito com
dificuldade específica de leitura e escrita e proporcionando o desenvolvimento das

1
Sales. Gerlane Machado. Graduada em Normal Superior pela Faculdade Santo Agostinho. Pós graduada em
Docência do Ensino Superior pela Faculdade Santo Agostinho. Pós graduanda em Psicopedagogia pela
Faculdade Mauricio de Nassau .
Email : Gerlanemsales30@gmail.com
suas estruturas de pensamento, possibilitando ver o aprendente de forma holística,
bem como entender os fatores que impedem ou dificultam o ato de aprender.
Dentro desse olhar, percebeu-se durante o estágio clínico uma dificuldade
especifica na leitura e escrita do aprendente, ou seja, possível Dislexia ou “mal
oculto”. A dislexia é um disturbio na leitura que afeta a escrita, normalmente
detectada a partir da alfabetização, sendo entre outros fatores, decorrência de
deficiência fonológica ( SAMPAIO, 2014)
Nessa perspectiva, é indispensável uma análise aprofundada sobre o
trabalho do psicopedagogo diante das dificuldades de leitura e escrita, tendo como
suporte o estágio clínico, Dentro desse contexto, surgiu o interesse pela pesquisa,
partindo do problema: Investigar as causas da dificuldade específica de leitura e
escrita do aprendente e de que forma o psicopedagogo poderá intervir nessa
problemática.
Diante dessa realidade, este artigo tem como objetivo geral: relatar uma
experiência psicopedagógica clínica com uma criança de 9 anos que apresentava
dificuldades na leitura e escrita, o referido trabalho surgiu a partir da queixa da
escola . Tendo como objetivos específicos: caracterizar o relato de experiência e
descrever o aprendente em seus aspectos cognitivo, comportamental e emocional
a partir de um olhar psicopedagógico; e propor estratégias de intervenção
diferenciadas, visando desenvolver a consciência fonológica que possibilite ao
aprendente novas formas de ampliar seu nivel de cognição e se aproprie da leitura
e escrita.
Este trabalho teve como metodologia a experiência em um espaço de AEE
de uma escola da rede municipal de ensino, tendo como procedimentos: eoca,
provas operatórias, testes de projeção, provas pedagógicas e o atendimento de
intervenção psicopedagógica através de contos infantis, inicialmente trabalhando
atividades lúdicas para período de adaptação.
Para embasamento teórico, tivemos como suporte e diálogo baseado nos
estudos dos seguintes autores: Sampaio(2007/2011), Weiss(2012), Chamat(2004),
Snowling(2004), Relvas(2015), Fernández(1991), estes que bem retratam as
dificuldades de aprendizagem, dando nos um suporte para intervir junto a elas.
Sendo assim para melhor entendimento o artigo está organizado da seguinte
maneira: um olhar psicopedagógico na caracterização do relato de experiência
clínica; o processo de alfabetização e o aluno disléxico; o trabalho do
psicopedagogo e as estratégias de intervenção.

2 UM OLHAR PSICOPEDAGÓGICO NA CARACTERIZAÇÃO DO RELATO DE


EXPERIÊNCIA CLÍNICA
Ao fazer uma observação detalhada das necessidades do aprendente, faz-
se necessário uma reflexão da realidade do mesmo com suas particularidades,
visto que o psicopedagogo também se torna participante dessa vivência. Alícia
Fernández (1991) nos diz que o termo aprendente é posição subjetiva em relação
ao conhecimento, pois este se situa na articulação da informação, do conhecer e
do saber e a psicopedagogia de certa forma dirige seu olhar precisamente para a
inter-relação entre o conhecer e saber.
Nesse sentido, o relato de experiência clínica revela em profundidade a
realidade de pessoas na sua vida real, e por isso deve existir uma
confidencialidade para que não exponha a vida do indíviduo, devido a descrição
detalhada do problema. Nessa perspectiva, o atendimento clínico com o
aprendente B.D de 9 anos, que cursava o 3º ano, aconteceu no espaço escolar
(AEE) da Escola Municipal Nossa Senhora da Paz, trazia como queixa principal de
que o aluno não sabia ler e escrever e com isso apresentava comportamento
inadequado e baixa autoestima. É uma criança que demonstra especial interesse
por desenhar, gosta de jogos e games. Diante disso a experiência cliníca iniciou
com a anamnese, seguida de vários instrumentos para avaliação diagnóstica como:
EOCA, técnicas projetivas, provas cognitivas, provas psicomotoras e atividades
pedagógicas, juntamente com uma entrevista com o professor. Dentro dessa
perspectiva Weiss diz que :
A entrevista de anamnese é um dos pontos cruciais de um bom
diagnóstico. È ela que possibilita a integração das dimensões de
passado, presente e futuro do paciente, permitindo perceber a construção
ou não de sua própria continuidade e das diferentes gerações.(WEISS,
2012, p. 65)
A mãe começou relatando que sua gravidez foi acidental e que após o
nascimento de B.D. houve mudança no relacionamento bem como: traição,
humilhação e o clima ruim dentro de casa, então resolveu separar do marido em
pouco tempo após o nascimento da criança.
Em relação a sua linguaguem informou que ele começou falar tarde com
quase 3 anos, depois que começou frequentar a creche. Ele apresenta gagueira
leve, troca de fonemas e atraso na linguaguem. B.D foi acompanhado por
especialistas, mas reforça que nenhum observou nada de estranho, revelando
também não ter dado continuidade ao tratamento por ser longe, ou seja, não
recebeu nenhum diagnóstico final, somente o AEE da escola que pediu
acompanhamento psicológico e prática de esportes.
Quanto ao seu desenvolvimento emocional o aprendente conversa bastante,
ofende-se facilmente, irrita-se fácil, é inseguro emocionalmente e sente-se inferior
aos colegas que já sabe ler. É uma criança que não tem amigos na escola.
Atualmente, em situação de conflito reage de forma agressiva e chora, tem tiques:
enrola e morde a manga da camisa e rói unhas.
No que se refere a sua vida escolar B.D, tem baixo rendimento,
encontrando-se no nivel pré-silabico, não possui motivação para aprender, sempre
se recusando a fazer atividades alegando que não sabe ler e escrever. È disperso,
não havendo evolução, pois o aprendente sempre se recusa a desenvolver as
atividades solicitadas pelo professor , o mesmo se destaca em atividades de
desenho e pintura , possuindo uma inteligência pictórica bem elevada.
Ressaltamos que a mãe em nenhum momento teve dificuldades em
responder as perguntas, relatou que a avó não tem paciência com B.D, vive
xingando-o e reforçando negativamente , chamando-o de burro , especial. A mãe
acha que essa dificuldade vai passar e que ele vai aprender, sendo bem positiva
quanto a isso.
A avaliação diagnóstica permitiu analisar o aprendente em vários aspectos,
pois esta segundo SAMPAIO, 2014, p.48 “ na avaliação o psicopedagogo deverá ir
descartando: imaturidade para aprendizagem, problemas emocionais, métodos
defeituosos de aprendizagem”. No que se refere ao ponto de vista intelectual ele
apresenta um nível de estrutura cognitiva de pensamento correspondente ao
operatório concreto, foram aplicadas as provas de Piaget e o desempenho do
aprendente não é compatível com sua idade cronólogica, situa-se no 1º estágio do
referido período. Referente a avaliação perceptivo-motora as provas não
demonstraram dificuldades espaciais, seus desenhos são bem detalhados o que
lhe coloca em bom nível de realismo visual. Apresenta tendência a hiper atividade
motora, o aprendente situa o corpo em situações diversas, apresentando
desenvolvimento abaixo da média em orientação temporal, acuidade auditiva e
dissociação da lateralidade. No que se refere à avaliação da leitura/escrita o
aprendente encontra-se no nível de escrita pré-silábico, apresenta uma rejeição
total no que se refere à leitura e escrita, nunca está disposto a escrever durante a
sessão dando sempre preferência a desenhos e jogos, sempre dizendo que não
sabe nada, só desenhar e colocar o seu nome. Reforçando um vínculo negativo
com a aprendizagem sistemática. Enfim as provas projetivas evidenciaram vínculo
negativo com a aprendizagem, visto que o aluno através do desenho demonstra as
suas estruturas de pensamento compatíveis com sua idade que o permite
aprender. (CHAMAT, 2004), sendo assim o aprendente não estabeleceu vínculos
com o ser que ensina, tem dificuldade de relacionamento com os colegas em sala
de aula apresentando atitude agressiva em determinados momentos e culpa os
amigos por agir assim, demonstra insegurança e baixa autoestima.
De acordo com os dados coletados durante a avaliação psicopedagógica o
aprendente tem bom nível intelectual e as dificuldades apresentadas por ele
supõem que o mesmo apresenta quadro de dislexia, nessa perspectiva, SAMPAIO,
2014, p. 38 “dislexia é um distúrbio na leitura que afeta a escrita, sendo
normalmente detectada a partir da alfabetização, período que inicia o processo de
leitura”, as queixas relacionadas ao desempenho escolar em leitura/escrita podem
ser decorrentes de tal quadro clínico ou conseqüência de aspectos metodológicos
ou pedagógicos aplicados no início de sua vida escolar. De qualquer forma, se não
forem tratados agora, poderão gerar maiores dificuldades no futuro. Nesse sentido,
indicamos o início de atendimento por uma equipe multidisciplinar para a devida
comprovação do diagnóstico, bem como a sistematização do atendimento
psicopedagógico para resgatar sua relação com a aprendizagem, visto que ele tem
um prognóstico de evolução futura. Reforçando que o sucesso no tratamento vai
depender da colaboração da família, pois esta precisa conhecer e se adaptar a
realidade da criança, nesse sentido são recomendados uma terapia familiar visto
que a avó reforça pontos negativos no aprendente. Ao iniciarmos as sessões de
intervenção o objetivo geral era intervir junto as dificuldades específicas de leitura e
escrita do aprendente, possibilitando melhorias na construção do conhecimento,
visando uma aprendizagem significativa e sistematizada. E com isso buscou-se nos
objetivos específicos subsídios para tal problemática como: investigar o motivo da
dificuldade específica de leitura e escrita propondo estratégias que venham atender
as reais necessidades do aprendente; aplicar atividades diferenciadas (contos) nas
sessões de intervenção; desenvolver sua consciência fonológica através de
atividades e exercícios específicos (rimas,parlendas); estimular a concentração,
raciocínio lógico, criatividade através de atividades lúdicas; motivar o aprendente
proporcionando mais contato com o mundo letrado. Para isso tivemos como
metodologia 12(doze) encontros com duração de 1 h e 30 minutos totalizando 22
sessões de intervenção, onde foram desenvolvidas propostas de montagem de
cena; quebra- cabeça; cruzadinha; caça-palavras; jogos dos 7 erros; dobraduras;
pensando na escrita; recorte e colagem; sequências; escrita e reescrita de
histórias; produção de textos através de 5 contos de fada: Chapeuzinho Vermelho,
Os três porquinhos, O Pinóquio, a Branca de Neve, A Bela e a Fera e o patinho
feio. Finalizada as sessões percebeu-se uma acentuada melhora no quadro clínico
do aprendente, principalmente nos aspectos comportamentais e afetivos, onde sua
autoestima aumentou e o mesmo já estava mais confiante em realizar as atividades
propostas em sala de aula e já conseguia reconhecer as letras do alfabeto. Diante
disso buscou-se realizar um trabalho de conscientização da escola para que esta
consiga ajudá-lo em suas dificuldades visando facilitar o processo de
aprendizagem, tendo em vista à negação a leitura e escrita que o aprendente
possuia. Nessa perspectiva, consciente do seu papel, o psicopedagogo precisa
interagir com o professor/escola e com isso foi realizado um trabalho de informação
junto aos professores, procurando conscientizá-los da existência de um disturbio de
leitura e escrita que impede o aluno de aprender e esclarecer que não há
deficiência mental e que ele é capaz de aprender se houver atividades
diferenciadas como: utilizar materiais lúdicos como jogos e brinquedos; trabalhar
com rimas visando desenvolver sua consciência fonológica; reforçar a
aprendizagem visual, podendo utilizar caixa de areia, tintas e pincéis para que
desenhe as letras; no inicio, propor leituras muito simples com livros atrativos
aumentando nível gradativamente. Por fim, a intervenção foi de grande
importância no sentido de atender as reais necessidades do aprendente, aplicando
atividades que fizeram com que o aluno desenvolvesse habilidades que
consideramos relevantes para minimizar as dificuldades por ele apresentadas e
ajudá-lo na construção do conhecimento.
3 O PROCESSO DE ALFABETIZAÇÃO E O ALUNO COM DIFICULDADE
ESPECÍFICA DE LEITURA E ESCRITA
Sabemos que uma das maiores queixa de pais e professores referem-se ao
atraso no processo de leitura e escrita, principalmente quando se tem 9 anos e
estas competências já deveriam ser adquiridas, essas dificuldades podem se
estender pela vida adulta caso não seja investigada e tratada por uma equipe de
profissionais multidisciplinar, tendo em vista que se trata de uma problemática que
causa evasão escolar, sendo também motivo de analfabetismo funcional.
A leitura é uma das habilidades mais importante que podem ser
desenvolvidas pelo ser humano e ela dá suporte para o estudo de outras áreas do
conhecimento, esta integra dois processos cognitivos: a decodificação e a
compreensão da escrita, visto que para que um texto escrito seja compreendido é
preciso que este seja primeiro decodificado.
O estudo das dificuldades específicas de leitura e escrita são antigos e
muitos profissionais têm tentado esclarecer os motivos, fazendo investigações para
intervir junto a esse problema, sendo que um dos estudos afirma ser o principal
motivo dos disturbios de leitura e escrita o déficit de origem fonológica e esse
disturbio é conhecido por Dislexia, vulgarmente chamado de “mal oculto” pois este
a criança não apresenta nenhum problema fisico ou mental e com isso dificulta o
entendimento e diagnóstico precoce tanto por pais e professores que acabam
percebendo essa dificuldade bem tarde. Partindo dessa premissa, de acordo com
estudos neurológicos os leitores disléxicos fazem um percusso lento para
decodificar as palavras.
É comum nos EUA, casos de crianças e jovens que se suicidam ou tornam-
se deliquentes, agressivos e até matam seus colegas por terem dificuldade de
leitura, estudos mostram que essas pessoas agem assim porque não consegue se
sobressair e sentem-se incompetentes diante de amigos e famliares, sendo assim
tiram sua propria vida, pois acreditam que dessa forma solucionariam o problema.
Nesse sentido o apoio da familia e da escola é de grande relevância e para que
isso aconteça faz-se necessário um estudo para se apropriar da temática.
Nessa perspectiva Simaia nos diz que:
A hipótese da dislexia não é levantada em um primeiro momento, muitas
vezes por falta de conhecimento do disturbio com o qual ele convive ou
devido a uma insegurança por parte da escola. Infelizmente, a falta de
informação dos professores ocasiona demora no encaminhamento para
realização de um diagnóstico, acreditando que cada criança tem seu ritmo
próprio e que logo estarão lendo e compreendendo bem. Isto leva a um
retardamento no diagnóstico ou a falta deste, afetando a vida acadêmica e
social do portador. (SAMPAIO, 2014, p. 47)

Partindo dessa premissa, antes de diagnosticar uma pessoa como disléxico,


devemos descartar vários fatores que poderiam levar o indivíduo a uma dificuldade
específica na leitura como: métodos de aprendizagem deficientes, problemas
emocionais, imaturidade etc... A partir de uma investigação rigorosa em acordo
com a equipe pode-se chegar à conclusão e diagnóstico, evitando assim rótulos
desnecessários que pode mudar a vida de uma pessoa. (SAMPAIO, 2011)
Entendemos que no processo de leitura, os disléxicos não conseguem
reconhecer palavras que já tenha lido ou estudado, assim a leitura se torna um
grande esforço para eles, visto que toda palavra que ele lê aparenta ser nova e
desconhecida, reforçando que o comprometimento cognitivo na dislexia é um déficit
fonológico. Corroborando com SAMPAIO, 2014, p, 56 “O disléxico irá compreender
tudo que se lê para ele, assimilando melhor e lembrando no momento da avaliação.
Não se deve, é claro, deixar de estimular sua leitura, com livros cujo tema seja de
seu interesse”. Nessa perspectiva, SNOWLING (2004, p 105) diz que: “A leitura e o
soletrar das crianças disléxicas são caracterizadas por uma dificuldade nas
estratégias fonológicas, que formam a base do desenvolvimento da aptidão
literária”.
Ao iniciar o processo de aquisição da leitura e escrita, a criança que ainda
não tem correspondência sonora da palavra, ao substituir a figura por letra atribui a
escrita do tamanho do objeto, ou seja, fase de realismo nominal, a partir daí ela
percebe que precisa de letras para escrever, diferenciando letra de símbolos,
estando no nível pré-silabico, aos poucos vai percebendo que cada letra tem um
som formando sílabas, entrando no nível silábico e depois formar palavras estando
no nivel alfabético. A criança que consegue a habilidade de perceber os sons e que
palavras, sílabas e fonemas são unidades que podem ser identificadas, ele já
possui consciência fonológica.
Sendo assim crianças com dificuldade de escrita frequentemente
apresentam atrasos em consciência fonológica, pois de acordo com Sampaio( apud
CAPOVILLA, 2011, p 110), explicita que :
...tais habilidades são muito importantes para permitir a leitura por
decodificação fonológica. Isto explica por que procedimentos para
desenvolver consciência fonológica são tao eficazes em melhorar o
desempenho de leitura de criança durante a alfabetização.

Ressaltamos que o disléxico possui inteligência normal e às vezes acima da


média, sendo sua dificuldade em identificar símbolos gráficos, nesse sentido temos
que levar em consideração que cada pessoa possui diversas inteligências, Howard
Gardner é o criador dessa teoria e coloca que o ser humano é dotado de varías
inteligências e que estas precisam ser instigadas para desenvolver as
potencialidades existentes no aprendente, para que o mesmo possa construir o seu
conhecimento. Sendo necessário um trabalho que combine essas inteligências,
pois se o aprendente gosta de desenhar devemos combinar a inteligencia
linguistica a pictórica. Nesse sentido Gardner(apud SMOLE, 2002, P 59) afirma ser
“da máxima importância reconhecer e estimular todas as variadas inteligências
humanas e todas as combinações de inteligências”.
Geralmente a criança que não sabe ler cria um vinculo negativo com a
aprendizagem e o psicopedagogo trabalhando as suas variadas inteligências
estimula-o elevando a sua autoestima, pois muitos demonstram insegurança de
realizar algumas atividades com medo de mostrar os erros e repetir o fracasso,
essa negação poderá ser trabalhada com atividades lúdicas, evitando inserir
inicialmente qualquer atividade de leitura. O aprendente deve passar primeiro por
um período de adaptação, nesse processo inicial é importante trabalhar com
materiais sinestésicos para que a criança sinta as letras. Nessa perspectiva,
reforçamos que a principal causa da dificuldade de leitura e escrita é um déficit de
origem fonológica pois mesmo sabendo que a dislexia não tem cura e que o
disléxico nunca será um leitor fluente, é possível que com um trabalho diferenciado
e individualizado, que possa estimular suas habilidades fonológicas, o aprendente
venha amenizar suas dificuldades e desenvolver estratégias que facilitem a
leitura( SAMPAIO , 2014).
4 O TRABALHO DO PSICOPEDAGOGO E AS ESTRATÉGIAS DE
INTERVENÇÃO
Um atendimento clínico especializado do psicopedagogo é de grande
importância para que a criança com dislexia possa desenvolver a consciência
fonológica, de acordo com Alicia Fernandez ( 1991) a intervenção é diferente da
reeducação pois não é possível colocar “próteses cognitivas” como se existisse
uma “ortopedia mental”, sendo assim faz-se necessário investigar para intervir junto
as crianças com dificuldades de aprendizagem visando melhorias para minimizar
essa dificuldade. A intervenção é de grande importância no sentido de atender as
reais necessidades do aprendente, aplicando atividades diferenciadas que farão
com que a criança aprenda de forma significativa e sistemática, pois durante o
tratamento psicopedagógico procuram-se meios que venham auxiliar no
restabelecimento do prazer na busca do conhecimento geral e escolar.
Dentro desse contexto, Simaia acredita que o trabalho de intervenção em
linguagem escrita com a criança deve:
Estimular a descoberta e a utilização da lógica de seu pensamento na
construção de palavras e textos e na representação de fonemas; oferecer
oportunidades para a escrita e a leitura espontanea, explorar
constantemente as diversas funções da escrita; e explicitar as diferenças
entre lingua falada e lingua escrita.(SAMPAIO, 2014, p 96)

Diante disso, o psicopedagogo deve encorajar o aprendente a tentar e


elogiar suas tentativas de escrita, estimular sua memória visual, chamar atenção da
criança para situações diárias em que é necessária a utilização da escrita, não
forçando a criança a ler ou escrever e sim estimular para que ela tenha prazer de
ler uma historinha e desenvolver muitos jogos e brincadeiras, pois a aprendizagem
da leitura e escrita é um processo longo e complexo que exige tempo e esforço e
que para atrair a atenção do aprendente essas atividades devem ser desenvolvidas
de forma lúdica. Visto que para a aprendizagem ser efetiva é necessário que o
aprendente esteja motivado a aprender, e para isso ele deve sentir que o
conhecimento adquirido é significativo e que faz parte do seu cotidiano. Segundo
Relvas( 2015, p.89)” o aprendizado, portanto, depende da integridade da
maturidade neurológica, da atenção e do interesse, além, é claro, da funcionalidade
adequada das estruturas que vão receber ou captar os estímulos”.
Durante esse processo o psicopedagogo deve orientar a familia, pois a
colaboração da família é de grande importância para o sucesso da intervenção
psicopedagógica, pois esta precisa de embasamento para saber lidar com as
situações adversas da problemática, visto que o carinho, afeto e apoio, ajuda a
elevar a autoestima, proporcionando a essa criança um ambiente acolhedor,
demonstrando preocupação com suas dificuldades, não rotulando-o, e isto deve
acontecer também na escola pois o aprendente não consegue deixar seus
problemas fora da sala de aula, sendo assim a escola também precisa de
orientação para que aja sucesso no tratamento psicopedagógico.
Sabendo que o problema do disléxico tem como base a deficiência
fonológica não devemos descartar a comorbidade com outros problemas:
discalculia, disortografia, disgrafia,TDAH. As relações interpessoais também têm
seu papel na construção da aprendizagem, pois relações estabelecidas no
processo ensino-aprendizagem devem ser de forma horizontal, e o aspecto afetivo
é um dos fatores que pode intervir na construção do conhecimento, sendo este
relacionado ao ambito familiar e escolar. De acordo com SAMPAIO, 2014, p. 268 “
a importância do ser humano na sua totalidade e, portanto, é imprescindível a
consideração do papel da afetividade no funcionamento psicológico, bem como na
construção de conhecimentos cognitivos e afetivos”.
Nesse sentido, considera-se que muitas dificuldades de aprendizagem
estejam relacionadas a más relações, principalmente professor e aluno, pois a
escola é um ambiente de aprendizagem e esta precisa compreender que os
aspectos afetivos são considerados também como determinantes no processo de
aprendizagem.
CONSIDERAÇÕES FINAIS

Na visão de que o psicopedagogo clínico promove os melhores caminhos


para a aprendizagem, este tem como propósito intervir junto às dificuldades do
aprendente, criando situações de aprendizagem que favoreçam o resgaste da
vontade de aprender.
Assim, com base nas situações vivenciadas durante o estágio clínico na
Escola M.N. Paz, possibilitou uma experiência única e de grande importância, pois
entramos em contato com a praxís psicopedagógica, onde podemos observar,
levantar hipóteses, diagnosticar e intervir junto a problemática do aprendente.
Nesse sentido o papel do psicopedagogo clínico é investigar os problemas
de aprendizagem, diagnosticar, orientar e posteriormente seguindo uma linha
terapêutica desenvolver técnicas de intervenção, visando minimizar ou superar as
dificuldades apresentadas pelo aprendente. O psicopedagogo precisa ter
embasamento teórico, uma vez que ele vai observar o aprendente e utilizar
técnicas apropriadas através do diagnóstico, para compreender como se dá o
processo de construção do conhecimento, as dificuldades de aprendizagem, as
formas de intervenção e seu devido encaminhamento.(BOSSA, 2007)
A Intervenção foi de grande importância, pois colocamos o aprendente em
contato com novos meios de aprendizagem, atividades diferenciadas e lúdicas,
criou-se atividades contextualizadas de escrita e leitura com utilização de textos
variados para que a construção das hipotéses linguisticas possam ser elaboradas
com segurança e que possam restabelecer o vínculo antes perdido com a
aprendizagem, alternando as tarefas para que o aprendente possa ir se adaptando
e perca o medo de errar. Ressaltamos que a inteligência pictórica do aprendente é
bem aguçada e deve ser trabalhada de forma combinada com a linguística para
que este construa o conhecimento.
Face ao exposto, importante ressaltar os empecilhos que dificultou a
realização da intervenção como: faltas seguidas do aprendente, negação do
aprendente em realizar as atividades pedagógicas, ansiedade da familia e escola
em obter resultados em curto prazo.
Por fim, devemos refletir sobre a importância do diagnóstico e intervenção
psicopedagógica clínica dos disturbios de dislexia, pois esta problemática abrange
uma fundamentação teórica rica e complexa com varias ramificações, levando em
consideração os tipos de dislexia, os estudos neurocientificos, o desenvolvimento
da pesquisa interlinguistica. Outro fato interessante que é que nas próximas
décadas os estudos estejam voltados para os individuos “resistentes ao
tratamento”, ou seja, aqueles que não têm resultados positivos a intervenção.
Nesse sentido sugerimos novas pesquisas nessa aréa.
THE PSYCHOPEDAGOGISTS WORK BEFORE THE TROUBLE READING AND
WRITING SPECIFIC

ABSTRACT
In this article we propose a study of the specific difficulties in reading and writing, as
this has been the most frequent cause of low performance and truancy. In this
context, interest in research emerged, based on the problem: Investigate the cause
or causes? the specific difficulty in reading and writing of the learner and how the
educational psychologist may intervene in this issue ?. Backed by clinical internship
in a school environment (AEE) of a municipal school network. Given this reality, this
article has as main objective: to report a clinical psycho-pedagogical experience
with a 9 year old who has difficulty reading and writing, that work came from the
school of the complaint. Having as specific objectives: to characterize the
experience report and its problematic from a psycho look; describe the learner in
their cognitive, behavioral and emotional aspects and propose different intervention
strategies. With the justification to help the learner to rescue the relationship with
learning and self-esteem. The analysis method was used literature and reporting of
clinical experience. For theoretical background, we had to support the studies of the
following authors: Sampaio (2007/2011), Weiss (2012), CHAMAT (2004), Snowling
(2004), RELVAS (2015), Fernández (1991), those that portray the learning
disabilities, giving us support to intervene with them. Therefore, this article is
relevant because it enables reflections about the theme, considering the
pedagogical intervention enables improvements in the construction of knowledge,
aiming at a meaningful and systematic learning.

KEYWORDS : Learning disabilities . Phonological awareness. psychoeducational


intervention
REFERÊNCIAS

BOSSA, Nadia A. A psicopedagogia no Brasil: Contribuições a partir da prática.


3ed. Porto Alegre: Artmed, 2007.

CHAMAT, Leila Sara José. Técnicas de diagnóstico psicopedagógico: o


diagnóstico clinico na abordagem interacionista – 1.ed. São Paulo: Vetor, 2004.

FERNÁNDEZ, Alicia. A inteligência aprisionada. Porto Alegre: Artmed, 1991.

RELVAS, Marta. Neurociências e transtornos de aprendizagem: as múltiplas


eficiências para uma educação inclusiva- 6 ed. Rio de Janeiro, Wak Editora, 2015.

SAMPAIO, Simaia. Transtornos de dificuldades de aprendizagem: entendendo


melhor os alunos com necessidades educativas especiais – 2 ed. Rio de Janeiro,
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SAMPAIO, Simaia. Dificuldades de aprendizagem: a psicopedagogia na relação


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SNOWLING, Margaret. Dislexia. 2 ed. Santos editora, 2004

WEISS, Maria Lucia Lemme. Psicopedagogia clinica: uma visão diagnóstica dos
problemas de aprendizagem escolar. 14 ed. Rio de Janeiro, Lamparina, 2012
BIBLIOGRAFIA SUGERIDA

CASTRO, Edileide. Afetividade e limites: Uma parceria entre família e escola- 5.


Ed, Rio de Janeiro: Wak Editora, 2015.

CESAR Coll, Alvaro marchesi;PALACIOS, Jesus. Desenvolvimento psicológico e


educação. 2 ed. Porto Alegre : Artmed, 2004