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Texto de Apoio I

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Minerais - Introdução

Pedro Pereira

Licenciatura em Ciências do Ambiente – Geologia Geral I


A Terra é constituída por rochas, as quais, por sua vez, correspondem a agregados de
minerais. Assim, os minerais podem ser considerados como os blocos de construção básicos da
Terra. Atualmente, são conhecidos cerca de 5000 minerais diferentes e supõe-se que ainda
possam existir cerca de 1500 por descobrir (Hystad et al., 2015). A nossa sociedade depende
dos minerais como fonte de metais – ferro, cobre, ouro, prata, zinco, alumínio, etc. – e de não-
metais – gesso, calcário (calcite), halite, argila, talco, etc. Muitos minerais com importância
económica e as respetivas distribuição, extração e disponibilidade desempenharam papéis
muito importantes na história da humanidade.

1. Definição de mineral

Um mineral é uma substância sólida, homogénea, de ocorrência natural, geralmente,


originada por processos inorgânicos, com arranjo atómico altamente ordenado e com
composição química definida, fixa ou variável dentro de limites bem definidos:
− Uma substância sólida homogénea é uma substância sólida que não pode ser
fisicamente subdividida em compostos químicos mais simples. Os gases e os líquidos
são excluídos da definição de mineral.
− A ocorrência natural significa que não há intervenção humana na sua génese.
− Tradicionalmente, considera-se que os minerais são originados apenas por processos
inorgânicos. Contudo, alguns autores incluem no reino da mineralogia as substâncias
que respeitam todas as outras particularidades de um mineral. Entre diversas outras
situações, destaca-se o exemplo do carbonato de cálcio das conchas dos moluscos.
Estas são compostas, em grande parte, por aragonite, idêntica ao mineral de origem
inorgânica. Excluem-se substâncias de origem orgânica como o âmbar, o carvão ou o
petróleo, porque apesar de terem origem natural, não têm composição química
definida nem estrutura atómica ordenada.
− Um arranjo atómico altamente ordenado indica a existência de uma estrutura interna
de átomos ou iões definindo um padrão geométrico regular (estrutura cristalina).
− A existência de uma composição química definida significa que esta pode ser
expressa por uma fórmula química. Alguns minerais têm composição química fixa,
como, por exemplo, o quartzo (SiO2), mas isso não acontece na grande maioria dos
casos (ver 4. Solução sólida).
Um mineraloide é uma substância que satisfaz alguns, mas não todos os itens (acima
descritos) da definição de mineral. Por exemplo, a opala (SiO2) é considerada mineraloide por
não possuir estrutura cristalina.

2. Tipos de ligação química

As propriedades físicas e químicas dos minerais dependem não só da natureza dos seus
componentes e da geometria do seu empilhamento no espaço, como também do tipo e
intensidade das forças eletromagnéticas que unem entre si as partículas elementares. A
intensidade destas forças avalia-se pela energia que é preciso despender para romper as
ligações que asseguram. A dureza, a solubilidade, a clivagem, as condutibilidades térmica e
elétrica, etc., estão intimamente associadas aos tipos de ligação.
Ligações iónicas – Resultantes das forças de atração entre iões de cargas opostas. Por exemplo,
catiões de sódio (Na+1) e aniões de cloro (Cl-1) ligam-se para formar NaCl (halite).
Ligações covalentes – Resultantes da partilha de eletrões entre dois ou mais átomos de modo
que cada átomo tenha uma configuração eletrónica estável (orbital externa totalmente
preenchida). Exemplo: Os átomos de hidrogénio (H) têm um eletrão, mas precisam de dois
para serem estáveis. Os átomos de oxigénio (O) tem seis eletrões na orbital exterior, mas
precisam de mais dois para serem estáveis. Assim, dois átomos de hidrogénio ligam-se a um de
oxigénio para formar a molécula H2O, na qual todos os átomos partilham eletrões e cada
átomo tem uma configuração eletrónica estável.
Ligações metálicas – Podem ser consideradas como um tipo de ligação covalente nas quais os
eletrões de valência são livres para se moverem de átomo para átomo, através de toda a
estrutura cristalina.
Ligações de van der Waals – Unem entre si moléculas ou outras unidades estruturais neutras,
mediante cargas residuais da sua superfície.
Um mineral pode apresentar apenas um dos tipos de ligação e diz-se homodésmico ou,
então, possuir simultaneamente dois ou mais daqueles tipos; neste caso designa-se
heterodésmico. São exemplos de minerais homodésmicos o diamante, apenas com ligações
covalentes, e a halite, só com ligações iónicas. A galena, com ligações iónicas e metálicas, é
exemplo de mineral heterodésmico.
Na Tabela 1 apresentam-se as principais propriedades conferidas pelos quatro tipos de
ligação química acima referidos.

Tabela 1 - Exemplo de propriedades conferidas pelos principais tipos de ligação química.

Tipos de ligação
Propriedades Iónica Covalente Metálica Van der Waals
Intensidade da Forte Muito forte Variável, geralmente Fraca
ligação moderada
Mecânicas Dureza moderada a Dureza elevada; Dureza baixa a Cristais brandos e
elevada, dependendo quebradiços ou moderada; plásticos
da distância frágeis plasticidade elevada;
interiónica e carga; séctil, dúctil,
quebradiços ou maleável
frágeis
Elétricas Maus condutores no Isoladores no estado Bons condutores Isoladores, tanto no
estado sólido; sólido e quando estado sólido como
quando fundidos ou fundidos no líquido
em solução são
condutores
Termais Ponto de fusão Ponto de fusão Ponto de fusão e Ponto de fusão baixo;
moderado a elevado elevado; baixo coeficiente de coeficiente de
dependendo da coeficiente de expansão termal expansão termal alto
distância interiónica expansão termal variáveis
e carga; baixo
coeficiente de
expansão termal
Solubilidade Solúvel em solventes Solubilidades muito Insolúvel, excepto em Solúvel em solventes
polares, originando baixas ácidos e alcális por orgânicos, originando
soluções com iões reação química soluções
Estrutura Estruturas de elevada Estruturas de baixa Estruturas de elevada Baixa simetria devido
coordenação e coordenação e coordenação e à forma das
simetria simetria simetria moléculas
Exemplos Halite, calcite Diamante, blenda Cobre, prata, ouro Iodo, enxofre
3. Estrutura cristalina

Todos os minerais são também, por definição, cristais1. O empilhamento dos átomos numa
estrutura cristalina requer um arranjo atómico altamente ordenado que se repete
tridimensionalmente. Tal arranjo ordenado necessita de preencher eficientemente o espaço e
manter o equilíbrio de cargas. Como a dimensão dos átomos depende largamente do número
de eletrões, átomos de elementos diferentes têm diferentes dimensões.
Como exemplo cita-se o caso da halite (NaCl) (Fig. 1). Para cada átomo de sódio (Na) existe
um átomo de cloro (Cl). Cada átomo de sódio é rodeado por átomos de cloro e cada átomo de
cloro é rodeado por átomos de sódio. A carga de cada átomo de Cl é -1 e a carga de cada Na é
+1, obtendo-se um cristal equilibrado em termos de cargas elétricas.

Figura 1 – Representação esquemática da halite (NaCl).

A estrutura interna dos minerais é frequentemente observada através da forma dos cristais.
A lei da constância dos ângulos diedros2 é um reflexo de uma estrutura cristalina altamente
ordenada.
A estrutura cristalina pode ser determinada com recurso a raios X, os quais penetram na
rede cristalina mas são defletidos pelos átomos que a constituem. A imagem obtida e registada
em papel, pode ser usada para determinar a estrutura dos cristais. O método é conhecido por
difração de raios X.
A estrutura dos cristais depende das condições sob as quais se formam os minerais. Essa
condições correspondem a fatores como a temperatura e a pressão, as quais condicionam os
raios iónicos. A temperaturas elevadas os átomos vibram mais, as distâncias entre eles
aumentam e a estrutura cristalina altera-se para acomodar átomos de maior dimensão. A
temperaturas ainda mais elevadas as substâncias passam ao estado líquido ou gasoso. Líquidos
e gases não têm estrutura cristalina e, portanto, não são minerais. O aumento de pressão
obriga os átomos a ficarem mais próximos, originando estruturas cristalinas mais densas.
Minerais com iguais composições químicas mas com estruturas cristalinas diferentes
denominam-se polimorfos. Como exemplos de polimorfos citam-se os dois casos seguintes:
- O composto Al2SiO5 tem três polimorfos diferentes cuja formação depende das condições
de pressão e temperatura a que ocorre a cristalização. A forma estável de Al2SiO5 a alta
pressão, é a distena, a baixa pressão, é a andaluzite, e a alta temperatura, é a silimanite (Fig. 2).

1 Entende-se por cristal, todo e qualquer sólido com estrutura cristalina, independentemente de possuir ou não
faces externas regulares. No primeiro caso fala-se de cristais euédricos (faces perfeitas) e, no segundo, de
cristais anédricos (sem faces) como é, por exemplo, o caso dos grãos de quartzo irregulares intercalados no seio
de um granito.

2 Os ângulos diedros, formados por faces homólogas, são constantes para cristais da mesma espécie mineral.
Figura 2 – Condições de pressão e temperatura de cristalização dos polimorfos de composição química Al2SiO5.

O carbono (C) tem dois polimorfos diferentes. A baixas pressões e temperaturas, o carbono
puro existe na forma de grafite, um mineral de dureza muito baixa. A temperaturas e pressões
mais elevadas a forma estável é o diamante, a substância natural de maior dureza.

4. Solução sólida

A substituição iónica (ou solução sólida) ocorre porque alguns elementos (iões) têm
dimensões e cargas elétricas muito semelhantes, podendo, por isso, intersubstituir-se na
estrutura cristalina. São exemplos deste fenómeno as olivinas, os feldspatos alcalinos e as
plagióclases.
Olivinas – Fe2SiO4 (faialite) e Mg2SiO4 (forsterite): Os iões Mg2+ e Fe2+ podem intersubstituir-
se em todas as proporções na estrutura cristalina das olivinas, resultando numa variedade de
composições químicas que pode ser expressa pela fórmula (Mg,Fe)2SiO4
Feldspatos alcalinos – KAlSi3O8 (ortóclase) e NaAlSi3O8, (albite): a intersubstituição ocorre
entre os iões K+1 e Na+1.
Plagióclases – NaAlSi3O8 (albite) e CaAl2Si2O8 (anortite): a intersubstituição ocorre entre
NaSi+5 e CaAl+5 (uma solução sólida complexa).

5. Composição dos minerais

A diversidade de minerais que encontramos depende dos elementos químicos disponíveis


para a sua formação. Os elementos químicos mais abundantes na crosta da Terra são:
1. Oxigénio (O) – 45,2% por peso
2. Sílicio (Si) – 27,2%
3. Alumínio (Al) – 8,0%
4. Ferro – 5,8%
5. Cálcio – 5,1%
6. Magnésio – 2,8%
7. Sódio – 2,3%
8. Potássio – 1,7%
9. Titânio – 0,9%
10. Hidrogénio – 0,14%
11. Manganês – 0,1%
12. Fósforo – 0,1%
Devido ao número limitado de elementos químicos presentes na crosta da Terra, são apenas
conhecidos cerca de 4000 minerais e destes apenas cerca de 50 são comuns. Os minerais mais
comuns são os silicatos, cuja estrutura se baseia num tetraedro de sílica (SiO4), no qual quatro
átomos de oxigénio se unem a um átomo de silício por ligações covalentes.

6. Propriedades dos minerais

A composição química e a estrutura cristalina conferem a cada mineral determinadas


características que permitem a sua identificação. Entre as propriedades físicas mais utilizadas
na classificação expedita de minerais, destacam-se a cor, o brilho, o traço (propriedades óticas),
a dureza, a clivagem, a fratura (propriedades mecânicas) e a densidade.
A cor é normalmente a propriedade mais fácil de observar, sendo critério de classificação
dos minerais idiocromáticos, aqueles com cor constante e característica. Os minerais de cor
variável dizem-se alocromáticos, devendo esta característica a impurezas ou a pequenos
defeitos na sua estrutura cristalina.
O brilho corresponde ao modo como os minerais refletem a luz incidente. Definem-se dois
tipos fundamentais de brilho, metálico e não metálico, mas não existe uma fronteira distinta
entre eles. Os minerais com brilho intermédio dizem-se submetálicos. No brilho não metálico
distinguem-se diversos tipos de brilho, cuja denominação se refere às substâncias que melhor
os exemplificam: adamantino, vítreo, nacarado, gorduroso, sedoso e resinoso.
A dureza de um mineral define-se como a resistência que este oferece ao ser riscado ou
penetrado por outro. Habitualmente, determina-se recorrendo a uma escala de dureza, a
escala de Mohs, constituída por dez minerais padrão, ordenados por ordem crescente de
dureza relativa:
1 Talco
2 Gesso
3 Calcite
4 Fluorite
5 Apatite
6 Ortóclase
7 Quartzo
8 Topázio
9 Corindo
10 Diamante
Por exemplo, se um determinado mineral não se deixa riscar pela fluorite mas é riscado pela
apatite, aceita-se que esse mineral tem dureza 4,5.
Na ausência dos termos que constituem a escala de Mohs, a determinação da dureza
relativa de um mineral pode ser efetuada com recurso a objetos simples, atendendo a que a
dureza:
− Da unha do dedo é 2,5;
− De uma moeda de cobre é 3,5;
− Do aço do canivete e do vidro é 5,5;
− Do aço da lima é 6,5.
O traço (ou risca) corresponde à cor do mineral quando reduzido a pó fino, obtido sobre
uma placa de porcelana não vidrada, no ato de a riscar. A porcelana tem uma dureza de cerca
de 7, pelo que não pode ser usada em minerais de dureza superior. Apesar de a cor de um
mineral poder variar, o traço é normalmente constante e, por isso, é particularmente relevante
na identificação de minerais.
A clivagem é a propriedade que certos minerais têm de se fragmentar segundo
determinadas direcções, as quais espelham superfícies de fraqueza da estrutura cristalina. A
caracterização da clivagem tem em conta a sua maior ou menor perfeição e a(s) sua(s)
direcção(ões) (Fig. 3). Nem todos os minerais apresentam clivagem e em relativamente poucos
ela é perfeita, mas nestes ela é um excelente critério de identificação.
Figura 3 – Representações esquemáticas de diferentes tipos de clivagem: clivagem basal ou laminar (A); clivagem cúbica (B) e
clivagem romboédrica (C).

Certos minerais fragmentam-se não seguindo direções preferenciais. Esta propriedade


designa-se por fratura e revela que a força das ligações químicas na estrutura cristalina é
aproximadamente igual em todas as direções. Entre os principais tipos de fratura, destacam-se
a fratura conchoidal (com superfícies côncavas ou convexas, semelhantes às conchas dos
bivalves) e a irregular (com superfícies irregulares).
A densidade de um mineral depende da natureza dos átomos que o constituem e do
arranjo dos mesmos na estrutura cristalina. A densidade absoluta ou massa volúmica
corresponde à massa por unidade de volume e é expressa em g/cm 3. A densidade relativa é
uma grandeza adimensional que expressa a razão entre a massa volúmica de determinado
mineral e a da água, a 4°C. Como a massa volúmica da água a essa temperatura é de 1,000
g/cm3, os valores numéricos de densidade absoluta e de densidade relativa são idênticos.
Certos minerais apresentam propriedades químicas características, tornando possível a sua
classificação com base na realização de testes químicos, tais como os do sabor salgado, para a
halite (NaCl), e da efervescência produzida por ação do ácido clorídrico, para os carbonatos,
como, por exemplo, a calcite (CaCO3).

7. Formação de minerais

Os minerais formam-se na natureza por diversos processos. Entre estes estão:


− A cristalização a partir de matéria em fusão (rochas magmáticas);
− A precipitação a partir de soluções aquosas (rochas sedimentares químicas, depósitos
hidrotermais);
− A atividade biológica (rochas sedimentares bioquímicas);
− A mudança para um estrutura mais estável, resultante dos processos de alteração,
diagénese e metamorfismo;
− A precipitação a partir de vapor (sublimação) que por vezes ocorre nas proximidades
de fumarolas (vulcanismo secundário).

8. Rochas – misturas de minerais

Misturas ou agregados naturais de minerais são denominados rochas. Existem três tipos
básicos de rochas determinados pelo respetivo modo de formação.
Rochas magmáticas – Formadas por solidificação ou cristalização de rocha em fusão
(magma).
Rochas sedimentares – Formadas por sedimentação de fragmentos de rochas, de minerais e
de conchas, carapaças e outras estruturas esqueléticas, transportados por ação da água, do
vento, ou do gelo, ou por precipitação química de substâncias dissolvidas na água.
Rochas metamórficas – Resultantes do aumento de pressão e/temperatura sobre rochas
pré-existentes para formar novas rochas adaptadas à novas condições ambientais.
Cada um destes processos de formação de rochas dá origem a rochas com associações
mineralógicas e texturas características. Assim, podemos encontrar pistas sobre o modo como
determinada rocha se formou nas respetivas associação mineralógica e textura.

9. Organização sistemática dos minerais

A composição química tem constituído a base da classificação dos minerais desde meados
do século XIX. Isto é justificado pela similaridade de propriedades evidenciada pelos minerais
constituintes de cada classe, bem como pela analogia existente entre os contextos geológicos
em que os mesmos se desenvolvem. Na organização sistemática mais vulgar, os minerais são
divididos em classes, conforme o anião (ou grupo aniónico) predominante: sulfuretos, óxidos e
hidróxidos, halogenetos, carbonatos, sulfatos, carbonatos e silicatos. A estas classes, adiciona-
se a dos elementos nativos.

I – Elementos nativos e ligas


A classe dos elementos nativos reúne os elementos que ocorrem na natureza no estado
puro e as ligas naturais que frequentemente formam, sendo conhecidos cerca de vinte: Ag, Cu,
Pt e Fe entre os metálicos; Sb, As e Bi entre os semimetálicos; e S e C entre os não metálicos.
Au, Ag e Cu são elementos com certas afinidades entre si, constituindo, por isso, um grupo
isostrutural (grupo do ouro) com propriedades semelhantes no que se refere a maleabilidade,
ductilidade, ponto de fusão, condutibilidade elétrica, etc. No caso do Au e da Ag, os raios
iónicos dos dois metais são idênticos (1,44 Å), o que permite a ocorrência de soluções sólidas.
A possibilidade de ocorrência de ligas naturais entre Cu e Au (ou Ag) é muitíssimo reduzida em
virtude do menor tamanho do ião do primeiro (1,28 Å).
No grupo da platina incluem-se outros elementos metálicos afins, como Ir, Os, Pd, o Ru e
Rh, referidos vulgarmente por platinídeos. Entre as ligas possíveis destaca-se o platinirídio.
No grupo do ferro incluem-se o ferro puro (Fe), que raramente ocorre na superfície
terrestre, e duas espécies de Ni-Fe (kamacite e taenite), que são comuns nos meteoritos.
Entre os semimetálicos, para além dos acima referidos As, Sb e Bi, têm sido referenciados Se
e Te, muito menos frequentes. Também aqui se verificam soluções sólidas como a allemontite
(mistura de As e Sb).
Entre os não metálicos, o diamante e a grafite, representam dois arranjos estruturais
diferentes da mesma substância elementar, o carbono.

II – Sulfuretos (incluindo sulfoarsenetos, arsenetos e teluretos) e sulfossais


Os sulfuretos, como a pirite, a calcopirite ou a galena estão entre muitos outros minerais
utilizados como matérias primas do maior interesse na sociedade moderna. Quimicamente os
sulfuretos podem representar-se pela fórmula geral XmZn, em que X indica o catião metálico
(Fe, Cu, Pb, Zn, etc.) e Z o anião não metálico que pode ser S nos sulfuretos, As nos arsenetos, S
e As nos sulfarsenetos, Te nos teluretos e Se nos selenetos.
Os sulfossais são minerais sulfuretados, não oxidados, estruturalmente distintos dos
sulfuretos. Neste grupo, As, Sb, Bi, ou Sn ocupam posições semelhantes às dos catiões. Os
aniões são normalmente S ou Se e os catiões propriamente ditos são metais como Pb, Cu, ou
Ag.

III – Óxidos e hidróxidos


Os óxidos são minerais comuns disseminados nas rochas, além de poderem ocorrer em
concentrações suscetíveis de constituir importantes recursos metálicos. O quartzo, ainda que
apresentado na classe dos silicatos, por razões estruturais, não deixa de ser um óxido, sendo
um dos minerais mais comuns na crosta continental. São igualmente óxidos a cassiterite
(minério de Sn), a hematite (minério de Fe), a cuprite (minério de Cu), e a uraninite (minério de
U), entre outros. Na classe dos óxidos distinguem-se os simples de fórmula geral X 2O, como a
cuprite; XO, como a zincite; XO2, como a cassiterite; X2O3 ou grupo da hematite, que engloba
ainda a ilmenite e o corindo; e os múltiplos de forma geral XY2O4, em que X e Y são
respetivamente catiões metálicos bivalentes (Fe2+, Zn2+, Mg2+, Mn2+) e trivalentes (Fe3+, Al3+,
Cr3+), de que são exemplos a magnetite e a cromite.
Os hidróxidos são caracterizados pela presença do grupo (OH)- ou por moléculas de H2O.
São exemplos de hidróxidos os bauxitos e a goethite, um dos minerais dos lateritos.

IV – Halogenetos (ou halóides)


Os halogenetos, ou halóides caracterizam-se pela predominância de iões Cl- (cloretos), Br-
(brometos), F- (fluoretos) ou I- (iodetos). Reúne minerais como a halite, a silvite ou a fluorite.

V – Carbonatos (incluindo nitratos e boratos)


Os carbonatos caracterizam-se pela presença do radical aniónico (CO3)2-, ao qual se
associam na natureza, o Ca (na calcite), o Mg (na magnesite), o Fe (na siderite), o Mn (na
rodocrosite) e o Zn (na smithsonite), todos eles reunidos no grupo isomórfico (romboédrico),
ou grupo da calcite. Outros carbonatos, como a aragonite (de Ca), a witherite (de Ba), a
estroncianite (de Sr) e a cerussite (de Pb), constituem outro grupo isomórfico (ortorrômbico), o
grupo da aragonite. Há ainda um outro grupo isomorfo romboédrico, o grupo da dolomite, que
inclui, para além da dolomite (Ca e Mg), a ankerite (Ca e Fe). Todos estes carbonatos se
diferenciam bastante bem de um outro grupo, monoclínico, formado por compostos
hidratados de cobre, como a malaquite e a azurite.
Nesta classe incluem-se ainda os nitratos e os boratos. Os nitratos (radical aniónico NO3) são
estruturalmente semelhantes aos carbonatos, existindo minerais com estrutura idêntica à do
grupo da calcite (romboédrica) e minerais com estrutura idêntica à do grupo da aragonite
(ortorrômbica). Os boratos permitem certos graus de polimerização dos radicais (BO3)3-, à
semelhança do que acontece nos silicatos, sendo de realçar grupos caracterizados por
triângulos isolados (BO3)3- e tetraedros isolados (BO4)5-, pares de triângulos (B2O5)4-, grupos
cíclicos (B3O6)3- e cadeias (B2O4)2-, correspondendo, respetivamente, a nesoboratos,
soroboratos, cicloboratos e inoboratos, bem como estruturas tridimensionais. Nos boratos
naturais há ainda espécies representadas por grupos aniónicos complexos como o B3O3(OH)2- e
o B4O5(OH)42-, de que é exemplo o bórax.

VI – Sulfatos (incluindo cromatos, molibdatos e tungstatos)


Os sulfatos caracterizam-se pela presença do radical aniónico (SO4)-2, associado a catiões
metálicos, como Pb na anglesite, Sr na celestite, ou Ca na anidrite, todos eles sulfatos anidros,
reunidos no grupo da barite. Entre os sulfatos hidratados, destaca-se o gesso. Por razões
estruturais, incluem-se nesta classe os cromatos, caracterizados pelo grupo aniónico (CrO4)2-, os
molibdatos, grupo aniónico (MoO4)2- e os tungstatos, grupo aniónico (WO4)2-.

VII – Fosfatos (incluindo arsenatos e vanadatos)


Os fosfatos dão o nome à classe que, além dos minerais ligados ao radical tetraédrico
(PO4)3-, reúne os de outros radicais geométrica e energeticamente idênticos, isto é, (AsO 4)3- e
(VO4)3-, respetivamente arsenatos e vanadatos. Pertencem a esta classe a apatite, um fosfato
de cálcio, a piromorfite, um fosfato de chumbo, e a vanadinite, um vanadato de chumbo,
isostruturais entre si e constituindo o grupo da apatite.

VIII – Silicatos
A unidade estrutural dos silicatos é o ião (SiO4)4-, o qual pelas suas características muito
particulares, permite a sua organização em vários graus de polimerização. Com efeito, as
dimensões e as cargas, respetivamente, do ião coordenador Si4+ e do ião coordenado O2-
permitem que o primeiro, tetravalente, positivo e pequeno, coordene quatro oxigénios,
bivalentes, negativos e maiores (a relação entre os raios iónicos do silício e do oxigénio é de
cerca de 0,3) formando um tetraedro, (SiO4)4- (Fig. 4).
Nestes termos, cada um dos iões de oxigénio aplica metade da sua carga negativa na ligação
ao silício, restando-lhe outra metade, que tanto pode funcionar para se unir a outros catiões
como para se ligar a outro ião de silício, ficando assim partilhado entre dois iões de silício (ou
entre dois tetraedros de sílica). Este fenómeno pode verificar-se em um, dois, três ou quatro
dos oxigénios, promovendo, assim, diversos graus de polimerização.

Figura 4 – Modelo de tetraedro de sílica. No centro, a cinzento, o átomo de


silício e nas extremidades, a vermelho, os quatro átomos de oxigénio. Fonte:
http://en.wikipedia.org/wiki/Silicon%E2%80%93oxygen_tetrahedron.

Os diferentes grupos isostruturais reunidos na classe dos silicatos, classificados por ordem
crescente do grau de polimerização dos tetraedros (SiO4)4- são os seguintes:
Nesossilicatos – tetraedros independentes, unidos entre si através de catiões metálicos
ligados aos oxigénios (Fig. 5). A relação Si:O é igual a 1:4, de onde o grupo aniónico (SiO4)4-.
Existem vários subgrupos de nesossilicatos cujas estruturas dependem das dimensões e cargas
dos respetivos catiões. Nas olivinas, por exemplo, são o Fe2+ e o Mg2+ que asseguram a união
dos tetraedros (SiO4)4-. Entre os mais conhecidos estão as granadas, o zircão e o topázio.

Figura 5 – Representação esquemática de um tetraedro de sílica isolado.

Sorossilicatos – pares de tetraedros, compartilhando entre si um oxigénio (Fig. 6). A relação


Si:O é de 2:7, de onde o grupo aniónico (Si2O7)6-. É exemplo deste grupo o epídoto.

Figura 6 – Representação esquemática de um par de tetraedros de sílica.

Ciclossilicatos – estrutura formada por anéis de três, quatro ou seis tetraedros,


correspondendo a três configurações cíclicas possíveis, de onde os grupos aniónicos (Si3O9)6-,
(Si4O12)8- e (Si6O18)12- (Fig. 7) Em todas, a relação Si:O é de 1:3. O grupo cíclico (Si 6O18)12- é o mais
comum, estando representado por minerais como a turmalina e o berilo.
Figura 7 – Representações esquemáticas de anéis de três e seis tetraedros de sílica.

Inossilicatos – tetraedros associados em cadeias, que podem ser simples (Fig. 8), nas
piroxenas e nos piroxenoides, ou duplas (Fig. 9), nas anfibolas. Nas primeiras a relação Si:O é
de 1:3 e nas segundas de 4:11, de onde a existência, respetivamente, dos grupos (SiO 3)2-,
(Si2O6)4- e (Si4O11)6-.

Figura 8 – Representação esquemática de uma cadeia simples de tetraedros de sílica.

Figura 9 – Representação esquemática de uma cadeia dupla de tetraedros de sílica.

Filossilicatos – os três oxigénios de cada tetraedro são simultaneamente compartilhados


com os tetraedros vizinhos, de modo a formarem uma estrutura plana, prolongável em duas
direções do espaço (Fig. 10). A relação Si:O é de 2:5 e daí o grupo aniónico (Si2O5)2-. São
exemplo deste grupo as micas e os minerais do grupo das argilas.
Figura 10 – Representação esquemática de uma folha de tetraedros de sílica.

Tectossilicatos – agrupamento tridimensional dos tetraedros (SiO4)4-, no qual todos os


oxigénios de cada tetraedro estão compartilhados pelos tetraedros vizinhos (Fig. 11). Incluem-
se nos tectossilicatos, os minerais dos grupos da sílica (SiO2), dos feldspatos, dos feldspatóides
e dos zeólitos.

Figura 11 – Representação esquemática de estrutura tridimensional de tetraedros de sílica.

Nos silicatos em geral (exceto nos nesossilicatos, onde é geralmente muito baixa), pode
ocorrer substituição entre o Si4+ e o Al3+. No caso dos feldspatos, por exemplo, a razão Al:Si é de
1:3 nos alcalinos (ortoclase – KAlSi3O8 e albite – NaAlSi3O8), aumentando até 2:2 na anortite
(CaAl2Si2O8). Esta troca implica uma compensação de cargas que tem lugar nas posições de
coordenação octaédrica, geralmente por substituição entre um catião trivalente e um
bivalente. Ocorrem ainda outras substituições catiónicas com a criação de vazios de ocupação
estrutural.
Bibliografia utilizada na elaboração deste texto:

Galopim de Carvalho, A. M. (2000). Introdução ao estudo dos minerais. Âncora, Lisboa, 362 pp.
Hystad, G.; Downs, R.T.; Grew, E.S; Hazen, R.M. (2015). Statistical analysis of mineral diversity
and distribution: Earth's mineralogy is unique. Earth and Planetary Science Letters, 426:
154-157. DOI: 10.1016/j.epsl.2015.06.028
Klein, C.; Hurlbut, C. (1999). Manual of Mineralogy (after James D. Dana). 21st Edition, Revised,
Wiley, New York, 704 pp.

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