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UNIALFA - CENTRO UNIVERSITÁRIO ALVES FARIA


CURSO DE GRADUAÇÃO EM DIREITO

Cynthia Malta Pestana

NOVA PERSPECTIVA DE APLICAÇÃO DA LEI AOS JOVENS INFRATORES À


LUZ DO DIREITO SISTÊMICO

GOIÂNIA
OUTUBRO DE 2020
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UNIALFA - CENTRO UNIVERSITÁRIO ALVES FARIA


CURSO DE GRADUAÇÃO EM DIREITO

Cynthia Malta Pestana

NOVA PERSPECTIVA DE APLICAÇÃO DA LEI AOS JOVENS INFRATORES À


LUZ DO DIREITO SISTÊMICO

Trabalho apresentado como exigência parcial


para conclusão da disciplina de Metodologia do
Trabalho Científico do Curso de Graduação em
Direito das Faculdades Alves Faria, sob a
orientação da Profª. Ma. Jordana Mendes Silva
Castilho.

GOIÂNIA
OUTUBRO DE 2020
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UNIALFA - CENTRO UNIVERSITÁRIO ALVES FARIA


CURSO DE GRADUAÇÃO EM DIREITO

Cynthia Malta Pestana

NOVA PERSPECTIVA DE APLICAÇÃO DA LEI AOS JOVENS INFRATORES À


LUZ DO DIREITO SISTÊMICO

AVALIADORES:

___________________________________________________________________________
Profª. Ma. Jordana Mendes Silva Castilho – ALFA
(Orientadora)

___________________________________________________________________________
Prof. Esp. Allan Montoni Joos – ALFA
(Leitor)

GOIÂNIA
OUTUBRO DE 2020
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Ao Criador De Tudo Que É, à mãezona e ao Den.


À memória de meu pai.
À Suh, à Naty e à Lilli.
E, claro, à fera.
5

AGRADECIMENTOS

Ao Criador De Tudo Que É, pela existência.


Aos meus pais, pelo incentivo aos estudos.
A meu pai, que a cada conquista estava lá para apertar minha mão e dar os parabéns.
À minha mãe e a meu irmão, que continuaram firmes e colaboraram com minha formação.
Aos meus professores, por passarem o conhecimento técnico necessário, principalmente
àqueles que, além da tecnicidade, ensinaram valores, compartilharam histórias e contribuíram
para minha formação humanística.
À minha orientadora, pelo incentivo à pesquisa.
Às minhas irmãs de coração: Suh, Naty e Lilli, por serem minha âncora positiva.
A todos os colegas, amigos e amores que passaram por minha vida e que, de alguma forma,
contribuíram para minha evolução.
À fera, por ser um potinho de amor disfarçado de cachorro.
6

“São as nossas escolhas que revelam o que realmente somos, muito mais do que as nossas
qualidades” (J. K. Rowling, Harry Potter e a Câmera Secreta).

“Só se pode alcançar um grande êxito quando nos mantemos fiéis a nós mesmos” (Friedrich
Nietzsche).
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RESUMO

PESTANA, Cynthia Malta. Nova perspectiva de aplicação da lei aos jovens infratores à luz
do direito sistêmico. Monografia, 2020. 44f. – Curso de Graduação em Direito do Centro
Universitário Alves Faria. Goiânia, 2020.

O trabalho visa analisar o panorama atual e a forma de aplicação do Estatuto da Criança e do


Adolescente (ECA) e Lei 12.594/2012 – Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo
(Sinase), aos jovens infratores. Além disso, busca ressaltar a constitucionalidade do tema,
explicar sobre direito sistêmico e discorrer sobre a aplicabilidade da constelação familiar para
crianças e adolescentes em conflito com a lei. Para tanto, utiliza-se o método de pesquisa
empírica, que, por meio de casos particulares, chega a uma premissa geral.

PALAVRAS-CHAVE: Crianças. Adolescentes. Direito sistêmico.


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ABSTRACT

PESTANA, Cynthia Malta. Nova perspectiva de aplicação da lei aos jovens infratores à luz
do direito sistêmico..Monografia, 2020. 44f. – Curso de Graduação em Direito do Centro
Universitário Alves Faria. Goiânia, 2020.

The work aims to analyze the current panorama and the form of application of the Statute of
Children and adolescents – ECA, and Law 12.594/2012 – National System of socio-educational
attendance – Sinase, to young offenders. To emphasize the constitutionality of the theme.
Explain about systemic law. To discuss the applicability of the family constellation for children
and adolescents in conflict with the law. For this purpose, the empirical research method is used,
which, by means of particular cases, arrives on a general premise

KEYWORDS: Kids. Teenagers. Systemic law.


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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ...................................................................................................................... 10
1 CONTEXTUALIZAÇÃO DE MOMENTOS HISTÓRICOS NO BRASIL E
ALGUMAS NORMATIVAS INFANTOJUVENIS ............................................................ 13
1.1 Breve evolução cronológica das principais normas infantojuvenis.....................................15
1.2 Constitucionalidade do tema...............................................................................................16
1.3 Resolução nº 125 do Conselho Nacional de Justiça ........................................................... 17
1.4 Aplicação do ECA e da Sinase ......................................................................................... 18
1.5 Da assistência social............................................................................................................21
2 CRIANÇAS E ADOLESCENTES EM CONFLITO COM A LEI................................. 22
2.1 Desrespeito ao contraditório e à ampla defesa .................................................................. 23
2.2 Polarização no ambiente socioeducativo, pobreza e estigmatização..................................25
2.3 Nuances de aplicação do Plano de Atendimento Individual - PIA - ao adolescente...........26
2.4 O caminho das drogas..........................................................................................................27
2.5 Reforma psiquiátrica brasileira............................................................................................29
3 O QUE É DIREITO SISTÊMICO .................................................................................... 30
3.1 Leis sistêmicas .................................................................................................................... 32
3.2 Um jeito simples de ter um judiciário mais harmônico ...................................................... 33
3.3 Como funciona com os presos, um exemplo de Rondônia...................................................34
3.4 Jovens infratores e práticas integrativas...............................................................................37

CONSIDERAÇÕES FINAIS.................................................................................................39
REFERÊNCIAS ..................................................................................................................... 40
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INTRODUÇÃO

Em um primeiro momento, nota-se que os jovens infratores possuem uma estrutura


familiar muito mal disposta, não têm boas referências em casa, passam a cometer atos
infracionais e não são ressocializados. Entende-se por ato infracional aquela conduta que é
tipificada para os adultos no Código Penal e para crianças e adolescentes no Estatuto da Criança
e do Adolescente – ECA (FULLER, 2017).
Essa desestrutura familiar pode apresentar-se de várias formas. Um exemplo é o
falecimento da mãe de um adolescente, quando ele era muito jovem e já sem a presença de uma
figura paterna. Esse jovem fica sem amparo familiar e é submetido aos cuidados de entidades
assistenciais, que muitas vezes não conseguem fornecer o tratamento necessário. Outro
exemplo seria da genitora que trabalha o dia todo para prover o sustento dos membros da casa
e os filhos não recebem a atenção devida. Ou, ainda, no caso de um membro familiar que foi
excluído por algum conflito ocorrido no seio familiar.
No caso desses jovens, percebe-se que são grupos sociais com evidente
vulnerabilidade social. Há, inclusive, uma dificuldade de permanência das crianças nas escolas,
o que desencadeia consequências perigosas (FRANCISCO; MARTINS, 2017). Assim, nota-se
que acolher os excluídos é o melhor a ser feito (HELLINGER, 2010).
Nesse sentido, observa-se que a desestrutura familiar, somada à precariedade da
educação que é oferecida e a falta de investimento em políticas públicas, que almejam melhorar
esse quadro, torna a situação alarmante. A desigualdade social e o desinteresse do Poder Público
em assumir uma postura nessa batalha colocam esses jovens às margens da sociedade
(ONOCKO-CAMPOS, 2018). E, diante disso, a ressocialização também não acontece.
Ademais, os problemas que assolam a legislação infantojuvenil giram em torno de
aspectos cruciais. No geral, são famílias menos funcionais, de baixa renda e com pouca
perspectiva de ter um futuro melhor. Não que a dificuldade financeira seja uma justificativa
para a delinquência, visto que alguns indivíduos conseguem se desenvolver por meio do estudo
ou do trabalho e ter uma vida melhor. Porém, via de regra, não é o que acontece (SILVA;
FARIAS; SILVARES, 2008).
Como foi dito, muitos desses adolescentes encontram obstáculos para permanecer
na escola, pois alguns buscam trabalho para ajudar com a renda em casa, o que torna a rotina
mais árdua e difícil de conciliar (DESTRO; SOUZA, 2011).
Assim, nota-se um judiciário sobrecarregado, com inúmeros processos para julgar
e necessitando de medidas inovadoras que auxiliem o juiz a não somente dizer o direito e
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resolver o conflito de forma superficial, mas apresentar uma solução holística, que abrangerá
também a questão emocional. Com o ECA não poderia ser diferente e é esse ponto que será
abordado na obra, uma nova perspectiva de aplicação da lei aos jovens infratores.
O trabalho visa expor a aplicação do ECA sob uma ótica interdisciplinar, pautada
na dignidade da pessoa humana e da absoluta prioridade à criança e ao adolescente.
Sabe-se que o problema do cometimento de ato infracional afeta diretamente a vida
de toda a população. Observe, por exemplo, no caso do ato infracional análogo ao roubo, uma
das condutas mais praticadas: a propriedade que determinado indivíduo trabalhou para
conseguir é retirada dele, o que pode causar revolta, frustração. Ademais, o jovem de hoje é o
adulto de amanhã. Portanto, percebe-se a evidente necessidade de reversão desse quadro de
delinquência e promoção da ressocialização daqueles que estão dispostos a reavaliar o próprio
comportamento.
Essa interferência na sociedade está muito clara. Entretanto, nem todos enxergam
o contexto por trás de um ato infracional. No caso de um adolescente que pratica conduta
análoga ao tráfico de drogas, por exemplo, ele pode estar agindo assim por exigências do meio
social (PACHECO; HUTZ, 2009). A importância de observar o contexto ocorre pelo fato de
que assim se pode oferecer algumas alternativas para evitar a reincidência.
Nesse sentido, imagine uma demanda que chega ao promotor de justiça para
análise. Esse conflito está carregado de emoções e conflitos bem mais profundos que, por vezes,
não são percebidos num momento inicial.
Em outras palavras, há pontos de tensão psicológica e emocional envoltos em
algum emaranhado naquela família da qual o infrator faz parte (BRAGA; ABREU, 2009). Tal
emaranhado só pode ser percebido por uma pessoa com visão humana e não por alguém que
quer aplicar a lei friamente ou não tem capacidade de enxergar, de forma global, o que se passa
naquela situação. Essa visão humana ocorre com o olhar cristalino diante da situação concreta,
ao se colocar no lugar do outro e buscar entender o que o levou até aquela situação.
Nessa seara, ressalta-se que a Constituição só se mantém operativa quando está
alinhada com as mudanças fáticas e axiológicas que ocorrem na sociedade (COELHO, 2004) e,
com o surgimento de novas técnicas para análise do inconsciente do indivíduo e de sua família,
mostra-se primordial aplicá-las num meio em que mudanças positivas são urgentes. Além disso,
sabe-se que é da Constituição Cidadã que são retirados os pilares para interpretação de todo o
ordenamento jurídico brasileiro, ressaltando, portanto, a importância do cumprimento de seus
preceitos.
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Diante do quadro apresentado, o tema desta obra deve ser estudado com mais afinco,
pois não é uma questão de fácil análise, mas se inicia aqui a busca por melhorias na
aplicabilidade da lei em harmonia com o modelo de constelação familiar proposto por Bert
Hellinger (2010).
Sabendo que há repetição de padrões destrutivos, percebe-se um ciclo vicioso que
continuará se repetindo, a não ser que ocorram mudanças na sistemática atual. É preciso
ressignificar pensamentos destrutivos, emoções negativas e comportamentos de delinquência.
Verificar o que está em desequilíbrio e buscar criar novos padrões, mais equilibrados e
harmônicos (BRAGA, 2009).
Portanto, o objetivo geral do trabalho consiste em analisar o panorama atual de
aplicação do ECA e da Sinase em relação aos jovens infratores à luz do direito sistêmico. Para
atingir esse propósito, o primeiro capítulo pretende ressaltar a constitucionalidade do tema. No
segundo capítulo, objetiva-se a explicação sobre os aspectos técnicos do ato infracional. E,
finalmente, no terceiro, discorrer sobre direito sistêmico e aplicabilidade da constelação
familiar para quem comete delitos e para adolescentes em conflito com a lei, incluindo a cidade
de Goiânia.
Trata-se de uma pesquisa empírica. Quanto ao método utilizado, optou-se pelo
empírico-indutivo, que, por meio de premissas menores, chega a uma premissa geral.
Por fim, é importante mencionar que foi realizada uma pesquisa com a melhor
disposição possível, entretanto, como se sabe, não se pode exaurir, numa pesquisa acadêmica,
todas as facetas de um determinado tema. Fica, pois, a cargo dos colegas, estudiosos e
interessados pela pesquisa a complementação do estudo, das informações compartilhadas.
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1 CONTEXTUALIZAÇÃO DE MOMENTOS HISTÓRICOS NO BRASIL E


ALGUMAS NORMATIVAS INFANTOJUVENIS

Em primeiro plano, cabe fazer uma contextualização dos momentos históricos e sua
relação com as leis que surgiram no cenário brasileiro. Inicialmente, até início do século XX,
não há registro sobre políticas sociais voltadas para a população infantojuvenil. Sabe-se que
crianças carentes eram entregues aos cuidados da Igreja Católica.
Em 1543, foi criada a primeira Santa Casa de Misericordia (na capitania de São
Vicente, Vila de Santos), que atuava no acolhimento de órfãos desamparados e doentes. Além
disso, nessa época, era preservado o anonimato das mães, que optavam por não assumir seus
filhos devido à condição de solteira e os costumes daquele tempo (LORENZI, 2007).
Nessa seara, o estudo obrigatório foi instituído em 1584, mas não era fornecido para
crianças com moléstia grave e que não tivessem sido vacinadas. Assim, havia uma dupla
exclusão: tanto na área da saúde quanto na educação (LORENZI, 2007). De outro lado, em
1891, veio o decreto nº. 1.313, que estipulava a idade mínima de 12 anos para o trabalho.
Todavia, diz-se que na prática isso não era cumprido, pois as indústrias iniciantes e a agricultura
utilizavam a mão de obra infantil (LORENZI, 2007).
Posteriormente, entre os anos de 1900 e 1930, já no começo do século XX,
sobreveio um período marcado por lutas sociais e pelo surgimento do proletariado. Durante a
greve geral de 1917 foi criado o Comitê de Defesa Proletária. Este, por sua vez, reinvindicou a
proibição do trabalho de menores de 14 anos e trabalho noturno de mulheres e menores de 18
anos (LORENZI, 2007).
Em seguida, no ano de 1923, foi criado o Juizado de Menores e, em 1927, foi
promulgado o Código de Menores para a população menor de 18 anos (FULLER, 2017). Tal
documento ficou conhecido como Código Mello Mattos, pois era o nome do primeiro juiz que
atuou nessa área na América Latina. Essa normativa era voltada para a população infantojuvenil
excluída e concedia muito poder ao juiz; deixando, por vezes, o destino de várias crianças à
mercê do Estado-julgador (LORENZI, 2007).
Passada essa fase, no período compreendido entre 1930 e 1945, tem-se a fase de
programas assistencialistas. Houve a Revolução de 1930, derrubada das oligarquias rurais e
surgimento do Estado autoritário. Esse Estado fazia das políticas públicas um instrumento de
integralização dos indivíduos ao projeto nacional do período e essa fase ficou conhecida como
Estado Novo, que vigorou de 1937 até 1945 (LORENZI, 2007).
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Ainda nesse período, houve a implementação da legislação trabalhista,


obrigatoriedade do ensino e cobertura previdenciária, sendo esta última vinculada à inserção
profissional, por isso foi alvo de críticas (LORENZI, 2007).
Além disso, em 1942, teve a criação do Serviço de Assitência ao Menor (SAM).
Era uma espécie de penintenciária, só que para os menores de 18 anos. Atuava-se, assim, de
modo correcional-repressivo. Havia um tratamento diferenciado para os jovens que cometeram
ato infracional e para os que estavam em situação de abandono. Os primeiros ficavam em
internatos em casas de correção, já os últimos eram enviados para patronatos agrícolas e escolas
de aprendizagem de oficinas urbanas (LORENZI, 2007).
Por conseguinte, de 1945 a 1964, ocorreu uma abertura política e uma organização
social (LORENZI, 2007). Houve, inclusive, a promulgação da Constituição de 1946, que teve
caráter liberal e trouxe consigo a volta das instituições democráticas, o pluripartidarismo, o
restabelecimento dos três poderes de forma independente, o direito de greve, a liberdade
sindical e o fim da pena de morte e da censura.
É importante ressaltar que, em 1950, foi fundada a primeira unidade do Fundo das
Nações Unidas para Infância (Unicef), no Paraná. Inicialmente, o foco foi para o cuidado da
saúde de crianças e gestantes em alguns estados do Nordeste. Dessa forma, pode-se dizer que
houve uma conquista da população de baixa renda, visto que era atendida pela atuação do
Unicef (LORENZI, 2007).
Nesse sentido, grande parcela da população passou a ver o SAM como repressivo
e desumanizante (LORENZI, 2007). Nota-se, portanto, que a sociedade civil estava mais
organizada. Entretanto, havia a polarização mundial, marcada pela Guerra Fria.
De 1964 a 1979, sucedeu um período marcado pela Ditadura Militar. Em 1967 foi
outorgada uma nova Constituição, marcada pela restrição de liberdades e recuos no campo dos
direitos sociais. Nesse período, foram criados dois documentos na área da infância e da
juventude: Lei 4.513/64, que criou a Fundação Nacional do Bem Estar do Menor (Febem) e a
Lei 6.697/79, conhecida como Código de Menores de 1979.
Nessa seara, a Febem aproveitou o prédio e o pessoal do antigo SAM e visava
fornecer assitência tanto aos jovens carentes quanto aos infratores, esses últimos eram o foco
principal. De outro lado, o Código de Menores de 1979 não rompeu com a linha de
arbitrariedade do Código de 1927, mas apenas introduziu o conceito de menor em situação
irregular. E, ainda, ressalta-se que havia poder em larga escala do Estado, pois mesmo quem
não tinha cometido ato infracional era colocado junto dos infratores (LORENZI, 2007).
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Em seguida, em meados da década de 1970, surgiram pesquisas acadêmicas que


colocaram em debate a área da infância e da juventude, como uma forma de discutir políticas
públicas e direitos humanos, dando continuidade às normativas que já tinham surgido até essa
época (LORENZI, 2007).
Posteriormente, na década de 1980, tem-se um contraponto entre os menoristas e
os estatutistas. Os primeiros defendiam a vigência do Código de Menores e os últimos queriam
implementar a doutrina da Proteção Integral. Assim, os estatutistas eram bem articulados e
comeaçaram a trabalhar antes mesmo das eleições parlamentares, com intuito de angariar força
política e para que os parlamentares assumissem um compromisso com a população
infantojuvenil (LORENZI, 2007).
Com essa movimentação, em 1987, é formada a Assembleia Nacional Constituinte,
que foi presidida pelo deputado Ullysses Guimarães e durou 18 meses. Então, em 5 de outubro
de 1988, promulgou-se a Constituição Cidadã, com avanços na área dos direitos sociais.
Ressalta-se que na Assembleia Geral Constituinte havia um grupo de parlamentares
comprometido com a infância e a juventude e o resultado culminou na redação do art. 227 da
CRFB/88 (LORENZI, 2007).
Algum tempo depois, em 1990, ocorreu a promulgação do ECA, Lei 8.069/90, uma
grande conquista para sociedade; visto que havia agora um documento voltado para regular o
tratamento às crianças e aos adolescentes.
Um de seus avanços foi a menor intervenção do Estado na vida do adolescente.
Exemplo disso é a excepcionalidade da medida de internação: aplicada apenas em atos
cometidos com violência ou grave ameaça, reiteração de ato infracional grave ou
descumprimento repetitivo e injustficável da medida anteriormente imposta ( art. 122, do ECA).

1.1 BREVE EVOLUÇÃO CRONOLÓGICA DAS PRINCIPAIS NORMAS


INFANTOJUVENIS

De acordo com registros históricos, em 1899, foi criado o primeiro Tribunal de


Menores (Juvenile Court Act, de Illinois). Assim, o direito da criança e do adolescente surge
como uma especialização da jurisdição (FULLER, 2017). Em seguida, no ano de 1919, tem-se
a convenção n. 5 e convenção n. 6, aprovadas pela Conferência Internacional do Trabalho,
oportunidade em que foi estipulada a idade mínima de 14 anos para o trabalho.
Posteriormente, em 1921, tem-se a Convenção sobre supressão do tráfico de
mulheres e crianças. Em 1924, surge o primeiro documento de caráter amplo e genérico,
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aprovado pela Liga das Nações e proclamada como a Carta da Liga sobre a Criança. Nesse
mesmo ano surge também a Declaração de Genebra (FULLER, 2017)
Após isso, entre o período de 1927 e 1979, é criado o Código de Menores e, tempo
depois, já em 1959, surge a Declaração Universal dos Direitos da Criança (Resolução 1.386/59).
Com esse último documento, as crianças e os adolescentes deixaram de ser meros recipientes
passivos para serem sujeitos de direitos internacionais. Tal declaração foi emanada pela ONU
e não tem força legal, mas é uma recomendação aos países e governos sobre como agir
(FULLER, 2017).
Em seguida (1979), com o cômputo de 20 anos da promulgação da Declaração da
Criança e do Adolescente, a Polônia propôs a elaboração de um tratado internacional que
transformasse em termos jurídicos os princípios expostos na Declaração de 1959. Então, em
1989, foi promulgada a Convenção sobre os Direitos da Criança e do Adolescente (FULLER,
2017).
No Brasil, tal Convenção foi aprovada pelo Decreto Legislativo n. 28 de 1990 e
promulgada por meio do Decreto 99.710 de 1990. Ressalta-se que, nesse mesmo ano, surgiu o
Estatuto da Criança e do Adolescente. Ou seja, assim, tem-se uma nova ótica de regulamentação
dos direitos infantojuvenis. O que resta analisar é se a aplicação está em consonância com o
que dispõe as normas, o que será abordado no tópico seguinte (FULLER, 2017).

1.2 CONSTITUCIONALIDADE DO TEMA

Sabe-se que o princípio da absoluta prioridade à criança e ao adolescente está


insculpido no art. 227, caput, da CRFB/88. Essa previsão legal confere à população
infantojuvenil preferência no que tange as atividades do Estado e da sociedade, porque o maior
patrimônio de um povo são seus jovens. Todavia, a expressão “absoluta prioridade” não se
mostra a mais adequada.
Os princípios têm como característica a relatividade e, portanto, dizer “absoluta
prioridade” soa desarrazoado. Entretanto, ao analisar que a Constituição de 1988 aconteceu
num contexto após a Ditadura Militar, buscando a redemocratização, pode-se compreender
melhor a intenção do legislador (PINHEIRO, 2006). Dessa forma, pensa-se num sentido de
maior enfoque e prioridade aos jovens, respeitada a ponderação de valores inerente aos
princípios.
Superado esse ponto, tem-se que a tutela da criança e do adolescente ocorre da
forma como se conhece hoje (após a promulgação da Constituição de 1988), com foco nesses
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indivíduos, sujeitos de direitos. Esse panorama supera, e muito, o modelo antigo, a situação
irregular ou o Código de Menores. Tal diferença acontece, por exemplo, no que tange as
políticas públicas de promoção, atualmente preferidas, em vista daquelas antigas que ensejavam
a repressão e o controle social, vigente na época do menorismo (CUSTÓDIO, 2008).
Percebe-se que após a Constituição de 1988 e com o advento do Estatuto da Criança
e do Adolescente, em1990, houve essa nova roupagem no trato à população infantojuvenil
(NASCIMENTO, LACAZ, TRAVASSOS, 2010). Ademais, em consonância com tais
considerações, destaca-se a expansão do direito sistêmico, que ganha força no meio social
moderno, sobretudo com a valorização do princípio da afetividade, de meios alternativos de
solução dos conflitos e a cultura de paz, que busca se instalar na sociedade; o que corrobora
com a importância do tema em questão.

1.3 RESOLUÇÃO Nº 125 DO CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA

O artigo 1º da Resolução 125 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) institui a


Política Judiciária Nacional de tratamento adequado dos conflitos de interesses. Tal regramento
visa assegurar a todos o direito à solução dos conflitos por meios adequados a sua natureza e
peculiaridade. Dessa forma, ao dizer meios adequados a sua natureza e peculiaridade, tal norma
abre espaço para a constelação familiar, terapia que atua com base no campo morfogenético
familiar do indivíduo.
Como se sabe, em inúmeros tribunais do Brasil, essa técnica tem sido utilizada e
com resultados muito positivos. Desde os primeiros movimentos, quando a expressão “direito
sistêmico” foi introduzida no meio jurídico, em meados de 2006, com o pioneiro juiz Sami
Storch, tal método se expandiu e tem sido aplicado nas mais diversas áreas. Acredita-se que na
seara do direito de família, quando o requerente e o requerido eram constelados chegava-se a
um nível de acordos de quase 100%.
Diante do quadro apresentado, tem-se que a Resolução n. 125 do CNJ mostra como
o respaldo legal apto e adequado para ensejar o uso da constelação familiar no âmbito do Poder
Judiciário. Além disso, sua aplicação se mostra como instrumento de utilização essencial nos
dias atuais, especialmente pensando em desafogar os inúmeros índices de processos pendentes
de solução no Judiciário (MARINO; MACEDO, 2018).
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1.4 APLICAÇÃO DO ECA E DA SINSASE

No título III do ECA apresenta-se o tratamento conferido ao ato infracional,


regulamentando-o a partir do artigo 103. Pois bem, essa regra prevê que ato infracional é a
conduta descrita como crime ou contravenção penal. Entretanto, tendo em vista o
direcionamento para adolescentes, têm-se algumas peculiaridades, tais como o tempo máximo
de internação de três anos e a desinternação compulsória aos 21 anos de idade.
Quanto à medida de liberdade assistida, insculpida no artigo 118 do mesmo diploma
legal, tem-se que ela será adotada sempre que se afigurar a medida mais adequada para o fim
de acompanhar, auxiliar e orientar o adolescente. Além do mais, o juiz nomeará um orientador,
que, com a supervisão da autoridade competente, ficará incumbido de promover socialmente o
adolescente e sua família, fornecendo-lhes orientação e inserindo-os, se necessário, em
programa oficial ou comunitário de auxílio e assistência social; irá supervisionar a frequência
e o aproveitamento escolar do adolescente, promovendo, inclusive, sua matrícula; diligenciar
no sentido da profissionalização do adolescente e de sua inserção no mercado de trabalho; e
apresentar relatório do caso ( art. 119, ECA).

Todavia, da análise do art. 119, do ECA e, principalmente, seu inciso III


(diligências quanto à profissionalização do adolescente e sua inserção no mercado de trabalho),
surgem algumas pontuações: 1) a supervisão da autoridade competente consiste em verificar se
o jovem foi matriculado e, quando muito, no esclarecimento de alguma dúvida do responsável;
2) geralmente, o incumbido pelo adolescente não consegue promover sua profissionalização
(ARAÚJO; MELO; SCHOMMER, 2005).

Nesse sentido, frequentemente os pais e/ou responsáveis são pessoas passivas que
não conseguem passar uma instrução adequada para os filhos. Dessa forma, nota-se a falta de
uma estrutura e de apoio familiar adequados, o que enseja, então, a atuação do Estado e da
sociedade, que também têm o dever de amparar esses jovens. Mas, na prática, isso não acontece
de maneira satisfatória. (ARAÚJO; MELO; SCHOMMER, 2005).

É importante destacar a importância do trabalho desenvolvido pelo SENAC e


SENAI, que dispõem de cursos profissionalizantes; uma boa opção para aprender alguma
técnica e entrar no mercado de trabalho (ARAÚJO; MELO; SCHOMMER, 2005).
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Nesse sentido, destaca-se a necessidade de políticas públicas voltadas ao


desenvolvimento da área de profissionalização dos jovens. Possíveis alternativas seriam o
fornecimento de novas atividades que despertem o interesse da população juvenil conforme sua
aptidão.

Some-se a isso o fato de que, enquanto uns têm habilidade para atividades
administrativas, outros podem ter habilidades artísticas que o permitam ser um tatuador, por
exemplo. Também é preciso entender que, com a evolução da sociedade, estão surgindo novas
profissões, como: gestor de tráfego, gestor de lançamento, social media, filmaker, entre outras.
E, com isso, há a necessidade de abordar diferentes opções.

Em outras palavras, o que se pretende ressaltar é a necessidade de uma oferta


diversificada de alternativas profissionalizantes, e não somente aquelas que exigem uma
formação universitária.

Voltando o enfoque para o modo de operação do sistema socioeducativo de Goiânia,


destaca-se que há muita dificuldade no que tange o repasse das matérias da educação formal
para o aluno internado; questões como a falta de escolta para o deslocamento dos internos até
a sala de aula, desinteresse dos jovens e a falta de continuidade das aulas. Nesse ponto, a
matemática é apontada por uma das educadoras como uma das disciplinas que deveria ser
ministrada todos os dias, devido à dificuldade de compreensão (NUNES, 2018).

Quanto ao quadro de pessoal, sabe-se que a Secretaria de Educação do Estado de


Goiás (Seduce) realiza contratos especiais para os professores. Considerando que tais contratos
possuem o prazo de três anos, constatou-se outra problemática: dificuldade de fornecer
educação formal nos centros de internação. Esse modo de contratação não se mostra como o
mais adequado, pois os profissionais escolhidos pela Secretaria do Estado são os mesmos que
são direcionados para trabalhar no sistema socioeducativo, ambiente que exige um tempo
próprio de adaptação, devido a suas peculiaridades (NUNES, 2018).

Foi identificado também o relato (NUNES, 2018) de uma adolescente que


demonstra grande dificuldade em conseguir um emprego. Segundo a jovem, antes de entrar no
mundo do crime (vendendo drogas e roubando), ela entregou vários currículos na expectativa
de conseguir um trabalho. Narrou que conseguiu como doméstica, apenas. Entretanto, sua chefe
mudou de cidade e ela ficou desempregada (NUNES, 2018). A adolescente ressaltou, ainda,
que por ser mulher, as opções no mercado de trabalho eram mais escassas, evidenciando as
20

marcas do processo histórico em que as mulheres tinham somente função de cuidar da casa e
dos filhos.

Percebeu-se também que a exclusão não ocorre apenas no âmbito profissional, mas
também dentro do próprio Case. Relata-se que alguns funcionários(as) mal conversam com as
garotas, não respondem nem um bom dia. São tratamentos como esse que prejudicam sua
autoestima, honra e dignidade (NUNES, 2018).

Ainda verificou-se a questão de que as garotas pouco usam a quadra de esportes e


que os meninos têm mais regalias; que não há uniformização das roupas e elas se vestem de
forma precária, sendo privadas, não somente da liberdade, mas também de sua autoestima (mais
uma vez); que o médico presente na unidade demonstra descaso, foi relatado o caso de uma
garota que estava chorando há três dias e, sem os cuidados adequados, sofreu aborto espontâneo
(NUNES, 2018).

Com esses relatos pode-se perceber a magnitude dos efeitos da vulnerabilidade


social e econômica presente na sociedade. Se a criança ou o adolescente se sente excluído, não
se sente parte de um todo, de uma comunidade, ele(a) vai buscar essa aceitação no traficante de
drogas, em algum colega que já está envolvido com a criminalidade, na maioria das vezes. Em
outras palavras, a exclusão social é um fator que faz com que eles interajam com pessoas que
oferecem apoio, mas que, muitas vezes, já estão em conflito com a lei (NUNES, 2018).

Conforme previsto, observou-se que os motivos pelos quais os adolescentes


estavam afastados da escola foram a dificuldade de aprendizagem, dificuldade em conciliar
rotina com o estudo e as vivências fora da escola, que eram mais atrativas. Quanto à rotina, uma
jovem cita que tinha de cuidar dos irmãos mais novos, enquanto a mãe trabalhava o dia todo.
Assim, quando chegava à noite, estava muito cansada e não ia para o colégio. Some-se a isso o
fato de que muitas vezes há também obstáculos financeiros para arcar com os custos do
deslocamento. Então, percebe-se que são uma série de fatores que desaguam no cenário atual
(NUNES, 2018).

Nesse contexto, analisando o ambiente de internação, ressalta-se que há grades nas


janelas das salas de aula; os adolescentes ficam trancados em celas e não em dormitórios; há
um modelo baseado na vigilância e segurança. Quase não tem aula, pois não há regularidade;
alguns dias há, outros não, e só se pode saber de última hora. Os professores apenas passam
21

matéria no quadro e os internos copiam. Muitas vezes, os profissionais dão a resposta pronta;
não há um tempo dedicado ao aprendizado efetivo (NUNES, 2018).

Além disso, a duração das aulas é breve e, como ressaltado por uma das
adolescentes, há o fato de que aqueles alunos desinteressados atrapalham os que querem
realmente aprender (NUNES, 2018). Os jovens não aproveitam seu tempo de internação para
se tornarem pessoas melhores, adquirirem experiências positivas, conhecimento e se
aperfeiçoarem, pois não são ofertadas a eles essas oportunidades. Estão submetidos ao descaso
das autoridades e de grande parcela da população.

São essas questões que apontam um cenário alarmante dentro do sistema


socioeducativo brasileiro, que precisa mudar, mesmo que seja aos poucos. Viu-se que o sistema
está pautado em vigilância e segurança, voltado mais para um contexto punitivo, contrariando
totalmente o que prevê o ECA, quando preceitua que o sistema é socioeducativo.

A seguir, haverá um debate a respeito da assistência social sobre mudanças no


âmbito dos jovens em conflito com a lei.

1.5 DA ASSISTÊNCIA SOCIAL

Ao observar o artigo 203 da CRFB/88, nota-se que a assistência social será prestada
a quem dela necessitar, independentemente de contribuição à seguridade social. No inciso II
desta norma há previsão específica de amparo a crianças e adolescentes carentes, ou seja, há a
previsão normativa, o que falta mesmo é seu efetivo cumprimento.
Com a análise de estabelecimentos nos quais os jovens infratores ficam internados
em Goiânia, percebe-se que não há assistência social suficiente por lá, pelo contrário. Os vários
jovens contam apenas com a equipe técnica do Poder Judiciário, o que, por óbvio, não basta
para atender todos ali presentes (NASCIMENTO, LACAZ, TRAVASSOS, 2010).
Trata-se de uma equipe composta por três profissionais, geralmente um pedagogo,
um psicólogo e um assistente social. O que confirma o caráter insuficiente de tal composição.
Assim, mostra-se uma faceta da Constituição que não é cumprida e quem perde com isso é toda
a sociedade (NASCIMENTO, LACAZ, TRAVASSOS, 2010).
É importante lembrar que, durante um período da história brasileira, as famílias que
não tinham como cuidar de seus filhos os deixavam por conta do Estado e eles eram
encaminhados para os internatos (NASCIMENTO, LACAZ, TRAVASSOS, 2010). Em outras
22

palavras, a pobreza era motivo para internação. Por outro lado, hoje, com o ECA, proíbe-se a
internação em razão de pobreza. Entretanto, ao analisar os quadros da população juvenil
internada, verifica-se que não são os filhos de pais de classe média que estão lá, tampouco dos
ricos.
Mesmo com a introdução do ECA no ordenamento jurídico, um marco importante,
as novas diretrizes que determinam crianças e adolescentes como sujeitos de direitos parecem
surgir a passos lentos, visto que a aplicação delas não ocorre da melhor maneira possível
(ALMEIDA, 2010). O local onde esses jovens ficam internados se assemelha, e muito, com
uma prisão. Não há muita diferença. Assim como os presos adultos, os jovens e adolescentes
internados não são ressocializados. O que se observa é que não é respeitada sua condição
particular de pessoa em desenvolvimento, muito menos respeitada sua dignidade (art. 1º, III, da
CRFB/88).
Diante do quadro apresentado, nota-se que não é papel somente dos profissionais
formados em assistência social ou em cursos semelhantes olhar para o adolescente como pessoa
em desenvolvimento e buscar fazer a diferença na vida deles. É dever de todos, da família, da
sociedade e do Estado deixá-los a salvo de negligências, discriminação e opressão (art. 227, da
CRFB/88).

2 CRIANÇAS E ADOLESCENTES EM CONFLITO COM A LEI

Inicialmente, é importante relembrar o funcionamento da dinâmica de apuração do


ato infracional. Começa com a apreensão do jovem pela Polícia Militar, que o leva até a Polícia
Civil. Esta, por sua vez, produz o inquérito policial e encaminha para o Ministério Público, que
decide se faz judicialização do caso ou não, após oitiva informal (FULLER, 2017).
Nesse sentido, tem-se que o representante do Ministério Público decidirá se arquiva
o caso, se faz remissão, com ou sem medidas socioeducativas em meio aberto, ou se faz a
representação.
Considerando a propositura de representação, que se assemelha à denúncia, pode
ocorrer internação provisória, dependendo da gravidade da conduta cometida. Essa internação
tem o prazo máximo de 45 dias (BRASIL, 1990).
Em seguida, acontece a audiência de apresentação. Nesse momento, o juiz tem a
escolha de conceder remissão, seja ela suspensiva ou extintiva do processo, com ou sem
aplicação de medidas socioeducativas; ou revogar, manter ou decretar internação provisória
(FULLER, 2017).
23

Em caso de prosseguimento da ação, o próximo passo é a audiência de continuação,


oportunidade que é utilizada para a produção de provas, conforme art. 186, §4º, do ECA
(BRASIL, 1990). Logo depois, tem-se a audiência admonitória, que serve para orientar o jovem
quanto ao cumprimento da pena.
Todo esse processo descrito acima faz parte de uma seara especializada: infância e
juventude. Pois, segundo o ordenamento jurídico pátrio, deve-se ter um tratamento diferenciado,
com vistas à proteção integral e ao melhor interesse da criança e adolescente (FULLER, 2017).
É importante ressaltar que criança (até 12 anos) não é submetida às medidas
socioeducativas, mas sim às medidas de proteção, constantes no art. 101 do ECA (BRASIL,
1990).
Superado esse ponto, relembra-se também que a medida a ser aplicada depende de
qual conduta foi cometida. Por exemplo, se o adolescente cometer conduta análoga ao roubo,
por ser uma prática que envolve violência ou grave ameaça, cabe internação, conforme art. 122,
inciso I, do ECA (BRASIL, 1990).
De outro lado, se a conduta cometida for mais leve e não houver violência ou grave
ameaça, bem como considerando o histórico e a condição peculiar do adolescente, poderá ser
concedida remissão, conforme dispõe art. 126 do ECA (BRASIL, 1990).
Ademais, poderá ser aplicada cumulativamente (art. 127 do ECA) com a remissão
outra medida prevista em lei, como prestação de serviços à comunidade (BRASIL, 1990).
Ressalta-se também que tal medida aplicada pode ser revista judicialmente, de
acordo com art.128 do ECA (BRASIL, 1990).
Diante do que foi exposto acima, nota-se as condições específicas que o ECA traz
à tona com o objetivo de resguardar os direitos dos mais jovens. Entretanto, por vezes, o
disposto na teoria é bem diferente do que ocorre na prática, como se verá no tópico a seguir.

2.1 DESRESPEITO AO CONTRADITÓRIO E À AMPLA DEFESA

Como se sabe, vigora, hoje, uma política de proteção integral à criança e ao


adolescente, nos moldes do ECA (art. 1º e 100, II), pelo menos em tese. Entretanto, isso não
acontece de fato, pois o paradigma da situação irregular foi modificado apenas no texto da lei
e não foi implementado na sociedade (BORGES; DURÃES; LOPES; LIMA, 2020).
Isso ocorre porque continuam sendo realizados procedimentos que não
correspondem à proteção integral prevista. É dizer: o contraditório e a ampla defesa não são
24

devidamente respeitados no processo de apuração de ato infracional (BORGES; DURÃES;


LOPES; LIMA, 2020).
Conforme se observa no trâmite de apuração de ato infracional, em tese, teria uma
fase inquisitiva e outra acusatória. A fase inquisitiva seria aquela que se inicia com a abordagem
do adolescente pela Polícia Militar e vai até a produção do inquérito policial. Assim, a partir do
oferecimento da peça de representação, pelo Ministério Público, inicia-se a fase acusatória
(BORGES; DURÃES; LOPES; LIMA, 2020).
Entretanto, considerando o modelo de produção de provas, a ausência da
Defensoria Pública, que só integra a relação na audiência de apresentação, a ineficiência e não
viabilidade de acesso ao segundo grau de jurisdição, bem como o modo de atuação dos
integrantes das instituições, ainda marcadas pelo crivo de uma hierarquia disfarçada e
paternalismo por parte da figura do juiz, o que se tem de fato é um sistema totalmente inquisitivo
(BORGES; DURÃES; LOPES; LIMA, 2020).
O desrespeito aos direitos do contraditório e da ampla defesa podem ser vistos sob
o ângulo de que mesmo na fase investigativa não seja permitido produzir provas, na fase
acusatória, as provas anteriormente geradas são as mesmas utilizadas pelo juiz, para proferir
sua decisão (BORGES; DURÃES; LOPES; LIMA, 2020).
Nota-se que a Defensoria Pública não consegue reunir evidências e que aquelas
obtidas pelo Ministério Público, como: o conteúdo do inquérito policial, o registro de
antecedentes do jovem, a confissão obtida em oitiva informal (momento em que Defensoria
ainda não está presente), o depoimento dos policiais militares, relatório feito pelos
técnicos/assistentes, são as mesmas utilizadas para convencer o juiz. Isso demonstra a fraqueza
por parte da defesa, em evidente desrespeito ao princípio da paridade de armas, insculpido do
art. 7º do Código de Processo Civil de 2015.
Ademais, há relatos (BORGES; DURÃES; LOPES; LIMA, 2020) de episódios em
que o magistrado se ausenta da sala durante a realização de perguntas pela Defensoria Pública
ao acusado; casos em que o juiz entrega os autos para o representante do Ministério Público
começar a inquirição e simplesmente sai da sala, em total desrespeito ao sistema acusatório
(BORGES; DURÃES; LOPES; LIMA, 2020).
Tudo isso demonstra que ainda há muito o que se avançar nesse cenário da Infância
e Juventude. Percebe-se que, ao invés de ocorrer um agravamento do sistema penal, com mais
punição, como alguns defendem, é necessário voltar o olhar para a elaboração de políticas
públicas, para reduzir as desigualdades sociais e oferecer mais oportunidades de inserção no
meio social a esses jovens (BORGES; DURÃES; LOPES; LIMA, 2020).
25

2.2 POLARIZAÇÃO NO AMBIENTE SOCIOEDUCATIVO, POBREZA E


ESTIGMATIZAÇÃO

Como se não bastasse a falta de aparato por parte da defesa, que só adentra no
processo depois que muita coisa já aconteceu, ainda há de se mencionar a polarização entre os
trabalhadores do centro socioeducativo (LEAL; MACEDO, 2019). Em outras palavras, não se
tem uma equipe disposta a olhar para os socioeducandos com o mesmo prisma, o que dificulta
a situação lá dentro (LEAL; MACEDO, 2019).
A violência e os motivos que levaram os adolescentes a serem internados estão
vinculados a questões sociais (ligadas a fatores macrossociais) e não somente voltados para a
história do indivíduo e de sua família. Diante disso, deve-se lembrar que a violência constitui
parte de um sistema social complexo, com raízes profundas arraigadas no sistema em que se
vive (LEAL; MACEDO, 2019).
Alguns educadores e trabalhadores compreendem isso, mas outros apenas reforçam
medidas unicamente penais, pautadas no controle social, na disciplina e no viés de sanção
(LEAL; MACEDO, 2019).
Percebe-se que há uma parcela dos trabalhadores que ainda têm a visão de que o
recrudescimento das sanções e até a redução da maioridade penal seriam soluções hábeis. E há
outro grupo que percebe a necessidade de modificação da situação não com o recrudescimento
de medidas, mas com a reestruturação dos moldes do que tem sido feito até hoje; que percebe
que a problemática não está somente na família desestruturada, mas também no Estado e na
sociedade, que não oferecem viabilidades aos jovens de baixa renda e que precisam enfrentar
uma batalha bem diferente daqueles que têm mais condições financeiras (LEAL; MACEDO,
2019).
Diante do que foi exposto anteriormente, observa-se que o centro de internação,
que deveria ser um espaço educativo e reintegrativo, assume uma posição de adestramento,
controle, repressão, misturado com uma realidade de exclusão (LEAL; MACEDO, 2019).
De qualquer forma, ao contrário do que possa ser presumido, não se está falando
que a pobreza é motivo para delinquência, apenas que é um dos fatores mais preponderantes
para o envolvimento em atividades ilícitas.
Logo, o entendimento do ato infracional deve levar em conta todo o cenário social
que serviu de pano de fundo para o desenvolvimento do indivíduo e de suas condutas. Esse é o
prisma sob o qual se percebe inserido o contexto do ato infracional: um contexto macrossocial
(LEAL; MACEDO, 2019).
26

Portanto, é primordial que haja possibilidades de questionamentos e inovações, de


mobilização pela garantia de direitos que não contam com tanto apoio social.
Superado esse ponto, menciona-se, a seguir, um dos principais instrumentos
utilizados na seara da Infância e Juventude, no que tange o ato infracional, conforme dispõe art.
1º, inciso II, da Lei 12.594 de 2012: o Plano Individual de Atendimento –PIA (BRASIL, 2012).

2.3 NUANCES DE APLICAÇÃO DO PLANO DE ATENDIMENTO INDIVIDUAL AO


ADOLESCENTE

O Plano Individual de Atendimento (PIA) é uma forma de singularizar o


atendimento a crianças e adolescentes afastados do convívio da família, analisar melhor suas
condições e traçar planos para sua vida.
Como se sabe, a reavaliação da medida aplicada é realizada a cada seis meses,
conforme art. 92, § 2º e art. 94, XIV, do ECA; com exceção da prestação de serviços à
comunidade, que não poderá exceder seis meses, art. 117, caput, do ECA (BRASIL, 1990).
Nesse sentido, o documento mencionado deve abarcar a especificação de qual o
melhor programa para cumprimento da medida, a definição de quais atividades (internas e
externas) serão realizadas, individual ou coletivamente, bem como a fixação de metas para o
alcance do que foi proposto, consoante art. 55, I, II e III, do ECA. (BRASIL, 1990).
Desse modo, a cada avaliação a equipe técnica emite um parecer sobre a situação
do jovem e analisa se ele tem progredido e cumprido o que foi firmado na audiência admonitória
(BRASIL, 1990).
Além disso, ressalta-se que o prazo para elaboração do PIA é de 45 dias após a data
do ingresso no programa de atendimento, conforme art. 55, parágrafo único, do ECA (BRASIL,
1990). Nesse ponto, é importante fazer uma ressalva, alguns trabalhadores do centro de
internação provisória e da casa de semiliberdade têm pontuado que o prazo para realização do
PIA deve ser estendido. Isso se dá pois há todo um serviço, tempo e papel gastos na elaboração
(MOREIRA; ALBUQUERQUE; ROCHA; ROCHA; VASCONCELOS, 2015).
Nesse ponto, tem-se que a grande dificuldade apontada é o prazo de 45 dias para
sua confecção após a admissão do adolescente na unidade. No centro de internação provisória,
por exemplo, observa-se que, às vezes, realiza-se um PIA e logo o jovem é transferido para a
casa de semiliberdade; momento em que teria que ser confeccionado outro documento, agora
com a realidade de lá (MOREIRA; ALBUQUERQUE; ROCHA; ROCHA; VASCONCELOS,
2015).
27

Desse modo, sugeriu-se a elaboração de um PIA virtual, que poderia ser atualizado
mais facilmente (MOREIRA; ALBUQUERQUE; ROCHA; ROCHA; VASCONCELOS,
2015).
Nota-se, assim, o quanto a comunicação clara entre os atuantes desse meio e a
tomada de decisões acertadas são importantes para melhorar o funcionamento do sistema
socioeducativo, que, por sinal, já enfrenta grandes desafios, como o que será mencionado em
seguida.

2.4 O CAMINHO DAS DROGAS

Como se sabe, mesmo que o tráfico de drogas seja uma atividade que não faz
diferenciação entre ricos, pobres, negros ou brancos, no sentido de que pessoas de qualquer
classe podem começar a consumir ou traficar drogas, percebe-se que os mais pobres enxergam
no tráfico uma oportunidade para fazer dinheiro mais rápido, para terem o que tanto desejam
de forma imediata (FREITAS; COSTA, 2018).
Os jovens relatam que o fato de suas famílias não terem boas condições financeiras
os fazem ir para rua e conseguir algo para se virar e não trazer mais preocupação para o lar, no
sentido econômico (FREITAS; COSTA, 2018).
Foi dito também que muitas vezes há conflitos dentro da própria casa, entre pais,
avós, irmãos; como brigas, agressões, comparações, distanciamento. Nesse ponto, as drogas
seriam uma fuga das questões emocionais (JIMENEZ; ADORNO; MARQUES, 2018).
Considerando a fase de transição que eles passam, a adolescência, somada às
inúmeras intervenções que ocorrem no meio em que vivem, muitas vezes nas periferias da
cidade e o fácil acesso aos entorpecentes, surge, então, outro entrave para os jovens e a
sociedade como um todo: o caminho das drogas. Iniciando com o tráfico, quando menos se
espera outros atos infracionais já estão sendo cometidos, como: roubo, furto, latrocínio e
assassinato (JIMENEZ; ADORNO; MARQUES, 2018).
O cerne da questão está no fato de que o envolvimento com o mundo do crime
permite que eles atinjam o padrão de consumo que desejam, mesmo declarando abertamente
sua autoimagem de pessoas ordinárias; reconhecem que abrem mão da ética, e vêm aqueles que
têm um emprego formal como trabalhadores legítimos (FREITAS; COSTA, 2018).
Nesse sentido, em diálogo com os envolvidos no tráfico, os jovens, que se
autodeclaram ordinários, argumentam que lhes atrai o fato de ganharem R$ 2.000,000 em uma
semana, sendo gerente de boca de fumo, enquanto uma auxiliar de serviços gerais ganha um
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salário mínimo por mês; que se fossem trabalhadores formais não poderiam fazer uma festa
como a que costumam fazer, com várias bebidas, drogas, mulheres, comidas variadas, pois o
dinheiro acabaria em duas horas.
Desse modo, percebe-se que são atraídos pelo consumo exacerbado, poder e status
social, o que os leva à escolha de subverter a ética em prol de obter o que desejam de modo
mais fácil (FREITAS; COSTA, 2018).
De outro lado, tem um grupo que reconhece o lado sombrio de se obter dinheiro
ilicitamente. Destacam que não podem usar o dinheiro da melhor forma, pois teriam que prestar
contas de sua origem, não podem ter coisas em seu nome, até mesmo conta bancária. Em vez
disso, ficam com dinheiro no bolso (FREITAS; COSTA, 2018).
Afirmam também que os trabalhadores, como descrevem, podem ter melhores
perspectivas de futuro, pois o comum é que sua expectativa de vida seja mais longa. Dizem,
inclusive, que o dinheiro das drogas se vai com a mesma facilidade que veio e reconhecem,
então, uma faceta do infortúnio que escolheram (FREITAS; COSTA, 2018).
Em suma, o envolvimento com as drogas traz questões prejudiciais profundas aos
usuários, traficantes e para sociedade. É, portanto, uma porta de entrada para o crime e uma
questão que precisa de uma análise mais detalhada.

2.5 REFORMA PSIQUIÁTRICA BRASILEIRA

Como dito anteriormente, considerando que a droga é um dos fatores que leva ao
cometimento do ato infracional, é importante mencionar a política de atendimento para o
tratamento de drogadição no Brasil.
Destaca-se que, com a reforma psiquiátrica brasileira, advinda da Lei 10.216 de
2001, existe hoje um tratamento mais humanizado para as pessoas que sofrem de transtornos
mentais e usuários de substâncias psicoativas. Antes, aqueles que sofriam com transtornos
mentais eram tachados como loucos e internados em manicômios, mas hoje tem-se um olhar
mais polido. Prova disso é a existência dos Centros de Atenção Psicossocial – CAPS
(BERLINCK; MAGTAZ; TEIXEIRA, 2008).
O CAPS funciona independentemente de qualquer estrutura hospitalar, conforme
dispõe art. 3º, da portaria 336, do Ministério da Saúde, de 19 de fevereiro de 2002 (BRASIL,
2002).
No parágrafo único do mesmo dispositivo mencionado anteriormente, percebe-se
que o centro de atenção até pode funcionar no mesmo espaço de um hospital, mas desde que
29

seja independente de sua estrutura física, tenha equipe própria e acesso privativo (BRASIL,
2002).
Desse modo, nota-se que, com a reforma psiquiátrica, há um incentivo para a
substituição de hospitais psiquiátricos por outras alternativas mais plausíveis, como o CAPS;
que implementa novas práticas terapêuticas e busca a reinserção do indivíduo na sociedade
(BERLINCK; MAGTAZ; TEIXEIRA, 2008).
Isso acontece com a troca do isolamento desenfreado por dinâmicas grupais,
internação mais flexível e psicoterapia individual e em grupo (BERLINCK; MAGTAZ;
TEIXEIRA, 2008).
Nesse ponto, é importante destacar que a terapia familiar, quando realizada, produz
duas vezes mais resultados do que a individual, pois é tratada a base em que o adolescente está
inserido, seu seio familiar; em vez de focar somente nele (BERLINCK; MAGTAZ; TEIXEIRA,
2008).
Diante desse cenário, nota-se uma consequente modificação no atendimento ao
paciente. Movimento que impulsiona a desinstitucionalização de pessoas com muito tempo de
internação, com o auxílio-reabilitação psicossocial, fornecimento de medicamentos básicos
necessários e novas formas de pensar o tempo em que a pessoa necessita para se recuperar de
algum vício (BERLINCK; MAGTAZ; TEIXEIRA, 2008).
É importante relembrar que, conforme prevê o art. 6º da Lei 10.216 de 6 de abril de
2001, a internação psiquiátrica só será realizada com embasamento em laudo médico que
justifique seus motivos (BRASIL, 2001).
A internação que acontece com o consentimento do usuário denomina-se voluntária.
Já a involuntária é aquela que ocorre sem o consentimento e a compulsória é aquela em que é
realizada por determinação judicial, conforme incisos I, II e III do art. 6º da Lei 10.216 de 2001,
respectivamente (BRASIL, 2001).
Diante disso, sabe-se que, mesmo em um cenário caótico, com violência,
desigualdades, vícios e irregularidades no sistema, há algumas alternativas que já estão sendo
aplicadas no meio social que buscam melhorar o cenário (BERLINCK; MAGTAZ; TEIXEIRA,
2008), tal como disposto anteriormente, com a presença do CAPS e também com outras
iniciativas, conforme se verá no capítulo a seguir.
30

3 O QUE É DIREITO SISTÊMICO

O direito sistêmico é uma área da seara jurídica que nasce como instrumento para
solucionar as questões levadas ao Judiciário de forma mais holística, propiciando uma melhor
solução, em vez de simplesmente aplicar letra fria da lei (STORCH, 2018).
O pioneiro nesta seara descrita anteriormente é o juiz Sami Storch, atuante no
Tribunal de Justiça do Estado da Bahia. Ele aplica técnicas sistêmicas há 13 anos em áreas
como direito de família, infância e juventude e até criminal, mesmo nos casos considerados
mais difíceis.
A abordagem mencionada foi desenvolvida originalmente pelo terapeuta e filósofo
alemão Bert Hellinger, que, por meio das constelações familiares, deixou o legado das leis
sistêmicas (leis que regem as relações). O autor batizou tal ciência de Hellinger Sciencia e o
termo direito sistêmico foi cunhado pelo magistrado citado anteriormente, quando ocorreu a
fundação de seu blog, após ter visualizado o Direito conforme as ordens deixadas por Hellinger
(STORCH, 2018).
Segundo esse método, diversos problemas enfrentados por um indivíduo, como:
traumas, dificuldade de relacionamento, bloqueios, podem ter origens na sua ancestralidade.
Seus ancestrais que passaram por mortes trágicas ou prematuras, envolvimento com drogas,
exclusões, abandonos, crimes, doenças graves, abortos, relacionamentos mal resolvidos,
influenciam o sistema familiar de tal modo que tudo está interligado e afeta determinado
indivíduo de forma mais acentuada, dependendo do caso concreto (STORCH, 2018).
Nesse sentido, quando há questões mal resolvidas, fala-se na existência de um
emaranhado na rede, causando problemas para as gerações futuras. É nesse ponto que entra a
constelação familiar.
Na constelação, a dinâmica consiste em participantes (pessoas) que são escolhidos
pelo consulente para representar seu sistema familiar. As pessoas são posicionadas e assumem
seu espaço no ambiente, sentindo como se fossem as próprias pessoas representadas (STORCH,
2018).
Por força do campo morfogenético, expressam seus sentimentos e são livres para
se locomoverem, de acordo com o que sentem. Assim, conforme flui a atividade, são trazidas
à tona questões ocultas no sistema do cliente que estavam lhe causando transtornos, mesmo
fatos ocorridos há muito tempo e que não sejam de seu conhecimento (STORCH, 2018).
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Ademais, também são utilizados frases e movimentos que desfaçam o


emaranhamento, reestabelecendo-se a harmonia. Pode ser que a solução não venha de forma
integral e em uma única oportunidade. Entretanto, a constelação sempre aponta o caminho,
fazendo desaparecer a necessidade inconsciente do conflito (STORCH, 2018).
Assim, após a realização dessa dinâmica, as partes se mostram mais receptivas ao
ponto de vista do outro e com desejo de conciliar. Observa-se também que, com abordagens
coletivas, por meio de palestras, que duram em média três horas, os envolvidos se mostram
mais dispostos a realizar a conciliação e, inclusive, obtendo resultados positivos. O resultado
disso é a melhora nos relacionamentos de forma geral e a redução de conflitos no meio social
(STORCH, 2018).
Um exemplo, no Tribunal do Distrito Federal e Territórios – TJDFT, é o caso de
um inventário de mais de R$ 10 milhões de reais em que os irmãos disputavam a herança. O
irmão era contra o casamento da irmã, realizado aos seus 17 anos, e não conversavam já havia
20 anos. A psicóloga, percebendo que a presença do marido da herdeira atrapalhava a solução,
solicitou que ele se afastasse e, depois disso, aos poucos, os irmãos voltaram a conversar. Nesse
ponto, chegaram a um acordo e o processo foi extinto (FARIELLO, 2020)
A seguir, para melhor compreender a dinâmica do que está sendo exposto, serão
mencionadas as leis do amor ou leis sistêmicas.

3.1 LEIS SISTÊMICAS

Nas constelações familiares, com o intuito de manter a ordem e a harmonia, são


aplicadas as leis sistêmicas, propostas por Bert Hellinger: lei do pertencimento, lei da hierarquia
e lei do dar e receber.
A primeira lei corresponde à ideia de que todos os integrantes da família têm o
direito de pertencer. Quando houve exclusão de um integrante, posteriormente ele foi trazido
de volta ao sistema familiar, para dar o lugar que lhe é devido. Assim, quem foi excluído será
representado por outro membro e o ciclo se repete até alguém o curar (HELLINGER, 2020).
Os exemplos de exclusão são: aborto; crianças que são colocadas em adoção;
quando um membro da família é excluído pois se envergonham dele; até os que raramente são
lembrados, como o natimorto; as crianças que morreram precocemente, seja inclusive por
aborto espontâneo, influenciam o campo energético (HELLINGER, 2020).
Já a segunda lei sistêmica diz respeito à ordem de precedência. Quem veio primeiro
tem precedência sobre os que vieram depois. Os pais vieram antes dos filhos, logo ocupam uma
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hierarquia superior. O mesmo ocorre com o primogênito e com os demais familiares. Cada um
ocupa seu espaço e deve ser respeitado e honrado. Se houver a intenção de tomar o lugar do
outro ocorre um desequilíbrio e gera conflitos (HELLINGER, 2020).
Por sua vez, a terceira lei relembra a importância do equilíbrio nas relações e traz à
tona a questão do dar e receber entre os indivíduos. Numa relação entre pais e filhos, esses
últimos nunca poderão devolver tudo o que seus pais fizeram por eles. Dessa forma, acabam
passando o que receberam para as gerações futuras e a função que exercem na vida. Ressalta-
se que o maior presente que os pais dão aos filhos é a vida e só por este motivo já devem ser
gratos aos seus genitores, sem julgamentos em relação à pessoa que seu genitor foi, absorvendo
apenas o que há de bom e agradecendo pela vida (HELLINGER, 2020).
Nesse ponto, acrescenta-se que essa lei também se aplica nas relações amorosas.
Quando um dá mais do que o outro quer receber, ocorre um desequilíbrio. Se um da relação dá
demais e o outro não consegue retribuir, a relação acaba sendo frustrante e tende ao fracasso.
Por isso, a importância de estabelecer um limite em relação ao quanto se quer receber. Por
exemplo, em vez de dizer simplesmente ao seu cônjuge que gostaria que ele passasse mais
tempo com você; diga especificamente o que quer receber: “gostaria que você passasse mais
tempo comigo aos domingos, sendo pelo menos umas duas horas no parque e outras duas horas
assistindo a filmes, comendo comida japonesa. Assim, sabe-se exatamente o que cada um quer
(HELLINGER, 2020).
Esse desejo por equilíbrio também acontece diante de fatos negativos, quando há
uma relação de agressor e vítima. Nesse ponto, geralmente surge uma vontade de vingança, em
compensar o outro pelo mal que ele lhe fez (HELLINGER, 2020).
Entretanto, a melhor maneira de equilibrar uma situação dessas não é ferir o outro
na mesma medida ou um pouco mais, mas um pouco menos. É dizer, agir com amor. Em uma
situação em que foi ferido, retirar-se do cenário que o machuca, acolher-se, respeitar-se,
compreender o que pode aprender com aquilo e não reagir cedendo à raiva, rancor ou
ressentimento. Mas ser proativo e agir com base no amor. Não se cura ódio com ódio. Portanto,
quando se diz ferir um pouco menos, na verdade está se dizendo que a melhor vingança é o
amor (HELLINGER, 2020).

3.2 UM JEITO SIMPLES DE TER UM JUDICIÁRIO MAIS HARMÔNICO

Em março de 2018, a Constelação Familiar foi incluída no rol de procedimentos


disponíveis no Sistema Único de Saúde (SUS). Como se sabe, essa terapia foi incluída dentro
33

do grupo de Práticas Integrativas e Complementares (PICs) e pode contribuir muito para saúde
mental de toda a população (FREITAS, 2019).
Além da mediação e da conciliação, a constelação já é utilizada em vários estados:
Amapá, Alagoas, Goiás, Distrito Federal, São Paulo, Bahia, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul,
Pará, Paraná e Rondônia, com a finalidade de ajudar a solucionar conflitos levados ao Judiciário
(FREITAS, 2019).
O Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJGO), por exemplo, com o Projeto
Mediação Familiar, instituído pelo 3º Centro Judiciário de Soluções de Conflitos e Cidadania
da comarca de Goiânia, ficou em primeiro lugar na honraria V Prêmio Conciliar é Legal,
realizado pelo CNJ (FREITAS, 2019).
Nesse sentido, o juiz Paulo César Alves das Neves, idealizador do projeto e
coordenador do Núcleo Permanente de Métodos Consensuais de Solução de Conflitos do TJGO,
comenta que o índice de resolução dos conflitos, com o auxílio da terapia, é de
aproximadamente 94% (FREITAS, 2019).
Portanto, o que se percebe é um Judiciário atuando com mais sincronia e com o
intuito de propiciar mais satisfação e eficácia aos jurisdicionados (FREITAS, 2019), como será
exemplificado no tópico seguinte.

3.3 COMO FUNCIONA COM OS PRESOS, UM EXEMPLO DE RONDÔNIA

Como dito anteriormente, a abordagem terapêutica da constelação familiar tem sido


utilizada no Judiciário em vários estados brasileiros e no Distrito Federal (FARIELLO, 2018).
Nesse sentido, por exemplo, em Rondônia, o TJRO investe na formação dos
magistrados e, também, de acordo com o desembargador Walter Waltemberg, há uma
preferência de que os juízes sejam constelados antes de constelar as pessoas que buscam a
Justiça (FARIELLO, 2018).
Isso se justifica pois, assim, há um melhor desempenho dos magistrados, visto que
ocorre um reflexo em sua produtividade e eles também já terão experienciado a técnica em suas
vidas antes de aplicá-la, o que é benéfico para todos (FARIELLO, 2018).
Nessa seara, citando o exemplo de Rondônia, a terapia é oferecida pela Associação
Cultural e de Desenvolvimento do Apenado e Egresso (Acuda), uma ONG que atua junto ao
TJRO. Essa parceria existe desde 2001 e mais de três mil detentos já passaram por lá, um local
que atende três penitenciárias da capital, Porto Velho (FARIELLO, 2018).
34

É importante destacar que o projeto começou oferecendo peças de teatro e hoje


fornece cursos profissionalizantes, como artes plásticas, massoterapia, mecânica, oficina de
motos e carros, tapeçaria, marcenaria, entre outros (FARIELLO, 2018).
Os presos que estejam há mais de um ano em regime fechado e tenham bom
comportamento participam desse projeto. Pela manhã, ficam na ONG, onde há sessões de
terapia, meditação, yoga e massagem. Já no período da tarde, os detidos trabalham em oficinas
profissionalizantes (FARIELLO, 2018).
Essa participação no projeto propicia a remição de pena, ou seja, a cada três dias
trabalhados, é um dia a menos na prisão. Mesmo após o cumprimento da pena, alguns
continuam trabalhando na ONG. Em 2018, já haviam 27 egressos que se tornaram monitores
da ONG (FARIELLO, 2018).
Segundo o presidente da Acuda, Luiz Carlos Marques, a procura é gigantesca e se
houvesse mais vagas, elas seriam preenchidas imediatamente. Destaca-se também que a
constelação é realizada uma vez por semana, com a finalidade de que, a partir do
autoconhecimento, os presos possam identificar os motivos que os levaram a chegar até ali e,
assim, ressignificar sua história (FARIELLO, 2018).
Segundo o presidente, esse método utilizado proporciona reflexões profundas e
oferece também opções para que o preso saia do mundo do crime. Sem esse projeto, o tempo
na prisão seria inútil como enxugar gelo, ressalta (FARIELLO, 2018). Pois, como se sabe, uma
das funções da pena é devolver um cidadão melhor para a sociedade.
Menciona-se, ainda, o exemplo do detento Sérgio (FARIELLO, 2018), que,
somente após a constelação, conseguiu identificar questões com a mãe (dificuldade de
relacionamento). Após a sessão, pôde perceber que guardava uma profunda raiva da genitora
por tê-lo deixado com a avó quando ainda era muito novo e nunca mais ter aparecido
(FARIELLO, 2018).
Em sua infância, esse rapaz trabalhava num garimpo e mais tarde foi para a capital
com seu padrinho, trabalhando com tráfico de drogas. Então, a partir dessa fase, começou a
receber os clientes e perguntar se queriam maconha ou cocaína (FARIELLO, 2018).
Segundo ele, isso foi tudo que aprendeu na sua infância. Menciona que, por vezes,
tentava mudar a rota de sua vida, mas, por inúmeras dificuldades, acabava voltando para o
tráfico (FARIELLO, 2018).
Dessa maneira, comenta que durante a constelação conseguiu se aproximar da
pessoa que representava sua mãe e lhe dizer o quanto lhe fazia falta, liberando, assim,
sentimentos reprimidos que estiveram ali por anos. Depois dessa fase, ele conseguiu fazer
35

planos para o futuro, quando concluir o cumprimento da pena; mencionando o desejo de


trabalhar com cerâmica, ofício que aprendeu durante o tempo na ONG e se reaproximar de seus
filhos e esposa (FARIELLO, 2018).
Entretanto, apesar de todo trabalho desenvolvido, o diretor Rogério Araújo explica
que enfrenta alguns preconceitos. Comentários hostis relacionando ao fato de terem cometido
crimes e receber terapia, como se não merecessem (FARIELLO, 2018).
Em resposta, o diretor, que é um egresso do sistema carcerário, comenta que a
sociedade quer a ressocialização do detento, mas não contribui para isso (com comentários
como o citado anteriormente). Ele ressalta ainda que não pode reparar o dano cometido,
tratando-se de um assassinato, por exemplo; mas pode colaborar para que os detentos se
conscientizem e não voltem a cometer condutas como essas (FARIELLO, 2018).
Nesse ponto, trata-se do direito dos presos à igualdade de tratamento, exceto quanto
às exigências da individualização da pena, conforme art. 40, XII, da Lei de Execução Penal –
LEP (BRASIL, 1984).
Ademais, Rogério afirma que, ao passar pelos processos de terapia, o interno
consegue ter empatia e desconstituir os impulsos que o levavam a infringir a lei. Nesse processo,
há a valorização do afeto e da atenção. É importante ressaltar que inúmeros detentos têm
dificuldade até de abraçar, pois, na maioria das vezes, há questões de abandono e má
estruturação familiar que os levam a ter tribulações emocionais (FARIELLO, 2018).
Outro exemplo mostra que após a sessão terapêutica, o homem constelado
conseguiu perceber que tinha uma vontade enorme de conviver com a filha que teve antes do
casamento e, por não enfrentar essa questão, não percebia o quanto isso atrapalhava sua vida
(FARIELLO, 2018).
Esse rapaz, em específico, comentou que, após esses processos terapêuticos,
começou a entender a si mesmo e a realidade em que vive. Após perceber a situação, contou
para seus dois filhos que eles tinham uma irmã mais velha, concluiu seis cursos na área de
massoterapia, oferecidos pela ONG. Em seguida, começou a trabalhar na ONG, com a
recuperação de adolescentes do sistema socioeducativo, enquanto cumpria seu último ano de
pena (FARIELLO, 2018).
Ainda no TJRO, em novembro de 2018, foi realizada a primeira Oficina de
Constelação Familiar para os presos do Instituto de Administração Penitenciária do Estado
(Iapen). A presidente do Núcleo Permanente de Métodos Consensuais de Solução de Conflitos
(Nupemec), desembargadora Sueli Pini, disse que após a constelação foi possível observar
grande mudança no comportamento dos detentos (FARIELLO, 2018).
36

Nesse sentido, ela comenta também que uns voltaram a frequentar as aulas do
Instituto, melhoraram seus vínculos familiares, reconheceram paternidade e optaram por
participar de cerimônias de casamento coletivo dentro do cárcere (FARIELLO, 2018).
Para a desembargadora, a constelação familiar está ganhando espaço no Judiciário
e a tendência é que isso continue acontecendo, pois, assim, há a construção de uma Justiça mais
qualificada (FARIELLO, 2018).
O exemplo de Rondônia traz questões que podem ser replicadas em outros estados,
como os cursos profissionalizantes e a oferta de trabalho para quem já esteve em conflito com
a lei. Medidas que ainda precisam ser melhor implementadas em Goiânia-GO, incluindo os
adolescentes infratores, como será mencionado no tópico a seguir.

3.4 JOVENS INFRATORES EM GOIÂNIA E PRÁTICAS INTEGRATIVAS

Após a promoção de medidas reestruturantes no sistema socioeducativo de Goiânia,


proposta realizada pelo Governo de Goiás, por meio da Secretaria de Desenvolvimento Social
(Seds), foi decidido que as oficinas de temas variados que englobam a ressocialização serão,
agora, permanentes. Exemplo disso são as aulas de música e musicoterapia oferecidas no Centro
de Atendimento Socioeducativo (Case) de Goiânia (OFICINAS..., 2020).
A secretária de Desenvolvimento, Lúcia Vânia, comenta que o objetivo almejado
com tais modificações é cumprir em Goiás o disposto na norma do Sistema Nacional de
Atendimento Socioeducativo (Sinase), que determina implementação de atividades lúdicas,
extraescolares e esportivas (OFICINAS..., 2020).
O assistente operacional, Erick Christian, comenta que apesar de 30 dos 50 jovens
participarem das aulas de música, o momento ainda é de seleção. O trabalho é divido em duas
etapas. Na primeira são realizadas aulas de música propriamente ditas, com o ensino de cifras,
ritmos, toda a teoria e execução, finalizando com a prática para realmente aprender a tocar o
instrumento (OFICINAS..., 2020).
Erick comenta que o intuito dessas aulas é despertar o protagonismo do adolescente
no que diz respeito à sua expressão artística musical, pois, segundo ele, vários adolescentes
possuem tal aptidão e tem interesse pela esfera artística e cultural (OFICINAS..., 2020).
Já na segunda etapa, chamada de oficina de produção musical, são desenvolvidas
composição e interpretação musical, abrangendo a musicoterapia. O assistente explica, ainda,
que os jovens amam compor suas próprias músicas e depois cantá-las; que seus pensamentos e
37

visão de mundo são exteriorizados por meio do som; e que, dependendo do resultado,
encaminham o que foi produzido para um estúdio profissional, onde há bateria, violão, teclado
e outros instrumentos (OFICINAS..., 2020).
Destaca-se que essas oficinas somente são realizadas com aqueles que despertam
interesse e aptidão para participar e que as aulas geralmente são ministradas em duplas ou
individualmente (OFICINAS..., 2020).
Nesse sentido, a primeira turma iniciou as aulas em agosto de 2020 e foram
detectados resultados positivos. Houve adolescentes que já escreveram músicas e o intuito é
prepará-los para apresentações futuras e uma eventual graduação de seus trabalhos
(OFICINAS..., 2020).
Erick menciona ainda seu contentamento em obter efeitos positivos em um curto
período de tempo com quatro jovens que estão na primeira turma, ressaltando que estão
encerrando a segunda composição do quarteto e que outros adolescentes demonstraram
interesse em participar da oficina (OFICINAS..., 2020).
Nesse ponto, um dos reeducandos comenta que, ao aprender tocar violão, compor
e ensaiar, obtém um incentivo para tecer uma mudança positiva em sua vida. Outro aluno diz
que gosta das aulas de música, que já sabia como tocar bateria e estava aprendendo sobre o
violão; diz ainda que levará para a vida toda as aulas ministradas, no Case de Goiânia, por Erick
Christian e Adriana Silvestre (OFICINAS..., 2020).
Além da diversão, um papel importantíssimo que as aulas de música desempenham
na vida dos alunos é o acesso às questões que os levaram a cometer atos infracionais, para que,
assim, possa ser trabalhado com eles a questão psicológica, bem como trazer o
autoconhecimento (OFICINAS..., 2020).
Segundo Adriana Silvestre, com a conscientização oferecida, os jovens conseguem
refletir, acessar e curar feridas para eliminar padrões destrutivos repetitivos. Os chamados
emaranhamentos familiares, por exemplo, são tratados e curados com a constelação familiar e
thetahealing, aplicados por ela (OFICINAS... 2020).
A musicoterapeuta Adriana, que também é especialista em saúde mental,
consteladora familiar sistêmica, instrutora de yoga e meditação, e que atua há seis anos como
analista de políticas públicas no Case de Goiânia, comenta que, com esse novo olhar sistêmico
implementado por meio das práticas mencionadas, os jovens podem reconstruir seu presente,
que transformará instantaneamente seu futuro (OFICINAS..., 2020).
A terapeuta mencionada trabalha com adolescentes, realizando musicoterapia, bem
como no atendimento da constelação individual, para ajudá-los a vencer seus problemas
38

(OFICINAS..., 2020), o que é um ponto positivo para os internos e que agrega bastante em sua
trajetória, visto que há grandes chances de melhorá-la.
Por fim, segundo ela, todo trabalho é realizado com leveza, por meio da
comunicação não violenta, reconciliação e liberação de emoções; mesclado ao uso da música e
da expressão do indivíduo (OFICINAS..., 2020).
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CONSIDERAÇÕES FINAIS

Em primeiro plano, o problema que incitou a produção deste trabalho reside no


cenário de que os jovens infratores de Goiânia passam um vasto tempo no centro de internação
e não obtêm um aproveitamento satisfatório desse período que passam lá.
Isso ocorre devido à precariedade da educação oferecida dentro do Case de Goiânia
e da ausência de profissionalização e de oportunidades de trabalho para quando saírem da
internação. Dessa forma, acontece a reincidência.
O objetivo desta obra foi justamente ressaltar a importância do tema, debatendo
sobre sua constitucionalidade, sobre a aplicabilidade do ECA e da Sinase na seara
infantojuvenil infracional e comentar sobre as constelações sistêmicas e o Direito. Destacar
também a importância de realizar um atendimento que envolva não somente a aplicação da
sanção, mas também de técnicas reintegrativas.
O método utilizado foi o empírico que, por meio de premissas menores, chega a
uma conclusão geral.
Nesse sentido, conclui-se que se não forem realizadas práticas de psicoterapia aos
jovens infratores, aliadas à oferta adequada de profissionalização e oferta de trabalho, a
reincidência não diminuirá.
Os resultados obtidos demonstram que de um ano para cá houve algumas alterações
positivas no sistema socioeducativo de Goiânia; com implantação de mais cursos
profissionalizantes no Case de Goiânia, o fechamento do centro de internação provisória de
Goiânia e o aumento do atendimento das oficinas de musicoterapia no Case. Entretanto, mesmo
com a oferta de cursos, o problema que permanece é o fato de não conseguirem trabalho quando
terminam de cumprir a medida socioeducativa.
Infere-se também que a constelação familiar tem ganhado cada vez mais espaço no
campo judicial brasileiro e tem sido um meio para um novo olhar em relação não só aos
adolescentes em conflito com a lei, mas também para todos os litígios levados ao Judiciário em
que são cabíveis sua utilização; com uma consequente melhora das relações, na maioria dos
casos, e a resolução dos conflitos de forma mais pacífica.
Portanto, para os estudiosos e pesquisadores interessados pela área, cabe, também,
como sugestão, várias análises no sentido de confrontar a situação dos centros de internação e
aplicação da legislação infantojuvenil com as taxas de reincidência.
40

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