Você está na página 1de 384

Érica Negreiros de Camargo

Casa, doce lar:


o habitar doméstico percebido e vivenciado

Tese de Doutorado

Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo

Área de concentração: Hábitat

Orientadora: Profa. Dra. Suzana Pasternak

São Paulo

2007
Livros Grátis
http://www.livrosgratis.com.br
Milhares de livros grátis para download.
À minha mãe,
Ao Rainer,
A Leo,

Por eles serem o meu lugar; a minha casa


Antes de mais nada…

Esta pesquisa, tal como a minha casa, contém muito de mim, da minha
alma e da minha dedicação; e está pronta para receber bem os amigos e todos aqueles
que venham visitá-la com alegria no coração. Com isto, cito Roberto DaMatta, que
tão bem versou sobre essa arte de “receber”:

“Um livro é como uma casa. Tem fachada, jardim, sala de visitas, quartos,
dependência de empregada e até mesmo cozinha e porão. Suas páginas iniciais,
como aquelas conversas cerimoniais que antigamente eram regadas a guaraná
geladinho e biscoito champanhe, servem solenemente para dizer ao leitor (esse
fantasma que nos chega da rua) o que se diz a uma visita de consideração. Que
não repare nos móveis, que o dono da morada é modesto e bem-intencionado, que
não houve muito tempo para limpar direito a sala ou arrumar os quartos. Que vá,
enfim, ficando à vontade e desculpando alguma coisa...”
(DaMatta, 2000; p. 11).

Ah, sim! A música e a poesia que encontrarão aqui foram especialmente


providenciadas para entreter as visitas. Pois, fiquem à vontade, que a casa é sua!

Érica
Agradecimentos

Este é o momento de lembrar de todas as pessoas que, de alguma forma,


contribuíram para que este trabalho fosse feito. Dentre essas pessoas há algumas que
sequer sabem de sua imensa contribuição. Porque suas palavras e feitos muitas vezes
estiveram apenas na minha memória, enquanto ecoavam na minha postura de
investigação, nas inúmeras escolhas que tive que fazer, na forma de contornar as
dificuldades; e que, por isso, devo-lhes meus agradecimentos. Há outras que estiveram
constantemente ao meu lado, dando suas opiniões, criticando, sugerindo,
acrescentando; a quem, por isso, também devo meus agradecimentos. E há aquelas
pessoas que, com suas histórias de vida a mim presenteadas de forma tão sincera e
generosa, não só ajudaram a dar corpo a este trabalho, mas, de fato, são a sua alma. A
essas, também, devo meus tão sinceros agradecimentos.
Dessas pessoas, nomeio aquelas que considero representantes de uma lista extensa, a
cujos componentes devo dizer muito obrigada.
Muito obrigada...

À minha orientadora, Professora Susana Pasternak, que, antes de mais nada,


acreditou no meu projeto; e que esteve à disposição para ajudar a moldá-lo e
redirecioná-lo sempre que foi preciso.
Ao querido Rainer, marido, conselheiro, enfermeiro, revisor, editor e rei da
paciência...
A Leo, filho querido, que acompanhou de perto as atribulações de uma mãe
doutoranda, sempre com comentários alegres e encorajadores. E que ainda criou a
linda capa deste trabalho.
À minha mãe, que, além de mãe, foi enfermeira, revisora, conselheira, orientadora; e
correspondente direta com Santo Antônio.
À minha irmã, Anamaria, e à D. Carminha, pela preocupação, no momento em que
minha saúde mandou um aviso de “calma”.
Às amigas Ana Maria Lacerda, pelos livros que vieram em tão boa hora; Maria
Celeste Wanner, pelas dicas para a defesa; Monika Krugmann, pelos esclarecimentos
lingüísticos; Célia Gomes, pelo carinho e pela torcida.
Aos amigos Mônica e Marcos Percário, pelo acompanhamento carinhoso e alegre que
tornou essa fase mais leve de ser levada.
Ao amigo e Professor Isaías Neto, pelos conselhos, e por ter participado do começo
desta história, lá atrás, ainda no mestrado.
Ao Marcus Ramos, pela linda foto da capa.
Ao Thomas Henke, por ter feito a ponte entre um dos entrevistados.
Ao Dr. Aldrighi, muito mais que meu médico, amigo sempre disponível.
À Professora Yvonne Mautner, pelas valiosas dicas de condução do discurso final
dadas em minha Qualificação, e pela generosa dedicação e disponibilidade em me
receber em sua casa, e emprestar livros, sempre que precisei.
À Professora Eda Tassara, pelas utilíssimas sugestões de organização do discurso final,
dadas em minha Qualificação.
Aos professores Celso Lamparelli, Maria Ruth Amaral de Sampaio e José Lira, por
terem jogado luz no percurso metodológico que tive que percorrer até chegar aqui.
Ao professor Massimo de Felice, cujo foco contemporâneo de ver o habitar veio
trazer equilíbrio a uma visão, talvez, demasiado tradicional, para os dias em que
vivemos.
À querida Professora Ecléia Bosi, cujos ensinamentos sobre História Oral foram
fundamentais não só para o registro das entrevistas que trago aqui, mas para a
compreensão da importância de se conhecer um fato sob a ótica de quem o viveu.
E, principalmente, ao entrevistados, cujas identidades me comprometi em não
revelar: obrigada, de coração!

Ainda gostaria de agradecer ao apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento


Científico e Tecnológico – CNPq –, cujo auxílio foi essencial para a realização deste
trabalho.
Resumo

[adaptação] Como é percebido e vivenciado pelas mulheres?

O objetivo desta investigação foi analisar o tema Hábitat, especificamente no sentido


de como o lugar do habitar doméstico é percebido e vivenciado por seus habitantes,
em termos tanto objetivos – das relações estabelecidas com a fisicalidade da moradia
–, quando subjetivos – das questões pessoais específicas que intervêm nessas relações.
Como instrumento para esta investigação, foram tomados depoimentos de pessoas a
respeito das relações que estabelecem no e com o espaço de suas moradias, os quais,
embasados em abordagens teóricas pertinentes ao tema, definiram a linha condutora
da análise. Para a investigação, estabeleceram-se cinco dimensões, através das quais
foram examinados os particulares processos de atribuição de significados ao habitar
doméstico; sejam elas: a casa física, usos objetivo e subjetivo da casa, privacidade e
intimidade domésticas, o cotidiano doméstico e o lugar do habitar doméstico. Estas cinco
dimensões permitiram entender que o habitar doméstico é algo tão amplo quanto a
própria vida do indivíduo, não se dando isoladamente ou independente das
interferências externas, as quais permeiam a vida cotidiana doméstica. Ao lado disto,
é o caráter da particularidade do habitar doméstico que o legitima como uma prática
do indivíduo per se.
Abstract

In this study, the author investigates the home environment in the sense of how a
private dwelling is perceived and experienced by its users, both in objective terms,
regarding physical usage, and subjective terms, regarding individual issues that
influence this usage. To carry out this investigation, the author interviewed
individuals regarding relations they hold within and with their dwellings. A literature
review on this subject combined with data collected via interviews provided the
framework for this investigation. The author defined five dimensions through which
private dwellings can be examined, and through which particular meanings are
attributed to one’s home: the physical house, objective and subjective uses of the dwelling,
domestic privacy and intimacy, private everyday life, and the place of private dwelling. These
five dimensions help us understand that the home dwelling is as broad as our life and
does not take place apart from, and regardless of, external interferences, which
permeate one’s private, everyday life. Moreover, it is the singularity of private
dwelling, in terms of how it is perceived by each dweller, which renders private
dwelling an individual’s act per se.
Lista de figuras

Parte I – O habitar doméstico


Figura 1 Diagrama da origem etimológica da palavra “habitar”, segundo referência de
Heidegger, p. 22
Parte II – Dimensões do habitar doméstico
Capítulo 1 ‐ A casa física
Figura 2 Sistema de segurança instalado no portão de edifício em São Paulo, p. 47
Capítulo 3 – Privacidade e intimidade domésticas
Figura 3 O personagem Folke (do filme “Histórias de Cozinha), em seu posto de observação,
observa Izak em sua cozinha, p. 119
Figura 4 Aviso na porta do quarto de um pré-adolescente: necessidade de estar a sós, p. 123
Figura 5 Vista da fachada de loja de decoração em São Paulo, p. 131
Figura 5.1 Detalhe do cartaz: o que se vendem não são produtos, mas as sensações que eles
proporcionam, p. 131
Figura 6 Exemplo de planta de apartamento lançado na década de 1980 em São Paulo
trazendo o padrão tipológico setorizado (setores representados em cores diferentes), p. 135
Figura 7 Interior do trailer de Marly: cozinha, p. 136
Figura 8 Interior do trailer: sala de visitas (à frente) e quarto dos filhos (ao fundo), p. 136
Figura 9 Fundos do trailer: área de serviço, p. 136
Figura 10 Zona íntima: explicitação formal da privacidade doméstica, p. 138
Figura 11 Quarto: sobreposição de funções: dormir, vestir, trabalhar, ouvir e tocar música, ver
televisão, p. 139
Figura 12 Área de serviço: intimidade não revelada a estranhos, p. 148
Capítulo 5 – O lugar do habitar doméstico
Figura 13 Cena do filme “Mon Oncle” (1958) [...], p. 180
Figura 14 Esquema apresentado por um site brasileiro de vendas de equipamentos para a
instalação de “cinema em casa”, p. 210
Parte III – Casa: um lugar sagrado?
Figura 15 O habitar doméstico e a experiência do sagrado, p. 236
Sumário

Introdução.............................................................................................................10
Parte I – O habitar doméstico................................................................................20
Parte II – Dimensões do habitar doméstico...........................................................36
Capítulo 1 ‐ A casa física................................................................................................38
Capítulo 2 ‐ Os usos objetivo e subjetivo da casa .........................................................64
Capítulo 3 – Privacidade e intimidade domésticas .....................................................104
Capítulo 4 – O cotidiano doméstico............................................................................149
Capítulo 5 – O lugar do habitar doméstico .................................................................164
Parte III – Casa: um lugar sagrado? .....................................................................230
Considerações finais............................................................................................260
Notas ...........................................................................................................................268
Referências bibliográficas e obras consultadas ..........................................................273
Apêndice – Transcrição das entrevistas......................................................................290
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Introdução

A) Gênese da questão

Antes de falar especificamente do objeto de investigação deste trabalho,


considero apropriado traçar o caminho que me conduziu a ele. A pesquisa aqui
apresentada deriva de questões inquietantes com as quais me deparei ao longo da
minha pesquisa de mestrado (Camargo, 2003)1. Na época, investiguei a evolução
tipológica dos espaços habitáveis de apartamentos de dois dormitórios lançados na
cidade de São Paulo nas décadas de 1980 e 1990, assim como as relações funcionais
estabelecidas nesses espaços domésticos. O objetivo daquela pesquisa não era a
proposição de novas soluções projetuais, mas uma avaliação diagnóstica da adequação
do desenho dos espaços habitáveis às funções de uso do habitar doméstico,
considerando, no cenário observado, as transformações dos modos de vida nas
últimas décadas do século 20, para as quais contribuíram a modificação dos grupos
familiares e o largo uso de novas tecnologias – especialmente de novas mídias – nas
funções do habitar doméstico.
Como observa Suzana Pasternak, a família mudou. Nas últimas décadas
do século 20, o habitante das metrópoles parece ter tendido a viver sozinho ou a se
agrupar em tipos familiares que diferem da família nuclear burguesa estabelecida nos
séculos 18 e 19. E as transformações dessa família privatizada passaram a criar novas
demandas de moradia (Taschner, 1997; p. 243; 253). Ou, lembrando o ponto de vista
de Manuel Castells sobre o consumo de mídia combinado ao desempenho das tarefas
domésticas, temos hoje um ambiente audiovisual com o qual interagimos constante e

1
Apresentada em março de 2003 na FAU-USP.

10
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

automaticamente, funcionando, mesmo, como um “tecido de nossas vidas” (Castells,


2000; p. 358-359).
Diante da constatação de uma realidade doméstica em constante
transformação, outra verificação, aparentemente antagônica à primeira, veio a partir
da observação dos usos dos espaços domésticos: a apenas relativa incorporação dessa
contemporaneidade dos modos de viver ao habitar doméstico. Por um lado, as novas
configurações dos grupos familiares e os efeitos das novas tecnologias sobre o
cotidiano doméstico, que alteram, por exemplo, os padrões de sociabilidade entre os
membros do grupo doméstico e a relação público/privado, são incontestáveis.
Entretanto, em meio a essa contemporaneidade, traços de flagrante tradicionalidade
ainda fazem parte do atual habitar doméstico, sendo que o maior ou o menor grau
com que ela é incorporada ao uso dos espaços habitados, assim como à própria
percepção desses espaços, é uma questão específica de cada usuário ou grupo de
usuários.
Um exemplo disto seria o rigor formal com que ainda são tratadas as salas
de visitas de hoje. A despeito do pouco tempo deixado pela vida agitada de São Paulo
para o “receber” em casa, constatei que, na maioria dos casos observados2, as salas
permaneciam decoradas como verdadeiros cenários, montados e guardados para
serem admirados por eventuais visitantes, refletindo, assim, uma certa
tradicionalidade tanto na percepção quanto no uso desse cômodo. Como lembra
Roberto DaMatta, a respeito da casa brasileira,“o ritual de receber uma visita tinha (e
ainda tem) requintes quase barrocos, pois significa abrir o espaço da casa para um
estranho” (DaMatta, 2000; p.52).
Ao lado das “transformações” e “permanências” verificadas de forma não
uniforme nas relações do habitar doméstico – ainda que se tratando de contextos
socioeconômicos tão semelhantes, como foi o caso de minha pesquisa de mestrado –,
passou-me a ser especialmente arrebatadora a constatação da impossibilidade de se
empregar um único discurso quando se pretende analisar os usos dos espaços
domésticos ou as próprias concepções dos usuários a respeito seus espaços. Com isto,
concluí que a adequação do espaço habitado aos modos de vida ali praticados só é
verificada através das efetivas relações cotidianas que se dão no e com o espaço
habitado; ou, conforme a reflexão do Professor Celso Lamparelli, “nenhuma das

2
Como estudo de caso, tomei um edifício de apartamentos de dois dormitórios na cidade de São
Paulo para investigar as relações de usos aplicadas ao espaço habitado de cada apartamento.

11
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

SOBRE SOLUÇÕES ESPACIAIS TRADICIONAIS PARA FAMÍLIAS NÃO TRADICIONAIS?

soluções espaciais é totalmente adequada, pois as necessidades, expectativas e


aspirações com relação à moradia manifestam-se a partir do ato de morar”3.

B) Justificativa

A partir dos fatos observados, surgiu a reflexão de que a análise das


relações do uso do espaço doméstico deve estar conectada à observação de uma
necessidade prioritária – e sujeita a julgamentos particulares de cada usuário ou grupo
de usuários –, que é a do bem-estar doméstico; a necessidade, muitas vezes difícil de
descrever, de nos sentirmos acolhidos, abraçados, por nossas casas. Mantendo-me,
assim, na questão do habitar doméstico, proponho, aqui, enfocar as relações
estabelecidas no e com o espaço doméstico sob o ponto de vista daquele(s) que
habita(m) domesticamente um determinado lugar. Para isto, levo em consideração
tanto os aspectos concretos da relação de fisicalidade com o lugar habitado, quanto os
que envolvem questões menos objetivas e palpáveis, tais como os valores, as
influências socioculturais, as memórias e referências de domesticidade vividas no
passado, etc.: componentes aplicados individualmente, ou pelo grupo doméstico, às
suas práticas diárias do habitar doméstico.
Com isto, acrescento a consideração de Peter King, segundo a qual ao
mesmo tempo em que a questão do Hábitat deve ser tratada como um tema de
interesse social – “um bem”, em um nível coletivo –, devemos estar conscientes de
que este tema também envolve a consideração de que cada habitação encerra o
espaço no qual, individualmente, praticamos nossa privacidade, e através do qual
buscamos atingir nossos próprios objetivos. Segundo vê o autor, desconsiderar a
habitação como o local do indivíduo, por excelência, seria uma má percepção – ou a
não observação – da função existencial do habitar doméstico (King, 2003; p. 81, 82).

3
Esta reflexão advém das longas discussões sobre o tema habitar doméstico, juntamente com o
professor C. Lamparelli, durante o curso de sua Disciplina AUH-5704 - Metodologia Aplicada à
Arquitetura e ao Urbanismo, em 2003, na FAU-USP.

12
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

C) Objetivo

Uma vez definido o foco a ser dado ao tema Hábitat, estabeleço como
principal objetivo desta investigação analisar a questão do habitar doméstico segundo
ANALISAR
E IDENTIFICAR o modo como esse habitar é percebido e vivenciado por seus usuários. Procuro, assim,
OBJETIVO identificar as necessidades, expectativas e aspirações que acompanham o
entendimento individual de bem-estar doméstico, assim como os mecanismos formais
e emocionais que são aplicados cotidianamente nas relações estabelecidas nos e com os
espaços privados da habitação, na busca subjetiva desse bem-estar.
Para isto, baseei minhas reflexões na análise de entrevistas e de dados
teóricos pertinentes ao tema, buscando identificar entre os aspectos universais,
socioculturais e individuais levantados ao longo desta investigação, aqueles através
dos quais se dá a atribuição dos significados particulares tanto ao espaço habitado
domesticamente, quanto ao próprio ato de habitá-lo.
É importante ressaltar que a análise que aqui proponho não tem como
objetivo estabelecer padrões definitivos para o entendimento das relações entre
moradores e suas casas. Isto porque analisar o habitar doméstico sob a ótica do
“habitante”, tendo como instrumento seus depoimentos a respeito de suas relações
com o espaço habitado, implica considerar esse habitar doméstico nos aspectos
próprios e particulares de cada entrevistado, levando-se em consideração toda e
qualquer impressão relatada por eles – sejam essas impressões baseadas em fatos reais
ou produto de sua imaginação; sejam coerentes ou contraditórias em relação às suas
atitudes como moradores.

D) Metodologia de pesquisa

Para a elaboração do processo metodológico e das etapas desta pesquisa,


tive, como principal referência, o texto do Prof. Celso Lamparelli, “Metodologia
Aplicada à Arquitetura e Urbanismo” (Lamparelli, 2000). Uma vez estabelecidas as
especificidades que definiram o objeto da pesquisa, o processo de investigação voltou-
se, inicialmente, para o levantamento dos elementos já conhecidos, segundo três
aspectos – tal como propõe Lamparelli (ibidem, p. 23): o prático da experiência –
resultado de observações empíricas e do conjunto de impressões pessoais quanto ao

13
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

habitar doméstico; o científico – obtido com a pesquisa prévia realizada para o


Mestrado; e o da reflexão filosófica – ao retomar reflexões sobre os aspectos
anteriores, com a formulação de hipóteses a respeito do caráter de especificidade que
define o habitar doméstico – aspectos, que passariam a serem investigados na etapa
seguinte. Uma vez constatada a insuficiência de conhecimento para responder as
questões surgidas do desdobramento da problemática em torno do tema habitar
doméstico, foi desenhada uma estratégia metodológica voltada, ao mesmo tempo, ao
preenchimento sistemático das lacunas abertas na etapa anterior, e o gradual trajeto
do conhecido para o desconhecido, cujas etapas descrevo a seguir:

a) Revisão bibliográfica. Considerando que a idéia de habitar


doméstico envolve uma relação entre aspectos que se interpenetram e compartilham
significados, não há como explicitá-los e defini-los sem que se busquem os seus
referenciais teóricos específicos. Assim, nesta etapa foi feito um levantamento da
produção bibliográfica que pudesse subsidiar as questões desde o início levantadas.

b) Elaboração do quadro de referência com as questões que surgiram


para iluminar a problemática. Do conjunto de questões teóricas – pertinentes ou
não ao recorte estabelecido –, foram adotadas algumas para “iluminar” a questão do
habitar doméstico proposta. É nesta etapa que, por exemplo, o conceito do habitar
universal é adotado no sentido de ter seus aspectos aplicados ao habitar doméstico.
Pressupostos teóricos como este – ou como o da casa como campo do emocional e da
subjetividade, ou ainda, da casa como local de interação entre o físico e o emocional
– serviram para indicar direções para a continuidade das investigações.

c) Coleta de dados e informações: pesquisa de campo. Com o intuito


de investigar as relações do habitar doméstico sob o prisma do morador, iniciei a
etapa de coleta de depoimentos, realizada através de entrevistas. Inicialmente, foram
feitas algumas entrevistas-piloto, com o objetivo de definir a linha de conduta das
entrevistas a serem aplicadas imediatamente a seguir. O critério de escolha das
pessoas a serem entrevistadas levou em consideração o requisito de pertencerem a
diferentes contextos econômicos, profissionais, culturais e sociais.
Como resultado das entrevistas-piloto, percebi a dificuldade com que se
obtém depoimentos a respeito de impressões subjetivas sobre o habitar doméstico;

14
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

pois, ao se colocar “a casa”, como tema da entrevista, inevitavelmente, os


entrevistados – talvez, sugestionados pelo fato de a entrevistadora ser uma arquiteta –
passavam a falar das características físicas de suas casas. Empiricamente, observei que
ao nos vermos fisicamente afastados da nossa casa – em uma viagem, por exemplo –,
passamos a pensar nela não mais, exclusivamente, como um invólucro com estas ou
aquelas características físicas, mas como um lugar que abriga outras relações, além das
objetivas. Assim, percebi que mudar a perspectiva das narrativas, no sentido de focar
as experiências do habitar doméstico de uma posição distanciada do contexto
imediato das relações objetivas com os espaços habitados, seria uma forma de fazer
com que os entrevistados passassem a relatar impressões pessoais e subjetivas relativas
às suas experiências de habitar doméstico.
RELATOS DA
CASA SUBJETIVA
Assim, passaram a compor um grupo de vinte e um entrevistados pessoas
que, por alguma razão, estavam na iminência de deixar suas casas; ou que, por razões
profissionais, estavam constantemente hospedadas em hotéis; ou que deixaram uma
forma convencional de moradia e passaram a experimentar formas alternativas de
morar; idosos que deixaram suas casas para viver em asilos; jovens que moravam em
BASE: pensões para estudantes; ex-moradores de rua; profissionais de circo que vivem em
ENTREVISTAS
INFORMAÇÕES
barracas ou em trailers. Esses entrevistados tiveram suas identidades preservadas
SUBJETIVAS
através de nomes fictícios.
A condução das entrevistas foi realizada de maneira a obter impressões
POSSO INICIAR
COM ENTREVISTAS?
sobre o habitar doméstico de cada entrevistado. Cabe observar que, para a obtenção
QUESTIONARIOS? dos depoimentos, não houve direcionamento das perguntas no sentido de serem
FORMULARIOS?
Para saber onde isso aplicadas especificamente a cada aspecto que me propunha a investigar. Pelas
me leva com as
questões da próprias razões que justificam esta pesquisa, os entrevistados tiveram a liberdade de
percepção da mulher
sobre a casa falar do que, pessoalmente, lhes parecia mais relevante, em termos de sua relação com
seu habitar doméstico. Uma vez informada e aceita a proposta dos depoimentos,
deixei que os entrevistados assumissem o direcionamento do discurso, e as perguntas
propostas não foram mais do que ênfases ou estímulos a o quê já desejavam dizer.
Assim, ainda que, em algumas vezes, tivesse proposto questões, visando explorar
determinado assunto que considerava relevante, os entrevistados só as responderam
se – e na medida que – o desejaram.
Neste sentido, os depoimentos foram determinantes para a definição da
linha condutora da pesquisa, pois a maior freqüência com que alguns desses aspectos
surgiram nos depoimentos indicou sua relevância e pertinência ao objeto estudado,

15
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

tornando-se meu critério de escolha das dimensões do habitar doméstico que


passaram a conduzir minha investigação, as quais introduzo resumidamente mais
adiante, ao descrever, no item E), o “Desenvolvimento em capítulos” deste trabalho.

d) Coleta de dados para o embasamento teórico. O acervo de


depoimentos fez surgir uma série de questões desconhecidas, as quais, consideradas
pertinentes ao objeto em questão, deram origem a “novas lacunas” a serem
preenchidas com embasamento teórico. As etapas que se seguiram foram de busca
por esse embasamento, acompanhada de consecutivas avaliações quanto à
confirmação ou o descarte de hipóteses como pertinentes à elaboração de uma linha
lógica do discurso e o conseguinte aprofundamento dos conceitos buscados
anteriormente.

e) Etapa final. Este, que é o estágio final da pesquisa, teve como foco a
elaboração do discurso final. Para isto, a passagem do “concreto focalizado” – o
habitar doméstico – para o “concreto pensado” – o modo como esse habitar é
percebido e vivenciado por seus usuários, considerado no conjunto das dimensões
investigadas – envolveu a definição operacional dos conceitos propostos, de modo a
seus atributos serem identificados e distinguidos nos objetos empíricos anteriormente
considerados (Lamparelli, ibidem; p. 30). Dito de outra forma, esta etapa consistiu da
elaboração do discurso final, por meio da aplicação apropriada dos conceitos
desenvolvidos, os quais vêm para subsidiar a análise dos dados e informações obtidos
nas entrevistas.

E) Desenvolvimento em partes

DAS TEORIAS SOBRE O TEMA AMPLO - AQUI, A CASA


Parte I: O habitar doméstico OU O VERBO HABITAR?

Antes de entrar na questão do habitar doméstico propriamente dito,


apresento aqui algumas considerações teóricas a respeito do conceito de habitar, no
sentido de ampliar o seu significado mais corriqueiro e entendê-lo como a própria
forma como estabelecemos a nossa existência no mundo. Neste sentido, inicio esta
discussão trazendo algumas notas – ainda que breves, por este não se constituir o foco

16
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

desta pesquisa – sobre o conceito universal e humano do habitar trazido por Martin
Heidegger – “o estar dos mortais sobre a Terra”; o “permanecer instalado, em paz, em
um lugar” (Heidegger, 1971, I) –, as quais me pareceram iluminadoras para o
entendimento dos aspectos do habitar doméstico que virão a seguir.
A seguir, procuro mostrar em que sentido os aspectos conceituais do
habitar, como prática universal e essencialmente humana – e até por esta razão –,
podem ser verificados, também, nas atividades e relações cotidianas que ocorrem no
espaço privado da moradia. Para isto, proponho passarmos a trabalhar com o
conceito de habitar de Norberg-Schulz, que o vê como uma atividade que implica uma
relação significativa de identificação e pertencimento entre o ser humano e um
determinado lugar (Norberg-Schulz, 1985; p. 13). Com isto, passamos a entender o
habitar doméstico como resultado da distinção, no mundo público, de um
determinado lugar para a prática do habitar no nível do privado e do pessoal. E o
cenário onde essa prática acontece, afastada do habitar público e da intrusão de
estranhos, é a casa, ou o lar.

Parte II: Dimensões do habitar doméstico As entrevistas conduziram a questoes aqui propostas

Considerando-se a proposta de analisar a questão do habitar doméstico


segundo o modo como ele é percebido e vivenciado por seus usuários, os depoimentos
colhidos para este propósito foram determinantes para a condução da linha desta
investigação e para a maneira com que o habitar doméstico passa a ser abordado a
partir daqui. Uma vez sendo inúmeras as concepções particulares do habitar
doméstico refletidas nas escolhas, julgamentos e impressões relatados nas entrevistas,
a freqüência com que determinados aspectos foram mencionados serviu de fator
revelador da importância e pertinência de alguns deles ao objeto investigado. E foi a
maior recorrência desses aspectos nas falas dos entrevistados que definiu o critério de
escolha das cinco, entre as inúmeras dimensões do habitar doméstico mencionadas,
que passaram a compor minha investigação – sejam elas apresentadas nos seguintes
capítulos:

17
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Capítulo 1 – A casa física


A casa, como entidade física, é vista como o local que elegemos para nos
recolher do mundo público, para praticar o nosso habitar em segurança e
privacidade. Contudo, uma vez considerada a sua inserção nesse mundo, obtemos da
casa física não só o apoio e a proteção frente às hostilidades desse mundo, mas
também, um meio de nos tornamos familiarizados como ele, obtendo, assim, a base
de que precisamos para habitá-lo.

Capítulo 2 – Usos objetivo e subjetivo da casa


A partir das reflexões sobre a casa física, vemos que se o habitar doméstico
implica a materialidade da casa – uma vez que é exatamente a sua condição de abrigo
fisicamente palpável que precisamos para o habitar –, implica, também, a interação
dessa materialidade com aspectos da alma, do espírito, da memória, das emoções do
indivíduo; o que faz com que a casa física passe a incorporar um significado subjetivo
para aqueles que a habitam.

Capítulo 3 – Privacidade e intimidade domésticas


Procurando relacionar as questões do habitar universal com a vida privada
doméstica e os próprios sentidos de privacidade e intimidade que ela encerra,
definem-se esses conceitos, analisando-os em seus diferentes aspectos, sem deixar de
considerar os fatores históricos e culturais que podem explicar sua evolução e a
maneira como hoje se apresentam. A partir desses referenciais teóricos, estabeleço a
correspondência entre eles e os depoimentos coletados.

Capítulo 4 – O cotidiano doméstico


Mantendo-nos, ainda, na questão da vida privada doméstica, o cotidiano
praticado diariamente nessa privacidade é, por um lado, apresentado como aquela
parte de nossas vidas que não nos é marcante por nenhum motivo especial; e por
outro lado – e até por este motivo – passa a ser analisado como uma forma
importante de confiança, e fonte de estabilidade emocional, que funciona como um
meio tanto restaurador físico e emocional, quanto preparador para as próximas
incursões pela vida pública.

18
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Capítulo 5 – O lugar do habitar doméstico


Aqui, passo a observar a esfera do habitar doméstico, considerando-a não
como localidade que é meramente destacada do espaço geral, mas que, ao incorporar
as especificidades que lhe atribuímos ao habitá-lo, adquire, para nós, o sentido
específico de lugar. Para definir o aspecto que confere ao local habitado o sentido de
lugar, são examinadas diferentes abordagens teóricas sobre este conceito – lugar –,
buscando enfatizar as que permitem uma relação com a idéia do habitar doméstico
trazida nos depoimentos dos entrevistados.

Parte III: Casa: um lugar sagrado?

Pela análise dos dados e informações obtidos nas entrevistas, esta


amparada pelo embasamento teórico e pela aplicação dos conceitos desenvolvidos,
justifica-se uma reflexão sobre o sentido de lugar sagrado, muitas vezes atribuído ao
lugar habitado, e de como este sentido pode ser (re)definido através do próprio
habitar doméstico que ali praticamos diariamente. Aqui, são discutidas algumas
considerações sobre este sentido.

Considerações finais

Nessa seção, teço algumas considerações deixadas por esta investigação e


sugiro possibilidades de aplicação e desdobramento deste trabalho em futuras
pesquisas.

Apêndice

Nessa seção estão transcritas as íntegras das entrevistas utilizadas neste


trabalho.

19
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Parte I

O habitar doméstico

20
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Parte I

O habitar doméstico

O habitar: breves notas teóricas

Para nos aproximarmos do tema habitar doméstico, sugiro, antes, uma


investigação – ainda que breve – do próprio conceito de habitar, em seu sentido mais
amplo; que vá além de seu significado mais corriqueiro. Conforme nos fala Christian
Norberg-Schulz, estamos acostumados a definir o habitar como sendo “ter um teto
sobre nossas cabeças e um certo número de metros quadrados à nossa disposição”; ou
seja, entendemos o conceito de habitar “em termos materiais e quantitativos”
(Norberg-Schulz, 1985; p. 12). Para ampliar a visão deste conceito, recorro,
inicialmente, ao pensamento de Martin Heidegger, e sua análise da essencialidade do
conceito de habitar, identificado pelo autor como a ”maneira como os homens fazem
seu caminho desde o nascimento até a morte, sobre a Terra, sob o céu”. Este
caminhar seria “o aspecto fundamental da habitação, enquanto permanência humana
entre o céu e a terra, entre o nascimento e a morte, entre a alegria e a dor, entre a obra e
a palavra”4. Considerando este “Entre multiforme” – rico em transformações, em
aspectos diferentes – como sendo o mundo, esse mundo pode ser visto como a própria
“casa que habitam os mortais” (Heidegger, 1982)5.

4
As palavras “entre” não estão grifadas no original.
5
As referências deste parágrafo estão na conferência “Hebel – O Amigo da Casa”, pronunciada por
Heidegger em 1957. In: http://www.heideggeriana.com.ar/textos/hebel.htm.

21
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Por entender que na medida em que respeitamos a natureza da linguagem,


será ela a nos falar da natureza das coisas6, Heidegger propõe uma reflexão
etimológica para estabelecer a relação do conceito de habitar com a idéia de construir.
Nessa análise, vemos que o termo “buan”, do antigo alemão, de onde descende o
“bauen” – construir –, significa permanecer, residir. Vemos, ainda, que estes significados
também são atribuídos ao termo “wuon”, do antigo saxão, e à palavra gótica “wunian”,
dos quais descende o “wohnen” – morar, em alemão. Heidegger dirá, no entanto, que
é o termo “Wunian” que explica mais claramente como se experimenta este
permanecer, uma vez que “Wunian” significa estar satisfeito, em paz: “ser levado à paz,
permanecer em paz”. Ao mesmo tempo, a palavra “Friede” – paz –, que tem como
origens “das Frye” e “fry”, traz em seu significado o preservar da injúria, da ameaça; o
resguardar, o cuidar (Heidegger, 1971; I)7.

wuon

buan permanecer wunian


residir

permanecer em wohnen
bauen PAZ (morar)
(construir)
frye
Friede
preservar (paz)
resguardar fry
CUIDAR

Fig. 1 Diagrama da origem etimológica da palavra “habitar”, segundo referência


de Heidegger.

A relação entre o habitar e o cuidar, ou preservar, também pode ser


verificada através do que nos diz Hannah Arendt, ao refletir sobre o conceito de
cultura. Arendt assinala que a origem romana deste conceito traz consigo o espírito do

6
Para Heidegger, ainda que o homem aja como moldador e dono da linguagem, é a linguagem que
nos fala sobre a natureza de uma coisa, impondo-se, assim, como um mestre sobre o homem
(Heidegger, 1971, I).
7
Conferência “Construir, Habitar, Pensar”, proferida por Heidegger em 1951, no Simpósio sobre o
Homem e o Espaço, em Darmstadt, Alemanha, 1951.

22
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

cultivar, do habitar, do tomar conta, do criar e do preservar, estando a palavra cultura


essencialmente relacionada ao “trato [carinhoso] do homem com a natureza, [...] até
que ela se torne adequada à habitação humana”8 (Arendt, 1992; p. 265). Assim, se –
como vimos com Heidegger – o conceito de habitar se relaciona ao
ser/estar/ficar/permanecer do homem sobre a Terra, a preservação e o cuidado – que
vemos, agora, com Arendt – visam a viabilidade deste mesmo
ser/estar/ficar/permanecer.
Ainda segundo Heidegger, o verdadeiro cuidar consiste não apenas em
não prejudicar esse algo cuidado, mas em ser algo que acontece quando resguardamos
aquilo que é protegido na sua própria essência, com seus próprios valores e
princípios, e o livramos, ou libertamos, das “ameaças” contra o “estado de paz”.
Tomando os dois sentidos de construir – o construir como cuidar (em latim, colere
cultúra) e o construir como levantar edifícios (ædificare) –, Heidegger dirá que ambos
compõem o verdadeiro sentido de construir, ou seja de habitar, do “estar sobre a
Terra”; sentido que se torna explicitado pelo autor como sendo a própria experiência
vivida cotidianamente por nós; aquela que nos é habitual (Heidegger, 1971; I).
A partir destas considerações teóricas, ampliamos o conceito de habitar no
seu significado mais corriqueiro, passando a entendê-lo como a própria forma como
estabelecemos a nossa existência no mundo. Assim, o sentido do habitar que nos
servirá de meio para nos aproximarmos do tema habitar doméstico pode ser sintetizado
como a experiência cotidiana de se estar em um lugar, rodeado de proteção,
resguardado, em paz; livre, em sua essência, de qualquer ameaça contra essa paz.

O local físico do habitar e o habitar doméstico

Para passarmos dos aspectos conceituais do habitar, como prática universal


e essencialmente humana, para a análise de como esses aspectos são verificados nas

8
Arendt ressalta que é graças à concepção romana – e não grega – que o significado e o conteúdo de
cultura que temos em mente ainda hoje estão relacionados ao ato de tornar a natureza um lugar
habitável para as pessoas e de cuidar dos monumentos do passado. Os gregos, por sua vez, com seu
espírito baseado não na preservação, mas nas artes de fabricação, “não sabiam o que é cultura, pois
não cultivavam a natureza, mas, em vez disso, arrancavam do seio da Terra os frutos que os deuses
haviam ocultado dos homens” (Arendt, 1992; p. 266).

23
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

atividades e relações cotidianas que ocorrem no espaço privado da moradia,


proponho começarmos por localizar esse habitar universal; ou seja, considerá-lo como
o vê Norberg-Schulz, como uma atividade que implica uma relação significativa de
identificação e pertencimento entre o ser humano e um determinado meio. Para o
autor, o habitar tem como propriedade de sua essência “a insolúvel unidade entre
vida e lugar” (Norberg-Schulz, ibidem; p. 13).
Contudo, antes de partirmos para esta nova abordagem do habitar,
lembremos, ainda, que o próprio Heidegger traz o conceito universal do habitar do
homem – seu “caminho desde o nascimento até a morte, sobre a Terra, sob o céu” –
para o plano concreto da habitação, ao dizer que as construções que fazemos para
habitar – nossas cidades, aldeias e casas – agregam a experiência desse caminhar
(Heidegger, 1982). Com isto, podemos passar a estabelecer a relação desse habitar
como existência – do “estar-no-mundo”, dos mortais – com a experiência dessa
existência, agora, em um determinado lugar fisicamente localizado nesse mundo;
sendo que, conforme ressalta Heidegger, a segunda experiência só é possível sobre a
base dos aspectos que envolvem a primeira (Heidegger, 1927; p. 56).
Esta relação se faz no sentido de que esse habitar amplo, universal, é
constituído de “orientação” e de “identificação” em relação ao meio habitado, tal
como o vê Norberg-Schulz. Ou seja, é quando sabemos onde estamos e como estamos,
que experimentamos a existência em todos os seus significados (Norberg-Schulz,
ibidem; p. 7). O filósofo Otto F. Bollnow também chega a esta relação, partindo da
ligação entre o caráter universal do habitar humano e sua relação com um ponto
espacial específico. Colocando-nos como sujeitos de nossa experiência no espaço, o
autor proporá que, como seres viventes de forma concreta que somos – tal como nos
são dados, em função do nosso corpo, os conceitos, igualmente concretos, de acima e
abaixo, à frente e atrás, à direita e à esquerda –, tomamos esse ponto específico em que
habitamos como “ponto zero”, ou seja, como nossa referência em relação ao espaço
mais amplo em que habitamos em termos universais (Bollnow, 1969; p. 58).
Contudo, há que se estabelecer uma distinção em relação ao
entendimento desse lugar específico no espaço, a que se refere Bollnow. De um lado,
há os lugares onde permanecemos apenas temporariamente; e de outro, há, este sim,
o lugar, ou posição, constante em relação a quaisquer situações casuais – o lugar a
que “pertencemos”, como dirá o autor; do qual nos afastamos periodicamente para

24
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

experimentar nossa existência no “mundo vasto”, e ao qual retornamos para


reencontrar a referência espacial a que estamos enraizados, numa alternância que o
autor chamaria de “dinâmica fundamental da vida humana”. Enfim, é a esse lugar
específico no espaço que Bollnow se refere quando diz que o homem não pode viver
apenas em mundo vasto, pois “perderia todo o apoio”. Segundo o autor, é mediante
“um centro de tal índole” que o homem se torna enraizado no espaço (Bollnow,
ibidem; p. 58-59, 117).
Voltemo-nos, ainda, à idéia do habitar, como o nosso caminhar diário, de
que nos falava Heidegger. Segundo vê Norberg-Schulz, é justamente esse fato de
estarmos “sempre a caminho” que nos possibilita escolher tanto um lugar, quanto um
determinado tipo de companhia para nós. E é ao nos assentarmos em determinado
lugar, que nos encontramos a nós próprios, estabelecendo, assim, nosso próprio estar-
no-mundo. A partir destas considerações, o autor dirá que há quatro modos de habitar,
interrelacionados em seus aspectos essenciais: o habitar natural, o habitar coletivo, o
habitar público e o habitar privado (Norberg-Schulz, ibidem; p. 13)9.
O primeiro modo de habitar descrito por Norberg-Schulz, o habitar natural,
seria aquele que implica a “domesticação” do meio natural onde se dá esse habitar.
Ainda que hoje em dia sejam raras as ocasiões em que o homem passe a viver em um
meio ambiente que já não tenha sido previamente “construído”, o autor argumenta
que mesmo um lugar que “já existe” também deve ser entendido em termos do
desbravamento, ou seja, no sentido de que ainda há a questão original da busca por
uma base sólida em um determinado meio para se avançar, com segurança,
desbravando outros meios.
Os outros modos de habitar ocorreriam quando estivesse superada a fase
do “desbravamento” do meio onde nos instalamos. Viriam, então, as formas básicas
de relacionamento humano. O meio no qual, então, nos instalamos passa a funcionar
como uma espécie de local de intercâmbio, tanto de produtos, quanto de idéias ou
sentimentos. Norberg-Schulz lembra-nos que, desde os tempos antigos, o espaço
urbano tem sido o palco dos “encontros dos homens”, sendo que “encontros” não
significam, necessariamente, “acordos”, mas, sim, o contato entre seres humanos,
envolvendo toda a diversidade pertinente a esses homens. Assim, o espaço urbano
seria “essencialmente, um lugar de descobertas, uma miríade de possibilidades”. Nele,

9
A descrição dos quatro modos de habitar, a seguir, consta de Norberg-Schulz, ibidem; p. 13.

25
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

“o homem ‘habita’, no sentido de experimentar a riqueza do mundo”. Este segundo


modo de habitar seria o habitar coletivo.
Mas, o nosso “estar sempre a caminho” implica a condição, dentro da
imensa variedade de possibilidades que temos no meio coletivo, de fazermos certas
escolhas. E, quando essas escolhas são feitas de forma a atender determinados
padrões de acordos estabelecidos, experimentamos uma forma mais estruturada de se
estar junto a alguém do que um mero encontro. Neste caso, estaríamos falando, de
fato, de “acordos”, os quais implicariam interesses ou valores em comum. E para que
um acordo possa acontecer, como assinala o autor, há que haver um lugar – um lugar
no qual os valores comuns possam ser acolhidos e expressados. Tal lugar pode ser,
geralmente, reconhecido em uma instituição ou um edifício público; e o modo de
habitar para o qual ele serve pode ser chamado de habitar público – no sentido de se
referir a algo partilhado pela comunidade.
No entanto, considerando que escolhas também são de natureza pessoal, e
que a vida de cada pessoa tem seu curso particular, Norberg-Schulz leva-nos a concluir
que o habitar também compreende a escolha de um “pequeno mundo” para nós
mesmos, para onde nos retiramos e onde experimentamos o recolhimento de que
necessitamos para o desenvolvimento de nossa própria identidade. Assim, o autor
passa a falar do habitar privado, referindo-se àquelas ações que ocorrem nesse nosso
“pequeno mundo”, afastadas do convívio social e da intrusão de estranhos. E o
cenário onde esse habitar privado tem lugar é a casa – ou o lar –, onde
experimentamos a chamada “paz doméstica”, e onde reunimos e expressamos as
memórias que constituem nosso “mundo pessoal” (Norberg-Schulz, ibidem; p. 13, 91).
Desta forma, passamos ver o habitar, que vimos definido mais amplamente
por Heidegger como prática universal e essencialmente humana, relacionado à noção
trazida por Bollnow, da existência de um ponto de referência fixo que nos apóia em
nossa existência no mundo, com o qual estabelecemos uma relação de
pertencimento, e ao sentido que Norberg-Schulz dá a esse ponto, como sendo o nosso
“pequeno mundo”, designado por nós para ser o lugar aonde nos retiramos e onde,
recolhidos e em paz, nos desenvolvemos como indivíduos (Norberg-Schulz, ibidem; p.
7, 13).

26
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

O habitar doméstico e o preservar da vida interior

Conforme vimos, a passagem da abordagem do conceito de habitar amplo


e essencialmente humano para o habitar privado – ou habitar doméstico, como passarei a
chamá-lo – dá-se no sentido de que, ao mesmo tempo em que, como seres humanos
inseridos no mundo, habitamos natural, coletiva e publicamente, também habitamos
em nosso espaço físico pessoal e privado. É na privacidade nesse âmbito físico,
recortado do vasto mundo exterior, que nos recolhemos para nos preservarmos e
desenvolvermos como indivíduos.
Neste momento, lembremos da relação estabelecida por Heidegger entre o
habitar e o cuidar, quando afirma que “o caráter fundamental do habitar é esse
cuidar e preservar” algo na sua própria essência, livrando-o das “ameaças” contra o
“estado de paz” (Heidegger, 1971, I). Contudo – e, de certa forma, contrapondo-se a
este entendimento autêntico do preservar –, isto não significa que passamos a
considerar o habitar doméstico como uma prática à parte em relação ao meio em que
nos inserimos como habitantes, ou seja, algo que se dá de forma estanque e
independentemente das condições encontradas do mundo exterior. Ao contrário, o
fato de o homem designar, dentro do mundo em que está inserido como habitante
(onde habita natural, coletiva e publicamente), um local para se recolher e habitar
privadamente implica uma relação espacial desse meio com seu habitar doméstico;
sendo que esse habitar doméstico não ocorre, senão de acordo com as condições do
meio em que está inserido. Esta relação, assim como o significado do habitar privado
como lugar de recolhimento para o indivíduo, podem ser percebidos através das
palavras de Norberg-Schulz:

“Para participar do mundo em que estamos inseridos, temos que deixar nossas
casas físicas e, no mundo, escolher um caminho. Uma vez cumprida nossa tarefa
social, nós nos recolhemos de volta em nossas casas para recuperarmos nossa
identidade pessoal. A identidade pessoal é, portanto, um componente do habitar
doméstico.” (Norberg-Schulz, ibidem; p. 89).

É neste sentido que o habitar doméstico não deve ser pensado sem que
consideremos a conexão entre a vida que se dá no mundo exterior e a vida que

27
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

buscamos preservar desse mundo, no nosso mundo privado e pessoal do habitar


doméstico.
Neste sentido, nos são úteis algumas reflexões de Alceu Amoroso Lima
(1955) e Marshall Berman (1987) que, ao mesmo tempo em que falam da
contribuição do mundo exterior à constituição da nossa vida privada – aquela que
partilhamos cotidianamente com quem queremos, e que buscamos preservar em
nossos ambientes domésticos – falam, também, da importância da preservação da
vida interior em relação aos modos de habitar coletivo e público.
Ao afirmar que nossa vida interior não é o pólo oposto ao mundo
exterior, mas a própria vida exterior – contudo, “transfigurada, transcendentalizada,
colocada no plano dos valores supremos, impregnada de eternidade” –, Amoroso
Lima dirá que é o mundo exterior que existe para o mundo interior, e não o
contrário. Contudo, o autor considera imprescindível estabelecermos a distinção
entre a vida social e a vida interior – nossa “vida pessoal” –, esta que tampouco seria
“um refúgio dos mutilados ou dos impotentes”, mas, sim, o ápice de tudo o que
pudemos receber da vida exterior, da vida psicológica e da vida social: “um
aperfeiçoamento, não uma evasão, ou uma mutilação” (Amoroso Lima, ibidem; p. 17,
58). No entanto, dirá o autor, a esfera pública, tanto no âmbito das coisas, quanto
das relações sociais, só tem essa qualidade de proporcionar o desenvolvimento de
nossa vida interior, na medida em que não perdemos o controle sobre a vida social.
Pois, se a deixamos transbordar de suas “margens naturais” e passamos a ser “escravos
de seus encantos ou de sua força”, a vida social deixa de ser um mecanismo para
nosso aperfeiçoamento e passa a tolher-nos a vida interior, a absorver-nos e a dominar
nossos hábitos. Por subverter a hierarquia natural dos valores, este processo
representaria, enfim, uma ameaça à própria vida interior (Amoroso Lima, ibidem; p.
58, 59). Assim, é essa vida interior, à qual Amoroso Lima se refere como composta de
valores perenes, essenciais, “sobrenaturais” (Amoroso Lima, ibidem; p. 17, 18) –, que
buscamos preservar na intimidade privada do nosso espaço doméstico.
Berman, por sua vez, em seu amplo painel sobre a modernidade, também
estabelece a conexão entre nossa vida interior e o mundo exterior, enfatizando o
poder da esfera pública de ingerir-se na esfera privada. Para o autor, o ambiente da
modernização, com suas tendências econômicas e sociais, exercem incessantemente
uma força transformadora – para o bem ou para o mal – tanto sobre o mundo que
nos rodeia, quanto sobre "as vidas interiores dos homens e das mulheres que ocupam

28
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

esse mundo e o fazem caminhar” (Berman, ibidem; p. 330). Segundo Berman, se, por
um lado, esse processo de modernização é algo que nos “explora e atormenta”, por
outro, ele “nos impele a aprender e a enfrentar o mundo [de ‘incertezas e agitações
constantes’] que a modernização constrói, e a lutar por torná-lo o nosso mundo”:
para que nele não apenas possamos sobreviver, mas, de fato, nos sentir em casa
(Berman, ibidem; p. 94; 330).
Contudo, ao concluir sua análise, Berman aponta para os perigos da
avidez com que as transformações do contexto desse mundo moderno em que nos
inserimos penetram na esfera privada do habitar, assim como para a necessidade de
preservarmos a vida que vivemos na intimidade do ambiente doméstico. Ao se referir
aos “que são mais felizes na tranqüilidade doméstica” como aqueles que, “talvez”,
sejam os mais vulneráveis aos demônios que acediam esse mundo”, o autor dirá da
necessidade de nos esforçarmos desesperada e heroicamente para que essa vida
privada – “infinitamente bela e festiva, mas também infinitamente frágil e precária” –
seja preservada; ainda que nossa tentativa possa vir a falhar (Berman, ibidem; p. 330,
14).

Em sua entrevista, Márcio, 41 anos, diretor de teatro, contou‐me que, ao deixar


Curitiba, sua cidade natal, em busca das excitantes possibilidades do mundo cultural
da cidade de São Paulo, que julgou ser onde estaria seu futuro profissional, deparou‐
se com a força do espaço público da metrópole, tanto para influir no seu
enriquecimento pessoal, quanto para o absorvê‐lo, a ponto de sufocá‐lo. Contou‐me
que o alívio da opressão que o mundo público exercia sobre sua vida interior se deu,
justamente, através da busca pelo “equivalente” ao habitar doméstico que deixara
em Curitiba. Só então, pôde voltar a experimentar o perceber‐se e construir‐se, como
indivíduo:

“A dificuldade, ao me mudar pra São Paulo, foi justamente que se o espaço público
era infinitamente mais estimulante pra minha construção pessoal, pra invenção de
mim mesmo, a falta do espaço privado quase me matou... Mesmo! Demorei muito
tempo para resgatar algo que, no Paraná, eu nem percebia que tinha; algo
preciosíssimo, que é o senso de poder crescer num espaço. Porque eu sinto que tem
uma coisa da gente se construir no espaço em que mora...

[...] o espaço público das ruas engarrafadas, lugares deteriorados, urbe que não flui,
começou a deixar de ser um estímulo e passou a me oprimir. Depois de morar em

29
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

dois ou três lugares diferentes, literalmente, fui em busca do equivalente ao meu


apartamento em Curitiba, que por sua vez era o equivalente ao apartamento onde
eu tinha passado a adolescência – espaço que foi o primeiro que permitiu essa
construção [...]” (Márcio)

O habitar doméstico como uma micro‐cultura

Partindo das reflexões acima, retomo especialmente a consideração de


Norberg-Schulz, que vê o habitar doméstico como um processo que envolve escolhas
de natureza pessoal e particular, constituindo, assim, o “pequeno mundo” privado do
indivíduo ou grupo de indivíduos que o constituem. Considerando-se que cada
habitar doméstico tem, como resultado do conjunto de valores e padrões de
comportamento desse(s) indivíduo(s), um caráter também particular e específico,
proponho considerar o conjunto das relações estabelecidas no e com o habitar
doméstico como uma espécie de micro-cultura – proposta que passo a esclarecer a
seguir:
Comecemos por examinar a relação feita por Amos Rapoport (1969) entre
o conceito de “necessidades básicas” e as questões formais e culturais da moradia.
Rapoport dirá que quase todas essas necessidades, ou a maior parte delas, envolvem
julgamentos de valores e, portanto, escolhas – sendo, assim, de natureza cultural10.
Assim, as decisões/escolhas – sejam elas formais ou funcionais – com relação à
moradia estariam submetidas ao contexto cultural de quem as define e sujeitas à
definição do que essas culturas consideram como principal componente de uma visão
de mundo. Se, por um lado, cada contexto cultural específico poderá destacar um
determinado aspecto – como, por exemplo, o conforto, ou utilidade, ou religião, etc.
– como principal componente de sua visão de mundo, e as decisões/escolhas, então
realizadas, estarão submetidas a essas visões, por outro lado, cabe ressaltar que até
mesmo a definição de conceitos que consideramos corriqueiros e familiares, como,
por exemplo, o de utilidade ou de conforto, será menos óbvia do que se supõe – não

10
Rapoport esclarece, em nota, que o conceito de necessidades básicas, desenvolvido por ele e usado
neste livro, encontra posição similar em Lefèbvre, La Terre et L’évolution Humaine (Paris: La
Renaissance du Livre, 1922; p. 287 ff). (Rapoport, ibidem; p. 60).

30
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

apenas na idéia que se faz do que é confortável (ou útil), mas mesmo na busca expressa
por essas sensações (Rapoport, ibidem; p. 60-62).
Buscando definir a experiência do conforto, por exemplo, Witold
Rybczynski pondera que se o conforto fosse algo objetivo, deveria-nos ser possível
medi-lo – o que é, segundo ele, mais difícil do que parece. Pois “é mais fácil saber
quando sentimos conforto, do que por quê” (Rybczynski, 1996; p. 230).
Considerando o contexto cultural como influenciador das escolhas e
decisões que envolvem as questões formais e funcionais do espaço do habitar
doméstico, assim como o modo como esse habitar é percebido e vivenciado por
aqueles que ali habitam, cabe justificar a proposta feita anteriormente – de considerar
o contexto das relações do habitar doméstico como uma espécie de micro-cultura –, o
que procuro fazer, agora, através de algumas reflexões teóricas sobre o próprio
conceito de cultura. O sociólogo David Chaneyi observa que cultura não é um termo
neutro, ou auto-evidente, mas que, sim, foi desenvolvido através de uma grande
sobreposição de reflexões teóricas, levantamentos descritivos e relatórios
etnográficos11; passou a fazer parte da teoria social, mas também a ser aceito no
discurso acadêmico como um recurso para o entendimento das diferenças e
transformações nos modos de vida, tornando-se uma das principais bases conceituais
do pensamento social da era moderna (Chaney, 2002; p. 7-8).
O conceito de cultura, ainda conforme Chaney, refere-se ao fato de haver
maneiras distintas de se fazerem determinadas coisas – como se realiza um
determinado trabalho manual, como se cozinha e como se come, o que se espera do
comportamento das crianças, etc.: maneiras estas que, normalmente imbuídas de
força moral12, geralmente mantidas através de tradições e reproduzidas ao longo de
gerações, caracterizam um determinado grupo social e constituem o elemento central
da identidade desse grupo. Representando um grau de vida em grupo que precede, e
é mais fundamental, que a própria experiência individual (Chaney, ibidem; p. 8).

11
Em um estudo clássico sobre a cultura, Kroeber & Kluckhohn (1952) encontraram 164 definições
para cultura dentro da literatura antropológica e social. Após esse trabalho ter sido lançado, muitas
outras definições foram formuladas, sendo que ainda não há um consenso, afirma Richard Seel
(2000).
12
O termo “moral”, aqui utilizado por Chaney, é entendido como o “conjunto das regras, preceitos
etc. característicos de determinado grupo social que os estabelece e defende” (segundo definição do
Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa, 2001).

31
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Segundo definição da UNESCO, “Cultura pode ser considerada como o


variado conjunto de características espirituais, materiais, intelectuais e emocionais de
uma sociedade ou grupo social, e que engloba, além de arte e literatura, estilos de
vida, modos de convivência, sistema de valores, tradições e crenças.”13
Segundo o antropólogo Clifford Geertzii, cultura representa “um sistema
de concepções herdadas, expressas de forma simbólica, através das quais as pessoas
comunicam, perpetuam e desenvolvem seu conhecimento sobre a vida, assim como
suas atitudes perante ela” (Geertz, 1973; Apud Coolen and Ozaki, 2004). E para o
geógrafo Milton Santos, além de ser a herança dessas relações profundas entre o
homem e o seu meio, cultura é, também, “um reaprendizado” dessas relações, a
forma de comunicação do indivíduo e do grupo com o universo (Santos, 2004; p.
326). Na mesma direção de Santos, a antropóloga Mary Douglasiii vê cultura como
algo que não é estático, mas criado, afirmado e expresso constantemente (Douglas,
1985; Apud Seel, 2000; p. 3). E, ainda, reafirmando o critério de entendimento de
cultura como uma constante atualização de padrões das relações entre as pessoas e o
meio em que habitam, a antropóloga Eunice Ribeiro Durham também se refere à
cultura como o contínuo processo de "criação, transmissão e reformulação” do
ambiente habitado pelo homem – ambiente este, que é artificialmente elaborado, e
que está em constante transformação (Apud Homem, 1996; p. 17)14.
Para Henny Coolen e Ritsuko Ozakiiv, ainda que não possa ser observada,
a cultura é percebida através de manifestações tanto “latentes” quanto “explícitas”.
Sendo um sistema de significados compartilhados, ela cria valores e normas, os quais
são incorporados às atividades cotidianas – o que pode, parcialmente, justificar as
ações das pessoas, suas escolhas e julgamentos em relação ao habitar doméstico,
como, por exemplo, preferências por determinadas características em suas casas, ou a
opção por usar o espaço doméstico de determinada maneira (Coolen e Ozaki, 2004).
Ainda que não haja uma verdade única sobre a definição de cultura, pode-
se elaborar, aqui, um entendimento substanciado a partir de idéias-chave contidas nas
reflexões acima. Assim, apreende-se o termo cultura como um conjunto partilhado de
valores e padrões de comunicação entre indivíduos de um determinado grupo, assim
13
Definição a que se chegou na Conferência Mundial sobre Políticas Culturais (MONDIACLUT),
ocorrida na Cidade do México (26/jul-6/out/1982).
In: http://www.jura.ch/acju/Departements/DED/OCC/Documents/pdf/Unesco.pdf.
14
Maria C. N. Homem (1996) refere-se ao “Texto II”, de Eunice Ribeiro Durham, citado por
Antônio Augusto Arantes (1984).

32
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

como de entendimento desse grupo em relação ao seu meio. Preservados e


transmitidos ao longo do tempo, esses valores e padrões estão em contínuo processo
de criação e reformulação, através das relações cotidianas estabelecidas entre os
indivíduos desse grupo.
Volto, agora, à consideração inicial, de que cada habitar doméstico tem,
como resultado do conjunto de valores e padrões de comportamento do(s)
indivíduo(s) que o constitui(em), um caráter também particular e específico. Esse
conjunto de valores e padrões de comportamento, aplicado à prática do cotidiano
doméstico, ao mesmo tempo em que norteia as escolhas formais e funcionais desse(s)
indivíduo(s) em relação ao seu espaço doméstico, particulariza e especifica as relações
estabelecidas por eles nesse e com esse espaço. É por considerar que essas
especificidades passam a servir de meio de identificação do indivíduo, ou grupo de
indivíduos, com seu habitar doméstico e a propiciar a forma como esse habitar é
percebido e vivenciado por eles, que passo a considerar o contexto das relações do
habitar doméstico como uma espécie de micro-cultura.
E aqui retomo o fato característico e significante da cultura apontado por
Rapoport, que é a escolha, ou a solução específica para determinadas necessidades.
Segundo a análise do autor, se aceitamos que o abrigo é uma necessidade básica – “e
até isso pode ser questionado”, dirá –, então, a “forma da casa depende de como
‘abrigo’, ‘moradia’, e ‘necessidade’ são definidos pelo grupo usuário”. Essa definição
reflete-se em diferentes interpretações dadas a conceitos como o de “lar”,
“privacidade”, “territorialidade”, etc. Da mesma maneira, se aceitamos, como
necessidade básica, a proteção contra as intempéries e ameaças humanas ou animais,
a maneira como esta proteção é atingida sairá de uma gama de escolhas, limitadas por
fatores físicos, psicológicos e culturais. Esta impossibilidade de generalização do
modo como as pessoas procuram atender às suas necessidades em relação ao habitar
doméstico significa que os mesmos objetivos podem ser atingidos de muitas maneiras
diferentes; e que o modo como as coisas são feitas poderá ser mais importante do que
o quê se faz (Rapoport, 1969; p.60-61).
Sob a ótica destas considerações, pode-se verificar o fato de que espaços
domésticos, ainda que inseridos em contextos socioeconômicos bem semelhantes,
poderão expressar, através de seu habitar doméstico, inúmeros modos de viver,
surpreendentemente particulares e distintos. Isto pode ser observado em um edifício
habitacional multifamiliar, onde, na maioria das vezes, as unidades habitacionais são

33
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

projetadas com intenções arquitetônicas semelhantes, se não idênticas (Camargo,


2003; p. 78-95). Ainda que se trate de grupos usuários inseridos em faixas de renda
relativamente equivalentes, e que esses grupos partilhem não só o mesmo bairro, mas
a mesma tipologia de habitação, suas particulares escolhas e julgamentos, resultados
de valores e significados específicos de cada grupo usuário, especificam a linguagem
estandartizada de seus apartamentos, convertendo o que era padrão em um mundo
particular, diferenciado e único.
Como bem observa Yi-Fu Tuan, mais útil do que entendermos a casa
como local natural ou físico, ou mesmo como um ambiente físico pura e
simplesmente construído, devemos começar pelo conceito de que “[casa] é uma
unidade de espaço organizada mentalmente e materialmente para satisfazer as – tanto
reais quanto percebidas – necessidades básicas biosociais das pessoas e, além disso,
suas mais altas aspirações político-estéticas” (Tuan, 1991; p. 102. Apud Cresswell,
2004; p. 109). E, ainda, para David Morleyv, a função e o significado da casa variarão
em função do contexto em que esse habitar estiver inserido (Morley, 2000; p. 29).
Partindo-se dos argumentos de Tuan e Morley, pode-se associar a idéia do
habitar doméstico enquanto micro-cultura ao exemplo específico, trazido por este
último, de ser uma função da casa a de “local de resistência”, no caso de o habitar
doméstico estar inserido em um meio (público e coletivo) socialmente hostil. Tal
como descreve Bell Hooks, diante da condição dos negros, como habitantes de uma
sociedade que mantém posturas racistas15, a construção de um habitar doméstico
“autônomo”, em termos de sua cultura negra – um “black home” –, é “crucial para o
desenvolvimento de qualquer ‘comunidade de resistência’ mais abrangente”. Embora
frágeis ou pouco substanciais (ainda que seja uma cabana rústica ou um barraco),
observa a autora, esses espaços privados têm uma dimensão política, no sentido de
serem o lugar onde, historicamente, seus habitantes sempre puderam afirmar-se e
apoiar-se uns aos outros, restaurando, pois, sua dignidade danificada no mundo
exterior (Hooks, 1990; p. 47; Apud Morley, 2000; p. 29).

...

15
Especificamente, a autora refere-se à condição discriminatória experimentada pela população negra
nos Estados Unidos.

34
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Antes de considerar concluída a especificação do habitar doméstico em


relação ao habitar universal, considero importante deixar ressaltados três aspectos do
habitar doméstico que puderam ser inferidos das considerações vistas neste capítulo.
Primeiro, o fato de que este modo de habitar é algo tão amplo quanto a própria
existência do indivíduo. Isto, no sentido de que ele não se dá isoladamente, ou
independente das interferências do mundo mais vasto em que nos inserimos como
seres mortais – as quais não apenas permeiam nossa esfera doméstica, mas se tornam
parte de nossa vida cotidiana privada, muitas vezes enriquecendo-a e aprimorando-a,
muitas vezes oprimindo-a e sufocando-a. Segundo, que é justamente o caráter de
“entidade privada” do habitar doméstico, de cujo respaldo nos valemos para a
preservação de nossa vida interior, que legitima este modo de habitar como o habitar
do indivíduo per se. E terceiro, o que leva em conta o caráter da particularidade do
habitar doméstico – e o fato que daí decorre –, de que esse habitar pode ter muitos,
quase que incontáveis, significados particulares para cada indivíduo (ou grupo de
indivíduos) que habita domesticamente.

35
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Parte II

Dimensões do habitar doméstico

36
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Parte II

Dimensões do habitar doméstico

A partir do que vimos a respeito do habitar doméstico, partamos para a


proposta feita, inicialmente, para este trabalho, ou seja, analisar o habitar doméstico
segundo o modo como ele é percebido e vivenciado por seus usuários: proposta que
leva em consideração o fato de o habitar doméstico ser uma prática que, sim, está
inserida em um determinado contexto sociocultural; contudo, que porta os
significados particulares da “micro-cultura” que ele próprio encerra. Considerando a
importância dos depoimentos registrados para a maneira com que essa análise passa a
ser conduzida – isto, pelo fato de as impressões, opiniões e escolhas presentes nas
falas dos entrevistados representarem suas concepções particulares, ou do próprio
grupo doméstico a quem pertencem, a respeito do habitar doméstico –, foi a maior
recorrência com que determinados aspectos foram mencionados nessas entrevistas
que serviu como fator revelador de sua relevância e pertinência ao objeto investigado,
definindo, assim, o critério de escolha das cinco, entre as inúmeras dimensões do
habitar doméstico, as quais passo a abordar a seguir: a casa física, os usos objetivo e
subjetivo da casa, privacidade e intimidade domésticas, o cotidiano doméstico e o lugar do
habitar doméstico.

37
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Capítulo 1 ‐ A casa física

“O coração que tem fé não gosta de vagar sem uma moradia. Ele necessita de um
ponto fixo para onde retornar, ele quer uma casa de verdade.” (Vesaas, 1971.
Apud Norberg-Schulz, 1985, p. 12)

Na parte anterior, procurei conectar o habitar, como prática universal e


essencialmente humana, à relação específica e significativa de identificação que
estabelecemos com o meio em que o praticamos. Ao tratar esse meio como um ponto
de referência física em relação ao mundo vasto – mundo este, que habitamos em um
sentido amplo e universal –, cheguei especificamente ao lugar que, em nosso errar
pela Terra, designamos como nosso “pequeno mundo” (Norberg-Schulz, ibidem; p. 13
e Bollnow, 1969; p. 58), para onde nos recolhemos para praticar um modo de habitar
que se caracteriza por seu caráter individual e privado – o nosso habitar doméstico.
Passemos, agora, a analisar em que sentido nós nos servimos da
instrumentalidade desse lugar como propiciadora do nosso habitar doméstico.
Comecemos por considerar a observação de Otto F. Bollnow, segundo a qual, para
que possamos viver “com sossego” nesse “lugar fixo no espaço” e que, de fato,
experimentemos o pertencimento e o enraizamento a esse lugar, ele não deve ser
compreendido como um “simples ponto”, de onde meramente partem nossos
caminhos para o mundo. Será preciso que ele possua uma “extensão” por onde
possamos nos mover “livres e despreocupados”, e onde possamos encontrar apoio
firme, segurança e paz. Relacionando Saint-Exupéry (1948) – “são necessários muros

38
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

sólidos de contenção, sem os quais não se pode viver”16– e Heidegger17 – “a paz […]
em que se vive está relacionada com o entorno do domínio do habitado” – Bollnow
concluirá que para habitar em paz, tornam-se imprescindíveis “o teto e os muros
protetores”, através de cuja presença um mero local de abrigo torna-se casa, em seu
“sentido autêntico” (Bollnow, ibidem; p. 121-122).
Na mesma direção de Bollnow, atribuindo o caráter da materialidade ao
lugar do habitar doméstico, Christian Norberg-Schulz dirá que esse habitar tem suas
condições satisfeitas pelo espaço organizado e pela forma construída – os quais,
juntos, constituem o lugar concreto do habitar. Por meio das funções arquitetônicas
desse lugar – a casa construída – estabelecemos com ele uma relação de
“incorporação” e “admissão” do nosso habitar. Ou seja, o meio físico que habitamos
passa tanto a incorporar os significados que lhe atribuímos através de nossas ações
diárias, quanto a permitir que essas ações, de fato, aconteçam em seu espaço
(Norberg-Schulz, ibidem; 7, 15, 25).
Também David Chaney refere-se a esse espaço concreto como propiciador
e provedor do modo como se dão as relações cotidianas do habitar do homem. Para o
autor, o habitar doméstico implica um espaço concreto; sendo que a forma física com
que esse espaço é estruturado representa “literalmente, a forma do habitar doméstico
ali praticado”, em termos de códigos de usos e funções desse espaço, atribuições de
significados e valores partilhados por seus habitantes, etc. (Chaney, 2002; p. 74-75).
Assim, como continuação natural do que vimos na Parte I, nesta primeira
dimensão do habitar doméstico a ser abordada – a casa física –, passo a enfocar o
habitar doméstico como algo materializado e localizado no espaço físico da casa; sendo
que a investigação que proponho aqui, terá o sentido não de especificar a natureza
física desse espaço – segundo as contingências arquitetônicas que envolvem este tema
–, mas de entendê-la como o “âmbito espacial”18 do habitar doméstico: seja ela uma
casa convencional, um apartamento na cidade, um flat, um asilo para idosos, um
trailer, ou até mesmo uma tenda de circo.
Antes, porém, cabe um esclarecimento quanto ao termo “casa”, que
passarei a utilizar a partir de agora. O Professor Celso Lamparelli costuma definir

16
Apud Bollnow (ibidem; p. 121).
17
Em “Construir, Habitar, Pensar” (1971).
18
Expressão usada por Bollnow (ibidem; p. 121).

39
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

claramente os termos casa, moradia e habitação19: “casa é o objeto material construído,


com características físicas e localização próprias”; “moradia é a casa habitada, onde se
exercem as potencialidades da casa e se recebem as contribuições dos moradores; é
insuficiente com relação à infra-estrutura externa (água, eletricidade, etc.)”. Já na
habitação, há “o extravasamento das interações da moradia”, envolvendo o contexto
externo, como a vizinhança, escolas, clubes, mercados, etc.: é o “meio que ‘aceita’ a
relação dos moradores e interage com eles”. No caso desta pesquisa, em que investigo
as impressões particulares de indivíduos sobre seu habitar doméstico, verifiquei, nas
entrevistas realizadas, que quando as pessoas pretendem se referir ao espaço físico no
qual se dão as relações privadas desse habitar – sejam elas físicas ou emocionais –, a
palavra corriqueiramente usada é “casa”: “lá, em casa...”; “casa, pra mim, é...”, etc.
A palavra “casa”, no contexto que envolve não apenas a sua condição de
matéria física, mas a percepção subjetiva advinda da experiência de habitá-la,
encerraria a conotação de “lar”, no sentido que damos a esta palavra na Língua
Portuguesa. A etimologia ajuda-nos a entender a relação dos sentidos das palavras
casa e lar:

Lar do Latim lar,aris. m.: Casa, interior da casa, chaminé, fogão. Lara, ae. f.:
ninfa, mãe dos lares ou deuses da casa (Cretella e Cintra, 1953)
Casa do Latim casa,ae. f.: choupana (ibidem)

A palavra casa passou a ser utilizada e difundida pelo latim vulgar com o
significado de morada, ao invés da palavra domus, us, que tem o mesmo significado, no
Latim clássico20
Diferentemente do que ocorre em outras línguas, nas quais tanto
coloquialmente quanto academicamente se estabelece a distinção entre as idéias de
casa física e lar, por alguma razão, na Língua Portuguesa, optamos por nos referir ao
nosso lar, usando a palavra casa. Ao longo de minha pesquisa, encontrei
freqüentemente, na literatura de Língua Inglesa, a distinção entre as palavras
“residence” ou “house”, para designar “casa”, no sentido da edificação concreta, e

19
Estas definições foram discutidas em sala de aula, quando do curso da disciplina “AUH-5704 –
Metodologia Aplicada à Arquitetura e ao Urbanismo”, ministrada na FAU-USP, pelo Professor Celso
Lamparelli, no segundo semestre de 2003.
20
Fonte: Museu da Língua Portuguesa, São Paulo, 2007.

40
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

“home”, referindo-se ao conceito de “lar”, a moradia percebida subjetivamente. Robert


Giffordvi, especialista em psicologia ambiental, afirma (em inglês) que o conceito de
casa [home] é tão diferente do de residência [residence], que é possível que algumas
pessoas nem vivam, de fato, em casas, embora sempre tenham vivido em suas
residências. E com isto, afirma: “casa é realmente onde está o coração” (Gifford,
1997; p. 196).

“A house is not a home.”21 (Gifford, ibidem; p. 194)

Assim, ainda que pecando por não empregar o termo academicamente


mais adequado, mas visando a coerência com a proposta deste trabalho, de investigar
as impressões particulares de indivíduos sobre seu habitar doméstico, optei por
utilizar a palavra casa, querendo, com isto, aproximar-me da definição de Lamparelli
para habitação, mas, ao mesmo tempo, enfatizar o contexto particular e emocional
com que utilizamos esta palavra quando nos referirmos ao espaço onde praticamos
nosso habitar doméstico.

Em sua entrevista, Marly, 46 anos, proprietária de circo, explicita os sentidos tanto de


referência física, quando de apoio psicológico, encontrados no recolhimento do seu habitar
doméstico, praticado como sua família em seu trailer – sua “casa”. Esta descrição contrasta
com a da casa que comprou apenas como investimento, ou a do apartamento que pretende
ter como apoio em suas periódicas estadias em São Paulo: a esses dois espaços, diferente do
que sente em relação ao seu trailer, Marly não atribui o significado de lugar elegido como seu
“pequeno mundo” (para usar o termo de Norberg‐Schulz):

“A sensação que você tem, quando você não tem o trailer, é que você perde o referencial. Já
aconteceu algumas vezes, de ter algum acidente com o trailer, ou você precisar fazer uma
manutenção, ter que levar pra fábrica, ficar de uma a três semanas sem o trailer... é horrível,
você perde seu chão, é uma coisa muito engraçada... Eu imagino as pessoas que têm suas
casas alagadas por um temporal, têm a mesma sensação22. Porque você pode ir aonde for na

21
“Um casa não é um lar”.
22
No momento desta entrevista, havia uma comoção mundial em torno da tragédia causada pelo
Furacão Katrina, no litoral do sul dos Estados Unidos (em 29 de agosto de 2005). Na região
metropolitana de New Orleans, cidade mais afetada pelo furacão, como conseqüência da afluência
do Lago Pontchartrain, mais de 80% da cidade foi inundada, mais de um milhão de pessoas foram
obrigadas a deixar suas casas, e cerca de 200 mil casas ficaram debaixo d'água. In:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Furac%C3%A3o_Katrina.

41
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

cidade, mas você sabe que vai voltar e vai pro seu canto. [...] Então, quando você não tem
isso, você fica perdida, sem saber onde é o seu referencial. [...].

E eu percebo isso, também, nos filhos. Os meus dois foram criados no circo [...]. A gente, às
vezes, saía pra algum lugar, daí eles falavam ‘ai, mãe, estou louco pra ir pra casa’: a casa era o
trailer.
[...]
Hoje, eu tenho uma casa, na minha cidade, no Paraná. Mas, quase nunca vou pra lá: uma vez
a cada sete meses – é uma espécie de casa de férias. No ano passado, eu só fui duas vezes pra
lá. É uma casa muito grande, tem 1200m2 – eu acho muito grande! Na verdade, eu comprei
essa casa para o meu filho morar porque ele tinha passado no vestibular e queria morar em
Cascavel, pra conhecer. Então, comprei a casa, pensando no futuro, como um investimento.
Por causa de mim, não, porque eu estou super‐satisfeita no meu trailer. Eu gosto da casa,
claro, quando eu estou lá, estou super‐bem. Eu não tenho dificuldade de me adaptar; mas
prefiro muito mais morar no trailer.
[...]
Mas, agora, já mudei meus planos. Vou vender aquela casa e comprar um apartamento em
São Paulo.
[...]
Mas não é pra eu ficar morando no apartamento; se eu tivesse alguma coisa pra fazer em São
Paulo, uma entrevista, ou uma reunião, e ficasse tarde pra vir pro circo, claro que eu iria
dormir no apartamento. Mas – pra você ver – eu tenho muitos amigos em São Paulo, e,
quando vou jantar fora, eles sempre me convidam pra eu dormir lá, pra eu não voltar tarde
da noite. Mas eu prefiro voltar, quero ir pro meu canto. Na quinta‐feira, mesmo, era meia‐
noite e meia, quando eu saí de uma churrascaria com uns amigos. Uma amiga disse ‘você vai
dormir lá em casa’. Mas eu preferi voltar pra cá. E o apartamento dela é enorme, tem um
quarto de hóspedes, mas eu prefiro voltar para a minha referência de lar, minha casa, meu
espaço.” (Marly)

Assim, considerando a casa como entidade física que acolhe o habitar


doméstico, voltemos à idéia lançada anteriormente, de que nem esse habitar, e,
portanto, tampouco a casa, estão situados isoladamente do âmbito maior, onde
existimos como seres vivos. Sendo assim, a propriedade da casa de nos acolher física e
psicologicamente não implica a total abstração desse meio; o que nos leva a
considerar duas formas de observar essa inserção da casa no mundo: a casa como
proteção frente ao mundo e a casa como meio de identificação com esse mundo.

42
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

A casa como proteção frente ao mundo

“A vida começa bem, começa fechada, protegida, agasalhada no regaço da casa.”


(Bachelard, 2003; p. 26)

Para falarmos da casa como proteção, retomemos a relação do habitar –


prática universal e essencialmente humana – como a condição de se estar em paz,
livre de ameaças contra essa paz, que já vimos estabelecida por Heidegger. É baseado
nesta relação, que Bollnow conecta a condição de estrutura física da casa ao caráter
de provedora de proteção e preservação da paz. Nas palavras do autor, “prover essa
paz ao homem é a missão suprema da casa” (Bollnow, ibidem; p. 123). Baseado na
visão de Heidegger, do habitar como algo que envolve o preservar, o resguardar,
Bollnow reúne o fato de estarmos inseridos no contexto do habitar geral e de termos
a capacidade de estabelecer limites “visíveis” e “imediatos” para o nosso habitar
privado. Com isto, desenvolve dois conceitos que considera nitidamente separados: o
do “espaço exterior” – “grande, geral” – e o do “espaço interior” – “especial, privado”,
ou seja, o espaço físico da casa.
O espaço exterior seria aquele onde praticamos nossas atividades coletivas
e públicas e onde, dirá o autor, “há resistências a serem vencidas e adversários dos
quais se defender”; seria o espaço dos “perigos”, onde se está “à mercê de tudo”. Por
outro lado, o “espaço interior” – a própria casa habitada – seria o refúgio do espaço
exterior (Bollnow, ibidem; p. 122) – seja dos rigores das intempéries, do assédio de
quem não desejamos, da agressão física, ou de algo menos concreto, porém não
menos invasivo à nossa vida interior, tal como nos resultariam os encantos e a força
da vida social, dos quais vimos falar Amoroso Lima. Esse espaço, segundo vê
Bollnow, funcionaria como um âmbito de tranqüilidade e paz; um lugar destinado ao
retiro e ao relaxamento, no qual podemos prescindir do “constante alerta ante uma
possível ameaça”. Segundo vê o autor, a privação desse espaço interior e uma
existência apenas no espaço exterior implicaria uma vida de eterna fuga, na qual o
homem seria um eterno perseguido23 (Bollnow, ibidem; p. 122).

23
Mais adiante, veremos que essa dissociação entre o lá fora – no mundo e o aqui dentro – em casa não é
tão distinta como propunha Bollnow, e que a permeação do mundo público sobre o âmbito
doméstico, e vice-versa, tem sido uma característica marcante da contemporaneidade.

43
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

O entrevistado Sr. Felipe, 78 anos, aposentado e morando com mais dois irmãos,
também idosos, teve as condições extremamente precárias de sua habitação
denunciadas por vizinhos à Promotoria do Idoso24. Incapacitados, pela idade e pela
situação financeira, de exercer as mais básicas atividades domésticas, como cuidar da
alimentação, da higiene e da manutenção da casa, Felipe e seus irmãos viviam à
mercê da sorte, de favores de vizinhos e da comunidade religiosa que freqüentavam.
Transferidos para um asilo de idosos, passaram a ter acesso à estrutura da instituição
– a um abrigo seguro, à assistência médica, alimentação adequada, higiene, etc. Em
sua entrevista, Felipe vê a mudança de sua casa para o asilo como algo que lhe
trouxe segurança e garantia de uma vida adequada à sua condição de idoso. Em
comparação à vulnerabilidade – de fato, física – em que vivia, Felipe afirmou: “Isso
caiu do céu”.

[Como era a casa em que o senhor morava com seus irmãos?]

“Era espaçosa...Tinha dois cômodos de três por quatro, mais a cozinha, que era do mesmo
tamanho.
[...]
Isso caiu do céu... Eu sempre fui uma pessoa feliz, graças a Deus. Mas sabe o que acontece?
Lá, onde a gente morava, tinha que fazer tudo: fazer comida, lavar roupa, ir no mercado,
pagar aluguel, esses programas todos da vida diária. Um irmão meu que cozinhava, eu não
tenho jeito pra cozinha. Eu só sabia fritar batata, mas arroz e feijão, eu não sabia fazer. Mas é
um problema... até, digamos oitenta anos (no meu caso, ainda podia)... mas depois fica tudo
mais difícil. O meu irmão, que mora aqui também, já tem oitenta... nós estamos literalmente
aposentados [risos]. E na minha casa, a gente fazia tudo, e eu ainda trabalhava de reformar
sofá.

E aqui, não; a gente não precisa se preocupar com nada. A gente senta na mesa de manhã,
uma funcionária traz o café, outra o pão, as enfermeiras trazem o remédio, tudo na hora
certa; no almoço, a mesma coisa, e na janta, a mesma coisa. Até dez horas da noite, tem
gente tomando remédio aqui. Tem tudo na hora certa: é roupa lavada, cama, tudo, de um
modo geral. Quando a gente veio pra cá, deixou as nossas roupas lá, e eles doaram roupas pra
gente. Meu armário não cabe mais nada de roupa – se você quiser, eu mostro.

Para quem precisa, as arrumadeiras trocam a roupa de cama todo dia; por exemplo, para esse
senhor que divide o quarto comigo e com o meu irmão, que usa fralda descartável, e para
todas as pessoas na situação dele. Elas trocam colcha, travesseiro, o que precisar... isso é
muito bom. E para os que estão melhores, como é o nosso caso, trocam uma vez por
semana.” (Sr. Felipe)

24
Órgão do Ministério Público do Estado de São Paulo.

44
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Buscando uma contextualização histórica para a concepção, trazida por


Heidegger – e aqui desenvolvida por Bollnow –, de ser o espaço interior da moraria
um refúgio frente a um mundo exterior de ameaças –, o arquiteto Iñaki Ábalos
propõe que um dos seus fundamentos seria o fato de o tema casa ter surgido nos
primeiros escritos de Heidegger no período pós-guerra. O autor estaria fortemente
envolvido com as implicações da violência do mundo público sobre o privado; com o
efeito das manifestações da exterioridade e da realidade artificial do cosmopolitismo,
as quais, chegando através das tecnologias industrializadas e dos meios de
comunicação, assumiam, pelo autor, o caráter de algo nocivo, uma ameaça à
autenticidade do habitar doméstico. Além disto, Heidegger estaria imbuído da
“própria intenção de auto-exculpação de sua participação do nazismo” (Ábalos 2000;
p. 51, 52).
Esta contextualização histórica torna-se estrategicamente interessante, uma
vez que nos serve de motivo para questionar em que termos, nos dias de hoje, a
concepção de casa como proteção frente às ameaças do mundo exterior pode ser
aplicada. Para isto, seria o caso de verificarmos – ainda que brevemente, por não ser
este o objetivo a que se propõe este estudo –, em que medida sentimos o espaço
exterior como uma ameaça. O cientista político Paulo Sérgio Pinheirovii afirma que o
que consideramos uma ameaça à segurança e à paz – a violência interpessoal, o crime,
o uso de drogas, etc. – está estreitamente relacionado a uma questão real e atual, que
é a da desigualdade, tanto material quanto social e racial. Pinheiro observa que nesse
contexto se insere particularmente o Brasil, que, juntamente com os Estados Unidos,
possuem as mais altas taxas de homicídio por 100 mil habitantes por ano25: “A
combinação de desigualdade e pobreza extrema é sempre explosiva”26 (Pinheiro; In
Glassner, 2003; p. 12, 13 [prefácio]).
Por outro lado, ao investigar as razões de haver tanto medo na sociedade
americana – e, ao mesmo tempo, quais desses medos teriam ou não fundamento – o
sociólogo Barry Glassner desenvolve várias hipóteses, as quais se referem às ações de
um tipo sensacionalista de mídia, de políticos oportunistas, ou mesmo de

25
Respectivamente, as taxas nesses dois países são 8,22 e 25; enquanto que a da Alemanha, última da
lista, é de 4,86 (Pinheiro; in Glassner, 2003, p. 12 [prefácio]).
26
Aqui, trata-se do prefácio que Pinheiro escreve para o livro “Cultura do Medo” de Barry Glassner
(2003).

45
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

organizações da sociedade civil, os quais, baseados no poder que têm sobre a opinião
pública e no interesse no aumento da ansiedade e do medo das pessoas, postergam
problemas cruciais em favor de uma ênfase desproporcionalmente grande em outras
questões de periculosidade relativa. A partir do efeito dessas ações, Glassner aponta
para o fato de estarmos vivendo o que chama de uma “Cultura do Medo” (Glassner,
2003). Por ver muitas similaridades entre as sociedades americana e brasileira, em
termos de violência urbana, Pinheiro considera a análise de Glassner decisivamente
relevante para o debate público e a pesquisa em nosso país (Pinheiro, ibidem; p. 14).
Como exemplo da aplicabilidade desta análise à questão brasileira,
bastaria que verificássemos o modo sensacionalista como os principais meios de
comunicação tratam a questão da violência urbana. Segundo a socióloga Elizabeth
Rondelliviii, os meios de comunicação funcionariam como “macrotestemunha social”,
interferindo no fato violento, dramatizando e exagerando em sua cobertura; o que
levaria a uma visibilidade também exagerada da violência pelo público27. Baseado em
dados do Instituto Latino-Americano das Nações Unidas para a Prevenção do Delito
e Tratamento do Delinqüente (Ilanud), o sociólogo e cientista político Túlio Kahnix
afirma que entre 1997 e 1998, 10% das notícias policiais do jornal Folha de São
Paulo e do Jornal do Brasil abordavam seqüestros; sendo que a escolha do tema das
páginas policiais é, de fato, um fator influenciador da relação do leitor com a
violência.
O editor brasileiro do livro “Cultura do Medo” (Glassner, ibidem) cita o
caso do jogador de futebol uruguaio, Diego Alfredo Lugano que, contratado pelo São
Paulo Futebol Clube, mudou-se com sua família de Montevidéu para São Paulo e
“trancou-se” em seu apartamento, “de onde só sai – e sozinho – para dirigir a pouca
distância que o separa do estádio do Morumbi, um dos bairros nobres, mais ricos e mais seguros
da cidade. ‘Depois do que vimos todos os dias na televisão desde que chegamos, não deixo mais
ninguém sair de casa’, diz Lugano.’” (Nota do editor. In Glassner, ibidem, contracapa).

27
A afirmação foi feita durante o debate, ocorrido em junho de 2000, por ocasião do lançamento do
livro “Linguagens da Violência” (Elizabeth Rondelli; Rocco, 2000). In: Folha on line:
http://www1.folha.uol.com.br/folha/eventos/palestra_linguagem_violencia_20000613.htm.

46
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Uma reportagem do jornal O Estado


de S. Paulo sobre a falta de segurança de se
morar em condomínios – cuja manchete era
“Cuidado: o ladrão pode estar dentro do prédio”28 –
traz uma tabela contendo uma série de “regras”
para orientar os moradores a se prevenirem
contra assaltos. A tabela alerta para
“necessidades” como a de guaritas blindadas,
muros altos, um compartimento acoplado ao
portão para a entrega de pizzas ou encomendas,
e para a importância do “maior número
possível de equipamentos de segurança” no
prédio. Um detalhe deve, aqui, ser observado:
além da Polícia Civil, os dados dessa tabela têm
como fonte o Sindicato das Empresas de
Segurança Privada, cujo interesse em reduzir a
Fig. 2 Sistema de segurança instalado
sensação de temor e ansiedade da população no portão de edifício em São Paulo.
em relação à violência pode ser questionado. Foto: O Estado de S. Paulo, 18/07/04.

Segundo o pesquisador Luis David Castielx, o fato de a extremada e


onipresente violência nas grandes e médias cidades brasileiras ser generalizadamente
conhecida faz com que as populações – não necessariamente as de alta renda –,
assustadas, procurem a proteção através de esquemas e equipamentos de segurança
particular que estejam a seu alcance. O risco urbano, para essas pessoas, estaria
instaurado em uma espécie de “mapa imaginário”, no qual certas regiões, bairros,
ruas, em determinados horários, teriam a marca de “ameaçadores” (Castiel, 2003).

O entrevistado Reginaldo, 43, consultor de empresas, contou‐me da probabilidade de


ter que deixar o Brasil, a trabalho, e mudar‐se com a família para Portugal. Ainda que
goste da casa e do bairro onde mora em São Paulo, a possibilidade de morar com
segurança o faz considerar a possibilidade de mudança de país com entusiasmo:

“Tem todo um lado de adaptação, eu sei que não é simples. Mas, eu gosto de
Portugal, [...] e a segurança é um negócio muito importante pra mim. Eu ando na rua

28
In: Jornal O Estado de S. Paulo, caderno Cidades, 23, mai, 2004.

47
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

de madrugada, no centro da cidade, e não me sinto inseguro, aquilo é maravilhoso.


No meu bairro, em São Paulo, por exemplo, por mais sossegado que seja, meu filho
já foi assaltado na esquina de casa – tiraram o tênis dele, jogaram ele no chão. Na
minha casa, eu tenho um cachorro, como segurança. O meu cachorro já me salvou
umas três vezes de ser assaltado, eu saindo do carro e abrindo o portão.” (Reginaldo)

Cabe, agora, a ressalva de não ser o propósito desta pesquisa o


aprofundamento nas investigações dos aspectos que determinam a percepção do
espaço exterior como uma ameaça, mas, apenas considerar este contexto para
justificar a concepção da casa física como instrumento de proteção contra as ameaças
e os perigos do mundo:

A entrevistada Analu, 24 anos, musicista, deixou sua cidade, no interior do estado de


São Paulo, para vir dar aulas de piano na capital. Em seu depoimento, ela conta do
choque vivido em relação à degradação social do centro da cidade, região onde
mora, e de como seu apartamento passou a ser reconhecido como um refúgio em
relação a essa realidade:

“Eu acho que o primeiro impacto são as imagens que a gente vê, mesmo, né, as
diferenças entre interior e capital […]: criança na rua, com oito anos, fumando
craque, aquele monte de gente jogada, você tem que pular os corpos pra poder
entrar no seu apartamento. Isso, realmente, foi bem chocante, assim, deu um certo
medo. Então, nos primeiros três meses, eu quase não saía – só pra trabalhar. Às
vezes, eu preferia ficar lá, colocar um som, ouvir. Muitas vezes, eu ficava limpando o
apartamento o dia todo – que eu tenho uma neura com limpeza e organização, que é
muito grande – só pra não sair. [...] Então, no começo, se eu não fosse trabalhar, eu,
realmente, não saía. Não saía pra ir num cinema, não saía pra nada. Saía pra ir no
mercado, porque tinha acabado comida em casa, então saía. Mas, era tudo bem,
bem estranho, mesmo. Daí, ele [o apartamento] foi‐se tornando, mesmo, o meu
refúgio.” (Analu)

Nos 1980, a consultora de marketing Faith Popcorn previu uma tendência


dos habitantes dos grandes centros urbanos de se voltarem para o interior de suas
casas, fosse em busca de proteção contra a violência e agressões experimentadas no
espaço exterior ou da preservação da paz e da intimidade, diluídas no modo de vida
estressante das grandes cidades (Popcorn, 1992). Esse movimento de retração e

48
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

recolhimento aos ambientes domésticos, chamado por Popcorn de Cocooning29, é


descrito no trecho abaixo, onde a autora aplica sua própria definição de para o termo,
na qual se pode identificar o sentido de casa como entidade que provê a preservação
física e emocional frente às agruras que enfrentamos ao habitar o mundo vasto “lá
fora”:

“Definimos [cocooning] como o impulso de nos voltar para dentro, quando estar
lá fora simplesmente se torna difícil e assustador demais; pôr uma concha de
segurança à sua volta, de modo a não ficar à mercê de um mundo egoísta,
imprevisível – aqueles assédios e agressões que vão desde garçons rudes e poluição
sonora aos ‘crack-crime’[30], recessão, e AIDS. Cocooning tem a ver com se ilhar
e se defender; com paz e proteção, aconchego e controle – uma espécie de hiper-
ninho.” (Popcorn, ibidem; p. 27, 28).

Ao lado de uma contextualização concreta e atual, podemos considerar,


como referência para o conceito de casa como entidade concreta, protetora do corpo
físico e também da vida interior, a visão fenomenológica de Gaston Bachelard,
segundo a qual, por mais variados que sejam os tipos de habitação humana, em
termos geográficos e etnográficos, há que considerá-la como a “concha inicial em toda
a moradia”; “o germe da felicidade central, segura, imediata” (Bachelard, 2003; p. 24).
Em sua poesia da casa, Bachelard nos faz reconhecer tanto uma casa universal quanto
a nossa própria casa como a “cabana”, o “ninho”, com os cantos onde gostaríamos de
nos encolher, “como um animal em sua toca” (Bachelard, ibidem; p. 47).
Neste sentido, serve-nos como ilustração a narrativa “A Construção”, do
escritor Franz Kafka (1995), através de cuja trama, pode-se aventar a hipótese de que
o autor se utiliza, literariamente, do conceito de casa física, que abriga (ou, no caso,
uma “toca”), como metáfora frente às suas angústias e necessidade de preservação
física e emocional31. Aqui, Kafka assume o personagem de um animal, habitante de

29
Cocooning: Algo relativo a um casulo (“cocoon”), no sentido de prover proteção ou sensação de
segurança. In: Encarta World English Dictionary, 1999.
30
Crimes cometidos por usuários de craque para alimentar seu vício.
31
O editor informa, na contra-capa do livro que contém “A Construção”, que no período em que
Kafka produz esta narrativa – 1923 –, um ano antes de sua morte, o autor, tuberculoso, vivia
momentos de grande desespero, os quais se refletem em escritos de seu diário pessoal, datados de um
ano antes: “devastação, impossibilidade de dormir, impossibilidade de velar, impossibilidade de

49
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

uma toca subterrânea, determinado a tornar sua moradia o mais segura possível
contra os perigos do mundo exterior. Nas constantes inspeções por sua “construção”,
o animal vive raros momentos de regozijo e paz, ao perceber quão protegido está pela
solidez de sua moradia e como os recursos construtivos engenhosos utilizados por ele
dissimulam quaisquer vestígios de que lá habita. Mas, esses sentimentos logo são
substituídos por noites inteiras em vigília, na angústia de pensar na possibilidade de
ter essa paz e essa proteção, que julga imprescindíveis, perturbadas por algum invasor:

“Instalei a construção e ela parece bem-sucedida. Por fora é visível apenas um


buraco, mas na realidade ele não leva a parte alguma, depois de poucos passos já
se bate em firme rocha natural. Não quero me gabar de ter executado
deliberadamente essa artimanha, o buraco era muito mais o resto de uma das
várias tentativas frustradas de construção, no final porém pareceu-me vantajoso
deixá-lo destapado. [...] A uns mil passos de distância desta cavidade localiza-se,
coberta por uma camada removível de musgo, a verdadeira entrada da construção,
ela está tão segura quanto algo no mundo pode ser seguro, certamente alguém pode
pisar no musgo ou empurrá-lo para dentro, nesse caso a construção fica aberta, e
quem tiver vontade [...] pode invadi-la e destruir tudo para sempre. Estou bem
ciente disso, e mesmo agora, no auge da vida, não tenho uma hora de completa
tranqüilidade, pois naquele ponto escuro do musgo eu sou mortal e nos meus sonhos
muitas vezes ali fareja, sem parar, um focinho lúbrico. [...]
Vivo em paz no mais recôndito da minha casa, e enquanto isso o adversário, vindo
de algum lugar, perfura lento e silencioso seu caminho até mim. (Kafka, ibidem; p.
63-64)
[...]
Mas a coisa mais bela da minha construção é o seu silêncio. [...] Lá eu durmo o
doce sono da paz, do desejo pacificado, do alvo atingido de possuir uma casa. [...]
Pobres andarilhos sem casa, nas estradas do campo, nas florestas, [...], entregues
aos estragos do céu e da terra! (Kafka, ibidem; p. 65-66)
[...]
E se acontecesse um grande ataque, que projeto de entrada poderia me salvar? [...]
um ataque realmente grande eu preciso tentar rebater com todos os recursos do

suportar a vida”, escreve Kafka.

50
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

conjunto da construção e todas as forças do corpo e da alma – isso é evidente. [...]


Sem dúvida esses sentimentos são provocados pela própria entrada, onde cessa a
proteção da casa, mas é também a construção dela que particularmente me
suplicia. Algumas vezes sonho que a reconstruí e modifiquei totalmente, rápido,
com forças gigantescas, numa única noite, sem ser notado por ninguém, e que ela
agora é indevassável; o sono em que isso acontece é o mais doce de todos; quando
desperto, lágrimas de alegria e redenção ainda cintilam na minha barba.” (Kafka,
ibidem; p. 72-73).

A casa como meio de identificação com o mundo

Como vimos, sendo o habitar doméstico uma atividade inserida no


contexto do mundo exterior, buscamos no espaço físico da casa a proteção contra as
agressões e os desgastes físicos e emocionais com que nos deparamos ao habitar o
mundo exterior. Em casa, na esfera privada do habitar, encontramos a paz e a
segurança necessárias para o nosso desenvolvimento como indivíduos, como vimos
falar Norberg-Schulz.
Por outro lado – e ainda considerando a inserção do habitar doméstico no
âmbito geral –, o mesmo autor dirá que o se recolher ao espaço privado da casa não
implica um isolamento tal, que o mundo exterior se torne esquecido. Ao contrário,
na medida em que habitamos o espaço público, reunimos em nossa casa física
lembranças, em forma de coisas, que elegemos como representantes de nossas
experiências no mundo lá de fora, e as quais trazemos para o nosso habitar doméstico.
Manipulando-as e convivendo diariamente com elas – ao comer, dormir, conversar e
nos entreter –, essas coisas passam a fazer parte de nossa vida privada e nós passamos
a perceber seus significados como experiências já interiorizadas. Assim, ao entrarmos
em casa e encontrarmos aquelas coisas que trouxemos do mundo lá de fora, com as
quais já estamos tão familiarizados, sentimo-nos, enfim, em casa. É neste sentido que
Norberg-Schulz afirma que por meio da casa física, experimentamos ser parte do
mundo (Norberg-Schulz, ibidem; p. 89, 91):

51
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

“Sem os frutos ‘sagrados’ do céu e da terra, o lado de dentro permaneceria ‘vazio’.


A casa e a mesa recebem e reúnem, e tornam o mundo ‘perto’. Habitar em um
casa, portanto, significa habitar o mundo.” (Norberg-Schulz, ibidem; p. 9)

Para caracterizar a identificação estabelecida, por meio da casa física, entre


nós, habitantes, e o mundo em que estamos inseridos, Norberg-Schulz recorre à
linguagem literária do autor norueguês Tarjei Vesaas. Ao descrever, em um de seus
contos, o retorno de um jovem lenhador à sua casa, vindo de um dia de trabalho na
floresta, Vesaas dirá que ele “não chega a um lugar diferente do mundo, repleto de
significados, mas a um mundo interior em harmonia com o mundo exterior” (Vesaas, 1971;
Apud Norberg-Schulz, ibidem; p. 12)32.
Ao falar da forma como estabelecemos com nossa casa e com a paisagem
que a rodeia uma “comunicação silenciosa que marca nossas relações mais profundas”, Ecléa
Bosi nos lembra que “mais que um sentimento estético ou de utilidade, os objetos nos dão um
assentimento à nossa posição no mundo, à nossa identidade” (Bosi, 2003; p. 441, 442):

“Sons familiares da água da torneira, dos talheres nos pratos, dos passos no chão,
do relógio, do martelo, da vassoura, compõem o ambiente acústico familiar que se
integra no da rua” (Bosi, ibidem; p. 445)

O depoimento de Amélia, 64 anos, aposentada, sobre um incêndio, ocorrido em sua casa, o


qual destruiu grande parte de seus objetos de uso diário e o acervo de lembranças de cinco
décadas de trabalho como artista de circo, ilustra a dimensão do significado, para ela, dos
objetos reunidos em sua casa, como acervo da memória de suas experiências vividas no
mundo lá fora:

“A minha vida pegou fogo: minhas coisas e minhas fotos de cinqüenta anos de
trabalho. E eu, vendo aquilo, não me conformava, eu só fazia chorar. Não salvou
nada: os eletrodomésticos foram todos, a televisão murchou. Minha máquina de
costura dava até pra ser aproveitada, mas eu chamei um rapaz e disse: ‘pode levar
tudo!’, de desgosto... Só as coisas da cozinha, eu consegui salvar, porque o fogo não

32
Norberg-Schulz considera importante salientar que Vesaas não descreve o meio ambiente da
floresta como um lugar em especial. Ele a apresenta como um “típico meio que encontramos em
muitos lugares, o qual tem relação com muitos seres humanos” – qualquer lugar que possa ter seu
significado identificado como familiar para um leitor estrangeiro, tal como é a floresta para os
noruegueses (Vesaas, 1952. Apud Norberg-Schulz, 1985, p. 11).

52
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

chegou na cozinha. Eu tinha algumas peças de ouro numa caixinha de jóias no quarto
fatídico – nada de muito valor, sabe, mas muito importante pra mim. Essa caixinha
derreteu junto com o ouro, não consegui separar nada. Muita coisa os bombeiros
também levaram, né? Foram os primeiros a entrar lá! O fogo fez uma limpeza na
minha vida; foi horrível. De todos os eventos que eu tive na vida, esse foi o maior.”
(Amélia)

Em um contexto extremo, tal como o que ocorre com internos em


instituições como manicômios, prisões e conventos, o sociólogo Ervin Goffman falará
da “deformação pessoal” decorrente do fato de o indivíduo ser destituído das coisas
que possui, às quais atribui o “sentimento do eu”; e da “grande mutilação” desse “eu”
que decorre da impossibilidade de se estabelecer quaisquer vínculos pessoais com o
espaço e os objetos onde e com os quais se habita (Goffman, 1974; p. 27, 29). Em um
processo em que se desfazem as ligações com o habitar público e, ao mesmo tempo, se
impede a prática cotidiana de um habitar doméstico acolhedor da individualidade, ao
admitir um interno, a instituição, após muito provavelmente ter feito o indivíduo
despir-se [literalmente] de seus bens individuais, providencia algumas substituições
por coisas padronizadas, cujo objetivo é justamente neutralizar a individualidade
dessa pessoa. E, mesmo esses objetos de uso pessoal, fornecidos pela instituição
(ainda que um simples lápis), deverão ser substituídos antes de terem sua vida útil
encerrada – ou revezados com outros usuários, como pode ocorrer com dormitórios,
em conventos –, de modo a seu usuário não estabelecer com eles, quaisquer tipos de
identificação pessoal. Segundo o autor, as ordens religiosas souberam avaliar as
conseqüências, para o eu, da separação das pessoas e seus bens. Neste sentido é clara
a Regra Beneditina (Goffman, ibidem):

“Para dormir, devem ter apenas um colchão, um cobertor, uma colcha e um


travesseiro. Essas camas devem ser freqüentemente examinadas pelo abade, por
causa da propriedade particular que aí pode estar guardada. Se alguém for
descoberto com algo que não recebeu do abade, deve ser severamente castigado. E
para que esse vício de propriedade particular possa ser completamente eliminado,
todas as coisas necessárias devem ser dadas pelo abade: capuz, túnica, meias,
sapatos, cinto, faca, caneta, agulha, lenço e tabuletas para a escrita. Assim, é
possível eliminar todas as queixas de necessidades. [...].” (“The Holy Rule of Saint
Benedict”, cap. 55. Apud Goffman, ibidem; p. 28)

53
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

...

Assim, retomando os aspectos essenciais do habitar doméstico, que vimos


descritos na Parte I – a experiência cotidiana de se estar inserido no “pequeno
mundo” pessoal, experimentando o acolhimento e a paz dessa esfera privada, com a
qual nos identificamos e à qual nos sentimos pertencentes –, e, ao mesmo tempo, não
perdendo de vista os aspectos que interligam os modos de habitar natural, coletivo e
público (também descritos anteriormente), passamos a ver a casa onde habitamos
como uma estrutura física que, como descreve Peter Kingxi, nos permite tanto nos
retirar, quanto sermos parte constituinte de uma sociedade. Nas palavras do autor, a
casa é descrita como um conceito que “conecta a paz interior de um indivíduo com o
barulho e o turbilhão do mundo vasto” (King, 2004; p. 87, 88).
Reiterando os aspectos da inserção da casa no contexto do mundo
exterior, poderíamos, ainda, associá-la à análise, feita por Milton Santos, segundo a
qual o lugar habitado seria a tradução pragmática das ações do mundo exterior, “do
qual lhe vêm solicitações e ordens precisas de ações condicionadas” (Santos, 2004; p.
322). Se, como já vimos, a incorporação dos aspectos do mundo exterior torna a casa
o meio para a nossa atuação no mundo, ao mesmo tempo, as condições segundo as
quais nos inserimos neste mundo serão condicionantes da forma como passamos a
habitar domesticamente. Isto se justificaria pelo fato de que, através do modo como
habitamos, buscamos ser aceitos pelo meio em que nos inserimos. Como coloca
Clare C. Marcusxii, os motivos que nos levam a alugar ou comprar uma determinada
casa para morar, além de serem determinados por nossas possibilidades econômicas,
por suas características físicas, localização e nível de conservação do imóvel, também o
são pelo papel simbólico desse imóvel como uma expressão da identidade social que
queremos comunicar a esse meio. Assim, dirá a autora, nossa casa passa a funcionar
como um veículo de comunicação, um display para informar aos nossos vizinhos,
convidados – e até a nós mesmos – quem e como somos, que posição ocupamos na
sociedade, nossos valores, etc. (Marcus, 1997; p. 9).

Pertencente à quarta geração de uma família circense, Amélia sempre teve, ao longo
de sua história doméstica, uma estreita ligação e identificação com a forma nômade
de habitar dos artistas de circo. Dependendo diretamente das comunidades dos
locais onde o circo se instalava para viabilizar essa forma de habitar – para o

54
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

fornecimento de água, e até mesmo para o uso de instalações sanitárias –, Amélia


relata o conflito experimentado por ela e pelos artistas, devido ao preconceito dessas
mesmas comunidades em relação aos hábitos das pessoas de circo, por as
considerem sujas, promíscuas e marginais em relação ao convívio social – e, por isto,
pouco confiáveis.

A solução para obter a aceitação dos meios onde se instalava veio da percepção de
que, ao lado do preconceito em relação aos artistas de circo, as pessoas nutrem uma
grande curiosidade em relação à sua vida privada: como vivem, como se relacionam
em família, como são suas casas. Percebendo a relação entre satisfazer essa
curiosidade e obter a aceitação das comunidades, Amélia, que descreve sua barraca
como “até bonitinha, com cara de casa”, passou a convidar as pessoas dos locais para
conhecer seu espaço privado. Com isto, valia‐se do papel da casa, descrito por
Marcus como vitrine da identidade social que queremos comunicar, buscando, assim,
ser aceita pelo meio em que se inseria. Uma vez constatado pelas pessoas das
comunidades locais que a forma de habitar de Amélia e dos outros artistas
reproduzia formalmente a de uma casa convencional, os artistas passavam a ser
vistos como pessoas “normais”, ou seja, como eles. Com isto, estabelecia‐se uma
identidade com essas pessoas, de cujo apoio dependia não apenas o trabalho de
Amélia, mas seu próprio modo de habitar:

“[...] E já chegava na cidade, sendo mal visto. Hoje é bem visto, já não é como antigamente.
Porque, às vezes, na frente desse circo que chegou, passou um que ficou devendo isso,
devendo aquilo, fez uma sujeitada. Então, o que vem atrás sofre as conseqüências.
[...]
Geralmente, a gente chegava nas cidades à noite.
[...]
Aí, eu arrumava as coisas no armário, ia lá fora, pegava tijolo, calçava – não podia ficar direto
no chão porque quando chovia, mesmo que você fizesse a vala, sempre minava água. Então,
tinha que pôr os tijolos em baixo, pra calçar. Ficava até bonitinha, com cara de casa! O
armário de caixote, uma mesa com o fogão jacaré, as outras malas; armava a cama. A gente
usava muito umas malas de madeira: você chegava, esvaziava, virava, elas já tinham as
prateleiras, e virava o armário. A tampa era a mesa: colocava os pés, assim, e já montava. As
camas tinham que ser de casal, pra facilitar. A gente tinha uns cavaletes e nesses cavaletes
punha as tábuas em cima, e punha o colchão. Às vezes, eu falo que eram até melhores do que
as camas que a gente tem agora. Tinha até berço de armar; tinha cortina, que separava o
quarto da cozinha – não era assim tudo aberto – era tudo legal!... Tô te falando, era uma casa,
mesmo!

55
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

A gente tinha tudo, tudo. O fogão não era desses convencionais, sempre era fogão‐jacaré, ou
um fogareiro elétrico, ou um fogão de lenha que a gente fazia lá mesmo, atrás da barraca.
Isso dependia da necessidade, e do que tinha. Só sei que a gente se virava e fazia comida.
[...]
A gente também pegava água lá. Muita gente boa via a dificuldade da gente e deixava a gente
tomar banho: ‘toma um banho aí!..’. Aí, eu tomava banho, dava banho nas crianças, levava
um pouco d’água, e vinha embora.
[...]
Mas, às vezes, a gente chegava num lugar, não tinha nem água. Eu tinha latões, e tinha que
levar cheios d’água. E, às vezes, a gente já vinha de uma cidade que não tinha água, também.
Teve uma cidade na Bahia, que eu cheguei – era umas sete horas da noite, não era muito
tarde. Aí, bati numa casa: ‘Oi, boa noite. A senhora podia me arrumar um pouco d’água? – Eu
não dou água pra gente de circo’. E, plá, bateu a porta.
[...]
É... as pessoas têm mania de falar que o pessoal do circo dorme tudo junto, mora tudo junto,
aquela confusão toda. E elas são sempre são curiosas. Então, eu fazia questão, mesmo, que
eles viessem na nossa casa, pra ver que não era assim; que era igual à vida deles; a única
diferença era que a gente viajava, e cada hora estava num lugar. Mas cada um tinha sua casa,
sua cama, a individualidade. Aí, eles começavam a achar a gente normal, como eles, e a tratar
melhor.” (Amélia)

Aplicando-se ao espaço da casa as definições de Amos Rapoport de


“comunicação não-verbal” e significado do ambiente construído, vemos que essa
comunicação informa o significado do ambiente doméstico – construído e habitado –
às pessoas que nele e com ele interagem. Partindo-se da observação do uso atribuído
ao espaço da moradia – idéia que originou todo este estudo –, vemos que as ações
cotidianas passam a ocorrer de acordo com a interpretação da “leitura” do espaço
doméstico, e do entendimento das pessoas sobre as normas, ou “propostas de
comportamento”, fornecidas por esse ambiente – o que pode ser visto como uma
forma de “comunicação não-verbal” (Rapoport, 1990; p. 181 e Rapoport, 1976; p.
10).
Mas, se, por um lado, a forma construída do espaço habitado afeta o
comportamento e os modos de vida de seus usuários, temos que a linguagem formal
do espaço habitado é, por sua vez, a incorporação física dos padrões de
comportamento de seus habitantes – incluindo-se, aí, seus desejos, motivações e
sentimentos (Rapoport, 1969; p.16). Como afirma David Morley, a casa não apenas
abriga ou provê um contexto background para sentimentos como segurança,
privacidade, intimidade, conforto, etc.; ela, além disto, incorpora estes sentimentos à

56
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

sua estrutura física. Referindo-se à análise feita por Sivi Norve sobre práticas do
habitar doméstico, Morley aponta para a observação da autora, de que embora hoje
em dia, as pessoas, de fato, construam suas casas muito menos freqüentemente do
que faziam no passado, ainda que no sentido figurativo, nós ainda fazemos nossas
casas. Em uma prática descrita pela autora como “criativa”, ainda construímos,
equipamos nossas casas; damos-lhe cores, mantemos-na, e organizamos seus padrões
de fisicalidade; damos funções e expressão aos cômodos. Neste sentido, Norve dirá
que se falhamos na efetividade deste processo, ou seja, de criar algo diferente para
nós, outros arranjos para a estrutura física que nos foi deixada, essa moradia “não
será uma casa [home] propriamente dita, no sentido geral do termo” (Norve, 1990; p.
52. Apud Morley, 2000; p. 24).
Yi-Fu Tuan também nos fala que no mundo moderno não construímos
mais nossas casas, tal como nas sociedades pré-letradas e de camponeses. Segundo vê,
os rituais e cerimônias, próprios do ato de construir – quando se pensava ocorrer, ali,
a “construção de um mundo” – diminuíram sensivelmente, sendo que o que
permanecem são “gestos pouco significativos de assentar a pedra fundamental e de
telhar”. Contudo, ainda que, talvez, de forma não tão rígida e ostensiva como no
passado, o ambiente construído no mundo moderno ainda mantém a função de
informar. Ou seja, continuamos a sofrer o impacto direto do espaço arquitetônico
sobre os nossos sentidos e sentimentos; nosso corpo ainda responde aos aspectos da
fisicalidade desse espaço (Tuan, 1983; p. 129, 130). Ou seja, Tuan também vê o meio
ambiente construído “como uma linguagem”. E, partindo dos sentidos de “interior” e
“exterior” como “intimidade” e “exposição” – ou “vida privada” e “espaço público” –,
o autor vê a casa, enquanto estrutura arquitetônica construída, como algo que tem a
capacidade de “definir e aperfeiçoar a sensibilidade [...,] aguçar e ampliar a
consciência” sobre as diferenças destes sentidos, tornando mais nítida, para os seus
usuários, a distinção da “temperatura emocional” entre eles (Tuan, 1983; p. 119-120).
Às considerações acima pode-se acrescentar a concepção de Milton Santos,
segundo a qual a materialidade seria um componente imprescindível do espaço; isto,
na media em que nada fazemos que não seja a partir dos objetos que nos cercam.
Neste sentido, a materialidade funcionaria ao mesmo tempo como uma “estrutura de
controle, um limite à ação, e um convite à ação”33 (Santos, ibidem; p. 321).

33
Está claro que a reflexão de Santos se baseia no universo muito mais abrangente, que é o espaço

57
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Ao se mudar de Curitiba para São Paulo, o entrevistado Márcio34 percebeu como a


forma de seu novo apartamento não permitia que ele praticasse o seu hábito da
leitura. Foi necessária uma combinação entre a forma construída e um re‐
agenciamento espacial, o qual lhe trouxe a impressão de estar em seu antigo
apartamento, para que Márcio passasse a perceber, da sua nova casa física, a
permissão formal para praticar sua leitura:

“[...] no começo, eu tive um grande problema com esse apartamento. Eu sempre li


muito, quando eu morava em Curitiba. Mas, muito mesmo! Isso, pra mim, era – é –
vital. E, não sei por quê, isso, aqui, não rolava; eu simplesmente não conseguia. Daí,
eu saquei que o que eu não tinha era um espaço pra ler, como eu tinha lá [no antigo
apartamento]. Era angustiante... Aí, eu fui tentando, comprei uma luminária e uma
poltrona super‐parecida com a que eu tinha em Curitiba; punha a cadeira aqui,
mudava pr’ali..., encostei na parede: aí, não sei, a forma como a luz entrou e
iluminou aquele canto me fez encontrar aquela referência que eu tinha perdido, e eu
passei a curtir aquilo. Eu reencontrei o meu espaço pra ler... Agora, eu leio feito
louco.” (Márcio)

A forma como buscamos, através de intervenções criativas, o respaldo da


fisicalidade de nossas casas para, através das relações cotidianas que estabelecemos
nela e com ela, atendermos nossas necessidades, expectativas e aspirações em relação
ao habitar doméstico, dá sentido à afirmação de Santos, segundo a qual o lugar
habitado seria o “teatro insubstituível das paixões humanas, responsáveis, através da
ação comunicativa, pelas mais diversas manifestações da espontaneidade e da
criatividade” (Santos, ibidem; p. 322). E ainda é neste sentido que aplico a análise de
Witold Rybczynski, de que “o bem-estar doméstico é muito importante para ser
deixado a cargo dos especialistas”. Segundo o autor, esta questão diz e sempre disse
respeito àqueles que, de fato, ali habitam – seja a família, seja o indivíduo
(Rybczynski, 1996; p. 236).

O entrevistado Lúcio, engenheiro, 61 anos, passou a infância e a juventude mudando‐se, com


sua mãe, de hotel para hotel, só tendo passado a morar em um lugar fixo depois de adulto e

geográfico. Ainda assim, se consideramos o espaço do habitar doméstico um “sub-conjunto” do


espaço analisado por Santos, esta visão é perfeitamente aplicável à análise da casa física e dos aspectos
da dinâmica do cotidiano doméstico que nela se insere.
34
Apresentado na Parte I.

58
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

casado. Perguntei‐me se – se é como nos diz Bachelard, que em cada nova morada, retornam
as lembranças das antigas, e que nos reconfortamos ao reviver nossas “lembranças de
proteção” domésticas (Bachelard, ibidem; p. 25) –, que reflexos haveria, no habitar doméstico
de uma pessoa adulta, cujas referências de espaço físico doméstico da infância e da
juventude foram uma série de quartos e lobbies de hotéis? Sua entrevista revelou que,
devido a essa dinâmica de habitar, dois aspectos passaram a ser impressos no ideal de habitar
doméstico de Lúcio, já em sua maturidade.

O primeiro é o fato de suas referências domésticas estarem menos relacionadas aos quartos
onde dormia, e mais à permanente interação com o espaço público que o morar em hotel lhe
permitia – experiência que tem como metáfora a predileção pelos corredores desses hotéis.
Isto se traduziu na necessidade de uma clara penetração visual do mundo exterior no espaço
físico doméstico. O outro aspecto é o fato de as constantes mudanças de espaços domésticos
o terem levado a atribuir a alguns poucos objetos pessoais, carregados de significados e
experiências incorporadas, a condição de algo permanente, sua referência. Ao longo dos
anos, esses objetos passaram a ter a tarefa de atribuir a cada moradia a referência pessoal
que Lúcio necessita para se sentir “em casa”. Como disse ele, “hoje, minha casa é a minha
mochila”.

“[...] A gente [ele e sua mãe] não criava vínculo com o espaço. A gente criava vínculo era com
as coisas da gente – dentro daquele espaço. A única coisa que eu carregava comigo – objeto
particular – era uma caixa, onde eu tinha algumas coisinhas. O vínculo que a gente tinha,
tanto eu como a minha mãe, que morava comigo, eram as coisas da gente, que a gente
dispunha nos lugares onde ficava; [...] Meu vínculo era uma caixa que eu carregava, e o que
eu tinha dentro – esse era o meu vínculo.
[...]
Isso tudo reflete em mim até hoje, porque a casa, material, não representa nenhum vínculo
pra mim. O vínculo está nos objetos que eu ponho lá.
[...]
Hoje, a minha casa é minha mochila. [...] Esse desprendimento das coisas, eu aprendi na
marra, porque, quando meu pai morreu, todos os outros parentes, meus irmãos mais velhos,
cada um veio pegar uma coisa. Imagine, eram os maiores... [...] O que eu tinha meu? Uma
bolinha de gude, isso ou aquilo... aquilo era meu, ninguém mexia! E eu podia ir com aquilo
pra qualquer lugar do mundo! Com a minha caixa, eu me sentia bem e estava em casa.
[...]
os hotéis, pra mim, como criança, eram grandes! Tinham corredores onde eu podia correr. Eu
nem ligava pro quarto – o quarto era pra dormir! O bom era o corredor – o corredor era o
importante!! [...] Um monte de gente pra bater papo, falar com um, falar com outro... A
noção de corredor, em hotel, é uma coisa espetacular!
[...]
Você se fecha numa caixa porque você quer, não é? É necessário ter visão, olhar longe –
adoro ver a extensão!” (Lúcio)
****

59
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Já o entrevistado Christian, 52 anos, sul‐africano naturalizado brasileiro, e professor de inglês


para estrangeiros na Arábia Saudita, segue um projeto de vida que prioriza alternar
livremente o lugar (país) onde habita – algo como uma ampliação espacial do ideal de habitar
de Lúcio. Morando em um conjunto habitacional para estrangeiros, reconhece que vive, em
sua opção de habitar doméstico, uma proximidade muito maior, do que geralmente é a opção
das pessoas, entre os modos de habitar público e privado. Contudo, o fato de essa opção
condizer com seu ideal de habitar – não estar preso a quaisquer lugar ou pessoas para ser
livre para conhecer o mundo, aprender novos idiomas, experimentar novas culturas –, não
obsta a que Christian reconheça o que chama de “algo parecido com um quarto de hotel”
como seu lugar de recolhimento do meio coletivo, quando quer ou sente necessidade; e
onde, apoiado nas coisas trazidas do mundo exterior e na rotina privada, encontra sua
“concha” – a qual, apesar de chamar apenas de uma “ilusão de casa”, é, de fato, seu
“pequeno mundo”, onde fica em paz – a sua casa.

Os trechos a seguir são parte da entrevista concedida por Christian via e‐mail:

“[...] eu vivo no que eu poderia considerar equivalente a um hotel cinco estrelas, e


tenho refeições todos os dias, então, não posso reclamar.
[...]
No momento, moro em algo parecido com um quarto de hotel, um de muitos
enfileirados numa infinidade de corredores, ocasionalmente contendo um
refrigerador de água, e todos, no final, dando num centro de recepção.
[...]
Eu acho que meu espaço é como uma concha, algo no qual eu posso me recolher,
mas não um refúgio, onde eu me escondo da vida e das pessoas. Eu, simplesmente,
gosto dessa vivência periférica. [...] Eu gosto de me sentir cercado de pessoas,
enquanto que permaneço mantendo minha distância delas [...].
[...]
Eu comprei um pequeno aparelho de som pra mim, que já virou parte da mobília. Eu
também comprei um piano elétrico, e isso se provou particularmente um fator de
bem‐estar. Junto com as outras peças do mobiliário do meu quarto, eu criei, agora, a
ilusão de casa, a qual, combinada com um sortimento de after‐shaves no armário do
meu banheiro, ajuda a aumentar a intimidade de minha privacidade. Ler também
ajuda.” (Christian)

...

Seja uma ou outra a forma como olhemos para a casa como localidade
física inserida no mundo em que habitamos, ela tanto deverá ser o refúgio de que

60
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

precisamos para viver nossa vida física e interior em paz e em segurança, como
também o lugar através do qual estabelecemos vínculos e meios de atuarmos nesse
mundo. Ao encontramos na casa física essas condições para desenvolvermos nosso
habitar doméstico, passamos a não mais poder prescindir dela. Neste sentido,
podemos nos referir a Hannah Arendt, quando diz que nós somos seres
condicionados – ou seja, temos a propriedade de tornar imediatamente condição da
nossa existência tudo aquilo com que entramos em contato, seja por meios
espontâneos ou intencionais. Segundo a autora, além das condições naturais nas
quais recebemos a nossa vida sobre a Terra – “e, até certo ponto, a partir delas” –, é
de nossa natureza criar novas condições que, por mais variadas e de diversas origens
que possam ser, terão a mesma força condicionante de nossa existência que têm as
“coisas naturais”. Assim, a própria realidade do mundo, sua objetividade, ou seja, seu
caráter de coisa ou objeto, também passam a impor sobre a existência dos homens,
seus próprios autores, essa força condicionante (Arendt, 1997; p. 17).
Se aplicamos esta análise à questão da casa física – “no sentido de lugar
tangível possuído na terra por uma pessoa” (Arendt, ibidem; p. 80) –, temos que, na
medida em que designamos essa casa como nosso “pequeno mundo” – sendo ele
tanto o abrigo contra “a hostilidade dos homens e a hostilidade do universo”, como
dirá Bachelard (ibidem; p. 27), quanto a base para que possamos habitar esse mundo –,
criamos com esse local, e com todas as coisas e memórias que nele reunimos, por as
considerarmos propiciadoras desse habitar, uma relação de necessidade.

A entrevistada Maria, profissional do showbiz, filha de uma família de imigrantes italianos,


viveu sua infância em uma casa partilhada por seus pais, irmãos, tios e primos, além do avô,
dono da casa. Essa experiência incluiu ter de partilhar o quarto de dormir com seus pais até
os doze anos de idade. Por isso, o sentido de casa, para ela, sempre envolveu a necessidade
de um espaço físico em que ela pudesse sentir‐se acolhida e o qual pudesse reconhecer como
seu. Quando, aos doze anos, mudou‐se com a família para uma outra casa, Maria pôde, pela
primeira vez, experimentar o seu próprio espaço privado, o qual identifica não simplesmente
como um quarto, mas como um “palacete”. A mesma relação vai ocorrer mais tarde, com um
apartamento alugado, onde passou a morar só: para Maria era, de novo, “um palácio”. Era,
enfim, o seu “pequeno mundo”; um lugar onde – diferente das casas da infância – ela podia
habitar tranqüilamente, e para onde tinha vontade de voltar.

Na busca pela experiência de bem‐estar não vivida nas casas de sua infância, tornaram‐se
importantes referências as experiências de hospedagem em hotéis, ao longo de sua carreira,
nos quais podia ver suas necessidades mais imediatas prontamente resolvíveis, e

61
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

experimentar uma organização espacial a qual sempre fora precária na sua vida doméstica.
Através do depoimento de Maria, podemos perceber as formas através das quais acabamos
de examinar a casa física. Ao falar da necessidade do acolhimento físico do espaço habitado,
assim como da forma como incorpora ao seu habitar doméstico as coisas e experiências
trazidas do mundo público, e de como não pode delas prescindir para viver seu bem‐estar
doméstico, Maria exemplifica, com sua experiência pessoal, a relação estabelecida com o
mundo através de seu habitar doméstico:

“[...] O primeiro lugar que eu morei, com vinte e um anos, era uma “vaga” alugada – um
colchão no chão – em Copacabana, no Rio de Janeiro. Então, qualquer coisa, pra mim, era
muito melhor do que aquilo que eu tinha quando criança.
[...]
Aí eu tive um apartamento alugado pequenininho, um estudiozinho, que você não entrava na
cozinha – só entrava o seu braço na cozinha. [...] Eu tenho uma amiga famosa que, na época,
a gente estava convivendo muito. E ela teve em casa, e fez um teste, sabe aqueles testes de
revista? E ela ficou muito impressionada porque deu, naquele teste, que a minha relação com
a casa era ótima, que eu estava em paz com a minha casa. E ela disse, ‘nossa, mas é um lugar
tão pequeno’. E eu falei, ‘mas, pra mim, é um palácio! É tudo o que eu preciso’.
[...]
eu conheci um lugar des‐lum‐bran‐te, que eu queria pra minha casa. [...] Era um hotel [...] em
Santa Mônica. É lindo! E a luz do lugar é tudo que eu pedi na vida. Quando você entra no
banheiro, você dá de cara com uma pia, uma bancada bonita, toda iluminada, o espelho
super‐iluminado, e à sua direita, você enxerga uma porta de vidro Blindex, que é o chuveiro, e
uma porta com veneziana de madeira, e lá dentro é o lugar onde você faz pipi. À esquerda
tinha uma banheira, e tinha uma janela. Dessa janela, você abria a veneziana e dava pra
assistir à televisão que estava lá no quarto. E é uma coisa muito bacana, porque foi a primeira
vez que eu vi esse espaço organizado, sem estar tudo no olho. Eu estou querendo repetir
esses conceito aqui em casa, na reforma que eu vou fazer. Porque é organizado e é
confortável.
[...]
Então, esses hotéis que abraçam a gente – tanto no conforto íntimo, quanto na praticidade –
sempre foram os hotéis que eu achei mais interessantes, e que me senti mais em casa. Às
vezes, eu não queria voltar pra casa, mesmo porque era muito mais gostoso! Por exemplo, eu
mesma não sabia o quanto a organização do espaço era importante, e como a minha
capacidade administrativa era um zero à esquerda. Porra, na minha infância, eu não aprendi
como lidar com boneca – eu não podia –, eu não sabia qual a hora de brincar, a hora de fazer
dever de casa; dever de casa era pra fazer o dia inteiro, não podia fazer outra coisa,
entendeu? Eu não sabia...” (Maria)

...

62
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

A partir das reflexões dos autores citados e das entrevistas com pessoas
com diferentes experiências do que se pode chamar de casa física, podemos inferir
que se o habitar doméstico implica a existência de uma casa, considerada no seu
aspecto físico, qualquer que seja ele, implica também a interação dessa materialidade
com aspectos da alma, do espírito, da memória, das emoções do indivíduo – o que faz
com que a casa passe a incorporar um significado emocional e subjetivo. A seguir,
procurarei apresentar os detalhes desses aspectos.

63
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Capítulo 2 ‐ Os usos objetivo e subjetivo da casa

“Quem é que às vezes não se lembra da casa, às vezes feia, onde nasceu e brincou
menino, repetindo o poeta: ‘A minha casa, a minha casinha, não há casa como a
minha?’” (Freyre, 2004; p. 316-317)

Até agora, havíamos considerado a casa como o local físico que elegemos
para nos recolher do mundo (onde praticamos os modos de habitar natural, coletivo
e público) para praticar o nosso habitar em privacidade. Inserida no contexto do
mundo exterior, consideramos a casa como a estrutura através de cuja materialidade
obtemos o apoio, o ponto de referência, em relação às nossas experiências no mundo
lá fora. A partir da consideração de que ainda que encerrando um espaço privado, a
casa, como entidade física, está sujeita às condições do âmbito geral em que está
inserida, passamos, também, a vê-la não só como a segurança e a proteção frente às
hostilidades do mundo, mas, também, como um meio de nos tornamos
familiarizados como esse mundo, obtendo, assim, a base de que precisamos para
habitá-lo.
Ao lado dessas considerações, pudemos tomar o habitar doméstico como
uma atividade que envolve as inter-relações que estabelecemos em e com nossa casa
física – a qual, dada à sua condição material, poderíamos, mesmo, chamar de objeto
casa. Envolvidos por essa estrutura física e cercados dos objetos que trazemos do
mundo exterior e nela inserimos, encontramos apoio no nosso dia-a-dia doméstico;
sentimo-nos, enfim, em casa.

64
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

A materialidade permite a espiritualidade e a emocionalidade

O habitar doméstico é uma atividade que evolve mais do que o simples ato
de nos inserirmos em um invólucro físico segundo as condições que, objetivamente,
permitem e definem o modo como permanecemos lá. Para explorar esta questão
tomemos, inicialmente, a visão de Bruno Zevi sobre a arquitetura. O autor nos diz
que, ao analisarmos a arquitetura, temos, por hábito, fixarmo-nos apenas no que nos
é tangível, no que, objetivamente, “faz trabalhar os nossos instrumentos e detém a
nossa vida”. Diante da forma concreta, passamos a considerar que o espaço surge
como uma oposição a essa fisicalidade, ou melhor, que “o espaço seria um ‘nada’ –
uma pura negação do que é sólido”. Com isso, ignoraríamos o fato de que o espaço
age sobre nós, exercendo poder sobre o nosso espírito. Assim, Zevi nos alerta para o
fato de o espaço interno da arquitetura não ser apenas uma cavidade vazia, ou uma
“negação de solidez”. Ao contrário, ele seria, em todos os sentidos e, especificamente,
no sentido da integração do homem com esse espaço, uma realidade vivida, onde
atuariam concomitantemente a vida e a cultura, os interesses espirituais e as
responsabilidades sociais (Zevi, 1966; p. 189-190, 212).
Para o autor, esse conteúdo seria o aspecto principal do “fato
arquitetônico”. Na arquitetura, diferentemente do que ocorre com a pintura, ou a
escultura – as quais contemplamos e revivemos psicológica e visualmente –, a quarta
dimensão não seria uma qualidade própria do objeto, mas sim um “fenômeno
totalmente distinto e concreto”, que requer ser experimentado diretamente para ser
conhecido. Seria através da interação com esse espaço arquitetônico vivenciado, que
ele atuaria sobre nós, e que, assim, desenvolveríamos nosso julgamento sobre a
arquitetura: ela nos será bela se nos sentimos atraídos por seu espaço interior, se esse
espaço “nos subjuga espiritualmente”; e arquitetura feia seria aquela cujo espaço
interior “nos aborrece e nos é repelente” (Zevi, ibidem; p. 21, 29, 30).
Considerando-se que Zevi se refere, naturalmente, não apenas ao
conteúdo do espaço interior da moradia, mas da arquitetura, como um todo,
podemos aqui especificar sua análise, no sentido de aplicá-la à questão do habitar
doméstico, através da própria definição de habitação, segundo o “Dicionário da
Arquitetura Brasileira” (Corona e Lemos, 1972; p. 462):

65
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Habitação Lugar no qual se habita. Constitui em arquitetura o abrigo ou


invólucro que protege o homem, favorecendo sua vida no aspecto material e
espiritual.

Para a pesquisa proposta aqui, que se volta à questão do hábitat, a


revelação do conteúdo desse espaço interior estará nas ações praticadas no espaço da
moradia, nas relações estabelecidas entre os usuários no e com o espaço doméstico, ou
seja, no próprio cotidiano doméstico. Assim, como uma continuação natural do
capítulo anterior, neste, o enfoque dado ao habitar doméstico passa a ser através da
percepção da casa, por seus habitantes, como algo mais do que a estrutura física na
qual se abrigam das ameaças do mundo exterior; ou ainda – se considerada uma
contextualização mercadológica –, como algo mais do que um objeto que é
consumido pelo seu valor estético, ou de liquidez, ou pelo status social atribuído ao
seu consumidor.
Neste sentido, poderíamos passar a falar do que Peter King (2004) define
como uma “simbiose” entre as estruturas objetivas que encerram a casa física e as
atividades que desempenhamos – privadamente – dentro dela. Ou seja, de um lado,
temos a casa como objeto físico: reconhecível e passível de avaliação objetiva, segundo
critérios concretamente verificáveis, tais como, por exemplo, o projeto arquitetônico,
suas relações de espaço e uso, os materiais utilizados, os padrões de construção, etc.
De outro lado – porém apoiado nessas condições objetivas –, está, o habitar
doméstico, com todas as ações e interações de caráter particular e individual que
envolvem essa atividade, as quais, como observa King, pelo seu caráter íntimo, ficam
praticamente fora de monitoramento (King, ibidem; p. 60, 176).
Ao afirmar que o habitar doméstico seria “ambos: a performance da
tecnologia – de coisas trabalhando para nos manter – e o ato de esquecê-la”, King
explica que, ao fazermos uso da estrutura e de toda a tecnologia que encerra o
ambiente doméstico, o que buscamos esquecer é justamente essa tecnologia que tanto
desempenha por nós (King, ibidem; p. 59). É, por exemplo, graças à vedação física de
nossas casas, que obtemos o isolamento do mundo ao nosso redor – o qual podemos,
de certo modo, graduar segundo nossa conveniência, ao abrirmos ou fecharmos
nossas portas e janelas; é em camas, que são objetos que inserimos em nosso espaço
privado, que repousamos e nos restauramos física e emocionalmente para voltarmos
ao mundo exterior. E, como observa King, é justamente quando constatamos alguma

66
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

falha desse funcionamento, ou seja, quando a performance do objeto casa e toda a


estrutura física que ela encerra deixa de cumprir com seu papel de propiciador para
atingirmos nossos objetivos em relação ao habitar doméstico, que retomamos a
consciência do complexo funcionamento dessa estrutura em favor de nosso bem-
estar. Uma simples goteira já nos mostra quão dependentes nós somos, mesmo da
mais simples tecnologia; “ficamos impotentes diante de uma maçaneta quebrada”
(King, ibidem; p. 69).
Segundo vê King, este seria o ponto do habitar doméstico onde,
justamente, uma série de entidades prosaicas da estrutura física que abriga e uma
série de aspirações e auto-percepções daquele que é abrigado por ela – estas não
necessariamente conectadas ao mundo real – passam a operar simultaneamente, o
que só é possível devido ao funcionamento da habitação de forma adequada. Para o
autor, é através desse processo, que se torna, então, possível ao morador conceber em
sua imaginação questões que vão muito além do nível cotidiano prático e concreto,
no qual se insere em sua casa física (King, ibidem; p. 39, 59). Assim, podemos resumir
a “simbiose” de que nos fala King desta forma: é justamente o recolhimento que a
estrutura física de nossa casa – palpável, avaliável – nos proporciona, que nos permite
praticar o habitar doméstico como uma atividade privada e íntima, e portanto,
insondável.
É neste sentido que a análise de King é apropriada para a investigação
proposta aqui. Ao lado da consideração de que o habitar doméstico implica a
existência de uma casa física, o que pretendo verificar é em que aspectos essa
condição concreta do habitar físico propicia aos habitantes relações tais, que vão além
das materialmente evidentes; que envolvem os aspectos não palpáveis do habitar
doméstico, como os da alma, do espírito, do sonho, da memória, das emoções do
indivíduo – aspectos que fazem com que a casa, em sua objetividade concreta, passe a
incorporar um significado subjetivo para quem a habita.
Este enfoque parte da observação dos depoimentos colhidos, nos quais se
verifica que, mesmo quando os entrevistados se voltam ao relato de aspectos da
interação objetiva com a materialidade de suas casas, suas falas estão sempre
profundamente associadas a considerações emocionais e psicológicas que envolvem
essas experiências objetivas – tenham elas sido vividas na casa atual ou em antigas
moradas; tenham sido duradouras ou breves. Muitas vezes, passa-se um longo período
da vida buscando-se reencontrar, em novas casas, as boas impressões que um habitar

67
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

doméstico da infância deixou marcadas no íntimo de uma pessoa – ou, tentando-se


evitar reviver alguma experiência doméstica especialmente dolorosa.

A entrevistada Maria35, ao relatar sobre suas relações com os espaços físico das casas
onde morou, exemplifica a interferência emocional nas lembranças que
permaneceram, dizendo: “eu tenho essa experiência: nenhuma lembrança acontece
sem ter um forte apelo emocional. Então, é muito provável que eu faça uma
descrição da minha casa, da casa minha interna” [*]36. O relato das experiências em
relação ao espaço concreto habitado – forma, tamanho, usos de determinados
lugares, como é o caso da varanda de sua antiga casa –, ou mesmo em relação à
interação com essa fisicalidade, se confunde com emoções que pouco têm a ver com
essa fisicalidade:

“Na verdade, eu não saberia dizer como era essa casa que eu vivi quando eu era
pequena porque, na minha lembrança, ela tinha dimensões que eu sei que são
desproporcionais, hoje. [*] Da casa física, o que eu lembro, o que eu gostava muito
era de uma varanda, que minha mãe diz que tinha treze metros de comprimento por
seis de largura. Era imensa, um salão. E eu lembro que ela tinha um azulejo hidráulico
preto e branco, que fazia um desenho muito bonito, e um gradil verde – meu avô
pintava tudo de verde e ocre, sempre; e eu gostava muito daquela varanda; até hoje
eu adoro varanda. Deve ter a ver com essa relação. Se eu pudesse escolher – e pagar
pela minha escolha – eu faria muita coisa com azulejo hidráulico, como naquela
varanda. Já tentei fazer na minha casa de campo, mas a relação custo/benefício não
valia a pena.
[...]
Eu lembro de uma casa escura, sim, mas que tem um quintal muito aberto. O quintal,
eu lembro que era de tijolo. Aquele tijolo marrom, aquele que dá aquele limozinho. E
eu adorava isso. [...]. A área que as mulheres estendiam as roupas era uma área
muito grande que, de noite, não tinha roupa estendida. Era ao ar livre, era céu
aberto. [...] a noite era o momento mais legal. [...] e sempre teve essa relação com o
céu, espaço aberto, liberdade.
[...]
aí eu tive um quarto, e eu lembro que a coisa mais adorável, pra mim, era dormir no
chão, eu saía da cama pra dormir no chão, com a janela aberta. Porque meu grande
barato era olhar as estrelas. Eu adorava olhar pro céu e sentir que minha cabeça não
tinha um teto em cima dela. Então, a minha relação com casa foi sempre aquela que

35
Apresentada no Capítulo 1.
36
Esse trecho do depoimento insere-se onde se encontra o sinal [*], no depoimento a seguir.

68
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

eu pude exercer – minha mãe sempre foi muito restritiva. Óbvio que, na vida adulta,
eu sempre procurei espaços generosos, iluminados – eu preciso disso.
[...]
Depois, eu aluguei um quarto na casa de uma mineira. E era muito engraçado
porque, de novo, eu ia pro chão pra poder enxergar uma réstia de céu entre os
prédios, e aí eu sabia se o dia estava bom ou não estava. Porque até a luz que incidia
nos prédios – como era tudo muito cinza, porque dava pra área interna dos prédios –
eu sacava se estava um pouco mais forte, um pouco mais fraca, mas não dava pra
sentir como estava o dia. Só se eu ficasse encolhidinha no chão. E eu fazia isso. Olhar
o céu sempre foi um grande barato pra mim.” (Maria)

Pode-se especular que a dificuldade que enfrentamos ao tentar distinguir


os aspectos palpáveis e não palpáveis de nossa moradia reside na possibilidade de o
habitar doméstico envolver a forma mais íntima, nos sentidos tanto físico quanto
anímico, de envolvimento que podemos estabelecer com uma estrutura material.
Buscando fundamentar esta suposição, podemos começar com a visão de
David Chaney (2002), segundo a qual a interação, em princípio física, estabelecida
com a casa e com os objetos que nela reunimos, além de – como vimos anteriormente
– atuar como uma forma de ligação do mundo exterior com o mundo privado,
acontece, também, no sentido contrário, uma vez que traduzimos e transformamos
esses elementos oriundos do meio exterior em experiências pessoais (Chaney, ibidem;
p. 68). A esta consideração pode-se acrescentar a observação de King, que vem no
sentido oposto à de Chaney. Para King, supor a casa apenas como um bem de
utilidade material tem o efeito de “despersonalizá-la” e de vê-la “como um objeto que
pode ser medido por medidas comuns”, de acordo com valores econômicos e não
humanos – um objeto com “um fim em si próprio” –, o que faz com que a função
mais pessoal da casa, que seria a de “guardar valores pessoais” seja destruída (King,
ibidem; p. 60, 86, 87).
O próprio autor, Peter King, ao relatar o momento em que, com o
falecimento de sua mãe, se viu, juntamente com seus irmãos, diante da tarefa de
esvaziar a casa onde ela morara. Conta que, à medida que os objetos que pertenceram
à mãe eram retirados, como um processo de “des-animação”, tornava-lhes cada vez
mais difícil a localização das memórias que sempre estiveram ali. Aquele espaço,
inicialmente “cheio das suas coisas, tal como fora até a última vez em que a vira”,
tornava-se, aos poucos, um lugar “frio e antisséptico”. Como afirma King, se, por um

69
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

lado, nesse processo, o espaço crescia em possibilidades de uso – “a casa de nossos


pais tornava-se, agora, mais uma casa [..., que] poderia ser habitada por qualquer um”
– para ele e os irmãos, aquele espaço “encolhia-se”, pois deixava de ser um lugar
significante para ser uma simples concha com capacidade de abrigar mais um habitar
– “... qualquer habitar” (King, ibidem; p. 154-155).
Outro depoimento é-nos extremamente ilustrativo de como o sentido
anímico do habitar doméstico torna-se amalgamado à estrutura material da casa
habitada, a ponto de não podermos distingui-los com o passar dos anos. Ao descrever
a casa de seus avós, onde viveu durante grande parte de sua infância, o escritor José
Saramago exprime a força com que o habitar essa casa marcou seu desenvolvimento
individual, e como o fato de ela não mais existir em nada diminui sua percepção
como o “casulo” físico e emocional que abrigou a formação do homem. Homem que,
hoje, revela, através da memória, a existência de uma casa subjetiva – que em muito
pouco poderá corresponder à real casa física. Ou seja, o que se tem, nas palavras do
autor, não é apenas um retrato da casa física, em si, mas o significado pessoal daquela
estrutura, recheada de objetos – por sua vez, também carregados de significados
pessoais. Com isto, Saramago descreve o vazio deixado pela casa, juntamente com
seus objetos, ao serem “despersonalizados” (para usar o termo de King) por seu tio:

“[...] desapareceu num montão de escombros [...] aquela [casa] que durante dez ou
doze anos foi o lar supremo, o mais íntimo e profundo, a pobríssima morada dos
meus avós maternos, Josefa e Jerónimo se chamavam, esse mágico casulo onde sei
que se geraram as metamorfoses decisivas da criança e do adolescente. Essa perda,
porém, há muito tempo que deixou de me causar sofrimento porque, pelo poder
reconstrutor da memória, posso levantar em cada instante as suas paredes brancas,
plantar a oliveira que dava sombra à entrada, abrir e fechar o postigo da porta e a
cancela do quintal onde um dia vi uma pequena cobra enroscada, entrar nas
pocilgas para ver mamar os bácoros, ir à cozinha e deitar do cântaro de esmalte
esborcelado a água que pela milésima vez me matará a sede daquele Verão.
(Saramago, 2006; p. 15-16)
[...]
A construção era do mais tosco que então se fazia, térrea, de um único piso, mas
levantada do chão cerca de um metro por causa das cheias, sem nenhuma janela
na frontaria cega, nada mais que uma porta em que se abria o tradicional postigo.

70
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Tinha dois compartimentos espaçosos, a casa-de-fora, assim chamada por dar para
a rua, onde havia duas camas e umas quantas arcas [...]. À noite, apagando o
candeeiro de petróleo, sempre se podia distinguir pelas frinchas do telhado o cintilar
de uma estrela vagabunda. [...]. Além das camas e das arcas, havia na casa-de-fora
uma mesa de madeira em branco, isto é, sem pintura, de pernas altas, com um
espelho velho, embaciado e com falhas na película de estanho, um relógio de capela
e outras bugigangas sem valor. (Muito mais tarde, já tinham passado há muito os
meus quarenta anos, comprei num antiquário de Lisboa um relógio semelhante que
ainda hoje conservo, como algo que tivesse ido pedir emprestado à infância). [...].
Por cima da mesa, na parede branca, como uma galáxia de rostos, era onde se
reuniam os retratos da família: [...] Estavam ali como santos no num altar, como
peças de um relicário colectivo, fixos imutáveis. A cozinha era o mundo. Havia
duas camas, uma mesa que bamboleava no chão irregular e que de cada vez era
preciso calçar para que não bandeasse, duas cadeiras pintadas de azul, a lareira
com a ‘boneca do lar’ ao fundo, uma figura vagamente antropomórfica, de
contorno sumário, que desapareceu, como todo o resto, quando o tio Manuel, o
mais novo dos tios maternos [...], ficou com a casa depois de morrer a avó, para
levantar no seu lugar uma construção hedionda para qualquer pessoa de mediano
gosto [...].” (Saramago, ibidem; p. 83-85)

Com essas considerações, passamos a entender o papel da estrutura física


da casa além do seu aspecto primeiro, o de abrigar o nosso habitar doméstico, mas
também de abrigar todas as coisas e objetos de grande importância e significado para
nós que nela inserimos. Esse reunir de coisas e objetos vindos das mais variadas
origens, portando os mais distintos significados, e que até então estavam dispersos no
mundo, resultaria em um só contexto, qual uma “colagem” – como diria King
(ibidem; p. 60) – de significado pessoal, específico e particular para nós, o qual não só
apóia o nosso habitar doméstico, mas é, mesmo, confundido com ele.

Ao descrever o modo como mobília sua casa, com objetos usados, Analu37 torna
patente a imagem das coisas a compor a sua colagem pessoal:

37
Apresentada no Capítulo 1.

71
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

“[...] a minha casa, ela é assim: a minha mãe é costureira, então, muitas coisas que
tem em casa, é ela que fez. Então, assim: eu moro longe dos meus pais fazem cinco
anos, vai fazer seis. Então, eu gosto dessa coisa que a minha mãe tem, de fazer as
coisas pra mim, porque, pra mim, eles tão ali.
[...]
E as coisas de casa... é assim: os meus móveis é tudo cada um de uma cor, cada um
de uma coisa – porque desde que eu saí de casa, eu saí pras vizinhança lá, da minha
mãe: ‘olha, quem tem fogão pra dar, quem tem mesa pra dar, me dá aí, porque eu
vou morar fora e não tamo com grana pra comprar nada, agora’. Então, a primeira
mesa que eu tive era mesa bem antiga, mas bem fortona, assim; que a mesa já veio
de um bazar, que já tinha sido de não sei quem. Beleza, a mesa. As cadeiras, meu pai
sempre mexeu, também, um pouco com madeira, então era assim, uma cadeira era
uma mais alta, outra era mais baixa, em tons diferentes.
[...]
O sofá – o sofá, eu arrumei um sofá há uns dois anos, que era de um amigo meu. O
pai dele fez esse sofá – que eles moravam na Inglaterra [...]. Aí, ele era todo molenga,
as almofadas tavam lá, era aquele tecido até hoje, depois de vinte anos, e tal, o sofá
já era de uma república... aí eu falei ‘meu Deus, esse tecido vai ter que sair daqui.
Não pode ficar, não adianta nem benzer, nossa... não.’ Aí, a minha mãe, com a arte
dela, da costura, ela renovou, então, o sofá. Meu pai parafusou todo ele, reforçou, a
minha mãe fez novas almofadas, com tecido novo. Com o tecido que sobrou da
reforma desse sofá, a gente fez uma cortina pro quarto, com um varão; simplesona,
assim – deu um nozinho, lá, e ficou o máximo. É um verde, um verde bacana.”
(Analu)

Mas, se ainda considerarmos a casa habitada em sua materialidade,


podemos aplicar a ela, tanto quanto aos próprios objetos que nela inserimos e que
compõem o nosso habitar doméstico, a consideração de Ecléa Bosi, segundo a qual...

“Ainda que a sociedade queira, de todos os modos, mostrar que os objetos têm valor
em si mesmos, é o sujeito, o causador histórico do valor dos objetos: somos nós que
damos alma aos objetos, transformando sua neutralidade em apoio à nossa
identidade.” 38

38
Dito pela professora Ecléa Bosi durante o curso PST5720 – Cultura e Memória Social, ministrado
no segundo semestre de 2005, no Instituto de Psicologia da USP.

72
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

É no sentido que Bosi dá ao processo de atribuição de valores aos nossos


objetos, ocorrido ao longo da história de nosso convívio com eles, que podemos
considerar a própria casa física como um objeto que vê transformado o modo como é
percebido por seus usuários, através do seu uso, ao longo do tempo. Quer dizer, uma
vez tomada pelo uso, a casa, como objeto geometricamente mensurável e
comercialmente avaliável, passa a ter sua objetividade estrutural animada pelos
significados pessoais que nela projetamos através da prática cotidiana do nosso
habitar doméstico (Camargo, 2001; p. 174). Como dirá King, o habitar doméstico
transforma a casa, tal “como a alma anima o corpo” (King, ibidem; p. 60).
Ao passarmos a habitar uma nova casa – ainda um objeto comum para nós,
por não termos agregado a ela nossos significados e valores pessoais –, começamos a
incorporamos à sua estrutura física nossas escolhas, em termos de funcionalidade,
conforto, privacidade, estética, convenções espaciais, etc. Além disso, essa casa passa a
se revestir de novas dimensões referentes às nossas necessidades, expectativas e
aspirações em relação ao habitar que passamos a nela praticar. Passando a funcionar
como um “amplificador” de nossos valores pessoais (King, ibidem; p. 77), o objeto
concreto da etapa anterior à sua ocupação tem seu significado transformado.
Passamos a vê-lo não mais exclusivamente através de suas características geométricas,
como uma “caixa inerte” (Bachelard, 2003; p. 62), ou como uma simples commodity39.
Com isto, transforma-se, também, a percepção da experiência de habitá-lo.
Sob a ótica fenomenológica de Bachelard, essa transformação é descrita
como o processo através do qual o espaço habitado passa a ser vivido em um nível que
ultrapassa a sua positividade. Isso ocorreria quando o lugar que encontramos para
abrigar nosso habitar privado passa a ser, de fato, habitado, vivido, fazendo, assim,
revelar-se a “essência da noção de casa”. Na medida em que isto acontece, dirá o
autor, trazemos para nossa casa nossas lembranças de domesticidade, juntamente com
todos os valores de sonhos já experimentados no curso da história de nossas moradas
passadas; trazemos, também, nossos esquecimentos e nosso inconsciente. É nesse
momento que nossa imaginação passa a funcionar como um sensibilizador dos
limites do espaço geométrico. Construímos “paredes” imaginárias, “com sombras
impalpáveis”, reconfortando-nos com tais “ilusões de proteção”. Ou, inversamente,
também podemos sentir-nos amedrontados diante dos mais grossos muros e “duvidar

39
Commodity: qualquer produto produzido em massa. In: Houaiss, 2001

73
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

das mais sólidas muralhas”. Com isto, nossa casa passa a existir para nós, seres
abrigados, não apenas no sentido linear do dia-a-dia, no curso da história de sua
existência. Em uma relação de eterna dialética, passamos, assim, a vivê-la
simultaneamente “em sua realidade” e – através do pensamento e dos sonhos – “em
sua virtualidade” (Bachelard, ibidem; p. 20, 24, 25).
E, ainda segundo Bachelard, na medida em que a casa se torna mais
complexa, com um maior número de recantos e nichos – um porão e um sótão,
cantos e corredores –, nossas lembranças encontram “refúgios cada vez mais bem
caracterizados”. Assim, ao habitarmos nossa casa, passamos a reconhecer seus
benefícios que vão além da realidade concreta e presente; sendo que, para o autor, de
todos os benefícios da casa, o “mais precioso” é o de abrigar nossos devaneios e de
nos proteger ao sonhar; permitir que sonhemos em paz (Bachelard, ibidem; p. 26, 27-
28).
Não surpreende que tais qualidades da casa tenham inspirado poetas em
várias épocas:

Deserta a casa está... Entrei chorando


De quarto em quarto, em busca de ilusões!
Por toda a parte as pálidas visões!
Por toda a parte as lágrimas falando!

Vejo meu pai na sala, caminhando,


Da luz da tarde aos tépidos clarões,
De minha mãe escuto as orações
Na alcova, aonde ajoelhei rezando.

Brincam minhas irmãs (doce lembrança!...)


Na sala de jantar... Ai! Mocidade,
És tão veloz, e o tempo não descansa!

Oh! Sonhos, sonhos meus de claridade!


Como é tardia a última esperança!...
Meu Deus, como é tamanha esta saudade!...

(José Bonifácio, o Moço [poeta romântico brasileiro (1827-1886)]. Soneto) (Bonifácio, 1962) 40

40
Bonifácio, 1962. Apud www.unesp.br/vestibular/pdf/provap_jul03.pdf.

74
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Como a ave que volta ao ninho antigo,


Depois de um longo e tenebroso inverno,
Eu quis também rever o lar paterno,
O meu primeiro e virginal abrigo:

Entrei. Um Gênio carinhoso e amigo,


O fantasma, talvez, do amor materno,
Tomou-me as mãos, – olhou-me grave e terno,
E, passo a passo, caminhou comigo.

Era esta sala... (Oh! Se me lembro! E quanto!)


Em que da luz noturna à claridade,
Minhas irmãs e minha mãe... O pranto

Jorrou-me em ondas... Resistir quem há-de?


Uma ilusão gemia em cada canto,
Chorava em cada canto uma saudade.

(Luís Guimarães Júnior [poeta parnasiano brasileiro (1845-1898)]. Visita à Casa Paterna)41

Eu cheguei em frente ao portão, meu cachorro me sorriu latindo


Minhas malas coloquei no chão, eu voltei
Tudo estava igual como era antes, quase nada se modificou
Acho que só eu mesmo mudei, eu voltei
Eu voltei, agora pra ficar, porque aqui, aqui é o meu lugar
Eu voltei pras coisas que eu deixei, eu voltei
Fui abrindo a porta devagar, mas deixei a luz entrar primeiro
Todo meu passado iluminei, e entrei
Meu retrato ainda na parede, meio amarelado pelo tempo
Como a perguntar por onde andei e eu falei
Onde andei não deu para ficar, porque aqui, aqui é o meu lugar

(Roberto Carlos [compositor e cantor brasileiro (1941-)]). O Portão (gravada em 1976)42

Considerando a casa habitada o lugar do cultivo da alma, Clare C. Marcus


propõe a seus leitores o “exercício” de investigar como eles cultivam sua alma dentro
das próprias casas (Marcus, 1997, p. 281). Ao falar de sua própria experiência

41
Sonetos e Rimas. In: Guimarães Júnior. Sonetos e Rimas. Apud
www.unesp.br/vestibular/pdf/provap_jul03.pdf
42
In: http://pt.wikipedia.org/wiki/Roberto_Carlos.

75
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

doméstica, a autora torna patente as considerações de Bachelard vistas acima. Através


de seu depoimento, a autora tanto nos fala da espiritualidade que leva à percepção da
casa como o lugar de preservação da vida interior, quanto nos faz recordar a
importância da fisicalidade dessa casa como meio de estarmos em contato com o
mundo lá fora – aspectos do habitar domésticos já abordados anteriormente:

“Para mim, significa ter um lugar e um tempo para reflexão para a minha
imaginação estar livre. Sentar-me sozinha em frente a uma lareira, sentindo seu
calor, observando a dança das chamas, o brilho das brasas, o dom da árvore
lentamente se transformando em luz – esta é uma hora e um lugar para a alma.
Sentar embaixo de um abacateiro no meu jardim, meus olhos apreciando as
samambaias e as azáleas, os seixos arredondados pelo oceano, e uma pequena
estatueta de Buddha; […]. Eu acho que meu jardim é preeminentemente um lugar
para a minha alma – um lugar que não tem nada a ver com projeção do ego ou
status social, mas tem tudo a ver com um anseio por reconhecer a conexão com
tudo, com o anima mundi, com a alma do mundo.” (Marcus, ibidem; p. 281)

Assim, é dessa forma que a casa “realmente habitada” de que nos fala
Bachelard trará patente a diferença entre um “objeto protocolar”, tal como Bosi o
descreve – aquele que a moda valoriza, que não se enraíza nos interiores, que tem
garantia por um ano e que não envelhece com o dono, mas se deteriora –, e aqueles
objetos com os quais estabelecemos laços ao longo da história dos nossos habitares
domésticos; os quais, “mais que da ordem e da beleza, falam à nossa alma em sua
doce língua natal”. Segundo a autora, “as coisas falam, sim”, e não há porque exigir
palavras de uma “comunhão tão perfeita” (Bosi, 2003; p. 441, 442).
A este respeito, Otto F. Bollnow lembrará da sensação de estranhamento e
frieza que jovens casais têm em relação à sua primeira casa e aos objetos que
adquirem. Essa sensação só se desfaz à medida em que, lentamente, essas coisas –
inclusive a casa – são assimiladas pelo uso prolongado, pela adição paulatina de mais
objetos, ou pela eliminação de outros, e também, pelo desgaste resultante do uso.
Deste modo, a casa não seria apenas a expressão do homem, mas também o reflexo
de um longo passado – e nisto inclui-se tudo o que há de história nela. Ao longo do
tempo, os próprios sinais do uso, até mesmo as leves deteriorações, adquiriam valor
positivo para nós (Bollnow, 1969; p. 141). Como bem afirma Bosi, ...

76
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

“O espaço que encerrou os membros de uma família durante anos comuns, há de


contar-nos algo do que foram essas pessoas. Porque as coisas que modelamos
durante anos resistiram a nós com sua alteridade e tomaram algo do que fomos.”
(Bosi, ibidem; p. 443)

Ao mobiliar sua casa com objetos usados, Analu se dá conta da história impregnada
em cada um desses objetos, e se sente estimulada a, no curso da história de seu
habitar doméstico, também ela passar a agregar a sua história a esses objetos. Em
uma perfeita representação da “simbiose” entre a fisicalidade das estruturas
objetivas que apóiam o cotidiano e o seu significado subjetivo, de que nos fala King,
Analu fala da importância de esses objetos serem suficientemente resistentes para
continuarem incorporando as “energias” que ela passa, agora, a neles depositar
através do uso em seu habitar doméstico:

“[...] cada coisa que eu adquiro, às vezes, eu penso de benzer. Porque já veio de uma
outra história e vai começar uma nova história. Eles tiveram em outras casas, com
outras vivências. Mesmo essa cama que eu comprei agora – pô, ela é de 1940!
Quanta coisa não rolou, quanta gente, de repente, já chorou em cima dela, já sorriu,
né, fez milhões de filhos, teve uma noite boa ou ruim de sono... de repente é válido
benzer... ou passar um bom pano com lutra‐móvel [risos], jogar umas pétalas de
rosa... Porque eu acredito mesmo nisso, que cada coisa tem seu histórico; como a
minha casa – ela é composta por coisas que foram de outras pessoas, elas tão
vibrando ali, também.
[...]
Tudo que eu pego é usado, mas eu gosto de olhar assim: eu quero que o negócio
dure mais cinqüenta anos. Já viveu cinqüenta, então, agora, vai viver mais cinqüenta.
Essa coisa de móveis da casa Bahia, que você bota a mão e faz nhec, nhec, nhec,
parece que aquilo não vai receber nem energia nenhuma na convivência com ele
[risos]; ele não tá capacitado pra isso [risos]. Se começar a mandar muita coisa ali, ele
vai começar a despencar, não agüenta [risos]! Móveis, é uma coisa que eu sempre
desejo ter. Eu gosto muito de coisas antigas porque eu acredito mesmo nessa coisa
de elas trazerem coisas pra dentro, energeticamente, outras vibrações. E, ao mesmo
tempo, também, são móveis que vão resistir a experiências novas. Minhas panelas
também têm uma super‐história porque é de quando meu pai e minha mãe casou.
Isso, já tá com trinta e seis anos, acho. Então, são tudo panelas, nem falo antigas,
porque são velhas, mesmo. Mas, são fortes, são resistentes, eu gosto.” (Analu)

77
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

A casa como abrigo de relacionamentos

Diante do que vínhamos falando, é preciso ressaltar que o propósito do


processo de reunir objetos na casa habitada não é simplesmente o de acumular coisas.
Isto porque, tão importante quanto as coisas e objetos que possuímos guardados em
nossa casa é com quem nela os partilhamos. É neste sentido que King afirma que
muito do que temos em casa como querido não são apenas posses, mas relações
afetivas. Para o autor, uma função chave da casa seria “abrigar aquelas coisas e aqueles
seres que amamos e queremos ver protegidos” (King, ibidem, p. 60). De forma
semelhante, Chaney afirma que o que conta como casa, para qualquer pessoa, é
definido por conexões emocionais – “a casa é onde está o coração” (Chaney, ibidem; p.
59).
Referindo-se à carta escrita por Sigmund Freud a sua noiva, Martha
Bernays, na qual ele elabora uma lista dos objetos que considera “essenciais” para o
“‘pequeno mundo de felicidade’” que pretendem construir, Peter Gay afirma que a
casa é vista por Freud como um refúgio, um repositório de memórias, uma fonte de
prazer; e que tudo isto viria permeado pela afeição (Gay, 1984; p. 441-442). As
palavras de Freud, transcritas por Gay, revelam o entendimento do primeiro em
relação aos objetos domésticos: alguns, como “testemunha[s] para o trabalho sério
que é manter uma casa”, e outros, menos solenes, com o dom de revelar “o amor à
arte, o apreço a amigos de quem se gosta de lembrar, a cidades que se viram, a horas
que se gosta de trazer de volta à mente” (Freud, 1960. Apud Gay, ibidem).
Assim, podemos dizer que a importância do contexto que criamos e de
que nos cercamos para habitar privadamente – o próprio ambiente doméstico
constituído de nossa casa física, dos seres, e das coisas que valorizamos – reside no
quê e quanto ele significa para nós. O livro “Lembranças por Metro Quadrado”, foi
escrito por Regina Rodrigues (2003)43 para documentar as memórias afetivas
relacionadas ao seu habitar doméstico vivido ao lado da família, desde criança até o
momento em que, adulta, deixou a casa dos pais. Através das lembranças, ora
referentes à fisicalidade dos apartamentos onde viveu, ora às relações familiares ali

43
De publicação independente.

78
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

estabelecidas, a autora reconhece o papel dos relacionamentos com familiares e


amigos estabelecidos, ao longo dos anos, como a própria alma do lugar habitado:

“Mamãe era a alma da casa. O bom humor e alegria eram seus instrumentos de
agregação. Na nossa casa [...] o tom era de alegria. Os parentes, os amigos dos
filhos, netos e bisnetos eram sempre bem-vindos. Muitos primos passaram grandes
temporadas em nossa casa, estudando, trabalhando, resolvendo problemas. E havia
lugar para todos, na casa e no coração.” (Rodrigues, 2003; 137-138)

Conheci a entrevistada Dona Lorena, 78 anos e aposentada, quando ela morava em


uma casa que fica defronte à minha. Um grande Ipê Amarelo na calçada, assim como
as flores do jardim, das quais ela cuidava diariamente como muita dedicação, foram
plantados por ela ao longo dos quarenta anos em que viveram nessa casa – ela, seu
marido e os dois filhos. Na época em que a conheci, havia uma placa de “VENDE‐SE”
fixada ao seu portão. Viúva, os filhos casados, e ela morando sozinha, foi com grande
tristeza que, resolveu ceder às argumentações dos filhos para que vendesse a casa e
se mudasse para um apartamento: seria “mais seguro” para ela. Além disso, a venda
da casa seria uma maneira de ajudar financeiramente aos filhos. Ao se mudar para o
atual apartamento, D. Lorena contou‐me que deixar sua casa significava, também,
deixar para trás o período mais feliz de sua vida: período em que, em sua memória,
misturam‐se lembranças do grande amor que vivera ao lado do marido, da felicidade
ao ver os filhos crescer, da própria realização profissional, do convívio constante com
a família – e, principalmente, o fato de tudo isto ter sido vivido e partilhado naquela
casa.

Mesmo estando fisicamente instalada em seu novo apartamento, D. Lorena


permanece, até hoje, emocionalmente conectada à antiga casa, o que não permite
que seu novo espaço doméstico seja – como nas palavras de Bachelard –
sensibilizado com a “essência da noção de casa” (Bachelard, ibidem; p. 25). Como
prova de que a eventual segurança física que o morar em um apartamento pudesse
oferecer em relação à sua antiga morada – argumento utilizado pelos filhos para
convencê‐la a mudar‐se – não é a condição suficiente para que ela pudesse passar a,
de fato, habitar seu novo abrigo, o qual não consegue sentir como acolhedor de suas
memórias e referências de domesticidade, D. Lorena, enfim, ainda não habita
realmente sua nova casa:

79
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

[Depoimento gravado:] 44

“[...] Deixe eu pensar, já estou esquecendo... Eu tenho aí as fotos. Era menor, a frente
não era assim, a garagem era lá no fundo, era completamente diferente. Mas,
bonita... tinha um terraço bonito na frente... O meu marido tinha um amigo que era
engenheiro da Prefeitura. [...] E ele que trouxe as plantas da minha casa, na frente.
Coisas bonitas, nos vasos que ele mandou fazer. [...] Esse amigo tinha um filho que
chamava Cícero. E o meu marido botou o nome do nosso filho de Cícero porque ele
adorava esse rapaz. Então, foi assim que nós começamos a nossa casa. Não tinha
nada na rua. Na frente tinha uma árvore, o meu filho andava com um estilingue,
sabe? Não tinha nada... Aí, domingo à tarde, assim, domingo de manhã, tinha um
tronco enorme no chão. Aí a gente sentava ali porque não tinha nada! Nada, nada.
[...]
Então, querida, eu fui – eu acho – uma pessoa muito feliz na minha casa, na minha
vida. Lá eu recebia meus amigos, minha família – tinha sempre alguém lá. Eu sempre
gostei muito disso. Pra mim, isso que é casa! Eu tive um trabalho maravilhoso, que
eu adorava! Meu marido, um marido especial. Meus filhos, minha família, tinha meus
irmãos que eu adorava. Então, eu fui muito feliz naquela casa.

Olha as coisas que eu tenho aqui em casa! Olha isso aqui: quando o meu irmão foi
para a Itália, ele fez um curso de cerâmica... olha isso que ele fez pra mim [mostra
um objeto de cerâmica com a forma da letra “L”, de “Lorena”]. Quer ver mais uma
coisa? Venha aqui! [tira algo do armário] Isto, quando meu filho nasceu, o Edson –
quantos anos faz? Quarenta e tantos! – aí, eu fiquei em casa, de licença do trabalho.
[...] Um dia, eu estava em casa, aí um menino do Instituto45 veio em casa: ‘Dona
Lorena, o seu Jaques falou pra senhora fazer o favor de ir lá no Instituto, que ele quer
falar com a senhora’. Eu falei, ‘nossa, que será?...’. Fiquei com medo, né, vai que eu
fiz alguma coisa errada. Aí, eu fui lá, entrei na sala dele. Aí, ele entrou, e veio com
isso aqui na mão [mostra um brinquedo de bebê]. [...] E me deu isto aqui! [risos].
Então, são coisas que a gente tem e lembra, né?...”

[Frases ditas por D. Lorena e anotadas posteriormente:]

“Eu, meu marido e meus filhos fomos muito felizes naquela casa.”

44
Pelo fato de a presença do gravador causar grande constrangimento à entrevistada, apenas parte de
seu depoimento foi registrada em gravação. Outra parte deu-se em forma de uma conversa informal,
da qual algumas frases foram anotadas posteriormente ao nosso encontro.
45
Lugar onde D. Lorena trabalhou.

80
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

“Eu fiquei muito triste, chorei muito quando decidi vender a casa: porque aquela
casa é a minha vida.”

“Aqui é tudo muito pequeno, não cabe nada. Tive que deixar minhas plantas. Toda
vez que eu penso nisso, choro [lágrimas].”

“Esse carrinho de chá, eu e o meu marido fomos muuuito felizes com ele. Essa louça
foi o meu marido que me deu de presente, quando nós éramos noivos. É muito duro
ter que vender essas coisas todas porque não cabem nesse apartamento [lágrimas],
mas, fazer o quê?”

“Tudo isso é muito triste. Eu tenho ido à minha psicóloga e ela já me disse que, se eu
tive uma vida tão boa, eu tenho que ficar feliz. Agora, eu sei que tudo isso passou, é
passado.”

“Eu vendi a casa, comprei esse apartamento, e o resto do dinheiro, eu dei pros meus
filhos. Tem um que não tem a cabeça no lugar e não vai bem nos negócios. Eu tinha
que ajudar.” (D. Lorena)

A propósito da rejeição do velho por parte da sociedade industrial, Bosi


comenta que, diferente do que ocorre em relação à criança, na qual “o adulto
‘investe’ para o futuro”, em relação ao velho, age-se com “duplicidade e má fé”. Se,
por um lado, “a moral oficial prega o respeito ao velho” por outro, quer que o velho
ceda seu lugar aos jovens, o que pode ser verificado no interior das famílias, com a
cumplicidade dos adultos voltada a manejar e imobilizar os velhos com cuidados
“para ‘seu próprio bem’”; “em privá-los da liberdade de escolha, em torná-los cada vez
mais dependentes, ‘administrando’ sua aposentadoria, obrigando-os a sair de seu
canto, a mudar de casa” – experiência que a autora qualifica como “terrível para o
velho”. (Bosi, ibidem; p. 78). Segundo Bosi, o desenraizamento seria uma “condição
desagregadora da memória”. Isto porque ter um passado é um direito da pessoa que
deriva desse enraizamento. Assim, privar o velho das lembranças – muitas delas,
talvez as mais importantes, guardadas no espaço físico da casa que é
“despersonalizada” e transformada em capital – seria, como afirma Bosi “um dos mais
cruéis exercícios da opressão econômica sobre o sujeito” (Bosi, ibidem; p. 443).
Especialmente, em relação aos haveres pessoais dos velhos, Yi-Fu Tuan
dirá que eles têm uma importante participação na definição do sentido do eu, uma

81
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

vez que já estão muito cansados para fazê-lo através de projetos e ações, interações
sociais ou visitas a lugares que poderiam trazer-lhes lembranças carinhosas. Assim,
através das coisas possuídas – objetos aos quais estão emocionalmente apegados [e aí,
podemos incluir o próprio objeto casa] – o sabor das experiências vividas no passado
permanecem pairando sobre eles (Tuan, 1983; p. 207).

A entrevistada D. Antônia, uma dona‐de‐casa de 77 anos, descreve um drama


parecido com o que viveu D. Lorena. Nos últimos dois anos, as duas pessoas com
quem D. Antônia – uma dona‐de‐casa de 77 anos – dividia o seu espaço doméstico
faleceram: seu marido e sua mãe. Agora, morando sozinha, à semelhança do que
ocorreu com D. Lorena, D. Antônia enfrenta a insistência do filho para que venda a
casa, em que vive há trinta anos, e se mude para um apartamento. Mulher
entusiasmada com a vida, D. Antônia confessou, em seu depoimento, que “nunca”
chora; mas que, se tiver que deixar sua casa, “com certeza”, vai chorar. As falas de D.
Antônia revelaram como as ações e os relacionamentos ali estabelecidos – desde a
busca e a adaptação à nova casa, passando pelos trinta anos de convívio familiar, até
o momento em que as presenças do marido e da mãe foram substituídas por
lembranças de relacionamentos – passaram a compor sua própria experiência de
habitar sua casa, e quão penoso será desprender‐se dela para vendê‐la. Assim,
diante do argumento do filho – “esta casa é muito grande para a senhora” – poder‐
se‐ia questionar: com que critério se avalia o tamanho de uma casa? Seria, mesmo, a
casa de D. Antônia grande demais, considerando‐se todas a experiências ali vividas e
guardadas?

“[...] a gente acabou ficando com esta [casa] porque eu gostei da rua e o meu marido
se encantou com o morro que tinha aí atrás. Era um morro que ia até o fim do
terreno. Aí, ele construiu a garagem e fez o caramanchão.
[...] eu achei que ele [o marido] teve muito sossego. Ele se distraiu fazendo o
caramanchão, arrumando a garagem; fez um quarto pra guardar as bagunças da
casa... E eu achei que ele acabou gostando muito daqui, viu? [...] Os meus netos
também aproveitaram muito esta casa porque eles moravam em apartamento, então
adoravam vir pra cá. Eles brincavam, passavam o dia inteiro brincando aqui.
[...]
Eu acho que eu vou ficar muito triste [se precisar deixar a casa]. Olha, eu vou dizer:
eu nunca choro, mas seu eu sair daqui, eu tenho certeza que eu vou chorar. Afinal,
são trinta anos aqui! Mas o meu filho acha que a casa ficou muito grande pra mim,
que não é bom eu morar sozinha, e que é melhor eu me mudar para um
apartamento. Ele já até mandou uma corretora avaliar a casa. Eu não sou mais tão

82
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

jovem – eu já tenho 77 anos! – mas, por enquanto, eu me sinto, ainda, muito bem...
solta! Eu fico totalmente segura, não tenho medo nenhum de dormir aqui. Eu já falei
pra ele, mas ele não entende, não vê isso – ele se preocupa, né?” (D. Antônia)
****

O depoimento da entrevistada D. Dalma, 72 anos, aposentada e moradora de uma


instituição para idosos, é, também, uma testemunha da mescla dos sentidos físico e
emocional – este último formado por lembranças de relacionamentos – que as
memórias de uma casa onde se morou pode conter:

“[Que lembranças a senhora tem da casa da sua infância?]


Eu sempre morei com meus pais, sempre. Sou descendente de italianos. Éramos
cinco, meus pais e nós três. [...] Nós morávamos no interior do Paraná. Eu me lembro
muito dessa casa: levantávamos cedo, tinha aquele quintal imenso, com muita fruta.
Carambola, romã, jabuticaba, até limão! No tempo das frutas, a gente ia comer lá no
pé – as que caíam no chão, já não prestavam... que coisa boa!
[...]
Naquela época era muito bom porque as casas eram grandes. Na frente era o jardim,
e depois era o pomar. A casa era simples – de tijolo, mas era simples. O mais bonito
dessa casa é que ela tinha uma varanda em toda a volta. A cerca da varanda era alta,
meu pai fez um portão branquinho, nossa, a casa era linda! Tudo simples, mas com
muito capricho. Aquelas toalhinhas de crochê, as cortininhas... Eu me lembro de uma
despensa – acho que era do tamanho deste dormitório – só para os mantimentos.
Minha mãe fazia uma quantidade de doce em calda, pão, frutas, e depositava tudo
ali. Minha mãe era de um capricho impressionante! E eu acho que eu herdei isso: vai
lá ver o meu guarda‐roupas! Detesto roupa, assim [faz um gesto], enrolada,
iihh...não, comigo não! [...] ...Mas a minha mãe era muito caprichosa, fazia trabalhos
manuais, aquele crochê miudinho... que mão divina!” (D. Dalma)
****

Outra entrevistada, D. Paulina, 85 anos, também vive em uma instituição para idosos.
Após perder o marido, com quem viveu por mais de seis décadas, resignou‐se ao fato
de “lá fora” não ter “mais significado nenhum”, e mudou‐se voluntariamente para o
asilo. A perda do amor de sua vida fez com que ela renunciasse ao ânimo de viver, e,
com isto, à própria casa onde viveram – uma vez que essa casa, que participara
ativamente, com sua fisicalidade, de sua vida ao lado do marido, tornava‐se, então,
vazia, des‐animada, refletindo apenas lembranças de um tempo feliz irrecuperável.
Ou, como traduz King, sua casa deixou de ser um espaço de carinho e partilha e se

83
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

tornou um espaço de lacunas – “uma casca vazia, em vez de um ninho quente” (King,
ibidem; p. 152).

Conforme observa Tuan, sobre a morte do companheiro de uma vida, pessoas idosas
podem não querer sobreviver por muito tempo diante de tal perda; mesmo quando
dispõem de condições materiais para continuar vivendo. Isto, devido ao fato de elas
terem aprendido a ver na pessoa amada o seu lugar de repouso; tendo passado a, de
fato, morar no amor de outrem. O ser amado adquiriu para essas pessoas o sentido
de verdadeiro lar (Tuan, ibidem; p. 154) – o que representa o maior grau de mescla
entre as idéias de habitar doméstico e relacionamentos ali estabelecidos.

A respeito de quando a entrada de alguém em uma instituição é voluntária, como no


caso de D. Paulina, Ervin Goffman observa que essa pessoa “parcialmente já se
afastara de seu mundo doméstico [..., que é] algo que já tinha começado a definhar”
(Goffman, 1974; p. 25). Ao refletir sobre sua atual moradia, D. Paulina ainda procura
tornar racional a conformidade diante da saudade e do vazio que permanece em sua
alma, mas, o tom de sua voz e o ritmo de suas palavras, deixam transparecer um
estado de espírito de permanente melancolia em relação ao seu atual habitar.

“[...] Sabe, eu acho que meu lugar é aqui, porque lá fora não tem mais significado
nenhum.
[...]
Sabe porquê? Eu gostava muito do meu marido, e ele de mim; a gente viveu muito
bem. Ficamos casados durante 62 anos. Eu casei com 17 anos. Se Deus não o tivesse
levado, estaria com ele até hoje. Eu gostava muito de cuidar da minha casa e,
principalmente, de cuidar dele. Quando ele se foi – por causa de uma pneumonia, ele
faleceu em quatro dias –, a terra me faltou debaixo dos pés. Aí, olhava para um lado,
para o outro, e não tinha mais ele. Eu não queria de jeito nenhum continuar na nossa
casa. Tinha sido muito bom lá – eu morreria de tristeza.

Eu sinto que, agora, minha casa é aqui – eu me sinto feliz aqui. É claro que não é
como a casa da gente – e nem pode ser! Mas, se Deus me colocou aqui, eu tento me
sentir bem de uma outra forma. Tem pessoas que moram aqui, que são revoltadas,
mas elas têm que entender isso: têm que entender que a vida da gente acabou!” (D.
Paulina)
***

84
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

O entrevistado Reginaldo46 contou‐me que, devido ao seu trabalho, como consultor


de empresas, passa “90%” de seu tempo longe de casa, inclusive fora do país.
Explicou que esse fato o faz sentir muita falta do bem‐estar experimentado no
espaço doméstico, em companhia de sua família. Nos poucos momentos que pode
partilhar dessa relação, Reginaldo traz referências dos hábitos domésticos e da
própria casa da infância, quando a família se reunia para jantar, projetando essas
referências nas atuais relações estabelecidas em sua casa. Ainda que a realidade seja
outra, e que ele não possa estar reunido como sua família constantemente, como
fazia seu pai, as práticas domésticas do passado estabelecem uma conexão entre seu
habitar doméstico atual e o tempo de uma domesticidade já experimenta e que
deixou saudades. Desta forma, como dirá Marcus, Reginaldo “reacende a conexão
espiritual” com o habitar doméstico encontrado pela primeira vez, na casa da
infância (Marcus, ibidem; p. 253):

“[...] Como eu passo a vida inteira fora, e sou muito apegado aos meninos, então,
quando eu chego, quero ficar com eles o máximo de tempo que eu posso. E aí,
também tenho que curtir minha casa, que eu não tenho durante todo o tempo.

Eu acho que é porque eu venho de uma família muito grande. E sempre moramos em
casa, numa casa muito grande. Somos sete irmãos, quatro mulheres e quatro
homens. A gente sempre jantava junto, na casa dos meus pais. Meu pai não era um
homem formal, muito pelo contrário. Mas, no jantar, ele gostava de estar junto com
todo mundo. Eu também gosto de jantar junto com a minha família, eu trouxe isso na
minha vida, é um negócio que me faz bem.” (Reginaldo)

A seguir, dois exemplos poéticos demonstram a associação do espaço físico


da casa às referências de relações afetivas ali estabelecidas, assim como a transferência
emocional e a atribuição de qualidades subjetivas ao espaço, resultantes dessas
relações. No primeiro exemplo, através de seus versos, Pablo Neruda (1999) atribui à
casa a personalidade de sua amada, trazendo imagens poéticas que traduzem os sons,
cores e movimentos das ações de seu cotidiano doméstico: “Tua casa ressoa como um
trem ao meio-dia”. Como recurso para transmitir sua intensa admiração à vibrante
natureza da mulher, e ao ânimo que ela empresta ao espaço em que habita, o poeta
atribui poesia aos fatos corriqueiros percebidos do dia-a-dia – “A luz azul do muro
conversa com a pedra”– enquanto apresenta, de forma a descrever o pulsar da casa, uma
seqüência de ações praticadas pela mulher: “Sobes, cantas, corres, caminhas, desces (...)”.
46
Apresentado no Capítulo 1.

85
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

XXXVIII XXXVIII

Tua casa ressoa como um trem ao meio-dia, Tu casa suena como un tren a mediodía,
zumbem as vespas, cantam as caçarolas, zumban avispas, cantan las cacerolas,
a cascata enumera os feitos do orvalho la cascada enumera los hechos del rocío,
teu riso desenvolve seu trinar de palmeira. tu risa desarrolla su trino de palmera.

A luz azul do muro conversa com a pedra, La luz azul del muro conversa con la piedra,
chega como um pastor silvando um telegrama llega como un pastor silbando un telegrama
e, entre as duas figueiras de voz verde, y entre las dos higueras de voz verde,
Homero sobe com sapatos sigilosos. Homero sube con zapatos sigilosos.

Somente aqui a cidade não tem voz nem pranto, Sólo aquí la ciudad no tiene voz ni llanto,
nem sem-fim, nem sonatas, nem lábios, nem buzina ni sin fin, ni sonatas, ni labios, ni bocina,
mas um discurso de cascata e de leões, sino un discurso de cascada y de leones,

e tu sobes, cantas, corres, caminhas, desces, y tú que subes, cantas, corres, caminas, bajas,
plantas, coses, cozinhas, pregas, escreves, voltas plantas, coses, cocinas, clavas, escribes, vuelves
ou te foste e se sabe que começou o inverno. o te has ido y se sabe que comenzó el invierno.

(Neruda, 1999; p. 52) (Neruda, 1999; p. 52)

No segundo exemplo, de Fernando Pessoa, as emoções vividas pelo poeta,


quando criança, em dias de seu aniversário, são descritas de modo que a casa da
família se torna algo vivo, também a saldá-lo e a fazer parte das emoções relembradas.
Sem mais esperanças para sua vida, no momento em que se percebe distante dessa
casa e da felicidade que ela incorporava, a casa reaparece, nos versos de Pessoa,
enfeitada para representar toda a sua nostalgia, por ele não poder novamente viver os
dias felizes de antes.

ANIVERSÁRIO
No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,


Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.

86
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.


Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.
Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui – ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,


Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!
Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas – doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado –,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!


Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...”

(Pessoa, 1972; p. 379)

87
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

A casa como espaço do individuo

Toda essa análise sobre a transformação da percepção da casa habitada


sugere uma relação de reciprocidade entre a pessoa e a casa habitada. Se, por um
lado, ao usarmos a casa como local físico do nosso habitar privado, atribuímos valores
ao seu caráter de objeto comum, por outro lado, mais que simplesmente uma
estrutura física, a casa passa a ser percebida por nós, que a habitamos, como uma
entidade particular e única, capaz de acolher nossa subjetividade, e nos oferecer apoio
emocional; onde, enfim, encontramos conforto, no sentido lato da palavra:

Conforto do Latim conforto,as,avi,atum,are: animar, confortar, consolar


(Cretella e Cintra, 1953)

Segundo Witold Rybczynski, o termo tem em sua raiz latina, confortare, o


sentido de fortalecer ou consolar – significado que se manteve durante séculos. E é
neste sentido que ele também é usado na teologia: o “Comforter” (consolador) era o
Espírito Santo, em inglês. O autor conta-nos que, ao longo do tempo, ao termo
acresceu-se o sentido jurídico e que, no século XVI, “comforter” era alguém que havia
sido cúmplice de um crime (Rybczynski, 1996, p. 34). Se buscamos o termo cúmplice
no dicionário, vemos que ele significa aquele “que possibilita, favorece, concorre na
realização de algo” (Houaiss, 2001) – o que confirma o sentido de “apoio” dado ao
termo. Ampliada tempos depois, segundo Rybczynski, essa noção foi para pessoas e
coisas que precisassem de uma certa satisfação, ainda que sem exageros. E só no
século XVIII, este sentido estendeu-se, passando de algo apenas conveniente para se
referir a algo que proporcionasse “o sentido de bem-estar físico e de prazer”
(Rybczynski, ibidem). Considerando especificamente a esfera doméstica, e antes
mesmo de começar a discorrer sobre o conforto como um “novo modo de vida
doméstica” proposto pela burguesia industrial47, Tomás Maldonado irá referir-se ao
conforto como uma “função compensatória”, a busca pelo restauro – tanto físico
quanto psicológico – da energia que despendemos no “mundo hostil externo do
trabalho” (Maldonado, 1996; p. 249-250).

47
Tema que abordaremos no capítulo seguinte.

88
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Considerando os sentidos de conforto vistos acima, podemos entender a


consideração de Bachelard, de que a casa, que funciona física e espiritualmente –
tanto por nos manter protegidos das imprevisibilidades do mundo, quanto por
acolher os nossos sonhos, ao longo de nossas vidas –, seria o nosso “grande berço”,
sem o qual viveríamos dispersos pelo mundo (Bachelard, ibidem, p. 26). Bollnow
ainda acrescentará a essa concepção que até mesmo no momento em que mais
estamos indefesos – ao dormirmos – a casa deve ser de tal forma acolhedora, “digna
de confiança”, que o homem possa entregar-se a ela sem reservas (Bollnow, ibidem; p.
169).

Da entrevistada Analu, em relação ao seu apartamento:

“[...] E aí, a casa é isso, assim. Ela comporta momentos de alegria, de tristeza, de
dúvidas, de angústias, de medo... e ela me protege, mesmo. Eu tenho ali, com meu
refúgio; tipo assim, graças a Deus, eu tenho esse ponto pra voltar, sabe?” (Analu)
****

Ao contrário de Analu, Lucélia, 67 anos, atualmente morando em uma instituição


para idosos, não percebia sua antiga casa como um lugar de apoio e consolo
emocional diante de suas carências pessoais. Quando entrevistada, havia três meses
que Lucélia havia sido encaminhada por um Promotor de Justiça para o asilo. Apesar
de afirmar ter uma casa, seu encaminhamento fora resultado da denúncia da própria
filha, pelo fato de ela ter passado a viver dormindo e mendigando nas ruas. Vivendo
em condições habitacionais muito precárias, em meio a um desajuste familiar, e
dividindo o ínfimo espaço doméstico com mais sete pessoas – segundo informações
da instituição –, embora Lucélia não aponte claramente as razões pelas quais passou
a viver na rua, deixa claro o grande desconforto ao estar em sua casa. Quanto a isto,
Robert Gifford dirá que nem sempre um morador de rua é uma pessoa sem casa;
sendo que o que ocorre, muitas vezes, é que, por essa casa não prover nenhum
senso de segurança, identidade, conexão, acolhimento e harmonia em relação ao seu
morador, ela passa a ter muito pouco, ou nenhum, significado para ele. Assim, alguns
moradores de rua se vêem “separados” de suas casas – algumas vezes por sua
própria escolha, algumas vezes, não (Gifford, 1997; p. 197). Assim Lucélia relata o seu
drama:

“Eu morava com a minha filha, cinco netos e meu genro. Minha filha é mãe solteira.
Ela mora com o Cezinha e tem dois filhos dele. Também tem o Rafael, que é do
[nome inaudível], que ela morou pouco tempo junto, saiu grávida e eu cuidei dela.

89
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Depois tem o [nome inaudível], que é filho do Zé Roberto, que morreu e está no céu,
com Deus...
[...]
O pai da minha filha [...] morou comigo só um ano [...]. Eu tive ela, com quinze dias,
ele foi embora. Aí, eu fiquei sozinha com a minha filha; trabalhando, minha cunhada
tomando conta.
[...]
Depois, eu morei com o [nome inaudível] sete anos e sete mês.
[...]
Depois, ele começou a dar de beber [...]. Ele ficou agressivo, deu um soco aqui na
minha mão, que levantou todos os dedos, remontou todos os nervos, e a mão
inchou. [...] Aí, eu larguei, deixei ele. Ele ficou na casa e eu levei minha filha e a
mudança pra casa da minha tia, lá no Pico do Jaraguá.
[...]
Eu não ficava em casa... não sei porque... chegava de manhã, já tinha vontade de sair,
pra passear.
[...]
Eu me sinto mal em casa. De manhã, eu tenho que sair, conversar com as outras
pessoas, tomar um cafezinho na padaria, todo mundo me quer bem, e assim eu levo
a vida.” (Lucélia)
****

Em seu depoimento, Maria conta que foi em alguns hotéis em que se hospedou, no
início de sua carreira, “antes mesmo de ter tido a oportunidade de ter uma casa, de
ter um espaço”, onde passou a se sentir “muito mais em casa” do que na própria
casa. Assim, pelo fato de esses hotéis representarem a estrutura física e o significado
subjetivo do habitar doméstico nunca experimentados antes, algumas dessas
experiências de hospedagem tornaram‐se não apenas referências formais – tal como
vimos no capítulo anterior –, mas referências de conforto emocional, as quais Maria
procurou atribuir a suas próximas moradas, buscando nelas reproduzir a mesma
experiência de sentir‐se “abraçada” pelo espaço habitado:

“[...] já teve momentos em que eu não queria voltar pra casa porque o lugar onde eu
estava [algum hotel] era mais gostoso e era mais a minha cara. Ou era tudo que um
dia eu queria conquistar. Porque a minha casa era mais triste.
[...]
Então, esses hotéis que abraçam a gente, tanto no conforto íntimo, quanto na
praticidade [...] sempre foram os hotéis que eu achei mais interessantes, e que me
senti mais em casa.” (Maria)

90
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Assim, podemos conectar a noção de conforto, como a vimos aqui – no


sentido de animar, fortalecer, consolar – à idéia de casa como amparo ao seu
morador, frente às adversidades do mundo exterior. O sentido de estarmos em paz,
na tranqüilidade de nossa casa – de não necessitarmos da eterna vigilância, tal como
quando estamos lá fora à mercê das adversidades do mundo – é, aqui, associado por
Bollnow a um relaxamento das relações objetivas e intencionais que estabelecemos
com a estrutura concreta de nossa casa e com o espaço físico que ela define. Esta,
segundo Bollnow, seria justamente a condição prévia para que o indivíduo se
amalgame a seu espaço doméstico, permanecendo “introduzido, abraçado e apoiado”
por ele (Bollnow, ibidem, p. 260-261). Uma vez incorporados os sentidos de
segurança, identidade, pertencimento e acolhimento em relação à casa – e,
naturalmente, sem que com isto ignoremos a sua fisicalidade –, dificilmente
incorremos no risco de nos concentramos apenas na casa como estrutura física, ou de
considerá-la um objeto com um fim em si próprio.

O entrevistado Rui, 65 anos, aposentado, trabalhou durante 34 anos para uma


empresa aérea como comissário de bordo e instrutor de comissários em vôos
internacionais – trabalho que o obrigou a estar, constantemente, longe de sua casa,
ou de seu “útero”, expressão que utiliza para definir sua casa. Em sua entrevista, Rui
dedica‐se a justificar tal expressão, mostrando o sentido de estar amalgamado ao
lugar do habitar doméstico, onde vive com a esposa, e descrevendo a sensação de
estar longe dele:

“Depois de uma temporada fora, a sensação de voltar para casa é de como se eu


voltasse ao útero, porque o útero é tudo aquilo que você tem como proteção: você
vem dali, você nasce dali. Então, a ausência fora de casa é exatamente você estar em
uma barriga de aluguel; não é o seu útero: desculpe‐me a metáfora, mas é
exatamente a sensação... Você não está no seu útero, você não está na tua casa, na
tua proteção, naquilo que você domina, envolvido pelas coisas e pelas pessoas que
você conhece e estima. Estar longe dessas coisas, em um quarto de hotel, é estar em
um ambiente que não é o seu ambiente – é um ambiente de aluguel. É transitório;
você está em trânsito. Eu não sei de outras profissões, um caixeiro viajante... quem
viaja por profissão, eu tenho impressão de que tem essa mesma sensação.” (Rui)

91
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Numa visão psicanalítica da relação estabelecida entre o homem e o


espaço de sua habitação, o psicólogo Alvino Augusto de Sáxiii observa que a habitação
é “o território psíquico do indivíduo” (Sá, 1988; p. 31). Isto, pois, ao nos
relacionarmos com o espaço habitado, esse espaço passa a oferecer-nos as coisas e os
fenômenos equivalentes a referenciais internos, nos quais nos projetamos, com os
quais nos identificamos. Através dessa “relação contínua e profundamente projetiva”,
afirma o autor, o indivíduo passa a ver e a sentir o espaço e aquilo que nele acontece,
através de seus conteúdos psíquicos”. E o faz, por um lado, projetando “sua própria
estrutura psíquica” na estrutura física do espaço; por outro, espelhando-se “nas forças,
nas direções, nos acontecimentos” – ou seja, no tempo desse espaço – o seu próprio
tempo, encontrando, aí, equivalentes para os seus dinamismos internos, seus próprios
impulsos, conflitos e necessidades. E essa projeção reflete-se na própria percepção que
o morador tem desse espaço, na forma como ele a interpreta e a vivencia (Sá, ibidem;
p.25-26).

Ao considerar que seu “conceito de moradia” se desenvolveu em função de suas


“experiências ciganas”, o entrevistado Lúcio48 tem como prioridade a alteração
constante do ambiente em que habita: “Se eu tenho uma determinada estrutura de
morar, e essa estrutura não muda, eu acho que fico maluco.” Nos hotéis em que
passou a infância e a juventude, Lúcio não se conectava aos quartos, mas à
possibilidade de estar em contato com o mundo e suas constantes alterações – o que
acabou se tornando um ideal de habitar cultivado ao longo de sua história de
moradias. Por representar uma restrição a esse ideal, o vínculo com a casa física não
corresponde às suas expectativas de habitar. Com isto, Lúcio justifica o fato de se
abstrair do interior do apartamento onde mora – da decoração, das “divisõesinhas”,
como ele fala. O desejo de um apartamento “com muita vista, num lugar alto, de
onde [...] pudesse ver o mundo” seria a tradução formal dos valores que Lúcio
aprendeu a cultivar ao longo de sua história de moradas. Seu depoimento torna
válidas as considerações de Sá, que vimos acima, assim como a de Gifford, segundo
as quais, a forma e a estrutura de nossa casa devem ir ao encontro de nossas
necessidades psicológicas (Gifford, ibidem; p. 196):

“Eu comprei esse apartamento e nem vi o que tinha dentro. [... A minha mulher e eu]
Contratamos um decorador, que botou tudo abaixo e fez tudo do jeito que ele quis.

48
Conforme apresentado no Capítulo 1, Lúcio passou a infância e a juventude mudando-se, com sua
mãe, de hotel para hotel, só tendo passado a morar em um lugar fixo depois de adulto e casado.

92
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Claro que ele pediu a opinião da gente, mas eu não participei da escolha disso ou
daquilo.
[...]
Então, qual seria o meu ideal de apartamento? Seria um penthouse aberto, com
muita vista, num lugar alto, de onde eu pudesse ver o mundo. Eu não gosto de
divisõezinhas, eu não gosto de nada disso. O meu apartamento de São Paulo é cheio
de divisõezinhas, mas não fui eu que fiz! Mas, se você me pergunta, se eu fosse fazer
um apartamento pra mim, a vista seria essencial! O quê, de lá, eu consigo ver, como
um observatório. [...] a vista é 99% do apartamento! Não interessa o que tem dentro!

Eu gosto de uma coisa ampla – aí, sim – onde eu possa me situar. Se eu pegasse um
apartamento de cinqüenta metros quadrados, eu queria ele totalmente aberto, sem
parede, sabe? É assim que eu me sentiria bem. Eu aluguei, uma vez, um apartamento
na Praça Roosevelt. Era um kitchenette. Olha só: tinha um banheiro, uma cozinha –
que eu mal usava, mas esquentava o café – e uma sala grande, uma sala bárbara.
Aquele apartamento era uma porcaria, mas a praça, na frente, que era legal.” (Lúcio)

Ao falar da mútua interação entre a casa física e aqueles que a habitam,


Marcus afirma não ter dúvidas de que, de algum modo, todos nós dispomos no
ambiente físico doméstico mensagens do inconsciente sobre nós mesmos. Segundo
afirma a autora, como somos incapazes de compreender tudo aquilo que encerramos
em nossa psique, precisamos colocar essas coisas para fora, para que possamos
contemplá-las – “tal como precisamos ver nosso corpo físico em um espelho”
(Marcus, ibidem; p. 15). Na mesma direção de Marcus, King afirma que...

“Nossa casas falam por nós, sobre como somos, e sobre nós para os outros; se formos
honestos, elas também nos dirão quem e o quê nós queremos ser. As casas,
portanto, também podem ser vistas como um espelho que erguemos para nós
mesmos” (King, ibidem; p.78).

Ao descrever o momento em que passamos a habitar um novo espaço, O


geógrafo Tim Cresswellxiv dirá que a forma de tornarmos esse espaço, a princípio
anônimo, em um lugar significativo para nós – o “nosso lugar” – é fazer com que esse
espaço passe a “falar algo de nós” (Cresswell, 2004; p. 2). E isto acontece quando
passamos a dispor as coisas que possuímos – e que trazem consigo todo o significado
que nelas depositamos –, pintamos as paredes da cor que nos faz sentir bem,

93
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

organizamos o espaço da maneira que, ao longo da nossa história doméstica,


passamos a entender a forma ideal de nos relacionarmos com ele, etc. Assim, ao
mesmo tempo em que a incorporação dos aspectos do mundo exterior torna a casa o
meio para a nossa atuação do mundo – tal como vimos no capítulo anterior, essa
mesma incorporação, aliada aos significados que atribuímos ao espaço doméstico,
transforma esse espaço. Ao absorver esses significados, nossa casa incorpora, de fato, a
história, o tempo, do nosso habitar doméstico, passando a falar, fisicamente, de nós,
seus habitantes.

A entrevistada Marly49 torna patente as considerações teóricas de Marcus, King e


Cresswell, ao descrever o processo de personalização do seu espaço doméstico – seu
trailer –, através do qual, as soluções formais adotadas por ela passam a refletir não
apenas sua relação com o espaço físico habitado, mas também seu espírito, sua
personalidade, seus valores – expressos por seus desejos, necessidades e aspirações
–, em relação a esse espaço:

[Mostrando o trailer...]

“[...] eu comprei o trailer zero, quer dizer, você manda fazer o trailer e escolhe tudo,
do jeito que você quer. Como eu moro assim há vinte e cinco anos, e já sei das
minhas necessidades, [...].
[...]
Eu queria um quarto em cima porque eu tinha dois meninos, então aqui ficou sendo
o quarto deles; o meu é do outro lado. Embaixo das camas ficam as gavetas, onde
ficam as roupas. Nesse armário, eles punham televisão, o vídeo, o som. Aí, a gente
vai escolhendo, por exemplo, no original, não tem esses armários, só que eu adoro
bagulho, então mandei colocar.
[...]
A cada dois, três anos, eu troco tudo: aqui [na sala de jantar] era tudo diferente,
outra cor, outro estofado. Agora já enjoei, tô achando tudo muito colorido. [...] Aqui
[no sanitário, mostrando o desnível da soleira do boxe do chuveiro], a original era um
pouquinho mais baixa, mas eu mandei levantar para quando eu estou muito cansada,
dá pra fazer tipo uma banheirinha, sabe? A televisão, eu pus no meu quarto – eu
detesto televisão na sala porque não dá pra conversar. Quando os meninos eram
pequenos, eu era obrigada a colocar, pra eles poderem ver. Agora que eles se

49
Apresentada no Capítulo 1.

94
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

mudaram, aboli a televisão na sala. É horrível, você estar almoçando e vendo a


notícia de alguém matando não sei quem, o mundo caindo...
[...]
E, sabe, a pessoa suja é suja em qualquer lugar, e a pessoa limpa é limpa em
qualquer lugar. Se a pessoa é limpinha, mesmo que a casa seja em cima de chão
batido, é bem varridinha, bem limpinha.” (Marly)

Ao escrever sobre a filosofia da decoração de interiores, Mario Praz usou a


palavra Stimmung – atmosfera; impressão de intimidade e aconchego provocada por
um aposento e por sua decoração – para descrever a...

“característica de interiores que está menos relacionada à funcionalidade do que à


maneira como o aposento expressa a personalidade do seu dono, o modo como
reflete sua alma” (Praz, Interior Decoration; p. 50-55. Apud Rybczynski;
Apud; p. 55)50.

Considerando isso, Rybczynski, estabelece uma distinção entre


“aconchego” e “arrumação”. Para justificar seu pensamento, o autor dirá que se
ambos tivessem o mesmo significado, as pessoas gostaria de morar “casas estéreis e
impessoais” como aquelas vemos nas revistas de arquitetura e decoração. Para o
autor, nesses cômodos artisticamente produzidos e fotografados, o que falta é
justamente “a marca dos moradores” (Rybczynski, ibidem; p. 33).

A entrevistada Analu traduz, com suas palavras, o sentido de Stimmung


experimentado em sua casa:

“[...] eu gosto de tudo organizado e tudo limpo, mas também não gosto daquela casa
que parece casa de boneca, que não mora gente. Então, eu acho que a
movimentação das coisas é importante, a troca de lugar. Ou mesmo, se eu li um livro,
deixar esse livro lá, porque ele tá tendo um dinamismo ali.
[...]
Agora, eu mudei tudo: tirei a tv da rack e passei pra mesinha. Então, quem freqüenta
em casa, a gente começou a ver tv, agora, tudo espalhado pelo chão. Que em casa
tem uma movimentação bem grande, assim, de amigos. Que eu gosto muito de
morar sozinha e de ficar sozinha. E também gosto muito da movimentação que

50
Não foi encontrada referência à publicação da citação de Praz feita por Rybczynski.

95
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

acontece naturalmente. Eu atribuo o fato de as pessoas gostarem de vir em casa, e


de ficar, porque elas se sentem bem ali; e elas falam isso.
[...]
Eu gosto desse ponto, e ali eu me sinto bem. E ali eu estudo, ali eu trabalho, ali eu
reúno meus amigos, a gente toma cerveja, a gente ouve um som, a gente toca, a
gente dança – o vizinho de baixo reclama, daí, a gente pára – e amanhã começa tudo
de novo.” (Analu)
****

Já o entrevistado Pedro, 50 anos, artista plástico e professor, vive a insólita situação


de chamar de sua casa o lugar em que passa apenas alguns fins de semana durante o
ano. Há alguns anos, mudou‐se de São Paulo, sua cidade natal, com a qual se diz ter
desencantado ao longo do tempo, e cujo caos passou a fazer‐lhe mal. Construiu, em
Florianópolis, o que considera seu “projeto” ideal de habitar doméstico, descrito por
ele como sendo morar em um lugar que seja afastado da nocividade do caos urbano,
reunindo no mesmo espaço físico sua casa e seu estúdio. No entanto, por estar ainda
preso profissionalmente a São Paulo, Pedro permanece a maior parte do seu tempo
morando em um flat alugado nessa cidade. Impossibilitado de estar no “pequeno
mundo” que designou para o seu habitar privado, Pedro recusa‐se a se sentir em
casa no flat; e o faz, recusando‐se a personalizá‐lo com objetos e memórias,
mantendo‐o despersonalizado, da forma como o recebeu. Com isso, Pedro percebe‐
se revivendo a experiência doméstica da juventude e da adolescência, quando não
considerava seu o quarto que partilhava com a avó e, por isso, se recusava a deixar lá
quaisquer que fossem as marcas de sua personalidade. Ainda na juventude, a
experiência de, finalmente, passar a ter o próprio espaço privado – seu quarto e, ao
mesmo tempo, seu local de trabalho – tornou‐se o modo ideal de habitar doméstico
sempre perseguido por Pedro.

No depoimento de Pedro, percebe‐se claramente que o esforço para se manter


estranho ao próprio espaço habitado, assim como a determinação de não
estabelecer quaisquer interações mais íntimas com ele, tem, como objetivo, o
prevenir‐se do risco de se reconhecer nesse espaço, e, como isto, criar conexões
emocionais com um modo de habitar que, racionalmente, recusa. Contudo, se por
um lado, essa recusa de estabelecer vínculos com o espaço habitado impede que
Pedro se disperse de seu ideal de habitar, ela também o impede de perceber esse
espaço – onde, de fato, vive –, como uma base para um habitar harmonioso tanto em
relação às ações privadas praticadas privadamente ali, quanto em relação ao mundo
em seu redor – seu trabalho, a cidade em que vive –, o que resulta em um conflito

96
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

interno e no prejuízo à preservação de sua vida interior – fato que é experimentado


com grande dificuldade por Pedro:

“Pra começar, isso que está aí, eu não considero casa51. E eu faço questão de que
seja assim. Não quero estabelecer nenhum vínculo com essa coisa que está aí. Eu
passo cinco dias da semana aí; eu sei, não tem lógica nenhuma. [...] Antes desse flat
que eu estou agora – faz uns seis meses que me mudei –, eu fiquei durante dois anos
aqui pertinho, praticamente a uma quadra de distância de onde eu estou agora. Lá
ilustrava até melhor a espécie de vínculo que eu estabeleço com essa coisa que está
aí, que eu nem chamo de casa... eu durmo lá, não vivo um tempo lá. Do jeito que eu
entrei no apartamento, praticamente foi o jeito mantido, ele ficou assim. Eu coloquei
uma cama; comia de pé, atrás de um balcão; nem um banco; eu não queria me sentir
bem, alguma coisa assim.
[...]
Essa situação que é curiosa. Aqui entre nós, eu estou me acabando nessa situação.
[...]
Agora, eu pago um preço por estar aqui, nesta situação, nesta condição. Eu acho que
isso me ajuda a entender porque nesse apartamento, até há dois anos atrás, eu não
tinha nenhuma cadeira pra sentar, pra fazer as minhas refeições sentado. Eu não
queria, eu me recusava. Nesse flat que eu estou agora, eu melhorei um pouquinho a
minha condição. Eu já posso comer sentado. Mas não tem um objeto meu lá. Do jeito
que eu entrei, está; só tirei o que me incomodava.
[...]
Por outro lado, eu não trouxe nada que eu goste pra colocar no lugar; é como se eu
não pudesse fazer isso. É como se tivesse que passar mal naquele local. Eu acho que
eu preciso, na verdade, de um aviso, de uma sinalização. Eu tenho impressão que
essa situação, esse incômodo, é como uma tabuleta piscando, me dizendo: ‘olha, não
relaxe, fique atento, e saia disso aqui o quanto antes. Não perca, ou não se esqueça,
do seu objetivo maior’. Até pra eu tomar uma atitude – aí eu começo a conjecturar:
‘se eu passo mal aqui, eu não posso ficar aqui, vou ter que tomar uma atitude. Eu
não posso demorar tanto tempo pra resolver voltar pro meu canto’.

Agora eu tenho uma casa do jeito que eu sempre sonhei lá em Florianópolis. O que
eu ganho aqui, eu invisto nessa casa que está lá, que eu pouco uso. Mas tem lá a
oficina, tem tudo aquilo que eu preciso. É como se eu estivesse investindo no meu
futuro, que eu espero que não esteja tão lá na frente.
[...]

51
Pedro refere-se ao flat que aluga em São Paulo.

97
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Pensado bem, eu poderia viver melhor aqui. Porque, de fato, não tem lógica – já que
eu estou aqui, a lógica me diz isso: ‘você está aqui, cara, então, por que não ficar
melhor? Por que não se estabelecer, não se sentir melhor nesse espaço?’
[...]
Veja só que curioso: Eu tinha um quarto que, durante muitos anos, na casa dos meus
pais, eu dividi com a minha avó; que eu não considerava meu. Eu não decorava esse
quarto, eu não tinha coisas minhas, era muito pouco. Eu não colocava coisas na
parede, como fazem os garotos. Não que eu não pudesse, mas eu não queria. Eu só
fiz isso quando morreu a minha bisavó – ela ocupava um quartinho na edícula da
casa, nos fundos da casa. [...] aos dezessete anos, tive oportunidade de ocupar esse
quarto. Aí aquele espaço foi meu. E já era o meu local de trabalho, onde eu
desenhava, já era o meu estúdio. Era um pequeno cômodo – tinha um banheirinho
do lado –, acho que não tinha três metros por dois. O que eu fiz? Eu me mudei pra lá,
literalmente, e coloquei a minha cama no teto. Eu passei os caibros entre uma
parede e outra, pus o estrado, uma escadinha, e dormia num vão de sessenta
centímetros. Ficava encaixado, não podia levantar, que batia a cabeça na parede. E
ali eu trabalhava, dormia; ali eu fazia absolutamente tudo. E dali eu fui pra rua.

Quando eu fui morar sozinho, aluguei um apartamento, e esse apartamento era


apartamento e oficina, absolutamente tudo junto. [...] Durante muitos anos, eu
carreguei objetos, que eram referências, desde esses quinze, dezessete anos. Aquele
pincel que gastou, acabou o pêlo. Mas foi o pincel que eu comprei lá, usei lá, eu
guardei durante muitos anos. É uma peça que eu não considero de valor, nesse plano
estético, mas ela guarda outras coisas, carrega consigo umas tantas referências. E eu
ainda faço isso.

Agora, estou me preparando para uma nova guinada na minha vida. Eu preciso
retomar o que eu considero o ideal de vida. Eu preciso voltar pra lá. Não sei quando
isso vai acontecer, talvez eu leve dois, três, quatro anos; não pode demorar muito
porque eu também sei que não resisto muito a essa situação, a essa coisa aqui.”
(Pedro)
****

Quando entrevistada, Júlia, 26 anos, morava em um pensionato para moças. Recém‐


formada, e ainda sem um emprego fixo, Júlia deixara a casa dos pais, no interior, para
fazer um curso preparatório para concurso em São Paulo. Contou‐me do grande
conflito que enfrentava em relação à sua nova moradia, onde, por sentir sua
privacidade constantemente invadida pelos mecanismos de vigilância estabelecidos
pela direção do pensionato, sentia‐se impedida de perceber o espaço habitado como

98
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

seu espaço privado. Não encontrando meios de obter desse espaço o consolo e o
suporte de que necessitava, diante da ansiedade e da pressão psicológica sentida por
ainda não ter obtido um emprego, Júlia eventualmente ainda buscava o acolhimento
e o apoio domésticos na casa dos pais, com a qual conservava atados os laços
emocionais, e onde – ainda que não pretendesse voltar a morar – continuava
chamando de “minha casa”:

Ainda que vivendo o conflito de não se sentir acolhida pelo espaço onde habitava no
pensionato, Júlia via essa forma de morar como a única financeiramente viável para
permanecer em São Paulo estudando e se preparando para um concurso. Uma vez
que essa moradia lhe exige um tal esforço emocional e físico, a ponto de não ter a
paz necessária para dormir bem à noite, Júlia passou a interiorizar a noção de que
essa situação deveria ser provisória – algo com o qual seu compromisso não deveria
ser emocional, apenas funcional. E, para contornar a falta de acolhimento que
esperaria de uma casa, recusa‐se, à semelhança de Pedro, a estabelecer qualquer
vínculo emocional com seu quarto, não levando para lá qualquer objeto que lhe
pudesse dar a impressão de tê‐lo personalizado e aceito como sua casa:

“[...] No meu quarto tem uma cama, um lavabinho, uma escrivaninha e um guarda‐
roupas. Pra mim, é uma coisa muito provisória – eu não me sinto nem um pouco à
vontade lá. Eu não trouxe nada da minha casa52 pro meu quarto. As únicas coisas que
eu trouxe foram as roupas e livros – só o essencial. Nem um porta‐retrato. Outro dia
eu estava pensando nisso, no meu quarto não tem nada que seja a minha cara. Aliás,
ele está exatamente do jeito que era quando eu entrei. Os livros ficam dentro do
armário, então, não tem nada visível que mostre que aquele quarto é meu. E o pior é
que a maioria do tempo, eu passo lá, estudando.

Dentro dos quartos, tem umas imagens de santos. Só no meu quarto, deve ter umas
três. Eu até pensei em tirar. Mas, se a Madre sabe que você tirou, ela manda colocar.
O que é um absurdo, porque a partir do momento em que você aluga um quarto, é
como se estivesse alugando uma casa, ela não tem o direito de interferir, e ela
interfere.” (Júlia)

Quanto a nos vermos refletidos no nosso espaço habitado, Marcus ainda


acrescenta que, como nossa auto-imagem se transforma com o tempo, nós também
transformamos o espaço que habitamos, podendo, por exemplo, nos desfazer de
coisas que não mais refletem quem somos, e adquirir outras que correspondam às

52
Casa dos pais.

99
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

nossa atual realidade interna. Portanto, nosso espaço doméstico torna-se uma espécie
de cenário no qual nossa auto-imagem é projetada através de objetos móveis que
controlamos. Conforme afirma Marcus, “tal como a exploração do self, a organização
interna da casa está freqüentemente em um processo de tornar-se” (Marcus, ibidem; p.
57).

A entrevistada Maria diz: “eu não consigo pensar numa casa, seja ela qual for,
separado do conceito de como eu sou neste momento da minha vida”. A grande
privação do exercício do domínio de um espaço pessoal, vivida nas casas de sua
infância e juventude, teve como grande efeito, na história de suas moradas, a busca
por esse espaço. Um espaço onde, conforme ela descreve, pudesse exercer o seu
“auto‐re‐conhecimento”, onde se visse, com pessoa, ali “refletida”:

“[...] o sentido de casa, pra mim, sempre foi uma coisa muito especial. [...] Eu sentia
uma necessidade absurda de reconhecer a minha própria energia impregnada em
algum canto!
[...]
Eu não consigo pensar numa casa, seja ela qual for, separado do conceito de como
eu sou neste momento da minha vida.
[...]
Então, eu acredito que todas essas vivências determinem muita coisa, porque eu
acho que as escolhas da gente – estéticas, arquitetônicas – são, na verdade, um
espelho de escolhas internas. A gente materializa um jeito que está aqui dentro. Eu
posso te dizer que espaço, pra mim, é muito importante. E eu percebo que ele é um
espelho de como eu estou por dentro. Quando minha casa tá muito bagunçada, eu
estou bagunçada por dentro, estou com preguiça. Quando minha casa tá bem
bacana, com tudo harmonioso, os móveis legais, tudo oferecendo de uma maneira
generosa, um ambiente agregador, é porque eu estou assim por dentro. Quando eu
estou confusa, o meu espaço pessoal fica extremamente confuso, e eu tenho
vivenciado até hoje esse tipo de relação com casa.
[...]
eu tive muito medo de alugar apartamentos maiores e não ter dinheiro pra pagar,
aquelas coisas, né? Cada vez que a minha casa ia aumentando um pouquinho
aceitando um espaço maior dentro de mim. Eu tinha que me sentir merecedora; se
não, ficava esquisito eu me dar uma coisa que eu não podia segurar. Eu vim de uma
coisa muito restrita.
[...]

100
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

então dá pra entender que eu não consigo pensar numa casa, hoje em dia, sem levar
em consideração, antes de qualquer coisa, a necessidade humana de me ver refletida
no ambiente – tanto do ponto de vista físico, quanto do de status, quanto do
energético.” (Maria)

O habitar doméstico sob o prisma da subjetividade

Todas as considerações que vimos até agora nos levam à confirmação de


que a questão do habitar doméstico envolve além da abordagem física, uma
abordagem subjetiva – ou melhor, uma abordagem baseada na subjetividade (King,
ibidem; p. x, 7). Por isto, talvez convenha, aqui, uma breve referência à distinção entre
as formas subjetiva e objetiva de se observar o mesmo fato, uma mesma experiência –
no caso, aqui, a experiência do habitar doméstico. Segundo o filósofo Thomas Nagel
(1996), a diferença básica entre essa duas visões é que, objetivamente, temos uma
“visão externa do universo, que abstrai a posição que nós mesmos ocupamos dentro
dele”. Neste sentido, transcendemos o nosso ponto de vista particular e somos
capazes de aceitar a insignificância de nossa própria existência, ou do compromisso
com todas as especificidades de nossa vida pessoal. Enquanto que, se olhamos sob o
ponto de vista subjetivo, ou seja, de nossa inserção, como indivíduos, neste mundo,
passam a ser absolutamente fundamentais todas as particularidades de nossa vida
pessoal, assim como o compromisso que diariamente renovamos com elas. Neste
sentido, passamos a não mais poder conceber o mundo sem aquelas estruturas que
construímos e julgamos sólidas53 – e aí podemos incluir a nossa própria estrutura
doméstica e a própria vida doméstica vivida privada e cotidianamente. Como afirma
Nagel, a visão subjetiva está localizada bem no centro de nossa vida cotidiana (Nagel,
ibidem, p. 300)54.

53
De que nos fala Berman (1987, p. 330, 14).
54
Conforme explica Nagel, sob um ponto de vista externo – objetivo –, nosso nascimento poderia
parecer “um acidente”, nossa vida “carente de sentido”, nossa morte “insignificante”. Mas, quando
observamos o mesmo fato sob o ponto de vista interno, pessoal, pensar que poderíamos sequer ter
nascido parece-nos “inimaginável”. Nossa vida, nesta visão subjetiva, é-nos “monstruosamente
importante”, e nossa morte “catastrófica”. A questão, dirá Nagel, é que objetivamente, não importa
que pessoas, em particular, existam. Por outro lado, isto se choca com o sentido que temos de nossa
inserção no mundo. Pois, subjetivamente, sentimo-nos, e aos que amamos, como pertencentes a este

101
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Em uma visão ampla, objetiva, King dirá que ainda que cada casa possa ser
vista como parte componente de uma grande estrutura habitacional de um país, há
que se considerar que, particularmente, ela ainda será o lar de uma determinada
pessoa, ou de um grupo de pessoas. Assim, sob o foco da subjetivamente, a
abordagem que se faz da casa é a de local do habitar do indivíduo; das tomadas de
decisões no nível pessoal, no qual, esse indivíduo, ao assumir o controle de seu
espaço habitado, através do uso desse espaço, cria ambientes de viver pessoais,
individualizados, constituindo o que passa a chamar de minha casa (King, 2003; p. 81,
82).
Exemplos da forma subjetiva com que casa é percebida podem ser
observados em ocasiões extremas de grandes catástrofes climáticas, ou causadas por
acidentes – enchentes, deslizamentos, desabamentos, incêndios, etc. – que venham a
ameaçar a estrutura física de casas. Nesses casos, a despeito de questões objetivas, tais
como a urgência de se controlar as conseqüências desses eventos – em níveis, muitas
vezes, de saúde pública, ecológico, social, ou urbano –, seus moradores poderão
resistir veementemente a determinações de órgãos de Defesa Civil para que
abandonem em suas casas. Deixar a casa terá, aí, significados subjetivos e particulares
para cada morador, os quais poderão envolver desde a incerteza de não ter onde se
abrigar, passando pela possibilidade da perda do imóvel e chegando, finalmente, a
razões ligadas à própria percepção emocional em relação à casa habitada. Neste
último sentido, deixar a casa poderá significar deixar à própria sorte uma existência
diária amalgamada a cada canto dessa casa, ou cada objeto componente dessa
história doméstica, ou a lembrança de cada fato ali ocorrido. Sair será deixar para trás
a estrutura física que, impregnada de valores de proteção, é o apoio e o consolo da
própria existência ali experimentada.

...

Assim, por tudo o que se falou sobre a íntima interação entre a casa física
e nós, como indivíduos e seus usuários, podemos compreender mais claramente as
razões pelas quais é tão difícil traçarmos uma distinção precisa entre o objeto casa –
aquele que encontramos no mundo para abrigar nosso habitar privado e adquirimos

lugar; assim, a última coisa que nos ocorre é ver o mundo de um modo em que o nosso nascimento
se torne desprovido de valor (Nagel, ibidem; p. 300, 305-306).

102
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

(compramos, alugamos, etc.), tal como uma mercadoria – e essa mesma casa, já no
momento em que a transformamos no nosso espaço habitado, o qual, com sua
materialidade, acolhe nossos corpos e nos oferece os meios de pormos em prática
nossa vida diária privada, liberar nossos sonhos e de preservarmos nossa vida interior
– e que, por isso, tem para nós um significado particular. Ao transformarmos nossa
casa física em um espaço habitado, passamos a percebê-la como uma entidade única
que acolhe nossa subjetividade, que nos apóia física e emocionalmente. Na nossa
casa, projetamos nossos valores pessoais, nossas necessidades, aspirações e desejos,
passando, assim, a nos ver refletidos nela. Trazemos para ela significados não
mensuráveis, nossas lembranças e sonhos, os quais, incorporados à sua fisicalidade,
apegados a cada canto seu, a cada objeto que ali colocamos, passam a dar alma ao
nosso espaço habitado. Nossa casa passa, enfim, a falar – aos outros e, especialmente,
a nós – de nós mesmos, da dinâmica de nossas vidas, de nossa história.
Portanto, se o habitar doméstico é a atividade que praticamos no objeto
físico casa, é ela que, com suas paredes e portas, nos proporciona isolarmo-nos do
mundo ao nosso redor, quando assim o desejamos ou necessitamos. Ou, dito em
outras palavras, é ela que nos proporciona os sentidos de privacidade e intimidade –
dimensões tão importantes para a nossa subjetividade e, ao mesmo tempo, tão
representativas dela –, as quais procurarei discutir a seguir.

103
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Capítulo 3 – Privacidade e intimidade domésticas

“Janelas do meu quarto,


Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?)”
(Pessoa, 1972; p. 363)

No item anterior, observamos o processo em que, através do habitar


doméstico, vemos nossa casa libertar-se do caráter objetivo de objeto comum inserido
no mundo, e tornar-se, através dos valores pessoais que ao longo do tempo, nela
projetamos, algo subjetivamente fundamental para a nossa existência. Através do
habitar doméstico, praticado cotidianamente, e responsável por essa transformação
do significado da casa, ainda precisamos contar com sua estrutura física, assim como
também solicitamos o apoio das coisas que trazemos para o “nosso pequeno mundo”.
E, acima de tudo, para isto, desejamos estar a sós ou em companhia daquelas pessoas
com quem escolhemos estar ao lado. Ou seja, para habitarmos domesticamente,
precisamos de privacidade.

Considerações conceituais

O direito à privacidade e à intimidade domésticas é algo tão fundamental


ao indivíduo, que, desde 1948, é reconhecido pela Declaração Universal dos Direitos
Humanos55, assim como é amparado pela Constituição da República Federativa do

55
Segundo a Declaração Universal dos Direitos Humanos, “Ninguém sofrerá intromissões arbitrárias na

104
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Brasil56, tendo-se tornado, também, um dos mais importantes direitos da era


moderna57. Ao analisar a qualidade de “asilo inviolável do indivíduo”, atribuída à
casa pela Constituição Brasileira, o Professor de Direito Constitucional José Afonso
da Silvaxv afirma estar, aí, reconhecido o “direito fundamental” do indivíduo “a um
lugar em que, só ou com sua família, gozará de uma esfera jurídica privada e íntima que terá
que ser respeitada como sagrada manifestação da pessoa humana” (Silva, 2004; p. 204).
Buscando explicitar conceitualmente vida privada e intimidade, Silva nota
que, nos termos da Constituição, os dois conceitos são dificilmente distinguíveis. Em
última instância, eles se relacionariam na medida em que a vida privada “integra a
esfera íntima da pessoa”, sendo ela o “repositório de segredos e particularidades do
foro moral e íntimo do indivíduo” (Silva, ibidem; p. 206, 207). Por isso, o autor
prefere usar a expressão genérica e ampla “direito à privacidade”, abarcando, neste
sentido, todas as manifestações da esfera íntima, privada e da personalidade,
consagradas pelo texto constitucional. Para melhor explicitação do que considera o
direito à privacidade, Silva ainda ressalta o fato, sempre lembrado na doutrina, de ter
o juiz americano Cooly, em 1873, identificado privacidade como o direito de ser
deixado tranqüilo, em paz; de estar só: “the right to be alone” (Silva, ibidem; p. 205).

Ao descrever os mecanismos de vigilância do pensionato de freiras para moças, onde


mora, a entrevistada Júlia58 explicita sua consciência sobre os direitos de privacidade
que vê sendo desrespeitados:

“[...] Você tem zero de privacidade. Nem dentro do seu quarto você pode ficar
sossegada, que, qualquer coisa, a Madre vai lá e bate na porta. Outro dia, uma
menina estava doente e não foi trabalhar. A Madre esmurrava a porta da menina,
gritando ‘você é preguiçosa, vai trabalhar!!’. Foi chocante! Antigamente, ela até

sua vida privada, na sua família, no seu domicílio ou na sua correspondência, nem ataques à sua honra e
reputação. Contra tais intromissões ou ataques toda a pessoa tem direito a proteção da lei.” In: Página Oficial
da Declaração Universal dos Direitos Humanos: http://www.unhchr.ch/udhr/lang/por.htm.
56
Título II; Cap. I; Art. 5º.; Inciso X - “São invioláveis a intimidade, a honra e a imagem das pessoas,
assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação.”; Inciso XI - “A
casa é o asilo inviolável do indivíduo, ninguém nela podendo penetrar sem consentimento do morador, salvo em
caso de flagrante delito ou desastre, ou para prestar socorro, ou, durante o dia, por determinação judicial.” In:
Constituição da República Federativa do Brasil (2004).
57
In: “Privacy and Human Rights, 1999: An International Survey of Privacy Laws and Practice”. In:
Global Internet Liberty Campaign http://www.gilc.org/privacy/survey/.
58
Apresentada no Capítulo 2.

105
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

entrava no quarto das meninas, sem elas saberem – porque ela tem a chave. Agora,
ela não entra mais porque uma menina reclamou com a Madre Superiora. Isso é
invasão de domicílio, não pode! Ali é um quarto, mas a partir do momento que eu
pago, é como se fosse uma casa, um apartamento, que a gente aluga.
[...]
Mas, muitas das fiscalizações nem vêm da Madre, mas das próprias pensionistas. [...]
Tem uma senhora que mora lá há vinte e cinco anos, e ela é uma fiscal da Madre, que
entrega tudo que a gente faz.
[...]
O telefone [que fica no corredor], a gente não pode fazer ligação, só receber.
Também, nem dá pra falar no corredor, porque toca o telefone, sempre vem a
cacoeta ver pra quem é a ligação, e quanto tempo você fica no telefone. E se a Madre
pega a gente no telefone, fica falando: ‘filhinha, desliga, filhinha!’ [...]. Eu também
sinto falta de poder receber alguém pra poder conversar – você tá longe de casa, não
conhece muitas pessoas... Mas aqui é tudo muito proibido...” (Júlia)

No campo da psicologia socio-ambiental, Robert Gifford aponta para a


definição de privacidade de Irwin Altmanxvi como, provavelmente, a melhor já
desenvolvida. Segundo Altman, privacidade é “o controle seletivo do acesso à
intimidade de uma pessoa, ou ao grupo desta pessoa” (Altman, 1975; p. 18. Apud
Gifford, 1997; p. 172, 173). Para Gifford, “controle seletivo” implica um acesso tanto
garantido quanto evitado. Ou seja, ter privacidade não é meramente viver em
reclusão em relação ao mundo exterior e excluir as pessoas de nosso convívio íntimo,
mas ter o poder de optar entre interagir socialmente – ou prazerosamente –, partilhar
informações pessoais com quem desejamos, e interromper o fluxo dessas informações
quando queremos (Gifford, ibidem; p. 173-174); ou, como ainda dirá Peter King, é
isolarmo-nos de olhares indesejados, assim como daqueles que achamos que nos
impedirão de atingir nossos objetivos particulares (King, 2004; p. 41).
Alan Westinxvii, que define privacidade como sendo “o desejo das pessoas
de escolher livremente sob que circunstâncias, e até que ponto, elas querem se expor
– e a suas atitudes e comportamento – para os outros”59, dirá que não ter esta

59
Westin é autor da obra, considerada “seminal”, "Privacy and Freedom" (1967), na qual traz essa
definição de privacidade. In: Global Internet Liberty Campaign:
http://www.gilc.org/privacy/survey/.
As considerações de Westin trazidas a seguir, por Robert Gifford, constam de Gifford, 1997; p. 182-
183.

106
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

liberdade de escolha faz-nos sentir “desesperados” (Westin, 1967. Apud Gifford,


ibidem; p. 180).
A seguir, vejamos alguns depoimentos que testemunham, em contextos
particulares, a necessidade de privacidade experimentada no habitar doméstico:

Morando em um cômodo de um conjunto habitacional para estrangeiros na Arábia


Saudita, o entrevistado Christian60 dá a sua própria concepção de privacidade e
justifica sua opção de habitar doméstico através de considerações sobre a
importância dessa privacidade para ele. Seu depoimento ilustra não só o conceito de
privacidade formulado por Altman e Gifford, como também a definição de Westin:

“[...] Se eu quisesse, eu poderia me inscrever para uma vila, a qual eu poderia, então,
dividir com outra pessoa, onde eu teria mais espaço, uma garagem e uma cozinha.
No entanto, eu prefiro viver neste distanciamento da humanidade, uma vez que ele
me permite transitar entre grandes grupos de pessoas, com quem posso interagir, ou
as quais posso ignorar, no meu lazer. Eu gosto de poder desaparecer num espaço
totalmente individual e, depois, reaparecer num lugar comum, quando eu sinto
necessidade. Morar num quarto de hotel cria um ‘efeito telescópio’, no sentido de
que eu posso ajustar minha proximidade a outras pessoas a qualquer hora, de acordo
com minhas necessidades, enquanto que dividir uma vila me impediria essa
flexibilidade e, portanto, em última instância, atrapalharia minha liberdade.
[...]
Eu conheci algumas pessoas aqui que gostariam de me conhecer melhor, mas me vi
inventando desculpas para não deixar que isso acontecesse. Eu gosto de me sentir
cercado de pessoas, enquanto que permaneço mantendo minha distância delas – e
há uma fonte infinitamente renovável aqui.” (Christian)
****

A proprietária de circo, Marly61, também expressa sua necessidade de privacidade


em relação às famílias dos outros circenses com quem partilha o mesmo terreno; e
descreve, assim, os mecanismos utilizados para estabelecer e preservar o que chama
de “individualidade” – termo que, no contexto, pode ser entendido como
“privacidade”:

60
Apresentado no Capítulo 1.
61
Apresentada no Capítulo 1.

107
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

“[...] no terreno, nós instalamos nossos trailers e carretas mantendo uma certa
distância um do outro, de modo a manter nossa individualidade. Mas, mesmo assim,
você ainda pode escolher ficar com aquele vizinho ou não.
[...]
No meu circo, eu respeito muito a individualidade de cada família. Desde que eu
montei o circo, eu digo sempre: se eu tiver fazendo um churrasco na minha casa,
hoje, e não convidar meu vizinho, ele não vem; ele só vem se eu convidar. Porque
você tem que respeitar; a pessoa, às vezes, não quer que esteja todo mundo junto.
Quando é pra todo mundo, aí convida todo mundo.” (Marly)

O entrevistado Aristides, fotógrafo, 43 anos, optou por se mudar para um município


fora do perímetro urbano de São Paulo, cerca de 80 Km de onde trabalha, para ter
mais privacidade:

“Eu moro há dois anos na minha casa atual. Eu morava no Jaguaré, numa avenida;
isso eu não quero nunca mais. Tinha muito prédio em volta, não tinha privacidade
nenhuma. Queria morar num bairro mais afastado da cidade, melhor.” (Aristides)

Considerações culturais

Em termos culturais, Gifford observa que as diversas formas de se praticar


a privacidade, entre diferentes culturas, podem sugerir que em uma cultura se
necessite de mais privacidade que em outra. Contudo, o autor explica que o que
ocorre é que, ainda que pessoas de diferentes culturas possam ter necessidades
similares de privacidade, as diferenças culturais passam a expressar não tanto a
quantidade de privacidade que é desejada – e praticada –, e mais o modo como ela é
obtida em cada cultura. Como exemplo, Gifford cita a forma como os ciganos
percebem e praticam sua privacidade doméstica. Segundo os preceitos ciganos,
privacidade é um “conceito de duas mãos”: um não bisbilhota o outro trocando de
roupa ou praticando atividades, por assim dizer, da natureza; e, no entanto, a pessoa
que procura privacidade tem a responsabilidade de evitar os lugares e horas em que
outros poderiam facilmente observar essas atividades privadas (Gifford, ibidem; p.
179, 180).

108
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Segundo o ponto de vista dos ciganos, a prática dos gadjés (não ciganos)
de construir paredes e portas é um insulto aos outros, pois sugere que eles não
respeitariam sua privacidade. Por outro lado, dirá Gifford, as portas e janelas são uma
tentação ou um desafio ao interesse alheio, uma vez que sugerem que há algo
escondido por detrás. O autor conclui que, neste caso, privacidade seria um estado de
espírito, porque envolve – e até mesmo requer – cortesia, tato, reserva, e respeito
diante de uma vida não vedada por paredes (Gifford, ibidem; p. 180).
A observação de Gifford com respeito às formas culturalmente diferentes
de se obter a privacidade também pode ser verificada em nosso próprio país,
conforme as diversas influências culturais que prevalecem em cada região. Referindo-
se aos modos de morar de povos de regiões longínquas, como a fronteira Amazônica,
José de Souza Martins afirma que mesmo as “mudanças profundas” ocorridas ainda
recentemente na mentalidade dessas populações não implicaram grandes
transformações em seus costumes e tradições. Apesar da assimilação de modos de
vida de uma “origem urbana e remota”, trazidos juntamente com as mercadorias que
se instalam de forma destoante nos interiores domésticos, Martins dirá que, de
alguma forma, os costumes desses povos longínquos se mantêm (Martins, 2002; p.
692). Assim como permanecem seus hábitos de preservação da privacidade e
intimidade domésticas.
Descrevendo as casas dos povoados daquela região fronteiriça, Martins
dirá que estando elas com a porta da rua quase sempre aberta, configuram uma
espécie de extensão da rua: “como se o interior da casa devesse estar sempre exposto ao olhar
dos de fora e à luz que ilumina lá dentro” (Martins, ibidem; p. 694)62. Voltando-se ao
interior dessas casas, o autor nota que um corredor vai da porta aberta da sala até a
cozinha – lugar voltado à conversação com os não-estranhos (mas, não
necessariamente parentes): “lugar dos que podem ir entrando, bastando gritar o costumeiro
‘Ó de casa!’” (Martins, ibidem; p. 695).
Esse padrão, no entanto, não significa um descuido com a privacidade de
certas atividades praticadas no interior da casa. Apenas, o que deve ser preservado, e
os códigos para essa preservação, é que se alteram (Martins, ibidem; p. 694). Há, pois,
uma demarcação no interior da casa quanto à gradação do caráter de intimidade da
atividade ali praticada. Assim, se a frente da casa se configura uma extensão a céu
62
Aqui, o autor acrescenta que em sertões como o do Nordeste e do Centro-Oeste brasileiros “é
assim há muito”: uma forma de morar que ainda hoje persiste (Martins, 2002; p. 694).

109
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

aberto do cômodo da frente, haverá, por outro lado, a proteção do lugar mais íntimo
da casa, que é o quarto do casal. Esse cômodo, muitas vezes chamado “camarinha”,
ou é desprovido de janela ou, quando ela existe, está sempre fechada63. Assim
descreve Martins esses cômodos e o “feixe de significados e definições” que envolvem
a preservação da intimidade que neles tem lugar (Martins, ibidem; p. 696, 698):

“É um cômodo escuro para evitar o olhar intruso dos visitantes que eventualmente
se atrevam a mirar o interior do aposento, fato em si considerado ofensivo ao dono
da casa. A escuridão da camarinha tem por objetivo proteger a intimidade do
casal, escondendo do curioso objetos, panos manchados, coisas enfim que possam
denunciar a intimidade, expô-la à curiosidade dos outros.” (Martins, ibidem; p.
698)

Ainda se referindo a cenários e regiões remotas, cujos hábitos e costumes


da vida privada trazem uma remanescente cultura colonial, Martins conta que, ao ser
recebido como hóspede em uma “casa de pau a pique e chão de terra batida” na
divisa dos estados do Maranhão e Pará, ali, pôde instalar sua rede num quarto, ao
lado da sala. Tal como no “quarto de alpendre” das casas bandeirantes, a função
daquele quarto era acolher os estranhos à casa, sem lhes dar acesso ao interior, em
cujos cômodos – como a cozinha – só se entra com o convite do dono (Martins,
ibidem; p. 696).
A correspondência dos cenários de que nos fala Martins pode ser
verificada através de relatos de viajantes estrangeiros que passaram pelas várias regiões
do Brasil entre os séculos XVI e XIX e deixaram registradas as suas impressões. A
seguir, o relato do botânico Auguste de Saint-Hilaire em viagem pela região de Minas
Gerais, no século XIX:

“(referindo-se ao pouso numa fazenda)


‘Apresentei-me em Ocubas, sob os auspícios do intendente, e não podia esperar
senão boa recepção (...). Deram-me um pequeno quarto abrindo para fora. Em
geral é numa peça separada do resto da casa que se agasalha o estrangeiro; desse

63
Carlos Lemos nota que o uso desses cômodos, já presentes no agenciamento das antigas residências
coloniais, estaria relacionado a antigos condicionamentos culturais, remotamente ligados aos
costumes mouros (Lemos, 1989; p. 77).

110
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

modo evita-se-lhe o trânsito pelo interior da casa e ele não pode ver as mulheres.’
Arredores de Conceição do Mato Dentro, MG, 1817. Auguste de Saint-Hilaire,
Viagem pelo Distrito dos Diamantes e litoral do Brasil, p. 52.” (Apud
Bruno (B), 2001; p. 178).

A casa física como o terreno da privacidade

Podemos dizer que, independente das condições de propriedade em


relação ao nosso espaço habitado, para que lá possamos praticar nosso habitar
doméstico, sempre atribuiremos a esse espaço o caráter de privado, confidencial:
aquele espaço que conterá nossas ações cotidianas de caráter íntimo, e que, por esta
razão, queremos manter fora do monitoramento externo, afastadas do conhecimento
público. Neste sentido, vemos o espaço habitado domesticamente – seja ele próprio,
alugado, permanente ou provisório – como o terreno, por excelência, da privacidade.
Com relação a isto, vejamos o que diz a entrevistada Júlia, ao tecer planos
de alugar um apartamento para experimentar a privacidade que não tem no
pensionato onde mora:

“[...] Se der certo um trabalho que eu tenho em vista, o ano que vem eu quero sair de
lá [do pensionato] e alugar um apartamento. Mas vou ter que dividir [o aluguel] com
uma outra pessoa porque não tem como morar sozinha aqui em São Paulo, por
enquanto – é muito caro... Mas eu vou querer um quarto só pra mim. Eu quero
escutar o meu som mais alto, ou estudar... eu quero o mínimo de privacidade, e acho
que um quarto só pra mim é o ideal.” (Júlia)

Otto F. Bollnow cogita a possibilidade de se atribuir o ato de


estabelecermos barreiras físicas de acesso à nossa casa, mais do que à insegurança e ao
medo – ainda que isto também seja considerável (tal como vimos quando falamos da
casa física como proteção frente às hostilidades do mundo exterior) –, mas à
necessidade de protegemos nossa esfera íntima. Independentemente de toda a
ameaça exterior, seria, de fato, a necessidade de estar só, consigo mesmo, o que
moveria o homem a se retirar para sua casa e a se fechar nela (Bollnow, 1969; p. 145).
Tal como afirma King, é difícil controlar o que vai por trás de portas fechadas; isto,

111
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

provavelmente, só seria possível removendo-as – o que significaria remover o próprio


propósito da casa (King, 2004, p. 176).
Ao nos fecharmos para aqueles com quem não desejamos partilhar nosso
habitar privado, experimentamos a possibilidade de praticar nossas ações de cunho
mais íntimo – sem que tenhamos que justificá-las em público, perante padrões
estabelecidos de comportamento.
Neste sentido, Bollnow observa que o homem adquire um determinado
modo de ser que é especificamente praticado no espaço concreto e privado da casa
(Bollnow, ibidem; p. 260). E, ao se referir à “implacabilidade” e à “impenetrabilidade”
da intimidade doméstica, a qual não pode ser vista, a não ser através do filtro criado
pelo ato de se mostrar a casa, King dirá que é justamente esse ato que faz com que o
que permitimos expor ao público seja distinto do que realmente se faz em
privacidade. Só podemos ver como as outras pessoas moram e são em suas casas,
segundo o que elas nos permitem ver – quando elas nos permitem. Avançarmos além
disso, seria destruir o habitar doméstico, cujo ritmo seria inevitavelmente afetado pela
nossa presença – ou seja, como observa King, ainda assim, não conheceríamos o
verdadeiro habitar doméstico dessas pessoas (King, 2004, p. 40, 41). Nas palavras do
autor, ...

“O que fazemos em nossas pequenas caixas de tijolos, procuramos manter privado,


e queremos partilhar apenas com aqueles que conhecemos bem. O que vai por trás
de portas fechadas, de fato, não diz respeito à observação pública. [...] E, sabemos
disto, precisamente, porque todos nós vivemos essa experiência.” (King, 2004; p.
ix)

Todos nós já vivemos a experiência de vermos nossa privacidade doméstica


invadida por visitas indesejadas, ou por pessoas com as quais não desejamos partilhar
nossa intimidade, e cuja presença ameaça as bordas do que desejamos ser conhecido
por estranhos ao nosso convívio doméstico. A certa altura, precisamos fechar a
cortina que se abre aos olhos dos estranhos à nossa domesticidade e sermos
novamente envolvidos por nossas paredes, nossos cheiros, sons e objetos.

112
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

O entrevistado Rui64 traduz essa sensação, ao descrever o fato de precisar receber


um técnico em seu banheiro para consertar um problema de vazamento:

“Este é o meu banheiro – por sinal, fizeram um buraco no teto para consertar um
vazamento do apartamento de cima. Aqui são as minhas coisas – é o meu banheiro.
Tudo azul – parede, toalha... E o indivíduo que veio consertar o teto pisa com pé sujo
no meu tapete. Isso agride o meu espaço físico; vê a minha intimidade no meu
banheiro, vê o meu quarto, as minhas coisas, o meu boxe de tomar banho, onde eu
fico nu, o meu vaso sanitário... Dá vontade de perguntar pra ele, rápido, ‘quando é
que você termina? Quando é que você vai embora? Quando é que você vai sair do
meu apartamento?’ Ele é um invasor. Ele, num computador, seria um vírus.” (Rui)65
****

E o entrevistado Lúcio66 refere‐se à sua experiência de morar em flat – que ele não
quer repetir por sentir sua privacidade invadida:

“[...] eu já acho que morar em flat, não dá mais. É uma invasão muito grande, você
não tem privacidade nenhuma. Aquilo é propriedade sua, mas cada dia é um
estranho que entra, tem a chave, você não pode deixar uma carteira, um laptop em
cima da mesa [...]." (Lúcio)

Como metáfora para entendermos a privacidade que queremos ver


praticada em nossas casas, podemos trazer a concepção de Bollnow, que fala da porta
e da janela como elementos da casa que estabelecem a conexão entre “o mundo de
dentro” e o “de fora”, sendo que com missões bem distintas. A porta, com seu caráter
“semi-permeável”, agiria como certos recipientes que conhecemos de experiências
químicas, cujas paredes deixam passar livremente um solvente, enquanto retém os
elementos nele dissolvidos. Assim a porta permitiria o acesso dos que pertencem
e/ou pactuam com a intimidade da casa, excluindo os estranhos, os quais só teriam
acesso com consentimento expresso dos primeiros (Bollnow, ibidem; p. 143).

“Para os amigos e convidados, tudo. Para os estranhos... a proteção!” (Kaufmann,


1976; p. 17)

64
Apresentado no Capítulo 2.
65
Apresentado no Capítulo 2.
66
Apresentado no Capítulo 1.

113
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

O entrevistado Hermes, 58 anos, comissário de bordo aposentado, refere‐se à sua


casa como o “último reduto” – lugar da sua família, das pessoas que “mais ama, que
têm mais importância nesse mundo”, e que, por esta razão, deve ser preservada das
pessoas que não partilham do que ele chama de “essa unidade”:

“[...] Eu sempre digo: ‘Só vem à minha casa quem eu quero’. Isso, para continuar essa
mesma convivência. Você não convida qualquer um, por respeito pela sua casa.”
(Hermes)

Tendo passado um tempo em Angola, a trabalho, partilhando com colegas uma


habitação fornecida pela companhia, Hermes relata a estratégia de escolha do seu
quarto, de modo a poder sua intimidade apenas com o único colega com quem tinha
amizade:

“[...] Éramos seis pessoas em um apartamento de três dormitórios, [...] todos da


empresa, todos conhecidos – conhecidos não, você sabia quem era: ‘Oi, tudo bem,
tal...’ Mas, no começo, eu só conhecia melhor o Rui. Então, como eu e ele chegamos
antes, pegamos o único quarto que casualmente só tinha duas camas. Então, a gente
fez lá o nosso mundo. Passava a chave na porta e era o nosso mundo.” (Hermes)

A semi-permeabilidade do espaço privado proporcionada pela porta,


conforme elabora Bollnow, também pode ser considerada em relação à janela.
Contudo, enquanto a porta estabelece a permeabilidade em relação à presença física
de quem desejamos ou não em nosso espaço privado, a janela incorpora a
possibilidade de “ver sem ser visto”, a qual Bollnow considera um “princípio
fundamental de um cuidadoso asseguramento da vida”. No entanto, haverá
momentos em que sentimos a necessidade de aumentar a impermeabilidade de
nossas janelas, sendo que, especialmente à noite, quando nos encontramos na casa
iluminada, expostos aos olhares do estranho (que poderá, quem sabe, olhar a partir
da obscuridade, sem ser visto), sentimo-nos inseguros e fechamos nossas cortinas
(Bollnow, ibidem; p. 147-148)67.
Se, por um lado, a implacabilidade de nossa intimidade doméstica em
relação a pessoas estranhas é (ou deveria ser) controlada por nós, por outro lado, no

67
Nesta passagem, Bollnow faz, em seu livro, uma referência direta à estética modernista,
reafirmando a importante função da casa física como preservadora da privacidade de seus habitantes
– ainda que seja uma característica do estilo arquitetônico adotado “o abrir a casa ao mundo exterior
por meio de superfícies amplas de vidro” (Bollnow, ibidem; p. 48).

114
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

interior de nossas casas, em relação às pessoas com quem partilhamos nosso espaço
doméstico – e proporcionalmente ao nível de relacionamento/parentesco que
estabelecemos com elas –, de certa forma, também procuramos exercer o controle
sobre as ações que consideramos privadas. Quanto ao sucesso dessa tentativa, muitas
questões entram como determinantes, tais como fatores físicos do espaço habitado e
aspectos socioculturais e psicológicos das pessoas que partilham o mesmo espaço
habitado.
Estes fatores poderão, por exemplo, definir o que consideramos razoável
em termos de densidade populacional no espaço doméstico em que vivemos. A
experiência de partilhar um espaço doméstico com um número de pessoas maior do
que nossos padrões consideram aceitáveis envolve, segundo aponta Gifford, aspectos
circunstanciais que acarretam efeitos tanto emocionais –normalmente negativos –,
quanto comportamentais. Em tais circunstâncias, a presença dos outros faz-nos
experimentar sensações de coibição de nosso comportamento; sentimos um
desconforto e uma interferência sobre nossa fisicalidade que fazem com que não
sejamos capazes de atingir nossas expectativas particulares (Gifford, ibidem; p. 145).
Os efeitos emocionais destas circunstâncias envolverão reações negativas
em relação às outras pessoas em volta e à própria situação de falta de privaciade68.
Ainda segundo Gifford, as principais reações comportamentais a uma situação de
superpopulação têm o caráter de assertividade: protesto, expressão da opinião;
determinação para permanecer no local apenas o mínimo necessário para concluir as
atividades que têm que ser realizadas ali; fuga psicológica, ou seja, permanecer no
local, mas buscar dessintonizar-se da situação; abandono do local; ou, ainda,
adaptação, quer dizer, tentar a melhor maneira possível de se lidar com a situação,
seja pela busca de melhor interação com as outras pessoas, seja pela tentativa de fazer
o espaço físico o mais confortável possível (Gifford, ibidem; p. 145).

Muitos desses efeitos podem ser exemplificados através dos depoimentos dos
entrevistados Alencar e Maria, que descrevem as experiências de terem suas
privacidades e intimidades invadidas devido a uma circunstância de superpopulação
experimentada em seus espaços domésticos:

68
Referindo-se a estudos sobre superpopulação, Gifford ressalva que reações positivas em relação a
essa situação, aparentemente, só ocorrem quando se acredita ter conseguido lidar com ela (Gifford,
ibidem; p. 145).

115
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Alencar, 35 anos, professor de educação física, descreve sua “angustiante” situação


atual, em que, após ter vivido uma falência nos negócios, precisou deixar seu
apartamento e passar a morar, com a esposa e três filhos, em um quarto, no
apartamento dos pais. A impossibilidade de estar a sós com sua esposa, o estresse
causado pela, a “intromissão direta” de seus pais sobre seus assuntos pessoais e sua
rotina doméstica e a percepção de uma real ameaça ao seu casamento são assim
descritos por ele:

“[...] E hoje eu tô vivendo de favor, num quarto, na casa da minha mãe – eu, minha
esposa e mais três filhos. Um quarto, mesmo; um quarto de verdade! Minha mãe
emprestou um quarto da casa dela. É um apartamento grande, no Itaim, daqueles
antigos, então você tem um espaço bom. Ele é grande, o pé‐direito é grande, bem
antigão. Então, comporta uma cama de casal com um colchão king size, uma cama de
solteiro – uma bicama –, que fica grudada na minha, o espaço da cômoda, a poltrona,
e o colchãozinho que a gente põe pra menorzinha...
[...]
Eu tenho uma menina de oito anos – é o que eu acho o mais difícil de lidar: do seu
lado, da cama de casal, né? –, um menino de cinco anos, e uma menina de um ano e
meio. Agora, o que menos eu tenho é privacidade.

[De que forma a privacidade lhe faz falta?]

Na educação dos meus filhos, sem nenhuma intromissão de terceiros; numa


conversa com a minha esposa, sem nenhuma intromissão; na hora de comer...
Porque, agora, divide‐se tudo; então, você tem que estar de acordo com o ritmo da
casa – que não é mais minha. A intromissão da minha mãe – minha esposa não
consegue fazer uma discussão saudável comigo, que tem alguém por perto...
disfarçando, sabe? Sempre tem alguém. Sei lá, eu tô na cozinha conversando com a
minha esposa, entra a minha mãe, ou o meu pai...

Então, eu acho que é isso que incomoda mais o dia‐a‐dia, principalmente da minha
esposa: ela não poder andar em casa à vontade, de repente, a porta aberta, meu pai
passa no corredor... essas coisas que... É uma intromissão direta, mesmo. [...] Eu só
fico angustiado de ver as crianças crescendo e a gente não ter espaço pra namorar,
não ter espaço pra conversar, então, isso me angustia. [...] Eu acho que o que segura
mais, agora, são as crianças. Se não, já tinha cada um ido pra um canto. Então, é uma
fase complicada... nós estamos falando de um ano e oito meses.
[...]

116
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

no final da semana, se tá chuvoso, você não tem o que fazer. E, aí, começam as
agressões verbais. [...] à noite, tá aquele calorzão, cê quer dormir de porta aberta,
não, tem que fechar a porta porque tem a passagem do corredor, pro banheiro,
então não pode.” (Alencar)
****

A entrevistada Maria69 refere‐se às circunstâncias de superpopulação vividas na casa


de sua infância e pré‐adolescência, com a falta de um espaço físico onde pudesse
exercer sua individualidade sem que estivesse cercada das pessoas da família. É
devido a essas circunstâncias que Maria justifica a importância que passou a dar, em
sua vida, a um espaço privado: “Eu sonhava em ter uma casa, eu sonhava em ter um
quarto pra mim. Eu queria ser interna num internato só pra ter um canto meu”. Ter
partilhado o mesmo quarto com seus pais, na infância, faz Maria, agora, refletir sobre
não apenas a sua falta de privacidade – cujos efeitos psicológicos levaram muito
tempo para serem absorvidos – mas, sobre a falta de privacidade de seus pais – o
que, também, pareceu incomodá‐la.

“Eu nasci na casa que o meu avô construiu. [...]. A minha mãe nasceu nessa casa e eu
nasci nessa casa. Óbvio que, a princípio, ela atendia às necessidades do meu avô. Ele
não imaginou que fosse ter oito filhos [...]. E cada filho que casava, passava um
tempo do casamento nessa casa, até fazer um pé‐de‐meia e poder sair pra sua
própria casa. No caso da minha mãe [com três filhos] e da minha tia, irmã dela [com
dois filhos], elas casaram e ficaram com meu avô até ele morrer.
[...]
Isso, na prática, significava que eu não tinha um espaço pra mim. Eu nasci e fiquei
dormindo, de zero a doze anos, no mesmo quarto do meu pai e da minha mãe. Isso
provocou coisas muito interessantes – interessantes, hoje, que já estão resolvidas
pra mim. Mas, eu tinha muito medo, quando eu ouvia um homem falando baixinho e
de vagar. Depois eu fui sacar que isso podia ter a ver com meu pai verificando se eu
estava dormindo ou não, pra transar com a minha mãe. A privacidade deles era zero.
Porque o que separava o quarto de um corredor – que, na verdade, era um corredor
pra todos os quartos daquela ala – era uma cortina. Então, a vida sexual deles deve
ter sido uma grande merda.
[…]
Uma coisa que, com certeza, deve ter me marcado muito – não só na casa, mas em
tudo na minha vida – é a necessidade de privacidade e de espaço. Aquela coisa de
não poder ter pesadelo porque, de repente, dava grito e acordava o avô […]. E essa

69
Apresentada no Capítulo 1.

117
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

coisa de estar dormindo muito junto com pai, com mãe, isso era, pra mim, era
desesperador.” (Maria)
****

Tal como Maria, que percebe a importância da privacidade para as pessoas com
quem partilhava a casa – no caso, seus pais –, a entrevistada D. Dalma, 72 anos70,
também se preocupou com o fato de sua presença estar perturbando a privacidade
de sua irmã e seu cunhado, em cuja casa passou a morar quando, após uma certa
idade, não teve mais condições de morar sozinha. A sensação de estar interferindo
nas atividades privadas da casa fez com que D. Dalma a decidisse deixar para passar a
morar em um asilo para idosos:

“[...] eu passei a morar com uma das minhas irmãs, que é casada, porque ela
começou a ficar preocupada. Ela disse, ‘já que você não quer mais ninguém, sozinha
você não vai ficar’, aí eu fui pra casa dela.
[...]
Mas, com o tempo, eu passei a sentir certas dificuldades porque a minha irmã não é
muito jovem, meu cunhado sofreu um derrame – não que tenha tido seqüelas, mas
ele se tornou uma pessoa mais difícil. Então, eu pensei por muito tempo numa
maneira de ficar mais... separada. Também para dar mais liberdade pra minha irmã
agir.
[...]
Eu diria que, às vezes, não é que eu estava atrapalhando, mas ela ficava assim, talvez,
constrangida, entende?

Quando chegou nesse ponto, em que eu achei que seria melhor eu ficar, de novo,
separada, eu tenho impressão que deu certo. Pra ele, meu cunhado e, de uma certa
forma, pra mim. [...] Agora, eu dou tranqüilidade pra ela, eu também sei que ela está
mais à vontade: sabe lá, não é? Às vezes, eu poderia estar tirando um pouco da
liberdade deles. Se bem que eu sou muito discreta, procuro entender as coisas,
colaboro, mas nunca é cem por cento, não é?” (D. Dalma)

Ao partilharmos o mesmo espaço doméstico com alguém, abrem-se alguns


canais de informações íntimas, o que faz com que, naturalmente, partilhemos com
essa pessoa não apenas o mais corriqueiro das funções do dia-a-dia doméstico, mas
coisas mais profundas, relacionadas a nossos sentimentos, e ainda, questões voltadas à
nossa própria vida corporal. Essa pessoa tanto poderá presenciar nossas tristezas,

70
Apresentada no Capítulo 2.

118
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

nossas ansiedades pessoais, nossos devaneios, etc., quanto o momento em que


acordamos de manhã, ou quando saímos do banho, ou quando passamos o dia na
cama, indispostos, por um problema de saúde. No entanto, no instante em que um
de nós deixa de partilhar a mesma casa, ainda que possamos permanecer grandes
amigos, alguns desses canais de informação sobre nossa intimidade, que foram
abertos por ação do convívio cotidiano doméstico, tornam-se mais controlados, e
ficamos mais alertas quanto ao que expomos.
O espirituoso filme Histórias de Cozinha71 caracteriza, de um lado, a
dificuldade de alguém, estranho à intimidade de uma casa, conhecer, objetivamente,
a realidade cotidiana que acontece ali. Por outro lado, confirma a força do convívio
dentro do espaço doméstico para a abertura dos canais de intimidade entre as pessoas
que partilham o mesmo cotidiano. A história se passa no contexto do pós-guerra,
quando um dos propósitos industriais era dar ao homem moderno uma vida mais
confortável. Em 1950, um Instituto criado na Suécia para estudar a eficiência das
casas desenvolve estudos e testes de modelos de cozinhas, visando poupar às donas-de-
casa centenas de quilômetros de passos por ano. Decidindo expandir seus trabalhos e
estudar uma grande concentração de homens solteiros em uma remota parte do país
vizinho, a Noruega, o Instituto envia ao local uma delegação de pesquisadores para
observar as ações de vários desses noruegueses, voluntários para a experiência.
Por vários dias, cada observador
deve, disciplinadamente, sentar-se em uma
altíssima e intimidadora cadeira, em um
canto da cozinha de seu hospedeiro,
registrando graficamente cada movimento,
sem interferir em suas ações e tarefas de
cozinhar, lavar, comer, etc. Como regra
para os técnicos, há a terminante proibição
de estabelecer qualquer tipo de interação
Fig. 3 O personagem Folke (do filme Histórias
com a pessoa observada, para que um de Cozinha), em seu posto de observação,
observa Izak em sua cozinha.

71
Título original: Salmer fra kjøkkenet; Noruega, Suécia, 2003.
In: http://www.kitchenstories.de/; http://www.webcine.com.br/filmessi/kitchsto.htm;
http://carteles.metropoliglobal.com/paginas/ficha.php?qsec=peli&qid=1660966160;
http://videodetective.com/home.asp?PublishedID=99843;
http://www.reelingreviews.com/kitchenstories.htm

119
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

possível envolvimento pessoal não venha a atrapalhar a objetividade da pesquisa.


Um observador, Folke, tem problemas com seu hospedeiro, Isak, que
pensa em não mais participar do estudo, mas que, muito relutantemente, concorda
que o observador entre e se instale em sua cozinha. O óbvio incômodo por que passa
Izak, ao ser observado por um estranho em suas atividades na cozinha, faz com que
ele improvise uma outra cozinha em seu quarto, no andar de cima, onde passa, longe
do olhar de Folke, a cozinhar e a comer – e a observar seu observador, através de um
buraco no piso.
Com o tempo, ainda que sem a troca de uma só palavra entre os dois,
ficam claros o relaxamento da postura impassível do técnico e o progressivo descuido
de Izak em esconder suas atividades na cozinha. Folke passa a olhar Izak como uma
pessoa solitária, e ele próprio também se sente só em sua função. O fim da
hostilidade, e o primeiro sinal de interação, acontecem quando Folke, percebendo
que acabara o cigarro de Izak, oferece-lhe seu próprio maço, atirando-o sobre a mesa.
Logo, será a vez de Izak dizer, ainda que secamente, “hora do café” (por dias, Folke
“cobiçara” o café que Izak tomava algumas vezes por dia). Lentamente, as barreiras
entre os personagens caem e aqueles primeiros contatos, mais formais, dão lugar a
uma abertura da intimidade e a uma relação de cumplicidade entre eles (uma vez que
ambos sabem das restrições que envolvem a pesquisa) – e à conseqüente perda da
objetividade do trabalho de observação do cotidiano doméstico de Izak.

A privacidade doméstica e o habitar

Mas, em que termos a privacidade que necessitamos ter preservada em


nossas casas estaria relacionada ao habitar como ação essencial do indivíduo – ao “ser
um ser humano”, ao “cuidar”, ao “permanecer preservado, em paz, em um lugar”,
que vimos através de Martin Heidegger? Esta conexão pode ser estabelecida a partir
da retomada da noção da esfera privada como condição da nossa existência – tal
como pudemos ver através de Hannah Arendt (1997; p. 80), quando tratamos da casa
física72 –, assim como da própria concepção de privacidade de Arendt.

72
Capítulo 1.

120
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Conforme vimos anteriormente, da mesma forma que habitamos coletiva e


publicamente, necessitamos, também, em nosso “estar sempre a caminho”, de um
habitar doméstico, no qual, retirados do mundo público, afastados do convívio social
e da intrusão dos que não consideramos suficientemente íntimos, possamos praticar
nosso habitar de acordo com nossas escolhas pessoais e privadas. Detendo-se nesta
esfera privada, Arendt ressalta a importância de ela permanecer oculta, preservada, à
sombra da publicidade (Arendt, ibidem; p. 81). Isto, pois – em suas palavras –, “há
muitas coisas que não podem suportar a luz implacável e crua da constante presença
de outros, no mundo público”. Enquanto que ao mundo público apenas se expõe o
que é considerado “relevante”, “digno de ser ouvido”, dirá a autora, as ações da nossa
vida privada e íntima devem permanecer resguardadas, “à meia luz” (Arendt, ibidem;
p. 61).
Contudo, Arendt ressalta que isto não significa que as questões privadas
sejam irrelevantes. Ao contrário, assuntos extremamente relevantes – como o amor,
por exemplo – só sobrevivem na esfera privada. Diferente da amizade, dirá a autora, o
amor, quando trazido a público, “morre ou, antes, se extingue” (Arendt, ibidem; p.
61)73. Assim, Arendt confirma a importância, para a nossa existência, da privacidade
de “um lugar só nosso, no qual podemos nos esconder”, o que considera o único
modo eficaz de garantirmos a preservação do que está – e deve permanecer – à
sombra. E aqui, é interessante a nota da autora, referindo-se à “forte conotação de
sombra e treva” que carregam as palavras grega e latina que designam o interior da
casa – megaron e atrium. Nossa esfera privada seria, pois não só nosso “único refúgio
seguro contra o mundo público comum” e tudo o que nele ocorre, mas também
nossa garantia de controle sobre o fato de sermos vistos e ouvidos; ou seja, sobre o
que consideramos que pode ser exibido e/ou partilhado no mundo comum, e o que
deve ser ocultado (Arendt, ibidem; p. 80-81).
Outro aspecto da privacidade doméstica, igualmente importante para
estabelecermos a conexão com o habitar como ação essencial do indivíduo, é o fato de

73
A esta consideração de Arendt, pode-se atribuir um caráter extremamente particular e íntimo, pelo
fato de ela própria ter vivido, à sombra do conhecimento público, seu grande amor por Heidegger.
Segundo escreve Rüdiger Safranski, biógrafo de Heidegger, ...
“Heidegger impunha as regras desse relacionamento e Hannah os cumpriu. O mais importante era absoluto
segredo. Não apenas a mulher dele mas ninguém na universidade e na pequena cidade deveria saber de nada.
[...] Hannah submetia-se aos arranjos para meu amor nunca te causar nenhuma dificuldade além do que
tem de ser” (Safranski, 2005; p. 176).

121
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

que nos fala Gifford, de ser a privacidade uma parte importante do nosso sentido de
self, ou seja, da nossa identidade. Gifford justifica sua posição, através do estudo de
Alan Westin sobre a privacidade (1967). Como afirma Westin, “às vezes, não é fácil
dar sentido a tudo o que acontece conosco, se ainda estamos no espaço público”,
sendo, então, na privacidade que encontraremos o tempo e o espaço para refletir
sobre o significado dos eventos, absorvê-los de acordo com nossa percepção de
mundo, e formular para eles respostas consistentes com nossa auto-imagem. É, ainda,
em privacidade que refletirmos sobre o progresso de nossas vidas, sobe quem
realmente somos, sobre como nos relacionamos com as outras pessoas e como
deveríamos nos relacionar (Westin, 1967; Apud Gifford, ibidem; p. 181, 182-183).
Outro aspecto não menos importante da privacidade trazido por Westin é
o fato de ela funcionar como veículo de liberação emocional. Freqüentemente,
sentimos mais emoção do que nos é permitido demonstrar socialmente. É nos
momentos em que afloram tais sentimentos, que precisamos de um lugar em
privacidade para deixá-los fluir (Westin, ibidem. Apud Gifford, ibidem; p. 183). E que
melhor lugar do que a nossa casa poderemos querer para chorar à vontade, amargar
uma decepção, ou liberar sentimentos mais positivos e excitantes, como lembra o
próprio autor, fazendo caretas para nós mesmos no espelho, cantando alto loucas
canções?
Como exemplo para as considerações acima, Westin traz uma experiência
que muitos poderão ter vivido, que é a de nos apaixonarmos por alguém com quem
vivemos uma nova relação. Segundo Westin, mesmo nos prazerosos momentos
iniciais deste sentimento, é comum que tenhamos a sensação de que, enquanto
adentramos essa nova relação, estamos “perdendo-nos de nós mesmos”. Enquanto
uma parte de nós deseja intensamente a intimidade deste novo relacionamento, a
outra parte poderá, freqüentemente, necessitar de solidão e reserva, para que, assim,
possa refletir se “isto é realmente para mim”, ou se entrar nessa relação maravilhosa
não irá alterar meu sentido de identidade [,meu senso de eu] de um modo que eu não
deseje que aconteça. Assim, mesmo considerando as mais agradáveis e prazerosas
experiências que possamos viver em nosso habitar lá fora, não raro, precisamos dar
“um passo atrás” e avaliar – em privacidade – o que elas realmente significam para
nós (Westin, ibidem. Apud Gifford, ibidem; p. 182).
Privacidade está, também, relacionada ao desenvolvimento das crianças e
do modo como elas aprendem a se adaptar a um espaço privado. Gifford observa que,

122
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

embora existam poucos estudos quanto à necessidade de privacidade das crianças, é


certo que elas necessitam de intimidade física; sendo que, à medida que elas crescem,
também crescem suas necessidades de reserva, de estar a sós. O conflito entre a
necessidade de privacidade e a falta de autonomia para buscá-la onde bem se quer
encontraria um pico na pré-adolescência, nas idades entre oito e doze anos.
E é nesse momento que a criança buscará
estar a sós em seu quarto – o que, segundo
o autor, deveria ser entendido pelos pais
como o desenvolvimento de sua
necessidade de privacidade. Mais adiante,
na adolescência, esta compreensão deveria
ser estendida para o fato de o adolescente
necessitar não apenas da solitude em seu
quarto, mas também de, ali, poder
desfrutar de uma intimidade privada com Fig. 4 Aviso na porta do quarto de um pré-
seus amigos (Gifford, ibidem; p. 183, 184). adolescente: necessidade de estar a sós.
Clare C. Marcus aponta como uma significativa função dos esconderijos
que criamos quando crianças, o exercício de experimentar um lugar em privacidade.
Sejam esses lugares uma cabaninha, ou um canto protegido por um móvel, ou um
esconderijo no quintal. Tenham esses esconderijos sido “achados” ou construídos,
escreve Marcus, todos eles servem a propósitos sociais e psicológicos semelhantes: são
lugares nos quais a separação dos adultos foi buscada, onde as fantasias podiam ser
praticadas, e onde o próprio ambiente podia ser moldado de acordo com as
necessidades de seus usuários (Marcus, 1997; p. 24, 25).

Os entrevistados Christian e Maria74 falam da relação com esses espaços de suas


infâncias:

“Espaços confinados tiveram sua parte em minha vida, mas mais quando eu era bem
jovem, como meio de criar um espaço separado e, talvez, uma identidade. Ser
chamado para dentro para jantar, eu lembro que era terrível, porque você era
forçado a abandonar aquele recém‐criado espaço pessoal, para voltar ao espaço
comum, rotineiro da casa da família, e a todas as suas associações e significados de
autoridade.” (Christian)
74
Apresentados no Capítulo 1.

123
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

****

“Durante o dia, todos os lugares eram ocupados, a minha mãe lavava roupa num
lugar, lavava louça no outro, e reclamava... A casa toda era cheia de gente que
entrava e saía... A área que as mulheres estendiam as roupas era uma área muito
grande que, de noite, não tinha roupa estendida. Era ao ar livre, era céu aberto. Eu,
na verdade, esperava o dia passar pra chegar a noite. [...] Qual era a minha
distração? Eu pegava uma bacia daquelas que minha mãe usava pra lavar roupa, e ia
sozinha, depois do jantar, botava água na bacia, e ficava com a mão batendo na água
e olhando o céu. Eu via a lua refletida na água, achava que ela estava mais perto de
mim porque estava na bacia, e não no céu. Mas eu gostava de olhar pra ela no céu.
Era o meu lugar.” (Maria)

É aí, segundo analisa Marcus, que se dá o início do ato do habitar privado,


ou do reconhecimento da necessidade humana de reivindicar um espaço, um lugar
para si próprio no mundo. É assim que começamos a desenvolver a relação que
estabeleceremos, quando adultos, com nossas casas: de estarmos no lugar em que nos
sentimos o mais à vontade possível para sermos nós mesmos, onde não precisamos
erguer quaisquer fachadas. A autora ainda observa que um lugar para se experimentar
o sentido de privado não tem, necessariamente, que ser secreto (Marcus, ibidem; p.
24). Sob este prisma pode ser vista a busca do adolescente pelo seu pequeno mundo
privado – o seu quarto –, onde ele, ainda inserido no mundo familiar, poderá estar à
vontade para exercer sua individualidade.

A entrevistada Maria descreve o momento em que consegue atender à sua


necessidade de privacidade, quando, aos doze anos, muda‐se, com os pais, para uma
casa onde não mais precisa partilhar o mesmo quarto com os pais, passando,
finalmente, a ter seu próprio quarto:

“[...] E quando nós mudamos da casa do meu avô, porque ele morreu, ninguém tinha
grana pra sustentar uma casa sozinho, então, foi todo mundo morar junto. E eu
fiquei, pela primeira vez, com o quarto de empregada. Mas era o meu quarto, pela
primeira vez, o meu quarto – que, pra mim, era um palacete! Porque eu podia fumar,
eu podia soltar pum, eu podia experimentar um bando de coisas que eu desconhecia
de mim mesma. Até aí, eu não sabia a minha necessidade de nada. O que era dormir,
o que era acordar, eu não sabia nada disso. Então, é fundamental pra mim... o auto‐
conhecimento, o auto‐reconhecimento, está totalmente ligado ao espaço. [...] Eu

124
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

acredito que o seu filho, a minha filha, que sempre tiveram o quarto deles, nunca vão
experimentar esse tipo de coisa que eu experimentei. Mas eles vão saber de uma
coisa que eu também sei, que é a necessidade de brigar com alguém, e ter um quarto
pra se trancar.” (Maria)

Privacidade e intimidade domésticas: breve contextualização


histórica desses conceitos

As concepções de privacidade e intimidade domésticas não se


apresentaram sempre da maneira como até aqui foram apresentadas. Elas
percorreram uma longa trajetória até chegar aos termos segundo os quais hoje as
conhecemos. A Bíblia já fazia inúmeras referências a esses conceitos; além do fato de
que, ao longo da história, tais conceitos sempre terem estado relacionados ao
contexto e ao meio em que foram assumidos.

“Meu povo habitará em mansão serena, em moradas seguras, em abrigos


tranqüilos. (Isaías, 32:18)

Não se constituindo objetivo deste trabalho investigar esta evolução


conceitual, atenhamo-nos a alguns aspectos da história que se refletem no que, hoje
em dia, conhecemos como privacidade e intimidade domésticas, e na forma como
usamos nossas casas para obtê-las.
Vejamos a explicação do significado de privacidade trazida por Arendt,
que, para isto, se volta à raiz do termo privado, localizada na consciência política greco-
antiga. Segundo nos conta a autora, dada a importância atribuída à esfera pública
pelos antigos gregos, ter uma vida privada significava viver em um estado de privação
“de [se] ser visto e ouvido por outros”, ou seja, ser privado de realizar algo que fosse
“mais permanente que a própria vida”. Um homem nessas condições, ou seja, sendo
que o que quer que ele fizesse permanecesse sem importância ou conseqüência para
os outros, era “como se não existisse” (Arendt, ibidem; p. 68).
Assim, viviam uma vida privada, fora das vistas alheias, os escravos e as
mulheres – não só por serem “propriedades de outrem”, mas também pelas funções
corporais que desempenhavam, as quais, meramente voltadas à subsistência do

125
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

indivíduo e à preservação da espécie, não eram dignas de adentrarem a polis. Arendt


considera “impressionante” que, desde os primórdios da história até os nossos
tempos, aquilo que sempre foi considerado indigno de ser mostrado em público – e,
por isto, escondido na privacidade –, foram os aspectos corporais da existência
humana, estes ligados à necessidade do processo vital; ao fato de termos
“necessidades” – no seu sentido original, “de sermos carentes pelo fato de termos um
corpo” (Arendt, ibidem; p. 55; 82-83).
A observação de Arendt pode ser verificada, no contexto brasileiro, através
do comentário do arquiteto Francisco S. Veríssimo e do historiador William S. M.
Bittar que, referindo-se à história do setor íntimo da casa brasileira, observam que até
mesmo os nomes dos aposentos básicos que constituem esse setor – quarto, banheiro
– trazem, ainda hoje, “significados ambíguos que podem mesmo gerar olhares espantados,
risos abafados ou sorrisos marotos se pronunciados indevidamente em locais e horários
inadequados”75 – isto, ainda que considerada a evolução desses aposentos, que
passaram da “sombria e abafada alcova colonial, com urinóis e jarras como banheiro, aos
aposentos do século XIX, de requintado mobiliário, ou aos verdadeiros cenários de culto ao
corpo” dos dias de hoje (Veríssimo e Bittar, 1999; p. 88).
Retomando a concepção da vida como “uma questão pública”, à qual
Witold Rybczynski se refere como ainda vigente na Idade Média, o autor estabelece
uma relação entre o desconhecimento da intimidade doméstica e a falta de
consciência da própria individualidade, o que se faz refletir no próprio uso da casa.
Na casa medieval, os cômodos não tinham funções específicas; o mesmo cômodo que
servia, pela manhã, como local de trabalho, ao meio-dia, com a retirada do atril, e o
posicionamento de uma mesa, tornava-se uma sala de refeições. Mais tarde,
desmontava-se a mesa, e o banco era usado como sofá, em uma espécie de sala de
estar, a qual, ao fim do dia, virava quarto de dormir. Conforme escreve Rybczynski,
“assim como as pessoas [da Idade Média] não tinham uma forte consciência de si, elas
também não tinham um quarto próprio”. Aliás, acrescenta, é muito improvável que
antes do século XVII, alguém tivesse o seu próprio quarto, onde pudesse ficar a sós
(Rybczynski, 1996; p. 32, 48).

75
Dentre alguns sinônimos de “sanitário”, segundo Houaiss (2001), estão: latrina, aparelho, banco,
cafoto, cagatório, cambrone, casa-comum, casinha, cloaca, comua, dejetório, gabinete, necessária,
patente, privada, quartinho, reservado, retreta, secreta, sentina, etc.

126
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Apenas após o declínio da “vasta e gloriosa esfera pública” (Arendt, ibidem;


p. 61), e o surgimento, somente há “duzentos ou trezentos anos atrás”, do sentido
moderno de termos como “autoconfiança”, “auto-estima”, “melancolia” e
“sentimental” – conforme John Lukacs (Apud Rybczynski, ibidem; p. 48)76 –, é que se
pôde observar a “emergência de algo novo na consciência humana: o surgimento do
mundo interno do indivíduo, do próprio ser e da família”. Conforme Lukacs,
“enquanto as pessoas da Idade Média tinham pouca autoconsciência, o interior de
suas casas era vazio, incluindo os salões dos nobres e dos reis. Os móveis internos das
casas surgiram junto com os móveis internos das mentes” (Lukacs; ibidem). Ou seja,
como afirma Rybczynski, mais do que uma simples busca pelo bem-estar físico, a
evolução do conforto doméstico tem origem no conceito de casa como “um ambiente
para o aparecimento da vida interior” (Rybczynski, ibidem; p. 48).
É neste contexto que Arendt afirma que somente a era moderna veio a
descobrir quão rica e diversificada pode ser a esfera privada nas condições da
intimidade, e que, se por um lado, a distinção entre o privado e o público parece
coincidir – nas palavras da autora – “com a oposição entre a necessidade e a liberdade,
entre a futilidade e a realização e, finalmente, entre a vergonha e a honra”, por outro, não é
verdade que somente o que diz respeito às necessidades do corpo, o fútil e o
vergonhoso, tenham o seu lugar adequado na esfera privada (Arendt, ibidem; p. 82,
83).
Na visão de Tomás Maldonado, o surgimento dessa “mudança sutil e
progressiva na sensibilidade”, que passou a alterar os modos de ser, as preferências, e a
própria imaginação coletiva e individual das pessoas, foi parte essencial de um novo
modelo de vida proposto pela burguesia industrial, que passava a estabelecer não
apenas uma nova ordem familial – mais coesa –, mas, simultaneamente, as mudanças
em relação ao espaço da habitação dessa família. Assim, os espaços vivenciais
“abertos”, “fluidos”, “imprecisos” que abrigavam a família tradicional passavam a dar
lugar a habitações com “espaços fechados”, articulados em um sistema de funções
rigidamente fixadas, onde a nova família nuclear burguesa passaria a morar
(Maldonado, 1996; p. 249).

76
Lukacs, “Bourgeois Interior”, p. 622. Não foi encontrada referência à publicação da citação de
Lukacs feita por Rybczynski.

127
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Segundo Maldonado, a nova proposta de habitar doméstico tinha como


objetivos fixar essa família em um lugar definido; abrigá-la de intrusões externas,
vinculá-la, pois, a um interior doméstico. No entanto, ressalta o autor, para se
estabelecer esse novo modo de habitar, além da criação de um espaço fechado para a
habitação, foi necessário que esse novo espaço passasse a promover um “novo ideal de
vida doméstica”, cujos conteúdo e forma, definidos pela burguesia, passariam a ser os
de uma vida centrada na privacidade, na “atmosfera da privacidade” – contudo, uma
privacidade que, além de levar em conta os valores espirituais tradicionais referentes à
interioridade, passava, também, a se basear em uma estrita regulação das coisas
materiais, que passavam, então a ser produzidos em escala industrial. Surgia, assim,
um novo conceito de conforto experimentado no espaço doméstico, o qual viria
relacionado ao uso dos novos objetos e móveis da casa, aos novos meios de relaxação,
aos procedimentos de higiene pessoal, advindos dos novos avanços industriais. Tais
práticas abririam, assim, o caminho para a prática privada de uma sensibilidade – e
sensualidade –, diferentes das de até então experimentadas (Maldonado, ibidem; p.
250).
O historiador inglês Joseph Bronowski, ao se referir aos mentores da
Revolução Industrial, dirá da “simples crença” em que se baseavam: “a boa vida é
mais do que a decência material; mas deve se basear na decência material.” (Apud
John H. Lienhardxviii)77. É neste ponto que a história da privacidade e da intimidade
domésticas mescla-se com a evolução do sentido de conforto doméstico – evolução
que, concordarão tanto Maldonado quanto Rybczynski, só pode ser observada no
contexto da produção, em escala industrial, das coisas que passaram a estar associadas
a esse conforto.
Ao afirmar que “as coisas da burguesia são os veículos para a sensibilidade
burguesa”, o historiador Peter Gay refere-se à abrangência desta convenção, segundo
a qual a aspiração ao conforto doméstico passou a estar relacionado ao desejo de um
lugar para abrigar tanto os objetos quanto as emoções e a intimidade doméstica (Gay,
1984; p. 441).

77
Em palestra apresentada pelo professor Lienhard no encontro da ASME (Sociedade Americana dos
Engenheiros Mecânicos), em Arlington, Texas, em fevereiro de 1999.
In: http://www.uh.edu/engines/powersir.htm.

128
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

A entrevistada Maria descreve, assim, seu esforço em adquirir objetos que viessem a
compor a intimidade de sua casa:

“[...] Aí, eu tive um apartamento alugado pequenininho, um estudiozinho, que você


não entrava na cozinha – só entrava o seu braço na cozinha. Tinha um fogão Semer
três bocas... Puxa, eu lembro, não tinha dinheiro pra nada! O primeiro dinheiro que
eu tinha, eu comprei uma geladeira – azul, GE. E essas coisas eram de uma alegria...”
(Maria)
****

Já o entrevistado Christian, ainda que vivendo em “algo parecido com um quarto de


hotel” (tal como já relatado no Capítulo 1), constata que a incorporação de objetos
pessoais faz com que esse cômodo passe a ser percebido por ele como um lugar de
sua privacidade e intimidade; como, de fato, sua casa:

“[...] Eu comprei um pequeno aparelho de som pra mim, que já virou parte da
mobília. Eu também comprei um piano elétrico, e isso se provou particularmente um
fator de bem‐estar. Junto com as outras peças do mobiliário do meu quarto, eu criei,
agora, a ilusão de casa, a qual, combinada com um sortimento de after‐shaves no
armário do meu banheiro, ajuda a aumentar a intimidade de minha privacidade.”
(Christian)

Referindo-se à carta escrita por Freud à sua noiva, contendo a lista das
coisas com que sonha para seu “pequeno mundo de felicidade” (já mencionada no
Capítulo 2), Gay ressalta que ninguém apontaria para Freud como um típico
representante do ideário burguês. No entanto, seu arrebatado catálogo constitui-se de
uma “pura convenção burguesa’; sendo que o conforto doméstico, não apenas na
mente de Freud, mas na de milhares de outras, está relacionado à idéia de um lugar
para o amor. Com trechos da carta de Freud, Gay apresenta, assim, a “encantadora
fantasia” sobre a domesticidade:

“‘[...] dois pequenos quartos’, para eles e para seus convidados; uma chama
sempre pronta para se preparar refeições; aposentos com ‘mesas e cadeiras,
camas, espelhos, e um relógio’; e tapetes; sem falar de ‘uma boa cadeira para
uma hora de aconchegante devaneio.’ [...] Ele [Freud] ainda encontrou muito
mais a que aspirar: ‘a biblioteca e a pequena mesa de costura e a luminária.

129
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

[...]’. ‘Deveríamos colocar nossos corações em coisas tão pequenas?’, Freud


pergunta; e responde que sim, devemos; ‘e sem apreensões’.” (Gay, 1984; p.
441-442)78

Ao associar a um casal que se amou – e que, agora, se separa – as coisas


que os dois possuíam, as quais compunham a identidade do seu “lar”, o compositor
Chico Buarque exemplifica, em sua poesia, a relação proposta por Gay, de estar a
idéia do conforto do espaço doméstico – conforto proporcionado pelas coisas que a
ele incorporamos – relacionada ao sentido de ser esse lugar, um lugar para se viver o
amor em privacidade:

Eu vou lhe deixar a medida do Bonfim


Não me valeu
Mas fico com o disco do Pixinguinha, sim!
O resto é seu
Trocando em miúdos, pode guardar
As sobras de tudo que chamam lar
As sombras de tudo que fomos nós
As marcas de amor nos nossos lençóis
As nossas melhores lembranças
[...]

(Chico Buarque. Trocando em Miúdos)

Em relação ao “moderno encantamento com as ‘pequenas coisas’”, Arendt


refere-se à sua representação clássica, o “petit bonheur” do povo francês – que floresceu
no século XIX –, e à sua influência, através dos anos, da arte de ser “feliz entre
‘pequenas coisas’”. Em um contexto perfeitamente aplicável aos dias de hoje, a autora
dirá que a rápida industrialização, que se encarrega de destruir e repor objetos
constantemente, poderá fazer-nos ver o espaço doméstico – compreendido entre
quatro paredes, e povoado por coisas às quais se dedicam “cuidado e ternura” – como
“o último recanto puramente humano do mundo” (Arendt, ibidem; p. 61-62).

78
Referência utilizada por Gay: “18 de agosto de 1882”, Briefe, 1873-1939, ed. Ernst L. Freud, 1960;
p. 29 (não há referência ao local de publicação).

130
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Fig. 5.1 Detalhe do cartaz: o que se vendem


não são produtos, mas as sensações que eles
proporcionam.

Fig. 5 Vista da fachada de loja de decoração em


São Paulo.

Um manual, escrito e publicado no Brasil em meados da década de 1970,


que se propunha fornecer “todas as informações necessárias à instalação de uma
moradia”, exemplifica as considerações de Arendt quanto à abrangência do sentido
burguês da felicidade experimentada no recolhimento privado do espaço doméstico,
sendo esse estado de satisfação propiciado e apoiado nas “pequenas coisas” que são
inseridas nesse espaço, justamente para esse fim. A autora do manual, que cito a
seguir, orienta os leitores – ao se mudarem para uma nova casa –, a nela construírem
um “cantinho feliz”; onde, apoiados em objetos estimados, passem a experimentar
não apenas o aconchego e a paz, mas também o isolamento, tanto físico como
emocional, dos fatos indesejados do mundo exterior. Isto, notará sua a autora, já será
suficiente para proporcionar ao morador a experiência do “contentamento” em sua
“pequena ilha de paz”:

“Escolha um recanto de sua casa, um cantinho tranqüilo, onde você possa


concentrar todos os seus confortos prediletos, para que fiquem todos à mão. Sentado
numa poltrona cômoda, sem nem precisar levantar-se, você terá ao seu lado, uma
mesinha, com uma luz amiga para a leitura, o telefone e os catálogos próximos [...],
um rádio, um cinzeiro. E se é leitor masculino e fuma cachimbo, que este fique à
mão. E se usa óculos para ler, que deixe sempre ali, no seu cantinho particular, um
par de óculos sobressalentes [...]
[...]
cercado de todas as suas pequenas comodidades, você talvez ainda precise de um
ponto de apoio, uma ‘tábua de salvação’ para certos momentos, para proteger seu
intervalo feliz: um objeto qualquer de madeira, enfeite ou cinzeiro – caso a

131
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

mesinha que concentra suas comodidades seja de vidro, metal ou acrílico. Para
quê? Para você tocar, como tábua de salvação, para isolar, quando o rádio ou o
jornal que você está ouvindo ou lendo despejar suas desagradáveis notícias – ou
mesmo quando um pensamento inquietante atravessar o seu espírito, tentando
invadir sua pequena ilha de paz, de um metro quadrado.
– Como? Quer dizer que o contentamento pode caber em um metro quadrado?
Apenas?” (Kaufmann, 1976; p. 197-198)

Privacidade e intimidade domésticas no Brasil: breve


contextualização histórica

Cabe observar que não se trata, aqui, de refazer o trabalho já feito por
grandes arquitetos e historiadores da habitação no Brasil, cujas obras já nos trazem a
evolução do conceito de habitar doméstico brasileiro, assim como as aplicações
práticas desse conceito no espaço físico da habitação, seja enfocando específicas
regiões do país, seja particularizando suas análises em torno de setores específicos da
habitação. Cabe aqui continuar considerando o fato de que as concepções de
privacidade e intimidade domésticas não se apresentaram sempre da maneira como
hoje as conhecemos. E que a forma como elas foram sendo adotadas ao longo da
história tem reflexos no modo como hoje as pomos em prática. É no sentido de
identificarmos esse reflexos que retomamos, aqui, alguns aspectos históricos dessa
evolução.
Assim, partamos das transformações do habitar doméstico que vimos
acima, descritas por Maldonado, Rybczynski, Gay e Arendt. Tais transformações
propagaram-se lentamente, partindo das residências burguesas para as classes médias,
até tornarem-se um modelo para as classes menos abastadas (Maldonado, ibidem; p.
249-250). No Brasil, esses novos modos de morar foram especialmente divulgados
com a presença da Corte, entre 1808 e 1821. Incorporando soluções arquitetônicas
que levavam em consideração as solicitações de higiene, conforto e intimidade
doméstica propagadas pela burguesia européia, esses novos modos de morar tiveram,
como tradução brasileira, um novo padrão de habitação – e de preservação da
privacidade e da intimidade domésticas –, o qual passou a exercer influência sobre as

132
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

antigas moradias patriarcais e percorreu uma via social semelhante à de seus países de
origem.
Descrevendo o interior do velho sobrado urbano do século XVIII e
primeira metade do século XIX – um modelo ainda “ortodoxamente patriarcal” –,
Gilberto Freyre dirá que em oposição a uma ou duas salas, localizadas sobre a rua e
voltadas para o recebimento das visitas, ficava “o resto da casa – alcovas e corredores
– quase sempre fechado no escuro”, “como no interior de igreja”. Segundo o autor,
nesse modelo de residência, a luz só entrava por essas salas da frente e “um pouco
pelo pátio e pelas frinchas das janelas ou pela telha-vã dos quartos. Evitava-se o sol.
Tinha-se medo do ar” (Freyre, 2004; p. 323). Tendo verificado isto nos sobrados do
Rio de Janeiro, o explorador francês Louis de Freycinet79 atribui essa “má
distribuição de peças”...

“[...] ao fato de a família passar a maior parte do tempo dormindo, sem precisar de
luz; ou então olhando a rua pelas grades das janelas, vendo quem passava, através
dos postigos; e uma vez por outra recebendo visitas. Não precisava senão de sala de
visitas – que noite de festa se iluminava toda – e de alcovas escuras, que
favorecessem o sono” (de Freycinet, 1827; I, p. 179. Apud Freyre, ibidem; p.
323).

À medida que o século XIX avançou, as lições de “bem viver” propagadas


pelas elites no século anterior passaram a ser incorporadas ao setor íntimo das casas
mais modestas, e os quartos arejaram-se (Veríssimo e Bittar, ibidem; p. 90). Como
observa o historiador Nelson Schapochnik, essas dependências, providas, agora, de
venezianas, cortinas e portas com bandeiras envidraçadas, “ganharam um perfil
absolutamente distinto das velhas alcovas”; passaram a contar com a renovação do ar
e a insolação, o que produziu efeito no controle sobre os fluxos de odores e
luminosidade (Schapochnik, 1998; p. 509). Ainda no século XIX, buscando
acompanhar o restante da habitação, que já apresentava cômodos equipados com
produtos que a Revolução Industrial passara a colocar no mercado em larga escala, o
setor íntimo das casas também se valorizou. Surgiram o quarto de vestir, os

79
Em expedição científica no Brasil em 1817.
In: http://pt.wikipedia.org/wiki/Louis_Claude_de_Saulces_de_Freycinet.

133
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

toucadores, o quarto de banho – um equipamento de melhor qualidade tanto


material quanto formal (Veríssimo e Bittar, ibidem).
A influência dos modos de morar da burguesia européia, incorporados
pelos palacetes da burguesia paulistana a partir de meados do século XIX, também foi
exercida sobre as moradias de padrões inferiores. Segundo nota Carlos Lemos, esses
palacetes, ainda que constituíssem apenas 4% das construções residenciais
paulistanas, na passagem do século XX, tiveram enorme influência nos projetos
residenciais, especialmente por trazerem a “novidade do ‘zoneamento’ das funções
domésticas”. Como descreve Lemos, ...

“aglutinavam[-se] as atividades básicas de serviço, de repouso e de lazer, ou de estar


em três zonas distintas, segundo uma regra de circulação, aquela que exigia acesso
de uma a outra sem que fosse preciso passar pela terceira” (Lemos, 2003; p. 94-
95).

Essa interindependência, acrescenta Lemos, fazia-se mais fácil através de


um novo compartimento – o vestíbulo –, um espaço distribuidor das circulações: de
“onde subia majestosa a escadaria em demanda aos dormitórios, à zona íntima do repouso
familiar” (Lemos, 2003; p. 95). Tal linguagem setorizada passou a influenciar o
projeto dos primeiros apartamentos surgidos na cidade de São Paulo, nas primeiras
décadas do século XX, voltados, inicialmente, ao uso da classe média. Lemos observa
que o projeto desse “novo” formato de moradia tendia substituir “em tudo, [...] a casa
isolada, não a casa modesta de gente pobre, mas o palacete da classe abastada. [...] que tivesse
o máximo de conforto aliado ao mínimo de promiscuidade” (Lemos, 1976; p. 161).
Não cabendo, aqui, o aprofundamento no vasto campo da evolução
tipológica, assim como dos hábitos e usos da casa brasileira no que concerne aos
aspectos da preservação da privacidade e da intimidade que nela têm lugar, resta,
contudo, ressaltar que alguns dos aspectos do uso atualmente atribuído ao setor
íntimo da casa – no que diz respeito tanto ao apoio ao desenvolvimento psicológico
do indivíduo, quanto à preservação de sua intimidade doméstica – têm suas raízes
fincadas ao longo dessa evolução.
A este respeito, observa-se o que Roberto DaMatta considera como
“clássica”, a “rigorosa gramática de espaços” da casa brasileira. Citando viajantes
estrangeiros que aqui estiveram no século XIX, o autor menciona, por exemplo, ter

134
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

chamado a atenção do comerciante inglês John Luccock, em texto produzido entre


1808 e 1818, um aspecto que – dirá DaMatta – “até hoje continua sendo um dado
permanente de nossa sociedade”: o da “nossa clássica divisão em sala de visitas e sala
de jantar, com rígida separação dos quartos (que eram, então, alcovas) e varanda”
(DaMatta, 2000; p. 50).
Considero, então, cabível apontar para a verificação a que cheguei em
minha dissertação de mestrado – em que analisei a recente evolução tipológica dos
apartamentos voltados à classe média, na cidade de São Paulo80 –, de que a totalidade
da produção analisada ainda esteve marcada pelo partido (ainda que adaptado à
escala reduzida desses apartamentos) da tradicional tripartição das habitações
burguesas – em setores social, íntimo e de serviços. Não havendo mais área disponível
para o extinto vestíbulo, a função de distribuir as circulações para cada setor passa a
ser assumida por pequeninas áreas de circulação posicionadas no centro da planta e
na entrada81 (Camargo, 2003; p. 77).

Legenda
/(* (1'$

Fig. 6 Exemplo de planta de apartamento lançado na década de 1980


em São Paulo trazendo o padrão tipológico setorizado (setores
representados em cores diferentes) (Camargo, ibidem; p.79).

Os trechos de depoimentos a seguir são exemplos de como são atreladas


ao conceito de privacidade e intimidade domésticas não só uma configuração
setorizada da casa, mas a conexão com os objetos e aparelhos que dão apoio ao
caráter de privado e íntimo das atividades praticadas nos espaços da habitação:

80
Especificamente, foi analisada a evolução do projeto de apartamentos de dois dormitórios lançados
pelo mercado imobiliário na cidade de São Paulo, nas décadas de 1980 e 1990.
81
Esta última, a depender da disponibilidade de espaço, é incorporada diretamente à área da sala.

135
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

O entrevistado Alencar lamenta ter perdido a privacidade que tinha em seu antigo
apartamento, tendo que passar a morar com a família na casa dos pais:

“[...] pra mim, a minha casa sempre foi as minhas coisas; o meu canto, a minha cama,
a minha televisão, o meu banheiro...
[...]
[Meu ideal seria] Voltar a ter minha residência: com os quartos das crianças, uma
suíte, com a sala, com os banheiros... Eu morava num apartamento em Moema, tinha
um padrão razoável, não era um padrão baixo. Era um apartamento com dois
quartos – dois dormitórios, né?” (Alencar)
****

A entrevistada Marly descreve a setorização de seu trailer, associando‐a ao


mantimento do que chama de “individualidade” (ver figuras 7, 8 e 9):

“[...] Eu queria um quarto em cima porque eu tinha dois meninos, então aqui ficou
sendo o quarto deles; o meu é do outro lado. [...]
[...]
Aqui, eu tenho tudo. Olha: eu tenho quarto, sala, cozinha, banheiro, uma varanda,
tenho plantas, máquina de lavar roupa, tudo de acordo com as minhas necessidades.
As pessoas não precisam de mais do que esse espaço pra viver. E, na companhia [de
circo], cada família também é assim, com a sua individualidade.” (Marly).

Quarto dos filhos

Sala de jantar

Fig. 9 Fundos do trailer: área de


serviço.

Fig. 7 Interior do trailer de Fig. 8 Interior do trailer: sala


Marly: cozinha. de visitas (à frente) e quarto
dos filhos (ao fundo).

****

136
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

O entrevistado Rui fala da necessidade de preservar suas atividades privadas, o que


consegue graças à distribuição espacial setorizada de seu apartamento:

“[...] Esse apartamento lhe dá essa possibilidade. [Se] Você [é uma visita de
cerimônia] fica contido na sala. E o local de necessidade seria o lavabo. Fora isso,
você não tem acesso – nem à cozinha, nem a cheiros, nada.

O meu quarto é o último, então tudo o que acontece aqui, não chega som lá. [...] No
outro apartamento, [...] não tinha essa separação, e eu tinha um monte de reuniões
do trabalho que iam até à uma hora da manhã; e era um inferno pra minha esposa,
que ficava lá no quarto. Da sala, você via parte do meu quarto. Então, invadia a
intimidade. E este se tornou completamente funcional nesse sentido. Então, é essa
identidade que você tem, que te faz bem, que você se sente protegido.
[...]
Aqui você tem a cozinha, que está totalmente isolada. [...] A empregada fica aqui,
também protegida... não só pela porta do banheiro dela, mas também por essa porta
[que separa a área de serviço da cozinha].
[...]
Tem o banheiro da minha mulher, com a banheira dela, os cremes e as tranqueiras
dela... não tem nada a ver comigo. Aqui é a salinha onde a gente assiste televisão. E
esse é um quarto pra hóspedes; com televisão, vídeo cassete. A gente não recebe
muitos hóspedes, mas a gente quer ter – o dia que quiser convidar alguém, tem onde
acomodar – um quarto só pra isso.

E aqui é o nosso quarto. Veja a distância que está da sala! Este é o meu banheiro [...]
aqui são as minhas coisas – é o meu banheiro. Tudo azul – parede, toalha...” (Rui)

Além da influência da setorização burguesa dos espaços domésticos, fatos


como o empenho na estilização e na própria personalização dos cômodos voltados à
intimidade, fazendo adequar-se mobiliário e decoração de acordo com a moda – tal
como vimos descrever o entrevistado Rui –, já eram verificados nas primeiras décadas
do século XX (Veríssimo e Bittar, ibidem; p. 93; Schapochnik, ibidem; p. 498).
Referindo-se à “emulação e imitação arrivista dos hábitos eurófilos” que
caracterizavam a organização dos espaços domésticos brasileiros do início do século
XX, Shapochnik chama os quartos individualizados de “templos da privacidade”, os
quais são, aqui, descritos pelo autor:

137
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

“[...] O triunfo do culto à individualidade e privacidade se desdobrava na


saturação de marcas inscritas no dormitório, agregando a cada um dos objetos os
traços da personalidade do ocupante. Leitos individuais, guarda-roupas,
penteadeiras, mesas cômodas, cadeiras, escrivaninhas e sofá; objetos decorativos,
funcionais e devocionais; peças do vestuário, roupas de cama e banho adornadas
como monogramas, materializavam a identificação de um domínio privativo.”
(Shapochnik, ibidem; p. 509)

A partir dos anos 50, o conceito americano de casa


como um espaço utilitário e racional passa a ser,
ainda que lentamente, absorvido, tanto no que diz
respeito ao agenciamento do espaço doméstico,
quando na decoração desse espaço, com móveis
produzidos em larga escala e voltados à praticidade
do uso específico para cada cômodo. Veríssimo e
Bittar apontam, ainda, para o surgimento, na
setorização das residências da classe alta, de uma zona
íntima composta pelos quartos, banheiros e, às vezes, Fig. 10 Zona íntima: explicitação
uma pequena sala íntima, em um modelo compacto, formal da privacidade doméstica.
relativamente independente do setor social. (Fonte: Veríssimo e Bittar, ibidem;
p. 94)
Conforme ressaltam os autores, mais uma vez, um
formato adotado pela classe alta, de ideologia dominante, irá paulatinamente passar
às demais classes (Veríssimo e Bittar, ibidem; p. 94).
A partir da segunda metade dos anos 60, o grande adensamento das
cidades e a conseqüente valorização do metro quadrado dos terrenos, em um
processo de especulação imobiliária que se estenderia pelas próximas décadas,
levaram à conseqüente redução da área útil das habitações. Acompanhando essa
tendência, sentida especialmente nos apartamentos voltados à classe média82, o setor
íntimo – quartos e sanitários – também teve sua área útil diminuída e o uso do seu
espaço racionalizado. Já com armários embutidos, e mobiliados com móveis
planejados para o melhor aproveitamento de seu espaço, é a partir dos anos 70 – e,
principalmente, nos anos 80 –, que os quartos, paradoxalmente, passarão a
apresentar a sobreposição de um número cada vez maior de funções.
82
Ver Camargo, 2003; p. 66.

138
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Mesmo que relacionadas à privacidade do


interior das residências, a qual só é dada
conhecer aos íntimos da casa, as atividades
abrigadas pelos quartos deixaram de ser
apenas as ligadas ao recolhimento e ao
sono – uma característica freqüente nos
quartos, ainda hoje. Alterando-se, por
algumas horas do dia, a finalidade
original desse cômodo, dá-se lugar a outras
atividades, como o estudo, o lazer –
Fig. 11 Quarto: sobreposição de funções:
principalmente ligado aos aparelhos dormir, vestir, trabalhar, ouvir e tocar música,
eletroeletrônicos – ou o trabalho. ver televisão.
Assim, a cama e o guarda-roupa passam a conviver com móveis e equipamentos
específicos para a função que se pretende dar ao quarto, tais como televisão,
computador, aparelhos de som e/ou de DVD, e até mesmo bicicleta ergométrica
(Camargo, ibidem; p. 91).

...

Já o sanitário, reduto cuja privacidade exigida para o seu uso remete aos
primeiros significados da vida privada – de sermos carentes pelo fato “vergonhoso” de
termos necessidades corporais (Arendt, ibiddem; p. 83) –, teve seu papel, na casa
brasileira, profundamente transformado ao longo dos anos. Novamente os autores
Veríssimo e Bittar lembram do fato de esse cômodo simplesmente não existir no
interior das primeiras habitações brasileiras, e raramente serem encontrados espaços
equivalentes nas áreas exteriores. O que havia era a substituição desses
compartimentos pelo “banheiro portátil” – urinóis e outros recipientes –, de cujo
esvaziamento se encarregavam os escravos (Veríssimo e Bittar, ibidem; p. 99).
Tampouco o banho era praticado do modo e com a freqüência que hoje
conhecemos. Nos relatos de estrangeiros sobre suas estadias no país, não se
encontram muitas referências ao asseio corporal nas casas onde se hospedaram, a não
ser – como se refere Saint-Hilaire em relato de 1817 – sobre o hábito dos brasileiros
de lavar “os pés com água quente” antes de se irem deitar (Saint-Hilaire, 1975; p. 97;

139
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Apud Bruno (B), 2001; p. 36). Não apenas era o hábito do banho algo não praticado
assiduamente, mas também, não raro, sua prática encontrava críticas:

“...Lavar a carne é desgraça


em toda parte do norte,
porque diz que dessa sorte
perde a carne o sal, e graça:
e se vós por esta traça
lhe tirais ao passarete
o sal, a graça, e o cheirete,
um pouco a dúvida topa.
Se me quereis dar a sopa,
dai-me com todo o sainete...

...As damas que mais lavadas


costumam trazer as peças,
e disso se prezam essas
são damas mais deslavadas...
...De que serve pois andar
lavando antes que mo deis?
lavai-vos, quando sujeis,
e porque vos fiquei o ensaio,
depois de foder lavai-o,
mas antes não laveis...”

(Matos, 1981; p. 285-286; Apud Veríssimo e Bittar, ibidem; p. 99)

Por mais que nos pareçam estranhos hábitos de tão pouca atenção à
higiene e ao asseio do corpo, sua lenta modificação esteve relacionada à nossa
colonização, feita por europeus de pouca informação e influências de preconceitos
religiosos. Assim, notam os autores, como não existia o hábito, não havia o aposento
destinado a esse fim (Veríssimo e Bittar, ibidem; p. 100).
Também a ausência de tecnologia voltada para as funções sanitárias
contribuíram para a lentidão da instituição de hábitos – que hoje nos parecem tão
corriqueiros – como o de retirarmo-nos, em privacidade, para tomarmos um banho
ou usarmos o vaso sanitário. Conforme atesta a arqueóloga Tania Andrade Lima, foi
só no século XIX, com a disseminação de retretes e criados-mudos e o seu
confinamento às áreas íntimas das casas da nossa burguesia, que ocorreu a
“privatização e higienização” das atividades ligadas a esses apetrechos. Através do uso

140
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

das tampas e portinholas é que – conforme nota a autora – as camadas mais


favorecidas passaram a isolar o mau cheiro no interior dos aposentos, estando, assim,
livres “do contato direto com o conteúdo dos urinóis” (Lima, 1995, p. 56).
Contudo, há que se considerar a questão determinante para a instalação
de um cômodo fixo, voltado exclusivamente ao banho: conforme aponta Siegfried
Giedion, só após se poder contar com um suprimento regular de água corrente, é que
o banheiro deixou sua condição “nômade” para adquirir uma “condição estável” nos
espaços das habitações (Giedion, 1948; p. 686). Mas, ainda conforme o autor, será
apenas no final do século XIX o surgimento – nos Estados Unidos – do modelo de
“banheiro compacto americano”, composto de banheira, pia e vaso sanitário,
dispostos em um espaço mínimo. E isto só ocorreu, na medida em que foi possível
alinhar toda a tubulação hidráulica para a instalação das peças sanitárias em uma
mesma parede (Giedion, ibidem; p. 699).
Foi a partir do século XX, contando com a introdução no mercado de
uma gama de produtos voltados à construção e acabamento dos sanitários, à higiene,
e à estética, que esse setor passou a incorporar o programa das residências –
primeiramente, das classes mais abastadas. Segundo observam Veríssimo e Bittar, foi
apenas na década de 1930 que as residências médias passaram a ter o banheiro como
parte integrante de seu programa, assim como os edifícios de apartamentos, que
passam, aí, a contar com um banheiro privativo para cada unidade habitacional
(Veríssimo e Bittar, ibidem; p. 103-104).
A valorização do corpo e da higiene íntima, assim como a liberação dos
costumes e o relaxamento de certos tabus, fizeram o banheiro, a partir do último
quarto do século XX, descolar-se de suas funções originais e adquirir um novo status
no espaço doméstico. A partir dos anos 60, o surgimento da “suíte” deu ao setor
íntimo a possibilidade de atender à necessidade da família, de mais um banheiro
(Veríssimo e Bittar, ibidem; p. 95), assim como possibilitou ao casal o uso de um
banheiro privativo. Usado como atrativo diferenciador pelas imobiliárias, ainda que a
construção de um segundo banheiro representasse um custo mais alto do que o da
média dos outros cômodos, o fato de o apartamento não contar com o conforto de
uma suíte passou, a partir dos anos 80, a significar uma importante perda no
potencial de venda – ainda que esse conforto já viesse comprometido pelas mínimas
dimensões impostas aos usuários (Camargo, ibidem; p. 74).

141
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Contudo, deve-se ressaltar que, mesmo com a profunda modificação do


papel do banheiro no contexto da privacidade do habitar doméstico brasileiro, há
milhares de pessoas, moradoras de locais onde não há saneamento básico, que ainda
utilizam o banheiro nas sua formas mais primitivas. O quartinho fora de casa, ou a
“moita” e o “banho de rio”, como lembram Veríssimo e Bittar, continuam sendo
muito mais utilizados do que o homem urbano das classes médias e alta podem
imaginar (Veríssimo e Bittar, ibidem; p. 106).
Em duas pesquisas realizadas – em 2001 e 2003 – pelo núcleo de
pesquisas Nomads83 sobre as atuais relações de usos dos espaços domésticos no Brasil,
e particularmente na Região Sudeste, propôs-se a pergunta “o que esse espaço [o
banheiro] não tem e que eles [os entrevistados] gostariam que tivesse”. A freqüência
das respostas “uma banheira”84 e “vista para uma paisagem bonita”85 sugeriu aos
pesquisadores a tendência ao desejo de se permanecer no banheiro por mais tempo
do que o habitual; e da crescente diminuição do seu caráter de espaço estritamente
voltado à higiene, passando a ser visto como um lugar para relaxar, onde, para isto,
deve-se permanecer por mais tempo.
Em outra pesquisa, esta realizada em 2006, por uma agência de
publicidade e uma empresa especializada em opinião de mercado – ambas em São
Paulo86 –, com o objetivo de conhecer o comportamento dos consumidores, propôs
aos seus entrevistados as seguintes perguntas: “Qual a importância do banheiro para
você?” e “O que significa para você este espaço da sua casa?”. Confirmando os achados da
pesquisa anterior, as respostas indicaram uma forte tendência a se atribuir ao

83
Núcleo de Estudos de Habitares Interativos – Universidade de São Paulo
(http://www.eesc.usp.br/nomads/).
O perfil dos entrevistados foi de pessoas entre 16 e 35 anos, com curso superior completo ou em
andamento, e com renda familiar mensal acima de vinte salários mínimos; metade morando em
casas, e a outra metade, em apartamentos; compõem os seguintes grupos domésticos, por ordem de
porcentagem da amostra: família nuclear (maior porcentagem), casais sem filhos, pessoas vivendo sós,
famílias monoparentais e pessoas sem vínculo conjugal ou parentesco coabitando.
In: http://www.eesc.usp.br/nomads/epesquisa/index.htm#.
84
71,49%, na pesquisa realizada em 2001 e 65, 09% nesta pesquisa realizada em 2001.
85
56,38%, na pesquisa realizada em 2001 e 53,06% na mesma pesquisa, realizada em 2003.
86
A pesquisa foi realizada por Rino Publicidade (http://www.rino.com.br/primeira.php) e Club de
Pesquisa (http://www.rino.com.br/pesquisa/). Foram realizadas 300 entrevistas pessoais com auxílio
de vinte questionários abertos e um estruturado. A amostra de entrevistados, composta por pessoas
casadas de classe média, compôs-se de 45% de homens e 55% de mulheres, com idades entre vinte e
cinco e sessenta anos.

142
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

banheiro significados que o afasta de suas funções originais. A partir de afirmações


propostas para serem ou não aceitas pelos entrevistados, 95% das mulheres e 91%
dos homens entrevistados concordaram que o banheiro “é o lugar onde a privacidade
é mais garantida – não se tem que dar satisfação de nada”. Espaço onde “o tempo é
usado em seu próprio benefício”, é no banheiro que, ao se banharem, se cuidarem, se
olharem no espelho, relaxarem, as pessoas “se sentem únicas”, “diferenciadas”, e se
permitem avaliar os próprios defeitos e qualidade. O sentido de local da privacidade,
por excelência, dado ao banheiro é confirmado na medida em que 87% das mulheres
entrevistas e 84% dos homens concordam com a afirmação “[O banheiro] é onde
consigo ter um tempo para mim, me sinto à vontade; é um momento só meu.”
Algumas frases destacadas pela pesquisa confirmam os novos significados
atribuídos ao banheiro, tais como lugar de tranqüilidade para se relaxar, onde se pode
liberar as emoções e experimentar a sensualidade sem tabus; um local para uma
renovação física e emocional :

“[O banheiro] É um espaço para estar comigo mesma, decidir, sentir toda a minha
impaciência. Preciso dessa pausa. Sempre tranco o banheiro.” (mulher)

“Passo muito tempo no banheiro lendo jornal todas as manhãs. Porém tomo banho
e me arrumo rapidamente. Uso o banheiro para ler, fumar com privacidade.”
(homem)

“É no banheiro que eu descarrego minhas tensões, que gosto de ficar sozinho.


Sozinho não, comigo.” (homem)

“Enfim, no banheiro é o momento onde ‘brinco’ de mulher menina, deixo a


‘executiva’ pra lá.” (mulher)

“É a intimidade total. Você está sozinho. Pode ter as sensações que quiser. Não
tem censura.” (homem)

143
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

O caráter de privativo atribuído ao banheiro é explicitado pelo entrevistado Rui que,


tendo trabalhado como comissário de bordo em vôos internacionais, afirma que “em
trinta e quatro anos de vôo, nunca” usou “o sanitário do avião para defecar; só pra
fazer xixi!”. Ao mesmo tempo (como mencionado anteriormente), refere‐se ao
grande incômodo, quando teve, em seu banheiro, uma pessoa estranha para fazer
um conserto:

“[... Ele] vê a minha intimidade no meu banheiro, vê o meu quarto, as minhas


coisas, o meu boxe de tomar banho, onde eu fico nu, o meu vaso sanitário...”
(Rui)
****

A entrevistada Júlia refere‐se à falta de privacidade do banheiro do pensionato onde


vive:

“[...] O banheiro é coletivo e o vaso e os chuveiros ficam no mesmo ambiente;


[...]. E as paredes das cabines não vão até o teto. Ou seja, nem aí, dá pra ter
privacidade.” (Júlia)
****

O entrevistado Hermes refere‐se ao momento de utilização do banheiro, na casa


partilhada com colegas de trabalho, em Angola, como o único momento de
verdadeira privacidade:

“[...] Como eram vários homens, na hora do banho – no banheiro –, de fazer a


barba, era quando você estava com você.” (Hermes)
****

Marly descreve a preocupação com a preservação da privacidade do banheiro de seu


trailer, ao modificar a posição da janela:

“[...] Por exemplo, a janela do banheiro ficava em baixo, na altura de uma


janela normal. E aí, quando você ia usar o vaso ou tomar banho, tinha sempre
que fechar a janela para as pessoas de fora não verem. Aí, eu fui à fábrica e
falei que aquela janela tinha que ser alta. E aí, todos os trailers passaram a ter
a janela do banheiro alta.” (Marly)
****

144
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Não dispondo de trailer com banheiro e morando em barraca, a também circense


Amélia87 descreve seus mecanismos de preservação das atividades de fisiológicas e
de higiene corporal – especialmente das mulheres e crianças. É interessante notar
que, após a entrevista, Amélia ainda relatou que o espaço interno da barraca, numa
espécie de setorização do espaço privado, era dividido com cortinas de tecido que
separavam os quartos – setor íntimo – da cozinha, sendo que, da mesma forma, uma
divisão entre o quarto do casal e das crianças ainda era devidamente providenciada:

“[...] Eu lavava as fraldas e não gostava de varal do lado de fora porque o povo
passava, o circo não tava armado ainda, e via aquele varal – aquilo, pra mim,
era pavoroso! Então, eu fazia um varal dentro da barraca, e ali pendurava as
fraldinhas.
[...]
Banho era na bacia. A barraca é fechada, é uma casa, ninguém entra, então
não tinha problema. Você tinha, lá, o seu quarto dividido88, se precisava,
tomava banho. E, também, o circo sempre teve um banheiro comunitário. Os
adultos usavam aquele banheiro. As crianças usavam em casa. Eu não deixava
minhas crianças – eu achava que não era legal, uma fossa, sabe? Eu tinha
sempre um urinol pra elas, depois eu jogava naquele banheiro comunitário.
Porque as crianças, quando iam ficando mocinhas, já iam ficando com
vergonha de passar com o urinol, aí, eu dizia ‘deixa que eu levo’; punha um
pano por cima, e levava lá. Lavava bem lavado e punha em baixo da cama de
novo. Quando tinha uma casa no fundo do circo, e tinha banheiro do lado de
fora – antigamente era assim –, às vezes a dona deixava a gente usar,
principalmente as mulheres.
[...]
Muita gente boa via a dificuldade da gente e deixava a gente tomar banho:
‘toma um banho aí!...’. Aí, eu tomava banho, dava banho nas crianças, [...]. Os
homens se viram, eles estão sempre na rua, no bar, então eles ocupam lá. As
mulheres sempre arrumavam uma casinha pra não precisar ocupar o banheiro
do circo. Os homens, pra tomar banho – normalmente, em posto de gasolina
tem banheiro comunitário –, eles iam tomar banho lá; não dava muito
trabalho, mulher é que era mais difícil.” (Amélia)

87
Apresentada no Capítulo 1.
88
Aqui, Amélia refere-se à setorização, feita por cortinas, do interior de sua barraca.

145
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Em oposição à intimidade buscada no interior das residências, há o setor


social, presente na arquitetura residencial brasileira desde as primeiras casas
construídas, ainda no século XVI. Tratado com rigor formal, essa é a área que, “na
ausência dos terreiros de engenho, das varandas rurais ou urbanas ou jardins, faz a
transição entre o exterior (mundo) e o interior (doméstico)” (Veríssimo e Bittar,
ibidem; p. 90). Lembrando do termo “formalistas” a nós, brasileiros, atribuído, pelo
viajante norte-americano Thomas Ewbank, quando de sua visita ao Brasil, em 1845,
DaMatta lembra que “as visitas sempre foram um capítulo especial de nossa vida
social, existindo um espaço nas casas só para elas: as salas, ou salas de visitas”.
Segundo o autor, por significar abrir o espaço da casa para um estranho, o ato de
receber envolvia – e ainda envolve – “requintes quase barrocos” (DaMatta, ibidem; p.
52). Assim descreve os hábitos de receber dos brasileiros no século XIX:

“Nas casas dos pobres, assim como na dos ricos, existe sempre uma peça
denominada sala, que dá para o exterior. É aí que se recebem os estranhos, e se
fazem as refeições, sentados em bancos de madeira em torno de uma mesa
comprida.” (Saint-Hilaire, 1975. Apud DaMatta, 2000; p. 51).

A tradução formal para a transição entre o que se pretende – ou não –


mostrar aos olhares estranhos, nas residências atuais, de espaços mais racionalizados,
ainda se encontra na ubíqua “sala de visitas”, a qual – a despeito das cada vez mais
reduzidas dimensões, especialmente nos apartamentos de classe média (ver Camargo,
2003) – freqüentemente é arranjada em “dois ambientes”: o de jantar e o de estar.
Decorada de acordo com o nível socioeconômico e cultural dos moradores – seja com
móveis caros e objetos de design sofisticado, como os encontrados nas salas dos mais
abastados, seja com a estante de verniz exageradamente brilhante, que disfarça o
compensado de má qualidade e o vaso com flores artificiais das habitações de baixa
renda, tal como descreve Ermínia Maricato (1999; p. 1) –, a sala tem, como
propósito, menos do que acolher a intimidade dos donos da casa, impressionar os
visitantes e transmitir a eles a “melhor” imagem daquela moradia (Veríssimo e Bittar,
ibidem; p.57; Camargo, ibidem; p. 83).
Já quanto ao setor íntimo da casa brasileira, é possível verificar-se a
distinção, trazida por Arendt, entre as questões que são da vida pública e aquelas que
se mantém – e que devem assim continuar – preservadas no interior no espaço

146
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

privado da casa. Se, por um lado, o setor social da casa está conectado às questões que
dizem respeito às influências do habitar no mundo exterior à esfera doméstica – uma
vez que funciona como filtrador dessas influências, traduzindo-as e adaptando-nas à
vida doméstica – por outro lado, adentrar o setor íntimo dessa casa implica penetrar
no “desconhecido universo velado, preconceituoso, repleto de símbolos e tabus
raramente revelados a visitantes, elementos estranhos ao seio da família” (Veríssimo e
Bittar, ibidem; p. 88). Assim, lembram-nos os autores de que para penetrar nesse
recôndito da casa, é necessário que sejamos autorizados por seus moradores, pois,
com isto, poderemos estar desvendando seus segredos mais ocultos (Veríssimo e
Bittar, ibidem).
Em seu livro de lembranças sobre as moradas de sua infância e juventude,
Maria Regina descreve com eram estabelecidas as relações formais de transição entre a
esfera doméstica o mundo exterior:

“Nas poltronas sem braço do hall eram recebidas as pessoas que vinham trazer
alguma encomenda, receber alguma coisa ou visitas rápidas que não faziam parte
da intimidade. Não passavam do hall.” (Rodrigues, 2003; p.39)

O entrevistado Rui refere‐se ao uso da sua sala de visitas:

“[...] daqui da sala, se você é uma visita de cerimônia, você não entra no meu
apartamento – fica isolado aqui. Uma coisa é você ter a pessoa a quem você dá a
liberdade de entrar, e a outra é aquela pessoa que você mantém isolada. Então, você
consegue separar o que é amigo do que é visita. O amigo, você deixa entrar, invadir;
não tem segredo, não tem mistério. [...] E o local de necessidade seria o lavabo. Fora
isso, você não tem acesso – nem à cozinha, nem a cheiros, nada.” (Rui)

Considerando-se que, na sala, se exige um certo grau de


convencionalismo, em termos da produção do espaço físico, para que o cômodo seja
aceito e agrade, segundo os padrões não apenas dos moradores, mas também dos
visitantes convidados a entrar, devendo, para isto, manter-se o mais bem arrumada e
conservada possível, será muito mais difícil a identificação de traços de intimidade
doméstica nesse cômodo – a não ser por um jornal lido ou um par de chinelos
descuidadamente esquecidos ali – do que nos quartos, ou mesmo na cozinha e na
área de serviço (Camargo, ibidem; p. 90). Como bem observam Veríssimo e Bittar, é

147
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

no setor de serviços de uma casa que se pode apreender muito da intimidade de seus
moradores. Pois é nesse setor que se revelam mais claramente os hábitos da casa,
“sem a máscara utilizada pelos atores quando desempenham seus papéis no setor
social”.
Estaria aí a raiz da tradição de
só se entrar pela cozinha aquele que é da
casa – a quem, portanto, lhe será dado ver
aquilo que – por sinal – já conhece
(Veríssimo e Bittar, ibidem; p. 107).

Fig. 12 Área de serviço: intimidade não revelada


a estranhos.

...

Assim, pudemos observar, através deste breve levantamento, a


permanência de alguns aspectos que ainda hoje englobam o entendimento de
privacidade e intimidade domésticas. Ao mesmo tempo em que as práticas biológicas
da vida humana permanecem até hoje no terreno obscuro da privacidade (para usar
os termos de Arendt), a intimidade doméstica ainda é relacionada à preservação de
nossas particularidades subjetivas – do desenvolvimento de nossa identidade, da
liberação de nossas emoções, do cultivo de nossas relações afetivas. Essas
particularidades ainda encontram no nosso espaço doméstico – em ambientes
específicos e povoados de, também específicos, objetos – o local para serem
experimentadas e cultivadas.
[...]
Eu quero uma casa no campo
Do tamanho ideal, pau-a-pique
e sapé
Onde eu possa plantar meus
amigos
Meus discos e livros
E nada mais

(Zé Rodrix e Tavito). Casa no Campo

148
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Capítulo 4 – O cotidiano doméstico

Procuramos, até aqui, relacionar as questões do habitar com a vida privada


doméstica e o próprio sentido das idéias de privacidade e intimidade que ela encerra.
Consideramos esses conceitos em seus diferentes aspectos, inclusive históricos e
culturais, os quais podem explicar sua evolução e a maneira segundo a qual hoje os
conhecemos. Mantenhamo-nos, ainda, na questão da vida privada doméstica. E
retomemos a função da casa física, não apenas como abrigo contra as intempéries,
mas – como bem nos lembra Maria Cecília N. Homem –, como espaço que abriga...

“uma série de atividades relativas à sobrevivência ou à manutenção do corpo e do


espírito, no domínio do privado, isto é, aquelas atividades que devem ocorrer na
intimidade, fora das vistas do público ou de estranhos” (Homem, 1996; p. 23)

... as quais constituem o que chamamos de nosso cotidiano doméstico.

O cotidiano doméstico: a importância da insignificância

O sociólogo David Chaney vê o cotidiano como a realidade das


experiências habituais – o “normal”; ou seja, aquilo que está lá, que consideramos
garantido, ou que podemos executar sem que seja necessária uma grande atenção
específica. Pelo próprio caráter de normalidade, ou seja, por ocorrer, geralmente, nos
mesmos específicos territórios e horários, entre pessoas voltadas à mesma rotina

149
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

(Chaney, 2002; p. 10), o cotidiano seria a parte de nossas vidas que não nos é
marcante, por nenhum motivo especial.
Mas, em que sentido, então, algo que consideramos não especial poderia
ter importância em nosso habitar doméstico?
Henri Lefèbvre diz que ainda que o cotidiano possa parecer um conjunto
modesto de atividades – se considerado o conjunto de produtos e de obras dos seres
vivos –, ele, no entanto, constitui “uma primeira esfera de sentidos”, um terreno em
que a ação produtora (criadora) se antecipa a novas criações. Para o autor, o cotidiano
estaria associado à imagem de um “trampolim”; um terreno, que é um “movimento
composto de variados momentos (necessidade, trabalho, gozo [...], passividade e
criatividade [...])”, através do qual, necessariamente, lançamo-nos para realizar o
possível – ou, “a totalidade dos possíveis” (Lefèbvre, 1969; p. 26). Passemos, através
de algumas considerações teóricas a respeito da cotidianidade, aplicá-las ao conjunto
de práticas que constituem o habitar doméstico cotidiano – a “normalidade” da vida
vivida diariamente na esfera privada do habitar –, para, então, voltarmos à noção de
“trampolim” trazida por Lefèbvre.
Para aplicarmos a idéia de normalidade, associada ao cotidiano, à rotina de
atividades vivida diariamente na esfera privada doméstica, podemos começar por
dizer que o espaço doméstico poderia ser tomado como um dos territórios de que nos
fala Chaney, no qual se estabeleceriam diariamente, sem variações marcantes,
determinadas atividades praticadas, geralmente, pelas mesmas pessoas – sendo essas
pessoas, neste caso, as que partilham o mesmo espaço doméstico. Então, podemos
reformular a pergunta feita anteriormente. O que significa para nossas vidas o
praticar diário de uma rotina em nossas casas? A resposta a esta pergunta poderia
começar a ser dada com outra pergunta: por que este algo irrelevante, que fazemos
quase automaticamente em nossas casas todos os dias, nos faz falta quando estamos,
por alguma razão, impossibilitados de fazê-lo, ou quando enfrentamos alguma
situação que nos impeça de praticá-lo normalmente?
Paradoxalmente, a resposta pode estar justamente no fato de vermos o
cotidiano como algo irrelevante – e esperarmos que ele assim permaneça. Para
Chaney, embora o dia-a-dia esteja presente de forma nada marcante para nós,
devemos vê-lo não como um conjunto de atividades, propriamente dito, ou mesmo
como uma estrutura de rotinas, mas como um modo de atribuir a estas atividades
significado pessoal. E é justamente por isto que aquilo que é previsível, conhecido e

150
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

vivenciado tão intimamente por cada um de nós, ao qual aplicamos as nossas próprias
fórmulas de interação com o meio em que nos inserimos, torna-se, em determinadas
circunstâncias, desejado, ou até mesmo necessitado. Quer dizer, o que vivemos
cotidianamente, esperamos continuar vivendo; queremos que as coisas aconteçam
sem novidades, para que, confiantes daquilo que as conhecemos e controlamos,
possamos atingir o bem-estar da forma que nos é particularmente mais familiar.
Chaney propõe que é essa normalidade do cotidiano que provê nossas vidas de
ordem e estabilidade (Chaney, ibidem; p. 11). Da mesma forma, como afirma
Christian Norberg-Schulz, o cotidiano vivido em nossas casas, ao nos apoiar como
uma base por nós já conhecida, passa a representar o que é contínuo em nossa
existência (Norberg-Schulz, 1985; p. 89).
É neste contexto que podemos relacionar a casa e o cotidiano doméstico
ao conceito de “segurança ontológica”, descrito por Anthony Giddens como uma
forma muito importante de confiança, enraizada em nosso inconsciente, na
continuidade de nossa auto-identidade e na constância dos ambientes em que nos
vemos social e materialmente inseridos. Para o autor, tal sentimento de segurança
seria um fenômeno emocional, mais do que cognitivo, e estaria intimamente
conectado à influência do hábito e à previsibilidade das rotinas (aparentemente)
menores da vida diária e (Giddens, 1990; p. 92, 98). É neste sentido que o conceito
de segurança ontológica pode ser relacionado ao conjunto de práticas e atividades
que compõem nosso cotidiano doméstico. O autor ainda acrescenta que quando, por
alguma razão, tais rotinas são quebradas, somos tomados de ansiedades, e até mesmo
os aspectos que estão muito firmemente sedimentados em nossa personalidade
podem ser alterados, ou mesmo desaparecer (Giddens, ibidem; p. 98).
Isto pode se justificar pelo fato de que, desde os primeiros cuidados que
recebemos na infância já se atribui uma grande importância à seqüência das rotinas –
um processo que, na personalidade adulta, resulta numa ligação muito próxima entre
os sentimentos de confiança e segurança ontológica. Desta forma, como afirma
Giddens, a rotina passa a ser experimentada como algo “psicologicamente relaxante”
(Giddens, ibidem; p. 97-98).

151
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

No depoimento sobre duas fases distintas de sua vida, a entrevistada D. Dalma89


exemplifica a segurança ontológica em relação às experiências domésticas cotidianas
da infância e a posterior perda do sentido de ordem e continuidade quando a família,
ao se mudar para uma cidade diferente, tem o ritmo do habitar doméstico
drasticamente alterado:

“[...] Eu sempre morei com meus pais, sempre. [...] Éramos cinco, meus pais e nós
três. [...] Nós morávamos no interior do Paraná. Eu me lembro muito dessa casa:
levantávamos cedo, tinha aquele quintal imenso, com muita fruta. Carambola, romã,
jabuticaba, até limão! No tempo das frutas, a gente ia comer lá no pé – as que caíam
no chão, já não prestavam... que coisa boa! A gente limpava tudo, varria, tirava
aqueles montes de folhas, punha dentro de um saco, meu pai também ajudava.
Minha mãe ficava na cozinha e meu pai, antes de sair para o serviço, pegava água do
poço pra minha mãe, pra não ficar muito pesado pra ela. Eu, por ser a mais velha,
depois de voltar da escola e fazer lição, dava uma mãozinha pra ela, servicinho
simples, nada de pesado. Lavava uma louça, varria uma casa.
[...]
Eu acho que fiquei naquela casa até uns dez, onze anos. Aí, meu pai recebeu um
convite para trabalhar com o irmão dele aqui, em São Paulo, e ele achou muito
vantajoso – de fato, ele pegou bons serviços. E aí mudamos pra São Paulo. No
começo, nós sofremos demais. Pra começar, a casa que meu tio disse que já estava
pronta pra gente morar, quando chegamos, disse que o inquilino não tinha saído, e
nos deixou assim, sem ter pra onde ir. Vou te contar, foi a maior decepção. Nós
sofremos muito. Ficamos, não lembro quanto tempo, com uma tia, irmã da minha
mãe. Ela acomodou as coisas dela, para caber as nossas, foi um horror! E se não
tivesse essa irmã da minha mãe, onde nós teríamos ido parar? Nós éramos crianças,
eu, que era a mais velha tinha uns dez, onze anos!! Nossa, foi sofrimento demais...
porque tudo aquilo que era bom da outra casa, nossas coisas, nossa vida – mesmo
simples –, parecia que tinha acabado! Meu pai trabalhando tanto, perguntava pra
um, pra outro, pra meio mundo, pra procurar uma casa. A muito custo, ele arrumou,
num sobrado, na Vila Clementino. A senhora estava alugando o subsolo, e meu pai
falou ‘nós vamos pra lá, provisoriamente’, porque não podia mais ficar com minha
tia, coitada. E ela era enfermeira do Hospital das Clínicas, também tinha uma vida de
sacrifício, levantava de madrugada... foi um horror!” (D. Dalma)
****

89
Apresentada no Capítulo2.

152
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

A circense Marly90 fala da necessidade, percebida também pelos filhos, de voltar ao


ambiente doméstico que lhes é conhecido, à tranqüilidade e a segurança emocional
experimentada no lugar e na forma de praticar o habitar que lhes é familiar:

“[...] você pode ir aonde for na cidade, mas você sabe que vai voltar e vai pro seu
canto. Você quer voltar pra o seu lugar de descanso, pra onde estão suas coisas.
[...]
E eu percebo isso, também, nos filhos. Os meus dois foram criados no circo [...]. A
gente, às vezes, saía pra algum lugar, daí eles falavam “ai, mãe, estou louco pra ir pra
casa”: a casa era o trailer. Os dois já saíram de casa. O de 18 anos é palhaço, já
comprou o trailer dele e mora aqui do lado. O mais velho, agora, mora no Paraná,
está estudando. Por ele, estaria aqui, mas ele também quer terminar os estudos.
Então, por enquanto, ele está lá. Mas, na semana que vem, mesmo, ele vem pra cá,
pra passar duas semanas. Nas férias, nos feriados prolongados, ele está sempre aqui,
no circo, no trailer.” (Marly)

Partamos, então, da necessidade de estarmos inseridos em um ambiente


onde percebemos o sentido de continuidade – tanto em relação à noção que temos
de nós mesmos, quanto em relação às pessoas, espaços e coisas com os quais nos
relacionamos. Com isto, podemos propor que é o fato de estarmos inseridos na
rotina que leva a essa continuidade, assim como num contexto onde o que se espera é
não haver o inusitado, que dá espaço ao que realmente é relevante para nós, em
termos de habitar doméstico – como a possibilidade de estarmos em privacidade e
intimidade com nós mesmos ou com quem desejamos, refletindo sobre nossas vidas,
cultivando a nossa individualidade, fazendo o que queremos, sem que para isso
precisemos nos justificar perante a opinião pública.
O que fazemos com o nosso cotidiano doméstico é, num primeiro
momento, o utilizarmos como um meio restaurador: uma vez certos da segurança,
privacidade e intimidade, relaxamos nossos corpos e nossas emoções; e em seguida,
como meio preparador para as nossas próximas incursões pela vida pública. É na vida
diária doméstica que podemos fazer uso do que já vimos Gaston Bachelard apontar
como o “benefício mais precioso” da casa, ou seja, a possibilidade de sonhar em paz,
de termos abrigados os nossos devaneios e nosso sonhar (Bachelard, 2003; p. 26).
Isto, não para que escapemos indefinidamente do mundo real; mas, sim, a

90
Apresentada no Capítulo1.

153
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

intimidade do cotidiano doméstico trabalha para que, ao darmos vazão aos desejos e
à fantasia, criemos meios emocionais de implementar nossos planos para a próxima
incursão pública.
Como observa Peter King, a própria intimidade, que não é apenas
possibilitada, mas, de fato, estimulada pela privacidade doméstica, é também
praticada de maneira não especial, corriqueira, normal. No entanto, se, por alguma
razão, não podemos mergulhar na “complacência” de nossas casas, se não podemos
perceber essa confiança no nosso próprio habitar doméstico, há algo de falho no
caráter básico desse habitar, que é o de servir como “ferramenta” para atingirmos
nossos objetivos (King, 2004, 174). Segundo o autor, as agruras encontradas na
vivência do mundo estranho à nossa intimidade doméstica não desaparecem
simplesmente porque voltarmos para casa; o que proporciona nosso restauro
emocional e físico é o reencontro com a própria vida doméstica, e com tudo o que ela
nos traz em termos de continuidade e constância. (King, ibidem; p. 178).

Essas considerações são verificadas no depoimento do entrevistado Reginaldo91 que,


há quinze anos viaja a trabalho, ficando, por vezes, longos períodos hospedado em
hotéis, privando‐se do cotidiano doméstico:

“[...] eu passo quatro, seis meses [longe de casa, trabalhando] numa empresa, [...].
Dali a quatro meses, vou pra outro – isso, quando eu não tenho dois, três projetos ao
mesmo tempo, em cidades diferentes. Nesse caso, eu fico dois dias num lugar, dois
dias num outro; na outra semana, fico dois num outro... Aí, você tá dormindo numa
cama hoje, se arruma lá, amanhã você já tá mudando. Então, eu sinto, mesmo, é
falta de casa
[...]
o que mais me agrada nela [sua casa] é o quintal, que não é grande, mas é um lugar
muito gostoso. Tem uma parte coberta e uma descoberta. Eu gosto de ficar ali
sentado lendo um jornal, conversando, junto com a minha esposa. Tem um
cachorro... É um lugar agradável – disso eu sinto uma falta louca!... Então, por mais
que eu já trabalhe há quinze anos nessa atividade, eu ainda sinto essa falta. Aí,
quando eu estou em São Paulo, eu fico mais em casa. Em casa, nos fins de semana,
ou eu estou nesse quintal, fazendo um churrasquinho, ou eu estou na sala, com a
família, vendo uma tv, um jornal – eu adoro jornal, tanto de televisão, como de
papel.” (Reginaldo)

91
Apresentado no Capítulo 1.

154
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Relatando sua experiência de estar trabalhando em Portugal, hospedado há dois


meses em um hotel, Reginaldo fala da tentativa, não totalmente bem‐sucedida, de
estabelecer um cotidiano “doméstico” restaurador das forças gastas pelo trabalho. O
fato de ter que sair do hotel para jantar é visto como um incômodo a esse descanso.
Reginaldo compara essa situação com o momento em que sua esposa esteve em
Portugal, visitando‐o, com a qual ficaram hospedados em um flat. O ritual diário de
chegar do trabalho e encontrar a esposa à sua espera e o momento de cozinharem
juntos passaram a atribuir à situação um caráter de constância e continuidade que
Reginaldo passou a associar com o sentir‐se em casa:

“[...] Quando eu chego à noite, pra relaxar, costumo fazer uma caminhada [na
academia do hotel], tomo um banho, e vejo televisão, assisto a um jornal [...].
Quando eu volto, o que é que tem pra fazer? Ou você vê televisão, ou lê um livro, ou
trabalha.

E ainda por cima, eles não servem nada à noite, aí eu tenho que jantar fora. Isso, pra
mim, é muito ruim: ficar saindo, ter que ficar procurando outras coisas. Quando a
minha esposa foi me visitar lá, nós ficamos num flat muito gostoso. Aquilo era bom:
você estava em casa... Eu chegava, ela estava ali, aí a gente fazia uma comidinha....”
(Reginaldo)

A canção a seguir exemplifica o processo de vivência da normalidade


cotidiana doméstica, muito familiar a todos nós, a qual, ao mesmo tempo que acolhe
os hábitos mais corriqueiros e pouco significantes, como lavar o rosto pela manhã,
vestir-nos para mais um dia de trabalho ou tomar o café da manhã, propicia ao
indivíduo refletir sobre sua vida e preparar-se para mais um dia no mundo exterior.

Quero cantar pra você


Segunda-feira de manhã
Pelo seu rádio de pilha tão docemente
E te ajudar a encarar esse dia mais facilmente
Quero juntar minha voz matinal
Aos restos dos sons noturnos
E aos cheiros domingueiros que ainda bóiam
Na casa e em você
Para que junto com o café e o pão se dê
O milagre de ouvir latir o coração
Ou quem sabe algum projeto, uma lembrança

155
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Uma saudade à toa


Venha nascendo com o dia numa boa
E estar com você na primeira brasa do cigarro
No primeiro jorro da torneira
Nos primeiros aprontos de um guerreiro de manhã
Para que saia com alguma alegria bem normal
Que dure pelo menos até você comprar e ler
O primeiro jornal

(Sueli Costa e Abel Silva. O primeiro jornal)

Uma vez a normalidade e a previsibilidade do cotidiano doméstico


funcionando como pano de fundo para reflexões a respeito de nossas vidas, é a partir
dessa neutralidade que nos preparamos para tomar decisões criativas e
transformadoras, estas sim, consideradas à luz da esfera pública, relevantes ao curso
de nossas vidas. Lembremos, aqui, de Hannah Arendt que, ao mesmo tempo em que
fala da necessidade da preservação à meia luz da (aparente) irrelevância do que é
privado, aponta para o fato de que a percepção de algo como real, relevante, está
totalmente condicionada à “existência de uma esfera pública na qual as coisas possam
emergir da treva da existência resguardada” (Arendt, 1997, p. 61).

O deixar e o voltar ao cotidiano doméstico

A imagem de “trampolim” que Lefèbvre atribui ao cotidiano faz com que


retomemos a questão da vida vivida cotidianamente em nosso ambiente doméstico e
passemos a vê-la como um meio de atingirmos o possível – e o real de que nos fala
Arendt. Para Lefèbvre, a qualidade do cotidiano de proporcionar recuperação “rápida
e fugaz” do enfraquecimento resultante de esforço diário está na cotidianidade do
íntimo. Mas é necessário que, sempre que possível, estabeleçamos uma justificativa
para esta cotidianidade. E é justamente o romper com o cotidiano – a partida – que
lhe servirá de álibi (Lefèbvre, ibidem, p. 169, 170).
Clare C. Marcus vê as incursões que fazemos pela esfera pública, ao
deixarmos temporariamente nossas casas, como uma maneira de desenvolvimento
íntimo. Segundo a autora, sem uma “viagem”, ou uma passagem gradual – geográfica

156
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

ou psicológica – de um estado para outro que consideremos mais desenvolvido,


poderá haver estagnação, frustração, enfraquecimento. Segundo a autora, gostemos
ou não, todos nós temos que deixar nossos lares, experimentar aventuras, riscos,
perigo, excitação, para nos encontrarmos. E ainda que o eu que procuramos não
esteja literalmente lá fora, estará internamente, “como semente ou sonho”, precisando
se realizar através dessas experiências que nos permitimos viver lá fora (Marcus, 1995,
p. 279).
Em Novembro, novela autobiográfica do jovem Gustave Flaubert, o autor
ilustra o quanto o cotidiano do colégio interno lhe serve de pano de fundo e, ao
mesmo tempo, de catapulta de sua alma para mundos inquietantes:

“E quando terminava o serão e todos estávamos deitados em nossos leitos brancos


com cortinas brancas, e o mestre-escola passeava só em todos os sentidos pelo
dormitório, era o momento em que me concentrava ainda mais em mim mesmo,
escondendo com volúpia no meu peito esse pássaro que batia as asas e me infundia
o seu calor! Demorava sempre muito para adormecer, escutava soarem as quatro
horas, quanto mais lentas elas transcorriam, mais feliz me sentia; parecia-me que
elas me empurravam para o mundo, cantando, e saudavam cada momento da
minha vida, dizendo: ‘Para fora! Para fora! Ao futuro! Adeus! Adeus!’” (Flaubert,
2000; p. 40).

Marcus vê o espaço doméstico como o ponto pivô dessas viagens – o


começo e o fim. Se, por um lado, deixá-lo por um período faz com que nos
desenvolvamos através das experiências da vida, voltar é confortarmo-nos, novamente,
na estabilidade e na força do que a autora chama de “centro tranqüilo do nosso ser”.
Da mesma forma, nunca deixar o lar é evitar riscos, recusar-se a crescer (Marcus,
ibidem).

Em um longo depoimento, ao falar de seu ideal de habitar doméstico como sendo a


combinação, no espaço físico da casa, das rotinas tanto doméstica quanto de seu
trabalho como artista plástico, o entrevistado Pedro92 exemplifica, como o cotidiano
gerado dessa combinação parece estabelecer um sentido de ordem e estabilidade
que considera essencial tanto à sua atividade profissional, quanto ao próprio habitar

92
Apresentado no Capítulo 2.

157
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

doméstico, que, em última instância, se mesclam. Ainda que afirme ser


“extremamente caseiro” e detestar viajar, Pedro descreve sua necessidade de
pequenas saídas, antes e depois do ciclo diário de atividades, como se a rápida ida à
praia ou os “quinze minutos” de contato com o mundo exterior lhe inspirassem a
criar e justificassem a retomada à sua cotidianidade doméstica:

“[...] eu sempre entendi a minha casa, como também o meu estúdio. Durante muitos
anos foi assim. Eu sempre tive as duas coisas, em partes distintas, mas na mesma
casa. Eu sempre vivi desse jeito. Pra mim, uma casa é assim: quando eu tenho o meu
espaço de trabalho acoplado a ela. Só é casa se for desse jeito.
[...]
Porque eu sou extremamente caseiro. Eu preciso de uma casa.
[...]
É uma coisa curiosa: eu preciso de quinze minutos de gente por perto, mas só quinze
minutos. Depois eu quero voltar para casa, pra minha rotina. Quando eu vivia na
Granja, eu vivia dentro de um condomínio, e quando acabava o meu expediente
diário, cinco, seis horas da tarde, eu tinha esses quinze minutos. Pegava o carro,
sumia, ia pro centro da Granja, pra mim já era suficiente: Chegar no mercado, ver as
pessoas, pronto, e voltava. Em Florianópolis, eu imaginava que pudesse manter esse
ritmo – como, de fato, oferece. Então, eu fui para um canto de Florianópolis, que é
uma área rural, na verdade. No final da rua, você atravessa as dunas e está na praia.
[...]
[a respeito da antiga casa, em São Paulo:]
Eu morava com a minha família. Isso não atrapalhava, mas eu também sou uma
pessoa que não divide as coisas muito bem. Minha mulher, na época, trabalhava fora
e eu ficava com as crianças. Eu não só morava ali, trabalhava ali, mas cuidava da casa
e das crianças. Minha filha, pequenininha, já ficava comigo dentro da oficina. Cresceu
comigo dentro da oficina, que era a própria casa, num corpo só.
[...]
Eu detesto viajar, não gosto de viajar. Fala‐se muito isso – acho que um pouco é
chavão, talvez outra parte seja verdade –, de que seria importante para a criação,
referências diferentes, mundos diferentes, situações diferentes. Comigo não
funciona assim. Eu só consigo fazer alguma coisa – não sei se criativa ou não – a
partir de um cotidiano bem firmado, estabelecido – e isso, na minha casa, que é
também a minha oficina. Eu dependo disso. Se você me tirar do meu cotidiano, eu
não consigo fazer nada, não faço. Aliás, até pela natureza do meu trabalho. Depende
muito da repetição, da constância. Imagine o seguinte: eu tenho lá minha escultura,
estou concebendo, desenhei, faço uma primeira versão, um primeiro modelo desse
projeto. Claro que entre o que foi pensado anteriormente e o que foi materializado,

158
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

já tem uma grande diferença. Você está saindo de duas para três dimensões, novas
portas aí se abrem.

Eu costumo muito trabalhar desse jeito: depois do primeiro modelo tridimensional,


eu realizo um série de versões com pequenas diferenças, nos seus vários aspectos
formais. E eu só consigo trabalhar essas variantes com um cotidiano bem firmado. Se
eu não tenho um cotidiano, eu não consigo isso. Eu tenho que acordar às seis e meia,
sete horas da manhã, eu não tomo café, só tomo água. Estando lá [em sua casa
Florianópolis], eu dou um pulo até a praia, olho o mar, dou bom dia, volto, me enfio
na oficina, meio‐dia eu paro para comer alguma coisa ... Tem que ter essa rotina. Eu
só consigo processar – talvez não seja nem a criação, mas o processo do trabalho...
enfim, a materialização do trabalho depende de uma rotina. E isso, eu só tenho
dentro da minha casa – que é a minha oficina.

[...] Mas, também faz parte desse processo, uma convivência pacífica com as coisas
que eu faço em casa. De repente, é a lata de lixo, que eu pego e levo pra fora, ou
uma antena que quebrou, e eu vou gastar meia hora consertando – não me irrita,
não me incomoda, faz parte.” (Pedro)

A respeito das afeições simples pelo lugar habitado e pelas atividades


comuns que nele praticamos, Yi-Fu Tuan afirma ser essa satisfação “um sentimento
cálido positivo”, mas que, contudo, pode facilmente ser interpretado como uma
acomodação ao mesmo cenário e uma “falta de curiosidade para com o mundo lá
fora” (Tuan, 1983; p. 176). À consideração de que a “amplidão” experimentada lá
fora está normalmente associada ao sentimento de “liberdade” (Tuan, ibidem; p. 6),
acrescente-se a observação de Marcus, segundo a qual deixar sempre o lar significa
rejeitar alguns aspectos do eu que residem lá e que precisam ser abraçados. O segredo,
segundo a autora, seria encontrar o equilíbrio e reconhecer quando partir, quando
ficar. E é com a maturidade que aprendemos que os dois são necessários – partir e
ficar, perigo e segurança, movimento e tranqüilidade, lá fora e em casa (Marcus,
ibidem, p. 279).

No caso do entrevistado Hermes93, aposentado há dois anos (no momento da


entrevista), e tendo trabalhado por trinta e quatro anos como comissário de bordo e
instrutor de comissários em uma empresa aérea, segundo ele, o fato de estar

93
Apresentado no Capítulo 3.

159
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

constantemente viajando foi um aspecto que sempre lhe dera muito prazer, em sua
profissão. Contudo, voltar para casa e para o convívio diário com sua família era
igualmente prazeroso. Seu depoimento expressa como ele percebe esse equilíbrio
entre o estar fora e o retornar para a normalidade da casa:

“[...] Por isso que eu te digo que quando eu chegava de um vôo, era sempre gostoso.
[...] Eu ia para os lugares que eu gosto, fazia compras pra minhas filhas... Mas era
muito gostoso quando você voltava. A mesma alegria que você tinha quando saía era
a de quando você estava voltando. [...] Era gostoso, uma coisa era decorrência da
outra: eu pensava ‘eu vou, vou fazer o que eu gosto, trabalhando, ganhando meu
dinheiro, vou comprar alguma coisinha pra elas [esposa e as filhas], e vou voltar.’
Hoje eu sinto uma falta muito grande, não do vôo em si, mas de ir lá, passear: ‘Puxa
vida, se eu tivesse lá, eu compraria isso, ou aquilo... em Miami é mais barato, em
Nova Iorque... seria legal.’ Mas, agora [com a aposentadoria], é muito gostoso
porque eu estou mais tempo na minha casa, então você fica curtindo a suas coisas,
fazendo minhas coisas. Não grandes coisas, mas – eu gosto de dizer – eu sou
jeitozinho pra fazer minhas coisas em casa. Então é gostoso.” (Hermes)

E ainda com relação à partida da esfera privada, esta cotidianamente


vivenciada – e, portanto, fonte de certeza e confiança –, para o desconhecido a ser
desvendado na esfera pública, é interessante a analogia feita por Agnes Heller, em sua
abordagem filosófica do conceito de casa: Assim como a maioria das formas musicais
ocidentais retornam, concluindo, à chamada “home key”94, como uma forma de
resolução estética, assim também, Heller refere-se à consciência de um ponto fixo no
espaço como parte integral da vida cotidiana média: uma posição firme a partir da
qual nós partimos e para a qual retornamos no momento apropriado. E tal posição
firme seria a casa. Desta forma, a idéia de voltar para casa deve ser entendida como
retornar ao que conhecemos, ao que estamos acostumados, aonde nos sentimos
salvos e aonde nossas relações emocionais são as mais intensas (Heller, 1981; p. 239;
Apud Morley, 2000; 24).

94
O home key, segundo o musicólogo Leonard Ratner, é a premissa inicial de que partem certas forma
musicais, como, por exemplo, a sonata. O próximo tema, que segue à premissa inicial, viria para
contestar o primeiro. Mas, no final da exposição musical, cederá à home key, restabelecendo a
premissa inicial. Nessa reconciliação, a home key incorpora o tema da segunda premissa, mostrando
uma união dos dois temas (Ratner, 1966; p. 240. Apud Chamberlin, 2007).

160
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

É assim que o entrevistado Aristides95 traduz, em seu depoimento, de um lado, a


busca pelo desenvolvimento através das experiências da vida, de que nos fala Marcus
– até como forma de contestar o que é conhecido e propor inovações, tal a adição de
um novo tema à música do habitar (para utilizarmos a analogia de Heller. E de outro
lado, fala da segurança ontológica em relação à sua casa como ponto de retorno,
como vimos por Giddens:

“Eu sou mergulhador, faço fotos submarinas; eu já cheguei a passar dois meses fora
[...]: participei de uma expedição com a equipe de Cousteau nas Ilhas Fiji. Nessas
viagens, eu já dormi em banco, na areia, em barraca, em rede; durmo no chão, na
cama; já fiquei sem tomar banho vários dias, por não ter condições de tomar banho,
mesmo! Uma vez fiz um trabalho [...] que era uma iconografia do descobrimento do
Brasil. Fiquei numa aldeia Pataxó durante 28 dias. Foi uma experiência gostosa. [...].
[...]
Eu sinto falta de coisas novas. Se não tiver coisas novas no meu dia‐a‐dia, se a minha
vida começar a ser todo dia aquilo lá, aí, acho que não dá. Mas também é bom
pensar que a casa tá lá, ela vai ficar ali, e eu sei que eu vou voltar.” (Aristides)

Refletindo sobre a noção de casa como o lugar onde se dá o dia-a-dia, e


que, sendo esse cotidiano doméstico uma base, em cujo caráter de continuidade
familiar apoiamo-nos, Norberg-Schulz pergunta “por que, então, temos que nos jogar
no mundo, quando possuímos a proteção e o suporte de nossas casas?” Como
resposta, o autor simplesmente nos lembra da tarefa social que temos que cumprir no
mundo exterior, fazendo-nos lembrar que nossas vidas não se resumem ao ambiente
de nossas casas, mas, sim, que cada um de nós tem sua participação em um sistema de
interações que acontecem em um mundo baseado em valores que partilhamos na
esfera pública. Para cumprir nossa tarefa social, temos que deixar nossas casas e
escolher um caminho. E quando cumprida, retornamos à nossa casa para
recobrarmos nossa identidade pessoal – sendo esta o próprio conteúdo do habitar
doméstico (Norberg-Schulz, 1985, p. 89).

A fala da entrevistada Analu96 exemplifica o sentido de retorno à casa para o


reencontro com nós mesmos, para o recobro de nossa identidade, como nos falam
Norberg‐Schulz e Marcus.

95
Apresentado no Capítulo3.
96
Apresentada no Capítulo 1.

161
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

“[Minha casa] É um lugar que eu gosto, mesmo, de voltar pra lá. Assim, eu fico
contente que eu vou acabar o meu trabalho e vou voltar pro meu canto.” (Analu)

Assim, vemos que através do habitar doméstico praticado cotidianamente


e da interação íntima e privada que estabelecemos em e com nossas casas, buscamos
restaurar-nos do habitar praticado no mundo público: relaxando, libertando nossa
subjetividade, cultivando nossa alma, aliviando-nos física e espiritualmente.
Ampliando a afirmação de King que vimos há pouco, se não podemos obter do nosso
habitar doméstico o restabelecimento e a preparação para a realidade da esfera pública
(conforme vimos falar Heller), há algo falho no modo como se dá a prática do nosso
cotidiano doméstico.

Isto pode ser verificado através do depoimento do entrevistado Alencar97, que vimos
anteriormente relatar seu desespero em relação à falta de privacidade doméstica
para um relacionamento saudável com a sua família. Ao elaborar seu conceito ideal
de “casa”, Alencar inclui a importância de se perceber inserido na constância de um
ambiente de condições físicas que propiciam o estar à vontade, o convívio traqüilo
com a família, a reflexão, enfim, a restauração física e emocional. A perda do
controle da privacidade em relação às interações pessoais com sua esposa e filhos e
da autonomia sobre o espaço doméstico98 fazem com que Alencar passe a maior
parte do seu dia no trabalho, evitando voltar para casa, privando‐se, assim, do
convívio familiar e da própria normalidade cotidiana. Isso faz com que ele se veja
impedido de perceber sua casa como lugar de restauro e de preparação:

“[Casa] É o nosso quartel general, né, onde você comanda tudo, onde você põe as
idéias em dia; sossego, reflexão... e o descanso, também; repouso p’rum novo dia...
tranqüilidade. Mas, também, pra mim, a minha casa sempre foi as minhas coisas; o
meu canto, a minha cama, a minha televisão, o meu banheiro... É ficar à vontade, de
bermudão, tal, sem incomodar ninguém.
[...]
Eu tive que abrir mão de muita coisa e perdi muitas referências. Eu queria chegar em
casa e ter tranqüilidade. Achar o meu livro que tava lá – já não tiraram do lugar;
aquele filme de DVD que você tem, que você quer chegar e assistir à vontade... esse
dia‐a‐dia que você só valoriza depois que você não tem ele. Então, acaba faltando

97
Apresentado no Capítulo 3.
98
Tal como vimos Alencar relatar no Capítulo anterior.

162
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

muita coisa. Mas, o fato é que eu me apeguei mais ao trabalho. Então, eu fico muito
pouco lá. Eu saio às sete horas da manhã, quando eu volto, é onze horas da noite.
Então, é a pousada, agora; um lugar que eu vou pra dormir e tomar banho.” (Alencar)

...

Com isto, pudemos ver o caráter de essencial ao habitar do recolhimento


vivido cotidianamente em nossas casas – essencial, no sentido de ser a partir das
práticas domésticas que, na “simbiose” entre a realidade concreta do espaço habitado
e o significado subjetivo que obtemos dessas práticas, recobramos nossas forças físicas
e emocionais para retornarmos ao habitar nas esferas coletiva e pública: como se, de
um lado, o habitar privado e, de outro, os habitares coletivo e público, dependessem
um do outro para serem vividos plenamente.
A partir do sentido restaurador e preparador do habitar doméstico
praticado cotidianamente, retomemos a consideração, já feita anteriormente, de que
esse habitar privado não se dá isoladamente, mas sim, segundo a condição de inserido
em um mundo mais amplo. E retomemos, ainda, a consideração de que esse ato de
habitar privadamente se dá na medida em que destacamos desse mundo vasto uma
localidade física, a qual passa a abrigar não apenas nossas relações físicas que ali
passam a ocorrer cotidianamente, mas também as espirituais que passam a dar “alma”
ao nosso espaço habitado. E é justamente através desse investimento pessoal, e de
relações estabelecidas diariamente no espaço habitado ao longo do tempo, que esse
espaço deixa sua condição de mera localidade, destacada do espaço geral, e adquire a
qualidade de lugar, como veremos no próximo capitulo.

163
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Capítulo 5 – O lugar do habitar doméstico

Home [casa]: Um lugar de habitar; [...] a casa da própria pessoa. [...] Um lugar,
região, ou estado ao qual se pertence, no qual estão centradas as afeições de uma
pessoa, ou onde ela encontra repouso, refúgio, ou satisfação [...]. (The Oxford
Universal Dictionary, 1955)

Vimos o sentido de cuidado e preservação do habitar doméstico. Vimos,


também, que, à medida que praticamos esse habitar, nosso espaço doméstico
incorpora os valores e significados que trazemos para ele, o que o faz adquirir o
caráter de particular e único para nós, seus habitantes. Com isto, pudemos falar da
existência em privacidade que buscamos na proteção de nossas casas e da – embora
aparentemente irrelevante, porém, profundamente importante – experiência do
cotidiano doméstico, a partir da qual obtemos o restauro físico e emocional das
experiências do habitar público e coletivo e a preparação para novas incursões ao
mundo exterior.
Neste capítulo, passo a observar a esfera do habitar doméstico,
considerando-a não como mera localidade destacada do espaço geral, mas como
espaço que, ao incorporar as especificidades que lhe atribuímos ao habitá-lo, adquire,
para nós, o sentido específico de lugar. Para isto, proponho relembrarmos o sentido
do habitar doméstico, visto no início deste trabalho, como uma atividade que implica
o estabelecimento de uma relação significativa entre o homem e um determinado
meio tal como vimos definir o arquiteto Christian Norberg-Schulz (Norberg-Schulz,
1985; p. 13). Considerando lugar como um termo concreto para meio, o autor dirá
que o habitar envolve o ato de identificação e o sentido de pertencimento a um

164
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

determinado lugar. Lugar, para Norberg-Schulz, “é, evidentemente, uma parte


integrante da existência (Norberg-Schulz, 1985; p. 13 e Norberg-Schulz, 1984; p. 6).
Nesta análise, irei além dos aspectos do habitar doméstico abordados até
agora – os quais nos fizeram vê-lo como um processo localizado fisicamente, em que,
através da vida cotidiana praticada em privacidade, experimentamos o sentido de
pertencimento a esse local e buscamos nele a preservação de nossa vida interior
(sozinhos, ou ao lado das pessoas com quem o partilhamos). Para abordar o processo
de atribuição da condição de lugar à esfera habitada domesticamente, minha análise
deverá, mais adiante, ser ampliada, no sentido de também considerar o habitar
doméstico um processo que se insere no contexto geral do mundo contemporâneo.
Ao analisar a relativa permeabilidade deste processo aos aspectos da esfera pública,
procurarei trazer alguns aspectos que envolvem o próprio tratamento teórico
tradicionalmente atribuído ao lugar do habitar doméstico. Para isto, serão úteis
algumas considerações a respeito do conceito de lugar e sua distinção do sentido de
espaço – idéias que, como observa Anthony Giddens, muitas vezes são empregadas
como sinônimos uma da outra (Giddens, 1984. Apud Giddens, 1990; p. 18).
Observando que o sentido de espaço dado pela literatura pós-iluminista
sempre esteve relacionado ao desenvolvimento de leis e generalizações científicas, o
geógrafo Tim Cresswell observa que, para tal abordagem, as pessoas tiveram que ser
retiradas de cena, sendo o espaço visto como algo intangível e vazio. Neste contexto,
em que a hierarquia dos valores científicos não dava lugar para o particular, as
considerações sobre o lugar ficavam relegadas à “mera descrição” (Cresswell, 2002; p.
12 e Cresswell, 2004; p. 19). Segundo o teólogo Philip Sheldrakexix, em uma conduta
científica em que se priorizavam os aspectos universais e gerais sobre os particulares e
locais, assim como as definições abstratas e o conhecimento objetivo sobre os
aspectos originados da própria experiência humana, a natureza era vista como “uma
realidade moralmente neutra, sobre a qual poderíamos impor o que quer que
escolhêssemos”, e lugar era visto apenas como uma compartimentação desse ‘espaço
“natural”’ (Sheldrake, 2002; p. 6).

165
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

A experiência do lugar sob o prisma da Geografia Humanista

A redescoberta do lugar tem suas raízes nos anos 1970, no trabalho


seminal de geógrafos humanistas que, inspirados por filosofias do significado,
incluindo-se a fenomenologia e o existencialismo, buscaram o sentido da natureza
geográfica do estar-no-mundo. Foi desta forma que geógrafos como Yi-Fu Tuan99 e
Edward Relph100 buscaram inserir as pessoas em seu campo de análise, fazendo-o
através do foco na noção de lugar. Ou seja, ao invés de abstrações sobre o espaço
geométrico, a questão central desse projeto passou a priorizar a experiência da
imersão humana no lugar, envolvendo, assim, a consideração de que ser humano é estar
‘em um lugar’” (Cresswell, 2002; p. 12). Segundo escreveu o filósofo do lugar Edward
Caseyxx, “viver é viver localmente, e conhecer é, antes de tudo, conhecer o lugar onde
se está” (Casey 1996, p.18; Apud Cresswell, 2002; p. 12).
No início dos anos 1980, Norberg-Schulz, ao criticar a abordagem da
ciência em relação ao lugar, escreveu que lugar é “mais do que uma localização
abstrata”; implica “uma composição de coisas concretas com substância material,
forma, textura e cor”. Para o autor, o princípio da ciência, segundo o qual se parte de
algo concreto para abstraí-lo e chegar ao “conhecimento neutro ‘objetivo’”, implica a
perda das experiências concretas da vida diária, as quais deveriam ser a real
preocupação do homem, em geral, e dos planejadores e arquitetos em particular. Para
escapar a esse impasse, é que Norberg-Schulz aponta a abordagem da fenomenologia,
ou seja, o “retorno às coisas”, em oposição às abstrações e construções intelectuais
(Norberg-Schulz, 1984; p. 6-7).
Tuan, por sua vez, ao estabelecer uma relação entre os conceitos de espaço
e lugar, dirá que embora ambas as idéias não possam ser definidas uma sem a outra,
espaço é um conceito “mais abstrato” do que lugar; e que a transformação daquilo que
começa como “espaço indiferenciado” se dá, justamente, com a experiência humana,
“à medida que o conhecemos melhor e o dotamos de valor”. Essa experiência dar-se-ia
através das diversas maneiras com que percebemos e construímos a realidade
vivenciada, podendo estas maneiras variar entre os sentidos mais diretos e passivos –
o olfato, o paladar e o tato –, a percepção visual ativa e a simbolização, que é feita

99
“Espaço e Lugar” (1983; originalmente publicado em 1977); “Topophilia” (1990).
100
“Place and Placelessness” (1976).

166
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

indiretamente (Tuan, 1983; p. 6, 9). Ao nos movermos, mudarmos de um lugar para


outro, experimentamos o espaço em suas direções; ao tocarmos e manipularmos
coisas, experimentamos o “mundo de objetos” que aí se forma. Através de
movimentos, freqüentemente dirigidos para – ou repelidos por – objetos e lugares,
podemos experimentar o espaço pela localização relativa desses objetos e lugares, ou
ainda – de uma forma mais abstrata –, “como a área definida por uma rede de
lugares” (Tuan, 1983; p. 13-14).
Tuan observa que, freqüentemente, nossa mente vai além das evidências
sensoriais, sendo as emoções e os pensamentos os responsáveis por dar “colorido a
toda [essa] experiência humana” (Tuan, 1983; p. 18, 9). Ao observar que a
dependência visual do homem para organizar o espaço é incomparavelmente maior
do que a dos outros sentidos, o autor apontará para a audição e o olfato como
sentidos que contribuem para a ampliação e o enriquecimento da percepção do
espaço. O som, por exemplo, “dramatiza a experiência espacial”, dá vida ao espaço.
Os cheiros, por sua vez, podem contribuir para a atribuição de uma “personalidade
estimulante” a um ambiente construído, tornando-o distinto, fácil de ser identificado
e lembrado (Tuan, 1983; p. 18, 13-14). Com isto, tomo, aqui, a distinção estabelecida
por Tuan entre espaço e lugar, segundo a qual, na medida em que adquire definição e
significado, o espaço transforma-se em lugar (Tuan, 1983; 151). E, para que o lugar
atinja uma realidade concreta para nós, a experiência que estabelecemos em relação a
ele tem que ser “total”, ou seja deve envolver todos os sentidos, incluindo-se “a mente
ativa e reflexiva” (Tuan, 1983; p. 20).
Pelas palavras de Ecléa Bosi, a seguir, podemos entender como as
experiências sensoriais que vivemos, ao longo do tempo, em relação a um local
contribuem para que ele adquira, para nós, um sentido de lugar. Impressões táteis,
sonoras, além das visuais, conferem a cada lugar com que convivemos ao longo de
nossas vidas uma identidade própria, num conjunto de referências que guardamos
internamente, formando o que Bosi chama de “mapa afetivo e sonoro” (Bosi, 2003;
p. 444):

“Outro dia, caminhando para o viaduto do Chá, observava como tudo havia
mudado em volta, ou quase tudo. O Teatro Municipal, repintado de cores vivas,
ostentava sua qualidade de vestígio destacado do conjunto urbano. Nesse momento
descobri, sob meus pés, as pedras do calçamento, as mesmas que pisei na infância.

167
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Senti um grande conforto. [...] As pedras resistiram e, em íntima comunhão com


elas, os meninos brincando nos lances da escada, os mendigos nos desvãos, os
namorados junto às muretas, os bêbados no chão.
[...]
Ouvi outro dia a cantilena do comprador de roupa velha, quando amanhecia.
Soube que se tratava do filho do judeu da minha infância, imitando o sotaque e a
cantilena do pai. Sons que desaparecem, que voltam, formam o ambiente acústico
dos bairros. As pedras da cidade, enquanto permanecem, sustentam a memória.
Além desses apoios temos a paisagem sonora típica de uma época e de um lugar.
[...] O espaço sonoro compartilhado é um bem comum, mesmo os diminutos sinais
que compõem suas mensagens são vitais para seus habitantes.
Por que definir o espaço privado só em termos visuais?” (Bosi, ibidem; p. 444,
445)

É interessante a abordagem da Lucy Lippardxxi que, ao enfatizar a


inerência do sentido de lugar à sua localização – tal como já vimos abordando –,
procura estabelecer a conexão entre essa experiência localizada e o efeito do que
chama de “ressonância interna” que se produz a partir dessa experiência. Esse efeito
se daria a partir da vivência “interna” em localizações que nos são conhecidas e
familiares. A esses locais, descritos pela autora como uma sucessão de camadas
“repletas de histórias humanas e memórias”, vemos conectadas a nossa própria
história, nos sentidos temporal, pessoal e político. Nas palavras da autora, “o lugar
está latitudinal e longitudinalmente inserido no mapa da vida de uma pessoa”
(Lippard, 1977; p. 7; Apud Cresswell, 2004; p. 40).
Ao propor o tema “quanto demora para se conhecer um lugar?”, Tuan
observa que o “‘sentir’ um lugar” não é algo instantâneo, mas sim, um processo que
leva tempo; um processo que resulta de um conjunto singular de experiências, em sua
maioria “fugazes e pouco dramáticas”, as quais repetimos cotidianamente ao longo
dos anos. Para o autor, conhecer um lugar envolve uma mescla específica dessas
experiências, o que faz com que esse lugar seja “registrado” em nosso corpo em uma
espécie de “conhecimento subconsciente” (Tuan, 1983; p. 203). É na medida em que
o espaço se torna inteiramente familiar para nós, que ele é percebido como lugar
(Tuan, 1983; p. 83):

168
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

“Com o tempo uma nova casa deixa de chamar nossa atenção; torna-se confortável
e discreta como um velho par de chinelos.” (Tuan, 1983; 203)

A associação entre a percepção de um determinado local como lugar e as


ações nele praticadas habitualmente, ao longo do tempo, também é explorada por
David Seamonxxii, conforme aborda Cresswell: na análise de Seamon, quando uma
seqüência de movimentos utilizados para completar uma determinada tarefa101 é
mantida por uma considerável duração de tempo, é chamada de “rotina tempo-
espaço”. Partindo-se desta idéia e passando-se a considerar não mais uma, mas muitas
rotinas tempo-espaço, ocorridas em uma determinada localização, Seamon afirma que
essa combinação de movimentos produzirá um intenso sentimento de lugar, assim
como de pertencimento ao ritmo de vida desse lugar (Seamon, 1980. Apud Cresswell,
2004, p. 34). A partir das considerações de Seamon, Cresswell destaca a sugestão do
autor de lugares serem constituídos a partir de uma base cotidiana, ou seja, das ações
cotidianas praticadas pelas pessoas (Cresswell, 2004, p. 34).

O entrevistado Rui102 exemplifica essas considerações, ao descrever o sentido de


lugar estabelecido em relação a certos locais, dada a freqüência com que já se
relacionou ou relaciona com eles, e com os quais tem uma longa relação de
familiaridade, incluindo‐se, aí, a própria casa:

“[...] nós costumamos ir [de férias] a Poços de Caldas. E ficamos sempre em hotel;
mas é em um hotel! E de preferência, no mesmo quarto.
[Por quê?]
Porque você se identifica com ele. Você, à noite, anda pelo apartamento sem
acender a luz; você sabe como é que regula a água quente do chuveiro... Então,
prefiro passar as férias em um lugar que eu já conheça. Assim como fazíamos em
Paris. Ficávamos sempre no mesmo hotel, de onde a gente já pegava o metrô para
fazer todos os passeios. Um hotelzinho pequenino, mas dali a gente domina
completamente: você consegue dominar o tempo, ou seja, você tem a idéia do
tempo que você leva para fazer qualquer programa.
[...]

101
O autor qualifica essas atividades de “pré-conscientes”. Ou seja, atividades habituais que, em geral,
são realizadas automaticamente, como, por exemplo, lavar a louça ou dirigir até o trabalho e voltar
para casa (Seamon, 1980; p. 55. Apud Cresswell, 2004; p. 34).
102
Apresentado no Capítulo 2.

169
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Isso eu tomo como exemplo do caminho conhecido no seu lar; de andar de noite, no
escuro, sem acender uma luz – eu não acendo uma lâmpada à noite no meu
apartamento. Eu sei quantos passos tem; não é que eu conte, mas eu tenho o
sentido da distância. Tem uma prateleirinha ali, que todo mundo me pergunta se eu
nunca derrubei: Não, porque eu sei que ela existe.” (Rui)

Considerando a relação de permanência com o local como importante


elemento para a constituição da idéia de lugar, Tuan volta-se especificamente às
experiências que temos com os objetos e coisas desse local como um meio mais
estável de percepção do sentido de lugar. Diferentemente do que ocorre com as
relações que estabelecemos com outros seres humanos, vulneráveis às suas fraquezas
biológicas e suas instabilidades emocionais, dirá o autor, as coisas e os objetos “são
resistentes e confiáveis” (Tuan, 1983; p. 155).
Um exemplo do que nos fala Tuan é a experiência vivida por um casal de
arquitetos. Contaram-me que, ao se mudar para Angola, a trabalho, alugaram uma
casa. Após o período estipulado pelo contrato de trabalho naquele país, onde
também tiveram sua primeira filha, voltaram ao Brasil. Três anos depois, mudaram-se
novamente para Angola, para mais uma temporada profissional. Ao, novamente,
procurar uma casa para alugar, deram com a casa em que haviam morado, vazia, para
ser alugada. Disseram que foi com grande emoção que se perceberam em casa, ao
entrar no quarto que pertencera à filha, ainda bebê, e encontrar pendurado no
mesmo lugar onde haviam deixado o móbile escolhido por eles, três anos atrás:
“parecia que a gente tinha voltado pra casa!”, disseram.
Contudo, Tuan acrescenta à sua análise que sem a presença das pessoas
certas, tanto as coisas como os lugares perdem seu significado, sendo que a
permanência nesse lugar poderá até ser motivo de tristeza e irritação, ao invés de
conforto. Ao afirmar que muitas vezes o lugar são as próprias pessoas com quem nele
convivemos – “um ser humano pode se aninhar em outro” – o autor lembra de Santo
Agostinho que, com a morte de seu amigo de infância viu sua cidade natal tornar-se
motivo de sofrimento:

“Sem ele, tudo que fizemos juntos tornou-se uma experiência insuportavelmente
dolorosa. Meus olhos continuam procurando-o sem achá-lo. Odeio todos os lugares
onde costumávamos nos encontrar, porque eles não podem mais me dizer: ‘Olhe, aí

170
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

vem vindo ele’, como faziam antes.” (Augustine, Confessions103. Apud Tuan,
1983; p. 155)

A relação entre a percepção de lugar e os relacionamentos que estabelecemos em


determinado local é descita pela entrevistada D. Antônia104, ao falar de seu quarto,
após a morte do marido:

“[...] Eu não gosto tanto [do meu quarto]. Eu acho triste. Depois que o meu marido
morreu, ficou triste.” (D. Antônia)
****

Tal como vimos quando tratamos das relações emocionais que estabelecemos com
nossas casas, e do processo de des‐animação que ocorre quando da não mais
presença da(s) pessoa(s) que davam vida a uma determinada casa, lembro, aqui, a
entrevista de D. Paulina105, que, com a morte do marido, não suportou continuar
morando na casa que partilharam por 62 anos:

“[...] Quando ele se foi [...], a terra me faltou debaixo dos pés. Aí, olhava para um
lado, para o outro, e não tinha mais ele. Eu não queria de jeito nenhum continuar na
nossa casa. Tinha sido muito bom lá – eu morreria de tristeza.” (D. Paulina)

Observando que, ainda que as sensações e percepções de um local como


lugar sejam passíveis de serem experimentadas em um espaço desprovido de forma
arquitetônica, Tuan considera que elas são aperfeiçoadas quando experimentadas em
um espaço construído – ainda que “uma simples choça rodeada por uma clareira” –,
aumentando-se, aí, a capacidade de tais sensações e percepções serem definidas e
transformadas em algo concreto (Tuan, 1983; 114). Ao mesmo tempo em que
podemos associar ao espaço aberto a idéia de “algo que permite movimento”, um
lugar seria, então, o resultado da pausa deste movimento, praticada em uma
localização. A partir da segurança e estabilidade do lugar, reconhecemos a
“amplidão”, a “liberdade” e “a ameaça do espaço”. E, no sentido oposto, estando
inseridos no mundo vasto, temos consciência da proteção e do amparo do lugar
(Tuan, 1983; p. 6).

103
Augustine. Confessions, livro 4, 4:9.
104
Apresentada no Capítulo 2.
105
Apresentada no Capítulo 2.

171
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

No intuito de ampliar essa abordagem, observe-se o que diz Relph a


respeito da não necessidade de esse espaço concreto, catalisador das sensações que
levam um local a ser percebido como lugar – do qual vimos falar Tuan –, estar
restrito a uma localização. Buscando escapar de noções que possam limitar o sentido
de lugar à simples condição de local, Relph menciona, como exemplo para a sua
abordagem, o relatório feito pelo antropólogo Claude Lévi-Strauss em sua primeira
viagem à América Latina, no qual o antropólogo elabora o sentido de estar em casa,
percebido no próprio navio, durante sua viagem:

“Era o oposto de ‘viajar’, no sentido de que o navio parecia, para nós, não tanto
como um meio de transporte como um lugar de residência – um lar, de fato, diante
do qual a natureza apresentava-se diferente todas as manhãs.” (Lévi-Strauss,
Apud Relph, 1976; p. 29)106.

Da modo semelhante à pecepção de Lévi-Strauss, o navegante Amir Klink,


ao relatar sua viagem solitária à Antártica em seu veleiro, refere-se à embarcação como
a sua “tão confortável e querida residência ambulante” (Klink, 1992; p. 109).
Assim, não considerando a localização como uma condição necessária ou
suficiente para explicar a profunda importância do lugar para a existência humana,
Relph tampouco considera suficientes uma lista de características normalmente
associadas à idéia de lugar: sua propriedades físicas, o sentido de comunidade que
“supostamente” tem origem em um lugar, o de tempo que envolve o processo de
apego a um lugar, ou mesmo o valor do “enraizamento” em relação a esse lugar. Para
Relph, nenhum desses aspectos seriam suficientes para explicar “o sentido básico de
lugar”, ou seja, a sua “essência” (Relph, 1976; p. 43. Apud Cresswell, 2004; p. 22, 23).
Surge, então, como questão a ser investigada, essa essência da experiência do lugar.
Considerando essência aquilo que faz alguma coisa ser o que ela é, Cresswell afirma
que mais importante do que nos questionarmos como é um lugar, a abordagem a ser
dada seria o que faz de uma determinada localidade um lugar? – o como e o porque de
serem os lugares importantes para as pessoas (Cresswell, 2004; p. 23). Tal indagação
equivaleria à questão proposta por Tuan: “O que dá identidade e aura a um lugar?”
(Tuan, 1983, p. 4).

106
Referência trazida por Cresswell, 2002; p.13.

172
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Ao descrever sua fazenda, “o Não Me Deixes”, no sertão do Ceará, a


escritora Raquel de Queiroz fala da secura implacável do sertão nordestino e do
enraizamento, processado durante os mais de duzentos anos em que se deu a
experiência de sua família – incluindo a sua própria experiência – em relação a esse
lugar. Analisando o seu sentimento de apego ao contexto sertanejo, Queiroz
reconhece desconhecer a razão que lhe inspira tamanha complacência por “estas
terras [tão] ásperas”, na mais pura carência do que chama de “conforto e da
civilização, da boa cidade com suas pompas e as suas obras”. Buscando uma
explicação para seu questionamento, a escritora baseia-se não (apenas) na
materialidade da experiência, mas em algo que a transcende: “Não sei, Mistério é assim:
está aí e ninguém sabe. Talvez a gente se sinta pura, mais nua, mais lavada. E depois a gente
sonha” (Queiroz, 2000, p. p. 167, 169). Vejamos, pois, a descrição de Queiroz, a partir
da qual espero poder jogar um pouco de luz sobre a questão da essência do lugar
levantada Relph e Tuan: o que faz de uma mera localidade um lugar?

“Chegam os amigos de visita pelo sertão e nos seus olhos leio o espanto, e quando
não o espanto, pelo menos a estranheza: que é que nos prenderá nesta secura e
nesta rusticidade? Ou nos meses que precedem a secura, [...] as águas torrenciais, os
caminhos desfeitos, as várzeas alagadas, qualquer comunicação interrompida.

Tudo tão pobre. [...] Aqui a gente tem apenas o mínimo, e até esse mínimo é
chorado. Nem paisagem tem, no sentido tradicional de paisagem. Fins das águas e
começos de agosto, o mato já está zarolho. E o que não é zarolho é porque já secou.
[...]
E a água, a própria água, não dá a impressão de fresca: nos pratos-d’água
espelhantes ela tem reflexos de aço que dói nos olhos.
[...]
Não, aqui não há por onde tentar a velha comparação, a clássica comparação dos
encantos do campo aos encantos da cidade. Aqui não há encantos.
[...]
Por que tanto carinho por estas terras ásperas? Não sei, Mistério é assim: está aí e
ninguém sabe. Talvez a gente se sinta pura, mais nua, mais lavada. E depois a
gente sonha.” (Queiroz, ibidem, p. 167-169).

173
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

...

Seamon aponta como uma das mais originais contribuições de Relph para
o entendimento do sentido de lugar, sua discussão sobre a dialética do sentido de se
estar inserido em um lugar – “insideness” – e do seu oposto, ou seja, de se estar
separado ou alienado em relação aos aspectos que constituem a experiência de lugar –
“outsideness” (Relph, ibidem; p. 51-55. Apud Seamon, 1996).
A concepção do sentir-se inserido em um lugar, nota Seamon, implica as
idéias de se “estar aqui e não lá; seguro, ao invés de ameaçado; envolvido, ao invés de
exposto, à vontade, ao invés de estressado” (Seamon, 1996). É interessante notar a
semelhante análise feita por Tuan, quando estabelece a distinção entre o que chama
de “espaço aberto” e “espaço fechado”. Ao mesmo tempo em que este autor relaciona
o conceito de espaço aberto à idéia de liberdade, esta idéia vem associada a um
aspecto negativo, que é a condição de se estar “exposto e vulnerável”. Se, como já
vimos, o espaço aberto, para Tuan, sugere o futuro e convida à ação, por outro lado,
nesse espaço não há “caminhos trilhados nem sinalização [...,] nem padrões
estabelecidos que revelem algo”. O espaço aberto seria como “uma folha em branco
na qual se pode imprimir qualquer significado”; e o espaço fechado, um meio
“humanizado”, “um centro de valores estabelecidos”, enfim, um “lugar” (Tuan, 1983;
p. 61).
Talvez, aqui, seja possível associarmos a distinção feita por Tuan entre
“espaço fechado” e “espaço aberto” à feita por Roberto DaMatta entre “casa” e “rua”,
no momento em que este último afirma não ser possível “transformar a casa na rua e
nem a rua na casa impunemente”. Se, para DaMatta, o que definiria casa – “espaço
de calma, repouso, recuperação e hospitalidade” –, seria o “calor humano”, ao
mesmo tempo, vemos o “espaço fechado” de Tuan também relacionado o ao sentido
de espaço “humanizado”. A rua, por outro lado, definida de forma precisamente
inversa por DaMatta, seria um lugar de perigos: local onde “cada um deve zelar por si,
enquanto Deus olha por todos” (DaMatta, 2000; p. 55).
Ao falar do simbolismo da casa especificamente na sociedade brasileira,
DaMatta lembra que do termo “casa” descendem “casamento, casadouro, casal” –
termos que denotariam atos racionalmente coerentes com o espaço da morada. Para
o autor, “ser posto para fora de casa” implicaria, por outro lado, algo violento, uma

174
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

vez que, se deixamos de “estar em casa”, passamos a estar “privados de um tipo de


espaço marcado pela familiaridade e hospitalidade perpétuas que tipificam aquilo que
chamamos de ‘amor’, ‘carinho’ e ‘consideração’” (DaMatta, ibidem; p. 54, 55). É neste
contexto que o autor considera tão “importante e altamente sombrio” o ritual em
que, pela primeira vez, uma menina ou um menino saem sozinhos para a rua,
passando a estar expostos a “todos os perigos e tentações que recheiam aquele
espaço” (DaMatta, ibidem; 59-60).
Voltando à abordagem trazida por Relph, em relação à percepção de lugar,
sobre os sentidos de se estar inserido (“insideness”) ou separado (“outsideness”), segundo
analisa Seamon, o ponto fundamental dessa discussão para a vida humana seria o fato
de que, através dos diferentes graus de intensidade nos sentidos tanto do “insideness”,
quanto do de “outsideness”, diferentes lugares adquirem diferentes identidades para
diferentes pessoas. Através desta concepção, Relph estabelece uma relação direta
entre a intensidade do “insideness” e o sentimento de identidade em relação a um
lugar. Dizendo de outra forma, quanto mais profundamente inserido em um lugar
alguém se sente, mais forte é a sua identidade com esse lugar (Seamon, 1996). Ou,
ainda, como recapitula Cresswell, referindo-se à discussão de Relph e à proposta de
Seamon sobre a freqüência da prática diária de nossas “rotinas tempo-espaço”: é
através da prática das atividades diárias que passamos a conhecer um lugar e a nos
sentir parte dele (Cresswell, 2004, p. 34). A partir disto, é possível estabelecer uma
relação direta entre a intensidade do sentido de “insideness” e os sentidos de
doméstico, acolhimento, pertencimento e identidade.
Mais uma vez considerando Tuan – e tal como vimos quando tratamos do
retorno ao cotidiano privado –, vemos que, segundo o autor, a vida humana
constitui-se de um “movimento dialético” entre os estados de refúgio e aventura, ou
de dependência e liberdade. Desta forma, dirá Tuan – e aqui proponho uma possível
correspondência à proposta de Relph quanto a diferentes lugares adquirirem
diferentes identidades para diferentes pessoas –, tanto é possível experimentarmos o
sentido de lugar em um espaço aberto, quanto é possível que, inseridos “na solidão de
um lugar protegido”, venhamos a experimentar a “presença obsessiva” do espaço
exterior (Tuan, 1983; p. 61). E aqui, ainda penso ser viável considerarmos a idéia de
“espaço aberto”, trazida por Tuan, não apenas restrita ao sentido literal, de local
desprovido de paredes e teto que o delimitem, mas também como uma metáfora para
o local que é desprovido dos aspectos humanos específicos que o fazem ser

175
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

experimentado como lugar. Assim, usando a expressão inversa da usada por Tuan
para descrever “espaço fechado”, proponho que o “espaço aberto” teria o sentido de
local desumanizado.
Ainda em relação à dialética proposta por Relph, dentre as categorias
relacionadas a “insideness” e “outsideness” desenvolvidas pelo autor, duas delas
interessam-nos, em particular, pelo fato de estarem diretamente relacionadas à
questão do habitar doméstico, e cuja descrição de Seamon (1996; p. 2) apresento a
seguir:
- O insideness existencial: Sentido mais intenso da experiência de lugar,
seria a condição de imersão profunda em relação a esse lugar – condição que pode ser
relacionada corriqueiramente aos atos de encontrar-se em casa, de estar em meio à
própria comunidade e/ou região; ou seja, de se ver inserido em meios relacionados
ao sentimento de apego e pertencimento e identidade.
- O outsideness existencial: Oposto ao sentido de insideness, este conceito
refere-se à percepção de estranhamento e alienação, tal como o que sentimos ao
recém-chegarmos a um lugar, ou quando alguém, após ter estado longe de seu lugar
de nascimento, retorna e se sente um estranho pelo fato de o lugar não ser mais o
mesmo que conhecera. Neste sentido é que Seamon se refere ao sentimento de
opressão do meio sobre o indivíduo, o qual pode ser experimentado na forma de
nostalgia.

Um sentido de desencantamento em relação à sua cidade, São Paulo, fez com que o
artista plástico Pedro107 passasse a experimentar nela um sentido de outsideness
existencial e a deixasse para morar em outra cidade:

“O problema passou a ser São Paulo. Eu não gosto mais de São Paulo. Pra mim, São
Paulo se descaracterizou, não é mais a cidade que eu conheci lá, há trinta anos atrás.
Eu sou paulistano, nasci nesse meio. É uma cidade muito suja, muito caótica, com
pessoas feias, com pessoas porcas – é o que é, em função dessa situação toda, que
você sabe melhor do que eu. Meu projeto de morar não está mais aqui em São
Paulo. Há uns seis anos atrás – eu ainda morava aqui em São Paulo, e a escola já
estava me absorvendo muito – vivia uma situação de tamanho estresse, que eu tive
um treco na escola, passei mal. Apesar de ainda estar morando [...] aqui em São
Paulo, nessa época, eu já não estava vivendo do jeito que eu gostaria. Resolvi me

107
Apresentado no Capítulo 2.

176
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

desfazer de tudo. Vendi as poucas coisas que eu tinha, dei tchau pra todo mundo
aqui, e fui tentar minha sorte lá [em Florianópolis].” (Pedro)

A decisão de se mudar de São Paulo para Florianópolis, para Pedro, vem


acompanhada da consciência da necessidade do um sentido de familiaridade, de
continuidade, em relação ao modo como sempre entendeu e praticou seu habitar
privado. Não conseguindo mais perceber estes sentidos em São Paulo, Pedro buscou‐
os em uma nova cidade. Contudo, apesar de o que considera sua verdadeira casa
estar, agora, em Florianóplis, Pedro continua trabalhando em São Paulo – o que
constitui um profundo conflito em relação à sua necessidade de continuidade e
enraizamento para estabelecer o verdadeiro sentido de insideness existencial em
relação ao lugar em que habita:

“[...] eu sou extremamente caseiro. Eu preciso de uma casa.


[...]
Meu projeto de morar não está mais aqui em São Paulo.
[...]
Eu não conhecia Florianópolis, mas eu gosto de praia, eu gosto de montanha, eu
gosto de estar afastado, e, ao mesmo tempo, próximo. É uma coisa curiosa: eu
preciso de quinze minutos de gente por perto, mas só quinze minutos. Depois eu
quero voltar para casa, pra minha rotina. Quando eu vivia na Granja [São Paulo], eu
vivia dentro de um condomínio, e quando acabava o meu expediente diário, cinco,
seis horas da tarde, eu tinha esses quinze minutos. Pegava o carro, sumia, ia pro
centro da Granja, pra mim já era suficiente: Chegar no mercado, ver as pessoas,
pronto, e voltava. Em Florianópolis, eu imaginava que pudesse manter esse ritmo –
como, de fato, oferece. Então, eu fui para um canto de Florianópolis, que é uma área
rural, na verdade. No final da rua, você atravessa as dunas e está na praia. Mas é no
meio do mato, entre dois morros. E meu projeto de morar passou a estar todo lá.
[...]
Eu me sinto um caixeiro viajante. Eu vou pra lá [Florianópolis] – três, quatro dias – eu
levo pelo menos dois dias pra entender o ar que eu respiro. E aqui, eu não quero
entender. Então, a situação é incômoda.” (Pedro)

A sensação de estranhamento, particularmente em relação a um lugar com


o qual já nos identificamos anteriormente em nossa cidade, bairro ou rua, é analisada
por Bosi, especificamente quanto às transformações de sua disposição espacial da
paisagem urbana – disposição esta que, pelo fato de, antes, ter tornado “inteligível
nossa posição no mundo, nossa relação com outros seres, o valor do nosso trabalho,

177
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

nossa ligação com a natureza”, com sua transformação, abalam-se esses vínculos, os
quais se tornam, para nós, lembranças em forma de carência (Bosi, ibidem; p. 451):

“Os velhos lamentarão a perda do muro em que se recostavam para tomar sol. Os
que voltam do trabalho acharão cansativo o caminho sem a sombra do renque de
árvores. A casa demolida abala os hábitos familiares e para os vizinhos que a viam
há anos aquele canto de rua ganhará uma face estranha ou adversa.” (Bosi,
ibidem).

Ao descrever o lugar onde morou dos quatro aos dezoito anos de idade,
Regina fala das referências de convívio com o local. Primeira experiência da família
em um edifício de apartamentos, a infância de Regina, vivida nos anos 1960, no
bairro de Nossa Senhora de Copacabana, no Rio de Janeiro, têm como marco a
localização do prédio – “uma localização privilegiada” – segundo lembra seus pais
dizerem: uma vista que “nunca seria prejudicada”; de um lado, uma bela e tranqüila
praça, de outro, um colégio, “o morro e muito verde”. Hoje, adulta, ao voltar a esse
lugar, Regina percebe que suas referências de menina já não correspondem à
realidade, e que aquele não é mais o lugar onde morou, que nada tem a ver com
aquele lugar que ela guarda na lembrança:

“Eu gostava de olhar o morro e, lá de cima, uma construção que se parecia um


castelo, fonte de muita fantasia. Era o castelo do meu príncipe encantado.
A Praça [...] era muito bonita. Nada do que se pareça com o resta dela
atualmente. Eram muitos espaços gramados, canteiros bem cuidados. Um lago,
cujo formato lembrava o número oito, era atravessado por uma pequena ponte. No
lago havia muitos peixinhos e em certas épocas pegávamos girinos com as mãos e
depois os jogávamos de volta à água. [...] Todos nós aproveitamos muito a
pracinha. Os menores, costumávamos freqüentá-la de manhã, depois de concluídos
os deveres da escola.
[...]
Quando era hora de voltar para casa, mamãe aparecia na janela da sala de visita
e tocava uma campainha de prata, cuja alça era uma cobra ou algo parecido.”
(Rodrigues, 2003; p. 13, 17)

178
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

...

Um ponto-chave que envolve a questão da experiência de lugar sob o


prisma da Geografia Humanista é a forma como se dá essa experiência em termos da
“autenticidade”. O sentido do autêntico aplicado por Relph à análise das relações
estabelecidas com o lugar é um desdobramento da concepção de Heidegger em
relação ao habitar. A casa, no sentido do “autêntico” de Heidegger, estaria amarrada à
idéia de uma “casa centrada [...,] habitada por alguém firmemente ancorado ao lugar”
(Ábalos, 2000; p. 51). Essa casa, conectada aos seus habitantes através do tempo e da
memória, seria, para eles, seu refúgio frente ao mundano e ao superficial
experimentados na exterioridade – exterioridade esta, que seria sempre concebida
como nociva e “inautêntica” (Ábalos, ibidem; p. 50-51).

O entrevistado Hermes108, aposentado como instrutor de comissários de bordo,


ainda que tenha vivido uma experiência bastante instável, em termos de localidade,
devido à sua profissão, que o levava a estar por longos períodos longe de casa em
vôos internacionais, exemplifica o sentido de autenticidade na percepção do lugar
habitado, quando estabelece uma distinção entre o que era estar fora, a trabalho, e o
que era voltar para sua casa e retomar o convívio com a família. Ao mencionar as
referências de preservação do convívio privado doméstico trazidas de sua infância, e
de como procurou transmiti‐las na educação dada a suas filhas, Hermes expressa a
importância que atribui à idéia de continuidade que diz sempre ter procurado
imprimir a seu habitar doméstico:

“Todo vôo pra mim era uma coisa super prazerosa. Eu ia feliz da vida. Mas a minha
casa era o meu último reduto. É a minha família, as pessoas que você mais ama, que
têm mais importância nesse mundo. Eu sempre digo: ‘Só vem à minha casa quem eu
quero.’ Isso, para continuar essa mesma convivência. [...] eu tenho a pretensão de
achar que as minhas filhas foram criadas e orientadas, e que só vão me trazer
pessoas que vão continuar essa unidade. É coisa da minha mãe. Ela é paulista, meu
pai é alemão. Os meus amigos – mas, amigos mesmo – iam pra minha casa, minha
mãe fazia almoço, jantar, lanche, então era gostoso lá. Eu sou a mesma coisa. Eu
quero que todo mundo venha aqui, eu quero confusão aqui, aniversário...” (Hermes)

108
Apresentado no Capítulo 3.

179
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Assim, o sentido de autenticidade em relação a um lugar é estabelecido,


por Relph, como uma atitude de genuíno e sincero compromisso com a identidade e
o sentido de pertencimento a esse lugar. Se, por um lado, experimentar o sentido de
insideness existencial em relação a um lugar implica uma “atitude autêntica” em
relação a esse lugar (Cresswell, 2004; p. 44), por sua vez, uma atitude inautêntica em
relação a um lugar é, nas palavras de Relph ,...

“essencialmente, a ausência do sentido de lugar, uma vez que isso envolve a não
consciência dos significados profundos e simbólicos de lugar e a não apreciação de
suas identidades. É meramente uma atitude que é socialmente conveniente e
aceitável - um estereótipo aceito sem críticas, uma estética intelectual que pode ser
adotada sem um envolvimento real.” (Relph, ibidem; p. 82. Apud Cresswell,
2004; p. 44).

Lembremos do profundo sentido de autenticidade e pertencimento do entrevistado


Rui em relação ao seu habitar doméstico, expressado pela metáfora utilizada por ele,
segundo a qual seu apartamento seria o seu “útero”, em contraposição a um quarto
de hotel, que seria “uma barriga de aluguel”:

“[...] a sensação de voltar para casa é de como se eu voltasse ao útero, porque o


útero é tudo aquilo que você tem como proteção: você vem dali, você nasce dali.
Então, a ausência fora de casa é exatamente você estar em uma barriga de aluguel;
[...] Estar longe dessas coisas, em um quarto de hotel, é estar em um ambiente que
não é o seu ambiente – é um ambiente de aluguel. É transitório; você está em
trânsito.” (Rui)

Fig. 13 Cena do filme “Mon Oncle” (1958),


no qual seu diretor Jacques Tati satiriza o
processo de imposição massificada de um
suposto moderno conceito de conforto,
cujas regras estéticas e funcionais, em voga
com as inovações tecnológicas vigentes no
contexto pós-guerra, são adotadas por uma
família de classe média. O “moderno” passa
a interferir desastrosamente nos
relacionamentos estabelecidos no e com o
ambiente doméstico/familiar, e a tornar os
moradores deslocados em suas próprias
casas.

180
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

...

Explorando o sentido de outsideness, oposto ao de inclusão, identidade e


pertencimento em relação a um lugar, podemos relacionar as idéias deste conceito ao
termo grego µέτοικος, “metoikos”. Na Grécia antiga, o termo referia-se à pessoa que,
apesar de livre, não gozava de plenos direitos de cidadão na polis em que residia109:
“qualquer estrangeiro residente, incluindo-se escravos libertados”110. Enquanto que
oikos – οἶκος –, quer dizer “residência”, “residir”, meta pode, aqui, ter os sentidos
tanto de “mudança” quanto de “em meio a”. Os dois sentidos possíveis, implícitos na
palavra, referem-se a “aquele que muda seu lugar de hábitat” e a “aquele que vive em
meio a”, sendo que neste último sentido há uma distinção que deve ser notada:
habitar em meio a um povo não é o mesmo que pertencer a um povo. Seja um ou outro
o sentido considerado, ambos refletem a realidade do imigrante – uma pessoa que se
mudou de um determinado lugar para viver em meio a estranhos111.
Observemos a relação da palavra “estranhamento” usada, acima, para
descrever o sentimento de outsideness existencial. Além dos sentidos utilizados mais
corriqueiramente na Língua Portuguesa para o termo “estranhar” – “surpreender-se”,
“assombrar-se em função do desconhecimento”, ou “não se adaptar”, “sentir-se incomodado”;
“ter sensação desagradável diante de (uma nova realidade)” 112 – observa-se que o termo
“estranhamento”, no Dicionário Houaiss, aparece como sinônimo de
“distanciamento”, ou de “repulsão”, “desgosto”, “enjeitamento”. Uma rápida
observação na etimologia da palavra “estranho” revela a sua origem latina:

109
O status de estrangeiro na Grécia antiga, ainda que de definição não muito clara, era atribuído aos
povos cuja língua era ininteligível para eles (tais como os persas e os egípcios). Mas também podia ser
atribuído aos próprios gregos que falassem dialetos diferentes, ou com um sotaque diferente. Na
polis, os gregos e os não-gregos eram diferenciados perante a lei. Enquanto que um grego era
considerado um homem livre, os estrangeiros e os bárbaros não só estavam sujeitos ao preconceito
social, como também não gozavam de proteção legal. Ainda que devessem prestar serviço militar, não
serviam à marinha, a não ser em tempos de emergência. Tampouco lhes era permitido ter terras, a
não ser através de autorização especial a qual lhes poderia atribuir o direito à compra de uma casa ou
o estabelecimento de um santuário para a adoração de suas divindades. Era apenas através de suas
associações privadas que essas pessoas podiam reunir-se com outras do mesmo culto para preservar
suas identidades distintas. In: “The American Forum for Global Education”. In:
http://www.globaled.org/nyworld/materials/greek2.html.
110
In: Encyclopedia Britannica Online. In: http://www.britannica.com/ebc/article-9372000.
111
In: http://en.wikipedia.org/wiki/Metics.
112
In: Houaiss, 2001.

181
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

extranèus,a,um, “que é de fora”. De fato, na Língua Espanhola, o termo “extraño”, além


dos sentidos que conhecemos para o nosso “estranho” – ou seja, “raro”, “chocante”,
“insólito”, “excepcional”, etc.113 –, tem também sua aplicação com o sentido de
“estrangeiro”, “forasteiro”. Em espanhol, como sinônimos para o termo “extrañamiento”,
tem-se “deportação”, “desterro”, “exílio”, “expulsão”114. E, curiosamente, o termo
“extrañar”, em espanhol, também é usado com um sentido que não temos em
Português: o de um sentimento doloroso de falta de algo importante para nós, do
qual estamos temporária ou permanentemente afastados – o nosso “sentir saudade”.
Aqui cabe a espirituosa observação da jornalista Joan Kron (1983; p. 22),
quando lembra que no filme “E.T.”, seu diretor Steven Spielberg demonstrou em 118
minutos “algo com que alguns grandes pensadores das ciências sociais vêm tentando
demonstrar nos últimos quinze anos: a primazia da ‘casa’” [tal como pode ser
experimentada no sentido de lugar com o qual nos identificamos ao qual sentimos
que pertencemos]. Sentindo-se assustado e só em uma Terra alienígena, E.T. deseja
desesperadamente conectar-se com seu planeta para que venham buscá-lo e levá-lo de
volta: “– E.T. phone home...”115. Diante de uma emoção fundamentalmente humana
experimentada pelo personagem – o sentimento de estar só, assustado, vulnerável,
longe do seu lugar –, o único antídoto para tais sentimentos é a sua casa/planeta.

...

Todas essa considerações levam à conexão, várias vezes verificada nas


entrevistas aqui realizadas, entre o sentido de habitar doméstico e o de se perceber
inserido tanto na casa, quanto na cidade, na região, ou no país em que se vive. Os
sentimentos de identidade e pertencimento que fazem com que nossa casa seja
percebida como um lugar, para nós, podem, muitas vezes, corresponder aos mesmos
sentimentos que nos fazem sentir inseridos – aceitos, abraçados – no país, na cidade
ou na comunidade em que habitamos. Por outro lado, é exatamente o fato de se
conhecer a experiência do insideness existencial que viabiliza o seu oposto, quando nos
vemos em uma situação de estrangeiros – seja uma criança pequena que, após passar

113
In: Houaiss, 2001.
114
In: Diccionario de Sinónimos y Antónimos, 2005. In: http://www.wordreference.com/espt/.
115
Frase proferida pelo personagem E.T., que ficou mundialmente conhecida, no filme “E.T. the
Extra-Terrestrial”, do diretor Steven Spielberg, de 1982.

182
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

uma tarde brincando na casa do amigo e é convidada para ficar para o jantar, de
repente, à mesa, em meio a um ritual diferente do que vivencia diariamente com sua
família, sente-se melancólica e quer voltar para sua casa, para o que lhe é familiar;
sejamos nós, adultos, que, quando estando em um país estranho por um tempo
considerável, buscamos, mesmo inconscientemente, referências que nos “devolvam”
o sentido de insideness: uma música, uma comida, um cheiro, uma rotina social
qualquer. Sem isto, sentimo-nos não acolhidos intimamente, saudosos do sentimento
de “estar em casa”.
Tuan afirma que o lugar pode ser percebido em diferentes escalas: se, de
um extremo, “uma poltrona preferida é um lugar”, de outro, “toda a terra” o é. A
pátria estaria situada entre esses dois extremos, e a intensa afeição que temos por ela é
“uma emoção humana comum”. Aliás, para o autor, quanto mais laços estabelecemos
com determinado lugar, mais forte será o vínculo emocional com esse lugar (Tuan,
1983; p. 165; 175). O termo “topofilia” – “difuso enquanto conceito, e vívido e
concreto, enquanto experiência pessoal” – foi desenvolvido por Tuan para designar
os laços afetivos entre pessoas e lugares, (Tuan, 1990; p. 4). Ao explicar o apego que
desenvolvemos em relação a um lugar, Tuan aponta para certos referenciais que
encontramos em nossa pátria, tais como monumentos, templos, locais que contam a
história desse lugar – e aqui, eu ainda acrescentaria traços da natureza como alguns
acidentes geográficos, um certo rio, o mar, a vegetação – como “sinais visíveis” que
funcionam como ampliadores do sentimento de identidade e intensificam a
consciência e a lealdade das pessoas em relação a um lugar (Tuan, 1983; p. 176).
Neste sentido, suponho ser possível estabelecer uma analogia entre os
“sinais visíveis” da pátria (cidade, região, ou comunidade) de que nos fala Tuan e os
aspectos físicos do nosso espaço doméstico também como catalisadores do
sentimento de identidade, cuidados e pertencimento. Isto nos remeteria a
considerações já feitas em capítulos anteriores sobre os elementos que compõem a
nossa casa física – tanto os que “já estavam lá”, quanto os que foram introduzidas ao
longo do tempo de nossa moradia. Tais elementos seriam os “sinais visíveis” do
espaço doméstico, sobre os quais aplicamos nossas experiências, e nos quais
encontramos apoio na nossa rotina doméstica; seriam catalisadores da percepção do
espaço em que moramos como um lugar – o nosso lugar – ao qual pertencemos, com o
qual estabelecemos nossa identidade, no qual podemos experimentar o insideness
existencial.

183
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

A entrevistada D. Antônia descreve assim o sentimento de apego e pertencimento à


sua casa:

“[...] Eu gosto muito daqui. Eu vou ser muito honesta: eu sou muito caseira; eu até
acho que eu sou exageradamente caseira! Sabe, eu adoro passear, ir ao
supermercado, a um restaurante com os meus netos, com o meu filho e a minha
nora, tudo isso eu gosto. Mas, chega uma hora que eu quero é a minha casa. Chegar,
pôr o chinelo e ficar à vontade. Também, se eu não sair, tá tudo bem; eu tô na minha
casa, tá tudo bem.” (D. Antônia)
****

Perguntei ao entrevistado Sr. Felipe116, 78 anos, morador de um abrigo para idosos,


se ele se lembrava de sua casa de infância. Em sua resposta, ao lado de uma breve
menção ao tamanho da casa, Sr. Felipe dedicou sua fala às lembranças do bairro que
morou e das relações familiares e com os vizinhos estabelecidas ali – como se a casa,
em sua memória, fosse, não mais uma edificação. Como se o lugar e as pessoas do
lugar é que fossem a própria casa:

[O senhor lembra da sua casa de infância?]

“Bom, eu nasci em São Paulo. Eu sou tão paulista, que nasci no Jardim Paulista!
Quando eu era menino, minha casa era espaçosa, porque no início eram nove filhos,
minha mãe e meu pai. No Jardim Paulista, na rua Caconde. Agora, só tem gente rica
lá. Naquela época, tinha muita chácara, até pasto de vaca tinha. Aí, tinha papai e
mamãe, e os vizinhos, umas pessoas muito boas... Nossa família toda sempre foi
sociável, de gente educada, caridosa; sempre fizemos o que estava ao alcance em
benefício do próximo. Eu só tenho boas recordações, com os pais, com os irmãos.
Éramos pessoas sociáveis.” (Sr. Felipe)

Retomemos as considerações quanto ao sentimento de apego e identidade


em relação à nossa Pátria, nossa cidade, nosso bairro ou comunidade – sentimentos
estes, que, através de “sinais visíveis”, de que vimos falar Tuan, se tornam ainda mais
intensos. Muitos poetas e escritores já falaram dos seus sentimentos de apego em
relação à terra natal – seja ela o país, a cidade, ou a região onde nasceram. Algumas
músicas e depoimentos do compositor Caetano Veloso ilustram esses sentimentos.

116
Apresentado no Capítulo 1.

184
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Nascido na cidade de Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano, o


compositor muitas vezes relacionou, em suas músicas, o apego às suas cidade e região
e os sentimentos de identidade e pertencimento em relação a elas, à importância do
convívio, não só próprio, mas de toda uma comunidade, com um rio, o Subaé
(localizado a 300 metros da cidade):
Onde eu nasci passa um rio
Que passa no igual sem fim
Igual sem fim minha terra
Passava dentro de mim
Passava como se o tempo
Nada pudesse mudar
Passava como se o rio
Não desaguasse no mar
O rio deságua no mar
Já tanta coisa aprendi
Mas o que é mais meu cantar
É isso que eu canto aqui

Hoje eu sei que o mundo é grande


E o mar de ondas se faz
Mas nasce junto com o rio
O canto que eu canto mais
O rio só chega no mar
Depois de andar pelo chão
O rio da minha terra
Deságua em meu coração
(Caetano Veloso . Onde eu nasci passa um rio)

A contaminação das águas desse rio foi denunciada apaixonadamente pelo


compositor:
Purificar o Subaé
Mandar os malditos embora
[...]
Os riscos que corre essa gente morena
O horror de um progresso vazio
Matando os mariscos e os peixes do rio
Enchendo o meu canto
De raiva e de pena
(Caetano Veloso . Purificar o Subaé)

185
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

A seguir, mais dois exemplos de expressão poética do sentimento de apego


à pátria, tendo como exacerbadores “sinais visíveis” da terra querida. Tom Jobim
descreve o apego à sua cidade, Rio de Janeiro, ao admirá-la em um sobrevôo pela baía
de Guanabara. E Amir Klink descreve o momento em que, após mais de um ano
passado sozinho a bordo do veleiro Paratii, entre o inverno antártico, e o pólo norte,
retorna ao lugar de partida: a cidade de Paraty, onde vive com sua família:

Minha alma canta


Vejo o Rio de Janeiro
Estou morrendo de saudades
Rio, seu mar
Praia sem fim
Rio, você foi feito pra mim
Cristo Redentor
Braços abertos sobre a Guanabara
Este samba é só porque
Rio, eu gosto de você
[...]
Rio de sol, de céu, de mar
Dentro de um minuto estaremos no
Galeão
[...]
Aperte o cinto, vamos chegar
Água brilhando, olha a pista chegando
E vamos nós
Aterrar...

(Antonio Carlos Jobim. Samba do avião)


****

“[...] ‘O Brasil à proa. Que linda é a terra que eu vejo!’


Terra azul, como um sonho à distância, que pouco a pouco vai ganhando
contorno, detalhes e torna-se verde.

186
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

[...] Todas as ilhas que eu conhecia tão bem, ao redor, nos mesmos lugares. Um
pequeno ponto escuro vinha à proa. [...] Um veleiro. [...] Ainda segurando os
binóculos me apoiei no mastro para ver quem estava a bordo.
A Cabeluda no leme, um gesto com os braços para cima, algo nas mãos, me
atiraram uma lata de cerveja e uma laranja brasileira que eu agarrei no ar. Os
dois maiores presentes que já ganhei na vida.
[...] Ao passar a ponta Grossa de Paraty, eu vi, ao fundo, distante, o recorte branco
das casas da cidade contra a serra. A matriz e as palmeiras imperiais que marcam
Paraty. À esquerda, o nosso canto, a baía de Jurumirim.” (Klink, ibidem; p. 219-
220).

Às considerações sobre os “sinais visíveis” da pátria, Tuan acrescenta que


outros meios, independentes de um contexto tão explícito, podem, ainda, levar-nos a
uma intensa afeição pela pátria. Para o autor – e aqui, novamente, é possível
estabelecer uma analogia com a relação que mantemos com nossas casas e as
referências subjetivas que dela temos – uma profunda afeição, ainda que
subconsciente, pode formar-se a partir dos sentimentos de familiaridade e
tranqüilidade em relação a um lugar; por termos, ali, garantidos os meios para a nossa
sobrevivência; a certeza de termos alimentação e segurança. Sentimentos que são
embalados por recordações de sons, perfumes, de atividades praticadas em conjunto
com outras pessoas do lugar. Como diria Tuan, “prazeres simples acumulados através
do tempo” que tornam afeições simples como essas difíceis de serem explicadas
(Tuan, 1983, p. 176).

Das inúmeras vezes em que esteve longe de sua casa, ao longo de sua vida
profissional, o entrevistado Hermes destacou um momento em que viveu profunda
carência da relação restauradora estabelecida com sua casa. Por quarenta dias,
permaneceu a trabalho em Angola, durante a época em que o país se encontrava em
guerra civil, sofrendo não as conseqüências diretas da guerra, mas os efeitos desse
contexto. O convívio direto com a morte, a falta de segurança, a carência das
condições básicas de abastecimento e higiene, a escassa possibilidade de
comunicação com a família tornava o habitar de Hermes em Angola ainda mais
distante das referências restauradoras do habitar doméstico. Naquele momento,
referências materiais, itens de mantimentos que sua esposa lhe enviava
semanalmente, que o remetiam à vivência em seu país Brasil, passaram a se revestir

187
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

de domesticidade e a estabelecer a ponte que o reconfortava daquela experiência


conflituosa de habitar, naquele cenário de carência doméstica:

“[...] Tinha dias que não tinha comida porque não tinha gás. Então, a gente comia
aquelas batatinhas feitas há não sei quantos anos. Você ia fazer o café, fazia com
papel higiênico. Coisa assim boba, básica. E a gente ficava pensando que na sua casa
você não tinha esse de problema. Nós esperávamos com ansiedade a caixa com
mantimentos que era mandada em um vôo semanal pra gente. As nossas esposas
compravam pra gente: bolacha, macarrão, arroz, leite condensado – aquelas coisas
de brasileiro, sabe? – Vinham umas latinhas de Coca‐Cola. Você não sabe como era
bom Coca‐Cola... uma latinha pequena... nossa! Parece bobagem, mas, naquela hora,
parecia que a gente estava em casa! Nessa situação, te dá uma saudade desgraçada.”
(Hermes)

Em um depoimento sobre a época em que fora obrigado a exilar-se em


Londres nos anos 1960-70, devido à ditadura militar instalada no Brasil, o
compositor Caetano Veloso relata os aspectos de uma relação inautêntica não apenas
com aquela cidade, mas, de um extremo, com um país, com o qual não se sentia
comprometido nem emocional, nem cultural, nem politicamente; e de outro
extremo, com o próprio habitar doméstico, que não lhe servia como porto tranqüilo
para o descanso e o restauro. O compositor relata a experiência de ter a melancolia
metoika vivida naquele momento, por um lado, exacerbada, ao ouvir uma música que
lhe transportou mentalmente para o Brasil, e por outro, pela emoção de ver
traduzida, naquela canção, sua vontade de novamente experimentar o sentido de
“insideness” – de voltar a sentir-se em casa em seu país117:

“‘Na janela da casa onde estou morando tem uns gerânios que já estão secando por
causa do outono. Meu coração está cheio de um ódio opaco. As crianças inglesas
são belas e agressivas. A rainha Elizabeth está pedindo aumento de salário. Eu não
dependo disso tudo. Nada disso depende de mim.’” (Trecho de Carta ao Pasquim,
Londres, 1969)118
[...]

117
A entrevista a seguir foi transcrita da fita VHS “Circuladô Vivo”, 1992.
118
Este trecho foi escrito por Caetano Veloso, enquanto morava em Londres e trabalhava como
correspondente do jornal Pasquim – mais importante jornal de oposição à ditadura militar dos anos
1960-70. O trecho citado é, na entrevista aqui transcrita, lido pelo próprio Caetano.

188
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

“Londres era a cidade da moda, na época. Era Carnaby Street, King’s Road, e
mini-saia, Beatles e Roling Stones... Swinging London!”
[…]
“Pra ser sincero, eu não era feliz. Eu não sentia aquilo muito como uma
experiência maravilhosa para mim, e não tava feliz com aquilo. Achava belo,
achava importante, sentia que era forte. Mas eu tava exilado, pô, [...] tinha medo
de tudo, não conseguia dormir, precisava tomar valium... em Londres.... E Londres
é um lugar chato – aquela chuvinha, aqueles tijolinhos intoleráveis, aqueles papéis
de parede abomináveis...”
[...]
“O Roberto [Carlos] telefonou lá pra casa e avisou que ia [...]. E foi uma coisa
incrível porque a gente ali, né, exilado, longe do Brasil... [...] E ele pegou o violão e
disse [...] ‘Vou cantar uma [canção] pra você ver, eu acho que você vai gostar.’ E
cantou ‘As Curvas da Estrada de Santos’ – que é tão bonita, né? E aquilo
ouvido naquela hora foi... eu chorei tanto, me acabei de chorar... Por isso que o
Roberto [...] quando voltou pro Brasil, ele fez ‘Debaixo dos Caracóis’... Por
causa desse dia.... [...] Ele voltou pensando em mim e fez uma música [para mim],
o que foi maravilhoso que ele tivesse feito porque demonstrou solidariedade e me
deu carinho [...]”:

Um dia a areia branca


Seus pés irão tocar
E vai molhar seus cabelos
A água azul do mar
Janelas e portas vão se abrir
Pra ver você chegar
E ao se sentir em casa
Sorrindo vai chorar
Debaixo dos caracóis dos seus cabelos
Uma história pra contar
De um mundo tão distante
Debaixo dos caracóis dos seus cabelos
Um soluço e a vontade
De ficar mais um instante

As luzes e o colorido
Que você vê agora

189
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Nas ruas por onde anda


Na casa onde mora
Você olha tudo e nada
Lhe faz ficar contente
Você só deseja agora
Voltar pra sua gente
[...]
Você anda pela tarde
E o seu olhar tristonho
Deixa sangrar no peito
Uma saudade, um sonho

Um dia vou ver você


Chegando num sorriso
Pisando a areia branca
Que é seu paraíso

(Roberto Carlos. Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos)

Referindo-se à identidade que estabelecemos com nossa pátria, Stuart Hall


dirá que a partir de memórias e histórias contadas sobre a nação e imagens que dela
são construídas, estabelece-se a ligação entre seu passado e seu presente, produzindo-
se sentidos que mantemos sobre essa nação. Uma cultura nacional seria, pois, um
“discurso[119] – um modo de construir sentidos que influencia e organiza tanto nossas
ações quanto a concepção que temos de nós mesmos”. Ao nos identificarmos com
esses sentidos, estabelecemos uma identidade com a pátria (Hall, 2003; p. 50-51).
“Sentir-se em casa”, dirá o filósofo contemporâneo Vincent Descombes, é
uma questão menos geográfica e mais de “retórica de território”. Ou seja, estamos em
casa quando nos sentimos à vontade em relação aos códigos das pessoas com quem
partilhamos nossa vida; quando podemos nos fazer entender sem muita dificuldade e
conseguimos seguir a lógica do pensamento das pessoas sem que sejam necessárias
longas explicações – isto, pelo fato de premissas conhecidas serem partilhadas e
mutuamente assumidas. Por outro lado, diz Descombes, o “país retórico” de uma
pessoa termina no momento em que seus interlocutores deixam de compreender as

119
Discurso: série de enunciados significativos que expressam formalmente a maneira de pensar e de
agir e/ou as circunstâncias identificadas com um certo assunto, meio ou grupo. In: Houaiss, 2001.

190
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

razões que levam às suas atitudes, sejam de desaprovação ou de entusiasmo em


relação a algo (Descombes, Apud Augé, 1995, p. 108)120.
Afirmando que é na língua falada em um país onde “verdadeiramente
reside a nacionalidade”, Eça de Queirós escreve, com humor, que...

“Um homem só deve falar, com impecável segurança e pureza, a língua da sua
terra: - todas as outras as deve falar mal, orgulhosamente mal, com aquele acento
chato e falso que denuncia logo o estrangeiro.
[...] Não, minha senhora! Falemos nobremente mal, patrioticamente mal, as
línguas dos outros”.121

A canção a seguir traz, com igual bom-humor, o sentimento de


patriotismo, estabelecido tanto em relação aos aspectos geográficos, históricos e
culturais que constroem a identidade com um país, quanto aos códigos partilhados
com as pessoas conterrâneas, incluindo-se a própria língua falada. Aspectos que
constituem o sentimento de que o nosso país é o nosso lugar, a nossa casa:

Quando Cabral descobriu no Brasil o caminho das Índias


Falou ao Pero Vaz para Caminha escrever para o rei
Que terra linda assim não há
Com tico-ticos no fubá
Quem te conhece não esquece
Meu Brazil é com S.

O caçador de esmeraldas achou uma mina de ouro


Caramuru deu chabu e casou com a filha do Pajé
Terra de encanto, amor e sol
Não fala inglês nem espanhol
Quem te conhece [...]
E pra quem gosta de boa comida aqui é um prato cheio
Até Dom Pedro abusou do tempero e não se segurou
Oh, natureza generosa
Está com tudo e não está prosa
Quem te conhece [...]

120
Referência trazida por David Morley, 2000; p.17, 48. Não foram encontradas referências sobre a
publicação de Descombes.
121
Eça de Queirós: "A Correspondência de Fradique Mendes", 2a Parte (Correspondência: Carta a Madame
S.). In: http://pt.wikipedia.org/wiki/Correspond%C3%AAncia_de_Fradique_Mendes

191
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Na minha terra onde tudo na vida se dá um jeitinho


Ainda hoje invasores namoram a tua beleza
Que confusão veja você
No mapa-múndi está com Z
Quem te conhece não esquece
Meu Brazil é com S.

(Rita Lee e Roberto de Carvalho. Brazil com S)

No mesmo sentido do que nos fala Descombes, ou seja, quando a mútua


compreensão entre as pessoas de um determinado meio permite o sentimento de se
estar em casa, Agnes Heller também afirma que para que esse entendimento
aconteça, não são necessárias informações anteriores; não são necessárias notas de
rodapé, e com poucas palavras, muito pode ser apreendido. Heller ainda ressalta que
morar em uma casa, seja ela uma nação, uma comunidade ou família, requer que
sejamos aceitos, bem-vindo, ou pelo menos, tolerados nessa comunidade. Uma pessoa
pode até dizer “esta é a minha casa”, mas, se os outros membros da família,
comunidade, etc. não a vêem assim, ela, de fato, não estará em casa (Heller, 1995; p.
6. Apud Morley, 2000; p. 17).
Assim, a relação de sentir-se em casa, estabelecida nos termos do que
sabemos já subentendido, também está constantemente relacionada à construção do
nós – pessoas que pertencem ao lugar – e do eles – pessoas que não pertencem ao
lugar (Cresswell, 2004; p. 39).

Referindo‐se à discrepância de comportamento das pessoas de um determinado


bairro, em relação ao seu próprio, a entrevistada Maria122 expressa o sentimento de
não pertencimento àquele meio específico, razão pela qual considera acertada a
decisão de não ter‐se mudado para lá, à certa altura de sua vida:

“[...] Eu pensei em vender este [apartamento] aqui, mas pra comprar uma casa em
Alphaville. Hoje em dia, quando eu penso nisso, dou graças a Deus de não ter dado
certo, porque eu não dou certo com aquele lugar. É outro comportamento. E tem
isso: os bairros, as casas, os prédios, têm muito a ver com o comportamento das
pessoas.” (Maria)
****

122
Apresentada no Capítulo 1.

192
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

A experiência da entrevistada Júlia123, de ter deixado a casa dos pais, numa cidade do
interior, para morar em São Paulo, em uma pensão extremamente restritiva, traduz‐
se em um sentimento de profunda carência em relação às referências de aconchego
e domesticidade que traz da casa dos pais, assim como das relações sociais vividas
em sua cidade, cujos códigos ela não encontra em São Paulo – o que torna sua
experiência duplamente desprovida de um sentido de lugar.

“[...] E São Paulo é uma cidade muito difícil porque as pessoas são muito
individualistas, ninguém ajuda ninguém. Na primeira semana, aqui, eu me senti
muito sozinha, muito longe de casa.
[...]
Mesmo adorando São Paulo e as opções culturais que tem aqui, nos fins de semana
eu sinto necessidade de voltar pra casa dos meus pais... é uma delícia voltar. Eu gosto
muito da minha casa... eu gosto muito da minha cidade. Lá é muito diferente daqui.
Você tem amigos, esse aconchego, essa coisa de falar ‘vou dar uma passada na sua
casa, tá?’, ou ‘passa aqui, na minha casa’... aqui não tem! Aqui ninguém faz isso,
ninguém dá uma passada na casa do outro. Aqui, as pessoas combinam de se
encontrar num tal lugar. Ficar em São Paulo no fim de semana é meio solitário, meio
triste, ainda mais nesse lugar que eu estou. As meninas viajam, e ainda por cima,
você não pode convidar uma amiga de fora pra te visitar. Na minha cidade, os amigos
ficam indo na casa dos outros o tempo todo, é muito divertido.” (Júlia)

A relação entre casa/nação e rua/país estrangeiro de que vínhamos


falando também pode ser vista no sentido de que confiamos em quem conhecemos. O
desejo pela segurança da casa é experimentado, na esfera de uma nação, na busca pela
interação com as pessoas que partilham conosco suas origens e seus componentes
sociais, econômico e culturais, as quais, por esta razão, consideramos “mais confiáveis
do que ‘estrangeiros’” (Kristeva, 1993; p. 3. Apud Morley, ibidem; p. 31). No contraste
entre casa e rua, descrito por DaMatta, o autor dirá do desconforto de situações em
que nos sentimos vulneráveis e precisaríamos contar com pessoas em quem
confiamos para expressar nossas necessidades, tais como quando ficamos doentes
num meio desconhecido, ou quando desmaiarmos na rua. O autor observa que
“nada pior de que ter de fazer uma necessidade fisiológica na latrina pública”. E,

123
Apresentada no Capítulo 2.

193
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

“pior que tudo isso”, acrescenta DaMatta, “é, evidentemente, morrer fora e longe de
casa” (DaMatta, ibidem; p. 59).

Os depoimentos do entrevistado Rui e sua esposa tornam patente as considerações


em relação à confiança de estarmos em meio a pessoas que partilham conosco as
mesmas referências de país, cidade ou domésticas, e de como esse sentimento de
confiança está relacionado ao próprio sentir‐se em casa:

[Rui:] “[...], quando se tem um mal‐estar, a vontade que se tem, não é de voltar para
o hotel, e sim de voltar para casa. [...]
Uma vez, eu estava fazendo baseamento em Los Angeles124, estourou um canal de
um dente. Foi na época da greve de aeroviários e aeronautas no Brasil [...]. Eu com
febre, num quarto de hotel, não tinha como voltar... [...]. Como eu tenho pavor de
dentista, jamais iria a um dentista lá, que eu não conheço. A minha angústia pelo fim
da greve, para que chegasse um avião, eu poder ir para casa, e para o meu dentista
era impressionante!”

[Esposa:] “É desesperador. Eu tenho umas enxaquecas e o único remédio que cura é


Cibalena. Um vez, eu estava em Los Angeles [acompanhando o marido], me deu uma
enxaqueca que durou quatro, seis dias, e eu acabei com meu estoque de Cibalena. E
aí, tinha que tomar aquelas porcarias de lá que não resolvem nada. Tudo que a gente
pode comprar sem receita, não resolve. Quase que desmaiava na rua.”125

[Rui:] “Então, essa é a saudade de casa. A falta é não só da sua casa, mas do seu
bairro, daquilo que você domina. Os animais irracionais demarcam seu território.
Nós, os pretensos racionais, também marcamos o nosso território, a toca onde você
dorme e o seu território, que é onde você faz a compra; qual a farmácia que fica
aberta 24 horas; que horas abre a padaria, como é o nome do dono da padaria, qual
o horário que tem o melhor chapeiro para você comer um sanduíche gostoso; onde
tem seu borracheiro, o posto de gasolina aonde você vai, que você confia – esse é o

124
Devido aos vôos para Tóquio, feitos com escala em Los Angeles, Rui explicou-me que alguns
comissários, como ele, eram escalados para permanecer em Los Angeles por períodos de três meses
anuais. Permaneciam hospedados – ou “baseados” – em um hotel naquela cidade, onde havia a troca
de tripulação, para eventuais substituições de comissários para o vôo, caso algum dos tripulantes
escalados fosse, por alguma razão, impedido de voar.
125
É interessante notar que o medicamento a que ela se refere, genericamente, é o ácido
acetilsalicílico, que pode ser adquirido em qualquer farmácia do mundo, sem necessidade de receita
médica. No entanto, a relação de confiança em algo que já conhece a faz acreditar que não haveria
nenhum medicamento estrangeiro que pudesse resolver seu problema tão bem quanto o trazido do
Brasil.

194
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

seu território. Eu tenho uma feira, aonde a gente vai nos sábados de manhã, que fica
onde eu morava. Eu fiz feira lá durante 20 anos e todos os caras de todas as barracas
nos conhecem. Até hoje eu volto lá porque eles não me vendem produtos que não
estejam em boas condições. Eles dizem ‘não, hoje você não vai levar isso, você vai
levar aquilo.’ Então, essa é a nossa casa.” (Rui)

Segundo vê Cresswell, o apego e as conexões que estabelecemos em


relação a um lugar podem libertar-nos de pensar nesse lugar, em termos dos aspectos
racionais que, em circunstâncias em que não houvesse tais conexões afetivas,
poderiam atribuir-lhe outra forma de serem percebidos. O pensar nesse lugar, como
vivência cotidiana, está em um mundo diferente daquele que é o pensar em um lugar
– seja uma casa, uma cidade, ou um país – que eventualmente possa ter problemas.
Neste caso, não se trata tanto da qualidade das coisas e do ambiente, em um contexto
global, mas de um aspecto segundo o qual nós, individualmente, escolhemos para
olhar para eles: o quê decidimos enfatizar e o quê decidimos qualificar como não
importante (Cresswell, 2004; p. 11).

O entrevistado Rui expressa a noção de apego à sua cidade, São Paulo, quando a
compara com Paris. Enquanto esta última, da qual gosta muito, é vista,
racionalmente, como uma fonte muito maior de entretenimento e qualidades do que
a segunda, é na primeira, a sua cidade, que Rui encontra o acolhimento à sua
subjetividade. E, para expressar tal impressão, ilustra seu depoimento misturando as
idéias de país, cidade e casa:

“[...] Então, voltar para casa é a sensação de voltar‐se para dentro de si próprio. É
sentir‐se protegido. Veja bem, quando você está de férias, você pode estar no
melhor lugar do mundo. Por exemplo, Paris, que é um lugar que eu gosto muito. Não
tem comparação entre Paris e São Paulo: o que você usufrui de Paris e o que você
usufrui de São Paulo, na minha opinião, lá é muito melhor do que aqui. O rio Sena é
muito melhor do que o rio Tietê. Mas, quando você chega no Brasil, em São Paulo,
você está no seu São Paulo: 'ai, que saudades que eu estou da minha casa, da minha
cama, do meu colchão, do cheiro do meu lençol...’. A minha cama é diferente!” (Rui)

No livro de Queiroz, no qual ela descreve os rituais nordestinos vividos no


preparo da comida em sua casa no Não Me Deixes, o pensar em um lugar
enriquecido pelas histórias ali contidas – e em particular, pelos rituais culinários ali

195
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

vividos, ricos de interações pessoais, inseridas no mesmo contexto, a vivência


sertaneja – é, em uma analogia à proposição de Cresswell, libertar-se de pensar na
experiência da escassez e de dificuldades. O pensar nesse lugar, como vivência
cotidiana doméstica – tal como a escritora pensa no Não Me Deixes – está em um
mundo diferente daquele que é o pensar em uma região de grande pobreza e
dificuldades:

“Por que tanto carinho por estas terras ásperas? Não sei, Mistério é assim: está aí e
ninguém sabe. Talvez a gente se sinta pura, mais nua, mais lavada. E depois a
gente sonha.” (Queiroz, 2000, p. 167-169).

****

A vida aqui só é ruim


Quando não chove no chão
Mas se chover dá de tudo
Fartura tem de porção
Tomara que chova logo
Tomara, meu Deus, tomara
Só deixo o meu Cariri
No último pau-de-arara
[...]
Quem sai da terra natal
Em outros cantos não pára
Só deixo o meu Cariri
No último pau-de-arara.

(Venâncio / Corumba / J. Guimarães. Último Pau-de-arara)

...

Retomando a abordagem conceitual de lugar, sob o prisma da Geografia


Humanista, como uma forma fundamental do estar-no-mundo, ou, como resume
Cresswell, “um centro de significados, um campo de cuidados, que forma a base para
as interações humanas” (Cresswell, 2004; p. 50, 49), Relph apontará como um
problema, no contexto contemporâneo, para a dificuldade cada vez maior das pessoas
de se sentirem conectadas ao mundo através de um lugar com o qual se identifiquem

196
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

e ao qual se sintam pertencentes. Uma crescente inautenticidade das relações com os


lugares se daria, segundo Relph, devido a uma série de processos, tais como a
ubiqüidade das comunicações e cultura de massa, a crescente mobilidade das pessoas,
o grande mundo dos negócios, assim como imposições de grandes autoridades
centrais. Tais processos encorajariam, “direta ou indiretamente” o que Relph chamou
de sentido de “placelessness” (em português, algo como “ausência de lugar”), definido
pelo autor como:

“um enfraquecimento da identidade dos lugares, a ponto de eles não apenas serem
todos fisicamente parecidos, mas proporcionarem sensações parecidas e oferecem
parecidas e insípidas possibilidades de experiências.” (Relph, ibidem; p. 90. Apud
Cresswell, 2004; p. 44).

O crescimento em escala mundial dos meios de viagem/turismo seria


particularmente visto por Relph como uma das causas da diluição do autêntico
sentido de lugar. Uma estrada, um supermercado, um aeroporto, impostos a uma
localidade por vias não necessariamente comprometidas naturalmente com ela – mas,
como diria Giddens, por influências sociais bem distante dela (Giddens, 1990; p. 19)
–, seriam exemplos desses lugares sem identidade com aos quais a vida moderna
passou a estar cada vez mais comprometida (Relph, ibidem; p. 90. In Cresswell, 2004;
p. 45).
Para Relph, os conceitos de casa e lugar estão para as idéias de
envolvimento, comprometimento e enraizamento, assim como a mobilidade e a
transitoriedade modernas estão para um sentido de inautenticidade e ambigüidade
moral. E é com os recursos do sentido de enraizamento que envolve o conceito lugar,
que Relph vê a resolução deste potencial problema, ou seja, da mobilidade
contemporânea. O próprio relato de Lévi-Strauss, que vimos anteriormente
interpretado por Relph, torna-se, segundo este prisma, um meio de sugerir que
mesmo as pessoas que mais imprimem o caráter de mobilidade a suas vidas não são
automaticamente sem-lugar, já que elas são capazes de criar raízes em um período
notavelmente curto de tempo. Nas palavras de Relph, ...

“ter raízes em um lugar é ter um ponto seguro para, a partir dele, olhar o mundo lá
fora; [ter] uma posição própria na ordem das coisas, na qual nos agarrarmos

197
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

firmemente, e um significante apego espiritual e psicológico a um local em


particular.” (Relph, ibidem; p. 38. Apud Cresswell, 2002; p. 14).

Para a entrevistada Amélia126, que passou quase cinco décadas da sua vida
acompanhando os circos com os quais trabalhava, o lugar do habitar doméstico
nunca foi geograficamente fixo. O circo é um lugar móvel. E é nesse lugar móvel que
o circense estabelece suas raízes; é a ele que o circense pertence:

“Eu sou a quarta geração circense na minha família. Eu nasci, me criei, casei no circo.
Nós éramos nômades. Quando eu nasci, ninguém morava no circo. Morava‐se em
pensões, os melhores ficavam em hotéis. Depois, evoluiu um pouco e passamos a
morar no circo, em barracas de lona – eu ainda era pequena. Eu tanto me lembro de
morar hotéis, em pensões, como quando a gente foi morar em barraca. Pra nós, era a
mesma coisa – tanto fazia morar na barraca, quanto no hotel. Porque a mulher do
circo já nasce naquela vida, e a criança já vê ao outras mulheres vivendo aquela vida,
então ela já está dentro do seus habitat.” (Amélia)

A seguir, Amélia descreve o momento em que deixa de viajar com o circo e passa a
ter um habitar localmente fixo, o que, no entanto, parece nunca ter cortado de vez
as raízes com o caráter nômade, de espaços dispersos, do modo de habitar de antes:

“Foi difícil me adaptar a essa vida mais parada – aliás, eu sinto falta das viagens até
hoje [risos].
[...]
A minha primeira moradia foi num trailer, num terreno baldio que um amigo tinha; e
ele deixou a gente colocar o trailer lá. [...] o meu marido viajava com o circo Orlando
Orfei, nessa época. [...] Eu parei em Campinas, fiquei com as crianças estudando e ele
viajava. [...] E lá, a gente já se arrumou: fizemos um banheiro lá. A gente não tinha
móveis, era só o trailer. Então, eu deixei o trailer pra dormir. E lá tinha um
barracãozinho de madeira jogado, que eu resolvi fazer minha cozinha lá. Limpei, já
tinha uma mesa, que eu aproveitei. Aí uma vizinha disse que ia jogar um sofá fora, e
perguntou se eu não queria: ‘claro que eu quero’, eu disse. E já tinha um sofá – não
importava se fosse bom ou não; o importante é que já tinha alguma coisa. E aí, eu ia
ajeitando e ficava bom. E a minha filha do meio é uma dona‐de‐casa formidável,
garças a Deus. Ela que arrumava tudo.

126
Apresentada no Capítulo 1.

198
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Depois, eu passei a morar em casa, mesmo. Dois quartos; comprei um sofá usado...
Mas nunca perdeu a cara do circo: minha casa, eu acho que é sempre bagunçada. A
minha filha sempre fala ‘mãe, você não esquece do circo, mesmo!’” (Amélia)
****

Vivendo no que chama de “equivalente a um hotel” para profissionais estrangeiros


na Arábia Saudita, o entrevistado Christian127 reflete sobre a razão de ele próprio e
muitos estrangeiros nesta mesma situação, mesmo estando tão distantes de suas
referências de habitar doméstico, sentirem‐se, de certa forma, enraizados, em casa,
naquele país. O que, a princípio, poderia ser um fator de efeito metoiko sobre esses
estrangeiros, que deixam seus países e referência para trabalhar em um lugar de
hábitos e regras sociais tão estranhas a eles é, por outro lado, segundo vê Christian, a
própria razão do enraizamento dessas pessoas. Referindo‐se especificamente à sua
condição de estrangeiro na Arábia Saudita, Christian vê, por um lado, o habitar em
um contexto sociocultural de restrições. Por outro, há a convivência com outros
estrangeiros, propiciada e regulamentada por uma instituição que segrega (o
“hotel”), cujos espaços físicos, regras e horários definidos propiciam o
estabelecimento de contatos e interações entre os moradores – num contexto que
Christian compara a um colégio de adolescentes. Sob este ponto de vista, ele supõe
serem as relações de cumplicidade e amizade advindas deste contexto de
comunidade o que devolve a essas pessoas o sentido de pertencimento a um meio
humanizado (para usar o termo de Tuan), a uma comunidade – sentido este, que
avalia como perdido nas grandes cidades, nas quais essas pessoas estariam imersas
em relações marcadas pela ausência de lugares à qual se refere Relph, ou, ainda, nas
palavras de Tuan, inseridas “na solidão de um lugar protegido” (Tuan, 1983; p. 61):

“[...] Mas veja, o termo ‘quarto de hotel’ é, talvez, mal interpretado, uma vez que a
palavra ‘hotel’ significa um espaço comum de lazer, onde pessoas, mais do que
nunca, preferem a companhia de suas famílias e parceiros(as). Neste caso, é o fato de
elas estarem longe de suas famílias e companheiros(as) que cria a dinâmica de se
fazer amigos.
[...]
Muitos dos que deixam a Arábia Saudita voltam – alguns, até mesmo, depois de cinco
anos. Eu sempre me perguntava se isso é por causa do dinheiro, mas então, me
ocorreu que deve ser outra coisa.

Já que a maioria das pessoas, especialmente nos países de primeiro mundo, vivem
vidas relativamente isoladas, o constante contato que se tem aqui – ainda que seja

127
Apresentado no Capítulo 1.

199
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

opcional – cria a sensação de convivência. As pessoas tomam o café da manhã,


almoçam e jantam juntas; elas se encontram no salão do café. Freqüentemente,
alguém compra um computador novo, uma câmera, um instrumento musical, e
convida os outros para ver, caindo de volta nos padrões de interação humana que
eram comuns durante a adolescência. Como alguém se reajustaria a viver numa
comunidade ‘normal’, depois disso é o que todos se perguntam! Aqui, arquitetura é
definitivamente instrumental no sentido de formar padrões de interação.
Naturalmente, há vários graus de proximidade, dependendo da idade, interesses e
experiências profissionais comuns – o que, portanto, dá uma variedade de pessoas,
entre as quais se pode escolher os amigos.
[...]
eu estava conversando com uma enfermeira amiga minha, [...], e nós estávamos
discutindo as razões pelas quais é difícil para os estrangeiros, como nós, que
estiveram na Arábia Saudita por vários anos, se adaptar de volta aos seus países de
origem, que, no caso dela, era o Canadá, mas que poderia ser qualquer lugar. A vida,
aqui, em nossas residências, muitas vezes, é comparada ao voltar à escola. Ocorreu‐
me que isso poderia ser por causa das figuras da autoridade e outros fatores de
repressão que há aqui. Nós moramos num país que proíbe o divertimento. Você não
pode namorar, beber, ouvir música, etc. Isto é imposto pelo próprio governo. Isto,
portanto, precisa ser apoiado pelas pessoas para quem você trabalha, que são, em
última instância, responsáveis por você, portanto, a autoridade elevada ao quadrado.
Para sua própria segurança, você mora em um compound (interprete como
instalações de internato)128. Nesses compounds, para aqueles que não são casados,
são segregados, portanto, nada de sexo, apenas tsunamis de testosterona: de volta
ao pátio da escola!

Agora, de repente, se voltamos para o Canadá ou qualquer lugar: nós não estamos
mais limitados pelo mesmo tipo de autoridade, não vivemos mais em pequenos
círculos conspiratórios. Não há mais empatia, não mais fofocas, não mais
coletividade, atividades comunitárias. Há apenas um apartamento onde você vive
por sua conta, cozinha para você, e faz tudo o mais por sua conta, ou com uma outra
pessoa. Você ganhou sua liberdade, mas você também perdeu um certo espírito
comunitário, criado de uma resistência ou desobediência à autoridade, e os laços que
acompanham tudo isso. Você percebe que foi projetado no mundo selvagem – de
novo!” (Christian)

128
“Compound”: um grupo fechado de edifícios para a segregação ou restrição de um grupo particular
de pessoas. In: Encarta, 1999.

200
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

A re‐elaboração contemporânea do conceito de lugar

Se, por um lado, os sentidos de identidade, enraizamento e pertecimento,


atribuídos ao conceito de lugar pelos geógrafos humanistas, os fizeram ver as
“autênticas” relações com o lugar diante de uma constante ameaça – representada
pela mobilidade moderna e pela cultura de massa, concepções mais recentes vieram
agregar novas idéias à concepção de lugar, que passa por uma reformulação sob o
prisma justamente dessa mobilidade contemporânea e das influências da abrangente
globalização por que passa o mundo contemporâneo. Assim, procuro, a seguir,
estabelecer uma relação entre algumas elaborações teóricas que abordam a
transformação da idéia tradicional de lugar e o foco proposto para este capítulo, ou
seja, o sentido do lugar do habitar doméstico. Minha intenção, ao trazer diferentes
olhares sobre o entendimento de lugar relacionados a questões contemporâneas que,
tradicionalmente, seriam vistas como incompatíveis com o conceito autêntico e
localizado de lugar, é não de invalidar as considerações vistas até agora, mas,
simplesmente, de enriquecer o acervo de idéias que ilustram a questão do lugar do
habitar doméstico. Nem todas as considerações teóricas que passo a mencionar estão
respaldadas em entrevistas. Porém, a opção por apresentá-las deveu-se à intenção de
abranger questões importantes que envolvem o tratamento teórico do sentido de
lugar no contexto contemporâneo como um todo, as quais têm reflexos diretos no
modo como praticamos nosso habitar doméstico.
Comecemos com a análise do etnólogo Marc Augé, para quem, ainda que
reconhecendo a multiplicação, no mundo contemporâneo, de espaços onde as
pessoas apenas “coexistem ou coabitam, sem que vivam juntas” – tais como os
espaços de circulação (estradas, rotas aéreas), de consumo (shopping centers,
supermercados), e de comunicação (telefones, faxes, televisão, internet) –, esses
espaços, chamados por ele de “não-lugares” (“non-places”) não teriam a conotação
negativa do sentido de “placelessness” de Relph. “Não-lugares” seriam apenas
localidades caracterizadas pelo “temporário”, pelo “efêmero” – locais desenraizados e
marcados pela mobilidade das pessoas; locais, portanto, onde histórias particulares e
tradições não são relevantes (Augé, 1995. Apud Cresswell, 2002; p. 16-17 e Cresswell,
2004; p. 45-46).
Diante dos fatos da contemporaneidade que “desenraizam” o sentido de
lugar, Augé aponta para a necessidade de um repensar radical sobre a abordagem

201
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

antropológica tradicional, cujo foco estaria na idéia de uma cultura localizada no


tempo e no espaço, e cuja noção de lugar estaria convencionada na idéia de uma
“sociedade ancorada, desde tempos imemoriáveis, na permanência de um solo
intacto”. Para o autor, tais lugares estariam, agora, perdendo a importância para os
“não-lugares” (Augé, ibidem; p. 44 e 31-43. Apud Cresswell, 2002; p. 17 e Morley,
2000; p. 173).
Assim, nesta re-elaboração do conceito de lugar, passaria a ser essencial a
consideração do fator mobilidade: as pessoas não são mais simplesmente deste ou
daquele lugar, dirá Cresswell (2002; p. 17). Como observa o teórico Edward Said,
“ninguém, hoje em dia, é puramente uma coisa”. Rótulos de nacionalidade, sexo ou
religião, na visão de Said, não passam de pontos de partida, os quais são rapidamente
deixados para trás, se acompanhados da real experiência em relação a novos lugares.
Naturalmente, pondera Said, não se pode refutar a persistência da continuidade das
tradições, a resistência das habitações, das línguas nacionais e das geografias culturais;
contudo, para o Said, parece não haver mais razão, exceto o medo e o preconceito,
para que se continue insistindo nesta separação e distinção.” (Said, 1994; p. 90. Apud
Cresswell, 2002; p. 17).
Numa visão que também reflete a realidade moderna da mobilidade das
pessoas, Milton Santos estabelece uma comparação com as relações estabelecidas com
o lugar em uma situação anterior:

“O sujeito no lugar estava submetido a uma convivência longa e repetitiva com os


mesmos objetos, os mesmos trajetos, as mesmas imagens, de cuja construção
participava: uma familiaridade que era fruto de uma história própria, da sociedade
local e do lugar, onde cada indivíduo era ativo.
Hoje, a mobilidade se tornou praticamente uma regra. [...] Os homens mudam de
lugar, como turistas ou como imigrantes. Mas também os produtos, as mercadorias,
as imagens, as idéias. Tudo voa.” (Santos, 2004; p. 327-328).

O entrevistado Christian vê o apartamento em que vivia no Brasil, antes de se mudar


para a Arábia Saudita, como um reflexo do estilo móvel de vida, que o faz não se fixar
em um lugar por muito tempo. A opção por morar em lugares (apartamentos,
pensões, quartos) alugados, e não morar em uma casa própria é vista por Christian
como a forma de habitar doméstico que viabiliza seu projeto de vida

202
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

“[...] De um ponto de vista, minha casa129 em São Paulo era funcional: um espaço
autônomo olhando além do próprio presente dele para um ponto invisível no futuro.
Seu mobiliário, essencial e esparso, refletiam o estilo de vida itinerante do seu
ocupante [...]. Ao mesmo tempo, ele possuía um significado denotativo, mais do que
a variedade conotativa incorporada no conceito tradicional de ‘casa’ da minha
infância, com suas memórias e associações ligadas por um senso de continuidade.
Casa, em São Paulo, representava um conceito móvel, viajando através do tempo, e
eliminando referências, mais do que as acumulando.”
[...]
Acabei de chegar da África do Sul, onde estive de férias. Lá, de uma forma
tradicional, todas as pessoas que eu visitei vivem suas vidas isoladas em suas casas
isoladas. Suponho que, em algum estágio, é importante tomar a decisão sobre se
viver na própria ‘caixa’ vale a chateação em relação à manutenção e à constante
despesa que envolve o ter uma propriedade. Pessoalmente, eu prefiro a liberdade
que vem com não possuir minha própria casa, ou melhor, morar numa casa que eu
não possua. De novo, isto está conectado ao estilo de vida e trabalho que me levam
para lugares diferentes em volta do mundo, tornando impraticável possuir uma casa,
exceto, talvez, como um investimento.” (Christian)

Conectando a mobilidade moderna à idéia de “testerritorialização”, Santos


lembra que esta idéia está normalmente relacionada aos sentimentos de
“estranhamento” e “perplexidade”, os quais experimentamos ao perceber que o nosso
conjunto de memórias e experiências, criadas em função de outro meio, pouco nos
servem na orientação da vida cotidiana. Contudo, lembra-nos Santos, neste mundo
do movimento, nosso sentido de residência ainda persiste: “O homem mora talvez
menos, ou mora muito menos tempo, mas ele mora”. Passada a primeira impressão
de espanto e atordoamento, afirma o autor, o espírito torna-se alerta, refaz-se e
reformula a idéia de futuro a partir de um novo do entendimento da realidade que o
cerca. Quando esse processo é percebido, o anterior “processo de alienação” em
relação ao novo meio, vai dando lugar a “um processo de integração e de
entendimento”. É a partir daí que, nas palavras do autor, “o indivíduo recupera a
parte de seu ser que parecia perdida" (Santos, ibidem; p. 328-329).
A noção de deslocamento (desconexão) sugere uma prévia experiência de
casa como lugar (Mayxxiii, 2000, p. 748. Apud Cresswell, 2004, p. 116): ultrapassar os

129
A palavra, em inglês, utilizada por Christian para se referir ao seu apartamento é “home” – a qual
foi traduzida, aqui, por “casa”.

203
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

limites da residência faz com que se inclua nesta percepção um sentido de


pertencimento ao que normalmente descrevemos como nosso lugar. Através de
alguns depoimentos, percebe-se que estar longe de casa, ou de não perceber o meio
em que se está como seu lugar, mais do que a falta da casa (cidade, país) como
localidade física específica, envolve a necessidade de voltar a se sentir inserido em um
contexto de referências pessoais previamente experimentadas, através das quais era
possível perceber-se envolvido física e emocionalmente pelo sentido de (seu próprio)
lugar.

Retomo, aqui, a experiência narrada pelo entrevistado Márcio130, diretor de teatro,


que se mudou de sua cidade, Curitiba, para trabalhar em São Paulo. Essa experiência,
examinada, agora, sob o prisma das idéias de “testerritorialização”, “estranhamento”
e “perplexidade”, torna patente não só a análise de Santos, mas também as Tuan e
Relph, que vimos anteriormente, quanto às experiências nos espaços exterior e
interior e dos sentidos de insideness e outsideness existencial. O espaço público da
grande metrópole que, a princípio, fascinou Márcio pela miríade de possibilidades e
vivências socioculturais oferecidas, tornou‐se opressor e responsável pela busca do
que ele julgava ter deixado em sua cidade, em termos de acolhimento da
subjetividade através do habitar privado. O sentimento de “outsideness” vivido no
espaço exterior em São Paulo não encontrava um oposto em um meio privado. O
reencontro com o que Márcio considerava deixado em Curitiba e a percepção de ter
sido “aceito” pela cidade de São Paulo deram‐se através do estabelecimento de um
sentido de lugar no novo espaço habitado, para o quê Márcio buscou – e continua
buscando – retomar, em São Paulo, as experiências espaciais e sensoriais que
remetem ao sentido de identidade e enraizamento trazidos na memória de seus
habitares domésticos praticados em sua cidade natal, ao longo de sua vida.

(Revejamos alguns trechos da entrevista de Márcio:)

“Em São Paulo, no início, eu tive um período de cigano, por alguns meses, e fui‐me
desesperando sem perceber que eu estava me perdendo de mim mesmo. Aí, o
espaço público das ruas engarrafadas, lugares deteriorados, urbe que não flui,
começou a deixar de ser um estímulo e passou a me oprimir. Depois de morar em
dois ou três lugares diferentes, literalmente, fui em busca do equivalente ao meu
apartamento em Curitiba, que, por sua vez, era o equivalente ao apartamento onde

130
Apresentado na Parte I.

204
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

eu tinha passado a adolescência – espaço que foi o primeiro que permitiu essa
construção [...].
[...]
Eu acho que eu busquei uma distribuição dos cômodos igual à de lá. Acabei
encontrando um apartamento em que, ao entrar, achava uma cozinha no mesmo
lugar que tinha lá, uma sala idem, dois quartos dispostos quase como lá, etc. Esse,
aqui, era menor, mas a sensação era que eu entrava no de lá. As janelas recebiam luz
na mesma relação que lá, com vista para montanhas que também lembravam a Serra
do Mar no Paraná, e em um bairro que lembra Curitiba. Aliás, a Zona Oeste daqui,
tipo Sumaré, Vila Madalena, Pompéia, tem um ar que parece que eu estou lá.

Eu lembro que antes de eu ‘me achar’ no espaço daqui, em uma visita que eu fiz a
Curitiba, eu vi o meu antigo apartamento... de longe, porque já tinha sido vendido.
As janelas estavam iluminadas e, aí, eu fiquei angustiado; ele me parecia a chave de
um reencontro com algo perdido, um estado do passado ou qualquer coisa assim. Eu
percebo que não era bem nostalgia... E agora eu entendo, porquê bastou
reencontrar esse equivalente pra eu desencanar. Aliás, foi só aí que eu me mudei de
corpo e alma para São Paulo, que adotei a cidade como minha. O externo encontrou
um correspondente com um espaço interno, em dois níveis.
[...]
É curioso, porque, agora, mesmo aqui em São Paulo, eu estou planejando mudar
para um lugar que tenha uma área aberta ao ar livre, que tenha ou um quintal, ou
uma sacadona, um terração, alguma coisa assim. Agora, acho que é a minha busca da
infância. A minha família sempre esteve ligada à área rural, e eu passei a infância
convivendo com isso. Em uma certa altura da minha vida, tudo o que eu não queria
era continuar com isso, então eu negava de todas as maneiras. Eu queria me manter
longe daquilo. Agora, que eu percebo que não tem mais ‘perigo’, estou procurando
reencontrar aquelas sensações. Que louco, né?” (Márcio)
****

O relato da musicista Analu, ao vir de uma cidade pequena para morar em São Paulo,
começa por descrever o profundo sentimento outsideness em relação ao contexto
social degradado com que se deparou na cidade grande, do medo de sair às ruas, e
até mesmo em relação à mudança do formato do habitar doméstico, que tanto lhe
causou estranhamento: antes uma casa e uma vida típicas do interior; agora, um
apartamento no centro da metrópole. Parte do relato abaixo, vimos no capítulo
referente à casa física, quando falamos da proteção que buscamos em nossa casa. A
outra parte refere‐se ao momento em que, passado o estranhamento inicial, Analu
cria, através do habitar doméstico em seu apartamento, relações de pertencimento e

205
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

identidade, no que Santos chamaria de uma nova via de orientação e entendimento


dessa realidade em que agora se vê inserida:

“Eu acho que o primeiro impacto são as imagens que a gente vê, mesmo, né, as
diferenças entre interior e capital. [...] Isso, realmente, foi bem chocante, assim, deu
um certo medo... Então, nos primeiros três meses, eu quase não saía – só pra
trabalhar. [...] Daí, ele [o apartamento] foi‐se tornando, mesmo, o meu refúgio. É um
lugar que eu gosto, mesmo, de voltar pra lá.
[...]
No interior, eu morei sempre em casa, casinha mesmo, interior, aquela coisa... a
última casa que eu morei foi uma casa extremamente antiga. O chão era tijolão,
mesmo. Daí, vir pra São Paulo foi a minha primeira experiência em apartamento.
Assim: você não tem quintal, você não pode fazer barulho – já começou a ser vetado
um monte de coisa. Eu lembro que o primeiro dia que eu fiquei em casa, eu comecei
a ficar louca porque eram vários sons: tocava interfone, campainha, telefone fixo,
que até então eu não tinha, e o celular... Aí, eu falei, ‘Deus, nossa, me ajuda!’. Às
vezes tocava o interfone, eu ia pro telefone, tocava o celular, eu ia pra campainha...
uma coisa louca!

Mas, agora, esse apartamento, eu acho que eu acabei adaptando ele como um
refúgio, e isso perdura até hoje, porque é um espaço bacana – é um apartamento
antigo: é um quarto, sala, cozinha, banheiro. Ele tem a minha cara, mesmo. Quem
chega, quem me conhece, fala assim “pô, é a tua cara”... o clima, a energia, a
distribuição das coisas. E ele é muito silencioso, ele é espaçoso... eu gosto – gosto
dali.” (Analu)

A evolução do pensamento em relação à experiência do lugar, tanto no


que se refere à localidade imediata da casa, quanto, numa escala mais abrangente, no
sentido de pertencimento a uma vizinhança, bairro, cidade ou país, vêm sendo
analisada por muitos autores contemporâneos. Em seu livro “Home Territories: Media,
Mobility and Identity”, David Morley (2002) trabalha em cima de estudos
contemporâneos da Geografia Cultural que focam as transformações e
desestabilizações causadas pela ação das influências de um contexto de globalização131

131
Ao se referir ao termo “globalização” como “um complexo de processos e forças de mudanças”
(Hall, 2003; p. 67), Stuart Hall traz a definição de Anthony McGrew, segundo o qual globalização “se

206
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

na percepção do sentido de lugar. Com base nesses estudos, que segundo o próprio
Morley, “insistem na necessidade de se repensar o sentido de lugar”, assim como das
idéias tradicionais de casa (home), pátria e nação, o autor investiga o papel da
constante mobilidade e das novas tecnologias e formas de comunicação na vida
cotidiana das pessoas. Para o autor, a ação dessas tecnologias estaria conectada tanto a
uma transgressão dos limites do habitar doméstico, na medida em que o mundo
público é “trazido” para dentro do privado, quanto, simultaneamente, ao
estabelecimento da coerência de uma “experiência social mais ampla” (Morley, ibidem;
p. 3).
A respeito dessa ampliação da experiência social, podemos observar a
comparação, feita por Giddens, das relações sociais em função de espaço e lugar
estabelecidas antes e depois do advento da modernidade. Enquanto nas sociedades
pré-modernas, nota Giddens, espaço e lugar eram amplamente coincidentes – ou seja,
as dimensões espaciais da vida social eram dominadas por atividades localizadas e pela
presença física –, com a modernidade, o desenvolvimento das tecnologias de
comunicação passou a promover relações entre pessoas “ausentes”, ou seja,
localmente distantes de qualquer situação de interação cara-a-cara, e os locais passam
a ser completamente penetrados por influências sociais bem distantes deles, assim
como configurados nos termos dessas influências. O espaço, como observa Giddens,
passou a ser “arrancado” do lugar. Ocultadas pela “‘forma visível’ do local”, essas
relações distantes passaram a determinar a natureza desse local, o qual, dirá Giddens,
tornou-se cada vez mais “fantasmagórico” (Giddens, 1990; p. 18-19 e Giddens, 1991; p.
187-188).
Na mesma direção de Giddens, John Tomlinsonxxiv aponta para a casa de
uma família (ocidental) atual como um lugar onde, ainda que as relações de
intimidade cara-a-cara ainda sejam a norma, em um agudo contraste com a casa pré-
moderna, a sua equivalente atual vem-se tornando cada vez mais, e de várias
maneiras, o local para interações à distância. Dentre essas maneiras, Tomlinson
aponta como “mais notáveis” as tecnologias de comunicação com as quais as casas
modernas passaram a contar corriqueiramente, tais como a televisão, o videocassete,
o telefone e, nas casas mais abastadas, computadores conectados via rede mundial

refere àqueles processos, atuantes numa escala global, que atravessam fronteiras nacionais, integrando e
conectando comunidades e organizações em novas combinações de espaço-tempo, tornando o mundo, em
realidade e experiência, mais interconectado.” (McGrew, 1992. Apud Hall, ibidem; p. 67).

207
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

com distantes localidades. É desta forma que Tomlinson caracteriza a casa moderna
como “aberta para o mundo” (Tomlinson, 1999; p. 53).
Ainda com referência a Giddens, Shaun Mooresxxv, estudioso das
implicações das novas mídias na vida cotidiana contemporânea, também vê o lar
moderno como “um lugar fantasmagórico”, na medida em que, através dos vários
tipos de mídia eletrônica, eventos e realidades de origens distantes do local de onde
os observamos – nossa casa – invadem radicalmente a realidade localizada do
cotidiano doméstico (Moores, 1996; p. 24. Apud Morley, ibidem; p. 9). Seria, ainda,
neste sentido que Fred Dewey se refere-se abrangência dos meios de comunicação
digital:

“[...] condições de contato que abrangiam continentes ou milhares de milhas


tornam-se comuns entre trinta milhas, dez milhas, meia milha, e entre cômodos em
uma só casa.” (Dewey, 1977; p. 274).

Em um processo de mediatização das comunicações, o qual, como vê Paul


Virilio, atinge “o espaço íntimo, a própria natureza da domiciliação” (Virilio, 1999; p.
79), a casa deixou de ser apenas o tradicional local das interações pessoais e privadas
– e autênticas, como via Relph. Como ressalta o sociólogo David Chaney, com todas
as novas tecnologias – como o rádio e a televisão, os vários meios de se ouvir música,
o computador pessoal e a revolução no transporte, inaugurada pelo automóvel
particular – a cultura pública, de fato, instalou-se na esfera cotidiana do habitar
doméstico (Chaney, 2002; p. 15, 57). E na mesma direção de Chaney, Morley dirá
que dada uma sorte de inovações tecnológicas, os limites entre o ambiente doméstico
e o mundo exterior tornaram-se muito mais “porosos” em ambas as direções (Morley,
ibidem; p. 97).
Seguindo em sua análise, Chaney afirma que muitas das inovações de
marketing de facilidades de lazer e consumo de produtos trabalham para “privatizar”
ou “individualizar” o ato de consumir, o qual passa a, cada vez mais, ser praticado no
espaço físico da casa, tornando, assim, o habitar doméstico cada vez mais uma “forma
social de mediação entre as esferas pública e privada” (Chaney, ibidem; p. 57). É neste
contexto que Morley também se refere à casa como “um ponto nodal” através do qual
se estabelece “um fluxo complexo de pessoas, mercadorias e mensagens” (Morley,
ibidem; p. 172).

208
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

O processo de privatização da cultura pública ou, nos termos aqui


abordados, da penetração da cultura pública na esfera privada doméstica, ao qual se
referem Chaney e Morley, é exemplarmente ilustrado pela proposta da consultora de
marketing, Faith Popcorn: o Cocooning (no sentido de ninho, de local para o
recolhimento) – tendência, verificada pela autora no final dos anos 1980, do retorno
das pessoas ao acolhimento e segurança de suas casas132. Segundo Popcorn, no
entanto, esse recolhimento doméstico deveria ser não só propiciado, mas apoiado
pelas mais variadas possibilidades de consumo de objetos e serviços, a fim de tornar o
estar em casa o mais seguro, confortável e prazeroso possível. No livro “The Popcorn
Report” (1992), as advertências da autora apontam para a importância de profissionais
da área de marketing trabalharem “juntos e mais eficazmente” com o intuito de tornar
a vida “mais fácil para o consumidor” (Popcorn, ibidem; p.144); isto, no sentido de
não mais esperarem que os consumidores fossem ao seu encontro, mas, ao invés
disso, de eles alcançarem os consumidores em seus próprios “cocoons”. Nas palavras da
autora, “a entrega a domicílio irá tornar-se não um serviço a mais, mas um modo de
vida”; “A casa-cocoon será o local do futuro shopping center” (Popcorn, 1992; p. 30,
164-165).
Na prática, essa tendência de transferir para o espaço físico da habitação o
consumo de produtos e serviços foi viabilizada e incentivada pelas possibilidades
tecnológicas de interações não face-a-face. A presença cada vez maior de mídias
eletrônicas passou a ser indispensável na composição do “cocoon” – ou, como na visão
de Castells: “combinada com o desempenho de tarefas domésticas [...], [a mídia] é a
presença de fundo quase constante, o tecido de nossas vidas” (Castells, 2000; p. 358).
Através do consumo de dispositivos inteligentes de transmissão de dados, o próprio
consumo da informação propiciou a transferência para a esfera privada doméstica de
atividades que, tradicionalmente, eram praticadas no espaço público, tais como
realizar de operações bancárias, fazer compras, ir ao cinema, etc.

132
Conforme vimos no Capítulo 1, Popcorn cunhou o termo “Cocooning”, justamente referindo-se à
tendência dos moradores das grandes cidades de se voltarem às suas casas, seja por razões de
segurança, ou pela busca de paz, proteção, aconchego e controle, diluídos no dia-a-dia estressante do
habitar público (Popcorn, 1992; p. 27-29).

209
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Fig. 14 Esquema apresentado por um site brasileiro de vendas de equipamentos para a


instalação de “cinema em casa”. Neste site, encontra-se o texto:
“Um sistema de Cinema em Casa possibilita-lhe desfrutar os seus filmes favoritos em sua própria
casa, mas com o impacto e o envolvimento a que está habituado a assistir no seu cinema público
preferido.”133

...

Retomemos, rapidamente, o ponto em que nossa análise migrava do


tradicional conceito localizado de lugar, desenvolvido pelos geógrafo humanistas, para
uma visão mais atualizada, segundo a qual, a mobilidade contemporânea desloca o
sujeito, sendo que o lugar passa a estar desconectado das inter-relações presenciais.
Nas visões de Giddens e Tomlinson, se os locais mais íntimos da modernidade – os
espaços do nosso habitar privado – podem ser contrastados com as moradias das
sociedades pré-modernas, em termos de seu relativo grau de “abertura para o mundo”
[como vimos por Giddens (1990; p. 18-20)] – em particular, considerando-se o uso
cotidiano das tecnologias domésticas de comunicação (Tomlinson, ibidem; p. 108) –,
ao mesmo tempo, os autores fazem algumas observações a respeito dessa “abertura”, a
qual acompanha a transformação do tratamento teórico dado ao lugar e,
conseqüentemente, ao lugar do habitar doméstico, como vemos a seguir:
Segundo vê Giddens, o que acontece não é simplesmente que as
influências localizadas são absorvidas pelas relações impersonalizadas dos sistemas
abstratos. Em vez disto, o próprio “tecido das experiências espaciais” é que se alterou,
reunindo proximidade e distância de um modo que encontra poucos paralelos nas
épocas anteriores (Giddens, 1990; p. 140). Contudo, o autor observa que, mesmo

133
In: http://www.angelfire.com/film/homecinema/#up.

210
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

que as localidades tenham passado a ser completamente penetradas por influências


distantes e muitos aspectos da experiência midiatizada tenham sido incorporados à
nossa conduta diária, “todo mundo ainda continua a viver uma vida local, e [que] as
restrições do corpo asseguram que todos os indivíduos, a todo momento, estejam
contextualmente situados no tempo e no espaço” (Giddens, 1991; p. 187-188).
Observando este mesmo contexto, Tomlinson nos lembra que a
conectividade que estabelecemos através das tecnologias de comunicação não apenas
dá suporte à noção de proximidade, mas coloca sua própria marca no modo como
passamos a entender “‘estar perto’ no sentido global”. Estar conectado passa, agora, a
ser entendido de uma forma muito específica. Isto, pois, passamos a considerar a
proximidade como algo que convive simultaneamente com “uma indestrutível e
teimosamente persistente distância física entre lugares e pessoas no mundo”, a qual,
entretanto, na visão do autor, as transformações tecnológicas e sociais da globalização
não fizeram desaparecer (Tomlinson, ibidem; p. 4).
Para Santos, a globalização não só não anula a corporeidade, mas leva ao
redescobrimento dela. Segundo escreve o autor, ...

“O mundo da fluidez, a vertigem da velocidade, a freqüência dos deslocamentos e a


banalidade do movimento e das alusões a lugares e a coisas distantes, revelam, por
contraste, no ser humano, o corpo como uma certeza materialmente sensível, diante
de um universo difícil de apreender.” (Santos, ibidem; p. 313-314).

Moores refere-se ao conceito de “privatização móvel” (“mobile


privatisation”), desenvolvido pelo historiador Raymond Williamsxxvi, como sendo um
modelo moderno de estilo de vida que, ainda que centrado na casa, é baseado na
crescente mobilidade moderna, através de mudanças e viagens, e na abrangência dos
meios de comunicação, reunindo, assim, duas tendências da cultura contemporânea
aparentemente contraditórias (Moores, 2000; p. 4-5) – privacidade e mobilidade.
“Privatização móvel”, seria pois, a forma pela qual os consumidores desses meios de
comunicação “visitam” distantes localidades (via som e imagem) sem que para isto
tenham de deixar o conforto e a “segurança ontológica” de suas casas (Williams,
1996; p. 26. Apud Morley, ibidem; p. 9). É neste sentido que o aparelho de televisão
estaria, para Williams, incluído na mesma categoria de tecnologias à qual pertence o
carro e o avião – tecnologias, como descreve Moores, projetadas para transportar os

211
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

indivíduos a destinos (físicos simbólicos ou imaginários) bem além do limites da casa


ou da vizinhança, combinando privacidade com mobilidade (Moores, 1996; p. 365,
336. Apud Morley, ibidem; p. 149).
Tais tecnologias de comunicação, incorporadas ao cotidiano doméstico,
funcionariam como “mecanismos de desacomodação”, uma vez que seriam poderosos
possibilitadores do “escape”, pelo menos através da imaginação, de indivíduos ou
grupos familiares (Morley, ibidem; p. 149-150). Morley lembra-nos da consideração do
pesquisador de mídia Anders Johansen (1997), segundo a qual se ir ao cinema é
como entrar em um mundo de sonhos à parte da existência comum, a localização da
televisão na casa seria parte profundamente importante da “experiência televisual no
tempo da vida cotidiana”. Através da transmissão da televisão na casa, a
simultaneidade do cotidiano doméstico com os fatos externos está mais fortemente
estabilizada do que jamais esteve, uma vez que aquilo que está longe é feito para ser
sentido tanto “bem aqui” em nossa casa, onde nos sentamos para assistir à televisão,
quanto “agora” (Johansen, 1997; Apud Morley, ibidem; p. 182).
Como ainda observa Morley, o atual processo rotineiro e banal de
consumo de informações e imagens de lugares distantes, faz com que,
paradoxalmente, esses lugares distante se tornem tão familiares para nós, nas suas
formas genéricas e pasteurizadas – tais como se apresentam no mundo midiatizado do
consumidor –, que seríamos capazes de pensarmos com certa familiaridade em certas
localidades, como as ruas de Nova York ou as savanas africanas, sem nunca termos
estado lá (Morley, ibidem; p. 14-15). O que equivaleria dizer que – como afirma
Tomlinson – a experiência da modernidade global, para a maioria das pessoas, é
sentida não viajando, mas ficando em casa, contudo, experimentando o des-locamento
que chega até elas. Dito de outra forma, embora a mobilidade seja um importante
aspecto da modernidade global como um todo, a experiência que é mais
verdadeiramente global é, talvez, a experiência da localidade sendo atropelada pela
penetração das forças globais e redes de comunicação. É neste ponto que reside a
distinção entre literalmente viajar para lugares distantes e “viajar” até eles ao falar ao
telefone, através do computador ou assistindo à televisão (Tomlinson, ibidem; p. p. 9,
119, 150-151).

212
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Sobre a abrangência das tecnologias de comunicação, Virilio vai mais


longe, ao relacioná-la à dissipação da oposição “intramuros”/“extramutos” e à
superação dos limites do aqui ou lá, no que eles podem ter de mais concreto e
“objetivo”, que é a sua materialidade. Para o autor, passamos a assistir a um “fenômeno
paradoxal em que a opacidade dos materiais de construção se reduz a nada” (Virilio,
ibidem; p. 9). Segundo a visão de Virilio, ...

“Privado dos limites objetivos, o elemento arquitetônico passa a estar à deriva, a


flutuar em um éter eletrônico desprovido de dimensões espaciais, mas inscrito na
temporalidade única de uma difusão instantânea. A partir de então, ninguém pode
se considerar separado por obstáculo físico ou por grandes ‘distâncias do tempo’,
pois com a interfachada dos monitores e das telas de controle o algures começa aqui
e vice-versa. [...] À antiga ocultação público/privado e à diferenciação da moradia
e da circulação sucede-se uma superexposição onde termina a separação entre o
‘próximo’ e o ‘distante’ [...].” (Virilio, 1999; p. 10-11).

Se seguimos o raciocínio de Virilio e o desdobramos até à esfera do


habitar doméstico, estaríamos, acaso, considerando que passamos por um processo de
superação do sentido de lugar do habitar doméstico nos termos da sua materialidade,
assim como das implicações diretas desta condição física, ou seja, a experiência do
recolhimento, da privacidade, dos sentidos localizados de enraizamento,
pertencimento e identidade em relação ao lugar habitado?
David Morley parece não concordar com esse desdobramento, uma vez
que sugere algumas ressalvas em relação ao que chama de...

“uma visão um tanto utópica [de vários autores] das possibilidades oferecidas pelas
tecnologias da computação para a transcendência de todas as formas de limitação
espacial e social na área do ciberespaço” (Morley, ibidem; p. p. 186).

Segundo Morley, tais autores, “em seus momentos de maior entusiasmo”,


quando argumentam que na “aldeia global” onde habitamos não existe o que se
poderia chamar de estar longe de algum lugar, estendem sua visão para as relações com
o espaço doméstico, afirmando que “casa é qualquer lugar onde você tiver acesso à
internet” (Morley, ibidem; p. 186). Em seu argumento, Morley lembra que “até

213
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

mesmo” John Perry Barlowxxvii – um dos primeiros entusiastas da internet – levanta a


questão sociológica dos não incluídos no ciberespaço: entre uma notável lista, ao lado
de mulheres, estão os velhos, os pobres, os cegos, os não instruídos e o Continente
Africano (Barlow, 1995; Apud Morley, ibidem; p. 186). Morley acrescenta que mesmo
no chamado Terceiro Mundo, apenas as camadas econômicas mais privilegiadas são
as que, geralmente, podem ter acesso à net; e mesmo no rico ocidente, os ricos ainda
seriam mais prováveis a terem um computador do que os pobres (Morley, ibidem).
Pelo menos, no caso do Brasil, tais restrições parecem ocorrer. Em um
levantamento nacional por amostra de municípios, referente a 2005 e divulgado em
2007, o IBGE revelou o peso da escolaridade e do rendimento no perfil da população
com acesso à internet. Dos 32,1 milhões de pessoas que acessavam a rede no Brasil –
apenas 21% do total da população acima de 10 anos – 16,2 milhões eram homens.
Segundo o IBGE, a escolaridade e o rendimento eram os principais fatores
determinantes para a utilização da internet no país. Enquanto o rendimento
domiciliar per capita da média da população de 10 anos ou mais de idade era de R$
333 em 2005, a média para os usuários de internet era de R$ 1 mil134.

...

Em todo caso, por essas considerações sobre a abrangência das tecnologias


de comunicação que acabamos de ver se tratarem, muitas vezes, de constatações de
fatos contemporâneos, cujos efeitos estão sendo verificados em tempo real, suponho
que uma avaliação de sua influência na percepção e no vivenciamento em relação ao
lugar do habitar doméstico demanda, ainda, investigações com uma suficiente
perspectiva de tempo.
De qualquer forma, ainda que este tema, marcado por um dinamismo
quase que simultâneo aos acontecimentos, sem dúvida, venha imprimindo uma
forma sem precedentes de experiência em relação ao espaço e ao lugar – e, com isto,
redefinindo as experiências de lugar e, naturalmente, as formas de percepção do que
é privado e público –, para que se justificasse o aprofundamento de seu tratamento
teórico na pesquisa aqui proposta – e até para que a coerência da proposta fosse

134
“Brasileiros que usam Web ganham três vezes mais, diz IBGE” In Agência CT (Ministério da
Ciência e Tecnologia), 23 de março de 2007. In:
http://agenciact.mct.gov.br/index.php/content/view/43630.html.

214
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

mantida –, ele teria que ter surgido como elemento fortemente influenciador das
relações estabelecidas pelos entrevistados com seus espaços domésticos. Ao invés
disto, temas como os sentimentos de enraizamento, preservação da identidade e
pertencimento em relação ao lugar habitado se mostraram muito mais
significativamente determinantes para as experiências do habitar doméstico, aqui
relatadas.
Contudo, não estando os depoimentos colhidos totalmente limitados à
tradicional concepção de lugar, segundo a qual as experiências do habitar doméstico
estariam restritas à idéia de localidade geograficamente situada, eles muitas vezes
evidenciaram os sentidos contemporâneos de desacomodação e desvinculamento da
experiência doméstica contemporânea – tenham sido essas considerações referentes a
viagens ou a experiências possibilitadas pelas novas formas de comunicação à
distância.
Os temas salientados acima são objeto de calorosos debates que não cabe
aqui retomar. De qualquer forma, consideremos apenas, por um lado, as
argumentações de Virilio, as quais alertam para o problema “ecológico” do “declínio
de uma geografia”, agora transformada em uma “‘ciência do espaço’ abstrata”
totalmente definida através de interações à distância, assim como para a questão que
decorre deste fato, ou seja, a abolição das experiências motrizes/sensíveis que
qualificam o espaço e o ambiente em que se está (Virilio, ibidem; p. 116-118).
Poderíamos, a princípio considerar que tais argumentações invalidam o tratamento
teórico tradicional a respeito da experiência localizada e “autêntica” de lugar.
Por outro lado, não considerar, para uma nova definição do lugar do
habitar doméstico, as experiências, na esfera da domesticidade, advindas de
interações à distância que dispensam a presença física, seria tampouco considerar o
papel da virtualização das percepções que as tecnologias de comunicação nos
permitem, ao “trazer” para nós a sensação de estarmos em um lugar, sem que
estejamos fisicamente nele. Como diria Pierre Lévy, perceber é “trazer o mundo aqui”
(Lévy, 2003; p. 28). Ou seja, seria, por exemplo, não apenas deixar de considerar o
canal irreversivelmente aberto para a permeação da esfera privada pelo espaço
público, mas também a possibilidade inversa, ou seja, de levarmos nossa experiência
de domesticidade para onde estamos, quando estamos longe de nossas casas.

215
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

O hábito de assistir à televisão é descrito pelo entrevistado Valdir, 50 anos,


engenheiro de seguros, como algo estabelecido no seu ritmo doméstico. Ao chegar
do trabalho, ao invés das interações com a família – cujos membros estão isolados
em suas conexões com o mundo, através de aparelhos de televisão individuais –
sentar em frente à televisão e assistir aos seus programas favoritos tornou‐se, para
Valdir, quase um sinônimo da sensação de relaxamento em casa, depois de um dia
cansativo de trabalho. Estando constantemente viajando a trabalho, Valdir procura
obter essa mesma sensação doméstica, a cada final de jornada, também nos hotéis
onde se hospeda. E o faz através da mesma rotina, assistindo aos mesmos programas
de televisão que assiste em sua casa:

“[...] Não costumo ficar muito tempo fora [viajando] – o máximo que fiquei foi quinze
dias –, mas viajo praticamente a cada dez dias. Normalmente, vou na segunda‐feira,
e na quinta estou de volta. Posso tanto ir para longe, quanto para o interior de São
Paulo. Minha rotina, nessas viagens, é muito desgastante. Muitas vezes, viajo à noite,
ou tenho que pegar o avião às seis da manhã, e, pra isso, tenho que sair às quatro da
manhã. Esse negócio de aeroporto cansa muito.
[...]
Eu trabalho andando o dia inteiro, seja no sol, seja na chuva; entra na empresa, e é
calor – tem uns fornos nas fábricas –, e é frio... À noite, quando eu chego no hotel, eu
quero descansar – é a minha válvula de escape.
[...] o quarto do hotel tem que ter é uma boa cama, pra eu poder deitar e saber que
estou num lençol limpo, tomar um bom banho; e tem que ter uma televisão – de
preferência, com uma TV a cabo. Aí, eu costumo ver os programas que eu vejo na
minha casa. Por exemplo, na quarta‐feira à noite, eu sei que tem futebol; aí eu
assisto. Também gosto de documentários, aí, normalmente eu vejo ou o Discovery,
ou o National Geographic, ou um repórter, um Jornal Nacional. [...]. Às vezes, até
gosto de assistir um jornal local, porque é divertido, pra gente saber como é, mas
normalmente, vejo os mesmos programas que vejo em casa.
[...]
[Em casa, quando volto do trabalho,] Eu fico muito na sala, vendo televisão, minha
mulher fica no quarto. Tem televisão na sala, no meu quarto, no quarto da minha
mãe, que mora conosco, no quarto da empregada, no da minha filha mais velha e no
dos gêmeos. Cada um gosta de uma coisa, então, fica cada um no seu canto vendo o
que gosta. É muito difícil todo mundo comer junto durante a semana. No jantar, se
está passando futebol, eu já pego o meu prato e vou assistir. Na mesa de casa, é
tanto controle: é da NET, é da televisão, é da do DVD, é do aparelho de som...
Quando chego em casa do trabalho, a primeira coisa é tirar a roupa, tomar um
banho, pôr uma bermuda e o chinelo. No hotel, também quero relaxar. Encosto logo

216
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

dois travesseiros na cama, dou uma relaxada vendo minha televisão – e fico bravo
quando pego um hotel que não tem controle remoto! [risos], mas hoje em dia todos
têm.” (Valdir)

É neste sentido que se pode trazer a observação de Chaney, segundo a


qual passamos literalmente a carregar nossas conexões globais conosco o tempo todo:
como observa o autor, as fronteiras de localização passam, agora, a ser definidas de
forma mais arbitrária (Chaney, ibidem; 15). Ou, ainda, como nos lembra Santos, a
respeito da experiência globalizada de lugar, “cada lugar é, à sua maneira, o mundo”
(Santos, ibidem; p. 314).
A análise das diversas referências ao lugar do habitar doméstico trazidas
nas entrevistas, leva à percepção de que em muitos casos – em particular, das pessoas
inseridas no contexto agitado da mobilidade contemporânea –, talvez o que, de fato,
ocorra seja a combinação da tradicional idéia de lugar – o sentido de pertencimento
ao local físico da habitação – à realidade das mudanças e deslocamentos. Com isto,
teríamos uma nova maneira de estabelecimento do sentido de pertencimento ao lugar
habitado, o qual seria definido tanto pela tradicional idéia de um local específico
como referência de experiências físicas e emocionais, quanto através do mantimento
das relações entre pessoas que estão distantes fisicamente, mas que, através de
telefones, internet, etc., formam uma comunidade, ainda que possivelmente dispersa,
mas que têm em comum uma identidade em relação a um determinado lugar – seja a
casa, o país.

O entrevistado Reginaldo135 exemplifica essa combinação com seu depoimento:

“Eu moro em São Paulo, só que eu passo 90% do meu tempo fora daqui. Tenho
clientes no Brasil inteiro e, dependendo dos nossos projetos, tenho que ficar, no
mínimo, uma semana fora, [...]. Agora, por exemplo, faz dois meses que estou em
Portugal, em Lisboa.
[...]
Eu passo o dia no cliente e volto muito cansado, à noite, porque a própria natureza
do negócio é seguir, o tempo inteiro, um cronograma, que é bem apertado. [...] O
cliente quer resultado. [...].

135
Apresentado no Capítulo 1.

217
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Quando eu chego à noite, pra relaxar, costumo fazer uma caminhada, tomo um
banho, e vejo televisão, assisto a um jornal – tem sempre um canal do Brasil na
televisão, que eu gosto de assistir.
[...]
Na verdade, eu nunca fiquei tanto tempo fora, direto, então, quando estou aqui [no
Brasil], quero curtir minha família, jantar junto, estar em casa junto. Por exemplo, eu
não uso a internet para conversar com a minha família. Mas, eu falo muito por
telefone, praticamente todo o dia. Eu gosto de ligar sempre quando estou longe; seja
em Lisboa, no Rio de Janeiro, há quinze anos que, quando eu saio, eu ligo todos os
dias pra minha família.” (Reginaldo)

A seguir, a narração de Klink, sobre o dia de seu aniversário, passado


sozinho, a bordo do veleiro Paratii, imobilizado pelo gelo do inverno antártico:

“No dia 25 [...] passei por apuros sérios. Eu fazia 35 anos e era o dia do
comunicado semanal com São Paulo. [...] A Cabeluda organizou uma bruta festa
de aniversário, e todos os amigos estavam em volta do aparelho, soprando bolos e
velas, rindo gritando, comendo, bebendo, fazendo uma algazarra pior que a dos
gentoos136. Não tive escapatória e, por mais breve que quisesse ser, acabei entrando
na festa, a cinco mil quilômetros de distância. A querida Zezé e a minha irmã me
fizeram abrir cartas e presentinhos escondidos no Paratii desde o ano anterior.
Desliguei o incrível aparelho, meio sufocado, com um certo alívio. Não é fácil
sentir tão próximas as pessoas mais importantes do mundo e estar tão solidamente
afastado. [...] Era um dia especial e eu pensava em como aquele aparelho cinza
escuro, cheio de botões, ligado a uma antena do lado de fora, era capaz de
interligar, através de distâncias tão grandes, sentimentos e pessoas. Por meio
daquela caixa de fios e circuitos, eu podia [...] até soprar as velas de um bolo a
cinco mil quilômetros.” (Klink, ibidem; p. 143-144).

O sentido do habitar doméstico

Longe de estabelecer uma discussão maniqueísta entre linhas teóricas mais


ou menos tradicionais, a análise da experiência do lugar, especificamente do lugar do
136
Espécie de pingüim da Antártica.

218
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

habitar doméstico, buscada neste capítulo envolveu uma combinação – ou, talvez, seja
uma linha que oscila, a depender do caso, – entre uma realidade globalizada
(re)definidora do sentido tradicional, localizado, de lugar – na medida em que o
cotidiano doméstico é influenciado pela abrangência das comunicações e dos efeitos
da mobilidade que levam para a experiência doméstica influências de origens bastante
distantes dela –, e realidades de fato localizadas de experiências físicas e emocionais, as
quais são interpretadas através do sentido de enraizamento e pertencimento ao lugar
habitado.
A mobilidade moderna que desacomoda essas experiências localizadas,
ainda que vista, por alguns autores, como uma constante “ameaça” à autenticidade e
ao enraizamento que envolve o entendimento mais tradicional de lugar, está
inextricavelmente conectada à moderna concepção de lugar e, como pudemos
verificar, encontra ecos reais nas experiências de habitar doméstico aqui relatadas.
Desta forma, o lugar contemporâneo, dirá Cresswell, é um “evento” marcado pela
abertura e pela constante transformação e não pelo confinamento e pela
permanência. Mais do que um rótulo pré-estabelecido de identidade – ou, algo cuja
segurança estaria enraizada no sentido do “autêntico”, como propunha Heidegger –,
o lugar seria, hoje, o material bruto para uma constante produção criativa da
identidade (Cresswell, 2004; p. 39).
Lembremos das considerações de Berman, ao apontar para a incessante
força, na vida moderna, de penetração da esfera pública na esfera privada, assim com
da abrangência dessa força, que transforma "as vidas interiores dos homens e das
mulheres que ocupam esse mundo e o fazem caminhar” (Berman, 1987, p. 330).
Neste processo de modernização, dirá o autor, em que o sentido de progresso –
oposto ao sentido de “morte lenta” da estabilidade – é “o único meio de que
dispomos para saber, com certeza, que estamos vivos”, há que se aprender a não
alimentar a nostalgia das “relações fixas, imobilizadas” do passado, mas a se
empenhar na renovação das condições de vida e nas relações com os outros
indivíduos (Berman, ibidem, p. 94). Contudo, lembremos, ainda, do apelo apaixonado
do autor, ao concluir sua análise, quanto à necessidade de lutamos para tornar esse
mundo que a modernização constrói “o nosso mundo”: ainda que diante de um
espírito moderno que incessantemente torna menos palpáveis as referências que,
ainda, tradicionalmente, trazemos e consideramos sólidas, como a nossa casa, a nossa
rua (Berman, ibidem, p. 330).

219
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Ainda sobre a combinação das tradicionais idéias de enraizamento e pertencimento


ao lugar da habitação com a realidade contemporânea das mudanças e
deslocamentos, o depoimento de Aristides137, cuja profissão de fotógrafo o leva a
estar viajando freqüentemente, testemunha tanto o empenho – partilhado em
família – contra a estabilidade e a favor da renovação das condições de vida de que
nos fala Berman, quanto o sentido de apego ao lugar, dado através da convivência
diária e dos relacionamentos afetivos que estabelece com as pessoas queridas – no
caso de Aristides, o seu filho:

“[...] às vezes, eu tenho que viajar, aí eu fico uma temporada fora de casa,
trabalhando, fotografando: quinze dias, um mês. [...]
[...] Mas, desde que meu filho nasceu, eu só fiquei fora uma semana, foi o maior
tempo. Depois não fiquei mais. Mudei totalmente. Antes do meu filho, eu não sentia
falta de nada. [...]
Eu e minha esposa estamos sempre querendo renovar, mudar. Com o meu filho,
cada dia a gente mostra uma coisa nova pra ele. Quando ela estava grávida, a gente
ouvia muita música. Mas, cada dia era uma música diferente. Nós nunca repetíamos
a mesma música – estilos diferentes, para ele conhecer. Ele não brinca muitas vezes
com a mesma coisa. Uma brincadeira dele nunca é igual à outra. Cada dia é um filme
diferente, uma brincadeira diferente. A gente não assiste “Xuxa”, “Teletubies”. É
engraçado, a gente conseguiu fazer com o Enzo [o filho] o que a gente queria. Porque
a nossa vida já era assim. Cada dia a gente estava num lugar diferente, conhecendo
gente diferente. Eu queira que ele fosse assim.” (Aristides)

A seguir, a jornalista norte-americana Maggie Jacksonxxviii (2002), em uma


passagem de seu livro “What’s Happening to Home?”, e Aristides, em mais um trecho de
sua entrevista, dão seus depoimentos sobre os ajustes que se viram obrigados a fazer
para preservar o sentido de lugar do habitar doméstico, quando viram suas casas –
dadas justamente às novas tecnologias de comunicação – serem transformadas em
suas estações de trabalho.
A jornalista Maggie Jackson, após percorrer seu país, cobrindo questões
que envolvem o ambiente de trabalho em empresas, relatou em seu livro a questão
que considerou primordial, e que afetava não apenas as pessoas que vinha
entrevistando, mas a ela própria: a atual indefinição da linha que separa o habitar

137
Apresentado no Capítulo 3.

220
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

doméstico do trabalho, na chamada “era da informação”. Baseada em sua própria


experiência profissional – quando, ao invés de estar em tempo integral no escritório
da uma empresa, passou a trabalhar on-line a partir de sua própria casa, equilibrando
suas atividades de profissional, esposa e mãe ao longo do dia –, Jackson aponta, como
uma questão real, para o número crescente de membros de famílias que se utilizam
das tecnologias de comunicação para poder estar ausentes fisicamente, por parte da
semana, mantendo apenas um contato virtual com os outros membros.
Ao mesmo tempo, a autora sugere situações absurdas para denunciar a
banalidade com que a conexão entre a fisicalidade do espaço habitado e a experiência
emocional que envolve o habitar doméstico vem sendo tratada, em nome da
abrangência alcançada pela comunicação digital:

“Se seus colegas de trabalho vivem em Calcutá ou em Belfast, por que, então, não
corrigir a lição de casa de sua filha por fax ou, mesmo levar seu casamento através
do Palm Pilot e e-mail?” (Jackson, ibidem; p. 156).

Jackson diz ter compreendido que o “sentido de casa” envolve algo mais
do que apenas o tempo em que não se está trabalhando, ou algo que fica em segundo
plano em nossas vidas: “envolve um tempo e um lugar intencionalmente elaborado –
momento a momento” (Jackson, ibidem, p. 13-14; 17-18). A seguir, o depoimento
pessoal da autora exprime o processo de conciliação entre a conectividade eletrônica
que a possibilita realizar seu trabalho em casa e casa, no sentido lugar, abrigo para a
“nossa humanidade”. Conforme Jackson, “conexões virtuais podem acrescentar um
relacionamento, mas não sustentam um lar” (Jackson, ibidem, 156).

“Minhas filhas sempre pedem histórias na hora de dormir, e eu, rotineiramente,


brindo-as com carinhos e aconchegos no escuro; contos de fadas e elfos e destemidas
crianças. [...] Nós amamos esta parte do dia. Mas, não muito tempo atrás, ao invés
de ficar, eu me via oferecendo-lhes, às pressas, os últimos goles d’água e, se elas
estivesse especialmente falantes, dizia-lhes ‘Vão pra cama! Mamãe tem que
terminar o trabalho dela!’
Isto me fez dar uma pausa. Sempre tive, como prioridade, passar longos períodos
com minhas filhas [...]. No entanto, agora eu via meus prazos de trabalho
invadindo a tranqüilidade da sua hora de ir dormir.

221
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

[...] percebi que as velhas regras de trabalho haviam-se ido, mas estava tendo
problemas em criar outras novas. Mais do que isto, minha vida doméstica mudara
dramaticamente, e eu me perguntava o que eu havia ganhado e perdido neste
processo. Tive a impressão de que se eu continuasse neste caminho, logo eu não
teria mais um lar.” (Jackson, ibidem, p. 13-14)

Aristides também reúne em sua casa as ações de morar e trabalhar. Ele e sua esposa
são fotógrafos de culinária, e, como ele afirma, sua vida “é ou fotografando ou
cozinhando”. Para isto, entende que, em sua casa, o cômodo principal deve ser a
cozinha. Contudo, Aristides sente que o espaço de trabalho está invadindo seu
espaço de “viver” em sua casa, na medida que traz, como referência de
domesticidade e como sentido de lugar do habitar doméstico, as experiências da
família grande reunida em torno do fogão (eventualmente a lenha) e da mesa,
vividas na casa da infância, para as quais não está tendo o espaço suficiente. Por isto,
planeja mudar‐se para uma casa maior, onde possa estabelecer uma distinção entre
as atividades profissionais e o morar:

“[...] Sou apaixonado por fotografia e por comida. Eu fotografo culinária, então,
minha vida é ou fotografando ou cozinhando. Então, na minha casa, o cômodo
principal tem que ser a cozinha. Eu e minha mulher temos esse pensamento em
comum. [...]
A entrada da casa é pela cozinha. Tem a cozinha em baixo e o resto dos cômodos em
cima. Na cozinha tem computador, telefone; Tudo o que eu preciso para me
comunicar em meu trabalho está lá. [...] Não tenho uma sala de visitas. Tem só uma
salinha onde a gente lê, onde a gente pesquisa, que, na realidade, é o meu escritório.
Eu recebo meus amigos na cozinha. Lá, eu tenho uma mesa de oito lugares. Ou o
pessoal fica na mesa, ou em volta do fogão. Mesmo porque, eu venho de uma família
que tem a tradição de ficar na cozinha, família italiana. Tanto é, que na casa dos
meus pais não tem cadeira, é banco. Quando não tem ninguém, é vinte, trinta
pessoas.
[...]
A única coisa que está acontecendo, agora, é que nós vamos mudar de novo, mas
para uma casa um pouco melhor que essa. Porque a minha casa é o meu estúdio,
hoje. Muitas coisas eu fotografo dentro da minha cozinha e já mando pro cliente por
e‐mail. Só que, com esta minha cozinha, eu não estou tendo espaço suficiente para
trabalhar e viver na minha casa. Por exemplos, na minha cozinha não tem como eu
colocar um fogão a lenha, eu quero o meu cantinho a lenha. Mas eu quero a minha

222
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

tecnologia também. Então, a gente comprou um terreno e está projetando. É que eu


não tinha um canto pra fotografar; agora eu vou ter.” (Aristides)

...

Retomando a idéia, inevitavelmente embasada nas visões humanista e


fenomenologista de lugar, segundo a qual o habitar dos homens – o seu estar-no-mundo
– está condicionado a laços e ao sentido de apego que esses homens estabelecem com
determinados lugares, vejo como especialmente apropriada a concepção de Cresswell,
segundo a qual a idéia de casa (“lar”, home), é o exemplo de lugar mais familiar e
importante para as pessoas – considerando-se, aqui, todos os significados que venham
a envolver esta idéia. Neste sentido, e ao tratarmos, aqui, do lugar do habitar
doméstico, é que a casa funcionaria como uma metáfora para a idéia de lugar em
geral (Cresswell, 2004, p. 24).
Vendo a idéia de casa, ou de espaço habitado privadamente, como uma
forma elementar e ideal de lugar, Cresswell dirá que o lugar em que se habita
domesticamente está “bem no coração da Geografia Humana”. Com isto, o autor fala
da busca, familiar a quase todas as pessoas, de se procurar “sentir-se em casa” em um
local; de tornar um local agradável para se viver. Mesmo que, em muitas situações,
essa tentativa não obtenha sucesso, sua importância reside no fato de ela ser uma das
principais maneiras pelas quais produzimos um lugar (Cresswell, 2004; p. 93).

É desta forma que o entrevistado Reginaldo, que viaja a trabalho há quinze anos,
ficando, por vezes, longos períodos longe de sua casa e de sua família, procura sentir‐
se em casa nos hotéis em que se hospeda. Ainda que consciente de não estar no seu
lugar (mesmo permanecendo “90%” do seu tempo longe de casa), Reginaldo procura
ambientar os quartos do hotel onde permanece morando por um período com
referências que fazem a ligação entre sua casa – seu lugar, sua origem, seus hábitos,
seus laços afetivos, sua identidade – e a efemeridade do habitar esse “não‐lugar”,
que é o quarto de hotel:

“...E o quarto do hotel, por menor que ele seja, acaba sendo a minha casa.
[...]
eu procuro deixar o quarto organizadinho: eu já estou num lugar diferente, que não é
meu, então preciso ter as coisas mais organizadas. A primeira coisa que eu faço,
quando chego, é tirar as coisas da mala, coloco no armário, e deixo tudo organizado.

223
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Tem umas fotos da minha mulher e dos meus filhos que eu coloco do lado da cama
do hotel: em vez de eu levar para o trabalho, como lá eu não tenho um escritório...
Todo mundo sorrindo, é uma forma de eu estar perto deles...” (Reginaldo)
****

De maneira semelhante, a entrevistada Maria procura dar aos quartos de hotel em


que se hospeda o sentido de lugar:

“Ah... toda vez que eu viajo, eu passo uma certa vergonha porque eu levo muita
bagagem. Por exemplo, eu consulto o I‐Ching, então são quatro livros, mais dois
livros que eu sempre estou lendo – eu não consigo ler um só livro de cada vez –, e,
principalmente, meu notebook, para estar em contato com as pessoas. Esse é meu
kit socorro espiritual – que é a minha casa, na verdade. Eu estando com isso, eu
estou me reconhecendo; eu consigo, através desses pequenos objetos, imantar o
lugar com a minha energia.” (Maria)
****

Retomo, aqui, o caso do entrevistado Lúcio138. Tendo convivido desde criança com
um estilo de vida móvel de sua mãe, o qual foi incorporado às suas relações com o
habitar doméstico já como adulto, levando‐o a não estabelecer vínculos com os
locais onde mora, Lúcio atribui o processo de percepção de lugar a cada local onde
mora não à familiaridade com esses locais, conseqüência de longas permanências,
mas à personalização desses locais feita com os poucos objetos pessoais – estes sim,
imbuídos de significados e valores incorporados – que carrega consigo: minha casa é
a minha mochila”, afirma. Por um lado, a personalização do ambiente que o faz ser
percebido como lugar adquire, para Lúcio, o caráter de transitoriedade trazido desde
a infância: de que aquele espaço poderá, a qualquer momento, ser deixado para trás
e aquilo que o torna percebido como lugar está pronto para ser transportado para
outra localidade. Por outro, o fato de esses objetos atribuírem a cada novo local um
sentido de – nas palavras de Lúcio – “déjà vue”, pode, de certa maneira, ser
interpretado como a busca por um sentido de continuidade e familiaridade em
relação aos lugares onde está:

“Já na idade adulta, por muitos anos, morei em flat, aqui em São Paulo – eu tinha a
quem puxar, não é? No flat, eu poderia fazer uma decoração interna a meu gosto, ou
fazer uma decoração padrão. Eu pensei, vou fazer uma decoração padrão porque à
hora que eu quiser sair, saio, alugo, e está dentro do padrão. Aí, mudei muito pouca
coisa. O que eu tinha é minha maleta com as minhas coisas, que eu dispunha no

138
Apresentado no Capítulo 1.

224
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

espaço do flat – só isso. Eu não mudei os ambientes – derrubar parede, mudar uma
janela, por exemplo –, mas eu levava coisas pra lá, pra mudar a decoração e deixar o
ambiente com meu modo de ser, com as minhas coisas.
[...]
Hoje, a minha casa é minha mochila. Todo mundo dá risada – a mochila tem tudo! Eu
posso ir daqui pro Rio, pra Buenos Aires, pra Nova York, com a minha mochila; eu
tenho tudo que preciso, essencialmente, ali.” (Lúcio)
****

A seguir, Analu e a esposa de Rui dão seus depoimentos sobre como procuram
personalizar os ambientes em que permanecem – mesmo que por poucos dias – de
acordo com seus padrões de organização doméstica, conforto e aconchego, para,
assim, poderem sentir‐se bem:

“[...] Eu tenho uma coisa, assim: mesmo que eu vá na casa de outra pessoa pra ficar
uns dias – eu me acho até chata –, [...] eu tô olhando o que eu tô gostando e o que
eu não tô gostando. E eu tenho a manha de remover coisas que eu não gostei, e
deixar do meu jeito! Sei lá, eu vou ficar três dias ali, então esses três dias, eu vou
alterar tudo, depois eu volto do jeito que tava... mas é pra eu ficar bem ali. Tem a
casa da avó do meu namorado [...]. Uma casinha bem simples, bem humilde; e ela tá
velhinha, coitada, tem milhões de cachorros, não pode limpar a casa direito. Daí, eu
vou lá pra passar o fim de semana e penso ‘eu vou pegar uma doença, contaminada
pelo cocô desses cachorros’. É impressionante minha cabeça, às vezes, eu penso
‘pára de ser assim!’. Mas, [...], aí eu faço a faxina, eu arrumo tudo, coisa por coisa
num armário, tiro coisa que tá espalhada... Aí, beleza, passou três dias e eu fiquei
bem aqui. Onde eu vou, eu tenho essa coisa.” (Analu)
****

“Eu eu levo cinco minutos para fazer o quarto do hotel ficar igualzinho a minha casa:
meu criado mudo do mesmo lado, durmo do mesmo lado, deixo as coisas na gaveta e
pronto.
Eu levo álcool e desinfeto o banheiro. Eu gosto muito de tomar banho em banheira.
Então, nós levamos um vidrinho de álcool, pomos na banheira e tocamos fogo pra
desinfetar: abre tudo, cortina, toma as providências, e fogo pra desinfetar.” (esposa
de Rui)

225
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

A conexão do conceito de lugar à casa pode, também, ser confirmada, se


consideramos os aspectos analisados nos capítulos anteriores, nos quais pudemos
observá-la como um meio que, com sua materialidade, acolhe-nos e às nossas
necessidades físicas e emocionais; incorpora nossos valores e se torna nosso lugar
privado; e nós, por nossa vez, em nosso habitar doméstico cotidiano, passamos a
estabelecer um sentido de pertencimento a esse lugar/casa e a distingui-lo de qualquer
outro lugar no mundo. Desenvolvemos laços especiais com um lugar justamente por
ele ter profundo significado para nós; por nos identificarmos com ele, a ponto de ele
tornar-se parte importante de nós. Este processo é pessoal e ocorre através da maneira
pela qual individualmente construímos nossas noções de lugar (Gifford, 1997, p. 225-
226).
Considerando a casa como o centro de nossa identidade, no sentido de
que, sendo criaturas sociais, ela inclui nosso senso de família ou parentesco, etnia,
pertencimento e status socioeconômico, Gifford dirá que nossa casa é parte
importante de quem somos. E é quando nos vemos ameaçados de perder, ou de fato
perdemos, o lugar que temos como mais querido, ao qual nos vemos mais
intimamente conectados, que se revela da forma mais clara o valor do que se entende
por lugar (Gifford, ibidem, p. 196, 225, 226, 127).
Para chegar no mesmo ponto de Gifford, Azfar Hussainxxix parte do
princípio de que lugares são experimentados pelas pessoas como tais pelo fato de elas
próprias os criarem, os habitarem, os reproduzirem, os celebrarem, os transformarem
e até os destruírem. Com isto, o autor dirá que o lugar apóia e define o ato de Ser; ou
seja, a pessoa se torna o que é, em virtude de estar em um lugar; e um lugar se torna o
que é em virtude de oferecer um possível sentido de identidade a tudo aquilo que
existe naquele lugar. Assim como as pessoas definem os lugares, os lugares definem as
pessoas; ou seja, dirá o autor, “perder o lugar é perder a identidade e vice-versa”
(Hussain, 2006).

A seguir, peço permissão para, novamente, trazer o depoimento de Marly139, dona de


um circo e moradora de um trailer, quanto à sensação de “perder” esse lugar do seu
habitar doméstico:

139
Apresentada no Capítulo 1.

226
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

“[...] Já aconteceu algumas vezes, de ter algum acidente com o trailer, ou você
precisar fazer uma manutenção, ter que levar pra fábrica, ficar de uma a três
semanas sem o trailer... é horrível, você perde seu chão, é uma coisa muito
engraçada... [...] Então, quando você não tem isso, você fica perdida, sem saber onde
é o seu referencial. E assim é com todo mundo do circo.” (Marly)

O estado de se ser ou estar sem-casa além de denotar, no sentido mais


básico, a falta de uma habitação, significa, também, “estar ‘sem-lugar’”, ou seja, estar
desconectado dos aspectos específicos que compõem o lugar: falta algo em nossa
existência – o que torna esta condição mais fundamental ainda do que a de se ser
privado de um teto, no sentido restrito desta expressão (Cresswell, 2004; p. 111, 115).
Ao afirmar que todas as nossas ações, públicas ou privadas, são “situadas”, e que há
poucas coisas significantes que podemos fazer que não envolvam o uso de algum
lugar, Peter King acrescenta às considerações acima o argumento de que ser “sem-
casa” é aquela condição na qual todos os lugares – com exceção dos públicos, e
mesmo assim, com restrições, – estão fechados para nós; condição na qual só
podemos estar em algum lugar com a tolerância dos outros (King, 2004; p. 169 e
King, 2003; p. 55).

[...]
E hoje nóis pega as paia nas grama do jardim
E pra esquecer nóis cantemos assim:
Saudosa maloca, maloca querida
Dim dim donde nóis passemo os dias feliz da nossa
vida

(Adoniran Barbosa. Saudosa Maloca)

Tendo passado pelos caminhos normalmente trilhados pelas pessoas que deixam
suas casas para viver na rua, como a exclusão do mercado formal de trabalho, a
perda de vínculos familiares, o alcoolismo, a esperança frustrada de "ser cuidado" e
amparado em sua luta (como aponta Carbone, 2000), e não percebendo sua casa
como lugar de acolhimento físico e referência emocional, a entrevistada Lucélia140
passou a buscar esse apoio através dos eventuais contatos que estabelece e nos
locais que freqüenta em suas vagueações pelas ruas: alguém com quem partilha um

140
Apresentada no Capítulo 2.

227
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

pedaço de calçada para dormir, ou que lhe cede uma manta, ou o funcionário de um
restaurante que lhe dá uma refeição, ou permite que ela use o sanitário, etc.141:

“[antes de ser encaminhada por um Promotor de Justiça à instituição onde mora


atualmente] eu saía muito: pegava o ônibus, visitava a minha tia, dizia que ia dormir
na casa da minha colega, e não voltava pra casa. E às vezes, eu passava a noite na
rua...
[Por que?]
porque eu queria. Passava da hora, chegava em casa no escurecer – eu tenho medo
de descer ladeira –, não tinha ninguém pra descer eu; aí, então, eu ficava na rua.
Sozinha. Eu não tinha medo, não. Nunca aconteceu nada. No outro dia, eu voltava, e
aí minha filha falava ‘agora que tá chegando?’, e eu respondia ‘é, agora que eu tô
chegando’.
[...]
Eu entrava num restaurante, pagavam pra mim Coca‐Cola, pagavam pizza. Eu pedia
dinheiro, também, fora de lá. Eu comprava ovo de codorna – um real, treze ovo de
codorna – e comia... sorvete... e assim ia passando o tempo.
[...]
Eu ia [ao banheiro] no restaurante, na pizzaria. Ia lá, e às vezes ia no banheiro do
posto de saúde da Guilherme Cotching142.
[...]
[Eu dormia] no papelão, com uma manta cobrindo. Deitava um pouquinho, depois
levantava, andava um pouco, depois voltava, deitava mais um pouco, até amanhecer
o dia. Tinha uma moça, que também dormia na rua, e eu dava o cigarro pra ela. E eu
deitava ali e ficava. Sempre no mesmo lugar... e nem levava nada de casa – a manta,
eu ganhei de uma mulher; e eu deixava guardada na casa dela. Quando eu chegava,
ela me dava a manta, e eu dormia.
[...]
Uma vez um caminhão pegou os meus dois pé. Saía muito sangue. Nesse dia, eu tava
na rua. A polícia dali de perto que me deu socorro. Uma pessoa que conhece a
Denise, na firma, viu, telefonou pra ela, ela avisou minhas tia, e minhas tia foram
avisar minha filha. E ela foi no hospital me ver. Fiquei internada um mês e quinze dias
– só fazendo curativo.” (Lucélia)

141
E aqui, lembro-me de DaMatta, ao afirmar: “nada pior de que ter de fazer uma necessidade
fisiológica na latrina pública”; ou ainda, que “pior que tudo isso é, evidentemente, morrer fora e
longe de casa” (DaMatta, ibidem; p. 59).
142
A Avenida Guilherme Cotching é uma das vias principais do bairro de Vila Maria, zona norte de
São Paulo.

228
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

A partir das reflexões teóricas e dos depoimentos aqui apresentados,


espero ter podido construir um embasamento para a idéia trazida no início deste
trabalho, segundo a qual, o habitar implica o estabelecimento de uma relação
significativa entre o homem e um determinado lugar.

229
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Parte III

Casa: um lugar sagrado?

230
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Parte III

Casa: um lugar sagrado?

Sagrada é minha lareira: sagrada seja-te minha casa! (Wagner)143

Ao longo das investigações sobre o lugar do habitar doméstico, vimos a


casa – tradicionalmente associada à autenticidade de relações ali ancoradas e à idéia
de refúgio contra a realidade mundana e superficial – passar a ser considerada sob o
prisma da crescente permeabilidade da esfera privada pela realidade do mundo
público. Ao mesmo tempo, vimos moradores – mesmo os que mais viajam e se
ausentam de suas casas, e que convivem diariamente com a “abertura” do mundo
doméstico às influências da esfera pública – falar do sentido de pertencimento ao
lugar onde habitam domesticamente: sua casa, aquela com a qual se identificam mais
do que com qualquer outro lugar no mundo, na qual se percebem inseridos e
acolhidos para praticar em privacidade, ou ao lado dos que querem bem, a forma
mais íntima de habitar.
Esse sentido de identidade e pertencimento em relação à casa, que
preserva a idéia tradicional de lugar, tal como a vimos definida anteriormente, traz de
volta as primeiras idéias de casa, abordadas neste trabalho: a casa, como um refúgio
seguro e garantia de privacidade e preservação de nossa interioridade; um lugar
central de significados e um campo de cuidados onde lidamos com nossas questões

143
Richard Wagner. “A Valquíria” (Die Walküre), da Tetralogia “O Anel do Nibelungo”. In:
http://www.luiz.delucca.nom.br/wep/rw_rn2walkure1_1.html.

231
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

mais íntimas e privadas; onde sabemos que podemos ser nós mesmos, sem as
máscaras que trazemos nas relações estabelecidas no habitar público; onde
encontramos o campo mais adequado para desenvolver nossa individualidade, refletir
em privacidade sobre nós mesmos e sobre nossas vida – percepções que foram
exteriorizadas através de várias entrevistas:

“[...] E aí, a casa é isso, assim. Ela comporta momentos de alegria, de tristeza,
de dúvidas, de angústias, de medo... e ela me protege, mesmo. Eu tenho ali,
com meu refúgio; tipo assim, graças a Deus, eu tenho esse ponto pra voltar,
sabe?” (Analu144)
****

“[...] Mas, chega uma hora que eu quero é a minha casa. Chegar, pôr o chinelo e ficar
à vontade. Também, se eu não sair, tá tudo bem; eu tô na minha casa, tá tudo bem.
[...] ” (D. Antônia145)
****

“[...] Porque eu sou extremamente caseiro. Eu preciso de uma casa.” (Pedro146)


****

“[...] Porque você pode ir aonde for na cidade, mas você sabe que vai voltar e vai pro
seu canto. [...]. Então, quando você não tem isso, você fica perdida, sem saber onde é
o seu referencial.” (Marly147)
****

“[...] Você não convida qualquer um, por respeito pela sua casa.” (Hermes148)

Considerando todas estas idéias, exploradas aqui através de dimensões do


habitar doméstico – a casa física, os usos objetivo e subjetivo da casa, privacidade e
intimidade domésticas, o cotidiano doméstico e o lugar do habitar doméstico –, proponho
para esta última Parte, a reflexão sobre um aspecto que surge abarcando todas essas

144
Apresentada no Capítulo 1.
145
Apresentada no Capítulo 2.
146
Apresentado no Capítulo 2.
147
Apresentada no Capítulo 1.
148
Apresentado no Capítulo 3.

232
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

dimensões, e que muitas vezes transparece nos depoimentos aqui registrados: o de ser
essa casa percebida por aqueles que a habitam como uma espécie de lugar sagrado:

Sagrado do Latim sacrátus,a,um: Que não se deve infringir; inviolável; muito


estimado, em que não se deve tocar ou mexer (Houaiss, 2001)

Justamente por esta reflexão abarcar todas as dimensões segundo as quais


o habitar doméstico foi investigado neste trabalho, é que alguns dos trechos de
depoimentos apresentados em capítulos anteriores serão reapresentados aqui, no
sentido de serem novamente observados, agora sob o prisma dessa nova análise.
É comum as pessoas referirem-se à sua casa com a expressão “minha casa é
sagrada!”. Tal expressão transmite o sentimento de profundo respeito e consideração
que elas nutrem por esse lugar estimado, diante da qual as atitudes e atividades
praticadas devem acatar e refletir esse caráter especial, distinto daquele vivenciado no
mundo profano lá fora. Lembro, aqui, da referência feita por Roberto DaMatta à casa
brasileira como “um santuário”, “um espaço infenso ao tempo linear”, imune às
“coisas ‘lá de fora’, do mundo e da rua” (DaMatta, 2000; p.53).
Buscando entender essa percepção além do caráter de extrema
subjetividade que ela envolve, proponho discutir, inicialmente, algumas
considerações teóricas sobre o sentido de sagrado, para, em seguida, analisar o
processo pelo qual esse sentido pode ser aplicado à casa.

O sagrado como uma “quebra qualitativa”

O entendimento do historiador e filósofo Mircea Eliade (1987) a respeito


do “espaço sagrado” e do meio que não pertence a esse âmbito, ou seja, o “espaço
profano”, me parece iluminador para esta questão. E é nesse entendimento que
baseio as considerações que virão a seguir. Considerada sob a ótica do homem
religioso, a distinção entre as percepções do espaço como “sagrado” ou “profano”
elaborada por Eliade dar-se-ia pelo fato de o espaço como um todo – ou seja, o
mundo em que habitamos –, não ser homogêneo em termos de como o percebemos.
Seriam o que o autor chama de “quebras”, “interrupções” em relação à percepção da
neutralidade desse espaço – “sem estrutura, amorfo” –, que definiriam algumas de

233
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

suas partes como qualitativamente diferentes de outras. Tais “quebras” significariam a


própria revelação do sagrado (Eliade, ibidem; p. 20, 21).
Essa interrupção na homogeneidade do espaço, além de ser uma
experiência religiosa, seria uma experiência primordial de percepção do mundo em
que vivemos, uma espécie de referência que estabelecemos em relação à vastidão desse
mundo: “um ponto fixo absoluto”, dirá o autor, um “eixo central” ao qual se referem
todas as nossas orientações futuras. Partindo da premissa de que as experiências
humanas não podem se realizar, a não ser a partir dessa orientação, Eliade considera
que o espaço em que procuramos fixar moradia tampouco poderia simplesmente
nascer no caos da homogeneidade e da relatividade do “espaço profano”, onde
nenhuma interrupção ou quebra diferenciam as várias partes de sua massa (Eliade,
ibidem; p. 21, 22).
A visão de Eliade aproxima-se da concepção de Christian Norberg-Schulz,
vista no início deste trabalho, a qual vê o estabelecimento do habitar doméstico como
resultado do processo de distinção, na vastidão do mundo público, de um lugar
específico para habitarmos privadamente. Ao mesmo tempo, passamos a ver Otto F.
Bollnow adotar as categorias de Eliade quanto à experiência do espaço sagrado – “um
espaço cheio de forças, significativo” (Eliade; ibidem; p. 20 e Bollnow, 1969; p. 132)149
– para se referir à própria casa do homem como um espaço sagrado. Ou seja, Bollnow,
como Eliade, também trazer a idéia de que o homem não pode viver no caos de um
mundo infinito, pois se sentiria desamparado. E é a partir dessa concepção, que o
autor, atribuindo o caráter da materialidade a essa referência espacial, passa a associá-
la à própria casa do homem (Bollnow, ibidem; p. 117- 118). Assim, se consideramos o
habitar universal como o nosso “estar no mundo”, a casa – nosso centro concreto
nesse mundo – seria nossa referência, o ponto que “apóia” nossa existência no
mundo.
Como observa Bollnow, a própria correspondência entre a visão do
homem religioso, que distingue, no espaço profano, o lugar para erguer o seu templo,
e a do homem comum, ao destacar, no mundo público, um lugar determinado para
habitar domesticamente, já se esclarece etimologicamente. Isto porque a palavra
latina templum, antes de ser usada para designar o edifício, literalmente significava “o

149
As publicações de Eliade e Bollnow, as quais passo, agora, a relacionar, foram lançadas,
respectivamente, em: 1956 (Eliade, Mircea: Le Sacré et le Profane) e 1963 (Bollnow, O. Friedrich:
Mensh und Raum).

234
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

recortado”, “o separado”, “a parte do céu que é recortada pelo vôo das aves, destinada
à interpretação dos augúrios” (Nissen, 1869, Apud Bollnow, ibidem; p. 133, 134).
Analogamente, em relação à distinção de um local para a localização de um templo,
Bollnow nos diz que a construção da casa, nos tempos primitivos, significava “a
fundação do cosmos em um caos” (Bollnow, ibidem; p. 134).
Por outro lado, ao contrário da experiência do sagrado, a experiência do
espaço profano é vista por Eliade como uma existência de eterna relatividade. Isto,
pelo fato de no espaço profano vivermos regidos por obrigações de uma existência na
sociedade industrial, na qual, ao invés de adotarmos como referência o “eixo central”,
qualitativamente distinto e significativo, uma verdadeira quebra no caos do mundo
vasto, adotamos referências efêmeras, a partir dos infinitos lugares "mais ou menos
neutros” desse mundo – os quais surgem e desaparecem a cada momento, de acordo
com as necessidades do dia (Eliade, ibidem; p. 23, 24). E aqui, no intuito de investigar
a correspondência entre a experiência do espaço sagrado e o sentido do habitar
doméstico, considero possível uma relação entre a esta análise de Eliade – sobre a
relatividade da experiência mundana – e o sentido de inautenticidade em relação à
experiência do lugar do habitar doméstico, que vimos anteriormente, pelo prisma da
Geografia Humanista, representado pela mobilidade e transitoriedade modernas. O
desenraizamento, visto por Edward Relph, como uma atitude inautêntica e
meramente conveniente e aceitável pela sociedade (Relph, 1976; p. 82. Apud
Cresswell, 2004; p. 44), poderia, assim, ser relacionado à própria experiência do
espaço profano, tal como aqui vemos descrita por Eliade. Analogamente, poderíamos
identificar uma relação entre a experiência do lugar sagrado, descrita pelo autor, e a
própria experiência do lugar do habitar doméstico, no sentido de ambos serem
percebidos como o ponto de referência que nós, habitantes, distinguimos em relação
ao mundo vasto em que nos inserimos.

235
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

centro enraizamento
de e
referência pertencimento
habitar
doméstico

lugar
sagrado

Fig. 15 O lugar do habitar doméstico e


a experiência do sagrado

Esta relação, aplicada à casa, como lugar do habitar doméstico, é bem


traduzida nas palavras de Kimberly Doveyxxx, que descreve a casa como...

“um lugar de segurança dentro de um mundo inseguro, um lugar de certeza dentro


da dúvida, um lugar familiar em um mundo estranho, um lugar sagrado em um
mundo profano. [...] um lugar de autonomia e força em um mundo cada vez mais
heterônomo, onde os outros fazem as regras.” (Dovey, 1985; p. 46. Apud
Marcus, 1995; p. 189).

... ou de Yi-Fu Tuan, ao chamar sua casa de “céu”:

“Há meia hora, eu estava caminhando pelas margens do lago. Começou a chover,
e eu escapei para dentro do meu quarto. Meu quarto – minha casa – é um céu,
um pequeno mundo que é criado para me proteger da natureza ameaçadora.”
(Tuan, 1998; contents)

E esta relação é, também, percebida no depoimento da entrevistada Marly que, a


despeito da opção pela vida nômade do circo, longe de uma casa convencional,
exprime a diferença entre viver em hotéis, deslocada do seu ambiente doméstico, e o
sentido – partilhado por sua família – de enraizamento e pertencimento ao lugar
habitado domesticamente. Tal como ela depõe, seu trailer, antes de tudo, é o
referencial físico e emocional. É a quebra qualitativa na experiência de relatividade
vivida em relação aos outros lugares encontrados no mundo:

236
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

“[...] eu adoro morar em trailer. Antes de morar no trailer, eu morei quase dois anos
em hotéis, mas não é tão bom. Não sinto falta nenhuma de morar em casa. Eu acho o
trailer a melhor opção porque eu tenho o bom da casa e a facilidade de me mover,
como ficar em hotel.
[...]
A sensação que você tem, quando você não tem o trailer, é que você perde o
referencial. [...] Você quer voltar pra o seu lugar de descanso, pra onde estão suas
coisas. Então, quando você não tem isso, você fica perdida, sem saber onde é o seu
referencial. E assim é com todo mundo do circo.

E eu percebo isso, também, nos filhos. Os meus dois foram criados no circo – eu vou
te mostrar o quarto deles. A gente, às vezes, saía pra algum lugar, daí eles falavam
‘ai, mãe, estou louco pra ir pra casa’: a casa era o trailer.

[...] – pra você ver – eu tenho muitos amigos em São Paulo, e, quando vou jantar
fora, eles sempre me convidam pra eu dormir lá, pra eu não voltar tarde da noite.
Mas eu prefiro voltar, quero ir pro meu canto. Na quinta‐feira, mesmo, era meia‐
noite e meia, quando eu saí de uma churrascaria com uns amigos. Uma amiga disse
‘você vai dormir lá em casa’. Mas eu preferi voltar pra cá. E o apartamento dela é
enorme, tem um quarto de hóspedes, mas eu prefiro voltar para a minha referência
de lar, minha casa, meu espaço” (Marly)

Mas, se voltamos a considerar a permeação do mundo público na esfera


privada, é possível afirmar que o contexto tecnológico (que desloca e desenraiza) em
que vivemos atualmente representa, se não uma “ameaça” – tal como consideravam
as visões tradicionais sobre a experiência de lugar –, é, certamente, uma força
transformadora da percepção da casa frente ao mundo em que se insere. Assim, é
admitindo a inevitável permeabilidade do que chama de “forças caóticas” da
experiência mundana pela esfera doméstica, que Bollnow considera “tarefa
inalienável” a esse homem a luta constante para defender sua morada contra tais
perigos que possam vir a ameaçar a sua condição de lugar de paz e amparo (que pode
ser a da própria experiência do lugar sagrado) (Bollnow, ibidem; p. 129). E a
justificativa para esta consideração está no fato de que, como dirá o autor, mesmo em
nosso tempo profano, o fato de no habitar humano conservarem-se “certos resíduos
insolúveis da vida arcaica” faz com que a casa ainda hoje guarde um “certo caráter
sagrado” (Bollnow, ibidem; p. 130-131).

237
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Eliade nota que mesmo na experiência da espacialidade vivida pelo


homem não religioso – aquele que rejeita a sacralidade do mundo e que faz sua
escolha em favor de uma existência profana, “desvestida de todas as pressuposições
religiosas” –, essa experiência nunca acontece em seu estado puro. Ou seja, mesmo
que consideremos a vida relativa vivida no espaço profano, esta ainda inclui valores
que, de alguma forma, remetem à não-homogeneidade inerente à experiência do
espaço sagrado. Assim, mesmo para o homem mais francamente não-religioso, dirá
Eliade, existirão “lugares privilegiados, qualitativamente diferentes de todos os
outros”, tais como o lugar onde se nasceu e passou a infância, ou a própria casa onde
se mora com a família, os quais, detentores de uma qualidade excepcional e única aos
olhos desse homem, seriam chamados pelo autor de “lugares sagrados do seu
universo privado” (Eliade, ibidem; p. 23, 24).
Diante destas considerações, é possível identificar a desvinculação do
conceito de sagrado do plano do religioso e sua vinculação a outros lugares e
vivências. Uma vez entendendo-se a experiência do sagrado como uma quebra
qualitativa em relação ao mundo profano, desprovido de referências, penso ser
possível considerar essa experiência também na escala do habitar doméstico em
relação ao habitar no mundo público – uma vez que a casa, para aquele(s) que a
habita(m), é vivida e experimentada de forma distinta de como o são todos os outros
lugares do mundo:

“Home is where one starts from”(Casa é o lugar de onde partimos) (Eliot, T. S.,
1940)150

...

Contudo, a quebra qualitativa que distingue um ambiente doméstico do


mundo público pode, de certo modo, ser percebida não apenas em relação ao nosso
próprio espaço habitado. Podemos, também, percebê-la em outros ambientes
domésticos que não o nosso próprio, assim como somos capazes de perceber a
sacralidade de um templo, mesmo que não partilhemos da fé de quem o erigiu. A
este respeito, Bollnow nos lembra que “até mesmo aquele que costuma tratar a

150
Do segundo, da obra de quatro poemas “The Four Quartets” de T. S. Eliot: “East Coker”, de
1940. In http://en.wikiquote.org/wiki/The_Four_Quartets

238
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

propriedade alheia com relativa despreocupação, sente um certo respeito ao penetrar


na casa de outro, sem ter sido convidado”. No valor atribuído à inviolabilidade da
morada e em relação à proteção geral da esfera íntima do homem151, Bollnow dirá
que “vibra um peculiar caráter sagrado” (Bollnow, ibidem; p. 131).
Um amigo contou-me que, logo após o falecimento de uma velha tia
solteira, a fim de organizar e dar uma finalidade aos objetos pessoais deixados por ela,
ele voltou à casa onde a tia vivera por quarenta anos. Também ele, por muitos anos, a
visitara e, juntos, tomaram o café da tarde servido na louça que pertencera a sua avó,
mãe de sua tia, de modo que aquele ambiente sempre esteve relacionado aos seus
laços familiares. Por muitas vezes, a tia e ele conversaram à mesa da cozinha, ou
sentados no sofá da sala, e ele ouvira histórias da família, de quando ainda era
criança, ou de quando sequer era nascido. Assim, ao voltar à casa da tia, a visão dos
objetos guardados no armário de porta de vidro, tal como ela trazia com especial
cuidado, a pouca luminosidade dos ambientes, devida ao reduzido tamanho das
janelas antigas, a mistura peculiar dos odores daquele ambiente doméstico, tão
conhecidos para ele, traziam-lhe a sensação quase concreta da presença da tia em seu
vai-e-vem pela cozinha, preparando-lhe o café, colocando-o sobre a mesa – numa
combinação de aspectos, como já pudemos analisar anteriormente, responsáveis por
um profundo sentido de lugar. Tais sensações o levaram à necessidade de,
mentalmente, pedir permissão à dona da casa, ainda que não mais presente, para
entrar. Assim, contou-me que, respeitosamente, procurou – como se, neste momento,
fosse possível – não profanar a sacralidade daquele lugar.

O objeto casa

Se, a partir de agora, voltássemos a considerar a casa objetivamente, ou


seja, afastando-nos o máximo possível de nossas perspectivas pessoais e pondo-nos
além das contingências do eu (Nagel, 1996, p. 13, 14), poderíamos chegar à seguinte
questão: como a casa, algo, a princípio, corriqueiro e comum, adquirível na esfera
profana do mercado, poderia ser experimentada como sagrado? Se esta pergunta fosse
feita aos acadêmicos da área de comércio e comportamento em marketing, Russel W.

151
Aspectos que pudemos analisar no capítulo 3.

239
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Belkxxxi, Melanie Wanderdorfxxxii e John Sherryxxxiii, a resposta seria que qualquer coisa
– objetos, produtos, experiências, pessoas, ocasiões, etc. – pode tornar-se sagrada; que
a religião é um, mas não o único contexto em que o conceito de sagrado pode ser
utilizado, e que a necessidade universal de experimentar o sagrado, como uma
experiência transcendente, é satisfeita por cada indivíduo, ou grupo de indivíduos, de
formas distintas. Considerando que o sentido de sagrado está relacionado àquilo que
é criado ou revelado como “supremamente significante”, os autores argumentam que,
neste sentido, a sociedade industrializada não seria diferente de qualquer outra (Belk
et alii, 1991; p. 527-528).
O tornar algo sagrado, segundo os autores, seria, em grande parte, “um
processo de investimento”, exercido de várias formas e em diferentes graus de
intensidade ontológica, no sentido de atribuir significados a algo, a princípio
genérico, e transformá-lo, simbolicamente, em algo que, ao longo do tempo, passa a
ser percebido, por aqueles que nele investiram, como sumamente significante.
Partindo desta abordagem, Belk et alii afirmam que a experiência de “transcendência”
do sagrado pode surgir da própria experiência do consumo, na medida que elegemos
certos objetos ou experiências de consumo, a princípio comuns – “simples
commodities” –, como representantes de algo mais do que o algo comum que eles
aparentam ser – o que faz com que tais objetos ou experiências passem a ser
percebidos como o que a sociologia da religião chama de sagrado (Belk et alii, ibidem;
p. 527-528).
Neste contexto, uma vez que a casa, objetivamente, pode ser vista como
um objeto genérico, inicialmente neutro, em termos de percepção valorativa,
poderíamos voltar a perguntar: de que modo esse objeto – o qual, para os propósitos
desta discussão, passo a chamar de objeto casa – passa a prover aos seus usuários a
experiência de quebra qualitativa em relação à homogeneidade e relatividade do
mundo (“profano”) em que ele se inserem? Falar da sacralização da casa é tratar da
transformação do modo como ela é percebida e experimentada por seu(s)
habitante(s), num processo que se dá ao longo do tempo, na relação cotidiana de uso
do espaço habitado, e que tem início no momento em que essa casa, ainda objeto, é
destacada, em meio à relatividade do espaço público – seja por razões de preço,
localização, forma, ou até algum motivo menos objetivo –, para abrigar o habitar
doméstico de alguém.

240
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Na análise deste processo, passo a utilizar elementos teóricos do estudo


desenvolvido por Abraham Moles, no qual o autor propõe investigar, através de uma
análise da “fenomenologia da relação temporal ser ↔ objeto”, os “mecanismos de
presença e impregnação do objeto no ser”, sob o ponto de vista da recordação desses
objetos pelo indivíduo (Moles, 1972; p. 93-98). Tomo com base a divisão em
períodos, feita por Moles para seu estudo, ao longo dos quais a presença do objeto se
define no ser. Observo, apenas, que a referência que faço ao estudo de Moles não
impedirá que outras posições teóricas sejam agregadas à análise; o que ocorrerá,
especificamente, quando a primeira, voltada aos objetos em geral, for insuficiente às
especificidades da relação do indivíduo com seu objeto casa.
Partamos, pois, do primeiro período proposto por Moles – o desejo de
aquisição de um objeto – para estabelecer uma analogia entre sua análise, referente a
qualquer objeto posto a ser adquirido, e a que proponho em relação ao objeto casa.
Essa fase, dirá o autor, pode apresentar-se em forma de um projeto feito em longo
prazo, da necessidade, ou de um desejo impulsivo, passageiro, que passará com o
esquecimento, mas que poderá reaparecer em função de interferências exteriores,
como a força da publicidade, que, à toda hora, trabalha para nos fazer lembrar
(Moles, ibidem; p. 94-95).
É importante a observação de que, para os fins da análise aqui proposta, o
termo aquisição, tal como o considero, não implicará, necessariamente, a compra,
podendo também ser o aluguel ou qualquer forma possível de apropriação de um
espaço físico para a prática do habitar doméstico. Para esta consideração, baseio-me
nos exemplos de depoimentos das pessoas aqui entrevistadas, através dos quais se
verifica que sejam quais sejam as condições de propriedade em que elas se encontrem
em relação ao seu espaço habitado – seja ele próprio ou alugado, permanente ou
provisório, tenha sido adquirido formalmente no mercado, ou simplesmente
“achado”152 – esse espaço físico, pelo fato de abrigar as relações do habitar doméstico
de alguém, já tem implícito na percepção daquele(s) que o habita(m) o caráter de

152
Aqui, lembro da primeira moradia em local fixo da circense Amélia, que foi em um terreno
baldio, onde, no trailer que trouxera do circo, ela instalou o dormitório. E em um “barracãozinho”
encontrado no próprio terreno, improvisou a cozinha e a sala. A respeito das instalações dessa
moradia, Amélia diz: “[...] E aí, eu ia ajeitando e ficava bom. E a minha filha do meio é uma dona-de-casa
formidável, garças a Deus. Ela que arrumava tudo”.

241
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

privado e íntimo – aspectos que considero necessário e suficiente para investigar a


transformação da percepção desse espaço ao longo do tempo em que se dá o seu uso.
Uma vez que as necessidades, expectativas e aspirações em relação ao
habitar doméstico envolvidas nessa fase de desejo pelo objeto casa vêm, muitas vezes,
comprometidas com determinações mercadológicas, formuladas para
estrategicamente influenciar quanto a uma determinada idéia ou produto, pode-se
dizer que a relação do indivíduo com o objeto casa (assim como com qualquer objeto
adquirido) ainda se apresenta envolta em um contexto marcadamente profano153.
Como observa Peter King, ...

“passamos de máquinas de morar para máquinas de desejo. Nós não nos


contentamos mais, simplesmente, com em viver em nossa casa; ela precisa nos
prover de muito mais. Ela tem que prover segurança financeira para nós e para
nossos filhos, e ela tem que dizer algo sobre quem somos. Nossa casa é nossa
própria propaganda, assim como nossa pensão, e o futuro de nossos filhos.” (King,
2004; p. 115)

No entanto, diferente do que ocorre com a maioria dos produtos que,


expostos nas vitrines, despertam o desejo de consumo ainda relativamente puro de
determinações emocionais, o desejo pelo objeto casa poderá, muitas vezes, já trazer
consigo aspectos relacionados à emoção, definidos pelas circunstâncias em que este
desejo tem origem. Ao lado disto, esse desejo muitas vezes envolve tal investimento
em dinheiro que, por si só, já torna sua realização um evento especial: esperado com
ansiedade, acompanhado de economias e renúncias a outros desejos.

A seguir, apresento trechos de depoimentos que relatam o “desejo” dos


entrevistados por adquirir um novo “objeto casa”. É interessante notar que, ainda
que as narrações sobre esse desejo venham acompanhadas de razões práticas,
aparentemente neutras de significados emocionais, muitas vezes, a essas
considerações vêm conectadas memórias emotivas – felicidades e tristezas,
realizações e frustrações – de outras moradas. Mais do que isto, o desejo de uma

153
Numa contextualização mercadológica, Nestor Goulart dos Reis Filho (1970) afirma que os
padrões de uso e de comercialização se correspondem forçosamente, à medida em que as pessoas só
compram aquelas casas que imaginam serem de fácil e imediata revenda em caso de necessidade.

242
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

casa nova vem acompanhado de sonhos e planos tanto de se viver alguns aspectos
de um bem‐estar doméstico já vivido, quanto de, se possível, evitar (re)viver e
superar experiências tristes ou frustrantes de moradas passadas. Como
poeticamente nos fala Gaston Bachelard, “os verdadeiros bem‐estares têm um
passado”, sendo que “todo um passado vem viver, pelo sonho, numa casa nova”
(Bachelard, 2003; p. 25):

“[...] É curioso, porque, agora, mesmo aqui em São Paulo, eu estou planejando mudar
para um lugar que tenha uma área aberta ao ar livre, que tenha ou um quintal, ou
uma sacadona, um terração, alguma coisa assim. Agora, acho que é a minha busca da
infância. A minha família sempre esteve ligada à área rural, e eu passei a infância
convivendo com isso. Em uma certa altura da minha vida, tudo o que eu não queria
era continuar com isso, então eu negava de todas as maneiras. Eu queria me manter
longe daquilo. Agora, que eu percebo que não tem mais perigo, estou procurando
reencontrar aquelas sensações. Que louco, né?

Nessa futura casa, eu também queria ter mais espaço, mais armários, pra guardar
minhas coisas. Esse meu apartamento é bem pequeno. Eu sou muito bagunceiro; aí,
eu queria ter espaços pra ir pondo as coisas que eu, naquele momento, não tô tendo
tempo de resolver, de trabalhar: pra guardar lá, até chegar a hora de lidar com
aquilo. Eu também funciono assim, sabia? Na minha cabeça tem um monte de
gavetas aonde eu vou guardando os meus projetos. Você acredita que eu tenho
projeto pra daqui a vinte anos?” (Márcio154)
****

“Eu não quero luxo, só coisas que, quando você mora num lugar... o mínimo que
você precisa pra morar é ter um fogão e poder cozinhar, poder comer sossegada,
poder lavar sua roupa. [No pensionato] eu tenho que cozinhar escondido, pra
ninguém ver, porque se ela pega, tenho que ficar escutando três horas na minha
orelha, sabe?
[...]
Se der certo um trabalho que eu tenho em vista, o ano que vem eu quero sair de lá e
alugar um apartamento. Mas vou ter que dividir com uma outra pessoa porque não
tem como morar sozinha aqui em São Paulo, por enquanto: é muito caro... Mas eu
vou querer um quarto só pra mim. Eu quero escutar o meu som mais alto, ou

154
Apresentado na Parte I.

243
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

estudar... eu quero o mínimo de privacidade, e acho que um quarto só pra mim é o


ideal.” (Júlia155)
****

“Eu não sou arquiteto, mas sabia o que queria, e pedi para fazer: primeiro eu queria
uma puta de uma cozinha: minha casa ser só a cozinha. Mesmo porque, eu venho de
uma família que tem a tradição de ficar na cozinha, família italiana. Tanto é, que na
casa dos meus pais não tem cadeira, é banco. Quando não tem ninguém, é vinte,
trinta pessoas.
[...]
A única coisa que está acontecendo, agora, é que [...] a minha casa é também o meu
estúdio, hoje. [...] Só que, com essa minha cozinha, eu não estou tendo espaço
suficiente para trabalhar e viver na minha casa. Por exemplo, na minha cozinha não
tem como eu colocar um fogão a lenha, eu quero o meu cantinho a lenha. Mas eu
quero a minha tecnologia também. Então, a gente comprou um terreno e está
projetando. É que eu não tinha um canto pra fotografar; agora eu vou ter.”
(Aristides156)
****

“[...] se eu fosse falar ‘eu quero um espaço pra mim’... eu acho bacana pensar em
criar o próprio espaço: ‘eu quero isso assim, eu quero isso assado...’. Hoje eu seria
capaz de fazer isso. A minha vida, nesse aspecto, vai‐se modificando; isso, comigo,
veio lentamente. Agora, por exemplo, eu já acho que morar em flat, não dá mais. É
uma invasão muito grande, você não tem privacidade nenhuma. [...] E eu não
agüentaria mais um espaço tão pequeno.
[...]
Então, qual seria o meu ideal de apartamento? Seria um penthouse aberto, com
muita vista, num lugar alto, de onde eu pudesse ver o mundo. Eu não gosto de
divisõezinhas, eu não gosto de nada disso. O meu apartamento de São Paulo é cheio
de divisõezinhas, mas não fui eu que fiz! Mas, se você me pergunta, se eu fosse fazer
um apartamento pra mim, a vista seria essencial! O quê, de lá, eu consigo ver, como
um observatório. Outro dia, eu fui alugar um apartamento para um funcionário meu,
alugamos um aparamento com uma vista!! Aí, você fala ‘mas o apartamento é a
vista?’... a vista é 99% do apartamento! Não interessa o que tem dentro! Eu gosto de
uma coisa ampla – aí, sim – onde eu possa me situar. Se eu pegasse um apartamento

155
Apresentada no Capítulo 2.
156
Apresentado no Capítulo 3.

244
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

de cinqüenta metros quadrados, eu queria ele totalmente aberto, sem parede, sabe?
É assim que eu me sentiria bem.” (Lúcio157)
****

“Quando eu voava, morávamos em apartamento. Eu ficava muito tempo fora; e era


meio incerto. [...] Eu me sentia muito mais seguro, a Aidê [esposa] e as crianças
estando em um apartamento.
[...]
O meu sonho era, na hora de me aposentar, ir‐me embora para uma casa. Você quer
serrar uma madeirinha, você não pode fazer num apartamento; Você quer ouvir um
som mais alto, numa casa você tem mais liberdade.” (Hermes)
****

“Antes, nós morávamos numa casa muito grande, muitos cômodos. Só de banheiro,
eram oito! Era muito grande pra nós – eu, meu marido e a minha mãe. Meu filho, já
em julho de 77, ele casou. Aí, achamos que a casa era muito grande pra nós. Só de
banheiro tinha oito! Era muito cansativa! E eu não queria mais depender de
empregada.

Daí, eu comecei a procurar uma casa menor. Eu saía com o corretor e ia procurando.
Nós pensamos, inclusive, em mudar para um apartamento, mas o meu marido queria
ter as plantas dele, mexer nas orquídeas dele... Teve uma outra casa que eu gostei
mais do que esta. Eu vou falar – sabe por quê? Porque ela tinha uma escada de
mármore branco. Eu acho muito bonito. E ela também tinha garagem coberta, que
esta não tinha.” (D. Antônia)
****

[Com relação a uma casa, se você pudesse realizar um ideal, o que seria?]

“Voltar a ter minha residência: com os quartos das crianças, uma suíte, com a sala,
com os banheiros... Eu morava num apartamento em Moema, tinha um padrão
razoável, não era um padrão baixo. Era um apartamento com dois quartos – dois
dormitórios, né? Mas tinha o lazer das crianças, que hoje não tem. Você, num
apartamento muito antigo, as crianças têm que ficar dentro de casa tam‐bém – pra
ajudar!
[...]
E também, eu tenho o objetivo de ter a minha casa. Hoje, ele está um pouco distante
mas, não ter a própria casa pesa. É uma questão de segurança, você vai

157
Apresentado no Capítulo 1.

245
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

envelhecendo, sem casa..., você não tem como pensar ‘isso aqui é meu, patrimônio
meu, ninguém mexe’.” (Alencar158)
****

“[...] eu tinha a necessidade da casa própria; porque eu não tinha um apartamento,


eu não tinha onde morar. Porque a gente está num país onde um segundo imóvel é
bobagem, mas o primeiro é fundamental. Você não tem o menor seguro pra sua
velhice. Eu sou autônoma, o sucesso é uma coisa muito louca; ele vem e vai, vai e
vem, você nunca sabe o que vai acontecer, nem quando.
[...]
E eu estava casada, na época, mas sabia que esse casamento não ia durar. Então,
também era o momento em que eu estava precisando ‘desmisturar’, ‘dessimbiotizar’
minha energia, me reconhecer.” (Maria159)

O próximo período da análise de Moles – a aquisição – é identificada pelo


autor como a fase do “nascimento fenomenológico do objeto para o sujeito”. Aqui,
dar-se-ia “a catarse do desejo, a passagem do objeto de um universo coletivo à esfera
pessoal”. Carregada de emoção, essa fase marca o ponto em que se opta por uma
entre todas as alternativas possíveis: um “ponto de não retorno”, diria Moles. O autor
ainda observa que, ao longo do processo de vida do par objeto ↔ indivíduo, o
curioso é ser a compra “o auge da alegria consumidora” – justamente quando este é o
momento de um contato ainda “indireto e longínquo”. E o curioso é, justamente, o
fato de se amar o que ainda não se conhece – o que acaba por levar a uma “alienação
pelo objeto”. Ou seja, sentirmo-nos inebriados por algo que, na verdade, não é mais
que uma imagem que construímos, inspirados por sentimentos remotos – “um
fantasma” (Moles, ibidem; p. 96). Das narrativas colhidas, duas exemplificam as
circunstâncias do “auge da alegria consumidora” de que nos fala Moles:

A entrevistada Maria descreve o estado de grande satisfação em que se viu pelo fato
de ter satisfeito o desejo, há muito acalentado, de ter um imóvel como segurança
financeira, e de, ao mesmo tempo, poder “se reconhecer” em um espaço seu:

“[...] Então, me deu segurança saber que eu tenho um capital empatado neste
imóvel – que, por um acaso, foi procurado com essa visão. Este lugar aqui é um

158
Apresentado no Capítulo 3.
159
Apresentada no Capítulo 1.

246
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

cheque ao portador. Eu não levo três meses sem ter, pelo menos, umas duas
propostas de gente que queira comprar. E isso é uma coisa que me deixa muito legal.
[...]
Aí, eu me separei e vim pra cá. Eu comprei esse apartamento em outubro de 95 e
mudei em maio de 96. Porque eu fiz uma reforma na cozinha. Quando eu entrei, eu
estava dura, tinha raspado o tacho pra poder pagar o apartamento, a reforma, tudo.
Aí, não tinha dinheiro pra decorar, pra fazer nada. Mas, olha, só ter este espaço já
estava sendo, pra mim, um grande barato, entendeu? ” (Maria)
****

Após descrever o processo de “desejo” pelo apartamento em que mora, a


entrevistada Analu diz da satisfação em ter esse desejo realizado:

“[...] antes, morava uma amiga minha nesse apartamento, e quando eu vinha de
Tatuí pra cá, pra trabalhar na escola, eu já ficava ali, eu já dormia com ela de quarta
pra quinta. Mas, já na época da minha amiga, que eu cheguei no ap, eu olhei e eu
gostei. Era uma sala grande, retangular, o quartão, cozinha legal, tal. E aí – ela era
americana –, o pai dela faleceu e ela voltou. E, já naquele impasse de eu vir pra cá, eu
acabei ficando ali. Então, é super‐bacana porque, na verdade, eu achei que ele veio
pra mim!” (Analu)

O próximo período – descobrir o objeto –, como observa Moles, envolve um


ritual de descoberta do objeto recém-adquirido:

“O objeto está agora em minhas mãos, empacotado, condicionado, completamente


novo, todo preparado para o sacrifício [...]. Eu corto o barbante do pacote, rasgo o
papel, desmonto as embalagens e caixas, desfaço suas colagens”. (Moles, ibidem;
p. 96)

É nesta dinâmica de descobertas, onde estarão as apreensões cognitivas e


tentativas ligadas a déias ou imagens pré-concebidas sobre aquele objeto (Moles,
ibidem):

Apesar de o desejo da entrevistada D. Dalma160, de se mudar para um asilo para


idosos, não ter sido gerado em função dos aspectos concretos, de objeto, da

160
Apresentada no Capítulo 2.

247
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

instituição (seu espaço físico, seu preço, etc.), ele teve origem na expectativa dela, de
encontrar na nova moradia determinadas condições funcionais do habitar doméstico
– especialmente no que dizem respeito à liberdade e à autonomia nas atividades do
cotidiano doméstico – que D. Dalma perdera quando passou a morar de favor na
casa da irmã e do cunhado. Tomada a decisão de se mudar para o asilo, ela relata o
receio que teve de não ter tomado a decisão correta, de que a imagem construída da
nova moradia não correspondesse à realidade do “objeto” adquirido:

“[...] Eu achava que eu ia encontrar uma série de coisas que eu já não tinha: por
exemplo, a liberdade de fazer tudo, como se fosse a minha própria casa. Mas aí, eu
pensava ‘mas não pode ser igual, porque eu não vou ter uma cozinha pra mim, eu
não vou ter que fazer isso, eu não vou ter onde fazer aquilo, eu vou ter que dormir
em companhia de pessoas totalmente estranhas’. No que se refere à alimentação, eu
ficava pensando ‘não vai ser como em casa, será que eu vou comer disso, será que eu
vou comer aquilo, como vai ser?; e como é que eu vou fazer, como é que eu vou me
entrosar, será que eu vou me acostumar, será que não...’ Iiihhh... horas!” (D. Dalma)

A seguir, Dalma relata seu “ritual de descoberta”, de que fala Moles:

“[...] Mas, eu achava que tinha que esperar o próximo dia: ‘não, espera mais um dia,
e mais um... ’; e assim foi‐se passando, eu fui me ambientando, fui vendo que não
era tão horroroso como eu achei que pudesse ser, e, olha, já faz quatro meses que eu
estou aqui.
[...]
Eu acho que no fim, no fim, ficou muito bom. Eu dei sorte de ter duas companheiras
de quarto silenciosas à noite. Meu quarto é muito bem arrumadinho, elas são
cuidadosas, não jogam roupa, sapato... Cada uma tem o seu armário, dentro tem três
gavetas, a gente acomoda as coisas que a gente trouxe.” (Dalma)

Ao descrever a fase seguinte à descoberta do objeto adquirido – o gostar


[ou deixar de gostar] do objeto – Moles fala que o prazer de possuir o objeto diminui ou
se torna menos intenso a partir do momento em que seu usuário passa,
progressivamente, a descobrir seus defeitos ou inadequações em relação às
propriedades, características e qualidades, mais ou menos idealizadas, do que
consideraria um “objeto perfeito” (Moles, ibidem; p. 96-97).
E, conforme observará Robert Gifford, a satisfação dos usuários em
relação à sua casa está relacionada não apenas à comparação com um modelo
idealizado, mas, também, com as casas experimentadas anteriormente. Segundo relata

248
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

o autor, estudos em que usuários são estimulados a avaliar suas residências mostram
que eles não conseguem, ainda que implicitamente, evitar essa forma de comparação
(Gifford, 1997; p. 200). De acordo com a arquiteta e psicóloga Gleice Elali, o contato
direto e cotidiano do usuário com seu – aqui chamado – objeto casa, transforma esse
indivíduo em um “crítico severo e abalizado” deste objeto. Sob a ótica dos aspectos
perceptuais da relação pessoa-ambiente, ainda que se trate de opiniões leigas – pois,
em geral, os moradores do objeto casa serão “pessoas comuns”, e não “especialistas”
em habitação –, a função uso habilita os moradores a realizar tal análise, sendo suas
percepções individuais elementos determinantes na avaliação do objeto (Elali, 1997).
Neste, talvez mais do que nos outros períodos ao longo dos quais se define
a presença do objeto casa em seu habitante, sobressaem-se, nas falas dos entrevistados,
os aspectos relativos às particulares necessidades, expectativas e aspirações, tanto em
relação à fisicalidade do objeto propriamente dito, quanto no que se refere às relações
emocionais ali estabelecidas; aos aspectos da intimidade, definidos através do uso
cotidiano privado; ao próprio sentido de lugar, estabelecido através de todas essas
relações. Assim, passado o estranhamento em relação ao objeto adquirido da fase
anterior, as relações de gostar – e de deixar de gostar – especificamente do objeto casa
passam a ser uma mescla dos aspectos que se referem à objetividade desse objeto com
aquelas que ultrapassam os aspectos concretos de sua fisicalidade.
Inseridos física e emocionalmente em nossas casas, passamos a avaliar, ao
longo do tempo, de que maneira e com que intensidade essa inserção atende – e se,
de fato, atende – às necessidades funcionais e expectativas estéticas que temos em
relação ao nosso objeto casa. Da mesma forma, o tempo também se encarrega de nos
mostrar se o habitar que praticamos ali propicia o acolhimento de nossa subjetividade
e o nosso desenvolvimento como indivíduos. Com relação a estas últimas
expectativas, Clare C. Marcus afirma que é justamente quando não podemos obter
este retorno do lugar onde nos inserimos domesticamente, que pouco passa a
importar quão bonita ou espaçosa é nossa residência (Marcus, 1995; p. 212).
Retomemos alguns trechos de depoimentos em que se verificaram tanto a
satisfação quanto seu eventual decréscimo – ambos revelados através do uso cotidiano
dos objetos casas – por se ter essas expectativas correspondidas:

249
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Por anos, o entrevistado Rui161 viveu com mulher e filho em um apartamento que,
agora, descreve como “pequeno”. Segundo ele, a configuração espacial do antigo
apartamento não atendia à preservação da privacidade das atividades íntimas em
relação aos setores social e de serviço – uma necessidade que, com o passar dos
anos, passou a ter grande importância na relação estabelecida por ele e sua esposa
com o espaço habitado. Não tendo essa necessidade atendida, Rui mudou‐se para o
apartamento atual, cujo agenciamento do espaço interno, que permite a preservação
das atividades praticadas no setor íntimo, é visto como motivo de grande satisfação
em relação ao seu atual objeto casa:

“[...] No outro apartamento, que era pequeno, não tinha essa separação, e eu tinha
um monte de reuniões do trabalho que iam até à uma hora da manhã; e era um
inferno pra minha esposa, que ficava lá no quarto. Da sala, você via parte do meu
quarto. Então, invadia a intimidade. E este [apartamento] se tornou completamente
funcional nesse sentido. Então, é essa identidade que você tem, que te faz bem, que
você se sente protegido.
[...]
E aqui é o nosso quarto. Veja a distância que está da sala!” (Rui)

Contudo, o depoimento de Rui deixa claro que as razões da satisfação com seu
apartamento transbordam da esfera objetiva – de um layout mais adequado –, para
as esferas da subjetividade e da emotividade, quando ele chama sua casa de seu
“útero”:

“[...] Depois de uma temporada fora, a sensação de voltar para casa é de como se eu
voltasse ao útero, porque o útero é tudo aquilo que você tem como proteção: você
vem dali, você nasce dali. Então, a ausência fora de casa é exatamente você estar em
uma barriga de aluguel; não é o seu útero: desculpe‐me a metáfora, mas é
exatamente a sensação...
[...]
Aqui, por exemplo, este apartamento se identifica com aquilo que eu imaginei para
mim. Você quer conhecer o apartamento para eu te dizer porque eu gosto dele,
porque eu acho que ele é meu útero?” (Rui)

Ao apresentar os espaços internos de seu apartamento, as palavras escolhidas por


Rui expressam a busca pelos sentidos de intimidade, privacidade e recolhimento, tão
profundamente importantes para ele. E o ato de mostrar seu quarto e seu sanitário,
partes que considera o âmago da imagem metafórica de “útero” – “minha

161
Apresentado no Capítulo 2.

250
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

intimidade”, “meu quarto”, “meu boxe de tomar banho, onde eu fico nu” – pode
perfeitamente, aqui, ser entendido como a revelação de um espaço sagrado para ele.
Assim, a presença de alguém que quebra a harmonia construída nesse ambiente, tal
como descreve o evento do conserto de seu banheiro162, mais do que como uma
invasão de intimidade, é sentida como uma verdadeira profanação desse ambiente.

A seguir, revejamos trechos das falas dos entrevistados Analu, Maria e Lúcio que
trazem aspectos objetivos sobre seus objetos casa, os quais se mesclam com razões
subjetivas, para explicar o “gostar [ou não] do objeto”:

“[...] Mas, agora, esse apartamento, eu acho que eu acabei adaptando ele como um
refúgio, e isso perdura até hoje, porque é um espaço bacana – [...]. Ele tem a minha
cara, mesmo. Quem chega, quem me conhece, fala assim ‘pô, é a tua cara’... o clima,
a energia, a distribuição das coisas. E ele é muito silencioso, ele é espaçoso... eu
gosto – gosto dali.” (Analu)
****

“[...] Aí, eu tive um apartamento alugado pequenininho, um estudiozinho, que você


não entrava na cozinha – só entrava o seu braço na cozinha. [...] E ela [uma amiga]
disse, ‘nossa, mas é um lugar tão pequeno’. E eu falei, ‘mas, pra mim, é um palácio! É
tudo o que eu preciso’. E eu fiquei muito intrigada porque tinha um canto, que era o
que eu mais gostava da casa, que era uma espécie de um terracinho, onde entrava
muita luz, e que era o canto mais bagunçado. O lugar mais bonito e que eu mais
gostava era o lugar que tinha mais bagunça. [...] eu gostava tanto, que, na verdade,
eu depositava tudo ali. Depositava coisas que eu estava sem a menor capacidade pra
administrar.” (Maria)
****

“[...] Eu aluguei, uma vez, um apartamento na Praça Roosevelt. Era um kitchenette.


Olha só: tinha um banheiro, uma cozinha – que eu mal usava, mas esquentava o café
– e uma sala grande, uma sala bárbara. Aquele apartamento era uma porcaria, mas a
praça, na frente, que era legal. Você se fecha numa caixa porque você quer, não é? É
necessário ter visão, olhar longe – adoro ver a extensão!” (Lúcio)

O próximo período – habituar-se com o objeto –, o qual tratarei


juntamente com o seguinte – conservar o objeto –, dá-se pela freqüência de utilização do
objeto em nossa vida cotidiana. Uma vez que já temos e exploramos o objeto, a fase

162
Relatado no Capítulo 3 – Privacidade e intimidade domésticas.

251
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

seguinte é a de nos habituarmos a ele, num processo em que passamos a vê-lo,


progressivamente, sair de nossa percepção consciente, em uma espécie do que Moles
chama de “depreciação cognitiva”. Ao mesmo tempo, neste período, podemos ver
diminuir o prazer de possuir esse objeto e passar a avaliá-lo, através de suas condições
– está “velho, usado, murcho, triste”? – a possibilidade do seu eventual descarte.
Neste caso, observa o autor, a própria sociedade consumidora, o prestígio social e os
meios de comunicação de massa contribuem com critérios de aceitação do objeto –
preservando e fortalecendo ligações que estabelecemos com ele – ou, então, para a
sua rejeição. Contudo, a avaliação seria feita a partir do conjunto desses critérios
sociais mesclados aos valores individuais dos usuários, criados em seu próprio
ambiente ou – na expressão usada por Moles –, em sua “concha pessoal” (Moles,
ibidem; p. 97-98).
Havendo a superação de uma possível tendência ao descarte do objeto,
chegamos à fase seguinte – o conservar o objeto –, na qual se dá a tomada de decisão
de investirmos atenção, em forma de cuidados, reparos e “atos positivos” no objeto,
revelando-se, assim, a esperança de vida que nele depositamos – seja essa esperança
em função de nossa cultura ou mesmo do preço relativo do objeto (Moles, ibidem; p.
98).
Optei por tratar esses dois períodos – habituar-se com o objeto e conservar o
objeto – conjuntamente por considerar que, juntos, eles configuram o momento em
que as relações indivíduo ↔ objeto genérico e indivíduo ↔ objeto casa, estabelecidas
ao longo do tempo, começam a não poder mais ser analisadas nos mesmos termos, tal
como, de certa forma, pudemos fazer até agora. O valor material do objeto casa já o
diferencia da categoria de objetos descartáveis. A este fato acrescentem-se os
significados subjetivos que atribuímos, ao longo do tempo, à casa em que habitamos.
Neste momento, ambos os argumentos tornam-se importantes influenciadores para
que o resultado da avaliação que fazemos dessa casa seja não o descarte, mas a decisão
de conservá-la.
Ainda assim, é perfeitamente aplicável à nossa análise, a consideração, de
acordo com o estudo de Moles, de que uma relação de investimentos do usuário
sobre o objeto – neste caso, o objeto casa – faz com que ele torne a impor sua
presença, revigorando, assim, a conexão com seu(s) usuário(s) (Moles, ibidem; p. 98).

252
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Os depoimentos de Maria e Reginaldo exemplificam, com particularidades, suas


decisões por “conservar” e “investir” em seus objetos casa:

“[...] A minha casa é bem antiga. Tem umas coisas que eu quero mudar e estou
juntando dinheiro pra isso. Tem uma copa, num lugar esquisito, com um quarto que
dá pra ela – isso eu quero mudar. É uma casa térrea, e eu penso em fazer mais um
andar, transformar em sobrado. Mas, o que mais me agrada nela é o quintal, que não
é grande, mas é um lugar muito gostoso. Tem uma parte coberta e uma descoberta.
Eu gosto de ficar ali sentado lendo um jornal, conversando, junto com a minha
esposa. Tem um cachorro... É um lugar agradável – disso eu sinto uma falta louca!...”
(Reginaldo)
****

“[...] Eu pensei em vender este [apartamento] aqui, mas pra comprar uma casa em
Alphaville. Hoje em dia, quando eu penso nisso, dou graças a Deus de não ter dado
certo, porque eu não dou certo com aquele lugar. [...]

[...] Mas, também, eu adoro esse espaço. Quando eu comprei esse apartamento, eu
só reformei a cozinha – depois eu te mostro –, porque, realmente, era muito antiga.
Agora, eu quero reformar a parte interna. Eu tinha pensado um monte de coisas,
queria colocar um ofurô aqui, na varanda, pra curtir mais ela; botar um chuveiro ali,
fazer uma coisa meio esportiva. Resolvi não fazer o ofurô porque ninguém sabe
direito, não existe uma planta original, e eu sei que água pesa muito. Mas eu vou
botar uma banheira aqui dentro.” (Maria)

A sacralização do objeto casa

A partir deste momento, desviamos-nos da análise de Moles e passamos a


falar da relação temporal entre habitante e seu objeto casa como uma gradativa
percepção desse objeto – que, ao longo do tempo, passa por investimentos materiais e
emocionais de seus usuários – como algo sagrado. Retomemos o argumento de Belk
et alii, segundo o qual através da ação de investimentos (termo também empregado por
Moles), algo, a princípio corriqueiro e comum, poderá tornar-se e manter-se sagrado,
no sentido de atender à necessidade de uma experiência que “transcende à [nossa]
existência de mero ser biológico lidando com o mundo diário” (Belk et alii, ibidem; p.
258; 513).

253
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Parto do princípio que é através do uso cotidiano da casa que se dão, ao


longo do tempo, os investimentos que fazemos nela. Investimos em nossa casa no
sentido tanto de podermos continuar contando com o bom funcionamento do nosso
abrigo físico, como de obtermos desse abrigo a experiência de uma entidade única,
que acolhe incondicionalmente nossa subjetividade, propiciando nosso
desenvolvimento como indivíduos, guardando nossos segredos mais íntimos; enfim,
restaurando-nos e preparando-nos cotidianamente, em termos físicos e emocionais,
para o habitar no mundo público. Visto desta forma, o habitar doméstico cotidiano
passa, então, a ser considerado não apenas como propiciador da percepção da casa
como lugar sagrado, mas também como revivificador dessa percepção: o retorno
diário ao ponto de referência, a entrega – alma e corpo – que fazemos todos os dias, em
busca de uma quebra qualitativa em relação à relatividade do mundo profano “lá
fora”.
Contudo, é preciso dizer que o processo de investimento que leva à
sacralização do objeto casa já pode ter início antes mesmo de nos mudarmos
fisicamente para essa casa, ainda nas fases anteriores, em que se dão os primeiros
lampejos de desejo por esse objeto (período que Moles tomaria como primeiro
momento da relação ser ↔ objeto). Até passarmos a ocupá-la, já vimos investindo
não apenas nossas economias, mas nossas expectativas, tanto racionais quanto
emocionais – e muitas vezes misturadas –, de termos encontrado, diante de todas as
possibilidades que se nos apresentavam viáveis (em termos econômicos, espaciais, de
localização, etc.) o lugar onde melhor poderemos ver atendidas as funções de nossa
vida privada, onde encontraremos as melhores condições para estar em paz e
encontrar o consolo e o acolhimento e o restauro de que necessitamos no nosso dia-a-
dia. E, aqui, relembro as considerações de Bollnow sobre o ato de fundar uma nova
casa como “a fundação do cosmos em um caos” (Bollnow, ibidem; p. 134). Assim,
ocorre que o desejo por uma nova moradia já acontece impregnado de investimentos
emocionais referentes às histórias de nossas moradas passadas. Como diz a velha
locução trazida por Bachelard, “Levamos para a casa nova nossos deuses domésticos”
(Bachelard, 2003; p. 25).
E a partir do momento em que passamos a habitar a casa, haverá – isto
sim – a amplificação do processo de investimento que leva à sua sacralização – o que
ocorre com o uso diário que fazemos dela, no qual projetamos cotidianamente nossas

254
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

necessidades, expectativas e aspirações, ao longo do tempo em que a habitamos.


Conforme citam Belk et alii, ...

“o lugar fundamental do sagrado no mundo secular do consumo é a habitação”


(Eliade, 1987, Jackson, 1953; Tuan, 1977). Ela é sagrada porque abriga a
família, porque é um lar (Kron, 1983). As mais sagradas e secretas atividades da
família ocorrem ali, incluindo-se comer, dormir, cozinhar, fazer sexo, cuidar das
crianças e da doença e vestir-se (Saegert, 1985). Ela é separada do mundo profano
‘lá de fora’ (Altman and Chemers, 1984) através do cuidado que damos à porta
de entrada (Deffontaines, 1953; Rapoport, 1982)163”.

Estabelecida a relação do processo de sacralização do objeto casa com a


própria atividade do habitar doméstico cotidiano, acrescento a consideração de Belk
et alli, segundo a qual uma “commodity comum” pode transformar-se simbolicamente
e passar a ser percebida como sagrada, na medida em que a ela são associadas atitudes
e práticas rituais voltados a essa transformação (Belk et alii, ibidem; p. 528).
Lembrando da sensação de sacralidade experimentada pelo sobrinho em casa da
falecida tia – que vimos narrado anteriormente – está claro que essa sensação era
composta não apenas pela lembrança da presença da tia, mas também pela memória
dos rituais familiares que, juntos, tantas vezes praticaram naquele ambiente – o qual,
por esta razão, adquirira esse caráter de lugar espiritualmente distinto.
Para Belk et alii, o próprio ato de mudar-se de para uma nova casa e
transformá-la em um “lar” para si seria um ritual de sacralização (Belk et alii, ibidem; p.
528-529):

Relembro, aqui, o depoimento do Sr. Felipe164, 78 anos, que, ao se mudar de sua


casa, onde vivia com seus irmãos em condições extremamente precárias, para uma
instituição para idosos, passa a perceber a nova morada como uma experiência de
quebra do caos em que via inserido o seu habitar. Antes, carente materialmente e
incapacitado, pela idade e pela saúde precária, de praticar as funções básicas do
habitar doméstico (alimentação, higiene e manutenção da casa), Sr. Felipe traduz o
sentimento de amparo obtido da nova moradia, vivido através do processo de rituais

163
As citações contidas neste parágrafo estão em Belk et alli, 1991; p. 523.
164
Apresentado no Capítulo 1.

255
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

de alimentação, cuidados com a saúde física e mental e de interações solidárias com


funcionários e internos, com a expressão “isso caiu do céu”.

“[...] Isso caiu do céu... Eu sempre fui uma pessoa feliz, graças a Deus. Mas sabe o
que acontece? Lá, onde a gente morava, tinha que fazer tudo: fazer comida, lavar
roupa, ir no mercado, pagar aluguel, esses programas todos da vida diária. [...] Mas é
um problema... até, digamos oitenta anos (no meu caso, ainda podia)... mas depois
fica tudo mais difícil.
[...]
E aqui, não; a gente não precisa se preocupar com nada. A gente senta na mesa de
manhã, uma funcionária traz o café, outra o pão, as enfermeiras trazem o remédio,
tudo na hora certa; no almoço, a mesma coisa, e na janta, a mesma coisa.
[...]
Então, a gente tem toda a assistência, em todos os sentidos – as igrejas vêm fazer
culto aqui todo sábado e domingo.
[...]
Nas quintas‐feiras vem uma pintora, e ela ensina a gente a fazer pintura em pano e
papel. Eu queria aproveitar a oportunidade para mostrar as minhas pinturas... Todos
os dias eu também jogo dominó, baralho, com os amigos. Antes de vir para cá, eu só
podia jogar à noite, porque não dava tempo. Aqui, eu jogo de dia.
[...]
As funcionárias são ótimas pessoas, tratam a gente com amor e carinho. A gente se
torna amigos, não é? Quer dizer, é convivência todo dia pra nós e pra elas também.
Aqui, eu posso dizer que tenho cem amigos – é verdade. [...] É a receita ‘é dando que
se recebe’ – você já ouviu falar naquela oração de São Francisco? Eu posso falar
sinceramente, em casas como esta é que se constrói um mundo melhor.” (Sr. Felipe)

...

A partir das considerações acima, pode-se dizer que a sacralização da casa,


como um processo que se dá através das relações cotidianas do habitar doméstico,
está, também, condicionada ao fato de essa casa ser “verdadeiramente vivida”, no
sentido – já mencionado anteriormente – que Bachelard dá à expressão: ou seja, de
ser a casa experimentada em um nível que ultrapassa a sua “positividade” (Bachelard,
ibidem; p. 25).
Inversamente, se voltamos a olhar para a casa como algo pertencente a
uma categoria bastante similar à de outras commodities, sendo – como observa Dovey –

256
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

“comprada e vendida, usada e descartada, tal como um carro ou uma máquina de


lavar”, o autor ressalta que “o fenômeno lar, em si, não pode ser commoditizado”. Isto
porque, diferente do objeto casa, o qual envolve um comprometimento econômico
substancial, a casa entendida como lar envolve um comprometimento não de
dinheiro, mas de tempo e emoção, por ser ela “o lugar onde investimos sonhos,
esperanças e cuidados”. Contudo, é como efeito da crescente commoditização da casa
no mundo moderno, que Dovey aponta para a confusão que é gerada entre as idéias
de casa e lar: isto, pelo fato de ser a imagem de lar – e não o [objeto] casa propriamente
dito – que passa a ser comprado e vendido no mercado (Dovey, ibidem; p. 53-54. Apud
Belk et alii, ibidem; 542).
Sob o mesmo ponto de vista de Dovey, ou seja, da abrangência do atual
processo de commoditização da casa, King refere-se à profissionalização que passou a
envolver a noção de “lar”. Agora, o “lar” só pode ser feito por outros: “experts” que
nos dizem do que precisamos; profissionais que – como afirma o autor – “ousam nos
dizer o que é ‘lar’”. A essa “exteriorização dos valores” referentes ao “lar” e ao habitar
doméstico, King atribui à “supremacia dos aspectos econômicos e status sobre os
valores ontológicos e emocionais que nós próprios investimos em nossas casas” (King,
ibidem; p. 86).
E é justamente a elevada posição ocupada pelo dinheiro na sociedade
contemporânea que é apontada por Belk et alli como determinante da forma mais
comum pela qual algo sagrado é des-sacralizado: a sua transformação em produto
vendável e, portanto, a sua des-singularização. Em outras palavras, a casa, que teria se
tornado sagrada àqueles que, por anos, a habitaram e a imbuíram de significados
particulares, volta à inicial condição de objeto profano no momento em que é
devolvida ao mercado, convertida, novamente, em dinheiro (Belk et alii, ibidem; p.
541-542).
E esse “ato de profanação” poderá ser extremamente penoso, dependendo
de quão profundamente impregnada esteja a casa em nosso ser (para usar a expressão
de Moles [ibidem; p. 94]):

Minha vizinha de muro, D. Antônia, que há trinta anos mora em sua casa, vive, hoje
este drama. Morando sozinha, procura resistir aos apelos do filho que venda ou
alugue sua casa e passe a morar em um apartamento. Há poucos dias, um corretor
de imóveis trouxe uma potencial compradora para conhecer sua casa. Como apenas

257
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

um muro separa nossas casas, não pude deixar de ouvi‐la no quintal a dizer: “este é o
meu quintal; este quartinho é o da mamãe pôr as bagunças dela165. Eu adoro essa
parte da casa” – “eu adoooro esta casa”.

Seu depoimento justifica o sentido de sagrado que experimenta no quintal da sua


casa:

"[A parte da casa que eu mais gosto] É o meu quintal. Eu adoro lá.
[...]
Acho que é porque bate sol. A minha mãe também adorava. Ela ficava lá... e fazia as
coisas dela, e lavava, e limpava... cantava... Você lembra? Ela cantava em italiano! Foi
lá no quintal que o meu marido construiu aquele quartinho onde a gente guarda
tudo o que é de bagunça – precisa ter, né? Minha mãe punha tudo nesse quartinho!
É no quintal que eu fico de manhã. De tarde, eu venho pra sala.” (D. Antônia)

Ainda que alguns dos depoimentos aqui apresentados, em um primeiro


momento, possam se referir a uma relação com o objeto puramente físico, revelando
aspectos que poderíamos classificar de profanos, por serem elementos comuns, não
relacionados a “experiências extraordinárias”, ou de “êxtase” (trazendo, aqui, as expressões de
Belk et alii [ibidem; p. 528]) – ainda assim, estes depoimentos terão, invariavelmente, como
referências, aspectos profundamente relacionados à busca, no lugar do habitar doméstico,
pelo acolhimento da subjetividade, pela paz proporcionada pela privacidade, pelo sentido de
pertencimento a um lugar, enfim, pela própria quebra qualitativa em relação ao imenso caos
experimentado no mundo exterior, tal como é descrita por Eliade a experiência do espaço
sagrado.
A este respeito, lembro das palavras de Marcus, que diz que casa não é apenas
um lugar, no sentido mais literal, mas é também “um lugar de profunda satisfação no mais
fundamental e íntimo templo da alma”. Ao lembrar do dito popular da língua inglesa “a
nossa casa é onde está o coração” (Home is where the heart is), a autora atribui a ele dois níveis
de significado: coração – ou amor – seria a nossa conexão com a família e os amigos, com
lugares e pessoas familiares, os quais nos protegem e nos estimulam a crescer. Mas, coração
também significaria o nosso mais íntimo ser, a nossa alma. Neste último sentido, a autora
relaciona o dito popular “àquela forma de viver, àquele lugar, àquela atividade, nos quais

165
Ainda que já falecida, D. Antônia refere-se à mãe no presente, como presença atual, impregnada
na casa.

258
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

somos completa e profundamente nós mesmos” (Marcus, ibidem; p. 278): o habitar que
praticamos em nossa casa.
Em meio ao conjunto de fatores que acompanham e envolvem o sentido de estar
em casa, num estado de profunda identidade com nós mesmos, fica a pergunta: é possível
que, em nossas casas, encontremos as condições de auto-transcendência, de que nos fala
Gilberto Gil, para “falar com Deus”?

Se eu quiser falar com Deus


Tenho que ficar a sós
Tenho que apagar a luz
Tenho que calar a voz
Tenho que encontrar a paz
Tenho que folgar os nós
Dos sapatos, da gravata
Dos desejos, dos receios
Tenho que esquecer a data
Tenho que perder a conta
Tenho que ter mãos vazias
Ter a alma e o corpo nus [...]

(Gilberto Gil. Se Eu Quiser Falar com Deus)

259
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Considerações finais

Partindo da questão que incitou esta pesquisa, ou seja, a pré-suposição de


que usuários percebem e vivenciam seus espaços domésticos de formas particulares e
específicas, tomei, como instrumento para a investigação, depoimentos de pessoas a
respeito das relações com suas moradias. Esses depoimentos, juntamente com
referências bibliográficas pertinentes à questão, formaram o acervo de informações
que vieram a fundamentar minha análise sobre o habitar doméstico, segundo o modo
como ele é percebido e vivenciado, em termos tanto objetivos – das relações
estabelecidas com a fisicalidade da moradia –, quando subjetivos – das questões
pessoais específicas que intervêm nessas relações.
Considerando-se o nível de extrema subjetividade que norteia as relações
estabelecidas no e com o espaço da moradia, é quase dispensável dizer que os
resultados desta análise não representam uma verdade absoluta para o entendimento
da questão do habitar doméstico sob o prisma do morador. Quanto às impressões,
considerações e comentários registrados nos depoimentos, o que se tem, é um acervo
de verdades, narradas segundo perspectivas distintas e particulares: por definição,
perspectiva é a escolha de um ponto de vista a partir do qual se sente, se categoriza ou
se codifica uma experiência166. Contribuem para a configuração desses particulares
pontos de vista – e, conseqüentemente, para a relatividade dos resultados
encontrados – o contexto socioeconômico e cultural do narrador, sua idade, suas
experiências de moradias passadas, suas visões de mundo, seus valores pessoais, sua
personalidade. Dentro do seu contexto específico, cada narrativa apresenta uma
coerência própria, reveladora de um sistema de crenças e valores, particular ao

166
In: http://en.wiktionary.org/wiki/perspective.

260
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

narrador, que se expressa no modo rotineiro e essencialmente individual com que ele
percebe e reage aos fatos e condições experimentados no ambiente doméstico,
redundando, assim, em sua própria concepção do habitar doméstico.
A análise do habitar doméstico em termos conceituais, assim como das
cinco dimensões que estabeleceram a linha condutora da investigação desse habitar –
sejam elas: a casa física, usos objetivo e subjetivo da casa, privacidade e intimidade
domésticas, o cotidiano doméstico e o lugar do habitar doméstico – passam, agora, a ser
revistas através de algumas considerações finais:
Uma vez tomado o habitar em um sentido mais amplo do que aquele a
que corriqueiramente o associamos, esse habitar, como uma prática universal e
essencialmente humana – o “estar-no-mundo” descrito por Heidegger –, a qual
implica uma relação significativa de identificação com um determinado meio físico,
passa a ter seus aspectos associados às relações cotidianas estabelecidas com o espaço
físico da habitação. Ou seja, o habitar passa a ser considerado concretamente, em
termos locais e materiais. Das considerações iniciais sobre o habitar doméstico e sua
especificação em relação ao habitar universal, três fatos puderam ser especialmente
observados. Primeiro, o fato de que este habitar, ainda que se refira às atividades da
esfera privada do homem, não se dá isoladamente, ou independente das
interferências do mundo em que se insere, as quais se tornam parte da vida doméstica
cotidiana. Segundo, que é justamente o caráter de entidade privada do habitar
doméstico, de cujo respaldo nos valemos para a preservação de nossa vida interior e
desenvolvimento de nossa individualidade, que o legitima como o modo de habitar
do indivíduo per se. E terceiro, o que leva em conta justamente o caráter particular
com que se dá a percepção e o vivenciamento do habitar doméstico – e o fato que daí
decorre, de esse habitar ter muitos, quase que incontáveis, significados particulares
para cada indivíduo (ou grupo de indivíduos) que habita(m) domesticamente.
A partir do enfoque do habitar doméstico como algo localizado e
materializado, passou-se, inicialmente, à consideração da casa como o local físico que
elegemos para nos recolher do mundo e praticar esse habitar. Percebida por seus
habitantes como o ponto concreto que provê o apoio e a referência em relação ao
mundo exterior, a casa física representa a segurança, a paz e a proteção frente às
adversidades vividas nesse mundo. Por outro lado, considerando-se essa mesma
inserção da casa no mundo vasto, temos que, através de sua fisicalidade, ela nos
permite reunir objetos e referências trazidos de nossas experiências lá fora, tornando-

261
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

se, para nós, seus habitantes, um repositório das memórias de nossa trajetória por
esse mundo, conferindo-nos, assim, a possibilidade de nos identificarmos com ele.
Assim, a casa física é, ao mesmo tempo, a proteção em relação ao mundo e o meio
através do qual estabelecemos vínculos com esse mundo.
Observamos, ainda, que o modo como formalmente estabelecemos o
habitar em nossa casa, considerando-se suas características físicas, sua localização, a
forma como usamos seus espaços, etc., torna-se uma forma de falarmos de nós ao
meio social em que nos inserimos. E, através dessas informações, buscamos ser aceitos
por esse meio.
E, finalmente, é a fisicalidade de nossa casa que nos permite – ou não –
praticarmos o habitar doméstico da forma que consideramos mais adequada. A fim
de fazermos de nossa casa um refúgio seguro e tranqüilo, onde podemos preservar
nossa vida interior, fazemos freqüentes intervenções criativas em nosso espaço
habitado. E, uma vez obtidas essas condições, passamos a não mais poder prescindir
dessa casa.
Contudo, o habitar doméstico envolve mais do que o simples fato de nos
inserirmos em um invólucro físico, segundo as condições que, objetivamente,
permitem e definem essa prática. Ele implica, também, a interação dessa
materialidade com os aspectos da alma, do espírito, da memória, das emoções do
indivíduo – o que faz com que a casa passe a incorporar um significado subjetivo para
aqueles que a habitam. Neste sentido, a consideração dos usos objetivo e subjetivo da
casa estabelece o cruzamento de dois importantes aspectos do habitar doméstico: a
casa, como entidade física concreta, que trabalha, com sua materialidade, no sentido
de permitir que – por sua vez – se pratique a imaterialidade em seu interior. Vimos
que, ao transformar nossa casa física em um espaço habitado, passamos a percebê-la
como uma entidade única que acolhe nossa subjetividade, que nos apóia não apenas
física, mas também, emocionalmente. Isto porque, na medida em que projetamos em
nossa casa nossos valores pessoais, necessidades, aspirações e desejos, ela passa a falar
de nós, da dinâmica de nossas vidas; e nós passamos a nos ver refletidos nela.
Por um lado, vemos a casa habitada desprender-se de sua objetividade
física e se transformar, através dos valores pessoais projetados por seus habitantes ao
longo do tempo, em algo subjetivamente fundamental para o seu desenvolvimento
como indivíduos. Por outro lado, é justamente essa estrutura física da casa de que se
necessita para que as atividades do habitar doméstico sejam mantidas na esfera íntima

262
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

e privada, sendo partilhadas apenas com quem se deseja. Ou seja, o habitar doméstico
requer privacidade e intimidade. A importância da preservação da privacidade e da
intimidade domésticas é, aqui, verificada através de alguns aspectos, como a
consideração desses dois conceitos como direitos fundamentais do indivíduo; ou
como a necessidade, verificada já na infância e na juventude, de se estar a sós para se
exercer a própria individualidade; e, também, através de aspectos históricos e
culturais que falam da evolução dessas necessidades e da maneira como são, hoje,
percebidas e atendidas. Assim, verifica-se que não apenas as práticas biológicas da
vida humana, mas também aquelas voltadas à preservação de particularidades
subjetivas – do desenvolvimento da identidade, da liberação das emoções –
encontram no espaço doméstico, em ambientes específicos e povoados de também
específicos objetos, o local para serem exercidas.
Ainda enfocando a vida praticada na privacidade doméstica, a rotina
previsível e aparentemente irrelevante desse habitar – o cotidiano doméstico – passa a
ser vista como aspecto fundamental para que encontremos em nossas casas a
confiança na continuidade do nosso próprio ambiente doméstico e o sentido de
ordem e estabilidade emocional que dela obtemos. A neutralidade e a previsibilidade
do cotidiano doméstico servirão, assim, como pano de fundo para reflexões a respeito
de nossas vidas. E é nesse contexto que iremos nos restaurar física e emocionalmente
dos desgastes sofridos no habitar público: relaxando nossos corpos, libertando nossa
subjetividade, cultivando nossa alma, dando vazão aos desejos e fantasias; criando,
assim, meios físicos e emocionais de implementar nossos planos para a próxima
incursão pública.
Assim, o espaço onde é praticado o habitar doméstico passa a ser
considerado não mais no sentido de local meramente destacado do espaço geral. Por
incorporar significados específicos, atribuídos por seus habitantes através das relações
cotidianas nele estabelecidas ao longo do tempo, esse espaço doméstico adquire o
sentido específico de lugar. Ao lado disto, ao se enfocar as relações contemporâneas
com o espaço habitado, verifica-se uma tendência a que se perceba e vivencie o
habitar doméstico através de uma mescla de aspectos que envolvem duas formas
teóricas de pensar. De um lado, há o tradicional entendimento do lugar que, aplicado
à questão do habitar doméstico, se refere aos sentidos de enraizamento,
pertencimento e identificação em relação às experiências sensoriais, de espacialidade,
hábitos e costumes vividas no lugar habitado – numa oposição às influências da esfera

263
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

pública. De outro lado, uma forma mais atual de se entender o lugar leva em conta a
intensa mobilidade das pessoas, assim como o – cada vez maior e melhor estruturado
tecnologicamente – consumo e a incorporação ao cotidiano doméstico de dados,
informações e produtos vindos do mundo externo. Através desta forma de pensar, a
casa, como lugar do habitar doméstico, passa a ser vista como palco cada vez mais
aberto às inter-relações entre as esferas privada e pública.
Diante da análise dos depoimentos, verifica-se que, por um lado, não é
mais possível adotar como sine qua non, ao se tratar do habitar doméstico, os sentidos
de fixação e enraizamento físico, desconsiderando-se a realidade de fluidez física e
virtual que vivemos em nossos dias, a qual imprime uma forma sem precedentes de
experiência em relação ao espaço e ao lugar, redefinindo, assim, as formas de
percepção do que é privado e público. Por outro lado, ainda segundo os
depoimentos, o sentido de pertencimento ao lugar do habitar doméstico ainda é
preservado na casa habitada – que, muitas vezes poderá ser percebida como o próprio
bairro, a cidade ou até mesmo do país onde se vive. De qualquer forma, é em casa – e
não em hotéis, em aviões ou por meio de contatos virtuais – que melhor se
estabelecem as relações de intimidade doméstica, onde nos restauramos através do
cotidiano familiar (sozinhos, ou ao lado das pessoas com quem o desejamos
partilhar), onde nos sentimos seguros da continuidade do nosso ambiente e onde
vemos refletidos os sinais da história de nossa existência. Assim, mesmo aqueles que
mais viajam e se ausentam de suas casas, e que convivem diariamente com a
“abertura” do mundo doméstico às influências da esfera pública relatam o sentido de
pertencimento ao lugar onde habitam domesticamente: sua casa, com a qual se
identificam mais do que com qualquer outro lugar no mundo, na qual se percebem
inseridos e acolhidos para praticar em privacidade, ou ao lado dos que querem bem, a
forma mais íntima de habitar.
Finalmente, abarcando a reflexão de todas as dimensões do habitar
doméstico aqui exploradas, surge o aspecto que muitas vezes vem sugerido nos
depoimentos registrados: o de ser a casa percebida por aqueles que a habitam como
uma espécie de lugar sagrado. Falar da sacralização da casa é tratar da transformação
do modo como ela, através de investimentos físicos e emocionais recebidos ao longo
do tempo de uso, passa a ser percebida por seus habitantes: de objeto comum,
encontrado no espaço mundano – uma mera estrutura física, neutra de valores
subjetivos e espirituais – a casa passa a ser percebida como entidade única, que não

264
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

apenas atende às funções objetivas do habitar doméstico, mas acolhe


incondicionalmente a subjetividade de seus moradores, dando-lhes desenvolver como
indivíduos, guardando seus segredos mais íntimos, consolando-os quando se vêem
desamparados e cansados da existência no espaço mundano; enfim, restaurando-os e
preparando-os cotidianamente, em termos físicos e emocionais, para o habitar no
mundo público.
Assim, para finalizar as reflexões sobre o habitar doméstico segundo a
forma como ele é percebido e vivenciado pelos habitantes, relembro apenas a
consideração de que esse habitar é algo tão amplo quanto a própria vida do
indivíduo; e que ele não se dá isoladamente, ou independente das interferências
externas, as quais não apenas permeiam a vida cotidiana doméstica, mas, de fato,
enriquecem-na, tornando-se privadas e interferindo nos sentidos que damos a ela. O
entendimento da amplitude do conceito de habitar foi fundamental para a análise
dos depoimentos aqui colhidos. A partir daqui, penso que podemos compreender a
razão pela qual as pessoas, ao falar de suas casas, trazem à tona não apenas suas
relações formais com o espaço doméstico, mas a própria forma de encarar a vida.

Uma possível futura pesquisa

Ao longo desta investigação, muitas questões cujo desenvolvimento


mereceria mais do que um parágrafo, ou mesmo um capítulo, não puderam ser
incluídas no discurso final. São questões que, se exploradas em novas pesquisas,
viriam agregar informações específicas à questão maior, que trata da percepção do
usuário em relação ao lugar do habitar doméstico.
Considerando que muito do que falei aqui envolve a intenção de
estabelecer como prioridade, em termos de pesquisa na área de Hábitat, a
investigação das necessidades, expectativas e aspirações aplicadas ao habitar
doméstico, penso que se justifica uma pesquisa aplicada à área de mercado
imobiliário. Observando-se a definição de marketing trazida por Philip Kotler, como
“a tarefa de descobrir e satisfazer necessidades” (Kotler, 1999; p. 54), e se
consideramos que o bom planejamento de marketing, enquanto ciência econômica,
envolve o objetivo de criar cada vez mais situações de equilíbrio entre o ato de
consumo e a razão da compra (Almeida, 2001; p.33), seria válido dizer que esse

265
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

objetivo, sob o aspecto da produção de espaços de moradia, envolve o conhecimento


dessas necessidades, expectativas e aspirações em relação ao habitar doméstico
trazidas por potenciais usuários desses espaços: como vivem, como precisam, como
gostariam, e como poderiam viver.
Como, então, conceber que empresas produtoras de habitação baseiem
suas tomadas de decisões em pesquisas que, em princípio, voltadas ao conhecimento
do perfil do público alvo, criam estereótipos de usuários, baseados em aproximações
superficiais, muitas vezes afastadas da observação criteriosa do real uso dado aos
espaços domésticos? Não bastaria um levantamento da incidência de reformas feitas
em apartamentos recém- adquiridos para uma avaliação diagnóstica da
incompatibilidade entre necessidades, expectativas e aspirações dos clientes e o
produto oferecido?
Consciente da grande dificuldade em conhecer profundamente os futuros
moradores da maioria das residências que projetamos hoje, e que as soluções
adotadas na etapa do projeto têm amplas repercussões em todo o processo de
viabilização da construção e lançamento do imóvel no mercado, tornando a parcela
de influência dos usuários diluída em face da dos agentes financeiros, promotores e
incorporadores, tenho a humilde pretensão de acreditar que uma pesquisa com
abordagens arquitetônica, sociológica, psicológica e antropológica seria valorosa no
sentido de tornar mais amplo o leque de questões a serem abordadas em uma
pesquisa de mercado de habitação, e mais eficaz, em termos de atendimento às
necessidades, expectativas e aspirações dos moradores, em relação ao espaço que lhes
é oferecido.
Durante o estágio dos levantamentos teóricos para este trabalho, vi cair
como uma pedra, em minhas mãos, o texto abaixo. Seu pragmatismo quase desolador
serve, neste momento, de reforço à razão que moveu minhas investigações: há que se
elevar o nível de prioridade das pesquisas quanto às relações estabelecidas no e com o
espaço do habitar doméstico, para que o processo de pensar o espaço da moradia
tenha como objetivo primeiro possibilitar ao usuário o domínio sobre seu habitar
doméstico – para que este lhe seja, de fato, prazeroso e responsável por um progresso
na qualidade de sua vida (Camargo, 2003; p. 104). Qualquer deficiência neste
processo configura-se um problema que envolve o risco de todo o processo de busca
pela qualidade da habitação ser inócuo:

266
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

“Nos grandes centros urbanos atuais, a morada, de unidades repetidas, construídas


na ausência do futuro morador, não consegue, infelizmente, acordar sentimentos de
apego, de ternura, de identificação, ainda que proporcione as funções físicas de
habitar. Seus espaços mostram-se amorfos, caracterizando-se apenas por símbolos
referentes a status social, baseados na sua localização, tamanho e luxo [...]. Na sua
totalidade, a moradia atual pouco lembra aquilo que lhe deu origem [...]. Pode-se
compreendê-la como um espaço débil, meramente decorativo, que não consegue se
desprender da realidade limitadora e não conquista valor poético – assim, o
morador torna-se estrangeiro na própria residência. O que, de certo, espelha o
homem sem centro, que, no fundo, não sabe exatamente o que quer e se deixa levar
à deriva, embora essa postura o deixe insatisfeito.” (Cencic, 2002; p. 369).

267
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Notas

i
David Chaney é professor do Departamento de Sociologia na Universidade de Durham, Inglaterra.
Publica extensivamente sobre os aspectos da transformação cultural na modernidade tardia. É autor
de Cultural Change and Everyday Life (Palgrave, 2002), Lifestyles (Routledge, 1996), Fictions of Collective
Life (Routledge, 1993), The Cultural Turn (Routledge, 1994), etc.
ii
Clifford James Geertz (1926-2006), antropólogo americano, destacou-se como retórico e defensor
antropologia simbólica-interpretativa. A função da cultura, esboçada por Geertz em seu livro a The
Interpretation of Cultures (1973), seria impor significado ao mundo e torná-lo compreensível. In:
Encyclopædia Britannica Online; http://www.britannica.com/eb/article-9036294.
iii
Dame Mary Douglas, antropóloga inglesa, é conhecida por seus trabalhos sobre cultura humana e
simbolismo. Concentrada na área de antropologia social, foi considerada uma seguidora de
Durkheim uma defensora da análise estruturalista, com foco na religião comparativa. In:
http://en.wikipedia.org/wiki/Mary_Douglas.
iv
Henny Coolen é pesquisador senior em metodologia e informática na Technische Universiteit Delft,
Holanda (ver suas publicações em:
http://metis.tudelft.nl:7777/pls/metis_lookup/pk_apa_n.medewerker?p_url_id=241). E Ritsuko
Ozaki é pesquisadora fellow no Innovation Studies Centre no Imperial College London. O trabalho
aqui mencionado aqui foi apresentado no CUCS - Housing Conference, Toronto, 2004.
v
David Morley é Professor de Mídia e Comunicação no Goldsmiths University of London. É autor
de Television, Audiences and Cultural Studies (Routledge, 1992), co-autor de Spaces of Identity (Routledge,
1995) e co-editor de Stuart Hall: Critical Dialogues in Cultural Studies (Routledge, 1996). In:
http://www.goldsmiths.ac.uk/media-communications/staff/morley.php.
vi
Robert Gifford é professor no Departamento de Psicologia na University of Victoria, British
Columbia, Canadá. Editor do Journal of Environmental Psychology, dedica-se a estudos sobre a
interface entre a psicologia ambiental, psicologia social e psicologia da personalidade. É autor do
artigo The consequences of living in high-rise buildings (Architectural Science Review, Thomson Galé, 2007) e
Applied Psychology: Variety and Opportunity (Allyn & Bacon, 1991).
In: http://web.uvic.ca/psyc/gifford.html.
vii
Paulo Sérgio Pinheiro é professor de ciência política e diretor do Núcleo de Estudos da Violência
da Universidade de São Paulo. É relator especial das Nações Unidas para a situação dos Direitos
Humanos no Burundi; membro da Comissão Internacional de Investigação Humanitária (Berna,
Suíça); e diretor da Comissão Teotônio Vilela de Direitos Humanos (São Paulo). Foi Secretário
Nacional de Direitos Humanos, no governo Fernando Henrique Cardoso.
In: http://www.mre.gov.br/cdbrasil/itamaraty/web/port/polsoc/dirhum/prognac/.
viii
Elizabeth Rondelli é professora do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política e na Escola de
Serviço Social da UFRJ. É pesquisadora do Núcleo de Estudos e Projetos em Comunicação da UFRJ.
In: http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.jsp?id=K4785837Y9.

268
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

ix
Túlio Kahn é doutor em Ciência Política pela USP, Coordenador de Análise e Planejamento da
Secretaria de Segurança Pública de São Paulo e ex-coordenador de pesquisa do Instituto Latino-
Americano das Nações Unidas para a Prevenção do Delito e Tratamento do Delinqüente (Ilanud).
x
Luis David Castiel é Pesquisador Titular da Fundação Oswaldo Cruz.
In: http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.jsp?id=K4780171E9.
xi
Peter King é professor em Habitação e Filosofia Social do Departamento de Políticas Públicas da
Faculdade de Business & Law, na Montfort University, Inglaterra. Seus trabalhos conectam-se com
pesquisas de habitação e conceitos de filosofia. É autor de The Limits of Housing Policy (Middlesex
University Press, 1996), A Social Philosophy of Housing (Ashgate, 2003) e Choice and the End of Social
Housing (Institute of Economic Affairs, 2006).
In http://cchr.rol.co.uk/pp/gold/viewGold.asp?IDType=Page&ID=7327.
xii
Clare Cooper Marcus é Professora Emérita no Departamento de Arquitetura e Meio Ambiente na
Universidade da Califórnia, Berkeley. É internacionalmente reconhecida por sua pesquisa pioneira
dos aspectos psicológicos e sociológicos da arquitetura, planejamento do uso do solo e design da
paisagem, particularmente no espaço urbano. É autora de Healing Gardens, Therapeutic Benefits and
Design Recommendations (New York Wiley, 1999) e People Places: Design Guidelines for Urban Open Space
(ed.) (John Wiley & Sons, 1998).
In: http://www.pps.org/info/placemakingtools/placemakers/ccmarcus.
xiii
Alvino Augusto de Sá é doutor em Psicologia Clínica pela Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo. Atuou como psicólogo na Secretaria de Administração Penintenciária do Estado de São Paulo
e foi professor titular e diretor da clínica psicológica da Universidade Guarulhos, tenho se
aposentado em 2005. Professor doutor da Universidade de São Paulo, professor convidado da
Universidade Federal de Pernambuco, professor do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais.
In: http://sistemas.usp.br/atena/atnCurriculoLattesMostrar?codpes=21205.
xiv
Tim Cresswell é Professor do Departamento de Geografia na faculdade de Royal Holloway,
Universidade de Londres. Teve como orientador para a obtenção de título de Ph.D., na
Universidade de Wisconsin-Madison, nos Estados Unidos, o professor Yi-Fu Tuan. É autor de In
Place/Out of Place (University of Minnesota, 1996), On the Move: Mobility in the Modern Western World
(Routledge, 2006).
In: http://en.wikipedia.org/wiki/Tim_Cresswell
xv
José Afonso da Silva, Professor Livre-Docente em Direito Constitucional pela Faculdade de Direito
da Universidade de São Paulo, foi Professor Titular do Direito Econômico e Financeiro na mesma
instituição, na qual lecionou desde 1971 até 1995, quando se aposentou.
In: http://www.direito.usp.br/docentes/aposentados/dap_docentes_jas_01.php.
xvi
Irwin Altman é professor do Departamento de Psicologia da Universidade de Utah, Estados
Unidos. Seu objeto de estudo é o desenvolvimento de relacionamentos, o uso de ambientes físicos
(casas) nos relacionamentos e os papéis desempenhados pelos contextos sociais (por ex., famílias) nos
processos interpessoais. É autor de Home Environments (Human Behavior and Environment) (Irvington
Pub, 1981) e co-editor de Home Environments (Human Behavior and Environment) (Springer, 1a. ed.
1985) e

269
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

In: http://altman.socialpsychology.org/.
xvii
Alan Westin é Professor Emérito de Direito Público e Governo da Universidade de Columbia,
Nova York, além de Diretor do Programa de Tecnologia da Informação, Prontuários Médicos e
Privacidade, do Centro de Pesquisa Social e Jurídica, o qual coordena. Professor Westin pesquisa,
defende e escreve sobre questões de saúde, tecnologia e privacidade há mais de 40 anos. É autor de
Privacy and Freedom (New York: Atheneum, 1967). In: www.pandab.org/WestinTstmy.pdf.
xviii
John H. Lienhard é Professor Emérito de Engenharia Mecânica e História na Universidade de
Houston, Texas (EUA). É autor de How Invention Begins: Echoes of Old Voices in the Rise of New
Machines (Oxford University Press, 2006) e Mechanical Measurements, (Prentice Hall, 5a ed. 1993). In:
http://www.uh.edu/engines/powersir.htm.
xix
Professor Philip Sheldrake é professor de teologia aplicada na Universidade de Durham deste
janeiro de 2003 e professor honorário da Universidade de Wales Lampeter desde 1999, além de
senior fellow e professor visitante em várias instituições dos Estados Unidos. É autor de vários livros,
principalmente sobre o tema de espiritualidade acadêmica, incluindo Spirituality and History (Orbis,
1998) e Spaces for the Sacred: Place, Memory, Identity (The Johns Hopkins University Press, 2001).
In: http://www.dur.ac.uk/theology.religion/staff/?id=2012.
xx
Edward S. Casey foi o último chefe do Departamento de Filosofia da Universidade Stony Brook;
pesquisa, entre outros assuntos, estética, filosofia do espaço e do tempo e percepção. Entre as obras
que publicou estão Getting Back into Place: A Phenomenological Study (Studies in Continental Thought)
(Indiana University Press, 1993), and The Fate of Place (University of California Press, 1999).
http://www.sunysb.edu/sb/nyc/maphil/philarts/faculty.shtml
xxi
Lucy Lippard, escritora, ativista e curadora americana foi das primeiras autoras a defender a arte
feminista. Autora de 18 livros sobre arte contemporânea, foi premiada com o 1968 Guggenheim
Fellowship e o Prêmio Frank Mather de Crítica, concedido pela Associação de Arte Universitária,
além de duas bolsas do National Endowment for the Arts em crítica. Já contribuiu com artigos sobre
crítica para publicações como Art in America, The Village Voice, In These Times, e Z Magazine. In:
http://en.wikipedia.org/wiki/Lucy_R._Lippard
xxii
David Seamon é pesquisador de comportamento ambiental e professor de arquitetura da
Universidade Estadual do Kansas, EUA. Seu trabalho é voltado às formas em que os ambientes
natural e construído contribuem para o bem-estar humano. Dentre os livros de que Seamon é autor
ou co-autor estão Dwelling, Seeing, and Designing (State University of New York Press, 2003) e Dwelling,
Place & Environment (Krieger, 2000). In: http://www.arch.ksu.edu/seamon/index.htm
xxiii
Jon May é professor de Geografia na Universidade de Londres. Suas áreas de pesquisa são
Geografia Sociocultural, Geografias dos sem-teto, cidades globais, reestruturação urbana e
neoliberalismo urbano. É autor de Practising Cultural Geography [(Blunt, A., Gruffudd, P., May, J.,
Ogborn, M. and Pinder, D. (eds)] (Arnold, 2003) e TimeSpace: geographies of temporality (Routledge,
2001). In: http://www.blackwell-compass.com/subject/geography/profile?person=MayJon .
xxiv
John Tomlinson é Professor de Sociologia Cultural e Diretor do Centre for Research in
International Communication and Culture (CRICC), na Nottingham Trent University. É autor de

270
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Cultural Imperialism: a Critical Introduction (The Johns Hopkins University Press, 1991) e The
Globalization Reader (Blackwell, 2003). In: http://www.oup.com/uk/catalogue/?ci=9780199252275.
xxv
Shaun Moores é diretor do Centro de Pesquisa em Mídia e Estudos Culturais da Universidade de
Sunderland, no Reino Unido, onde também leciona Mídia e Comunicação. É o autor de Interpreting
Audiences: The Ethnography of Media Consumption (Sage, 1993) e Media and Everyday Life in Modern
Society (Edinburgh University Press, 2000). In: http://www.sunderland.ac.uk/~as1sth/shaun.htm.
xxvi
Raymond Williams foi um acadêmico e escritor e crítico galês. Um dos grandes historiadores da
cultura pós-guerra, dedicou-se às áreas de política, cultura, comunicação em massa e literatura, a
partir de sua perspectiva marxista. Suas obras tiveram muito sucesso no Reino Unido e foram
traduzidas para várias línguas. É autor de Raymond Williams on Television: Selected Writings (Routledge,
1989). In: http://www.museum.tv/archives/etv/W/htmlW/williamsray/williamsray.htm e
http://en.wikipedia.org/wiki/Raymond_Williams .
xxvii
John Perry Barlow atualmente é vice-presidente do conselho administrativo da Electronic Frontier
Foundation (EFF). É fellow no Berkman Center for Internet e na Harvard Law School, além de
membro da Academia Internacional de Artes e Ciências Digitais (IADAS). É autor de Notable
Speeches of the Information Age (O'Reilly, 1994). In: http://en.wikipedia.org/wiki/John_Perry_Barlow.
xxviii
Maggie Jackson é colunista da agência norte-americana de notícias Associated Press. Sua coluna
contribuiu para a cobertura, pioneira na mídia dos Estados Unidos, das questões que envolvem o
ambiente de trabalho em empresas. Em 2001, sua coluna “On the Job”, publicada em jornais de vários
países, recebeu o prêmio de Excepcional Jornalismo sobre Trabalho-Vida na 3a Conferência Anual
do Board/Families and Work Institute. Também escreve para os jornais The New York Times, The Boston
Globe, e para a National Public Radio (Jackson, 2002, contracapa).
xxix
Natural de Bangladesh, Dr. Azfar Hussain lecionou inglês, estudos culturais e estudos étnicos
comparativos na Universidade Estadual de Washington e na Universidade Estadual Bowling Green,
nos Estados Unidos, antes de transferir-se para a Universidade North South, em Dhaka, Bangladesh.
Atualmente, sua pesquisa está voltada à teoria e estudo dos efeitos da economia política sobre a
cultura, e vice-versa, em âmbito local e global. In: http://libarts.wsu.edu/ces/Azfar/ e
http://www.newagebd.com/2007/apr/27/liti.html.
xxx
Kim Dovey é chefe do Departamento e Professor de Arquitetura e Desenho Urbano na Faculdade
de Arquitetura, Construção & Planejamento da Universidade de Melbourne, Austrália. É autor de
Framing Places: Mediating Power in Built Form (Routledge, 1999) e Fluid City: Transforming Melbourne's
Urban Waterfront (Routledge, 2005). In: http://www.abp.unimelb.edu.au/people/staff/doveyk.html.
xxxi
Russell W. Belk é Professor de Business na David Eccles School of Business, Universidade de
Utah. Dentre suas publicações estão: Research in Consumer Behavior, vols. 8 e 9 (co-editor) (JAI Press,
1997 e 2000) e Collecting in a Consumer Society (Routledge, 1995). In
http://home.business.utah.edu/mktrwb/russ2.htm.
xxxii
Melanie Wanderdorf é Professora de Marketing na Eller College of Management, Universidade
do Arizona. Suas publicações abordam aspectos socioculturais do consumo. Dentre elas estão:
Consumer Behaviour (Marketing S.) (co-editora) (John Wiley & Sons Inc., 1983) e Readings in Consumer

271
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Behaviour (Theories in Marketing Series), John Wiley & Sons Inc, 1979. In
http://marketing.eller.arizona.edu/faculty/mwallendorf.aspx e http://amazon.com/.
xxxiii
John Sherry is antropólogo e ministra cursos de Marketing Behavior, Contextual Inquiry,
International Marketing and Postmodern Consumer Research at Northwestern's Kellogg School.
Dentre suas publicações estão: Time, Space and the Market: Retroscapes Rising (M E Sharpe Inc, 2003) e
Semiotics, Marketing and Communication: Beneath the Signs, the Strategies (Palgrave Macmillan, 2001).In:
http://www.allbookstores.com/author/John_F_Sherry_Jr.html;
http://www.sasin.edu/faculty/resumes/CV_2001_Prof._Sherry_Web.doc

272
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Referências bibliográficas
e obras consultadas

Livros

----------------. A Bíblia Sagrada: Antigo e Novo Testamento. ed. revisada e atualizada no Brasil
(trad. João Ferreira de Almeida). Rio de Janeiro: Sociedade Bíblica do Brasil,
1964.
----------------. Constituição da República Federativa do Brasil. 33ª. ed. Atualizada e ampliada.
Acompanhada das notas remissivas e dos textos integrais das Emendas
Constitucionais e das emendas constitucionais de Revisão (atualizada até a
emenda constitucional no. 42 de 19-12-2003). São Paulo: Editora Saraiva, 2004.
ÁBALOS, Iñaki. La Buena Vida. Barcelona: Gustavo Gili, 2000.
ADLER, Polly. A House is not a Home. Toronto: Popular Library, 1953.
AGNEW, John. The United States in the World Economy. Cambridge: Cambridge
University Press, 1987. In CRESSWELL, Tim, 2004.
ALMEIDA, Sandra. P. de. Marketing Imobiliário. São Paulo: SP Marketing editorial e
empresarial, 2001.
ALTMAN, Irwing and CHEMERS, Martin M. Culture and Environment. Cambridge:
Cambridge University Press, 1984. In Belk et alli, 1991.
ALTMAN, Irwing. The Environment and Social Behavior: Privacy, Personal Space,
Territoriality and Crowding. Monterey, CA: Brooks/Cole, 1975. In GIFFORD,

273
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Robert, 1997.
AMOROSO LIMA, Alceu. Meditação Sobre o Mundo Interior. Rio de Janeiro: Agir,
1955.
ARANTES, Antonio. A. (org.). Produzindo o Passado. São Paulo: Condephaat e
Brasiliense, 1984.
ARENDT, Hannah. A Condição Humana. 8a ed. revista. Rio de Janeiro: Forense
Universitária, 1997.
ARENDT, Hannah. Entre o Passado e o Futuro. 3a ed. São Paulo: Perspectiva, 1992.
AUGÉ, Marc. Non-Places: Introduction to Anthropology of Super-Modernity. London:
Verso, 1995. In MORLEY, David, 2000; também In: CRESSWELL, Tim, 2004
e In: CRESSWELL, Tim, 2002.
BACHELARD, Gaston. A Poética do Espaço. São Paulo: Martins Fontes, 1993 (1a ed.
jan. 1989; 6a tir. ago. 2003).
BALETIC, Bojan. e VDOVIC, Roberto. “The Housing Experience as Cyber-
knowledge”. International Journal for Housing Science and its Applications, vol. 26;
part 2, 97-112, 2002.
BASTONS, Miguel. “Vivir y Habitar en la Ciudad”. Anuario Filosófico, vol. 27/2 –
Revistas Electrónicas - DSpace en la Universidad de Navarra, 541-556, 1994:
https://dspace.unav.es/retrieve/2228/bastons94.pdf (última visita em 22, nov,
2006)
BELK et alii. “The Sacred and The Profane in Consumer Behavior: Theodicy on the
Odyssey”. Perspectives in Consumer Behavior, KASSARJIAN, H. H. and
ROBERTSON T. S. (edt.), 4th ed. Englewood Cliffs (NJ): Prentice-Hall, 511-
561, 1991.
BENJAMIN, Walter. The Arcades Project. Cambridge: MA, Belknap/Harvard
University Press, 1999. In KING, Peter, 2004.
BERMAN, Marshall. Tudo o que é Sólido Desmancha no Ar: a Aventura da Modernidade.
4a reimpressão. São Paulo: Schwarcz, 1987.
BOLLNOW, Otto F. Hombre y Espacio. Barcelona: Editorial Labor, 1969.
BONIFÁCIO, José, o Moço. Poesias. São Paulo Conselho Estadual de Cultura, 1962.
In: www.unesp.br/vestibular/pdf/provap_jul03.pdf (última visita em 9, jul,
2007).
BOSI, Ecléia. Memória e sociedade - lembrança de velhos. 10a ed. São Paulo: Companhia
das Letras, 2003.

274
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

BRUNO, Ernani S. (A). Equipamentos, Usos e Costumes da Casa Brasileira – Fichário:


Construção. vol. 2. org. José Wilton Guerra. São Paulo: Museu da Casa
Brasileira; Edusp; Imprensa Oficial do Estado, 2001.
BRUNO, Ernani S. (B). Equipamentos, Usos e Costumes da Casa Brasileira – Fichário:
Costumes. vol. 3. ACAYABA, M. M. (coord.); SIMÕES, R. (org. do vol.). São
Paulo: Museu da Casa Brasileira; Edusp; Imprensa Oficial do Estado, 2001.
CABRITA, Antonio M. R. O Homem e a Casa: Definição Individual da Qualidade da
Habitação, Lisboa: LNEC, 1995.
CAMARGO, Érica. N. de. “O Apartamento Feito Para Você”. Revista Pós - Revista do
programa de pós-graduação da FAU-USP, nº 9, 170-175, jun. 2001.
CAMARGO, Érica. N. de. “The Use of the Metropolitan Domestic Space: Tradition
and Innovation in Living Habits”. Paper apresentado no ENHR International
Housing Conference – New Researchers Conference. Cambridge, 2004.
CASEY, E. “How to Get From Space to Place in a Fairly Short of Time”. Senses of
Place, FELD, S. and BASO, K. (edts.), Santa Fe: School of American Research,
1996. 14-51. In CRESSWELL, Tim, 2004.
CASTELLS, Manuel. A Sociedade em Rede – A Era da Informação, vol. 1, 4a ed. São
Paulo: Paz e Terra, 2000.
CASTIEL, Luis David. “Insegurança, ética e comunicação em saúde pública”. Revista
de Saúde Pública [online], vol. 37, nº 2, 161-167. 2003. In:
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-
89102003000200001&lng=en&nrm=iso>. ISSN 0034-8910. doi:
10.1590/S0034-89102003000200001 (última visita em 21, mai, 2007)
CHAMBERLIN, Vernon. “The So-Called Problem of Closure in Fortunata y Jacinta
and Tristana Revisited By Means of Musical Structure”. Revista de Producción
Cultural Hispánica Decimonónica, vol. 4, nº 1 (winter/invierno), 2007. In:
http://www.decimononica.org/VOL_4.1/Chamberlin_V4.1.pdf (última visita
em 21, mai, 2007).
CHANEY, D. Cultural Changes and Everyday Life. New York: Palgrave, 2002.
CHANEY, D. Lifestyles. New York: Routledge, 1996.
COOLEN, Henny e OZAKI, Ritsuko. “Culture, Lifestyle and the Meaning of a
Dwelling”. Trabalho apresentado no CUCS - Housing Conference, Toronto,
2004.
CORONA, Eduardo e LEMOS, Carlos. Dicionário da Arquitetura Brasileira. São Paulo:
Livraria Editora, 1972.

275
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

CRESSWELL, Tim. “Theorizing Place”. Mobilizing Place, Placing Mobility: The Politics
of Representation in a Globalized World, CRESSWELL, Tim and VERSTRAETE,
Ginette (edts.), Thamyris/Intersecting: Place, Sex and Race, no. 9. Editions
Rodopi B.V., 11-31. 2002.
CRESSWELL, Tim. Place: a Short Introduction. Oxford: Blackwell, 2004.
CRETELLA JÚNIOR, José e CINTRA, Geraldo de Ulhôa. Dicionário Latino-
Português, 3a ed. São Paulo: Companhia Editoria Nacional, 1953.
CSIKSZENTMIHALYI, Mihaly & ROCHBERG-HALTON Eugene. The Meaning of
Things: Domestic Symbols and the Self. 1a ed. (1981), 7a reimpressão. Cambridge:
Cambridge University Press, 1999.
DAMATTA, Roberto. A Casa e a Rua. 6a ed. Rio de Janeiro: Rocco, 2000.
DAY, Christopher. Places of the Soul: Architecture and Environmental Design as a Healing
Art. 2nd edition (1st. Publication in 1990). Oxford: Arquitectural Press (an
imprint of Elsevier), 2004.
DE FREYCINET, Louis de. Voyage Autour du Monde, I. Paris, 1827. In FREYRE,
Gilberto, 2004.
DEFFONTAINES, Pierre. “The Place of Believing”. Landscape, 2 (Spring), 22-28,
1953. In Belk et alli, 1991.
DEWEY, Fred. “Cyburbanism as a Way of Life”. ELLIN, Nan (org.), Architecture of
Fear. New York: Princeton Architectural Press, 260-280,1997.
DOUGLAS, Mary. “Introduction” in L. GROSS, J. L. & RAYNER, S. Measuring
Culture: A Paradigm for the Analysis of Social Organization. New York: Columbia
University Press, 1985. In SEEL, Richard, 2002.
DOVEY, Kimberly. “Home and Homelessness”. Home Environments, Human Behavior
and Environment, Advances in Theory and Research. ALTMAN, I., WERNER, C.
(edt.), New York: Plenunm Press, 33-63, 1985. In MARCUS, C. Cooper, 1995
e In BELK et alii, 1991.
DURHAM, Eunice Ribeiro. Texto II. Produzindo o Passado, ARANTES, A. A. (org.),
São Paulo: Condephaat e Brasiliense, 1984. In HOMEM, Maria C. N., 1996.
ELALI, Gleice V. M. de Azambuja. “Psicologia e Arquitetura: em Busca do Locus
Interdisciplinar”. In Estudos de Psicologia, ano/vol. 2, nº 002. Universidade
Federal do Rio Grande do Norte, 349-362, jul-dez. 1997. In
redalyc.uaemex.mx/redalyc/pdf/261/26120209.pdf (última visita em 7, fev,
2007)
ELIADE, Mircea. The Sacred and the Profane: the Nature of Religion. Orlando, FL:

276
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Harvest Books, 1987.


FÉRES-CARNEIRO, Terezinha. “Separação: o Doloroso Processo de Dissolução da
Conjugalidade”. Revista Estudos de Psicologia, vol. 8, no.3, pp. 367-373, Natal
(RN): EDUFRN, Set./Dez. 2003.
FERRARA, Lucrécia. D. Leitura sem Palavras. São Paulo: Ática, 1986.
FLAUBERT, Gustave. Novembro. São Paulo: Iluminuras, 2000.
FREUD, S. Briefe, 1873-1939. Ernst L. Freud, (sem referência ao local de publicação),
1960. In GAY, Peter,1984.
FREYRE, Gilberto. Sobrados e Mucambos: Decadência do Patriarcado e Desenvolvimento do
Urbano. 15a ed. São Paulo: Global, 2004.
GAUNTLETT, David and HILL, Annette. Living Television. London: Routledge,
1999. In MORLEY, David, 2000.
GEERTZ, Clifford. The Interpretation of Cultures: Selected Essays. New York: Basic
Books, 1973. In COOLEN, Henny e OZAKI, Ritsuko, 2004.
GIDDENS, Anthony. A Contemporary Critique of Historical Materialism – vol. 1, “Power,
Property and the State”. Basingstoke: Macmillan, 1981.
GIDDENS, Anthony. Modernity an Self-Identity: Self and Society in the Late Modern Age”.
Cambridge: Polity Press, 1991.
GIDDENS, Anthony. The Consequences of Modernity. Standford: Standford University
Press, 1990.
GIDDENS, Anthony. The Constitution of Society. Cambridge: Polity Press, 1984. In
GIDDENS, Anthony, 1990.
GIEDION, Siegfried. Mechanization Takes Command. New York: Oxford University ,
1948.
GIFFORD, Robert. Environmental Psychology: Principles and Practice. 2a ed. Needham
Heights, MA: Allyn and Bacon, 1997.
GOFFMAN, Erving. Manicômios, Prisões e Conventos. São Paulo: Perspectiva, 1974.
HALL, Stuart. A Identidade Cultural na Pós-modernidade. 7a. ed. Rio de Janeiro: DP&A,
2003.
HAYDEN, Dolores. The Grand Domestic Revolution. 8a ed. Cambridge: Massachusetts:
MIT Press, 2000.
HEIDEGGER, Martin. “Building, Dwelling, Thinking”. Poetry, Language, Thought.
Harper Colophon Books, New York, 1971. In

277
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

http://acnet.pratt.edu/~arch543p/readings/Heidegger.html (última visita em


3, dez, 2006).
HEIDEGGER, Martin. “Hebel – El Amigo de la Casa”. Revista Eco - Bogotá, Tomo
XLI, nº 240, pp. 225-240. Bogotá, 225-240, jul, 1982.
http://www.heideggeriana.com.ar/textos/hebel.htm (última visita em 3, dez,
2006).
HEIDEGGER, Martin. “Ser y Tiempo”. Jahrbuch für Philosopie und Phänomenologische
Forschung, Tomo VIII, pp. 1-438, 1927. Trad. Jorge Eduardo Rivera. Ed. digital:
http://www.philosophia.cl. In
http://www.heideggeriana.com.ar/textos/'ser_y_tiempo.htm (última visita em
3, dez, 2006).
HELLER, Agnes. “Where we are at home”. Thesis 11, vol. 41. 1995. In MORLEY,
David, 2000.
HELLER, Agnes. Everyday Life. London: Routledge and Kegan Paul, 1981. In
MORLEY, David, 2000.
HELLER, Agnes. O Cotidiano e a História. 6a ed. São Paulo: Paz e Terra, 2000.
HOMEM, Maria C. N. O Palacete Paulistano e Outras Formas Urbanas de Morar da Elite
Cafeeira. São Paulo: Martins Fontes, 1996.
HOOKS, Bell. “Homeplace as Site of Resistence”. HOOKS, Bell. Yearning: Race,
Gender and Cultural Politics. Boston: South and Press, 1990. In MORLEY,
David, 2000.
HUSSAIN, Azfar. “Theses on Place”. New Age – The Daily Newspaper. Eid Special
2006: Places. Dhaka, 15 out, 2006. In:
http://www.newagebd.com/2006/oct/15/eidspecial06/essays01.html (última
visita em 7, mai, 2007).
JACKSON, J. B. “The Place of Believing” Landscape, vol. 2 (Spring), 22-28, 1953. In
BELK et alii, 1991.
JACKSON, Maggie. What’s Happening to Home?: Balancing Work, Life, and Refuge in the
Information Age. Notre Dame (IN): Sorinbooks, 2002.
JOHANSEN, Anders. “Fellowmen, compatriots, contemporaries”. Cultural Politics
and Political Culture in Postmodern Europe, J. Peter Burguess (edt.). Amsterdam:
Editions Rodopi, 1997. In MORLEY, David, 2000.
JORDAN, Patrick. W. An introduction to usability. London: Taylor & Francis Ltd.,
1998.
KAFKA, Franz. Um Artista da Fome e A Construção. 5a ed., 1a reimpressão. São Paulo:

278
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Brasiliense S/A, 1995.


KAUFMANN, Tania. Morada, Moradia. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves Ed.
S.A., 1976.
KING, Peter. A Social Philosophy of Housing. Hampshire: Ashgate, 2003.
KING, Peter. Private Dwelling. Oxfordshire: Routledge, 2004.
KLINK, Amyr. Paratii: Entre Dois Pólos. 3a reimpressão. São Paulo: Companhia das
Letras, 1993.
KOTLER, Philip. Marketing para o Século XXI. 10a ed. São Paulo: Futura, 1999.
KRISTEVA, Julia. Nations Without Nationalism. New York: Columbia University
Press, 1993. In MORLEY, David, 2000.
KROEBER, A.L. & KLUCKHOHN, Clyde. Culture: A Critical Review of Concepts and
Definitions. Papers of the Peabody Museum of Harvard Achæology and
Ethnology, Harvard University 42(1). Cambridge, Mass: Museum Press, 1952.
SEEL, Richard. Culture and Complexity: New Insights on Organisational Change.
Culture & Complexity – Organisations & People, vol. 7, no. 2. 2002:
http://www.new-paradigm.co.uk/culture-complex.htm (última visita em 24,
mai, 2006)
KRON, Joan. Home-Psych: The Social Psychology of Home and Decoration. New York:
Clarkson N. Potter, Inc./Publishers, 1983. In Belk et alli, 1991.
LE CORBUSIER. Towards a New Architecture. Republicação. New York: Dover
Publications, 1955 (Originalmente publicado: London: J. Rodker, 1931).
LEFÈBVRE, Henri. A Vida Quotidiana no Mundo Moderno. Lisboa: Ulisseia, 1969.
LEMOS, Carlos. Alvenaria Burguesa. 2a ed. São Paulo: Livraria Nobel S.A., 1989.
LEMOS, Carlos. Cozinhas,etc. Col. Debates / Arquitetura, nº 94. São Paulo:
Perspecticva S.A., 1978.
LÉVY, Pierre. O Que é o Virtual?. 1a ed. (1996), 6a reimpressão. São Paulo: 34, 2003.
LIMA, Tania Andrade. “Humores e Odores: Ordem Corporal e Ordem Social no
Rio de Janeiro, século XIX”. FIOCRUZ - História, Ciências, Saúde:Manguinhos.
vol. 2, no. 3. (nov. 95/feb. 96), 44-94. Rio de Janeiro: Fiocruz, 1995.
LIPPARD, Lucy. The Lure of the Local: Senses of Place in a Multicultural Society. New
York: The New York Press, 1997. In CRESSWELL, Tim, 2004.
MALDONADO, Tomás. “The Idea of Comfort”. The Idea of Design: a Design Issues
Reader, MARGOLIN, V. and BUCHANAN, R (edt.), Cambridge:

279
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Massachusetts: MIT Press, 248-256, 1996.


MARCUS, C. Cooper. House as a Mirror of Self: Exploring the Deeper Meaning of Home.
Berkeley: Conari Press, Jul., 1997.
MARICATO, Ermínia. “Cenários do Contraste: Uma Incursão no Interior da
Habitação Popular Paulistana”. 1999.
MARTINS, José de S. “A Vida Privada nas Áreas de Expansão da Sociedade
Brasileira”. História da Vida Privada no Brasil: Contrastes da Intimidade
Contemporânea, vol. 4. NOVAIS, F. A. (coord.); SCHWARCZ, L. M. (org.). São
Paulo: Companhia das Letras, 659-726, 2002.
MARTINS, José. de S. “A Aparição do Demônio na Fábrica, no Meio da Produção”.
Tempo Social – Revista de Sociologia da USP, vol.5, no.1, 1-29. São Paulo (SP):
USP, Nov. 1994.
MATOS, Gregório de. Gregório de Matos. (Seleção de Antonio Dimas). São Paulo: Ed.
Abril Educação, 1981. In VERÍSSIMO, Francisco. & BITTAR, William S. M,
1999.
MAY, Jon. “Of Nomads and Vagrants: Single Homelessness and Narratives of Home
as Place”. Environment and Planning D: Society and Space, 18:6, 737-759, 2000. In
CRESSWELL, Tim, 2004.
McGREW, Anthony. “A Global Society?”. Modernity and its Futures, HALL, Stuart,
HELD, David e McGREW, Anthony (edts.), Cambridge: Polity Press/Open
University Press, 61-116, 1992. In HALL, Stuart, 2003.
MOLES, Abraham. Teoria dos Objetos. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1972.
MOORES, Shaun. “Television, Geography and Mobile Privatisation”. European
Journal of Communication, vol. 8, 365-379, 1993. In MORLEY, David, 2000.
MOORES, Shaun. Media and Everyday Life in Modern Society. Edinburgh: Edinburgh
University Press, 2000.
MOORES, Shaun. Satellite Television and Everyday Life. Luton: University of Luton
Press, 1996. In MORLEY, David, 2000.
NAGEL, Thomas. Una Visión de Ningún Lugar . México, D.F.: Fondo de Cultura
Econômica, 1996.
NERUDA, Pablo. Antología Poética – Edición de Rafael Alberti. 5a ed. Buenos Aires:
Planeta Bolsillo, 2002.
NERUDA, Pablo. Cien Sonetos de Amor. Barcelona: Andrés Bello, 1999.
NISSEN, Heinrich. Das Templum. Berlim: Antiquarische Untersuchungen, 1869. In

280
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

BOLLNOW, Otto F., 1969.


NORBERG-SCHULZ, Christian. Genius Loci: Towards a Phenomenology of Architecture.
New York: Rizzoli, (reimpressão) 1984.
NORBERG-SCHULZ, Christian. The Concept of Dwelling: On the Way to Figurative
Architecture. New York: Electa/Rizzoli, 1985.
NORVE, Sivi. “The Home: Materialised identity and Household Technology”.
SORENSEN, K. H. and BERG, A. J. (edits.). Technology and Everyday Life. Oslo,
Norwegian Research Council for Science and Humanities, 1990. MORLEY,
David. Home Territories: Media, Mobility and Identity. New York: Routledge, 2000.
OLDENBURG, R. The Great Good Place: Cafés, Coffee Shops, Bookstores, Bars, Hair
Salons, and Other Hangouts at the Heart of a Community. New York: Marlowe &
Company, 1999.
PESSOA, Fernando. Obra Poética. 4a ed. Rio de Janeiro: Companhia José Aguilar
Editora, 1972.
PINHEIRO, Paulo Sérgio. Prefácio de GLASSNER, Barry. Cultura do Medo. São
Paulo: Francis, 2003.
POPCORN, Faith. The Popcorn Report. New York: Harper Business, 1992.
PORTAS, Nuno. Funções e Exigências de Áreas de Habitação. Lisboa: Bertrand (irmãos)
Ltda., fev.,1969.
QUEIROZ, Raquel de. O Não Me deixes: Suas Histórias e Sua Cozinha. São Paulo:
Siciliano, 2000.
RAPOPORT, Amos. “Sacred Places, Sacred Occasions and Sacred Environments”.
Architectural Design, 52 (9/10), 75-82, 1982. In BELK et alii, 1991.
RAPOPORT, Amos. “Sociocultural Aspects of Man-Environment Studies”. The
Mutual Interaction of People and Their Built Environment, RAPOPORT, A. (edt.),
The Hague, Netherlands: Mouton & Co, 1976.
RAPOPORT, Amos. House Form and Culture. Upper Saddle River, NJ: Prentice-Hall,
1969.
RAPOPORT, Amos. The Meaning of the Built Environment. Tucson, AZ: The
University of Arizona Press, 1990.
RATNER, Leonard G. Music: The Listener’s Art, 2nd ed. New York: McGraw-Hill,
1966. In Chamberlin, 2007.
REIS FILHO, Nestor G. dos. Quadro da Arquitetura no Brasil. São Paulo: Perspectiva,
1970.

281
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

RELPH, Edward. Place and Placelessness. London: Pion, 1976. In CRESSWELL, Tim,
2004.
RODRIGUES, Maria R. S. Lembranças por Metro Quadrado. Edição particular, 2003.
RYBCZYNSKI, Witold. Casa: Pequena História de uma Idéia. 1a ed. Rio de Janeiro:
Record, 1996.
SÁ, Alvino Augusto de. “Habitação e Personalidade”. SÁFADY, N. (org.), A Cidade, a
Habitação – Cadernos Farias Brito. Guarulhos (SP): APEC/Universidade de
Guarulhos, 1988.
SAEGERT, S. “The Role of Housing in the Experience of Dwelling” Home
Environments, ALTMAN, I. and WERNER, C. M. New York: Plenum, 287-309,
1985. In BELK et alii, 1991.
SAFRANSKI, Rüdiger. Heidegger: Um Mestre da Alemanha entre o Bem e o Mal. 2a. São
Paulo: Geração Editorial, 2005.
SAID, Edward. Culture and Imperialism. London: Vintage, 1994. In CRESSWELL,
Tim, 2002.
SAINT-EXUPÉRY, Antoine de. Citadelle. Paris, 1948. In BOLLNOW, Otto F., 1969.
SAINT-HILAIRE, Auguste de. Viagens pelas Províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais
(1816-1817)”. São Paulo: EDUSP/Belo Horizonte, Itatiaia, 1975. In BRUNO,
Ernani S. (B)., 2000.
SANTOS, Milton. (org.) et al. Fim de século e globalização. 4a ed. São Paulo:
Annablume, HUCITEC-ANPUR, 2002.
SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço. 4a ed., 1a reimpressão. São Paulo: Edusp,
2004.
SANTOS, Milton. e SILVEIRA, Maria. L. O Brasil: território e sociedade no início do
século XXI. 1a ed. Rio de Janeiro: Record, 2001.
SARAMAGO, José. As Pequenas Memórias. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
SCHAPOCHNIK, Nelson. “Cartões-postais, Álbuns de Família e Ícones da
Intimidade”. História da Vida Privada no Brasil: República: da Belle Époque à Era do
Rádio, vol. 3. NOVAIS, F. A. (coord.); SEVCENKO, N. (org.). São Paulo:
Companhia das Letras, 423-512, 1998.
SEAMON, David. “A Singular Impact: Edward Relph’s Place and Placelessness”.
Environmental and Architectural Phenomenology Newsletter, vol. 7, no. 3, 1996, 5-8.
In: http://www.arch.ksu.edu/seamon/index.htm.
SEAMON, David. “Body-Subject, Time-Space Routines, and Palce-Ballets”.

282
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

BUTTIMER, A. and SEAMON, D. (edits.). The Human Experience of Space.


Oxford, Blackwell, 1991. CRESSWELL, Tim. Place: a Short Introduction. Oxford:
Blackwell, 2004.
SEEL, R. Culture and Complexity: New Insights on Organisational Change. Culture
& Complexity – Organisations & People, vol. 7, no. 2. 2002. http://www.new-
paradigm.co.uk/culture-complex.htm (última visita em 24, mai, 2006)
SHELDRAKE, Philip. Spaces for the Sacred: Pace, Memory, and Identity. Baltimore: The
John Hopkins University Press, 2001.
SILVA, José Afonso da. Curso de Direito Constitucional. 23a ed. revisada nos termos da
Reforma Constitucional (até a Emenda Constitucional n. 42, de 19.12.2003,
publicada em 31.12.2003). São Paulo: Malheiros Editores, 2004.
TASCHNER, Suzana Pasternak. “Família, Habitação e Dinâmica Populacional no
Brasil Atual: Notas Muito Preliminares”. Habitar Contemporâneo – Novas
Questões no Brasil dos Anos 90, GORDILHO-SOUZA, A. (org.), Salvador:
FAUFBA, Mestrado em Arquitetura e Urbanismo/ Lab-Habitar, 1997.
The Oxford Universal Dictionary – On Historical Principles. 3a ed. revisada com
adendos. London: Oxford University Press, 1955.
THOMPSON, Paul. A Voz do Passado: História Oral. 3a ed. São Paulo: Paz e Terra,
2002.
TOMLINSON, Jonh. Globalisation and Culture . Cambridge: Polity Press, 1999.
TUAN, Yi-Fu. “A View of Geography”. Geographical Review, 81:1, 99-107, 1991.
CRESSWELL, Tim. Place: a Short Introduction. Oxford: Blackwell, 2004.
TUAN, Yi-Fu. Escapism. Maryland (Baltimore): The Johns Hopkins University Press,
1998.
TUAN, Yi-Fu. Espaço e Lugar. São Paulo: DIFEL, 1983.
TUAN, Yi-Fu. Space and Place: The Perspective of Experience. Minneapolis: University of
Minnesota Press, 1977.
TUAN, Yi-Fu. Topophilia: a Stdudy of Environmental Percepcion, Attitudes, and Values.
New York: Columbia University Press, (reprint edition) 1990.
VERÍSSIMO, F. & BITTAR, William. S. M. 500 Anos da Casa no Brasil: As
Transformações da Arquitetura e da Utilização do Espaço de Moradia. Rio de Janeiro:
Ediouro Publicações S.A., 1999.
VESAAS, Tarjei. Huset of Fugles. Oslo, 1971. In NORBERG-SCHULZ, Christian,
1985.

283
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

VESAAS, Tarjei. Vindane. Oslo, 1952. In NORBERG-SCHULZ, Christian, 1985.


VIRILIO, Paul. A arte do Motor. 1a reimpressão. São Paulo: Estação Liberdade, 1996.
VIRILIO, Paul. O Espaço Crítico. 1a ed. (1993), 2a reimpressão. São Paulo: 34, 1999.
WERTHEIM, Margaret. Uma História do Espaço: de Dante à Internet . Rio de Janeiro:
Jorge Zahar, 2001.
WESTIN, Alan. F. Privacy and Freedom. New York: Atheneum, 1967. In GIFFORD,
Robert, 1997.
ZEVI, Bruno. Saber Ver a Arquitectura. Lisboa: Arcádia, 1966.

Teses e dissertações

CAMARGO, Érica N. de. Desenho e Uso do Espaço Habitável do Apartamento


Metropolitano na Virada do Século 21: Um Olhar Sobre o Tipo ‘Dois-dormitórios’ na
Cidade de São Paulo. Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de
São Paulo. Dissertação de mestrado: 2003.
CARBONE, Maria Herminda. Tísica e Rua: os Dados da Vida e Seu Jogo. Fundação
Oswaldo Cruz, Escola Nacional de Saúde Pública. Dissertação de mestrado:
2000. In
http://portalteses.cict.fiocruz.br/transf.php?script=thes_chap&id=00000404&l
ng=pt&nrm=iso (última visita em 8, mar, 2007).
CENCIC, Alenka. A morada Poética Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da
Universidade de São Paulo. Tese de doutorado: 2002.

Periódicos (em papel)

BARLOW, John P. “Howdy Neighbours”. Guardian, 24 Jul, 1995. In MORLEY,


David, 2000.
“Cuidado: o ladrão pode estar dentro do prédio”. Jornal O Estado de S. Paulo, caderno
Cidades, 23, mai, 2004.
LEMOS, Carlos. “Morar em São Paulo” (entrevista). Casa e Jardim, 92-97, jun, 2003.

284
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Mídia Eletrônica

Comportamentos & Espaços de Morar – Segunda E-Pesquisa Nomads.USP –


Resultados Gerais.
http://www.eesc.usp.br/nomads/Resultados_press_mai04.pdf (última visita em
24, mai, 2006)
Diccionario de Sinónimos y Antônimos. Madrid: Espasa-Calpe S.A., 2005. In:
http://www.wordreference.com/espt/ (última visita em 24, abr, 2007)
ENCARTA® World English Dictionary © & (P), Microsoft Corporation, 1999.
Encyclopedia Britannica Online -
http://www.globaled.org/nyworld/materials/greek2.html (última visita em 25, abr,
2007)
Faith Popcorn’s Brain Reserv – www.faithpopcorn.com (última visita em 24, mai,
2006)
HOLANDA, Aurélio. B. de. Novo Aurélio – O Dicionário da Língua Portuguesa – Século
XXI, versão 3.0. CD-ROM. Nova Fronteira; Lexicon Informática Ltda., nov.,
1999. Corresp. à versão integral do Novo Dicionário Aurélio – Século XXI, Nova
Fronteira.
HOUAISS, Antônio. Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa, versão 1.0.
CD-ROM, Objetiva ltda – Instituto Antônio Houaiss, dez., 2001.
http://200.212.93.30/uploadNoblat/upload/-90817d1_104c5159144_-7ff4.doc
(última visita em 13, abr, 2006)
http://agenciact.mct.gov.br/index.php/content/view/43630.html (última visita em
8, mai, 2007)
http://altman.socialpsychology.org/ (última visita em 28, mar, 2007)
http://benfrank.net/blog/2005/09/10/military-on-us-soil-troops-search-house-to-
house-10000-holed-up-refuse-to-leave/ (última visita em 15, mar, 2006).
http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.jsp?id=K4785837Y9 (última
visita em 9, jul, 2007)
http://carteles.metropoliglobal.com/paginas/ficha.php?qsec=peli&qid=1660966160
(última visita em 15, mar, 2006).
http://cchr.rol.co.uk/pp/gold/viewGold.asp?IDType=Page&ID=7327 (última visita
em 15, mar, 2006)
http://cchr.rol.co.uk/pp/gold/viewGold.asp?IDType=Page&ID=7327 (última visita

285
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

em 25, mai, 2006)


http://en.wikipedia.org/wiki/John_Perry_Barlow (última visita em 6, mai, 2007)
http://en.wikipedia.org/wiki/John_Perry_Barlow (última visita em 8, mai, 2007)
http://en.wikipedia.org/wiki/Lucy_R._Lippard (última visita em 8, mai, 2007)
http://en.wikipedia.org/wiki/Metics (última visita em 25, abr, 2007)
http://en.wikipedia.org/wiki/Perspective (última visita em 26, mai, 2006)
http://en.wikipedia.org/wiki/Raymond_Williams (última visita em 14, jul, 2007)
http://en.wikipedia.org/wiki/Tim_Cresswell (última visita em 15, abr, 2007)
http://en.wikipedia.org/wiki/Tim_Cresswell (última visita em 25, mai, 2006)
http://en.wikiquote.org/wiki/The_Four_Quartets (última visita em 8, ago, 2006)
http://home.business.utah.edu/mktrwb/russ2.htm (última visita em 15, mar, 2006)
http://journals.aol.com/cgflower2/LifeAfterHurricaneKatrina-Cyndis/ (última visita
em 15, mar, 2006).
http://libarts.wsu.edu/ces/Azfar/ (última visita em 6, mai, 2007)
http://libarts.wsu.edu/ces/Azfar/ (última visita em 8, mai, 2007)
http://marketing.eller.arizona.edu/faculty/mwallendorf.aspx (última visita em 15,
mar, 2006)
http://pt.wikipedia.org/wiki/Correspond%C3%AAncia_de_Fradique_Mendes
(última visita em 14, jul, 2007)
http://pt.wikipedia.org/wiki/Furac%C3%A3o_Katrina (última visita em 1, set,
2006).
http://pt.wikipedia.org/wiki/Louis_Claude_de_Saulces_de_Freycinet (última visita
em 26, mar, 2007)
http://sistemas.usp.br/atena/atnCurriculoLattesMostrar?codpes=21205 (última visita
em 9, jul, 2007)
http://users.aber.ac.uk/tjc/intro.shtml (última visita em 25, mai, 2006)
http://videodetective.com/home.asp?PublishedID=99843 (última visita em 15, mar,
2006).
http://www.aber.ac.uk/iges/staff/cresswelltim.shtml (última visita em 25, mai, 2006)
http://www.abp.unimelb.edu.au/people/staff/doveyk.html (última visita em 14, jul,
2007)

286
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

http://www.aliveintruth.org/stories/denise_richard.htm (última visita em 15, mar,


2006).
http://www.allbookstores.com/author/John_F_Sherry_Jr.html (última visita em 15,
mar, 2006)
http://www.angelfire.com/film/homecinema/#hometheater (última visita em 24,
mai, 2006)
http://www.arch.ksu.edu/seamon/index.htm (última visita em 25, abr, 2007)
http://www.arch.ksu.edu/seamon/index.htm (última visita em 8, mai, 2007)
http://www.blackwell-compass.com/subject/geography/profile?person=MayJon
(última visita em 14, jul, 2007)
http://www.britannica.com/eb/article-9036294 (última visita em 8, jul, 2007)
http://www.camara-e.net/interna.asp?tipo=1&valor=3523 (última visita em 24, abr,
2006)
http://www.cleanicum.de/ (última visita em 17, mar, 2006)
http://www.direito.usp.br/docentes/aposentados/dap_docentes_jas_01.php (última
visita em 26, mar, 2007)
http://www.dur.ac.uk/theology.religion/staff/?id=2012 (última visita em 8, mai,
2007)
http://www.e-commerce.org.br/STATS.htm#H (última visita em 24, abr, 2006)
http://www.eesc.usp.br/nomads/ (última visita em 28, mar, 2007)
http://www.eesc.usp.br/nomads/livraria_artigos_online_novas_midias.htm (última
visita em 15, mar, 2006)
http://www.fgvpr.br/smart/noticias.asp?IdNoticia=41 (última visita em 24, abr,
2006)
http://www.gilc.org/privacy/survey/ (última visita em 22, mar, 2007)
http://www.goldsmiths.ac.uk/media-communications/staff/morley.php (última visita
em 8, jul, 2007)
http://www.ibope.com.br/calandraWeb/servlet/CalandraRedirect?temp=5&proj=Po
rtalIBOPE&pub=T&db=caldb&comp=Notícias&docid=C8C10154A22015428
32570DD006CBAFF (última visita em 24, abr, 2006)
http://www.jura.ch/acju/Departements/DED/OCC/Documents/pdf/Unesco.pdf
(última visita em 5, abr, 2007)
http://www.kitchenstories.de/ (última visita em 15, mar, 2006).

287
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

http://www.luiz.delucca.nom.br/wep/rw_rn2walkure1_1.html (última visita em 26,


jul, 2006)
http://www.mre.gov.br/cdbrasil/itamaraty/web/port/polsoc/dirhum/prognac/
(última visita em 9, jul, 2007)
http://www.museum.tv/archives/etv/W/htmlW/williamsray/williamsray.htm
(última visita em 14, jul, 2007)
http://www.newagebd.com/2007/apr/27/liti.html (última visita em 8, mai, 2007)
http://www.nytimes.com/2005/10/09/fashion/sundaystyles/09writers.html?ex=128
6510400&en=d939760e9736c042&ei=5090&partner=rssuserland&emc=rss
(última visita em 17, mar, 2006)
http://www.oaklandlibrary.org/oaklandhistory/earthquake89/OIT89.html (última
visita em 13, abr, 2006)
http://www.oup.com/uk/catalogue/?ci=9780199252275 (última visita em 1, mai,
2007)
http://www.paragraphny.com/ (última visita em 17, mar, 2006)
http://www.pps.org/info/placemakingtools/placemakers/ccmarcus (última visita em
9, jul, 2007)
http://www.pps.org/info/placemakingtools/placemakers/roldenburg (última visita
em 20, mar, 2006)
http://www.project-solvers.com/news_6.shtml (última visita em 24, mai, 2006)
http://www.reelingreviews.com/kitchenstories.htm (última visita em 15, mar, 2006).
http://www.releituras.com/racheldequeiroz_bio.asp (última visita em 13, abr, 2006)
http://www.rino.com.br/pesquisa/ (última visita em 1, abr, 2007)
http://www.sasin.edu/faculty/resumes/CV_2001_Prof._Sherry_Web.doc (última
visita em 15, mar, 2006)
http://www.sunderland.ac.uk/~as1sth/shaun.htm (última visita em 1, mai, 2007)
http://www.sunderland.ac.uk/~as1sth/shaun.htm. (última visita em 8, mai, 2007)
http://www.trendwatching.com/ (última visita em 16, mar, 2006)
http://www.uh.edu/engines/powersir.htm (última visita em 4, abr, 2007)
http://www.unhchr.ch/udhr/lang/por.htm (última visita em 15, mar, 2007)
http://www.unitymarketingonline.com/reports2/home/pr2.html (última visita em
24, mai, 2006)

288
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

http://www.unizg.hr/263.0.html (última visita em 4, abr, 2007)


http://www.webcine.com.br/filmessi/kitchsto.htm (última visita em 15, mar, 2006).
http://www1.folha.uol.com.br/folha/eventos/palestra_linguagem_violencia_200006
13.htm (última visita em 31, jan, 2007)
https://dspace.unav.es/retrieve/2228/bastons94.pdf (última visita em 22, nov, 2006)
PESSOA, Fernando. Poesias de Álvaro de Campos, 15, jan. 1928:
http://www.insite.com.br/art/pessoa/ficcoes/acampos/456.html (última visita
em 24, mai, 2006)
PESSOA, Fernando. Poesias de Álvaro de Campos, 15, out. 1929. In:
http://www.insite.com.br/art/pessoa/ficcoes/acampos/473.html (última visita
em 24, mai, 2006)
Privacy and Human Rights 1999: An International Survey of Privacy Laws and
Practice: Global Internet Liberty Campaign -
http://www.gilc.org/privacy/survey/ (última visita em 26, mai, 2007).
The American Forum for Global Education. In:
http://www.globaled.org/nyworld/materials/greek2.html (última visita em 24,
abr, 2006)
www.pandab.org/WestinTstmy.pdf (última visita em 1, abr, 2007)
www.unesp.br/vestibular/pdf/provap_jul03.pdf (última visita em 8, mar, 2007)

Filmografia

E.T. (E.T. the Extra-Terrestrial). Direção: Steven Spielberg. Estados Unidos, 1982.
Histórias de Cozinha (Salmer fra kjøkkenet). Direção: Bent Hamer. Noruega, Suécia,
2003.
Mon Ocle. Direção: Jacques Tati. França, 1958.

Outras Mídias

“Circuladô Vivo”. Fita VHS. Polygram do Brasil Ltda., co-produção de Conspiração


Filmes e Video Filmes, 1992.

289
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Apêndice

Transcrição das entrevistas

290
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Alencar
35 anos
Casado, 3 filhos
Professor de educação física
Mora com a mulher e três filhos no apartamento de seus pais, na cidade de São Paulo

[O que quer dizer casa, pra você?]

Olha, quando eu penso em casa, eu penso em conforto e segurança. É o nosso quartel general,
né, onde você comanda tudo, onde você põe as idéias em dia; sossego, reflexão... e o descanso,
também; repouso p’rum novo dia... tranqüilidade. Mas, também, pra mim, a minha casa sempre
foi as minhas coisas; o meu canto, a minha cama, a minha televisão, o meu banheiro... É ficar à
vontade, de bermudão, tal, sem incomodar ninguém. Então, essa falta de divisão é que incomoda.

[Como assim?]

Hoje, o meu momento financeiro tá numa fase muito difícil. Eu tinha uma pizzaria, um sócio... é
uma longa história que acabou com a minha falência. E hoje eu tô vivendo de favor, num quarto,
na casa da minha mãe – eu, minha esposa e mais três filhos. Um quarto, mesmo; um quarto de
verdade! Minha mãe emprestou um quarto da casa dela. É um apartamento grande, no Itaim,
daqueles antigos, então você tem um espaço bom. Ele é grande, o pé‐direito é grande, bem
antigão. Então, comporta uma cama de casal com um colchão king size, uma cama de solteiro –
uma bicama –, que fica grudada na minha, o espaço da cômoda, a poltrona, e o colchãozinho que
a gente põe pra menorzinha...

[Quais as idades dos seus filhos?]

Eu tenho uma menina de oito anos – é o que eu acho o mais difícil de lidar: do seu lado, da cama
de casal, né? –, um menino de cinco anos, e uma menina de um ano e meio. Agora, o que menos
eu tenho é privacidade.

[De que forma a privacidade lhe faz falta?]

Na educação dos meus filhos, sem nenhuma intromissão de terceiros; numa conversa com a
minha esposa, sem nenhuma intromissão; na hora de comer... Porque, agora, divide‐se tudo;
então, você tem que estar de acordo com o ritmo da casa – que não é mais minha. A intromissão
da minha mãe – minha esposa não consegue fazer uma discussão saudável comigo, que tem

291
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

alguém por perto... disfarçando, sabe? Sempre tem alguém. Sei lá, eu tô na cozinha conversando
com a minha esposa, entra a minha mãe, ou o meu pai...

Então, eu acho que é isso que incomoda mais o dia‐a‐dia, principalmente da minha esposa: ela
não poder andar em casa à vontade, de repente, a porta aberta, meu pai passa no corredor...
essas coisas que... É uma intromissão direta, mesmo. Não tem como não se intrometer; não dá,
né? Minha esposa sente ainda mais isso do que eu – ela já tá entrando em desespero. Talvez por
ser a casa da minha mãe, eu não sinto tanto quanto ela. Eu só fico angustiado de ver as crianças
crescendo e a gente não ter espaço pra namorar, não ter espaço pra conversar, então, isso me
angustia. Mas, eu acho que o mais difícil é pra ela – que é a casa da sogra. Eu acho que o que
segura mais, agora, são as crianças. Se não, já tinha cada um ido pra um canto. Então, é uma fase
complicada... nós estamos falando de um ano e oito meses.

[Se, pra você, sua casa é, também, suas coisas, seu canto, sua televisão, como você convive com
essa realidade?]

Eu tive que abrir mão de muita coisa e perdi muitas referências. Eu queria chegar em casa e ter
tranqüilidade. Achar o meu livro que tava lá – já não tiraram do lugar; aquele filme de DVD que
você tem, que você quer chegar e assistir à vontade... esse dia‐a‐dia que você só valoriza depois
que você não tem ele. Então, acaba faltando muita coisa. Mas, o fato é que eu me apeguei mais
ao trabalho. Então, eu fico muito pouco lá. Eu saio às sete horas da manhã, quando eu volto, é
onze horas da noite. Então, é a pousada, agora; um lugar que eu vou pra dormir e tomar banho.

[Com relação à sua casa, qual seria o ideal?]

Voltar a ter minha residência: com os quartos das crianças, uma suíte, com a sala, com os
banheiros... Eu morava num apartamento em Moema, tinha um padrão razoável, não era um
padrão baixo. Era um apartamento com dois quartos – dois dormitórios, né? Mas tinha o lazer das
crianças, que hoje não tem. Você, num apartamento muito antigo, as crianças têm que ficar
dentro de casa tam‐bém – pra ajudar! Então, no final da semana, se tá chuvoso, você não tem o
que fazer. E, aí, começam as agressões verbais. Você conviver com as pessoas, você tem os
ataques, as alfinetadas... tá tudo confinado, né?... Aí, à noite, tá aquele calorzão, cê quer dormir
de porta aberta, não, tem que fechar a porta porque tem a passagem do corredor, pro banheiro,
então não pode.

E também, eu tenho o objetivo de ter a minha casa. Hoje, ele está um pouco distante mas, não ter
a própria casa pesa. É uma questão de segurança, você vai envelhecendo, sem casa..., você não
tem como pensar “isso aqui é meu, patrimônio meu, ninguém mexe”.
Entrevista realizada em 23/03/2007

292
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Amélia
64 anos
Separada, 3 filhos
Profissional de circo de lona; aposentada
Mora em apartamento do conjunto habitacional na cidade de São Paulo

[Como profissional de circo, a senhora poderia contar‐me um pouco da sua experiência de


moradias?]

Eu sou a quarta geração circense na minha família. Eu nasci, me criei, casei no circo. Nós éramos
nômades. Quando eu nasci, ninguém morava no circo. Morava‐se em pensões, os melhores
ficavam em hotéis. Depois, evoluiu um pouco e passamos a morar no circo, em barracas de lona –
eu ainda era pequena. Eu tanto me lembro de morar hotéis, em pensões, como quando a gente
foi morar em barraca. Pra nós, era a mesma coisa – tanto fazia morar na barraca, quanto no hotel.
Porque a mulher do circo já nasce naquela vida, e a criança já vê as outras mulheres vivendo
aquela vida, então ela já está dentro do seu habitat.

[Como era morar em barraca?]

Na barraca é o seguinte: tinha umas que eram caprichosas, outras que não eram. Mas, a minha
mãe era muito caprichosa. Eu me lembro que meu pai levantava de manhã, já com a vassoura na
mão, e varria ao redor da barraca, todinha. Nossa barraca era limpa, limpíssima! E eu me
acostumei com isso. Quando a gente chegava na cidade – quase sempre de noite –, no dia
seguinte minha mãe já ia nos vizinhos pra saber – “A senhora tem porco? Então, a senhora me
arruma uma lata, que eu vou juntar a lavagem”. Porque no circo é difícil, o que é que você faz
com o resto da comida? Essa lata ficava, então, atrás da barraca, e a gente jogava os restos ali.
Sempre tinha uma outra lata para o lixo, pra não fazer sujeira. A minha família sempre teve esse
cuidado e eu segui. Meus filhos, também, foram acostumados assim; quando eles eram
pequenos, eu perguntava “onde vai jogar isso?” e eles, “no lisso!”; “e isso?”, “na lavase”.

Mas, naquela época, era difícil porque até você se encontrar na cidade, saber onde tem um
armazém, uma loja, um posto médico... Naquele tempo não tinha tantos postos de saúde como
hoje. E já chegava na cidade, sendo mal visto. Hoje é bem visto, já não é como antigamente.
Porque, às vezes, na frente desse circo que chegou, passou um que ficou devendo isso, devendo
aquilo, fez uma sujeitada. Então, o que vem atrás sofre as conseqüências.

Uma vez, minha mãe estava com meu irmão, doente. Meu pai foi pedir um vale ao dono do circo
pra levar meu irmão ao médico, e ele não deu. Naquela época, os artistas ajudavam a montar e a

293
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

desmontar o circo. Chegou o dia da estréia e meu pai não foi ajudar porque ele estava com meu
irmão, em casa. Chegou a hora do espetáculo, o dono do circo mandou um empregado chamar.
Meu pai nem respondia, meu irmão estava morrendo. O dono do circo passou em frente de casa
e nem parou pra perguntar, só mandava recado pro meu pai ir trabalhar.

...

A gente não era acostumado numa casa. Quando a gente chegava na cidade, meu pai gostava de
alugar casa, ele não gostava muito de barraca – ele era meio orgulhoso, não gostava de estar no
meio do rebuliço. Naquela época, era muito fácil, sempre tinha uma casa vazia nas cidades.
Chegava o circo, eles já vinham até oferecer: “olha, eu tenho um quarto lá...”. Naquela época, não
tinha nem imobiliária, era com o proprietário “olha vamos ficar uma semana, quanto você vai me
cobrar por tantos dias?”, pronto. Alugava, na hora de sair, pagava e ia embora. Minha vida toda
foi assim.

Depois, eu fui proprietária de circo. Eu e meu marido. E a vida de circo, só quem dá mesmo pra
isso, porque não é fácil, era tudo muito difícil. As viagens de caminhão – hoje não, hoje o circo é
uma maravilha, todo mundo tem seu trailer, tem o seu carro. Desarmou o circo, ele fala “vou
embora hoje à noite, ou eu vou amanhã? Bom, hoje, ainda vou fazer umas coisas, e está
chovendo, então acho que eu vou amanhã...”. A hora que ele quer, ele sai e vai embora. Naquela
época a gente dependia do caminhão do circo – na hora que o dono do circo falasse “olha, fulano,
você vai amanhã”, a gente tinha que estar com tudo prontinho, pôr no caminhão e ir embora.
Mesmo quando eu tinha meus filhos, era assim. Se eu era a dona do circo, tinha que levar sempre
na cabeça, pra facilitar a vida dos artistas, eu me sacrificava.

[Como assim?]

Por exemplo: eu me lembro, uma vez que eu fiz uma viagem na Bahia, aquelas estradas terríveis.
Era caminhão alugado – a gente alugava os caminhões. Era uma situação ruim, eu vinha mal já há
oito praças, não tinha dinheiro pra nada. Dependendo do tamanho do circo, a gente ia em várias
viagens – se era um circão, eram quatro, cinco viagens; se era pequeno, ia até numa viagem só. O
meu tinha que ir em duas vezes. Aí, eu falei “vão embora, vocês, e eu vou na última viagem” – eu
e meus três filhos. Era longe, e meu marido foi na frente, na primeira viagem; um tinha que ir na
frente e o outro tinha que ficar. Fiquei eu e um casal de artistas que eu tinha, que tinha três filhas
– duas gêmeas recém‐nascidas e uma outra mais velha. Eu falei “meu Deus, como é que eu vou
fazer? Eu vou deixar eles na boléia do caminhão, e eu vou em cima com meus filhos”. Eu estou
acostumada a ir em cima do caminhão. Mas era de noite, com três crianças... ali eu achei difícil.

294
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Eu tinha uma empregada, uma pretinha, magra, muito alta, e eu falei “olha, eu vou amarrar você
lá em cima, no caminhão, pra você não cair. Não precisa ficar com medo, que eu vou com você.”
Aí, eu peguei umas cordas, amarrei a menina, amarrei os meus filhos. A única que não foi
amarrada fui eu porque eu tinha que segurar eles. E lá fomos nós – e já estávamos atrasados: isso
já era quinta‐feira de noite, e a gente tinha que estrear na sexta‐feira – sexta‐feira era o dia da
estréia, não podia perder. Se não, atrasava todas as contas.

E lembro que, no meio do caminho – a estrada era pavorosa –, o motorista disse “a senhora vai
descer daí. Vamos na boléia porque eu não estou dirigindo direto com a senhora aí em cima, com
essas crianças”. Aí, eu desci, e fui eu, minhas três crianças, as três crianças do casal – ele subiu e
ela ficou. Eu pequei os bebezinhos dela, botei meus filhos tudo sentadinho ali, e lá fomos nós. Por
isso que eu falo que as mulheres do circo antigo são maravilhosas – desculpe, mas isso eu tenho
que falar mesmo, porque hoje não se encontram mais, dificilmente. Existem grandes mulheres
hoje em dia, mas com todo o conforto, com recursos... naquela época não tinha isso.

Mas, na Bahia, nós levamos um couro, não ia ninguém ao circo. Pegamos a época de São João –
você sabe que essa época, lá, é muito importante – e eles não entravam no circo, nem que
amarrasse. Até que eu consegui sair. Fomos pra Januária, divisa com Minas. E eu em cima, com
meus filhos, de novo, na última viagem. E, em baixo, ia a mulher com as filhas. Mas, aí, eu já saí
de manhãzinha, porque de noite, não dava. E era uma viagem de um dia inteiro. Arrumei tudo,
pus os colchões – eu ficava fiscalizando a arrumação do caminhão porque tinha que ser daquele
jeito, senão, não dava pra colocar os colchões. Coloquei quatro varas e uns panos por cima, que o
sol da Bahia é terrível. Eu tentava proteger a minha cria da maneira que dava. E meus filhos foram
no colchão. Pra eles, era uma farra, e pra mim também, até que eu gostava! Passava em baixo
daquelas árvores de cajás, aquelas frutas, pegava, ia comendo.... E, sem perceber, eu passei a
viagem inteira com o pé no sol.

Quando nós chegamos, eram umas cinco horas da tarde. Aí, fui procurar uma casa pra ficar. Meu
marido tinha ido buscar minha família em outra cidade, pra poder estrear nessa cidade, que era
uma cidade grande. Quando eu desci do caminhão, eu pensei “o que será que eu tô sentindo, não
tô bem.” Alguém pôs a mão em mim e disse “nossa, a senhora tá ardendo em febre”. É gozado,
porque a gente tinha febre e nem sabia que era febre, porque não tinha tempo de saber que
estava doente.

E procurava, procurava, e não tinha uma casa: nisso, o caminhão descarregando. Às vezes, eu
arrumava uma casa tão grande – dependendo do que achasse, a gente entrava; se o preço era
bom, a gente pegava. Às vezes tinha gente que queria explorar, aí não dava. A gente sempre
alugava aquilo que sabia que podia pagar. Logo, a família das gêmeas já armou a barraca deles, e
eu deixava meus filhos lá e ia procurar. Até que achei uma casinha atrás do circo, ótima pra mim,

295
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

pertinho. Pronto, aluguei essa casa. Botei minha tralha lá dentro, e tal, e tal, e tal. E eu não tava
agüentando mais nada, com aquela febre alta. E, nesses lugares pequenos, atrasados, não tem
nada aberto, nem uma farmácia. E, mesmo com o meu pessoal – você sabe que o material
humano é muito complicado –, muito pouca gente tinha pra ajudar. Eles achavam que eu tinha
que dar tudo pra eles. Eu mandei chamar a mulher do empregado e ela veio e fez a comida. Na
casa não tinha luz. Eu tinha que levar sempre lamparina, lampião, vela; tudo que iluminava, eu
carregava, e tinha que estar à mão. Chegava e já tinha que pegar, saber onde estava, porque ia
precisar.

Outra vez, o circo estava armado em Diamantina. Eu precisei extrair um dente e fui a um dentista,
lá. Quando ele extraiu, quebrou um ossinho. Pelo amor de Deus, o que eu sofri de tanta dor de
dente... demais! Nessa hora, você procura qualquer um que possa dar um jeito. Aí que eu
descobri que tinha uma faculdade odontológica lá. Eu fiz uma operação, eles tiraram um monte
de ossos, cortaram, fizeram e aconteceram. Eu tomei um monte de antibiótico, e aí foi que eu
melhorei.

[A senhora poderia contar como era o processo de ir de uma cidade para outra, levando sua
“casa” e sua família?]

Geralmente, a gente chegava nas cidades à noite. E meus filhos todos acordados, porque
“chegou”, não é? A mais nova querendo mamar. A gente tinha que usar leite em pó, não tinha
outro jeito. Então, já ia tudo certinho, nos lugares. Não podia esquecer nada porque eu chegava
de noite, e não tinha onde comprar. Então, já ascendia o fogo, fervia a água, batia o leite, e ela
mamava – essa era a minha primeira preocupação. Aí, ela dormia, e os outros mais velhos,
ficavam esperando pra comer e dormir. Meu marido armava a barraca com os empregados, e o
resto era comigo. Colocava meus filhos pra dormir e, naquela noite, eu tinha que deixar tudo
pronto porque, no dia seguinte, eu tinha que fazer almoço. E também tinha que ir pra rua,
resolver os problemas burocráticos do trabalho. Às vezes, eu ia lavar fralda, ainda, àquela hora.

Aí, eu arrumava as coisas no armário, ia lá fora, pegava tijolo, calçava – não podia ficar direto no
chão porque quando chovia, mesmo que você fizesse a vala, sempre minava água. Então, tinha
que pôr os tijolos em baixo, pra calçar. Ficava até bonitinha, com cara de casa! O armário de
caixote, uma mesa com o fogão jacaré, as outras malas; armava a cama. A gente usava muito
umas malas de madeira: você chegava, esvaziava, virava, elas já tinham as prateleiras, e virava o
armário. A tampa era a mesa: colocava os pés, assim, e já montava. As camas tinham que ser de
casal, pra facilitar. A gente tinha uns cavaletes e nesses cavaletes punha as tábuas em cima, e
punha o colchão. Às vezes, eu falo que eram até melhores do que as camas que a gente tem
agora. Tinha até berço de armar; tinha cortina, que separava o quarto da cozinha – não era assim
tudo aberto – era tudo legal!... Tô te falando, era uma casa, mesmo!

296
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

A gente tinha tudo, tudo. O fogão não era desses convencionais, sempre era fogão‐jacaré, ou um
fogareiro elétrico, ou um fogão de lenha que a gente fazia lá mesmo, atrás da barraca. Isso
dependia da necessidade e do que tinha. Só sei que a gente se virava e fazia comida. Eu lavava as
fraldas, e não gostava de varal do lado de fora porque o povo passava, o circo não tava armado
ainda, e via aquele varal – aquilo, pra mim, era pavoroso! Então, eu fazia um varal dentro da
barraca, e ali pendurava as fraldinhas. Eu precisava ter uma empregada porque eu tinha três
filhos, era secretária do circo. Tinha umas que iam embora, quando chegavam na cidade, e aí,
tinha que arrumar outra na próxima cidade. E eu precisava mesmo; olha, era uma coisa incrível o
que a gente trabalhava.

Sempre tinha alguém para olhar as crianças quando eu precisava sair: os artistas, alguém – “Você
olha minhas crianças?”, “Olho!”. Cada época tinha uma pessoa; eles não eram eternos. Uns não
gostavam, queriam ganhar mais, aí, iam embora pra outro circo. Era assim. Tinha época que tinha
minha tia, e ela tomava conta dos meus filhos. Às vezes ela fazia até a comida, mas eu não
gostava porque eu tenho um sistema de cozinhar, fazendo economia – são dezoito, vinte e cinco
pessoas – tinha que saber como fazer. Eram dois quilos de arroz por refeição, era feijão adoidado.
E depois, tinha a minha filha do meio, que puxou à mãe; era dona, mesmo, de casa. Ela também
ajudava.

[Como vocês faziam para ir ao sanitário? Onde tomavam banho?]

Banho era na bacia. A barraca é fechada, é uma casa, ninguém entra, então não tinha problema.
Você tinha, lá, o seu quarto divididoa, se precisava, tomava banho. E, também, o circo sempre
teve um banheiro comunitário. Os adultos usavam aquele banheiro. As crianças usavam em casa.
Eu não deixava minhas crianças – eu achava que não era legal, uma fossa, sabe? Eu tinha sempre
um urinol pra elas, depois eu jogava naquele banheiro comunitário. Porque as crianças, quando
iam ficando mocinhas, já iam ficando com vergonha de passar com o urinol, aí, eu dizia “deixa que
eu levo”. Punha um pano por cima, e levava lá. Lavava bem lavado e punha em baixo da cama de
novo. Quando tinha uma casa no fundo do circo, e tinha banheiro do lado de fora – antigamente
era assim –, às vezes a dona deixava a gente usar, principalmente as mulheres.

A gente também pegava água lá. Muita gente boa via a dificuldade da gente e deixava a gente
tomar banho: “toma um banho aí!...”. Aí, eu tomava banho, dava banho nas crianças, levava um
pouco d’água, e vinha embora. Os homens se viram, eles tão sempre na rua, no bar, então eles
ocupam lá. As mulheres sempre arrumavam uma casinha pra não precisar ocupar o banheiro do

a
Após a entrevista, Amecy me relatou que o espaço interno da barraca era dividido com cortinas de tecido
que separavam os quartos – setor íntimo – da cozinha, sendo que havia, também, uma divisão entre o
quarto do casal e das crianças.

297
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

circo. Os homens, pra tomar banho – normalmente, em posto de gasolina tem banheiro
comunitário –, eles iam tomar banho lá; não dava muito trabalho, mulher é que era mais difícil.

Mas, às vezes, a gente chegava num lugar, não tinha nem água. Eu tinha latões, e tinha que levar
cheios d’água. E, às vezes, a gente já vinha de uma cidade que não tinha água, também. Teve uma
cidade na Bahia, que eu cheguei – era umas sete horas da noite, não era muito tarde. Aí, bati
numa casa: “Oi, boa noite. A senhora podia me arrumar um pouco d’água? – Eu não dou água pra
gente de circo”. E, plá, bateu a porta. Minha Nossa Senhora, o que fazer? Aí, sempre tem uns
molequinhos que vendem coisa pela rua: “Filho, tem um bar aberto por aí?”, “Ah, agora não tem
nada aberto, tudo fechado.”; “Então, vai na sua casa ver se você arruma uma garrafa d’água”. Aí,
ele ia até escondido da mãe, trazia a garrafa, pra ganhar um ingresso do circo: “Obrigado, viu?
Você ajudou no circo, então amanhã você volte, que vai entrar de graça”. E saiu pulando: “Ai, eu
vou entrar de graça no circo!”.

[A senhora disse que sua barraca ficava com “cara de casa”...]

É... as pessoas têm mania de falar que o pessoal do circo dorme tudo junto, mora tudo junto,
aquela confusão toda. E elas são sempre são curiosas. Então, eu fazia questão, mesmo, que eles
viessem na nossa casa, pra ver que não era assim; que era igual à vida deles; a única diferença era
que a gente viajava, e cada hora estava num lugar. Mas cada um tinha sua casa, sua cama, a
individualidade existia. Aí, eles começavam a achar a gente normal, como eles, e a tratar melhor.

A única coisa que não tinha era enfeites, essas coisas; não dava pra estar carregando. E também,
não se podia ter muita coisa porque muitos temporais derrubavam, até, barracas. Como é que
você ia ter bibelôs? Não dava. A comodidade que eu tenho hoje, morando num apartamento, por
exemplo, eu não tinha. O que a gente tinha era o bruto mesmo. Em vez do sofá, a gente tinha
uma mala que dava pra sentar em cima; tinha a mesa, que dava pra almoçar; cadeira, tinha à
vontade, porque o circo tinha muita cadeira. Carregava tudo – louça – de uma maneira que não
fosse fácil de quebrar: Pratos, a gente embalava com jornal, e guardava num lugar que a gente
sabia que não estava em falso – tem que saber arrumar uma mala de cozinha, pra viajar. Eu tenho
tanta prática disso, que depois que eu parei com o circo, o que eu já me mudei, você não faz
idéia.

[Mudou‐se?]

Eu criei meu filho mais velho até os treze anos no circo. Aí, eu falei “meus filhos têm que estudar,
eles não vão fazer o que eu fiz”. Porque eu estudei – quer dizer, eu fiz o básico – viajando. As
escolas são obrigadas a aceitar as crianças de circo, em todo o país – isso foi uma coisa boa que o
Getúlio deixou pra gente. Nem que seja uma cadeirinha lá no fundo, que seja por dois dias, elas

298
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

têm que colocar. Então, eu costumava chegar à noite, nas cidades, e se fosse cedo, ainda, eu já
me informava onde tinha uma professora, onde é a escola. No dia seguinte, eu já ia correndo lá e
meu filhos já iam pra escola. Quando eu estava com o Orlando Orfei, tinha cidade que eles só
ficavam dois dias na escola. E aí, eu falei “preciso parar pr’o meu filho fazer o ginásio.

Uma vez, depois de viajar o norte inteiro, o Orlado Orfei veio pra Santos. Aí, eu falei: “agora eu
tenho que aproveitar, senão, eu não paro”. E fui para Campinas – eu tinha muito conhecimento
lá, meu avô morava lá. Passei a morar lá e coloquei meu filho na escola. A mulher de circo sabe
fazer tudo – eu lavei, passei pra fora. Eu tinha três filhos pra criar!

Foi difícil me adaptar a essa vida mais parada – aliás, eu sinto falta das viagens até hoje [risos]. Aí,
eu fui conhecendo, vi as dificuldades que tem. Quando eu parei, eu não conhecia nada da história
cá fora. Só conhecia o mundo do circo.

[Onde a senhora passou a morar depois que saiu do circo?]

A minha primeira moradia foi num trailer, num terreno baldio que um amigo tinha; e ele deixou a
gente colocar o trailer lá. Fiquei eu e os meus três filhos – o meu marido viajava com o circo
Orlando Orfei, nessa época. Não podia parar. Eu parei em Campinas, fiquei com as crianças
estudando e ele viajava. A minha ex‐patroa vendeu o circo e também foi morar lá, com seu trailer.
E lá, a gente já se arrumou: fizemos um banheiro lá. A gente não tinha móveis, era só o trailer.
Então, eu deixei o trailer pra dormir. E lá tinha um barracãozinho de madeira jogado, que eu
resolvi fazer minha cozinha lá. Limpei, já tinha uma mesa, que eu aproveitei . Aí uma vizinha disse
que ia jogar um sofá fora, e perguntou se eu não queria: “Claro que eu quero”, eu disse. E já tinha
um sofá – não importava se fosse bom ou não; o importante é que já tinha alguma coisa. E aí, eu
ia ajeitando e ficava bom. E a minha filha do meio é uma dona‐de‐casa formidável, garças a Deus.
Ela que arrumava tudo.

Depois, eu passei a morar em casa, mesmo. Dois quartos; comprei um sofá usado... Mas nunca
perdeu a cara do circo: minha casa, eu acho que é sempre bagunçada. A minha filha sempre fala
“mãe, você não esquece do circo, mesmo! Arruma esse sofá, varre isso!... Tá na hora de você
chamar a mulherb.” Eu também nem posso estar limpando casa, fazendo faxina porque eu tenho
problemas ortopédicos por ter pegado muito peso, saltar muito.

[Como a senhora passou a morar neste apartamento?]

Ah... isso é uma história! Quando eu vim pra São Paulo – meus filhos já eram crescidos –, eu já
tinha me separado do meu marido. Aí, eu abri um buffet com meu filho. Eu fazia festas de

b
Amélia explica que “a mulher é qualquer uma da vizinhança. Tem um monte de faxineiras por aqui.”

299
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

crianças e confraternização de escritórios. Eu morava numa casa alugada. Um dia, faz uns sete
anos, eu estava na cozinha, fazendo as coisas para uma festa – minha mãe e minha filha moravam
comigo, mas nenhuma das duas estavam. De repente, veio a minha ajudante e disse: “Dona
Amélia, está saindo uma fumaça”. Quando eu passei pela sala, já estava saindo aquelas bolas de
fogo – as bolas subiam no teto. Quando eu fui entrar no quarto, não consegui mais: todinho
tomado pelo fogo! Como a casa era velha, deu curto circuito. Eu comecei a gritar “alguém chame
o bombeiro!” Aí chegaram quatro carros de bombeiro, fecharam a rua. E eles não me deixavam
entrar – porque sabiam que eu tinha coisas lá que eu tinha que socorrer. Uma confusão, e eu
chorando do lado de fora, a rua ficou cheia de gente. Quando eu entrei, que já era de noite, já não
tinha mais nada. A casa ficou toda preta, um castelo mal‐assombrado. Os bombeiros foram só
jogando pra fora, tudo molhado e queimado.

A minha vida pegou fogo: minhas coisas e minhas fotos de cinqüenta anos de trabalho. E eu,
vendo aquilo, não me conformava, eu só fazia chorar. Não salvou nada: os eletrodomésticos
foram todos, a televisão murchou. Minha máquina de costura dava até pra ser aproveitada, mas
eu chamei um rapaz e disse: “pode levar tudo!”, de desgosto... Só as coisas da cozinha, eu
consegui salvar, porque o fogo não chegou na cozinha. Eu tinha algumas peças de ouro numa
caixinha de jóias no quarto fatídico – nada de muito valor, sabe, mas muito importante pra mim.
Essa caixinha derreteu junto com o ouro, não consegui separar nada. Muita coisa os bombeiros
também levaram, né? Foram os primeiros a entrar lá! O fogo fez uma limpeza na minha vida; foi
horrível. De todos os eventos que eu tive na vida, esse foi o maior.

Daí, eu recomecei. Muita gente me deu dinheiro, na minha casa começou a chegar trouxas e mais
trouxas de roupa – roupa de sair, de tudo! –, panelas, colchões, cama, eu ganhei tudo! Do que eu
precisava pra dormir e comer, tudo. Não precisei comprar nada de imediato. E recomecei mesmo.
Aquela festa que eu estava preparando, quando pegou fogo, eu fiz tudo de novo e, mesmo triste,
fiz a festa. Eu tinha que recomeçar. Aí, a sogra do meu filho estava reformando a parte de cima da
casa dela, e ofereceu essa parte pra eu ficar: “Vê o que você consegue fazer lá”, ela disse. Aí, eu
fiquei lá um tempo. Estes apartamentos já estavam quase prontos. Quando inaugurou, eu vim
embora pra cá. E estou aqui há sete anos. É meia‐boca... Mas, Deus sempre me ajudou muito – eu
ganhei uma casa!
Entrevista realizada em 21/12/2004

300
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Analu
24 anos
Solteira
Musicista e professora de música
Mora sozinha em um apartamento na cidade de São Paulo

[Você poderia me contar como foi sair de uma cidade do interior para vir morar no seu
apartamento aqui, em São Paulo?]

Eu acho que o primeiro impacto são as imagens que a gente vê, mesmo, né, as diferenças entre
interior e capital. As primeiras imagens: criança na rua, com oito anos, fumando craque, aquele
monte de gente jogada, você tem que pular os corpos pra poder entrar no seu apartamento. Isso,
realmente, foi bem chocante, assim, deu um certo medo.. Então, nos primeiros três meses, eu
quase não saía – só pra trabalhar. Às vezes, eu preferia ficar lá, colocar um som, ouvir. Muitas
vezes, eu ficava limpando o apartamento o dia todo – que eu tenho uma neura com limpeza e
organização, que é muito grande – só pra não sair. Às vezes eu sento pra estudar piano, aí vejo
aquela camada de poeirinha por cima do piano, eu já fico nervosa. E aqui é aquela poeira preta,
de poluição, mesmo. Então, no começo, se eu não fosse trabalhar, eu, realmente, não saía. Não
saía pra ir num cinema, não saía pra nada. Saía pra ir no mercado, porque tinha acabado comida
em casa, então saía. Mas, era tudo bem, bem estranho, mesmo. Daí, ele foi‐se tornando, mesmo,
o meu refúgio. É um lugar que eu gosto, mesmo, de voltar pra lá. Assim, eu fico contente que eu
vou acabar o meu trabalho e vou voltar pro meu canto.

No interior, eu morei sempre em casa, casinha mesmo, interior, aquela coisa... a última casa que
eu morei foi uma casa extremamente antiga. O chão era tijolão, mesmo. Daí, vir pra São Paulo foi
a minha primeira experiência em apartamento. Assim: você não tem quintal, você não pode fazer
barulho – já começou a ser vetado um monte de coisa. Eu lembro que o primeiro dia que eu fiquei
em casa, eu comecei a ficar louca porque eram vários sons: tocava interfone, campainha, telefone
fixo, que até então eu não tinha, e o celular... Aí, eu falei, “Deus, nossa, me ajuda!”. Às vezes
tocava o interfone, eu ia pro telefone, tocava o celular, eu ia pra campainha... uma coisa louca!

Mas, agora, esse apartamento, eu acho que eu acabei adaptando ele como um refúgio, e isso
perdura até hoje, porque é um espaço bacana – é um apartamento antigo: é um quarto, sala,
cozinha, banheiro. Ele tem a minha cara, mesmo. Quem chega, quem me conhece, fala assim “pô,
é a tua cara”... o clima, a energia, a distribuição das coisas. E ele é muito silencioso, ele é
espaçoso... eu gosto – gosto dali.

[Por que você escolheu morar ali?]

301
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Porque, antes, morava uma amiga minha nesse apartamento, e quando eu vinha de Tatuí pra cá,
pra trabalhar na escola, eu já ficava ali, eu já dormia com ela de quarta pra quinta. Mas, já na
época da minha amiga, que eu cheguei no ap, eu olhei e eu gostei. Era uma sala grande,
retangular, o quartão, cozinha legal, tal. E aí – ela era americana –, o pai dela faleceu e ela voltou.
E, já naquele impasse de eu vir pra cá, eu acabei ficando ali. Então, é super‐bacana porque, na
verdade, eu achei que ele veio pra mim!

E agora, a minha casa, ela é assim: a minha mãe é costureira, então, muitas coisas que tem em
casa, é ela que fez. Então, assim: eu moro longe dos meus pais fazem cinco anos, vai fazer seis.
Então, eu gosto dessa coisa que a minha mãe tem, de fazer as coisas pra mim, porque, pra mim,
eles tão ali. Então, assim, tem o violão – o violão é o meu pai, porque o meu pai toca. E, mesmo
essa coisa da organização, que eu falei que eu sou bem noiada com limpeza: eu gosto de tudo
organizado e tudo limpo, mas também não gosto daquela casa que parece casa de boneca, que
não mora gente. Então, eu acho que a movimentação das coisas é importante, a troca de lugar.
Ou mesmo, se eu li um livro, deixar esse livro lá, porque ele tá tendo um dinamismo ali.

E as coisas de casa... é assim: os meus móveis é tudo cada um de uma cor, cada um de uma coisa
–porque desde que eu saí de casa, eu saí pras vizinhança lá, da minha mãe: “olha, quem tem
fogão pra dar, quem tem mesa pra dar, me dá aí, porque eu vou morar fora e não tamo com
grana pra comprar nada, agora”. Então, a primeira mesa que eu tive era mesa bem antiga, mas
bem fortona, assim; que a mesa já veio de um bazar, que já tinha sido de não sei quem. Beleza, a
mesa. As cadeiras, meu pai sempre mexeu, também, um pouco com madeira, então era assim,
uma cadeira era uma mais alta, outra era mais baixa, em tons diferentes. E eu penso muito nisso,
assim, cada coisa que eu adquiro, às vezes, eu penso de benzer. Porque já veio de uma outra
história e vai começar uma nova história. Eles tiveram em outras casas, com outras vivências.
Mesmo essa cama que eu comprei agorac – pô, ela é de 1940! Quanta coisa não rolou, quanta
gente, de repente, já chorou em cima dela, já sorriu, né, fez milhões de filhos, teve uma noite boa
ou ruim de sono... de repente é válido benzer... ou passar um bom pano com lutra‐móvel [risos],
jogar umas pétalas de rosa... Porque eu acredito mesmo nisso, que cada coisa tem seu histórico;
como a minha casa – ela é composta por coisas que foram de outras pessoas, elas tão vibrando
ali, também.

O sofá – o sofá, eu arrumei um sofá há uns dois anos, que era de um amigo meu. O pai dele fez
esse sofá – que eles moravam na Inglaterra –, então, é um sofá com a estrutura de madeira, mais
ou menos num tom claro assim, e as almofadas, eram seis almofadas que, simplesmente, jogava
os assentos e jogava o encosto. Aí, ele era todo molenga, as almofadas tavam lá, era aquele
tecido até hoje, depois de vinte anos, e tal, o sofá já era de uma república... aí eu falei “meu Deus,

c
Analu contou‐me, antes da entrevista, que havia comprado uma cama em um antiquário.

302
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

esse tecido vai ter que sair daqui. Não pode ficar, não adianta nem benzer, nossa... não.” Aí, a
minha mãe, com a arte dela, da costura, ela renovou, então, o sofá. Meu pai parafusou todo ele,
reforçou, a minha mãe fez novas almofadas, com tecido novo. Com o tecido que sobrou da
reforma desse sofá, a gente fez uma cortina pro quarto, com um varão; simplesona, assim – deu
um nozinho, lá, e ficou o máximo. É um verde, um verde bacana.

As coisas da sala também são todas assim: uma rackezinha da tv era da minha irmã, uma mesinha
que eu tenho é conjuntinho com o sofá. Agora, eu mudei tudo: tirei a tv da rack e passei pra
mesinha. Então, quem freqüenta em casa, a gente começou a ver tv, agora, tudo espalhado pelo
chão. Que em casa tem uma movimentação bem grande, assim, de amigos. Que eu gosto muito
de morar sozinha e de ficar sozinha. E também gosto muito da movimentação que acontece
naturalmente. Eu atribuo o fato de as pessoas gostarem de vir em casa, e de ficar, porque elas se
sentem bem ali; e elas falam isso.

Que mais eu posso falar da minha casa? Eu costumo freqüentar muito a sala, mesmo. Ela é o meu
local. O quarto, eu só vou pro quarto pra dormir, mesmo. Até à tarde – é muito difícil eu dar uma
deitada à tarde, mas –, se eu deito, é na sala. Porque é na sala que tá o som, é na sala que tá
minha pequena biblioteca, a parte de discos, e tal. Então, o circuito, mesmo, da casa é a sala. O
quarto, eu vou pra deitar, ou pra pegar uma roupa, que eu vou tomar banho... agora, eu tô
começando a freqüentar mais por causa da cama – agora tem uma protagonista ali [risos].
Quando ela chegou, eu mudei todo o quarto, coloquei as coisas tudo pro lado, pra cama ficar
assim: “ela é de 1940; ela é assim porque é original!!”

Tudo que eu pego é usado, mas eu gosto de olhar assim: eu quero que o negócio dure mais
cinqüenta anos. Já viveu cinqüenta, então, agora, vai viver mais cinqüenta. Essa coisa de móveis
da casa Bahia, que você bota a mão e faz nhec, nhec, nhec, parece que aquilo não vai receber
nem energia nenhuma na convivência com ele [risos]. Ele não tá capacitado pra isso [risos]; se
começar a mandar muita coisa ali, ele vai começar a despencar, não agüenta [risos]! Móveis, é
uma coisa que eu sempre desejo ter. Eu gosto muito de coisas antigas porque eu acredito mesmo
nessa coisa de elas trazerem coisas pra dentro, energeticamente, outras vibrações. E, ao mesmo
tempo, também, são móveis que vão resistir a experiências novas. Minhas panelas também têm
uma super‐história porque é de quando meu pai e minha mãe casou. Isso, já tá com trinta e seis
anos, acho. Então, são tudo panelas, nem falo antigas, porque são velhas, mesmo. Mas, são
fortes, são resistentes, eu gosto.

E aí, a casa é isso, assim. Ela comporta momentos de alegria, de tristeza, de dúvidas, de angústias,
de medo... e ela me protege, mesmo. Eu tenho ali, com meu refúgio; tipo assim, graças a Deus, eu
tenho esse ponto pra voltar, sabe? Eu gosto desse ponto, e ali eu me sinto bem. E ali eu estudo,
ali eu trabalho, ali eu reúno meus amigos, a gente toma cerveja, a gente ouve um som, a gente

303
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

toca, a gente dança – o vizinho de baixo reclama, daí, a gente pára – e amanhã começa tudo de
novo.

[Como é voltar pra casa dos seus pais?]

Ah, ali, eu não tô voltando mais pra minha casa. A minha mãe usa muito isso “vem pra casa, vem
pra casa”, até hoje – faz seis anos que eu saí. Eu falo, “mãe, eu já tô na minha casa. Se eu for, é
pra casa da senhora”. Lá, eu fico bem, fico tranqüila, assim, mas, tipo, meu quarto, já não sinto
meu quarto, né, porque tem milhões de coisas do meu pai, acabou virando um depósito, mesmo.

Eu tenho uma coisa, assim: mesmo que eu vá na casa de outra pessoa pra ficar uns dias – eu me
acho até chata –, eu fico ali quietinha, mas eu tô olhando o que eu tô gostando e o que eu não tô
gostando. E eu tenho a manha de remover coisas que eu não gostei, e deixar do meu jeito! Sei lá,
eu vou ficar três dias ali, então esses três dias, eu vou alterar tudo, depois eu volto do jeito que
tava... mas é pra eu ficar bem ali. Tem a casa da avó do meu namorado, que é na Serra da
Cantareira. Uma casinha bem simples, bem humilde; e ela tá velhinha, coitada, tem milhões de
cachorros, não pode limpar a casa direito. Daí, eu vou lá pra passar o fim de semana e penso “eu
vou pegar uma doença, contaminada pelo cocô desses cachorros”. É impressionante minha
cabeça, às vezes, eu penso “pára de ser assim!”. Mas, eu vou lá três dias, aí eu faço a faxina, eu
arrumo tudo, coisa por coisa num armário, tiro coisa que tá espalhada... Aí, beleza, passou três
dias e eu fiquei bem aqui. Onde eu vou, eu tenho essa coisa.

E isso, principalmente na minha casa: pra você ter uma idéia: às vezes eu vou pra casa dos meus
pais, fim de semana, e meu namorado, às vezes, fica em casa. Isso, a gente tá junto há seis anos, e
eu passei a deixar isso acontecer de uns dois anos pra cá, que eu nunca curti, não. Porque ele é
bagunceiro, ele é desmazelado... Então – ai, meu Deus –, eu chego em casa, eu não chego e vou
cumprimentar ele. Eu chego procurando o que tá fora do lugar pra eu voltar de novo, tirar o pó,
tirar a sujeira. Só depois que eu chego, arrumo a minha mala de volta, as roupas no guarda‐roupa,
e dou uma geral, aí que eu olho no olho dele e começo “agora, vamos conversar, agora tá tudo
certo”.
Entrevista realizada em 09/02/2007

304
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Aristides
43 anos
Casado, 1 filho
Fotógrafo e professor de fotografia
Mora com a mulher e o filho em uma casa no município de Jacareí , estado de São Paulo

[Você pode falar um pouco da sua casa?]

Eu moro há dois anos na minha casa atual. Eu morava no Jaguaré, numa avenida; isso eu não
quero nunca mais. Tinha muito prédio em volta, não tinha privacidade nenhuma. Queria morar
num bairro mais afastado da cidade, melhor. Da minha casa até o trabalho, eu lavava uma hora e
meia. Agora, que eu moro em Jacareí, eu levo uma hora. Moro em um bairro fechado, sem acesso
por outro lado; é como se fosse um condomínio: você entra por uma portaria.

A gente pegou esse terreno do zero e foi levantando. Eu projetei minha casa para estar de acordo
com o meu modo de vida. Eu não sou arquiteto, mas sabia o que queria, e pedi para fazer:
primeiro eu queria uma puta de uma cozinha: minha casa ser só a cozinha. Mesmo porque, eu
venho de uma família que tem a tradição de ficar na cozinha, família italiana. Tanto é, que na casa
dos meus pais não tem cadeira, é banco. Quando não tem ninguém, é vinte, trinta pessoas.

Sou apaixonado por fotografia e por comida. Sou fotógrafo de culinária, então, minha vida é ou
fotografando ou cozinhando. Então, na minha casa, o cômodo principal tem que ser a cozinha. Eu
e minha mulher temos esse pensamento em comum. Tanto que ela não cozinhava, quando a
gente casou; quem cozinhava era eu. Depois de uns dois, três anos, ela procurou aprender a
cozinhar. Hoje, ela cozinha bem. Ela também trabalha com fotografia. Eu cuido da parte de
comida salgada e ela da parte de comida doce.

[Você poderia descrever a sua casa?]

A entrada da casa é pela cozinha. Tem a cozinha em baixo e o resto dos cômodos em cima. Na
cozinha tem computador, telefone; Tudo o que eu preciso para me comunicar em meu trabalho
está lá. Ela equivaleria, na minha casa anterior, à garagem, à sala e a um banheiro. O pé direito é
alto, é toda branca. O resto é pequenininho: o meu quarto, o do meu filho, o escritório, dois
banheiros. Quando a gente programou essa casa, já previa que um cômodo era para o bebê, o
outro era pra gente...ele já tinha o cantinho dele, mesmo antes de ser projetado. Não tenho uma
sala de visitas. Tem só uma salinha onde a gente lê, onde a gente pesquisa, que, na realidade, é o
meu escritório. Eu recebo meus amigos na cozinha. Lá, eu tenho uma mesa de oito lugares. Ou o

305
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

pessoal fica na mesa, ou em volta do fogão. O meu filho já curte a cozinha. Ele brinca muito na
cozinha.

Antes do meu filho nascer, a gente recebia muito mais gente; hoje não tanto. A gente virava a
noite...não sei, acho que os amigos se afastaram um pouquinho, talvez por causa disso [o
nascimento do filho]. E agora é que eles estão retornando. Antes, ele era bebezinho, a gente tinha
que dar mais atenção. Hoje, eu recebo bem mais gente.

Eu experimento muito na cozinha. Por exemplo, o estrogonofe que eu aprendi a fazer com a
minha irmã. Ela faz um estrogonofe maravilhoso, mas eu mudei tanto a receita, que ela fala que
não tem mais nada a ver com o que ela faz. Ela fala que é o melhor estrogonofe que ela já comeu.
Receita da minha avó, que eu mudei... Mudei receitas da minha mãe, molhos de macarrão... Eu
comprei umas panela de ferro, nem estreei ainda. A comida, a partir da semana que vem, é na
panela de ferro. Comprei uma coisa que a minha avó fazia, que é uma “estrela”: um bastão,
assim, com umas pontas de ferro. Você roda assim [mostra], pra picar o feijão. O caldo fica mais
grosso! Nossa, é maravilhoso!

A única coisa que está acontecendo, agora, é que nós vamos mudar de novo, mas para uma casa
um pouco melhor que essa. Porque a minha casa é o meu estúdio, hoje. Muitas coisas eu
fotografo dentro da minha cozinha e já mando pro cliente por e‐mail. Só que, com esta minha
cozinha, eu não estou tendo espaço suficiente para trabalhar e viver na minha casa. Por
exemplos, na minha cozinha não tem como eu colocar um fogão a lenha, eu quero o meu
cantinho a lenha. Mas eu quero a minha tecnologia também. Então, a gente comprou um terreno
e está projetando. É que eu não tinha um canto pra fotografar; agora eu vou ter.

A gente tem uma empregada pra cuidar da roupa. A gente [ele e a esposa] tem um trato: toda
sexta‐feira a gente faz faxina na casa. Os dois limpam a casa. A gente pegou o hábito de fazer isso
desde que está junto: limpar, tal. A gente curte bastante a casa.

[Você viaja muito a trabalho? Como é, para você, ficar longe de casa por um período mais longo?]

É, às vezes, eu tenho que viajar, aí eu fico uma temporada fora de casa, trabalhando,
fotografando: quinze dias, um mês. Eu sou mergulhador, faço fotos submarinas; eu já cheguei a
passar dois meses fora – foi o máximo de tempo que eu passei: participei de uma expedição com
a equipe de Cousteau nas Ilhas Fiji. Nessas viagens, eu já dormi em banco, na areia, em barraca,
em rede; durmo no chão, na cama; já fiquei sem tomar banho vários dias, por não ter condições
de tomar banho, mesmo! Uma vez fiz um trabalho para o pessoal do IBAMA e da Petrobrás que
era uma iconografia do descobrimento do Brasil. Fiquei numa aldeia Pataxó durante 28 dias. Foi
uma experiência gostosa. Eu tenho saudade dessa turma, dos índios.

306
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Mas, desde que meu filho nasceu, eu só fiquei fora uma semana, foi o maior tempo. Depois não
fiquei mais. Mudei totalmente. Antes do meu filho, eu não sentia falta de nada. Sabe do quê eu
sentia falta? Quando não tinha fotografia digital, eu só sentia falta de revelar, do meu laboratório,
pra manipular minhas imagens – a primeira coisa que eu faço, quando chego em São Paulo, é ir
pra casa, pegar o material e mandar pro laboratório. Ou editar o material que eu tenho feito.
Porque eu levo o computador, mas não dá tempo de editar tudo.

Eu sinto falta de coisas novas. Se não tiver coisas novas no meu dia‐a‐dia, se a minha vida
começar a ser todo dia aquilo lá, aí, acho que não dá. Mas também é bom pensar que a casa tá lá,
ela vai ficar ali, e eu sei que eu vou voltar.

Eu e minha esposa estamos sempre querendo renovar, mudar. Com o meu filho, cada dia a gente
mostra uma coisa nova pra ele. Quando ela estava grávida, a gente ouvia muita música. Mas, cada
dia era uma música diferente. Nós nunca repetíamos a mesma música – estilos diferentes, para
ele conhecer. Ele não brinca muitas vezes com a mesma coisa. Uma brincadeira dele nunca é igual
à outra. Cada dia é um filme diferente, uma brincadeira diferente. A gente não assiste “Xuxa”,
“Teletubies”. É engraçado, a gente conseguiu fazer com o Enzo [o filho] o que a gente queria.
Porque a nossa vida já era assim. Cada dia a gente estava num lugar diferente, conhecendo gente
diferente. Eu queira que ele fosse assim.
Entrevista realizada em 25/10/2004

307
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Christiand
52 anos
Separado, 1 filha
Professor de inglês e tradutor
Mora em um conjunto habitacional para estrangeiros em Riad, capital da Arábia Saudita

[Onde você nasceu?]

Eu nasci em Cape Town, África do Sul. A casa onde eu cresci era uma casa de três dormitórios,
num subúrbio a mais ou menos sete quilômetros de Cape Town.

[Você poderia contar‐me sobre como começou a considerar a possibilidade de deixar seu país?
Também gostaria de saber como foram as suas formas de morar nos diversos lugares onde já
viveu.]

Ainda na África do Sul, eu me tornei fortemente ligado ao fato de que meus interesses
começaram a divergir dos dos meus amigos. Eu gostava de viajar para o campo sozinho. Eu
também gostava de “descobrir” pequenas comunidades de estrangeiros e aprender suas línguas.
Foram esses dois interesses que, em última análise, me levaram a partir em uma viagem de
descobertas, que me levaria muito além das fronteiras que mencionei. Vindo de um grande país,
de relativa baixa concentração de população, como a África do Sul, não se tinha que ir longe para
se estar longe das pessoas, e isso era algo que eu fazia o tempo todo. Ao invés de ir beber com os
outros estudantes, eu ia o mais longe que o tempo e os recursos permitiam, dormia sob as
estrelas, andava de carona, etc.

Minha primeira casa, após ter deixado a casa dos meus pais, foi uma cabine de um navio
cargueiro, que me levou para a Itália, via nordeste da África e o Canal de Suez. As próximas casas
consistiram em uma combinação de quartos compartilhados, normalmente em apartamentos,
mas, algumas vezes em casas particulares. Eu tenho uma casa perto de Londres, onde eu fico de
vez em quando, mas minha experiência de casas em outros países tem sido variada, dependendo
das circunstâncias dos meus empregos e da minha situação financeira: um conjunto habitacional
para trabalhadores estrangeiros no Irã e na Arábia Saudita, como moro agora; uma série de
experiências de apartamentos partilhados no Brasil, e, anteriormente, na Inglaterra e França – e
hotéis (quando eu tocava música profissionalmente na Alemanha, Bélgica, e em Atenas).

d
Pelo fato de Christian não morar no Brasil, sua entrevista foi realizada via e‐mail.

308
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

Espaços confinados tiveram sua parte em minha vida, mas mais quando eu era bem jovem, como
meio de criar um espaço separado e, talvez, uma identidade. Ser chamado para dentro para
jantar, eu lembro que era terrível, porque você era forçado a abandonar aquele recém‐criado
espaço pessoal, para voltar ao espaço comum, rotineiro da casa da família, e a todas as suas
associações e significados de autoridade.

[Você, hoje, mora na Arábia Saudita. Em quê sua forma de habitar difere da que você tinha em
São Paulo?]

Ainda estou na Arábia Saudita, embora tenha acabado de chegar da África do Sul e da França,
aonde eu fui de férias. Eu estou gostando do trabalho. É estável, bem pago; eu vivo no que eu
poderia considerar equivalente a um hotel cinco estrelas, e tenho refeições todos os dias, então,
não posso reclamar.

De um ponto de vista, minha casa em São Paulo era funcional: um espaço autônomo olhando
além do próprio presente dele para um ponto invisível no futuro. Seu mobiliário, essencial e
esparso, refletiam o estilo de vida itinerante do seu ocupante; um estilo também partilhado por
um crescente número de indivíduos que cresceram dando igual importância a sustento e
mobilidade. Ao mesmo tempo, ele possuía um significado denotativo, mais do que a variedade
conotativa incorporada no conceito tradicional de “casa” da minha infância, com suas memórias e
associações ligadas por um senso de continuidade. Casa, em São Paulo, representava um conceito
móvel, viajando através do tempo, e eliminando referências, mais do que as acumulando.

[Como é morar em um “quarto de hotel” em conjunto habitacional para estrangeiros?]

Sem muito espaços partilhados, mas, de fato, um teto partilhado, abaixo do qual uma série de
atividades são partilhadas por um grande número de pessoas, numa configuração humana de
padrões interativos, aos quais eu, como um habitante, posso me ajustar e alternar para atender
às minhas necessidades. Há uma certa hierarquia de espaços, dependendo do status de cada um,
aqui. No momento, moro em algo parecido com um quarto de hotel, um de muitos enfileirados
numa infinidade de corredores, ocasionalmente contendo um refrigerador de água, e todos, no
final, dando num centro de recepção.

Se eu quisesse, eu poderia me inscrever para uma vila, a qual eu poderia, então, dividir com outra
pessoa, onde eu teria mais espaço, uma garagem e uma cozinha. No entanto, eu prefiro viver
neste distanciamento da humanidade, uma vez que ele me permite transitar entre grandes
grupos de pessoas, com quem posso interagir, ou as quais posso ignorar, no meu lazer. Eu gosto
de poder desaparecer num espaço totalmente individual e, depois, reaparecer num lugar comum,
quando eu sinto necessidade. Morar num quarto de hotel cria um “efeito telescópio”, no sentido

309
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

de que eu posso ajustar minha proximidade a outras pessoas à qualquer hora, de acordo com
minhas necessidades, enquanto que dividir uma vila me impediria essa flexibilidade e, portanto,
em última instância, atrapalharia minha liberdade.

Mas veja, o termo “quarto de hotel” é, talvez, mal interpretado, uma vez que a palavra “hotel”
significa um espaço comum de lazer, onde pessoas, mais do que nunca, preferem a companhia de
suas famílias e parceiros(as). Neste caso, é o fato de elas estarem longe de suas famílias e
companheiros(as) que cria a dinâmica de se fazer amigos.

Eu acho que meu espaço é como uma concha, algo no qual eu posso me recolher, mas não um
refúgio, onde eu me escondo da vida e das pessoas. Eu, simplesmente, gosto dessa vivência
periférica. Eu conheci algumas pessoas aqui que gostariam de me conhecer melhor, mas me vi
inventando desculpas para não deixar que isso acontecesse. Eu gosto de me sentir cercado de
pessoas, enquanto que permaneço mantendo minha distância delas – e há uma fonte
infinitamente renovável aqui.

[Como é a relação com as pessoas que você vê todos os dias no hotel?]

A co‐habitação de tantas pessoas sob o mesmo teto é, em si, uma potencial área de estudo.
Muitos dos que deixam a Arábia Saudita voltam – alguns, até mesmo, depois de cinco anos. Eu
sempre me perguntava se isso é por causa do dinheiro, mas então, me ocorreu que deve ser outra
coisa.

Já que a maioria das pessoas, especialmente nos países de primeiro mundo, vivem vidas
relativamente isoladas, o constante contato que se tem aqui – ainda que seja opcional – cria a
sensação de convivência. As pessoas tomam o café da manhã, almoçam e jantam juntas; elas se
encontram no salão do café. Freqüentemente, alguém compra um computador novo, uma
câmera, um instrumento musical, e convida os outros para ver, caindo de volta nos padrões de
interação humana que eram comuns durante a adolescência. Como alguém se reajustaria a viver
numa comunidade “normal”, depois disso é o que todos se perguntam! Aqui, arquitetura é
definitivamente instrumental no sentido de formar padrões de interação. Naturalmente, há vários
graus de proximidade, dependendo da idade, interesses e experiências profissionais comuns – o
que, portanto, dá uma variedade de pessoas, entre as quais se pode escolher os amigos.

[Como você organiza o espaço interno do seu quarto?]

Eu comprei um pequeno aparelho de som pra mim, que já virou parte da mobília. Eu também
comprei um piano elétrico, e isso se provou particularmente um fator de bem‐estar. Junto com as
outras peças do mobiliário do meu quarto, eu criei, agora, a ilusão de casa, a qual, combinada

310
Casa, doce lar: o habitar doméstico percebido e vivenciado

com um sortimento de after‐shaves no armário do meu banheiro, ajuda a aumentar a intimidade


de minha privacidade. Ler também ajuda.

[Existe algum plano de mudança para uma casa “de verdade”?]

Acabei de chegar da África do Sul, onde estive de férias. Lá, de uma forma tradicional, todas as
pessoas que eu visitei vivem suas vidas isoladas em suas casas isoladas. Suponho que, em algum
estágio, é importante tomar a decisão sobre se viver na própria “caixa” vale a chateação em
relação à manutenção e à constante despesa que envolve o ter uma propriedade. Pessoalmente,
eu prefiro a liberdade que vem com não possuir minha própria casa, ou melhor, morar numa casa
que eu não possua. De novo, isto está conectado ao estilo de vida e trabalho que me levam para
lugares diferentes