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CORREIO BRAZILIENSE • Brasília, segunda-feira, 4 de março de 2019 • Economia • 7

Demanda mundial deve crescer 40% até 2030. No


Brasil, o consumo teve alta de 80% nas últimas duas
décadas, a maior parte para atender a produção agrícola

Água: aumento do
uso acende alerta
» SIMONE KAFRUNI quando fenômenos climáticos A floresta infiltra 80% da água
ou de gestão estressam a rela- da chuva e presta um serviço

O
elemento água está pre- ção. Usar água do reservatório, ambiental, retendo a água no
sente em quase tudo na quando no período seguinte po- solo. “Além de amortecer as en-
Terra. Dois terços do pla- de faltar, é gestão. Mas existem chentes, essa água subterrânea
neta é composto por fenômenos também, como a se- é que alimenta o rio na seca. Se
água. No entanto, apenas 2,5% é ca no semiárido de 2012 a 2018, desmatar, agrava a erosão do so-
doce, e a maior parte está presa ou no Distrito Federal em 2017 e lo e a água é perdida. Vai para o
nas geleiras das calotas polares. em São Paulo em 2015”, lembra. mar e fica salgada”, assinala Ot-
A economia não gira e a socie- Abicalil destaca que a crise toni. “A melhor forma de evitar
dade não vive sem recursos hí- hídrica também está associada risco é reflorestando a bacia. Se
dricos, mas é preciso se conten- a excesso de água. “Com as mu- parar de desmatar já resolve”,
tar com 0,5% do suprimento danças climáticas, aumentou a acrescenta.
disponível para uso. Contudo, a variabilidade de chuvas. Pode- O professor lembra, ainda,
demanda mundial deverá au- mos ter mais secas e mais en- que a legislação brasileira ga-
mentar 40% até 2030 e 55% até chentes. O cenário atual é de vo- rante a proteção das nascentes.
2050, ano no qual se estima que latilidade”, ressalta. Chuvas em “É só seguir o Código Florestal,
mais de 40% da população mun- volume muito superior à capa- segundo o qual, com raras exce-
dial viverá em áreas de grave es- cidade de armazenamento re- ções, as áreas íngremes com in-
tresse hídrico. presentam um problema. Segu- clinação acima de 45 graus e fai-
No Brasil, que tem a sorte de rança hídrica é gerenciar a crise xas de proteção de rios não po-
estar sobre o maior aquífero do de seca e o armazenamento no dem ter ocupação a não ser ma-
globo, o Guarani, a demanda au- excesso. “O Brasil está avançan- ta ciliar. A lei é boa, mas não é
mentou 80% nas últimas duas do neste conceito e há uma me- cumprida”, denuncia. Nas áreas
décadas, segundo dados da lhora da capacidade de enfren- produtivas, o especialista defen-
Agência Nacional de Águas tar os eventos climáticos extre- de a recarga artificial da água
(ANA). A previsão do órgão é de mos. Mas o país recém saiu do subterrânea. “É possível fazer
que, até 2030, a retirada aumen- estágio que chamo de crise hi- valas de infiltração de encostas,
te 24%. “O histórico da evolução drológica, de ações apenas isso aumenta a umidade do so-
dos usos da água está direta- emergenciais”, diz. lo”, recomenda.
mente relacionado ao desenvol- Garantir o saneamento bási-
vimento econômico e ao proces- co nas áreas urbanas também
so de urbanização do país”, diz evita que a água das enchentes
estudo da agência. No entanto, o se perca. Como as cidades são
maior consumo de água em ter- impermeabilizadas pelo asfalto,
mos é na irrigação agrícola. é preciso investir em infraestru-
O chefe-geral da Embrapa tura, diz Ottoni. “Tem que reco-
Meio Ambiente, Marcelo Augus- lher o lixo para não assorear o
to Boechat Morandi, explica que
a demanda por água para a agri- 2.900 esgoto; é preciso um programa
de educação ambiental; tam-
bém é possível aumentar per-
cultura irrigada no mundo au- KM³
mentará de 2.600 quilômetros meabilidade, construindo esta-
cúbicos (km³) em 2005 para cionamentos com material po-
2.900 km³ em 2050. Cada km³ roso, que permite infiltração”,
equivale a um trilhão de litros. enumera. “O homem não preci-
“Para efeito de comparação, o Previsão do consumo sa degradar para se desenvolver.
Lago Paranoá, em Brasília, tem global de água em A saída é fazer gestão sustentá-
0,5 km³”, explica o especialista. 2050. Cada km³ vel”, emenda.
O uso da água no meio rural corresponde a
representa 83% da demanda de 1 trilhão de litros Dessalinização
captação de água total brasilei-
ra, dos quais 72% são destina- A dessalinização é uma alter-
dos à irrigação, prática em fran- nativa utilizada no sertão e no
ca expansão no Brasil. Passou agreste nordestino, onde a água
de 462 mil hectares em 1960 pa- Controle da situação é agir subterrânea é de pouca produ-
ra 6,1 milhões de hectares em mesmo quando o sistema está ção e tem alto teor de sal. “Já exis-
2014, em especial por meio de funcionando bem. “Como o tem pequenos sistemas comuni-
pivôs centrais. “Assim, uma ne- Nordeste enfrenta secas prolon- tários. O Brasil domina esta tec-
cessidade para o presente e o gadas, medidas como a transpo- nologia”, destaca Thadeu Abicalil,
futuro é tornar mais eficiente a sição do Rio São Francisco se fi- do Banco Mundial. Segundo ele,
prática da irrigação. Estima-se zeram necessárias”, assinala. Fortaleza está em período de con-
hoje uma perda de 40% devido Brasília e São Paulo, que vive- sulta pública para poder dessali-
a sistemas inadequados de irri- ram crises agudas, saíram delas nizar numa grande planta. “Isso é
gação ou vazamentos nas tubu- com conhecimento e mantive- uma solução adotada em muitos
lações”, diz Morandi. ram a economia. A infraestrutu- países. Jordânia, Austrália, Espa-
ra e a conscientização das popu- nha, Israel são exemplos. Outra é
Poluição difusa lações melhoraram. “Em São o reúso”, afirma.
Paulo, foi feito bônus tarifário Regiões de escassez hídrica e
Outra preocupação é com a para quem economizou. Brasí- grande demanda industrial e
qualidade da água, uma vez que lia, racionamento. Ambas as ci- agrícola devem reutilizar a água
é no espaço rural que nascem os dades reduziram o consumo e o tratada. “Paulínia (SP) tem uma
grandes mananciais de abasteci- efeito pós-crise resultou em planta que pega parte do esgoto
mento. Apesar de a poluição ur- consumo menor. Isso é gestão tratado, leva para uma estação
bana ser a principal fonte de de- de risco”, explica. avançada e gera uma água com
gradação, a poluição difusa de Antes do risco, no entanto, é potencial na indústria. Isso tam-
origem rural, causada pela eleva- preciso melhorar o uso da água bém pode ocorrer para reúso
da utilização de fertilizantes e que existe. Gerenciar a proteção agrícola. Países utilizam para fru-
pesticidas e pela perda de solos das nascentes e o entorno dos ticultura. O reúso é uma forma de
por processos erosivos, têm alto reservatórios e criar infraestru- uso do esgoto para alcançar se-
impacto. “A distribuição da água tura são medidas fundamentais. gurança hídrica”, explica.
não é homogênea entre as re- “Isso envolve aspectos econô- No entender de Fabiana Alves,
giões. Enquanto o Norte detém micos, o valor da água. Se a dis- da campanha de Clima e Energia
68,5% da água doce disponível, o ponibilidade é insuficiente se do Greenpeace Brasil, o país tem
Nordeste tem apenas 3,3%”, com- constrói barragem, adiciona in- poucos projetos de reúso de
para. Nas demais regiões a dis- fraestrutura”, ressalta o especia- água. “São quase 100 milhões de
ponibilidade é de 15,7% no Cen- lista do Banco Mundial. brasileiros sem acesso à coleta de
tro-Oeste; 6,5% no Sul; e 6% no esgoto, o correspondente a 47,6%
Sudeste. “A distribuição das re-
servas não acompanha a con-
centração populacional nem a
Florestas
A proteção das nascentes e
da população total do país. Além
disso, apenas 46% do esgoto co-
letado é tratado. O problema de
MDR quer ampliar abastecimento
demanda hídrica das diferentes das florestas deve ser o primeiro saneamento, que é algo básico,
partes do país”, emenda. passo, na opinião do professor dimensiona quão longe estamos O recém-criado Ministério do de saneamento ambiental com recuperação e preservação da
O especialista em água do do Departamento de Engenha- de falar em reúso de água no Bra- Desenvolvimento Regional o desafio de levar tratamento de bacia: saneamento, controle de
Banco Mundial Thadeu Abicalil ria Sanitária e do Meio Ambien- sil”, denuncia. (MDR) incorporou a política fe- esgoto e de água às regiões que poluição e obras hídricas; prote-
explica que a escassez de água é te da Universidade do Estado do Fabiane lembra que o desastre deral de segurança hídrica, com o ainda não possuem esse direito ção e uso de recursos naturais;
uma relação permanente. “Em Rio de Janeiro Adacto Benedicto de Brumadinho, onde uma bar- intuito de ofertar água à popula- essencial à saúde pública. “Nes- economias sustentáveis; gestão
muitos locais, como São Paulo e Ottoni. “Uma das principais for- ragem de rejeitos de minério co- ção e à atividade econômica em se sentido, a medida provisória e educação ambiental e, por fim,
Minas Gerais, a demanda é sem- mas de degradação da água é o lapsou, provocou contaminação todo o território nacional, sobre- do Marco Legal do Saneamento planejamento e monitoramen-
pre maior que a disponibilidade desmatamento. O aumento das de metais pesados provados em tudo em regiões frequentemente Básico (MP 868/2018), sob aná- to”, enumera a pasta.
hídrica”, explica. Quando falta, é inundações está correlacionado análises da ANA e da SOS Mata afetadas por períodos de seca e lise do Congresso, tem o objeti- O ministério também deve en-
preciso gerenciar o uso prioritá- com o aumento da seca. A chuva Atlântica por quase 300 quilôme- estiagem. A pasta prevê investi- vo de modernizar o setor e nor- tregar o eixo norte do projeto de
rio, uma vez que a água é essen- não cai igualmente o ano todo, tros de rio. “Portanto, a água não mentos de R$ 25 bilhões em 114 matizar o investimento privado integração do Rio São Francisco.
cial também para geração de há mais meses de seca do que de pode ser utilizada sem tratamen- obras estruturantes para ampliar nos serviços”, afirma. “As estruturas necessárias à passa-
energia, além do abastecimento chuva. E a natureza produz água to, seja para consumo, humano, o abastecimento de água no país. “Outra ação fundamental é a gem da água estão em fase final e
rural e do consumo humano. doce na estiagem por meio da animal, ou para atividades agrí- Em nota, o ministério explica revitalização de rios, estruturada deverão ser concluídas no primei-
“A crise hídrica acontece floresta”, afirma. colas”, lamenta. que fará a gestão das políticas em cinco eixos de atuação para a ro semestre deste ano”, diz a nota.

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