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Unidade de Estudo: A Filosofia

Apostila 01

Ambientação

Olá! Boas-vindas.

O estudo de filosofia aconselha o comprometimento da reflexão, da pesquisa e da busca incessante


pela informação que explica os fatos existentes no âmbito das relações moldadas com a natureza,
com outros homens e consigo mesmo. Este conhecimento é abrangido em toda a ação humana.

A filosofia resulta de uma ruptura do saber já existente com o saber a ser adquirido, haja vista ela
problematizar e convidar à discussão. O estudo de filosofia é essencial porque oferece as condições
teóricas para o desenvolvimento da consciência crítica pela qual a experiência vivida é transformada
em experiência compreendida. A filosofia rejeita o sobrenatural, a interferência de agentes divinos na
explicação dos fenômenos. Procura a inteligibilidade numa dinâmica que considera o saber enquanto
alicerce para a transformação. Exige coragem, pois descobrir a verdade obriga o enfrentamento do
poder e suas diversas formas de manifestação como também aceitação do desafio à mudança.

O saber filosófico é uma aspiração ao conhecimento racional, lógico e sistemático da realidade


natural e humana. A reflexão filosófica possibilita aprender a partir da problematização da realidade
social como ponto de partida e como ponto de chegada das experiências da vida diária, além de
advertir o entendimento das situações habituais da vida humana. Esta mesma ponderação também
adverte o entendimento das situações habituais da vida humana quando revelamos as características
da filosofia.

Problematizando

A problematização idealiza questionamentos incompreensíveis de atitudes humanas. No cenário do


cotidiano acontecem diferentes situações em que o SER HUMANO é sujeitado a afirmar, negar,
desejar, aceitar ou recusar coisas, pessoas e situações. As pessoas estão constantemente se
questionando e, por esta razão, almejam respostas. Diante dessa situação, a expectativa é a de que
alguém, dispondo de um relógio ou calendário, venha a responder questionamentos com exatidão.

A partir do momento que perguntamos e aceitamos a resposta, confiamos que o tempo existe e que
ele é medido por horas e dias. Muitos dizem que quando perguntamos estamos filosofando. Você
talvez já se perguntou: O que é o homem? Para que serve o homem? A ciência melhora o homem? A
espécie humana tem evoluído para melhor? Afinal, a filosofia serve para quê? Por que devo estudar
filosofia? O que estuda a filosofia? Qual o seu significado? Por meio da filosofia é possível transmitir
conhecimentos?
A FILOSOFIA

Conhecimentos

Conhecer o conceito de filosofia a partir de diversos posicionamentos teóricos.


Compreender o processo de construção do pensamento filosófico.
Compreender as diversas facetas em que o conhecimento humano se desenvolve.

Habilidade

Identificar posturas críticas sobre questões essenciais ao mundo e à vida no contexto sociocultural em
que está inserido.
Reconhecer os fundamentos filosóficos oriundos de qualquer acontecimento, evento, fenômeno ou
pensamento de questões relacionadas ao conhecimento.

Atitude

Saber ampliar a ação da filosofia na construção do conhecimento a partir de novos olhares.

Filosofia: Por que e para que?

Pensar filosoficamente é uma aventura – uma viagem aos limites do pensamento e do entendimento.
(LAW, 2008, p. 10)

De fato, a filosofia pode ser considerada uma aventura, é um lançar-se no desconhecido, no novo, no
que não estamos acostumados. Ao mesmo tempo é um convite a abandonarmos nossas convicções,
crenças, nos despojarmos de nossas seguranças, das verdades que nos foram transmitidas. Portanto,
filosofar é um ato de coragem que leva ao crescimento intelectual, à reflexão autônoma. Sim,
autonomia! Essa talvez, seja, hoje a principal tarefa da filosofia: fazer-nos pensar de modo autônomo,
crítico, reflexivo, numa época em que a mídia, os grupos religiosos, os partidos políticos, as
instituições de ensino etc., nos enquadram numa forma rígida, cristalizada, de pensar. Tal tarefa nos
remete ao filósofo alemão Immanuel Kant, que nos leva a pensar sobre o esclarecimento no texto
Resposta à pergunta: 
O que é o Esclarecimento? escrito em dezembro de 1783, mas que nos é bastante atual. Vamos ler
um trecho do referido texto:

Esclarecimento (Aufklärung) significa a saída do homem de sua minoridade, pela qual ele próprio é
responsável. A minoridade é a incapacidade de se servir de seu próprio entendimento sem a tutela
de um outro. É a si próprio que se deve atribuir essa minoridade, uma vez que ela não resulta da
falta de entendimento, mas da falta de resolução e de coragem necessárias para utilizar seu
entendimento sem a tutela de outro. Sapere aude! Tenha a coragem de te servir de teu próprio
entendimento, tal é portanto a divisa do Esclarecimento.

A preguiça e a covardia são as causas pelas quais uma parte tão grande dos homens, libertos há
muito pela natureza de toda tutela alheia (naturaliter majorennes), comprazem-se em permanecer
por toda sua vida menores; e é por isso que é tão fácil a outros instituírem-se seus tutores. É tão
cômodo ser menor. Se possuo um livro que possui entendimento por mim, um diretor espiritual que
possui consciência em meu lugar, um médico que decida acerca de meu regime, etc., não preciso eu
mesmo esforçar-me. Não sou obrigado a refletir, se é suficiente pagar; outros se encarregarão por
mim da aborrecida tarefa. Que a maior parte da humanidade (e especialmente todo o belo sexo)
considere o passo a dar para ter acesso à maioridade como sendo não só penoso, como ainda
perigoso, é ao que se aplicam esses tutores que tiveram a extrema bondade de encarregar-se de sua
direção. Após ter começado a emburrecer seus animais domésticos e cuidadosamente impedir que
essas criaturas tranquilas sejam autorizadas a arriscar o menor passo sem o andador que as
sustenta, mostram-lhes em seguida o perigo que as ameaça se tentam andar sozinhas. Ora, esse
perigo não é tão grande assim, pois após algumas quedas elas acabariam aprendendo a andar; mas
um exemplo desse tipo intimida e dissuade usualmente toda tentativa ulterior.

É, portanto difícil para todo homem tomado individualmente livrar-se dessa minoridade que se
tornou uma espécie de segunda natureza. Ele se apegou a ela, e é então realmente incapaz de se
servir de seu entendimento, pois não deixam que ele o experimente jamais.

Preceitos e fórmulas, esses instrumentos mecânicos destinados ao uso racional, ou antes ao mau uso
de seus dons naturais, são os entraves desses estado de minoridade que se perpetua. Quem o
rejeitasse, no entanto, não efetuaria mais do que um salto incerto por cima do fosso mais estreito
que seja, pois ele não tem o hábito de uma tal liberdade de movimento. Assim, são poucos os que
conseguiram, pelo exercitar de seu próprio espírito, libertar-se dessa minoridade tendo ao mesmo
tempo um andar seguro. (KANT, 1783)

Sapere Aude! Este é o convite que a filosofia nos faz hoje. Nisso consiste a importância de estudá-la,
sua tarefa, no mundo de homens-máquinas, de homens programados. A filosofia é um exame crítico
dos fundamentos de nossas convicções, de nossos preconceitos e de nossas crenças e é, conforme
Bertrand Russell, filósofo inglês, na não-certeza que chegamos quando filosofamos onde devemos
procurar o valor da filosofia, pois o seu valor está nas incertezas que ela nos proporciona, pois quem
não pratica o filosofar caminha pela vida preso aos pré-conceitos que são adquiridos ao longo de sua
vida.

Porém, mesmo com esta consciência da tarefa da filosofia hoje, muitas pessoas questionam sua
utilidade para o cotidiano. De modo imediato a filosofia realmente não tem muita utilidade para as
pessoas. No entanto, sua utilidade se apresenta de modo mediato, ou seja, indiretamente. Bem nos
explica a Professora Marilena Chauí:

As evidências do cotidiano

Em nossa vida cotidiana, afirmamos, negamos, desejamos, aceitamos ou recusamos coisas, pessoas,
situações.Fazemos perguntas como “que horas são?”, ou “que dia é hoje?”.

Dizemos frases como “ele está sonhando”, ou “ela ficou maluca”. Fazemos afirmações como “onde
há fumaça, há fogo”, ou “não saia na chuva para não se resfriar”. Avaliamos coisas e pessoas,
dizendo, por exemplo, “esta casa é mais bonita do que a outra” e “Maria está mais jovem do que
Glorinha”.

Numa disputa, quando os ânimos estão exaltados, um dos contendores pode gritar ao outro:
“Mentiroso! Eu estava lá e não foi isso o que aconteceu”, e alguém, querendo acalmar a briga,
pode dizer: “Vamos ser objetivos, cada um diga o que viu e vamos nos entender”.

Também é comum ouvirmos os pais e amigos dizerem que somos muito subjetivos quando o assunto
é o namorado ou a namorada. Frequentemente, quando aprovamos uma pessoa, o que ela diz, como
ela age, dizemos que essa pessoa “é legal”.

Vejamos um pouco mais de perto o que dizemos em nosso cotidiano.

Quando pergunto “que horas são?” ou “que dia é hoje?”, minha expectativa é a de que alguém,
tendo um relógio ou um calendário, me dê a resposta exata. Em que acredito quando faço a
pergunta e aceito a resposta? Acredito que o tempo existe, que ele passa, pode ser medido em horas
e dias, que o que já passou é diferente de agora e o que virá também há de ser diferente deste
momento, que o passado pode ser lembrado ou esquecido, e o futuro, desejado ou temido. Assim,
uma simples pergunta contém, silenciosamente, várias crenças não questionadas por nós.

Quando digo “ele está sonhando”, referindo-me a alguém que diz ou pensa alguma coisa que julgo
impossível ou improvável, tenho igualmente muitas crenças silenciosas: acredito que sonhar é
diferente de estar acordado, que, no sonho, o impossível e o improvável se apresentam como
possível e provável, e também que o sonho se relaciona com o irreal, enquanto a vigília se relaciona
com o que existe realmente. Acredito, portanto, que a realidade existe fora de mim, posso percebê-la
e conhecê-la tal como é, sei diferenciar realidade de ilusão.

A frase “ela ficou maluca” contém essas mesmas crenças e mais uma: a de que sabemos diferenciar
razão de loucura e maluca é a pessoa que inventa uma realidade existente só para ela. Assim, ao
acreditar que sei distinguir razão de loucura, acredito também que a razão se refere a uma
realidade que é a mesma para todos, ainda que não gostemos das mesmas coisas. Quando alguém
diz “onde há fumaça, há fogo” ou “não saia na chuva para não se resfriar”, afirma silenciosamente
muitas crenças: acredita que existem relações de causa e efeito entre as coisas, que onde houver
uma coisa certamente houve uma causa para ela, ou que essa coisa é causa de alguma outra (o fogo
causa a fumaça como efeito, a chuva causa o resfriado como efeito).Acreditamos, assim, que a
realidade é feita de causalidades, que as coisas, os fatos, as situações se encadeiam em relações
causais que podemos conhecer e, até mesmo, controlar para o uso de nossa vida.

Quando avaliamos que uma casa é mais bonita do que a outra, ou que Maria está mais jovem do que
Glorinha, acreditamos que as coisas, as pessoas, as situações, os fatos podem ser comparados e
avaliados, julgados pela qualidade (bonito, feio, bom, ruim) ou pela quantidade (mais, menos,
maior, menor).

Julgamos, assim, que a qualidade e a quantidade existem, que podemos conhecê-las e usá-las em
nossa vida.

Se, por exemplo, dissermos que “o sol é maior do que o vemos”, também estamos acreditando que
nossa percepção alcança as coisas de modos diferentes, ora tais como são em si mesmas, ora tais
como nos aparecem, dependendo da distância, de nossas condições de visibilidade ou da localização
e do movimento dos objetos. Acreditamos, portanto, que o espaço existe, possui qualidades (perto,
longe, alto, baixo) e quantidades, podendo ser medido (comprimento, largura, altura). No exemplo do
sol, também se nota que acreditamos que nossa visão pode ver as coisas diferentemente do que elas
são, mas nem por isso diremos que estamos sonhando ou que ficamos malucos.

Na briga, quando alguém chama o outro de mentiroso porque não estaria dizendo os fatos
exatamente como aconteceram, está presente a nossa crença de que há diferença entre verdade e
mentira. A primeira diz as coisas tais como são, enquanto a segunda faz exatamente o contrário,
distorcendo a realidade. No entanto, consideramos a mentira diferente do sonho, da loucura e do
erro porque o sonhador, o louco e o que erra se iludem involuntariamente, enquanto o mentiroso
decide voluntariamente deformar a realidade e os fatos. Com isso, acreditamos que o erro e a
mentira são falsidades, mas diferentes porque somente na mentira há a decisão de falsear.

Ao diferenciarmos erro de mentira, considerando o primeiro uma ilusão ou um engano involuntários


e a segunda uma decisão voluntária, manifestamos silenciosamente a crença de que somos seres
dotados de vontade e que dela depende dizer a verdade ou a mentira.

Ao mesmo tempo, porém, nem sempre avaliamos a mentira como alguma coisa ruim: não gostamos
tanto de ler romances, ver novelas, assistir a filmes? E não são mentira? É que também acreditamos
que quando alguém nos avisa que está mentindo, a mentira é aceitável, não seria uma mentira “no
duro”, “pra valer”.

Quando distinguimos entre verdade e mentira e distinguimos mentiras inaceitáveis de mentiras


aceitáveis, não estamos apenas nos referindo ao conhecimento ou desconhecimento da realidade,
mas também ao caráter da pessoa, à sua moral. Acreditamos, portanto, que as pessoas, porque
possuem vontade, podem ser morais ou imorais, pois cremos que a vontade é livre para o bem ou
para o mal.

Na briga, quando uma terceira pessoa pede às outras duas para que sejam “objetivas” ou quando
falamos dos namorados como sendo “muito subjetivos”, também estamos cheios de crenças
silenciosas. Acreditamos que quando alguém quer defender muito intensamente um ponto de vista,
uma preferência, uma opinião, até brigando por isso, ou quando sente um grande afeto por outra
pessoa, esse alguém “perde” a objetividade, ficando “muito subjetivo”. Com isso, acreditamos que
a objetividade é uma atitude imparcial que alcança as coisas tais como são verdadeiramente,
enquanto a subjetividade é uma atitude parcial, pessoal, ditada por sentimentos variados (amor,
ódio, medo, desejo). Assim, não só acreditamos que a objetividade e a subjetividade existem, como
ainda acreditamos que são diferentes e que a primeira não deforma a realidade, enquanto a
segunda, voluntária ou involuntariamente, a deforma.

Ao dizermos que alguém “é legal” porque têm os mesmos gostos, as mesmas ideias, respeita ou
despreza as mesmas coisas que nós e tem atitudes, hábitos e costumes muito parecidos com os
nossos, estamos, silenciosamente, acreditando que a vida com as outras pessoas - família, amigos,
escola, trabalho, sociedade, política - nos faz semelhantes ou diferentes em decorrência de normas e
valores morais, políticos, religiosos e artísticos, regras de conduta, finalidades de vida.

Achando óbvio que todos os seres humanos seguem regras e normas de conduta, possuem valores
morais, religiosos, políticos, artísticos, vivem na companhia de seus semelhantes e procuram
distanciar-se dos diferentes dos quais discordam e com os quais entram em conflito, acreditamos
que somos seres sociais, morais e racionais, pois regras, normas, valores, finalidades só podem ser
estabelecidas por seres conscientes e dotados de raciocínio.

Como se pode notar, nossa vida cotidiana é toda feita de crenças silenciosas, da aceitação tácita de
evidências que nunca questionamos porque nos parecem naturais, óbvias. Cremos no espaço, no
tempo, na realidade, na qualidade, na quantidade, na verdade, na diferença entre realidade e sonho
ou loucura, entre verdade e mentira; cremos também na objetividade e na diferença entre ela e a
subjetividade, na existência da vontade, da liberdade, do bem e do mal, da moral, da sociedade.

A atitude filosófica

Imaginemos, agora, alguém que tomasse uma decisão muito estranha e começasse a fazer perguntas
inesperadas. Em vez de “que horas são?” ou “que dia é hoje?”, perguntasse: O que é o tempo? Em
vez de dizer “está sonhando” ou “ficou maluca”, quisesse saber: O que é o sonho? A loucura? A
razão?

Se essa pessoa fosse substituindo sucessivamente suas perguntas, suas afirmações por outras:
“Onde há fumaça, há fogo”, ou “não saia na chuva para não ficar resfriado”, por: O que é causa?
O que é efeito?; “seja objetivo”, ou “eles são muito subjetivos”, por: O que é a objetividade? O que
é a subjetividade?; “Esta casa é mais bonita do que a outra”, por: O que é “mais”? O que é
“menos”? O que é o belo?

Em vez de gritar “mentiroso!”, questionasse: O que é a verdade? O que é o falso? O que é o erro?
O que é a mentira? Quando existe verdade e por quê? Quando existe ilusão e por quê?

Se, em vez de falar na subjetividade dos namorados, inquirisse: O que é o amor? O que é o desejo?
O que são os sentimentos?

Se, em lugar de discorrer tranquilamente sobre “maior” e “menor” ou “claro” e “escuro”,


resolvesse investigar: O que é a quantidade? O que é a qualidade?

E se, em vez de afirmar que gosta de alguém porque possui as mesmas ideias, os mesmos gostos, as
mesmas preferências e os mesmos valores, preferisse analisar: O que é um valor?

O que é um valor moral? O que é um valor artístico? O que é a moral? O que é a vontade? O que é
a liberdade?

Alguém que tomasse essa decisão estaria tomando distância da vida cotidiana e de si mesmo, teria
passado a indagar o que são as crenças e os sentimentos que alimentam, silenciosamente, nossa
existência. Ao tomar essa distância, estaria interrogando a si mesmo, desejando conhecer por que
cremos no que cremos, por que sentimos o que sentimos e o que são nossas crenças e nossos
sentimentos.
Esse alguém estaria começando a adotar o que chamamos de atitude filosófica.

Assim, uma primeira resposta à pergunta “O que é Filosofia?” poderia ser: A decisão de não
aceitar como óbvias e evidentes as coisas, as ideias, os fatos, as situações, os valores, os
comportamentos de nossa existência cotidiana; jamais aceitá-los sem antes havê-los investigado e
compreendido.

Perguntaram, certa vez, a um filósofo: “Para que Filosofia?”. E ele respondeu:

“Para não darmos nossa aceitação imediata às coisas, sem maiores considerações”. (CHAUÍ, 2000,
p. 5 – 9).

Portanto, a filosofia não está apartada de nós, faz parte da nossa vida, está diretamente ligada ao que
somos de mais essência, seres inacabados, em construção. As perguntas e respostas que buscamos
através da filosofia é uma forma de nos tornarmos humanos.

Um ser humano experimenta, por exemplo, a necessidade de descobrir o propósito de sua própria
existência; para isso, ele precisa encontrar as respostas de muitas perguntas acerca das coisas
existentes ao seu redor.

Os homens observam certas coisas acontecendo ao seu redor como o crescimento das plantas, a
chuva que cai, o sol nascendo... E eles começam a se perguntar sobre as causas destas coisas.

Um verdadeiro filósofo é uma pessoa que se dedica à vida aparentemente "inútil" de contemplação.
Por esse motivo, um filósofo é, muitas vezes, considerado ridículo: uma pessoa que está "fora de
contato" com o mundo ao seu redor.

Sobre Thales de Mileto, por exemplo, foi dito que ele caiu em um poço, enquanto estava olhando
para o céu. Esse fato provocou o riso de uma empregada doméstica.

Através do uso de imagens, Platão, em seus diálogos, mostra as pessoas que estão imersas no mundo
dos "bens úteis" - o grupo de atenienses que possuem dinheiro e sucesso. Estas pessoas são incapazes
de tornarem-se filósofas, pois não têm nenhum desejo de verdade, apenas sucesso; não aspiram
conhecer o sentido da vida.

O que os filósofos procuraram demonstrar é que o espírito filosófico é a busca de um conhecimento


acerca da realidade espontânea, que vai além do conhecimento alcançado pelas artes e ciências
técnicas.

O objetivo de um filósofo consiste na busca do conhecimento em si, não tem um fim utilitário (não
para ganhar dinheiro, fama, etc.; não é uma ciência de produção).

Então, por que começamos a filosofar?

Para Aristóteles, todos os homens, naturalmente, desejam saber. Pertence à natureza humana a busca
das causas dos acontecimentos.

Há a busca por respostas, razões, explicações, levando a outras questões (não é igual a um direito de
saber tudo - curiosidade, invasão de privacidade, etc.). A mente humana é obrigada, por sua própria
constituição, a fazer as perguntas que os filósofos discutem. O objeto do intelecto é a busca pela
verdade.

É de Aristóteles a seguinte premissa: "Você diz que é preciso filosofar. Então você deve filosofar.
Você diz que não se deve filosofar. Então, para provar sua alegação, você deve filosofar. Em
qualquer caso, você deve filosofar".

Portanto não podemos fugir da filosofia. Podemos até não cultivar um espírito filosófico, mas as
questões fundamentais da filosofia sempre andam conosco, pois são questões essencialmente
humanas.

Conhecendo à Filosofia

O primeiro contato com a filosofia, no entanto, pode, para muitos ser extremamente difícil, doloroso,
árduo, devido a diversos fatores, tais como, o questionamento que ela põe às nossas crenças, ao modo
peculiar da argumentação filosófica, a abstração de seus conceitos etc. Contudo, isso não deve servir
de justificativa para permanecermos na minoridade intelectual.

Estudar filosofia, começar pelo entendimento que já existe uma filosofia, não se trata de aprender
pensamentos dos pensadores, mas sim aprender a pensar filosoficamente.

Sempre houve filosofia, uma vez que em seu sentido mais amplo, filosofar consiste em pensar sobre
tudo que envolve o ser humano na tentativa de explicar as coisas.

As questões fundamentais que o pensamento humano procura esclarecer giram em torno daquilo que
nos cerca e está além do que nos chega através dos órgãos dos sentidos. O que vem a ser real e
imaginário, haja vista a possibilidade da mente criar e desenvolver ideias e pensamentos que
provavelmente, ou não, correspondem à realidade?

“O que é a vida?”, “O que é o homem?”, “Existe algum sentido para a existência do ser humano neste
planeta?”, “Existe algo que se encontra além do que percebemos pelos sentidos?”. Perguntas como
estas fazem parte de inúmeras questões levantadas pelo ser humano e, de acordo com as respostas
dadas ou encontradas, o homem vai pautando sua existência. Certamente a maioria das pessoas vive
sem pensar nessas questões ou pensa apenas no imediato sem se preocupar com as perguntas mais
profundas da existência e da vida humana.

O estudo de filosofia objetiva despertar o estudante para as grandes questões que determinam e
dirigem a vida humana. Todavia, essa forma de estudar fica restrita a especialista nas academias. No
entanto, não deveria ser reservado somente para os estudantes das áreas humanas, mas também para
aqueles que buscam profissões em outras áreas de conhecimento, por exemplo, técnicos e
profissionais das áreas de ciências exatas e biológicas.

Será que você realiza uma ação sem antes pensar?

É impossível admitir a existência humana sem reflexão. Somos obrigados a pensar antes de qualquer
ação; isso significa que o ser humano tem um ponto de vista sobre o mundo, uma linha de conduta
ética e política para manter ou transformar os modos de pensar e agir do seu tempo histórico.
Esta maturidade do homem é resultado da aquisição da sua autonomia sobre o pensar e o agir no
mundo. A filosofia dá condições teóricas para a superação da consciência ingênua e promove
aquisição da consciência crítica. Por exemplo, tente responder as seguintes questões: Quais são os
limites da liberdade em uma sociedade civilizada? É errado comer carne ou usar animais para
investigação científica? Devemos respeitar a natureza? O que é a mente e como esta se relaciona com
o corpo? Existe vida após a morte?

Certamente você concordará que estas questões dizem respeito a todos nós e que as respostas podem
afetar profundamente a forma como conduzimos nossas vidas no cotidiano. Você, provavelmente, já
pensou em muitas delas e pode ter discutido esses temas com amigos ou parentes. Algumas pessoas
pensam uma coisa, outros pensam outra.

A filosofia possibilita modos de pensar sobre essas questões. Os filósofos tentam construir
argumentos racionais para seus pontos de vista seguindo pressupostos lógicos. Filósofos também
tentam construir argumentos contra as posições de seus oponentes.

Esses processos nem sempre vão levar a um acordo universal, mas eles possibilitarão o debate,
ajudando-nos a entender os pontos fortes e fracos das diferentes posições e as relações entre eles.

Os filósofos também devem submeter as suas próprias crenças aos padrões de argumentação racional,
e devem estar preparados para mudar as suas mentes, caso existam bons argumentos contra suas
opiniões. Ao questionar suas crenças e testá-las de forma rigorosa, eles podem identificar seus
preconceitos e suposições e substituí-los coerentemente.

A filosofia é, pois, um antídoto útil ao dogmatismo. Ao estudar filosofia, as pessoas, muitas vezes,


percebem que suas opiniões não eram tão firmes como pensavam e tornam-se mais dispostas a ouvir
a opinião de outras pessoas.

Essa preocupação com o esclarecimento de ideias é fundamental para a filosofia e tem aplicações em
muitas áreas. Por exemplo, os políticos falam sobre liberdade, democracia e direitos humanos, mas o
que exatamente eles têm em mente quando usam essas palavras?

Contudo, apesar da relevância que pode ser atribuída à filosofia, nem sempre ela é compreendida.
Vejamos o exemplo de uma sátira entre dois comediantes sobre o papel da filosofia na vida cotidiana.

— John: Pode me esclarecer que relevância a filosofia tem para a vida cotidiana?
— Smith: Sim, eu posso fazer isso com bastante facilidade. Esta manhã fui a uma loja e o vendedor
estava discutindo com um cliente. O vendedor disse “sim”. E que o cliente disse: "O que quer dizer
"sim"?. E o vendedor falou: “Eu quero dizer sim”.
— John: Isso é muito emocionante.
— Smith: Aqui está um exemplo esplêndido da vida cotidiana entre duas pessoas comuns
trabalhando com questões filosóficas essenciais – Você quer dizer ‘sim’?– “Eu quero dizer ‘sim’. –
“E onde eu, como filósofo, poderia ajudá-los?”
— John: E você ajudou?
— Smith: “Bem, não. Eles estavam com bastante pressa...”

John e Smith estavam satirizando as tendências filosóficas de seu tempo, mas seu diálogo ilustra dois
pontos de vista sobre a filosofia que ainda estão bastante difundidos. Um deles é que os filósofos
estão fora de contato com a vida cotidiana e as preocupações das pessoas comuns. A outra é que os
debates filosóficos são muito abstratos e muitas vezes descem ao nível de discutir o significado das
palavras ('O que quer dizer, "sim”? ').

A especificidade do saber filosófico

A filosofia, assim como a ciência, busca o conhecimento. Porém, esses campos têm seus métodos
próprios e atingem determinadas “verdades”. Além dos saberes filosófico e científico, existe ainda o
saber do senso comum, que é uma série de crenças admitidas por um determinado grupo social,
cujos membros acreditam ser compartilhadas por todos. E produzido por meio das percepções
sensíveis e imediatas. É caracterizado pela falta de fundamentação, de coerência e sistematicidade.
As pessoas não sabem o porquê das coisas, mas aglutinam acriticamente juízos. Nessa forma de
saber, as verdades provisórias e parciais são tomadas por definitivas e absolutas.

As descrições são imprecisas e os relatos dos fatos e acontecimentos são abordados de maneira
superficial, impregnados de opiniões, que geram uma infinidade de pré-conceitos os quais, aos
poucos, vão se tornando parte do conhecimento popular. Por fim, o senso comum é
um conhecimento prático, utilitário, sem ou quase sem nenhuma teoria, integrante da chamada
cultura popular.

Contudo, nem todos os conhecimentos integrantes do senso comum são irrelevantes , já


que partem da própria realidade. Algumas concepções são, de fato, precisas, faltando a elas,
entretanto, o rigor, o método, a objetividade e a coerência típica do senso crítico.

Já o saber científico é forma especializada, metódica, observacional de estudo da realidade. Não se


contenta com as opiniões, com as verdades disseminadas culturalmente. O saber, para ser
cientificamente validado, precisa passar por uma série de investigações, experimentos, verificações
etc. Somente após um longo processo de investigação é que uma afirmação pode ser tomada por uma
verdade científica.

Por sua vez, o saber filosófico é uma atividade reflexiva que deixa de ver os elementos que
compõem determinada realidade como dados naturais, universais, óbvios, eternamente válidos, para
serem analisados, relativizados, examinados criticamente, compreendidos como construções
histórico-sociais. É fruto de uma metodologia orientada pela razão e pela pesquisa reflexiva. O
filósofo tem a incumbência de questionar a realidade das aparências, de ilusões dos sentidos,
abrindo a perspectiva do logos. Esse espírito filosófico é expresso de modo magistral pelo poeta:

“Nós pedimos com insistência:


Não digam nunca: isso é natural!
Diante dos acontecimentos de cada dia.
Numa época em que reina a confusão.
Em que corre sangue,
Em que se ordena a desordem,
Em que o arbítrio tem força de lei,
Em que a humanidade se desumaniza.
Não digam nunca: isso é natural!”
(Bertoldo Brecht)

Tem-se comumente a ideia que o filósofo é aquele que divaga em questões abstratas, desconectadas


da vida cotidiana com um discurso que não diz respeito aos interesses da maioria. Já o cientista, pelo
contrário, é um pesquisador confinado em seu laboratório e preocupado com problemas práticos,
imbuído na elaboração de um saber útil.

No entanto, podemos questionar: até que ponto o saber filosófico não tem utilidade e o quanto o
saber científico está próximo das expectativas práticas?

Na modernidade, filosofia e ciência seguem caminhos diferentes, determinados por uma metodologia
própria. O método determina a diferença de abordagem dos problemas em cada área e a lógica é
o instrumento comum entre a ciência e a filosofia. Com a separação entre filosofia e ciência, a partir
da revolução científica do século XVI, cada qual passou a guardar características próprias:

Ciência
 Trabalha com métodos científicos, ou seja baseia-se na observação de dados empíricos
 Sabe especializado
 Descritiva
Filosofia
 Trabalha com elementos teóricos e não condiciona o objeto de sua analise as experimentações
 Visão de conjunto
 Critica
O saber filosófico designa o conjunto dos conhecimentos racionais. Portanto, um
saber amplo e universalista. Como a ciência passou a direcionar suas investigações a campos
delimitados da realidade, a filosofia, hoje, passou a ter a função de buscar a unidade do saber e
de examinar a validade dos métodos e dos saberes formulados pelas ciências.
Entretanto, a filosofia pode se valer dos resultados alcançados pelas ciências e questioná-los. Já as
ciências podem se valer dos elementos teóricos da filosofia. É o que faz, por exemplo, a Filosofia da
Mente, a Filosofia da Natureza, a Filosofia da Ciência etc.
PESQUISA
Escolha um tema de sua preferência e faça uma pesquisa para entender como o senso comum, a
ciência e a filosofia abordam esse determinado assunto.
Diversas visões de filosofia
Você sabia que a filosofia tem vários significados? Vamos elencar alguns deles: do ponto de
vista etimológico, filosofia significa “amigo da sabedoria”. Para muitas pessoas, a palavra filosofia
quer dizer a maneira própria de uma pessoa ver e explicar as coisas. Quando dizemos que cada
pessoa tem sua própria filosofia, estamos nos referindo a este conceito. Embora a explicação seja um
verdadeiro absurdo do ponto de vista da lógica, um mito ou superstição, por exemplo, mas é sua
filosofia.
Outro significado que o termo filosofia desenvolveu foi o de conhecimento adquirido de maneira
sistemática, pensada, examinada. Não se trata de simples opiniões, mas de conhecimentos baseados
num processo lógico de pensamento em que se usa determinado método para chegar a alguma
conclusão.
A filosofia consiste num conjunto de conhecimentos sobre certos assuntos sistematizados e obtidos
por meio de métodos definidos que procuram explicar todas as coisas por suas causas mais profundas
e não imediatas. Para isto, são usadas a observação sensível e a razão natural.
O conjunto dessas regras chama-se lógica. Nota-se que este segundo conceito está ligado apenas ao
mundo sensível e à razão natural, excluindo o campo da ciência e da religião.
Um terceiro conceito é o da mente humana quando esta procura explicação para todas as coisas e
relaciona todo o conhecimento dos diversos campos, como o conhecimento especulativo,
experimental, entre outros. Reunindo todos num processo de integração, elabora-se uma visão do
mundo ou do universo.
Esta visão desenvolve um sistema de pensamento que compreende a existência de todas as coisas do
universo e é denominada de cosmovisão. Dentro desse conceito, inclui-se tanto o campo da ciência
experimental, quanto da religião fundamentada na Revelação Escrita, isto é, da Teologia Bíblica e do
conhecimento adquirido pelo processo sensitivo racional.
Finalmente chegamos a um significado da palavra filosofia, um modo de pensar, que inclui não
apenas uma compreensão intelectual ou teórica, mas também um saber que faça parte do nosso “eu”,
de nosso ser psíquico. Abrange o conjunto total de nossas experiências vividas e modos de viver.
Filosofia, então, é vivência.
Portanto, essa forma de conhecimento é, essencialmente, prática, na qual o ser humano passa a viver
de acordo com sua visão de mundo. Esse modo de viver deverá ser coerente com a cosmovisão
obtida a fim de que o ser humano não experimente uma dicotomia entre a psique, que se refere à
mente, e a soma, que se refere ao corpo material.
Podemos perceber então que diferentes são os conceitos de filosofia, o modo como cada pessoa vê as
coisas no mundo e as maneiras pelas quais os seres humanos elaboram sua visão sobre este.
Cada conceito diferente de filosofia também provoca mudança na natureza do saber filosófico. Ao
considerar a função, ou funções, da filosofia, constatamos que sua natureza é tríplice e culmina em
aspectos amplos e globalizantes. Vejamos cada uma delas:
 Em primeiro lugar, ao expor seu sistema, analisar as causas fundamentais e explicar a
existência/essência das coisas, a filosofia é descritiva em sua natureza. Discorre sobre tudo o
que existe, explica conceitos, enumera e descreve os componentes, procura integrar as partes,
relacionando-as de modo apropriado e buscando abranger o todo.
 Quando a filosofia estabelece as regras do pensamento válido e a aplicação destas no processo
do raciocínio, passa a ter um caráter normativo. Este caráter normativo também ocorre ao se
tratar da Filosofia Prática na qual são estabelecidas normas de conduta para servir como
modelo de comportamento aos indivíduos, determinando as noções de dever e direito, certo e
errado.
 Finalmente, a parte da filosofia que faz uma avaliação do conhecimento adquirido pela
especulação e verifica se as regras foram obedecidas na conduta ou na produção de uma obra
de arte, chama-se Filosofia Crítica ou Avaliativa. Isso também ocorre quando a filosofia
procura se certificar da validade deste conhecimento, bem como dos argumentos empregados,
procurando trazer à mente mais certeza e convicção da realidade e da verdade das coisas.
Ainda verifica-se esse caráter de crítica quando a filosofia julga o valor e a legitimidade dos métodos
empregados pelas ciências particulares e quando fornece a essas ciências postulados fundamentais
sobre os quais elas estão construídas. O conceito de crítica equivale a analisar os aspectos positivos e
negativos, justificando as colocações feitas nas funções anteriores. É quando se verifica a coerência
das exposições com a realidade.
Devemos mencionar que para se pensar de maneira correta, é preciso conhecer e obedecer as regras
que comandam o pensamento a fim de que este seja válido em sua forma e verdadeiro em sua
aplicação. É necessário, portanto, que se conheçam essas leis estudadas pela lógica.
Para concluir, dizemos que a filosofia é sintética em sua natureza quando procura compreender,
dentro de seu campo, tudo o que existe e é acessível à inteligência humana. A filosofia, enquanto
cosmovisão tem em si esse caráter sintético. Ela deve admitir que todos os métodos usados na
ciência, na filosofia especulativa e na religião são válidos e possíveis de serem empregados para se
descobrir a verdade. Também é necessário estabelecer princípios pelos quais seremos orientados em
nosso processo de filosofar, usando todas as formas e campos de conhecimento.Podemos então dizer
que todos os métodos serão usados, tais como a lógica, experimentação, observação sistematizada,
revelação, intuição, entre outros.