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MULHERES

NEGRAS E
MARXISMO
Letícia Parks
Odete Assis
Carolina Cacau
(orgs.)
©Edições Iskra, 2021
A editora autoriza a reprodução deste livro para fins de natureza teórica e/ou
divulgação eletrônica, desde que mencionada a fonte.
Este livro foi revisado segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990,
em vigor no Brasil desde 2009.

Direção editorial Diana Assunção


Edição Natália Angyalossy
Preparação de texto Kleiton Wagner Nogueira
Capa e projeto gráfico Thais Oyola
IlustraçõesIsadora Romera, Filipe Amorim e
Thais Oyola
Revisão de provas Paula Vaz de Almeida

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Mulheres negras e marxismo / Letícia Parks, Odete


Assis, Carolina Cacau (orgs.). -- São Paulo :
Associação Operário Olavo Hansen, 2021.

Vários autores.
ISBN 978-65-89174-01-1

1. Feminismo 2. Marxismo 3. Mulheres negras


4. Mulheres negras - Atividade política 5. Mulheres
negras - Condições sociais 6. Mulheres negras -
Identidade racial 7. Racismo 8. Violência contra as
mulheres 9. Violência policial I. Parks, Letícia.
II. Assis, Odete. III. Cacau, Carolina.

21-58171 CDD-320.532
Índices para catálogo sistemático:

1. Mulheres negras : Marxismo : Ciência política


320.532

Cibele Maria Dias - Bibliotecária - CRB-8/9427

1ª edição: março de 2021

iskra.com.br |

Praça Américo Jacobino, 49 | São Paulo-SP | vendasiskra@gmail.com


SUMÁRIO

9 Agradecimentos

13 Prefácio

33 Mulheres negras na linha de frente

35 Sem mulheres negras, não haveria movimento Black Lives Matter

57 As mulheres na revolução haitiana

69 As mulheres africanas na linha de frente da luta anti-apartheid

77 Entrevista com Ericka Huggins (do Partido dos Panteras Negras)

85 Mulheres negras e o mundo do trabalho

87 Pele negra e rosto de mulher: terceirização, mulheres negras e luta


de classes
111 Formação e anatomia da classe trabalhadora feminina e negra no
Brasil
133 Os papéis de Carolina: os pães de cada dia e as rosas da vida
eternizada
147 O papel do racismo, preconceito e desigualdade na vida das
empregadas domésticas
167 Entrevista com Mirtes Renata Santana
179 Mulheres negras e estratégia socialista

181 Quem é negro no Brasil?

193 Mulheres negras e o papel da polícia: vidas ceifadas, sonhos


destruídos
219 Depoimentos: mulheres despedaçadas pela violência policial

227 “A PM tem que acabar!” Entrevista com Vitória Guimarães

231 As armadilhas do liberalismo na luta das mulheres negras

257 Feminismo, interseccionalidade e marxismo: debates sobre gênero,


raça e classe
271 A violência patriarcal e o punitivismo

283 Um debate com Mbembe e a tese de necropolítica em tempos de


pandemia

297 Lutadoras Negras

299 Sojourner Truth

313 Rosa Parks

325 Harriet Tubman

337 Dandara, Aqualtune e Luiza Mahin


Em memória de Marielle Franco,
com o compromisso
de seguir a luta por justiça.
MULHERES
NEGRAS E
ESTRATÉGIA
SOCIALISTA
Quem é negro no Brasil?
Letícia Parks

Eu cansei de ter que sempre falar de coisas ruins que aconteceram comigo
pra legitimar minha negritude pra sociedade. No fim das contas eu passo
pelos mesmos abusos, meu corpo é objetificado da mesma forma, eu sou
estereotipada igual
Ana125

O Brasil tem uma das histórias mais macabras da formação da


identidade nacional, da qual o racismo em distintas versões compõe
esse cenário. Se postular como país independente não se deu junto com
a abolição, pelo contrário. A burguesia brasileira sustenta décadas de sua
independência convivendo com o trabalho escravo e aumentando o seu
pavor de que a brutalidade lançada contra as massas negras se tornasse
uma revolta definitiva contra a opressão racial.
A identidade negra está intrinsecamente ligada à luta de classes.
Seja no Brasil ou em qualquer outro país com população negra. Neste
país de uma burguesia profundamente racista, a identidade nacional
se articula com a negra de distintas maneiras, em distintos momentos.
Neste artigo, vamos tratar brevemente de alguns desses momentos na
tentativa de refletir sobre a pergunta: quem é negro no Brasil?

Racismo e identidade nacional


No Brasil do século XIX, a emancipação política de Portugal
esteve diretamente relacionada à busca de uma identidade nacional
que pudesse definir “o que é ser brasileiro?”. Como um conceito
construído historicamente, a ideia de uma identidade que definisse
o que é ser brasileiro sempre foi pautada pelos interesses da classe
dominante. É nesse marco que se fazia candente uma importante

125 Neste artigo foram incluídos depoimentos transmitidos por redes sociais
às organizadoras. Os nomes foram preservados para proteger a identidade dessas
pessoas.
182 MULHERES NEGRAS E MARXISMO

contradição: as ideias liberais burguesas, que fizeram parte da nascente


burguesia brasileira não se encaixavam à independência do país, não
se encaixavam muito bem em um país escravocrata, baseado no
latifúndio. Dessa forma, o lugar das amplas massas negras escravizadas
era um tema fundamental para a definição de uma identidade nacional
brasileira, especialmente no pós-abolição.
O racismo e as teorias raciais que floresceram naquele século,
tiveram bastante influência sobre como a nascente burguesia iria
moldar a ideia do que é ser brasileiro, o seu ideal de nação. Como
aponta a professora Lilia Schwarcz em Nem preto, nem branco: muito pelo
contrário, a busca de uma identidade nacional sempre foi marcada pela
ausência, pela representação do que não somos. E nesse processo de
afirmação de uma identidade, sempre muito conflitante, a miscigenação
foi tomada por vários teóricos como o grande diferencial do Brasil.
No pós-abolição, existiu um grande debate com visões divergentes
sobre a presença do povo negro e seus reflexos na sociedade brasileira.
Uma visão era a que considerava a mestiçagem como algo negativo,
que levaria à falência da nação. Um dos seus grandes expoentes
era o médico baiano Nina Rodrigues, que baseando-se nas teorias
eugenistas da época, defendia a ideia de que a mistura das as raças
humanas levaria a uma degenerescência coletiva, já que considerava
o negro numa fase de desenvolvimento humano anterior ao branco.
Chegou a propor leis mais brandas para os negros porque comparava
sua consciência a de uma criança. Outro expoente dessa visão é
Euclides da Cunha, que em sua grande obra Os Sertões, oscilava entre
considerar o mestiço um forte ou um desequilibrado, mas terminava
por defender que a mestiçagem extremada era um retrocesso para a
formação da sociedade brasileira.
A outra visão, denominada romântica, é a representada pelo
Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), um “laboratório
ideológico” do Império, que idealizava os “bons nativos”, inspirados na
teoria do filósofo Rousseau, para defender a ideia de que nosso país se
assemelhava a um grande e caudaloso rio onde se misturavam brancos,
pretos e amarelos, de forma harmoniosa e sem conflitos. Como se
não houvesse uma história de 400 anos de luta e resistência contra a
escravização colonial.
Posteriormente, nos anos 1930, o mestiço se transformou num
ícone nacional. Se antes a miscigenação era vista como um problema e
era necessário buscar o branqueamento da “nação”, agora a miscigenação
é valorizada como uma marca do que define ser brasileiro. Um
MULHERES NEGRAS E ESTRATÉGIA SOCIALISTA 183

processo de valorização de uma cultura diversa, enquanto na prática


negros, indígenas e seus descendentes continuavam sendo alvos do
preconceito. É dessa visão que se gesta o mito da democracia racial.
Como explica Lélia Gonzalez:

No lastro do todo das questões raciais que estão colocadas, o que se


percebe é que estamos num país em que as classes dominantes, os donos
do poder e os intelectuais a serviço dessas classes, de fato, não abrem
mão de uma nacionalidade brasileira; nacionalidade esta que implicará
efetivamente a incorporação da cultura negra. Quando se analisa José
Bonifácio, patriarca da Independência, que luta pela abolição do tráfico
negreiro, constata-se, por exemplo, que seu ideal de nação partia da
perspectiva de uma nação homogênea, e a heterogeneidade, a diferença
que estava tão presente, para ele era justamente o negro, a presença
negra. Então não é por acaso que se vai constatar no século passado, por
exemplo, esse tipo de projeto de construção de uma identidade nacional
que se forma, de condes, barões etc. a partir da Independência, de um
modo geral nos remetem a nomes indígenas, todos, na costa brasileira.
Já não havia ninguém para contar a história, ou alguns desses indígenas
tinham sido expulsos para as regiões mais inóspitas do interior do país.
E é um processo complexo a busca de legitimação de uma identidade a
partir de uma ancestralidade indígena, justamente porque esse índio não
está mais aí.126

Todas essas teorias se davam, é claro, a partir das contradições


da luta de classes e das necessidades da classe dominante de atenuar
os conflitos para manter sua dominação. O que significava tentar
apagar da história a luta e resistência do povo negro, apagar o peso da
identidade negra na própria conformação do que seria vendido como
a ideia de uma identidade nacional. A retórica da democracia racial,
que por um lado reivindica a presença negra na cultura nacional
para com a outra mão tirar ou negar direitos, reparação ou outras
medidas que reconheceriam a violência da formação história do país,
não consegue ser resolvida através exclusivamente da garantia de
direitos, um recurso comum ao se denunciar a tese como mito. A

126 Democracia racial: uma militância, p. 310. Disponível em: Lélia Gonzalez:
por um feminismo afro latino americano. Zahar: 2020.
184 MULHERES NEGRAS E MARXISMO

exigência de uma “verdadeira” democracia racial perpassou os escritos


de muitos intelectuais pioneiros nessa denúncia. A luta por direitos
elementares é fundamental como parte de um enfrentamento mais
profundo com a ordem social que legitima essa ideologia. As formas
de democracia possível em um país estruturalmente dominado pelos
interesses do imperialismo variam no seu grau de autoritarismo, mas
não conseguem se desvincular do racismo como ferramenta de divisão
de uma classe trabalhadora profundamente explorada.

Um negro vem vindo, é branco!


Só bem perto fica negro,
Passa e torna a ficar branco127

Durante [um] tempo eu fiquei confusa com o preto e o pardo, e agora que
eu estudei e percebi que sou preta [...] tem aqueles que ainda usam a paleta
de cores para determinar o racismo que sofremos. Negro/Preto não é aquele
que bate exatamente com o estriótipo
Sah

Os institutos de pesquisa brasileiros oficiais - como o IBGE - nunca


reconheceram a existência da identidade negra. Somos obrigados na
autoidentificação a escolher entre os termos “preto” e “pardo”. Além
dessa confusão semântica, outras se incluem no doloroso drama
da identidade: forçados pela ideia de que branquear é moralmente
melhor, uma enorme massa negra no curso da história nacional
buscaram incorporar uma autoidentificação que aproximasse de uma
declaração de si como branco, ainda que vivenciando o racismo.
Explica Kabengele Munanga:

Parece simples definir quem é negro no Brasil. Mas, num país que
desenvolveu o desejo de branqueamento, não é fácil apresentar uma
definição de quem é negro ou não. Há pessoas negras que introjetaram
o ideal de branqueamento e não se consideram como negras. Assim, a
questão da identidade do negro é um processo doloroso. Os conceitos
de negro e de branco têm um fundamento etno-semântico, político e

127 Mario de Andrade, Garoa do meu São Paulo, em Lira Paulistana, São Paulo,
Livraria Martins Editora, 1946, p. 12.
MULHERES NEGRAS E ESTRATÉGIA SOCIALISTA 185

ideológico, mas não um conteúdo biológico. Politicamente, os que atuam


nos movimentos negros organizados qualificam como negra qualquer
pessoa que tenha essa aparência128.

Nesse sentido, a reivindicação do branqueamento - a ideia que


percorreu o século XX no Brasil que estimulava a vinda de europeus
para tornar o país branco - por parte da burguesia nacional levou a
que se dificultasse o processo de reconhecimento de si como negro.
Nomear-se negro, mais do que ser uma identidade por décadas
inexistente nos centros de identificação, nos institutos de pesquisa, é
também um ato que perpassa processos individuais particularmente
complexos. É possível que alcançar esse reconhecimento de si como
parte desse grupo exija, por vezes, a subversão de um sentido comum
de que ser é negro é moralmente ruim.
Ou seja, em primeiro lugar de reconhecer o direito a autodeclaração
de todo indivíduo que se reconheça como negro e queria afirmar essa
identidade, num país marcado pelo racismo e o mito da democracia
racial. Nesse sentido nos afastamos totalmente das ideias coloristas
que buscam definir os contornos da opressão racista diferenciando
as tonalidades da pele dos negros, como se a diferença entre elas
gerasse algum benefício para os negros de pela mais clara. Foi apenas
em 2010 que, com a publicação do Estatuto da Igualdade Racial, se
reconheceram pretos e pardos como negros, mas isso não fez com que
esses setores estivessem separados estatisticamente frente ao racismo.
Como demonstra a jornalista Bianca Santana em seu artigo, Nossa
negritude de pele branca não será negociada129:

Segundo dados divulgados pelo IBGE em 2017, enquanto o rendimento


médio real de um trabalhador branco era de R$ 2.660 e dos pretos era
R$ 1.461, o do pardo era R$ 1.480. Percebem a vantagem social? Do
mesmo modo, enquanto o desemprego entre brancos era de 9,5%, dentre

128 Kabengele Munanga, A difícil tarefa de definir quem é negro no Brasil.


Disponível em: <http://dx.doi.org/10.1590/S0103-40142004000100005>
Acesso em 6 fev. 2021.
129 Bianca Santana, “Nossa negritude de pele clara não será negociada”, em
jornal UOL. Publicado em 28 jul 2020. Disponível em <https://www.uol.com.
br/ecoa/colunas/bianca-santana/2020/07/28/nossa-negritude-de-pele-clara-nao-
sera-negociada.htm>. Acesso em 11 fev 2021.
186 MULHERES NEGRAS E MARXISMO

os pretos era de 14,4%, dentre os pardos era 14,1%. Sei que os dados
cansam. Apresento só mais alguns. Dentre as empregadas domésticas,
50% são pardas (as quais somam 40% do total de mulheres), 13% pretas
(quando são 8% do total de mulheres), 35% brancas (47% das mulheres).

Esses dados mostram o que muita gente expressa nas redes


sociais, como o depoimento incluído acima. A pele clara não elimina
o racismo, apenas dificulta a identidade. E aí estão os números: pretos
e pardos – categorias “fabricadas” pelos institutos de pesquisa –
vivem as mesmas marcas sociais do racismo. Essa divisão fabricada
tem história.
Muitos de vocês já devem ter ouvido falar do Haiti. Esse país foi palco
da primeira revolução negra no mundo, colocando em questionamento
quando aconteceu a ideologia burguesa e a escravocrata ao mesmo
tempo. Exigia-se liberdade, igualdade e fraternidade incorporando o
discurso iluminista e ao mesmo tempo se separando dele, já que a
revolução no outro continente não havia impedido que a escravidão
seguisse viva nas colônias. A vitória do povo haitiano percorreu as
Américas, instalando medo de rebeliões nas elites e desejo de revolta
nas mentes escravas – que eram negros e indígenas.
No Brasil esse medo foi avassalador, porque a grande maioria
da população aqui era negra e escravizada. Imaginem o medo da
classe dominante diante da possibilidade de se repetir em nosso país
o que aconteceu no Haiti, já que a composição populacional era bem
parecida. Esse medo da possibilidade da luta de classes é uma das bases
da tese do branqueamento pela via da imigração. Europeus chegavam
ao Brasil para formar uma camada proletária ultraexplorada, porém
branca. Chegaram a teorizar sobre o desaparecimento da população
negra, manifestando o desejo de que em 2012130, nossa população
seria composta por 80% de brancos, 20% de mestiços e nenhum
negro131. Nada mais distante da realidade do país mais negro fora do
continente africano.
Uma tese diferente buscou também suavizar a presença negra
no Brasil. O processo real de mestiçagem que ocorreu em nosso país
- que combinava métodos violentos com o desenvolvimento natural

130 Em discurso de 1912, Gobineau, um importante defensor da tese do


branqueamento, faz esse prognóstico em um discurso.
131 Lilia Schwarcz, Nem preto, nem branco: muito pelo contrário, São Paulo:
Claro Enigma, 2013.
MULHERES NEGRAS E ESTRATÉGIA SOCIALISTA 187

de misturas entre povos - foi utilizado para promover a ideia de que


negras e negros teriam sido substituídos por um povo mestiço - nem
branco nem negro - que também não seria vítima de racismo, uma
ilusória e enganosa “superação das raças” que conduziria a um país
sem racismo.
Essa promoção de um projeto de país que superaria as contradições
raciais através seja do branqueamento, seja da formação de um povo
mestiço, se expressou tanto na teoria, quanto na política e na arte.
Romances como Iracema e Macunaíma, de distintas formas, saúdam
a mescla superadora do povo brasileiro.
Aqui novamente retomamos o professor Kabengele Munanga:

Podemos observar que o conceito de raça tal como o empregamos hoje,


nada tem de biológico. É um conceito carregado de ideologia, pois como
todas as ideologias, ele esconde uma coisa não proclamada: a relação
de poder e de dominação. A raça, sempre apresentada como categoria
biológica, isto é natural, é de fato uma categoria etnosemântica. De
outro modo, o campo semântico do conceito de raça é determinado pela
estrutura global da sociedade e pelas relações de poder que a governam.
Os conceitos de negro, branco e mestiço não significam a mesma coisa
nos Estados Unidos, no Brasil, na África do Sul, na Inglaterra, etc. Por
isso que o conteúdo dessas palavras é etno-semântico, político-ideológico
e não biológico.132

O branqueamento - a forma brasileira da eugenia - e a mestiçagem


como superadora do racismo são duas teses que perpassam a formação
da identidade nacional brasileira e concorrem ainda hoje pela sua
predominância no discurso político sobre o racismo. Tem sido
corriqueiras as declarações de distintos atores do regime autoritário
brasileiro, fruto do golpe institucional, que buscam fortalecer, por
exemplo, a ideia de que não haveria racismo no Brasil, articulando
uma resposta ao movimento internacional de luta negra que se apoia
justamente na denúncia da existência do racismo e promovendo
novamente através do discurso de Estado a negação do racismo
tal qual se fez durante a primazia da tese da democracia racial. O

132 Kabengele Munanga, “Uma abordagem conceitual das noções de raça,


racismo, identidade e etnia”, Palestra do 3º Seminário Nacional Relações Raciais e
Educação-PENESB-RJ, 05/11/03.
188 MULHERES NEGRAS E MARXISMO

General Mourão, por exemplo, frente ao assassinato de Nego Beto


pelos seguranças de um Carrefour em Porto Alegre, ousou dizer
que não haveria racismo no Brasil. Se sente no direito de dizer isso
porque, nas palavras dele:

Eu digo para vocês o seguinte, porque eu morei nos EUA: racismo tem lá.
Eu morei dois anos nos EUA, e na escola em que eu morei lá, o ‘pessoal
de cor’ andava separado. Eu nunca tinha visto isso aqui no Brasil. Saí do
Brasil, fui morar lá, era adolescente e fiquei impressionado com isso aí.133

No mesmo momento, Bolsonaro faria uma declaração dizendo


“Como homem e como Presidente, sou daltônico: todos têm a mesma
cor. Não existe uma cor de pele melhor do que as outras. Existem
homens bons e homens maus”. No texto, disponibilizado em suas
redes sociais no mesmo dia 20 de novembro em que Mourão se
pronunciou, Bolsonaro exalta o país “miscigenado”. O militar que
maneja o racismo “explícito” para negar o “velado” e o presidente
que nega o racismo pela miscigenação articulam em duas frentes a
recuperação das teses racistas que impactam na enorme dificuldade
de perceber tanto o racismo quanto de reivindicar uma identidade
negra, preparando o terreno para dividir dentro das fileiras operárias
aqueles trabalhadores que clamam aos seus companheiros que somem
no combate contra a opressão racial.
Referências intelectuais como Abdias do Nascimento, Lélia
Gonzalez, Solando Trindade, entre outros, dedicaram uma enorme
parte da sua trajetória intelectual para desmontar a farsa de que
existiria democracia racial aqui, ou de que a mestiçagem teria gerado
uma realidade intermediária entre negros e brancos – os pardos? – que
não sofreria racismo. Recuperar esse combate passa, necessariamente,
por negar teses como o colorismo, que apesar de se postularem
antirracistas, tratam a realidade do racismo como uma experiência
quantificável pelo tom da pele, de certa forma afirmando a tese da
mestiçagem como anuladora do racismo. Esses intelectuais tinham um
entendimento muito mais profundo sobre as contradições em torno
da identidade racial do que qualquer teoria neoliberal poderia ter,

133 Guilherme Mazui, “‘No Brasil não existe racismo’, diz Mourão sobre
assassinato de homem negro em supermercado”, G1, Brasília, 20/11/2020.
MULHERES NEGRAS E ESTRATÉGIA SOCIALISTA 189

como o colorismo atua como ferramenta de divisão entre os próprios


negros. Esses intelectuais pioneiros nos debates críticos de os efeitos
do racismo em negros tanto de pele clara como de pele escura.
As massas negras – que todos esses intelectuais reconheciam
ser a soma do que as instituições do Estado chamavam de pretos
e pardos – eram privadas da sua identidade racial, o que leva a um
problema importante que é a dificuldade de se opor a um inimigo,
porque ele está invisível. Por outro lado, a democracia racial sozinha é
relativamente frágil como mecanismo de divisão das fileiras operárias
entre negros e brancos, como foram as leis Jim Crow no EUA que
diretamente impediam o convívio nos mesmos bares, restaurantes,
segregava ônibus, etc. As contradições do racismo no Brasil ser
mais “escondido” - muito mais antes do que agora, quando distintos
institutos de pesquisa já verificaram o reconhecimento massivo da
existência do racismo - é unilateral a visão que considera apenas o
racismo velado como obstáculo para a conformação de uma identidade
negra de massas. Com medidas de combate ideológico e político no
seio da classe trabalhadora, a vanguarda consciente teria sido capaz
de alastrar ódio antirracista no Brasil com certa mobilidade, ainda
mais frente ao histórico de luta negra e da presença constante de
eventos que reafirmam a existência do racismo no país.
Muitos desses intelectuais terminam, dessa forma, por absolver a
política de conciliação de classes e a falta de uma política hegemônica
por parte das direções da esquerda e do movimento operário no Brasil,
principalmente o PCdoB e o PT. A luta contra a burguesia é decisiva
para um antirracismo profundo. Nesse marco, temos que lutar contra
todas as formas de opressão, com uma política de unidade das fileiras
operárias, como quando trabalhadores efetivos da USP se lançaram
como apoiadores das lutas de trabalhadoras terceirizadas da mesma
universidade, ou quando distintas categorias operárias se somaram
ao combate contra a violência policial racista nos EUA exigindo a
expulsão dos policiais de seus sindicatos. Em meio a esse processo, o
ódio contra a opressão racial da maioria da população brasileira será
a maior fortaleza da classe trabalhadora brasileira, e uma injeção de
ânimo nos oprimidos e explorados de todo o mundo. Uma política
de unidade das fileiras operárias seria obrigada a combater todos
os aspectos do “racismo velado” brasileiro, e contribuiria para o
desabrochar sem receio e com toda energia a identidade negra.
Somos negros, e isso é importante de dizer para que possamos
nomear nosso inimigo, mas nomear nossa identidade é um passo
190 MULHERES NEGRAS E MARXISMO

de uma longa caminhada que também é composta pela superação


da separação entre econômico, político e ideológico nas nossas lutas
cotidianas, uma tarefa que precisará se contrapor com a tentativa
permanente das burocracias sindicais de manter essa separação.
Essa é uma luta de toda a nossa classe contra o capitalismo, pois os
contornos que delimitam o grau de opressão que sofremos todos os
dias, não são as diferentes tonalidades da nossa pele, mas sim a classe
social a qual pertencemos.

Identidade negra e programa socialista

Galera do movimento negro, a que fala sobre panafricanismo, e etc,


desconsidera seu discurso por você se basear na pauta marxista/socialista
[...] isso porque justificam dizendo que não há recorte de raça no socialismo
e avaliam os partidos políticos de “esquerda” como brancos
Lucas

As confusões alimentadas sobre o tema da identidade alcançam


o terreno da negação de teorias e estratégias porque seriam
supostamente “brancas”. A partir do debate levantado neste artigo,
é importante apontar duas conclusões fundamentais: a primeira, de
que a identidade que um indivíduo se vincula é insuficiente para
imprimir a esse mesmo indivíduo uma premissa política, importa
muito o terreno desse combate que leva adiante contra o sistema de
miséria que se aproveita do racismo para perpetuar a exploração; a
segunda, de que se o racismo é uma ferramenta para dividir a classe
trabalhadora, o povo pobre, as mulheres, os homens, a superação
dessa ideologia macabra passa necessariamente pela unidade das
fileiras operárias e o rechaço a qualquer divisão.
O marxismo é, nesse sentido, uma ferramenta fundamental. Em
primeiro lugar porque assume como seu terreno de batalha a luta de
classes, como norte, uma vida sem opressão e exploração, e como
meio para isso, a revolução. Qualquer tentativa de nos separar dessa
teoria só pode buscar cumprir a função de nos impedir de chegar a
sínteses poderosas para as massas negras, como a de que policiais não
são trabalhadores, de que não aceitaremos mais ter nosso trabalho
roubado de nós todos os dias, que não viveremos mais numa sociedade
em que nosso suor alimenta o luxo de alguns. É se apoiando no
marxismo e na sua trajetória ao longo dos séculos XIX, XX e XXI que
MULHERES NEGRAS E ESTRATÉGIA SOCIALISTA 191

se pode dizer que “o trabalho de pele branca não será livre enquanto
o de pele negra for marcado a ferro”134, parafraseando o Marx da
década de 1860. Nos inspiramos em Leon Trótski, quando diz que
“devemos buscar o caminho da consciência dos operários negros, dos
operários chineses, dos operários indianos, de todos os oprimidos do
oceano humano das raças não brancas, cuja palavra é decisiva para o
desenvolvimento humano”135.
A luta por um antirracismo socialista e revolucionário, conectada
com a massa negra e proletária do país, na batalha por construir
uma sociedade que supere a divisão entre as classes e todas as
opressões que sustentam essa divisão, está na ordem do dia desde
os primórdios do sistema capitalista, e foram também os marxistas
os primeiros a construir a tese internacional de luta negra da
história no qualreconheciam o combate antirracista como uma tarefa
internacional dos revolucionários que em 1922 compunham as fileiras
da Internacional Comunista. Lá, diriam que “a luta internacional
da raça negra é a luta contra o capitalismo e o imperialismo”136. E
recuperar o marxismo como ferramenta para a construção de uma
estratégia de combate no terreno da luta de classes é um dos maiores
trunfos que nossa geração pode fazer, mas para isso, é preciso se
separar das revisões grotescas do marxismo que na história negaram
a luta negra e se solidarizaram com as burguesias nacionais. O
stalinismo, em qualquer lugar do mundo, significou um retrocesso
para a unificação entre a luta negra e a luta de classes, e no Brasil,
contribuiu enormemente para a naturalização do mito da democracia
racial. Essa tendência política que por décadas assumiu o lugar de
“marxismo oficial” atuou frente à luta negra com um discurso de
que a luta de classes vai emancipar os negros de forma imediata, se
tornando uma via distracionista que remete a luta contra o racismo
a um futuro distante. Esse discurso serviu ao mesmo tempo para
justificar uma prática cotidiana não-radical, adaptada às possibilidades
de conciliação com a “burguesia nacional”, sem qualquer atitude

134 Karl Marx, O capital, livro I, São Paulo: Boitempo, 2011, p. 372.
135 Leon Trótski, “Mais perto dos proletários de raça ‘não branca’!”, em
Marcello Pablito, Daniel Alfonso e Letícia Parks, A revolução e o negro, Edições
Iskra, 2019, p. 159-161.
136 III Internacional Comunista, “A questão negra: Resoluções do IV
Congresso da III Internacional Comunista – 1922”; idem, p. 44.
192 MULHERES NEGRAS E MARXISMO

radical e independente da classe trabalhadora no combate ao racismo


no conjunto da história dos distintos partidos stalinistas do mundo.
Por isso, a teoria-programa da nossa época só poderia ser a teoria
da revolução permanente, que reúne as principais sínteses de Leon
Trótski na batalha pelos princípios marxistas frente às experiências
revolucionárias do século XX. Nessa teoria, Trótski explica que
qualquer demanda democrática – como é a luta contra o racismo –
encontra seus limites dentro da democracia burguesa, e que, portanto,
só pode caber à luta independente da classe trabalhadora o combate
contra o racismo, o patriarcado, e em defesa de qualquer direito
democrático mínimo ou radical. Confiamos que a classe trabalhadora,
negra e branca, é a única que ao se unificar, levantando com um só
punho os combates de cada povo oprimido como seu, pode levar
adiante a mais decidida batalha antirracista e anticapitalista abrindo
o caminho para construção de uma nova sociedade, em que não
existam mais as divisões que hoje são impostas pela burguesia. Fomos
internacionalmente submetidos pela nossa origem nacional ou pela
cor da nossa pele, e é por isso que contraditoriamente, a força do
nosso combate se soma e se fortalece também na arena internacional,
onde a identidade negra se conecta com a identidade de todos os
povos oprimidos na luta contra o capitalismo e o imperialismo.
Uma homenagem a Miguel Otávio Santana da Silva
(17/11/2014 - 02/06/2020), morto aos 5 anos
pelo racismo capitalista, e também à sua mãe, Mirtes
Renata, incansável na luta por justiça.

Este livro foi publicado em março de 2021 e im-


presso pela gráfica Bartira, em papel Chambril
Avena Soft LD 80g/m2, para as Edições Iskra, com
tiragem de 2 mil exemplares.