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A PESSOA É O FIM E NÃO O MEIO

O fundamento normativo da bioética personalista


Thiago Cristino, religioso consagrado pavoniano, licenciado em Filosofia, Especialista
em Educação de surdos e Estudante de teologia

A bioética é o estudo da moralidade da conduta humana no campo da ciência


da vida. É interessante destacar que a Bioética inclui a chamada Ética Médica. A Ética
Profissional Médica é, então, um capítulo da Bioética. Isso quer dizer que, para entender,
para aprofundar, para refletir sobre a Ética Profissional nós temos que fazer referência à
Bioética.
A Bioética não está restrita às Ciências da Saúde. Ela, desde que surgiu, quer
olhar para a vida e para tudo, para todas as áreas do conhecimento que, de uma forma ou
de outra, tem implicações sobre a vida de todos nós. A sua atuação tem a ver com a vida.
Por isso, o verdadeiro enfoque da Bioética é o interdisciplinar, isto é, vista por diferentes
óticas profissionais, com diferentes formações, que não necessariamente interajam entre
si.

Princípios da Bioética baseados no modelo Personalista

Personalista, por que refere-se a “persona”, pessoa. O ponto de partida é


reconhecer a pessoa, reconhecer a identidade da pessoa e sua essência, pois só
reconhecendo-a, podemos então saber como respeitá-la. O reconhecimento tem como
desdobramento o respeito à dignidade da pessoa humana. Então o ponto de partida é o
reconhecimento e o respeito à dignidade da pessoa humana.
Mas o que é dignidade? Essa questão da dignidade parte por uma reflexão
filosófica acerca do Ser do homem, numa busca pelo ‘personalismo ontológico’, que é
base para o juízo bioético, pois busca entender o ser humano na sua essência, em sua
natureza, em sua verdade, em sua totalidade e em sua unidade: “todo homem e o homem
todo” (Compêndio da Doutrina Social da Igreja, nn. 65, 121). O ser humano é uma
unidade e uma totalidade, por isso a bioética personalista fala em “unitotalidade”.
Não se trata, portanto, de base em um credo religioso específico confessional,
dogmático ou piegas, mas de enxergar um caráter do transcendente no imanente, Deus no
Homem.
Essa dimensão espiritual da pessoa e do paciente é sempre reconhecida, ou no
mínimo intuída na vivência dos corredores dos hospitais. A dimensão espiritual é
terapêutica, essencialmente terapêutica.
Porém, a partir de toda essa reflexão que considera o ser humano como uma
unitotalidade, quais seriam os princípios que podem ajudar na tomada de decisão na área
da bioética?
1. Implica um compromisso existencial e prático em favor de todas as
pessoas, em especial, as mais necessitadas - o princípio da defesa da vida física:.
Deixar-se interpelar pela pessoa e sua dignidade. Desde o ato mais elementar de
reconhecimento da pessoa, a razão prática – e com ela toda a vida concreta do ser
humano real (vida física) – se encontra comprometida e obrigada;
2. Implica reconhecer o ser humano como sujeito social – o princípio da
sociabilidade e subsidiariedade: Sociabilidade é quando eu reconheço que participo de
uma sociedade, que eu compartilho a minha vida com outros e, portanto, eu tenho papéis
relativamente aos outros também.E o desdobramento disto é o princípio da
subsidiariedade: onde as necessidades forem maiores cabe à estrutura social, à estrutura
estatal, apoiar estas iniciativas. Assim, salvar a subjetividade pessoal sacrificando a
relação ou defender a relação em detrimento da substancialidade são excessos que é
preciso evitar através de um aprofundamento das evidências que oferece a experiência do
humano.
3. Implica em construir sua normatividade a partir do imperativo que
concebe a pessoa como sendo uma realidade em si mesma – o princípio da liberdade e
da responsabilidade. Implica na responsabilidade do profissional de tratar o enfermo,
como um fim e jamais como um meio. Implica também na responsabilidade do médico
de não aderir a um pedido do paciente considerado pela consciência moral como
inaceitável, pois não se tem o direito de dispor da própria integridade física recusando,
por exemplo, cuidados indispensáveis à sobrevivência, quando está em jogo a
sobrevivência do ser. Isso porque o direito de defesa da vida vem, ontologicamente, antes
do direito da liberdade. A pessoa deve ser tratada com um tipo de amor não-instrumental,
pois a pessoa é verdadeiramente uma “hypostasis proprietate distincta ad dignitatem
pertinente”
4. Implica em partir da diferença entre coisas e pessoas – o princípio
terapêutico. Este princípio trata da decisão sobre a terapêutica que vai ser proposta, a
terapêutica que se vai implementar no paciente. Segundo esse princípio, é lícito intervir
sobre a vida física da pessoa, por exemplo, fazendo cortes e mutilações cirúrgicas. Fala-
se do respeito à vida física, mas existem terapêuticas que propõem a mutilização
cirúrgica. Então se o princípio da defesa da vida física aparece em primeiro lugar, ele é
relativo frente às questões que envolvem a própria sobrevida. A este princípio se liga a
norma da proporcionalidade das terapias para avaliar o equilíbrio entre riscos e
benefícios. Além do mais a Bioética personalista parte da diferença entre coisas e
pessoas. As coisas e as pessoas são realidades de natureza diversa e irredutíveis entre si e
requerem aproximações cognitivas diferenciadas. Somente realizando uma “reductio in
proprium genus” (uma redução em seu próprio gênero), é possível aprender a respeitar o
fenômeno e a pessoa em sua característica específica.
5. Implica em distinguir a irredutibilidade da vida humana a outras
formas de vida e a sistemas materiais mais complexos: isto quer dizer que é necessário
reargumentar autenticamente sobre a existência da alma humana e seu caráter espiritual.
É mister recuperar os pensamentos intelectuais que caracterizaram os grandes pensadores
do passado que mostraram a diferença entre alma e corpo, e sua profunda unidade.

Conclusão

A Bioética necessita assumir como princípio a própria pessoa humana,


enquanto sujeito que possui dignidade. Uma antropologia normativa desta índole não é
patrimônio exclusivo de uma teoria moral, mas da experiência humana fundamental.
Existem momentos em que um eficaz pragmatismo irracionalista faz-se
presente não somente nos debates acadêmicos sobre a Bioética, como também na cultura
de todos os países, é preciso descobrir os motivos para fazer frente à pura vontade de
poder – sem cair uma retórica do medo – preservando autenticamente a dignidade de
todas as pessoas, em especial, daquelas que são mais frágeis e estão vulneráveis.