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Consolaci ó n Villafane U dr y &

\XIilto n Duarte (orgs.)

Uma história
brasileira do milho
o valor dos recursos genéticos

Antôllio Babia Filbo


Ernesto Paternialli
Célia j\!f. T Cordeiro
João Carlos Garcia
José Ronaldo M agalbães)
L uciano Lourenço lVass
Manoel Xavier dos Santos
lvmJiro Vilela de A nr/rade
Sidlley Parentolli
]àbaré Abadie

O ParOlelO 15
Direitos cxclusims para eSla ediç;to:
Paralelo I; Editores

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O PorOle lO 15
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t'R(1Il:rn IJ)/TUKL \L
Franck Soudanl.
1'IUl'\It'4;\U I)lr:. UlIlGl\.\I$
An a Maria Loureiro.
C\P\
Rol:uul, sohre foto do r.e!llro de DoculI1(·lltaç.io da Embr:lpa.
I SB~ : 85·1l6.1 15-.\0·.1

Ficha c.lIalogdfi ca

Udry. Consolación \'i1laf:llie


lima história brasileira do milho - o ralor dos fCCllrros genético:;
I COl1soJación \'i\I;ú,u"\C Udry & Willon Duarte (org.) - Bm,flja :
Paralelo 15.2000. •
136 p.
1. fooli!llo. 2. Recllrsos genéticos, 3. Biotecnologia. I. 11dry.
Consolación \'iII:úailc. 11. Duane, ,,'iholl. 111. Tímlo.
C J)LI: (.1\ IS
(, '5.(,7
SUMÁRIO

I NTRODUyio 7

o nLOR DOS RECURSOS GE~(IICOS DE MI LHO P,I R-I O B RASil. II


U ,\t-\ AI\DRD.\(jEM IIISTÓRIC..\ DA Ur1l17.,\ç..\O]){) GERMOI'L-\SM,\

ErneMo Paler1l;alli, lllcintUJ Lourenço Nass e AI,,"oel XaI 'ier dos Santos

P ERSPECTIVAS DO PRÉ-MELHORAM ENTO DO MILHO 43


LllciatlO Lollrcllço Nnss e Ertleslo P"tertl;a"i

A COI.EÇ~O ~CCLEAR DE GERMOPIAS~LI DE MILllO ~O BRASIL 65


Tabaré Abatlic, Célia M , r. Cordeiro. Ramim V. I/e Alldrtule,
José R. MagallJl;es e S/dne)' N. Parento,,;

IMPOIrr,\,\CIA E USO DE BANCO OE GEI~\IOPIASMA 79


PARA O MELHORAM E~TO GE~(IlCO VEGETAL - MILHO
Ramiro Vilela de Amlratle

VAI.O R·I Ç~O ECO~ÔMICA DAS CAl~ICTERÍSTI CAS 85


DO GERMOPAl -,~L-I DO MILlIO
João Carlos Gflrcia

Eco~o ~m DA BIODlVERSllJADE PAI~ A AG IUCULTUR,( 101


COllso/"dó" Vi/la/mie Udr)'

5
o tlfl/or dos n't'tll-:'vs #e1/éliros de milbo pom u Brasil

4. Coleção de trabalho - destinada" conservação dos materiais com os


quais o melhorista está trabalhando. Essa tem sido a coleção mais am-
plamente utilizada pelos melhoristas, pois nela estão os materiais elites
caracterizados com alta freqiiência de genes de interesse para os pro-
gramas de melhoramento.
No Brasil, a coleção de base tem 2.884 acessos, enqmulto a coleção ativa
- BAG-Milho - conta co'm 2.396 acessos. Recentemente, foram repatriados
1.374 acessos que estavam sendo mantidos pelo banco de germoplasma do
Cimmyt, os quais, oportunamente, serão incorporados ao sistema de con-
servação a médio e longo prazos (Nass ef alii, 1999).
De maneira geral , a utilização dos acessos mantidos nos bancos de ger-
moplasma é baixa. Esse fato é observado tanto nos p:úses em desenvolvi-
mento como nos pruses desenvoll'dos. As principais razões para a baixa
utilização dos acessos disponíveis nos bancos de gennoplasma são:
A. falta de documentação e descrição adequada das coleções;
B. falta de informações desejadas pelos mel horistas;
C. adaptação restrita dos acessos;
D. número insuficiente de melhoristas, principalmente nos I"úses em de-
senvolvimento;
E. falta de avaliação das coleções;
F. pouca disponibilidade de sementes, de\,do a esquemas de regenera-
ção inadequados;
G. troca de materiais entre os mclhoristas;
11. satisfação dos melhoristas com a variabilidade genética encontrada nos
materiais elites;
I. dificuldade em identificar genes potencialmente úteis; e
J. ' ausência de programas de pré-melhoramento - pre-breedillg.
No Brasil, Nass ef ali! ( 1993) realizaram um levantamento entre 34 me-
Ihoristas de milho , dos setores público e privado, para avaliar o nível de
utilização dos recursos genéticos disponíveis nos bancos de germoplasma. A
utilização regular dos bancos de germoplasma é muito baixa (14%), sendo
que a quantidade de informações disponíveis sobre os acessos foi conside-
I1Ida, por 70%dos pesquisadores, como o fator mais limitante para a utiliza-
ção dos acessos.
Deve-se ainda enfatizar que a troca de materi ais entre mclhoristas, no
passado, era comum constituindo-se em excelente alternativa para ampliar

37
Sumário

o MERCADO BRASILEIRO DE MILIIO 133


Willoll Duarte

ANÁLISE E AVALIAÇÃO DO MERCADO B1t ISILEIRO 167


DE SEMEKTES DE MILHO
Alltônio Bahia FiUlO eJoão Car/os Garcia

AGRADECIM ENTOS 173

AUTORES 175

6
INTRODUÇÃO

o milbo ellco~ltr{/do junto às múmias da cu/lum Pré·incrlica Paracm


há cerca de 7 mil flIIOS, enconlra-se in/aclo e conservar/o 110 MuseuAn
IrojJolr{~ico
de Lim{{.
Qllando Hermrín Corlés conqllislou o imjJério 71JenochlillanJund(f.
do em 1325, no lago I'excoco - Cidade do México - e Francisco [,izarra
u império Ta/malll iIlSll)!O, no Peru, ambos ellcontl'flrtlm o milbo nelO só
como alimenlo, mas estreitamente vinculado às tradições.
O cartÍler sagrado do milbo, jJermerl/Jo as clI//uras da América Pré-
colombiana e tradllzia a re/açeio de sobrevivência homem-I/Iilbo, lIn/{{
{Iez que esse milbo era incapaz de reproduzir-se. Nos séculos segll filIes, {/
cllllllra do milbo difill1dill-se m/lndo {{fora e ajJenas 110 séc/llo xx, com
os primeiros bíbrirlo.\' e com {/ Revo/uçâo Verde, ocorreria um ,\'(/110 qUCII1-
fi/a/il 'o 11(1 produtividade do milbo. Criou -se ri Oq~{mizaç{70 das Naç6es
Unidas jJara a Agric/llI/ll'{/ e ;1limelllaç(/o - ['/lO e {{rede nl//IIdial jJal'{/ a
cOllservaçüo de recursos gellét icos vegetais, tendo como centro de refe-
rência pa/'{/ o lI/i1iJo, o Cenlro Inlernacional de Melborall/enlo Milbo e
Trigo - Cimm)'l. No limiar do séCIIlo XXI, assislill/os à Revoluçeio Biolec-
l1ológica, em que os incrementos de produtividade ocorrem nâo só }lor
me/iJorfllnenlo clássico, n/(/s lall/béll/ jJor alle/'{/çc7o genélica - criaçtio
de Organismo Genelicall/enle Modificados.
O homem como Deus brinca, copia e recria a natureza. Eis aqui, onde,
por jJaf({doxal que jJareça, o jlrocesso biolecnológico e a cOl1servaçtio
dos recursosgenélicos seio ltio inlerdependenles. Nesle II/omenlo de Ir(/I1-
siçc7o, conbecer oprocesso de melboramenlo do milbo, o papel de mal/1'-
lel1çtio da diversidade e o valor econômico dos recursos genélicos, cons-
I ilui inslrull/enlo valioso jJa/'{/ a conlinuidade das jlesquisas.
A bislória do melhoramenlo do milbo no Brasil - relalada jJelo jJro-
f essor Emeslo Falemiani a jlarl ir da jJrójJria e.ljJeriência COII/O alor so-
cinlno desenvolvimento recente do melboramento 110 Brasil - permite

7
llma bistrJ!'Í(/ brrlsihdm do lIlilho

visualizar o esforço público, econômico , científico e temporalllecesstÍ-


rim'para o desenvolvimento do melhoramento de milho, elucidaI/do a
importância dos reclll;ms genéticos e da pesquisa, Essa visáo do proces-
so da pesquisa e de sua evotuçáo é partilhada com os melhoristas de
milho DI' Luciano Lourenço Nass e Dr. A[anuelLourenço dos Santos, cons-
tituindo a base de todas as pesquisas de recursos genéticos no pai"
O DI', l'abaré Abadie e equipe puderam realizar 11m trabalho
il1S11bstituível ao elaborar a primeira Coleçáo Nuc/ear de milho 110 Bra-
sil, com 10% das amostras da Coleçáo de Base de milho, o que permite
maior rapidez lia ava!iaçâo do gerllloplasma, diminuindo custos e pos-
sibilitando amplo acesso aos melhoristas,
A importância e uso de bancos de germoplasma de milho para o me-
lhoramento genético es/â constatada no leval/tamento realizado pelo
DI' Ramiro Vilel/a de Andrade sobre (/ utilizaçâo, pelos melhoristas, de
alguns caracteres de importância da espécie Zea ma}s L
Para responder à nova dinâmica econômica que demanda um valor
para os recursos genéticos, o DI' joáo Carlos Garcia aponta um método
de va/oraçáo dos recursos genéticos que está sendo utilizado como re}e-
rência.
A pesquisadora COllSulación Vi/lafmie Udr} desenvolve o lema de eco-
Jlomia da biodiversidade e discute a racionalidade econômica nas ações
e nas estratégias da conservaçt7o ex situ e in silu 110 Brasil, poisprecisam
serpermeadas pelas análises econômicas que dêem a necessária consis-
tência e jluidez /la mercado das utilidades geradas, dos benejlciários
dos recursos genéticos. As aç6es estratégicas desenvolvidas na conse/va-
çáo de recursos genéticos - incluindo a coleta de germoplas!l1a, intro-
duçc7o, intercâmbio, quarentena, caracterizaçâo e cOllservaçâo - sc70
atividades pautadas por critérios técnicos C/Ija ràcionalidade econômi-
ca não tem sido considerada. A lJa!oraçâo econômica dos recursos gené-
ticos e o desenvolvimento de metodologias que permitam apreender à
importância econômica atllal e potencial da collservaçâo,jimdamenla-
se em cOl1sideraçae.-; econômicas, sociais e ambientais.
A apreciaçâo sobre a evoluçâo do mercado brasileiro de milho, reali-
zada pelo pesquisador l'1iltoll DI/arte Ferreira, indica a relevância eco-

li
flltror/urdo

nômica e social do milbo para o desenvolvimento agrfcola brasileiro e a


importância crescente que tem assumido as novas cultivares e bíbridos
no aumento da produtividade dessa cultura.
A muílise relativa ao mercado brasileiro de sementes de milbo reali-
zado com agudez, conbecill/ento prático e teórico pelos Dr Antônio Babia
FiIIJO e DrJocio Carlos Garcia conduz(/ um cenário do mercado/i/luro: o
do nuulança instftucionalno campo da pesquiso cien/ifica e tecnológi-
ca de ponta que de responsabilidade jJública estri sendo repassado ao
setor privado, dada a crise fiscal dos estados nacionais e das jJolfticas
neoliberais.

9
1

o VALOR DOS RECURSOS GENÉTICOS


DE MlLHO PARA O BRASIL
U,\L\ AI\,QMIMGEM III!'1TÓRlC:,\ DA I.JTl U Z:\ç.~O DO GERMOPL\SMA

Enleslo Ptllerll;ll1l;
LIIC;tIllO Lourenço Ntlss
Manoel Xavier tios SlIlIlos *

I NTRODUÇÃO

AdisponibiUdade de germoplasma é de fundament,~ importância para o


melhoramento de qualquer espécie. Assim, lodo jJrogramCl de /IIe/bom-
menta depende, em última análise, dos recursos genéticos exMellles
lias ballcos de ger/llop/asm({ 011 ell/ liSO pelos ({griclI/lores. Esse germo-
plasma é obtido a partir de variedades ou de raças existentes no ambiente.
No caso do milho, foral1llltili zadas, inicialmente, variedades comu ns, culti-
vadas pelos agricultores c, posteriormente, foram re,~i zadas expedições de
coleta para preservar a variabiUdade disponível em distintos nichos ecológi-
cos. ESS;l> variedades não melhoradas apresentavam produtividade limitada
c deficiências agronômicas, porém, devido a sua variabilidade genética, tais
materiais possuíam potenci;~ para um melhoramento subseqüente.
Vários materiais podem ser utilizados como material básico para o me-
lhoramento - raças 10Gús, sintéticos, populações, Iubridos etc. -, m'l' , de
maneira ger;~, O importante é saUentar que qm~quer programa de melhora-
mento genético depende de germoplasma. Nenhum melhorista, por m,ús
competente que seja, pode realizar melhoramento genético se não dispuser
de germoplasma com características adequadas para efetuar processo de
seleção ou COIll características que possam ser incorporad~L" em cultivares

• Ernesto !)alerni:U1i é pesquisador do Depart:unento de Genética J:5ALQ/USI); Luci:Ulo


Lou renço Nass, J>CS<lui s:uJor d:1 Embrapa Rctursos Gcnc:ticos e Biotemolo~ia ; c Manoel
Xa\icr dos San tos, da Embrap:I Mil ho c So rp,o.

11
Eim:slo Palemialli. Luciano IDl/n:uço J\'r/ss (. Mal/oel Xi//'iel' (/0.,' Sal/lo.\'

de alto potencial para a agricultura; na verdade quanto maior a variabilida·


de disponível, maiores ,L, chances de sucesso no melhoramento genético.
Aseleção, obtenção e aproveitamento do germoplasma para program 'L,
de melhoramento pode se conSlÍluir em tarefa fácil ou difícil, e está na de-
pendência da fonte/origem do material. É tarefa fácil quando são utilizados
lulJridos ou sintéticos de uma coleção de trab,dho; é tarefa difícil e árdua
quando são luilizados acessos de coleta que possuem complexos gênjcos
qualitativos ou quantitativos de interesse para adaptação e uso jJer se ou
quando são utilizadosem cruzamentosvisando ~L transferência de caracteres
de valor econômico. Neste caso, tempo e paciência são requisitos funda·
mentais para se obter o sucesso esperado. Poucos, na verdade, são os resul·
tados relatados na literatura, pois, por um lado, os Illclhoristas quercm rc·
sultados imediatos e, por outro, pouca atenção foi dada para a caracteriza·
ção do germoplasma por fatores especiais - doenças, pragas, estresses
abióticos, qualidade de grão ete. Essa situação, entretanto , cstá sendo mu-
dada devjdo aos avanços da biologia molecular. Esforços em nível mundial
estão sendo direcionados para a caracterização morfológica Cmolecular do
germoplasma. Dessa forma, a v:doração dos recursos genéticos assume pri -
oridade em nível internacio nal , em virtude do milho ser tratado como
coll1l11odit)' especialil.lda.

A ESPÉCtE ZEA ~L4YS E SUA DIVERSIDADE GENF.TtCA

o milho é lima gramínea que pertence ~l famnia Poaceae e à espécie Zea


Todos os milhos existentes pertencem a essa única espécie que é
1//(/)'s L.
polilípica, existindo muitos lipos e muitas raç,L' de milho denlro dessa espé-
cie. Tal situação é parecida com o que ocorre na espécie humana, na qual
são identificadas \"Árias raças dCnlro da espécie Homo,,·ajJiens. O milho é
uma gramínea pertencente a tribo M(I)'deae que, por sua vcz, compreende
sete gêneros, dois nativos do Hemisfério OCidcnt,d - Ze(/ Cli·ijJsaclIlI/ - C
cinco da t\sia - Coix, CbionClcbne, poó'tOCCI, Sc/eracblle e Trilobacbne. O
gêneroZea compreende cinco cspécies: Z. m{~}'s , z. mexicana, Z./uxurians ,
Z. dijJlojJerel1nis e Z. jJerenllis. As quatro últimas são comumenle denomi -
nadas tcosinte. O gênero Zea apresenta 2n = 20 cromossomos, com cxcc·
ção de Z. jJerel1nÍs, que é telraplóide. Ocruzamento do milho com os vários

12
U {'(Ilor dos reC/(rsos gmélicos de milbo//flm o Brasil

Icosimes são viáveis e produzem lubridos férleis, excelO com Z. perennis.


Ogênero TrijJsacu/II é um pouco mais dislanciado do milho em relação
ao leosinle, mas lambémlem cerla proximidade. Exislem várias espécies de
7iipsaclI/II, por exemplo, 7: jloridall1l/ll , T. dact)'loides, 7: !1wizar, 7:
tlaslrale, entre outras.
A espécie milho é provavelmente a que conta com maior variabilidade
genética enlre loda.> a.s planlas cultivadas. Existem , hoje, idenlificadas cerca
de 300 raças de milho c, demro de cada raça, milhares de wriedades. O
milho é cultiVílC!O em prati camente todos os continentes, em todas as condi-
ções, porém, para cada região, existem milhos distintos com adaptação es-
pecífica. Por exemplo, exiSlem variedades de milho adaplad'L'" alta ,dlilu-
de, como o milho de Cuzco, que só se desenvolve acima de 2.50001 , no
Cuzco, Peru , assim como existem milhos adaptados a áreas de haixa altitu-
de, ,dém de lipos que são cultivados desde laliludes do exlremo Norte ao
extremo Sul. Observa-se, portanto, grande variabilidade genélica quanto à
adap,abilidadc do milho em diferenles condições ambiemais. Conslala-se
variabilidade para pralicameme lodos os caracteres da planla, dos grãos e
da espiga. Também há "'lriabilidade com relação ao porle, com planlas de
cinco metrose outras com pOllCOS centímetros de ahura. Detecta-se v'Jriahi-
Iidade quamo" composição química do grão, do endosperma C" qualidade
de proleína.
AJ ém da ampla variabilidade genética, o milho (em lima característica
bastante importante quanto ao seu nível de domesticação. Trata-se da espé-
cie cultivada que atingiu o mais elevado nível de domesticação, o que faz
com que o milho só sobreviva quando cuhivado pelo homem , uma vez que
perdeu a capacidade de sohreviver por si mesmo na naturez.1. O milho tam-
bém é a espécie que apresema a capacidade de produzir a maior quantidade
de alimemo por unidade de área e por unidade de lempo. Exislem milhos
quc produzem 3, 4, 5Vha c, conform e o melhoramcnto genético e o manejo
da cuhura em lermos de adubação e de IralOS cuhurais, certos híbridos
podem chegar a produzir 20i/ha ou mais, o que é uma produção bastanle
significativa , considerando que isso é obtido em cerca de quatro meses ou
pouco mais.
Com toda essa diversidade disponível, o mclhorisla pode conduzir seu
Irabalho de melhoramenlo para produzir variedades e híbridos mais produ-
tivos e mais adaplados '15 necessidades do agricuhor. Compele, naturalmen-

13
HmesJo P""'TlIill1l1: I.uciano WUfL7/ÇQN(I.<;$ & Ma1loel Xtll'it-'T dos Sanlos

te, aos pesquisadores ou aos órgãos de pesquisa o aproveitam enio e a ma-


nutenção dessa variabilidade genética. Normalmenle, a obtenção c a manu-
tenção dessa variabilidade genética têm sido feitas por bancos de germo-
plasma, os quais mantêm as amostras individualizadas c em condições con-
troladas. Esses bancos são disponíveis, hoje, para praticamenle tod;L, as plan-
tas cultivadas e, naturalmenle, os bancos de germoplasma estão localizados
em instituições diferenles c que se especiali7.aram para as diferenles espé-
cies.

RAÇAS DE MILHO DESENVOLVIDAS I'ELOS I'RIMEIROS IIABITANTES


DA A.\ltRICA 00 SUL E SUA lITtLlZAÇÃO PELO HOMEM CIVILIZADO

omilho, pelo que se sabe, é origimírio da América Centr-.rJ ou do México,


tendo sido desenvolvido nos últimos 8 mil anos. Existem várias teorias sobre
a origem e a evolução do milho, mas a mais aceita hoje é que foi originado
do teosinle, que é uma granlínC'd. Essa planla é muito parecida com o milho,
porém produz uma espiga muito pequena e grãos que podem ser moídos
para fazer farinha; também podem ser utilizados na ;dimenlação c estoura-
dos no fogo, dando um tipo de pipoca. De qualquer tmUleira, os povos pri-
mitivos que habital".lm a América Centnd conseguiram domesticar o milho
e, ao mesmo tempo, por seleção, produzir um número bastante grande de
raças. Quando o europeu chegou à América, em 1492, já encontrou vários
tipos de milho domesticados c cultivados pelos autóctones. Posteriormente,
todo esse material foi devidamenle estudado e classificado com relação às
suas raças.
Na América do Sul, foram encontrados os milhos indígenas cultil"Jdos
pelos índios, sendo que, mais tarde, alguns foram adotados pelo homem
ocidenl,d e se desenvolveram nas chamadas raças corgerciais anligas. Poste-
riormente, foram introduzidos milhos de outros locais da América Central c
da América do Norte, resultando nas raças comerciais recentes.
Entre os milhos indígenas, a maioria é constituída por milhos de grãos
farináceos, muito moles, que se prestam à moagem e à produção de farinha.
Entre esses aparece o GuanlOi, cultivado pelos índios Guamni - Paraguai ,
Bolívia e regiões adjacentes do Br-dSil-, denominadoAvatí Morolí. Amaio-

14
o mlor das recursos gemjHcos de mil/Xl !,am o Brasil

ria dos milhos Guar<lI1i apresentam grãos amarelos, com uma camada de
aJeurona amarela, mas com a parte intcrna branca. Havia também O milho
Avatí MOl'otí branco, com todas as estruturas brancas. Outro tipo era o
miUlO dos K:lingang, que é um grupo indígena que vivia desde o Uruguai até
o estado de São Paulo. Esse milho Kaingang é também de grãos amiláceos,
porém dentados e normalmente brancos, de espigas cilíndricas, ocorrendo
variações na coloração do grão, como vermelho, variegado e roxo. Havia
também o milho entrelaçado, cultivado numa extensa área amazônica. Esse
tipo apresenta espigas extremamente longas - 30cm ou mais - e as fileir<L'
são e ntrclaçada..~ ao invés de retas, corno ocorre no milho em geral. Os mi -
lhos entrelaçados são amiláceos e com muita variação na coloração dos
gr<los: amarelo, vermelho, variegado, azul ete. No Rio Grande do Sul, foi
encontrada uma mça chamada Lenha, de grãos bmncos amiláceos, espiga
curta com elevado número de fileiras, geralmente acima de 20 fileiras de
grãos. Sua distribuição é muito restrita.
Entre os miUlOS indígenas, havia ,linda os de pipoca, desenvolvidos prin-
cipalmcnte pelos GUílItUli, no Paraguai. Predominava o pipoca de gIllOS re-
dondos, mas também era muito comum o de grãos pontudos. Grande parte
dos milhos pipoca comerci,lis utilizados hoje são oriundos desse pipoca dos
Guarani, tanto que uma vílriedade imporlante dos Estado Unidos é chamada
SO/l./bAmel'icanl'opcol'/1.. Os Guarani também cultivavam um tipo de milho
de grãos duros, chamado jlint, de cor branca. Adotado pelo homem civili-
z::ldo, passando a ser cultivado para fins especiais, originando a variedade
conhecida com o I,1ome Cristal e que é usada princip::~l1lente para fazer can-
jica. Em toda a costa atlântica, da Argentina às Guiana.'i, viviam os Índios 1\lpi
que cultival'.,m, essencialmente, milhos de grãos duros de cor laranja escu-
ra, o qual originou O milho Cateto que foi adotado pelo colonizador.
Esses são os principais milhos desenvolvidos pelos índios na Améri ca do
Sul e tiveram grande importância no melhoramento genético atual, princi-
p,dmente o milho Cateto - duro de cor laranja - , bem como o Cristal - duro
de cor branca -, mesmo se com menor expressão.

15
Enu:slo Palemimli. LlIámlO l.olll'e1IÇQ Nass & MaNoel Xm:ier do.,\' Jaulos

RAÇAS DESENVOLVIIlAS DE III'fRODUÇÕES EXÓTICAS

Por ocasião da Guerra da Secessão, nos Eslado Unidos, por volta de 1860,
muitos americanos imigraram para o Brasil e trouxeram milhos cultivados
naquele país. Esses milhos eram de grãos dentados com produção superior
aos catetos, normalmente de gr'los amarelos, porém ,~guns também de grãos
brancos. Com a introdução dos milhos americanos, ocorrcram cruzamcn-
tos com o cateto, dando origem a variedades que apresentavam gennoplas-
ma cateto em combinação com miUlOSdentados. Por volta de 1915, houve
nova introdução de milhos dentados americanos efetuada pelo secretário da
agricultura de Minas Gerais, Benjamin Hunnicut. Em \1sita aos Estados Uni-
dos, ficou impressionado com o comprimento das espigas expostas nas feiras
agrícolas, e tomou a iniciativa de trazer amostras para o Brasil. Tais ntilhos
passaram a ser cultivados e naturalmente Cruzaranl com o cateto, resld~U1do em
inúmeras variedades.
Antes do início da era do milho hnlrido, o que existia no Brasil era o
cultivo em grande quantidade do milho cateto - grãos duros de cor laranja
- e também dos milhos provenientes do cruzamento de cateto com os mi-
lhos americanos dentados. Essas variedades ficaram conhecidas por nomes
region:us: ltaici, Caiano , Argentino, Dente-de-caV'JIo etc. Entretanto, todas
aprescntaval11 uma call1cterística semelh;mte, o tipo de grão dentado amare-
lo mais produtivo que o cateto. Os diversos tipos encontrados em São Paulo
foram denominados milho Dente Paulista.
Os milhos originários dos Estados Unidos também foram introduzidos no
Rio Grande do Sul, porém não se cruzaram com o cateto, permanecendo
mais ou menos separados, recebendo também uma série de nomes locais,
os quais podem ser agrupados como Dentados Riograndenses. Nessa re-
gião, antes da era do milho híbrido, existiam milhos tanto de cor amarela
como de cor branca. Posteriormente, foram realizadílS algumas introduções
de nulho branco de grãos graúdos, espigas compridas e de oito fileiras ,
denominado Hickory King, o qual era cultivado no Paraná, mas que não
tinha uma produção muito eleV'Jda, como os demais tipos. Na Bahia também
foi identificada uma raça de milho, a partir de uma variedade da América
Central chamada Tusón, um milho dentado de espigas muito grandes de
gr-ãos amarelos, porém com certa freqüência de grãos avermelhados, devi-
do a coloração do pericarpo.

16
o /lalor dos reClmos genélicos de millXJ para u Brasil

Os tipos descritos anteriormente eram os princip'ús milhos existentes na


América do Sul, especi,dmente no Brasil, antes da era do milho hfiJrido.
Antes do início dos trabalhos com milho híbrido - que ocorreu no Brasil
entre 1930 e 1932 - , ha\;a ,dguns trabalhos de seleção, mas muito simples,
consistindo na escolha de espigas, resultando em uma série de variedades
cultivadas pelos agricultores, as quais receberam nomes específicos. Entre-
tanto, alguns agricultores com nllúor efici ência e atenção, conseguiram va-
riedades que, segundo informações informais, apresentavam características
que indicavam superioridade em termos de produti\;dade. De qualquer ma-
neira, os trabalhos eram muito simples, uma seleção l1lass;:~ sem muita tec-
nologia.

PRIMEIROS TRABALHOS DE SELEÇÃO E OBTENÇ,\o DO MILHO HIBRlDO

Os trabalhos de melllonHllento com milho Illbrido tiveram origem por


volta de 1930, simultaneamente no Instituto Agronômico de Campinas -
IAC, no estado de São Paulo, e na Universidade Federal de Viçosa - UFV, em
Minas Gerais. Oentão diretor do IAC, Carlos Arnaldo Krugg, esteve nos Esta-
dos Unidos fazendo seu PhO e sua tese versou sobre a heterose ou vigor de
híbrido no milho. Assim que retornou ao Brasil , deu início aos trab,dhos
para desenvoh;mento do milho híbrido. Glauco Pimo Viegas, chefe da seção
de cereais, liderou esse programa durante muitos anos, assumindo, poste-
riormente, o cargo de diretor do IAC e a Secretaria da Agricultura de São
Paulo. Inicialmente, foram conduzidos trab,dhos procurando a obtenção de
linhagens de milho cateto, uma vez que o milho cateto era o mais popular
entre os agricultores. Ao utilizar várias gerações de autofecundação, foram
obtidas muitas linhagens e os primeiros Illbridos fonull conseguidos por
volta de 1945. Os primeiros híbridos, apenas com linllllgens cateto - de
grãos duros e alaranjados -, não eram muito produtivos, embora fossem
bem mais produtivo do que o milho cateto.
Em Viçosa, o professor Gladstone de Almeida Orununond - que trabalha-
va IlllU S com estatística - c o professor Antônio Secundino de São José Araú-
jo - mais envolvido com genética-, tomaram conhecimento do milho híbri-
do nos Estados Unidos e resolveram iniciar um programa de produção de
milho híbrido no Brasil. Trataram de obter linhagens de cateto e linhagens

17
Em('slu Pa/emialli. I.UCÍlIIIOlmm:nço N(l~, [. MmlOt1 Xal'Í(-r dos S(lnla~

de milhos dentados c, pela primeira vez, obtiveram um hn,rido semi -denta-


do, cruzando linhagens cateto de grãos duros com linhagens de milho de
grãos dentados. Devido ao I;gor de lul>rido entre o milho cateto e o milho
dentado, o híbrido resultante era muito mais produtivo do que aqueles obti-
dos apenas com linhagens cateto. Esse hn,rido semi-dentado foi, na ocasião,
bast:Ulte criticado, uma vez que havia a idéia de que os milhos deveriam ter
um padrão estabelecido, quer dizer o milho deveria ser du ro ou dentado,
mas não se admitia a existência de um milho interm ediário. Em verdadc,
com o tempo, essa idéia não prevaleceu e o milho semi-dentado passo u a
ser b;c;tante popular no Brasil. Em I;S'" dos resultados, o programa do lAC
também passou a adotar a mesma li nha, tratando de obter linhagens de
milhos dentados e produ7ir os híbridos semi -dentados, o que correspondeu
a um aumento de produtividade muito significativo em relação aos hn,ridos
obtidos apenas com germoplasma cateto.
O programa de milho hn,rido iniciado em Viçosa deu origem à empresa
Agroceres, fundada pelos dois pesquisadores, sendo a primeira empresa
priv:.da a desenvolver milho lubrido no Brasil. Com o tempo, outras institui -
ções públicas passaram também a conduzir trabalhos para a produção de
milho híbrido, especialmente as secretarias de agricultura do Rio Grande do
Sul e de Minas Gerais.
Os programas de milho híbrido utilizavam a metodologia padrão, que
consistia essencialmente cm autofecundar phmtas das variedades existcntes
como cateto ou milho dentado para a obtenção de um número muito grande
de linhagens. Após várias gerações de autofecundação - seis, sete oum:us-
, as linhagenscram avaliadas quanto ;IS suas características agronômicmi. As
melhores eram cruzadas e dessa nWleira era possível identificar quais as
linhagens que tinham melhor capaodade de combinação, isto é, capacidade
de dar bons híbridos. Dessa forma, foram escolhidas linhagens que seriam
utilizadas como genitores dos hJl1ridos.
Os programas de milho híbrido tiveram cada vez m,us aceitação e o mi-
UlO lubrido semi-dentado passo u a ter grande popularidade entre os agri -
cultores. Por outro lado, os milhos semi-dentados não tiveram muita aceita-
ção especialmente no Rio Grande do Sul c também em Santa Catarina, pois
os agricultores preferiam milhos dentados. Arazão é que nesses loc;us pre-
dominavamagricultores mais tradicionais, de origemgermânica, que tinham
muito mais tradição c interesse na manutenção de suas variedades. Portan-

/8
to, era difícil a aceitação de um milho dc grãos totalmente diferentes, o que
levou à concentração na ohtenção dc linhagens só de milho dentado, ou
seja, hast;ulIc semelhantes aos materiais e llSvariedades utilizadas pelos agri-
cuhores sulinos.
Em São Paulo, a situação foi diferente, pois os agricultores não eram
tradicionais manlcncdores de vari c{bdcs, ou seja, não se preocupavam em
seleci onar c Cllllll antcr \t;:lricdadcs geração após geração. Norm alm ente. os
agricultores vendiam toda a produção C no ano seguinte adquiri am as se-
mentes no mercado ou de outros agricultores, riz inhos. \'cssa si tuação , não
houve prob1cm ,l>; na aceitação de um hOJrido totalm ente novo, com grãos
diferentes como os tipos semi -dentados. Épor essa razão que em São Paulo,
no Paran;í e em Min;LSGcrais;1aceilação do milho semi-dentado foi b'Lstal1le
rápida e fácil.
\. :I

ESTABELECIMENTO 00 8i\NCO DE GERMOI)U SMA

No início do cstabclecimcnto dos bancos de gennopbLsma, não hm;a cons-


cien ti zação sohre a imporflllcia do material genéti co hásico. No caso do
milho, os hancos degcnnoplasma ti veram origem com os trabalhos da Fun-
dação Rockefeller, no México. Em 194:\, a produçOio de milho no México
era insuficicntc para sua população de 20 milhões de habitantes , sendo por-
tanto neccssário importar milho, uma vez que é a basc da :~im cntação mexi-
cana. O governo mexicano solicitou então à FundaçOio Rockcfeller que de-
senvolvcsse um programa de melhoramel1lo de milho, de Irigo e dc outm'
espécies, m;L' com ações p,;oritári:Ls para O milho c o trigo. Os pesquisado-
res iniciaram cssc programa em 1943 e o primeiro trahalho, no caso do
milho, foi um le"lntamcnto dos milhos cxistentes no México. Verifi cou-sc
quc havia grande diversidade de tipos dc raças. '15 quais foram dc\; damentc
cstudadas e classificadas, resultando cm 25 raças dc milho dcscritas. Esse
trah;~ho revelou que o milho possui um poten cj;~ de germoplasma bastante
diversificado c que dcve scr preservado, uma vez quc pode ser mu ilo Íltil em
programas dc melhoramento.
Essa diversidade no México trouxe o intcressc de vcrifi car se havcri a tam -
bém uma diversidade de germoplasma em outros p:úses, sendo conseqüen-
temente conduzidos estudos semclh:mtcs na Colômbia, na Venezuela, no Peru .

19
/:'mes/o Ptll('rJ//rIlIi. LIIÓa1lU1.l.JIm:/lço Nass & Mauoel Xal"iel" dos 'imllos

na Bolívia e, evidelllcmCllIe, no Brasil. No Bf<L,il, o Departamento de Genéti-


ca da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz- ESALQ foi incumbido
de efetuar um estudo das raças de milho existentes no Brasil e nos países
adjacentes. O trabalho teve origem em 1952 e, nessa ocasião, o chefe do
Departamento de Genética era Frederic Gustav Brieger, que sempre se preo-
cupou muito com estudos sobre o milho, prin cipalmente ligados à evolução,
mas também com aspectos voltados para o melhoramento. Brieger preocu-
pava-se também com os milhos indígenas, procurando obter amostras culti-
vad,L'\ pelos índios c, em seus contatos com mjssionários e antropólogos,
sempre recebia material interessante para pesquisa.
Ernesto Patemiani passou o ,Ul0 de 1951 no México, no Programa Agrí-
cola Mexicano da Fundação Rockefeller. Ao regressar, passou a fazer parte
do DepartamcllIo de Genética da ESALQ, tendo a incumbência de desenvol-
ver o B'U1CO de GenllopIasma de MilllO. Essa experiência permitiu a Paterniani
conhecer as raças de milho mexicanas e as metodologias de melhoramento
lá utilizadas.
Inicialmente, foram efetuad'L' \iagens de coleta de nulho, juntamente com
colegas como José Teófilo Gurgel. No interior do Paraguai, durante cerca de
um mês, foram coletad'L' algumas centenas de amostras dos milhosAvatí
Morolí e também uma série de variedades de milho pipoca, tanto de grãos
redondos, como de grãos pontudos. Foram tíllnbém condtlí'jdas viagenscom
Warwick Estevam Kerr nos estados do Paf<U1á e de Santa Catarina, \isitando
especialmente os Índios Kain gang. Nessa ocasião , foram coletadas amostra.s
características do milho cultivado por esse grupo indígena. Ao mesmo tem-
po, foram efetuadas viagens de visita a agricultores, principalmente em São
Paulo e Minas Gerais, sendo obtidas várias centen'LS de amostras de milhos
catetos, dentados c semi-dentados. Foram também encontradas amostras
muito interessantes de milho crist:d. No sul de Minas Gerais, por exemplo,
havia uma variedade chamada Prata, de espigas grandes, compridas, de grãos
duros e brancos. Desse modo foi possível obter uma coleção bastante repre-
sentativa dos principais milhos cultivados, no Paraguai , pelos índios, princi-
palmente os Kaingang. Também foram obtidas sementes de milho entrelaça-
do, cultivado por índios da Amazônia.
Como resultado dessas expedições, o banco de germoplasma de milho
do Departamento de Genética, em pouco tempo, contou com m,tis de 3 mil
amostras de sementes. Natur:dmente, esse materi:d foi plantado, estudado e

20
identificado quanto :L'i suas carac!crístiCíl" 1ll0l{ol6gicas e agronômicas. C0l110
freqUentemente as sementes olHidas eram em pequenas quantidades, houve
a necessidade de multipli car 'lS amostras. Cada amostra fo i plantada c, por
meio de pounizações manuais, foi realizada :Ill1ultiplicu;ão {h" amostras.
De\'e-se observar que ti organização e o descllvohimcnto de um banco de
germoplasma é lima atividade bastante complexa, pois:
A. envolve desde ,i coleta nos locais onde esses milhos são cultivados,
muitos dos quais são de difícil acesso. o que torna as expedi ções muito
longas e trahalhosas;
B. depois de obtidas as amostras, existe UIlI trahalho muito intenso dt,
identificação , descrição, e avaliação desses materiais; e
C. é necessário que o banco de gennoplaslll:t mantenha as amoslras em
boas condições para serem utilizadas pelos PCS<luis;uln!'C.'s. íL... sim , Ilara
cada acesso, deve existir lima quantidade suficiente de scmcntes com
,dto poder de germinação para utili zação. ou seja, esses materiais têm
de ser plantados periodicamente.
Toda essa iniciativa é UIlI trahalho de rotina, porém extremamente impor-
tante e essencial, sendo que essa condição rotineira não l)lltusiasma os
pesquisadores. lima vez que a manutenção dl' material em banco de gl'rmo-
plasma nem sempre proporciona um retorno cien tífico correspondente ao
trah,dho enl'ohido . De qualquer Illaneira. esse hanco de ~e rmoplaslll a foi
conduzido durante cerca de Ii anos no Departamento de Genética da ESAU! .
Uma alternati\'a que foi utilizada para minimizar o trahalho de manulen\:ão
do banco foi o de identificar amostras muilO scmelhantes l' rl'presentati \'as
da mesma variedade, as quais foram então agrupad:l'i elll populações. Assim,
tod~L" as amostnl... do banco de gennoph"'llla foram plantad:L". obser\~l(hL" c
a\. .~ ia<h~ indhidu~~mentc. A" amostras foram obsl'l\wll'" com relação aOtipo
de planta e rua., parol o florescimento. Após a colheita, t,unh{'11l quanto:to tipo de
grão, tipo de espiga, coloração etc. Dessa lJlaneira, aqudas mais de :1 mil
amostras de milho existentes no banco foram reunidas ell1 cerca de 95 po·
pulações. Não se justificava Illuito a manutcn\':"io dCSS~L" alllos tr~L" indi\1t1ual·
mente, pois isso leria lima série de illconrenicllIes, além do trabalho envol-
vido. Esse esquema nem sempre contou com o apoio de muitos pesquisado-
res, pois consideravam que :L"':; :lmostra'5 de\'eriam ser m:Ultid:L" indiyidualizadíl"
para sempre e não mi stllrad~l" ou combinad:l" com OulnLO;;, mC:-;JllO que Illuito
semelh,Ullt's.

21
Em,:,/o /'tI!L7'l lÍtllIl. Llicia!lo ÚJIi /'L'II{'O •\(L'\.~ (. .Ifalloel ,\iu ·ier do.,' .\(m/os

Segundo Paterniani I'< Goodman ( 1977) , a manutenç:io de amostras indi-


viduai s deve considerar os seguintes aspectos:
A. Um trabalho muito grande de polinizações manuais, uma rcz que o
milho é de polinização cruzada. Apolini zação manual nunca pode ser
feita comum número muito grande de pl::mtas, dessa forma, após cada
geração de renovação, o número de plantas vai sendo reduzido, o que
deve acarretar certa endogamia e perda de alguns genes originais. Por-
tanto , se em tIIll::l determinada amostra for coletada dez espigas - cer-
ca de 5 mil semcntcs - e na ren ovação forem utilizadas 100 sementes
l'lll cada geração, sendo que após os cruzamentos são mantidas )0 a
40 espigas , isso representa 30 ou 40 sementes da'luelas 5 mil origi-
nais. Dessa forma , já existe uma rcduç:io considerável e, persistindo
esse esqucma, a redução cvidentemente vai conduzir aUllla endogamia.
As nov,L" amostr~L" não serão represent:lti\'~L" da original coletada no
campo, CCl1amente, isso traz inconvenientes, pois nos trab,~h os de
pesquisa, a mesma amostra sendo utilizada em ;mos distintos pode
representar freqüências gênicas diferentes.
B. O agrupamento de um mimero de amostras da mesma variedade em
uma única populaç:io pode ser multiplicada em um lote isolado, como
é feito no campo peio agricultor, quer dizer facilmente pode-se plantar
:l, 4, 5 mil plantas e, dessa maneira, tudo indica que seja obtida uma
amostra m,us representativa do que existe na natureza, além de lima
considerável redução do trabalho envolvido.
A reunião das mais de 3 mil amostnls em 95 populações contou com o
auxílio de WeUhausen, pesquisador americano responsável pelo melhora-
mento do milho no México, no programa da Fundação Rockcfeller. Esse
pesquisador esteve no Departamento de Genética da ESALQ, auxiliando na
identificação das amostras e na decisão de quais deveriam ser reunidas em
uma determinada população. Após a reunião das" amostras, essas foram
mantida.s por meio de lotes isolados, que não eram plantados lodos os anos,
existindo um escalonamento dos plantios, Esse banco foi mantido até que a
Empresa BnL, i1eira de Pesquisa Agropecuária - Embrapa também tomou a
iniciativa de desenvolver seu próprio banco de germoplasma, ocasião em
que todo esse materh~ foi emiauo para o recém criado banco de germoplas-
ma de milho em Sete Lagoas - MG, no Centro Nacion,~ de Pesquisa de Milho
e Sorgo - CNPMS. Novas expedi ções de coleta foram m~izadas pelo CNPMS

22
o m/o/' dos reCl/rsos glflléticos de mil/X! para o Em,I'i!

c Centro Naci om~ oe Pesquisa de Recursos Genéticos e Biotecnologia - Cc-


nargen, dando-se continuioade aos trabalhos de regeneração e de manuten-
ção da coleção ativa.
Verilka-se que tooo o processo de formação de bancos de germopl,c;ma
no Brasil contou essencialmente com esforços do setor público, ilticialmen-
tc CO I11 Universidadese posteriormente com a Embrapa. Isso se deve, prova-
vchncnte, à natureza ee pouco retorno econômico a curto prazo. Ressalta-se
que essa atividade é de grande importância e é essencial para o contínuo
melhoramento do milho , tendo beneficiaoo, em grande parte, o setor priva-
do, sem que o mesmo tenha desembolsado recursos relevantes para a ativi-
dade. Algum apoio do setor privado foi obtioo na multipli cação de alguns
lotes isolados, m'LS todo o trabalho tem sido realizaoo pela ilticiativa púhli -
ca. Várias pubUcações têm sido rc,~i zadas com base nos materiai s mantidos
no banco de germoplasma de milho do Brasil , entre el'Ls o levantamento d'Ls
raças do Brasil (Bri eger el alii, 1958), retomado em publicação posterior
por Paterniani & Goodman ( 1977) , além oe outras avaliações sobre o po-
tenc i,~ dos acessos disponíveis no país (Embrapa, 1984; Santos el ali i, 1998;
Miranoa f!! el alii, 1999).
\ {
"
CARt\CTERí~"TIf.AS 00 AMBIENTE TROPICAL
PARA O MELHORt\MENTO DO MIUlO

Um fal a notável é a capacidade que o milho possui de se desenvolver em


lima ampla faixa de ambientes. O pioneirismo nos métodos de melhoramen-
to e o seu maior desenvoilimento ocorreram em condições de clima tempe-
rado, especialmcnte nos Estados Unidos. Entretanto, a tran sferência quase
exata d,c; técnicas desenvoilidas nos amhientes de cli ma temperado não se
constinlem lima alternativa vi<ivel e eOcicntc para as condições tropicais.
Contrastes marcantes entre diversas características dos dois ambientes são
apresentldos, a seguir, na Tabela I.
Paterniani ( 199:-;) ress;~tou a importância da precipitação plllliométrica ,
uma vez que, nos ambientes de clima temperado, a estação chuvosa apre-
senta-se mais bem definida em relação aos amhientes de clima tropical ,
gen~mente marcados pela imprcvisibilidade. Como exemplo, pode-se citar a
região Centro-Sul , on~ a experiência indica como m,tis fa\'or:'\'el a semc<ulura

23
TAR EU 1

Principais d~lt!rellr(/S eu/re rIIubieJlles


de clima temperado l! tropif.;al para (} cullim do milho

Clima
Caracteristicas Temperado Tropical
Condições de cultivo
Vanação cllmãilca anual Relativamente estável Vafl3vel. Imprevlsivel
Variação pI\Nlomélnca anua! RelatIVamente umlorme Vau3vel, impreVlsivel
FOlopenooo Dias longos Dias curtos
Temperatura noturna Mats Ina MaiS Quente
CondJÇões do solo Geralmente lavorave<s FU~Quentemente adversas
PenedO de semeadUl3 AesllllO (PC>Jcos c as) AfT'9Io (vànas meses)
Periodo de CUltIVO Bem dehrudo vauavel, amplo
Problemas de gcmnação SOlo IrlO e h..ngos Il'Isetos de sOlo
Ervas danmhas Média Infestação Alta Infestação
Insetos de grãos armazenados Baixa Infestação Alta Infestação
Tipo de plan ra
CICio Umlol'rT'II!. adaptado ao Vallável, adaptação às SitUações
c:<:Io ce cu'tlVO c ~ma~cas e soclO-econ6rrucas
AIIura da planta Media a baixa Geralmente atta
InfrHstftllufa
Dlstânaa entre lOcaiS Cul1a a raloavel Frequentemente longa
Transpol1e e corrumcação Geralmente sallslatonos Geralmel'lte não satisfatóriOS
CondiÇões de pesquISa Geralmente sallslatónas Geralmeme não sahsfatorras
Ouantidade de pesquisadores Adequada Insuhclente

em outu bro, podendo Ilu;ar de setembru a nOl'embro. Tudalia, existem anos


em que a semeadura só é possíl'el em dezemhro"devido " falta de condi-
ções rarorá\'eis, prind palmcllte pelo atraso !las ChU Vi:lS. Com rel:l,:ào ao
período de cultil'o, o clima tro picallel'a grande vantagem se comparado iL'
condições de clima temperado, no 'lu:d esse peliodo é hem definido e rclati,,,-
mente curto, Entrct~ullo , a maior desmntagelll dos ambientes tropicais é a
imprc\'isibilidade das condições di m:ÍlicL'i C :l'\ \';.uiações b~l..,t~ullc acentu:ubl'\
I.mlo entre regiões como entre :UlOS. Em rUIl,'ào dess:t'\ \'ariaçües, os estudos
de cultivo em direrentes épocas de semeadura tornêl lll ·SC Illuito importantes

24
o ralo,. dos rt'w"su"" gt'I/ {:lico.\' de /ll/ibo "tlm o 8r(/,\11

e necessários, princip ,~mente para identificar quais os períodos mais favo-


dveis de cultivo em cada região e para permitir a seleção de cultivares que
apresentem maior estabilidade "'L,
diferentes épocas.
Em vários Estados do Brasil a época de cultivo do milho tem sofrido
alteração na tentativa de se obter mais de lima safra por ano ou para evitar a
ociosidade da terra e equipamentos em geral. 11 partir de 1980, no Oeste do
Estado do Paraná, ,~gU"S agricultores ilticiamm o cultivo de milho fora da
época normal recomendada. Esta pdtica foi denominada de "sa[linha". No Es-
tado do Paraná a época de semeadura do milho "safrinha" compreende os me-
ses de dezembro a fevereiro, sendo observada uma preferência para o pl'Ullio
em fevereiro , onde há menor risco de perd,L" de\ido aos fatores clil11 ~it i cos , ()
cultivo de milho "s,úrinha" ocorre após a colheita da safra de primavera/
verão, geralmente representada por soja precoce ou feijão.
Com os resultados obtidos nessa experiência, lal inicialiva apresentou-se
como alternativa real para este período do iUlO , o que levo u outros Estados a
utilizarem () milho "safrinha" de maneira rotineira e COI11 cxp. msão crescen-
te da área cultivada, Atualmente, o milho "safrillha" é prática comum nos
Estados do Paraná, São Paulo, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás.
Certamente, o cultivo de milho "safrinha" causou Ulll grande impacto em
vários setores do negócio agrícola no Brasil , tais como: pesquisa, extensão,
scmentes, defensivosc, C0 l110 conseqüência, ampliou a oferta do pro((ulO no
mercado.

'\!
CONTRIBUIÇÃO DE GERMOI)I.:\SI\t<\ EXÓTICO TR{WH:t\L
PARA o MEUIORAMEl\"I'Q no MILHO NO BRASIL

No le",unamento realizado por Hallauer & Miranda Filho ( 19g8) foram


encontradas aproximadamente 301l raças de milho nos vários estudos con-
duzidos no Hemisfério Ocidental. Na Tabela 2, a seguir, encontram-se rela-
cionados os complexos raciai s mais promissores para o melhoramento
(Goodman, 19i8).
De particular interesse para as condições brasileiras são os estudos con-
duzidos por llriegcr el ({lii ( 1958) e Palerniani & Goodman (1977). Des-
creveram C <IvaHaram () pOlenci;~ genético das raças dc milho do Brasil c
p:úses \üinhos. Segundo l'aterniani & Goodman (I 977), cerca de 50% d'L'

25
Eml'slu ['a/em/til/i. LuciaJ/o Lourel/ço N{{ss Cc Mal/oel X(/I"ier dos S({ulos

a variabilidade genéLica nos programas de melhoramento. No entanto, com


a recente lei de proteção de cultivares, o intercâmbio de germoplasma está
se tornando cada dia mais limitado, trazendo como conseqUência uma re~
dução no uso da variabilidade genética que poderia estar sendo
disponibilizada para os programas de melhoramento. Em verdade, essa pre-
ocupação com o intercâmbio de germoplasma é pertinente, pois, acessos
arlllalenados e aparentemente sem nenhum valor podem conter genes ou
combinações de genes de alto valor adaptativo ou com alto valor agregado
ao grão.
Ao se tratar de linhagens de milho, o problema é mais acentuado, pois, se
no passado eram depedigree "fechado", hoje, com 'LS mudanças de merca-
do e lei ele proteção de cultivares, empresas públicas e privadas tomam to-
das as precauções para evitar o uso de materiais comerciais como fontes
para a extração ele linhagens.
Alternativas para elevar o nível de utilização dos acessos mantidos em
bancos de genTIoplasma têm merecido a atenção elos melhoristas e dos pes-
quisadores envolvidos com recursos genéticos. Aprimcira seria a caractcri ~
zação dos acessos para fatores especiais - estresses bióticos e abióticos -, a
segunda, o uso de coleções nucleares - core collections. A caracterização
monológica e molecuhu' dos acessos da core collectioll é essencial e estratégica
p,mL o p'ús, lembnUlelo-se que a prospecção de genes para caracteres de quali-
dade nutricional é também uma demanda prioritária; e a terceira seria for-
taleceI' os progracmLs de pré-melhoramento.
HVI

BIBLlOGR,\FlA

An lAOSUNA, J. "Stratified mass selection for production in two maizc populations"


Agronomy Abstract, L976, p. 45.
Bricger, E G.; GurgeJ, J. '1'. 1\ .; Patcrniani, E.; B!umenschein, A. & Alleoni, M. R. Races of
111aize in Brazil (I1ul otber Eastem Sou/b America COll1lln"e::j, s./ed., 1958. (NAS-
NRC rubI. 593) .
CI.NTO:X, T. "Av'lliação de oito ciclo.s de seleção recorrente na popu lação de milho (Zea
may.s L.) Suwan DMR", Piracicaba , ESALQ / USP, 1988, dissertação de mestrado,
mimeo.

38
I:"rl/(.:'\Io Paterniam; Luciano J1JU/'(7/ÇO Na,ss & Mal/oe! Xavier dos NO/los

TABELA 2
Complexos raciais de maior importância
para o melboramenlo de milbo
Tipo de material Raças eJou Populações
Dentados do México (I) Tuxpeno, Vandeiío, T epecintle, Zapal ote Chico, Zapal ote
Grande e Cela ya
Dentados do Com Belt (EUA) Q) Reid, Lancaster e Krug
Dentados do Caribe (I) TuSÓfl
Cristalinos do Caribe ~') Coastal Tropical Flinl$, Comuns e Costenos
Catetos I~) Milhos cristalinos de cor laranja do B ras~, Argen tina e
Uruguai
Cristalinos e Amitáceos (2:) M~hos do Norte dos EUA e Sul do Canaclá

( 1) Para Clima Tropical; (2) Para {1ima Tern[ll.'r:ldo; (5) Para Clima Tropical c Temperado.
I:onlc: Goodlllan ( 197g).

raças descritas são adapladas às baixas altitudes (O a 1.000m), 10%ic, alti -


tudes intermediárias (1.000 a 2.000m) e 40% desenvolvem-se melhor em
altitudes superiores a 2.000m. Considerando-se o tipo de endosperma, as
raças dividem-se em 40% amiláceas, 30% duras - fiint -, 20% dentadas,
menos de 10% pipoca e quase 3% doce.
Depois dos primeiros resultados do milho híbrido no Brasil - utilizando
os milhos catetos e milhos dentados aq ui existentes -, os pesquisadores
tomaram conhecimento de outros tipos de milhos tropicais, principalmente
os do programa agrícola mexicano da Fundação Rockereller, que identificou
materiais de grande valor agronômico. Esses materiais roram introduzidos
nos programas de melhoramento do Brasil.
Aprincipal raça de milho tropical é a chamada Tuxpeiio. Trata-se de um
milho de grãos dentados, espigas grandes, plantas altas, muito robustas e de
alta produtividade. O Thxpeíio é popular no México, principalmente na re-
gião de baixa altitude, como a região de Vera Cruz. Os principais Tuxpeiios
são de grãos brancos, uma vez quc, no México, há preferência de milho
branco para rabricação de IOl'lil/as. Há também uma quantidade l\lXpciios
de grãos amarelos, que roram prereridos no Brasil, uma vez que aqui existe
uma preferência para milhos amarelos, pois o milho é mais utilizado para a
alimentação animal .
A partir da década de 1970, o Centro Nacional de Pesquisa de Milho e

26
() m/or dos (('(:lIrsos g/..'111:licos de 11//1bo pflm o 8msil

Sorgo re:~izou diversas introduções de germoplasma tropiG~ pelo relacio-


namento com o Centro Internacio n ,~ de Melhoramento de Milho e Trigo-
Cimmyt, no México. Esse relacionamento tem permitido identificar fontes de
germoplasma com ampla adaptação e elevado poten ci:~ produtivo. Após sua
introdução, processos de melhoramento têm sido realizados e variedades
têm sido lançadas no mercado com abrangência de adaptação de norte a
sul. Um exemplo que merece destaque e que mostra a contribuição do ger-
moplasma exótico tropical no Brasil é a variedade BR 106. Formada por
germoplasma tro pical, anteriores à década de 1970, tem na sua composição
os materiais: Centralmex. Dentado Composto e Maya, os quais foram
interuuzados e dcvidamente recombinados. Devi do seu elevado porte, foi
cruzado com o l\lxpefío porte baixo e selecionado posteriormente para pro ~
dução, arquitetura de planta mais haixa e carac.terísticas de valor agronômi-
co. Nos ültimos cinco anos, têm sido comcrciali zados, em média, iOO mil
sacos de 20kg de sementes e o CNPMS continua com o processo de melho-
ramento da variedade. Além dessa contribuição para a agricultura nacion:~ ,
a variedade BR 106 tem sido distribuída para empresas públicas e priv:tdas
de sementes e utilizada para a extração de linhagens que fazem parte de
comhinações em híbridos comerci ais, aumentando expressivamente os ní-
veis da produção nacional de milho.
Outro exó tico quc mercce destaquc é UI11 milho da Colômbia, chamado
ETO. Esse tipo possui grãos duros de cor laranja - chamado ETO amarelo.
Existe também o ETO branco. Oamarelo foi o mais utilizado no Brasil; apre-
senta grãos semelhantes ao cateto, porém de raça totalmente distinta, lima
vez quc o ETO tcm plantas mais baixas, mais resistcntes ao acamamcnto,
espigas mais grossas e maior produtividade. Assim , foram produzidos híbri-
dos utilizando linhagens do milho dentado Tu' peno cruzado com linbagens
de milho ETO, resultando híbridos de milho semi-dentados de ,~ta produti-
\;dade. Alguns dos lubridos continuaram também a utilizar linhagens do
milho cateto. Posteriormente, ocorreram introduções de outros milhos do
México, da Colômbia c, mais recentemente, uma variedade d'ls Filipin'Ls cha-
mada Suwan- I, resistente a Perollosc!erospom sOlgbi ~ doum)' mildew.
Essa variedade também foi introduzida pelo CNPMS, na década de 1970, e
tem passado por sucessivos ciclos de seJeção. Éconhecida como BR 105 e é
bastante usada por programas de melhoramento como fonte para extração
de linhagens de alta capacidade combinatória com linhagens oriundas da

27
Emr.slo Palemümi, Luâm/O !.1Jurenço Na.% & Manoel XfII7er dos Saulos

raça Thxpeiio. É bastante conhecido o fato de que as variedades BR 105 e BR


106 representam um padrão heterótico de alto valor em todos os programas
nacionais de melhoramento. A dureza e a coloração laranja avermelhada
dos grãos da variedade BR 105 têm possibilitado a obtenção de híbridos
com grande aceitação no mercado, o que ressalta seu valor e contribuição
de uma introdução exótica para o melhoramento de milho no Brasil.

CONTRIBUIÇÃO DO MElHORAMENTO DE POPULAÇÜES


PARA A curruRA DO MilitO NO BRASIL

o processo para a obtenção de milho híbrido é bastante conhecido, pa-


dronizado e grandemente difundido. Consiste, como já mencionado, na ob-
tenção de linhagens endogâmicas, seleção d'Ls linhagens m,ús promissoras
para capacidade de combinação e o cruzamento entre essas linhagens resul-
tando no milho híbrido. Diferentes lipos de hn)ridos de linhagens podem
ser obtidos:
A. híbrido simples - obtido a partir do cruzamento de duas linhagens
parentais;
B. híbridos triplos - obtido a partir do cruzamento de Irês linhagens, ou
seja, cruzamento de um híbrido simples e outra linhagem ; e
C. híbrido duplo - obtido a pat1ir do cruzamento entre quatro linhagens,
ou seja, entre dois híbridos simples.
Outro esquema de melhoramento que pode ser utilizado é o melhora-
mento de populações de lIúlho. Pode-se considerar uma população de mi-
lho um conjunto de genótipos com um número de características em co-
mum. Antigamente, havia uma discussão Illuito acirrada sobre qual o tipo de
material genético mais apropriado: miUlO híbrido ou variedades melhora-
das. Essa controvérsia não persistiu muito tempo pois'as duas alternativas
são, na verdade, complementares. Aobtenção de linhagens de uma popula-
ção é função direta das freqüências gên icas na população. Assim, com o
aumento da freqüência dos genes favoráveis via melhoramento populacio-
nal , maior será a probabilidade de ocorrência de linhagens superiores e,
conseqüentemente, melhores híbridos serão obtidos.
O melhoramento de populações tem como principal objetivo a obtenção
de populações superiores para produtividade e demais características agro-

28
o /'({tor do.\" n:cursos !f,t:llélicos de milho para o /lmsif

nômicas de interesse. EsS'lS populações podem ser utilizadas per se, em


cruzamentos com OUlras populações originando os chamados hO)ridos
intcrvariet:use, na Illíuoria dasvezes, como fonte de novas linhagens nosprogra-
mas de mclhor.ullento que vismll ao desenvolvimento de lulJridos. Para se obter
o aumcnto das freqíiências dos genes favoráveis, diferentes métodos de seleção
podem ser empregados. Odescnvohimento de trabalhos de melhoramento de
populações de milho nQ Brasil teve início na década de 1960, na ESALQ,
sendo que, na década de 1970, grandes contribuições foram dadas com a
divulgação de variedades. O lAC também deu considerável contribuição ao
meUlOramcnto de populações. Av~triedade Ma)",t, por exemplo, foi desenvolvida
e selecionada a partir de 19 linhagens extr.údas de pOpl~ações exólims tropiGtis
e uma variedade, tendo em sua composição gcrmoplasma l\lxpeilo branco e
amarelo (Miranda , 1966).
O pioneirismo da ESALQ foi extremamente importante para o início de
um programa de melhoramento na região Nordeste. Mediante convênio en-
tre Brascan Nordeste / Sudene / IPA / Ipeane / ESALQ foram iniciados traba-
lhos de melhoramento que tinham como objetivo principal a substituição
das variedades cultivadas pelos produtores - sementes de p,tiol - por varie-
dades melhoradas e adaptadas à região, a formação de compostos, C zonea-
mento ecológico para a cultura do milho . O sucesso do programa foi Olan-
çamento das variedades Centralmex, Dentado Composto c Flint Composto e
sua utilização pelos agricultores. Os frutos dessa iniciatil'a até hoje perdu-
ram e existe continuidade do trabalho para introdução e melllOramcnto de
populações.
Outra grande contribuição para o melhoramento de populações teve iní-
cio na década de 1970, quando o CNPMS efetuou dil'ersas introduçõcs de
germoplasma tropical do Cimmyt (Viana et alh , 1982; Santos et ({lif , 1994).
Muitos desses materiais tran sformaram-se em variedades comerciais e até
hoje continuam sendo lItili z~ldas em larga esca1a, tanto per se como para
uso como fonte de extração de linhagens. Podcm -se citar alguns exemplos
de variedades que são comercializadas e que são oriundas de diversos es-
quemas dc melhoramento ao níl'el intra e illlerpopulacional- BR 105, BR
106, BR 111 , BR 11 2, BR 45 1, BR 473, BR ;004 , BR 50 11 , BR 5028, BR
5037, entre outros).
A.s metodologi'ls utilizad'ls no melhoramcnto de populações são diferen-
ciadas pclo grau de controle Jlarcnt'~ dos progenitores selecionados, utiliza-

29
EfI/( ~/tJ "fI/t,.,711t11I1, 1.110"'/0 /.JIII fI'I/{'O ,\ iI,(,' (: ,Ilrlll fli.'! ,\,1//(,/' r!/J,~ ,\(1/1/0,'

ção OU não de testes de progênies e pelo ní\'el de controle ambiental efelua·


do. Basicamente, pode·se separar as metodologia l'm dois níveis:
A, intrapopulacional , que risa ao melhoramento per se da população; e
B. interpopulacionaL que lem como ohjeli\'o melhorar o hOlfido emre
dmL' populações.
Aseleção massa! simpl es tem lima import:ll1cia Iüslôric:! lIIuito grande,
pois foi o esquema de seleção praticldo pelos índios c que contrihuiu para
).\crar a enorme dircrsidadc de lipos de mi lho existentes. Atualmcnte. :I sde·
ção massaltelll sido praticada para uniformizar as características agronCJ·
micas das populaçües ou para adaptação de germopl:tsl1la exótico, Poste-
riorm ente, foi propost:! 11111:1 estratificação da :írea experi mental a fim de
aumentar a eficiência da seleção massal pelo maior cont role sobre a hl,tero·
gencidade do solo. lia seqiiência ,João R. Zinsl\'. do l)epan:unenlO de (;ené·
tica da ESALQ. propôs a utilização de 11 111 genótipo const:lnte como artifício
para controlar ai nda mais a heterogeneidade do solo, O gl'nôlipo constlllll'
cra intercalado entre as plantas d:l população a ser selecionada , Alguns I'e·
sultados ohtidos com scle~'ã() massal para popub\,ües hrasilcir:ls de milho
são apresent:ldos a seguir na Tahela .1.
Para al).\\ll1las características possÍ\'cis d~ serl'1ll identificadas ::Intl's du
florescimento. existe a allernativit proposta pur Ernesto Paterniani , que oh·
te\'c resultados promisson's ao selecionar para prolifici dade - mais (k li ma
espiga por planta - realizando o cont role em amhos os S('XOS, conforme os
dados a seguir, na Tabela 4. Ilasic:uneme. del'e·se proleger as segundas espio
gas - inferiores - das plantas prolíficas antes do apa recimento dos cstilo-
estigmas. Depois de ,~ gun s dias, :LS plam'Ls não prolíficas são despcndoad:Ls.
Em scguid:I, rcmQrCIll -se os saquinhos das segundas CSpig,l'\, as quais são
lil'remenle polinizad'Ls pelas planlas prolíficas.
O leste de progênie permile a a\':~ iação do genótipo dos progenilores
haseado no fenólipo de seus descendentes. Esse tipO de al'aliação é mais
preciso e eficieme do que a seleção massal ou fenolípica. Por I'oha de lX40,
a importância de se avaliar a desccndência para o melhoramento j:í lin ha
sido estabelecida pelos trahalhos com helerraha reali zados por Louis de
Vilmorim , Esse método fo i denominado princípi o do isolamento, Posterior-
mellle, foi desen\'oll'ida melodologia que ficou conhecida como "seleção
espiga por fileira", no qual. para a a\'aliação dos maleriais. pl:ulIal'a·se a
descendência de cada espiga em uma fileira.

30
om/ar dos recur.l"Os ;.;ellélim.\' de mil/x) para o JJrasi!

TABELA 3
Resultados obtidos com seleçrio massal
ptlra produçâo de grcios 110 Brasil
População Intensidade de Número Ganho por Referência
seleção (%) de ciclos ciclo (%)
Moroli 12,2 2 23,5 Zinsly ( 1968)
Caingang 11 ,4 2 15,3 Zinsly (1968)
Denle Paulista 14,4 2 21,7 Zinsly (1968)
Cateto 14,5 2 2,3 Zinsly (1968)
Dentado Pauli sta 20,0 5 3,8 VencovSky ei ai, (1970)
Cateto 20,0 3 1,7 Vencovsky e t ai, (1970)
Dente Composto 10,0 6 2,8 Ayala Osuna (1976)
Flint Composto 10,0 6 3, 4 Ayala Osuna ( 1976)

TABELA 4
Resultados dtl seleçâo massal para
prolificidade com cou/role em ambos os sexos

Ciclos Rendimento de grãos Pro lificidade Mura da espiga


KgIha % número % em
PiranJo VO-2
O 7875 100,0 1,03 100,0 152
7846 99,6 0,98 95,1 128
82 14 104,3 1,03 100,0 140
11 1 8324 105,7 1,07 103,9 138
Pirantio VF- l
O 6341 100,0 0,91 100,0 116
6773 106,8 0,98 107,7 122
7062 11 1,4 1,01 111 ,0 119
111 7539 118,9 1,07 11 7,6 125
Fonte : P:llerni::tni (199(1)

Com a inclusão de princípios de experim entação ao esquema anterior,


surgiu o esquema de "seleção espiga por fileim modificado", o qual se mostrou
mais eficiente, Paterniani denominou esse esquema "seleção entre c demro de
progênies de meios irmãos", De\;do aos resultados obtidos comessa metodolo-
gia - conforme indica a Tabela 5 - e a facilidade na obtenção de diferentes
tipos de progênies em milho, outros esquemas foram propostos, tais como:

31
Emt':Jo !'alemiam. LllallllO !"oun'1lço 1\~L'iS & Manoel Xmier tios Salllo.\·

seleção enlre e denlro de progênies de irmãos gernl<Ulos e seleção emre e


demro de progênies endogâmicas (S, ou S,).
Em 1945 , fo i imroduzido Oconceilo de seleção recorreme, o qual con-
siste em um processo contínuo de melhoramento, no qual se sucedem ci-
clos de recorrência. O pri ncipal objelil'o da seleção recorrenle é aumemar a
freqüência de genes favor:íveis por meio de sucessivos ciclos de seleção.
Pralicameme IOdos os mélodos ulilizados no mclhoramenlo de populações
podem ser denominados de seleção recorreme, enlrelanlo, a Iilwllura aponla
qualro lipos bem definidos:
A. seleção recorrente rcnotípica;
B. seleção recorrente para capacidade geral de combinação;
C. seleção recorrente para capacidade específica de combinação; e
D. seleção recorreme recíproca.
Todos esses esquemas são disculidos nos livros le,los de melhoram enio
genélico de plamas. Vale ressahar ,~gllmas comribllições de pesquisadores
brasileiros aos esquclllít."i de seleção recorrente recíproca. Aseleção recorrente
recíproca é uma metodologia que busca melhorar a respost~l heterótica entre
dU'Ls populações. Em 1977, ErneslO Palerniani c Roland Vencovsky - do De-
parl<lInenlO de Genélica da ESALQ -, apomaram diversas Iimilações de or-
dem pnílica do esquema originalmente proposto para a seleção recorrente
recíproca. Nessa oponllni(bde, propllse"UllUma meloUolO<Ji« denominada "sc-
leção recorrente recíproca com ramília.) de meios irmãos", mais simples e me-
°
nos lrabalhosa que eSlluema origim~ . PoslCriormeme, em 1978, os mesmos
pesquisadores baseados no esquema anterior, desenvolveram uma nH:!todolo-
°
gia que permile uso de planlas prolíficas. Exislem ai nda eS(luelmLs de sele-
ção recorrente recíproca com ranulias de irmãos germanos e outras varian-
les que são denominados mélodos combinados, nos qmús diferemes lipos
de progênies são empregados. A ulilização de dois lipos de progênies fo i
explorada em melodologia desenvoil;da em 1987,. por Claúdio Lopes de
Souza)únior, do Deparlamenlo de Genélica da ESALQ, na qual são ulilizadas
progêniesde meios irmãos obtidas ahcrnadamcnte de plantas não endógmnas
(So) e endógamas (S,).
Nesse ilem , procurou-se enfalizar a cOl1lribuição dos pesquisadores bra-
sileiros do selor público com relação ao desenvolvimenlo de melOdologi'L'
utilizadas no melhoramenlo de populações. Para o milho, os resuhados oh-

32
o valor dos recursos genético.\' de milho !)tJrtI o BraiJif

TABElA 5
Resultados obtidos por seleção enlre e dentro de f amílias
de meios imlãos em populações de milho tiO Brasil
População Número Ganho por Referências

de ciclos ciclo (%)


Dente Paulista 3 13,6 Paterniani (1967)
Piramex 4 3,8 Paterniani (1969)
Composto Flint 2 3,0 lima el aI. (1974)
Composto Dentado 2 2,0 lima et aI. (1974)
Centralmex 3 3,2 Torres Segovia {1976}
IAC-I 8 1,9 Miranda et ai. (1977)
ESALQ VD-2 3 10,8 lima (1977)
IAC-Maya 13 2,8 Sawazaky (1979)
IAC-Maya02 4 4,5 Pommer & Geraldi (1983)
IAC -I0 2 4 10,7 Pommer & Geraldi (1983)
Dent. Comp . Nordeste 3 2,7 Santos & Naspolini Filho (1986a)
Flinl Comp. Nord este 3 5,1 Santos & Naspolini Filho (1986b)
Suwan DMA 8 5,9 Canton (1988)

tidos com as metodologias acima descritas podem ser encontrados em Pa-


terniani & Viégas (1987) e Hallauer & Miranda Filho (1 988),

A SITUAÇÃO ATUAL DA CULTURA DO MILHO NO BRASIL


E PROBLEMA."i RELACIONADOS COM GERMOPLASMA

Aimportância econômica desse cereal pode ser avaliada por sua ampla e
diversificada utilização , tanto na alimentação como na indústria, No Bra-
sil, sua principal demanda é verificada no arraçoamento de animais, espe-
cialmente em suínos, aves e b0l1nos, Isso se deve ao seu alto valor energéti-
co e sua digestibilidade, Na alimentação humana, é consumido i n nl lfu ra -
como milho verde -, ou como subprodutos - pães, farinhas, biscoitos e
massas, Na indústria, apresenta destaque por sua utilização como matéria-
prima na obtenção de >"Mios produtos, entre os quais: amido , ól eo, fari-
nha, vinagre, glicose, dextrinas, geléias, gom as de mascar, margarinas,
sorvetes, rações, produtos quími cos, corantes, bebidas, papéis, colas,
cosméticos, xaropes, antibióticos, explosivos etc. Atualmente, estima-se que

33
h'mesfo Pllf"1"/l;((/l;, 1.1IC1{t110 !Jmrtllço Nas'\" [. Mal/oel XtI/'Ú.,. dos S(/Iltos

o milho participa como maléria- prima em aproximadamellle 600 produ lOS


(Pinazza, 199'1) .
Em 1997, a produção mundial de milho foi de 585,8 milhões de lonela-
das colhidas em cerca de 140 milhões de heClares. Os ESlados Unidos con-
linuam o maior produlor, com 237 ,9 milhões de IOncladas, o que represen-
la cerca de 40% do tOlal produzido no mundo. Em segundo, aparece a Chi-
°
na, com 105,7 milhões de loncladas. Brasil é o lerceiro colocado em
produção, com cerca de 34,6 milhões de IOneladas, correspondendo a 6%
da produ ção mundial (FAO, 1997). Apesar de o milho ser cuhivado em lodo
o territóri o nacional, o Centro·Sul é responsável por aproximadamente 95%
da produção. Nessa região, o cuhivo de milho é predominalllemenle reali za-
do em propriedades de até 50ha. PinaWI (1993) ressahou que na produção
nacional de cere,tis e oleaginosas, o desempenho da lavoura de milho lem
efeito direlo e significativo sobre o volume 101al, eSlimando-se que a cada
Irês quilos de grãos colhidos, mais de um é de milho.
No Brasil , o início da década de 1990 foi marcado pelo incremento da
ocorrência de doenças foliares na cuhura do milho. Apesar da grande vari-
abilidade, pouco é conhecido em relação aos diferenles maleriais genélicos
- populações, raças, linhagens - como fonle de resislência a doenças. Em
lermos de adaplação da cultura do milho, pode-se considerar, no Brasil , a
existência de duas regiões:
A. !legião Tropical - none do Paran.í até o eXlremo None do país, que
pode ser seca em parte da região Nordeste e úmida na Amazôlüa; e
B. Região Sublropical - envolvendo o sul do Paran.í, Sallla Catarina e Rio
Grande do Sul. Nessa, existe a possibilidade de ulilização de germo-
plasma lemperado.
Essa variação ambien~t1 verificada no Brasil permite - segundo Magnal" ca
(1995) - aproveitar os progressos do melhoramenlo oblidos em regiões
temperadas em conjunlo com Ogermoplasma elite produzido no país, em
condições tropicais. EllIrelanto, elllre os problemas do uso de combinações
tropicais x temperadas na síntese de híhridos para regiões tropicais, verifi·
ca-se a maior incidência de doenças foliares.
A cuhura do milho é amplamenlc difundida em nosso país. Além das
variações nas condições do ambiente, d('VÍdo às lliferenç'l~ regiomtis, exiSlem
variaçõesclimátiGl'i ano a imo emlima mesma região. Esse fato destaca a neces·
sidade de desenvolver produlos específicos para cada região edafo-clim.ílica,

34
o (·'(i/or dos recllr.WJs gellélico.\' de lIlilbo ptl/'(/ () Br(/.l'iI

pois, além do forte componente da interação genótipo x ambiente, há o


componente de mercado regio n,~i zado. Conseqiientemente, isso implica em
que a freqiiência e a severidade das doenças do milho podem variar de uma
localidade para a outra, ou de UIll ano para outro na mesma região.
Miranda Filho (1996) relacionou diversos fatores que contribuíram para a
rápida esp'Ulsão de doenças nas regiões produtoras de milho no país:
A. alimento contínuqda .írea cultivada, principalmente com a abertura de
novas fronteiras agrícolas, como os cerrados do Centro-Oeste;
B. modernização de máquin,", e de equipamentos que viabilizaram o plan-
tio em grandes áreas;
C. dificuldade no estabelecimento de estratégias para o desenvolvimento
de cultivares específicas para microrregiões homogêneas;
D. ampliação do período de semeadura do milho para adequação " con-
dição de duas culturas por ano ; e
E. intensificação por parte das empreS:L' privadas da introgressão de ger-
moplasma temperado com o intuito de elevar o nível de produtividade
dos híbridos locais.
Ogermoplasma brasileiro de milho é caracterizado por uma ampla vari-
abilidade genética, incluindo raças 10Gtis ou indígenas, populações adapta-
das, populações exóticas ou semi-exóti cas. As coleções de linhagens
endogâmicas utilizadas nos programas de milho hn,rido. também represen -
tam porção expressiva do gennoplasma potencialmente útil.
No início de 1994, a ESALQ tomou a iniciativa de reunir várias institui-
ções de pesquisa, públicas C privadas, voltadas para a cultura de milho , em
um Núcleo de Apoio a Pesquisa em Milho - NAP-Milho. Seu princip,~ obje-
tivo foi criar condições para o desenvolvimento de pesquisa.s em diversas
áreas da cultura, envolvendo UIll consórcio de empresas e de instituições
públicas de pesquisa em uma associação pré-competitiva para aumentar a
produti\;dade da cultura no B,,",il. Diante do quadro preocup'Ulte com rela-
ção ,\5 doenças na cultura do milho, o NAP-Milho concentrou esforços no
desenvolvimento de um projeto de pesquisa que, entre outras ações, proce-
deu a caracterização para as principais dOCnç,L"i foliares do milho nos aces-
sos disponí\'eis no Banco Ativo de Germoplasma - BAG-Milho da Embrapa
Milho e Sor~o (Miranda Filho el a/h, 1999).
, i
; :

35
Hm esf() ['(Ilem i(ln/. ltlô(l!/ o Ifl lf f r:llÇO Nas,\' {. Mal/oel X(( r /er dos .'1(/1110..1'

A CONSERVAÇÃO E lfJ'lLlZAÇ,\O DE GERMOPL\Si\L\:


LIMITAÇÕES E l'ERSPECn"AS

Aimportância dos recursos genéticos vegetais é amplamente reconheci·


da pela comunidade científica. Várias são a' ati,idades rotineiras que os
órgãos de pesquisa envolvidos com recursos genéticos realizam : coleta, ca·
ractcrização, ;:lV<~iação , documentação e conservação. Obviamente, lodas
essas atividades têm por objetivo a utilização dos recursos, seja para o bene-
fíc io da geração atu,d ou das fut uras gerações. Esse conjunto de ati,idades é
caracteri zado por apresentar um ClI Sto elevado c retorno a longo prazo.
Esforços no sentido de conservar a variabilidade genética do milho têm
sido realizados em nível intcrnacionaL O Cillllll}1 , do México, possui uma
coleção de germoplasma bem estruturada e representati" , do mundo intei-
ro. ESS:LS fontes de germoplasma têm sido periodicamente incorporadas aos
materiais considerados elites pelos melhoristas. Nesse sentido, o uso de ra-
Ç' LS 10Gtis -/alldraces - tem sido verificado princip,dmente pelo ,dto poder
adaptativo que esses materiais apresentam .
Os tipos de coleções de gerrnoplasma são:
1. Coleção de base - Co/base - dedicada a conse" ·ltr o germoplasma a
longo prazo pela utilização de processos de frigorificação, com tempe-
ratura cntre · 18°C e ·20°C, oU de crioprescrvação, com temperatura
de -196°c. No caso de sementes, seu grau de umidade deve ser reduzi-
do para o intervalo entre 4% E 6%.
2. Coleção ativa - Co/aliva - conserva amostras de germoplasma a mé-
dio prazo, com temperaturas acima de zero e abaixo de 15°C. Aestru-
tura física que conserva a Co/ativa é denominada Banco Ativo de Ger-
moplasma - BAG .
3. Coleção nuclear - Core Co//eclioll - são coleções menores que têm
por objetivo representar a variabilidade genética de uma espécie e seus
parentes silvestres com o mínimo de repetiti'ielade. Para tanto, sugere-
se a utilização entre 10% e 15% do lOtai dos acessos disponíveis, que
mediante estratificação criteriosa, representam de 700/" a 80% da ,"ari -
ação genética da coleção. Nas coleções muito grandes, a coleção nu-
clear não ,deve exceder 3 mil amostras. Oeve-se ressaltar que, apesar
da organi zação dessa coleção, continua claro o papel estratégico ela
Co/base como repositório maior da '".triabi lidade existente; e

36
oralor dos reclI,..'.osgmélicos de mi!lJO /Nlra o Brasil

EMBR\I'A . CaM/ogo de germop/asllla de milho, Brasília, Centro Nacional de Hecursos


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41
2

PERSPECTIVAS DO
PRÉ-MELHORAMENTO DO MILHO

Lllciallo Lourellço Nass


Erllesto Plllerllíani ·

VARIABILlOADt: GENÉNICA

o milho - Zelll1la)'s L - é a espécie vegetal geneticamente mais estuda-


da c, em conseqiiência disso, a herança de inúmeros caracteres c seu
genoma são hem con hecidos. A maioria dos métodos de melhoramento
para as espécies ,~ ógamas foi primeiramente desenvolvida c av<~iada para
o mHho. A imporlflllcia econômica, sua estrutura genéti ca, o número de
cromossomos, o tipo de reprodoção, a facilidade para realil~lr poli,uzações
manuais e a possibilidade de gerar diferentes tipos de progêni es, são
fatores que Illuito contribuíram no sentido de tornar esse cercai um mo-
delo para as espécies alógamas.
O primeiro relato na literatura objetivando classificar o germoplasma
de milho baseou-se na composição do endosperma, sendo identificados
seis grupos principais (StufleV<lnt, 1899). Essa classificação foi aceita até
o início da década de 1940, quando outros enfoques foram considera-
dos. O estudo conduzido por Anderson & Cutler ( 1942) evidenciou a
possibilidade de se identificar raças de milho, O que representou um con-
siderável progresso em relação it composição do endosperma. O concei-
to de raça,; de milho foi introduzido por e,;ses pesquisadores c, em termos
genético,;, pode ser resumido como "grupo de indivíduos com um núme-
ro significativo de genes em comum". l'lallaucr & Mirand'l Filho (1988)
s,~ientaram que a ChL,sificação sugerida por Sturtevant é 'ldequada para
catalogação , invcnt,íri os ou armazenamento, entretanto, na tentativa de

Luciallo I.ou renço .'\:l<;S é pesquisador da Emi>rap:l Recursos Gcnélicos CUiolccnologi:l;


c EmcslO P:llcrniani, do Dcp:lrt:ulIcnlo de GCllétic:1 ESALQ - LiSP.

43
LUclallO Loure//ço Ac/ss (j Emeslo Patemialli

descobrir e traçar a origem d'l) diferentes raças, a classifi cação de Ander-


50n e Cutler é mais efi ciente.
Brieger et alii ( 1958) definiram raça como "qualquer gru po de popu-
lações apresent,Uldo um suficiente número de características distint'L"i em
comum , mantendo-se via panmixia e ocupando áreas defi nidas". 11 difi-
culdade de definir com precisão o conceito geral de raça é que freqüen-
temente encontnlmos exceções quando utilizamos conceitos muito am-
plos (Hallauer & Miranda Filho, 1988).
O conhecimento mais aprofundado sobre as raças de milho teve início
com o trabalho de \Vellhausen el alii (1952) , no qual foram avaliados 2
mil acessos no México. Essa iniciati va desencadeou uma séri e de levanta-
mentos visando a um melhor detalhamento do germ oplasma de milho
di sponíve l no mundo. O desenvo lvim ento cie ntífi co no ca mp o da
citogcnética permitiu analisar a freqüência e a distribuição geográfi ca dos
cromossomos tipo B e dos Knohs cromossômicos. Como conseqíiência
desses esforços, foram ohtidos avanços significativos na classificação das
raças de milho, possibililando mesmo traçar as prov:íveis rotas migratóri-
as ao longo do tempo. Informações complementares sohre o históri co e a
evolução dos estudos relacionados ao conhecimento das raças de milho
são apresentados por Goodman & Bro\Vn (1988) e Hallauer & Miranda
Filho (1 988).
No levantamento realizado por Hallauer & MinUlda Filho ( 1988) foram
encontradas aproximadamente 300 raças de milho nos vários estudos
conduzidos no Hemisfério Ocidental. Brieger et alii (1958) e Paternian i &
Goodman (1 977) descreveram e avaliaram o potencial genético das ra-
ças de milho do Brasil e p,úse5 viljnhos. Segundo Paterniani & Goodman
(1 977) , cerca de 50% das raças descritas são adaptad'l' às baixas altitu-
des (O a 1.000m), 10% '15 altitudes intermediárias (1.0nO a 2.000m) e
40% desenvolvem-se melhor em altitudes superiores a 2.000m. Conside-
rando-se o tipo de endospcrma, as raças dividem-se em 40% amiláceas,
30% duras (flint) , 20% dentad'l), menos de 10% pipoca e quase 3% doce.
Em nível mundial , os bancos de germ oplasma conservam aproximada-
mente 100 mil acessos de milho (Chang, 1992) . Atualmente, o baoco de
germoplasma do Centro Intcrnaciomd de Melhoramento de Milho e Trigo
~ Cimmyt mantém cerca de 11 mil acessos, computando-se conjuntamen-
te 'L' coleções de base e ativa. De acordo com as projeções, para as duas
44
PerSj)(:'cti/!tts do l)ré-!IlelboramG~lto do milbo

próximas décadas esse número poderá atingir 30 mil acessos. A coleção


de base visa a conservação de germoplasma a longo prazo, mantendo-se
os acessos em condições controladas de temperatura (-18 a -20°C) e
umidade dos acessos (4 a 6%). Caso haja queda no poder germinativo
dos acessos - cujo limite aceitável está em torno de 85% - , esses são
submetidos aos procedimentos de regeneração. Por sua vez, na coleção
ativa, os acessos são conservados a médio prazo em condições controla-
das de temperatura (O°C < T < 15°C) e umidade relativa do ar (30 a
45%). Nesse tipo de conservação, os acessos estão disponíveis para inter-
câmbio ou para atividades rotineiras de recursos genéticos como: multi-
plicação, regeneração, caracterização e avaliação de germoplasma.
Este capítulo tem um duplo objetivo: discorrer sobre as atividades rela-
cionadas aos recursos genéticos em milho e sua situação atual; e discutir
alternativas para aumentar a utilização do germoplasma de milho no me-
lhoramento.

UTILIZAÇÃO DO GERMOPIASMA DISPONfvEL

Os melhoristas de milho têm concentrado seus esforços em poucas


raças, apesar da enorme variabilidade genética disponível (Brown, 1975).
Nos Estados Unidos, a maioria dos híbridos atualmente disponíveis no
mercado são produto de cruzamentos entre linhagens derivadas da varie-
dade de polinização livre Reid com linhagens derivadas da variedade de
polinização livre Lancaster. Goodman (1990) ressaltou ser praticamente
impossível encontrar um híbrido americano amplamente utilizado que
não seja derivado do grupo heterótico formado pelas populações Reid
YeliolV Dent e Lancaster Sure Crop. Além disso, apenas seis linhagens ou
derivações dessas estão presentes em aproximadamente 70% dos híbri-
dos americanos. Essas linhagens são: CI03, Mo1 7 e Oh43 - tipo Lancas-
ter - e A632, B37 e B73 - tipo Reid.
O reconhecimento da importância dos recursos genéticos é pratica-
mente incontestável. As atividades de rotina dos bancos de germoplasma
- como coleta, caracterização, avaliação , documentação e conservação
dos acessos - demandam pesquisadores qualificados de diversas áreas
do conhecimento, apresentam custo elevado e o retorno é quase sempre

45
Lucial/o LoIln7/ÇU Nas.\' D Enu.:slu Pa/(mllflui

a longo prazo. Além da conservação da variabilidade genética para uso


futuro, outro objetivo desejado é que os acessos disponíveis sejam utiliza-
dos por sua cl ientela. Entretanto, a baixa utilização dos bancos de
germoplasma é uma realidade mundial, não sendo restrita ao Brasil ou
aos p;úses em desenvolvimento (Nass et ({lU, 1993).
A falta de documentação e descrição adequada das coleções, carência
de informações desejadas pelos melhoristlS, adaptabilidade resuita dos aces-
sos conserv,tdos, baixo número de mellloristas princi p;~meJ1le nos p,úscs em
desenvolvimento, f;~ta de avaliação d;lS coleções e a f;~ta de metodologias para
incorporação de gcrmoplasma no melhoramcnto de plantas estão entre os
princi pais fat ores responsáveis pela baixa utili zação dos recursos genéti-
cos vegetais. As causas da baixa utilização dos bancos de germoplasma
são amplamente discuti'!;l' por Salhuana (1987) c Marshall ( 1989) .
No Brasil , Nass et alii (1993) rc;~i zaram levantamento entre 34 melho-
riSlas de mi lho, dos setores público c privado, para avaliar o nível de
lItiliz~tção dos recursos genéticos disponíveis nos bancos de gcrmoplasma,
conforme indica, a seguir, os dados da Tabela 1. A utilização regular dos
bancos de germoplasma é muito baixa ( 14%), sendo que a quantidade de
informações disponíveis sobre os acessos fo i considerada, por 70% dos
pesqu isadores, como o fator mais limitante para a utilização dos acessos.
TABELA 1

AvaUaçâo dos melhOJistas de milho sobre


(I uti/izaçâo, qualidade e q//antidade de informações
dos acessos disponíveis llOS b({}u:os de germojJlasma 1/0 Brasil

UtiliZação ("lo) Qualidade ("lo) Quantidade (%)

Regularmente 14 Excelente 7 Mais que suficiente 3


Raramente 68 Boa 24 Suficiente 27
Não utiliza 18 Adequada 35 Insuficiente 67
tnadequada 34 Muito insuticiente 3
FOIIIC:i\;I$$claI. ( 199.;)

Deve-se enfatizar, também, que a troca de materiais entre m elh ori sl ~l'i é
prática comum e constitui-se em excelente alternativa para ampliar a va-
riabilidade genética nos programas de melhoramento. Além disso, os pes-
quisadores geralmente encontram suficiente vmi ahilidade genética entre os

46
Perspeclil'tls do jJré-welboramelllo do mil/x)

materiais elites (DlI\;ck, 1984; Paterniani, 1987; Peeters & Galwey, 1988; Nass
el alii, (993). Atualmente, no melhoramento de milho, as linhagens elites são
consider:ldas as meUlOres fontes de germoplasma, simplesmente porque con-
têm as combinações genéticas superiores para produtividade, as quais sa-
tisfazem plenamente as necessidades do mercado (Troyer, (990).

RECURSOS GENÉTICOS E MF.UIORAMENTO

As pesquisas com recursos genéticos envolvcm lima série de atividades


cssencia.is) as quais necessitam de um consideftÍvel suporte financeiro c
principalmente exigem cOlllinuidade. De manei ra geral, a estnltura dos
bancos de germoplasma compreende as seguintes atil;dades: introdução
e intercâmbio de germopl::lsma, coleta, caracterização, ;:IvaJiação, docu-
mentação e conservação. A fim de que os objetivos básicos dos bancos
sejam alcançados - tais como a manutenção da variabilidade genética e a
utilização dos acessos - é de fundamental importftncia que haja uma
sincronia perfeita entre as diferentes atividades. Por outro lado , os melho-
ristas de plantas conduzem seus programas em função da variahilidade
genética disponível para atender ao(s) objetivo (s) do melhoramento. Tanto
no setor público como no privado , os melhoristas estão empenhados no
desenvolvimento dc materiais que preen cham as necessidades atuai s e
futuras do mercado no menor tempo e com o menor custo possível.
A maioria dos trabalhos de melhoramento envolvem cruzamentos en-
tre materiais elites (Goodman , (990), uma vez que essas populações apre-
sentam elevado potencial genético para os caracteres de interesse (Duvick,
1984; Paterniani , 1987; Troyer, 1990; Nass el ({Iii , (993). Conseqiiente-
mente, os genes potencialmcnte úteis mantidos !las coleções somente se-
rão utilizados caso sejam incorporados nos materiais considerados elite.
No melhoramento de milho em nível mundial , os setores público e
priV:ldo têm usado uma estratégia v:ilj,bt, porém de ;~to risco futuro. kl~l-sc ,li
obtenção de n01l1S populações ou linhagens a partir de gerações avançadas
de híbridos comerciais. Nos países onde existe a Lei de Proteção de Cultiva-
res, ;IS sementes dos luoridos (F,l disponíveis no mercado constituem-se em
fonte legítima de gcrmoplasma (parks, 199'1), sendo tal procedimento
perfeitamente viável c legal. Por sua vez, nos paíscs que n~o possuem reh~lla-

47
Lucumo Loure1lço Nas:,' & EmesJo Palendtl1li

mentação jurídica sobre o assunto, essa estratégia também se verifica.


O mercado de produção de híbridos é altamente competitivo e está
concentrado em poucas Unhagens consideradas elites. Tais materiais apre-
sentam um backgroltlld genético de elevado potencial produtivo, que
atende as exigências atu,tis dos produtores de milho. Como os melhoristas
precisam apresentar resultados promissores a cuno prazo, faz sentido a
exploração dos materiais que apresentam as características desejadas pelo
mercado . Entretanto, deve-se atentar para o risco de estreitamento da
base genética dos materiais desenvolvidos a partir dessa estratégia de
melhoramento. Provavelmente, em um curtO período de tempo, todos os
híbridos serão muito semelhantes e estarão compartilhando do mesmo
backgrolllld genético. Como conseqüência, esse procedimento deverá
restringir consideravelmente a base genética dos materiais cultivados.
A vuln erabilidade genética deve ser uma preocupação constante no
melhoramento de qualquer espécie. Todal;a, a tendência observada na
cultura do milho el;dencia falta de atenção em relação ao estreitamento
da base genética. Aexperiência desastrosa verificada nos Estados Unidos,
em 1970, del;do a epidemia de He/milllhosporiulIl II/aydis , é um exem-
plo concreto de como materi:tis muito uniformes podem ser dizimados
em curto espaço de tempo.
A busca por genótipos superiores em produtil;dade, resistência a pra-
gas e doenças, tolerantes aos estresses ambientais ou de meUJOr qualida-
de nutricional, é bastante árdua, competitiva e de custo elevado. Assim,
muitos meUJOristas evi~lm trabalhar com genótipos selvagens, raças locais
e materiais exóticos disponíveis nas coleções, alegando falta de tempo,
recursos e muitas vezes dificuldade para identificar genes potencialmente
úteis para o melhoramento. MarshaU (1989) salientou que a dificuldade
na identificação desses genes é o principal fator responsável pela b,tixa
utilização destes tipos de acessas.
Fica evidente, pelo exposto, a existência de uma lacuna entre as atil;dades
de recursos genéticos e os programas de melhoramento. Enquanto os pes-
quisadores envolvidos com recursos genéticos captunulI e conservam a
variabilidade, no outro extremo, os mclhoristas não têm explorado a di-
versidade disponível, utili7",ndo apenas sua própria coleção de trabalho.

48
Perspeclil'lls do /)ré-melbormm:lllo do milbo

PRÉ-MElHORAMENTO E SUA IMPORTÂNCIA

A alternativa mais promissora para sef\'r de ponte entre os recursos


genéticos e os programas de melhoramento é a intensificação das ativida-
des relacionadas com o pré-melhoramento - jJre-breeding. Pode-se con-
ceituar pré-melhoramento como conj unto de atividades que visam à iden-
tificação de caracteres elou de genes de interesse, presentes em materiais
não adaplados - exóticos ou semi-exóticos - ou que não foram submeti-
dos a qualquer processo de melhoramento, e sua posterior incorporação
nos materiais adaptados de elevado potencial produtivo - elites.
Diferentes interpretações são encontradas na literatura para o termo
exótico. Para fin s de pré- melhoramento, a definição mais adequada é
apresentada por Hallauer & Miranda Filho (1988) , pela qual germoplasma
exótico inclui todos os materiais que não apresentam utilidade imediata
sem uma seleção prévia para adaptação em uma determinada área. Nesse
contexto, os germoplasmas exóticos podem ser constituídos por raças, popu-
lações, linhagens etc. Conseqüentemente, materiais senti-exóticos são pro-
duto do cruzamento de materiais exóticos com adaptados, em que dife-
rentes proporções de introgressão podem ser obtidas c avaliadas. De acor-
do com Hallauer (1978) , o procedimento mais com um em estudos com
germoplasma exótico tem sido a avaliação de populações semi-exóticas.
Para que resuhados promissores sejam alcançados com materiais exó-
ticos, é preciso permitir sullciente recombinação genética acompanhada
por seleção bnUlda. Lonnquist (1974) recomendou, para o milho, seleção
brJ/lda em pelo menos cinco gerdções de intercruzamentos ao acaso antes
que recombinantes úteis sejam selecionados. Dudley (1984, 1988) desen-
volveu metodologia pam identificar a1elos úteis em populações exóticas.
Os programas de pré-melhoramento podem gerar novas populações
base para o melhoramento c também auxiliar na identificação de padrões
heteróticos, os quais têm importância relevante em programas de milho
Iubrido. A carência de programas de pré-melhoramento foi considerada
por Marshall ( 1989) como um dos principais fatores responsáveis pelo
uso lintitado das coleções de germoplasma.
Segundo Taba (1994), no caso do banco de gcnnoplasma do Cimmyt,
o pré-melhoramento permitirá uma pronta utilização da coleção pelos
melhoristas para a obtenção de caracteres específicos de interesse ou

49
Luciano LourellÇfJ Nass & Ernesto Paterwtllli

simplesmente servirá para ampliar a diversidade do germoplasma melho-


rado . Salientou também que as coleções do Caribe serão prioritárias nos
trabalhos de pré-melhoramento e que, no banco de milho do Cimmyt, já
foi iniciada avaliação m:tis detalhada desse material, devido ao interesse
manifestado pelos melhoristas - tanto de clima tropic:~ como temperado
- por esse germoplasma. Na Tabela 2, a seguir, encontram-se relaciona-
das as populações de milho e os pools gênicos disponíveis no Cimmyt
para áreas tropic:tis de baixa :~titude.
Obviamente, os trabalhos de pré-melllOramento deverão consuntir tem-
po e recursos significativos. Para os melhorislas de empresas privadas -
que gen~mente são mais isolados e convivem com a necessidade de resul-
tados a curto prazo - , a utilização de exóticos será maior caso já tenham
sido submetidos aos programas de pré-melhoramento. No entanto, um
fator decisivo para que tais programas sejam bem sucedidos é a necessi-
dade de estreita cooperação entre melhoristas dos setores público e pri-
vado (Smith & OU\óck, 1989).
A efi ciência do pré-melhoramento está baseada em duas ações funda-
mentais: avaliação de germoplasma e incorporação dos materiais promis-
sores nos programas de melhoramento . A seguir, alguns aspectos relati-
vos as duas atividades serão enfocados.

Avaliaçüo do germoplasma

Uma metodologia de avaliação envolvendo uma ação conjunta de pes-


quisadores em vários p,úses é amplamente discutida por Salhuana ( 1987) .
Na avaliação preliminar, os seguintes caracteres devem ser considerados:
estande inicial e final, dias para florescimento masculino e feminino , altura
da planta e da espiga, plantas quebradas e acamadas, número de espigas,
tipo de grão , coloração de grão, qualidade da espiga e produção. Nas
avaliações subseqüentes, além das características já mencionadas outras
de interesse podem ser obtidas. O autor também enfatizou que a escolha
do testador dos acessos é fator determinante no processo, pelas seguintes
razões:
A. a produção dos acessos per se indica o nível de genes favoráveis que
contêm, porém a av,~iação dos leslcrosses e\ódencia a contribuição
de novos genes favoráveis não presentes no material adaptado;

50
Perspcclim.l' do /m:-melborrlll/m/o do milho

TABELA 2
I'opulaçôes de milho e poolsgênicos desenvolvidos
e melhorados pelo Cimll/)" para áreas tropicais de baixa altitude
Nome do Material Sinônimo

Pools gênicos
Tropical Early White F\int Pool 15
Tropical Early White Dent Pool16
T ropical Early Yellow Flint Pool17
Tropical Early Yellow Dent Pool18
Tropicallntermediate White Fl int Pool19
Tropical Intermediate White Dent Pool20
Tropical Intermediate Yellow Flint Pool21
Tropical Intermediate Yellow Dent Pool 22
Tropical Late White Flint Pool23
Tropical Late While Oent Pool24
Tropical Late Yellow Ftirlt Pool25
Tropical Late Yellow Dent Pool26
Tropical White Flint OPM
Tropical White Dent OPM
Tropical Yellow Flint OPM
Tropical Yellow Dent OPM

Populações
Tuxpeno-1 População 21
Mezcla Tropical Blanco População 22
Blanco Cristalino- 1 População 23
Antigua Veracruz-181 População 24
Slanco Cristalino-3 População 25
Mezcla Amarilla Popülação 26
Amarillo Cristalino-1 População 27
Arnarillo Dentado População 28
Tuxpeno Caribe População 29
Slanco Cristalino-2 População 30
Arnarillo Cristalino-2 População 31
ETO Blanco População 32
Antigua Republica Dominicana População 35
Cogollero População 36
Tuxpeno O.. População 37
YellowOP M População 39
WhiteOPM População 40
Composite K O 2 População 41
La Posta População 43
Early Yellow Flint OPM População 61
White Flint OPM População 62
Blanco Dentado-' OPM População 63
Blanco Dentado-2 OPM População 64
Yellow Flint OPM População 65
Yellow Dent QPM População 66

Fonte: Pandey & G:mJner (1992 )

51
LtlcimlU liJ/m.1/ço N{/J.."Ç & Erneslo Palemitl1li

B. a ação gênka não aditiva pode ser importante;


C. proporciona a adaptabilidade necessária aos acessos para compa-
rações mais adequadas; c
D. estabelece uma nova fonte heterótica.
Um exemplo concreto deste tipo de a"tliação é o Projeto Latino-ameri-
cano de Milho - Lamp, com participação de 12 países - Argentina, Bolívia,
Brasil, Colômbia, Chile, Estados Unidos, Guatemala, México, Parag",ti, Peru,
Urug"'ti e Venezuela - , no q",~ , já na primeira etapa, fonun a"tliados 15 mil
acessos, medilUue um esforço conjunto de melhoristas dos setores público e
pri"tdo. Pollak (1993) apresentou os resultados da a,,~iação de 562 acessos
da coleção de militO originálio do Caribe. Essa aI,.wação foi conduzida em
Porto Rico e fez pane das duas etapas iniciais do Lamp. Após a primeif'd
av-.uiação, foram selecionados 20% dos acessos com base na produção
de grãos. A produção de grãos dos acessos selecionados variou entre
3.937 kglha e 7.773 kglha, sendo que 18 acessos foram mais prodUlivos
que a v-driedade local melhorada "Di ente de 0tballo", Ulili7.tda como tes-
temunha em ambas as avaliações. Foram identificados acessos com boa
qualidade de espiga e boa produção de gn,os para utilização no Caribe e
em outros programas de melhoramento em ambientes tropietis.
No Brasil, cerca de 1.111 :tcessos preencheram as condições exigidas
pelo Lamp - mínimo de I kg de sementes e poder germinativo > 75% -,
sendo que todos esses acessos são adaptados para altitudes ilúeriores a
2.00001 . Na Tabela 3, a seguir, são apresentados os acessos selecionados
após dois anos de av-.uiações em diferentes ambientes no Brasil (Santos,
M. X., Comunicação pessoal).
OUlro exemplo importante de pre-breeding está sendo desenvolvido
no país. At",~mente , a ocorrência de doenças causadas por fungos, bac-
térias, vírus e por um complexo micoplasma/espiroplasma tem sido fmor
limitante da prodUlividade na cultura. Pereira (1995) salientou que o
conhecimento do comportamento dos materiais associado a região e época
de plantio favoráveis aos patógenos é de fundamental importância no
controle d:L' princip'ús doenç:L' do milho.
O Núcleo de Apoio a Pesquisa em Milho - NAP-Milho da ESALQ, inte-
grado por instituições públicas e privadas, realizou ampla av-J.ljação do
germoplasma de milllO disponível no Brasil para as principais doenças
foliares da cultura. Nesse estudo, foram a,,~iados aproximadamente 1.300

52
PenpeclÜ'fls do prli-me/bommelllv do IJIdbo

TABEL\ 3
Cartlcterf.~t icas dos aCeSSOl"
de milho seleciollados IllIS etapas I e 1/ do UlJlljJ 110 Brasil

Código ldenllicaç.a.o D,as Altura da Allurn da P'OOuçAo Tipo de CoIoraçllo


"'~~ FloJescimento
M.~ F~ "'-
(cm)
Espiga
(cm)
(Kg'ha)
15% um,d
Endospe.ma doGo-30

"lO
BRA024767
BRA054241
B.asiI2296
A"~
67

""
73
65 '"
190
1<0 "'
60
3 5 47

""
31 83
Flint
Dente
Amarelo
Amarelo
BRA044369
e RA 044318
31136 Comp
31116 Comp
"" "73 150 75 3150
Dente
Dente
Amarelo
Amarelo
2938
eRA 053627
eRA 028029
Caiam
CMSIJ6 70 "
71
"5
227
199
115
97
7B
6908
Dente
Dente
Amarelo
Am arelo
eR A 031381
BRA 051501
TUlipel'io I
PEOI I '
70
"
71 225 125
5958
3214
Den te
De nte
Branco
Amarelo
210 3106
eRA 050598
BRA 051675
AL 015
PE crn "67 215
115
105 3015
Semi-dente
Dente
AmarelO
Amarelo
BRA050024 C. Manaus" 70 210 125 2990 SemHlint Amarelo
BRA052060
BRA 051 721
SE 033
RN 00< "67 210
220
12'
120
2965
3068
Dente
Dente
Amarelo
Amarelo
1<0 3000 Semi-dente Amarelo
BRA 051 764 SE 003
" 2"
130 2892
BRA052019
BRA052051
SE 028
SE 032 " 210
240 150 2326
Semi-dente
Dente
Amarelo
Lara~a
eR A 051501
BRA 030929
PE 011 "
BA 157
60
62
61
65 '"2" '"
151
6 873
5.508
Dente
Dente
Amarelo
Ama relO
eRA 051039
eRA 052957
eA038
FlintComp
62
61
62
62
256
263
12'
135
5857
5362
Dente
Flint
Amarelo
AmarelO
109 Semi -flint
eRA 050024 C. Manaus'
"" 61 239
131
6101 Amarelo
Lara~a
eRA 051403
BRA 044083
BRA043915
PE 001
C_ Jaiba 111
CMS 0508 111
61
65
63
62
67
'"
228
208 "'
88
4 924
5473
3950
Flint
Sem;-Ilinl
Sem i-fIinl
Amarelo
Amarelo

• Acessos selecionado~ em dois locais.

acessos e 140 populações com algum grau de mclhoramento genético,


em 12 locais representativos da cultura. As doenças consideradas: man -
cha foliar - Exserohi/llnJ. /urcicllnJ. - , ferrugem - I'lIccinia jJolysom -
, ferrugcm tropical- Ph)'sojJhe/a zeae -, mancha foliar por phaeosphacria
- Pbfleospbael'ia maydis - e enfezamento do milho - Com S/III1/. A
partir dos materiais promissores identificados serão sintetizadas novas
populações com resistência às respectivas docnças.

InC011Joração de ma/eriais jJromissores no melhoramento

Várias são as alternativas para incorponlf novas características nos


materiais adaptados, sendo que a escolha da mctodologia a ser emprega-
da depende da nanlreza genética do caráter, nLl11lCrO de genes envolvidos,
herdabitid:lde e das interações com o ambi entc.
O método do retrocnmUllcnto é uma alternativa cficiente para a tr:ms-

53
LUcUl1IO w urenço Na'!:; & Eme,'/o Ptlfemitmi

ferência de caracteres de herança simples e na adaptação de germoplasmas


exóticos. Eberhart (I971) considerou que o primeiro retrocruzamento
para O germoplasma adaptado é a melhor população base para a prática
de seleção. Estudos mediante simulação em computadores demonstra-
ram que - com o aumento do nível de dontinância e com a utilização de
parentais mais contrastantes - é recomendável lançar mão de gerações
adicion,tis de retrocruzamentos antes de iniciar a seleção (Dudley, 1982).
Quando o germoplasma exótico não é adaptado para um determinado
local, um Ou dois relrocruzamentos para o material adaptado são neces-
sários. Entretanto, quando a população exótica tem sido previamente se-
lecionada para adaptabilidade, podem ser obtidos efeitos positivos ime-
diatos (Crossa el (tlii, 1987; Mungoma & Pollak, 1988) .
Considerando a probabilidade de fixação de alelos, Crossa (1989)
verificou que se a população exótica tiver sido selecionada para adaptabi-
lidade e possuir a1elos favoráveis em alta freqüência , a população de cru-
zamento pode ser utilizada diretamente como população base no proces-
so de seleção. Caso o retrocruzamento para o parental adaptado seja
utilizado, então um aumento no tamanho da população é necessário para
consenrar os alelos favo níveis previamente incorporados.
Outra ,dternativa para utilização do germoplasma é a síntese de novas
populações e sua posterior introdução em programas de melhoramento.
Essa é uma das principais contribuições do Cimmyt para os programas de
melhor:unento de milho tropicais e temperados. O Cimmyt tem desenvoh;do
compostos - poo/s - com base no ciclo vegetativo dos materiais, zonea-
mento climático, coloração e endosperma dos grãos (Salhuana, 1987) .
Crossa el alii ( 1990a) sugeriram o uso de coleções de germoplasma
para desenvolver novas populações heteróticas para melhoramento por
meio de seleção recorrente recíproca, para desenvolver linhagens e híbri-
dos com base na capacidade de combinação ou para introgressão em
populações heteróticas. As coleções ou populações derivadas de cruza-
mentos entre elas também podem ser melhoradas por melhoramento
intrapopulacional para o desenvol\;m ento de variedades de polinização
livre superiores.
H,,,

54
Perspeclitl(1$ do pré-melhoramento do mdho

PADRÕES IIETEOÓ1"COS

Além do conhecimento m;tis apurado dos acessos disponíveis nos ban-


cos de germoplasma, os programas de pré-melhoramento podem definir
grupos heteróticos de interesse para programas de melhoramento cujo
objetivo final é o desenvolvimento de híbridos.
Nos Estados U.udos, embora o padrão heterótico emre Lancaster Sure
Crop e Reid Yellow Delll tenha recebido m;tior atenção dos melhoristas,
outros padrões heteróticos estão sendo considerados, como é o caso de
Leaming e Midland (Hallauer el alU, 1988). A idemificação de novos
padrões heteróticos deve comribuir para ampliar a base do germoplasma
dos Iubridos comerciais (Mungoma & Pollak, 1988).
Para os ambientes tropicais, dez padrões heteróticos - elllre as raças
tropicais de milho - foram relacionados por Goodman ( 1985): Cuban
Flint e 1\.xpeõo, Cuban Fünt e 1\l5on, Cuban Flint e Coastal Tropical Füm,
Cuban Flim e perla, Tuxpeõo e Coastal Tropical Flint, 1\lXpeiio e ETO ,
1\lXpeiio e Tuson, Coastal Tropical FÜIll c Chandelle, 1\l5on e Chandelle c,
Chandelle e Haitian Yellow. 1\lXpeiio apresenta excelentes resuhados em
combinação com CO'l5tal Tropical FlinlS, Cuban Flims e com a raça 1\lson.
A raça mexicana Tuxpeõo é considerada a melhor fonte de material den-
tado apresenlando excelellle capacidade de combinação, boa qualidade
de colmo e IOler"ncia a HelminfbosporiulI1 sp. En.re.anto, apresenta
ciclo tardio, elevada posição relativa da espiga, exces..;;iva altura da planl~l ,
sistema radicular pouco desenvolvido e suscetibilidade ao vírus do mosai -
co da cana-de-açúcar. Coastal Tropical FlinlS apresentam excelente quali-
dade de semenle, empalhamento, qualidade de colmo e sistema radicular,
além de resistência a HelminfbosporiulIl spp.; variedades de ampla utiü-
zação ao nível mundial , como Suwan- I e ETO , são, em parte, derivadas
°
desses materiais. complexo racial denominado Cuban FülllS nas ilhas do
Caribe, Cateto no Brasil e Fünt Argenlino na Argenlina, combina-se bem
com Tuxpeõo, 1\lson e Coas,,~ Tropical FI iIlIS, emretanto é suscetível a
doenças viróticas (Goodman & Brown , 1988; Paterniani , 1990).
De acordo com Hallauer el alii (1988) o melhoramento para as áre'L'
tropiGus deve priorizar ;15 raças ou complexos raci;tis 1\lXpeõo, Cuban
Flints, Coastal Tropical Flims e Chandelle. Goodman & Brown (1988)
indicaram Chandelle como exceleme fOllle de proüficidade e baixa posi-

55
Lllcial/u 1.lJllrt:nço '\ fl....... {, Emesto PtI(L'nJim li

ção relativa da espiga , apresentando bons resultados em cruzamentos


com Coast,~ Tropical Flints e Haitian YellolV. Araça Haitian YellolV é seme-
lhante a Coastal Tropical FUnts, porém de ciclo mais tardio. Na Tabela 4, a
seguir, são relacionados ,~gun s padrões heteróticos envolvendo as popu-
lações do Cimmyt.

TABELA 4
PossílJeisplldrõcs belerólicos das populações do Cimmyt

Populações Padrões heteróticos


21 Populações 25 e 32; Pool 23
22 Populações 25 e 32
23 População 49; Pool 20
24 Populações 27, 28 e 36; Suwan· '
25 Populações 2 1, 22 , 27, 29 , 43 e 44 ; Pool 24
26 População 31 ; Pool21
27 Populações 24 , 25 , 28 e 36 ; Suwan-1
28 Populações 24 e 27; Suwan- '
29 Populações 25 e 32
31 População 26; Pool22
32 Populações 2 1, 22, 29 e 44
33 População 45
34 Populações 42 e 47; Pool 32
36 Populações 24 e 27
42 Populações 34 , 43 , 44 e 47
43 Populações 25, 42 e 44
44 Populações 25. 32 . 42 , 43 e 47; Pool 32
45 População 33; Pool 33
46 População 48; Pool30
47 Populações 34 , 42 e 44
48 População 46
49 População 23; Pool 19

Fonte: JI.JJldey & (;;trdncr (992)

56
Pur sp(xti/I(lS do pré-melhorame//to do milho

De maneira geral , o desenvolvimento de híbridos tem apresentado ex-


celentes resuhados na maioria dos países tropicais, sendo de funda-
mentai importância a existência de companhias privadas competitivas c
hem estruturadas (Paterniani, 1990). No Brasil, os cruzamentos entre
materiais duros (Gint) e dentados têm sido amplamente utilizados c, geral-
mente, são derivados de Cateto e lilxpciío ou Suwan-I e Tuxpciío. Pater-
niani (1990) destacou a ·notável contribuição da raça Tuxpeiío no sentido
de aumentar o potencial de produção de milho no Brasil , tanto de híbri-
dos quanto de variedades de polinização livre.
O programa de milho híbrido brasileiro destaca-se como o primeiro
exemplo de utilização comercial de tipos semi-dentados. Níveis elevados
de hetcrose não são restritos às combinações entre materiais duros e
dentados. Paterniani & Lonnquist (I963) observaram que os hn"idos
entre materiais de mesmo tipo de endosperma foram , em média, tão pro-
dutivos quanto os híbridos de endospenna contrastantes. Esses resuh'l-
dos evidenciaram a existência de variabilidade genética entre germoplas-
mas de mesmo endosperma. Atualmente, no Brasil e em outras áreas
tropicajs, existe lima tendência para desen\'olver materiais com endosperma
dentado (Paterniani , 1990) .
Os cruzamentos dialéticos referem-se a todos os cruzamentos possíveis
entre um grupo de linhagens ou variedades. Tal metodologia lem sido
amplamente utilizada pelos melhoristas de milho, pois fornece dados que
permitem a predição de médias e um conhecimento adequado das pro-
priedades intrínsecas do material avaliado. Ademais, possibilita a identifi-
cação de padrões heteróticos de interesse para programas de milho hí-
brido. Crossa el alii (l990b) aV:lliaram os cruzamentos dialélicos entre
sete populações tropicais de ciclo tardio em sete locais. Os resuhados obti-
dos mostraram que linhagens deriv,ubs da População 24 cn,,"ldas com li-
nhagens deriV:ldas de SUlVan-1 e População 36 devem produúr combina-
ções específicas promissoras. População 24 e 36 foram indicadas para
programas de melhoramento interpopulacional. Com b'Lse nas m,tIiações
em nove locais dos cnmllllentos dialélicos entre dez populações elOll pools
tropicais de ciclo precoce e intermediário, Beck el ({lii (1990) sugeriram
a utilização da População 23 c Pool 20 - materiais de grãos brancos - e
População 26 e Pool 21 ou 22 - materiais de grãos amarelos -, como as
opções de maior potencial para o desenvoh1mentn de híhridos.

57
Luciano !.ourmço Nflss & t::ml!Slo /WmlitlJ/i

o potencial de germoplasmas exóticos também pode ser al"lliado atra-


vés de cruzamentos (UaléUcos. Crossa et "lii (1 987) consideraram essen-
cial o conhecimento do parentesco e dos padrões heteróticos entre as
populações para identificação e separação dos grupos heteróticos. Afor-
mação dos grupos heteróticos é fator determinante do sucesso de ações
futuras, tais como: seleção recorrente recíproca clou extração de linha-
gens a partir dos grupos heteróticos identificados.
A porcentagem ideal de germoplasma exótico a ser incorporada fo i
estudada por vários pesquisadores. Não há todavia informações conclusi-
V.l~ sobre a questão, ullla vez que inúmeros fatores interferem nessa deci·
são. Wellhausen ( 1965) recomendou incorporar dosagens menores ou
igmlis a 25% de germoplasma exótico dentro de materi,lis adaptados do
Corn Beh. Crossa & Gardner (1987) não observaram diferenças significa-
tivas para produção de grãos entre as populações com 75% e 100% de
germoplasma adaptado, sendo que ambas foram superiores as popula-
ções com 50% de germoplasma adaptado. Na avaliação de materi,lis com
diferentes níveis de introgressão (0, 25, 50, 75 e 100%), Michelini &
H,dlauer ( 1993) constataram que os cruzamentos mais produtivos fo ram
obtidos com 50% de germoplasma exótico. Os autores destacaram ,linda
o elevado potencial a ser explorado pelos programas de milho híbrido
dos Estados Unidos do grupo heteróti co exótico formado por Suwan-I e
Thxpeiio. A proporção adequada de germoplasma exótico a ser incorpo-
rada é dependente dos objetivos do melhoramento - curto ou longo
prazo -, como também do desempenho dos germoplasmas exóticos e
adaptados (Bridges & Gardner, 1987).

U
COLEÇÕES NUCLEARES

Outro aspecto a ser considerado é que a existência de programas bem


sucedidos de pré-melhoramento deved contribuir efetivamente com uma
grande quantidade de informações para o estabelecimento de coleções
nucleares ou core collec/io"s - Core.
A idéia de organizar coleções nucle:tres surgiu no início da década de
1980, quando FnUlkel enfatizou a necessidade de reduzir o tamanho das
col eções de germoplasma existentes (Brown, 1989a). A Core tem por

58
l)er.'Yx:cIiI'lL~ do ImJ-melboramf.!lIlo do millXJ

objelivo principal representar a diversidade genética da espécie e seus


parentes silvestres com o mínimo de repetiti\idade. Com base na teoria
estatística dos alelos neutros, BrolVn (l 989a) sugeriu que 10% do total
dos acessos disponíveis representa aproximadameme 70% da variabilida-
de genética da coleção c, no caso de coleções muito grandes, a Core não
deve exceder 3 mil entradas. Deve-se ressallar que o estabeleci mento des-
sas coleções não imerfere no papel estratégico das coleções de base como
repositório maior da variabilidade genética existente (BrolVn, 1989a,b;
Vilela Morales el alii, 1997) .
Vilela Morales ( 1995) enfati zou dois aspectos estratégicos na organi -
zação da Core:
I. as ali,idades de recursos genéticos e principalmente o estabeleci-
mento de coleções nucleares são ações lipicameme interinstilllcio-
nais; e
2. seu enfoque sistêmico, o qu,~ permite considerar os diferemes as-
peelos do conhecimemo relacionado com a diversidade genélica.
Na formação da Core, ,~gumas informações são de fundam emal im -
port fmcia, entre elas, dados de origem dos acessos, dados de caracteri za-
ção incluindo informações t,lxonômic<lS e de marcadores moleculares, e
dados de avaliação de caracteres agronômicos. AspeclOs teóricos e práli-
cos sobre Core são amplamente discutidos por Frankel I'< Brown (1984)
e BrolVn (l989a,b), os quais sugerem ,~lCrnalivas para ,I adequada eSlra-
tificação dos acessos com base em características morfológicas e agronô-
micas. Crossa el a/ii (1994) consideraram como essen c i ,~ na estratifica-
ção o conhecimento do nú mero ótimo de acessos para conservar a maio-
ria dos ,~ elos presentes na coleção e a lIlili72ção de critérios adequados
para a distribuição dos acessos nos respectivos estnltos. Análises lllultiva-
riadas constituem-se em excelentes ferramentas para auxiliar na estratifi -
cação dessas coleções (Brown, 1989a; Crossa, 1994; Taba el a/ii, 1994).
T,~vez a característica mais importante da Core seja seu aspecto dinâ-
mico, permitindo que após seu estlbelecimemo e validação, novos acessos
sejillll incorporados ou excluídos. Assim, caso sejam identificados acessos
COI11 características de interesse não presentes na composição inicial da
Core , basta introdu7j-los no conj unto. Destaca-se também a reduzida pro-
babilidade da Core mamer acessos muilO semelhantes, porém esse fato
estil diretameme relaCionado aos critérios utilizados em sua estratificação.

59
l.UClÍlIIU !JJllrençON(ISS & Hmeslo Prllemímd

Vilela Morales el (llii ( 1997) destacar.tm três vantagens da Core em


relação a coleção ativa:
I. níveis menores de duplicação e redundância genética;
2. níveis mais expressivos de acessos com informações sobre identifica-
ção ou passaporte, e de caracterização e avaliação; e
3. menor número de acessas e menor custo operacion;~ , apresentando,
conseqiicntemente, maiores chances do gerrnoplasma ser utiU" tdo.
O Cimm~1 tem re;~izado grande esforço no sentido de desenvolver me-
todologia para o estabelecimento de Cores em milho. Na literatura, estão
disponíveis os resuhados obtidos com a raça TlIxpeno (Crassa et (tlii ,
1994 ; Taha el (/Iii, 1994) , sendo que as estratégias de amostragem e as
técnicas muhivariadas constituem rerr::lJncnt~L<; indispensávcis no proces-
so de formação das coleções. Crassa el (/Iii ( 1994) enfatizaram que a
caracterização do germoplasma da Core por marcadores moleculares
(RFLPs, RAPOs) e enzimáticos deve contrihuir com informações adicio-
nais que, juntamente com dados morfológicos, geográficos e agronôm i-
cos, poderão auxiliar na avaliação da divcrsidadc genética c modjficar a
composição ini cial da Core.
No Brasil , entre os anos de 1997 e 1999, uma equipe multidisciplinar
coordenada por Taharé Abadie estaheleceu a Core Collection de Milho. O
Capítulo a segui r aponta os resultados.
\, 1I

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63
3

ACOLEÇÃO NUCLEAR DE
GERMOPLASMA DE MiLHO NO BRASiL

Tabtlré Abotlie
CéU" M. T. Cordeiro
Rallliro V. de Atldrtule
José R. Magalbiies
Sit/lIey N. Parentolli ·

Uma Coleção Nuclear é uma amostra representativa de uma coleção de


germoplasma, na qual se mantém a variabilidade genética com um míni-
mo de repetitividade. Essa estratégia permite maior rapidez na avaliação
do germoplasma, diminui ndo custos e permitindo melhor acesso à cole-
ção de base. Permite ainda concentrar esforços do programa de recursos
genéticos para 'L,"egurar maior disponibilidade de germoplasma para os
programas de melhoramento, resultando em eOciente utilização destes.
Assim , po( encü~i zam-sc os esforços realizados, increment~mdo significati-
vamente o valor agregado das coleções de germoplasma.
A coleção de milho do Brasil é uma das maiores em nível mundi:d.
Conta com aproximadamente 3.800 :Icessos conservados nos Bancos de
Germoplasma da Embrapa e Cimm\1. Desses, 2.280 encontram-se atual-
mente no Brasil , no Banco Ativo de Gennoplasma do CNPMS, Sete Lagoas.
Do total de acessos conservados no BAG , 1.753 são provenientes de cole-
tas em distintas regiões do país, 222 são populações com algum tipo de
melhoramento genético e 288 são introduzidos de outros países. Aclassi-

Tabaré Abadic é da Facullad de i\~ronomía, MOlltcvidco; Célia M. 1'. Cordeiro e José


R.Magalhacs são do Centro Nacional de RecursosGenéticos c Biotecnologia - Embrapa,
Brasília; Ramiro V. de Andrade e Sidney N. Parentoni são do Centro Nacional de
Pesquisa de Milho e Sorgo - Emor.lpa, Sele I.ago<ls.

65
7ill)({f{i A/)adll'. 0"://(/ Corddro, RaIJ/iro de AlIdmd('. Jose ,I/agall)({('s D SiduL.1' Pan!Ulmfi

Ocação da Coleção de Gcrmoplasma de Milho do B"tsil foi atualizada, e


desenvolveu-se uma Coleção Nuclear de 300 acessos. Esta pesq uisa foi
rea li zada por equipe multidi sci plinar de curadores , melhoristas e
biolllctri stas.
Um dos elemel1los básicos na estratégia de melhoramento genético de
plantas é a obtenção de fOl1les de variação genética de característi cas
consideradas imponantes para a melhoria da adaptação, do rendimel1lo
e da qualidade das espécies cuhiv:lllas. Agrande diversidade genéti ca que
existe na natureza e scu liSO potencial cm plantas cllltivadíl'i resuharítm no
cstahelecimcnto , no Illundo inteiro, dos ccntros de conscrvação de gcr-
moplasmíl que prescr.vam variedades autóc tones, variedades modernas -
atuais c obsoletas - c parentes silvestres de espécies de illlcrcssc ítlll;d ou
potcndal. Progresso significativo tem sido alcançado na ~oleta e conser-
vação de gennoplasma das principais espécies cnhivadas e, conselliiel1le-
mente, grandes coleções de germoplasma fo"un estabelecidas. El1Iretan-
10, existem lacunas el1lre a disponibilidade do germoplasma c o uso real
desses materiais (Peeters c GallVey, 1988). O tamanho das coleções c
recursos f'inan cciros lim itados reduziram a efidcia da aval iação do gcr-
moplasma, o '1uc, por sua vez, restringiu a utilização do mcsmo. Dcsse
modo, observa-se quc, em ger:d, os programas de conservação de germo-
plasma têm apresentado sucesso ao assegurar a conservação a longo
prazo mas tem oferecido restritos benefícios em sua utilização a curto
prazo. O binômio segurança verS/ls utilização deve ser mais cquilibrado.
Para minimi zar essas limitações, tem sido proposto a construção de
coleções nucleares a partir dos co nceitos form ulados inicialmente por
Frankcl e Broll'n ( 1984). Uma coleção nuclear consiste em um grupo de
acessos selecionados para represen tar a diversidade genética de uma
espécie e de seus parentes com um nível mílumo de redundância. Aqueles
acessos não incluídos na coleção nuclear, são retidos na coleção de rescr-
va e podcm ser usados em buscas mais intensiv,L'i de alelos raros, como
ind icado ou não, pelas avaliações da coleção Iluclear, Essa cstratégia foi
introduzida com a intenção de minimizar os custos de manutenção das
coleções de gennophtsma, procurando, ao mesmo tempo, garantir a re-
prcsemação da variação genética existeme na coleção de base. Ela permi-
te também a al"<t1iação rápida do germopl:L<ma e o acesso melhor il cole-
ção de b'L,e.

66
A cofl1çtio /luch'tlr de gl-rmopfasl1Ia de: milbo 110 Brasil

o desenvo";mento de uma coleção nuclear é basicamente um exercí-


cio de amostragem que adota como critério a ser maximizado, a represen-
tação dos ,dclos existentes na coleção de base. De acordo com Brown
(I 988a) , os a1e1os de uma coleção são distribuídos em quatro classes, de
acordo com seu padrão de ,lispersão e freqüência por acesso:
1. amplamente disperso e comum ;
2. amplamente disperso c raro;
3. localizado e comum; e
4. localizado e raro.
Ao considerar que a classe 1 estará incluída quase certamente em
todas amostras, e que não é simples obter uma estratégia para conselYJr
a classe 4, o delineamento amostrai que conduzid à coleção nuclear
deverá procurar assegurar a representação das classes 2 e 3. Portanto, ao
tentar conservar essas duas classes de alelos, os dois problemas princi-
pais a resolver são o tanumho da amostra e se a amostragem será aleatória
simples ou estratificada. Ao definir estratégias para amostragem das clas-
ses de ,delo 2 e 3, Brown ( 1988a) estabeleceu as bases gentis para defini-
ção do tamanho da amostra e sua estratificação.
Aabordagem sugerida por Brown (l988a) para delinear a amostragem
dos a1elos da classe 2 utili za os resultados da teoria de alelos neutros. Esse
autor considera que para esses alei os, cada acesso pode ser \;sto como
subamostra aleatória de uma grande população que é a coleção de base.
Dentro desse contexto , conclui que uma amostra de aproximadamente
10%- em número de indivíduos - , deve conter mais de 70% dos ,delos da
coleção de base. Essa conclusão é geral c se fundam enta em modelos
teóricos 'Iue adotam suposições sobre alguns parâmetros de genética de
população que se pretende, que aproximem a complexa estrutura de uma
coleção de germoplasma. Oferece uma referência para um tamanho míni-
mo b{lSico de uma coleção nuclear.
Pant fazer a amostragem dos alelos da classe 3, o procedimento reco-
mendado pela maioria dos autores é a estratificação da coleção (Brown,
1988a; Rrown, 1995; Crossa el aW, 1994; Crossa el alU , 1995; Harsch el
alii, 1995; Spagnoletti Zeuli e Qualset, 1995) Tal recomendação se fun-
damenta nas evidêncülS de que a variabilidade genética de uma espécie
não é aleatoriamente distribuída entre e dentre populações. Apresenta
comumente lima estrutura que se organjza em variados níveis, associados

67
7i1baré A!J(/die, Cdi(/ Cordeiro, R{/JJljro de Alfdmde. José :l!ag(/Ibtie.s (, SidJ/(~)' PaT(m/olli

as grandes descontinui dades geográficas, ecológicas e morfológicas da


espécie . A representação dos aldos da classe 3 na coleção nuclear é
crucial , lima vez que são os responsáveis pelos caractcres que têm sido
submetidos à seleção para adaptação às condi ções am bientais específi-
cas. Eles são particularmcnte import'Ultcs para O usuário de uma coleção
de germoplasma porque respondem por caracteres como resistência a
pragas e a doenças e tolerância a fatores de estresse ambiental. Aqui , a
questão pertinente é m'Lximizar a representação dessa classe na coleção
nuclear e, ao mesmo tempo, manter o nÍimero de acessos dcntro dc um
limite razoável, estabelecido a partir da representação dos ,tlelos da chLsse
2. No âmbito de uma coleção de gennoplasma, a identificação de uma
estrutura para ti variabilidade genética que ela representa é a chave mestra
para se ampliar as chances de, com pequenas amostras de acessos retira·
(hL'i dos estratos associados a essa estrutura, rcpresentar·se lima grande
fração da variabilidade genética caracterizada pelos alelos da classe 3.
Uma etapa adicional no estabelecimento de lima coleção nuclear é
determinar a proporção com que cada estrato será representado. Nessa
etapa, qualquer informação sobre algum parâmetro que quantifique a
variabilidade genética dentro dos estratos deve ser considerada. Entretan-
to , essa informação não está geralmente disponível e, por isso, três alter·
nativas tem sido sugeridas.
A. A primeira ,tlternativa propõe que um número igual de acessos seja
tomado em cada estrato. Essa aproximação ignora o tamanho dos
estratos.
B. A segunda ,tlternativa propõe que seja tomado em cada estrato um
número de acessos proporcional ao tamanho do mesmo, de modo
que cada estrato seja representado na coleção nuclear em propor-
ção ao seu tam'Ulho na coleção de base.
C. Ao procurar com binar ambas estratégias, Brown (l988 b) pro-
pôs uma terceira alternativa: qu e em cada estrato seja tomado
um número de acessos proporci onal ao logarit mo do núm ero
de acessos do estrato. O autor co ncluiu essa alternativa é a me-
lhor quando não se tem informação sobre algum parâmetro '1ue
quantifiqu e a variabilidade genética em cada estrato. Diwan ef
alii ( 1995) observaram quc a alocação logarítmica e o Método
de Relativa Diversidadc co nsideram a diversidade morfol ógica

68
A coleçâo nucleflr de /f.erlllU/J/tlSlllfI de milbo no RrtL~i/

dos diferentes estratos e mostraram-se melhores que a alocação


proporcional.
A seleção dos membros para a coleção nuclear em cada estrato pode
ser feita sistemati camente, seguindo um critério quantitativo de represen-
tatividade do estrato (Hamon et alii, 1995; Malosetti , 1996), ou a expe-
riência dos curadores c melhoristas. Há referências de que este último
critério tem funcionado adequadamente (idem) . Apenas quando não se
dispõem de informações que perm itam a escolha dos acessos para repre-
sentar um dado estrato é que o critério aleatório poderia ser usado.
Acoleção Brasileira de Genn oplasma de milho consiste em 2.263 aces-
sos, e está conservada atualmente no Cen tro Nacional de Pesqui sa de
Recursos Genéticos e Biotecnologia (Cenargem-Embrapa) , e no Centro
Nacional de Pesquisa de Milho e Sorgo (CNPMS-Embrapa). A maioria
desses acessos tem dados adequados de passaporte e de caracterização,
mas limitados quanto à avaliação. Nosso objetivo foi desenvolver uma
Coleção Nuclear de Germoplasma de Milho para o Brasil, para facilitar o
uso de seus recursos genéticos. No presente caso, propõe-se a represen-
tação na coleção nuclear apenas da diversidade genética da coleção de
milho brasileira - de base. Pretende-se que essa coleção nuclear seja a
escolha primeira para os trabalhos que demandem a utilização de gcrmo-
plasma, programas de melhoramento ou estudos de natureza búsica, pos-
sibilitando a formação de lima base sól ida de conheci mento e informa-
ções sobre esses acessos.

D ESE~"OLVENDO A COLEÇÃO NUCLE.lR

o primeiro problema a resolver no estabelecimento da coleção nu-


clear é o tamanho da amostra. Nesse Gl'iO ) 300 acessos foram considera-
dos - amostra de tamanho adequado que pode ser manejada facilmente
pelos curadores, a um baixo custo relativo. Além disso, representa 13%
dos acessos da coleção de base.
O procedimento de amostragem é a segunda etapa a resolver. Uma
estratégia de amostnlgcm estratificada em dois níveis foi adotada nesse
trabalho. No primeiro nível, os acessos foram claSsificados em quatro
estratos de acordo com a origem do germoplasma:

69
7hbaré Abadie. r.i?ia Corddro. Ramiro de Andrade. José Magalbâes & Sühu:y lIarl7llolli

1. variedades autóctoncs - 1.554 acessos - ,


2. compostos derivados de variedades autoctones - 199 acessos -,
3. materiais melhorados - 222 acessos -, e
4. introduções (288 acessos).
O estrato 2 - compostos derivados de "Iandrace" - não foi representa-
do na coleção nuclear, porque tratam-se de compostos deriV<ldos da mis-
tura de variedades aulOclOnes dos estralO 1 e assim sua inclusão resultari-
am em uma redundância indesejada. Cada um dos outros três estratos foi
representado na coleção nuclear com peso aproximadamenle propor-
cionai ao seu tam'Ulho 1 = 78%, 2 = 12%, 3 = 10%. O estrato de V<lrieda-
des autóctones representa o germoplasma re,dmente origin,d do Brasil.
Um sl'gundo nível da classificação foi usado dentro de cada um dos três
estrato principais. As variedades autoclOnes foram classificadas seguindo
os critérios propostos por Abadie ef ali i ( 1997), que observou que o tipo
geogrMico da origem e do grão era eficaz para discriminar acessos brasi-
leiros do milho, conforme mostra, a seguir, a Figura 1. Esse estudo usou
dados de Paterniani c Goodman ( 1977), considerando-os como repre-
sentativos do estralO das variedades autóctones. Esse estrato foi classifica-
do em 27 grupos baseados na origem ecogeogrJfica c tipo de grão, se-
gundo indicação da Tabela I, a seguir. As regiões ecogeográficas foram as
mesmas usadas por Cordeiro ef alii ( 1995) para a classificação de aces-
sos brasileiro de mandioca e os quatro tipos de grão - pipoca, duro,
farináceo e dentado - são aqueles mencionados por Brieger el alii (1958)
como de origem evolucionária diferente. Alguns acessos não puderam ser
classificados pela origem ecogeográfica devido à falta da informação dos
dados de passaporte. Não obstante, uma obsemlção dos grãos conserva-
dos no b,Ulco, permitiu sua classificação pelo tipo de grão. Dos 27 grupos
origin,tis do estralO das variedades autoctones, 24 foram representados
na coleção nuclear. Os acessos não classificados pela origem ecogeogrMica
não foram incluídos na coleção nuclear, porque considerados já repre-
sentados por OIlIros acessos de mesmo tipo de grão de cada uma das
origens ecogeográficas. A ,docação logarítmica foi usada para atribuir a
representação de cada um desses grupos na coleção nuclear. Acstratégia
de alocação logarítmica para esses grupos e\otou uma representação de-
sequilibrada do tipo de grão dentado , que é aquele com maior número de
acessos na coleção de base, mas que mostra menor variabilidade em

70
A coleçâo Ilfldear de germoplaslJUI de milho 110 Brmil

FIGUR~ 1

Distribuição espacial das variedades autóctones


para os três primeiros Componentes Principais

o
- l

- 2

- 3

- 3
o~:;:~d~~ros ·~-:--l
• Far. & Duros Centr o
- 2 Fa r. & Duros Norte
- l
O
l 3
2 O 1
3 -2 - l
CP3 17% CP2 22 %

TABEL~ 1

Distn"buiçiio das variedades autóctones brasileiras na coleçâo nuclear (C!\~


ti partir do tipo de griio e regido ecogeográficn de origem

dos acessos da coleçâo de base (CB)


TIPO DE G RÃO
REGI ÃO ECOGEOGRÁ I'ICA dnro rarinácco & dCnl:ld os
' ''P
outros
BC CC BC CC BC CC BC CC
S" 29
26
10 23
77
• 5
50
5
12
279
] 21
17
Cerr.ldos 10 13
11 0 "
Cerrados Norte 12 9 7 6
,
5
121
14
Amazoni a
Caa tin~ a
35
17
12
8
94
38
15
11
" 169
14
I6
A ~reSle Lilor..1 14 8 O O 62 12
non-c!ass if. 4 O 5 O O 10 O

TO(al v"rl. aU lóclonas na coleção nuclear :235

71
7i1baré Abadü:, Célia Cordeiro, Ramiro de Andrade, José JIIagalbiies & Sidlley PareulO1li

relação aos outros tipos de grãos (Abadie el alU, 1997). Quando possível,
dentro de cada grupo, os acessos foram selecionados pelos curadores,
considerando sua experiência e conhecimento da cultura, ou fez-se uma
seleção aleatória, quando não se tinha nenhuma referência.
Os materiais melhorados foram classificados em 3 grupos:
1. pipoca,
2. não-pipoca do CNPMS-Embrapa, e
3. não-pipoca de outros programas de melhoramento.
Essa classificação foi sugerida por uma análise de componentes princi-
pais, feita nos dados de Feldman e Silva (1984), seguindo a metodologia
usada por Abadie el alii ( 1997), conforme indica a Figura 2, a seguir.
Diferentemente da estratégia usada no estrato das variedades autóctones,
a representação de cada grupo desse estrato na coleção nuclear foi pro-
porcionai ao seu tamanho:
1. pipoca = 2%,
2. não-pipoca CNPMS-Embrapa = 5%, e
3. não-pipoca de outros programas de melhoramento = 5%.
Os curadores e mclhoristas consideraram que essa alocação dava a
cada grupo um peso compatível com a variabilidade genética disponível
em cada grupo.
Os acessos do estrato das introduções que compõem a coleção nu-
clear foram selecionados pelos melhoristas que tentaram manter uma
ampla variabilidade genética. Os acessos foram classificados quanto a sua
origem como tropical e temperada, porque a experiência dos curadores
e dos melhoristas sugere que elas pertencem a repositórios genéticos -
gene pools - diferentes. A representação de cada grupo desse estrato
para a coleção nuclear foi proporcional ao seu tamanho - tropical =
10%, temperado = 5%. Neste caso , os melhoristas e os curadores consi-
deraram que essa aproximação representou também a importância de
ambos os repositórios de genes para o melhorJmento do miUlO no Bmsil.
Os acessos da coleção nuclear pertencentes a cada grupo foram selecio-
nados pelo melhorista, sempre procurando manter ampla variação gené-
tica e, ao mesmo tempo, incluir aqueles acessos representantes dos prin-
cipais repositórios genéticos usados no melhoramento de milho. Ao fazer
essa seleção, os melhoristaS e os curadores considerJram também o tipo
de grão - pipoca, duro, farináceo e dentado - como critério de classifica-

72
A co/eçáo Nuclear de germop/os/Jltl de millm 110 B/'{{si/

FIGURA 2
Distribuiçiio esjJacial dos acessos mellJorados,
para o:; três primeiros ComjJonentes Principais

CP39%

4
3
2
1
o
- 1
4
- 2 3
- 3 2
1
o
- 1
- 2
- 3
CP212% CP160%

ção, de\1do à relev-lncia dessas caraclerísticas no melhoramento de mi -


lho . Nesse estrato, a seleção de material foi totalmente sistemática.

REsULHOO E DISCUSSÃO

Foi estabelecida uma coleção nuclear de 300 acessos, representati-


va da Coleção Brasileira de Germoplasma de Milho . Ela representa
13% dos acessos da coleção de base, o que fica acima dos 10% reco-
mendado por Brown ( 1988a). Esse timite estabelecido por Brown (idem)
fundamenta-se na teoria dos alelos neutros e somente oferece uma refe-
rência para um taman ho mínimo básico de uma coleção nuclear.
Mas, em nosso caso , o aspecto chave para se ampliar as chances de
representar uma grande fração da variabilidade genética foi a identifI -
cação da estrutura genética da variabilidade existente na coleção. Isso

73
li/úarê AÚatl;/!, Célia Corddro, Ral1/iro de Andmde, José /I!(/galbtil1S (, Sü/m.')' p(/r(:1Iloni

espccialmenle assegura as chances de amostrar os alelos associados a


adaptações específi cas.
O estrato principal da coleção nuclear é constituído das variedadcs
autóctones, que é a parcela realmente original e distintiva da coleção
brasileira. Os matcri:tis e as introduções melhoradas foram incluídos a
fim de representar as \"driantes gcnéticas usadas, no passado ou no pre-
senle, em programas dc melhoramento. Aestrutura da coleção nuclear é
mostrada, a seguir, na Figura 3.
A classificação dos estratos das varicdades autóctones - utiUzando o
critério de região de origcm e tipo de grão proposto por Abadi e ef alU
(1997) - tem um apelo biológico fortc, Icvando cm considcração os dois
ci.sos principais da classificação rccomcndada por Brown ( 1988a): ori-
gem geogdfi ca e composição genética. Primeiramente, a variação ge n éti ~
ca dc populações de plantas pode ser adequadamcnte rcpresenlada pela
amostragem dos locais com características ecogeográfi cas difcrcntes
(Schoen c Brown, 199 1; Crossa el alii 1995). Dessc modo, a evolução da
cultura em difcrcntes loc:tis é refl ctida, inclui ndo efeito de seleção natural
c artificüd - praticada pclo agricultor - para :dcançar adaptação específi-
ca (Iiodgki n, 1997) . Em segundo lugar, o tipo de grão (pipoca, duro,
farináceo e dentado) é um simplcs cadter morfológico associado com
diferentes ctapas dc cvolução da cultura do milho (Brieger ef alii, 1958)
e com diferente uso de grãos. Nessa região do continente, esse caráter
refl ete a história da preferência cultural dos agricultores, como mostra a
classificação de variedades autóctones dc Patcrniani e Goodman (1977) ,
em que grupos raciais são confundidos com diferentcs tipos de grãos.
Aclassificação das variedades autóctones implementada nestc trabalho
responde a questão colocada por Hodgkin ef alii (1995), de como com-
binar distribuição ecogeográfi ca e critérios morfológicos na formação de
uma coleção nuclear. Sua principal I'llfltagem é que exigi u somente dados
disponíveis dc passaporte e de caracteri7~lção , sem a necessidade de um
trab:dho experimcntal adidomd, dc custo ele\~ldo. Além disso, foi baseada
em resulwdos experimentais - Abadic ef alii (1997) - e no conhecimen-
to e experiência dos curadores e melhoristlS. Ou seja, o apelo da nova
classificação reside em sua simplicidade e base biológica.
Aclassificação dos materiais melhorados implement ula neste trabalho
aprcsenta :tinda uma base biológica conhecida. O material melhorado do

74
A roleçiio lIuclear dt: gt'rmoplasmfl de milbo 1/0 IJrtL\'il

F'GUR< 3
Número de acessos corre" ponden/e a cru/a estralo e
grupos denlro de es/ralo da Co/eçdo Nuclear

3%

C Landr pop 48
[J Landr denl 90
C Land r tlint 63
34
5
15
15
20
10

CNPMS-Embrapa foi obtido após 1976, ano de sua criação, e o genno-


plasma elite do Centro Internacio n;~ de Mejoramiento M,ti zyTrigo - Cin1l11~1
teve grande influ ência em sua obtenção. Os matcri,tis dos outros progra-
mas de melhoramento são relativamente mais anligos, e sobre eles o Gcr-
mopbsma do Cimm)1 teve menos influ ência. Por outro lado, os materiais
de tipo de grão de pipoca estão distanciados também entre os melhora-
dos, como estão entre as variedades autóctones.
A coleção nuclear é um subconj unto representativo da vari abilidade
genética da Colcção de Base. Deve-se manter estoques amplos de semen-
tes dos seus acessos de modo a permitir sua pronta disponibilidade para
uso. A integridade genética dos seus acessos deve ser privi legiada nos

75
Tr,baré Abadie, Célia Cordeiro, Ramiro de Andrade, José Magalbties & Sidue)' PareN/oui

procedimentos de regeneração. Esse subconjunto será um ponto inicial,


lógico e eficiente para os projetos quc envolvem a seleção da Coleção de
Base na busca de características desejáveis (Holbrook e Andcrson, 1995).
Espera-se que essa idéia - e a simplicidade de classificação da coleção de
basc - possa estimular o interesse dos melhoristas para o uso do germo-
plasma de milho brasileiro em scus progmmas de tl"Jbalho.
Caracterização e avaliações adicionais da coleção nuclcar, permitirão
refinamentos na classificação da coleção de base, aumentando o conheci-
mento sobrc a variação genética oela contida, c adicionando valor agrega-
do estratégico à coleção inteira. Finalmente, a coleção nuclear pode scr a
base para estudos mais avançados sobre a origem filogenética da cultura
do milho na região.

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78
4

IMPORTÂNCIA E USO DE BANCO DE GERMOPIASMA


PARA O MELHORAMENTO GENÉTICO VEGETAL - MILHO

Ramiro Vilela de A1ldrade

o milho é o cere;~ de maior cultivo no Brasil, com uma área plantada,


nos últimos anos, próxima dos 13 milhões de hectares e uma produção
variando entre 30 e 33 milhões de toneladas. No mundo, o Brasil ocupa o
terceiro lugar, situando-se após os Estados Unidos e da China. com 85 e
200 milhões de toneladas. respectivamente.
Com a intensificação dos cultivos. as cultivares vão se uniformizando e,
em conseqüência. há uma perda da variabilidade genética, tornando-as
mais susceptível as endemias, principalmente às pragas e às doenças.
Até o ;UlO de 1970. os pesquisadores e geneticistas não davam muita
importância à variabilidade genética no desenvolvimento de novas cultiva-
res. Isso porque a introdução de novos genes provoca. na maioria das
vezes. uma diminuição na produção dos genótipos em desenvolvimento
ou de culti,'."es que estão sendo cultivadas. Hoyt ( 1998) menciona o caso
da doença chamada leafblight, no final da década de 1960. ocorrida nos
Estados Unidos. que praticamente di7jmou os trab;~hos de melhoramento
em macho esterilidade naquele país, além de provocar a diminuição na
produção de 15%, somente em um ano. Mais tarde, o Dr. Eberhart -
citado por Goodmam ( 1983) - menciona a pan~i sação do programa de
melhommento de milho no Quênia, devido a suscetibilidade do germo-
plasma local à ferrugem e à hclmintosporiose.
O programa só foi reiniciado com a introdução do genótipo Equador
573, testado no Cimmyt. e que se apresentou praticamente imune à ferru-
gem. passando a ser um dos progenitores mais importantes utilizado nos
programas de meUlOramento daquele país.

R:uniro Vilela úe Andrade é pesquisador da Embrapa Milho Sorgo, em Sete L1g0as - MG.

79
Ramiro Vi/da de Alldrade

o germoplasma utilizado nos programas de melhoramento nos Esta-


dos Unidos são de base muito estreita - Eberhart (1995) -, assim como
os programas em uso na maioria dos p,úses produtores. Para ampliar a
base genética do germoplasma daquele país e dos países da América
Latina, vem-se desenvolvendo, desde 1986, o programa denominado Latin
AII/erica/l Maize Programa - LAMP, financiado pelo governo dos Esta-
dos Unidos e pela Pioneer Overseas Corporation, com o objetivo de testar
a maioria dos genótipos dos países da América Latina. Na primeira avalia-
ção, cada país selecionou os 20% melhores genótipos que foram envia-
dos aos países participantes do programa, a fim de serem cruzados entre
si e avaliada sua capacidade combinatória e heterose. Esses genótipos, no
total de 56, foram testados no Brasil em duas localidades, e novamente

TABELA 1

Valores médios dos 20%melhores Cnlzanumlos e controle considerando: altura


de planta (AP) em em, altura da e:-'Piga (AE) em em, % de colmos quebrados
(CQ) , % de acall/all/enlo da raiz (AR), jJeso de espiga (PE) em /..>gIlxl e peso de
grâos (PC) em kglba, ob!ie/os em dois locais. Sele ltlfj(J(t:-,~ MG e Goiânia GO 110
alIO de 1992193. Sele lagoas. ElI/brajJa Milbo e Sorgo, 1998

Origem
AP AE co AR PE PG oc+ T++
Dom.Rep. 150 x (128 x 129) 250 131 10 14 6.40 5,47 USA USA
BRA 052051 x BR 105 250 153 16 12 6,30 5,22 BRA BRA
BRA 052060 x Test. Guat. 253 160 13 19 6,28 5,20 BRA GUA
BRA 052060 x (128 X 129) 25. 146 12 15 6,37 5,20 BRA USA
BRA 051403 x BR l OS 253 150 20 11 6,28 5,15 BRA BRA
BRA 051403x PM 102 252 145 18 20 6,35 5,15 BRA PAR
BRA 05 1403 x BR 105 250 140 13 20 6,23 5,05 BRA BRA
BRA052060xPM212 259 157 15 11 6,03 4 ,90 BRA PAR
BRA 106 282 181 24 20 5,99 4,82 BRA PER
BRA051721 x BR 106 235 133 16 17 5,89 4,82 BRA

BR 105 X BR 106 (C)


271
247
157
14'
,.
22 19
14
5,82
6,78
4 ,75
5,67
BRA
BRA
BRA
BRA

+ + OC = Origem dos acessos


+ +T = Origem dos testadores
Fonte: Re!:ttório L\MP - Est:ígio V

80
selccionado os 20% mclhores; dcstes, 90% são genótipos brasileiros que
scrão utilizados nos programas de melhoramcnto, conforme indica a Ta-
bela I. Estes gcnótipos também vêm sendo utilizados em trabalhos para
seleção massa] c seleção em solos ácidos, conforme indica os dados da
Tabela 2.
TABELA 2

Valores médio dos20% me/bores tlce.\:ms elites, (llJaliados em solos ácidos,


c01lsiderando jfl'!o do florescimento masculino (nl), 5()% do florescimento
.feminil/o (F"), altura da p/au/a (111') em em, altum da e,\IJI~!!.(I (A I:) em elll , %de
co/mos quebrados (CQ) , 'Yo de acmuamelllo de roi: (AR) , '10 de e.\!J(C!.{Is doentes
(fD) e peso de eSjJip,a (pf) em kg/ba. Sele ÜlgO{(S. EmbrajJa Mifllo e Sorgo, 1998

FM FF AP AE co AR ED PE

BQZM 1168 72 78 197 99 21 33 19 4 .146


CMS050811l
SE 033
...
69
68
77
159
190
73
107
00
05
44
30
21
25
3 .799
3 .539
PAlM08063 71 78 169 105 05 40 32 3.506
ANOO7 69 76 165 99 03 34 22 3.500
094A2 69 75 163 74 01 45 26 3.349
SE 032 68 74 161 79 06 37 10 3.326
PAZM07069 64 70 164 79 00 34 38 3,314
CMS06 70 73 162 88 12 41 22 3.265
PEOII 68 74 196 86 12 58 28 3,187
SE 028 70 75 170 96 03 27 19 3,170
PE027 68 74 159 82 05 48 29 3.150
PEOOI 69 73 160 95 03 3' 21 3.144
SAN MARTIN 12& 69 74 182 110 01 29 22 3.074
SE 003 70 74 177 105 05 42 13 3,060
FlINT COMP. NE 70 75 158 93 05 46 21 3,033
CMS 36 ( 1') 6' 72 171 87 07 43 15 3,424

Fonte: Rcl:tttÍrio 1.·\,\11' L~t:igin V

Há consenso na cOlllunidade científica lIlundial: o gerllloplaslll:t dos


bancos de genes não \'êm sendo utilizado pelos pesquisadores c melho-
ristas, tanto quanto deveria, de acordo com o seu valor potencial intrínseco.
Em todo o mundo, o Irtilho é a cultura quc mais tem descnrohido progrmll'l'
de meUlOramento, mesmo assim , a t,ml de utilização do gel'llloplasma de
milho é muito haixa, não passando dos 3% - Browo (I9R;). No Brasil ,
segundo Nass et ali! ( 1992), essa t~l,a chega próximo de 14% .
A baixa utilização dos bancos de germoplasma é proporcionada, em
grande parte, pela f,dta de interesse dos melhoristas , causada, sobretudo,
porque as informações sobre o germoplasma são dcmasiadamente gene-

8/
RfllJ1iro Vilelfl de Andrade

ra!izadas, não cobrindo adequadamente as exigências dos usuários -


Peeters & Williams, 1984.
Sobre as causas responsáveis pelo uso limi~1do do germoplasma, vaUs
(1989) aponta como fonte van Sloten:
I. falta de interesse por parte dos meUlOristas que, geralmente, j:í pos-
suem suas coleções de trabalho;
2. desejo da m:tioria dos melhoristas de trabalhar com materi:tis avan-
çados em detrimento das raças locais, cultil"dreS :lIltigas e espécies
silvestres, conservadas em banco de germoplasma;
3. falta de informações sobre o banco de germoplasma que, mesmo
quando disponíveis, são inadequadas e insuficientes.
Segundo VaUs (1989), a terceira razão apontada por van Sloten é mais
fácil de ser alcançada por meio de um trabalho consistente e bem delinea-
do sobre a organização das informações já disponíveis, pela tomada disci-
plinada de observações de maior interesse dos usuários, especialmente
pela divulgação adequada das informações. Neste particular, o Banco
Ativo de Germoplasma de Milho do CNPMS conta com grande numero de
acessos já caracterizados e avaliados para a m:tioria dos caracteres estipu-
lados para a cultura. Em 1984, foi publicado um catálogo, contendo infor-
mações de 271 genótipos, cuja edição já se encontra esgotada.
Uma atividade do Banco Ativo de Germoplasma de Milho, entre outras,
é fornecer sementes para implantação de trabalhos de pesquisa, cujo
resultados são também de interesse do Banco. Assim , nos anos de 1987,
1988 e 1989 foram forn ecidas sementes de 1.715 genótipos para implan-
tação da primeira etapa do programa LAM" Da mesma maneira, 266
genótipos foram fornecidos para um trabalho Scrinning de germoplas-
ma para tolerância a baixos níveis de fósforo no solo. Em 1992 , fo ram
enviados 1.268 genótipos de milho ao programa Núcleo de Apoio a Pes-
quisa - NAP, coordenado pela ESAiQ/USP - Piracicaba, para implantação
de uma trabalho Scrinning de resistência a doenças. Em abril de 1996, o
programa NAP recebeu sementes de 180 genótipos que se destacaram na
primeira avaliação e que serão testados em uma segunda etapa.
Os resultados de todos esses programas são enviados ao CNPMS e
incorporados na caracterização e avaliação do Banco Ativo de Germo-
plasma - MWlO , passando a fazer parte do acervo do Banco.
Na Tabela 3, estão os dados de caracterização, reav-Jliação, número de

82
Impor/tineitl e /(.IV de !3anco de 6'ermo/,fasmtl/,art/ O 11Ie1lxmlll1e1lJo gew!lico /'('j.!('/a/ - mil/X)

acessos remetidos e números de instituições ou pessoas atendidas no


período entre 1985 e 1995. Nota-se que o numero de acessos remetidos,
anualmente, é relativamente grande, o que vem a confirmar as constatações
de Nass el alii (1992), os quais encontram uma taxa de utilização de
germoplasma de ntilho no Brasil, próximo dos 14%, portanto, muito aci-
ma dos 3% da média mundial citada por Brown (1985).

TABElA 3
NlÍmero de acessos caracterizados e (walilldos, mimem de acessos remetidos
e nlÍmero de iJlstituições ou jJessoas atelU/idas 110 período de 1985 (/1998.
Sete Lagoas, EmbrajJa Milbo e Sorgo, 1998

ANO Caracterização/avaliação Acessos remetidos Instituição/pessoas

1985 266 282 24


1986 89 837 67
1987 1715 1558 52
LAMP
1988 354 1361 58
LAMP
1989 356 1341 57
LAMP
1990 150 617 35
1991 59 487 19
1992 269 442 24
1993 298 66 1 21
1994 264 2098 12
1995 117 582 35
1996 225 1026 30
1997 193 485 08
1998 154 101 10

TOTAL 4509 11851 452

Fonte: Relatório Técnico Anual do Projeto Banco Ativo de Germoplasm:l de Milho e Sorgo

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VALORAÇÃO ECONÔMICA
DAS CARACTERÍSTICAS DO GERMOPALSMA DO MILHO

j{J[IO C(lrlos Garcia *

I NT''''IJIJ(:,i o

Até recentemente, os resultados das ati vidades de pesquisa eram consi-


(iL-rados (OlHO hens de IhTl' ulili zaç:i.o pela sociedade. conhecidos como
bens púhlicos, COlllO tais, não pairavam Illuitas dlí vidas sobre o papel c o
dCH'r do Estado no flnan ciamellto dCSS;l"i ati\'idades. Esses hens, em últi·
ma ,uülise, poderiam ser dislribuídos por IOda a comunidade agrícola,
gerando fru tos quc, pelas caracleríslicas de competição existentes nas
alh'idades agropcclI;Írias e pela natureza do consumo dos produtos de
origclll ag rícola, beneficiariam , de maneira relativamente uniforme, loda a
populaç:io. LIma série de estudos mostrando os relornos positivos auferi -
dos pelo conjullto da sociedade fornecia o suporte para o invcstimento
dos recursos púhli cos na investi gação agrícola) quando cotej ados com
outras possí\"cis aplicações cconôm icas.
Algulls fatos colocaram recentemente dú\i<!as sobre a adeq uação dcs-
se com portamento do poder ptíhlico. Um deles é relacionado com a pos-
sihilidade da innuência de gru pos de interesse sobre o direcionamento da
pl'squisa agrícola e a possibilidade - dadas algumas imperfeições existen-
tes 11 0 IIH.:n.:ado de produtos e insumos agrícolas - de apropriação priva-
da de parll' dos fru los da alividade de pesquisa agrícola. Por Oll lrO lado, se
durante algum tempo ex istiram poucas rest ri ções aos gastos públicos)
devido a uma maior dispon ibilidade de recu rsos sob conlrole do ESlado,
a rl'cellle relirada do poder plÍhl ico de alguns seIores da economia e a

Engc/lhL'iro Agrú!1ol1\o. ,\\"C e D"C <:11\ Economia Agrícol:t. pesquisador da Emhrapa -


1\lilho l' Sorgo. ex . ['o"t:lI 151 - CEI' 55. i OO 000 . Sete I.ago:ls. i\IG. E·mail :
garci:!(íl (n pms.l·mb rap:t_h r

85
Jatio Carlos GarGa

necessidade de se colocar em Unha os gastos governamentais contribuí-


ram decisivamente para nOV'd postura mais conservadora no que diz res-
peito ao uso dos recursos públicos. Como resultado, existem sin;tis de
redução do fllLXO de finan ciamento público para as atividades de pesqui-
sa, e os responsáveis pela gerência delas têm sido estimulados a obter os
recursos que necessitam diretlmente junto aos benefi ciários potenciais
dos resultados a serem alcançados.
As ati\' dades relacionadas com a conservação da diversidade genética
p,u;saram a despertar, recentemente, grande interesse. Isso decorre tam-
bém da expansão da agricultur-d comercial (McMullen, (987) em áreas
agrícolas anteriormente isoladas, cuja produção se destinaV'd basicamen-
te aO consumo interno de unidade produtiva. O resultado foi a substitui-
çã.!> do material genético preserV'ddo pelos agricultores por materiais mais
homogêneos, desenvolvidos pela atividade de melhoramento genéti co
(Duvick, (993) .
Um dos problemas relacionados com as ati\' dades de consen'ação de
recursos genéticos está na dificuldade de se valorizar os benefícios prove-
nientes da conservação desses recursos naturais para a sociedade. O prin-
cipal relaciona-se com a imensa incerteza quanto à utilização econômica
desses recursos e ao desejo da sociedade em prcscrV'd-los. Essa atividade
foi a princípio considerada estratégica, o que - ao menos teoricamente -
reduziria a necessidade da justificativa econômica de sua existência. Esse
argumento, hoje, revela-se fraco, tendo em vista a imensa quantidade de
possíveis atividades estratégicas a serem consideradas, o que indica a
necessidade de ao menos uma hierarquização para uma decisão cons-
ciente sobre o uso adequado dos recursos públicos. Ao mesmo tempo, a
constatação de que parte conSiderável dos benefícios dessa conserV'ação
será objeto da apropriação privada por um número reduzido de entida-
des, indica a necessidade e a possibilidade de se estabelecer algum tipo de
cobranç-a por serviços que contribuam par-d a ger-dç-jo dos bens que, uma vez
no mercado, possibilitem a ger-dção dos benefídos. Nesse ambiente de maio-
res consider-dções sobre o uso de recursos pl,bUcos formas alternatiV'JS de
fin anciamento dessas atividades estão sendo buscadas (Simpson, (994) .
O objetivo deste artigo é apresentar alguns tópicos relacionados com
uma metodologia que permita o estabelecimento de V'.o.l ores para produ-
tos relacionados com a atividade de conserV'Jção e caracterização de re-

86
I ~tlort/çâo l'c:onômicll dllS cart/cler,:\'lials do germoplawna do milho

cursos naturais vegetais e as possibiUdades comerciais dessas atividades.


Não é objetivo deste trab,dho discutir a valoração social da conservação
dc espécies, mas sim verifi car em que condições seria possível inserir esse
processo de conservação em uma atividade comerci:d e retirar dele algum
resultado fi nanceiro. Para facili~lr a tarefa , reduzindo de ,dguma maneira o
grau de abstração, optou-se por trabalhar com aspectos relacionados com o
milho. Nessa cultunl, um dos principais produtos gerados pelo desenvol-
vimento dos conhecimentos obtidos no processo de conservação - a
semente - tem maior grau de inserção comercial. Nesse G lSO, é mais claro
o caminho existente entre o gennoplasma "nativo" c os produtos interme-
diários até a chegada ao produ to comercial fi",d , o que permite alguma
amíli se sobre possíveis valores adicionados a cada um dos passos e a
influência do mercado para os produtos na formação desses v,dores.

A INDÚSTRIA DA SEMENTE DE MILHO NO BRASIL

Enquanto no caso de produtos como soja, feij ão e trigo a participação


do setor privado no processo de geração de novas cultivares é geralmente
reduzido, no caso de produtos como o milho, o sorgo ou o girassol ocor-
re o inverso. Aexplicação cstá na geração de lubridos, por meio dos quais as
emprl'Sas privaruls m'Ultêm o segredo e a propriedade de produção de deter-
minado tipo de scmente. As empresas privadas podem obter, ao longo da
vida econômica de um determinado hillrido, os retornos aos investimentos
que cfetuanUll. Essa possibilidade de privatiz'<lção dos rcsultados da pesquisa
proporcionou o desenvolvimento de uma intensa atividade de geração de
nOV'JS tecnologias, 'lqui consideradas na forma dc novas sementes.
Embora seja esse o retrato atual da atividade de geração de novas
culti\~lreS de milho no Brasil , para o ntilho, o início do processo contou
com expressiva atuação do !-iClor público, co m as primeiras cultivares
híbridas de milho desenvoh; das na Universidade Federal de Viçosa. Du-
rante muitos anos, os programas de pesquisa plíblica da!-i secretari as de
agricultura do Rio Grande do Sul e de São Paulo foram responsáveis pelo
abasteci mento às empresas produtoras de sementes de novas cultiV4lres
de milho, que di\;diam o mercado com os produzidos pela Agroceres,
que se constituiu na primci ra empresa privada ~l investir nessa atividade.

87
Jutio Carlos (;arci"

Novas empresas produtores de sementes com melhoramento próprio


chegaram ao Brasil a partir de 1964 e várias delas iniciaram suas ativida-
des no país produzindo sementes originárias desses institutos de pesquisa.
Existem hoj e no Brasil um número reduzido de empresas com progra-
mas próprios de mclhor;unemo e um conjunto mais amplo de empresas
que se dedicam apenas à produção de sementes de milho originárias de
programas públicos de pesquisa. Essas entidades públicas de pesquisa
poderão ser substituídas nesse papel no futuro por empresas privadas
que se dediquem apenas ;\ atividade de melhoramento genético. Em ver-
dade, já exjstcll1 algumas cxperiências de licenciamento de produção de
cultivares híbridas de milho por empresas privadas que servirão como
base, 'lO lado da experiência já obtida pelo setor público, para o fortaleci-
mento dessa atividade no Brasil.
Os produtores de sementes de milho no Brasil tem comercializado, nos
últimos anos, cerca de 7 milhões de sacos de 20kg de sementes. Grosso
1II0do, isso seria suficiente para o P"UltiO de cerca de 60% da área com
milho do país. Excluindo-se as regiões Norte e Nordeste, essa qU'Ultidade
seria suficiente para aproximadamente 70% da área plantada com milho
no Centro-Sul , onde se concentram as vendas de sementes e também a
produção brasileira de milho. Qualquer uma dessas duas figuras mostra
um imenso potencial de crescimento.
Agrande modificação que está ocorrendo no mercado de sementes de
milho verifica-se nos segmentos mais comerciais da produção do cereal.
Um crescente número de híbridos triplos e simples, com m,tior potencial
de produção e maior preço unitário, estão disponíveis. Esses novos pro-
dutos estão sendo direcionados a um segmento de mercado que concor-
da em pagar maior preço em troca de um padrão diferenciado de atendi-
mento e pela maior expectativa de produção. O grande potencial de lucra-
ti\1dade desse novo mercado tem interessado mais intensamente as em-
presas privadas em sua exploração, o que não vem acontecendo com o
scgmento inferior que, por suas características de consumo - de peque-
nas quantidades e [lisscminação cm regiõcs com menor concentração da
produção - impUcam em custo m,tis elevado de comerciali141ção que não
encontra contrapartida no preço pela semente que esses agricultores es-
tão dispostos a pagar - um levantamento sobre preços de diferentes tipos
de scmentes de Iubridos de ntilho está, a seguir, na Tabela I.

88
\',,/omçt;o l.'c:onôm;w d"s a/mcled,'lia/s do germop/"sm(/ do mil/x)

TABELA 1

Preços médios de sementes de mi/ho,faixa de 'f)ar;açüo e


ntÍmero de cultivares jJor tijJo, em diferelltes regiões do Brasil

TIPO PR EÇO MÉD IO FAIXA DE NUMERO DE


(US$) VAR IAÇÃO CULTIVARES
VA RI EDA DES 17 .19 16. 17 - 17.9 1 ]
DUPLOS 3652 22.20 - 61.80 30
TRIPLOS 60.64 34.48 - 83.90 29
SIMPLES 79.79 64,40 - 95.30 18
I:onte: Preços coletados em qllatro Cooperalivas do Centro Sul do Brasil (preços de sacos de 20 kg de
semelHes de milho dbponíveis para venda)

A~I'EtTOS RELACIONADOS CO,\l A I'ORMAÇÃO


DE VALOR NO PROCESSO DE MELlIORAME~1'O GENÉTICO

o processo de investimento na pesquisa com vistas ao desenvolvimento


de novas culiilOlres de milho não difere, basicamenle, de mllras mil;dades
de investimento produtivo na economia, Geralmente, considera-se como
investimento a atividade cm que rccursos rinanceiros são gastos com o
obj elivo de criar um bem de capil<d que produza benefícios por um longo
período de tempo (Gillinger, 1982). No caso considerado, os gastos refc-
rem-se àqueles efetuados no período de desenvolvim enlo das culiivares
que, por sua vez, são os bel/s de capilal quc produzirão o fluxo dc bene-
fícios a remunerar os gastos efetuados no processo de geração dos lubri -
dos - cuja visão gráfi ca do critério está na Figura 1. Essa remuneração,
por sua vez, tem de ser compatível com outras apli cações alternativas
disponíveis na economia, O modelo a ser utilizado para ilustrar esse pro-
cesso de tomada de decisão é o do Gilculo do Valor Prescnte de uma
corrente de pagamentos e recebimentos. A exprcssão matemática dessa
regra é a seguinte:

[ l[

onde VP é o Valor Presente do fluxo de benefícios (B.), ou custos (C.), que

89
}0<70 CtlrlOS (lareifl

FIGURA 1
Exemplo de fluxo de caixa
de projeto de investimento em melhoramento genético

5+-~-+-r~+-~-+-+

3+-+-+-~~~-+-+-

-1

-3

se verificam ao longo do interv,do de tempo i, que varia do período 1 ali ,


ej é a ~lJ(a de juros que se considera como a relevante na economia. Essa
expressão transforma, pelo desconto da taxa de juros, os valores que se
verificarão no futuro em um ",dor atual . Aregra a ser empregada na deci-
são no caso de um empreendimento singular é aceita-lo caso o VP for
positivo.
Este critério é utilizável para avaUar um fll1'o de benefícios/custos que
se verificarão em um tempo futuro . Uma forma diferente - deril"dda dessa
- que pode ser empregada para atuaUzar o fluxo de caixa verificado em
períodos passados é a seguinte:
Vpn =L
.(l, (8 - C){I + j) (,H 12]
,., 1 I

onde o fator ( I +j) " apUcado aos benefícios/custos que se verificaram no


passado, os atualiza com base na taxa de juros relevante na economia.

90
i"a/oraçtio /'conõmim dll.~ ClIrtlden:~'ims d" ,!:l'rmo/,ftLWlltI do mil/X)

ti combinação das fórmulas I c 2 fornece o instrumento que pode ser


utiüzado para estimar o valor do dcsenvolvimcnto de um projeto em Ulll
dado período de tempo, ou seja:

.t-- (B_
~ I
C}(I
,
+ j) ''' ' '' + VP1'- = O [:I [
(ll - C)
t,... ,(1 "
+ DO-li +VP=ü Ir
[4 [

onde VI'" [em :I [ representa o valor mínimo de venda de um proj eto após
I anos de execução. Esse valor tem quc ser superior - ou ao menos igll:~
- ao total dns benefícios/custos atualizados até o período f . Isso significa
que o rendedor do projeto desejará receber ao menos o valor :uu:dizado
dos gastos efetuados, descontados os eventuais henefícios. Por sua rcz,
VI',.. [em 4 [ representa o valor m:íximo de compra de um projeto após f
anos dc execução. Esse v,~or tem de ser inferior - ou pelo menos igual -
ao somatório dos henefícios/custos futuros, descontados scgundo a tl'\a
de juros da economia. Nesse caso, o possível comprador do projeto esta-
r;i di sposto a pagar por ele no máximo o valor da diferen ça entre os
benefícios c custos futuros atualizados do projeto. Por um processo de
negociação, o valor dessa transação devcrú se fi xar em ~~gllfll ponto no
intervalo entre VI' e VI' - Incluindo os valores extremos.
" 'l
A determina ção desses va lores ext remos não indi C:i necessaria-
ment e qu e a transação tem condições de ser realizada. O caso :Ipresen-
tado é o mais Simplificado e pode comportar UJJla série de possívei s des-
dohramentos que serão di sc utidos Ilas seções seguintes . Nes te mo-
mento seria interessa nte levan tar apenas a situação ondc \VI\, > VP,\",
Nesse caso , o valor atualizado dos gastos reali zados - descontados os
possíveis benefícios - até o período t seria superior aos valor atm~jzado
do Ouxo de caixa do restante da vida útil deste projeto. O projeto teria "111
valor final atualizado negativo c não encontraria comprado res, a menos
que o rcndcdor concordasse em assumir UIll preju ízo que torne no
mínim o VP" igual a VPll ,

91
jodo e",/o,\' (;areia

CAR'CTERíSTt CASX QUE t'OOEM AFETAR A FORMAÇÃO


DE VALOR NO PROCESSO DE MELHORAMENTO GENÉTICO

Características da tndústria de Sementes de Milbo Híbrido

A indústria de semenles híbridas é caraclCrizada por altos custos de


pesquisa e desenvolvimenlo (Sehgal, 1992) . Como conseqüência, exis-
tem qualro princípios básicos para a operação de empresas privadas
nesta atividade:
I. o mclhoramcnlO c ao tecnologias 'I.'isociadas têm de gerar um valor
significante;
2. a proteção para os produtos finais do processo;
3. a indústria deve ser capaz de recuperar o valor adicionado por meio
de uma política de preços adequada;
4. os agricultores necessitam obter significativo benefício econômico
para cobrir os preços mais elevados pelas sementes híhridas.
O comportamento de uma empresa privada no mercado depende da
atmosfera comercial existente no p:ús em que exerce suas atividades (Dou·
glas, 1980). Países com reduzido potencial de mercado, com legislação
restritiva à iniciati va privada ou com comportamento do setor estatal não
condizenle com o de mercado não apresentarão as condições para que
scjam gerados os recursos para compcnsar o investimento no desenvolvi·
menlo do produto semenle.
A1guOl'1.'i outras características são deril'ltd,1.'i do estágio de competi ção
existente no mercado de sementes. À medida que o mercado se torn a
competitivo, verifica-se um processo de rápida obsolescência dos h""i-
dos, o que torna os ciclos de vida das cuJtivarcs cada vez mais curtos Cgera
a necessidade de um fluxo quase que contínuo de lançamenlo de novos
produtos que incorporem alguma característi ca superior aos anteriores.
A procura por alguma vantagem, via segmentação de mercado, procuran·
do oferecer um produlO cada vez m,ús diferenciado dos da concorrência,
seja com alguma característica superi or ou mais adaptado a determin a·
dos nichos de mercado, reforça a tendência por UOl maior número de
cultivares sendo produzidos ao mesmo tempo por UOla eOlpresa. A expec-
tativa é que isso tenha CO ol O refl eso o aumento de culti"lres de milho no
mercado e UOla tendência a diferenciação de preços entre elas.

92
Va!oraçt7o econlÍmial das caracler/slica.\' do germop/tlSlI/lI do milho

Outra característica da indústria são os ClIStOS relati vmnentc altos de


entrada no processo. Não basta - ao menos até agora - o desenvolvimen-
to de um bom produto - o que, por si só , já implica em um maior custo em
termos de investimento em recursos humanos - , mas também que esse
produto esteja disponível no mercado para a geração dos benefícios que
cobririam os custos de pesquisa. Provavelmente a f(l~e de desenvolvimen-
to de uma noV"d. cultivar - produção de sementes, testes com agricultores,
propaganda, colocação no mercado etc. - seria a parte m:us dispendiosa
do processo total, pois implica na preexistência de uma estrutura direcio·
nada para essa função , com fortes economias de escala, tmllo em term os
de quantidade de produção possível de ser comercializada como número
de produtos para comcrcialização. Mesmo no C,tSO de um produto com
as características da semente hil"ida de milho, :LS dificuldades impostas
por esse aspecto são quase quc restritivas ao desenvolvimento de empre-
sas voltadas apenas para O melhoramento genético.
Nesse caso, a parte "co mpradora" [equação 41 desejará incluir em
suas avaliações a remuncração pelo desenvoh~1Tl c n to dessa estrutura em
sua negociação com a parte "vendedora". Por outro lado, a possibilidade
de aproveitar a economia de escala pela disponibilidade de mai s um a
cultivar hvorcccria a panc "vendedora" nesse processo.
11 mudança na legislação relativa ü propriedade de cultivares e o desen·
voh; memo de mecalusmos jurídicos que permitam de forma clara o esta·
belecimento de formas de remuneração pelo uso de material genéti co
deverá introduzir facilidades nesse relacionam ento e até mesmo criar um
mercado para produtos em diferemes eS1<ígios de desenvolvimento los
estágios t das equações 3 e 41.

Valores ({ssociados tiO eSlCÍgio de desenvolvimento

o desenvolvimento de uma cultivar a partir do início de um material


estocado em banco de germoplasma pode levar mai s de dez anos, confor·
me indicação da Tabela 2, a seguir. Como já vimos, a tendência é de que 'I
medida que o processo de produção de um nol'O material genético - o
nosso projeto de investimenlO - com materi:us disponíveis em banco de
gcrmoplasma avança, o va.lor dos produtos de cada estágio modifica-se.
Isso resultl tanto dos gastos realizados como também do valor agregado

93
Jodo Carlos Garcia

TABElA 1

Preços médios de sementes de milho,faixa de variação e


nlÍmero de cultivares por tipo, em diferentes regiões do Brasil

Varirdadt's _-;==_-""'ih,,"', ·
Simplft Triplos
"'~'--_;;--,-,-
Dupl ~

SI m GUllIoplasma "Ílbli("o Dis porú\'t'1


(,rlcla.IClassiticao;iIlr
Mdl~'run!Cnt",'Ad"I"'II,'iIl,
AU[(lp<,I;n;L",,~"
Tc, (~~
CapocjJaJc <l~ ",,,,,1'>;1\,,,,11,,
"
CapociJ.,u., <l~ 1'r"Ju"a..> Jc .."lllCll!cS

Total
AJapt<><,:à<>
,
2
" 12 LI

C om Gl'nnoplasn lll rúbliNl OiSllOrÚ"l'1


OhI:crll,"ão Jc marcri~t pól'>til."
:\ 1.. 11~>r~l r .,,,101 Ad apt.Jli lo. >
Aul"f'<,li,üz,,,,ãl'
T~ SlcS
CapocjJaoc J~ <.unNHa•.,:à.\
(apocidaJ~ d~ Pnlllll1iii1 >..te ,;o,1I"1''''.~
A<l:lpt""·;;,, 2
Total

Fonte: enlre\istas com melhoristas do Cimmyl e de companhias prú"adas do Brasil e de México (López-
Pereira e Garcia, 19(4) .
Certas suposições roram reit:ls com relarJ.o ao processo como um lodo. Alterações lless:l5 su]>osiçõcs
podem alterar o período estimado.

em termos de informação ou de transformação em um produto mais


elaborado, aumenta. Nos estágios iniciais, a informação é o produto fun-
damental. A simples manutenção do material genético - como reserva
para um possível uso futuro - pode ter um valor muito baixo, principal-
mente se levarmos em conta os aspectos da seção anterior que dificultam
a entrada de empresas que não dominam todo o processo no mercado.
Estimativas parJ outros ramos da indústria - como o farmacêutico - ,tin-
da são bastante desencontradas, todavia indicam forte possibilidade de
que esses valores sejam muito baixos no que diz respeito aos materiais
genéticos para os quais ainda não foi descoberta uma possível utilidade
econômica, conservados em seu ambiente naturdi (Simpson, 1994). Isso
implica que a conservação per se pode não apresentar justificativa econô-
mica.

94
1 ~llorflçiio t!conômiCtI {"~ Ctlrflcll!f'íslíCt~ do g(!rmopftl.l'nla do millJO

Produlos finais

o objetivo final de um processo de melhoramento é a obtenção de um


produto cujo mercado torne possível a sua comercialização. No caso do
milho, além da série de produtos possíveis de serem obtidos - cada um
com sua faixa de variação de valor - , existe um certo número de produtos
relacionados entre si que são o fruto de um mesmo processo de melhora-
mento. Com um investimento relativamente pequeno, novos materiais po-
dem ser desenvolvidos a partir dos iniciais, formando verdadeira~ famílias
de híbridos com graus estreitos de parentesco. Linhagens já utilizadas
podem ser empregadas na formação de diferentes h,bridos pela substitui-
ção de algumas utilizadas anteriormente por novas linhagens, gerando
uma nova cultivar. Esse processo está ilustrado na Figura 2, e o valor
atualizado associado a so processo, na Figura 3.

FtGURA 2
Fluxo de caixa de um investimento
com ti geraçiío de mais de lmlproduto

-t

-3

. H'B DH'B2 . IHIB2


1

95
Jotio Cor/os Garcitl

FIGURA 3
Fluxo de caixa de UIIl illveslimelllo
com a geraçt70 de mais de um produto
, ;

,
',
,I i '
i

.~
;-~.

.. ""-

.,!

:'I:1:1:111:.:.
I.

J
1 2 3 4 5 6 1 8 9 10 11 12 13 14 ' 5 16 11 18 19 20 2 1 22

Aparentementc, isso é uma forma bastante utilizada cama estratégia de


se obter ganhos constantes em determinadas características que justifi ·
qucm o lançamento de novos híbridos.
Por outro lado, semprc é possível rctornar ao princípio do processo
para incorporar aos materiais desenvolvidos novas características dcseja·
das pelo mercado, a partir dc uma base comum . O valor dessas caractcrís·
ticas será determinado por uma metodologia semelhantc àquela expressa
pelas equações 13 J e 141, ou 151, caso considerações com relação a
risco sejam incluídas.

Risco

Outro aspecto que pode afetar a valoração das atividades de conserva·


ção é o risco associado com a obtenção dc produtos comerciais no fim do
processo. Como o período de tempo envolvido no processo é relativa·
mente grande, as incertezas relacionadas com os resultados apresentam
forte influência na ponderação dos benefícios futuros. Em termos mate·

96
máticos, a introdução desse aspecto modificaria a equação [4[ que assu-
miria a seguinte configuração:
a ·(B - C)
t,.'_1
I i i+ VP=O
( I + j) (i.1l tr
[ 51

onde cr, é uma medida da possibilidade associada ,t realização dos " dores
de benefício/custo esperados para o período. Como as estimativas dos
CllstOS são mais fácei s de serem pre\1stas - porque estão associadas a
determi nada estrutura preestabelecida, tais como número de técnicos,
estrutura de campo necessária etc. -, os valores de cri i.úctam sobretudo os
valores relativos aos benefícios. Como os valores de cri são menores do
'I"e I, o novo VP será inferior ao Gdculado anteriormente.
"
Um Kdfico ilustrando este processo esti a seguir, na Figura 4. c o valor
atuali zado associado ao processo, na Figura ;.

F tGURA 4
flu.\'O de caixa de um projelo
com fi geraçâo de mais de IlIJI produ/o. com Iljilsle j}(lm risco

9
I I ,
~;- -
I,
-
I ! !
7 ,
! I
5
I I I I I
I
I
I

~if[ :
3
I
I
I!H'tn-;::.; r--~
'H
!Jln II-
!Il~l~
-, ilI í I
- ' - -,- --
r-
- i i
,3 - 1-+- I

-5
I
1 2 ' 3 ' 4 ' 5 ' 6 7 8 9 10 11 12 13 14 15 16 17 18 19 20 21 22

HIB l D HIB2 DHIB2

97
Jo/ío Carlos (;a reia

FIGURA 5
Valores atualizarlos do jlu,yO de caixa do jJrojeto
com geraçâo de mais de 11111 produto, com ajuste jJara risco

QUlra caraClerística desse novo aspecto é que ele deve variar com o
decorrer do processo, ou seja, no início o valor de o., deve ser muito
reduzido, aumentando à medida que maiores conhecimentos são agrega·
dos ao processo e um maior certeza pode ser associada aos resultados
futuros.

o papel do mercado
Como já mencionado , o valor dos produtos intermediários é intima-
mente relacionado com 'L, condições que existem no mercado do produ-
to final. Entretanto, essas condições de mercado somente serão significan-
tes em períodos mais avançados do processo de investimento, quando o
produto final estaní à disposição dos consumidores. Uma previsão é ne-
cessária para se ter o produto que o mercado quer quando deseja. Exer-
cícios de prospecção futura do mercado são desejáveis, principalmente
quando se encontra em um estágio tão inicial do processo como um todo,
como é o C,l"iO das unidades de conservação de recursos genéticos. Se é

98
!'aloraçiio cWllômica das ((/rtlcll..'1"1.~/icas do g('1"111o/)"ISII/(/ do milbo

difícil a obtenção de lima visão mais precisa sobre este futuro~ pelo menos
algumas indicações gerais sobre as necessidades futuras devem ser tenta-
das. Essas necessidades variam em função dos problemas relacionados
com o cultivo de determinada espécie e as necessidades de seus usu:irios
- produtores c consumidores (McM ullen , 1987).
Por comodidade, os objetivos gerais de programas de melhoria gené-
tica podem ser agrupados em quatro categorias:
I. quantidade e qualidade do produto;
2. adaptação em diferentes condições de produção;
3. meUlOres qualidades físicas ; e
4. melhorias que facilitem o processo de melhoramento e de produção
da semente.

CONCLUSÕES

Nosso objetivo foi apresentar uma abordagem de um possível modelo


para amiliar no processo de v;doração de produtos resultantes da ativida-
de de conservação de recursos genéticos em um ambiente de mercado. O
termo utilizado "produtos" é ilustrativo do que se pretendeu abordar
nessa incursão. O termo implica na geração de algum bem que tenh:t v:dor
de mercado e possa assim ter ,dgum valor impu~ldo a ele. Nesse conceito ,
parece que a simples conservação dos recursos naturais teria um valor
muito baixo, caso não fosse acrescentado a essas coleções algo mais que
interessasse aos possíveis usuários.
O primeiro passo seria incrementar a informação disponível sobre esse
material como forma de facilitar o atendimento de possíveis demandas.
Um segundo seria transformar os materiais em algo mais adequado para
o uso pelos mclhoristas em seus programas. Nesse último passo , uma
certa dose de prospecção sobre futuras necessidades seria de grande
",dia. As unidades de conservação que fossem capaz de prever - com um
certo nível de acerto - as necessidades futuras disponibilizariam para o
mercado produtos compatíveis com a demanda no futuro.
Esses dois passos, cel1amcnte ~ tornariam mais dinfunicas ,1S relações
entre a fase de coleção/manutenção c de uso dos recursos genéticos.

99
.1(}(;O Carlos G'rtrcla

B IBLI OGRAFIA

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100
6

ECONOMIA DA BIODIVERSIDADE
PARA A AGRICULTURA

COlIso[acióll Vil/a/alie Utlry *

INTROD UÇ,i O

Meio século de formação contínua da Rede Internacional de Bancos


de Germoplasma das principais culturas alimen tares por meio dos pro-
gramas de coleta e conservação de germoplasma formou um acervo da
diversidade de cultivares, co ntribui ção milenar da domesticação e do
melhoramento de pI:U1t<LS realizada pelos agricultores. Mudanças signifi-
cati vas 11 0 sistema jurídico institucional c científico que pautaram a forma-
ção desses hancos estão conduzindo ao estabelecimento de novas regras
na livre circulação de gel'lnoplasma - patrimônio da humanidade.
As coletas das pl:ulIa.'; alimentares e de seus parentes silvestres toma-
ram como referência as pesquisas dos botânjcos sobre a origem das cul-
turas indi\; duais e seu processo de diversificação. A região de diversifica-
ção não é necessariamente o lugar onde a cultura se originou, segundo
Hawkcs, que selecionou quatro áreas principais em que a agricultura se
originou, dez regiões de diversificação das plant(L'i cultivadas c oito re-
giões secundárias. A seleção dessas ,íreas aprimora o trabalho pioneiro
do hotfmico russo Nikolai Vavilov ( 1887-1943), que norteou as coletas a
partir dos centros de origem.
Foram colcladas ainda as plantas que os agricultores cultivaram ao
longo da m,tior parte da história da humanidade, isto é, variedades de
cuhunl,,) loca.is desenvolvidas em sistem,l$ de agricultura tradjcional com
seleção Ilaturdl e hum,ma adaptadas às condições ambientais c às influên-

• Pesquisadora da Embrapa Rccu rsos Gen éticos c Biotecnologia. Parque Estação Bioló·
).:ica - I'qEB, Final Av. W3 Norte. C.P. 02 372, CEP: 70.84 9-970. Email :
sol@ccnargclI.emhrapa.br

101
Conso/adólI ViI/li/mie Udr)'

ci'L, humanas tendo sido espalhadas pelos diferentes continentes, seguin-


do o processo de desenvolvimento das populações humanas. Tomamos o
milho como referência de estudo. As civilizações da América e suas cultu-
ras de milho - de mais de 8 mil anos - confundem-se. Ao acompanhar
sua trajetória, resgata-se, além do germoplasrna, nossa Pré-História. O
milho, originado no México , apresenta na Mesa-América a região de di-
versidade.
Apenas no final do século XIX, com a formação dos conglomerados
humanos e o processo de industrialização da era moderna é que os cien-
tistas e os rnelhoristas começaram a aperfeiçoar as populações locais de
forma deliberada e sistem:ttica. Deste processo, resultou uma série de
cultivares avançadas que culminaram n:LS cultivares modernas de alto
rendimento - freqüentemente denominad'L' cultivares de elite -, desen-
volvidas pelos centros internacionais de melhoramento de plantas. ES"L,
cultivares são normalmente plantas anãs que requerem adubação ,u1ifici,~ ,
mas que permitem plantios extensivos c intensivos de ,~L1 produtividade. E.'tl-
Vll dada a base e em pleno desenvolvimento O que veio a denominar-se
Revolução Verde, em pleno século XX, síntese de mais de sete milênios de
evolução da agricultura.
No entanto, à medida que as cultivares de alto rendimento eram difun-
didas, substituíam as populações locais e os parentes silvestres que desa-
pareciam frente à nova tecnologia da mecanização, da fertilização , e da
sanidade vegetal - herbicidas e pesticidas. As novas cultivares traziam
consigo a vulnerabilidade da uniformidade genética que torna uma cultu-
ra sensível a pragas e a doenças. Quando todos os agricultores cultil'.lm
uma mesma variedade, uma prag:l ou doença que ataca um:l planta rapi-
damente estende-se por uma grande área. Foi o que ocorreu com a "fer-
rugem-do-colmo-do-trigo" em 1953, com os cultivos de trigo duro nos
Estados Un idos, a "Hermintosporíose" com o arroz em 1943, na Índia,
com o "Helminthosporium" com o milho, nos Estados Unidos, em 1970,
para não mencionar senão as grandes perdas ocorridas em função da
uniformidade genética e colocar a questão central dessa investigação:
Qual o valor da diversidade genética para a agricultura? Como
mensurá-lo? Qual o papel que os bancos de germop/asma desemjJe-
nham 'UI II1tmutellçclo desta diversidade? Se utilizarmos os parâmetros
econômicos de produtividade rísica, de análise custo-benefício de uma

102
ECONomia/! biodit'('f".\id(/(Ie

cultivar moderna ou de um híbrido de alto rendimento \1s-à-vis cultiV1tres


tradicionais o resultado será inequívoco e é o que vem sendo adotado
ultimamente. No entanto, na análise econômica, devem ser consideradas
as externalidades: o impacto sobre o meio ambiente, sobre a perda de
diversidade, sobre a contaminação de águas e solos, sobre o nível de
pragas e doenças. Novos métodos de análise econômica que contemplem
esses entre outros aspectos ambient,tis devem ser considerados.
Neste estudo, desenvolveremos algumas considerações teóricas e me-
todológicas que estão sendo testadas e utilizadas não só para incorporar
outros ,L"peclOs relevantes da análise econômica, mas ainda para integrar
a ,málise interdisciplinar. E por que não começar a consolidar um novo
ramo do conhecimento científico, a economia ecológica? Em 1989, este
donúnio da pesquisa recebeu reconhecimento inte rnaci o n ,~ , mediante o
estabelecimento de uma sociedade internacional e uma publicação cien-
úfica. A economia ecológica - junção dos dois termos - sugere um me-
lhor gerenciamento das interações entre o homem e a natureza, de modo
a assegurar o bem-estar t,mto das próximas gerações como das espécies.
Essa abordagem pressupõe limites ao crescimento fundamentados na
escassez dos recursos naturais e de sua capacidade de suporte que são
reais e não neccssariamente supenlveis por meio do progresso tccnológi-
co, Isso significa que paralelamente aos mecanismos de alocação e de
distribuição estabelecidos na análise econômica, a econo mia ecológica
acrescentaria o conceito de esc;~a para o volume físico de matéria e ener-
gia que é absorvido e convertido nos processos entrópicos da expansão
econômica. A escala sustentável adapta-se de form a gradativa às inova-
ções tecnológicas, de maneira que a capacidade de suporte não sofria
'~teração através do tempo (Daly, 1992) . Aestimação dos limites do ecos-
sistema e a v,~ o ração dos custos e benefícios ambient,tis de caminhos
,~t ernativos de desenvoil1mento requerem esforço interdisciplinar e trans-
disciplinar para construir modelos e cenários de uma SOCiedade sustentá-
vel: "Lógic:t, justiça ou ética podem influenciar os intelectuais, mas líderes
populares ... são m0l1dos por medidas convencion,tis de custos e benefí-
cios" (King, 1994). A nós - cientistas e intelectu;tis - cabe pensar a reali-
dade, propor novos caminhos, questionar.
E assim, iniciamos este estudo compreendendo o papel da diversidade
genética como resposta aos desafios colocados pela agricultunl intensiva

103
G'onso{acióll Vil/afmie Udry

moderna. A agricultura só sobre\1verá em relação à rápida evolução de


pragas e doenças se mantiver a variabilidade genética passada e presente
da planta cultivada, seu /1001 genético. Essa é a matéria-prima dos melho-
ristas, que apresenta um v:dor econômico, além de uma determinante
ecológica. O espectro dos recursos genéticos em evolução contínua une
as formas ancestrais silvestres COnt as variedades cultivadas modernas
numa continuidade ecológica e histórica que une as espécies silvestres às
domesticadas.
Ademanda dos mc1horistas pode ser sintetizada em seis categorias:
I. os parentes silvestres das plant:Ls cultivadas que mantêm-se como
produ lOS (b nalureZ4.t;
2. as variedades cultivadas em locais selecionados ao longo de incontá-
veis gerações;
3. as cultivares obsoletas, não utilil.adas na primeira época do melhora-
mento genético, mas que se encontram conservadas nas coleções de
germoplasma;
4. as linhas e estirpes avançadas de melhoramento desenvo"idas pelos
meUlOristas, incluindo cultivares lançadas e as que não foram sele-
cionadas para comercialização;
5, as cultivares de elite de alta produti\idade, através do melhoramento
genético convencional; e
6, as cultivares geneticamente modificadas - OGMs.
Assim , a questão central não reside na utilidade e no uso dos recursos
genéticos que, corno ve rifi c~unos , são a matéria-prima dos melhoristas,
sem a qual não há produto, ou seja, semente melhorada. Aqucstão que se
coloca é como garantir a manutenção da diversidade frente à expansão da
agricultura moderna.

104
Economia e biudil'ersidmle

ALGUMAS QUESTÕES CEII'fRAIS

o QUE É BlODlVERSIDADE?
Biodiversidade é O IOI:d de gens, espécies e ecossislCmas de uma re-
gião. Ariqueza da \;da da Terra, hoje, é o produlo de cemenas de milhões
de anos de hislória evoluliva. Ao longo do lempo, as culturas humanas
emergiram e se adaptaram ao ambiente local, descobrindo, usando e
alterando seus recursos biólicos. Muilas áreas que hoje parecem "nalU-
rai s" trazem as marcas de milênios de habitação humana, cultivo de ternL'i
c colela de recursos. Adomeslicação e a criação de variedades locais de
cuhu ras e de rebanhos lambém moldaram a biodiversidade.
A biodiversidade pode ser dividida em Irês calegorias hierarquizlldas -
gens, espécies e ecossistemas - que descrevem 'L~pCCIOS bem diferentes
dos sistemas de \;da c que os ciemistas agrupam de maneira diversas.

Diversidade Genélim - Variação dos gens deutro das espécies; cobre


diferentes populações da mesma espécie - como no caso das milha-
res de variedades trad icionais do arroz da íudia - ou a variação
genética demro de uma população. Até recentememe, as medidas de
diversidade genélica eram aplicadas princip,dmeme a espécies e a
populações domeslicadas mantidas em zoológicos ou em jardins
botfmicos, mas cada vez mais as técnicas estão sendo apUcadas ~L'i
espécies silvestres.
Diversidade de Espécies - Variedade de espécies demro de uma região;
pode ser medida de v::Í.rias maneiras, e os cientisl;;L'i ainda não estão
de acordo sobre qu,d o melhor método. O número de espécies em
uma região - a "riqueza" de suas espécics - é uma medida bl:L'it:lIltc
lIs~tda, mas outra é mais precisa, a "diversidade t,Lxonômica" leva em
conta a estreita relação das espécies entre si. Por exemplo, uma ilha
com duas espécies de pássaros e um espécie de lagarto tem maior
diversidade taxonômi ca que outra com tr ês espécies de p,issaros
mas nenhuma de lagano. Assim, mesmo que haja mais espécies de
besouros na Terra do que tod;l~ as outras espécies juntas, eles não
influem na diversidadc de espécies porquc são muito proximamente
relacionados. Da mesma forma, hü muito mais espécies vivendo na

105
Canso/fleión Vt1lafiuie Udry

terra do que no mar, mas as espécies terrestres são mais intimamente


relacionadas entre si do que as espécies marinhas; então, a diversi-
dade é maior nos ecossistemas marinhos do que possa sugerir uma
contagem estreita de espécies.
Diversidade de Ecossistemas - mais difícil de medir do que a diversidade
genética ou de espécies porque os "limites" das comunidades -
associações de espécies - e os ecossistemas não estão bem defini-
dos. Todavia, desde que se use um conjunto de critérios para definir
comunidades e ecossistemas, seu número e distribuição podem ser
medidos. Até agora, tais esquemas têm sido aplicados principalmen-
te em nível nacional e subnacional , embora já tenham sido feitas
algumas classificações globais mais grosseiras.
Além da diversidade de ecossistemas, muitas outras expressões da bio-
diversidade podem ser importantes. Entre elas figuram a relativa abun-
dância de espécies, a distribuição de idade das populações, a estrutura
das comunidades de uma região, as variações na composição e estrutura
das comunidades ao longo do tempo e até mesmo processos ecológicos
como a predação , o parasitismo e o mutualismo. Mas, genericamente,
para se atingir metas mais específicas de manejo e de políticas, é importan-
te examinar não apenas a diversidade biológica mas a diversidade culmral
humana. Também deve ser considerada parte da biodiversidade, t,d como
a diversidade genética ou de espécies, ,dguns atributos das culmras huma-
nas - a exemplo do noma,lismos ou da rotação de culturas - represen-
tam "soluções" aos problemas de sobfCI1vência em determinados am-
bientes. E, como outros aspectos da biodiversidade, a diversidade cultural
ajuda as pessoas a se adaptarem a novas condições. Adiversidade cultural
manifesta-se pela diversidade de linguagem, de crenças religiosas, de prá-
ticas de manejo da terra) na arte, na música, na estrutura social, na seleção
de cultivos agrícolas, na dieta c em todos os demais atributos que caracte-
rizam uma sociedade humana.

106
ECOIl0lll;(I e biodil'er.l'i(/m /e

o QUE SE SABE SO IlRE D] SPO~IB ]LlDADE E PERDA DE B10n]VERSIDADE?


A perda global da diversidade biológica tem sido descrita como decor-
rente de dois fatores básicos:
I. Ao crescimento populaciomd - a população mundial dobrou oito
vezes, entre a Revolução Agrícola e a Revolução Industrial ; e a trans-
formação de áreas até agora inexploradas em terras para produção
agrícola. Podemos mencionar ainda, como efeito da Revolução Ver-
de e da globalização dos mercados a especialização da produção em
um número limitado de produtos com forte impacto sobre a biodi -
versidade (S\\"anson, 1994) .
2. ,~tecnológica e poluentes agroindustriai s que pressionam os mais
diferentes b(/bi/a/s que estão apresent,mdo saturação em sua capa-
cidade de suporte.
Adiversidade de espécies tem se mantido aproximadamente estabiliza-
da - ou no m.íximo em ritmo vagaroso de crescimento , pontuado por
períodos de extinção acelerada a cada dezena de milhões da ,mos. Segundo
;l"l diversas teon:l"l da ciência ecológica, cada espécie é constituída de muitos
orgmlismos e de uma imensa qU'Ultidade de informação genética. Apartir de
estimativas sobre fl orestas tropicais - cujo habitat cobre 7% da superfície
terrestre - contém mais de 50% (hl"l espécies da biota Illundial - os e~1udiosos
tomam-na como paradigma da crise ,unbi cn~d em nível glob,d e verific,un o
lúvel de perda da diversidade global do planetI, que a continuar no ritmo
atual , segundo Ehrlich, equi"I1e ao efeito de um inverno nuclear.
A diversidade de espécies de florestas tropicais é desconhecida, m'L'
estima-se que 1km ' contém centenas de ,írvores e muitos milhares de
espécies de insetos. Estão , contudo, entre os sistemas mais frágeis e mais
ameaçados, dada a superexploração deliberada dos recursos realizada
devido a fatores de pressão econômica.
Três quartos da biolliversidade mundial está situada em países em desen-
volvimento, enqu,mto a demanda e a tecnologia vêm, principalmente, dos
p,úses industrializados. Autilidade da maioria das espécies descritas ,tinda
é desconhecida, sem mencionar tod;lli espécies a descobrir. tt'1esmo as~
sim , o acesso a recursos genético s é o objeto de um dos mais sérios
conflitos internacionais desta virada de século (Shiva, 1995, Fowler, 1995,
Solagnd, 1994 , Cunningham 1986) .

107
(,'0Ils0/(lci61/ Vil/(ljilJie UdlJ'

Os países desenvolvidos pressionam , ameaçando de sanções econômi-


cas os países em desenvolvimento que não adotarcm leis nacionais de
patentes sobre produtos de biotecnologia. O princípio de tal lei é reconhe-
cer o livre .lcesso internacional a recursos gcnéticos, como "patrimônio
comum da humanidade" e proteger o uso privado de suas aplicações.
Materi:d \;1'0 manipulado pode então ser patenteado c seu ólcesso limitóldo
por franquias.
AConvenção da Biodiversidade, por outro lado, recomenda o acesso à
tecnologia e compensações financeinL' para os países "fornecedores" de
biodiversidade.
ti
POR QUE I\\LOJ<,\R A Bl ODtVl'1<SlIJADE?

Valorar a biodivcrsidadc penn ile medir a importância financcira das conse-


qiiências de atividades econômicas sobre o meio ambiente, ~l"s irn como dos
benefícios da biodivcrsi(hlde para elas, gcrdlmcnte não levadas cmconsideração
nas transações de mercado (Barbicr et alii, 1995).

O homem se criou na biodiversidade. Sempre usou a biodiversidade


para alimentar-se, vestir-se, fabricar utensílios. Sempre, de uma forma ou
de outra, afetou o seu ambiente. No entanto, com as colonizações "agríco-
las" do século XVIII , a Revolução Industri:d do século XIX, a Revolução
Verde, na segunda metade do século XX, e a recém-globalizada economia,
o impacto do ser humano sobre a natureza cresceu c expandiu-se de
forma sem precedentes na história. Diversos autores estimaram uma per-
da toud variando entre 4% e 9% da biodiversidade da Terra, em aproxima-
damente 20 anos, comparando-a com as extinções massivas da era
Quaternária (Pearce, 1995).
A economia de mercado não costuma levar em conta nem os bens
comuns ou sociais, nem os insumos indiretos da natureza, nem o impacto
a longo prazo e a longa distância dos empreendimentos. Um bem privado
pode ser \"Morizado livremente, enquanto a importància de bem sociais
in depende de decisões individuais.
O v,dnr da hiodiversidade se refere tanto a seu uso direto como aos
serviços indiretos, prestados pela natureza às atividades humanas.
Existe na literatura várias classificações desses valores (Barbier el a/ii,

108
199;, Millllleier el alii, 1994 , Pearce, 199; , Pearce el alli, 1992. Wrighl.
1996) .
, I
\ 'I

VALOR 0 .\ 11I\'E1t'iIDABE (jP~ÉTI L\

o v:~or da diversidade genética é o que mais diretamente depende do


grau de dirersificação d:L' formas de lida. Trata-se aqui de valorcs de uso
direto e de quasc-opção.
T()((;L'i ~l'i pbnt;l'i c animais respons;Ívcis pela ;~imcnta ção humana têm
origem em parentes selvagen s. A maioria dos principais ativos dos medi·
C:lmcnlOS modernos fonlm descohertos a partir de plantas c de animais
silrcstrcs. Hoje. 90% da alimentação humana depende apenas de seis
ccreais. de dois tubérculos e dc alguns animais domésti cos (Barbier el
IIlIi , 1994).
O processo repetido de seleção, a industrialização e a padroni zação da
agricultura prorocaram o desaparecimento de muitas variedades cultiva-
d:., (Fowler, 1994) e cmpobreceram geneticamente :., variedades comer-
c iali zad ~L"'. drixando·as muito suscetíveis a doenças c a parasit:L";. Atual·
mente, virtualmente todas :l'i variedades comerciais incorporam materi al
genético novo , de espécies silvestres próx imas c vari edades cultiva das
tradicionais, essencialmente para desenvolver resistência contra pragas.
Por outro lado. 2;'X, dos produtos farmacêu ticos atuais são elabora-
dos a partir de plantas e micror~'U1is mos (Mittmeier. 1994) . Isso mostra a
importfmcia c o valor da diversidade genética. Esse valor depende. princi-
palmente, de três fatores:
I. a infofm:l\'ào sohre os recursos;
2. sua disponibilidade cfetira; e
3. a tecnologia cnvohida.
·1, ,r

11J9
Conso!aC!ón Vi//{~{t111e Udry

VALOR ECONÔMICO DA DIVERSIDADE GENÉTICA

AsPECTOS CONCEITUAIS

Procuraremos responder algumas das pergunlas que os economistas


se fazem a respeito da hiodiversidade. O primeiro aspecto diz respeito à
questão da biodiversidade constituir-se, em si, objeto de estudo da econo-
mia. Como a economia trata da alocação de recursos escassos, podemos
falar em componentes da biodiversidade ou em recursos da biodiversida-
de ou em serviços prestados pela existência de biodiversidade. Assim,
podemos mensurar quanto vale uma vespa que realiza o controle biológi-
co dos pulgões que dizimam os plantios de milho, mas não temos ainda
como calcular o valor total das vespas de uma região determinada, quer
pelo desconhecimento científico sobre a própria espécie como pelo des-
conhecimento da relação de peso dessa vespa para manutenção do seu
habitat. Se dizimada, que impacto causará? Sabe-se que alguns organis-
mos são determinantes para a manutenção dos habitats, enquanto ou-
tros, se dizimados, causam pequeno impacto ambiental. Ou seja, o conhe-
cimento atual das ciências da vida está muito aquém da velocidade de uso
que o homem está fazendo de seu patrimônio genético.
Outra questão que os economistas estão tentando responder é: O cres-
cimento econômico é nocivo à biodiversidade' Por que o economista
pode optar, racionalmente, por esgotar recursos naturais e destruir ecos~
sistemas? Aresposta é simples, embora envolva vários aspectos inerentes à
economia. Ao utilizar o cálculo de preferências intertemporais e taxas de
desconto, envolve uma troca entre benefícios presentes e custos futuros
que depende de como os últimos podem ser descontados em relação aos
primeiros.
Na verdade, o ato de se sacrificar as oportunidades presentes de con-
sumo para beneficiar gerações futuras funciona como um bem coletivo. A
conclusão é que, em um sistema de mercado descentralizado, as aloca-
ções intertemporais serão desfavoráveis para as gerações futuras. Na rea-
lidade, a decisão envolve um critério ético inexistente na sociedade de
consumo atual , o do bem-estar das gerações futuras. Outro aspecto diz
respeito ao fato de que a maioria dos recursos naturais são bens coletivos,
portanto não existem direitos de propriedade bem definidos e os indiví-

110
!:'co1l0I1li(/ (' hifJdill:rsidarl/'

duos no sistema econômico não têm \'ant~lge ns em conservar os recursos,


mas sim , em utilizá-Jos. Além di sso, há um enorm e grau de incerteza quan -
to às conseqüências fllturas do esgotamento de recursos. Assim , os toma-
dores de decisão, ao tratarem de bens eminentemente públicos, não têm
parâmetros para amUises capazes de conduzir a medidas restritivas do
uso dos recursos naturais. Fisher - em trabalho publicado em 1973 so-
bre esternalidades ambientais e sua relação com a teoria do investimento
público - já destacava que os riscos coletivos não podem ser partilhados,
porque a apropriação do risco privado por uma pessoa não reduz o risco
(J.L" demais. Nesse GL"O encontra -se a hiodivcrsidadc
Outro aspecto que enl'Olve a decisão econômi ca e que pode conduzir
à destru ição da biodiversidade está nas diferentes concepções da vanta-
gem com petitiva de troca. No r~aaf(1 ( 1988) no testo "Crescimento da
economia ~Iobal de trocas c a perda de diversidade biológica" faz uma
análise, ao longo de todo o século XX, so bre a o r~an i zação social da
produção, que P'LSSOUde uma colcha de ret,dhos de regiões praticamente
independentes para uma agricultura mundial ,dtamente homogênea e es-
peciaUzada, contribuindo para a perda da biodiversidade.
Parece difícil - sobretudo p:tra os economistas e os agrônomos -
compreender e apreender a dimensão histórica e antropológica anterior
à revolução industrial em que o mundo podia ser vi sto corn o UIll mosaico
de sistem:L" ecológicos e sociais em co-evolução, Alguns cicntistas agríco-
las têm descoberto e valorizado os agrossistcmas tradicionais (Alti eri e
Letourneau , 1982; Chacon e Gliessman, 1982) e através deles começa a
se conhecer um pouco mais a dinâmica de cultivo e co-evolução com
valores, crenças sobre a natu reza , tecnologias e organi zação social de
povos como os indígenas, por exemplo, que sobrevivem através dos sécu-
los, dos milênios e são os responsáveis diretos pela domesticação das
principais plantas hoje cultivadas. Um fornecimento conOál'el de ,dimento
era obtido pela diversidade de cultivos distribuídos espacial c tcmporal-
mente, de forma a assegurar sempre alimento. As sociedades tradicion:tis
criaram ambientes dentro dos quais ,LS plaot'Ls c os microorganismos co-
evoluiram sob pressõcs seleti vas diferentes daquelas que ocorrem em
ambientcs pouco utilizados pelos povos, assegurando a diversidade.
O desenvoh,mcnto recente, sustentado pela economia glohal das tro-
:l"" baseia-se na espec i ;~i zação c os ganhos das (rOCt" são centrais no

11/
G'ollso!tláóll l'il!lIfil1ie Ud~)1

modelo econômico neoc1{Issico. A vantagem comparativa da> diferenças


de produtilodade entre os povos justificam os g'Ulhos do comércio e 'L,
políticas de desenvolvimento voltadas para a produção de cu ltivos que
sejam commodities nos merc~tdos internacionais. Por essa razão, gran-
des regiões antes cobertas por matas nativas são devastadas e incorpora-
d'ls ao processo produtivo pelo cultivo, quer de pa>tos quer de uns pou-
cos cultivos. Assim , os agricultores tradicionais adotaram as modernas
tecnologias de sementes de alta produtividade, fertilizantes e pesticidas -
eliminando, ,,,sim , muitas das diferença regionais para poder sobreviver
neste sistema econômico.
Isso traduz-se na não mensuração da perda de biodiversidade no pro-
cesso: os economistas trabalham apenas com os fatores de produção
móveis, isto é, trabalho humano, capital e tcrra, que podem dcslocar-se
entre Unhas de produção de maneira a otimizar o benefício para todos,
em nível agregado. O processo parece estabilizador para a humanidade
como um todo mas muda completamente em nível dos indivíduos, em
termos de quem faz o que, com que ferram entas e em que terras, scm
considerar que os serviços ambientais não podem mudar livremente. IH,
portanto, uma diferença substantiva entre o que é mmJmi7"lção dos bene-
fícios econônucos propiciados pela economia global de trocas e a nova
compreensão da dinâmica evolucionária em que as espécies co-evoluí-
ram . A nova abordagem (Le"on, 1996) indica que os ecologistas não presu-
mem que espécies predefinidas - pela economia globalizada - sejam sele-
cionadas para nichos predefinidos segu ndo innuências exógenas de van-
tagens comparativas para todos. Como o /)ClbilClI não é sequer considera-
do nas an,~jses econômicas, está expUcado o avassalador impacto destru-
tivo, dado o ritmo e a quantidade de produção dos últimos 50 ,mos.
José EU da Veiga, em "Valorização econômica dos elementos do meio
ambiente", apresenta importantes considerações e as correntes de pensa-
mento de economia ambiental. Afirma:
Écrescente a opinião de que os problem::l" mnbicntais devem servistos corno mcros
defeitos na alocação de recursos, que poderi.un scrcortigidos através de I;u:ações
cspl'Cíficas. Rcs~lbclccendo-se a igual(bde enlre os Cuslos pri\'.ldos d.l 6nlla e os
CLlstos que sua alividadc inOigc à sociedade, \'olt.aria a haver coincidência elllre o
ótimo individual c o ótimo coletivo. Assim, a procura do lucro continmuia a ser a
melhor aJaV'JJ1Ca do belll-cstar social e a lógica do mercado 1~lmanl>ceria sãesalva.

112
Economia t: hiodit'(1',\illadl!

Passet rejeita - segu indo alguns raros economistas, como Nichol;L'


Georgescu-Riegen ou Kenneth E. Boulding - a idéia de que os problemas
ambicnrais possam scr assimilados a disfunções, ou a acidentes, e procu-
ra destacar a existência de um conllito entre as lógicas quc asseguram
respectivamente o desenvolvimento econômico e a reprodução da biosfe-
ra. Por isso propõe que o uso dos instrumentos an:~íticos baseados no
mercado sejam conservados, ma.s nos estritos limites de sua aptidão regu-
ladora. Essa dpida apresemação comparativa das posturas de Cairncross
e de Passet serve para ilustrar o problema que est;Í relacionado a q m~ ­
quer temativa de comabilização ambiental : a dificuldade da econom ia
lidar com a questão dos ··Iimites naturais'·. É preciso reconhecer que 'LS
teori as econômicas tenderam a eludi-Ia ao longo dos 150 anos que sepa-
raram Mahhus das 50m br;;L' previsões do Clube de Roma e que isso colo-
ca-nos diante de um dilema que deve ser, desde logo, explicitado: sení que
a "valori zação econômica dos elementos do meio ambiente" pode ser
observada C0 ll1 0 mera adaptação das atuais técnicas de avaliação e de
comabilidade social , preocupações que só recentemente passaram a ter
maior importfUlcia na formulação das políticas públicas' Em outras p:~ a­
vras, será que a problemática ambiental coloca em xeque algum funda-
mento da economia ou, ao contdrio, pode ser complementada para res-
ponder ao "novo" desafi o'
Dentro de uma lJisúo estritamente econômica, fi ;m;orporaçúo dos itnpac-
los ecológicos no processo produtivo de\'c passar pela qU:Ultificação dcstes
impactos, de fOnll:L ncgativa ou positiva, na formação do valor dosbensobtidos,
Esta incorporação tem sido impossibililada peJas limit;'lções da ciência cconô·
mica, tanto 110 que se refere ;1 conceilUa\~ão de valor, quanto ;1 perspectiva do
hori zonte de tempo. Todas 'l" escolas econômicas resistem a reconhecer um
valor na natureza em si, c têm !-iido impotentes para administrar o longo pr.IZO no
qual os resultados do impacto ecológico se m:U1ifesta com clareza (Ruarquc,
1990: 117).

113
Conso/acióll Vi/ia/mie Uflry

DIFICUlDADE:i PARA APLICAÇÃO DA ANÁliSE ECONÔMICA AOS PROBLEMAS AMBIENTAIS.

Aprimeira questão a ser considerada é a do elevado grau de incerte7.a


a respeito das relações de causa e efeilo que podem estar associadas a
certos ecossistemas. Qual o resultado efetivo de um desmatamento, no
tocante ao fluxo hidrográfico de uma determinada bacia' Sabe-se que ele
existe, mas não se sabe qual é a extensão da alteração provocada pela
mudança no uso da terra.
Uma segunda categoria de problemas surge quando se pensa em mu-
danças de modos de vida, em perdas de símbolos ou locais históricos e
religiosos ou em destnlição de patrimôrlio genético. Não é possível quan-
tificar, em termos monetários esse tipo de mudanças.
TentatiV'JS pioneiras foram feitas, segundo Naredo, por Hotelling (1931) ,
Pigou (1935) e Coase (1960). O primeiro procurou fixar preços aos
recursos naturais exauríveis, com base nas preferências intergerações. O
segundo procurou corrigir as imperfeições do mercado fazendo com que
os custos privados assunlissem os custos sociais, por meio de impostos e
de subsídios. O terceiro propôs uma internalização das externai idades
negativas mediante modificações do marco institucional.
Entretanto, o grau de arbitrariedade e as limitações desses exercícios
levaram parte dos econontistas empenhados no estudo da problemática
ambiental a abandonar
os pressupostos sobre os quais se articula a versão numérica correta do sistema
econômico, para construir outros sistemas de representação mais aptos para
regislrdr as dotações de recursos naturais e ilustrar seu comportamento. Assisti -
mos, assim, sem tulUnciá-lo, ao início de uma ruptura do monopólio que vinha
exercendo de conectá-lo com a análise de outros sistemas ... (Narcdo, 1987:70).
As "contas do patrimônio natural" começaram a ser montadas na No-
ruega, em 1974, na França, em 1978, e, mais recentemente, no Canadá.
Na América Latina, um projeto denontinado "Inventarias y cuentas deI
Patrimorlio Natur:d y Cultural" foi desenvolvido, enlre 1988 e 1990, pela
Unidade Conjunta CepaVPnuma de Desenvolvimento de Meio Ambiente.
Seu objelivo foi formular recomendações práticas e realislas que permitis-
sem incitar os responsáveis governamen~lis a elaborarem programas de
contas patrimorliais. Além de disculir os problemas concentuais intrínse-
cos à idéia de uma valoração econômica, foram efetuados Irês estudos de

1/4
Hcollomitl e biodi/lersidlldt:

ca.<o, com três metodologias distinta.<. Ao relatar as conclusões desse tra-


b,úho na Revis/a de la Cepa! (n' 41), Nicola Gtigo enfatiza a natureza
complementar das abordagens "física" e "monetária". Mais do que isso:
defende a abordagem física tomo uma espécie de etapa preliminar.
É recomendável impulsionar, em primeiro lugar, um sistema de conta..<; físicas.
[.. .1 Uma vez elaboradas a<; contas físicas, poder-se-ia eSI'lbclecer as contas
econômicas do patrimônio nanm" (G ligo, 1990: 135).
Avaliações bem diferentes aparecem no livro de Pearce, Markandya &
Barbier ( 1989) Blueprin/ for ti greell wconom)', c no Sume)' re,úizado
por peskin & Lutz (1990) para o Banco Mun,!i,ú. Depois de ponderarem
as ,,,ntagens e as de,,'antagens das abordagens física c monetária, Pearce
e suas colegas acabam propondo que o governo britânico adote a segun -
da. Ach,"ll que os recursos necessários para a impl,"l~IÇão de con~L' mo-
ne~irias são menores e os resul~ldos mais claros. Já Peskin & Lutz conside-
ram que a avaliação de cada abordagem só pode ser feita levando-se em
conta os seus propósitos específicos. E eles, de fato , diferenciam-se ba.<-
tante em tennos de complexidade e abnmgência . No entanto , apesar dessas
diferenças, requerem pratic,"nente o mesmo volume de informações.

ASPECTOS TÉCNICOS
DE \i\LOR.\ÇÃO ECONÔMICA

As técnicas de v:úoração podem ser separadas em dois grandes tipos:


{/ire/tIS e indirelt<,. A., diretas - que mais têm sido usada.< pelos econo-
mistas ambientais - tentam chegar imediatamente a valores monetários
mediante a bllsca de um mercado "substitutivo", ou do apelo c meio
experimental, isto é, de simulação de mercado. Já os procedimentos indi -
retos procuram medir preferência.< depois de terem estabelecido ,úguma
estimativa mais precisa sobre o impacto efetivo de uma determinada "dose"
de poluição. E.xigem, portanto, um V:L'tO acúmulo de dados sobre deter-
minados fenômenos, o que os torna, evidentemente, pouco operacionais.
As tentativas de estabelecer o exato relacionamento entre níveis de polui-
ção e de mortalidade, por exemplo, requerem enorme quantidade de
dados sobre as variáveis socio-econômicas e populacionais envolvid'L' .
Não é possível, nos limites deste texto, descrever com preci são a..'i lécniCil"
de valoração, mas talvez seja útil identificar as mais freqüentes. As técnicas

115
Conso/(ldón l'ilkif{llie Udry

diretas de valoração são, basicamente, três:

1. O apreçamento hedônico - bedonic pricing. Consiste no uso de


técnicas estatísticas que permitem identificar até que ponto o diferen-
cial entre ativos imobiliários se deve a uma diferença ambiental espe-
cífica, bem como inferir o quanto as pessoas estariam dispostas a
pagar pela melhoria da qualidade ambiental à qual se defrontam e o
valor social de tal benfeitoria. Uma boa ilustração são os estudos
sobre os impactos da poluição - do ar e sonora - sobre os preços
das residências re-J.lizados por Markandya (1989).
2. O método da valoração contingencial- contingent valuatiol/.1I/etbod
(CJ.1I1) . Consiste, basicamente, em perguntar às pessoas quanto elas
estão dispostas a pagar por determinado benefício ambiental, ou
quanto pretendem receber como compensação para abrirem mão
de determinado proveito ambiental já auferido. Essa enquete pode
ser feita por aplicação direta de questionários ou mediante outros
expedientes em que os entrevistados são levados e reagir a vários
estímulos, em condições laboratoriais. Exemplo de uso dessa técnica
foi o estudo sobre uma eventual melhoria da qualidade da água da
bacia do Monongallela, PennsylV'Jnia, no qual foi utilizada também ,
paf'J efeito de comparação, o TCM , "tf'Jvel-cost method". Essa expe-
riência está descrita no livro Measllring /Vater qlllllity beneflts, apud
Pe-Jrce et alii (1989 :74).
3. A abordagem do custo de percurso - travel-cost metbod (reM) .
Consiste na construção da curva de demanda de lazer para uma
determinada categoria de domicilios definida segundo característi-
cas de renda, educação, etc. Mostrando-se como essa CUfl"J se des-
loca com a melhoria das condições ambientais, pode-se deduzir qual
será o benefício econômico.
As limitações dos artifícios acima descritos são evidentes. E elas têm
pouco a ver com as óbvias dificuldades de obtenção dos dados e de
CálCldos. São, em verdade, conceituais.
t:t

JJ6
QI'.\t>l<O I

Rl'Iarú{) tias 1t;(lIicas di' mloraçrio lemufada:i. com m ' rc,\p('clil'o,\'


illdicat/rm.","uen'ssfÍrios e recursOs pass/Í'eis de Sl'rem m/oradosjJellI.\' lIIesllltI.\-

'l'Ú"l lic:lS IItil i/:t !l a.~ pa ra ; ! \'alor:.":",, , 11" rÍ'l' lIr~,f'> til' usu dird ll . 1'I ,mI KlI1\' IIh'~ l~ tnllllf,; , b:
TI:t"lI i c. l ~ .11' \ :llnr:I\';'' '' Indicldon" =',·n· ~~:iriH "

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~..\1J"I.!!.\!I,,, II~" 'I'm "d"l Ih.- 1l1o:1 •. I.!"
,., 1'" ,\· ",.k ,-,:u, ' 111 " 111111'" I'nÍ\I IIIIl\ ;
,I 1·".:ri':I'·lI t ~· .\': um" ·I'."" .1.., 1<... PI'"III/I<I'"
nu ' 1I1 ,l1lll<l. l<k, ' '''1111\ ,Iklll," .i<' 1"'11,
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,. ( 'ust" de "1'''llurm1.uk IlIlh n.- lo ,I) tellll'O ,''' "~ , I "n\.. ,)'.k l"kl,1 1I.·'I'I\: llIlrdo p.IT ••

1» ~ I"'<),' III~ O''rl<l O~ \jl1:II HI" d .1 1'<: .<l 1I .1Ç;10 Ik


.111\1\.1 " <1,,, , 000II'1\:lh .• 1\10.', ",11. \1 1, " o.' ( U'IO~
li \t }). p.I [.:'" n.1 .I ~ n n lltur .1, <.'I ~, I
.11 'pl.lllu,I.,,1<' .t,,, IINI IIKl' ' Iur:' . k l\. \l n de' ,,'r
IUlI,n n.I< j, ,, 1'1\:1.1 111,1 1/,,\.11' d.· n: L IITSOS 11 .'
I'rúpri.ll q:I.UJ.
\ " p ro.'~' o~ <I,' IIl<.'rl"ldo ,I.:"l'~ 1I1 5l1 l l11"

, \ l, . ~I~r.I\.!!" II ~
5. \ l étod .. . 1", nl ~ I , ... d,' li.lgl'm (I( '\I · 'I r.l\l'I .1' IIIlIIl<.'fIl , li' 1"',"I),I\ . \110.' lr,·qlll·UI.IIII ,I re ~I.,, ' ,
( '0 ' [' \ k lh..J I 1)o,I I.II \ .....k 1~·I1.t , 1 ,'[.111 •• , HU'·" ·, ....·,. o.' l C
1> . t",trlll.JlI \ ,I' ,k ;:.I~I '" I'U! 1,," ~n.l l· 1"'11 dr.I l'llln
1t'1.,~' ;'"'' 11,'1\' , 0111" " l J11I<'1\1.I~ .I", tr .lIISp.Ht,·.
L'q.II.lr;r '.I " ' · '
, 1 I r"ljll ': nl I,' d,'''.", \ ,'li." I' 1'1"1"·II \.' .. ·.,·p.,).:."
.k"." 1\'''''.... I"' \.' III.IIlUl,·II,-... ' l I.: n:t: u r ",\
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D rJ'.\LlI.\~ II'S rn DE ,\ I ETO]X)I.()( ;I,\!" ])E


v'\J.( )]UÇ\() EU)\'Ô,\11 C.\

() valor l'cunúmico do!" !'l'cursos :ulIhit'llI:tis n:i.o ~ã() gLTalllll'ntl' obser-


d\'l'is no mercado por pn." os quc reflitam seu custo de oportunidade.
Corno, então. identificar esse \'alor c(onôl1li(o '~ Relacionamos, a seguir, na
integra, a rl'sposta a l'ssa questão a partir da síntesl' e da metodologia l'1Il
15 fun<;õcs detalhadas no ·· Manual para ,.alora\·ão econôm ica de recu r-
sos :unhicntais" coordenado por Ron ;~do Sl'roa da Mota.

// 7
Omso/acióll Vílltifmie Udry

QUADRO 2

Técnicas utilizadas para a valoração de recursos de uso indireto -funções


ecológicas desempelllJ<UÚJs pelo ecossistema

81 . méuxlOli de valoração dOli (bnos causados'


6 • Método dos c ustos de substituição das a) estilOOtiv;1 do alcance e/oo da exte nsão dos
fu nções ambientais: bens protegidos por urna dada função do
ecossistema~
b) custos de estruturas :u1ificiais que possam
manter essas funções.
7 . Método do valor das mudanças na ,I) estimativas dos valores gerados pe las
produti vidade: ati vidades econômicas existe ntes na região:
b) estilOOtivas das alter.lÇôcs nesses valores
provocadas pela perda de un1.' dadll fun ç:lo
ecológica desempenhada pelo ecossistema da
regiãO.
B - MélodOli dos custos de restauração: a) extensão dos d:1P0Ii causados pela perda de
(lidas funções ecológicas:
b) cuslOli de "reSL:IUr.lção" dessas funções .
9 . Métodos dos custos compensatórios. a) extensão os d:IPOS causados pe la perda de
dadas funçÕl!s ecológicas:
b) valores u serem pagos pUrol se "compensar"
essas perdas.

82 - métcxlos de valorJcão dos danos ootenciais'


10 - Métodos das despesas preventivas: a) valor dos bens e das propriedades protegid:ls
pela existêndu de determinadas funções
ecológicas desempenhadas pelos ecos.sistema~
b) custOli de manute nção das condições
ambient;lis que usam essas funções.
11 • Métodos de prevenção dos danos causados :
12 - Métodos d05 preços hedÔnicOli (hedonic :1) dados sobre o grau de imllortânci;I, de
pricing) iDferesse, de freqüência que indiquem a
propensão-a·pagar das pessoas iX1r.! a
manutençào das funções ani)ient;us do
ecossistcml ;
b) numero de pessoas que esl;"Io dispostas ;I
lnanter essas funções do ecossiste ma.
13· Métodos do valor de oporlUnidade: a) valor gcrddo pela existência de uma funç:.l0 em
relação a uma outra situação onde a mes ma
não exista.
14 - Mélodo dos custos de cli mi naç:lo: a) valor mooelário de medidas que previnam a
perda de dadas(s) funçào(õcs) ecológicas
existentes.

Primeiro, devemos perceber que o valor econômico dos recursos am-


bientais é derivado de todos os seus atributos e, segundo, que esses atri-
butos podem estar ou não associados a um uso. Ou seja, o consumo de
um recurso ambiental se realiza via uso e não-uso.

118
Economia e lnodül('rsit!lIt/e

Q UADRO 3

Técnicas UtiliZlllftlS para a valoração de recursos


de lIiio-ulilizaçtio 0 11 de jJresen)(Jção - atributos do ecossistema

15 . Método do custo de oponunilLde: :I) estint.lli\'a dos cuSIOS de impklllenla{ão e


oper.lCiona l i z;I~"ào de projetos econômicos
ahemali\'os p:lssh'ns de serem dcsenvol\'idos
na regi:lo:
b) \";ll01"l:s d ls n:ndas e/ou produlOS Gl.'rJdos por
ess.:ls atividades: 2!.!
c) e stilll;ll i\';ls !ló\f ;1 os \";llun:5 dos c ustos c tios
imp;lClos soei;,i s c amhientais r.;;msados por
eSI;IS ;Iti\"idades.
16 . 1\Utodo de valora{lo comigcocial :1) e~lim;llh'a doI prollt'ns;jo-;I-p;lgar dos
(Conli1!c nt valuóllion Il1Cthod · CV M) habitanlcs e dos fn'(II\eIll:ldores da R'1!i:lo
pe la preserv:lI;ão dos atribulOs dcSSt'
ccossislema .
h) c:sti nt.lIiva do núnlt'ro de pCSSO:IS tjlll'
fr('qUent:LIll I.' tlls quo.' gOSI;lri:l1ll dI.' contrihuir
P:U;I que os mesmos sl.'jam l'fl,tivamt'nlt'
conservados.
17 . M étodo do valor de ClpI,':lo: a) unil"idadc do n'ossis lt'1Hó1 c impnrt;"J n<."ia \In
n'lt'smo jXlrJ ;\ m.anutenção ou como suporte
p;lról os t'Cossisle nns ;Idj.lcenles:
h) possihilidadc ou não dc se rccupo:rar ou o ~rólU
dt: irrt'versibilil1uJc sobre o ccossiSlt'l1t.1. tLld;1
a n :orrinci:a d(" alguns illllXlCIOS ou allcr.I~·~s
provocados sobn: o ITlt's nlO.

Um bem é homogêneo quando seus atributos ou suas características


que geram satisfação de consumo não se alteram. Outros bens são, na
verdade, parte de classes de bens ou serviços compostos. Nesses casos,
cada membro da classe apresenta atributos diferenciados, como, por exem-
plo, automóveis, casas, viagens de lazer c, também, recursos ambientais.
Logo, o preço de uma unidade j do bem X, P . , pode ser definido por um
I. 1n

vetor de atributos ou características, a._ , tal que:



( I)

No caso de um recurso ambiental, os fluxos de bens e serviços que são


derivados do seu consumo, definem seus atributos.
Entre~lnto , existem também atributos de consumo associados à pró-
pria existência do recurso ambiental , independentemente do fluxo atual e

119
C01/,I'olació1/ Vil/afafie Udr)'

futuro de bens e serviços apropriados na forma de seu uso.


Assim , é comum na UtenHura desagregar o Valor Econômico do Recur-
so Ambient:d em, v:dor de uso (VU) e valor de não-uso (VNU).
Valores de uso podem ser, por sua vez, desagregados em:
I. Valor de uso Direto (VUD) - quando o indivíduo se utiliza atualmen-
te de um recurso, por exemplo, na forma de extração, \isitação ou
outra atividade de produção ou consumo direto;
2. Valor de Uso lI/direto (VUI) - quando o benefício atual do recursos
deriva-se da, funções ecossistêmicas, como, por exemplo, a proteção do
solo e a estabilidade cUmática decorrente da prcsc"llção das Oorestas;
3. Valor de Opçâo (VO) - quando o indivíduo atribui valor em usos
direto e indireto que poderão ser optados em futuro próximo e cuja
prese,,'ação pode ser ameaçada. Por exemplo, o benefício ad\indo
de fármacos desenvolvidos com base em propriedades medicinais,
,linda não descobertas, de plantas de florestas tropicais.

o \~tlor de não· uso -ou valor passivo - representa valor de existência


(VE) que está dissociado do uso - embora represente consumo ambien-
tai - e deriva-se de uma posição moral , cultural, ética ou altruística em
relação aos direitos de existência de espécies não-humanas ou preserva-
ção de outras riquezas naturais, mesmo que essas não representem uso
atual ou futuro para o indivíduo. Uma expressão simples desse valor é a
grande atração da opinião pública para o salvamento de animais em extin-
ção em regiões remotas do Planeta, onde a maioria das pessoas nunca
visitarão ou terão qualquer benefício de uso.
Há também controvérsia na literatura a respeito do valor de existência
representar o desejo do indivíduo de manter certos recursos ambientais
para que seus herdeiros, isto é, gerações futuras usufruam usos diretos e
indiretos - bequest value. É uma questão conceitual considerar até que
ponto um valor assim definido está m,lis associado ao valor de opção ou
de existência. O que importa para o desafio da valoração é admitir que
indivíduos podem assinalar valores independentemente do uso que eles
fazem hoje ou pretendem fazer amanhã.
Assim , uma expressão para VET está expressa, a seguir, na Tabela 1.
É de se observar, entretanto, que o tipo de uso pode excluir outro tipo
de uso do recursos ambiental. Por exemplo, o uso de uma área para a

120
ECONomia e biodilll:rsültule

TABElA I

I'tI/or Econômico Tolal- VEr


Recurso GellélicoAgrícola

Valor dl' Uso Direto Valor dl' Uso Nilo oso

Indireto

Mrlhora mrnto Rr<Trath'o O~ Dh"rrsidadr Valor dr E:ti'itm(Q

Reçursos {:enélicos n;1



x X
I . In vCllt:lrio x X X X
CoIeç50
I. E, siw X X
2. In situ X X X X
.l. Na fazenda X X X X
AV:lliação
4. A:;rotlÔlIl ica X X X X
5. <Xnética X X X
Int ..'Te,lnlbio
6. Sistema de Informação X X
7. Restri ção X X
rré -n.elhoran.ento
[. Coocl usJode \';.ricdades
n:llura i,
X
X
2. Linhas av~nçadas X X
Melhoramento :;enétieo
3. Centros intc:macionais X X
4. Progra mas Naciooais X X
5. Setor Pri vado X X

agricultura exclui o seu uso para a conservação da floresta que cobria


esse mesmo solo. Assim , o primeiro passo na determinação do VET será
identificar o conOito de uso. O segundo, será a determin:lção dos valores.
É enorme o gnlu de dificuldade para encontrar preços de mercado -
adequados ou não - que rellitam os valores atribuídos aos recursos am -
'I
bientais. Essa dificuldade é maior medida que passamos dos v,dores de
uso para os valores de não-uso. Os valores de li SO indireto apresentam
maior dificuldade que os de uso direto. Conforme procuramos demons-

/21
COf/solaciólJ Vílkljillie Udry

trar até agora, a tarefa de valorar economicamente um recurso ambiental


consiste em determinar a qualidade do bem-estar das pessoas em conse-
qüência de mudanças na quantidade de bens e serviços ambientais, seja
na apropriação por uso ou não.
Assim, os métodos de valoração ambiental corresponderão a esse ob-
jetivo à medida que forem capazes de captar essas distintas parcelas de
valor econômico do recurso ambiental. Todavia, conforme será discutido
a seguir, cada método apresentará limitações nessa cobertura de valores,
a qual estará quase associada ao grau de sofisticação - metodológica e de
base de dados - exigido, às hipóteses sobre o comportamento dos indiví-
duos consumidores e aos efeitos do consumo ambiental em outros seto-
res da economia.
Tendo em vista que tal balanço será quase sempre pragmático e decidi-
do de forma restrita, cabe ao anaUsta que valora explicitar, com exatidão,
os limites dos valores estimados e o grau de vaUdade de suas mensurações
para fim desejado. Conforme será discutido a seguir, a adoção de cada
método dependerá do objetivo da valoração, da hipóteses assumidas, da
disponibilidade de dados e conhecimento da dinâmica ecológica do obje-
to que está sendo valorado.
"Os métodos de valoração aqui anaUsados são assim clasSificados: mé-
todos da função de produção e métodos da função de demanda.
Método da Função de Produção - Métodos da produtividade marginal e
de mercados de bens substitutos - reposição, gás defensivos ou cus-
tos evitados e custo de controle. Se o recursos ambiental é um insumo
ou um substituto de um bem ou serviço privado, esses métodos utili-
zam -se de preços de mercado desse bem ou serviço privado para
estimar o valor econômico do recursos ambiental. Assim, os benefí-
cios ou custos ambientais das variações de disponibilidade desses
recursos ambientais para a sociedade podem ser estimados. Com
base nos preços desses recursos privados, geralmente admitindo
que não se alteram perante essas variações, estima-se indiretamente
os valores econômicos - preços-sombra - dos recursos ambientais
cuja variação de disponibilidade está sendo anaUsada. O benefício -
ou custo - da variação da disponibilidade do recurso ambiental é
dado pelo produto da quantidade variada do recurso vezes o seu
valor econômico estimado. Por exemplo, a perda de nutrientes do

122
HCOllomUI e modit'(:rsü/ade

solo causada por desmatmnento pode afetar a produtividade agríco-


la. Ou a redução do nível de sedimentação numa bacia, por conta de
projeto de reveget:tção, pode aumentar a vida útil de uma hidrelétri -
ca e sua produtividade.

Mé/odos da Funçâo de Demanda - Métodos de mercado de bens com-


plement:tres - preços hedônicos e dos custos de viagem - e método
da v:doração contingente. Es.,es métodos assumem que a variação da
disponibilidade do recursos ambient,d ,dtera a disposição a pagar ou
aceitar dos agentes econômicos em relação àquele recurso ou seu
bem privado complementar. Assim , esses métodos estimam direta-
mente os v:dores econômicos - preços-sombra - com base em fun-
ções de demanda para esses recursos deriv:,das de
a. mew,dos de bens ou se";ços privados complementares ao re-
curso mnbicntal, ou
b. mercados hipotéticos construídos especifi camente para o recurso
ambiental em an{dise.
Ao se empregar fun ções de demanda, o método permite captar as
medid'L' de disposição a pagar - ou a aceitar - dos indivíduos rela-
tiV'L' às ,,,ri ações de disponibilidade do recurso ambiental. Com b'L,e
nessas medidas, estimam-se as variações do nível de bem-estar pelo
excesso de satisfação que o consumidor obtém quando paga um
preço - ou nada paga - pelo recurso, abaixo do que estlria disposto
a pagar. Essas variações são chamadas de variações de excedente do
consumidor diante das variações de disponibilidade do recurso
ambientu. O excedente do consumidor é, então, medido pela árc-.1
abaixo da curva de demanda e acima da linha de preço. Assim, o
benefício - ou custo - da variação de disponibilidade do recurso
ambiental será dado pela variação do excedente do consumidor me-
dida pela função de demanda estimada para esse recurso. Por exem-
plo, os ~lIstos de viagem que as pesso;:l"i incorrem p,lra visitar U111
parque nacional podem determinar un", aproximação da disposi-
ção a pagar os benefícios recreacionais do parque. Es."1S medid'L' de
disposição a pagar podem também ser identificadas em pesquisa
que questiona - junto a amostra da população - v:dores de paga-
mento de um imposto para investimentos ambientais na proteção da

123
CONsoladóN JIiIlafiuie Utlry

biodiversidade. Identificando essas medidas de disposição a pagar,


podemos conSlruir as respectivas fun ções de demanda.

Os dois métodos podem, de acordo com suas hipóteses, estimar vaIa-


res ambiemais deril".ldos de funções de produção ou de demanda com
base na realidade econômica. Na medida em que esses v-.uores - custos
ou benefícios - possam ocorrer ao longo de um período, emão, será
necessário identificar esses v:dores no tempo. Ou seja, identificar l".dores
resuhantes não somente das condições atuais, mas também das condi-
ções futuras. A prospecção das condições fUluras poderá ser feita com
cemirios ,~ tcrn ativos para minimil"ar seu alto grau de incerteza. De qual·
quer forma, os v:dores Ieda de ser descamados no lempo, isto é, calcula-
dos seus valores presemes c, para tanto, há que se utili lllf uma taxa de
desconto soci,d que difere daquela observada no mercado devido às suas
imperfeições, embora possa afetar significatiV:lmente os resultados de uma
análise de custo-benefício.
No contexto ambiemal, a complexidade é ,linda maior. O valor dos
recursos ambientais, por exemplo, delido à sua possibilidade de esgota-
mento, tende a crescer no tempo se admitirmos que seu uso aumema com
o crescimento econômico. Como estimar essa esca~sez funtra e traduzi-Ia
em valor monetário é questão complexa a exigir certo exercício de
futu rologia. Alguns especial istas sugerem o uso de taxas de desconto me-
nores para os projetos nos quais se verificam benefícios ou custos am-
bientais significativos ou adicionais dos investimentos necessários para
eliminar o risco ambient:d. Na análise metodológica a ser desenvohi da
nesta Parte I, considera-se que os custos e os benefícios ambientais serão
adequadamente valorados e que cenários com mores distintos para taxa
de desconto devem ser utilizados para av-dliar sua indeterminação.

MÉTODOS DA F UNÇÃO DE PRODUÇÃO

Uma das técnicas de valoração mais simples c, port,ullo, longamente


UliUzada é o método da função de produção. Nesse método, observa-se o
valor do recurso ambiental por sua contribuição como insumo ou fator

124
EcoJ/omío e bíodífiersidiUle

na produção de um outro produto Z, isto é, O impacto do uso de E em


uma .uividade econômica.
Assim , estima-se a variação de produto de Z decorrente da vari'tção da
quantidade de bens e serviços ambientais do recurso ambiental , c utiliza-
do na produção de Z. Esse método é empregado sempre que é possível
obter-se preços de mercado para a variação do produto Z ou de seus
substilUtos. Duas I"Jriantes gerais podem ser reconhecidas: método da
produtividade margi nal C método dos bens substitutos.
A seguir discutiremos em separado a parte teórica dessas variantes,
embora a parte da avaliação de vieses e orientações seja apresentada em
conjunlo.
Para entender melhor as premissas dos métodos com base em função
de produção, vamos elaborar em m,ús detalhes sml constituição analúica.
Suponha uma fun ção de produção de Z, tal que o nível de produção de Z
é dado pela seguinte expressão:

Z = F(X, E) (3)

Onde Xé um conjunto de insumos formado por bens e serviços priva-


dos e E representa um bem ou serviço ambien!al gerado por um recurso
ambiental que é utilizado gramilamenle, ou seja, seu preço de mercado 1\
é zero. Note que E representa, assim , um valor de uso na produção de Z.
Sendo p,e P, os preços de Z e X, a fun ção do lucro (p) na produção de
A seria:
1! = p, Z - P, X - P, E = P, F (X, E) - p" X (4)

o produtor ajusta assim a lItili7..t1ção de seu insumo de forma a maximi·


zar (p) seu lucro. Assumindo que a variação de Z é margimd e, portamo,
não altera seu preço, a vari ação de lucro seria:

dp/dX = P, dF/dX - 1\ = O (5)


e
dp/dE = P, dF/dE (6)

Ou seja, a variação de lucro do usuário de E é igual ao preço de Z


mul!iplicado pela variação de Z quando varia E.

125
Omsolacióll VillaJáiie Udry

MtrODO DE PRODlnlVIDADE MARGINAL

FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

o método da produtividade marginal assume que p., é conhecido e o


valor econômico de E (VEE) seria:

VEE = p2 dF/dE

Observe que VEE, nesses casos, representa apenas valores de uso dire-
tos ou indiretos relaÚvos a bens e serviços ambientais utilizados na produ-
ção. Vale ressaltar que a estimativas das funções de produção F não é
Irivial quando as relações tecnológicas são complexas.
Além do mais, as especificações de E em F são difíceis de serem capta-
das diretamente na medida em que E corresponde geralmente a fllLXOS de
bens ou serviços gerados por um rL'Curso ambiental que depende do seu
nível de estoque ou de qualidade. Logo, se faz necessário especificamente,
as funções de dano ambiental ou as funções dose-resposta (DR) onde:

E = DR (x, x, .... Q) (8)


Onde x, é a V'Miável que, junto com o nível de estoque ou qualidade Q
do recurso, afetam o nível de E. Assim,

dEO = dDRldQ (9)

Essas funções DRs procuram relacionar a V'Jriação do nível de estoque


ou qualidade - respectivamente, taxas de extração ou poluição - com O
nível de danos físicos ambientais e, em seguida, identificar o efeito do dano
físico - decréscimo de E - em certo nível de produção específico.
Um exemplo de DR está na relação do nível de poluição da água (Q)
que afeta sua qualidade - E, que, por sua vez, afeta a produção pesqueira
i. Outro exemplo é o nível de uso do solo (Q) que ;úeta a qualidade do
solo (E) e, assim, afeta a produção agrícola (Z).
Deterntinada a DR, é possível então, estimar a varia,lo do dano em termos
de variação no bem ou serviço ambiental que afeta a produção de um bem.
Funções de danos podem, contudo, apresentar mais dificuldades que

126
Eamomía e biodiversidade

as funções tecnológicas de produção à medida que as relações causais em


ecologia são ainda pouco conhecidas e de estimação bastante complexa. As
relações ecológiC'JS requerem estudos de campo mais sofisticados e a con-
sideração de um número maior de variáveis. Questões como resiliência e
capacidade assimilativa não permitem a determinação de formas funcio-
nais simples para as DRs e suas respectivas funções de produção.
Dessa forma, antes de avaliar os viés estimativo dos métodos da pro-
dutividade marginal, examinaremos os métodos que recorrem a mer-
cado de bens substitutos com procedimentos semelhantes ao da produtivida-
de marginal.

MÉTODOS DE MERCADO DE BENS SUBSTlTIJIOS

Outros métodos que utilizam preços de mercado - e, na hipótese de


variações marginais de quantidade de Z devido à variação de E - podem
ser adotados com base nos mercados de bens substitutos para Z e E. Esses
métodos são importantes para os casos em que a variação'de Z, embora
afetada por E, não oferece preços observáveis de mercado ou são de
difícil mensuração. Casos típicos seriam aqueles que Z é também um bem
ou serviço ambiental consumido gratuitamente, ou as funções de produ-
ção elou dose-resposta não estão disponíveis, ou, ainda, encerram um
esforço de pesquisa incomensurável.
Um decréscimo do nível de qualidade da água Q das praias resulta em
decréscimo de uma amenidade E que é um serviço ambiental de recrea-
ção, cuja cobrança pelo seu uso não existe ou é limitada.
Embora a provisão de E seja gratuita, a perda de sua qualidade ou
escassez pode induzir ao uso de outros bens para realizar substituições
de E. Ou seja, aumenta a demanda por substitutos perfeitos (S) de E.
Substitutos perfeitos são aqueles em que o decréscimo de consumo de
uma unidade pode ser compensado pelo uso de outro recurso por uma
magnitude constante. Logo:

Z = F (X, E + S) (10)

Assim, para manter o produto de Z constante, uma unidade a menos de


E será compensada por uma unidade a mais de S. Logo, a variação de E

127
Co!/so!ac;ión Vil!aflule Udry

será valorada pelo preço de S (P), observável no mercado. Essa substitui-


ção fará com que os usuários incorram em um custo privado no consumo
do bem substituto C, = Pc D E. Ao pensar em uma firma como usuária de
E, existirá na função de lucro um custo C, que será igual ao valor da
produtividade marginal de E. Dessa maneira, o custo C, refletiria o valor de
uso para firma derivado do recurso E.
Da mesma forma, os indivíduos em suas funções de utilidade podem
encontrar substitutos perfeitos para o produto Z que consomem quando
sua disponibilidade se altera, devido a variação de E. Logo:

(l1)

Onde U (Z + S, Y" ... , V") é denominada como função de produção


familiar e Y os bens da cesta de consumo familiar. No caso, U pode ser
também expressa por uma função de gastos - ou dispêndios - familiar.
°
Assim, reduzindo uma unidade de Z devida a dE, valor de uma unidade
de Z será P,. Nesse caso:

VE, = 1\ dU/dE ( 12)

Portanto, existirá um C, positivo na fun ção de gastos dos indivíduos


equivalente a p,DZ. Note que esses métodos também admitem que varia-
ções de E ou Z não alteram preços dos seus substitutos e, portanto , não
induzem a variações do excedente do consumidor e produtor.
Assim , com base em mercados de bens substituídos podemos genera-
lizar três métodos que são normalmente de fácil aplicação, como se segue:

Custo de reposição - É quando o custo C, representa os gastos incorri-


dos pelos usuários em bens substituídos par.! garantir o nível deseja-
do de S ou E. Por exemplo: custos de reflorestamento em área des-
matadas para garantir o nível de produção madeireira; custo de re-
posição de fertilizantes em solos degradados para garantir um nível
de produtividade agrícola; ou custos de construção de piscinas pú-
blicas para garantir as atividades de recreação balneária quando as
praias estão poluídas.
Gastos defensivos ou ClIstoS evitados - É quando C, representa os gastos

/28
/:'nJ1/owia /' biodiJ 't'r."üklde

que seriam incorridos pelos usuários de bens substitutos para não


alterar o produto de Z que depende de E. Por exemplo, os gastos com
tratmnentQ de água - compra de água tratada - que são necessários no
caso de poluição de m<uuUlciais; os gastos com medicamentos para
remediar efeitos na saúde causados pela poluição; ou gastos de re-
construção de ,íreas urbanas devido a chei'Lx de rios causadas por
excesso de sedimentação em \;nude da erosão do solo.
CUS/O,I' de cOII/role - Danos ambiel1lais poderiam ser também valorados
pelos custos de controle que seriam incorridos pelos usu,írios para
evitar ,\ variação de E, Qual1lo, por exemplo , as empresas ou famnias
deveriam gastar em cOl1ll'Ole de esgotos para el;tar a degradação dos
recursos hídricos. Esscs ClIstos poderiam ser considerados como
investimentos necessári os para c\itar a redução do nírel de estoque
do capit,d natural. Esse método é mais empregado em cont'Lx am-
hientais associad:l'i a contas nacionais. de forma a represcntar inves·
limenlos necess;Írios para compensar o consumo de capi tal natural.

Note que a hipótese de substituição assume a existência de substitutos


perfei tos que encerram ti mesma fun ção do recurso amhiental. Essa pos-
sibilidade, en tretanto, é difícil de ocorrer no mundo real. Os bem; e servi·
ços pri\"ldos serão substituídos apenas por al ~ul1las características dos
hens e serviços amhientais. No caso de praias poluídas. por exemplo, os
valores estimados poderiam scr investimentos em atividades em piscinas
públicas, ou gastos defensivos para e\;tar doenças de veiculação hídrica,
ou mcsmo investimentos cm ati,;dades de controle da poluição. Em todos
os (;lXOS acima, a hipótese de substituição perfei ta não se ap ~ caria ,
Mesmo que isso seja possível, se E somente captura alguns bens c
serviços ambientais, então S também renetirá essas parcelas. Ou seja, é
muito difícil identificar um substituto perfeito de recursos ambi entais,
mesmo por investimentos sem reposição, Conseqüentemente , o uso de
mercados de bens substitutos pode induzir a subestimações do valor eco-
nômico do recurso ambient,d ,
Outra variante do método de hens e serviços privados substitutos é o
método do custo de oportun idade, Esse método mensura as perdas de
renda nas restrições da produção e consumo de bens e sef\;ços privados
deVido às ações para conservar ou para presc l\'~l r os recu rsos amhientais.

129
Conso/adón 1'i11l1jillie lldry

bse método simplesmente indica o custo econômico de oportunidade


para manter o fillXO de E, isto é, a renda sacrificada pelos usuários para
manter E no nível atu:d. Por conseguinte, esse método é amplamente utili-
zado para estimar a renda sacrjficada em termos de atividades econômi·
cas restringidas pelas atividades de proteção ambient,d e, assim , permitir
uma comparação desses custos de oportunidade com os benefícios am-
bientais numa análise de custo-benefício.
O método do custo de oportunidade não vaIara diretamente o recurso
ambiental e sim o custo de oportunidade de mantê-lo. Por exemplo, não
inundar uma área de Ooresta para geração de energia hidrelétrica signifi-
ca sacrificar a produç.ão dessa energia ou criar uma reserva biológica
significa sacrificar a renda que poderia ser gerada por usos agrícolas
nessa área.

VI ÉS ESTIMXfIVO DOS Mf1"o OOS OE FUNÇÃO OI' PROOUç.'O

O " dor de E - quando é identificado como insumo, dado pela expres-


são (7) - consegue apenas reOetir as variações de produção de Z quando
E varia. Ou seja, apemts capta os valores de uso direto e indireto que E
oferece para a geração do Ouxo de produção de Z. Assim, valores de
opção e existência não podem ser capturados com esse método. Dessa
forma , o método de produtividade subestima o valor correto de E nos
casos onde v:dores de opção e existência são positivos.
Quando mercados de bens substitutos são utilizados, a possibilidade
de perfeita substituição determinará a cobertura das parcelas do \,<dor de
opção, embora o v-dlor de existência não seja também captado uma vez
que se admite substituição.
Se a variação de E altera os preços P, e P" então ocorrerão ajustes em
outros setores que resultarão em variações no excedente do consumidor
de Z, c seus bens substitutos ou complementares, c também no excedente
do produtos de quem utiliza Xe seus bens substitutos ou complementares.
Tais ajustes, em outros mercados, somcnte seriam passíveis de idcntifica·
ção em modelos de equi~1Jrio ge"d que requerem uma alta sofisticação
estatística e de base de dados. Assim , existindo evidências de alterações
significati"ts de preço, o método de produtividade determinará valores
incorretos de E, em termos de v-driaçl0 de bem-estar, que poderão estar

130
lanlo subeslimados como supereslimados, dependendo da magnilude e
sin:d das variações de excedenle.
O preço de mercado de Z ou Xpode não ser uma boa medida do CUSIO
de oporlunidade de Z ou X, ou seja, o respeclivo preço de eficiência.
POrlanlo, o valor da produli,;dade marginal de E pode eslar incorrelO
mesmo para caplar valores de uso. Nesse caso, o viés estimalivo depende-
rá do nível de dislOrção exiSlenle na formação do preço de Z ou X. A
correção desse viés elimina o \~és acima, mas permite uma estimativa mais
correia do valor de uso.
Os mélodos de preço de mercado de variações marginais analisados
neSle arligo aplicam-se, na maioria das vezes, de m:U1eira muilo simples. A
11lilização de preços de mercado garanle uma medida mais objeliV'J do
v,dor econômico do recurso ambielllal para o público em geral , uma vez
que represelllam valores reconhecidos no mercado. Talvez seja esse o
mOlivo da m:tior lIIilização desses mélodos e l:unbém de sua predileção
em meios profissionais que lidam com valoração ambienlal. No enlanlO,
as eSlimalivas que oferecem não eSlão livres de reslrições.
Alimilação mais imporlanle seria a não coberlura de valores de opção
c cxhtência. Todavia, vaJe ressaltar que, em vários casos, a simples identi-
ficação de v-alores de uso perm ile ao analisla descaflar ou ajuslar decisões
de inveslimenlO que gerem um uso m,tis efi cienle do recurso ambienlal
em :U1{dise. Para lanlO, há de se conhecer com precisão as relações enlre
alividades econômicas e meio ambienle.
Mesmo quando as funções de produção e são bem eSlimadas, idelllifi-
cam-se ,;eses eSlimalivos imporlanles que aponlam para a necessidade de
se considerarem ajusles de mercado - alieração de preços e quanlidades
consumidas. Embora V'J riações de preço e quanlidade possam e devam
ser melhor capladas com modelos de equilíbrio geral - que avali:U11 os
efeilos inlra-selOriais na economia devidos à a1leração de pOnlOS de equi-
~brio em delerntinado mercado - , as eSlimaliV:l~ das variações de bem-
eslar dependerão da inlrodução de medidas de excedenle do consumi-
dor com base na disposição a pagar e a aceilar. Essa sed a queslão celllral
dos mélOdos apresenlada a seguir.
Assim , os mélodos de função de produção são ide,tis, principalmenle
para " dorações de recursos genélicos, cuja disponibilidade, por serem
imporlanles insumos da produção, aiela o nível do produ lO da economia.

131
COllso/tuwn lIilla/mie Udry

Embora o método da produtividade marginal ofereça indicadores mone-


tários bastante objetivos e com base em preços observáveis de mercado, o
analista deve ter cuidado para que as mensurações, aparentemente tri-
viais, não se tornem enviesadas e vazias de conteúdo econômico. Para
evitar tais situações, recomenda-se:
I. Analisar se o preço de mercado do bem - semente melhorada - , o
qual sendo utilizado para a valoração, reOete seu custo de oportuni-
dade - preço-sombra. Caso não reDita, realizar os ajustes de forma a
corrigir os preços.
2. Determinar o impacto, em termos de produção, devido à variação da
disponibilidade do recurso genético, para avaliar a hipótese de pre-
ços inalterados, caso existam evidências sobre significantes altera-
ções de produto que afetariam o nível de preço.
3. Avaliar, criteriosamente, a confiabilidade das funções de produção e
de dano e da base de dados a ser utilizada. Evitar utiüzar em um local
as funções estimadas para um outro local, dado que as condições
ambientais ou de oferta de recursos ambientais são quase sempre
distintas. Note que cada função reOete a tecnologia local e sua base
de recursos ambientais.
4. Oferecer uma dimensão clara e específica da parcialidade das esti-
mativas dos ",a1ores de uso estimados em relação a outros ",a1ores de
uso e de não-uso que fazem parte de valor econômico total, mas que
não foram estimados.
5. Realizar, sempre que possível, análises de sensibilidade com parâ-
metros que afetam os resultados.

MtrODOS DE FUNÇÃO DE DEMANDA

Os métodos de função de produção analisam casos onde o recurso


ambiental está associado à produção de um recursos privado e geralmen-
te assumem que as variações na oferta do recursos ambiental não alteram
os preços de mercado. Os métodos de função de demanda, por outro
lado, admitem que a variação da disponibiüdade do recurso E altera o
nível de bem-estar das pessoas e, portanto, é possível identificar as medi-
das de disposição a pagar - ou aceitar - das pessoas em relação a essas
variações. Identificar a função de demanda D para E, o ",a1or econômico

132
Economia (! bioditoersidm!e

de uma variação de E seria dado pela variação do excedente do consumi-


dor (DEC) , tal que:

P'
MC =
f P,
/\'pd ( 13)

onde P, e P, são as medidas de disposição a pagar - ou aceitar - relativas


à variação da disposição de E.
Duas variantes desse método podem ser generaüzadas: métodos dos
bens complementares - preços hedônicos e custo de viagem - e método
da valoração conti ngente.

Mtrouos DE MERCADOS DE BENS COM PLEMEt\TARES

Da mesma forma que mercados de bens e serviços privados substitutos


a bens e serviços ambientais podem oferecer medidas de valor de uso dos
recursos ambientais quando rep resentam a produção de um bem de
demanda final que não tem preço observável, também mercados de bens
e se,,~ços privados complementares a bens e serviços ambientais podem
ser utilizados para mensuração do ,"alar de uso de um recurso ambiental.
Bens perfeitamente complementares são aqueles consumidos em propor-
ções constantes entre si.
Dessa forma ) uma análise que recorra aos mercados desses bens ou
sen~ ços privados complementares pode gerar informações sobre a de-
manda do bem ou sen~ço ambiental relacionado. Um bem complementar
perfeito a outro bem terá como valor zero se a demanda pelo outro bem
for zero. Ou seja, existe uma função de utilidade onde X é um vetor de
quantidade de bens privados e Q é o bem ou se"~ço natural não valorado
no mercado complementar a x) na seguinte forma:

U = U(Q,X) ( 14)

Maximilúzando Usujeilo à restrição orçanlent{uia Y= PX, perllÚte que diver-


sos pontos da dem:mda individual de Xi em X sejam identificados, tal que:

133
Omsolación Vil/t(fmie UdlJI

X,. = X(P,
, Q, Y) (15)

Como Q influencia a demanda ordinária de Xi ~ e nt ão ~ estimando a


demanda de X,. para níveis de Q, é possível estimar indiretamente a deman-
da de Q. Daí, medidas de variação do excedente do co nsumidor
marshallianas de variações de Q' para Q" podem ser estimadas como área
entre as curvas de demandas X(P,
, Q', Y) e X(P,, Q", y) ,"
Essas transformações não são triviais e, são aplicados a dois métodos
com base nesses fundament os teóricos, o de preços hedônicos e o méto-
do custo viagem que não se aplicam na valoração econômica dos recur-
sos genéticos,

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/36
7

o MERCADO BRASILEIRO
DE MILHO

WíllOll DI/arte *

Segundo a 1"\0 ( 1997), a produção mundial de milho é de aproxima-


damente 586 milhões de toneladas. Conform e a Tabela I, os mai ores
prodlllores mundiais de milho são: Estados Unidos, com 237,9 milhões
de toneladas, China com 105,3 milllões de IOncladas e Brasil, com 36,6
milhões de IOneladas.
TABEL\ 1

Area e produçiio de milho no mundo


e lIosjJrincijJais países produtores (1997)

Pa íses Area Produção


ha % %

USA 29.834 .000 21 ,30 237.897.000 40,61


CHINA 23 .510.000 16,78 105.350.000 17,98
BRASIL 13.554 . 100 9.68 36.610.500 6 ,25
MÉXICO 7.472.280 5,33 18.463.000 3,15
FRANÇA 1.852 .000 1,32 16.800.000 2,87
ARGENTINA 3 .243 .000 2,32 15.540.000 2,65

MUNDO 140.079.000 10000 585.828.000 100,00


Fonte: F.\O.

o consumo mundial é estimado em 52 5,4 milhões de tonela(I>Ls. Os


Estados Unidos são os maiores consumidores e exportadores de milho.
Seu consumo est;í estimado em 176 ,8 mil hões de IOneladas, sendo o
restante da safra exportada.

• Wi!ton DU3ne t! IX'SClu isador em g~nética e melhoramento vegetal.

137
lf/i//oll Duarle

Aárea ocupada no plantio de milho, no Brasil, está estimada em tornl


de 12 milhões hectares, conforme a Tabela 2. Ao se observar essa tabela
temos um pequeno histórico: no ano de 1996 , a área ocupada foi d,
13.39 1.800ha; no ano de 199 7, foi de 13.554. 1OOha; em 1998 ,
11.39 1.100ha; c, em 1999 , 12.456.600ha. Esses valores correspondem
ao somatório de todos os estados do país

TA8EL~ 2

Área de milho - .mji'as 1996, 1997, 1998 e 1999-


lias principais estado,\'produtores do Brasil

Unidades Area
Da (em mil ha)
Federação 1996 1997 1998 1999
PARANA 2.426.0 2.409,4 2.254.4 2.549,2
M. GERAIS 1.378,8 1.413,9 768 ,0 783.4
SÃO PAULO 1.1 55,4 1.206 ,9 1.501,1 1.47 1,1
GOIÁS 930,0 949,7 1.295,3 1.328,6
R.G. DO SUL 1.582.4 1.654,3 1.177,8 1.215 ,8
S1' CATARINA 1.002,6 1.006,8 528,4 553,9
M.G. DOSUL 420,0 561,3 451,5 493,7
M. GROSSO 542 ,2 588,1 659,7 81 9,9
BRASIL 13.391 ,8 13.554,1 11.391 ,1 12.456,6
Funte: IBGE I COJlOlh . Didem.

No Brasil, a produção e o consumo são equiparados, estimados em


37,5 milhões de toneladas, conforme os dados da Tabela 3, ocorrendo
eventuais quedas na produ ção nacional cobertas com importações. O
milho é cultivado em todo território, considerando produção por estado,
o maior produtor no ano de 1996 foi o !'anUlá, seguido de São Paulo, GOi:l\
Minas Gerais, Rio GnUlde do Sul, San ~1 Ca~ui na, Mato Grosso do Sul e Mato
Grosso. No .UlO de 1997 , o maior produtor continuou sendo o Paraná,
seguido por Rio Grande do Sul, Minas Gerais, São Paulo, Goiás, Santa
Catarina, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso. No ano de 1998, o PanUlá foi
o maior produtor, seguido por São Paulo, Rio Grande do Sul, Goiás, Minas

138
() "/('/'((1(/0 úrtl.l1]"dro di' milbo

Gentis, Mato Grosso, Santa Catarina c Mato Grosso do Sul. E no ano dI


1999, o Paraná, seguido pelos eSlados de Goiás, Rio Grande do Sul , Mal(
Grosso, São Paulo, Minas Ger;ús, MaIO Grosso do Sul e Sanla Calarina.

TABELA 3
Pl'odll çtio de milho - safras 1996, 1997, 1998 e 1999 -
lJosprillcipllis estados produ/ores do Brasil

Unidades Produção
Da (emmil t)
Federação 1996 1997 1998 1999
PARANA 7.742,0 7.722.0 7.403.9 8.329.2
M. GERAIS 3.538.3 4.1 40.6 2.688.0 2835.9
SÃO PAULO 5.544.1 3.909.9 4.503.3 3 .243.8
GOIÁS 3.700.8 3.689.7 3.861.3 4.06 1.6
R.G. DO SUL 3.318,5 4.202.3 3.942.5 3.811,0
SPCATARINA 2.956.2 3.674.4 1.348.4 1. 251 .7
M.G. DO SUL 1.47 1,8 2.492.7 1.343.9 1.602,4
M. GROSSO 1.513.6 1.551 .9 2.565.1 3.262.0
BRASIL 31.993 ,9 34.610.5 30,187,8 32.234,4

Fontl': IW;E 1(4)11:,h Di(!l-m

Com relação à produlividade. o Brasil possui uma prodlllividade média


em torno de 2,St/ha. No ano de 191)6, Goi,ís obtc\'c o mai or índice, segui-
do por MaIO Grosso do Sul. Paraná. São Paulo, Sallla Calarina, Mala Gros-
so, Minas Gerais c Rio Grande do Sul. Em 1997, o MaIO Grosso do Sul foi
o eSlado de maior produlividade, seguido por Goiás, Sallla Calarina, São
Paulo, Paraná, Minas Gerais, MaIO Grosso e Rio Grande do Sul. Em 1998,
a maior produ!Í\idade foi para Mala Grosso, seguido por Minas Gerais,
MaiO Grosso do Sul , Rio Grande do Sul, Paraná, São Paulo, S:Ulla Calarina
e Goiás. Em 1999, O maior índice foi para Minas Gerais, seguido por MaIO
Grosso, Paramí, Mato Grosso do Sul. Santa Catarina, Rio Grande do Sul ,
Goiás e São Paulo.
Como podemos ohserv·ar. a lecnologia apli cada ao milho ainda não
está distribuída adequadamente em todo o território, encontrando, ano a
ano, UIll estado com maior produti\idade do que Outro. Provavelmente,

1)9
Wi/I01/ DI/arle

essa diferença é dClida à boa adaptação ao meio ambiente, de determina-


do híbrido - cultivar, variedade - a qual foi recomendado , como se
deno!:l na Tabela 4. O cultivo do milho, com efeito , está marc"do por
grandes contrastes em termos de tecnologia empregada, a refletirem na
amplitude dos níveis de produtividade observados.

TABELA 4
Relldimellto de milbo - safras 1996, 1997, 199B e 1999-
llosprillcipais estados produtores do Brasil

UNtDADES RENDt MENTO


DA (kg/ ha)
FEDERAÇÃO 1996 1997 1998 1999
PARANA 3. 191 3.205 3.11 0 3.135
M. GERAtS 2.566 2.928 3.500 3.620
SÃO PAULO 3.067 3.240 3.000 2.205
GOIÁS 3.979 3.885 2.637 2.420
R.G . DO SUL 2.097 2.540 3. 240 2.713
ST' CATARINA 2.948 3.649 2.805 2.900
M.G. DO SUL 3.504 4.44 1 3.275 3.025
M. GROSSO 2.79 1 2.639 3.700 3.497
BRASIL 2.389 2.554 2.559 2.417
Fonle: IBGE ICol1;lb - Didem.

A produtividade média nacional, embora crescente, é inferior à dos


princip,tis produtores mundütis, ocupando a modesta quinta posição. Os
m,tiores rendimentos são observados na França, com 9.071kg/ha, e nos
Estados Unidos, com 7.974 kglha, tal como vemos na Tabela 5.
Com relação aos preços praticados, não se observa uma correlação
entre os preços nacionais e internacionais, entretanto, em regra geral, os
preços internos são superiores àqueles praticados no mercado interna-
cional.

140
Rendimcllto de mi/bo em r/ ballos jJrilloj)(lis jJaíses
- Clllre 19H8 e 1997 - e laxa e.v)(meuchi/ de crescimento

PAIS Taxa
1988 198' 1990 1991 199' 1993 199. 199' 199. 1997 Cresc.

FRANÇA 7.28 6.87 6.02 7.28 7.96 8.03 7.9 1 7.72 838 9.07 300
USA 5.3 1 7.30 7" 6.82 8.25 6.32 8.7 1 7.12 798 7.97 278
4.58 4.54 4.97 470 4.92 520 448
C HINA
ARGENTINA
3.93
3.74
3.88
2.9 1 '"
3.46 4.04 4.52 4.36 4.24 4.52 4.04 4.79
' 34
3.63
BRASIL 1.88 2.06 1.87 1.81 2.28 2.53 2.36 2.60 2.40 2.55 394
MEXICO 1.63 1.63 1.99 2.05 2.35 2.44 2.32 2.27 2.32 2.47 433

Fnult·: E\O.

-I\ ..I

O MERCADO DE SEME~TI::S MEI.lIORADAS NO BRA!'\IL -


O I'AI'EL IM E .\18RAI'A

A Emprcsa Br:L"ileira de Pc~q ui ~a Agropccuária - Embrapa . (riada


em 1975, é o prillcipal ôrgão público de pcsquisa agropccu:iria do país,
cOlltU1do com 57 unidades de pesquisa e dois seniços em dircrsas uni-
dades da Federação.
No programa dc produção de sementes de hnJrido de milho, panici-
pam o Centro Nacional de Pcsquisa de Milho e Sorgo - CNPMS. local izado
em Sete Lagoas. e o SC1'liço de Produção de Semente 1l,;,;ic'L, - SI'SB. O
CNI'.\IS é respons;il'eI pela ,irca de pesquisa e de produ\'ão de sementes
genrticas e de sementes b:ísiGl'i - as scmentes b:ísic;lS s:io resultantes da
multiplicação das chamadas sementes genéticas, desenl'olvida pclo me-
lhorista. São das que darão origem üs chamadas scmentes Illclhorad:l"
"cenificad'Lv'fiscali".d,IS". OSPSB multiplica ,15 sementes bi, icas e as diSl.;bui
aos rranqucados, p:U';t produç:io de sementes melhoradas em eSG~a comer·
cial . O 51'SIl oCllpa-se. predomimUlIemcnte, dc pane da produção. do hene-
ficiamento. da comercialú;(ção c do controle de qll;~idade. ,~ém do gerencia-
melllo do sistema de rranqllia, por intermédio de slla filial de Campinas.

141
Willoll Duarte

Historicamente, no mercado brasileiro de sementes de milho, as em-


presas produtoras privadas - na maioria de origem estrangeira - utili-
zam-se do conhecimento tecnológico obtido de pesquisas realillldas por
suas matrizes no exterior, dominando esse segmento de mercado, junta-
mente com algumas empresas nacionais do ramo de sementes.
As empresas nacionais - grandes e pequenas - , para atuarem nesse
mercado, sempre dependem dos órgãos públicos de pesquisa, responsá-
veis pela tecnologia gerada na produção dos milhos luoridos. O Instituto
Agronômico de Campinas - IAC foi a instituição que gerou os primeiros
híbridos, no ilúcio da década de 1970. Os produtores de sementes com-
pravam então o híbrido, mas não possuíam na realidade conhecimento
tecnológico sufi ciente para garantir uma boa qualidade e homogeneidade
na produção, além de comprarem quantidade indeterminadas junto ao
IAC, o que resultava numa heterogeneidade muito grande nas sementes
produzidas.
Com O processo de modernização da agricultura e da produção de
sementes dur:U1te a década de 1970 pelas grandes empresas pril"Jdas do
ramo, o consumidor passa a se tornar mais exigente quanto à qualidade,
em relação a aspectos de produtividade, porte da planta mais baixo, ciclo
precoce, maior resistência a pragas e doenças etc. Como conseqüência, o
°
IAC - não acompanhando ritmo de pesquisas das empresas privadas -
P:L,SOU a ter dificuldades em colocar seu produto no mercado. De fato,
nesse período, a participação no mercado de sementes produzidas por
instituições públi cas caiu de 20% para 5% do mercado, gerando, com
isso, a própria inviabilização das pequenas e médias empresas produto-
ras de atuarem em um mercado altamente competitivo. De um número de
aproximadamente 30 empresas produtoras que se utilizavam do luorido
do IAC, sobreviveram apenas três, de porte médio. Essas empresiL" junta-
mente com outras 14 - todas clientes da Embrapa como compradoras de
sementes básicas e de outros produtos - , desejosas de entrarem no ramo
da produção de milhos luoridos, passaram a exercer pressão junto ao
CNPMS no sentido deste lançar luoridos de milho no mercado.
Nesse contexto, o CNPMS já vinha desenvolvendo produtos específicos
para utilização em solos tropicais, mediante cruzamentos com material
genético de adaptação tropical, desenvolvido no Centro Internacional de
Melhoramento de Milho e Trigo - Cimmyt.

142
() IIIl'rmdo Iml,,',h-iro dI' IIl1lbo

Em 1987. após II anos de pesquisa, surgiu o híbrido denominado BR


201 , que passou a ser produzido e comercializado por 17 em presas, em
regime de franquia . recebendo da Embrapa treinamento com relação ,1$
técnicas de produção e de beneficiamento.
As franqu ead'Ls atuaram em diferentes Unidades de Federação, crian-
do ~com isso, competi ção e conflito entre as próprias franC)ueadas~ livres
para determinarem preços e relações negociais com seus clien tes.
Ao lisar " minimização desses conOitos - sohretudo a "guerra de pre-
ços" entre as franqueadas - como tamhém o retorno ao seu ill\l'Slilllcnto
em pesquisa, a Embrapa estipula um valor mínimo de n~rallies a serem
pagos. Embora o valor padrão seja de 5'X, do vol um e de I·endas. abaixo de
ceno limite não ha\'ed variação, sendo o \'~~or cobrado fixo.
Com rela ção ao produto cm si. em hora ainda não sc tenha atingido
lima padronização que possa ser considerada ideal , o csfor\~o dcsenvoh'j-
do pela Embrapa no controle de qualidade vem su rtindo efeitos releran-
les, para surpresa de Illuitos, entre eles a própria concorrência distrihui -
dores c produtores. '1ue julgavam ser a questão do padrão de qualidade o
maior cntravc para o sucesso do programa BI~ , dada a helc ro~eneidade
das empresas.
De fato , além da própria pesquisa, uma das ati\idadcs fundamentais
envolvidas no sistema de franquia da Embrapa é o con/role de qllalidade
do material produzido pelas empresas franqu eadas. Essa questão é um
dos pontos cbave de todo o processo para a co ntinuidade do modelo
implantado . \'isa assegurar um padrão uniforme das scmentes produzi-
das pelas franql1 c~l(h" c prcscn'ar o principal e mais forte aq,:ulllcnto de
renda da semente, '1ue é a própria marca Embrapa (Pensa, 1<)<) ).
Para tanto. foi criada a Comissão de Controle de Qualidade - CCQ.
linculada " Comissóio de Araliação e Acompanhamento dos llíbridos de
Milho da Emhrapa - Caalune. Os técni cos da CCQ fazem o acompanha-
mento técnico dos campos de produção durante tod:Ls as fases - da pro-
dução até o heneficiamento - , de acordo com as nOl'ln:1S e padrões esta-
belecidos pelo programa. O controle consiste no levantamento das áre:1S
implantadas, vistoria dos campos nas fases de pré-floração , floração e
colheita. I;storia das unidades de heneficiamento de sementes - UBS e
coleta de amostras de sementes para análise/avaliação (Pensa . 1995).
E'\:isleI11, no Programa , II técnicos - engcnhl'iros :Igrônolllos - res-

143
WiltOll Duarte

ponsáveis pelo monitoramento da área total plantada pelos franqueados.


Os campos de especificação são cancelados para produção de sementes.
A depender de problemas técnicos constatados pela CCQ, as empresas
podem ser advertidas ou excluídas do programa (Pensa, 1995).
Entre as ocorrências de empresas excluídas do programa desde sua
implantação, 42% deveram-se a questões ligadas à qualidade. As próprias
empresas produtordS cobrJ/ll da Embrapa um rigido controle de qualidade,
pois possuem consciência de que esse é o fator fundamental para a sobre-
vivência do sistema e, como conseqüência, das próprias empresas.
ACaahme é também responsável pelas cotas de produção a serem desti-
nadas a cada empresa franqueada e pela seleção de novos franqueados.
Aquantidade de sementes básicas a serem produzidas pela Embrapa e
distribuídas aos franquC'ddos segue critérios estabelecidos de acordo com
as previsões da evolução da demanda por sementes de milho híbrido. A
distribuição das cotas entre os franqueados leva em conta a solicitação
prévia desses, o desempenho passado em termos de vendas e em termos
dos padrões de produção/qualidade estabelecidos. Os franqueados de-
vem fazer a reserva do pedido com dois anos de antecedência, e a confir-
mação com um ano, para a programação rui produção de sementes pela
Embrapa (Pensa, 1995).
As empresas ingressantes iniciam com uma área má.xima de 50ha para
plantio, tendo suas cotas aumentadas ao longo do tempo, conforme sua
performance técnica e comercial. Existe certa insegumnça entre as fran-
queadas, pelo fato de a Embrapa ser empresa pública, vulnerável pois, em
função de algum critério político, a uma eventual ruptum nos rumos da
pesquisa e do modelo de parceria adotado, tendendo, assim, a adotar
estmtégias de contingência, para não serem surpreendidas, uma vez que
realizaram investimentos em ativos específicos para a atividade (Pensa,
1995). Essa é na realidade o principal argumento utilizado pelas 28 em-
presas nacionais e a boliviana, para justificar a não exclusividade ao siste-
ma Embrapa.
Quanto à seleção de novos franqueados, os pré-requisitos são centra-
dos em critérios de mercado e localização da empresa, além de critérios
técnicos de produção, comercialização e suporte financeiro. As empresas
que se candidatam normalmente passam determinado período de adap-
tação, produzindo uma variedade desenvolvida pela Embrapa (BR 106) ,

144
o merclldo bmst1L'iro de milho

sendo considerado um teste para se avaliar a aptidão da empresa para


atuar na produção de híbridos, que requer maior tecnologia (Pensa ,
1995).
Por ser uma instituição pública, o acesso de empresas ao sistema deve
ser democrático, com critérios claros c igmtis para todos os pretendentes
" franquia. AEmbrapa esclarece que qualquer empresa: independente de
ser franqu eada, tem acesso ao banco de germoplasma, ,~ém de todos os
se" 1ços de extensão envolvendo a produção e o beneficiamento de se-
mentes. A única restrição é com relação ao acesso 'l~ linhagens desenvol-
vidas para a produção dos híbridos.

Mercado

Na Tabela 6, rrlllkil/g das empresas produtoras de sementes de milho


lubrido na s,úra 1993- 1994. Segundo o estudo realizado na s,úra 19931
1994 pelo Pensa/FEAIlJSP.

TABELA 6
RaJl king das emjJresas jJrodutoras
de sementes de milbo bíbrido, em % de vendas - safra /993 -1994.
EMPRESA Participação no Mercado (%)

Agroceres 32

Cargill 24

Unimilho 15

Pioneer 10

Braskalb 9

Oinacarol 3

Zeneca 3

Ciba 2

Outros 3
Fonte: LmnILlhõ (i5GlIlam1) .

145
If/;{lon DI/arle

Asegmenl1ção do mercado de sementes de milho em relação à tecno-


logia é composta das seguintes categorias:
Segmento A - Composto pelos agricultores que não se importam em
pagar mais por alta qualidadelproduti\;dade, chegando a pagar aci-
ma de US$ 50,00/saca 20 kg. São agricultores profissionais, altamen-
te tecnificados, cujos fatores de produção estão sob controle - solos
corrigidos, irrigação, adubação, secagem e armazenamento. Os pro-
dutos nesse mercado são lubridos simples de melhor produtividade
e ,lIguns triplos de alta produti\;dade. A empresa Pionner possui
forte posicionamento nesse segmento. Em termos de mercado , o
segmento representa cerca de 13,1 % do mercado.
Segmento B - Composto por agricultores cujos fatores de produção
estão em grande parte controlados, constituindo-se em segmento
muito competitivo, disputado pela maior parte das empresas, exigin-
do intenso trabalho de vendas. Os produtos são principalmente hí-
bridos triplos com produtil;dade inferior '10 simples, mas superio-
res aos híbridos duplos, englobando também alguns duplos de alta
produtividade. Os preços praticados giram entre US$ 30 a 50/saca
de 20kg. Nesse segmento, praticamente todas as grandes empresas
do setor atuam - Agroceres, Cargill , Braskalb, Dinacarol etc. Repre-
senta 31,4% do mercado. Nesse segmento, tentam posicionar-se al-
guns lubridos BR mais produtivos, como o 205 e o 206.
Segmento C - É um segmento composto basicamente por agricultores
cujos fatores de produção são apenas parcialmente controlados ou
estão em fase de adoção de nOV:LS tecnologias. No entanto, não con-
tam com recursos suficientes nem acesso fácil à informação que
possibilite rapidez nessa adoção. Nesse mercado, a variável preço é
fator decisivo na decisão de compra. Os produtos básicos são os
híbridos duplos e algumas variedades. Muitas das empresas atuan-
tes nos segmento B possuem também material para este segmento,
no qual se concentram fortemente os produtos BR, especialmente o
BR 201. Os preços variam entre US$ 20 e 30 a saca. O segmento
representa cerca de 47,6% do mercado.
Segmento D - É o segmento de baixa tecnologia, cujos fatores de produ-
ção estão com P(J!Jco controle. Os produtores são tradicionais e
pouco inovadores, utilizando-se apenas de algumas variedades, prati-

146
() IIwrc:mlo bm.\1ldro de milbo

camente não existindo 11Ibridos neste segmento. O preço gira em


torno de U$ lI /saca, e estima-se em 7,9% seu consumo de sementes.
Sec~lIIell to E - Além dos segmentos de sementes melhoradas, existe ,tinda
um último destinado a produtores que praticam agricultura de sub-
sistência, com nenhum controle dos fatores de produção, dispondo
de poucos recursos. Utilizam-se em seus plantios de "sementes de
paiol", muitas rezes sem origem defi nida ou prOl'elueme de sementes
de variedades recicladas por mais de três anos, colhid,ts na própria
propriedade. Estão fora do mercado de sementes melhoradas, mas
respondem por parcela considenível da <Írea plantada com milho no
p,ús - cerca de 6.4 milhões de hectares.
Em 1993- 1994, os produtos gerados pelo sistema de pesquisa da Em-
brapa são os lubridos BR 20 I, 205 e 206. São 11Il>ridos du plos. resultan-
tes do cruzamento de dois hnJridos simples. As variáveis estratégiGls utili -
z~ldas para o posicionamento desses produtos são basicamente as carac-
terísticas de estabilidade de produção e qualidade associadas a preços
compctitivos quc, normalm ente, se situam em patamares inferiores aos
dos concorrentes nos respectivos segmentos, para a s;úra 1995- 1994.

o BR 20/
As principais características dos lubridos BR, especialmente o BR 20 I.
de acordo com os pesquisadores, são basicamente o germoplasma de
adaptação tropical , tolerflncia a estresses amhientais - rusti cidade , resis-
tência " acidez do solo e ao estresse híbrido -, efi ciência na absorção de
nutriemes, estabilidade de produção, tolerância à,; princip,tis doenças -
foliares-espiga -, precocidade e adaptação" região do cerrado.
Como principal desvantagem, est,i a menor produti\;dade comparada
a alguns materiais de concorrentes, quando plantado em ambiente de
,~ta tecnologia, respondendo menos eficientemente a adubações, irriga-
ção, tratos culturais etc.
No início do processo de produção das sementes BR, a Embrapa lan-
çou o lubrido BR 20 I, \;sando a atingir prin cip ,~me nte o segmento 8 do
mercado. No entanto, o grande segmento atingido foi o C, caracterizado
por clientes mais tradicionais, que respondem, basicamente, ao preço.
Pode-se considerar mesmo na realidade oCOrreu um upgrading tecno-
lógico, na medida em que muitos dos agricultores que se utilizam do BR

/ 47
InJ/Of{ DUl/rf/:

seriam anteriormente classificados no segmento D, sendo que a introdu-


ção do BR, com preços relativamente m,tis acessíveis, possibilitou-lhes O
acesso a LIma tecnologia superi or àquela anteriormente adotada.
Assume também relevfmcia, para a evolução de vendas do BR, o cres-
cimento da chamada ·'safrinha", com plantio em março-abril , que é o
plantio de milho em época fora da convencional, na qual os produtores,
após a colheita prin cip,~ , aproveitam os restos de adubação e utilizando-
se de materiais precoces, efetuam o pl:01tiOdo milho. Nesses casos, geral-
mente o produtor se utiliza de material mais rú stico e barato, pois os riscos
cumáticos c fitossanitários associados são maiores. No dito pOJlular, vale a
expressão "o que vier é lucro", para caracterizar a s,úrinha. O híbrido BR
20 I, por suas características fi siológicas - estabilidade - e preço é um
produto ,~tamentc utilizado no plantio da safrinha.
Houve uma grande evolução da safrinha, passando de 2, I% da área
plantada, em 1989- 1990, para 10,7%, em 199:1- 1994 .

OS /lOVOS BR (205 e 2(6)

A partir da safra 1993-1994, passaram a entrar no mercado os híbri -


'I
dos BR 205 e 206, caracterizados por serem mais responsivos tecnolo-
gia, visando um melhor posicionamento dos produtos BR no segmento B
do mercado.
O h01çamento dos novOS produtos - buscando ampliar o portfólio e
atingir novos segmentos - é uma estratégia que visa, como para qualquer
empresa, it minimi'"lção de riscos inerentes à dependência de um só tipo de
produto, especi,~m ente em um mercado no q",~ a competição e o lança-
mento de novos produtos vêm crescendo fortemente nos últimos '01OS.
Atualmente, com dados da safra 1994-1995 , a distribuição de vendas
dos BR é a seguinte: BR 20 1, 81,82%; BR 205, 12,56%; e BR 206, 5,62%.
Além dos produtos já lançados, estão em fase de testes ,dguns dos
produtos novos, com m,tior grau de produti\1dade - híbridos triplos. O
desenvolvimento dos triplos e dos simples requer um grJu maior de tecnolo-
gia, tanto na fase de pesquisa como na produção de sementes proprimnente
di~1, necessitando, portanto, maior grau de capacimção dos produtores mm-
queados, envolvendo conseqüentemente m,tior esforço da Embrapa no trei-
nmuento C no monitommento dos produtores. Possivelmente, em todos os
franqu eados, estarão produtores aptos a entrar nesse mercado.

748
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Prodllçrio ajJrol'tlda para fi espécie milbo, c- "/. '-.:::; ~. ......1
~B ~S:: ~
II() limsil de 19119-1990 fi 1997-1999 r5 -...1 c- cc
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Unidades Produção Aprovada (ton) ê- fi. B~ ;:J -
D,
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~ = '.F. :r.
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-
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Federação
PARANA
M GERAIS
'98911990
19 358.52
199011991
24657,80
38.024,75
1991/1992
22078.04
37926. 10
1992/1993 1993/1994
2725 1.08
40 409,12
30390. 53
42828.05
199411995
7330 1,96
19951 1996 199611997
29 .9 15,50
48.605.93
35302,69
39775,44
1997/1998
34.367.32
45.747, 18
§- §" 'r5i ..,.
"E
7-'
'.F. r.i ....::; . '
~
""~
SÃO PAULO 37.088,0 1 43.658,40 35392.5 1 41 849.31 38.392.69 55.589, 18 55.899,18 7 732,54
~ ê- ~o ~
GOI.~S 4.243,44 30286, 10 21 204, 43 18 178,52 20 460,3 1 3.360,00 43690,52 18.70 1,13 :::!.""O 'J,
'"
~
A G. DO SUL 12 452,65 11 890,97 t 2 138,55 16 058.22 [~ 2,! ,-
S PCATAAINA 2236.06 2.81 1.70 3733.42 4142.0 7 2.174.32 2.174.32 2.917,17 3 164.83 4.645,08 ~ "8, ~ 3
MG DOSUL 2649 .54 199.06 4 050.00 3 474 .56 1 720,83 8:3 ""O~ 5o J.
:';1
M, GROSSO 1.122.90 2238.1 0 2.655,00 1.684.00 1.748.00 ~3'J, O

~~~1
BRASIL 58.682,59 126.083,09 139.443,17 156.796.70 155.435.59 163.697.09 167.288.27 159.695.19 109.085,56

f'OU(t.': ,\ H - [ mbr-Jjl:I-:\hr;L<;('I1L
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:r. ;.: m r.
TABElA 8
Produçâo coibida para a espécie milho,
110 Brnsilde 19B9-1990a 1997-1999

Unidades Produção Colhida (Ton)


Da
Federação 1989/1990 1990/1991 1991/1992 1992/1993 1993/1994 1994/1995 1995/1996 1996/1997 1997/1998
PARANA 38.261,76 51.583,60 52.780,92 48.496,00 50.690,60 70.529,40 55. 138,94 65.725,34 47.143,92
M. GERAI S 64.700,52 53.162,19 34.017,04 78.465,50 66.122,0 1 67.135,71

.....
SÃO PAULO
GO IÁS
57.348,77 75.974,76
7.901,00
74.920 ,26
48.943,70
64.306,07
36.407,50
69.538,63
29.794,70
81.623,90
35.740,92
81.586,90
3.360,00
9.208 ,06
43.690,52
i
'"
C
R.G. DO SUL 18.719,50 15.678,10 15.856,54 21.426,57
i?
~

ST' CATARINA 3.603,91 2.8 11 ,70 3.733 ,42 55.402,00 2, 174,32 2.174,32 2.917,97 '"
~

M.G. DO SUL 4.464,60 290 ,28 8.587,51 8.842,15 3.778,95


M.GROSSO 2.594 ,55 2.238 ,10 3 .885 ,00 4.590,20 4.114 ,00
BRASIL 99.214,44 215.658,58 243.537 ,49 345.443,32 259.401,74 238.747,91 123.520,00
Fonte: MA - Embrapa-Abrasem.
TABELA 9
Produção aprovada e colhida das principais val'iedades/bíbl'ido
da espécie milho, no Brasil de 1989·1990 a 1997·1999
Brasil Produção Aprovada (Ton)
Material 198911990 1990/1991 199111992 1992/1993 199311994 1994/1995 199511996 1996/1997 1997/1998

BR-l06 1.909,49 22.037,36 19.155,37 17.852,68 8.748,22 21.465,19 18.289,23 9.442,88 2.955,79 a
10.094,75 7.603,93 ~
BR-201 1.796,54 13.962,75 15.939,06 20.652,08 15.253,56 5.373,69 2.891,82
~
AG-303 9.067,62 17.646,32 11.091,96 11.649,12 9.759,20 7.464,88 7.016,30 2.884,36 3.166,04 ~
1}
C-101 255,16 1.375,78 3451,16 5.064,37 6.359,59 2.970,56 5.283,92 4.890,61 4.570,10
~ ""
~

'- ~
~
Total Brasil 58.682,59 126.083,09 139.443,17 156.796,70 155.435,59 163.697,09 167.288,27 159.695,19 109.085,56 3
"-
~

~
PRODUÇÃO COLHIDA (Ton)
'"c
~

BR-l06 3.259,04 26 .421 ,03 25.802,07 13.378,34 671.962,9222.068,00 15.810,28 2.463,74


BR-201 1.678,28 19.085,27 26 .425,93 12.039,98 19.398,31 9.850,54 6.685,92
AG-303 10.900,22 23 .900,38 18.223,23 16579,57 13.208,38 9.524,09 8.608,94 4.344,52 3.277,52
C-701 603,92 3.238,10 6.731,84 7.4 16,54 9.079,37 5.052,08 8.445,69 13.431,78 6.402,81

Total Brasil 99 .214,44 215.658,58243.537,49345.443,32 259.401,74238 .747,91

Fonte: ~lA - Embl.lpa-Ab'JSem.


TABELA 10
Produção aprovada e colhida das principais variedades/híbridos
da espécie milho, 1/0 estado de Sáo Paulo de 1989-1990 a 1997-1999

São Paulo Produção Aprovada (Ton)


Material 1989/1990 199011991 1991/1992 199211993 199311994 199411995 199511996 1996/1997 1997/1998

BR-l06 130,25 5.210,90 1.629,82 2 .253,64 942,62 1.388,28 1.388,28 784,22


BR-20 1 744,94 1.784,66 1.862,30 5 .945,66 852,64 3.295,2 1 3.295,2 1 73,59
AG-303 6.792,50 6.530,02 3.897,56 2 ,586,48 2.431,76 3.528,16 3.528, 16 li:
~
C-701 1.212 ,76 1.212,76
'"
~

Total S P . 37,088,01 43.658,40 35.397,51 41.849,31 38.962,69 55.589,18 55.899,18 7.732,24 f


PRODUÇ ÃO COLHIDA (Ton)

BR-l06 505,46 7.988,24 3.289,23 2.4 12,96 3.602,33 2.230,71 2.230,7 1 784,22
BR-201 180,00 2.979,40 3 .325,88 3 .907 ,93 3.9 14,66 4 .347.78 4.347,78 73,59
AG-303 6.792,50 8.488,34 5 .838,89 3 ,495 ,97 2.818,50 3.834,77 3.834,77
C-701 358,49 1.732,52 1.732,52

Total SP. 57.348,77 75.974,76 74.920,26 64 .306,07 69.538,63 81 .623,90 81 .586,90 9.208 ,06

Fonte: ,\-tA - Em brapa-Abr.L~m .


TABElA 11
Produção aprovada e colhIda das principais variedades/híbridos
da espécie milIJo, no estado do Paraná de 1989-1990 a 1997-1999
Paraná Produção Aprovada (Ton)
Material 1989/1990 1990/1991 199111992 199211 993 199311994 1994/1995 1995/1996 1996/1997 1997/1998

BR-106 801,24 10 1,00 154,1 6 3 18,36 99.940,88 124,68 256,00 28,00 a


~
BR·201 421 ,76 663,76 617,68 89 1,16 821 ,20 556,88 571,36 146,60 155,76 ~
AG -3Q3 2.275,12 5 .794,56 5 .3 71 ,64 5.545,76 6.447,52 3.936,72 2.826,40 2.884,36 2522,52, ~
§-
C·l OI 255, 16 809 ,28 814,52 651 ,44 2,917,72 2,0 12,96 2.715, 28 2 .347 ,24 2.077 ,88
"- '"~
~
Total P A. 19,358,52 24.657,80 22.078,04 27.251,08 30.390,53 73.301,96 29.915,50 35.302,69 34.367,32 "a''"
"-
~

~
PRODUÇÃO COLHIDA (To n) go
BA· l06 1.126 ,04 16,88 303,56 268,24 640,44 11.324,72 ' ge,68 608 ,20 2.463,74
BR-201 709, 12 1.032,80 1.035,92 1. 811 ,32 1.479,72 362,08 1.361 ,44 552,24 6.685,92
AG ·303 4.107 ,72 8. 808,04 9.742,44 7.887 ,40 9.178,88 5.689 ,32 3.754,92 4.344,52 3.277,52
C·701 603,92 1729,6 1.71 2,32 8 73,84 4.606,32 3.612,08 4.626,44 6.576,60 6.402,8 1

Total PRo 38.26 1, 76 51.583,60 52.780,92 48 .496,00 50.690,60 70.529,40 55.138,94 65 .725,34 47.143,92

Fonte: ~l-I. - Embrapa-Abrasem.


TABELA 12
Produção aprovada e colhida das prillcipais variedades/híbridos
da espécie milho, 110 eslado de Millas Gerais de 1989·1990 a 1997-1999

Minas Gerais Produção Aprovada (Ton)


Material 1989/1990 199011991 1991 /1992 199211993 1993/1994 "199411995 '-99511996 1996/1997 1997/1998

BR-l06 3.250,96 4.811 ,56 5.635,96 244,60 5.735,78


BR-2Ql 6.549,55 7.213,36 7.519,12 8.093,20 4.031 ,58 3 .844,64 1.258,12
AG-303 5.321,24 1.822,56 3.516,58 879,92 661,74 '\;
C-101 566,SO 1.312,76 1.872,90 2.546,51 2.568,64 969 ,00 2.492,22
êi'
~

2: 1?
~
Total MG. 38.024,75 37.926,10 40.409,12 42.828.05 48.605,93 39.775,44 45.747,18 "-
~

PRODUÇÃO COLHIDA (Ton)

BR-tOS 4.840 ,41 7.780,00 2 .199,32 423,00 11 .324,72 5.965,75 2.463,74


BR-201 8.053,29 11.250,4 1 9.480,00 1.972,00 2 .905,72 10.718,76 6 .261,43 6.685,92
AG-303 6.604,00 2.641 ,90 5.029,00 '.211 ,00 5.689 ,32 856,00 3 .277,52
C-101 1508,5 3.028,72 2.723,10 3.126,65 3.612,08 3.982,50 5.280,81 6.402,81

Total MG. 64.700,52 53.162,19 12.624,24 34.0 17,04 78.465,50 66.122,01 67.135,71
fonte: MA - Embrapa-Abrasem.
TABEL< 13
Produçtlo aprovada e coIbida das principais variedades/bíbridos
da espécie milho, 110 estado de Goiás de /989-1990 a 1997- /999

Goiás Produção Apro vada (Ton)


Material 1969/1990 1990/1991 1991 /1992 199211993 1993/1994 1994/1995 1995/1996 1996/1997 1997/1998

BR-l0B , ,7 18,49 915, 14 288,00 1.423,01 3.024,00 3.373.65 892.50


o
~
BR-20 1 3.418,00 4.746,00 3.885 ,00 3 .845 ,00 2 .346. 12 852 ,60 ~

AG-303
:1
&-
.....
v,
C-701 1.323,88 2 .540,03 895,36 957,60 1.574,37 ~
~
"-~
'" Total GO . 4.243,44 30 .286,10 21 .204,43 18.178,52 20.460,31 3.360,00 43 .690,52 18.70 1,13
•a
õ-

PRODUÇÃO COLHIDA (Ton) "


§::
o

BR-I06 3.181 ,80 1.590,30 480,00 2 .635,20 3.224,00 3 .373,65


BR-20 1 5,973,00 9 ,314,00 9.158,00 8 .069,00 3.264,68 2 .346, 12
AG-303
C-70 1 1.990,80 3 ,819,60 1.346,40 ' .440,00 1.574 ,37

Total GO. 7.901 ,00 48.943,70 36.407,50 29.794,70 35.740,92 3.360,00 43.690,52

Fonte: MA- Ernbrapa-Abrascrn.


T.\BEL\ 14
Produçrio aprovada e coibida dtls prillcipais J!ariedadeslbíbridos
da e;pécie milho, 1/0 estado de Sal/ta Cataril/a de 1989-1990 a 1997-1999

Santa Produção Aprovada (Ton)


Catarina
Materia l 19891 1990 199011991 1991/1992 1992/1993 1993/1994 1994/1995 1995/1996 199611997 199711998

BR-I06 978.00 888,50 1.250,48 678,78 470,48 470,48


BR-20 1 629,84 1.046,78 1.499,72 2,411 , 14 752 ,18 1752 ,18 1.127,24 779,44 378, 14
AG·303 ~
~
C-70 1
g
V,
C\

Total se. 2.236,06 2 .811,70 3.733 ,42 4.142 ,07 2. 174,32 2. 174,32 2 .9 17,17 3.164 ,83 4,645.08
'""-
§
~

PROOUÇAO CO LHIDA (Ton)

BA-l06 1.627.54 888,50 1.250,48 6 .706.00 470.48 470.48


BR-201 789,16 1.046,78 1.499,72 45.283,00 752 ,18 752, 18 1.127,24
AG-303
C-701

Tota l se. 3.603,9 1 2.811,70 3.733,42 55,402,00 2, 174,32 2.174,32 2.9 17,97

f Ollle: MA - I::mhrnp:l 'I\hrasern.


TABELA 15
Produçtio aprovada e coIbida das principais mriedades/bíbridos
da e.\IJécie lI1i/bo, 110 estado do lIio Grallde do 511/ de 1989- /990 a /997- /999

A.G . Do Sul Produção Aprovada (Ton)


Material 198911990 199CV1991 1991 /1992 1992/1993 1993/1994 1994/1995 199511996 199611997 199711998

BA- l 06 '"
BR-20 1 ~
~
~

-
v,
'"
AG -303
C· 70 !

Tola l RS . 12 452,65 11.890.97 12 138.55 16058.22


'"Z.'"
•.
~

""a
~

~.
PRODUÇAO COLHIDA (Ton)
~

BA- l 06
BA -20 1
AG ·303 167,20
C- 70 !

Total RS. 18.7 19.50 15.678,10 15.856 ,54 2 1.426.57


Foll1e: ,\ 1,\ - E111 hra p:t ·.\ hr:t.~crn.
TABEL' 16
Produção aprovada e colhida das principais variedades/bíbridos
da espécie milho, 110 eslado do MaIo Grosso do Sul de 1989-1990 a 1997-1999

Mato Grosso Produção Aprovada (Ton)


Do Sul
Material 198911990 199011991 1991/ 1992 1992/1993 199311994 1994/ 1995 199511996 199611997 199711998

BR· 106 56B,52 689,08 688,56 332,71


BR·201 645, 14 668,86 413,54 247,20 S;
..... AG-303 ~
'"
Co C-701 ~
,
~

Total MS. 2.649,54 199.06 4,050,00 3.474 ,56 1.720,83 "


PRODUÇAO COLHiDA (Too)

BA· l 06 1.130,00 1.707 ,01 1.624,24 869,74


BR-201 747,00 1 442,09 617,16 426,40
AG-303
C-701

To tal MS. 4.464,60 290,28 8.587,51 8.842 ,15 3.778,95

Fome: W. - Embrapa-Abf:lsem,
TABELA 17
Produção aprovada e coIbida das principais variedadeslbíbridos
dtl espécie miliJo, 110 eslado do Maio Grosso de 1989-/990 {/ 1997-1999

M. Grosso Produçâo Aprovada (Ton)


Material 198911990 199011991 199111992 1992/1993 1993/1994 1994/1995 199511996 1996/1997 199711998

o
BR- t 06 100,00 366,60 662,00 186,00 294,00
~
BR·20 1 200,00 469, 42 40 1,00 ~
~

-
AG-303 õ;-
C-70 1 '"
~ ~
~.
Total MT. 1.122,90 2.238,10 2.655,00 1.684,00 1.748,00
"-
o

PRODUÇÃO COLHIDA (Ton)


~
BR· l OS 172,75 366,60 681,00 733,00 1.372,00
B A-20 1 845,52 469,42 401,00
AG·303
C-70 1

Total MT. 2.594,55 2.238,10 3.885,00 4.590,20 4.114,00

Fome: MA - Embrapa-Abrasem.
IHftoJ/ Dutlrle

I'rodllçüo distribuiçüo e comercializaçâo


de semelltes de milho

Segundo estudo do mercado de sementes do engenheiro agrônomo


Jorge de Souza, em 1995-1996 a oferta de sementes de milho disponível
atingiu 156 mil toneladas. Desse montante, 65% representam sementes de
híbridos precoces, 27% de híbridos de ciclo norm,d e 8% de sementes
variadas. Estima-se um montante financeiro de US$ 235 milhões na co-
mercialização de sementes produzidas. Pode-se observar, na Tabela 18, a
seguir, que o custo da semente é relativamente pequeno em relação aos
outros insumos na produção semente.
Estima-se em mais de 50 empresas produzindo, distribuindo e comer-
cializando sementes de milho, das quais 35% com pesquisa própria. Essas
empresas plantam 85 mil hectares de campos de produção desde o Rio
Grande do Sul até o cerrado brasileiro.
Basicamente, o sistema de produção adotado é o de "contratos de
cooperação" entre agricultores de uma determinada região e as cmpre-
Síl'" produtoras de sementes dessa região. Firma-se contrato de empreita-
da rural, pelo qual o agricultor cooperante coloca à disposição da empre-
sa de sementes sua terra, suas máquin::L';;, seu equipamento de irrigação,
enfim , a itÚra-estrutura de sua propriedade rural. Aempresa de sementes
responsabiliza-se pelo fornecimento das sementes básicas para o plantio
do campo de produção, pela assistência técnica durante todo o ciclo da
cultura do milho, eventualmente por algumas operações específicas da
ati,idade e, finalmente, por uma remuneração diferenciada ao agricultor.
É certo que a área candidata à contratação deve preencher quesitos
técnicos mínimos de localização , topografia, fertilidade , isolamento de
outr.L' áreas de milho, entre outras. As diferenças básicas entre a tecnolo-
gia de produção para campos de sementes e uma lavoura de milho para a
produção de grãos comerciais pode ser resumida como segue.
Para a produção de híbridos, faz-se necessário o p"mtio de progenito-
res masculinos e femininos , em variáveis proporções de plantio - 1: 2, 1:
3, 1: 4 etc - de acordo com as características ligadas à ,dtura de plantas,
capacidade polinizadora do macho, denSidade dos grãos de pólen , entre
outras. As práticas de conservação de solos, adubação básica de plantio e
adubações em cobertura, controle de ervas daninhas e pragas devem

160
() IIwrclldo bmsiláro dI' milho

TADEU 18

Cus/o de produçrio de //)(1 de milho


plantio direlo - tecnologia media lia - sequeiro
,~,.

R$ I.OO
I""" ,,,.. ~ rol.1 , ""~. , I'·" > I'·· >
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'OI
,

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,
, , ,
! ,
,

Fonte: SEA - Emhrapa.

segui r as mesmas recomcndações feitas para o milho comercial na rcgião


de produção. Antes do início do florescimento propriamellle ,Uto - emis-
são de estilo-estigmas nas fêmeas e polinização pelos machos - , faz -se
necessário a conclusão das operações de rogtteing , ou se ja, a elimi -
nação de plantas contami nantes que possam afetar a pureza genética
do material em cruzamento . Esse Irabalho é manual e necessita da
estrita supcrvisão dos técn icos da cm presa. Antes do início do nores-
cimento, inicia-se a operação de despendoamento manual das plantas
fêmeas, devem ser eliminados 100% dos pendões das plantas fêmeas. fase

161
1Vi/lotl lJuarfe

crítica para a garantia de qualidade quanto à pureza \~lri etal do hHlri


em produção.
O despendo:unento é classificado como "operação de guerra" pela
empresas produtor:Ls de sementes de milho Jubrido, t:d sua enlergadura
em fu nção de número de trabalhadores envoll;dos, transporte e alimenta-
ção d CSSíl!'i pessoas, supervi são c assistência técnica necessária.
Somente as fil eiras de plantas fêmeas são colhid'Ls manual Ou mecani-
camente, em espig:LS despalhadas, logo após a maturação fi siológica das
sementes. Essa tecnologia tem por ohjetivo hásico a preservação da qna-
lidade genética, física e fi siológica das sementes produzidas e a adotada
pelas empresas que huscam alta qualidade para seus produtos.
Acolheita mecfmica tradicional- com combinadas - é ,tinda praticada
por v:irias empresas em função da rapidez da operação e o menor custo
que representa no processo de produção. Essas operações são re:di ,",das
dentro da usina de processamento e consistem na recepção das espigas
colhidas, seleção manual dessas espigas com elinunação das d:mificadas
por insetos, fun gos ou outro agente qualquer, secagem em secadores
apropriados para operarem com espigas, debulha mecânica, limpeza,
classificação das sementes por largura, espessura e comprimento, trata-
mento químico, ensaque e armazemunento.
Emhor:l essas operações sejam conheCidas também como "beneficia-
mento-' de sementes, deve-se lembrar que, na pr.ítica, elas não melhoram ,
apenas conservam a qualidade obtida no campo. Houve, nos últimos anos,
grande mudança comportamental nos consumidores de sementes hHlri-
das de milho no tocante à sua qualidade. Como em outros setores da
economia, o cliente fi cou mais exigente, reclama com mais freqüência c
considera o atendimento de suas expectativas como ohrigação daquele
que lhe vende o produto.
Pode-se, com certeza, afirmar que, dentro do setor de produção de
sementes de milho, a alta qu;didade não é mais \~ L1gem competitim pois o
fato de não oferecê-Ia, signifiGt simplcsmente estar fora do mercado rapida-
mente. 11 defini ção dos padrões para ql"didade genética, física e fisiológica
não é m,tis responsabilidade das empresas, pois o agricultor assumiu essa
responsabilidade e determina qual padrão se interessa. Um hom exemplo
é a volta das principais empresas do mercado à colheita em espigas, pr:í-
tica qU:Lse 100% abolida na década de 1980. Provavelmente o fator mais

/ 62
o Im:raulo bm. \ildro de millJO

crítico para a produção de sementes híbridas de milho nos di'L' atuais seja
a alta pressão que existe para O aumento dos custos de produção.
O consumidor tem capacidade limitada na absorção desse aumento de
custo, pois a agricultura já apresenta riscos suficientes corno atividade
econômica. Por outro lado, como o mercado tende à consumir mais
híbridos simples e triplos - independentemente da pressão mencionada
- os custos já aum entariam pela menor produtividade alcançada nos
campos de produção desses materiais.
Acolheita em espigas, embora indiscutíveis os benefícios parJ a quali-
dade, também aumenta os custos de produção. Enfim , cabe its empreS'L'
a responsabilidade pelo desenvolvimento de tecnologias de produção e
sistemas gerenciais novos e ousados para adequar os custos de produção
às necessidades de rentabilidade do negócio.
Um grande desafio nesse processo é, sem dll\ida , o desenvolvimento
de tecnologia e equipamentos para mecanizar a colheita em espigas com
os níveis de eficácia necessários para o melhor aproveitamento dos mate-
riais dentro da qualidade exigida pelo mercado.
Existem dois sistemas de distribuição das sementes de milho produzi-
das no país. O primeiro é a distribuição direta ao consumidor final , na
grande maioria dos casos lIIiliz,mdo-se a \ia rodoviária; dependendo do
volume envohido no processo, a empresa absorve os custos do transpor-
te ou rep'L,sa esses custos ao consumidor fin,d. O segundo é a distribuição
aos canais de comerciali zação - revendas, cooperati v'as etc. - que, por
sua vez, rep;l~sam as sementes aos consumidores finais. A via de transpor-
te utilizada também é a rodoviária. Existe a possibilidade de variações
nesse segundo sistema, como por exemplo, a adoção de armazéns fiéis
depositários, com localização geográfica estratégica, funcionando como
intermediári os as empresas c os canais de comercialização .
Os clientes dos sistemas de distribuição têm , muito bem definidos, seus
padrões de desempenho e suas expectativas de qualidade para a opera-
ção. Não basta entregar as sementes, é necessário entregá-Ias dentro do
prazo planejado, dentro das especializações do pedido e com a carga
devidamente org,mizada dentro do meio de transporte, de forma a facilitar
o descarregamento e armazenamento do produtor. O cliente da distribui -
ção de sementes de milho também evolui nos conceitos de qualidade e é
tão exigente quanto o agricultor no atendimento de suas expectatiV'JS.

163
[riII01/ I Jt/(/r/('

Grande parte das empresas produtoras de sementes de milho distri-


huem seus produtores por todo o país e nem sempre SU~L" unidades de
produção estão localizadas estrategicamente para facilitar essa ope-
ração , Assim sendo, o fator mais crítico no processo é o fato de () Brasil
ser um p,ús continental. com poucas ,~ternativas para os meios de trans-
porte - predominância do transporte rodO\;,írio - , obrig'Uldo as empre:
sas sementeiras a desenvolverem planos de distrihuição de ,~to custo e
nem sempre totalmente eficazes.
O grande desafio é a realizar um trabalho de reengenharia desses siste-
m.L'" atuais, reduzindo custos e aumentando a eficácia de todo o processo,
obrJ conjunta dos agricultores e dos canais de comcrcialização,
Deve ser lemhrado que a semente é um produto perecível precisa ser
transportada em condições adequadas para se elitar problem'Ls com qua-
lidade, incluindo, 'L)Sim , mais um desafio dentro da operação,
Como na distribuição, existem basicamente dois sistemas de comercia-
lização de sementes de milho no llr'Lsil e comercialização direta com o
agricultor, reprl'sentamlo entre 30 e 3;% do \'olulllc total de semelHes
vendidas e a indireta, através de revend'Ls - como loj'Ls de produtos agro-
pecuários, cooperati\'as e, mais recentelllente, representantes exclusiros
d~l'\ cl1lprCS~l'i produtor;l'\ - que é mais representativa em termos percen-
tuais.

BtBLlOGRAFtA

:\tIR\.'\E.". Anuários Estatísticos da Ahrasem, 1987- 1t)l)i . 11)9S,


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165
8

ANÁLISE E AVALIAÇÃO
DO MERCADO BRASILEIRO DE SEMENTES DE MILHO

Antônio Bahia Filho


João Carlos Garcia *

A moderna indústria de sementes de milho teve seu início em meados


dos anos 1920, nos Estados Unidos, quando os primeiros híbridos co-
merciais foram colocados à disposição dos agricultores. Companhias como
Pioneer, Funk e DeKalb foram formadas expressamente para fazer melho-
ramento, produzir e vender sementes de milho lubrido. Nos anos 1930,
cerca de 150 empresas foram formadas, além de outras 40 que já produ-
ziam outros tipos de sementes e incorporaram a linha de híbridos de
milho. Dessas, aproximadamente 105 ainda continuam em atil1dade. Em
1995, cerca de 305 comp,mhias produziam sementes de miOlO nos Esta-
dos Unidos, sendo que 80 delas ha\1am sido formadas nos anos 1980 e
25, nos primeiros cinco anos da década de 1990. No início, essas compa-
nhias eram fortemente dependentes da pesquisa pública. À medida em
que desenvolveram seu próprio material genético, as maiores compa-
nhias reduziram o uso de linhagens públicas, porém as menores compa-
nhias continuam em diferentes graus dependentes dos materiais genéti-
cos públicos ou das chamadas !oundations seed companhies.
Neste país, sete empresas controlam 70% do mercado. A Pioneer con-
trola cerca de 44%, e 14 outras companhias controlam 39%, deixando
17% para as centenas de outras pequenas empresas. O papel dessas com-
panhias é oferecer aos agricultores uma fonte alternativa de sementes e
seu produto é geralmente mais barato do que o das empresas líderes.
Aindústria de sementes de milho lubrido no Brasil teve início em 1945,

ltônio Bahia Filho é pesquisador c chefe geral úa Embrapa Milho e Sorgo;João Carlos
Ircia é pesquisador da Embrapa Milho e Sorgo.

167
Alltfmío IIlIbÍtI FiIlJO (. }otio ÚlrlOS Garcia

com a fundação da Agroceres. As empresas multinaciomus começaram a


se instalar no Brasil a partir de 1964 (Pioneer) e, em fins dos anos 1970,
seis delas já se encontravam no p,ús. Até O ano de 1997, duas empresas-
a Agroceres e a Cargill - dominavam cerca de 57% do mercado, sendo os
outros 43% distribuídos entre cerca de 60 empresas com ou sem progra-
ma próprio de melhoramento. Como resultado das aquisições verificadas
no último ano, uma única empresa domina agora cerca de 63% do mer-
cado. Três outras multimlCion,us dominam outros 22%, restando para as
empresas nacionais cerca de 15% do mercado, conforme indicam os

TABEL< 1

Parlicipllçtlo 110 mercado das


pr;llcipa;!j emjJreslI!j pmdutorm; de semelltes de milho 110 Brasil'"

EMPRESAS PARTICIPAÇÃO
HÍBRIDOS
t %
A2rocercsIMonsanto 50.317 32
CargilVMonsanto 39.3 10 25
Braskalb/Monsanto 9.434 6 63
Pioneer 20.441 13
Novartis 7.862 5
Dina/Dow 6.290 4 22
Unimilho/Embrapa 18.869 12
Outras 4.7 17 3 15
Total 157.240 100
• Uisponibilidade s;úra 1998-1999 induindo \':I.riedades (7 J221).
Fonte: Elabor-:II;-jo EmbrJpa Milho e So~o a panir de dados da APPS e Relatório Pensa Cadeia Produti\':I.
de Milho.

dados da Tabela I.
O resultado dessa concentração no mercado será a redução da com-
petição e a implantação de padrões de produtos que, pelo seu preço mais
elevado, fornecem m,uor margem de lucro para as empresas. Esse mo\;-
mento já é \;sívc! na disponibilidade de produtos para a próxima s;úra -
cf. Tabelas 2 e 3 - , priv;legiando produtos mais sofisticados em detrimento
de produtos de menor custo . Uma comparação de preços entre os merca-

168
Análise e (I/!alitlçúo do I}/l/rwdo brasileiro de sem(/lIfes dI: mi!lXJ

TABELA 2
Dislribuiçâo da produçrio de sementes de milho
110 Brasil por preço da semell le - Scifra 1997-1998 e Scifra 1996-1997

NíVEL DE PREÇ O Safra 96/97 Safra 97/98 Safra 98/99

(USSlSc 20 Kg) t % t % t %
Até 15 Variedades 11.226 7,8 8.249 5,8 5.816 3,7

De 16 a 25 Variedades e ;\2.379 22,4 40.676 28,64 30.811 19,59


Híbridos Duplos

De 26 n 35 Híbridos Duplos 44.784 31,0 40.788 28,72 45.172 28,53

De 36 a 45 llíbridos Duplos e 23.421 16,2 15.472 10,9 27.014 l7, HI


Triplos
Acima de 45 Híbridos Triplos c n.656 22,6 36.821 25,93 48.428 30,80
Simples

Tot:d 144.466 100,0 142.006 100,0 157.241

Fonte: AI'I>S.
Os \~Ilores da coluna safra 1998- 1999 referem-se à disponihilidade de sementes para esta s:Úra.

TABELA 3
J);slribu;çdo da produçr7o de sementes de milbo no Brasil
por tipo de culti/!ar - S,!!ra 1996-1997 e Seif'" 1997-1998
TIPO DE HÍBRIDO Safr:1 %/97 Safm 97198 Safra 98199*
t % t % t %
VARIEDADE 13.641 9,' 11.148 7,8 7.363 4."
(Embra l13)

IIÍBRIDO DUPLO 65.538 45,4 66.555 46,8 68.303 43,44

(Embrap3, Agroccres,
Cargill)

IIÍURIDO TRIPLO 45.476 31 ,5 43.52.1 30,6 51.336 32,65

(todas empresas)

HÍURIDOSIMPLES 19.811 13,7 1 20.781 14,6 30.238 19.23

TOTAL 144.466 100,0 142.007 100,0 100,0


Fonte: API>S.
Os \'3lores da coluna safra 1 998~ I ry:)<) rcferem·se j disponibilidade de sementes parJ eS!.;1 safra..

169
Antônio &Ibia FiIlJO & joiio em/os GárClil

dos do Brasil e da Argentina indica uma clara vantagem das sementes


comercializadas em nosso país, vantagem esta que poderá ser reduzida
caso a competição entre as empres~l) diminua, conforme demonstram os

TABELA 4
Preços "de sementes de milho bíbrido
110 Brasil e 11a Argentina

TlllOS DE SEMENTI~S ARGENTINA BRASIL


USSlkg US$/kg
Híbridos dupl~ 2.20 1,68

IIíbridos triplos 3,25 2,46

Ilíhridos simples 3,65 2,81


- l>essoàl de pesquISador do I;"'T:\. Pre-
Obs.: I'reços da Argentina, Ila região de Perga.mino, comUmGlça.o
ços do Brasil, em SaIllOl QlIOI rinOl - CEP.-\-SC.

dados da Tabela 4, a seguir.


Parte da concorrência ocorre no campo da tecnologia, renetindo o
dinamismo dos programas de pesquisa. Uma das razões para as fu sões e
formação de megacmpres;Ls que vem ocorrendo é a necessidade de gran-
des investimentos em pesquisa biotecnológica, em especial nas áreas far-
macêutica, illl nutrição e da agricultura, nas quais a competição apresen-
ta- se mais acirrada. A integração de áreas para incorporar os avanços
biotecnológicos constilUi a pedra de lOque que orienta as fusões , uma vez
que deverá produzir sensível redução de custos e maior concentração de
recursos em áreas prioritárias. Na área agrícola, os reflexos já começam a
se fazer sentir com as primeiras plantas transgênicas chegando ao merca-
do. Com as recentes mudanças no cenário brasileiro - deterntinadas pela
aprovação da Lei de Proteção de Cultivares e fusões de empresas na área
de genética -, corre-se o risco da instalação de um oligopólio tecnológico
que pode tornar a economia agrícola brasileira fortemente regida pelos
interesses das grandes companlüas transnacionais.
Do ponto de vista do consumidor, a formação de oligopólios não aten-

170
AJ/âlil'e e (/f'(I!il/çf7o do mercado brasileiro de semeNtes de millx;

de a seus interesses, na medida em que as empresas dominantes perdem


o referencial de eficiência estabelecido pela competição, podendo resul-
tar em queda da eficiência produtiva do setor em questão .
No caso do agronegócio, os recentes movimentos de fu são, podem
levar a que economias agrícolas de p,úses como o Brasil e Argentina sejam
fortemente influenciadas pela ação desses grupos, com profundos refle-
xos nas políticas agrícolas e mLS atilódades dos agricultores e da indústria.
Em contrapartida, vale citar o exemplo brasileiro na área de sementes
de milho, em que a existência das pequenas e médias empresas apoiadas
na tecnologia genética da Embrapa introduziu um novo fator de competi-
ção, dando mais dinamicidade a um setor que se caracterizava pela baixa
taxa de lançamento de produtos, com resultados importantes na melhoria
da qualidade e na redução do preço de sementes para o agricultor.
Nesse sentido é urgente que o governo brasileiro defina mecanismos
de suporte à manutenção de empresas que, em associação com institui-
ções como a Embrapa, possam continuar participando do mercado de
sementes, com refl exos positivos sobre o nível de preços para os produto-
res, a agilidade de atendimento de nichos de mercado pouco atrativos
para 'LS megaempresas e a manutenção da competitividade entre as em-
preSíl,) que atuam no setor,
Parte da concorrência, entrettnto, verifica·se na área financeira! que
tcm abrigado os maiorcs problemas setoriais. Atualmente, as pequenas e
médias empresas produtoras de sementes no Brasil passam por sérias
dificuldades financeiras. Aorigem dos problemas remonta à safra de 1994-
1995, em função das dificuldades dos agricultores pagarem seus com-
promissos com os fornecedores de insumos, definindo no,,"s formas de
comercialização de sementes, nas quais as empresas financiam parte de
suas vendas para recebimento após a colheita, Assim, ao mesmo tempo
em que se tem uma safra de sementes vendida e ainda não recebida, as
empresas estão em processo de produção das sementes a serem
comercializadas na próxima safra . Isso gera sérios problemas de capit,d
de giro, que as empresas com sede no exterior tem sido c;lpazes de con-
tornar pela obtenção de recursos mais baratos em seus p,úses de origem ,
Conseqüentemente, torna-se necessária uma linha de crédito para su-
portar e fomentar as empresas de base tecnológica apoiadas na pesquisa
pública com prazos e juros compatíveis. Uma linha de crédito nessas

171
Anlú1IIo 11IIbltl FIlbo (. Jodrl (.t lr/o.\ (,,,,011

condições possih ilitar~í a manutenção d'l\i atuais t lllpresas c o surp,illltllto


de novos emprctndimcntos, gerando empregos c impostos, assl'gurando
a efetiva transferência tccnohígiGI c a con!'i cqüellle competilividadc do
setor. \ f ,,

/ 72
AGRADECIMENTOS

A realização desta coletânea mio teria sido possívelsem apaixâo pela


pesquisa nO uso dos reCllrsos genéticos, pela constante inquietaçâo para
compreender o processo de difusão e evolução da produtividade agríco-
la do milho, do produtor ao pesquisador e deste ao produtor. Como expli-
car a diferença de um potencial de mais de 15. ()()()kglha obtido pela pesqui-
sa e 1tI11t1 produtividade média nacional, em 1997, de apenas 2.550kglha
de milbo? Fatos que tIOS atingem e nos levam a buscar soluções para a
construção de uma agriculture/ economicamente sustentável.
Partilham inlÍmeros colegas da Embrapa deste esforço, em especial
neio poderíamos deixar de mencionar a cOlifiança inicial quando o Dr.
Eduardo Alberto Morales e O Dr. Afonso Celso Candeira Valois aceitaram
criar uma nova área relacionando conservação dos recursos genéticos e
economia /1a Embrapa Recursos Genéticos e Bioteenologia. Acredita-
ram IUI empreitada e a apoiare/m, com contribuições indispensáveis a
partir de suas e_\jJeriências a Dra. MariaJosé Zimmerman, Dr.Jairo Sil-
va, Dr. Dário Grat/apaglia, Dr. Maurício Antônio Lopes e Dr. Fernando
Almeida.
No desenvolvimento do projeto, o apoio da Secretaria deAdministra-
çâo Estratégica, por intermédio da Dra. Marisa Marilena T. Luz Barhosa,
permitiu consolidar as parcerias, em especial aquela com o Ministério
do MeioAmbiente.
A concretização desta coletânea sófoi possível pelo apoio institucio-
nal da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, da Embrapa Milho
e Sorgo, da Coordenaçeio Gere/I de Diversidade Biológica do Ministério do
Meio Ambiente, dos Recursos Hídricos e da Amazônia Legal - COBIOI
MM4 e da Secretaria deAdministraçeio Estre/tégica da Embrapa e da Flm-
daçeio de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal- FAP-DF
Beneficiamo-nos imensamente da participaçeio do profossor Dr. Ro-
naldo Seroa da Mot/a, responsável pelos estudos do meio ambiente do
Institu.to de Pesquisa Econômica Aplicada - IPEA, que coordenou o
lVorkshop de economia da biodiversidade.

173
L·ma IJl.sJÚrill brtl.\ildra tio 11lIl/}o

Fundamental a colaboraçdo e o estímulo de Dl:josé Ronaldo Maga -


IMes, c/lradorda Coleçdo de Base de milho da EmbrajJa Recursos Gené-
ticos e Biotecnologia e da equijJe de melhoramentu de milho da Embra-
jJa Milho e Sorxu, em especial o DI: Ramiro Vil/ela Andrade, curador de
Coleção Ativa de milho.
A equijJe de apoiu, as secretaria,l' Solange Cristina Barbosa Lima e
C/élia Raquel Gtlsparolto que não se restringiram às ohrigaçlies, dedi-
cando-se !Jlenamente tiO trabalho,
Aos autores, sem os quais esta coletânea não teria nado de seI:

Os orglllliztldores

174
AUTORES

Antonio Fcrnandino Bahia Filho Manoel Xavier dos Santos


Embr:l.pa Milho cSorgo - C. Postal: 15 1, Embrapa Milho e Sorgo - C. POSW: 151,
3570 1-970 - Sete Lagoas - MG 3570 1-970 - Sete Lagoal - MG
Email: bahi:l.@cnpms.emh rapa.br Elllail: xavicr@cnpms.cmbrapa.br
Célia Maria Torres Cordeiro
Maria Consoll.lción Villaraíie Udry
Elllh rapa Recursos Genéticos e
Embrapa Recursos Genéticos e
Biotecnolo~a - Parqu e Estação Biológica-
Biotecnologia - Parque Estação Biológica-
PqEB, Final Av. W3 Norte
PqEB, Final Av. W3 i\onc
c. Postal 02372
C. Postal 02372
70.849-970 - Bm"ia - DF
70.849-970 - B"""ia - DF
Elllail: celia@cenargcll.embrapa.br
Email: sol@ccnargen.embrapa.br
Ernesto )'aterniani
Rua Dona Eugênia, 248 R.·uniro Vil ela de Andrade
fone: (19) 4424737 - f~, (19) 442 4375 EmbrJpa Milho eSorgo. C. Postal: I; I , CEP:
pjr.lcicaba - SI' 35701-970, Scle Lagoas- MG
Email: r:Ulliro@copms.embrapa.br
João Carlos Garci;1
bnbrap:l. Milho e Sorgo - Sidney Netto Parentoni
C. Postal: 151 Embrapa Milho e Sorgo -C. POSlal: 15 1, CEP:
35701-970 - Sete I,agoas - MG 3570 I-970, Sele Lagoal - MG
Email: garcia@cnpms.embrapa.br Email: sidney@cnpms.embrapa.br

José Ronaldo M;tga lhães Tabaré Abadic


Embrapa Rccursos Genéticos e Facultad de Agronomia· Gárzon 780,
Biotecnologia - Parque Estação Biológica- Montevideo, Unlguai.
PqEB , final Av. W3 Norte Email: teabadie@ucdavis.cdu
C. PosL1! 02372
70.849-970 - Br.""ia - DF Wilton Duarte Ferreira
Email: joscmag@ccn:lrgen.embr.lpa.br Embrapa Recursos Genéticos e
Biotecnologia - Parque Estação Biológica-
Luciano Lourenço Nass PqEB, Final Av. W3 Nane
ESALQ - Departamento de Genética C. Postal 02372
M. Pádua Dias, 11 70.849-970 - B",,"ia - DF
Piracibaba - SI' Email: wiltonduarte@hotm:Úl.coTll
Email: Ilna.~s @ C:lrp:l..ciagri.usp . br

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