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Universidade Estadual do Ceará

Centro de Humanidades
Centro de Estudos Sociais Aplicados
Programa de Pós-Graduação em Sociologia
Disciplina: Teoria Sociológica Contemporânea
Docente: Emanuel Freitas da Silva
Discente: Saulo de Azevedo Freire

Comentário crítico sobre Anthony Giddens


(Trabalho 1)

A partir da análise dos Capítulos 1 e 4 da obra “A constituição da sociedade”,


apresento uma reflexão sobre os elementos basilares da teoria sociológica elaborada
pelo pensador britânico Anthony Giddens. É importante destacar preliminarmente que
Giddens (2003) toma como ponto de partida para a elaboração de suas reflexões
teóricas, uma das principais questões levantadas pela Sociologia desde os estudos
clássicos do fim do século XIX: a relação entre agência e estrutura. Esse debate
atravessou as preocupações de sociólogos precursores como Émile Durkheim e Max
Weber, e suas proposições sobre qual deveria ser a dimensão privilegiada da análise
sociológica, a estrutura social em seus aspectos gerais e influentes nas disposições
sociais, ou a agência do indivíduo em sociedade. Esse também era o debate que estava
posto nas principais correntes das Ciências Sociais entre o final do século XIX e a
primeira metade do século XX. De um lado tínhamos o Funcionalismo e o
Estruturalismo que, resguardadas as suas particularidades, compartilhavam um interesse
analítico sobre a primazia do todo social sobre suas partes individuais. Do outro lado,
tínhamos a Hermenêutica e as sociologias interpretativas, que buscavam compreender
os aspectos subjetivos da ação dos indivíduos em sociedade.

Ao conceber a estrutura, o autor a compreende não apenas como condicionante,


mas também como capacitadora da ação. Ela não se apresenta como aquela instância
superior e coercitiva, tal qual estava posto na tradição funcionalista, e é vista também
como facilitadora da ação. Ela apresenta as “regras” da ação, mas também proporciona
“recursos” para o seu exercício. Diferente do que pensavam as tradições sociológicas
macroestruturais, muito mais do que disposições coercitivas fixas, a estrutura fornece,
segundo Giddens (2003), certos limites dentro dos quais a agência se desenvolverá. O
que nos faz agentes não é o que nós criamos, e sim o que nós recriamos a partir da
estrutura/ordem social disponível. É nessa recriação que nós mobilizamos os recursos
sociais. A capacidade de agir é mediada por um processo de reflexividade, que leva a
ação do indivíduo a poder ser conduzida, de um ou de outro(s) modo(s), de intervir ou
não em determinados processos para influenciar o seu curso. A reflexividade, segundo o
autor “(...) deve ser entendida não meramente como "autoconsciência", mas como o
caráter monitorado do fluxo continuo da vida social (GIDDENS, 2003. p. 3).

Dessa forma, os sociólogos não se deveriam se interessar em primeira instância


pela intenção dos agentes antes de agirem. Caso o fizéssemos, estaríamos procurando
por certo voluntarismo que deslocaria a ação do contexto social onde ela está inserida e
que a orienta. A intencionalidade não é algo externo a ação. Os agentes não põem
primeiro os objetivos e depois agem. Muitas metas só aparecem na medida em que os
sujeitos agem. Somente quando agem é que se tornam conscientes de suas ações. A
agência não deve ser compreendida como simplesmente a intenção na ação, e sim como
o poder de agir. E é justamente na ação que se encontra a possibilidade de
transformação das estruturas

Ao propor a sua teoria da estruturação, o autor parte uma premissa de não


procurar estabelecer agência e estrutura como polos antagônicos, com maior ou menor
peso para a análise sociológica. Ele parte, sim, de uma tentativa de
interconexão/articulação entre essas dimensões para o empreendimento da análise. Um
avanço alcançado a partir de suas formulações teóricas foi o de compreender a estrutura
para além da dimensão objetiva e rígida tal qual as marco-sociologias concebiam até
então, e pensar o agente não apenas como fruto um individualismo subjetivo e cognitivo
pleno. Para o autor, a análise da estruturação dos sistemas sociais diz respeito
justamente ao estudo dos modos como esses sistemas como fruto das atividades da ação
e interação de agentes localizados, que se apoiam em regras e recursos possíveis na
diversidade de contextos de onde são produzidos e reproduzidos.

BIBLIOGRAFIA

GIDDENS, Anthony. A constituição da sociedade. São Paulo: Martins Fontes, 2003.