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Tribunal de Justiça do Estado de Mato Grosso

PJe - Processo Judicial Eletrônico

14/05/2021

Número: 1017338-29.2021.8.11.0041
Classe: AÇÃO POPULAR
Órgão julgador: VARA ESP. AÇÃO CIVIL PÚBLICA E AÇÃO POPULAR
Última distribuição : 14/05/2021
Valor da causa: R$ 100.000,00
Assuntos: Apologia de Crime ou Criminoso
Segredo de justiça? NÃO
Justiça gratuita? SIM
Pedido de liminar ou antecipação de tutela? SIM
Partes Procurador/Terceiro vinculado
EDNA LUZIA ALMEIDA SAMPAIO (AUTOR(A)) CESAR HENRIQUE DE ALMEIDA SAMPAIO
(ADVOGADO(A))
ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DO ESTADO DE MATO
GROSSO (REU)
CUIABA CAMARA MUNICIPAL (REU)
Documentos
Id. Data da Documento Tipo
Assinatura
55639 14/05/2021 17:06 1 - Ação Popular Edna x ALMT Petição inicial em pdf
606
EXCELENTÍSSIMO SENHOR DOUTOR BRUNO D’OLIVEIRA MARQUES - JUIZ
DE DIREITO TITULAR DA VARA ESPECIALIZADA EM AÇÃO CIVIL PÚBLICA
E AÇÃO POPULAR DA COMARCA DE CUIABÁ - MATO GROSSO

EDNA LUZIA ALMEIDA SAMPAIO, brasileira, casada,


funcionária pública, portadora da cédula de identidade RG n° 0574621-3, e inscrita no CPF
n° 424.493.591-68, residente e domiciliada na Rua Estevão de Mendonça, 1.295, Quilombo,
Edifício Sofisticato, Apartamento 2301, CEP 78043-407, vem, respeitosamente, à presença
de Vossa Excelência, por seus advogados subscritores, com fundamento no art. 5º, inciso
XXXIV alínea “a” e inc. LXXIII, da Constituição da República Federativa do Brasil, assim
como na Lei 4.717 de 65, propor a presente:

AÇÃO POPULAR COM PEDIDO LIMINAR

Em face da ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DO ESTADO DE


MATO GROSSO, inscrita no CNPJ nº 03.929.049/0001-11, com sede na Avenida André
Maggi, nº 06, CPA, CEP: 78049-901, na cidade de Cuiabá - MT e da CÂMARA
MUNICIPAL DE CUIABÁ, inscrita no CNPJ nº 33.710.823/0001-60, com sede na Av.
Barão de Melgaço, S/N, Centro, CEP 78.020-010, na cidade de Cuiabá - MT pelos fatos e
fundamentos que a seguir passa a expor

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I - DOS FATOS

Na data de ontem (13/05/2021) tanto a Assembleia Legislativa do


Estado de Mato Grosso, quanto a Câmara Municipal de Cuiabá, aprovaram uma moção de
aplausos aos policiais envolvidos na operação policial ocorrida na Favela do Jacarezinho - RJ
que vitimou 28 (vinte e oito) moradores da região.

A referida ação policial é a mais letal da história das ações policiais


já registrada na história do estado de Rio de Janeiro, sendo, noticiado pela imprensa
internacional como um verdadeiro “massacre”1, destacando, inclusive, que “mesmo em uma
cidade acostumada com a violência, a contagem de mortes foi chocante”2.

Ainda segundo noticiado pela mídia3, dos 21 investigados e com


mandados de prisão em aberto, apenas 03 (três) foram detidos e outros 03 (três) assassinados,
destacando-se, ainda que, ao menos 13 das vítimas da chacina, sequer eram investigadas na
operação.

Ora, Excelência, é sabido que nossa Constituição Federal, em seu art.


5º, LIV, garante à todos o direito ao devido processo legal, sendo vedado, inclusive, a pena
de morte (art. 5º, inc.XLVII), tendo como principal direito fundamental a inviolabilidade do
direito à vida.

Neste sentido, a execução sumária de pessoas em comunidades é algo


que viola frontalmente não só a Constituição Federal, mas também os Tratados
Internacionais de Direitos Humanos, na medida em que se revela como um verdadeiro
“procedimento de guerra”, incompatível com o estado democrático de direito, uma vez que
não é papel do Estado promover assassinatos em massa como o presente, mas sim proteger a
população contra tais eventos.

1
https://brasil.elpais.com/brasil/2021-05-08/mortos-na-chacina-do-jacarezinho-sobem-para-29-e-policia-insiste-na-criminaliz
acao-de-vitimas-sem-provas.html
2
https://www.washingtonpost.com/world/2021/05/06/brazil-police-rio-favela-killings/
3
https://brasil.elpais.com/brasil/2021-05-07/maioria-dos-mortos-na-chacina-do-jacarezinho-nao-era-suspeita-em
-investigacao-que-motivou-a-acao-policial.html

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Aliás, destaca-se que a referida operação policial fora realizada em
descumprimento à decisão judicial do Supremo Tribunal Federal que restringiu operações
policiais em favelas durante a pandemia do COVID-19, sendo, inclusive, requerido pela
ONU4, a instauração de investigações independentes acerca do massacre ocorrido.

Deste modo, a aprovação de moção de aplauso aos policiais


envolvidos na operação policial ocorrida na Favela do Jacarezinho - RJ pelos parlamentos
ora requeridos, mostra-se um completo absurdo, na medida em que ao aplaudir operações
policiais como a presente, se está a realizar verdadeira apologia ao crime, nos exatos termos
do art. 287 do Código Penal do Brasil.

Portanto, diante da teratológica aprovação pelo parlamento estadual e


municipal de moções de aplausos à chacina de jacarezinho, não resta outra alternativa a esta
vereadora, senão o socorro ao Poder Judiciário, para fazer valer o Estado Democrático de
Direito da República Federativa do Brasil, nos termos das razões jurídicas que adiante se
expõe.

II - DO MÉRITO

Excelência, conforme cediço, a Lei 4.717/65, que regulamenta a ação


popular, expressamente dispõe, em seu art. 2º, alínea “c”, que todos os atos praticados pela
administração pública que tenham por objeto ascpeto ilegal, serão considerados nulos, senão
vejamos:

Art. 2º São nulos os atos lesivos ao patrimônio das entidades


mencionadas no artigo anterior, nos casos de:

c) ilegalidade do objeto;

Neste sentido, deve-se destacar que a moção de aplausos aprovada,


tanto pela Assembleia Legislativa do Estado de Mato Grosso, quanto pela Câmara Municipal

4
https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2021/05/onu-pede-investigacao-independente-do-massacre-no-jacarez
inho.shtml

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de Cuiabá tipifica-se como apologia ao crime, ou seja, subsume-se ao crime definido no art.
287 do Código Penal Brasileiro. In verbis:

Art. 287 - Fazer, publicamente, apologia de fato criminoso ou de


autor de crime:

Pena - detenção, de três a seis meses, ou multa.

Isso porque, a ação policial claramente incidiu em crime, uma vez que
resultou na execução sumária de 28 (vinte e oito) moradores da comunidade de
Jacarezinho, sem que lhes fosse oportunizado o exercício de seus direitos fundamentais
inerentes ao devido processo legal, bem como por desobediência a decisão judicial proferida
pelo STF que restringiu operações policiais em favelas durante a pandemia do COVID-19.

Deste modo, a ilegalidade do objeto, a ensejar a nulidade dos atos


aprovados pelos parlamentos requeridos, se dá na medida em que a moção de aplausos aos
policiais do Rio Janeiro mostra-se uma verdadeira apologia aos assassinatos cometidos por
estes no bojo da operação policial na comunidade do Jacarezinho, o qual, por sua vez,
encontra-se tipificado no art.287 do Código Penal Brasileiro.

Portanto, restando demonstrada a ilegalidade do objeto da moção de


aplausos aprovadas pelos parlamentos requeridos, notadamente por se tratar de clara apologia
aos assassinatos ocorridos na favela do Jacarezinho no Rio de Janeiro, requer sejam às
moções de aplauso nº 673/2021 e 074/2021, aprovadas, respectivamente pela Assembleia
Legislativa do Estado de Mato Grosso, e pela Câmara Municipal de Cuiabá, declaradas
nulas, nos termos do art.art. 2º, alínea “C” da Lei 4.717/65, declaradas nulas.

III - DA TUTELA DE URGÊNCIA EM CARÁTER LIMINAR

O Código de Processo Civil dispõe acerca da tutela de urgência em


seu art. 300, caput, senão vejamos, in litteris:

Art. 300. A tutela de urgência será concedida quando houver


elementos que evidenciem a probabilidade do direito e o perigo de
dano ou o risco ao resultado útil do processo.

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Ademais, o § 2º do referido dispositivo legal menciona a hipótese de
a tutela de urgência ser concedida liminarmente, após verificada a presença dos requisitos de
concessão, sejam eles a probabilidade do direito e o perigo do dano ou risco ao resultado útil
do processo, conforme pode-se visualizar a seguir:

§ 2º A tutela de urgência pode ser concedida liminarmente ou após


justificação prévia.

Isso posto, passamos a expor a presença dos requisitos necessários


para a concessão da medida de urgência, quais sejam a probabilidade do direito e o perigo da
demora/risco de dano ao resultado útil do processo.

Ab initio, vislumbra-se de plano a presença da probabilidade do


direito na medida em que restou demonstrada a nulidade das referida moções de aplausos
aprovadas pelas casas parlamentares requeridas, notadamente por terem como objeto a
apologia ao massacre ocorrido na comunidade do Jacarezinho no Rio de Janeiro.

Outrossim, caracteriza-se o perigo da demora ao passo que,


inobstante a flagrante nulidade das referidas moções de aplauso, caso a presente medida não
seja concedida, os referidos projetos serão regularmente processados até atingirem seu
objetivo, fazendo com que a presente ação perca seu objeto e, pior, as respectivas instituições
legislativas pratiquem a conduta incidente em crime contra a paz pública, ou seja, no tipo
penal que define a apologia ao crime.

Portanto, diante da presença dos requisitos exigidos pelo art. 300, do


Código de Processo Civil, requer-se a concessão da tutela de urgência em caráter liminar,
inaudita altera pars, para que seja suspensa a tramitação das moções de aplauso nº 673/2021
e 074/2021, aprovadas, respectivamente pela Assembleia Legislativa do Estado de Mato
Grosso, e pela Câmara Municipal de Cuiabá.

DOS PEDIDOS

Ex positis, requer-se:

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1. A concessão da tutela de urgência em caráter liminar, inaudita altera pars, para que
seja suspensa a tramitação das moções de aplauso nº 673/2021 e 074/2021,
aprovadas, respectivamente pela Assembleia Legislativa do Estado de Mato Grosso, e
pela Câmara Municipal de Cuiabá.

2. A exibição em juízo de todos os documentos referentes à tramitação dos projetos de


moção de aplausos, nº 673/2021 e 074/2021, aprovados respectivamente pela
Assembleia Legislativa do Estado de Mato Grosso, e pela Câmara Municipal de
Cuiabá, com fulcro no art.1º, §4º da Lei Lei nº 4.717/1965;

3. Ao final, restando demonstrada a ilegalidade do objeto da moção de aplausos


aprovadas pelos parlamentos requeridos, notadamente por se tratar de clara apologia
aos assassinatos ocorridos na favela do Jacarezinho no Rio de Janeiro, requer sejam
às moções de aplauso nº 673/2021 e 074/2021, aprovadas, respectivamente pela
Assembleia Legislativa do Estado de Mato Grosso, e pela Câmara Municipal de
Cuiabá, declaradas nulas, nos termos do art. 2º, alínea “C” da Lei 4.717/65..

Protesta provar o alegado por todos os meios de provas admitidas em direito.

Dá-se a causa o valor de R$100.000,00 (cem mil reais) para fins fiscais.

Termos em que pede deferimento,


Cuiabá, Mato Grosso, 14 de maio de 2021.

CÉSAR HENRIQUE DE ALMEIDA SAMPAIO


Advogado inscrito na OAB/MT 20.712

LUIS FELIPE SAMPAIO WERNER


Advogado inscrito na OAB/MT 24.585

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