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PETIÇÃO 8.

975 DISTRITO FEDERAL

RELATOR : MIN. ALEXANDRE DE MORAES


REQTE.(S) : SOB SIGILO
REQTE.(S) : SOB SIGILO
REQTE.(S) : SOB SIGILO
REQTE.(S) : SOB SIGILO
ADV.(A/S) : SOB SIGILO
REQDO.(A/S) : SOB SIGILO
ADV.(A/S) : SOB SIGILO

DECISÃO

Trata-se de REPRESENTAÇÃO da Polícia Federal pelo deferimento


de inúmeras diligências criminais (autorização para realização de perícia,
medidas cautelares de busca e apreensão, afastamento de sigilos bancário
e fiscal, suspensão cautelar da função pública, suspensão dos efeitos do
Despacho n. 7036900/2020-GABIN) em face de diversos agentes públicos
e pessoas jurídicas, em tese envolvidos em grave esquema de facilitação
ao contrabando de produtos florestais.
De acordo com a representação da autoridade policial, os
depoimentos, os documentos e os dados coligidos sinalizam, em tese,
para a existência de grave esquema de facilitação ao contrabando de
produtos florestais o qual teria o envolvimento de autoridade com
prerrogativa de foro nessa SUPREMA CORTE, no caso, o Ministro do
Meio Ambiente, Ricardo de Aquino Salles; além de servidores públicos e
de pessoas jurídicas. Os principais servidores públicos envolvidos seriam:
Walter Mendes Magalhães Júnior, Olivandi Alves Azevedo Borges, João
Pessoa Riograndense Moreira Júnior, Rafael Freire de Macedo, Eduardo
Fortunato Bim, Olímpio Ferreira Magalhães, Leslie Nelson Jardim
Tavares, André Heleno Azevedo Silveira, Artur Vallinoto Bastos,
Leopoldo Penteado Butkiewicz e Wagner Tadeu Matiota.
Segundo apontado pela autoridade policial, ficaria:

"evidente que o interesse privado de alguns poucos empresários,

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reincidentes na prática de infrações ambientais como demonstraremos


mais adiante, foi colocado à frente do interesse público" e que "a
situação que se apresenta é de grave esquema criminoso de caráter
transnacional. Esta empreitada criminosa não apenas realiza o
patrocínio do interesse privado de madeireiros e exportadores em
prejuízo do interesse público, notadamente através da legalização e de
forma retroativa de milhares de carregamentos de produtos florestais
exportados em dissonância com as normas ambientais vigentes entre
os anos de 2019 e 2020 mas, também, tem criado sérios obstáculos à
ação fiscalizatória do Poder Público no trato das questões ambientais
com inegáveis prejuízos a toda a sociedade".

De acordo com a representação da autoridade policial, os


depoimentos, os documentos e os dados coligidos sinalizariam, em tese,
para a existência de grave esquema de facilitação ao contrabando de
produtos florestais o qual teria o envolvimento de autoridade com
prerrogativa de foro, no caso, o atual Ministro do Meio Ambiente,
Ricardo de Aquino Salles, de servidores públicos e de pessoas jurídicas.

A) Principais pontos destacados na representação da autoridade


policial em relação aos envolvidos – Ministro de Estado do Meio
Ambiente, agentes públicos e pessoas jurídicas.

1. Ricardo de Aquino Salles: no que se refere ao atual Ministro do


Meio Ambiente, a autoridade policial transcreveu alguns trechos da
reunião ministerial ocorrida em 22/04/2020, ocasião em que o referido
Ministro de Estado teria afirmado que:

"[...] É que são muito difíceis, e nesse aspecto eu acho que o Meio
Ambiente é o mais difícil, de passar qualquer mudança infralegal em
termos de infraestru... e... é... instrução normativa e portaria, porque
tudo que a gente faz é pau no judiciário, no dia seguinte. Então pra
isso precisa ter um esforço nosso aqui enquanto estamos nesse
momento de tranquilidade no aspecto de cobertura de imprensa,
porque só fala de COVID e ir passando a boiada e mudando todo o

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regramento e simplificando normas. [...] Não precisamos de congresso.


Porque coisa que precisa de congresso também, nesse, nesse fuzuê que
está aí, nós não vamos conseguir apo... apos... é... aprovar. Agora tem
um monte de coisa que é só, parecer, caneta, parecer, caneta. Sem
parecer também não tem caneta, porque dar uma canetada sem parecer
é cana. Então, o... o... o... isso aí vale muito a pena. A gente tem um
espaço enorme para fazer".

Segundo a autoridade policial, o referido modus operandi ("parecer,


caneta") teria sido aplicado na questão das exportações ilícitas de
produtos florestais, pois, na ausência de um parecer do corpo técnico
especializado que objetivasse a eventual revogação da Instrução
Normativa n. 15/2011, do IBAMA, o que se viu na prática foi a elaboração
de um parecer por servidores de confiança, em total descompasso com a
legalidade.
Afinal, após apreensões de produtos florestais exportados
ilegalmente pela "EBATA PRODUTOS FLORESTAIS LTDA" e pela
"TRADELINK MADEIRAS LTDA", para os Estados Unidos da América,
as empresas "CONFLORESTA – ASSOC. BRAS. DAS EMP.
CONCESSIONÁRIAS FLORESTAIS" (entidade que reúne 11
concessionárias florestais, dentre elas a "RRX" e a "PATAUÁ",
responsáveis pela maior parte de cargas exportadas pela "TRADELINK")
e "AIMEX - ASSOCIAÇÃO DAS INDÚSTRIAS EXPORTADORAS DE
MADEIRA NO PARÁ" (entidade que congrega 23 empresas do ramo de
exportação de madeiras, dentre elas a "TRADELINK" e a "EBATA"),
objetivando solucionar o problema, buscaram apoio junto ao
Superintendente do Pará (Walter Mendes Magalhães) e ao então Diretor
de Uso Sustentável da Biodiversidade e Florestas (Rafael Freire de
Macedo), ambos nomeados/promovidos pelo atual Ministro do Meio
Ambiente, Ricardo de Aquino Salles, os quais teriam emitido certidões e
ofício, claramente sem valor, por ausência de previsão legal, que não
foram aceitos pelas autoridades norte-americanas.
Na sequência, as empresas "CONFLORESTA – ASSOC. BRAS. DAS
EMP. CONCESSIONÁRIAS FLORESTAIS" e "AIMEX - ASSOCIAÇÃO

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DAS INDÚSTRIAS EXPORTADORAS DE MADEIRA NO PARÁ"


protocolaram um pedido buscando a "caducidade da IN IBAMA 15/2011
(ANEXO VII), no que se refere à necessidade de autorização específica para
exportação dos produtos e subprodutos florestais de origem nativa em geral,
considerando sua revogação tácita a partir da publicação da IN IBAMA
21/2014".
Segundo noticiado pela autoridade policial, o pedido digitalizado
apresentou carimbo de recebimento pela Presidência do IBAMA e,
embora no carimbo não constasse a data do recebimento, o referido
pedido foi encaminhado pelo chefe de gabinete da Presidência do IBAMA
em 06/02/2020, às 13h53min. Ao que tudo indica, no mesmo dia
06/02/2020, Ricardo de Aquino Salles, atual Ministro do Meio Ambiente,
teria se encontrado, no final da manhã, com representantes das referidas
empresas ("CONFLORESTA" e "AIMEX"), com um diretor da
"TRADELINK MADEIRAS LTDA", com o Presidente do IBAMA
(Eduardo Fortunato Bim), com o Diretor de Proteção Ambiental (Olivandi
Alves Borges de Azevedo), além de parlamentares, para uma reunião
sobre exportação de madeiras ativas do Estado do Pará.
Na sequência, pelo que consta da representação da autoridade
policial, houve o:

"atendimento integral e quase que imediato da demanda


formulada pelas duas entidades, contrariamente, inclusive ao parecer
técnico elaborado por servidores do órgão, legalizando, inclusive com
efeito retroativo, milhares de cargas expedidas ilegalmente entre os
anos de 2019 e 2020".

Além disso, a autoridade policial destacou que:

"na sequência da aprovação desse documento e revogação da


norma, servidores que atuaram em prol das exportadoras foram
beneficiados pelo Ministro com nomeações para cargos mais altos, ao
passo que servidores que se mantiveram firmes em suas posições
técnicas, foram exonerados por ele".

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Não bastasse esses fatos, em complementação à representação


oferecida pela autoridade policial, noticiou-se a vinda do depoimento de
Hugo Leonardo Mota Ferreira, servidor do IBAMA lotado na
Superintendência de Apuração de Infrações Ambientais
(SIAM/GAB/IBAMA), que reforçou as graves consequências do teor do
"despacho interpretativo" (Despacho n. 7036900/2020-GABIN) e os
indícios de possível envolvimento do atual Ministro do Meio Ambiente.
De acordo com o informado pela testemunha, desde janeiro de 2021,
outro agente público investigado nos autos (Leopoldo Penteado
Butkiewicz), por ser assessor especial do atual Ministro de Meio
Ambiente, passou a atuar de forma direta no IBAMA.
A testemunha disse que desde 2015 (período em que atua na área de
infrações ambientais) nunca tinha visto um assessor direto do Ministro do
Meio Ambiente atuar dessa forma e que, segundo se recorda, o referido
agente público de confiança participaria dos grupos de Whatsapp do
SIAM/GAB, tendo por diversas vezes dado ordens diretamente ao
depoente e intercedido em favor de autuados.
A esse respeito, a autoridade policial juntou conversas entre a
testemunha e o mencionado agente público, que demonstram que ele, de
ofício, teria acessado processos no SEI e, em determinado caso concreto,
dito que deveriam "levantar o embargo" e "dar prosseguimento", embora o
caso concreto estivesse com autorização vencida, além de ter sugerido a
criação de e-mails para a juntada de ofícios, mesmo sendo orientado pela
testemunha que o e-mail não seria o canal adequado, haja vista que o SEI
já disponibilizaria tal ferramenta.
Por derradeiro, a autoridade policial também destacou que parte das
empresas envolvidas e pelo menos dois dos agentes públicos
investigados tiveram, nos últimos anos, inúmeras comunicações ao COAF
por operações suspeitas. A esse respeito, a representação ainda aponta a
possível existência de indícios de participação do Ministro do Meio
Ambiente, Ricardo de Aquino Salles, em razão de comunicações ao COAF
por operações suspeitas realizadas, também nos últimos anos, por
intermédio do escritório de advocacia do qual o referido Ministro de

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Estado é sócio (RIF n. 60322.2.2536.4046 – Anexo VIII).

2. Walter Mendes Magalhães Júnior: Foi nomeado por Ricardo de


Aquino Salles, atual Ministro do Meio Ambiente, para assumir as funções
de Superintendente Regional do IBAMA no Estado do Pará em
08/10/2019, cargo em que permaneceu até 29/04/2020 quando foi
promovido pelo Ministro a Coordenador-geral de Fiscalização. Segundo
apurado, o referido agente público, no exercício das funções de
Superintendente do IBAMA no Estado do Pará, teria, a pedido das
empresas envolvidas, elaborado e firmado o documento denominado
"Informação n. 21/2020/SUPES-PA-IBAMA", bem como emitido,
indevidamente, no mês de fevereiro de 2020, 05 (cinco) certidões que
atestariam a regularidade das exportações de madeiras apreendidas pelas
autoridades norte-americanas e europeias, feitas pela empresa
"TRADELINK MADEIRAS LTDA", empresa associada a "AIMEX".
Além disso, o referido agente público teria sido o responsável pela
emissão de 01 (uma) certidão, também em fevereiro de 2020, relativa a
exportação pela empresa "EBATA PRODUTOS FLORESTAIS LTDA",
também associada a "AIMEX".
O teor do documento "Informação n. 21/2020/SUPES-PA-IBAMA" foi
objeto de análise por "Egberto", analista ambiental da Coordenação de
Inteligência de Fiscalização (Informação Técnica n. 6/2020), que concluiu,
após minuciosa análise dos respectivos processos, no sentido de que os
documentos teriam sido emitidos de forma extemporânea e que o teor
dos seus fundamentos não corresponderia à verdade. A atuação do
referido agente público foi confirmada, inclusive, pelo depoimento da
testemunha chamada "Alex", que foi transcrito na presente representação
da autoridade policial.

3. Olivandi Alves Azevedo Borges: No IBAMA, foi nomeado por


Ricardo de Aquino Salles, atual Ministro do Meio Ambiente, para exercer
as funções de Diretor de Proteção Ambiental entre 10 de janeiro de 2019 a
13 de abril de 2020, quando foi promovido a "Secretário adjunto da

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Secretaria de Biodiversidade do Ministério do Meio Ambiente", onde


permaneceu até 30 de setembro de 2020.
O referido agente público participou de uma reunião realizada com
o atual Ministro do Meio Ambiente (Ricardo de Aquino Salles), com o
Presidente do IBAMA (Eduardo Fortunato Bim), com parlamentares e
com representantes do setor madeireiro que, posteriormente, resultou na
elaboração do "despacho interpretativo" (Despacho n. 7036900/2020-
GABIN) firmado pelo presidente do órgão. Por fim, a autoridade policial
apontou que o agente público mesmo tendo conhecimento de inúmeras
irregularidades da exportação de madeira não deu o devido
encaminhamento à "Informação Técnica n. 6/2020-
COINF/CGFIS/DIPRO", bem como destacou a existência de uma
comunicação de operação suspeita objeto do RIF n. 60327.2.2536.4046, de
23/04/2021 (Anexo V), elaborado mediante solicitação da autoridade
policial (SEI-C 80222, período compreendido entre 01/01/2019 a
22/04/2021).

4. João Pessoa Riograndense Moreira Júnior: é analista ambiental


do IBAMA (nomeado em 10 de janeiro de 2019) e foi nomeado por
Ricardo de Aquino Salles, atual Ministro do Meio Ambiente, para exercer
o cargo de Diretor de Uso Sustentável da Biodiversidade e Florestas
(DBFLO).
Segundo aponta a autoridade policial, o referido agente público
participou de reuniões com o setor produtivo, junto de seus superiores,
relacionadas à questão das exportações de madeira e foi o responsável
pela elaboração conjunta da "Nota técnica n. 3/2020/DBFLO" em
17/02/2020 (Rafael Freire Macedo, outro agente público que também
participou), que desconsiderou a "Nota técnica n.
2/2020/CGMOC/DBFLO" (elaborada em 13/02/2020), e subsidiou o
"despacho interpretativo" (Despacho n. 7036900/2020-GABIN).
A atuação do referido agente público foi confirmada, inclusive, pelo
depoimento da testemunha chamada "André Sócrates", que foi transcrito
na presente representação da autoridade policial. Por fim, foi noticiada a

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existência de uma comunicação de operação suspeita objeto do RIF n.


60204.2.2536.4046, de 20/04/2021 (Anexo VI), elaborado mediante
solicitação da autoridade policial (SEI-C 80048, período compreendido
entre 01/01/2016 a 19/04/2021).

5. Rafael Freire de Macedo: é analista ambiental do IBAMA e, na


condição de substituto de João Pessoa Riograndense Moreira Júnior, foi o
responsável por elaborar e assinar o "Ofício n. 7/2020/DBFLO" de
09/01/2020, que atestou a regularidade da carga da empresa "EBATA
PRODUTOS FLORESTAIS LTDA" associada à "AIMEX", apreendida
pelas autoridades americanas. Posteriormente, não realizou a correção do
mencionado Ofício mesmo em face do teor da "Nota Técnica n.
1/2020/COINF/CGFIS/DIPRO" (13/01/2020).
A autoridade policial também apontou que o referido agente público
participou da elaboração da "Nota Técnica n. 3/2020/DBFLO", assinada
por João Pessoa Riograndense Moreira Júnior em 17/02/2020, que
desconsiderou a "Nota Técnica n. 2/2020/CGMOC/DBFLO" de 13/02/2020,
e subsidiou o "despacho interpretativo" (Despacho n. 7036900/2020-
GABIN).
O agente público foi promovido pelo Ministro do Meio Ambiente
(Ricardo de Aquino Salles) em 03/04/2020 para exercer as funções de
Coordenador Geral de Monitoramento do Uso da Biodiversidade e
Comércio Exterior em substituição a André Sócrates de Almeida Teixeira.
A atuação do referido agente público foi confirmada, inclusive, pelo
depoimento das testemunhas "André Sócrates" e "Natália", o último
transcrito na presente representação da autoridade policial.

6. Eduardo Fortunato Bim: é o atual Presidente do IBAMA e foi


nomeado por Ricardo de Aquino Salles, Ministro do Meio Ambiente, em
22/01/2019, como sendo a "pessoa de sua confiança que assumiria a presidência
do órgão".
Segundo o apurado pela autoridade policial, o referido agente
público participou de uma reunião com servidores do IBAMA, com o

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Ministro do Meio Ambiente (Ricardo de Aquino Salles), com


parlamentares e com representantes do setor produtivo, no qual foi
apresentado o pleito do respectivo setor e os fundamentos jurídicos que
seriam posteriormente utilizados para a elaboração do "despacho
interpretativo" (Despacho n. 7036900/2020-GABIN).
A autoridade policial apontou que o mencionado despacho não só
teria sido elaborado em contrariedade com a "Nota Técnica n.
2/2020/CGMOC/DBFLO", como também teria revogado a necessidade de
emissão de autorizações de exportação e, por consequência, legalizado,
com efeito retroativo, milhares de cargas que teriam sido exportadas
entre os anos de 2019 e 2020, sem a respectiva documentação.
As circunstâncias e os acontecimentos que antecederam e se
sucederam à emissão do referido despacho foram devidamente descritos
na presente representação da autoridade policial e demonstraram, em
tese, esforço incomum e pessoal do referido agente público, atual
presidente do IBAMA, no sentido de atender à demanda apresentada por
empresas do setor quanto à legalização das exportações já realizadas. Por
fim, a autoridade policial aduziu que os depoimentos colhidos
demonstraram, em tese, uma gestão voltada ao esvaziamento do órgão
sob seu comando (especialmente dos setores incumbidos da fiscalização)
e uma franca política de perseguição contra os servidores que a ela se
oponham, em verdadeiro descompasso com o seu cargo.

7. Olímpio Ferreira Magalhães: foi nomeado por Ricardo de Aquino


Salles, Ministro do Meio Ambiente, para as funções de Superintendente
do IBAMA no Estado do Amazonas (onde permaneceu durante
02/09/2019 a 14/04/2020) e, posteriormente, promovido para as funções de
Diretor de Proteção Ambiental (DIPRO).
O referido agente público foi o responsável pela elaboração do
"Despacho n. 9647892/2021-DIPRO" de 06/04/2021, que removeu
administrativamente o servidor e testemunha Carlos Egberto Rodrigues
Júnior para a área de licenciamento, sem previa comunicação e em
flagrante desacordo com o estabelecido na "Instrução Normativa n.

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5/2017, do IBAMA" e com fortes indícios de se tratar de represália ao


servidor, em razão da sua atuação nos fatos em apuração pela autoridade
policial.

8. Leslie Nelson Jardim Tavares: é servidor de carreira do IBAMA e


foi nomeado por Ricardo de Aquino Salles, Ministro do Meio Ambiente,
para exercer as funções de Coordenador de Operações de Fiscalização
(COFIS) em substituição a Hugo Ferreira Netto Loss, que foi exonerado
pelo Ministro do Meio Ambiente após coordenar operação contra
garimpo ilegal em terras indígenas no Pará.
A autoridade policial apontou que a atuação do agente público
Olímpio Ferreira Magalhães, que removeu administrativamente Carlos
Egberto Rodrigues Júnior para a área de licenciamento, foi confirmada
pelo depoimento da testemunha "Renata Aquinoga Teures", transcrito na
presente representação da autoridade policial, que disse ter presenciado o
agente público Leslie Nelson Jardim Tavares, atual Coordenador de
Operações de Fiscalização, afirmar em reunião que a remoção de Carlos
Egberto Rodrigues Júnior não apenas se deu sem o seu prévio
conhecimento, mas que teria sido uma resposta dada por ele e pelo
agente público André Heleno Azevedo Silveira, ao fato de o referido
servidor estar em "contato direto com a Polícia Federal".

9. André Heleno Azevedo Silveira: é oriundo da Agência Brasileira


de Inteligência (ABIN) e foi nomeado por Ricardo de Aquino Salles,
Ministro do Meio Ambiente, para exercer as funções de Coordenador de
Inteligência de Fiscalização desde 20/08/2020.
A autoridade policial indica que o referido agente público teria tido
participação, em conjunto com Olímpio Ferreira Magalhães e Leslie
Nelson Jardim Tavares, na remoção de Carlos Egberto Rodrigues Júnior,
com o objetivo de obstaculizar eventual investigação da Polícia Federal
que o servidor estivesse apoiando, uma vez que, ao ser removido para
setor de licenciamento, perderia as prerrogativas de fiscal ambiental
federal, dentre elas as credenciais de acesso aos sistemas informatizados

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da fiscalização.
A atuação de André Heleno Azevedo Silveira foi confirmada pelo
depoimento da testemunha "Renata Aquinoga Teures", transcrito na
presente representação da autoridade policial.

10. Artur Vallinoto Bastos: é analista ambiental do IBAMA em


Belém/PA e foi o responsável pela emissão da "Autorização para
Exportação n. 85/2020-NUFIS-PA/DITEC-PA/SUPES-PA", relativa à
exportação de carga de madeira da empresa "WIZI INDÚSTRIA
COMÉRCIO E EXPORTAÇÃO DE MADEIRAS LTDA" em 23/01/2020.
Segundo apurou a autoridade policial, a emissão desse documento foi
flagrantemente ilegal, tanto que a partir dos questionamentos das
autoridades norte-americanas, o documento foi revogado por despacho
do então SUPES/PA, porém ainda não teria sido esclarecido se e a
emissão do referido documento se deu a partir de ordens superiores ou
mediante corrupção ou outros crimes contra a Administração Pública.
Por fim, foi noticiada a existência de uma comunicação de operação
suspeita objeto do RIF n. 60327.2.2536.4046, de 23/04/2021 (Anexo V),
elaborado mediante solicitação da autoridade policial (SEI-C 80222,
período compreendido entre 01/01/2019 a 22/04/2021).

11. Leopoldo Penteado Butkiewicz: é o atual assessor especial do


Ministro do Meio Ambiente, Ricardo de Aquino Salles, tendo exercido,
anteriormente, na mesma gestão do Ministro de Estado, as funções de
"Secretário Adjunto da Secretaria de Qualidade Ambiental do Ministério
do Meio Ambiente" (cargo do qual foi exonerado em 29/01/2021).
De acordo com o depoimento da testemunha "Hugo", o referido
agente público Leopoldo Penteado Butkiewicz, em razão do seu cargo,
tem atuado junto à Superintendência de Apuração de Infrações
Ambientais (SIAM/GAB), setor chefiado por Wagner Tadeu Matiota e
subordinado diretamente ao gabinete do Presidente do IBAMA (Eduardo
Fortunato Bim), e tem acesso livre a inúmeros documentos, processos e
dados de pessoas físicas e jurídicas autuadas pelo órgão, além do que,

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segundo noticiado pela autoridade policial, tem intercedido diretamente


nesses processos, dando ordens diretamente aos técnicos do órgão.
A Polícia Federal, à luz do material obtido no celular da testemunha
mencionada, localizou diversos diálogos onde a atuação do referido
assessor exorbita claramente a esfera de suas atribuições, situação que
configuraria patrocínio direto de interesses privados de autuados perante
a administração pública.

12. Wagner Tadeu Matiota: foi nomeado pelo Ministro do Meio


Ambiente (Ricardo de Aquino Salles) para as funções de Superintendente
de Apuração de Infrações Ambientais em 09/12/2020.
Segundo o depoimento de "Hugo", a testemunha, ao chegar para
trabalhar na sua sala, constatou a presença de três pessoas (Leopoldo
Penteado Butkiewicz, assessor especial do gabinete do Ministro do Meio
Ambiente, Wagner Tadeu Matiota e uma terceirizada).
Na ocasião, o agente público Wagner Tadeu Matiota o teria chamado
para conversar e relatar que não estava satisfeito com o teor da "Nota
Informativa NI 9868495/21-SIAM", de 05/05/2021, notadamente pelo fato
da referida nota ter sido encaminhada à auditoria interna. Além disso, o
agente público disse que não queria mais a testemunha "Hugo" naquela
sala e que era para ele pegar as suas coisas e ir para outra sala.
Em continuidade, a testemunha "Hugo" questionou se poderia pegar
os seus arquivos no seu computador, quando Leopoldo Penteado
Butkiewicz intercedeu e, segundo a testemunha, com intuito de intimidá-
lo, colocou-se na sua frente e disse "quem você pensa que é, para agir dessa
forma e ainda ficar aqui?", bem como afirmou que o seu computador seria
apreendido e inspecionado pela Corregedoria do órgão.

Por fim, a autoridade policial indicou as seguintes pessoas jurídicas


que estariam, em tese, envolvidas no esquema criminoso:
"CONFLORESTA – ASSOC. BRAS. DAS EMP. CONCESSIONÁRIAS
FLORESTAIS" (CNPJ n. 36.041.642/0001-86, cujo presidente seria
Leônidas Dahás Jorge de Souza), "AIMEX - ASSOCIAÇÃO DAS

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INDÚSTRIAS EXPORTADORAS DE MADEIRA NO PARÁ" (CNPJ n.


04.371.019/0001-03, cujo presente seria Carlos Roberto Vergueiro Pupo, já
falecido), "EBATA PRODUTOS FLORESTAIS LTDA" (CNPJ n
15.294.432/0001-20, cujos sócios administradores seriam Leonidas Ernesto
de Souza e Esdras Heli de Souza), "TRADELINK MADEIRAS LTDA"
(CNPJ N. 34.644.153/0001-93, cujo administrador é David Pereira Serfaty e
sócio é Leon Robert Weich) e "WIZI INDÚSTRIA COMÉRCIO E
EXPORTAÇÃO DE MADEIRAS LTDA" (CNPJ n. 08.734.903/0001-08,
cujo sócio administrador é Jadir Antônio Zilio).
Segundo a representação policial, a participação de cada pessoa
jurídica foi a seguinte:

13. "CONFLORESTA – ASSOC. BRAS. DAS EMP.


CONCESSIONÁRIAS FLORESTAIS" e 14. "AIMEX – ASSOCIAÇÃO
DAS INDÚSTRIAS EXPORTADORAS DE MADEIRA NO PARÁ ":
após apreensões de produtos florestais exportados ilegalmente pela
"EBATA PRODUTOS FLORESTAIS LTDA" e pela "TRADELINK
MADEIRAS LTDA", para os Estados Unidos da América, as empresas
"CONFLORESTA – ASSOC. BRAS. DAS EMP. CONCESSIONÁRIAS
FLORESTAIS" (entidade que reúne 11 concessionárias florestais, dentre
elas a "RRX" e a "PATAUÁ", responsáveis pela maior parte de cargas
exportadas pela "TRADELINK") e "AIMEX - ASSOCIAÇÃO DAS
INDÚSTRIAS EXPORTADORAS DE MADEIRA NO PARÁ" (entidade
que congrega 23 empresas do ramo de exportação de madeiras, dentre
elas a "TRADELINK" e a "EBATA"), objetivando solucionar o problema,
buscaram apoio junto ao Superintendente do Pará (Walter Mendes
Magalhães) e ao então Diretor de Uso Sustentável da Biodiversidade e
Florestas (Rafael Freire de Macedo), os quais teriam emitido certidões e
ofício, claramente sem valor, por ausência de previsão legal, que não
foram aceitos pelas autoridades norte-americanas.
Na sequência, as empresas "CONFLORESTA – ASSOC. BRAS. DAS
EMP. CONCESSIONÁRIAS FLORESTAIS" e "AIMEX - ASSOCIAÇÃO
DAS INDÚSTRIAS EXPORTADORAS DE MADEIRA NO PARÁ"

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protocolaram um pedido, autuado como processo n. 02001.003227/2020-


84 (Anexo I), requerendo a edição de "ato declarando a caducidade da IN
IBAMA 15/2011 (ANEXO VII), no que se refere à necessidade de autorização
específica para exportação dos produtos e subprodutos florestais de origem nativa
em geral, considerando sua revogação tácita a partir da publicação da IN IBAMA
21/2014 que institui o SINAFLOR, de modo a tornar clara a inexigibilidade da
autorização nos casos em que o DOF/DF Exportação acompanhavam ou
acompanham as remessas de madeira".
Segundo noticiado pela autoridade policial, o pedido digitalizado
apresentou carimbo de recebimento pela Presidência do IBAMA e,
embora no carimbo não constasse a data do recebimento, o referido
pedido foi encaminhado pelo chefe de gabinete da Presidência do IBAMA
em 06/02/2020, às 13h53min.
Ao que tudo indica, no mesmo dia 06/02/2020, Ricardo de Aquino
Salles, Ministro do Meio Ambiente, encontrou-se, no final da manhã, com
representantes das referidas empresas, com um diretor da "TRADELINK
MADEIRAS LTDA", com o Presidente do IBAMA (Eduardo Fortunato
Bim), com o Diretor de Proteção Ambiental (Olivandi Alves Borges de
Azevedo), além de parlamentares, para uma reunião sobre exportação de
madeiras ativas do Estado do Pará.
Após sucessivos eventos, a autoridade policial informou que a
Presidência do IBAMA proferiu, no referido processo, o "despacho
interpretativo" (Despacho n. 7036900/2020-GABIN), onde destacou que os
argumentos pela manutenção da necessidade da autorização de
exportações seriam: ação física (inspeção na carga) e a distinção entre a
licença de transporte e de exportação na legislação.
Além disso, também foi destacado no referido despacho que:

"o DOF Exportação pode servir tanto como licença de transporte


quanto como licença de exportação, eis que a legislação não teria feito
a exigência que fossem feitos dois documentos diferentes, bem como
que a utilização do DOF Exportação como licença para exportação não
impede que a fiscalização continue ocorrendo da mesma forma como
ocorria naquele momento, ou seja, por amostragem".

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Contou na presente representação da Polícia Federal, que a


Presidência do IBAMA deixou de exigir a expedição de licença para
exportação, pois entendeu que o "DOF Exportação" seria suficiente para
atender ao requisito legal, o que, no entender da autoridade policial,
deixaria:

"claro que foi tomada decisão em expressa contrariedade ao


contido na Nota Técnica nº 2/2020/CGMOC/DBFLO (área técnica),
seguindo-se o parecer contido na Nota Técnica nº
3/2020/CGMOC/CBFLO de forma que a licença para o transporte,
que era apenas um dentre vários documentos para concessão de
licença de exportação (art. 4º, V) passou a ser entendida como a
própria licença para exportação. Além disso, os requisitos específicos
para licença de exportação deixaram de ser exigidos, como conferência
de volume, espécie, produtos e marca do lote (art. 10 da IN 15/2011)".

Todos os fatos estariam suficientemente demonstrados pela


documentação digitalizada na representação da autoridade policial e nos
depoimentos transcritos.

15. "EBATA PRODUTOS FLORESTAIS LTDA": é uma das


empresas associadas da "AIMEX - ASSOCIAÇÃO DAS INDÚSTRIAS
EXPORTADORAS DE MADEIRA NO PARÁ".
Após ter sido constatado que uma de suas cargas teria sido
exportada sem a respectiva autorização, foi autuada pelo IBAMA (auto de
infração DSOQOHC8, no valor de R$ 12.974,40), por "vender 28,832m³ de
madeira serrada exportada através da DU-E 19BR001475231-9, sem licença
válida outorgada pela autoridade competente, no caso sem a aprovação da Cadeia
de Custódia das espécies Mezilaurus itauba (ltauba) e de Hymenolobium
excelsum (Angelim-pedra) que constam na Lista Nacional Oficial de Espécies da
Flora Ameaçadas de Extinção".
Segundo o informado pela autoridade policial, essa carga também
foi objeto do "Ofício n. 7/2020/DBFLO", emitido por Rafael Freire de
Macedo, então Diretor de Uso Sustentável da Biodiversidade e Florestas,

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no qual foram apresentadas informações inverídicas às autoridades norte-


americanas, que não teriam sido solicitadas pelas mencionadas
autoridades.
Tais fatos revelariam, sob a perspectiva da autoridade policial,
indícios de pressões por parte das empresas pertencentes à "AIMEX -
ASSOCIAÇÃO DAS INDÚSTRIAS EXPORTADORAS DE MADEIRA NO
PARÁ" e dos escalões superiores do IBAMA, no sentido de que a carga
fosse regularizada.
A referida empresa "EBATA PRODUTOS FLORESTAIS LTDA",
conforme indica a autoridade policial, possuiria inúmeras autuações que,
somadas, totalizariam R$ 345.264,21 (trezentos e quarenta e cinco mil,
duzentos e sessenta e quatro reais e vinte e um centavos). Por fim, foi
noticiada a existência de oito comunicações de operações suspeitas objeto
do RIF n. 60204.2.2536.4046, de 20/04/2021 (Anexo VI), elaborado
mediante solicitação da autoridade policial (SEI-C 80048, período
compreendido entre 01/01/2016 a 19/04/2021).

16. "TRADELINK MADEIRAS LTDA": de acordo com a autoridade


policial, os documentos encaminhados (Apenso I) trouxeram elementos e
dados mais detalhados, bem como importantes esclarecimentos sobre
diversas circunstâncias que envolveram as cargas apreendidas
pertencentes à "TRADELINK MADEIRAS LTDA".
Em ordem cronológica, a Polícia Federal descreveu os seguintes
acontecimentos:

(a) em 17/01/2020, as autoridades norte-americanas


receberam do IBAMA do Pará a "Informação n. 4/2020-
DITEC/PA/SUPES-PA-IBAMA" noticiando que as cargas não
foram analisadas pelo setor competente e que não foi expedida
"manifestação autorizando a exportação dos produtos", além de ter
informado que a empresa "TRADELINK MADEIRAS LTDA"
exportou madeira sem manifestação ou autorização prévia pelo
IBAMA em pelo menos 07 ocasiões: 05 contêineres destinados
aos Estados Unidos da América, 01 contêiner para Dinamarca e

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01 contêiner para Bélgica (fls. 80/81, do Apenso 1);


(b) em 24/01/2020, a empresa "TRADELINK MADEIRAS
LTDA" foi autuada pela exportação das cargas sem a devida
licença de exportação, ocasião em que foi lavrado o auto de
infração 1507508Q (fls. 83, do Apenso 1);
(c) em 03/02/2020, a empresa "TRADELINK MADEIRAS
LTDA" realizou uma reunião com o Superintendente do
IBAMA no Pará, bem como protocolou um documento
relatando a retenção de cargas exportadas sem autorização de
exportação e solicitando a emissão de autorização "especial" de
exportação. No entanto, tal documento/autorização não
constava daqueles encaminhados pelas autoridades norte-
americanas. Além disso, a empresa afirmou no referido
documento que os pedidos de licença de exportação foram
protocolados no IBAMA, devidamente instruídos, mas que os
processos não tinham sido concluídos a tempo, quando, na
realidade, segundo constou da representação da autoridade
policial, "essa afirmação é verdadeira, nos termos da inclusa
Informação Técnica n. 6/2020/COINF/CGFIS/DIPRO";
(d) em 04 e 05/02/2020, segundo a autoridade policial a
pedido da empresa "TRADELINK MADEIRAS LTDA", o
Superintendente do IBAMA/PA, Walter Mendes Magalhães
Júnior, elaborou a "Informação n. 21/2020/SUPES-PA-IBAMA",
na qual atestou a falta de pessoal e de recursos financeiros
necessários para a realização das vistorias nos portos
alfandegados, bem como menciona que a referida empresa teria
instruído e protocolado os respectivos processos devidamente
(fls. 73, do Volume I). Em razão disso, emitiu um total de 05
certidões, declarando a regularidade das respectivas cargas
retidas;
(e) em 14/02/2020, a partir das informações fornecidas pelo
IBAMA e que estavam disponíveis em fontes abertas (sítio
eletrônico do IBAMA e da SEMA-PA), bem como em contato
com os compradores dos produtos florestais nos EUA, o adido
norte-americano, Bryan Landry, conseguiu obter dados precisos
em relação às origens declaradas para a madeira apreendida

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(fls. 13/18, do Apenso 1), oportunidade em que constatou


inúmeras inconsistências nos documentos, com destaque para
as seguintes que foram mencionadas no seu relatório e
reproduzidas na presente representação da autoridade policial:
"i) as coordenadas no DOF/GF não coincidiam com a Autorização –
Art. 48º (IBAMA) IN 21/2014; ii) ausência de número da
Autorização (origem) – Art. 31º e 48º, IN 21/2014 e Art. 11º (Pará),
IN 01/2008; iii) ausência de coordenadas da origem da madeira – Art.
31º e 48º, IN 21/2014 ; iv) datas de transporte fora do período de
validade – Art. 45º, IN 21/2014; v) volumes de madeira não
coincidentes – Art. 48º, IN 21/2014; vi) destino falso/sem rota
marítima – Art. 31º, 43º, 48º e 61º do IN 21/2014 e Art. 11º e 26º do
IN 01/2008 (APENSO I, fls. 14/17)". A perícia criminal realizada
pela Polícia Federal reforçou a suspeita levantada pelo adido
norte-americano, pois Laudo Pericial n. 816/2020-
INC/DITEC/PF (fls. 84/91, do Volume 1) teria demonstrado que
a origem dos produtos florestais que foram exportados por
meio do contêiner "TCNU7091944" (Leia Pereira da Silva)
apresentou GFs/DOFs emitidos há mais de 08 meses após o
final dos sinais de exploração florestal detectados em imagens
de satélite, o que seria bastante atípico e reforçaria a
possibilidade de "lavagem" de produtos florestais de outras
áreas a partir de documentos emitidos por essa origem;
(f) em 21/02/2020, dada a divergência de informações,
Bryan Landry e outros funcionários da Embaixada Americana
em Brasília/DF realizaram reunião com Eduardo Fortunato Bim
(Presidente do IBAMA), Raquel Taitson Queiroz Bevilaqua
(Chefe da Divisão de Assuntos Internacionais) e João Pessoa
Riograndense Moreira Junior (à época Coordenador-geral). Na
ocasião, o Bryan Landry explicou como funcionaria o Lacey Act,
que estabelece uma série de condicionantes para a entrada de
madeira estrangeira nos Estados Unidos e proíbe todo e
qualquer comércio de plantas e produtos vegetais, inclusive
móveis, papel e madeira, de fontes ilegais provenientes de
qualquer estado dos Estados Unidos (a legislação estabeleceria,
ainda, várias penalidades para violações da lei, inclusive o

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confisco de produtos e navios, multas e penas privativas de


liberdade), e de que forma a referida lei poderia desempenhar
um papel fundamental à proteção da Amazônia, justamente por
proibir a entrada e a comercialização de qualquer produto que
não esteja em pleno acordo com as leis brasileiras. Destacou,
ainda, que os documentos recebidos do IBAMA teriam criado
uma situação confusa para as autoridades dos Estados Unidos,
pois teriam constatado possíveis irregularidades em relação às
exportações apreendidas no porto de "Savannah", além de
terem exteriorizado preocupações "em relação a possíveis
comportamentos inapropriados por funcionários públicos e/ou
representantes da TRADELINK". Por fim, solicitaram os devidos
esclarecimentos sobre a situação das cargas de madeira
apreendidas no porto de "Savannah" e sobre a validade jurídica
dos certificados emitidos pelo então Superintendente do
IBAMA, no Estado do Pará;
(g) em 25/02/2020, a Embaixada dos Estado Unidos, por
meio do adido Bryan Landry, recebeu uma cópia do Despacho
n. 7036900/2020-GABIN, denominado de "despacho
interpretativo", firmado pelo Presidente do IBAMA (Eduardo
Fortunato Bim). O referido documento teria sido elaborado no
âmbito do processo n. 02001.003227/2020-84 tendo como
interessadas as empresas "CONFLORESTA – ASSOC. BRAS.
DAS EMP. CONCESSIONÁRIAS FLORESTAIS" e "AIMEX -
ASSOCIAÇÃO DAS INDÚSTRIAS EXPORTADORAS DE
MADEIRA NO PARÁ". A autoridade policial destacou, em
síntese, que o Presidente do IBAMA, por meio do referido
documento, teria fixado uma orientação geral no sentido de
dispensar a necessidade de autorização específica para
exportação dos produtos e subprodutos florestais de origem
nativa em geral, em descompasso com o estabelecido na
Instrução Normativa n. 15/2011, do IBAMA (Anexo VII). Ainda
segundo ele, a legalidade da exportação seria atestada apenas
pelo Documento de Origem Florestal (DOF), extraído de
sistemas do Ibama, ou pela Guia Florestal (GF), expedida pelos
órgãos ambientais estaduais. Por fim, a autoridade policial

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asseverou que a referida empresa "TRADELINK MADEIRAS


LTDA" seria uma infratora contumaz, possuindo inúmeras
autuações que, somadas, totalizariam R$ 7.866.609,04 (sete
milhões, oitocentos e sessenta e seis mil reais, seiscentos e nove
reais e quatro centavos), além de ter noticiado a existência de
cinco comunicações de operações suspeitas objeto do RIF n.
60204.2.2536.4046, de 20/04/2021 (Anexo VI), elaborado
mediante solicitação da autoridade policial (SEI-C 80048,
período compreendido entre 01/01/2016 a 19/04/2021).

17. "WIZI INDÚSTRIA COMÉRCIO E EXPORTAÇÃO DE


MADEIRAS LTDA": de acordo com a autoridade policial, a Embaixada
dos Estados Unidos encaminhou informações relevantes sobre a
apreensão de contêiner de produtos florestais provenientes do Estado do
Pará, oriundo da empresa "WIZI INDÚSTRIA COMÉRCIO E
EXPORTAÇÃO DE MADEIRAS LTDA", e que tinha como destino a
empresa norte-americana "EAST TEAK FINE HARDWOODS INC.".
Em ordem cronológica, a Polícia Federal descreveu os seguintes
acontecimentos:

(a) em 08/12/2019, a empresa norte-americana "EAST


TEAK FINE HARDWOODS INC." importou aproximadamente
19.743 kg de decks de madeira de Ipê do Brasil para o porto de
"Savannah", na Geórgia, sem nenhum documento de
exportação do Brasil (DU-E, DOF para Exportação, Autorização
para Exportação etc.). O valor da carga, segundo apurado, foi
de US$ 41.697,00 (quarenta e um mil seiscentos e noventa e sete
dólares americanos) da época;
(b) em 20/12/2019, o IBAMA enviou um Ofício informando
que a exportação realizada foi feita em violação à legislação
brasileira, razão pela qual as autoridades dos Estados Unidos
da América deveriam apreender a remessa. Ato contínuo, o
IBAMA lavrou o auto de infração n. BGAQYR1H em face da
"WIZI INDÚSTRIA COMÉRCIO E EXPORTAÇÃO DE
MADEIRAS LTDA", por exportação ilegal que resultou na

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aplicação de uma multa de R$ 5.400,00 (cinco mil e


quatrocentos reais);
(c) em 27/12/2019, a notificação de apreensão foi enviada
pelo FWS à "EAST TEAK FINE HARDWOODS INC." nos
Estados Unidos da América;
(d) em 24/01/2020, o FWS recebeu uma autorização
retroativa para exportação da remessa da "EAST TEAK FINE
HARDWOODS INC.", que foi expedida pelo servidor Arthur
Vallinoto Bastos em 23/01/2020. Sendo assim, o FWS consultou
o IBAMA para que esclarecesse a respeito dos documentos
conflitantes;
(e) em 27/01/2020, o FWS recebeu um ofício emitido por
Walter Mendes Magalhães Júnior, Superintendente do IBAMA
no Estado do Pará, informando a nulidade da autorização para
exportação, além de ratificar a anterior conclusão pela
ilegalidade da exportação e a consequente lavratura do auto de
infração em face da exportação à empresa "EAST TEAK FINE
HARDWOODS INC.";
(f) em 10/03/2020, a Notificação de Apreensão e Proposta
de Perdimento de Ativos (NOSPF) é expedida pelo FWS, nos
EUA, em face da remessa da empresa "EAST TEAK FINE
HARDWOODS INC.";
(g) em 06/04/2020, o FWS recebeu o Ofício n. 202/2020-
DIPRO, do Diretor de Proteção Ambiental do IBAMA, Olivandi
Azevedo, que encaminhou a "Informação n. 2/2020-DITEC/PA-
IBAMA", de 14/01/2020, noticiando a regularidade das 12
exportações anteriores da "WIZI INDÚSTRIA COMÉRCIO E
EXPORTAÇÃO DE MADEIRAS LTDA" para a "EAST TEAK
FINE HARDWOODS INC." (contêineres: "MSCU8453653",
"CRSU9329842", "TGBU5354300", "MSCU4691102",
"DFSU7729750", "MSCU5975000", "MSCU9415703",
"TGHU7619247", "TGHU8641667", "MSCU7073772",
"CAXU9238708" e "TTNU9239695") e que, quanto ao contêiner
"MSCU9189864", seria sugerido a lavratura de notificação à
empresa "WIZI INDÚSTRIA COMÉRCIO E EXPORTAÇÃO DE
MADEIRAS LTDA" para que apresentasse a "autorização de

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exportação emitida pelo Ibama, com número de protocolo e assinatura


e carimbo do fiscal do Ibama, que autorizaram o embarque da carga de
exportação de madeira para a empresa EAST TEAK FINE
HARDWOODS (E.U.A.) amparada pela Guia florestal nº 104192,
DOF nº 0932098039265564, DANFE
15170108734903000108550010000008131420506052 e Registro de
Exportação 17/0184750-001 e transportada no Conteiner
MSCU9189864";
(h) em 10/08/2020, o FWS recebeu novo Ofício, agora do
Presidente do IBAMA, Eduardo Fortunato Bim, informando a
respeito da aplicação retroativa de regras publicadas por meio
do "despacho interpretativo" de abril de 2020 à remessa "WIZI
INDÚSTRIA COMÉRCIO E EXPORTAÇÃO DE MADEIRAS
LTDA", solicitando que fossem desconsideradas as informações
constantes de toda a documentação encaminhada
anteriormente pelas autoridades brasileiras quanto à
ilegalidade das madeiras;
(i) em 24/08/2020, o adido norte-americano, após consultas
realizadas em fontes abertas e por meio de contato com setores
do IBAMA e da Polícia Federal, obteve valiosas informações
sobre a concessão florestal (origem) da remessa da "WIZI
INDÚSTRIA COMÉRCIO E EXPORTAÇÃO DE MADEIRAS
LTDA". Segundo constou da representação da autoridade
policial, o "Sítio Marinho do Pará", pertencente a Ivone Maria
de Silva Ferrer (AUTEF 272993/2017), origem declarada dos
respectivo produtos florestais, não possuía, à época, Certificado
de Regularidade (licença) do IBAMA para a extração, o
transporte e o comércio legais de produtos florestais nativos,
além do que algumas imagens de satélite da área, à época da
suposta extração, não permitiram comprovar a exploração, o
que levantou suspeita de que a área de concessão poderia estar
sendo utilizada para "lavar" madeira de Ipê ilegal de outras
partes da Amazônia. A autoridade policial ainda lembrou que o
Laudo Pericial n. 816/2021-INC/DITEC/PF concluiu que a
propriedade teve sinais de exploração florestal entre dezembro
de 2017 e fevereiro de 2018, porém toda a emissão de DOFs da

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propriedade ocorreu em período muito posterior (fevereiro de


2019), o que também seria suspeito e reforçaria a tese de
"lavagem" de produtos florestais de outras áreas a partir de
documentos emitidos pela propriedade. Por fim, a referida
empresa "WIZI INDÚSTRIA COMÉRCIO E EXPORTAÇÃO DE
MADEIRAS LTDA", conforme indica a autoridade policial,
possuiria inúmeras autuações que, somadas, totalizariam R$
1.032.900,00 (um milhão, trinta e dois mil e novecentos reais).

B) Esquema criminoso de caráter transnacional – linha do tempo


dos fatos descritos na representação.

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A autoridade policial trouxe um quadro sinóptico com a linha do


tempo dos fatos descritos na presente representação, que tem por
objetivo investigar grave esquema criminoso de caráter transnacional

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envolvendo agentes públicos e pessoas jurídicas em prejuízo do


interesse público, notadamente através da legalização, inclusive de
forma retroativa, de milhares de carregamentos de produtos florestais
exportados em dissonância com as normas ambientais vigentes entre os
anos de 2019 e 2020, e também com a criação de sérios obstáculos à ação
fiscalizatória do Poder Público no trato das questões ambientais com
inegáveis prejuízos a toda a sociedade. A saber:

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Assim, do que consta na representação da autoridade policial, os


fatos envolvendo os agentes públicos e as pessoas jurídicas poderiam
tipificar, em tese, inúmeros crimes previstos na legislação penal, a saber:

(a) corrupção passiva (art. 317, do Código Penal);


(b) facilitação de contrabando (art. 318, do Código Penal);
(c) prevaricação (art. 319, do Código Penal);
(d) advocacia administrativa (art. 321, do Código Penal);
(e) corrupção ativa (art. 333, do Código Penal);
(f) contrabando (art. 334-A, §1º, do Código Penal);
(g) crimes contra a administração ambiental (art. 67 e 69,
ambos da Lei n. 9.605/98);
(h) lavagem de dinheiro (art. 1º, da Lei n. 9.613/98);
(i) integrar organização criminosa e obstrução de justiça
(art. 2º, §1º e §4º, da Lei n. 12.850/13).

A presente REPRESENTAÇÃO foi complementada com documentos


e informações pela autoridade policial, além de todos os pedidos
referentes às diligências requeridas terem sido atualizados e
consolidados.
É o relatório. Decido.

I. Autorização para a realização de perícia.

A autoridade policial aponta que, além da documentação que deu


início às investigações, a Embaixada do Estados Unidos também forneceu
à Polícia Federal amostras das respectivas madeiras apreendidas pelas
autoridades norte-americanas.
As amostras foram colhidas em consonância com as diretrizes
estabelecidas pela equipe do Instituto Nacional de Criminalística da
Polícia Federal (INC/PF) e, atualmente, encontram-se acauteladas nesta
unidade policial.
Em razão das referidas amostras dos produtos florestais revelarem-
se de fundamental interesse para as investigações, uma vez que a sua

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perícia, inclusive por meio da análise da razão de isótopos estáveis


(SIRA), método científico apto a verificar a origem geográfica de
madeiras, poderá se somar aos demais elementos de convicção coligidos,
especialmente quanto à origem ilícita desses produtos, a Polícia Federal
REPRESENTA para que se autorize o encaminhamento das respectivas
amostras ao INC/PF para fins de exame pericial.
A presente investigação teve início a partir do Ofício n.
5/2021/DMAPH/CGPFAZ/DICOR/PF (fls. 03/04, do Volume I) elaborado
por Rubens Lopes da Silva, Chefe da Divisão de Repressão a Crimes
Ambientais da Polícia Federal (DMAPH), que encaminhou à
DRCOR/SR/PF/DF inúmeros documentos produzidos pela Embaixada
dos Estados Unidos no Brasil, notadamente por Bryan Landry, adido do
Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos Estados Unidos da América (US
Fish and Wildlife Service – FWS), órgão congênere ao IBAMA naquele país,
nos quais informavam a apreensão no "Porto de Savannah", no Estado da
Geórgia, de 03 cargas de produtos florestais sem a respectiva
documentação.
Ressalte-se alguns trechos do mencionado Ofício encaminhado pela
Embaixada dos Estados Unidos da América e que foram transcritos pela
autoridade policial:

Em 10 de janeiro de 2020, o Serviço de Pesca e Vida


Selvagem dos Estados Unidos (FWS) deteve para inspeção três
(3) contêineres de madeira exportados do Brasil, no Porto de
Savannah, na Geórgia. Os embarques foram expedidos da
TRADELINK MADEIRAS LTDA, Ananindeua, Pará, com
destino à TRADELINK WOOD PRODUCTS INC., Greensboro,
North Carolina (EUA). Como a manifestação dos embarques
carecia de documentação do IBAMA ou de outra agência de
controle ambiental, o FWS solicitou ao IBAMA a confirmação
relativa à legalidade dos embarques.
Em 17 de janeiro de 2020, o FWS recebeu uma carta
endereçada pelo IBAMA em Belém, Informação n°
4/2020DITEC-PA/SUPES-PA-IBAMA, Processo n°
02001.000923 / 2020-39, referente à TRADELINK MADEIRAS

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LTDA. e a exportação de sete (7) contêineres, contendo 153.597


m³ de madeira de Ipê e Jatobá, incluindo os três contêineres
detidos no porto de Savannah. A Informação forneceu as
seguintes informações: (1) as cargas não foram analisadas pelo
setor competente, (2) informações falsas foram inseridas no
sistema oficial de controle e (3) a empresa exportou a madeira
sem manifestação ou autorização prévia pelo IBAMA:
Em 24 de janeiro de 2020, as infrações acima mencionadas
foram tratadas com a emissão de uma Notificação de Violação
pelo IBAMA, Auto de Infração Número 1507508Q, descrevendo
as seguintes violações da lei brasileira:
"Vender 153,597 m³ de madeira processada, sem licença
válida para todo o tempo do transporte, outorgada pela
autoridade competente, visto que não houve expedição de
Autorização para Exportação pelo IBAMA, conforme
preconizado na IN IBAMA nº 15/2011."
• Auto de Infração Número 1507508Q, de 24/01/2020
(Anexo 2)
À luz das claras violações das leis brasileiras, os
contêineres foram apreendidos posteriormente nos Estados
Unidos, violando a Lei Lacey dos EUA, Título 16, do Código
dos Estados Unidos, Seção 3372 (a) (2) (B) (i), e o importador
americano TRADELINK USA foi notificado da detenção no
porto de Savannah.
Em 5 de fevereiro de 2020, o FWS recebeu várias cartas de
"Certidão", endereçadas pelo Superintende do IBAMA no Pará,
e da TRADELINK EUA, na tentativa de garantir a liberação de
suas remessas detidas. Apesar da determinação anterior de
ilegalidade e notificação de violação por funcionários do
mesmo escritório do IBAMA, as cartas de "Certidão"
legitimavam os envios e defendiam sua libertação da detenção
nos Estados Unidos.
Em 14 de fevereiro de 2020, o Agente Especial e Adido da
FWS da Embaixada dos EUA em Brasília, realizou uma
entrevista consensual com Jens BURCSHE, Presidente da
TRADELINK WOOD PRODUCTS INC. (EUA) em seu

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escritório em Greensboro, Carolina do Sul. Durante a entrevista,


BURCSHE forneceu as seguintes informações: (1) A
TRADELINK Brasil e a TRADELINK Estados Unidos são, de
fato, uma empresa com sede em Londres, Reino Unido, (2)
BURSCHE acreditava que os embarques de madeira detidos
eram originários de uma variedade de serrarias em diferentes
regiões do Brasil, e não de uma serraria só, como declarado, (3)
Desde as detenções, a TRADELINK MADEIRAS havia colocado
alguém no escritório do IBAMA em Belém, para sentar lá todos
os dias c garantir que as remessas fossem liberadas.
Em 21 de fevereiro de 2020, o Adido da FWS Landry e
representantes da Embaixada dos EUA em Brasília se reuniram
com o Presidente do IBAMA, Eduardo Bim, para discutir as
comunicações conflitantes do IBAMA e buscar clareza sobre os
requisitos do IBAMA para exportação. Apesar das
preocupações expressas do FWS em relação a possíveis
comportamentos inapropriados por funcionários públicos e/ou
representantes da TRADELINK, a reunião se concentrou em
interpretações de várias Instruções Normativas do IBAMA, que
o IBAMA prometeu abordar em uma proclamação oficial nos
próximos dias.
Em 25 de fevereiro de 2020, o FWS recebeu uma cópia da
Ordem de Interpretação Despacho n° 7036900/2020-GABIN,
Processo nº 02001.003227/2020-84, assinada pelo Presidente do
IBAMA, Eduardo Bim. Nas páginas finais e Conclusão, a carta
forneceu uma explicação das ações do escritório do IBAMA no
Pará e uma interpretação de vários processos do IBAMA e das
Instruções Normativas, concluindo finalmente que um DOF de
Exportação é suficiente para exportar madeira nativa do Brasil.
O Porto de Savannah é um centro de comércio nos Estados
Unidos, e a detenção e apreensão prolongadas de tais remessas,
enquanto aguardamos esclarecimentos do IBAMA, custam
muito ao governo dos EUA e ao comércio internacional
legítimo. O Adido do FWS continua trabalhando com o IBAMA
para esclarecer as comunicações conflitantes mencionadas e
determinar a legalidade das remessas detidas nos Estados

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Unidos. No entanto, apesar de todas as informações fornecidas


pela TRADELINK e IBAMA, os embarques permanecem
retidos, em aparente violação de várias Instruções Normativas
do IBAMA (lei brasileira), enquanto a verdadeira origem e
legalidade da madeira permanece em questão.
À luz do exposto, o FWS tem preocupações com relação a
possíveis ações inadequadas ou comportamento corrupto por
representantes da TRADELINK e/ou funcionários públicos
responsáveis pelos processos legais e sustentáveis que
governam a extração e exportação de produtos de madeira da
região amazônica. O FWS abriu uma investigação relativa à
TRADELINK EUA, suas práticas de compras, histórico de
importação do Brasil e possível envolvimento em práticas
corruptas, fraudes e outros crimes. Fico à disposição para
fornecer mais informações e de colaborar com a Polícia Federal
em qualquer investigação relativa ao tráfico transnacional de
produtos de madeira, crimes relacionados ou possível
corrupção, cometidos por pessoas nos Estados Unidos ou no
Brasil.
Atenciosamente,
Bryan Landry

Assim, a documentação encaminhada pela autoridade policial traz


fortes indícios de um encadeamento de condutas complexas da qual teria
participação autoridade com prerrogativa de foro – Ministro de Estado – ,
agentes públicos e pessoas jurídicas, com o claro intuito de atribuir
legalidade às madeiras de origem brasileira retidas pelas autoridades
norte-americanas, a revelar que as investigações possuem reflexos
transnacionais.
Deste modo, a realização do referido exame pericial é imprescindível
para o regular andamento das investigações, notadamente porque a
perícia a ser realizada poderá revelar se as madeiras apreendidas pelas
autoridades norte-americanas foram extraídas do local indicado ou eram
derivadas de outro local (origem ilícita).

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II. Deferimento de medida cautelar de busca e apreensão.

Da leitura dos fatos narrados e com o objetivo de reforçar/obter


provas dos crimes praticados, a Polícia Federal REPRESENTA pelo
deferimento de medida cautelar de BUSCA E APREENSÃO, nos termos
do art. 240, do Código de Processo Penal, em relação aos que seguem:

1) RICARDO DE AQUINO SALLES, conforme CPF e


endereços indicados na representação e respectiva emenda da
Polícia Federal;
2) LEOPOLDO PENTEADO BUTKIEWICZ, conforme
CPF e endereços indicados na emenda à representação da
Polícia Federal;
3) EDUARDO FORTUNATO BIM, conforme CPF e
endereços indicados na representação da Polícia Federal;
4) OLÍMPIO FERREIRA MAGALHÃES, conforme CPF e
endereços indicados na representação da Polícia Federal;
5) WAGNER TADEU MATIOTA, conforme CPF e
endereços indicados na emenda à representação da Polícia
Federal;
6) LESLIE NELSON JARDIM TAVARES, conforme CPF e
endereços indicados na representação da Polícia Federal;
7) ANDRÉ HELENO AZEVEDO SILVEIRA, conforme
CPF e endereços indicados na representação da Polícia Federal;
8) ARTUR VALLINOTO BASTOS, conforme CPF e
endereços indicados na representação da Polícia Federal;
9) WALTER MENDES MAGALHÃES JÚNIOR,
conforme CPF e endereços indicados na representação da
Polícia Federal;
10) OLIVALDI ALVES AZEVEDO BORGES, conforme
CPF e endereços indicados na representação da Polícia Federal;
11) JOÃO PESSOA RIOGRANDENSE MOREIRA
JUNIOR, conforme CPF e endereços indicados na
representação da Polícia Federal;
12) RAFAEL FREIRE DE MACEDO, conforme CPF e

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endereços indicados na representação da Polícia Federal;


13) LEÔNIDAS DAHÁS JORGE DE SOUZA, conforme
CPF e endereços indicados na representação da Polícia Federal;
14) LEONIDAS ERNESTO DE SOUZA, conforme CPF e
endereços indicados na representação da Polícia Federal;
15) ESDRAS HELI DE SOUZA, conforme CPF e
endereços indicados na representação da Polícia Federal;
16) DAVID PEREIRA SERFATY, conforme CPF e
endereços indicados na representação da Polícia Federal;
17) LEON ROBERT WEICH, conforme CPF e endereços
indicados na representação da Polícia Federal;
18) JADIR ANTONIO ZILIO, conforme CPF e endereços
indicados na representação da Polícia Federal;
19) AIMEX - ASSOCIAÇÃO DAS INDÚSTRIAS
EXPORTADORAS DE MADEIRA NO PARÁ, conforme CNPJ
e endereços indicados na representação da Polícia Federal;
20) EBATA PRODUTOS FLORESTAIS LTDA, conforme
CNPJ e endereços indicados na representação da Polícia
Federal;
21) CONFLORESTA – ASSOC. BRAS. DAS EMP.
CONCESSIONÁRIAS FLORESTAIS, conforme CNPJ e
endereços indicados na representação da Polícia Federal;
22) TRADELINK MADEIRAS LTDA, conforme CNPJ e
endereços indicados na representação da Polícia Federal;
23) WIZI INDÚSTRIA COMÉRCIO E EXPORTAÇÃO
DE MADEIRAS LTDA, conforme CNPJ e endereços indicados
na representação da Polícia Federal.

A autoridade policial REQUER, ainda, que conste, expressamente,


nos mandados de busca e apreensão, a determinação de apreensão de
itens, bens e objetos que tenham envolvimento direto com as infrações em
apuração, além da autorização judicial para o acesso aos dados constantes
nos discos rígidos, mídias e telefones celulares apreendidos, incluindo-se,
neste último caso, o histórico de mensagens trocadas por SMS (Short
Message Service) e por meio de aplicativos que permitem comunicação
telemática (WhatsApp e Telegram), e de correspondências eletrônicas que

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eventualmente estejam armazenadas nas mídias/aparelhos ou em


"nuvens".
O art. 5º, XI, da Constituição Federal consagra a inviolabilidade
domiciliar, direito fundamental enraizado mundialmente, a partir das
tradições inglesas, conforme verificamos no histórico discurso de Lord
Chatham, no Parlamento britânico:

O homem mais pobre desafia em sua casa todas as forças


da Coroa, sua cabana pode ser muito frágil, seu teto pode
tremer, o vento pode soprar entre as portas mal ajustadas, a
tormenta pode nela penetrar, mas o Rei da Inglaterra não pode
nela entrar.

No sentido constitucional, o termo domicílio tem amplitude maior do


que no direito privado ou no senso comum, não sendo somente a
residência. Essa inviolabilidade abrange todo local, delimitado e
separado, que alguém ocupa com exclusividade, inclusive
profissionalmente, pois nessa relação entre pessoa e espaço preservaram-
se, mediatamente, a intimidade e a vida privada do indivíduo (RHC
90.376/RJ, Segunda Turma, Rel. Min. CELSO DE MELLO, DJ de
18/05/2007; HC 82.788/RJ, Segunda Turma, Rel. Min. CELSO DE MELLO,
DJ de 02/06/2006). Aliás, o próprio Ministro CELSO DE MELLO, no HC
106.566/SP, Segunda Turma, DJe de 19/03/2015 foi claro ao afirmar que:

"a extensão do domicílio ao compartimento habitado e


outras moradias, além de locais não abertos ao público no qual
exerce a pessoa sua profissão ou atividade, há que ser
entendida como um reforço de proteção à intimidade e à
privacidade, igualmente exercitadas e merecedoras de tutela em
locais não incluídos no rígido conceito de residência e
domicílio".

Nesse contexto, em regra, não podemos deixar de considerar que a


proteção constitucional aos bens, pertences e documentos pessoais
existentes dentro de "casa" garante uma salvaguarda ao espaço íntimo

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intransponível por intromissões ilícitas externas, e contra flagrantes


arbitrariedades, pois a proteção a seus conteúdos se relaciona às relações
subjetivas e de trato íntimo da pessoa humana, suas relações familiares e
de amizade (intimidade), e também envolve todos os relacionamentos
externos da pessoa, inclusive os objetivos, tais como relações sociais,
culturais e profissionais (vida privada).
Deste modo, a inviolabilidade domiciliar constitui uma das mais
antigas e importantes garantias individuais de uma Sociedade civilizada,
pois engloba a tutela da intimidade, da vida privada, da honra, bem como
a proteção individual e familiar do sossego e tranquilidade, inclusive do
local onde se exerce a profissão ou a atividade, desde que constitua
ambiente fechado ou de acesso restrito ao público (HC 82.788/RJ,
Segunda Turma, Rel. Min. CELSO DE MELLO).
Esse fundamental direito, porém, não se reveste de caráter absoluto
(RHC 117.159/DF, Primeira Turma, Rel. Min. LUIZ FUX) e não deve ser
transformado em garantia de impunidade de crimes, que, eventualmente,
em seu interior se pratiquem ou que possibilitem o armazenamento de
dados probatórios necessários para a investigação (RT 74/88, 84/302);
podendo ser, excepcionalmente, afastado durante a persecução penal do
Estado, desde que presentes as hipóteses constitucionais e os requisitos
legais (RE 603.616/RO, Repercussão Geral, Tribunal Pleno, Rel. Min.
GILMAR MENDES; HC 93.050-6/RJ, Segunda Turma, Rel. Min. CELSO
DE MELLO; HC 97.567/RJ, Segunda Turma, Rel. Min. ELLEN GRACIE).
É o que ocorre, exatamente, na presente hipótese, onde estão
presentes os requisitos do art. 240, do Código de Processo Penal, para a
ordem judicial de busca e apreensão, pois o pedido está devidamente
motivado em fundadas razões que, alicerçadas em indícios de autorias e
materialidade criminosas, sinalizariam a necessidade da medida para
colher elementos de prova relacionados à prática de infrações penais.
Isso porque, o que se descortinou das investigações empreendidas
pela Polícia Federal foi a existência, em tese, de grave esquema de
facilitação ao contrabando de produtos florestais, dentre outros crimes,
do qual fariam parte diversos agentes públicos e pessoas jurídicas.

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A propósito, a própria autoridade policial destacou que:

"a situação que se apresenta é de grave esquema criminoso de


caráter transnacional. Esta empreitada criminosa não apenas realiza o
patrocínio do interesse privado de madeireiros e exportadores em
prejuízo do interesse público, notadamente através da legalização e de
forma retroativa de milhares de carregamentos de produtos florestais
exportados em dissonância com as normas ambientais vigentes entre
os anos de 2019 e 2020 mas, também, tem criado sérios obstáculos à
ação fiscalizatória do Poder Público no trato das questões ambientais
com inegáveis prejuízos a toda a sociedade".

Além disso, a solicitação está circunscrita a pessoas físicas e pessoas


jurídica em tese vinculadas aos fatos investigados e os locais da busca
estão devidamente indicados, limitando-se aos endereços pertinentes.
Nesse cenário, tenho por atendidos os pressupostos necessários ao
afastamento da garantia constitucional da inviolabilidade do domicílio,
encontrando-se justificada a ação invasiva na procura de outras provas
das condutas ora postas sob suspeita.

III. Afastamento dos sigilos bancário e fiscal dos investigados.

Tendo em vista que os crimes supostamente praticados envolvem a


obtenção e ocultação/dissimulação de vantagens financeiras ilícitas, pois
via de regra é praticado através do uso de pessoas físicas e jurídicas
interpostas para dificultar o rastreamento da origem ilícita dos recursos,
as informações, os dados e os registros fiscais, além de constituir vestígios
diretos ou indiretos da lavagem, são as fontes mais eficientes e fidedignas
de verificar o destino dos recursos ilícitos, possibilitando a identificação
de outros autores e partícipes, ou mesmos de eventuais "laranjas", a
autoridade policial REPRESENTA, com fundamento legal no art. 1º, §4º,
da Lei Complementar 105/01, pelo afastamento dos sigilos bancário e
fiscal de todos os bens, direitos e valores mantidos em instituições
financeiras, no período de 01/01/2018 a 12/05/2021, pelas pessoas físicas e

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jurídicas, diretamente ou por seus representantes legais, responsáveis ou


procuradores, de forma individualizada ou em conjunto com outras
pessoas, a saber:

1) RICARDO DE AQUINO SALLES, CPF indicado na


representação da Polícia Federal;
2) WALTER MENDES MAGALHÃES JÚNIOR, CPF
indicado na representação da Polícia Federal;
3) OLIVALDI ALVES AZEVEDO BORGES, CPF
indicado na representação da Polícia Federal;
4) JOÃO PESSOA RIOGRANDENSE MOREIRA
JUNIOR, CPF indicado na representação da Polícia Federal;
5) RAFAEL FREIRE DE MACEDO, CPF indicado na
representação da Polícia Federal;
6) EDUARDO FORTUNATO BIM, CPF indicado na
representação da Polícia Federal;
7) OLÍMPIO FERREIRA MAGALHÃES, CPF indicado na
representação da Polícia Federal;
8) LESLIE NELSON JARDIM TAVARES, CPF indicado
na representação da Polícia Federal;
9) ANDRÉ HELENO AZEVEDO SILVEIRA, CPF
indicado na representação da Polícia Federal;
10) WAGNER TADEU MATIOTA, CPF indicado na
emenda à representação da Polícia Federal;
11) LEOPOLDO PENTEADO BUTKIEWICZ, CPF
indicado na emenda à representação da Polícia Federal;
12) ARTUR VALLINOTO BASTOS, CPF indicado na
representação da Polícia Federal;
13) ESDRAS HELI DE SOUZA, CPF indicado na
representação da Polícia Federal;
14) LEONIDAS ERNESTO DE SOUZA, CPF indicado na
representação da Polícia Federal;
15) DAVID PEREIRA SERFATY, CPF indicado na
representação da Polícia Federal;
16) JADIR ANTONIO ZILIO, CPF indicado na
representação da Polícia Federal;

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17) LEON ROBERT WEICH, CPF indicado na


representação da Polícia Federal;
18) LEÔNIDAS DAHÁS JORGE DE SOUZA, CPF
indicado na representação da Polícia Federal;
19) WIZI INDÚSTRIA COMÉRCIO E EXPORTAÇÃO
DE MADEIRAS LTDA, CNPJ indicado na representação da
Polícia Federal;
20) TRADELINK MADEIRAS LTDA, CNPJ indicado na
representação da Polícia Federal;
21) AIMEX - ASSOCIAÇÃO DAS INDÚSTRIAS
EXPORTADORAS DE MADEIRA NO PARÁ, CNPJ indicado
na representação da Polícia Federal;
22) CONFLORESTA – ASSOC. BRAS. DAS EMP.
CONCESSIONÁRIAS FLORESTAIS, CNPJ indicado na
representação da Polícia Federal;
23) EBATA PRODUTOS FLORESTAIS LTDA, CNPJ
indicado na representação da Polícia Federal.

A autoridade policial REQUEREU, ainda, que se deferido o


afastamento dos sigilos bancário e fiscal dos investigados acima
mencionados, que constasse na decisão judicial a referência "Código
Identificador do Caso nº 002-PF-006563-92", o e-mail
"perazzoni.fp@pf.gov.br", o prazo de 30 dias (a partir do recebimento da
decisão) para o cumprimento pelas instituições financeiras e que fosse
determina a adoção das medidas previstas nas alíneas "a", "b", "c", "d", "e",
"f", "g", "h", "i" e "j", do item "4.4.1.1", bem como o prazo de 30 dias (a
partir do recebimento da decisão) para o cumprimento pela Receita
Federal do Brasil, com a informação de que a medida cautelar
representada refere-se aos anos-calendários 2018 a 2021, especialmente
para fornecer o previsto nas alíneas "a" e "b", do item "4.4.1.2", além de
outras observações previstas no item "4.4.1.3".
Ao final, a autoridade policial REQUEREU a expedição de Ofício ao
COAF, com o objetivo de se afastar o sigilo do RIF n. 60322.2.2536.4046
(Anexo VIII) a fim de serem obtidos os dados e informações mencionados

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no "ITEM 5 de fls. 4 daquele documento, a saber 'PDF completo com todas as


operações citadas nos itens 2 ao 3, bem como respectivas planilhas .CSV', os
quais deverão ser encaminhados diretamente ao signatário por meio da
plataforma SEI-COAF".
As medidas pleiteadas são cabíveis, desde que com absoluto respeito
às exigências constitucionais.
Na visão ocidental de Democracia, governo pelo povo e a limitação
no exercício do poder estão indissoluvelmente combinados, sendo
imprescindível a observância dos direitos e garantias individuais
constitucionalmente consagrados, uma vez que, enquanto comandos
proibitórios expressos direcionados ao Estado tem por primordial
finalidade o afastamento de indevida ingerência estatal no âmbito da
esfera jurídica individual, impedindo o ferimento da dignidade humana,
vida, liberdade, propriedade e intimidade (MANOEL GONÇALVES
FERREIRA FILHO, Estado de direito e constituição. São Paulo: Saraiva, 1988.
p. 16 ss; JOSÉ ALFREDO OLIVEIRA BARACHO. Teoria da Constituição.
Revista de Informação Legislativa. ano 15. n. 58. abr/jun. 1978; J. J.
GOMES CANOTILHO, J. J. Direito constitucional. Coimbra: Almedina,
1993. p. 541 ss; PAOLO BARILE. Diritti delluomo e libertà fundamentali.
Bolonha: Il Molino. p. 13 ss).
A real efetividade dos direitos e garantias individuais é
imprescindível para a preservação do Estado de Direito (RAFAEL
BIELSA. Estudios de Derecho Público Derecho Constitucional. Tomo III.
Buenos Aires: Arayú, 345), pois, conforme a sempre atual advertência de
MADISON:

"num governo livre, é preciso dar aos direitos civis a


mesma garantia que aos direitos religiosos" (Federalist papers,
LI).

O art. 5º, X e XII, da Constituição Federal, consagrou a


inviolabilidade da intimidade, da vida privada, da honra e da imagem
das pessoas; estendendo essa proteção constitucional aos sigilos de

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dados, inclusive o bancário e o fiscal.


Nesse contexto, em regra, não podemos deixar de considerar que as
informações bancárias, sejam as constantes nas próprias instituições
financeiras, sejam as constantes na Receita Federal ou organismos
congêneres do Poder Público, constituem parte da intimidade e vida
privada da pessoa física ou jurídica.
Não há dúvida, portanto, de que o desrespeito ao sigilo bancário
constitucionalmente protegido, em princípio, acarretaria violação de
garantias constitucionais (CELSO BASTOS. Estudos e pareceres de direito
público. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1993. p. 63 ss. VITAL RAMOS
VASCONCELOS. Proteção constitucional ao sigilo. Revista FMU-Direito, nº
6, p. 17 ss.).
A proclamação dos direitos individuais, entretanto, nasceu para
reduzir a ação do Estado aos limites impostos pela Constituição, sem,
contudo desconhecer a obrigatoriedade das condutas individuais
operarem dentro dos limites impostos pelo direito, conforme salientado
por QUIROGA LAVIÉ (Derecho constitucional. Buenos Aires: Depalma,
1993. p. 123 ss).
Os direitos e garantias individuais, consequentemente, não são
absolutos e ilimitados, uma vez que encontram seus limites nos demais
direitos igualmente consagrados pela Carta Magna (Princípio da
relatividade ou convivência das liberdades públicas) e, quando houver conflito
entre dois ou mais direitos ou garantias fundamentais, o intérprete deve
utilizar-se do princípio da concordância prática ou da harmonização, de forma
a coordenar e combinar os bens jurídicos em conflito, evitando o sacrifício
total de uns em relação aos outros, realizando uma redução proporcional
do âmbito de alcance de cada qual (contradição dos princípios), sempre em
busca do verdadeiro significado da norma e da harmonia do texto
constitucional com sua finalidade precípua.
A própria Declaração dos Direitos Humanos das Nações Unidas,
expressamente, em seu art. 29 afirma tanto a finalidade, quanto a
relatividade dos direitos individuais:

"toda pessoa tem deveres com a comunidade, posto que

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somente nela pode-se desenvolver livre e plenamente sua


personalidade. No exercício de seus direitos e no desfrute de
suas liberdades todas as pessoas estarão sujeitas às limitações
estabelecidas pela lei com a única finalidade de assegurar o
respeito dos direitos e liberdades dos demais, e de satisfazer as
justas exigências da moral, da ordem pública e do bem-estar de
uma sociedade democrática. Estes direitos e liberdades não
podem, em nenhum caso, serem exercidos em oposição com os
propósitos e princípios das Nações Unidas. Nada na presente
Declaração poderá ser interpretado no sentido de conferir
direito algum ao Estado, a um grupo ou uma pessoa, para
empreender e desenvolver atividades ou realizar atos tendentes
a supressão de qualquer dos direitos e liberdades proclamados
nessa Declaração".

Os direitos e garantias individuais, portanto, não podem ser


utilizados como um verdadeiro escudo protetivo da prática de atividades
ilícitas, tampouco como argumento para afastamento ou diminuição da
responsabilidade civil ou penal por atos criminosos, sob pena de
desrespeito a um verdadeiro Estado de Direito (HC 70.814-5/SP, Rel. Min.
CELSO DE MELLO, Primeira Turma, DJ de 24/06/1994), pois como
ensinado por DUGUIT:

"a norma de direito, por um lado, impõe a todos o respeito


aos direitos de cada um, e em contrapartida, determina uma
limitação sobre os direitos individuais, para assegurar a
proteção aos direitos gerais" (Fundamentos do direito. São
Paulo: Ícone Editora, 1996, p. 11 ss).

O afastamento da inviolabilidade do sigilo bancário só poderá ser


decretado, nos termos da Lei Complementar n. 105/01 e sempre em
caráter de absoluta excepcionalidade, quando existentes fundados
elementos de suspeita que se apoiem em indícios idôneos, reveladores de
possível autoria de prática delituosa por parte daquele que sofre a
investigação e estiverem presentes os seguintes requisitos, como tive

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oportunidade de destacar em voto proferido no MS 25940/DF


(PLENÁRIO 26/04/2018):

(a) autorização judicial;


(b) indispensabilidade dos dados constantes em
determinada instituição financeira, Receita Federal ou Fazendas
Públicas;
(c) individualização dos investigados e do objeto da
investigação;
(d) obrigatoriedade da manutenção do sigilo em relação às
pessoas estranhas à causa;
(e) utilização de dados obtidos somente para a
investigação que lhe deu causa, salvo nova autorização judicial.

A necessidade de fiel observância aos requisitos constitucionais e


legais é obrigatória para o afastamento da garantia constitucional (HC
93.050-6/RJ, Rel. Min. CELSO DE MELLO, Segunda Turma, DJ de
10/06/2008; AI 655.298 AgR/SP, Rel. Min. EROS GRAU, Segunda Turma,
DJe de 28/09/2007; HC 84.758/GO, Rel. Min. CELSO DE MELLO, Tribunal
Pleno, DJe de 16/06/2006; MS 25.812 MC/DF, Rel. Min. CEZAR PELUSO,
DJe de 23/02/2006; AI 541.265 AgR/SC, Rel. Min. CARLOS VELLOSO,
Segunda Turma, DJe de 04/11/2005; HC 85.088/ES, Rel. Min. ELLEN
GRACIE, Segunda Turma, DJe de 30/09/2005; Inq. 899-1/DF, Rel. Min.
CELSO DE MELLO, DJ de 23/091994 e MS 21.729-4/DF, Rel. Min.
Presidente SEPÚLVEDA PERTENCE, DJ de 13/08/1993), pois, como bem
salientado por MIRKINE-GUETZÉVITCH (As novas tendências do direito
constitucional. São Paulo: Campanha Editora Nacional, 1933. p. 77):

"encontra-se aí a garantia essencial das liberdades


individuais; sua limitação não é possível senão em virtude da
lei".

Na presente hipótese, estão presentes os requisitos necessários para


o excepcional afastamento do sigilo bancário, como bem destacado na
representação da Polícia Federal, que, inclusive, restringiu o pedido ao

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lapso temporal relativo às práticas delituosas (período compreendido


entre 01/01/2018 e 30/04/2021).
O crime de lavagem de dinheiro, por sua própria natureza e
finalidade, pode ser praticado através do uso de pessoas físicas e/ou
jurídicas interpostas, tudo com o objetivo de dificultar o rastreamento da
origem ilícita dos recursos.
Deste modo, é imprescindível para o decorrer das investigações que
a autoridade policial tenha acesso aos dados bancários e fiscais das
pessoas físicas e jurídicas mencionadas e que estão sendo investigadas
pela prática de diversos crimes, todos eles indicados na presente
representação, que integrariam grave esquema de facilitação ao
contrabando de produtos florestais do qual fariam parte diversos agentes
públicos.
Além disso, a representação da autoridade policial ainda noticiou a
existência de diversas comunicações ao COAF de operações suspeitas
envolvendo pessoas físicas e jurídicas investigadas nestes autos: RIF n.
60327.2.2536.4046 (Olivandi Alves Azevedo Borges), n. 60204.2.2536.4046
(João Pessoa Riograndense Moreira Júnior), n. 60327.2.2536.4046 (Artur
Vallinoto Bastos), n. 60204.2.2536.4046 ("EBATA PRODUTOS
FLORESTAIS LTDA"), n. 60204.2.2536.4046 ("TRADELINK MADEIRAS
LTDA") e n. 60322.2.2536.4046 (Ricardo de Aquino Salles). Ressalto, por
oportuno, que o RIF n. 60322.2.2536.4046 (Volume VIII) envolvendo o
agente público com prerrogativa de foro (Ministro do Meio Ambiente)
indicou movimentação extremamente atípica envolvendo o escritório de
advocacia cujo Ministro de Estado é sócio (50%), durante o período
compreendido de 01/01/2012 a 30/06/2020, em valores totais de R$
14.162.084,00 (catorze milhões, cento e sessenta e dois mil e oitenta e
quatro reais), situação que recomenda, por cautela, a necessidade de
maiores aprofundamentos.
Sendo assim, tenho por atendidos os pressupostos necessários ao
excepcional afastamento da garantia constitucional dos sigilos bancário e
fiscal.

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IV. Suspensão do exercício da função pública

Em razão da gravidade dos fatos narrados na presente


representação, a autoridade policial entende ser cabível a medida cautelar
de suspensão do exercício da função pública, pois:

"evidenciam-se, claramente presentes os fundamentos exigidos


pelo art. 282 do Código de Processo Penal, fazendo a suspensão da
função pública, in casu, medida inafastável e imprescindível. A uma,
como medida necessária à aplicação da lei penal, para a investigação e
a própria instrução do processo, tendo em vista que os investigados
atuam sob o manto da impunidade, isto é, alicerçados na crença de que
nunca serão efetivamente punidos. A duas, para se evitar a
continuidade das práticas delituosas aqui noticiadas e/ou a destruição
de provas".

Assim, a autoridade policial REPRESENTA pela imposição da


medida cautelar diversa da prisão prevista no art. 319, VI, do Código de
Processo Penal (suspensão do exercício da função pública), pelo prazo
inicial de 90 (noventa) dias, dos seguintes agentes públicos:

1) LEOPOLDO PENTEADO BUTKIEWICZ, CPF


indicado na emenda à representação da Polícia Federal,
PRESIDENTE DO IBAMA;
2) WAGNER TADEU MATIOTA, CPF indicado na
emenda à representação da Polícia Federal,
SUPERINTENDENTE DE APURAÇÕES DE INFRAÇÕES
AMBIENTAIS (SIAM/GAB/IBAMA);
3) EDUARDO FORTUNATO BIM, CPF indicado na
representação da Polícia Federal, PRESIDENTE DO IBAMA;
4) OLÍMPIO FERREIRA MAGALHÃES, CPF indicado na
representação da Polícia Federal, DIRETOR DE PROTEÇÃO
AMBIENTAL (DIPRO/IBAMA);
5) JOÃO PESSOA RIOGRANDENSE MOREIRA
JÚNIOR, CPF indicado na representação da Polícia Federal,

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DIRETOR DE USO SUSTENTÁVEL DA BIODIVERSIDADE E


FLORESTAS (DBFLO);
6) RAFAEL FREIRE DE MACEDO, CPF indicado na
representação da Polícia Federal, COORDENADOR-GERAL DE
MONITORAMENTO DO USO DA BIODIVERSIDADE E
COMERCIO EXTERIOR (CGMOC);
7) LESLIE NELSON JARDIM TAVARES, CPF indicado
na representação da Polícia Federal, COORDENADOR DE
OPERAÇÕES DE FISCALIZAÇÃO (COFIS);
8) ANDRÉ HELENO AZEVEDO SILVEIRA, CPF
indicado na representação da Polícia Federal,
COORDENADOR DE INTELIGÊNCIA DE FISCALIZAÇÃO
(COINF);
9) ARTUR VALLINOTO BASTOS, CPF indicado na
representação da Polícia Federal, ANALISTA AMBIENTAL,
NUFIS/IBAMA/PA.

Nos termos do que prevê o Código de Processo Penal, somente será


possível a imposição das medidas cautelares previstas no art. 319, desde
que observados os critérios constantes do art. 282, que são: "necessidade"
(necessidade para aplicação da lei penal, para a investigação ou a
instrução criminal e, nos casos expressamente previstos, para evitar a
prática de infrações penais) e "adequação" (adequação da medida à
gravidade do crime, circunstâncias do fato e condições pessoais do
indiciado ou acusado).
Na presente hipótese, verifico haver necessidade de se impor
medida cautelar diversa da prisão consistente na suspensão do exercício
da função pública dos agentes públicos que teriam tido, ao menos pela
documentação juntada, envolvimento direto com os fatos descritos pela
autoridade policial no suposto esquema de facilitação ao contrabando de
produtos florestais.
Tais fatos, em tese e à luz da representação da autoridade policial,
caracterizariam inúmeros crimes (corrupção passiva, facilitação de
contrabando, prevaricação, advocacia administrativa, corrupção ativa,
contrabando, crimes contra a administração ambiental, lavagem de

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dinheiro, integrar organização criminosa e obstrução de justiça), inclusive


com a possibilidade do material apreendido poder caracterizar possível
"lavagem" de produtos florestais de outras áreas (o Laudo Pericial n.
816/2021-INC/DITEC/PF demonstrou que a propriedade de onde foram
extraídas as madeiras teve sinais de exploração florestal entre
dezembro/2017 e fevereiro/2018, período posterior à emissão de DOFs da
propriedade, que ocorreu em fevereiro/2019) e de algumas comunicações
ao COAF de operações suspeitas também caracterizarem crimes.
Aliás, das testemunhas ouvidas pela Polícia Federal, quatro delas (C.
E. R. J., A. L. S., N. V. G. M. e A. S.) disseram sentir-se preocupadas e com
medo de sofrer represálias do IBAMA após os seus depoimentos, afinal
alguns dos investigados ostentam cargos hierarquicamente superiores aos
delas, o que poderia culminar com eventuais sanções administrativas,
situação, em tese, comum a todos que "estavam dando trabalho" por entrar
em contato com a Polícia Federal, como lembrado pela testemunha R. A.
T. ao reproduzir frase do investigado Leslie Nelson Jardim Tavares dita
na já mencionada reunião. Por todos, trago um trecho do depoimento de
A. L. S. que elucida o fato:

[...] QUE conforme amplamente divulgado na mídia, a


exoneração de RENE teria se dado em razão da realização de
operações de combate ao desmatamento e garimpo ilegal no
Estado do Pará; QUE o Depoente, em razão do presente
depoimento, gostaria de registrar que teme represálias; QUE é
de conhecimento público que vários servidores do Ibama que
tem denunciado as irregularidades no órgão tem sofrido
sanções de forma velada, notadamente remoções injustificáveis;
QUE inclusive o próprio Depoente, após todos os fatos
relacionado as exportações de madeira ilegais aqui noticiadas
foi removido para o posto do aeroporto de Belém, uma lotação,
aliás, que tinha sido extinta 45 dias antes de sua remoção; QUE
sua remoção foi firmada por WALTER.

Por fim, com a complementação desta representação, a autoridade


policial noticiou, ainda, a prática de intimidação por parte de agentes

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públicos do órgão (todos eles nomeados pelo atual Ministro do Meio


Ambiente, inclusive para cargo de confiança) em relação à testemunha H.
L. M. F., que disse:

[...] QUE na data de ontem, ao chegar para trabalhar às 9h,


chegou em sua sala e verificou que ali estava a pessoa de
LEOPOLDO PENTEADO BUTKIEWICZ, assessor especial do
Gabinete do Ministro Ricardo Salles, uma terceirizada e o
Superintendente de Apuração de Infrações Ambientais,
WAGNER TADEU MATIOTA, CPF 105.339.438-17; QUE na
sequência WAGNER chamou o depoente para conversar e
informou que não estava satisfeito com o teor da Nota
Informativa NI 9868495/21-SIAM, de 05/05/2021, bem como o
fato dela ter sido encaminhada à auditoria interna; QUE
WAGNER disse que não queria mais o depoente naquela sala,
que era para pegar suas coisas e ir para outra sala; QUE o
depoente na sequência indagou se poderia pegar seus arquivos
na sua máquina; QUE nisso, LEOPOLDO veio até o depoente e
com o claro intuito de intimidá-lo se colocou na sua frente e
disse "quem você pensa que é, para agir dessa forma e ainda
ficar aqui?", referindo-se claramente ao teor da Nota
Informativa NI 9868495/21- SIAM, de 05/05/2021; QUE
LEOPOLDO começou discutir com o depoente, mandando que
fosse embora para casa e dizendo que o seu computador seria
apreendido e inspecionado pela Corregedoria do órgão; QUE o
depoente ainda chegou a questionar o porquê disso, mas o
próprio WAGNER pediu que se retirasse; QUE todo ocorrido
deixou bem claro para o depoente que toda essa confusão se
deu em razão do teor da Nota Informativa NI 9868495/21-
SIAM, de 05/05/2021, firmada pelo próprio, e cujo teor
claramente não agradou a LEOPOLDO e WAGNER.

Assim, é razoável que, ao menos nesse primeiro momento da


investigação, onde a manutenção dos agentes públicos nos respectivos
cargos poderia dificultar a colheita de provas e obstruir a instrução
criminal, direta ou indiretamente por meio da destruição de provas e de

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intimidação a outros servidores públicos, se determine o a suspensão do


exercício da função pública para os servidores públicos que tiveram
envolvimento direto nos fatos descritos pela autoridade policial.

V. Suspensão dos efeitos do Despacho n. 7036900/2020-GABIN com


imediato retorno da exigência de integral cumprimento dos
procedimentos previstos na Instrução Normativa n. 15/2011 do IBAMA.

A autoridade policial requer seja determinado ao Ministro do Meio


Ambiente a imediata suspensão dos efeitos do referido despacho e o
retorno da exigência de integral cumprimento dos procedimentos
previstos na "Instrução Normativa n. 15/2011, do IBAMA", quanto à
necessidade de emissão de autorização de exportação.
A Constituição Federal de 1988 consagrou como obrigação do Poder
Público a defesa, preservação e garantia de efetividade do direito
fundamental ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso
comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida.
Assim, no caput do art. 225, o texto constitucional afirma ser o meio
ambiente bem de uso comum do povo, suscitando a utilização de todos
os meios legislativos, administrativos e judiciais necessários à sua efetiva
proteção, que possui um regime jurídico especial que exorbita o Direito
Comum.
O meio ambiente deve, portanto, ser considerado patrimônio
comum de toda a humanidade para garantia de sua integral proteção,
especialmente em relação às gerações futuras, direcionando todas as
condutas do Poder Público estatal no sentido de integral proteção
legislativa interna e adesão aos pactos e tratados internacionais protetivos
desse direito humano fundamental de 3ª geração, para evitar prejuízo da
coletividade em face de uma afetação de certo bem (recurso natural) a
uma finalidade individual (CYRILLE KLEMM. Les elements de
l’environnement. L’ecologie et la loi: le statut juridique de
l’environnement. Paris: L’Harmattan, 1989. p. 90, ss; MARTHA LUCIA
OLIVAR JIMENEZ. O estabelecimento de uma política comum de

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proteção do meio ambiente: sua necessidade num mercado comum.


Estudos de integração. Brasília: Associação Brasileira de Estudos de
Integração – Senado Federal, 1994. v. 7, p. 15). Como destacado pelo
SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL:

“emergem com nitidez a ideia de que o meio ambiente


constitui patrimônio público a ser necessariamente assegurado
e protegido pelos organismos sociais e pelas instituições
estatais” (RTJ, 164/158 – Min. CELSO DE MELLO).

O texto constitucional também visa à garantia de instrumentalização


de proteção ao Meio Ambiente, exigindo a salvaguarda dos recursos
naturais e a regulamentação dos processos físicos e químicos que
interajam com a biosfera, para preservá-lo às gerações futuras,
garantindo-se o potencial evolutivo a partir da aplicação dos princípios
fundamentais da ação comunitária (art. 130 R do Tratado da União
Europeia): precaução e ação preventiva; correção prioritariamente na fonte dos
danos causados ao meio ambiente e princípio do “poluidor pagador”.
Dessa forma, o aproveitamento dos recursos naturais também
deverá ser regulamentado pelo Direito interno ou pelo Direito
Internacional (tratados internacionais), tendo como finalidade a regra
protetiva do art. 225 da Constituição Federal (RE 627.189/SP – Rel. Min.
DIAS TOFFOLI, 8-6-2016), pois a exploração dos recursos biológicos e
minerais pode essencialmente causar problemas de poluição e
degradação, e, consequentemente, sua proteção atende ao princípio da
precaução e ação preventiva (ALEXANDER CHARLES KISS. Droit
international. L’écologie et la loi: le statut juridique de l’environnement.
Paris: L’Harmattan, 1989. p. 177 ss).
Nesse sentido, proclamou o Supremo Tribunal Federal ser dever do
Poder Público “definir espaços territoriais a serem especialmente protegidos e,
também, proteger a fauna e a flora, vedadas as práticas que coloquem em risco
sua função ecológica” (ADI 1952/DF – Pleno – Rel. Min. MOREIRA ALVES,
j. 12-8-99), tendo a obrigação de “adotar as necessárias medidas que visem
coibir práticas lesivas ao equilíbrio ambiental” (RE 134.297-8/SP – 1ª TURMA –

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rel. Min. CELSO DE MELLO, DJ, 22-9-1995).


No caso em tela, as informações extraídas dos documentos juntados
e dos depoimentos prestados revelam, ao menos neste primeiro
momento, a plausibilidade do pedido formulado pela autoridade policial
de suspensão dos efeitos do Despacho n. 7036900/2020-GABIN, em
respeito ao princípio da precaução e ação preventiva.
O fumus boni iuris está consubstanciado no fato de que o Despacho n.
7036900/2020-GABIN, responsável por suspender os efeitos da "Instrução
Normativa 15/2011, do IBAMA" – que previa a necessidade de emissão de
Autorização de Exportação para a remessa de cargas de madeira nativa
para o exterior – , foi emitido mesmo com parecer contrário de servidores
públicos experientes do órgão e somente após as apreensões de algumas
cargas que teriam chegado aos EUA e à Europa sem documento idôneo.
O periculum in mora está consubstanciado no perigo de dano
irreparável do Despacho n. 7036900/2020-GABIN continuar produzindo
efeitos, pois, ao suspender os efeitos da "Instrução Normativa 15/2011, do
IBAMA", teria permitido, de forma retroativa, a regularização de
milhares de cargas exportadas sem as respectivas licenças entre os anos
de 2019 e 2020.
Além disso, embora o tema envolvendo o desflorestamento tenha
sido sempre tratado de forma muito sensível e com grande preocupação,
inclusive com repercussão na mídia nacional e internacional, a autoridade
policial junta depoimentos que revelariam denúncias de sucateamento
dos órgãos ligados ao Ministério do Meio Ambiente, o afastamento de
fiscais de carreira com anos de experiência de suas funções e a adoção de
novos procedimentos/interpretações, em verdadeiro descompasso com os
princípios constitucionais ambientais, dentre eles o da prevenção.
A esse respeito, trago o depoimento de A. L. S.A. T.:

[...] QUE indagado se acredita que na atual gestão tenha


havido descaso em relação as exportações de madeira nativa, o
Depoente afirma categoricamente que sim; QUE aliás, esse não
é um problema apenas do Estado do Pará, pois em contatos e
reuniões de colegas de outros Estados as reclamações tem sido

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muitas; QUE pelo que sabe os colegas que atuam no porto de


Paranaguá também tem enfrentados bastantes dificuldades em
razão do volume de trabalho e pequeno efetivo; QUE
indagado se a solução apresentada pelo presidente do órgão
através do despacho interpretativo 7036900/2020 é adequada,
afirma que não, pois como já mencionado anteriormente a
ausência de fiscalização dos documentos dos conteúdos das
cargas permite um serie de fraudes relacionadas à exportação;
QUE a ausência da integração das bases de dados do IBAMA
com o SISCOMEX e o fato de o IBAMA não participar do
processo junto as autoridades aduaneiras como órgão
anuente, faz com que atualmente todas as cargas de madeira
entre no canal verde sendo exportadas livremente; QUE sabe
que o Despacho Interpretativo em questão foi emitido
contrariamente ao parecer de técnicos do órgão, expresso na
NT 02/2020; QUE o Coordenador-geral que chefiou a equipe de
técnicos do IBAMA que elaborou essa NT foi posteriormente
exonerado pelo Ministro Ricardo Salles, o que foi amplamente
divulgado pela mídia; QUE indagado se acredita que a
emissão do despacho interpretativo pelo presidente do
IBAMA se deu em resposta as apreensões realizadas por
autoridades estrangeiras, bem como pelas multas aplicadas
pelo próprio IBAMA em relação a essas cargas o Depoente
afirma que sim; QUE aliás, acredita que a emissão desse
documento também tenha tido como escopo, resguardar as
ações realizadas por WALTER, já que ele teria emitido certidões
sem qualquer previsão normativa ou legal para tanto; QUE é
importante também registrar que além das cargas já
apreendidas pelas autoridades estrangeiras haviam milhares
de outras cargas que haviam deixado o território nacional na
mesma situação, sendo passíveis, portanto, as respectivas
empresas de sofrerem sanções tanto aqui quanto no exterior
relacionados a essas exportações; QUE é interessante, também,
verificar que a postura adotada pelo superintendente em
relação as cargas da TRADELINK foi diversa daquela
anteriormente adotada para cargas da empresa WIZI; QUE a

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WIZI foi multada sem qualquer problema ao passo que


claramente em relação as cargas da TRADELINK, houve uma
série de ações como a emissão das certidões; QUE indagado se
acredita que a diferença de tratamento se deu em razão de um
maior pressão por parte da TRADELINK, acredita que sim;
QUE a WIZI não faz parte da AIMEX, que é uma associação que
representa as maiores exportadoras de produtos florestais no
estado do Pará; QUE também é importante registrar que
WALTER MENDES MAGALHÃES JUNIOR, então
Superintendente do IBAMA no Estado do Pará, oriundo da
PM/SP, assumiu posteriormente a condição de Coordenador
Geral de Fiscalização do IBAMA (COFIS), tendo sido nomeado
pelo Ministro Ricardo Salles em abril de 2020; QUE após a saída
de WALTER, foi nomeado por SALLES e assumiu o posto de
SUPES/PA a pessoa de WASHINGTON LUIS RODRIGUES, que
pelo que sabe também oriundo da PMSP e exerce essas funções
até o presente momento; QUE WALTER assumiu a COFIS em
substituição de RENE LUIZ DE OLIVEIRA, funcionário de
carreira do IBAMA, exonerado também por SALLES; QUE
conforme amplamente divulgado na mídia, a exoneração de
RENE teria se dado em razão da realização de operações de
combate ao desmatamento e garimpo ilegal no Estado do Pará;
QUE o Depoente, em razão do presente depoimento, gostaria
de registrar que teme represálias; QUE é de conhecimento
público que vários servidores do Ibama que tem denunciado
as irregularidades no órgão tem sofrido sanções de forma
velada, notadamente remoções injustificáveis; QUE inclusive
o próprio Depoente, após todos os fatos relacionado as
exportações de madeira ilegais aqui noticiadas foi removido
para o posto do aeroporto de Belém, uma lotação, aliás, que
tinha sido extinta 45 dias antes de sua remoção; QUE sua
remoção foi firmada por WALTER; QUE se encontra até hoje
lotado no aeroporto, porém na prática, desde a mudança do
Superintendente voltou a atuar no Núcleo de Fiscalização; QUE
neste ato apresenta a Autoridade Policial uma planilha Excel
contendo os dados de todas as exportações no Estado do Pará

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entre os anos de 2019/2020.

Em razão dos potenciais danos a serem causados ao meio ambiente


e, em respeito ao princípio da precaução e ação preventiva, entendo
pertinente suspender a eficácia do Despacho n. 7036900/2020-GABIN,
com imediato retorno da exigência de integral cumprimento dos
procedimentos previstos na Instrução Normativa n. 15/2011 do IBAMA.

VI. Conclusão.

Diante de todo o exposto, DEFIRO a representação da autoridade


policial para:

1) DETERMINAR A REALIZAÇÃO DE PERÍCIA, pelo Instituto


Nacional de Criminalística da Polícia Federal (INC/PF), nas amostras do
material apreendido que estão acauteladas na unidade policial;

2) DETERMINAR A REALIZAÇÃO DE BUSCA E APREENSÃO


de itens, bens, documentos, mídias, dados e objetos que tenham
envolvimento direto com as infrações em apuração (por exemplo,
computadores, tablets, celulares e outros dispositivos eletrônicos) em
relação às seguintes pessoas físicas e jurídicas:

1) RICARDO DE AQUINO SALLES, conforme CPF e


endereços indicados na representação e na respectiva emenda
da Polícia Federal;
2) LEOPOLDO PENTEADO BUTKIEWICZ, conforme
CPF e endereços indicados na emenda à representação da
Polícia Federal;
3) EDUARDO FORTUNATO BIM, conforme CPF e
endereços indicados na representação da Polícia Federal;
4) OLÍMPIO FERREIRA MAGALHÃES, conforme CPF e
endereços indicados na representação da Polícia Federal;
5) WAGNER TADEU MATIOTA, conforme CPF e

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endereços indicados na emenda à representação da Polícia


Federal;
6) LESLIE NELSON JARDIM TAVARES, conforme CPF e
endereços indicados na representação da Polícia Federal;
7) ANDRÉ HELENO AZEVEDO SILVEIRA, conforme
CPF e endereços indicados na representação da Polícia Federal;
8) ARTUR VALLINOTO BASTOS, conforme CPF e
endereços indicados na representação da Polícia Federal;
9) WALTER MENDES MAGALHÃES JÚNIOR,
conforme CPF e endereços indicados na representação da
Polícia Federal;
10) OLIVALDI ALVES AZEVEDO BORGES, conforme
CPF e endereços indicados na representação da Polícia Federal;
11) JOÃO PESSOA RIOGRANDENSE MOREIRA
JUNIOR, conforme CPF e endereços indicados na
representação da Polícia Federal;
12) RAFAEL FREIRE DE MACEDO, conforme CPF e
endereços indicados na representação da Polícia Federal;
13) LEÔNIDAS DAHÁS JORGE DE SOUZA, conforme
CPF e endereços indicados na representação da Polícia Federal;
14) LEONIDAS ERNESTO DE SOUZA, conforme CPF e
endereços indicados na representação da Polícia Federal;
15) ESDRAS HELI DE SOUZA, conforme CPF e
endereços indicados na representação da Polícia Federal;
16) DAVID PEREIRA SERFATY, conforme CPF e
endereços indicados na representação da Polícia Federal;
17) LEON ROBERT WEICH, conforme CPF e endereços
indicados na representação da Polícia Federal;
18) JADIR ANTONIO ZILIO, conforme CPF e endereços
indicados na representação da Polícia Federal;
19) AIMEX - ASSOCIAÇÃO DAS INDÚSTRIAS
EXPORTADORAS DE MADEIRA NO PARÁ, conforme CNPJ
e endereços indicados na representação da Polícia Federal;
20) EBATA PRODUTOS FLORESTAIS LTDA, conforme
CNPJ e endereços indicados na representação da Polícia
Federal;

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21) CONFLORESTA – ASSOC. BRAS. DAS EMP.


CONCESSIONÁRIAS FLORESTAIS, conforme CNPJ e
endereços indicados na representação da Polícia Federal;
22) TRADELINK MADEIRAS LTDA, conforme CNPJ e
endereços indicados na representação da Polícia Federal;
23) WIZI INDÚSTRIA COMÉRCIO E EXPORTAÇÃO
DE MADEIRAS LTDA, conforme CNPJ e endereços indicados
na representação da Polícia Federal.

2.1) AUTORIZO o acesso aos dados constantes nos discos


rígidos, mídias e telefones celulares apreendidos, incluindo-se,
neste último caso, o histórico de mensagens trocadas por SMS
(Short Message Service) e por meio de aplicativos que permitem
comunicação telemática, a exemplo do WhatsApp e Telegram,
além de correspondências eletrônicas que eventualmente
estejam armazenadas nas mídias/aparelhos ou em "nuvens".
Consigne-se a autorização nos mandados expedidos, nos
termos em que solicitado.
2.2) AUTORIZO o acesso, extração, cópia, se necessário no
próprio local da busca, dos dados constantes de discos rígidos,
mídias, telefones celulares, bem como aqueles armazenados em
redes de computadores dos respectivos órgãos públicos ou que
estejam localizados na "nuvem". Consigne-se a autorização nos
mandados expedidos.
2.3) EXPEÇAM-SE os respectivos mandados, dirigidos à
Polícia Federal, nos termos do art. 243, do Código de Processo
Penal.
2.4) CUMPRA-SE com a máxima discrição, especialmente
para se evitar publicidade negativa aos agentes públicos, com
estrita observância dos arts. 245 e 248, ambos do Código de
Processo Penal.

3) DETERMINAR O AFASTAMENTO DOS SIGILOS


BANCÁRIOS E FISCAL, durante o período compreendido entre
01/01/2018 e 12/05/2021, tudo nos termos da fundamentação adotada
nesta decisão, em relação às seguintes pessoas físicas e jurídicas:

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1) RICARDO DE AQUINO SALLES, CPF indicado na


representação da Polícia Federal;
2) WALTER MENDES MAGALHÃES JÚNIOR, CPF
indicado na representação da Polícia Federal;
3) OLIVALDI ALVES AZEVEDO BORGES, CPF
indicado na representação da Polícia Federal;
4) JOÃO PESSOA RIOGRANDENSE MOREIRA
JUNIOR, CPF indicado na representação da Polícia Federal;
5) RAFAEL FREIRE DE MACEDO, CPF indicado na
representação da Polícia Federal;
6) EDUARDO FORTUNATO BIM, CPF indicado na
representação da Polícia Federal;
7) OLÍMPIO FERREIRA MAGALHÃES, CPF indicado na
representação da Polícia Federal;
8) LESLIE NELSON JARDIM TAVARES, CPF indicado
na representação da Polícia Federal;
9) ANDRÉ HELENO AZEVEDO SILVEIRA, CPF
indicado na representação da Polícia Federal;
10) WAGNER TADEU MATIOTA, CPF indicado na
emenda à representação da Polícia Federal;
11) LEOPOLDO PENTEADO BUTKIEWICZ, CPF
indicado na emenda à representação da Polícia Federal;
12) ARTUR VALLINOTO BASTOS, CPF indicado na
representação da Polícia Federal;
13) ESDRAS HELI DE SOUZA, CPF indicado na
representação da Polícia Federal;
14) LEONIDAS ERNESTO DE SOUZA, CPF indicado na
representação da Polícia Federal;
15) DAVID PEREIRA SERFATY, CPF indicado na
representação da Polícia Federal;
16) JADIR ANTONIO ZILIO, CPF indicado na
representação da Polícia Federal;
17) LEON ROBERT WEICH, CPF indicado na
representação da Polícia Federal;
18) LEÔNIDAS DAHÁS JORGE DE SOUZA, CPF

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indicado na representação da Polícia Federal;


19) WIZI INDÚSTRIA COMÉRCIO E EXPORTAÇÃO
DE MADEIRAS LTDA, CNPJ indicado na representação da
Polícia Federal;
20) TRADELINK MADEIRAS LTDA, CNPJ indicado na
representação da Polícia Federal;
21) AIMEX - ASSOCIAÇÃO DAS INDÚSTRIAS
EXPORTADORAS DE MADEIRA NO PARÁ, CNPJ indicado
na representação da Polícia Federal;
22) CONFLORESTA – ASSOC. BRAS. DAS EMP.
CONCESSIONÁRIAS FLORESTAIS, CNPJ indicado na
representação da Polícia Federal;
23) EBATA PRODUTOS FLORESTAIS LTDA, CNPJ
indicado na representação da Polícia Federal.

3.1) EXPEÇA-SE Ofício, em caráter sigiloso e com as


observações (referência Código Identificador do "Caso n. 002-
PF-006563-92" e e-mail "perazzoni.fp@pf.gov.br"), ao Banco
Central do Brasil para que:
a) realize consulta através do SISBAJUD e identifique as
instituições financeiras nas quais as referidas pessoas físicas e
jurídicas investigadas mantêm relacionamento como titulares,
representantes ou procuradores, tais como contas de depósito à
vista, de poupança, de investimento, de depósitos a prazo e
outros bens, direitos e valores, diretamente ou por seus
representantes legais, bem como em relações em conjunto com
terceiros;
b) consigne-se no SISBAJUD que o atendimento à
presente determinação judicial deverá ser realizado
prioritariamente pelo sistema SIMBA, através do "Caso n. 002-
PF-006563-92";
c) efetue pesquisa no Cadastro de Clientes do Sistema
Financeiro Nacional (CCS) com o intuito de comunicar
exclusivamente às instituições financeiras com os quais os
investigados têm ou tiveram relacionamentos no período do
afastamento do sigilo bancário (01/01/2018 a 30/04/2021) e que

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faça constar na comunicação o Código Identificador do "Caso n.


002-PF-006563-92" e o e-mail "perazzoni.fp@pf.gov.br" para ser
utilizado para validação e transmissão dos dados, acelerando,
assim, a obtenção dos dados junto a tais entidades;
d) as instituições financeiras observem o disposto na
Carta Circular nº 3454/2010, do Banco Central do Brasil, que
divulga leiaute para que as instituições financeiras prestem
informações relativas a movimentação financeira, dos
investigados citados inclusive na qualidade de procurador,
referente ao período compreendido entre 01/01/2018 a
30/04/2021;
e) as instituições financeiras envolvidas encaminhem os
dados bancários via rede mundial de computadores, utilizando-
se dos programas VALIDADOR BANCÁRIO SIMBA e
TRANSMISSOR BANCÁRIO SIMBA, disponibilizados no sitio
"http://www.pf.gov.br/servicos-pf/sigilo-bancario";
f) as instituições financeiras envolvidas encaminhem os
dados bancários no prazo máximo de 30 (trinta) dias a partir do
recebimento do comunicado da decisão judicial.
g) encaminhe-se ofício judicial ao Banco Central do
Brasil, através do protocolo digital desta instituição, solicitando
a transmissão do CCS dos investigados ao Código Identificador
do "Caso n. 002-PF-006563-92", contendo o prazo para
cumprimento da ordem judicial e a data do recebimento do
ofício judicial pelas instituições financeiras visando o
preenchimento dos campos obrigatórios para transmissão do
CCS pelo validador do SIMBA;
h) seja autorizado a esta autoridade policial e aos peritos
criminais designados para atuar no caso, requisitar diretamente
às instituições financeiras, dados e documentos de suporte das
operações financeiras realizadas no período de afastamento do
sigilo, bem como aqueles relacionados a cadastros dos clientes e
análises de crédito feito nas próprias instituições pela área de
compliance ou de controles internos;
i) sejam fornecidos pela instituição financeira documentos
relacionados à abertura da conta, fita de caixa, cheques

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(microfilmagem ou documento digitalizado), contratos de


abertura de conta e demais documentos físicos de interessa da
investigação em poder da instituição financeira através do
SISBAJUD ou outro meio de interesse;
j) nos termos do disposto na Resolução n. 4.571/2017-BC,
informe o RISCO BACEN das respectivas pessoas físicas e
jurídicas, no período compreendido entre 01/01/2018 e
30/04/2021, devendo listar as seguintes informações: carteira
ativa, carteira de crédito, relações interfinanceiras, garantidas
prestadas, coobrigação assumida, coobrigação,
responsabilidade total, limite de crédito, crédito a liberar, risco
indireto, risco total e coobrigação recebida.

3.2) DEFIRO, ainda, os pedidos formulados pela


autoridade policial nos itens "4.4.1.2" e "4.4.1.3", especialmente
para constar, na resposta ao Ofício a ser enviado para a Receita
Federal do Brasil:
a) a cópia completa dos Dossiês Integrados de todos os
investigados, em arquivo digital pesquisável (art. 17-C, da Lei
n. 9.613/98), que deverão conter, entre outras, as seguintes
informações Extrato PJ e PF, Ação Fiscal, Cadin, CC5 Entras e
CC5 Saídas, Dacon, DASN, DBF, DCTF, DERC, PAES,
PERCOMP, SIAFI, Sinal, SIPADE, DIMOF, DIMOB, DECRED,
DIRF, DIRPF e suas retificações, ITR, DOI etc;
b) quanto às Pessoas Jurídicas: conforme o regime de
tributação e o enquadramento na obrigatoriedade de entrega:
Declarações de Informações Econômico-Fiscais da Pessoa
Jurídica – DIPJ; Declaração de Informações Socioeconômicas e
Fiscais – DEFIS e o valor referente à "Receita Bruta" e "Receita
de Vendas" (empresas optantes pelo SIMPLES NACIONAL);
Declaração Simplificada de Pessoa Jurídica – Inativa – DSPJ –
obrigatoriamente em formatos compatíveis com programas de
planilha eletrônica (xls ou ods), texto (csv ou txt), XML ou base
de dados (SQL Server ou Oracle); Escrituração Contábil Fiscal –
ECF, Escrituração Contábil Digital – ECD, e Escrituração Fiscal
Digital – EFD ICMS IPI, Nota Fiscal Eletrônica – NF-e, Nota

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Fiscal de Consumidor Eletrônica – NFC-e, Nota Fiscal de


Serviços Eletrônica – NFS-e em formato de arquivos passíveis
de visualização por meio dos programas validadores
disponíveis no portal do Sistema Público de Escrituração
Digital – SPED e em formatos compatíveis com programas de
planilha eletrônica (xls ou ods), texto (csv ou txt), XML ou base
de dados (SQL Server ou Oracle); "e-Financeira" –
obrigatoriamente em formatos compatíveis com programas de
planilha eletrônica (xls ou ods), texto (csv ou txt), XML ou base
de dados (SQL Server ou Oracle); DOSSIÊ INTEGRADO
completo (com todas as bases de dados) – obrigatoriamente em
formatos pdf e compatíveis com programas de planilha
eletrônica (xls ou ods), texto (csv ou txt), XML ou base de dados
(SQL Server ou Oracle).
c) a RFB conste no registro do acesso à Escrituração
Contábil Digital das Pessoas Jurídicas solicitadas que a abertura
destes dados se trata de procedimento comum e não identificar
este órgão como solicitante das informações.
d) que a autoridade policial (Polícia Federal) poderá ter
acesso direto a qualquer dado, informação ou registro relativo à
pessoa jurídica descrita na tabela acima, que esteja sob a guarda
das Fazendas Públicas de qualquer ente da República
Federativa do Brasil (Estados e Municípios);
e) o respectivo Ofício seja endereçado ao Delegado da
Receita Federal no DF e encaminhado, por correio eletrônico,
diretamente ao e-mail funcional da autoridade policial
("perazzoni.fp@pf.gov.br"), a quem competirá dar-lhe
cumprimento, com o objetivo de garantir maior celeridade;
f) em razão da sensibilidade da investigação seja
também consignado que: 1) deverá o destinatário adotar as
providências necessárias ao pronto atendimento da demanda,
se necessário, dando os devidos encaminhamentos no âmbito
da RFB, às autoridades e setores competentes para seu
atendimento; 2) o prazo estipulado para atendimento seja
fixado em 30 dias; 3) as respostas devem ser dirigidos da
Receita Federal do Brasil diretamente a esta Autoridade Policial,

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em envelope lacrado e com dizeres "SIGILOSO" no seu exterior,


ou por meio eletrônico, no e-mail funcional da autoridade
policial ("perazzoni.fp@pf.gov.br").

4) DETERMINAR A IMPOSIÇÃO DE MEDIDA CAUTELAR


DIVERSA DA PRISÃO CONSISTENTE NA SUSPENSÃO DO
EXERCÍCIO DA FUNÇÃO PÚBLICA (art. 319, VI, do Código de
Processo Penal), pelo prazo inicial de 90 (noventa) dias, nos termos da
fundamentação adotada nesta decisão, aos seguintes agentes públicos:

1) LEOPOLDO PENTEADO BUTKIEWICZ, CPF


indicado na emenda à representação da Polícia Federal,
PRESIDENTE DO IBAMA;
2) WAGNER TADEU MATIOTA, CPF indicado na
emenda à representação da Polícia Federal,
SUPERINTENDENTE DE APURAÇÕES DE INFRAÇÕES
AMBIENTAIS (SIAM/GAB/IBAMA);
3) EDUARDO FORTUNATO BIM, CPF indicado na
representação da Polícia Federal, PRESIDENTE DO IBAMA;
4) OLÍMPIO FERREIRA MAGALHÃES, CPF indicado na
representação da Polícia Federal, DIRETOR DE PROTEÇÃO
AMBIENTAL (DIPRO/IBAMA);
5) JOÃO PESSOA RIOGRANDENSE MOREIRA
JÚNIOR, CPF indicado na representação da Polícia Federal,
DIRETOR DE USO SUSTENTÁVEL DA BIODIVERSIDADE E
FLORESTAS (DBFLO);
6) RAFAEL FREIRE DE MACEDO, CPF indicado na
representação da Polícia Federal, COORDENADOR-GERAL DE
MONITORAMENTO DO USO DA BIODIVERSIDADE E
COMERCIO EXTERIOR (CGMOC);
7) LESLIE NELSON JARDIM TAVARES, CPF indicado
na representação da Polícia Federal, COORDENADOR DE
OPERAÇÕES DE FISCALIZAÇÃO (COFIS);
8) ANDRÉ HELENO AZEVEDO SILVEIRA, CPF
indicado na representação da Polícia Federal,
COORDENADOR DE INTELIGÊNCIA DE FISCALIZAÇÃO

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(COINF);
9) ARTUR VALLINOTO BASTOS, CPF indicado na
representação da Polícia Federal, ANALISTA AMBIENTAL,
NUFIS/IBAMA/PA.

5) SUSPENDER, LIMINARMENTE, OS EFEITOS DO


DESPACHO N. 7036900/2020-GABIN, DETERMINANDO O
IMEDIATO RETORNO da exigência de integral cumprimento dos
procedimentos previstos na Instrução Normativa n. 15/2011 do IBAMA;
COMUNICANDO-SE, IMEDIATAMENTE, AO MINISTRO DE
ESTADO DO MEIO AMBIENTE PARA EFETIVO CUMPRIMENTO
DA DECISÃO.

Após o cumprimento das diligências, dê-se, IMEDIATA CIÊNCIA à


Procuradoria-Geral da República.

EXPEÇAM-SE as comunicações necessárias.


AUTUE-SE em apartado tudo o que for disponibilizado em relação à
medida cautelar de busca e apreensão e em relação ao afastamento dos
sigilos bancário e fiscal, correndo em segredo de justiça a sua tramitação,
dado o art. 230-C, §2º, do RISTF.
Por fim, DETERMINO que a Polícia Federal cumpra, imediatamente,
essa decisão.
Cumpra-se. Publique-se.
Brasília, 13 de maio de 2021.

Ministro ALEXANDRE DE MORAES


Relator
Documento assinado digitalmente

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