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Definição de derivada e regras de derivação

Tomemos os coeficientes angulares, m(x) = (f(x)-f(a))/(x-a), também chamados


declividades, das retas secantes a G(f) por (x,f(x)) e (a,f(a)). Se a ``reta limite'' de nossas
considerações preliminares existir e não for vertical, significa que os coeficientes
angulares m(x) tendem a um valor fixo, m(a), que é o coeficiente angular da reta tangente
e que chamaremos derivada de f em a. Na definição precisa, a seguir, o ponto a é ponto

de e também ponto de acumulação de A. Isto é, lembrando que A' denota o

conjunto dos pontos de acumulação de A, impomos .

Definição 3.1.1   Consideremos uma função e . A função f é


derivável em a, se existir o limite

(3.2)
 

Neste caso, o valor f'(a) é chamado derivada de f em a.


Há várias notações para a derivada. Sendo y=f(x), as seguintes são algumas das mais
comuns:

O termo diferenciável é sinônimo de derivável e também será usado de agora em diante


com a mesma liberdade com que passaremos de uma para qualquer outra das notações
acima.

A notação dy/dx é devida a Leibnitz. No seu tempo a formalização do conceito de limite


não havia sido atingida e o uso dessa notação pode ser explicado da seguinte forma: O

acréscimo da variável x, , produz um acréscimo da variável y,

. A idéia é que, ao se tornarem ``infinitamente


pequenos'', esses acréscimos passavam a ser denotados por dx e dy, respectivamente, e

operavam-se com eles formalmente como com dois números quaisquer. A razão
transformava-se em dy/dx e este símbolo não representava um ente uno, como acontece
hoje, mas o quociente entre dy e dx. A despeito desses argumentos não terem uma clara
fundamentação lógica, devem ser julgados no contexto de sua época. A notação de
Leibnitz permanece e o leitor notará que ela é útil sendo, em muitas circunstâncias, a
mais sugestiva.

A notação f'(x) é atribuída a Lagrange. É a notação mais conveniente quando f é


diferenciável em um conjunto A e se considera a função derivada em A. Isto é, a função f'

que associa a cada a derivada f'(x) de f no ponto x. Quando a variável


independente representa o tempo e é indicada por t, também se usa para a derivada de

y=f(t) a notação , atribuída a Newton.

Após as consideraçõe feitas até aqui é natural colocar:


Definição 3.1.2   Sendo y=f(x) derivável em a, a reta tangente ao gráfico, G(f), em (a,b),
b=f(a), é a reta dada por:
y - b = f'(a)(x - a).

Se a equação horária de um movimento retilíneo é x=s(t), onde s é uma função


diferenciável da variável tempo t, a velocidade v(t0) num instante t0 é a derivada de s em
t0, isto é, v(t0):=s'(t0).

Exemplo 3.1.1 (1)   Se , então f'(x)=0. De fato, neste caso, o


limite (1.1) fica

em qualquer ponto a.

(2) Se f(x)=x2, então f'(a)=2a. De fato,

(3) A reta tangente à parábola y=x2, no ponto (2,4) é

 
y-4 = 4(x-2). (3.3)

De fato, a derivada de x2 no ponto x=2 é igual a 4. Usando agora o fato de que a equação
da reta de coeficiente angular m, passando pelo ponto (a,b), é dada por
y-b = m(x-a)

chega-se à equação (3.3).

(4) Generalizando o item (2), tem-se

Antes de provarmos esse fato, convém observar que, se f é uma função diferenciável em
um ponto a, na definição de derivada, o limite (1.1) pode ser escrito na forma

o que será feito com muita frequência daqui em diante.

Retomando o nosso exemplo, aplicando o desenvolvimento do binômio obtemos:

Para n=1, temos um caso particular importante dessa fórmula:


(x)'=1,

isto é, a derivada da função identidade é 1. A fórmula neste caso faz sentido apenas para

, uma vez que a expressão 00 não é definida. Entretanto, o leitor pode verificar
diretamente, a partir da definição de derivada, que (x)'=1, inclusive no ponto x=0.

(5) . De fato, usando o Primeiro Limite Fundamental para justificar a


penúltima e a última linha da seguinte cadeia de igualdades, temos:
(6) . O leitor deve se encarregar da demonstração desse fato.

Definição 3.1.3   Se a função é derivável em cada ponto de um conjunto

, diz-se que f é derivável (ou diferenciável) em B. Se tivermos A=B, diremos


simplesmente que f é derivável.

Assim, as funções , e y=xn, , são exemplos de funções diferenciáveis. A


seguinte proposição e os próximos dois exemplos ajudam a entender como deve ser uma
função não diferenciável.
Proposição 3.1.1   Se uma função f é derivável em um ponto a, então f é contínua em a.
Prova. Note que f é contínua em a se, e somente se,

Este, de fato, é o caso quando f é diferenciável em a, pois:


Como estamos interessados em entender como é uma função não diferenciável num
ponto, podemos reformular a Proposição 3.1.1 dizendo que toda função descontínua num
ponto a é não diferenciável em a.

A pergunta agora é: vale a recíproca da Proposição 3.1.1? Ou seja, será que toda função
contínua em a é diferenciável nesse ponto?

A resposta é negativa (como era de se esperar, pois em caso afirmativo, os conceitos de


diferenciabilidade e continuidade seriam equivalentes e poderíamos ficar com apenas um
deles). Os exemplos seguintes mostram funções contínuas e não diferenciáveis em um
ponto. As funções diferenciáveis formam, portanto, uma classe mais seleta, ser
diferenciável é ser contínua e mais alguma coisa.

Exemplo 3.1.2   A função f(x)=|x| é contínua, mas não diferenciável, no ponto a=0. De
fato, neste caso, o limite (3.2) em a=0, calculado à esquerda e à direita, assume valores
distintos:

(3.4)
 

(3.5)
 

logo, não existe f'(0).

As expressões (3.4) e (3.5) são chamadas, respectivamente, derivada à esquerda e


derivada à direita de f em 0. São denotadas por f'(0-) e f'(0+). Considerando limites
laterais em (3.2) e lembrando as propriedades desses limites temos: Seja a um ponto do
domínio de uma funçao f e também ponto de acumulação lateral desse domínio,
deixando-o à esquerda e à direita. f é diferenciável em a se, e somente se, suas derivadas
laterais existem e coincidem. Neste caso, f'(a)=f'(a-)=f'(a+).

Exemplo 3.1.3   A função é contínua, mas não diferenciável,

nos pontos . Deixamos ao leitor, como exercício, a verificação da continuidade


de f. A não diferenciabilidade em a=1 é consequência da propriedade que enunciamos
acima a respeito das derivadas laterais. De fato, como x4<x2, para -1<x<1, e x2<x4, para
x>1, usando o mesmo raciocínio do Exemplo 3.1.2, obtemos:

.
O leitor dispõe de mais de um recurso para verificar a não diferenciabilidade em a=-1,
inclusive o de explorar o fato de ser f uma função par. Por isso deixamos essa tarefa a seu
encargo como exercício.

Figure:

A Figura 3.2 representa o gráfico da função do Exemplo 3.1.3. Observando essa figura,
bem como o gráfico de f(x)=|x|, e refletindo um pouco sobre uma possível recíproca da
Proposição 3.1.1, o leitor concluirá que ela é inviável. Além das descontinuidades, os
pontos onde o gráfico apresenta uma ``quina'', uma situação de ``não concordância'', são
pontos onde não existe reta tangente ao gráfico, embora tenhamos continuidade da função
nesses pontos.

Numa linguagem intuitiva, estas são situações típicas de não diferenciabilidade, enquanto
que, grosso modo, o gráfico de uma função diferenciável tem um aspecto suave, não
anguloso, como o gráfico de f(x)=x3 ou das funções ou , por exemplo.

As situações mostradas no Exemplo 3.1.4 mostram que a idéia de diferenciabilidade por


estas observações, apezar de útil, não é precisa. A função g do item (1) do Exemplo 3.1.4
tem um aspecto parecido com o da função f dada em (3.1). O leitor deve fazer um esboço
do gráfico de ambas. Embora esses gráficos tenham uma certa semelhança, g é
diferenciável em x=0 enquanto f não é.

Exemplo 3.1.4 (1)   A função

é diferenciável em x=0 e g'(0)=0. De fato,


De acordo com a Proposição 2.2.3, a última igualdade segue do fato de ser o
produto de uma função que tende a zero, quando , por uma função limitada.

O seguinte exemplo mostra uma outra situação.

(2) As funções não são diferenciáveis em x=0. De fato,

portanto, não existe f'(0). Neste caso, a tangente ao gráfico no ponto (0,0) existe, mas é
vertical e seu coeficiente angular não está definido. O caso da raíz cúbica (n=3) está
representado na Figura 3.3.

 
Figure 3.3: y=x3

A definição de derivada, como recurso para o cálculo, é pouco manejável. A seguinte


proposição estabelece propriedades importantes das derivadas. São regras de derivação
que facilitam os cálculos.

Proposição 3.1.2   Se f e g são duas funções diferenciáveis em x, então as funções f+g, fg

e, se , f/g também o são. Valendo as seguintes fórmulas:


(a)

(b)

(c)
Prova. Devemos mostrar que o limite do membro esquerdo de cada expressão (a), (b) e
(c) existe e é igual ao membro direito. Demonstraremos apenas (b) e (c), ficando (a) a
cargo do leitor.

(b) A segunda igualdade abaixo pode ser obtida subtraindo e somando f(x+h)g(x) ao
numerador da fração sob o sinal de :

Esta última linha obtem-se de , como decorre da


continuidade de f.

(c) Neste caso, subtraindo e somando a expressão g(x)f(x) convenientemente e usando a


continuidade de g(x), temos

o que finaliza as partes (b) e (c) da prova.


O ítem (a) da proposição anterior se estende naturalmente a um número finito qualquer de
parcelas.

Sendo funções diferenciáveis em x, o leitor poderá usar


o princípio de indução finita para demonstrar a seguinte fórmula:

Observe que a fórmula acima inclui, como caso particular, a nossa já conhecida

ou, mais geralmente, se u(x) é uma função diferenciável e n>1 é um

inteiro, então tomando fi(x)=u(x), , em (3.6), obtemos a seguinte fórmula:

(3.6)
 

Uma importante consequência da Proposição 3.1.2 é a seguinte: Todo polinômio é uma


função diferenciável. Os itens (1) e (2) do Exemplo 3.1.5 são consequências imediatas
dos itens (b) e (c) da Proposição 3.1.2.

Exemplo 3.1.5 (1)   Se , então .

(2) (1/x)'=-1/x2. Mais geralmente, se u(x) é diferenciável, , então

(3.7)
 

Os itens abaixo mostram que podemos agora obter fórmulas de derivação para as funções
trigonométricas.
(3) . De fato, como , temos:

(4) . Fica a cargo do leitor verificar esta fórmula. Para isso basta
seguir os mesmos passos do exemplo anterior.

(5) De fato, como consequência do item (2) temos:

(6) . Esta fórmula é análoga à anterior.

Suponhamos agora que y=f(x) seja uma função invertível definida num intervalo I,

derivável em a, com . Essas condições sobre f, como já sabemos, são


equivalentes a que o gráfico da função f, G(f), possua uma reta tangente no ponto (a,b),

onde b=f(a), com declividade , onde é a medida (tomando como


positivo o sentido anti-horário) do ângulo que o eixo x faz com a reta.

Ora, observemos que o gráfico de f-1, G(f-1), pode ser visto como o próprio G(f) se forem
trocados os papéis de x e y e se, além disso, quando traçarmos G(f-1), representarmos a
primeira coordenada - a variável independente y - no eixo vertical e a segunda - a variável
dependente x - no eixo horizontal. Isto é,
Então a mesma reta que é tangente a G(f), em (a,b), será tangente a

, em (b,a). Entretanto, respeitando a a troca


dos papéis de x e y, a declividade da reta tangente a G(f-1) deve ser vista como a tangente

trigonométrica do ângulo que ela faz com o eixo y, tomando o sentido horário como

positivo. Ou seja, sua declividade é . Concluimos, portanto, que f-1 é


derivável em b e

Confira com a Figura 3.4.


 

Figure:

Observando que uma função , contínua num intervalo I, é


invertível se, e somente se, f é estritamente crescente ou estritamente decrescente,
podemos resumir as conclusões de nossas observações na seguinte proposição:

Proposição 3.1.3   Seja y=f(x) uma função estritamente crescente (ou estritamente

decrescente) num intervalo I e derivável num ponto , com . Então a


função inversa x=f-1(y) é derivável em b=f(a) e

Se as hipóteses da Proposição 3.1.3 estiverem satisfeitas, numa notação incompleta, mas


sugestiva, temos
Importantes consequências dessa proposição estão contidas nos exemplos abaixo.

Exemplo 3.1.6 (1)   Consideremos a função y=f(x)=xn, , . Acertemos que

o domínio de f é , quando n é par, e toda a reta , em caso contrário. Notando

que f é estritamente crescente e que nos pontos ,a


Proposição 3.1.3 implica a seguinte regra de derivação:

A função inversa, x=y1/n, é diferenciável, para ,e

(2) Seja y=xm/n, Sendo u(x)=x1/n, temos e, portanto, a

Fórmula (3.8), subsequente à Proposição 3.1.2, implica ,


donde

De um modo geral, reunindo os fatos contidos nos dois últimos exemplos, conclui-se que
também para expoentes racionais, vale regra de derivação

(3.8)
 
que generaliza o item (4) do Exemplo 3.1.1.

Com relação a derivação de potências, a Fórmula (3.10) nos leva tão longe quanto se

pode no momento. Num futuro próximo daremos sentido à Fórmula (3.10) para e
provaremos que ela vale nesse contexto mais geral.

Outras consequências importantes da Proposição 3.1.3 são as fórmulas de derivação das


funções trigonométricas inversas que estabelecemos nos exemplos abaixo.

Exemplo 3.1.7 (1)   . Aqui, para o estudo da diferenciabilidade, é usual

restringir-se o domínio a (-1,1) e o contra-domínio a . Temos assim uma

função estritamente crescente, inversa de .

De acordo com a Proposição 3.1.3, temos:

Lembrando que , isto nos leva finalmente à


fórmula

(2) Neste caso é usual tomar-se (-1,1) como domínio e como


contra-domínio. Podemos proceder de modo análogo ao do exemplo anterior para
mostrar:
(3) . Tomando como domínio e como contra-domínio
(Veja a Figura 3.5), o mesmo tipo de argumento nos leva à fórmula

Figure:

O leitor deve preencher os detalhes dos próximos três exemplos, especificando os


domínios e contra-domínios das funções correspondentes.

(4)

(5)

(6)
A regra da cadeia e derivadas de ordem superior

Em situações das mais variadas é preciso compor funções. Nesta Seção vamos atacar o
problema de derivar a composição de funções diferenciáveis. Apenas para se ter uma
idéia mais precisa do assunto, consideremos o exemplo de um ponto (x,y) se movendo no

plano xy sobre a curva de modo que sua abscissa percorre o eixo x

obedecendo a lei horária . Assim, a abscissa é crescente


com o tempo (isto é, x se movimenta sempre na direção positiva), enquanto a ordenada y

descreve um movimento oscilatório regido pela lei . Fixemo-


nos na ordenada y. Em outros termos, o ponto está se movendo sobre o gráfico da função
cosseno e estamos considerando o movimento de sua projeção ortogonal no eixo y. No
instante t, qual é a velocidade v(t) da ordenada y? Veja a Figura 3.6.

Como v(t)=dy/dt, ao considerarmos essa questão, estamos diante da necessidade de


calcular a derivada da composição da função cosseno com a função

. É a proposição abaixo, a regra da cadeia, que nos fornece a


ferramenta para tratar esse problema.

Teorema 3.2.1 (Regra da Cadeia)   Seja y=f(x) diferenciável em a e z=g(y) diferenciável

em b=f(a), então é diferenciável em a (ou seja, é diferenciável em


a) e

ou, numa notação mais sugestiva (como se cancelássemos os dy's):

Prova. Definamos a função auxiliar

Como , concluimos que h é contínua em b e ainda temos para todo y:


h(y)(y-b)=g(y)-g(b)-g'(b)(y-b).

Assim,

e, fazendo y=f(x), b=f(a), obtemos

(3.9)
 

Dividindo (3.11) por x-a e tomando limites, para , somos levados finalmente a

A fórmula (3.8), usada para chegarmos à regra de diferenciação de potências com


expoentes racionais, é obviamente um caso particular da regra da cadeia.

Exemplo 3.2.1 (1)   Se y=(x2+1)1/2, fazendo u=x2+1, temos y=u1/2. Portanto,

(2) Se y=(2x+1)3, então y'(0)=6. De fato, se u=2x+1, vem

Donde, (dy/dx)x=0=6.
Observe que a composição de duas funções não diferenciáveis pode ser diferenciável
(confira com o exercício 60). De fato, a função

não é diferenciável em nenhum ponto (nem mesmo contínua), entretanto, a função

composta , ou seja, , é a função constante, igual a 1 e, portanto,


diferenciável.

O leitor está agora em posição de calcular a velocidade da ordenada daquele ponto se


movendo sobre o gráfico do cosseno, conforme a descrição do inicio desta Seção. Deve
fazê-lo.

Se uma função f é derivável num conjunto , fica definida uma outra função f' em

A, a qual associa a cada ponto a derivada de f em x.

Definição 3.2.1   Uma função y=f(x) de A em é dita duas vezes diferenciável, se a

função derivada, f', for diferenciável em A. Neste caso, a derivada de f' em é


chamada derivada segunda - ou derivada de ordem 2 - de f em x e é denotada por f''(x).

Nas condições da Definição 3.2.1 também se usam as seguintes notações para a derivada
segunda de f:

Procedendo sucessivamente de modo inteiramente análogo, chegamos à definição de


função n vezes diferenciável e de derivada n-ésima. Isto é:

Definição 3.2.2   Para , tendo definida uma função f (n-1) vezes diferenciável em

, diz-se que f é n vezes diferenciável em A, se a função f(n-1) for diferenciável em


A. Neste caso, é a chamada derivada n-ésima de f, ou
derivada de ordem n.
Também se usam as notações

para a derivada n-ésima de y=f(x).

Exemplo 3.2.2 (1)   Se , então f''(0)=2. De fato,

e , portanto, f''(0)=2.

(2) Se f(x)=x4-5x2+3, então f'(x)=4x3-10x, f''(x)= 12x2-10, f(3)(x)=24x, f(4)(x)=24,

(3) Se , então

continue.

Definição 3.2.3   Uma função é dita de classe Cn, inteiro, ,


(n)
se for n vezes diferenciável e a função f for contínua em A. Se f tiver derivadas de todas

as ordens, diz-se que f é de classe , . A notação indica que f é


contínua.
A linguagem matemática está impregnada dessa terminologia. É preciso, portanto,
familiarizar-se com ela.

Uma questão interessante é a seguinte: Existem funções de classe Cn que não sejam de
classe Cn+1? Os itens (3), (4) e (5) do Exemplo 3.2.3 se referem a esse assunto.
Exemplo 3.2.3 (1)   Se P(x) é um polinômio, então . De fato, basta lembrar
que todo polinômio é diferenciável e que sua derivada é outro polinômio, eventualmente
constante.

(2) Se , , então . De fato, as derivadas de

qualquer ordem dessas funções são ou .

(3) Se f(x)=|x|, então , mas . De fato, já sabemos que f é contínua.


Como f(x)=-x, para x<0, e f(x)=x, para x>0, a diferenciabilidade está garantida nesses
pontos. Mas, já vimos que f'(0-)=-1 e f'(0+)=1, deste modo, f não é diferenciável em x=0

e, portanto, .

(4) Se f(x)=x|x|, então , mas . Inspirado no item anterior o leitor será


capaz de verificar esse fato.

(5) Na verdade, com praticamente o mesmo esforço o leitor pode mostrar que, se f(x)=xn|

x|, então , mas .

Encerramos esta Seção considerando um método importante para calcular certas


derivadas, as derivadas de funções definidas implicitamente.

Uma equação em duas variáveis, x e y, pode definir y como função de x, pelo menos para
x e y restritos a convenientes subconjuntos de . Por exemplo, a equação

 
2 2
x +y =1, (3.10)

para -1<x<1, pode definir y como função de x de duas maneiras: ou

Quando y é definido implicitamente como função de x, nem sempre é possível explicitar

a função, como fizemos acima. É sabido, por exemplo, que a equação


define y como função de x, quando x varia numa vizinhança de 0 e y numa vizinhança de
1. Isto é, para cada x em alguma vizinhança de 0, se considerarmos a equação em apreço
como uma equação em y, sabe-se que ela tem uma única soluão y(x) pertencente a uma
certa vizinhança de 1. No entanto, não dá para exibir essa solução.

Saber quando uma equação em x e y define uma variável como função da outra é uma
questão muito importante. Será objeto de nosso interesse no futuro. Por ora estamos
interessados num problema bem mais simples: admitindo que a equação define y como
função de x, queremos calcular sua derivada y'.

A melhor maneira de entender esse método é fazer alguns exemplos. Assim, para
obtermos a derivada y' de y, como função de x definida implicitamente em (3.12),
derivamos os dois membros de (3.12):

Em geral a expressão de y' envolve a variável y, mas quando é possível explicitar y como
função de x, como é o caso neste exemplo, isso pode ser evitado. Aqui temos

, se e , se

Exemplo 3.2.4 (1)   Consideremos a equação y4+2y-3x3=3x-1 e calculemos a derivada y'


de y em relação a x,

desde que .

(2) Encontremos a equação da reta tangente à curva dada pela equação y4+3y-4x3=5x+1,
pelo ponto (1,-2), admitindo que essa equação define a função y=f(x) numa vizinhança de
x=1, com f(1)=-2.

Calculando y'=f'(x) de modo inteiramente análogo ao do exemplo anterior, obtemos:


Assim, a equação da reta tangente é
y+2=-(17/19)(x-1).

(3) Admitindo que a equação define y como função de x, calculemos


y',

quando .
O Teorema do valor médio - Máximos e mínimos

O Teorema do Valor Médio é um dos teoremas mais fundamentais do Cálculo. Outros


resultados importantes dependem dele. É também muito simples, como muitos teoremas
importantes. Tem a seguinte interpretação dinâmica: Num movimento retilíneo realizado
num intervalo de tempo [t0,t1], há em algum instante entre t0 e t1 quando a velocidade

instantânea, , coincide com a velocidade média. Aplicaremos o Teorema do Valor


Médio no estudo de pontos de máximo e de mínimo relativos funções.

Definição 3.3.1   Seja f uma função definida num intervalo I. Um ponto é


chamado ponto de máximo relativo (ou local) de f, se existe uma vizinhança V de a tal

que , para todo . Neste caso, f(a) é chamado um valor de

máximo. Se existir uma vizinhança V de a tal que , para todo

, o ponto a será chamado ponto de mínimo relativo (ou local) e f(a) um


valor de mínimo.
Como se observa no Exemplo 3.3.1 e na Figura 3.7, um ponto de máximo relativo, ou de
mínimo relativo, pode não ser de máximo, ou de mínimo, respectivamente. Apesar disso,
adotaremos a prática usual de quase sempre abolir o adjetivo relativo. Os reais pontos de
máximo ou de mínimo serão frequentemente referidos como de máximo absoluto ou de
mínimo absoluto.

Exemplo 3.3.1 (1)   A função f(x)=x3-3x tem um ponto de máximo relativo e um ponto de
mínimo relativo em a=-1 e x1=1, respectivamente. Os valores de máximo e de mínimo
são 2 e -2, respectivamente. No entanto, essa função não tem máximo nem mínimo
absolutos. Confira com a Figura 3.7.

(2) A função tem infinitos pontos de máximo, ,

, e infinitos pontos de mínimo, ,

, um único valor de máximo, 1, e um único valor de mínimo,-1.


(3) A função , , f(0)=0, tem infinitos pontos de máximo,

, , e infinitos pontos de mínimo,

, .

Os pontos de máximo ou de mínimo relativos de uma função são chamados pontos


extremos relativos (também neste caso omitiremos frequentemente o termo relativo). Os

pontos , , são pontos extremos da função

, , f(0)=0, considerada no item (3) do Exemplo 3.3.1. O


ponto x=0 é um ponto extremo relativo dessa função?

A proposição seguinte fornece um primeiro recurso para a discussão dos pontos extremos
de uma função f. Dá uma condição necessária para um ponto ser ponto extremo de f. Os
candidatos a extremo são, quase sempre, pontos c tais que f'(c)=0.

Proposição 3.3.1   Se f é uma função diferenciável num intervalo aberto I e é um


seu ponto de máximo ou de mínimo relativo, então f'(c)=0.
Prova. Suponhamos que c seja um ponto de máximo. A prova para o ponto de mínimo é
inteiramente análoga.

Observemos inicialmente que existem as derivadas laterais, f'(c-) e f'(c+), que coincidem
com f'(c). Além disso, como c é ponto de máximo, para |h| suficientemente pequeno,
podemos afirmar que:

Portanto, de acordo com o Teorema da Comparação, temos:


Ou seja,

Observação 3.3.1   1) Se I não for aberto, a conclusão da Proposição 3.1 pode não valer.

De fato, basta observar, por exemplo, a função , definida por f(x)=x. Os


pontos a=1 e x1=2 são, respectivamente, pontos de mínimo e de máximo e a derivada de f
não se anula nesses pontos.

2) A recíproca da Proposição 3.3.1 não é verdadeira. De fato, se tomarmos a função


f(x)=x3, temos f'(0)=0 e a=0 não é ponto de mínimo nem de máximo.

3) Se f é uma função definida num intervalo aberto I, define-se ponto crítico de f como

um ponto tal que f'(c)=0 ou f'(c) não existe. Assim,, a Proposição 3.3.1 pode ser
reformulada nos seguintes termos:

Proposição 3.3.2   Se c é um ponto de máximo ou de mínimo de uma função f num


intervalo aberto I, então c é um ponto crítico de f.
A proposição seguinte, o Teorema de Rolle, diz que se uma função diferenciável, f,
assume o mesmo valor em diferentes pontos, a e b, então existe pelo menos um ponto do

gráfico de f, entre e , em que a reta tangente a ele


é horizontal. Veja a Figura 3.8. Também tem a seguinte interpretação dinâmica: Se, num
movimento retilíneo, um ponto retorna, num instante t1 à posição inicial, ocupada no

instante t0<t1, então há um instante , , quando sua velocidade é nula. O


Teorema de Rolle é um critério de existência de pontos críticos
Teorema 3.3.1 (Teorema de Rolle)   Se f é uma função contínua em [a,b] e derivável em

(a,b), então existe um ponto tal que f'(c)=0.


Prova. De acordo com a Proposição 2.4.3, f assume o seu valor máximo, M, e o seu valor
mínimo, m, quando x varia em [a,b].

Se tanto m como M são atingidos nos extremos do intervalo [a,b], temos m=M, pois

f(a)=f(b). Logo, f(x)=m (constante), para todo . Assim, f'(x)=0, para todo

, e c pode ser qualquer ponto de (a,b).

Se pelo menos um dos valores, M ou m, é atingido num ponto , então, de


acordo com a Proposição 3.3.1, f'(c)=0.

Uma consequência imediata do Teorema de Rolle é a seguinte:

Corolário 3.3.1   Se f é uma função contínua num intervalo [a,b], a<b, com f(a)=f(b),
então existe um ponto crítico de f em (a,b).
O Teorema de Rolle dá condições apenas de existência de pontos críticos, não fornece
nenhum método para determiná-los. Também não há, em geral, unicidade desses pontos ,
como o leitor já deve ter notado na prova do teorema e na Figura 3.8.

O Teorema do Valor Médio é uma generalização do Teorema de Rolle.

Teorema 3.3.2 (Teorema do Valor Médio)   Se f é uma função contínua em [a,b] e

derivável em (a,b), então existe tal que f(b)-f(a)=f'(c)(b-a).


Prova. Consideremos a constante K:=[f(b)-f(a)]/(b-a) e definamos a função

(3.11)
 

A função é a soma das funções deriváveis -f(x) e f(b)-K(b-x)), logo, é

difeerenciável em [a,b]. Ainda, . Ou seja, satisfaz as hipóteses do

Teorema de Rolle, portanto, existe tal que .

Mas, . Portanto, f'(c)=K e, de acordo com (3.13),


O Teorema do Valor Médio diz o seguinte: Se f é uma função diferenciável em (a,b) e

contínua em [a,b], então existe um ponto do gráfico de f, entre e ,

em que a reta tangente é paralela à reta passando pelos pontos e .


Veja a Figura 3.9. Voltando à introdução desta seção o leitor pode fazer um gráfico
representando a coordenada s(t) do ponto, quando o tempo t varia no intervalo [t0,t1], e
relacionar aquela interpretação dinâmica do Teorema do Valor Médio com esta
interpretação geométrica.

Já vimos anteriormente que a derivada de uma função constante é zero. O que não ficou
até agora bem resolvido foi a recíproca, isto é: Se a derivada de uma função é zero em
todos os pontos de um intervalo, ela é constante nesse intervalo? De acordo com o
seguinte corolário do Teorema do Valor Médio, isto é verdade.

Corolário 3.3.2   Se f é uma função diferenciável em [a,b] e f'(x)=0, para todo

, então em [a,b]

Prova. Seja c:=f(a). Para todo , o Teorema do Valor Médio garante a

existência de de modo que e, como

, segue que f(x)=c.

É fácil encontrar exemplos em que f'(x)=0 em todo o domínio de f e, no entanto, f não é


uma função constante. Certamente o domínio de f não será um intervalo, como no caso de

f(x) = x/|x|.

Outra consequência importante do Teorema do Valor Médio é o seguinte


Corolário 3.3.3   Se f é uma função contínua em [a,b], derivável em (a,b), com f'(x)>0

(f'(x)<0), para todo , então f é estritamente crescente (estritamente


decrescente) em [a,b].
Prova. Suponhamos que . De acordo com nossas hipóteses e o

Teorema do Valor Médio, existe um número tal que

. Como , temos f(x)<f(y).

A prova da parte do Corolário 3.3.3 correspondente às frases entre parênteses fica por
conta do leitor.

Observação 3.3.2   1) Se a hipótese f'(x)>0 for substituída por no Corolário


3.3.3, o termo ``estritamente crescente'' deve ser substituído por ``crescente''.

2) Vale uma observação análoga à anterior para a versão do Corolário 3.3.3


correspondente às frases entre parênteses.

O Teorema do Valor Médio e seus corolários nos colocam em posição de estudar a


concavidade do gráfico de uma função diferenciável.

Definição 3.3.2   Uma função f, diferenciável em um intervalo I é convexa em se

existir um intervalo , com a<c<b, de modo que

(3.12)
 

Diremos também, neste caso, que o gráfico, G(f), tem a concavidade voltada para cima
em (c,f(c)). Se valer

(3.13)
 

diremos que f é côncava em c, ou que o gráfico, G(f), tem a concavidade voltada para
baixo em (c,f(c)).
Definição 3.3.3   Se uma função f, nas condições da Definição 3.3.2, for convexa

(côncava) em todos os pontos de um intervalo , diremos que f é convexa


(côncava) em J.
A Definição 3.3.2 significa que, se tomarmos , o gráfico G(f) está
acima da reta y-f(c)=f'(c)(x-c), quando a f for convexa em c. O gráfico G(f) estará abaixo
da reta y-f(c)=f'(c)(x-c), quando f for côncava em c.

A Figura 3.10 representa uma função f convexa em c (ou seja, cujo gráfico tem a
concavidade voltada para cima em (c,f(c))).

A proposição abaixo é um critério para determinar a convexidade ou a a concavidade de


uma função.

Proposição 3.3.3   Se f é uma função de classe C2 num intervalo aberto I e se f''(c)>0,

num ponto , então f é convexa em c.


Prova. Como f''(c)>0 e f'' é, por hipótese, uma função contínua, o Teorema da

Conservação do Sinal assegura que existe um intervalo , com a<c<b, de

modo que f''(x)>0, para .

Seja x>c, . Pelo Teorema do Valor Médio, existe de modo que

Como f''(x)>0, para , segue do Corolário 3.3.3 do Teorema do Valor Médio

que f' é estritamente crescente nesse intervalo, portanto, , donde

A prova dessa relação, para , é inteiramente análoga. Portanto, a relação


(3.14) está satisfeita e a função f é convexa em c.

Uma condição para f ser côncava em c é f''(c)<0. Cabe ao leitor formular a proposição
correspondente à Proposição 3.3.3 para este caso e fazer sua prova.

Quando o gráfico de f muda seu caráter de convexidade num ponto c, este ponto é
chamado ponto de inflexão de f. Precisamente,
Definição 3.3.4   Se f é uma função definida em (a,b), um ponto é dito um

ponto de inflexão de f, se existir de modo que f é

convexa em um dos intervalos , e côncava no outro.

Consideremos uma função f de classe C2 num intervalo aberto I. Se é um ponto de


inflexão de f, então f''(c)=0. Isto é consequência do Teorema do Valor Intermediário e da
Proposição 3.3.3. Assim, uma boa estratégia para encontrar os pontos de inflexão de uma
função f é tentar descobrir os pontos c onde f''(c)=0 ou onde f''(c) não existe. A
Proposição 3.3.6, mais adiante, implementa esta observação.

Exemplo 3.3.2 (1)   Se f(x)=x3, temos . Além disso,


f''(x)<0, se x<0, e f''(x)>0, se x>0. Portanto, 0 é um ponto de inflexão de f.

(2) Se , então f''(x)=-(2x-5/3)/9, se . Neste caso, f''(x)>0, se x<0 e


f''(x)<0, se x>0. Assim, ainda que não exista f''(0), 0 é um ponto de inflexão de f.

(3) Se f(x)=x2n, , f não tem pontos de inflexão, pois f é convexa em .

(4) Se , então não existem f''(0) e f''(1), é possível, entretanto,


garantir que 1 é o único ponto de inflexão de f. A verificação deste fato fica como
exercício para o leitor, que deve fazer um esboço do gráfico desta função.

As proposições que finalizam esta seção compõem a principal ferramenta para o estudo
dos pontos de máximo e de mínimo de uma função.
Proposição 3.3.4   Suponhamos que f seja uma função diferenciável em [a,b], exceto

possivelmente em um seu ponto crítico .


1.
Se f'(x)>0, para a<x<c, e f'(x)<0, para c<x<b, então c é um ponto de máximo local.
2.
Se f'(x)<0, para a<x<c, e f'(x)>0, para c<x<b, então c é um ponto de mínimo local.
Prova. Se f' satisfaz a hipótese do item 1., decorre do Corolário 3.3.3 do Teorema do
Valor Médio que f é estritamente crescente em [a,c] e estritamente decrescente em [c,b].

Veja a Figura 3.11. Disso decorre que f(x)<f(c), para todo . Logo,
f(c) é um valor de máximo local.

A prova do item 2. é inteiramente análoga.


O exemplo a seguir sugere que o leitor crie outro para ilustrar o item 1. da Proposição
3.3.4

Exemplo 3.3.3   Se , então o item 2. da Proposição 3.3.4 implica que 0 é

um ponto de mínimo de f. De fato, se x<0, então e

. Se x>0, então e

. Confira com a Figura 3.12

A proposição a seguir é, nas aplicações deste estudo, o recurso mais útil, embora não
cubra todos os casos de interesse.
Proposição 3.3.5   Seja f uma função de classe C2 num intervalo (a,b), com f'(c)=0,
a<c<b.
1.
Se f''(c)>0, então c é um ponto de mínimo local.
2.
Se f''(c)<0, então c é um ponto de máximo local.

Prova. Suponhamos satisfeitas as nossas hipóteses com f''(c)<0. Sendo ,a


versão da Proposição 3.3.3 para f''(c)<0 implica que a função f é côncava no ponto c.

Então, vale (3.15) num intervalo . Como f'(c)=0, segue-se que f(x)>c, para

. Ou seja, c é um ponto de máximo de f. Confira com a Figura 3.13.

A prova do item 1. é inteiramente análoga.


Exemplo 3.3.4 (1)   A função f(x)=x3-3x é apresentada no item (1) do Exemplo 3.3.1 com
algumas afirmações sem justificativas. Estamos agora em posição de justificá-las. Para

isso é conveniente ter a Figura 3.7 em mente. Como em e

, concluímos que são os únicos


possíveis pontos extremos de f. Além disso, f''(-1)=-6<0 e f''(1)=6>0, portanto, pela
Proposição 3.3.5, -1 é um ponto de máximo local e 1 é um ponto de mínimo local.
Observe-se ainda que f''(x) só muda seu caráter de convexidade no ponto x=0, isto é, 0 é o
único ponto de inflexão de f.

(2) Um homem está num barco a dois quilometros de uma praia suposta retilínea na
direção norte-sul . Sabe-se que sua velocidade remando é 3/5 de sua velocidade correndo
em terra firme. Se ele deseja ir a um ponto da praia, seis quilometros ao norte, determine
a trajetória a ser seguida para fazê-lo em tempo mínimo. Solução. Como o problema não
depende do valor das velocidades, mas da razão entre elas, podemos assumir que a
velocidade em terra firme é v=1. De acordo com a Figura 3.14, o tempo gasto para ir do

ponto de partida, A=(2,0), até o ponto C=(0,y) da praia é e, para ir


de C ao ponto desejado, B=(0,6), é TCB=6-y. Assim, o tempo gasto no percurso total é

Devemos o ponto de mínimo da função T(y). Impondo T'(y)=0,

A única raíz dessa equação é . Como

para todo , segue que é um ponto de mínimo. Assim, a trajetória procurada é a


indicada na Figura 3.14, tomando-se C=(0,3/2).

Proposição 3.3.6   Seja f uma função de classe C3 em (a,b), com f''(c)=0 e


. Então c é um ponto de inflexão de f.
Prova. Para fixar um caso, suponhamos f(3)(c)>0. A prova para f(3)(c)<0 é inteiramente
análoga.

Sendo f(3) contínua, o Teorema da Conservação do Sinal assegura a existência de um

intervalo , com , tal que f(3)(x)>0, para , donde f''


é estritamente crescente em (d,e). Então, como f''(c)=0, temos f''(x)<0, para d<x<c, e
f''(x)>0, para c<x<e.

Assim, f muda seu caráter de convexidade em c.


Exemplo 3.3.5   A função tem um ponto de inflexão em . De

fato, , .
Portanto, nossa afirmação é uma decorrência da Proposição 3.3.6.

Para as aplicações, o estudo dos pontos extremos de funções reais de uma variável real
apresentado até aqui fornece recursos em geral suficientes. Entretanto, em
circunstâncias especiais, a proposição abaixo, que é mais abrangente, pode ser
necessária.

Proposição 3.3.7   Suponhamos f uma função de classe Cn em (a,b), , sendo

e .
1.
Se n é ímpar, então c é ponto de inflexão.
2.
Se n é par e f(n)(c)>0, então c é ponto de mínimo.
3.
Se n é par e f(n)(c)<0, então c é ponto de máximo.

Exemplo 3.3.6 (1)   Algumas vezes as últimas proposições não são adequadas ao estudo
dos pontos extremos de uma função. Este é o caso da função

, para a qual 1 é um ponto de máximo, é um ponto de


inflexão e não existe f'(1). O leitor deve a usar o Corolário 3.3.3 do Teorema do Valor
Médio e a Proposição 3.3.3 para verificar essas afirmações. Veja Figura 3.15.

(2) A função f(x)=x5 satisfaz as condições da Proposição 3.3.7-1., com n=5 e c=0. A
função f(x)=x4 satisfaz as condições da Proposição 3.3.7-2., com n=4 e c=0. O leitor deve
confirmar essas afirmações e fazer um esboço do gráfico de f.

(3) Os fatos apresentados nesta seção constituem um recurso para esboçar o gráfico de

uma função. O esboço do gráfico da função , que mostramos na


Figura 3.16, foi obtido por meio da seguinte análise:

(a) A função é ímpar, portanto, seu gráfico é simétrico com respeito à origem e basta

analisá-lo para .
(b) O ponto 1 é um ponto de descontinuidade, sendo a reta x=1 uma assíntota vertical,
pois

(c)

(d) O único ponto extremo não negativo é determinado por

Como

o ponto é um ponto de mínimo.

(e) A convexidade é determinada pelo sinal da derivada segunda:

(f) Os pontos de inflexão, 0 e 3, são determinados por


Hoje em dia existem programas que fornecem o gráfico de funções bastante complicadas,
mas a familiaridade com os fatos aqui apresentados certamente facilitam a observação de
aspectos e detalhes importantes que não necessariamente são destacados nesses
programas. Essas observações podem ser orientadas pelos seguintes passos:

(1) verificar se existe alguma simetria que simplifique o estudo;

(2) estudar o comportamento nos pontos de descontinuidade;

(3) estudar os pontos críticos;

(4) estudar o comportamento em e

(5) estudar o caráter de convexidade da função.

Algumas formas indeterminadas - A regra de L'Hospital

Se soubermos calcular e , as proposições 2.2.1 e 2.3.3

podem não resolver nossos problemas quando pretendemos calcular , se


h(x)=f(x)/g(x), ou h(x)=f(x)g(x), ou h(x)=f(x)+g(x).

Aqui podemos considerar ou e admitir que os limites sejam .

Na verdade, o leitor já sentiu as dificuldades dessa questão ao resolver os exercícios do


Capítulo 2. Se aplicarmos formalmente as fórmulas das mencionadas proposições 2.2.1 e

2.3.3, dependendo dos valores de e , podemos chegar às

expressões sem sentido , , ou , para .

Essas expressões são chamadas formas indeterminadas porque, dado qualquer ,

, escolhendo convenientemente f e g, podemos chegar a

. Ainda mais, podemos fazer a escolha de f e g de modo que não

exista e nem seja o .


Embora já tenhamos desenvolvido alguma habilidade para contornar essas situações, é de
grande valia aumentar nossos recursos com a Regra de L'Hospital.

Teorema 3.5.1 (Regra de L'Hospital)   Sejam f e g funções diferenciáveis em (a,b),

exceto possivelmente em , com , para ,e

(3.25)
 

onde .

Se

(3.26)
 

ou

(3.27)
 

então

(3.28)
 

Prova. Apresentaremos a prova apenas no caso da hipótese (3.32). A prova no caso


(3.33) é um pouco mais elaborada, não muito.

Como os valores das funções f e g no ponto c não influem no valor do limite (3.31),
vamos impor que f(c)=g(c)=0, considerando-as contínuas em c. Vamos também

considerar neste momento apenas o limite lateral para .


Se x>c, as condições de diferenciabilidade assumidas para f e g permitem aplicar o

Teorema de Cauchy para escrever, para algum , :

Logo,

e, como quando , temos:

Com adaptações óbvias o leitor chegará à mesma conclusão com respeito ao limite à
esquerda e, portanto, à relação (3.34), que é a parte da prova que pretendiamos
apresentar.

A Regra de L'Hospital vale também para o caso em que . Não é difícil


demonstrá-la a partir da Regra formulada acima fazendo a mudança de variável x=1/y e

depois .

Exemplo 3.5.1 (1)   leva à forma indeterminada 0/0.

A Regra de L'Hospital implica:


(2) leva à forma indeterminada .A
Regra de L'Hospital implica:

O último limite ainda leva à forma indeterminada , mas manipulação direta


mostra que ele é igual a

Uma outra alternativa seria aplicar novamente a Regra de L'Hospital a

(3) leva à forma indeterminada 0/0. A Regra de L'Hospital


implica:

(4) leva à forma indeterminada 0/0 e o mesmo ocorre


depois de aplicar-se a Regra de L'Hospital. Entretanto, aplicações sucessivas nos
conduzem a
(5)