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Unidade III

Unidade III
5 BIOMECÂNICA DA GINÁSTICA

A ginástica é o nome dado há um conjunto de movimentos feitos em determinada sessão de treino


para diferentes fins:

• condicionar o corpo;

• educar o corpo para o movimento;

• corrigir posturas que provocam dores;

• desafiar o corpo para controle do equilíbrio em movimentos complexos, entre outros.

Muitos foram os objetos atribuídos à ginástica ao longo de sua história (BROCHADO; BRACHADO,
2005), e, por meio desses diferentes objetivos, várias modalidades de ginástica foram criadas.

As modalidades que exigem maior controle de equilíbrio, além de força e flexibilidade, são as vistas em
competições olímpicas, ginástica artística e ginástica olímpica ou acrobática (MOCHIZUKI; AMADIO, 2007).
O treino do controle de equilíbrio é bastante relevante para esse tipo de modalidade (LAMB et al., 2014),
assim, os fatores biomecânicos que interferem no controle do equilíbrio e os princípios do treinamento
proprioceptivo que organizam o controle motor para esse fim serão estudados neste capítulo.

Além de auxiliar atletas de alto nível, o treinamento proprioceptivo também é muito usado em
academias para melhorar a postura estática e dinâmica do movimento, particularmente em condições
de reabilitação de lesões musculoesqueléticas.

Existem várias modalidades de ginástica de academia, entretanto, as mais antigas e que ainda
perduram são as que têm step e aeróbica. Apesar de elas não alcançarem o nível de competição de uma
Olimpíada, existem competições locais que priorizam a performance das sequências de movimentos
complexos aprendidas nessas modalidades.

Para entender o efeito que os movimentos das ginástica aeróbica e step causam no aparelho
locomotor, é necessário mensurar o impacto da atividade e entender como controlá-lo – particularmente
em aulas nas quais o volume de cargas mecânicas e a intensidade variam de acordo com o tipo de
movimento e a velocidade da música.

É necessário ainda considerar que os praticantes de step e aeróbica incluídos na mesma sala de
aula nem sempre têm o mesmo condicionamento físico e controle de movimento para reproduzir os
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gestos motores dessas práticas de exercícios com técnica correta. Dessa forma, esses fatores devem
ser entendidos para a elaboração de sequências de treino condizentes com o condicionamento físico,
muitas vezes heterogêneo de uma turma.

5.1 Ginástica olímpica e artística: biomecânica do equilíbrio

Para determinar o posicionamento do centro de massa do corpo utilizam-se os conceitos da área


da biomecânica, denominada de antropometria. Esta tem como objetivo determinar as características
físicas do aparelho locomotor pela utilização de modelos antropométricos (AMADIO; DUARTE, 1996;
AMADIO; SERRÃO, 2007).

A partir do registro de medidas corporais, como comprimento do corpo, peso corporal e diâmetros
de partes específicas determinadas em cada modelo antropométrico, é possível calcular:

• as forças internas, tais como os torques internos, as forças musculares e articulares;

• o local do centro de massa de cada segmento e do corpo em diferentes posturas.

Com a obtenção desses parâmetros, pode-se definir a sobrecarga em cada estrutura do corpo, bem
como verificar o posicionamento corporal para fazer considerações sobre a estabilidade do corpo no
movimento (AMADIO; DUARTE, 1996, AMADIO; SERRÃO, 2007).

A estabilidade do corpo nos movimentos esportivos, tais como na ginástica olímpica ou rítmica, é
conseguida quando os executores do movimento têm grande capacidade de controlar o equilíbrio. Mas,
como um atleta de uma dessas modalidades consegue se manter parado com o apoio da porção anterior
de um dos pés no solo? Como tem estabilidade para permanecer por um tempo no apoio invertido? E
nas sequências de trave, como é possível saltar, girar, abaixar e levantar sem perder o equilíbrio corporal?
Quais fatores interferem no controle do equilíbrio do corpo?

O equilíbrio corporal sofre influência de fatores como posição do centro de massa do corpo,
quantidade de massa, base de apoio e localização vertical do centro de massa em relação à base de
apoio (HALL, 2013).

Lembrete

O centro de massa é o ponto de equilíbrio do objeto ou segmento


corporal. Ao redor desse ponto, a distribuição de massa do objeto ou
segmento se dá de forma homogênea. Portanto, se o objeto ou segmento
for suspenso por um fio exatamente pelo centro de massa, ele ficará em
equilíbrio (MCGINNIS, 2015; HALL, 2013).

A posição do centro de massa de um corpo ou um objeto é determinada pela distribuição de massa


em torno desse ponto e ela sempre será homogênea. Observe as ilustrações da figura a seguir:
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Figura 65 – Ilustração da localização do centro de massa (ponto vermelho) de objetos

O ponto vermelho representa o centro de massa de cada objeto. Repare que nem sempre esse ponto
está no meio do objeto. Veja o exemplo da pá.

Pelo fato de o cabo de madeira pesar menos do que a parte de ferro da pá, a tendência é que o centro
de massa desse objeto fique mais deslocado para a área que pesa mais. Lembre-se de que a determinação
do ponto de equilíbrio depende da relação dos torques ao redor desse ponto, que deve tender a zero. Veja
o exemplo da figura a seguir para entender a localização do centro de massa de uma pá:

60 N
15 N ↓

40 cm 10 cm

(15 N) (40 cm) = (60 N) (10 cm)


600 N - cm = 600 N-cm

Figura 66 – Aplicação do conceito de torque para localização do centro de massa de objetos ou segmentos

Como a caixa A pesa mais do que a caixa B, para determinar o ponto de equilíbrio do sistema,
é preciso manipular as distâncias dos braços de alavanca. Para garantir o equilíbrio, a somatória de
torques ao redor do eixo do sistema deve ser igual a zero. Então, como a caixa A pesa mais, sua distância
em relação ao eixo (ou ponto de equilíbrio) deve ser menor. Como a caixa B pesa menos, sua distância
em relação ao ponto de equilíbrio do sistema deve ser maior. Assim, a somatória dos torques será zero e
o sistema permanece em equilíbrio.

É possível perceber também na figura 65 que, às vezes, o centro de massa do objeto não fica sobre
o corpo do objeto, como mostrado no taco de golfe. Além da distribuição de massa no eixo longitudinal
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do objeto, é preciso entender que, por ter uma extremidade de ferro similar a um gancho e por essa
extremidade pesar mais do que o cabo do taco, a distribuição de massa de forma homogênea ocorrerá com
o deslocamento do centro de massa mais próximo da extremidade de gancho e mais lateral em relação ao
eixo longitudinal do objeto. Por isso, verifica-se o centro de massa do corpo do objeto fora dele.

Como dito anteriormente, a localização do centro de massa do corpo pode ser feita com o uso
de modelos antropométricos, protocolo definido por pesquisadores, que, por meio de estudos com
cadáveres, usaram a relação ilustrada na figura anterior para definir a posição do centro de massa de
cada segmento. Entenda esse conceito com a leitura do passo a passo da localização do centro de massa
do corpo usando o modelo antropométrico de segmentação proposto por Hay (1981).

Inicialmente, o movimento deve ser filmado ou fotografado e suas principais fases deverão ser
separadas para análise. A posição do sujeito em cada fase do movimento que se deseja analisar deverá
ser impressa em uma folha de papel milimetrado (figura a seguir).

Em seguida, a marcação com régua e caneta de cada linha que representa o comprimento de cada
segmento do corpo deve ser traçada. Lembre-se que o tamanho do segmento será representado por
uma linha traçada entre as epífises distal e proximal dos segmentos.

Em seguida, o centro de massa de cada segmento deverá ser marcado em acordo com os pontos de
referência destacados no modelo de Hay (1981):

• para o segmento cabeça: vértice ou inserção do queixo com o pescoço;

• para o segmento tronco: apêndice supraesternal ou ponto central entre os eixos do quadril;

• para o segmento braço: articulação do ombro ou do cotovelo;

• para o segmento antebraço: articulação do cotovelo ou do punho;

• para o segmento mão: articulação do punho ou terceiro dedo da mão;

• para o segmento coxa: articulação do quadril ou do joelho;

• para o segmento perna: articulação do joelho ou do tornozelo;

• para o segmento pé: calcanhar ou ponta do dedo maior do pé (hálux).

Repare que para cada segmento é preciso escolher um dos lados. Por exemplo, para determinar o
centro de massa do segmento braço, é preciso escolher como referência ou a articulação do ombro
ou a articulação do cotovelo. A escolha de um dos lados do segmento depende de qual porcentagem
será usada para o cálculo do centro de massa do segmento. Veja a tabela a seguir, elaborada a partir de
informações presentes na obra de Hay (1981):

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Quadro 1 – Localização do centro de gravidade dos segmentos corporais

Localização do centro de gravidade dos segmentos expressos como porcentagem da distância total
Segmento entre os pontos de referência
Cabeça 46,4% do vértice ou 53,6 da intersecção do queixo com o pescoço
Tronco 38% do apêndice supraesternal ou 62% do ponto central entre os eixos do quadril
Braço 51,3% do eixo do ombro ou 48,7% do eixo do cotovelo
Antebraço 39% do eixo do cotovelo ou 61% do eixo do punho
Mão 18% do eixo do punho ou 82% do terceiro dedo
Coxa 37,2% do eixo do quadril ou 62,8% do eixo do joelho
Perna 37,1% do eixo do joelho ou 62,9% do eixo do tornozelo
Pé 44,9% do calcanhar ou 55,1% da ponta do dedo maior

Suponha que o comprimento do braço direito, representado pela linha traçada entre cotovelo e
ombro na figura impressa em papel milimetrado, foi de 1,5 cm. É possível multiplicar esse valor por
51,3% referente ao ombro, ou por 48,7%, referente ao cotovelo. Se a escolha for pela porcentagem
do ombro, para marcar o resultado da multiplicação entre 1,5 cm e 51,3% no papel milimetrado, o
valor zero da régua necessariamente deve estar sobre o ombro. Se a escolha for pela porcentagem do
cotovelo, para marcar o resultado da multiplicação entre 1,5 cm e 48,7% no papel milimetrado, o valor
zero da régua necessariamente deve estar sobre o cotovelo. É possível perceber que o braço tem um
pouco mais de massa na região da epífise proximal do que na região da epífise distal.

Esse procedimento de localizar o centro de massa de cada segmento deverá ser repetido para todos
os segmentos do corpo. Na sequência, deve-se traçar duas linhas fora da figura, uma vertical e do lado
direito da figura, que representará o eixo Y; e outra horizontal e abaixo da figura, que representará o
eixo X. Vejá a figura a seguir:
y
13
12
11
10
9
8
7
6
5
4
3
2
1
x
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12

Figura 67 – Procedimento para localização do centro de massa do corpo. Linhas pretas definem o comprimento dos segmentos;
estrelas vermelhas indicam o centro de massa de cada segmento calculado e marcado em acordo com o quadro 1; estrela azul, centro
de massa do corpo calculado com o método de segmentação de Hay

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A tabela a seguir deverá ser preenchida com as coordenadas em X e em Y para cada centro de massa
encontrado em cada segmento. Por exemplo, o centro de massa do braço direito na figura analisada
está a 3,1 cm no eixo X, então, coloca-se esse valor na tabela, na coluna definida como posição em X.
O mesmo ponto, centro de massa do braço direito, na figura, está a 10,1 cm no eixo Y, então coloca-se
na tabela esse valor, na coluna posição em Y. Esse passo deverá ser repetido para todos os segmentos
até o preenchimento total das colunas posição em X e posição em Y da tabela.

Tabela 1 – Obtenção das coordenadas X e Y para o movimento arabesque e cálculos do


torque em X e em Y para determinação do centro de massa do corpo

Segmentos Peso relativo Posição em X Torque em X Peso relativo Posição em Y Torque em Y


Cabeça 0.073 4,5 0,33 0.073 10,5 0,77
Tronco 0.507 4,0 2,03 0.507 8,3 4,20
Braço E 0.026 5,8 0,15 0.026 9,2 0,24
Antebraço E 0.016 6,9 0,11 0.016 9,2 0,15
Mão E 0.007 8,0 0,05 0.007 9,1 0,06
Braço D 0.026 3,1 0,08 0.026 10,1 0,26
Antebraço D 0.016 2,4 0,04 0.016 11,2 0,18
Mão D 0.007 1,7 0,01 0.007 12,2 0,08
Coxa E 0.103 5,7 0,6 0.103 7,6 0,79
Perna E 0.043 9,1 0,4 0.043 8,0 0,34
Pé E 0.015 11,3 0,17 0.015 8,7 0,13
Coxa D 0.103 5,5 0,6 0.103 5,5 0,56
Perna D 0.043 5,4 0,23 0.043 3,0 0,13
Pé D 0.015 5,3 0,08 0.015 1,1 0,01
Resultado do Resultado do
4,9 7,9
torque em X torque em Y

Feito isso, os valores da coluna peso relativo deverão ser multiplicados pelos valores encontrados
na posição em X e em Y. Considerando a linha do braço direito na tabela, o valor do peso relativo
0,026 deverá ser multiplicado pelo valor da posição em X, 3,1 cm, e o resultado dessa conta deverá
ser escrito na coluna torque em X, 0,08. Ainda para a linha do braço direito, o valor do peso relativo
0,026 deverá ser multiplicado pelo valor da posição em Y, 10,1 cm, e o resultado dessa conta deverá
ser escrito na coluna torque em Y, 0,26. Novamente, esses cálculos devem ser repetidos para todos os
segmentos até completarem as linhas da tabela.

Finalmente, com a soma dos valores da coluna torque em X, encontra-se a posição do centro de
massa do corpo na posição X. Com a soma dos valores da coluna torque em Y, encontra-se a posição
do centro de massa do corpo na posição Y. Após cálculos dos valores mencionados, estes deverão ser
anotados na figura (estrela azul da figura anterior). Com isso, encontra-se a localização do centro de
massa do corpo para essa posição.

Caso haja interesse em descobrir o deslocamento do centro de massa do corpo em um movimento,


basta fazer todo esse procedimento para uma sequência de figuras que o representem.
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Exemplo de aplicação

Para analisar o deslocamento do centro de massa do corpo de uma ginasta no movimento de mortal
para a frente sobre a trave, siga as seguintes etapas:

1) filme a ginasta executando o salto mortal para a frente sobre a trave;

2) com o auxílio de um programa de edição de vídeo, separe cinco imagens que indiquem as principais
fases desse movimento;

3) para cada fase, aplique todo o procedimento do método de segmentação de Hay (1981),
encontrando o centro de massa do corpo em cada fase do movimento;

4) junte as fases analisadas na sequência correta de execução do movimento e ligue os pontos que
representam o centro de massa corpo. O deslocamento do centro de massa do corpo no movimento será
traçado em forma de um gráfico.

Quando se analisa com a cinemática o deslocamento do centro de massa do corpo em um movimento,


como feito por Williams e Cavanagh (1987), ao relacionarem o deslocamento vertical do centro de massa
do corpo com o rendimento da corrida (figura 59), o software usado para armazenamento e análise do
movimento registrado por câmeras é alimentado com informações antropométricas do sujeito para
aplicação de um modelo antropométrico escolhido pelo pesquisador do estudo. Com isso, todo esse
cálculo à mão demonstrado anteriormente é feito automaticamente pelo software do computador,
reduzindo o tempo para analisar e discutir os resultados do estudo. Portanto, percebe-se que o uso de
modelos antropométricos associados com outra metodologia da área da Biomecânica é muito comum
para a análise de movimentos.

Após definir a posição do centro de massa do corpo para fazer considerações sobre o controle do
equilíbrio, é preciso discorrer sobre os demais fatores citados no início dessa sessão: quantidade de
massa, base de apoio e localização vertical do centro de massa em relação à base de apoio (HALL, 2013).

A quantidade de massa corporal pode influenciar a força que deverá ser aplicada a um corpo para
movimentá-lo e, assim, tirá-lo de seu estado de equilíbrio. Apesar da sessão discutir os movimentos da
ginástica olímpica e artística, a modalidade de luta sumô é a mais ilustrativa para o entendimento da
quantidade de massa no equilíbrio corporal.

O objetivo da luta sumô é derrubar o lutador ou empurrá-lo para fora da área de combate. Para
ambos movimentos, o lutador que aplicar o golpe deverá necessariamente desequilibrar o oponente.
Sabendo que a massa corporal dos lutadores é substancialmente maior do que a de um sujeito não
obeso, esta torna o controle de equilíbrio corporal desses atletas mais eficiente, pois, para movimentá-lo
ou romper o equilíbrio, será necessário aplicar uma força muito alta.

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A quantidade de massa corporal para essa modalidade esportiva torna-se uma característica física
importante para se defender dos golpes dos oponentes e garantir a estabilidade do praticante para
ganhar uma luta.

Entretanto, na ginástica, outros fatores são mais importantes para controlar o equilíbrio, como, por
exemplo, o tamanho da base de apoio.

A quantidade de pontos de apoio entre o chão e o corpo e a área ao redor desse ponto determinam
a base de apoio entre um ginasta e o ambiente.

Quando um sujeito começa a praticar os movimentos da ginástica, como o apoio invertido, é comum
verificar o uso das mãos e da cabeça como base de apoio do movimento antes de levantar as pernas
do chão para se manter em equilíbrio. Com três apoios formando a base desse movimento, a área que
delimita o espaço pelo qual o centro de massa do corpo pode oscilar é bem grande, e a possibilidade de
ter sucesso na tarefa, que tem por objetivo manter o corpo parado em apoio invertido, é maior.

Para entender o significado da oscilação do centro de massa na base de apoio, imagine que você está
em pé sobre uma cartolina branca e circula o espaço entre seus pés com uma linha pontilhada, como
demonstrado na figura a seguir, em seu lado esquerdo.

Figura 68 – Projeção do centro de massa em diferentes tamanhos de base de apoio

Ao mesmo tempo, você segura uma lanterna encostada na região da cicatriz umbilical de seu corpo,
com a luz vermelha da lanterna acesa e direcionada para o chão. Você verá que, nessa condição, a luz
da lanterna ficará dentro da área delimitada pela linha tracejada entre seus pés.

No entanto, se você remover o pé esquerdo do solo e ficar equilibrado somente sobre o pé direito
(apoio unipodal, ilustração à direita da figura anterior), a luz vermelha obrigatoriamente se deslocará
para dentro de sua nova base de apoio, ou seja, ficará no centro do seu pé direito.

Com isso, é possível perceber que o centro de massa do corpo oscila dentro da base de apoio criada
para o movimento ou postura adotada. Essa base de apoio é estabelecida não só pelos pontos de apoio
do corpo com o solo, mas também pela área ao redor desses pontos. Se, por acaso, a luz da lanterna
projetada no solo ultrapassar o limite (linha tracejada) da área delimitada ao redor dos pontos de apoio,
obrigatoriamente o sujeito, para não cair, dará um passo para a direção da força que o deslocou.

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Com a explicação da projeção do centro de massa na cartolina em diferentes posições é possível


entender as etapas necessárias para o ginasta aprender a controlar o equilíbrio corporal na parada de mão.

Imagine se o sujeito já iniciasse o aprendizado do movimento de parada de mão com o apoio das
mãos. Com somente dois pontos de apoio para formar a base de sustentação, a capacidade de controle
do equilíbrio com o corpo em posição invertida precisaria ser bem maior do que na situação anterior
(com três apoios: parada de cabeça), porque a área pela qual o centro de massa do corpo poderia oscilar
seria bem mais restrita.

A distância vertical do centro de massa do corpo em relação ao solo é outro fator importante
a ser considerado para o controle do equilíbrio na ginástica. Não é difícil observar em sequências
acrobáticas de atletas do sexo masculino na prova de solo a execução do seguinte exercício: o atleta
apoia as mãos no solo bem afastadas, faz a parada de mãos com os quadris em abdução e, em posição
invertida, aduz os quadris para unir as pernas, controla o equilíbrio nessa posição e finalmente faz um
rolamento para a frente.

Ao ficar em posição invertida e alterar a amplitude do movimento dos quadris, variando a posição
das pernas de afastadas para unidas, o atleta desloca o centro de massa do corpo na vertical. Com
as pernas afastadas, a massa dos segmentos coxa, perna e pé ficam mais próximas do solo, então, ao
calcular a posição do centro de massa do corpo com o Método de Segmentação de Hay (1981), o ponto
que o representa estaria mais próximo da parte superior do tronco. Na condição de pernas unidas, a
massa dos segmentos coxa, perna e pé é deslocada para cima, então, a posição do centro de massa
do corpo, calculada com o mesmo método indicado anteriormente, apresentaria um ponto na porção
inferior do tronco. Lembre-se que o movimento está sendo analisado em posição invertida.

Mas como a posição vertical do centro de massa corporal afeta o controle do equilíbrio? Vamos
aplicar novamente o conceito de torque, veja a figura a seguir.

CM Força

CM Força
Distância em •
relação ao solo Distância em
relação ao solo

Figura 69 – Distância do centro de massa do corpo em relação ao solo e sua relação com o equilíbrio. Quanto maior e mais longe do
solo a força for aplicada contra o corpo, maior a instabilidade

Quando o centro de massa está mais próximo do solo, a força necessária para girar o corpo
em torno de seu eixo a fim de desequilibrar o atleta deverá ser maior. Caso contrário, o corpo
permanecerá em equilíbrio.

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Lembrete

Para entender o deslocamento de um corpo no espaço, lembre-se da


Segunda Lei de Newton, que determina que quando um corpo sofre a ação
de uma ou mais forças cujas resultantes são diferentes de zero, ele acelerará
na direção da resultante da força, de forma proporcional a sua magnitude.

Considere a prova das ginastas na trave, quão desafiadora ela é. As atletas estão sobre um equipamento
com base de apoio muito estreita e localizada a 1,25 metros de distância do solo, duas condições muito
instáveis para o corpo. Sobre essa área, elas precisam realizar movimentos de saltos, giros e paradas em
apoio unipodal.

Quando certa atleta, na apresentação de sua rotina, realizar um salto, percebe que perdeu o controle
sobre o equilíbrio corporal e aterrissa com os pés um na frente do outro sobre a trave; automaticamente,
ela flexiona as articulações dos membros inferiores e posiciona os braços à frente do corpo, paralelos à
trave. Essa estratégia serve para abaixar o centro de massa do corpo e, com o movimento dos braços,
centralizá-lo em sua base de apoio, para manter-se sobre a trave em equilíbrio.

Portanto, a estratégia de flexionar as articulações dos membros inferiores para retomar o equilíbrio
corporal explica como o conceito de torque pode ser importante para o controle da estabilidade do
corpo. Um centro de massa corporal mais distante do solo é mais suscetível a oscilar em todas as
direções, principalmente naquela na qual a área de delimitação da base de apoio é menor, e facilita a
ação da gravidade ou de um oponente (no caso de lutas) no deslocamento do sujeito com a intenção de
gerar instabilidade e perda do equilíbrio.

Apesar de todos os desafios intrínsecos da ginástica olímpica e artística, os sujeitos que a praticam
são muito bem treinados para controlar o equilíbrio. Um dos treinamentos usados para esse fim é o
treinamento proprioceptivo.

5.2 Treinamento proprioceptivo

O treinamento proprioceptivo tem por objetivo desestabilizar o corpo em exercícios, e, ainda assim,
o executor do movimento deverá controlar o corpo para manter-se em equilíbrio (LAMB et al. 2014).

Em condições normais, o controle do corpo após um estímulo que perturba seu equilíbrio é possível
com a participação dos sistemas visual, vestibular e somatossensorial (SHUMWAY-COOK; WOOLLACOTT,
2010). Mas quem são esses sistemas? E o que eles fazem para controlar o equilíbrio?

O sistema visual fornece informações importantes sobre o posicionamento e a movimentação da


cabeça adotando como referência a direção vertical. Assim, os objetos posicionados na vertical em
relação ao nosso corpo, como portas e janelas, servem como inputs de informação visual para o equilíbrio
(SHUMWAY-COOK; WOOLLACOTT, 2010).

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Se uma pessoa distraída está em pé em frente a uma porta aberta, e outra pessoa de repente fecha
essa porta rapidamente, a primeira pessoa citada na frase terá a reação de inclinar o corpo para trás.
Essa reação só é possível por conta da informação visual captada do meio. A aproximação da porta faz
o corpo se proteger, inclinando para trás.

No entanto, imagine que a pessoa que inclinou para trás, por algum motivo, não pode tirar seus pés
do lugar, não pode se mexer. Para não cair após a inclinação para trás, seus músculos posteriores serão
acionados (encurtam) para projetarem o corpo para a frente e reestabelecerem o equilíbrio corporal. É
dessa forma que o sistema visual auxilia o controle do equilíbrio.

O sistema vestibular, localizado no sistema auditivo, fornece informações sobre as forças de inércia e
gravitacional que interagem com nosso corpo parado e em movimento. A situação de descer um andar
de um prédio por uma escada rolante pode ilustrar a percepção dessas forças e o ajuste de equilíbrio do
corpo (SHUMWAY-COOK; WOOLLACOTT, 2010).

Imagine que, ao se aproximar da escada rolante, a pessoa está caminhando mais lentamente do que
a velocidade dessa escada. Se essa pessoa colocar o pé diretamente na escada rolante para descê-la,
sem ajustar o passo, a escada, que está mais rápida que o corpo, projetará o pé de apoio da pessoa para
a frente, e isso facilitará seu desequilíbrio para trás.

Além de segurar forte no corrimão da escada, o corpo da pessoa tende a ir para a frente, a fim de ajustar
o desequilíbrio causado pela força da escada que projetou o corpo para trás. Todo esse comportamento
só foi possível porque o sistema nervoso percebeu a aplicação de uma força maior sobre o corpo e,
como resposta, acionou a musculatura para controlar essa força e manter o corpo em equilíbrio. Então,
percebe-se que o sistema vestibular também é importante para controlar o equilíbrio corporal.

O sistema somatossensorial é formado por células receptoras proprioceptivas cutâneas e articulares


que informam sobre a variação de forças que ocorrem dentro do nosso corpo (SHUMWAY-COOK;
WOOLLACOTT, 2010).

Se, por exemplo, um sujeito, ao aterrissar após um salto, sentir sua perna fraca em relação à força que
está recebendo do solo e perder a estabilidade para o controle do equilíbrio na aterrissagem do salto, é
possível que tal impacto aplicado ao corpo esteja muito alto, e, como forma de proteção, o músculo do
quadríceps relaxar para não ser demasiadamente estirado, o que poderia provocar uma lesão.

Este controle protetor só é possível por existirem no músculo células receptoras (fuso muscular
e órgão tendinoso de Golgi) que informam o sistema nervoso central sobre a variação de tensão no
músculo; assim, caso haja uma força muito alta incidindo ou sendo gerada pelo músculo, o SNC é
informado e fornece uma resposta para controlar a carga mecânica sobre o corpo.

Da mesma forma como acontece para o controle de carga, quando o SNC é informado sobre as
variações no comprimento músculo-tendíneo pelos receptores mecânicos e percebe que tal variação
comprometerá o controle de equilíbrio, o SNC ativará os músculos devidos e relaxará os opostos para
ajustar a postura do corporal e preservar o equilíbrio.
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BIOMECÂNICA APLICADA AO ESPORTE

Assim como o músculo, os componentes articulares e a pele também possuem células receptoras
para informar:

• se um ligamento está mais alongado do que outro, denota distribuição irregular de força sobre a
articulação e, por consequência, instabilidade articular;

• a quantidade de força aplicada em cada área da região plantar para o SNC saber se a distribuição
de forças sobre o pé está homogênea ou se há indicação de perda de estabilidade sobre a base de
apoio do movimento.

Essas informações obtidas dentro do próprio corpo sobre o posicionamento de suas partes que ajudam
a regular o equilíbrio em posturas estáticas e dinâmicas são conhecidas por respostas proprioceptivas.

Saiba mais

Para mais informações sobre os sistemas que controlam o equilíbrio, leia:

SHUMWAY-COOK, A; WOOLLACOTT, M. H. Controle motor: teoria e


aplicações práticas. 3. ed. Barueri: Manole, 2010. 622 p.

Com base na definição dos sistemas visual, vestibular e somatossensorial, é possível entender que
todas as informações obtidas desses sistemas chegam ao SNC, este as absorve e define uma resposta mais
eficiente para ser executada pelos músculos a fim de controlarem a postura do corpo no movimento.

Mas quando essas respostas são perturbadas no exercício, o que ocorre? A perturbação do equilíbrio
corporal é a forma usada pelo treinamento proprioceptivo para melhorar o controle motor e, por
consequência, o controle do equilíbrio.

Se um músculo é treinado para reagir a uma determinada situação imposta por um exercício, quando
algum movimento do cotidiano gerar uma perturbação similar sobre a estabilidade corporal, o músculo
que treinou para reagir a essa situação o fará, e o risco de queda ou perda de estabilidade diminuirá.
Então, o tempo para acionar o músculo e a sua intensidade de ação são fatores importantes a serem
treinados para controle do equilíbrio após uma perturbação.

Veja o estudo de Borreani et al. (2014), que verificaram as diferenças na ativação dos músculos tibial
anterior, fibular longo e sóleo quando 44 participantes do estudo executaram exercícios proprioceptivos
distintos em relação à estabilidade e intensidade.

Os exercícios observados na figura a seguir foram considerados os mais estáveis pelos autores,
porque a atividade eletromiográfica dos músculos tibial anterior, fibular longo e sóleo não foi alta e não
variou entre as condições de estabilidade.

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Unidade III

Repare que, no exercício do lado direito, o sujeito está com os dois pés afastados lateralmente no
solo, portanto a base de apoio do movimento é bem estável. No exercício do meio, a bola é usada para
deixar a base de apoio mais instável, pois ela pode oscilar nos vários eixos; entretanto, com a bola e os
dois pés apoiados no solo, a base de apoio fica muito grande e estável para o controle do equilíbrio. O
exercício do lado esquerdo é o menos estável dos três apresentados nessa figura por ter embaixo de
cada pé uma almofada de equilíbrio para gerar instabilidade postural; ainda assim, para os músculos
estudados, a ativação muscular não variou em relação aos outros movimentos da figura.

Figura 70 – Exercícios proprioceptivos usados por Borreani et al. (2014) para verificar as diferenças na ativação dos músculos tibial
anterior, fibular longo e sóleo em 44 sujeitos

Observação

A almofada de equilíbrio é um acessório usado em aulas de treinamento


proprioceptivo para gerar instabilidade ao corpo. Ela é feita de plástico
vinílico, em formato de um círculo achatado, preenchida com ar.

Na figura a seguir estão ilustrados os exercícios que apresentaram ativação um pouco maior dos
músculos tibial anterior, fibular longo e sóleo em relação à figura anterior. Note que, para aumentar
a instabilidade do corpo e aumentar a ativação muscular, a base de apoio dos exercícios foi reduzida
e, particularmente, na figura da direita, foi adicionada uma banda elástica para promover maior
perturbação na direção horizontal anteroposterior do corpo.

Figura 71 – Exercícios proprioceptivos usados por Borreani et al. (2014) para verificar as diferenças na ativação dos músculos tibial
anterior, fibular longo e sóleo em 44 sujeitos

120
BIOMECÂNICA APLICADA AO ESPORTE

Essas manipulações, principalmente na direção anterior posterior do corpo, fizeram com que
o músculo tibial anterior apresentasse maior ativação em relação aos demais músculos e exercícios
verificados até o momento. O músculo fibular longo foi o segundo a apresentar aumento de atividade,
possivelmente pela redução da base de apoio para unipodal, ocasionando o consequente aumento
da oscilação do corpo na direção horizontal médio lateral. O sóleo foi o músculo que teve o menor
aumento de ativação em relação aos demais estudados. A tração da banda elástica facilita a inclinação
do corpo para trás, assim, o sóleo deve ser menos acionado, para não estender o tornozelo e facilitar a
inclinação do corpo para trás, o que comprometeria o controle do equilíbrio corporal.

Figura 72 – Exercícios proprioceptivos usados por Borreani et al. (2014) para verificar as diferenças na ativação dos músculos tibial
anterior, fibular longo e sóleo em 44 sujeitos

Na figura anterior, os exercícios que perturbaram mais a estabilidade corporal e que ativaram mais
os músculos analisados no estudo são apresentados. A soma de elementos que aumentam a perturbação
do equilíbrio, tais como o apoio unipodal sobre base instável e a adição de uma banda elástica que
aumenta as oscilações na direção horizontal anteroposterior do exercício, promoveram maior ativação
dos músculos do tornozelo que controlam o equilíbrio, sendo a ativação no tibial anterior a que
progressivamente apresentou aumento mais expressivo, seguida pela ativação do fibular longo e, por
último, do sóleo.

Na figura anterior, além do uso da almofada de equilíbrio, a prancha de equilíbrio (imagem do


meio) também é usada como acessório para provocar maior instabilidade no controle do equilíbrio.
Com o uso de ambas, principalmente, o equilíbrio corporal na direção horizontal anteroposterior é
o mais manipulado.

Observação

A prancha de equilíbrio é um acessório usado em aulas de treinamento


proprioceptivo para gerar instabilidade ao corpo. É composta por uma
prancha de madeira montada sobre dois semicírculos de madeira, que
servem como base de apoio e oscilam em acordo com o ajuste postural.

Com a apresentação e a discussão do estudo de Borreani et al. (2014), verifica-se que há


possibilidade de treinar a resposta muscular de controle de movimento postural em acordo com a
perturbação imposta ao sistema.
121
Unidade III

Existem acessórios para manipular com a base de apoio, para torná-la mais instável, e além deles é
válido lembrar que, para controlar o equilíbrio, é possível usar as informações visuais; então, além de
solicitar ao sujeito o uso de um apoio unipodal sobre um disco de equilíbrio, é possível pedir que ele se
mantenha sobre essa base com os olhos fechados. A restrição das informações visuais é outra estratégia
eficiente que pode ser manipulada no treinamento proprioceptivo.

Lembrete

Para perturbar o equilíbrio corporal, é necessário criar estratégias de


treino que incrementem a instabilidade, tais como redução dos pontos de
apoio, uso de bases instáveis, restrição das informações visuais e resistências
aplicadas ao corpo que provocam o desequilíbrio corporal na direção mais
instável do apoio.

6 GINÁSTICA DE ACADEMIA

6.1 Modalidade step

A modalidade de ginástica de academia conhecida como step, quando surgiu, atraiu muitos
praticantes e rapidamente se tornou popular. Infelizmente, o grande interesse e volume de prática fez
muitas pessoas passarem a apresentar lesões decorrentes da atividade.

Na maioria das vezes, a lesão incidia na articulação do joelho, atingindo as estruturas menisco e
ligamento cruzado anterior (LCA). Com o aumento da incidência de lesões, foi iniciada a busca de suas
causas. A análise das lesões teve como conclusão mais óbvia a de que o alto impacto da modalidade
step causava tais lesões. Essa conclusão surgiu do fato de a lesão acometer principalmente os meniscos
do joelho, que sabidamente têm como uma de suas funções a atenuação do impacto. Portanto,
relacionando a incidência de lesão com a estrutura lesionada, imediatamente se imaginou que o impacto
na modalidade step seria alto.

Para entender se esse raciocínio faz sentido, vejamos um estudo que investigou a força de reação do
solo no movimento básico do step (figura a seguir) (WIECZOREK; DUARTE; AMADIO, 1997). O movimento
básico da modalidade envolve subir em um step com uma das pernas, conforme figura a seguir (1); e
depois subir com a outra perna (2); em seguida, descer com a perna que inicialmente subiu (3); e, por
último, descer com a outra perna (4). Para registrar a FRS, uma plataforma de força foi posicionada na
região indicada como P1. Assim, a FRS da descida foi registrada para determinar se o choque mecânico
do movimento básico do step é alto o suficiente para promover uma lesão.

122
BIOMECÂNICA APLICADA AO ESPORTE

4 1

P2 P2
step step
P1 step P1 step

3 2

P2 P2
step step
P1 step P1 step

Figura 73 – Ilustração do movimento básico do step e da forma como a força de reação do solo (FRS) foi registrada durante sua execução

Na figura a seguir, podemos observar o registro da FRS durante a descida. A curva Fy representa a
componente vertical da FRS, e as curvas Fx e Fz representam as componentes mediolaterais e horizontais,
respectivamente. Note que o primeiro pico de força vertical apresenta valores de força de 1,5 PC, que
se assemelham às forças de impacto na marcha. Isso significa que o choque mecânico da descida
no movimento básico do step é muito semelhante ao observado na marcha humana. Esse choque é
extremamente baixo e, portanto, não é possível afirmar que a solicitação mecânica da atividade é alta.

Mas se o impacto é baixo, por que a alta incidência de lesão no menisco?


2,5

2,0

1,5
Fy
FRS (PC)

1,0

0,5
Fx
0,0
Fz
-0,5
0 20 40 60 80 100
Tempo de apoio (%)

Figura 74 – Força de reação do solo na realização do movimento básico do step durante a descida

Para entender as causas dessa lesão, precisamos entender primeiro a mecânica articular do joelho.
Para conseguir realizar seus movimentos de flexão e extensão, o joelho precisa promover o deslizamento
do fêmur sobre a tíbia, ou vice-versa. Durante os movimentos, ocorre uma interação complexa entre
esses dois ossos que envolvem deslizamentos e rolamentos e também rotações.

123
Unidade III

Portanto, quando um joelho estendido inicia uma flexão, inicialmente, observamos maior rolamento
e menor deslizamento do fêmur sobre a tíbia. Conforme a flexão do joelho aumenta, o rolamento é
substituído pelo deslizamento dos ossos. Isso significa que, a partir da extensão total até a flexão total,
primeiro, temos mais rolamento e menos deslizamento, mas, em amplitudes mais próximas da flexão
total, temos mais deslizamentos e menos rolamentos.

Esses movimentos de rolamento e deslizamento são associados a movimentos acessórios de rotação


medial e lateral da tíbia. Em outras palavras, durante a extensão do joelho, ocorre rotação lateral da
tíbia. Já em movimentos de flexão, ocorrem rotações mediais da tíbia. Obviamente os meniscos laterais
e mediais acompanham esses movimentos de rotação.

Esses movimentos descritos são os naturais que ocorrem entre os ossos quando um movimento de
flexão ou extensão é realizado; porém, em alguns movimentos do step, ocorrem giros sobre a base de
apoio em contato com o aparelho. Num desses giros, por exemplo, o praticante sobe no step com a perna
direita, realiza uma rotação de, aproximadamente, 45º e desce. Esses movimentos deveriam ocorrer com
o calçado deslizando sobre o step. Contudo, por falta de habilidade ou outro fator, eventualmente, o
pé não desliza sobre o step, e isso causa uma torção no joelho, levando a uma rotação lateral da tíbia
enquanto a pessoa desce, ou seja, enquanto o joelho realiza uma flexão.

A rotação lateral da tíbia associada à flexão do joelho não é um movimento natural e pode levar ao
pinçamento dos meniscos ou à sobrecarga no LCA. É claro que a lesão não ocorre de forma traumática,
pois a força é baixa, mas sucessivas rotações dessa natureza podem causar lesão meniscal ou ligamentar.
Por isso, devemos ter muita cautela com a falta de habilidade e de controle motor, mas também com o
efeito da fadiga. Perceba que não se trata de contraindicar esses movimentos, mas de ter cuidado para
que a fadiga ou a falta de costume não levem a pinçamentos que possam produzir lesões.

Saiba mais

Para entender melhor as diferenças biomecânicas entre o movimento


básico do step e o movimento da marcha, leia:

MYLES, C. M. Escadas. In: DURWARD, B. R.; BAER, G. D.; ROWE, P. J.


Movimento funcional humano. São Paulo: Manole, 2001. p. 107-120.

WALL, J. C. Marcha. In: DURWARD, B. R.; BAER, G. D.; ROWE, P. J.


Movimento funcional humano. São Paulo: Manole, 2001. p. 93-105.

É importante conhecer os movimentos específicos das diferentes modalidades e os efeitos que


estes produzem no aparelho locomotor. Assim, será possível saber se os limites de tolerância estão
sendo respeitados.

124
BIOMECÂNICA APLICADA AO ESPORTE

Lembrete

O impacto nas aulas de step não é alto. Não é a magnitude das cargas
mecânicas que aumenta o risco de lesões, mas sim alguns movimentos
mal-empregados.

6.2 Ginástica de academia: modalidade aeróbia

O outro fator que vamos discutir será exemplificado por meio de uma modalidade de ginástica de
academia conhecida como ginástica aeróbica, a qual envolve muitos movimentos globais com saltos e
saltitos ao longo da aula. Essa modalidade é dividida em aeróbica de baixo impacto e aeróbica de alto
impacto. Para investigar a magnitude de impacto na ginástica aeróbica, Ricard e Veatch (1994) usaram
uma plataforma de força e avaliaram um movimento de salto com elevação do joelho.

(1) (2) (3) (4) (5) (6) (7) (8) (9) (10)
2.0 2.0
Primeiro pico de
força vertical
Força (PC)

Força (PC)

1.0 1.0 Fase


Propulsão aérea
Aterrissagem
Propulsão Aterrissagem
0 0
600 1200 600 1200
Tempo (ms) Tempo (ms)
Aeróbica de Aeróbica de
baixo impacto alto impacto

Figura 75 – Análise de um movimento básico da aeróbica por meio de uma plataforma de força para
investigar a força de reação do solo

A figura anterior apresenta o registro da força de reação do solo (FRS), por meio da plataforma de força,
em movimento básico de salto da aeróbica de baixo e de alto impacto. Na de baixo impacto, a primeira
magnitude de força indica a fase de propulsão para a elevação do solo. Por isso a força cai rapidamente
depois, mas não chega a zero, indicando que não há perda de contato completa com o solo. Logo depois, a
força aumenta, levando à magnitude de força que, no caso, corresponde à Fy1 na aterrissagem.

Na aeróbica de alto impacto, a magnitude de força de propulsão é maior. Observe que, ao final da
fase de propulsão, há perda de contato com o solo e, efetivamente, uma fase aérea. Essa fase é seguida
da aterrissagem, com um pico de força maior que o observado na aeróbica de baixo impacto. Com
isso, temos que o choque mecânico na aeróbica de baixo impacto é semelhante ao da marcha, e o da
aeróbica de alto impacto é menor que o da corrida, mas a força de impacto é semelhante (conforme a
tabela a seguir).

125
Unidade III

Tabela 2 – Valores de primeiro pico de força vertical (Fy1) e de tempo para o primeiro pico
(Dt Fy1), para as modalidades aeróbica de baixo e de alto impacto, e corrida lenta e rápida

Variáveis Baixo impacto Alto impacto Corrida lenta Corrida rápida


Fy 1 máx. 1,28 PC 2,62 PC 2,30 PC 3,10 PC
∆Fy 1 máx. 276,02 ms 106,34 ms 40,28 ms 30,02 ms

Adaptada de: Ricard; Veatch (1994, p. 16)

A classificação do impacto entre as modalidades aeróbicas está correta, pois a de alto impacto
apresenta maiores cargas externas que a de baixo impacto. Contudo, o nome alto impacto não pode ser
entendido como adequado, pois não é possível considerar esse impacto realmente alto, uma vez que é
semelhante ao da corrida, que, por sua vez, tem o segundo impacto mais baixo, perdendo apenas para
a marcha (conforme figura a seguir).
21
18
Força vertical máxima (PC)

15
12
9
6
3
0
Marcha Corrida Corrida Aterrissagem Salto em Salto triplo
(jogging) (sprint) do basquete altura (step)

Figura 76 – Magnitudes de força de impacto de diferentes modalidades expressas em função do peso corporal (PC)

A incidência de lesão em ginástica aeróbica é de, aproximadamente, 49% no prazo de 1 a 2 anos.


Se a incidência for relativizada em função do volume semanal de prática, poderemos observar que
será de 43% para praticantes com frequência semanal inferior a quatro vezes; de 60% para os que
praticam quatro vezes por semana; e de 66% para os que praticam mais de quatro vezes por semana
(ROTHENBERGER; CHANG; CABLE, 1988).

Podemos notar que quanto maior a frequência semanal de treino, maior a incidência de lesão.
Essa informação, associada ao fato de que a aula tem uma duração fixa de 45 a 60 minutos,
permite-nos assumir que essas lesões estão relacionadas ao excesso de treinamento. Para entender
melhor a questão, podemos observar que o choque mecânico é um pouco menor que o da corrida,
mas a duração da aula é fixa: no mínimo 45 minutos. Imagine uma pessoa realizando sempre sessões
de treinamento de 45 a 60 minutos, mesmo quando iniciante. Se a frequência semanal não for
controlada, será possível ocorrer lesões crônicas.

Com a análise dessas duas modalidades de aula, podemos observar a importância de conhecer a
característica da atividade, seus efeitos no aparelho locomotor e a importância de controlar o volume

126
BIOMECÂNICA APLICADA AO ESPORTE

semanal de treino e de ser progressivo nos aumentos. É claro que sempre teremos aulas de ginástica
novas e com diferentes características, mas, independentemente da criatividade empregada na criação
dessas novas modalidades, esses dois conselhos ainda se aplicam e se apresentam como as formas mais
básicas de controlar a incidência de lesão.

Resumo

Nesta unidade, discutimos os conceitos de equilíbrio e controle de


sobrecarga no aparelho locomotor nas modalidades de ginástica olímpica e
artística e de academia, respectivamente.

O controle da estabilidade do corpo foi discutido por meio dos


conceitos de base de apoio, distância do centro de massa em relação à
base de apoio e localização do centro de massa dentro da base de apoio.
Para tanto, o método de segmentação de Hay (1989) foi apresentado, a
fim de determinar a posição do centro de massa do corpo e as aplicações
práticas referentes ao uso desse instrumento, e as conclusões tiradas após
análise foram mostradas. Na sequência, a forma de treinar o equilíbrio
pelo treinamento proprioceptivo foi discutida e o uso dos exercícios e das
estratégias de treino para perturbar o corpo foram destacadas.

Aprendemos ainda que a modalidade de ginástica de academia


conhecida como step, ao surgir, atraiu muitos praticantes e rapidamente
se tornou popular. Com isso, as pessoas passaram a buscar academias para
praticar essas modalidades. Infelizmente, o grande interesse e o grande
volume da prática fizeram com que muitas pessoas passassem a apresentar
lesões decorrentes da prática dessa atividade. Com a análise dessas duas
modalidades de aula, pudemos observar a importância de conhecer
a característica da atividade e seus efeitos sobre o aparelho locomotor,
bem como a importância de controlar o volume semanal de treino e ser
progressivo nos aumentos.

É claro que sempre teremos aulas de ginástica novas e com diferentes


características, mas, independentemente da criatividade empregada na
criação dessas novas modalidades, esses dois conselhos ainda se aplicam e se
apresentam como as formas mais básicas de controlar a incidência de lesões.

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