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A CO-GERAÇÃO DE ENERGIA NO SETOR SUCROALCOOLEIRO:

DESENVOLVIMENTO E SITUAÇÃO ATUAL

Zilmar José de Souza

Departamento de Engenharia de Produção, Universidade Federal de São Carlos, Rua Brasilina Alves Ferreira,

111, apto. 21, Ribeirão Preto, SP, CEP 14092-550, Telefone 0xx16-6183963, E-mail: Zjsouza@aol.com.

RESUMO provides excesses that, since 1987, are


A eletricidade gerada por meio do bagaço commercialized together to the electric sector. Even
da cana é um dos produtos que contribuíram para with the growth in the commercialization of these
que os derivados da cana-de-açúcar ocupassem a excesses, it has a potential to be commercialized of
quarta posição em 2000 na matriz de oferta about 3.720 MW. In the achievement of this
energética brasileira, perdendo apenas para a lenha, potential, points can be improved in the public
a energia hidráulica e derivados de petróleo. Além politics. The spite of the transaction in the National
de prover a auto-suficiência energética na safra, a Congress of Provisory Order n. 14 that will
geração de eletricidade através do bagaço institute the Program of Incentive to the Alternative
proporciona excedentes que, desde 1987, são Sources of Electric Energy, it’s notice the necessity
comercializados junto ao setor elétrico. Mesmo of structuralized public politics for the co-
com o crescimento na comercialização desses generation in the sugar/cane sector or of one global
excedentes, há um potencial a ser comercializado politics for the energy taken in the sugar/cane
de cerca de 3.720 MW. Na consecução desse sector.
potencial, pontos podem ser aprimorados na Key Words: Bagasse of sugar cane, electric
política de financiamento. A despeito da tramitação energy, co-generation, commercialization, price of
no Congresso Nacional da Medida Provisória n. 14, the MWh.
de 21/12/01, que instituirá o Programa de Incentivo
às Fontes Alternativas de Energia Elétrica, nota-se 1.INTRODUÇÃO
a necessidade de políticas públicas estruturadas
para a co-geração no setor sucroalcooleiro, ou seja, 1.1A MATRIZ DE OFERTA
de uma política global para a energia co-gerada ENERGÉTICA BRASILEIRA
no setor sucroalcooleiro. Energia é a propriedade de um sistema que
Palavras-chave: Bagaço de cana-de-açúcar, lhe permite realizar trabalho. Pode-se ter várias
energia elétrica, co-geração, comercialização, preço formas de energia: potencial, mecânica, química,
do MWh. eletromagnética, elétrica, calorífica etc., sendo
necessários diferentes tipos de combustíveis para a
ABSTRACT sua geração. A oferta agregada de combustíveis
The electricity generated by bagasse of the sugar para geração de energia forma a matriz de oferta
cane is one of the products that contributed so that energética nacional. No caso brasileiro, a matriz
the derivatives of the sugar cane occupied the energética é composta predominantemente por
fourth position in 2000 in the matrix of Brazilian derivados de petróleo e pela hidraulicidade,
energy offer, losing only to the firewood, the conforme se pode observar por meio da Tabela 1.
hydraulical energy and derivatives of oil. Besides
providing the energy self-sufficiency in the harvest,
the generation of electricity through the bagasse
2

Tabela 1. Oferta interna de energia, por tipos principais de oferta energética brasileira, ocupando, porém, a
combustível, 1980-2000 (em %)
terceira posição em importância. Os produtos
Ano Hidráulica Petróleo/ Lenha Produtos derivados da cana-de-açúcar – álcoois anidro,
GN Cana hidratado e etílico – tenderiam a ocupar esta
1980 26,8 39,8 22,0 6,5 posição, caso houvesse continuidade do Proálcool,
1985 31,6 30,9 19,6 10,5 pois, no auge do Programa, os produtos da cana
1990 36,1 32,5 15,0 9,9 representaram mais de 10% de nossa matriz de
1995 38,3 33,9 10,5 10,1 oferta energética. A Tabela 2 mostra que, caso
1996 38,0 35,5 9,4 10,1 houvesse um crescimento contínuo na produção de
1997 38,1 35,9 8,8 10,2 álcool hidratado, a representatividade do setor
sucroalcooleiro na matriz de oferta de energia
1998 38,4 36,5 8,4 9,9
facilmente ocuparia a terceira posição em
1999 38,1 36,8 8,4 9,7 importância relativa.
2000 39,3 37,3 8,3 7,6 Mesmo assim, os produtos derivados da
Fonte: Ministério de Minas e Energia – MME cana-de-açúcar poderão ocupar a terceira posição
(2001). da matriz de oferta energética devido à escassez
relativa da lenha e à co-geração de energia
elétrica por meio do bagaço da cana. Este último
Note que a lenha combustível de uma fator, sua evolução e situação atual, será o objeto
representatividade de mais de 80% em 1940, de estudo deste artigo.
atualmente representa apenas 8,3% da matriz de

Tabela 2. Representatividade dos produtos derivados da cana (em %) e taxa de crescimento dos produtos derivados da cana (em %), 1985,
1990 e 1995-2000
1985 1990 1995 1996 1997 1998 1999 2000
% na Matriz Energética
Produtos Cana 10,5 9,9 10,1 10,1 10,2 9,9 9,7 7,6
Taxa de Crescimento %
Álcool Anidro 46,8 -43,2 7,3 47,6 27,9 0,2 8,6 -9,0
Álcool Hidratado 19,3 3,4 0,3 -0,4 1,3 -14,1 -19,3 -26,1
Álcool Etílico 25,7 -2,5 1,9 10,9 9,6 -8,9 -8,1 -17,9
Bagaço 9,1 -1,0 -1,0 5,4 11,4 0,2 0,2 -18,5
Fonte: Ministério de Minas e Energia (2002).

2.A EVOLUÇÃO DA GERAÇÃO DE causada pela fermentação da matéria orgânica e dos


ENERGIA ELÉTRICA PRO MEIO DO açúcares residuais. Esse fato, aliado à necessidade
BAGAÇO DE CANA de atendimento ao consumo próprio requerido para
A energia gerada nas usinas operação das usinas no período de safra e à
sucroalcooleiras tem sido capaz de suprir não indispensável manutenção do equipamento de
somente o consumo de eletricidade no processo geração no período de entressafra, condiciona a
industrial como seu excedente tem sido geração de energia elétrica por período não
comercializado junto às distribuidoras locais de superior ao da safra do setor sucroalcooleiro
energia elétrica. Segundo Lemos (1996), a usina (efetivamente dos meses de maio a dezembro, na
sucroalcooleira paulista São Francisco, localizada Região Centro-Sul).
em Sertãozinho, na região de Ribeirão Preto, foi à Por outro lado, a entrada dessa energia co-
pioneira, no ano de 1987, na venda de energia gerada, nesse período, no sistema elétrico coincide
elétrica gerada através do bagaço da cana, sendo com o momento de baixos índices pluviométricos
compradora a Companhia Paulista de Força e Luz (estação de seca), quando os reservatórios das
(CPFL). O projeto despertou interesse junto a usinas hidrelétricas apresentam baixos níveis de
Eletrobrás, que - desde então - sempre veicula a armazenamento d’água. A Figura 1 apresenta a
intenção de dinamizar a co-geração de energia curva de armazenamento dos reservatórios na
elétrica, por parte do setor sucroalcooleiro, em Região Sudeste/Centro-Oeste comparada com a
nível nacional. curva do volume de cana moída na Região Centro-
De acordo com a Secretaria de Energia do Sul.
Estado de São Paulo (1997), após longos períodos
de estocagem, o bagaço apresenta deterioração

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autorização para produzir, regularmente, energia


40 250 elétrica parcialmente ou na sua totalidade destinada
35 ao comércio por sua responsabilidade e risco. Note
200 que o autoprodutor pode ser caracterizado como
30 pessoa física, o que não se aplica ao produtor
25 independente de energia elétrica. 2
150
A promulgação do Decreto 2.003, em
20 10/09/96, definiu as formas de comercialização da
15 100 energia co-gerada por parte dos PIEs.
Considerando um PIE do setor sucroalcooleiro, o
10 excedente de eletricidade co-gerado pode ser
50
5
comercializado junto aos seguintes agentes do setor
elétrico:
0 0 i. Distribuidoras de serviço público
jan fev mar abr mai jun jul ago set out nov dez de eletricidade;
ii. Consumidores livres de
Curva armazenamento Cana moída
eletricidade: aquele que adquire energia elétrica de
Figura 1. Curva de armazenamento, Região Sudeste/Centro- qualquer fornecedor, conforme legislação e
Oeste, em %, e cana-moída, Região Centro/Sul, em mil
regulamentos específicos;
toneladas, média mensal, 2001
Fonte: ONS (2002) e UNICA (2002). iii. Comercializadores de
eletricidade: agentes titulares de autorização,
Nessa época, para atender o consumo de concessão ou permissão, para fins de compra e
energia elétrica, torna-se necessária à entrada em venda de energia elétrica ao consumidor final;
operação no sistema elétrico de usinas termelétricas iv. Consumidores de eletricidade
com fonte de geração que apresentam custo integrantes de complexo industrial ou comercial,
marginal superior ao de fonte hidrelétrica. Assim, aos quais forneça vapor ou outro insumo oriundo
as distribuidoras de energia elétrica têm grande de processo de co-geração;
interesse na compra da energia co-gerada pelo setor v. Conjunto de consumidores de
sucroalcooleiro para equilíbrio de seu sistema. eletricidade, independentemente de tensão e carga,
A terminologia adotada no setor elétrico nas condições previamente ajustadas com a
diferencia dois tipos de co-geradores. O primeiro concessionária local de distribuição; e,
tipo é descrito através do 2o Artigo do Decreto vi. Qualquer consumidor que
2.003 de 10/09/96, sendo denominado demonstre a Aneel não ter a distribuidora local lhe
Autoprodutor (AP). Esse tipo de co-gerador assegurado o fornecimento de eletricidade no prazo
caracteriza-se como pessoa física, jurídica ou de até 180 dias, contado da respectiva solicitação.
consórcio detentor de uma concessão ou Além dessas formas de comercialização,
autorização para produzir energia elétrica para não há impedimento legal para a venda direta a
consumo próprio. Nessa categoria se enquadram as outros produtores de eletricidade que, para evitar
usinas sucroalcooleiras produtoras de energia quebra de obrigações contratuais com seus clientes
elétrica destinada ao consumo da planta industrial. ou mesmo em caráter especulativo, atuem como
O Decreto 2.655/98 concedeu permissão aos compradores de eletricidade. É importante
autoprodutores para a comercialização da energia mencionar que, sendo acordado com a distribuidora
co-gerada que exceder ao consumo de sua planta de eletricidade e mediante prévia autorização da
industrial. A comercialização deve obedecer à Aneel, poderá o produtor independente permutar
prévia autorização da Aneel e caracterizar-se pela blocos de eletricidade economicamente
sua eventualidade. Dentro desse contexto, de equivalentes para possibilitar:
acordo com o Instituto Nacional de Eficiência i. O consumo em suas instalações
Energética - INEE (1998), a consolidação de um industriais;
mercado spot é de suma importância para o melhor ii. Para atender consumidores
aproveitamento desses excedentes dos interessados na eletricidade co-gerada; e
autoprodutores que ocorrerão de maneira causal.
O segundo tipo de co-gerador foi
instituído através da Lei 9.074/95, sendo 2
denominado Produtor Independente de Energia De acordo com a COMISSÃO DE SERVIÇOS
Elétrica (PIE), 1 caracterizando pessoa jurídica ou PÚBLICOS DE ENERGIA (2001), até o ano 2000,
consórcio detentor de uma concessão ou em um levantamento junto a 137 usinas paulistas,
apenas três usinas estavam classificadas como
Produtores Independentes de Energia Elétrica:
1
A regulamentação das atividades do PIE ocorreu Santa Elisa I em Sertãozinho, São José da Estiva
através do Decreto 2.003 de 10/09/96. em Novo Horizonte e Univalem em Valparaíso.

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iii. A pedido das próprias Os PIEs devem firmar, conforme o caso, o


distribuidoras. contrato de uso dos sistemas de transmissão com o
Apesar desse decreto ter sido homologado Operador Nacional do Sistema (ONS), que tem por
em setembro de 1996, somente a opção de vender o função principal o planejamento e a operação dos
excedente co-gerado para a distribuidora local sistemas elétricos interligados, e o contrato de
vigorava. A possibilidade de negociar o excedente conexão com a empresa de transmissão no ponto de
co-gerado através das demais opções, acesso, estabelecendo as responsabilidades pela
principalmente ao consumidor livre, dependia da implantação, operação e manutenção das
regulamentação do acesso dos PIEs as redes de instalações de conexão e os respectivos encargos.
distribuição e transmissão das distribuidoras, bem Além disso, ficam responsáveis também por efetuar
como de sua conexão. A não regulamentação os estudos, projetos e a execução das instalações de
permitia a continuidade do exercício de um poder uso exclusivo e a conexão com o sistema elétrico
de monopsônio das distribuidoras locais sobre os da distribuidora onde será feito o acesso. Quanto ao
PIEs sucroalcooleiros. acesso aos sistemas de distribuição, tanto os PIEs
Finalmente, em 01 de outubro de 1999, a quanto os consumidores devem firmar os contratos
Aneel promulgou a Resolução 281, estabelecendo de uso dos sistemas de distribuição e de conexão
as condições gerais de contratação do acesso, com a distribuidora local.
compreendendo o uso e a conexão, aos sistemas de De acordo com o Ministério de Minas e
transmissão e distribuição de eletricidade, Energia – MME (1999), no Brasil, a co-geração de
permitindo, desse modo, a efetivação do disposto energia (GWh) pelos autoprodutores e PIEs
no Decreto 2.003. Através da promulgação dessa ultrapassa pouco mais de 7% da energia elétrica
resolução foram estabelecidas as condições gerais produzida, conforme se pode observar através da
de contratação do acesso, uso e conexão aos Tabela 5. Com o advento da crise energética,
sistemas de transmissão e distribuição de medidas de incentivo e regulamentação da
eletricidade, possibilitando a comercialização direta atividade de co-geração estão sendo desenvolvidas,
entre produtores e consumidores livres, todavia sem uma consolidação que permita-nos
independente de suas localizações no sistema considerar a existência de uma política global de
elétrico. inserção da co-geração na matriz energética
nacional.
De acordo com dados da Aneel, em termos
de capacidade instalada, ou seja, de MW, a
Tabela 5. Eletricidade produzida por geradores públicos e potência em usinas de autoprodutores e PIEs, em
autoprodutores e PIEs, Brasil, 1983-2000 (em
dezembro de 2001, era da ordem de 3.900 MW,
GWh)
com mais 2.380 MW em construção e outros 757
Ano Geradores Autoprodutores
MW autorizados pela agência, o que totalizaria
Públicos e PIEs
mais de 7.000 MW, representando mais de 10% da
1983 152.816 9.676
capacidade instalada do País. 3
1984 169.798 9.590 No caso específico do setor
1985 184.356 9.326 sucroalcooleiro, segundo o Centro Nacional de
1986 191.473 10.655 Referência em Biomassa - Cenbio, o Brasil
1987 192.275 11.056 apresenta um potencial estimado de geração de
energia por biomassa de 5.261 MW. De acordo
1988 203.781 11.171
com dados da safra 2000/01, o setor
1989 210.775 10.963 sucroalcooleiro possuiria uma potência instalada de
1990 210.913 11.907 1.541 MW (Eletrobrás/UFRJ, 2002). Somente no
1991 221.934 12.432 Estado de São Paulo, a potência atualmente
1992 228.711 13.020 instalada de co-geração do setor sucroalcooleiro
1993 237.938 14.035 seria de 807 MW, concentrada em um universo de
137 usinas (Comissão de Serviços Públicos de
1994 245.875 14.166
Energia, 2001).
1995 260.678 14.923 Considerando-se que a capacidade
1996 273.300 17.944 instalada no setor sucroalcooleiro (1.541 MW)
1997 288.845 19.135 supriria quase a totalidade das necessidades de
1998 301.198 20.390 energia das unidades industriais, existiria um
1999 308.378 23.928
2000 322.464 25.269 3
De acordo com o último levantamento divulgado
Fonte: Balanço Energético Nacional 2000 – MME pelo Ministério de Minas e Energia, a capacidade
(2001). instalada no País, em 2000, era de 67.713 MW
(MME, 2001).

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potencial de excedente comercializável de cerca de vii. Prazos: determinados em função da


3.720 MW. Todavia, de acordo com o Cenbio capacidade de pagamento do empreendimento, da
(2001), apenas 132 MW foram comercializados empresa ou do grupo econômico;
como energia excedente na safra passada, por viii. Carência: até seis meses após a conclusão do
apenas 28 usinas. A seguir, é discutido um provável projeto;
entrave na consecução desse potencial: o custo do ix. Amortização: até 12 anos. Pagamentos
financiamento. Posteriormente, são observadas mensais durante a safra;
duas questões onde ocorreram avanços para o setor x. % Financiável: até 80% dos itens
sucroalcooleiro: a evolução positiva do preço do financiáveis; e
MWh e a instituição do Valor Normativo. Por fim, xi. Garantias: definidas por negociação - pode
são apresentadas as considerações finais. utilizar um Fundo de Aval. No caso específico dos
PIE’s e autoprodutores, o Decreto 2.003/96, de
3.LINHA DE FINANCIAMENTO 10/09/96, especifica que poderá ser oferecida como
ESPECÍFICA PARA A CO-GERAÇÃO garantia a energia elétrica a ser produzida e a
SUCROALCOOLEIRA receita decorrente dos contratos de venda dessa
Para que ocorra uma expansão do volume energia, além dos bens e instalações utilizados para
de energia co-gerada pelo setor sucroalcooleiro, a sua produção. Para o BNDES, a principal garantia
deve-se discutir o aspecto do custo do investimento é justamente esse contrato, denominado Power
nos sistemas de co-geração. O investimento médio Purchase Agreement (PPA).
por KW instalado varia entre R$ 700 mil a R$ 1,5
milhão, conforme o nível tecnológico envolvido na 3.1OS RESULTADOS DO PROGRAMA
transação. Mesmo sendo inferior ao investimento Em 03 de agosto de 2001, a Companhia
em hidrelétricas e em várias termelétricas, esse Energética Santa Elisa (Sertãozinho) e a Usina
requer linhas de financiamento específicas e Cerradinho Açúcar e Álcool S.A. (Catanduva)
incentivos para um setor sucroalcooleiro onde o assinaram contrato de adesão a esse Programa. A
principal é o financiamento da produção de açúcar Santa Elisa investirá R$ 44 milhões, dobrando sua
e álcool e sua melhoria tecnológica. capacidade instalada para 60 MW. O Programa
Diante desse quadro, com o objetivo de financiará R$ 35,2 milhões (80,0%). O projeto foi
contribuir para o estímulo à implantação, em curto viabilizado porque a Companhia Paulista de Força
prazo, de projetos de expansão do sistema elétrico e Luz (CPFL) assinou um PPA de 12 anos com
brasileiro, o Banco Nacional de Desenvolvimento Santa Elisa, comprando 20 MW. Ainda restarão 20
Econômico e Social (BNDES) implantou no ano MW que deverão ser comercializados junto ao
passado, o Programa de Apoio à Co-geração de mercado (Brasil Energia, 12/2001). De acordo com
Energia Elétrica a partir de Resíduos da Cana-de- a Eletrobrás/UFRJ (2002), a negociação do preço
Açúcar. O objetivo do Programa é financiar a tem ocorrido por usina, todavia, no caso da Santa
implantação de projetos de co-geração que utilizam Elisa, a CPFL ofertou R$ 63/MWh. A potência está
resíduos de cana e que destinem a venda de entrará no sistema em setembro de 2002.
eletricidade excedente às Já a Usina Cerradinho investirá R$ 22
distribuidoras/comercializadores. De acordo com o milhões, sendo R$ 17,7 milhões financiados pelo
BNDES (2001), foram estabelecidas as seguintes BNDES. O objetivo é obter uma potência de 22,34
condições para o Programa: MW. Apesar de iniciadas as negociações com a
i. Dotação Inicial: R$ 250 milhões aprovados CPFL, a Cerradinho assinou o PPA com a Enron
em 23/05/01 (operações indiretas); Ltda., que apresentou condições melhores de preço.
ii. Clientes: usinas de açúcar e álcool localizadas Ainda, no final do ano de 2001, ocorreu a
em qualquer região do País; aprovação do projeto da Equipav S.A. – Açúcar e
iii. Custo Financeiro: Taxa de Juros de Longo Álcool (Promissão), com ampliação para 52,6 MW,
Prazo (TJLP): 4 sendo que 41 MW deverão ser vendidos a CPFL.
iv. Spread Básico: 1% a.a.; Até novembro último, o BNDES havia
v. Spread de Risco: operação direta: de 0,5% a recebido projetos encaminhados por 21 usinas do
2,5% a.a.; setor sucroalcooleiro. Os projetos totalizavam a
vi. Spread do Agente: até R$7 milhões - inserção de 620 MW, sendo pleiteados recursos em
negociável; acima de R$7 milhões - até 2,5% a.a.; e torno de R$ 660 milhões (Brasil Energia, 2001).
com Fundo de Aval - até 4% a.a.;
3.2CONSIDERAÇÕES SOBRE O
PROGRAMA
4 Apesar desse Programa significar um
O valor da TJLP é fixado periodicamente pelo
avanço pelo simples fato de ser direcionado ao
Banco Central, de acordo com as normas do
setor sucroalcooleiro, promovendo o casamento
Conselho Monetário Nacional. De janeiro a março
entre os desembolsos e a receita da venda do açúcar
de 2002, foi fixado em 10,0% (BNDES, 2002).

5
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e álcool, o Programa pode ser aprimorado, se financiamento e a liberação da primeira


considerado as seguintes observações: parcela, o processo durava até seis meses.
i. A opção de financiamento com Agente Todavia, o BNDES está promovendo uma
Financeiro (via indireta) é muito onerosa. Quando o reestruturação do processo e, acredita-se que
investimento é inferior a R$ 7 milhões, alguns esse prazo deverá cair para até 60 dias. No
intermediários chegam a cobrar um spread de 6%. caso da Equipav S.ª, este processo levou dois
Assim, a opção pela via de negociação direta com o meses.
BNDES deve ser incentivada, onde o spread de
risco pode chegar, no máximo, a 2,5%. Para tanto, 7. O PROINFA
não deverão ocorrer problemas de dotação A Câmara dos Deputados aprovou em 10
orçamentária para o Programa; 5 de abril de 2002, a Medida Provisória n. 14, de
ii. Os encargos acumulados, sobretudo 21/12/2001. 6 Por essa MP, ficaria instituído o
quando do financiamento indireto, facilmente Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de
atingem mais de 15% a.a., perfazendo em alguns Energia Elétrica (PROINFA). O programa
casos quase 20% a.a. Isto dificulta sobremaneira a incentivará a participação de energia elétrica gerada
competitividade do projeto face ao elevado custo de com base nas fontes alternativas eólica, pequenas
financiamento; centrais hidrelétricas e biomassa. Os
iii. O Programa financia somente 80% do valor empreendimentos deverá ser concebidos com base
dos investimentos, havendo ainda, de acordo com a em uma nova figura jurídica: a do Produtor
Eletrobrás/UFRJ (2002), uma tendência a baixar Independente Autônomo (PIA). Essencialmente,
para 50%; Produtor Independente Autônomo será aquele cuja
iv. Sobretudo devido às instabilidades sociedade não será controlada ou coligada de
institucionais, há dificuldades de se estabelecer concessionária de geração, transmissão ou
contratos de longo prazo (PPAs) com as distribuição de energia elétrica, nem de seus
distribuidoras/agentes comercializadores. Em 02 de controladores ou de outra sociedade controlada ou
julho de 1999, o Ministério de Minas e Energia, coligada com o controlador comum.
através da edição da Portaria 227, sinalizou aos De acordo com a MP, o programa terá
empresários co-geradores a intenção de implantar duas fases, sendo que a primeira fase apresentará as
diretrizes específicas para a compra dos excedentes seguintes características principais:
co-gerados no curto prazo. Para tanto, a Aneel i. Prevê-se a implantação de 3.300 MW,
realizou, durante o mês de outubro de 1999, uma distribuídos igualmente entre fontes de geração
chamada pública para identificar os excedentes de com base eólica, pequenas centrais hidrelétricas e
energia elétrica co-gerada, objetivando a sua biomassa. Dessa forma, a fonte de geração com
comercialização no curto prazo. A citada Portaria utilização de biomassa representará 1.100 MW do
incumbiu, ainda, a Eletrobrás de criar, diretamente total do programa;
ou através de suas controladas, os mecanismos ii. A Eletrobrás S/A assegurará a compra da
adequados para a compra dos excedentes energia produzida por quinze anos, desde que a
inventariados pela Aneel. Até o presente não central produtora entre em operação até 30 de
ocorreu a regulamentação desta intenção de política dezembro de 2006. Os contratos deverão ser
pública. Enquanto isto não ocorre, sugere-se ao assinados em até 24 meses da publicação da lei;
menos que o próprio equipamento adquirido iii. O preço a vigorar nos contratos deverá ser o
poderia compor a garantia e/ou que o BNDES valor econômico correspondente a tecnologia
possa fornecer um Fundo de Aval. específica de cada fonte, a ser definido pelo Poder
v. O Programa não diferencia a tecnologia Executivo, não devendo ser inferior a 80% da tarifa
adotada. Dessa forma, não há incentivos para os média nacional de fornecimento ao consumidor
empresários investirem em equipamentos de final; e,
elevada eficiência energética, que representam iv. Deverá ser realizada Chamada Pública para
maiores valores de aporte e elevam o prazo de identificação dos interessados, dando-se
retorno. preferências às unidades que já apresentarem a
vi. Prazo de análise longo, elevando o tempo Licença Ambiental de Instalação – LI e,
para a liberação da primeira parcela do posteriormente, as que tiverem apenas a Licença
financiamento. De acordo com a Prévia Ambiental – LP.
Eletrobrás/UFRJ (2002), até início de Após a implementação dos 3.300 MW, será
outubro de 2001, entre a solicitação de iniciada a segunda fase do programa que
resumidamente prevê:
5
Conforme mencionado, inicialmente, a linha
direta com o BNDES apresentou um pequeno
6
volume de recursos - dotação de R$ 250 milhões A Medida Provisória foi convertida em Projeto de
(ELETROBRÁS/UFRJ, 2002). Lei e será apreciada em votação pelo Senado.

6
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i. As fontes eólica, pequenas centrais cana poderia representar entre 850 e 950 MW dos
hidrelétricas e biomassa deverão atender a 10% do 1.100 MW reservados à biomassa (Valor
consumo anual de energia elétrica do país. Esse Econômico, 23/05/2002).
objetivo deverá ser atingido em até 20 anos, Ademais, o início da segunda fase do
contando o prazo e os resultados da primeira etapa; programa poderá ocorrer somente em 2006, quando
ii. A Eletrobrás S/A será responsável pela a meta inicial de 3.300 MW for atingida. Outra
compra da energia elétrica, instituindo contratos de observação é que o programa não apresenta uma
compra por 15 anos e com preço equivalente ao visão sistêmica do processo, não aludindo, por
custo médio ponderado de geração de novos exemplo, a questão do custo das linhas de
aproveitamentos hidráulicos com potência superior financiamento oficiais e a diferenciação
a 30 MW e centrais termelétricas a gás natural; tecnológica.
iii. A aquisição se fará de forma que as referidas Todavia, considerando a tarifa média de
fontes atendam o mínimo de 15% do incremento fornecimento ao consumidor final em R$
anual da energia elétrica a ser fornecida ao mercado 122/MWh, o preço a ser recebido pelo setor
consumidor nacional, compensando-se os desvios sucroalcooleiro seria R$ 97,60 (80% da tarifa
verificados entre o previsto e realizado de cada média de fornecimento). Este valor representará um
exercício, no subseqüente exercício; acréscimo de cerca de 46% ao valor médio
iv. Se o preço pago ao produtor, calculado recebido atualmente pelo setor sucroalcooleiro, da
conforme o item acima, for inferior a 80% da tarifa ordem de R$ 67/MWh. A Tabela 13 apresenta uma
média nacional de fornecimento ao consumidor análise de investimento para geração de 1 MW,
final ou ao valor econômico correspondente à considerando o cenário proposto no PROINFA e as
tecnologia específica de cada fonte, o produtor terá condições técnicas e de financiamento atualmente
direito a um crédito complementar a ser pago disponíveis para o setor sucroalcooleiro. 8
mensalmente com recursos da Conta de
Desenvolvimento Energético – CDE. Os recursos
da CDE serão provenientes dos pagamentos anuais Tabela 13. Análise de investimento para a co-geração de
eletricidade no setor sucroalcooleiro
realizados a título de uso de bem público, das
multas aplicadas pela ANEEL a concessionários, DADOS PARA ANÁLISE
permissionários e autorizados e, a partir do ano de MW disponibilizados 1,00
2003, das quotas anuais pagas por todos os agentes Quantidade de meses 7
que comercializem energia com o consumidor final; disponibilizados/ano
e, Fator de carga 0,90
v. Também deverá ser realizada Chamada
Pública para identificação dos interessados, dando- Horas disponibilizadas no ano
se preferências às unidades que já apresentarem a 5.040
Licença Ambiental de Instalação – LI e, MWh disponibilizados no ano
posteriormente, as que tiverem apenas a Licença 4.536
Prévia Ambiental – LP. Todavia, entre a assinatura Preço de venda do MWh (em R$) 97,60
do contrato e o início de funcionamento das INVESTIMENTO R$
instalações deverá transcorrer um prazo mínimo de Custo MW instalado
24 meses. 1.000.000
INVESTIMENTO TOTAL
7.1 CONSIDERAÇÕES SOBRE O 1.000.000
PROINFA ASPECTOS PRODUTIVOS
Apesar de representar um considerável Quantidade de tonelada de bagaço 0,250
avanço a inclusão da biomassa em um programa produzida por tonelada de cana
específico, 7 a implementação de apenas 1.100 MW Quantidade de MWh produzida 0,100
está distante do potencial total do setor por tonelada de cana
sucroalcooleiro, isto sem incluir os demais tipos de Quantidade de MWh produzida 0,400
biomassa. Qual seria a parte cabível a fontes por tonelada de bagaço
energéticas como casca de arroz e resíduos de Quantidade de tonelada de bagaço 2,5
madeira? Nos cálculos da União da Agroindústria necessária para geração de 1 MWh
Canavieira de São Paulo (UNICA), o bagaço de CUSTOS DE PRODUÇÃO R$
Custo da tonelada de bagaço 15,00
7
Anteriormente, apenas as unidades produtoras
com base em fonte eólica e pequenas centrais
8
hidrelétricas obtiveram programas de incentivo Para simplificação, supô-se a possibilidade de
específicos, Pró-Eólica e PCH-Com, financiamento de 100% do valor total de
respectivamente. financiamento.

7
8

Custo do combustível por MWh 37,50 VPL (vida útil 10 anos) (R$408.831)
Custo de O&M por MWh 5,00 VPL (vida útil 30 anos) (R$195.234)
MWh disponibilizados no ano 4.536 VPL - Operação Indireta com Agente
Custo anual do combustível 170.100 Financeiro
Custo anual de O&M VPL (vida útil 5 anos) (R$663.957)
22.680 VPL (vida útil 10 anos) (R$526.060)
CUSTO TOTAL ANUAL 192.780 VPL (vida útil 30 anos) (R$432.814)
RECEITA TOTAL ANUAL 442.714 TIR (lucro cte., vida útil de 5 anos) -16,86%
LUCRO TOTAL ANUAL 249.934 TIR (lucro cte., vida útil de 10 anos) 1,97%
FLUXO DE CAIXA TIR (lucro cte., vida útil de 30 anos) 10,57%
INVESTIMENTO (R$) L1 até L30
(1.000.000) 249.934
ANÁLISE DO A concretização desse programa, se
INVESTIMENTO ocorrer, deverá representar apenas um esboço para
o delineamento estratégico da atividade de geração
PAY BACK (em anos) 4,00
de energia elétrica pelo setor sucroalcooleiro. Para
Programa Apoio à Co-geração - Encargos a maioria das usinas do setor sucroalcooleiro, o
BNDES - financiamento 100% custo da energia a partir do bagaço gira em torno de
TJLP 10,00% US$ 40 o MWh, muito superior aos US$ 20 para
Spread Básico - BNDES 1,00% MWh gerado, em média, pelas usinas hidrelétricas.
Operação Direta - Spread Risco - 2,50% Desta forma, sem políticas públicas direcionadas, o
BNDES aproveitamento do potencial de geração de
Total - Opção BNDES 13,50% eletricidade pelo setor sucroalcooleiro fica
Operação Indireta - Spread Risco - 6,00% comprometido.
Agente Financeiro No entanto, ainda é premente a
Total - Opção Agente 19,50% necessidade de políticas focadas para o setor
Financeiro sucroalcooleiro. Nos exemplos anteriores um dos
VIABILIDADE ECONÔMICO- pressupostos foi admitir que o custo de
FINANCEIRA DO PROJETO oportunidade do bagaço era de R$ 15,00 por
VPL - Operação Direta com tonelada. Considerando que na safra passada , este
BNDES preço alcançou valores superiores a R$ 30 no
Estado de São Paulo, o PROINFA seria
VPL (vida útil 5 anos) (R$131.545)
comprometido caso fosse considerado R$ 30 a
VPL (vida útil 10 anos) R$329.526 tonelada de bagaço, conforme pode ser observado
VPL (vida útil 30 anos) R$809.901 por meio da Tabela a seguir.
VPL - Operação Indireta com
Agente Financeiro
VPL (vida útil 5 anos) (R$244.247) Tabela 15. Análise de investimento para a co-geração de
eletricidade no setor sucroalcooleiro
VPL (vida útil 10 anos) R$65.881
CUSTOS DE PRODUÇÃO R$
VPL (vida útil 30 anos) R$275.591
Custo da tonelada de bagaço 30,00
TIR (lucro cte., vida útil 5 anos) 7,92%
Custo do combustível por MWh 75,00
TIR (lucro cte., vida útil 10 anos) 21,40%
Custo de O&M por MWh 5,00
TIR (lucro cte., vida útil 30 anos) 24,96%
MWh disponibilizados no ano 4.536
Observe a viabilidade do investimento Custo anual do combustível 340.200
com o preço proposto no PROINFA e compare Custo anual de O&M 22.680
caso o preço de venda do MWh fosse de R$ 67,00, CUSTO TOTAL ANUAL 362.880
mantido constantes todos os demais fatores,
RECEITA TOTAL ANUAL 442.714
conforme mostrado na Tabela 14.
LUCRO TOTAL ANUAL 79.834
L1 Até L30
Tabela 14. Análise de investimento para a co-geração de FLUXO DE CAIXA 79.834
eletricidade no setor sucroalcooleiro
INVESTIMENTO (R$) (1.000.000)
VIABILIDADE ECONÔMICO-
FINANCEIRA DO PROJETO ANÁLISE DO INVESTIMENTO
VPL - Operação Direta com BNDES PAY BACK (em anos) 12,53
VPL (vida útil 5 anos) (R$613.845) Programa Apoio à Co-geração - Encargos

8
9

BNDES - financiamento 100% financiamento, sendo também apresentada uma


TJLP 10,00% visão sobre a evolução da energia co-gerada pelo
Spread Básico - BNDES 1,00% setor sucroalcooleiro. Nota-se que os eventos
institucionais no setor elétrico têm ocorrido sem
Operação Direta - Spread Risco - 2,50%
uma coordenação estruturada de incentivo a
BNDES
energia co-gerada pelo setor sucroalcooleiro.
Total - Opção BNDES 13,50% Mesmo assim, a comercialização do excedente
Operação Indireta - Spread Risco - 6,00% energético gerado pelo setor sucroalcooleiro
Agente Financeiro apresentou uma elevada performance. Enquanto
Total - Opção Agente Financeiro 19,50% na safra de 1996, o setor vendeu cerca de 96.000
VIABILIDADE ECONÔMICO- MWh, somente a CPFL deverá adquirir o
FINANCEIRA DO PROJETO equivalente a 800 mil MWh em 2002
VPL - Operação Direta com (Eletrobrás/UFRJ, 2002). Este desempenho
BNDES ocorreu mesmo sem a definição do real papel do
VPL (vida útil 5 anos) (R$722.599) excedente co-gerado pelo setor sucroalcooleiro na
VPL (vida útil 10 anos) (R$575.324) matriz energética brasileira.
Assim, um cenário propício à expansão
VPL (vida útil 30 anos) (R$421.883)
da co-geração por energias renováveis, poderia
VPL - Operação Indireta com edificar um ambiente em que os aspectos legais,
Agente Financeiro operacionais e financeiros estimulariam a
VPL (vida útil 5 anos) (R$758.598) comercialização do excedente de co-geração, de
VPL (vida útil 10 anos) (R$659.537) modo a aproximar o valor da potência instalada no
VPL (vida útil 30 anos) (R$592.552) setor sucroalcooleiro (1.541 MW) do seu
TIR (lucro cte., vida útil de 5 anos) -24,45% potencial estimado, previsto pelo Cenbio (2002)
TIR (lucro cte., vida útil 10 anos) -3,90% em 5.261 MW. Para tanto, haverá necessidade da
inserção da co-geração sucroalcooleira em uma
TIR (lucro cte., vida útil 30 anos) 6,91%
política global de energia no País, semelhante à
disposição que as instituições governamentais têm
dispensado para o gás natural. Mesmo
A variável R$ 30,00 a tonelada de bagaço considerando a pequena escala do potencial
é factível, supondo que o incremento na co-geração sucroalcooleiro, quando comparada a de térmicas
sucroalcooleira deverá elevar a necessidade por a gás natural, 9 os policemakers não devem
bagaço disponível e, assim, de seu preço. dispensar esta alternativa de energia renovável,
Provavelmente, apenas o aproveitamento de palhas que poderá ser incrementada com o
e ponteiras poderá mitigar este efeito ou o aproveitamento da palha da cana-de-açúcar, isso
investimento em tecnologia de ponta como a co- desconsiderando a eficiência energética. 10
geração por meio da gaseificação do bagaço e palha Ademais, a utilização da bioenergia favorece
da cana-de-açúcar. Segundo a coordenadora de políticas de incentivos ao setor sucroalcooleiro,
Ações de Desenvolvimento Energético do MCT, pois, de acordo com Macedo (1997), citado por
Ivonice Aires Campos, esta tecnologia permite Coelho (1999), a contribuição do etanol e do
aumentar a geração de energia excedente nas usinas bagaço da cana para a matriz energética nacional,
de 100 KW/h para 152 KW/h. Todavia, a adoção somente no ano de 1996, foi uma redução da
desta tecnologia poderia elevar o potencial do setor
sucroalcooleiro para cerca de 12 mil MW,
equivalente à potência instalada na Usina Itaipu.
Assim, os 1.100 MW propostos pelo PROINFA
seriam insuficientes para maximização do potencial
do setor sucroalcooleiro (Agência UDOP de 9
Somente a Usina Carioba 2 seria responsável por
Notícias, 03/05/2002). 1.200 MW, a ser inserido na área de concessão da
Em resumo, a promoção de políticas CPFL, representando cerca de 80% do potencial
públicas específicas para o setor sucroalcooleiro, instalado no setor sucroalcooleiro na safra passada
deve ser uma condição indispensável aos police (1.541 MW).
makers do setor energético nacional. devem 10
Segundo Coelho (1999), a maioria do setor
promover procurando inserir a visão sistêmica e a sucroalcooleiro utiliza equipamentos de baixa
participa;cão dos próprios agentes do setor pressão (22 bar), sendo disponível no mercado
sucroalcooleiro no delineamento destas políticas. tecnologias mais eficientes na geração de vapor. “A
simples troca por turbinas de múltiplo estágio
8. CONSIDERAÇÕES FINAIS permitiria uma economia considerável de vapor que
Neste trabalho, foram identificados poderia expandir nos turbo-geradores, aumentando
pontos a serem aprimorados na questão de a eletricidade gerada.” (Coelho, p.54, 1999).

9
10

ordem de 12,7 milhões de toneladas de carbono Desenvolvimento Energético (CDE), dispõe sobre a
nas emissões equivalentes de CO2. 11 universalização do serviço público de energia
De acordo com Coelho (1999), políticas elétrica.
de incentivo para a co-geração na Europa e EUA, [3]BRASIL ENERGIA. Autoprodução. Rio de
têm sido resumidas a uma legislação que prevê: (i) Janeiro, n.253, Dez. 2001.
a compra dos excedentes de eletricidade por [4]CENBIO. Medidas mitigadoras para a
autoprodutores, (ii) a obrigatoriedade de compra redução de emissões de gases de efeito estufa
de energia gerada por fontes renováveis, atingindo na geração termelétrica. Brasília: Aneel, 2001.
uma fração determinada no portfolio de compra [5]COELHO, S.T. Mecanismo para
da distribuidora; (iii) mecanismos fiscais de implementação da co-geração de eletricidade a
compensação que viabilizem um preço de compra partir de biomassa: um modelo para o Estado de
maior para as energias renováveis, taxando as São Paulo. São Paulo, 1999. Tese (Doutorado) –
fontes fósseis em benefício das renováveis (o Programa Interunidades de Pós-Graduação em
inverso ao ocorrido com o Valor Normativo Energia, Universidade de São Paulo.
atualmente). Pode-se considerar, no mínimo mais [6]CORRÊA NETO, V. Análise de viabilidade
dois itens: incentivos fiscais na aquisição de da co-geração de energia elétrica em ciclo
equipamentos que objetivam a eficiência combinado com gaseificação de biomassa de
energética na geração de energia por fontes cana-de-açúcar e gás natural. Rio de Janeiro,
renováveis e linhas de financiamento menos 2001. Dissertação (Mestrado) – Programa de Pós-
onerosas. Graduação em Planejamento Energético,
A adoção dessas políticas pode Universidade Federal do Rio de Janeiro.
transparecer puramente a concessão de subsídios. [7]ELETROBRÁS. Plano decenal de expansão
Todavia, fontes de geração como a eólica e a não- 1999-2008. Brasília: Eletrobrás/GCPS.
renovável gás natural têm obtido, na prática, (http://www.eletrobras.gov.br, 15 de Julho de
políticas de incentivo semelhantes às citadas 2001).
acima. Assim, a articulação da sociedade e do [8]ELETROBRÁS. Boletim Semestral SIESE -
setor sucroalcooleiro objetivando a aplicação de 2000. Brasília: Eletrobrás.
medidas semelhantes é plenamente factível, sendo (http://www.eletrobras.gov.br/mercado/siese/defaul
que essas políticas públicas devem compor uma t.asp, 15 de Fevereiro de 2002).
Política Global para a Energia Co-gerada pelo [9]ELETROBRÁS/UFRJ. Séries Semanais. Rio de
Setor Sucroalcooleiro. Mesmo que concretizada Janeiro. (http://www.nuca.ie.ufrj.br, 15 de
a 1a fase do Programa de Incentivo às Fontes Fevereiro de 2002).
Alternativas de Energia Elétrica (PROINFA), [10]FIESP/CIESP. Ampliação da oferta de
ainda restará um considerável potencial de energia através da biomassa. São Paulo:
geração no setor sucroalcooleiro, ratificando a FIESP/CIESP, 2001.
necessidade de programas específicos para essa [11]LEMOS, A.A.S. Energia elétrica no Brasil e a
questão. Nesse intento, espera-se que este trabalho co-geração como fonte energética alternativa.
possa contribuir para a constatação da Ribeirão Preto, 1996. Monografia (Graduação) –
necessidade de políticas públicas e privadas Faculdade de Ciências Econômicas, Instituição
focadas na geração de eletricidade pelo setor Moura Lacerda.
sucroalcooleiro, objetivando a consecução do [12]MACEDO,V. Créditos de carbono:
aproveitamento efetivo do potencial desse setor. ecológicos e economicamente sustentáveis.
(http://www.socioambiental.org/website/noticias/g
REFERÊNCIAS eral/20000901.html, 01 de agosto de 2001).
[1]BANCO NACIONAL DE [13]MME. Balanço Energético Nacional 2000.
DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO E Brasília: Eletrobrás/MME, 2001.
SOCIAL – BNDES. Programas de (http://www.mme.gov.br, 30 de janeiro de 2002).
financiamento. Rio de Janeiro. [14]SÃO PAULO (Estado). Secretaria do Estado
(http://www.bndes.gov.br, 15 de Outubro de 2001). de Energia. O desenvolvimento e as perspectivas
[2]BRASIL. Projeto-Medida Provisória no 14 de da co-geração no setor sucroalcooleiro do
21 de dezembro de 2001. Dispõe sobre a expansão Estado de São Paulo. São Paulo, 1997.
da oferta de energia elétrica emergencial, [15]SÃO PAULO (Estado). CSPE. Usinas
recomposição tarifária extraordinária, cria o termelétricas de pequeno porte no Estado de
Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de São Paulo. São Paulo: Páginas & Letras, 2001.
Energia Elétrica (PROINFA), a Conta de [16]SOUZA, Z.J.; BURNQUIST, H.L. A
comercialização da energia elétrica co-gerada
11 pelo setor sucroalcooleiro. 1. ed., São Paulo:
Segundo Macedo (2000), em 2000, o preço da
Plêiade, 2000.
tonelada de carbono evitada seria de US$ 5,40,
havendo perspectivas de multiplicação desse valor.

10
11

[17]VINHAES, É.A.S. A reestruturação da


indústria de energia elétrica. Florianópolis, 1999.
Dissertação (Mestrado) – Faculdade de Economia,
Universidade Federal de Santa Catarina.

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