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SAVIANI, Dermeval. Escola e democracia. 41 ed.

Campinas, SP: Autores Associados,


2009.
Pág. 3 CAPITULO 01 – AS TEORIAS DA EDUCAÇÃO E O PROBLEMA DA
- 32 MARGINALIDADE

1) O problema
- Marginalidade = como compreender a marginalização e como combatê-la através de
diferentes teorias de educação.

Teorias Não-Críticas
- Sociedade = harmoniosa
- Marginalidade = acidente da sociedade e que pode ser corrigido. Problema individual.
- Educação = papel de superar a marginalidade, reforçando laços sociais e integrando o
indivíduo à sociedade.

Teorias Crítico-Reprodutivas
- Sociedade = dividida em classes (dominante – dominado).
- Marginalidade = Classe dominada. A estrutura da sociedade define quem serão os
marginalizados.
- Educação = Instrumento de marginalização, uma vez que a educação reflete a
sociedade.

2) As teorias não-críticas

Pedagogia Tradicional
- Excluído é o sujeito ignorante desprovido de conhecimento enciclopédico.
- Repassa conteúdos em quantidade, estanques e sem articulação conceitual que permite a
crítica.
- Escola = ensinar conteúdos para combater a ignorância enciclopédica.

Pedagogia Nova
- Excluído é o sujeito deslocado socialmente, frente às instituições democráticas.
- Desloca o eixo do conteúdo para os processos de aprendizagem.
- Promete a inclusão total e promove uma pseudo-inclusão social.
- Além de não efetivar o que prometeu, ainda eliminou o que se tinha antes, o conteúdo e
a valorização do mesmo.
- Escola = ensinar para incluir socialmente.

Pedagogia Tecnicista
- Excluído é o sujeito incompetente para as funções produtivas sofisticadas.
- Enfoca a capacidade instrumental de pensamento e de ação corporal.
- Promove a disciplinarização do comportamento de acordo com o modelo industrial.
- Destitui a importância dos conteúdos humanísticos em favor da hipervalorização das
ciências exatas.
- Escola = ensinar para capacitar tecnicamente para o setor produtivo.

3) As teorias crítico-reprodutivas
- Seguem orientação marxista e foram concebidas no campo da sociologia por teóricos
europeus.
- Descrevem mecanismos sociais de segregação, de alienação e de dominação,
destacando o papel reprodutivista da educação na escola: a escola reproduz a segregação
em uma sociedade dividida em classes opostas e caracterizadas pela posse dos meios de
produção pela burguesia dominante e da força de trabalho pelo proletariado dominado.
- Função Social da Escola = Denunciam que a função social da escola é a de atender ao
capitalismo, excluindo conteúdos críticos, formando mão-de-obra especializada e dócil e
reproduzindo a estrutura de classes.

Teoria do sistema de ensino como violência simbólica


- Bourdieu e Passeron
- São marginalizados os membros de grupos ou de classes sociais dominados.
- Marginalização dupla = é SOCIAL porque não possuem força material (capital
financeiro) e é SIMBÓLICA porque não possuem força axiológica (capital cultural).
- A escola repassa a todos os valores da classe dominante, negligenciando os valores do
proletariado. O efeito é um contingente de educados pobres financeira e culturalmente,
dados a desejar a condição impossível do dominador.

A escola como aparelho ideológico de Estado


- Louis Althusser
- São marginalizados os expropriados, a classe trabalhadora.
- O Estado mantém aparelhos ideológicos que agem pela força da ideologia e depois pela
repressão (escolas, igrejas, meios de comunicação social...) e também aparelhos
repressivos que agem antes pela repressão e depois pela ideologia (polícia, exército...).
- Os aparelhos ideológicos do Estado são utilizados pelo Estado a favor do capital pelo
convencimento (ideologia) ou pela força (repressão) e colaboram para manter
(reproduzir) a divisão social em classes econômicas.

Escola Dualista
- Baudelot e Stablet
- São marginalizados os expropriados, a classe trabalhadora.
- A escola é organizada em dois níveis básicos: Secundário Superior (os trabalhadores
que gerenciam) e Primário Profissional (os trabalhadores que executam).
- Critica a divisão do trabalho, que reproduz na escola e nos locais de trabalho a mesma
estrutura social, dividida em classes, em que uns mandam e outros obedecem.
P 33 CAPÍTULO 02 – A TEORIA DA CURVATURA DA VARA
-52 - Abordagem política do funcionamento interno da escola de 1º grau.
- Que funções políticas o ensino de 1º grau desempenha?

1ª Tese: filosófica-histórica:
- “Do caráter revolucionário da pedagogia da essência e do caráter reacionário da
pedagogia da existência”.
- “Todos os homens são essencialmente iguais, com os mesmos direitos”.
- A escolarização era condição para converter os servos em cidadãos, para que todos
participassem do projeto político para consolidação da democracia (interesse da
burguesia).
- Após ascender ao poder, já não interessa mais a burguesia transformar a sociedade: a
escola tradicional, a “pedagogia da existência”: os homens são essencialmente diferentes
e temos que respeitar a diferença entre eles. Aí está o caráter reacionário da pedagogia da
existência legitimando as desigualdades, privilégios e sujeição.

2ª Tese: Pedagógico-metodológica:
- Do caráter científico do método tradicional e do caráter pseudocientífico dos métodos
novos.
- Considera-se como científico o caráter do método tradicional, pois os cincos passos
formais de Herbert (preparação, assimilação, comparação e generalização) se baseavam
no esquema do método científico indutivo de Bacon.
- Os métodos novos fizeram uma ideologia à pesquisa, pois pesquisado que já se sabe e
se conhece não existe: caráter pseudocientífico.

3ª Tese: Especificamente Política:


- De quando mais se falou em democracia no interior da escola, menos democrática foi à
escola; e de como, quando se falou, em democracia mais a escola esteve articulada com a
construção de uma ordem democrática.
- Na escola tradicional havia a articulação com a construção de uma ordem democrática,
pois a escola era igual para todos. Na escola nova falava-se basicamente em democracia,
mas a desigualdade existia na escola dualista.

Escola Nova: Hegemonia da Classe Dominante


- Anos 30: fundação da associação Brasileira de Educação (ABE);
- Ano 32: manifesto dos pioneiros e 1ª conferência Nacional de Educação.
- Ano 34: nova constituição.
- As primeiras décadas deste século foram ricas em movimentos populares,
reivindicações maior participação na sociedade e também reivindicações do ponto de
vista escolar.
- Com o escolanovismo: da preocupação em articular a escola com os movimentos
populares, passou-se para o plano técnico-pedagógico, portanto, interno da escola.
- Do entusiasmo pela educação, passou-se para o otimismo pedagógico. Com a Escola
nova ocorreu o rebaixamento do ensino para as classes populares e aprimoramento do
ensino para as elites.
- Os movimentos sociais que conclamavam o povo a se organizar e reivindicavam escola
para todos perderem sua voz. Todos os progressistas em educação tenderem em endossar
o credo escolanovista.
- Anos 70: em 71: Lei 5.692
- Princípios da flexibilidade e terminalidade: aligeiramento tão grande que chega até
desfazer em meras formalidades.
- Curvatura da vara: priorizar o conteúdo: defender o aprimoramento do ensino destinado
às camadas populares como única forma de lutar contra a farsa do ensino, porque o
domínio da cultura constitui instrumento indispensável para a participação política das
mesmas.
- O dominado não liberta se ele não vir a dominar aquilo que os dominantes dominam.
- Reformar a escola a partir de seu interior: preocupação constante com o conteúdo e
fórmulas disciplinares (esforço, disciplina e trabalho).
- O ponto correto da vara está justamente na valorização dos conteúdos que apontam para
uma pedagogia revolucionária.
P 53 – CAPÍTULO 03 – PARA ALÉM DA TEORIA DA CURVATURA DA VARA
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- “Creio ter conseguido fazer curvar a vara para outro lado. A minha expectativa é
justamente que, com essa inflexão, a vara atinja o seu ponto correto; vejam bem, correto
este que não está também na pedagogia tradicional, mas está justamente na valorização
dos conteúdos que apontam para a pedagogia revolucionária”.
- Papel do educador: fazer curvar a vara: no embate ideológico não basta enunciar a
concepção correta para que os desvios sejam corrigidos: é necessário abalar as certezas,
de autorizar o senso comum, demonstrando a falsidade daquilo que é tido como
verdadeiro.

Pedagogia Nova e Pedagogia da Existência – Proposta Para além das pedagogias


essenciais e existenciais
- situa-se para além das pedagogias da essência; e da existência; supera-se, incorporando
suas críticas recíprocas numa proposta radicalmente nova.
- É crítica, e assim, sabe-se condicionada, ainda que elemento determinado, não deixa de
influenciar o determinante, ainda que secundário, não deixa de ser importante e por vezes
decisivo no processo de transformação da sociedade.
- Centra-se na igualdade essencial entre os homens, em termos reais e não apenas
formais: transformação dos conteúdos formais, fixos abstratos em conteúdos reais,
dinâmicos e completos; considera-se difusão de conteúdos sérios e atualizados – uma das
tarefas primordiais do processo educativo em geral e da escola em particular.
- Uma pedagogia articulada com os interesses das classes populares valorizará a escola;
estará empenhada em que ela funcione bem, em métodos de ensino eficazes; métodos
que estimularão a atividade e iniciativa do aluno, sem abrir mão da iniciativa do
professor... favorecerão o diálogo... os interesses dos alunos, critérios de aprendizagem e
desenvolvimento psicológico, sem perder de vista a sistematização lógica dos
conhecimentos, sua ordenação e graduação: tomando alunos e professores como agentes
sociais.
- Educação: “atividade mediadora no seio da prática social global”.
Passos:
• 1º - Prática social: ponto de partida: professores e alunos encontrar-se em
diferentes níveis de compreensão da prática social. Professor possui síntese-
precária (precária: precisará antecipar o que fazer com os alunos cujos níveis de
compreensão ele não pode conhecer, no ponto de partida, senão de forma
precária).
• 2º - Problematização: identificação dos principais problemas postos pela prática
social: que conhecimentos precisam ser dominados.
• 3º - Instrumentalização: apropriação dos instrumentos teóricos e práticos
necessários ao equacionamento dos problemas detectados na prática social. Esta
apropriação pelos alunos depende da transmissão dos conhecimentos, direta ou
indiretamente feita pelo professor.
• 4º - Catarse: efetivamente incorporação dos instrumentos culturais transformada
agora em elementos ativos de transformação social.
• 5º - Ponto de Chegada: prática social: reduz-se a precariedade da síntese do
professor, cuja compreensão se torna mais orgânica.

- A compreensão da prática social passa por uma alteração de qualidade.


- A proposta da pedagogia revolucionária: deriva de um conceito articula educação e
sociedade; é necessário, através de prática social, transformar as relações de produção
que impedem a construção de uma sociedade igualitária.
- É pedagogia empenhada decididamente em colocar a serviço da referida transformação
das relações de produção.

Para além das relações autoritária ou democrática na sala de aula


- Se a educação é mediação, isto significa que ela não se justifica por si mesmo, mas tem
sua razão de ser nos efeitos que se prolongam para além dela e que persistem mesmo
após a cessação da ação pedagógica.
- O processo é sempre um tipo de passagem (não é muito) de um ponto a outro, uma certa
transformação. Enfim, a própria catarse: elaboração e transformação da estrutura em
super estrutura na consciência dos homens: processo de passagem da desigualdade para a
igualdade.
- Se não acredito que a desigualdade pode ser convertida em igualdade pela mediação da
educação, não vale a pena desencadear a ação pedagógica.
- Professor: capacidade de antecipar os resultados da ação. Uma relação considerada
supostamente autoritária quando vista pelo ângulo do ponto de partida, pode ser, ao
contrário, democrática, se analisada do ponto de vista de chegada, ou seja, pelos efeitos
que acarreta na prática social global.

A contribuição do Professor
- Através da instrumentalização, isto é, nas ferramentas de caráter político, histórico,
matemático e literário, etc., quer seja capaz de colocar de posse do aluno; serão tanto
mais eficaz quanto mais o professor seja capaz de compreender os vínculos de sua prática
social e global. Ocorrerá quando a catarse alterar a prática, qualitativamente, de seus
alunos, enquanto agentes sociais.
P 73 – CAPÍTULO 04 – ONZE TESES SORE EDUÇÃO E POLÍTICA
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- Educação é um ato político, porém não se deve identificar educação com política,
prática pedagógica com prática política, em conseqüência, a especialidade de fenômeno
educativo.
- Educação e política, embora inesperáveis, não são idênticas: tratam-se de práticas
distintas, cada uma com especialidade própria.
- A educação configura-se uma relação entre não antagônicos; o educador está a serviço
dos interesses dos educadores.
- A relação política o objetivo é vencer e não convencer: trata-se ainda de uma relação
antagônica, onde interesses e perspectivas são mutuamente excludentes.
- “A prática política se apóia na verdade do poder; a prática educativa, no poder da
verdade”.
- “A importância política da educação reside na função de socialização do conhecimento;
assim, realizando a função que lhe é própria que a educação cumpre sua função
política”.
- As reflexões anteriores podem ser ordenadas e sintetizadas através das teses seguintes:

“Tese 1 – Não existe identidade entre educação e política”.


- Educação e política são fenômenos inseparáveis, porém efetivamente distintos entre si.

“Tese 2 – Toda prática educativa contém inevitavelmente uma dimensão educativa”.


- OBS.: As teses 2 e 3 decorrem necessariamente de inseparabilidade entre educação e
política, firmada na tese 1.
“Tese 4 – A explicitação da dimensão política educativa da prática educativa está
condicionada a explicitação da especificidade da prática educativa”.

“Tese 5 – A explicitação da dimensão educativa da prática política está, por sua vez,
condicionada a explicitação da especificidade da prática política”.
- (... só se possível captar a dimensão política da prática educativa e vice-versa, na
medida em que essas práticas forem captadas como efetivamente distintas uma da outra –
tese 4 e 5).

“Tese 6 – A especificidade da prática educativa se define pelo caráter de uma relação que
se trava entre contrários não-antagônicos”.

“Tese 7 – A especificidade da prática política se define pelo caráter de uma relação que
se trava entre contrários antagônicos”.

“Tese 8 – As relações entre educação e política se dão na forma de autonomia relativa e


dependência recíproca”.

“Tese 9 – As sociedades de classe caracterizam pelo primado da política a que determina


a subordinação real à educação à prática política”.

“Tese 10 – Superada a sociedade de classes cessa o primado da política, o que determina


a subordinação real da educação e prática política”.

“Tese 11 – A função política da educação se cumpre na medida em que ela se realiza


enquanto prática especificamente pedagógica”.
- Dizer que a educação é sempre um ato político... não significará senão sublinhar que a
educação possui sempre dimensão política, independentemente de se Ter ou não
consciência disto (tese 2).
- Eu só posso afirmar que a educação é um ato político na medida em que eu capto
determinada prática como sendo primordialmente educativa e secundariamente política.
Lembrando que tendências pedagógicas existentes nem sempre são mutuamente, nem
aparecem em sua forma pura, Libânio apresenta o seguinte esquema classificatório para
as referidas tendências: