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Trabalho Final de Graduação

Guilherme Rocha Formicki

Orientação: Maria de Lourdes Zuquim


Orientação Metodológica: Karina Oliveira Leitão

Dezembro 2016
AGRADECIMENTOS Agradeço em especial à Sama-
ra, à Isabella, à Silvia e à Rejane.
Agradeço esse trabalho a toda
a minha família e em especial aos Por fim, agradeço a todos os
meus pais, que sempre depositaram professores que passaram pela minha
sua confiança em mim. vida acadêmica e que depositaram em
mim um pouco de seus ideais.
Agradeço a todos os meus
amigos da FAU, que sempre estiveram Agradeço em especial à ori-
presentes ao meu lado e que con- entadora desse meu Trabalho Final
tribuíram imensamente para que eu de Graduação, a professora Maria de
me motivasse quando necessário e Lourdes Zuquim, que me guiou com
me alegrasse nos demais momentos grande sabedoria e com a paciência
do percurso desse TFG. daquele que é mestre e que ensina a
seu aprendiz.
Um especial agradecimento
vai à Tiê, à Liene e à Danielle.

Agradeço aos meus amigos de


fora da FAU, para os quais, embora os
pormenores do curso de Arquitetura
e do Urbanismo fossem por vezes es-
tranhos, a compreensão da importân-
cia do momento final foi total. O apo-
io me dado por eles foi imprescindível.

Um especial agradecimento ao
Luis, ao Marcel, à Patricia e à Marina.

Agradeço aos meus amigos e
ex-colegas da Secretaria Municipal de
Habitação, que contribuíram com seu
imenso conhecimento.
DEDICATÓRIA

Dedico esse trabalho aos meus


pais, que me apoiaram durante toda
a graduação e que estiveram ao meu
lado tanto nos momentos mais praze-
rosos quanto naqueles mais duros.


ÍNDICE
INTRODUÇÃO AO TFG..................................................................................................................................1
A FAVELA TAL COMO A VEMOS...................................................................................................................5

CAPÍTULO 1 O SURGIMENTO DAS FAVELAS NO BRASIL...............................................................................11


1.1 SUBINDO O MORRO DA PROVIDÊNCIA: O CASO CARIOCA...............................................................12

1.2 RODOVIARISMO, PERIFERIZAÇÃO E AUTOCONSTRUÇÃO:


O EMBRIÃO PAULISTANO......................................................................................................................................................13

1.3 AS EXPERIÊNCIAS DE REMOÇÃO E URBANIZAÇÃO DE


FAVELAS NO MUNICÍPIO DE SÃO PAULO.......................................................................................................................19

CAPÍTULO 2 A FAVELA BRASILEIRA: UM OLHAR DETALHADO................................................................31


2.1 UM OLHAR POPULACIONAL.........................................................................................................................32
2.2 UM OLHAR URBANÍSTICO............................................................................................................................37
2.3 UM OLHAR SOCIAL..........................................................................................................................................41

CAPÍTULO 3 A FAVELA DO SAPÉ.....................................................................................................................51


3.1 DADOS GERAIS...................................................................................................................................................52
3.2 DIAGNÓSTICO FÍSICO.....................................................................................................................................56
3.3 DIAGNÓSTICO SOCIAL....................................................................................................................................63
3.4 O PROJETO DE URBANIZAÇÃO..................................................................................................................70
3.5 A EXECUÇÃO DAS OBRAS..............................................................................................................................79
CAPÍTULO 4 LIÇÕES APRENDIDAS ATÉ AQUI.............................................................................................93
4.1 A FAVELA AINDA É SINÔNIMO DE PRECARIEDADE?........................................................................94

4.2 O PAPEL DO ARQUITETO E URBANISTA NA REDUÇÃO


DA PRECARIEDADE..................................................................................................................................................................96
4.3 A VOZ E A VEZ DA POPULAÇÃO...............................................................................................................98

CAPÍTULO 5 PROJETO PARA O SAPÉ...........................................................................................................101


5.1 A ÁREA DA DIVISA...........................................................................................................................................103
5.2 CONSTATAÇÕES SOBRE A ÁREA DA DIVISA........................................................................................107
5.3 POTENCIALIDADES DA ÁREA DA DIVISA...............................................................................................113
5.4 DIRETRIZES PARA A ÁREA DA DIVISA......................................................................................................116
5.5 PLANO DE MASSAS.........................................................................................................................................117
5.6 UM DESENHO PARA A ÁREA 1: PROPOSTA DE IMPLANTAÇÃO................................................120
5.7 PROPOSTA DE PROVISÃO HABITACIONAL............................................................................................122
5.8 UM DESENHO PARA O RESTAURANTE-ESCOLA.................................................................................125
5.9 PROPOSTA PARA A ASSOCIAÇÃO COMUNITÁRIA DE
MORADORES E PARA OS BOXES COMERCIAIS..............................................................................................................131

CONSIDERAÇÕES FINAIS............................................................................................................................145

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS...............................................................................................................155
INTRODUÇÃO
AO TFG
2
O tema “favela”, se é indiferen- Assim, este Trabalho Final de
te ou distante para alguns, para outros Graduação é uma tentativa de se esta-
é importante e instiga à vontade de se belecer um olhar e um entendimento
debruçar sobre ele e de se entendê-lo. sobre a favela, aqui entendida como
Embora nunca tenha sido algo que me uma forma de habitação e de cida-
causava indiferença, a favela era para de. Seguindo essa premissa, esse TFG
mim algo distante e cuja realidade eu conduz um estudo sobre a Favela do
em grande medida não conhecia e Sapé, cujo pano de fundo é a Cidade
não compreendia. de São Paulo. Tal estudo termina com
uma proposta de desenho para uma
Mas, após ingressar no curso gleba desse assentamento.
de Arquitetura e Urbanismo da FAU-
-USP e iniciar meu período de estágio O olhar estabelecido ao lon-
na Secretaria Municipal de Habitação go dos cinco capítulos desse tra-
de São Paulo, passei a me aproximar balho não tem como objetivo ali-
muito mais da favela. De tema distante mentar um estigma ou estereótipo
e majoritariamente desconhecido, ela negativo sobre as favelas brasilei-
passou a ser uma realidade de traba- ras. Tampouco pretende criar uma
lho e de estudo e, acima disso, passou imagem fictícia e maravilhosa so-
a ser para mim uma demonstração da bre esse modo de habitar a cidade.
realidade da vida de muita gente.
Por mais que seja irreal afir-
A vontade de estudar o te- mar que esse TFG vá imprimir uma
ma-favela, ou melhor, a realidade-fa- visão totalmente neutra sobre esse
vela, veio justamente da constatação tema, é importante explicitar que o
de que a favela está presente na vida objetivo desse trabalho é fazer uma
de muitos paulistanos e de brasileiros análise crítica sobre várias ques-
em geral. Além disso, dada sua gran- tões. Desse modo, serão apontados
de presença e complexidade, não se avanços e problemas relacionados
pode deixá-la de lado quando surgem às favelas. Haverá momentos em
oportunidades de se entendê-la me- que se confrontarão visões distin-
lhor. tas; em outros, dados serão analisa-
dos e um olhar próprio será definido.
3
Os dados e as informações O Capítulo 2 descreve a fave-
aqui utilizados são primários – mate- la brasileira sob três perspectivas: a
rial produzido a partir de conversas populacional – com base em dados
informais com moradores do Sapé e do IBGE e de outras pesquisas –, a
profissionais envolvidos na sua urba- urbanística – com dados coletados a
nização – e secundários – relatórios e partir de minhas observações e cons-
fotos cedidos pela Secretaria Munici- tatações e também dos trabalhos de
pal de Habitação de São Paulo e pelo estudiosos desse campo – e social –
Escritório de Arquitetura e Urbanis- em que se pretende descrever as di-
mo Base Urbana, dentre a principal bi- nâmicas culturais e sociais nas favelas
bliografia da área de estudo. De posse paulistanas a partir da abordagem et-
desses dados, foi possível realizar uma nográfica.
pesquisa de cunho histórico, bem
como análises etnográficas e projetu- O terceiro capítulo afunila o
ais. escopo desse TFG, uma vez que in-
troduz o estudo de caso abordado:
A pesquisa histórica se inicia a Favela do Sapé. Dados físicos e so-
no primeiro capítulo, no qual é feito ciais sobre o pré-urbanização – dados
um estudo sobre o surgimento e a esses essencialmente baseados em
consolidação das favelas no Brasil, em informações coletadas pela SEHAB –
especial na capital paulista. O texto se são apresentados a fim de se esboçar
inicia relatando o surgimento daquela um panorama desse assentamento.
que se acredita ser a primeira favela Também se apresenta nesse capítulo
do Brasil – estabelecida no Morro da o projeto de urbanização do Sapé. Por
Providência, no Rio de Janeiro. Em se- fim, é descrito o processo de execu-
guida, o foco se volta para São Paulo, ção das obras referentes a esse pro-
que vive um contexto próprio de pe- cesso. Tanto na descrição do projeto
riferização, rodoviarismo e autocons- quanto no relato de sua execução fí-
trução. Por fim, o capítulo se encerra sica são utilizadas informações oriun-
com um apanhado do processo histó- das das conversas com profissionais
rico de urbanização de favelas na ci- envolvidos na urbanização do Sapé
dade. e com moradores do assentamento.
Problemas são levantados e questões
4
são postas. jetual deste Trabalho Final de Gradua-
ção complementam-se e são meios de
No Capítulo 4, faz-se um apa- se chegar a um entendimento satisfa-
nhado de tudo o que se observou ao tório da questão das favelas tanto
longo do TFG a fim de se estabelece-
rem diretrizes para uma proposta de Assim, esse TFG delineia-se
desenho urbano e arquitetônico para como um olhar crítico para a questão
o Sapé. Nesse capítulo, aborda-se a da favela, assim como se transforma
questão da precariedade nas favelas, em uma proposta de desenho urbano
trata-se do papel do arquiteto e urba- e arquitetônico com a crítica adquiri-
nista no enfrentamento dessa preca- da ao longo do trabalho.
riedade e fala-se do conselho gestor
enquanto instrumento de participa-
ção popular.

Por fim, no Capítulo 5, apre-
senta-se o desenho de provisão habi-
tacional, de lazer e de equipamentos
para uma gleba do Sapé. Vale dizer
que esse desenho não é uma nova
proposta de urbanização para a fa-
vela; é, na realidade, uma leitura para
uma as áreas remanescentes da favela
urbanizada.

Além disso, também é impor-


tante dizer que o projeto proposto
no último capítulo desse TFG é muito
mais o meio do que que o fim deste
trabalho; não se delineou a pesquisa
dos quatro primeiros capítulos apenas
para se atingir o exercício de projeto.
Na realidade, as partes teórica e pro-
A FAVELA TAL
COMO A VEMOS
6
A favela é um assunto que ca no campo da cultura brasileira.
suscita diferentes posicionamentos e
interpretações. Alguém que busque Há ainda formas de se ver
compreendê-la melhor pode encará- a favela que se aproximam de uma
-la sob a ótica da precariedade; junto abordagem econômica. Muitas des-
a essa ótica, vêm visões complemen- sas visões inicialmente baseavam-se
tares, que por si só não dão conta de na ideia de pobreza e hoje, por outro
explicar a favela satisfatoriamente. lado, endossam a noção de ascensão
Dentre tais visões, estão aquelas que dos moradores das favelas em termos
atrelam a favela ao crime, à violência, de renda e de consumo. Dados recen-
à exclusão e a tantos outros conceitos. tes demonstraram maior poder de
compra e maior inclusão no mercado
Por outro lado, existe uma óti- de trabalho por parte desses morado-
ca otimista, que enxerga esse tipo de res.
assentamento como uma forma de
resistência e luta. A essa ótica, tem Frente a tantas vertentes so-
sido recentemente acrescida a ideia bre a favela, não cabe adotar uma ou
de avanço, que, por sua vez, parte de outra; é essencial que se conheça o
pressupostos como a melhoria recen- maior número delas para que, dada a
te dos indicadores socioeconômicos situação, seja possível interpretar os
dos habitantes das favelas. A imple- fatos a partir da visão mais pertinente.
mentação de programas de urbaniza-
ção de favelas tem muitas vezes sido Além disso, é interessante ob-
acompanhada de percepções de in- servar que, como vários outros obje-
clusão social e urbanística desses as- tos de estudo, a favela não é algo es-
sentamentos. tanque. Ela pode e deve ser encarada
sob variadas óticas ao mesmo tempo.
É possível também que se en- Mas, acima de tudo, a favela deve ser
xergue a favela como símbolo cultu- encarada sob uma ótica livre de pre-
ral. Do malandro ao carnaval, passan- conceitos – sejam eles baseados em
do pelo funk, samba e tantas outras visões excessivamente otimistas ou
manifestações e símbolos culturais, a pessimistas.
favela deixou uma marca característi-
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É fato que muito se diz sobre se resume à visão de que a favela é e
a favela na sociedade brasileira. Por- sempre foi uma forma de cidade; no
tanto, se a mente de quem for estudar entanto, ela ainda caminha para se
esse tipo de assentamento não estiver transformar em parte da cidade me-
isenta de conceitos muitas vezes ale- nos precária, formal e em um lugar
atórios e ditos de modo desconexo, cujos moradores têm seus direitos
será muito difícil entender a favela. plenamente assegurados. Em suma,
esse trabalho se atém à ideia de que
Esse trabalho tenta justamen- favelas como o Sapé, que passam ou
te se isentar de lugares-comuns e de passaram recentemente por processos
ideias plantadas de modo estereotípi- de urbanização, estão mais próximas
co e por vezes preconceituoso. Não é de poderem ser efetivamente chama-
objetivo aqui confirmar ou negar tudo das de cidade tal como idealizamos.
o que já foi dito por estudiosos e ou- O que implica que, ao serem alçadas
tras pessoas; é objetivo, na realidade, a essa posição, passam a carregar as
conhecer as diferentes óticas relacio- vantagens e os fardos da cidade de
nadas à favela e fazer uso daquela que fato. Mas sem nunca deixarem seu his-
for mais pertinente. Também é objeti- tórico e sua identidade para trás.
vo entender a favela e, feito isso, fazer
propostas para uma delas dentro do
escopo de habitação, lazer e equipa-
mentos.

Esses objetivos são esforços


que partem de alguém que viveu a
realidade recente de urbanização de
favelas em São Paulo tanto no campo
acadêmico quanto no prático e que,
assim, transita entre a teoria e suas li-
mitações e a realidade e suas necessi-
dades.

O discurso por trás do TFG


1
O SURGIMENTO DAS
FAVELAS NO BRASIL
12
1.1 SUBINDO O MORRO DA
PROVIDÊNCIA: O CASO CARIOCA

Já se tornou célebre a história


sobre a primeira favela brasileira, que,
segundo relatos oficiais, teria surgido
no Rio de Janeiro na virada do século
XIX para o XX. A ocupação no Morro
da Providência teria sido feita por sol-
dados que regressavam da Guerra de
Canudos (1896-97) e que, na condição
de veteranos de guerra, não teriam
recebido moradias do então governo
federal. Como opção, restou-lhes su-
bir o morro para lá se fixarem.
Figura 1. Imagem de uma das primeiras
casas do Morro da Providência, em 1905.
Registros da época falavam Disponível em: <http://www.brasil247.
da presença de “desertores, ladrões com/pt/247/favela247/166421/Morro-da-
e praças do Exército” em casebres Provid%C3%AAncia-a-primeira-favela-do-
de madeira e cobertos de zinco. (AL- Rio.htm>.Acesso em: 02 abr. 2016.
VITO; ZALUAR, 2003, p. 8). Assim, as
precoces ocupações logo passariam a
ser vistas como problema policial e de
saúde pública. E mais do que isso: ten-
do em vista que o Rio de Janeiro era a
capital federal do Brasil, surge com o
Morro da Providência uma dualidade
entre o moderno – que a cidade deve-
ria representar – e o atrasado – que
se via em suas favelas. (Ibid., p. 13).

Para Kowarick (1979), o sur-
gimento e a consolidação de fa-
13
velas em cidades litorâneas como o 1.2 RODOVIARISMO, PERIFERIZAÇÃO
Rio de Janeiro foram facilitados pela E AUTOCONSTRUÇÃO: O EMBRIÃO
grande quantidade de terras de pro- PAULISTANO
priedade de entidades do poder pú-
blico – como o Exército e a Marinha Em São Paulo, o processo de
– desocupadas e de pouco interesse formação das favelas dá-se num con-
do mercado imobiliário. Esse desinte- texto mais tardio e geograficamente
resse dava-se no Rio especialmente distinto. Nos anos anteriores ao início
por contada íngreme topografia des- do governo varguista (1930), o modelo
sas terras disponíveis. de habitação popular na cidade era o
cortiço. As habitações coletivas eram
Aos poucos, a população que alvos constantes dos sanitaristas, que
migrava para os morros cariocas foi enxergavam nos cortiços condições
aumentando. Ex-escravos e popula- precárias de moradia. No entanto, a
ções menos abastadas em geral logo prática rentista, aliada à proximidade
passaram a habitar as favelas do Rio dos cortiços com o centro – e, mais
de Janeiro. Ao longo dos anos, as re- especificamente, com o local de tra-
formas urbanas do prefeito Pereira balho urbano – fazia desse tipo de
Passos induziram a população cario- habitação a saída utilizada pelos tra-
ca a desocupar os imóveis no centro balhadores mais pobres.
do Rio e a buscar abrigo semelhante
ao dos soldados de Canudos. (PAS- A capital paulista depara-se
TERNAK TASCHNER, 2006). Poste- intensamente com a questão da mo-
riormente, ocorreu a chegada de mi- radia irregular e precária afastada do
grantes nordestinos, chegada essa que centro urbano a partir da década de
criou um estereótipo: o de que a po- 1920, quando o automóvel começa
pulação das favelas era o “reduto ana- a ganhar espaço na cidade. A relação
crônico de migrantes de origem rural entre a moradia irregular e o automó-
mal adaptados às excelências da vida vel – em especial o ônibus – deu-se
urbana” (ALVITO; ZALUAR, 2003, p. uma vez que este meio de transporte
15). era bem menos limitado que o bonde
– seu antecessor – e, dessa maneira,
permitia à população acessar glebas
14
distantes do centro e de linhas con- Para Bonduki (1998, p. 94), “a
vencionais de transporte público. Vale reforma dos transportes coletivos,
dizer que os bondes limitavam seu com a progressiva substituição dos
trajeto ao relevo menos acidentado bondes por ônibus, foi fundamental,
– restrito, portanto a apenas algumas portanto, para a ocupação da peri-
áreas da cidade de São Paulo – e ti- feria, pois, como esta se expandia de
nham menos autonomia de percurso maneira extensiva e com baixa densi-
que o automóvel. dade, era adequada a um sistema de
baixa capacidade e investimento pré-
O modelo rodoviarista come- vio, como o de ônibus”.
çou a ser concebido na capital pau-
lista pelo então prefeito Prestes Maia Assim, nota-se a relação entre
em 1924. Essa concepção a nova macroacessibilidade promovi-
da pelo incentivado modelo rodovia-
se opunha a qualquer obstáculo fí- rista e a ocupação das periferias da
sico para o crescimento urbano ou Grande São Paulo. Segundo Mautner
a qualquer definição a priori de um (1999), a periferia é o espaço urbano
limite para o crescimento da cidade. socialmente segregado onde vivem
Essa posição era totalmente compa- os pobres e onde o preço da terra é
tível com a necessidade de espalhar baixo. É um espaço mutante, uma vez
uma cidade considerada densa e que se desloca à medida que as velhas
explosiva. O uso de ônibus a diesel periferias são incorporadas à cidade
tornaria acessíveis – em termos de consolidada. Cabe dizer que o concei-
transportes – os bairros na periferia. to periferia vai abrangendo diferentes
A flexibilidade do serviço de ônibus, interpretações de acordo com o autor
ao contrário dos bondes e trens, cujo que o estuda e de acordo com o mo-
raio de influência era limitado pela mento histórico em que se estuda esse
distância entre estações, combinada conceito. Para Mautner, a definição de
com um modelo de expansão hori- periferia enquanto área ocupada pe-
zontal, trazia a solução para a crise los mais pobres abarca o propósito
de moradia com a autoconstrução da explicação teórica desse capítulo.
em loteamentos na periferia. (ROL- No entanto, não se deve excluir do
NIK, 2002, p. 33 ). termo periferia abordado por Yvonne
15
Mautner outras significações a ele
atreladas, tais como a precariedade.

É justamente no espaço segre-
gado que se desenvolve grande par-
te da moradia precária de São Paulo.
Ainda que não sejam as favelas pro-
priamente ditas, os loteamentos ir-
regulares são na Grande São Paulo o
início de um modelo de ocupação do
território que se baseia na ausência
do Estado enquanto fiscalizador e re-
gulador. Esse modelo também se pau-
Figura 2. Plano de Avenidas concebido por ta na segregação da população mais
Prestes Maia. Fonte: ROLNIK, 2002. pobre em regiões distantes do núcleo
urbano e, analogamente às favelas, é
feito por meio da autoconstrução.

Segundo Rolnik (2002), o es-
praiamento e o desadensamento da ci-
dade de São Paulo ficam visíveis quan-
do se comparam as plantas aos dados
populacionais do município em 1914 e
em 1930. No primeiro ano, a área ocu-
pada da cidade corresponde a 3.760
hectares e a densidade é de 110 hab./
ha. Já em 1930, ocupam-se 17.653 hec-
tares e a densidade cai para 47 hab./ha.

Segundo Mautner (1999),


há três momentos característicos
(ou camadas) que levam à produ-
16
ção do espaço urbano em São Paulo: mimetização dos loteamentos popu-
lares em espaço urbano consolidado.
I. A transformação da terra Como fruto desse processo, vários
em propriedade: ocorre quando da moradores originais são expulsos para
demarcação de lotes e de viário, bem periferias mais distantes, onde iniciam
como da venda de propriedades e da a primeira camada de trabalho. Como
construção das casas (autoconstrução fruto desse processo, vários morado-
ou construção por encomenda); res originais são expulsos para perife-
rias mais distantes, onde iniciam a pri-
II. Legalização dos lotes: é meira camada de trabalho.
uma demanda local dirigida ao go-
verno. Requer a legalização dos lotes, Em 1942, o governo federal,
comandado por Getúlio Vargas, apro-
que, em geral, não ocorre. Afinal, a va a Lei do Inquilinato, que conelava o
ausência de possibilidade de adequa- valor dos aluguéis e, assim, tornava in-
ção à legislação é o que torna os lotes vestimentos em moradia popular de-
mais acessíveis à população de baixa sinteressantes. A saída para a popula-
renda. Assim, a legalização se dá por ção crescente das cidades, população
meio de perdões públicos ou de anis- essa que não tinha acesso ao mercado
tias concedidas pelo Estado; formal de habitação devido à má re-
muneração e à sua inserção na infor-
III. Entrada do capital: im- malidade, foi justamente a já mencio-
plantação de infraestrutura (que se nada auto-construção na periferia ou
dá com a entrada de capital) e con- então a formação de favelas.
se-quente incorporação do espaço ur-
bano antes periférico à cidade formal As consequências disso [do congela-
e consolidada. Neste momento, terre- mento dos aluguéis] no nível de vida
nos retidos pela especulação imobiliá- da massa trabalhadora foram diferen-
ria são postos à venda por preços mais ciadas: aqueles que conseguiram se
altos e usos como bares e indústrias manter nas moradias com aluguéis
de fundo de quintal dão espaço a usos antigos puderam conservar seu modo
da cidade formal/legal. Tal fenôme- de vida, repassando os “prejuízos”
no é chamado por Mautner (1999) de aos proprietários das casas; no entan-
17
to, os recém-chegados à metrópole e algumas unidades de moradia tenham
os que eram despejados ou “vendiam” sido produzidas – em especial para a
seus direitos aos aluguéis congelados classe média – a partir dos anos 1940
só conseguiam moradia pagando um com recursos oriundos dos IAPs (Ins-
aluguel (diluído ou concentrado sob titutos de Aposentadoria e Pensão), a
várias formas de luvas) muito mais principal consequência no campo da
elevado – o que acarretava uma di- habitação após esse redirecionamen-
minuição do seu nível de vida. Criam- to de investimentos foi a ausência de
-se as condições econômicas para o investimentos devidos nesse campo,
surgimento e a proliferação de novas seja a partir de empresários, seja a
“soluções” habitacionais de baixo partir do governo. Na ausência de re-
custo ou de custo monetário nulo – cursos e de um programa habitacional
como a casa própria em favelas ou efetivo, os mais pobres viram-se obri-
loteamentos particulares. (BONDUKI, gados a recorrerem a saídas de baixo
1998, p. 237). ou nenhum custo, como as autocons-
truções nas já citadas favelas e nos lo-
Além disso, Nabil Bonduki teamentos irregulares.
também sustenta que o governo var-
guista, ao aprovar a Lei do Inquilinato, Para Nabil Bonduki, as primei-
visava ao redirecionamento de investi- ras favelas de que se tem notícia na
mentos privados do setor habitacional cidade de São Paulo teriam surgido
para a industrialização brasileira: “Mi- na década de 1940. Os primeiros mo-
nha hipótese é que a Lei do Inquilinato radores dessas áreas seriam oriundos
estava relacionada a uma intenção go- dos cortiços, que estavam localizados
vernamental de reduzir a atração que nas regiões centrais da capital paulis-
o setor imobiliário exercia sobre in- ta. Para Bonduki, as favelas
vestidores e capitalistas em geral, com
o objetivo de concentrar recursos no significavam uma resistência dos in-
parque industrial brasileiro”. (Bon- quilinos em deixar as áreas mais cen-
duki, 1998, p. 227). O Estado passaria, trais e mudar-se para a periferia. Sem
então, a financiar a provisão habita- alternativa de moradia compatível
cional dos trabalhadores. Ainda que com sua renda em local próximo ao
18
emprego, famílias despejadas ou re-
cém-chegadas passaram a ocupar
terrenos baldios, onde confecciona-
vam barracões de madeira e outros
materiais improvisados. (Ibid., pp.
262-263).

As primeiras áreas de São Paulo


a serem ocupadas pelas favelas foram
as várzeas dos rios Tietê e Tamandu-
ateí. Essas áreas, além de serem cen-
trais e próximas às fontes de emprego
da cidade, eram também – à seme-
lhança das primeiras glebas ocupadas
no Rio de Janeiro – pouco propícias
à incorporação pelo mercado imobi- Figura 3. A Favela da Várzea do Penteado,
liário. No caso paulistano, a razão da formada em 1942 ao longo do Rio Tamandu-
pouca viabilidade dos primeiros terre- ateí. Fonte: BONDUKI, 1998, p. 270.
nos ocupados não era a topografia ín-
greme dos terrenos; era, na realidade,
a suscetibilidade aos alagamentos pe-
riódicos oriundos das cheias dos rios
citados.

As favelas paulistanas teriam


visto seu surgimento e sua prolife-
ração se favorecerem, então, por
vários elementos, tais como a rodo-
viarização de São Paulo e a crise dos
aluguéis decorrente da Lei do Inquili-
nato. Kowarick (1979, p. 79) defende
outro fator importante: o preço da
19
terra urbana, que, especialmente nas las logo foram fruto de uma política
áreas mais centrais de São Paulo – de remoção por parte dos governos
áreas onde há maior infraestrutura –, locais.
cresceu vertiginosamente. Assim, os
mais pobres teriam sido obriga-dos a As remoções nem sempre
ir para os terrenos pouco interessan- vieram desacompanhadas de outras
tes para o mercado imobiliário (como ações. Em muitos casos, implantaram-
mencionado anteriormente) ou para -se alojamentos provisórios ou con-
áreas mais acessíveis economicamente juntos habitacionais nas áreas ocupa-
– especialmente aquelas na periferia. das ou em outras áreas da cida=de.
Nos anos mais recentes, a política ha-
bitacional voltou-se não à remoção de
todas as partes das favelas – com ex-
1.3 AS EXPERIÊNCIAS DE ceção de alguns casos isolados, como
REMOÇÃO E URBANIZAÇÃO DE a Favela Real Parque, no Morumbi –,
FAVELAS NO MUNICÍPIO DE SÃO mas à remoção essencial dos domicí-
PAULO lios em risco e à adequação urbanís-
tica, fundiária e de infraestrutura das
Historicamente, a cidade de áreas remanescentes.
São Paulo lidou com suas favelas a
partir de uma política de estranha- A primeira experiência relati-
mento e de repressão. (BONDUKI, va à remoção e ao realojamento de
1998, p. 263). Enxergadas desde o iní- moradores de favelas paulistanas já
cio sob uma ótica que, acima de tudo, se deu nos anos 1940, quando o en-
classificava os assentamentos em for- tão prefeito Abraão Ribeiro construiu
ma de favela como um grande proble- alojamentos provisórios no local da
ma a ser solucionado – problema esse favela instalada na baixada do Pente-
que não necessariamente implicava ado (ao longo do Rio Tamanduateí).
uma preocupação com a população Segundo Bonduki (1998), foram cons-
favelada, mas com a ideia de cidade truídos pavilhões para doze famílias,
moderna e opulenta da qual muitos além de instalações com chuveiros,
paulistanos se orgulhavam –, as fave- sanitários e tanques. Ainda segundo o
20
autor, registros históricos contam que
os barracos onde moravam as famílias
atendidas foram demolidos e desinfe-
tados com o fogo pelos bombeiros.

Reside aí uma posição ambí-


gua por parte da administração local.
Como afirma Nabil Bonduki em tre-
cho transcrito em seguida, tratou-se
da habitação e da problemática das 1
A prática de supostamente se esconder as favelas teria sido
favelas como uma questão social. No implantada especialmente durante a gestão Paulo Maluf/Cel-
entanto, as ações empreendidas pelo so Pitta (1993-2001). Nesse período, o programa Cingapura,
prefeito Abraão Ribeiro, bem como de provisão habitacional, foi implantado de uma forma que
tantas outras ações levadas a cabo por chamou a atenção em São Paulo: os conjuntos habitacionais
eram em geral construídos na parte da gleba lindeira à rua.
administrações seguintes, denotam a
Os fundos desses terrenos, não tão visíveis aos transeuntes,
vontade de simplesmente solucionar continuariam ocupa-dos pelas favelas originais.
– ou de ao menos esconder 1 – o pro-
blema dos assentamentos em forma
de favela frente a parte da população Figura 4. Conjunto habitacional do Projeto
paulistana. Cingapura, localizado à Avenida Zaki Narchi,
na Zona Norte de São Paulo. Disponível em:
<http://www.prodam.sp.gov.br/invfut/cin-
A intervenção do prefeito de São
ga/cinga3.htm>. Acesso em: 12 jun. 2016.
Paulo, Abraão Ribeiro, foi pioneira ao
tratar da habitação como problema
social. Ao construir barracões em sé-
rie e dotados de infraestrutura para
substituir uma favela em grande área
de visibilidade, o prefeito tinha obje-
tivos eleitorais. Porém, como edificou
mais alojamentos do que favelados a
serem removidos, a Prefeitura tam-
bém sinalizou que podia abrigar par-
21
te dos despejados que diariamente Em especial na década de 1960,
ficavam sem teto. (BONDUKI, 1998, criou-se o Sistema Financeiro de Habi-
p. 263). tação (SFH) e o Banco Nacional de Ha-
bitação (BNH), que, até os anos 1970,
Nas décadas que se seguiram priorizaram a realocação da popula-
à atuação do prefeito Abraão Ribeiro, ção das favelas em conjuntos habita-
predominou a prática de remoção de cionais periféricos. (ZUQUIM, 2012).
favelas. Lúcio Kowarick (1979, p. 79) O SFH não conseguiu corresponder
afirma que “nos últimos anos [década às necessidades da população de ren-
de 1970], a Prefeitura tem desenvol- da mais baixa no Brasil (SÃO PAULO,
vido programas de remoção de fave- 2008, p. 17) e o BNH acabou sendo
las, que ocorrem tão logo os terrenos extinto em 1986, em meio a um cená-
onde se situam passam a ter uma ‘ser- rio de crise econômica. Dessa forma
ventia’ para a Metrópole ou os barra- os programas habitacionais existentes
cos neles localizados passam a ser um foram paralisados. (Ibid.).
‘foco de mal-estar’ para os moradores
mais abastados”. Os programas de urbanização
de favelas têm início em São Paulo
timidamente na gestão Mario Covas
(1983-1986). Na gestão seguinte, de
Jânio Quadros (1986-1989), destacam-
-se as remoções de favelas em áreas
2
Também chamadas de Lei do Desfavelamento, as Opera-
ções Interligadas foram uma prática legal – suspensa em 1998
nobres. Segundo Zuquim (2012), essas
e declarada inconstitucional em 2000 – de 1986 que consistia remoções eram vinculadas às Ope-
em se permitir que o proprietário de um terreno ocupado rações Interligadas 2 . A gestão Luiza
por uma favela pudesse construir empreendimentos nesse Erundina (1989-1993) promove avan-
terreno – removendo, assim, a favela original – com parâ- ços com mutirões e incentivo à au-
metros urbanísticos menos rígidos. Em troca, eles poderiam togestão de construções, bem como
construir e doar ao poder público habitações populares para
com a urbanização de várias favelas.
a população dessa favela em um outro terreno. Em 1988, per-
mitiu-se que os proprietários, ao invés de construírem casas,
(ZUQUIM, 2012).
dessem uma quantia em dinheiro à prefeitura. (ROLNIK, 2015,
pp. 326-327). Nos anos de 1991 e 1992, foi
22
elaborado o Programa Guarapiranga, velas em grande escala no município
cujo objetivo era reduzir a carga de de São Paulo. (SÃO PAULO, 2008, p.
poluentes da Represa Guarapiranga, 18). No entanto, vale frisar que o pro-
em São Paulo. A ocupação desordena- pósito principal desse programa era a
da e precária nas margens dessa repre- recuperação ambiental de uma área
sa foi considerada a grande causa da de mananciais no município e não a
poluição desse manancial (ANCONA; integração dos assentamentos des-
LAREU, 2002, p. 51). Assim, chega-se sa área à cidade ou ainda o aumento
à proposta de se urbanizarem diver- da presença do Estado nessas favelas
sas favelas e assentamentos dispostos como forma de coibir a criminalidade
ao longo dessas margens, a fim de se nelas atuante. BUENO (2000, p. 203).
recuperar a qualidade das águas da re- Daí em diante, programas aplicados
presa Guarapiranga. O financiamento em favelas dentro e fora da região de
do Programa Guarapiranga foi feito mananciais desenvolveram-se.
pelo Banco Mundial. (IBAM, 2002, p.
8). Na gestão Paulo Maluf/Celso
Considerando-se a inviabilidade eco- Pitta (1993-2001), Pitta (1993-2001),
nômica, social e política de remoção pouco se avança. Ações pontuais são
de um contingente populacional tão empreendidas, tais como o Projeto
significativo, coloca-se a demanda Cingapura (de provisão habitacional).
por obras de saneamento e recupe- (ZUQUIM, 2012).
ração urbana destinadas a reduzir
drasticamente as cargas poluidoras Na gestão Marta Suplicy
afluentes aos reservatórios, de forma (2001-2005), destaca-se a adoção do
a adequá-las à sua capacidade de ab- Plano Diretor Estratégico (2002-2012)
sorvê-las. (ANCONA; LAREU, 2002, p. e de seus dispositivos, bem como a
52). criação do programa de regulariza-
ção urbanística e fundiária intitula-
O Programa Guarapiranga do Bairro Legal. Posteriormente, a
(executado a partir de 1994) pode ser gestão José Serra/Gilberto Kassab
considerado um programa pioneiro (2005-2013) chama a atenção pela
no que se refere à urbanização de fa- adoção do Plano Municipal de Habi-
23
tação (PMH), pela criação do sistema uma exceção no caso da Favela Real
de informações Habisp e pelo retorno Parque. Recentemente, esse assenta-
à adoção de políticas de remoção em mento, localizado no bairro do Mo-
algumas favelas. (ZUQUIM, 2012). rumbi, foi objeto de remoção total. As
obras, iniciadas em 2010, chamaram a
No que se refere às políticas atenção por não seguirem as determi-
de remoção, as diretrizes dessa gestão nações do PMH.
(estabelecidas pelo Plano Municipal
de Habitação (PMH), a ser explicado Especula-se que, no caso do
no próximo parágrafo), determinavam Real Parque, pesou na decisão o fato
que as remoções em favelas deveriam de que a vizinhança da favela era
ser evitadas. Elas ocorreriam apenas abastada e não queria conviver com
parcialmente e seriam restritas a ca- a favela a seu lado. Uma solução de
sas em situação de risco e de extrema compromisso entre a remoção total (e
vulnerabilidade. No entanto, houve consequente transferência dos mora-
dores para outra área da cidade, que o
PMH também vetava) e a urbanização
convencional do assentamento, que
deixaria áreas remanescentes visíveis,
foi substituir todas as moradias por
deixaria áreas remanescentes visíveis,
foi substituir todas as moradias por
condomínios 3 .

Acredita-se que esse tipo de


intervenção, mais custoso do que uma
3
Para FERREIRA (2011, p. 80), os moradores de apartamentos
urbanização convencional, só foi pos-
de alto padrão nos arredores do Real Parque teriam se opos-
sível devido à abundância de recursos
to inclusive à solução já atípica que a Prefeitura tomara. Estes para as obras, recursos esses garanti-
moradores tentaram suspender a construção dos conjuntos dos pela Operação Urbana Consor-
habitacionais de interesse social por meio de uma ação judi- ciada Faria Lima. Assim, a gestão mu-
cial, que não obteve êxito. nicipal retoma ao menos em parte as
24
medidas remocionistas dos anos
1940. Tendo em vista essa aproxi-
mação entre a postura da gestão
Serra/Kassab e a postura remocio-
nista do passado, é importante que
se atente aos avanços e retroces-
sos da política habitacional em São
Paulo. Cabe o questionamento acerca
de quais medidas atuais se afastam e
se acercam daquilo que, com base em
experiências passadas, é entendido
como recomendável para a população
carente da cidade.

Cabe detalhar as medidas da


gestão José Serra/Gilberto Kassab
que merecem maior atenção. Primei-
ramente, tratemos da adoção do Plano
Municipal de Habitação (2009-2024) 4 .
Dentre as várias diretrizes estabeleci-
das pelo PMH, constava a divisão da
cidade de São Paulo em Perímetros de
Ação Integrada (PAI). Cada perímetro
correspondia a uma sub-bacia hidro-
gráfica – sendo que grande parte da
cidade estava dentro de alguma sub-
-bacia – e receberia uma prioridade
de intervenção. Segundo o PMH de
2009, as partes de São Paulo que esta-
riam dentro de alguma sub-bacia de- 4
É importante dizer que o Plano Municipal de Habitação de
marcada – e, portanto, dentro de um 2009 não foi aprovado como lei. No entanto, serve até os dias
PAI – seriam áreas do município que atuais como fonte de diretrizes para a Secretaria Municipal de
demandam alguma atuação do poder Habitação de São Paulo.
25
Figura 5. Perímetros de Ação Integrada existentes sobre parte da Zona Oeste de São Paulo, com destaque para a Favela do Sapé.
Elaboração: o autor.

público no que se refere à questão ha- guaré. Essa sub-bacia, para fins de in-
bitacional. Seja porque há nelas corti- tervenção, foi subdividida em cinco
ços – típicos de regiões mais centrais Perímetros de Ação Inte-grada (PAI):
– ou porque nelas existem favelas. Ribeirão Jaguaré 1, Ribeirão Jaguaré
2, Ribeirão Jaguaré 3, Ribeirão Jagua-
A título de exemplificação, a ré 4 e Ribeirão Jaguaré 5. Cada PAI
Favela do Sapé – que será fruto de tem uma prioridade de intervenção.
uma abordagem mais profunda a par- O Sapé está no PAI Ribeirão Jaguaré 3
tir do Capítulo 3 – está ao longo do (ver Figura 6).
Córrego do Sapé, que, por sua vez,
pertence à sub-bacia do Ribeirão Ja- Vale dizer que em 2016, a ges-
26
tão Fernando Haddad (2013-2017) ela-
borou um texto de discussão para um
novo Plano Municipal de Habitação
(2016-2032). Neste novo plano, que
ainda está em discussão e, portanto,
ainda não foi aprovado, a divisão das
áreas de intervenção em Perímetros
de Ação Integrada pode ser revista.
No entanto, a Secretaria Municipal de
Habitação (SEHAB) ainda adota os pe-
rímetros presentes no PMH antigo e
assim será pelo menos até a aprovação
do novo PMH. O projeto e as obras de
urbanização da Favela do Sapé foram
conduzidos de acordo com as dire-
trizes desse plano e, por conta disso,
esse Trabalho Final de Graduação con-
sidera importante explicar a metodo-
logia antiga.

Outra medida de destaque da


gestão José Serra/Gilberto Kassab
foi a criação do Habisp, que continua
operando nos dias atuais, agora com
o nome de Habitasampa. O Habisp –
ou Habitasampa – é um sistema que
mapeia os assentamentos precários
da capital paulista e fornece infor-
mações relacionadas a esses assenta- 5
Informação retirada de <http://cidadeinformal.prefeitura.
mentos em São Paulo 5 . Algumas das sp.gov.br/?page_id=669>. Acesso em: 02 jul. 2016. (texto em
informações fornecidas são a divisão inglês).
27
6
O Conselho Gestor é um órgão cuja instituição está pre- político-administrativa e a hidrografia
vista em lei e que tem correspondência com as ZEIS (Zonas da cidade, sempre de modo a ser pos-
Especiais de Interesse Social). Cada ZEIS 1 e 3 que possuam
moradores de baixa renda tem seu Conselho Gestor e, além sível localizar o assentamento nessas
disso, sua constituição é paritária. Isso significa que há o mes- divisões. O conteúdo é disponibiliza-
mo número de representantes da sociedade civil (moradores do ao público através de uma plata-
das ZEIS e proprietários de imóveis dentro do perímetro de forma na internet. O Habisp é uma
abrangência do Conselho Gestor) e do poder público (repre- importante sistematização das infor-
sentantes de SEHAB e de outros órgãos). Também podem
participar dos conselhos gestores organizações não governa-
mações sobre assentamentos precá-
mentais que atuem dentro do perímetro de cada conselho. rios.
Os conselhos gestores formam-se em uma determinada área
quando há planos de se intervir em assentamentos dessa A Secretaria Municipal de Ha-
área. Um conselho gestor pode corresponder a uma ZEIS bitação está hoje dividida em vários
inteira, a um trecho de ZEIS ou a um conjunto de diferentes
ZEIS. Sua função é deliberar sobre o destino de cada ZEIS no
setores, dentre os quais as Divisões
âmbito de urbanização das favelas. Isso significa que, nas reu- Técnicas Regionais (DEAR), que estão
niões, discute-se e delibera-se sobre o projeto a ser implan- dentro da Coordenadoria de Gestão
tado desde o início em cada área. (SÃO PAULO, 2014, p. 60). do Atendimento Social (CAS). Exis-
tem 6 divisões regionais: DEAR Cen-
Figura 6. Delimitação de cada
DEAR em São Paulo. Elaboração: tro, DEAR Sul, DEAR Sudeste, DEAR
o autor. Norte, DEAR Leste e DEAR Extremo
Sul (também chamada de DEAR Ma-
nanciais). Compete às regionais lidar
diretamente com os moradores de
cada assentamento atendido pela pre-
feitura de São Paulo, inclusive quando
se trata de casos de risco (deslizamen-
tos, enchentes, etc.). Além de lidarem
com esses casos de risco, as DEAR
tratam do atendimento habitacional
(auxílio-aluguel), e da organização e
coordenação dos conselhos gestores 6 .
Por fim, todas as intervenções de ur-
28
banização em favela são de respon- possui outras divisões, tais como a
sabilidade dos técnicos dessa divisão. Coordenadoria de Gestão de Progra-
O corpo de funcionários das DEAR é mas e Projetos, a Coordenadoria de
constituído majoritariamente de as- Regularização Fundiária e a Coorde-
sistentes sociais e de arquitetos ur- nação de Gestão do Atendimento So-
banistas. As DEAR, por estarem subor- cial. É importante dizer que a SEHAB
dinadas ao CAS, focam sua atuação no não é o único órgão gover-namental
serviço social prestado aos cidadãos e,
portanto, os arquitetos que trabalham que participa da urbanização de fave-
nas regionais servem, acima de tudo, las no município de São Paulo. Tam-
como apoio aos assistentes sociais bém atuam nesse âmbito a Secretaria
dessas divisões. Municipal do Verde e Meio-Ambiente
(SVMA), a SABESP (órgão estadual),
Ainda no que se refere ao entre outros. A esses órgãos, compe-
trabalho do arquiteto urbanista na tem atividades como a instalação de
SEHAB, os profissionais que se situam infraestrutura de abastecimento de
nas DEAR fazem selagens e mapea- água nas áreas onde se realizam as
mentos de assentamentos precários obras de urbanização – como é o caso
em vias de serem urbanizados, reali- da SABESP –, entre outros.
zam inspeções físicas em domicílios
passíveis de remoção ou afetados pe- Segundo Zuquim (2012), nos
las obras de urbanização – com racha- anos 1980, a política de urbanização
duras, poeira, etc...
de favelas é vista como alternativa à
O novo Plano Municipal de remoção e produção de novas mo-
Habitação de São Paulo propõe rever radias. Com a Constituição Federal
algumas das atribuições dos departa- de 1988 (e, posteriormente, com o
mentos da SEHAB. Sendo assim, em Estatuto da Cidade, de 2001), regula-
breve, as atribuições de divisões como menta-se o princípio da função social
as regionais podem sofrer alterações. da cidade e da propriedade urbana.
Nesse período, o preservacionismo,
Além das divisões regionais, que pregava a proteção da natureza
a Secretaria Municipal de Habitação frente à interferência humana, ganha
29
força e influencia as regras de uso e
ocupação do solo, o que, por sua vez,
gera um conflito de interesses entre
os ambientalistas e os grupos ligados
à urbanização de assentamentos pre-
cários e à habitação social. Nos anos
1990, o ambientalismo – que dese-
nhou o princípio preservacionista –,
aliado ao neoliberalismo, afasta o Es-
tado do seu papel de regulador (ZU-
QUIM, 2012, p. 5).

Atualmente, pode-se dizer que


entraves como o alto custo da terra
urbanizada, os poucos resultados da
ação estatal na regularização urba-
nística e falta de alternativas às atu-
ais políticas habitacionais de interesse
social continuam na ordem do dia das
políticas públicas. (ZUQUIM, 2012).

2
A FAVELA BRASILEIRA:
UM OLHAR DETALHADO
32
2.1 UM OLHAR POPULACIONAL critérios para a identificação dos aglo-
merados subnormais é o fato de a ter-
De modo geral, as favelas são ra ocupada ser ilegal (de propriedade
assentamentos com carência de servi- alheia) ou de o título de propriedade
ços públicos, de padrões urbanísticos dessa ocupação ter 10 anos ou me-
e de padrões de moradia. Todas essas nos. Além disso, se a ocupação estiver
características levam a uma grande “fora dos padrões vigentes - refletido
vulnerabilidade urbana. Além disso, por vias de circulação estreitas e de
os moradores das favelas destacam-se alinhamento irregular, lotes de tama-
por não serem nem proprietários nem nhos e formas desiguais e construções
locatários da terra. O IBGE (Instituto não regularizadas por órgãos públi-
Brasileiro de Geografia e Estatística) cos” (Ibid.) ou se houver precarieda-
passou a incluir favelas na contagem de dos serviços públicos essenciais no
de população em 1950, estabelecendo entorno dessas ocupações, estas se
aí critérios para a classificação des- configurarão como aglomerados sub-
se tipo de assentamento. Em 1990, o normais. Por fim, as categorias desses
órgão passou a chamar as favelas de aglomerados podem ser: “invasão, lo-
aglomerados subnormais. (PASTER- teamento irregular ou clandestino, e
NAK TASCHNER, 2006). Em 2010, o áreas invadidas e loteamentos irregu-
IBGE deu a seguinte definição para lares e clandestinos regularizados em
aglomerado subnormal: período recente”. (Ibid.).
É um conjunto constituído de, no Acredita-se que grande par-
mínimo, 51 unidades habitacionais te da população favelada tenha sido
(barracos, casas etc.) carentes, em sua subestimada em termos quantitati-
maioria de serviços públicos essenci- vos em função do critério relativo ao
ais, ocupando ou tendo ocupado, até tamanho do assentamento. Em 1987,
período recente, terreno de proprie- por exemplo, estimativas apontavam
dade alheia (pública ou particular) e que 21,93% da população favelada da
estando dispostas, em geral, de forma cidade de São Paulo habitava assen-
desordenada e densa. (IBGE, 2011). tamentos com menos domicílios que
os 51 estipulados pelo IBGE. (PASTER-
Ainda segundo o IBGE, um dos NAK TASCHNER, 2006).
33
Por outro lado, a capital pau-
lista também abriga favelas de gran-
de porte, como Paraisópolis (13.071
domicílios ocupados) e Heliópolis
(12.105 domicílios ocupados). (IBGE,
2011). Dados do Censo de 2010 apon-
tam que predominam em São Paulo
as favelas de pequeno porte em áreas
distantes do centro da cidade. O do-
Figura 7. Distribuição dos cumento Censo Demográfico 2010:
aglomerados subnormais no Aglomerados subnormais - Primeiros
município de São Paulo em resultados, elaborado pelo órgão após
2010. Fonte: IBGE, 2011. a divulgação do recenseamento de
2010, diz que, “diferentemente do Rio
de Janeiro, em São Paulo os aglomera-
dos são periféricos, distantes da área
central, e se localizam, principalmen-
te, na zona sul, na zona norte junto à
Serra da Cantareira, e próximos aos
limites com os Municípios de Guaru-
lhos, Ferraz de Vasconcelos e Mauá,
na zona leste”. (Ibid.).

Em 2010, havia 6.329 aglome-
rados subnormais em 323 municípios
brasileiros. 6% da população do país
(11.425.644 pessoas) morava nos aglo-
merados subnormais assim classifica-
dos pelo IBGE e 5,6% dos domicílios
particulares ocupados (3.224.529 do-
micílios) pertenciam a esses aglome-
rados. O estado de São Paulo reunia
sozinho 23,2% dos domicílios em
34
aglomerados subnormais assim classi- favelados cresceram a 8,18% anuais.
ficados pelo IBGE e 5,6% dos domicí- No período seguinte – entre 1991 e
lios particulares ocupados (3.224.529 2000 – os domicílios totais cresceram
domicílios) pertenciam a esses aglo- a 0,88% anuais, enquanto os favela-
merados. O estado de São Paulo dos tiveram uma taxa de incremento
reunia sozinho 23,2% dos domicílios anual de 4,18%. Entre 2000 e 2010,
em aglomerados subnormais do Bra- a taxa de crescimento anual do par-
sil. Na Região Metropolitana de São que domiciliar brasileiro foi 0,57%,
Paulo (RMSP), 11,00% da população enquanto a dos domicílios favelados
– ou 2.162.368 pessoas de um total atingiu 6,93%. (PASTERNAK TAS-
de 19.611.862 de habitantes – viviam CHNER; D’OTTAVIANO, 2015, p. 79).
em aglomerados subnormais. (IBGE,
2011). No âmbito da RMSP, os estu-
dos notaram que as aglomerações
Comparações entre diferen- subnormais seguiram a tendência
tes censos apontaram o crescimento nacional e também cresceram nas úl-
dos domicílios em favelas maior que o timas décadas. No entanto, se, até o
crescimento dos domicílios totais no censo de 2000, os domicílios em fa-
Brasil. Pasternak Taschner e D’Otta- velas cresciam mais nos municípios
viano (2015) afirmam que periféricos do que na capital, o censo
seguinte apontou que esse tipo de do-
em 1991, os aglomerados favelados, micílio passou a crescer mais rapida-
segundo o Censo Demográfico, eram mente na capital:
3.187; no ano 2000, atingiram 3.906
assentamentos e, em 2010, o Cen- A taxa de crescimento das casas fa-
so Demográfico contabilizou 6.329 veladas nos municípios periféricos
aglomerados. Assim como os aglo- foi bem maior que a dos domicílios
merados, os domicílios e a população favelados na capital entre 1991 e
favelada também vêm aumentando 2000 (quase o dobro). Já na déca-
desde 1980, a taxas maiores que a da seguinte, entre 2000 e 2010, a
população total. Entre 1980 e 1991, situação se inverte, mostrando que,
os domicílios totais para o país cres- apesar do crescimento da propor-
ceram a 3,08% ao ano, enquanto os ção de casas faveladas na periferia,
35
a taxa de crescimento na capital foi a expansão das favelas é o anel perifé-
enorme: 24% do crescimento abso- rico da cidade, em especial em zonas
luto das casas no Município de São de preservação ambiental. (PASTER-
Paulo foi devido ao crescimento das NAK TASCHNER, 2006). Mais recente-
unidades em favela. (PASTERNAK mente, áreas centrais da cidade tam-
TASCHNER; D’OTTAVIANO, 2015, p. bém passaram a ver a multiplicação
79). de favelas. Vale dizer que essas áreas
de preservação, conforme dito no ca-
Com base nos dados registra- pítulo 1 desse TFG, foram o berço da
dos em São Paulo ao longo das últi- urbanização de favelas em São Paulo.
mas décadas, conclui-se que a políti-
ca de urbanização e manutenção das No entanto, apesar do aumen-
favelas incentivou novas invasões e to de domicílios em aglomerados sub-
a consequente expansão das favelas, normais no Brasil como um todo – o
sendo que uma área de destaque para que pode apontar uma generalização
de um modelo precário de habitação
– é importante que se atente para o
registro de melhorias sensíveis nos in-
dicadores de serviços prestados nas
favelas brasileiras nas últimas déca-
das.Ainda que o IBGE considere que
o percentual dos serviços adequados
prestados nos aglomerados subnor-
mais de um município específico era
7
Quando se analisa a distribuição de energia elétrica, o IBGE
sempre menor que o percentual des-
considera como adequado aquele serviço oriundo de uma ses serviços adequados 7 oferecidos
distribuidora oficial e com medidor de uso exclusivo. No que em áreas regulares desse município
se refere ao abastecimento de água, este é adequado quan- (IBGE, 2011), o órgão vem registrando
do feito por rede geral de distribuição. Para o esgotamento um aumento na porcentagem de to-
sanitário, este será ideal se ligado à rede geral pluvial ou de dos os serviços que são prestados nas
esgoto ou se ligado a fossas sépticas. Por fim, a coleta de lixo favelas brasileiras.
é adequada se feita diretamente por serviço de limpeza ou se
feita em caçamba de serviço de limpeza. (IBGE, 2011). No que se refere à energia elé-
36
trica, 99,7 % dos domicílios possuíam
acesso a esse serviço em 2010, sendo
que 72,5% tinham um acesso adequa-
do. 95,39% dos domicílios brasileiros
realizavam uma coleta de lixo adequa-
da, enquanto a destinação do lixo das
demais 4,61% residências era consi-
derada inadequada. No que tange ao
esgotamento sanitário, 67,27% des-
pejavam seu esgoto adequadamente,
frente a um percentual de 32,73%
de inadequação. O abastecimento
de água no Brasil era adequado em
88,34% dos domicílios, enquanto em
11,66% das casas, esse abastecimento
era inadequado 8 . (Ibid.).

Antes de se constatarem mais


informações recentes sobre as fave- 8
Acerca desses dados, é importante fazer uma ressalva. Por
las paulistanas, é importante que se mais que o IBGE realize um trabalho de suma importância no
olhe para trás. Kowarick (1979, p. 89), que se refere à coleta de dados, em certas ocasiões, alguns de
seus critérios não ficam claros e podem ser postos em dúvida.
descreve características das favelas
A afirmação de que, por exemplo, 95,39% dos domicílios bra-
paulistanas observadas na década sileiros faziam uma coleta de lixo adequada em 2010 parece
de 1970. Chamava a atenção o fato um tanto exagerada, considerando-se que existem inúmeras
de que a maioria dos barracos (66%) favelas no Brasil não urbanizadas e que, portanto, em tese não
não tinha acesso à iluminação públi- dispõem de uma coleta ideal. Acredito que, por conta disso,
ca. 98% também não tinham acesso menos de 95,39% das casas brasileiras realizem de fato essa
nem ao esgotamento sanitário, nem a coleta.
fossas sépticas. A grande maioria dos
domicílios (80%) não tinha água en- 9
As informações estatísticas apresentadas por Lúcio Kowarick
canada e 80% também não possuíam constam no Orçamento 1976, da Prefeitura do Município de
coleta de lixo 9 . São Paulo.
37
A ideia de que a favela é re-
presentada pelo barraco de madeira e
de que a infraestrutura que a serve é
extremamente precária já não se con-
10
A fonte usada por Suzana Pasternak foi o Censo demográ-
firma tanto hoje em dia. Atualmen-
fico do IBGE de 2000. te, a maioria das casas é de alvenaria
(muitas vezes assobradada) e, como
já exposto, a maioria dessas residên-
Figura 8. Jardim Camarazal, São cias tem acesso a serviços adequados.
Paulo. Observar o espaço dedi- (PASTERNAK TASCHNER, 2006) 10
cado à circulação, na forma de Quanto à população da favela, cons-
uma estreita viela margeada por
casas de madeira. Fonte: o autor tata-se que esta é representada basi-
camente pelo trabalhador pobre, que
não consegue pagar o aluguel ou ficar
na casa de um parente. E essa popu-
lação tem cada vez mais bens indus-
trializados, uma vez que sua renda
cresce. (Ibid.). Segundo descreve MEI-
RELLES (2014, p. 160), “nas casas dos
assentados antigos, o espaço interno
revela as metamorfoses. Muitas vezes,
há TV de tela fina, com canais pagos e
computador com banda larga”. Assim,
o mito da população miserável é, aos
poucos, desfeito.

2.2 UM OLHAR URBANÍSTICO

Como é óbvio, a favela significa


uma condição de vida extrema-
mente precária. Em São Paulo, elas
38
estão localizadas, em áreas de lití-
gio, fundos de quintais, nas faixas
marginais de vias e córregos, em
terrenos ou construções tempora-
riamente abandonadas, áreas, en-
fim, que ainda não se destinaram
para um uso coletivo ou não ad-
quiriram um valor suficientemente
rentável para serem comercializa-
das. (KOWARICK, 1979, p. 89).

Em sua obra A espoliação ur-


bana (1979), Lúcio Kowarick descreve
a realidade de implantação das fave-
las. Nos anos 1970, dois terços dos
assentamentos estavam em terrenos 11
Um exemplo de favela em terreno nessa situação é o Jardim
suscetíveis a frequentes enchentes ou Edite, que é um assentamento localizado na Avenida Roberto
deslizamentos. Atualmente, muitas Marinho, na Zona Sul de São Paulo – área de bastante inte-
das favelas brasileiras continuam ao resse imobiliário. O seu projeto de urbanização foi executado
longo de rios e córregos ou em áreas em 2010 pelo escritório MMBB Arquitetos e pelo escritório
de grande declividade. Há favelas que H+F Arquitetos em 2010. A área está dentro do perímetro
ocupam terrenos invadidos de origem da Operação Urbana Consorciada (OUC) Água Espraiada.
tanto pública, quanto privada. Muitos Pode-se ter uma noção do quão interessante é para o mer-
dos terrenos ocupados, entretanto, cado imobiliário a área em que está o assentamento a partir
transformaram-se em glebas bastan- da descrição presente na internet: “O conjunto Habitacional
do Jardim Edite foi projetado para ocupar o lugar da favela de
te visadas pelo mercado imobiliário.
mesmo nome que se situava nesse que é um dos pontos mais
Isso ocorreu após a incorporação das significativos para o recente crescimento do setor financeiro
vizinhanças onde estão esses terrenos e de serviços de São Paulo: o cruzamento das avenidas Enge-
pela frente de expansão imobiliária 11 . nheiro Luís Carlos Berrini e Jornalista Roberto Marinho, junto
à ponte estaiada, novo cartão postal da cidade”. (Disponível
Além da questão de precarie- em: <http://www.archdaily.com.br/br/01-134091/conjunto-
dade de infraestrutura, outra carac- -habitacional-do-jardim-edite-slash-mmbb-arquitetos-plus-
terística fundamental das favelas é o -h-plus-f-arquitetos>. Acesso em: 05 jul. 2016.)
39
fato de estas não terem malha regular. algum retiro e privacidade. Na casa
Como as casas foram sendo constru- que, como árvore ergueu-se para o
ídas sem que houvesse uma demar- céu, agora ergueu-se um terceiro
cação de lotes ou um planejamento andar. Este tem reboco nas paredes,
viário, as favelas foram obedecendo a é um carinho, um respeito para os
uma disposição irregular, margeando petizes. (MEIRELLES, 2014, p. 156).
vielas e ocupando todos os pedaços
de terreno que estavam disponíveis. Quando se considera a inser-
ção urbana das favelas, o diagnóstico
Os chamados puxadinhos tam- varia. No caso de muitos assentamen-
bém são partes constantes do casario tos, “suas conexões com o resto da ci-
da favela. São extensões das casas ori- dade necessitam de aprimoramentos.
ginais, extensões essas que, de modo Muitas vezes, a favela é inexpugnável,
geral, são erguidas em pavimentos su- trama de fio fechado. Portanto, o ôni-
periores aos originais. Os puxadinhos bus e o trem fazem parada em ponto
costumam ser feitos à medida que as distante.” (MEIRELLES, 2014, p. 160). É
famílias vão crescendo e necessitam importante dizer que há muitas áre-
de mais cômodos em suas moradas. as encravadas em bairros nobres e/
O trecho abaixo descreve uma típica ou bem servidos de equipamentos –
casa de favela, cujo acréscimo no ter-
ceiro andar pode ser considerado um como Paraisópolis, no Morumbi, e a
puxadinho: Favela do Sapé, no Rio Pequeno. Toda-
via, há também favelas em bairros pe-
A favela empilha o tempo, como se riféricos e distantes de equipamentos
pode ver, por exemplo, em Paraisó- públicos – como as favelas situadas na
polis, na capital paulista. O térreo é região das represas Billings e Guarapi-
atrasado, coisa dos anos 1980, obra ranga, no extremo sul de São Paulo.
do casal. Há um segundo andar, De um modo geral, “mesmo com os
mais bem-acabado, cujas paredes avanços estruturais [nas favelas brasi-
exibem outro tipo de tijolo e juntas leiras nas últimas décadas], ainda fal-
medidas com esmero. É a dimensão tam à paisagem a creche, o posto de
dos filhos. No entanto, virado o saúde e a delegacia de polícia”. (MEI-
século, os netos também exigiram RELLES, p. 160).
40
No que se refere à vitalidade na obra Viver em risco: sobre a vul-
das ruas das favelas, os casos também nerabilidade socioeconômica e ci-
variam. Há áreas essencialmente resi- vil (2009), denota uma mudança de
denciais e, portanto, monofuncionais. perspectiva de Lúcio Kowarick sobre
Mas também há algumas favelas que a situação das favelas. Já citado pela
detêm algum comércio local, bem sua obra A espoliação urbana (1979),
como certo movimento de pessoas Kowarick revisita o tema da mora-
nas ruas. Sobre essas últimas áreas, dia precária na obra de 2009. É im-
cabe a descrição de Kowarick (2009, portante dizer que o autor enxerga
p. 223): tanto a favela dos anos 1970 quanto
a dos anos 2000 sob a ótica da pre-
cariedade. No entanto, assim como
Há enorme quantidade de mora- faz Pasternak Taschner (2006), Lúcio
dias em processo de construção, Kowarick enxerga melhoras nos indi-
reformas ou ampliações, nas quais cadores domiciliares das favelas, bem
também estão abundantemente como nos indicadores sociais de seus
presentes as antenas de televisão e, habitantes, melhorias es-sas que fo-
não raro, os automóveis estaciona- ram sendo observadas já ao longo dos
dos em garagens protegidas, como, anos 1990. (KOWARICK, 2009, p. 225).
aliás, estão também portas e jane-
las. Bares, pequenos armazéns, igre- Como consequência da melho-
jas, serviços de reparação e serviços ria geral das condições da população
pessoais de várias ordens e matizes, que habita as favelas – e, em especial,
conserto de máquinas e utensílios, das condições físicas dessas favelas
cabeleireiras, costureiras, transpor- – tem-se notado que muitas dessas
te de mercadorias, e, nos fins de áreas começaram a pas-sar pela ter-
semana, ambulantes, a pé, ou mo- ceira camada da produção do espaço
torizados, anunciam ruidosamente urbano, descrita por Yvonne Mautner
alimentos, roupas, inúmeros utensí- (1999) e intitulada por ela de entrada
lios domésticos, eventos religiosos, de capital. Nessa camada, já abordada
bailes e liquidações (...). no item 1.2 deste trabalho, o mercado
imobiliário passa a mirar áreas antes
A descrição anterior, presente por ele desprezadas. Uma ocorrência
41
típica dessa camada é a valorização Essa abordagem seria aquela
imobiliária pela qual as áreas visadas que Magnani (2002) intitula “de perto
agora passam. Não é objetivo des- e de dentro”. Seria um tipo de a apro-
te trabalho ir a fundo nessa questão, ximação etnográfica. A etnografia de-
mas, a título de ilustração, vale men- fendida por Magnani é um método
cionar a percepção de valorização que da antropologia urbana que objetiva
estudiosos tiveram ao se debruçarem estudar o ser humano, suas relações
sobre áreas como Paraisópolis, em São e seus fenômenos próprios dentro da
Paulo. Meirelles (2014, p. 160), relata cidade sob uma ótica que não prioriza
que “uma onda de carestia varreu o os atores sociais que estão a serviço
núcleo. Segundo a moradora, assiste- direto do chamado “capital e das for-
se a um boom imobiliário. ‘Hoje, tem ças do mercado”. (MAGANI, 2002, p.
casas custando até 200 mil reais aqui 15). A etnografia “de perto e de den-
em Paraisópolis’, informa, misturando tro” foca nos
o orgulho e a apreensão”.
moradores propriamente ditos,
que, em suas múltiplas redes, for-
2.3 UM OLHAR SOCIAL mas de sociabilidade, estilos de
vida, deslocamentos, conflitos, etc.,
As favelas também podem ser constituem o elemento que em de-
encaradas sob uma perspectiva que finitivo dá vida à metrópole, não
abarque não apenas o espaço consti- aparecem, e quando o fazem, é na
tuído, tampouco dados apenas quan- qualidade da parte passiva (os ex-
titativos. É possível estabelecer um cluídos, os espoliados) de todo o
canal de estudo que foque nos mora- intricado processo urbano. (Ibid.,p.
dores desse tipo de espaço e em suas 15).
relações, bem como nos fenômenos
oriundos desses moradores. Mais que Os moradores das favelas são,
isso, também se pode aprofundar a sem sombra de dúvida, um grupo de
abordagem da figura humana nas fa- “excluídos” sobre os quais a etnogra-
velas a partir de um olhar que se ori- fia defendida por Magnani se debruça.
gina internamente aos fenômenos ci- Ainda no que se refere ao método
tados. “de perto e de dentro”, vale dizer que
42
este se propõe a estudar “arranjos entre a legitimidade que a esfera so-
coletivos” dos moradores excluídos, cial da cidade como um todo impõe
cujo comportamento na paisagem dentro e fora periferias.
urbana “não é errático, mas apresen-
ta padrões”. (MAGNANI, 2002, p. 17). Um percurso que merece es-
Sendo assim, é bastante interessante pecial atenção é o do jovem Pedro.
discorrer sobre as favelas e seus habi- Menor de idade e morador de uma fa-
tantes considerando-se o método et- vela de Sapopemba, o menino enfren-
nográfico especificado. ta problemas de ordem pessoal, tais
como a morte de sua mãe e o alcoolis-
Um dos estudiosos que o faz mo do pai. A isso, soma-se a situação
de modo bastante interessante é Ga- financeira difícil da família, bem como
briel de Santis Feltran. Em sua obra as aspirações do menino – como ter
Fronteiras de tensão: política e vio- roupas de marca e outros bens de
lência nas periferias de São Paulo , Fel- consumo. Também pesam em sua vida
tran estuda a relação de instituciona- as tentações que o mundo do crime
lização do crime – também chamado oferece – tais como o acesso a armas,
pelo autor de “mundo do crime” na a dinheiro rápido e a objetos caros e
periferia da cidade de São Paulo. cobiçados. Como consequência de to-
das essas conjunturas, o menino acaba
O local da periferia específi- passando a praticar roubos e outros
co que o autor escolhe como objeto deli-tos. Seu primeiro assalto consiste
de estudo é a região de Sapopemba, em um roubo de automóvel e rende
Zona Leste da cidade. Ao acompa- a Pedro cerca de 150 reais, quantia
nhar casos de pessoas e de famílias do que o menino usa para comprar “um
bairro que, de algum modo, estiveram monte de coisas para casa”. (FELTRAN,
relacionadas com esse mundo, Feltran 2011, p. 71).
relata de perto e de dentro os percur-
sos de vida que moradores da perife- Posteriormente, o menino aca-
ria – inclusive da favela – fazem sobre ba sendo preso e internado na FEBEM
a tênue linha que demarca a separa- (Fundação Estadual do Bem-Estar do
ção entre a legitimidade das ações do Menor, atual Fundação CASA). Even-
crime no âmbito de seu território e tualmente, o garoto acaba deixando a
43
criminalidade. Mais do que a trajetó- é uma condição instituída em suas
ria de Pedro, é de grande importância vidas. A polaridade discursiva entre
nesse momento a análise que o autor eles também. (FELTRAN, 2011, p.
faz sobre a proximidade entre o mun- 91).
do do crime e os jovens da periferia:
Assim, Feltran faz um alerta
Na pesquisa de campo, mesmo os para uma característica que parece
jovens que nunca estiveram ins- inerente ao cotidiano do morador da
critos no mundo do crime – que periferia – incluindo-se o habitante da
representam a grande maioria da favela: o contato com a violência e o
população – não puderam se es- mundo do crime.
quivar de fazer referências a ele. O
modo como as fronteiras do crime As favelas surgem na etnogra-
se aproximam de suas famílias e de fia feita por Gabriel Feltran não ape-
seus circuitos sociais é múltiplo, nas como áreas cujos habitantes estão
mas sempre evidente. Às vezes, expostos a mazelas como a criminali-
eram amigos de escola, primos ou dade – assim como foi relatado pelo
irmãos que se envolviam em ativi- garoto Pedro – mas também como
dades ilícitas, sobretudo, o narco- áreas vistas como espúrias por habi-
tráfico. Outras vezes, pais, tios ou tantes dos seus arredores – habitantes
eles pró-prios recebiam convites esses que, mesmo não residindo nas
para participar de ações criminais favelas, também vivem de uma forma
e, invariavelmente, suas mães subli- ou de outra na periferia.
-nhavam o orgulho que sentiam por
ter filhos resilientes. Meninos e me- Para ilustrar essa situação, Fel-
ninas nascidos em famílias de baixa tran relata a história de Maria, dona
renda, nas periferias da cidade, nos de casa, mãe de três filhos e casada
anos 1990, sabem que o mundo do com um motorista de ônibus. Mora-
crime é um domínio com o qual, dora de Sapopemba, mas não resi-
querendo ou não, é preciso lidar. dente em nenhuma favela, a mulher
A coexistência entre as esferas em conta a Gabriel Feltran como viu seu
que vive-riam os trabalhadores e filho Jonatas se envolver com as dro-
um mundo do crime dos bandidos gas comercializadas nas favelas próxi-
44
mas à sua casa. Maria, a quem o bairro de, em alguns casos, coleta de esgoto.
não agrada, refere-se às favelas como Equipamentos como creches e unida-
áreas ligadas ao tráfico e ao consumo des básicas de saúde também foram
de drogas. O fato de adentrar nessa implantadas em muitas comunidades.
área causava inclusive medo e aflição Segundo Cruz e Feltran (2014), tal
na mulher. (FELTRAN, 2011, p. 121). fato deveu-se à ampliação gradativa
Na concepção de Feltran, a família de de diversas políticas sociais estatais.
Maria é um núcleo de trabalhadores No entanto, para os mesmos autores,
(nomenclatura usada por Feltran para há hoje uma dura contradição nas pe-
descrever as pessoas opostas aos ban- riferias, em especial naquela que eles
didos) que foi exposta ao crime da estudam, que é a de São Paulo. A con-
periferia, de modo a desenvolver re- tradição reside no fato de que, se por
lações profundas e diretas com esse um lado ocorre a já citada ampliação
mundo. das políticas sociais por parte do Esta-
do, essa mesma instituição tem passa-
Frente aos relatos de violência do a tratar os moradores da periferia
e criminalidade que emanam da peri- – inclusive os habitantes das inúmeras
feria (inclusive das favelas), é natural favelas – como caso de polícia. Assim,
que surjam perguntas a respeito do o Estado estaria ganhando contornos
que teria levado a tal situação. Cruz e claros de repressão, especialmente a
Feltran (2014) alegam ter sido adota- partir dos anos 1990.
da uma postura repressora do Estado
para com os moradores da periferia. Esse processo contraditório
No entanto, essa postura teria vindo tem início nos anos 1970, que viram
acompanhada da provisão de diversos o inchaço gigantesco das metrópoles
tipos de equipamentos e serviços nes- brasileiras, que, por sua vez, recebe-
sa área. ram migrantes que logo se instalaram
nas periferias. A década seguinte viu
Os autores contam que, ao um esforço de organizações sociais
longo do século XX, as favelas foram oriundas de movimentos populares
ganhando elementos de infraestru- no que se refere à luta por direitos
tura, tais como rede elétrica e siste- sociais. Já os anos 1990 viram a crise
mas de abastecimento de água, além econômica, que empobreceu a mui-
45
tos e salientou as desigualdades. Além assaltar e algumas vezes até a matar
disso, nessa década, a reforma penal para pagar aos que os ameaçam de
ocasionou o aumento de prisões no morte, caso não consigam saldar a
Estado de São Paulo, o que caracteri- dívida. (...) Mui-tos deles acabam se
zou uma diminuição imediata na cri- tornando membros de quadrilhas
minalidade por meio da ação repres- – seja para pagarem dívidas, seja
sora do Estado. Como consequência, para se sentirem mais fortes diante
as prisões lotadas tornaram-se escolas dos inimigos criados, seja ainda por
nas quais os professores eram as fac- ‘fascínio’, ‘euforia’ e ‘ilusão’, como
ções criminosas. Do lado de fora das eles próprios denominam a atração
cadeias, muitos dos socialmente me- que as quadrilhas exercem sobre
nos favorecidos apoiaram-se em ati- eles. (ZALUAR, 2003, p. 214).
vidades econômicas ilícitas – quando
não criminosas – para sustentarem- Ainda segundo a autora, em
-se. (CRUZ; FELTRAN, 2014). Dessa linhas gerais, a justificativa para o au-
maneira, “nos anos 2000, as famílias mento do crime tem explicações dis-
pobres contam, então, com realidades tintas. Uma delas passa pela ideia de
urbanas providas de políticas públicas conflito social e de incapacidade insti-
nas áreas da saúde, assistência social, tucional de lidar com ele. A partir daí,
educação e infraestrutura; ao mesmo surgem os movimentos conservado-
tempo, há cada vez mais presença do res que pedem punições mais duras
‘crime’ nos cotidianos. Daí o paradoxo e governos fortes e, por outro lado,
a se compreender.”(Ibid., p. 128). surgem as correntes de esquerda, que
chegam a defender que a miséria cau-
Cabe entender melhor o que sa a desordem ou ainda que uma revo-
houve do lado de fora das prisões pau- lução estaria próxima – o que poderia
listas e de outras cidades brasileiras. legitimar organizações como o Co-
Como dito, os desfavorecidos apoia- mando Vermelho (crime organizado
ram-se em atividades economicamen- o Rio de Janeiro) como agentes dessa
te ilícitas. Segundo Zaluar (2003), revolução. Há ainda os que afirmem
que o aumento dos crimes contra a
os jovens que começam como usuá- propriedade e da violência contra a
rios de drogas são levados a roubar, pessoa é reflexo de pobres contra ri-
46
cos e contra o Estado opressivo. (Ibid., sumo de drogas entre os jovens. Em
p. 216). contrapartida, os moradores das fave-
las apoiam os traficantes, não os de-
Para Leeds (2003), a redemo- nunciando a uma polícia que muitas
cratização na América Latina (inclusi- vezes destrata a comunidade. Por fim,
ve no Brasil) ocorreu atrelada a: 1) o os traficantes impõem seu próprio
enfraquecimento de movimentos so- código (justiça alternativa), punindo
ciais antes fortalecidos; 2) a reestru- infratores de suas favelas e ditando
turação econômica dos países da re- quem pode lá praticar a violência. (LE-
gião, que implicou compromissos com EDS, 2003, p. 244).
a dívida externa, corte de gastos em
áreas cruciais e aumento da pobreza; Leeds (2003) sustenta a partir
3) à ausência de atuação do Estado; 4) de estudos de outros autores o fato
à permanência de uma polícia estatal de que o banditismo prospera mundo
repressora e 5) ao desenvolvimento e afora em situações peculiares em que
ganho de poder de organizações al- sua área de atuação é majoritariamen-
ternativas ao Estado, como ONGs e, te inacessível e onde há ineficiência e
principalmente, o tráfico de drogas. complicação administrativa. Em ter-
Assim, a autora explica o que teria mos de representação política, muitos
acarretado a conjuntura atual na peri- traficantes cooptam os líderes das as-
feria brasileira. sociações de moradores ou mesmo se
elegem como ocupantes dessas fun-
Atualmente, o tráfico absorve ções como forma de se legitimarem.
nas favelas a população que em geral Como consequência, as associações
tem poucas chances de se integrar ao de moradores correm o risco de per-
mercado formal e qualificado de em- der o papel de mediadoras junto ao
prego. Além disso, um “bom” chefe do Estado, o que dificulta o desenvolvi-
tráfico mantém boas relações com a mento da democracia local nas fave-
comunidade na qual está promovendo las.
e financiando atividades que gerem o
bem-estar da população favelada e, Voltando ao contexto paulista,
ao mesmo tempo, desestimulando a Cruz e Feltran defendem que, se nos
violência gratuita e até mesmo o con- anos 1980, o conflito das periferias
47
paulistanas esteve pautado pela in- tamos, a violência seja parte in-
tegração dos trabalhadores, hoje ele tegrante de nossa cultura, ao lon-
se constitui a partir da eliminação go da his-tória de nossas cidades
dos bandidos do convívio social. Esse construímos a ideia de que existe
modo repressor de agir atinge em “o lugar” da violência: esse lugar
cheio os jovens da periferia, que po- seria a favela. Desde os tempos da
dem ser vistos como potenciais traba- primeira República, as favelas são
lhadores, consumidores ou membros vistas como lugar sem norma nem
do crime. “As periferias urbanas, que lei e, portanto, espaço propício
sempre estiveram no centro da ques- para acolher desordeiros, bandidos
tão urbana – ora como inovação polí- e criminosos. Essa ideia termina
tica a integrar, ora como violência letal justificando que, por exemplo, no
a controlar – parecem agora oferecer afã de combater o tráfico, a polícia
os parâmetros contraditórios, por ex- entre nas casas de moradores de fa-
celência, que regem a cidade contem- velas arrebentando tudo, atirando
porânea.” (CRUZ; FELTRAN, 2014, p. e deixando vítimas pelo caminho.
132). (ROLNIK, 2015, p. 316).

Cabe, nesse momento, fazer Não é objetivo desse TFG dis-


uma reflexão sobre a relação entre a correr sobre ações estatais de com-
favela brasileira e o “mundo do crime”. bate ao crime nas favelas no Brasil.
Existe de fato uma presença maior do Mascabe ao menos explicitar essas
crime e da violência na favela. Mas ações para que estas sejam, even-
essa presença acaba por retroalimen- tualmente, discutidas e repensadas.
tar a imagem que se faz desse espaço
– enquanto ambiente nocivo à socie- Além de ser possível enxer-
dade como um todo – e, consequen- gar as favelas sob a ótica do crime,
temente, serve de justificativas para há outras maneiras de se observar
a deflagração de certas intervenções esses assentamentos. Uma das for-
traumáticas nessas áreas por parte do mas reside na perspectiva cultural. A
Estado. Como explica Raquel Rolnik: cultura produzida e reproduzida no
espaço das favelas diz muito sobre
Embora, como já comen- hábitos, valores e visões de mundo
48
compartilhados pela sua população.
Por exemplo, o fato de o estilo musi-
cal preferido entre os moradores das
favelas ser o gospel 12 já indica a forte
presença do cristianismo evangélico
nessas áreas 13 .

Dados sobre a interação social


dos habitantes das favelas também
demonstram hábitos caros a esses
moradores e, em última análise, dão
pistas sobre seu modo de vida. A tí-
tulo de exemplificação, vale observar
que 89% dos moradores que haviam
promovido um churrasco nos trinta
dias anteriores à pesquisa Radiografia
das Favelas Brasileiras (ver nota de ro-
dapé 12) fizeram-no dentro das pró-
prias favelas pesquisadas. (MEIREL-
LES, 2014, p. 113). Dos que jantaram
fora por lazer durante o intervalo de 12
Esse dado foi coletado e apresentado por pesquisadores
tempo considerado, 55% realizaram a do Instituto Data Favela e consta na pesquisa Radiografia
refeição dentro do seu assentamento das Favelas Brasileiras (2013). A transcrição de vários dados
(Ibid.). dessa pesquisa está presente no livro Um país chamado fa-
vela (2014), escrito por Renato Meirelles e Celso Athayde.
63% das pessoas que frequen- Esse livro foi a fonte consultada por esse Trabalho Final de
taram festas naquele período foram Graduação para todas as informações referentes à pesquisa
a eventos desse tipo dentro da favela mencionada.
onde residiam (Ibid.). Isso demonstra 13
Embora o samba ainda seja, junto com o pagode, o estilo
como uma porcentagem expressiva mais escutado por esses moradores (50% deles decla-raram
das interações sociais dos moradores ouvir esses estilos), 27% dos entrevistados gostam mais do
da favela foi feita dentro de suas pró- gospel, enquanto 17% preferem o samba (MEIRELLES, 2014,
prias favelas. p 108).
49
onde residiam (Ibid.). Isso demonstra suas favelas – o que levaria à opção
como uma porcentagem expressiva primeira por lugares nessas áreas em
das interações sociais dos moradores detrimento de lugares em outras re-
da favela foi feita dentro de suas pró- giões de suas cidades – ou o precon-
prias favelas. As possíveis razões se- ceito que esses moradores sofrem ao
riam a identificação desses moradores irem a eventos sociais fora de suas fa-
com suas favelas – o que levaria à op- velas.
ção primeira por lugares nessas áreas
em detrimento de lugares em outras Além das estatísticas já apre-
regiões de suas cidades – ou o pre- sentadas cabe ainda dizer que 77%
conceito que esses moradores sofrem dos bares e botecos visitados nesse
ao irem a eventos sociais fora de suas tempo pelos habitantes das favelas
favelas. pesquisadas estavam dentro do assen-
tamento onde seus frequentadores
Além das estatísticas já apre- residiam. No que se refere a boates,
sentadas cabe ainda dizer que 77% bailes e baladas, apenas 29% dos mo-
dos bares e botecos visitados nesse radores das favelas que frequentaram
tempo pelos habitantes das favelas esses lugares fizeram-no sem sair de
pesquisadas estavam dentro do assen- sua favela. 31% deles deslocaram-se
tamento onde seus frequentadores com esse objetivo para bairros próxi-
residiam. No que se refere a boates, mos e 40% dos entrevistados acaba-
bailes e baladas, apenas 29% dos mo- ram indo para boates, bailes e baladas
radores das favelas que frequentaram de bairros distantes (Ibid.). Isso pode
esses lugares fizeram-no sem sair de demonstrar a falta de opções de en-
sua favela. 31% deles deslocaram-se tretenimento desse tipo dentro das
com esse objetivo para bairros próxi- favelas.
mos e 40% dos entrevistados acaba-
ram indo para boates, bailes e baladas Segundo Meirelles (2014, p.
de bairros distantes (Ibid.). Isso pode 114), a presença de forças policiais os-
demonstrar a falta de opções de en- tensivas em algumas favelas do Rio de
tretenimento desse tipo dentro das Janeiro já na época de coleta desses
favelas. As possíveis razões seriam a dados foi associada à paralisação de
identificação desses moradores com atividades culturais e de entreteni-
50
mento nessas áreas. A razão é que o
tráfico de drogas, antes presente mais
ativamente nesses lugares, acabou ar-
refecendo e, assim, parou de financiar
atividades culturais (como bailes funk,
etc.). Isso teria deixado um vácuo de
entretenimento nas favelas menciona-
das.

Por fim, dados sobre hábitos


como leitura denotam a exclusão cul-
tural e educacional pela qual muitos
moradores das favelas passam. 38%
das casas das favelas pesquisadas não
possuem um livro se-quer. 35% deles
têm de um a dez livros. 26% das casas
possuíam mais de dez livros. Enquanto
isso, nas moradias fora das favelas, o
número de residências que armazena-
vam mais de dez volumes correspon-
dia a 35%. (MEIRELLES, pp. 115-116).
3
A FAVELA
DO SAPÉ
52
3.1 DADOS GERAIS

Localizada no Distrito Rio Pe-


queno 14 , a Favela do Sapé começou a
se formar por volta dos anos 1970. A
ocupação deu-se ao longo do córrego Início da
homônimo, entre a Rodovia Raposo Ocupação
Tavares (a montante) e a Avenida Es- 1970 (ca.)
cola Politécnica (à jusante). A distân-
cia entre os dois extremos do Sapé é Município
de aproximadamente 1.000 metros. São Paulo
A área total da favela corresponde a
cerca de 83.225 metros quadrados,
Subprefeitura
sendo que, nessa área, residiam 7.598
pessoas – o que correspondia a 2.362 Butantã
famílias – antes das obras de urbani-
zação. A favela está numa Zona Espe- Distrito
cial de interesse Social – ZEIS 1. Rio Pequeno

Quando se leva em considera- População*
ção a inserção urbana da comunida- 7.598 habitantes
de, nota-se que esta está no coração
de um distrito de classe média, com Área
uma boa oferta de equipamentos pú-
Aproximada
blicos e com boa acessibilidade viária.
As principais vias de acesso são as já 83.225 m
citadas Rodovia Raposo Tavares e a *estimativa anterior às remoções para
Avenida Escola Politécnica, bem como obras de urbanização
a Avenida Rio Pequeno. Ao longo des-
sa última via, concentra-se um im- A título de ilustração, vale mencionar que, segundo o Censo
14

portante comércio de bairro. Um dos Demográfico do IBGE de 2000 (in: PASTERNAK TASCHNER,
principais equipamentos públicos nas 2006, p. 192), 20,52% da população do Rio Pequeno habitava
cercanias é o CEU Butantã. domicílios em favelas, inclusive a do Sapé.
53

Figura 9. Localização da Subprefeitura Butantã e do Distrito Rio Pequeno no Município de São Paulo.. Elaboração: o autor.

Em 2004, a Prefeitura emitiu A licitação para as obras de


1.275 certificados de posse de terra urbanização do assentamento ocor-
como processo parcial de Regulariza- reu em 2010. A selagem da área foi
ção Fundiária. A área onde esses cer- realizada no ano seguinte. Conside-
tificados foram emitidos foi o Sapé 1, rou-se que as famílias removidas por
parte de uma divisão que contempla- risco e para as obras de infraestrutura
va ainda as áreas 2, 3 e 4 (que não fo- seriam a demanda habitacional, a ser
ram incluídas nesse programa). reassentada na própria área e em uma
área de provisão próxima (situada à
54

Figura 10. Inserção Urbana da Favela do Sapé. Elaboração: o autor.

Rua Domênico Martinelli). As obras de respondente à área chamada de Sapé A)


urbanização na Favela do Sapé foram foi entregue em 2015. Atualmente, es-
iniciadas em 2012 e parte delas (cor- tão em andamento as obras do Sapé B.
55

Figura 11. Figura 12. Divisão do Sapé em Sapé 1, 2, 3 e 4. Fonte: SÃO PAULO, 2011.

Figura 12. Localização da Favela do Sapé no Distrito Rio Pequeno. Elaboração: o autor.
56
3.2 DIAGNÓSTICO FÍSICO morei 26 anos. Eu levei enchente, eu levei en-
chente que o meu fogão, a água passava em
cima do meu fogão. Eu cheguei a levar en-
chente que eu perdia tudo, tudo, tudo, tudo,


Quando eu cheguei aqui, não tinha
barraco na frente do rio. Tinha barraco, mas
era pouco. Aí, foi passando os anos e foi cres-
tudo, tudo....água subia, destruía tudo, acaba-
va com tudo. E barraco também.... Na época
que eu vim morar aqui, não tinha os barracos
cendo, crescendo, crescendo. A beira do rio em cima do rio. Era só.... A favela era só do


foi aumentando. A beira do rio foi aumentan- rio pra lá.
do e chegou um ponto em que não tinha mais
aonde construir mais nada.
” Falas de moradores da Favela do Sapé em conversas infor-
mais com o autor.


Do ponto de vista de quando eu vim
morar aqui, era tudo mal-acabado, era esgoto
a céu aberto.... Esse rio.... Não tinha rio, era
totalmente assoreado. Qualquer chuvinha, a “
A questão do esgotamento ali, de ter
tirado, de ter limpado o córrego, canalizado....
Eu acho que dá uma melhora na condição de
água subia, destruía tudo, acabava com tudo.
E barraco também.... Na época que eu vim saúde das famílias de no mínimo uns 70%. Era
morar aqui, não tinha os barracos em cima do
rio. Era só.... A favela era só do rio pra lá. Do
lado de cá, na rua própria, na Waldemar [Ro-
muito ruim.

Fala de uma assistente social envolvida na urbanização da
berto], não tinha barraco ainda. Na época em Favela do Sapé em conversa informal com o autor.
que eu vim morar aqui. Depois, é que foi se
construindo. Acho que, pelo déficit habitacio-
nal. Aí, o pessoal foi fazendo os barracos do Uma das grandes questões da
lado de cá. Aí, depois, se proliferou e fechou Favela do Sapé era a construção das
casas em área muito próxima ao Cór-

até a via.
rego do Sapé ou mesmo acima dele,
de modo que o risco de enchente em


áreas residenciais era iminente. De-
A minha casa era na beira do rio. Eu
vido a esse risco, a Subprefeitura do
57
Butantã realizou 3 grandes remoções
nos anos de 2008, 2009 e 2010 nas
áreas mais vulneráveis sob esse ponto
de vista.

Além dessa questão, o Sapé


contava com muitos domicílios de
madeira (barracos e palafitas). Entre
março e maio de 2011, foi feita uma
pesquisa coordenada por HABI (Supe-
rintendência de Habitação Popular) da
SEHAB (Secretaria Municipal de Habi-
tação), que considerou 2.427 imóveis
(67 não residenciais e 2.360 residen-
ciais 15 ). 2.267 famílias responderam
às perguntas. Os dados apresentados
nos itens 3.2 e 3.3 deste Trabalho Final
de Graduação, bem como os gráficos
expostos nesses itens foram retirados
do relatório intitulado Projeto Social
de Trabalho, de autoria da Secretaria
Municipal de Habitação de São Paulo.
Nesse relatório, verificou-se que 87%
das casas eram de alvenaria, enquan-
to a expressiva porcentagem de 9,8%
correspondia a madeira. 2.9% são mo-
radias de material misto, 0,2 % são de
outros materiais e 0,2% das casas não
tiveram sua composição informada
15
Em um conversa posterior com técnicos da SEHAB, veio a (ver gráfico 1).
informação de que o número de imóveis residenciais com o
qual a secretaria estava trabalhando havia sido atualizado para No que se refere aos tipos
2.362. de ligações de energia elétrica, 4,3%
58

Gráfico 1. Materiais constituintes dos domicílios da Favela do Sapé em 2011. Fonte: SÃO PAULO, 2011.

das moradias possuíam ligações fei- feitas diretamente do poste, também


tas com medidor individual de ener- conhecidas como gatos ou gambiar-
gia elétrica e 4,9% são realizadas com ras, estavam 78,7% das casas. 9,0%
medidor coletivo. As ligações elétricas declararam emprestar dos vizinhos, e
59

Gráfico 2. Tipos de ligação de energia elétrica nos domicílios da Favela do Sapé em 2011. Fonte: SÃO PAULO, 2011.

1% não sabem, não possuem energia As ligações de água eram, as-


elétrica ou deram outra resposta. 2,1% sim como as ligações elétricas, em
que não forneceram essa informação sua maioria clandestinas. 9,8% dos
(ver gráfico 2). domicílios tinham ligação individual
60

Gráfico 3. Tipos de ligação de água nas casas da Favela do Sapé em 2011. Fonte: SÃO PAULO, 2011.

e 18,6% possuíam ligação coletiva. A pesquisa indicou que o es-


61,7% das ligações eram clandestinas coamento sanitário da favela também
e 7,4% dos domicílios a emprestam de está em condições de precariedade.
vizinhos (ver gráfico 3). 1,4 % dos domicílios estão ligados à
61

Gráfico 4. Tipos de drenagem sanitária na Favela do Sapé em 2011. Fonte: SÃO PAULO, 2011.

rede pública de esgotos, sendo que Dos domicílios pesquisados,


1,1% são ligações individuais e 0,3% a 84,8% jogam o esgoto diretamente
coletivas. no córrego e 8,4% despejam-no a céu
62

Gráfico 5. Destinação do lixo na Favela do Sapé em 2011. Fonte: SÃO PAULO, 2011.

aberto. Além disso, 2,1% drenam o es- formar.


goto em rede construída pelos mora-
dores, enquanto 2,1% não declararam A destinação do lixo foi o único item
e 1,1% não possuem ou não sabem in pesquisado que não demonstrou pre-
63
cariedade. 94,7% dos domicílios de-
clararam dispor de algum tipo de
coleta domiciliar. 48,8% do total de-
clararam contar com coleta na porta
e 45,9% afirmaram ter coleta em ca-
çamba. 1,2% dispõe o lixo na rua e ou-
tros 1,2% dos domicílios despeja seu
lixo no córrego. 2,1% não informaram
e 0,8% declarou utilizar outros meios.
A pesquisa consultada, no entanto,
observa que, dado o volume de resí-
duos no córrego em 2011, tinha-se a
impressão de que esses dejetos pro-
vinham de mais domicílios do que o
apurado nas pesquisas.

3.3 DIAGNÓSTICO SOCIAL



Figura 13. Sapé antes das obras
A gente fez lá o levantamento da pes-
de urbanização. Fonte: SÃO
PAULO, 2011.. quisa e, com os dados da pesquisa cadastral –
que foi censitária e entrevistou todo mundo
–, a gente levantou que era uma área extre-
mamente vulnerável. Pela condição de renda,
de trabalho, de escolaridade, pelo número de
crianças.... Era uma população extremamente
vulnerável.


No Sapé, (...) a maioria das famílias
não estava inserida em programas, que tinha
64
muita dificuldade, muita criança fora de cre- Mínima e 0,3% receberam o Bolsa Fa-
che, muita criança com problema de escola, mília em conjunto com o Renda Cida-
muito jovem adolescente ocioso....
” dã (ver gráfico 6).

Os valores recebidos por es-


Falas de uma assistente social envolvida na urbanização da
Favela do Sapé em conversa informal com o autor. sas poucas famílias que tinham acesso
a algum programa eram baixos. Para
57,4% das famílias que recebiam al-
De um modo geral, observou-se que a gum valor, as cifras variavam entre 0 e
população da Favela do Sapé de antes 0,25 salário-mínimo 16 . Para 33% delas,
das obras de urbanização apresenta- o benefício se situava entre mais de
va condições gerais de vulnerabilida- 0,25 salário-mínimo e 0,5 dele. 9% das
de muito ruins. Os fatores que leva- famílias recebiam entre mais de 0,5 e 1
ram a essa avaliação foram os baixos salário-mínimo mensal.
níveis de renda e escolaridade das
famílias que habitavam a favela, bem Já no que se refere à renda fa-
como a composição dessas famílias – miliar 17 dos moradores do Sapé, pou-
composição essa que implicava mui- co mais da metade das famílias (51,5%
tas crianças – e a baixa inserção dos delas) recebem de 0 a 2 salários-mí-
moradores originais em programas de nimos por mês. Dentro desse grupo,
atendimento governamental – como 16% ganham de 1,5 a 2 salários-míni-
o Bolsa Família e o Renda Mínima. mos, 19,2% recebem entre 1 e 1,5 salá-
rios-mínimos e 13,5% ganham de 0,5 a
No que se refere aos progra- 1 salário-mínimo. 5,4% deles não con-
mas governamentais, 85% das 2.267 tam com renda alguma (ver gráfico 7).
famílias afirmou não ter recebido ne-
nhum tipo de benefício nos anos an-
teriores às obras. Considerando-se o
total de famílias entrevistadas, 7,1%
delas declararam ter recebido o Bolsa 16
O valor do salário-mínimo considerado era R$ 510,00.
família, 3,6% afirmaram ter recebido
o Renda Mínima, 3,0% tiveram acesso Por renda familiar, entende-se a soma de todos os rendi-
17

conjunto ao Bolsa Família e ao Renda mentos percebidos por todos os membros da família.
65

Gráfico 6. Famílias conforme tipo de programa governamental na Favela do Sapé em 2011. Fonte: SÃO PAULO, 2011.

22,1% das famílias ganham entre 2 e 3 níveis mais altos, pertencem 8,9% das
salários-mínimos e 12% recebem de 3 famílias, sendo que 4,9% delas ga-
a 4 salários-mínimos, o que configura nham entre 4 e 5 salários-mínimos e
os estratos médios de renda. Aos dois 4% recebem mais de 5 salários-míni-
66

Gráfico 7. Distribuição das familias segundo classes de renda familiar em salários-mínimos na Favela do Sapé em 2011. Fonte: SÃO
PAULO, 2011.

mos e 4% recebem mais de 5 salários- Segundo o relatório elabora-


-mínimos. do pela SEHAB, os rendimentos das
67
Gráfico 8. Nível de Instrução por Classe de Rendimento na Favela do Sapé em 2011. Fonte: SÃO PAULO, 2011.

famílias no Sapé equiparam-se aos de 126 famílias declararem não ter renda
outras favelas da cidade de São Paulo. alguma.
Em geral, uma expressiva das famílias
moradoras de favelas paulistanas re- Quando se consideram os ní-
cebe no máximo até 3 salários míni- veis de instrução dos chefes de família
mos segundo o relatório, que ressalta da Favela do Sapé, constata-se que a
também o fato de aproximadamente maioria deles possui baixos níveis de
68
instrução. 54,3% deles contam com população da favela que estava em
até o Ensino Fundamental Incompleto, situação de risco (deslizamento ou
18,6% cursaram o Fundamental Com- enchente) e que foi removida para
pleto ou até Ensino Médio Incomple- o início das obras de urbanização. A
to, 14,9% completaram o Nível Médio segunda coluna se refere aos demais
e apenas 1,7% chegaram ao Ensino Su- moradores do Sapé, que permanece-
perior Completo e Incompleto. 10,5% ram em suas casas enquanto as obras
do total nunca estudaram (ver gráfico se iniciavam.
8).
Segundo o relatório, quando
Nota-se que em todos os ní- da pesquisa, o Sapé possuía 7.598 re-
veis de rendimento os graus de ins- sidentes, o que “resulta uma média
trução são em geral baixos. Dos que de 3,3 pessoas por domicílio, índice
ganhavam até 0,5 salário mínimo, 57% inferior ao identificado na pesquisa
possuíam grau fundamental incom- realizada pela Fundação Seade para
pleto. Olhando-se um nível maior de a Secretaria Municipal de Habitação
instrução, nota-se que a remuneração (2008) numa amostra de favelas, nú-
continua baixa. Segundo dados do re- cleos urbanizados e loteamentos irre-
latório de SEHAB, dentre os que ga- gulares, que registrou uma média de
nhavam mais de 3 salários mínimos, 3,8 pessoas por família”. (SÃO PAULO,
72,7% não terminaram o ensino fun- 2011).
damental.
Ainda segundo informações
Outro indicador analisado fo- do relatório, no Sapé “os menores de
ram as classes de idade dos morado- 20 anos representam 45% da popula-
res da Favela do Sapé antes do início ção mostrando um perfil mais jovem
das obras de urbanização (ver tabela que o detectado na pesquisa da Seade
1). (2008) em assentamentos precários
(38%)”. (Ibid.) Além disso, “chama
A tabela constante no relató- também a atenção à baixa propor-
rio de SEHAB mostra duas colunas ção de pessoas com 60 anos ou mais,
principais: a de 04/04/2011 e a de 3,6%, enquanto na referida pesquisa é
15/12/2010. A primeira é referente à de 6,8%”.
69

Tabela 1. Classes de idade se-


gundo a área de pesquisa na
Favela do Sapé em 2011. Fonte:
SÃO PAULO, 2011.
70
Se, por um lado a população gente pensou que o projeto deveria pensar
da Favela do Sapé com mais de 60 nessa conexão. Então essa conexão tinha al-
anos – considerada vulnerável – é re- guns layers. Ela era um projeto que pensaria a
lativamente baixa, a porcentagem de conexão física, então pensaria em quarteirões
menores de 20 anos – também con- que pudessem ser separados e associados a
siderada vulnerável – é grande. Esse travessias, a vielas de passeio, a ruas, etc. A
fato, acrescido à baixíssima renda de gente foi pensando uma hierarquia de espa-
grande parte dos moradores do Sapé, ços que pudessem transpor a favela principal
ao seu baixo nível de instrução (que
implica pouca chance de mobilidade
ascendente de renda) e às precarieda-
no sentido transversal dela.

Fala de Marina Grinover, arquiteta e urbanista que integrou
des físicas originais da favela – como a equipe responsável pelo projeto de urbanização da Favela
a grande incidência de domicílios de do Sapé (em conversa com o autor).
madeira, a pouca oferta de infraes-
trutura e serviços públicos, além dos
riscos frequentes de enchentes – de-
monstram a grande vulnerabilidade O projeto de urbanização da
da comunidade como um todo. Essa Favela do Sapé começou a ser feito
vulnerabilidade deu-lhe prioridade de em 2010 pela equipe do escritório
intervenção, que começou a ser de- Base Urbana e pelo escritório Pessoa
senhada em 2010 enquanto projeto, a Arquitetos. O projeto paisagístico foi
ser tratado no próximo item. desenvolvido pelos mesmos escritó-
rios e pelo arquiteto Oscar Bressane.
Uma das profissionais à frente do pro-
3.4 O PROJETO DE jeto como um todo foi a arquiteta e
URBANIZAÇÃO urbanista Marina Grinover, cujas falas
foram reproduzidas acima.
A necessidade de conexões físicas Dadas as precárias condições
e sociais socioeconômicas dos moradores da
Favela do Sapé, bem como os pro-

A favela [do Sapé] era espacialmen-
te uma grande divisão entre bairros. Então a
blemas urbanísticos e infraestrutu-
rais pelos quais a área passava antes
71
das intervenções, a principal meta de
projeto que Marina Grinover e seus
colegas esboçaram foi a inclusão dos
habitantes do Sapé e, por extensão, da
favela em si ao meio urbano 18 .

Para tal, a equipe identificou


uma das grandes questões que guia-
riam o projeto: a necessidade de se es-
tabelecerem conexões físicas e sociais
entre os moradores do assentamento
e o entorno – que, em última análise,
representa a cidade como um todo.
No que se refere às conexões físicas, o
grupo de profissionais entendeu que
o Sapé – que se estende longitudinal-
mente pelas margens do córrego ho-
mônimo por cerca de 1,5 km – acaba-
va por servir como um impedimento
físico à transposição desse córrego e,
consequentemente, à conexão entre
duas partes adjacentes do Rio Peque-
no.

Assim, conceberam-se traves-


sias tanto de pedestres quanto de au-
tomóveis sobre o córrego. Também
18
As informações constantes nesse item têm como base as se pensou na melhoria das vielas, que,
falas de moradores do Sapé, de Marina Grinover e de ou- em sua maioria, cortam a favela trans-
tros profissionais ligados ao projeto de urbanização da favela, versalmente e, quando consideradas
além de se basearem em anotações de uma aula que Marina em conjunto comas transposições so-
Grinover deu sobre o projeto desenvolvido para o Sapé na bre o córrego, configuram um sistema
FAU-USP em abril de 2016. que conecta as duas margens desse
72

Figura 14. Sapé ao longo do córrego homônimo. Observar as transposições propostas sobre esse córrego (em ama-relo e laranja). Fonte: Base Urbana.
73
curso d’água.

É importante dizer que, para a


implantação das novas conexões e das
melhorias das vielas, foi ne-cessário
remover alguns domicílios da favela.
A canalização do córrego – que impli-
cou um outro conjunto de remoções
– também possibilitou a construção
das transposições. Mais detalhes so-
bre as remoções serão dados no item
3.5.

Também se propôs a implan-


tação de uma ciclovia que cortaria a
favela longitudinalmente e paralela-
Figura 15. Travessia de pedestre
precariamente construída sobre
mente ao córrego.
o córrego do Sapé antes das
obras de urbanização. Fonte: No campo da inclusão social,
Base Urbana. as conexões propostas para que os
moradores do Sapé se aproximassem
do ideal de cidadania assegurado à
população em geral – seja ela da fave-
la ou da cidade formal – basearam-se
em ideias de equipamentos e ativida-
des complementares à moradia.


A gente foi pensando uma série de
programas associados a moradia que podiam
acontecer nos espaços livres. Então, des-
de programas mais formais e institucionais,
como biblioteca, centro de difusão de com-
74
Figura 16. Perfil de canalização proposto para o Córrego do Sapé. Fonte: Base Urbana.

Figura 17. Perfil transversal da Favela do Sapé considerando-se as remoções de casas lindeiras ao córrego, a canalização do curso d’água,
a implantação de vegetação e da provisão habitacional. Fonte: Base Urbana.
75
putadores e, enfim, telecentros, associação de
bairro, até micro programas, como um pátio
onde as famílias pudessem compartilhar um
varal de roupa ou um espaço como um po-
mar ou uma horta ou um minhocário. Enfim,
a gente foi fazendo várias listas de programas
e de atividades comunitárias que pudessem
ser associadas a moradia. Como uma rotina
de conexão social, que a gente via que ali era
muito problemática.

Marina Grinover, em conversa com o autor.

Figura 18. Planta de ocupação


proposta para miolo de quadra
de áreas remanescentes. Fonte:
Vale dizer que os projetistas
Base Urbana. identificaram uma série de equipa-
mentos públicos de saúde e educação
(bem como áreas verdes) nas proximi-
dades da Favela do Sapé. Assim, foram
propostos equipamentos – como uma
biblioteca –, que serviriam de apoio
às escolas públicas dos arredores e do
Rio Pequeno como um todo. Também
foram propostas novas formas de
ocupação do miolo de quadra na área
remanescente do Sapé, com foco para
espaços arborizados e de uso coletivo
(Ver figuras 18 e 19).

Algumas das propostas concebidas


para a urbanização do Sapé não foram efe-
76
Figura 19. Corte de ocupação
proposta para miolo de quadra
de áreas remanescentes. Fonte:
Base Urbana.

tivadas. A ocupação dos miolos de quadra,


bem como a construção dos os equipamen-
tos complementares à moradia19 estão den-
tro dessas propostas que não saíram do pa-
pel. Marina Grinover fala sobre essa questão
abaixo:


Ah, eu acho que tem várias questões
que eu identifico no processo e que deman-
dam modificações. (...) Houveram algumas
hipóteses com relação à propriedade no co-
meço e que depois não se efetivaram. Então,
lotes que eram de domínio público ou priva- Os equipamentos esportivos, como as quadras, foram, no
19

dos e que, aparentemente iam ser incorpo- entanto, implantados.


77
rados a um projeto de desenho urbano, não Questões Políticas
foram. A gente teve que rever isso. Então, al-
guns condomínios, por exemplo, tinham um Outra questão apontada pela
desenho que contava com uma determinada arquiteta e urbanista foi a forma como
remoção de lotes ou desapropriações e tal. E o poder público, na figura da Secreta-
isso não aconteceu. Então, a gente teve que ria Municipal de Habitação, estrutura
rever o projeto. Isso tem um impacto sobre o suas políticas públicas habitacionais.
conjunto. Porque, enfim, eram áreas centrais. Além disso, ela aponta as frequentes
Eram áreas de grande porte ali.
Marina Grinover, em conversa com o autor.
” mudanças de diretrizes à medida que
mudam as gestões municipais.

Limitações Financeiras

Acho que, talvez a maior de todas,
por falta de uma política pública de habita-
ção estruturada. Que eu acho que até hoje a
gente não tem na cidade. Eu acho que a gente
Além das questões postas aci- tem um Plano de Habitação, que é uma re-
ma, Marina Grinover menciona outro lação entre demanda e oferta. Mais do que
fator que comprometeu enormemen- um desenho, mais do que um projeto de sis-
te a implantação de todos os elemen- temas construtivos, mais do que um projeto
tos do projeto de urbanização do que relacione comunidades com aquele lugar.
Sapé: o financeiro. E eu acho que isso são problemas da gestão
pública fracionada. A cada quatro anos a pró-


Depois, tiveram interferências finan- pria gestão muda o encaminhamento e o di-
ceiras. O Sapé contava com uma verba fede- recionamento do secretário. E eu acho que o
ral de um tamanho e depois não contou mais. Sapé sofreu um impacto de tudo isso. Apesar
Depois contou com uma área de provisão, de a gente ter tido como superintendente a
que é uma área fora da favela para abrigar as mesma pessoa, os secretários mudaram e as
famílias e, depois, não contou mais. Então, é demandas e as interferências frente a essas
um projeto que teve muitas diretrizes trans- comunidades foram também se transforman-
formadas.

Marina Grinover, em conversa com o autor.



do.

Marina Grinover, em conversa com o autor.



78
Ainda sobre a necessidade de A todas as dificuldades apre-
rever elementos do projeto, Marina sentadas, acresce que muitos órgãos
Grinover explica que a permanência de diferentes esferas de governo fa-
de alguns pontos foi defendida em zem determinações sobre o projeto de
prol da manutenção dos principais urbanização de assentamentos como
conceitos de projeto concebidos para o Sapé. Marina Grinover explica que o
o Sapé. desenho urbano que se propõe não é
apenas uma resposta às demandas da
comunidade local (que em geral pede

A vida é feita desses embates. Às ve-
zes você ganha, às vezes você perde. E a gente
procurou sempre resguardar algumas estrutu-
o menor número de remoções possí-
vel), mas também da própria Secreta-
ras muito simples. Muito simples. Que a gente ria Municipal de Habitação (que quer
foi vendo que eram as principais. Se as des- construir o maior número possível de
unidades habitacionais), da Secretaria

montassem, desmontavam tudo.
Municipal do Verde e do Meio Am-
biente (que demanda o respeito à le-
Marina Grinover, em conversa com o autor. gislação ambiental), da Companhia de
Engenharia e Tráfego (que faz exigên-
cias rígidas para a abertura de vias),

Então, por exemplo, as transposi-
ções.... Foram batalhas que a gente conseguiu
garantir. Os espaços de transição entre os es-
da Autoridade Municipal de Limpeza
Urbana (que pede a abertura de espa-
ços acessíveis à coleta de lixo), entre
paços mais coletivos e o que é mesmo públi-
outros 20 .
co. A gente também conseguiu garantir. Um

certo uso misto para o que remanesceu de
Muitas vezes, essas demandas
espaço. A gente também conseguiu garantir.
se sobrepõem. Como exemplo obser-
Isso ainda não chegou lá, mas está grafado no
vado em várias intervenções em fave-
plano de ZEIS.
” las, a Secretaria Municipal do Verde e

Marina Grinover, em conversa com o autor.

20
Parágrafo escrito a partir da fala de Marina Grinover em
As diferentes demandas de projeto aula dada na FAU-USP em abril de 2016.
79
do Meio Ambiente (SVMA) pede que Sapé. Isso é um outro raciocínio que eu acho
seja aberta uma área livre ( non aedi- que sempre foi importante para nós. Quer
ficandi ) nas imediações de ambas as dizer, aquilo lá tem que gerar um bem para
margens dos córregos presentes nos a cidade. Independentemente da favela. Por-
assentamentos a serem urbanizados. que, senão, a gente está privatizando o em-
A abertura dessas áreas muitas ve- penho do dinheiro público. Quer dizer, aquilo
zes implica um número de remoções tem que gerar um ganho para quem mora do
maior do que o previsto inicialmente. outro lado da rua, que não é favela. E eu acho
Assim, exigências da SVMA vão de en-
contro às diretrizes da Secretaria Mu-
nicipal de Habitação (SEHAB) e dos
que gerou.

Marina Grinover, em conversa com o autor.
moradores desses assentamentos, que
demandam o menor número possí-
vel de remoções. E o projetista – que
também tem suas próprias diretrizes 3.5 A EXECUÇÃO DAS OBRAS
de projeto – figura justamente entre
essas exigências por vezes díspares. A Favela do Sapé está atual-
mente em obras na sua porção a mon-
Ao falar sobre o saldo final que tante do córrego homônimo (Sapé B).
via no Sapé após grande parte das Ainda não há, no entanto, previsão
obras já terem ocorrido, Marina Gri- para a conclusão de todo o projeto,
nover destaca o ganho que o projeto sendo que há necessidade de revisões,
proporcionou não apenas aos mora- adequações e novas licitações para o
dores da Favela do Sapé, mas aos cida- término efetivo das obras. Ao longo
dãos paulistanos como um todo: desse item, serão descritos fatos re-
lativos ao que já foi executado ou ao
que está em execução.


Eu acho que, no final das contas, teve
um ganho urbano, teve um ganho para aquele
lugar, para além da favela, que eu acho que é O comprometimento do atendi-
um dever do dinheiro público. Tudo aquilo é mento habitacional
dinheiro público. Então, não é possível tudo
aquilo ser revertido só para quem mora no

O Sapé começou de uma forma er-
80
rada. (...) O primeiro erro foi a licitação ter por conta dessa falta de recursos. O
sido feita em cima de um projeto e ter sido condomínio D já foi licitado para me-
executado um outro projeto. Bem ou mal, tade das unidades habitacionais ini-
isso acarretou muitos problemas. Que acar- cialmente previstas. O condomínio H
retaram outros problemas. Então, você tem, não foi nem licitado nem executado,
por exemplo, dois condomínios no Sapé A mas não por questões diretamente re-
que não foram construídos [Condomínios D lacionadas à falta de recursos; ocorre
e E]. Você pode falar: “Mas tudo bem, os ou- que se descobriu que a área em que
tros foram”. Mas, quando você não constrói essa provisão seria implantada estava
dois condomínios, você tem mais demanda em área particular – e não pública,
no [auxílio] aluguel, você tem uma área vazia como se pensava antes – o que impli-
que pode ser reocupada, você tem famílias caria a validade de normas ambientais
que ficam insatisfeitas porque estão há sei lá mais restritivas à construção de edi-
quanto tempo no aluguel.... Então, isso vai ge- ficações – que, por fim, tornaram-se
rando vários problemas.
” inviáveis.

A não construção de todas as


Fala de uma arquiteta envolvida na urbanização da Favela do
Sapé em conversa informal com o autor.
unidades habitacionais previstas para
a Favela do Sapé gerou uma outra
questão por si só muito problemática:
Uma questão que comprome- uma quantidade considerável de fa-
teu muito o planejamento das inter- mílias removidas da favela não pode-
venções na Favela do Sapé foi a falta ria regressar a ela após o término das
de recursos que virou realidade em obras e, como consequência, o saldo
determinado momento da obra de entre famílias removidas e atendidas
urbanização. O dinheiro disponível na região acabaria por se tornar muito
inicialmente não foi suficiente para grande.
construir todos os condomínios pre-
vistos. Até o fim de 2016, haviam sido Havia um total de 2.362 famí-
entregues os condomínios A, B e C. lias cadastradas antes das obras no
Estavam em fase final de construção Sapé, bem como 2.429 imóveis con-
os condomínios F e G. Já os condomí- tabilizados na favela, sendo o número
nios D e E não haviam sido iniciados de famílias coincidente com o núme-
81

Figura 20. Identificação e contabilização das remoções no Sapé para obras de urbanização. Fonte: Base Urbana.

ro de domicílios iniciais. (SÃO PAULO, inicialmente que 669 unidades ha-


2011). Até o fim de 2016, 866 domi- bitacionais (UHs) fossem entregues
cílios permaneciam na favela e 1.496 dentro do próprio assentamento (se-
haviam sido removidos 21 . Previa-se gundo projeto inicial do Base Urbana
e do Pessoa Arquitetos). Seriam 73
unidades habitacionais no condomí-
21
O número de remoções constante na Figura 20 (estimativa nio A, 68 unidades no condomínio B,
inicial) é diferente daquele fornecido por SEHAB devido a re- 127 unidades no C, 89 no condomínio
adequações no projeto.
D, 80 UHs no condomínio E 22 , 88 uni-
82
dades no F, 88 no G e 56 no H 23 .

Após modificações de proje-


to, a estimativa era de que 584 UHs
fossem construídas dentro da área da
favela, sendo 75 no condomínio A (já
entregue), 68 no condomínio B (já en-
tregue), 145 no C (já entregue), 86 no
D (48 já licitadas), 36 no E (aguardan-
do licitação 24 ), 87 no F (em execução)
87 no G (em execução). 369 unidades
seriam construídas para antigos mora-
dores do Sapé em áreas de provisão
externa, a saber, 275 em um terreno
na Rua Domenico Martinelli (nas pro-
ximidades do Sapé) e 94 em outro
terreno que também serviria de área
de provisão para moradores removi- 22
O condomínio E também teria seis unidades comerciais de
dos da Favela Água Podre. (Ibid.). acordo com o projeto original.

23
Fonte: <http://infraestruturaurbana.pini.com.br/solucoes-
Os domicílios de madeira -tecnicas/30/artigo294289-4.aspx>. Acesso em: 22/10/16.

Além da não execução de par-


te da provisão interna do Sapé, houve
24
Além das 36 unidades já previstas no Condomínio E, a
SEHAB está investindo esforços na tentativa de acrescentar
ao menos outro grande fato que não mais 50 UHs a esse condomínio. A razão desse acréscimo é o
ocorreu conforme o previsto quando fato de a gleba onde está o condomínio E ter sido totalmen-
da concepção do projeto de urbani- te transformada em ZEIS pelo Plano Diretor Estratégico de
zação da favela. Tal fato foi a perma- 2014. Antes, apenas metade de sua área era ZEIS. No entanto,
nência de boa parte dos domicílios de como essas 50 novas unidades habitacionais ainda não foram
madeira nas áreas remanescentes do asseguradas até o fim de 2016, elas não foram contabilizadas
assentamento. Tais domicílios eram na estimativa oficial apresentada nesse Trabalho Final de Gra-
habitados pela população mais caren- duação.
83

Figura 21. Favela do Sapé e localização dos condomínios projetados. Elaboração: o autor.

te – ou, no jargão mais utilizado, vul- em que as casas não estão em condições le-
nerável – do Sapé. gais.... Então, você está fazendo um projeto
de urbanização e você deixa as famílias nessas
condições? A urbanização não centraliza só


A questão do projeto em si é exce-
lente. Só que, dentro da área, ainda permane-
cem domicílios de madeira. Uma coisa que a
na unidade.

Fala de uma arquiteta envolvida na urbanização da Favela do
gente sabe.... Se a gente está fazendo um pro- Sapé (coletado pelo autor).
jeto de urbanização, a gente teria que, primei-
ramente, remover todos esses domicílios de
madeira. Como é que você vai justificar isso? Antes das remoções com vistas às
Ficaram muitas casas insalubres, tem setores obras de urbanização, 9% das casas
84

Figura 22. Terreno situado à Rua Domenico Martinelli e destinado a parte da provisão externa do Sapé. Fonte: o autor.

da Favela do Sapé eram de madeira, o (SÃO PAULO, 2001). Após a realização


que totalizava cerca de 210 domicílios das remoções, estima-se que ainda
85
existissem 35 domicílios de madeira ca e cadastral para poderem ser aceitas no
nas áreas remanescentes (dados de programa da COHAB. Muitas vezes, elas não
2016). eram. Porque a informalidade era muito gran-
de. Muito maior que simplesmente a casa de
A arquiteta Marina Grinover madeira. Então, tiveram várias famílias que....
explicou em depoimento para esse Não tinha mecanismo legal para elas fazerem
Trabalho Final de Graduação a ques- a troca com uma família que queria ficar den-
tão da permanência dessas casas: tro das áreas remanescentes.


Isso, por exemplo, era uma diretriz
lá no começo. Não pode ter casa de madeira.
Todas têm que ser removidas. É muito precá-
Marina Grinover, em conversa com o autor.

rio. Tem problemas socioambientais enormes.


A gente tem que remover essas famílias. De- Surge, aqui, uma questão que
pois, quando começou um processo chama- vai além da vulnerabilidade socioe-
do xadrez... O xadrez é o seguinte: as famílias conômica das famílias residentes em
que têm prioridade na nova moradia não são casas de madeira do Sapé. De acordo
aquelas que perderam necessariamente as com os fatos relatados, se essas fa-
casas. Mas podem existir famílias que estão mílias não têm garantias econômicas
nas casas remanescentes e que têm interes- que lhes permitam realizar um cadas-
se numa construção nova e tem famílias que tro habitacional junto à COHAB, esta
têm interesse em ficar nas casas remanescen- não lhes garante o acesso ao sistema
tes. Isso pode ser uma troca. Então, foi dada que se encarrega de fazer a provisão
no começo uma prioridade para que essas habitacional justamente para os cida-
famílias em casas remanescentes de madeira dãos que possuem mais necessidade
pudessem eventualmente negociar. Aconte- de atendimento de moradia.
ce que essas pessoas também são aquelas de
maior fragilidade econômica. E como o Sapé Frente à impossibilidade de se
ainda faz parte de uma lógica de investimen- dar um novo destino aos moradores
tos via Caixa Econômica e sem ser Minha de domicílios de madeira, Marina Gri-
Casa Minha Vida, essas pessoas tinham que nover relata uma nova possibilidade
demonstrar alguma estabilidade econômi- que se aventou:
86


Aí nasceu uma hipótese no meio do
caminho que era: então, vamos reformar es-
sas casas. Só que, aí, a reforma de um barraco
nheiro para reformar.... Nada disso deu certo.
E, até onde eu sei, até hoje não foi possível
realizar essas reformas. Eles estão assistidos
minha casa, para eu melhorar minha casa? ”
Infelizmente, a gente não tem isso. Não tem
essa parceria para ajudar essas famílias. Por-
não cabia dentro da legislação. O governo não pela equipe de Habi Sul e tal, mas não tem que eles não se sentem pertencentes ao pro-
pode destinar uma verba para uma moradia. dinheiro para reformar. Porque não tem.... Na jeto. Por mais que tenha sido feita a canaliza-
Só pode destinar para um conjunto de mo- lista de itens da Prefeitura não tem o item ção, a questão de água, eles falam: “Olha, vou
radores. Isso tinha um outro impacto, porque “reforma de barraco”. Alguns barracos foram pagar água, vou pagar luz, mas minha casa ain-
o Sapé tem quatro lotes. E no lote maior, que reformados porque tiveram obrigatoriamente da permanece da mesma forma. Diferente das
é o Sapé 1 e que é toda a parte que a gente uma influência da obra. Então, quando você famílias que vão para a unidade, né? ” Ela fala
mais urbanizou, estava formalizado num pro- tem uma influência direta da obra, esse custo assim: “Eu estou indo para um apartamento
cesso de propriedade de fração ideal. Então, é de reforma do barraco aparece. Mas alguns novo, tudo novo”, então ela se sente perten-
assim: levanta a área, levanta quantas famílias barracos não têm influência direta da obra. cente. E quem sofre mais com toda a urbani-
tem. E diz: “Você é dono de um milionésimo E, aí, não tinha dinheiro para reformar esses zação é a área remanescente. Porque tem pó,
dessa área”. O poder público não tem um me-
canismo administrativo para destinar verba
de reforma para uma pessoa daquele milioné-
barracos.
” é onde passa a obra, então está sempre ali. As
famílias que estão no aluguel saem da área.
Então elas vão para um lugar onde não tem
Marina Grinover, em conversa com o autor.
simo. Ele só pode fazer destinação de verba pó. Elas estão vendo a obra acontecer e de-
para espaço público. E espaço em que ele vai pois elas voltam para a unidade. E as famílias
conseguir rever o custo. Que é o que ele faz que estão aqui falam: “Ah, mas e com a gente?
com a COHAB. O governo municipal investe
na construção e depois a COHAB entra com
uma parte do dinheiro e depois a COHAB fica
A melhoria das casas remanescen-
tes
Não acontece nada? ”

Fala de uma arquiteta envolvida na urbanização da Favela do
proprietária e vende uma parte para os mu- Surge nesse ponto outra ques- Sapé em conversa informal com o autor.
tuários a fundo perdido, por vinte anos, etc., tão que não foi bem resolvida duran-
etc. Então, não existe um mecanismo... Apesar te a urbanização da Favela do Sapé.
de a ideia ser muito boa e eu acho que ela era A melhoria das casas remanescentes Nota-se que a melhoria dos
fundamental, a gente não consegue associar não foi incentivada pelo poder púbico domicílios remanescentes lidaria com
essa ideia a um mecanismo jurídico e admi- e, uma vez a cargo dos próprios mora- um problema que vai além do trata-
nistrativo para destinação de verba. A gente dores, ocorreu em raras vezes. mento estético das fachadas das casas
tentou várias coisas. A gente tentou apoio de ou mesmo além da melhoria das con-
instituições de fora, a gente tentou apoio de
escolas outras, a gente tentou apoio de outras
ONGs, que pudessem fazer um aporte de di-

Toda semana, alguns moradores per-
guntam: “Ah, mas não tem como fazer um
convênio com a Prefeitura para eu reformar
dições de conforto e habitabilidade
do interior das residências. Cabe dizer
que tanto o tratamento das fachadas
87
quanto a melhoria do interior das ca- tem-se menos favorecidos ou até
sas por si só já são de extrema impor- mesmo injustiçados. Neles, predo-
tância. No entanto, melhorar as casas mina a impressão de que morar nos
remanescentes é essencial por tam- novos condomínios lhes daria maior
bém implicar uma não distinção entre sensação de pertencimento à cidade
os moradores de um mesmo assenta- e, em última análise, maior status de
mento. cidadão.

Afinal, como explicitado no Este trabalho entende que
depoimento acima, existem dois gru- deveria haver algum tipo de progra-
pos de moradores em uma favela re- ma da Prefeitura ou alguma parceria
cém-urbanizada: aquele que passa a entre o poder público e instituições
morar em uma unidade habitacional como ONGs a fim de promover me-
nova e aquele que continua moran- lhorias físicas nos domicílios remanes-
do na residência antiga, por vezes centes do Sapé e de outras favelas. Tal
precária em ao menos algum aspecto assunto será retomado no Capítulo 4.
construtivo e de habitabilidade. Ini-
cialmente, os dois grupos partem do Os espaços residuais
mesmo patamar: áreas carentes de
melhorias urbanísticas e arquitetôni- Outra grande questão identi-
cas no pré-urbanização. O projeto a ficada durante a execução das obras
as obras acabam por criar essa dife- de urbanização da Favela do Sapé foi
renciação, que muitas vezes faz com o surgimento de espaços residuais nas
que os representantes do grupo que áreas remanescentes.
permanece nas áreas remanescentes
sintam-se numa posição inferior ao Como o tecido das favelas é
outro grupo, mesmo em se conside- bastante irregular, quando se remo-
rando as melhorias urbanísticas e de vem domicílios nesses assentamentos
infraestrutura que são realizadas nas seguindo-se um alinhamento – como
áreas que são mantidas. o de um córrego – o resultado é in-
variavelmente uma sobra de espaços
O que ocorre é que os mora- vazios para dentro da linha de desa-
dores das áreas remanescentes sen- propriações. Muitas casas removidas
88
são cortadas pela metade por essas li- Figura 23. Implantação de uma
nhas; daí vem que sua remoção gera das unidades mistas propostas,
com destaque ao pavimento
espaços ociosos para fora – a serem comercial (térreo). Fonte: Base
neutralizados quando forem poste- Urbana.
riormente absorvidos pela rua que
passará – e para dentro.

Esses espaços ociosos internos


à linha imaginária de desapropriações
são chamados de residuais. Os espa-
ços residuais podem surgir em diver-
sos momentos de obras e em diversos
lugares – não apenas em favelas. Es-
ses espaços são geralmente transfor-
mados na cidade formal em praças e
afins. Nos assentamentos precários, a
dinâmica local por vezes acaba resul-
tando em um outro tipo de aproveita-
mento das áreas residuais. Essas áreas
são, em geral, ocupadas diretamen-
te por famílias diferentes daquelas
de antes das desapropriações ou até
mesmo pelo poder paralelo que atua
nas favelas e que muitas vezes contro-
la as ocupações dessas áreas mediante gindo. No projeto do Base Urbana e
o pagamento de um tipo de aluguel. do Pessoa Arquitetos para o Sapé, os
projetistas propuseram ocupar muitos
Sendo assim, uma preocupa- dos espaços residuais com pequenas
ção recorrente tanto dos projetistas unidades institucionais ou com uni-
por trás das urbanizações quanto dos dades mistas (comércio no pavimento
profissionais envolvidos nas obras é térreo e residencial no primeiro pavi-
dar um uso imediato aos espaços re- mento), como se vê nas imagens 23,
siduais à medida que eles forem sur- 24 e 25.
89
Figura 24. Implantação de uma cos foi fracionar esses espaços e doar
das unidades mistas propostas,
com destaque ao pavimento suas partes para domicílios que fazem
residencial (superior). Fonte: divisa com eles. Essa saída é chamada
Base Urbana. Urbana. de doação de lote.

Até o fim de 2016, a tendência


era de que nenhuma dessas soluções
fosse de fato implantada nas áreas
remanescentes da Favela do Sapé até
o fim das obras de urbanização. Fica,
assim, uma grande dúvida sobre o
que acontecerá com esses espaços. A
possibilidade de reocupação continua
presente, como relata uma arquiteta
envolvida nas obras de urbanização
da favela:


Se a secretaria e a gerenciadora sa-
írem amanhã, no outro dia o Sapé está todo
invadido. Porque automaticamente as famílias
já vão demarcando o lote e falam assim: “Na
hora em que precisar para a obra, pode ficar
Como a implantação dessas tranquilo, que a gente vai sair e não vai ter
unidades não se concretizou, a ques- problema nenhum. ” Mas eles já vão demar-
tão dos espaços residuais permane- cando lote a lote. Você pode andar todo o
ceu não solucionada. Assim, técnicos Sapé. Você vai ver que já tem uma demarca-
da Secretaria Municipal de Habitação ção. Tipo, que esse aqui já é o meu espaço.
de São Paulo (SEHAB) propuseram (...) Então, é muito importante que o projeto
preencher esses espaços com play- termine não só com a entrega das unidades.
grounds , equipamentos de ginástica Mas, com a questão da infra, com a questão
e casas sobrepostas umas às outras. das casas sobrepostas. De que forma a gen-
Outra saída encontrada pelos técni- te vai resolver essa questão dos lotes vazios.
90
Figura 25. Corte da área lindeira ao Córrego com uma das unidades mistas implantadas. Fonte: Base Urbana.

Então, a gente tem que estar se preocupando ras. Dois contratos. Talvez, se fosse uma cons-
muito com isso. Mas, se a secretaria.... Vai ter trutora só, as coisas tivessem fluído de uma
novas invasões, sim.
” melhor maneira, sabe? Talvez não tivessem
tantos problemas. Mas eu não sei. Isso é uma
hipótese. Eu acho que, talvez, com uma cons-
Fala de uma arquiteta envolvida na urbanização da Favela do trutora fazendo a obra inteira.... Uma constru-
Sapé em conversa informal com o autor.
tora maior ou um consórcio grande.... Talvez
a obra tivesse fluído de uma maneira melhor.
Outras Questões

Fala de uma arquiteta envolvida na urbanização da Favela do


Uma outra questão, que eu não sei Sapé em conversa informal com o autor.
se é boa ou ruim, é que o Sapé, por ser um
pouco maior, foi licitado em duas construto-

Eu acho que os trabalhos precisam
91
ser pensados de forma mais integrada. Por- B – a montante. A primeira área ficou
que a gente cuida da habitação. Então, você a cargo do Consórcio Engelux-Galvão
não pode interferir na questão da saúde da e a segunda área foi de responsabili-
família. Mas isso – a questão da saúde, enfim, dade do Consórcio ETEMP 25 .
a questão socioeconômica e tal – afeta dire-
tamente como ela vai viver num condomínio. Na prática, a atuação de dois
Mas a [Secretaria de] Habitação não conse- consórcios diferentes, sendo cada qual
gue cuidar dessa área. Então você precisa ter em sua área, implicou a existência de
a [Secretaria de] Saúde perto. Você pre-cisa duas obras diferentes. Segundo rela-
ter a [Secretaria de] Educação perto. Você tos de uma arquiteta envolvida com a
precisa ter outras secretarias trabalhando em urbanização do Sapé, cada consórcio
conjunto para que realmente aquele trabalho tocou a obra no seu próprio ritmo –
seja efetivo..
” apesar de ambos terem iniciado seus
trabalhos na mesma data.

A divisão da Favela do Sapé


Fala de uma arquiteta envolvida na urbanização da Favela do em dois consórcios também implicou
Sapé em conversa informal com o autor.
que, em determinados momentos, a
execução da obra no Sapé A e no Sapé
Os dois depoimentos acima B encontraram soluções diferentes,
apontam a existência de ao menos mesmo quando o projeto especificava
duas outras questões que moldaram o mesmo tipo de solução 26 .
a Favela do Sapé: a divisão do assen-
tamento em duas áreas – sendo cada 25
A construtora Croma integrava originalmente esse consór-
uma alvo de um contrato e de uma cio, mas, atualmente, apenas a construtora ETEMP é respon-
construtora diferentes – e a falta de sável por esse contrato.
integração entre diferentes órgãos
públicos no que se refere ao atendi- 26
Como exemplo, as esquadrias utilizadas nos condomínios
mento da população da favela. do Sapé A diferiram das esquadrias utilizadas nos condomí-
nios do B. A diferenciação de material chegou a gerar questio-
Quanto à divisão do Sapé, cria- namentos de alguns moradores, que julgavam que o tipo de
ram-se duas áreas de tamanho seme- esquadria utilizado por um dos consórcios seria melhor que
lhante: o Sapé A – à jusante – e o Sapé o tipo utilizado pelo outro consórcio.
92

Figura 26. Divisão da Favela do Sapé entre as áreas A e B. Elaboração: o autor.

Além disso, a divisão contra- Durante a obra, fontes relatam


tual do Sapé acentuou a divisão entre que a Subprefeitura do Butantã, por
moradores da própria favela. Houve exemplo, não teria removido muitas
casos de moradores removidos do das novas ocupações em áreas pú-
Sapé A que não quiseram ser realoca- blicas da favela – ou teria agido de
dos para o Sapé B e vice-versa. modo muito lento – o que teria pre-
judicado o trabalho de técnicos da
No que se refere à falta de in- Secretaria Municipal de Habitação
tegração entre diferentes órgãos pú- (SEHAB). Vale dizer que que é dever
blicos, no pré-obra isso implicava que das subprefeituras realizar a zeladoria
cada órgão fazia sua própria demanda das áreas públicas de São Paulo.
e, muitas vezes, acatar uma demanda
significava abrir mão da execução de
outra, já que ambas poderiam ser con-
flitantes entre si 27 . 27
Ver tópico “As diferentes demandas de projeto” (item 3.4).
4
LIÇÕES
APRENDIDAS ATÉ AQUI
94
4.1 A FAVELA AINDA É SINÔNIMO ZALUAR, 2002, p.21).
DE PRECARIEDADE?
O trecho acima descreve uma
impressão positiva sobre o encami-
Após 100 anos de luta, empregan- nhamento que a questão da habitação
do diferentes formas de organi- precária em favelas vem ganhando.
zação e demanda política, inclusi- Mas esta não é apenas uma impressão
ve o carnaval, a favela venceu. Há sobre a moradia precária. É também
menos de duas décadas, mudou a uma percepção sobre o espaço que o
legislação, e hoje a favela é feita morador da favela vem ganhando em
de habitações em alvenaria. Os sua sociedade; as questões políticas
frágeis barracos, facilmente des- e culturais também são aí descritas
trutíveis, desapareceram. Des- de um modo animador e, por conse-
de o final dos anos 70, a favela quência, fazem-nos crer em um avan-
tem luz em cada casa. Durante ço social.
os anos 80, ela adquiriu serviços,
mais ou menos precários, de água É verdade que a população da
e esgoto. Ninguém fala mais de favela vive melhor hoje. Se comparar-
remoção. Mais recentemente, os mos os barracos de madeira e zinco
projetos de urbanização e sanea- do passado com as habitações em sua
mento, frutos de pequenas vitó- maioria de alvenaria dos dias atuais,
rias acumuladas do movimento de fato, um avanço será notado 28 .
de favelados, fazem surgir ruas
e praças, mais ou menos plane- Se observarmos que muitos
jadas, mais ou menos discutidas habitantes das favelas possuem hoje
com a população local. Tudo aparelhos como smartphones e televi-
indica que a favela, garantida a sões de tela fina, teremos que admitir
continuidade da política pública, uma melhoria. Se nos atentarmos para
independentemente do partido
no poder, poderá ter finalmente
sua infraestrutura urbana refeita
e melhorada, transformando-se O suporte às afirmações feitas nesse parágrafo encontra-se
28

em bairro da cidade. (ALVITO; no Capítulo 2 desse TFG.


95
o fato de que, hoje, muitos moradores dades habitacionais construídas.
das favelas – ou, como muitos falam,
das comunidades – se veem represen-
tados na mídia, seja em transmissões
carnavalescas, seja em novelas do ho-
rário nobre, seja em propagandas de

Então, essa questão da vulnerabilida-
de pesou muito. Então, a gente chamou as pri-
meiras famílias para ocuparem as unidades....
candidatos a vereadores, não podere- As primeiras unidades que a gente entregou,
mos negar esse avanço. A adoção da foram para as famílias mais vulneráveis. Não é
denominação comunidade já demons- à toa que hoje a gente tem o Condomínio A
tra uma maior sensação de pertenci- com muitos problemas de famílias com corte
mento do morador da favela a um co- de água, de luz.... De água não.... De água tam-
letivo. bém, porque eles têm a conta individual. (...)
Não pagam um condomínio de 40 reais. Não
No entanto, há que se olhar pagam a luz. Têm a luz cortada. Água cortada.
para o outro lado da questão expos- Gás cortado. Porque elas são tão vulneráveis,
ta. A vulnerabilidade econômica ainda enfim.... Que não têm condições.... Não teriam
é grande em meio a muitos daqueles condições nenhumas de viver em condomínio
que moram nos assentamentos como e, na verdade, eu não sei se elas têm condi-
as favelas. A violência nessas áreas é ções, do jeito que estão, de viver em algum
muito mais presente do que no res-
tante da cidade. A infraestrutura não
lugar.

está presente de modo satisfatório Fala de uma arquiteta envolvida na urbanização da Favela do
em todos os núcleos. Sapé em conversa informal com o autor.

No item 3.5, foi dito que os mo- Esse relato também nos suscita
radores das áreas remanescentes sen- uma impressão, sendo esta nada posi-
tem-se desfavorecidos frente àqueles tiva. O objetivo das palavras transcri-
que recebem uma nova moradia. Um tas não é contradizer a fala de Marcos
fato que ao menos não afeta a popu- Alvito e de Alba Zaluar. Tampouco é
lação das casas remanescentes é a di- alarmar. Na realidade, o objetivo de
ficuldade que aqueles que vão para os todos os excertos – e deste Trabalho
condomínios muitas vezes têm para se Final de Graduação que se tece a par-
manterem economicamente nas uni- tir das constatações – é fazer com que
96
se perceba que a questão da precarie- na implantação de diretrizes e de pro-
dade nas favelas ainda é urgente, em- jetos que melhorem o espaço público.
bora muito se tenha avançado. Muitos
podem ajudar na melhoria dessa ques- Já enquanto projetista, cabe
tão. E, dentre as categorias de profis- ao profissional em questão humanizar
sionais diretamente envolvidos nessa o projeto urbano de forma a aplicar
melhoria, está o arquiteto e urbanista. conceitos de justiça social. Isto signi-
fica dizer que ele deve transformar o
espaço público em algo ao alcance do
4.2 O PAPEL DO ARQUITETO E maior número possível de cidadãos.
URBANISTA NA REDUÇÀO DA
PRECARIEDADE A junção dessas duas áreas e
de seus respectivos modos de pensar
pode ser percebida nas seguintes de-
O arquiteto e urbanista pode clarações de Marina Grinover:
atuar em várias áreas. Duas em par-
ticular podem gerar um importante
efeito na redução da precariedade
urbanística, habitacional e social dos
moradores das favelas. Essas duas áre-

Eu acho que a vocação das áreas li-
vres é que elas sejam todas públicas. Que se-
jam todas de livre acesso, que é o que a gente
as são o desenho urbano e a gestão poderia dizer que é o que caracteriza o espa-
ço público.


pública.

Enquanto gestor público, cabe


ao arquiteto e urbanista assegurar a
implantação de políticas públicas den-
tro do jogo político – seja ele com re-

.Eu acho que [temos que] olhar os ga-
nhos, não só para quem mora no Sapé, que
certamente ganhou uma vizinhança e uma
presentantes de governo eleitos, seja estrutura, mas para quem é vizinho do Sapé.
com técnicos e outros profissionais, Para quem circula por ali. É um ganho para a
seja com grupos de cidadãos. Além cidade, eu acho, o desenho que se expande
disso, cabe ao arquiteto e urbanista na para além do problema do lote, da favela. A
posição de gestor viabilizar ao máxi- gente tem que pensar assim. Porque os recur-
mo a conversão de recursos públicos sos são escassos. (...) Então, todo o dinheiro
97
que vem tem que ser usado na otimização de Marina Grinover e outro vindo de
máxima. E acho que essa otimização que eu uma arquiteta ligada ao poder públi-
aprendi no Sapé está associada ao raciocínio co. Chama a atenção as limitações que
do bem público. Não só do espaço público. o funcionamento da estrutura públi-
Do bem público.
” ca lhes impõe, limitações essas que
muitas vezes lhes causam frustrações
acerca da efetividade da implantação
Fala de uma arquiteta envolvida na urbanização da Favela do de projetos e de políticas públicas e,
Sapé em conversa informal com o autor. em suma, dificultam o cumprimento
dos seus deveres profissionais e so-
Transformar áreas livres em ciais.
espaço público – e coletivo, pensar


em aproveitar ao máximo os recursos Como arquiteta, como pessoa que
públicos para um assentamento a fim desenha, eu acho que é um esforço muito
de melhorar não apenas este assenta- grande de simplificar, de conseguir fazer a
mento, mas todo o seu entorno e, por síntese, porque você sofre muito mais cortes
fim, considerar o dinheiro empregado e desestruturas do que aprovações e estrutu-
e o espaço em si como bens de todos. rações. (...) O outro é que eu aprendi a ouvir e,
Essas diretrizes levadas a sério na ur- ao mesmo tempo, me desapegar daquilo que
banização do Sapé confirmam justa-
mente o cumprimento do dever do
arquiteto e urbanista. Um dever que
não é possível ser feito.

Marina Grinover, em conversa com o autor
transcende o campo meramente pro-
fissional e se torna também um dever
social.

Para esse TFG, foram coleta-



Você não pode resolver todos os
problemas. Você não pode se frustrar por coi-
sas que acontecem não da forma como você
dos depoimentos de arquitetos e ur- gostaria que acontecessem, que você idealiza
banistas envolvidos na urbanização da que acontecessem.... Você se culpar por isso.
Favela do Sapé. Adiante, seguem tre- Porque tem coisas que realmente você não vai
chos sobre o que esses profissionais conseguir resolver. (...) Porque tem coisas que
afirmam ter aprendido com o proces- você pode fazer e tem coisas que você não vai
so, sendo um trecho coletado da fala conseguir fazer. Então, você precisa entender
98
que algumas coisas vão fugir do seu controle. gão consultivo e deliberativo que atua
Então, o que eu aprendo é: eu vou fazer aqui- dentro de um determinado perímetro
lo em que eu acredito e o melhor. Mas, se não correspondente a uma ZEIS inteira, a
der certo, isso não significa que eu não fiz o um trecho de ZEIS ou a um conjunto
meu melhor. Ou que eu fui irresponsável ou de diferentes ZEIS (das categorias 1 e
não profissional. Mas é porque tem coisas que 3). Fazem parte do Conselho Gestor
fogem mesmo e você precisa aprender a lidar moradores do perímetro, proprietá-
com essas situações. Foi isso o que eu aprendi. rios de imóveis localizados dentro

Fala de uma arquiteta envolvida na urbanização da Favela do
também nesse perímetro, represen-
tantes do poder público e represen-
tantes de organizações governamen-
Sapé em conversa informal com o autor.
tais que atuam nessa área.

Sua constituição é paritária,


4.3 A VOZ E A VEZ DA isto é, nele há o mesmo número de
POPULAÇÃO representantes da sociedade civil e do
poder público. As discussões focam
no processo de urbanização da área
Naturalmente, o trabalho do compreendida pelo perímetro, desde
arquiteto e urbanista complementa os estágios iniciais de projeto. (SÃO
e é complementado pelo trabalho de PAULO, 2014, p. 60).
outros profissionais, como os assisten-
tes sociais. Estes assumem várias fun-
ções importantes dentro do processo
de urbanização de favelas, tais como

Eu acho que o maior aprendizado de
todos é que a gente tem que escutar mais a
população. Mais. (...) Então, eu acho que isso
avaliar as condições de vulnerabilida- foi um grande aprendizado. E na formação –
de da população dos assentamentos eu acho que eu tenho que falar também – do
onde há intervenções e organizar ca- Conselho Gestor também foi um aprendiza-
nais de comunicação com essa popu- do. Formar o Conselho Gestor, discutir com
lação durante as obras. eles, entender a dinâmica da população. Isso

Um dos canais mais importan-
tes é o Conselho Gestor. Este é um ór-
foi um grande aprendizado.

Fala de uma assistente social envolvida na urbanização da
Favela do Sapé em conversa informal com o autor.
99
A opinião acima reflete a im- Para ilustrar decisões típicas
portância desse instrumento de par- do Conselho Gestor do Sapé, vale ler
ticipação pública no Sapé. Quanto à o seguinte trecho de um depoimento
opinião dos moradores da favela, po- de um morador do Sapé:
de-se dizer que o que estes disseram
em depoimentos para esse TFG tam-
bém foi positivo. Um morador obser-
vou que houve, no entanto, pouco
interesse da população em participar

O que os morador reclama muito é
das garagem. Porque não tem garagem. Só
que na hora do projeto, na hora que nós sen-
ativamente do Conselho Gestor do tou com a projetista Marina [Grinover], nós
Sapé. Outro morador relatou conquis- escolheu. Ela perguntou: “Ou vocês quer sub-
tas desse órgão no assentamento: solo pra moradia pra idoso e deficiente, ou
vocês quer vaga?”. O Conselho decidiu mora-
dia..


Foi a melhor coisa que existiu foi in-
ventar esse negócio de Conselho aí. Pra ajudar
na comunidade. Porque aqui dentro, nós não
Fala de um morador da Favela do Sapé em conversa com
o autor.

tivemos problema nenhum, no Sapé. Nenhum. Assim, percebe-se que já há


Nem pra remover morador, nada. Quando ti- mecanismos que podem dar poder à
nha um ou outro que não queria sair, a gente população mais afetada pela precarie-
ia na conversação, fazia uma negociação, via o dade vista nas cidades brasileiras. Em
que é que ele queria.... O que fosse dentro da conjunto com arquitetos e urbanistas,
lei a gente podia estar correndo pra fazer. Pra assistentes sociais e outros profissio-
remover. Sem prejudicar ninguém. E assim foi nais, os cidadãos podem e devem se
feito. O Conselho do qual eu participei.... Três organizar para melhorarem suas con-
ou quatro pessoas eram muito participantes. dições de vida.
(...) O morador tá correto, vamos a favor do
morador. Vamos ver os dois lados. Mas o Con-
selho é uma coisa maravilhosa de se trabalhar.


Fala de um morador da Favela do Sapé em conversa com
o autor.
5
PROJETO
PARA O SAPÉ
103
5.1 A ÁREA DA DIVISA gião por onde passa essa linha divisó-
ria, as 3 áreas configuram o que esse
Há, no centro geográfico da Trabalho Final de Graduação conven-
Favela do Sapé, 3 grandes áreas cen- cionou chamar de Área da Divisa.
trais atualmente livres ou com uso
provisório. A Área da Divisa não cofigu-
ra apenas um ponto geográfico im-
Entre essas 3 áreas, passa a li- portante. É também um cruzamento
nha divisória entre o Sapé A e o Sapé de dois grandes fluxos de circulação:
B. O Sapé A abarca a metade da favela norte-sul e leste-oeste.
que fica à jusante do córrego (ou ao
norte do assentamento), enquanto o A Área da Divisa é atualmente
Sapé B compreende a metade que fica subaproveitada em termos de uso ou
a montante do curso d’água (ao sul da possui usos provisórios. Devido ao seu
favela). potencial geográfico e de circulação,
esta área poderia ser melhor desen-
Por estarem justamente na re- volvida, considerando-se inclusive os

ÁREA 1 ÁREA 2

Uso atual: sede do Plantão Social Uso atual: nenhum

Uso previsto: Condomínio E Uso previsto: Condomínio D


UHs previstas: 36 (nenhuma UHs previstas: 86 (48 já lici-
licitada) tadas)
Área física: aproximadamente 3.400m 2 Área física: aproximadamente 1.830m 2
105
usos futuros a ela destinada. Há ao longo da Área 4 vários
espaços residuais, que, enquanto ofe-
Ao Sul da Área da Divisa, cons- recem risco de reocupação irregular,
ta uma quarta área (Área 4), que deve também oferecem uma oportunidade
ser vista em conjunto com as demais. de diversificação de usos e de ativida-
Essa porção linear que margeia o cór- des oferecidos regularmente no Sapé.
rego se estende da Área da Divisa até
o limite norte do Condomínio F e faz Devido a essas constatações e
parte do eixo de circulação norte-sul. potencialidades (a serem aprofunda-
das nas páginas seguintes), esse TFG
Também é uma área atualmen- escolheu desenvolver um projeto para
te de uso pouco intenso, tanto em a Área da Divisa em diálogo com a
termos de aproveitamento dessa cir- Área 4.
culação quanto em termos de desti-
nação de usos de permanência (como
comercial e misto entre residencial e
comercial).

ÁREA 3 ÁREA 4

Uso atual: nenhum Uso atual: circulação (com áreas re-


siduais)

Uso previsto: praça e institucional Uso previsto: circulação e misto (pre-


dominantemente residencial com co-
mércio)

Área física: aproximadamente 435m 2 Extensão: aproximadamente 300m


107
5.2 CONSTATAÇÕES SOBRE A - está no cruzamento entre dois im-
ÁREA DA DIVISA portantes eixos de circulação (norte-
-sul e leste-oeste) no Sapé e no Rio
A Área da Divisa Pequeno;

- está no centro geográfico do eixo norte-sul (longitudi-


Sapé; nal): pedestres e ciclovia ao
longo do córrego e automó-

N
0 25 50 75m
108
veis ao longo das ruas Ger- Área 2: Atualmente sem
trudes Cunha e Waldemar uso e futuro condomínio D;
Roberto;
Área 3: Atualmente sem
eixo leste-oeste (trans- uso e futura área de lazer e
versal): automóveis e pe- institucional (segundo pro-
drestes ao longo das ruas jeto do Escritório Base 3);
Mário Belmonte, Rua Proje-
tada (Rua da Divisa) e Ge-
neral Syzeno Sarmento; Figuras 28 e 29. Área 2, vista da
rua General Syzeno Sarmento
- Há, dentro dessa área, três ou Fonte: Arquivo SEHAB.
áreas menores sem uso ou com uso
provisório:

Área 1: atual Plantão Social


e futuro condomínio E;

Figura 27. Área 1 (gramada),


com sede do Plantão Social e
Condomínio C ao fundo. Fonte:
Arquivo SEHAB.
109
- Entre a rua projetada e o - Apesar de estarem em um
Condomínio F (a montante), há vários fundo de vale, das áreas 1, 2, 3 e 4,
espaços residuais oriundos de desa- consegue-se enxergar praticamente
propriações para área non aedificandi , todo o Sapé, bem como o seu entor-
novas edificações e por risco (Área no. As linhas visuais são interessantes
4); e numerosas.
iguras 32 e 33. Leito do córrego
e sua visibilidade a partir de am-
Figuras 30 e 31. Área 4, vista da bas as margens e, abaixo, Área
rua projetada e, abaixo, vista da 1, de onde partem linhas visuais
Rua Waldemar Roberto. Fonte: interessantes para a favela. Fonte:
Arquivo SEHAB. Arquivo SEHAB.
111
A população do Sapé e do entorno

Domicílios na Favela do Sapé



Antes das obras: 2.362

Removidos: 1.496

UHs entregues: 288

Saldo atual: 1.154

Saldo atual da população:


3.808,2 habitantes (considerando-se
3,3 moradores por domicílio 29 ).

UHs a serem entregues 30 (pro-


visão interna): 296

Saldo final futuro: 1.450

Saldo final futuro da popula-


ção: 4.785 habitantes

População da Favela do Sapé


(em habitantes)
Figura 34. Croqui da vista a partir do plantão social do Sapé Antes das obras: 7.598
em outubro de 2015. (na página anterior). Desenho: o autor .
29
Fonte: SÃO PAULO, 2011. Saldo ao fim das obras: 4.785
30
É possível que esse número seja acrescido de 50 unidades
futuramente. Como esse acréscimo não foi confirmado até
Provisão externa futura: 369
2016, essas unidades não foram contabilizadas. UHs + 1.217,7 habitantes do Sapé
112
que morarão no entorno (áreas de
provisão: Domenico Martinelli e Água
Podre).

Saldo final da população ori-


ginária do Sapé na favela e no seu
entorno: 6.002,7 habitantes

Conclusão: Em se conside-
rando que a população do Sapé e do
seu entorno imediato não sofra mais
flutuações, entre o início das obras
em 2011 e a entrega de todas as pro-
visões (interna e externa) atualmente
asseguradas, a população da Favela
do Sapé e do seu entorno perderá
1.595 habitantes.

Equipamentos nos arredores do


Sapé

- 2 CEIs;

- 1 EMEI; 31
O CEU Butantã por si só contém uma outra série de equi-
pamentos. São eles: 1 CEI, 1 EMEI, 1 EMEF, 1 ETEC, 1 POLO
- 1 CEU 31 ; UAB (Universidade Aberta do Brasil), 1 Teatro com 450 lu-
gares, 1 Biblioteca, 1 Telecentro, 3 Piscinas, 1 quadra coberta
- 1 UBS; (ginásio), 4 quadras descobertas, 1 pista de skate, 1 campo de
areia, 1 sala de ginástica, 1 sala de dança, 1 sala multiuso, 1 es-
túdio de música, 1 ateliê de arte, 1 ateliê de costura, 1 sala do
- 1 hospital municipal; clube de xadrez, 1 parque externo, 1 padaria escola. Disponível
em: <http://portal.sme.prefeitura.sp.gov.br/Main/Noticia/
- 6 quadras poliesportivas e Visualizar/PortalSMESP/CEU-Butanta--Informacoes-Gerais
inúmeras praças; >. Acesso em: 02 nov. 2016.)
113
- 1 centralidade comercial em desenvolvimento potencial
(Avenida Rio Pequeno). mais aprazível e, consequentemente,
atrair mais frequentadores;
Como fruto da diminuição fu-
tura da população do Sapé e de seu - área que, por estar em um
entorno imediato, conclui-se que: fundo do de vale, é amplamente visí-
vel dos arredores mais altos vigi-
- não há necessidade de se im- lância natural da vizinhança;
plantarem novos equipamentos como
UBS, CEI, EMEI, CEU e hospital; - área localizada em uma bai-
xada relativamente aberta ampla
- não há necessidade de novas visão para a Favela do Sapé;
linhas de ônibus.
- centro geográfico do Sapé
área mais ou menos equidistante
5.3 POTENCIALIDADES DA ÁREA das duas pontas da favela e, portanto,
DA DIVISA com igualdacondições acessibilidade;

Comércio e equipamentos: - há um comércio tímido flores-


cendo na Área 4 (bares e mercearias)
- região no cruzamento de dois indicação de uma inclinação co-
grandes eixos acessibilidade fa- mercial da área (ainda que mínima).
cilitada e maior potencial de frequen-
tadores; Lazer:

- percurso suave e amplo ao - Além de, ao longo do leito do


longo do córrego, sem grandes decli- córrego, existir a ciclovia (que tam-
vidades, sem vielas e sem escadarias bém pode ser usada para lazer), há
acessibilidade facilitada e, consequen- quadras esportivas em dois pontos do
temente, maior potencial de frequen- curso d’água (próximo à Avenida Rio
tadores com mobilidade reduzida; Pequeno, à jusante, e no Condomínio
F, a montante);
- percurso com arborização
114
- Há ao longo do córrego, mui-
tas áreas livres suficientemente gran-
des para comportarem playgrounds e
áreas com equipamentos de ginástica
para idosos;

- As áreas 1, 2, 3, e 4 serem fa-


cilmente vigiáveis e estarem no entro-
camento de grandes eixos de circula-
ção, o que pressupõe mais movimento
e mais olhos que vigiam maior
resguardo e segurança aos potenciais
frequentadores dessa área;
Figura 35. (próxima página)
- 31,9% da população do Sapé tem Croqui da vista do córrego para
de 0 a 14 anos (SÃO PAULO, 2011), gran- o Condmínio A (à esquerda) em
outubro de 2015. Desenho: o
de potencial de usuários de equipamentos de autor
lazer infantil.
Figura 36. Local do antigo can-
teiro de obras do Sapé B: poten-
Habitação: cial área de lazer. Fonte: Arquivo
SEHAB.
- Há um grande déficit na provisão
interna da Favela do Sapé. 1496 famílias foram
removidas da favela e apenas 288 voltaram ao
assentamento já nas novas unidades habita-
cionais.

- Devido ao grande déficit na provi-


são interna do Sapé, áreas originalmente re-
116
servadas para provisão deveriam ser preserva- Dadas as constatações e po-
das para esse fim. tencialidades da Área da Divisa, pro-
põem-se as seguintes diretrizes para a
área:
- O condomínio D (previsto para a
Área 2) teve 48 unidades habitacionais licita- 1. Aumentar o máximo possível
das (outras 38 aguardam licitação), enquanto dentro de condições urbanísticas ide-
o E (previsto para a Área 1) está aguardando ais (como a convivência de diversos
licitação para todas as 36 unidades previstas. usos em um mesmo espaço) a provi-
são habitacional do Sapé e do entorno
É razoáavel propor que o projeto para a Área imediato, a fim de diminuir o grande
2 (seja implantado tal como previsto pelos déficit habitacional gerado pelas re-
projetistas, uma vez que mais da metade de moções e a fim de neutralizar a perda
suas unidades habitacionais já foi licitada. Já o de população da área;
Condomínio E poderia ter seu projeto modi-
2. Possibilitar e facilitar o flo-
ficado para que se implantem mais unidades rescimento na Favela do Sapé de um
habitacionais do que originalmente previsto. comércio local e complementar àque-
le da Avenida Rio Pequeno. Tal comér-
Observação: cio local supriria necessidades básicas
dos moradores do assentamento e do
entorno e também movimentaria a
Uma questão observada em depoi- economia local e geraria renda;
mentos de moradores do Sapé foi a forte atu-
ação de organizações comunitárias no Sapé. 3. Implantar equipamentos pú-
Foi, assim, identificada a necessidade de se dar blicos necessários à população e com-
um abrigo físico a essasorganizações. plementares àqueles já existentes no
Rio Pequeno;

4. Dar amparo físico às organi-


5.4 DIRETRIZES PARA A ÁREA DA zações comunitárias do Sapé;
DIVISA
5. Criar áreas coletivas e de
117
convivência na Favela do Sapé e no três associações de bairro no Sapé
entorno a fim de valorizar o uso do atualmente.
espaço público.
Devido às limitações de espa-
ço, ao número relativamente grande
5.5 PLANO DE MASSAS de associações a serem contempladas
com espaço físico e, principalmente,
Com base nas constatações e devido ao fato de a principal diretriz
potencialidades identificadas para a determinar a ocupação máxima da
Área da Divisa, bem como com base Área da Divisa com habitação (Dire-
nas diretrizes estabelecidas para as triz 1), esse TFG propõe um edifício
glebas dessa área, apresenta-se o Pla- para abrigar as funções comunitárias
no de Massa resumido graficamente da favela.
na página seguinte.
Já a implantação de um restau-
De um modo geral, são pro- rante-escola foi definida a partir da
postos quatro usos para as áreas 1, 2, 3 identificação da não existência desse
e 4. São esses usos os seguintes: tipo de uso nos arredores (ver nota
de rodapé 31 sobre o CEU Butantã) e
Institucional da opção por se implantar um tipo de
atividade que aliasse o ensino ao em-
Proposto para o entrocamento poderamento dos alunos no sentido
dos maiores fluxos de circulação do de permitir-lhes extrair sustento eco-
Sapé (fluxos longitudinal e transver- nômico a partir do que aprendem.
sal). Propõem-se dois equipamentos,
uma associação comunitária de mo- Além disso, acredita-se que há
radores e um restaurante-escola. demanda no Sapé e, em especial no
entrocamento dos principais fluxos da
Identificou-se a necessidade favela, para um restaurante de cárater
de uma associação comunitária a par- popular.
tir de conversas com moradores da
área e com a projetista Marina Gri- Lazer/Área Verde
nover, que mencionou a existência de
119
Proposto também nos arredo- muitos moradores na unidades.
res do entroncamento dos maiores
fluxos de circulação. Também consta- No entanto, também se enten-
rão áreas verdes e de lazer no interior de que a existência de um elevador
das áreas de provisão habitacional. por torre pode aumentar em muito
a provisão habitacional do Sapé, que
Misto - Residencial e Comercial (ca- é baixa e que gera um grande déficit.
sas) As restrições que a legislação muni-
cipal impõe à verticalização de edifí-
Propõe-se implantar o proje- cios de Habitação de Interesse Social
to desenvolvido pelo escritório Base (HIS) sem elevadores permitiria que
Urbana, no qual edificações de dois se construíssem apenas o pavimento
pavimentos (térreo e primeiro andar) térreo e outros quatro pavimentos
preenchem espaços residuais ao longo para baixo e/ou para cima quando o
da Área 4. Segundo o projeto (expos- relevo permitisse. Na Área da Divisa
to no item 3.4) constam nos térreos (em especial na Área 1, mais plana), o
unidades comerciais e, no pavimento aproveitamento do relevo limitaria o
superior, está o uso residencial. número de pavimentos que poderiam
ser edificados.
Misto - Residencial e Comercial
(condomínios) Sendo assim, propõe-se que se
instale um elevador por torre e que
Propõem-se quatro torres re- sua manutenção ao menos nos pri-
sidenciais com elevadores a fim de meiros anos após a instalação não seja
se reduzir ao máximo o déficit habita- custeada pelos condôminos, mas pelo
cional da Favela do Sapé. poder público.

Entende-se que a existência Entende-se que mesmo o po-


de elevadores implica custos de ma- der público pode ter dificuldades
nutenção arcados pelos condôminos, financeiras de manter os elevado-
custos esses que encarecem as taxas res funcionando. No entanto, crê-se
de condomínio e que, dessa forma, que é obrigação das administrações
podem dificultar a permanência de públicas promover condições ideais
120
de moradia àqueles que necessitem o futuro Condomínio D. Nesse âmbi-
(condições essas mais bem alcançadas to, 48 unidades habitacionais já foram
no Sapé com elevadores); é também licitadas e outras 48 aguardam o mes-
obrigação dos governos atender dig- mo processo.
namente o maior número de famílias
que se enquadrem nos critérios de Já a Área 1 abrigará pelo proje-
HIS. to original 36 UHs no futuro Condo-
mínio E, sendo que outras 50 unidades
No térreo desses edifícios ou podem ser adicionadas ao projeto. No
no seu entorno, deverão ser constru- entanto, nenhuma dessas UHs foi lici-
ídos boxes comerciais que sejam ge- tada até agora.
ridos pela própria população da favela
e que atendam a essa população com Devido ao adiantamento da
comércio e serviços de caráter local Área 2, esse TFG optou pela escolha
e complementar ao comércio do Rio da Área 1, que está portanto mais in-
Pequeno. definida em termos de futuro de pro-
jeto.

5.6 UM DESENHO PARA A ÁREA Na implantação, observa-se


1: PROPOSTA DE IMPLANTAÇÃO que se buscou aproveitar ao máximo
o terreno, com a implantação de qua-
Devido às condições de espaço tro edifícios residenciais, além de sete
e de licitação das áreas 1, 2, 3 e 4, esse boxes comerciais, uma associação co-
trabalho se debruçará sobre a Área 1, munitária de moradores e um restau-
onde, diferentemente das áreas 2 e 3, rante-escola.
há um espaço satisfatório para a ma-
terialização das diretrizes e do Plano Foram delimitadas quatro
de Massas expostos nesse capítulo. grandes áreas privadas e duas áreas LEGENDA
públicas dentro da gleba. Dentro das 1 = associação comunitária de moradores
A Área 2, que também apre- áreas privadas, há espaços de lazer de- + 4 boxes comerciais
senta uma área ampla, está localiza- limitados pelos edifícios dos condo-
da na margem direita do Córrego do mínios e pelos limites da rua. 2 = 3 boxes comerciais
Sapé e abrigará pelos planos originais
3 = restaurante-escola
2
Residencial 1 Residencial 3

Residencial 2 1

Residen
cial4
Rua Ge 3
rtrudes C
unha
Rua Ge
rtrudes C
unha
ÁREAS PÚBLICAS E PRIVADAS
escala 1:750

LEGENDA

É importante observar que as cruzamento dos dois maiores fluxos Espaço Privado
áreas públicas estruturam-se ao lon- do Sapé. Não é à toa que nessa área
go de caminhos. Um deles inicia-se na estão os equipamentos e o comércio Espaço Público
Rua Gertrudes Cunha e corta a Área propostos.
1 até cruzar a ciclovia e o córrego. A
transposição sobre o curso d’água se Nas áreas privadas, propõe-se
dá sobre uma uma ponte proposta a implantação de áreas verdes e de
pelo escritório Base Urbana. lazer, tais como playgrounds e locais
com equipamentos de ginástica para
A outra área pública se es- idosos.
trutura exatamente na divisa entre o
Sapé A e o Sapé B. Centro geográfico 5.7 PROPOSTA DE PROVISÃO
da favela, essa área também está no HABITACIONAL
CORTE GERAL AA
escala 1:500

CORTE GERAL BB
escala 1:500
125
Para a provisão habitacional, de duas áreas de ventilação contí-
PERSPECTIVA DO SAPÉ COM DESTAQUE são propostas duas tipologias de apar- guas à fachada dos apartamentos de
AO PROJETO IMPLANTADO NA ÁREA 1 tamentos: 2 e 3 dormitórios. dois dormitórios. Tais áreas também
(À DIREITA) conferem à sala desses apartamentos
Desenho: Autor Houve uma preocupação com maior privacidade.
a necessidade de se harmonizar os
edifícios propostos (de maior gabari- Por fim, cabe observar a exis-
to) com aqueles já construídos. Dessa tência de apenas uma parede hidráu-
forma, desenhou-se uma fachada que lica entre os apartamentos de dois e
buscasse dialogar com as fachadas três dormitórios.
desses edifícios já implantados.

Além disso, propôs-se uma cir- 5.8 UM DESENHO PARA O


culação horizontal generosa, tal como RESTAURANTE-ESCOLA
propôs o escritório Base Urbana.
O restaurante-escola foi pro-
Deve-se observar a existência posto mirando-se o exemplo de ou-

C C

PLANTA PAVIMENTO-TIPO
escala 1:200

D
CORTE CC
escala 1:200
CORTE DD 127
escala 1:200
tros equipamentos do gênero em São
Paulo, tais como o restaurante-esco-
la existente na Câmara Municipal da
cidade. Segue abaixo a descrição do
público-alvo a ser beneficiado no es-
tabelecimento, bem como das ativida-
des que essas pessoas realizam:

Cada turma compreende 60 jovens


em situação de vulnerabilidade so-
cial, entre 17 e 21 anos. O curso tem
duração de seis meses e o objetivo
é o de capacitar e inserir esses jo-
vens no mercado de trabalho. No
curso, eles aprendem a carregar
bandejas, servir as mesas, preparar
pratos e bebidas, recebem noções
de cidadania, técnicas de higiene e
estocagem de alimentos, entre ou-
tros ensinamentos.

Disponível em: http://www.cama-


ra . s p . gov. b r / re s t a u ra nte - e s co l a / .
Acesso em 05/11/2016.

Chama especial atenção nessa


descrição a prioridade do preenchi-
mento das turmas por jovens em situ-
ação de vulnerabilidade social. A por-
centagem de jovens no Sapé é maior
do que em outras favelas paulistanas
(ver item 3.3). Além disso, a vulnerabi-
lidade da população do Sapé também
ELEVAÇÃO
PRINCIPAL
escala 1:200
ELEVAÇÃO
POSTERIOR
escala 1:200
ELEVAÇÃO ELEVAÇÃO
LATERAL 1 LATERAL 2
escala 1:200 escala 1:200
131
é considerada maior do que em ou- do interior do ambiente e que per-
tras favelas (ver item 3.3). corre o fundo de vale do Córrego do
Sapé em direção a seu montante (vi-
Além de tentar reduzir a vul- são a partir da face sul do edifício).
nerabilidade dos jovens da Favela do Daí decorre o fato de as janelas do sa-
Sapé, o restaurante-escola poderia lão serem amplas (ver elevações).
fornecer refeições a um preço mais
baixo para a população do assenta-
mento como um todo. 5.9 PROPOSTA PARA A
ASSOCIAÇÃO COMUNITÁRIA DE
O programa desse equipamen- MORADORES E PARA OS BOXES
to é constituído de cozinha, sala de COMERCIAIS
aula, banheiros adaptados para cadei-
rantes e salão para refeições. Merece Dada a existência de ao menos
atenção a adoção de um shed para três associações de moradores atuan-
iluminação e ventilação zenitais. Esse tes no Sapé e dada a necessidade de
shed teria em sua abertura brises ho- espaço para essas organizações, esse
rizontais fixos dispostos em uma in- trabalho propõe o projeto de um edi-
clinação de modo a barrar a entrada fício que possa servir de abrigo para
direta de raios solares no salão. Essa reuniões e assembleias de ao menos
inclinação barraria também a entrada uma associação.
de água da chuva. Os brises fixos são
de mais fácil manutençãoe de mais O desenho desse edifício é
baixo custo. compacto e se mescla ao dos boxes
comerciais, que aproveitam a localiza-
A abertura do shed estaria vol- ção de maior movimento.
tada para sul, o que dificultaria ainda
mais a entrada direta de raios solares Os boxes formam um comple-
no salão de refeições. xo de sete unidades comerciais com
banheiro, sendo quatro unidades no
Espera-se que as pessoas que edifício da associação comercial e três
estejam no salão possam apreciar uma em edifício separado. Os usos a eles
linha visual interessante que partiria atribuídos podem variar de pequenas
G PLANTA RESTAURANTE-ESCOLA
escala 1:100 N

PROJEÇÃO SHED
E E

F F

G
CORTE EE
escala 1:100

CORTE FF
escala 1:100
ELEVAÇÃO LATERAL 1
escala 1:100

CORTE GG
escala 1:100
ELEVAÇÃO PRINCIPAL ELEVAÇÃO POSTERIOR
escala 1:100 escala 1:100

ELEVAÇÃO LATERAL 2
escala 1:100
136
vendas de alimentos e outros produ- esses gestores partem de determina-
tos básicos a sedes de serviços como das características que rendem aos
cabeleireiros e manicures. candidatos pontos. A quem obtiver
mais pontos é dada a concessão da
A gestão dos boxes comerciais unidade comercial.
pode seguir padrões como aqueles já
recomendados pela CONAM (Confe- Dentre as características que
deração Nacional das Associações de rendem pontos aos possíveis gesto-
Moradores) e já postos em prática em res, estão o número de dependentes,
conjuntos residenciais como o Con- idosos e deficientes na composição
domínio Coração de Maria, em Salva- familiar, experiência anterior no ramo
dor. a ser operado, o fato de a pessoa ser
mulher chefe de família e de ter parti-
Lá, os recém-inaugurados bo- cipado de associações e de trabalhos
xes comerciais visam à capacitação e à voluntários.
formação de seus gestores, bem como
ao consumo consciente e ao comércio No Sapé, tais critérios pode-
justo na comunidade. riam ser adotados acrescentando-se o
fato de o candidato a gestor ter tido
Isso significa que aqueles que seu comércio removido para as obras
gerirem as unidades comerciais têm de urbanização da favela.
deveres como contatar fornecedores
que pratiquem a chamada economia
solidária, realizar cursos e operar suas
unidades em horários que sirvam aos
moradores do conjunto.

Os gestores também não de-


vem ter vínculos empregatícios e de-
vem morar nas unidades residenciais
do condomínio.

Os critérios de escolha para


I
H

J
J

PLANTA ASSOCIAÇÃO DE
MORADORES E BOXES COMERCIAIS
escala 1:100 N I
H
CORTE II
escala 1:100

ELEVAÇÃO PRINCIPAL
escala 1:100
CORTE HH
escala 1:100

ELEVAÇÃO POSTERIOR
escala 1:100
ELEVAÇÃO LATERAL 1
escala 1:100

ELEVAÇÃO LATERAL 2
escala 1:100
CORTE JJ
escala 1:100
CROQUI DE UM BOX COMERCIAL
TRANSFORMADO EM VENDA
Desenho: Autor
CROQUI DE UM BOX COMERCIAL
TRANSFORMADO EM SALÃO DE CABELEIREIRO
Desenho: Autor
CONSIDERAÇÕES
FINAIS
146


Se eu for olhar pro entorno, no co-
mum, pro morador, melhorou 100%. 100%.
Porque não tem mais aquele lamaçal. Não tem
Para verificar essa afirmação,
voltemo-nos à Favela do Sapé. Seus
moradores em geral já têm acesso a
mais esgotos a céu aberto. E o pessoal pode uma parte importante da infraestru-
até fazer uma reforma na sua casa. Porque, tura e de serviços urbanos, como co-
antes, ninguém podia, né. Não tinha nem es- letas de esgoto e de lixo. Outros servi-
paço de você entrar pra mexer numa parede. ços, antes acessíveis principalmente de
Agora não. É diferente. Luz também. Em ma- modo informal – como fornecimento
téria de luz elétrica, melhorou, porque agora de energia elétrica e abastecimento
tá tudo legalizado. Nós temos um endereço, de água – agora são regularizados.
porque, antes, a gente não tinha. Você pre-
cisava de um comprovante de residência pra A condições de habitabilidade
abrir uma conta num banco, ou num posto de de muitos moradores também melho-
saúde e você não tinha um endereço. Hoje, rou. Muitas famílias hoje estão em no-
você tem. Nisso aí eu não posso.... 100% me- vas unidades habitacionais entregues
lhorou..

Fala de um morador da Favela do Sapé em conversa com
na própria área em que moravam.
Agora há mais espaço para os mora-
dores e para a mobília e há também
o autor.
melhores condições de ventilação e
iluminação naturais. Além disso, algo
bastante simbólico ocorreu: muitos
A fala desse morador do Sapé moradores do Sapé ganharam um en-
resume em poucas linhas aquilo que dereço formal.
esse Trabalho Final de Graduação se
esforçou em mostrar. A macro e a microacessibilida-
de do assentamento também melho-
Primeiramente, a urbanização rou: há escadarias em vielas íngremes
de favelas nos moldes daquela que e novas ruas foram abertas.
está sendo realizada no Sapé é um
grande passo para a redução de várias O cumprimento de exigências
precariedades presentes nesse tipo de ambientais também está mais a con-
assentamento, em especial a física. tento. Com a implantação de um cole-
tor-tronco e de suas ligações na favela,
147
bem como com a liberação das várze-
as do Córrego do Sapé para a implan-
tação de um parque linear, a comuni-
dade conseguiu reduzir a poluição das
águas do córrego. Em fases iniciais das
obras de urbanização da favela, a qua-
lidade dessas águas era ruim. Em 2015,
passou a ser regular e, em março de
2016, melhorou ainda mais de forma
que ficou um ponto atrás da marca-
ção considerada boa 32 .

A liberação das margens do


Córrego do Sapé, acompanhada de
sua canalização, não significou apenas
ganhos para o meio-ambiente local.
Significou também que muitas famí-
lias que viviam nas áreas de risco ala-
gáveis não estão a princípio mais nes-
sa situação.

O termo “a princípio” não foi


meramente empregado no parágrafo
anterior. Ele intencionalmente des-
creve uma regra (a retirada de muitas
famílias de situação de risco e de pre-
cariedade), bem como o fato de que
ela possui exceções.
32
Informações presentes em <https://www.sosma.org.br/ Aí reside uma questão, que
blog/um-rio-renascendo/> (Acesso em 12 nov. 2016) e em introduz outro ponto que esse traba-
e <http://microredesape.blogspot.com.br/2016/03/riacho- lho tentou mostrar. A urbanização do
-do-sape-esta-llimpo.html> (Acesso em 12 nov. 2016). Sapé (e de outras tantas favelas) re-
148
duz a precariedade sob muitos aspec- favelas se aquece com demanda por
tos, mas não consegue reduzir essa moradia vinda de famílias removi-
precariedade por completo. Muitas das. Como consequência, uma família
vezes, desdobramentos do projeto e que pagava um valor específico com
das obras, influenciados por questões aluguel antes de ser removida, agora
técnicas e politicas, acaba mantendo gasta mais no lugar para onde se mu-
ou até mesmo gerando maior preca- dou provisoriamente e – muitas vezes
riedade para algumas famílias. – indefinidamente. Há famílias que in-
clusive foram removidas de casas das
Alguns domicílios de madei- quais eram proprietárias. Essas, hoje
ra, por exemplo, foram mantidos no tornaram-se locatárias.
Sapé. Com isso, algumas famílias con-
tinuam morando em condições ex- O Sapé também registrou pro-
tremamente vulneráveis. Espaços re- blemas como a diferenciação ou a ci-
siduais oriundos das desapropriações são de sua área e de seus habitantes.
também surgiram, de modo que pos- As obras dividiram a favela em Sapé
síveis ocupações irregulares podem A e B, além de terem dividido os mo-
preenchê-los. radores em habitantes de áreas rema-
nescentes – mais próximas da favela
Além disso, a obra de urbaniza- anterior e precária – e de novas uni-
ção do Sapé gerou mais remoções do dades – que, ao menos idealmente,
que provisões. Assim, muitas famílias representam o habitar ideal. As áreas
foram removidas do local onde mo- de provisão, da forma como foram
ravam e tiveram de buscar moradias distribuídas ao longo do assentamen-
provisórias em áreas por vezes distan- to, causaram a descontinuidade do
tes daquela de onde saíram. O auxí- território da favela, com intercalações
lio-aluguel que a Secretaria Municipal entre áreas remanescentes e condo-
de Habitação de São Paulo fornece a mínios novos.
essas famílias cobre em geral parte de
suas despesas com o novo domicílio, Mesmo alguns dos moradores
mas não de forma integral. No entan- beneficiados com as novas unidades
to, estudos demonstram que o mer- habitacionais enfrentaram certas difi-
cado imobiliário informal de muitas culdades. As despesas com a taxa de
149
condomínio e com contas de água, luz Favela do Sapé –, de infraestrutura e
e gás são muitas vezes onerosas de- de incentivos.
mais para determinadas famílias. Essas
acabam por não pagar tais despesas e Esses incentivos não se tratam
em diversas ocasiões deixam as unida- apenas de programas de transferência
des e voltam a morar em condições de renda. Eles são importantes para o
precárias. sustento de muitas famílias pobres e,
além disso, movimentam a economia
Tal observação é a deixa para local de muitas comunidades. Mas há
a menção a um terceiro ponto consi- que se fazer mais que isso. É essencial
derado importante por esse TFG. As que o poder público crie por exem-
obras de urbanização de favelas não plo programas de melhoria das casas
são por suficientes para integrar esses remanescentes. Essa necessidade, que
assentamentos e seus moradores à ci- algumas prefeituras de outras cidades
dade e a condições de plena cidada- já buscaram solucionar e que no Sapé
nia. É necessário que o poder público é reivindicação, poderia por exemplo
seja provedor , mais do que arrecada- dar maior conforto aos moradores das
dor , opressor ou cobrador de deve- áreas remanescentes. Poderia também
res . Isso significa dizer que, enquanto diminuir a desigualdade física e sim-
esfera municipal, estadual e federal, bólica entre aqueles que se mudaram
o Estado deve aumentar sua presen- para novas unidades e aqueles que
ça nas favelas. Mas esse aumento de permaneceram em suas casas origi-
presença não significa apenas entrar nais.
com as forças policiais, como se viu
nas Unidades de Polícia Pacificadora É essencial que, na mesma me-
(UPP), no Rio de Janeiro. dida em que se passe a cobrar taxas
e impostos dos moradores de áreas
Significa entrar em definitivo urbanizadas, esses mesmos morado-
(e não apenas durante as obras de ur- res possam ter mais voz nas suas rei-
banização) com regulação, fiscaliza- vindicações e possam ver seus direi-
ção, implementação de equipamentos tos tão assegurados quanto os direitos
públicos – muitos dos quais felizmen- dos que habitam o restante da cidade.
te já estão presentes nos arredores da Na cidade de São Paulo, os Conselhos
150
Gestores são experiências interessan-
tes nesse sentido.

Sabe-se que garantir a igual-


dade plena entre todos os cidadãos
é impossível. Mas é essencial que nos
aproximemos de um ideal inalcançável
para com algum sucesso alcançarmos
uma realidade melhor. Para todos.
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