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PROCURADO

“I'd touch your face


And squeeze the trigger soft and slow
I'd push the knife into your breast
And your sweet blood would flow
I'd fall in 'til the death
You'd slowly close your eyes
Together we shall die”
The Gun and the Knife - Cibelle, S. Genders, S. Ribchester
(o vento sopra forte)

COWBOY PHIL
do que me lembro,
o deserto
a poeira em minha boca
a poeira em meus olhos
o sol branco
do meio-dia

uma sombra acima do chão


sombra sem superfície
o deserto inteiro
tento ver seu rosto
topo do chapéu
negro

fala comigo
FALA
poeira em meus olhos
ele?

a poeira meus olhos ardem


poeira nos ouvidos
um zumbido
o suor desenha uma cobra em minha testa
ele é sombra na poeira tempestade de areia

a cobra beija meus olhos


a poeira caminha no chão
uma cobra negra desliza o horizonte
a luz branca do sol
do meio-dia
ele?
do que me lembro,
alvura e amplidão
lucífugo rastejar o sibilo dizia
me dizia
diga para que se perfume
gosto dela
perfumada
perfurada
soltando fumaça locomotiva vermelha

DOC
locomotiva vermelha?

COWBOY PHIL
de quem eu falava?

DOC
uma moça sua pele
a visão da violência pura
passadas de corrente
trêmulas
a beira de seu leito
trampolim para o

(chuviscos)

CHOI
- O chão, as janelas, o ventilador, as pias, a esponja, o detergente, as panelas, o fogão, o
refrigerador, as facas, o camarão, a lula, o frango, o porco, o shoyu, o macarrão, o balcão, as
caixas, as aranhas, os ratos, as baratas, as vassouras, os panos, as prateleiras, o lixo, a calçada,
a porta, a chave, as cortinas, a pipoca?

LEE
- Perdi alguma coisa?

CHOI
- Uma paisagem, uma mulher.
COWBOY JACK
Whisky!

BARTENDER
Gelo?

COWBOY JACK
Não.

CHOI E LEE
- Cowboy!
- Cowboy!

BARTENDER
Você é novo por aqui...

COWBOY JACK
Aqui.

BARTENDER
Nunca esqueço um rosto.

COWBOY JACK
O que aquele homem tem?

BARTENDER
Diz ter visto o outro.

COWBOY JACK
Impossível.

Certa vez
matei ele
seu apetite saciado
seus reflexos descompassados
passei 14 horas no alto da torre da igreja
acertei sua nuca com o desvio do vento

Antes de cair
deu 3 tiros em minha direção
no céu na cruz em minha orelha

Amarrei seu corpo na cela do cavalo


e onde só se pode ver horizonte
desmontei-o
como a uma arma
desembalei seu couro claro
dissequei sua carne escura
sua pele feno seco
ossos fosforescentes
como a lua plena

Uma visão lindalinda como um anjodemônio


pendurei sua carcaça como espantalho
e esperei o calor fritar
o resto
seus restos

O maior momento da minha vida


ele está morto
eu matei

Mais whisky!

DOC
o outro vivenunca morrerá
nunca nasceu
nasceu de botas
a poeira cobria a placenta
o sangue evaporava ao cair
seu primeiro gesto foi cuspir tabaco
e não chorou

foi criado por falcões


no ar
ele vê de cima
dos ares
aprendeu a caçar cowboys
e pequenos roedores

Beba seu whisky, amigo!


O outro está a caminho

(chocalho de cascavel)
ELA
Certa vez tomei banho de rio
avancei em frente
com braçadas fortes
longe, longe, longe...
quando me cansei,
percebi
que meus pés não alcançavam
o chão do rio
tive medo
e voltei
fim

DOC
Não liguem para o que ela diz, é só um truque.

ELA
As luzes morrem enganam mentem iludem os bobos dos olhos que olham as estrelas fazem um
pedido e caem as estrelas cadentes não atendem porque estão mortas e não enterradas e vagam na
vastidão dos olhos dentro das caveiras dos homens e mulheres que olham do chão da poeira do
espaço que permanece só. Só. Sopro, o sangue poeira o esperma poeira as lágrimas poeira minhas
lágrimas e meu sangue inútil ventre inútil. Por que sangrar? Por que tanta poeira?

em meio à poeira,

invento quartos salas banheiros onde habitam ecos de frases ainda não

no cômodo azul - o primeiro - o papel de parede é azul marinho e lembra o rio meu dia no rio tive
medo tenho medo do quarto azul. sou eu que permaneço em pé olhando para fora. a luz é nuvem
branca vem de fora sopram flores sinto ouço flautas saia de flanela e blusa de algodão.

há um quarto amarelo dourado o sol. ossos quentes pele rubra as costas suam sinto já pressinto
chegará. seu tapete é vermelho. enrosco meus dedos cobras na relva no meio fios grossos do tapete
rubra minha pele sinto fumegante o sopro morno. solar. já não medo.

o frio o veneno nas escamas do quarto verde. parece um bom lugar para se jogar encontrar com o
chão com o fim com a vertigem cartilagem em meus olhos. o sopro o vento a respiração da morte
fria suas mãos de ossos dedos de peixe umidade piche escorrego. não. volto. volto outra vez é
sempre assim. o tempo igual. azulejos sobre eu me equilibro não caio. patino. já não volta.

será no quarto vermelho que vai me encontrar. valsar. um dois três um dois três um dois. como é
grosso o som é branco o som alto e doído. as paredes escorrem seus cabelos me perfumam a
vertigem me embala os pés. você você você. me carrega me veste. janelas de paisagem pintando
minha nudez de âmbar o cheiro entope meu peito queima minhas costelas. um dois três um dois
três um dois. me beija baba em me lambe. me cheira me agarra corta. me arranha mutila me rasga.
já não vida,

no meio
a poeira.

(batidas na porta)

LEE
- Você me sufoca.

CHOI
- O quê?

LEE
- Foi o que minha mãe disse antes de morrer.

CHOI
- Morreu?

LEE
- Meu pai a estrangulou.

(os dois riem)

Ele queria ficar com uma amante. E sabe o que é engraçado nisso tudo?

CHOI
- Não.

LEE
- A amante matou ele. Da mesma forma.

(os dois riem)

Eles nunca voltaram a se falar...

DOC
Anoitecerá
E na noite estrelas flutuando
Peixes voadores de barbatanas prateadas; num mergulho
faça um pedido

Não quero morrer sem entender do que tratam os provérbios chineses


Ter a boca enegrecida com os pedaços do meu próprio coração
Sentir o calafrio dormente do primeiro instante em que o veneno faz efeito

Os corpos de leite parecem tão esfumados na lonjura do breu

O dedo no gatilho quer acertar o quê?


Que melodia canta a pistola quando se avermelha?
Que balé dança o aço da sua faca ziguezagueando dentro do meu?

Faça um pedido

COWBOY JACK
Se ele está a caminho, assento aqui mais tempo.

BARTENDER
Pagamento adiantado pela estadia.

COWBOY JACK
Desconfiam dos clientes, mas acreditam em fantasmas?

COWBOY PHIL
Está duvidando da minha palavra, forasteiro?

COWBOY JACK
Talvez o sol daqui seja muito forte, amigo.

COWBOY PHIL
Eu quero a forca se não era o outro.

COWBOY JACK
Fique com seus pés no chão.

COWBOY PHIL
Quer deixar isso interessante?

COWBOY JACK
O que propõe, amigo?
COWBOY PHIL
Uma aposta.

COWBOY JACK
Uma aposta, diz você?

COWBOY PHIL
Uma aposta, forasteiro.

COWBOY JACK
Que tipo de aposta?

COWBOY PHIL
Se até a próxima lua ele não chegar, eu lhe devo 500. O que me diz?

COWBOY JACK
500, diz você?

COWBOY PHIL
500.

COWBOY JACK
Sou um homem temente a Deus, nunca aposto dinheiro.

COWBOY PHIL
Desiste?

COWBOY JACK
Não foi o que eu disse.

COWBOY PHIL
E o que me diz?

COWBOY JACK
Digo que se a coisa não der as caras até a próxima lua, eu lhe dou 40 chicotadas.

COWBOY PHIL
40?

COWBOY JACK
Acha muito?

COWBOY PHIL
E se eu ganhar?
COWBOY JACK
Se você ganhar você pode me atravessar a mão esquerda com um tiro à queima-roupa.

COWBOY PHIL
Poderia ser a direita? Por precaução.

COWBOY JACK
Fechado!

BARTENDER
Não sei se fez bom acordo, cowboy.

COWBOY PHIL
E por que não?

BARTENDER
A próxima lua é cheia. O rio vai subir e aí não se pode cruzar.

COWBOY PHIL
Não se preocupe, ele virá.

(piano, saloon)

COWBOY JACK
botas para cima
rendas assoviam
a cor vermelha
o luzeiro oscila
mecanismo de alavanca
dança sincopada
as flores da parede passeiam
por outros olhos
uma serpente salgada
trilhando as curvas das costas
encosta abismo
vegetação quase
paisagem claro-escuro
isso aqui é só isto aqui

grita
mas grita como um besouro
olhos brancos
dois rasgos no tecido
dois rastos de pegada seca
o que para alcançar seus lóbulos?
qual tecla deste piano?

cavalos trotam
bolas de feno
bar whisky poça jarro
dólar banco cigarro cuspe
isso aqui é só isto aqui
o tempo passa, amigo
aproveita o lombo imaculado
a cobra trançada tem sede

(toca um telefone)

LEE
- Alô?

CHOI
- Eu vou ao banheiro!

LEE
- Alô?
Não ouço nada.
Poderia falar mais alto?
Alô?
Mais alto.
Mais alto!

Já estamos fechados.
Não, eu não estou interessado.
Sim, tem mais alguém aqui comigo, mas também não está interessado.
Não posso falar agora.
Não, também não consumo literatura.
Não ligue mais.
CHOI
- Quem era?

LEE
- Alguém que sussurrava.
Oferecia passeios queda livre.
Pacotes para nudistas.
Também vendia revistas eróticas de modelos mortas.

CHOI
- Não estamos interessados.

LEE
- Foi o que eu disse.

(o vento sopra forte)

ELA
Rasgos na tinta o papel da parede descasca
a noite sopra melodias os gatos inquietos
ao contrário os redemoinhos
giram
as bolas de feno voltam pras covas
ele aproxima

COWBOY PHIL
Seu whisky ainda esquenta, forasteiro?

COWBOY JACK
Mais veludo a cada gole.

COWBOY PHIL
Segura com cuidado. Em breve, sua mão não será tão sábia.

COWBOY JACK
Coceira nas costas, amigo? Aviso que não sou gentil nem com as damas.

LEE
- A gentileza é sempre um disfarce.

CHOI
- É o que você pensa?
LEE
- Com convicção.

CHOI
- Então concordo com você.

LEE
- Obrigado!

CHOI
- Ora.

ELA
Meus pés me escapam
teu rosto é o meu
tabaco salivado minha boca

BARTENDER
veio então a tempestade

(chuva)

escuro torrencial
mil falcões
quais os pingos martelados
nas poças de lama
os penicos não vão conter as goteiras

ELA
ele virá

BARTENDER
ele
e a chuva suspensa
no espaço
entre uma gota e outra
chovem ferraduras
chovem grilos
cigarra assovio do trem
os trilhos dançando
e a fumaça dança entre

ELA
ele?

BARTENDER
Passos fortes
Pata de urso
Chumbo
Gravidade
Pulsação das ventanias
Céu magenta
Incêndiolaranja
Mais whisky?

(a chuva pára)

COWBOY PHIL
água
ÁGUA!

uma a uma
quarenta enguias
me lambem a cela
dói...
azul
escuro
azul
petróleo
uma a uma...
quarenta cobras nas quais atirei
no deserto
pólvora debaixo da unha
na manga da camisa rota
meu poncho,
tenho frio...
sina cruel têm os homens que andam
solidão
do deserto

no deserto
o calor
explode chagas voam retalhos
fagulhas acesas fogueira de acampamento
ARDE!
bolhas
sal
um rio fosforescente
submerso entre algas uma janela
escamas no pé
cartilagem
chuto e chuto
mergulho
e cavo
AAAAAH!
e cavo
AAAAAH!
e cavo
AAAAAH!
e cavo
AAAAAH!
cova
e cruz

COWBOY JACK
o tremor
dos anos perdidos
o leite do cactos
não mata a sede
flor murcha
lá no topo
montanha de nuvens
cinzentas
as cinzas do charuto
árvore cinza
casco velho
caem as madeiras
pregam os veios
no meu dorso
as raízes
o suspiro da casa que deixei
as telhas furadas de raios
a sala eletrificada
a nuca lança choques
de mil volts

as dunas se aproximam de meus olhos em minha cara


as fendas pálidas

vejo nosso senhor!


me estende a mão
não alcanço
atravessa o prego da cruz
pendurado a terra no céu
o céu gira
gira mundo
dilúvio dentro
eu choro
é milagre
alcanço meu pau
e já são dois
meus membros oito
nada nas palmas furadas

não haverá terceiro dia para mim


não levitarei
cairei
sobre as pedras
do firmamento dois olhos abertos
dois fechados
um cheiro doce
e um cheiro pútrido
cemitério de granito
um gato mija veneno
onde minha testa

os anos perdidos invisíveis


minha carcaça
atração de circo
show de variedades
o homem aranha
irmãos siameses
poderes telepáticos
são múltiplas as adivinhações
o que iremos jantar
na nossa mesa
de pernas para o alto
o que dar de comer
ao monstro sagrado
de 100 dentes
presas
minhas orelhas voltam a zunir
fervem do lado esquerdo
decomposição da retina
seca a lua cheia afaga seus cabelos
zunido
tudo o que sobe

desce?

CHOI
- Lee?

LEE
- Sr. Choi?

CHOI
- Essa faca enfiada em minha costela...

LEE
- Pois não?

CHOI
- Você sabe de onde veio?

LEE
- É do restaurante.

CHOI
- E para que serve?

LEE
- Cortamos as lulas com ela.

CHOI
- Desde quando ela está em minha costela?
LEE
- Desde antes.

CHOI
- Ah!

Lavou antes de usar?

LEE
- O senhor sabe que eu sempre lavo os utensílios de cozinha.

CHOI
- É a mais pura verdade!

LEE
- E já separei um pano para limpar todo o escorrimento que brota.

CHOI
- Você é um bom funcionário, Lee.

LEE
- Obrigado, Sr. Choi.

(chocalho de cascavel)

ELA
E ele vem
ele chega
transplantar seus órgãos trocar
com os meus
vem
primeiro os olhos
toma
a língua
metros e metros
de tripa
intestino fervendo
pingando lava
na neve cinza
fervilha
queima
esporas nas bochechas
vem e me cospe
porco
me suga os olhos
limpa meu tronco
por dentro
assassino
recorta meu rosto
teu rosto
me maquia de rouge
batom nos meus bicos
mastiga a renda
perfura a virilha
puto

teus dedos benditos


dedilham meus nervos
chuva elétrica

nada pode ser mais bonito...


forca
aspira meu fôlego
eu mereço
assassino

nada pode ser

troveja

e não sai
nunca
MAIS

(vento ensurdecedor)

DOC
olá

deixa eu ver teus olhos


emoldura tua silhueta
o êxtase
ouço a respiração das nuvens
borboletas incendiadas
flanam
fumegam
fogem
golpe aberto
madrugada aberta
anatomia de esqueletos negros
o peito pulsa
tórax implodindo
meu coração é cavalo andaluz
galope feroz
dentes trincados
caveira que transborda lágrimas
escorre carvão
a suspeita da morte
dama negra em pessoa
refletida na saliva que reluz na língua
gengiva que formiga
o vento atravessa
o escuro contorna
o impacto na queda
ossos trincados
artérias bombeando petróleo
em brasa
cai na poeira
e fumaceia
poeira e chão
o chão
areia movediça
o fim vem e volta
se anuncia
berra
volta
arranca meus lóbulos
brinco artesanal
indígena
dança da chuva
e neva
geada que enegrece os pastos
tóxico
meu corpo agora um brinquedo do inferno
O OUTRO
como cheguei até aqui?
já não tenho mãos
luvas pretas
cobertas de neve
e tudo cobre
congela
tudo
o próprio tempo atravessa
congela
e pára

pára

(nevasca)

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