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O Problema da

Autoridade Política
Um Exame do Direito de Coagir
e do Dever de Obedecer

Michael Huemer
O Problema da
Autoridade Política
Um Exame do Direito de Coagir
e do Dever de Obedecer

Michael Huemer
Universidade do Colorado em Boulder

Giácomo de Pellegrini
Tradução

Igor R. & Julio L.


Edição e Notas

Sociedade Aberta
Conteúdo

Prefácio viii

I A Ilusão da Autoridade 1
1 O Problema da Autoridade Política 2
1.1 Uma parabola política 2
1.2 O conceito de autoridade: uma primeira passagem 4
1.3 Ações versus agentes: a necessidade de autoridade 6
1.4 O significado de coerção e o alcance da autoridade 7
1.5 O conceito de autoridade: uma segunda passagem 10
1.6 Um comentário sobre metodologia 13
1.7 Plano do livro 16

2 A Teoria Tradicional do Contrato Social 18


2.1 A ortodoxia do contrato social 18
2.2 A teoria do contrato social explícito 19
2.3 A teoria do contrato social implícito 20
2.4 Condições para acordos válidos 22
2.5 O contrato social é válido? 25
2.5.1 A dificuldade de optar por não participar 25
2.5.2 A falta de reconhecimento da dissidência explícita 27
2.5.3 Imposição incondicional 28
2.5.4 Ausência de obrigação mútua 28
2.6 Conclusão 32

3 A Teoria do Contrato Social Hipotético 33


3.1 Argumentos do consentimento hipotético 33
3.2 Consentimento hipotético na ética comum 34
3.3 Consentimento hipotético e razoabilidade 36
3.3.1 Concordância hipotética como evidência de razoabilidade 36
3.3.2 Pode ser alcançado um acordo? 37

i
CONTEÚDO ii

3.3.3 A validade do consentimento hipotético 40


3.4 Consentimento hipotético e restrições éticas 42
3.4.1 A teoria do contrato de Rawls como uma defesa da autoridade 42
3.4.2 Pode ser alcançado um acordo? 44
3.4.3 A validade do consentimento hipotético, parte 1: o apelo a
resultados justos 46
3.4.4 A validade do consentimento hipotético, parte 2: condições
suficientes para um raciocínio moral confiável 48
3.4.5 A validade do consentimento hipotético, parte 3: condições
necessárias para um raciocínio moral confiável 50
3.5 Conclusão 52

4 A Autoridade da Democracia 54
4.1 Majoritarismo ingênuo 54
4.2 Democracia deliberativa e legitimidade 55
4.2.1 A ideia de democracia deliberativa 55
4.2.2 Democracia deliberativa como fantasia 56
4.2.3 A irrelevância da deliberação 59
4.3 Igualdade e autoridade 60
4.3.1 O argumento da igualdade 60
4.3.2 Uma teoria da justiça absurdamente exigente? 62
4.3.3 Apoiando a democracia através da obediência 65
4.3.4 A igualdade democrática é exclusivamente pública? 66
4.3.5 Respeitando os julgamentos de outras pessoas 67
4.3.6 Coerção e tratando os outros como inferiores 69
4.3.7 Da obrigação para a legitimidade? 71
4.4 Conclusão 73

5 Consequencialismo e Equidade 75
5.1 Argumentos consequencialistas para obrigação política 75
5.1.1 A estrutura dos argumentos consequencialistas para obriga-
ção política 75
5.1.2 Os benefícios do governo 75
5.1.3 O dever de fazer o bem 77
5.1.4 O problema da redundância individual 78
5.2 Consequencialismo de regras 79
5.3 Equidade 80
5.3.1 A teoria da equidade da obrigação política 80
5.3.2 Obediência como custo de bens políticos 82
5.3.3 Obrigação política para dissidentes 85
5.3.4 Particularidade e a questão de bens alternativos 86
CONTEÚDO iii

5.4 O problema da legitimidade 87


5.4.1 Uma explicação consequencialista da legitimidade 87
5.4.2 Abrangência e independência de conteúdo 88
5.4.3 Supremacia 91
5.5 Conclusão 93

6 A Psicologia da Autoridade 94
6.1 A relevância da psicologia 94
6.1.1 Este livro é perigoso? 94
6.1.2 O apelo à opinião popular 95
6.2 O experimento de Milgram 98
6.2.1 Método 98
6.2.2 Previsões 100
6.2.3 Resultados 100
6.2.4 Os perigos da obediência 101
6.2.5 A falta de confiabilidade de opiniões sobre autoridade 102
6.3 Dissonância cognitiva 103
6.4 Demonstração social e viés de status quo 106
6.5 O poder da estética política 108
6.5.1 Símbolos 108
6.5.2 Rituais 111
6.5.3 Linguagem de autoridade 112
6.6 Síndrome de Estocolmo e o carisma do poder 115
6.6.1 O fenômeno da Síndrome de Estocolmo 115
6.6.2 Por que a Síndrome de Estocolmo ocorre? 117
6.6.3 Quando ocorre a Síndrome de Estocolmo? 117
6.6.4 Os cidadãos comuns são propensos à Síndrome de Estocolmo? 119
6.7 Estudos de caso sobre abuso de poder 121
6.7.1 My Lai revisitado 121
6.7.2 O Experimento Prisional de Stanford (EPS) 122
6.7.3 Lições do EPS 123
6.8 Conclusão: anatomia de uma ilusão 125

7 E se Não Existir Autoridade? 128


7.1 Algumas implicações políticas 129
7.1.1 Prostituição e moralismo legal 129
7.1.2 Drogas e paternalismo 130
7.1.3 Rent seeking 132
7.1.4 Imigração 133
7.1.5 A proteção dos direitos individuais 134
7.1.6 Tributação e financiamento do governo 135
CONTEÚDO iv

7.2 O caso da ajuda aos pobres 139


7.2.1 Bem-estar e criança afogando 139
7.2.2 A utilidade dos programas antipobreza 140
7.2.3 Os programas antipobreza são direcionados adequadamente? 142
7.2.4 Um choque de analogias: criança afogando e assalto para
caridade 145
7.2.5 No caso do acima mencionado estiver errado 149
7.3 Implicações para os agentes do Estado 151
7.4 Implicações para cidadãos particulares 153
7.4.1 Em louvor aos desobedientes 153
7.4.2 A aceitação da punição 154
7.4.3 Resistência violenta 156
7.4.4 Em defesa da anulação do júri (jury nullification) 158
7.5 Objeções em apoio ao culto à regra 159
7.5.1 Todos podem fazer o que desejam? 159
7.5.2 Processo versus substância 160
7.5.3 Minando a ordem social? 162
7.5.4 As consequências da doutrina da independência do conteúdo 164
7.6 Uma modesta fundamentação libertária 165

II Sociedade sem Autoridade 169


8 Avaliando as Teorias Sociais 170
8.1 Observações gerais sobre a avaliação racional das teorias sociais 170
8.1.1 A avaliação racional é comparativa 170
8.1.2 A avaliação racional é abrangente 171
8.1.3 Variedades de governo e anarquia 171
8.1.4 Contra o viés do status quo 172
8.2 Uma concepção simplificada da natureza humana 174
8.2.1 Os seres humanos são aproximadamente racionais 174
8.2.2 Os seres humanos estão cientes do seu ambiente 175
8.2.3 Os seres humanos são egoístas, mas não sociopatas 176
8.2.4 A favor da simplificação 178
8.2.5 Uma aplicação histórica 179
8.3 Utopia e realismo 180
8.3.1 O princípio do realismo 180
8.3.2 Prescrição para um anarquismo realista 181
8.3.3 Contra o estatismo utópico 182

9 A Lógica da Predação 185


CONTEÚDO v

9.1 O argumento hobbesiano para o governo 185


9.2 Predação no estado de natureza 187
9.2.1 Considerações da teoria dos jogos 187
9.2.2 Condições sociais que afetam a prevalência de violência 189
9.2.3 Violência entre Estados 191
9.3 Predação em um Estado totalitário 191
9.4 Predação sob democracia 194
9.4.1 A tirania da maioria 194
9.4.2 O destino dos não-eleitores 195
9.4.3 Ignorância e irracionalidade dos eleitores 195
9.4.4 Ativismo: uma solução utópica 199
9.4.5 A mídia: o cão de guarda adormecido 201
9.4.6 O milagre da agregação 203
9.4.7 As recompensas pelo fracasso 204
9.4.8 Limites constitucionais 206
9.4.9 Sobre freios, contrapesos e separação de poderes 211
9.5 Conclusão 213

10 Segurança Individual em uma Sociedade sem Estado 215


10.1 Um sistema de justiça não-estatal 215
10.1.1 Agências de proteção 215
10.1.2 Empresas de arbitragem 216
10.2 Isso é anarquia? 217
10.3 Conflito entre protetores 218
10.3.1 Os custos da violência 218
10.3.2 Oposição ao assassinato 219
10.3.3 Conflito entre governos 221
10.4 Proteção para criminosos 223
10.4.1 A rentabilidade da aplicação de direitos 223
10.4.2 Proteção criminal por governos 224
10.5 Justiça à venda 225
10.5.1 Direito preexistente 225
10.5.2 Baseando a lei na justiça 226
10.5.3 Comprando justiça do governo 226
10.6 Segurança para os pobres 228
10.6.1 As empresas servem os pobres? 228
10.6.2 Quão bem o governo protege os pobres? 230
10.7 A qualidade da proteção 230
10.8 Crime organizado 231
10.9 Proteção ou extorsão? 233
10.9.1 A disciplina da competição 234
CONTEÚDO vi

10.9.2 Extorsão pelo governo 236


10.10 Monopolização 237
10.10.1 A vantagem do tamanho em combate 237
10.10.2 Determinando o tamanho eficiente das empresas 238
10.10.3 Monopólio do governo 239
10.11 Colusão e cartelização 240
10.11.1 O problema tradicional dos carteis 241
10.11.2 Cartelização por ameaça de força 241
10.11.3 Cartelização por negação de proteção estendida 243
10.12 Associações de proprietários residenciais (APR) versus governo 244
10.13 Conclusão 246

11 Justiça Criminal e Resolução de Disputas 248


11.1 A integridade dos árbitros 248
11.2 Manipulação corporativa 250
11.3 Recusando arbitragem 252
11.4 Por que obedecer os árbitros? 253
11.5 A fonte da lei 254
11.6 Punição e restituição 255
11.7 Crimes não compensáveis 256
11.8 Restituição excessiva 257
11.9 A qualidade da lei e da justiça sob uma autoridade central 260
11.9.1 Condenações injustas 260
11.9.2 Excesso de oferta da lei 262
11.9.3 O preço da justiça 264
11.9.4 O fracasso da prisão 265
11.9.5 Reforma ou anarquia? 266
11.10 Conclusão 268

12 Guerra e Defesa da Sociedade 270


12.1 O problema da defesa da sociedade 270
12.2 Defesa não-governamental 271
12.2.1 Guerra de guerrilha 271
12.2.2 A dificuldade de conquistar um território não governado 273
12.2.3 Resistência não-violenta 273
12.2.4 Conclusões 276
12.3 Evitando conflitos 277
12.3.1 Agressão humana natural 277
12.3.2 Terra e recursos 278
12.3.3 Espirais de conflito e disputas entre governos 280
12.3.4 Relações de poder 282
CONTEÚDO vii

12.3.5 A paz democrática liberal 284


12.3.6 Se você deseja guerra, prepare-se para a guerra 286
12.4 Evitando o terrorismo 290
12.4.1 A ameaça terrorista 291
12.4.2 As raízes do terrorismo 292
12.4.3 Soluções violentas e não-violentas 295
12.5 Os perigos da “segurança nacional” 296
12.5.1 O risco de agressão injusta 296
12.5.2 O risco de um desastre global 298
12.6 Conclusão 299

13 Da Democracia à Anarquia 301


13.1 Contra o viés do presente: as perspectivas de mudança radical 301
13.2 Passos em direção à anarquia 305
13.2.1 Terceirização de funções judiciais 305
13.2.2 Terceirização de funções policiais 306
13.2.3 O fim dos exércitos permanentes 307
13.2.4 O resto do caminho 308
13.3 A expansão geográfica da anarquia 309
13.4 A importância das ideias 310
13.5 Conclusão 313
13.5.1 O argumento da parte I 313
13.5.2 O argumento da parte II 314
13.5.3 O argumento deste capítulo 315

Referências 318
Prefácio

Este livro aborda o problema fundamental da filosofia política: o problema de


prestar contas à autoridade do governo. Essa autoridade sempre me pareceu intri-
gante e problemática. Por que 535 pessoas em Washington deveriam ter o direito
de emitir ordens para 300 milhões de pessoas? E por que os outros devem obe-
decer? Essas perguntas, como afirmo nas páginas a seguir, não têm respostas
satisfatórias.
Por que isso é importante? Quase todo discurso político se concentra em que
tipo de políticas o governo deve fazer, e quase todo mundo – seja na filosofia política
ou nos fóruns populares – pressupõe que o governo tenha um tipo especial de
autoridade para emitir ordens para o resto da sociedade. Quando discutimos sobre
qual deveria ser a política de imigração do governo, por exemplo, normalmente
pressupomos que o Estado tenha o direito de controlar o movimento de entrada e
saída do país. Quando discutimos sobre a melhor política tributária, pressupomos
que o Estado tenha o direito de obter riqueza dos indivíduos. Quando discutimos
sobre a reforma da saúde, pressupomos que o Estado tenha o direito de decidir
como a assistência médica deve ser prestada e paga. Se, como espero convencê-lo,
esses pressupostos estão equivocados, quase todo o nosso discurso político atual
está equivocado e deve ser fundamentalmente repensado.
Quem deveria ler esse livro? As questões abordadas aqui são relevantes para
qualquer pessoa interessada em política e governo. Espero que meus colegas fi-
lósofos aproveitem, mas também espero que alcance além desse pequeno grupo.
Portanto, tentei minimizar o jargão acadêmico e manter a redação o mais clara e
direta possível. Não pressuponho nenhum conhecimento especializado.
Este é um livro de ideologia extremista? Sim e não. Defendo algumas conclu-
sões radicais nas páginas seguintes. Mas, embora eu seja extremista, sempre me
esforcei para ser razoável. Eu raciocino com base no que me parecem juízos éti-
cos de senso comum. Não suponho uma grande teoria filosófica controversa, uma
interpretação absolutista de algum valor particular ou um conjunto de afirmações
empíricas duvidosas. Isso quer dizer que, embora minhas conclusões sejam alta-
mente controversas, minhas premissas não são. Além disso, tenho me esforçado
para abordar pontos de vista alternativos de maneira justa e razoável. Considero

viii
Prefácio ix

detalhadamente as tentativas mais interessantes e plausíveis de justificar a auto-


ridade governamental. Quando se trata de minha própria visão política, abordo
todas as importantes objeções encontradas na literatura e na tradição oral. Sendo a
política como é, não posso esperar convencer partidários comprometidos de outras
ideologias. Meu objetivo, no entanto, é convencer aqueles que mantém a mente
aberta em relação ao problema da autoridade política.
O que há neste livro? Os capítulos 2 a 5 discutem teorias filosóficas sobre a base
da autoridade do Estado. O capítulo 6 discute evidências psicológicas e históricas
sobre nossas atitudes em relação à autoridade. O capítulo 7 faz a pergunta, se não
há autoridade, como os cidadãos e funcionários do governo devem se comportar? É
aqui que as recomendações práticas mais imediatas aparecem. A parte II do livro
propõe uma estrutura social alternativa não baseada em autoridade. Os capítulos
10 a 12 abordam os problemas práticos mais óbvios para essa sociedade. O último
capítulo discute se e como as mudanças que recomendo podem ocorrer.
Desejo agradecer a alguns amigos e colegas que me ajudaram neste livro. Bryan
Caplan, David Boonin, Jason Brennan, Gary Chartier, Kevin Vallier, Matt Skene,
David Gordon e Eric Chwang fizeram comentários valiosos que ajudaram a eliminar
erros e melhorar o texto em vários lugares. Sou grato pela generosidade deles. Se
houver algum erro, o leitor pode procurar esses professores e perguntar por que não
os corrigiram. O trabalho foi concluído com a ajuda de um fellowship do Centro
de Ciências Humanas e Artes da Universidade do Colorado no ano acadêmico de
2011-12, pelo qual também sou grato por essa assistência.
Parte I
A Ilusão da Autoridade

1
1

O Problema da Autoridade
Política

1.1 Uma parabola política


Vamos começar com uma pequena história política. Você mora em uma pequena
vila com um problema de crime. Vândalos vagam pela vila, roubando e destruindo
as propriedades das pessoas. Parece que ninguém está fazendo nada a respeito.
Então, um dia, você e sua família decidem acabar com isso. Você pega suas armas e
sai para procurar os vândalos. Periodicamente, você pega um, leva-o de volta para
sua casa com uma arma e o tranca no porão. Você fornece comida aos prisioneiros
para que eles não passem fome, mas planeja mantê-los trancados no porão por
alguns anos para ensinar-lhes uma lição.
Depois de operar dessa maneira por algumas semanas, você decide percorrer
o bairro, começando com o vizinho do lado. Quando ele atende a porta, você
pergunta: “Você notou a redução do crime nas últimas semanas?” Ele assente.
“Bem, isso é graças a mim.” Você explica seu programa anticrime. Observando o
olhar cauteloso no rosto do seu vizinho, você continua. “De qualquer forma, estou
aqui porque é hora de cobrar sua contribuição para o fundo de prevenção ao crime.
Sua fatura do mês é de $100,00.”
Enquanto seu vizinho olha para você, sem fazer nenhum movimento aparente
para entregar o dinheiro, você pacientemente explica que, se ele se recusar a fazer o
pagamento exigido, infelizmente você terá que rotulá-lo de criminoso; nesse ponto,
ele estará sujeito a um confinamento de longo período em seu porão, juntamente
com os vândalos acima mencionados. Indicando a pistola no seu quadril, você nota
que está preparado para pegá-lo à força, se necessário.
Supondo que você adote essa atitude com todos os seus vizinhos, que tipo de
recepção você poderia esperar? Cederia alegremente sua parcela dos custos da

2
1. O Problema da Autoridade Política 3

prevenção ao crime?
Não é provável. Com toda a probabilidade, você observaria o seguinte. Pri-
meiro, quase ninguém concorda que os vizinhos lhe devem alguma coisa. Enquanto
alguns podem pagar por medo de prisão em seu porão e alguns podem pagar por
hostilidade contra os vândalos, quase nenhum se consideraria obrigado a pagá-
lo. Aqueles que se recusaram a pagar provavelmente seriam louvados ao invés de
condenados por enfrentar você. Segundo, a maioria consideraria suas ações ultra-
jantes. Suas demandas por pagamento seriam condenadas como extorsão total e
o confinamento daqueles que se recusassem a pagar como sequestro. A sua con-
duta muito ultrajante, combinada com sua presunção iludida de que o resto da
vila reconheceria a obrigação de apoiá-lo, faria com que muitos questionassem sua
sanidade.
O que essa história tem a ver com a filosofia política? Na história, você se
comportou como um governo rudimentar. Embora você não tenha assumido todas
as funções de um Estado típico e moderno, assumiu dois de seus papéis mais
centrais: puniu pessoas que violavam os direitos de outras pessoas ou desobedeceu
aos seus comandos e coletou contribuições não voluntárias para financiar suas
atividades. No caso do governo, essas atividades são chamadas de sistema de
justiça criminal e sistema tributário. No seu caso, são chamados de sequestro e
extorsão. Em face disso, suas atividades são do mesmo tipo que as de um governo.
No entanto, a avaliação do governo pela maioria das pessoas é muito mais branda
do que a avaliação de você na história. A maioria das pessoas apoia a prisão
de criminosos pelo Estado, sente-se obrigada a pagar seus impostos e considera a
punição dos sonegadores desejável e dentro dos direitos do Estado.
Isso ilustra uma característica geral de nossas atitudes em relação ao go-
verno. Os governos são considerados eticamente autorizados a fazer coisas que
nenhuma pessoa ou organização não-governamental pode fazer. Ao mesmo tempo,
pensa-se que os indivíduos têm obrigações com seus governos que não deveriam
para pessoa alguma ou organização não-governamental, mesmo que agentes não-
governamentais se comportassem de maneira semelhante a um governo. Este não
é simplesmente uma questão sobre a lei, nem sobre que tipo de ações podemos
fugir. A questão é que nossos julgamentos éticos diferenciam bastante entre ações
governamentais e não-governamentais. Atos que seriam considerados injustos ou
moralmente inaceitáveis quando praticados por agentes não-governamentais geral-
mente serão considerados perfeitamente corretos, e até dignos de elogio, quando
praticados por agentes governamentais. Daqui em diante, usarei “obrigação” para
me referir a obrigações éticas, em vez de meras obrigações legais; da mesma forma
para “direitos”.1
1
Alguns pensadores distinguem obrigações de deveres (Hart 1958, 100-4; Brandt 1964). Daqui
em diante, no entanto, uso “obrigação” e “dever” de forma intercambiável para denotar qualquer
1. O Problema da Autoridade Política 4

Por que concedemos esse status moral especial ao governo e somos justificados
ao fazê-lo? Este é o problema da autoridade política.

1.2 O conceito de autoridade: uma primeira pas-


sagem
O que é isso no pensamento moral comum que diferencia suas ações na história
acima das ações de um governo? De um modo geral, dois tipos de explicação
podem ser dadas. Um tipo de explicação é que, apesar das aparências, os dois
comportamentos são diferentes, que o governo não está realmente fazendo a mesma
coisa que o vigilante. Por exemplo, suponha-se que a diferença crucial seja que o
vigilante (você na história) não dá julgamentos justos aos vândalos, como o governo
(em alguns países) faz àqueles em que procura punir. Isso poderia explicar por
que o comportamento do vigilante é menos legítimo do que o do governo.
O outro tipo de explicação é que os dois agentes são diferentes.2 Ou seja, o
governo pode estar fazendo as mesmas coisas que o vigilante, mas quem executa
faz toda a diferença. Você deve ser condenado na história, não porque não imita
fielmente o governo, mas porque está agindo como um governo, embora não seja
o governo.
É esse segundo tipo de explicação que caracterizo como uma invocação de
autoridade política. Autoridade política (doravante, apenas “autoridade”) é a
propriedade moral hipotética em virtude da qual os governos podem coagir as
pessoas de certas maneiras que não são permitidas a mais ninguém e em virtude
da qual os cidadãos devem obedecer aos governos em situações nas quais não seriam
obrigados a obedecer a mais alguém. A autoridade, então, tem dois aspectos:

i Legitimidade política: o direito, por parte de um governo, de fazer certos tipos


de leis e aplicá-las por coerção contra os membros de sua sociedade – em suma,
o direito de governar.3
requisito ético.
2
Deixo a distinção entre características do agente e características da ação em um nível intui-
tivo. “As características da ação” devem ser tomadas de alguma forma para excluir caracterís-
ticas como “ter sido executada por um agente desse tipo”. Da mesma forma, “características do
agente” não devem incluir itens como “ser tal que ele executa ações de tal e tal tipo”.
3
Uso “autoridade”, “legitimidade” e “obrigação política” em sentidos técnicos estipulados.
Meu uso de “autoridade” e “legitimidade” segue aproximadamente o de Buchanan (2002), mas
não exijo que obrigações políticas sejam devidas especificamente ao Estado. O alegado direito
de governar do Estado deve ser entendido como um direito de justificação, e não um direito de
reivindicação (Ladenson 1980, 137-9); isto é, permite que o Estado faça certas coisas em vez de
impor alguma demanda moral a outros agentes. Meus usos de “legitimidade” e “autoridade”
diferem dos de alguns outros teóricos (Simmons 2001, 130; Edmundson 1998, capítulo 2; Estlund
1. O Problema da Autoridade Política 5

ii Obrigação política: a obrigação dos cidadãos obedecerem a seu governo, mesmo


nas circunstâncias em que um não seria obrigado a obedecer ordens semelhantes
emitidas por um agente não-governamental.

Se um governo tem “autoridade”, então (i) e (ii) existem: o governo tem o


direito de governar e os cidadãos têm a obrigação de obedecer.
Ter obrigações políticas não significa apenas que é preciso fazer as coisas que
a lei ou outros comandos governamentais exigem.4 Por exemplo, a lei proíbe o
assassinato, e temos o dever moral de não matar. Mas isso não basta para estabe-
lecer que temos “obrigações políticas”, porque seríamos moralmente obrigados a
não matar, mesmo que não houvesse lei contra isso. Mas há outros casos em que,
segundo a opinião popular, somos obrigados a fazer as coisas exatamente porque
a lei as ordena, e não seríamos obrigados a fazer essas coisas se elas não fossem
legalmente exigidas. Por exemplo, a maioria acredita que somos obrigados a pagar
impostos sobre nossa renda em países que exigem isso legalmente e que somos obri-
gados a pagar o valor específico exigido pelo código tributário. Quem pensa que
os impostos são muito altos não se sente autorizado a sonegar uma parte de seus
impostos. Quem pensa que os impostos são baixos demais não se sente obrigado a
enviar dinheiro extra ao governo. E se a lei mudasse para que o imposto de renda
não fosse legalmente exigido, não seria mais necessário pagar ao governo essa parte
da receita da pessoa. Assim, na mente popular, a obrigação de pagar imposto de
renda é uma obrigação política.5
Aqueles que acreditam em autoridade política não precisam sustentar que a
autoridade política é incondicional ou absoluta, nem precisam sustentar que to-
dos os governos a possuem. Pode-se sustentar, por exemplo, que a autoridade do
Estado depende de respeitar os direitos humanos básicos e de permitir aos cida-
dãos um certo nível de participação política; assim, os governos tirânicos não têm
autoridade. Pode-se também sustentar que mesmo um governo legítimo não pode
ordenar uma pessoa, por exemplo, a cometer assassinato, nem que um cidadão seja
obrigado a obedecer tal ordem. Um crente na autoridade pode, portanto, acreditar
apenas que certos governos têm uma certa esfera limitada de autoridade.
Apesar dessas limitações, a autoridade atribuída a alguns governos é uma pro-
priedade moral impressionante. Como vimos na Seção 1.1, essa autoridade expli-
caria o direito de executar ações de tipos que seriam considerados muito errados e
injustos para qualquer agente não autoritário.
2008, 2).
4
A obrigação política pode se aplicar não apenas às leis, mas também a outros comandos
governamentais, como decretos administrativos e ordens judiciais. Esse ponto deve ser entendido
por toda parte, embora eu frequentemente fale simplesmente da obrigação de obedecer à lei.
5
A pesquisa do grupo focalizado de Klosko dá algum apoio a essa impressão de atitudes
populares (2005, capítulo 9, especialmente 198, 212-18).
1. O Problema da Autoridade Política 6

1.3 Ações versus agentes: a necessidade de au-


toridade
Alguém precisa dessa noção de autoridade para explicar a diferença moral entre
o vigilante na Seção 1.1 e o governo? Ou podemos explicar a diferença apelando
apenas para diferenças entre o comportamento do governo e o comportamento do
vigilante?
Na história que a descrevi, havia muitas diferenças entre o comportamento
do vigilante e o de um governo típico; no entanto, nenhuma dessas diferenças é
essencial. Pode-se modificar o exemplo para remover qualquer diferença que possa
ser considerada relevante e, desde que não se converta o vigilante em um governo,
a maioria das pessoas ainda julgará intuitivamente o vigilante com muito mais
rigor do que os agentes do governo que agem de forma análoga.
Assim, considere o fato de que muitos governos fornecem julgamentos justos
por júri para criminosos acusados. O vigilante poderia fazer o mesmo. Suponha
que toda vez que você pegar um vândalo, pegue alguns de seus vizinhos e force-
os a passar por um julgamento. Após a apresentação das evidências, você faz
com que seus vizinhos votem na culpa ou inocência do vândalo acusado e usa o
resultado para decidir se deve puni-lo. Isso tornaria suas ações aceitáveis? Talvez
seu tratamento aos vândalos seja mais justo, mas dificilmente parece legitimar seu
programa como um todo. De fato, você agora adicionou outra ofensa à lista de
suas ações ultrajantes: sua escravização temporária de seus vizinhos para servir a
seu “sistema de justiça”.
Considere outra sugestão. Agentes do governo geralmente prendem pessoas
apenas por infrações às regras explicitamente publicadas – as leis – enquanto o
vigilante as pune apenas de acordo com seu senso interno de certo e errado. Essa
diferença também pode ser removida. Suponha que você escreva uma longa lista
de comportamentos que considere inaceitáveis, além de relatos do que planeja fazer
às pessoas que se envolvem nesses comportamentos. Você publica cópias de suas
listas em um quadro de avisos fora de sua casa. Novamente, isso dificilmente é
suficiente para legitimar seu comportamento.
Uma sugestão mais plausível inicialmente é que seu comportamento é imper-
ceptível porque a comunidade não escolheu você para desempenhar esse papel. Em
contraste, nos países democráticos, os cidadãos escolhem seus líderes. (Esse relato
implica que apenas governos democráticos são legítimos; portanto, a grande mai-
oria dos governos ao longo da história foi ilegítima e a grande maioria das pessoas
carecia de obrigações políticas. Essa provavelmente já é uma revisão significativa
do senso comum.) Mas observe que esse relato da diferença entre o governo e o
vigilante é um apelo à autoridade. Não afirma que o vigilante esteja fazendo algo
diferente do que o governo faz; alega que as ações em questão podem ser execu-
1. O Problema da Autoridade Política 7

tadas por um agente e não por outro. O vigilante não tem autoridade para punir
criminosos e cobrar impostos porque ele não foi autorizado por sua sociedade. Exa-
mino essa teoria da autoridade em um capítulo posterior. Por enquanto, o ponto
a observar é simplesmente que é necessário alguma motivação de autoridade.

1.4 O significado de coerção e o alcance da au-


toridade
A necessidade de uma explicação da legitimidade política surge do significado
moral de coerção e da natureza coercitiva do governo. É importante colocar esses
princípios claramente em foco, a fim de ter uma visão clara do que precisa ser
explicado antes de tentar explicá-lo.
Primeiro, o que é coerção? A seguir, uso o termo “coerção” para denotar o uso
ou a ameaça de uma pessoa de usar força física contra outra pessoa. Quando falo
em forçar uma pessoa a fazer alguma coisa, quero dizer o uso da força física ou a
ameaça de força física para induzi-la a executar a ação desejada. Eu uso “força
física” e “violência” de forma intercambiável. Não vou definir “força física” aqui;
nosso entendimento intuitivo da noção será suficiente para os argumentos subse-
quentes, e não confiarei em nenhum julgamento controverso sobre o que qualifica
como força física.
Minha definição de “coerção” não pretende ser uma análise do uso padrão do
termo em português. É uma definição estipulada, destinada a evitar a repetição da
frase “uso ou ameaça de usar força física”. Meu uso do termo difere do uso comum
de pelo menos duas maneiras: primeiro, no sentido comum do termo, quando A
“coage” B, A induz B a se comportar de maneira desejada por A; mas, no meu
sentido, A pode coagir B ferindo fisicamente B, independentemente de A influen-
ciar ou não o comportamento de B. Segundo, o senso comum considera uma gama
mais ampla de ameaças como coercitivas: no sentido comum, A pode “coagir” B
usando uma ameaça para espalhar rumores maliciosos sobre B. Isso não se qua-
lificaria como coerção no meu sentido, porque a ameaça não é de violência. O
conceito comum de coerção é útil em muitos contextos; no entanto, introduzi uma
definição estipulada, pois isso permite considerar alguns argumentos importan-
tes e interessantes a respeito da autoridade política, evitando debates semânticos
desnecessários.6
O governo é uma instituição coercitiva. De um modo geral, quando o Estado
faz uma lei, a lei traz consigo uma punição a ser imposta aos infratores. É possível
6
Edmundson (1998, capítulo 4) argumenta que o direito normalmente não é coercitivo no sen-
tido comum. Meu uso técnico de “coerção” foi projetado para evitar o argumento de Edmundson,
mantendo a presunção moral contra a coerção.
1. O Problema da Autoridade Política 8

ter uma lei sem punição especificada por violação, mas todos os governos atuais
atribuem punições a quase todas as leis.7 Nem todo mundo que infringir a lei
será de fato punido, mas o Estado geralmente fará um esforço razoável para punir
os infratores e geralmente punirá um número razoável deles, normalmente com
multas ou prisão. Essas punições têm como objetivo prejudicar os infratores da lei
e geralmente conseguem fazê-lo.
A violência física direta raramente é usada como punição. No entanto, a violên-
cia desempenha um papel crucial no sistema, porque sem a ameaça de violência, os
infratores da lei poderiam simplesmente optar por não sofrer punição. Por exem-
plo, o governo ordena que os motoristas parem antes de todos os sinais vermelhos.
Se você violar essa regra, poderá ser punido com uma multa de $200. Mas este é
simplesmente outro comando. Se você não obedeceu ao comando de parar antes
de todos os sinais vermelhos, por que você obedeceria ao comando de pagar $200
ao governo? Talvez o segundo comando seja imposto por um terceiro: o governo
pode ameaçar revogar sua carteira de motorista se você não pagar a multa. Em
outras palavras, pode ordenar que você pare de dirigir. Mas se você violou os dois
primeiros comandos, por que seguiria o terceiro? Bem, o comando para parar de
dirigir pode ser imposto por uma ameaça de prisão se você continuar dirigindo sem
licença. Como esses exemplos ilustram, os comandos geralmente são aplicados com
ameaças para emitir comandos adicionais, mas isso não pode ser tudo o que existe.
No final da cadeia deve surgir uma ameaça que o violador literalmente não pode
desafiar. O sistema como um todo deve ser ancorado por uma intervenção não
voluntária, um dano que o Estado pode impor independentemente das escolhas do
indivíduo.
Essa âncora é fornecida pela força física. Até a ameaça de aprisionamento
exige execução: como o Estado pode garantir que o criminoso vá para a prisão?
A resposta está na coerção, envolvendo lesão corporal real ou ameaçada ou, no
mínimo, empurrão ou puxão físico do corpo do indivíduo para o local da prisão.
Esta é a intervenção final que o indivíduo não pode escolher desafiar. Pode-se
optar por não pagar uma multa, pode-se dirigir sem licença e pode-se optar por
não caminhar até um carro da polícia para ser levado embora. Mas não se pode
optar por não ser submetido à força física se os agentes do Estado decidirem impor.
Assim, o sistema jurídico baseia-se na coerção intencional e prejudicial. Para
justificar uma lei, é preciso justificar a imposição dessa lei à população por meio
de uma ameaça de dano, incluindo a imposição coercitiva de dano real àqueles que
são flagrados violando a lei. Na moral do senso comum, a ameaça ou imposição
coercitiva real de dano está normalmente errada. Isso não quer dizer que não possa
ser justificada; é apenas dizer que a coerção requer uma justificativa. Isso pode ser
7
Existem algumas exceções, como leis contra suicídio, alguns tratados internacionais e a cons-
tituição de um governo.
1. O Problema da Autoridade Política 9

devido à maneira pela qual a coerção desrespeita as pessoas, procurando ignorar


sua razão e manipulá-las através do medo, ou a maneira pela qual parece negar a
autonomia e a igualdade de outras pessoas.
Não tentarei explicação alguma abrangente de quando a coerção é justificada.
Confio no julgamento intuitivo de que a coerção prejudicial requer uma justifica-
tiva, bem como em algumas intuições sobre condições particulares que constituem
ou não justificativas satisfatórias. Por exemplo, uma justificativa legítima é a au-
todefesa ou defesa de terceiros inocentes: alguém pode coagir outra pessoa se for
necessário para impedir que ela prejudique injustamente outra pessoa. Outra jus-
tificativa para coerção prejudicial é o consentimento. Assim, se você estiver em
uma luta de boxe com a qual ambos os participantes concordaram, poderá dar um
soco no seu oponente.
Por outro lado, muitas razões possíveis para coerção são claramente inadequa-
das. Se você tem um amigo que come muitas batatas fritas, tente convencê-lo a
desistir. Mas se ele não ouvir, você não pode forçá-lo a parar. Se você admira o
carro do seu vizinho, pode se oferecer para comprá-lo. Mas se ele não vender, você
não pode ameaçá-lo com violência. Se você não concorda com as crenças religio-
sas de seu colega de trabalho, tente convertê-lo. Mas se ele não ouvir, você não
pode dar um soco em seu nariz. E assim por diante. Na ética do senso comum, a
esmagadora maioria das razões para a coerção falha como justificativa.
Os Estados modernos precisam de uma explicação da legitimidade política, por-
que os Estados modernos geralmente coagem e prejudicam os indivíduos por razões
que seriam consideradas inadequadas para qualquer agente não-governamental.
Isso pode ser ilustrado através de algumas melhorias na história da Seção 1.1.
Suponha que você anuncie que acredita que uma cidade vizinha está cons-
truindo algumas armas muito destrutivas, armas que um dia poderão ser usadas
para aterrorizar outras aldeias. Para impedir que isso aconteça, você reúne alguns
moradores de mesma opinião e viaja para a cidade vizinha, onde depõe violen-
tamente o prefeito, destruindo alguns edifícios e previsivelmente matando várias
pessoas inocentes no processo.
Se você se comportasse dessa maneira, seria rotulado de terrorista e assassino,
e os pedidos de execução ou prisão perpétua provavelmente seriam abundantes.
Mas quando o governo se comporta dessa maneira, seu comportamento é rotu-
lado como “guerra”, e muitos o apoiam. Certamente, muitos rejeitam a ideia de
guerra preventiva. Mas apenas extremistas políticos descrevem soldados ou líderes
do governo que os enviam para a batalha como terroristas e assassinos. Mesmo
entre os oponentes da guerra do Iraque em 2003, por exemplo, poucos chegaram a
considerar George W. Bush um assassino em massa ou pediram sua execução ou
prisão. A noção de autoridade política está em ação aqui: a sensação é de que,
seja sua escolha boa ou ruim, o governo é o agente com autoridade para decidir se
1. O Problema da Autoridade Política 10

vai à guerra. Nenhum outro agente tem o direito de cometer violência em larga
escala para atingir seus fins em algo como essas circunstâncias.
Suponha agora que, em meio a todas as suas outras atividades incomuns, você
decida começar a apoiar a caridade. Você encontra uma instituição de caridade
que ajuda os pobres. Infelizmente, você acredita que sua aldeia não contribuiu o
suficiente para essa instituição de caridade voluntariamente, então você dedica a
extração de dinheiro de seus vizinhos à força e a entrega à instituição de caridade.
Se você se comportasse dessa maneira, seria rotulado como ladrão e extorsio-
nista e seria comum pedidos para aprisioná-lo e obrigá-lo a retribuir pessoalmente
aqueles cujo dinheiro você expropriou. Mas quando o governo se comporta dessa
maneira, seu comportamento é conhecido como conduzir programas de assistência
social, e a maioria das pessoas o apoia. Certamente, existem alguns que se opõem
aos programas de bem-estar social, mas mesmo os oponentes raramente veem os
agentes do governo que administram os programas ou os legisladores que votam
nos programas como ladrões e extorsionistas. Muito poucos exigiriam a prisão de-
les ou obrigariam-lhes a pagar pessoalmente os pagadores de impostos. Mais uma
vez, a noção de autoridade está em ação: pensamos que o governo tem autoridade
para redistribuir riqueza; organizações não-governamentais não.
Isso deve dar alguma indicação da gama de atividades governamentais cuja
justificativa se baseia na noção de autoridade política. No Capítulo 7 discutirei
mais detalhadamente até que ponto esse intervalo se estende. Mas mesmo a partir
dessa breve discussão, deve ficar claro que, sem uma crença na autoridade, teríamos
que condenar grande parte do que agora aceitamos como legítimo.

1.5 O conceito de autoridade: uma segunda pas-


sagem
Nesta seção, refino as noções de “autoridade política”, “legitimidade política” e
“obrigação política”. Os cinco princípios a seguir estão implícitos na concepção
comum de autoridade do governo; é isso que os defensores da autoridade gostariam
de defender:

1. Generalidade. A autoridade do Estado se aplica aos cidadãos em geral. Ou


seja, o Estado tem o direito de impor coercivamente regras a pelo menos
a grande maioria de seus cidadãos, e a grande maioria dos cidadãos tem
obrigações políticas.8
2. Particularidade. A autoridade do Estado é específica para seus cidadãos e
residentes em seu território. Ou seja, um governo tem o direito de impor
8
Essa condição é articulada por Simmons (1979, 55-6).
1. O Problema da Autoridade Política 11

regras àqueles em seu território de uma maneira que geralmente não tem
o direito de impor regras àqueles em países estrangeiros, e os cidadãos têm
obrigações com seus próprios Estados de um tipo que não suportam para
outros Estados.9

3. Independência de conteúdo. A autoridade do Estado não está atrelada ao


conteúdo específico de suas leis ou outros comandos.10 Ou seja, existe uma
ampla gama de leis possíveis, de modo que, dentro dessa faixa, o Estado
tem o direito de impor coercivamente as leis que escolher e cidadãos serão
obrigados a obedecê-las. O leque de leis aceitáveis não precisa ser ilimitado
– talvez o Estado não tenha o direito de fazer ou aplicar certos tipos de
leis grosseiramente injustas, como leis que impõem a escravidão. Mas, pelo
menos com frequência, o Estado tem o direito de fazer cumprir as leis, mesmo
que sejam más ou erradas, e os cidadãos são obrigados a obedecer.

4. Abrangência. O Estado tem o direito de regular uma ampla gama de ativida-


des humanas, e os indivíduos devem obedecer às diretrizes do Estado dentro
dessa ampla esfera.11 Esse intervalo não precisa ser ilimitado; por exemplo,
talvez o Estado não possa regular os serviços as práticas religiosas privadas
dos cidadãos. Mas os Estados modernos tipicamente regulam e têm o di-
reito de regulamentar questões como os termos dos contratos de trabalho,
a negociação de títulos financeiros, procedimentos médicos, procedimentos
de preparação de alimentos em restaurantes, uso individual de drogas, posse
de armas individuais, entrada e saída de pessoas do país, o voo de aviões, o
comércio com países estrangeiros e assim por diante.

5. Supremacia. Dentro da esfera de ação que o Estado tem o direito de re-


gular, o Estado é a mais alta autoridade humana.12 Nenhum agente não-
governamental pode comandar o Estado, e nenhum agente tem o mesmo
direito de comandar indivíduos que o Estado possui.

Nas condições desenvolvidas de (1) a (5), procuro caracterizar fielmente a con-


cepção ordinária e comum de autoridade política. Uma defesa satisfatória da
autoridade deve acomodar e explicar esses cinco princípios. Se nenhuma teoria
plausível chega perto de acomodar os princípios de (1) a (5), deve-se concluir que
Estado algum realmente tenha autoridade.
9
Simmons 1979, pp. 31–5.
10
Hart 1958, 104; Raz 1986, 35-7, 76-7; Green 1988, 225-6; Christiano 2008, 250; Rawls, 1964,
p.
11
Klosko 2005, 11–12.
12
Green 1988, 1, 78–83.
1. O Problema da Autoridade Política 12

Esses cinco princípios são vagos, empregando conceitos como o uma “ampla
gama” e uma “grande maioria”. Não tentarei tornar precisa a noção de autoridade
política nesses aspectos. O conceito será claro o suficiente para fins de avaliação
dos argumentos no restante do livro. Também é vago o quão intimamente uma
teoria deve acomodar esses princípios. Mais uma vez, não tentarei tornar isso
preciso. Devemos simplesmente observar que, se uma teoria está muito longe de
acomodar a concepção intuitiva de autoridade, então, em algum momento, deixa
de ser uma defesa da autoridade.
Algumas palavras sobre com quem os defensores da autoridade não estão com-
prometidos: A ideia de obrigação política não implica que o governo que comanda
algo seja, por si só, suficiente para alguém ter a obrigação de fazer esse algo. Aque-
les que acreditam em autoridade podem sustentar que existem outras condições
para que os comandos do governo sejam vinculativos; por exemplo, que as leis de-
veriam ter sido feitas de acordo com processos justos e democráticos, que o atual
governo não deveria ter usurpado um governo legítimo e anterior, e assim por di-
ante. Eles também podem sustentar que há limites para a autoridade do governo;
por exemplo, que as leis não podem ser injustamente grosseiras, que não podem
invadir certas esferas de privacidade protegidas e assim por diante. Portanto, a
ideia de que é preciso executar uma ação “porque a lei exige” pode realmente sig-
nificar, grosso modo, que é preciso executar uma ação porque a lei exige, a lei foi
feita de maneira apropriada por um governo legítimo, a lei não é grosseiramente
injusta e a lei está dentro da esfera de coisas que o governo pode legitimamente
regular.
Para ilustrar os princípios acima, considere o caso da tributação. De acordo
com a opinião popular, o Estado pode impor impostos a todos e quaisquer residen-
tes em seu território, e os residentes geralmente são obrigados a pagar os impostos
(a condição de Generalidade). O Estado não tem direito a tributar pessoas em
países estrangeiros, nem estrangeiros precisam pagar se o Estado tentar cobra-lo
(Particularidade).13 O Estado geralmente está autorizado a determinar quais ati-
vidades em seu território serão tributadas e quanto, e os residentes são obrigados
a pagar esse valor, mesmo que o imposto seja excessivamente alto ou baixo (Inde-
pendência de conteúdo). Nenhuma pessoa ou organização não-governamental tem
o direito de tributar o Estado ou de tributar indivíduos (Supremacia). Assim, se
as visões populares estiverem corretas, o caso da tributação ilustra a autoridade
política do governo.
13
Uma exceção são as tarifas, que são consideradas permitidas porque o Estado pode estabe-
lecer condições nas interações dos estrangeiros com o próprio povo do Estado.
1. O Problema da Autoridade Política 13

1.6 Um comentário sobre metodologia


A primeira parte deste livro é um exercício de aplicação da filosofia moral à polí-
tica. A preocupação central é a avaliação de nossas atitudes morais em relação ao
governo: os governos realmente têm o direito de fazer as coisas que geralmente con-
sideramos que eles têm o direito de fazer? Somos realmente obrigados a obedecer
aos governos da maneira que costumamos ser obrigados?
Questões desse tipo são notoriamente difíceis. Como elas devem ser aborda-
das? Uma abordagem seria partir de alguma teoria moral abrangente – digamos,
utilitarismo ou a deontologia kantiana – e tentar deduzir as conclusões apropriadas
sobre direitos e deveres políticos. Eu, infelizmente, não posso fazer isso. Não co-
nheço a teoria moral geral correta e acho que ninguém conhece. As razões do meu
ceticismo são difíceis de comunicar, mas derivam da reflexão sobre os problemas
da filosofia moral e da literatura complexa, confusa e constantemente contestada
sobre esses problemas. É uma literatura em que uma teoria após a outra se de-
para com um monte de quebra-cabeças e problemas que se tornam cada vez mais
complicados à medida que mais filósofos trabalham nela. Não posso comunicar
completamente a situação aqui; a melhor maneira de apreciar meu ceticismo sobre
a teoria moral seria os leitores se aprofundarem nessa literatura. Aqui, vou sim-
plesmente anunciar que não assumirei nenhuma teoria moral abrangente, e acho
que devemos ser muito céticos em relação a qualquer tentativa de chegar a conclu-
sões sólidas na filosofia política, partindo de uma teoria. Por razões semelhantes,
tampouco começo assumindo qualquer teoria política geral, embora chegue a uma
teoria política no final.
Qual é a alternativa? Começarei com alegações morais que são, inicialmente,
relativamente incontroversas.14 Esse parece um plano óbvio. A filosofia política é
um campo difícil e disputado. Quem espera progredir não pode começar com uma
teoria moral contenciosa, muito menos com uma ideologia política contenciosa. As
premissas de alguém devem ser coisas que, por exemplo, liberais e conservadores
normalmente acham óbvias à primeira vista. Deve-se, então, tentar argumentar
a partir dessas premissas a conclusões sobre as questões contestadas que são de
interesse. Por mais natural que possa parecer, essa abordagem raramente é ado-
tada. Filósofos políticos comumente defendem uma posição em alguma questão
controversa, partindo de uma teoria geral controversa. Por exemplo, um filósofo
pode procurar determinar se a imigração deve ser restringida aplicando uma teoria
hipotética de contrato social rawlsiana à questão.15
14
Na filosofia, quase todas as reivindicações são contestadas por alguém; portanto, não pode-
mos confiar em premissas totalmente incontroversas se quisermos chegar a conclusões interessan-
tes.
15
Carens 1987, 255-62; Blake 2002.
1. O Problema da Autoridade Política 14

A maioria das premissas morais nas quais confio são avaliações morais de com-
portamentos particulares em cenários relativamente específicos. A história do vi-
gilante na Seção 1.1 é um exemplo disso. É razoável assumir como premissa que o
indivíduo nessa história age de forma inadmissível. O caso não é um dilema (como,
por exemplo, o trolley problem 16 ), nem envolve uma controvérsia moral (como, por
exemplo, o caso de alguém que faz um aborto). Para o senso comum, a avaliação
negativa é um veredicto direto e óbvio.17
Alguns filósofos acreditam que, ao fazer filosofia moral, deve-se confiar apenas
em princípios éticos abstratos, recusando-se a confiar em avaliações intuitivas de
casos específicos.18 Outros acreditam, mais ou menos, que apenas deve-se confiar
em julgamentos sobre casos particulares.19 Ainda outros pensam que não se pode
confiar em julgamentos éticos e que não há conhecimento moral.20 Todas essas
visões me parecem erradas. O que parece certo é que julgamentos éticos contro-
versos tendem a não ser confiáveis, enquanto julgamentos éticos incontroversos e
óbvios – sejam específicos ou gerais – tendem a ser confiáveis. Devo assumir que
temos algum conhecimento moral e que nossos julgamentos éticos mais claros e
amplamente compartilhados são exemplos desse conhecimento.21
Embora minhas premissas éticas sejam relativamente incontroversas, minhas
conclusões não serão. Pelo contrário, as conclusões que chego estão tão longe das
opiniões iniciais da maioria das pessoas que provavelmente nenhum argumento
poderia convencer a maioria das pessoas a aceitá-las. Finalmente, concluo que a
autoridade política é uma ilusão: ninguém tem o direito de governar e ninguém é
obrigado a obedecer a um comando apenas porque provém de seu governo. Mas,
embora isso possa ser contra-intuitivo para a maioria das pessoas, não acho que
isso revele algum erro da minha parte. Bertrand Russell disse: “O ponto da
filosofia é começar com algo tão simples que não pareça digno de ser declarado, e
terminar com algo tão paradoxal que ninguém vai acreditar.”22 Eu não acredito que
isso seja o ponto da filosofia, mas raciocinar de premissas intuitivas a conclusões
surpreendentes não é necessariamente uma marca da filosofia ruim.
Minhas atitudes em relação ao senso comum podem parecer inconsistentes.
Por um lado, considero as intuições éticas mais amplamente compartilhadas nas
16
Ver Foot 1967.
17
Nisto uso o “senso comum” para o que a grande maioria das pessoas tende a aceitar, especial-
mente em minha sociedade e sociedades às quais os leitores deste livro provavelmente pertencem.
Isso não deve ser confundido com o uso técnico de “crenças de senso comum” em meus trabalhos
anteriores (2001, 18-19).
18
Singer 2005.
19
Dancy 1993, capítulo 4.
20
Mackie 1977.
21
Ver Huemer 2005, especialmente o capítulo 5, para uma descrição do conhecimento moral e
respostas ao ceticismo moral.
22
Russell, 1985, p. 53.
1. O Problema da Autoridade Política 15

premissas razoáveis nas quais confiar. Por outro lado, afirmo que algumas crenças
políticas amplamente compartilhadas estão fundamentalmente equivocadas. A
alegação de que existem alguns governos legítimos não é muito controversa; quase
todo mundo, à esquerda ou à direita do espectro político, considera isso um dado
adquirido. Por que, então, não aceito a existência de Estados legítimos como
premissa inicial, assim como aceito crenças de bom senso sobre ética pessoal?
Uma razão é que eu nunca compartilhei intuições políticas de outras pessoas,
se é isso que elas são. Compartilho a maioria das intuições normativas da minha
sociedade, como a de que não se deve roubar, matar ou prejudicar outras pessoas
(exceto em certos casos especiais, como a autodefesa); que geralmente se deve dizer
a verdade e cumprir as promessas; e assim por diante. Mas nunca me pareceu que
houvesse pessoas com o direito de governar os outros, e nunca me pareceu que
alguém fosse obrigado a obedecer a uma lei simplesmente porque é a lei.
Minhas intuições não são totalmente idiossincráticas. No discurso político con-
temporâneo, há uma minoria vocal que defende reduções drásticas no tamanho do
governo. Muitas vezes, defendem seus pontos de vista em termos práticos (pro-
gramas do governo não funcionam) ou em termos de reivindicações absolutistas
sobre os direitos individuais. Mas acho que esses argumentos perdem a questão
principal. Acredito que a verdadeira motivação subjacente é um amplo ceticismo
em relação à autoridade política: no fundo, os defensores de um governo menor
simplesmente não veem por que o governo deveria ter permissão para fazer tantas
coisas que ninguém mais poderia fazer. Mesmo que você não compartilhe essa
atitude cética, eu recomendaria não descartar simplesmente as intuições daque-
les com ideologias diferentes. Os seres humanos são altamente falíveis na filosofia
política, e confrontos de intuições são frequentes. A objetividade exige que cada
um de nós considere seriamente a possibilidade de que somos nós que temos as
intuições equivocadas.
Aqueles que começam com a intuição de que alguns Estados possuem autori-
dade podem desistir dessa intuição se, como pretendo mostrar, revelar que a crença
na autoridade política é incompatível com as crenças morais do senso comum. Há
três razões para preferir aderir à moralidade do senso comum em vez da filosofia
política do senso comum: primeiro, como sugeri, a filosofia política do senso co-
mum é mais controversa do que a moralidade do senso comum. Segundo, mesmo
aqueles que aceitam visões políticas ortodoxas geralmente são mais fortemente
convencidos da moralidade do senso comum do que da filosofia política do senso
comum. Terceiro, mesmo aqueles que aceitam intuitivamente a autoridade podem
ao mesmo tempo ter a sensação de que essa autoridade é intrigante – que é neces-
sária alguma explicação para o motivo pelo qual algumas pessoas devem ter esse
status moral especial – de uma maneira que não seja intrigante, por exemplo, que
deveria ser errado atacar outras pessoas sem provocação. O fracasso em encontrar
1. O Problema da Autoridade Política 16

uma explicação satisfatória da autoridade política pode, portanto, levar a pessoa


a desistir da crença na autoridade, em vez de desistir das crenças morais do senso
comum.

1.7 Plano do livro


A tese central da primeira parte deste livro é que a autoridade política é uma
ilusão moral. Mostro isso através de uma crítica das principais considerações
filosóficas de autoridade (Capítulos 2 a 5). Sigo a discussão dessas teorias, com
uma discussão da psicologia de nossas atitudes em relação à autoridade (Capítulo
6), na qual sugiro que as considerações filosóficas da autoridade são racionalizações
para atitudes com fontes não-racionais, fontes nas quais devemos confiar pouco.
A maioria das pessoas acredita que o governo é incrivelmente benéfico, que sem
ele a sociedade entraria em colapso em um estado de caos absoluto. Eu pediria
ao leitor que deixasse essa crença de lado por enquanto. A questão da primeira
parte deste livro não é se o governo é bom ou ruim. A questão é se o governo tem
certos direitos especiais que você e eu não temos e se temos certos deveres especiais
para o governo que não temos em relação a mais ninguém. Um governo, como um
vigilante particular, poderia ser altamente benéfico e ainda assim carecer de auto-
ridade no sentido que defini. A maioria das defesas da autoridade é mais do que
a alegação de que o agente autorizado oferece grandes benefícios. Por exemplo,
a teoria do contrato social afirma que os cidadãos de alguns Estados consentiram
em seu sistema político. A existência e validade desse consentimento podem ser
examinadas independentemente da magnitude dos benefícios proporcionados pelo
Estado. Certamente, pode-se pensar que os grandes benefícios fornecidos pelo
Estado desempenham um papel fundamental no estabelecimento de sua legitimi-
dade. Esse tópico será abordado no capítulo 5 e, em mais detalhes, na parte II do
livro. Peço ao leitor que deixe essa questão de lado até que seja hora de abordá-la
diretamente.
Perguntas sobre a necessidade do Estado e sobre como uma sociedade pode
funcionar sem a crença na autoridade são importantes. Essas perguntas serão
abordadas na Parte II, onde abordo as consequências práticas de abandonar a
ilusão de autoridade política. A tese central da Parte II será a de que a sociedade
pode funcionar e florescer sem uma aceitação geral da autoridade.
Minha filosofia política é uma forma de anarquismo. Na minha experiência, a
maioria das pessoas parece convencida de que o anarquismo é um absurdo óbvio,
uma ideia que pode ser refutada em trinta segundos com o mínimo de reflexão.
Essa foi mais ou menos a minha atitude antes que eu soubesse alguma coisa sobre
a teoria. Também é minha experiência que aqueles que sustentam essa atitude
não têm ideia do que os anarquistas realmente pensam – como os anarquistas
1. O Problema da Autoridade Política 17

pensam que a sociedade deve funcionar ou como eles respondem às objeções de


trinta segundos. Os anarquistas enfrentam dificuldades: a maioria das pessoas não
dará ouvidos ao anarquismo seriamente porque está convencida de que a posição
é louca; estão convencidas de que a posição é louca porque não a entendem; não o
entendem porque não vão dar uma audiência séria. Peço, portanto, ao leitor que
não desista de ler este livro apenas por causa de sua conclusão. O autor não é
estúpido, nem louco e nem mau; ele tem uma consideração fundamentada de como
uma sociedade sem Estado pode funcionar. Independentemente de você aceitar ou
não essa consideração, é muito provável que você ache que valeu a pena considerar.
Na literatura filosófica nos últimos anos, tornou-se comum questionar a rea-
lidade das obrigações políticas. O ceticismo sobre a obrigação política é agora
provavelmente a visão dominante. Esse desenvolvimento surpreendente deve-se
principalmente ao ardiloso trabalho de A. John Simmons, que derrubou várias
considerações importantes de obrigação política em sua obra Moral Principles and
Political Obligation. Apoio a maioria dos argumentos de Simmons. Alguns leitores
já estarão familiarizados com esses argumentos, mas muitos não; assim, nos capítu-
los seguintes, explico os argumentos mais importantes contra a obrigação política,
independentemente deles já terem sido impressos antes. Ao mesmo tempo, acredito
que os filósofos contemporâneos não foram suficientemente longe. Os filósofos que
trabalham com obrigações políticas têm enfrentado principalmente a inadequação
de considerações existentes de obrigações políticas. Mas ainda não enfrentaram a
inadequação das considerações de legitimidade política.23 E muito poucos filósofos
hoje dão muita atenção ao anarquismo político. Normalmente, os argumentos so-
bre a obrigação política tomam como certo que o Estado é vitalmente necessário;
a visão dominante diz que, embora necessitemos de governo e mesmo que os Esta-
dos modernos sejam justificados na maioria de suas atividades típicas, ainda não
somos obrigados a obedecer à lei apenas como tal. Espero que este livro induza
uma reflexão mais profunda, tanto no pressuposto da legitimidade política quanto
no pressuposto da necessidade do Estado.

23
Simmons (1979, 196) nega que haja governos “legítimos” ou que quaisquer governos tenham
o “direito” de coagir ou punir seus cidadãos. No entanto, ele parece usar esses termos em um
sentido mais forte que o meu, porque continua aceitando que os governos possam ser moralmente
justificados em suas atividades (199). Isso é confirmado por Simmons 2001, 130-1. Portanto, a
aparente concordância de Simmons comigo é apenas verbal; na minha terminologia, Simmons
aceita legitimidade política, enquanto eu a rejeito.
2

A Teoria Tradicional do Contrato


Social

2.1 A ortodoxia do contrato social


A teoria do contrato social é a defesa da autoridade mais proeminente nos últimos
400 anos de filosofia e tem uma reivindicação tão boa quanto a de ser a teoria
da autoridade nos Estados Unidos. A teoria sustenta que, pelo menos em alguns
países, existe uma relação contratual entre o governo e seus cidadãos. O con-
trato exige que o governo forneça certos serviços para a população, principalmente
proteção contra criminosos privados e governos estrangeiros hostis. Em troca, os
cidadãos concordam em pagar seus impostos e obedecer às leis.1 Algumas visões
do contrato social atribuem ao governo um papel mais amplo, talvez incluindo
prover as necessidades básicas dos cidadãos indigentes, garantir uma distribuição
equitativa dos recursos materiais e assim por diante.2 O que um teórico em parti-
cular considera serem as funções legítimas do Estado, o teórico argumentará que
o contrato social autoriza e obriga o Estado a desempenhar essas funções.
Sob os termos da teoria tradicional do contrato social, a obrigação política é
uma espécie de obrigação contratual: os cidadãos devem obedecer à lei porque
concordaram em fazê-lo. O contrato social também seria responsável pela legiti-
midade política diretamente. Se uma pessoa concorda em ser submetida a uma
forma específica de coerção, então, em regra, essa coerção não estará errada e não
violará seus direitos. Por exemplo, normalmente é errado cortar uma pessoa com
uma faca.
1
Locke 1980. Hobbes, no entanto, alega que o Estado não deve nada aos cidadãos porque o
Estado não é parte no contrato; em vez disso, ele aceita o contrato social como um acordo entre
os cidadãos (1996, 122).
2
Rawls 1999; Gauthier 1986.

18
2. A Teoria Tradicional do Contrato Social 19

Mas se você contratou um médico para realizar uma cirurgia em você, não é
errado e nem é uma violação dos seus direitos que ele o corte para realizar essa
cirurgia. Na mesma linha, se os cidadãos concordaram em pagar ao governo por
seus serviços e concordaram em ser submetidos à coerção se não pagarem, então é
permitido que o governo force seus cidadãos a pagar.3

2.2 A teoria do contrato social explícito


Existe um contrato social? À primeira vista, a teoria exibe um desprezo descarado
pela realidade: ninguém nunca recebeu um contrato descrevendo como o governo
opera e pediu uma assinatura. Poucos já estiveram em uma situação em que uma
declaração verbal ou escrita de concordância com um governo seria apropriada, e
muito menos na verdade fez tal declaração. Quando os teóricos do contrato social
acham que esse evento aconteceu?
John Locke acreditava que havia (no caso de pelo menos alguns governos) um
acordo real e explícito feito na época em que o governo foi fundado.4 Poucas
evidências permanecem desses eventos, explicou Locke, porque as pessoas naquela
época mantinham poucos registros. Ele cita Roma e Veneza como exemplos de
casos em que uma sociedade foi fundada com um contrato social explícito.
Mas mesmo que houvesse um contrato social original, como esse contrato po-
deria vincular as pessoas nascidas muito mais tarde, que nunca participaram do
acordo original e nunca foram solicitadas a consentir? Locke acreditava que fun-
cionava através de um pacto restritivo perpétuo na terra: os contratados originais
comprometeram todos os seus bens, incluindo suas terras, à jurisdição do governo
que estavam criando, para que qualquer pessoa que usasse essa terra no futuro
devesse se submeter a esse governo.5
Apesar da esperteza dessa última manobra, toda essa teoria é pura mitologia,
e seu interesse hoje é principalmente como um pouco de história e como uma
tábula para teorias mais plausíveis. David Hume pintou o quadro mais realista da
história humana, quando observou que quase todos os governos são fundados na
usurpação ou na conquista.6 Ou seja, em algum momento da história de qualquer
nação atualmente existente, ou o governo foi tomado à força por uma pessoa
que não tinha o direito para isso, como em um coup d’état, ou o governo (ou
seus cidadãos ou futuros cidadãos) apreendeu a terra que atualmente controla
3
Uma questão interessante permanece sobre se os cidadãos poderão mais tarde retirar seu
consentimento, pois normalmente se pode retirar o consentimento para outras formas de coerção.
Isso levanta problemas adicionais aos discutidos abaixo no texto.
4
Locke 1980, seções 100–4.
5
Locke 1980, seções 116–17, 120–1.
6
Hume 1987, 471.
2. A Teoria Tradicional do Contrato Social 20

dos habitantes originais pela força. Qualquer um desses eventos invalidaria a


autoridade do Estado, em uma visão lockeana.
No caso dos Estados Unidos e de seu governo, por exemplo, a história é de con-
quista. O território atual dos Estados Unidos foi roubado dos nativos americanos
e depois colocado sob o controle do governo dos EUA. Do ponto de vista lockeano,
essa história torna ilegítimo o controle do governo dos EUA sobre a terra.
Como eu disse, essa teoria é principalmente de interesse histórico hoje; nenhum
teórico contemporâneo proeminente apoia a teoria explícita do contrato social. A
próxima versão da teoria do contrato social é projetada para evitar esses problemas.

2.3 A teoria do contrato social implícito


Consentimento explícito é o consentimento que se indica, declarando, verbalmente
ou por escrito, que se consente. Por outro lado, consentimento implícito é o con-
sentimento que se indica através da conduta de alguém, sem realmente declarar
seu acordo. Se os cidadãos não adotaram um contrato social explicitamente, talvez
o tenham adotado implicitamente.
Como se pode indicar um acordo sem declará-lo? Em algumas situações, al-
guém expressa concordância com uma proposta, simplesmente se abstendo de se
opor. Eu chamo isso de “consentimento passivo”. Suponha que você esteja em uma
reunião do conselho, onde o presidente diz: “A reunião da próxima semana será
transferida para terça-feira às dez horas. Alguma objeção?” Ele faz uma pausa e
ninguém diz nada. “Bom, estamos de acordo”, conclui o presidente.7 Nessa situ-
ação, é plausível que a falta de manifestação de dissidência quando convidados a
fazê-lo indique que os conselheiros concordam com a mudança.
Em outros casos, a pessoa se compromete a aceitar determinadas demandas
solicitando ou voluntariamente aceitando benefícios aos quais essas demandas são
conhecidas por estarem anexadas. Eu chamo isso de “consentimento através da
aceitação de benefícios”. Por exemplo, suponha que você entre em um restaurante
e peça um wrap vegetariano agradável e saboroso. Depois de comer o wrap, a
garçonete traz o cheque. “O que é isso?”, você diz. “Eu nunca disse que pagaria por
isso. E se você queria pagamento, deveria ter dito isso no início. Sinto muito, mas
não lhe devo nada.” Nesse caso, o restaurante poderia argumentar plausivelmente
que, ao pedir a comida, você implicitamente indicou concordância com a demanda
usual relacionada à provisão da comida: a saber, pagamento do preço mencionado
no menu. Como é bem sabido nesta sociedade (e presumivelmente por você)
os restaurantes geralmente só estão dispostos a fornecer comida para receber o
pagamento, era de sua responsabilidade, se você quisesse comida de graça, declarar
7
Esse exemplo é de Simmons (1979, 79–80).
2. A Teoria Tradicional do Contrato Social 21

isso com antecedência. Caso contrário, a suposição padrão é de que você concorda
em participar da prática normal. Por esse motivo, você seria obrigado a pagar por
sua refeição, apesar de seus protestos em contrário.
Uma terceira forma de consentimento implícito é o que chamo de “consenti-
mento através da presença”, pelo qual se indica concordância com uma proposta
apenas permanecendo em algum local. Enquanto faço uma festa em minha casa,
anuncio, em voz alta e clara a todos os presentes, que quem quiser ficar na minha
festa deve concordar em ajudar na limpeza depois. Depois de ouvir o meu anúncio,
você continua festejando. Ao fazer isso, você indica que concorda em ajudar na
limpeza no final.
Finalmente, às vezes alguém implicitamente concorda com as regras que go-
vernam uma prática, participando voluntariamente da prática. Eu chamo isso de
“consentimento através da participação”. Suponha que, durante uma de minhas
aulas de filosofia, eu diga aos alunos que vou fazer uma loteria voluntária. “Quem
quiser participar”, explico, “colocará seus nomes nesse chapéu. Vou desenhar um
nome aleatoriamente. Cada um dos outros participantes pagará $1 à pessoa cujo
nome foi desenhado.” Suponha que você coloque seu nome no meu chapéu. Quando
o nome do vencedor é sorteado, você descobre que o vencedor não era você. Eu
venho coletar $1 de você para dar ao aluno vencedor. “Não te devo nada”, você in-
siste. “Nunca disse que concordei em pagar $1. Tudo o que fiz foi soltar meu nome
em seu chapéu. Talvez eu tenha feito isso apenas porque gosto de colocar meu
nome em chapéus.” Nesta situação, parece que você é obrigado a entregar $1. Sua
participação voluntária no processo, quando era sabido como o esquema deveria
funcionar, indica que você concordou em aceitar os possíveis encargos financeiros
associados ao meu esquema de loteria.
Cada um desses quatro tipos de consentimento implícito – consentimento pas-
sivo, consentimento através da aceitação de benefícios, consentimento através da
presença e consentimento através da participação – pode ser usado como modelo
para a aceitação implícita dos cidadãos do contrato social. Para começar, talvez
os cidadãos tipicamente concordem com o contrato social apenas abstendo-se de
objetar a ele (consentimento passivo). Apenas alguns de nós já têm declarados
explicitamente que aceitamos o contrato social, outros afirmaram que não o acei-
tamos. (As exceções são anarquistas que declararam explicitamente sua rejeição
ao governo.)
O consentimento através da aceitação de benefícios também conferiria uma
autoridade quase universal. Quase todo mundo aceitou pelo menos alguns bene-
fícios de seu governo. Existem certos bens públicos – como segurança nacional e
prevenção ao crime – que o Estado fornece automaticamente a todos dentro de
seu território. Esses bens não são relevantes para o consentimento, porque são
benefícios dados caso os cidadãos os desejam ou não. Os pacifistas, por exemplo,
2. A Teoria Tradicional do Contrato Social 22

recebem o “bem” da defesa militar, contra sua vontade. No entanto, existem ou-
tros bens que os cidadãos têm a opção de aceitar. Por exemplo, quase todo mundo
usa estradas que foram construídas por um governo. O governo não força as pes-
soas a usar essas estradas; portanto, este é um caso de aceitação voluntária de um
benefício governamental. Da mesma forma, se alguém chama a polícia para pedir
assistência ou proteção, se leva outra pessoa ao tribunal, se envia voluntariamente
seus filhos para escolas públicas ou se tira proveito dos programas governamentais
de bem-estar social, aceita voluntariamente os benefícios governamentais. Pode-
se então argumentar que se aceita implicitamente as condições conhecidas como
vinculadas à existência de um governo – que se deve ajudar a pagar os custos
monetários do governo e obedecer às suas leis.
Considere a seguir o caso de consentimento através da presença. Essa, na minha
experiência, é a teoria mais popular de como os cidadãos dão seu consentimento
ao Estado, talvez porque seja o único caso que pode ser aplicado a todos dentro
do território do Estado. O governo não exige que ninguém (exceto prisioneiros)
permaneça no país, e é sabido que aqueles que vivem dentro de um determinado
país devem obedecer às leis e pagar impostos. Portanto, permanecendo volunta-
riamente, talvez aceitamos implicitamente a obrigação de obedecer às leis e pagar
impostos.8
Por fim, alguns cidadãos podem dar consentimento implícito através da par-
ticipação no sistema político. Se alguém vota nas eleições, pode-se inferir que se
aceita o sistema político em que está participando. Isso, por sua vez, pode obri-
gar alguém a respeitar o resultado do processo político, incluindo as leis feitas de
acordo com as regras do sistema, mesmo quando diferentes das leis desejadas.
Se alguma dessas quatro sugestões persistir, elas seriam responsáveis tanto pela
obrigação política quanto pela legitimidade política, pelo menos no que diz respeito
a alguns cidadãos.

2.4 Condições para acordos válidos


Um contrato válido é um contrato moralmente eficaz – ou seja, consegue tornar
permitida alguma ação com a qual alguém consente ou em gerar uma obrigação de
agir da maneira que concordou em agir. Todos os exemplos na seção anterior eram
de acordos válidos. Mas alguns “acordos” são inválidos. Por exemplo, suponha
que um criminoso aponte uma arma para sua cabeça e exija que você assine os
direitos do filme baseado em seu livro mais recente. Se você assinar, o contrato
será inválido, porque a ameaça de violência o tornou não-voluntário. Ou suponha
que você concorda em comprar uma televisão de um vendedor, mas o vendedor
8
Locke 1980, seções 120–1; Otsuka 2003, capítulo 5.
2. A Teoria Tradicional do Contrato Social 23

não informa que a televisão está quebrada e não exibe uma imagem. Nesse caso, o
contrato de venda é inválido porque foi provocado por fraude por parte do vende-
dor. As televisões normalmente são consideradas capazes de exibir uma imagem, e
isso é essencial para o motivo pelo qual as pessoas as compram. Assim, se alguém
deseja vender uma televisão que não funciona, deve declarar essa condição; caso
contrário, a suposição padrão é que a televisão funcione.
Não tentarei uma abranger todos os casos de quando existe um contrato válido.
Mas a seguir estão quatro princípios gerais plausíveis que governam acordos válidos:

1. O consentimento válido requer uma maneira razoável de optar por não par-
ticipar (sair do acordo). Todas as partes de qualquer contrato devem ter a
opção de rejeitá-lo sem sacrificar nada a que tenham direito. Considere uma
modificação do exemplo da reunião do conselho da Seção 2.3. O presidente
diz: “A reunião da próxima semana será transferida para terça-feira às dez
horas. Aqueles que se opuserem gentilmente sinalizarão isso cortando os bra-
ços esquerdos.”9 Nenhum braço é cortado. “Bom, estamos de acordo!”, ele
declara. Este não é um acordo válido, porque a demanda de que os membros
do conselho desistam de seus braços esquerdos, pois o preço da dissidência
da mudança de cronograma não é razoável. Por outro lado, no exemplo da
minha festa da Seção 2.3, a exigência de que você saia da minha festa se
não concordar em ajudar na limpeza é razoável, porque tenho o direito de
determinar quem pode participar de minhas festas. A diferença importante
entre o exemplo modificado da sala de reuniões e o exemplo da festa não é
uma questão de quão grandes são os custos; isto é, não é simplesmente que
perder o braço esquerdo seja muito pior do que ser expulso de uma festa.10 O
presidente não teria justificativa nem de exigir que os membros do conselho
pagassem $1 para expressar sua objeção à mudança de horário. Pelo con-
trário, é uma questão de quem tem direitos sobre o bem que os dissidentes
são solicitados a desistir. Aqueles que buscam um acordo seu com alguma
proposta não podem exigir que você desista de seus direitos como custo de
rejeitar a proposta. Posso exigir que você desista do uso de minha proprie-
dade se não aceitar alguma proposta minha, mas não posso exigir que você
desista do uso de sua propriedade.

2. Dissidência explícita supera alegado consentimento implícito. Um acordo


implícito válido não existe se alguém declarar explicitamente que não con-
corda. Considere uma modificação do exemplo do restaurante da Seção 2.3.
Suponha que, depois de estar sentado, você diga à garçonete: “Não pagarei
9
Esse exemplo é de Simmons (1979, 81).
10
Como Otsuka (2003, 97) argumenta, o consentimento pode ser válido mesmo quando a falta
de consentimento tenha sido muito cara.
2. A Teoria Tradicional do Contrato Social 24

pela comida que você me trouxer. Mas gostaria que você me desse um wrap
vegetariano.” Se a garçonete lhe trouxer o wrap, você não é obrigado a pagar
por isso. Dada sua afirmação, ela não poderia plausivelmente afirmar que
você concordou em pagar pela refeição. E o exemplo da festa? Anuncio que
qualquer pessoa que permanecer na minha festa deve concordar em ajudar
na limpeza. Suponha que, depois do meu anúncio, você responda: “Não
concordo”. Depois, peço que você saia, mas você se recusa e permanece até o
final da festa. Você é obrigado a ajudar na limpeza? Você não concordou em
limpar, pois declarou explicitamente que não concordava (quão mais claro
você poderia ter sido?). No entanto, é plausível que você seja obrigado a
ajudar na limpeza – não porque você concordou com isso, mas porque eu te-
nho o direito de estabelecer condições para o uso da minha casa, incluindo a
condição de que quem a usa ajude a limpá-la. Isso deriva não de um acordo,
mas de minha propriedade sobre a casa.

3. Uma ação pode ser tomada como indicação de concordância com algum es-
quema, apenas se for possível acreditar que, se alguém não o adotasse, o
esquema não seria imposto a ele. Suponha que, no exemplo da reunião do
conselho, o presidente anuncie: “A reunião da próxima semana será transfe-
rida para terça-feira às dez horas, e eu não me importo com o que algum de
vocês tem a dizer sobre isso – a mudança de horário acontecerá mesmo você
objetando ou não. Agora, alguém quer se opor?” Ele faz uma pausa. Nin-
guém diz nada. “Bom, estamos combinados”, ele declara. Nesse caso, não
há acordo válido. Embora os membros do conselho tenham tido a chance
para objetar, também ficou entendido que, se objetassem, a mudança de
cronograma seria imposta de qualquer maneira. Seu fracasso em expressar
objeções, portanto, não pode ser considerado um indicativo de concordân-
cia. Isso pode simplesmente indicar que eles não desejaram perder tempo
protestando contra algo sobre o qual não tinham escolha.

4. A obrigação contratual é mútua e condicional. Um contrato normalmente


coloca ambas as partes sob uma obrigação mútua e a rejeição de uma parte
de sua obrigação contratual libera a outra parte de sua obrigação. Suponha
que você peça comida em um restaurante. Existe um acordo implícito entre
você e os proprietários do restaurante: eles fornecem comida e você paga.
Se a garçonete nunca trouxer a comida, você não precisará pagar; o fracasso
em cumprir o negócio até o fim libera você da obrigação de cumprir o seu.
Além disso, se uma parte simplesmente comunicar que não pretende cumprir
o contrato, a outra parte também não é obrigada a cumpri-lo. Assim, se,
depois de pedir comida, mas antes de recebê-la, você informar a garçonete
que não reconhece nenhuma obrigação de pagar o restaurante, o restaurante
2. A Teoria Tradicional do Contrato Social 25

poderá concluir que você rejeitou o contrato e eles não precisam lhe trazer
comida.

Essas quatro condições pertencem à concepção de senso comum de consenti-


mento e contratos. Na próxima seção, aplico esses princípios ao contrato social
putativo.

2.5 O contrato social é válido?


2.5.1 A dificuldade de optar por não participar
Comece com a primeira condição em contratos válidos: todas as partes de um
contrato devem ter uma maneira razoável de optar por não participar. Quais são
os meios disponíveis para optar por sair do contrato social? Há apenas um: é
preciso desocupar o território controlado pelo Estado.
Vamos revisar algumas das razões pelas quais podemos ter deixado de exercer
essa opção. Para deixar o país, geralmente é necessário obter a permissão de outro
Estado para entrar em seu território, e a maioria dos Estados impõe restrições à
imigração. Além disso, alguns indivíduos carecem de recursos financeiros para se
mudarem para o país de sua escolha. Aqueles que podem se mudar podem deixar
de fazê-lo devido a apegos à família, amigos e casa. Finalmente, se alguém se
mudar para outro país, ficará apenas sujeito a outro governo. O que se deve fazer
se não deseja consentir com nenhum governo? Aqueles que procuram evitar todas
as jurisdições governamentais têm três opções: podem viver no oceano, se mudar
para a Antártica ou cometer suicídio.
Diante disso, a opção de deixar o território controlado pelo Estado é uma
maneira razoável de optar pelo contrato social? Alguns acham isso irracional
porque a demanda é muito onerosa. Nas palavras de David Hume,

Podemos também afirmar que um homem, permanecendo em um navio,


consente livremente com o domínio do mestre; embora ele tenha sido
carregado a bordo enquanto dormia, e deve pular no oceano e perecer
no momento em que abandoná-lo.11

No entanto, conforme discutido na Seção 2.4, esse não é o problema principal.


A questão principal é se alguém está sendo solicitado a desistir de algo a que
tem direito, como preço de rejeitar o contrato social. Este certamente parece
ser o caso. Se um presidente do conselho não pode exigir que os membros do
conselho lhe paguem $1 para expressar discordância de uma mudança proposta no
11
Hume 1987, 475.
2. A Teoria Tradicional do Contrato Social 26

cronograma, como alguém pode ser obrigado a desistir de casa e emprego e deixar
todos os amigos e familiares para trás para expressar desacordo com um contrato?
Aqui está uma resposta: talvez o Estado possua todo o território sobre o qual
reivindica jurisdição. Logo, assim como eu posso expulsar pessoas da minha casa
se elas não concordarem em ajudar na limpeza no final da festa, o Estado poderá
expulsar pessoas de seu território se não concordarem em obedecer às leis e pagar
impostos.
Mesmo se admitimos que o Estado possui seu território, é discutível se ele pode
expulsar pessoas que rejeitam o contrato social (compare o seguinte: se alguém que
deixar minha festa antes do fim estiver fadado a morrer, então, pode-se pensar: eu
perco o direito de expulsar pessoas da minha festa). Mas não precisamos resolver
esse problema aqui; em vez disso, podemos nos concentrar em saber se o Estado de
fato possui todo o território sobre o qual reivindica jurisdição. Se ele não possui,
então falta o direito de estabelecer condições para o uso dessa terra, incluindo a
condição de que os ocupantes devam obedecer às leis do Estado.
Para ilustração, considere o caso dos Estados Unidos. Nesse caso, o controle
do Estado sobre seu território deriva (1) da expropriação anterior daquela terra
por colonos europeus das pessoas que a ocupavam originalmente e (2) do poder
coercitivo atual do Estado sobre os proprietários individuais que receberam título
de partes desse território, transmitido através das gerações dos expropriadores
originais. Isso não parece dar origem a um direito legítimo de propriedade por
parte do governo dos EUA.12 Mesmo se negligenciarmos a fonte (1), a fonte (2),
que se aplica a todos os governos, não é uma base legítima para uma reivindicação
de propriedade. Poder não dá direito; o mero fato de o Estado exercer poder
sobre as pessoas em uma determinada região não confere ao Estado um direito de
propriedade (nem qualquer outro tipo de direito) em todas as terras dessa região.
Se pudéssemos estabelecer a autoridade do Estado, então o Estado poderia
estabelecer a propriedade de todo o seu território, simplesmente promulgando uma
lei que designasse essa propriedade a si mesmo. A lei de “domínio eminente” (ou
“compra obrigatória”, “retomada” ou “expropriação”, dependendo do país em que
alguém vive) pode ser interpretada como justamente essa lei. Mas isso não tem
utilidade para o teórico do contrato social, pois o contrato social é uma maneira de
estabelecer a autoridade do Estado. O teórico do contrato social, portanto, pode
não pressupor a autoridade do Estado para explicar como o próprio contrato social
é estabelecido. Se não assumirmos que o Estado já tem autoridade, é muito difícil
12
O problema da história injusta afeta toda ou a maioria das terras do mundo. Não está claro
o que deve ser feito sobre esse problema, quando é impossível devolver a terra aos seus últimos
proprietários legítimos. Não proponho solução para esse problema ético aqui; no entanto, afirmo
que o princípio “quem detém o poder sobre a população atualmente ocupando a terra tenha
o direito de controlar seu uso” carece de força ética. No mínimo, alguma defesa prévia da
legitimidade de um governo parece necessária para estabelecer seu direito de controlar a terra.
2. A Teoria Tradicional do Contrato Social 27

ver como o Estado pode reivindicar o título de toda a terra de seus cidadãos. E
se devemos assumir que o Estado já tem autoridade, não precisamos da teoria do
contrato social.
O Capítulo 1 incluiu uma história na qual você aprova punir vândalos e extor-
quir pagamentos do resto de sua aldeia pelos seus serviços. Imagine que, quando
você aparece na porta do seu vizinho para receber o pagamento, seu vizinho pro-
testa que ele nunca concordou em pagar por seus serviços de prevenção ao crime.
“Au contraire“, você responde. “Você concordou porque está morando em sua
casa. Se você não quiser me pagar, deve abandoná-la.” É uma demanda razoável?
A falha do seu vizinho em deixar a casa dele mostra que ele é obrigado a pagar
você?
Certamente não. Se você tiver um inquilino ocupando sua casa, poderá exigir
que ele compre seus serviços de proteção ou desocupe sua casa (desde que isso
seja consistente com o contrato existente, se houver, que você tenha feito com o
inquilino). Mas você não tem o direito de exigir que seus vizinhos deixem suas
casas nem colocar condições para ocupação continuada da propriedade deles. Sua
exigência de que seu vizinho deixe a casa dele se não concordar em pagar a você pela
proteção não representa uma “maneira razoável de optar por não participar” da
compra de seus serviços de proteção. A menos que o governo realmente possua toda
a terra que (como costumamos dizer) seus cidadãos possuem, o governo estaria na
mesma posição que você nesse exemplo: não pode exigir que os indivíduos parem
de usar sua própria propriedade, nem pode definir as condições sob as quais os
indivíduos podem continuar a ocupar suas próprias terras.
Concluo que a primeira condição dos contratos válidos é violada pelo contrato
social.

2.5.2 A falta de reconhecimento da dissidência explícita


Vamos voltar à segunda condição: você não aceitou implicitamente um contrato se
declarar explicitamente que não o aceita. No caso do contrato social, um pequeno
número de pessoas indicou explicitamente sua discordância. Estes são os anarquis-
tas políticos, pessoas que sustentam que não deveria haver governo. No entanto,
todo governo continua a impor leis e impostos aos anarquistas. No entanto, com
protestos vocais contra o contrato social, o governo não reembolsará seu dinheiro
dos impostos e nem o isentará das leis.
Pode haver um Estado que reconheça discordância explícita. O contrato social
para esse Estado estaria mais próximo de ser válido – pelo menos não violaria esse
segundo princípio de acordos válidos. Mas os Estados reais violam essa condição
e, portanto, deixam de ter autoridade genuína sobre pelo menos alguns daqueles
sobre quem reivindicam autoridade. Isso não impede que esses Estados tenham
autoridade sobre outros cidadãos, se esses outros cidadãos consentiram voluntaria-
2. A Teoria Tradicional do Contrato Social 28

mente. Mas a conhecida recusa do Estado em reconhecer dissidência explícita põe


em xeque a validade de qualquer consentimento tácito supostamente dado mesmo
por aqueles que não expressaram explicitamente dissidência. Mesmo para aqueles
que de fato não desejam discordar, continua sendo verdade que eles não tiveram a
opção de recusar explicitamente o contrato social.

2.5.3 Imposição incondicional


O terceiro princípio sobre acordos válidos era que uma ação pode ser tomada
como indicação da concordância de uma pessoa com algum esquema apenas se for
possível presumir razoavelmente que essa pessoa acredita que, se ela não tomasse
essa ação, o esquema não lhe seria imposto. Isso exclui quase todas as maneiras
pelas quais os cidadãos aceitam implicitamente o contrato social.
Quase todo mundo sabe que o Estado ainda impõe as mesmas leis e os mesmos
impostos, independentemente de alguém se opor ao governo, aceitar serviços do
governo ou participar do processo político. Portanto, a falta de objeção, a aceitação
de serviços governamentais e até a participação de alguém no processo político não
podem ser tomadas como concordância com o contrato social.
A única forma de consentimento implícito não descartada por esse princípio
é o consentimento através da presença. Se você deixar de residir no território
controlado pelo Estado, só então o Estado deixará de impor suas leis.13 Diferente
de todas as outras formas alegadas de consentir implicitamente em ser governado,
permanecer presente no território do Estado é realmente uma condição de ter as
leis do Estado impostas a você. Assim, apenas o consentimento através da presença
satisfaz o terceiro princípio sobre acordos válidos. A ideia de consentimento através
da presença, no entanto, foi rejeitada acima por outros motivos.

2.5.4 Ausência de obrigação mútua


Finalmente, chegamos ao quarto princípio sobre acordos válidos: um contrato
impõe obrigações mútuas às partes, com a obrigação de cada parte condicionada
à aceitação pela outra parte de sua obrigação.
No caso do contrato social, os indivíduos devem ser obrigados a obedecer às
leis promulgadas pelo Estado. Às vezes, os cidadãos violam essas leis; nesse caso,
os agentes do Estado – se tiverem conhecimento da violação e podem poupar os
recursos – punirão o cidadão, geralmente com multas ou prisão. Dado o amplo e
indefinido leque de leis que podem ser criadas pelo Estado e o leque de punições a
13
Mesmo para isso, existem algumas exceções. Por exemplo, os cidadãos dos EUA que moram
no exterior ainda podem ser obrigados a pagar impostos aos EUA sobre parte de sua renda.
2. A Teoria Tradicional do Contrato Social 29

que alguém pode ser sujeito por violá-las, as concessões de um indivíduo ao Estado
sob o contrato social são bastante grandes.
O Estado, por sua vez, deve assumir uma obrigação para com o cidadão, de
fazer valer os seus direitos, incluindo a proteção do cidadão contra criminosos e
governos estrangeiros hostis. O Estado falha nesse dever? O que acontece quando
falha?
Em certo sentido, o Estado falha o tempo todo. Em qualquer sociedade grande,
milhares ou milhões de cidadãos são vitimados anualmente por crimes que o Es-
tado não conseguiu impedir. Mas não seria razoável esperar que o Estado impeça
todos os crimes. Talvez o contrato social exija apenas que o Estado faça um es-
forço razoável para evitar crimes. Mas e se o Estado falha mesmo nesses termos?
Suponha que você seja vítima de um crime grave que o governo poderia facilmente
ter evitado, a baixo custo, se tivesse feito um esforço razoável para resolver. O
Estado teria falhado em suas obrigações sob o contrato social?
Se o contrato social significa alguma coisa, então a resposta a essa pergunta deve
ser sim. Se existe um contrato entre o Estado e seus cidadãos, então o Estado deve
ter alguma obrigação de fazer algo pelos cidadãos. Como a proteção contra o crime
é a função mais central e amplamente reconhecida do Estado, presumivelmente,
o Estado deve ter alguma obrigação em relação à proteção de alguém. Se essa
obrigação é significativa, deve haver algo que o Estado possa fazer que contaria
como falha no cumprimento dessa obrigação. E se a situação descrita no parágrafo
anterior não conta como uma falha no cumprimento da obrigação de proteger um
cidadão do crime, é difícil ver o que contaria.
Nos Estados Unidos, essa situação ocorreu muitas vezes. Descrevo uma dessas
instâncias abaixo. Embora a história seja perturbadora de ouvir, há um ponto
importante a ser aprendido com ela.
Numa manhã de março de 1975, dois homens invadiram uma casa na cidade
de Washington, DC, onde residiam três mulheres.14 As duas mulheres no andar
de cima ouviram o arrombamento e os gritos de sua colega de quarto vindo do
andar de baixo. Elas telefonaram para a polícia e foram informadas de que a
ajuda estava a caminho. As duas mulheres se arrastaram para fora de uma janela
em um telhado adjacente e esperaram. Observaram um carro da polícia passar e
depois partir. Outro policial havia batido na porta da frente, mas, não recebendo
resposta e sem sinais de arrombamento, decidiu ir embora. A polícia não verificou
a entrada dos fundos da casa, onde os criminosos haviam realmente invadido. Ao
voltar para dentro, as mulheres no andar de cima ouviram novamente a colega
de quarto gritando e telefonaram novamente para a polícia. Tiveram a garantia
de que a ajuda estava a caminho, mas na verdade nenhum oficial foi despachado
14
O incidente é a base do caso de Warren v. Distrito de Columbia (444 A.2d. 1, D.C. Ct. De
Ap., 1981), do qual deriva meu relato dos fatos.
2. A Teoria Tradicional do Contrato Social 30

para responder à segunda ligação. Quando os gritos da colega de quarto cessaram,


as duas mulheres no andar de cima acharam que a polícia havia chegado. Elas
chamaram sua colega de quarto, isso serviu apenas para alertar os criminosos
sobre sua presença. Os dois criminosos sequestraram as três mulheres e as levaram
de volta a um apartamento de um dos criminosos, onde espancaram, roubaram e
estupraram as mulheres ao longo de catorze horas.
O que é notável nesse caso não é apenas o fato de o Estado ter falhado tragica-
mente em sua obrigação de proteger alguns de seus cidadãos. O mais importante
para a teoria do contrato social é o que aconteceu depois. As mulheres proces-
saram o Distrito de Columbia em um tribunal federal pelo fracasso negligente do
governo em protegê-las. Se o governo tivesse a obrigação contratual de fazer um
esforço razoável para proteger seus cidadãos, então as mulheres deveriam ter um
caso claro aqui. Na verdade, os juízes rejeitaram o caso e nem o julgaram. Os
autores apelaram, mas a rejeição foi confirmada.
Por quê? Ninguém contestou a negligência do governo e ninguém contestou que
as mulheres haviam sofrido grandes danos como resultado direto dessa negligência.
O que o tribunal negou foi que o governo tivesse o dever de proteger as três mulheres
em primeiro lugar. O Tribunal de Apelações citou “o princípio fundamental de
que um governo e seus agentes não têm o dever geral de prestar serviços públicos,
como proteção policial, a qualquer cidadão em particular”. O dever do governo,
explicou o tribunal, era apenas um dever para o público em geral, de fornecer um
impedimento geral ao crime. O tribunal temia que o reconhecimento de um dever
de proteger os indivíduos “efetivamente interrompesse rapidamente os negócios do
governo” e “despachasse uma nova geração de litigantes ao tribunal por causa de
queixas reais e imaginárias”.15
Esta não foi uma decisão idiossincrática. Em outro caso, uma mulher telefonou
para a polícia porque seu marido havia acabado de ligar e disse que estava vindo
para assassiná-la. A polícia disse-lhe para ligar de volta quando ele chegasse.
Quando ele chegou, a mulher não pôde ligar de volta porque o marido cumpriu
sua ameaça.16 Em um terceiro caso, o Departamento de Serviços Sociais estava
monitorando um homem por abuso de seu filho. Em cinco ocasiões, uma assistente
social do DSS registrou evidências de abuso, mas a criança foi deixada sob custódia
do pai. Eventualmente, o homem espancou o filho com tanta severidade que a
criança sofreu danos cerebrais permanentes.17 Esses casos também resultaram
em ações judiciais contra o governo, e essas ações também foram sumariamente
rejeitadas. O caso de abuso infantil foi apelado à Suprema Corte dos EUA, que
confirmou a rejeição. Mais uma vez, os tribunais sustentaram que o governo não
15
Ibid., da opinião majoritária.
16
Hartzler v. City of San Jose, 46 Cal.App. 3d 6 (1975).
17
DeShaney v. Winnebago County Department of Social Services, 489 U.S. 189 (1989).
2. A Teoria Tradicional do Contrato Social 31

tinha o dever de proteger os cidadãos nesses casos.


Como esses casos afetam na doutrina do contrato social? Os tribunais nesses
casos negaram que o Estado tenha alguma obrigação para com o indivíduo. Como
um contrato geralmente exige obrigações mútuas entre as partes, isso implica que
não há contrato entre o indivíduo e o Estado.
E sobre o argumento de que a obrigação do Estado é devida ao público em
geral e não a qualquer indivíduo? Um problema com esse argumento é que ele é
puramente arbitrário. Não há evidência real para o argumento, e pode-se perdoar
por suspeitar que o Estado simplesmente declara que o contrato social exige apenas
o que o próprio Estado deseja fazer. O outro problema é que a teoria do contrato
social visa explicar por que os indivíduos são obrigados a obedecer ao Estado. Se
um indivíduo não é parte do contrato social, ele não tem dever para com o Estado
sob esse contrato. Se o contrato, de alguma forma, é válido apenas entre o Estado
e o público em geral, talvez “o público em geral” deva algo ao Estado, mas nenhum
indivíduo deve. Se, por outro lado, o contrato social se mantém entre o indivíduo
e o Estado, então o Estado deve ter uma obrigação para com o indivíduo. Não
se pode ter as duas coisas: não se pode sustentar que o indivíduo deve deveres ao
Estado, mas que o Estado não deve nada ao indivíduo.18
Talvez as opiniões do tribunal nesses casos tenham sido equivocadas. Seja como
for, as opiniões formuladas pelos tribunais, reafirmadas e nunca derrubadas, são as
posições oficiais do governo. O governo, então, adotou oficialmente, explicitamente
a posição de que não tem obrigação de proteger nenhum cidadão em particular.
Assim, o governo repudiou o contrato social. Se o Estado rejeita o contrato social,
então os indivíduos também não podem ter obrigações a esse contrato.
Este último argumento, o argumento da obrigação mútua, aplica-se especifica-
mente aos Estados Unidos, onde ocorreram os casos discutidos. Outros governos
podem escapar desse defeito em particular se reconhecerem um dever afirmativo
de proteger seus cidadãos.
Minha afirmação nesta seção não foi que a maioria das pessoas não concordaria
em ter um governo. Minha reivindicação é que, de fato, não existe um acordo
válido. Talvez você aceitasse o contrato social se tivesse uma escolha. Mas você
não teve. Isso faz com que o seu relacionamento com o governo não seja voluntário e
contratual, independentemente de você estar realmente feliz com o relacionamento.
Também não afirmo que todos os relacionamentos não-voluntários são moralmente
ilegítimos ou injustos. A questão é simplesmente que a teoria do contrato social é
falsa, porque descreve uma relação não voluntária como voluntária.
18
Pode-se afirmar que o contrato social se mantém entre o indivíduo e o Estado, mas que
a única promessa do Estado ao indivíduo era proteger a sociedade em geral. Normalmente, no
entanto, quando os indivíduos fazem contratos para obter bens ou serviços, obtêm uma promessa
de receber pessoalmente o bem, não uma promessa de que a sociedade em geral será mais ou
menos abastecida com o bem.
2. A Teoria Tradicional do Contrato Social 32

2.6 Conclusão
A teoria do contrato social não pode explicar a autoridade política. A teoria de
um contrato social real falha porque nenhum Estado forneceu meios razoáveis de
desistir (sair do contrato) – meios que não exijam que os dissidentes assumam
grandes custos ao qual o Estado não tem o direito independente de impor. Todos
os Estados modernos, ao se recusarem a reconhecer divergências explícitas, tornam
seus relacionamentos com seus cidadãos não-voluntários. A maioria dos relatos de
consentimento implícito falha, porque quase todos os cidadãos sabem que as leis
do governo seriam impostas a eles, independentemente deles executarem os atos
específicos pelos quais alegadamente comunicam o consentimento. No caso dos go-
vernos que negam qualquer obrigação de proteger os cidadãos, a teoria do contrato
falha pela razão adicional de que, se houve um contrato social, o governo repudiou
sua obrigação central nos termos do contrato, liberando assim seus cidadãos das
obrigações que teriam sob esse contrato.
A premissa moral central da teoria tradicional do contrato social é louvável: a
interação humana deve ser realizada, na medida do possível, de forma voluntária.
Mas a premissa factual central está longe em face da realidade: independente
do que mais pode ser dito sobre isso, a sujeição ao governo obviamente não é
voluntária. Nos tempos modernos, todo ser humano nasce sob essa sujeição e não
tem meios práticos de escapar dela.
3

A Teoria do Contrato Social


Hipotético

3.1 Argumentos do consentimento hipotético


Como vimos, a alegação tradicional de que os indivíduos consentiram com o Estado
não pode ser defendida de maneira plausível. Os teóricos do contrato social hipo-
tético se voltam para a alegação de que os indivíduos consentiriam com o Estado
sob certas condições hipotéticas.1 Essas condições podem envolver estipulações
quanto ao conhecimento, grau de racionalidade e motivações das partes no con-
trato social, além da estipulação que todos os membros de uma sociedade possam
escolher em que tipo de sociedade viverão. Pensa-se que o fato de termos concor-
dado com um determinado arranjo em um cenário hipotético específico legitima
esse arranjo e gere obrigações de apoio a isto. Essa abordagem tem a vantagem
dialética de evitar o tipo de dependência de fatos empíricos sobre o mundo real
que provou a queda da teoria tradicional do contrato social.
Os defensores de qualquer teoria do contrato social hipotético devem concluir
duas tarefas: primeiro, devem mostrar que as pessoas aceitariam o contrato so-
cial em seu cenário hipotético; segundo, devem mostrar que esse consentimento
hipotético é moralmente eficaz, no sentido em que gera obrigações e direitos éticos
semelhantes aos gerados pelo consentimento real válido.
1
A maioria das teorias modernas do contrato hipotético visa explicar algo mais amplo que
a autoridade política. Tipicamente, visam explicar a parte da moralidade que diz respeito, nas
palavras de Scanlon (1998, 7), ao que devemos um ao outro. Para os propósitos do presente
capítulo, suponho que as teorias de pensadores contemporâneos como Rawls e Scanlon tenham
sido adaptadas de modo a dar conta dos fundamentos da autoridade política.

33
3. A Teoria do Contrato Social Hipotético 34

3.2 Consentimento hipotético na ética comum


À primeira vista, um acordo hipotético parece ter pouca importância normativa.
As promessas feitas por alguém normalmente o obrigam a cumprir o prometido,
mas as promessas que alguém simplesmente teria feito sob circunstâncias idealiza-
das não o vinculam de maneira semelhante. O consentimento real de alguém pode
dar aos outros o direito de coagir alguém, mas o consentimento que alguém apenas
daria em circunstâncias idealizadas não dá a outros o direito de coagir alguém. Ou
assim parece.
No entanto, existem circunstâncias em que o consentimento hipotético é mo-
ralmente eficaz, circunstâncias nas quais o fato de alguém “ter concordado” com
algum procedimento pode tornar permitido a execução do procedimento, onde o
procedimento é de um tipo que normalmente requer consentimento. Suponha que
um paciente inconsciente tenha sido levado a um hospital, precisando de cirur-
gia para salvar sua vida. Sob circunstâncias normais, os médicos devem obter o
consentimento informado do paciente antes de operar. Nessa situação, a insistên-
cia nesse princípio impediria a aplicação de cuidados médicos que salvam vidas,
pois o paciente é incapaz de consentir ou discordar do tratamento. Nesse caso,
é geralmente reconhecido que os médicos devem proceder apesar da falta de con-
sentimento. A explicação mais natural apela à crença razoável de que o paciente
consentiria com o procedimento de salvar sua vida, se pudesse fazê-lo.2
O consentimento hipotético pode ter eficácia moral semelhante no caso do
contrato social? Existem duas condições necessárias para a eficácia moral do con-
sentimento hipotético em um caso como o do paciente inconsciente. Primeiro, a
obtenção do consentimento real deve ser impossível ou inviável, por outras razões
que não a falta de vontade da outra parte em consentir. Para ilustrar, imagine que
um segundo paciente chegue ao hospital, também necessitando de cirurgia para sal-
var sua vida, mas neste caso eles está perfeitamente consciente e psicologicamente
normal. Se aqui também os médicos optam por não solicitar o consentimento do
paciente, mas simplesmente administrar anestésicos e prosseguir com o procedi-
mento cirúrgico que consideram mais benéfico, eles não poderiam justificar seu
comportamento apelando para a probabilidade de o paciente ter consentido, se
tivesse sido solicitado. Embora a verdade dessa alegação hipotética possa atenuar
a culpabilidade dos médicos, isso não justifica a falta de consentimento real, dada
a viabilidade de apresentá-lo.
Segundo, quando apelamos para o consentimento hipotético, o consentimento
hipotético das partes deve ser consistente com seus valores reais relevantes e com
2
Waldron (1993, 49) cita esse tipo de caso em apoio à relevância moral e política do consen-
timento hipotético. Dworkin (1989, 19) discute casos desse tipo, mas com mais ceticismo sobre
sua relevância política.
3. A Teoria do Contrato Social Hipotético 35

suas crenças filosóficas. Imagine que um terceiro paciente seja levado ao hospital
nas mesmas condições do primeiro paciente, inconsciente e necessitando de cirur-
gia. Mas, neste caso, o médico assistente, devido à sua familiaridade com esse
paciente em particular, está ciente de que o paciente tem fortes objeções religiosas
à prática da cirurgia, mesmo sendo necessária para salvar sua vida. Nessa situação,
o médico não pode prosseguir com a cirurgia, desconsiderando a falta de consenti-
mento, com o argumento de que o paciente “teria consentido”. Sempre é possível
conceber circunstâncias em que qualquer indivíduo consente com um determinado
procedimento- no presente caso, por exemplo, o paciente teria consentido se tivesse
abandonado suas crenças religiosas. Mas hipóteses que requerem alterações nas
crenças e valores fundamentais das pessoas – mesmo que algumas dessas crenças
e valores sejam equivocadas – são irrelevantes para definir um consentimento hi-
potético moralmente eficaz. No presente caso, o julgamento hipotético de controle
ético é o julgamento de que o paciente não consente em receber uma cirurgia se
tivessem lhe perguntado em uma circunstância considerada normal, com suas reais
crenças filosóficas, religiosas e morais intactas.
Isso não significa negar que possa haver circunstâncias sob o qual a coerção
paternalista seja justificada; é apenas negar que a coerção seja sempre justificada
em virtude do consentimento hipotético, onde o consentimento hipotético depende
de alterações fundamentais imaginadas nas crenças e valores das pessoas.3
À luz dessas condições, o contrato social hipotético não pode ser aceito como
válido. Para começar, os cidadãos de um determinado país, em geral, não são
inconscientes, nem mentalmente incompetentes, nem são incapazes de consentir
ou discordar do contrato social, nem é inviável que o Estado solicite seu consen-
timento. Uma razão pela qual os Estados modernos evitam solicitar esse con-
sentimento pode ser o fato de não estarem preparados para isentar aqueles que
recusariam seu consentimento das exigências de tributação e outros requisitos le-
gais. Mas essa consideração certamente não autoriza um apelo ao consentimento
hipotético nesse caso, assim como um médico não poderia legitimamente dispensar
o consentimento real de um paciente a um procedimento médico, alegando que ele,
o médico, não estava disposto a desistir no caso do paciente realmente rejeitar o
tratamento recomendado.
Segundo, o acordo sobre qualquer contrato social exigiria modificações das
crenças e valores filosóficos de pelo menos alguns cidadãos. Entre os indivíduos a
quem o governo é imposto, existem aqueles que, por motivos filosóficos, se opõem
3
Mill (1978, capítulo V, 95) adota um caso em que um pessoa impede coercivamente o homem
de atravessar uma ponte em que ele está, sem o homem saber que é inseguro. Aqui, parece
razoável recorrer ao julgamento de que o homem provavelmente consentiria em ser parado se
conhecesse o estado da ponte – apesar do fato de que essa hipótese prevê uma alteração nas
crenças do homem. É à luz desses casos que incluí qualificadores como “fundamental” e “religioso,
filosófico e moral” antes das “crenças” nesta discussão.
3. A Teoria do Contrato Social Hipotético 36

à forma ou estilo geral de governo ao qual estão sujeitos em favor de algum outro
tipo de governo. Outros se opõem a todas as formas de governo em favor de alguma
forma de anarquismo político. O acordo sobre um contrato social especificando
até características muito gerais do tipo de governo a ser adotado exigiria que esses
indivíduos renunciassem a importantes crenças e valores filosóficos com os quais
estão realmente comprometidos. Talvez alguma justificativa possa ser concebida
para impor uma forma de governo a esses indivíduos sem seu consentimento, mas
certamente a alegação de que eles teriam consentido não é bem-sucedida.

3.3 Consentimento hipotético e razoabilidade


3.3.1 Concordância hipotética como evidência de razoabi-
lidade
Na opinião de alguns filósofos, quando um sistema estritamente voluntário é inviá-
vel, uma aproximação aceitável pode ser um sistema sobre o qual ninguém tenha
nenhuma queixa razoável.4 E o fato de um sistema político ser o foco de um
acordo de pessoas razoáveis sob condições ideais pode-se pensar que as condições
de deliberação mostram que ninguém tem uma queixa razoável a respeito.
Ao imaginar as condições sob as quais esse acordo hipotético ocorre, podemos
supor que algumas características reais dos seres humanos sejam alteradas. Por
exemplo, podemos supor que as partes no contrato sejam mais bem informadas e
melhores no raciocínio do que a maioria das pessoas reais. Podemos assumir que
elas são racionais e razoáveis, onde pessoas “razoáveis” são entendidas como pre-
ocupadas em fazer um acordo justo com outras pessoas, desde que outras pessoas
estejam igualmente dispostas.
Pessoas razoáveis, portanto, não tentam insistir em um acordo que sirva apenas
a si mesmas; elas estão dispostas a levar em consideração as reivindicações dos
outros para chegar a um acordo aceitável para todos.
Não obstante, não devemos imaginar as partes no acordo hipotético como sendo
muito diferentes dos seres humanos reais, para que o acordo hipotético não perca
sua força justificativa. Por exemplo, não devemos nos interessar por um acordo
hipotético que só possa ser alcançado depois que todos tiverem se convertido na
única religião verdadeira. Devemos aceitar o fato de que pessoas razoáveis têm
diferenças religiosas persistentes e, mais geralmente, diferenças filosóficas persis-
tentes, e devemos buscar um foco de acordo, apesar dessas diferenças. Os teóricos
do contrato hipotético adotaram explicitamente esse ponto, declarando que seu
4
Nagel (1991, 33-40) avança essa sugestão, aplicando a teoria contratual da moralidade de
Scanlon (1998) ao problema da legitimidade política.
3. A Teoria do Contrato Social Hipotético 37

objetivo é fornecer justificativas aplicáveis a todas as pessoas razoáveis.5

3.3.2 Pode ser alcançado um acordo?


Os defensores do tipo de teoria do contrato que acabamos de descrever não ofere-
ceram evidências ou raciocínios para mostrar que algum sistema político específico
seria aceito por todas as pessoas razoáveis. Embora esses teóricos façam um esforço
considerável para descrever as condições que acreditam que estabeleceriam a legi-
timidade de um sistema político, não fazem nenhum esforço sério para mostrar que
qualquer sistema político satisfaz essas condições. Uma explicação possível para
essa omissão é que, de fato, nenhum governo satisfaz as condições de legitimidade.
Thomas Nagel fornece um exemplo desse padrão. Depois de descrever a ideia
de um acordo hipotético, Nagel passa à questão de quanto se espera que os mem-
bros mais abastados da sociedade deem por meio de ajuda aos mais pobres. Em
um extremo está a visão de que eles precisam dar pouco ou nada; no extremo
oposto está a visão de que devem dar quase tudo o que têm. Ambos os extre-
mos, ele acha irracional. Mas, admite, há um intervalo intermediário substancial
no qual qualquer princípio poderia ser razoavelmente rejeitado, seja pelos pobres
ou pelos ricos; portanto, nenhum acordo unânime seria possível com relação aos
princípios da justiça distributiva.6 Nagel continua aumentando a possibilidade de
alterarmos nossas motivações de tal maneira que as condições de legitimidade se
tornem satisfatórias no futuro.
Em seu trabalho posterior, John Rawls tem uma visão semelhante à visão de
Nagel sobre as condições de legitimidade política, embora ele pareça mais otimista
sobre as perspectivas de acordo. O otimismo de Rawls, no entanto, é sem justi-
ficativa.7 Ele descreve detalhadamente como é concebível que sua própria teoria
da justiça seja o foco de um consenso entre indivíduos com diferentes visões reli-
giosas, morais e filosóficas. Essas diferentes visões podem vir a apoiar uma única
concepção política. Após a exposição dessa possibilidade lógica, pode-se antecipar
a apresentação de evidências de que a possibilidade é realizada em alguma socie-
dade real. Tais evidências podem assumir a forma, por exemplo, de uma série de
argumentos, cada um começando com princípios de uma religião, sistema moral ou
sistema filosófico amplamente aceito e cada um concluindo nos princípios centrais
da teoria da justiça de Rawls. Nenhum argumento deste tipo pode ser encontrado
no trabalho de Rawls, nem qualquer outra forma de evidência para concluir que
toda doutrina abrangente razoável apoia a teoria da justiça de Rawls.
O mais próximo que Rawls chega a argumentar de que alguma doutrina religi-
osa apoia sua teoria está em sua discussão sobre tolerância religiosa, onde cita a
5
Scanlon 1998, 5, 208–9; Nagel 1991, 36; Rawls 2005, 137.
6
Nagel 1991, 50–2.
7
Veja Huemer 1996, respondendo a (uma edição anterior) de Rawls 2005.
3. A Teoria do Contrato Social Hipotético 38

Letter Concerning Toleration de John Locke na ilustração de por que os pensado-


res religiosos podem apoiar a tolerância.8 Na verdade, Locke, apesar de tolerante
em seu tempo, era altamente intolerante nos padrões modernos, rejeitando ex-
plicitamente a ideia de tolerância aos ateus e para aqueles que professam ideias
socialmente destrutivas.9 Deixando essa observação à parte, a dificuldade mais
séria é que o que Rawls procura fornecer nesta passagem fica muito aquém do que
sua teoria necessita. O que é necessário é um argumento de que todas as pessoas
razoáveis concordariam com todos os principais princípios do sistema de Rawls; O
que Rawls fornece é uma explicação de como um seguidor de uma religião poderia
apoiar razoavelmente um dos princípios da justiça de Rawls.
O mais próximo que Rawls chega a argumentar de que uma teoria moral secu-
lar abrangente apoia sua concepção política de justiça está em sua discussão sobre
o utilitarismo, onde ele sugere que os utilitaristas podem considerar sua teoria da
justiça para alcançar uma aproximação aceitável à maximização da utilidade.10
Essa sugestão, no entanto, é fornecida como não mais do que isso; nenhum argu-
mento é apresentado para mostrar que a teoria da justiça de Rawls de fato fornece
uma aproximação aceitável à maximização da utilidade.
Até agora, portanto, a teoria do contrato hipotético parece menos um funda-
mento para a legitimidade política do que uma nota promissória para tal funda-
mento. Em essência, a teoria exige que todos os As sejam B, e a defesa dos teóricos
consiste em explicar como é conceitualmente possível que exista um A que é B.
Nagel e Rawls se dirigiram principalmente aos princípios da justiça distributiva,
uma área altamente contenciosa.11 Talvez tenhamos mais sucesso em defender o
consentimento hipotético se nos limitarmos ao acordo geral de ter um governo.
Há alguma razão para duvidar que um acordo, seja hipotético ou real, com
a simples afirmação de que a sociedade deva ter alguma forma de governo seria
suficiente para conferir autoridade a qualquer governo em particular. Se um in-
divíduo concorda que deve haver governo, mas acredita que deve ser de um tipo
fundamentalmente diferente do governo ao qual ele se encontra sujeito, é duvidoso
que esse governo possa se justificar adequadamente a esse cidadão citando o mero
fato de que ele concorda que deveria haver alguma forma de governo. Um caso
análogo é aquele em que um indivíduo deseja que sua casa seja pintada de branco,
e um pintor chega e, sem o consentimento do proprietário, pinta a casa de verde.
O fato de o indivíduo ter consentido em ter sua casa pintada de alguma cor por
algum pintor não habilita esse pintor a pintar a casa de outra cor. Ao contratar
um pintor para pintar sua casa, o proprietário não precisa consentir com todos os
8
Rawls 2005, 145, especialmente a nota 12, citando Locke 1990.
9
Locke 1990, 64, 61.
10
Rawls 2005, 170.
11
Para uma indicação preliminar da diversidade de concepções da justiça distributiva, ver
Rawls 1999; Cohen 1992; Harsanyi 1975; e Nozick 1974.
3. A Teoria do Contrato Social Hipotético 39

detalhes do desempenho do pintor, mas deve pelo menos concordar com as carac-
terísticas mais importantes, incluindo a identidade do pintor, a cor da tinta e o
preço a ser pago. Da mesma forma, o consentimento para o contrato social não
precisa incluir o consentimento para todos os detalhes da estrutura e operação do
Estado, mas deve pelo menos incluir o consentimento para a forma básica e os
princípios governamentais mais importantes do Estado.12
Infelizmente, mesmo esse nível básico de acordo parece inatingível. Assim como
existem desacordos aparentemente intratáveis sobre religião, filosofia, moralidade
e questões políticas específicas, também existem desacordos aparentemente intra-
táveis sobre a forma geral, a estrutura e os princípios orientadores de um governo.
Não há razão para pensar que todas as pessoas razoáveis chegarão a um acordo
sobre os princípios básicos do governo antes que cheguem a um acordo sobre a
religião correta, a teoria moral correta e assim por diante.
Na verdade, ainda permanecem indivíduos ponderados e razoáveis que acredi-
tam que a organização social ideal não conteria governo algum.13 Que esses in-
divíduos continuem sendo uma minoria da sociedade é de pouco conforto para os
teóricos do contrato social hipotético que pretendem mostrar que todas as pessoas
concordariam com o contrato social. Os pensadores anarquistas não costumam
parecer particularmente menos racionais, informados ou razoáveis do que os parti-
dários de outras visões políticas. Eles não se recusam, por exemplo, a apresentar
razões para suas opiniões, ou a considerar objeções ou a levar em consideração os
interesses de outras pessoas. Portanto, é difícil identificar qualquer justificativa
racional para excluí-los da classe de pessoas cujo acordo é buscado. A menos que
os anarquistas sejam simplesmente excluídos do acordo, os teóricos do contrato so-
cial hipotético nos devem uma explicação de como os anarquistas políticos podem
ser convencidos a aceitar um governo.
Pode-se pensar que estou impondo padrões excessivamente rígidos para a jus-
tificação dos arranjos sociais. Certamente o simples fato de alguém, mesmo uma
pessoa razoável, discordar de uma prática ou instituição específica, não é sufici-
ente para mostrar que a prática ou instituição é injustificada. O dissidente pode
simplesmente estar enganado.
Em resposta, o que venho aplicando é uma restrição, não na justificação das
teorias sociais em geral, mas na justificação das teorias sociais através de um
12
Gaus (2003, 216-17) argumenta que a legitimidade política exige concordância entre todas
as pessoas razoáveis em princípios gerais, embora possam permanecer divergências sobre a inter-
pretação desses princípios. Ele assume erroneamente que é comum um acordo sobre princípios
gerais.
13
Ver Rothbard (1978); Friedman (1989); Barnett (1998); Wolff (1998); Chomsky (2005);
Sartwell (2008). Em Stringham 2007, veja os artigos de Tannehills, Barnett, Friedman, Hoppe,
Rogers e Lavoie, Long, Hasnas, Childs, Cuzán, Caplan e Stringham, de Jasay, Leeson e Stringham
e Anderson e Hill.
3. A Teoria do Contrato Social Hipotético 40

apelo ao consentimento hipotético, e essa restrição não deriva de minhas próprias


visões filosóficas, mas das visões de meus oponentes, os teóricos do contrato social
hipotético que afirmam que o consentimento hipotético estabelece a razoabilidade.
São esses teóricos que estabeleceram como uma condição de legitimidade que todas
as pessoas razoáveis concordam com um determinado arranjo social. Portanto, não
sou eu, mas teóricos do contrato social hipotético como Rawls, Scanlon e Nagel
que efetivamente concederam o veto ao anarquista razoável.

3.3.3 A validade do consentimento hipotético


O contrato social hipotético enfrenta outro problema: mesmo que fosse possível
demonstrar que todas as pessoas razoáveis concordariam com algum sistema de
governo, esse fato não estabeleceria autoridade política.
A legitimidade de um sistema político é uma questão da permissibilidade de
impor esse sistema a todos os membros de uma determinada sociedade. É, em
parte, uma questão de permissibilidade de prejudicar intencionalmente e coerci-
vamente aqueles que desobedecem às regras produzidas pelo sistema. A teoria do
contrato social hipotético, na presente interpretação, oferece a seguinte justifica-
tiva candidata para esse tipo de coerção: pode-se impor coercivamente um arranjo
aos indivíduos, desde que os indivíduos não sejam razoáveis para rejeitar o arranjo.
Este princípio está em conflito gritante com a moralidade do senso comum.
Imagine que um empregador se aproxima de um funcionário em potencial com
uma oferta de emprego totalmente justa, razoável e atraente, incluindo remunera-
ção generosa, horas razoáveis, condições agradáveis de trabalho e assim por diante.
Se o trabalhador fosse totalmente informado, racional e razoável, aceitaria a oferta
de emprego. No entanto, o empregador não está eticamente habilitado a coagir o
empregado a trabalhar para ele no caso de o empregado, por mais razoável que
seja, recusar a oferta. A razoabilidade da oferta, juntamente com o consentimento
hipotético, teria muito pouco peso ético, atenuando levemente a injustiça da im-
posição do trabalho forçado.
Julgamentos semelhantes se aplicam a outros exercícios de coerção que nor-
malmente exigiriam consentimento: não é permitido que um médico imponha co-
ercivamente um procedimento médico a um paciente, mesmo que não tenha sido
razoável recusar o tratamento; nem para um fornecedor extorquir dinheiro de um
cliente, mesmo que não tenha sido razoável recusar-se a comprar o produto do
fornecedor; nem para um pugilista obrigar outro pugilista a lutar, mesmo que não
fosse razoável rejeitar a oferta de uma luta.
Comentários semelhantes se aplicam à questão das obrigações políticas. A
irracionalidade de rejeitar um acordo não é suficiente para gerar uma obrigação de
cumpri-lo. O trabalhador no exemplo acima tem o direito de recusar a oferta de
emprego, por mais irracional que possa ser essa recusa.
3. A Teoria do Contrato Social Hipotético 41

Intuições contrastantes podem ser extraídas de outra analogia. Um naufrágio


encalhou várias pessoas em uma ilha até então desabitada. A ilha possui uma
oferta limitada de caça selvagem, que pode ser caçada por comida, mas deve
ser conservada contra a extinção. Suponha que o único plano razoável seja os
passageiros naufragados limitarem cuidadosamente o número de animais caçados
a cada semana. Apesar desses fatos, um passageiro se recusa a aceitar esse limite.
Parece plausível sustentar que os outros passageiros podem coercivamente coibir o
passageiro irracional da caça excessiva em benefício de todos na ilha. Além disso, a
razoabilidade de limitar a taxa de caça e a irracionalidade de rejeitar esses limites
parece desempenhar um papel crucial na justificativa para tal coerção.
Qual é a diferença entre o caso da ilha e o caso do contrato de trabalho? A
diferença mais importante é que o caso do contrato de trabalho envolve a apreensão
de um recurso, o trabalho do empregado, ao qual a vítima da coerção tem um
direito moral; enquanto o caso na ilha envolve a proteção de um recurso, a caça
selvagem, sobre o qual é plausível atribuir um direito coletivo, mantido apenas em
parte pela coerção, mas principalmente pelos coercivos. O passageiro irracional,
neste último caso, carece de qualquer direito moral de decidir unilateralmente sobre
o uso ou distribuição da caça selvagem, da maneira que um indivíduo tem o direito
moral de decidir sobre o uso de seu próprio trabalho.
Se aceitarmos essa descrição dos casos, o contrato social hipotético é mais pa-
recido com o contrato de trabalho rejeitado, pois o contrato social diz respeito,
talvez entre outras coisas, à redistribuição coercitiva de recursos sobre os quais os
indivíduos têm direitos. Entre outras coisas, o Estado reivindica uma parcela dos
ganhos de todas as pessoas, independentemente da fonte. (Consulte a Seção 7.1.6
para uma discussão mais aprofundada sobre se os indivíduos têm direitos de pro-
priedade independentes do Estado.) A coerção do Estado também não é realizada
apenas ou principalmente a serviço da proteção de recursos coletivos. Frequen-
temente, o Estado emprega coerção a serviço de fins paternalistas, moralistas ou
de caridade ou por proporcionar benefícios econômicos indiretos para pequenos
segmentos da sociedade em detrimento de outros.14 Nenhum indivíduo ou orga-
nização privada estaria autorizado a usar coerção para esses tipos de propósitos,
por mais razoáveis que sejam seus planos.
Aqui como em outros lugares, nossas atitudes em relação ao governo diferem
de nossas atitudes em relação a outros agentes. A irracionalidade da rejeição
claramente não licencia um indivíduo privado a forçar os termos de um contrato a
outro indivíduo. No entanto, acredita-se que a irracionalidade de rejeitar o contrato
social licencie o Estado a forçar os termos desse contrato a seus cidadãos. O que
a teoria do contrato social hipotético fornece, então, é outro exemplo das atitudes
14
Consulte a Seção 5.4.2, para obter uma taxonomia mais completa das atividades governa-
mentais.
3. A Teoria do Contrato Social Hipotético 42

morais particularmente brandas aplicadas ao governo, em vez de uma justificativa


dessas atitudes. É preciso começar atribuindo ao Estado um status moral especial
para acreditar que o Estado tem o direito moral de forçar um arranjo sobre os
indivíduos simplesmente porque seria irracional rejeitar o arranjo.

3.4 Consentimento hipotético e restrições éticas


3.4.1 A teoria do contrato de Rawls como uma defesa da
autoridade
John Rawls é, de longe e sem dúvida, o filósofo político mais influente dos últimos
cem anos. Como um indicador aproximado, uma pesquisa pela palavra-chave
“Rawls” no Philosopher’s Index gera mais de 2.000 ocorrências para artigos e
livros publicados entre 1990 e 2011. Ele é conhecido principalmente pela teoria do
contrato social hipotético, presente em sua obra A Theory of Justice. Portanto, é
de grande interesse investigar o que essa teoria pode nos ensinar sobre autoridade
política.
Rawls elabora um cenário hipotético, a “posição original”, na qual os indiví-
duos fazem um acordo sobre os princípios básicos para governar sua sociedade.15
Presume-se que esses indivíduos sejam motivados apenas pelo interesse próprio,
mas foram temporariamente privados de todo o conhecimento de sua posição na
sociedade e, de fato, de qualquer outra informação pessoal sobre si, incluindo raça,
sexo, religião, classe social e assim por diante.16 Essa condição, conhecida como
“véu da ignorância”, impede as partes de adaptarem os princípios políticos esco-
lhidos para sua própria vantagem; sendo ignorante sobre qual será sua posição na
sociedade, é preciso se esforçar para criar princípios que sejam justos para todos.
Rawls continua argumentando que as pessoas nessa posição original escolheriam
dois princípios particulares de justiça para governar sua sociedade.17 Conclui que
15
Rawls 1999. Esse tipo de experimento mental foi usado pela primeira vez para derivar
princípios da justiça distributiva por Harsanyi (1953; 1955), que argumentou que o experimento
mental apoiava o utilitarismo.
16
Rawls (1999, 12, 111) distingue sua suposição de “desinteresse mútuo” de uma suposição de
egoísmo. No entanto, sua distinção se baseia na suposição equivocada de que apenas desejos por
coisas como riqueza, poder e prestígio contam como “egoístas”. Os egoístas éticos sérios rejeitam
essa suposição (Hunt, 1999).
17
No final de A Theory of Justice (1999, 509), Rawls discute quais princípios seriam escolhidos
na posição original se as partes tivessem uma lista mais completa de princípios possíveis para
escolher do que a lista curta que Rawls considera anteriormente no livro: “Duvido, no entanto,
que os princípios da justiça (como os defini) sejam a concepção preferida em qualquer coisa que
se assemelhe a uma lista completa.” No entanto, deixarei de lado essa aparente admissão de que
os princípios da justiça de Rawls não são apoiados por sua própria estratégia argumentativa.
3. A Teoria do Contrato Social Hipotético 43

as pessoas devem de fato adotar esses princípios. (Eu omito aqui a discussão dos
dois princípios de justiça de Rawls e o raciocínio que os leva. Minha preocupação
atual é se a estratégia argumentativa de Rawls pode ser empregada para defender
a autoridade política.)
Embora Rawls não defenda diretamente à necessidade de governo em geral,
pode-se conceber um argumento rawlsiano para autoridade política. Pode-se dizer
que as partes na posição original preferem estabelecer alguma forma de governo
ao invés de aceitar a anarquia. Se alguém pudesse argumentar convincentemente
a favor dessa afirmação, seria suficiente para estabelecer autoridade política?
Se um contrato hipotético rawlsiano é capaz de justificar princípios de justiça,
é plausível pensar que esse contrato também poderia justificar o governo em geral.
Mas como o contrato hipotético é pensado para justificar os princípios de justiça?
Rawls oferece as seguintes observações:

Como todos estão situados de maneira semelhante [na posição original]


e ninguém é capaz de projetar princípios que favoreçam sua condição
específica, os princípios da justiça são o resultado de um acordo ou
barganha.18

[Os princípios escolhidos de justiça] expressam o resultado de deixar


de lado os aspectos do mundo social que parecem arbitrários do ponto
de vista moral.19

A ideia aqui é simplesmente tornar vivas as restrições que parece ra-


zoável impor aos argumentos a favor dos princípios de justiça e, por-
tanto, a esses princípios. Assim, parece razoável e geralmente aceitável
que ninguém seja beneficiado ou prejudicado pela fortuna natural ou
pelas circunstâncias sociais na escolha dos princípios. Também parece
amplamente aceito que deve ser impossível adaptar os princípios às cir-
cunstâncias do próprio caso. Devemos garantir ainda que inclinações
e aspirações particulares, e as concepções das pessoas sobre o seu bem
não afetem os princípios adotados. [. . . ] A qualquer momento, pode-
mos entrar na posição original, por assim dizer, simplesmente seguindo
um determinado procedimento, a saber, argumentando por princípios
de justiça de acordo com essas restrições.20

É natural perguntar por que, se esse contrato nunca for realmente


celebrado, devemos nos interessar por esses princípios. [. . . ] A resposta
18
Rawls 1999, 11.
19
Ibid., 14.
20
Ibid., 16–17; cf. 119–20.
3. A Teoria do Contrato Social Hipotético 44

é que as condições incorporadas na descrição da posição original são


aquelas que de fato aceitamos. Ou, se não o fizermos, talvez possamos
ser persuadidos a fazê-lo pela reflexão filosófica.21

Essas observações merecem um exame minucioso, pois formam o ponto central


da versão da teoria do contrato social de Rawls, de longe a teoria mais influente
da filosofia política contemporânea. As passagens acima representam todo o relato
de Rawls de como o contrato hipotético justifica princípios morais ou políticos.22
Portanto, seria difícil expor a importância da filosofia política de uma compreensão
clara dessas poucas passagens.
Pelo menos duas linhas de argumento podem ser encontradas nessas passagens.
O primeiro apela a restrições diretas aos princípios putativos da justiça. Rawls
menciona duas restrições importantes desse tipo: primeiro, os princípios da justiça
devem ser justos para todos os membros da sociedade, tratando todos os membros
como iguais. Segundo, os princípios da justiça devem “deixar de lado” ou, mais
fortemente, compensar aspectos do mundo social que são arbitrários do ponto de
vista moral, como a situação em que os indivíduos recebem benefícios ou encargos
como resultado de meras boa ou má sorte.
A segunda linha de argumento apela a restrições nos argumentos sobre justiça.
Na terceira citação, Rawls sugere que, em vez de imaginar um cenário que envolva
pessoas ignorantes de sua identidade deliberando sobre as regras de sua sociedade
futura, poderia-se obter o mesmo resultado simplesmente raciocinando sobre a jus-
tiça de acordo com certas restrições – ou seja, aquela que evita ser influenciada,
nos argumentos ou princípios que aceitamos, pela fortuna natural ou pelas circuns-
tâncias sociais de alguém; que se evite adaptar os princípios da justiça que aceita
ao próprio caso; e que evite ser influenciado por inclinações particulares ou por
uma concepção particular do bem. A posição original não passa de um dispositivo
imaginativo para induzir-nos a pensar dessa maneira.23
A seguir, voltarei à questão de saber se essa justificativa para o uso da posi-
ção original foi bem-sucedida. Por enquanto, considero o que surgiria da posição
original, caso exista algo.

3.4.2 Pode ser alcançado um acordo?


Por que Rawls acredita que as partes na posição original poderiam chegar a um
acordo, em vez de discordar persistentemente, como as pessoas fazem no mundo
21
Ibid., 19.
22
Rawls dedica §4 em A Theory of Justice ao argumento, que ele reafirma em Rawls 1985,
236–9, e Rawls 2001, 17–18. Nenhuma dessas passagens contém detalhes adicionais significativos
além das citações reproduzidas no texto.
23
Rawls enfatiza essa ideia mais fortemente em 1985, p. 236–9.
3. A Teoria do Contrato Social Hipotético 45

real? O motivo é simples: “Desde que as diferenças entre as partes são desconheci-
das para elas, e todos são igualmente racionais e situados de maneira semelhante,
cada um é convencido pelos mesmos argumentos”.24
A conclusão de Rawls não segue de suas premissas declaradas. Rawls assume
que, quando todas as inclinações particulares e todas as características individuais
(ou conhecimento delas) forem extirpadas, todas as pessoas razoáveis e racionais
serão convencidas pelos mesmos argumentos. Essa suposição baseia-se em um
diagnóstico particular do fenômeno de discordância intelectual generalizada: que
tal discordância se deve inteiramente a fatores como ignorância, irracionalidade
e vieses (preconceitos) criados pelo conhecimento das características individuais
de alguém.25 Se esse diagnóstico estiver correto, então uma situação em que tal
ignorância, irracionalidade e preconceito são removidos deve resultar em um acordo
geral. Mas se o diagnóstico não estiver correto e houver outras fontes de desacordo,
Rawls não deu motivos para acreditar que o acordo seria alcançado na posição
original.
Quão plausível é o diagnóstico de desacordo implícito de Rawls? Embora muita
discordância seja indubitavelmente devida a irracionalidade, ignorância e precon-
ceito pessoal, é improvável que toda discordância seja explicada dessa maneira.
Fora da filosofia política, os filósofos mantêm debates persistentes em epistemolo-
gia, ética e metafísica, alguns dos quais a milênios. Os partidários nesses debates
geralmente parecem igualmente racionais, bem informados e inteligentes. Ninguém
parece tentar adaptar suas teorias às suas próprias circunstâncias, nem confiar ili-
citamente em informações pessoais sobre si mesmo, caso essas transgressões sejam
possíveis nessas áreas. No entanto, os filósofos manifestamente falham em achar
os mesmos argumentos convincentes. Portanto, é difícil escapar à conclusão de
que a mente humana está sujeita a fontes de julgamento diferentes, além de irra-
cionalidade, ignorância e preconceito pessoal. E quaisquer que sejam essas fontes
de discordância, se operam em epistemologia, ética e metafísica, não é plausível
supor que estejam ausentes na filosofia política.
Um diagnóstico mais plausível de discordâncias filosóficas generalizadas e per-
sistentes é que os seres humanos experimentam intuições diferentes e outras aparên-
cias intelectuais. Quando contemplamos teorias e argumentos, diferimos no grau
de plausibilidade que vemos neles, independentemente de como nossos interes-
ses pessoais diferem. Indivíduos com intuições filosóficas diferentes e julgamentos
de plausibilidade alcançarão, compreensível e racionalmente, posições filosóficas
diferentes.26 Tampouco essas aparências intelectuais podem ser simplesmente es-
24
Rawls 1999, 120.
25
Em seu trabalho posterior, Rawls parece renunciar a esse diagnóstico, reconhecendo a dis-
cordância como o resultado natural do livre exercício da razão humana (2005, 36-7, 54-8). No
entanto, o diagnóstico é requerido para seu argumento em A Theory of Justice.
26
Em Huemer 2007, argumento que todas as crenças racionais são baseadas em como as coisas
3. A Teoria do Contrato Social Hipotético 46

tipuladas, uma vez que algum senso do que é plausível é essencial para qualquer
processo sofisticado de pensamento do tipo envolvido no raciocínio filosófico. Um
ser sem intuições filosóficas não alcançaria, portanto, uma posição filosófica parti-
cularmente inatacável; seria simplesmente incapaz de avaliar posições filosóficas.
Considere agora uma discordância de interesse particular, a discordância entre
anarquistas e estatistas sobre a necessidade do governo.27 Não há razão para pensar
que essa discordância evapore por trás do véu da ignorância, porque Rawls não deu
nenhuma razão para pensar que aqueles que de fato mantêm uma dessas visões
o fazem apenas porque confiam no conhecimento de sua posição particular na
sociedade. Os anarquistas não discordam dos estatistas porque os anarquistas têm
uma posição social peculiar ou combinação de traços pessoais que de alguma forma
lhes permitiriam prosperar na ausência de governo enquanto o resto da sociedade
se desmorona. Se os anarquistas estão corretos em suas crenças factuais, então
algum sistema sem Estado seria melhor para a sociedade como um todo do que
um sistema governamental; se estiverem errados, seria pior para todos, incluindo
os anarquistas. O que quer que explique esse desacordo em particular, não é que
alguém esteja adaptando princípios morais ou políticos para sua própria vantagem.
Ao apelar para este exemplo, observe que não pressuponho que o anarquismo
político esteja correto; Suponho apenas que existem anarquistas políticos razoáveis
(inclusive eu, como gosto de pensar). Cabe ao teórico do contrato hipotético
demonstrar que não existe. Também não pressuponho que a legitimidade política
exija acordo sobre todos os detalhes da política. Mas, presumivelmente, concordar
se deve haver um Estado é o mínimo que qualquer teoria do contrato social exige.

3.4.3 A validade do consentimento hipotético, parte 1: o


apelo a resultados justos
Volto-me agora a questão da eficácia moral do consentimento hipotético. Mencio-
nei anteriormente que uma maneira de ler a justificação de Rawls para a posição
original é como um apelo a restrições diretas nos princípios da justiça, em par-
ticular as restrições de que os princípios da justiça devem ser justos para todos
e que devem retificar a arbitrariedade moral na distribuição de vantagens. Essa
abordagem pode ser usada para defender a autoridade política?
Imagine que Sue faça uma oferta para comprar o carro de Joe. Dados os fatos
sobre a condição do carro, as respectivas situações de Sue e Joe, e assim por diante,
a oferta de Sue é totalmente justa para ambas as partes, não tendenciosa a favor de
parecem para o crente. Veja Huemer 2005, capítulo 5, sobre o papel da intuição na ética em
particular. Veja Huemer 2011 sobre o papel das normas epistêmicas centradas no agente na
explicação do desacordo racional. Mas veja Hanson e Cowen (2004) para uma visão competitiva.
27
Uso “estatismo” para a visão de que o governo deveria existir; isto é, a alternativa ao anar-
quismo político.
3. A Teoria do Contrato Social Hipotético 47

nenhuma parte. Um proprietário perfeitamente racional, plenamente informado e


razoável aceitaria a oferta. No entanto, Joe se recusa a vender. É plausível que
Joe tenha agido errado? Ou que Sue possa forçar Joe a vender?
Imagine a seguir que, por puro acaso, Joe descobriu um diamante em seu quin-
tal, que lhe confere uma vantagem material da qual Sue, sem culpa sua, é privada.
Visto que a arbitrariedade moral da distribuição resultante da riqueza poderia ser
retificada por uma transferência de riqueza adequada, Joe é moralmente obrigado
a dar a Sue metade do valor do diamante? Sue tem o direito de forçar Joe a fazer
isso?
Como esses exemplos mostram, o fato de que algum acordo hipotético seja
justo ou retifique a arbitrariedade moral em geral não cria uma obrigação de agir
de acordo com o acordo hipotético, nem cria um direito ético para coagir outros a
seguir o acordo hipotético.
Talvez Rawls responda aos meus exemplos, como respondeu uma vez a outro
crítico,28 observando que seus princípios da justiça se destinavam a se aplicar
apenas à estrutura básica da sociedade, e não a interações de pequena escala
entre indivíduos. Existem dois possíveis pontos de distinção que Rawls poderia
levantar aqui. O primeiro é uma questão de escala: os exemplos dos dois parágrafos
anteriores envolvem apenas dois indivíduos em vez de uma sociedade inteira. Essa
diferença, no entanto, não tem relevância ética. Se uma corporação muito grande
fizer ofertas para um número muito grande de pessoas, o tamanho da corporação
não a habilitará a forçar indivíduos a aceitar suas ofertas (mesmo que sejam ofertas
justas), assim como um único indivíduo não teria direito a fazer também.
A outra distinção é política: meus exemplos envolvem atores privados, en-
quanto os princípios de Rawls prescrevem ações do Estado. Essa distinção, no
entanto, não pode ser empregada na defesa de Rawls sem implantar a pergunta,
uma vez que a resposta simplesmente pressupõe que o Estado possua algum status
moral especial, de modo que a coerção por parte do Estado seja mais facilmente
justificada do que a coerção por parte de agentes privados. Se o Estado possui au-
toridade política, esse pressuposto estaria correto; no entanto, como o que se busca
é uma justificativa para a autoridade, não se pode dar como certo dessa maneira.
Sem atribuir um status moral especial ao Estado, Rawls não teria como restringir
a justificativa proposta para coerção ao caso dos agentes estatais. E como os ape-
los à justiça ou a retificação da arbitrariedade moral claramente falhariam como
justificativas para a coerção privada, também deveriam ser rejeitadas como fonte
de legitimidade política.
Como esses casos mostram, existe uma grande lacuna entre qual acordo hipoté-
tico pode ser adotado de maneira plausível para estabelecer, como a imparcialidade
28
Veja Rawls 1974, 141-2, respondendo às críticas de Harsanyi (1975) à regra da decisão
maximin.
3. A Teoria do Contrato Social Hipotético 48

ou razoabilidade de algum acordo, e o que o defensor da autoridade política precisa


estabelecer: o direito de impor um acordo pela força, incluindo o direito de pre-
judicar intencionalmente e coercivamente aqueles que não cooperam e a obrigação
dos indivíduos de aderir a esse acordo. Embora um acordo real possa estabelecer
essas coisas, um acordo meramente hipotético não pode.29

3.4.4 A validade do consentimento hipotético, parte 2: con-


dições suficientes para um raciocínio moral confiável
A vertente dominante na defesa da teoria do contrato social hipotético de Rawls
apela a restrições no raciocínio sobre princípios morais: no raciocínio moral, é
preciso evitar ser influenciado pelo interesse próprio, inclinações particulares ou
quaisquer outros traços individuais eticamente irrelevantes. A posição original é
apenas uma maneira pitoresca de pôr em prática essas restrições, que já aceitamos.
Deixe C defender a conjunção de todas essas restrições razoáveis no raciocínio
moral; isto é, todas as restrições que são consideradas incorporadas na posição
original de Rawls. Deixe J representar qualquer princípio emergindo da posição
original; isto é, um princípio da justiça ou outro princípio moral com o qual as
partes hipotéticas concordariam.30 O argumento de Rawls a favor de J pode ser
entendido da seguinte forma:

1. J pode ser alcançado pelo raciocínio que satisfaz C.

2. Se um princípio moral pode ser alcançado pelo raciocínio que satisfaz C,


então está correto.

3. Portanto, J está correto.

Podemos desejar considerar variações desse argumento; por exemplo, para “está
correto”, podemos substituir “provavelmente está correto”, “é justificado” ou “deve
ser adotado”. Minhas críticas abaixo devem ser consideradas como aplicáveis a
qualquer versão enfraquecida do argumento.
A premissa (1) é verdadeira por estipulação. Não está claro, no entanto, por
que alguém deveria abraçar a premissa (2). Embora seja plausível que as restrições
29
A recente defesa de Stark (2000) da teoria do contrato social hipotético concorda com esse
ponto. Ele propõe que um contrato hipotético pode “justificar” princípios políticos em algum
sentido, mas nega que possa mostrar que alguém é obrigado a seguir esses princípios ou que o
Estado tem o direito de fazer cumprir os princípios (321, 326).
30
Embora ele inicialmente descreva sua teoria do contrato social hipotético como uma maneira
de chegar aos princípios da justiça (1999, seções 1–4), Rawls depois apela ao contrato hipotético
como uma justificativa para os princípios éticos de maneira mais geral (seções 18–19, 51–2).
3. A Teoria do Contrato Social Hipotético 49

que Rawls identifique sejam condições necessárias para a confiabilidade ou persu-


asão racional do raciocínio moral, Rawls não faz nenhuma tentativa para mostrar
argumentos morais confiáveis ou racionalmente persuasivos. De fato, ele visa ex-
pressamente manter as suposições da posição original tão fracas quanto possível,
consistentes com os cenários tendo um resultado determinado,31 o que é coerente
com o objetivo de garantir que as restrições incorporadas à posição original sejam
todas necessárias para a aceitabilidade de um pedaço de raciocínio moral. Mas
não se encaixa no objetivo de garantir que sejam (coletivamente) suficientes para
a aceitabilidade de um pedaço de raciocínio moral.
Uma dificuldade relacionada diz respeito à lacuna entre aceitabilidade proces-
sual e corretude substantiva. Mesmo que Rawls tenha conseguido identificar todas
as restrições processuais apropriadas aos argumentos morais, uma pessoa que satis-
faça essas restrições – não sendo tendenciosa, isto é, falhando em cometer falácias
e assim por diante – não garantiria a exatidão de suas conclusões. A corretude
das conclusões de alguém, qualquer que seja o campo de investigação, depende
em parte da corretude e integridade das informações das quais se raciocina. Isso
é facilmente visto em exemplos que envolvem raciocínio científico. Isaac New-
ton sustentou teorias equivocadas devido, não a qualquer erro processual em seu
pensamento sobre a física, mas sim à incompletude de suas informações – especi-
ficamente, sua ignorância dos fenômenos relativísticos e da mecânica quântica.
O mesmo princípio vale para as teorias normativas, onde as informações neces-
sárias são, pelo menos em parte, avaliativas. Ou seja, as chances de se chegar a
conclusões morais aceitáveis dependem, em parte, da corretude e integridade subs-
tantivas dos valores iniciais. Se uma pessoa tem valores finais equivocados, como a
crença de que a dor é intrinsecamente boa, ou se seus valores básicos são corretos,
mas incompletos, como no caso de alguém que, por engano, sustenta que sentir
prazer é o único bem intrínseco, essa pessoa mais provavelmente chegará a con-
clusões normativas incorretas, mesmo que todo o seu raciocínio seja perfeitamente
aceitável em termos processuais, desprovido de preconceitos de interesse próprio e
assim por diante. Assim, para garantir que as partes na posição original cheguem
apenas a conclusões normativas corretas, é necessário dotar as partes de valores
completos e corretos, estipulando que usem esses valores corretos para tomar sua
decisão.
Uma explicação para o fracasso de Rawls em incorporar essa estipulação pode
ser que exigiria que ele resolvesse debates aparentemente intratáveis dentro da
teoria moral sobre quais são os valores corretos antes que pudesse caracterizar
adequadamente a posição original e tirar conclusões dela. Essa dificuldade, no
entanto, não mostra que Rawls esteja justificado em omitir a condição de valores
completos e corretos da posição original; mostra apenas que as perspectivas de uso
31
Rawls 1999, 16, 510.
3. A Teoria do Contrato Social Hipotético 50

da posição original para justificar princípios normativos são obscuras. Somente se


C incluir uma restrição de valores completos e corretos é plausível afirmar que a
premissa (2) é verdadeira, e não se pode, ao construir um argumento filosófico,
meramente prescindir de uma condição necessária para a plausibilidade de uma
premissa desse argumento porque essa condição interfere na construção do restante
do argumento. Uma analogia é o caso do homem que perdeu as chaves em um beco
escuro, mas escolhe procurá-las sob um poste de luz porque a luz é melhor ali. A
dificuldade de identificar a teoria ética abrangente correta e suas implicações polí-
ticas não impede que essas informações sejam necessárias para garantir conclusões
moralmente corretas, assim como a dificuldade de ver em um beco escuro impede
que as chaves sejam localizadas lá.
Eu li o argumento rawlsiano como afirmando que algum princípio J é correto
ou deve ser adotado. Suponha que isso seja enfraquecido com a alegação de que é
permitido adotar J ou que J não é ilegítimo. Isso pode tornar o argumento mais
persuasivo, pois pode parecer menos implausível que Rawls tenha fornecido con-
dições suficientes para a permissibilidade de um arranjo político do que ele tenha
fornecido condições suficientes para a corretude de um arranjo político. Mas esse
enfraquecimento da conclusão do argumento não evita verdadeiramente o problema
já discutido. É necessário um suprimento adequado de premissas morais básicas
corretas para identificar cursos de ação permitidos, não menos que os obrigatórios.
Suponha, por exemplo, que indivíduos tenham direitos, mas Alastair desconheça
esse fato. Alastair pode então ser levado a concluir falsamente que certas ações
são permitidas (particularmente ações que de fato violam os direitos das pessoas)
sem cometer nenhum erro processual em seu pensamento. Meu argumento aqui
não pressupõe que haja de fato direitos individuais; o ponto é simplesmente que
seria necessário conhecer a verdade sobre essas coisas para garantir a identificação
confiável do que é permitido.
Em suma, o presente argumento para a eficácia do consentimento hipotético
falha porque a posição original incorpora apenas certas condições necessárias para
a confiabilidade do raciocínio normativo, em vez de condições suficientes para
a corretude das conclusões normativas. Se a posição original for modificada de
modo a incluir condições suficientes para a corretude normativa, torna-se difícil ou
impossível determinar com quais princípios seria acordado.

3.4.5 A validade do consentimento hipotético, parte 3: con-


dições necessárias para um raciocínio moral confiável
Há uma interpretação remanescente do argumento de Rawls. Nesta interpretação,
a restrição conjuntiva C representada pela posição original é considerada necessá-
ria, mas não suficiente para a aceitabilidade dos argumentos morais. Se adotamos
3. A Teoria do Contrato Social Hipotético 51

essa visão, podemos argumentar da seguinte maneira:

1. J é unicamente coerente com C.

2. C está correto.

3. Portanto, J está correto.

“Coerente” em (1) deve ser entendido como referência a qualquer relação que
permita a C apoiar ou descartar um princípio moral. Assim, (1) pode significar
que apenas J pode ser alcançado pelo raciocínio de acordo com C, que a corretude
de J é implicada pela corretude de C, que J satisfaz C a um grau mais alto do que
qualquer princípio concorrente, ou a gosto. Assim entendida, a premissa (1) é uma
afirmação muito forte, embora eu não tenha sido mais forte do que o argumento
exige: se C é meramente necessário, mas não suficiente para corretude moral, então
uma premissa no sentido de que J é coerente com C não mostraria que J estava
correto; o que se deve mostrar é que nenhum princípio alternativo é coerente com
C.
A premissa (1) é exposta a contra-evidências amplas e poderosas. Muitos filó-
sofos parecem ter chegado a conclusões alternativas por um raciocínio que satisfaz
C. Os vários pensadores que adotam o utilitarismo, o igualitarismo, o libertari-
anismo ou o anarquismo geralmente não parecem ter violado nenhuma restrição
amplamente aceita ao raciocínio moral, nem Rawls em qualquer lugar esforçar-se
para mostrar que eles tenham.
Como exemplo, considere o utilitarismo, a teoria de que a ação correta (seja
para um indivíduo ou para o Estado) é sempre a ação que produz os maiores be-
nefícios líquidos totais, agregando benefícios a todos os afetados pela ação. Rawls
nos diz que essa é a teoria com a qual ele estava mais preocupado em fornecer
uma alternativa sistemática.32 Ele também afirma que a função da posição ori-
ginal é simplesmente “descartar aqueles princípios que seria racional propor [. . . ]
apenas se alguém soubesse certas coisas que são irrelevantes do ponto de vista da
justiça”.33 O utilitarismo certamente não é um exemplo de princípio moral que faz
sentido propor apenas se alguém tem informações irrelevantes do ponto de vista
da justiça, como informações sobre a raça, sexo, classe social e assim por diante.
Tudo o que se pode dizer sobre isso, o utilitarismo é talvez a única teoria ética
menos suscetível a acusações de parcialidade indevida. O pensamento dos utilita-
ristas reais parece, portanto, fornecer um contra-exemplo convincente à premissa
(1).34
32
Rawls 1999, xvii-xviii.
33
Rawls 1999, p. 17.
34
Pode-se dizer que o raciocínio utilitário viola a restrição do desinteresse mútuo que Rawls
3. A Teoria do Contrato Social Hipotético 52

Que argumento Rawls oferece para apoiar (1)? Ao motivar a construção da


posição original, ele apresenta argumentos de que a posição original personifica
C. Também argumenta detalhadamente que certos princípios seriam escolhidos
na posição original.35 Mas nenhuma dessas coisas poderia ser considerada uma
premissa (1). Em conjunto, elas podem mostrar que há um exemplo de raciocínio
que satisfaz C – ou seja, o raciocínio das partes na posição original – que leva
a J. Mas seria falacioso inferir que não há outro caminho possível de raciocínio
que satisfaça C que leva a um princípio alternativo (na lógica aristotélica, isso
é conhecido como falácia do menor ilícito).36 E, de fato, como vimos, existem
exemplos de raciocínio que satisfazem C que são inconsistentes com J, como o
raciocínio vigente dos utilitaristas.

3.5 Conclusão
O acordo hipotético normalmente é eficaz somente quando (i) o contrato real não
pode ser viável e (ii) é razoável acreditar que a parte ou partes relevantes con-
cordariam, com base em suas crenças reais e valores gerais. Essas condições são
insatisfeitas no caso do contrato social hipotético.
O trabalho filosófico contemporâneo sugere três maneiras pelas quais um con-
trato social hipotético pode, no entanto, ser considerado moralmente relevante.
Primeiro, pode-se pensar que um acordo hipotético mostra que um determinado
arranjo social não pode ser razoavelmente rejeitado. Esse argumento falha porque
não há razão para acreditar que o acordo hipotético necessário possa ser alcançado.
Mesmo que tal acordo possa ser alcançado, a mera irracionalidade de alguém re-
jeitar um acordo normalmente não torna moralmente permitido coagir essa pessoa
incorpora na posição original (1999, 12). Mas dificilmente se pode dizer que isso represente uma
restrição genuína ao raciocínio moral aceitável, uma vez que não é o caso de o raciocínio moral de
alguém ser problemático se levar em consideração os interesses dos outros. Da mesma forma, a
argumentação de que o utilitarismo viola a restrição de que não se baseia em nenhuma concepção
de bem.
35
Mas veja Harsanyi 1975 para argumentos convincentes de que a posição original realmente
leva ao utilitarismo.
36
Na lógica aristotélica, o “termo menor” em um silogismo é o termo que aparece como o
conteúdo da conclusão. Se o termo menor for distribuído na conclusão, ele deverá ser distribuído
em pelo menos uma premissa. Grosso modo, isso significa que, se a conclusão fizer uma reivindi-
cação aplicável a todos os membros de uma determinada classe, pelo menos uma premissa deverá
conter informações aplicáveis a todos os membros dessa classe. No presente caso, a conclusão
desejada é que todo raciocínio moral que satisfaz C é consistente com J (esta é uma paráfrase de
(1)); portanto, o termo menor é “raciocínio moral satisfazendo C”, e esse termo é distribuído na
conclusão desejada. Como qualquer reivindicação que Rawls possa fazer sobre a posição original
diria respeito apenas a um caso de raciocínio que satisfaça C, o termo menor não está distribuído
nas premissas.
3. A Teoria do Contrato Social Hipotético 53

a aceitar o acordo, nem impõe aos indivíduos a obrigação de aceitar o acordo.


Segundo, pode-se pensar que um acordo hipotético mostre que um arranjo
social é justo. Novamente, não há razão para acreditar que um acordo geral sobre
um sistema político possa ser alcançado, mesmo entre pessoas racionais igualmente
informadas que não tenham conhecimento de suas identidades individuais e, de
qualquer forma, o mero fato de que um acordo é justo normalmente não torna
moralmente permissível coagir as pessoas a aceitarem o acordo, nem impõe aos
indivíduos a obrigação de aceitarem o acordo.
Terceiro, pode-se pensar que um acordo hipotético mostre que um conjunto de
princípios morais reflete certas restrições razoáveis no raciocínio moral. Essas res-
trições podem ser entendidas como condições coletivamente suficientes ou apenas
como condições coletivamente necessárias para a aceitabilidade de um pedaço de
raciocínio moral. Se as restrições forem suficientes para a aceitabilidade do racio-
cínio moral, elas devem incluir uma condição de valores completos e corretos por
parte do raciocínio. Mas essa condição tornaria inutilizável a teoria do contrato
hipotético, uma vez que seria necessário determinar a teoria moral abrangente e
correta antes de poder determinar o conteúdo do acordo hipotético. Se, por outro
lado, nos basearmos apenas nas condições necessárias para a aceitabilidade do ra-
ciocínio moral, então se deve argumentar que toda teoria política exceto uma de
alguma forma viola pelo menos uma condição necessária do raciocínio moral acei-
tável. Ninguém argumentou a favor dessa afirmação, e as divergências razoáveis
entre os teóricos parecem representar uma contra-evidência poderosa.
Assim, a mudança para um contrato meramente hipotético não pode salvar
a teoria do contrato social. Não há razão para acreditar que o acordo possa ser
alcançado, mesmo nos cenários hipotéticos previstos pela maioria dos teóricos,
nem que esse consentimento hipotético seria moralmente relevante se pudesse ser
alcançado.
4

A Autoridade da Democracia

4.1 Majoritarismo ingênuo


Uma vez que reconheçamos a inviabilidade de obter consentimento unânime para
qualquer acordo social não trivial, poderemos recorrer ao consentimento da maio-
ria. O acordo apenas da maioria dos membros da sociedade – seja amplo acordo
para ter um governo ou acordo para ter políticas ou pessoal específicos – confere
autoridade ao governo?
À primeira vista, não está claro como isso pode funcionar. As opiniões ou
decisões de um grupo maior de pessoas normalmente não são suficientes para
impor obrigações a um grupo menor ou a um indivíduo que não concorda com o
grupo maior, nem geralmente justificam um comportamento coercitivo por parte
do grupo maior.
Imagine o seguinte cenário, que chamarei de exemplo da conta do bar. Você
saiu para beber com alguns de seus colegas e estudantes de pós-graduação. Vocês
estão ocupados falando sobre filosofia, quando alguém levanta a questão de quem
vai pagar a conta. Várias opções são discutidas. Um colega sugere dividir a conta
igualmente entre todos na mesa. Você sugere que todos paguem por suas próprias
bebidas. Um estudante de graduação sugere que você pague pelas bebidas de
todos. Relutante em gastar tanto dinheiro, você recusa. Mas o aluno persiste:
“Vamos votar”. Para sua consternação, eles continuam votando, o que revela que
todos na mesa, exceto você, querem que você pague pelas bebidas de todos. “Bem,
isso resolve”, declara o aluno. “Pague.”
Agora você é eticamente obrigado a pagar pelas bebidas de todos? Os outros
podem coletar seu dinheiro à força? A maioria responderá não às duas perguntas.
A vontade majoritária por si só não gera direito a coagir a minoria, nem gera uma
obrigação de cumprimento por parte da minoria. Mais precisamente, a maioria por
si só não oferece apoio suficiente para que uma proposta substitua os direitos de

54
4. A Autoridade da Democracia 55

propriedade privada de um indivíduo (seu direito ao seu dinheiro neste exemplo)


ou o direito de não ser sujeito a coerção prejudicial.
Esse tipo de exemplo coloca um ônus dialético sobre os defensores da autori-
dade democrática, um ônus de identificar algumas circunstâncias especiais que se
aplicam ao governo que explicam por que, no caso do governo, o apoio da maioria
fornece justificativa adequada para a coerção, mesmo que não seja suficiente para
outros agentes.

4.2 Democracia deliberativa e legitimidade


4.2.1 A ideia de democracia deliberativa
Teóricos democráticos recentes enfatizaram o valor dos procedimentos de tomada
de decisão em uma sociedade democrática. Uma linha recente de pensamento
busca articular um ideal de “democracia deliberativa” – isto é, um ideal de como os
cidadãos de uma sociedade democrática devem deliberar entre si sobre questões de
interesse público.1 Assim, de acordo com Joshua Cohen, a deliberação democrática
ideal teria as seguintes características:2

1. Os participantes consideram sua deliberação capaz de determinar uma ação


e sem restrições por quaisquer normas anteriores.

2. Os participantes oferecem razões para suas propostas, com a expectativa


(correta) de que apenas essas razões determinarão o destino de suas propos-
tas.

3. Cada participante tem uma voz igual.

4. A deliberação visa ao consenso. No entanto, se não for possível obter con-


senso, a deliberação termina com a votação.

O que isso tem a ver com autoridade política? Em uma democracia deliberativa
ideal, Cohen escreve: “[. . . ] os cidadãos consideram suas instituições básicas legíti-
mas na medida em que estabelecem a estrutura para deliberação pública gratuita.
[. . . ] Para eles, a livre deliberação entre iguais é a base da legitimidade”.3 Aqui,
Cohen não está diretamente fazendo uma reivindicação sobre o que é uma base
sólida para a legitimidade política. Ele também não está fazendo uma afirmação
psicológica ou sociológica sobre o que as pessoas reais consideram uma base sólida
1
Cohen 2002; Habermas 2002.
2
Ver Cohen 2002, 92–3, para uma descrição mais completa dessas condições.
3
Cohen 2002, 91.
4. A Autoridade da Democracia 56

para a legitimidade. Em vez disso, ele estipula que os cidadãos de uma democracia
deliberativa ideal – um cenário puramente hipotético – toma a deliberação como
base da legitimidade. Suponho, no entanto, que o próprio Cohen considere algum
processo deliberativo adequado para fornecer uma base sólida para a legitimidade
política. Como a deliberação democrática pode fornecer uma base para a legi-
timidade? Cohen não explica isso claramente. Talvez o pensamento seja que a
justiça, a igualdade e a racionalidade do procedimento de tomada de decisão que
Cohen descreve confiram legitimidade aos seus resultados. Esse é um argumento
tênue – por que deveríamos assumir que qualquer procedimento, por melhor que
seja, confere um direito exclusivo e independente do conteúdo para o Estado coagir
as pessoas a cumprir as decisões produzidas por esse procedimento? No entanto,
vamos examinar essa linha de pensamento mais de perto.

4.2.2 Democracia deliberativa como fantasia


Se há algo que se destaca quando se lê descrições filosóficas da democracia delibera-
tiva, é até que ponto essas descrições caem da realidade. Das quatro características
da democracia deliberativa que Cohen identifica, quantas são satisfeitas por uma
sociedade real?
Comece com a primeira condição de Cohen. Cohen escreve: “os participantes
se consideram vinculados apenas pelos resultados de sua deliberação e pelas pré-
condições para essa deliberação. A consideração de propostas não é limitada pela
autoridade de normas ou requisitos prévios.”4 Isso não é verdade para a maioria
das pessoas. As pessoas reais frequentemente se consideram vinculadas por outras
coisas que não os resultados de deliberação pública. Por exemplo, alguns acredi-
tam em lei natural, muitos acreditam em exigências morais divinamente impostas,
outros acreditam estar vinculados por uma Constituição que foi estabelecida há
muito tempo, e assim por diante.
De acordo com a segunda condição de Cohen,

A deliberação é fundamentada no fato de que as partes envolvidas


devem declarar seus motivos para apresentar propostas [. . . ] Eles dão
motivos com a expectativa de que esses motivos (e não, por exemplo,
seu poder) determinem o destino de sua proposta. Na deliberação
ideal, como Habermas coloca, “nenhuma força, exceto a do melhor
argumento, é exercida”.5
4
Cohen 2002, 92. A “primeira condição” de Cohen contém duas partes. A primeira parte é
como indicado no texto. A segunda parte é que “os participantes supõem que podem agir com
base nos resultados [de suas deliberações]”. Essa parte parece inquestionável.
5
Cohen 2002, 93 (ênfase no original). A citação de Habermas é de Habermas, 1975, 108.
A citação da aprovação de Habermas sugere que as partes da deliberação ideal não apenas
4. A Autoridade da Democracia 57

Nas democracias reais, ninguém é obrigado (pelo Estado ou por qualquer outra
pessoa) a declarar suas razões para avançar propostas de políticas. Além disso,
a qualidade dos motivos apresentados para uma proposta política é apenas uma
parte do que determina o destino dessa proposta, e quase todo mundo sabe disso.
O destino das propostas políticas nas democracias reais é determinado pelo menos
tanto pela retórica quanto pelo raciocínio, e os apelos retóricos são ouvidos consi-
deravelmente mais frequentemente do que os argumentos racionais e sóbrios. Os
resultados políticos também são influenciados pelo interesse próprio. Cohen asse-
gura que a “deliberação concentra o debate no bem comum”6 – mas, na realidade,
grupos de interesses concorrentes disputam o controle dos processos políticos na
esperança de usar o poder do Estado para obter ganhos egoístas.7 Seria extrema-
mente incomum encontrar cidadãos ingênuos a ponto de pensar que apenas seus
argumentos declarados, não seu poder político, determinariam se suas propostas
políticas seriam adotadas.
A terceira condição de Cohen exige que “as partes sejam formal e substantiva-
mente iguais”. Ele elabora:

Cada um tem uma voz igual na decisão. [. . . ] A distribuição exis-


tente de poder e recursos não molda suas chances de contribuir para a
deliberação.8

É claro que não existe uma sociedade real em que essas coisas sejam verda-
deiras. Em qualquer sociedade moderna, um pequeno número de indivíduos –
jornalistas, autores, professores, políticos, celebridades – desempenha um grande
papel no discurso público, enquanto a grande maioria dos indivíduos desempenha
essencialmente nenhum papel no discurso. A grande maioria das pessoas não tem
oportunidade realista de fazer suas ideias serem ouvidas além de um pequeno cír-
culo de conhecidos. E a distribuição existente de poder e recursos determina quase
completamente as chances de contribuir para a deliberação pública. Cidadãos ri-
cos podem comprar publicidade ou até possuir estações de televisão ou outros
meios de comunicação; cidadãos pobres e de classe média não podem. Indivíduos
com poder político podem exibir suas opiniões na mídia nacional – o Presidente
dos Estados Unidos, por exemplo, pode convocar uma conferência de imprensa a
qualquer momento; Eu não posso. É difícil imaginar esses fatos mudando. Os
Estados Unidos contêm mais de 300 milhões de cidadãos. Como todas essas vozes
acreditam, mas acreditam corretamente que apenas razões declaradas determinarão o destino de
suas propostas.
6
Cohen 2002, 95.
7
Carney (2006) documenta vários casos. O ponto principal aqui é, não que os eleitores indi-
viduais sejam egoístas, mas que grupos de interesses especiais egoístas influenciam os eleitores.
8
Cohen 2002, 93.
4. A Autoridade da Democracia 58

podem ser ouvidas igualmente? Como seria a sociedade se cada um desses indiví-
duos pudesse convocar uma conferência de imprensa para discutir sua última ideia
política?
Finalmente, de acordo com a quarta condição de Cohen, a deliberação ideal
“visa chegar a um consenso racionalmente motivado”.9 Isso também é falso para
qualquer sociedade real. Nos Estados Unidos, por exemplo, há muita discussão pú-
blica sobre questões como aborto, controle de armas e políticas de saúde. Alguns
participantes dessas discussões procuram influenciar os cidadãos que permanecem
indecisos sobre o assunto em questão. A maioria provavelmente está apenas ten-
tando expressar seus próprios sentimentos e opiniões. Dificilmente alguém está
buscando um consenso. Muitos sabem que não têm uma esperança realista de
chegar a um acordo com partidários do ponto de vista ideológico oposto, e não
fazem nenhuma tentativa séria de fazê-lo.
Como essas observações nos lembram, a democracia deliberativa ideal de Cohen
é um cenário puramente hipotético. Dado o quão distante esse cenário está da reali-
dade, a que propósito serve o exercício imaginativo? Que papel pode desempenhar
na justificativa das ações de qualquer governo real?
Talvez se algumas sociedades reais ao menos se aproximassem do ideal, isso
pudesse conferir legitimidade a seus arranjos políticos. Cohen, no entanto, não
tenta argumentar que qualquer sociedade real se aproxima de seu ideal, e seria
difícil fazer tal argumento. Nem sequer é verdade, por exemplo, que todos os
indivíduos têm voz igual no discurso público, que não sejam afetados por sua
riqueza ou poder. Nem é totalmente verdade que os resultados políticos sejam
determinados puramente por argumentos racionais ou que o discurso público visa
ao consenso.
Cohen escreve que “o procedimento deliberativo ideal visa fornecer um modelo
para as instituições se espelharem”.10 Talvez a concepção de democracia delibera-
tiva de Cohen forneça orientações sobre como a sociedade deve mudar. Embora
isso possa fornecer um papel útil para a construção de Cohen, não nos aproxima da
autoridade política derivada. Uma descrição de um ideal que nossa sociedade de-
veria visar, mas sobre a qual realmente ficamos muito aquém dificilmente constitui
um argumento de que nosso Estado tem autoridade política.
Cohen continua afirmando que “os resultados são democraticamente legítimos
se e somente se pudessem ser objeto de um acordo livre e fundamentado entre
iguais.”11 Ele não defende esta tese, nem explica exatamente o que ela significa.
Como devemos entender a força desse “pudessem”?
Em uma leitura, o princípio de Cohen é absurdamente permissivo. Imagine
9
Cohen 2002, 93 (ênfase no original).
10
Cohen 2002, 92.
11
Cohen 2002, 92 (grifo nosso). Compare Habermas 1979, 186–7.
4. A Autoridade da Democracia 59

que você está andando na rua, quando um boxeador de repente lhe dá um soco na
cara. “Por que você fez isso?!”, você exclama. “Bem”, explica o boxeador, “você
poderia ter concordado em levar um soco na cara.” Agora suponha, analogamente,
que uma certa lei possa ter sido objeto de um acordo livre e fundamentado entre
todos os cidadãos, no sentido de que os cidadãos poderiam ter decididos livremente
concordarem com essa lei – mas, de fato, nenhum cidadão fez isso. É, para dizer
o mínimo, obscuro como essa situação daria ao Estado um direito moral de impor
essa lei pela força.
Presumivelmente, Cohen optaria por uma leitura mais forte de “poderia”. Ha-
bermas escreve sobre o que “seria o encontro do acordo voluntário de todos os
envolvidos, se pudessem participar, como livres e iguais, na formação discursiva
da vontade”.12 Talvez Cohen, da mesma forma, diria que um sistema político le-
gítimo é aquele com o qual concordaríamos se deliberássemos da maneira ideal.
Nesta leitura, Cohen e Habermas estão apelando para uma teoria do contrato so-
cial hipotético. No entanto, já vimos os problemas com essa teoria no Capítulo
3. Resumidamente, havia dois problemas principais. Primeiro, não há razão para
pensar que a estrutura e os princípios de qualquer Estado real seriam de fato acor-
dados após uma deliberação ideal. Segundo, mesmo que a estrutura e os princípios
de algum Estado real sejam acordados, não há razão para pensar que esse fato con-
ferisse autoridade a esse Estado. Nem Cohen nem Habermas abordaram esses dois
problemas centrais.

4.2.3 A irrelevância da deliberação


Concedido que nenhuma sociedade satisfaz as condições de Cohen para uma de-
mocracia deliberativa ideal, se houvesse uma sociedade assim, seu governo teria
autoridade?
Não está claro por que isso aconteceria. Lembre-se do exemplo da conta do bar
(Seção 4.1). Seus colegas e alunos votaram, sob suas objeções, em você pagar pelas
bebidas de todos. Agora, adicione as seguintes estipulações ao exemplo: antes de
votar, o grupo deliberou. Todos, inclusive você, tiveram a mesma oportunidade de
oferecer razões a favor ou contra forçar você a pagar pelas bebidas de todos. Os
outros argumentaram que seria do melhor interesse do grupo forçar você a pagar.
Eles tentaram chegar a um consenso. No final, eles não conseguiram convencê-lo
de que você deveria pagar, mas todos concordaram que você deveria pagar. Agora
você é obrigado a pagar por todos? Os outros membros do grupo têm o direito de
obrigar você a pagar através de ameaças de violência?
Claramente não. Você tem direitos – neste caso, o direito de escolher quando
e como gastar seu dinheiro e o direito de se libertar da coerção prejudicial – que
12
Habermas 1979, 186.
4. A Autoridade da Democracia 60

não são negados ou substituídos pelo simples fato de que uma decisão de violar
seus direitos foi precedida por um processo deliberativo justo e fundamentado. A
justiça do processo não permite que, de alguma forma, contorne todos os direitos
e restrições éticas preexistentes. Da mesma forma, é obscuro como o tipo de
deliberação que Cohen descreve, mesmo que realmente ocorra, confere legitimidade
política ao Estado. Os indivíduos têm um direito prima facie preexistente de não
serem submetidos à coerção. A deliberação, por mais justa e fundamentada, não
elimina por si só esse direito. É claro que os motivos para substituir os direitos
prima facie dos indivíduos podem ser oferecidos, e a oferta desses motivos pode
fazer parte de um processo deliberativo. Mas o processo deliberativo não constitui,
por si só, uma razão para suspender os direitos prima facie dos indivíduos.

4.3 Igualdade e autoridade


4.3.1 O argumento da igualdade
Passo agora ao que pode ser o argumento contemporâneo mais bem desenvolvido
para a afirmação de que o processo democrático confere autoridade política. A
ideia central é que temos uma obrigação geral de tratar os outros membros da nossa
sociedade como iguais e que isso exige o respeito pelas decisões democraticamente
tomadas.
O argumento levanta questões sobre o que conta como uma lei democratica-
mente autorizada. Uma lei que é o produto direto de um referendo popular é
o caso mais claro de uma lei democraticamente autorizada (doravante, “uma lei
democrática”).13 Mas e as leis que a maioria dos eleitores não apoiam, mas que
foram aprovadas por uma legislatura eleita democraticamente? E se uma lei ou
candidato político for apoiado pela maioria dos eleitores, mas não pela maioria
de todos os cidadãos? E os regulamentos escritos por burocratas não eleitos? Ou
ordens emitidas por juízes não eleitos? Por mais difíceis que sejam essas perguntas
para os teóricos democráticos, vou colocá-las de lado para me concentrar em pro-
blemas mais profundos. A partir de agora, assumirei simplesmente que temos um
Estado cujas leis são genuinamente autorizadas pelo povo, seja lá o que isso possa
significar. Mesmo com essa concessão generosa, como argumentarei, os teóricos
democráticos não podem estabelecer autoridade política.
Thomas Christiano desenvolveu o Argumento da Igualdade como um argu-
13
Wolff (1998, 29-34) levanta problemas especiais para a legitimidade da democracia represen-
tativa. Christiano (2008, 105-6) argumenta que a democracia representativa é em geral superior
à democracia direta. No entanto, não creio que ele duvide que as leis criadas por referendo sejam
legítimas.
4. A Autoridade da Democracia 61

mento para obrigação política, aproximadamente da seguinte forma:14

1. Os indivíduos são obrigados a tratar os outros membros de sua sociedade


como iguais e a não tratá-los como inferiores.

2. Para tratar os outros como iguais e não como inferiores, é preciso obedecer
às leis democráticas.

3. Portanto, os indivíduos são obrigados a obedecer às leis democráticas.

A obrigação assim defendida é independente do conteúdo, mas não precisa ser


tomada como absoluta: o defensor do argumento acima pode reconhecer a possibi-
lidade de valores compensatórios que às vezes superam a obrigação de obedecer às
leis democráticas. Também se pode reconhecer algumas qualificações do princípio
(2): talvez apenas quando as leis democraticamente estabelecidas estejam dentro
de certos limites – quando não violam a Constituição ou oprimem descaradamente
as minorias, por exemplo – é que o tratamento igualitário de outras pessoas exige
obediência a essas leis.15
Por que devemos aceitar as premissas do Argumento da Igualdade? Comece
com a premissa (1). Christiano avança o seguinte sub-argumento, em paráfrase:

1a. Justiça exige dar a cada pessoa o que lhe é devido e tratar casos semelhantes.

1b. Todos os membros da sociedade têm status moral igual.16

1c. Portanto, a justiça exige tratar os outros membros da sociedade como iguais.17

Em seguida, por que alguém deveria aceitar a premissa (2)? Parece haver dois
sub-argumentos para isso. O primeiro apela à ideia de colocar um julgamento
acima do de outros:

2a. Desobedecer a uma lei democrática é colocar um julgamento acima do de


outros membros da sociedade.
14
Christiano 2008.
15
Ver Christiano 2008, cap. 7, para discussão dos limites da autoridade democrática.
16
Para a premissa (1a), ver Christiano 2008, 20. Para (1b), ver Christiano 2008, 17–18. Por
uma questão de brevidade, omito a discussão sobre exatamente o que significa status moral
igual. O teórico democrático pode reconhecer qualificações a serem reivindicadas (1b). Talvez,
por exemplo, as crianças e os loucos tenham um status diferente dos adultos normais, de modo
que eles não precisam ter direitos iguais de participação democrática.
17
Christiano (2008, 31) escreve: “a justiça como descrevi normalmente não impõe requisitos
diretamente a cada pessoa”. Mas o argumento da obrigação política exige que a justiça imponha
requisitos aos indivíduos.
4. A Autoridade da Democracia 62

2b. Colocar o julgamento de alguém acima do dos outros é tratá-los como infe-
riores.

2c. Portanto, desobedecer a uma lei democrática é tratar os outros membros da


sociedade como inferiores.18 (de 2a, 2b)

O segundo sub-argumento apela à obrigação de apoiar a democracia:

2d. Tratar os outros como iguais requer apoiar o avanço igual de seus interesses.

2e. A democracia é crucial para o avanço igual dos interesses das pessoas.

2f. Para apoiar a democracia, é preciso obedecer às leis democráticas.

2g. Portanto, tratar os outros como iguais requer obedecer às leis democráticas.19
(de 2d – 2f)

Christiano gasta mais tempo justificando (2e). Ele argumenta que, para real-
mente promover os interesses dos indivíduos igualmente, um sistema social deve
atender a um requisito de publicidade, o que significa que deve ser possível para os
cidadãos verem por si mesmos que estão sendo tratados da mesma forma. Então
argumenta que apenas a tomada de decisão democrática, como forma processual
de igualdade, satisfaz esse requisito. Existem outras interpretações substantivas
de igualdade – por exemplo, que alguém trata os outros igualmente igualando seus
recursos ou que trata os outros igualmente concedendo-lhes os mesmos direitos
de liberdade. Mas essas interpretações de igualdade não satisfazem a exigência
de publicidade, porque são muito controversas; somente aqueles que aceitam cer-
tas visões éticas controversas podem se ver tratados como iguais em virtude da
implementação de uma dessas formas substantivas de igualdade. Portanto, a pro-
moção igualitária de interesses por parte do público requer tomada de decisão
democrática.

4.3.2 Uma teoria da justiça absurdamente exigente?


Como o interpretei, o Argumento da Igualdade deriva do dever de obedecer às leis
democráticas, em parte, de um requisito de justiça que promova o igual avanço
dos interesses das pessoas [premissa (2d)].
Tomada sem qualificação, essa suposta exigência de justiça é absurdamente
exigente. Suponha que eu tenha $50. Se eu gastar o dinheiro comigo mesmo,
18
Christiano 2008, 98-9, 250.
19
Christiano 2008, 249. Inseri a premissa (2f) conforme exigido para a validade do argumento,
embora Christiano não o declare explicitamente.
4. A Autoridade da Democracia 63

estaria promovendo meus interesses mais do que os interesses dos outros. Para
promover os interesses das pessoas igualmente, devo gastar o dinheiro em algo
que beneficie a todos, ou dividir o dinheiro entre todos os membros da minha
sociedade, ou talvez doar o dinheiro para ajudar pessoas cujos interesses estão
atualmente menos avançados do que a média. O mesmo raciocínio se aplica a
qualquer recurso à minha disposição. Parece, então, que devo doar quase tudo
o que possuo. De fato, uma vez que o fundamento do dever de tratar os outros
membros da minha sociedade como iguais é seu status moral igual [premissa (1b)],
parece que meu dever deve se estender a promover igualmente os interesses de toda
ou a maioria da população da terra.
Como podemos evitar uma teoria da justiça absurdamente exigente, sem renun-
ciar ao argumento da igualdade? Uma possibilidade é limitar a demanda de justiça
a uma obrigação de promover instituições sociais que promovam igualmente os in-
teresses de outras pessoas, em oposição a uma obrigação de promover diretamente
o avanço igual dos interesses de outras pessoas através do próprio comportamento
em geral.
Mas como essa qualificação seria justificada? A obrigação de tratar os outros
como iguais deve estar fundamentada em um princípio de justiça exigindo que
concedamos aos outros o que lhes é devido e tratem os mesmos casos. Se outros
são devidos a um progresso igual de seus interesses, parece que, para agir com
justiça, devo promover seus interesses igualmente; não há fundamento para limitar
essa obrigação a ações de apoio a instituições sociais em geral. Se, por outro lado,
outros não recebem o mesmo avanço de seus interesses, parece que eu não preciso
apoiar o mesmo avanço de seus interesses, seja na promoção de instituições sociais
ou em qualquer outra esfera de ação.
Talvez os indivíduos tenham uma obrigação de justiça para promover o pro-
gresso igual dos interesses uns dos outros, mas isso é apenas uma obrigação prima
facie, que pode ser substituída por razões compensatórias, incluindo razões pru-
denciais. Talvez eu não precise gastar a maior parte de meus recursos com outras
pessoas, porque minhas razões prudenciais para usar recursos em meu próprio be-
nefício geralmente superam o dever prima facie de promover o avanço igual dos
interesses de outras pessoas. O governo, por outro lado, deve dedicar-se mais pro-
fundamente ao igual avanço de interesses dos cidadãos, porque o governo, como
instituição e não como pessoa, não possui razões prudenciais genuínas.20
Esta última sugestão deixa claro em que medida os indivíduos têm obrigações
políticas. Considere dois exemplos:

O caso da caridade: Tenho $50, que estou pensando em doar para


20
Suspeito que essa sugestão esteja mais próxima do que Christiano tem em mente quando
diz: “impomos, com razão, padrões impessoais a instituições que não impomos totalmente a nós
mesmos como indivíduos” (2008, 31; grifo nosso).
4. A Autoridade da Democracia 64

uma instituição de caridade antipobreza muito eficaz ou gastar em


meu próprio consumo pessoal. Se eu der o dinheiro para a caridade,
isso reduzirá a desigualdade na sociedade e aproximará a sociedade do
progresso igual dos interesses de todos os seus membros. No entanto,
eu já doei uma grande quantia em dinheiro para caridade este ano e
não desejo doar mais. Eu decido ficar com o dinheiro.
O caso do imposto: As leis tributárias exigem que eu pague uma grande
quantia em dinheiro ao governo. Estou pensando em pagar todos os
impostos exigidos ou trapacear com meus impostos de maneira a pagar
$50 a menos do que a quantia legalmente exigida; nesse caso, gastarei
os $50 em consumo pessoal. Suponha que tenho certeza de que, se
eu trapacear, não serei pego ou sofrerei outras conseqüências pessoais
negativas. Eu decido trapacear.

Os advogados da autoridade democrática certamente negariam que minha ação


é permitida no caso do imposto, mas para evitar uma teoria ética absurdamente
exigente, permitiriam que a minha ação fosse autorizada no caso da caridade.
Suponhamos que, no caso da caridade, minha razão prudencial supere meu dever
prima facie de promover o avanço igual dos interesses dos outros. Mas minha
razão prudencial para trapacear meus impostos no caso do imposto é tão forte
quanto minha razão prudencial para manter os $50 no caso da caridade. Além
disso, o envio de $50 para a caridade provavelmente promova um avanço igual
dos interesses das pessoas em um grau muito maior do que o envio de $50 ao
governo. Portanto, se minha ação é permitida no caso da caridade, como poderia
ser inadmissível no caso do imposto?
Pode-se apelar para a ideia de que o benefício total fornecido pelo governo, em
relação ao avanço igual dos interesses das pessoas, é muito maior que o benefício
total fornecido por qualquer organização de caridade. Existem dois problemas
com esse argumento. O primeiro é que a afirmação não precisa ser verdadeira.
Uma instituição de caridade grande e eficiente pode fazer mais do que um Estado
pequeno e ineficiente, os defensores da autoridade política ainda afirmam que o
indivíduo é obrigado a pagar impostos ao Estado e não é obrigado a doar para a
caridade. Segundo e mais importante, a alegação é irrelevante. O bem total feito
por uma organização não deve ser confundido com o bem causado pela contribuição
marginal do indivíduo para essa organização. É o último, e não o primeiro, que
determina a força das razões para contribuir. O impacto marginal de $50 dos meus
impostos no avanço igual dos interesses das pessoas é insignificante.
Eu me concentrei no caso do imposto, porque está entre os exercícios menos
controversos e menos dispensáveis da autoridade governamental entre aqueles que
acreditam em autoridade política. Se a obrigação de pagar impostos não puder ser
4. A Autoridade da Democracia 65

defendida, não há esperança de defender a obrigação política em casos mais contro-


versos, como a suposta obrigação de se apresentar as forças armadas (alistamento
militar), quando solicitado.
O resultado desta discussão é que o defensor do Argumento da Igualdade en-
frenta um dilema: ou a obrigação de promover o avanço igual dos interesses é
implausivelmente exigente ou é fraca demais para apoiar obrigações políticas bá-
sicas.

4.3.3 Apoiando a democracia através da obediência


Uma linha do argumento da igualdade [(2d) e (2f)] afirma que a democracia é tão
crucial para o avanço igual dos interesses das pessoas que, para apoiar o avanço
igual dos interesses, é preciso apoiar a democracia. Além disso, para apoiar a
democracia, é preciso obedecer às leis democráticas. Portanto, é preciso obedecer
às leis democráticas.
O problema óbvio com essa inferência é que a obediência ou desobediência de
um indivíduo em particular a uma lei específica não tem impacto real no funciona-
mento do Estado. Por exemplo, o governo persiste apesar de um grande número
de pessoas que fogem de uma grande quantidade de impostos todos os anos.21 Um
sonegador a mais não fará com que o governo entre em colapso, nem fará com que
o governo se torne antidemocrático. O mesmo vale para quase todas as outras leis.
Christiano nos diz: “Cada pessoa deve tentar perceber o avanço igual dos interes-
ses de outros seres humanos”.22 Mas a obediência às leis democráticas parecem
ter pouca ou nenhuma conexão com isso. Uma ação que pode ser prevista com
antecedência com não tendo impacto na consecução de um determinado objetivo
não é uma maneira racional de tentar alcançá-lo.
É certo que, embora o impacto de um único indivíduo possa ser negligenciável,
a obediência geral da maioria da população é um requisito genuíno para o sucesso
e a estabilidade do Estado. Se a maioria das pessoas violasse regularmente a
maioria das leis, o Estado provavelmente entraria em colapso. No entanto, a
maioria das sociedades modernas não chega nem perto do limiar de desobediência
necessário para o colapso do governo; portanto, o impacto marginal do indivíduo
na sobrevivência do Estado é zero. (Veja o Capítulo 5 para discutir quando a
desobediência é injusta através da obediência dos outros, caso free rider)
21
O IRS estima que mais de 300 bilhões de dólares em impostos são evadidos anualmente pelos
16% dos contribuintes que sonegam (Departamento do Tesouro dos EUA 2009, 2).
22
Christiano 2008, 249.
4. A Autoridade da Democracia 66

4.3.4 A igualdade democrática é exclusivamente pública?


Mesmo que tenhamos a obrigação de tentar promover um progresso igual nos inte-
resses das pessoas, a interpretação desse objetivo é altamente controversa. Alguns
podem acreditar que isso requer a equalização dos recursos materiais dos indiví-
duos. Outros podem acreditar que isso exige apenas conceder a todos direitos
iguais de liberdade. Outros ainda podem acreditar que é necessário dar a cada um
uma palavra igual no processo político.
Christiano argumenta que apenas a última interpretação – igualdade democrá-
tica, como devo chamá-la – satisfaz o princípio crucial da publicidade, o princípio
de que “não basta que a justiça seja feita; deve ser vista como completa.”23 Há pelo
menos duas maneiras de interpretar esse princípio, uma mais forte que a outra.
Na fraca interpretação, a publicidade exige que os indivíduos sejam capazes de
ver que estão sendo tratados de acordo com uma certa concepção de igualdade,
independentemente se veem ou não se essa é a interpretação correta da igualdade
e se veem ou não se essa igualdade é essencial para a justiça. Sob uma forte inter-
pretação, a publicidade exige que os indivíduos possam ver que a maneira como
estão sendo tratados é justa.24
Se adotarmos a fraca interpretação da publicidade, a tomada de decisões demo-
cráticas satisfaz a restrição de publicidade, assim como muitas outras concepções
de igualdade. Por exemplo, suponha que alguém defenda que a maneira correta
de tratar os outros igualmente é conceder a todos os mesmos direitos de liberdade
(aproximadamente, direitos de fazer o que quiserem, livres de interferências do
governo). Os indivíduos seriam capazes de ver que recebiam os mesmos direitos
de liberdade, mesmo que não concordassem que essa era uma maneira satisfatória
de interpretar a igualdade. Portanto, a interpretação dos direitos da igualdade de
liberdade satisfaz a condição de publicidade. Um argumento semelhante poderia
ser feito para a maioria das outras interpretações de igualdade.
Por outro lado, se adotarmos a forte interpretação da publicidade, nenhuma
interpretação da igualdade ou da justiça satisfaz a publicidade, porque não existe
uma concepção de justiça com a qual todos possam concordar. Nem todos os
pensadores racionais concordaram, inclusive, que a democracia seja justa.25 Por-
tanto, ainda não está claro como alguém pode pensar que a igualdade democrática
23
Christiano 2008, 47.
24
A interpretação forte é sugerida pela observação inicial de Christiano de que a justiça deve
ser vista como feita, mas outras observações deixam claro que ele pretende a interpretação fraca;
por exemplo, “A publicidade requer apenas que as pessoas possam ver que são tratadas de
acordo com os verdadeiros princípios corretos da justiça” (2008, 52; grifo nosso). Compare 47:
“A publicidade exige que os princípios de justiça social sejam aqueles que as pessoas podem, em
princípio, ver em vigor ou não”. Discuto o princípio forte no texto em prol da exaustividade do
argumento.
25
Ver Republic de Platão 1974; Oakeshott 1962, 23–6; Caplan 2006; Brennan 2011.
4. A Autoridade da Democracia 67

satisfaz exclusivamente o requisito de publicidade.


Talvez a ideia seja que a igualdade democrática seja muito menos controversa
em sua aplicação e interpretação do que outras concepções de igualdade do mesmo
nível de generalidade. A igualdade de direitos tem interpretação controversa; há
uma enorme discordância sobre quais direitos os indivíduos possuem e quais leis
contam como implementando direitos iguais. Da mesma forma, a igualdade de
recursos está aberta à interpretação. Requer apenas que os indivíduos tenham
a mesma riqueza? Renda igual? Renda proporcional às suas necessidades? As
rendas devem ser ajustadas para diferentes custos de vida em diferentes locais?
Mas a igualdade no processo de tomada de decisão tem uma única interpretação
incontroversa: uma pessoa, um voto.
Ou é controversa? A igualdade de poder de decisão exige democracia direta ou
a democracia representativa é suficiente? Requer que todos os cidadãos tenham
a mesma chance de se candidatar a um cargo público? Em caso afirmativo, é
suficiente que todos os cidadãos tenham permissão legal para concorrer a cargos
públicos, ou os indivíduos também devem ter oportunidades realistas financeira
e socialmente para concorrer a cargos públicos? Se a democracia representativa
é permitida, a representação deve ser estritamente proporcional à população ou
algumas partes de uma nação podem ter representação na legislatura despropor-
cional à sua população (como no caso da representação de Estados no Senado dos
EUA)? A igualdade democrática é violada se os funcionários públicos desenharem
distritos de formas incomuns para fins de votação (como na prática americana de
gerrymandering), com a intenção específica de maximizar a representação de uma
parte em particular na legislatura? A igualdade democrática é violada se algumas
minorias persistentes raramente ou nunca conseguem o que querem? Se sim, que
tipo de minorias contam? Os membros de todos os terceiros partidos nos Estados
Unidos (além dos democratas e republicanos) contam como minorias persistentes
que não são tratadas igualmente?
Todas essas são questões controversas. Não espero que seja possível obter algo
próximo de um acordo unânime sobre como respondê-las. E todas são perguntas
sobre a interpretação da igualdade democrática. Ou seja, não são apenas perguntas
sobre qual é a melhor maneira de organizar o sistema eleitoral. São perguntas sobre
que maneiras de implementar o sistema realmente tratam as pessoas igualmente.
Assim, se a restrição de publicidade exige falta de controvérsia na aplicação de
uma dada concepção de igualdade, a interpretação democrática da igualdade não
satisfaz a publicidade.

4.3.5 Respeitando os julgamentos de outras pessoas


Outra vertente do Argumento da Igualdade sustenta que, quando alguém desobe-
dece a uma lei democrática, trata os outros como inferiores, colocando o próprio
4. A Autoridade da Democracia 68

julgamento acima dos julgamentos de outros cidadãos.


Em resposta, devemos primeiro esclarecer o princípio de que os indivíduos
devem se tratar como iguais. Há muitos aspectos em que alguém pode considerar
as pessoas iguais. Pode-se pensar que as pessoas têm direitos iguais; que seus
interesses têm o mesmo peso; ou que tenham capacidades iguais para julgamento
moral, inteligência igual ou conhecimento igual. O que significa “tratar as pessoas
como iguais” depende do respeito em que alguém considera as pessoas iguais.
Presumivelmente, é necessário apenas moralmente tratar as pessoas como iguais
naqueles aspectos em que as pessoas realmente são pelo menos aproximadamente
iguais.
Agora, suponha que alguém desobedeça uma lei democrática com base em que
a lei é injusta ou moralmente censurável. Na maioria dos casos, alguém estará
expressando uma rejeição dos julgamentos daqueles que fizeram a lei.26 Suponha
que a lei tenha sido feita por um referendo de todos os cidadãos. Em seguida,
rejeitamos os julgamentos normativos da maioria dos concidadãos. Isso implica
que alguém considere esses outros cidadãos desiguais em pelo menos um aspecto:
ter crenças normativas menos precisas sobre essa lei em particular. Talvez alguém
também esteja comprometido com alguma afirmação geral de que outros cida-
dãos são menos confiáveis do que eles mesmos na formação de crenças normativas
corretas sobre o assunto desta lei. Obviamente, tudo isso é perfeitamente compa-
tível com o reconhecimento de que outros têm direitos morais iguais ou que seus
interesses são igualmente importantes como os seus.
Existe algo nisso injusto ou censurável? Presumivelmente, isso depende se
os outros são de fato desiguais em relação a esses aspectos e/ou se alguém se
justifica acreditando de que eles são. A justiça não exige que nos abstenhamos
de tratar outras pessoas como tendo alguma característica que justificavelmente e
corretamente eles tenham.
Muitas pessoas são fortemente justificadas e corretas ao assumirem crenças
normativas mais precisas e confiáveis sobre certas leis do que a maioria dos mem-
bros de sua sociedade. Como isso acontece? Primeiro, há muitos que, correta
e justificadamente, acreditam ter inteligência significativamente maior que a mé-
dia. Segundo, há muitos que, correta e justificadamente, acreditam ter níveis de
conhecimento significativamente acima da média relevantes para certas questões
políticas. Muitas pesquisas e muitas observações casuais forneceram evidências de
que, por exemplo, o nível médio de conhecimento político nos Estados Unidos é
26
Isso não precisa ser o caso. Poder-se-ia pensar que os eleitores ou legisladores fizeram a lei,
não porque erroneamente acreditavam que era justa, mas porque acreditavam corretamente que
a lei servia seus próprios interesses ou por alguma outra razão compatível com o fato de a lei ser
injusta. Deixo esses casos de lado, considerando apenas o caso mais favorável ao proponente do
Argumento da Igualdade.
4. A Autoridade da Democracia 69

extremamente baixo.27 Portanto, não é difícil saber que alguém o excede signifi-
cativamente. Terceiro, muitas pessoas, correta e justificadamente, dedicam tempo
e esforço significativamente maiores para identificar as posições corretas em certas
questões políticas do que o membro médio de sua sociedade. Todos esses fatores
– inteligência, conhecimento, tempo e esforço – afetam a confiabilidade de alguém
para chegar a crenças corretas. Ninguém sustenta seriamente que as pessoas estão
perto de serem iguais em qualquer uma dessas dimensões, e muito menos em todas
elas. Portanto, é muito difícil ver como alguém poderia argumentar que todas as
pessoas são igualmente confiáveis na identificação de crenças políticas corretas.
Ao violar uma lei democrática, alguém pode tratar os outros como se fos-
sem “inferiores” epistêmicos, no sentido de pessoas com menos crenças normativas
confiáveis em uma área específica. Mas não há nada injusto nisso se, como é
frequentemente o caso, se sabe que isso é verdade.

4.3.6 Coerção e tratando os outros como inferiores


Quando alguém viola uma lei democrática, trata os outros como inferiores em
um sentido epistêmico. Mas existem outras maneiras mais graves de tratar as
pessoas como inferiores. Se uma pessoa não concorda com algum plano, por exem-
plo, tentar obter a cooperação dessa pessoa através de ameaças de violência é
normalmente uma abordagem extremamente desrespeitosa, fundamentalmente in-
compatível com o tratamento dessa pessoa como igual.
Para retornar a um exemplo anterior: você saiu para beber com alguns colegas
e estudantes, e um dos alunos propôs que você pagasse pelas bebidas de todos.
Durante seus protestos, as outras partes da mesa votam para que você pague pelas
bebidas. Você diz a eles que não concorda em fazê-lo. Eles então informam que,
se você não pagar, pretendem puni-lo, trancando-o em uma sala por algum tempo
e que estão preparados para levá-lo à força.
Além de precisar de novos parceiros para beber, o que pode ser dito sobre esse
cenário? Quem neste cenário está cometendo uma injustiça com quem? Quem
está tratando quem como inferior?
Alguém poderia argumentar que, ao rejeitar a decisão das outras pessoas na
mesa, você está colocando sua vontade ou julgamento normativo acima da dos
outros membros do grupo. Todos pensam que você deve pagar e há mais deles
do que você. Então, quem é você para discordar? Você deve pensar que é algum
tipo de ser divino cujos desejos têm precedência sobre os desejos de várias outras
pessoas.
Mas esse argumento soa vazio. Certamente, é o comportamento de seus cole-
gas e alunos que lhe desrespeita e não o contrário. São eles que se estabelecem
27
Ver Delli Carpini e Keeter 1996, capítulo 2; Caplan 2007b, capítulo 1.
4. A Autoridade da Democracia 70

injustamente como seus superiores, usando ameaças de punição e força física para
obter sua cooperação com o plano deles.
Christiano argumenta que não se mostra o devido respeito ao julgamento de
outros membros da sociedade quando se recusa a concordar com as leis democrá-
ticas. Essas leis normalmente vêm com ameaças de impor punição àqueles que
não seguem a lei, apoiadas por ameaças críveis de violência contra aqueles que
tentam evitar punição. Em face disso, o desrespeito pelas pessoas e a violação
da igualdade envolvida na emissão e na execução de tais ameaças são muito mais
palpáveis do que o suposto desrespeito demonstrado por aqueles que não cumprem
as leis. A maioria que vota em um dada lei está autorizando esse tipo de coerção.
Prima facie, portanto, é a maioria culpada por violar a exigência de tratar outras
pessoas como iguais.
O ponto aqui é que é impossível justificar a autoridade política se o princípio
moral que deveria gerar obrigação política também exclui a legitimidade política.
Nesse caso, o princípio é que a justiça proíbe tratar os outros como inferiores.
Se isso mostra a existência de um dever de obedecer às leis democráticas, mostra
muito mais claramente a ilegitimidade da maioria dessas leis em primeiro lugar.
Como a autoridade política exige obrigação política e legitimidade política, parece
que a autoridade política é impossível.
Talvez essa conclusão esteja sendo tirada muito rapidamente. Nem sempre
é desrespeitoso usar a força física contra os outros. Se, por exemplo, A está
ameaçando B com violência injusta, B pode usar violência para impedir que A
execute sua ameaça sem, assim, tratar A injustamente como inferior. Isso sugere
que pelo menos algumas leis – por exemplo, aquelas que proíbem a violência injusta
– não se tornam objetáveis ou injustas pela coerção necessária para aplicá-las.
Mas muitas outras leis, ao que parece, são questionáveis pela maneira como
pedem coerção. Não tenho uma teoria abrangente para oferecer as condições sob
as quais a coerção é censurável. Mas, aparentemente, a arrecadação de impostos
do Estado é análoga à arrecadação de dinheiro de você no exemplo da conta do
bar. Nos dois casos, a maioria vota para tomar a propriedade de alguém para o
benefício do grupo e, nos dois casos, a decisão deve ser executada por meio de
ameaças de punição, apoiadas por ameaças de violência. Uma diferença é que a
carga dos impostos são mais amplamente distribuídas do que a conta do bar, que
imaginávamos ser direcionada a uma única pessoa. Em vez disso, pode-se supor
que, em vez de colocar todo o ônus sobre você, um aluno proponha que você pague
metade da conta total, os outros professores paguem porções menores e cada um
deles pegue uma carona grátis (free ride).28 Poucos diriam que a distribuição da
28
Nos Estados Unidos, pouco mais da metade de todos os impostos federais é proveniente dos
10% mais ricos dos contribuintes (os professores plenos da sociedade, por assim dizer). Os 20%
mais pobres (os estudantes de pós-graduação da sociedade) pagam menos de 1% de todos os
4. A Autoridade da Democracia 71

carga agora torna admissível a imposição coercitiva desse plano.


Alguém pode ainda ficar preocupado com o fato de que o exemplo da conta
do bar carrega a aparente injustiça da proposta do aluno e que nossas intuições
poderiam mudar se o grupo tivesse votado de uma maneira essencialmente justa
e equitativa de pagar a conta do bar. Mas os defensores da autoridade demo-
crática afirmam explicitamente que é preciso cumprir uma decisão democrática,
independentemente de a decisão ser em si mesma justa.29 Portanto, é perfeita-
mente apropriado considerar uma hipótese em que a maioria vote numa proposta
injusta, como no exemplo da conta do bar.

4.3.7 Da obrigação para a legitimidade?


O Argumento da Igualdade enfrenta sérias dificuldades na contabilização de obri-
gações políticas. Mas, mesmo se pudéssemos explicar a obrigação política, conti-
nuaria o desafio de explicar a legitimidade política, o direito do Estado de governar
impondo coercivamente regras à sociedade. Christiano explica a origem desse di-
reito da seguinte maneira:

A assembléia democrática tem o direito de governar [. . . ] uma vez


que alguém trata injustamente seus membros se ignorar ou contornar
suas decisões. Cada cidadão tem direito à obediência de cada um
e, portanto, a assembléia como um todo tem direito à obediência de
todos.30

O problema central da contabilização do direito de governar é o problema da


justificação da coerção. Assim, para que o raciocínio acima seja bem-sucedido,
ele deve fornecer uma justificativa para a coerção. Talvez a justificativa esteja ao
longo das seguintes linhas:

4. Se a justiça exige (proíbe) uma pessoa fazer A, então é permitido coagir essa
pessoa a fazer (não fazer) A.

5. Justiça exige obediência às leis democráticas.

6. Portanto, é permitido coagir uma pessoa a obedecer às leis democráticas.

A premissa (5) deve ser estabelecida pelo Argumento da Igualdade, como dis-
cutido acima.
impostos federais e, na verdade, têm uma taxa de imposto de renda negativa (US Congressional
Budget Office 2009).
29
Christiano 2008, 97; Estlund 2008, 8.
30
Christiano 2004, 287.
4. A Autoridade da Democracia 72

Mas por que devemos aceitar (4)? Em muitos casos, é plausível que alguém
possa impor os requisitos da justiça por coerção. Como vimos acima, é plausível
que alguém possa usar coerção para impedir que uma pessoa prejudique injusta-
mente outra pessoa. Também é plausível que às vezes se possa usar coerção para
impedir que uma pessoa prejudique injustamente ou roube a propriedade de outra
pessoa ou recuperar propriedade roubada ou extrair compensação.31 Em todos es-
ses casos, parece que a coerção é um meio apropriado de induzir uma pessoa a fazer
o que a justiça exige ou impedir que uma pessoa faça o que a justiça proíbe. Por-
tanto, existe alguma plausibilidade na generalização de que alguém possa coagir
as pessoas a cumprir a justiça.
Agora, porém, considere dois outros tipos de supostas obrigações de justiça: a
obrigação de dar igual respeito aos julgamentos de outras pessoas e a obrigação de
promover o igual avanço dos interesses das pessoas. Talvez estes sejam requisitos
de justiça; talvez não. Mas quão plausível é, em qualquer caso, que essas (supostas)
obrigações específicas possam ser impostas por coerção?
Considere um exemplo em que pareço violar uma dessas tarefas. Estou fora
para beber com alguns amigos. Vários deles estão discutindo sobre como o presi-
dente Barack Obama é excelente. Eu grito: “Vocês são tolos e suas opiniões são
inúteis. Eu não respeito o julgamento de vocês. Vocês são todos inferiores a mim.”
Então tapo meus ouvidos para não ter que ouvir o que dizem e dou as costas para
eles.
Nesse caso, deixei de respeitar os julgamentos de meus amigos e os tratei como
inferiores. Isso me parece muito mais evidente do que a alegação de que falho
em respeitar os julgamentos de outros cidadãos ou trato outros cidadãos como
inferiores sempre que desobedeço a uma lei democrática. Mas agora meus amigos
(ou qualquer outra pessoa) estariam justificados a usar a força física para me impor
uma punição?
Agora considere um caso em que eu viole o outro suposto dever de justiça.
Suponha que aprendi recentemente que a Anistia Internacional está trabalhando
para promover a democracia no país pouco conhecido da Nova Flórida. A AI
está pedindo doações em dinheiro e contribuições através de campanhas de cartas.
Acho que a AI tem uma chance razoável de ser eficaz nesse empreendimento,
e reconheço que poderia apoiar instituições democráticas ajudando a AI nesse
momento.32 Porque a democracia é crucial para o avanço igual dos interesses das
31
Locke (1980, seções 7 a 12) propôs que todos os indivíduos no estado de natureza tenham
o direito de punir aqueles que transgridem a lei natural. Na seção 11, ele parece permitir que,
mesmo na sociedade civil, as vítimas de crimes possam, por sua própria iniciativa, apreender
reparações de um criminoso se o Estado não o fizer, e na seção 20, afirma que quando o Estado
falha em receber reparações de um criminoso através de “uma manifestação perversa da justiça”,
o indivíduo pode se valer da justiça vigilante.
32
Como Christiano nos diz, “cada cidadão tem o dever de criar instituições democráticas”
4. A Autoridade da Democracia 73

pessoas, eu estaria promovendo o avanço igual dos interesses das pessoas. No


entanto, opto por não apoiar a Anistia Internacional.
Nesse caso, é muito plausível dizer que eu (a) falhei em promover o progresso
igual dos interesses das pessoas e (b) falhei em ajudar a criar instituições democrá-
ticas. E talvez eu tenha errado. Mas agora sou um alvo apropriado para ameaças
de violência?
Nem todo dever é adequadamente executado por coerção. Os exemplos acima
sugerem que a obrigação de tratar os outros como iguais, respeitando seu julga-
mento e a obrigação de promover o progresso igual dos interesses das pessoas,
promovendo a democracia, não são obrigações que se possa impor por coerção.
Ou essas não são obrigações de justiça, ou algumas obrigações de justiça podem
não ser coercivamente aplicadas. Em ambos os casos, o argumento de Christiano
para legitimidade política falha.

4.4 Conclusão
Relativamente falando, a democracia é admirável. De maneiras gerais e óbvias,
é superior a todas as outras formas conhecidas de governo.33 Mas não resolve
o problema da autoridade política. O fato de a maioria das pessoas defender
alguma regra não justifica impor essa regra pela força àqueles que não concordam
com ela nem punir coercivamente aqueles que desobedecem à regra. Fazer isso é,
normalmente, desrespeitar os dissidentes e tratá-los como inferiores. Os problemas
não são alterados caso se acrescente que a maioria deliberou de maneira especial
antes de decidir impor a regra.
A necessidade de respeitar os julgamentos de outros membros da sociedade
não gera obrigações políticas gerais nos países democráticos, por pelo menos dois
motivos: primeiro, porque muitas pessoas sabem que têm um julgamento melhor
em relação a muitas questões práticas do que a maioria dos cidadãos; segundo,
porque a obrigação de respeitar os julgamentos de outras pessoas não tem força
suficiente para substituir os direitos individuais, como o direito de um indivíduo
de controlar sua propriedade.
A obrigação de promover o avanço igual de interesses também não estabe-
lece obrigações políticas. Entre outras coisas, não está claro em que sentido a
igualdade democrática é uma concepção de igualdade exclusivamente realizável
publicamente, e não está claro como a obediência às leis democráticas constitui
um apoio significativo às instituições democráticas. Mas mesmo que a obediên-
cia às leis democráticas constituísse um apoio significativo à igualdade, derivar a
obrigação política desse fato exigiria postular um dever muito forte de promover
(2008, 249).
33
Ver Sen 1999, capítulo 6.
4. A Autoridade da Democracia 74

a igualdade. Um dever tão forte provavelmente envolveria demandas implausíveis,


exigindo que se dedicasse virtualmente a vida à promoção da igualdade. No final,
a autoridade democrática não pode explicar nem a obrigação de obedecer à lei
nem o direito de impor a lei à força a pessoas que não concordam.
5

Consequencialismo e Equidade

5.1 Argumentos consequencialistas para obriga-


ção política
5.1.1 A estrutura dos argumentos consequencialistas para
obrigação política
Os argumentos mais simples para autoridade política são consequencialistas. Por
“argumentos consequencialistas para autoridade”, quero dizer argumentos que atri-
buem peso moral à bondade ou maldade das consequências de uma ação e que
apelam diretamente a esse fator na tentativa de derivar obrigação e legitimidade
políticas.1 Eu me concentro nesta seção em argumentos para obrigação política.
Esses argumentos prosseguem em duas etapas. Primeiro, argumenta-se que
existem grandes valores garantidos pelo governo e que não poderiam ser garanti-
dos sem o governo. Segundo, argumenta-se que esse fato impõe aos indivíduos a
obrigação de obedecer ao Estado, com o argumento de que (a) temos o dever de
promover os valores abordados no primeiro estágio do argumento ou pelo menos
não prejudicá-los; e (b) a obediência à lei é a melhor maneira de promover esses
valores e a desobediência é uma maneira de minar eles.

5.1.2 Os benefícios do governo


Muitos benefícios foram reivindicados pelo governo, mas três são particularmente
importantes. O primeiro importante bem atribuído ao governo é o da proteção
contra crimes cometidos por indivíduos contra outros, especialmente crimes vio-
lentos e crimes contra a propriedade. O governo fornece esse benefício anexando
1
Esses argumentos não precisam assumir o consequencialismo, no sentido de que a correção
de uma ação é determinada exclusivamente por suas consequências boas ou más.

75
5. Consequencialismo e Equidade 76

punições a atos injustos – assassinato, roubo, estupro etc. – que os indivíduos


cometem uns contra os outros. Sem governo, a maioria das pessoas acredita que
ações injustas e prejudiciais desse tipo seriam muito mais prevalentes do que são.
Aqueles que são mais pessimistas em relação à natureza humana temem que a
sociedade seja reduzida a um estado bárbaro de guerra constante de todos contra
todos.2 Existem dois pontos intimamente relacionados aqui. Um é que o governo
aumenta o bem-estar social geral, impedindo que certas coisas ruins aconteçam.
O outro é que o governo promove a justiça, reduzindo o número de atos injustos
que ocorrem.3
O segundo grande benefício atribuído ao governo é o fornecimento de um con-
junto detalhado, preciso e público de regras de conduta social que se aplicam
uniformemente em toda a sociedade. Por que precisamos que o governo forneça
essas regras? Há princípios naturais de justiça que existem antes do Estado e que
os indivíduos podem apreciar intuitivamente. No entanto, esses princípios naturais
são vagos e gerais e não fornecem orientações suficientes para a vida social mo-
derna. Por exemplo, é eticamente permitido liberar a poluição do ar, digamos do
automóvel, ou isso viola os direitos daqueles que inalam os poluentes? É plausível
que se possa liberar certos níveis e tipos de poluição, mas não a poluição excessiva
ou excessivamente tóxica. Mas exatamente quanta poluição se pode liberar e de
que tipos? Não é crível que os princípios naturais da justiça determinem respostas
únicas para todas as perguntas desse tipo, nem, se o fizerem, que os indivíduos
possam apreendê-las de maneira confiável pela reflexão. No entanto, precisamos de
respostas aceitas para essas perguntas para que as pessoas se coordenem e tenham
relações pacíficas e previsíveis entre si. Alguns argumentam que um governo é a
única fonte confiável desse conjunto de regras geralmente aceitas.4
O terceiro benefício destacado oferecido pelo governo é o da defesa militar.
Sem um meio de defesa militar, ao que parece, seríamos facilmente vítimas de
países estrangeiros que tentariam nos escravizar ou roubar nossos recursos. Dado
o poder militar dos governos em todo o mundo, a defesa eficaz de um determinado
território parece exigir um exército organizado com moderna tecnologia militar. A
única maneira de formar um exército desses parece ser ter um governo próprio.
Na Parte II deste livro, desafio a suposição generalizada de que o governo é
necessário para fornecer esses benefícios. No entanto, no presente capítulo, conce-
derei essa suposição por uma questão de argumento. Eu afirmo que, mesmo com
esta concessão, não se pode obter autoridade política como comumente entendida.
2
Hobbes 1996, capítulo 13. Locke (1980, capítulos 2 e 9) oferece uma avaliação menos terrível
que Hobbes, mas ainda encontra “grandes inconvenientes” no estado de natureza.
3
Buchanan 2002, 703-5.
4
Christiano 2008, 53-5, 237-8; Wellman 2005, pp. 6-7. Christiano afirma que o Estado
“estabelece justiça” fornecendo essas regras uniformes.
5. Consequencialismo e Equidade 77

5.1.3 O dever de fazer o bem


Argumentos consequencialistas para obrigação política afirmam que as pessoas têm
o dever de promover algum valor ou valores; por exemplo, um dever de promover
a justiça, promover a utilidade ou ajudar a resgatar outras pessoas do perigo.5 O
dever não precisa ser tomado como absoluto ou desqualificado; pode ser que o dever
seja obtido apenas quando houver ameaça de algum grande dano ou injustiça, e
pode ser que, mesmo nessas condições, o dever possa ser substituído por razões
compensatórias suficientemente fortes. Isso é consistente com a noção de que o
dever de obedecer à lei precisa ser apenas um dever prima facie.
Veja o caso em que você vê uma criança se afogando em um lago raso: você
pode facilmente entrar e salvar a criança, embora isso implique em deixar suas rou-
pas sujas e molhadas e perder uma aula.6 Quase todo mundo concorda que, em tal
situação, você será requerido moralmente para ajudar a criança. Podemos recuar
em circunstâncias mais exigentes – se a criança estivesse se afogando no oceano e
você tivesse que assumir um risco significativo de sua própria vida para salvá-la,
não seria obrigado a fazê-lo. Você pode colocar adequadamente sua própria vida
acima da de um estranho nessas situações. Mas quando um mal muito grande
ameaça outra pessoa e você pode evitá-lo com um custo mínimo para si mesmo,
seria errado não fazê-lo. Há quem desafie até essa modesta afirmação ética, ape-
lando para uma forma extrema de individualismo.7 Não adoto essa abordagem.
Procuro antes confiar em visões morais de senso comum, que considero incluir o
modesto princípio de um dever de fazer o bem descrito no parágrafo anterior.
Os defensores do argumento consequencialista para obrigação política argu-
mentam que a obediência geral à lei é necessária para o Estado funcionar. Se
muitos cidadãos desobedecerem, o Estado entrará em colapso e seus enormes be-
nefícios desaparecerão.8 Além disso, argumentam que os custos da obediência,
embora significativos, são razoáveis à luz dos benefícios, uma vez que a maioria
das pessoas recebe benefícios substancialmente maiores que os custos do Estado.9
Portanto, um princípio moderado do dever de fazer o bem leva à conclusão de que
geralmente somos obrigados a obedecer à lei. Ou então alguém pode argumentar.
5
Ver Rawls (1999, 295) sobre o dever de justiça e Wellman (2005, 30–2) sobre o dever de salvar.
Nenhum dos pensadores, no entanto, tem uma visão geralmente consequencialista. Rawls apela
para o que as partes na posição original aceitariam e Wellman (2005, 33) acaba apelando para
um princípio não-consequencialista de equidade.
6
O exemplo é de Singer (1993, 229).
7
Rand, 1964, 49; Narveson 1993, capítulo 7.
8
Hume 1987, 480.
9
Wellman 2005, 17–19.
5. Consequencialismo e Equidade 78

5.1.4 O problema da redundância individual


Pode ser verdade que é necessária obediência geral à lei para que o governo for-
neça os benefícios que isso proporciona. Mas não é verdade que toda lei deve ser
geralmente obedecida; muitas leis são rotineiramente desprezadas sem o colapso
do governo como resultado. Tampouco é verdade para qualquer indivíduo que a
obediência desse indivíduo seja necessária para que o governo forneça os benefí-
cios que isso proporciona. É plausível que exista algum nível de desobediência
que cause um colapso governamental. Mas enquanto estamos longe desse nível,
qualquer indivíduo pode desobedecer sem consequências para a sobrevivência do
governo.
Obviamente, existem algumas leis que você deve obedecer por razões morais
independentes. Por exemplo, você não deve roubar outras pessoas. Isso não ocorre
porque você pode destruir o governo. Isso ocorre porque roubar outras pessoas
seria uma injustiça para essas pessoas específicas roubadas. Este não é um exemplo
para obrigação política; é simplesmente um exemplo de uma obrigação moral geral
para com outras pessoas. Muitas outras leis correspondem de maneira semelhante
a princípios morais convincentes. Para defender a obrigação política, é preciso
argumentar que existe uma obrigação independente de conteúdo de obedecer à lei
porque é a lei (Seção 1.5) – ou seja, que é preciso obedecer até as leis que não
correspondem a princípios morais independentes.
Volte ao caso da criança se afogando no lago raso (Seção 5.1.3). Mas desta
vez, suponha que haja outras três pessoas por perto, prontas para salvar a criança.
Eles não precisam de ajuda; não há perigo de que a criança se afogue ou sofra
outros danos graves se você não ajudar. Além disso, os outros vão entrar na lagoa e
enlamear suas roupas, quer você também entre ou não. Nesse caso, você ainda deve
pular para ajudar a salvar a criança? Fazer isso significaria simplesmente assumir
custos sem nenhum benefício adicional para ninguém. Seu desejo de evitar que
suas roupas fiquem enlameadas ou que falte às aulas certamente não justificaria
permitir que uma criança se afogasse. Mas isso não justificaria permitir que uma
criança fosse salva inteiramente pelos outros ao contrário de parcialmente por você?
O caso de um cidadão que decide se deve obedecer à lei é mais análogo a esta
última versão da história da criança que se afoga do que à versão original: embora
o funcionamento governamental exija obediência, já existem pessoas em número
suficiente obedecendo a lei para que o governo não esteja em perigo de desmoronar
se você desobedecer. Essas outras pessoas continuarão a obedecer, independen-
temente de você obedecer ou não. Nessa situação, sua própria obediência é tão
redundante quanto um socorrista extra pulando no lago quando já existem três
socorristas que saem para salvar a criança.
5. Consequencialismo e Equidade 79

5.2 Consequencialismo de regras


Afirmo que alguém pode infringir a lei quando o que a lei ordena não é moralmente
exigido independentemente e não há consequências negativas sérias. Esse tipo de
sugestão geralmente recebe o desafio: “E se todos fizessem isso?” Esta pergunta
pretende sugerir um argumento moral contra o tipo de comportamento em questão,
mas o conteúdo exato do argumento não é óbvio. Não parece ser um simples apelo
consequencialista – a sugestão não é que, ao infringir a lei, é provável que alguém
realmente faça com que todos façam a mesma coisa (o que conta exatamente
como “a mesma coisa”). Em vez disso, a sugestão parece ser que o fato de que
seria ruim se todos fizessem algo é, por si só, uma forte razão para não fazer
isso. Essa ideia está intimamente relacionada ao consequencialismo de regras em
ética. O consequencialismo de regras sustenta que, em vez de sempre escolher a
ação específica que produzirá as melhores consequências dadas as circunstâncias
atuais, deve-se agir de acordo com regras gerais e deve-se escolher as regras que,
se geralmente adotadas, terão as melhores consequências.10
Em alguns casos, essa ideia é plausível. Veja o caso de um gramado recém-
plantado em um campus universitário. Alunos e professores são tentados a cortar
atalhos pelo gramado enquanto caminham de prédio em prédio. Uma pessoa cor-
tando o gramado não terá efeito perceptível. Mas se todo mundo fizer isso, o
gramado intocado será marcado por uma trilha feia atravessada no meio. Supo-
nha que o desvalor estético do caminho supere o benefício total que ele oferece em
termos de tempo economizado. Nesta situação, muitos acham plausível que não
se deva atravessar o gramado. Parece ser uma ilustração do princípio “E se todos
fizessem isso?”, o princípio de que não se deve fazer o que seria ruim se praticado
em geral.
Mas em outros casos, o princípio parece absurdo. Suponha que eu decida me
tornar um filósofo profissional. Isso parece permitido. Mas e se todo mundo fizesse
isso? Todo mundo filosofava o dia todo, e todos nós passaríamos fome. Presumi-
velmente, isso não mostra que é moralmente errado ser um filósofo profissional. Na
verdade, não vamos morrer de fome, porque nem todos os agricultores se tornarão
filósofos apenas porque eu decido me tornar um. Nesse caso, “O que aconteceria
se todos fizessem o que eu faço?” parece irrelevante.
Pode-se tentar salvar o consequencialismo de regras dessa objeção, adotando
uma visão mais sutil da “regra” em que estou usando. Talvez quando decido me
tornar um filósofo, não estou agindo com a regra “Seja um filósofo”, mas com al-
guma regra mais complexa, como “Seja um filósofo, desde que já não haja muitos
filósofos” ou “Escolha a profissão que melhor se adequa a você, desde que haja pes-
soas suficientes em outras profissões para que você não tenha sérias consequências
10
Brandt 1992, capítulo 7.
5. Consequencialismo e Equidade 80

negativas.” Se todo mundo agisse de acordo com uma dessas regras, nem todos
morreríamos de fome.
Mas, assim como posso afirmar estar seguindo a regra “Seja um filósofo, desde
que não haja muitos filósofos” ou “desde que não haja consequências negativas
sérias”, os indivíduos que optarem por violar a lei muitas vezes afirmam estar se-
guindo alguma regra como “infringir a lei quando o que a lei ordena não é moral-
mente exigido independentemente, desde que não haja muitas pessoas infringindo
a lei” ou “[. . . ] desde que você faça isso não terá sérias consequências negativas.”
A condição tachada no final desta regra é perfeitamente paralela à disposição ta-
chada na regra “Seja um filósofo”; portanto, qualquer que seja a lógica que nos
permita incluir a última condição, quase certamente licenciará a inclusão da pri-
meira. Parece, então, que o consequencialismo de regras em si só é defensável se
não apoiar uma defesa geral da obrigação política.

5.3 Equidade
5.3.1 A teoria da equidade da obrigação política
Outro argumento sustenta que é preciso obedecer à lei porque desobedecer é injusto
para outros membros da sociedade, que geralmente obedecem.11 Vou me referir a
esse tipo de obrigação como uma obrigação de “fair play” (jogo limpo).
O argumento não é consequencialista – a alegação não é de que a desobedi-
ência causará consequências prejudiciais. No entanto, é fácil passar das teorias
consequencialistas para a teoria da equidade. Uma vez que percebemos que a
desobediência individual não tem consequências prejudiciais, é natural passar a
governar o consequencialismo, apelando para as consequências da desobediência
geral. Mas encontramos muitos casos, como o de uma pessoa que decide se tornar
um filósofo acadêmico, em que não há nada de errado em fazer algo que seria ex-
tremamente ruim para todos fazerem. Devemos, então, explicar o que diferencia
os casos em que parece errado executar uma ação que seria ruim para todos faze-
rem dos casos em que parece perfeitamente correto executar essa ação. A teoria
da equidade oferece uma resposta atraente para essa pergunta: é uma questão de
saber se a ação trata os outros de maneira injusta.
Não há nada injusto em me tornar um filósofo, apesar do fato de que seria ruim
se todo mundo fizesse isso. Sendo um filósofo, por exemplo, não aumentei a carga
de membros de outras profissões. Pelo contrário, membros de outras profissões
preferem menos concorrência no mercado e, portanto, preferem que menos pessoas
se juntem à sua profissão.
11
Hart 1955, 185–6; Rawls 1964; Klosko 2005.
5. Consequencialismo e Equidade 81

Contraste o seguinte cenário. Você está em um barco salva-vidas com várias


outras pessoas. Você é pego em uma tempestade e o barco está enchendo de
água, precisando ser esvaziado. Outros passageiros pegam potes e começam a
socorrer. Os esforços dos outros passageiros são claramente suficientes para manter
o barco à tona; portanto, não haverá grandes consequências negativas se você se
recusar a ajudar. No entanto, parece óbvio que você devia ajudar a retirar a água.
Intuitivamente, seria injusto deixar os outros fazerem todo o trabalho.
Por que isso seria injusto? As características importantes da situação parecem
ser as seguintes:

i Há um grande bem sendo produzido pelas ações de outras pessoas – nesse caso,
que o barco permaneça à tona. Por outro lado, se os outros estivessem fazendo
algo prejudicial (digamos, colocando água no barco), inútil (digamos, rezando
para Poseidon) ou apenas de valor trivial (digamos, entretendo-nos contando
histórias), então você não estaria obrigado a ajudar.

ii Os demais assumem um custo que é causalmente necessário para a produção


do bem. Nesse caso, o custo é o esforço envolvido na retirada da água.

iii Você recebe uma parte justa do benefício que está sendo produzido. Nesse
caso, você evita afogamentos.12

iv Sua participação no esquema cooperativo contribuiria causalmente para a pro-


dução do bem.

v Os custos de participação para você seriam razoáveis e não significativamente


maiores que os custos assumidos por outras pessoas.

vi Sua participação não interferiria em fazer algo mais importante. Por exemplo,
suponha que, em vez de retirar a água, você decida amarrar os suprimentos no
barco para evitar que caiam no mar. Suponha que isso seja mais importante
do que ajudar a retirar a água. Nesse caso, não é injusto se abster de ajudar
na retirada da água.

Quando essas seis condições são satisfeitas, é injusto recusar-se a contribuir


para a produção do bem.
Os advogados do argumento fair play dizem que desobedecer à lei é tratar injus-
tamente outros membros da sociedade. O governo produz benefícios significativos.
Outros membros da sociedade, pagando impostos e obedecendo às leis, assumiram
12
Alguns filósofos sustentam que a pessoa tem uma obrigação de equidade de ajudar em um
esquema cooperativo somente se aceitar livremente os benefícios do esquema (Rawls 1964, 10;
Simmons 1979, 107–8; 2001, 30–1). O exemplo de retirar a água do barco sugere que a livre
aceitação não é necessária.
5. Consequencialismo e Equidade 82

os custos necessários para fornecer esses benefícios. Todos nós compartilhamos


pelo menos alguns dos benefícios do governo e a maioria recebe uma parte justa
desses benefícios. Cada um de nós pode contribuir causalmente para fornecer os
benefícios pagando impostos e obedecendo às leis. O custo é significativo, mas é
tipicamente comparável aos custos suportados por terceiros e é razoável em vista
dos benefícios. Portanto, seria injusto não fazer nossa parte no apoio ao governo
pagando impostos e geralmente obedecendo às leis.

5.3.2 Obediência como custo de bens políticos


Nas situações em que existe uma obrigação de fair play, normalmente não se é
obrigado a fazer o que os outros participantes do esquema cooperativo pedem
para fazer apenas porque pedem que o faça. No caso da retirada da água, suponha
que um dos outros salvadores lhe diga para fazer um sanduíche para ele. Você não é
moralmente obrigado a fazer isso. O que você é obrigado a fazer é apenas contribuir
causalmente para fornecer os benefícios, não prestar obediência ou lealdade geral
a ninguém.
Como, então, a noção de equidade deve gerar obrigação política? O argumento
é que, neste caso em particular, a obediência à lei constitui compartilhar o custo
de fornecer os benefícios do esquema cooperativo. Como discutido anteriormente
(Seção 5.1.2), os benefícios centrais do governo incluem a proteção contra injustiças
cometidas por criminosos ou governos estrangeiros e o fornecimento de regras pre-
visíveis para a cooperação social. Portanto, o argumento deve ser que a obediência
à lei contribui causalmente para fornecer esses benefícios.
No caso de algumas leis, é muito plausível que a obediência contribua para a
provisão desses benefícios e, portanto, conte como uma participação nos custos de
sua provisão. Considere as leis contra assassinato e roubo. Ao obedecer a essas
leis, contribuo diretamente para o bem da segurança de outros membros da minha
sociedade. Mas isso obviamente não exemplifica a obrigação política, porque tenho
uma obrigação independente da lei de respeitar os direitos dos outros. Não está
claro que a existência de uma lei contra assassinato aumente minha obrigação moral
de não cometer um assassinato, nem na “inequidade” envolvida no assassinato de
alguém.
As leis tributárias fornecem um exemplo mais crível. Aqui está muito claro
como a obediência contribui para a provisão de benefícios governamentais: o di-
nheiro dos impostos será usado para contratar juízes, policiais, soldados e assim
por diante. Portanto, ao pagar impostos, é preciso compartilhar os benefícios do
governo. Este é um exemplo de obrigação política, pois não seria obrigado a pagar
esse dinheiro se a legislação tributária não existisse.
Outras leis são mais problemáticas. Para dar um exemplo, nos Estados Unidos
e na maioria dos outros países, é ilegal fumar maconha. De que maneira a obedi-
5. Consequencialismo e Equidade 83

ência a essa lei constitui um compartilhamento dos custos de fornecer proteção a


governos estrangeiros ou criminosos domésticos ou fornecer regras previsíveis para
a cooperação social? Como alguém, ao se abster de fumar maconha, contribui cau-
salmente para a segurança da sociedade? Este não é um caso trivial ou periférico.
A aplicação das leis sobre drogas é uma parcela muito grande da aplicação da lei
nos Estados Unidos, onde os infratores respondem por cerca de 25% dos presos
locais, 20% dos presos estaduais e 52% dos presos federais.13 Enquanto escrevo,
mais de meio milhão de americanos estão presos por acusações relacionadas às
drogas.14
Este também não é um exemplo isolado. Muitas outras leis levantam questões
semelhantes. Nos Estados Unidos, é ilegal fornecer aconselhamento jurídico a pes-
soas sem admissão na guilda (mesmo que você informe explicitamente de que seus
conselhos não foram admitidos e que as pessoas desejam seu conselho de qualquer
maneira). É ilegal pagar para uma hora de trabalho menos de 7,25 dólares. Ou
comprar sexo por qualquer quantia de dinheiro. Ou vender alimentos embalados
sem listar na embalagem o número de calorias que contêm. Ou administrar uma
empresa privada que entrega cartas para as pessoas. É ilegal vender estévia como
aditivo alimentar, embora seja legal vendê-lo como um “suplemento dietético”. E
assim por diante. Essas são apenas algumas das centenas de milhares de restrições
legais em vigor nos Estados Unidos.
Em todos esses casos, é difícil ver a conexão entre o comportamento legalmente
exigido e o compartilhamento de custos para a prestação de serviços governamen-
tais essenciais. Parece que o Estado poderia muito bem fornecer os bens descritos
na Seção 5.1.2 sem nenhuma das leis descritas nos dois parágrafos anteriores.15
A obediência à lei, de acordo com os defensores do argumento fair play, é
análoga a ajudar a retirar a água de um barco salva-vidas. Mas, em vista das leis
mencionadas, uma analogia mais próxima seria a seguinte. O barco salva-vidas
13
Estatísticas recentes sobre o encarceramento de traficantes de drogas nas prisões estaduais e
federais são do Departamento de Justiça dos EUA 2010b, 37–8. A estatística mais recente sobre
infratores relacionados às drogas nas prisões locais é do Departamento de Justiça dos EUA 2004,
1, relatando que 24,7% dos presos eram infratores em 2002. As classificações são baseadas no
crime mais grave pelo qual um preso foi preso.
14
Essa estimativa baseia-se no pressuposto de que 24,7% dos presos locais são delinquentes
relacionados às drogas (Departamento de Justiça dos EUA 2004, 1), juntamente com a popula-
ção carcerária de 2008, conforme relatado no Departamento de Justiça dos EUA em 2009. As
estatísticas para prisões estaduais e locais são do Departamento de Justiça dos EUA (2010a,
37–8). O número total de presos de todas as classes de crime, incluindo instituições estaduais,
locais e federais, é de cerca de 2,3 milhões de pessoas.
15
Alguém poderia argumentar que, para fornecer segurança com eficácia, o Estado deve ter
um certo grau de deferência por parte dos cidadãos – os cidadãos devem concordar em não julgar
cada lei individualmente por si mesmos – e isso faz parte do custo da segurança. Abordo essa
ideia na Seção 7.5.
5. Consequencialismo e Equidade 84

está enchendo de água. Os passageiros se reúnem e discutem o que fazer com o


problema. A maioria (sem incluir você) quer que Bob crie uma solução. Bob pensa
por um minuto e depois anuncia o seguinte plano:

i Todos os passageiros devem começar a retirar a água do barco;

ii oração a Poseidon para pedir sua misericórdia;

iii devem se flagelar com cintos para provar sua seriedade; e

iv cada um pagará $50 a Sally, que ajudou Bob a ser eleito.

Você sabe que o item (i) é útil, o item (ii) é inútil e os itens (iii) e (iv) são
prejudiciais para a maioria dos passageiros. No entanto, a maioria dos outros
passageiros participa das quatro partes do plano de Bob. Se você se recusa a orar,
a se autoflagelar ou a pagar Sally, você age de maneira errada? Você trata os
outros passageiros de maneira injusta?
Não orar a Poseidon, não se chicotear e não pagar Sally não é injusto, porque
essas ações não contribuiriam causalmente para o bem de manter o barco à tona.
Se outros passageiros se sentirem magoados por estarem se chicoteando enquanto
você não sofre, o remédio é simples: eles devem parar de se chicotear. A culpa
está neles mesmos e em Bob, não em você.
Lembre-se de que as obrigações políticas devem ser independentes de conteúdo
(Seção 1.5) – isto é, diz-se que é preciso seguir a lei independentemente de seu
conteúdo (dentro de algumas restrições amplas) e independentemente da lei estar
correta. A discussão acima sugere que este não é o caso. É preciso examinar
o conteúdo de uma lei específica para determinar se o comportamento que ela
prescreve realmente contribui para o fornecimento de bens políticos antes que se
possa dizer se alguém tem alguma razão justa para seguir essa lei.
Alguns argumentam que, mesmo que uma determinada lei não seja necessária
para desempenhar as funções centrais do governo, a obediência a essa lei ainda
faz parte do custo da prestação de serviços governamentais essenciais, porque a
desobediência corre o risco de derrubar o governo e toda a ordem social. Nós
criticamos esse tipo de reivindicação acima (Seção 5.1.4). Mas, se fosse verdade,
faria tanto para minar a legitimidade política independente de conteúdo quanto
apoiaria as obrigações políticas independentes de conteúdo. Presumivelmente, se
os indivíduos são obrigados a ajudar a manter a ordem social, o Estado também
é obrigado. Se a desobediência a qualquer lei corre o risco de causar um colapso
da ordem social, então o Estado, ao elaborar leis que não são necessárias para
manter a ordem social e que provavelmente são amplamente desobedecidas, está
ameaçando a ordem social muito mais do que um único indivíduo quem desobe-
dece a uma dessas leis. Além disso, pedir ao Estado que renuncie ao seu desejo
5. Consequencialismo e Equidade 85

de fazer leis desnecessárias é mais razoável e menos oneroso do que pedir a um


indivíduo que renuncie a suas liberdades pessoais. Portanto, se alguém defende
que o indivíduo, no entanto, deve obedecer a essas leis quando elas são feitas, é
muito mais claro que o Estado não deve fazer essas leis. E, portanto, não se pode
defender simultaneamente a obrigação e a legitimidade política sob essa visão.

5.3.3 Obrigação política para dissidentes


Um segundo problema para o argumento fair play refere-se àqueles que não en-
dossam as atividades do Estado. Isso inclui algumas pessoas que sentem que não
precisam do Estado; por exemplo, eremitas que vivem isolados ou povos indígenas
que prefeririam que os colonos europeus nunca tivessem chegado ao seu continente.
Inclui aqueles que são moral ou ideologicamente opostos ao governo em geral (anar-
quistas). Inclui pessoas que, embora apoiem a ideia geral de governo, acreditam
que o tipo adequado de governo é radicalmente diferente do governo que possui.
E inclui pessoas que se opõem a programas governamentais específicos, mas são
forçadas a contribuir com eles. Por exemplo, os pacifistas podem não querer o
alegado bem de uma força militar, mas devem pagar por isso da mesma forma que
todos os outros.
Vimos que é difícil considerar uma obrigação de ajudar em projetos inúteis ou
prejudiciais. Aqui, vemos que também é difícil explicar uma obrigação de ajudar
em projetos aos quais sinceramente se opõe, mesmo sendo a oposição fundamen-
tada ou não. Retorne ao exemplo do barco salva-vidas. Desta vez, suponha que os
outros passageiros no barco salva-vidas acreditem que orar a Jeová os ajudará a
permanecer à tona. Suponha, inclusive, que estejam corretos nessa crença: Jeová
existe e é receptivo à oração peticionária. Desde que a grande maioria ore, Jeová
os ajudará. Mas Sally não acredita nisso. Sally acredita que orar a Jeová provavel-
mente será prejudicial, porque ofenderá Cthulhu. Ela, portanto, se opõe ao plano
dos outros passageiros. Nessa situação, seria injusto que Sally se recusasse a orar
a Jeová?
Se a existência de Jeová e a eficácia da oração peticionária fossem fatos fa-
cilmente verificáveis, que Sally poderia ser responsabilizada por não saber, talvez
Sally tivesse uma obrigação moral de orar a Jeová. Mas suponha que esse não seja
o caso. Suponha que esses sejam assuntos sobre os quais haja discordância razoável
e que a visão de Sally seja racional ou pelo menos não muito menos racional do
que a da maioria dos passageiros. Nesse caso, não é errado Sally se abster de orar
a Jeová. Ela não está buscando obter algum tipo de vantagem injusta sobre os
outros nem lucrar com o trabalho dos outros. Se os outros tentassem forçar Sally
a participar de suas orações, eles e não ela agiriam injustamente.
No caso político, existem várias pessoas que se opõem a vários programas go-
vernamentais. Essas não são pessoas que buscam carona nos esforços de outras
5. Consequencialismo e Equidade 86

pessoas – elas não estão simplesmente desejando que outras pessoas suportem
os custos dos programas. Eles não querem que esses programas existam. Em
muitos casos, eles consideram os projetos governamentais seriamente injustos ou
moralmente inaceitáveis. E, em muitos casos, sua visão, correta ou incorreta, é
perfeitamente razoável. Acho que esse é o caso dos que se opõem à presença dos
EUA no Afeganistão, à proibição das drogas, às restrições de imigração e a várias
outras leis ou projetos governamentais controversos. Existem até alguns que con-
sideram injustamente a própria instituição do governo. Se alguém razoavelmente
considera um projeto injusto ou imoral, dificilmente será um free rider, tirando
proveito dos outros ou tratando-os injustamente ao se recusar a apoiar esse pro-
jeto. Os indivíduos, portanto, não agem de maneira injusta quando se recusam a
cooperar com leis que consideram razoavelmente injustas.16 Novamente, portanto,
não há base para obrigação política independentes de conteúdo.

5.3.4 Particularidade e a questão de bens alternativos


Uma das condições para uma obrigação de participar com fair play de um esquema
de cooperação é que a participação de alguém não deve interferir com a realização
de algo mais importante [condição (6), Seção 5.3.1]. Mas obedecer à lei muitas
vezes interfere em fazer coisas mais importantes.
Por exemplo, suponha que você tenha a oportunidade de escapar com segurança
de $1.000 em impostos prescritos legalmente. Talvez fosse errado fugir dos impos-
tos para gastar o dinheiro em uma nova televisão. No entanto, seria permitido
fugir dos impostos para usar o dinheiro de uma maneira mais valiosa socialmente
do que entregá-lo ao governo. E é quase certo que essa opção esteja disponível – o
benefício social marginal de cada dólar concedido ao governo é muito menor que
o benefício social marginal de um dólar concedido a qualquer uma das várias ins-
tituições de caridade privadas extremamente eficazes.17 Nesse caso, não é errado
fugir dos impostos para enviar o dinheiro para a caridade; de fato, é louvável.
Obviamente, a maioria dos cidadãos paga impostos sob coação do Estado. Essa
coação serve de pretexto ao pagamento de impostos, mas não o torna louvável ou
obrigatório.
16
Contraste as opiniões dos defensores da autoridade política, como Rawls (1964, 5): “É,
obviamente, uma situação familiar em uma democracia constitucional em que uma pessoa se vê
moralmente obrigada a obedecer a uma lei injusta”.
17
Consulte http://www.givewell.org/ para obter análises de instituições de caridade, in-
cluindo uma lista das instituições de caridade mais eficazes.
5. Consequencialismo e Equidade 87

5.4 O problema da legitimidade


5.4.1 Uma explicação consequencialista da legitimidade
Normalmente, é errado ameaçar uma pessoa com violência para forçar conformi-
dade a algum plano seu. Isso geralmente é verdade mesmo que seu plano seja
mutuamente benéfico e moralmente aceitável. Portanto, suponha que você esteja
em uma reunião do conselho na qual você e os outros membros estejam discutindo
como melhorar as vendas da sua empresa. Você sabe que a melhor maneira de fazer
isso é contratar a Sneaku Ad Agency. Seu plano será moralmente inquestionável
e altamente benéfico para a empresa. No entanto, os outros membros não estão
convencidos. Então você pega sua arma e ordena que votem na sua proposta. Esse
comportamento seria inaceitável, mesmo que você esteja agindo em benefício de
todos e mesmo que seu plano seja o correto.
Mas um comportamento semelhante pode ser justificado em situações de emer-
gência. Retorne ao cenário do barco salva-vidas. O barco corre o risco de afundar,
a menos que a maioria dos passageiros comece a retirar água rapidamente. Desta
vez, no entanto, suponha que nenhum dos outros passageiros esteja disposto a re-
tirar a água. Você não pode executar a tarefa sozinho, e nenhuma quantidade de
raciocínio ou argumentação convencerá os passageiros míopes a pegar seus potes.
Finalmente, você puxa sua fiel Glock da jaqueta e ordena que os outros passagei-
ros comecem a resgatar o barco. Nesta situação, por mais que seja inadequado o
recurso à força, sua ação parece justificada.
Christopher Wellman oferece um exemplo com uma lição semelhante.18 Amy
tem uma emergência médica e precisa ser levada ao hospital imediatamente. Beth
está ciente disso, mas não tem veículo para transportar Amy. Então, ela rouba
temporariamente o carro de Cathy para levar Amy ao hospital. Esta ação viola os
direitos de propriedade de Cathy. No entanto, o ato é permitido, desde que não
haja outras maneiras de salvar Amy sem cometer pelo menos violações de direitos
igualmente sérias.
Esses exemplos sugerem o seguinte princípio geral: é permitido coagir uma
pessoa ou violar seus direitos de propriedade, desde que isso seja necessário para
impedir que algo muito pior aconteça. Assim, talvez o Estado seja justificado em
coagir as pessoas e apreender a propriedade delas através de impostos, porque
isso é necessário para evitar um colapso virtual da sociedade. Se o Estado não
aplicasse as leis de maneira coercitiva, muitas pessoas as violariam e, se o Estado
não coletasse coercivamente o dinheiro dos impostos, o Estado não poderia operar.
Em qualquer um desses casos, o Estado não poderia fornecer os benefícios sociais
cruciais descritos na Seção 5.1.2 acima.
18
Wellman 2005, 21.
5. Consequencialismo e Equidade 88

5.4.2 Abrangência e independência de conteúdo


Na versão do cenário do barco salva-vidas discutida na Seção 5.4.1, você tem o
direito de usar coerção para salvar todos no barco. Mas esse direito não é abran-
gente nem independente de conteúdo. Seu direito de coagir é altamente específico
e depende do conteúdo: depende de você ter um plano correto (ou pelo menos bem
justificado) para salvar o barco, e você pode coagir outros apenas para induzir a
cooperação com esse plano. Mais precisamente, você deve pelo menos ser justifi-
cado em acreditar que os benefícios esperados de impor coercivamente seu plano
aos outros são muito grandes e muito maiores do que os danos esperados. Você
não pode coagir outras pessoas a induzir comportamentos prejudiciais ou inúteis
ou comportamentos projetados para servir a propósitos ulteriores, não relaciona-
dos à emergência. Por exemplo, se você exibir sua arma de fogo e ordenar que
todos comecem a colocar a água do oceano para dentro do barco, estará agindo de
maneira errada – e da mesma forma, se usar a arma para forçar os outros a orar
a Poseidon, se baterem com cintos ou não pagarem os $50 para sua amiga Sally.
Os conteúdos são semelhantes no cenário de roubo de carros de Wellman. Amy
tem eticamente o direito de violar a propriedade do carro de Cathy. Mas esse
direito é altamente específico de conteúdo: Amy não pode violar os direitos de
propriedade de Cathy da maneira que ela escolher. Ela não pode pegar o carro e
afastar Beth do hospital. Não pode levar Beth ao hospital e depois pegar o carro
para dar uma volta nas montanhas. Não pode vasculhar o porta-luvas procurando
objetos de valor. Amy pode usar o carro de uma maneira muito específica: levar
Beth ao hospital. Nada mais.
Se, portanto, contamos com casos como esse para explicar o direito do Es-
tado de coagir ou violar os direitos de propriedade de seus cidadãos, a conclusão
apropriada é que os poderes legítimos do Estado devem ser altamente específicos
e dependentes de conteúdo: o Estado pode coagir indivíduos apenas de maneira
mínima necessária para implementar um plano correto (ou pelo menos justificado)
para proteger a sociedade dos tipos de desastres que supostamente resultariam da
anarquia. O Estado não pode coagir as pessoas a cooperar com medidas prejudi-
ciais ou inúteis ou com as quais não temos boas razões para considerar eficazes.
Tampouco o Estado pode estender o exercício da coerção para perseguir qualquer
objetivo que pareça desejável. O Estado pode receber dos cidadãos a quantidade
mínima de dinheiro necessária para fornecer os “bens indispensáveis” que justifi-
cam sua existência.19 Não pode pegar um pouco a mais para comprar algo de bom
pra si mesmo.
Quantas atividades governamentais podem ser consideradas legítimas com essa
consideração? As leis e políticas domésticas podem ser divididas em nove catego-
19
Sobre bens indispensáveis, veja Klosko 2005, pp. 7–8.
5. Consequencialismo e Equidade 89

rias, dependendo das motivações por trás delas (essas categorias não são mutua-
mente exclusivas):

1. Leis projetadas para proteger os direitos dos cidadãos; por exemplo, as leis
contra assassinato, roubo e fraude.

2. Políticas destinadas a fornecer bens públicos, no sentido econômico do termo;


por exemplo, defesa militar e proteção ambiental.20

3. Leis paternalistas, projetadas para impedir que as pessoas se prejudiquem;


por exemplo, leis de cinto de segurança e leis sobre drogas.

4. Leis moralistas, projetadas para impedir comportamentos considerados “imo-


rais” por algum motivo que não sejam danos a si mesmos ou a outros ou
violação dos direitos de outros; por exemplo, leis contra prostituição, jogo e
drogas.

5. Políticas destinadas a ajudar os pobres; por exemplo, programas de assistên-


cia social, subsídios educacionais e leis de salário mínimo.21

6. Políticas rent-seeking; isto é, políticas, exceto as da categoria (5), projeta-


das para conferir vantagens econômicas a algumas pessoas em detrimento
de outras; por exemplo, subsídios concedidos a indústrias politicamente po-
derosas, contratos militares lucrativos concedidos a empresas com vínculos
com funcionários do governo e requisitos de licenciamento que protegem da
concorrência os trabalhadores existentes em uma profissão.

7. Leis projetadas para garantir o monopólio do Estado e promover seu poder e


riqueza; por exemplo, leis tributárias, leis de curso legal e leis que impedem
a concorrência privada com órgãos governamentais, como os correios e a
polícia.

8. Políticas destinadas a promover outras coisas que são consideradas boas em


geral, além dos produtos listados acima; por exemplo, provisão de escolas
pelo governo, patrocínio do governo para as artes e programas espaciais do
governo.
20
No sentido econômico do termo, um bem público é um bem com duas características: (1) é
incomparável, o que significa que o recebimento do bem por uma pessoa não reduz a disponibi-
lidade do bem a terceiros; (2) é inescrutável, significando que, se for fornecido, é impossível ou
muito dispendioso controlar quem o recebe.
21
Essas políticas também têm motivação parcialmente paternalista quando fazem algo diferente
de uma transferência direta de renda. Por exemplo, quando o Estado disponibiliza certos fundos
para cidadãos indigentes com a restrição de que o dinheiro só possa ser usado para comprar
educação, isso é parcialmente redistribuitivo e parcialmente paternalista.
5. Consequencialismo e Equidade 90

9. Leis e políticas que parecem ser motivadas simplesmente pela emoção, além
das consideradas acima; por exemplo, restrições à imigração e proibições ao
casamento gay.22

Quando pensamos no abstrato sobre a necessidade de lei e a importância de


obedecer à lei, temos principalmente em mente leis dos tipos (1), (2) e talvez (7).
Talvez leis desse tipo possam ser justificadas pelo tipo de argumento consequen-
cialista discutido na Seção 5.4.1. Mas, como sugere a lista acima, há muito mais
nas atividades de qualquer Estado moderno. E essas atividades extras, em regra,
não podem ser justificadas por argumentos consequencialistas.
Vamos estender um pouco mais a história do barco salva-vidas. Você forçou
os outros passageiros a retirar água do barco, poupando-o de afundar. Enquanto
você está com a arma, decide que pode também alcançar alguns outros objetivos
desejáveis. Você vê um passageiro comendo batatas fritas, o que aumentará o risco
de doenças cardíacas. Apontando a arma para ele, você ordena que ele entregue as
batatas fritas. Então você percebe um par de passageiros do outro lado do barco
jogando cartas. Quando você vê que eles apostaram dinheiro no jogo, ameaça-os
caso não parem de jogar. Outro passageiro tem algumas jóias caras, então você
a pega e distribui para alguns dos passageiros mais pobres. Você também recebe
$50 de todo mundo e dá para sua amiga Sally. Você ameaça atirar em qualquer
outro passageiro que tente fazer as mesmas coisas que você está fazendo. Então
você decide que seria bom ter um pouco de arte, forçando os outros passageiros
a entregarem alguns de seus pertences para poder fazer uma escultura com eles.
Por fim, você sente um desconforto em relação a um dos passageiros – não gosta
da aparência dele – e ordena que os outros passageiros o joguem no mar.
Todas essas ações são indefensáveis. Embora o seu uso inicial de coerção para
impedir que o barco salva-vidas afundasse fosse justificado, é absurdo sugerir que
a coerção seja justificada pelos tipos de motivos exibidos em qualquer uma das
suas ações posteriores nesta história. Esses motivos são análogos aos exibidos nas
políticas dos tipos (3) à (9) listados acima.23
Os exemplos específicos que dei dos tipos de política (3) à (9) não são impor-
tantes, desde que se concorde que existem (um número não trivial de) políticas
22
Ver Huemer 2010b sobre política de imigração; ver especialmente 460-1, sobre as motivações
para restrições à imigração.
23
Para ser explícito, aqui está uma lista de políticas governamentais análogas às suas ações na
história: Impedir o passageiro de comer batatas fritas: leis sobre drogas e outras leis paternalis-
tas. Proibir o jogo de cartas com aposta: leis contra o jogo e outras leis moralistas. Confiscar
jóias: bem-estar e outros programas de redistribuição de riqueza. Coletar dinheiro para Sally:
subsídios, contratos sem licitação e outras políticas motivadas por rent-seeking. Ameaçar atirar
em outros passageiros que fazem as mesmas coisas: proibições de vigilantismo e criação de gover-
nos concorrentes. Confiscar propriedades para fazer escultura: apoio estatal às artes. Arremessar
um passageiro ao mar: restrição à imigração e deportação de imigrantes ilegais.
5. Consequencialismo e Equidade 91

para cada um desses tipos. Não importa muito, por exemplo, se alguém não con-
corda que as leis de licenciamento são motivadas por rent-seeking, desde que se
concorde que um número significativo de leis seja motivado por rent-seeking. O
ponto é que o Estado tem muitas políticas e leis cujas motivações não justificam
a coerção necessária para implementá-las. Isso é um problema porque a autori-
dade do Estado geralmente é considerada abrangente e independente de conteúdo.
Em uma leitura muito rigorosa das condições de abrangência e independência de
conteúdo, a existência de apenas algumas leis que o Estado não tem o direito de
fazer impediria que ele tivesse autoridade genuína. Uma versão mais modesta das
condições de abrangência e independência de conteúdo sustentaria que o Estado
não possui autoridade genuína, a menos que pelo menos a maioria das coisas que
ele normalmente faz e que geralmente é considerado seu direito sejam de fato mo-
ralmente admissíveis. Se o leque de ações coercitivas que o Estado está realmente
autorizado a fazer é apenas uma pequena fração do que geralmente se pensa que
ele tem direito e do que o Estado de fato faz, então acho que o Estado não tem
realmente legitimidade de autoridade. E acho que devemos admitir que esse é
realmente o caso.

5.4.3 Supremacia
A autoridade do Estado também deve ser suprema, no sentido de que ninguém
mais tem o direito de coagir os indivíduos da maneira que o Estado faz, nem
alguém tem o direito de coagir o Estado. Isso também é difícil de explicar.
Modificando o cenário do barco salva-vidas mais uma vez, suponha que no barco
haja dois passageiros armados, Gumby e Pokey, cada um deles reconhecendo que
o barco salva-vidas precisa ser socorrido. Mais uma vez, os outros passageiros se
recusam resolutamente a salvar o barco. Gumby e Pokey sabem que a coerção é
necessária para salvar o barco, e qualquer um deles estaria justificado em tomar
as medidas necessárias. Mas Gumby é mais rápido em agir: ele pega sua arma e
força os outros passageiros a começarem a retirar a água do barco. Nesse ponto,
Gumby adquire algum tipo de supremacia?
Não ele não adquire. Se Pokey visse algum outro desastre iminente que só pode
ser evitado através da coerção, ele estaria justificado a usar coerção para evitá-lo.
Isso teria sido verdade se Gumby nunca estivesse no barco salva-vidas, e permanece
verdadeiro depois que Gumby usou coerção para evitar que o barco afundasse. O
ato coercitivo inicial de Gumby não impede a coerção justificada por outros, nem
reduz a gama de circunstâncias em que outros podem usar a coerção, de modo
que se torne mais fácil no futuro para Gumby ser justificado no uso da coerção do
que para qualquer outra pessoa no barco. Pokey também não estaria moralmente
impedido de tomar ações coercitivas para reforçar o esquema de retirada de água,
caso a aplicação de Gumby se mostre inadequada.
5. Consequencialismo e Equidade 92

Antes do ato coercitivo inicial de Gumby, seria verdade que Pokey poderia
usar a força permissivelmente contra Gumby, se isso fosse necessário para impedir
Gumby de violar seriamente os direitos de outras pessoas ou impedir que algo
muito ruim acontecesse. Após o ato coercitivo inicial de Gumby, isso permanece
igualmente verdadeiro. O simples fato de Gumby ter sido o primeiro a usar a
coerção para salvar o barco não o deixa imune a ser coagido em circunstâncias
nas quais normalmente seria permitido coagir alguém. Por exemplo, se, depois de
salvar o barco salva-vidas, Gumby tentasse roubar os passageiros, Pokey estaria
justificado em usar a força para defender os outros passageiros.
Parece, então, que o Estado não possui, por motivos consequencialistas, au-
toridade suprema. Outros agentes podem usar a força para alcançar os mesmos
objetivos que o Estado teria justificativa em usar a força para alcançar no caso
dos próprios esforços do Estado serem inadequados. Por exemplo, se o Estado
falhar em fornecer proteção adequada contra o crime, não há razão óbvia para que
agentes privados não forneçam segurança usando os mesmos métodos que o Estado
pode usar. Os agentes privados também podem usar a força para evitar desastres
que o Estado não tomou ação suficiente para evitar (novamente, nas mesmas cir-
cunstâncias em que o Estado pode usar a força). E agentes privados podem usar a
força contra o Estado quando necessário para impedir que o Estado cometa graves
violações de direitos ou para impedir que algo muito ruim aconteça.
Quando alguém pode usar a força contra os outros? É plausível sustentar que
indivíduos e organizações particulares são justificados em usar a força somente
quando

i eles têm uma forte justificativa para acreditar que o plano que estão tentando
implementar está correto (por exemplo, que produziria os benefícios pretendi-
dos e que esses benefícios seriam ótimos em comparação com a gravidade das
violações de direitos necessárias para implementar o plano);

ii eles têm uma forte justificativa para acreditar que o uso da força conseguiria
fazer com que seu plano fosse implementado; e

iii não há alternativas disponíveis para alcançar os benefícios sem pelo menos
violações igualmente graves de direitos.

Na realidade, essas condições são bastante restritivas e raramente são realiza-


das. É plausível que a maioria dos vigilantes reais viole a condição (i) e que a
maioria dos rebeldes e terroristas reais viole (i) e (ii). Portanto, a maioria dos
casos reais de vigilantismo ou terrorismo não deve ser endossada.
No entanto, a conclusão é uma rejeição da supremacia da autoridade governa-
mental, pois as qualificações mencionadas no parágrafo anterior se aplicam igual-
mente aos atores estatais. O Estado também deve ter forte justificativa para
5. Consequencialismo e Equidade 93

acreditar que cada um de seus planos implementados coercivamente está correto,


que seu uso da coerção será bem-sucedido e que não há alternativas melhores.
Se alguém se apoia em uma explicação consequencialista da legitimidade do tipo
que está sendo discutido, não há maneira aparente de escapar dessa conclusão.
Portanto, não há um sentido claro em que o Estado tenha autoridade suprema;
pode coagir indivíduos nos mesmos tipos de circunstâncias, pelos mesmos tipos de
razões, como agentes privados podem coagir indivíduos. E, assim como a maioria
dos atos de vigilantes e terroristas são injustificados, acho plausível que a grande
maioria das ações estatais também viole uma ou mais condições para a coerção
justificada.

5.5 Conclusão
Argumentos consequencialistas e baseados em equidade aproximam-se da justi-
ficação da autoridade política. No entanto, eles não podem fundamentar uma
autoridade independente, abrangente ou suprema de conteúdo para o Estado. O
Estado tem o direito, no máximo, de impor coercivamente políticas corretas e
justas para evitar danos muito graves.24 Ninguém tem o direito de impor coerci-
vamente políticas contraproducentes ou inúteis, nem aplicar políticas destinadas
a objetivos de menor importância. O Estado pode ter o direito de cobrar impos-
tos, administrar um sistema de polícia e tribunais para proteger a sociedade dos
violadores de direitos individuais e fornecer defesa militar. Ao fazer isso, o Es-
tado e seus agentes podem receber apenas os fundos mínimos e empregar apenas a
coerção mínima necessária. O Estado não pode impor coercivamente leis paterna-
listas ou moralistas, políticas motivadas pelo rent-seeking ou políticas destinadas
a promover bens desnecessários, como apoio às artes ou a um programa espacial.

24
O Estado carecerá mesmo desse direito se, como argumentado na Parte II, o Estado não for
necessário para o fornecimento de quaisquer bens vitais.
6

A Psicologia da Autoridade

6.1 A relevância da psicologia


Neste capítulo, reviso algumas evidências da psicologia e da história, sobre as
atitudes e o comportamento daqueles que estão sujeitos à (suposta) autoridade
de outras pessoas e sobre as atitudes e o comportamento daqueles que estão em
posições de autoridade. Essas descobertas são fascinantes por si mesmas. Elas
também têm, pelo menos de duas maneiras importantes, o ceticismo sobre a au-
toridade política defendida neste livro. Por um lado, os dados psicológicos se refe-
rem à questão de quanta confiança devemos depositar em nossas intuições sobre a
autoridade. Por outro lado, os dados psicológicos se referem à questão de quão de-
sejável ou prejudicial pode ser incentivar o ceticismo em relação à autoridade. No
presente capítulo, quando falo de “autoridades” e “figuras de autoridade”, quero
dizer pessoas e instituições socialmente reconhecidas como possuindo autoridade,
independentemente de terem ou não autoridade genuína em sentido normativo.
“Posições de autoridade” e “instituições de autoridade” devem ser entendidas da
mesma forma.

6.1.1 Este livro é perigoso?


Alguns defensores da autoridade se preocupam abertamente com as consequências
que podem resultar de ideias anarquistas. Se ideias como as que adianto neste livro
se concretizarem em nossa sociedade, alertam, haveria muito mais desobediência
ao governo.1 Essa desobediência, por sua vez, pode levar o Estado a se tornar
mais violento e opressivo.2 Ou, como advertiram Platão e Hume, isso pode levar
1
Honoré (1981, 42-4) expressa essa preocupação em relação ao anarquismo filosófico de Sim-
mons, uma doutrina mais moderada que a minha.
2
Por esse motivo, DeLue (1989, 1) adverte que a ampla aceitação do anarquismo filosófico
“seria uma tragédia para os regimes liberais”.

94
6. A Psicologia da Autoridade 95

a um colapso geral da ordem social.3 Livros como este, se não forem suficiente e
vigorosamente questionados por outros filósofos, poderão, em última análise, con-
tribuir para tais resultados. Isso não teria relação direta com a questão de saber se
este livro está correto em suas alegações centrais (promover uma tese correta pode
ser indesejável), mas incide diretamente na interessante questão de saber se esse
livro é ruim ou não deveria ter sido escrito. Abordarei essa preocupação nas se-
ções posteriores deste capítulo, depois de revisar algumas descobertas psicológicas
importantes.

6.1.2 O apelo à opinião popular


Outros defensores da autoridade política sugerem que o anarquismo deve ser rejei-
tado porque está muito longe da corrente principal da opinião política. A crença
nas obrigações políticas, escreve George Klosko, “é uma característica básica de
nossa consciência política”.4 Ele acredita que devemos aceitar opiniões comuns
como evidência prima facie em questões normativas, principalmente quando a
opinião filosófica é dividida. David Hume vai mais longe: “A opinião geral da
humanidade tem alguma autoridade em todos os casos; mas nesse aspecto moral é
perfeitamente infalível.”5 Se não há autoridade política, é natural perguntar, então
como tantas pessoas passam a ter uma crença tão firme nisso? Não é mais provável
que eu e um punhado de outros anarquistas estejamos errados do que quase todos
no mundo?
Por fim, não concordo com esse argumento. Considerando tudo, acho mais
provável de que os outros estejam enganados do que eu. (Obviamente, não acredi-
taria que eu próprio não considerasse mais provável que eu esteja mais certo do que
errado.) No entanto, o argumento não deve ser rejeitado às pressas ou pelas razões
erradas. Para dar um tratamento justo ao argumento, paro aqui para defender o
apelo à opinião popular contra objeções excessivamente fáceis.
Há quem rejeite os apelos à opinião popular, em princípio, como falaciosos
(supostamente a falácia do argumentum ad populum). Mas o que exatamente
deveria ser falacioso em apelar a opiniões populares? A ilustração mais citada do
alegado erro é o caso de Cristóvão Colombo; diz-se que quando Colombo queria
navegar ao redor do mundo, seus contemporâneos riram dele porque todos estavam
convencidos de que a Terra era plana. Mas Colombo acabou por estar certo. E
3
Ver Críton em 50d em Platão 2000 e Hume 1987, 480. Ambos os filósofos parecem preo-
cupados que mesmo uma pequena quantidade de desobediência, talvez apenas um único ato de
desobediência, levaria a esse resultado.
4
Klosko, 1992, p. 24. Klosko faz uma observação mais detalhada em seu capítulo 9 de 2005.
5
Hume 1992, seção III.ii.9, 552. Hume usa essa premissa para rejeitar a teoria do contrato
social, que em sua época exercia pouca influência sobre o público. Sua forte tese de infalibilidade
moral pode ser explicada por sua metaética anti-realista (1992, Seção III.i.1-2).
6. A Psicologia da Autoridade 96

isso, como se vê, mostra por que é tolice confiar nas opiniões da maioria.
Como uma nota histórica, a argumentação anterior é completamente impre-
cisa. Foi Colombo quem estava errado e aqueles que “riram dele” que estavam
certos no ponto principal da disputa. A ideia de que os contemporâneos de Co-
lombo pensavam que a Terra era plana é um mito moderno. Os gregos antigos
descobriram que a Terra era redonda e esse conhecimento nunca foi perdido.6 O
ponto real da disputa dizia respeito à distância do oeste da Europa para a Ásia.
Colombo pensou que essa distância era pequena o suficiente para navegar no tipo
de navios que então existiam; seus contemporâneos pensavam o contrário. Eles
estavam certos e Colombo estava errado: a distância real é cerca de quatro vezes
maior do que Colombo pensava. Se não fosse a descoberta inesperada das ilhas
do Caribe, Colombo e sua tripulação morreriam de fome no mar muito antes de
chegarem perto da Ásia.
Mas isso é apenas uma nota lateral de interesse histórico. Certamente há casos
em que grandes maiorias de pessoas mantêm crenças equivocadas. De fato, as
falsas crenças que a maioria das pessoas modernas mantém sobre Colombo e seus
contemporâneos são um exemplo disso. Mas que conclusão interessante se segue
dessa observação? Vamos considerar três conclusões que podemos tirar.
Primeiro, talvez o exemplo de Colombo (ou algum outro exemplo mais genuíno
de erro popular) pretenda mostrar que a existência de uma crença muito difundida
não fornece prova conclusiva para o que a maioria acredita, pois há alguns casos
em que essas crenças são falsas. Isto está obviamente correto. E isto Também é
totalmente desinteressante. Um método de formação de crenças não precisa ser
infalível para ser útil ou racional. Todos ou quase todos os métodos de formação
de crenças são falíveis, incluindo observação sensorial e raciocínio científico. Isso
não mostra que devemos evitar a observação, a ciência e quase tudo o mais como
“falacioso”.
Segundo, talvez o argumento de Colombo pretenda mostrar que a existência
de uma crença muito difundida não fornece nenhuma evidência para o que a mai-
oria acredita. Esta conclusão é muito mais interessante. E também é obviamente
injustificada. A existência de um único erro ou mesmo de muitos erros produzidos
por uma determinada fonte de informação não mostra que essa fonte é comple-
tamente inútil em termos de evidência. Para argumentar que a opinião popular
é evidentemente inútil, alguém teria que argumentar que a opinião popular não
é melhor que o acaso – em outras palavras, que crenças amplamente difundidas
não são corretas com mais frequência do que proposições surgidas aleatoriamente.
Mas esta última afirmação é obviamente falsa.
6
Lindberg 1992, 58; Russell 1991. No século IV a.C, Aristóteles discutiu os argumentos
que estabelecem a esfericidade da Terra (De Caelo, 297a9-297b20), e no terceiro século a.C,
Eratóstenes forneceu uma estimativa razoavelmente precisa da circunferência da Terra.
6. A Psicologia da Autoridade 97

Considere agora o leque de casos em que uma pequena minoria discorda da


maioria. Hoje, uma pequena minoria de pessoas pensa que a Terra é plana, que
os pousos na Lua foram falsificados ou que são possíveis máquinas de movimento
perpétuo; a maioria discorda. Algumas pessoas acreditam ser Jesus ou Napoleão
ou um super-herói, enquanto todos os que os rodeiam discordam. Em todos esses
casos, a maioria está certa e a minoria está errada. Às vezes, em uma aula de
ciências ou matemática, todos os alunos, exceto um, obtêm a mesma resposta
para um problema específico. Às vezes, em um grupo de várias pessoas, todas
testemunhando algum evento, uma pessoa se lembra do evento de maneira diferente
das outras. Em quase todos esses casos, novamente, a maioria está certa – o
único dissidente calculou mal ou tem um má lembrança. A explicação é uma
simples questão de probabilidade: para a maioria estar errada, o mesmo mau
funcionamento cognitivo ou mau funcionamento cognitivo que produz o mesmo
resultado deve ter ocorrido muitas vezes em cérebros diferentes. Para que uma
pessoa esteja errada, um mau funcionamento cognitivo precisa ter ocorrido apenas
uma vez. Este último é geralmente mais provável.
Terceiro e, finalmente, talvez o argumento de Colombo pretenda mostrar que
um apelo à crença popular não fornece fortes evidências para o que a maioria
acredita. Pode-se argumentar que a opinião popular, embora seja mais confiável
do que suposições aleatórias, não deixa de ser bastante confiável.
Mas como pretendemos inferir isso? Uma possibilidade é que devemos ver o
exemplo de Cristóvão Colombo e talvez alguns casos semelhantes como consti-
tuindo uma grande amostra aleatória de crenças populares, na qual uma grande
porcentagem (100%) se mostra falsa. Isso forneceria evidências sérias de falta de
confiabilidade. Outra possibilidade é que devemos simplesmente reconhecer, com
base no conhecimento e na experiência comuns, que o exemplo de Colombo é um
caso típico de um dissidente contra uma visão majoritária. Mas nenhuma dessas
possibilidades é fácil de se levar a sério. A “amostra” de crenças populares ofereci-
das nesse tipo de argumento geralmente contém apenas alguns casos, e o método
amostral é algo mais próximo de “seleção deliberada de casos com a característica
desejada” do que da “seleção aleatória”. Quanto à tipicidade, não seria um único
louco da conspiração no escritório que insiste que o “11 de setembro foi inside
job” e que o governo dos EUA criou a AIDS como um exemplo mais típico de
dissidente contra uma opinião da maioria do que Cristóvão Colombo? Com base
na experiência cotidiana, quantos “fiéis da tese do 11 de setembro” existem para
cada Colombo?7
Uma vez que enxergamos por que a opinião popular é, até certo ponto, relevante
em termos de evidências, é difícil não concluir que muitas vezes seja altamente rele-
vante. Novamente, normalmente é menos provável que algum mau funcionamento
7
Ver Stove (1995, 58-62) em The Columbus Argument para mais discussões.
6. A Psicologia da Autoridade 98

cognitivo ocorra várias vezes do que ocorra uma vez. Se for assim, normalmente é
muito menos provável que um mau funcionamento ocorra muitas vezes do que um
pequeno número de vezes. (O princípio está formalizado no Teorema do Júri de
Condorcet.)8 Discutirei abaixo possíveis exceções a essa regra.
O apelo à opinião popular, portanto, não é geralmente falacioso. Como regra,
crenças muito firmes e difundidas não devem ser facilmente deixadas de lado. Por-
tanto, é necessária uma reflexão considerável antes de deixarmos de lado a crença
comum na autoridade política. Devemos examinar cuidadosamente as teorias mais
importantes e promissoras da fonte de autoridade, conforme discutido nos capítu-
los 2 a 5 acima. Também devemos examinar as prováveis fontes de crenças sobre
a autoridade política, como no presente capítulo.

6.2 O experimento de Milgram


6.2.1 Método
Talvez o mais famoso estudo psicológico de obediência e autoridade tenha sido
o conduzido por Stanley Milgram na Universidade de Yale durante a década de
1960.9 Milgram reuniu voluntários para participar, supostamente, de um estudo
sobre memória. Quando cada sujeito chegou ao laboratório, recebeu US$ 4,50 (na
época um pagamento razoável), e lhe disseram que o pagamento era apenas pela
presença. Outro “voluntário” (na verdade um cúmplice do pesquisador) já estava
presente. O pesquisador (na verdade, um professor do ensino médio que Milgram
havia contratado para desempenhar o papel) informou a ambos que participa-
riam de um estudo sobre os efeitos da punição na aprendizagem. Um deles seria
designado como “professor” e o outro como “aluno”. Através de uma proposta
fraudulenta, o sujeito ingênuo foi selecionado como professor e o cúmplice como
aluno.
8
Ver a introdução a Condorcet de McLean e Hewitt 1994 (35–6). Condorcet observa que,
quando assumimos que os indivíduos são 80% confiáveis e a maioria supera a minoria em apenas
nove pessoas, a probabilidade da maioria estar correta excede 99,999%. O Teorema do Júri pode
ser enganoso, porque a suposição de independência probabilística raramente é satisfeita. No
entanto, um argumento qualitativo mais amplo pode ser feito; ou seja, que uma convergência de
fontes de informação em uma proposição específica apoia probabilisticamente essa proposição,
em maior grau do que uma única fonte de informação, desde que (i) cada fonte seja mais confiável
que um palpite aleatório, (ii) nenhuma fonte é completamente dependente da outra e (iii) uma
fonte não tem mais probabilidade de concordar com a outra se a última fonte estiver errada do
que se a última estiver correta. É muito plausível que essas condições sejam geralmente satisfeitas
quando as fontes são pessoas individuais.
9
O argumento a seguir no texto é baseada em Milgram 2009. Além da versão que descrevo no
texto (“Experiência 5”), Milgram detalha várias outras variações interessantes do experimento.
6. A Psicologia da Autoridade 99

O pesquisador explicou que o professor leria pares de palavras para o aluno, que
tentaria lembrar qual palavra estava associada a qual outra palavra. O professor
então questionaria o aluno. Cada vez que o aluno dava uma resposta errada, o
professor administrava um choque elétrico por meio de um gerador de choque de
aparência impressionante. Com cada resposta errada, os choques aumentavam em
intensidade, começando com um choque de 15 volts e aumentando em 15 volts
de cada vez. O experimentador deu ao professor uma amostra de choque de 45
volts para demonstrar como era (e convencer os participantes da autenticidade do
gerador de choque). O aluno mencionou que tinha um leve problema cardíaco e
perguntou se o experimento era seguro. O pesquisador garantiu que, embora os
choques fossem dolorosos, não eram perigosos. O aluno estava amarrado a uma
cadeira em outra sala com um eletrodo preso ao pulso, supostamente conectado
ao gerador de choque.
Em um horário fixo, o aluno cometeria erros, levando a choques cada vez mais
graves. Os interruptores no gerador de choque foram rotulados de 15 volts até
450 volts, juntamente com rótulos qualitativos que variavam de “Choque Fraco”
a “Perigo: Choque Severo”, seguidos por um sinistro “XXX” nos dois últimos
interruptores. Cada vez que o aluno cometesse um erro, o professor deveria usar
o próximo interruptor no gerador de choque. A 75 volts, o aluno já começava a
grunhir de dor. A 120 volts, gritava para o pesquisador que os choques estavam se
tornando dolorosos. A 150 volts, o aluno queixou-se de que seu coração o estava
incomodando e exigia sua libertação. Gritos desse tipo continuaram, até um grito
agonizante a 270 volts. A 300 volts, a vítima se recusou a fornecer mais respostas
ao teste de memória. O pesquisador instruiu o professor a tratar uma falha em
responder como uma resposta errada e a continuar administrando choques. A
vítima continuou a gritar e insistiu que não queria mais participar, reclamando do
seu coração novamente a 330 volts. Depois de 330 volts, no entanto, nada mais
foi ouvido do aluno. Quando o professor atingisse o interruptor final de 450 volts
no gerador de choque, o pesquisador instruiria o professor a continuar usando o
interruptor de 450 volts. Depois que o professor administrou o choque de 450 volts
três vezes, o experimento foi encerrado.
Se, em algum momento deste processo, o professor manifestasse relutância em
continuar, o pesquisador incitava o professor com um “por favor, continue”. Se
o professor expressasse repetidamente relutância, o pesquisador solicitava que “o
experimento exige que você continue”, então “é absolutamente essencial que você
continue” e, finalmente, “você não tem outra escolha. Você deve continuar.” Se o
professor ainda resistisse após o quarto estímulo, o experimento era interrompido.
6. A Psicologia da Autoridade 100

6.2.2 Previsões
O aluno, é claro, não recebeu verdadeiramente os choques elétricos. O verdadeiro
objetivo era determinar até que ponto as pessoas estariam dispostas a obedecer ao
pesquisador. Se você ainda não está familiarizado com o experimento, vale a pena
dedicar um momento para refletir, primeiro, sobre como você acha que deveria
ser o comportamento do professor, e segundo, o que você acha que a maioria das
pessoas faria.
As entrevistas pós-experimentos estabeleceram que as pessoas estavam conven-
cidas de que a situação era real e que o aluno estava recebendo choques elétricos
extremamente dolorosos. Sabendo disso, um professor claramente não deveria con-
tinuar administrando choques depois que o aluno exige que seja liberado. Fazer
isso seria uma violação grave dos direitos humanos da vítima. Em algum momento,
o experimento representaria tortura e assassinato. Embora o pesquisador tenha
algum direito de dirigir a condução de seu experimento, ninguém diria que ele tem
o direito de ordenar tortura e assassinato.
O que você teria feito se fosse um participante do experimento? Milgram
descreveu o experimento para estudantes, psiquiatras e adultos comuns e pediu que
previssem como se comportariam se estivessem no experimento e como a maioria
das outras pessoas se comportaria.10 Dos 110 entrevistados, todos disseram que
desafiariam o pesquisador em algum momento, explicando suas razões em termos
de compaixão, empatia e princípios de justiça. A maioria disse que se recusaria
a continuar além do choque de 150 volts (quando o aluno exige a liberação) e
ninguém se viu ultrapassando os 300 volts (quando o aluno se recusa a responder).
Já suas previsões sobre o comportamento de outras pessoas eram um pouco menos
otimistas: os entrevistados esperavam que apenas uma margem patológica de 1
a 2% da população continuasse até 450 volts. Os psiquiatras pesquisados por
Milgram pensavam que apenas um participante em mil continuaria até o final do
quadro de choque.

6.2.3 Resultados
O experimento de Milgram mostra algo surpreendente, não apenas sobre nossas
disposições para obedecer, mas também sobre nosso entendimento. As previsões de
psiquiatras, estudantes e leigos ficaram chocantemente distantes da realidade. No
experimento real, 65% dos indivíduos cumpriram completamente, eventualmente
administrando o choque de 450 volts por três vezes a uma vítima já silenciosa e
aparentemente sem vida. A maioria dos participantes protestou e mostrou sinais
óbvios de ansiedade e relutância – mas, por fim, fizeram o que lhes foi dito.
10
Milgram 2009, 27–31.
6. A Psicologia da Autoridade 101

Milgram acompanhou o experimento com pesquisas enviadas pelos participan-


tes. Apesar do estresse envolvido no experimento, praticamente ninguém se arre-
pendeu de participar. Aqueles que ouvem falar do projeto experimental, sem terem
participado, geralmente pensam: “As pessoas não o farão” e, em seguida, “Se o
fizerem, não serão capazes de viver com isso depois”. Mas, na verdade, Milgram
relata: os participantes obedientes não têm problemas com isso mesmo depois,
porque esses participantes em geral racionalizam seu comportamento, após o fato,
da mesma maneira que o racionalizaram no decorrer do experimento: eles estavam
apenas seguindo ordens.11

6.2.4 Os perigos da obediência


Que lições podemos tirar dos resultados da Milgram? Uma lição importante, a
mais proeminentemente desenvolvida pelo próprio Milgram, é a do perigo inerente
às instituições de autoridade. Como a maioria das pessoas está disposta a ir muito
longe, satisfazendo as demandas das figuras de autoridade, as instituições que
criam reconhecidas figuras de autoridade têm o potencial de se tornarem motores
do mal. Milgram traça um paralelo com a Alemanha nazista. Adolf Hitler, tra-
balhando sozinho, talvez pudesse ter matado algumas dezenas ou mesmo algumas
centenas de pessoas. O que lhe permitiu se tornar um dos maiores assassinos da
história foi a posição socialmente reconhecida de autoridade para a qual ele próprio
manobrou e a obediência inquestionável o renderam milhões de súditos alemães.
Assim como nenhum dos participantes de Milgram teria decidido por si próprio sair
e eletrocutar alguém, muito poucos alemães teriam decidido, por conta própria,
sair matando judeus. O respeito pela autoridade era a principal arma de Hitler. O
mesmo se aplica a todos os maiores males criados pelo homem. Ninguém jamais
conseguiu, trabalhando sozinho, matar mais de um milhão de pessoas. Tampouco
alguém jamais organizou tal mal recorrendo apenas ao lucro, interesse próprio puro
ou persuasão moral para garantir a cooperação de outros – exceto por confiar em
instituições de autoridade política. Com a ajuda de tais instituições, muitos des-
ses crimes foram cometidos, representando dezenas de milhões de mortes, além de
muitas outras vidas arruinadas.
É possível que essas instituições também cumpram funções sociais cruciais e
previnam outros males enormes. Mesmo assim, à luz dos fatos empíricos, devemos
perguntar se os seres humanos têm uma disposição muito forte para obedecer a
figuras de autoridade. Isso nos leva a uma lição intimamente relacionada, sugerida
pelos resultados de Milgram: a disposição da maioria das pessoas de obedecer às
autoridades é muito mais forte do que se poderia pensar à primeira vista – e muito
mais forte do que se poderia pensar justificado.
11
Milgram 2009, 195–6.
6. A Psicologia da Autoridade 102

6.2.5 A falta de confiabilidade de opiniões sobre autori-


dade
Outra lição interessante é esta: a experiência de ser submetido a uma autoridade
tem uma influência distorcida nas percepções morais de alguém. Todo mundo que
ouve sobre o experimento percebe corretamente o imperativo moral, em algum
momento, de rejeitar as exigências do pesquisador de continuar aplicando choque
à vítima. Nenhuma pessoa racional pensaria que a completa obediência ao pes-
quisador era apropriada. Mas quando uma pessoa está na situação, ela começa a
sentir a força das demandas do pesquisador. Quando Milgram perguntou a um
sujeito obediente por que ele não interrompeu o experimento, o sujeito respondeu:
“Eu tentei, mas ele [indicando o pesquisador] não me deixou.” O experimentador
de fato não exerceu força para obrigar os sujeitos a continuar – mas os sujeitos se
sentiam compelidos. Pelo quê? Pela pura autoridade do pesquisador. Depois que
uma pessoa é submetida a essa autoridade e obedecia, a distorção da percepção
ética frequentemente continua. O participante continua a achar suas ações justifi-
cáveis ou desculpáveis, alegando que estava apenas seguindo ordens – mesmo que
ninguém fora do experimento concordasse.
O paralelo à Alemanha nazista novamente se afirma. Enquanto quase todos os
observadores externos condenam as ações dos nazistas (e não apenas as de Adolf
Hitler, que deu as ordens finais), os oficiais nazistas famosos defenderam-se com
o apelo a ordens superiores. Isso era simplesmente uma manobra insincera para
escapar da punição? Provavelmente não; como os participantes de Milgram, os
oficiais provavelmente sentiram que tinham que obedecer às ordens. Na memo-
rável descrição de Hannah Arendt do caso, Adolf Eichmann pensou que estava
cumprindo seu dever obedecendo à lei da Alemanha, que estava inextricavelmente
ligada à vontade do Führer; ele se sentiria culpado se não seguisse a lei e o espírito
das ordens de Hitler.12 Ainda mais claramente, os soldados comuns do exército
alemão não podem ser considerados muito mais malignos do que os não-alemães
típicos como se quisessem participar independentemente em um genocídio. En-
quanto o anti-semitismo era desenfreado na Alemanha, não ocorreu assassinato
generalizado até que o governo ordenou os assassinatos. Somente então os solda-
dos comuns acharam que os assassinatos eram justificados ou exigidos. A história
registra muitos casos semelhantes. Durante a guerra do Vietnã, uma unidade do
exército americano realizou um massacre de centenas de civis em My Lai. Em
um dos crimes de guerra mais notórios da história do país, mulheres indefesas,
crianças e homens idosos foram reunidos e fuzilados em massa. Mais uma vez, os
soldados envolvidos juraram que estavam apenas seguindo ordens.13 Um soldado
12
Arendt 1964, 24–5, 135–7, 148–9.
13
Wallace e Meadlo 1969; Kelman e Hamilton 1989, 10–11.
6. A Psicologia da Autoridade 103

teria chorado durante o massacre, mas continuou atirando.14


A ampla aceitação da autoridade política tem sido citada como evidência da
existência de autoridade política (legítima). A evidência psicológica e histórica
mina esse apelo. Os nazistas, os soldados americanos em My Lai e os participantes
de Milgram não estavam claramente sujeitos a nenhuma obrigação de obediência
– muito pelo contrário – e as ordens que foram dadas eram claramente ilegíti-
mas. De fora dessas situações, podemos ver isso. No entanto, quando realmente
confrontados pelas demandas das figuras de autoridade, os indivíduos nessas situ-
ações sentiram a necessidade de obedecer. Essa tendência é muito difundida entre
os seres humanos. Suponha agora, hipoteticamente, que todos os governos eram
ilegítimos e que ninguém era obrigado a obedecer a seus comandos (exceto onde
os comandos se alinhavam com os requisitos morais preexistentes). As evidências
psicológicas e históricas não podem mostrar se essa hipótese ética radical é verda-
deira. Mas o que as evidências sugerem é que, se essa hipótese fosse verdadeira,
é bem provável que ainda nos sentíssemos obrigados a obedecer nossos governos.
Isso é provável, porque mesmo as pessoas sujeitas aos exemplos mais claros de po-
der ilegítimo ainda se sentem obrigadas a obedecer. E se sentimos essa necessidade
de obedecer, é provável que isso nos leve a pensar e dizer que éramos obrigados a
obedecer e depois – no caso dos mais filosóficos entre nós – a inventar teorias para
explicar por que temos essa obrigação. Assim, a crença generalizada na autoridade
política não fornece fortes evidências para a realidade da autoridade política, uma
vez que essa crença pode ser explicada como um produto de viés sistemático.

6.3 Dissonância cognitiva


De acordo com a teoria amplamente aceita da dissonância cognitiva, experimen-
tamos um estado desconfortável, conhecido como “dissonância cognitiva”, quando
temos duas ou mais cognições que estão em conflito ou tensão entre si – e parti-
cularmente quando nosso comportamento ou outras reações parece conflitar com
nossa auto-imagem.15 Em seguida, tendemos a alterar nossas crenças ou reações
para reduzir a dissonância. Por exemplo, uma pessoa que se considera compassiva,
mas se vê infligindo dor aos outros, experimentará dissonância cognitiva. Ela pode
reduzir essa dissonância deixando de infligir dor, mudando sua imagem de si mesmo
ou adotando crenças auxiliares para explicar por que uma pessoa compassiva pode
infligir dor nessa situação.
Festinger e Carlsmith forneceram uma das ilustrações clássicas da teoria da
14
Kelman e Hamilton 1989, 6.
15
Veja Festinger e Carlsmith 1959 para uma defesa seminal da teoria. Sobre a importância
particular da auto-imagem, ver Aronson 1999; Aronson et al. 1999.
6. A Psicologia da Autoridade 104

dissonância cognitiva em um experimento realizado na década de 1950.16 Os in-


divíduos foram obrigados a realizar uma tarefa repetitiva e chata por uma hora,
que pensavam ser o núcleo do experimento para o qual haviam se voluntariado.
No final da hora, uma das três coisas aconteceu. Os indivíduos na condição de
“um dólar” receberam um dólar para dizer a alguém (supostamente outro sujeito
voluntário presente) que a tarefa tinha sido divertida e interessante. Os indivíduos
na condição de “vinte dólares” receberam vinte dólares para dizer a mesma coisa.
Por fim, não foi solicitado que os sujeitos na condição de controle dissessem algo
e não dissessem algo desse tipo. Mais tarde, os três grupos foram entrevistados
sobre o que realmente pensavam da tarefa repetitiva que haviam realizado por uma
hora. Os indivíduos na condição de vinte dólares tinham visões um pouco mais
favoráveis do que as do grupo de controle – tanto quanto a tarefa era agradável e
como estavam dispostos a participar de um experimento semelhante no futuro. Os
indivíduos na condição de um dólar, no entanto, tinham visões significativamente
mais favoráveis dessas tarefas do que o grupo de controle ou do grupo dos vinte
Dólares. Assim, pagar mais aos indivíduos resultaram em uma mudança menor
em suas atitudes em relação à tarefa.17
Festinger e Carlsmith explicam os resultados da seguinte maneira. A maioria
das pessoas geralmente não se considera mentirosa. Portanto, se acham chata a
tarefa que realizaram, lembram-se de que disseram a alguém que era agradável
e experimentam dissonância cognitiva. Se a tarefa não era agradável, por que
disseram que era? Os indivíduos na condição de vinte dólares poderiam explicar
isso facilmente: mentiram para conseguir o dinheiro. Mas para indivíduos na
condição de um dólar, essa explicação era menos satisfatória. Como um dólar
é uma pequena quantia em dinheiro, parecia menos adequado como motivação
para mentir.18 Portanto, os indivíduos na condição de um dólar estavam sob mais
pressão para acreditar que a tarefa era realmente agradável.
Em outro experimento, os voluntários foram reunidos para participar de um
grupo de discussão sobre psicologia sexual.19 Cada voluntário foi submetido a
uma de três condições: os indivíduos na condição “Leve” sofreram um requisito
de iniciação levemente embaraçoso para ingressar no grupo (tiveram que ler algu-
mas palavras sexuais mas não obscenas em voz alta). Os indivíduos na condição
“Grave” foram submetidos a um requisito de iniciação gravemente embaraçoso (ti-
16
Festinger e Carlsmith, 1959.
17
A maior diferença de atitude foi entre o grupo de Controle e o grupo “Um Dólar” sobre a
questão de quão dispostos estariam em participar de um experimento semelhante novamente.
Essa foi uma diferença de cerca de 1,8 pontos em uma escala de dez pontos.
18
Era um dólar dos anos 50; o equivalente hoje seria de cerca de 8 dólares. A verdadeira
razão pela qual os participantes mentiram provavelmente foi deferência aos pesquisadores, mas
os participantes não sabiam disso.
19
Aronson e Mills 1959.
6. A Psicologia da Autoridade 105

veram que ler palavras obscenas em voz alta, seguidas de passagens pornográficas).
Os indivíduos na condição “Controle” não tinham necessidade de iniciação. Todos
os sujeitos ouviram uma gravação, supostamente de uma discussão em grupo em
andamento. A discussão foi intencionalmente projetada para ser a mais chata e
inútil possível. Os sujeitos foram convidados a avaliar o grupo de discussão. Intui-
tivamente, pode-se esperar que a iniciação embaraçosa tenha deixado aqueles na
condição “Grave” com sentimentos negativos, levando a avaliações mais duras do
grupo de discussão. De fato, os sujeitos da condição “Grave” tinham opiniões sig-
nificativamente mais negativas do grupo de discussão do que aqueles na condição
“Controle” ou “Leve”.20 Esses e outros estudos mostram que as pessoas tendem
a ajustar suas crenças e valores para fazer a si mesmas e suas próprias escolhas
parecerem melhores.21 O mesmo aconteceu com os participantes de Milgram. An-
tes de participar do experimento, quase ninguém consideraria a obediência em um
cenário moralmente aceitável. Mas depois, muitos sujeitos obedientes acharam seu
comportamento aceitável.
Esse princípio psicológico gera um viés a favor do reconhecimento da autori-
dade política. Quase todos os membros das sociedades modernas se submeteram
frequentemente às demandas de seus governos, mesmo quando essas demandas exi-
giam ações que, de outra forma, estariam fortemente não inclinados em executar.
Por exemplo, a maioria já pagou quantias muito grandes ao Estado, satisfazendo
suas demandas fiscais. Como explicamos a nós mesmos por que obedecemos? Po-
deríamos explicar nosso comportamento citando medo de punição, hábito, desejo
de conformidade social ou desejo emocional geral de obedecer a quem detém o po-
der. Mas nenhuma dessas explicações é emocionalmente satisfatória. Muito mais
agradável é a explicação de que obedecemos porque somos cidadãos conscientes e
atenciosos, e, portanto, fazemos grandes sacrifícios para cumprir nosso dever de
servir nossa sociedade.22 Relatos filosóficos de autoridade política parecem proje-
tados para reforçar exatamente essa imagem.
Uma razão para duvidar dessa visão de nossas razões para obediência é que
se espera que indivíduos altamente conscientes e atenciosos doem grandes quan-
tias de dinheiro a organizações de ajuda à fome e outros grupos de caridade (não
governamentais). Os argumentos a favor de uma obrigação de doar a institui-
ções de caridade são muito mais convincentes do que os argumentos a favor de
20
As classificações da discussão na condição “Grave” foram 19% mais altas que na condição
“Leve” e 22% mais altas que na condição de Controle (Aronson e Mills 1959, 179).
21
Ver Brehm 1956.
22
Pode ser ainda mais gratificante acreditar que a obediência ao Estado é mais supererrogatória
do que obrigatória, mas isso pode forçar a credulidade até do ambicioso auto-enganado – a maioria
de nós sabe que geralmente não fazemos grandes sacrifícios supererrogatórios. É mais crível que
façamos grandes sacrifícios que são moralmente exigidos de nós.
6. A Psicologia da Autoridade 106

obrigações políticas.23 No entanto, para a maioria das pessoas, “sacrifícios” ex-


tremamente grandes geralmente são feitos apenas quando são comandados por
uma figura de autoridade e esses comandos são apoiados por uma séria ameaça de
punição. Pouquíssimas pessoas dão voluntariamente à caridade a quantidade de
dinheiro que dão ao Estado.
Mas se nosso comportamento é motivado ou não por compaixão e um senso
de dever, é provável que geralmente desejamos acreditar que sim. Para acreditar
nisso, devemos aceitar uma doutrina básica de obrigação política e devemos aceitar
a legitimidade de nosso governo.

6.4 Demonstração social e viés de status quo


“Demonstração social” é uma frase irônica destinada a descrever o efeito persuasivo
em um indivíduo das opiniões expressas de um grupo.24 Em um experimento
clássico, Solomon Asch reuniu indivíduos para o que eles pensavam ser um teste
de acuidade visual.25 Cada participante ficava sentado em uma sala com várias
outras pessoas, supostamente outros participantes como ele. Ao grupo foi mostrada
uma série de cartões, cada um com uma única linha vertical à esquerda (a “linha
padrão”) e três linhas de comparação à direita. A tarefa dos participantes era
identificar qual linha de comparação tinha o mesmo comprimento da linha padrão.
As pessoas na sala deveriam relatar seus julgamentos visuais em série, em voz alta,
enquanto o pesquisador os registrava.
De fato, o pesquisador falara com todas as pessoas antes, exceto uma, instruindo-
as a fornecer respostas idênticas e incorretas para doze das dezoito questões de
comparação de linhas. O indivíduo ingênuo não sabia disso e escolheu as respos-
tas relatadas pelos outros para expressar as crenças reais dos outros membros do
grupo. O objetivo era observar como o indivíduo ingênuo reagiria ao conflito entre
a evidência de seus sentidos e a opinião unânime do grupo.
As comparações de linhas foram escolhidas de modo que, em circunstâncias
normais, as pessoas tivessem mais de 99% de confiança na tarefa de comparação.
Sob a influência enganosa do grupo, no entanto, a confiabilidade dos indivíduos in-
gênuos caiu para 63%. Três quartos dos indivíduos ingênuos cederam à pressão do
grupo em pelo menos uma das doze perguntas. Em entrevistas pós-experimento,
Asch identificou três razões para isso. Alguns sujeitos acreditavam que o grupo es-
tava errado, mas concordaram com o que o grupo dissera por medo de se destacar
ou parecer mal na frente dos outros. Esses indivíduos estavam simplesmente men-
tindo. Muito pouco dos demais indivíduos pareciam ignorar que havia algo errado
23
Ver Singer 1993, capítulo 8; Unger 1996.
24
Cialdini 1993, capítulo 4.
25
Asch 1956; 1963.
6. A Psicologia da Autoridade 107

– até onde os pesquisadores puderam perceber, mesmo depois que os indivíduos


foram informados da natureza do experimento, esses indivíduos pensaram que as
respostas do grupo pareciam visualmente corretas.
No entanto, entre os indivíduos que concordaram com os erros da maioria pelo
menos uma parte do tempo, o motivo mais comum foi que pensaram que o grupo
devia estar correto e que sua própria percepção visual devia estar de algum modo
errada. Isso não é uma coisa irracional de se pensar. É mais provável, em face
disso, que a visão de alguém possa de alguma forma estar com problemas do que
as outras sete pessoas na sala estarem todas mentindo ou interpretando mal.
Nossa preocupação, no entanto, não é com a questão do que alguém deve
pensar caso se encontre em uma situação tão bizarra. Meu objetivo ao relatar esse
experimento é destacar a forte influência que as crenças e atitudes de outras pessoas
ao nosso redor exercem sobre nossas próprias crenças e atitudes. O experimento
de Asch fornece uma ilustração particularmente impressionante dessa influência.
Mas esse tipo de influência, sem dúvida, já é familiar para o leitor.
Intimamente relacionado à demonstração social está o fenômeno da tendência
ao status quo. A demonstração social nos convence de que o que os outros acre-
ditam deve ser verdadeiro. O preconceito de status quo nos convence de que o
que nossa sociedade pratica deve ser bom. A demonstração mais óbvia e poderosa
de ambas as forças é fornecida pelo fenômeno da cultura. Muitas das culturas do
mundo incluem crenças e práticas que nos parecem bizarras, absurdas ou horrí-
veis, como a crença de que o ar e a umidade se uniram para criar a terra26 ou a
prática de canibalismo ou sacrifício humano. No entanto, os membros dessas so-
ciedades geralmente adotam as crenças de suas culturas e consideram as práticas
de suas culturas obviamente corretas. Ao ponto de se dizer: “Bem, as pessoas em
outras sociedades devem ser terrivelmente ignorantes”. Os estrangeiros conside-
rariam sem dúvida muitas das crenças e práticas de nossa cultura como bizarras,
absurdas ou imorais (em alguns casos, com razão). A conclusão a ser tirada é que
os seres humanos têm uma tendência poderosa de ver as crenças de sua própria so-
ciedade como obviamente verdadeiras e as práticas de sua própria sociedade como
obviamente corretas e boas – independentemente de quais sejam essas crenças e
práticas.27
O que isso nos diz sobre a crença na autoridade política? O governo é uma
característica extremamente importante e fundamental da estrutura de nossa so-
ciedade. Sabemos que as pessoas tendem a ter um forte viés em favor dos arranjos
26
De um mito egípcio da criação, discutido em Lindberg 1992, 9.
27
Alguns filósofos elevaram esse viés a uma teoria da razão prática. MacIntyre (1986) e Murphy
(1995) afirmam que não é necessária nenhuma razão para seguir as normas da sociedade, mas que
sempre é necessária uma razão para se afastar das práticas atualmente aceitas. No entanto, eles
não defendem essa suposição, e considero que eles assumem essa posição como uma manifestação
de viés de status quo.
6. A Psicologia da Autoridade 108

existentes em suas próprias sociedades. Portanto, é lógico que, se algum governo é


legítimo ou não, a maioria de nós teria uma forte tendência a acreditar que alguns
governos são legítimos, especialmente os nossos e outros semelhantes.

6.5 O poder da estética política


Os governos modernos confiam em uma rica coleção de ferramentas não racio-
nais, incluindo símbolos, rituais, histórias e retórica, para induzir nos cidadãos um
senso de poder e autoridade do governo.28 Esse senso de autoridade é emocional
e estético, e não intelectual, mas pode-se esperar que influencie nossas crenças
conscientes através de nossas intuições.

6.5.1 Símbolos
Todo governo nacional do mundo tem uma bandeira. A maioria tem hinos nacio-
nais. Os governos adornam suas moedas com vários símbolos; nos Estados Unidos,
por exemplo, a nota de um dólar exibe o retrato de George Washington, o Selo
do Departamento do Tesouro e o Grande Selo dos Estados Unidos. Estátuas e
monumentos celebram pessoas e eventos importantes na história do país.
A quais funções todos esses símbolos servem? Por que não transmitir as infor-
mações relevantes de uma maneira puramente intelectual e esteticamente neutra?
Em vez do Grande Selo dos Estados Unidos, a nota de um dólar poderia sim-
plesmente conter as palavras: “Isso é dinheiro americano”. Em vez de alçar a
bandeira americana, os edifícios do governo podiam exibir uma placa dizendo:
“Este é um prédio do governo dos EUA”. No lugar dos monumentos, poderiam
ser disponibilizados livros que descrevessem desapaixonadamente os eventos his-
tóricos relevantes. Por que essas alternativas seriam menos satisfatórias do que os
símbolos realmente usados? A resposta é que os símbolos são usados para criar
um senso de identidade nacional através do apelo às emoções do público.
Os uniformes são outro tipo de símbolo, usado para adornar os corpos de
funcionários do governo. Os policiais usam uniformes com distintivos. Os juízes
usam longos mantos pretos. Os soldados usam uniformes com insígnias. Todos
esses são símbolos do tipo e grau de autoridade específicos que o agente do governo
deve possuir. Não seria suficiente para o agente simplesmente usar uma placa como
um crachá, escrito “juiz” ou “policial” ou “capitão”. Esses sinais transmitiriam o
conteúdo cognitivo, mas não o conteúdo emocional ou estético do vestuário especial
usado atualmente. As vestes de um juiz fazem o espectador se sentir de uma
certa maneira – elas geram um sentimento de respeito e um senso de autoridade
28
Ver Wingo (2003) para discussão e defesa estendida desta tese.
6. A Psicologia da Autoridade 109

Figura 6.1: O edifício do Capitólio do estado do Colorado.

do usuário. Os psicólogos descobriram que o mero uso de um uniforme, mesmo


um uniforme confeccionado sem significado real, aumenta a obediência de outras
pessoas aos comandos do usuário.29
A arquitetura também pode ser usada para simbolizar poder e autoridade.
A Figura 6.1 mostra o edifício do Capitólio do estado do Colorado, típico dos
edifícios de Capitólio nos Estados Unidos. A arquitetura é principalmente de
estilo tradicional e clássico, com grossas colunas de pedra na frente. Essas colunas
não são necessárias para manter nada; existem para efeitos estéticos e emocionais,
provavelmente dando ao edifício uma aparência sólida e tradicional e, portanto,
associando o governo à estabilidade e à tradição. Em frente ao prédio há uma
estátua de um soldado, lembrando os visitantes daqueles que lutaram em nome do
Estado. À esquerda e à direita estão os canhões (não funcionais), simbolizando o
poder militar do Estado. O edifício está situado em uma colina, de modo que os
visitantes olhem para o prédio quando se aproximam e devem subir um conjunto de
29
Bushman 1988. O experimento envolvia uma mulher dizer às pessoas na rua para dar um
níquel a um motorista de um parquímetro. Os sujeitos eram mais propensos a obedecer quando
a mulher usava um uniforme ambíguo do que quando vestia roupas comuns (72% vs. 50% de
concordância, p = 0,01).
6. A Psicologia da Autoridade 110

Figura 6.2: Um tribunal de Colorado

escadas para chegar a porta. As portas são muito maiores do que um ser humano
e, uma vez dentro, o visitante se confronta com abóbadas três ou quatro vezes
maiores do que o ser humano típico. Existem muitos prédios em Denver muito
maiores do que o edifício do Capitólio, mas talvez nenhum seja tão bem-sucedido
em fazer o visitante se sentir pequeno. Tudo isso enfatiza o poder do Estado e cria
uma disposição para a submissão respeitosa por parte do visitante.
A Figura 6.2 mostra o interior de outro prédio interessante do governo, um
tribunal. O juiz é colocado, na frente e no centro, em uma plataforma, permitindo-
lhe literalmente desprezar todos os outros ocupantes da sala. Esta não é a única
maneira concebível de organizar uma sala de tribunal – por exemplo, o banco de
testemunhas poderia ter sido colocado no centro, de modo que toda a atenção
estivesse concentrada nas testemunhas. Ou o juiz, o promotor, o réu e o júri
poderiam estar todos sentados em círculo. Mas esses arranjos alternativos não
criariam o sentido desejado do poder e autoridade do juiz.
6. A Psicologia da Autoridade 111

6.5.2 Rituais
Em muitas sociedades, rituais especiais são necessários quando um novo líder acede
ao poder. Quando o poder é passado para um novo presidente dos EUA, uma ce-
rimônia pública de posse é realizada. A cerimônia envolve uma série específica e
estilizada de poses e palavras. O novo presidente coloca a mão esquerda na Bíblia,
sugerindo a supervisão divina dos procedimentos, e levanta a mão direita com o
braço dobrado no cotovelo. Ele então repete as palavras exatas do juiz, geralmente
o juiz supremo da Suprema Corte, administrando o juramento: “Eu, [nome com-
pleto do presidente eleito], juro solenemente que executarei fielmente o ofício de
Presidente da República dos Estados Unidos, e da melhor maneira possível, preser-
var, proteger e defender a Constituição dos Estados Unidos.” Imediatamente após
o juramento, o Chefe de Justiça se dirige ao novo presidente como “Sr. Presidente”.
O juramento é seguido por um discurso e um desfile.
A qual função esse ritual serve? Aparentemente, a função é garantir que o novo
presidente sirva fielmente e preserve a Constituição. Mas este é um método muito
fraco para tentar garantir esse comportamento. Se um presidente tem em mente
servir “infielmente” ou violar a Constituição, é improvável que sua memória de ter
prometido não fazer isso seja a força que o mantém íntegro. A cerimônia de posse
é principalmente para efeito emocional. É como um feitiço que confere poder e
autoridade ao novo presidente, de modo que, assim que ele completa as palavras
do juramento, a pessoa é convertida em presidente.
Se um governo deve garantir a aparência de autoridade, seus membros devem
estar separados e acima das das pessoas comuns. Eles não devem ser vistos sim-
plesmente como pessoas comuns que de alguma maneira conseguiram convencer as
pessoas armadas a forçar todos os demais a obedecê-las. Rituais como a cerimônia
de posse ajudam a pendurar o véu necessário sobre as elites. A forma exata dos
rituais não importa; o que importa é que haja alguns rituais reconhecíveis rela-
cionados ao exercício do poder. Nas sociedades primitivas, acredita-se que esses
rituais usem o poder mágico. Entre os espectadores modernos, os rituais têm efeito
em um nível emocional e semiconsciente.
Outro contexto repleto de símbolos e rituais é o tribunal. Os ocupantes devem
permanecer de pé quando o juiz entra na sala, reconhecendo simbolicamente a
autoridade superior do juiz. Juramentos solenes são administrados a jurados e
testemunhas, geralmente incluindo as palavras “que Deus me ajude”, invocando a
supervisão divina dos procedimentos. Testemunhas sentam-se em um local especial
ao lado do juiz, apelidada de “banco das testemunhas”. Em vez de ser chamado
pelo nome, o juiz é referido como “vossa excelência” ou “meritíssimo”, os advogados
como “conselheiro” e o acusado como “o réu”. Muitas outras deferências são usadas
em vez da linguagem cotidiana. Um conjunto complexo de regras deve ser seguido
em relação a quem pode falar a qualquer momento e o que eles podem falar sobre.
6. A Psicologia da Autoridade 112

Tudo prossegue em uma ordem específica e pré-ordenada. Nada disso é exigido


pelos requisitos utilitários de um procedimento destinado a decidir se e como punir
alguém. Sua função é ritualizar todo o processo. Outros rituais são seguidos
quando o júri retorna, o veredito é lido e o juiz condena o acusado. A cerimônia
termina com o golpe de martelo do juiz.
Por que os tribunais são tão ritualísticos? Talvez porque seja aqui que o Estado
esteja mais preocupado em retratar sua coerção como justiça. É aqui que os agentes
do Estado confrontam mais diretamente aqueles que desobedeceram ao Estado e
aqui que esses agentes ordenam diretamente que danos severos sejam infligidos a
indivíduos específicos como punição por desobediência. O processo não deve ser
visto apenas como um grupo de pessoas que decidiram machucar outra pessoa
porque não gostaram de algo que ela fez. Os rituais criam um senso de autoridade
do juiz e de todo o processo como algo profundo, sofisticado e digno de respeito
– e algo governado por regras que vão além dos meros desejos dos seres humanos
reais que executam o processo.

6.5.3 Linguagem de autoridade


Um aspecto subestimado da estética política é a linguagem peculiar usada pelas
figuras de autoridade. Considere o seguinte parágrafo de uma lei dos Estados
Unidos:

Se dois ou mais membros da mesma família adquirirem participação


em qualquer propriedade descrita no parágrafo (1) na mesma transa-
ção (ou em uma série de transações relacionadas), a pessoa (ou pessoas)
que adquirir o termo de interesse em tal propriedade será tratada como
tendo adquirido a propriedade inteira e depois transferida para as ou-
tras pessoas os interesses adquiridos por essas outras pessoas na tran-
sação (ou série de transações). Essa transferência será tratada como
feita em troca da contraprestação (se houver) fornecida por essas outras
pessoas para a aquisição de seus interesses em tais propriedades.30

É certo que isso é retirado de uma parte da lei com uma reputação especí-
fica de incompreensibilidade, o Internal Revenue Code. Aqui está uma lei mais
compreensível:

Nenhuma pessoa deve colocar, usar, manter, armazenar ou manter mó-


veis estofados não fabricados para uso ao ar livre, incluindo, sem limi-
tação, cadeiras estofadas, sofás estofados e colchões, em qualquer área
externa localizada nos seguintes locais:
30
U.S.C., título 26, seção 2702. Não tenho ideia do significado do parágrafo.
6. A Psicologia da Autoridade 113

1. em qualquer jardim da frente;


2. em qualquer pátio lateral;
3. Em qualquer pátio traseiro ou outro pátio adjacente a uma rua
pública. No entanto, um beco não deve ser considerado uma “rua
pública” para os fins desta subseção; ou
4. Em qualquer pórtico coberto ou descoberto localizado em ou pró-
ximo a qualquer um dos pátios descritos nos parágrafos (1) a (3)
acima.31

A redação de advogados, juízes e legisladores é tão distinta que é muitas vezes


referida como “juridiquês”, como se fosse uma linguagem própria. Esse idioma tem
um tom distinto que é altamente formal, imparcial e técnico. As frases geralmente
são longas e abstratas, com várias cláusulas. No exemplo do Internal Revenue Code
acima, a primeira frase tem 69 palavras (para comparação, a frase média deste livro
contém 21 palavras). Há referências cruzadas frequentes a outras leis. Muitas
vezes, existem disjunções e conjunções longas e aparentemente redundantes, como
“varanda coberta ou descoberta” e “local, lugar, armazenamento ou manutenção”.
O jargão técnico aparece com frequência, como “causa provável”, “devido processo”
e “termo de interesse”. Às vezes, palavras comuns são usadas em sentidos técnicos,
como “consideração” e “descoberta”. Os usos arcaicos são preservados, como no uso
de “tal” em “tal transferência” ou em termos como “supracitado” e “outrossim”.
O vocabulário técnico frequentemente se baseia no latim ou em outras línguas
estrangeiras, como nos termos mens rea, certiorari e en banc.
Qual é o efeito dessa maneira peculiar de falar e escrever? Primeiro e mais
obviamente, que leis e documentos legais são frequentemente incompreensíveis para
as pessoas comuns – é preciso contratar um profissional treinado para interpretá-
las. Nossa incapacidade de entender a lei pode nos deixar relutantes em questioná-
la, enquanto a própria incompreensibilidade da lei confere um ar de sofisticação e
superioridade à lei e aos legisladores. As pessoas tendem a sentir respeito pelas
coisas que não conseguem entender, bem como pelas pessoas que lidam com essas
coisas. Esse tipo de respeito é importante se alguém estiver tentando convencer
os outros a aderirem ao seu domínio.
Outro efeito da linguagem jurídica é distanciar emocionalmente o autor, tanto
do assunto quanto do público. O autor pode querer se distanciar da platéia para
manter um senso de superioridade. O autor também pode querer se distanciar emo-
cionalmente de seu conteúdo, porque o conteúdo em questão, por escrito, envolve
comandos emitidos por agentes do Estado para outros seres humanos, apoiados
por ameaças de violência contra aqueles que desobedecem. Normalmente, ordenar
31
Código Revisado de Boulder, 5–4–16. Essa ordem foi aprovada em resposta à tradição de
Boulder de incendiar sofás após grandes eventos, como jogos de futebol.
6. A Psicologia da Autoridade 114

que o dano seja imposto pela força a outras pessoas seria uma ocupação estressante
(se as vítimas merecem ou não ser prejudicadas). A linguagem abstrata e técnica
ajuda o público e o autor a esquecerem que isso é o que está acontecendo e drena
o impacto emocional da emissão de ameaças coercitivas contra outras pessoas.
Linguagem semelhante é frequentemente usada por teóricos engajados na ela-
boração de recomendações e justificativas para o exercício do poder. Os filósofos
políticos contemporâneos mais respeitados costumam empregar uma linguagem
que lembra o juridiquês. Considere uma passagem representativa do mais célebre
pensador político dos últimos tempos, John Rawls:

Gostaria agora de comentar a segunda parte do segundo princípio,


doravante entendida como o princípio liberal da justa igualdade de
oportunidades. Não deve então ser confundido com a noção de car-
reiras abertas a talentos; nem se deve esquecer que, uma vez que está
ligado ao princípio da diferença, suas consequências são bem distintas
da interpretação liberal dos dois princípios tomados em conjunto. Em
particular, tentarei mostrar mais adiante (§17) que esse princípio não
está sujeito à objeção de que isso leva a uma sociedade meritocrática.
Aqui, eu gostaria de considerar alguns outros pontos, especialmente
sua relação com a ideia de justiça processual pura.32

O tom desse tipo de trabalho filosófico é formal e sem emoção. A prosa é pre-
enchida com termos técnicos que soam solenes, como “justiça processual pura”, “o
princípio liberal da justa igualdade de oportunidades” e assim por diante. Muita
atenção é dada aos procedimentos descritos abstratamente e às conexões e distin-
ções entre os princípios abstratos. No caso de Rawls, existem referências cruzadas
frequentes, como na referência acima à seção 17. Alguns vocabulários são leve-
mente arcaicos, como no uso acima de “doravante”. Palavras extras são emprega-
das para que uma declaração possa ser feita de maneira mais fraca ou direta, como
no uso acima de “gostaria de comentar [. . . ]”. Toda a citação acima serve como
um pigarro literário, uma preparação para discutir o que o autor realmente quer
discutir. Tudo isso tem o efeito de esgotar a discussão de importância emocional
– ou mais precisamente, de direcionar a mente do leitor para sentimentos mais
ordenados e rastreáveis.
Não afirmo que Rawls ou outros filósofos tenham conscientemente procurado
alcançar esses efeitos com seus escritos. O que afirmo é que certos estilos de escrita,
exemplificados por documentos legais típicos, bem como por alguns trabalhos filo-
sóficos, têm o efeito de suavizar obstáculos emocionais à aceitação da autoridade
do Estado e de incentivar atitudes de respeito e submissão a instituições conven-
32
Rawls 1999, seção 14, 73.
6. A Psicologia da Autoridade 115

cionais de poder. Eles servem para disfarçar a discussão sobre quem deve ser
submetido à violência com roupas sombrias e civilizadas.

6.6 Síndrome de Estocolmo e o carisma do poder


6.6.1 O fenômeno da Síndrome de Estocolmo
A Síndrome de Estocolmo recebeu o nome de um incidente ocorrido em Estocolmo,
na Suécia, em 1973. Um par de ladrões de banco manteve quatro funcionários como
reféns por seis dias. Durante a provação, os reféns se uniram emocionalmente com
seus captores, ficaram do lado dos sequestradores contra a polícia e aparentemente
não queriam ser resgatados. A certa altura, um refém disse que os ladrões os
estavam protegendo da polícia. No último dia, quando a polícia usou gás lacrimo-
gêneo para forçar todo mundo a sair do banco, os reféns se recusaram a sair sem
os sequestradores, temendo que, se saíssem, a polícia mataria os sequestradores.
Depois que o incidente terminou, as vítimas continuaram a simpatizar e defender
os criminosos.33 Desde então, o termo “Síndrome de Estocolmo” tem sido usado
para descrever o vínculo emocional que as vítimas às vezes formam com seques-
tradores.34 O termo também é frequentemente estendido a uma classe mais ampla
de casos em que uma pessoa ou grupo está sujeito ao controle de outra.
Um caso mais extremo foi o de Patricia Hearst, sequestrada em 1974 por um
grupo terrorista de esquerda na Califórnia que se autodenominava Symbionese Li-
beration Army. Durante dois meses, Hearst foi mantida presa em um armário e
sofrido abuso físico e sexual. Ela então se juntou ao grupo e os ajudou voluntari-
amente a cometer crimes, incluindo um assalto a banco. Ela não tentou escapar
quando se deparou com a oportunidade. Após sua eventual captura pela polícia,
Hearst alegou ter sofrido uma lavagem cerebral pelo SLA.35
Um caso mais recente é o de Jaycee Lee Dugard, sequestrado aos onze anos de
idade pelo ex-presidiário Phillip Garrido. Garrido a estuprou e a manteve cativa em
um galpão em seu quintal. A polícia finalmente encontrou Jaycee em 2009, dezoito
anos após o sequestro. Ela viveu com Garrido todos esses anos e agora tinha duas
filhas geradas por ele. Durante esse período, Dugard havia ajudado Garrido em
seus negócios em casa, classificando pedidos por telefone e e-mail. Ela conheceu
clientes sozinha na porta. Ela até saiu em público. Em resumo, Jaycee Dugard
teve inúmeras oportunidades ao longo dos anos para escapar ou procurar ajuda
33
Graham, Rawlings e Rigsby 1994, 1-11; Lang 1974.
34
Sigo o uso popular da expressão “Síndrome de Estocolmo”. Meu uso da palavra síndrome,
no entanto, não pretende transmitir que o fenômeno é um distúrbio ou doença.
35
Brook 2007.
6. A Psicologia da Autoridade 116

externa, mas nunca o fez.36 Garrido estava tão seguro em seu relacionamento com
Dugard que trouxe ela e suas filhas para uma reunião com seu oficial de liberdade
condicional. Naquela reunião, Dugard disse ao oficial que Garrido era uma ótima
pessoa, e tentou protegê-lo ocultando sua própria identidade.37
Vários casos semelhantes ocorreram ao longo dos anos. É comum dizer que
existem quatro precursores para o desenvolvimento da Síndrome de Estocolmo:
primeiro, o sequestrador representa uma ameaça crível à vida da vítima em cati-
veiro. Segundo, a vítima percebe alguma forma de bondade por parte do seques-
trador. No entanto, essa “gentileza” pode consistir apenas em uma relativa falta
de abuso ou falha em matar a vítima. Em um ponto durante a crise dos reféns
em Estocolmo, um dos assaltantes do banco estava planejando atirar na perna de
um refém para fazer a polícia levar suas demandas mais a sério (o tiroteio nunca
ocorreu). Na época, o refém que levaria o tiro pensava que o ladrão era bom por
planejar apenas em dar um tiro na perna dele e não matá-lo.38 Terceiro, a vítima
está isolada do mundo exterior e sujeita apenas à perspectiva do sequestrador.
Quarto, a vítima se vê incapaz de escapar.
Sob essas condições, os reféns são propensos a uma variedade de reações que
as pessoas de fora acham paradoxal, incluindo

• Proximidade emocional com os sequestradores;

• Sentimentos de lealdade para com os sequestradores, que podem continuar


muito depois das vítimas serem libertadas;

• Adoção de atitudes e crenças dos sequestradores;

• A percepção dos sequestradores como protetores e das forças externas ten-


tando conquistar a libertação dos reféns como uma ameaça;

• Falha em tirar proveito das oportunidades de fuga;

• Gratidão em relação aos sequestradores por pequenas gentilezas e por falta


de abuso. Os reféns muitas vezes sentem que devem suas vidas a eles;

• Tendência de negar ou racionalizar os atos de violência dos sequestradores;

• Sensibilidade extrema às necessidades e desejos do sequestrador.39


36
Fitzpatrick 2009.
37
Shaw 2009, pp. 5-6. O oficial de condicional, encontrando inconsistências em suas histórias,
separou Garrido e Dugard e continuou interrogando-os para descobrir quem ela era. Eventual-
mente, Garrido admitiu ter sequestrado Dugard, após isso Dugard revelou sua identidade.
38
Graham 1994, p. 5.
39
Graham 1994, 13, 42-3.
6. A Psicologia da Autoridade 117

Alguns sugerem que as vítimas voltam ao estado infantil, com o sequestrador


servindo como uma figura paterna.40

6.6.2 Por que a Síndrome de Estocolmo ocorre?


Há pouco estudo acadêmico sobre o fenômeno, em parte porque os psicólogos não
podem recriá-lo em laboratório, e as considerações teóricas são especulativas. Mas
uma consideração plausível atribui a síndrome a um mecanismo defensivo incons-
ciente. Quando alguém está completamente sob o poder de uma pessoa perigosa,
a sobrevivência de alguém pode depender do desenvolvimento de características
agradáveis ao sequestrador. Isso inclui uma dependência submissa, bem como
sentimentos de simpatia e afeição pelo sequestrador. As vítimas não escolhem
conscientemente adotar essas características, nem pretendem adotá-las. Simples-
mente se veem tendo essas emoções e atitudes.41 Se esse é um mecanismo de
sobrevivência, há evidências de que isso é eficaz: após sua captura, um dos assal-
tantes de Estocolmo relatou que ele se sentia incapaz de matar qualquer um dos
reféns devido ao vínculo emocional que se formou com eles.42 Por esse motivo, o
FBI incentiva deliberadamente o desenvolvimento da Síndrome de Estocolmo em
situações de reféns.43
A existência de um mecanismo defensivo desse tipo pode ser explicada em
termos evolutivos: durante a história das espécies era comum uma pessoa ou grupo
ter um grande poder sobre os outros. Aqueles que desagradaram a pessoa ou grupo
poderoso provavelmente eram mortos ou prejudicados. Aqueles que agradaram
aos poderosos eram mais propensos a sobreviver e prosperar com o favor dessas
pessoas poderosas. É plausível supor que características semelhantes à Síndrome
de Estocolmo sejam agradáveis para pessoas poderosas. Portanto, a evolução pode
ter selecionado uma tendência a desenvolver tais características em circunstâncias
apropriadas.

6.6.3 Quando ocorre a Síndrome de Estocolmo?


Podemos explicar em termos da teoria acima as condições sob as quais a Sín-
drome de Estocolmo é mais provável de se desenvolver. Essas condições incluem o
seguinte:44
40
de Fabrique et al. 2007; Namnyak et al. 2008. A vítima normalmente não consegue escapar
no início, mas geralmente tem oportunidades de escapar após o desenvolvimento da síndrome.
41
de Fabrique et al. 2007; Mattiuzzi 2007.
42
Lang, 1973, p. 126.
43
de Fabrique et al. 2007.
44
Os itens (i), (ii), (iv) e (v) são de Graham et al. 1994, pp. 33-7; cf. de Fabrique et al. 2007;
Namnyak et al. 2008, 5. Acrescentei o item (iii), que, embora não tenha sido identificado como
6. A Psicologia da Autoridade 118

i O agressor representa uma ameaça séria e crível para a vítima. É essa situação
que torna necessário algum mecanismo defensivo. A Síndrome de Estocolmo
envolve mudanças extremas nas atitudes da vítima, que têm sérios custos po-
tenciais (por exemplo, a vítima pode acabar participando dos planos terroristas
do agressor). Portanto, devemos esperar que essas mudanças ocorram apenas
quando houver uma ameaça séria.45

ii A vítima se percebe incapaz de escapar. Vítimas que poderiam escapar prefe-


ririam essa opção ao vínculo com o agressor.

iii A vítima é incapaz de dominar o agressor ou de se defender efetivamente contra


o agressor. Se alguém tiver a opção de neutralizar o poder do agressor, isso
seria claramente preferível ao vínculo com o agressor.

iv A vítima percebe alguma gentileza do agressor, mesmo que somente na forma


de falta de abuso. É essa circunstância que torna provável que uma estratégia
de vínculo com o agressor seja bem-sucedida. Os agressores que são puramente
abusivos provavelmente não serão vencidos se a vítima desenvolver um gosto
por eles.

v A vítima está isolada do mundo exterior. Quando uma pessoa ou grupo de


pessoas é mantido em cativeiro por um agressor, pessoas de fora, que não
têm motivos para desenvolver a Síndrome de Estocolmo, normalmente veem o
agressor sob uma luz extremamente negativa. Em qualquer comunicação com
as vítimas, é provável que pessoas de fora expressem sentimentos e pensamen-
tos negativos sobre o agressor. Portanto, é mais provável que a Síndrome de
Estocolmo se desenvolva quando esse tipo de influência contrária está ausente.

Embora o termo “Síndrome de Estocolmo” tenha surgido no contexto de situ-


ações que envolvam sequestros, as condições acima podem ser obtidas em vários
casos. Em qualquer situação em que essas condições sejam obtidas, podemos espe-
rar encontrar um fenômeno semelhante envolvendo a identificação da vítima com o
agressor. Quanto mais clara e integralmente as condições forem satisfeitas, maior
a probabilidade dessa identificação. Consequentemente, sintomas semelhantes à
Síndrome de Estocolmo foram observados em uma variedade de grupos, incluindo
prisioneiros de campos de concentração, membros de cultos, civis em prisões comu-
uma condição distinta por Graham e outros, está claramente presente e é importante nos casos
clássicos da Síndrome de Estocolmo.
45
Freud (1937, capítulo 9) postula que quando um indivíduo teme a dor nas mãos de outro,
ele pode lidar com a ansiedade identificando-se psicologicamente com a pessoa que representa a
ameaça. Ele descreve isso como “identificação com o agressor”.
6. A Psicologia da Autoridade 119

nistas chinesas, prostitutas contratadas por cafetões, vítimas de incesto, mulheres


agredidas, prisioneiros de guerra e vítimas de abuso infantil.46

6.6.4 Os cidadãos comuns são propensos à Síndrome de


Estocolmo?
Os cidadãos de governos bem estabelecidos são suscetíveis à Síndrome de Esto-
colmo? Considere as cinco condições acima:

i O agressor representa uma ameaça séria e crível para a vítima. Todos os gover-
nos modernos controlam suas populações através de ameaças de violência. Em
alguns casos, sua capacidade de violência é surpreendente. O governo dos EUA,
por exemplo, pode possuir armas suficientes para matar todos no mundo. Em
uma escala menor, os governos dispõem de um aparato para prender indivíduos
por longos períodos de tempo e implantam esse aparato regularmente. Para
aqueles que resistem à captura, os governos têm ferramentas impressionantes
de força física, incluindo força letal.
ii A vítima se percebe incapaz de escapar. Fugir do próprio governo tende a ser
difícil e dispendioso, geralmente exigindo o abandono da família e dos amigos,
do trabalho e da sociedade inteira. Mesmo aqueles dispostos a assumir tais
custos geralmente apenas estarão sujeitos a outro governo. Fugir do governo
em geral é praticamente impossível.
iii A vítima é incapaz de dominar o agressor ou de se defender efetivamente contra
o agressor. É praticamente impossível para qualquer indivíduo se defender
efetivamente contra a maioria dos governos modernos, imagine então dominá-
los.
iv A vítima percebe alguma gentileza do agressor, mesmo que apenas na forma de
falta de abuso. A maioria dos cidadãos considera seu governo benéfico à luz
dos serviços sociais que ele fornece. Alguns também acham que seu governo
é bom porque não abusam de seu poder tanto quanto a maioria dos outros
governos ao longo da história.
v A vítima está isolada do mundo exterior. No caso de cidadãos de um Estado-
nação moderno, talvez o “mundo exterior” seja composto por países estran-
geiros. A maioria das pessoas, particularmente nas democracias liberais avan-
çadas, tem acesso às perspectivas do mundo exterior nesse sentido, se optar
por consultar essas perspectivas. Há, no entanto, pelo menos duas razões pe-
las quais esse fato pode falhar em impedir o desenvolvimento da Síndrome de
46
Graham et al. 1994, 31; Graham et al. 1995; Julich 2005.
6. A Psicologia da Autoridade 120

Estocolmo. Primeiro, nosso uso real dessas perspectivas externas é limitado.


A maioria das pessoas obtém a grande maioria de suas informações de fontes
de seu próprio país. Segundo, as fontes externas estão todas em uma situa-
ção semelhante. É como se os reféns tivessem acesso apenas às “perspectivas
externas” de reféns e sequestradores em outros lugares. Em tal situação, não
está claro que o acesso a essas perspectivas atrasaria o desenvolvimento da
Síndrome de Estocolmo.

Os precursores gerais para o desenvolvimento da Síndrome de Estocolmo, por-


tanto, estão razoavelmente bem satisfeitos no caso dos cidadãos dos Estados mo-
dernos. Portanto, não é surpreendente descobrir que os cidadãos tendem a se iden-
tificar com seus governos, adotar as perspectivas de seus governos e desenvolver
vínculos emocionais (geralmente considerado “patriotismo”) com seus governos.47
Assim como as vítimas da Síndrome de Estocolmo tendem a negar ou minimizar
os atos de coerção de seus sequestradores, muitos cidadãos tendem a negar ou
minimizar a coerção de seu governo. Quase todos os teóricos que consideram a
questão concordam que o governo é uma instituição coercitiva,48 mas as discussões
sobre questões políticas raramente abordam a justificativa do uso da força para
impor várias políticas. Não é que falhemos em geral em atribuir significado moral
à coerção; se as decisões de algum agente não-governamental estiver em discussão,
então a questão da justificativa para a violência ocuparia o centro do palco. Mas a
realidade ou o significado moral da coerção desaparecem de vista quando o agente
envolvido é o Estado. As atitudes deferentes podem se estender à aceitação total
da imagem do próprio Estado como tendo um direito único de coagir a obediência
e como capaz de criar obrigações morais simplesmente emitindo comandos. Devido
à dinâmica da Síndrome de Estocolmo, o poder tem uma tendência de legitimação:
uma vez que se torna suficientemente entrincheirado, o poder é percebido como
autoridade.
Aqueles que aceitam a legitimidade do governo podem achar difícil acreditar
que estejam sob a influência de algo como a Síndrome de Estocolmo, uma vez que
esse conceito é normalmente aplicado a situações nas quais o papel do agressor é
geralmente socialmente condenado – sequestradores, assaltantes de bancos, côn-
juges violentos e assim por diante. Todos esses tipos de agressão são ruins, e a
maioria das pessoas vê seus governos como bons; portanto, o conceito de Síndrome
de Estocolmo não se aplica aos nossos sentimentos sobre o governo ou se aplica?
47
Uma manifestação interessante dessa identificação com o governo é o uso por cidadãos parti-
culares da palavra ‘nós’ para nos referir ao governo, como em “Nós invadimos o Iraque em 2003”,
o que pode ser dito por um americano, mesmo que o falante não tenha pessoalmente feito nada
para provocar a invasão ou se opôs ativamente a ela. Como a palavra que normalmente inclui o
falante, isso sugere uma forte identificação com o Estado.
48
Edmundson (1998, cap. 4) é uma exceção rara.
6. A Psicologia da Autoridade 121

Obviamente, essa reação poderia ser um produto da síndrome. Felizmente,


não precisamos primeiro decidir se o governo é bom ou sua coerção justificada
para decidir se o conceito de Síndrome de Estocolmo se aplica. Os precursores
para o desenvolvimento da síndrome identificados na Seção 6.6.3, bem como as
manifestações da síndrome descritas na Seção 6.6.1, são condições factuais e não
morais. A maldade do agressor ou a injustificabilidade de sua coerção não estão
entre elas. E os cidadãos dos Estados modernos, de fato, tendem a satisfazer essas
condições descritivas. Podemos ver isso independentemente do governo ser ou não
justificado.

6.7 Estudos de caso sobre abuso de poder


6.7.1 My Lai revisitado
Lembre-se do caso do massacre em My Lai. A maioria dos soldados que receberam
ordens de matar civis obedeceu. Alguns se recusaram a participar do massacre,
sem fazer nada para impedir que outros o fizessem. Segundo um relatório, havia
muito mais soldados que simplesmente evitavam a área onde o massacre estava
ocorrendo, possivelmente para evitar serem solicitados a participar.49 Assim, a
grande maioria das pessoas que estavam cientes do massacre, participando ou não,
não fez nada para detê-lo. A exceção foi uma corajosa equipe de helicópteros,
que salvou um pequeno número de moradores de serem mortos, levando-os em
segurança. Todo mundo na vila foi morto.
Agora considere a reação dos funcionários do governo dos EUA e de outros
americanos. Depois disso, o governo dos EUA tentou encobrir o massacre e prote-
ger os soldados responsáveis por ele. Somente depois que a história foi divulgada
à imprensa, o governo passou a processar os criminosos de guerra. No final, uma
única pessoa foi condenada e sentenciada pelo massacre, tenente William Calley,
que passou três anos em prisão domiciliar. Hugh Thompson, o heroico piloto de
helicóptero que salvou alguns civis, foi inicialmente tratado como um criminoso.
Thompson havia pousado seu helicóptero entre um grupo de civis e um grupo de
tropas americanas que estavam avançando para matá-los. Ele disse a seus dois
colegas de equipe que atirassem nos soldados se eles abrissem fogo contra os civis
enquanto estava tentando salvá-los. Felizmente, ninguém abriu fogo e Thompson
foi capaz de salvar dez civis. Nos Estados Unidos, no entanto, muitos considera-
ram Thompson um traidor. Ele recebeu ameaças de morte e animais mutilados à
sua porta. Um congressista afirmou que Thompson era a única pessoa em toda a
49
Thompson n.d., 19-20. Outros detalhes do caso são de Thompson (n.d.) e Kelman e Hamilton
(1989, 1-17).
6. A Psicologia da Autoridade 122

história que deveria ir para a cadeia.50


Uma lição da história é que mesmo aqueles que não participam ativamente de
abusos de poder são frequentemente cúmplices deles. Quando membros de uma
organização abusam de seu poder, outros membros geralmente olham para o outro
lado. Quando é dada a chance, os funcionários costumam encobrir ou desculpar
abusos. Aqueles raros indivíduos com a coragem de intervir para impedir abusos,
em vez de serem aclamados como os heróis que são, serão mais frequentemente
criticados como traidores.
Todos nós estamos cientes das atrocidades cometidas por regimes como a Ale-
manha nazista, a União Soviética e a China comunista. É muito fácil, ao pensar
em tais casos, reagir felicitando-nos por não pertencer a nenhum regime bárbaro
e tirânico. Casos como My Lai nos lembram que não são apenas as ditaduras
que cometem atrocidades. Os países avançados e democráticos também cometem
atrocidades, embora com menor frequência e em menor escala, fato que nos deixa
com pouco terreno para a autocongratulação.
Ao focar neste exemplo, não quero deixar aos leitores a impressão de que foi
um incidente isolado. Quando lemos sobre flagrante abusos de poder, também
costumamos ler sobre os encobrimentos oficiais. Mas os únicos casos que lemos
são aqueles em que os encobrimentos falharam. Presumivelmente, nem todos os
encobrimentos falham. Às vezes, as autoridades devem conseguir esconder seus
erros. Frequentemente não sabemos. Thompson relata que, após sua experiência
em My Lai, outros soldados disseram a ele: “Oh, essas coisas aconteciam o tempo
todo”.51 Há, portanto, razões para suspeitar que ocorreram muitos mais massacres
que não resultaram em notícia.

6.7.2 O Experimento Prisional de Stanford (EPS)


Em 1971, o psicólogo social Phillip Zimbardo conduziu um estudo iluminador dos
efeitos da prisão em guardas e prisioneiros.52 Zimbardo reuniu 21 voluntários, to-
dos estudantes do sexo masculino, para desempenhar o papel de prisioneiros ou
guardas em uma prisão simulada. No início, todos os voluntários queriam desem-
penhar o papel de prisioneiro; ninguém queria ser guarda. Zimbardo designou
aleatoriamente metade dos sujeitos como prisioneiros e metade como guardas. Os
presos viveriam em celas improvisadas por duas semanas no campus da Universi-
dade de Stanford. Os guardas vigiavam os prisioneiros em turnos de oito horas,
com cada guarda livre para sair quando o turno terminava a cada dia. Os pesqui-
sadores forneceram orientações mínimas sobre o tratamento dos presos, além de
50
Thompson n.d., 12, 27–8. Trinta anos depois, Thompson foi homenageado com a Medalha
do Soldado e convidado a falar em West Point, Annapolis e Quantico.
51
Thompson n.d., 11.
52
Zimbardo et al. 1973; Zimbardo 2007.
6. A Psicologia da Autoridade 123

instruções sobre o fornecimento de alimentos e a prevenção da violência física.


O que os pesquisadores observaram foi um padrão crescente de abuso por parte
dos guardas, que começou quase que imediatamente e piorava a cada dia. Os
prisioneiros foram submetidos a abusos verbais implacáveis (“Você é um bastardo
hipócrita e piedoso que quero vomitar” e assim por diante); obrigados a executar
tarefas tediosas, inúteis e degradantes ad nauseam (como fazer flexões com outros
prisioneiros sentados de costas, limpar o banheiro com as mãos e assim por diante);
eram exigidos a insultar verbalmente a si mesmos e aos outros; privados de sono;
confinados por horas em um armário com cerca de um metro quadrado de espaço;
e finalmente obrigados a realizarem sodomia simulada. Nem todos os guardas
aprovaram ou participaram do abuso. Mas os guardas abusivos assumiram posições
de domínio de fato entre os guardas, que ninguém desafiou. Os “bons guardas”
concordaram tacitamente com o comportamento dos guardas mais agressivos, sem
fazer nem dizer nada contra eles. A provação foi tão estressante e deprimente para
os prisioneiros que cinco tiveram que ser libertados mais cedo, e no sexto dia, os
pesquisadores acharam eticamente necessário encerrar o experimento.

6.7.3 Lições do EPS


Abusos muito piores ocorrem em prisões reais, campos de prisioneiros de guerra,
campos de concentração e afins. O experimento de Stanford difere das prisões
do mundo real de várias maneiras interessantes. Primeiro, todos os participantes
sabiam estar apenas participando de um experimento psicológico, que pensavam
que terminaria em duas semanas, após isso retornariam às suas vidas normais.
Segundo, os prisioneiros foram selecionados aleatoriamente, e os guardas e os pri-
sioneiros sabiam que não haviam feito nada de errado. Os prisioneiros não po-
deriam ser seriamente considerados criminosos ou inimigos em nenhum sentido
significativo. Terceiro, os prisioneiros e guardas haviam sido rastreados antes. Os
pesquisadores fizeram questionários e entrevistas pessoais a um grupo inicial de 75
voluntários, a fim de selecionar apenas os participantes mais normais e psicologi-
camente estáveis. Além disso, com base em testes psicológicos, parecia não haver
diferenças significativas na personalidade entre os guardas e os prisioneiros.
Pode-se esperar que qualquer uma dessas condições isole a prisão simulada
contra o tipo de abuso frequentemente visto em prisões reais. (É certo que os
abusos em Stanford parecem leves em comparação aos observados em Abu Gh-
raib ou nos gulags soviéticos; então, novamente, a trajetória de crescente abuso
foi interrompida em apenas cinco dias.) Alguém poderia pensar que o contexto
de um período relativamente curto de experimentos psicológicos de longo prazo
seriam insuficientes para quebrar os padrões normais de decência e respeito pelos
outros. Pode-se suspeitar que o abuso de prisioneiros ocorra porque se acredita
que eles sejam criminosos ou inimigos, de modo que o abuso seja considerado jus-
6. A Psicologia da Autoridade 124

tificado. Ou pode-se pensar que o abuso de prisioneiros ocorre porque indivíduos


com predisposições sádicas são mais propensos a se tornarem guardas ou porque
os prisioneiros tendem a ser extraordinariamente agressivos e, assim, atraem res-
postas agressivas por parte dos guardas. O Experimento Prisional de Stanford é
de particular interesse, pois coloca hipóteses como essas à prova.
Como se vê, nenhuma dessas coisas foi o caso. Havia algo no papel de guarda
que trouxe à tona o pior das pessoas. A conclusão central de Zimbardo, a partir
deste estudo e de muitas outras evidências, é que os determinantes do comporta-
mento bom ou mau estão mais nas situações em que os indivíduos são colocados
do que nas intrínsecas circunstâncias desses indivíduos.53 As circunstâncias de um
indivíduo podem ter efeitos corruptos dramáticos ou edificantes.
Qual foi o papel de ser guarda que ressaltou o lado sombrio dos participantes?
Lorde Acton, creio, tinha o mote sobre isso: o poder corrompe.54 Isso tem sido
aparente na história; agora também temos evidências experimentais. Quando al-
guns seres humanos recebem grande poder sobre a vida de outros, frequentemente
descobrem que o senso de poder é intoxicante. Eles querem exercer seu poder
com mais frequência e mais profundidade, e não querem desistir dele. Quando o
Experimento Prisional de Stanford terminou prematuramente, todos os prisionei-
ros ficaram aliviados. A maioria dos guardas, no entanto, parecia decepcionada.
Estavam gostando de atormentar os prisioneiros. Como Zimbardo relata, nenhum
dos guardas chegou atrasado para um turno e, em várias ocasiões, ficou até tarde,
sem serem solicitados e sem remuneração extra.55 Nem todo mundo é visivelmente
corrompido pelo exercício do poder. Mas sempre existem alguns que são e, como
sugere o experimento, mesmo os menos corrompidos normalmente não fazem nada
para conter os excessos dos mais corrompidos.
Mas por que infligir sofrimento e humilhação aos prisioneiros – não era possível
experimentar o poder com gestos benevolentes? George Orwell teve um insight
importante sobre essa conexão: “Como um homem afirma seu poder sobre outro
[. . . ]? [. . . ] Fazendo-o sofrer. [. . . ] A menos que ele esteja sofrendo, como você
pode ter certeza de que está obedecendo à sua vontade e não a dele? O poder está
em infligir dor e humilhação.”56 Certamente é verdade que os guardas de Stanford
infligiram intencionalmente dor e humilhação a seus prisioneiros. E, novamente,
53
Ver Zimbardo 2007, esp. 210–21, sobre os fatores situacionais no Experimento Prisional de
Stanford. Ver os capítulos 12–16 para evidências e argumentos além do estudo do experimento.
54
Acton 1972, 335 (de uma carta a Mandell Creighton de 5 de abril de 1887): “O poder tende
a corromper e o poder absoluto corrompe absolutamente. Os grandes homens quase sempre são
maus, mesmo quando exercem influência e não autoridade: ainda mais quando você acrescenta
a tendência ou a certeza da corrupção pela autoridade.”
55
Zimbardo, Haney e Banks 1973, 81.
56
Orwell 1984, 219-20. As observações citadas são do agente da polícia O’Brien, o personagem
que captura e tortura o protagonista do romance para quebrar seu espírito.
6. A Psicologia da Autoridade 125

esses guardas eram seres humanos perfeitamente normais, tanto quanto se podia
verificar de antemão. Portanto, há razões para acreditar que não é por acaso que
os governos têm sido tantas vezes liderados por líderes tirânicos.
Outra lição do experimento de Stanford diz respeito às reações dos outros a
figuras de autoridade. Os prisioneiros do experimento, inicialmente pelo menos
um pouco resistentes, foram reduzidos à submissão no final do experimento. Eles
atenderam a quase todas, mesmo as demandas mais ofensivas emitidas pelos guar-
das. Diante disso, isso é intrigante, pois os guardas não tinham poder real para
obrigar os prisioneiros a obedecer. Os guardas eram proibidos de usar violência
e, em qualquer caso, eram, em cada turno, superados numa relação de três para
um pelos presos. Se os prisioneiros se recusassem resolutamente a obedecer aos
guardas, não está claro o que os guardas poderiam ter feito. No entanto, os pri-
sioneiros obedeceram, apesar da natureza cada vez mais irracional e ofensiva dos
comandos dos guardas e apesar da natureza arbitrária de sua suposta autoridade.
Essa obediência também não deveria ser explicada como resultado de um senso
de obrigação contratual. Embora os sujeitos concordassem em fazer parte de uma
simulação da vida na prisão, não concordaram em obedecer a todos os comandos
da guarda. E mesmo se eles se considerassem obrigados a ser obedientes até certo
ponto, isso não explicaria por que os prisioneiros se tornaram mais submissos à
medida que o estudo prosseguia e as exigências dos guardas se tornavam mais irra-
cionais. Uma lição a tirar disso é que, psicologicamente, o poder é auto-validador.
Mesmo quando as “autoridades” são selecionadas arbitrariamente e todo mundo
sabe disso, a mera afirmação de autoridade tende a ser aceita por outros.57 Além
disso, quanto mais alguém obedece a uma figura de autoridade, mais se sente
“obrigado” a continuar fazendo isso.

6.8 Conclusão: anatomia de uma ilusão


As intuições padrão sobre autoridade não são confiáveis. Quer se aceite ou não
os argumentos desenvolvidos nos capítulos anteriores deste livro, não se deve dar
muita importância ao mero fato de que a maioria das pessoas acredita em autori-
dade política.
Qualquer pessoa que tenha uma visão impopular pode ser desafiada a res-
ponder: “Como tantas pessoas podem estar erradas, enquanto você não?” Essa
pergunta deve ser levada a sério. Se a resposta é apenas que os seres humanos
são falíveis e que a grande maioria das outras pessoas cometeu coincidentemente
o mesmo erro nessa questão específica, isso geralmente será implausível por razões
diretas de probabilidade. Não acredito que muitos que aceitam autoridade política
57
Milgram (2009, 139-40) observa, da mesma forma, que a mera designação como figura de
autoridade normalmente é suficiente para garantir a obediência de outras pessoas.
6. A Psicologia da Autoridade 126

tenham cometido esse erro por acaso. Acredito que existam características espe-
cíficas da mente humana e da situação em que a maioria das pessoas se encontra
contribuindo para uma ilusão moral de autoridade. Compare a crença generali-
zada, antes de Copérnico e Galileu, de que o sol orbitava a terra. Este não foi um
erro casual; não é que tantas pessoas tenham escolhido a resposta errada para a
questão da estrutura do cosmos. Havia uma explicação comum para as crenças
errôneas em tantas mentes – grosso modo, parece que o sol está se movendo ao
redor da terra. Podemos caracterizar isso como uma ilusão perceptiva – um caso
em que existe uma tendência sistemática para que as coisas pareçam, para obser-
vação casual, contrárias ao que realmente são. Nesses casos, devemos esperar que
a maioria das pessoas assuma erroneamente que as coisas são como parecem, a
menos e até que recebam informações para corrigir a ilusão.
Os seres humanos também podem sofrer de ilusões cognitivas, nas quais as
coisas parecem para a mente (não-perceptivamente) de outra forma que não são.
Por exemplo, um procedimento médico com uma taxa de sucesso de 80% soa
melhor para a maioria das pessoas do que um procedimento com uma taxa de
falha de 20%. Foi demonstrado que essa abordagem faz diferença nos julgamentos
práticos das pessoas sobre situações realistas.58 Uma espécie de ilusão cognitiva
é de particular interesse para nós aqui: a das ilusões morais. São casos em que
temos uma tendência sistemática de ver algo como certo (ou errado) quando na
verdade não é. Ao longo da história, nossos antepassados foram sujeitos a ilusões
morais generalizadas – por exemplo, que as mulheres eram inferiores aos homens
ou que as pessoas de pele escura eram inferiores às de pele clara.59 A sugestão de
que ainda estamos sujeitos a algumas ilusões morais hoje não deveria surpreender
ninguém. Precisamos refletir sobre a que ilusões morais podemos estar sujeitos,
tendo em mente que, pela natureza do caso, elas não parecerão, por considerações
casuais, ilusões.
Superar uma ilusão geralmente requer entender por que as coisas podem parecer
como parecem, mesmo que sejam falsas. Por exemplo, para superar a crença de
que o sol orbita a terra, é importante ver por que isso seria assim, mesmo que o sol
não estivesse se movendo, mas a terra estivesse girando. Da mesma forma, para
superar a ilusão da autoridade política, é importante ver por que nos parece que
existe autoridade política, mesmo que de fato qualquer Estado nunca tenha tido
autoridade genuína.
Sugeri neste capítulo que os seres humanos são equipados com preconceitos
fortes e generalizados em prol da autoridade que operam mesmo quando uma au-
toridade é ilegítima ou emite comandos ilegítimos e indefensáveis. Como vimos, os
indivíduos confrontados com as demandas das figuras de autoridade podem sentir
58
Tversky e Kahneman 1981.
59
Consulte a Seção 13.1 e a Seção 13.4 para obter mais exemplos.
6. A Psicologia da Autoridade 127

uma compulsão quase incondicional de obedecer, e isso pode levá-los a procurar


explicações sobre por que a autoridade é legítima e por que são moralmente obriga-
dos a obedecer. As pessoas costumam aderir instintivamente àqueles que exercem
o poder, e há até casos em que as pessoas se vinculam emocionalmente a outras
pessoas (como sequestradores) que detêm um poder grande, mas completamente
injustificado sobre elas, adotando as perspectivas e os objetivos daqueles que detêm
o poder. Uma vez iniciado o padrão de obediência, a necessidade de minimizar a
dissonância cognitiva favorece a obediência contínua e a adoção de crenças que ra-
cionalizam os mandamentos da autoridade e a própria obediência a eles. Devido a
um viés geral do status quo, uma vez que uma prática ou instituição se estabeleça
em alguma sociedade, é provável que essa prática seja vista pelos membros dessa
sociedade, quase automaticamente como normal, correta e boa.
Nada disso, por si só, mostra que as instituições políticas existentes são ilegíti-
mas. Mas isso sugere fortemente que seriam amplamente aceitas como legítimas,
mesmo que não fossem. As teorias de autoridade criadas pelos filósofos políticos
podem ser vistas plausivelmente como tentativas de racionalizar intuições comuns
sobre a necessidade de obediência, onde essas intuições são o produto de precon-
ceitos sistemáticos.
7

E se Não Existir Autoridade?

Se não há autoridade, segue-se que devemos abolir todos os governos? Não. A


ausência de autoridade significa, grosso modo, que os indivíduos não são obrigados
a obedecer à lei apenas porque é a lei e/ou que os agentes do Estado não têm
o direito de coagir os outros simplesmente porque são agentes do Estado. Ainda
pode haver boas razões para obedecer à maioria das leis, e os agentes do Estado
ainda podem ter razões adequadas para se engajarem em ações coercitivas sufici-
entes para manter um Estado. Se os argumentos dos capítulos anteriores estiverem
corretos, as circunstâncias e propósitos que justificariam a coerção por parte do
Estado são justamente as circunstâncias e propósitos que justificariam a coerção
por parte de agentes privados. Resta ver se algumas organizações estão justificadas
em participar de atividades semelhantes a algo como um Estado para se qualifica-
rem como Estados. Na terminologia da filosofia política contemporânea, até agora
defendi o anarquismo filosófico (a visão de que não há obrigações políticas), mas
ainda tenho que defender o anarquismo político (a visão de que o governo deve ser
abolido).1
O objetivo do presente capítulo é discutir as implicações práticas de um anar-
quismo filosófico, mas não político. Ou seja, suponha que alguém aceite os argu-
mentos dos capítulos anteriores, mas acredite (contrariamente aos argumentos nos
capítulos seguintes) que o governo é necessário para uma sociedade decente. Nesse
caso, que conclusões práticas se deve tirar?
1
Embora eu tenha seguido a terminologia estabelecida aqui, deve-se notar que a terminologia
é enganosa, pois sugere falsamente que uma das doutrinas é filosófica, mas não política, enquanto
a outra é política, mas não filosófica. De fato, ambos os tipos de “anarquismo” são reivindicações
filosóficas e políticas.

128
7. E se Não Existir Autoridade? 129

7.1 Algumas implicações políticas


Se não existir autoridade política, então a grande maioria das leis é injusta, porque
elas aplicam coerção contra indivíduos sem justificativa adequada. Existem muitas
leis desse tipo para mencionar cada uma delas. Aqui, brevemente, mostro alguns
dos exemplos mais importantes.

7.1.1 Prostituição e moralismo legal


As leis moralistas proíbem algum comportamento com base no fato de que o com-
portamento é “imoral”, mesmo que não prejudique ou viole os direitos de alguém.
Os exemplos mais óbvios são as leis contra a prostituição e o jogo. Como devemos
enxergar essas leis?
A autoridade política é um status moral especial, colocando o Estado acima
de todos os agentes não estatais. Se rejeitarmos essa noção, devemos avaliar a
coerção estatal da mesma maneira que avaliamos a coerção de outros agentes.
Para qualquer ato coercitivo do Estado, devemos primeiro perguntar qual motivo
o Estado tem para exercer coerção dessa maneira. Deveríamos então considerar
se um indivíduo ou organização particular seria justificado exercendo um tipo
e grau de coerção semelhantes, com efeitos semelhantes nas vítimas, por razões
semelhantes. Se a resposta for não, a coerção pelo Estado também não se justifica.
Considere uma história sobre três indivíduos particulares. Jon quer fazer sexo
com Mary. Mas Mary não gosta de Jon tanto quanto ele gosta dela. O que ela
gosta é de dinheiro, o qual Jon tem. Então, Mary diz a Jon que está disposta
a fazer sexo com ele, desde que ele lhe dê $300. Isso fará valer a pena para ela.
Jon concorda e eles concluem a transação. Mais tarde, um de seus vizinhos, Sam,
descobre o que aconteceu. Sam acha que as pessoas deveriam fazer sexo apenas por
procriação ou prazer sensorial; o pensamento de pessoas fazendo sexo por dinheiro
o deixa com raiva. Então Sam vai até a casa de Mary com sua arma. Ele aponta
a arma para Mary e ordena que ela o acompanhe até sua casa. Uma vez lá, ele a
tranca no porão pelos próximos seis meses.
Acontece que Mary não era da vizinhança; Jon a convencera a vir de fora
da cidade para fazer sexo com ele. Quando Sam descobre isso, fica furioso. Ele
sequestra Jon com uma arma e o tranca no porão pelos próximos 20 anos.
O que quer que alguém pense de Jon e Mary, o comportamento de Sam nesta
história está claramente errado. Talvez Mary e Jon estejam fazendo algo ruim (em-
bora não esteja claro o quê); Nesse caso, seria apropriado que Sam lhes explicasse
o que vê como problemático sobre o comportamento deles, em um esforço para
convencê-los a parar. Se não pode convencê-los, no entanto, coerção e sequestro
não são respostas apropriadas.
7. E se Não Existir Autoridade? 130

O comportamento de Sam nesta história é análogo ao do governo em países onde


a prostituição é ilegal. Os seis meses de prisão de Mary não são diferentes do que
uma prostituta pode esperar sofrer. É certo que Jons raramente são processados e
raramente cumprem pena na prisão. Os 20 anos de prisão de Jon são, no entanto,
uma alusão à lei federal dos EUA, que prevê uma sentença de prisão de até 20
anos por “seduzir” alguém a cruzar as fronteiras de um Estado com o objetivo de
prostituição.2 Vale ressaltar como absurdamente punitivas são algumas leis. Mas
o ponto principal não é que as sentenças sejam muito altas; o ponto principal é que
nenhuma coerção é justificada para impedir um casal de trocar voluntariamente
sexo por dinheiro.

7.1.2 Drogas e paternalismo


As leis paternalistas restringem o comportamento dos indivíduos para o seu próprio
bem. Certos medicamentos, por exemplo, são proibidos, principalmente por serem
prejudiciais ao usuário. Eles podem prejudicar a saúde ou o relacionamento do
usuário com outras pessoas; podem fazer com que o usuário perca o emprego,
abandone a escola ou tenha uma vida menos bem-sucedida.
Essas são razões adequadas para proibir o uso de drogas? A proibição de
drogas significa que usuários e vendedores estão sujeitos a ameaças coercitivas
por parte do Estado. Aqueles que são capturados são frequentemente forçados
a passar anos de suas vidas na prisão. Para a maioria dos leitores, ser enviado
para a prisão provavelmente seria a pior coisa que eles já experimentaram. Isso
é particularmente preocupante nos Estados Unidos, onde mais de meio milhão de
pessoas são presas por delitos de drogas.3 Para justificar a imposição de um dano
tão grande, as razões da proibição teriam que ser muito fortes.
Considere outra história sobre Sam. Sam se opõe ao tabagismo devido a seus
graves danos à saúde. Não contente apenas em evitar o próprio cigarro, proclama
à sua comunidade que ninguém pode fumar. Após a proclamação, Sam lhe pega
fumando, lhe sequestra com uma arma e lhe tranca no porão. Você divide o porão
com ladrões, estupradores e assassinos pelo próximo ano, até ser libertado. A
pessoa que vendeu os cigarros está trancada no porão pelos próximos seis anos.
Sam agiu corretamente? É difícil imaginar alguém dizendo isso. O desejo
de impedir que outras pessoas prejudiquem sua saúde dessa maneira dificilmente
parece uma justificativa adequada para coerção e sequestro, muito menos por
2
U.S. Code, Título 18, seção 2422: “Quem conscientemente persuade, induz, seduz ou coage
qualquer indivíduo a viajar em comércio interestadual ou estrangeiro, ou em qualquer Território
ou Posse dos Estados Unidos, a se envolver em prostituição ou qualquer atividade sexual pelas
quais qualquer pessoa possa ser acusada de um crime, ou tentar fazê-lo, serão multadas sob este
título ou presas por não mais de 20 anos ou ambas”.
3
Ver Huemer 2010a, 361–2.
7. E se Não Existir Autoridade? 131

roubar meses ou anos da vida de alguém. Mas a ação de Sam não foi pior do
que a que o governo atualmente faz com os infratores. O tabaco é cerca de sete
vezes mais mortal (em média, por usuário) do que as drogas ilegais, então Sam
tem uma justificativa muito mais forte pelo que faz do que o governo pelo que faz.4
Alguns defensores da proibição enfatizam os efeitos nocivos não-medicamentosos
que as drogas podem ter na vida de alguém. Para levar isso em consideração,
imagine que Sam também cuide das pessoas nesses outros aspectos; quando ele
aprende sobre alguém que prejudicou o relacionamento dela com outras pessoas
sem uma boa razão, ele sequestra essa pessoa e a mantém em cativeiro no porão.
Da mesma forma, para aqueles que perdem o emprego ou abandonam a escola por
culpa própria. (Adicione outros eventos negativos da vida, do tipo que o abuso de
drogas pode causar.) Sam adverte explicitamente as pessoas contra esses compor-
tamentos e só pune as pessoas que violarem suas ordens de maneira consciente e
voluntária. O motivo de Sam para punir essas pessoas seria mais forte do que o
Estado para punir os infratores, já que as drogas só têm chance de causar danos a
seus relacionamentos, perder o emprego e assim por diante, enquanto Sam castiga
apenas as pessoas que de fato prejudicou conscientemente seus relacionamentos,
perdeu seus empregos e afins. No entanto, o comportamento de Sam parece ul-
trajante. O desejo de impedir que as pessoas prejudique suas próprias vidas dessa
maneira não constitui fundamento adequado para coerção.5
Existem muitas outras leis paternalistas sobre as quais argumentos semelhantes
podem ser feitos. Em geral, o paternalismo é justificado apenas em circunstâncias
extremas – por exemplo, se uma pessoa está prestes a se jogar de uma ponte, pode-
se justificar coercivamente impedi-la de se jogar, pelo menos o tempo suficiente
para descobrir por que ela quer se matar e se tem uma mente sã. A coerção não se
justifica meramente porque outra pessoa deseja fazer uma escolha imprudente do
tipo que as pessoas normais costumam fazer na vida cotidiana. Aqui estão alguns
outros exemplos de paternalismo jurídico.

• Leis de medicamentos prescritos. Essas leis impedem que alguém compre


certos medicamentos sem a aprovação de um médico, e a lógica aparente é
que os pacientes usariam medicamentos perigosos e desnecessários.

• Subvenções e empréstimos a juros baixos para educação universitária. Em-


bora a lógica saliente desses programas seja de redistribuição de riqueza,
elas também têm um elemento paternalista. Os destinatários não recebem
simplesmente dinheiro para fazer o que quiserem, presumivelmente porque
muitos usariam os fundos imprudentemente; portanto, os fundos dependem
da faculdade dos destinatários.
4
Ver Huemer 2010a, 356–7.
5
Ver Huemer 2010a para elaboração.
7. E se Não Existir Autoridade? 132

• Seguro Social. Dizem que as pessoas devem ser forçadas a economizar para a
aposentadoria; caso contrário, elas tolamente deixarão de economizar. Tam-
bém é dito às vezes que o programa de aposentadoria deve ser administrado
pelo governo, pois, caso contrário, as pessoas investem seu dinheiro de ma-
neira tola e o perdem.

• Leis de licenciamento. Essas leis impedem as pessoas de vender determinados


serviços sem autorização do Estado – por exemplo, praticar medicina sem
licença ou praticar advocacia sem admissão na guilda. Por que não exigir que
os provedores de serviços divulguem se foram licenciados e permita que os
consumidores escolham se devem utilizar provedores não licenciados? A pre-
ocupação é que muitos consumidores optem tolamente por utilizar serviços
de médicos, advogados e outros não qualificados.

Como esses exemplos ilustram, o paternalismo legal é bastante difundido na


sociedade ocidental moderna. Todas essas são leis injustificadas.

7.1.3 Rent seeking


O rent seeking é um comportamento projetado para extrair riqueza de outras
pessoas, especialmente através do veículo do Estado, sem fornecer benefícios com-
pensatórios em troca.6 O exemplo mais direto é uma empresa que faz lobby com
o governo em busca de subsídios. Mas muitas das políticas que exemplificam o
paternalismo legal também são motivadas em parte pelo rent seeking. Considere
o seguinte.

• Leis de medicamentos prescritos. Essas leis transferem dinheiro dos consu-


midores para médicos e farmacêuticos. Se uma pessoa deseja comprar um
medicamento, deve primeiro pagar um médico para vê-lo e dar-lhe permissão
para comprar o medicamento.

• Subsídios para educação universitária. Isso aumenta a demanda por ensino


superior muito acima do nível do mercado e, portanto, transfere recursos
para faculdades e universidades. (O autor é grato pelos fundos que você
forneceu a ele.)

• Seguro Social. Eu disse acima que o Seguro Social poderia ser encarado como
um programa para forçar as pessoas a economizarem para a aposentadoria.
Também pode ser visto, talvez com mais precisão, como um sistema de
pagamentos por transferência de jovens para idosos.
6
Tullock 1987.
7. E se Não Existir Autoridade? 133

• Licenciamento. As leis de licenciamento colocam um obstáculo para entrar


em uma determinada profissão, diminuindo assim a competição enfrentada
pelos praticantes atuais. Isso aumenta os preços e beneficia os praticantes
existentes às custas dos consumidores e daqueles que desejam ingressar na
profissão.7

Qual é o status moral de tais leis? Suponha que estendamos a história de Sam
da seguinte maneira. Sam tem um amigo chamado Archer Midland. Archer pede
ajuda financeira a Sam, então Sam sai, agride algumas pessoas e dá o dinheiro
a Archer. Obviamente, esta ação está errada. O desejo de lucrar às custas dos
outros não é uma justificativa adequada para a coerção.

7.1.4 Imigração
Marvin precisa de comida, sem a qual sofrerá desnutrição ou fome.8 Ele planeja
viajar para um mercado próximo, onde poderá comercializar por comida. Mas an-
tes que possa chegar ao mercado, é abordado por Sam, que não quer que Marvin
negocie no mercado, por dois motivos. Primeiro, a filha de Sam vai fazer com-
pras no mercado, e Sam teme que Marvin possa aumentar o preço da comida.
Alguns fornecedores podem até ficar sem pão se muitas pessoas vierem ao mer-
cado. Segundo, Marvin vem de uma cultura diferente da maioria das pessoas que
frequentam o mercado, e Sam teme que Marvin possa influenciar outras pessoas e,
assim, alterar a cultura do mercado. Sam decide resolver o problema pela força.
Aponta sua arma para Marvin e ordena que Marvin saia dali. O faminto Marvin
é forçado a voltar para casa de mãos vazias.
As razões de Sam para coagir Marvin nesta história são claramente inadequa-
das. Além disso, Sam será culpado por qualquer dano que Marvin sofra como
resultado de não conseguir chegar ao mercado; serão danos que Sam infligiu a
Marvin. Se Marvin morrer de fome, então a culpa é de Sam. Isso é verdade,
apesar de Sam não ser responsável pela situação inicial de Marvin de sentir fome
e não ter comida; é verdade porque Sam ativamente impediu Marvin de obter
comida. Se uma pessoa está morrendo de fome e você se recusa a dar-lhe comida,
então você deixou que ela morresse de fome. Mas se você der o passo extra de
interferir coercivamente na dinâmica dele obter comida de outra pessoa, então você
não permitiu que ele apenas morresse de fome; você o impediu de se alimentar. O
mesmo ponto se aplica a danos menores: se, por exemplo, Marvin apenas sofrer
desnutrição por não conseguir chegar ao mercado, Sam terá infligido esse dano a
ele.
7
Ver Friedman 1989, 42-4, para discussão.
8
Este exemplo é de Huemer 2010b, que defende o argumento desta subseção em detalhes.
7. E se Não Existir Autoridade? 134

O comportamento de Sam na história é análogo ao do governo de qualquer país


moderno que exclui imigrantes pobres. Potenciais imigrantes de países em desen-
volvimento passam a participar dos mercados dos países mais ricos. Os governos
dos países mais ricos rotineiramente excluem à força esses imigrantes em poten-
cial. Como resultado, muitos sofrem por perspectivas de vida muito reduzidas. O
governo não permite apenas que ocorram danos a esses imigrantes em potencial.
Se o governo apenas se mantivesse passivo e se recusasse a dar ajuda a imigrantes
em potencial, isso permitiria que ocorressem danos. Mas não permanece passivo
quando o governo de todos os países ricos do mundo contrata deliberadamente
guardas armados para excluir ou expulsar à força pessoas indesejadas. Essa inter-
venção coercitiva constitui uma imposição ativa de danos a eles, assim como Sam
causa danos a Marvin na história acima.
Os motivos mais comuns dados para a restrição de imigração são dois. Primeiro,
que novos imigrantes competem com os americanos (ou locais) existentes no mer-
cado de trabalho, diminuindo assim os salários por mão de obra não qualificada
e dificultando a procura de emprego pelos trabalhadores americanos. Segundo,
se muitos imigrantes entrarem no país, alterarão a cultura do país. A primeira
preocupação é análoga à preocupação de Sam sobre a concorrência de Marvin com
a filha dele no mercado. Não é permitido usar força contra outra pessoa sim-
plesmente para impedir que terceiros sofram desvantagens econômicas através da
concorrência normal no mercado. A segunda preocupação é análoga à preocupa-
ção de Sam sobre a cultura do mercado. Não é permitido usar força contra outra
pessoa simplesmente para impedir que ela influencie a cultura da sociedade de
maneiras indesejadas.

7.1.5 A proteção dos direitos individuais


Existem políticas governamentais imunes ao estilo de crítica implantado nas sub-
seções anteriores?
As políticas isentas de minhas críticas geralmente são políticas que servem para
proteger os direitos dos indivíduos. Por exemplo, pessoas que desejam cometer
assassinato estão sujeitas a ameaças coercitivas por parte do Estado. Assassinos
pegos é forçado a passar anos em confinamento. Mas isso não é de todo injusto.
Os indivíduos têm o direito de não serem assassinados, e é apropriado se defender
pela força.
Por que não se pode implantar aqui o mesmo estilo de argumento usado nas
subseções anteriores? Imagine que um indivíduo particular, Sam, emita uma pro-
clamação à sua comunidade de que ninguém pode matar alguém. Um dia, Sam
descobre que alguém cometeu um assassinato. Sam leva o assassino em cativeiro
à mão armada e confina o assassino em seu porão por um período de anos. Sam
agiu corretamente?
7. E se Não Existir Autoridade? 135

Nesse caso, diferentemente dos episódios anteriores que envolvem Sam, parece-
me que o comportamento de Sam é permitido, e até louvável.
Alguns se sentem desconfortáveis com esse tipo de ação de vigilante, por dois
motivos. Primeiro, alguém pode ficar preocupado com a confiabilidade de Sam
na identificação dos culpados. Quando vigilantes particulares exigem justiça, eles
podem identificar mal os criminosos e acabar punindo os inocentes. Segundo, na
maioria das sociedades, o vigilantismo de Sam seria desnecessário, pois existem
forças policiais e tribunais para punir os culpados. Essas são as razões mais im-
portantes para se opor à justiça dos vigilantes na maioria das circunstâncias.
Para deixar essas preocupações de lado, estipulemos que não existem outros
mecanismos estabelecidos para lidar com assassinos na sociedade de Sam. Se Sam
não perseguir os assassinos, os assassinos terão rédea mais ou menos livre. Suponha
também que Sam tenha procedimentos cuidadosos para verificar a culpa das partes
a quem castiga. Ele tem um longo processo de revisão de evidências, no qual o
acusado tem todas as oportunidades para questionar as evidências contra ele e
apresentar evidências em seu próprio favor. O processo é cuidadoso, confiável e
aberto ao escrutínio público. Nesse caso, não vejo objeção ao comportamento de
Sam.
O comportamento de Sam nesta última história é análogo ao de um governo que
persegue assassinos, dá-lhes julgamentos justos e públicos e os aprisiona. Não há
nada censurável em tal prática. O mesmo vale para políticas destinadas a proteger
a sociedade de vários outros tipos de criminosos, como ladrões, estupradores e
outros criminosos violentos.
Um argumento semelhante pode ser feito sobre a defesa militar. Os invasores
de um país estrangeiro são simplesmente um grupo grande e bem organizado de
ladrões e assassinos, e é apropriado usar a força contra eles em defesa de si e dos
vizinhos.
Não tentarei aqui catalogar todas as ações que o Estado possa justamente usar
a coerção para impedi-las. Tipos particulares de ação devem ser julgados usando
nossas intuições éticas comuns e aplicando o princípio geral de que é permitido
ao Estado proibir alguma ação se, e somente se, for permitido a um indivíduo
privado usar a força para impedir ou retaliar por esse tipo de ação, supondo que o
indivíduo use métodos confiáveis para identificar os culpados e não tivesse melhores
alternativas disponíveis.

7.1.6 Tributação e financiamento do governo


Como um governo pode financiar suas atividades? O principal método agora usado
é a extração coercitiva de dinheiro da população (tributação). A prevalência desse
método de financiamento provavelmente é devida ao fato de ser um método muito
confiável de coletar quantias muito grandes de dinheiro. Porém, normalmente não
7. E se Não Existir Autoridade? 136

é permitido extrair coercivamente dinheiro de outras pessoas, mesmo que você


tenha um bom uso para o dinheiro. Diante disso, portanto, a tributação parece
inadmissível.
Essa inferência, no entanto, parece pressupor que os indivíduos têm justamente
o direito, prima facie, a sua renda antes dos impostos. Thomas Nagel e Liam
Murphy contestaram essa suposição. Eles acreditam que os direitos de propriedade
são criados por leis governamentais e, portanto, só se tem direitos de propriedade
naquelas coisas às quais as leis do Estado concedem uma propriedade. Ao criar
leis tributárias, o Estado molda os direitos de propriedade que os indivíduos têm,
de modo que eles possuem apenas sua renda após os impostos.9
Em resposta, existem três pontos de vista que se pode ter em relação aos
direitos de propriedade. Primeiro, alguém pode sustentar que os direitos de pro-
priedade são naturais, isto é, direitos morais que existem antes do Estado. John
Locke, por exemplo, sustentou que os indivíduos têm justamente os frutos de seu
trabalho, mesmo em uma sociedade pré-governamental.10 Sob esse ponto de vista,
a tributação parece ser uma injustiça prima facie, por qualquer que seja a maneira
eticamente correta de adquirir propriedades, presumivelmente, não é extração for-
çada de bens mantidos por terceiros.
Segundo, pode-se afirmar que os direitos de propriedade são parcialmente na-
turais, pois existem certos princípios amplos de propriedade que são válidos in-
dependentemente das leis governamentais, mas que existem muitos detalhes de
um regime de direitos de propriedade que não são resolvidos por esses princípios
morais gerais. Por exemplo, talvez nossos direitos morais inerentes determinem
que temos direito aos frutos de nosso trabalho, mas esses direitos não determinam
em que altitudes se pode pilotar um avião sobre a terra de outra pessoa. Pode-se
afirmar que são necessárias leis criadas pelo Estado para resolver tais questões de
detalhes. Essa visão ainda oferece pouco conforto ao defensor da tributação, para
o direito de um agente extrair coercivamente grandes quantidades de recursos do
restante da população esse tipo de detalhe (como a altitude em que se pode so-
brevoar a propriedade de outros) pode ser plausivelmente deixado indeterminado
pelos princípios morais básicos da propriedade.
Terceiro, pode-se afirmar que não há direitos de propriedade natural. Nagel
e Murphy assumem que isso significa que os direitos de propriedade são criados
por decreto governamental. Isso é plausível apenas para quem pressupõe uma
forte doutrina de autoridade política. Nagel e Murphy atribuem ao Estado um
direito moral, decorrente de seu poder de criar direitos de propriedade, para impor
coercivamente a distribuição de recursos escolhida. Como nenhum agente não
governamental pode declarar uma distribuição de recursos e um regime de direitos
9
Murphy e Nagel 2002, p. 173–7. Compare Holmes e Sunstein 1999, capítulo 3.
10
Locke 1980, capítulo 5.
7. E se Não Existir Autoridade? 137

de propriedade e depois aplicá-los coercivamente, o direito do Estado de fazê-lo


exigiria legitimidade política. Ao mesmo tempo, a criação pelo Estado de um
regime de direitos de propriedade provavelmente imporia obrigações por parte
dos cidadãos de respeitar esse regime. Essas seriam obrigações políticas. Se,
portanto, o Estado não tem autoridade, então não tem o poder de criar direitos
de propriedade, como Murphy e Nagel supõem.
O resultado parece ser que, mesmo depois do Estado fazer suas leis, ainda
não há direitos de propriedade. (Se alguém considera essa conclusão implausível,
deve retornar à visão de que existem direitos de propriedade naturais.) Pode-se
pensar que a rejeição dos direitos de propriedade deixa o caminho aberto para a
tributação: uma vez que os pagadores de impostos não têm o direito de “sua”
riqueza, a apreensão de parte dessa riqueza não parecerá mais como uma violação
de direitos. Mas, da mesma forma, o Estado também não terá direito a essa riqueza
e, portanto, os cidadãos não fazem nada errado ao retê-la. Enquanto isso, existem
os danos que o Estado impõe coercivamente aqueles que não pagam impostos, e
esses parecem ser injustiças prima facie.
Em suma, o defensor da tributação deve sustentar que o Estado, e não os
pagadores de impostos, tem justamente o direito às receitas tributárias que o
Estado recebe. Não há maneira plausível de defender essa visão, a menos que
alguém assuma uma doutrina de autoridade política.
Como um governo poderia financiar suas atividades sem tributação? Uma al-
ternativa seria o Estado cobrar taxas por seus serviços. O Estado pode cobrar por
cada serviço prestado ou definir uma taxa única para cobrir todos os serviços do
governo. Suponha que o Estado estabeleça uma taxa anual única por seus servi-
ços. Aqueles que não pagassem a taxa seriam excluídos da maioria dos serviços
governamentais ao longo do ano – por exemplo, poderiam não conseguir entrar
com ações judiciais nos tribunais do governo e não poderiam chamar a polícia do
governo para investigar ou protegê-los de crimes contra eles. Pode ser fornecida
proteção policial para prédios e bairros que pagaram a taxa apropriada, com as-
sociações de proprietários coletando os fundos para pagar pela proteção de um
determinado bairro. O Estado poderia estabelecer uma política que, se um crime
fosse cometido em um prédio ou bairro que não tivesse pago a taxa de segurança
governamental, a polícia e os tribunais não fariam nada a respeito. Desde que o
Estado fosse razoavelmente bom em seu trabalho e suas taxas fossem razoáveis, a
maioria dos cidadãos, por razões óbvias, escolheria pagar.
Algumas pessoas, quando expostas a essa ideia pela primeira vez, pensam que
a proposta equivale à extração coercitiva de fundos dos cidadãos, assim como
certamente faz a tributação, pois indivíduos que não pagarem as taxas do Estado
estariam sujeitos a um sério risco de violência. Isto é um erro. Sob o atual regime
tributário, o próprio Estado inflige danos àqueles que não pagam seus impostos.
7. E se Não Existir Autoridade? 138

De acordo com o esquema de taxa por serviço que propus, o Estado não protege
contra os danos aqueles que se recusam a pagar a taxa necessária, mas ele próprio
não lhes causa danos. Considere uma analogia. Os médicos prestam assistência
médica por um preço. Eles geralmente não prestam assistência àqueles que não
os pagam, mas não estão coagindo todos que não compram seus serviços; se você
não contratar um médico, ele não virá e o infectará com uma doença. O modelo
de honorários por serviços financeiros do governo é como o sistema no qual os
médicos prestam assistência médica apenas àqueles que os contratam. O sistema
tributário é como um sistema no qual os médicos dão doenças àqueles que não
os contratam. Como esse modelo alternativo de financiamento do governo não
foi tentado, sem dúvida haverá muitas questões levantadas sobre ele. Não posso
explorar a proposta em detalhes aqui, mas mencionarei brevemente três questões
óbvias. Uma delas diz respeito a quanto dinheiro o governo poderia esperar obter
através de taxas voluntárias. No ano fiscal de 2010, o governo federal dos EUA
gastou aproximadamente US$ 3,7 trilhões, ou cerca de um quarto do PIB.11 Um
esquema de pagamento voluntário pode não ser capaz de suportar despesas tão
grandes. A melhor solução para esse problema seria reduzir drasticamente os gastos
do governo, de acordo com a gama muito limitada de atividades governamentais
que achamos justificadas.
Outra preocupação é que as pessoas pobres possam ser incapazes de pagar as
taxas do governo e, portanto, ficarão com ainda menos proteção do que atualmente.
No entanto, o Estado não precisa cobrar o mesmo preço a todos os cidadãos. Es-
quemas diferenciais de preços geralmente ocorrem mesmo no mercado livre, como
no caso de cinemas que cobram preços mais baixos para idosos e estudantes. Mais
exatamente, aqueles com casas caras pagam rotineiramente mais pelo seguro de
propriedade do que aqueles com casas baratas. Na mesma linha, os ricos estariam
dispostos a pagar mais pela proteção de suas pessoas e propriedades do que os
pobres pagariam ou poderiam pagar.
Outra questão é se o Estado teria o direito de proibir indivíduos ou organiza-
ções não estatais de vender serviços semelhantes aos do Estado. Por exemplo, as
empresas de segurança privada poderiam fornecer segurança para pessoas que não
pagaram as taxas do governo? Se tal competição fosse permitida, muitos cida-
dãos poderiam optar pela segurança privada, talvez economizar dinheiro ou obter
melhores serviços. Se um número suficiente de pessoas se comportar dessa ma-
neira, é possível que o governo seja expulso dos negócios. Na minha opinião, essa
competição deve ser permitida, e isso fornece a chave para a proposta anarquista
política dos próximos capítulos. No entanto, o presente capítulo é para aqueles
que acreditam que qualquer esquema de provisão de segurança concorrente sem
uma autoridade central única seria socialmente desastroso. Nesse pressuposto, o
11
U.S. Census Bureau 2011b, 310, tabela 467.
7. E se Não Existir Autoridade? 139

Estado poderia proibir justamente a provisão privada de segurança. Normalmente,


é errado coagir os outros, mas essa coerção pode ser justificada quando é necessário
impedir que algo muito pior aconteça.
Um ponto semelhante se aplicaria se o modelo de taxa de serviço das finanças
públicas fosse, por algum motivo, impraticável. Se a tributação fosse necessária
para evitar uma catástrofe social, o Estado estaria justificado em tributar. No
entanto, o modelo de taxa por serviço, se praticável, tem a vantagem em termos
de justiça, uma vez que reduz a quantidade de coerção do governo. Por esse
motivo, os governos deveriam pelo menos tentar implementar esse modelo e só
deveriam recorrer à tributação caso falhassem esses esforços sérios de boa-fé no
financiamento voluntário.

7.2 O caso da ajuda aos pobres


7.2.1 Bem-estar e criança afogando
Muitas políticas governamentais servem para redistribuir a riqueza dos ricos para
os pobres. Essa classe de políticas aparece na teoria social contemporânea, ofus-
cando todos os outros tipos de política nas discussões sobre justiça social. Dedico
a presente seção a abordar o que considero o argumento mais forte a favor da re-
distribuição da riqueza. Esse é um argumento mais humanitário do que igualitário
– ou seja, se concentra no problema de que as necessidades básicas de algumas
pessoas são insatisfatórias e não no alegado problema de que as pessoas têm níveis
díspares de riqueza e renda.12
Imagine que você está passando por um lago onde vê uma criança se afogando.
Se você pode salvar a criança com um pequeno custo para si mesmo, seria errado
não salva-la. Esse exemplo é frequentemente empregado na literatura sobre ética
para motivar o princípio de que, se alguém pode impedir que algo muito ruim
aconteça com pouco custo para si mesmo, é obrigado a fazê-lo. Em particular,
costuma-se dizer que, se tivermos a oportunidade de salvar as pessoas pobres de
sofrer fome, desnutrição ou outros danos sérios a baixo custo para nós mesmos,
devemos fazê-lo.13
Mas agora imagine que, por qualquer motivo, você não consiga salvar a criança
no lago. Há, no entanto, outro espectador que poderia salvar a criança com um
pequeno custo para si mesmo. Esse indivíduo, no entanto, não se importa o sufi-
ciente com a criança para salva-la voluntariamente. A única maneira de fazer com
que a criança seja salva é ameaçando o espectador com violência, a menos que ele
salve a criança. Você faz isso e ele salva a criança. Chame isso de caso da criança
12
Ver Huemer 2003 em diante para argumentos contra o igualitarismo.
13
Singer 1993, capítulo 8; Unger 1996.
7. E se Não Existir Autoridade? 140

afogando. Nesse caso, por mais lamentável que seja o recurso à coerção, parece
justificado.
Isso parece mostrar que é permitido coagir outras pessoas a ajudar pessoas em
perigo, desde que possam fazer a um custo modesto e que não haja outra maneira
de fazer com que as pessoas em perigo sejam ajudadas. Por analogia, alguém
pode argumentar que o Estado está justificado ao usar a coerção para induzir
os cidadãos a ajudar os pobres, como no caso dos programas governamentais de
bem-estar social. Nas subseções a seguir, sugiro três objeções a essa conclusão.

7.2.2 A utilidade dos programas antipobreza


Considere uma variação no caso da criança afogando. Chame isso de caso do
espectador incompetente: como antes, há uma criança se afogando a quem você
não pode ajudar diretamente, mas pode coagir um espectador relutante a agir.
Desta vez, no entanto, suponha que, mesmo se você forçar o espectador a entrar no
lago para puxar a criança para fora, não está claro se a criança será realmente salva
(seja porque a criança já está longe demais, porque o espectador é incompetente,
ou por algum outro motivo). Segundo, suponha que haja uma chance razoável de
que, a caminho de tentar salvar a criança afogando, o espectador acidentalmente
bata numa ou mais crianças no lago e elas acabam se afogando. Você acha difícil
avaliar essas probabilidades; portanto, não está claro se o benefício líquido esperado
de forçar o espectador a “ajudar” é positivo ou negativo. No entanto, você não
suporta a ideia de não fazer nada e, assim, pega sua pistola de confiança e força o
espectador a ir atrás da criança que está se afogando.
Nesse caso, você age errado. Deve haver alguma presunção contra coerção.
No cenário descrito acima, não há um argumento convincente a favor de levar
o espectador a agir, de modo que a presunção contra a coerção permanece. A
conclusão é ainda mais clara se o exemplo for especificado de maneira que você
possa justificar que o benefício esperado de coagir o espectador seja negativo (ou
seja, os danos esperados são maiores que os benefícios esperados). Os programas
antipobreza do governo são justificados, então, somente se os benefícios esperados
forem positivos e esse fato for razoavelmente claro (ou seja, temos uma justificativa
forte e abrangente para acreditar nisso).14
Há um argumento simples e bem conhecido para pensar que os programas de
combate à pobreza são benéficos em geral: os programas de combate à pobreza
14
A formulação em termos de “benefício esperado” tem como objetivo permitir a possibilidade
de um ato coercitivo ser justificado em virtude de apenas reduzir o risco de algo muito ruim. Não
precisa ficar claro que o ato coercitivo de fato impede o mau evento; no entanto, deve ser pelo
menos razoavelmente claro que o ato coercitivo reduz o risco. Se o ato coercitivo criar algum
outro risco, também deve ficar razoavelmente claro que a redução no risco original supera o risco
recém-criado.
7. E se Não Existir Autoridade? 141

redistribuem dinheiro de pessoas mais ricas para pessoas mais pobres. De acordo
com o conhecido princípio da utilidade marginal decrescente do dinheiro, uma de-
terminada quantidade de dinheiro geralmente trará mais benefícios a uma pessoa
mais pobre do que a uma pessoa mais rica (os pobres precisam mais do dinheiro).
Esses programas redistributivos devem, portanto, fazer mais bem do que prejudi-
car.15 Esse argumento teórico tem clara plausibilidade prima facie. Baseia-se em
um princípio econômico muito amplamente aceito e plausível, o da diminuição da
utilidade marginal da riqueza.
Há também vários argumentos plausíveis prima facie para a conclusão oposta.
Charles Murray, o crítico mais influente dos programas governamentais de com-
bate à pobreza, argumenta que esses programas criam um problema de risco moral
(moral hazard).16 Reduzem os custos ou criam benefícios para certas condições
sociais, como desemprego e gravidez fora do casamento. Isso reduz a aversão das
pessoas a essas condições, levando mais pessoas a se comportarem de maneiras
mais propensas a levar a essas condições. Murray afirma que, em vez de ajudar os
pobres a se levantarem, os programas governamentais criam um ciclo de dependên-
cia, facilitando, a curto prazo, o engajamento em comportamento autodestrutivo
a longo prazo. O impulso geral de seu argumento empírico é que, à medida que os
programas governamentais de combate à pobreza desfrutavam de enormes aumen-
tos de financiamento e escopo entre as décadas de 1960 e 1980, persistiam pobreza,
desemprego, ilegitimidade, crime, educação deficiente e outros problemas sociais:
“em alguns casos, o progresso anterior diminuiu; em outros casos, houve deteriora-
ção leve acelerada; em outros poucos, o avanço sumiu”.17 Outros cientistas sociais,
no entanto, contestaram fortemente o argumento empírico de Murray.18
Outros argumentos se concentram nos efeitos da redistribuição de riqueza na
produtividade econômica geral. Um argumento frequentemente ouvido no discurso
popular afirma que altos impostos sobre os ricos reduzem o incentivo para que as
pessoas sejam produtivas. Um argumento relacionado e mais sutil começa com a
observação de que as pessoas de alta renda tendem a investir uma proporção muito
maior de sua renda do que as de baixa renda. Portanto, a redistribuição da riqueza
de pessoas de alta a baixa renda reduzirá a taxa total de investimento de uma
sociedade em favor do consumo a curto prazo. Isso reduzirá a taxa de crescimento
econômico de uma sociedade. Mudanças na taxa de crescimento têm impactos
totais exponencialmente maiores à medida que são combinados com períodos mais
longos. Portanto, a menor taxa de crescimento fará uma diferença muito maior
para a riqueza material das gerações futuras.19
15
Lerner 1944, capítulo 3; Nagel 1991, 65.
16
Murray 1984. Ver também Olasky 1992; Schmidtz 1998.
17
Murray 1984, pp. 8–9.
18
Ver Jencks 1992, capítulo 2; Murray e Jencks 1985; Cowen 2002, 39-44.
19
Schmidtz 2000; Cowen 2002, pp. 44–9.
7. E se Não Existir Autoridade? 142

Finalmente, deve-se lembrar que os programas governamentais não são máqui-


nas sem atrito. Pode ser verdade que um determinado dólar faria mais bem a
uma pessoa pobre do que a uma pessoa rica, mas, uma vez considerados custos e
desperdícios administrativos, é improvável que os programas governamentais que
tiram um dólar de uma pessoa rica deem à pessoa pobre qualquer coisa perto de
todo o dólar.
Todos esses argumentos têm alguma validade: cada um identifica um fator
relevante que tende a promover ou diminuir o bem-estar social. Um fator impor-
tante fala a favor dos programas governamentais de combate à pobreza, enquanto
outros fatores importantes falam contra esses programas. Meu palpite é que, a
longo prazo, o argumento da taxa de investimento vence.
Não posso tentar aqui resolver a questão muito complexa dos efeitos líquidos
dos programas governamentais de combate à pobreza. Sobre essa questão, eu
não tenho nada de importante a acrescentar à literatura existente (consulte as
notas). No entanto, a discussão anterior deve ajudar a explicar por que o assunto
é controverso e por que não é claro, na melhor das hipóteses, que esses programas
sejam benéficos ao invés de prejudiciais. Mas, dada a presunção contra a coerção,
os programas são justificados apenas se estiver claro que tenham um benefício
esperado líquido positivo.
É concebível que, no futuro, alguém planeje programas governamentais de com-
bate à pobreza que tenham benefícios líquidos claros. Neste momento, a coerção
pode se justificar, dependendo do tamanho dos benefícios, da quantidade de coer-
ção necessária e assim por diante. No entanto, tendo em mente que os argumentos
teóricos para a nocividade dos programas governamentais de combate à pobreza
são baseados em características muito amplas desses programas, também é pro-
vável que ninguém crie programas desprovidos desses problemas. Suspeito que
os únicos programas que realmente produzam grandes benefícios líquidos sejam
politicamente inviáveis devido a preconceitos generalizados contra estrangeiros,
conforme sugerido na subseção a seguir.

7.2.3 Os programas antipobreza são direcionados adequa-


damente?
Passo agora a outra variação sobre o tema das crianças carentes. Chame isso de
caso da criança com frio: há uma criança desconfortável por causa do ar frio da
noite. Ela precisa de uma jaqueta, mas você não tem jaqueta para dar a ela. Você,
no entanto, tem uma arma e vê um espectador próximo usando uma jaqueta e um
suéter. O espectador não quer desistir de nenhuma de suas roupas. Você sacou a
arma e obrigou o espectador a entregar a jaqueta para a criança.
Enquanto isso, mais longe, há um garoto que está se afogando em um lago
7. E se Não Existir Autoridade? 143

raso. Você está ciente dessa segunda criança e pode coagir o espectador a ajudar
a criança que está se afogando; no entanto, isso interferiria em ajudar a criança
com frio (o espectador precisa sair em breve por razões muito importantes e só
tem tempo para ajudar uma delas). Você gosta mais da criança com frio; ela se
parece mais com você, ela é da sua cidade natal e assim por diante. Assim, você
ajuda a criança com frio, deixando a outra se afogar.
Seu comportamento neste caso é moralmente inaceitável. Existem dois proble-
mas óbvios: primeiro, o desejo de manter uma criança aquecida não é, na ausência
de uma emergência médica, uma justificativa adequada para assalto à mão ar-
mada. Segundo, se você for usar coerção para ajudar alguém, deve ser a criança
que está se afogando, cujas necessidades são muito mais urgentes.
O governo de uma nação rica está em uma posição semelhante. Alguns de
seus cidadãos são um tanto carentes. Mas há cidadãos muito mais carentes em
outros países. Os pobres americanos, por exemplo, são apenas pobres em relação a
outros americanos; eles geralmente possuem automóveis, televisões a cores, fornos
de microondas e assim por diante. Podem estar com apertos, por exemplo, de
não poder comprar roupas novas ou de não mandar seus filhos para a faculdade.
Os pobres no mundo em desenvolvimento, no entanto, são absolutamente pobres.
Correm o risco de morrer por causa da fome, desnutrição ou doenças facilmente
evitáveis. No entanto, na maioria das vezes, os governos de países ricos, como os
Estados Unidos, optam por usar seus fundos para ajudar pessoas em seus próprios
países, ignorando principalmente as pessoas mais necessitadas em outros lugares.
As duas atividades estão relacionadas, porque os fundos gastos com pobres do-
mésticos poderiam ter sido gastos com pobres estrangeiros. É claro que o Estado
poderia aumentar sua taxa de impostos para ter mais dinheiro disponível, mas não
importa quão alto o Estado aumentasse suas receitas dentro da gama de possibili-
dades plausíveis, ainda assim seria o caso de que todo ou quase todo esse dinheiro
teria que ser gasto com os pobres estrangeiros caso os fundos fossem alocados de
maneira semelhante à necessidade. Como no caso da criança com frio, a maioria
dos programas governamentais de redistribuição de riqueza parece sofrer de dois
problemas. Primeiro, as necessidades que eles pretendem atender não são sufici-
entemente urgentes para justificar a coerção. A necessidade de salvar uma pessoa
da morte ou ferimentos graves pode justificar um nível moderado de coerção e
violações moderadas dos direitos de propriedade. Mas o desejo de fornecer a uma
pessoa roupas de qualidade, educação universitária ou um ar-condicionado normal-
mente não é suficiente para justificar a apreensão coercitiva dos fundos necessários
de terceiros inocentes.
Segundo, se o governo quiser instituir programas de ajuda coercitiva, certa-
mente deve direcionar seus esforços para pessoas cujas vidas estão em grave pe-
rigo, mas que poderiam ser salvas a um custo mínimo, em vez de pessoas com
7. E se Não Existir Autoridade? 144

necessidades muito menos urgentes e muito mais caras para se endereçar. Por
exemplo, estima-se que os programas de suplementação de vitamina A no mundo
em desenvolvimento possam salvar vidas a um custo entre US$ 64 e US$ 500 por
vida salva.20 Para comparação, ao realizar análises de custo-benefício, a Agência
de Proteção dos EUA gasta US$ 6,9 milhões pelo valor de uma vida estatística nos
Estados Unidos.21 O governo poderia doar seus fundos antipobreza a grupos de ca-
ridade que implementam programas extremamente econômicos e que salvam vidas
em países menos desenvolvidos. Certamente programas desse tipo devem aconte-
cer antes de dar dinheiro a uma família americana cuja renda, embora baixa pelos
padrões americanos, seja muitas vezes maior que a da maioria dos habitantes do
mundo em desenvolvimento.
Alguns argumentam que as prioridades aparentemente perversas do Estado
são justificadas porque o Estado tem responsabilidades especiais para com seus
próprios cidadãos que não se estende aos estrangeiros.22 Isso me parece uma
resposta inadequada. Suponha que adicionemos ao caso da criança com frio a
estipulação de que ela é realmente sua filha, enquanto a criança que se afoga é
um estranho de outro país. Se os governos têm deveres especiais para com seus
próprios cidadãos, os pais têm deveres ainda mais claros e mais fortes para com
seus próprios filhos. Portanto, se fosse uma questão de salvar a vida de uma das
duas crianças, seria apropriado salvar sua filha. Mas você não pode escolher entre
garantir uma jaqueta para manter sua filha aquecida e não salvar a vida de um
estranho.
O argumento desta subseção não tenta mostrar que nenhum programa coer-
citivo de combate à pobreza poderia ser justificado. O que mostra é que, se o
Estado está moralmente justificado na adoção de tais programas, teriam que ser
muito diferentes dos programas realmente encontrados nos países ricos. Eles se
concentrariam em pessoas extremamente carentes e com impactos baratos em paí-
ses estrangeiros. Os programas existentes são quase inteiramente voltados para as
pessoas e os problemas errados.
20
Horton et al. 2009. Outros programas extremamente econômicos incluem suplementação de
zinco, de ferro e folato, iodização de sal e desparasitação – todos no mundo em desenvolvimento
(Bhagwati et al. 2009).
21
Borenstein 2008. Em outras palavras, a EPA considera uma regulação valiosa se impuser
um custo não superior a US$ 6,9 milhões por cada vida americana que se espera salvar.
22
Ver Goodin, em 1988 (mas observe a última frase do artigo, que chega perto de desconsiderar
o que o restante do artigo parecia defender). Veja também Wellman 2000.
7. E se Não Existir Autoridade? 145

7.2.4 Um choque de analogias: criança afogando e assalto


para caridade
O caso da criança afogando é a analogia mais próxima que podemos encontrar dos
programas governamentais de combate à pobreza? Considere o caso do assalto
para caridade: você iniciou uma instituição de caridade para fornecer assistência
monetária aos pobres. Para coletar os fundos necessários, você assalta pessoas na
rua.
Isso parece claramente inadmissível. Agora, suponha, por uma questão de argu-
mento, que sua ação coercitiva no caso da agressão por caridade seja inadmissível,
mas sua ação coercitiva no caso da criança afogando seja permitida. Qual caso
fornece uma analogia mais próxima aos programas governamentais de combate à
pobreza?
Em face disso, se quisermos escolher um dos casos como uma analogia mais
próxima, deve ser o assalto para caridade. No assalto para caridade, a ação coer-
civa é tomada a serviço exatamente do mesmo tipo de programa que os programas
governamentais em questão, ou seja, um programa de ajuda econômica direta aos
pobres. O ato coercitivo também é do mesmo tipo que nos programas gover-
namentais: extração forçada de dinheiro. Nenhuma dessas coisas é verdadeira
no caso da criança afogando. Portanto, se aceitarmos intuições comuns sobre a
criança afogando e o assalto para caridade, devemos concluir que os programas
governamentais de combate à pobreza são inadmissíveis.
Alguns filósofos argumentariam, no entanto, que o caso da criança afogando
e o caso do assalto para caridade não têm diferenças moralmente significativas:
ambos são casos em que um coage outra pessoa para garantir ajuda a terceiros
carentes, e isso é tudo o que importa. Como esses casos são claramente análogos
entre si, diriam esses filósofos, nossas intuições sobre um dos dois casos devem
estar simplesmente erradas.23 Como a intuição sobre a criança afogando é mais
forte do que a intuição sobre o assalto para caridade, devemos nos ater à intuição
da criança afogando e, portanto, devemos endossar os programas de combate à
pobreza do governo.
Existem diferenças relevantes entre os dois casos? Para aqueles que ainda não
perceberam, vale a pena dedicar um momento para refletir sobre essa questão antes
de continuar lendo.
Há pelo menos três diferenças que podem ser consideradas, individualmente ou
em conjunto, como moralmente significativas:

a No assalto para caridade, o problema que você procura abordar é uma condição
23
Embora Unger não discuta diretamente o caso do assalto para caridade, suas observações
sobre outros casos (1996, capítulo 3) sugerem que ele endossaria o argumento mencionado no
texto.
7. E se Não Existir Autoridade? 146

social crônica, enquanto na criança afogando, o problema é uma emergência


imediata. Os exemplos na literatura que extraem as intuições mais fortes sobre
os deveres de ajudar os outros são exemplos de emergências imediatas. Os casos
em que nos faltam fortes intuições do dever de ajudar, mas nos quais os filósofos
tentam argumentar para que aceitemos tais deveres são tipicamente casos de
condições sociais crônicas.
b No caso da criança afogando, pode-se resolver o problema com facilidade e ra-
pidez, enquanto que no caso do assalto para caridade, pode-se esperar realisti-
camente apenas aliviar o problema.
c No caso da criança afogando, a coerção necessária para resolver o problema é
uma intervenção única, enquanto que no processo de assalto para caridade é um
programa contínuo de coerção.24

Os programas governamentais de combate à pobreza estão alinhados com o


caso do assalto para caridade em todos esses aspectos. Pode haver outras diferen-
ças interessantes entre os dois tipos de casos, talvez incluindo alguns que ninguém
ainda identificou. Isso é provável, uma vez que, em geral, é muito difícil identifi-
car as fontes de nossas intuições, e a maioria das pessoas tem dificuldade até de
apresentar os itens (a) a (c).
Parece haver agora quatro visões filosóficas sobre o caso da criança afogando e
o caso do assalto para caridade que vale a pena considerar:

i Os dois tipos de casos são relevantes e, em nenhum dos casos, é permitida a


coerção.
ii Os dois tipos de casos são relevantes e, em ambos os casos, a coerção é permi-
tida.
24
Unger (1996, capítulo 2) discute um par semelhante de exemplos e considera várias diferenças
potencialmente relevantes, incluindo essencialmente (a) e (b) acima. Ele acha (a) moralmente
irrelevante (42). Grosso modo, sustenta que a distinção entre uma “emergência” e um “problema
crônico” consiste meramente no fato de que as vítimas deste último sofrem há mais tempo; mas
isso certamente não pode diminuir as razões para ajudar as vítimas de problemas crônicos. Não é
óbvio, no entanto, que o caso de Unger sobre a distinção seja aceito. O autor considera a alínea b)
“confusa” (41). Grosso modo, ele argumentaria que, no caso do assalto para caridade, podemos
satisfazer as necessidades de algumas vítimas da pobreza. A única razão pela qual dizemos que
nossa ajuda não pode “resolver o problema” é que estamos agrupando todas as pessoas que
sofrem de pobreza e não podemos satisfazer todas as necessidades dessas pessoas. Mas, no caso
da criança afogando, podemos conceitualmente agrupar essa criança que se afoga em particular
com todas as outras pessoas que sofrem de algo ruim em qualquer lugar do mundo. Então aqui
também nossa ajuda não pode “resolver o problema” porque não podemos impedir todas as
coisas ruins do mundo. Portanto, realmente não há diferença entre o assalto para caridade e a
criança afogando. O argumento de Unger aqui depende da suposição de que não há distinção
entre mais e menos agrupamentos naturais.
7. E se Não Existir Autoridade? 147

iii Intervenções coercitivas únicas para resolver emergências imediatas são per-
mitidas, mas programas contínuos de coerção para aliviar condições sociais
crônicas não são. Assim, a coerção é justificada no caso da criança afogando,
mas não no caso do assalto para caridade.

iv Os casos não são análogos por algum outro motivo, e a coerção é justificada
no caso da criança afogando, mas não no caso do assalto para caridade.

Somente na opção (ii) concluiríamos que os programas governamentais antipo-


breza são permitidos. Mas, à primeira vista (iii) parece muito mais plausível que
(ii). A opção (iv) também parece muito mais plausível que (ii), apesar da falha em
especificar a diferença relevante entre os casos (não é de todo implausível pensar
que possa haver uma diferença relevante que nos tenha escapado). As visões (i) e
(ii) me parecem de implausibilidade comparável, com (ii) menos plausível que (i),
embora pensadores razoáveis difiram nisso.
A tese (ii) tem implicações mais implausíveis do que simplesmente extorquir
dinheiro de outras pessoas para apoiar a caridade. O espectador no caso da criança
afogando tem um dever moral rigoroso de ajudar a criança que se afoga. Se o caso
do assalto para caridade for significativamente semelhante, os indivíduos devem
ter deveres morais rigorosos para doar à caridade, comparável ao dever de ajudar
uma criança que se afoga. Se não tivessem tais deveres, isso seria uma diferença
moralmente relevante entre os dois casos (é moralmente relevante que, no caso da
criança afogando, alguém coage o espectador apenas para cumprir seu dever).
Agora imagine outro caso; chame de caso do filantropo sobrecarregado. Supo-
nha que você doe regularmente 80% do seu salário para instituições de caridade
que ajudam crianças pobres. No caminho para o trabalho, você vê uma criança
se afogando em um lago raso. Considerando quanto sacrifício você já fez pelos
outros, você se pergunta se deve realmente molhar suas roupas para salvar mais
uma criança.
Intuitivamente, a resposta é sim. Mesmo depois de doar 80% de sua renda à
caridade, você ainda é obrigado a salvar uma criança que está se afogando quando
tiver a chance. Agora, se o dever de doar à caridade é comparável ao dever de salvar
uma criança que está se afogando, parece que podemos fazer a mesma afirmação
sobre doar à caridade; isto é, mesmo depois de doar 80% de sua renda à caridade,
você ainda é obrigado a doar (mais) à caridade quando tiver a chance. Se não é
assim, a obrigação de doar à caridade deve ser de alguma forma menos rigorosa
do que a obrigação de ajudar uma criança que se afoga. Portanto, se aceitarmos
a tese (ii), parece que devemos concluir que somos obrigados a doar mais de 80%
de nossa renda para caridade.25
25
Compare Unger 1996, capítulo 6. É claro que alguém precisa desistir apenas no ponto em
que doações adicionais ameaçam a sua sobrevivência ou a sua capacidade de doação no futuro.
7. E se Não Existir Autoridade? 148

Além disso, no caso do filantropo sobrecarregado, você não seria levemente cul-
pado caso não salvasse a criança. Falhar em salvar a criança seria extremamente
culpável, talvez não muito melhor do que assassinato. Portanto, se a obrigação de
doar à caridade é moralmente comparável à obrigação de ajudar uma criança que
está se afogando, alguém que não doar mais de 80% de sua renda para a caridade
também é extremamente culpável, talvez não muito melhor do que um assassino.
Podemos ter que concluir que o comportamento de quase todos, incluindo, por
exemplo, filantropos que doam apenas 75% de sua renda, seja totalmente despre-
zível.
Alguns filósofos adotam esse tipo de moralidade extremamente exigente, junto
com seu julgamento severo sobre a conduta de quase todos. Esses filósofos apontam
que nossa forte aversão a doar quase todo o nosso dinheiro não é prova de que não
somos obrigados a fazê-lo. Eles podem dizer que nossa relutância em aceitar sua
moralidade exigente se deve simplesmente ao nosso viés de interesse próprio – não
queremos fazer o que a moralidade realmente exige de nós e, portanto, fechamos
os olhos para nossas obrigações.26
A hipótese do viés de interesse próprio pode servir como uma explicação plau-
sível para desmascarar um dado isolado – nossa relutância em aceitar obrigações
extremamente exigentes de caridade. Mas a hipótese é pior na explicação do
padrão mais amplo de atitudes morais que é coerente com essa relutância. Se sim-
plesmente sofremos de um viés de interesse próprio, podemos esperar que esse fato
seja evidenciado por uma mudança em nossas intuições quando direcionamos a
atenção para longe de nós mesmos e para o comportamento dos outros ou quando
nos imaginamos em posições diferentes. Mas isso não parece ser o caso. Não nos
eximimos de um dever de caridade que reconhecemos para os outros: quando ouvi-
mos falar de alguém que dá grandes quantias de dinheiro à caridade, tratamos isso
como louvável e supererrogatório; não reagimos como se tivéssemos sido informa-
dos de alguém que simplesmente se absteve de matar o maior número de pessoas
possível.
Mesmo quando nós próprios precisamos de uma economia – se, por exemplo,
perdemos o emprego – não pensamos nos estrangeiros sendo obrigados a doar
dinheiro para nos apoiar. Mesmo aqueles que são cronicamente pobres não con-
sideram os estrangeiros obrigados a ajudá-los (embora possam considerar que o
Estado seja obrigado a ajudá-los).
Nem nossas intuições sobre a maioria das outras situações seguem a direção
do interesse próprio. Geralmente, não nos consideramos autorizados a prejudicar
ou explorar outras pessoas para nosso próprio benefício. Mesmo aqueles que se-
riam particularmente bons em explorar os outros de uma maneira específica não
costumam sustentar que é permitido explorar os outros dessa maneira.
26
Norcross 2003, 461; Shaw 1999, 286–7.
7. E se Não Existir Autoridade? 149

Por fim, mesmo aqueles filósofos que aceitam sistemas éticos extremamente
exigentes não têm as reações emocionais que seriam coerentes com a crença em
tais sistemas éticos exigentes. Filósofos utilitaristas não reagem com horror quando
você lhes diz que gastou US$ 40 em um jantar num restaurante em vez de enviar
o dinheiro para ajudar no alívio da fome, mas certamente reagiriam com horror se
você lhes dissesse que deixou uma criança se afogar em um lago porque não queria
molhar suas roupas.
Nenhuma dessas observações implica que alguma moralidade extremamente
exigente não esteja correta. Mas ilustram o fato de que nossas atitudes são coe-
rentes e podem ser explicadas parcimoniosamente pela hipótese de que não somos
de fato obrigados a doar quantias muito grandes para a caridade. Continua sendo
possível que soframos de um viés de interesse próprio que nos cega para nossas
obrigações extremamente exigentes de caridade, mas essa hipótese faz um mau
trabalho ao explicar o padrão de julgamentos e atitudes que a maioria das pessoas
demonstra. Na filosofia moral, assim como no restante da investigação intelectual
humana, é razoável supor que as coisas são do jeito que parecem até a prova em
contrário.27
Os argumentos acima não devem, no entanto, ser tomados como uma licença
para uma negligência egoísta para com os menos afortunados. A doação regular a
grupos de caridade que ajudam os menos afortunados do mundo é algo compassivo
e decente a se fazer. Praticamente ninguém duvida disso.28 Um membro comum
de uma sociedade próspera pode, ao longo de sua vida, salvar literalmente centenas
de vidas doando uma pequena fração de sua renda.29 Em vista disso, é plausível
ver a doação regular como um requisito de respeito decente pela vida humana
(consulte a nota de rodapé para recomendações).30

7.2.5 No caso do acima mencionado estiver errado


Muitas vezes, é valioso considerar qual é a alternativa mais provável, caso a opinião
de alguém esteja errada. Penso que a alternativa mais crível à posição adotada
acima é que é permitido ao Estado (ou um agente privado) coletar coercivamente
fundos para aliviar a pobreza no mundo. Ao fazê-lo, o Estado seria obrigado a
27
Ver Huemer 2005, capítulo 5; 2007.
28
Ver Hardin (1974) pela exceção inevitável, mas ver Sen (1994) pela refutação de Hardin.
29
Para estatísticas pertinentes, consulte www.givingwhatwecan.org/resources/
what-you-can-reach.php.
30
É plausível que se deva dar uma quantia que se sente respeitosa. Para uma revisão das ins-
tituições de caridade com melhor custo-benefício, consulte Give Well (www.givewell.org). No
momento da redação deste artigo, a Give Well atribui suas classificações mais altas à Fundação
Contra a Malária (www.againstmalaria.com/donate.aspx) e à Iniciativa de Controle da Es-
quistossomose (www3.imperial.ac.uk/schisto). Ambas recebem doações por cartão de crédito
pela Internet.
7. E se Não Existir Autoridade? 150

priorizar pessoas com problemas muito sérios que possam ser tratados de maneira
confiável e a baixo custo. Todas ou quase todas as pessoas que satisfazem essa
descrição são habitantes de países em desenvolvimento. Uma vez que o Estado
tenha direcionado adequadamente seus esforços de alívio da pobreza, algumas das
objeções da Seção 7.2.2 também serão evitadas.
A visão desafiante à distinção sugerida acima entre emergências imediatas e
condições crônicas, argumentaria que algumas emergências são condições sociais
crônicas ou componentes delas. Imagine que você ficou perdido na floresta por
vários dias sem comida e corre o risco de morrer de fome. Você encontra uma
cabana na floresta. O proprietário não está em casa, mas há muita comida dentro.
Parece permitido levar comida para preservar sua vida, apesar da violação dos
direitos de propriedade do dono da cabana. (Isso é permitido mesmo que você
saiba que não será capaz de compensar o proprietário posteriormente e mesmo
que duvide que o proprietário consentiria em permitir o consumo de sua comida.)
Isso ilustra o fato de que a fome extrema pode ser considerada uma situação de
emergência suficiente para justificar a violação dos direitos de propriedade de outra
pessoa. E se sua fome é uma emergência desse tipo, então a fome extrema de uma
criança em países em desenvolvimento é uma emergência do mesmo tipo para
essa criança. Acontece que, a qualquer momento, existem muitas pessoas nessa
situação; portanto, a existência de tais emergências é ela própria uma condição
social crônica. Mas por que isso deveria fazer a diferença? Se um certo tipo
de violação de direitos for justificado quando necessário para salvar uma pessoa
da fome, então um programa que consiste em muitas dessas violações de direitos
também não deve ser considerado justificado quando for necessário salvar muitas
pessoas da fome?
Não sei o que dizer disso. Talvez haja uma diferença ética entre cometer um
roubo isolado para salvar a si mesmo e iniciar um programa regular de extorsão
destinado a salvar terceiros onde quer que estejam. Ou talvez a conclusão do
parágrafo anterior esteja simplesmente correta.
No entanto, quero insistir em dois pontos. Primeiro, os atuais programas de
combate à pobreza nos países ricos são injustificados. Eles desenvolvem coerção
com justificativa inadequada, não estão focados nas pessoas mais necessitadas e
não podem ser defendidos pelo apelo às analogias de crianças afogando e cabanas
na floresta. Segundo, o Estado não tem status moral especial. Se o Estado pode
coercivamente arrecadar fundos para o alívio da pobreza, é porque o Estado só faria
o mesmo que as partes privadas nos exemplos da criança afogando e da cabana
na floresta. Nesse caso, o mesmo argumento poderia ser usado para mostrar por
que uma parte privada seria também justificada na apreensão coercitiva de fundos
para o alívio da pobreza. Pode-se até roubar o governo para fornecer fundos para
ajudar os pobres. O Estado não tem autoridade especial aqui, embora possa gozar
7. E se Não Existir Autoridade? 151

de vantagens práticas em seus esforços para obter recursos.

7.3 Implicações para os agentes do Estado


Os funcionários do governo responsáveis por formular políticas devem levar em
consideração as observações das duas últimas seções e evitar formular políticas
injustas. E os funcionários do governo que não fazem políticas, mas são instruídos
a ajudar a impô-las, algumas das quais são injustas? Os policiais, por exemplo, são
convidados a prender usuários e vendedores de drogas. Os juízes são convidados
a sentenciá-los. Os soldados são convidados a lutar em guerras agressivas. O que
esses funcionários do governo devem fazer?
O policial deve se recusar a prender infratores de drogas. Se ele vir alguém
usando drogas, deve deixá-lo em paz ou talvez pará-lo e dar dicas sobre como
evitar ser visto por policiais. Prender o usuário de drogas seria iniciar um ato
injustificado de coerção. O Estado não tem o direito de cometer atos injustos de
coerção nem de ordenar que tais atos sejam cometidos; portanto, não pode conferir
a seus funcionários o direito moral de praticar tais atos.
Obviamente, não é como se os policiais simplesmente decidissem coagir os usuá-
rios de drogas; são obrigados a fazê-lo como parte de seu trabalho. Se eles se
recusarem a aplicar leis injustas, esse fato provavelmente será conhecido e serão
repreendidos ou demitidos. Mas isso não fornece desculpa para violar os direitos
dos outros. Imagine que contratei um motorista para me levar pela cidade. Pe-
riodicamente, peço ao meu motorista que pratique atos injustificados de coerção.
Um dia, por exemplo, vemos algumas crianças brincando na calçada. Eu digo ao
motorista para parar e bater em uma das crianças para meu entretenimento. Aviso
o motorista relutante que se ele não seguir minhas ordens, eu o despedirei. Então
o motorista passa a bater na criança. Ao fazer isso, ele lamentavelmente diz à
criança: “estou apenas fazendo meu trabalho. Eu não faço as regras.”
Nesse caso, agi de maneira errada ordenando que a criança fosse espancada.
Mas o motorista também claramente agiu errado ao seguir este comando. Talvez
eu seja mais culpado do que o motorista, mas isso não muda o fato de que o
motorista deveria recusar esses comandos, mesmo que isso resulte em perda do
emprego.
Alguns negam que o motorista esteja realmente apenas fazendo seu trabalho,
porque seu trabalho é dirigir o carro, não bater nas crianças. Isto é uma distração;
não importa se espancar crianças faz parte da descrição de seu trabalho. Suponha
que no meu anúncio original de “Procurando por Ajuda” tenha escrito: “Procu-
rando: pessoa com histórico limpo de condução e músculos fortes para dirigir carro
e espancar crianças inocentes”. Minha inclusão da cláusula “espancar crianças ino-
centes” na descrição do trabalho não oferece nenhuma garantia de justificativa
7. E se Não Existir Autoridade? 152

ética ao motorista para espancar crianças. A única diferença ética que poderia
fazer é que isso pode tornar errado o motorista aceitar o trabalho em primeiro
lugar. Tendo aceitado o emprego, ele ainda não tem justificativa para espancar
crianças inocentes.
Da mesma forma, não importa se o trabalho de um policial inclui a aplicação
de leis injustas; isso não cria nenhuma justificativa para impor a aplicação de leis
injustas. A única diferença que isso pode fazer é que pode ser errado ser um policial
em primeiro lugar.
Alguns objetariam que, se todos os policiais levassem meus argumentos a sério,
todos sairiam ou seriam demitidos, o que seria muito pior para a sociedade do
que ter policiais que aplicassem leis justas e injustas. Mas, certamente, muito
antes de todos os policiais terem renunciado ou se demitido, o governo acataria a
necessidade de reforma e revogaria as leis injustas que estavam causando a perda
de sua força policial, ou pelo menos permitiria que a polícia se abstivesse de aplicar
essas leis. Assim, se toda a polícia adotasse a visão que propus, a sociedade estaria
de fato muito melhor.
Por razões semelhantes, um juiz em um caso que envolva a violação de uma
lei injusta deve fazer o possível para garantir a punição mínima possível. O juiz
deve ordenar que o réu seja libertado se possível – isto é, se isso não resultar
simplesmente no fato de o réu ser preso novamente e levado a um juiz mais punitivo.
Se um juiz se encontra conduzindo um julgamento por algo que não deveria ser
ilegal e pelo qual seria injusto punir o réu, o juiz deve fazer tudo o que estiver ao
seu alcance para influenciar o resultado em favor do réu. Se o juiz acabar tendo
que sentenciar o réu, deve ordenar a menor sentença possível. Se um juiz se vê
rotineiramente obrigado, pelas exigências de seu trabalho, a participar da injustiça,
ele provavelmente deve se demitir em busca de uma profissão mais justa.
Um soldado também deve se recusar a lutar em uma guerra injusta. Não colocar
isso em questão, lutar em uma guerra injusta é participar de um assassinato. Ao
ingressar nas forças armadas, alguém se voluntaria para lutar em qualquer guerra
que um país possa entrar. Portanto, se não se pode ter certeza de que o país não
entrará em guerra injusta, deve-se abster-se de ingressar nas forças armadas; se
alguém já está no exército, deve renunciar o mais rápido possível.
Recomendações semelhantes se aplicam a todos os outros funcionários do go-
verno que são chamados a implementar políticas injustas. Eles devem fazer o
possível para minar essas políticas ou, se isso não for possível, recusar-se a servir.
Essas recomendações quase nunca são seguidas. Os funcionários do governo
quase sempre aplicam as políticas, justas ou injustas, que são ordenados a aplicar.
Uma razão é que acreditam erroneamente na autoridade política; acreditam que
o Estado tem o direito de impor coercivamente essas políticas, mesmo quando
estão erradas. Consideram-se autorizados, talvez até obrigados, a ajudar a aplicar
7. E se Não Existir Autoridade? 153

essas políticas de acordo com os requisitos de seu trabalho. Como isso afeta nossa
avaliação de seu comportamento?
Podemos distinguir a avaliação do caráter de um indivíduo da avaliação das
ações do indivíduo. Frequentemente, uma dessas avaliações é muito mais positiva
ou negativa que a outra, principalmente quando o agente desconhece fatos impor-
tantes sobre seu comportamento. Os soldados que lutam em uma guerra injusta,
por exemplo, são tipicamente pessoas muito melhores e são muito menos culpáveis
do que assassinos particulares. Isso é compatível com o fato de que existem razões
objetivas muito fortes para se recusar a servir em uma guerra injusta, razões tão
fortes quanto as razões para se recusar a participar de uma conspiração privada
para cometer assassinato. Como regra, o fato de os funcionários do governo acre-
ditarem que estão agindo corretamente os torna menos culpados do que seriam.
Não os torna completamente inocentes; ainda podem ser culpados se, como prova-
velmente é o caso, não tiverem exercido esforço suficiente para descobrir onde está
seu verdadeiro dever moral. De qualquer forma, a ignorância dos funcionários do
governo sobre seu dever ético não altera a avaliação apropriada do que realmente
devem fazer. Isso não altera o fato de que não têm o direito de fazer cumprir leis
injustas.

7.4 Implicações para cidadãos particulares


7.4.1 Em louvor aos desobedientes
Se não existir autoridade, a desobediência a decretos governamentais é justificada
com muito mais frequência do que geralmente é reconhecido.
Suponha que Sam tenha emitido exigências a seus vizinhos as quais não tem
o direito de fazer, respaldado por ameaças de punição. Uma gangue de seguido-
res o ajuda a impor à força punições que eles não têm o direito de impor. Sam
emite exigências sobre o que seus vizinhos podem comer, os termos dos contratos
que podem fazer entre si, qual deles pode fornecer assistência médica a outros,
quanto dinheiro devem pagar à gangue de Sam e assim por diante. Ele também
emite alguns comandos moralmente justificados (embora sua emissão seja etica-
mente redundante): exige que ninguém assassine, roube e assim por diante. Agora
imagine que você é um dos vizinhos de Sam. Você deseja ingerir uma certa erva
com propriedades psicoativas, mas está ciente da demanda de Sam, apoiada por
uma ameaça de força física de sua gangue, da qual você não faz parte.
Parece claro que você não tem motivos éticos para não consumir a erva, embora,
é claro, você possa ter uma forte razão prudencial, decorrente do medo da gangue
de Sam, para evitá-la. Na verdade, você tem um motivo ético para consumir a
erva, como forma de enfrentar o bullying de Sam. Submeter-se às demandas de
7. E se Não Existir Autoridade? 154

um agressor é, na melhor das hipóteses, desculpável. Desafiar Sam em particular


seria perfeitamente aceitável; desafiar Sam publicamente seria um ato de coragem
digno de louvor.
Da mesma forma, não há dúvida de que é errado desafiar leis injustas. A
única questão ética é se o desafio é obrigatório ou supererrogatório. Em vista
da gravidade e credibilidade das ameaças comumente emitidas pelo Estado aos
infratores da lei, acredito que, na maioria dos casos, o desafio a leis injustas é
supererrogatório. Em alguns casos, o desafio é imprudente, como seria imprudente
quando um assaltante aponta uma arma e você se recusar a entregar sua carteira.
Mas não é eticamente errado.

7.4.2 A aceitação da punição


Em alguns casos contemporâneos, aqueles que se envolvem em desobediência civil
devem fazê-lo publicamente e devem aceitar a punição prescrita pelo Estado.31
Esses casos, no entanto, são desenhados no contexto de uma autoridade política
assumida. Se não há autoridade política, ainda existem razões para se submeter à
punição legal por atos de desobediência justificada?
Desobedecer publicamente a uma lei é desobedecê-la de tal maneira e sob tais
circunstâncias que a ação de alguém se tornará amplamente conhecida (entre aque-
les que seguem tais casos), e será sabido que a ação violou a lei. Em muitos casos,
será possível desobedecer publicamente a uma lei nesse sentido, sem revelar a iden-
tidade. (Imagine ativistas da paz grafitando em uma fábrica militar no meio da
noite e depois fugindo.) Quando possível, essa forma de desobediência oferece
vantagens óbvias: pode-se evitar sofrer punições desagradáveis e permanecer livre
para realizar outros atos de desobediência no futuro, enquanto ainda comunica a
rejeição da lei injusta.
Às vezes, diz-se que aqueles que praticam desobediência civil devem aceitar pu-
nição por suas ações para provar sua sinceridade e seriedade para com os outros.32
Por exemplo, alguns afirmam que, no caso da conscrição, os objetores de consci-
ência deveriam ir voluntariamente à prisão – em vez de, por exemplo, fugir para
outro país – para provar que sua objeção a ir à guerra é de princípios e altruísta.
Há uma série de objeções notáveis a esse pensamento. Primeiro, a exigência
de aceitar punição é excessivamente exigente. Sem dúvida, existe algum valor em
comunicar a sinceridade, a seriedade moral ou outras características admiráveis
31
King (1991, 74) viu-se expressando respeito pela lei praticando sua desobediência civil aber-
tamente e com a disposição de aceitar as punições legalmente prescritas. Rawls (1999, seção
55) procura incorporar essas condições na definição de “desobediência civil”. Neste ponto, con-
sidero a desobediência aos comandos estatais injustificados, incluindo o que Rawls chama de
“desobediência civil” e o que ele chama de “recusa de consciência” (1999, seção 56).
32
Rawls 1999, 322.
7. E se Não Existir Autoridade? 155

a outras pessoas. Mas normalmente não se é obrigado a comunicar esse tipo de


informação a outras pessoas, mesmo quando os custos são mínimos. Por exemplo,
suponha que eu tenha encontrado recentemente uma carteira e fiz o possível para
devolvê-la ao proprietário. Não sou moralmente obrigado a divulgar esse episó-
dio com outras pessoas, apenas para comunicar minha honestidade e virtuosidade,
mesmo que possa fazê-lo sem nenhum custo. Ainda menos seria obrigado a comu-
nicar essas informações se isso exigisse que eu passasse alguns meses ou anos na
prisão. Não está claro por que o caso deve ser diferente para atos de desobediência
civil. Se violei a lei, sem dúvida preferiria que outros soubessem que tinha motivos
virtuosos para isso. Mas não sou obrigado a comunicar essas informações, mesmo
que possa fazê-lo sem nenhum custo, e menos ainda se isso exigir meses ou anos
de prisão.
Alguém poderia argumentar que este caso é diferente, porque, ao desobedecer
ao Estado, eu poderia levar outros a desobedecerem a outras leis, incluindo leis
que devem ser obedecidas, se outros não entenderem as razões morais por trás
da minha desobediência. Essa sugestão é artificial e implausível; na maioria dos
casos, é altamente improvável que meu ato de desobediência faça com que outras
pessoas desobedeçam a alguma lei não relacionada. Além disso, normalmente não é
obrigatório que uma pessoa realize sacrifícios extremamente grandes, como passar
um tempo na prisão, para impedir que outras pessoas escolham irracionalmente
fazer o que é errado.
Segundo, aceitar voluntariamente a punição do Estado por um ato de deso-
bediência pode (em vez de ou além de comunicar a seriedade moral de alguém)
comunicar idéias falsas e destrutivas – principalmente, que o Estado tem o di-
reito de punir as pessoas por desobedecerem leis injustas. Se uma lei é injusta,
a aplicação dessa lei por meio da punição daqueles que desobedecem também é
injusta. Por que, então, alguém deveria facilitar essa injustiça submetendo-se à
punição? Por exemplo, suponha que o governo de alguém esteja envolvido em uma
guerra injusta, pela qual instituiu uma conscrição. Nesse caso, ninguém é obri-
gado a participar da guerra; se existe alguma obrigação, então é que os cidadãos
são obrigados a recusar participar. Agora, além da injustiça da própria guerra,
haverá também a injustiça do Estado punir aqueles que virtualmente se recusam
a participar dessa guerra. E assim como ninguém é obrigado a facilitar a guerra
em si, ninguém é obrigado a facilitar ou cooperar com a punição injusta daqueles
que se recusam a participar da guerra.
Considere uma analogia. Uma gangue homofóbica em seu bairro está espan-
cando homossexuais.33 Se você é gay, deve se apresentar na sede da gangue e
33
Embora os espancamentos raramente sejam prescritos pelo Estado, existem várias leis com
motivações e efeitos semelhantes às ações dessa gangue hipotética. Até um processo da Suprema
Corte de 2003 (Lawrence v. Texas, 539 U.S. 558), a sodomia era proibida em vários Estados dos
7. E se Não Existir Autoridade? 156

anunciar sua orientação sexual para que eles possam bater em você? Obviamente
não. Entre outras coisas, submeter-se a uma surra comunicaria erroneamente que
você fez algo que merece punição e que a gangue tem o direito de puni-lo. Mesmo
que acredite que, ao se submeter a uma surra, aumentaria a probabilidade de que
a indignação pública acabasse por levar a uma mudança no comportamento da
gangue, você ainda não seria obrigado a se submeter a uma surra.
Concluo que, na maioria dos casos, aqueles que desobedecem a leis injustas são
eticamente permitidos e bem aconselhados a ocultar sua identidade ou a evitar a
punição pelo Estado.

7.4.3 Resistência violenta


Se existe uma premissa central deste livro, é a seriedade moral da coerção. Mas
o recurso à força física nem sempre está errado. Muitas vezes, é justificado para
fins de legítima defesa ou defesa de terceiros inocentes. Não é implausível, por-
tanto, que a resistência violenta possa frequentemente ser justificada em resposta
à coerção injusta do Estado.
Para avaliar esse pensamento, comecemos com alguns princípios gerais que
governam o uso defensivo da força:

i O uso da força é justificado somente quando necessário para evitar algum mau
grave. Ou seja, não deve haver alternativas disponíveis que impeçam o mau
sem usar níveis comparáveis de força, cometendo outros erros igualmente sérios,
ou exigindo sacrifícios irracionais do agente.

ii O uso da força deve ter uma chance razoável, na evidência do agente, de impedir
que ocorra o mau. A menos que essa condição seja satisfeita, o uso da força não
será considerado como uma medida defensiva. (Em vez disso, pode contar como
uma medida retaliatória; no entanto, as condições para a força retaliatória
justificada estão além do escopo desta discussão.)

iii O dano esperado causado pelo uso da força não pode ser desproporcional ao
dano esperado evitado. Por exemplo, não é permitido matar outra pessoa
apenas para impedir que ela roube seu aparelho de som. No entanto, seria
permitido matar uma pessoa, se necessário, para impedir que ela a machucasse
seriamente.

iv Geralmente não é permitido ferir terceiros inocentes no curso de violência de-


fensiva. Tais danos a terceiros inocentes podem às vezes ser justificados, mas
EUA. Muitos outros países ainda possuem essas leis (veja www.glapn.org/sodomylaws/world/
world.htm), que parecem ter como objetivo prejudicar os homossexuais.
7. E se Não Existir Autoridade? 157

isso geralmente exige benefícios esperados muito maiores do que os danos es-
perados.

Historicamente, existem duas formas principais de resistência armada ao Es-


tado: terrorismo e (tentativa) revolução. Nas sociedades modernas desenvolvidas,
é improvável que uma tentativa de revolução armada seja justificada, por três
razões. Primeiro, geralmente existem opções não-violentas disponíveis, que mos-
traram um sucesso surpreendente em alguns casos, como os casos conhecidos de
Gandhi e Martin Luther King Jr. Segundo, a probabilidade de uma revolução
bem-sucedida nas sociedades mais modernas e desenvolvidas é muito perto de
zero. Terceiro, no caso de tentativa de revolução, o dano a terceiros inocentes
provavelmente será muito grande.
Os ataques terroristas não têm mais probabilidade de serem justificados. Os
mesmos três pontos se aplicam: métodos não violentos geralmente estão disponí-
veis, métodos terroristas são ineficazes e os danos esperados a pessoas inocentes
são excessivos. Um estudo de 2006, examinando 28 grupos terroristas, constatou
que, usando critérios generosos de sucesso, esses grupos atingiram seus objetivos
políticos apenas 7% do tempo. Estudos posteriores, usando amostras maiores, en-
contraram taxas de sucesso abaixo de 5% e, em muitos casos, os objetivos políticos
dos terroristas foram realmente atrasados.34 Por que o terrorismo é tão ineficaz?
Quando terroristas atacam civis, as populações tendem a aumentar seu apoio a
candidatos políticos de direita, propondo respostas agressivas. Esses linha-dura
não têm medo do terrorismo, nem deveriam ter; é extremamente improvável que
sejam pessoalmente vitimados pelo terrorismo e, de fato, suas carreiras políticas
são fortemente avançadas pelo terrorismo e pela oportunidade que isso proporci-
ona a uma postura agressiva.35 Todos esses pontos são ilustrados pelos infames
ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos, o que levou o
governo dos EUA a aumentar enormemente sua presença militar no Oriente Mé-
dio, matando centenas de milhares de muçulmanos. Embora essa resposta fosse
irracional e repreensível, também era previsível.
Por via de regra, portanto, ataques terroristas são moralmente errados. A
questão de quando alguém pode prejudicar terceiros inocentes durante a tentativa
de interromper uma opressão e injustiça é motivo de debate. Mas certamente não
se pode prejudicar terceiros inocentes por causa de gestos ineficazes ou contrapro-
ducentes.
34
Abrahms 2006; 2011, 587–8.
35
Abrahms 2011, 589. Abrahms observa que os ataques a alvos militares são mais eficazes e
respondem pela maioria dos sucessos que os terroristas tiveram.
7. E se Não Existir Autoridade? 158

7.4.4 Em defesa da anulação do júri (jury nullification)


A maioria dos leitores, em algum momento, será obrigada a servir em um júri
em um julgamento criminal. Muitos desses julgamentos serão por crimes que
realmente merecem ser punidos. Mas muitos outros serão por violação de leis
injustas, como as leis mencionadas na Seção 7.1. Portanto, é de grande interesse
prático o que um jurado deve fazer neste último tipo de caso.
Quando a lei é injusta, o jurado deve votar para absolver, independentemente
da evidência. Resumidamente, o argumento é o seguinte: em geral, é errado causar
conscientemente danos injustos a outro ser humano. Condenar o acusado por violar
uma lei injusta resultará, em regra, no sofrimento significativo e injusto nas mãos
do Estado. Portanto, é prima facie errado condenar esse réu.
Duas objeções devem ser consideradas. Para começar, pode-se argumentar
que um jurado que vota por condenação não seria culpado pelo sofrimento do
réu, porque o jurado não fez a lei injusta nem o próprio jurado está impondo
diretamente a punição. Supondo que o promotor prove seu caso, o membro do
júri que vota na condenação está apenas relatando corretamente o fato de que
o réu executou uma determinada ação. O que os funcionários do Estado fazem
com essa informação depende deles; o jurado não está dizendo para punir o réu
(mesmo sabendo que isso acontecerá). Uma objeção relacionada é que se tem
o dever de dizer a verdade. Votar em uma absolvição, em um caso em que as
evidências mostrem que o réu realmente violou a lei injusta, seria desonesto. Seria
o equivalente a uma falsa afirmação de que o réu não demonstrou ter violado essa
lei.36
Ambas as objeções podem ser abordadas pela seguinte analogia. Você está
andando pela rua com um de seus amigos vestido mais extravagantemente. Você
encontra uma gangue de bandidos. O líder da gangue pergunta se seu amigo é gay.
Você está convencido de que eles são agressores de gays e que, se você responder
“sim” ou se recusar a responder, vão bater no seu amigo. Vocês dois têm a melhor
chance de saírem ilesos se responderem “não”. Você sabe, no entanto, que seu
amigo é de fato gay. Assim, ao responder “não”, você estaria mentindo. Portanto,
você deve recusar-se a responder ou responder “sim”?
Ninguém, a não ser um kantiano fanático, diria isso. É verdade que mentir
geralmente está errado, mas não quando a pessoa a quem você está mentindo
é alguém que usaria uma resposta verdadeira como pretexto para causar danos
graves e injustos a outro ser humano. Se você contar a verdade aos bandidos,
mais tarde poderá consertar as coisas com seu amigo, quando o visitar no hospital,
lembrando-o de que você não é culpado pelos bandidos odiarem os gays e nem bateu
36
Esse argumento depende da suposição de que um veredito do júri é uma avaliação unicamente
da questão de saber se o réu executou as ações atribuídas a ele. Duane (1996) sustenta que o
veredito do júri é uma avaliação da justiça ou adequação da punição do acusado.
7. E se Não Existir Autoridade? 159

pessoalmente no seu amigo com seus próprios punhos? Você poderia argumentar
que tudo o que você fez foi relatar uma questão de fato e que o que os bandidos
fizeram com essa informação só dependia deles?
Na maioria dos tribunais, os jurados são instruídos a dar um veredito com
base nas evidências e que não devem optar por anular a lei. Eles podem até ser
solicitados a prestar juramento nesse sentido, quando se recusam a jurar então o
resultado é a demissão do serviço do júri. Isso não altera o verdadeiro dever moral
do jurado. Suponha que, no cenário acima, o líder de gangue homofóbico peça que
você prometa contar a verdade sobre seu amigo. Suponha que também o instrua,
com um grande ar de confiança e solenidade, que você deve contar a verdade a
ele e que não tem o direito de mentir porque discorda de suas predileções por
gays. Então você seria obrigado a dizer a verdade? Novamente, não. Agressores
homofóbicos não têm o direito de saber quem é ou não é gay. Você deve prometer
dizer a verdade e depois mentir imediatamente.
Nos Estados Unidos, os jurados que votam na absolvição de um réu, alegando
que a lei é injusta, não estão sujeitos a punição e seus vereditos não podem ser
revogados. Assim, apesar do que possa ser dito, os jurados certamente podem
anular as leis, nos sentidos relevantes de “pode”. A aversão à mentira e a quebra
da promessa (se é isso que a anulação do júri envolve) é uma consideração trivial
próxima à importância de impedir que uma pessoa sofra danos graves e injustos.

7.5 Objeções em apoio ao culto à regra


7.5.1 Todos podem fazer o que desejam?
As pessoas têm suas próprias opiniões sobre exatamente quais leis são justas.
Pode-se, portanto, pensar que a visão filosófica que propus fornece carta branca
para os indivíduos simplesmente fazerem o que quiserem, citando interpretações
idiossincráticas da justiça em sua defesa.
Claro que isso seria um erro. Minha posição filosófica não implica que os indi-
víduos possam violar quaisquer leis que queiram violar. Suponha que Sally queira
roubar dinheiro de sua empresa para poder viver às custas de outras pessoas.
Sally, portanto, desonestamente alega achar as leis que governam a propriedade
“injustas”, e ela usa isso para racionalizar seu comportamento. Nesse caso, o com-
portamento de Sally está errado. Sua mera afirmação de que as leis de propriedade
são injustas não significa nada, eticamente, para desculpá-la.
Suponha que Mary também esteja roubando dinheiro de sua empresa. Mary, no
entanto, acredita sinceramente que as leis que governam a propriedade são injustas,
pois ela acredita numa ideologia política equivocada que rejeita a propriedade
privada. Nesse caso, o comportamento de Mary está correto? Não, não está.
7. E se Não Existir Autoridade? 160

Mary se engana ao pensar que as leis de propriedade são injustas, então também
se engana ao considerar que seu próprio comportamento é eticamente permissível.
Dependendo de quão compreensível seja o seu erro, Mary pode ser menos culpada
do que Sally, mas sua ação é igualmente errada. Por isso, por exemplo, seria
apropriado que terceiros usassem a coerção para impedir Mary de pegar mais
dinheiro e obrigá-la a compensar seu empregador.
Isso é consistente com tudo o que disse anteriormente neste capítulo. Se uma lei
é injusta, pode-se violar. Mas não é o caso que, se alguém simplesmente acredita
que uma lei é injusta, pode violá-la; depende se a crença está correta.
Existem muitos casos em que não podemos dizer se uma lei é justa ou injusta;
a justiça é um assunto difícil. O que devemos fazer então? Nos casos em que não
sabemos se a lei é justa, simplesmente não saberemos se é permitido violar essa lei.
Não posso dizer nada aqui que faça com que os leitores possam saber em todos os
casos o que é justo ou o que devem fazer. Meu único conselho para tais situações
é que se faça uma pesquisa mais aprofundada sobre o assunto (talvez na literatura
de filosofia ética e política) e depois exerça o melhor julgamento.
Para alguns, essa visão será insatisfatória. Uma visão mais satisfatória seria
aquela que fornece uma regra simples, mais ou menos mecânica, para o que fazer
em todos os casos. Por exemplo, se pudéssemos dizer: “Em caso de dúvida, sempre
obedeça à lei”, muitos considerariam essa uma posição mais satisfatória do que a
posição que às vezes não podemos dizer se devemos obedecer à lei ou não.
Mas regras satisfatoriamente simples e convenientes não são, portanto, corretas.
Em particular, não há razão para pensar que sempre que houver dúvida quanto
à justiça de uma lei, é melhor obedecer do que desobedecer a essa lei. Suponha
que um soldado tenha sido ordenado por seu governo para lutar em uma guerra.
O soldado não tem certeza se essa ordem é justa, porque não tem certeza se a
guerra em si é justa. Nada nesta descrição do caso nos permite inferir que seria
certo ou bom que o soldado lutasse na guerra. Se lutar, pode estar participando
de assassinatos em massa. Não sabemos o suficiente para dizer se é esse o caso.
A informação crucial que precisaríamos, antes de podermos aconselhar o soldado
sobre o que deveria fazer, é uma informação moral: precisamos saber se a guerra
é justa. O fato desse conhecimento poder ser difícil ou mesmo impossível de
obter não impede que seja o conhecimento relevante e necessário para abordar
o que está em questão, nem permite que outro fato mais facilmente conhecível
resolva a questão. Isso é simplesmente a condição humana, nossas perguntas éticas
frequentemente não têm respostas fáceis.

7.5.2 Processo versus substância


Em um artigo inicial defendendo o caso do fair play da obrigação política, John
Rawls toma como sua questão central: “Como é possível que uma pessoa, de acordo
7. E se Não Existir Autoridade? 161

com sua própria concepção de justiça, se veja obrigada pelos atos de outra pessoa a
obedecer uma lei injusta [. . . ]?” E ele responde: “Para explicar isso [. . . ] exigimos
duas hipóteses: que entre o número muito limitado de procedimentos que teriam
qualquer chance de ser estabelecido, nenhum tornaria minha decisão decisiva [. . . ];
e que todos esses procedimentos determinariam condições sociais que julgo serem
melhores que a anarquia.”37
Minha leitura dessa passagem é que Rawls está assumindo (1) que devemos
confiar em algum critério processual para decidir quais leis são legítimas ou devem
ser obedecidas e (2) que um indivíduo que desobedece uma lei com base no fato de
que a lei é injusta aplica a seguinte regra processual: que uma lei deve ser rejeitada
se entrar em conflito com o senso de justiça desse indivíduo. Ele considera a última
regra inadequada e inferior aos procedimentos democráticos. Portanto, Rawls
acredita que, se uma lei tiver sido feita de acordo aos procedimentos democráticos,
um indivíduo não deve desobedecer a lei com base em que (ele acredita) a lei é
injusta.
Mas Rawls não justifica essas suposições; não explica por que os motivos para
obedecer ou desobedecer a determinadas leis devem ser processuais. Em vez disso,
uma lei pode ser aceita ou rejeitada por motivos substantivos. Quando digo que
as leis sobre drogas podem ser violadas por serem injustas, não estou dizendo que
as leis sobre drogas foram feitas de acordo com o procedimento errado. Estou
dizendo que são substancialmente injustas; violam um direito moral substantivo, o
direito de controlar o próprio corpo, que os indivíduos possuem independentemente
das decisões do Estado. Isso seria verdade independentemente de como a lei foi
feita (exceto, é claro, no caso improvável de consentimento unânime da lei, o que
tornaria a violação de direitos). Não estou propondo um procedimento pelo qual
minha opinião pessoal seja decisiva; se eu não existisse ou tivesse sancionado as
leis sobre drogas, elas ainda seriam injustas. Se eu objetasse a alguma lei que é
realmente justa – por exemplo, se objetasse aos estatutos do assassinato – minha
objeção não converteria a lei justa em injusta. Em outras palavras: quando me
oponho às leis sobre drogas, meus motivos de objeção não são simplesmente o
que me oponho. Meu motivo de objeção é o direito de autopropriedade, o direito
dos indivíduos de controlar seus próprios corpos. O argumento de Rawls não tem
nada a dizer sobre se esse é um fundamento legítimo para rejeitar e, portanto,
desobedecer, uma lei.
Por que se pode pensar que devemos confiar em regras processuais e não em
princípios morais substantivos? Talvez porque se pense que não sabemos o que é
moralmente correto, enquanto sabemos o que é um procedimento desejável. Se esse
é o raciocínio por trás da suposição procedimentalista de Rawls, isso é duplamente
37
Rawls, 1964, pp. 11–12. O contexto também contém algumas hipóteses de contrato social
que considero inúteis.
7. E se Não Existir Autoridade? 162

equivocado. Primeiro, ele está errado, porque é falso que, em geral, não sabemos
o que é substancialmente moralmente correto. Às vezes, não sabemos o que é
substancialmente justo. Mas muitas vezes sabemos. Não sei, por exemplo, se a
proibição do aborto seria injusta. Mas sei que as leis de Jim Crow eram injustas.
Quando sabemos que uma lei é injusta, nossa oposição a ela pode e deve se basear
no fato de ser injusta, não no fato de que ela entra em conflito com nossas opiniões
ou preferências pessoais.
Segundo, se fosse verdade que nunca saberíamos o que era substancialmente
justo, também não saberíamos o que era procedimentalmente justo. Não há ra-
zão para pensar que o conhecimento de procedimentos justos de alguma maneira
escaparia do alcance de um ceticismo moral forte o suficiente para descartar todo
conhecimento de resultados justos. Se, por exemplo, não podemos saber que as leis
que tratam os cidadãos de maneira grosseiramente desigual com base em caracte-
rísticas moralmente irrelevantes são injustas, por que saberíamos que os procedi-
mentos legislativos que falham em dar aos cidadãos uma voz igual são injustos?

7.5.3 Minando a ordem social?


Imagine que os pontos de vista que defendi se generalizem e, em particular, que
a noção de autoridade política seja amplamente rejeitada. Os cidadãos, portanto,
sentem-se livres para violar quaisquer leis que considerem eticamente censuráveis
sempre que puderem evitar a punição. Agentes do governo se recusam a aplica-
ção do cumprimento das leis que consideram eticamente censuráveis. Os júris se
recusam a condenar os réus sob estatutos que consideram questionáveis. Isso não
tornaria nosso sistema jurídico muito caótico e imprevisível? A ordem social pode
não entrar em colapso por completo?
A sugestão do parágrafo anterior é simplesmente que pode ser muito prejudicial
propagar as visões apresentadas neste livro, tanto que talvez não devesse tê-lo
publicado. Isso é compatível com a possibilidade de que tudo o que digo seja
realmente verdade.
As terríveis advertências sobre o colapso da ordem social, no entanto, são mal
tomadas. As opiniões que proponho têm mais probabilidade de serem socialmente
benéficas do que prejudiciais. Imaginamos cidadãos violando leis que consideram
injustas, a polícia se recusando a aplicar o cumprimento de leis que consideram
injustas e júris se recusando a condenar sob leis que consideram injustas – tudo
porque um ceticismo geral de autoridade tomou conta da sociedade. Além disso,
devemos assumir que os próprios legisladores absorveram a mesma filosofia de ce-
ticismo sobre a autoridade política. Nesse caso, haveria muito menos leis – e muito
menos leis injustas em particular. A maioria das leis que teriam ocasionado deso-
bediência civil generalizada não existiria, porque os legisladores não as adotariam
ou as teriam revogado durante o período em que o ceticismo sobre a autoridade
7. E se Não Existir Autoridade? 163

toma conta da sociedade.


Mas suponha que sobrevenha uma lei específica que algumas pessoas consi-
deram injusta. Se o número de pessoas que consideram a lei injusta é muito
pequeno, não há dificuldade. Por exemplo, suponha que um pequeno número de
pessoas considere as leis contra roubo injustas. Como a esmagadora maioria da
sociedade considera essas leis justas, ainda haveria policiais, juízes e jurados em
número suficiente dispostos a aplicar as leis contra roubo. O governo só enfrenta-
ria um problema quando grande parte da sociedade considerasse injustas algumas
leis. Por exemplo, um número significativo de pessoas atualmente considera as leis
de drogas injustas. Se fosse amplamente aceito que alguém não deveria ajudar a
impor uma lei injusta, alguns policiais se recusariam a prender infratores. Alguns
juízes se recusariam a sentenciá-los. E muitos júris se recusariam a condená-los.
Julgamentos sob as leis de drogas e outros estatutos controversos resultariam re-
petidamente em júris suspensos. Uma vez que esse padrão se tornasse claro, o
Estado provavelmente desistiria de tentar fazer cumprir essas leis.
É com esse desastre social que devemos nos preocupar? Pelo contrário, seria
uma situação muito melhor do que o status quo. Quando a justiça de uma lei é
controversa, é melhor errar do lado da liberdade do que do lado da restrição. Talvez
algumas leis justas, infelizmente, não sejam aplicadas. Mas a redução no número
de pessoas punidas indevidamente sob leis injustas compensaria mais do que essa
desvantagem. É amplamente conhecido de que é melhor dez pessoas culpadas
serem libertadas do que uma pessoa inocente ser punida. Se isso for verdade,
também é melhor que dez pessoas deixem de ser condenadas sob leis justas do que
uma pessoa seja condenada sob uma lei injusta. Nosso sistema atual, no entanto,
erra muito na direção oposta: mesmo quando o status moral de uma lei está em
dúvida, policiais, juízes e júris quase sempre aplicam a lei sem questionar.
Em uma nota realista, a imagem de pessoas comuns, à beira da desordem,
esperando uma desculpa para correrem desenfreadas em desrespeito à lei e à or-
dem, desaparece diante de tudo o que sabemos sobre a psicologia da autoridade
(ver Capítulo 6) . Evidências como os experimentos de Milgram, o Holocausto e o
massacre de My Lai deixam pouca dúvida de que o ser humano médio tem muito
mais probabilidade de cometer crimes hediondos em nome da obediência à autori-
dade do que desobedecer precipitadamente os comandos justificados de uma figura
de autoridade. Literalmente, milhões morreram por causa da disposição generali-
zada de obedecer a mandamentos injustos. Portanto, mesmo que meu ceticismo
sobre autoridade vá longe demais, provavelmente servirá como um corretivo vali-
oso para nossa tendência excessiva a obedecer, em vez de representar um perigo
de destruição da ordem social.
7. E se Não Existir Autoridade? 164

7.5.4 As consequências da doutrina da independência do


conteúdo
Argumentei que o Estado tem o direito de fazer e aplicar apenas leis eticamente
corretas. Alguns pensam que isso exige muito do Estado; qualquer governo dirigido
por seres humanos falíveis às vezes cometerá erros, incluindo erros morais.38 Se
pensarmos que os agentes do Estado não têm margem de manobra, nenhum direito
a cometer erros, então podem ficar paralisados pela inação, pelo medo de fazer o
que é errado. Pode-se, portanto, pensar que o Estado deveria ter pelo menos
alguma margem de manobra na forma de um direito independente do conteúdo de
fazer regras, desde que suas regras não sejam muito irracionais.
O raciocínio paralelo pode ser aplicado a agentes privados. Também não é
realista, por exemplo, esperar que uma grande corporação privada seja perfeita;
qualquer empresa desse tipo às vezes comete erros, incluindo erros morais. Mas
ninguém pensa que isso significa que devemos atribuir às grandes empresas um
direito moral de realizar periodicamente ações injustas ou erradas, desde que não
sejam muito irracionais. Reconhecemos que uma grande corporação às vezes erra,
mas não concordamos com esses erros. Nós os condenamos quando acontecem e
exigimos que a empresa corrija. Do mesmo modo, não devemos concordar com as
más ações do Estado, por mais previsíveis que sejam; devemos condená-lo quando
isso acontecer e exigir que o Estado corrija. Essa atitude não tornará impossível a
manutenção de um Estado, assim como a atitude análoga em relação às corporações
não torna impossível manter uma corporação.
Quais são as prováveis consequências sociais da crença na autoridade indepen-
dente de conteúdo? Christiano nos diz que “a assembléia democrática tem o direito
de fazer o mal, dentro de certas limitações.” Rawls observa: “É, é claro, uma situa-
ção familiar [. . . ] a qual uma pessoa se vê moralmente obrigada a obedecer a uma
lei injusta.39 Essa ideia aumenta ou diminui a probabilidade de o Estado alcançar
os objetivos sociais em prol dos quais o Estado deveria ser necessário?
Considere uma analogia. Você contratou um jardineiro para cuidar das plantas
no seu quintal. Você quer que ele cuide de todas as plantas e que não faça mais
nada, como entrar em casa e roubar suas jóias. Qual das duas instruções a seguir
você deve dar ao jardineiro?
a Você deve cuidar de todas as plantas. Você não deve entrar na casa e roubar
jóias.
b Idealmente, você deve cuidar de todas as plantas, mas você tem alguma margem
de manobra; você tem o direito de danificar ou negligenciar periodicamente
38
Estlund 2008, 157–8; Christiano 2008, 239–40; Klosko 2005, 116.
39
Christiano 2008, 250; Rawls 1964, 5. Por “assembleia democrática”, significa para Christiano
que é o legislador em uma democracia representativa.
7. E se Não Existir Autoridade? 165

algumas delas. Também seria melhor se você não entrasse em casa e roubasse
jóias. Mas você pode fazer isso ocasionalmente, desde que não fique fora de
controle.

Rawls, Christiano e outros defensores da autoridade política independente do


conteúdo estão de fato dando instruções (B) ao jardineiro. Eu diria (A) ao jardi-
neiro. Qual é realmente a filosofia socialmente perigosa?

7.6 Uma modesta fundamentação libertária


O libertarianismo é uma filosofia do governo mínimo (ou, em casos extremos, ne-
nhum governo), segundo a qual o governo não deve fazer mais do que proteger os
direitos dos indivíduos.40 Essencialmente, os libertários defendem as conclusões
políticas defendidas neste capítulo. Mas essa posição é muito controversa na filo-
sofia política. Muitos leitores se perguntam se somos realmente forçados a isso.
Certamente, para chegar a essas conclusões radicais, devo ter feito algumas supo-
sições extremas e altamente controversas ao longo do caminho, suposições que a
maioria dos leitores deveria se sentir livre para rejeitar?
Os autores libertários de fato confiaram frequentemente em suposições con-
troversas. Ayn Rand, por exemplo, pensava que o capitalismo só poderia ser
defendido pelo apelo ao egoísmo ético, a teoria de que a ação certa para qualquer
pessoa em qualquer circunstância é sempre a ação mais egoísta.41 Robert Nozick é
amplamente lido como baseando seu libertarianismo numa concepção absolutista
dos direitos individuais, segundo a qual os direitos de propriedade de um indiví-
duo e os direitos de ser livre de coerção nunca podem ser superados por quaisquer
consequências sociais.42 Jan Narveson se apoia em uma teoria metaética, segundo
a qual os princípios morais corretos são determinados por um contrato social hi-
potético.43 Devido à natureza controversa dessas teorias éticas ou metaéticas, a
maioria dos leitores acha fácil rejeitar os argumentos libertários baseados neles.
Recorri a nada tão controverso em meu próprio raciocínio. Rejeito as bases
do libertarianismo mencionadas no parágrafo anterior. Rejeito o egoísmo, pois
acredito que os indivíduos têm obrigações substanciais de levar em consideração
os interesses dos outros. Rejeito o absolutismo ético, pois acredito que os direitos de
um indivíduo podem ser substituídos por necessidades suficientemente importantes
40
Nota terminológica: o anarquismo capitalista conta como uma forma extrema de libertaria-
nismo.
41
Rand, 1964, 33; 1967, 195-6, 200-1.
42
Nozick 1974, pp. 28–35. Nagel (1995, 148) vê Nozick como um absolutista, embora de fato
Nozick (1974, 30n) expresse alguma dúvida sobre o absolutismo.
43
Narveson 1988, capítulos 12-14.
7. E se Não Existir Autoridade? 166

de outros. E rejeito todas as formas de teorias dos contratos sociais, pelas razões
discutidas nos capítulos 2 e 3.
A fundamentação do meu libertarianismo é muito mais modesto: a moral do
senso comum. À primeira vista, pode parecer paradoxal que tais conclusões po-
líticas radicais possam resultar de qualquer coisa chamada “senso comum”. Ob-
viamente, não reivindico visões políticas de bom senso. Afirmo que essas visões
políticas revisionistas emergem de visões morais do senso comum. A meu ver, a
filosofia política libertária repousa em três ideias amplas:

i Um princípio de não-agressão na ética interpessoal. Grosso modo, essa é a


ideia de que os indivíduos não devem atacar, matar, roubar ou fraudar uns aos
outros e, em geral, que os indivíduos não devem se coagir, exceto por algumas
circunstâncias especiais.

ii Um reconhecimento da natureza coercitiva do governo. Quando o Estado pro-


mulga uma lei, a lei geralmente é apoiada por uma ameaça de punição, que é
apoiada por ameaças críveis de força física dirigidas contra aqueles que deso-
bedecem ao Estado.

iii Um ceticismo da autoridade política. O resultado desse ceticismo é, grosso


modo, que o Estado não pode fazer o que seria errado para qualquer pessoa ou
organização não-governamental.

A principal suposição ética positiva do libertarianismo, o princípio da não-


agressão, é a mais difícil de articular com precisão. Na verdade, é uma coleção
complexa de princípios, incluindo proibições de roubo, assalto, assassinato e as-
sim por diante. Não consigo articular completamente esse conjunto de princípios.
Felizmente, não é o lócus de desacordo entre libertários e partidários de outras
ideologias políticas, pois o “princípio da não-agressão”, como eu uso o termo, é
simplesmente a coleção de proibições de maltratar outros que são aceitos na moral
do senso comum. Quase ninguém, independentemente da ideologia política, con-
sidera roubo, assalto, assassinato, etc. moralmente aceitável. Não precisamos de
uma lista completa dessas proibições, pois conseguimos construir os argumentos
deste livro baseando-nos em intuições sobre casos específicos. Não fiz suposições
particularmente fortes sobre essas proibições éticas. Por exemplo, não presumo
que roubo nunca seja permitido. Suponho simplesmente que não é permitido em
circunstâncias normais, como ditado pela moral do senso comum.
O segundo princípio, o da natureza coercitiva do governo, é igualmente difícil de
contestar. A natureza coercitiva do governo é comumente esquecida ou ignorada
no discurso político, no qual a justificativa para coerção raramente é discutida.
Mas praticamente ninguém nega que o Estado fia-se regularmente na coerção.
7. E se Não Existir Autoridade? 167

É a noção de autoridade que forma o verdadeiro lócus da disputa entre o


libertarianismo e outras filosofias políticas. Os libertários são céticos em relação à
autoridade, enquanto a maioria aceita a autoridade do Estado em mais ou menos
os termos em que o Estado a reivindica. É isso que permite à maioria endossar
o comportamento governamental que, de outra forma, parece violar os direitos
individuais: os não-libertários assumem que a maioria das restrições morais que
se aplicam a outros agentes não se aplica ao Estado.
Portanto, concentrei-me em defender o ceticismo sobre autoridade, abordando
as teorias de autoridade mais interessantes e importantes. Para defender esse ceti-
cismo, novamente, não confiei em suposições éticas particularmente controversas.
Considerei os fatores que supostamente conferem autoridade ao Estado e consta-
tei que, em cada caso, esses fatores não estão realmente presentes (como no caso
da autoridade baseada em consentimento) ou esses fatores simplesmente não são
suficientes para conferir o tipo de autoridade reivindicada pelo Estado. O último
ponto é estabelecido pelo fato de que um agente não governamental a quem esses
fatores se aplica geralmente não seria atribuído a algo como autoridade política.
Sugeri que a melhor explicação para a inclinação de atribuir autoridade ao Estado
está em uma coleção de preconceitos não-racionais que operariam se houvesse ou
não autoridades legítimas. A maioria das pessoas nunca faz uma pausa para ques-
tionar a noção de autoridade política, mas uma vez examinada, a ideia de um
grupo de pessoas com um direito especial de comandar todo mundo se dissolve de
maneira justa.
Essas três ideias – o princípio da não-agressão, a natureza coercitiva do go-
verno e o ceticismo em relação à autoridade – juntas exigem uma filosofia política
libertária. A maioria das ações do governo viola o princípio da não-agressão – ou
seja, são ações de um tipo que seria condenado pela moralidade do senso comum
se fossem executadas por qualquer agente não-governamental. Em particular, o
governo geralmente aplica coerção em circunstâncias e por razões que de maneira
alguma seriam consideradas adequadas para justificar a coerção por parte de um
indivíduo ou organização particular. Portanto, a menos que concedamos ao Estado
alguma isenção especial de restrições morais comuns, devemos condenar a maioria
das ações do governo. As ações que permanecem são apenas as que os libertários
aceitam.
Como alguém pode evitar a conclusão libertária? Apenas rejeitando um dos
três princípios fundamentais que identifiquei. É extremamente improvável questi-
onar a natureza coercitiva do governo, e duvido que qualquer teórico deseje adotar
essa atitude. Alguns teóricos vão questionar a moral do senso comum. Não tomei
uma defesa geral da moral do senso comum neste livro e não a farei agora. Todo
livro deve começar em algum lugar, e começar com pressupostos que, em condi-
ções normais, não se pode roubar, matar ou atacar outras pessoas parece bastante
7. E se Não Existir Autoridade? 168

razoável. Esse é o ponto de partida menos controverso e menos duvidoso para um


livro de filosofia política que já vi, e acho que poucos leitores se sentirão felizes em
rejeitá-lo.
A maneira menos implausível de resistir ao libertarianismo continua sendo a
de resistir ao ceticismo do libertário em relação à autoridade. Abordei o que me
parece ser o relato mais interessante, influente ou promissor da autoridade política
– a teoria tradicional do contrato social, a teoria do contrato social hipotético, o
apelo aos processos democráticos e o apelo à justiça e às boas consequências. Mas
não posso abordar todos os possíveis casos de autoridade, e um número razoável
de pensadores pode reagir ao meu desempenho propondo casos alternativos de
autoridade.
Suspeito, no entanto, que a estratégia geral em que confiei possa ser estendida
a esses casos alternativos. Uma teoria da autoridade citará alguma característica
do Estado como fonte de sua autoridade. Minha estratégia começa imaginando
um agente privado que possui esse recurso. Obviamente, isso não será possível
se o recurso em questão envolver um Estado – mas até agora, os recursos que
foram alegados como a fonte da autoridade política do Estado não envolveram um
Estado (ninguém, por exemplo, propôs que a autoridade seja conferida simples-
mente pela propriedade de ser um Estado). Por exemplo, a propriedade de ser
algo que seria aceito por todas as pessoas razoáveis, a propriedade de ser real-
mente aceito pela maioria da sociedade e a propriedade de produzir consequências
muito boas são propriedades que uma organização não-governamental ou de polí-
ticas que qualquer organização poderia possuir. Como mencionei, imaginamos um
agente não-governamental com a característica relevante. Percebemos então que
intuitivamente não atribuiríamos a esse agente algo como um direito completo,
independente de conteúdo e supremo de coagir a obediência de outras pessoas. E
assim concluímos que o recurso proposto falha como fundamento da autoridade
política.
Parte II
Sociedade sem Autoridade

169
8

Avaliando as Teorias Sociais

Nos capítulos a seguir, peço ao leitor que considere uma teoria ampla de como a
sociedade deve ser organizada. Antes de explicar essa teoria e os argumentos em
seu apoio, pode ser útil discutir como as teorias desse tipo devem ser avaliadas.

8.1 Observações gerais sobre a avaliação racional


das teorias sociais
8.1.1 A avaliação racional é comparativa
Muitas vezes decidimos quando adotar um curso de ação perguntando simples-
mente se a ação é boa ou ruim. Mas a questão mais apropriada é se a ação é
melhor ou pior que as alternativas.1
Suponha que enquanto estou dirigindo meu carro, vejo um cachorro na rua.
Eu tenho a opção de atropelar o cachorro. Devo fazer isso? A resposta depende
de quais são minhas alternativas. Se eu também tiver a opção de parar o carro e
esperar o cachorro atravessar, não devo bater nele. Mas e se meus freios falharem
e não puder parar o carro? E se, além disso, houver uma criança brincando na
calçada à minha direita e um carro na pista à minha esquerda? Minhas únicas
opções são acertar a criança, bater no carro que se aproxima ou bater no cachorro.
Nesse caso, eu deveria bater no cachorro. Esta opção não é boa, mas é melhor que
as alternativas.
1
Mantenho o ponto dessa forma pela simplicidade de expressão; Não pretendo, no entanto,
pressupor o consequencialismo. Nos casos em que os deveres não-consequencialistas se aplicam,
o que importa é se uma ação realiza um trabalho melhor para satisfazer os deveres prima facie
do que as alternativas disponíveis (ver Ross, 1988, capítulo 2). Por exemplo, se devo cumprir
uma promessa depende se minhas alternativas disponíveis violariam deveres mais rigorosos do
que o dever de cumpri-la.

170
8. Avaliando as Teorias Sociais 171

O mesmo ponto se aplica à avaliação das teorias sociais, onde a questão rele-
vante não é se alguma estrutura social seria boa ou ruim simplesmente, mas se
seria melhor ou pior que as alternativas; isto é, as outras estruturas sociais que
poderíamos adotar. Este ponto pode ser óbvio, mas vale a pena enfatizar, porque
é fácil esquecer na prática; frequentemente criticamos ou defendemos propostas
políticas sem considerar quais são as alternativas.
Um corolário é que nosso padrão para avaliar teorias sociais não deve ser o
da perfeição. Isto é, não devemos rejeitar uma estrutura social proposta porque,
sob ela, algumas pessoas sofrerão com alguns problemas sociais. A perfeição não
é uma das opções disponíveis para as sociedades humanas. Devemos rejeitar um
sistema social se e somente se pudermos identificar uma alternativa superior.

8.1.2 A avaliação racional é abrangente


Ao avaliar um sistema social, devemos considerar todas as vantagens e desvanta-
gens desse sistema. Não devemos permitir que nossa avaliação seja indevidamente
influenciada por uma única questão social.
Imagine um ativista social, a quem chamarei de “mamãe”, cuja questão social
favorita é dirigir embriagado. Ela participa de comícios contra dirigir embriagado,
cita estatísticas sobre o problema para seus amigos e escreve cartas ao congressista
e aos jornais locais, pedindo leis mais duras para combater a direção embriagada.
Mamãe sabe que existem muitos outros problemas sociais sérios; no entanto, ne-
nhum deles clama a mesma paixão. Confio que esse tipo de fenômeno seja familiar
o suficiente; toda questão social tem suas mães. Suponha, além disso, que mamãe
fique convencida de que a anarquia, embora possa abordar adequadamente qual-
quer outro problema, não pode abordar o problema de dirigir embriagado quase
tão bem quanto algum sistema governamental. Como resultado, mamãe se vê
incapaz de aceitar o anarquismo.
A história da mamãe tem o objetivo de ilustrar um ponto psicológico: temos
apegos emocionais a questões sociais específicas que geralmente são desproporci-
onais ao significado objetivo dessas questões, e esses apegos emocionais podem
influenciar nossa avaliação das teorias sociais. Os pensadores devem se conscien-
tizar desse problema para se protegerem. Devemos reconhecer a possibilidade de
que o sistema que seja melhor para a sociedade não resolva todos os problemas e
não resolva os problemas com os quais sentimos o maior compromisso psicológico.

8.1.3 Variedades de governo e anarquia


Suponha que um anarquista, procurando mostrar a superioridade da anarquia so-
bre o governo, traga a União Soviética sob o comunismo como uma ilustração da
natureza do governo. Sob o comunismo soviético, dezenas de milhões de pessoas
8. Avaliando as Teorias Sociais 172

inocentes foram mortas pelo governo – algumas por discordarem do governo, a


maioria simplesmente por pertencerem à classe social errada.2 O restante foi for-
çado a viver por décadas sob opressão e pobreza. A anarquia seria melhor do que
isso.
Poucos observadores teriam dificuldade em identificar a falácia nesse raciocí-
nio: aqueles que defendem o governo normalmente não defendem toda e qualquer
forma de governo. Eles não precisam defender, por exemplo, a ditadura comunista;
precisam defender apenas alguma forma viável de governo. Assim, ao comparar
governo e anarquia, devemos examinar a melhor forma viável de governo. Não
importa se também temos disponível alguma forma terrível de governo que nunca
desejaríamos adotar (a menos que, tendo decidido ter um governo, não tenhamos
controle de que forma de governo obtemos). A partir de agora, assumirei sem
argumentos que a melhor forma de governo é a democracia representativa.
O mesmo ponto se aplica ao outro termo da comparação: os teóricos anarquis-
tas não precisam defender toda e qualquer condição não-governamental; precisam
defender apenas alguma estrutura social não-governamental viável. Não importa
se, além disso, existem formas terríveis de anarquia que nunca desejaríamos (a
menos que, novamente, não tenhamos controle de qual forma de anarquia temos).
Os pensadores anarquistas diferem sobre qual seria o melhor sistema não-
governamental, principalmente se ele teria uma economia socialista ou capitalista.3
Não entrarei nesse debate aqui. Simplesmente assumirei o capitalismo como a me-
lhor alternativa. Isso não será assim porque não vale a pena considerar formas so-
cialistas de anarquismo, mas simplesmente porque a comparação de dois sistemas
sociais, democracia representativa e anarquia capitalista, se mostrará suficiente-
mente complexa para nos ocupar pelo restante deste livro sem a adição de outras
alternativas.

8.1.4 Contra o viés do status quo


A maioria dos seres humanos demonstra uma tendência acentuada de ver os ar-
ranjos atuais em sua própria sociedade, sejam eles quais forem, como certos e bons
(consulte a Seção 6.4). Esse viés explica como pessoas de culturas extremamente
diferentes podem considerar as práticas de suas próprias culturas as melhores.
Uma forma potencial de viés do status quo é a prática de atribuir um pesado
ônus da prova a quem propõe um novo sistema social muito diferente do sistema
atual. Podemos sustentar que o reformador deve provar a superioridade de um
novo sistema e que qualquer dúvida sobre os méritos relativos do novo sistema e
2
Courtois et al. 1999, parte 1.
3
Ver Caplan n.d. para discussão de variedades de anarquismo. Para defesas do anarquismo
socialista, veja Bakunin 1972; Kropotkin 2002.
8. Avaliando as Teorias Sociais 173

do antigo sistema redunda em benefício do antigo. Esse ônus da prova pode ser
esmagador por dois motivos. Primeiro, a complexidade e a imprevisibilidade das
sociedades humanas tornam difícil ou impossível provar quase qualquer coisa de
interesse na teoria social.4 Diferenças intratáveis de opinião sobre as consequências
sociais de políticas, instituições e eventos sociais são comuns. Portanto, adotar uma
presunção em favor do status quo pode facilmente provar o movimento decisivo que
bloqueia a aceitação de praticamente qualquer mudança social.
Segundo, a comparação abrangente de sistemas sociais amplos é extremamente
complexa. Muitas questões e problemas sociais são afetados pela estrutura geral
da sociedade – guerra, pobreza, inflação, dirigir embriagado, poluição, racismo,
abuso de drogas, tiroteios em escolas, dependência de combustíveis fósseis, assis-
tência médica, aborto, direitos dos animais, pena de morte. clonagem humana,
educação, eutanásia, gravidez na adolescência, violência entre gangues e assim por
diante. Nenhum trabalho isolado poderia abordar todas as questões sociais im-
portantes – e, se fosse o caso, poucos teriam paciência para lê-lo. Suponha, então,
que adotemos o hábito de assumir, para cada questão social, que o status quo
representa a melhor maneira de lidar com essa questão até prova em contrário.
Isso daria novamente ao status quo uma vantagem essencialmente intransponível
sobre qualquer alternativa radical. Mesmo que um reformador consiga argumen-
tar minuciosamente que o status quo falha em várias questões importantes, sempre
haverá muito mais questões sobre as quais o status quo triunfa por padrão, em
virtude de não termos tido tempo de examiná-las minuciosamente.
O que haveria de errado em conceder ao status quo uma enorme vantagem dia-
lética sobre alternativas radicais? O problema não é apenas uma das “injustiças”
dialéticas. O problema é que é muito provável que essa metodologia nos prenda a
um sistema social inferior. Não há razão para supor que a própria sociedade esteja
organizada da melhor maneira. Portanto, é desejável encontrar uma metodologia
na teoria social que dê às estruturas sociais alternativas uma chance razoável de
serem escolhidas.
Nos capítulos seguintes, trato do que me parecem as preocupações mais óbvias
e sérias sobre o anarquismo. Não posso abordar como todas as questões sociais
importantes seriam tratadas em uma sociedade anarquista. Se, no entanto, eu
conseguir mostrar que os problemas que inicialmente parecem mais prováveis de
ocasionar refutações decisivas do anarquismo podem de fato ser bem tratados por
uma sociedade anarquista, o ônus da prova será transferido para os críticos do
anarquismo.
4
Ver Tetlock 2005 sobre a dificuldade da previsão política; mas veja também Caplan 2007a
para uma defesa qualificada de especialistas políticos.
8. Avaliando as Teorias Sociais 174

8.2 Uma concepção simplificada da natureza hu-


mana
Qualquer tentativa de descobrir as consequências de um amplo sistema social deve
se basear em algumas crenças sobre a natureza humana. Aqui, descrevo minhas
suposições gerais mais importantes sobre a natureza humana.

8.2.1 Os seres humanos são aproximadamente racionais


Os seres humanos geralmente escolhem ações com base em suas crenças e objetivos.
Uma pessoa é “instrumentalmente racional” quando escolhe a ação que, com base
em suas crenças atuais, parece fazer o melhor trabalho possível para alcançar
seus objetivos, quaisquer que sejam esses objetivos. Na vida cotidiana, tomamos
como certo que os seres humanos são aproximadamente, embora não perfeitamente,
instrumentalmente racionais.
Considere uma ilustração simples. Você vê uma menininha subindo em uma
árvore enquanto está chamando por “Bola de Neve”. Você percebe que ela está se
movendo em direção a um gato branco empoleirado na árvore. Como você inter-
pretaria o comportamento da menina? Salvo condições incomuns, a interpretação
mais natural seria que a menina está tentando tirar o gato da árvore. Essa inter-
pretação toma como garantida a racionalidade instrumental (aproximada): atribui
à garota um objetivo, tirar o gato da árvore, de modo que seu comportamento faça
sentido como uma maneira de persegui-lo. Sem uma suposição de racionalidade
instrumental básica, não haveria limite para as possíveis interpretações. Se ela
for irracional, a garota pode estar subindo na árvore para fugir do gato. Ou para
matar sua sede. Ou depor o presidente do Egito. Em contextos normais, diríamos
que essas “explicações” não fazem sentido – e as explicações não fazem sentido
porque não são compatíveis com o comportamento do agente.
Quase toda ação intencional comum poderia ser usada com a mesma facilidade
para ilustrar a ideia. Dirigir até a loja, colocar gasolina no carro, comprar um pote
de compota de maçã, pedir um aumento, deitar na cama, ir ao dentista, cozinhar
uma refeição, pegar o telefone – qualquer uma dessas ações pode ser explicada por
referência (i) uma meta que possa ser atribuída de maneira plausível ao agente;
(ii) uma série de crenças precisas e razoáveis da parte do agente sobre o mundo e
as consequências de suas ações; e (iii) a suposição de racionalidade instrumental
sobre parte do agente.
Há exceções à regra geral da racionalidade instrumental. Os psicólogos docu-
mentaram muitas falhas específicas da racionalidade, numerosas demais para listar
aqui.5 Além disso, existem algumas condições gerais que tornam mais prováveis
5
Para uma amostra, ver Tversky e Kahnemann 1986 sobre efeitos de enquadramento; Arkes
8. Avaliando as Teorias Sociais 175

várias falhas da racionalidade: é mais provável que os seres humanos cometam erros
ao enfrentar situações desconhecidas e complexas ou situações em que o raciocínio
abstrato é necessário para determinar a escolha certa. Também é provável que
cometam erros nas decisões que não são importantes para eles, onde não desejam
dedicar pensamento suficiente para identificar a melhor opção.
É provável que a suposição de racionalidade instrumental seja válida quando as
pessoas enfrentam situações simples e familiares nas quais a melhor opção é fácil
de resolver. Também é muito provável que isso ocorra para gerentes de negócios
em setores competitivos. Negócios gerenciados irracionalmente tendem a ter um
desempenho inferior aos negócios gerenciados racionalmente. O último expandirá
enquanto o primeiro encolherá, até que o mercado seja dominado por negócios
relativamente racionais.

8.2.2 Os seres humanos estão cientes do seu ambiente


Os seres humanos tendem a possuir uma grande quantidade de informações preci-
sas e praticamente relevantes sobre seus ambientes e sobre as possíveis consequên-
cias de suas ações. Eles geralmente não ignoram informações úteis ou adotam
crenças totalmente imprecisas sobre assuntos relevantes para a tomada de deci-
sões. Essa é uma variação do que os filósofos chamam de “princípio da caridade”.6
O mesmo tipo de exemplo que ilustra a racionalidade instrumental também pode
ser usado para ilustrar esse princípio da caridade.
Considere novamente a menina subindo na árvore. Para entender seu com-
portamento, devemos assumir que o agente possui uma série de crenças sensatas
sobre si mesma e seu ambiente – que o gato está na árvore, que a árvore é um
objeto sólido, que objetos físicos tendem a cair para baixo quando não são supor-
tados, que subir na árvore a aproximará do gato, sua mão não atravessará pelo
gato e assim por diante. Na vida comum, não pararíamos com todas essas crenças,
mas todas elas estão implicadas no aparente plano da garota de subir na árvore
para tirar o gato – se ela ignorasse qualquer um desses fatos, não poderia realizar
esse plano. Novamente, este não é um exemplo incomum. Qualquer uma de uma
grande variedade de ações comuns poderia ser facilmente usada para ilustrar o
ponto.
e Blumer, 1985, sobre a influência dos custos irrecuperáveis; Tversky 1969 sobre preferências
intransitivas; e os vários artigos de Kahneman et al. 1982 e Gilovich et al. 2002.
6
Os filósofos geralmente entendem o princípio da caridade como o princípio de que, ao in-
terpretar os outros, é preciso atribuir a eles principalmente crenças verdadeiras (Davidson 1990,
129-30). Na minha opinião, o princípio mais fundamental é que se deve atribuir principalmente
crenças racionais a outras pessoas (ver Huemer 2005, 159-61). Contudo, em condições normais,
crenças racionais são geralmente verdadeiras, de modo que dois princípios da caridade produzem
resultados semelhantes. A ideia discutida no texto vai além disso, atribuindo um nível razoável
de conhecimento prático à maioria dos seres humanos.
8. Avaliando as Teorias Sociais 176

Há várias exceções. As pessoas tendem a ignorar verdades complicadas e abs-


tratas sobre assuntos desconhecidos. Tendem a ignorar as informações que conside-
ram desinteressantes e que não as ajudam a alcançar seus objetivos. E se algumas
informações são custosas para reunir, em termos monetários ou em termos de
tempo e esforço, então relativamente poucas pessoas possuirão essas informações.
Por outro lado, quando as informações são adquiridas de maneira fácil e ba-
rata, fáceis de entender e relevantes para alcançar nossos objetivos, geralmente as
teremos. É particularmente provável que os gerentes de negócios em setores com-
petitivos possuam informações precisas relevantes para gerenciar seus negócios,
uma vez que os negócios cujos gerentes permanecem ignorantes dessas informa-
ções tenderão a ter um desempenho inferior aos negócios cujos gerentes estão bem
informados, permitindo que esses gerentes bem informados ao longo do tempo
dominem a indústria.

8.2.3 Os seres humanos são egoístas, mas não sociopatas


Eu sou extremamente egoísta. Comprei recentemente uma jaqueta de inverno para
mim a um custo de cerca de US$ 200. Já tinha alguns suéteres, camisas e outras
jaquetas; Simplesmente queria uma jaqueta melhor do que qualquer outra que já
tinha. Por isso, atendi a um desejo bastante trivial com esse gasto. Se tivesse
doado para um grupo de caridade que trabalha para combater a pobreza mundial,
esse mesmo dinheiro poderia ter salvado a vida de outra pessoa.7 Isso sugere
que valorizo meu próprio bem-estar talvez milhares de vezes mais do que valorizo
o bem-estar de estranhos em outras partes do mundo. No entanto, por mais
perturbador que isso possa parecer, não indica algum tipo de distúrbio sociopático
da minha parte. Nem indica um nível anormal de egoísmo. O americano médio
dá ainda menos à caridade do que eu, enquanto um terço das famílias americanas
não dá nada.8 A maioria dos seres humanos, quando têm a chance de dar dinheiro
a outros, escolhe ficar com o dinheiro para si, principalmente se ninguém estiver
sabendo.9
Para outra ilustração, imagine que você saberá que vai morrer amanhã. Embora
possa ser impossível imaginar com precisão como você se sentiria, é um palpite
seguro de que você ficaria bastante chateado. Agora vou lhe dizer uma coisa que
7
Algumas instituições de caridade afirmam salvar uma vida por US$ 100 doados (http:
//www.againstmalaria.com/OneChild.aspx); No entanto, Give Well fornece uma estimativa
de US$ 2.000 por vida salva (http://givewell.org/international/top-charities/AMF).
8
National Philanthropic Trust 2011.
9
Em um experimento, Hoffman et al. (1994) deu aos participantes a chance de jogar “o jogo
do ditador”, no qual um indivíduo tem o poder unilateral de dividir uma soma de dinheiro entre
ele e outro indivíduo. Em uma versão cuidadosamente anônima, mais de 60% dos indivíduos
ditadores optaram por dar US$ 0 ao outro. No entanto, Hoffman et al. nota que em variações
não-anônimas, os indivíduos são um pouco mais generosos.
8. Avaliando as Teorias Sociais 177

você provavelmente não saiba: com base nas estatísticas recentes de mortalidade
mundial, existem cerca de 156.000 seres humanos que de fato morrerão amanhã. 10
Como você se sente agora? Você pode achar essas informações perturbadoras. Mas
se você é como a maioria das pessoas, fica muito menos chateado com essa notícia
do que com a notícia de que estava prestes a morrer. Isso sugere, novamente, que
sua preocupação consigo mesmo é talvez milhares de vezes mais forte do que sua
preocupação com a maioria das outras pessoas.
No entanto, existem muitas exceções à regra do egoísmo humano. Muitas
pessoas doam dinheiro voluntariamente para caridade, embora muito menos do
que poderiam doar.11 A maioria está preparada para fazer grandes sacrifícios pela
família, amigos, amantes ou outros de quem são próximos. E algumas pessoas,
como Albert Schweitzer ou Madre Teresa, dedicaram virtualmente suas vidas a
ajudar os outros.12
Talvez a maior e mais generalizada exceção à regra do egoísmo diga respeito
aos direitos negativos percebidos pelos outros: um ser humano comum pode ou
não sacrificar US$ 200 para salvar a vida de um estrangeiro em uma terra estran-
geira, mas quase todo mundo ficaria horrorizado com o pensamento de matar um
estranho por US$ 200. É certo que um pequeno número ficaria feliz em matar
outra pessoa por US$ 200 – os sociopatas não respeitam as normas sociais e as
capacidades de empatia, culpa, medo e horror que impedem a maioria dos seres
humanos de se machucar uns aos outros em circunstâncias normais. Felizmente,
porém, os sociopatas compreendem apenas cerca de 2% da população.13 Os res-
tantes 98% dos seres humanos estão preocupados com normas sociais, são capazes
de empatia e possuem uma rica variedade de emoções.
Assim, enquanto seres humanos comuns estão dispostos a fazer muito pouco
esforço positivo para ajudar outras pessoas com quem não têm um relacionamento
íntimo, também tendem a relutar em atacar diretamente outros seres humanos
ou violar positivamente as normas sociais geralmente aceitas de outras maneiras,
mesmo quando têm a ganhar fazendo isso.
10
Ver Nações Unidas 2009 tabela DB5_F1
11
O National Philanthropic Trust (2011) relata que as doações de caridade totalizaram 2,1%
do PIB americano em 2009.
12
Algumas pessoas resistem a esse tipo de exemplo, alegando que de algum modo todos esses
tipos de comportamento são realmente, no fundo, egoístas. Veja Rachels 2003, capítulo 5, para
uma refutação padrão desta reivindicação.
13
American Psychiatric Association 1994, 648. Ver Hare 1993 para um retrato esclarecedor,
embora arrepiante, da personalidade psicopática.
8. Avaliando as Teorias Sociais 178

8.2.4 A favor da simplificação


O exposto acima é um relato muito simplificado da natureza humana. Existem inú-
meras variações entre indivíduos e inúmeras motivações humanas que não abordei.
Por que é útil considerar uma imagem tão simplificada da humanidade?
Primeiro, observe que o argumento identifica fatores causais no comportamento
humano que são reais e grandes. Esse é um requisito para uma idealização útil.14
Nós, seres humanos, realmente somos movidos por interesses próprios e, na ver-
dade, tendemos a tomar ações que provavelmente nos levarão ao que queremos.
Não mencionei todas as exceções a essas regras, mas tentei mencionar as exceções
mais importantes e bem estabelecidas.
Segundo, os princípios sobre a natureza humana listados nas subseções anteri-
ores são banais e dirigidos por observações de senso comum, e não por qualquer
ideologia partidária. Dessa forma, eles são diferentes da afirmação dos marxistas,
por exemplo, de que os seres humanos são fortemente motivados por interesses de
classe.15 A última afirmação é altamente controversa e aceita apenas por aqueles
com uma ideologia específica. Este ponto é muito importante, porque ideologias
conflitantes são o maior obstáculo ao progresso na teoria social.
Terceiro, meu relato simplificado da natureza humana nos permite derivar mui-
tas previsões qualitativas sobre os efeitos dos sistemas sociais de maneira relativa-
mente direta, com pouca necessidade de pedidos de julgamento. Existe um corpo
da teoria bem desenvolvido e convincente, compreendendo economia e teoria dos
jogos, que elabora as consequências da suposição do egoísmo racional. Aqueles
familiarizados com a teoria geralmente podem concordar com uma grande vari-
edade de previsões, independentemente de suas inclinações morais, religiosas ou
políticas iniciais.16 Isso é importante, novamente, para progredir na teoria social.
Quanto mais simples forem as suposições da teoria, e quanto mais objetivas forem
suas previsões, menos espaço haverá para o viés humano e a irracionalidade ma-
nipularem a teoria. Devido ao enorme papel que o viés desempenha no discurso
político17 , essa é uma das virtudes mais importantes que uma teoria nessa área
pode ter.
14
Friedman (1953) argumenta que um modelo não precisa estar nem um pouco próximo da
realidade; precisa apenas ter previsões empíricas corretas. É possível que uma teoria que esteja
muito longe da verdade tenha previsões muito precisas (como no caso da astronomia ptolomaica).
No entanto, passo Friedman, acredito que é improvável que isso ocorra para as teorias da natureza
humana.
15
Marx e Engels 1978, 218.
16
Não é possível transmitir o poder da teoria econômica moderna em um espaço curto. Para
uma excelente introdução à microeconomia, consulte o livro de David Friedman (1990) disponível
em http://www.daviddfriedman.com/Academic/Price_Theory/PThy_ToC.html.
17
Ver Huemer “Why People Are Irrational about Politics” (n.d.) e Caplan 2007b.
8. Avaliando as Teorias Sociais 179

8.2.5 Uma aplicação histórica


O relato simplificado da natureza humana que descrevi faz previsões úteis sobre
certos sistemas sociais. Tomemos o caso de uma teoria social que propõe que
todos os cidadãos trabalhem em benefício da sociedade e recebam salário igual.
Uma previsão teórica simples é que, nesse sistema, a produtividade diminuirá. Os
indivíduos têm um alto grau de controle sobre sua própria produtividade, e maior
produtividade geralmente exige maior esforço. Como a maioria das pessoas é raci-
onalmente egoísta, não fará muito esforço para ser produtivo, a menos que espere
receber benefícios pessoais por isso. Portanto, se todos forem pagos de maneira
igual e se não houver outras recompensas ou punições associadas à qualidade e
quantidade do trabalho, as pessoas não serão muito produtivas.
Esta previsão está de fato correta. As experiências do século XX com siste-
mas sociais nesse escopo são bem conhecidas, então não vou me alongar nisso.
Uma ilustração interessante, mas pouco conhecida, é fornecida pelo primeiro ex-
perimento da América com o comunismo, que ocorreu em Jamestown, o primeiro
assentamento permanente inglês na América.18 Quando a colônia foi estabele-
cida em 1607, sua carta fundadora estipulava que cada colono teria direito a uma
parcela igual do produto da colônia, independentemente de quanto esse indivíduo
produzisse pessoalmente. O resultado: os colonos fizeram pouco trabalho e pouca
comida foi produzida. Dos 104 colonos fundadores, dois terços morreram no pri-
meiro ano – em parte devido à água impura, mas principalmente devido à fome.
Mais colonos chegaram da Inglaterra, de modo que em 1609 havia 500 colonos.
Desses, apenas 60 sobreviveram ao inverno de 1609–10.19 Em 1611, a Inglaterra
enviou um novo governador, Sir Thomas Dale, que encontrou os colonos esquelé-
ticos jogando nas ruas em vez de trabalhando. Sua principal fonte de alimento
eram plantas e animais silvestres, que acumulavam secretamente à noite para evi-
tar a obrigação de compartilhar com seus vizinhos. Mais tarde, Dale converteu a
colônia em um sistema baseado em propriedade privada, concedendo a todos os
colonos um terreno de três acres para cuidar de seu próprio benefício individual.
O resultado foi um aumento dramático na produção. De acordo com a história
contemporânea do capitão John Smith,

Quando nosso povo era alimentado pelo acúmulo comum e trabalho


18
O argumento no texto é baseado em Schmidtz 2008, Contoski 2010, Wadhwa 2005 e Smith
1986. As citações de Smith são da Generall Historie of Virginia, New England, and the Summer
Iles, livro 4, originalmente publicado pelo capitão John Smith, em 1624. Smith foi um dos líderes
da colônia de 1607 a 1609, quando retornou à Inglaterra.
19
Segundo Smith (1986, 232–3), os nativos interromperam o comércio naquele momento e
atacaram a colônia. No entanto, Smith atribui o inverno desastroso, que chama de “tempo de
fome”, à “falta de providência, indústria e governo, e não à aridez do país, como geralmente se
supõe”.
8. Avaliando as Teorias Sociais 180

conjunto, feliz estava ele [quem] podendo escapar de seu trabalho ou


dormindo por causa de sua tarefa, ele não se importava mais; os mais
honestos entre eles dificilmente sofreriam tantas dores verdadeiras em
uma semana como agora para eles mesmos sofrem em apenas um dia
[. . . ] de modo que não colhemos tanto milho do trabalho de trinta,
como agora três ou quatro provêm para eles.20

Uma lição deste episódio é que, por mais simples que seja o relato da natureza
humana que eu tenha desenvolvido, ele pode produzir previsões muito úteis. Se
a companhia que criou a carta de Jamestown conhecesse um pouco de economia,
centenas de vidas poderiam ter sido poupadas. Outra lição é que o impacto do
egoísmo humano depende muito do sistema social no qual as pessoas estão in-
seridas: em um tipo de sistema, o egoísmo pode ter consequências desastrosas,
enquanto em outro promove a prosperidade.

8.3 Utopia e realismo


8.3.1 O princípio do realismo
Quando os arranjos políticos e sociais propostos são criticados, geralmente é por
ser prejudicial ou injusto. Às vezes, porém, uma visão de sociedade é perfeitamente
justa e altamente benéfica, e ainda assim a rejeitamos com o argumento de que a
ideia é irrealista demais ou “utópica”.21
Considere, por exemplo, uma posição que poderíamos chamar de “socialismo
utópico”. O socialista utópico sustenta que todos devem ser pagos igualmente,
independentemente da produtividade. Na última seção, vimos que arranjos desse
tipo podem levar à subprodução, colocando as coisas com suavidade. O socialista
utópico trata desse problema simplesmente propondo que todos nós, a partir de
então, concordemos em nos comportar desinteressadamente. Se todos trabalhar-
mos voluntariamente para o bem da sociedade, não haverá problema. É verdade
que isso não aconteceu no passado; no entanto, diz o socialista utópico, é o que
deveria acontecer.
Intuitivamente, essa ideia é problemática como uma filosofia política e social,
independentemente da sociedade que representa ser justa ou desejável, porque a
ideia é irrealista demais. Parece exigir uma alteração em um aspecto robusto da
natureza humana, sem propor um mecanismo plausível para isso. Considere, por
20
Smith 1986, 247. Modernizei a ortografia e a pontuação. Smith está parafraseando levemente
as palavras do secretário da colônia Hamor (1614, 17).
21
Ver Cowen 2007a para discussão.
8. Avaliando as Teorias Sociais 181

exemplo, uma posição que poderíamos chamar de “socialismo utópico”. O socia-


lista utópico sustenta que todos devem ser pagos igualmente, independentemente
da produtividade. Na última seção, vimos que arranjos desse tipo podem levar à
subprodução, colocando as coisas com suavidade. O socialista utópico trata desse
problema simplesmente propondo que todos nós, a partir de então, concordemos
em nos comportar desinteressadamente. Se todos trabalharmos voluntariamente
para o bem da sociedade, não haverá problema. É verdade que isso não aconteceu
no passado; no entanto, diz o socialista utópico, é o que deveria acontecer.
Intuitivamente, essa ideia é problemática como uma filosofia política e social,
independentemente da sociedade que representa ser justa ou desejável, porque a
ideia é irrealista demais. Parece exigir uma alteração em um aspecto robusto da
natureza humana, sem propor um mecanismo plausível para isso.
Muitos acreditam que o anarquismo também cai sob a acusação de utopia
excessiva. Esses críticos acusam os anarquistas de confiar em suposições irrea-
listicamente otimistas sobre a natureza humana.22 Como podemos evitar essa
objeção?

8.3.2 Prescrição para um anarquismo realista


Para evitar a utopia excessiva, devemos respeitar as seguintes restrições:

i Não podemos assumir níveis irrealistas de motivação altruísta. Ao examinar as


vantagens e desvantagens do sistema, devemos assumir que a sociedade anar-
quista será povoada por pessoas com níveis relativamente normais de egoísmo,
e devemos aceitar as consequências desse egoísmo dentro da estrutura social
específica.

ii Não podemos assumir racionalidade ou conhecimento perfeitos. Nossa defesa


do anarquismo deve ser consistente com o fato de que as pessoas periodicamente
cometem erros.

iii Não podemos assumir uniformidade psicológica. Devemos reconhecer o fato


de que os seres humanos têm uma variedade de motivações e traços de cará-
ter; por exemplo, que alguns indivíduos são extraordinariamente agressivos ou
imprudentes.

iv Não podemos simplesmente assumir a persistência do sistema ao longo do


tempo. Em vez disso, devemos ser capazes de argumentar que, uma vez ado-
tado, o sistema seria capaz de resistir a forças que poderiam prejudicá-lo.
22
Heywood 1992, 198; Wolff 1996, pp. 33–4.
8. Avaliando as Teorias Sociais 182

v Não podemos assumir a adoção simultânea e mundial do sistema, uma vez


que não existe uma maneira plausível de isso acontecer. Devemos imaginar
que (talvez como um estágio de transição) alguma região ou grupo limitado se
torne anarquista em um mundo dominado por Estados.

Por outro lado, vale a pena notar duas coisas que não tornam uma teoria social
excessivamente utópica:

i Se uma teoria “não pode” ser implementada simplesmente no sentido de que


as pessoas não podem ser convencidas a implementá-la, isso não torna a teoria
muito utópica.

Como analogia, suponha que me seja proposto que doe US$ 200 para caridade
este mês. Respondo: “Não, isso não é realista, porque me recuso a fazê-lo”. In-
tuitivamente, não articulei uma objeção válida à minha doação de US$ 200, por
mais intransigente que possa ter sido minha recusa. Da mesma forma, a recusa da
maioria dos membros da sociedade de levar o anarquismo a sério, e muito menos de
tentar implementá-lo, não cria uma objeção válida ao anarquismo. Obviamente,
se a maioria das pessoas tem algum motivo para rejeitar a teoria, essa razão pode
ser citada como uma objeção à teoria. O anarquismo deve ser avaliado supondo,
talvez de maneira improvável, que o sistema seja adotado e considerando a partir
daí se resultaria num estado de coisas desejável e justo.

ii Para ser suficientemente realista, um modelo para a sociedade não precisa ser
viável ou desejável em todas as condições sociais. Só é preciso argumentar
que existem algumas condições, provavelmente a serem realizadas agora ou no
futuro, sob as quais o modelo seria bem-sucedido.

Nos capítulos seguintes, tentarei caracterizar um tipo de sociedade anarquista


que seria estável e habitável sob algumas condições realistas, apesar da existência
de criminosos, dissidentes, egoísmo humano e governos estrangeiros.

8.3.3 Contra o estatismo utópico


É amplamente reconhecido que os anarquistas enfrentam um desafio significativo
de evitar a utopia. É amplamente reconhecido, também, que algumas teorias não-
anarquistas, como certas formas de socialismo, enfrentam acusações de utopia.
O que é menos reconhecido é que mesmo teorias políticas moderadas e muito
convencionais podem ser utópicas.
Por exemplo, a teoria da democracia liberal pode ser muito utópica. Não
seria excessivamente utópico simplesmente advogar que mantemos as instituições
8. Avaliando as Teorias Sociais 183

atuais, funcionando exatamente como agora. Mas poucos pensadores adotam essa
posição. Muitos acreditam que é necessário algum grau de reforma – por exemplo,
que o processo democrático deva ser menos influenciado por grupos de interesse
especial. Quanto mais se sabe como o governo realmente funciona, menos provável
é que se possa sinceramente afirmar que ele opera como deveria. Isso abre a
possibilidade de que as mudanças que gostaríamos de ver nos Estados democráticos
sejam excessivamente utópicas. Os defensores da democracia liberal enfrentam as
mesmas restrições contra a utopia que os defensores de posições mais radicais,
como o anarquismo ou o socialismo.
Pode parecer estranho sugerir que uma posição democrática liberal dominante
possa se mostrar utópica demais, enquanto alguma alternativa anarquista radical
pode ser suficientemente realista. Mas a distinção entre utopia e realismo não se
importa com a distância de uma proposta do status quo nem com a distancia da
corrente principal do pensamento político. A distinção entre utopia e realismo
preocupa-se principalmente, grosso modo, se uma ideia política ou social exige
violações da natureza humana. Uma visão política convencional pode exigir tais
violações, enquanto alguma alternativa radical não. É perfeitamente possível que
uma pequena mudança seja inviável, enquanto alguma mudança muito maior é
viável.
Uma forma comum de utopia consiste em confundir o modo como indivíduos
e organizações devem se comportar com o modo como se comportarão. Quando
os sistemas sociais são avaliados, não importa como um sistema deve funcionar;
o que importa é como se espera que funcione sob suposições realistas sobre a
natureza humana. Por exemplo, podemos dizer que a função do governo é proteger
os direitos de seus cidadãos, mas nada segue sobre o que o governo realmente
fará. Na ausência de um mecanismo eficaz para induzir os agentes do governo a
despacharem eficientemente suas funções declaradas, não podemos assumir que os
cidadãos receberão proteção adequada. O ponto aqui não é que o governo não nos
proteja; o ponto é que, se o governo é um mecanismo eficaz para proteger os direitos
individuais, promover o bem-estar social ou promover qualquer outro objetivo,
deve ser estabelecido por argumentos e evidências, não as ter como garantidas
simplesmente por causa do objetivo declarado do governo.
Uma forma relacionada de utopia consiste em suspender suposições gerais sobre
a natureza humana ao considerar agentes do Estado. Os defensores do governo
costumam apontar os danos que podem resultar da ganância generalizada e do
egoísmo da humanidade na ausência de um governo capaz de conter nossos piores
excessos. No entanto, raramente param para considerar o que pode resultar da
mesma ganância e egoísmo na presença do governo, supondo que os agentes do
governo sejam igualmente propensos a essas mesmas falhas. Não é que os esta-
tistas tenham alguma explicação de por que os funcionários do governo são mais
8. Avaliando as Teorias Sociais 184

virtuosos que as pessoas comuns. Nem têm algum plano para fazer isso acontecer.
Antes, parece simplesmente nunca ter ocorrido à maioria dos estatistas aplicar
suposições realistas sobre a natureza humana ao próprio governo. O Estado é
tratado como se estivesse acima do mundo humano empírico, transcendendo não
apenas as restrições morais, mas também as forças psicológicas que se aplicam a
seres humanos individuais.
Qualquer sistema social, seja anarquista ou estatista, deve ser julgado pelo
seu desempenho quando habitado por pessoas reais, como as que encontramos no
mundo real. Não importa se a anarquia funcionaria bem em um mundo em que
todos os indivíduos sejam altruístas e sempre respeitam os direitos um do outro.
Da mesma forma, não importa se o governo funcionaria bem em um mundo em
que todos os agentes do governo sejam altruístas e sempre respeitam os direitos
dos indivíduos.
9

A Lógica da Predação

O uso direto da força física é uma solução tão pobre para o problema
dos recursos limitados que geralmente é empregado apenas por crianças
pequenas e grandes nações.
– David Friedman1

9.1 O argumento hobbesiano para o governo


No século XVII, Thomas Hobbes articulou uma das explicações mais influentes da
necessidade de governo.2 Hobbes começa com a suposição de que os seres huma-
nos são motivados inteiramente pelo interesse próprio e que possuem habilidades
mentais e físicas aproximadamente iguais, de modo que todo indivíduo pode repre-
sentar uma ameaça séria para qualquer outro. Agora imagine esses seres vivendo
no “estado de natureza”; isto é, um estado sem governo ou leis. Essas pessoas
entrariam em conflito frequente entre si, por três razões. Primeiro, as pessoas se
atacariam para roubar os recursos; Hobbes chama isso de “competição”. Segundo,
as pessoas se atacariam preventivamente – ou seja, uma pode decidir matar ou ferir
permanentemente outra pessoa, simplesmente para impedir que essa outra pessoa
possa machucar alguém no futuro; Hobbes chama isso de “desconfiança”. Terceiro,
as pessoas lutariam pela “glória” – isto é, uma pode atacar outra para forçar a
outra a expressar respeito para si mesma. Por essas razões, Hobbes acreditava que
o estado de natureza seria um estado de guerra perpétua de todos contra todos.
Não haveria indústria, comércio ou cultura. Todos viveriam com medo constante
da morte violenta e suas vidas seriam “solitárias, pobres, desagradáveis, brutais e
1
Friedman 1989, 4.
2
Hobbes 1996, especialmente os capítulos 13–17.

185
9. A Lógica da Predação 186

curtas”.3
A solução, na visão de Hobbes, era de que todos concordassem em estabelecer
um governo e conceder a ele poder absoluto. O governo seria capaz de proteger
indivíduos uns dos outros. Nem, na opinião de Hobbes, as pessoas deveriam temer
ferimentos nas mãos do próprio Estado. Os governantes naturalmente querem
que o povo sobreviva e prospere, porque isso tornará os governantes mais ricos e
poderosos.
Por que o Estado deveria receber poder absoluto, em vez de apenas poderes
limitados e bem definidos? A resposta de Hobbes é dupla: primeiro, não há
necessidade de limitar o poder do Estado, porque o poder excessivo do Estado não
causa problemas significativos. Segundo, não é possível limitar o poder do Estado,
a menos que haja outro agente ainda mais poderoso que possa exercer controle
sobre o Estado.4
A essência do argumento hobbesiano para o governo pode ser separada de
algumas das reivindicações mais extremas de Hobbes. Não é necessário sustentar
que os seres humanos são totalmente egoístas para concordar com Hobbes de que
o estado de natureza estaria repleto de conflitos; Um conflito sério pode surgir
se as pessoas forem amplamente, mesmo que não inteiramente, egoístas. Nem é
preciso seguir Hobbes para abraçar o totalitarismo; talvez haja formas de governo
melhores e menos absolutas.
O argumento hobbesiano para o governo é essencialmente teoria dos jogos.
Baseia-se em duas afirmações principais: primeiro, quando o poder é distribuído
de forma aproximadamente igual entre os indivíduos, é prudente para os indivíduos
se atacarem com frequência; segundo, que quando o poder é distribuído de maneira
extremamente desigual, concentrado quase inteiramente nas mãos de uma única
pessoa ou organização, é prudente, tanto para o poderoso agente quanto para todos
os outros, cooperar pacificamente.
Embora poucos hoje adotem o egoísmo radical de Hobbes ou seu totalitarismo,
muitos aceitam seu argumento básico em favor do governo. É comum afirmar que,
quanto mais pessimista é a natureza humana, mais absoluta é a forma de governo
que se deve endossar – de modo que Hobbes, com a visão mais cínica da natureza
humana, endossa naturalmente o governo totalitário. Em contraste, muitas vezes
se pensa que os anarquistas têm as visões radicalmente otimistas sobre a natureza
humana.5
Tudo isso, como argumentarei, é precisamente ao contrário, como é a análise
de Hobbes, tanto do estado de natureza quanto do governo.
3
Hobbes 1996, capítulo 13, 89.
4
Hobbes 1996, capítulo 20, 144–5.
5
Heywood 1992, 198; Adams 2001, 133–5; Wolff 1996, 33–4.
9. A Lógica da Predação 187

9.2 Predação no estado de natureza


9.2.1 Considerações da teoria dos jogos
Imagine que você e seu vizinho Abel vivem no estado de natureza. Você está
tentando decidir se seria uma boa ideia atacar Abel. Abel tem algumas maçãs
saborosas. A perspectiva de conseguir alguma comida sem precisar trabalhar para
isso seria uma vantagem em potencial de atacá-lo. Por outro lado, há a desvanta-
gem de que o ataque pode levar você a ser gravemente ferido ou morto. Existem
três razões principais para isso:

a Abel quase certamente tentará se defender. Sendo, como Hobbes diz, com habi-
lidades mentais e físicas aproximadamente iguais às suas, Abel teria uma chance
substancial de ferir ou matar seriamente você no combate que se seguir.
Talvez você espere pegar Abel de surpresa e, assim, matá-lo antes que ele tenha
uma chance de matá-lo. É improvável, no entanto, que você possa conceber
um plano desse tipo que não apresente riscos significativos para si mesmo. Os
planos costumam dar errado, e quem tem o hábito de planejar a morte de outras
pessoas provavelmente desaparecerá em breve e terminará morto.
Você pode esperar que Abel, ansioso para evitar ferimentos, fuja do seu ataque
em vez de revidar. Mas é provável que Abel simplesmente não deixe seu roubo
passar em branco. Se ele permitir que seu roubo passe sem retaliação, ele convida
você e qualquer outro predador que souber do evento a atacá-lo e roubá-lo no
futuro. Se Abel fugir da cena, portanto, provavelmente será apenas para tramar
sua vingança em um momento mais oportuno.6

b Um ou mais membros da família ou amigos de Abel podem decidir vingar sua


morte. Uma razão para isso seria que estavam zangados com o seu assassinato
por um psicopata (contrariando Hobbes, as pessoas se preocupam com sua fa-
mília e amigos). Outro motivo é que eles podem enviar uma mensagem a outros
predadores em potencial: nossa família não pode ser atacada impunemente. Os
vingadores de Abel podem atacar você no momento e local de sua escolha, e
pode haver mais de um deles. Portanto, novamente, é provável que você seja
gravemente ferido ou morto.
6
Friedman (1994) oferece um argumento da teoria dos jogos mais elaborado para comporta-
mentos que respeitam os direitos de egoístas racionais em um estado de natureza. Resumida-
mente, Friedman argumenta que os agentes no estado de natureza enfrentam um problema de
coordenação: ninguém quer guerra, mas para evitar a guerra, devem concordar com um con-
junto de regras para a coexistência pacífica. O respeito mútuo pelos direitos oferece um ponto
de Schelling que resolve esse problema de coordenação.
9. A Lógica da Predação 188

c Lembre-se de que, na visão de Hobbes, uma das três principais fontes de violência
no estado de natureza é o ataque preventivo (devido à “desconfiança”). As
pessoas interessadas em ataques preventivos têm mais chances de atingir aqueles
que representam a maior ameaça. E aqueles que já se envolveram em ataques
não provocados contra seus vizinhos provavelmente serão vistos como as maiores
ameaças. Então, ao atacar Abel, você ficará marcado para ataque de vizinhos
desconfiados.

Por esses motivos, os riscos de atacar os vizinhos normalmente superam os


benefícios em potencial. Somente se você estivesse em risco de morrer de fome
e não tivesse opções seguras para procurar comida, seria prudente tentar roubar
Abel. Você naturalmente tomaria precauções para evitar estar nessa situação.
E se, em vez de atacar Abel por conta própria, você se unir a alguns predadores
afins para roubar Abel e dividir sua propriedade entre vocês? Nesse caso, é muito
menos provável que você seja morto durante o cometimento do crime. No entanto,
este plano está repleto de perigos. Se você deixar Abel vivo, ele poderá se vingar
mais tarde, quando você estiver sozinho. Se necessário, ele pode trazer sua própria
gangue para ajudar. Se você matar Abel, sua família ou amigos podem decidir
vingá-lo. Em ambos os casos, outros vizinhos desconfiados podem decidir que
você é uma ameaça que precisa ser eliminada, e nada os impede de se unir, assim
como você e seus colegas ladrões. Finalmente, existe a desvantagem de que, para
executar esse plano, você deve se associar a uma gangue de ladrões e (possivel-
mente) assassinos. Pessoas desse tipo não são conhecidas por sua confiabilidade,
portanto há uma boa chance de que um ou mais deles, em algum momento, tentem
enganá-lo e/ou matá-lo.
Até agora, tenho apelado ao seu interesse racional. Mas, como observado no ca-
pítulo anterior, os seres humanos são apenas aproximadamente racionais e apenas
aproximadamente egoístas. Isso altera nossas conclusões?
Não, não altera. Primeiro, observe que os tipos de casos em que normalmente
observamos falhas de racionalidade não afetam o raciocínio acima. O raciocínio
para evitar o comportamento predatório no estado de natureza não é muito com-
plexo, desconhecido ou abstrato para uma pessoa comum seguir. Nem é impedido
por nenhuma das heurísticas e vieses que os psicólogos descobriram; não importa,
por exemplo, se uma pessoa regularmente é vítima da falácia da conjunção, ignora
as taxas base e tenta recuperar os custos irrecuperáveis.7 Nenhuma dessas falhas
cognitivas impede que alguém compreenda o argumento direto contra a predação
7
A falácia da conjunção envolve julgar “A e B” mais provável que “A”; ver Tversky e Kah-
neman 2002. A falácia da taxa base envolve ignorar informações sobre a frequência de uma
característica em uma população; ver Tversky e Kahneman, 1982. O erro sobre os custos irrecu-
peráveis envolve a escolha de uma opção inferior porque a pessoa já pagou por ela; veja Arkes e
Blumer 1985. Todos esses são exemplos bem estabelecidos de irracionalidade humana.
9. A Lógica da Predação 189

no estado de natureza: se você atacar seus vizinhos, eles podem atacá-lo por sua
vez.
Nem nenhuma das exceções à regra do egoísmo humano se opõe à nossa con-
clusão. Contrariando Hobbes, a maioria dos seres humanos não é sociopata. A
maioria se preocupa com os outros, principalmente com a família e os amigos. A
maioria tem fortes objeções morais e fortes sentimentos negativos sobre violência
e roubo. Esses fatos só poderiam fortalecer a conclusão desta seção. Quando a
prudência e a moralidade apontam na mesma direção, quase todo mundo escolhe
esse caminho. Em um capítulo posterior (capítulo 10), discutirei instituições pro-
jetadas para lidar com os poucos indivíduos imprudentes que cometem agressão,
apesar da tolice de fazê-lo.
O princípio geral da teoria dos jogos é o seguinte: igualdade de poder gera
respeito. Nenhuma pessoa racional deseja entrar em conflito violento com outras
pessoas que tenham força igual a si mesma. As chances de perder o conflito são
grandes demais. É provável que até o vencedor nominal termine pior do que antes
do conflito, porque o dano causado pela luta é quase sempre maior que o valor
dos recursos que estão em disputa. Por essas razões, indivíduos racionais lutam
apenas em batalhas defensivas.

9.2.2 Condições sociais que afetam a prevalência de vio-


lência
As considerações gerais da teoria dos jogos apresentadas na subseção anterior aju-
dam a explicar por que a maioria dos adultos normais nunca participa de combate
físico. No entanto, a violência interpessoal era muito mais comum nos séculos
anteriores do que é hoje.8 Por quê? Nossos ancestrais eram menos racionais do
que nós? Enfrentaram circunstâncias diferentes, de modo que os argumentos pre-
cedentes da teoria dos jogos de alguma forma não se aplicaram a eles? Pelo menos
três fatores sociais amplos podem ajudar a explicar o declínio da violência. Uma
é questão de valores sociais. Membros de sociedades ocidentais modernas abrigam
crenças e atitudes muito mais liberais, particularmente no que se refere à violência,
do que aquelas que dominaram a maioria das culturas durante a maior parte da
história humana.9 Historicamente, o combate físico era frequentemente visto como
honroso, enquanto hoje geralmente vemos como horrível. Olhos civilizados olham
horrorizados para práticas como combate de gladiadores, decapitações públicas e
câmaras de tortura medievais. E é preciso examinar apenas os textos religiosos
tradicionais para ficar chocado com a variedade de crimes pelos quais as gerações
anteriores de humanos consideravam a morte ou o desmembramento como punições
8
Ver Pinker 2011, especialmente o Capítulo 3.
9
Mueller 2004; Pinker 2011.
9. A Lógica da Predação 190

apropriadas.10
Um segundo fator importante é a economia. O argumento da teoria dos jogos
para a coexistência pacífica pressupõe que os bens necessários para a sobrevivência
estejam disponíveis por meios pacíficos. Nas sociedades primitivas, porém, as
condições de escassez com risco de morte eram muito mais comuns do que são
hoje; assim, as pessoas tinham menos a perder ao se envolver em roubos e violência.
À medida que os seres humanos se tornam mais prósperos, a noção de luta por
recursos se torna cada vez mais irracional.
O terceiro fator é a tecnologia das armas. O argumento da subseção anterior
pressupõe que os indivíduos representam ameaças físicas aproximadamente iguais
entre si, de modo que conflitos violentos entre dois indivíduos representam riscos
graves para ambos. Porém, nos séculos anteriores, a capacidade de se defender
dependia de força e habilidade com uma espada ou arma semelhante, nenhuma
das quais era distribuída igualmente entre a população. Hoje, a autodefesa eficaz
está disponível através de armas de fogo modernas, exigindo força e habilidade
mínimas e apenas meios econômicos modestos. Foi em vista dessa mudança que,
no século XIX, o popular revólver Colt passou a ser chamado de “o equalizador”.
As principais razões para esperar que o estado de natureza seja um estado
de paz não se aplicam com igual força em todas as condições sociais. Em uma
sociedade com recursos muito escassos, tecnologia limitada das armas e atitudes
complacentes em relação à violência, deve-se esperar que conflitos violentos sejam
muito mais comuns do que em uma sociedade caracterizada por prosperidade,
tecnologia avançada e uma cultura liberal.
Um hobbesiano poderia argumentar que, se alguém começa com uma sociedade
primitiva em um estado de natureza, conflitos violentos constantes impedirão que
a sociedade evolua para uma sociedade avançada e próspera, a menos que a soci-
edade estabeleça primeiro um governo. Seja como for, uma vez que se tenha uma
sociedade liberal avançada, próspera, a necessidade contínua de governo está longe
de ser clara, independentemente do papel que o governo possa ter desempenhado
para promover esse estado da sociedade. Os argumentos da teoria dos jogos não
estabelecem essa necessidade. Para defender uma necessidade de governo, seria
necessário postular um alto grau de irracionalidade e imprudência.
10
A Bíblia prescreve a execução por adultério (Levítico 20:10), homossexualidade (Levítico
20:13), sexo antes do casamento (Deuteronômio 22: 20–1), trabalho no sábado (Êxodo 35: 2)
e quando se amaldiçoa os pais (Levítico) 20: 9). O Alcorão prescreve desmembramento para
ladrões (Sura 5.38) e morte para aqueles que se opõem ao Islã (Sura 5.33, 9.5, 9.29-31).
9. A Lógica da Predação 191

9.2.3 Violência entre Estados


É natural se perguntar se a análise acima pode ser aplicada a Estados-nação e a
indivíduos. Deveríamos esperar que os Estados se entendessem pacificamente, pelo
menos quando tiverem poder aproximadamente igual?
A resposta é não. Os Estados não são indivíduos e seu comportamento não
pode ser corretamente explicado da mesma maneira que o dos indivíduos – por
exemplo, citando suas crenças e desejos. Os Estados não têm crenças ou desejos
próprios. O comportamento de um Estado deve ser explicado em termos das
escolhas dos indivíduos que têm poder de decisão dentro do Estado.
A decisão de um Estado de ir à guerra difere de maneiras cruciais da decisão
de um indivíduo que decide se deve entrar em combate físico com outro indivíduo.
Mais notavelmente, o indivíduo arcaria com o risco pessoal de ferimento ou morte,
se a outra parte se provar difícil de ser subjugada. Mas os líderes que decidem
levar seu país à guerra quase nunca assumem pessoalmente os riscos de ferimentos
ou morte que resultam dela. Ao decidir invadir o Iraque em 2003, por exemplo, o
presidente Bush não precisou considerar o risco de ser morto no conflito. Assim, o
principal argumento prudencial que nos leva a esperar que os indivíduos escolham
a coexistência pacífica com outros indivíduos não se aplica aos Estados.
Obviamente, nenhum líder deseja entrar em um conflito onde sua nação per-
derá. Mas quando os custos da derrota são mais parecidos com a perda de prestígio
do que com ferimentos pessoais ou morte, pode-se esperar que os líderes demons-
trem uma aceitação de risco muito maior do que um indivíduo que decide iniciar
pessoalmente um combate mortal com outro indivíduo. Pela mesma razão, não
está claro a priori que a igualdade aproximada de poder entre dois Estados deterá
seus líderes de iniciar hostilidades da mesma maneira que esperamos que dissu-
adisse indivíduos particulares. De fato, acadêmicos em relações internacionais
descobriram que pares de nações de poder comparável têm maior probabilidade de
entrar em guerra do que pares com uma grande diferença de poder.11
Voltaremos à questão das causas da guerra no capítulo 12 . Por enquanto, o
ponto importante é que não se deve presumir que análises de cooperação e conflito
em nível individual possam ser transferidas para o nível de governo.

9.3 Predação em um Estado totalitário


Vimos que, no estado de natureza, havia três medos que impediam você de atacar
e roubar Abel: primeiro, que Abel resistisse à sua agressão com força; segundo, que
a família ou os amigos de Abel podiam vingá-lo; terceiro, que vizinhos temerosos
11
Bremer 1992, 326, 334–8.
12
Hobbes 1996, 121-7, 144-5, 148.
9. A Lógica da Predação 192

podiam vê-lo como uma ameaça que precisa ser neutralizada. Mas agora imagine
que você acabou de receber o poder do governo, que, na visão de Hobbes, é o mais
absoluto de todos os poderes humanos.12 Agora todas as três razões para respeitar
os direitos de Abel foram removidas. Se você decidir roubar a comida de Abel, ele
não terá meios eficazes de resistência. Se você matar Abel, sua família e amigos não
terão meios eficazes de vingança. E por mais que os vizinhos temerosos reconheçam
você como uma ameaça, dificilmente terão meios eficazes de tentar neutralizá-lo.
Não há mais nada para impedi-lo de tudo o que desejar fazer aos seus infelizes
vizinhos. Como egoísta racional, portanto, você certamente considerará roubar a
maioria dos recursos de Abel, forçando-o a continuar trabalhando para produzir
mais para você roubar.
Que tal se esforçar, por meio da boa governança, garantindo que sua sociedade
seja a mais próspera possível? Isso lhe dará mais para roubar. Como Hobbes
proclama, quanto mais forte e mais próspero o povo for, mais forte e mais próspero
será o governante.13
Embora esse seja um dos motivos para trabalhar e garantir uma sociedade
produtiva, há outros motivos pelos quais você pode não querer se preocupar. Para
começar, se a sociedade sobre a qual você governa é razoavelmente grande, deve ser
possível extorquir espólios suficientes da população para manter-se em conforto,
mesmo que as pessoas sejam carentes. Kim Jong-il, ditador comunista da Coréia
do Norte, acumulou mais de US$ 4 bilhões, enquanto milhões de seus súditos
passavam fome e o PIB per capita de seu país representava pouco menos de um
quinto da média mundial.14 É verdade que Kim poderia ter acumulado ainda
mais riqueza se seu país tivesse um sistema econômico mais produtivo. Mas a
riqueza tem uma utilidade marginal decrescente: depois de reunir os primeiros
quatro bilhões de dólares, a maioria das necessidades é satisfeita e o próximo
bilhão faz relativamente pouca diferença para o seu bem-estar geral. Não vale a
pena enfrentar grandes problemas ou desistir de qualquer outra coisa com a qual
se preocupe para coletar mais dinheiro. E a boa governança costuma ser uma
coisa difícil de alcançar. Geralmente, requer sabedoria, raciocínio cuidadoso e
longas horas de pesquisa. Para identificar as melhores políticas, é preciso trabalhar
incansavelmente no objetivo remanescente, reunindo mais evidências para testar
as suposições e assim por diante. Tudo isso é intelectualmente e emocionalmente
exigente. É muito mais fácil proclamar preceitos simples e mal pensados e segui-los
dogmaticamente, independentemente da evidência.
Que tal realmente ferir ou matar Abel? Pode-se pensar que, uma vez que você
possua poder absoluto, não terá mais motivos para atacar Abel, já que ele não
13
Hobbes 1996, capítulo 19, 131.
14
Sobre os ativos de Kim Jong-il, consulte Arlow 2010. Sobre a fome na Coréia do Norte,
consulte Macartney 2010. Para estatísticas do PIB, consulte a Agência Central de Inteligência
dos EUA em 2011.
9. A Lógica da Predação 193

é mais uma ameaça para você. De fato, seus súditos são a fonte de seu poder;
portanto, você deve manter o maior número possível deles, desde que permaneçam
cooperativos. Se Abel for prudente, se submeterá a todas as suas demandas e,
apesar da perda da maioria de seus alimentos e outros bens, permanecerá vivo.
Novamente, isso é otimista demais. Primeiro, dada a existência de um governo
poderoso, as pessoas que provavelmente acabarão no controle desse governo são
aquelas que (a) têm o maior desejo de poder, (b) possuam as habilidades neces-
sárias para conquistá-lo (por exemplo, a capacidade de intimidar ou manipular
outras pessoas); e (c) não sejam incomodados por critérios morais para fazer o que
é necessário para tomar o poder. Esses indivíduos não estão no jogo pelo dinheiro.
Estão nele para o prazer de exercer poder. A maneira como se sente o exercício
do poder é, com muita frequência, abusar dos que estão sob o poder enquanto
observa seu desamparo para resistir. Isso está entre as lições do experimento na
prisão de Stanford, conforme discutido anteriormente (Seção 6.7). Principalmente
se o governante perceber algum ato desafiante por parte dos súditos – por exem-
plo, um sujeito critica o governo de alguma maneira – é provável que o governante
sinta vontade de demonstrar seu poder esmagando o sujeito. O motivo seria pre-
cisamente a paixão pela “glória” que Hobbes considera entre as causas do conflito
no estado de natureza. Segundo, muitas pessoas mantêm hostilidade em relação
a certos grupos em sua sociedade – por exemplo, os membros de uma certa etnia,
religião ou classe social; ou as pessoas que aderem, ou deixam de aderir, a certas
doutrinas políticas. Se o governante tiver esse tipo de preconceito, pode sentir
que vale a pena perder alguns milhões de súditos para satisfazer seu ódio por esse
grupo.
O princípio da teoria dos jogos é o seguinte: a concentração do poder gera
abuso. Quando um grupo de pessoas detém grande poder sobre outro grupo, os
fortes normalmente usam seu poder para abusar ou explorar os fracos para seu
próprio engrandecimento.
Tudo isso, tragicamente, é muito mais do que teorizar na poltrona. É também a
lição horrível da história. Todo mundo sabe que quase seis milhões de judeus foram
executados na Alemanha nazista em meados do século passado porque o governante
odiava os judeus. Poucas pessoas percebem que isso era apenas a ponta do iceberg
do assassinato em massa do século XX. O número total de pessoas mortas por seus
próprios governos no século XX foi estimado em 123 milhões.15 Essas vítimas, em
geral, foram mortas por pertencerem a grupos errados, seja a etnia errada, a classe
errada ou a ideologia errada. Os regimes assassinos não pensaram que seus crimes
15
Rummel 1998, 355. Se adicionarmos pessoas assassinadas por governos estrangeiros, inclu-
sive por meio de alvos intencionais de civis durante a guerra (mas não incluindo a matança de
combatentes), o total aumentará para 163 milhões. Quase todos esses assassinatos foram come-
tidos por regimes autoritários e totalitários. White (2010) estima o número total de mortes do
século XX por guerra e opressão em 203 milhões.
9. A Lógica da Predação 194

contra a humanidade lhes custariam uma grande quantidade de receita tributária,


pois, em princípio, não estavam buscando dinheiro. Foram movidos em parte pelo
ódio, em parte pelo amor ao poder e em parte pelo desejo de refazer o mundo
de acordo com suas ideologias. O número de pessoas mortas por seus próprios
governos no século XX foi quatro vezes e meia maior do que o número de mortos
por assassinos não-governamentais16 – o que levanta a questão de saber se um
governo forte deve ser considerado mais uma fonte de segurança ou uma fonte de
perigo.
Hobbes estava certo ao destacar o egoísmo humano, embora exagere o ponto.
Estava certo também em reconhecer a igualdade essencial do estado de natureza e
a desigualdade criada pelo governo. Mas as implicações políticas desses fatos são
o oposto do que Hobbes alegou. A igualdade de poder gera respeito e cooperação
pacífica; uma vasta desigualdade gera desprezo e abuso. Quanto mais cínica é a
natureza humana, mais importante é evitar grandes diferenças de poder.

9.4 Predação sob democracia


Felizmente, o totalitarismo não é a única forma de governo. Existem várias manei-
ras de tentar limitar o poder do governo e impedir seu abuso: escolher líderes por
eleição popular, dividir o governo em poderes separados, escrever uma Constitui-
ção que defina e delimite os poderes do governo. Todos esses mecanismos oferecem
alguma vantagem. No entanto, não funcionam exatamente como anunciado e não
resolvem completamente nossos problemas.

9.4.1 A tirania da maioria


De acordo com um argumento simples para a democracia, as pessoas geralmente
conhecem seus interesses e votarão com base nesses interesses quando tiverem a
chance. Portanto, os líderes em um Estado democrático serão aqueles que melhor
servirão aos interesses da maioria das pessoas.
16
Cerca de 520.000 pessoas foram assassinadas (em particular) em todo o mundo no ano 2000
(Holguin 2002), resultando em uma taxa de homicídios de 8,54 por 100.000 habitantes por ano.
Se tomarmos isso como representativo do século como um todo, haveria cerca de 26,5 milhões de
assassinatos privados no século XX. (Para estimativas populacionais ao longo do século, consulte
US Census Bureau 2011a; 2011c. Eu usei a interpolação para estimar populações para anos não
mostrados nas tabelas.) Comparando isso com a estatística de Rummel, temos uma proporção
de 4,6 assassinatos governamentais para cada assassinato particular. Incluindo assassinatos de
estrangeiros civis em tempos de guerra, a proporção é de 6,2. No entanto, essas proporções
podem ser imprecisas, uma vez que usam a taxa de homicídios privados de 2000 para estimar
assassinatos privados no século XX.
9. A Lógica da Predação 195

Talvez o problema mais simples desse sistema seja que a maioria pode optar
por abusar de uma minoria. Se a maioria das pessoas tem uma leve preferência por
alguma política, por mais nociva ou injusta que seja para a minoria, a maioria pode
implementar sua preferência por meio do Estado. Isso explica, por exemplo, por
que o casamento gay não é permitido na maioria dos Estados Unidos. Explica as
leis de Jim Crow antes do movimento pelos direitos civis e explica como os nazistas
se tornaram o maior partido do Reichstag em 1932, apesar do ódio evidente a vários
grupos de pessoas.

9.4.2 O destino dos não-eleitores


Um problema semelhante é que o governo pode desconsiderar os interesses daqueles
que não têm voto. Normalmente, isso inclui criminosos condenados, crianças e,
principalmente, estrangeiros. Essa última categoria de pessoas pode ser afetada
pela política de imigração do governo, pela política de comércio internacional,
pela política militar e por outras formas de política externa. Os interesses dos
estrangeiros são frequentemente ignorados ou severamente desconsiderados nessas
áreas. Ao definir a política de imigração, os governos nacionais desconsideram os
interesses de potenciais imigrantes. Ao definir a política comercial, desconsideram
os interesses de produtores e consumidores em outros países. Ao decidir se vão à
guerra, desconsideram os interesses dos cidadãos estrangeiros que serão mortos.
Na guerra mais recente dos EUA com o Iraque, por exemplo, as estimativas do
número de cidadãos iraquianos mortos variam de cerca de cem mil a mais de um
milhão.17 A guerra teve um enorme impacto no povo iraquiano, muito mais do que
no povo americano. E, no entanto, o povo iraquiano não teve voz na decisão de
invadir, que foi feita inteiramente por representantes do povo americano. Qualquer
defensor da democracia certamente deve reconhecer isso como um problema sério.
Esse problema resulta das extremas desigualdades de poder possibilitadas pela
instituição do governo. Nesse caso, o governo dos EUA tinha poder suficientemente
maior do que o povo iraquiano ou o governo iraquiano fazendo com que o governo
dos EUA não precisasse considerar as opiniões dos iraquianos.

9.4.3 Ignorância e irracionalidade dos eleitores


Pode-se supor que um Estado democrático servirá pelo menos aos interesses da
maioria dos eleitores. No entanto, mesmo isso não precisa ser verdade.
Para entender o motivo, primeiro considere a quantidade de poder prático que
você exerce em virtude da sua capacidade de votar. Por simplicidade, suponha
17
Ver Gamel 2009 para a baixa estimativa. Para obter a estimativa mais alta, consulte Opinion
Research Business 2008.
9. A Lógica da Predação 196

que você esteja votando em uma eleição com exatamente dois candidatos. Você,
como indivíduo, está em posição de determinar o resultado da eleição se, e somente
se, o resultado resultar em uma única votação – ou seja, sem o seu voto, o total
de votos dos dois candidatos não diferirá em mais de um. Se os totais estiverem
empatados, você poderá votar para desempatar; se um candidato estiver vencendo
por um único voto, você pode fazer com que a eleição fique empatada. Em todos
os outros casos, seu voto não faz diferença para o resultado. Se o total de votos dos
candidatos diferir em dois ou mais, o candidato vencedor teria vencido indepen-
dentemente de como você votou. Mas, dadas as circunstâncias em que os eleitores
estão e esperam estar no futuro próximo, a probabilidade de uma eleição nacio-
nal depender de um único voto é insignificante. Assim, para todos os propósitos
práticos, cada eleitor sabe que em todas as eleições seu voto não fará diferença
alguma.
É verdade que os eleitores como um todo têm muito poder, pois determinam
quem detém as rédeas do governo. Mas essa não é a nossa preocupação agora.
Nossa preocupação no momento é como é racional que você, como indivíduo, se
comporte. Do ponto de vista da escolha racional, é irrelevante o que os outros
podem fazer; o que é relevante é o que você pode fazer. Você não pode fazer com
que todos os outros, ou mesmo a maioria, votem de uma maneira específica; você
pode controlar apenas seu próprio voto. E isso lhe dá aproximadamente zero poder
sobre os resultados das eleições.
Agora assuma que você é um egoísta racional. Você deveria votar no candidato
que melhor atende aos seus próprios interesses? À primeira vista, como seu voto
não terá efeito sobre quais políticas você obtém, simplesmente não importa se você
vota em um candidato que sirva seus próprios interesses, um candidato que serve os
interesses da sociedade ou um candidato que é tão terrível que serve aos interesses
de ninguém. Mas isso não está exatamente certo. Há uma chance minúscula,
diferente de zero – talvez uma em cada dez milhões18 – de que uma eleição dependa
18
A estimativa de um em cada dez milhões é alcançada da seguinte forma. Nos últimos anos, as
eleições presidenciais dos EUA renderam menos de dez milhões de votos (Monte 2010). Suponha,
como uma aproximação, que seja certo que o total de votos dos dois principais candidatos diferirá
em dez milhões ou menos. E suponha que atribuamos uma probabilidade igual a cada total de
votos possível dentro desse intervalo. Então, cada possibilidade, incluindo a possibilidade de
os totais diferirem em zero (ou seja, a eleição está empatada), tem uma probabilidade de um
em cada dez milhões. Esse método pode superestimar as probabilidades, uma vez que não é
100% certo que o o total de votos cairá no intervalo especificado. No entanto, se supusermos
que, digamos, 80% de certeza de que os totais diferem em menos de 10 milhões, obteremos um
limite menor para a probabilidade de uma eleição empatada de 0,8/10.000.000, ou uma em 12,5
milhões. Por outro lado, isso pode ser uma subestimação das probabilidades, porque os totais de
votos mais próximos de iguais são mais prováveis do que aqueles que são menos iguais; em uma
abordagem mais precisa, atribuiríamos uma distribuição de probabilidade em forma de sino, com
o pico mais próximo do meio. Todas as coisas consideradas, a estimativa de um em cada dez
9. A Lógica da Predação 197

de um único voto, enquanto não lhe custe nada votar no candidato que melhor
sirva seus interesses, você desejará fazer. Essa motivação tênue é suficiente para
fazer a democracia funcionar?
O problema é que lhe custa algo votar no candidato que melhor atende aos
seus interesses. Para saber qual candidato melhor atenda aos seus interesses, você
deve primeiro reunir informações detalhadas sobre todos os candidatos disponí-
veis. Se atuaram em cargos públicos, você precisará procurar os registros de suas
votações. Precisará procurar uma grande amostra dos projetos de lei ou outras
propostas nas quais votaram. Você precisará tentar entender essas coisas. Para
poder avaliar em cada caso se as propostas atenderiam aos seus interesses, você
precisará pesquisar uma série de questões econômicas e sociais complexas. Pode
ser necessário fazer alguns cursos de economia para descobrir os efeitos de algu-
mas dessas políticas. Como os seres humanos tendem a ser afetados por fortes
vieses em relação a questões políticas, você precisará fazer um esforço especial
para identificar e superar seus vieses. Tudo isso exigiria enorme tempo e esforço.
A probabilidade de que esse esforço seja recompensado com algum efeito real nos
resultados das eleições é minúscula. Portanto, não faz sentido fazer o necessário
para votar consistentemente em seus próprios interesses.19
Consequentemente, muitas pesquisas encontraram níveis surpreendentemente
baixos de conhecimento político público. Caplan resume alguns destes resultados:

Cerca de metade dos americanos não sabe que cada Estado tem dois
senadores e três quartos não sabem a duração de seus mandatos. Cerca
de 70% podem dizer qual partido controla a Câmara e 60% qual partido
controla o Senado. Mais da metade não é capaz de nomear seu congres-
sista e 40% não é capaz de nomear nenhum de seus senadores. Porcen-
tagens ligeiramente mais baixas conhecem as afiliações partidárias de
seus representantes. Além disso, esses baixos níveis de conhecimento
mantêm-se estáveis desde o início das pesquisas, e as comparações in-
ternacionais revelam que o conhecimento político geral dos americanos
não é mais do que moderadamente abaixo da média.20

Que tipo de coisas os americanos sabem sobre política? Delli Carpini e Keeter
dão uma amostra do conhecimento político público:

O fato mais conhecido sobre as opiniões de George [H. W.] Bush en-
quanto ele era presidente era que odiava brócolis. Durante a campanha
milhões é da ordem correta de magnitude para as condições atuais nos Estados Unidos. Isso é
suficiente para o presente argumento.
19
Para argumentos semelhantes, veja Schumpeter 1950, 261–2; Downs 1957, 244-5; Caplan
2007b.
20
Caplan 2007b, 8, ênfase no original.
9. A Lógica da Predação 198

presidencial de 1992, 89% do público sabia que o vice-presidente Quayle


estava brigando com o personagem de televisão Murphy Brown, mas
apenas 19% conseguiram caracterizar Bill Clinton em relação ao meio-
ambiente. Também durante essa campanha, 86% dos o público sabia
que o cachorro dos Bush chamava-se Millie, mas apenas 15% sabiam
que os dois candidatos à presidência apoiavam a pena de morte. O
juiz Wapner (apresentador da série de televisão “The People’s Court“)
foi identificado por mais pessoas do que os chefes de justiça Burger ou
Rehnquist.21

Agora imagine que você é um funcionário eleito em um Estado democrático.


Você conhece os fatos anteriores. Você sabe que a maioria de seus eleitores não
sabe seu nome e que apenas em raras ocasiões mais do que uma parte insignificante
do eleitorado saberá como você votou em alguma questão perante a legislatura.
As únicas atividades suas que podem vir a ser notícia são escândalos sexuais, caso
você seja imprudente o suficiente para ser pego. Portanto, você pode fazer prati-
camente qualquer coisa que desejar (com exceção de causar escândalos sexuais),
com pouco medo de causar descrédito diante ao público. Você pode votar com
base em caprichos. Você não precisa ler os projetos de lei em que vota e não
precisa pesquisar para determinar as melhores políticas. Você pode conceder fa-
vores a seus amigos e colaboradores de campanha. Se alguém lhe questionar sobre
algo sobre sua lei de interesse especial, você pode fornecer argumentos econômicos
ilusórios explicando por que a lei é realmente de interesse público. Não importa
que seus argumentos sejam falaciosos, porque o público não sabe quase nada sobre
economia – não é do interesse deles aprender economia, assim como não é o seu.
Infelizmente, isso é mais do que teorização ociosa; explica a experiência consis-
tente de qualquer observador moderno do governo. Aqui não é possível examinar
as inúmeras ações de qualquer governo contemporâneo que comprove isso. Aqui,
simplesmente seleciono um exemplo para ilustrar o que quero dizer.
Em meados de 2012, a lei agrícola mais recente dos Estados Unidos foi a
Food, Conservation, and Energy Act (Lei de Alimentos, Conservação e Energia)
de 2008.22 Entre outras coisas, esta lei continua a política estabelecida pelo go-
verno federal de subsídios agrícolas, que totalizam mais de US$ 12 bilhões por ano,
grande parte vai para grandes fazendas comerciais.23 Isso beneficia um pequeno
número de pessoas, na maior parte já ricas, às custas do resto do país. Os US$
12 bilhões distribuídos por 311 milhões de americanos, daria um pouco menos do
que US$ 40 por pessoa. Obviamente, sem pesquisar essa lei em particular, você
não conheceria esses números; mas suponhamos que você saiba que, em geral, se
21
Delli Carpini and Keeter 1996, 101.
22
Public Law 110–246.
23
U.S. Department of Agriculture 2011.
9. A Lógica da Predação 199

você fizesse pesquisas suficientes, poderia encontrar várias leis desse tipo que lhe
custam quantias de dinheiro dessa mesma forma. Em cada caso, você pode tentar
influenciar a legislação, com uma chance de sucesso de talvez uma em um milhão.
Não é do seu interesse pesquisar as disposições da mais recente lei agrícola e
como o seu representante votou nela para garantir uma chance em um milhão de
economizar algo da ordem de US$ 40. Os números exatos são imateriais. Mesmo
que a lei lhe custe muito mais dinheiro – digamos, US$ 400 por ano – e suas chances
de alterar a lei sejam muito melhores – digamos, uma em mil – ainda não seria do
seu interesse fazer algo a respeito.
Por outro lado, as empresas que recebem a generosidade do governo têm mo-
tivos para prestar muita atenção. Cada uma delas ganha milhões ou bilhões de
dólares e tem milhões para gastar na tentativa de influenciar o processo legisla-
tivo. Consequentemente, o agronegócio gastou US$ 80 milhões em lobby no ano
que antecedeu a aprovação da lei agrícola.24
O projeto de lei agrícola também foi criticado por sua contribuição para a crise
mundial de alimentos. Os preços mundiais de alimentos aumentaram dramatica-
mente nos últimos anos, levando a fome e distúrbios alimentares. De acordo com
um estudo do Banco Mundial, o aumento do uso de biocombustíveis nos países
desenvolvidos foi responsável por um aumento de 75% nos preços dos alimentos
entre 2002 e 2008.25 A lei agrícola dos EUA em 2008 foi criticada por exacerbar
o problema por meio do aumento do apoio a biocombustíveis.26 Esse problema no
entanto, refere-se principalmente a pessoas de países em desenvolvimento, que têm
ainda menos chance de influenciar a política dos EUA do que o americano médio.
Ressalto aqui que não há nada de especial na política agrícola. É assim que a
democracia moderna funciona. Grupos de interesse especial concentrados e bem
organizados usam o aparato do Estado para extrair lucro às custas da maioria
de sua própria sociedade, frequentemente adicionando vítimas infelizes em outros
países. A política agrícola é apenas uma das muitas ilustrações.27

9.4.4 Ativismo: uma solução utópica


Alguns dizem que a solução para os problemas da democracia é o público ser
mais ativo, observar o que seus representantes estão fazendo e pressioná-los a
fazer o que é melhor para a sociedade.28 Deveríamos escrever cartas para nossos
representantes, organizar manifestações e assim por diante.
24
Etter e Hitt 2008.
25
Chakrabortty 2008.
26
Lawson-Remer 2008.
27
Para uma descrição econômica do fenômeno, ver Downs 1957, 254-6. Para mais exemplos,
veja Friedman 1989, 39–45; Green 1973; e especialmente Carney 2006.
28
Nader 1973.
9. A Lógica da Predação 200

Esta é uma solução utópica. É utópico porque requer mudanças na natureza


humana sem propor um mecanismo realista para provocar essas mudanças. As
falhas democráticas que descrevi não são um acidente misterioso, nem são o pro-
duto de alguns maus atores. Eles resultam da operação do auto-interesse humano
normal dentro da estrutura de incentivos de um estado democrático. Não é do
interesse de cada cidadão acompanhar seus representantes eleitos. O comporta-
mento dos cidadãos e representantes eleitos não mudará, a menos que a estrutura
de incentivos mude ou as pessoas se tornem muito menos auto-interessadas do que
são.
Não quero dizer que o ativismo social não possa resolver nenhum problema.
Grandes avanços políticos foram provocados por movimentos sociais populares,
como no caso do movimento abolicionista, do movimento do sufrágio feminino,
do movimento indiano pela independência da Grã-Bretanha e assim por diante.
Ocasionalmente, surgem movimentos sociais populares para combater injustiças
grandes e simples, principalmente quando envolvem desigualdades flagrantes entre
o tratamento de diferentes grupos.
O que acho utópico é a sugestão de que o ativismo popular possa ser a solução
para o constante mal-estar cotidiano do governo, que as pessoas sejam chama-
das a deixar de lado seus próprios interesses e preocupações e convocar tempo e
energia para monitorar ativamente as milhares de atividades do governo como um
modo de vida permanente.29 Alguns seres humanos podem gostar de monitorar
as atividades diárias de seu governo, mas para a grande maioria, é uma tarefa
entorpecente. Essa tarefa consumiria todos os momentos livres da vida de alguém,
se levássemos a sério a suposta obrigação de supervisionar o Estado. O projeto da
lei agrícola de 2008 que venho discutindo compreende 663 páginas de juridiquês.
Apenas saber o que a lei contém é um feito em si, mas rastrear os efeitos de suas
centenas de seções exigiria uma experiência em áreas como economia, agricultura,
uso de energia e relações internacionais que provavelmente exigiriam anos de es-
tudo para serem adquiridas. E esse projeto foi apenas um dos mais de dez mil
projetos apresentados no Congresso naquele ano.30 O ativista mais consciente só
conseguiu monitorar uma fração minúscula das atividades de seu governo, mesmo
que fazer isso fosse sua única ocupação.
É concebível que os ativistas possam dividir o trabalho. Cada um de nós pode
escolher uma das mil áreas diferentes para monitorar as atividades do governo.
29
Uma alternativa seria monitorar uma amostra pequena e aleatória de atividades do governo,
mas punir cada infração descoberta com muita seriedade. Para funcionar, essa estratégia pro-
vavelmente exigiria penalidades muito severas, como o tempo de prisão, mesmo para pequenos
lapsos. Embora isso possa ocorrer em uma sociedade habitada por economistas, nenhuma outra
sociedade consideraria, por exemplo, enviar um legislador para a prisão por não ter lido uma lei
antes de votá-la.
30
Harper 2008.
9. A Lógica da Predação 201

Mas isso não é realista. Nas raras ocasiões em que os movimentos sociais inspiram
grandes segmentos do público a se envolverem na política, é porque alguma injus-
tiça grande e flagrante desperta nossas paixões. Mas ninguém se apaixonará por
monitorar um milésimo das atividades diárias do governo. Propor que o público
em geral sacrifique voluntariamente grande parte de suas vidas para a tarefa de
estudar assuntos tediosos como as disposições da última lei agrícola, tudo para
que cada um possa ter uma chance microscópica de melhorar uma fração micros-
cópica das políticas governamentais é pelo menos tão utópico quanto propor que
todos concordemos a partir de agora a trabalhar abnegadamente para o bem da
sociedade.

9.4.5 A mídia: o cão de guarda adormecido


Em vez de termos que monitorar as atividades cotidianas de funcionários do go-
verno, poderíamos delegar essa responsabilidade à mídia, o que poderia designar
pessoas em tempo integral para observar o governo. Os jornalistas alertariam o
público quando o governo estivesse fazendo algo particularmente ruim, momento
em que os eleitores tomariam as medidas apropriadas. Se o mecanismo funcionasse
bem, então os políticos rebeldes seriam punidos com segurança, apenas avisos oca-
sionais seriam necessários.
Sem mais explicações sobre o que poderia manter esse feliz estado de coisas, no
entanto, essa solução para os problemas da democracia é também excessivamente
utópica. Não importa se dissermos que esse é o “trabalho” da mídia ou o que a
mídia deveria fazer. O que importa é a estrutura de incentivos. É do interesse das
empresas de mídia desempenhar o papel de alerta vigilante?
Existem três razões pelas quais não é. Primeiro, monitorar dezenas de milha-
res de atividades governamentais é uma tarefa difícil, cara e demorada. Ao relatar
atividades do governo, é mais fácil aceitar as declarações dos funcionários do go-
verno como fonte de informações, em vez de tentar confirmá-las ou refutá-las. É
mais fácil publicar pareceres e relatórios sobre itens simples e divertidos, como fo-
focas de celebridades, do que preparar relatórios detalhados sobre questões sociais
complexas.
Segundo, o governo é a organização mais poderosa da sociedade; possui um
aparato de coerção enorme e irresistível, e relatos críticos de funcionários do go-
verno provavelmente irritarão o governo. No mínimo, funcionários do governo se
recusarão a dar entrevistas ou informações a jornalistas que estabelecem uma re-
putação de criticar o governo. Em casos mais graves, o governo emprega força
diretamente contra jornalistas ou suas fontes.
Um caso famoso é o de Daniel Ellsberg, que em 1971 divulgou um estudo
secreto do Pentágono, revelando que o governo sabia que a Guerra do Vietnã era
um atoleiro inimaginável. O governo apresentou doze acusações criminais contra
9. A Lógica da Predação 202

Ellsberg (demitido) e o Presidente Nixon ordenou escutas ilegais e uma invasão ao


consultório do psiquiatra de Ellsberg, em um esforço para encontrar informações
para desacreditá-lo.31
Um caso mais recente é o do Wikileaks, que publicou milhares de documentos
do governo em 2010, a maioria relacionada às guerras no Afeganistão e no Iraque,
incluindo vídeos mostrando tropas americanas matando civis. A reação uniforme
dos políticos americanos, tanto à esquerda quanto à direita, foi de indignação
ao Wikileaks e a suas fontes. O vice-presidente Biden chamou o fundador do
Wikileaks, Julian Assange, de terrorista e prometeu que o Departamento de Justiça
procuraria maneiras de processá-lo. O ex-governador do Arkansas e em algum
momento candidato à presidência Mike Huckabee chamou a fonte do Wikileaks
de traidor e pediu sua execução. Até o momento em que este artigo foi escrito
(meados de 2012), a fonte do Wikileaks para os documentos no Iraque, Chelsea
Manning, analista de inteligência militar dos EUA, está sendo processada pelos
militares sob várias acusações, incluindo “ajudar o inimigo”, uma ofensa capital
(embora o governo não busque a pena de morte).32
Esses casos mostram que nem todos são facilmente intimidados. Mas também
mostram que os jornalistas e suas fontes têm motivos racionais para o medo, caso
publiquem informações embaraçosas ao governo.
A terceira e mais importante razão pela qual não é do interesse da mídia agir
como um alerta vigilante são as demandas do consumidor. Jornais, revistas, es-
tações de televisão e estações de rádio dependem do interesse de seu público; não
importa o quão diligentes e corajosos sejam seus repórteres, se o público não qui-
ser se sintonizar. Pelas razões discutidas acima, os cidadãos comuns não estão
dispostos a gastar tempo, dinheiro ou esforço significativo aprendendo sobre o go-
verno. Suponha, por exemplo, que uma estação de televisão esteja publicando uma
história sobre a próxima lei agrícola. A história discute algumas das característi-
cas deste projeto, seu impacto no orçamento, seu efeito mais amplo na economia
e assim por diante. Economistas acadêmicos e especialistas em agricultura são
entrevistados. Enquanto isso, outra estação publica uma fofoca sobre a popular
artista Lindsay Lohan, que acabou de se meter em problemas novamente. Qual
estação recebe mais espectadores?
A política agrícola é chata. As desventuras de Lindsay Lohan são emocionantes.
A política agrícola é complicada e difícil de entender. Lohan é simples e fácil de
entender. A história sobre a política agrícola possui gráficos e estatísticas. A
história sobre Lohan tem fotos de Lohan.
31
Kernis 2011. Ellsberg é o sujeito do documentário popular The Most Dangerous Man in
America (O Homem Mais Perigoso da América).
32
Para o famoso vídeo Collateral Murder (Assassinato Colateral) divulgado pelo Wikileaks,
consulte Wikileaks 2010. Para os comentários de Biden, consulte Mandel 2010. Em Huckabee,
veja Wing 2010. Sobre as acusações contra Manning, consulte CBS News 2011.
9. A Lógica da Predação 203

Algumas pessoas podem preferir ouvir sobre a política agrícola. Mas a maio-
ria dos meios de comunicação atende à maioria das pessoas. Algumas pequenas
empresas atendem a intelectuais, mas isso não é suficiente para impedir a maioria
do mau uso do poder pelo governo; o impacto da minoria minúscula de pessoas
que gostam de ler estatísticas sobre políticas agrícolas será inundado pelo grupo
muito maior de pessoas que não sabem da existência de políticas agrícolas e não
se importariam mesmo que soubessem.

9.4.6 O milagre da agregação


De acordo com uma teoria recente na literatura sobre democracia, não importa se
a maioria dos eleitores é ignorante, uma vez que uma pequena minoria de eleitores
seja informada, então é suficiente para mudar uma eleição.33 Para saber como
seria isso, assuma que temos uma eleição entre dois candidatos, o Superior e o In-
ferior, com Superior sendo o candidato objetivamente melhor. Existem milhões de
eleitores, 90% dos quais são completamente ignorantes; quando entram na cabine
de votação, votam completamente aleatoriamente. Os 10% restantes estão bem
informados e invariavelmente votam no melhor candidato. Quem vence a eleição?
Superior vence, com quase 100% de probabilidade. Como os eleitores desinfor-
mados votam aleatoriamente, eles se dividem igualmente, metade para Inferior e
metade para Superior. Os eleitores informados, no entanto, todos votam no Supe-
rior. Superior, portanto, bate Inferior, 55 a 45 por cento. Se esse modelo estivesse
correto, poderíamos ter níveis muito baixos de conhecimento médio dos eleitores e
ainda assim alcançar resultados tão bons quanto os de um eleitorado totalmente
informado.
O elo fraco do argumento é a suposição de que eleitores ignorantes votam alea-
toriamente, como se por um lance de moeda. As pessoas que não têm informações
relevantes têm mais probabilidade de votar com base em vieses do que lançar uma
moeda. Podem decidir votar no candidato com melhor aparência ou mais agradá-
vel, o candidato que exibiu mais anúncios de televisão ou o candidato cujo nome
parece mais familiar. Podem votar automaticamente no Democrata ou automa-
ticamente no candidato.34 Não importa exatamente qual é a base; a questão é
33
Ver Converse (1990, 377-83), que cunhou a frase “milagre da agregação”. Veja Caplan 2007b,
capítulo 1, para críticas à teoria.
34
Utilizando a análise estatística, Bartels (1996) descobriu que pessoas mal informadas tendem
a votar em titulares de cargo e democratas com mais frequência do que pessoas mais informadas,
mas de outra forma semelhantes em idade, etnia, classe social e assim por diante. Ele conclui
que a ignorância pública produz uma vantagem de cinco pontos percentuais para os titulares nas
eleições presidenciais dos EUA e uma vantagem de dois pontos percentuais para os democratas.
Essas vantagens são provavelmente maiores para as eleições congressionais, onde o conhecimento
público é menor do que no caso das eleições presidenciais. Isso é consistente com o fato de os
titulares de cargo serem reeleitos cerca de 95% das vezes na Câmara dos Deputados e 88% das
9. A Lógica da Predação 204

simplesmente que provavelmente existe algo sobre um candidato que faz com que
as pessoas votem nele, mesmo que esse recurso seja principalmente irrelevante para
as qualificações objetivas do candidato para ocupar o cargo. Qualquer que seja
esse fator ou conjunto de fatores, pode muito bem inundar o apoio ou a oposição
dos eleitores informados.
Por exemplo, suponha que, como antes, 10% do eleitorado sejam bem informa-
dos e sempre escolham o melhor candidato. Mas desta vez, suponha que apenas
70% dos eleitores votem lançando uma moeda. Os 20% restantes sempre votam
no candidato mais carismático. Quem ganha?
O candidato mais carismático vence, com quase 100% de probabilidade. Se
Superior for mais carismático, ele vence com 65% dos votos (metade dos eleitores
que lançam moeda, mais todos os eleitores motivados pelo carisma, além de todos
os eleitores informados). Mas, se Inferior for mais carismático, ele vence com
55% dos votos (metade das apostas aleatórias e todos os eleitores que votam pelo
carisma). Existindo mais eleitores que votam pelo carisma do que eleitores bem
informados, o carisma determina o resultado, independentemente do que pensam os
eleitores bem informados. O ponto geral é que quanto menos racional e informado o
eleitorado for, mais provável é que fatores irrelevantes superem a pequena influência
da qualidade das posições políticas dos candidatos.35

9.4.7 As recompensas pelo fracasso


Em 11 de setembro de 2001, os Estados Unidos sofreram o ataque terrorista mais
devastador da sua história. Quatro aviões foram sequestrados e destruídos, o
Pentágono foi atacado e o World Trade Center foi destruído, resultando em quase
três mil mortes. Isso foi muitas vezes pior do que qualquer outro ataque terrorista
já sofrido pelos EUA ou por qualquer outro país.
Quais foram as consequências para o governo dos Estados Unidos? Primeiro,
o índice de aprovação do presidente teve um salto imediato e enorme, de cerca de
55% para quase 90%. Nos sete anos seguintes, caiu de forma constante, terminando
finalmente abaixo de 30% em 2008.36 Embora isso continue sendo motivo de
especulação, é plausível que George W. Bush não teria sido reeleito em 2004 se
não fosse o ataque terrorista.
vezes no Senado (Center for Responsive Politics 2011).
35
Essencialmente, o mesmo problema vicia as tentativas de usar a lei de grandes números
para defender a democracia. O argumento é que, mesmo que cada eleitor tenha apenas um
pouco mais chances de votar no melhor candidato do que no pior candidato, quando houver
milhões de eleitores, é extremamente provável que a maioria vote no melhor candidato (Wittman
1995, 16; Page e Shapiro 1993, 41). Isso pressupõe que os erros dos eleitores são aleatórios e
não correlacionados, uma suposição que é falsificada pela existência de influências tendenciosas
comuns, como carisma do candidato, financiamento de campanhas e assim por diante.
36
Ruggles 2008; Wall Street Journal 2011.
9. A Lógica da Predação 205

Em face disso, isso é paradoxal. Se houvesse alguém cujo trabalho fosse proteger
os americanos desse tipo de ataque, seria o poder executivo do governo dos EUA.
Como chefe desse poder, esperava-se que George W. Bush fosse criticado. Como
analogia, imagine que você contratou uma empresa para fornecer segurança ao seu
prédio. Você acabou de saber que ontem à noite, vândalos invadiram o prédio e
destruíram milhares de dólares em equipamentos. Alguém agora pergunta o que
você acha do trabalho que sua empresa de segurança está fazendo. O que você
diz? “Melhor empresa de segurança de todos os tempos!”?
Por que os americanos aprovaram tão entusiasticamente Bush após os ataques?
Em parte, foi porque acharam que era patriótico apoiar o presidente, e em parte
porque as pessoas tendem a confundir o país com o governo e o governo com
os funcionários do governo. Meu objetivo ao dar esse exemplo não é culpar o
governo pelo 11 de setembro. Meu objetivo é examinar os incentivos aplicados
ao governo. O que acontece quando o governo falha em atingir seus objetivos?
Frequentemente, o resultado é que o governo é mais recompensado do que punido.
No presente caso, Bush obteve os mais altos índices de aprovação de sua carreira,
além da oportunidade de expandir o poder executivo de maneiras que de outra
forma teria encontrado uma resistência muito maior.37
Coisas semelhantes são verdadeiras para outras partes do governo. Suponha
que uma cidade sofra uma onda de crimes. Quais serão os efeitos no departamento
de polícia? É muito mais provável que o departamento de polícia receba um
financiamento maior para combater o problema do que seu financiamento seja
cortado. Ou suponha que uma sociedade sofra um severo aumento da pobreza.
Se o governo não tiver agências projetadas para combater a pobreza, uma ou
mais provavelmente serão estabelecidas. Se já existirem algumas, provavelmente
receberão maior financiamento, em vez de menos. Poucas figuras públicas teriam
coragem de argumentar que os programas de pobreza deveriam ser cortados porque
há muita pobreza. A lição geral é que, se alguma parte do governo falha em
sua função, provavelmente receberá maior financiamento e poder. Obviamente, o
objetivo disso não é recompensar o fracasso; o pensamento seria que mais dinheiro
e poder permitirão à agência resolver o problema. Mas o efeito é que o governo
cresce quando os problemas sociais crescem e, portanto, não é do interesse do
governo resolver os problemas da sociedade.
Minha afirmação não é que os agentes do governo realmente tentem falhar. Não
creio, por exemplo, que o governo Bush realmente desejasse que o 11 de setembro
acontecesse. Minha afirmação é dupla: primeiro, que as agências governamentais
simplesmente não se esforçam ao máximo para ter sucesso nas tarefas designadas,
porque não sofrem as consequências negativas do fracasso. Segundo, que progra-
mas mal-sucedidos do governo tendem a persistir e crescer, com o resultado de
37
Penso em particular no Patriot Act (lei pública 107–56).
9. A Lógica da Predação 206

que, durante um período de décadas, o governo passará a ser dominado por tais
programas.
É claro que outras histórias podem ser contadas sobre funcionários do governo
perdendo seus empregos devido a algum fracasso importante. Minha reivindicação
não é que o fracasso seja sempre recompensado; minha afirmação é que o fracasso
tende a ser recompensado em uma ampla gama de casos, levando a sérios pro-
blemas nos Estados democráticos. Se um funcionário do governo é culpado de
algum delito simples e demonstrável, com consequências negativas grandes e bem
divulgadas, esse funcionário provavelmente perderá o emprego. Se uma agência
governamental que se considera dispensável – por exemplo, a NASA ou o NEH
(National Endowment for the Humanities) – falha de maneira simples e bem di-
vulgada, então o financiamento da agência provavelmente será cortado e a agência
poderá até ser eliminada. Mas suponha que alguma parte essencial do governo
– digamos, o sistema judicial ou a aplicação da lei – falhe cronicamente de ma-
neiras complicadas, difíceis de entender e que não sejam facilmente rastreáveis a
ações específicas por um pequeno número de indivíduos, então essa parte do go-
verno provavelmente será recompensada ao invés de punida. As pessoas sentirão
que eliminar a agência ou poder disfuncional não é uma opção viável e, como não
há indivíduos específicos para culpar, ninguém perderá seus empregos por causa
disso. Os membros dessa parte do governo culparão o financiamento inadequado,
e os eleitores mal informados provavelmente acharão essa explicação mais compre-
ensível do que a complicada verdade. Assim, com o tempo, os tipos de falhas que
devemos esperar acumular são falhas sistêmicas e discretas nos serviços essenciais
do governo.

9.4.8 Limites constitucionais


Talvez as falhas do governo possam ser mitigadas por meio de uma Constituição
escrita que restrinja estritamente as funções do Estado. Quanto menos coisas o
governo for responsável, mais fácil será para o povo monitorar suas atividades e,
portanto, mais responsivo será o governo.38
Não podemos simplesmente assumir, no entanto, que, se existir uma Consti-
tuição, ela será seguida. Sem um mecanismo realista para induzir a conformidade,
é excessivamente utópico assumir que um governo restringirá suas atividades sim-
plesmente porque um documento o instrui a fazê-lo. Como analogia, imagine que
proponho resolver o problema da predação escrevendo em um pedaço de papel:
“Ninguém deve atacar ou roubar outras pessoas”. Sem algum tipo de mecanismo
de imposição, isso seria insuficiente. O que fará com que os seres humanos auto-
interessados obedeçam às diretrizes escritas nesse papel? A questão central sobre
38
Ver Somin (1998), embora ele não discuta por qual mecanismo o governo deve ser limitado.
9. A Lógica da Predação 207

constituições é a mesma. Quem aplicará a Constituição? Nenhuma outra organi-


zação tem o poder de coagir o governo. Portanto, teremos que confiar no governo
para impor restrições constitucionais contra si mesmo.39 Por que isso é mais rea-
lista do que a proposta paralela de que criminosos comuns sejam deixados para se
prenderem e punirem? Talvez um poder do governo possa ser encarregado de fazer
cumprir a Constituição contra os outros poderes. Os tribunais, por exemplo, po-
dem invalidar uma lei quando considerarem inconstitucional. Mas que mecanismo
induz os tribunais a cumprir fielmente esse dever? O que os impede de anular
leis constitucionais, mas que simplesmente discordam ou colocam sua imprima-
tur em leis que são de fato inconstitucionais? Como sempre, quando contratamos
um grupo de pessoas para vigiar os outros, surge a pergunta: “Quem vigiará os
vigilantes?”40
Os limites constitucionais foram de fato tentados. Quão bem eles funcionam?
Concentro-me novamente na experiência dos Estados Unidos. Alguns aspectos
da Constituição dos EUA foram seguidos de perto, principalmente aqueles que
descrevem estruturas institucionais. O governo é dividido em poderes executivo,
legislativo e judicial, exatamente como prescrito pela Constituição; a legislatura
é dividida em um Senado e uma Câmara dos Deputados; e assim por diante.
No entanto, no que diz respeito à extensão do poder do governo, as restrições
constitucionais são rotineiramente e sem desculpas violadas. Vale a pena dedicar
algumas páginas a este estudo de caso.
As Nona e Décima Emendas à Constituição deixam claro que os poderes do
governo devem se limitar ao que está listado no próprio documento, enquanto os
direitos do povo são abertos e não se limitam ao que foi listado:

Emenda 9: A enumeração na Constituição, de certos direitos, não deve


ser interpretada como negando ou menosprezando outras pessoas man-
tida pelo povo.
Emenda 10: Os poderes não delegados aos Estados Unidos pela Consti-
tuição, nem proibidos por ela aos Estados, são reservados aos Estados,
respectivamente, ou ao povo.

A Nona Emenda pode ser difícil de aplicar – refere-se a direitos que não são enu-
merados, mas como saber quais são esses direitos? A Décima Emenda, no entanto,
39
Compare Hamilton et al., N. 51, 163: “[Você] deve primeiro habilitar o governo a controlar
os governados; e, em seguida, obrigue-o a se controlar.”
40
Essa frase deriva do poeta romano Juvenal (1967, sátira VI, 140), escrito no primeiro ou no
segundo século. No contexto original, o significado era que não adianta contratar guardas para
garantir a fidelidade de sua esposa, pois os guardas não são confiáveis. Platão (1974, 73, 403e)
usa uma frase semelhante, em que Glauco afirma que “seria absurdo que o guarda precisasse de
um guarda”.
9. A Lógica da Predação 208

é clara. O governo federal não está autorizado a fazer outra coisa senão as coisas
que a Constituição lhe confere o poder de fazer. Tudo o resto é inconstitucional.
Isso é incontroverso; o governo mesmo nunca negou.
O que, então, a Constituição concede ao governo o poder de fazer? De maior
relevância é o artigo I, seção 8, que delineia os poderes do legislador:

Seção 8
O Congresso terá poderes para estabelecer e cobrar impostos, taxas,
impostos especiais de consumo e outros deveres, para pagar as dívidas
e garantir a defesa e o bem-estar geral dos Estados Unidos; mas todos
os Deveres, Impostos e Impostos Especiais devem ser uniformes nos
Estados Unidos;
Emprestar dinheiro com crédito dos Estados Unidos;
Regular o comércio com nações estrangeiras, entre os vários Estados e
com as tribos indígenas;
Estabelecer uma regra uniforme de naturalização e leis uniformes sobre
o assunto de falências nos Estados Unidos;
Para cunhar Dinheiro, regular o Valor do mesmo, e Moeda estrangeira,
e fixar o Padrão de Pesos e Medidas;
Prever a punição pela falsificação dos valores mobiliários e da moeda
atual dos Estados Unidos;
Estabelecer os Correios;
Promover o progresso da ciência e das artes úteis, garantindo por tempo
limitado aos autores e inventores o direito exclusivo de seus respectivos
escritos e descobertas;
Constituir Tribunais inferiores a Supremo Corte;
Definir e punir piratarias e crimes cometidos no alto-mar e ofensas à
lei das nações;
Declarar guerra, conceder cartas oficiais e represália e estabelecer regras
relativas a capturas em terra e água;
Organizar e apoiar exércitos, mas nenhuma apropriação de dinheiro
para esse uso será por um período maior que dois anos;
Fornecer e manter uma Marinha;
Estabelecer Regras para o Governo e Regulamentação das Forças Ter-
restres e Navais;
9. A Lógica da Predação 209

Providenciar a convocação da Milícia para executar as Leis da União,


reprimir insurreições e repelir invasões;
Providenciar a organização, armar e disciplinar as Milícias e governar
a Parte delas que possa ser empregada no Serviço dos Estados Unidos,
reservando aos Estados, respectivamente, a Nomeação dos Oficiais e a
Autoridade de treinar as Milícias de acordo com a disciplina prescrita
pelo Congresso;
Exercer legislação exclusiva em todos os casos, em qualquer distrito
(que não ultrapasse dez milhas quadradas) que seja possível, por Cessão
de Estados particulares e a aceitação do Congresso, torna-se sede do
governo dos Estados Unidos e exerce a mesma autoridade sobre todos
os lugares adquiridos pelo consentimento da legislatura do Estado em
que o mesmo será, para a montagem dos Fortes, Depósitos, Arsenais,
Estaleiros e outros edifícios necessários; E
Estabelecer todas as Leis que sejam necessárias e apropriadas para a
execução dos Poderes precedentes, e todos os outros Poderes investidos
por esta Constituição no Governo dos Estados Unidos ou em qualquer
Departamento ou Oficial.

Essa é a seção inteira e toda a lista dos poderes legislativos. A autoridade


constitucional de todas as leis federais deve ser encontrada nessa lista.
A lista inclui autoridade para estabelecer correios, um exército e um sistema
de tribunais federais, todos os quais o país possui. Mas qual cláusula dessa lista
autoriza o estabelecimento de uma CIA, uma Agência de Proteção Ambiental ou
um Departamento de Saúde e Serviços Humanos? Qual cláusula autoriza o go-
verno federal a controlar os salários que os empregadores devem pagar, que drogas
as pessoas podem ingerir ou com que rapidez as pessoas podem dirigir? Por que
o governo federal pode subsidiar o agronegócio, conceder empréstimos a estudan-
tes universitários e enviar pessoas ao espaço? Nada disso parece remotamente
incluído, explícita ou implicitamente, na lista de poderes do Congresso. Nem inú-
meras outras atividades governamentais atuais. Qualquer lei, programa ou agência
federal dos EUA escolhida aleatoriamente hoje é quase certamente claramente in-
constitucional.
Por que a Suprema Corte não derrubou todas essas leis? Aqui está a história
oficial: apesar das aparências em contrário, todas elas são realmente autorizadas
pela Constituição. Uma ilustração típica da lógica é fornecida pelo caso Wickard
v. Filburn, decidido em 1942.41 O governo Roosevelt patrocinou com sucesso uma
lei projetada para aumentar o preço do trigo, restringindo a quantidade de trigo
41
317 U.S. 111 (1942).
9. A Lógica da Predação 210

que os agricultores poderiam cultivar. Roscoe Filburn era um fazendeiro que cul-
tivava trigo inteiramente para alimentar animais em sua própria fazenda. Filburn
excedeu o valor permitido pela lei e foi multado pelo Departamento de Agricul-
tura. Filburn então processou num tribunal federal para impedir a aplicação da lei
contra ele, argumentando que não havia autoridade constitucional para o governo
federal controlar o quanto de trigo ele cultivava em sua fazenda. A Suprema Corte
confirmou por unanimidade a lei, alegando que ela foi autorizada pela terceira
cláusula do artigo I, seção 8, que concede ao Congresso o poder de “regular o co-
mércio com nações estrangeiras, entre os vários Estados e com as tribos indígenas”.
O tribunal argumentou que, como Filburn cultivava trigo para alimentar seu gado,
ele compraria menos trigo de outros agricultores. Se muitos agricultores fizessem
isso, isso reduziria significativamente o preço do trigo. Isso, por sua vez, afetaria o
comércio de trigo, alguns dos quais atravessam as fronteiras do Estado. Portanto,
ao multar Filburn por cultivar muito trigo, o governo federal estava simplesmente
exercendo seu poder constitucional de regular o comércio interestadual.
É difícil acreditar que qualquer observador imparcial competente no idioma
leia a frase “regular o comércio [. . . ] entre os vários Estados” dessa maneira.
Aqui está o relato não oficial, mas mais verdadeiro, dos fatos: No início de sua
presidência, no início dos anos 30, os programas do New Deal de Franklin Delano
Roosevelt foram repetidamente e decisivamente derrotados por exceder os poderes
concedidos pela Constituição.42 O Presidente Roosevelt procurou contornar essas
decisões, propondo o Projeto de Reforma dos Procedimentos Judiciais (Judicial
Procedures Reform Bill) de 1937, que lhe daria o poder de nomear seis novos
juízes para a Suprema Corte, elevando o total para quinze. Se o plano tivesse sido
aprovado, Roosevelt teria selecionado apenas candidatos que apoiariam o New
Deal. No entanto, logo após Roosevelt ter proposto esse plano, o tribunal mudou
de direção e começou a aprovar os programas de Roosevelt (embora apenas por
uma margem estreita);43 FDR abandonou seu “plano judicial”. Nos anos seguintes,
vários juízes se aposentaram e foram substituídos por nomeados por Roosevelt de
qualquer maneira, com o resultado de que, na época do caso Wickard, oito dos
nove juízes da Suprema Corte deviam seu mandato a Franklin Roosevelt.44 Esses
juízes estavam determinados a aprovar a agenda de Roosevelt, não importando
o que a Constituição dissesse. Eles, portanto, inventaram racionalizações para
42
Ver Carter v. Carter Coal Co., 298 U.S. 238 (1936); A.L.A. Schechter Poultry Corp. v.
Estados Unidos, 295 U. S. 495 (1935); Louisville Joint Stock Land Bank v. Radford, 295 U.S.
555 (1935).
43
Ver NLRB v. Jones & Laughlin Steel Corp., 301 U. S. 1 (1937); West Coast Hotel Co. v.
Parrish, 300 U.S. 379 (1937).
44
Harlan Stone, Hugo Black, Stanley Reed, Felix Frankfurter, William Douglas, Frank Murphy,
James Byrnes e Robert Jackson. A exceção foi Owen Roberts, nomeado por Hoover. Ver Suprema
Corte dos EUA em 2011.
9. A Lógica da Predação 211

reverter as opiniões anteriores dos tribunais.


Por esse motivo, o problema não se encontra em nenhuma ambiguidade ou
clareza na Constituição, como poderia ter sido remediado por uma escolha mais
criteriosa de palavras no momento em que o documento foi escrito. Lá não havia
mal-entendido; os juízes simplesmente escolheram não cumprir a Constituição.
O conteúdo específico da opinião escrita pelo juiz Jackson no caso Wickard é
essencialmente irrelevante. Funciona como um véu muito fino para disfarçar a
expunção intencional dos limites constitucionais ao poder do Congresso – mas se
esse véu não estivesse disponível, teria havido outro. Se a cláusula de comércio não
existisse, o tribunal teria planejado outra racionalização. Talvez tivessem alegado
que a lei do New Deal se enquadrava na quinta cláusula, permitindo ao Congresso
“cunhar dinheiro, regular seu valor e moedas estrangeiras e fixar o padrão de pesos
e medidas”. A restrição à produção de trigo tem efeito sobre os preços do trigo;
nesse sentido, afetava o valor do dinheiro (quanto mais baixos os preços, mais
valiosa é uma quantidade de dinheiro). Então, talvez o Congresso estivesse apenas
exercendo seu poder de regular o valor do dinheiro.
Muitos hoje podem argumentar que foi bom o Tribunal ter optado por anular
a Constituição, porque o documento escrito era excessivamente restritivo. Pense
em quantos programas federais maravilhosos não existiriam hoje se tivéssemos que
seguir uma leitura natural das palavras da Constituição! Mas, independentemente
do que se pensa desses programas, a experiência americana deve dar uma pausa
a qualquer democrata que confie no poder das constituições para limitar o poder
governamental. Mesmo que os programas do New Deal fossem uma boa política,
ainda deveriam, em teoria, exigir uma emenda constitucional antes de serem pro-
mulgados. O fato de não terem sido cumpridas e de tantas outras leis claramente
inconstitucionais serem rotineiramente aprovadas sem desculpas testemunha o pro-
blema fundamental que um regime constitucional enfrenta. A Constituição é uma
lei, e as leis exigem execução. Mas uma vez que estabelecemos uma autoridade
suprema, não há ninguém para fazer cumprir a lei contra essa autoridade.

9.4.9 Sobre freios, contrapesos e separação de poderes


Ensina-se aos americanos que eles vivem sob um sistema de “freios e contrapesos”,
pelo qual os poderes executivo, judicial e legislativo do governo impedem uns aos
outros de abusar de seu poder. Essa ideia deriva de Montesquieu, que influenciou os
autores da Constituição americana.45 Assim, o judiciário tem o poder de derrubar
leis inconstitucionais, servindo assim como um controle do poder do legislador. O
poder executivo tem o poder de nomear juízes, que o legislador deve aprovar; assim,
os poderes executivo e legislativo atuam para garantir a integridade do judiciário.
45
Montesquieu 1748, 11.4, 11.6; Hamilton et al. 1952, nos. 47–51; Jefferson 1782, 214–15.
9. A Lógica da Predação 212

A legislatura tem o poder de impeachment do presidente, e a legislatura pode,


assim, verificar o poder do poder executivo. E assim por diante. Nenhum poder
do governo é supremo, e cada um tem poderes importantes sobre os outros.
Nesta teoria está faltando um elemento crucial. Essa é uma explicação do mo-
tivo pelo qual se espera que cada poder do governo use seus poderes para impedir
que os outros poderes abusem, em vez de, por exemplo, ajudar os outros pode-
res a abusar ou impedir que os outros poderes executem suas funções legítimas.
Novamente, não importa o que nossa teoria rotule como a função apropriada dos
funcionários do governo. O que importa é a estrutura de incentivos. Cada um dos
três poderes do governo tem interesse em garantir que os outros poderes funcionem
corretamente sem ultrapassar os limites prescritos pela Constituição?
Talvez a teoria seja a de que os três poderes estejam em certa medida com-
petindo entre si, de modo que nenhum poder deseje ver os outros se tornarem
muito poderosos.46 Nem Montesquieu nem os fundadores americanos, no entanto,
explicam claramente por que isso deveria ser o caso. O legislador faz leis, o judi-
ciário interpreta as leis e determina quando elas foram violadas, e o executivo faz
cumprir as leis. Agora, suponha que o legislador aprove leis que se estendem além
das questões que a Constituição autoriza a regular. Quero dizer com isso, não
leis que infringem outros poderes do governo, mas leis que infringem as liberdades
do povo. De que maneira isso tornaria os poderes executivo ou judicial em pior
situação? Se existir algo, os dois últimos poderes devem se expandir. Quanto mais
leis houver para impor, maior será o poder executivo. Da mesma forma, quanto
mais restritivo for o regime jurídico, mais casos os tribunais terão que julgar e,
portanto, maior o judiciário. Se cada poder quiser ser maior e mais poderoso, há
algumas razões para pensar que deveriam atuar em conjunto. De qualquer forma,
não há razão óbvia para pensar que cada um deve tentar impedir que os outros
violem as liberdades do povo. Também não há razão para pensar que cada poder
do governo sobre os outros possa ser usado apenas para o bem e não para o mal.
Tome o poder do poder executivo para nomear juízes. O presidente poderia usar
esse poder para garantir a integridade do judiciário. Ou ele poderia usá-lo para
garantir uma falta de integridade – por exemplo, para garantir que apenas os juízes
que compartilham sua ideologia e estejam preparados para avançar nessa ideologia
sem levar em consideração a Constituição sejam nomeados. O pessimismo rea-
lista com o qual os fundadores americanos viam a natureza humana deveria tê-lo
levados a ver a última possibilidade muito mais provável do que a primeira.
Tudo isso é confirmado pela experiência. Pelo menos desde a época do New
Deal, os presidentes nomearam juízes rotineiramente de acordo com a ideologia, e
os ramos executivo e judicial do governo foram cúmplices na expansão do poder le-
gislativo. As várias agências e programas federais inconstitucionais estão agora tão
46
Isso parece ser sugerido no n. 51 dos Federalist Papers (Hamilton et al. 1952, 162–4).
9. A Lógica da Predação 213

arraigados que é extraordinariamente improvável que qualquer juiz neste momento


vote para começar a aplicar a Décima Emenda. Qualquer indivíduo suspeito de ter
atitudes favoráveis a essa mudança não teria chance de ser nomeado por qualquer
presidente nem de ser confirmado pelo Senado.

9.5 Conclusão
Nós, seres humanos, somos animais sociais auto-interessados. Vivemos juntos e,
no entanto, cada um de nós se preocupa muito mais consigo próprio do que com
a grande maioria dos outros. Como resultado, enfrentamos o problema social
fundamental da predação: como as coisas devem ser organizadas para que os seres
humanos não explorem e abusem continuamente um do outro?
A solução padrão em filosofia social começa propondo uma desigualdade radi-
cal: uma única instituição com poder sobre todos os outros indivíduos e organi-
zações. Para Hobbes, a solução termina aí. Para os teóricos democráticos, uma
série de restrições deve ser anexada à autoridade central no esforço de impedi-la
de explorar e abusar do resto da sociedade. Os mecanismos de restrição incluem
eleições populares, imprensa livre, limites constitucionais e separação de poderes.
Apesar de suas limitações, esses mecanismos se mostraram valiosos. Produzem
uma forma de governo marcadamente menos abusiva do que o governo totalitário
típico. As sociedades democráticas raramente sofrem desastres agudos e facil-
mente evitáveis, e quase nunca assassinam um grande número de pessoas. Alguns
dos erros governamentais mais flagrantes são relatados na imprensa popular, para
que os piores tipos de excessos sejam dissuadidos. Os juízes são solidários com
pelo menos algumas restrições constitucionais ao governo e, portanto, optaram
por aplicá-las. A liberdade de expressão, a liberdade de imprensa e a liberdade
religiosa são geralmente bem preservadas nas democracias constitucionais. As-
sim, se alguém se limita ao desenho de um sistema social baseado no Estado, os
mecanismos tradicionais de restrição não devem ser desprezados.
Meu objetivo, no entanto, foi argumentar que esses mecanismos não podem
satisfazer todas as esperanças que os teóricos democráticos depositam neles. A
urna é de utilidade limitada para garantir um governo responsivo, uma vez que
não é do interesse de eleitores individuais fazer mais do que esforços simbólicos
na votação racional e informada. A complexidade do governo moderno torna
impossível até mesmo o cidadão mais dedicado se manter informado sobre mais do
que uma fração muito pequena das atividades do Estado. Os meios de comunicação
são de utilidade limitada, uma vez que não é do seu interesse informar sobre a
grande maioria dos erros e perigos do governo. As constituições são de uso limitado,
uma vez que é preciso confiar no governo para fazer cumprir a Constituição contra
si mesma, e raramente é do interesse do governo fazer isso fielmente. Finalmente,
9. A Lógica da Predação 214

a separação de poderes é de utilidade limitada, uma vez que os diferentes poderes


do governo têm mais a ganhar com uma causa comum na extensão do poder do
governo do que restringindo vigilantemente o poder um do outro. Como resultado,
mesmo os governos democráticos cresceram em enormes proporções nos tempos
modernos e se transformaram em ferramentas para pequenos grupos de interesse
bem organizados para explorar o resto da sociedade.
Para avançar ainda mais no problema da predação social, devemos enfrentar
sua causa subjacente. O comportamento predatório não ocorre apenas porque
os seres humanos são egoístas. Isso ocorre porque os seres humanos são auto-
interessados e alguns são muito mais poderosos que outros. Pessoas poderosas
e auto-interessadas usam suas posições para explorar e abusar daqueles muito
mais fracos que eles próprios. As soluções padrão para o problema da predação
humana começam por sedimentar a própria condição com maior probabilidade de
causar comportamento predatório – a concentração de poder – e só então eles
tentam se afastar de suas consequências naturais. A alternativa é começar com
uma descentralização extrema do poder coercitivo. Como esse sistema funcionaria
será discutido em mais detalhes a seguir.
10

Segurança Individual em uma


Sociedade sem Estado

10.1 Um sistema de justiça não-estatal


10.1.1 Agências de proteção
Em qualquer sociedade humana realista, mesmo anarquista, pelo menos alguns in-
divíduos cometerão agressão contra outros. Os habitantes da sociedade anárquica
provavelmente desejariam desenvolver instituições sistemáticas para a provisão de
segurança, incluindo um conjunto de agências de proteção ou empresas de segu-
rança cuja função seria proteger os indivíduos da agressão contra suas pessoas e
propriedades e apreender os agressores após o fato.1 Essas agências, em resumo,
serviriam à função que a polícia desempenha nos sistemas governamentais.
Na ausência de governo, as agências de proteção surgiriam pelo mesmo mo-
tivo que a maioria das empresas surge em um mercado livre; ou seja, existe uma
necessidade que as pessoas estão dispostas a pagar para satisfazer. As agências co-
brariam dinheiro por seus serviços, assim como as empresas de segurança privada
atualmente cobram por seus serviços.
Quem pagaria as agências de proteção? Indivíduos podem contratar sua própria
empresa de segurança, ou associações de proprietários de bairros podem contratar
segurança para seus bairros, ou proprietários de condomínios de apartamentos
ou empresas podem contratar segurança para seus prédios, ou pode ocorrer uma
combinação deles.
Por que o anarquista não estipula os detalhes dos acordos de segurança não-
estatais? Porque o funcionamento do sistema é determinado pelos indivíduos que
o ocupam; portanto, as respostas às perguntas sobre como o sistema funciona-
1
Esta proposta deriva de Rothbard (1978, capítulo 12) e Friedman (1989, capítulo 29).

215
10. Segurança Individual em uma Sociedade sem Estado 216

ria deve assumir a forma de previsões especulativas em vez de estipulações (o


mesmo se aplica a qualquer instituição não experimentada, embora esse fato seja
pouco reconhecido). Os detalhes dos arranjos de segurança seriam determinados
pelas forças do mercado e pelas escolhas individuais. Se, por exemplo, os clientes
preferissem fortemente contratar empresas ou negócios que forneçam sua própria
segurança, a maioria das empresas contrataria sua própria segurança.
Quais serviços as agências de proteção prestariam? Isso também dependeria da
demanda do cliente. Em alguns casos, elas podem fornecer patrulhas armadas. Em
outros casos, podem fornecer câmeras de segurança e sistemas de alarme. Depois
que um crime foi cometido, podem fornecer detetives e “policiais” armados para
prender os criminosos. Uma vez apreendidos, os criminosos seriam compelidos a
pagar uma indenização por seus crimes.
O que as agências de proteção fariam no caso de um criminoso acusado manter
sua inocência? Nesse caso, seria necessária alguma instituição que cumprisse a
função de um sistema judicial.

10.1.2 Empresas de arbitragem


Numa sociedade anárquica, assim como nas sociedades governamentais, as pessoas
às vezes têm disputas. Um tipo importante de disputa ocorre quando uma pessoa
é acusada de um crime que nega ter cometido. Outro tipo ocorre quando as
pessoas discordam sobre se um determinado tipo de conduta deve ser tolerado; por
exemplo, eu acho que meu vizinho está tocando sua música muito alto, enquanto
ele acha que o volume está bom. Um terceiro tipo diz respeito aos termos das
relações comerciais, incluindo disputas sobre a interpretação dos contratos. Em
cada um desses casos, as partes que discordam precisam de uma instituição que
funcione como um tribunal para resolver sua disputa.
Na ausência de um Estado, essa necessidade seria suprida por empresas de
arbitragem privadas. A arbitragem por um terceiro neutro é a melhor maneira de
resolver a maioria dos litígios, uma vez que geralmente oferece uma boa chance
de promover uma resolução razoavelmente justa, e os custos para alcançá-la são
quase sempre muito menores para ambas as partes do que os custos de tentar
uma resolução através da violência. Por esses motivos, quase todos os indivíduos
desejam que suas disputas sejam resolvidas por meio de arbitragem.
Quem contrataria os árbitros? Talvez as partes em uma disputa concordem
com um árbitro e dividam o custo entre elas. Ou talvez suas agências de proteção
selecionassem o árbitro. Suponha que Jon acuse Sally de roubar seu gato. Ele
informa a sua agência de proteção sobre o roubo e pede que eles recuperem o
gato. Mas Sally notifica a sua agência de proteção que Jon está tentando roubar
o gato dela e pede que eles defendam o gato. Se Jon e Sally contrataram a mesma
agência de proteção, essa agência pode contratar uma empresa de arbitragem para
10. Segurança Individual em uma Sociedade sem Estado 217

determinar a quem o gato pertence, para que a agência possa decidir de quem é
a reivindicação. Se Jon e Sally contrataram agências diferentes, as duas agências
selecionam em conjunto uma empresa de arbitragem, com o entendimento de que
ambas aceitarão o veredito do árbitro.
Essas são as instituições básicas de uma sociedade anarquista bem ordenada.
Em tal sociedade, as funções mais fundamentais comumente atribuídas ao Estado
não são eliminadas, mas privatizadas. Muitas perguntas surgem naturalmente
sobre esse sistema. No restante deste capítulo, abordo as questões mais importan-
tes sobre as agências de proteção privada. As questões relativas às empresas de
arbitragem serão abordadas no capítulo seguinte.

10.2 Isso é anarquia?


O sistema esboçado é comumente chamado de “anarcocapitalismo”, “anarquismo
de livre mercado” ou “anarquismo libertário”. Pode-se perguntar, no entanto, se o
sistema realmente se qualifica como uma forma de anarquia, em vez de, digamos,
um sistema de governos concorrentes.2
Perguntas semânticas sobre o uso de “governo” e “anarquia” não são de grande
importância. No entanto, o sistema difere em dois aspectos cruciais de todos
os sistemas governamentais atualmente existentes, e são essas diferenças que me
levam a chamar o sistema de uma forma de anarquia.
A primeira diferença é entre voluntariedade versus coerção. Os governos forçam
todos a aceitar seus serviços; como vimos (capítulos 2 e 3), o contrato social é um
mito. As agências de proteção, por outro lado, são escolhidas pelos clientes, que
fazem contratos reais e literais com eles.
A segunda diferença é entre concorrência versus monopólio. Os governos detêm
monopólios geográficos nos serviços de proteção e resolução de disputas,3 e mudar
o governo de uma pessoa tende a ser muito difícil e caro, de modo que os governos
sentem pouca pressão competitiva. No sistema anarquista, agências de proteção
e empresas de arbitragem estão em constante competição entre si. Se alguém
estivesse insatisfeito com a agência de proteção, poderia mudar para outra agência
a baixo custo sem se mudar para outro país.
Essas duas diferenças são a fonte fundamental de todas as vantagens reivin-
dicadas pelo anarcocapitalismo sobre o governo tradicional. A voluntariedade do
2
Rand (1964, 112–13) refere-se ao sistema como “governos concorrentes”, mas depois argu-
menta que é realmente uma forma de anarquismo; ela parece estar sob a má compreensão de que
os próprios defensores do anarcocapitalismo chamaram o sistema de “governos concorrentes”.
3
Compare a conhecida definição de governo de Weber: “O estado é uma comunidade hu-
mana que (com sucesso) reivindica o monopólio do uso legítimo da força física dentro de um
determinado território” (1946, 78; ênfase no original).
10. Segurança Individual em uma Sociedade sem Estado 218

esquema anarcocapitalista o torna mais do que um sistema coercitivo, e ambas as


características tornam o sistema anarcocapitalista menos abusivo e mais sensível
às necessidades das pessoas do que os sistemas coercitivos e monopolistas.

10.3 Conflito entre protetores


As agências de proteção concorrentes podem parecer ter motivos significativos para
o confronto físico direto entre si. Como estão em concorrência econômica direta,
uma agência pode querer atacar outra na esperança de colocar a outra agência fora
do negócio. Ou, no caso de uma disputa entre clientes de diferentes agências, as
agências de proteção podem entrar em guerra para defender os interesses de seus
respectivos clientes, em vez de permitir que a disputa seja resolvida por meio de
arbitragem. Por essas razões, alguns argumentam que uma sociedade anarquista
seria dividida em guerras entre agências.4

10.3.1 Os custos da violência


Como discutido anteriormente (Seção 9.2), conflitos violentos tendem a ser muito
perigosos para ambas as partes; indivíduos racionais, portanto, procuram evitar
provocar tais conflitos e preferem métodos pacíficos de resolução de disputas, como
arbitragem de terceiros, sempre que disponíveis.
Mas, apesar dos argumentos prudenciais e morais contra o envolvimento em
confrontos violentos evitáveis, esses confrontos ocorrem periodicamente entre in-
divíduos comuns. Por que isso ocorre? Em essência, o motivo é que, na população
em geral, existe uma grande variedade de atitudes e motivações e, entre toda essa
variedade, há indivíduos com graus incomumente altos de confiança física, incomu-
mente baixa preocupação com sua própria segurança física, e extraordinariamente
baixa capacidade de controle de impulsos – um conjunto de características fre-
quentemente referidas como “imprudência”.5
Os gerentes de negócios, no entanto, são consideravelmente mais uniformes que
a população em geral. Eles tendem a compartilhar duas características em particu-
lar: um forte desejo de gerar lucros para seus negócios e uma consciência razoável
dos meios eficazes para alcança-los. É improvável que indivíduos que não possuam
essas características surjam à frente de um negócio e, se surgirem, é provável que
o mercado os remova dessa posição (como quando o conselho de administração de
4
Essa objeção aparece em Wellman (2005, 15-16) e Rand (1964, 113). Friedman (1989, 115-16)
responde.
5
A teoria de que o conflito violento é devido a personalidades agressivas, e não, digamos,
ao interesse próprio racional, é evidenciada pelo fato de que esse conflito é um fenômeno quase
exclusivamente masculino.
10. Segurança Individual em uma Sociedade sem Estado 219

uma empresa substitui seu CEO) ou remove a empresa do mercado (como na fa-
lência). Assim, é muito menos provável que os gerentes de negócios se comportem
de maneiras claramente destrutivas do que os indivíduos comuns se comportarem
de maneiras que claramente ponham em risco sua própria segurança física.
Mas a guerra é, para dizer o mínimo, cara. Se um par de agências entrar
em guerra uma com a outra, ambas as agências, incluindo a que acaba sendo a
vencedora, provavelmente sofrerão enormes danos a suas propriedades e seus fun-
cionários. É altamente improvável que uma disputa entre dois clientes valha esse
tipo de despesa. Se, ao mesmo tempo, houver outras agências na região que não
se envolveram em nenhuma guerra, essas últimas terão uma poderosa vantagem
econômica. Em um mercado competitivo, as agências que encontrarem métodos
pacíficos de resolução de disputas terão um desempenho superior àquelas que tra-
vam batalhas desnecessárias. Como isso é facilmente previsível, cada agência deve
estar disposta a resolver qualquer disputa pacificamente, desde que a outra parte
esteja igualmente disposta.

10.3.2 Oposição ao assassinato


Os funcionários de uma agência de segurança têm suas próprias vontades individu-
ais, distintas dos objetivos da agência. Se a gerência decidiu atacar outra agência
apenas para afastar um concorrente, a deserção generalizada é o resultado mais
provável. Há duas razões para isso. Primeiro, a maioria dos seres humanos se
opõe a assumir riscos muito grandes para suas próprias vidas, a fim de maximizar
os lucros para seu chefe. O combate com outra agência de segurança seria muito
mais perigoso do que o trabalho normal de apreender criminosos comuns, já que a
outra agência estaria melhor armada, organizada e treinada do que os criminosos
comuns.
Segundo, a maioria das pessoas nas sociedades contemporâneas se opõe for-
temente ao assassinato de outros membros de sua sociedade.6 Esse “problema”
há muito tempo é reconhecido por especialistas militares cuja preocupação é con-
vencer soldados a matar o maior número possível de inimigos. Com base em
entrevistas com soldados da Segunda Guerra Mundial, o general S. L. A. Marshall
concluiu que notoriamente que não mais de um quarto dos soldados americanos
realmente disparou suas armas em uma batalha típica.7 O tenente-coronel Dave
Grossman relata vários casos em que a taxa de baixas durante uma batalha foi
6
Grossman (1995, 1-39) fornece uma visão geral das evidências empíricas para isso.
7
Marshall 1978, capítulo 5. Outros questionaram as estatísticas de Marshall, que provavel-
mente são suposições (Chambers 2003), mas o quadro geral permanece inalterado (Grossman
1995, 333, n. 1). Comentando o problema enfrentado pelos líderes militares, Grossman (1995,
251) observa: “Uma taxa de disparos de 15 a 20% entre os soldados é como ter uma taxa de
alfabetização de 15 a 20% entre os revisores”.
10. Segurança Individual em uma Sociedade sem Estado 220

muito menor do que se poderia conciliar plausivelmente com a suposição de um


esforço genuíno de cada lado para matar o outro. Em um incidente marcante, uma
unidade dos Contras na Nicarágua foi ordenada por seu comandante a massacrar
os passageiros em um barco civil. Quando chegou a hora de abrir fogo, cada bala
milagrosamente sobrevoou a cabeça dos civis. Como um soldado explicou: “Os
camponeses nicaraguenses são bastardos malvados e soldados durões. Mas não são
assassinos.”8
Isso não é para negar que alguns seres humanos são assassinos; é apenas dizer
que a esmagadora maioria dos seres humanos se opõe fortemente ao assassinato.
Uma pequena porcentagem de pessoas está disposta a matar; no entanto, esses
indivíduos geralmente não são funcionários desejáveis e, portanto, é improvável
que uma agência de proteção deseje trabalhar com essas pessoas.
E quanto à descoberta do experimento de Milgram (Seção 6.2), no qual as pes-
soas se mostraram dispostas a eletrocutar uma vítima indefesa quando solicitadas
por um cientista? O medo de desafiar a autoridade pode superar a resistência
das pessoas ao assassinato. Embora os gerentes de negócios tenham muito menos
aura de autoridade do que os funcionários do governo, um gerente de agência de
proteção pode, no entanto, ser capaz de explorar essa falha na natureza humana
para induzir funcionários a matar membros de agências rivais?
Talvez possa, embora valha a pena notar algumas outras características do
experimento de Milgram. Primeiro, a escalada gradual das demandas do experi-
mentador, a partir de um experimento científico aparentemente legítimo, foi uma
característica crucial do design. Se Stanley Milgram tivesse simplesmente entre-
gado uma pistola a seus súditos quando entraram na porta e lhes disse para atirar
em outro indivíduo, provavelmente não teria conseguido. Mas talvez um gerente
inteligente de agência de proteção, versado em psicologia, possa manipular as cir-
cunstâncias da mesma forma.
Segundo, os participantes de Milgram não estavam em perigo pessoal em re-
lação à pessoa que supostamente estavam eletrocutando. Se o “aluno” no experi-
mento tivesse a capacidade de aplicar o choque no professor de volta, é duvidoso
até que ponto o professor teria continuado com o experimento. Um gerente de
empresa guerreiro precisaria convencer os funcionários não apenas a matar, mas
também a se arriscarem a ser mortos.
Terceiro, embora a maioria dos participantes de Milgram tenha obedecido,
fizeram-o com grande relutância, exibindo sinais de estresse extremo. Mesmo que
uma agência bélica conseguisse convencer os funcionários a cometer assassinatos,
os funcionários ficariam extremamente infelizes e provavelmente a agência logo
perderia a maioria deles. Durante a década de 1960, os manifestantes americanos
contra guerra exibiram pôsteres e adesivos com o slogan “E se fizessem uma guerra
8
Dr. John, citado em Grossman 1995, 14–15.
10. Segurança Individual em uma Sociedade sem Estado 221

e ninguém viesse?”9 No improvável evento de uma agência de proteção declarar


guerra contra outra agência, os moradores da sociedade anarquista poderiam fi-
nalmente ter a chance de observar a resposta a esta pergunta.

10.3.3 Conflito entre governos


Acabamos de ver por que a guerra entre agências de proteção é improvável. Se, por
outro lado, confiamos no governo para nossa proteção, existe alguma explicação
de por que a guerra entre Estados seria improvável? Um estatista pode oferecer
duas razões para considerar a guerra entre Estados uma ameaça menor do que a
guerra entre agências:

i Como os governos possuem monopólios territoriais, cidadãos de diferentes Es-


tados entram em conflito com menos frequência do que os clientes de diferentes
agências de proteção.
ii Há menos concorrência entre governos do que entre agências de proteção. Os
altos custos de mudança de um país para outro, incluindo as barreiras que os
próprios governos costumam colocar no caminho, permitem que um governo
extraia lucros do monopólio de sua população com pouco medo de perder
“clientes” para um governo rival. Portanto, um governo tem menos motivos
para desejar eliminar governos rivais do que uma agência de proteção deseja
eliminar agências rivais.

Essas são considerações válidas. Por outro lado, parece haver várias razões
para esperar que o problema da guerra entre Estados seja mais sério do que o da
guerra entre agências:

i Os líderes empresariais tendem a ser motivados principalmente pelo motivo


do lucro. É mais provável que os líderes governamentais sejam movidos pela
ideologia ou pelo desejo de poder. Devido aos enormes custos do conflito
armado, as últimas motivações são motivos muito mais prováveis de conflito
armado do que o desejo de obter ganhos financeiros.
ii Devido às suas posições monopolistas, os governos podem se dar ao luxo de
cometer erros extremamente grandes e caros, sem medo de serem suplantados.
Por exemplo, o custo combinado estimado das guerras dos EUA no Iraque
e no Afeganistão é de US$ 2,4 trilhões,10 e, no entanto, o governo dos EUA
9
A frase parece derivar de Sandburg (1990, 43; publicado originalmente em 1936). A frase
original é “Em algum momento eles entrarão em guerra e ninguém virá”.
10
Reuters 2007a, relatando uma estimativa do Congressional Budget Office dos custos totais
até o ano de 2017. O custo estimado apenas para o Iraque é de US$ 1,9 trilhão. Stiglitz e Bilmes
(2008), no entanto, colocam o custo de ambas as guerras em pelo menos US$ 3 trilhões.
10. Segurança Individual em uma Sociedade sem Estado 222

não precisa temer perda de participação de mercado como resultado desse


investimento duvidoso. Se cada americano pudesse escolher entre um governo
que continuasse essas guerras e um que não continuasse, e se cada indivíduo
tivesse a garantia de que realmente conseguiria o que escolheu, mesmo os falcões
mais ardentes pensariam duas vezes o preço. Felizmente para o governo, os
indivíduos não têm essa escolha.

iii Os governos dispõem de melhores ferramentas propagandísticas do que as em-


presas privadas. Como a maioria das pessoas acredita em autoridade política,
o Estado pode alegar que os cidadãos são moralmente obrigados a ir à guerra,
apoiando ou não a guerra. O Estado pode retratar o combate sob seu comando
como “luta pelo país”, que geralmente é visto como nobre e honroso. Um ne-
gócio privado que busque aumentar os lucros matando concorrentes teria mais
problemas para vender algo do tipo.

iv Os seres humanos estão muito mais dispostos a matar aqueles que são perce-
bidos como muito diferentes deles mesmos, especialmente os estrangeiros, do
que matar membros comuns de sua própria sociedade.11 Consequentemente,
é mais fácil convencer as pessoas a entrar em guerra contra outro país do que
seria convencer as pessoas a atacar funcionários de outra empresa.

v O treinamento militar moderno emprega técnicas de condicionamento psicoló-


gico intensivo e dessensibilização para superar os instintos humanos dos solda-
dos. As forças armadas dos EUA adotaram técnicas desse tipo em resposta às
descobertas de Marshall sobre a baixa taxa de disparos de soldados da Segunda
Guerra Mundial. Como resultado, a taxa de disparos aumentou de menos de
25% na Segunda Guerra Mundial para 55% na Guerra da Coreia e perto de
90% na Guerra do Vietnã.12 No entanto, os funcionários de uma empresa de
segurança são menos propensos a se submeter a condicionamentos de estilo mi-
litar, uma vez que não veriam a necessidade de combater com outras agências
de proteção.

vi Devido ao seu amplo controle sobre a sociedade da qual seus soldados são re-
crutados, o Estado pode e aplica sanções poderosas a soldados que se recusam
a lutar ou a cidadãos que se recusam a ser recrutados. Sob um sistema go-
vernamental, aqueles que se recusam a lutar sob o comando de seu governo
devem fugir do país para evitar prisão ou execução;13 sob um sistema anar-
11
Zimbardo 2007, 307–13; Grossman 1995, 156-70.
12
Marshall 1978, 9; Grossman 1995, 249-61.
13
The U.S. Uniform Code of Military Justice, Artigo 85, permite qualquer penalidade, inclusive
a morte por deserção durante a guerra (www.ucmj.us).
10. Segurança Individual em uma Sociedade sem Estado 223

quista, aqueles que se recusam a lutar sob o comando de seu empregador devem
apenas encontrar outro emprego.
vii Devido à sua posição monopolista e à sua capacidade de coletar pagamentos
não-voluntários da população, os governos tendem a ter recursos muito maiores
do que as organizações não-governamentais, permitindo-lhes acumular vastos
arsenais, mesmo em tempos de paz. Por exemplo, até o momento em que
este artigo foi escrito, o governo dos EUA mantém dez porta-aviões da classe
Nimitz, que custam US$ 4,5 bilhões cada, mais US$ 240 milhões por ano
para manutenção14 , gerando receita zero. Como resultado, quando a guerra
começa entre governos, é muito mais destrutiva do que qualquer tipo de conflito
envolvendo outros agentes. O número de mortos pela guerra no século XX é
estimado em 140 milhões,15 e o problema ainda pode provar a causa da extinção
da espécie humana.

Levando em consideração todas essas observações, parece que a guerra é uma


preocupação maior para os governos do que para as agências de proteção.

10.4 Proteção para criminosos


Eu descrevi um sistema de agências privadas dedicadas a proteger indivíduos do
crime; isto é, por roubo, agressão física e outras violações de direitos. Mas por
que não deveria haver agências dedicadas a proteger criminosos das tentativas de
suas vítimas de garantir a justiça? Que assimetria entre criminosos e cooperadores
pacíficos torna mais viável, rentável ou atraente para uma agência proteger pessoas
comuns do que proteger criminosos?

10.4.1 A rentabilidade da aplicação de direitos


Existem pelo menos três assimetrias importantes que favorecem a proteção de pes-
soas não criminosas em detrimento de criminosos. Primeiro, muito mais pessoas
desejam ser protegidas contra o crime do que desejam cometer crimes. Quase
ninguém deseja ser vítima de um crime, enquanto apenas alguns desejam ser cri-
minosos. Segundo, os danos sofridos pelas vítimas de crimes são tipicamente muito
maiores do que os benefícios de quem os comete. As pessoas comuns, portanto,
estariam dispostas a pagar mais para evitar serem vítimas do que os criminosos
estariam dispostos a pagar pela chance de vitimar outras pessoas. Em virtude des-
sas duas primeiras condições, há muito mais a ser ganho no negócio de proteção
14
Marinha dos EUA 2009; Birkler et al. 1998, 75.
15
Leitenberg 2006, 9. A maioria destas são mortes de civis; as mortes militares foram próximas
de 36 milhões (Clodfelter 2002, 6).
10. Segurança Individual em uma Sociedade sem Estado 224

contra criminosos do que no negócio de proteção para criminosos. Dado que os


dois “produtos” se excluem – se um produto é efetivamente fornecido no mercado,
então o outro necessariamente não é – será o menos rentável que deixará de ser
fornecido. Se uma agência de proteção desonesta decidir contrariar a tendência
apoiando criminosos, se encontrará presa em um conflito perpétuo e sem espe-
rança com agências de proteção muito mais lucrativas e numerosas financiadas por
clientes não criminosos.
A terceira assimetria é que os criminosos escolhem cometer crimes, enquanto
as vítimas de crimes não escolhem ser vítimas. Os criminosos, em outras palavras,
se envolvem intencionalmente em comportamentos que os garantam entrar em
conflito com os outros. Do ponto de vista de uma agência de proteção, esse é um
recurso pouco atraente em um cliente, uma vez que, quanto mais conflitos houver
em que a agência é solicitada a proteger clientes, maiores serão os custos da agência.
Clientes comuns e não criminosos estão alinhados com os objetivos da agência a
esse respeito: eles não desejam se envolver em conflitos da mesma forma que a
agência espera o mesmo. Clientes criminosos são uma história muito diferente.
Oferecer proteção a criminosos é análogo a oferecer seguro contra incêndio para
incendiários.

10.4.2 Proteção criminal por governos


E o problema análogo para os governos: existem forças que impedem um governo
de agir para proteger criminosos?
Os governos geralmente agem para proteger a sociedade contra aqueles que vio-
lam os direitos de outras pessoas, como assassinos comuns, ladrões, estupradores e
assim por diante. Por outro lado, durante a era da escravidão, o governo protegeu
os proprietários de escravos de seus escravos, e não o contrário. Antes do movi-
mento pelos direitos civis nos Estados Unidos, o governo impunha a segregação
racial. E hoje, os governos democráticos funcionam como ferramentas para grupos
de interesses especiais roubarem do resto da sociedade.16
Esses exemplos mostram que os dois padrões são possíveis: o governo pode
proteger os direitos das pessoas e também pode proteger os violadores de direitos.
A questão é se o padrão injusto de proteger os violadores de direitos seria mais
comum para uma agência de proteção do que para um governo. Governos e agên-
cias de proteção são organizações humanas, formadas por agentes com motivações
humanas. Assumir que os governos são motivados de maneira altruísta, enquanto
as agências de proteção são egoisticamente motivadas é aplicar um padrão duplo
projetado para distorcer a avaliação em favor do governo.
Se evitarmos esses padrões duplos, é difícil entender por que os governos devem
16
Para discussão, consulte a Seção 9.4.3.
10. Segurança Individual em uma Sociedade sem Estado 225

ser menos propensos a proteger os violadores de direitos do que as agências priva-


das. Alguém poderia argumentar que os governos democráticos devem responder
aos desejos dos eleitores, a maioria dos quais se opõe ao crime. Mas alguém poderia
igualmente argumentar que as agências de proteção devem responder aos desejos
dos consumidores, a maioria dos quais se opõe ao crime, e há razões para esperar
que o mecanismo de mercado seja mais responsivo que o mecanismo democrático
(consulte as seções 10.7 e 9.4).

10.5 Justiça à venda


Alguns se opõem à livre prestação de serviços de proteção no mercado, alegando
que a justiça não deve ser comprada e vendida. Aparentemente, essa objeção
contorna desconfortavelmente perto a negação da posição anarcocapitalista. Para
evitar fazer a pergunta, o opositor deve articular uma razão específica pela qual os
serviços de proteção e resolução de disputas não devem ser comprados e vendidos.
Duas razões inicialmente plausíveis podem ser apresentadas.

10.5.1 Direito preexistente


Um argumento é que as pessoas não devem pagar pela justiça, porque todos têm
direito à justiça para começar. Assim como eu não deveria ter que pagar pelo meu
próprio carro (novamente), uma vez que já o possuo, não deveria ter que pagar
por qualquer outra coisa a que já tenha direito.
Em certo sentido, isso está correto – ninguém deveria pagar pela justiça. Mas o
que a objeção aponta não é uma falha no sistema anarcocapitalista, mas uma falha
na natureza humana, pois a necessidade de pagar pela justiça é criada, não pelo
sistema anarcocapitalista, mas simplesmente pelo fato de os criminosos existirem,
e esse fato tem suas raízes nas enfermidades perenes da natureza humana. Em um
sentido idealista e utópico, podemos dizer que todos devem simplesmente respeitar
voluntariamente os direitos um do outro, para que ninguém precise pagar por
proteção.
Dado, no entanto, que algumas pessoas de fato não respeitam os direitos de
outras pessoas, a melhor solução é que alguns membros da sociedade forneçam
proteção a outros. Isso custa dinheiro, e há pelo menos duas razões pelas quais os
protetores não podem ser solicitados a simplesmente arcar com os custos. Primeiro,
há o argumento prático de que poucas pessoas estão dispostas a gastar seu tempo e
recursos, para não falar dos riscos físicos assumidos pelos provedores de segurança,
sem receber em troca algum benefício pessoal. Se decidirmos que é errado cobrar
dinheiro por um serviço vital, como proteção de direitos, enquanto se pode cobrar
pelo que se gosta por bens não essenciais, como twinkies e telefones celulares, então
10. Segurança Individual em uma Sociedade sem Estado 226

construiremos uma sociedade com muitos twinkies, telefones celulares, e violações


de direitos.
Segundo, aqueles que prestam serviços de proteção têm o direito de solicitar
uma compensação pelo seu tempo, suas despesas materiais e os riscos físicos que
assumem, pelo menos tanto quanto qualquer outra pessoa que forneça serviços
de valor a terceiros. Seria injusto exigir que eles suportem todos esses encargos,
enquanto seus beneficiários, aqueles a quem protegem, podem simplesmente pros-
seguir com suas próprias ocupações em benefício próprio, sem suportar nenhum
custo de sua própria defesa. De qualquer forma, a importância vital da proteção
de direitos autoriza aqueles que prestam esse serviço a pedir maiores recompensas
do que aqueles que fornecem bens e serviços menos essenciais.

10.5.2 Baseando a lei na justiça


Outra razão para pensar que a proteção contra o crime não deve estar sujeita às
forças do mercado é que isso é incompatível com as leis que estão sendo determi-
nadas, como deveriam ser, pelo que é moralmente certo e justo.
Novamente, há algo obviamente correto nesse pensamento: os seres humanos
devem respeitar os princípios morais e devem projetar regras para promover a jus-
tiça e o comportamento ético. Mas isso não é objeção ao anarcocapitalismo. Ao
procurar o interesse próprio para explicar como as agências de proteção em uma
sociedade anarquista se comportariam, não estou defendendo o egoísmo; Estou
reconhecendo isso como um aspecto da natureza humana que existe independen-
temente de qual sistema social ocupamos. Pode-se projetar instituições sociais
assumindo que as pessoas são altruístas, mas isso não fará com que as pessoas
sejam altruístas; isso simplesmente fará com que essas instituições falhem.
Isso não quer dizer que as pessoas sejam totalmente egoístas. Na medida em
que os seres humanos são movidos por ideais de justiça e moralidade, esses motivos
apenas fortaleceriam as instituições de proteção de direitos da sociedade anárquica.
O trabalho eticamente adequado de uma agência de proteção é proteger os direitos
de seus clientes e, em caso de desacordo, impor as decisões de um árbitro. O
trabalho adequado de um árbitro é encontrar as resoluções mais justas, sábias e
justas possíveis das disputas que lhe foram colocadas. O fiel cumprimento desses
deveres não é impedido pelo fato de que as agências e os árbitros têm motivos de
interesse próprio para fazer essas coisas.

10.5.3 Comprando justiça do governo


As objeções anteriores, em qualquer caso, não podem favorecer o governo sobre a
anarquia, porque o governo está sujeito às mesmas objeções. Em um sistema do-
minado pelo governo, as pessoas devem pagar pela justiça, tão seguramente quanto
10. Segurança Individual em uma Sociedade sem Estado 227

em um sistema anarquista. Não é como se tribunais e forças policiais pudessem,


de alguma forma, operar sem custo, caso o sistema fosse monopolista e coerci-
tivo. Os aspectos monopolistas e coercitivos dos sistemas de justiça do governo
os tornam mais caros que um sistema voluntário e competitivo. A diferença é
simplesmente que, nos sistemas governamentais, os pagamentos são coletados co-
ercivamente sob o nome de “tributação” e a prestação do serviço não é garantida
mesmo se você pagar.17 Presumivelmente, essas diferenças não tornam o sistema
mais justo. Da mesma forma, as leis impostas por um governo não são mais deter-
minadas pela justiça e pela moralidade do que aquelas aplicadas por agências de
proteção privada e empresas de arbitragem. Numa democracia representativa, as
leis são determinadas pelas decisões dos funcionários eleitos e dos burocratas que
eles nomearam. Os resultados das eleições, por sua vez, são afetados por fatores
como carisma, atratividade física, financiamento de campanhas, reconhecimento
de nomes, habilidade e crueldade dos gerentes de campanha e vieses dos eleitores.
Alguns dizem que políticos e burocratas devem servir valores éticos imparciais,
enquanto os gerentes de negócios devem gerar lucros apenas para seus negócios.
O que isto significa? Quem supõe que os funcionários públicos sejam motivados
dessa maneira e que diferença faz essa suposição? Um argumento é que, como
existe uma norma geral socialmente aceita, segundo a qual os funcionários públicos
devem servir à justiça, eles próprios se sentirão mais inclinados a se comportar
dessa maneira do que na ausência de tal norma. Por outro lado, como essa norma
geralmente não é aceita no caso de empresas, os gerentes de negócios sentirão
pouco senso de obrigação de servir à justiça.
Existem duas respostas naturais para esse argumento. O primeiro é questionar
a importância relativa da motivação moral, enfatizando, em vez disso, o valor
prático de alinhar o interesse próprio dos agentes com as exigências da justiça. É
verdade que o sistema ideal é aquele em que as pessoas servem à justiça pelas razões
certas. Mas pelas razões explicadas no Capítulo 9, é improvável que o governo seja
esse sistema. Se alguém deve escolher entre um sistema em que as pessoas servem
o interesse próprio em nome da justiça e outro em que as pessoas servem a justiça
em nome do interesse próprio, certamente devemos preferir o último. Preferir um
sistema que entregue às pessoas as ferramentas para explorar outras pessoas com
fins egoístas, assegurando-lhes que devem servir à justiça, em detrimento de um
sistema que torne a justiça lucrativa e permita que as pessoas escolham seu curso,
seria restabelecer uma fé utópica no poder da suposição.
A segunda resposta é que não há razão para que os membros de uma anarquia
não adotem normas igualmente idealistas que as de uma sociedade democrática.
17
Tribunais dos EUA decidiram repetidamente que a polícia e outros agentes do governo não
são obrigados a proteger cidadãos individuais. Ver Warren v. District of Columbia (444 A.2d.
1, D.C. Ct. Of Ap., 1981); Hartzler v. Cidade de San Jose, 46 Cal.App. 3d 6 (1975); DeShaney
v. Departamento de Serviços Sociais do Condado de Winnebago, 489 U.S. 189 (1989).
10. Segurança Individual em uma Sociedade sem Estado 228

Assim como os cidadãos de um Estado democrático acreditam que os funcionários


públicos devem promover a justiça, os membros de uma anarquia podem susten-
tar que as agências de proteção e as empresas de arbitragem devem promover a
justiça. Por mais que esse tipo de norma social tenha eficácia no policiamento
do comportamento humano, o anarquista pode aproveitá-lo tão bem quanto o
estatista.

10.6 Segurança para os pobres


Outra preocupação é que as agências de proteção, motivadas pelo lucro, atendam
exclusivamente aos ricos, deixando os pobres indefesos contra os criminosos.

10.6.1 As empresas servem os pobres?


Infelizmente, não existem sociedades reais com livre mercado em segurança. Pode-
mos, no entanto, examinar sociedades com mercados relativamente livres em uma
variedade de outros bens e serviços. Nessas sociedades, para quantos desses outros
bens e serviços é verdade que os fornecedores atendem exclusivamente aos ricos,
não fornecendo produtos adequados para clientes de renda média e baixa? As
roupas são fabricadas exclusivamente para os ricos, deixando os pobres perambu-
lando pelas ruas nus? Os supermercados vendem apenas caviar e Dom Pérignon?
Qual cadeia é maior: Walmart ou Bloomingdale’s? É certo que existem alguns
produtos, como iates e learjets, que ainda não apareceram em modelos acessíveis
para o consumidor médio, mas a grande maioria das indústrias é dominada pela
produção para consumidores de baixa e média renda. A principal explicação é o
volume: para a maioria dos produtos, há muito mais consumidores buscando um
produto barato do que consumidores buscando um produto caro.
Os ricos, é claro, tendem a receber produtos de qualidade superior aos pobres,
de alimentos a roupas e automóveis (esse é o ponto de serem ricos). Sob anarquia,
eles sem dúvida receberiam proteção de qualidade superior. Existe uma injustiça
nisso?
Em certo sentido, sim: como resultado de proteção imperfeita, algumas pessoas
pobres serão vítimas de crime. Isso é injusto, no sentido de que é injusto que alguém
sofra algum crime. A injustiça inerente ao crime, no entanto, aponta para uma
falha na natureza humana e não no sistema anarquista. Algumas pessoas sofrerão
com o crime em qualquer sistema social viável. A questão é se a anarquia enfrenta
um problema maior ou uma injustiça maior do que os sistemas governamentais.
Alguém poderia pensar que a anarquia sofrerá com uma injustiça adicional
além da simples existência do crime; ou seja, a desigualdade na distribuição do
crime, o fato de que os pobres estão sujeitos a riscos maiores do que os ricos. Na
10. Segurança Individual em uma Sociedade sem Estado 229

Figura 10.1: Frequência de vitimização de crime por renda

minha opinião, isso não é uma injustiça adicional, além do fato de que as pessoas
sofrem com o crime. Em outras palavras, dada uma quantidade fixa de crimes,
medida talvez pelo número e gravidade das violações de direitos que ocorrem em
uma sociedade, não acredito que seja importante, eticamente, como o crime é
distribuído pelas classes econômicas. Perguntas neste sentido, no entanto, estão
além do escopo deste livro.18
18
Sobre o igualitarismo, veja o meu 2003 e adiante.
10. Segurança Individual em uma Sociedade sem Estado 230

10.6.2 Quão bem o governo protege os pobres?


Mesmo que a desigualdade na distribuição do crime seja uma injustiça indepen-
dente, isso obviamente não favorece o governo sobre a anarquia, uma vez que
grandes desigualdades na distribuição do crime ocorrem em todas as sociedades
estatais, onde os ricos são muito mais bem protegidos do que os pobres. Para dar
um exemplo contemporâneo, os americanos com renda abaixo de US$ 7.500 por
ano são três vezes e meia mais propensos a sofrer crimes pessoais do que aqueles
com renda acima de US$ 75.000 (ver Figura 10.1), apesar dos ricos poderem inici-
almente parecer um alvo mais atraente para a maioria dos crimes.19 Embora essa
não seja a única explicação possível, é plausível sustentar que essa desigualdade se
deve pelo menos em parte à proteção inadequada oferecida pelo Estado aos pobres.
Se num sistema anarquista haveria mais ou menos desigualdade na distribuição do
crime continua sendo motivo de especulação.

10.7 A qualidade da proteção


Até que ponto as agências de proteção privada protegeriam seus clientes, em com-
paração com a polícia no status quo? Essa comparação é difícil de fazer, pois não
podemos observar uma sociedade anarquista. O melhor que podemos fazer é exa-
minar a eficácia da polícia do governo e, em seguida, fazer previsões teóricas sobre
a alternativa anarquista com base nas estruturas de incentivo.
O status quo deixa espaço considerável para melhorias. Não sabemos quantas
pessoas são impedidas de uma vida de crime pela perspectiva de serem punidas
pelo Estado, mas temos uma boa ideia de quantas vezes aqueles que se voltam para
uma vida de crime são de fato punidos. Segundo as estatísticas do FBI, apenas
cerca de metade de todos os crimes violentos relatados e um quinto dos crimes
relatados à propriedade são resolvidos pelas agências policiais (ver Figura 10.2).20
Esses números realmente superestimam a eficácia da aplicação da lei pelo governo,
pois não representam crimes não relatados.
No nível teórico, não é difícil entender por que a polícia do governo pode ser
menos eficaz do que as agências de proteção privada. Se uma agência de proteção
fornece proteção insuficiente ou cobra taxas excessivas, deve temer a perda de
clientes para agências rivais. Mas se a polícia oferece proteção deficiente a um
19
Departamento de Justiça dos EUA 2010a, tabela 14.
20
U.S. Federal Bureau of Investigation 2010, tabela 25. As estatísticas no texto e na figura
referem-se à porcentagem de crimes “apurados por prisão ou por meios extraordinários”. Isso
exige que os agentes da lei localizem um suspeito a quem eles tenham provas suficientes para
acusar e que tenham prendido e entregues o suspeito aos tribunais para julgamento ou tenham
sido impedidos de fazê-lo por circunstâncias fora de seu controle, como a morte do suspeito ou
recusa de extradição.
10. Segurança Individual em uma Sociedade sem Estado 231

Figura 10.2: Porcentagem dos tipos de crimes cometidos e resolvidos nos EUA

preço alto, eles não precisam ter medo de perder participação de mercado ou ter
o negócio fechado. Desde que monopolizem o setor, os clientes não têm mais para
onde procurar e, como sua receita deriva de impostos, os clientes não podem decidir
demitir seus protetores e se defender. Essas características invejáveis da posição do
Estado permitem que ele sobreviva indefinidamente quase independentemente de
seu desempenho. De fato, o fraco desempenho da polícia é mais provável que traga
recompensas financeiras do que prejuízos financeiros, uma vez que o aumento da
criminalidade tende a causar aumentos nos orçamentos policiais em vez de cortes
(compare a Seção 9.4.7). As agências de proteção privada, sem essas vantagens,
não teriam recurso senão fornecer proteção suficiente aos seus clientes a um preço
razoável.

10.8 Crime organizado


As agências de proteção privada podem ser capazes de lidar com o criminoso
comum, mas como lidariam com o crime organizado? Não precisamos de uma
autoridade central para combater esse problema?
O governo possui extensos programas para combater o crime organizado; eles
se concentram quase inteiramente nos esforços de fiscalização direta – isto é, es-
10. Segurança Individual em uma Sociedade sem Estado 232

forços para prender e processar criminosos, particularmente a liderança criminal.


Porém, foram levantadas dúvidas sobre a eficácia dessa abordagem.21 Faltam evi-
dências do efeito desses esforços de fiscalização nos níveis gerais de criminalidade,
e pode ser que os papeis ocupados pelos chefes de crime presos sejam simplesmente
preenchidos por outros criminosos, resultando em benefícios insignificantes para a
sociedade em termos de crime total.22 Uma abordagem alternativa plausível seria
tentar negar ao crime organizado suas fontes mais importantes de receita. As or-
ganizações criminosas concentram-se principalmente na coleta de dinheiro, o que
ocorre principalmente através do fornecimento de bens e serviços ilegais. Tradici-
onalmente, o crime organizado gera receita para si próprio através de operações
de jogo, prostituição e (durante a era da Proibição nos Estados Unidos) a venda
ilegal de álcool. De longe, a principal fonte de receita para o crime organizado
hoje parece ser o comércio de drogas ilícitas, que se estima que gere entre US$ 500
bilhões e US$ 900 bilhões em vendas em todo o mundo por ano.23
Por que as organizações criminosas se concentraram nessas indústrias? Por
que vender serviços de jogos de azar, serviços sexuais e drogas em vez de, digamos,
sapatos e chocolates? Não há controvérsia sobre a resposta para isso: é porque o
jogo (em algumas formas), a prostituição e as drogas entorpecentes são ilegais. Al
Capone fez sua fortuna vendendo álcool, não quando era legal, mas durante a era
da Proibição. Hoje, criminosos organizados ganham fortuna vendendo maconha
e cocaína, em vez de penicilina e prozac. A razão é que os criminosos não têm
vantagens no fornecimento de bens e serviços comuns; seu único ativo especial é a
disposição e a habilidade em desafiar a lei. Diferentemente das pessoas comuns de
negócios, os criminosos estão dispostos a arriscar uma prisão por causa de dinheiro;
eles estão dispostos a renunciar a toda a respeitabilidade social; e estão dispostos
a se envolver em suborno, ameaças e violência para perseguir seus negócios. Essas
são as características necessárias para fornecer um bem que é ilegal. Ao proibir
certos medicamentos, garantimos o controle da indústria farmacêutica recreativa
a pessoas com essas características. Se essas mesmas drogas fossem legalizadas,
os criminosos que agora estavam lucrando com a venda não seriam mais capazes
disso, porque não teriam mais nenhuma vantagem econômica nesse setor. Esta é
a lição de Capone e a Proibição.
Assim, uma estratégia poderosa para paralisar o crime organizado seria lega-
lizar drogas, jogos de azar e prostituição. Não afirmo que isso elimine todo crime
organizado. Seria, no entanto, um golpe contra o crime organizado mais devas-
tador do que qualquer coisa que o Estado pudesse esperar por meio de escutas
telefônicas, operações fraudulentas e acusações. A grande maioria do fluxo de re-
21
Paoli e Fijnaut 2006, 326; Levi e Maguire 2004.
22
Levi e Maguire 2004, 401, 404–5.
23
Finckenauer 2009, 308.
10. Segurança Individual em uma Sociedade sem Estado 233

ceita do crime organizado secaria praticamente da noite para o dia, forçando a


maioria de seus membros a procurar outro emprego.
Em uma sociedade anarquista, é altamente provável que drogas, jogos de azar
e prostituição sejam todos legais. A diferença essencial entre esses “crimes” e cri-
mes mais paradigmáticos, como assassinato, roubo e estupro, é que os últimos
crimes têm vítimas, enquanto jogos de azar, uso de drogas e prostituição não têm
vítimas – ou, pelo menos, nenhuma vítima que possa reclamar.24 Na sociedade
anarcocapitalista, os direitos são garantidos pela vítima de uma violação de direi-
tos, apresentando uma queixa contra o violador de direitos através de sua agência
de proteção e contando com um árbitro privado para julgar a validade da queixa.
Não existe um mecanismo eficaz para proibir crimes sem vítimas, porque não há
legislatura para redigir os estatutos e nenhum promotor público para executá-los.
E se um grande número de pessoas se opusesse tanto à prostituição que estaria
disposta a pagar suas agências de proteção para “protegê-las” de viver em uma
sociedade em que outras pessoas compram e vendem serviços sexuais? E se os
árbitros desta sociedade concordassem que alguém reclamando sobre o comércio
de serviços sexuais de outra pessoa tivesse sido de fato prejudicado (talvez por
estar ofendido) e estivesse sujeito a indenização pela prostituta ou pelo cliente da
prostituta? Em teoria, uma sociedade desse tipo poderia terminar em proibições
anti-libertárias sobre prostituição; no entanto, esse é um cenário improvável, já que
poucas pessoas pensam que um contrato para comprar serviços sexuais vitimiza
qualquer pessoa por apenas não gostar disso, e poucas estão de fato dispostas a
pagar tanto para impedir a prostituição quanto prostitutas e seus clientes estão dis-
postos a pagar para serem deixados em paz. Observações semelhantes se aplicam
a outros crimes sem vítimas, como jogos de azar e uso recreativo de drogas.
Isso não elimina todas as fontes de receita possíveis para o crime organizado;
os criminosos ainda poderiam coletar dinheiro, por exemplo, através de extorsão
e fraude. Não obstante, negadas suas maiores fontes de receita, as organizações
criminosas seriam muito mais fracas em uma sociedade anarquista do que são hoje
e provavelmente teriam um papel muito pequeno.

10.9 Proteção ou extorsão?


Em vez de fornecer proteção em troca de taxas acordadas, pode parecer que seria
mais lucrativo para uma agência de “proteção” simplesmente roubar pessoas sem
se preocupar em protegê-las. Por que as agências de proteção não evoluiriam para
24
Alguns afirmam que o uso ilegal de drogas vitimiza a família, cônjuge ou colegas de trabalho
do usuário (Wilson 1990, 24). No entanto, é improvável que essas supostas vítimas de crimes
ajam com um processo judicial contra o usuário de drogas e dificilmente prevaleça em uma queixa
contra usuário ou fornecedor.
10. Segurança Individual em uma Sociedade sem Estado 234

meras agências de extorsão?

10.9.1 A disciplina da competição


A competição entre agências é a principal força que restringe as práticas abusi-
vas pelas agências de proteção. Os clientes assinariam com a agência que espe-
ram atendê-los da melhor maneira pelo menor custo, sem roubá-los, abusar ou
escravizá-los.
Imagine duas agências de proteção operando na mesma cidade, a Tannahelp
Inc. e a Murbard Ltd.25 A Tannahelp é uma agência legítima que celebra acordos
voluntários com seus clientes, oferecendo proteção em troca de uma taxa. Murbard
é uma agência desonesta que extorque dinheiro das pessoas e, ao mesmo tempo,
oferece pouco valor. Quase todo mundo prefere a Tannahelp e, portanto, se os
indivíduos pudessem escolher livremente sua agência de proteção, Murbard rapi-
damente sairia do negócio. Se Murbard tentasse forçar as pessoas a se unirem a
ela em vez da Tannahelp, as pessoas apelariam a Tannahelp por proteção.
Vimos acima os incentivos que se opõem a conflitos violentos entre agências.
A Tannahelp pode, portanto, tentar resolver a disputa com Murbard por meio de
arbitragem de terceiros. Murbard poderia aceitar a oferta de arbitragem, caso em
que qualquer juiz justo decidirá contra; isso resultaria em abandonar seu plano
extorsionista ou se preparar para a guerra.
Há quatro razões pelas quais Murbard teria maior probabilidade de recuar ou
falir do que Tannahelp. Primeiro, Tannahelp seria percebida como mais legítima
do que Murbard pelo resto da sociedade. A Tannahelp, portanto, teria uma chance
muito maior de convencer os funcionários a lutar em seu nome do que Murbard,
embora possa ser que nenhuma agência tenha sucesso e que os funcionários de
ambos os lados desertem em vez de lutar.
Segundo, Tannahelp teria o apoio de todos os clientes pelos quais as agências
estavam lutando. Portanto, é provável que os clientes tentem ajudar sua agência
favorita e dificultar a agência extorsionista.
Terceiro, Tannahelp teria mais motivos para lutar do que a agência criminosa.
Se a Tannahelp permitir que alguns de seus possíveis clientes sejam escravizados
por uma agência criminosa, ela estabelecerá um precedente que provavelmente
levará à sua própria extinção. Murbard, por outro lado, poderia a qualquer mo-
mento desistir de seus planos extorsionistas e decidir executar um negócio legítimo
que protege pessoas de criminosos. Vimos anteriormente as razões pelas quais con-
flitos violentos seriam muito prejudiciais para ambas as agências. Como as duas
agências estão cientes disso e também sabem que é Murbard que pode se dar ao
25
Esses nomes são retirados de Friedman (1989, 116-17), aparentemente baseados em modifi-
cações dos nomes de autores libertários proeminentes.
10. Segurança Individual em uma Sociedade sem Estado 235

luxo de recuar, é isso que provavelmente ocorrerá.26


Quarto, o resto da sociedade, incluindo as outras agências de proteção na área,
ficaria do lado de Tannahelp. Isso se deve em parte a crenças éticas de senso
comum – quase todo mundo considera extorsão injusta – e em parte devido à
autopreservação – se Murbard triunfar contra Tannahelp, Murbard provavelmente
seguirá em frente contra os clientes de outras agências. Assim, é provável que
outras agências ajudem a Tannahelp o suficiente para garantir sua vitória, mesmo
que permitam que o Tannahelp faça a maior parte do trabalho.
O cenário anterior supõe que a Murbard comece como uma agência extorsi-
onista e tente roubar clientes de outras agências ou forçar clientes não afiliados
a se unirem à Murbard. E se Murbard começar como uma agência legítima, ad-
quirindo clientes por meio de acordos voluntários, e só depois evoluir para uma
agência extorsionista que proíbe a saída de clientes existentes?
Nesse caso, parece menos provável que Tannahelp travasse uma guerra para
libertar os clientes existentes de Murbard. No entanto, existem três fatores que
limitariam o potencial de dano desse tipo de cenário. Primeiro, é improvável que
ocorra uma transição repentina e sem aviso prévio. Como os tipos de pessoas que
tendem a ser atraídas por empresas legítimas e prestadoras de serviços são dife-
rentes daquelas que são atraídas por quadrilhas criminosas semelhantes à máfia,
a transição da primeira para a segunda provavelmente envolveria uma mudança
de pessoal, tanto no nível de gerência como no nível da média dos trabalhadores.
Talvez uma pessoa de mente criminosa, de alguma forma, assuma uma posição
de gerência, onde começa a fazer mudanças, expulsando o pessoal existente e con-
tratando amigos e familiares com tendências criminosas. Enquanto essa transição
estava ocorrendo, os clientes que não gostassem da direção em que a empresa es-
tava tomando deixariam a empresa em favor das agências concorrentes. A queda
resultante nos lucros da empresa provavelmente levaria ela a parar o que estava
fazendo. Caso contrário, a maioria dos clientes provavelmente teria saído quando
o processo estivesse concluído.
Segundo, a versão mais crível desse cenário teria a agência extorsionista que
controla uma ou mais pequenas áreas geográficas, como bairros individuais cu-
jas associações de proprietários de casas originalmente haviam assinado com a
agência voluntariamente. Se, no entanto, o comportamento da agência fosse sufi-
cientemente flagrante, os clientes prefeririam deixar o bairro em vez de continuar
sujeitos à extorsão. Supondo que existam muitas outras agências de proteção na
sociedade que atendem bairros semelhantes, seria extremamente difícil para Mur-
bard impedir que suas vítimas fossem embora.
Uma observação semelhante poderia ser feita sobre os governos: se o governo de
26
Ver também o argumento de David Friedman (1994) de que egoístas racionais em um estado
de natureza evitam conflitos através do respeito mútuo por direitos.
10. Segurança Individual em uma Sociedade sem Estado 236

um país for suficientemente tirânico, corrupto ou censurável, os cidadãos poderão


deixar o país. Note, no entanto, que o mecanismo de saída é mais eficaz no nível
do bairro do que no nível nacional. Os indivíduos que fogem de seu país de origem
geralmente são forçados a deixar para trás sua cultura, seus empregos, sua família
e amigos. Por outro lado, aqueles que apenas se mudam para um bairro diferente
dentro da mesma sociedade geralmente podem manter sua cultura, trabalho, fa-
mília e amigos. Além disso, outras nações tipicamente impõem barreiras severas
à imigração, enquanto outros bairros da mesma sociedade geralmente não. Como
resultado, um governo nacional pode ser muito mais abusivo antes de perder a
maioria de seus cidadãos do que uma organização limitada a um único bairro.
Por fim, mesmo que a Murbard mantenha alguns de seus clientes originais,
é improvável que obtenha novos clientes. Como resultado, a base de clientes da
Murbard diminuirá lentamente, enquanto outras agências que melhor atendem seus
clientes se expandiriam. É provável que isso sirva de exemplo para as empresas
que consideram fazer a transição para a arena de extorsão no futuro.

10.9.2 Extorsão pelo governo


Agora considere o problema análogo para os sistemas governamentais: por que o
governo não deveria extorquir dinheiro das pessoas sem protegê-las? De fato, todos
os governos extorquem dinheiro, embora a prática seja geralmente denominada
“tributação” e não “extorsão”. Poucos estatistas ainda consideram acabar com
essa prática. Como, então, o governo pode ser considerado superior à anarquia
nesta área?
Talvez alguém possa pensar que o governo gaste menos do que os protetores
privados cobrariam ou que o governo ofereça um serviço melhor do que os proteto-
res privados. Mas é difícil ver por que isso seria assim. Imagine que uma agência
privada de proteção de alguma forma adquiriu o monopólio em uma grande área
geográfica e começou a extrair pagamentos da população à força. Poucos argu-
mentariam que, uma vez que esse estado de coisas ocorresse, os preços cairiam e o
serviço melhoraria. Certamente o contrário ocorreria. Mas essa é precisamente a
posição das sociedades com proteção baseada no governo.
Talvez seja o processo democrático que deve induzir o governo a controlar
custos e manter um serviço de alta qualidade: se o governo fizer um trabalho
ruim, as pessoas votarão em políticos diferentes. A questão então se torna se
esse mecanismo é mais ou menos eficaz que o mecanismo de livre concorrência no
mercado. Uma deficiência do mecanismo democrático é que as escolhas tendem
a ser muito limitadas. Em algumas sociedades democráticas, as eleições oferecem
regularmente apenas duas opções; por exemplo, os democratas e os republicanos
nos Estados Unidos. Mesmo sistemas de representação proporcional raramente
dão aos eleitores a gama de opções presentes nos mercados livres típicos.
10. Segurança Individual em uma Sociedade sem Estado 237

Mas a falha mais importante é que, no sistema democrático, quando alguém


escolhe um político em detrimento de outro, não consegue assim o que escolhe;
obtém-se o que a maioria escolhe. Portanto, há pouco incentivo para se esforçar
na votação racional ou informada (consulte a Seção 9.4.3).

10.10 Monopolização
Alguns acreditam que um sistema anarquista de mercado livre evoluiria para um
Estado, conforme uma agência de proteção monopolizasse o setor.
No sistema atual, quase todos os monopólios e condições semelhantes a mono-
pólio são criados pela intervenção do governo, geralmente motivado por grupos de
interesses especiais.27 Para endossar a objeção à monopolização, portanto, preci-
samos de algum motivo para acreditar que o setor de proteção difere da maioria
das outras indústrias de alguma forma que a tornaria particularmente propensa à
monopolização na ausência de intervenção do Estado.

10.10.1 A vantagem do tamanho em combate


Robert Nozick afirma que o setor de proteção sucumbiria ao monopólio natural
porque o valor do serviço de uma empresa é determinado pelo poder relativo dessa
empresa em comparação com outras empresas.28 Nozick imagina agências lutando
para resolver disputas entre clientes. Se uma agência for mais poderosa que outra,
a agência mais poderosa triunfará. Reconhecendo que é melhor ser protegido pela
agência mais forte, os clientes das agências mais fracas migrarão para agências
mais fortes, tornando-as ainda mais fortes. Como esse tipo de processo tende a
amplificar as diferenças iniciais de poder, o resultado final é que uma agência detém
todo o poder; isto é, um monopólio da indústria. Nozick continua explicando como
essa agência de proteção dominante pode se transformar em um governo de pleno
direito.29
Se a tarefa para a qual alguém contrata uma agência de proteção é a de comba-
ter outras agências, a análise de Nozick estaria correta. Mas não se contrata uma
agência de proteção para combater outras agências, nem as agências prestam esse
serviço (Seção 10.3). Contrata-se uma agência de proteção para impedir que cri-
minosos vitimizem alguém ou para rastrear criminosos após o fato. Nesta tarefa,
a agência de proteção deve ter o poder de prender criminosos, mas não precisa
derrotar outras agências de proteção, uma vez que outras agências não estão no
negócio de proteger criminosos (Seção 10.4).
27
Ver Brozen 1968; Friedman 1989, capítulos 6–7; Green 1973.
28
Nozick 1974, 15–17.
29
Nozick 1974, capítulo 5.
10. Segurança Individual em uma Sociedade sem Estado 238

Nozick considera a possibilidade de agências dependerem de arbitragem de


terceiros, que ele supõe que ocorreria apenas se duas agências tivessem força apro-
ximadamente igual. Contrariando Nozick, a solução pacífica da arbitragem não
depende da suposição de que as agências tenham força aproximadamente igual
nem que o combate entre elas resulte em impasse. Depende apenas da suposição
de que o combate físico entre as agências é mais caro do que a arbitragem, uma
suposição que é praticamente garantida em quase todos os conflitos.
Nozick supõe que a arbitragem levaria a “um sistema judicial federal unificado”
ao qual todos estariam sujeitos.30 Ele então prossegue, em seu raciocínio subse-
quente sobre o surgimento de um Estado, para falar das atividades da “associação
protetora dominante”, deixando o leitor supor que um sistema judicial unificado é
equivalente a uma agência de proteção dominante. Ele não explica por que o setor
de arbitragem seria controlado por um monopólio nem por que um monopólio de
arbitragem seria equivalente a uma agência de proteção monopolista.

10.10.2 Determinando o tamanho eficiente das empresas


Sob algumas condições, um monopólio pode se desenvolver naturalmente em um
mercado livre. Se o tamanho mais eficiente para uma empresa em um setor es-
pecífico é tão grande que só há espaço para uma empresa no mercado, então as
condições estão propícias para um monopólio natural.31
As grandes empresas geralmente se beneficiam de economias de escala. Por
exemplo, na indústria automobilística, os menores custos de produção por uni-
dade são alcançados ao operar um tipo de fábrica capaz de produzir dezenas ou
centenas de milhares de carros por ano. Como existe um grande custo fixo para
a construção de uma fábrica – um custo que deve ser suportado para produzir
carros, mas que não aumenta à medida que se constrói mais carros até a capa-
cidade máxima da fábrica – é mais economicamente eficiente usar a fábrica com
capacidade total depois de construída. Qualquer empresa que tente vender menos
de muitos milhares de carros por ano está, portanto, em uma desvantagem com-
petitiva contra empresas maiores – ela será forçada a cobrar preços mais altos por
seus carros. Economias de escala, no entanto, operam apenas até certo ponto –
não há maior eficiência envolvida na operação de dez fábricas de automóveis do
que na operação de uma.
Por outro lado, grandes empresas também sofrem com deseconomias de escala.
Fatores que tendem a tornar uma empresa maior menos eficiente incluem buro-
cracia, alienação por parte dos funcionários, aumento dos custos de comunicação
dentro da organização e aumento do risco de duplicação de esforços.32
30
Nozick 1974, 16.
31
Ver Friedman 1990, 264.
32
Ver Canbäck et al. 2006 para discussão teórica e empírica de economias de escala, desecono-
10. Segurança Individual em uma Sociedade sem Estado 239

Como as economias de escala deixam de se aplicar após um certo ponto e as


deseconomias de escala começam a se aplicar a um certo ponto, há um limite para
o tamanho de uma empresa eficiente (ver Figura 10.3). Esse limite varia de acordo
com o setor. Na indústria automobilística, as empresas mais eficientes são muito
grandes devido à natureza das fábricas de automóveis, que custam centenas de
milhões de dólares. Nas indústrias com custos fixos mais baixos, as empresas mais
eficientes serão menores.
E o setor de proteção? Os custos fixos para uma agência de proteção são míni-
mos. O proprietário da empresa deve ter fundos suficientes para contratar alguns
funcionários e equipá-los com armas e ferramentas para execução e investigação.
Nenhuma fábrica cara, grande área de terreno ou grande reserva de capital é neces-
sária. Não há economias de escala significativas óbvias. Parece, portanto, que não
há pressão econômica para a formação de grandes empresas nesse setor, e o setor
provavelmente conterá um número muito grande de pequenas e médias empresas.
As grandes empresas estariam em desvantagem, pois sofreriam as deseconomias
usuais de escala sem colher economias compensatórias significativas de escala.

10.10.3 Monopólio do governo


Como no caso das objeções anteriores, a ameaça de monopólio representa uma
objeção mais séria ao governo do que à anarquia. Não precisamos apresentar ar-
gumentos para mostrar que um governo pode se tornar um monopólio, porque
um governo, por definição, já é um monopólio. Quaisquer que sejam os males
a serem temidos pela monopolização das indústrias, por que não devemos temer
precisamente esses males do governo? O fato de uma organização ser rotulada
de “governo” em vez de “empresa” dificilmente tornará suas ações benéficas se a
estrutura de incentivo real que ela enfrentar for a mesma de uma empresa mono-
polista.
Qual é o problema dos monopólios? A teoria econômica ensina que um monopó-
lio restringirá a produção a níveis socialmente inferiores, enquanto eleva os preços
a níveis que maximizam seus próprios lucros, mas diminuem a utilidade total da
sociedade. Se, por exemplo, uma empresa detivesse o monopólio da produção de
calçados, haveria muito poucos sapatos e eles seriam muito caros.33
mias de escala e determinação de tamanho eficiente para empresas de um setor. Como Canbäck
et al. ressalta, muitas vezes existem empresas de vários tamanhos em um setor, sugerindo que
há uma gama significativa de tamanhos sobre os quais os custos médios por unidade de produção
permanecem aproximadamente constantes. Veja Carson 2008, capítulos 5–9, para uma discussão
mais aprofundada sobre a ineficiência de grandes empresas. Carson (capítulo 3) argumenta que
a intervenção do governo facilitou a sobrevivência de empresas muito maiores que o tamanho
mais eficiente.
33
Friedman 1990, 248–55, 466–8.
10. Segurança Individual em uma Sociedade sem Estado 240

Figura 10.3: Curva de custo médio para uma empresa em um setor com economias e
deseconomias de escala. O ponto A representa o tamanho mais eficiente (o nível de
saída com menor custo médio)

Esse é o problema de um monopolista racionalmente interessado. Mas as coi-


sas são piores do que isso, porque não podemos nem assumir que um monopolista
será racional. A concorrência faz as empresas agirem como algo aproximando ma-
ximizadores racionais de lucro, eliminando aqueles que não se comportam dessa
maneira. Na ausência de pressões competitivas, uma empresa tem muito mais
margem de manobra. Os otimistas podem observar que uma organização com
um monopólio robusto pode sobreviver enquanto sacrifica magnanimamente os lu-
cros para o bem da sociedade, se isso acontecer. Mas também pode sobreviver
enquanto se apega a métodos de produção ineficientes e ao resistir à inovação;
recompensa pessoas bem conectadas, mas incompetentes; desperdiça dinheiro com
planos incompletos e motivados ideologicamente; ignora evidências de insatisfa-
ção do cliente; e assim por diante. Assumir que o privilégio de monopólio será
usado apenas para o bem parece ser um exercício de pensamento positivo. Quase
todo mundo aceita isso no caso de monopólios não-governamentais; nada essenci-
almente muda quando o rótulo “governo” é aplicado a uma agência de proteção
monopolista.

10.11 Colusão e cartelização


Além do monopólio, existe uma segunda prática anticompetitiva que pode au-
mentar os lucros das empresas em um determinado setor. Essa é a prática de
10. Segurança Individual em uma Sociedade sem Estado 241

formar um cartel, uma associação de empresas que concordam entre si em manter


os preços em um nível artificialmente alto ou de outra forma cooperar para pro-
mover seus interesses mútuos. Como alertou Adam Smith: “Pessoas do mesmo
ramo raramente se reúnem, mesmo para alegria e divergência, mas a conversa ter-
mina em uma conspiração contra o público ou em algum artifício para aumentar
os preços”.34 Alguns críticos argumentam que o serviço de proteção ficaria sob o
domínio de um consórcio desse tipo, levando a resultados semelhantes aos de um
monopólio.

10.11.1 O problema tradicional dos carteis


A maioria dos carteis tem dificuldade em aplicar suas políticas. Suponha que
o preço de mercado competitivo para widgets seja de US$ 100 por widget. Os
líderes da indústria de widgets, no entanto, em uma recente reunião de bastidores,
concordaram que US$ 200 é um preço muito melhor. Uma pequena empresa, a
Sally’s Widgets, fica insegura. Enquanto as empresas de cartel cobram US$ 200,
Sally decide cobrar apenas US$ 150 por widget.35 O que acontece?
A esses preços, quase todos os clientes preferem um widget da Sally em vez de
um widget do cartel. Antes uma pequena empresa em dificuldades, Sally’s Widgets
de repente não consegue se expandir rápido o suficiente para todos os novos clientes
que se aproximam. O cartel, cansado de perder negócios, acaba abandonando seu
esquema e competindo com Sally pelo preço, mas não antes que Sally’s Widgets
tenha desfrutado do maior boom de vendas de todos os tempos, às custas dos
líderes do setor. O incidente é uma lição para os participantes de outros setores,
onde as empresas menores que lutam para se estabelecer sonham que, um dia, os
líderes de seu setor também criarão um esquema de fixação de preços.

10.11.2 Cartelização por ameaça de força


Algumas indústrias podem diferir materialmente da famosa indústria de widgets
competitivos. Nos setores em que o sucesso de uma empresa depende de suas boas
relações com outras empresas, o conluio anticompetitivo pode ser mais viável, por-
que as grandes empresas do setor podem punir efetivamente aqueles que rejeitam
34
Smith 1979, 145. Smith continua argumentando que não se pode proibir tais reuniões sem
violar indevidamente a liberdade, mas que não se deve fazer regulamentos que realmente induzam
os empresários a se reunir.
35
Em teoria, assumindo informações perfeitas e widgets idênticos, Sally poderia maximizar seu
lucro cobrando US$ 199 por widget. Mas, na realidade, uma maior diferença de preço pode ser
necessária para convencer os consumidores a mudar de marca. Uma diferença de preço de US$
50 cria um argumento poderoso para mudar, deixando a Sally com uma margem de lucro muito
confortável.
10. Segurança Individual em uma Sociedade sem Estado 242

as políticas de cartel. Tyler Cowen e Daniel Sutter sugerem que isso pode ser ver-
dade no setor de proteção porque o sucesso de uma agência de proteção depende de
sua capacidade de resolver pacificamente disputas com outras agências.36 Cowen e
Sutter imaginam as agências de proteção em uma determinada área formando um
acordo multilateral único, detalhando os procedimentos para a solução de contro-
vérsias envolvendo clientes de diferentes agências. Tendo resolvido esse problema,
as agências poderão concordar em fixar preços em níveis artificialmente altos e
recusar-se a cooperar com quaisquer novas empresas que possam posteriormente
entrar no mercado.
O acordo sobre procedimentos para arbitragem de disputas seria auto-aplicável,
no sentido de que as empresas que escolherem violá-lo estariam sabotando a si
mesmas (Seção 10.3). Mas quem aplicaria os acordos anticompetitivos para fixar
preços e excluir novas agências? Cowen e Sutter imaginam que o cartel exclui
novos entrantes no setor, recusando-se a aceitar arbitragem com eles; os membros
do cartel resolvem quaisquer disputas com não-membros por meio da violência.37
O mesmo mecanismo é usado para fazer cumprir o acordo de fixação de preços:
se uma empresa membro estabelecer preços muito baixos, os membros restantes
expulsarão a agência pela redução de preços e, a partir de então, tratá-la como
qualquer outra forasteira, recusando a arbitragem em quaisquer disputas futuras
com a agência excluída.38
Embora esse pareça ser um mecanismo possível para assumir o controle do
setor, não acho muito plausível que o mecanismo seja empregado. Suponha que a
agência A, que é membro do cartel, tenha uma disputa com a agência B, que não
é membro. A deveria estar preparada para entrar em guerra com B, em vez de
resolver a disputa pacificamente. Já vimos que existem motivos poderosos para
as agências de proteção evitarem confrontos violentos, principalmente porque (a)
o conflito violento é extremamente caro e (b) a maioria das pessoas tem valores
contra o assassinato. Portanto, para A se envolver em conflito armado com B, A
teria que estar disposta a sacrificar seus próprios interesses em prol da manutenção
do cartel.39 Como a motivação para ingressar no cartel, para começar, era de
interesse próprio econômico, não é plausível que A faça esse sacrifício.
Talvez A possa ser movida para lutar pelo cartel por uma ameaça adicional
feita por outros membros do cartel: se A resolver sua disputa com B pacificamente,
então outros membros do cartel entrarão em guerra contra A sempre que tiverem
36
Cowen 2007b; Cowen e Sutter 2007.
37
Cowen e Sutter 2007, 318.
38
Cowen (2007b, 272-3) também sugere que não-membros possam ter suas vantagens recusadas,
como extradição de criminosos e acesso a bancos de dados para rastrear criminosos. Por serem
sanções relativamente menores, concentro-me no mecanismo coercitivo de aplicação.
39
Como Caplan e Stringham (2007, 299–302) afirmam, as agências do cartel enfrentam um
dilema de prisioneiro entre si, no qual vale a pena renegar o acordo de punir agências externas.
10. Segurança Individual em uma Sociedade sem Estado 243

uma disputa com A. E o que motivaria os outros membros do cartel a fazer isso?
Bem, o fato de que, se não o fizerem, outros membros entrarão em guerra contra
eles, e assim por diante. Esse pensamento, no entanto, parece-me uma digressão
de crescente implausibilidade. Se era implausível que A fosse à guerra contra B
por não ser membro do cartel, ainda é menos plausível que outra agência, C,
fosse à guerra contra A por não entrar em guerra por B por não ser membro do
cartel. Se A deseja evitar conflitos armados, sua melhor aposta seria evitar o
conflito imediato com B, talvez fazendo o possível para ocultar seu acordo com B
dos outros membros do cartel e se preocupar com possíveis conflitos futuros com
outras agências posteriormente.

10.11.3 Cartelização por negação de proteção estendida


George Klosko propõe um mecanismo diferente para cartelização do setor de pro-
teção.40 Ele imagina uma coleção de condomínios fechados, cada um servido por
uma agência de proteção privada. Os clientes desejariam “proteção estendida”;
isto é, alguém gostaria de ser protegido não apenas no próprio bairro, mas tam-
bém quando deixa o bairro para ir trabalhar, visitar amigos, fazer compras e assim
por diante. Para atender a essa demanda, as agências de proteção precisariam tra-
balhar juntas, desenvolvendo procedimentos comuns e concordando em proteger
os clientes uns dos outros. Mas uma vez que as agências formaram um consórcio
para fornecer proteção estendida, o consórcio poderia evoluir facilmente para um
cartel projetado para aumentar os preços, limitar a concorrência e assim por di-
ante. O cartel limitaria a concorrência ao negar proteção estendida aos clientes de
agências não-membras. Como quase todos desejam proteção estendida, as agências
não-membras seriam efetivamente excluídas do mercado. O cartel aplicaria suas
políticas internamente, ameaçando expulsar membros que violassem as políticas
do cartel.
Como esse resultado pode ser evitado? Vamos começar imaginando um setor
de proteção competitivo e não-cartelizado, e considerar se é provável que seja for-
necida proteção estendida sem o desenvolvimento de um cartel do setor. Suponha,
como Klosko, que as agências de proteção sejam contratadas por associações de
proprietários para proteger áreas específicas (fechadas ou não). Isso pode incluir
áreas residenciais e comerciais.
Agora, suponha que a associação de proprietários esteja decidindo quem contra-
tar para segurança do bairro. A Agência A se oferece para proteger os residentes,
e somente os residentes, de crimes que ocorrem no bairro. Se um de seus guardas
de segurança testemunhar um crime, ele primeiro tentará, de alguma maneira,
verificar se a vítima é residente ou visitante. Se a vítima parecer um visitante,
40
Klosko 2005, pp. 30–3.
10. Segurança Individual em uma Sociedade sem Estado 244

o guarda permitirá que o crime prossiga. A Agência B, por outro lado, oferece
o combate a todos os crimes do bairro, seja quem for a vítima. Há duas razões
evidentes pelas quais a oferta de A será a rejeitada: primeiro, os proprietários pro-
vavelmente perceberão que a ideia de verificar a identidade de uma vítima antes
de agir para impedir um crime como impraticável e imoral; segundo, a maioria
das pessoas gostaria de receber visitantes no bairro e gostaria que esses visitantes
estivessem seguros enquanto estiverem no bairro. A Agência B ganhará, portanto,
o contrato.
Um ponto semelhante se aplica ainda mais claramente aos proprietários de
imóveis comerciais. Não é preciso grande altruísmo para um empresário reconhecer
que é melhor fornecer um ambiente seguro não apenas para si mesmo, mas também
para seus clientes e funcionários. Se outras pessoas que não o proprietário forem
frequentemente atacadas ou roubadas nas instalações da empresa, pode ser difícil
administrar o negócio. Portanto, as empresas pagarão agências de proteção para
proteger todos em suas instalações.
Assim, a proteção estendida é fornecida sem a necessidade de conluio em todo
o setor. Cada agência de proteção, agindo de forma independente, simplesmente
fornece o que seus clientes desejam. Se várias agências decidirem formar um con-
sórcio e anunciar que, a partir de agora, apenas protegerão os clientes das agências
membros, todas as agências do consórcio perderão rapidamente quase todos os
seus contratos.41

10.12 Associações de proprietários residenciais


(APR) versus governo
Imaginei associações de proprietários residenciais e associações de proprietários
geralmente contratando agências para fornecer segurança em bairros ou distritos
comerciais específicos. Por que essas associações existiriam em uma sociedade
anárquica e por que não se qualificam como governos?
O desenvolvedor de um complexo habitacional cria uma associação de pro-
prietários, aos quais os residentes são obrigados a participar como condição para
comprar uma unidade nesse complexo, com o entendimento de que a associação é
anexada à propriedade para que todos os proprietários subsequentes sejam sujeito
à mesma condição. O desenvolvedor cria essa instituição porque aumenta o valor
da propriedade; a maioria dos compradores em potencial está disposta a pagar
mais por uma unidade do complexo, sabendo que todos no complexo serão mem-
41
Klosko (2005, 31) também sugere que as agências devem se unir “para regularizar seus
padrões e procedimentos”. Não mencionei isso no texto porque acho incerto o que Klosko tem
em mente ou por que motivo ele faz essa suposição.
10. Segurança Individual em uma Sociedade sem Estado 245

bros da associação do que seriam se não houvesse associação ou se apenas alguns


residentes fossem membros dela.42 Isso acontece porque uma associação a qual
todos pertencem pode fornecer bens importantes, como um conjunto de políticas
uniformes para residentes ou (particularmente em uma sociedade anarquista) ar-
ranjos para impedir o crime no projeto que está sendo desenvolvido. Os APRs
têm se espalhado rapidamente nos Estados Unidos desde 1960 e agora cobrem 55
milhões de pessoas.43 Em uma sociedade anarquista, provavelmente seriam ainda
mais difundidas.
Como os APRs podem estabelecer regras para os residentes, que podem ser
aplicadas por meio da agência de proteção da APR, pode-se pensar que uma APR
equivale a um tipo de governo, embora um governo localizado muito pequeno, para
que o sistema aqui projetado não seja afinal, a anarquia.44
Na questão semântica de saber se uma APR se qualifica como um governo
pequeno, vale a pena notar que essas entidades realmente existem atualmente e
algumas até contratam seus próprios guardas de segurança, mas geralmente não
são consideradas governos. Pode-se sugerir que se qualificariam como “governos”,
mas pela existência de outros órgãos com poder sobre eles; ou seja, as entidades
realmente chamadas de “governos” essa questão semântica, no entanto, não tem
grande importância, e não estou preocupado em contestar a posição de quem deseja
descrever minha proposta como um governo muito pequeno e descentralizado, e
não uma anarquia. O que é importante, no entanto, é ver como uma APR difere
das instituições tradicionalmente chamadas de “governos”. Parece-me que existem
pelo menos três diferenças importantes.
A primeira é que, devido ao seu tamanho pequeno, os residentes têm uma
chance muito maior de influenciar as políticas de sua APR do que de influenciar
as políticas de um governo nacional, da província ou mesmo típico de uma cidade.
Por esse motivo, é mais provável que os membros votem de maneira relativamente
racional e informada nas eleições da APR, e é mais provável que as APRs sejam
sensíveis às necessidades e desejos de seus membros do que um governo nacional.
Segundo, mais a propósito aos temas centrais deste livro, uma APR tem o
consentimento de seus membros através de um contrato real e literal, em contraste
com o contrato social meramente hipotético ou mitológico oferecido pelos governos
tradicionais. Isso lhes dá uma legitimidade moral que nenhum governo tradicional
pode reivindicar.
Terceiro, a competição entre conjuntos residenciais com diferentes APRs é
muito mais significativa do que a competição entre os governos tradicionais. Indi-
víduos insatisfeitos com a APR podem vender seu imóvel e se mudar para outro
42
Agan e Tabarrok (2005), examinando cinco códigos postais no norte da Virgínia, descobriram
que as APRs aumentavam os valores dos imóveis em uma média de cerca de 5,4%, ou US$ 14.000.
43
Agan e Tabarrok 2005, 14.
44
Agan e Tabarrok (2005) se referem as APRs como “governos privados”.
10. Segurança Individual em uma Sociedade sem Estado 246

conjunto residencial. Os custos da realocação não são triviais, mas também não
são enormes. Por outro lado, as dificuldades de se mudar para um país totalmente
novo são muito maiores, se é que é permitido se mudar.
Como resultado desses fatores, a pressão competitiva entre os governos é quase
inexistente, e os governos podem, portanto, se dar ao luxo de responder muito
menos a seus cidadãos do que uma APR típica responde a seus membros.

10.13 Conclusão
Todos os sistemas sociais são imperfeitos. Em toda sociedade, as pessoas às vezes
sofrem com crimes e injustiças. Numa sociedade anarquista, isso continuaria sendo
verdade. O teste do anarquismo como ideal político é se ele pode reduzir a quanti-
dade de injustiça sofrida em relação ao melhor sistema alternativo, que considero
ser uma democracia representativa. Argumentei que um tipo específico de sistema
anarquista, que emprega um mercado livre para a provisão de segurança, mantém
a promessa de uma sociedade mais segura, mais eficiente e mais justa.
A natureza radical desta proposta geralmente gera forte resistência: diz-se que
a justiça não deve estar à venda; que as agências estarão em constante guerra umas
com as outras; que servirão aos criminosos em vez de suas vítimas; que servirão
apenas aos ricos; que não serão capazes de nos proteger, assim como o governo; que
se transformarão em agências de extorsão; que um monopólio ou cartel evoluirá
para explorar os clientes. Essas objeções surgem bastante quando estudantes, pro-
fessores e leigos instruídos são introduzidos pela primeira vez à ideia de serviços de
proteção não-estatais. Mas se examinarmos a proposta com mais cuidado e maior
extensão, veremos que nenhuma dessas objeções é bem fundamentada. Os anar-
quistas têm argumentos bem fundamentados, fundamentados na teoria econômica
e em premissas realistas sobre a psicologia humana, sobre como uma sociedade
anarquista evitaria cada um dos desastres que os críticos temem.
A maioria das objeções levantadas contra a anarquia de fato se aplica de ma-
neira mais clara e vigorosa ao governo. Esse fato é muitas vezes esquecido porque,
quando confrontados com ideias radicais, tendemos a procurar apenas objeções
às novas ideias, em vez de objeções ao status quo. Por exemplo, a objeção mais
comum ao anarquismo, a objeção de que as agências de proteção entrariam em
guerra umas com as outras, ignora tanto o custo extremo do combate quanto a
forte oposição que a maioria das pessoas sente ao assassinar outras pessoas. A
ameaça muito real de guerra entre governos parece uma preocupação muito mais
séria do que conflitos entre agências privadas de proteção.
Da mesma forma, a objeção comum de que o setor de segurança será monopoli-
zado carece de fundamento. Depois que abandonamos a noção de que as agências
de proteção lutariam entre si, os recursos econômicos do setor, particularmente os
10. Segurança Individual em uma Sociedade sem Estado 247

custos fixos mínimos para uma empresa de segurança, devem nos levar a prever
um grande número de pequenas empresas, em vez de uma única e enorme empresa.
Por outro lado, um sistema governamental é monopolista por definição e, portanto,
deve sofrer os problemas usuais dos monopólios.
As vantagens centrais do sistema anarquista de livre mercado sobre um sistema
governamental são duas: primeiro, o sistema anarquista repousa na cooperação vo-
luntária e, portanto, é mais do que um sistema que se baseia em coerção. Segundo,
o sistema anarquista incorpora significante concorrência entre os provedores de se-
gurança, levando a maior qualidade e menores custos. Como resultado desses
recursos do sistema, os indivíduos que vivem em uma anarquia de livre mercado
podem esperar obter maior liberdade e maior segurança a um custo menor do que
aqueles sujeitos ao sistema tradicional de monopolização coercitiva do setor de
segurança.
11

Justiça Criminal e Resolução de


Disputas

Os anarquistas libertários imaginam um sistema no qual as disputas entre indiví-


duos são resolvidas pacificamente por meio da mediação de árbitros privados sábios
e justos. Isso é ilusão? No presente capítulo, reviso várias perguntas e objeções a
respeito desse quadro de justiça na sociedade anarquista.

11.1 A integridade dos árbitros


Que mecanismo manterá os árbitros honestos e imparciais? Podemos resolver
melhor essa questão, considerando primeiro com mais detalhes o que torna a ar-
bitragem um mecanismo viável de resolução de disputas. Se duas partes tiverem
uma disputa que não puderem resolver por meio de discussão direta entre si, po-
derão, no entanto, conseguir chegar a um acordo sobre um procedimento geral
para resolver sua disputa. Isso depende de um fato contingente, porém robusto,
sobre os seres humanos em uma ampla gama de culturas: o apelo a um terceiro
neutro é amplamente percebido como um mecanismo justo e razoável de resolução
de disputas.
Mas como é que duas partes que discordam de alguma questão prática conse-
guem chegar a um acordo de terceiros para resolver a disputa? Por que a primeira
disputa não é simplesmente substituída por uma segunda sobre quem recorrer para
resolver a primeira disputa? Novamente, isso depende de um fato contingente, mas
robusto, sobre as percepções normativas humanas: as pessoas tendem a concordar
em grande parte sobre quem constitui um juiz imparcial.
Mas por que ambas as partes em uma disputa buscariam um juiz imparcial,
em vez de cada uma insistir em um juiz tendencioso a seu favor, como um amigo
pessoal ou membro da família? A razão é que eles estão tentando chegar a uma

248
11. Justiça Criminal e Resolução de Disputas 249

solução pacífica da disputa original. A ideia fundamental por trás da arbitragem


como estratégia para alcançar tal solução é que as partes buscam algo em que
possam concordar que possa ser usado para gerar uma solução para a disputa
original. Dado esse objetivo, faz sentido que ambas as partes escolham um árbitro
que geralmente é visto em sua sociedade como justo. Cada um deles não deve
propor um árbitro obviamente tendencioso a seu favor, uma vez que essa não seria
uma estratégia viável para gerar o ponto de acordo necessário. Obviamente, se as
duas partes não desejam uma solução pacífica de sua disputa, podem simplesmente
lutar contra isso; não há necessidade de propor um árbitro tendencioso ou corrupto
nesse caso.
Com base nesse entendimento da lógica da arbitragem como uma solução para
o conflito, um árbitro tem um ativo crítico: sua reputação de honestidade, im-
parcialidade e sabedoria. Essa reputação é o determinante central da qualidade
percebida de seu produto, e somente se ele zelosamente proteger esse ativo, po-
derá esperar que as partes contenciosas, frequentemente incapazes de concordar
com qualquer outra coisa, possam concordar com ele como pessoa para resolver
suas disputas. Se um árbitro adquirir reputação de corrupto, preconceituoso ou to-
mador de decisões caprichosas, seus negócios se desintegrarão rapidamente. Uma
empresa de arbitragem, portanto, precisaria ter cuidado na escolha de árbitros,
sabendo que um juiz corrupto poderia arruinar os negócios.
Em muitos casos, pode ser que, não importa como a disputa seja resolvida,
uma parte ou outra considerará a decisão injusta após o fato. O melhor que um
árbitro pode fazer nesse caso é tomar uma decisão que será percebida como justa
pela maioria dos observadores terceiros. É a percepção de tais observadores que
determinará quão bem a reputação do árbitro é mantida e, portanto, quantos
negócios ele pode esperar atrair no futuro. É certo que a percepção do público é
um guia imperfeito para a justiça, pois o público pode interpretar mal um caso ou
ter valores incorretos. No entanto, o mecanismo de reputação fornece incentivos
para os árbitros defenderem a justiça pelo menos aproximadamente na maioria dos
casos.
No sistema atual, por outro lado, os mecanismos para garantir a integridade
dos juízes são muito mais fracos. As decisões dos juízes são analisadas apenas
por outros juízes, com exceção dos membros da Suprema Corte, cujas decisões
não são analisadas por ninguém. Se o sistema judicial adquire uma reputação de
injusto, ineficiente e assim por diante, seus membros podem, no entanto, manter
suas posições sem medo de serem suplantados pela concorrência.
11. Justiça Criminal e Resolução de Disputas 250

Figura 11.1: Um diagrama da teoria padrão dos preços mostra o preço de mercado com-
petitivo de um bem na interseção da curva de oferta, conforme determinado pelos custos
marginais de produção, e a curva de demanda, determinada pela utilidade marginal do
consumo.

11.2 Manipulação corporativa


Por que as empresas não manipulam o sistema exigindo que funcionários ou cli-
entes assinem um contrato para que todas as disputas sejam resolvidas por um
árbitro tendencioso a favor da empresa, como um árbitro empregado da própria
corporação?
Aqui está uma pergunta mais fundamental: por que as empresas não fazem
demandas ilimitadas para funcionários e clientes? Por que não exigir que os clientes
deem à empresa todo o dinheiro que têm? Por que não exigir que os funcionários
trabalhem de graça? Esses acordos certamente seriam mais favoráveis para a
empresa do que o tipo de acordo que as empresas realmente oferecem.
Para entender por que as empresas não se comportam dessa maneira, devemos
primeiro considerar como os preços de mercado são determinados. Para qualquer
empresa, existe um nível ótimo em que a empresa deve definir seus preços para
11. Justiça Criminal e Resolução de Disputas 251

maximizar seu lucro. Se definir preços abaixo desse nível, a empresa reduzirá seu
lucro total devido ao lucro por unidade. Se definir seus preços acima desse nível, a
empresa reduzirá seus lucros totais devido ao menor volume de produto vendido.
Uma explicação precisa do nível ótimo de preços é apresentada na teoria padrão
dos preços, na qual se diz que esse preço se encontra na interseção das curvas de
oferta e demanda (ver Figura 11.1).1 Para nossos propósitos, o ponto importante
é simplesmente que as forças do mercado determinam um nível ótimo de preços,
de modo que a empresa se prejudica se exceder esse nível. Por isso, o plano de
fazer exigências legais irracionais é essencialmente equivalente a um plano para
aumentar o preço do produto. Suponha que o negócio de widgets da Sally exija
que todos os clientes concordem que, em caso de disputa relacionada à venda de
um widget da Sally, incluindo reclamações relacionadas à qualidade ou segurança
do produto, o cliente aceitará uma arbitragem vinculada à filha de nove anos de
idade de Sally, a Susan. Sally’s Widgets está então, em efeito, aumentando o preço
dos widgets: além dos US$ 150 que se deve pagar por um widget, o cliente também
deve aceitar o risco de ter uma disputa com a empresa resolvida pela filha da
proprietária. Os clientes podem considerar isso indesejável.2 Podem até tomar a
política como um sinal de que a empresa pretende enganar seus clientes. Por esse
motivo, se US$ 150 for o preço de mercado dos widgets, a adição de Sally com essa
estipulação irracional em relação à resolução de disputas com sua empresa terá o
efeito de colocar o preço real de seu produto acima do nível de mercado e, assim,
diminuir o lucro total de Sally.
E se o preço de mercado dos widgets for de US$ 200 e Sally cobrar apenas
US$ 150, deixando uma margem de manobra para fazer exigências adicionais aos
clientes? Mesmo neste caso, insistir que todas as disputas devem ser resolvidas
por Susan não é a melhor opção de Sally para tirar proveito dessa margem de
manobra. O motivo é que provavelmente os clientes atribuam um valor negativo
maior ao procedimento de resolução de disputas de Sally do que o valor positivo que
Sally atribui a ele, porque os clientes tendem a atribuir valor negativo à injustiça
percebida, além dos custos monetários potenciais de procedimentos injustos. Em
vez disso, a melhor opção de Sally (maximizar o lucro) é simplesmente aumentar
o preço em US$ 50.
Os mesmos princípios se aplicam às relações empregador-empregado. Há um
salário ideal para um empregador pagar de tal maneira que, se o empregador
paga mais do que isso, reduz seu lucro total devido ao aumento dos custos traba-
lhistas, mas se paga menos, reduz seu lucro total devido à dificuldade em atrair
funcionários desejáveis. Qualquer disposição em um contrato de trabalho que os
1
Ver Friedman 1990 para uma descrição acessível da teoria padrão.
2
Para uma perspectiva diferente, veja Caplan (2010), que sugere que a maioria dos clientes
não se preocuparia com essa cláusula, uma vez que eles não esperam processar a empresa.
11. Justiça Criminal e Resolução de Disputas 252

funcionários considerem injusta ou simplesmente desvantajosa equivale a um custo


extra para aceitar um emprego com esse empregador ou, equivale a um declínio nas
recompensas do trabalho. Uma disposição que normalmente seria tomada como
sinal de intenção de enganar os funcionários normalmente reduziria a atratividade
de qualquer trabalho que valha a pena se inserir. Se um empregador sente que está
dando muito aos funcionários, faria mais sentido para ele simplesmente oferecer
salários mais baixos.
Empiricamente, os negócios nas economias de livre mercado raramente assu-
mem posições inacessíveis em disputas com clientes. O exemplo a seguir não é um
tipo incomum de experiência do consumidor: eu compro um produto da empresa
Target local, levo para casa, abro a embalagem e decido que não gosto. Volto à loja
e peço meu dinheiro de volta. “Há algo de errado com isso?”, pergunta o caixa.
“Não”, eu digo, “acabei de decidir que não gosto. Então, quero devolver.” Minha
posição nesta disputa, se é que se pode chamar assim, é totalmente caprichosa.
Adquiri o produto voluntariamente, sei que eles não poderão revendê-lo depois que
o abri e não tenho nenhuma reclamação real sobre o produto. O produto não está
com defeito, nem foi deturpado pelo fabricante ou pela loja. Não tenho argumen-
tos para explicar por que eles deveriam aceitar minha demanda. No entanto, na
minha experiência, a empresa nunca recusou um retorno.
Essa evidência sobre o comportamento dos negócios é obviamente anedótica, e
certamente outros poderiam relatar histórias de experiências insatisfatórias. Não
obstante, não acho que seja uma ilustração injusta da tendência geral do mercado:
é muito mais provável que os consumidores assumam posições irracionais – e se
deem bem – do que as empresas que financiam.

11.3 Recusando arbitragem


Discutimos as razões para aceitar a arbitragem como um mecanismo de resolução
de disputas. Mas e se, em um caso específico, você tiver fortes razões para acreditar
que qualquer árbitro respeitável que encontrar irá decidir contra você? Isso pode
ser verdade por vários motivos, incluindo o fato de que você violou os direitos de
outra pessoa e está tentando se safar; que você está fora de sintonia com os valores
da maioria da sua sociedade, de modo que o que considera um comportamento
aceitável um árbitro típico não considera; ou que exista uma grande quantidade
de evidências enganosas que indiquem que você é culpado de algum crime do qual
é de fato inocente. Em qualquer um desses casos, pode parecer que você deveria
rejeitar a arbitragem.
Mas mesmo nesses casos, você provavelmente será forçado a aceitar arbitragem.
Se você rejeitar a opção de arbitrar sua disputa, sua agência de proteção provavel-
mente fará a inferência razoável de que você está errado de acordo com as normas
11. Justiça Criminal e Resolução de Disputas 253

vigentes, já que a explicação mais provável para sua rejeição à arbitragem é que
você espera que qualquer árbitro respeitável decida contra você. Pelas mesmas
razões pelas quais as agências de proteção não defenderão criminosos (Seção 10.4),
elas não defenderão as pessoas que rejeitam a arbitragem como forma de resolução
de disputas. As agências de proteção anteciparão essa eventualidade, escrevendo
disposições em seus contratos, especificando os procedimentos que os clientes de-
vem aceitar para resolver disputas e absolvendo a empresa da responsabilidade de
proteger os clientes que violarem esses procedimentos.
Em alguns casos, esse sistema geraria resultados injustos ou eticamente obje-
táveis, como no caso em que fortes evidências apontam para a culpa de alguém
que é de fato inocente, ou onde os valores da maioria da sociedade estão errados.
Mas o sistema anarquista, no entanto, funciona tão bem quanto poderia ser ra-
zoavelmente solicitado. Em qualquer sistema de justiça que funcione, seja com
base no governo ou com base no mercado, se evidências poderosas, mas enganosas
apontam para a culpa de alguém, essa pessoa será tratada como culpada. Somente
o padrão inatingível de prova absolutamente conclusiva de culpa poderia eliminar
a possibilidade de evidências enganosas que levassem à punição dos inocentes.
Da mesma forma, todo sistema social gera resultados antiéticos se as pessoas
que tomam decisões nesse sistema têm crenças e valores éticos incorretos. Na
anarquia, resultados antiéticos resultam se a maioria dos membros da sociedade
tiver valores incorretos, o que se refletirá nas decisões dos árbitros que buscam
cultivar uma boa reputação junto ao público. Em um sistema governamental,
resultados antiéticos resultam se legisladores, juízes ou outros funcionários públicos
tiverem valores incorretos. Isso não é menos provável de ser verdade do que a
maioria dos membros da sociedade ter valores incorretos.

11.4 Por que obedecer os árbitros?


No caso de você ter uma disputa com outro membro de uma sociedade anarquista,
por que você simplesmente não concorda em tentar a arbitragem para resolvê-la,
esperando que o árbitro fique do seu lado, mas quando isso não acontece você
apenas ignora a decisão?
Pra começar, esse tipo de comportamento seria ainda menos tolerado pelo resto
da sociedade do que uma recusa em aceitar a arbitragem. Pelas mesmas razões
pelas quais as agências de proteção não concordariam em defender criminosos, você
poderia esperar que sua agência de proteção o deixaria de defendê-lo se violasse
uma decisão de arbitragem.
Além disso, as empresas de arbitragem poderiam manter listas de indivíduos
que violaram um acordo. Pode haver agências de denúncia de antecedentes crimi-
nais, funcionando de forma análoga às agências de crédito, fornecendo denúncias
11. Justiça Criminal e Resolução de Disputas 254

de atividades criminosas por uma taxa. Dado o conhecimento de seu histórico


de violação de um contrato de arbitragem, não seria racional que outras pessoas
no futuro entrassem em relacionamentos comerciais nos quais você poderia tentar
enganá-las e depois se recusar a pagar uma compensação. Portanto, seria muito
difícil encontrar um emprego, obter um cartão de crédito, tomar um empréstimo
bancário, alugar um apartamento e assim por diante.

11.5 A fonte da lei


No status quo, as decisões dos juízes e júris são baseadas amplamente em leis ela-
boradas por legisladores ou burocratas que trabalham para agências reguladoras.
Como a sociedade anarcocapitalista não contém legisladores nem reguladores, com
que base os árbitros poderiam tomar suas decisões?
Haveria duas fontes de direito na sociedade anárquica. Primeiro, os proprietá-
rios ou associações locais de proprietários podem especificar o corpo da lei para
governar as interações que ocorrem em suas propriedades. Desde que todos que
entrarem na propriedade recebam um aviso justo do código legal em vigor lá, os
árbitros provavelmente honrariam a escolha da lei do proprietário. Os juristas
podem desenvolver códigos legais padronizados sugeridos, com proprietários de
empresas, proprietários residenciais ou associações de proprietários residenciais es-
colhendo qual dos vários códigos legais amplamente usados deve valer para suas
terras. Consumidores com fortes objeções a um código legal específico evitariam
financiar empresas que adotaram esse código. Ao escolher uma casa, os indivíduos
pesariam as vantagens do código legal assinado pela associação de proprietários
locais.
A outra grande fonte de direito seriam os próprios árbitros. Quando a solu-
ção para uma disputa em particular não for determinada por nenhuma lei do tipo
descrita no parágrafo anterior, o juiz procuraria casos semelhantes para orienta-
ção, tentando aplicar os mesmos princípios no presente caso que geralmente eram
usados para decidir casos similares no passado. Se o caso diante dele tivesse ca-
racterísticas novas, o juiz exercitaria seu próprio julgamento para elaborar uma
resolução que parecesse justa e de acordo com os valores geralmente aceitos de sua
sociedade. Ele escreveria uma explicação para sua decisão, que seria acrescentada
ao corpo de precedentes para outros juízes consultarem em casos futuros. Faz
sentido que os árbitros sigam essa tradição, pois geralmente resulta em decisões
que a maioria dos observadores considera justas e preserva o tipo de consistência
que a maioria dos observadores valoriza em um sistema jurídico.
Essa abordagem de baixo para cima para gerar lei tem três vantagens princi-
pais em relação à abordagem de cima para baixo de lei criada por uma legislatura.
Primeiro, a lei feita pelo juiz está mais intimamente ligada aos problemas que as
11. Justiça Criminal e Resolução de Disputas 255

pessoas comuns encontram e às suas circunstâncias reais, porque é feita por indiví-
duos com experiência regular na resolução de disputas interpessoais – os problemas
que dão origem à necessidade de lei em primeiro lugar – e é feito apenas no con-
texto da decisão de tais disputas. Segundo, a lei tomada por juiz é mais flexível
que a lei legal. Nenhuma regra de conduta que os seres humanos desenvolvem
pode prever todas as possíveis contingências futuras. Em um sistema de direito
consuetudinário, quando um tribunal encontra um caso similar não considerado
anteriormente, ele pode decidir o caso da maneira que parecer mais justa, em vez
de ser forçado por negligências anteriores a tomar decisões injustas. Terceiro, o
sistema de leis comuns exige demandas cognitivas muito menores para cada le-
gislador. Um legislador enfrenta a tarefa quase impossível de antecipar todas as
questões que possam ocorrer em todas as áreas da conduta humana e de escrever
regras válidas para todas as circunstâncias. Um juiz em um sistema de direito
comum enfrenta, a qualquer momento, apenas a tarefa de entender o caso agora
diante dele e decidir como esse caso deve ser resolvido; em nenhum momento é
necessário que um juiz ou qualquer outra pessoa tente antecipar todos os tipos
possíveis de problemas.
Sabemos que essa é uma maneira viável de desenvolver um sistema de leis ex-
tremamente sofisticado e sutil, porque essa é, de fato, a fonte do direito comum
que agora domina (ao lado do direito estatutário e regulamentar) na Grã-Bretanha
e vários outros países influenciados pela Grã-Bretanha, como Estados Unidos, Ca-
nadá, Austrália e Nova Zelândia. Nesses países, a maioria do direito contratual
e do direito civil é de direito consuetudinário. A maior parte do direito penal
também era consuetudinário antes do século XX. Na sociedade anarquista, dada a
ausência de leis estatutárias e regulamentares, o direito consuetudinário teria um
papel ainda maior do que atualmente nesses países.3

11.6 Punição e restituição


Os sistemas de justiça penal existentes, baseados no governo, contam com a prisão
de criminosos como resposta ao crime. Pensa-se que a sociedade como um todo se
beneficia dessa prática, porque mantém os criminosos fora das ruas por um tempo
e impede que outros entrem na vida do crime. As vítimas de um crime específico,
no entanto, geralmente não recebem nada em termos de indenização, e o resto da
sociedade é forçada a pagar pela manutenção dos criminosos durante os termos de
prisão.
O sistema de justiça anarcocapitalista provavelmente focaria mais na restitui-
ção do que na punição. Ou seja, os criminosos seriam obrigados a pagar uma
3
Ver Barnett 1998 para uma descrição mais completa dos sistemas jurídicos não-
governamentais.
11. Justiça Criminal e Resolução de Disputas 256

indenização a suas vítimas. Esse sistema seria preferível aos sistemas baseados
em punições, porque é melhor para as vítimas de crimes e não exige que ninguém
pague pela manutenção dos criminosos. A compensação exigida provavelmente
incluiria a compensação pelo inconveniente e o tempo perdido sofrido pela vítima
na tentativa de garantir a justiça, bem como os custos razoáveis incorridos pela
agência de proteção da vítima na identificação, apreensão e julgamento do crimi-
noso. Como resultado, um ladrão, por exemplo, teria que pagar significativamente
mais do que o valor do que roubou. Isso proporcionaria um impedimento ao crime.
E se a vítima de um crime estivesse morta (morta pelo criminoso ou por outras
causas após o crime) e, portanto, incapaz de receber uma indenização? Nesse
caso, a família ou os amigos da vítima podem receber a compensação devida.
Como alternativa, os indivíduos podem, previamente, autorizar suas agências de
proteção a cobrar indenizações em seu nome, caso não possam receber indenização
por um crime. A indenização devida a uma vítima de crime pode ser considerada
propriedade da vítima, a qual, portanto, teria o direito de dar, vender ou legar a
outra pessoa. Conceder à agência de proteção o direito de cobrar uma indenização
no caso de assassinato pode servir para dissuadir potenciais assassinos.

11.7 Crimes não compensáveis


O que aconteceria se um criminoso não tivesse os recursos necessários para com-
pensar suas vítimas? Uma possibilidade é que o criminoso seja levado a uma prisão
particular, onde seria obrigado a pagar sua dívida. Mas e se o criminoso não pu-
desse pagar sua dívida? Imagine, digamos, um vigarista criminoso que fraudou
suas vítimas em US$ 20 milhões, quase todo o qual foi gasto. O criminoso não
tem nenhuma esperança realista de retribuir suas vítimas. O que seria feito com
esse criminoso? Uma possibilidade é que o criminoso seja alojado indefinidamente
em uma instalação de trabalho forçado, para pagar o máximo possível de sua dí-
vida. Ou as vítimas podem se contentar com algum reembolso parcial, no qual
o criminoso poderia realisticamente fazer durante sua vida. Caberia ao árbitro
do caso, em consulta com as vítimas, decidir sobre o remédio mais apropriado.
De qualquer forma, as informações sobre o que o criminoso havia feito provavel-
mente seriam disponibilizadas ao público e possivelmente enviadas para relatórios
de agências de registros criminais para que futuros proprietários, empregadores e
outros possam estar cientes.
Em alguns casos, no entanto, o comportamento de um criminoso é tão hediondo
que não só é impossível compensar suas vítimas, mas o criminoso nunca pode ser
libertado com segurança. Imagine, por exemplo, que uma agência de proteção
tenha levado Ted Bundy em custódia. Bundy protesta por sua inocência, mas a
empresa de arbitragem o considera responsável por pelo menos trinta assassinatos.
11. Justiça Criminal e Resolução de Disputas 257

Bundy nunca compensará suas vítimas e, se for libertado, matará novamente.


Parece haver duas opções: ele pode ser preso indefinidamente (provavelmente em
uma instalação de trabalho forçado) ou pode ser executado. Novamente, caberia
ao árbitro do caso determinar o melhor curso de ação. Como no caso do verdadeiro
Ted Bundy, a execução parece uma possibilidade provável.

11.8 Restituição excessiva


A vítima de um crime tem o direito de receber uma indenização total pelo crime;
isto é, compensação suficiente para devolvê-la ao nível de bem-estar que teria se o
crime não tivesse ocorrido. Mas e se um tribunal em particular conceda regular-
mente compensação em excesso – digamos, duas vezes o que a vítima teria direito
e duas vezes o que outros tribunais geralmente concedem por um determinado
crime? Esse tipo de tribunal que compensa em excesso não seria preferível pelas
vítimas? E como quase todos se consideram mais propensos a se tornarem vítimas
de crimes do que a se tornarem criminosos, quase todos desejam que quaisquer
disputas futuras sejam resolvidas por tal tribunal. Levando isso em consideração,
as agências de proteção concordariam em usar tribunais que fornecem compen-
sação em excesso. Em breve, quase todos os casos criminais seriam julgados em
tribunais desse tipo. Os criminosos poderiam protestar contra a injustiça, mas
suas vozes seriam pouco ouvidas, já que as agências de proteção e as empresas de
arbitragem estariam mais dispostas a satisfazer a esmagadora maioria dos clientes
cumpridores da lei do que a satisfazer os criminosos.
O que é problemático nesse resultado? O problema óbvio é que essa situação
é uma injustiça, embora sobre a qual possamos achar difícil despertar muita in-
dignação – é uma injustiça para os criminosos. Mas Paul Birch argumenta que
o problema seria mais profundo do que isso, minando todo o sistema anarcoca-
pitalista.4 Uma vez iniciada a prática de conceder compensação em excesso, as
empresas competiriam para oferecer prêmios cada vez maiores às vítimas, talvez
dez vezes, vinte vezes, ou até cinquenta vezes a quantia a que a vítima do crime
teria direito. Esses prêmios excessivos criariam poderosos impedimentos ao crime,
resultando em uma queda drástica na taxa de criminalidade. Embora isso possa
parecer um resultado feliz, colocaria uma pressão financeira crescente nas firmas
de arbitragem. À medida que a taxa de criminalidade diminui, as empresas de
arbitragem continuariam a aumentar seus prêmios de indenização no esforço de
coletar uma fatia maior do mercado em queda. Isso apenas faria o mercado enco-
lher ainda mais. Eventualmente, ou todas as empresas fechariam o negócio, caso
em que a sociedade se tornaria um estado de caos, ou a última empresa capaz de
4
Birch 1998.
11. Justiça Criminal e Resolução de Disputas 258

resistir adquiriria o monopólio do setor, onde evoluiria para um Estado.


Há várias razões pelas quais é improvável que o cenário anterior aconteça:

i O argumento supõe de forma irrealista que vítimas de crimes reais e potenciais


preferem uma compensação ilimitada. Essa suposição pode ser impulsionada
por uma concepção de seres humanos como homo economicus, maximizadores
puros do lucro: uma vez que compensação maior é igual a lucro maior, as
vítimas de crime preferem aumentos ilimitados na compensação. Os seres
humanos normais, no entanto, não veem a vitimização criminal como uma
oportunidade de enriquecer; esse tipo de pensamento geralmente é reservado
para os golpistas. A maioria das pessoas normais deseja evitar ser vítima de
crime, se possível, e garantir justiça no caso de ser vitimada.
Uma preocupação mais plausível é que as vítimas de crimes sejam motivadas
por vingança, em vez de busca por lucro, pressionando por sanções excessi-
vas contra seus malfeitores. Surpreendentemente, essa preocupação é minada
por evidências empíricas: pesquisas de atitudes em relação a sentenças crimi-
nais descobriram que as vítimas de crime de fato abrigam atitudes não mais
punitivas do que as do membro médio da população.5

ii Birch imagina as empresas de arbitragem anunciando que concedem compen-


sação excessiva – anunciando, por exemplo, que concedem a cada vítima uma
compensação igual a dez vezes a perda sofrida pela vítima. Isso está muito pró-
ximo do anúncio explícito de um tribunal de que ele é injusto. É difícil imaginar
isso acontecendo. Por razões discutidas anteriormente, as empresas de arbitra-
gem selecionariam cuidadosamente seus juízes e guardariam sua reputação de
justiça, imparcialidade e sabedoria. O tipo de pessoa que acabaria como juiz
provavelmente não promoveria explícita e intencionalmente a injustiça em prol
da maximização do lucro.
Uma preocupação mais realista é que as empresas de arbitragem sejam tenden-
ciosas a favor das vítimas, em vez de abraçar explicitamente a injustiça. Elas
quase certamente afirmariam estar administrando a justiça, mas suas percep-
ções sobre o que a justiça exige podem ser inclinadas em favor das vítimas;
por exemplo, tenderiam a perceber a maioria dos crimes como mais prejudici-
ais do que realmente são. É plausível que as empresas de arbitragem possam
contratar juízes com tais percepções distorcidas sem manchar indevidamente
sua reputação de integridade. Por isso, acho plausível que em uma sociedade
anarcocapitalista os criminosos sofram frequentemente um pouco mais do que
merecem.
5
Walker e Hough 1988, 10; Hough e Moxon 1988, 137, 143–6.
11. Justiça Criminal e Resolução de Disputas 259

Este é um possível problema com o sistema, mas não é um problema terrível.


Além disso, é plausível que a punição ocorra também nos sistemas governamen-
tais, e não é óbvio que os sistemas governamentais produzam punições mais
justas do que aquelas que emergiriam de um sistema anarcocapitalista.

iii Além da preocupação com os direitos dos criminosos, que reconhecidamente são
limitados, há outra razão para indivíduos comuns se oporem a compensações
absurdamente excessivas por crimes: em qualquer sistema de justiça penal
realista, às vezes pessoas inocentes são condenadas. Muitas pessoas acham
essa perspectiva preocupante, mesmo no abstrato e, talvez mais ainda, quando
refletem que elas mesmas ou alguém com quem são próximas podem um dia
estar entre os condenados erroneamente. O problema não pode ser eliminado
sem dispensar inteiramente o sistema de justiça penal; no entanto, a maioria
das pessoas consideraria o problema muito menos perturbador se as penas
pelos crimes fossem razoáveis do que absurdamente excessivas. Isso levaria a
maioria das pessoas no sistema anarquista, assim como no sistema atual, a
apoiar algum grau de restrição por parte dos juízes no processo de atribuição
de prêmios de compensação.

iv Prêmios excessivos de compensação tendem a ser mais difíceis ou caros de


se cobrar. Se, por exemplo, a compensação pelo roubo de um cartucho de
videogame for de US$ 100.000, isso poderá ser difícil de aplicar. Se um ladrão
de lojas tiver a expectativa de ser preso por toda a vida em uma instalação
de trabalho forçado caso seja pego, os ladrões de lojas poderão estar dispostos
a matar para escapar ou lutar até a morte, em vez de se renderem. Sabendo
disso, as agências de proteção teriam um motivo para preferi prêmios razoáveis
de compensação.

v Um criminoso que é prejudicado por uma concessão de compensação clara-


mente excessiva parece ter uma queixa válida contra o tribunal que fez a sen-
tença injusta. Não há razão óbvia para que ele não possa entrar com uma ação
contra esse tribunal em outro tribunal.
Se todos os tribunais tivessem os mesmos padrões excessivos de compensação, o
processo do criminoso fracassaria. Mas se os tribunais geralmente começassem
com padrões aproximadamente justos e um tribunal decidisse buscar uma fatia
maior do mercado oferecendo prêmios excessivos de compensação, esse tribunal
sofreria por sua indiscrição, já que outros tribunais considerariam seus julga-
mentos injustos e concederiam compensação a aqueles que foram prejudicados
por esse tribunal. Assim, se o sistema iniciar em uma posição geralmente justa,
ele será estável.

vi Mesmo aumentos extremos nas penalidades por crime não eliminariam todos
11. Justiça Criminal e Resolução de Disputas 260

os crimes. Isso ocorre porque alguns criminosos, infelizmente, são altamente


resistentes à dissuasão. Eles imprudentemente ignoram o futuro ou assumem
alegremente que não serão pegos.6 Assim, um mercado para tribunais privados
continuaria a existir mesmo em um regime de prêmios absurdamente altos de
compensação.

vii Mesmo que os prêmios excessivos de compensação resultem em uma queda


drástica nas taxas de criminalidade, isso não faria com que todas ou quase
todas as empresas de arbitragem fossem à falência. Por mais que o crime caia,
continuariam a surgir disputas honestas entre as pessoas comuns, e elas ainda
precisariam ser julgadas pelas agências de arbitragem. Se o crime sofresse uma
queda vertiginosa, as empresas de arbitragem experimentariam um declínio
nas receitas e precisariam reduzir as operações até o ponto que o mercado
suportaria. Mas isso não levaria todas à falência, nem faria com que a indústria
fosse monopolizada.
Considere uma analogia. À medida que os automóveis se tornaram mais práti-
cos no início do século XX, a demanda por cavalos sofreu uma queda drástica.
Mas toda a indústria não entrou em colapso, nem foi monopolizada – ainda
há mais de um criador de cavalos no mundo hoje. A indústria simplesmente
encolheu para o tamanho que poderia ser suportado pelos novos níveis de de-
manda. Da mesma forma, se formos abençoados a ponto de nos preocuparmos
com níveis indevidamente baixos de criminalidade, o setor de arbitragem di-
minuirá, de modo que inclua apenas o número de tribunais necessários para
satisfazer o quanto resta a demanda.

11.9 A qualidade da lei e da justiça sob uma au-


toridade central
Para avaliar melhor os méritos de um sistema de justiça não-governamental, deve-
mos primeiro considerar algumas das falhas do sistema atual.

11.9.1 Condenações injustas


Um aspecto perturbador do sistema atual é a taxa com que os inocentes são pu-
nidos. O professor de direito de Michigan, Samuel Gross, estudou casos em que
os condenados foram absolvidos nos Estados Unidos entre 1989 e 2003.7 Ele en-
controu 340 casos, incluindo 205 casos de assassinato, 121 casos de estupro e 14
6
Banfield 1977.
7
Gross et al. 2005.
11. Justiça Criminal e Resolução de Disputas 261

casos envolvendo outros crimes. Os promotores e a polícia geralmente se recusam


a aceitar que prenderam e processaram uma pessoa inocente, mesmo depois que a
prova da inocência da pessoa é descoberta.8 Em média, esses acusados sofreram
onze anos de prisão ilícita antes de finalmente serem oficialmente absolvidos.
Por que assassinatos e estupros foram tão sobre-representados entre os cri-
mes de que os réus foram absolvidos? A principal razão para a dramática sobre-
representação de casos de estupro está no desenvolvimento de testes de DNA no
final dos anos 80 em diante, o que levou ao reexame de vários casos de estupro
nos quais felizmente as amostras de sêmen haviam sido preservadas. A aplicação
das novas técnicas revelou que muitas condenações anteriores ao advento de testes
confiáveis de DNA eram errôneas. A principal razão para a sobre-representação
de casos de assassinato parece residir no escrutínio muito maior que esses casos
recebem em comparação com casos menos graves, especialmente quando a pena
de morte está envolvida.9
Omitidos das estatísticas de Gross são casos de absolvição em massa devido
à exposição de corrupção policial em larga escala. Um desses casos envolveu o
programa CRASH (“Recursos da comunidade contra bandidos de rua”) do Depar-
tamento de Polícia de Los Angeles. Em 1999, o policial Rafael Perez revelou que ele
e outros oficiais do programa haviam mentido rotineiramente em relatórios de pri-
são, atiraram em suspeitos desarmados e espectadores inocentes, plantaram armas
em suspeitos depois de atirar neles, fabricaram evidências e acusaram inocentes.
Na sequência destas revelações, mais de 100 acusados tiveram suas condenações
anuladas em 1999 e 2000.10
Por que os réus da amostra de Gross foram condenados indevidamente? A
maioria dos casos envolveu identificação incorreta de testemunhas. Muitos envol-
veram perjúrio por parte da polícia, cientistas forenses que atestam em favor do
governo, os verdadeiros criminosos, delatores na prisão ou outros que poderiam
tirar vantagem ao prestar falso testemunho. Em 15
Como os réus nesses casos foram absolvidos, podemos ficar tranquilos com o
fato de o sistema funcionar e de que a justiça é servida? Há duas razões para
rejeitar essa complacência: primeiro, há os onze anos em que esses réus foram, em
média, obrigados a passar nas que podem ser as piores condições em que qualquer
segmento significante da sociedade deveria viver. Segundo, e mais importante,
existem implicações para o número de pessoas que continuam presas injustamente.
Não há estimativas confiáveis da frequência de convicções errôneas, devido à
8
Gross et al. 2005, 525-6.
9
Gross et al. 2005, 531–2, 535–6. Gross et al. (532–3) apontam que também pode haver mais
pressão para condenar alguém em casos capitais, levando a mais erros. No entanto, também
pode haver maior cuidado exercido pelos defensores, juízes e júris de defesa nos casos em que
estão em causa punições extremamente severas.
10
Gross et al. 2005, 533–4.
11. Justiça Criminal e Resolução de Disputas 262

elusividade inerente a esses casos. Embora esteja razoavelmente claro que todos
ou quase todos os 340 casos de Gross foram realmente condenações injustificadas,
não temos como saber quantas condenações errôneas adicionais foram descobertas
durante o mesmo período. Os 74 internos do corredor da morte que foram absol-
vidos constituíam cerca de 2% da população do corredor da morte.11 Isso sugere
que, se aplicarmos o mesmo nível de escrutínio a todos os casos que aplicamos aos
casos de pena de morte, poderemos encontrar uma taxa de falso positivo de 2%
nesses outros casos também.
Mas não temos ideia de quantos casos de pena de morte houve em que con-
denações errôneas não foram descobertas. As convicções errôneas na amostra de
Gross foram devidas principalmente a erros de testemunhas, perjúrios e confissões
falsas. Mas quando uma testemunha identifica mal um suspeito, uma testemunha
mente ou a polícia extorque uma confissão falsa, em quantos desses casos podemos
supor que a prova da inocência do réu, indescritível no momento do julgamento,
aparecerá mais tarde por sorte e irá tirá-lo da prisão? Prova de inocência geral-
mente não é muito fácil de encontrar, e as autoridades, tendo encerrado o caso,
não estarão procurando por tais evidências. O próprio réu terá dificuldade em des-
cobrir tais evidências de sua posição na prisão. Por esses motivos, parece otimista
demais supor que, na maioria das condenações equivocadas (mesmo nos casos de
pena de morte), a prova de inocência será posteriormente descoberta. Portanto,
parece provável que a taxa real de falsas condenações seja muito maior do que a
taxa de absolvição de 2
Poderia ser feito algo para melhorar o sistema ou essas condenações equivocadas
são simplesmente o preço da justiça penal? Várias medidas foram sugeridas para
melhorar a confiabilidade do sistema: reduzir o uso de técnicas de interrogatório de
alta pressão, particularmente para suspeitos menores de idade ou com deficiência
mental; ter testemunhas interrogadas por policiais que não conhecem os detalhes
da investigação e, portanto, não podem influenciar as testemunhas; mostrar às
testemunhas um suspeito de cada vez, em vez de um grupo de suspeitos de uma só
vez; e instruir júris sobre as limitações das evidências das testemunhas oculares.
Apesar de estudos indicando que essas medidas reduziriam o risco de condenações
injustificadas, a polícia e os tribunais americanos geralmente não as adotam.12

11.9.2 Excesso de oferta da lei


Sob um sistema jurídico baseado em uma autoridade central com poderes legislati-
vos, muito mais lei é fornecida do que sob um sistema puro de direito consuetudi-
nário. Alguns veem isso como uma vantagem – talvez precisamos de uma forte rede
11
Gross et al. 2005, 532, n. 21.
12
Duke 2006.
11. Justiça Criminal e Resolução de Disputas 263

de regulamentos para nos proteger contra as falhas do capitalismo laissez-faire. No


entanto, vale a pena considerar se um sistema governamental pode fornecer muita
lei.
Como exercício, tente imaginar um sistema legal ideal. Antes de continuar
lendo, tente estimar quantas páginas de leis esse sistema conteria. Existem muitas
dificuldades em fazer essa estimativa; no entanto, tentar pelo menos uma estima-
tiva vaga e de ordem de magnitude antes de descobrir quanta lei realmente existe
pode ajudar a impedir a tendência de racionalizar o status quo.
A maioria dos cidadãos nos Estados modernos, quer se descrevam como apoi-
ando um forte regime regulatório ou não, tem pouca ideia de quanta regulamenta-
ção realmente existe. Nos Estados Unidos, as regras promulgadas pelas agências
reguladoras do governo nacional são registradas no Code of Federal Regulations
(isso não inclui estatutos aprovados diretamente pelo Congresso, nem leis estadu-
ais ou locais). Durante o último meio século, a quantidade desses regulamentos
aumentou de 23.000 para 150.000 páginas (veja a tabela abaixo).

Ano Tamanho do CFR (páginas)13


1960 22,877
1970 54,834
1980 102,195
1998 134,723
2010 152,456

Essas estatísticas não podem capturar informações qualitativas sobre o con-


teúdo desses regulamentos e, é claro, não há perspectiva de revisar qualquer fração
significativa desses regulamentos aqui (ou em qualquer outro local). No entanto,
sugiro que esses números possam levar até o mais forte defensor ideológico da
regulamentação a considerar se os órgãos legislativos dedicados podem tender a
fornecer uma quantidade maior que a ideal de regulamentação. O leitor não famili-
arizado com a regulamentação é convidado a examinar o CFR aleatoriamente para
obter um sentido qualitativo do regime regulatório. Pode-se, por exemplo, encon-
trar um parágrafo descrevendo o espaçamento das lacunas das velas de ignição de
um automóvel, outro prescrevendo o uso da expressão “proteção durante todo o
dia” nos rótulos antitranspirantes, outro descrevendo a assinatura de documentos
relacionados aos impostos especiais de consumo em transações estruturadas de
13
Os números para 1970 e 1998 são de Longley n.d. Os números de 1960 e 1980 são de Crews
2011, 15. O valor de 2010 é calculado a partir da edição do CFR disponível no Government
Printing Office; Omiti os “Procurar ajuda” no final de cada volume para a contagem total de
páginas de 2010.
11. Justiça Criminal e Resolução de Disputas 264

factoring de liquidação, e assim por diante.14


O que é censurável nessa provisão legal em excesso? A primeira objeção é
que ela representa uma dependência excessiva da coerção. Cada um desses regu-
lamentos é um comando apoiado por uma ameaça de força emitida pelo Estado
contra seus cidadãos. Embora algumas dessas ameaças possam ser justificadas,
aquelas que não são constituem uma violação dos direitos de todos aqueles que
são coagidos.
Segundo, um excesso de leis pode ter grandes custos econômicos. Ronald Co-
ase, ganhador do Nobel e ex-editor do Journal of Law and Economics, relata que
sua revista publicou uma série de estudos empíricos sobre os efeitos de uma ampla
variedade de regulamentos, nos quais se constatou que todos os regulamentos es-
tudados tiveram efeitos negativos gerais sobre a sociedade.15 A Administração de
Pequenas Empresas do governo dos EUA estimou o custo anual dos regulamentos
federais para a economia dos EUA em US$ 1,75 trilhão, um fardo que acreditam
atingir desproporcionalmente as pequenas empresas.16
Terceiro, uma quantidade excessiva de leis, bem como um corpo jurídico exces-
sivamente complexo e técnico, torna irracional exigir que os cidadãos conheçam,
entendam e sigam todas as leis. Ameaçar punir os cidadãos por violarem regras
que, à luz dos encargos cognitivos extremos, não se poderia esperar que soubessem
ou entendessem razoavelmente, é uma forma de injustiça. Esses encargos cogniti-
vos, em algum momento, refutam o objetivo principal de estabelecer leis escritas
para começar – a saber, que a lei seja acessível a todos que se espera que a sigam.
Uma solução para o último problema é os cidadãos contratarem especialistas
para aconselhá-los em qualquer área em que a lei seja complexa e difícil de seguir.
Isso, no entanto, nos leva ao próximo problema com o sistema de justiça atualmente
aceito.

11.9.3 O preço da justiça


Para a maioria dos cidadãos dos Estados modernos, os custos da justiça do governo
em tempo e dinheiro são proibitivos. A disputa civil típica exige de vários meses
a alguns anos para ser resolvida pelos canais governamentais.17 Em 2009, um
escritório de advocacia americano médio faturava US$ 284 por hora, com um
divórcio típico custando entre US$ 15.000 e US$ 30.000. Para o americano médio,
com uma renda anual de US$ 39.000, qualquer uso do sistema de justiça do governo
14
40 CFR, apêndice I da subparte V da parte 85 (H) (1) (b); 21 CFR 350,50 (b) (3); 26 CFR
157.6061.
15
Hazlett 1997, 43.
16
Crain e Crain 2010.
17
Nos Estados Unidos, os atrasos variam de cerca de seis meses a cerca de três anos, com uma
média de onze meses (Dakolias 1999, 18).
11. Justiça Criminal e Resolução de Disputas 265

representa uma carga financeira esmagadora.18


Por que os serviços jurídicos são tão caros? Um dos motivos é o excesso de
oferta de lei mencionada acima. A complexidade, a tecnicidade e a enorme ex-
tensão das leis e procedimentos legais obrigam os indivíduos a pagar especialistas
para lidar com qualquer procedimento legal, além de forçar esses especialistas a
dedicarem uma grande quantidade de trabalho a cada caso. Outro motivo pode ser
encontrado nas restrições à prestação de serviços jurídicos, que por lei só podem
ser oferecidas de fontes aprovadas pelo governo (advogados que foram admitidos
na guilda, geralmente após uma longa e muito cara educação em direito).19
Esses custos são preocupantes por pelo menos três razões importantes. Pri-
meiro, o alto custo dos serviços jurídicos significa que apenas os ricos podem pa-
gar por justiça. Indivíduos de renda média e baixa não podem se dar ao luxo de
buscar justiça ou devem fazer justiça com suas próprias mãos quando acreditam
que foram prejudicados. Em casos penais, os réus de baixa renda podem rece-
ber representação legal inadequada devido à carga pesada de casos nos defensores
públicos.
Segundo, mesmo os réus que vencem seus processos, sejam civis ou penais,
podem ser arruinados financeiramente. Isso age como uma espécie de punição
injusta imposta a todos os réus, sejam eles culpados de irregularidades ou não.
Terceiro, as grandes empresas podem pagar as taxas legais necessárias para
garantir o cumprimento de regulamentações burocráticas complexas, enquanto os
mesmos custos podem ser proibitivos para as pequenas empresas. Como resultado,
o atual regime jurídico tende a promover a concentração de indústrias nas mãos
de grandes corporações, mesmo que essas corporações sejam elas mesmas menos
eficientes do que as empresas menores.

11.9.4 O fracasso da prisão


Os governos de hoje contam com a prisão como resposta a crimes graves. A prisão
tem duas funções principais: primeiro, protege a sociedade dos criminosos con-
denados por um tempo limitado, separando os criminosos do resto da sociedade.
Segundo, pune os criminosos, forçando-os a viver em condições altamente indese-
jáveis. O sofrimento por parte dos criminosos pode ser valorizado intrinsecamente
como uma forma de justiça retroativa ou pode ser valorizado instrumentalmente
como um meio de deter futuros comportamentos criminosos.
18
Sobre honorários médios de advocacia, consulte taxas de advocacia da Califórnia em 2011,
citando uma pesquisa da Incisive Legal Intelligence. Sobre o preço do divórcio, veja Hoffman
2006. Sobre a renda média, consulte o US Census Bureau 2011b, 443, tabela 678.
19
O preço da faculdade de direito costuma exceder US$ 100.000. Apenas sete estados dos
EUA permitem que os indivíduos façam o exame da guida sem ter que frequentar a faculdade
de direito (Macdonald 2003).
11. Justiça Criminal e Resolução de Disputas 266

As prisões existentes, no entanto, sofrem de vários problemas muito sérios. Nos


Estados Unidos, essas instalações são extremamente superlotadas e os presos vivem
em perigo de violência de gangues, estupros por outros prisioneiros, espancamentos
de guardas e outros prisioneiros e outras formas de abuso. A taxa de violência e
abuso é desconhecida, mas há relatos anedóticos.20 Nos últimos anos, o uso de
confinamento solitário tornou-se cada vez mais comum, uma prática que leva a
deterioração mental por parte do prisioneiro e maiores taxas de reincidência assim
que o condenado é libertado.21
Sob essas condições, dificilmente se poderia esperar que o encarceramento re-
abilitasse criminosos. Consequentemente, dois terços dos criminosos são reinci-
dentes no prazo de três anos após serem libertados da prisão.22 Essa estatística
provavelmente subestima a verdadeira taxa de reincidência, dada a baixa taxa em
que a polícia resolve crimes (Seção 10.7); assim, a grande maioria dos criminosos
retorna à vida criminosa logo após sua libertação. Alguns observadores argumen-
taram que o encarceramento não apenas falha na reabilitação de criminosos, como
também os torna mais perigosos quando liberados do que quando entraram. Isso
pode ser verdade, por exemplo, porque os presos fazem novos contatos criminais e
aprendem novas habilidades e ideias criminais de outros presos enquanto estão na
prisão, porque absorvem valores antissociais dos outros presos e porque os presos
ficam mais irritados e ressentidos como resultado do abuso que sofreram enquanto
estavam na prisão. Alguns chegaram a sugerir que o encarceramento pode causar
mais crimes do que impedir.23
Esses problemas não são inevitáveis em um sistema de justiça criminal; os crí-
ticos ofereceram inúmeras reformas em potencial que provavelmente reduziriam
significativamente esses problemas. Verificou-se que alguns programas de reabili-
tação reduzem as taxas de reincidência em até 30%. Os formuladores de políticas
simplesmente não escolheram adotar essas reformas.24

11.9.5 Reforma ou anarquia?


Os problemas listados nas subseções anteriores são apenas os mais proeminentes
daqueles que afetam o atual sistema de justiça baseado no governo. Um observador
otimista, no entanto, embora reconheça a gravidade dos problemas, pode levar
20
Commission on Safety and Abuse in America’s Prisons 2006, 11–12, 24. Uma pesquisa do
Departamento de Justiça dos EUA constatou que 4,4% dos presos prisionais e 3,1% dos presos
em celas sofreram algum tipo de abuso sexual no ano anterior (Beck et al. 2010); no entanto,
esses incidentes podem ser subnotificados.
21
Commission on Safety and Abuse in America’s Prisons 2006, 14–15.
22
Commission on Safety and Abuse in America’s Prisons, 2006, 106.
23
Pritikin 2008.
24
Pritikin 2008, 1092; Commission on Safety and Abuse in America’s Prisons 2006, 12, 28,
108.
11. Justiça Criminal e Resolução de Disputas 267

a mostrar apenas que o sistema de justiça deve ser substancialmente reformado


enquanto permanece nas mãos do governo.
De fato, existem várias medidas que mitigariam bastante os problemas listados
acima, e não podemos descartar a possibilidade de que um dia os funcionários do
governo iniciem uma séria reforma dos sistemas prisional e judicial. Não obstante,
não é mero acidente que problemas do tipo que discutimos persistem no sistema
judicial baseado no governo. Os monopólios coercitivos têm uma tendência siste-
mática a promover uma variedade de problemas, e tendem a demorar a reconhecer
e solucionar suas próprias deficiências.
Os motivos são familiares. Como o governo cobra suas receitas na forma de
impostos que os cidadãos não têm escolha a não ser pagar, os programas go-
vernamentais podem sobreviver financeiramente, mesmo com níveis extremos de
insatisfação do consumidor. Mais importante, como o governo é monopolista, os
cidadãos não têm para onde recorrer se consideram seus serviços ineficientes, de
baixa qualidade ou abusivos. A maioria dos problemas com o sistema de justiça
dos EUA é óbvia e é bem conhecida há muito tempo. Os governos nacionais e es-
taduais fizeram pouco para resolver esses problemas, não porque os problemas são
difíceis ou impossíveis de resolver, mas porque o governo não sofre consequências
negativas como resultado de sua falha em resolvê-los.
Considere o problema de condenações injustas. Em um sistema competitivo,
a associação de proprietários residenciais pode escolher entre muitas agências de
proteção, empresas de arbitragem e órgãos legais para aplicar em sua vizinhança e
pode alterar sua escolha se e quando ficar insatisfeita com os acordos de segurança
e justiça. Além disso, os residentes insatisfeitos com as decisões da APR podem
se mudar a um custo relativamente baixo. Como ninguém quer ser condenado
injustamente, uma agência de proteção que utilizou métodos não confiáveis de
investigação ou uma empresa de arbitragem que utilizou métodos não confiáveis
para avaliar a culpa ou inocência precisariam se preocupar em ser substituídas por
concorrentes que oferecem serviços com menos risco de condenações injustificadas.
Pontos semelhantes se aplicam ao problema de excesso de oferta da lei e custos
excessivos dos serviços jurídicos.
E os problemas associados ao encarceramento de criminosos? Estes seriam
grandemente reduzidos por um sistema de justiça que focasse mais na restituição
do que na punição. Nesse sistema, as centenas de milhares de pessoas atualmente
presas por crimes sem vítimas, principalmente crimes relacionados às drogas, se-
riam soltas. Somente indivíduos que feriram outra pessoa e, de outra forma, não
estavam dispostos ou não podiam pagar a indenização exigida à vítima seriam
mantidos presos em instalações prisionais. O foco dessas instalações no trabalho
produtivo diminuiria o risco de violência na prisão e reincidência.
É teoricamente possível para um governo se reformar – eliminar todos os esta-
11. Justiça Criminal e Resolução de Disputas 268

tutos do crime sem vítimas, mudar seu foco de punição para restituição e assim
por diante. Mas quando olhamos em volta e vemos que nenhum governo realmente
o fez e quando percebemos que esse tipo de falta de resposta aos problemas tem
uma explicação sistêmica enraizada na estrutura básica de incentivos do governo, a
conversão para um sistema alternativo começa a parecer uma solução mais racional
e menos utópica do que a reforma do sistema atual. Sempre haverá espaço para
melhorias em qualquer sistema de justiça. Nos sistemas governamentais, a reforma
tenderá a ser lenta e difícil de implementar. Por outro lado, as empresas de um
setor competitivo tendem a se mover rapidamente para melhorar seus produtos ou
reduzir seus custos quando a oportunidade se apresenta.

11.10 Conclusão
Existem dois sistemas principais pelos quais uma sociedade pode prever a reso-
lução de disputas e a correção de violações de direitos. O primeiro é o sistema
coercitivo e monopolista, no qual uma única organização assume autoridade ex-
clusiva para fazer leis, resolver disputas e punir criminosos. Problemas grandes e
bem conhecidos tendem a ocorrer em sistemas desse tipo, incluindo condenações
errôneas frequentes, restrições legais excessivas e excessivamente complexas, altos
custos monetários, atrasos, prisões superlotadas, abuso de prisioneiros e altas taxas
de reincidência. Os governos em geral fazem pouco para resolver esses problemas,
apesar da identificação por cientistas sociais e outros especialistas de inúmeras me-
didas que poderiam ser tomadas para melhorar significativamente o sistema. Essa
negligência por parte do governo pode ser atribuída às características definidoras
dessa abordagem da justiça; ou seja, seu caráter coercitivo e monopolista. Como
o sistema governamental é financiado através de impostos obrigatórios, tribunais,
prisões e outros elementos do sistema judiciário podem continuar a coletar a re-
ceita que o governo deseja alocar, independentemente da satisfação do consumidor.
Como o governo detém um monopólio efetivo da provisão de justiça, essas orga-
nizações não precisam temer a substituição por concorrentes, independentemente
de seu desempenho.
A alternativa é um sistema de justiça baseado no mercado, no qual as empresas
de arbitragem competem entre si na resolução de disputas. Quando um indivíduo
viola os direitos de outro, um árbitro decide sobre a indenização a ser paga pelo
criminoso à vítima. Nos casos em que um criminoso não tenha outros meios de
pagamento, ele seria alojado em uma prisão particular, onde seria obrigado a
pagar sua dívida. Proprietários individuais ou associações de proprietários, como
associações de proprietários residenciais, escolheriam o corpo da lei a ser aplicado
às interações ocorridas em suas terras. Quaisquer questões não resolvidas por
essas leis seriam tratadas através de uma forma de lei elaborada pelos árbitros,
11. Justiça Criminal e Resolução de Disputas 269

semelhante ao direito consuetudinário britânico atual.


Para atrair clientes, os árbitros do sistema de justiça num mercado livre procu-
rariam manter uma reputação de justiça, consistência, imparcialidade e sabedoria.
As empresas de segurança provavelmente exigiriam que seus clientes resolvessem
quaisquer disputas por meio de árbitros terceiros respeitáveis e se recusariam a
defender clientes que rejeitam a arbitragem ou violam a decisão do árbitro depois
de submetida uma disputa à arbitragem.
Nesse sistema, os árbitros podem demonstrar um viés a favor das vítimas de
crimes e contra os criminosos, fazendo com que criminosos sejam obrigados a pagar
algo mais elevado em compensação por seus crimes do que a justiça realmente
exigiria. No entanto, está longe de ficar claro que esse problema seria mais grave
do que a punição que ocorre em sistemas baseados no governo, que se concentra no
encarceramento de criminosos em condições opressivas e perigosas. O problema dos
prêmios excedentes de compensação provavelmente seria relativamente modesto e
tolerável em comparação com os problemas do status quo.
12

Guerra e Defesa da Sociedade

12.1 O problema da defesa da sociedade


Idealmente, todos os seres humanos viveriam sem Estados-nação ou exércitos na-
cionais, para que não houvesse necessidade de defesa nacional. Mas não se pode
esperar que esse feliz estado de coisas aconteça de uma só vez; devemos assumir um
período de transição em que uma sociedade anarquista coexista com sociedades
dominadas pelo Estado. Os dois tipos de sociedade poderiam coexistir, ou uma
inevitavelmente sobrepujaria a outra?
Uma suposição natural é que, se um país tiver um exército mais poderoso que
seus vizinhos ou todos os seus inimigos em potencial, então o país estará seguro,
enquanto que se tiver nenhum exército ou um muito mais fraco, estará inseguro.
Desse ponto de vista, uma sociedade anarquista parece enfrentar um problema
óbvio. As forças militares modernas são extremamente poderosas e extremamente
caras. Um único porta-aviões, por exemplo, custa cerca de US$ 4,5 bilhões, mais
US$ 240 milhões por ano em manutenção.1 Em 2010, os Estados Unidos gas-
taram quase US$ 700 bilhões nas forças armadas. Para comparação, a empresa
norte-americana mais lucrativa naquele ano, a Exxon Mobil, teve lucros de US$ 19
bilhões.2 É certo que os Estados Unidos são um país extremo, com 43% das despe-
sas militares do mundo inteiro.3 No entanto, a maioria dos países gasta centenas
de milhões ou bilhões de dólares em suas forças militares todos os anos. É difícil
imaginar qualquer organização não-governamental competindo com um governo
nessa arena – em parte porque nenhum outro tipo de organização tem o tipo de
recursos à sua disposição como um governo que pode exigir e em parte porque a
defesa militar é um bem público cuja provisão, na ausência de algum mecanismo
1
U.S. Navy 2009; Birkler et al. 1998, 75.
2
CNN Money 2012.
3
Stockholm International Peace Research Institute 2012.

270
12. Guerra e Defesa da Sociedade 271

coercitivo, aparentemente exigiria sacrifício altruísta por parte daqueles que pa-
gam por isso. Como resultado, parece improvável que uma sociedade anarquista
possa manter algo parecido com as forças militares típicas dos governos modernos.
Por essas razões, os membros de uma sociedade anarquista não podem esperar
derrotar um exército governamental em combate aberto, nem poderiam, como os
governos costumam fazer, travar uma guerra agressiva contra outro país.
Mas o foco no poder militar relativo pode ser mal direcionado, por duas razões.
Primeiro, os requisitos para uma defesa efetiva podem ser mais modestos que os
requisitos para uma agressão efetiva, e os gastos militares da maioria dos governos
modernos podem ser muito maiores do que uma defesa exige. Segundo, como no
caso das relações interpessoais, a estratégia de evitar conflitos armados pode ser
mais importante do que a tentativa de vencer conflitos armados.
Meu objetivo a seguir não será mostrar que uma sociedade anarquista poderia
sobreviver em todo e qualquer clima político. Meu objetivo será mostrar que uma
sociedade anarquista poderia sobreviver em algumas condições realistas, condições
que são obtidas em algumas partes do mundo ou que se poderia razoavelmente es-
perar obter no futuro. É de se esperar que também haverá muitas outras condições
realistas sob as quais um sistema anarquista não sobreviveria.

12.2 Defesa não-governamental


12.2.1 Guerra de guerrilha
A caracterização acima do problema de defesa sugere que a defesa bem-sucedida
requer poder militar comparável ou maior que o oponente. No entanto, os guerri-
lheiros têm provado o contrário sobre essa suposta exigência de vitória militar em
vários conflitos do século XX, durante os quais forças militares avançadas foram
derrotadas por oponentes muito mais fracos.
O caso paradigmático é o do Vietnã, que expulsou os colonialistas franceses em
1954. Os Estados Unidos assumiram a responsabilidade de combater a dissemi-
nação do comunismo, apoiando o governo anticomunista e autoritário do Vietnã
do Sul em sua disputa contra o governo comunista do Vietnã do Norte e os in-
surgentes comunistas no Vietnã do Sul. O envolvimento americano começou com
conselheiros militares, mas se transformou em guerra direta em meados do final
da década de 1960, quando centenas de milhares de tropas americanas se compro-
meteram a combater os insurgentes vietcongues no sul.4 Em termos de recursos
militares e econômicos, os Estados Unidos eram muito superiores aos vietcongues
e, ainda assim, ano após ano, as forças americanas se mostraram incapazes de
subjugar seus oponentes, até que os Estados Unidos finalmente reconheceram a
4
Vigésimo Quinto Batalhão de Aviação n.d.
12. Guerra e Defesa da Sociedade 272

derrota e retiraram todas as forças do país em 1973. A nação mais poderosa do


mundo havia sido derrotada pelos rebeldes de uma pequena nação do Terceiro
Mundo. A derrota se deveu em parte à dificuldade inerente de combater as táticas
de guerra de guerrilha e em parte ao fato de que os vietnamitas estavam muito
mais profundamente comprometidos do que os americanos em controlar o destino
do Vietnã.5
Este não foi um episódio isolado; vários conflitos do século XX forneceram li-
ções semelhantes. A Grã-Bretanha governou a ilha da Irlanda até 1919, quando
nacionalistas irlandeses declararam independência e começaram uma campanha
de guerrilha contra os britânicos. Nos dois anos seguintes, os britânicos travaram
uma guerra mal sucedida contra os rebeldes, culminando no tratado que estabele-
ceu o Estado Livre Irlandês em 1922.6 Os franceses governaram a Argélia antes de
1954, quando os nacionalistas argelinos começaram uma guerra de guerrilha pela
independência, que continuou por vários anos. Apesar de alguns sucessos milita-
res, os franceses finalmente não tinham o grau de comprometimento dos rebeldes,
e o presidente francês Charles de Gaulle concordou em submeter a questão da
independência aos votos populares em 1961 e 1962, resultando na independência
da Argélia em 1962.7
Em 1979, a União Soviética enviou forças militares ao Afeganistão para defen-
der o governo comunista de lá contra os guerrilheiros mujahideen. Nos nove anos
seguintes, os soviéticos foram incapazes de prevalecer contra os mujahideen. Os
soviéticos desistiram e se retiraram em 1988. O governo afegão caiu posteriormente
para os rebeldes em 1992.8
Em cada um desses casos, os rebeldes estavam lutando em defesa de sua terra
natal contra o que viam como agressores estrangeiros. Nos casos do Vietnã e
do Afeganistão, os guerrilheiros também tiveram apoio de governos estrangeiros.
Mas, mesmo tendo em conta esse apoio, os guerrilheiros eram muito mais fracos
que seus oponentes pelas medidas tradicionais em cada um desses conflitos. Os
Estados Unidos, França, Grã-Bretanha e União Soviética foram quatro das nações
mais poderosas da história mundial. Portanto, se eles puderam ser derrotados por
guerrilheiros lutando em defesa da sua terra natal, qualquer nação que contemple
uma guerra de conquista nos tempos modernos deve antecipar enormes dificuldades
no controle do território ocupado. Isso é ainda mais verdadeiro em territórios, como
na maioria dos Estados Unidos atuais, onde uma grande porcentagem da média
de cidadãos está armada para começar.9
5
Para uma descrição do conflito no Vietnã, consulte Herring 2002.
6
Para uma descrição da guerra de independência da Irlanda, consulte Hopkinson 2002.
7
Para um relato da revolta da Argélia, ver Horne 1987.
8
Para uma descrição do conflito soviético-afegão, consulte Maley 2009.
9
Estima-se que 47% das famílias americanas possuem armas de fogo (Saad 2011), e o país
contém mais de 200 milhões de armas particulares, quase um terço do suprimento total de armas
12. Guerra e Defesa da Sociedade 273

12.2.2 A dificuldade de conquistar um território não go-


vernado
Sob um aspecto, conquistar uma sociedade anarquista seria mais difícil do que
conquistar um Estado-nação. Para conquistar um território que já é governado, o
agressor deve convencer o governo existente a se render, o que geralmente pode ser
feito atacando ativos militares fixos do governo ou matando membros suficientes
da população. Quando o governo se render, o aparato desse mesmo governo poderá
ser cooptado para controlar a sociedade em nome de seus novos governantes.
Por outro lado, a tarefa de assumir o controle de uma sociedade não-governada
é mais complexa. Na ausência de qualquer estrutura de autoridade central, a
sociedade deve ser conquistada um bairro de cada vez. Para controlar cada bairro,
o agressor precisará posicionar tropas no bairro ou contratar o equivalente à polícia
da população local. É provável que qualquer uma das opções seja cara e, em ambos
os casos, os responsáveis pela imposição dos conquistadores provavelmente serão
alvos frequentes de ataques de guerrilha. Além disso, se o Estado conquistador
desejar, em última análise, governar o povo conquistado, precisará estabelecer todo
o aparato do governo.
Um agressor determinado e rico poderia, no entanto, estabelecer governo sobre
uma sociedade inicialmente não governada. Mas a tarefa de fazer isso provavel-
mente será mais cara e demorada do que a de dominar uma sociedade que já tem
um governo, mas tem um exército fraco. Como existem muitas sociedades que
satisfazem a última descrição, uma sociedade anarquista provavelmente não será
o alvo mais atraente para um regime expansionista.

12.2.3 Resistência não-violenta


A priori, pode parecer que a força só pode ser combatida com maior força. Como
os governos comandam maior poder coercitivo do que qualquer outro agente, pode
parecer que a única defesa eficaz contra um governo é outro governo. No entanto,
vários episódios históricos ao longo do século passado revelaram a surpreendente
eficácia de métodos não-violentos de resistência à tirania e à injustiça, demons-
trando que mesmo quando a injustiça é coercivamente imposta, a violência não é
a única, e talvez nem a solução mais eficaz.
O caso mais conhecido é o da luta indiana pela independência da Grã-Bretanha,
liderada por Mohandas Gandhi. As táticas de Gandhi incluíam greves de fome;
marchas e manifestações; boicotes a mercadorias, escolas e tribunais britânicos;
desobediência civil, incluindo recusa de pagar impostos; greves trabalhistas; e
ostracismo social dos indianos que colaboravam com os britânicos. Embora a in-
do mundo (Reuters 2007b).
12. Guerra e Defesa da Sociedade 274

dependência indiana estivesse demorando muito tempo, acabou sendo conquistada


com um mínimo de derramamento de sangue (em relação aos casos discutidos na
Seção 12.2.1), graças em grande parte aos esforços do Mahatma. Isso ocorre ape-
sar do fato dos britânicos, pelo menos no início, demonstrarem uma disposição
consideravelmente maior de recorrer à violência do que os seguidores de Gandhi.10
Outro caso bem conhecido é o do movimento americano pelos direitos civis das
décadas de 1950 e 1960. Sob a liderança de Martin Luther King Jr. e outros, o
movimento se baseou em táticas não-violentas como protestos, boicotes e marchas.
Ativistas de direitos civis frequentemente enfrentavam violência nas mãos da polí-
cia local, do Ku Klux Klan e de outros oponentes da integração racial. Milhares de
ativistas foram presos, muitos foram espancados e vários líderes de direitos civis,
incluindo o Dr. King, foram assassinados. Apesar disso, o movimento permaneceu
predominantemente não-violento e, finalmente, triunfou sobre seus oponentes mais
violentos, vendo a aprovação da maior legislação de direitos civis em meados da
década de 1960, juntamente com mudanças drásticas na cultura e na sociedade
americanas.11
No final do século XX, várias nações, incluindo as repúblicas soviéticas e os
países satélites da Europa Oriental, alcançaram a independência da União Sovié-
tica por meios predominantemente não-violentos (com exceção da Romênia, onde
a transição foi mais violenta do que nas outras nações). O processo começou na
Polônia em 1980, quando os trabalhadores formaram um sindicato nacional conhe-
cido como Solidariedade. O Solidariedade rapidamente se tornou uma ferramenta
para defender reformas políticas e econômicas. O governo tentou esmagá-lo proi-
bindo o sindicato e prendendo milhares de seus membros, mas o movimento per-
sistiu. Eventualmente, o governo desistiu de eliminar o Solidariedade. O sindicato
empunhava persistentemente a ferramenta não-violenta da greve trabalhista para
tentar forçar reformas. Em 1989, o governo finalmente se curvou à pressão e ini-
ciou negociações com representantes do Solidariedade, durante as quais o governo
concordou em permitir eleições livres nas quais os candidatos do Solidariedade
pudessem concorrer com alguns dos candidatos comunistas. Embora as pesquisas
previssem vitória para os comunistas, no evento o partido comunista sofreu uma
derrota esmagadora, perdendo cada assento que estava disponível na legislatura.
Outras derrotas estavam por vir, libertando a Polônia do domínio comunista.12
Em agosto de 1991, comunistas de linha dura na União Soviética, tentando
deter a maré da reforma iniciada pelo presidente Gorbachev, fizeram Gorbachev
prisioneiro e lançaram um golpe de Estado. Boris Yeltsin, então presidente da
10
Para uma descrição do movimento de independência da Índia, ver Sarkar 1988.
11
Para uma descrição do movimento americano pelos direitos civis, ver Williams 1987.
12
Para um relato da luta polonesa, ver Mason 1996, 26-9, 51-4; Sanford 2002, pp. 50–5; BBC
News 1999.
12. Guerra e Defesa da Sociedade 275

Rússia, enfrentou os líderes do golpe em Moscou com a ajuda de dezenas de mi-


lhares de manifestantes civis que se reuniram ao seu redor na Casa Branca Russa.
O golpe fracassou, devido em parte ao apoio civil dedicado a Yeltsin, em parte à
opinião dividida entre os militares e em parte à recusa das forças especiais soviéti-
cas em executar ordens para atacar a Casa Branca. Logo após o golpe fracassado,
embora Gorbachev tenha sido nominalmente restaurado ao poder, a União Sovié-
tica se desfez, à medida que os Estados membros (aqueles que ainda não o haviam
feito) declaravam independência. Tudo isso ocorreu, surpreendentemente, com um
mínimo de derramamento de sangue. No caso da Estônia, a independência foi
alcançada sem derramamento de sangue.13
Mais recentemente, o antigo presidente egípcio Hosni Mubarak foi expulso do
cargo como resultado de um movimento de protesto predominantemente pacífico.
Por 30 anos, Mubarak liderou um regime corrupto e ditatorial no Egito, até que
os manifestantes, enfurecidos pela recente brutalidade policial e encorajados pela
revolução tunisiana de 2010–11, saíram às ruas no início de 2011 para exigir a
renúncia de seu governante. Os protestos foram tão generalizados que Mubarak
logo deixou o cargo, muitos outros membros de seu governo renunciaram ou foram
demitidos, e a maioria das outras demandas de manifestantes foram atendidas. As
eleições parlamentares foram realizadas a partir de novembro, com a eleição presi-
dencial marcada para 2012. Até o momento em que este artigo foi escrito, o futuro
do Egito permanece incerto; mesmo assim,o súbito colapso de uma administração
que durou 30 anos é um testemunho do poder da resistência não-violenta.
Prima facie, episódios históricos como esses podem parecer intrigantes. Como
pode um governo nacional, com estoques maciços de armamentos e dezenas ou
centenas de milhares de soldados, ser derrotado por civis desarmados e pacíficos?
A explicação está na natureza do poder do governo. O presidente Mao Tse-tung
é frequentemente citado como tendo dito que “o poder político cresce do cano de
uma arma”.14 Mas isso é apenas parte da verdade. O poder político vem funda-
mentalmente do povo sobre quem é exercido. Embora os governos exerçam enorme
poder coercitivo, eles não possuem recursos suficientes para aplicar diretamente a
força física a todos ou à maioria dos membros de uma sociedade. Devem ser se-
letivos, aplicando sua violência a um número relativamente pequeno de infratores
da lei e contando com a grande maioria da população para se alinhar, seja por
medo ou por crer na autoridade do governo. A maioria das pessoas deve obedecer
à maioria dos comandos do governo; deve, no mínimo, trabalhar para fornecer
bens materiais aos líderes, soldados e funcionários do governo, para um governo
persistir.
13
Ver Coleman 1996, capítulo 16, para uma breve descrição do golpe de agosto e do colapso
da União Soviética. Sobre a recusa das forças especiais soviéticas em atacar a Casa Branca, ver
Ebon 1994, 7-9. No caso da Estônia, ver Tusty e Tusty 2006.
14
Mao 1972, 61.
12. Guerra e Defesa da Sociedade 276

Quando uma injustiça é suficientemente grande e óbvia, muitas vezes surgem


um grande número de manifestantes dispostos a desafiar o Estado, apesar da ame-
aça de repressão. Em resposta, os governos tirânicos geralmente recorrem à vi-
olência. No entanto, essa violência geralmente sai pela culatra, legitimando os
manifestantes e deslegitimando o Estado aos olhos de agentes anteriormente não
envolvidos. Isso pode ter o efeito de expandir, em vez de suprimir a resistên-
cia. Eventualmente, o Estado pode perder a fonte de seu poder, a cooperação
da maioria dos cidadãos.15 No caso de um governo tentar controlar um território
estrangeiro, seria necessário enviar enormes recursos domésticos para o território
estrangeiro na tentativa de manter o controle, minando assim, um dos principais
objetivos da busca de um território estrangeiro, o de lucrar com a extração de
recursos.
Isso não é para incentivar um otimismo poliana sobre ações não-violentas. A
resistência não-violenta alcançou alguns sucessos dramáticos, mas também fracas-
sou frequentemente, como no caso dos pequenos bolsões de resistência não-violenta
aos nazistas na Alemanha ou aos protestos de 1989 na China. O mesmo se aplica
a todas as formas de resistência: a resistência violenta também falha frequente-
mente, e mesmo a resistência violenta de um governo (isto é, guerra) geralmente
falha em alcançar seus objetivos. O que os episódios históricos que mencionei mos-
tram é que a ideia de combater um governo coercitivo por meios não-violentos não
é apenas um ideal ingênuo. De fato, essa forma de resistência costuma ser mais
eficaz e quase sempre muito menos onerosa que a resistência violenta.

12.2.4 Conclusões
Nenhum dos casos históricos mencionados nesta seção apresenta uma sociedade
anarquista que resiste a um Estado estrangeiro hostil. Isso ocorre principalmente
porque existem muito poucas sociedades anarquistas e nenhuma seguindo o mo-
delo anarcocapitalista. No entanto, como vimos, houve muitos casos de resistência
bem-sucedida por parte dos cidadãos aos governos, incluindo governos impostos
por Estados estrangeiros. O movimento de descolonização do século XX mostra
que é particularmente difícil para um Estado estrangeiro manter o controle de um
território nos tempos modernos. Não há razão óbvia para que membros de uma
sociedade anarquista não pudessem resistir aos agressores estrangeiros de maneira
tão eficaz quanto membros de sociedades reais de fato resistiram a potências es-
trangeiras e tiranos domésticos no passado recente.
Não há garantia de sucesso; uma anarquia pode ser assumida por um governo
estrangeiro. Mas isso também se aplica às sociedades governadas – de fato, so-
ciedades de todos os tipos conhecidos de governo foram assumidas por governos
15
Esse relato deriva levemente de Sharp 1990, cap. 2–3.
12. Guerra e Defesa da Sociedade 277

estrangeiros. Ninguém argumenta que isso demonstra que o governo é impraticá-


vel. O fato de que o mesmo destino possa acontecer em uma anarquia, portanto,
não mostra que a anarquia seja impraticável. A anarquia seria impraticável se
não houvesse meios de defesa plausíveis, mas a evidência é de que não é assim;
uma sociedade não ficaria sem meios plausíveis de resistência apenas em virtude
da falta de um exército governamental.

12.3 Evitando conflitos


Na última seção, discuti maneiras de resistir a uma potência estrangeira, uma vez
que a sociedade foi dominada ou está sob ataque. Mas essa não é a melhor maneira
de uma sociedade manter sua liberdade. A melhor maneira de uma sociedade
manter sua liberdade é evitar conflitos violentos para começar.
Para avaliar as perspectivas de evitar conflitos violentos entre sociedades, deve-
mos primeiro identificar as causas mais prováveis de conflitos desse tipo. A melhor
maneira de identificar as causas prováveis da guerra no futuro é examinar o que
geralmente causou a guerra no passado. É concebível que as sociedades anarquis-
tas possam se envolver na guerra por razões diferentes daquelas que levaram as
sociedades controladas pelo governo à guerra; no entanto, a melhor evidência que
temos sobre o motivo pelo qual uma sociedade, seja anarquista ou estatista, pode
se envolver em guerra, não obstante, reside no registro histórico da guerra real.
Portanto, começaremos com esse registro.
Muitos teóricos que consideraram as causas da guerra tentaram identificar al-
gum fator mais importante. A verdade, no entanto, é provavelmente mais com-
plexa: vários fatores contribuem para o risco de guerra, sem que nenhum fator
predomine em todos os casos.16 Aqui, reviso alguns dos fatores mais importantes.

12.3.1 Agressão humana natural


Alguns acreditam que os seres humanos são naturalmente agressivos e que essa
agressão natural explica a propensão humana à guerra. A agressividade natural
da humanidade às vezes é apoiada por argumentos da etologia ou da psicologia
evolutiva.17
Uma forma extrema dessa tese (talvez não seja de fato sustentada por qualquer
pensador proeminente)18 seria que a guerra frequente é inevitável por causa da
16
Ver Sobek 2009, 2–3; Cashman e Robinson 2007, 3-4.
17
Lorenz 1966, 42-3, capítulo 13; Wilson 2000, p. 254-5.
18
Robert Sapolsky (em Fry 2007, prefácio, x) atribui a tese a Lorenz (1966). No entanto,
Lorenz conclui seu livro com uma discussão de maneiras de evitar a guerra (1966, capítulo 14),
chegando a prever que um dia o amor e a amizade abrangerão toda a humanidade (298–9).
12. Guerra e Defesa da Sociedade 278

agressão inerente à natureza humana. Esta tese é claramente falsa. O antropólogo


Douglas Fry lista mais de setenta sociedades que não fazem guerra, principalmente
tribos primitivas.19 Entre os Estados-nação modernos, a Suíça não lutou com
outro país desde que o famoso princípio da neutralidade suíça foi formalmente
estabelecido em 1815. Sua última guerra foi uma guerra civil em 1847; durou 25
dias e matou menos de 100 vidas.20 Gerações de suíços nunca conheceram a guerra,
apesar de estarem cercados por países em guerra durante as duas guerras mundiais.
Liechtenstein dissolveu seu exército em 1868 e também permaneceu em paz desde
então. A Cidade do Vaticano nunca esteve em guerra. A Costa Rica aboliu suas
forças armadas em 1948 e está em paz desde então. E apesar de toda a violência
do século XX, o mundo como um todo experimentou um longo período de uma
acentuada tendência de queda nos violentos conflitos entre Estados, sugerindo a
possibilidade de novos declínios na taxa de produção de guerra.21
Uma tese mais moderada é que a natureza humana contém uma propensão à
agressão que às vezes entra em erupção na guerra, talvez quando certos gatilhos
ambientais ocorram.22 Essa tese parece suficientemente fraca e vaga que poucos
poderiam objetar a ela (de fato, a tese geral pode simplesmente seguir a observação
de que há guerras, juntamente com outros fatos triviais), embora exista espaço para
opiniões divergentes sobre o quão difícil é para os seres humanos resistirem a se
matarem.
Esta tese moderada, no entanto, é de pouca utilidade para os propósitos atuais.
Nosso objetivo é determinar se e como uma sociedade pode evitar a guerra. Se a
natureza humana contém uma propensão à agressão, mas essa propensão só entra
em guerra sob certas condições, devemos examinar as outras teorias das causas
da guerra para determinar quais são essas condições, pois isso parece ser a chave
para evitar a guerra (antes de iniciar um programa de engenharia genética para
eliminar nossas tendências agressivas).

12.3.2 Terra e recursos


Um dos motivos pelos quais os Estados entram em guerra é o propósito de apre-
ender os recursos e o território uns dos outros.23 A Segunda Guerra Mundial foi
iniciada pela invasão de Adolf Hitler na Polônia, motivada pelo desejo de controlar
mais território (Lebensraum, como Hitler colocou). A Índia e o Paquistão lutam
pelo controle do território da Caxemira desde que a Índia e o Paquistão conquis-
19
Fry 2007, 17, 237–8.
20
Remak 1993, 14, 157. O princípio da neutralidade suíça foi escrito no Tratado de Paris de
1815, após a derrota de Napoleão Bonaparte, que já havia assumido a Suíça.
21
Cashman e Robinson 2007, 1; Gat 2006, 591; Pinker 2011.
22
Gat (2006, 39-41) assume essa posição.
23
Gat (2006, 61-7, 409-14) considera isso a causa subjacente central da guerra.
12. Guerra e Defesa da Sociedade 279

taram sua independência em 1947.24 A guerra Irã-Iraque foi travada em parte


pelo controle do rio Shatt al-Arab, que constitui o principal acesso do Iraque ao
Golfo Pérsico e é, portanto, de grande valor econômico para o Iraque. O Iraque
também tentou dominar o Khuzestan, a província iraniana rica em petróleo que
faz fronteira com Shatt al-Arab.25 A invasão posterior do Kuwait pelo Iraque em
1990 foi ainda mais claramente motivada economicamente, motivada em parte pe-
las queixas do Iraque por violação do Kuwait das cotas de petróleo da OPEP e em
parte pelo puro valor da terra rica em petróleo do Kuwait.26
Se um desejo predatório pela terra e pelos recursos dos outros é a principal
causa da guerra, a prevenção da guerra pode parecer quase impossível, indepen-
dentemente de se ter um Estado-nação ou uma sociedade anarquista. Enquanto
uma sociedade anarquista não pode iniciar uma guerra predatória, suas terras e
recursos podem fazer com que ela se torne vítima de tais guerras.
Essa conclusão pessimista, no entanto, é prematura. Nem todas as regiões
do globo são igualmente propensas a conflitos de terra e recursos. Os conflitos
de recursos ocorrem em áreas com concentrações extraordinariamente altas de
recursos especialmente valiosos, como as áreas ricas em petróleo do Oriente Mé-
dio. Conflitos modernos sobre território geralmente ocorrem em um dentre um
número limitado de regiões específicas de disputas territoriais de longa data, par-
ticularmente em áreas com um histórico daquilo que pode ser visto como ocupação
injusta, áreas nas quais as fronteiras foram traçadas por potências estrangeiras e
áreas contendo subpopulações religiosas ou étnicas grandes e mutuamente hostis.
Assim, por exemplo, a província de Khuzestan contém subpopulações árabes e per-
sas, e o Shatt al-Arab foi disputado por muito tempo entre o Iraque e o Irã.27 As
tensões de longa data da Índia e do Paquistão, que irromperam periodicamente na
guerra, remontam a 1947, quando os britânicos concordaram em deixar a região.
No processo, os britânicos criaram os Estados da Índia e do Paquistão, mas falha-
ram em estabelecer o alinhamento da Caxemira, que foi deixado para escolher em
qual dos dois países se juntaria. A Caxemira tem uma maioria muçulmana, além
de uma minoria substancial da população hindu. Também em 1947, as Nações
Unidas adotaram um plano para dividir a Palestina, então um território ocupado
pelos britânicos com grandes subpopulações judaicas e árabes, em um novo Estado
judeu e um Estado árabe. Essa decisão levou à criação de Israel e iniciou o notório
conflito árabe-israelense, que periodicamente explode em violência desde 1948.
24
Cashman e Robinson 2007, 205, 216–23.
25
Cashman e Robinson 2007, 271-3.
26
Karsh 2002, 89-92.
27
Um tratado de 1975 havia estabelecido a fronteira entre os dois países no meio do rio.
No entanto, Saddam Hussein, sentindo que o Iraque havia sido coagido a aceitar esse tratado,
desejava retornar aos termos de um tratado anterior, de 1937, que havia estabelecido a fronteira
na margem oriental do rio.
12. Guerra e Defesa da Sociedade 280

Essas observações nos permitem fazer algumas previsões sobre a estabilidade


de qualquer futura sociedade anarquista. Se essa sociedade fosse criada por na-
ções estrangeiras para a região em que estava localizada, se contivesse grandes
grupos étnicos ou religiosos mutuamente hostis e se fosse criada em uma área com
uma longa história de conflito, a sociedade anarquista provavelmente se mostrará
instável. Estados próximos provavelmente transformariam a sociedade anarquista
em um campo de batalha. O mesmo vale para qualquer tipo de sociedade, seja
anarquista ou estatista.
À luz de tais considerações, a anarquia é praticamente viável somente sob certas
condições, condições que são obtidas em alguns lugares do mundo, mas não em
todos. As primeiras sociedades anarquistas de sucesso precisarão ser (i) fundadas
por movimentos locais e não impostos por nações estrangeiras, (ii) localizadas em
regiões com histórias relativamente pacíficas, e (iii) ocupadas por pessoas com
tensões raciais e religiosas mínimas. Sob tais condições, os anarquistas teriam
grandes chances de evitar a guerra civil e a guerra com os Estados vizinhos.

12.3.3 Espirais de conflito e disputas entre governos


Raramente, se é que alguma vez, a guerra estourou por causa de uma disputa
entre os povos de duas nações, ou entre o governo de uma nação e o povo de outra.
O caso usual é que a guerra começa como resultado de uma disputa entre os
governos de duas ou mais nações. Estudos em relações internacionais descobriram
que o maior determinante do comportamento hostil de um Estado para outro é o
comportamento hostil do segundo Estado para o primeiro.28 Um padrão frequente
é a espiral de conflitos: um Estado executa uma ação que outro Estado considera
hostil. O segundo Estado responde com uma ação hostil própria. O primeiro
Estado retalia com outro ato hostil. Essa série de ações e reações cria uma espiral
de tensões crescentes. Em cada estágio, há um forte risco de que o nível de
hostilidade aumente, seja por causa do aumento da raiva por parte dos líderes
ou por causa de diferentes percepções, principalmente quando uma parte percebe
sua própria ação como menos hostil que a outra parte percebe que é. A interação,
portanto, corre o risco de aumentar até atingir o nível mais alto de hostilidade, o
da guerra definitiva.
Nem todas as guerras surgiram de disputas entre Estados; às vezes, um país
realiza uma guerra puramente agressiva, na qual o comportamento anterior do
governo do outro país é irrelevante. No entanto, isso é muito raro. Quase qualquer
guerra, especialmente nos tempos modernos, pode ser usada para ilustrar a ideia
de disputa entre governos como causa da guerra. A Primeira Guerra Mundial
começou como resultado do assassinato do arquiduque Franz Ferdinand da Áustria.
28
Cashman 1993, 165–72; Choucri e North 1975, 248–9, 254.
12. Guerra e Defesa da Sociedade 281

Embora o assassinato não tenha sido oficialmente apoiado pelo governo sérvio, o
governo austríaco acreditava (corretamente) que alguns funcionários do governo
sérvio estavam envolvidos na conspiração. O conflito austro-sérvio se tornou a
semente da guerra em geral. Alemanha, Rússia, França e Grã-Bretanha foram
atraídos para o conflito por meio de alianças com outros participantes no conflito.
O processo envolveu algumas espirais de conflito em rápida evolução nas quais,
entre outras coisas, a mobilização militar de uma nação foi tomada como um sinal
de intenções hostis, levando outras nações a mobilizar seus militares.29
A guerra Irã-Iraque, embora em parte uma guerra por território, também foi
motivada por interações hostis anteriores entre os governos das duas nações. Até
1969, o Iraque possuía o rio Shatt al-Arab, até que o Irã decidiu unilateralmente
mover a fronteira entre as duas nações da margem leste do rio para o meio do rio.
O Iraque aceitou a mudança para evitar a guerra com o que era então um vizinho
muito mais poderoso. Quando Khomeini assumiu o poder no Irã em 1979, ele
começou a pedir aos muçulmanos xiitas no Iraque que derrubassem seu governo,
assim como o próprio Khomeini havia feito no Irã. Isso desencadeou uma espiral
de conflitos envolvendo esforços de ambos os governos para fomentar a rebelião
nos países uns dos outros, levando à invasão do Iraque em 1980.30
Até a Segunda Guerra Mundial, o paradigma de uma guerra de conquista ini-
ciada por um Estado predatório, também foi parcialmente causada pelo compor-
tamento anterior de outros Estados. É amplamente reconhecido que as sementes
da guerra foram plantadas 20 anos antes, quando o Tratado de Versalhes foi as-
sinado em 1919.31 As condições punitivas e humilhantes do tratado, incluindo as
enormes reparações de guerra que exigiam que a Alemanha pagasse aos vencedores
da Primeira Guerra Mundial, causou um ressentimento generalizado e poderoso
na Alemanha, ajudando a abrir o caminho para a ascensão de um demagogo que
prometeu restaurar o orgulho alemão. Até os observadores britânicos na época
da assinatura consideraram o tratado escandalosamente injusto para a Alemanha.
John Maynard Keynes resumiu sua opinião sobre o Tratado de Versalhes assim:

A política de reduzir a Alemanha à servidão por uma geração, de de-


gradar a vida de milhões de seres humanos e de privar toda uma nação
de felicidade deve ser abominável e detestável – abominável e detes-
tável, mesmo que fosse possível, mesmo que enriquecesse nós mesmos,
mesmo que não semeasse a decadência de toda a vida civilizada da
Europa.32
29
Cashman e Robinson 2007, 55–68.
30
Cashman e Robinson 2007, 271–3, 288–92.
31
Parker 1997, 2; Miller 2001, 20; Lindemann 2010, 68-70.
32
Keynes 1920, 225. A opinião britânica da época estava amplamente de acordo com Keynes
(Henig 1995, 50-2).
12. Guerra e Defesa da Sociedade 282

Não estou sugerindo aqui que, ao iniciar a Segunda Guerra Mundial, Hitler
estava simplesmente buscando vingança por Versalhes; O próprio Hitler foi mais
motivado por um impulso megalomaníaco para controlar mais território, assim
como o ódio de outras raças. Estou sugerindo, no entanto, que o ressentimento
alemão sobre Versalhes permitiu a Hitler subir ao poder.
Como podemos evitar os tipos de disputas entre governos que levam à guerra?
Aqui está uma possibilidade: poderíamos eliminar nosso governo. Uma sociedade
anarquista seria incapaz de ter o tipo de disputas ou interações hostis que mais
frequentemente levaram à guerra, porque faltariam os agentes que as mantêm.
Mesmo que alguns indivíduos privados da sociedade anarquista adotassem posições
hostis em relação a um governo estrangeiro, seria muito improvável que isso levasse
à guerra, pois os governos estrangeiros se sentem muito menos ameaçados por
indivíduos hostis do que por governos hostis. Se eu, como indivíduo particular,
convocar dissidentes no Iraque a derrubar o governo, o Iraque não invadirá meu
país. Se eu declarar que meu objetivo é esmagar o governo russo, que me recuso a
negociar com russos e que me recuso a falar com o governo russo, é muito menos
provável que isso leve à guerra (ou a qualquer reação do governo russo) do que as
mesmas ações empreendidas pelo governo dos EUA.
Isso não quer dizer que a guerra que envolva uma sociedade anarquista seja
impensável. É simplesmente dizer que é menos provável que uma sociedade anar-
quista se envolva em conflitos do que uma sociedade dominada pelo Estado. En-
quanto o Estado se declara orgulhosamente nosso único grande protetor contra um
mundo hostil, é esse mesmo protetor acima de tudo que torna o mundo hostil para
começar.

12.3.4 Relações de poder


As nações geralmente disputam a posição do poder dominante em sua região ou no
mundo. Mudanças nas relações de poder relativo entre as nações mais poderosas
de uma região são particularmente perigosas. Quando o poder do país dominante
está em declínio e o poder de outra nação está em ascensão, o poder em ascensão
pode tentar tomar a posição dominante iniciando uma guerra com a nação do-
minante.33 Como alternativa, a nação dominante pode decidir que deve atacar o
poder ascendente antes que este se torne muito poderoso, para impedir que esta
nação ocupe a posição dominante.34
A Primeira Guerra Mundial foi interpretada por diferentes observadores como
um exemplo de cada um desses padrões. Na primeira interpretação, a Grã-
Bretanha era o poder dominante na Europa, a Alemanha o poder crescente e a
33
Organski 1968, 371.
34
Copeland 2000, 4–5.
12. Guerra e Defesa da Sociedade 283

Alemanha iniciou a guerra para desafiar o domínio britânico.35 Na segunda inter-


pretação, a Alemanha era a potência dominante na Europa continental, a Rússia
era a potência em ascensão e a Alemanha iniciou uma guerra com a Rússia antes
que os russos pudessem se tornar poderosos demais.36 É certo que foi a invasão
austríaca da Sérvia que iniciou mais diretamente a Primeira Guerra Mundial; A
Áustria, no entanto, agiu com o encorajamento e prometeu o apoio militar da
Alemanha, sem o qual teria medo de prosseguir, e as autoridades alemãs na época
esperavam uma guerra com a Rússia.37
Interpretações semelhantes foram oferecidas na Segunda Guerra Mundial; mais
uma vez, a Alemanha iniciou a guerra, seja para desafiar o domínio britânico38 ou
para antecipar a ascensão da Rússia.39
A guerra Irã-Iraque dos anos 80 ilustra novamente o perigo de mudar as relações
de poder. Inicialmente, o Irã era muito mais poderoso que o Iraque. É por isso
que, quando o Irã reajustou unilateralmente a fronteira entre as duas nações em
1969, o Iraque aderiu ao acordo, em vez de entrar em guerra. Mas em 1980 o poder
do Iraque havia aumentado, enquanto o do Irã havia declinado, levando as duas
nações, em grosso modo, a uma certa paridade. Foi então que Saddam Hussein
sentiu que poderia bancar uma guerra com o Irã. Um dos fatores que motivou a
guerra foi provavelmente o desejo de Saddam Hussein de posicionar o Iraque como
líder do mundo árabe e poder dominante na região.40
Novamente, uma resposta para o problema é eliminar o governo. O tipo de
domínio que os Estados-nação sustentam é em grande parte uma questão de poder
militar; é por isso que as nações pensaram em estabelecer ou manter o domínio
através da vitória militar. Ao abolir seu governo, uma sociedade se afastaria da
disputa pela posição dominante nesse sentido, por duas razões: primeiro, porque
a sociedade não possuiria forças militares permanentes; segundo, porque a socie-
dade não possuiria autoridade central e, portanto, não se comportaria como um
agente unitário. Haveria apenas um grande número de indivíduos, empresas, clu-
bes particulares e assim por diante; é provável que nada disso seja considerado
um candidato ao domínio junto aos Estados-nação. Como as guerras pelo domínio
são normalmente travadas entre o Estado-nação dominante e um desafiante, não
haveria razão para uma sociedade anarquista estar envolvida em uma guerra pelo
domínio.
35
Organski 1968, 356–9.
36
Copeland 2000, 56-117.
37
Cashman e Robinson 2007, 30-6, 57. As evidências de Copeland (2000, 79-117) mostram
como as autoridades alemãs manipularam a Áustria, a Rússia e a França na guerra.
38
Organski 1968, 357–8.
39
Copeland 2000, 118–45.
40
Cashman e Robinson 2007, 278-81.
12. Guerra e Defesa da Sociedade 284

12.3.5 A paz democrática liberal


Entre os desenvolvimentos modernos mais importantes da teoria das relações inter-
nacionais está o surgimento da tese da paz democrática. Os estudiosos observaram
que, embora as ditaduras frequentemente combatam outras ditaduras e as demo-
cracias muitas vezes lutem contra as ditaduras, as democracias quase nunca lutam
com outras democracias.41 Kant previu esse fenômeno com base teórica em um
ensaio de 1795, argumentando que as guerras tendem a ser caras para o povo da
nações envolvidas na guerra e, assim, os eleitores tenderão a favorecer o tipo de
líder que evita a guerra agressiva. As ditaduras são muito mais propensas a travar
guerras agressivas porque as ditaduras não arcam pessoalmente com a maior parte
dos custos da guerra.42
O argumento teórico está aberto a desafios. Como a maioria dos eleitores
percebe que seus votos individuais não têm impacto real nas políticas de seu país,
eles podem votar de forma ignorante ou irracional e podem apoiar líderes agressivos
por razões emocionais.43 Alguns também contestam as evidências empíricas da paz
democrática, citando uma série de alegadas exceções à regra: a Guerra de 1812
entre os Estados Unidos e a Grã-Bretanha; Primeira Guerra Mundial, durante a
qual a Alemanha democrática lutou contra a França e a Grã-Bretanha; Segunda
Guerra Mundial, durante a qual a Finlândia democrática se juntou às potências
do Eixo; as guerras indo-paquistanesas de 1947 e 1999; e assim por diante.
Apesar dessas críticas, há claramente um fenômeno importante ao redor de
uma “paz democrática”. Embora a guerra entre democracias não seja inédita,
continua a ser o caso, por qualquer motivo, que há muito menos guerras entre
democracias do que se poderia esperar puramente da taxa geral de combate no
mundo.44 Além disso, existe um grande grupo crescente de nações para as quais a
guerra entre dois deles é, intuitivamente, quase impensável. Ninguém contempla
seriamente a guerra entre os Estados Unidos e Canadá ou entre a Austrália e Nova
Zelândia ou entre Inglaterra e França. Apesar das muitas guerras que assolaram
a região nos séculos passados, hoje ninguém está preocupado com a guerra na
Europa Ocidental.
Há espaço para debate sobre por que essas nações são pacificamente inclinadas
uma para a outra. Alguns dizem que é porque são democráticas. Outros atribuem
a paz a um liberalismo político mais amplo.45 Outros citam os efeitos pacificadores
41
Veja a declaração seminal de Babst (1972). Veja Gleditsch 1992 para uma breve revisão da
literatura.
42
Kant 1957, 12–13.
43
Ver Seção 9.4.3. Gat (2006, 582-3) observa que massas belicosas em muitas sociedades
levaram seus líderes à guerra.
44
Bremer 1992, 316, 328–30, 334–6; Russett e Oneal 2001, 108-11.
45
Doyle 2010a; 2010b.
12. Guerra e Defesa da Sociedade 285

do livre comércio, que cria interdependências entre empresas de diferentes países


e torna a guerra entre nações mais cara para os dois lados.46 Outros apelam para
os efeitos do desenvolvimento econômico; à medida que as sociedades atingem um
certo nível de desenvolvimento econômico, torna-se mais fácil e eficiente adquirir
recursos através do comércio do que do combate.47 Os membros de sociedades ricas
têm menos a ganhar e mais a perder lutando.48 Finalmente, alguns apontam para
uma grande mudança de escala nos valores morais aceitos em muitas sociedades,
uma mudança na qual a guerra passou a ser vista como hedionda e imoral, em vez
de gloriosa e honrosa.49
Essas explicações não precisam ser vistas como concorrentes; esses fatores po-
dem funcionar em conjunto para promover a paz, e alguns podem explicar ou
reforçar outros. Qualquer que seja a importância relativa dos vários fatores, há
um certo tipo de sociedade que parece altamente improvável de travar guerras com
outras sociedades do mesmo tipo. Esse tipo de sociedade é geralmente liberal, de-
mocrática e economicamente desenvolvida e possui baixas barreiras ao comércio e
valores modernos e pacíficos. Devido à variedade de fatores aos quais a paz pode
ser atribuída, “paz democrática” pode ser um nome impróprio; no entanto, por
uma questão de brevidade, continuarei a empregar esse nome. Da mesma forma,
continuarei a me referir a essas sociedades pacificamente inclinadas (entre si) como
“democracias liberais”, embora isso possa ser uma descaracterização da categoria
relevante.
As observações anteriores sugerem um conjunto plausível de condições sob as
quais uma sociedade anarquista evitaria a guerra. Primeiro, a sociedade deve
estar localizada em uma região cercada por fortes democracias liberais. Isso tor-
naria altamente improvável que a sociedade fosse atacada por nações não liberais.
Guerras entre nações distantes são raras em geral,50 e, nesse caso, um invasor te-
ria que atravessar um dos Estados democráticos liberais. Segundo, a sociedade
deve compartilhar as características das democracias liberais, além daquelas que
inerentemente exigem governo. Deve ser rica; deve compartilhar valores ampla-
mente liberais e ser amante da paz; e deveria possuir numerosas e fortes relações
comerciais com seus vizinhos. Terceiro, a sociedade deve ser estabelecida com o
consentimento – ou pelo menos sem a oposição – dos Estados liberais circundantes.
Sob essas condições, é muito improvável que a sociedade sofra ataques de Estados
estrangeiros.
Essas condições são realistas? A primeira condição é certamente realista: gran-
des regiões do globo são controladas por democracias liberais, esses regimes ge-
46
Domke 1988, capítulo 5.
47
Gartzke 2010.
48
Gat 2006, 587-97
49
Mueller 2004, 1–2, 32–40; Pinker 2011, capítulo 4.
50
Bremer 1992, 312–13, 327, 334–6.
12. Guerra e Defesa da Sociedade 286

ralmente parecem altamente estáveis e cada vez mais o globo está sob o controle
de democracias liberais nos últimos dois séculos. Portanto, existem muitas regiões
adequadas e muitas outras existirão no futuro.
A segunda condição também é realista, embora não seja inevitável, desde que o
anarcocapitalismo seja viável em outros aspectos. É claro que, se a anarquia dege-
nerar em lutas e pilhagens universais, a sociedade anarquista não seria rica e não
manteria fortes laços comerciais com seus vizinhos. Os argumentos dos capítulos
anteriores sobre a paz interna e a estabilidade da ordem anarcocapitalista são, por-
tanto, importantes também para estabelecer o potencial de relações pacíficas entre
uma sociedade anarquista e seus vizinhos. Se esses argumentos estiverem corretos
e se uma sociedade anarquista for iniciada por pessoas inicialmente ricas, liberais
e amantes da paz, a sociedade continuará compartilhando essas características.
É a terceira condição que seria a mais difícil de realizar. Como toda parte ha-
bitável da superfície da Terra é atualmente controlada pelos Estados, a sociedade
anarquista aparentemente teria que ser fundada dentro do território de algum
Estado. Isso parece improvável no momento, principalmente porque quase nin-
guém acredita no anarquismo. De fato, muito poucos ouviram falar da forma de
anarquismo discutida neste livro. Isso sugere que o anarquismo não será adotado
tão cedo. No entanto, afirmo que, caso fosse adotado, seria um sistema social
bem-sucedido. Se o único obstáculo ao seu sucesso é que as pessoas se recusam a
experimentá-lo, acho que isso não é obstáculo para sustentar que é o sistema social
correto.

12.3.6 Se você deseja guerra, prepare-se para a guerra


Argumentei que uma sociedade anarquista poderia estar relativamente livre dos
fatores que normalmente fazem com que os Estados se envolvam na guerra. Mas e
se houvesse alguma característica exclusiva para as sociedades anarquistas que as
levaria a se envolver na guerra? Essa característica não teria aparecido em nenhum
dos estudos históricos das causas da guerra.
Há uma diferença óbvia entre anarquias e Estados que parece relevante: quase
todos os Estados mantêm exércitos permanentes, enquanto uma sociedade anar-
quista presumivelmente não teria exército permanente. Isso tornaria a sociedade
anarquista mais propensa à guerra? Alguns pensadores no campo das relações in-
ternacionais (muitas vezes apelidados de “realistas”) tomam as relações de poder
entre os Estados, especialmente a presença ou ausência de dissuasão, como os prin-
cipais determinantes da guerra e da paz. Costuma-se dizer que, se alguém deseja
a paz, deve se preparar para a guerra.51 Esses pensadores podem argumentar que
51
O ditado “Si vis pacem, para bellum” deriva do escritor romano do século IV Vegetius (2001,
63).
12. Guerra e Defesa da Sociedade 287

uma sociedade anarquista seria incapaz de deter os agressores e, portanto, logo


seria atacada.
Outros pensadores mantêm uma posição quase oposta: os preparativos milita-
res tornam a guerra mais provável do que menos. Uma razão é que os líderes que
acreditam que sua nação está bem preparada para a guerra ou que se consideram
comandantes de grandes forças militares podem se comportar de maneira mais
agressiva nas interações entre Estados, provocando respostas mais agressivas de
outros. Um segundo problema é que a manutenção de um exército permanente
cria uma classe permanente na sociedade com interesse econômico em guerra – mi-
litares, fabricantes de armas e outros que negociam com militares – e esse “lobby de
guerra” pode promover suspeitas a nações estrangeiras e apoiar líderes agressivos
que têm maior probabilidade de iniciar ou escalar conflitos. Um terceiro problema
é que, apesar da popularidade do ditado “se você deseja paz, prepare-se para a
guerra”, países estrangeiros têm menos probabilidade de tomar seus preparativos
de guerra como evidência de desejos pacíficos do que como evidência de inten-
ções hostis. A suspeita e hostilidade gerada em nações estrangeiras aumentará a
probabilidade de espirais de conflito que levam à guerra.52
Conservadores e liberais diferem entre si sobre o argumento teórico mais plausí-
vel. Felizmente, não precisamos confiar apenas em sentimentos; podemos recorrer
à evidência empírica. O argumento da dissuasão (deterrence) nos levaria a esperar
duas coisas: primeiro, que Estados mais militarizados (grosso modo, Estados que
gastam mais recursos em gastos militares per capita) têm menos probabilidade de
se envolver em guerra. A condição mais segura deve ser aquela em que ambos os
membros de um par de Estados são altamente militarizados, uma vez que, nesse
caso, ambos os lados poderiam antecipar danos enormes da guerra. Por outro lado,
se nenhum dos Estados é altamente militarizado, as consequências da guerra são
relativamente baixas e nenhum dos lados enfrentaria uma dissuasão forte.
Segundo, Estados com quase o mesmo poder devem ser menos propensos a
entrar em guerra entre si do que Estados com um poder muito desigual. Quando
dois Estados são quase iguais em poder, ambos sofrem sérias perdas com a guerra
e, portanto, ambos enfrentam uma dissuasão forte, enquanto quando um Estado
é muito mais poderoso que o outro, o Estado mais poderoso enfrentará pouca
dissuasão.
Não podemos estar absolutamente confiantes em nenhuma dessas previsões.
Talvez os Estados com maior probabilidade de entrar em guerra também sejam,
por esse motivo, mais propensos a fazer os preparativos para a guerra. E talvez
Estados poderosos se abstenham de atacar seus vizinhos mais fracos porque seus
vizinhos mais fracos simplesmente aderem a todas as demandas dos Estados po-
derosos. Essas possibilidades interfeririam nas previsões que sugeri. No entanto,
52
Bremer (1992, 318) discute esses argumentos.
12. Guerra e Defesa da Sociedade 288

parece que, em contrapartida, a descoberta de uma correlação inversa entre mi-


litarismo e guerra seria tomada pela maioria dos observadores como pelo menos
uma evidência a favor da teoria de que a preparação militar impede a guerra, as-
sim como a descoberta de uma relação inversa entre igualdade de poder e guerra.
Inversamente, então, correlações positivas em cada um desses casos minariam a
teoria de que a preparação militar impede a guerra.
O cientista político Stuart Bremer analisou dados de todas as guerras entre
1816 e 1965. Entre outras coisas, descobriu que a militarização não teve efeito ou
aumentou ligeiramente a probabilidade de guerra. Ele também descobriu que os
Estados eram mais propensos a entrar em guerra quando eram aproximadamente
iguais em poder e menos propensos a ir à guerra quando havia uma grande dife-
rença de poder. Esses dois fatores – poder relativo e militarização – foram menos
importantes que os fatores de democracia e desenvolvimento econômico, sugerindo
que a ênfase dos “realistas” é equivocada.53
Outra maneira de testar a teoria de que a dissuasão militar é necessária para
uma sociedade estar segura contra invasões estrangeiras é examinar casos de socie-
dades que têm pouca ou nenhuma força militar. A teoria da dissuasão preveria que
qualquer sociedade desse tipo seria rapidamente dominada por outro país, assim
como uma sociedade anarquista seria.
Atualmente, existem pelo menos quinze países sem forças militares, incluindo
Andorra, Costa Rica, Estados Federados da Micronésia, Granada, Kiribati, Lie-
chtenstein, Ilhas Marshall, Nauru, Palau, Santa Lúcia, São Vicente e Granadinas,
Samoa, Ilhas Salomão, Tuvalu e Cidade do Vaticano.54 A maioria dessas nações
têm, no entanto, permanecidas em paz por décadas. A maior dessas nações é a
Costa Rica, cuja última guerra foi uma guerra civil em 1948. No ano seguinte, o
país adotou uma Constituição que proíbe os militares. A Costa Rica está em paz
desde então.55
Os defensores da necessidade de dissuasão podem tentar explicar esses casos
de duas maneiras. Primeiro, cada uma dessas nações mantém uma força policial
nacional, e talvez seja essa força policial que detenha os invasores. Dado que
nenhuma dessas forças policiais poderia derrotar um exército tradicional, seu valor
de dissuasão militar está aberto a perguntas. Mas se fornecem dissuasão suficiente
contra a invasão, as agências privadas de proteção e os cidadãos armados comuns
em uma sociedade anarquista devem também fornecer uma dissuasão comparável.
Segundo, se qualquer uma dessas nações fosse invadida, algum outro Estado
53
Bremer 1992, 326, 334–8. Bremer observa que, depois de controlar outros fatores, o efeito
da militarização é mínimo.
54
Agência Central de Inteligência dos EUA 2011. A Wikipedia lista cinco países adicionais
com “sem exército permanente, mas [. . . ] forças militares limitadas”: Haiti, Islândia, Maurício,
Mônaco e Panamá, todos listados pela CIA como “sem forças militares regulares”.
55
Departamento de Estado dos EUA 2011.
12. Guerra e Defesa da Sociedade 289

poderia vir para defendê-la. Em muitos, mas não em todos os casos, esses países
desmilitarizados têm entendimentos com nações mais poderosas, segundo as quais
as nações mais poderosas são responsáveis por sua defesa. Mesmo sem qualquer
acordo, há uma boa chance de que alguma outra nação intervenha para impedir
uma invasão hostil. Os Estados Unidos, por exemplo, têm uma história de inter-
venção em muitas partes do mundo, incluindo uma invasão de Granada em 1983,
na qual as forças americanas derrubaram um golpe militar marxista e restaura-
ram o governo democrático.56 Se, portanto, Granada foi invadida por um nação
estrangeira, parece provável que os EUA voltem a intervir. O mesmo vale para
outras pequenas nações da região, como Costa Rica, Santa Lúcia e São Vicente e
Granadinas. Da mesma forma, no caso (altamente improvável) de alguma outra
nação atacar a Cidade do Vaticano, os militares italianos, sem dúvida, interviriam;
Andorra provavelmente poderia contar com proteção francesa ou espanhola; Nauru
provavelmente seria defendida pela Austrália.
Isso levanta algumas questões teóricas. Por que a nação maior defenderia a
nação pequena e desmilitarizada nesses casos? Por que, por exemplo, os Esta-
dos Unidos defenderam Granada? Granada não tem meios de obrigar os EUA a
ajudá-los, nem pode se dar ao luxo de pagar pelos EUA pelo serviço (nem os EUA
pediriam que fizesse isso). Uma razão parece ser que os Estados Unidos se consi-
deram a polícia do Caribe (e, em menor grau, do mundo). Os líderes americanos
podem se dar ao luxo de agir de maneira consistente com esta imagem, porque os
eleitores americanos geralmente se sentem à vontade com essa imagem do papel
de seu país, desde que as intervenções militares dos EUA não sejam muito longas
ou caras. Outro fator é que o governo dos EUA não gostaria de ver outro go-
verno agressivo ganhar influência na região. Quando os Estados Unidos invadiram
Granada em 1983, foi parcialmente para impedir que a ilha fosse controlada por
comunistas amigos de Fidel Castro, de Cuba.
Uma segunda questão teórica é ainda mais nítida para os “realistas”: o que
protege Granada dos Estados Unidos? Por que os EUA não dominaram a ilha
e a administram como uma colônia? Aqueles que procuram explicar as relações
internacionais em termos de relações de poder e que enfatizam a dissuasão como
uma condição necessária para a segurança devem ter dificuldade em explicar o
gozo contínuo da paz e da independência de Granada e outras nações indefesas.
Aqui está uma explicação plausível (não-realista). Se os líderes americanos
lançassem uma dominação hostil de Granada, a ação receberia imediatamente
publicidade extremamente negativa. Granada seria amplamente percebida (cor-
retamente) como uma nação inofensiva e indefesa, e a invasão seria, portanto,
extremamente impopular entre os eleitores americanos.
Os políticos dos EUA, embora talvez estejam felizes em ignorar os desejos da
56
Agência Central de Inteligência dos EUA em 2011.
12. Guerra e Defesa da Sociedade 290

população quando ninguém está assistindo (o que quase sempre acontece), geral-
mente temem desafiar a opinião dos eleitores em casos de alto nível, principalmente
quando há tão pouco a ganhar quanto seria possível neste caso. Qualquer inva-
são militar deve ser notória, de modo que os líderes relutam em atacar nações
consideradas inofensivas.
Não é apenas entre um punhado de nações literalmente indefesas do mundo
que se encontram casos de segurança sem dissuasão militar. Além disso, existem
muitas nações com forças militares muito mais fracas que as dos países vizinhos.
Por exemplo, as forças armadas dos EUA mantêm aproximadamente 1,4 milhão de
militares, enquanto as forças canadenses somam 68.000.57 Nenhuma consideração
militar realista impede os Estados Unidos de assumir o Canadá. Considerando o
número de pares de nações no mundo para o qual uma nação é muito mais poderosa
que a outra e contrastando isso com o número muito pequeno que realmente está
em guerra, é preciso começar a duvidar da importância da dissuasão para explicar
como a paz é mantida.
Voltando à questão da anarquia, os estatistas serão rápidos em argumentar
que a segurança das nações desmilitarizadas em discussão depende do poder e das
intenções benevolentes de outros Estados, que devem proteger as nações fracas.
Portanto, a segurança de uma sociedade realmente depende do governo, embora
não necessariamente do própria governo dessa sociedade.
Seja como for, a questão de interesse era se uma sociedade anarquista pode
esperar estar segura contra a agressão estrangeira. Se uma sociedade pode ser
segura devido ao caráter dos governos de outras nações, parece que a sociedade
não precisa ter um governo próprio, e uma sociedade anarquista pode, portanto,
ser segura. Uma sociedade anarquista pode depender da força e intenções benevo-
lentes das democracias liberais próximas, da mesma maneira que muitos Estados
existentes atualmente dependem.
Mesmo que algumas sociedades anarquistas seguras pudessem ser estabelecidas,
ainda se poderia perguntar se o sistema poderia servir como um ideal para o mundo
como um todo. Esta questão será abordada no capítulo 13.

12.4 Evitando o terrorismo


Desde 2001, os americanos estão preocupados com a ameaça do terrorismo, e essa
preocupação levou a uma expansão significativa dos poderes do governo central.
Pode-se pensar que o governo é necessário para proteger as pessoas dessa ameaça.
57
Departamento de Defesa dos EUA 2010; Departamento Canadense de Defesa Nacional 2011.
12. Guerra e Defesa da Sociedade 291

12.4.1 A ameaça terrorista


Entre 1968 e 2009 (os anos para os quais havia dados disponíveis), ataques terro-
ristas mataram cerca de 3.200 vidas nos Estados Unidos (quase todas em 11 de
setembro de 2001) e 64.000 vidas em todo o mundo.58 Durante o mesmo período,
assassinos não-terroristas nos Estados Unidos tiraram 802.000 vidas.59 O número
total de mortes americanas por todas as causas durante esse período foi próximo
a 91 milhões.60 Assim, nos Estados Unidos, o terrorismo foi responsável por apro-
ximadamente 0,4% dos assassinatos e 0,004% de todas as mortes. Esses números
inicialmente dificultam a visão do terrorismo como uma das ameaças mais graves
enfrentadas pelos Estados Unidos ou pelo mundo.
A única maneira pela qual alguém poderia ver o terrorismo como uma ameaça
séria é, portanto, se alguém suspeitar que o terrorismo futuro será muitas vezes
pior do que o terrorismo passado. Isso pode ser verdade se os terroristas tiverem
o controle de armas nucleares ou biológicas. Não há maneira confiável de estimar
as chances de tal ocorrência; no entanto, alguns especialistas no assunto fizeram
avaliações alarmantes. Em 2005, o senador dos EUA Richard Lugar entrevistou
85 especialistas em não-proliferação e segurança nacional de todo o mundo em
suas avaliações do risco de terrorismo envolvendo armas de destruição em massa
(ADM). Em média, os entrevistados consideraram um ataque nuclear terrorista
em algum lugar do mundo nos próximos dez anos como 29% provável e um grande
ataque biológico com chances de 33%.61 Em 2008, a Comissão do Governo dos
EUA para a Prevenção da Proliferação e Terrorismo de ADM considerou mais
provável que um ataque terrorista com armas de destruição em massa ocorresse
em algum lugar do mundo até 2013, com um ataque biológico sendo mais provável
que um ataque nuclear.62
Essas avaliações devem ser feitas com um pé atrás, pois os especialistas em
segurança nacional podem ter um viés para exagerar as ameaças à segurança naci-
onal. Aqueles que estão mais predispostos a se preocupar com ameaças à segurança
nacional têm maior probabilidade de se tornarem especialistas em segurança na-
cional. Muitos desses especialistas trabalham para governos, que tendem a lucrar
com a percepção do público sobre sérias ameaças à segurança nacional. Mais im-
portante ainda, as avaliações mencionadas no parágrafo anterior são suposições
subjetivas, avaliações do tipo menos confiável e mais facilmente influenciado pelo
58
Todos os dados sobre fatalidades terroristas são da RAND Corporation (2011).
59
Disaster Center 2011a. Concentro-me nas mortes americanas aqui porque estatísticas con-
fiáveis dos EUA estão mais prontamente disponíveis do que as estatísticas mundiais.
60
Disaster Center 2011b. Os totais de óbitos nos anos não mostrados na tabela foram estima-
dos com base nos totais de óbitos nos anos próximos.
61
Lugar 2005, 14, 19.
62
Comissão de Prevenção da Proliferação e Terrorismo das ADM 2008, xv. Para alertas igual-
mente terríveis, consulte Allison 2004, 15; Bunn 2006.
12. Guerra e Defesa da Sociedade 292

viés.63 Essa falta de confiabilidade talvez se reflita no fato de que avaliações es-
pecializadas da probabilidade de terrorismo com armas de destruição em massa
abrangem todo 0 a 100 por cento.64 Especialistas que consideram detalhadamente
as várias maneiras pelas quais uma conspiração terrorista pode falhar tendem a
ver os riscos muito menores do que o indicado no parágrafo anterior.65
Embora não haja acordo sobre a probabilidade aproximada de um ataque ter-
rorista com armas de destruição em massa, existe um consenso geral de que esse
ataque teria consequências extremamente graves, começando com possivelmente
centenas de milhares de mortes.66 Nos piores cenários apresentados por especialis-
tas, as fatalidades seriam equivalente a algumas décadas de assassinatos comuns
nos Estados Unidos. Embora essa não seja uma ameaça existencial para a socie-
dade americana ou qualquer outra, continua sendo uma preocupação séria.

12.4.2 As raízes do terrorismo


Por que ocorrem ataques terroristas? Há duas visões amplas sobre as motivações
da maioria dos terroristas. A primeira é a imagem do “choque de civilizações”,
expressa de forma eloquente pelo presidente dos EUA George W. Bush em 2001:

Eles odeiam o que veem aqui nesta Câmara: um governo eleito demo-
craticamente. [. . . ] Eles odeiam nossas liberdades: nossa liberdade de
religião, nossa liberdade de expressão, nossa liberdade de votar, reunir
e discordar um dos outros. [. . . ] Esses terroristas matam não apenas
para acabar com vidas, mas para perturbar e terminar um modo de
63
O método usual de avaliar a probabilidade de um evento envolve observar sua frequência em
um grande número de tentativas. No presente caso, nenhuma instância do evento foi observada.
Outra abordagem é observar a frequência de quase acidentes – casos em que o evento quase
ocorreu. Não há casos conhecidos em que os terroristas tenham chegado muito perto de um
grande ataque bem-sucedido com armas de destruição em massa; no entanto, houve numerosos
casos em que planos terroristas de distribuição de agentes tóxicos foram frustrados e outros em
que indivíduos ou grupos não autorizados foram apanhados com amostras de urânio altamente
enriquecido (Cordesman 2005, 22-4). A maneira mais confiável de avaliar probabilidades pode
ser estabelecer um mercado de apostas (consulte, por exemplo, www.intrade.com). O governo
dos EUA considerou estabelecer um mercado de apostas em terrorismo, mas rejeitou a proposta
por razões emocionais (CNN 2003).
64
Lugar 2005, 14, 19.