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Tópicos Especiais em

Psicologia e Teologia
Organizado por Universidade Luterana do Brasil

Tópicos Especiais em
Psicologia e Teologia

Thomas Heimann
Roseli M. Kühnrich de Oliveira

Universidade Luterana do Brasil – ULBRA


Canoas, RS
2016
Conselho Editorial EAD
Andréa de Azevedo Eick
Ângela da Rocha Rolla
Astomiro Romais
Claudiane Ramos Furtado
Dóris Gedrat
Honor de Almeida Neto
Maria Cleidia Klein Oliveira
Maria Lizete Schneider
Luiz Carlos Specht Filho
Vinicius Martins Flores

Obra organizada pela Universidade Luterana do Brasil.


Informamos que é de inteira responsabilidade dos autores
a emissão de conceitos.
Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida
por qualquer meio ou forma sem prévia autorização da
ULBRA.
A violação dos direitos autorais é crime estabelecido na Lei
nº 9.610/98 e punido pelo Artigo 184 do Código Penal.

Dados técnicos do livro


Diagramação: Jonatan Souza
Revisão: Igor Campos Dutra
Apresentação

A disciplina de Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia, como seu


próprio nome indica, procura apresentar no seu conteúdo temas se-
lecionados no campo da poimênica e aconselhamento pastoral a partir
de um duplo viés, que implica enfocar aspectos tanto psicológicos quanto
teológicos em cada um dos temas apresentados.

O primeiro capítulo introduz o tema do livro, procurando demonstrar


que a relação entre psicologia e teologia, mesmo que seja evidente no
campo da poimênica e aconselhamento pastoral, não é tão amistosa. Ve-
remos que há uma questão hermenêutica que precisará ser resolvida para
que o conselheiro possa se sentir à vontade em utilizar os recursos da psi-
cologia no campo do aconselhamento cristão, tal como bem exemplifica
e demonstra a existência do Corpo de Psiquiatras e Psicólogos Cristãos
– CPPC.

O segundo capítulo vai tratar dos princípios de diálogo e conversação


pastoral, demonstrando o quanto esses princípios são fundamentais para o
desenvolvimento do processo terapêutico que ocorre nas sessões de acon-
selhamento. Serão abordadas as funções do diálogo pastoral, técnicas de
intervenção que auxiliam no desenrolar da entrevista assim como alguns
fenômenos que interferem diretamente nos processos comunicacionais e
relacionais entre conselheiro e aconselhando.

O terceiro capítulo trata da pessoa do conselheiro, mais especifica-


mente da importância do cuidado aos cuidadores. Aponta para o sentido
ontológico do cuidar como algo essencial na vida do ser humano. Parte do
pressuposto que, para o cuidador cuidar bem daqueles que Deus coloca
em seu caminho, precisa, primeiramente, estar bem consigo mesmo, com
Deus e com os outros. Aponta para uma tomada de consciência da fra-
Apresentação  v

gilidade humana, mesmo de líderes cristãos, e busca propor caminhos de


autocuidado para os cuidadores e conselheiros.

O quarto capítulo vai abordar um tema central para qualquer teó-


logo que se propõe a atender pessoas como conselheiro. Trata dos rela-
cionamentos interpessoais e da teoria dos vínculos, em uma perspectiva
psicoteológica. O capítulo vai demonstrar que os primeiros vínculos e re-
lacionamentos humanos com as figuras parentais vão influenciar signifi-
cativamente a forma como as pessoas vão se relacionar por toda a vida,
inclusive com o próprio Deus, pois encontramos a face de Deus em nossos
primeiros cuidadores. Enfatiza não só a importância da família nesses pro-
cessos como o papel do próprio conselheiro em compreender a dinâmica
relacional dos seus aconselhandos, servindo como uma figura de referên-
cia para reconstruir possíveis vínculos doentios e patológicos.

O quinto capítulo, intitulado Desafios e possibilidades no aconselha-


mento a casais e famílias, vai abordar a ação interventiva do conselhei-
ro junto a casais e famílias que passam por crises e conflitos. Enfatiza a
abordagem sistêmica, que inicia pela escuta atenta de todos os membros
do grupo familiar. Destaca que o conselheiro é um mediador que precisa
gestar o eventual caos familiar, reforçando os aspectos saudáveis de cada
indivíduo dentro do sistema familiar.

O sexto capítulo vai destacar uma das principais causas da procura


de aconselhamento, que é o sofrimento humano. Partindo do pressuposto
que o sofrimento é um fenômeno que sempre atingirá o ser humano em al-
gum momento de sua vida, o capítulo vai tratar de como podemos melhor
enfrentá-lo. Destaca o desenvolvimento da resiliência como o conjunto de
capacidades humanas que auxiliam na superação de obstáculos, mostran-
do que elas precisam ser promovidas na dimensão individual, familiar e
institucional, de modo a transformar as comunidades de fé em comunida-
des terapêuticas. Por último, destaca a fé como um elemento determinante
para o enfrentamento saudável de todas as formas de sofrer.

O tema do capítulo sete desenvolve o que alguns preferem chamar de


doenças da alma e do espírito, envolvendo os transtornos de ansiedade e
vi  Apresentação

a depressão. O título não deve nos fazer pensar que elas estejam apenas
ligadas a aspectos emocionais ou espirituais. Elas precisam ser vistas em
uma perspectiva holística e integral, que envolvem todos os aspectos e
dimensões humanas. O capítulo destaca o preocupante crescimento des-
sas doenças na sociedade contemporânea, buscando oferecer subsídios
aos conselheiros para uma maior compreensão e uma melhor intervenção
sobre esses tipos de problemas trazidos aos gabinetes de aconselhamento
pastoral.

O capítulo oito enfoca o aconselhamento diante da morte e luto. Busca


capacitar o conselheiro a olhar para as suas próprias angústias existenciais
frente à morte. Tal reflexão objetiva auxiliar o conselheiro a desenvolver
um aconselhamento empático com aqueles que vivem situações de perda,
morte e luto. Aponta para a importância da fé e espiritualidade como fonte
de consolo e reestruturação emocional e espiritual. Aborda os diferentes
tipos de luto existentes e as maneiras de lidar com ele no processo de
aconselhamento.

O capítulo nove, intitulado Temas controversos em aconselhamento,


busca identificar alguns dos tantos temas que trazem riscos, polêmicas e
dificuldades para o aconselhamento pastoral, apesar de serem frequentes
no cotidiano das comunidades de fé. Elegemos como primeiro tema o al-
coolismo, cuja aplicação para o trato com a drogadição é fácil de ser feito.
Destaca-se aqui estratégias de intervenção para prevenção e tratamento
de alcoólatras, em uma perspectiva multiprofissional. O capítulo também
aborda o tema tabu da sexualidade, sinalizando para as abordagens po-
sitiva e negativa que podem ser feitas pelo conselheiro e pelas próprias
igrejas. Enfatiza-se a sexualidade como uma maravilhosa criação de Deus
que precisa ser exercida com responsabilidade pelos cristãos.

Finalmente, o último capítulo de nosso livro vai tratar do aconselha-


mento em situações de crise, buscando compreender o conceito de crise,
suas tipologias e as formas como as pessoas podem enfrentá-lo. Destaca
a crise da adolescência e a síndrome do ninho vazio como exemplos de
crises sistêmicas. Procura subsidiar o conselheiro na reflexão dos elementos
Apresentação  vii

fundamentais de intervenção em crise, sinalizando para as estratégias cor-


retas e incorretas que precisam ser observadas.

Em um livro intitulado Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia,


precisamos admitir que muitos temas importantes ficaram de fora e ainda
poderiam ser desenvolvidos nessa disciplina. A escolha dos dez capítulos
elencados não pretendeu desvalorizar os outros assuntos aderentes à disci-
plina, pelo contrário, quer servir de incentivo para a ampliação dos estudos
no campo da poimênica e aconselhamento cristão. Cabe a cada acadê-
mico buscar o aprofundamento a partir de leituras e estudos pessoais, visto
que o processo de aperfeiçoamento contínuo é essencial para a formação
de teólogos preparados e conselheiros eficazes.
Sumário

1 Psicologia e Teologia: uma Hermenêutica para o Diálogo......1


2 Princípios de Diálogo e Conversação Pastoral.......................20
3 A Pessoa do Conselheiro: Cuidando do Cuidador.................41
4 Relacionamentos Interpessoais e Teoria dos Vínculos: uma
Perspectiva Psicoteológica....................................................67
5 Desafios e Possibilidades no Aconselhamento a Casais e
Famílias.............................................................................102
6 Sofrimento, Resiliência e fé................................................125
7 Depressão e Outras Doenças da Alma e Espírito................151
8 Aconselhamento Diante da Morte e Luto............................178
9 Temas Controversos em Aconselhamento...........................201
10 Aconselhamento em Situações de Crise.............................229
Thomas Heimann1

Capítulo 1

Psicologia e Teologia:
uma Hermenêutica para
o Diálogo 1

1 Doutor em Teologia. Coordenador do Curso de Teologia da ULBRA. Professor de


Teologia na área da Psicologia e Aconselhamento Pastoral. Professor do Curso de
Pós-Graduação em Gestão de Pessoas. Membro do Grupo de Pesquisa em Acon-
selhamento e Psicologia Pastoral da Faculdades EST. Pastor da Igreja Evangélica
Luterana do Brasil – IELB. Psicólogo clínico.
2    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

Introdução

Psicologia e teologia: ciências concorrentes ou parceiras?


Pode parecer estranho iniciar esse livro perguntando se esses
dois campos do conhecimento humano são concorrentes ou
parceiros, visto que a inserção de uma disciplina que trata de
tópicos especiais em psicologia e teologia já deveria indicar
que ambas são parceiras na tarefa de compreender o ser hu-
mano e auxiliá-lo em suas necessidades.

Pois longe de ser uma obviedade, um breve olhar para a


relação histórica entre psicologia e teologia indicará que essa
relação não só provocou muitos embates no passado como
ainda hoje encontra zonas de atrito, mesmo que em intensi-
dade menor.

O objetivo desse capítulo é verificar quais são os pontos de


tensão entre as duas áreas, bem como apontar para as possi-
bilidades de um diálogo mais rico e construtivo entre ambas.
Em nosso entender, o ponto de convergência das duas ciências
se dará no diálogo hermenêutico que tem como eixo medial o
próprio ser humano. Como diz Casera, o ponto de encontro
entre psicologia e teologia se dá no ser humano,2 ou seja, a
partir de uma antropologia que leve em conta a integralidade
do ser, nas suas dimensões imanente e transcendente.

2 CASERA, Domenico. Psicologia e Aconselhamento pastoral. p. 28.


Capítulo 1    Psicologia e Teologia: uma Hermenêutica para o Diálogo    3

1T
 eologia e Psicologia: qual o objeto de
cada ciência?

A pergunta inicial de nossa discussão é como levar ao diálogo


duas ciências que teriam dois “objetos” de estudo opostos.
Partindo da etimologia, Teologia seria “o estudo sobre Deus”.
Já a Psicologia, “o estudo da psique”, traduzida hoje como
“estudo dos processos mentais” ou ainda mais amplamente
“o estudo do comportamento humano”. Percebe-se, nesse
sentido, que teologia e psicologia são perspectivas de estudo
absolutamente diferentes. A Psicologia, com um viés antropo-
cêntrico – o ser humano como centro, e a Teologia, com um
viés teocêntrico – Deus como centro.

Essa, porém, é uma falsa dicotomia. Mesmo que a essên-


cia da teologia cristã seja a compreensão ou hermenêutica da
revelação de Deus, o campo da teologia prática, tanto mais a
área do aconselhamento pastoral, não tem como escapar de
uma dimensão ou hermenêutica que é também antropológica.
Nesse sentido, o teólogo e conselheiro pastoral Lothar Hoch
afirma: “Pode ser, no entanto, que o aconselhamento pasto-
ral, para ser coerente com seu teocentrismo, precise se tornar
antropocêntrico para melhor cumprir sua tarefa de entender a
pessoa humana”.3

Mesmo que a mensagem redentora em Cristo seja o foco


central da revelação de Deus, na busca de redimir o pecador

3 HOCH, Lothar Carlos. Psicologia a serviço da libertação. Possibilidades e limites


da psicologia na pastoral de aconselhamento. Em: Estudos Teológicos, 1985, Ano
25, n. 3. p. 259.
4    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

e conduzi-lo à vida eterna, a Bíblia é pródiga em demonstrar a


preocupação divina em cuidar do ser humano na integralida-
de do seu ser, o que também implica a dimensão imanente e
terrena do ser humano. Na pessoa de Jesus, o próprio Deus se
tornou humano no sentido de resgatá-lo por inteiro. Portanto,
a teologia pastoral, sem abandonar o seu teocentrismo, se
torna também antropológica, ao tomar o ser humano como
centro de sua preocupação e cuidado, desejo esse emanado
do próprio Deus.

Karl Barth explica isso ao afirmar que “o Deus do evange-


lho se acha voltado para a existência humana”.4 A antropolo-
gia bhartiana não tira Deus da centralidade, mas defende que
a expressão teoantropologia expressaria melhor as verdadeiras
intenções da teologia, desde que não fosse confundida como
uma antropoteologia. Barth afirma que a Palavra de Deus fa-
lou, fala e falará em meio aos seres humanos, agindo nos
seres humanos, a favor dos seres humanos e com os seres
humanos.5

Nesse sentido, tudo o que pode auxiliar o ser humano no


estabelecimento de uma melhor relação com Deus, consigo e
com o outro deve ser objeto de interesse da Teologia, o que
implica a necessidade de abertura para a apropriação de co-
nhecimentos de outras áreas que se ocupam do ser humano,
como a Psicologia, Sociologia, Antropologia, Medicina, Servi-
ço Social etc.

4 BARTH, Karl. Introdução à Psicologia Evangélica. São Leopoldo: EST/Sinodal,


2007. p. 12.
5 BARTH, 2007. p. 13-14,19.
Capítulo 1    Psicologia e Teologia: uma Hermenêutica para o Diálogo    5

Porém, da mesma forma como ocorre com a Teologia, que


se apropria de ciências auxiliares para uma melhor reflexão
teológica, o objeto da psicologia não pode ficar equivocada-
mente circunscrito à psique humana. A psicologia moderna se
rende cada vez mais a uma concepção sistêmica, se funda-
mentando em uma visão holística ou integral de ser humano,
considerando o indivíduo um ser de múltiplas dimensões: físi-
ca, emocional, espiritual, material, social, relacional, econô-
mica etc. Este é o objeto/sujeito de estudo da psicologia: o ser
humano por inteiro, abrangendo suas questões imanentes e
transcendentes, que abarcam a noção do sagrado e do divino,
na dimensão da espiritualidade humana.

Nessa mesma linha interpretativa, Clinebell afirma que a


palavra grega psyche, utilizada no Novo Testamento, significa
não alma, mas, sim, “a pessoa viva em sua realidade e unida-
de global”, ou seja, não como uma dimensão espiritual distinta
dos aspectos físicos e mentais do ser humano.6 Há, nessa visão,
uma confluência conceitual entre a teologia e a psicologia.

A partir dessas premissas, fica evidente que, tanto para a


psicologia como para a teologia, o objeto/sujeito sobre o qual
as intervenções pastorais ou psicológicas acontecem é o ser
humano na sua integralidade, sendo esse o ponto de encontro
ou de intersecção entre ambas as ciências.

Portanto, começamos a delimitar o problema hermenêutico


do diálogo entre psicologia e teologia a partir da terminalida-
de de ambas as ciências que, em última análise, é a mesma:

6 CLINEBELL, Howard. Aconselhamento Pastoral: modelo centrado em libertação e


crescimento. 3. ed. São Paulo: Paulus; São Leopoldo: Sinodal, 2000. p. 364.
6    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

vir ao encontro do cuidado, resgate e auxílio do ser humano,


sem esquecer que, para a teologia, esse resgate inclui o ofere-
cimento da salvação e vida eternas oferecidas em Cristo Jesus.

2 Teologias e psicologias: ciências plurais

Outro problema para o diálogo entre Teologia e Psicologia é a


inadequada generalização quando se fala das duas ciências.
Toma-se como premissa a dura crítica da psicanálise freudiana
à religião para se afirmar, equivocadamente, que toda psi-
cologia critica e desmerece a religião. Esquece-se, com isso,
de que há várias correntes, inclusive de neofreudianos como
Erik Erikson, que consideram a religião não como um proces-
so neurótico mas, pelo contrário, vendo-a como um elemento
promotor de saúde mental.

O fato da psicologia, especialmente nos seus primórdios,


ter assumido uma postura de rechaço frente à teologia, no
sentido de enxergá-la como uma esfera acientífica e atemporal
do ser humano, atrapalhou a possibilidade de uma relação
construtiva entre ambas. Essa postura, porém, vem se alteran-
do significativamente nos últimos anos, em uma redescoberta
da fé e da espiritualidade como fonte de saúde e bem-estar
individual, atestadas por pesquisas no campo da psicologia e
medicina.

É necessário, igualmente, dar-se conta das inúmeras esco-


las psicológicas ou linhas terapêuticas que existem atualmente,
que se diferenciam não só na compreensão de ser humano
Capítulo 1    Psicologia e Teologia: uma Hermenêutica para o Diálogo    7

como nos próprios métodos e técnicas de intervenção. Algu-


mas dessas escolas, como a junguiana, a rogeriana e a lo-
goterapia de Viktor Frankl encontram grande ressonância nos
meios eclesiásticos e poimênicos.7

Importa reforçar, como exemplo positivo, a logoterapia


de Viktor Frankl como uma escola que não apenas ampliou
a questão psicológica para dentro da questão espiritual ou
transcendental, mas fez desta o ponto central de seu méto-
do terapêutico. Frankl coloca a questão da busca de sentido
como a pergunta central da pessoa humana, fundamentada
em uma antropologia que define o ser humano como um ser
essencialmente orientado para o divino.8

Pelo lado da Teologia, a generalização também acontece.


Não é raro, entre os teólogos, o medo de que a psicologia
ocupe lugar preponderante na análise dos fenômenos huma-
nos, isto é, o medo de que o psicologismo substitua o aconse-
lhamento pastoral fundamentado na Bíblia Sagrada.

É possível, porém, encontrarmos linhas teológicas que vão


da demonização dos conhecimentos oriundos da psicologia a
outras que assumem postura oposta, reificando ou divinizan-
do a psicologia como método terapêutico e pastoral. Essas
posições extremadas podem ser representadas pelos teólogos
fundamentalistas de um lado e pelos teólogos liberais de ou-
tro, mesmo que tais rótulos sejam perigosos no sentido de uma
generalização nem sempre correta desses dois lados.

7 HOCH, 1985. p. 252.


8 HOCH, 1985. p. 252.
8    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

O que pode ser afirmado a esse respeito é que toda postu-


ra extremada e radical da teologia ou da psicologia já é, por
si só, um entrave para o diálogo frutífero entre ambas ciências.
As múltiplas e variadas visões precisam, antes de mais nada,
serem conhecidas nos seus respectivos contextos, de modo a
poderem ser melhor compreendidas, refutadas ou mesmo su-
peradas pelos conselheiros que pretendem integrar as duas
ciências na sua prática cotidiana.

3R
 elações entre Psicologia e Teologia: a
interdisciplinaridade

Ao abordar o tema da interdisciplinaridade no contexto do


aconselhamento pastoral, o teólogo e conselheiro pastoral
Schneider-Harpprecht estabelece uma tipologia relacional en-
tre a teologia e as ciências psicológicas. Para esse autor, a in-
terdisciplinaridade não é apenas uma necessidade prática do
aconselhamento pastoral, indo muito além. Diz ele: “A partir
da teologia da encarnação, a abertura para a realidade em-
pírica e o diálogo com as ciências humanas tornam-se essen-
ciais para a reflexão teológica sobre a poimênica”.9 Portanto,
o pastoreio e o cuidado ao povo de Deus passam pela ação
-reflexão do conselheiro, transcendendo o campo do conheci-
mento apenas teológico, o que deve levá-lo também a beber
das fontes das ciências humanas para uma compreensão mais
profunda da complexidade que é o ser humano na sua relação

9 SCHNEIDER-HARPRECHT, Cristoph. Aconselhamento Pastoral. In: Teologia Prá-


tica no Contexto da América Latina. São Leopoldo: Sinodal; ASTE, 1998. p. 314.
Capítulo 1    Psicologia e Teologia: uma Hermenêutica para o Diálogo    9

com o mundo real e concreto. Há diferentes tipos de relação


entre psicologia e teologia, que passam agora a ser descritas
brevemente:

3.1 Luta/rejeição
Nesta perspectiva, ambas as ciências não conseguem chegar
ao diálogo, visto a teologia avaliar e julgar as concepções
psicológicas “com base no conhecimento da verdade da re-
velação”, enquanto que a psicologia descarta a força divina
como forma de auxiliar na cura, confiando apenas no poten-
cial do próprio indivíduo.10 É a postura que vemos, pelo lado
da psicologia em Freud e pelo lado da teologia em J. Adams.
Freud vendo a religião como a grande produtora de neuroses.
Adams vendo a psicologia como usurpadora do lugar da teo-
logia cristã, ao colocar o próprio homem e não Deus no centro
do processo de cura.

A visão antropológica freudiana é marcadamente pessimis-


ta, o que pode ser expresso por sua afirmação expressa em
uma carta dirigida ao amigo e “discípulo” Oskar Pfister, pas-
tor suíço, com quem manteve intensa correspondência: “Achei
pouca coisa ‘boa’ nos seres humanos como um todo. Segun-
do minha experiência, a maioria deles é escória, não impor-
tando se publicamente aderem a esta ou àquela doutrina ética
ou qualquer outra que seja”.11

10 SCHNEIDER-HARPRECHT, 1998. p. 315.


11 FREUD, Sigmund. apud RIZZUTO, Ana Maria. Por que Freud rejeitou Deus?. p. 170.
10    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

Mesmo nessa postura de rejeição à religião, Freud, em ou-


tra das cartas dirigidas a Pfister, caracteriza sua teoria como
neutra e apartidária, afirmando: “Em si a psicanálise não é
religiosa nem antireligiosa, mas um instrumento apartidário do
qual tanto o religioso como o laico poderão servir-se, desde
que aconteça tão somente a serviço da libertação dos sofre-
dores”.12

3.2 Delimitação
Nesta categoria, a psicologia é considerada como ciência au-
xiliar, ou como “serva” da teologia. É um instrumento válido
apenas se colocado sob os princípios teológicos. Segundo
essa visão, a psicologia poderia se tornar até um perigo para
a fé, caso seja usada sozinha.

Esse é o modelo apresentado pelo conselheiro cristão Gary


Collins, que vê a psicologia como uma criação de Deus. Col-
lins defende a ideia de que toda a verdade tem origem em
Deus, inclusive as verdades científicas descobertas pela psico-
logia. Essas verdades devem estar, porém, sempre de acordo
com o padrão da verdade bíblica revelada em Cristo, que nor-
teia o uso dos conhecimentos psicológicos.13

12 FREUD, Sigmund apud WONDRACEK, Karin H. K. Psicanálise e religião – abis-


mo escancarado ou útil variação? p. 190.
13 SCHNEIDER-HARPRECHT, 1998. p. 315.
Capítulo 1    Psicologia e Teologia: uma Hermenêutica para o Diálogo    11

3.3 Cooperação
Nesta modalidade de relação, a teologia e a psicologia atua-
riam juntas “sem refletir sobre os problemas teóricos, os objeti-
vos e a as bases ideológicas” de cada uma das duas ciências.
“Bom é o que ajuda para resolver problemas. Deus não vai ter
nada contra”, como tenta explicar Schneider-Harprecht.14

Nesse tipo de relação, poderia ser aplicado o princípio


paulino, expresso em 1 Tessalonicenses 5.21, de que cabe ao
cristão “examinar tudo e reter o que é bom”. Esse tipo de rela-
ção cooperativa vem crescendo também entre médicos e psi-
cólogos, que hoje já consideram que práticas espirituais como
a oração e meditação são auxiliares e benéficas na prevenção
e recuperação de enfermos.

3.4 Modelo de integração pelo diálogo


Como o próprio nome indica, este tipo de relação pressupõe
o diálogo a partir de reconhecimento e legitimidade de cada
uma das ciências. A psicologia reconhece a importância da
dimensão religiosa e da busca de sentidos. Já a teologia reco-
nhece os objetivos e técnicas da psicologia e as encara como
uma parte da criação divina para auxiliar o ser humano.15

Esse é o modelo que podemos perceber em Jung pela psi-


cologia, ao crer que a atitude religiosa tem um papel decisivo

14 SCHNEIDER-HARPRECHT, 1998. p. 315.


15 SCHNEIDER-HARPRECHT, 1998. p. 315.
12    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

na vida e no equilíbrio do ser humano e em Karl Rahner pela


teologia.

Sobre a postura de aproximação de Jung com a religião,


Benkö lembra que Jung considera que as religiões servem de
suporte e de orientação para que o ser humano possa encon-
trar-se com essa forma poderosa de energia psíquica, com o
numinoso, sem ser destruído por ele, auxiliando o ser humano
a realizar a sua individuação.16

Já Karl Rahner propõe uma teologia dogmática embasada


em uma antropologia transcendental, que orienta a discussão
dos diversos temas teológicos. Rahner, portanto, alinha os di-
versos temas teológicos em torno dos problemas do ser hu-
mano, procurando fazer teologia para ajudar o ser humano
atual. Os problemas que a teologia estuda partem da rea-
lidade histórica do ser humano e procuram sempre levar a
consequências práticas e reais. Rahner não tenta colocar o
homem em lugar de Deus, mas procura entender o homem à
luz da revelação e, fundamentalmente, o homem como ser em
e para Deus.17

Outro representante da psicologia, Erik Erikson, considera-


do um freudiano otimista, também se insere nessa categoria,
procurando demonstrar como conflitos de natureza neurótica
podem servir para escopos especiais construtivos e como esses
conflitos podem abrir um processo de cura na pessoa doente.18

16 BENKÖ, Antal. Psicologia da Religião. p. 55.


17 RAHNER, Karl. Teologia e Antropologia. p. 13.
18 CASERA. p. 93.
Capítulo 1    Psicologia e Teologia: uma Hermenêutica para o Diálogo    13

Erikson foi inclusive censurado por outros psicólogos por


ter gradativamente pensado mais como teólogo do que psi-
cólogo. Para Casera, na longa atividade de estudo e ensina-
mento de Erikson, o mesmo seguiu o caminho traçado por
São Boaventura, segundo o qual, todas as ciências, quando
abordadas com seriedade e competência, levam à teologia.19

3.5 Mediação filosófica


Para Schneider-Harpprecht, neste tipo de relação, há um diálo-
go filosófico sobre conceitos básicos das diferentes disciplinas.

Na teoria da consciência humana e da culpa, da angústia


existencial ou do conceito antropológico de integralidade e fé
como fundamento da experiência em psicoterapia e poimêni-
ca, consegue-se uma integração de conceitos filosóficos, teo-
lógicos e psicológicos.20

Clinebbel pode ser enquadrado nesse modelo de diálogo,


a partir de sua visão das diversas dimensões que formam a
integralidade do ser humano. Pelo lado da psicologia, Viktor
Frankl poderia ser considerado um digno representante desse
modelo.

Frankl busca uma delimitação em relação à teologia nos


termos de uma antropologia humanística que postula uma re-
lação do ser humano com a questão do sentido, mas deixa em
aberto o conteúdo do sistema de sentido. Porém, ao falar da

19 CASERA. p. 93.
20 SCHNEIDER-HARPRECHT, 1998. p. 315.
14    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

“Presença de Deus” ele reintroduz a necessidade psicológica


de se pensar o deus bíblico-pessoal, em uma evidente tendên-
cia apologética.21

Não é demais repetir que a teoria de Frankl, diferentemente


de tantas outras, considera o ser humano em sua unidade e
totalidade biopsicoespiritual, destacando em particular a di-
mensão noética (espiritual).

3.6 Crítica mútua


Nesta modalidade relacional, há um diálogo engajado entre
a teologia e psicologia, sendo que cada ciência mantém uma
postura crítica em relação à outra. Deve-se respeitar os ob-
jetivos, métodos e conceitos teóricos de cada ciência, porém
ambas se criticam respeitosamente, devendo aprender uma
com a outra. Nesse sentido, a poimênica precisa da crítica da
religião para não se tornar ideológica, enquanto a psicologia
necessita da crítica teológica para não se tornar absoluta.22

Em outras palavras, na crítica mútua, tanto teólogos quan-


to psicólogos precisam deixar de lado o sentimento de onipo-
tência e, com humildade, reconhecer que há limites em toda a
prática poimênica ou psicoterápica. Juntas, precisam criar um
espaço criativo de aprendizagem para melhor intervirem junto
às pessoas que buscam auxílio psicológico ou pastoral.

21 FRAAS, Hans-Jürgen. A religiosidade humana. p. 20.


22 SCHNEIDER-HARPRECHT, 1998. p. 315.
Capítulo 1    Psicologia e Teologia: uma Hermenêutica para o Diálogo    15

Após essa breve descrição das diferentes formas de relação


entre psicologia e teologia, concluímos com a afirmação de
James Farris, em que sinaliza para o desafio contínuo que im-
plica a relação entre as duas ciências:

não há uma teoria cristã formal da personalidade. Não


há uma teologia psicológica formal. Há um diálogo com-
plexo entre os dois campos sobre o ser humano e seu
lugar na criação, mas a teologia usa metáforas para des-
crever a realidade definitiva e a psicologia usa técnicas
e abordagens científicas para montar teorias sobre o ser
humano. Isso não significa que não possamos trabalhar
nas duas esferas. Indica a complexidade do diálogo entre
a teologia e a psicologia e a dificuldade de formalizar,
em nível profissional, a relação entre as duas.23

4U
 m exemplo concreto de
interdisciplinaridade: o CPPC – Corpo
de Psicólogos e Psiquiatras Cristãos

Um dos grupos mais atuantes e que servem para demonstrar


as possibilidades para uma relação frutífera entre psicologia e
teologia é o CPPC – Corpo de Psicólogos e Psiquiatras Cris-
tãos.24

23 FARRIS, James. Neurose e pecado: choque ou encontro de mundos. In: Funda-


mentos Teológicos do aconselhamento. p. 50.
24 Informações sobre o grupo podem ser encontrados no site www.cppc.org.br.
16    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

O CPPC é uma organização ativa no Brasil desde 1976,


que tem promovido o diálogo das ciências e práticas da Psico-
logia e Psiquiatria com a fé cristã. Segundo o próprio CPPC,
o fato de que continuem existindo tensões entre os campos da
ciência e religião não torna necessária abrir mão da verdade
científica nem da verdade religiosa revelada na Bíblia, visto
que ambas provêm de Deus.

O CPPC, além de editar a Revista Psicoteologia, que abor-


da temas que se inserem na ampla área de intersecção en-
tre os campos psicológico, espiritual, teológico e religioso faz
também parte do “Projeto Bíblia de Estudos Conselheira”, uma
edição da Bíblia que traz comentários psicoteológicos de al-
guns textos. Nessa Bíblia, O CPPC se apresenta da seguinte
forma:

nós, os autores, somos “psicoterapeutas cristãos” com-


prometidos com um testemunho local da graça mani-
festada em Jesus Cristo. (...) Nossa tarefa profissional,
a psicoterapia, nos põe em contato diário com as faces
dos nossos pacientes. É neles que assistimos ao mistério
diário que se automanifesta no olhar que surge da pupi-
la do outro. Nesse mistério, somos testemunhas de que
Deus está presente.25

Grupos como o CPPC, além de demonstrarem as possibi-


lidades de diálogo crítico e frutífero entre a teologia e a psico-
logia/psiquiatria, certamente podem se tornar um auxílio para
conselheiros que, por vezes, sentem-se impotentes no cuidado

25 Bíblia Conselheira – Novo Testamento, Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil,


2011. Apresentação.
Capítulo 1    Psicologia e Teologia: uma Hermenêutica para o Diálogo    17

de seus aconselhandos e percebem a necessidade de encami-


nhamento a um profissional especializado na área da saúde.

Recapitulando

Iniciamos esse nosso livro de Tópicos em Psicologia e Teologia


trazendo uma breve reflexão acerca do tipo de relações exis-
tentes entre as duas áreas, que podem variar de um rechaço
mútuo, passando por um diálogo crítico e chegando até uma
integração de ambos os saberes. Reforça que tanto a Psico-
logia quanto a Teologia são ciências plurais, com diversas
correntes e linhas distintas, algumas mais abertas à interdis-
ciplinaridade e outras mais fechadas. Independentemente da
linha de cada teólogo, cabe aos conselheiros se apropriarem
dos conhecimentos tanto da Teologia quanto da Psicologia,
enxergando as duas ciências como parceiras no processo de
auxiliar as pessoas, a partir de uma hermenêutica que procura
cumprir o chamado de Deus em bem cuidar e pastorear o seu
povo.

Referências

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poldo: EST/Sinodal, 2007.

BENKÖ, Antal. Psicologia da Religião. São Paulo: Loyola,


1981.
18    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

Bíblia Conselheira – Novo Testamento. Barueri, SP: Sociedade


Bíblica do Brasil, 2011. Apresentação.

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São Leopoldo: Sinodal; ASTE, 1998.
Capítulo 1    Psicologia e Teologia: uma Hermenêutica para o Diálogo    19

WONDRACEK, Karin H. K. Psicanálise e religião – abismo es-


cancarado ou útil variação? In: Estudos Teológicos. v. 39,
n. 2. p. 186-191, 1999.

Atividades

1) O objeto de estudo específico da psicologia é o


___________________. Já o objeto principal de estudo da
Teologia é ________________. Porém, o objeto que une as
duas ciências é _______________________________.

2) Karl Barth propõe o que ele chama de teoantropologia. O


sentido dessa expressão é a de que:__________________
________________________________________________
____________________________________________.

3) Falar de uma concepção sistêmica em psicologia ou teolo-


gia significa que:__________________________________
________________________________________________
__________________________________________.

4) Qual o maior ou principal problema existente para um


diálogo frutífero entre Psicologia e Teologia?

5) Descreva qual a visão de Karl Rahner a respeito da relação


entre psicologia e teologia.
Thomas Heimann1

Capítulo 2

Princípios de Diálogo e
Conversação Pastoral 1

1 Doutor em Teologia. Coordenador do Curso de Teologia da ULBRA. Professor de


Teologia na área da Psicologia e Aconselhamento Pastoral. Professor do Curso de
Pós-Graduação em Gestão de Pessoas. Membro do Grupo de Pesquisa em Acon-
selhamento e Psicologia Pastoral da Faculdades EST. Pastor da Igreja Evangélica
Luterana do Brasil – IELB. Psicólogo clínico.
Capítulo 2    Princípios de Diálogo e Conversação Pastoral    21

Introdução

Já deve estar claro ao teólogo e futuro conselheiro pastoral


que uma de suas principais tarefas poimênicas será a dinami-
zação de encontros onde o diálogo, a conversação e o acon-
selhamento serão práticas cotidianas não só com sua comuni-
dade de fé como também com todas as pessoas com as quais
irá se relacionar.

Dialogar e conversar, na perspectiva do aconselhamento


cristão, não é tarefa meramente intuitiva ou informal. Há prin-
cípios formais de comunicação que envolvem conhecimentos
técnicos sobre a mensagem, emissor e receptor, além de toda
uma postura comunicativa de acolhimento, escuta ativa, acei-
tação, orientação, admoestação, proclamação de lei (apontar
o pecado) e anúncio do evangelho (perdão), sempre em um
processo dialógico entre conselheiro e aconselhando, em uma
circularidade comunicacional que envolve tanto aspectos cog-
nitivos quanto afetivos.

Técnicas de diálogo e conversação podem e devem ser


continuamente aprimoradas pelo conselheiro, motivo pelo qual
sinalizaremos para algumas dessas questões neste capítulo.

1 O diálogo pastoral

Como já afirmamos anteriormente, o diálogo pastoral no con-


texto do aconselhamento nunca será apenas uma conversa so-
cial, pois o simples fato do aconselhando estar diante de uma
22    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

figura de autoridade religiosa já cria uma condição psicológi-


ca que interfere no processo relacional e comunicacional. Jag-
now, em sua obra O diálogo pastoral, define essa expressão
como “uma conversa com um propósito especial. O pastor e
o aconselhando são ‘um’, trabalhando em um problema que
preocupa a ambos. Cada um faz a sua própria contribuição
para o processo. É um esforço cooperativo”.2

Como trabalho cooperativo, o teólogo/conselheiro preci-


sa cuidar para não transformar a sessão de aconselhamento
em um monólogo ou mesmo em um monopólio da palavra.
Esses dois problemas comunicacionais existem quando não
há circularidade da comunicação afetiva, ficando a conversa
apenas no campo intelectual ou informacional. Uma bateria
de perguntas que visam apenas coletar informações do acon-
selhando poderia ser descrita ou considerada como unilateral
e monológica, mesmo havendo uma alternância entre pergun-
tas do conselheiro e respostas do aconselhando. A questão,
portanto, não está tanto na alternância da palavra em si, mas
na relação estabelecida entre conselheiro e aconselhando em
torno da mensagem e do conteúdo trazidos na sessão. Como
diz Watzlawick, um dos axiomas da comunicação é a de que
ela sempre implicará pelo menos dois níveis: um de conteúdo
e outro de relação.3 Ambos são importantes, mas, sem a di-
mensão da relação, o conteúdo pode se tornar estéril para o
processo de auxílio do aconselhando.

2 JAGNOW, Dieter Joel. O diálogo pastoral. p. 91.


3 WATZLAWICK, Paul. In: STOCCHI, Maria Cristina. Psicologia da comunicação.
p. 104.
Capítulo 2    Princípios de Diálogo e Conversação Pastoral    23

Um exemplo do que estamos dizendo é quando o acon-


selhando, por estar tão angustiado em derramar o peso de
sua alma, acaba tomando todo o tempo da sessão nesse seu
desabafo. Isso não significa que a sessão tenha se tornado um
monólogo nem tampouco um monopólio da palavra por parte
do aconselhando, pois essa expressão fluida e aberta é uma
importante meta/etapa do aconselhamento, demonstrando
que existe um vínculo de confiança com o conselheiro. Nesses
casos, o conselheiro precisa se colocar em uma postura de es-
cuta ativa e atenta, demonstrada pela sua corporeidade (olhar,
meneios da cabeça etc.), que indique que está acompanhan-
do atentamente a fala do aconselhando, o que servirá tam-
bém como um incentivo para a continuidade da exposição do
problema. De qualquer modo, um bom conselheiro deveria se
esforçar em desenvolver mais a escuta do que ele próprio falar.

A comunicação humana, também no contexto da poimê-


nica e do aconselhamento, ocorre não só no âmbito verbal,
mas também no âmbito não verbal. Pode estar havendo um
“diálogo” inclusive em momentos prolongados de silêncio de
uma sessão de aconselhamento, pois os não ditos e os silên-
cios normalmente estarão carregados de profundo significado
simbólico e precisam de espaço para serem processados e res-
significados, o que pode vir a ocorrer justamente nas sessões
de aconselhamento.

Nesse sentido, Jagnow avança no seu conceito de diálogo


afirmando:

o diálogo afirma que o processo de comunicação é uma


via de duas mãos de partilhar significados verbais e não
24    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

verbais, caracterizada mais por simultaneidade do que


por momentos específicos de trânsito. Erickson se refere
a essa reciprocidade ao dizer que o diálogo sempre se
refere a uma “conversa dar-e-receber entre duas pessoas
capazes de aceitar mutuamente as ideias, opiniões e sen-
timentos”.4

Godin, teólogo católico, em uma obra em que tematiza as


relações humanas no diálogo pastoral, afirma que existem três
grandes funções psicológicas em um diálogo pastoral: funções
de acolhimento, de direção e de mediação.5

A primeira função, de acolhimento, implica uma “calorosa


aceitação” do consulente, assim como Jesus fez com a mu-
lher adúltera dizendo “pois eu também não te condeno” (João
8.11). É preciso acolher o consulente como uma pessoa livre,
única e singular, aceitando os seus limites e seus progressos
na relação terapêutica. É preciso aceitar a pessoa em suas
dificuldades e em seus problemas, ouvindo atentamente seus
conflitos empaticamente, ou seja, evitando fórmulas apressa-
das que podem dar a impressão ao consulente de que ele não
tem o direito de ter problemas em sua vida.6

A segunda função do diálogo pastoral é a de direção. Essa


é uma função de guia espiritual, educativa, no plano moral
e religioso. Isso não implica, porém, uma função de mando
sobre a conduta atual do consulente em uma relação de obe-

4 JAGNOW. p. 88-9.
5 GODIN, S. J. A relação humana no diálogo pastoral. p. 31 ss.
6 GODIN. p. 31-33.
Capítulo 2    Princípios de Diálogo e Conversação Pastoral    25

diência religiosa. O consulente sempre deverá sentir-se livre e


autônomo para tomar por si mesmo as decisões de sua vida.
O conselheiro não pode impor, pressionar ou mesmo cons-
tranger o consulente a tomar essa ou aquela decisão, pois isso
pode gerar uma dependência nociva entre ambos, baseada
em uma relação de autoridade psicológica ou religiosa que
não contribui para o crescimento do indivíduo. Diz Godin:

tenha sempre presente que a função de direção requer


que ele torne seus consulentes cada vez mais capazes
não somente de adotar os comportamentos exteriores
que moralmente se impõem, mas de neles se empenhar
livremente, por meio de um movimento interior apoiado
nas motivações mais maduras e mais espirituais de que
são capazes. [...] a fim de favorecer sua autonomia e
suscitar uma dependência espiritual não a respeito do
conselheiro, mas dos valores e das realidades cristãs.7

A terceira função do diálogo pastoral é a da mediação. O


teólogo e conselheiro precisa se aproximar como um amigo
acolhedor do consulente para lhe apresentar e dar acesso à
presença do amor de Deus em Cristo Jesus. Essa função insere
a dimensão espiritual no aconselhamento, na qual o Espírito
Santo age na própria relação entre consulente e conselheiro.
Cabe ao conselheiro “preparar o caminho” para a ação direta
do Espírito.8 Essa função aproxima-se muito da ideia do triálo-

7 GODIN. p. 50-1.
8 GODIN. p. 67-8.
26    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

go proposto por Gary Collins, que envolve a presença de Deus


no centro do processo terapêutico.9

Finalizando a respeito da importância desse aspecto poimê-


nico, Jagnow vai afirmar que, quando bem conduzido, o diá-
logo sempre será um elemento contributivo para o processo de
aconselhamento, no sentido de enriquecer o relacionamento
entre aconselhando e conselheiro e permitir a descoberta de
caminhos para alcançar respostas e soluções para os proble-
mas trazidos na sessão. O diálogo pastoral, portanto, afirma a
natureza comunicativa do aconselhamento.10

2T
 écnicas para a entrevista de
aconselhamento

Um aspecto que pode ser útil ao teólogo ou conselheiro pas-


toral envolve o conhecimento de técnicas psicológicas de en-
trevista, que podem ser utilizadas por qualquer terapeuta ao
longo das consultas e sessões de aconselhamento.

A utilização específica de cada uma das técnicas é media-


da pela sensibilidade do terapeuta/conselheiro diante do con-
teúdo que lhe é apresentado pelo aconselhando na consulta.
Para que a entrevista se torne dinâmica, e a comunicação flua,
o conselheiro precisará estar atento a tudo o que acontece na
sessão de aconselhamento, tanto no campo verbal quanto no

9 COLLINS, Gary R. Aconselhamento cristão: edição século 21. São Paulo: Vida
Nova, 2004. p. 46.
10 JAGNOW. p. 93.
Capítulo 2    Princípios de Diálogo e Conversação Pastoral    27

não verbal, especialmente na relação entre esses dois tipos de


linguagem.

Nesse sentido, não só o conteúdo do que o aconselhando


diz é importante, mas como ele diz. É importante percebermos
a congruência entre o teor das informações com a linguagem
corporal. Observar as expressões faciais, as mudanças no rit-
mo da fala, o timbre de voz, as pausas no discurso, a postura
do corpo (olhar evitativo, encolhimento, mãos crispadas, ti-
ques nervosos etc.) são todos aspectos importantes na análise
geral do comportamento do aconselhando, podendo guiar o
conselheiro na utilização da melhor técnica de interação e diá-
logo.

O terapeuta Robert Craig nos descreve pelo menos onze


técnicas de condução de entrevista.11 Faremos uma descrição
sintética delas com algumas adaptações para o contexto do
aconselhamento cristão.

Questionamento/Perguntas: essa é a técnica mais co-


mum utilizada pelos entrevistadores. Podem ser feitas pergun-
tas abertas (ex.: Fale um pouco de como você está se sen-
tindo em relação ao seu casamento) ou fechadas (ex.: Qual
o seu real sentimento com relação ao seu marido?). Já para
um primeiro encontro com o aconselhando, podem ser suge-
ridas perguntas do tipo: Em que eu posso lhe auxiliar?; O que
está lhe preocupando para vir buscar conselho?; Conte-me
o que aconteceu, o que te fez buscar orientação? Por vezes,
é prudente iniciar o diálogo com um assunto mais ameno,

11 CRAIG, Robert T. Entrevista clínica e diagnóstica. Porto Alegre: Artes Médicas,


1991. p. 33-38.
28    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

para quebrar o gelo, especialmente quando se percebe que o


aconselhando está muito tenso ou constrangido. Nesses casos,
não se deve ir direto à pergunta do motivo da consulta. As-
suntos do dia a dia ou notícias importantes da semana podem
servir de temas quebra-gelo. Quanto ao tipo de perguntas, a
não ser que se busque informações específicas, o conselheiro
deve evitar fazer perguntas fechadas, que evoquem respostas
do tipo sim e não, pois elas podem favorecer as resistências
do aconselhando e quebrar a dinâmica da conversação. Uma
pergunta aberta sempre tem chance de trazer conteúdo mais
significativo e propício ao desenvolvimento de um produtivo
diálogo pastoral.

Reflexão: para Craig “essa técnica requer que o entrevis-


tador tenha a habilidade de reproduzir o material cognitivo ou
emocional do paciente, de modo a mostrar-lhe que seus sen-
timentos ou declarações foram compreendidos”.12 Só deve ser
usada quando o conselheiro tenha, de fato, compreendido o
que o aconselhando expôs. Se a reflexão for equivocada, pode
dificultar o prosseguimento da exposição pelo aconselhando.
Exemplo de reflexão: “Nada do que eu faço dá certo na minha
vida”, diz o aconselhando. O conselheiro poderia responder:
“Você parece dizer que se sente frustrado consigo mesmo com
relação aos seus projetos de vida e de que não te sentes capaz
de realizar coisas boas? Inseriu-se no diálogo um elemento
novo que é o conceito de frustração ou capacidade pessoal
de realização, ligado à autoestima. Deve-se cuidar, porém,
para não ficar nominando o sentimento pelo aconselhando.

12 CRAIG, 1991. p. 33.


Capítulo 2    Princípios de Diálogo e Conversação Pastoral    29

Melhor é levá-lo a identificar no seu próprio íntimo qual senti-


mento que o está perturbando. É preciso, portanto, deixar que
o aconselhando verbalize a sua raiva, culpa, medo, inveja etc.,
pois ele próprio admitir tais sentimentos tem uma importância
simbólica no processo de autoanálise, fundamental no acon-
selhamento. Ou seja, antes de dizer “Parece que você está
com inveja de seu irmão” o conselheiro poderia perguntar:
“você consegue identificar o sentimento que está dentro de si,
com relação a isso que me contou sobre seu irmão?”.

Reexposição ou paráfrase: o conselheiro repete em ou-


tras palavras, de forma mais clara e articulada, um conteúdo
importante trazido pelo aconselhando, indicando estar atento
e comprometido com o processo de conversação e aconselha-
mento. Por vezes, serve para que o próprio aconselhando se dê
conta do conteúdo que ele verbalizou na entrevista. Exemplo:
“Eu vivo com a cabeça no ar. Só fico imaginando bobagens, o
que me deixa perdido, a ponto de esquecer coisas importantes
e não conseguir nem fazer as provas da faculdade”. O tera-
peuta pode responder: “Queres me dizer que esses teus pen-
samentos que relatas como bobagens e que são recorrentes,
parece que eles estão te deixando confuso e não permitindo
que consigas te concentrar em tuas tarefas e estudos”. Nessa
técnica, não é raro que o aconselhando se surpreenda com o
que ele mesmo disse, o que auxilia no processo de clarificação
de sentimentos, pensamentos e emoções reprimidas.

Clarificação: essa técnica busca auxiliar o aconselhando


a compreender o conteúdo e o sentido daquilo que ele está
trazendo no aconselhamento. Demonstra também que o con-
selheiro está se esforçando para compreender o problema ou
30    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

questão trazida na sessão. Ex.: “Parece que o que tu queres me


dizer é que ...”. Essa técnica incentiva o aconselhando a conti-
nuar a sua exposição, trazendo novas informações ou levando
o aconselhando a eventualmente retificar alguma informação
que tenha ficado dúbia ou confusa ao conselheiro. Ex.: “Meu
filho some nos finais de semana e só volta no domingo de ma-
drugada”. Uma possível clarificação desse conteúdo seria: “Seu
filho some ou você sabe por onde e com quem ele fica nesse
período?” O termo sumir precisa ser clarificado na sessão.

Confrontação: como o termo aponta, por vezes o con-


selheiro, ao perceber a incoerência, incongruência ou incon-
sistência de informações ou mesmo uma clara mentira dita
pelo aconselhando, pode confrontá-lo na sessão. Para usar a
confrontação, o conselheiro precisa estar munido de informa-
ções exatas, concretas e objetivas, ou ainda informações que
foram ditas pelo próprio aconselhando em outro momento. É
uma técnica perigosa, pois pode levar o aconselhando a se
retrair e fugir do processo de diálogo pastoral, aumentando
suas resistências e defesas. Precisa-se de muita habilidade no
manejo dessa técnica, pois mesmo que esteja teologicamen-
te ligada ao uso da Lei, não poderia se transformar em uma
técnica legalista, acusatória ou condenatória. Ex.: Eu só tomo
uns golinhos de pinga, lá de vez em quando, bem raramente.
O conselheiro, munido de informação procedente pode con-
frontar o aconselhando dizendo: “Pelo que eu soube, só na se-
mana passada, sua esposa precisou chamar a vizinha em três
oportunidades para lhe levar para dentro de casa, pois estava
caído bêbado na varanda. Não é verdade?”. Deve-se cuidar,
porém, para não comprometer outra pessoa na discussão, no
sentido de comentar algo que foi contado em sigilo e que le-
Capítulo 2    Princípios de Diálogo e Conversação Pastoral    31

varia o aconselhando a saber que fulano ou sicrano contou,


pois isso pode ser fonte certa de conflito. É mais um dos riscos
inerentes ao processo de aconselhamento.

Autorrevelação: essa é uma técnica controversa, na qual


o conselheiro faz uso de suas experiências pessoais e emocio-
nais para provocar empatia. Se usada com cuidado, na maior
parte das vezes, tem efeitos positivos, contribuindo para uma
maior exposição das experiências e emoções do aconselhan-
do. O conselheiro, porém, jamais deveria usar a si mesmo
como exemplo pessoal de sucesso diante da resolução de um
problema semelhante ao trazido pelo consulente. Essa compa-
ração pode provocar expectativas falsas, irreais e sentimento
de incompetência no aconselhando, especialmente se ele tiver
tendo dificuldades para superar seus próprios problemas. O
que pode ser compartilhado, sem grande impacto negativo,
são sentimentos de angústia, impotência e confusão diante
dos conflitos e dificuldades, indicando justamente que isso faz
parte da vida de qualquer ser humano, inclusive de um teólo-
go, conselheiro, pastor ou terapeuta. Isso pode permitir uma
diminuição na tensão do aconselhando, fazendo com que ele
se exponha de forma mais aberta e serena. Por outro lado, se
um conselheiro se autorrevelar como alguém que foi muito
fraco, pecador e confuso, isso poderá, em alguns casos, gerar
uma perda de confiança por parte do aconselhando, visto que
há elementos fortes de idealização por parte da comunidade e
que são projetados sobre a figura do teólogo, conselheiro ou
pastor. O limite sempre será muito tênue entre o que será po-
sitivo ou negativo, estando ligado à própria subjetividade do
aconselhando. Portanto, é uma técnica que precisa ser usada
com muita responsabilidade.
32    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

Silêncio: o silêncio, como intervenção terapêutica, tem


como objetivo contribuir para a introspecção do aconselhan-
do, bem como permitir que ele se reestruture emocionalmente
após a verbalização de um conteúdo impactante ou traumá-
tico na sessão terapêutica. O conselheiro precisa perceber a
diferença entre um silêncio constrangedor e um silêncio repa-
rador. Muitos conselheiros não conseguem lidar com o silêncio
do consulente, passando a bombardeá-lo com perguntas se-
quenciais, não permitindo espaços para a reestruturação emo-
cional, por vezes tão necessária. Quem não sabe lidar com
o silêncio do outro provavelmente tem problemas com o seu
próprio mundo interno, devendo buscar auxílio nesse sentido
para se tornar melhor conselheiro.

Exploração: essa é uma técnica utilizada para que o con-


selheiro obtenha informações importantes e mais profundas
de diversas áreas e atividades da vida do aconselhando. Vai
ao encontro do tripé psicológico: conhecer, para melhor com-
preender, para melhor intervir. As áreas exploradas podem ser:
relacionamentos conjugais, parentais, profissionais, sociais,
espirituais, sexuais, econômicas, médicas, de lazer etc. Não
se pode temer explorar áreas delicadas, desde que se perce-
ba que são importantes no processo (abusos ou maus tratos
sofridos na infância, casos de infidelidade, sexualidade, alcoo-
lismo, drogadição etc.). A sensibilidade em recuar ou avançar
na exploração de determinadas áreas precisa ser desenvolvida
pelo conselheiro a partir da leitura das reações comportamen-
tais do aconselhando. Novamente, alertamos que essa técnica
não deveria se transformar em uma bateria interminável de
perguntas nem tampouco para saciar uma eventual curiosida-
de do conselheiro.
Capítulo 2    Princípios de Diálogo e Conversação Pastoral    33

Interpretação: é uma das técnicas mais profundas e com-


plexas, de origem psicanalítica. Nela o conselheiro vai devol-
ver ao aconselhando informações que permitam a ele explorar
com mais profundidade o seu comportamento e compreender
as motivações de suas ações. Essas motivações, invariavel-
mente, poderão estar em um plano inconsciente, sendo “des-
conhecidas” do próprio aconselhando. O grande perigo dessa
técnica é a possibilidade da interpretação do conselheiro estar
equivocada, o que geraria uma grande confusão ao consu-
lente. Lembramos, porém, que o fato de um aconselhando
rejeitar a interpretação do conselheiro não significa que ela es-
teja necessariamente equivocada. A negação é um conhecido
mecanismo de defesa do ego, como veremos a seguir nesse
capítulo. Outro perigo da interpretação é que ela seja pro-
ferida precocemente, antes do aconselhando estar “prepara-
do” ou “pronto” para ouvi-la e assimilá-la. Uma interpretação
equivocada ou precoce pode afastar definitivamente o acon-
selhando do processo terapêutico. Essa técnica de entrevista
exige, portanto, um conhecimento mais profundo dos processos
intrapsíquicos e psicodinâmicos dos indivíduos. Deve ser usada
com muito cuidado e parcimônia.

Humor: por mais estranho que possa parecer, o uso do


humor como técnica terapêutica no diálogo pastoral pode ter
um efeito positivo para reduzir a ansiedade ou quebrar uma
situação de constrangimento surgida na sessão de aconselha-
mento. Precisa ser usado, porém, com sobriedade, evitando
parecer que o conselheiro não está levando a sério o proble-
ma apresentado. Craig coloca o seguinte exemplo: “Algumas
vezes eu me sinto como duas pessoas em um corpo só”. De-
pendendo do contexto, caso o clima esteja tenso, o terapeu-
34    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

ta poderia brincar, dizendo: “Bom, pense na vantagem disso:


pelo menos você nunca se sentirá sozinho. Vocês sempre terão
um ao outro”.

Há outras técnicas que poderiam ser ainda descritas, mas


passaremos a um outro aspecto que influencia, em muito, no
conteúdo do diálogo e conversação pastoral: os mecanismos
de defesa do ego.

3M
 ecanismos de defesa ou ajustamento
do ego

Não só no decorrer das relações humanas cotidianas, mas


também em sessões de aconselhamento pastoral, muitos são
os fenômenos psicológicos que entram em cena. Um dos mais
importantes são os chamados mecanismos de defesa ou de
ajustamento do ego, identificados e descritos pela teoria psi-
canalítica.

Esses mecanismos, na maior parte das vezes, operam in-


conscientemente, sem que o indivíduo perceba que os está
utilizando. São recursos ou estratégias que o ego dispõe para
protegê-lo contra a ansiedade provocada pelos conflitos da
vida cotidiana, defendendo-o de impulsos e desejos incons-
cientes que ameaçam o seu equilíbrio psíquico.13

13 SCHULZ, Duane. Teorias da Personalidade. São Paulo: Cengage Learning,


2008. p. 53.
Capítulo 2    Princípios de Diálogo e Conversação Pastoral    35

O conselheiro não deve achar que um indivíduo que faz


uso desses mecanismos está agindo de má fé, com má inten-
ção ou que tenha uma falha de caráter. Todos os indivíduos
utilizam mecanismos de defesa, em maior ou menor medida,
pois eles ajustam os ideais internos com as circunstâncias do
meio, assegurando a manutenção da integridade ou equilíbrio
da personalidade diante dos fracassos, frustrações, conflitos
e desejos proibidos. Como uma sessão de aconselhamento
normalmente é um espaço onde conflitos, frustrações e dese-
jos proibidos vêm à tona, os mecanismos de defesa acabarão
entrando nos processos comunicacionais do diálogo pastoral.

O seu uso, portanto, não é patológico, porém, poderá vir


a se tornar em alguns casos, especialmente se determinado
mecanismo for utilizado reiteradamente como única forma do
indivíduo lidar com sua angústia. O uso prejudicial de um me-
canismo atrapalha o indivíduo no enfrentamento produtivo de
sua dificuldade, sendo uma distorção da realidade. Cabe ao
terapeuta ou conselheiro identificar qual mecanismo o acon-
selhando está usando e auxiliá-lo a trabalhar o conteúdo ori-
ginal causador da angústia. Isso ficará mais claro a partir da
descrição dos principais mecanismos.14

Conversão: o conflito psíquico é transferido para manifes-


tações anormais do funcionamento fisiológico (psicossomáti-
ca). Os sintomas são reais, mas a doença é apenas psicoló-
gica. Pode incluir os tiques nervosos. Ao se retirar a causa da
angústia, o sintoma pode desaparecer. Exemplo: ter náuseas e

14 Foram utilizadas as obras de SCHULZ, Duane. Teorias da Personalidade. p.


53-56 e de BANOV, Márcia Regina. Psicologia no gerenciamento de pessoas. p.
44-49.
36    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

vômito antes de uma prova. Se o professor cancela a prova, o


sujeito volta a se sentir bem logo em seguida.

Deslocamento: envolve uma substituição proposital e in-


consciente de um objeto por outro, no interesse de resolver
o conflito. O objeto muda, mas a finalidade do impulso per-
manece inalterada. Exemplo: após receber uma reprimenda
do professor, o aluno sai da aula e, ao chegar no corredor,
chuta com força a lata de lixo, quando, na verdade seu desejo
original era o de chutar o próprio professor que o repreendeu.
Como sabe que não pode agredir o professor, ele alivia sua
raiva agredindo um alvo/objeto mais aceitável socialmente.

Formação reativa: nesse mecanismo, os impulsos e emo-


ções censuradas como impróprias pelo indivíduo assumem um
caráter diametralmente oposto. Exemplo: uma pessoa religio-
sa que sofre muito com seus próprios desejos sexuais impu-
ros torna-se uma grande moralista, julgando e condenando
a todos que cometem qualquer deslize moral. O radicalismo
contra algo, portanto, pode esconder um forte desejo interno
contrário ao que se condena.

Projeção: implica atribuir aos outros nossos próprios de-


sejos e impulsos que não admitimos em nós mesmos. Exem-
plo: interpretamos mal a ação dos outros pelos nossos pró-
prios desejos. Alguém que é muito ciumento com seu cônjuge,
mesmo sem motivos aparentes, pode estar demonstrando que
inconscientemente possui desejos de traí-lo. Ou seja, projeta-
se a falta de confiança no outro, pois internamente o próprio
indivíduo sabe que não é confiável.
Capítulo 2    Princípios de Diálogo e Conversação Pastoral    37

Racionalização: é a chamada justificativa lógica para


ações, crenças e comportamentos que não queríamos reali-
zar, mas acabamos cometendo. São explicações convincentes
e desculpas socialmente aceitas que damos aos outros para
nos justificar. Exemplo: a fábula da raposa e a uvas. Após fra-
cassar em tentar comê-las a raposa vai embora desdenhando
e dizendo que nem as desejava, pois elas estariam verdes ou
azedas (o que minimiza seu fracasso). Diferente da mentira
(processo consciente), onde tento convencer os outros, na ra-
cionalização, tento convencer a mim mesmo (processo incons-
ciente) da veracidade da minha justificativa.

Negação: o indivíduo nega a existência de um conteúdo


ameaçador ou evento traumático. Exemplo: no filme “Cho-
colate” um dos personagens vive como se a esposa tivesse
viajado e um dia retornaria ao lar, negando aos outros e a si
mesmo que ela o tinha abandonado definitivamente.

Regressão: diante de um evento de forte angústia, o indi-


víduo volta ou regride a um estágio anterior de sua vida, que
tenha sido mais agradável. Exemplo: a meia-idade revela uma
crise em função do processo de envelhecimento, fazendo com
que o indivíduo volte a se comportar como um adolescente, no
que é conhecido como “idade do lobo”.

Compensação: é um esforço para ser bem-sucedido em


uma área, substituindo uma fraqueza ou fracasso em outra
área da personalidade. Exemplo: alguém que percebe não ser
muito inteligente começa a utilizar muito a sedução para ser
aceito no seu ambiente de trabalho. Compensa a falta de in-
teligência com elogios, agrados etc.
38    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

Sublimação: é o mecanismo de defesa mais saudável,


onde o sujeito redireciona as suas energias sexuais e agressi-
vas para outros fins, visando objetos ou funções socialmente
valorizadas. O indivíduo transforma os desejos proibidos em
uma atividade criativa e agradável, permitindo um processo
de conciliação psíquica interior. Exemplo: um indivíduo com
muitos impulsos agressivos, temendo se tornar uma ameaça
social, pode buscar uma carreira militar ou policial.

Esses fenômenos psicológicos quase sempre se farão pre-


sentes na conversação e diálogo pastoral. Portanto, é impor-
tante que o conselheiro saiba que isso interfere diretamente
na compreensão dos conteúdos simbólicos verbalizados pelo
aconselhando. Envolve estar atento não apenas para o sentido
literal ou consciente do que o aconselhando diz, mas também
para as “entrelinhas”, ou seja, o conteúdo oculto, simbólico
ou inconsciente.

Recapitulando

Vimos, neste capítulo, a importância do diálogo e conversação


pastoral para todo o processo de aconselhamento. Destacou
que toda a relação terapêutica ocorre a partir de processos co-
municacionais, que podem ser tanto de caráter verbal quanto
não verbal, sendo ambos muito importantes. Enfatizou que o
diálogo pastoral possui diversas funções que precisam estar
claras para o conselheiro: acolhimento, direção e mediação.
Da mesma forma, o capítulo apresentou uma série de técni-
cas de entrevista que podem e devem ser utilizadas pelo con-
Capítulo 2    Princípios de Diálogo e Conversação Pastoral    39

selheiro, de forma variável e diversificada, para uma melhor


condução do processo terapêutico. Além disso, descreveu os
principais mecanismos de defesa do ego, utilizados pelos in-
divíduos na maior parte das vezes de forma inconsciente, mas
que certamente interferem nos processos relacionais e de co-
municação interpessoal.

Referências

BANOV, Márcia Regina. Psicologia no gerenciamento de pes-


soas. São Paulo: Atlas, 2008.

COLLINS, Gary R. Aconselhamento cristão: edição século


21. São Paulo: Vida Nova, 2004.

CRAIG, Robert T. Entrevista clínica e diagnóstica. Porto Ale-


gre: Artes Médicas, 1991.

GODIN, A. A relação humana no diálogo pastoral. São


Paulo: Paulinas, 1970.

JAGNOW, Dieter Joel. O diálogo pastoral: princípios de co-


municação do aconselhamento cristão. Porto Alegre: Con-
córdia, 2003.

SCHULZ, Duane. Teorias da Personalidade. São Paulo: Cen-


gage Learning, 2008.

STOCCHI, Maria Cristina. Psicologia da comunicação: ma-


nual para estudo da linguagem publicitária e das técnicas
de venda. São Paulo: Paulus, 2007.
40    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

Atividades

1) A expressão diálogo pastoral pode ser definida como:___


________________________________________________
_______________________________.

2) Segundo Watzlawick, entre os principais axiomas da co-


municação é de que ela acontece em dois níveis, a saber:
_____________ e _______________.

3) Para o teólogo católico A. Godin, existem três gran-


des funções psicológicas no diálogo pastoral. São
elas: ______________, ____________________ e
____________________________.

4) O que é mais importante para o diálogo pastoral: a lin-


guagem verbal ou a não verbal?; o conteúdo ou a forma
da comunicação? Faça um pequeno texto justificando sua
resposta.

5) Qual a importância do conselheiro ter algum conhecimen-


to acerca dos mecanismos de defesa do ego?
Thomas Heimann1

Capítulo 3

A Pessoa do Conselheiro:
Cuidando do Cuidador 1

1 Doutor em Teologia. Coordenador do Curso de Teologia da ULBRA. Professor de


Teologia na área da Psicologia e Aconselhamento Pastoral. Professor do Curso de
Pós-Graduação em Gestão de Pessoas. Membro do Grupo de Pesquisa em Acon-
selhamento e Psicologia Pastoral da Faculdades EST. Pastor da Igreja Evangélica
Luterana do Brasil – IELB. Psicólogo clínico.
42    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

Introdução

Vem crescendo, ao longo das últimas décadas, o interesse e


preocupação pelo tema cuidado aos cuidadores. Estudos e
pesquisas têm procurado lançar um olhar para a saúde e bem-
-estar integral dos diferentes profissionais de ajuda: médicos,
enfermeiros, técnicos de enfermagem, psicólogos, assistentes
sociais, pastores entre outras profissões e funções que trazem
na sua essência o cuidar de pessoas. O pano de fundo por
trás desse crescente interesse está em uma constatação ób-
via: para cuidar bem, o cuidador também precisa estar bem.
Como diz a enfermeira e pesquisadora Vera Regina Waldow,
para prestar o cuidado, é necessário que saibamos nos cuidar
primeiramente. Se isso ocorrer, o cuidado ao outro ocorre com
mais espontaneidade, simplicidade e, acima de tudo, é mais
profundo e completo.2

Teólogos e conselheiros pastorais são cuidadores por ex-


celência, afinal são procurados por pessoas que normalmente
estão vivenciando conflitos, dificuldades, problemas, dúvidas
e crises em diferentes âmbitos de sua vida. Colocar-se empati-
camente ao lado de pessoas angustiadas e em sofrimento não
é tarefa simples. O processo de cuidar, tornando-se compa-
nheiro de jornada nas dores e sofrimentos alheios, implica um
exercício de doação de si mesmo, que pode acabar cansando
e exaurindo as forças emocionais de quem se coloca nessa
condição de cuidador. Nesse contexto, a reflexão do teólogo
Henri Nouwen é muito apropriada, quando ele diz:

2 WALDOW, Vera Regina. Cuidado: o resgate necessário.


Capítulo 3    A Pessoa do Conselheiro: Cuidando do Cuidador    43

estou convencido de que sacerdotes e ministros, espe-


cialmente aqueles que se relacionam com muitas pes-
soas angustiadas, precisam de um lugar realmente segu-
ro para si mesmos. Precisam de um lugar onde possam
compartilhar suas dores e lutas profundas com pessoas
que não precisam deles, mas que possam guiá-los cada
vez mais adiante no profundo mistério do amor de Deus.3

Posto esse princípio básico da necessidade dos cuidado-


res religiosos também cuidarem de si mesmos, passemos a
analisar essa temática e sua relevância dentro do contexto de
aperfeiçoamento contínuo dos conselheiros.

1C
 onceito e importância ontológica do
cuidar

O conceito de cuidado e sua relevância estão ligados à es-


sência do ser humano, sendo elementos constitutivos básicos
da vida e identidade de cada um de nós. Há um pressuposto
ontológico no cuidar, no sentido que o cuidado é uma con-
dição imprescindível para a própria sobrevivência humana e
não apenas para proporcionar uma melhor qualidade de vida.
O filósofo existencialista Martin Heidegger afirma: “Do ponto
de vista existencial, o cuidado se acha a priori, antes de toda
atitude e situação do ser humano, o que sempre significa dizer
que ele se acha em toda atitude e situação de fato”.4

3 NOUWEN, Henri. O perfil do líder cristão no sec XXI. p. 55.


4 HEIDEGGER apud BOFF, L. Saber cuidar: ética do humano – compaixão pela
terra. p. 34.
44    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

Portanto, o cuidar/cuidado é uma expressão de nossa hu-


manidade, sendo essencial para nosso desenvolvimento e rea-
lização como seres humanos.5 O teólogo Lothar Hoch ressalta
que “sem aconchego pessoal e emocional de pessoas que nos
envolvem com amor e proteção, não temos chances de sobre-
vivência. Essa é a nossa condição humana primária”.6

Porém, não apenas nos primeiros dias de vida, onde somos


completamente dependentes do cuidado alheio para sobre-
vivermos, mas também em todas as demais etapas de nos-
sa vida, seja na infância tardia, adolescência, juventude, vida
adulta ou terceira idade, sempre iremos necessitar do cuidado
de um outro. Precisamos ser abastecidos de presença, de afe-
to, de solidariedade e de amor de outras pessoas para que
não definhemos psíquica, espiritual e emocionalmente.7

O próprio Jesus Cristo, em diferentes momentos de sua


vida, não apenas se colocou ao lado de pessoas para cui-
dá-las como também solicitou a presença delas para o seu
próprio cuidado, sendo a experiência do Getsêmani uma das
mais paradigmáticas nesse sentido. “Levou com ele Pedro e
os dois filhos de Zebedeu, Tiago e João, e começou a sentir
angústia e tristeza. Então disse-lhes: “Minha alma está cheia
de tristeza, a ponto de morrer. Fiquem aqui e vigiem comigo”.
(Mateus 26.37,38). Jesus não só cuidou, mas também se co-

5 ROACH apud WALDOW. p. 16-7.


6 HOCH, Lothar Carlos. Educação evangélica a partir do contexto de vocação. p. 27.
7 É sabido que a privação de afeto ou a falta de cuidado é fonte geradora de inú-
meras doenças, dentre as quais a depressão é uma das mais conhecidas. Como
dizem alguns psiquiatras, na raiz de muitas depressões pode estar o desamparo, a
falta de cuidado de um outro.
Capítulo 3    A Pessoa do Conselheiro: Cuidando do Cuidador    45

locou na condição de ser cuidado em diversos momentos de


sua vida, como aconteceu após ser tentado no deserto, onde
foi cuidado e servido por anjos (Lucas 4.1-13).

Leonardo Boff, na sua obra Saber Cuidar, afirma que a


falta de cuidado, em quase todos os âmbitos – material, eco-
nômico, pessoal, social, espiritual, ecológico – tem se tornado
um dos grandes estigmas dos tempos modernos. Boff nomina
e descreve três tipos de patologias do cuidado na atualida-
de, que podem ser reinterpretadas e aplicadas plenamente ao
contexto dos cuidadores religiosos.8

A primeira e mais grave das patologias é a negação do


cuidado. Nesse tipo de patologia, o cuidador muitas vezes
trabalha em ritmo frenético, desprezando os cuidados básicos
como alimentação, sono, lazer e descanso, simplesmente por-
que não se dá conta de suas próprias necessidades. Pode ser
causado pela busca do poder ou ascensão profissional, mas
pode trazer como consequência o embrutecimento das rela-
ções e uma desumanização do próprio cuidador. No jargão
moderno, poderíamos considerar esse sujeito um workaholic,
ou seja, um viciado pelo trabalho, negando a si próprio o
cuidado essencial e invariavelmente negando esse cuidado es-
sencial a pessoas de seu círculo íntimo: cônjuge, filhos, pais,
parentes, amigos etc. Essa patologia é fonte certa de sofrimen-
to, para o próprio sujeito e para quem convive mais intima-
mente com ele.

8 BOFF. p. 160-162.
46    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

Já o segundo tipo de patologia é o cuidado excessivo. A


pessoa se torna obsessiva por se preocupar demasiadamente
em cuidar de tudo e de todos, sem considerar os limites entre
o que é neurótico e o que é saudável. O cuidador pode se
perder no enfoque entre o cuidado de si mesmo e o cuidado
do outro, passando a se proteger de tal forma que pode pre-
judicar o seu exercício profissional e suas próprias relações.
Em outras palavras, o cuidador pode passar a se ocupar do
outro para escapar de si mesmo, usando o trabalho como
uma fuga, evitando refletir sobre possíveis problemas na sua
própria vida íntima e familiar. Nesse modelo, a relação de
ajuda pode passar a acontecer de forma impessoal, técnica e
burocrática, perdendo-se a espontaneidade das relações. Po-
rém, quando esse cuidado excessivo volta-se para si mesmo,
pode levar a uma obsessão que dá origem ao narcisismo, à
vaidade e à afetação. Esqueço do outro porque estou preo-
cupado demais comigo. Boff também diz que a patologia do
cuidado excessivo pode causar um perfeccionismo imobiliza-
dor, já que o sujeito coloca tanto cuidado no que pretende
fazer que quase nunca consegue finalizar o que iniciou. Isso
o aproxima de uma neurose de excelência, ou seja, querer
fazer tudo de modo perfeito, o que também pode ser fonte
de sofrimento para cuidadores que não conseguem lidar com
possíveis fracassos.

Já o terceiro tipo de patologia é o descuido ou carência


do cuidado. Nessa patologia, inserem-se os displicentes e os
descuidados. O cuidador não percebe o todo de seu ser, per-
dendo a noção de integralidade. Cuida apenas de algumas
partes de sua vida, deixando outras a descoberto, inclusive
áreas essenciais, como sua saúde ou sua família. O indivíduo
Capítulo 3    A Pessoa do Conselheiro: Cuidando do Cuidador    47

pode acabar assumindo tarefas acima de suas possibilidades


reais, tem dificuldade em dizer não e acaba perdendo o con-
trole sobre o processo global de sua vida e trabalho, cum-
prindo tarefas de modo desordenado, confuso e com baixa
qualidade. Um exemplo claro disso pode ser o descuido com
a própria alimentação, em que o indivíduo passa a fazer lan-
ches rápidos, ao invés de comer com calma e com uma dieta
saudável.

Descritas as patologias do cuidado, a pergunta que segue


é: Afinal, qual o significado do conceito de cuidar/cuidado?
Para alguns filólogos, cuidar origina-se do latim cura, sendo
um termo utilizado em um contexto de relações de amor e
amizade, expressando uma “atitude de cuidado, de desvelo,
de preocupação e de inquietação pela pessoa amada ou ain-
da por um objeto de estimação”. Já outros creditam que cui-
dar deriva-se do latim cogitare-cogitatus, significando “cogitar,
pensar, colocar atenção, mostrar interesse, revelar uma atitude
de desvelo e de preocupação”.9

Aprofundando esse conceito, Leininger, em uma pesquisa


de cunho antropológico, realizada em 54 culturas diferentes,
encontrou 175 construtos do conceito cuidar/cuidado. Dentre
eles, citam-se:

aceitar, assistir os outros, ser autêntica, envolver-se, estar


presente, confortar, preocupar-se, ter consideração, ter
compaixão, expressar sentimentos, fazer para/com, to-
car, amar, ser paciente, proteger, respeitar, compartilhar,

9 HEIMANN, Cuidando de Cuidadores: ... Dissertação de Mestrado.


48    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

compreender, ter habilidade técnica, demonstrar conhe-


cimento, segurança, valorizar o outro, ser responsável,
usar silêncio, relacionar-se espiritualmente, ouvir (...) res-
peitar os outros, respeitar estilo de vida, respeitar desejos,
respeitar a privacidade, respeitar diferenças sexuais.10

Vemos aqui a amplitude do que significa cuidar, o que nos


auxilia a compreender a complexidade desse ato/processo e
a responsabilidade que passamos a ter na condição de cuida-
dores. Cuidar exige de nós, além de conhecimentos teóricos,
técnicos e objetivos, uma boa dose de intuição, sensibilidade,
subjetividades, afetos, discernimento etc.

Já quando olhamos para o conceito de cuidar na Bíblia,


vemos que, entre as muitas faces de Deus, uma das mais co-
nhecidas é a ideia de um Deus que cuida, consola, conforta e
guarda o seu povo. Inúmeros textos tratam do cuidar divino,
que pressupõe diversos tipos de ações, que envolvem: o cos-
turar de roupas para Adão e Eva no jardim (Gênesis 3.21),
o ouvir a súplica (1 Pedro 3.12), o resgatar (Gálatas 3.13 e
Mateus 20.28), o libertar (Colossenses 1.13), o perdoar e con-
solar (Lucas 23.34 e Is 49.13), o zelar (2 Coríntios 11.2), o
providenciar alimento (João 6.1-1-15), o curar de doenças
(Marcos 1.34), o providenciar a salvação eterna (João 3.16),
o chorar junto (Jo 11.35) etc. Depreende-se disso que o cuidar
bíblico envolve o ser humano nos seus mais diversos aspectos:
espirituais, psíquicos, corporais, afetivos e materiais, atingindo
tanto os aspectos imanentes quanto transcendentes do indiví-

10 LEININGER apud WALDOW. p. 130-1.


Capítulo 3    A Pessoa do Conselheiro: Cuidando do Cuidador    49

duo. Em suma, a totalidade do ser humano está sob os cuida-


dos de Deus.

Importa também ressaltar que Jesus, pelo que é descrito


de sua vida e obra, é um restaurador pleno de mentes, almas
e corpos. É um cuidador que enxerga o ser humano nas suas
múltiplas dimensões e que vai ao encontro dele na perspectiva
de curá-lo como ser integral.11

Porém, na perspectiva bíblica, não é apenas Deus quem


cuida diretamente da sua criação. Ao ser humano também foi
delegada a tarefa do cuidado. O texto bíblico de 1 Coríntios
12.12-31 diz claramente que os cristãos precisam cooperar
uns com os outros, com igual cuidado. Outros textos que po-
deriam ser citados nesta linha incluem a parábola do bom
samaritano (Lucas 10. 25-37) no qual o cuidado está implícito
no amor e auxílio ao próximo. No texto de 1 Pedro 5.2, a ad-
moestação do apóstolo aos presbíteros é clara: “Pastoreai o
rebanho de Deus que há entre vós” ou na tradução da Bíblia
na Linguagem de Hoje, “cuidem bem do rebanho que Deus
lhes deu”, sendo que isso não é tarefa apenas do pastor ou
sacerdote, mas de todo o povo de Deus.

Portanto, cuidar é muito mais do que um ato pontual ou


isolado. Cuidar é um processo cotidiano, que implica a trans-
formação tanto do que cuida como de quem é cuidado, como
diz Waldow: “[...] cuidar engloba o sentido de integridade e a
plenitude física, social, emocional, espiritual e intelectual [...] e

11 Isso não significa, porém, que os seres humanos serão libertos de doenças,
sofrimento e morte terrena, pois enquanto vivermos nesse mundo estamos sujeitos
à corrupção impingida pelo pecado.
50    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

constitui, em última análise, um processo de transformação de


ambos, cuidadora e ser cuidado”.12

2A
 importância do cuidador cuidar de si
mesmo

No contexto cristão, muito se fala que precisamos viver abne-


gadamente uma vida de serviço, de solidariedade e de cuida-
do ao nosso próximo. Isso se torna ainda mais evidente quan-
do passamos a exercer uma função “oficial” de cuidadores,
na condição de teólogos, conselheiros, pastores ou mesmo de
liderança religiosa. Viver uma vida em ou de serviço e cuidado
é, de fato, uma orientação bíblica. O próprio Deus, motivado
pelo seu amor e misericórdia, serviu e continua servindo a hu-
manidade, a ponto de entregar a si mesmo em prol de nossa
salvação, através da obra vicária de seu Filho Jesus Cristo. Pois
é justamente esse mesmo amor de Deus, ofertado a nós pelo
Espírito Santo por graça e fé, que nos motiva a vivermos uma
vida de amor e serviço uns pelos outros. Livres pela fé, mas
servos pelo amor.

O cuidar compassivo dos outros, porém, não invalida uma


outra verdade, de que é preciso cuidar de si próprio. Isso é dito
explicitamente pelo apóstolo Paulo, de maneira especial aos
cuidadores pastorais, em dois textos. No primeiro, ele se diri-
ge aos presbíteros da igreja de Éfeso e os admoesta dizendo:
“Cuidem de vocês mesmos e de todo o rebanho que o Espí-

12 WALDOW. p. 149.
Capítulo 3    A Pessoa do Conselheiro: Cuidando do Cuidador    51

rito Santo entregou aos cuidados de vocês” (Atos 20.28). No


segundo texto, Paulo se dirige a Timóteo, afirmando: “Cuide
de você mesmo e também de seu ensino. Continue fazendo
isso, pois assim você salvará tanto você mesmo como os que
o ouvem” (1 Tm 4.16).

É interessante observar que o cuidado de si mesmo está


colocado no início dos versículos, indicando um grau de im-
portância desse ato. O princípio subjacente é que o cuidador
precisa estar bem para poder cuidar bem. Só podemos doar
ao outro aquilo que possuímos em nós mesmos, seja no plano
do conhecimento bíblico, da maturidade espiritual, da sereni-
dade emocional, da confiança nas promessas divinas etc.

Como vai dizer Michel Foucault, entre o ocupar-se consigo


mesmo e o ocupar-se com os outros, há um vínculo de finali-
dade, ou seja, cuidar de si mesmo não é um ato narcísico ou
egoístico, mas é um ato de cidadania, pois o aperfeiçoamento
de si traz benefícios diretos à sociedade/comunidade em que
se está inserido e na qual se realiza algum trabalho.13 A teólo-
ga e psicóloga Roseli Oliveira, ao tratar desse assunto, afirma:

Foucault salienta que, para os gregos da Antiguidade, o


preceito epimeleisthaí autou, que significa tomar conta
de si mesmo ou cuidado consigo ou preocupar-se, cui-
dar-se, era uma das regras de conduta da vida social e
pessoal, um dos fundamentos da arte de viver. Entende
com isso que o conselho técnico conhece-te a ti mes-

13 FOUCAULT. A Ética do Cuidado de Si Como Prática da Liberdade. In: FOU-


CAULT, Michel. Ética, sexualidade, política. Col. Ditos e Escritos V. Rio de Janeiro:
Forense Universitária, 2004.
52    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

mo (princípio délfico que significa: não imagines que és


um deus) tão valorizado na atualidade, só tem sentido se
esta injunção estiver associada ao princípio moral cuide
de si mesmo, [...]. Para Sócrates, o cuidado de si rever-
teria em bem para a cidade, pois os cidadãos estariam
ocupados em se aperfeiçoarem, com a sabedoria e a
verdade.14

Oliveira, analisando o que o cristianismo atual tem feito


com esse preceito, diz que ele foi transformado para conhece-
te a ti mesmo e cuide do outro. Isso trouxe uma implicação
direta para a atividade pastoral, qual seja, da falta de cuidado
dos pastores e sacerdotes para consigo mesmos, somada à
“exigência” do cuidado incansável aos outros. Essa nova forma
de atuação, com a prevalência do altruísmo e do princípio de
alteridade, passando o outro indivíduo a ter maior importância
do que o próprio “eu”, se tornou o paradigma da maioria das
profissões de ajuda, não só dos cuidadores religiosos. Esse
movimento traz o perigo de privar os cuidadores de seus pró-
prios potenciais de autoajuda, levando-os a crescentes “crises
de assistência”,15 que irão desembocar em estresses, fadigas,
burnout, depressões etc.

Nesse sentido, cabe o alerta de Carraro, quando afirma


que os cuidadores “só podem atender às necessidades dos

14 OLIVEIRA, Roseli K. de. Cuidando de quem cuida: um olhar de cuidados


aos que ministram a palavra de Deus. 4. Ed. Revista. Joinville: Editora Grafar,
2012. p.19-20.
15 OLIVEIRA, p.21.
Capítulo 3    A Pessoa do Conselheiro: Cuidando do Cuidador    53

outros se suas próprias estão sendo atendidas e supridas”,16


isto é, para que os cuidadores consigam cuidar de outros se-
res humanos, precisam estar supridos de cuidado, tornando-se
fundamental que se voltem para o cuidar de si.

Dentro dessa mesma perspectiva, as pesquisadoras Fish e


Shelly afirmam:

o uso terapêutico de si mesmo indica que nos relacio-


namos com os pacientes como indivíduos, pessoas para
pessoas, sem uso de amparos. É questão de ser em vez
de fazer. Envolve o dar apoio a outro ser humano. Para
que o uso de nós mesmos seja eficaz terapeuticamente, é
necessário que tenhamos vontade de nos tornar vulnerá-
veis e nos entreguemos a outra pessoa.17

Em outras palavras, para ser e não apenas fazer enquanto


cuidador, é necessário uma capacidade de entrega pessoal,
que é favorecida quando a própria dimensão humana do cui-
dador está sendo bem tratada, permitindo que as suas vulne-
rabilidades, dores e fraquezas sejam expostas e tratadas por
outras pessoas.

O conselheiro pastoral Paul Sporken, mesmo a partir


de um contexto de cuidado a moribundos, afirma que todo
aquele que se dispõe a ser um ajudador ou cuidador deveria
perguntar-se, com frequência, a respeito da natureza de sua
ajuda e de sua identidade enquanto tal. Na busca de um idea-

16 CARRARO, Telma Elisa. O papel do assistente espiritual no ambiente hospitalar


– uma visão da enfermagem. p. 27.
17 FISH & SHELLY. p. 107.
54    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

lismo profissional defende que todos aqueles que se dispõem


a ajudar pessoas em enfermidades, crises e problemas se dis-
pusessem a também deixar-se ajudar por outros. Sporken faz
questão de alertar que um cuidador que rejeite ajuda para o
seu trabalho como cuidador começa a colocar em risco a sua
própria condição de autêntico cuidador.18

Já o renomado psicólogo Rollo May, diz que a equação


pessoal é importantíssima no aconselhamento, no sentido que
um conselheiro só pode trabalhar servindo-se de si próprio, o
que torna essencial que esse si-mesmo seja um instrumento
eficiente. Ao falar de assistentes religiosos, afirma que entre
suas características está a de trabalhar com diligência, sem
grandes descansos, suportando pressões, lutando para não
demonstrar falhas e fraquezas.19 Esses aspectos, no seu con-
junto, acabam se tornando obstáculos para uma autorreflexão
sobre um possível sofrer como cuidador, bem como para a
busca do auxílio de si mesmo.

Isso nos leva ao próximo aspecto a ser desenvolvido: a ne-


cessidade do cuidador admitir a sua plena condição humana.

18 SPORKEN, Paul. p. 58 ss.


19 MAY, Rollo. A arte do aconselhamento psicológico. p. 139, 143.
Capítulo 3    A Pessoa do Conselheiro: Cuidando do Cuidador    55

3O
 cuidador como pessoa: a dimensão
da fragilidade

Uma das primeiras condições para um exercício digno de


nossa função como teólogos, conselheiros, diáconos, missio-
nários ou líderes religiosos é termos clareza de nossa plena
condição humana. Somos pessoas tão pecadoras e carentes
de cuidado quanto quaisquer aconselhandos que possamos
atender. O reformador Martinho Lutero coloca como base de
sua antropologia bíblico-teológica a expressão simul iustus et
pecattor, que indica a simultaneidade de nossa condição cris-
tã: somos ao mesmo tempo justos (justificados pela obra de
Cristo em nosso favor) sem deixar de ser também pecadores
(continuamos diariamente transgredindo os mandamentos e a
reta e pura vontade de Deus).

Quando o apóstolo Paulo fala acerca do conhecimento de


si mesmo, ele afirma: “Pois o que é bom não vive em mim, isto
é, na minha natureza humana. Porque, ainda que a vontade
de fazer o bem esteja em mim, eu não consigo fazê-lo. Pois
não faço o bem que quero, mas o mal que não quero, esse
faço” (Romanos 7.18-19). Já dentre os teólogos da Reforma,
Martinho Lutero, em um exercício de autorreflexão, também
reconhece a sua dimensão falível e pecadora quando se auto-
denomina “um miserável e fedorento saco de vermes”.20 Mas
esse reconhecimento é apenas uma das etapas do cuidado

20 LUTERO, Martinho. Exortação aos cristãos para se precaverem de convulsão e


rebeldia. In: ____, Obras Selecionadas de Martinho Lutero. Vol. 6. São Leopoldo:
Sinodal; Porto Alegre: Concórdia. 1996. p. 472-483. p. 481.
56    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

de si. A autoanálise é necessária, mas precisa ser seguida de


ações práticas e concretas de cuidado.

Lothar Hoch, em artigo que trata do pastor/obreiro como


pessoa, afirma apropriadamente a respeito desse tema:

assumir a nossa condição de pessoa humana, como


obreiros/as, não significa, porém que nos conformemos
com nossas limitações, fraquezas, dúvidas e neuroses.
Assumimo-las para poder trabalhá-las, poder nos aper-
feiçoar, visando um crescimento autêntico da fé, no amor
e no serviço, visando o que a tradição da Igreja chama
de santificação. Podemos também negar nossa condição
de pessoa imperfeita e tentar viver uma imagem que con-
sideramos ser um cristão e um pastor ideal, quase perfei-
to. Há pessoas que, por algum tempo, às vezes também
por bastante tempo, conseguem evitar de se confrontar
com os lados escuros do seu ser e passar a imagem de
um “pastor modelo”. A minha experiência [...] é que tais
“ícones da fé” um dia acabam tropeçando e caindo. Tro-
peçando no rigor e no legalismo que se autoimpuseram
e que impõem aos outros; tropeçando sobre problemas
pessoais que jamais foram capazes de assumir perante si
mesmos e perante os outros, de modo que pudessem ser
trabalhados psicologicamente e espiritualmente.21

Concordando com Hoch, o que se percebe hoje é que


muitos cuidadores, conselheiros, ministros e líderes religiosos,
mesmo que reconheçam a sua dimensão pecadora e de fra-

21 HOCH, Lothar Carlos. O/a obreiro como Pessoa. Texto avulso apresentado a
obreiros e obreiras da ICLB em Joinville. 20 set. 2001.
Capítulo 3    A Pessoa do Conselheiro: Cuidando do Cuidador    57

gilidade, não se sentem muito à vontade para compartilhá-la


com alguém, nem mesmo com colegas ou irmãos na fé, ou
quem sabe principalmente com esses.

Estudos têm demonstrado que há uma crise de confiança,


inclusive no contexto eclesiástico, no sentido de que “tudo o que
você disser poderá ser usado contra você”. A consequência dessa
repressão das emoções negativas ou dos pecados não confessa-
dos, pode acabar alimentando perigosamente a nossa sombra.
A sombra é um dos arquétipos mais importantes propostos por
Carl G. Jung. Segundo esse autor, a sombra “trata dos traços
obscuros do caráter, das inferioridades do indivíduo, de fundo
eminentemente emocional”.22 Segundo Schultz, os comporta-
mentos que a sociedade considera maldosos e imorais residem
na sombra e esse lado obscuro da natureza humana deve ser
domado se as pessoas quiserem conviver harmoniosamente.23

Nesse contexto, o teólogo e terapeuta Sebastião Junior faz


uma importante afirmação: “Quando não existe um ambiente
saudável para líderes chorarem as suas dores, contarem seus
fracassos e um ambiente seguro de confissão, uma história
cheia de máscaras vem sobre nós, que com o tempo se torna
insuportável”.24

22 JUNG, Carl G. AION. Estudos sobre o simbolismo do si-mesmo. 3. ed. Petrópo-


lis, RJ: Vozes, 1990. p. 6-7.
23 SCHULTZ. p. 98.
24 JUNIOR, Sebastião. Todo jovem líder tem o direito de fracassar. Artigo. 26 jun.
2015. Disponível em: <http://sepal.org.br/blog-sepal/artigos/todo-jovem-lider-
-tem-o-direito-de-fracassar/> Acesso em: 12 dez. 2015.
58    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

Jung chama tais máscaras sociais de personas, outro ar-


quétipo junguiano. A manutenção de uma persona muito idea-
lizada pelos cuidadores serve para evitar uma possível rejeição
por parte dos aconselhandos, bem como também para evitar
críticas por parte de colegas de trabalho. Como os cuidado-
res normalmente são idealizados pela sociedade como pes-
soas mais “saudáveis psiquicamente”, há um temor de que o
compartilhar de suas limitações, fraquezas e problemas sejam
utilizados como forma de destituí-los do poder e autoridade
inerentes à sua função, consideradas como elemento necessá-
rio para o exercício da tarefa do aconselhamento. Entretanto,
viver esse “fingimento” cotidianamente é fonte segura de an-
siedade, tornando-se produtora de sofrimento e neurose.

Hoch vai dizer que quando deixamos de nos confrontar


com nossas próprias sombras, a tendência é de que também
não saibamos entender e trabalhar as imperfeições e as som-
bras dos outros. Ninguém é capaz de acolher na outra pes-
soa aquilo que não acolheu dentro de si mesmo, assim como
ninguém ouve na outra pessoa aquilo que não aprendeu a
ouvir dentro de si mesmo. Quem não conhece sua própria hu-
manidade não a tolera no outro.25 Nisso reside a importância
da autorreflexão e autocuidado constantes do cuidador que,
como ser humano, também possui a sua sombra, suas imper-
feições e suas feridas emocionais e espirituais.

Henry Nouwen afirma que ninguém escapa de ser ferido.


Nós todos somos pessoas feridas, quer fisicamente, emocional-

25 HOCH, Lothar Carlos. O/a obreiro como Pessoa. Texto avulso apresentado a
obreiros e obreiras da ICLB em Joinville. 20 set. 2001.
Capítulo 3    A Pessoa do Conselheiro: Cuidando do Cuidador    59

mente, mentalmente ou espiritualmente. A questão principal não


é “Como podemos esconder nossas feridas?”, assim não temos
de nos sentir envergonhados, mas “Como podemos colocar
nossas feridas a serviço dos outros?”. Quando nossas feridas
deixam de ser uma fonte de vergonha e passam a ser uma fonte
de cura, nós nos tornamos pessoas feridas que curam. Nesse
sentido, nenhum cuidador pode oferecer serviço sem um cons-
tante e vital reconhecimento de suas próprias experiências.26

4P
 ossíveis caminhos para o cuidado de si
mesmo

Como último aspecto a ser destacado neste capítulo, vamos


sugerir alguns possíveis caminhos para o cuidador e conselhei-
ro cuidar de si mesmo.

O primeiro caminho é ter a coragem de olhar para dentro


de si próprio, fazendo uma autoanálise cotidiana de seu sen-
tir, pensar e agir. Nesse olhar honesto e profundo, é preciso
aprender a reconhecer as suas próprias fraquezas, limitações,
dores e sofrimentos. Nesse sentido, podemos sugerir a cuida-
dores em sofrimento que se veem diante de conflitos em sua
vida e ministério o conselho do reformador Martinho Lutero:
“Entra em teu quartinho ou recolhe-te a um canto e ali abre
teu coração e derrama-o perante Deus, com lamentos e sus-
piros e uma consoladora confiança, pedindo que teu fiel Pai
Celeste te ajude nessas dificuldades e te aconselhe”. O resgate

26 NOUWEN, Henri. O sofrimento que cura: ... p. 126-7.


60    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

da espiritualidade, de uma relação mais íntima com Deus, en-


tregando-se de corpo e alma ao Deus Cuidador, é o primeiro
passo para o autocuidado, sendo o principal passo para um
cuidador cristão.

Porém, é preciso lembrar que o cuidado humano não se faz


sozinho. Apesar de sempre estar conosco, Deus não quer que
estejamos sós. Uma das primeiras afirmações de Deus com
relação ao ser humano foi de que “não é bom que o homem
esteja só”. Deus logo percebeu que todos necessitamos de um
“outro” como companheiro de viagem, como ponto de apoio
para vivermos e superarmos as adversidades da vida. Como
diz John Bowlby “O apoio, a confiança e o amor são indis-
pensáveis ao longo da vida. Esse entorno afetivo é um aspecto
determinante na superação de adversidades”.

Precisamos, portanto, abandonar qualquer forma de pos-


tura arrogante e onipotente e nos permitir a encontrar uma
escuta que seja continente das nossas angústias, das nossas
dores e sofrimentos. É preciso que nós mesmos, os cuidadores,
sejamos humildes e reconheçamos nossas limitações, nossa
finitude, nossas necessidades e busquemos a ajuda que temos
tanta facilidade de indicar aos outros. No relato bíblico que
conta o episódio de Moisés e a batalha contra os amalequitas,
descrito em Êxodo 17.11-13, vemos que mesmo grandes líde-
res cansam e se afadigam. Foi necessário que Arão e Hur, um
de cada lado, segurassem para o alto os braços cansados de
Moisés, sendo que só assim a batalha foi vencida, conforme a
ordenança de Deus.
Capítulo 3    A Pessoa do Conselheiro: Cuidando do Cuidador    61

Destacamos que, nas obras de Oliveira, o leitor, especial-


mente os cuidadores pastorais, poderão buscar maiores orien-
tações para o seu próprio cuidado.27 Descreveremos de forma
sintética algumas das propostas da autora, que leva em seu
programa de cuidado o ser humano integral, considerando as
suas múltiplas dimensões, algumas já sinalizadas por nós.

A primeira dimensão passa pelo cuidado do próprio cor-


po. Isso envolve uma boa e saudável alimentação, um sono
reparador e a prática de atividades físicas regulares. Todos
esses aspectos são fontes cientificamente reconhecidas como
importantes para a prevenção de inúmeras doenças e para a
promoção de uma melhor qualidade de vida. Além disso, é
preciso criar espaços para o lazer, tanto pessoal quanto fami-
liar. Importante ainda é o respeito ao shabat, o descanso visto
como algo sagrado, sendo uma orientação do próprio Deus.

A segunda dimensão passa pelo cuidado emocional, já


enunciado há pouco, que diz respeito a ter com quem contar
nas horas difíceis. É ter alguém para desabafar e chorar nos
momentos de aflição, assim como para rir e se alegrar nos
bons momentos da vida. Boas amizades são fundamentais,
uma bênção de Deus, mas a busca de autoanálise e super-
visão também poderão ser necessárias nos momentos de cri-
se do conselheiro e do cuidador. Associada a essa dimensão
também podemos acrescentar uma terceira, que é a dimensão

27 Referimo-nos às obras de Oliveira já citadas no presente capítulo. OLIVEIRA,


Roseli K. de. Cuidando de quem cuida: um olhar de cuidados aos que minis-
tram a palavra de Deus. 4. ed. Revista. Joinville: Editora Grafar, 2012; OLIVEIRA,
Roseli M. Kühnrich de. Prá não perder a alma: o cuidado aos cuidadores. São
Leopoldo: Sinodal, 2012.
62    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

do cuidado social, formada pelas redes de apoio social. Essas


são supridas não só pelo cultivo de boas relações com ami-
gos, vizinhos, familiares e parentes, mas pela comunhão com
a própria comunidade de fé.

Outras duas dimensões propostas pela autora são a di-


mensão ecológica, que envolve o cuidado com tudo o que
nos envolve na dimensão planetária, abrangendo desde os
pequenos gestos de proteção ambiental até uma educação
para a responsabilidade de cada um de nós na preservação
da criação de Deus. A outra dimensão trazida por Oliveira é
a dimensão espiritual, já desenvolvida anteriormente por nós.
Uma última orientação do autocuidado diz respeito à promo-
ção do perdão nas nossas relações cotidianas, que envolve o
cuidado espiritual, emocional, relacional, afetivo e inclusive
corporal, visto que já está provado que perdão faz bem à saú-
de.28

Outros caminhos podem ser encontrados por qualquer cui-


dador e conselheiro, mas todos eles passam, necessariamente,
pela aceitação de que “somos todos frágeis vasos de barro”.
Sem essa consciência de nossa fragilidade e dependência, de
que precisamos ser bem cuidados para bem cuidar, abrem-
-se os caminhos para um maior sofrimento e até esgotamento
profissional. Portanto, não esqueçamos da orientação bíblica:
“Cuidem de vocês mesmos e de todo o rebanho que o Espíri-
to Santo entregou aos cuidados de vocês” (Atos 20.28).

28 OLIVEIRA, Roseli M. Kühnrich de. Pra não perder a alma:... p. 79-92.


Capítulo 3    A Pessoa do Conselheiro: Cuidando do Cuidador    63

Recapitulando

Vimos neste capítulo que teólogos, conselheiros e cuidadores


pastorais estão enfrentando, na atualidade, diversos processos
de estresse e esgotamento profissional. Esse fenômeno cres-
cente está ligado à condição de doarem a si mesmos como
instrumentos terapêuticos em prol daqueles que sofrem, es-
quecendo de cuidarem de si mesmos nesse processo, como
bem alerta Boff ao falar das patologias do cuidado. Os cuida-
dores precisam, portanto, admitir as suas próprias fraquezas,
limitações e fragilidades, conscientizando-se de que precisam
também cuidar de si próprios. O cuidado de si mesmo, além
de ser uma orientação bíblica, é uma atitude altruísta e cida-
dã, no sentido de que só pode cuidar bem do outro aquele
que também está bem. O cuidado, portanto, é uma condição
ontológica, necessária para a sobrevivência humana e uma
melhor qualidade de vida. O cuidado deve ser providenciado
em todas as dimensões humanas: físicas, emocionais, relacio-
nais, espirituais, sociais etc. Assim como Deus cuida do ser
humano na integralidade de seu ser, assim também devemos
nós cuidar integralmente de nós mesmos e uns dos outros.

Referências

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xão pela terra. Petrópolis, RJ: Vozes, 1999.

CARRARO, Telma Elisa. O papel do assistente espiritual no


ambiente hospitalar – uma visão da enfermagem. Pales-
64    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

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1986.

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nossas próprias feridas, podemos nos tornar fonte de vida
para o outro. São Paulo: Paulinas, 2001.

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SPORKEN, Paul. Ayudando a morir: aspectos médicos, asis-


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WALDOW, Vera Regina. Cuidado humano: o resgate neces-


sário. 2. ed. Porto Alegre: Editora Sagra Luzzatto, 1999.
66    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

Atividades

1) O pressuposto ontológico do conceito cuidar/cuidado im-


plica que:________________________________________
________________________________.

2) Leonardo Boff descreve três tipos de patologia do cuidado que


estão presentes na atualidade. Elas são conhecidas como:
____________________, _______________________ e
_____________________________.

3) A Bíblia Sagrada fala muito do conceito de cuidado, co-


locando-o em duas grandes dimensões ou perspectivas.
Essas duas perspectivas são, a saber: _______________
_______________________________________________ e
________________________________________________
_______________.

4) Reflita e descreva sobre um dos principais fatores que de-


veriam levar um conselheiro ou cuidador a cuidar de si
mesmo.

5) Relembre e descreva algumas formas pelas quais o conse-


lheiro ou cuidador pode ou deve cuidar de si mesmo.
Thomas Heimann1

Capítulo 4

Relacionamentos
Interpessoais e
Teoria dos Vínculos:
uma Perspectiva
Psicoteológica 1

Relacionamentos Interpessoais e Teoria dos Vínculos...

1 Doutor em Teologia. Coordenador do Curso de Teologia da ULBRA. Professor de


Teologia na área da Psicologia e Aconselhamento Pastoral. Professor do Curso de
Pós-Graduação em Gestão de Pessoas. Membro do Grupo de Pesquisa em Acon-
selhamento e Psicologia Pastoral da Faculdades EST. Pastor da Igreja Evangélica
Luterana do Brasil – IELB. Psicólogo clínico.
68    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

Introdução

Um dos princípios básicos da sociologia é o de que “O ser


humano é um ser social”. Como um ser social, ele é um ser
de relações, ou seja, formado a partir das interações sociais e
afetivas com outras pessoas. Esse simples fato já fundamenta-
ria a inserção de um capítulo que trate do impacto dos relacio-
namentos humanos na construção dos sujeitos, assim como de
uma análise compreensiva dos diferentes tipos de vínculos re-
lacionais que se estabelecem entre os indivíduos e seus pares,
afinal tais vínculos serão (re)trabalhados também na relação
terapêutica entre conselheiro e aconselhando.

Olhando para a Bíblia, veremos que relacionamentos foi


um assunto que desde cedo preocupou a Deus. Após a cria-
ção, ao olhar para Adão no jardim do Éden, Deus disse: “Não
é bom que o homem esteja sozinho. Vou fazer para ele al-
guém que o ajude como se fosse a sua outra metade” (Gêne-
sis 2.18). Deus estava aqui providenciando a Adão a possibi-
lidade de uma comunhão física, emocional e espiritual com
outra pessoa, que lhe serviria como parceira, companheira,
alguém para caminhar ao seu lado e ajudá-lo a cuidar não só
do jardim, mas a cuidar um do outro.

Porém, olhando para esse texto de forma mais ampla, ve-


remos que, mesmo antes de Adão ter uma companheira, ele
já era um ser relacional. Deus já falava e se relacionava com
a sua criatura desde o início da criação. (Gênesis 2.15-17).
Portanto, nos arriscamos em dizer que parece estar na essên-
cia, tanto divina quanto humana, a necessidade da relação,
Capítulo 4    Relacionamentos Interpessoais e Teoria dos Vínculos...    69

do contato, do relacionamento.2 Em um primeiro momento,


essa relação ocorreu em uma direção vertical, entre Deus e o
ser humano e o ser humano com Deus. Neste capítulo, porém,
vamos enfocar principalmente os relacionamentos horizontais,
que ocorrem entre dois ou mais indivíduos, buscando com-
preender como eles são fundamentais para a compreensão
das pessoas e grupos. Queremos, também, demonstrar a re-
lação que existe entre os relacionamentos humanos primários
e a forma como nos relacionamos com o próprio Deus, assim
como apontar para as novas formas virtuais de relacionamen-
to, tão significativas nos dias atuais.

1A
 importância dos relacionamentos
humanos

Segundo nos diz Gary Collins, a partir de estudos do famoso


psiquiatra Harry Sullivan, há bons indicativos de que grande
parte dos problemas psíquicos são consequência de relacio-
namentos conturbados com outras pessoas, assim como boa
parte do crescimento pessoal e das curas para tais danos tam-
bém passariam por novos relacionamentos, porém agora po-
sitivos, com pessoas significativas.3

2 Alguns teólogos afirmam que a própria concepção da Trindade já é um indicativo


de um Deus de relacionamentos, visto haver uma relação íntima, essencial e contí-
nua entre as pessoas do Pai, do Filho e do Espírito Santo. É um Deus relacional na
sua própria natureza.
3 COLLINS, Gary. Aconselhamento Cristão. Edição Século XXI. p. 270.
70    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

Essa afirmativa demonstra a importância de nos debruçar-


mos sobre os modos como são estabelecidos e vivenciados
os relacionamentos humanos. Grande parte, senão todos os
processos de aconselhamento vão ser transversalizados, dire-
ta ou indiretamente, pelas relações interpessoais, seja no seu
motivo de origem, que conduziu o aconselhando ao gabinete
do conselheiro, seja na própria terminalidade do aconselha-
mento, cuja meta é buscar uma melhor relação do indivíduo
com Deus, consigo mesmo e com o seu próximo. Além disso,
todo o processo de aconselhamento é eminentemente relacio-
nal, pautado em uma relação de confiança do aconselhando
para com o conselheiro e de empatia relacional do conselhei-
ro para com o aconselhando.

O ser humano, de modo geral, se relaciona com outras


pessoas o dia todo, em toda parte, quase que mecanicamente,
sem se dar conta. As relações humanas podem acontecer pelo
menos em quatro direções: a) Intrapessoais: o ser humano es-
tabelece relações consigo mesmo. O modo como nos relacio-
namos conosco mesmos é mediado pelos vínculos primários,
ou seja, pelas primeiras relações com as figuras parentais: pai,
mãe, cuidadores etc., que passam a ser o alicerce de todas
as outras formas subsequentes de relação.; b) Interpessoais:
capacidade de estabelecer relações com outras pessoas, inde-
pendente da intimidade que se tenha ou não com elas; c) In-
tragrupais: relações que ocorrem dentro de um mesmo grupo,
como família, igreja, turma da escola etc.; d) Intergrupais: re-
lações que ocorrem entre grupos diferentes, que não convivem
cotidianamente entre si.
Capítulo 4    Relacionamentos Interpessoais e Teoria dos Vínculos...    71

Mesmo que possa ser óbvio afirmar isso, precisamos


aprender que para nos relacionarmos adequadamente com as
outras pessoas e grupos, primeiro deveremos aprender a nos
relacionar saudavelmente conosco mesmos. Isso diz respeito
não só ao desenvolvimento de uma boa autoestima, mas à ca-
pacidade de enfrentar e vencer os nossos medos, inseguranças
e traumas, que se não forem “trabalhados” emocionalmente
podem se tornar sérios obstáculos para o exercício da arte das
relações humanas.

Já quanto à forma de relacionamentos humanos, eles po-


dem ser de diversos tipos, como afetivos, formais, informais,
diretos, indiretos, horizontais, verticais, de dominação, de su-
bordinação, de equidade, apenas para elencar alguns. Cada
um deles exige uma determinada postura e repertório com-
portamental dos indivíduos, pois acontecem em situações dis-
tintas, que envolvem o exercício de papéis sociais diferentes,
sendo que os efeitos positivos ou negativos desses diferentes ti-
pos de relacionamentos vão depender da forma como agimos
e reagimos frente a cada uma dessas situações relacionais.
Agimos de modo distinto com os nossos filhos do que com o
nosso chefe, por exemplo. Nesse sentido, desenvolver bons
relacionamentos, nos diferentes contextos da vida, é algo que
pode ser aprendido e sempre aprimorado com o tempo.

Importa afirmar, porém, que o mundo dos relacionamentos


humanos é marcado pela total subjetividade. Cada relaciona-
mento vai envolver indivíduos com personalidade diferentes,
com histórias de vida singulares, com valores e crenças pes-
soais, com papéis sociais distintos etc. Cada relação sempre
será única, mesmo que estabelecida com as mesmas pessoas,
72    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

dia após dia, pois o campo relacional é dinâmico e sempre


está sofrendo alterações pelas interações ocorridas em situa-
ções anteriores.

Finalmente, outro aspecto indissociável dos relacionamen-


tos humanos são os conflitos. Conflitos fazem parte da vida re-
lacional porque são mediados, quase sempre, por um “jogo”
de poder entre as pessoas, por vezes consciente, mas outras
vezes sem que os indivíduos se deem conta disso (inconscien-
te). Há diversos texto bíblicos que retratam os conflitos huma-
nos. Se lermos o texto bíblico da queda de Adão e Eva em
pecado, veremos que já ali Adão procura se eximir da culpa
acusando Eva de ser a responsável pelo pecado: “a mulher
que me deste me deu a fruta” (Gênesis 3.12). Pode-se inferir,
nesse versículo, até uma crítica velada e indireta de Adão ao
próprio Deus como culpado pela queda.

Porém, conflitos não precisam ser, necessariamente, nega-


tivos. Quando eles ficam no campo das ideias, sem ataques
pessoais ao indivíduo, eles podem até ser frutíferos para os re-
lacionamentos, pois a emergência do conflito sinaliza questões
mal resolvidas entre as pessoas. Se essas questões ficarem re-
primidas, podem causar um estrago relacional ainda maior do
que se forem verbalizadas. A questão é como lidaremos com
os conflitos relacionais. Collins cita o pensamento de David
Augsburger acerca desse tema:

pode até ter um resultado ruim ou desastroso, mas não


precisa ser assim. [...] Não é com os conflitos que te-
mos que nos preocupar, mas, sim, com o modo como
os enfrentamos. [...] O modo como vemos, abordamos
Capítulo 4    Relacionamentos Interpessoais e Teoria dos Vínculos...    73

e tratamos as nossas diferenças determina – em grande


parte – todo o nosso modo de viver.4

Passemos agora a conhecer um pouco mais da teoria dos


vínculos e das configurações vinculares, compreendendo a in-
ter-relação desses com a prática do aconselhamento.

2 Vínculos e configurações vinculares

O conceito de vínculo é um pouco mais técnico e específico do


que o de relacionamento, mas o entendimento desse conceito
se faz necessário para a compreensão de muitos fenômenos
que ocorrem nas interações humanas. Os vínculos acabam se
tornando “trilhas”, padrões, estruturas ou configurações que
vão pautar os nossos relacionamentos. Serão um tipo de “pon-
te” relacional com o outro pelas quais sempre iremos passar
através de algum tipo de linguagem, que é a forma pelas quais
os vínculos se manifestam (linguagem verbal e não verbal).

Segundo o terapeuta David Zimerman, os vínculos são de


fundamental importância no desenvolvimento da personali-
dade humana, recebendo profundo impacto nas relações da
primeira infância. Tal afirmativa baseia-se na premissa de que
“o ser humano constitui-se sempre a partir de um outro”.5 Por
isso, dissemos anteriormente que o relacionamento intrapes-
soal é, em grande parte, uma consequência dos primeiros re-

4 AUGSBURGER, David. Apud COLLINS. p. 279.


5 ZIMERMAN, David E. Os quatro vínculos: ... p. 21.
74    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

lacionamentos e vínculos estabelecidos com nosso cuidadores


primários.

Zimerman vai definir vínculo da seguinte forma:

o termo vínculo tem sua origem no étimo latino “vincu-


lum”, o qual significa uma união, com as características
de uma ligadura, uma atadura de características dura-
douras. Da mesma forma, vínculo provém da mesma raiz
que a palavra “vinco” (com o mesmo significado que
aparece, por exemplo, em “vinco” das calças, ou de ru-
gas etc.), ou seja, esse termo alude a alguma forma de
ligação entre as partes que estão unidas e inseparáveis,
embora elas permaneçam claramente delimitadas entre
si.6

Já Bion, afirma que “vínculos são elos de ligação – emo-


cional e relacional – que unem duas ou mais pessoas, ou duas
ou mais partes dentro de uma mesma pessoa”. Isso quer dizer
que os vínculos não são apenas exteriores, em uma relação
recíproca entre as pessoas, mas são também interiores. Os
vínculos interiores são formados a partir da introjeção (incor-
poração) de pessoas importantes na vida da criança. Esses
vínculos, por vezes primitivos, continuam interagindo no tempo
presente, como em uma conversa interior, tendo influência em
todas as relações intrapessoais e interpessoais.7 Isso pode ser
exemplificado por um pai que sempre se relacionou com seu
filho de forma rígida, controladora e autoritária. Mesmo que

6 ZIMERMAN. p. 21.
7 BION, apud ZIMERMAN. p. 23-4.
Capítulo 4    Relacionamentos Interpessoais e Teoria dos Vínculos...    75

esse pai venha a falecer quando o indivíduo ainda for criança,


a internalização do pai rígido poderá ser sentida por toda a
vida, ditando regras internas, controlando e oprimindo esse
indivíduo em tudo o que ele faz, gerando baixa autoestima,
ansiedade, temor de errar, dentre outros possíveis sintomas.

Zimerman concorda com Bion ao afirmar que os vínculos


interiores, de primitiva formação, é que irão determinar a con-
figuração e a conduta que marcarão a qualidade dos vínculos
exteriores ao longo da vida, interferindo e estando presente
na formação dos vínculos de casais, de famílias e até de insti-
tuições.8 A qualidade dos vínculos nas diferentes situações de
relacionamento é que irão determinar a qualidade de vida de
cada pessoa em particular.

Uma última definição de vínculo vamos encontrar no pró-


prio autor da Teoria do Vínculo, Pichón-Rivière. Taragano pro-
cura sintetizar o pensamento do autor, afirmando:

o vínculo configura uma estrutura dinâmica em contí-


nuo movimento, que funciona acionada por motivações
psicológicas, resultando daí uma determinada conduta,
que tende a se repetir tanto na relação interna como na
relação externa com o objeto. Descreve dois campos psi-
cológicos nos quais o vínculo se expressa: o interno e o
externo. A psicanálise se ocupa mais do vínculo interno,
enquanto que a psicologia social se ocupa mais do ex-
terno. É importante o conceito de que é o vínculo interno
que condiciona muito dos aspectos externos e visíveis da

8 ZIMERMAN. p. 24.
76    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

conduta do sujeito. O caráter do sujeito torna-se mais


compreensível à medida que se descobrem seus vínculos
internos.9

Para Pichón-Rivière, os vínculos internos e externos se inte-


gram em um processo que configura uma permanente espiral
dialética. Isso produz uma passagem constante daquilo que
está dentro, para fora, e do que está fora, para dentro. Tal
visão unifica a visão intrapsíquica com uma abordagem tam-
bém de cunho social. Somos produto da interação de elemen-
tos intrapsíquicos, interpessoais, sociais e transgeracionais.10
Tudo isso faz ser o que nós somos e explica, em grande parte,
por que nos comportamos dessa ou daquela maneira.

A chamada Teoria do Vínculo, portanto, vai auxiliar o con-


selheiro cristão a compreender que muito dos conflitos ou re-
lacionamentos conturbados dos aconselhandos em sua vida
adulta estarão ligados a estruturas vinculares e relacionais
construídas e formadas na sua infância. Para Pichón-Rivière,
nenhum ser humano vai apresentar um tipo único de vínculo,
visto que todas as relações de objeto11 e todas as relações es-
tabelecidas com o mundo são mistas.12 Ele classifica, porém,

9 TARAGANO, Fernando. Introdução. In: PICHÓN-RIVIÈRE, Enrique. Teoria do Vín-


culo. p. XIV.
10 FRUETT, Ana Cassia. O divã dentro de casa: vínculos tóxicos... p. 31.
11 Nota: Em termos psicanalíticos, as relações objetais referem-se às relações emo-
cionais entre sujeito e objeto amado que, através de um processo de identificação
comum, contribuem para o desenvolvimento do ego. Entende-se por “objeto” uma
pessoa, ou a sua representação, com a qual o sujeito forma uma relação emocio-
nal intensa, que lhe possibilita a tal identificação com o outro.
12 PICHÓN-RIVIÈRE, Enrique. Teoria do Vínculo. p. 5.
Capítulo 4    Relacionamentos Interpessoais e Teoria dos Vínculos...    77

dois tipos básicos de vínculos: os vínculos normais ou saudá-


veis e os vínculos patológicos ou não saudáveis. Exemplifican-
do, o vínculo de determinada criança com a figura materna
poderá ser do tipo normal, ao passo que o vínculo com a fi-
gura paterna poderá ser um vínculo patológico, ou vice-versa.
Em outra configuração vincular possível, ambos os vínculos
poderiam ser normais/saudáveis, ou ambos serem patológi-
cos/não saudáveis. Vale lembrar que os vínculos sempre serão
uma via de mão dupla, sendo que a criança também é ativa
nesse processo de interagir com seus pais, não sendo mera-
mente passiva nisso. Há ação e reação em ambos os lados.
Exemplo: um bebê que sorri para o adulto gera nele uma rea-
ção normalmente positiva, de sorrir de volta.

Passamos a acrescentar aqui a definição da expressão con-


figuração vincular. Ela designa uma configuração típica de in-
ter-relacionamentos que cada pessoa contrai com uma outra
pessoa ou com várias outras. Nessas configurações, podem se
entrecruzar e se complementar vínculos de amor, de ódio, de
inveja, de poder, de reconhecimento, de ressentimento, de pai-
xão etc. Por vezes, dependendo da força do vínculo estabele-
cido com determinadas pessoas, o indivíduo, mesmo variando
de parceiros, mantém inalterada a natureza da configuração
vincular.13 Traduzindo para uma situação de aconselhamen-
to concreta, um rapaz pode repetir nos seus relacionamentos
amorosos uma mesma relação de opressão ou subjugação
vivenciada por ele através das relações vinculares de seus pais,
repetindo indefinidamente a configuração vincular aprendida

13 ZIMERMAN. p. 31.
78    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

na família, que por vezes o levará para sucessivos insucessos


nos seus atuais relacionamentos. A configuração vincular de
opressão ao sexo oposto poderá ser uma marca, um padrão
relacional que precisará ser desconstruído e reconstruído se
esse indivíduo quiser ter sucesso em uma relação conjugal.

Já em uma definição de vínculo normal, a perspectiva psi-


canalítica do autor é assim compreendida:

para que possamos compreendê-lo devemos partir da


análise de uma das principais características das relações
de objeto: o objeto diferenciado e o objeto não diferen-
ciado. Isto é, das relações de independência e de depen-
dência. Considera-se que um objeto, em uma relação
adulta normal, é um objeto diferenciado, ou seja, que
tanto o objeto quanto o sujeito têm uma livre eleição do
objeto.14

Para melhor explicar isso, Pichón-Rivière dá um exemplo


do extremo oposto, do patológico, ou seja, da máxima não
diferenciação, que cria um vínculo parasitário ou simbiótico.
Quando uma criança depende totalmente da sua mãe, de-
positando partes de si inteiramente nela, ou quando a mãe
faz isso, depositando na criança partes internas suas, pode
ocorrer entre ambas um entrecruzamento de depósitos, crian-
do para cada uma delas dificuldades para reconhecer o que é
propriamente seu. Nesse caso, o vínculo deixa de ser normal
ou saudável e se transforma em um vínculo patológico.15 Tra-

14 PICHÓN-RIVIÈRE. p. 14.
15 PICHÓN-RIVIÈRE. p. 14.
Capítulo 4    Relacionamentos Interpessoais e Teoria dos Vínculos...    79

duzindo para o campo do aconselhamento, para evitar que


um vínculo se torne doentio ou patológico, os filhos precisam
sempre ser vistos como seres únicos, individuais e independen-
tes, não podendo ser uma projeção ou continuidade do que
os pais gostariam de ter sido. Isso faz parte de uma educação/
orientação a pais, papel que a igreja também pode exercer.

Entre outras características, de modo mais simples e claro,


o vínculo normal/sadio é caracterizado por uma predominân-
cia da harmonia, de uma atmosfera sadia entre as pessoas,
que possibilita um crescimento de cada um e de todos. Os
pais servem como modelo de identificação para os filhos. Há
coerência entre o que dizem, fazem e o que realmente são,
deixando clara a delimitação de papéis e funções de cada
membro familiar, bem como o reconhecimento das diferenças
existentes entre as pessoas. A comunicação entre as pessoas
é fluente e as relações bem definidas, em um modelo semia-
berto e permeável às singularidades de cada sujeito. Os limi-
tes emocionais e relacionais são claros, permitindo que todos
cresçam de forma equilibrada, sem o uso de manipulações ou
chantagens.16

Os vínculos positivos primários por parte da mãe ou cui-


dador(a) promovem não só a satisfação das necessidades or-
gânicas vitais como também afetivas da criança. Isso implica
a doação de um autêntico e espontâneo amor, carinho, pro-
teção e compreensão da linguagem corporal do bebê, apren-
dendo a reconhecer o tipo de choro, olhar, dor, inquietação,
desconforto etc. Isso é chamado de continência afetiva, fenô-

16 ZIMERMAN, Guite L. Velhice: aspectos biopsicossociais. Porto Alegre: Artmed; 2000.


80    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

meno psicológico em que os cuidadores primários possuem


a capacidade de conter as eventuais angústias do bebê que
são projetadas no cuidador, assim como envolve a capaci-
dade empática, de tentar se colocar no lugar do sofrimento
dos filhos menores.17 Uma mãe (ou qualquer outro cuidador)
nervosa, angustiada, tensa ou aflita terá grandes dificuldades
de acalmar uma criança que também está aflita e chorosa,
pois não conseguirá ser continente dessa angústia, pois já está
cheia de sua própria.

Passando agora para a definição de vínculo patológico,


ele é o contrário do que descrevemos anteriormente. Pode ser
marcado por uma completa indiferenciação entre os sujeitos,
uma falta de continência afetiva, uso de manipulações nas re-
lações, cobranças exageradas, controle exacerbado do outro,
apatia relacional, agressões etc. Esses tipos de relacionamen-
tos vão criar padrões relacionais que terão impacto no próprio
perfil de personalidade do indivíduo, que se repetem nos re-
lacionamentos cotidianos do presente. Vejamos alguns desses
vínculos bem como algumas de suas características comporta-
mentais, que podem ser observadas por um conselheiro atento
também em sessões de aconselhamento.

Vínculos Paranoicos/paranoides: caracterizado pela des-


confiança sem razões objetivas; exigência em relação aos ou-
tros; pessoas provocadoras e sensíveis ao extremo; para se
proteger, podem desenvolver condutas ritualistas ou compulsi-
vas, agindo sempre de um mesmo jeito (ex.: verificar três vezes

17 ZIMERMAN, David. p. 22.


Capítulo 4    Relacionamentos Interpessoais e Teoria dos Vínculos...    81

se as janelas foram todas trancadas). Pode estar associada ao


TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo).

Vínculos Depressivos: carregados de culpa e expiação; há


uma submissão ao sofrimento, além de muito pessimismo,
apatia e passividade diante da vida; o indivíduo tem uma vi-
são negativa de si mesmo e baixa autoestima, além de baixa
tolerância à frustração.

Vínculos Obsessivos: há uma autoexigência consigo mes-


mo e com os outros; cobrança excessiva dos membros do gru-
po de convivência, buscando a perfeição através do controle
exagerado; pessoas perfeccionistas e que se protegem pela
capacidade intelectual, protegendo-se de suas próprias emo-
ções a partir do mecanismo de racionalização.

Vínculos Hipocondríacos: há uma simulação de enfermida-


des como meio de receber atenção e suscitar a autopiedade;
o indivíduo estabelece a relação com os outros através do seu
corpo, da sua saúde e da queixa constante. Sempre irá dizer
que o seu estado de saúde é pior do que o do outro; tem difi-
culdade de ter empatia.

Vínculos Histéricos: uso da dramatização e teatralidade


para chantagear e manipular os outros; o sujeito está sempre
representando, na busca de satisfazer determinadas fantasias
reprimidas; podem ser pessoas exibicionistas, sedutoras, ego-
cêntricas e infantis; pode fazer uso recorrente do choro como
forma de lidar (ou melhor, de não lidar) com aquilo que a
angustia.
82    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

Vínculos Psicossomáticos: um indivíduo adoece para man-


ter o “equilíbrio” da família em crise; enquanto a doença es-
tiver se manifestando, as forças psíquicas e emocionais da fa-
mília recaem sobre a doença, sendo que os conflitos familiares
subjacentes ficam mascarados e “sob controle”. Essa doença
pode ser física ou mesmo afetiva/social (drogadição de um
adolescente, por exemplo).

Vínculos Ansiosos/Fóbicos: prevalece a evitação diante


de situações novas que exigem maiores iniciativas; o medo é
a tônica da relação (medo de fracassar, de decepcionar, de
não ser aceito etc.); caracterizado por pessoas apreensivas,
tímidas, inibidas, tensas e que se sentem desconfortáveis em
ambientes sociais; normalmente são pessoas com baixa au-
toestima e muito sensíveis a críticas e rejeições.

Vínculos Simbióticos/Dependentes: aparentemente, as pes-


soas estão ligadas unicamente pelo sentimento de um grande
amor, mas na verdade nenhuma delas consegue uma autên-
tica emancipação e a sadia conquista de um espaço próprio;
pessoas que têm dificuldade na autonomia e tomada de de-
cisões; sentem necessidade constante de serem cuidadas e
protegidas, resignando-se até a maus tratos para não ficarem
sozinhas; pessoas muito inseguras e passivas;

Vínculos Narcisistas: pessoas que acreditam serem donas


da verdade, possuidores das melhores qualidades e, por isso,
assumem uma onipotência em relação às outras pessoas; ge-
ralmente toleram mal qualquer tipo de frustração, necessitan-
do ser sempre admiradas e elogiadas. Podem ser arrogantes,
Capítulo 4    Relacionamentos Interpessoais e Teoria dos Vínculos...    83

invejosas, interesseiras e frias emocionalmente, preocupadas


apenas consigo mesmas.

Ainda seria possível elencarmos outros tipos de vínculos e


aprofundar a relação deles com os traços de personalidade de
cada indivíduo. Importante, porém, é que o conselheiro tenha
conhecimento dessa relação íntima do comportamento huma-
no com as estruturas vinculares formadas desde os primeiros
relacionamentos humanos, sabendo que isso deve ser levado
em consideração nas práticas interventivas do aconselhamento.

Reforçamos o fato de que os vínculos negativos, não sau-


dáveis serão fonte geradora certa de diversas formas de neuro-
ses e até desordens de caráter. Porém, uma profunda privação
afetiva ou de cuidado, onde os cuidadores ignoram ou não
reconhecem a existência da criança, normalmente estará liga-
da a instauração de quadros ainda piores, conhecidos como
psicóticos. Nesses quadros, o sujeito perde a capacidade de
enxergar o outro e de estabelecer vínculos saudáveis com
quem quer que seja. Não se deve esquecer, porém, que para
a instauração de muitas psicoses/psicopatias há um conjunto
mais amplo de elementos que precisam ser levados em consi-
deração, em termos de sua etiologia (causa).

3V
 ínculos e a Teoria do Apego: a
importância da família

Na seção anterior, destacamos a importância dos primeiros


relacionamentos humanos na construção das estruturas vincu-
84    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

lares, responsáveis pela forma como as pessoas vão estabe-


lecer novos relacionamentos com tudo que está ao seu redor.
Esse fato nos leva a aprofundar a relevância da família para o
contexto das relações humanas e para a constituição psíquica
dos sujeitos.

O ser humano nasce completamente desamparado, o que


nos leva a afirmar que nenhum de nós sobreviveria sem a pre-
sença de um “objeto” cuidador, lugar ocupado primariamente
pelas figuras materna e paterna, ou pelos que os substituem
funcionalmente. Esse objeto/sujeito cuidador não apenas deve
providenciar o alimento físico, mas também o alimento psí-
quico e afetivo. Em uma linguagem psicanalítica, o cuidador
terá a função primordial de preservar o ego do desamparo
original, que manterá a criança em uma eterna ansiedade por
esse amor que a constitui, que integra as funções nesse estado
de despreparo completo para a manutenção da vida. Freud
irá dizer que a autoestima ou amor próprio estão intimamente
associadas à quantidade e qualidade do amor recebido pelo
indivíduo, ligado à qualidade do investimento corporal e afeti-
vo do cuidador sobre a criança.18

Winnicott, importante psicanalista, vai afirmar que “o pri-


meiro espelho da criatura humana é o olhar de sua mãe, o
sorriso dela, suas expressões faciais”. Mais adiante, afirma que
o próprio bebê, se pudesse verbalizar o que sente, diria: “eu
olho e sou visto, logo, existo”.19

18 FRUETT, Ana Cassia. O divã dentro de casa: vínculos tóxicos... p. 31.


19 ZIMERMAN, David. p. 25.
Capítulo 4    Relacionamentos Interpessoais e Teoria dos Vínculos...    85

A obra do psiquiatra e psicanalista John Bowlby, autor da


Teoria do Apego, irá demonstrar que essas primeiras relações,
ligadas diretamente ao desenvolvimento satisfatório do com-
portamento de apego, são muito importantes para a saúde
mental da criança, tendo forte impacto sobre o indivíduo ao
longo de toda a sua vida.

Vejamos o que diz a teoria de Bowlby nesse sentido:

J. Bowlby (1989) descreveu o processo de construção


dos modelos internos de funcionamento em termos de
modelo de apego. A criança constrói um modelo repre-
sentacional interno de si mesma, dependendo de como
foi cuidada. Mais tarde, em sua vida, esse modelo inter-
nalizado permite à criança, quando o sentimento é de
segurança em relação aos cuidadores, acreditar em si
própria, tornar-se independente e explorar sua liberdade.
Desse modo, cada indivíduo forma um “projeto” inter-
no a partir das primeiras experiências com as figuras de
apego. Embora essas representações tenham sua origem
cedo no desenvolvimento, elas continuam em uma lenta
evolução, sob o domínio sutil das experiências relaciona-
das ao apego da infância. A imagem interna, instaurada
com os cuidadores primários, é considerada a base para
todos os relacionamentos íntimos futuros. Sua influência
aparece já nas primeiras interações com outras pessoas,
afora as figuras de apego, e expressa-se nos padrões de
apego e de vinculação que o indivíduo apresentará em
86    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

suas interações interpessoais significativas. (BRETHER-


TON & MUNHOLLAND, 1999)20

Ainda com relação à importância dos vínculos familiares,


os modernos estudos e pesquisas têm confirmado que os laços
familiares são importantes para uma série de questões que têm
implicações diretas sobre a saúde integral dos indivíduos. Isso
se inicia com questões muito básicas, como o aprendizado
de hábitos saudáveis: boa alimentação, prática de exercícios
físicos, hábitos de higiene etc. Porém, a educação familiar terá
impacto sobre diversas outras áreas da vida, como diminuição
nos riscos que se correrá no trânsito, na idade em que têm
início as alterações hormonais da puberdade, na tendência à
automedicação, na facilidade para perder ou ganhar peso e
até na vulnerabilidade a algumas doenças psicossomáticas e
autoimunes. Isso funciona para os dois lados, seja para a pro-
teção da saúde ou para o seu agravamento, dependendo dos
modelos familiares e vinculares apresentados à criança.

Parece haver um consenso entre os pesquisadores em afir-


mar que indivíduos que crescem em ambientes relacionais de
proteção, acolhimento e segurança emocional em geral se-
rão providos de maior senso de integração social, tornando-se
também mais aptos a regularem a própria conduta emocio-
nal, cognitiva e comportamental, no sentido de preservarem a
saúde do corpo e da mente, independentemente do apoio de

20 DALBEM, Juliana Xavier; DELL’AGLIO, Débora Dalbosco. Teoria do apego:


bases conceituais e desenvolvimento dos modelos internos de funcionamento In:
Arquivos Brasileiros de Psicologia. v. 67, n. 3 (2015). Disponível em: <http://seer.
psicologia.ufrj.br/index.php/abp/article/view/40/57>. Acesso em: 12 jan. 2016.
Capítulo 4    Relacionamentos Interpessoais e Teoria dos Vínculos...    87

outras pessoas. Ou seja, os vínculos internalizados têm uma


função protetiva ao longo de toda a vida.

Por outro lado, quase como uma conclusão lógica, a vi-


vência em famílias cujo cotidiano é marcado por violências
e agressões, marcada por vínculos de raiva, inveja, ódio ou
indiferença, torna crianças, adolescentes e adultos vulneráveis
a uma ampla gama de males físicos e mentais. Isso vale tanto
para ameaças imediatas – como ficar mais desprotegido dian-
te do risco de tornar-se dependente de álcool, tabagismo e ou-
tras drogas – quanto para firmar as bases de longo prazo para
a expressão de males cardiovasculares e de desordens afeti-
vas, como a depressão e a ansiedade. Os pesquisadores acre-
ditam que a manutenção da tensão doméstica e a sensação
de desamparo constante, por exemplo, levam ao desajuste de
vários sistemas do organismo e podem antecipar enfermidades
para as quais a pessoa tenha alguma predisposição genética,
como o diabetes e o câncer.21

Em um aconselhamento a indivíduos, casais ou famílias, o


conselheiro precisa dar-se conta que os aconselhandos, quan-
do contam a sua história, colocam em cena a história de todos
os seus vínculos, em uma multiplicidade simultânea entre a
percepção que cada um traz dentro de si. Essas percepções
são representadas pela internalização de suas relações obje-
tais (como foi sentida e internalizada a relação com os primei-
ros cuidadores), a percepção externa decorrente da relação
com o outro enquanto presença real (como ainda continua a

21 Família: a grande fonte de saúde. Revista Isto É. Disponível em: <http://www.


terra.com.br/istoe-temp/edicoes/2006/imprime77374.htm>. Acesso em: 12 mar.
2016.
88    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

se relacionar com as pessoas significativas que convivem con-


sigo), assim como a história de suas origens, herança transmi-
tida através das gerações, de mitos, segredos, costumes e das
experiências traumáticas não nomeáveis.22 Exemplo: casos de
suicídio na família que se tornam um segredo. Sabe-se que
houve algo errado, mas isso não é nomeado, tornando-se um
conteúdo proibido, mas profundamente significativo nas rela-
ções familiares.

4O
 s vínculos e a psicoteologia: a face de
Deus no rosto do outro

Assim como afirmou Winnicot de que “o primeiro espelho da


criatura humana é o olhar de sua mãe”, o teólogo e conselhei-
ro cristão James Loder, vai afirmar que o primeiro rosto de Deus
será apresentado à criança por intermédio da face de seus pais
ou cuidadores. Nessa “apresentação” está se falando de algo
que é muito anterior à linguagem racional e objetiva, que im-
plique uma verbalização sobre quem é Deus e sobre o que Ele
realizou e continua realizando em nosso favor. Falamos aqui
de uma linguagem mais primitiva, intuitiva, simbólica, uma lin-
guagem do facear, do reconhecer-se no outro pelo olhar, que
leva ao estabelecimento da confiança básica da criança no seu
cuidador. O facear dos pais, portanto, precisa ser sentido como
uma linguagem que transmita acolhimento, amor e proteção,

22 FRUETT. p. 38.
Capítulo 4    Relacionamentos Interpessoais e Teoria dos Vínculos...    89

pois será um protótipo para o estabelecimento de novas rela-


ções com o outro, inclusive com o sagrado.

Tratando acerca dessa temática no livro As faces do perdão,


Sandage e Shults vão justamente afirmar que as primeiras ex-
periências faciais mostradas pelos cuidadores contribuem para
a formação de representações internas que fazemos da face de
Deus, afetando a nossa atribuição de emoções ao ser divino.23
Nesse sentido, se o facear dos pais foi de reconhecimento, amor
e proteção à criança, inspirando confiança, a chance do rosto
de Deus ser associado ao amor e proteção paternas será uma
decorrência natural, ou pelo menos será muito mais fácil de ser
reconhecido dessa forma. Jesus mesmo pede que chamemos o
nosso Deus de “Pai”, conforme a oração do Pai-Nosso. Não é
por acaso, também, que o primeiro mandamento da segunda
tábua da lei refere-se “ao honrar pai e mãe”, indicando a im-
portância que Deus dá às relações entre pais e filhos.

Sandage e Shults irão propor toda uma teoria sobre a


hermenêutica da face, afirmando que a face representa um
“texto” interpessoal poderoso que evoca a tentativa de inter-
pretar os sentimentos e disposições do outro. O fato é que a
presença amorosa do outro é mediada, em grande medida,
pelo fato de facearmos uns aos outros. O rosto humano é um
mediador simbólico e encarnado da comunicação intersubje-
tiva, que molda episódios relacionais importantes na vida dos

23 SANDAGE, Steven J; SHULTS, F. Leron. Faces do perdão: buscando cura e sal-


vação. p. 18.
90    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

sujeitos, inclusive de questões profundamente teológicas como


segurança e confiança em Deus, perdão e salvação.24

Nesse sentido, não é apenas importante o facear dos pais,


mas também do próprio conselheiro diante daquele que vem
buscar ajuda. A face do conselheiro precisará ser uma face
que reconhece, que acolhe, que inspira confiança e que anun-
cia o amor e o perdão diante da presença do sofrer e do peca-
do humano. Não serão poucas as vezes em que o conselheiro
precisará desconstruir uma imagem distorcida de Deus, ensi-
nada pelos pais desde as primeiras relações vinculares e refor-
çada por frases do tipo: “Cuidado com o que você fizer, pois
Deus está vendo tudo e ele vai te castigar”; ou “Olhe lá, hem,
Jesus sabe tudo o que você está pensando”. Por vezes os nos-
sos aconselhandos virão à consulta tendo conhecido apenas o
Deus de uma só face, uma face pautada na lei condenatória:
a face de um deus mau, juiz, controlador, vingativo, severo etc.

Se rememorarmos a história de Martinho Lutero, teremos


um exemplo do que afirmamos, ao reconhecermos a dificulda-
de que Lutero teve de se relacionar amorosamente com Deus.
Ele apenas conhecia um Deus controlador e punitivo, ensinado
pelos pais, pela igreja e por toda a cultura religiosa da época.
Quase todos os vínculos relacionais de Lutero lhe apresenta-
vam um deus opressor e não libertador. A face de Deus, para
Lutero, era uma face terrorífica, como ele próprio sinaliza:

eu não amava o Deus justo, que pune os pecadores; ao


contrário, eu o odiava. Mesmo quando, como monge,

24 SANDAGE e SHULTS. p. 18-9.


Capítulo 4    Relacionamentos Interpessoais e Teoria dos Vínculos...    91

eu vivia de forma irrepreensível, perante Deus, eu me


sentia pecador, e minha consciência me torturava muito.
Não ousava ter a esperança de que pudesse conciliar
a Deus através de minha satisfação. E mesmo que não
me indignasse, blasfemando em silêncio contra Deus,
eu resmungava violentamente contra ele: Como se não
bastasse que os míseros pecadores, perdidos para toda
a eternidade por causa do pecado original, estivessem
oprimidos por toda sorte de infelicidade através da lei
do decálogo, deveria Deus, ainda, amontoar aflição so-
bre aflição, através do evangelho, e ameaçá-los com sua
justiça e sua ira também através do evangelho? Assim,
eu andava furioso e de consciência confusa.25

Lutero, na sua caminhada teológica e espiritual, é tocado


pela palavra de Deus e começa a desconstruir a imagem terro-
rífica de Deus. Pela ação do Espírito Santo, ele é apresentado
ao Deus da graça, do amor e do perdão libertador, e isso, teo-
logicamente, é uma ação misericordiosa de Deus em favor dos
pecadores, um extra nos, pro nobis. Porém, como vão dizer os
teólogos Sidnei Noé e Lothar Hoch, o papel do confessor e
conselheiro de Lutero, o vigário geral Johann von de Staupitz,
foi fundamental no processo de cura e libertação de Lutero.
Staupitz talvez tenha sido o responsável pelo primeiro encontro
de Lutero com uma face amorosa de Deus, que permitiu um
aconselhamento realmente restaurativo.26

25 LUTERO, Martinho. Introdução à epístola do Bem-aventurado Apóstolo Paulo


aos Romanos. In: ____, Obras Selecionadas. vol. 8. São Leopoldo/Porto Alegre:
Sinodal/Concordia, 2003. p. 237-330. p. 242-3.
26 NOÉ, Sidnei V. O pastor Lutero e sua contribuição para a teologia do Acon-
92    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

É isso que cabe aos conselheiros de hoje. Como vai dizer


a teóloga e psicanalista Ana Maria Rizzuto, educadores, mi-
nistros e figuras de autoridade contribuirão para forma como
Deus é visto não só pelas crianças como também por acon-
selhandos adultos. A imagem de Deus pode ser remodelada
pela forma como o conselheiro fala, age e se relaciona com
o aconselhando, mesmo que esse processo de uma possível
remodelação da representação distorcida de Deus seja por
vezes uma tarefa árdua e demorada.27

Lembramos que isso que estamos falando aqui trata-se de


uma visão psicoteológica do aconselhamento pastoral.

5R
 elações humanas e interpessoais na
Bíblia

A Bíblia é um livro que trata de relacionamentos, do Gênesis


ao Apocalipse. Primeiramente ela trata da relação de Deus
com o ser humano, na perspectiva do Deus que providencia
presença, cuidado e salvação à humanidade pecadora. Fala
também de muitos modos como o ser humano tenta se rela-
cionar com Deus, sendo os Salmos um belo exemplo de ex-
pressão dessa linguagem relacional.

selhamento Pastoral. In: HEIMANN, Leopoldo (Org.). Lutero, o Pastor. 4. Fórum


ULBRA de Teologia Canoas: Ed. ULBRA, 2006. p. 117-131. p. 119-20.
27 RIZZUTO, Ana-Maria. O nascimento do Deus vivo: um estudo psicanalítico. p.
274-5.
Capítulo 4    Relacionamentos Interpessoais e Teoria dos Vínculos...    93

Porém, a Bíblia também nos oferece muitos exemplos de


como podemos ou devemos nos relacionar melhor uns com
os outros na dimensão horizontal, que pressupõe uma abor-
dagem também psicoteológica, ou seja, envolvendo aspectos
cognitivos, emocionais e espirituais.

A Bíblia, em suas inúmeras narrativas, não tenta jamais


idealizar as relações humanas, pois relata conflitos entre os
diversos personagens bíblicos nas suas mais diferentes facetas.
Até mesmo o conflito entre gêmeos ainda no útero materno é
relatado (Jacó e Esaú já brigavam no ventre materno, confor-
me Gênesis 25.22-23). Isso nos permite afirmar que o mundo
dos relacionamentos humanos é um dos grandes desafios da
humanidade, também para aqueles que se dizem religiosos e
cristãos. Conflitos entre Adão e Eva, Caim e Abel, rixas fami-
liares na família de Abraão, Isaque e Jacó, na família de Davi,
do profeta Jeremias entre tantos outros personagens do Antigo
Testamento comprovam que ciúmes, invejas, ódio, culpa, trai-
ções, orgulho, maledicências, mentiras, fofocas, preferências
pessoais, malícias e desejos proibidos fazem parte do cotidia-
no do mundo relacional.

Também no Novo Testamento, muitos são os casos de con-


flitos relacionais relatados. Os próprios discípulos de Jesus en-
traram em contendas e discussões, motivados até por questões
mesquinhas, como sobre quem seria o maior deles quando
chegassem no céu (Lucas 22.24). O apóstolo Paulo, em 2
Coríntios 12.20-22 expressa o seu medo de encontrar aquela
comunidade em “contendas, invejas, iras, porfias, detrações,
94    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

intrigas, orgulho”. Conflitos, portanto, são inerentes aos rela-


cionamentos humanos após a queda em pecado.

Por outro lado, a Bíblia também é pródiga em apresen-


tar princípios que orientam os cristãos a desenvolverem bons
relacionamentos interpessoais, sendo que Jesus é o modelo
de relacionamento humano, sendo o grande arauto do amor
e promotor da paz. O amor vivido e ensinado por Jesus é o
maior dos atributos relacionais, a ponto de dizermos que um
dos principais objetivos do aconselhamento é auxiliar os indi-
víduos a se tornarem mais amorosos uns com os outros, in-
clusive com aqueles com quem nos relacionamos pior. Como
diz o texto bíblico, devemos pagar o mal com o bem, pois isso
fará “amontoar brasas vivas” sobre aquele que pratica o mal
(Provérbios 25.22).

Em Cristo, guiado e fortalecido pelo Espírito Santo, o ser


humano pode crescer na graça, no conhecimento e no amor
entre os irmãos. O hino do amor, em 1 Coríntios 13 é a per-
sonificação do amor de Deus em Cristo, que nos serve como
ideal a ser buscado, mesmo que saibamos ser impossível
vivermos esse amor tal como Jesus o encarnou. Também o
apóstolo Paulo, em muitos textos, oferece princípios de rela-
cionamentos cristãos. Um dos textos mais conhecidos é o de
Colossenses 3.12-15, onde Paulo fala da nova natureza em
Cristo, dizendo:

portanto, vistam-se de misericórdia, de bondade, de


humildade, de delicadeza e de paciência. Não fiquem
irritados uns com os outros e perdoem uns aos outros.
E, acima de tudo, tenham amor, pois o amor une per-
Capítulo 4    Relacionamentos Interpessoais e Teoria dos Vínculos...    95

feitamente todas as coisas. E que a paz que Cristo dá


dirija vocês nas suas decisões, pois foi para essa paz que
Deus os chamou para formarem um só corpo. E sejam
agradecidos.

Não há como também deixar de citar o livro de Provérbios


como um manual prático de boas relações humanas. Tal como
destaca Collins, ele ensina a refrear a nossa língua e não calu-
niar, a dizer a verdade, a falar com educação, a pensar antes
de falar, a ouvir atentamente, a resistir às fofocas, a evitar a
lisonja etc. Afirma também que a ira incontida, as palavras
ásperas, o orgulho, a desonestidade, a inveja entre outras
coisas são fontes de tensões humanas, devendo ser evitados
nas relações cotidianas. Na realidade, o aprendizado de boas
práticas de relações humanas está implícito por toda Bíblia,
seja nos Dez Mandamentos, no Sermão do Monte, nas cartas
e epístolas do Novo Testamento etc. Os bons relacionamento
se inserem no campo da santificação, exigindo determinação,
esforço e treinamento em habilidades sociais. Diz Collins:

a Bíblia e a psicologia concordam que um bom rela-


cionamento depende de um aprendizado constante e da
aplicação de técnicas tais como: ouvir atentamente, ob-
servar, entender a si mesmo e aos outros, evitar comen-
tários desagradáveis e as explosões de temperamento, e
se comunicar bem. Tudo isso se aprende; tudo isso pode
ser ensinado por um conselheiro com discernimento.28

28 COLLINS, Aconselhamento cristão:... p. 272.


96    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

6R
 elacionamentos nas redes sociais
virtuais

Não podemos deixar de citar neste capítulo que o mundo dos


relacionamentos humanos tem sofrido alterações significativas
após o advento das modernas tecnologias de comunicação,
representadas pelas redes sociais virtuais, no chamado cibe-
respaço ou Internet. Redes e meios de relacionamento como
facebook, twitter, whatsapp, messenger têm recebido um in-
vestimento de tempo significativo por parte das pessoas.29 A
“moda” é estar sempre conectado e quem não o fizer é consi-
derado quase como um alienado social.

Basta um olhar atento para vermos que os relacionamentos


virtuais têm, senão substituído, pelo menos afetado a qualida-
de dos relacionamentos presenciais com o contato físico real.
Em ônibus, paradas, trens, restaurantes etc., vemos as pessoas
focadas e teclando em seus celulares, ipods, iphones, smart-
phones, tablets e notebooks. Pode haver alguns perigos nisso,
tal como sinaliza o texto a seguir:

a rápida difusão das redes sociais e a dependência ad-


quirida pelo ser humano moderno junto a estas plata-
formas virtuais tornam inviável viver desconectado. O
espaço cibernético, com sua facilidade de acesso e aco-
modação, torna o indivíduo desatento em relação ao
mundo real e alerta em relação ao mundo virtual, algo

29 Precisamos lembrar que no mundo virtual essas redes são muito dinâmicas.
Aparecem e desaparecem com muita rapidez, como o exemplo do Orkut, que os
mais jovens não sabem sequer o que foi.
Capítulo 4    Relacionamentos Interpessoais e Teoria dos Vínculos...    97

que pode facilmente transformar-se em isolamento e ex-


clusão social. [...]30

Antes de logo julgarmos que esse mundo virtual – que não


deixa de ser ao mesmo tempo real – é de todo negativo, é
preciso concordar que as mídias digitais revolucionaram a co-
municação, tornando as fronteiras relacionais quase invisíveis.
As redes nos permitem que fiquemos próximos das pessoas
independentemente de onde elas estiverem, inclusive do outro
lado do mundo. As distâncias são “diminuídas” pelas diversas
formas que hoje possuímos para nos comunicar com familia-
res, amigos, conhecidos, pessoas com quem perdemos conta-
to há anos. Portanto, ao invés de apenas nos distanciar, as re-
des podem, sim, nos aproximar uns dos outros. Nesse sentido,
até mesmo no meio eclesiástico, a igreja pode se utilizar das
redes sociais para contatar, informar e até resgatar algumas
“ovelhas desgarradas” que perderam o contato físico com a
comunidade de fé.

Nós, enquanto teólogos, conselheiros e líderes religiosos,


conscientes dos perigos dos relacionamentos virtuais, preci-
samos também aprender a fazer uso positivo e benéfico das
novas tecnologias. Parafraseio um colega de trabalho, Prof.
Astomiro Romais, que diz que Jesus provavelmente hoje di-
ria aos seus discípulos não “lançai as redes” mas “lançai-se
nas redes”, pois o ciberespaço é um ambiente onde muitas

30 HAHL, Bruno Rodrigues et al. A Influência das redes sociais nas relações inter-
pessoais. In. Revista Eletrônica Colégio Mãe de Deus. Volume 4. Setembro 2013.
Disponível em: <http://www.colegiomaededeus.com.br/revistacmd/revistacmd_
v42013/artigos/a2_redes_sociais_cmdset2013.pdf>. Acesso em: 02 mar. 2016.
p. 6.
98    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

pessoas estão sequiosas e disponíveis para relacionamentos


humanos e onde a palavra de Deus pode ser semeada.

Recapitulando

Vimos neste capítulo a importância dos primeiros vínculos e


relacionamentos humanos na construção de padrões vincu-
lares que se repetirão na vida adulta. A formação de víncu-
los saudáveis ou não saudáveis a partir das figuras parentais
influenciam a forma como as pessoas vão se relacionar por
toda a vida. A família, portanto, tem um papel fundamental
na construção de vínculos positivos, saudáveis e de confiança,
que podem inclusive facilitar a apresentação de um Deus de
amor, que acolhe o ser humano nas suas angústias. Como vai
dizer James Loder, iremos ser apresentados à face de Deus por
intermédio de nosso pais ou primeiros cuidadores. O capítulo
também orienta aos conselheiros para que possam conhecer
e perceber os vínculos predominantes de seus aconselhandos,
na busca de melhor compreender a sua dinâmica relacional
e os conflitos a que podem estar associados. O capítulo tam-
bém problematizou a importância que os relacionamentos nas
redes sociais virtuais têm tido na atualidade, vendo-os como
uma nova oportunidade para outras formas de acompanha-
mento a aconselhandos. Finalmente, enfatizou o papel do
conselheiro em poder atuar como uma figura de referência
para reconstruir possíveis vínculos doentios e patológicos de
seus aconselhandos.
Capítulo 4    Relacionamentos Interpessoais e Teoria dos Vínculos...    99

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view/40/57>. Acesso em: 12 jan. 2016.

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nas relações interpessoais. In. Revista Eletrônica Colégio
Mãe de Deus. Volume 4. Setembro, 2013. Disponível em:
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NOÉ, Sidnei V. O pastor Lutero e sua contribuição para a teo-


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do (Org.). Lutero, o Pastor. 4. Fórum ULBRA de Teologia
Canoas: Ed. ULBRA, 2006. p. 117-131.
100    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

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Porto Alegre: Artmed, 2010.

ZIMERMAN, Guite L. Velhice: aspectos biopsicossociais. Porto


Alegre: Artmed; 2000.

Atividades

1) Há pelo menos três maneiras de comprovarmos bibli-


camente que Deus valoriza os relacionamentos, des-
de o início da sua criação. São elas: ____________
___________________________________________
Capítulo 4    Relacionamentos Interpessoais e Teoria dos Vínculos...    101

________, _________________________________ e
_____________________________.

2) Tratar de relacionamentos humanos é importante dentro


do contexto do aconselhamento cristão por um motivo
quase óbvio, visto ser uma das principais metas do acon-
selhamento. Essa meta, que é tríplice, é, a saber: _______
________________________________________________
________________________________________________
_________________________.

3) As relações humanas podem acontecer pelo menos em qua-


tro direções. São elas: _____________, ______________,
____________, ________________.

4) Procure explicar o conceito de vínculo e sua importância


para o aconselhamento.

5) O que significa a frase: “A primeira face de Deus para a


criança é a face de seus pais”.
Roseli M. ??????????
Kühnrich de Oliveira1

Capítulo 5
?

Desafios e Possibilidades
no Aconselhamento a
Casais e Famílias 1

Desafios e Possibilidades no Aconselhamento...

1 Mestre em Teologia. Psicóloga clínica. Especialista em Terapia Familiar, de Ca-


sais e Individual. Assessora Científica do CPPC. Membro do grupo de Pesquisa em
Aconselhamento e Psicologia Pastoral da Faculdades EST.
Autora dos livros Pra Nao Perder a Alma (Sinodal), Cuidando de quem cuida: Um
olhar de cuidados aos que ministram a Palavra de Deus (Grafar), e co-autora em
De Bençãos e Traições, (Ultimato/ Esperança).
Capítulo 5    Desafios e Possibilidades no Aconselhamento...    103

Introdução

Gosto de pensar que as famílias são como pequenas orques-


tras, ora afinadas, ora desafinadas. Orquestras são dinâmicas,
pois constantemente as partituras mudam, há novos desafios
e os músicos são requisitados conforme a linha melódica. Às
vezes, os ensaios parecem muito confusos. Existe tensão, ex-
perimentação, sons difusos. Até que, aos poucos, vai surgindo
uma nova formatação, que se transforma em arte e beleza.

Conta-se que o famoso escritor e professor C. S. Lewis res-


pondeu por carta a uma senhora que o questionava sobre
problemas em família: “Senhora, famílias perfeitas são como
as montanhas azuis ao longe. Olhadas de perto, elas nunca
são azuis”.

Como podemos aconselhar casais e famílias nos dias de


hoje? O desafio de quem está no ministério pastoral ou se
encaminha para ele é tremendo! Mudanças profundas nas
formas de se ver e viver em família aconteceram em pouco
tempo. Partindo dessa ideia de famílias com formatos diferen-
ciados, fica claro que a pessoa que se propõe a aconselhar
poderá ser surpreendida com a riqueza (ou miséria) das situa-
ções que se apresentam.

Como podemos escutar, e eventualmente aconselhar, pes-


soas que se organizaram como família em um modelo bem di-
verso ao que nós mesmos vivemos? Como aconselhar famílias
e casais em crise? Acredito que, em primeiro lugar, devemos
escutar. Escute, escute e escute! A escuta atenciosa e respeito-
sa precede toda e qualquer manifestação e aconselhamento.
104    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

A humildade de quem escuta e aconselha é necessária,


pois revela que fazemos parte dessa grande família, que são
os seres humanos. Cada família ou casal que busca aconse-
lhamento tem sua própria história. Não se pode usar a mesma
forma para todos.

Existem muitos tipos de famílias em todos os tipos de cultu-


ra. O que parece ser norma para famílias em um lugar, pode
causar muita estranheza em outros. Neste texto, vamos nos
ater aos aspectos de famílias, considerando o contexto onde
estamos inseridos. Mesmo assim, reconhecemos que há varia-
ções e diferenças importantes a serem consideradas.

Acredito que “somos chamados a entrar na intimidade de


pessoas que se abrem, em confiança, ao expor suas histórias
de vida. Trata-se do sagrado de cada um, matéria única, di-
mensão do mistério que nos atinge”. 2

1 A Escuta

Penso que pastores, pastoras, terapeutas e conselheiros têm


este grande privilégio e desafio que é escutar pessoas. Essa
escuta visa, em primeiro lugar, que a pessoa (ou pessoas) que
relatam estar vivendo uma situação conflitante, possam orga-
nizar seus pensamentos para produzir uma fala.

2 Kuhnrich de Oliveira, Roseli. In: Brustolin, Antônio (Org.). Famílias Novos Hori-
zontes. p. 32.
Capítulo 5    Desafios e Possibilidades no Aconselhamento...    105

Ao relatar ao que escuta, a sua história, a família, o casal


já começa um processo terapêutico. Pois então percebem que
possuem uma dificuldade e buscam uma solução, organizan-
do o próprio pensamento para poder articular a fala. Muitas
vezes, ao iniciar o relato, as pessoas estão muito tumultuadas,
confusas, desqualificando a si mesmas ou o grupo familiar.
O fato de buscar ajuda representa quase uma falência, do
tipo “não conseguimos dar conta sozinhos”, que gera culpa e
desmerecimento. A procura por ajuda pode vir em um formato
infantilizado, como que a requerer do conselheiro a palavra
final.

Assim, o primeiro movimento do(a) conselheiro(a) é rece-


ber com simpatia, dando uma acolhida afável, sendo gentil.
Ter um local adequado e reservado para a conversa, onde
possam se sentir à vontade para se expressar e eventualmente,
chorar. Seria bom lembrar sempre de ter por perto lenços de
papel.

O local não precisa ser uma sala sofisticada, mas deve


ser confortável, agradável, onde as pessoas possam conversar
sem serem expostas. Tudo depende do que se dispõem. Se for
uma emergência, procure o melhor local possível. Se puder
agendar, preparar o local demonstra interesse e cuidado.

Evite ministrar ou aconselhar “na porta da igreja”, ou em


lugares de encontro social. Se você estiver em uma festa, ou
reunião e for solicitada sua ajuda, demonstre seu cuidado e
respeito ao assunto e às pessoas, sugerindo uma data, horário
e local. Explique claramente que será melhor e mais produtivo
para todos. Obviamente, a flexibilidade e o bom senso ne-
106    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

cessitam estar em ação. Assim, se for emergencial, podemos


sentar até à sombra de uma árvore, e conversar, ou acolher
em uma sala ou gabinete pastoral, naquele momento.

Há casos onde não surge uma solicitação por parte do


casal, mas de pessoas ligadas à família que pedem ajuda. Se
for o caso, ao visitar ou abordar, sempre respeitosamente, ofe-
reça ajuda. Mas lembre-se que a decisão final sempre será do
casal ou família. Quando há muita resistência, primeiramente
acalme, acolha, demonstrando genuína simpatia.

Relembre sempre que as famílias escolhem seu jeito de vi-


ver. Algumas têm um estilo forte, de brigas e discussões, outras
são mais suaves ou até não falam. Contudo, se há sinais de
embriaguez, uso de drogas ou alteração visível, sugira uma
hora mais apropriada. Pode ser o caso de enfatizar a neces-
sidade de outro tipo de abordagem, junto a um médico, um
assistente social ou outro profissional, conforme for o caso.

Se a pessoa ou casal tem dificuldade de iniciar a conversa,


pode-se incentivar com frases do tipo: “Estou aqui para escutá
-los...” ou “às vezes a gente não sabe por onde começar, não
é?” Ou seja, dar uma palavra de incentivo e encorajamento.
Estando todos acomodados, vem o escutar, ouvir com aten-
ção, empaticamente.

Parafraseando Winnicott, “que sejamos suficientemente


bons. Isso basta”. Não somos perfeitos, mas pessoas dispostas
a acompanhar, “por algumas milhas”, aquelas pessoas que
nos procuraram. Ou simplesmente, demonstrar que nos im-
portamos com aquele sofrimento. Sendo assim, passemos a
escutar, com atenção o relato, a queixa.
Capítulo 5    Desafios e Possibilidades no Aconselhamento...    107

Ajudar a expressar a queixa também é importante. Pergun-


tamos: “O que os trouxe aqui?” ou: “Qual é a dificuldade
maior neste momento?”. É bom esclarecer e perguntar, sem-
pre. Por exemplo, ao ouvirmos “É que ele fica agressivo”, res-
pondemos: “Ok, me explica, como ele fica, o que ele faz, ou
diz, em que tom”, e assim por diante.

Ou seja, o que a pessoa está dizendo pode ser totalmente


diferente do que imaginamos, por isso, é vital “traduzir” o que
está sendo dito, pedir exemplos e definição comportamental.

Noutro exemplo, o marido se queixa: “Ela me afronta”. O


conselheiro indaga: “Me conte como é, o que acontece? Que
tipo de palavras, gestos e atitudes?” A explicação pode ser:
“Ah, não, ela não diz nada, ela vira as costas e me deixa fa-
lando sozinho”.

Ao que acompanha e caminha com o casal ou família,


fica o desafio de não se deixar cooptar pela ilusão do poder
e do saber, mas ajudar os que vêm em busca de auxílio a ver
suas demandas e pensar em soluções. Sabemos que existem
várias abordagens no trabalho com casais e famílias. Algu-
mas são mais diretivas e outras, menos. De qualquer forma, é
importante estar atento ao fato de que cada família tem uma
organização particular, própria, e uma forma de se relacionar
por vezes, muito diferente de quem aconselha.

Como conselheiros cristãos, deveríamos ser norteados pela


Palavra de Deus e por seus ensinamentos. Na própria Bíblia,
encontramos exemplos de famílias nada perfeitas, onde havia
disputas de poder, mentiras, invejas, ciúmes, enganos etc. To-
davia, seus membros também experimentavam alegria, comu-
108    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

nhão, fé e esperança. Temos exemplos de famílias extensas e


famílias pequenas, poligâmicas e monogâmicas, de convivên-
cias difíceis ou de fraterno afeto. Essa pluralidade é um bom
retrato da condição humana e dos diferentes arranjos que ain-
da encontramos na sociedade.

O apóstolo Paulo muito ensinou sobre formas de convi-


vência conjugal e familiar. Penso que esse é o modelo que
vamos mostrar às famílias, entendendo que, como a orques-
tra, haverá o tempo do ensaio tumultuado e dissonante. Ao
conselheiro resta esperar com fé, que aos poucos as pessoas
se organizem. Pode acontecer do conselheiro (ou conselheira)
esperar um tipo de resposta que não é o objetivo da família ou
casal! Por isso é importante escutar e perceber quais os sonhos
daquela família, o que para eles é importante e o que estão
buscando.

Não podemos ficar na posição de juízes. É bom tentar


escutar a todos igualmente. Se perceber que o casal deseja
apenas “plateia” para suas brigas e não desejam mudanças
genuínas, comunique essa sua percepção. Pergunte se estão
dispostos a tentar alternativas.

Homeostase é a força que resiste às mudanças. Por vezes,


o desejo à mudança existe, mas o medo é ainda maior. Em
certo sentido, é porque “o conhecido apesar de ruim, dá certa
segurança”. O novo quase sempre assusta.

Podemos pensar no seguinte exemplo. O casal pede para


conversar e confessa: “Pastor, viemos buscar ajuda porque es-
tamos em crise, mas por favor, não mexa em nada e não mude
nada! Pelo menos esse caos a gente já conhece!”
Capítulo 5    Desafios e Possibilidades no Aconselhamento...    109

Qual a melhor reação a isso? Explicar que é assim mesmo,


que todos gostariam de mudar as coisas magicamente, sem
fazer esforço e sem dor!

É recomendável mostrarmos bom humor e lembrar que


não dispomos de algum tipo de varinha mágica. Afinal, essa
mudança deve ser um trabalho em conjunto. Contudo, nunca
é demais lembrar que o interesse maior sempre deve ser dos
envolvidos.

Se você perceber que está fazendo “mais força” que eles,


informe que, por mais que você se importe, a família ou o ca-
samento é deles. Esse tipo de situação poderá ser percebido
claramente se você se der conta que está aflito, enquanto eles
permanecem bem tranquilos. Ou ainda, que você busca alter-
nativas de horários, mas eles nunca podem etc.

2 Conflitos

Dentro dessa construção chamada família, é inevitável que


surjam conflitos. Segundo Gresy Vasquez, o conflito é inerente
às interações humanas, em especial, à conjugalidade. A forma
como casais lidam com conflitos é fundamental para a saúde
emocional da relação. Pode fazer a diferença entre a estabi-
lidade, por um lado, e a dissolução das uniões, pelo outro.3

Para haver uma resolução de conflito, é necessária uma


disposição. Primeiramente, aceitar sua existência (pois muitos

3 Dissertação de mestrado onde se enfoca a conjugalidade como forma de viver a dois.


110    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

negam e perpetuam o conflito). Depois, busca-se uma nova


construção, onde todos ganham.

No geral, as pessoas entendem que “se o outro ganhar


essa questão eu é que saio perdendo”. Precisamos estar aten-
tos para o fato de que, quando ocorrem disputas dilacerantes,
todos perdem. Já nas mediações e busca de solução pela paz,
há uma construção nova, onde todos podem ganhar.

Na perspectiva do aconselhamento sistêmico, entende-


se que, quando um dos elementos é alterado, todo o sistema
sofre alterações. Assim sendo, o diálogo e a comunicação as-
sertiva auxiliam para que emerja uma solução para aquele
conflito. Trata-se de algo novo, que pode gerar soluções cla-
ras.

O objetivo do aconselhamento, em casos de conflito e dis-


putas, é servir como um facilitador, ajudando os envolvidos a
se acalmar com a possibilidade de serem ouvidos e entendi-
dos. De certa forma, é se “tornar existente”. A maioria se quei-
xa que são “como que invisíveis” ou não levados em conta.

É importante detectar o que origina o conflito. A raiz da


questão é a falta de diálogo, de intimidade ou ainda falta de
tempo e de lazer. Podem ser ainda dificuldades na sexualidade
ou nas famílias de origem. Outros motivos comuns são: o mau
uso (ou a falta) do dinheiro, maus hábitos, inclusive de higiene
e saúde, ciúme etc. Podem também ser questões como a edu-
cação dos filhos, o modo de dirigir, divergências políticas ou
ainda de gostos e interesses, infidelidade, mentiras... Enfim, a
lista é enorme!
Capítulo 5    Desafios e Possibilidades no Aconselhamento...    111

Após ser detectada a zona de conflito, pode-se usar uma


estratégia de tentar se distanciar para avaliar a questão, do
tipo “Apolo 13”: – “Houston, nós temos um problema”. O ob-
jetivo da NASA, no drama da nave Apolo 13, era conseguir
trazer de volta com vida os astronautas que estavam em uma
situação de morte quase certa.

Isso pode ser comparado à realidade do aconselhamento.


Por exemplo, diga: “Vamos supor que vocês têm um casal de
amigos, seus afilhados de casamento, que estão passando por
um problema x ou y. O que vocês aconselhariam?”

Ao fazermos isso, ajudamos o casal a se distanciar, a olhar


“de longe” e ver as consequências. Feito isso, vamos trabalhar
no sentido de construir uma forma saudável de comunicação,
ou seja, sermos assertivos nas falas. Por assertividade, enten-
de-se que é falar diretamente, mas sem ser passional. O treino
assertivo muitas vezes será uma aprendizagem necessária. Um
bom exemplo é pedir: “Fale a partir de si mesmo, como você
se sente com isso”. Ou ainda: “Não infira”, não suponha que
ele ou ela... ao invés de afirmar, pergunte!

3 Expectativas e ilusões

Todos temos expectativas. Criamos expectativas que deposi-


tamos constantemente em outras pessoas. Fazendo uma pa-
ráfrase, “a expectativa é a razão de todos os males”. Existe
dentro de nós um Reino pesadamente defendido: o Reino do
112    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

Eu. Nosso egocentrismo nos leva a desejar e a esperar que


outro cumpra ou satisfaça o nosso Eu.

Sua expectativa não é, necessariamente, a mesma da fa-


mília ou do casal. A expectativa dele ou dela acabam sendo,
muitas vezes, antagônicas. Isso não significa que é certo ou
errado, afinal, pode haver mais de um ponto de vista sobre um
mesmo fenômeno. Podemos desafiar, propondo: “Coloque-se
no lugar do outro e tente outro ângulo de visão”.

Busca-se centrar na capacidade de cada ser humano em


dialogar e construir uma nova tessitura, buscar um caminho
pelo diálogo e estudar as opções de forma menos passional,
deixando entrever possibilidades anteriormente não existentes.
Ou seja, a resolução de conflitos foca no que ainda não existe,
mas pode vir a ser.

Em uma linguagem mais evangélica, equivale a dizer que é


uma obra de fé. Fica claro, portanto, que as pessoas envolvi-
das em um litígio serão convidadas a olhar de frente sua situa-
ção. O conselheiro(a) esclarece que a busca de uma solução
parte deles e beneficia a todos, não só a geração presente
como também as gerações futuras. As pessoas são convidadas
a olhar para o que está acontecendo, tendo em vista um novo
horizonte, de busca de uma solução exequível e possível.

A tarefa de aconselhamento visa, então, ser muito mais de


mediação facilitadora e encorajadora, empoderando as pes-
soas ao lembrá-las que pertencem a um Deus de amor, de
bondade generosa e misericordiosa.
Capítulo 5    Desafios e Possibilidades no Aconselhamento...    113

Podemos esquecer, mas a Bíblia nos relembra que “a boca


fala do que está no coração”. Ou seja, o que sai da nossa
boca em um conflito já estava lá, dentro do nosso coração.4
Ninguém fala “brincando”. Na realidade, fala-se o que real-
mente se pensa.

A comunicação interior é uma maneira de se conhecer e


trabalhar. Ou seja, descobrir o que existe dentro de nós. É
formular algumas questões que serão respondidas individual-
mente e depois compartilhadas em casal ou família. Existem
vários questionários preparados e desenvolvidos para essa fi-
nalidade. Podemos citar como exemplo as perguntas: “Como
e com quem dou risada? Como e com quem gasto meu tempo
livre? Como e com quem gasto meu dinheiro?”. Elas podem
ser geradoras de discussão quando já existe um conflito. Nesse
caso, podem ser feitas individualmente, para que cada um dos
cônjuges reflita sobre sua conduta.

Sugiro aos pastores que façam ocasionalmente um inven-


tário de sua própria relação afetiva, se forem casados. Uma
forma interessante de saber como vai o casamento é perguntar
para parentes, amigos ou filhos adolescentes, como eles veem
seu casamento! Você pode receber respostas bem interessan-
tes, se as pessoas tiverem coragem de dizer o que realmente
pensam!

A qualidade de vida conjugal fica comprometida quando


um dos parceiros sofre de depressão, ansiedade, falta de aten-
ção, é hiperativo ou distímico (a doença do mau humor), ou

4 Sobre este tema, leia o livro de Paul David Tripp, Guerra de Palavras.
114    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

tem outras dificuldades, como insônia, roncos, obesidade, dia-


betes, impotência ou demais questões de saúde. Nesse caso,
deve-se orientar a buscar ajuda. Padrões mais disfuncionais
requerem uma intervenção com ajuda especializada. Isso é
aconselhável quando há dependência de álcool, drogas, me-
dicamentos, compulsão por compras, pornografia ou jogos,
questões de identidade sexual, violência verbal, moral, física
ou tentativa de suicídio.

4 Gestando o caos

No início da história da humanidade na terra, a Bíblia diz que


o Espírito pairava sobre o caos, gestando novidade. Acredi-
to que o texto indica que podem existir soluções ainda não
pensadas, alternativas de ajuda para acalmar e renovar as
esperanças.

O evangelho é essencialmente um comunicado de espe-


rança e afeto. O desafio e a possibilidade dizem respeito à for-
ma de abordagem que vamos desenvolver em meio ao caos. A
forma respeitosa de ouvir cada componente da família já traz
em si mesma uma orientação e ensino para casais e famílias
que não se escutam.

Ao reunir em um mesmo lugar e tempo pessoas que estão


em conflito, já propiciamos um “frente a frente” visível. Em
geral, o início é tenso, com muitas acusações e reclamações.
Assim, alguma dinâmica é interessante onde cada um conta
um pouco de si, de forma lúdica e divertida, pode ser um
Capítulo 5    Desafios e Possibilidades no Aconselhamento...    115

quebra-gelo. Por exemplo, ao atender uma família que estava


em meio a muitas brigas, fizemos um círculo e a orientação foi
jogar a bolinha de tênis na direção de um deles, dizendo “eu
gosto de...”.

Este, por sua vez, acolhia a bolinha e rapidamente escolhia


outra pessoa e jogava na direção dela, dizendo: “Eu gosto
de...” Assim, aos poucos, cada um se “apresentava” à família,
relatando coisas que gostava (pizza, cinema, andar de bicicle-
ta, tipo de música etc.). Depois de alguns minutos, propus uma
variação: prestar atenção ao último que recebeu a bolinha e
guardar o que ele ou ela gosta! Feita nova rodada, atirar a
bolinha dizendo o fulano gosta de X, e assim cada pessoa sai
um pouco do seu “EU” para atentar para o “outro”.

É importante e necessário estabelecer as regras que orien-


tarão o encontro. Ao iniciar um aconselhamento, estipule o
que será permitido ou não. Por exemplo: explique que o ob-
jetivo é descobrir o que eles, como casal ou família, já conse-
guiram realizar. Validar as tentativas que já foram feitas para
resolver as questões, mesmo que as pessoas estejam muito
iradas, frustradas e doloridas.

Se o conselheiro ou conselheira se mantém centrado, aten-


to às mediações e sem elevar o tom de voz, essa atitude ajuda
a família a perceber que é possível fazer acordos. Acompa-
nhar os relatos, fazer perguntas, tentar entender a situação
para depois poder propor alguma intervenção. Priorizar tudo o
que é justo e verdadeiro, mostrando o que está percebendo e
checando se de fato é assim. Por exemplo, dizer: “Se entendi,
o que fulano está dizendo é que x, y e z. É isso mesmo”? Ou
116    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

seja, ao perguntar e devolver a questão, como um reflexo ou


espelho, pode-se propiciar um novo olhar sobre a questão, o
que ajudar a pensar. Como disse Whitaker, “com a coragem
de esperar que emerja algo espontâneo”.

Ao nos aproximarmos de uma família, a humildade prece-


de o encontro. Humildade de reconhecer que não sabemos
tudo e não teremos todas as respostas. Somente Deus gesta o
caos, por seu divino Espírito, propiciando o Novo.

5 Conjugalidade como possibilidade

O que é conjugalidade? Conjugal vem da definição de “jugo


em conjunto” ou seja, uma “canga”, como a que se usa para
unir uma parelha de bois. Por conjugalidade, entende-se uma
relação estável, que envolve pessoas em uma dinâmica rela-
cional, com o objetivo de viver uma vida em comum. Apesar da
definição sugerir algo que tolhe ou aprisiona, conjugalidade
remete também a toda uma gama de possibilidades favoráveis
do viver a dois, que chamamos parceria. A forma como essa
conjugalidade será vivida, dependerá, por óbvio, de diversos
fatores: pessoais, familiares, culturais, sociais, religiosos, eco-
nômicos, históricos entre outros.

Assim, na visão sistêmica, a formação da conjugalidade


é um processo contínuo, que desemboca no que chamamos
uma relação afetiva estável. Cada parceiro/a, ao se engajar
na relação a dois, reconstrói sua realidade individual, ao mes-
Capítulo 5    Desafios e Possibilidades no Aconselhamento...    117

mo tempo em que participa da construção de uma realidade


em comum.

Essa última é tecida a partir de trocas verbais e não verbais


entre os companheiros, inseridas em um universo social de
significado. Nesse processo, o casal constrói uma identidade
conjugal e uma história em comum. As ações de cada um dos
cônjuges afetam um ao outro, reciprocamente”.5 Novamente
usando a metáfora da orquestra, seria um dueto entre o vio-
lino e a clarineta. Cada um tem seu timbre, um é de sopro, o
outro de cordas, mas juntos vão delineando e tornando o due-
to uma fala só, mas que nossa audição avalia em conjunto.

Um casamento não se faz apenas de romance. Existem


muitas formas de casamento, alguns, até por amor! Romance
é uma possibilidade no casamento e não uma regra, pois o
que faz surgir e manter o romance é a disposição de duas
pessoas nesse sentido.

A família pode ser comparada a uma casa, que necessita


ser construída para que sirva de abrigo. Contudo, de tempos
em tempos, necessita reformas e reparos. A manutenção pre-
ventiva requer estar atento aos desgastes inerentes ao viver
comum. Já as reformas e reparos nos lembram que a vida vai
nos modificando como pessoas que vão envelhecendo. Tam-
bém como famílias vamos passando por etapas.

5 Veja em Gonzáles Vásquez, Greisy. Estratégias de resolução de conflito conjugal


entre casais: semelhanças e diferenças. 2014. xii, 179 f. Dissertação (Mestrado em
Psicologia Clínica e Cultura). Universidade de Brasília, Brasília, 2014.
118    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

O ciclo de vida familiar inicia quando duas pessoas deci-


dem ter uma vida compartilhada, em comum, conjugal. Se for
uma relação monogâmica, isso exclui outras pessoas como
parceiros. O conceito de fidelidade diz respeito a esse com-
prometimento exclusivo. Um casal, ao iniciar uma vida em co-
mum, constitui uma família, quer tenham filhos, quer não.

O ajuste de cada novo casal se dá na medida em que as


pessoas envolvidas passam a viver e a sentir a subjetividade
do outro e tentam superar os descompassos. Ou seja, há uma
atitude de ajuste, de interpretação e avaliação de si e do outro
que é dinâmica, ativa. Cada conversa, cada discussão, cada
passeio, em cada sonho relatado acontecem trocas subjetivas.

Ao estudar a família do ponto de vista sistêmico, observa-


se que seus componentes agem e interagem a partir de valo-
res, crenças e mitos nem sempre explicitados, mas presentes.
Na perspectiva sistêmica, a família é o resultado da somatória
de seus personagens, ou seja, cada pessoa contribui com o
sistema familiar. Um sistema é composto por vários elementos,
que se influenciam mutuamente, como se fosse uma engrena-
gem. Mesmo pessoas distantes ou falecidas deixam sua marca
na família, e o distanciamento geográfico ou temporal não di-
minui conflitos ou afetos. Os vínculos afetivos, os sentimentos,
a história da família como herança do passado se interpõe no
presente e remetem ao futuro.6

6 Brustolin, Antônio (Org.). Familia: novos horizontes. p. 33.


Capítulo 5    Desafios e Possibilidades no Aconselhamento...    119

6 “Andarão dois juntos se não houver


entre eles acordo?” (Amós 3:3)

Um casamento bem-sucedido inclui bom humor, generosidade


e comprometimento. A paixão pode ou não ser o início de um
relacionamento afetivo, mas a atração mútua não acontece
apenas pelo viés da sexualidade ou atração física. Interesses
podem ser compartilhados, além do lazer, esportes, religião,
aprendizagem conjunta (dança, canto, instrumentos, idioma,
trabalhos manuais etc.) ou voluntariado social.

Qualquer relacionamento humano requer acordos. Quan-


to mais explícitos, melhor. Sempre haverá divergências, seja
na forma de cortar cebolas, seja no jeito de dirigir ou lavar a
louça. Cada pessoa tem seu jeito de fazer determinadas ativi-
dades. Mas cada um quer que o outro pense e faça as coisas
do SEU modo. O casamento como se sabe, não é uma ques-
tão de lógica, mas de vida em comum.

Fazer acordos é fundamental para diminuir os pontos de


atrito. Distribuição das tarefas domésticas, o uso do dinheiro e
dos bens, a forma de viver e se posicionar na sociedade, tudo
depende de acordos.

Ao conselheiro e pastor cabe a “pastoral”, ou seja, o


acompanhamento de ajuda espiritual e bíblica. Ajudar a ela-
borar os acordos no estilo de “todos ganham com isso”. Es-
tudos demonstraram que a generosidade é fundamental para
quem deseja vivenciar um bom casamento. Mas também não
pode acontecer de só um dos parceiros ser generoso e o outro
egoísta, pois nesse caso a relação será do tipo abusiva, onde
120    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

um sempre cede e se submete frente às investidas e ataques


do outro.

Para haver acordos, precisa-se exercitar a negociação, de


“cabeça fria” e não no ardor de um conflito. Todos os casais
têm seus embates, o que faz diferença é a forma de tornar a
discussão produtiva – visando um acordo, ou destrutiva – por-
que só produz desconforto e amargura.

Algumas perguntas ou pontuações ao longo da conversa


pastoral podem ser feitas, tais como ajudar a ouvir o que “pas-
sou batido”, ajudando a ver alguma possibilidade que surgiu
em uma das falas e propor uma alternativa futura possível. De-
ve-se salientar aspectos positivos da busca de entendimento e
do esforço conjunto da atitude de colaboração, encarar que o
fato de pensar de maneira diferente não desvaloriza nenhuma
pessoa, mas faz parte da singularidade pessoal com a qual
fomos criados.

7 Considerações finais

Ao que aconselha, requer-se que esteja cônscio de suas pró-


prias limitações, entendendo que é um agente externo, que
não faz parte daquela configuração familiar. Requer coragem
de confrontar com bondade, firmeza e respeito condutas im-
próprias, destrutivas e, talvez, até criminosas, tomando provi-
dências cabíveis quando necessário. Providenciar defesa aos
que não podem ou não conseguem se defender é tarefa do
conselheiro pastoral.
Capítulo 5    Desafios e Possibilidades no Aconselhamento...    121

Mesmo em casos de separação, divórcio ou luto, as pes-


soas continuarão escrevendo sua história. Ascendências e
descendências, vínculos e memórias, lutas e tristezas, alegrias
e esperança. Alguns carregam consigo histórias de dor, sofri-
mento e abusos, outros nem tanto. J. Loder escreveu que bio-
grafia não é destino, ou seja, não somos obrigados a repetir
erros ou seguir um script pré-determinado.

Muitas pessoas buscam ajuda ao perceber o potencial des-


trutivo que receberam e que não querem repetir! Adélia Prado
escreveu que “antepassado é um bonito nome para quem já
errou antes de nós. ”

A leitura constante de bons manuais de aconselhamento


ajuda quem trabalha nessa área ou é requisitado pelas de-
mandas da comunidade a se manter atento e atual, lendo ou
relendo bons livros e autores de reconhecido conhecimento.
Porém, nunca teremos todo o conhecimento de que necessi-
tamos. Sempre há algo novo a aprender ou algo a relembrar.
Segundo Bateson “A função da cura/cuidado é a de evocar no
paciente e no cuidador respostas anteriormente desconhecidas
e, portanto, criativas”.

Casais ou seus pastores podem se sentir desanimados fren-


te a tantas demandas, porém, a Bíblia nos garante que Deus
mesmo já nos supriu do que precisamos, conforme 2 Pedro
1.3-4:

seu divino poder nos tem dado tudo que diz respeito à
vida e à piedade, pelo pleno conhecimento daquele que
nos chamou por sua própria glória e virtude, pelas quais
ele nos deu suas preciosas e mais sublimes promessas
122    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

para que, por meio delas, vos torneis participantes da


natureza divina, tendo escapado da corrupção que há no
mundo por causa da cobiça.

Creia então, que essa intervenção é uma obra de fé aliada


ao conhecimento e técnicas que visam melhorar a relação hu-
mana mais importante, que é a família.

Recapitulando

Como foi dito, famílias são como orquestras, que por vezes
podem desafinar. Este capítulo procurou mostrar como con-
selheiros e cuidadores podem auxiliar casais e famílias desa-
finadas a voltarem a ter uma certa harmonia na sinfonia de
suas vidas. O conselheiro tem o papel de intervir tal como um
mediador ou maestro que auxilie os personagens da família a
enfrentar positiva e construtivamente seus problemas, crises e
conflitos, sejam eles de ordem intra ou interpessoais, fazendo
circular os conteúdos e os afetos. Enfatizou-se a abordagem
sistêmica de aconselhamento, que inicia pela escuta atenta de
todos os membros do grupo familiar. Nesse modelo, sabe-se
que quando se intervém sobre um membro, todos os demais
são afetados. Destacou-se ainda que o conselheiro é aquele
que poderá auxiliar a gestar o eventual caos familiar, reforçan-
do os aspectos saudáveis de cada indivíduo dentro do sistema
familiar a partir de sólidos referenciais bíblicos.
Capítulo 5    Desafios e Possibilidades no Aconselhamento...    123

Referências

BRUSTOLIN, Antonio (Org.). Família: novos horizontes. Porto


Alegre: EST Edições, 2008.

GONZÁLES VASQUEZ, Greisy, Estratégias de resolução de


conflito conjugal entre casais: semelhanças e diferenças.
2014. xii, 179 f. Dissertação (Mestrado em Psicologia Clí-
nica e Cultura) Universidade de Brasília, Brasília, 2014.

HACKNEY-NYE. Aconselhamento, Estratégias e Objetivos.


SP, EPU, 1997.

KOHL e BARRO. Aconselhamento cristão transformador.


Londrina, Editora Descoberta, 2006.

POUJOL, Jacques e Claire. O potencial criativo do conflito


no casamento. São Paulo: Editora Vida, 2004.

ROSSET, Solange Maria. 123 Técnicas de Psicoterapia Rela-


cional Sistêmica. Curitiba: Editora Sol, 2011.

SCHIPANI, Daniel. A arte de ser família. Buenos Aires: Edi-


torial Logos, 1993.

SCHIPANI, Daniel. O caminho da sabedoria no Aconselha-


mento Pastoral. São Leopoldo: Sinodal, 2004.

TRIPP, Paul David. Guerra das palavras. São Paulo: Editora


Cultura Cristã, 2011.

WAGNER, Adriana (Org.). Viver a dois, Programa Educativo


para Casais. São Leopoldo: Sinodal, 2015.
124    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

Atividades

1) Qual elemento é fundamental no início do processo tera-


pêutico com casais e família e por qual motivo?

2) Quando a intervenção sobre um elemento da família inter-


fere sobre o outro elemento do mesmo grupo familiar isso
nos permite afirmar que esse aconselhamento sempre será
de um caráter chamado _________________.

3) Ser assertivo em sessões de aconselhamento familiar impli-


ca_____________ _________________________________
_______________________________.

4) Qual a mensagem implícita quando alguém fala as coisas


“brincando”?

5) Descreva o sentido do termo “conjugalidade”.


Thomas
????????
Heimann1

Capítulo 6
?

Sofrimento,
Resiliência e fé 1

1 Doutor em Teologia. Coordenador do Curso de Teologia da ULBRA. Professor de


Teologia na área da Psicologia e Aconselhamento Pastoral. Professor do Curso de
Pós-Graduação em Gestão de Pessoas. Membro do Grupo de Pesquisa em Acon-
selhamento e Psicologia Pastoral da Faculdades EST. Pastor da Igreja Evangélica
Luterana do Brasil – IELB. Psicólogo clínico.
126    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

Introdução

A poetisa Cora Coralina afirma que “nada do que falamos


tem sentido se não tocarmos o coração das pessoas”. Ao te-
matizarmos neste capítulo o sofrimento humano e os esfor-
ços das pessoas em superá-lo, queremos fazê-lo a partir de
uma perspectiva que cumpra esse papel. Isso nos exige uma
abordagem não apenas conceitual, dogmática ou teórica,
mas também prática e existencial. Falar do sofrer nos remete
diretamente a uma ação interventiva solidária, na busca de
nos colocarmos ao lado dos que sofrem, dando consolo e
auxiliando na superação de seu sofrer.

É isso que também nos orienta Hebreus 13.3: “Lembrem-


se dos que estão sofrendo, como se estivessem sofrendo com
eles”. Esse texto evidencia a necessidade de uma abordagem
poimênica que exige uma postura empática com o sofrimento
dos outros, o que inclui colocar não só nosso intelecto a servi-
ço do que sofre, mas também nossas emoções e experiências.
Portanto, tratar do sofrer do outro com compaixão implica so-
frer com ele, “com paixão”, ou seja, amor e dedicação pelo
que se está fazendo.

O caminho escolhido para este capítulo destaca três con-


ceitos ou realidades que devem estar imbricados em uma
perspectiva de constante superação da vida: o sofrimento,
como o pano de fundo existencial; a resiliência como uma
capacidade a ser buscada por todos nós no enfrentamento das
adversidades; e, finalmente, a fé, que nos remete à dimensão
fundamental da esperança e presença de Deus em meio ao
nosso sofrer.
Capítulo 6    Sofrimento, Resiliência e fé     127

1S
 ofrimento: inexorável condição
humana

Sofrer é uma condição humana inexorável, da qual ninguém


pode escapar. Desde o útero materno até o momento da mor-
te, o ser humano irá se defrontar com diferentes faces, formas,
níveis e intensidades do sofrer, que poderão deixar marcas e
cicatrizes profundas nos indivíduos, ajudando a forjar a sua
personalidade. Muito do modo como pensamos, sentimos e
(re)agimos no tempo presente, estará relacionado, direta ou
indiretamente, com aquilo que vivemos e sofremos em nosso
passado. Como diz o ditado popular, “o ser humano aprende
na dor e no amor”.

Porém, não raras vezes, a dor e o sofrer serão professores


incompreensíveis, sendo inexplicáveis do ponto de vista da ló-
gica, da justiça e da compreensão humanas, tal como a nar-
rativa do livro de Jó exemplifica muito bem. O que queremos
dizer é que, mesmo que muitos dos sofrimentos possam ser
explicados em uma lógica simples de causa e consequência
(ex.: dirigir embriagado aumenta as chances de causar morte
ou sequelas por acidente), outros tantos sofrimentos irão fazer
parte do mistério divino. Nesse contexto, o conselheiro deve
evitar colocar-se na condição de advogado de Deus, tentando
por vezes explicar o inexplicável.

Porém, de qualquer modo que se analise, o sofrer é um


tema existencial, que transversaliza diferentes disciplinas no
campo das ciências humanas, sociais e da saúde. Teologica-
mente, desde a queda em pecado, toda a criação de Deus
está sujeita a alguma forma de sofrer, como diz a Bíblia em Ro-
128    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

manos 8.22: “Toda a criação, a um só tempo, geme e suporta


angústias até agora” ou ainda quando Jesus alerta: “no mun-
do passais por aflições”/“no mundo vocês vão sofrer” (João
16.33). Pelo viés da psicologia, compartilhar o sofrimento e
buscar ajuda para superá-lo é a causa central pela qual os
clientes/pacientes acorrem aos consultórios. Já pelo viés filo-
sófico, os estoicos estenderam a ideia do sofrimento para uma
realidade universal e cosmológica.2 Já para os existencialistas,
um dos temas centrais de sua filosofia é de que a vida é sofri-
mento, sendo que sobreviver implica encontrar sentido na dor.
Talvez, no campo do aconselhamento cristão, não haja tema
mais concretamente existencial do que o sofrimento humano.

2 Sofrimento: entendendo o conceito

Já que o sofrimento é nosso inevitável “companheiro de via-


gem” vamos tentar defini-lo. Os dicionários indicam que sofri-
mento, na origem etimológica do termo, vem do latim sufferre,
formado por duas palavras: su(b) = por baixo e ferre = car-
regar. O seu significado original está ligado à ideia de supor-
tar, aguentar, carregar. Em um segundo sentido, não menos
adequado, o termo está ligado à ideia de “ser condenado ou
castigado”. Para os antigos romanos, esse termo designava
escravos ou prisioneiros, que estavam “sob ferros”, acorrenta-
dos, submetidos à força, o que é uma imagem muito apropria-
da para quem vive intensos sofrimentos em sua vida.

2 Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. Volume IV. p. 520.


Capítulo 6    Sofrimento, Resiliência e fé     129

Já na língua grega, a palavra para sofrimento está ligada


ao verbo pascho = sofrer, suportar, que por sua vez está ligado
ao substantivo pathos, traduzido por paixão, mas que curiosa-
mente deu origem ao termo patologia, sinônimo de doença.
O sentido de ambas, paixão e doença, se refere a uma “par-
ticipação com dedicação plena”, seja para o bem ou para o
mal.

O teólogo protestante Gottfried Brakemeier vai dizer que o


conceito de sofrimento foge a uma definição racional ou teó-
rica, mas que, paradoxalmente, estará quase sempre envolto
de um profundo significado.3 Isso dá o tom da completa sub-
jetividade do conceito. A medicina e a psicologia apontam que
cada indivíduo possui um limiar pessoal e único para suportar
a dor e sofrimento. Para esse limiar individual, contribuem as-
pectos genéticos, físicos, sociais, morais, religiosos e culturais,
que juntos influenciam não só no limite físico e emocional da
dor, como também no sentido que cada indivíduo dá à sua
adversidade.

Por isso, é um erro julgar a dor e o sofrer do outro apenas


a partir de nossas próprias experiências pessoais. Os parâme-
tros do sofrer são muito particulares, a ponto do conselheiro
dever ter sempre em mente que um grande sofrimento para um
indivíduo poderá ser um elemento até comum na vida de outro
sujeito. Isso significa que, para alguém sofrer profundamente,
não terá sido necessário a exposição a um grande trauma ou
tragédia. As pequenas dores do cotidiano também são fontes

3 BRAKEMEIER, Gottfried. Prefácio à 3ª edição revista. Apud: GERSTENBERGER,


Erhard S. Por que sofrer?: o sofrimento na perspectiva bíblica. p. 9.
130    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

do sofrer, sendo que elas também necessitam ser escutadas e


nomeadas para que não se transformem em feridas mal cura-
das, causadoras de sofrimentos maiores.

Minimizar a dor dos outros, procurando apontar para sofri-


mentos piores vividos por outras pessoas, mesmo que pareça
um método válido no aconselhamento, normalmente será uma
estratégia inapropriada. Pode gerar no aconselhando senti-
mento de culpa, levando-o a uma quebra de confiança no
conselheiro, por não ter sido acolhido empaticamente no seu
sofrer. Porém, também deve-se evitar alimentar uma eventual
vitimização ou “coitadismo” do aconselhando. Se for percebi-
do pelo conselheiro a existência de um vínculo masoquista do
aconselhando com seu sofrer (pessoas que “gostam” de so-
frer), isso merecerá uma intervenção terapêutica adequada na
sessão de aconselhamento, para que tal vínculo seja rompido
e ressignificado.

Sem cairmos na tentação de estabelecermos uma hierar-


quia dos piores sofrimentos existentes, o certo é que a dor e o
sofrimento humanos possuem muitos rostos e variadas faces,
mais do que podemos imaginar. Se quisermos, como cuidado-
res, contemplar cada uma dessas faces que procuram em nós
auxílio para o seu sofrer é preciso evitar explicações e interven-
ções herméticas, fechadas, teóricas ou puramente racionais.
Frases prontas, belas ou pomposas, inclusive versículos bíblicos
conhecidos, do tipo: “todas as coisas cooperam para o bem
daqueles que amam a Deus”; “Deus proverá”, “Deus vai te
libertar!” ou chavões do tipo “Tudo vai dar certo”, “Isso vai pas-
sar”, “Pense que há sofrimentos piores” muitas vezes só servem
para nos proteger da dor do outro, ao mesmo tempo que nos
Capítulo 6    Sofrimento, Resiliência e fé     131

afastam de um verdadeiro e empático modo de cuidar. A leitu-


ra dos Salmos e outros textos bíblicos nos ajudam a entender
que Deus acolhe incondicionalmente o desabafo de seus filhos
diante dos sofrimentos e adversidades. Mesmo que saibamos
que as promessas de consolo, perdão, livramento e salvação
sejam fundamentais no aconselhamento cristão, elas têm o seu
momento correto de serem anunciadas a quem sofre.

Como cuidadores e conselheiros, somos desafiados a ir ao


encontro de cada pessoa na sua individualidade e ter cora-
gem para mergulhar fundo na experiência específica e singular
daquele que sofre. É preciso se fazer presente em uma escuta
empática e amorosa, buscando auxiliar as pessoas a encon-
trar forças e sentido para conviver, lutar e tentar superar o seu
sofrer, o que por vezes será muito difícil. Essa forma de agir
diante do que sofre é reforçada pelas palavras de Brakemeier:

[...] sofrimento humano não se resolve por técnica e pro-


fissionalismo. Por mais necessária que seja a observa-
ção de regras na assistência a pessoas em crise, não é
metodologia que conduz ao consolo. Uma compreensão
de vida está em jogo, uma visão de realidade, uma fé
capaz de resistir às tempestades que ameaçam afundar
o barco. Somente empatia vai poder compartilhar e in-
termediar os recursos indispensáveis para a recuperação
de ânimo.4

Ter essa visão em mente é uma boa prática de aconse-


lhamento. Todas as teorizações sobre o sofrer caem por terra

4 BRAKEMEIER. p. 7.
132    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

quando estamos diante da narrativa pessoal, única e singular


de quem sofre, como orienta o texto bíblico: “Lembrem-se dos
que sofrem, como se estivessem sofrendo com eles”. Isso nos
remete para o segundo conceito do capítulo, que se pauta
justamente sobre o sentido e sobre a atitude tomada pelas
pessoas frente ao seu sofrimento, em um conceito conhecido
hoje como resiliência.

3R
 esiliência: a capacidade humana de
superar obstáculos

Pelo fato da resiliência ser um conceito com o qual não es-


tamos muito familiarizados no meio teológico, é necessário
que explanemos acerca de suas origens e características, visto
ser um conceito de grande relevância para a compreensão de
como as pessoas lidam com o seu sofrer.

Resiliência é um conceito herdado da Física e diz respeito à


capacidade de um material deformar-se por sofrer fortes ten-
sões e pressões, retornando depois ao seu estado original sem
perder a sua integridade, como uma mola ou elástico. Físicos
e engenheiros, por exemplo, vão utilizar a noção de módulo
de resiliência para calcular a quantidade máxima de energia
que um dado material pode absorver ao ser submetido a de-
terminado impacto, deformando-se sem se romper e voltando
posteriormente à forma primitiva. Tal noção relaciona-se ao li-
Capítulo 6    Sofrimento, Resiliência e fé     133

mite de elasticidade do material.5 Em um jargão popular, seria


algo similar ao conhecido ditado: “Verga, mas não quebra”.

Aplicado ao campo das ciências humanas e da saúde, o


conceito se associa intimamente ao tema do sofrimento. Ele
passou a ser usado a partir de estudos de epistemologia social
realizados em uma população vivendo em extrema pobreza na
ilha de Kauaui (Havaí). Ao longo de 32 anos, pesquisadores
verificaram que uma boa parte da população estava subme-
tida, além da pobreza, à situação de estresse, dissolução do
vínculo familiar, alcoolismo, abuso sexual, entre outras situa-
ções de risco e que, apesar disso, muitas das pessoas que ali
viviam, desenvolviam uma capacidade de saúde e superação
das dificuldades e mantinham a esperança na construção de
um futuro.6

Nesse contexto, algumas definições de resiliência nos aju-


dam a compreender melhor o seu significado. Segundo Yunes
& Szymanski, define-se resiliência como os processos que ex-
plicam a “superação” de crises e adversidades em indivíduos,
grupos e organizações.7 Uma segunda definição afirma que
“resiliência é uma capacidade universal que permite que uma
pessoa, grupo ou comunidade previna, minimize ou supere

5 BRANDÃO e MAHFOUD. A construção do conceito de resiliência em psicologia:


discutindo as origens. In: Paideia maio-ago. 2011, Vol. 21, No. 49, 263-271. p.
264. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/paideia/v21n49/14.pdf>. Acesso
em: 10 fev 2016.
6 MELILLO. Aldo. Prefácio. In: ___. Resiliência: Descobrindo as próprias fortalezas.
p. 23.
7 YUNES e SZYMANSKI. Apud Maria Angela Mattar YUNES. Psicologia positiva e
resiliência: o foco no indivíduo e na família. Psicologia em Estudo, Maringá, v. 8,
num. esp. . p. 75-84, 2003.
134    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

os efeitos nocivos das adversidades”.8 Finalmente, resiliência


pode também ser vista como a capacidade que as pessoas
têm de atravessar situações de crise e de adversidades, [...]
superando-as e saindo destas fortalecidos e transformados po-
sitivamente.9

Em outras palavras, resiliência, é a capacidade humana


de não ser nocauteado pela doença, sofrimento ou trauma,
mas de continuar lutando mesmo em desvantagem, indo para
a frente, tentando viver o melhor possível, sem desistir e sem
perder a perspectiva de esperança no futuro. O resiliente de-
senvolve a capacidade de fazer das suas adversidades e crises
momentos para crescimento pessoal, de ressignificação de si
mesmo, da busca de sentido da sua adversidade e até de sua
própria existência. Implica sair amadurecido e fortalecido com
as dificuldades e os tombos que se leva na vida.

Do ponto de vista preventivo, autores como Oliveira (2001)


e Teles (2002), afirmam que a resiliência precisa ser desenvol-
vida como uma parte integrante e essencial da personalidade,
levando o indivíduo ao movimento de superação de suas crises.
Ruter, Grotberg e Ojeda, porém, enfatizam que a resiliência não
é uma qualidade isolada ou específica de um indivíduo, mas,
sim, um conjunto de processos sociais e intrapsíquicos que se
traduzem na capacidade do ser humano de ação e superação

8 Definição adotada pelo Projeto Internacional de Resiliência, coordenado por


Edith Grotberg e apoiado pela Bernard van Leer Foundation. Apud YUNES e SZY-
MANSKI. p. 75-84.
9 Rosley Sulek Buche BARROS. Resiliência, a nova competência do líder de su-
cesso. Disponível em: <http://www.psicopedagogia.com.br/artigos/artigo.
asp?entrID=777 Publicado em 07/01/2006>. Acesso em: 02 out. 2006.
Capítulo 6    Sofrimento, Resiliência e fé     135

frente às adversidades da vida.10 Nessa perspectiva, verifica-se


que a resiliência pode ser construída, aprendida e desenvolvida
desde os primeiros anos de vida, a partir de relacionamentos
saudáveis, da educação de valores morais e espirituais, bem
como a partir de redes de apoio sólidas (famílias, comunidades
de fé, grupos de amigos, escolas etc.).

Na teologia pastoral, como já foi dito, o uso do concei-


to resiliência não é comum, afinal o termo inexiste na Bíblia
enquanto vocábulo. Por outro lado, no sentido prático da pa-
lavra, a resiliência é visível em muitas das histórias e narrati-
vas de personagens bíblicos, tendo em Jó talvez o seu grande
exemplo. Jó é uma figura paradigmática para o sofrimento
humano em diferentes tempos e contextos. Jó sobreviveu às
mais diferentes, sucessivas e cruéis tragédias pessoais e hu-
manas e mesmo assim manteve-se íntegro aos seus princípios,
aos seus valores e ao seu Deus, sendo um grande exemplo de
resiliência para todos nós. Venceu as crises, apesar de ter sido
muito “machucado” por elas.

Importante, porém, é dizer que ser resiliente não é ser pas-


sivo, conformado ou resignado diante dos sofrimentos. Jó não
sofreu de braços cruzados. Ele protestou, argumentou e deba-
teu com o próprio Deus, assim como tantos outros profetas e
salmistas fizeram: deram voz a sua dor, clamaram por socor-
ro, buscando encontrar nos seus lamentos e protestos o rosto

10 CHIATTONE Heloisa Benevides de Carvalho. ROCHA, Regina Célia Rocha TOR-


LAI. Viviane Cristina ZANICHELLI. Maria Aparecida. Programa de Humanização em
Onco-Hematologia – O Cinema Como Estratégia Psicológica a Pacientes Internados
e Seus Familiares. Disponível em: <http://www.abrale.org.br/apoio_profissional/
artigos/humanizacao_atend.php>. Acesso em: 21 mar. 2015.
136    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

amigo de Deus, que no final sempre se fez presente na vida de


cada um deles.

Viktor Frankl, fundador da logoterapia, talvez seja aquele


que melhor definiu a capacidade humana de não desistir na
adversidade e encontrar sentido mesmo no pior dos sofrimen-
tos. Sobrevivente dos campos de concentração nazista, Frankl
afirma: “Podemos encontrar sentido na vida mesmo quando
nos confrontamos com uma situação sem esperança, quan-
do enfrentamos uma fatalidade que não pode ser mudada.
(...) Quando já não somos capazes de mudar uma situação,
somos desafiados a mudar a nós próprios”11. O problema,
portanto, não está no sofrimento em si, mas no próprio sujeito,
no sentido que vai ser atribuído a ele por qualquer indivíduo.

Porém, como conselheiros, precisamos olhar também para


aqueles que possuem dificuldades no enfrentamento de seus
sofrimentos, ou seja, para os indivíduos não resilientes. Não
são poucas as pessoas que ao terem vivido uma experiência
de sofrimento acabam fazendo um pacto com a tragédia, com
o trauma sofrido, ficando amarrados perenemente a esse seu
sofrer. Os não resilientes revivem o seu trauma a cada dia,
se alimentando dele, criando um laço “harmonioso” com o
sofrer, em um vínculo não saudável, de caráter quase maso-
quista. Esse é um ato muito perigoso, pois o indivíduo “opta”,
mesmo que de forma inconsciente, em se tornar um prisionei-
ro do sofrimento vivenciado no passado. Para piorar, os não
resilientes podem deixar de viver com alegria o seu presen-
te, abandonando qualquer interesse em superar seu trauma e

11 FRANKEL, Viktor. p. 137.


Capítulo 6    Sofrimento, Resiliência e fé     137

avançar para o futuro. Aqueles que não conseguem perdoar


a si mesmos e aos outros são um claro exemplo dessa falta
de resiliência, assim como pode ocorrer em alguns tipos de
depressão mais severas. É destes, em especial, que precisamos
nos preocupar e intervir de forma mais séria e cuidadosa como
conselheiros.

Importante dizer, porém, que mesmo nos não resilientes é


possível despertar suas capacidades adormecidas de resiliên-
cia. Todos nós nascemos com alguns aspectos dela, em maior
ou menor medida. Entretanto, o que precisa ser enfatizado é
que resiliência, fundamentalmente, se tece ao longo da vida.
Ela nunca se constrói sozinha ou brota do nada; ela sempre
será uma dinâmica de vínculos e relações com o outro, fruto
de um conjunto de processos sociais e intrapsíquicos.12 Se o
indivíduo não teve bons vínculos no passado, será preciso re-
construir novos vínculos com figuras representativas do presen-
te, sendo que o conselheiro pode se tornar uma dessas figuras.

Porém, o nosso papel de conselheiros e promotores da re-


siliência de quem sofre não passa apenas pelo resgate das
fortalezas e qualidades pessoais de cada um. Ela precisa
abranger uma intervenção sobre os grupos aos quais o indiví-
duo pertence. A família, as comunidades religiosas e demais
grupos sociais precisam servir como redes de apoio, atuando
ativa e diretamente na promoção e no equilíbrio dos fatores

12 CHIATTONE Heloisa Benevides de Carvalho. ROCHA, Regina Célia Rocha


TORLAI. Viviane Cristina ZANICHELLI. Maria Aparecida. Programa de Humanização
em Onco-Hematologia – O Cinema Como Estratégia Psicológica a Pacientes Inter-
nados e Seus Familiares. In: <http://www.abrale.org.br/apoio_profissional/artigos/
humanizacao_atend.php>.
138    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

de resiliência, colocando-se ao lado daquele que sofre, no


que chamamos de intervenção sistêmica. A igreja precisa servir
como uma comunidade terapêutica, promotora da resiliência
de seus membros e de todos aqueles a quem ela quer acolher.

Para Tavares, uma instituição resiliente é uma organização


reflexiva, onde as pessoas são inteligentes, livres, responsá-
veis, competentes e funcionam em uma relação de confiança,
empatia e solidariedade. Nesse sentido, transformam-se em
organizações vivas, dialéticas e dinâmicas, que promovem a
resiliência de quem delas participa.13 Já para Flach (1991),
ambientes facilitadores de resiliência apresentam característi-
cas tais como: estruturas coerentes e flexíveis, respeito, reco-
nhecimento, garantia de privacidade, tolerância às mudanças,
limites de comportamento definidos e realistas, comunicação
aberta, tolerância aos conflitos, busca de reconciliação; senti-
do de comunidade e empatia.14

Aqui, surgem algumas perguntas importantes: será que as


comunidades religiosas e até mesmo as nossas próprias famí-
lias têm sido instituições promotoras da resiliência? O quanto
as pessoas têm tentado se amparar mutuamente no seu dia a
dia?; buscando fortalecer a autoestima uns dos outros?; agin-
do com gentilezas, com palavras de apoio, com elogios since-
ros, com expressões de gratidão?; o quanto estamos atentos
aos que sofrem de forma visível ou em silêncio? Que tipo de
relacionamentos estamos promovendo com as pessoas com

13 TAVARES (Org.). Resiliência e educação. p. 60.


14 FLACH, apud PINHEIRO, Débora Patrícia Nemer. A Resiliência em Discussão. In:
Psicologia em Estudo. v. 9, n. 1. p. 67-75, 2004.
Capítulo 6    Sofrimento, Resiliência e fé     139

quem convivemos? Permitimos um clima de confiança mútua,


de coesão, de alegria e de bom humor nas nossas relações?

Essas perguntas reflexivas tocam em elementos que são


apontados por diversos autores como pilares importantes da
resiliência, que nos ajudam a prevenir e a superar as dores
e sofrimentos do dia a dia. Em um viés cristão, esses pilares
estão muito próximos do que nos diz Gálatas 5. 22-23: “Mas
o Espírito de Deus produz o amor, a alegria, a paz, a paciên-
cia, a delicadeza, a bondade, a fidelidade, a humildade e o
domínio próprio”.

Um aspecto em especial, porém, merece destaque como


fator promotor da resiliência. Desde o estudo em Kauaui até
os mais recentes, todos são unânimes em apontar que mesmo
diante das mais extremas formas de sofrer, se há o apoio irres-
trito de uma pessoa significativa na vida do que sofre, um rosto
de amor e afeto presente, essa é a condição indispensável
para as pessoas sobreviverem e superarem o seu sofrimento.
Se sofrer já é um peso, sofrer sozinho pode se tornar insupor-
tável.

Isso nos faz retornar ao importante conselho bíblico dado


pelo autor de Hebreus, cujo teor parece ter se transformado
em um preceito científico para aqueles que pretendem ser
bons cuidadores e agentes promotores de resiliência: “Lem-
brem-se dos que estão sofrendo, como se estivessem sofrendo
com eles”.

O maior e mais eficaz instrumento de resiliência proposto


pela ciência reside na presença viva e atuante de cada um
de nós sobre aqueles que Deus coloca em nossa vida e em
140    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

nosso caminho, tal como fez o samaritano com o viajante feri-


do na beira da estrada (Lucas 10.30-37). É um compromisso
que precisamos assumir, como diz a palavra de Deus: “Levai
as cargas uns dos outros e assim cumprireis a lei de Cristo”
(Gálatas 6.2). Dor compartilhada é certamente dor diminuída,
compartilhada tanto com pessoas como também com o pró-
prio Deus que nos convida: “Vinde a mim, vós que estais can-
sados e sobrecarregados, e eu vos darei descanso”. (Mateus
11.28). Com isso, chegamos finalmente ao último conceito
desse capítulo: a fé como principal fator de enfrentamento do
sofrer.

4A
 Fé como elemento de resiliência e
superação do sofrer

Já refletia Rubem Alves diante das grandes questões existen-


ciais que abalam o ser humano, dentre as quais o sofrimento
ocupa lugar de destaque: “Mas, e Deus, existe? A vida tem
sentido? [...] Ao que a alma religiosa só poderia responder:
“não sei. Mas eu desejo ardentemente que assim seja. E me
lanço inteira. Porque é mais belo o risco ao lado da esperança
que a certeza ao lado de um universo frio e sem sentido...”.15

Lançar-se na esperança da fé é um elemento vital para o


enfrentamento de adversidades. A própria ciência tem admiti-
do que a fé e confiança na companhia de Deus são elementos
diferenciais para o ser humano enfrentar com coragem e per-

15 ALVES, Rubem. O que é religião? 9. ed. São Paulo: Loyola, 2008. p. 126.
Capítulo 6    Sofrimento, Resiliência e fé     141

severança o seu sofrimento. Independentemente do sofrer que


a vida reserva a cada um de nós, Jesus promete “Eis que es-
tarei convosco todos os dias, até a consumação dos séculos”
(Mateus 29.20). Já no evangelho de João 16.33 Jesus acres-
centa: “Eu digo isso para que, por estarem unidos comigo,
vocês tenham paz. No mundo vocês vão sofrer, mas tenham
coragem. Eu venci o mundo”. A vivência de uma espiritualida-
de sadia e autêntica, que se traduz em uma vida de fé, entrega
e confiança a um Deus Protetor e Redentor é um importante
instrumento terapêutico, que contribui significativamente para
o enfrentamento positivo do sofrimento humano.

Em uma pesquisa empírica realizada com cem universitá-


rios acerca do sofrimento, perguntou-se a respeito das formas
e estratégias mais utilizadas para se enfrentar o sofrimento.
Pois em 73% das respostas surgiram ideias ligadas à fé em
Deus, à espiritualidade, à oração, à esperança nas promessas
divinas e à crença na ação de Deus sobre aquele que sofre,
dados que corroboram o parágrafo anterior.

Já vimos que para Viktor Frankl, a espiritualidade é um fa-


tor essencial para a vida humana, sendo uma condição deter-
minante da existência. Ela é, na verdade, um eixo organizador
da vida e da própria existência humana, revelando um para-
digma que permite encarar a vida, o sofrer e a própria morte
com uma nova compreensão libertária. A espiritualidade é um
valor que dá rumo à vida e gera esperança, sendo um indício
desejável de maturidade no curso vital.16

16 NEGREIROS, Teresa Creusa Góes Monteiro. Espiritualidade: desejo de eterni-


dade ou sinal de maturidade?, Revista Mal-Estar e Subjetividade/Fortaleza/v. III/n.
2/p. 275-291/Set. 2003.
142    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

Como vai dizer a teóloga e pesquisadora de resiliência,


Susana Rocca:

diante do sentimento de desvalimento, de desproteção e


de necessidade de ajuda que o ser humano tem diante
do sofrimento, a crença em um ser superior, [...] constitui
uma força de sustento, recuperação e de proteção, atin-
ge a solidão interior de quem padece a dor, motivando
um vínculo com um Outro transcendente com quem se
pode contar e se sentir seguro; propicia uma compreen-
são ou interpretação do que está acontecendo, favore-
cendo a busca de sentido em vistas à superação da si-
tuação traumática e do sofrimento. É por isso que tantas
vezes até pessoas que não se consideram religiosas, em
momentos de crise, doença, ou problemas graves, pro-
curam e encontram, na fé e na religião, consolo, con-
forto, apoio, e até força e sentido para seguir adiante.
Constata-se que, para muitos, a crença em um ser supe-
rior, o fato de poder contar com sua presença e ajuda, é
um pilar fundamental para a superação, especialmente
diante das situações difíceis, violência, acidente, luto, ou
doença terminal, entre outras.17

A fé, portanto, confirma a esperança da proteção e do


amor divinos, mesmo na pior das adversidades. A fé conforta
e revigora a alma, oferecendo um sentido transcendente para
a dor e para o sofrimento. A fé, inclusive, leva o indivíduo a
uma preparação para um melhor enfrentamento da sua morte,

17 LARROSA, Susana María Rocca. Resiliência e cuidado. Revisto IHU online. Dis-
ponível em: <http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_content&vi
ew=article&id=1429&secao=241>. Acesso em: 13 mar. 2016.
Capítulo 6    Sofrimento, Resiliência e fé     143

a grande causadora da angústia humana, apontado na pes-


quisa com os universitários como o pior dos sofrimentos. A fé
tem a capacidade de aplacar o terror da morte, transforman-
do esse momento na esperança do encontro definitivo com o
Criador, onde “já não haverá lágrimas, nem choro, nem dor”,
como promete o texto de Apocalipse 21.4.

5 Sofrimento, resiliência e fé: perspectivas


para a superação de adversidades

Desenvolver a resiliência das pessoas e das comunidades de


fé deveria ser um projeto de cada teólogo e conselheiro, como
forma de prevenção e intervenção sobre o impacto do sofri-
mento na vida das pessoas e grupos. Isso pode e deve ser
feito em dois níveis: individual e coletivo. Walsh (1998) ao
trabalhar com a resiliência no âmbito familiar estabeleceu al-
guns processos-chave para o seu desenvolvimento, dividindo
-os em três áreas ou classes: Sistema de crenças, Padrões de
organização e Processos de comunicação.18 Apesar de ter sido
gestado para aplicação no contexto familiar, a transposição
do modelo para o contexto religioso, da família da fé, é ple-
namente possível.

Para Walsh o coração e a alma da resiliência se encontram


no Sistema de Crenças do indivíduo, que implica três momen-
tos ou ações. a) Atribuir sentido à adversidade, valorizando
as relações interpessoais e reconhecendo que as adversidades

18 WALSH. Apud YUNES. p. 75-84.


144    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

fazem parte do ciclo de vida; b) um olhar positivo, que pres-


supõe desenvolver a iniciativa, coragem, perseverança e espe-
rança, confrontando o que é possível e aceitando o que não
pode ser mudado; c) transcendência e espiritualidade: a fé e a
comunhão como agentes de transformação e crescimento na
adversidade.19 Vemos que os princípios da fé cristã se encai-
xam plenamente nessa proposta, mostrando o quanto ciência
e fé se aproximam no cuidado do sofrimento humano.

A segunda área do projeto de resiliência proposto por Wal-


sh são os Padrões de Organização, que abrangem três medi-
das interventivas: a) fomentar a flexibilidade ou capacidade de
mudança das pessoas e grupos, por vezes compactuadas com
formas negativas e masoquistas de lidar com o sofrimento; b)
promover a coesão grupal (da família, dos amigos, da comu-
nidade de fé etc.), que pressupõe apoio, colaboração e com-
promisso mútuos diante dos dilemas, conflitos e dificuldades;
c) arregimentar recursos sociais e econômicos, o que prevê a
mobilização da família extensa e demais redes de apoio so-
cial.20 Esse último aspecto contempla um sentido mais prático
de tentar resolver concretamente os problemas das pessoas
(auxílio para atendimento médico ou psicológico, compra de
medicações, auxílio financeiro, voluntariar-se para cuidar de
alguém etc.).

A terceira área que Walsh diz ser necessário intervir para


promover a resiliência está ligada aos Processos de Comuni-
cação, que vai exigir o respeito a três normas comunicacionais

19 WALSH. Apud YUNES. p. 75-84.


20 WALSH. Apud YUNES. p. 75-84.
Capítulo 6    Sofrimento, Resiliência e fé     145

das pessoas e grupos: a) clareza, ou seja, as mensagens preci-


sam ser claras e consistentes; b) expressões emocionais “aber-
tas”, que pressupõe o compartilhar de sentimentos variados,
empatia e interações prazerosas; c) colaboração na solução
de problemas, com uma postura proativa e compartilhamento
na tomada de decisões.21

O que chama a atenção nessa proposta, que não parte de


um contexto religioso ou cristão, é de que ela se alinha muito
com uma proposta bíblica de auxílio aos que sofrem. Porém,
não pode ser esquecido que o maior e mais sublime caminho
para a resiliência é o caminho do amor. Não qualquer amor,
mas o amor que emana de Deus e que é personificado na fi-
gura do Salvador Jesus Cristo, o maior exemplo de resiliência.
Na forma como Cristo lidou com seu sofrimento, aprendemos
o caminho que também precisamos trilhar: vivendo e pratican-
do o amor, em confiança plena de que Deus nos sustenta em
toda e qualquer situação.

6 Considerações Finais

“Lembrem-se dos que estão sofrendo, como se estivessem so-


frendo com eles”. Tenho certeza de que, na condição de teó-
logos, conselheiros e líderes religiosos, nós nos encontraremos
com muitas pessoas que estarão sofrendo. Muitos dizem que
não há crescimento humano sem vivências de sofrer. Hesíodo,
poeta épico, afirma que as provações tornam os seres huma-

21 WALSH. Apud YUNES. p. 75-84.


146    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

nos mais sábios. As tragédias ensinam a verdade profunda de


que, por meio do sofrimento, aprendemos a ser quem real-
mente somos.22

Em uma perspectiva bíblica, é preciso lembrar que os dra-


mas, as tragédias, os sofrimentos e as dores retratadas pelos
diversos personagens da Bíblia são as mesmas dores e sofri-
mentos que cada indivíduo viveu, vive ou quem sabe ainda
viverá na sua vida: ciúme, inveja, traições, miséria, doenças
físicas e psíquicas, tragédias pessoais e familiares, dúvidas,
raiva, sofrimento e morte. Se quisermos usar a Bíblia como
instrumento para promover a resiliência, para consolo e su-
peração do sofrimento, precisamos dar às pessoas o mesmo
espaço que Deus deu na Bíblia para a expressão da dor e do
sofrer humanos. Porém, sem abdicar da fé e do anúncio da
esperança naquele que nos sustenta e de cujas mãos ninguém
nos pode arrancar: o nosso Salvador.

O sofrimento está aí, ao nosso redor. Não podemos ficar


impassíveis a ele. Essa é nossa missão, sermos o rosto que leva
conforto, paz e cuidado. E isso nunca se faz sozinho. É pre-
sença do outro, é apoio mútuo, é comunhão em meio à dor.
Precisamos uns dos outros na luta contra o sofrer. Mas, acima
de tudo, precisamos do exemplo de Cristo, quando no pior e
mais trágico momento de sua vida, teve a serena confiança de
confessar: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito”.

22 Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. Volume IV. p. 520.


Capítulo 6    Sofrimento, Resiliência e fé     147

Recapitulando

Vimos que o sofrimento é um fenômeno universal, profunda-


mente existencial e que sempre atingirá o ser humano em al-
gum momento de sua vida, desorganizando o seu equilíbrio
emocional, físico e espiritual. Por vezes, o sofrimento será um
cruel professor, mas que permite ressignificações importantes
na vida de cada indivíduo. A grande questão não é o sofrer,
mas como o ser humano vai lidar com seu sofrer. Destacou-se
o desenvolvimento da resiliência como o conjunto de capa-
cidades humanas que auxiliam na superação de obstáculos
e dificuldades. O conselheiro precisa aprender a promover a
resiliência na dimensão individual, familiar e institucional, de
modo a transformar as comunidades de fé em comunidades
terapêuticas. Deve estar atento, especialmente, aos não resi-
lientes, que necessitam de um apoio e acompanhamento mais
contínuos. Por último, destacou-se a fé como um elemento de-
terminante para o enfrentamento saudável de todas as formas
de sofrer. Na certeza da presença e companhia de Cristo, o
cristão encontra força e consolo diante dos piores sofrimentos.

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DO NOVO TESTAMENTO. Colin Brown (Editor geral). Vol
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Psicologia positiva e resiliência: o foco no indivíduo e na
família. Psicologia em Estudo. Maringá, v. 8, num. esp..
p. 75-84, 2003.
150    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

Atividades

1) O conceito etimológico de sofrimento pode ser buscado


em duas línguas. No latim, vem de sufferre, que está liga-
do a ideia de _____________________________________
_________. Já na língua grega, o termo pascho significa
________________. Finalmente, para os antigos romanos,
o termo designava _________________________________.

2) O conceito de resiliência é originário do campo da Físi-


ca e diz respeito a_________________________________
_________________________________, que permite uma
analogia clara com a área das humanas.


3)
Walsh (1998), ao trabalhar com a resiliên-
cia no âmbito familiar, estabeleceu alguns proces-
sos-chave para o seu desenvolvimento, dividin-
do-os em três áreas ou classes, que são, a saber:
______________________________, _________________
_______________ e ______________________________.

4) A resiliência é uma característica humana que pode ser


percebida por algumas capacidades diante das adversida-
des. Reflita e descreva algumas delas.

5) Descreva em poucas palavras como Viktor Frankl vê a


questão da fé e da espiritualidade na superação do sofri-
mento.
Thomas
????????
Heimann1

Capítulo 7
?

Depressão e Outras
Doenças da Alma e
Espírito 1

1 Doutor em Teologia. Coordenador do Curso de Teologia da ULBRA. Professor de


Teologia na área da Psicologia e Aconselhamento Pastoral. Professor do Curso de
Pós-Graduação em Gestão de Pessoas. Membro do Grupo de Pesquisa em Acon-
selhamento e Psicologia Pastoral da Faculdades EST. Pastor da Igreja Evangélica
Luterana do Brasil – IELB. Psicólogo clínico.
152    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

Introdução

Na minha prática interdisciplinar entre a psicologia e teologia,


já fui inúmeras vezes questionado sobre se algumas doenças
seriam específicas do campo da alma ou espírito humano.
Essa pergunta não possui uma resposta simples, até porque
colocaria em suspeita um princípio cada vez mais sólido no
campo da saúde humana: a psicossomática. Na visão da ciên-
cia médica e das outras áreas da saúde, cada vez mais se
trabalha com o fato de que o nosso organismo é um todo
indivisível e integrado, seja para a promoção da saúde quanto
para o desenvolvimento de doenças. Nesse sentido, doenças e
sintomas físicos impactam no repertório emocional dos indiví-
duos, assim como traumas emocionais encontram ressonância
nos órgãos físicos de nosso corpo. Há um ditado que traduz
bem o que queremos dizer aqui: “mens sana in corpore sano”,
ou seja, “mente sã em corpo são”.

Porém, por influenciar/alterar direta e explicitamente o lado


emocional, afetivo e espiritual dos indivíduos, optamos por co-
locar a depressão e os transtornos de ansiedade como doen-
ças eminentemente da alma e do espírito, mesmo que iremos
demonstrar o quanto elas também estão imbricadas com as
questões físicas ou orgânicas.

1 Transtornos de Ansiedade

O conhecido texto bíblico proferido por Jesus no Sermão do


Monte diz: “Por isso vos digo: Não estejais ansiosos quanto à
Capítulo 7    Depressão e Outras Doenças da Alma e Espírito    153

vossa vida, pelo que haveis de comer, ou pelo que haveis de


beber; nem, quanto ao vosso corpo, pelo que haveis de ves-
tir...”.(Mateus 6.25). Também o apóstolo Paulo admoesta aos
filipenses. “Não andeis ansiosos de coisa alguma; em tudo,
porém, sejam conhecidas, diante de Deus, as vossas petições,
pela oração e pela súplica, com ações de graças”. (Filipenses
4.6)

Textos como esses nos mostram que a ansiedade é um tema


bíblico-existencial, que foi e precisa continuar a ser tematizado
no contexto do aconselhamento cristão.

Conforme diz o pesquisador e terapeuta cognitivo Robert


Leahy, vivemos na “era da Ansiedade”. Segundo estatísticas,
os índices de ansiedade vêm aumentando nos últimos 50
anos, sendo que, ao longo da vida, 30% das pessoas sofrerão
de um transtorno de ansiedade, não apenas por preocupações
normais do cotidiano, mas, sim, como um quadro clínico mais
grave.

Entre os possíveis fatores explicativos para esse aumento,


segundo alguns pesquisadores, destaca-se o enfraquecimen-
to das “conexões sociais” na contemporaneidade. Os laços
com as pessoas passaram a ser menos estáveis e previsíveis; os
divórcios se tornaram prática comum; as famílias estão mais
divididas e espalhadas; as comunidades locais se tornaram
menos coesas e mais dispersas; o individualismo e a solidão
ganharam força; o aumento da insegurança e da violência
deixaram de ser uma realidade apenas para as grandes cida-
des, passando a atingir a sociedade como um todo; a com-
petitividade econômica e a acirrada disputa do mercado de
154    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

emprego estão cada vez mais vorazes; os padrões ditatoriais


de beleza, do incentivo ao consumo e da necessidade de sta-
tus se tornam opressores. Esses são apenas alguns dos fatores
que estão contribuindo para o sentimento de que a vida não
é mais tão segura quanto já foi, aumentando o clima de inse-
gurança individual e coletiva, que se relacionam diretamente à
produção de maiores índices e níveis de ansiedade.2

A sensação é de que hoje se está mais desprotegido e vul-


nerável, em diferentes sentidos. Estudos sociológicos recentes,
tal como o desenvolvido por Zygmunt Bauman, que tratam
da modernidade líquida,3 ajudam a melhor compreendermos
as significativas mudanças sociais e culturais que compõem o
pano de fundo do aumento dos transtornos de ansiedade. Esse
contexto hostil precisa ser levado em conta nos processos de
aconselhamento, visto que as pessoas que pastoreamos tam-
bém estão sofrendo essas consequências.

Mas o que vem a ser ansiedade? Collins afirma que a an-


siedade “é uma sensação interna de apreensão, insegurança,
preocupação, inquietação e/ou temor que é acompanhado de

2 LEAHY, Robert. Livre de ansiedade. Porto Alegre: Artmed, 2011. p. 12-14.


3 Bauman define modernidade líquida como um momento em que a sociabilidade
humana experimenta uma transformação que pode ser sintetizada nos seguintes
processos: a metamorfose do cidadão, sujeito de direitos, em indivíduo em busca
de afirmação no espaço social; a passagem de estruturas de solidariedade coletiva
para as de disputa e competição; o enfraquecimento dos sistemas de proteção
estatal às intempéries da vida, gerando um permanente ambiente de incerteza; a
colocação da responsabilidade por eventuais fracassos no plano individual; o fim
da perspectiva do planejamento em longo prazo; e o divórcio e a iminente aparta-
ção total entre poder e política. Texto disponível em <http://revistacult.uol.com.br/
home/2010/03/entrevis-zygmunt-bauman/>. Acesso em: 08 mar. 2015.
Capítulo 7    Depressão e Outras Doenças da Alma e Espírito    155

elevada excitação física”,4 para o qual o corpo humano reage


em um estado de alerta, pronto para fugir ou lutar.

É sabido que indivíduos que são acometidos de transtornos


de ansiedade acabam sofrendo grande impacto sobre suas
vidas, pois frequentemente se descobrem incapazes de traba-
lhar de modo eficaz, de terem uma vida social prazerosa, de
viajar e até mesmo de manter relações afetivas estáveis. Fa-
lamos aqui, obviamente, não da ansiedade normal ou rea-
lista, que surge diante de um perigo real ou circunstancial.
Nesses casos, normalmente há uma relação proporcional da
ansiedade ao tamanho do perigo: quanto maior o perigo ou
ameaça tanto maior a ansiedade. Isso está dentro do campo
da normalidade. Nesse sentido, a ansiedade é um mecanis-
mo adaptativo, ligado aos instintos básicos de sobrevivência
do ser humano. Porém, queremos nos ocupar, neste capítulo,
da ansiedade patológica, cuja intensidade e cronicidade se
tornam uma carga por demais pesarosa para os indivíduos,
tornando-se motivo de aflição e angústia.

1.1 T
 ipos de transtornos de ansiedade e suas
causas
Para nos situarmos sobre o que estamos falando, dentre o
conjunto dos principais transtornos de ansiedade, citamos as
fobias, transtornos do pânico, agorafobia, transtornos obses-
sivos-compulsivos, estresses pós-traumáticos, ansiedade social
e ansiedade generalizada. Um conselheiro precisa reconhecer

4 COLLINS, Gary. Aconselhamento cristão. Século XXI. p. 90.


156    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

e admitir que a ansiedade, como um transtorno, trata-se de


uma doença real e duradoura, traduzindo-se em um quadro
clínico que tem consequências nocivas e impactantes sobre
a vida, saúde e bem-estar humano, não sendo uma escolha
deliberada do indivíduo5 nem tampouco sinal de falta de fé.
Vamos a uma breve descrição dos principais transtornos de
ansiedade que acometem as pessoas atualmente:

Fobias: é o medo exagerado de um estímulo ou de uma


situação específica. É um medo que possui certa lógica inicial:
medo de cachorro (pode morder), medo de avião (pode cair);
medo de água (pode se afogar), medo de lugares fechados
(pode sufocar ou ficar preso) etc. A intensidade da fobia pode
se tornar uma grande limitadora da liberdade e do bem-estar
do indivíduo.

Transtorno de pânico: nesse transtorno as pessoas têm


medo de suas próprias reações fisiológicas e psicológicas
diante de um estímulo. Suores, tremores, taquicardia são logo
interpretados como uma ameaça de colapso iminente ou de
morte. Pode estar relacionada com a agorafobia (medo em
ficar em espaços abertos e com muitas pessoas). Esse transtor-
no limita muito a vida e mobilidade do indivíduo, que acaba
ficando trancado em casa, só saindo na presença de uma pes-
soa na qual muito confia.

Transtorno obsessivo-compulsivo (TOC): o indivíduo


tem pensamentos recorrentes e obsessões que considera es-
tressantes, como pensar que está sendo contaminado, per-

5 LEAHY. p. 12-13.
Capítulo 7    Depressão e Outras Doenças da Alma e Espírito    157

dendo o controle, cometendo um erro ou se comportando


de modo inadequado. Para tentar controlar isso, ele tem uma
necessidade urgente de realizar determinadas ações, que bus-
cam neutralizar a angústia: lavar-se a todo momento, verificar
cinco vezes se trancou todas as janelas e portas, realizar rituais
arbitrários e repetitivos etc.

Transtorno de ansiedade generalizada: indica alguém


que se preocupa continuamente com um grande número de
coisas/assuntos; os pensamentos se voltam para as conse-
quências negativas dos fatos da vida e para formas de impe-
di-las; é acompanhado normalmente de insônia, tensão mus-
cular, problemas gastrointestinais etc., que são sintomas gerais
do estresse.

Transtorno de ansiedade social ou fobia social: são


pessoas que têm medo de serem observadas e julgadas por
outros em situações sociais (apresentações, festas, encontros,
cultos, missas, locais públicos etc.). Pelo medo da interação
social, as pessoas acabam se isolando e podem ficar suscetí-
veis ao uso de álcool e drogas, como forma de aliviar a sua
angústia.

Transtorno de estresse pós-traumático: é um medo ex-


cessivo gerado por uma exposição anterior a uma ameaça
ou dano (assaltos, estupros, violência física, acidentes graves,
incêndios, guerras, atentados etc.). As pessoas revivem esses
traumas muitas vezes, tanto em pesadelos quanto em flash
backs. Esse transtorno tem crescido na contemporaneidade
proporcionalmente ao aumento da violência.
158    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

Segundo Leahy, uma das coisas mais difíceis sobre os trans-


tornos de ansiedade é o sentimento de que precisamos nos
livrar dela, sendo esse um fardo quase maior do que a própria
ansiedade. Para esse autor, em certo sentido, a ansiedade é
parte natural da vida, sendo que todo ser humano se sentiu ou
se sentirá ansioso em algum momento de sua vida. A ansieda-
de faz parte da herança biológica do ser humano, no sentido
de que muitos de nossos medos são adaptativos, ligados aos
instintos básicos de sobrevivência. Admitir que sentimos ansie-
dade não deve se tornar algo vergonhoso, mas até libertador,
no sentido de ser um aprendizado daquilo que, por vezes, nos
caracteriza em nossa personalidade.6 Isso, porém, não signi-
fica que devemos nos render ou submeter a ela. Ter um trans-
torno de ansiedade exige que aprendamos a lidar com ele,
buscando ajuda para o seu enfrentamento.

Portanto, compreender o papel que a ansiedade desempe-


nha em nossa vida é fundamental para que possamos superá-
-la, o que não significa a sua completa eliminação, pois isso
pode se tornar impossível em alguns tipos ou níveis de transtor-
nos. Mas, como diz Leahy, é preciso aprender a neutralizá-la,
controlá-la e impedi-la de ser uma força debilitante e tirânica
que restringe a saúde e liberdade dos indivíduos.7

Collins nos ajuda a olhar para as diferentes causas que


podem gerar uma ansiedade patológica. A primeira causa são
as ameaças a coisas que julgamos importantes (a nossa vida,
a vida de quem amamos etc.). Dentre as principais ameaças

6 LEAHY. p. 153.
7 LEAHY. p. 14.
Capítulo 7    Depressão e Outras Doenças da Alma e Espírito    159

estão os perigos reais ou imaginários (violência, doenças, de-


semprego, ...), a perda da autoestima (ansiedade em manter
a autoimagem intocável), separações de pessoas significativas
(divórcios, morte, casamento dos filhos – que gera a síndrome
do ninho vazio, mudança de cidade etc.) e influências incons-
cientes (desejos e sentimentos que por não serem aceitos cons-
cientemente são reprimidos, mas continuam a agir gerando
angústia).

A segunda causa da ansiedade são os conflitos ou dilemas


da vida, diante das decisões cotidianas que precisamos tomar.
A terceira causa são os medos, que envolvem o medo do
fracasso, do futuro, da violência, da rejeição, da intimidade,
do sucesso, de assumir responsabilidades, da morte, da soli-
dão etc. Muitos medos reais, outros nem tanto. Uma quarta
causa são as necessidades não satisfeitas, que envolvem
pelo menos seis eixos principais: sobrevivência (necessidade
de continuar a existir), segurança (estabilidade econômica e
emocional), sexo (intimidade), significado (necessidade de ter
valor e fazer diferença), autorrealização (atingir objetivos na
vida) e individualidade (perceber a própria identidade).

Uma quinta causa adentra nas questões fisiológicas (cau-


sa biológica da ansiedade). A sexta e última causa passa pelas
diferenças individuais. Estas dizem respeito à singularidade
de cada sujeito. O que causa ansiedade e angústia em uma
pessoa pode até ser prazer para outra (ex.: esportes radicais
na água ou altura geram prazer em alguns, já para hidrófobos
ou acrófobos causam pânico). Isso está ligado a questões de
aprendizagem familiar e social, ao tipo de personalidade, ao
ambiente sociocultural, à fisiologia de cada um e às próprias
160    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

crenças espirituais de cada indivíduo. Pessoas que conseguem


se entregar confiantes aos cuidados de Deus têm menores ín-
dices de ansiedade, o que não quer dizer que não possam
desenvolver algum tipo de transtorno por alguma contingência
da vida.8

1.2 A
 conselhando pessoas com transtornos de
ansiedade
Certamente chegarão aos nossos gabinetes de aconselhamen-
to pessoas que estão sofrendo de ansiedade. O que podemos
fazer por elas? Collins nos dá algumas boas dicas, que come-
çam pelo reconhecimento do próprio conselheiro acerca de
suas próprias ansiedades. Precisamos, porém, não só conhe-
cer e reconhecer as nossas ansiedades, mas também traba-
lhá-las em nós. Isso nos dá condições de desenvolver maior
empatia e compreensão com a ansiedade do outro.9

Importante também é criar um espaço de escuta que dimi-


nua a tensão do aconselhando, ajudando-o a relaxar e sentir-
se mais controlado, para que possa se concentrar melhor nas
fontes da sua ansiedade durante a consulta. Algumas técnicas
de relaxamento podem ser usadas, como fechar os olhos e
imaginar-se em um lugar agradável, colocar uma música que
seja calma e relaxante, fazer uma oração que expresse con-
fiança etc. A sensibilidade do conselheiro deve ser aguçada
para verificar de que forma o aconselhando se sentirá mais

8 COLLINS. p. 92-97.
9 COLLINS. p. 99-100.
Capítulo 7    Depressão e Outras Doenças da Alma e Espírito    161

calmo, relaxado e confiante para expor suas angústias. A de-


monstração de uma postura de amor, compreensão e paciên-
cia por parte do conselheiro já é uma forma de intervenção
positiva. Por isso, não se deve dizer ao aconselhando que ele
“deva parar de se sentir ansioso”, acusando-o veladamente
de estar pecando ou expressando falta de confiança em Deus.
Igualmente, o uso de palavras tranquilizadoras, do tipo, “não
se preocupe, não vai acontecer nada de mais grave” podem
não ter nenhum efeito em pessoas com transtornos de ansie-
dade, inclusive aumentando o seu sentimento de culpa por
estarem se sentindo ansiosas diante de uma situação.10

Cabe a um conselheiro cristão, porém, reconhecer as suas


limitações e identificar aqueles casos em que precisará enca-
minhar o aconselhando a um médico para uma intervenção
medicamentosa, caso ele esteja em uma situação crítica e
aguda (recorrentes ataques de pânico, por exemplo). Da mes-
ma forma, também terapias cognitivo-comportamentais têm
obtido índices elevados de sucesso no tratamento de diversos
transtornos de ansiedade, sendo uma excelente alternativa te-
rapêutica. Portanto, em uma abordagem multi e interdiscipli-
nar, o conselheiro cristão deve encorajar o aconselhando a
seguir diferentes ações terapêuticas, fortalecendo também a fé
e a confiança em Deus.

O papel do conselheiro cristão é de anunciar as promessas


bíblicas, como a de Filipenses 4.6-7: “Não se preocupem com
nada, mas em todas as orações peçam a Deus o que vocês
precisam e sempre orem com o coração agradecido. E a paz

10 COLLINS, 99-100.
162    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

de Deus, que está além da compreensão humana, guardará


o coração e a mente de vocês, pois estão unidos com Cristo
Jesus”. Lembrar, porém, que mesmo confiando em Deus, a
ansiedade poderá ser um companheiro de jornada de mui-
tos cristãos. Jesus, em alguns momentos de sua vida, também
sentiu-se aflito e angustiado, como, por exemplo, no jardim
Getsêmani, diante da proximidade de sua paixão e morte.

2 A depressão: o mal do século

Tal como vimos nos transtornos de ansiedade, a depressão


também é uma doença cujo diagnóstico vem aumentando
significativamente nos últimos tempos, a ponto de ser consi-
derada como a doença típica do século XXI. Segundo dados
da OMS (Organização Mundial da Saúde), a depressão está
se tornando um problema de saúde pública, visto que as es-
tatísticas apontam que 5% da população mundial sofre dessa
doença, podendo chegar a 10% das pessoas que podem vir a
sofrer ao menos um episódio depressivo ao longo da vida.11 O
psicanalista Abrão Slavutski afirma que a modernidade líquida
talvez seja um dos fatores essenciais do aumento do desâni-
mo, da tristeza, da apatia, da falta de energia e da falta de
confiança no futuro, sintomas clássicos da depressão.12

11 GOMES, Antônio Maspoli de Araújo. Um olhar sobre a relação entre depressão


e religião em uma perspectiva pastoral. In: WONDRACEK, Karin. Sombras da alma:
tramas e tempos da depressão, 2012. p. 33.
12 SLAVUTSKI, Abrão. O desamparo dos depressivos. In: Sombras da alma: tramas
e tempos da depressão. p. 9.
Capítulo 7    Depressão e Outras Doenças da Alma e Espírito    163

A depressão, porém, não é uma doença nova. Hipócrates


já falava dela 2,5 mil anos atrás, já como problema orgânico,
cerebral, provocada por fatores externos, ligando-a à melan-
colia e à bílis negra. A depressão parece ter sido percebida
desde a antiguidade clássica, visto que A Ilíada, de Homero,
registra o suicídio de Ájax, que teria sido causado por uma
depressão. Já o filósofo grego Platão dizia que a depressão
era um problema filosófico, que poderia ser resolvido através
do diálogo e conversa.13 Também na Bíblia nós podemos dizer
que diversos personagens dão indicativos claros de terem vivi-
do depressões em suas vidas: Elias (1 Rs 19.1-18), Jó, Jonas
(4.3) e Jeremias (20.1-18) são alguns desses possíveis casos,
sendo que o texto de Lamentações de Jeremias, Capítulo 3.1-
20, exemplifica como um depressivo se sente, inclusive em re-
lação a Deus.

Segundo o psicólogo e professor de teologia Antônio Más-


poli Gomes, em uma perspectiva religiosa, sempre se buscou
estabelecer uma relação de causalidade entre a depressão e
problemas espirituais, tais como ação de demônios, conse-
quência de algum pecado, ira de Deus, falta de fé, afastamen-
to de Deus etc.14 Culturalmente falando, antes do advento da
ciência médica e psicológica, os povos da antiguidade consi-
deravam todas as doenças mentais como uma manifestação
dos espíritos malignos, entre elas, a depressão. Nessa pers-
pectiva, a depressão não é analisada nem tampouco tratada
como uma doença sistêmica, de origem biopsicoespiritual, o

13 GOMES, 2012. p. 34.


14 GOMES, Antônio Maspoli de Araújo. Depressão. In: Dicionário Brasileiro de
Teologia, 2008. p. 270.
164    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

que pode dificultar uma intervenção mais efetiva ou salutar por


parte do conselheiro pastoral, na busca de auxiliar pessoas
que estejam sofrendo desse transtorno.

Neste capítulo, vamos procurar analisar a depressão nessa


visão sistêmica e interdisciplinar, apontando também para pos-
síveis caminhos de intervenção pastoral.

2.1 Definindo e caracterizando a Depressão


Segundo os psiquiatras Kaplan e Sadock, a depressão pode
ser entendida de formas diferentes. No uso leigo, ela é sinôni-
mo de grande tristeza e desânimo. Já uma outra forma de en-
tendimento é vê-la como apenas um dos sintomas que podem
estar presentes em diversas patologias. Já no conceito que nos
interessa neste capítulo, a depressão é vista como uma síndro-
me ou doença do humor caracterizada por um conjunto de
sintomas variados, acompanhado de deficiências cognitivas,
psicomotoras, psicofisiológicas e interpessoais.15

Andrew Solomon, autor do livro O demônio do meio-dia:


uma anatomia da depressão, define depressão como uma de-
sordem do funcionamento da bioquímica cerebral que afeta
e compromete o funcionamento normal do organismo, com
reflexos ou consequências na vida pessoal em seus aspectos
emocionais ou psicológicos, familiares e sociais.16 Portanto, na
depressão, a mente e o cérebro acabam tendo seu funciona-

15 KAPLAN e SADOCK. Compêndio de Psiquiatria, 1995.


16 SOLOMON, Andrew. O demônio do meio-dia, uma anatomia da depressão. Rio
de Janeiro: Objetiva, 2002.
Capítulo 7    Depressão e Outras Doenças da Alma e Espírito    165

mento normal prejudicados, afetando diretamente no prejuízo


global da personalidade do indivíduo.

Os sintomas da depressão atacam a parte física (lentifica-


ção, dores de cabeça, dores crônicas, problemas gastrointes-
tinais, fadiga, cansaço, perda de energia, insônia ou sono de-
masiado, perda (ou aumento) de apetite e peso etc.), a parte
intelectual (dificuldade de concentração, problemas de memó-
ria, dificuldade em tomar decisões etc.), a parte afetiva/emo-
cional (tristeza constante, sentimentos de culpa, raiva, irritabili-
dade, baixa autoestima, sensações de fracasso, de inutilidade
etc.), a parte social/relacional (isolamento, solidão, dificulda-
de de se relacionar, dificuldades sexuais, perda de interesse
em atividades antes vistas como prazerosas etc.) assim como
afetam a parte espiritual (desesperança, dúvidas sobre a vida
de fé, sensação de ter sido abandonado por Deus, pensamen-
tos recorrentes sobre morte e suicídio como escape do sofrer).

Nesse sentido, por ser uma doença global, Gomes afirma


que devemos examinar e intervir sobre a depressão sob os
mais diferentes ângulos, abrangendo “o ponto de vista bioló-
gico, genético, cognitivo, social, história pessoal, econômico
e espiritual”.17

2.2 Causas e tipos de depressão


Por mais que a ciência tenha avançado, a causa exata da de-
pressão ainda permanece desconhecida. Do ponto de vista or-

17 GOMES, Antônio Maspoli de Araújo. Um olhar sobre depressão e religião em


uma perspectiva compreensiva. Estudos de Religião, v. 25, n. 40. p. 81-109, jan./
jun. 2011. p. 86.
166    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

gânico, a explicação mais plausível aponta para um desequi-


líbrio bioquímico especialmente na produção de endorfina e
serotonina, responsáveis nas sinapses dos neurônios, pela pro-
dução e controle do estado de humor. Pesquisas com depressi-
vos têm comprovado que esses pacientes sofrem de alterações
nas estruturas dos neurônios, especialmente no funcionamento
das sinapses.18 É nesse aspecto orgânico que se sustenta o uso
de medicamentos no tratamento de algumas depressões, bus-
cando restaurar o equilíbrio bioquímico do organismo.

Porém, em uma abordagem sistêmica da depressão, nor-


malmente um conjunto de fatores estará envolvido na instaura-
ção de um quadro depressivo, o que exigirá, por consequência
o uso de diferentes métodos, além do medicamentoso, no seu
tratamento. Isso dependerá do tipo de depressão que estiver-
mos lidando, que poderá variar na sua tipologia, forma ou
intensidade.

Dentre as possíveis causas da depressão, podem ser cita-


das: biológicas: excesso ou falta de algumas substâncias no
cérebro, os “neurotransmissores”; genéticas: herança familiar
multifatorial (histórico familiar de depressão); medicamento-
sas: alguns medicamentos como anti-hipertensivos, entre ou-
tros, podem ser causa da depressão, além do abuso de álcool
ou drogas; doenças clínicas: câncer, derrames, doença de
Parkinson e Alzheimer, transtornos hormonais, doença cardía-
ca, esclerose múltipla etc.; psicológicas: cognição negativa,
perdas precoces, situações traumáticas de vida, privação afe-
tiva, decepções amorosas etc.; sociais: solidão, síndrome do

18 GOMES, 2011. p. 86.


Capítulo 7    Depressão e Outras Doenças da Alma e Espírito    167

ninho vazio, envelhecimento, desemprego; espirituais: falta


de sentido transcendente, perda de referências morais e espi-
rituais.

O que muitos estudiosos afirmam é que normalmente dois


ou mais fatores dos listados anteriormente precisam interagir
para provocar um episódio depressivo significativo.

Já na tipologia das depressões, fala-se de depressões exó-


genas e endógenas. A depressão endógena é a depressão
constitucional e biológica, que se origina de dentro da pessoa
(endo=dentro). Ela pode surgir sem vínculo algum com fatos
ou possíveis experiências causadoras, estando ligada à heredi-
tariedade e a elementos mais profundos da personalidade. Se-
gundo o psiquiatra Abrão Slavutsky, por trás de uma depressão
pode estar presente uma profunda experiência de desamparo,
que acaba criando um vazio de sentido nos sujeitos, que pode
vir a se manifestar em algum momento da vida.19

Já a depressão exógena está relacionada às circunstâncias


de vida, aparecendo como uma reação depressiva da pes-
soa contra a situação na qual se encontra, tendo uma causa
externa ou fora da pessoa (exo=fora). É também chamada
de depressão reativa, afinal surge como uma reação, até cer-
to ponto normal, a eventos traumáticos, como morte, perdas,
separação etc. Pode-se dizer que na depressão endógena o
paciente “é” deprimido, ao passo que na reativa ele “está”
deprimido.20

19 SLAVUTSKI. p. 11.
20 PSIQUEWEB. Disponível em: <http://www.psiqweb.med.br/site/DefaultLimpo.
aspx?area=ES/VerDicionario&idZDicionario=226>. Acesso em: 13 jan. de 2013.
168    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

Dentre os tipos mais conhecidos ou comuns de depressões,


podemos citar: depressão pós-parto (mesmo sendo um bebê
desejado, a mãe pode passar a rejeitá-lo após o parto), distúr-
bio afetivo bipolar (antiga psicose maníaco-depressiva onde o
sujeito alterna momentos de tristeza profunda com momentos
de alegria excessiva ou humor irritado, em intensidade equi-
valente), distimia (depressão secundária, de grau mais leve
ou moderado, mas que se tornou cronificada, marcada pela
constante falta de alegria), depressão maior (quadro mais típi-
co da depressão, marcado por um conjunto de cinco ou mais
sintomas que se tornam duradouros por mais de duas sema-
nas) depressão sazonal (ocorre em uma determinada época
do ano ou próximo a uma data que (re)lembra uma perda
significativa).

2.3 D
 esconstruindo alguns mitos sobre
depressão
Alguns mitos que cercam a depressão precisam ser aqui des-
critos e desconstruídos, pois muitos deles prejudicam uma cor-
reta compreensão e intervenção sobre os depressivos. Portanto
vamos fazer algumas afirmativas do que a depressão “não é”:

Depressão não é uma escolha pessoal, mas, sim, uma


doença complexa

Ninguém escolhe se tornar um depressivo. Quando a de-


pressão se instaura no indivíduo, isso vai além da sua vontade,
sendo o resultado de um conjunto de elementos. Na escuta
de depressivos, é comum o desabafo de que, mesmo tendo o
forte desejo de não se sentir triste e apático, o sintoma é mais
Capítulo 7    Depressão e Outras Doenças da Alma e Espírito    169

forte do que o desejo de não senti-lo. Racionalmente, o indi-


víduo até pode dizer a si e aos outros que sabe que precisa ir
ao trabalho, se divertir, se relacionar, mas não encontra forças
internas para isso. Porém, isso não deve significar que deve-
mos nos tornar apenas “vítimas passivas” da depressão. O in-
divíduo tem uma responsabilidade pessoal intransferível sobre
a forma como irá encarar essa doença. Lutar contra a doença
é sim uma escolha, mas que exigirá esforço e força de vontade
do sujeito, talvez implicando mudanças comportamentais de
diferentes ordens, normalmente com o auxílio e incentivo de
pessoas significativas. O conselheiro pode se tornar um com-
panheiro de jornada nessa árdua luta, assim como os familia-
res e amigos do depressivo, que precisam atuar diretamente
como rede de apoio em uma proposta terapêutica sistêmica.

Depressão não é sinônimo de falta de fé ou sinal de


afastamento de Deus

Não é raro escutar no meio religioso que um indivíduo que


está em depressão é alguém que tem pouca fé ou que está
afastado de Deus. Isso se baseia em uma hermenêutica equi-
vocada de textos bíblicos. Versículos bíblicos ditos como verda-
des isoladas auxiliam a criar um pensamento mágico de que
um cristão estaria imune a doenças como a depressão. Isso
se choca frontalmente com a história de personagens bíblicos
que parecem ter vivenciado momentos de tristeza profunda,
indicando episódios depressivos. Não podemos julgar, criticar
ou acusar o depressivo de estar afastado de Deus, pois além
disso poder não corresponder à verdade, poderá significar um
peso/culpa ainda maior a ser colocado sobre os seus ombros.
Na escuta clínica de pessoas com depressão, muitos relatam
170    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

sentimentos de que foram abandonados por Deus, de que


Deus não ouve seu clamor e oração. Isso não significa falta de
fé, mas dúvida, o que também é expresso por muitos persona-
gens e textos bíblicos, como os Salmos. Isso não invalida o fato
de que, com certeza, o resgate da dimensão espiritual, a rela-
ção íntima com Deus e o depositar da alma angustiada junto
ao Deus da graça, misericórdia e amor é um passo fundamen-
tal para a luta contra a depressão. O texto de Isaías 40.29-31
precisa ser anunciado como promessa, mesmo sabendo que,
filhos de Deus podem sim ficar exaustos e sem forças.

Depressão não é fruto de um pecado específico, de


um defeito moral ou de uma falha de caráter

Há uma diferença sutil e ao mesmo tempo grandiosa em


classificarmos a depressão como a consequência direta de um
pecado cometido (como se fosse um castigo) ou de uma falha
de caráter, de afirmarmos que todos os males, doenças e so-
frimentos humanos são consequência natural da queda do ser
humano em pecado. Para o conselheiro pastoral Jay Adams,
por exemplo, a depressão enquanto transtorno mental sempre
estará ligada a alguma culpa, pecado ou violação de um pre-
ceito divino, descartando outras possíveis etiologias (causas).
Nessa linha de pensamento, muitas vezes, o depressivo é “co-
locado na parede” pelo conselheiro, no sentido da exigência
de uma confissão de um pecado que explique ou dê sentido
para o mal que ele está sofrendo. Porém, isso pode se tornar
uma violência ainda maior do que a própria depressão. No-
vamente, como um contraponto, precisamos admitir que um
pecado grave não confessado poderá, sim, contribuir para a
eclosão de um episódio depressivo, mas isso não é uma regra.
Capítulo 7    Depressão e Outras Doenças da Alma e Espírito    171

É preciso sempre ter em mente a visão sistêmica da depressão,


cujas causas podem ser as mais diversas.

Depressão não é apenas um estado de tristeza, de


desânimo, ou de preguiça

Segundo diz Gomes, os limites entre depressão e tristeza


ainda não são muito claros. A tristeza é uma reação saudável
do cérebro em situações de estresse: perda de um ente queri-
do, perda do emprego, perda do amor, doença etc. A tristeza
geralmente tem uma causa determinada. O sujeito sabe por
que se encontra triste. Sabe exatamente qual é a causa da sua
dor. Removendo-se essa causa, a tristeza tende a diminuir e
a desaparecer. Uma tristeza profunda, portanto, nem sempre
levará a uma depressão. A depressão, por sua vez, invariavel-
mente terá como um de seus sintomas a tristeza. Porém, a tris-
teza do deprimido, por outro lado, pode manifestar-se difusa.
Nas depressões endógenas, não precisa ter uma causa visível,
concreta ou consciente. Está relacionada à angústia, sendo
algo mais interno, profundo e indefinível.21

2.4 Cuidando de pessoas com depressão


A depressão, no dizer poético de São João da Cruz, místico
cristão do século XVI, é “a noite escura da alma”, onde até o
próprio Deus parece se esconder daquele que sofre, em um
sentimento total de desamparo e abandono. Pois é essa noite

21 MALTA, Dâmaris Cristina de Araújo. Angústia, fé e sentido da vida na pós-mo-


dernidade. In: GOMES, Antônio Maspoli de Araújo. Eclipse da alma. A depressão
e seu tratamento sob o olhar da psicologia, da psiquiatria e do aconselhamento
pastoral solidário. São Paulo: Fonte Editorial, 2010. p. 97.
172    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

que precisamos ter coragem de atravessar com o depressivo,


na tentativa de aproximá-lo do “doce calor e brilho da luz”,
que na visão cristã é o próprio Cristo. Mas o auxílio de Cristo
pode vir através de muitas formas e meios: médica, terapêuti-
ca, afetiva, social, espiritual etc.

O psicólogo e professor de teologia Antônio Máspoli


Gomes afirma que atualmente se utilizam quatro estratégias
conjugadas para o tratamento da depressão, que precisam
ser conhecidas pelos conselheiros pastorais para que possam
melhor auxiliar e aconselhar aqueles que buscam ajuda na
igreja. São elas: o tratamento psicofarmacológico (a partir
de um diagnóstico e receituário médico); o tratamento espi-
ritual (alguns manuais de psiquiatria hoje até recomendam a
oração e meditação como métodos auxiliares no tratamento
contra depressão); o tratamento psicoterápico (diferentes for-
mas de atendimento psicológico, independentemente da linha
de psicoterapia utilizada); qualidade de vida (diminuição dos
agentes estressores, prática de exercícios físicos e alimentação
adequada).

Na parte que compete ao conselheiro cristão, cujo foco é


o cuidado espiritual, é preciso reconhecer que cuidar e acon-
selhar pessoas com depressão não é tarefa simples. Não basta
querer ajudar. É preciso saber ajudar. Para ajudar, são impor-
tantes alguns elementos, como conhecer bem as dinâmicas
do processo depressivo, em toda a sua visão sistêmica; evitar
julgamentos morais e as “frases feitas”; permitir o livre desa-
bafo ou mesmo o silêncio do depressivo, com todas as suas
dúvidas, raivas, tristezas etc.; conhecer e respeitar a variedade
das reações depressivas, que podem alternar de uma com-
Capítulo 7    Depressão e Outras Doenças da Alma e Espírito    173

pleta apatia a uma extrema agressividade exterior; auxiliar a


mobilizar os recursos comunitários que funcionam como uma
rede de proteção e apoio.

Acima de tudo, o cuidador precisa ser alguém que promo-


ve a fé e a esperança na vida, permitindo ao depressivo en-
contrar novas perspectivas e sentidos para seu viver. Diante do
profundo desamparo do depressivo, o aconselhamento pre-
cisa se tornar uma profunda experiência de amor e cuidado.
Como afirma Andrew Solomon:

a depressão é a imperfeição no amor. Para podermos


amar, temos que ser criaturas capazes de se desespe-
rar ante as perdas, e a depressão é o mecanismo desse
desespero. Quando chega, degrada o eu da pessoa e
finalmente eclipsa sua capacidade de dar e receber afei-
ção. É a solidão dentro de nós que se torna manifesta, e
destrói não apenas a conexão com outros, mas também
a capacidade de estar apaziguadamente apenas consigo
mesmo. Embora não seja nenhum profilático contra a
depressão, o amor é o que acolchoa a mente e a pro-
tege de si mesma. Medicamentos e psicoterapia podem
renovar essa proteção, tornando mais fácil amar e ser
amado, e é por isso que funcionam.22

Essa receita de Andrew Solomon tanto mais irá funcionar


naqueles que creem no amor de Deus! Esse amor é um remé-
dio sem contraindicação, cujo efeito vai além desse mundo,
nos conduzindo à presença do Pai na eternidade.

22 SOLOMON. p. 15.
174    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

Portanto, a depressão, que é quase um morrer em vida,


precisa se tornar uma profunda experiência de amor e cuida-
do, visto que a depressão se torna mais leve para aqueles que
se amam.

Recapitulando

Vimos neste capítulo que os transtornos de ansiedade e a de-


pressão, mesmo que muitos possam imaginar que estejam
apenas ligadas a aspectos emocionais ou espirituais, precisam
ser considerados em uma perspectiva holística e integral, que
envolve todos os aspectos e dimensões humanas, incluindo
os aspectos fisiológicos e bioquímicos. O capítulo destacou o
preocupante crescimento dessas doenças na sociedade con-
temporânea, devido ao crescente enfraquecimento das cone-
xões sociais. Apesar disso, ambas as doenças já são percebi-
das nos relatos bíblicos. A ansiedade, que é um mecanismo
adaptativo, pode realmente se transformar em patologia gra-
ve, devendo então ser trabalhada em perspectiva multiprofis-
sional, assim como a própria depressão. Vimos as múltiplas
causas e os diferentes tipos de depressão existentes, enfatizan-
do, porém, a necessidade de desconstruir alguns mitos nega-
tivos sobre a depressão, cujos efeitos são nocivos para todo o
processo de aconselhamento. Em suma, o capítulo tentou ofe-
recer subsídios aos conselheiros para uma maior compreensão
e uma melhor intervenção sobre esses tipos de problemas tra-
zidos aos gabinetes de aconselhamento pastoral.
Capítulo 7    Depressão e Outras Doenças da Alma e Espírito    175

Referências

COLLINS, Gary R. Aconselhamento cristão: edição século


21. São Paulo: Vida Nova, 2004.

GOMES, Antônio Maspoli de Araújo. Depressão. In: Dicioná-


rio Brasileiro de Teologia. São Paulo: ASTE, 2008.

GOMES, Antônio Maspoli de Araújo. Um olhar sobre a relação


entre depressão e religião em uma perspectiva pastoral. In:
WONDRACEK, Karin (Org.). Sombras da alma: tramas e
tempos da depressão. São Leopoldo: Sinodal, 2012.

GOMES, Antônio Maspoli de Araújo. Um olhar sobre de-


pressão e religião em uma perspectiva compreensi-
va. Estudos de Religião. v. 25, n. 40. p. 81-109, jan./jun.
2011.

KAPLAN, Harold e SADOCK, Benjamim. Compêndio de Psi-


quiatria. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995.

LEAHY, Robert. Livre de ansiedade. Porto Alegre: Artmed,


2011.

MALTA, Dâmaris Cristina de Araújo. Angústia, fé e sentido da


vida na pós-modernidade. In: GOMES, Antônio Maspoli
de Araújo. Eclipse da alma. A depressão e seu tratamento
sob o olhar da psicologia, da psiquiatria e do aconselha-
mento pastoral solidário. São Paulo: Fonte Editorial, 2010.

PSIQUEWEB. Disponível em: <http://www.psiqweb.med.br/


site/DefaultLimpo.aspx?area=ES/VerDicionario&idZDicio-
nario=226>. Acesso em: 13 jan. 2013.
176    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

SLAVUTSKI, Abrão. O desamparo dos depressivos. In WON-


DRACEK, Karin (Org.). Sombras da alma: tramas e tem-
pos da depressão. São Leopoldo: Sinodal, 2012.

SOLOMON, Andrew. O demônio do meio-dia, uma anato-


mia da depressão. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002.

Atividades

1) Os níveis de ansiedade têm aumentado significati-


vamente nas últimas décadas, sendo que sociólo-
gos reputam isso a diversas mudanças sociais. Des-
taque pelo menos três dessas mudanças, vistas como
possíveis explicações:_______________________
_____________________________, __________________
_______________________________________________e
_____________________.

2) Procure preencher as lacunas com o que se pede. Ansie-


dade realista é aquela que __________________________
___________________. Por outro lado, se quisermos uma
definição de ansiedade na perspectiva fisiológica, diremos
que_____________________________________________
________________.

3) Dentre os principais transtornos de ansiedade, pode-


mos citar:_________, ________________________,
_____________________ e ________________.
Capítulo 7    Depressão e Outras Doenças da Alma e Espírito    177

4) “Um cristão verdadeiro não pode sentir ansiedade em sua


vida, pois isso seria sinal de falta de fé”. Reflita sobre essa
afirmativa e se posicione a respeito.

5) Escolha um personagem bíblico para analisar, no sentido


de encontrar nele sinais visíveis de depressão. Descreva os
seus achados.
Thomas
??????????
Heimann1

Capítulo 8
?

Aconselhamento Diante
da Morte e Luto 1

1 Doutor em Teologia. Coordenador do Curso de Teologia da ULBRA. Professor de


Teologia na área da Psicologia e Aconselhamento Pastoral. Professor do Curso de
Pós-Graduação em Gestão de Pessoas. Membro do Grupo de Pesquisa em Acon-
selhamento e Psicologia Pastoral da Faculdades EST. Pastor da Igreja Evangélica
Luterana do Brasil – IELB. Psicólogo clínico.
Capítulo 8    Aconselhamento Diante da Morte e Luto    179

Introdução

O enfrentamento da morte e do morrer talvez seja um dos mais


necessários e delicados momentos de intervenção e aconse-
lhamento pastoral. Isso se dá em função de que, mesmo sendo
uma das poucas certezas existenciais do ser humano, ninguém
parece estar plenamente preparado para o encontro com a
morte, seja com a sua própria ou com a morte de pessoas
significativas.

Este capítulo pretende fazer algumas reflexões sobre o tema


e apontar para os recursos espirituais e psicológicos que pos-
sibilitam uma melhor intervenção pastoral diante da morte, do
morrer e do luto decorrente de ambos.

1A
 morte como condição existencial pós
queda em pecado

Diz a Escritura Sagrada: “Por que o salário do pecado é a


morte!” (Romanos 6.23). Na perspectiva teológica cristã, após
a queda em pecado, não apenas o ser humano, mas toda a
perfeita criação de Deus tornaram-se mortais, física e biologi-
camente falando.

Na perspectiva das ciências biológicas, a morte é consti-


tuinte da vida. Estudos demonstram que, desde a vida intrau-
terina, já há células que estão morrendo, em um ciclo de vida
e morte que faz parte de todo organismo vivo sobre a terra.
180    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

Na perspectiva das religiões, porém, a morte não é o fim.


Mesmo sendo entendida de forma distinta pelas diferentes teo-
logias, há um consenso de que a morte é um momento de
transição, de passagem de um estado para outro. Ao plano
físico, orgânico e mortal é acrescido um plano espiritual, trans-
cendente, etéreo, imortal e eterno.2 Essa ideia está presente
desde as religiões primitivas até as religiões da contempora-
neidade, variando de concepções clássicas como a ressurrei-
ção, reencarnação, transmigração das almas até uma concep-
ção mais mística ou filosófica, de retorno da alma à energia
cósmica universal.

Diante da quase cruel objetividade da ciência, que ainda


não conseguiu provar a existência de vida após a morte, per-
cebe-se pelas diferentes visões religiosas uma clara inclinação
da civilização humana no sentido de alimentar a transcendên-
cia e a busca de imortalidade. A ciência, porém, considera
essa inclinação um mero produto do desejo humano de imor-
talidade, pelo fato dos indivíduos terem grande dificuldade
em admitir a sua finitude, fragilidade e efemeridade diante do
universo.

De um lado, portanto, nos confrontamos com a razão ló-


gica, que nos faz ter consciência da inevitabilidade da morte.
De outro lado evocamos a fé, que nos remete à dimensão da
confiança e esperança na imortalidade. A fé é definida pela
Escritura Sagrada como “... a certeza de que vamos receber

2 Nota: coloca-se aqui uma visão muito genérica sobre a dimensão espiritual, visto
que descrever as particularidades das diferentes religiões é tarefa extensa demais,
não sendo o objetivo deste estudo.
Capítulo 8    Aconselhamento Diante da Morte e Luto    181

as coisas que esperamos e a prova de que existem coisas que


não vemos” (Hebreus 11.1).

Nesse embate dialético entre ciência e religião, a tese da


morte inevitável encontra na fé a sua antítese. A fé, nesse sen-
tido, torna-se um divisor de águas no apoio, cuidado e acon-
selhamento a moribundos e enlutados, sendo uma importante
ferramenta terapêutica.

2M
 orte: fonte da angústia primária –
turbilhão de sentimentos

Já vimos que a morte perpassa a vida humana. Quem ainda


não a conheceu a partir da morte das pessoas que fazem parte
de seu círculo de convivência, um dia se encontrará com ela,
em um evento que será pessoal, singular, único e intransferível.
Como diz Martin Heidegger: “Ninguém pode sentir por mim
a minha dor, nem ninguém pode morrer por mim a minha
morte”.3

A realidade “nua e crua” da morte tem o papel de descons-


truir a onipotência e falso controle humano de sua própria vida.
É essa realidade que dá origem ao que os filósofos e psicólo-
gos chamam de “a angústia existencial primária”. A morte é,
no dizer de Becker (1973) a “mãe” de todas as angústias4 e no

3 Martin Heiddeger In: REZENDE, Vera Lúcia. Reflexões sobre a Vida e a Morte:
abordagem interdisciplinar do paciente terminal. Campinas, SP: Editora da Uni-
camp, 2000.
4 BECKER apud ESCUDEIRO, Aroldo. Convivendo com as perdas.
182    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

dizer de Freud “uma ferida narcísica irreparável”.5 Dói ao ser


humano tomar consciência de sua finitude e vulnerabilidade.

Mas falar de morte é também tratar do que é misterioso e


insondável na vida de cada um, pois ela é o grande mergulho
no “desconhecido”. Sabemos que o “desconhecido” sempre
traz consigo certa dose de angústia. Portanto, mesmo que a
fé religiosa e cristã nos dê a conhecer uma verdade transcen-
dente, retratada na esperança da vida eterna, mesmo cristãos
fiéis poderão se deparar com essa angústia diante do enfren-
tamento da morte.

É necessário, portanto, como teólogos e conselheiros, des-


fazermos alguns falsos conceitos. Um deles é o de afirmar que
cristãos não deveriam temer a morte ou chorar no seu luto.
Dizer que tais atos desapontariam a Deus e poderiam signifi-
car a não aceitação do amor divino ou a falta de confiança
plena Nele, visto a Bíblia afirmar que o “amor divino expulsa
o medo” (1 João 4.18), é uma atitude teologicamente equivo-
cada. Diante dessa teologia, muitos cristãos passam a ter ver-
gonha e culpa em expressar publicamente seu temor, dúvida,
angústia e sofrimento diante da morte, o que terapeuticamente
é um desastre.

Jesus Cristo, na sua condição de plena humanidade, além


de chorar pela morte de seu amigo Lázaro, também deu mos-
tras de sentimentos de temor e angústia diante de sua própria
morte, ao afirmar no Getsêmani: “Pai, se possível, afasta de
mim esse cálice” (Mateus 26.39). Algumas horas depois, pre-

5 FREUD, apud LELOUP, Jean-Yves. Além da luz e da sombra: sobre o viver, o morrer
e o ser. p. 17.
Capítulo 8    Aconselhamento Diante da Morte e Luto    183

gado na cruz, momentos antes de sua morte, Jesus clama ao


Pai dizendo: “Deus meu, Deus meu, Porque me desamparas-
te?” (Mateus 27.46). Aqui, descortina-se, a partir do próprio
Deus-homem, todo o temor e sentimento de desamparo que
a morte evoca nos seres humanos. Isso precisa ser levado em
consideração pelos conselheiros diante do aconselhamento a
moribundos e enlutados.

3A
 angústia religiosa diante da morte:
espiritualidade terapêutica

Em estudos socioculturais sobre a morte, Chiavenato verificou


que algumas sociedades impregnadas de conceitos religiosos,
nas quais existia a clara ideia de imortalidade, traziam indicati-
vos de um forte temor pela morte. Paradoxalmente, esse temor
não era percebido em povos primitivos, que não tinham desen-
volvido ideias muito elaboradas sobre a vida após a morte.6

Lester, outro pesquisador da área, após examinar dez es-


tudos nesse campo do conhecimento verificou a existência
de resultados discrepantes, chegando à conclusão de que “a
crença religiosa não afeta a intensidade do medo à morte,
mas antes canaliza o medo para os problemas específicos que
cada religião propõe”.7

6 CHIAVENATO, Júlio A morte: uma abordagem sociocultural. p. 16.


7 BARROS-OLIVEIRA, José e NETO, Félix. Validação de um instrumento sobre diver-
sas perspectivas da morte. p. 357 In: Análise Psicológica (2004), 2 (XXII): 355-367.
184    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

Não há, portanto, como “quantificar” a angústia que a


morte causa nesta ou naquela religião, muito menos em cada
indivíduo. Isso é mediado pelas crenças, valores e experiên-
cias pessoais de cada ser humano diante do enfrentamento
da(s) sua(s) morte(s), o que é muito subjetivo. Porém, é muito
provável que uma espiritualidade ou fé norteada por crenças
religiosas que enfatizem o pecado, o juízo e a condenação
eternas influenciem negativamente o indivíduo diante da morte
e do morrer, gerando no mesmo uma maior possibilidade de
sentimentos de temor e angústia.

É preciso, portanto, que em nosso ofício de cuidar das pes-


soas em seus momentos finais, nos demos conta desse aspecto
e possamos ser portadores de uma palavra de conforto e es-
perança, que favoreça a ação consoladora do Espírito Santo
e não a atrapalhe.

O reformador Martinho Lutero também se ocupou do tema da


angústia da morte. Ele orienta que o cristão deveria refletir sobre
sua morte enquanto ainda estivesse bem vivo, para que quando
a morte chegasse não provocasse tanto medo e terror. Diz Lutero:

em vida, deveríamos ocupar-nos com a ideia da morte e


defrontar-nos com ela enquanto ainda está longe e não
nos angustia. É perigoso e de nada adianta ocupar-nos
com ela na hora de morrer. Então a morte, por si só, já
é forte demais. Devemos afastar sua imagem de nossa
mente e negar-nos a vê-la. Portanto, a morte tem seu
poder e sua força na fraqueza de nossa natureza.8

8 LUTERO, Martinho. Consolo no Sofrimento. p. 11.


Capítulo 8    Aconselhamento Diante da Morte e Luto    185

É inevitável que a morte produza um turbilhão de sentimen-


tos, que podem se fundir e confundir em um mesmo espaço de
tempo. De modo geral, a morte está associada a sentimentos
como ansiedade, tristeza, melancolia, angústia, aflição, medo,
pavor, tristeza, abandono, solidão, dúvida, saudade, desespe-
rança, sofrimento, apego, revolta, culpa, ira, entre outros.

Porém, sentimentos positivos como alívio, alegria, espe-


rança, fé, amor, acolhimento, serenidade, confiança, entrega,
desapego, desprendimento, reencontro, segurança e certeza
da companhia divina também podem ser encontrados, espe-
cialmente naqueles que vivenciam uma forte dimensão de fé
nas suas vidas.

Em seu “Sermão sobre a preparação para a morte” o refor-


mador Martinho Lutero fala dessa dualidade, referindo-se às
imagens terríveis com que o diabo povoa a mente e o coração
do cristão às vésperas da morte. Frente a esses temores, con-
tinua Lutero, o cristão precisa fixar uma outra imagem diante
de si, ou seja, “na hora da morte devemos ter diante de nossos
olhos apenas a vida, a graça e a salvação”.9

O papel do teólogo e conselheiro cristão é auxiliar os que


estão diante da morte a morrer com serenidade, com fé e con-
fiança, entregando o seu espírito a Deus, como fez Jesus: “Pai,
nas tuas mãos entrego o meu espírito” (Lucas 23.46). Tam-
bém Estevão, o primeiro mártir cristão, demonstra que isso é
possível, ao orar enquanto estava sendo apedrejado: “Senhor
Jesus, recebe o meu Espírito!” (Atos 7.59). Também na fé de

9 LUTERO. p. 13.
186    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

Simeão que disse na sua velhice “Agora, Senhor, despedes em


paz o teu servo, pois os meus olhos já viram a tua salvação”
(Lucas 2.29).

A pergunta que se deve fazer aqui, portanto, é se a vivência


de uma espiritualidade autêntica, que se traduz em uma vida
de fé, pode ser um instrumento terapêutico, que contribua fa-
voravelmente no enfrentamento da morte. A maior parte dos
estudos parece apontar que sim.

Barros-Oliveira e Neto afirmam que uma crença religiosa


interiorizada e vivida, pode ajudar a transcender ou a sublimar
o medo da morte e, em graus extremos, pode levar mesmo o
fiel a desejar morrer para se encontrar com a divindade. Os
autores também citam um estudo de Powell e Thorson (1991),
que constataram uma correlação positiva entre ansiedade face
à morte e uma alta motivação religiosa intrínseca.10

Já para Martins, a fé alimenta a esperança e conforta a


alma, oferecendo um sentido para a dor e para o sofrimen-
to. A fé leva o indivíduo a uma preparação para a morte e,
em alguns casos, até a desejá-la, na esperança do encontro
definitivo com o Criador. Nessa perspectiva, a morte seria um
ganho e não uma perda, pois o ser ultrapassa o limite humano
dessa existência finita para ter um encontro com o infinito.11
Porém, tal atitude, segundo Martins, não ocorreria com qual-
quer crente, mas somente com aqueles que fazem o salto na

10 BARROS-OLIVEIRA e NETO, 2004. p. 355-367.


11 MARTINS, Alexandre Andrade. Consciência de finitude, sofrimento e espirituali-
dade. p. 177.
Capítulo 8    Aconselhamento Diante da Morte e Luto    187

fé,12 ou seja, que depositam toda sua confiança no Ser Trans-


cendente, mesmo que a sua razão diga que é um absurdo
fazer esse salto.

O homem que fez o salto na fé, “nada contra a maré”


do mundo materialista. Vimos morte como a perda da
possibilidade de usufruir as coisas do mundo e por isso
ninguém aceita o fim, logo, nessa concepção, a morte é
uma grande perda e não pode ser pensada. Porém, para
o indivíduo de fé, morte é ganho, o maior ganho que
alguém poderá ter, pois encontrará com a razão última
do seu viver: a volta para o Criador.13

No pensamento de Lutero também se encontra auxílio para


a realização desse salto na fé, no momento em que o cristão
se deparar com a morte. Diz Lutero no seu “Sermão sobre a
preparação para a morte”:

no fim da vida, nenhum cristão deve duvidar de que não


está sozinho quando morre. Deve ter a certeza de que,
como mostra o sacramento, muitos olhos o observam.
Primeiro, os olhos do próprio Deus e de Cristo, porque o
cristão crê na sua palavra e se agarra a seu sacramento.
Depois, os queridos anjos, os santos e todos os cristãos.
Não há dúvida de que, como mostra o Sacramento do
Altar, todos vêm, como um só corpo, socorrer seu mem-
bro (cf. 1 Co 12,26). Ajudam-no a vencer a morte, o pe-

12 Martins usa o termo Salto na fé retirado da obra do filósofo Sören A. Kierkega-


ard, usado no sentido de uma experiência religiosa de total entrega e confiança em
Deus. Cf. Kierkegaard S. A. Temor e tremor. 3. ed. São Paulo: Nova Cultural; 1988.
13 MARTINS. p. 174-178.
188    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

cado e o inferno e carregam todos junto com ele. Então


se realiza com seriedade e poder a obra do amor e da
comunhão dos santos. O cristão deve colocá-la diante
dos olhos e não duvidar dela. Vai tirar coragem disso
para morrer.14

A verdade consoladora da Bíblia e reafirmada por Lutero,


é que diante do sofrimento e morte “Deus manda seus anjos,
todos os santos e todas as criaturas olharem com ele por você,
cuidarem de sua alma e a receberem”.15 É nessa perspectiva
de fé que o ser humano pode se desapegar dessa vida e en-
frentar a morte com coragem e confiança, na certeza de que
estará sendo acolhido por aquele que é o Senhor da Vida e
da Morte.

4 Compreendendo o luto

Morte e luto fazem parte de um mesmo campo fenomenológi-


co. O luto é um processo amplo e complexo, no qual muitos
elementos diferentes se entrecruzam e até mesmo se fundem,
englobando o ser humano em todas as suas dimensões: psí-
quicas, fisiológicas, espirituais, sociais, afetivas, cognitivas,
comportamentais, relacionais etc.

14 LUTERO. p. 29.
15 LUTERO. p. 33.
Capítulo 8    Aconselhamento Diante da Morte e Luto    189

Há diferentes formas de luto que necessitam ser diferencia-


das para uma melhor compreensão e intervenção do conse-
lheiro. Vamos a elas.

4.1 O luto normal


O luto normal ou descomplicado é um processo que ocorre
com todos os indivíduos que tiveram uma perda significativa.
Como dizem Walsh e McGoldrick, “todas as perdas requerem
um luto, que reconheça a desistência e transforme a experiên-
cia, para que possamos internalizar o que é essencial e seguir
em frente”.16

No luto normal, há elementos de tristeza, sofrimento, dor e


saudade ligados à consciência da realidade do objeto perdi-
do. A morte de uma pessoa significativa gera um impacto que
naturalmente causa desequilíbrio funcional no indivíduo ou na
família. Porém, no luto normal, mesmo que haja essa natu-
ral desorganização, com um desinvestimento temporário nas
pessoas e no mundo externo, o indivíduo consegue manter a
sua autoestima em níveis suficientemente adequados para sus-
tentar um funcionamento mental saudável, ainda que em uma
condição de maior fragilidade psíquica e física. Este “tempo
do luto” pode ser visto como uma moratória para o indivíduo
reorganizar-se internamente e se adaptar à nova realidade,
sem a presença da pessoa falecida.

Portanto, a morte, de maneira geral, sempre implicará de-


safios adaptativos ao indivíduo e à família enlutada, exigindo

16 WALSH & MCGOLDRICK. Morte na família: sobrevivendo às perdas. p. 28.


190    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

uma reorganização individual e sistêmica que começa desde o


dia da perda/morte e pode se estender por um longo prazo de
tempo. Esse processo de adaptação e aceitação é uma etapa
importante para o enfrentamento de qualquer perda. Segundo
Walsh e McGoldrick, “A capacidade de aceitar a perda está no
âmago de todas as habilidades dos sistemas familiares saudá-
veis, em contraste com as famílias severamente disfuncionais
(...)”.17

Não há como deixar de mencionar que o luto normal pode


também vir acompanhado de uma depressão reativa ou exóge-
na. No contexto da morte, ambos, luto e depressão, se tornam
“um par quase indissociável”. Dessa forma, quanto maior o
valor ou significado atribuído à pessoa que se perdeu, tanto
maior a probabilidade dessa perda vir acompanhada de um
processo depressivo, que não será necessariamente patológico.

4.2 Outros tipos de luto


Alguns outros tipos de luto podem ser aqui citados. Um primei-
ro tipo é o luto antecipatório, que surge diante de uma morte
iminente. O indivíduo, não suportando a realidade da perda
inevitável, entra em um processo de tristeza e inquietação, já
antecipando a dor e o sofrer pela ausência futura do ente que-
rido. Esse luto já é uma forma de preparação psicológica para
o luto que, em breve, se tornará “real e concretizado”.

Um segundo tipo de luto congrega três formas similares, no


que chamamos de luto inibido, postergado ou negado. Mesmo

17 WALSH & MCGOLDRICK. p. 33.


Capítulo 8    Aconselhamento Diante da Morte e Luto    191

que estas sejam até formas comuns de luto, elas são poten-
ciais causadores de patogenias.18 Nesses tipos de luto, os sen-
timentos de tristeza, dor, raiva, saudade não são manifestados
externamente pelo enlutado no período em que se esperaria.
Os motivos para isso podem ser os mais variados, desde cau-
sas conscientes (pressão do meio social, questões religiosas,
querer bancar o “forte da família” etc.) quanto inconscientes
(mecanismos de defesa do ego, como a negação e repressão).

Enlutados que inibem, postergam ou negam seus sentimen-


tos de dor e tristeza ficam mais fragilizados fisicamente e têm
uma grande probabilidade de desenvolver distúrbios de or-
dem psicossomática, que funcionam como válvula de escape
das fortes emoções reprimidas. Para Stedeford, esses tipos de
pesar ou luto podem ser fatores importantes para o surgimen-
to de sintomas psiquiátricos, dentre os quais a depressão é a
forma mais comum.19

Um outro tipo de luto é o "crônico", que provavelmente está


ligado ao "luto não resolvido", também patogênico. O luto
crônico é diagnosticado quando a reação de luto dura anos
ou por toda a vida, provocando constante sofrimento no en-
lutado, não só diante de datas significativas que relembram o
falecido, mas em diversos outros momentos. Com relação ao
“luto mal resolvido”, Pamela Klainer, em sua obra Good dau-
gther, good mother, aponta para a sua nociva consequência:
“O luto antigo, mal resolvido, não se dissipa, mas permanece,

18 KAPLAN & SADOCK. Compêndio de Psiquiatria. p. 57.


19 STEDEFORD, Averil. p. 152.
192    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

abrindo um caminho de fogo em minhas experiências e rela-


cionamentos”.20

Uma outra forma de classificarmos ou compreendermos o


luto se dá em decorrência do tipo de morte ocorrida. Estudos
têm comprovado que alguns tipos de morte, como suicídios,
abortos, mortes abruptas e repentinas, mortes prematuras de
crianças e jovens, mortes violentas como assassinatos, sequên-
cia de perdas múltiplas em um curto espaço de tempo, entre
outras formas singulares, são potencialmente mais suscetíveis
a desencadear lutos complicados, de caráter patogênico.21

Esses lutos mal elaborados estão se tornando hoje um pro-


blema social, ou no dizer de Maria Rita Kehl, um sintoma “do
mal-estar na civilização”. Ao citar Alain Ehrenberg, Kehl afirma
a depressão ter se tornado o sintoma social predominante nos
países do Primeiro Mundo a partir da década de 1960.22

Outros dados que corroboram essa tendência social indi-


cam que 17% dos pacientes que iniciavam o acompanhamento
em uma clínica psiquiátrica ambulatorial na Califórnia apresen-

20 KLAINER, Pamela York. Apud MCGOLDRICK. Morte na família: sobrevivendo


às perdas.. p. 76.
21 Nota: Não há como entrar na especificidade de cada um destes tipos de morte
e luto em nosso artigo, pois cada uma deles demandaria um amplo espaço para
ser melhor descrito e compreendido nas suas singularidades. Para um maior apro-
fundamento dos fatores que influenciam o impacto da morte no processo de luto e
sua posterior resolução, sugere-se consulta a algumas obras que tratam pertinen-
temente dessa questão. Citamos a obra A Terapia do Luto (William WORDEN, ART-
MED, 1998); Morte na família: sobrevivendo às perdas (Froma WALSH e Monica
MCGOLDRICK, ARTMED, 1998) bem como ao Capítulo 19 da obra As mudanças
no ciclo de vida familiar (Betty CARTER e Mônica MCGOLDRICK, ARTMED, 2001).
22 KEHL, Maria Rita. O tempo e o cão: a atualidade das depressões. p. 89.
Capítulo 8    Aconselhamento Diante da Morte e Luto    193

tavam luto não resolvido, de acordo com sua própria avaliação.


O psiquiatra John Bowlby confirma o fenômeno quando diz que
“a experiência clínica e a leitura das evidências deixam pouca
dúvida quanto à veracidade da afirmativa principal – que muito
da doença psiquiátrica é uma expressão do luto patológico”.23

Pode-se afirmar que muitas pessoas estão adoecendo em


razão de seu excessivo sofrimento não encontrar espaço ade-
quado de expressão no meio familiar e social, impedindo a
livre manifestação da dor e prejudicando, assim, a possibi-
lidade de uma elaboração saudável do luto,24 gerando em
decorrência, o que chamamos de luto patológico.

4.3 O Luto patológico


O diagnóstico de um luto patológico, que pode também ser
denominado de luto anormal, complicado ou disfuncional, é
fonte de controvérsias entre os estudiosos. Pela subjetividade
que os termos normal e anormal encerram em si mesmos, a
dificuldade em se definir quais são as características comuns
a serem observadas no luto patológico ainda não foram de
todo resolvidas. Segundo Parkes (1998), seria muita onipotên-
cia propor um único padrão para o enfrentamento das perdas,
o que exige uma avaliação cuidadosa de cada caso antes de
emitir juízo sobre a patologia ou não do luto.25

23 WORDEN, William. Terapia do luto. p. 13.


24 KOVÁCS, Maria Julia. Educação para a morte. Desafio na formação de profis-
sionais de saúde e educação. p. 24.
25 PARKES, apud KOVÁCS, Maria Julia. Educação para a morte. Temas e reflexões.
p. 156.
194    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

Na multiplicidade de termos e critérios que são utilizados


para definir o que é um luto patológico, Domingos e Ma-
luf (2003) indicam a intensificação, inibição, adiamento ou
prolongamento das respostas decorrentes do luto. Essa visão
aproxima-se muito dos critérios gerais para o estabelecimento
de qualquer patologia no campo psicológico, a saber, o tem-
po de duração dos sintomas, a intensidade dos mesmos, a fre-
quência com que eles ocorrem e o polimorfismo sintomático,
ou seja, a variação e quantidade dos sintomas em um mesmo
período de tempo.

Worden não fica longe desse caminho, denominando as


reações de luto complicado sobre quatro paradigmas: (1) rea-
ções de luto crônicas, (2) reações de luto retardadas, (3) rea-
ções de luto exageradas e (4) reações de luto mascaradas.26

O diagnóstico do luto patológico precisa, então, ser sub-


metido à observação criteriosa dos sintomas associados ao
luto normal: elementos como choro, tristeza, raiva, culpa,
ansiedade, choque, confusão mental, falta de concentração,
descrença na realidade da perda, fadiga, insônia, pesadelos,
perda de apetite, esquecimentos, comportamento aéreo e dis-
traído, além de isolamento social são alguns dos inúmeros
sintomas que podem ser arrolados, e que fazem parte do re-
pertório normal do luto. Porém, dependendo da frequência,
intensidade, duração ou quantidade de sintomas associados,
os mesmos podem ser indicativos de um luto patológico, com-
plicado ou mal resolvido.

26 WORDEN. p. 89.
Capítulo 8    Aconselhamento Diante da Morte e Luto    195

Retoma-se aqui o fato de que a inexistência ou mesmo ini-


bição de quaisquer sintomas diante da morte de alguém signi-
ficativo também precisa ser visto como sinal de anormalidade
ou patologia, demandando também um olhar atento e uma
provável intervenção terapêutica.

Se há um elemento comum no luto patológico, parece ser


o fato de que nesse tipo de luto há o estabelecimento de uma
doença psíquica ou física, que exigirá, na maior parte das ve-
zes, uma intervenção de cunho profissional, seja médica ou
psicológica. Na maior parte das vezes, o ideal é uma interven-
ção terapêutica conjunta, que leve em conta a integralidade
do ser, nas suas múltiplas dimensões: físicas, psicológicas, so-
ciais, espirituais, cognitivas, dentre outras.

De forma geral, dentre os principais recursos terapêuticos


para se atravessar “o vale da morte e luto”, destacam-se as
redes de apoio relacional. Não se pode permitir que o enlutado
faça a caminhada pelo vale sozinho. Mesmo que a solitude seja
propícia para o indivíduo aquietar os ruídos internos da dor e
do sofrer, a solidão em meio à dor da ausência de quem morreu
pode se tornar desesperadora. A solidão aguça e aumenta a
sensação de desamparo, que está na raiz de muitas depressões.

Portanto, a presença de um companheiro de viagem para


atravessar o “vale sombrio da morte e luto” é fundamental
para que o enlutado possa também “encontrar eco” para seu
sofrer interno, junto a alguém que está pronto a lhe escutar e
acolher empaticamente. É o que também afirma Bowlby, quan-
do diz que “não só a criança, mas também o adulto necessita
196    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

da assistência de uma outra pessoa de sua inteira confiança,


se quiser se recuperar da perda sofrida”.27

Grupos de apoio a enlutados também já se comprovaram


como importante fonte de auxílio na elaboração do luto, sen-
do recursos terapêuticos que poderiam ser melhor explorados
em nossa sociedade, especialmente no âmbito das comunida-
des religiosas, que enfatizam o ensino e a prática do “consolo
mútuo”, com a orientação apostólica de “chorar com os que
choram” (Romanos 12.15).

Além dessas “redes sociais de apoio”, o acompanhamento


de um profissional da saúde, seja um psiquiatra, psicólogo ou
terapeuta, se fará necessário em muitos casos de luto patoló-
gico ou mal elaborado, especialmente quando houver indícios
de um transtorno depressivo se instalando.

Outro recurso terapêutico poderoso, especialmente para


aqueles que denotam um luto inibido, está no uso de ritua-
lizações: visitas ao cemitério, escrever cartas para o morto
ou para os outros enlutados, olhar fotos e álbuns antigos, ler
cartas e cartões antigos, selecionar objetos do falecido para
guardar e distribuir, manter diário com sonhos e lembranças,
conversar sobre a perda, assistir filmes e ler livros ligados ao
tema, entre outras ações,28 podem auxiliar na ressignificação
da morte e luto.

Nunca é demais reforçar que as promessas bíblicas da res-


surreição e vida eternas oferecidas por Deus em Cristo Jesus

27 BOWLBY, 2006. p. 126.


28 MCGOLDRICK, 1998. p. 87 ss.
Capítulo 8    Aconselhamento Diante da Morte e Luto    197

são fonte de consolo para aquele que chora a perda de um


ente querido. A esperança de um feliz reencontro nos céus
com o familiar falecido é um elemento a ser utilizado para
aplacar o sofrer do enlutado. O conselheiro não pode deixar
de ser porta-voz dessas promessas bíblicas, pois é através dela
que o Espírito Santo, o Consolador, poderá realizar a sua obra
no coração do aconselhando.

Recapitulando

No campo do aconselhamento pastoral, a morte e o luto tal-


vez sejam os momentos de maior mobilização afetivo-emocio-
nal com que o conselheiro irá se deparar no trato com seus
aconselhandos, especialmente se essas perdas estiverem liga-
das a pessoas significativas. Vimos neste capítulo, que a morte
é uma condição humana inexorável, sendo geradora de muita
angústia e estando associada a um turbilhão de sentimentos
contraditórios, que se misturam e até se fundem. Buscamos
demonstrar que um conselheiro que quiser ser empático no
seu cuidado a enlutados precisará olhar para as suas próprias
angústias existenciais frente à morte. Vimos também que a fé
e espiritualidade são as principais fontes de consolo e de rees-
truturação emocional e espiritual daqueles que vivenciam a
morte e o luto. Abordou-se, igualmente, os diferentes tipos de
luto existentes, desde o luto normal até o patológico, procu-
rando mostrar ao conselheiro as maneiras de lidar com ele no
processo de aconselhamento.
198    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

Referências

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WORDEN, J. William. Terapia do luto: um manual para o


profissional de saúde mental. 2. ed. Porto Alegre: Artes Mé-
dicas, 1998.

Atividades


1) Dentre as principais concepções religiosas de vida
após a morte, que permeiam praticamente to-
das as culturas ao redor do mundo, podemos citar:
_________________________, ______________________
__________ e ______________________.
200    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

2) Quando Freud afirma que a consciência da morte “é uma


ferida narcísica irreparável” ele quer dizer que__________
____________________________ ____________________
____________________________________________.

3) Ao tratarmos do tema luto, podemos dizer que há diferen-


tes tipos e formas dele se manifestar na vida das pessoas
que sofrem perdas, tais como: ______________________,
______________________, ___________________.

4) As pesquisas sobre intervenção a enlutados apontam, en-


tre diversas possibilidades, uma que é imprescindível. Ten-
te percebê-la e destaque em um pequeno texto.

5) Pesquise e selecione alguns textos bíblicos que podem ser


utilizados para consolo de enlutados.
Thomas
????????
Heimann1

Capítulo 9
?

Temas Controversos em
Aconselhamento 1

1 Doutor em Teologia. Coordenador do Curso de Teologia da ULBRA. Professor de


Teologia na área da Psicologia e Aconselhamento Pastoral. Professor do Curso de
Pós-Graduação em Gestão de Pessoas. Membro do Grupo de Pesquisa em Acon-
selhamento e Psicologia Pastoral da Faculdades EST. Pastor da Igreja Evangélica
Luterana do Brasil – IELB. Psicólogo clínico.
202    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

Introdução

A prática da poimênica e do Aconselhamento pastoral nun-


ca foi tarefa fácil para a igreja. Aquele que está investido da
função/papel de conselheiro normalmente irá se deparar com
situações delicadas, complexas, controversas, polêmicas e li-
mítrofes na vida dos indivíduos e de sua comunidade de fé.
Aconselhar exige estudo teórico, preparação espiritual, dispo-
nibilidade de tempo, uma escuta atenta e uma grande dose de
doação de afetos por parte do cuidador.

Quanto mais complexos e difíceis os casos trazidos ao ga-


binete do conselheiro, tanto maior o desgaste e o risco em-
butido no aconselhamento, afinal nunca estaremos intervindo
apenas sobre o aconselhando, mas sobre todo o seu entorno.
Isso demonstra a grande responsabilidade que está sob os om-
bros do conselheiro. Aconselhar uma pessoa sempre envolverá
intervir sobre uma rede de relações.

Sem tentar hierarquizar quais temas são mais difíceis de


serem tratados em aconselhamento, vamos nesse capítulo es-
colher dois assuntos controversos para refletirmos, que certa-
mente estarão na pauta cotidiana do aconselhamento cristão,
mesmo que não queiramos admitir: o alcoolismo e a sexuali-
dade.
Capítulo 9   Temas Controversos em Aconselhamento   203

1 Problemas de Alcoolismo e Drogadição

Um dos temas considerados polêmicos ou controversos no


campo do aconselhamento diz respeito ao uso e abuso de
álcool, seguido por outros vícios ainda mais graves como a
drogadição. Ambos são problemas que têm atingido não só
a população geral, mas inclusive membros de igrejas cristãs.

O abuso de álcool, que é uma droga lícita, de fácil acesso,


aceita e até incentivada socialmente, tem se tornado um gra-
ve problema social, moral e de saúde pública. Curiosamente,
mesmo sendo uma droga lícita, no conjunto da obra, ela tem
causado mais estragos do que as drogas ilícitas. O abuso do
álcool está ligado ao aumento da violência doméstica, a se-
parações e divórcios, à perda de empregos, a acidentes de
trânsito, à inúmeras doenças físicas e psicológicas, ao aumen-
to da criminalidade etc. É causador de muito sofrimento para
o indivíduo, para a família e para todo o entorno social do
alcoólatra.

A definição de alcoólatra dada pela Organização Mundial


da Saúde (OMS) é a de que ele “é um bebedor excessivo, cuja
dependência em relação ao álcool atingiu um grau tão eleva-
do que passa a interferir, perceptivelmente, na sua saúde física
e mental, na sua relação com os outros e no seu comporta-
mento social e econômico”.2

De um modo geral, a maioria dos médicos e estudiosos


tem concordado que o alcoolismo deva ser considerado uma

2 COLLINS, Gary. Aconselhamento cristão. p. 574.


204    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

doença, pelo fato de ser previsível, progressivo, fisiologica-


mente debilitante e também tratável. É uma doença complexa,
crônica e evolutiva, que interfere de forma progressiva com o
funcionamento fisiológico, psicológico, social e econômico do
indivíduo.3

Krestan e Bepko, ao tratarem do tema do alcoolismo e o ci-


clo de vida familiar, tentam contextualizar o uso do alcoolismo
como doença afirmando:

o motivo de utilizarmos o termo doença é simplesmen-


te para salientar que uma vez que o indivíduo perdeu
a capacidade consistente de controlar o quanto e com
que frequência ele vai beber, o uso continuado do álcool
pode ser uma causa necessária e suficiente da síndrome
que rotulamos de alcoolismo. Essa opinião sugere que a
atividade de ingerir álcool adquire um ímpeto autosus-
tentador, autoreflexivo e destrutivo que requer tratamento
ou intervenção externa para a sua interrupção.4

Já outros preferem não enquadrar o alcoolismo como uma


doença, mas apenas como um fenômeno de desorganização
social, uma falha de caráter, um problema moral, um transtor-
no comportamental ou ainda apenas um pecado. Essa é uma
discussão que ainda não obteve consenso entre os pesquisa-
dores, mesmo que saibamos que há uma dependência física
e psíquica da bebida por parte daqueles que já se tornaram

3 COLLINS. p. 574.
4 KRESTAN, Jo-Ann; BEPKO, Cláudia. Problemas de alcoolismo e o ciclo de vida
familiar. In: CARTER, Betty; McGoldrick, Mônica. As mudanças no ciclo de vida
familiar: uma estrutura para a terapia familiar. p. 416.
Capítulo 9   Temas Controversos em Aconselhamento   205

alcoólatras, a ponto de poder gerar graves crises de abstinên-


cia se o indivíduo não voltar a beber. O problema, entretanto,
estaria no início de todo o processo, ou seja, na decisão volun-
tária de cada sujeito em tomar o primeiro gole, quando ainda
não está dependente do álcool. Nessas semanas iniciais, a
decisão ainda pertence totalmente ao indivíduo e ele não po-
deria transferir a sua responsabilidade/culpa em uma suposta
doença do alcoolismo.

Portanto, é válida a preocupação de alguns médicos, te-


rapeutas e conselheiros de que classificar o alcoolismo como
uma doença poderia induzir o alcoólatra a tentar aliviar a sua
responsabilidade pessoal diante dos atos reprováveis que even-
tualmente possa cometer ao estar embriagado, sob a desculpa
de ser doente. Gary Collins, falando sobre essa questão, traz
o pensamento de um psiquiatra que afirma: “O que determina
se a pessoa vai se tornar dependente do álcool é o quanto ela
bebe e por quanto tempo, e não sua personalidade, psicodi-
nâmica ou bioquímica”. Collins, então, assume a sua posição
intermediária ao afirmar:

o alcoolismo é um vício progressivo que subjuga sua


vítima, psicológica e fisicamente, mas também é uma
condição moral pela qual o indivíduo é pelo menos par-
cialmente responsável. É uma atitude simplista e radical
afirmar que o alcoolismo é só uma doença ou só um
caso óbvio de pecado.5

5 COLLINS. p. 575.
206    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

Sabe-se que diversos aspectos podem contribuir para al-


guém se tornar alcoólatra, inclusive questões fisiológicas ou
hereditárias. Não quer dizer que há um gene para o alcoo-
lismo, mas filhos de pais alcoólatras têm quatro vezes mais
probabilidade de se tornarem alcoólatras do que filhos de não
alcoólatras, mesmo naqueles casos em que as crianças foram
adotadas e não tinham conhecimento desse comportamento
dos pais biológicos. Um outro fator importante está ligado às
influências ambientais, que podem estar ligadas ao ambiente
familiar e também sociocultural. A cultura do incentivo à be-
bida no meio familiar e também do grupo de amigos pode
favorecer o uso e abuso do álcool, levando indivíduos com
predisposição a desenvolver o alcoolismo.6

Um terceiro fator aliciador do alcoolismo podem ser as


pressões que o indivíduo sofre em sua vida. A adolescência é
um período propício para isso, tanto pela crise de identidade
geral que marca esse período, pela curiosidade de experimen-
tação inerente a esse momento de vida, quanto pela influência
do meio social em que ele está inserido. Situações como cri-
se financeira, desemprego, estresses pós-traumáticos, traições
e infidelidade, luto mal resolvido, divórcios etc. podem servir
como o gatilho inicial para alguém buscar refúgio na bebida.
Um quarto fator, que aprofundaremos logo mais adiante, é de
que pessoas que carecem de valores espirituais, religiosos e
morais também estão mais suscetíveis a caírem no vício.

6 COLLINS. p. 577-8.
Capítulo 9   Temas Controversos em Aconselhamento   207

1.1 O
 uso e abuso do álcool em perspectiva
bíblica
O presente tópico poderá despertar certo desconforto, depen-
dendo da postura religiosa que orienta cada leitor. Afirmar que
a Bíblia não proíbe tomar bebidas alcoólicas pode gerar escân-
dalo para uns, ao passo que afirmar que o cristão deveria optar
pela completa abstinência poderia soar como uma orientação
por demais legalista para outros. Cabe, por isso, uma postura
de sobriedade ao tratarmos desse tema, sabendo que o posi-
cionamento a esse respeito pode ter muitas variações.

Gary Collins sinaliza que a Bíblia não parece ensinar a


abstinência completa da ingestão de bebidas alcoólicas, mas
afirma que ela, com certeza, ensina a moderação. Três textos
bíblicos são lembrados de modo a indicar que não há um
mandamento divino que proíba a ingesta de álcool. No Salmo
104, o vinho é incluído entre as bênçãos de Deus, sendo des-
crito como algo que pode alegrar o coração humano. Já com
relação a Jesus, o seu primeiro milagre foi justamente trans-
formar água em vinho, o que nos permitiria afirmar que se
beber vinho fosse contra a vontade de Deus, Jesus não o teria
realizado, pois estaria dessa forma incentivando os convida-
dos a cometerem um pecado. Já o apóstolo Paulo aconselha
o jovem Timóteo a “usar um pouco de vinho” em função de
seus problemas estomacais e demais enfermidades. (1 Timó-
teo 5.23).

Como contraponto ao que lemos anteriormente, vamos en-


contrar na Bíblia claras alusões ao perigo do abuso do álcool.
Em Provérbios 20.1 está escrito: “Quem bebe demais fica
barulhento e caçoa dos outros; o escravo da bebida nunca
208    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

será sábio”. Já em outro capítulo de Provérbios, lemos a sábia


orientação: “Escute, meu filho. Seja sábio e pense seriamente
na sua maneira de viver. Não ande com gente que bebe de-
mais, nem com quem come demais. Porque tanto os beberrões
como os comilões vivem com sono e acabam na pobreza, ves-
tindo trapos”. (Provérbios 23.19-21). Mas o texto clássico que
explicita todo o perigo do abuso do álcool está logo a seguir,
em Provérbios 23. 29-35:

quem é que grita de dor? Para quem são as tristezas?


Quem é que vive brigando e se queixando? Quem é que
tem os olhos vermelhos e ferimentos que podiam ter sido
evitados? É aquele que bebe demais e anda procuran-
do bebidas misturadas. Não fique olhando para o vinho
que brilha no copo, com a sua cor vermelha, e desce
suavemente. Pois no fim ele morde como uma cobra ve-
nenosa. Você verá coisas esquisitas e falará tolices. Você
se sentirá como se estivesse no meio do mar, enjoado,
balançando no alto do mastro de um navio. Então você
dirá: “Alguém deve ter batido em mim; acho que levei
uma surra, mas não lembro. Por que não consigo levan-
tar? Preciso de mais um gole”.

O texto bíblico é claro em mostrar quão nefastos podem


ser os sintomas da bebida para o ser humano, servindo como
um alerta para que sejamos sábios quanto ao controle de seu
uso. O fato é que ingerir bebidas alcoólicas está entre aquelas
práticas que dizem respeito à uma boa mordomia do próprio
corpo, tal como diz o apóstolo Paulo em 1 Coríntios 6. 12:
“tudo me é lícito, mas nem tudo me convém”. Nesse sentido,
concordamos com a sugestão de Collins quando ele afirma:
Capítulo 9   Temas Controversos em Aconselhamento   209

se um comportamento questionável como ingerir bebidas


alcoólicas controla o indivíduo, maltrata o corpo, amor-
tece as sensações, embota a mente, torna a pessoa mais
suscetível à imoralidade e a outros pecados, prejudica
outros seres humanos ou faz com que outro crente tro-
pece e caia, então essa prática deve ser abandonada ou
evitada. Às vezes, os crentes precisam se autorrestringir
em prol do crescimento e bem-estar do corpo de Cristo,
a igreja.7

Novamente, julgamos importante destacar que não deve-


mos agir de forma legalista ou condenatória com aqueles que,
por terem uma capacidade de autocontrole, fazem uso even-
tual de bebidas alcoólicas, pois essa é uma decisão de foro
íntimo. Porém, se percebermos que alguns de nossos irmãos
na fé estão passando dos limites, perdendo o controle emo-
cional, social ou relacional pelo uso da bebida, não podemos
ter receio de admoestá-lo com paciência, brandura, amor e
compaixão, na busca de preservar a sua integridade física,
emocional e espiritual.

1.2 O
 papel do conselheiro no cuidado a
alcoólatras
Há uma grande dificuldade na intervenção pastoral e terapêu-
tica em casos de alcoolismo. Isso se deve, fundamentalmente,
ao estabelecimento de um rígido mecanismo de negação por
parte do alcoólatra, em uma tentativa de evitar o reconheci-
mento de seu problema. O bebedor sempre tentará responder

7 COLLINS. p. 577.
210    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

que ele tem o total controle sobre a bebida, especialmente no


início de seu vício, quando os estragos da bebida ainda não
se tornaram públicos. A negação pode também se estender à
família, visto que ter um alcoólatra (ou drogadicto) na família
parece denegrir a imagem familiar perante a sociedade, aba-
lando a autoconfiança e autoestima familiar. Como vão dizer
Krestan e Bepko, “a negação se torna uma defesa contra o
reconhecimento da crescente falta de controle que tipicamente
ocorre nos níveis emocional e funcional”.8 Portanto, intervir so-
bre um alcoólatra inevitavelmente implicará intervir sobre todo
o sistema familiar, que normalmente adoece com o alcoólatra.

Para as duas autoras supracitadas, porém, generalizar


princípios de tratamento do sistema familiar para as famílias
alcoolistas não é o suficiente. Além do conselheiro precisar
se apropriar dos conhecimentos da dinâmica da adição ao
álcool, o tratamento precisará ser realizado com a supervisão
de outros profissionais experientes, como médicos e psicólo-
gos. O encaminhamento do alcoólatra a programas como
Alcoólicos Anônimos (AA) é ainda mais indicado do que um
atendimento ou terapia individualizado, pois, além de auxi-
liar a quebrar os processos de negação, há nesses grupos um
apoio mútuo de pessoas que vivem os mesmos problemas na
luta contra o vício.

Os Alcoólicos Anônimos constituem o contexto mais efe-


tivo existente para tratar a natureza compulsiva, autocor-
retiva, do comportamento de beber. Com seu foco no
apoio dos iguais, mutualidade, pensamento “correto”,

8 KRESTAN. p. 417.
Capítulo 9   Temas Controversos em Aconselhamento   211

mudança comportamental e entrega espiritual, os AA


modificam a experiência de si mesmo por parte do be-
bedor, de uma maneira que tipicamente não pode ser
conseguida no contexto da terapia.9

A comunidade de fé também precisa servir como uma co-


munidade terapêutica para o alcoólatra e sua família. Julgar
e condenar o alcoólatra talvez sejam práticas comuns entre
as pessoas, mesmo entre cristãos. Na realidade, precisamos
acolher as pessoas que se perderam no vício, dando a elas um
lugar onde encontrão apoio, perdão e auxílio concreto para
superar o seu vício.

A importância da religião, da fé e da espiritualidade tanto


na prevenção quanto no tratamento de alcoólatras e demais
drogas já vem sendo comprovado em inúmeras pesquisas
científicas, conforme lemos a seguir:

independente da religião professada, observa-se um for-


te impacto da religiosidade e da espiritualidade no trata-
mento da dependência de drogas, sugerindo que o vín-
culo religioso facilita a recuperação e diminui os índices
de recaída dos pacientes submetidos aos diversos tipos
de tratamento (Pullen et al., 1999). Dentro de um gru-
po dos narcóticos anônimos (NA), observou-se que um
melhor índice de recuperação estava associado a uma
prática religiosa formal diária, evidenciando que aque-
les que, além de frequentarem as reuniões do grupo de
mútua ajuda, tinham um vínculo com alguma religião,

9 KRESTAN. p. 417.
212    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

apresentavam mais sucesso na manutenção da sua abs-


tinência (Day et al., 2003). A uma conclusão semelhante
chegaram Turner et al. (1999) que, no seu estudo com
uma população exclusivamente de mulheres em recupe-
ração, enfatizaram a importância da associação de um
programa de 12 passos a uma prática religiosa regular.
Alguns autores chegam a afirmar que a simples ida à
Igreja contribui para a diminuição do consumo de dro-
gas como a cocaína, sem necessariamente nesses locais
existir um tratamento formal.10

O que se pode inferir de diferentes pesquisas na área é que


a frequência constante a uma igreja, a prática dos conceitos
propostos por uma religião e a importância dada à religião e à
educação religiosa na infância são possíveis fatores protetores
do consumo de drogas. Da mesma forma, tudo indica que há
uma forte influência positiva da religiosidade para a recupera-
ção dos dependentes de drogas. Nesse quesito, a maior parte
dos estudos foca tratamentos baseados nos 12 passos dos AA,
estando estes alicerçados na espiritualidade, mas não pauta-
dos em uma religiosidade específica.11

Por último, citamos brevemente algumas orientações pos-


síveis para o aconselhamento em casos de alcoolismo e dro-
gadição:12

10 SANCHEZ, Z. M.; NAPPO, S. A. A religiosidade, a espiritualidade e o consumo


de drogas. In: Rev. Psiq. Clín. 34, supl. 1; 73-81, 2007. p. 77.
11 SANCHEZ, Z. M.; NAPPO, S. A. 2007. p. 80.
12 COLLINS. p. 584-588.
Capítulo 9   Temas Controversos em Aconselhamento   213

a. Fazer o alcoólatra admitir que precisa de auxílio para


enfrentar o alcoolismo.

b. Criar mecanismos para que o alcoólatra interrompa


a ingestão de álcool. A desintoxicação muitas vezes
precisará de auxílio médico.

c. Dar apoio real e concreto, não apenas em atendimen-


tos semanais, mas tornando a comunidade de fé uma
comunidade terapêutica; pode-se criar grupos de au-
xílio ou encaminhar e acompanhar a grupos já existen-
tes como os Alcoólicos Anônimos.

d. Intervir diretamente sobre as possíveis fontes de estres-


se que podem estar levando ao uso do álcool. Por trás
do abuso sempre podem haver conflitos ou problemas
sérios a serem tratados.

e. Estimular o autoconhecimento e a mudança de estilo


de vida, para que o vazio da bebida possa ser preen-
chido por coisas mais saudáveis.

f. Aconselhamento sistêmico, que envolva toda a família


no processo de recuperação, dando suporte a todos
os membros.

g. Estar consciente das possíveis recaídas, algo normal


nos casos de alcoolismo e drogadição.

h. Aprofundar a oração e o estudo da Palavra de Deus,


mostrando o amor e a compaixão de Deus aos que
sofrem. Resgate da dimensão da fé, com um equilíbrio
entre o anúncio da Lei e do Evangelho.
214    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

2 Questões relativas à sexualidade

Qual o melhor modo de começarmos a tratar do tema da se-


xualidade em um livro de aconselhamento? Penso que há duas
formas básicas de abordagem: uma positiva e outra negati-
va. Em um breve apanhado da literatura e pela própria expe-
riência de anos de aconselhamento parece-nos que a escolha
mais comumente usada nas igrejas é pelo lado “fácil”, ou seja,
pelo lado negativo, que enfatiza os inúmeros problemas atuais
ligados ao exercício da sexualidade.

Collins começa a tratar do tema justamente sinalizando


para esse ângulo, aludindo a uma conclusão do relatório do
Cristianity Today Institute: “A sexualidade, como tudo mais que
Deus criou, está com problemas. Nós estamos mais vulnerá-
veis do que nunca, vivendo em uma sociedade que nos asse-
dia com insinuações de sexo em todos os espaços disponíveis,
desde os outdoors até as conversas de escritório”.13 De fato,
admitir que a sexualidade vive momentos de desvios do que
é salutar é uma constatação fácil de ser feita, bastando olhar
para a realidade que está a nossa volta.

Os problemas ligados à sexualidade, do ponto de vista de


uma moralidade ética-cristã, são diversos: masturbação, sexo
antes do casamento, pornografia, infidelidade, prostituição,
homossexualidade, dentre outros. Colocados dessa forma, pa-
rece-nos que fica evidente que a noção de pecado transversa-
lizaria essa forma de abordagem. Sexualidade na perspectiva

13 COLLINS. p. 290.
Capítulo 9   Temas Controversos em Aconselhamento   215

moral passa a ser vista como algo ruim, nocivo, perigoso para
o ser humano, uma fonte certa de pecados.

A Bíblia, de fato, condena diversas das práticas anterior-


mente listadas. Apesar disso, iniciar uma reflexão sobre se-
xualidade enfocando a proibição, o “não faça isso nem faça
aquilo”, não me parece ser a melhor escolha para uma boa
prática de aconselhamento cristão. A proibição já inibe, de
imediato, qualquer possibilidade de um diálogo mais aberto,
que dê espaço para o compartilhamento de dúvidas e angús-
tias dos indivíduos frente a esse tema. Tanto mais isso se agra-
va quando estivermos lidando com adolescentes e jovens, que
estão no início de sua caminhada pelo complexo mundo da
sexualidade e vivem muitos dilemas com relação a ela. Como
me disse um pastor bastante experiente quando assumi o pa-
pel de conselheiro nacional de jovens de uma denominação
cristã: “É preciso segurar o barco para a direita, porque para
a esquerda ele vai sozinho”, aludindo à facilidade do ser hu-
mano se deixar levar pelas tentações do mundo.

O teólogo e conselheiro pastoral James Farris faz uma


referência interessante sobre como essa temática vem sendo
comumente tratada no protestantismo histórico e, em nosso
entender, também em outras vertentes cristãs:

no protestantismo tradicional a relação entre sexualidade


e fé é frequentemente reduzida às questões da moralida-
de sexual. O universo complexo da sexualidade humana
é raramente discutido. Especificamente, a moralidade
sexual é frequentemente reduzida às questões de quais
práticas e atitudes sexuais são aceitas pela comunida-
216    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

de de fé. A base dessas moralidades sexuais é frequen-


temente uma combinação complexa da autoridade de
textos bíblicos específicos e da tradição da comunidade.
No entanto, o uso dos textos bíblicos e das tradições da
comunidade é raramente examinado, ou questionado.14

O que Farris parece criticar é sobre uma possível dificul-


dade de criação de espaços de discussão sobre o tema, pois
tudo o que era preciso dizer parece “já ter sido dito” pela
igreja: não é preciso mais refletir, bastando ao cristão cumprir
os preceitos e orientações de sua denominação religiosa que,
invariavelmente, serão proibitivas. A sexualidade, dessa forma,
se torna um assunto tabu na igreja, sobre o qual até os pais
evitam comentar em casa. Essa visão negativa não é benéfica
no campo do aconselhamento cristão. Até pode-se compreen-
dê-la, mas isso não significa que devemos aceitá-la.

Em nosso entendimento, a forma mais apropriada de enfo-


car o tema é destacar a sexualidade como uma coisa positiva,
uma maravilhosa criação divina. Collins diz que esse deveria
ser o ponto de partida para qualquer discussão acerca da se-
xualidade. Diz ele: “Deus criou a espécie humana com corpos
de macho e fêmea, com capacidade de ter intimidade sexual,
incluindo o orgasmo. Assim como fez com o restante da cria-
ção, Deus disse que os seres humanos sexuados eram algo
'muito bom' e mandou que nos multiplicássemos”.15

14 FARRIS, James. Sexualidade fiel: reflexões sobre a sexualidade e uma teologia


de ser. p. 2.
15 COLLINS. p. 292.
Capítulo 9   Temas Controversos em Aconselhamento   217

Karl Kepler, teólogo e psicólogo cristão, traz uma aborda-


gem muito positiva desse tema em seu artigo Pastoral da Se-
xualidade, fazendo críticas oportunas acerca de um modelo
de aconselhamento pautado apenas na repetição de proibi-
ções morais. Esse modelo acaba não sendo construtivo, pelo
contrário, acaba afastando muitas pessoas, especialmente os
jovens, do ambiente da igreja. Vamos, a seguir, trazer algumas
das suas contribuições para a nossa reflexão.16

2.1 A sexualidade como algo belo e sagrado


Já vimos anteriormente que a sexualidade é uma criação de
Deus. O fato do pecado ter contaminado todas as coisas, in-
clusive a sexualidade, não tira dela o caráter de ter sido criada
como uma bênção. O texto de Efésios 5.31-32 faz uma ana-
logia sobre a união carnal entre o marido e a esposa com a
união de Cristo com a sua igreja, ou seja, a intimidade física,
sexual, afetiva entre um casal que se ama é usada como um
prenúncio do que nos espera na glória eterna com Cristo.

James Farris, no artigo de sua autoria, já supracitado, pro-


cura demonstrar que a sexualidade cristã fiel está ligada a di-
versos conceitos teológicos, como aliança, graça, capacitação
e intimidade. A intimidade é um princípio da sexualidade, que
envolve três tipos de amor: eros, philia e ágape. Um exemplo
de intimidade como espiritualidade é demonstrada pelas di-
versas passagens bíblicas que usam a metáfora de casamento
para descrever a relação de Deus com o seu povo. Dentre

16 KEPLER, Karl. Pastoral da Sexualidade. In: Revista Psicoteologia, 2008. p. 27-31.


218    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

esses textos, podem ser citados Oseias 1. 2; 2. 19-20; Mateus


9. 15; João 3. 29; Efésios 5. 25-27 e Apocalipse 21. 2. Diz
Farris:

nestes diversos contextos, o casamento, ou a qualidade


da relação entre Deus e a criação implica a presença e
importância de Eros, Ágape e Philia.

A intimidade-espiritualidade descreve um processo com-


plexo de construir relacionamentos, ou de juntar-se ao
outro que é valorizado. Embora as relações sexuais físi-
cas incluam o contato íntimo, o princípio da intimidade
entende que esta união, pelo menos no ideal, esteja mui-
to mais complexa, completa e profunda. O ato sexual
é prazeroso, mas a intimidade-espiritualidade convida a
presença de Eros, Ágape e Philia. Esta combinação de
elementos que expressam a intimidade-espiritualidade
tem a possibilidade de transformar o prazer físico em
contato com o Divino. A sexualidade fiel é o princípio
norteador que respeita a totalidade e complexidade da
sexualidade humana e do comportamento sexual e faz
possível sua transformação em um aspecto de transcen-
dência.17

Nesse sentido, dentro de uma relação conjugal, o prazer


sexual é valorizado e incentivado por Deus. O sexo, portanto,
não foi criado apenas para a procriação, mas para auxiliar
na felicidade do casal e solidificar a sua relação. Se lermos o
livro de Cantares, pouco conhecido e compreendido, também

17 FARRIS, James. Sexualidade fiel: reflexões sobre a sexualidade e uma teologia


de ser. p. 11.
Capítulo 9   Temas Controversos em Aconselhamento   219

veremos que ele trata da beleza da atração entre homem e


mulher. Provérbios 5.18-19 também incentiva a alegria advin-
da a partir da intimidade do casal.

Jay Adams, ao tratar da sexualidade, além de confirmar a


santidade e positividade desses relacionamentos, inclusive do
prazer sexual, aponta para algumas questões que precisam ser
lembradas em um aconselhamento, inclusive preventivo. Para
Adams, as relações sexuais devem ser regulares e contínuas,
no sentido de que ambos os cônjuges devem prover adequada
satisfação sexual um para o outro. A consideração e o amor
pelo cônjuge devem conduzir e regulamentar a solicitação pe-
las relações sexuais, que precisam ser recíprocas e igualitárias.
Não há direito maior de um sobre o outro, sendo o sexo uma
mútua responsabilidade, pois os corpos de ambos os cônjuges
se pertencem um ao outro, no momento em que ambos deci-
dem se unir e formar uma só carne.18

Esses aspectos, porém, não podem servir como desculpa


para justificar alguma forma de opressão sexual. O respei-
to, o diálogo e a compreensão pela sexualidade do cônjuge
sempre deverão ser preservadas na relação conjugal. Não é
raro que muitos conflitos e dificuldades sexuais surjam em um
casamento, pois cada cônjuge traz uma visão pessoal sobre
a sexualidade, que implica experiências, valores e até possí-
veis traumas que interferirão na relação com seu parceiro. Por
vezes, para superar esses entraves na sexualidade, será ne-
cessário o auxílio de um profissional do aconselhamento. O
conselheiro pastoral poderá exercer esse papel, desde que te-

18 ADAMS, Jay. O manual do conselheiro cristão. p. 358-9.


220    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

nha bem resolvido consigo mesmo as questões de sua própria


sexualidade e não assuma uma postura puramente moralista
frente a esse tema.

2.2 O
 dilema do aconselhamento sexual cristão
em meio ao cenário atual
Conforme vai dizer Karl Kepler, ao longo da história da igreja
cristã evitou-se falar de sexualidade, dando a impressão de
que sexo seria um assunto totalmente afastado de Deus ou até
contrário a Ele. Isso começou a se alterar na década de 1970,
com a proliferação de cursos, palestras, retiros e produção de
literatura que versavam sobre o “Namoro, noivado, sexo e ca-
samento”. De modo geral, toda essa nova produção pautava-
se sobre um monte de proibições e alertas sobre a sexualida-
de, até para contrabalançar a revolução sexual que acontecia
na sociedade nesse período. A igreja passa do silêncio para
um discurso de controle, o que não deixou de ser um pequeno
avanço, pois como diz Kepler, “rasgou-se a cortina do templo”
e um assunto tabu passou a, pelo menos, ser problematizado
no ambiente cristão.19

O que Kepler alerta é que as diversas mudanças no campo


do comportamento humano e social estão exigindo por parte
dos conselheiros cristãos um passo além no trato desse assun-
to, na medida em que parece estar sendo insuficiente a forma
como as igrejas estão lidando com a sexualidade. Diz Kepler:

19 KEPLER. p. 28-9.
Capítulo 9   Temas Controversos em Aconselhamento   221

as igrejas brasileiras [...] têm sentido necessidade de um


ensino e orientação bíblica mais completo, que integre a
verdade bíblica com a realidade da vida, sem abrir mão
de nenhuma delas. Muitos irmãos [...] continuam “pre-
sos” àqueles princípios como se eles fossem versículos bí-
blicos. E de fato eles têm muita coisa boa. Mas com essa
“canonização” daqueles princípios está, de certa forma,
se repetindo a situação de “silêncio” por parte da igreja,
em um sinal de que não estamos sabendo lidar com as
mudanças sociais e culturais nessa área.

[...] Mas há uma necessidade muito evidente de reestu-


darmos a questão, de termos a coragem de questionar-
mos os princípios e voltarmos ao texto e contexto bíblicos
para buscar com Deus uma orientação mais eficaz.20

Kepler não propõe que deixemos de ter na Bíblia os princí-


pios básicos para o exercício da sexualidade, apenas questio-
na se as interpretações que fazemos de alguns textos e que se
tornaram verdades inquestionáveis não estejam contaminados
por uma cultura por demais moralista, que acaba assumindo
papel mais importante do que a própria Escritura.

Essa visão polêmica proposta por Kepler toca em assuntos


que preferimos deixar de lado, ou quem sabe escondidos em
proibições que não auxiliarão quem for procurar nossa ajuda.
Um exemplo claro é sobre o ensino sobre a prevenção sexual.
Boa parte da igreja veria como um incentivo à prática sexual
precoce ensinar adolescentes a respeito da prevenção contra

20 KEPLER. p. 29.
222    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

doenças sexualmente transmissíveis ou gravidez indesejada.


Esse silêncio, porém, pode ser muito perigoso, até porque ele
é um “faz de conta”, ou seja, não falarmos sobre o assunto
não tira o fato dele continuar causando problemas em nossas
comunidades, até porque as tentações rondam diariamente os
cristãos.

Kepler resume essa preocupação em uma possível frase


de aconselhamento, que deveria ser dita preferencialmente
no meio familiar: “Não estou dizendo que é certo você ter
relações sexuais com sua namorada/namorado; o que estou
dizendo é que, mesmo assumindo que esteja errado, se você
for errar, não cometa um segundo erro, muito pior, que seria
o de ter relações sem preservativo; porque além de errar, você
poderá estar pegando AIDS, ou você pode estar engravidan-
do”.21 Fechar os olhos para essa realidade, mesmo que tenha-
mos ensinado nossos filhos a andar no caminho correto, seria
um erro pedagógico. O momento de se ter essa conversa,
porém, vai da sensibilidade de cada pai e mãe.

Já sobre outras questões éticas ligadas à sexualidade, não


pairam dúvidas sobre o seu efeito nocivo na vida dos indiví-
duos, casais e famílias. Práticas como a traição e infidelidade
conjugal, sejam elas no mundo real ou virtual, são fonte de
muito sofrimento para aquele que foi traído, sendo um dos
grandes motivos para brigas, violências, separações e divór-
cios. Quando há filhos envolvidos, o sofrimento é estendido a
eles, tornando ainda mais complexa a intervenção. É funda-
mental que o conselheiro conheça e escute os dois cônjuges,

21 KEPLER. p. 30.
Capítulo 9   Temas Controversos em Aconselhamento   223

tanto quem traiu como quem foi traído. É preciso estar atento
a todo contexto biográfico-relacional que envolve atos de infi-
delidade e traição. Não que isso sirva para eventualmente jus-
tificar uma infidelidade, mas auxilia para que a intervenção do
conselheiro possa ser mais efetiva e profícua. Atos de traição
poderão estar ligados a vínculos relacionais doentios, à atos
de vingança, à carência afetiva, à falta de perdão, a falhas
profundas de caráter, a crises evolutivas, a desvios de persona-
lidade etc. Tudo isso precisa ser levado em conta no processo
de aconselhamento.

Outro tema sobre o qual não pairam dúvidas sobre seus


efeitos nocivos é o vício pela pornografia, problema agravado
hoje pelo acesso fácil a sites da Internet. Pesquisas recentes
têm verificado que há muitas similaridades entre os efeitos ne-
gativos do vício pela pornografia, ligado à compulsão sexual,
para com outros tipos de vícios, podendo se transformar até
em um distúrbio comportamental grave. Esse vício pode afetar
a vida social e relacional dos indivíduos, pode baixar os níveis
de produtividade nos estudos e no trabalho, além de gerar iso-
lamento, culpa e até depressão. Em indivíduos casados, pode
gerar sérios problemas conjugais. É algo sobre o qual precisa-
mos também estar atentos, também de forma preventiva.

Finalmente, quanto ao polêmico tema da homossexuali-


dade ou homoafetividade, que é o desejo sexual e afetivo por
pessoas do mesmo sexo, esse assunto mereceria um capítulo
especial, tamanho a sua relevância nos tempos atuais. Muitas
igrejas têm sido acusadas, com certa razão, em incitarem a
homofobia, ou seja, o ódio aos homossexuais, demonizando
224    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

tal comportamento, o que vai contra os preceitos do amor


cristão.

Segundo Collins, a Bíblia menciona a homossexualidade


apenas em sete passagens, sendo que em todas elas há ele-
mentos que demonstram a desaprovação de Deus por esse
comportamento. Entretanto, analisando alguns artigos e livros
cristãos que tratam dessa questão, vemos que os mesmos tex-
tos bíblicos recebem interpretações distintas e até opostas de
teólogos e conselheiros, o que demonstra o quão polêmico é
esse tema.

O que importa para nós, conselheiros, é entender que mui-


tas pessoas que possuem tendências homossexuais (fica na di-
mensão do desejo pelo mesmo sexo) sofrem profundamente
por causa delas, assim como outros que vão além e desenvol-
vem um comportamento homossexual (envolvimento concreto
com pessoas do mesmo sexo) também podem estar vivendo
grandes conflitos internos, marcados pela dinâmica desejo X
culpa X castigo X condenação.

Um conselheiro capaz não deveria encarar pessoas com


tendências e comportamento homossexual/homoafetivo como
piores ou mais contumazes pecadoras, ou quem sabe como
pessoas com falhas graves de caráter. Isso cria um estigma e
alimenta o preconceito. Pecadores e com falhas de caráter so-
mos todos nós, humanos. Como vai dizer Collins, “precisamos
examinar as nossas atitudes em relação aos gays, procurar
entender a diversidade do homossexualismo e evitar aconse-
Capítulo 9   Temas Controversos em Aconselhamento   225

lhar pessoas com orientação homossexual enquanto nossas


atitudes negativas não mudarem”.22

Finalizamos a questão da homossexualidade com a conclu-


são de Collins, quando ele alerta e aconselha:

é impossível estimar quantas pessoas, inclusive cristãos,


lutam contra impulsos homossexuais. Com medo de se-
rem rejeitadas ou mal compreendidas, essas pessoas fa-
zem de tudo para não admitir suas tendências. Muitas
vezes, elas lutam sozinhas, enfrentando a culpa e a auto-
condenação e buscando racionalizações que possam ex-
plicar ou desculpar seus pensamentos ou ações sexuais.
Essas pessoas podem ser ajudadas, e a igreja pode ser
um lugar de cura. Para o conselheiro sensível, que pro-
cura entender o homossexualismo, o aconselhamento de
homossexuais não é muito diferente dos outros tipos de
aconselhamento. Ela envolve “uma aplicação do poder
do evangelho para curar e transformar a vida do povo de
Deus em um contexto de aconselhamento”.

A principal ferramenta terapêutica e de cura, portanto, per-


manece sendo o anúncio da graça, do amor e da misericór-
dia de Deus, que acolhe e perdoa o pecador, independente-
mente do seu pecado. É essa graça que o conselheiro precisa
anunciar, confiando que o Espírito Santo possa realizar o seu
trabalho de regeneração nos corações e mentes dos nossos
aconselhandos.

22 COLLINS. p. 336.
226    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

Recapitulando

O presente capítulo buscou tratar de dois temas sobre os quais


pairam algum risco ou polêmica na atuação do conselheiro:
o alcoolismo/drogadição e a sexualidade. Com relação ao
alcoolismo, o grande problema encontrado pelo conselheiro
são os processos de negação, especialmente do alcoólatra,
que teima em afirmar que possui o controle sobre a bebida e
não aceita ajuda para si. Outro problema é a definição acer-
ca do alcoolismo, sobre se é uma doença ou apenas uma
falha moral. Como vimos, é preciso ter uma postura interme-
diária diante dessa questão. Destacou-se aqui estratégias de
intervenção para prevenção e tratamento de alcoólatras, em
uma perspectiva multiprofissional, que envolve uma série de
medidas, desde apoio espiritual, familiar como o encaminha-
mento a instituições como os AA. O capítulo também abordou
o tema da sexualidade, mostrando que esse ainda é um tema
tabu para a igreja. Foi sinalizado para as abordagens positi-
va e negativa que podem ser feitas pelo conselheiro e pelas
próprias igrejas. Enfatizou-se que a sexualidade deve ser vista
como uma maravilhosa criação de Deus que precisa ser exer-
cida com responsabilidade pelos cristãos, assim como alertou-
-se para os perigos e tentações que rondam os cristãos nesse
tema.

Referências

ADAMS, Jay E. Conselheiro Capaz. São Paulo: Fiel, 1977.


Capítulo 9   Temas Controversos em Aconselhamento   227

COLLINS, Gary R. Aconselhamento cristão: edição século


21. São Paulo: Vida Nova, 2004.

FARRIS, James. Sexualidade fiel: reflexões sobre a sexualida-


de e uma teologia de ser. Faculdade de Teologia da Igreja
Metodista. Material do Curso de Pós-Graduação em Ciên-
cias da Religião. UMESP.

KEPLER, Karl. Pastoral da Sexualidade. In: Revista Psicoteolo-


gia. 2008. p. 27-31.

KRESTAN, Jo-Ann; BEPKO, Cláudia. Problemas de alcoolismo


e o ciclo de vida familiar. In: CARTER, Betty; McGoldrick,
Mônica. As mudanças no ciclo de vida familiar: uma
estrutura para a terapia familiar. 2. ed. Porto Alegre: Artes
Médicas, 1995.

SANCHEZ, Zila van der Meer; NAPPO, Solange Aparecida. A


religiosidade, a espiritualidade e o consumo de drogas. In:
Rev. Psiq. Clín. 34, supl. 1; 73-81, 2007.

Atividades

1) Quando se analisa sociologicamente os efeitos nocivos do


uso e abuso de álcool, precisamos admitir que ele interfere
negativamente no aumento de algumas práticas, tais como:
_______________________________, ________________,
_________________________ e ___________________.

2) Há uma discussão sobre se devemos classificar o alcoolis-


mo como uma doença ou apenas um problema de ordem
228    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

moral. Gary Collins possui uma visão intermediária, na


qual ele afirma que________________________________
________________________________________________
_____________.

3) Dentre os inúmeros problemas éticos que envolvem


o campo da sexualidade humana na contemporanei-
dade, podemos citar: ____________, ___________,
_____________________, ______________________ e
__________________.

4) Procure descrever algumas das possíveis causas que levam


pessoas a desenvolver o alcoolismo.

5) Há dois modelos básicos de abordagem acerca da sexua-


lidade no ambiente cristão. Descreva-os.
Thomas
????????
Heimann1

Capítulo
Capítulo 10
?

Aconselhamento em
Situações de Crise 1

1 Doutor em Teologia. Coordenador do Curso de Teologia da ULBRA. Professor de


Teologia na área da Psicologia e Aconselhamento Pastoral. Professor do Curso de
Pós-Graduação em Gestão de Pessoas. Membro do Grupo de Pesquisa em Acon-
selhamento e Psicologia Pastoral da Faculdades EST. Pastor da Igreja Evangélica
Luterana do Brasil – IELB. Psicólogo clínico.
230    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

Introdução

Nesse último capítulo, vamos tratar do aconselhamento espe-


cificamente nas situações de crise, buscando compreender não
só o conceito de crise, os principais tipos de crise existentes,
mas também como se dão os processos psíquicos e espirituais
dos indivíduos diante dessas situações de enfrentamento mais
agudos e intensos.

Mesmo que os capítulos anteriores também tematizem as-


suntos que poderiam ser classificados como crises, aqui apro-
fundaremos outras questões relativas ao tema, especialmente
práticas interventivas que podem ser utilizadas pelo teólogo e
conselheiro diante das pessoas que o procuram sob a condi-
ção de estarem vivenciando crises em suas vidas.

1 Crises como condição humana

Quem de nós já não viveu algum tipo de crise? Crises emo-


cionais, espirituais, conjugais, existenciais, financeiras, rela-
cionais, vocacionais entre tantas outras que poderíamos citar.
Nessa perspectiva ampla, podemos afirmar que crises são ine-
vitáveis ao longo do percurso da vida, sendo uma condição
humana da qual dificilmente iremos escapar.

O sentido mais clássico e conhecido de crise refere-se ao


fato de dela estar relacionada a uma situação difícil e grave
que pode comprometer o desenvolvimento ou a continuidade
de um indivíduo, grupo, instituição ou mesmo sociedade. Não
Capítulo 10    Aconselhamento em Situações de Crise    231

só indivíduos sofrem crises, mas casais, famílias, igrejas, orga-


nizações, países etc. Fala-se de crise econômica, crise política,
crise de valores na pós-modernidade, crise da religião etc.

O Dicionário online de Português define crise como “mo-


mento perigoso ou difícil de uma evolução ou de um pro-
cesso; período de desordem acompanhado de busca penosa
de uma solução”. Já o Dicionário online Priberam define crise
da seguinte forma: “Do grego krísis, ato de separar, decisão,
julgamento, evento, momento decisivo; mudança súbita ou
agravamento que sobrevém no curso de uma doença agu-
da; manifestação súbita de um estado emocional ou nervoso;
conjuntura ou momento perigoso, difícil ou decisivo; falta de
alguma coisa considerada importante”.2

A partir dessas definições, fica claro que crise é algo que


vai mobilizar profundamente o ser humano, afetando a inte-
gralidade de seu ser, assim como os sistemas e subsistemas
nos quais o indivíduo vive e convive, envolvendo a conjuntura
familiar, grupal e social.

Collins, ao tratar desse tema, vai afirmar que uma crise


é um momento de decisão que não pode ser evitado. É uma
situação da qual não há como escapar, mesmo que sejam
feitas tentativas nesse sentido, ou seja, uma crise vai exigir do
indivíduo e grupos um enfrentamento “frontal” com o seu pro-
blema. A crise faceia o sujeito com o seu sofrer, colocando ele
diante da falta, da fragilidade, da vulnerabilidade e da impo-
tência que brota diante de algumas vicissitudes da vida.

2 Dicionário Priberam. Crise. Disponível em: <http://www.priberam.pt/dlpo/cri-


se>. Acesso em: 27 mar. 2016.
232    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

Lothar Hoch afirma que crises fazem parte do cotidiano


da teologia pastoral. Ele busca definir crise a partir de dois
autores clássicos da Psicologia Pastoral norte-americana, cha-
mados David Switzer e Howard Stone:

na compreensão de Stone, crise é um “tempo crucial”,


um “momento de virada” no decorrer de um processo.
Mais concretamente, ele entende crise como reação in-
terna, de natureza emocional, a uma circunstância ex-
terna que ameaça a pessoa. Também Switzer caracteri-
za a crise como reação a um evento que ocasiona uma
mudança súbita e “desafia a autoconcepção ou o senso
de identidade da pessoa”, dando-lhe simultaneamente a
sensação de estar sendo ameaçada, e o sentimento de
ser incapaz de lidar com a situação, se fizer uso de re-
pertório habitual de comportamento à sua disposição”.3

Aliado à concepção dos autores anteriores, como um dado


curioso, é interessante observarmos que o termo ‘crise’, na lín-
gua chinesa, é composto de dois ideogramas, sendo que um
deles significa perigo e o outro significa oportunidade. Apli-
cando esse duplo conceito, Collins vai então afirmar:

as crises representam perigo porque interrompem o


curso normal da vida e ameaçam esmagar as pessoas
atingidas. [...] Muitas vezes, isso nos deixa confusos e
desorientados e, muitas vezes, nos sentimos incapazes,
ansiosos, com raiva, desanimados, tristes ou culpados.
Esse tumulto intelectual, comportamental e emocional

3 HOCH, Lothar Carlos. A crise pessoal e sua dinâmica: uma abordagem a partir da
psicologia pastoral. In: HOCH, Lothar Carlos (Org.). Redes de apoio na crise. p. 34.
Capítulo 10    Aconselhamento em Situações de Crise    233

geralmente é temporário, mas pode durar várias sema-


nas, ou até mais.

Contudo, as crises dão às pessoas uma oportunidade de


efetuar mudanças na vida, amadurecer a personalida-
de e aprender a reagir melhor diante das dificuldades.
Como as pessoas em crise geralmente se sentem con-
fusas, elas ficam mais abertas a receber ajuda externa,
inclusive da parte de Deus e de um conselheiro.4

Algo muito próximo vai ser proposto pelo conselheiro pas-


toral Jack Young,5 ao afirmar que as crises podem ter duas
grandes consequências. A primeira é positiva, levando o in-
divíduo à maturação e ao desenvolvimento pessoal. A crise
pode impulsionar o indivíduo para que ele encontre recursos
latentes que existiam dentro de si, mas que por algum motivo
estavam escondidos. A crise nos tira de nossa zona de con-
forto, podendo tornar as pessoas mais amadurecidas e mais
capazes de enfrentar os problemas da vida.

A segunda consequência, essa de caráter negativo, pode


levar o indivíduo à desestruturação psíquica e emocional, que
pode desorientar as pessoas a ponto de levá-las a cometer
ações nocivas e desastrosas em sua vida. Podem, ainda, ser
geradoras de doenças de cunho psicossomático e até mesmo
tentativas de suicídio, dependendo da intensidade ou gravida-
de da crise enfrentada e do próprio perfil de personalidade do
indivíduo.

4 COLLINS, Gary. Aconselhamento cristão. Século XXI. p. 75-6.


5 YOUNG, Jack. Cuidados pastorais em horas de crise. p. 20-22.
234    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

Collins, na sua obra Ajudando uns aos outros pelo aconse-


lhamento, afirma que se o indivíduo fizer tentativas sucessivas
de sair da crise e fracassar ele pode entrar em um colapso
físico, mental, ou de ambos. Se isso acontecer, o indivíduo não
vai mais encontrar recursos ou energias pessoais para enfren-
tar o estresse, podendo desistir de lutar.6

O problema das crises é que elas transtornam muito a per-


cepção dos indivíduos em relação à realidade que está em
seu redor, interferindo drasticamente na capacidade de discer-
nimento e de decisões que podem ser tomadas. Por isso, o
ideal é que as pessoas não tomem decisões importantes quan-
do estiverem submetidas a uma pressão emocional muito forte,
especialmente quando essas decisões possam afetar uma área
familiar ou seu próprio rumo na vida. Exemplos dessas decisões
seriam vender uma casa, divorciar-se, abandonar o emprego,
trocar de igreja etc. Uma decisão tomada em meio a uma crise
tem grandes chances de ser precipitada e equivocada. Somen-
te após a superação da crise, ou ao menos após sua minimiza-
ção, que o indivíduo poderia estar apto a tomar uma decisão
mais sensata e prudente, com menor chance de erro.7

Outro problema das crises é que muitos indivíduos tentam


ignorá-la, apelando para mecanismos de defesa e fuga, por
vezes, inconscientes, ou seja, não se dão conta disso. Já outras
pessoas podem entrar em desespero, outras ainda podem fe-
char-se em fantasias mágicas e irracionais de solução, outros
passam a ter comportamentos reativos socialmente inaceitá-

6 COLLINS, Gary. Ajudando uns aos outros pelo aconselhamento. p. 114-5.


7 YOUNG. p. 19.
Capítulo 10    Aconselhamento em Situações de Crise    235

veis entre outras posturas inadequadas. Por outro lado, alguns


indivíduos podem ter a capacidade de reagir às crises de for-
ma mais equilibrada e proativa. Avaliam a situação e tentam
encontrar técnicas criativas, realistas e socialmente aceitáveis
para a solução do problema, criando modos saudáveis de re-
sistência, resiliência e enfrentamento das dificuldades.

O conselheiro precisa estar atento a qual desses perfis se


encaixa o seu aconselhando, pois alguns desses perfis exigirão
um acompanhamento muito mais próximo e intenso por parte
do cuidador.

2 Os diferentes tipos de crise

Ao tentarmos classificar os tipos de crise que existem, pode-


mos enveredar por diferentes caminhos, tal como o que já
propusemos há pouco. De modo genérico, poderíamos esta-
belecer dois grandes tipos de crise: as desenvolvimentais e as
acidentais. As crises desenvolvimentais também são chamadas
de crises evolutivas ou vitais e ocorrem de forma até esperada
ao longo do ciclo da vida, mesmo que possam ser sentidas e
enfrentadas de forma bem diferente por cada indivíduo. Entre
essas crises vitais, podem ser citadas: o trauma do nascimento,
a entrada na escola, a crise da adolescência, a crise vocacio-
nal, a crise da meia idade, a síndrome do ninho vazio, a apo-
sentadoria, a menopausa, a velhice, a morte, dentre outras.
Já as crises acidentais são aquelas que entram de forma im-
previsível em nossas vidas, como intercorrências inesperadas
na nossa trajetória: uma gravidez indesejada na adolescência,
um aborto, uma morte precoce de um filho ou cônjuge, uma
236    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

doença grave, uma traição, o término de um casamento pelo


divórcio, o desemprego, um assalto ou sequestro etc.

Já Collins classifica um terceiro tipo de crise, que ele chama


de crise existencial. Esta diz respeito ao próprio mundo interno
do sujeito, quando ele acaba enfrentando verdades perturba-
doras acerca de si mesmo, como, por exemplo: “sou um fra-
casso”; “não vejo sentido ou propósito em minha vida”; “não
acredito em mais nada”; “estou velho demais para realizar
meus sonhos” etc.8 Tais crises, mesmo que não estejam ligadas
a um problema “concreto” não são tão simples de serem resol-
vidas, por vezes exigindo muitas sessões de aconselhamento,
pois envolvem questões bem profundas da psique humana.

Independentemente do tipo de crise, é muito difícil, ao


sermos questionados como conselheiros e teólogos, tentar
explicar às pessoas a razão delas estarem passando por tais
sofrimentos. Não há respostas definitivas. Precisamos cuidar
para não cairmos na tentação de dar uma resposta simplista,
apesar de ser verdadeira no seu âmago, que é tudo por causa
do pecado. Essa é a causa original de todos os males, mas as
razões humanas para crises específicas enfrentadas pelas pes-
soas em suas vidas poderão nunca ser totalmente conhecidas.
Cabe, porém, auxiliar os aconselhandos a enfrentar as suas
crises e a amadurecer com elas, mesmo que não seja possível
compreendê-las em toda a sua complexidade.

Ainda nessa seção do capítulo, vamos falar de pelo me-


nos duas crises evolutivas, tentando dar uma rápida visão de

8 COLLINS, Gary. Aconselhamento cristão. Século XXI. p. 76.


Capítulo 10    Aconselhamento em Situações de Crise    237

como elas impactam na vida individual e familiar. Elas servirão


a título de exemplo para que o conselheiro perceba o quão
sistêmicas são as crises evolutivas humanas.

2.1 A crise da adolescência


A chegada da adolescência é uma fase onde podem surgir
grandes conflitos para os indivíduos e também para suas fa-
mílias. Luiz Carlos Osório, em sua obra O adolescente hoje,
descreve algumas características dessa fase, cujo conjunto de
turbulências físicas, emocionais, relacionais, espirituais, voca-
cionais culmina no que determinamos crise adolescente.

Física e biologicamente, a adolescência é precedida da pu-


berdade, na qual ocorre uma mudança significativa no corpo
da criança. Há uma explosão hormonal, que transforma o cor-
po infantil, com o aparecimento das características sexuais se-
cundárias. Surge uma crise na própria imagem corporal, com
a perda gradativa do corpo infantil e a necessidade de aceita-
ção de um corpo adulto, que vai se formando aos poucos, de
forma até desengonçada. Há, por vezes, um luto psicológico
pela perda da condição infantil, à medida em que vão surgin-
do maiores cobranças de responsabilidade e autonomia nas
tarefas e escolhas pessoais.

Na adolescência, também precisa ocorrer a culminação do


processo de separação e individuação, no qual o indivíduo
passa a substituir os vínculos simbióticos (de dependência) com
os 'pais da infância' por relações objetais de autonomia plena.
Surge uma natural crise de valores, no qual o adolescente pre-
cisa agora viver com uma escala de valores ou código de ética
238    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

próprio. Passa, por isso, a questionar regras impostas pelos


adultos, pela escola, pela igreja etc. Surgem conflitos na área
da identidade sexual e do exercício da sexualidade, conflitos
vocacionais acerca de qual encaminhamento profissional dará
em sua vida, dentre outros.9 Érikson sintetiza esses conflitos no
que chama de crise de identidade. Esses são aspectos da crise
do adolescente. Mas, e a família? Também sofre ou se impacta
com isso? A resposta é geralmente positiva.

Uma das primeiras dificuldades recai sobre a forma como


os pais vão tratar o adolescente. Por vezes, os pais exigem que
o filho se comporte de forma mais adulta, criticando-o por
estar agindo como criança. Porém, contraditoriamente, logo a
seguir, os pais podem criticar o filho quando este quiser fazer
algo “mais adulto”, dizendo a ele que ainda não possui idade
para tal ação. Há uma tensão constante nesse sentido, que
vai criar confusões e dificuldades com respeito ao manejo de
limites. Um outro problema surge quando os pais, em um pro-
cesso inconsciente de negação de seu próprio envelhecimento,
acabam agindo tal e qual um adolescente, criando dificulda-
des na clarificação dos papéis familiares. Ser amigo do filho
adolescente não significa agir como ele. Um exemplo seriam
mães que começam a se vestir exatamente como as filhas ado-
lescentes, ou pais que querem voltar a se tornar namoradores.
Outra faceta dessa crise relaciona-se à própria dificuldade dos
pais em permitir a saída do adolescente do seio familiar, crian-
do dificuldades no processo de desprendimento afetivo.

9 OSÓRIO, Luiz Carlos. O Adolescente Hoje. Porto Alegre: Artmed, 1989.


Capítulo 10    Aconselhamento em Situações de Crise    239

Outro problema, cada vez mais comum na contempo-


raneidade, é a dificuldade para se lidar com a iniciação da
vida sexual dos filhos, especialmente dentro de um contexto
da moral sexual cristã. Pais que não tenham bem resolvido
essas questões consigo mesmos poderão criar sérios proble-
mas relacionais com seus filhos. Como podemos ver, a crise
da adolescência é uma crise que atinge não só o adolescente,
mas todo o sistema familiar, devendo ser assim entendida pelo
conselheiro. Uma intervenção, portanto, sempre deverá ser sis-
têmica, fazendo alusão a um ditado popular bem conhecido:
“Não adianta limpar o porquinho se não lavarmos o chiquei-
ro”. Parafraseando: “Não adianta intervir sobre o adolescente
se não orientarmos a família”.

2.2 A síndrome do ninho vazio


A crise denominada de síndrome do ninho vazio, mesmo que
atinja diretamente os casais, também é uma crise de caráter
sistêmico. Ela é caracterizada pela saída dos filhos do lar, que
saem na busca de casar e formar as suas próprias famílias.
Esse fenômeno gera um desconforto emocional nos pais ao
verem o ninho de seu lar se esvaziar. Entretanto, esse pode ser
um momento muito rico para os cônjuges, que podem passar
a reinvestir em si mesmos enquanto casal, fortalecendo sua
intimidade e realizando projetos que foram postergados ou
relegados a um segundo plano em função da prioridade da
criação dos filhos.

A crise, porém, poderá advir em função do modo como


tenham sido estabelecidos os papéis conjugais e parentais no
período da criação dos filhos. Se nesse período os cônjuges se
240    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

afastaram, perdendo a intimidade física e afetiva, a necessi-


dade de agora conviverem apenas um com o outro no "ninho
vazio", pós saída dos filhos, pode levá-los a um certo estranha-
mento, na retomada plena dos papéis conjugais.

Porém, como vão dizer Sartori e Zilberman, essa síndrome


ou crise parece estar ligada à cultura, pois em culturas em que
as pessoas estão acostumadas e preparadas para se separarem
dos filhos, a síndrome parece não trazer grandes mudanças ou
conflitos. Mas naqueles grupos sociais onde um dos cônjuges
ainda se dedica muito à criação dos filhos, observou-se que
ainda existe sofrimento e sentimento de solidão, que podem se
associar a quadros de baixa autoestima, depressão e alcoolis-
mo. Porém, mesmo mães que trabalham fora de casa não es-
tão imunes a essa síndrome, pois a sua emergência dependerá
da relação estabelecida com os filhos e sua realização como
mãe e profissional. Um agravante para a eclosão dessa crise
é que, nesse mesmo período, o casal poderá estar vivenciando
fenômenos como a aposentadoria e a menopausa, fatores que
podem agravar os sentimentos de melancolia e baixa autoesti-
ma. Atualmente, tem se observado que também os pais/homens
também passaram a sofrer com a saída dos filhos de casa, di-
ferentemente do que costumava ocorrer até o século passado.10

McCullough e Rutenberg, ao tratarem desse tema, afirmam


que esse momento evolutivo da vida do casal vai estar rela-
cionados com quatro outras tarefas que envolvem o sistema

10 SARTORI, Adriana C. R.; ZILBERMAN, Mônica L. Revisitando o concei-


to de síndrome do ninho vazio. In: Rev. Psiquiatr. Clín., vol. 36, n. 3, São Pau-
lo, 2009. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid
=S0101-60832009000300005>. Acesso em: 4 mar. 2016.
Capítulo 10    Aconselhamento em Situações de Crise    241

familiar: a) a mudança de função do casamento; b) o desen-


volvimento de relacionamentos adultos entre os filhos adul-
tos e seus pais; c) a expansão dos relacionamentos familiares,
para incluir os parentes por afinidades e os possíveis netos;
d) a oportunidade de resolver relacionamentos com pais que
estão envelhecendo. Todas essas tarefas proporcionam uma
oportunidade de reexaminar o significado da família em todos
os níveis.11

A mudança na função do casamento, porém, talvez seja o


aspecto mais nevrálgico dessa crise evolutiva. As autoras afir-
mam que não ter mais que cuidar dos filhos deixa mais tempo li-
vre para a autorreflexão do casal, que precisará lidar novamente
com as suas intimidades sexuais e afetivas, precisando reelabo-
rar os seus laços conjugais. O casamento dos filhos é mais um
elemento que impulsiona o casal para a reflexão de seu próprio
casamento. Como já dissemos, a maturidade do casal é que vai
determinar como esses temas serão enfrentados por eles.

3 Elementos importantes do aconselhamento


na intervenção em crise

Um conselheiro precisa estar atento às crises de sua comuni-


dade de fé, até porque muitas pessoas terão receio em procu-
rá-lo nesses momentos, seja por inibições pessoais, por pensar

11 McCULLOUGH, Paulina G; RUTENBERG, Sandra K. Lançando os filhos e se-


guindo em frente. In: CARTER, Betty; McGoldrick, Mônica. As mudanças no ciclo de
vida familiar: uma estrutura para a terapia familiar. p. 248.
242    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

que isso seja sinal de fraqueza, por falta de confiança no con-


selheiro ou por qualquer outro motivo. Nesse sentido, cresce a
importância do conselheiro conhecer os momentos principais
do ciclo vital em que poderão surgir crises desenvolvimentais/
evolutivas, bem como estar atento para as intercorrências da
vida dos membros de sua comunidade, tal como já sinaliza-
mos anteriormente. Muitas vezes, os indivíduos e as famílias
poderão estar enfrentando crises, ao mesmo tempo que as
estejam guardando em um perigoso silêncio.

Diante dessa situação, a busca do conhecimento teórico


acerca das crises é apenas um dos elementos importantes para
uma intervenção terapêutica ágil e profícua. O outro elemento
está ligado ao estabelecimento das relações cotidianas com
a comunidade de fé. A comunidade precisa perceber o teó-
logo, líder ou conselheiro como alguém sempre disponível
para acolher, apoiar e auxiliar, começando pelas pequenas e
singelas situações da vida. Dessa forma, quando as grandes
dificuldades e crises surgirem, o vínculo de confiança já esta-
rá construído entre o conselheiro e seu “rebanho”. Por isso,
usando as sábias palavras do Papa Francisco, é absolutamente
imprescindível que o “pastor tenha cheiro de ovelhas”, ou seja,
pastores, conselheiros e cuidadores precisam ser vistos, senti-
dos e reconhecidos publicamente como pessoas enviadas por
Deus para auxiliar o povo que sofre, vivendo em meio a ele,
sendo uma referência pública e visível do “Bom Pastor” Jesus.

Não é à toa que as pessoas e as multidões acorriam para


Jesus, levando a Ele os seus piores problemas, visto que Jesus
sempre se mostrava disponível para ir ao encontro delas. Jesus
tinha “cheiro de ovelhas”, vivendo entre o povo e acolhendo
Capítulo 10    Aconselhamento em Situações de Crise    243

aqueles que sofriam, como tão bem exemplifica a história dos


10 leprosos (Lucas 17.11-19), entre tantas outras que pode-
riam ser citadas.

Recorrendo ao renomado conselheiro Gary Collins, ele es-


tabelece algumas metas ou tarefas do cuidador para auxiliar
pessoas que tenham se desestruturado em função de crises em
suas vidas. É preciso, primeiramente, investigar e identificar
qual o elemento central causador da crise, ajudando as pes-
soas a protegerem as suas emoções bem como a reorganiza-
rem as suas prioridades. O conselheiro, portanto, deve:

ajudar a pessoa a superar o momento agudo da crise e voltar


ao seu estado normal; diminuir o nível de ansiedade, preo-
cupação e outras inseguranças que podem surgir durante a
crise e permanecer depois que ela passar; ensinar técnicas
de controle de emergências para que a pessoa possa antever
e lidar eficazmente com crises futuras; ministrar os ensina-
mentos bíblicos sobre situações de crise, para que a pessoa
possa tirar lições dos acontecimentos e amadurecer.12

Normalmente, por estar fora do turbilhão emocional que as


crises evocam, o conselheiro pode ter uma capacidade maior
de objetivar os problemas e as possíveis soluções para as cri-
ses, auxiliando o aconselhando a eleger prioridades e a tomar
as melhores decisões, especialmente as mais urgentes. Nas
crises mais graves, por vezes, haverá a necessidade do conse-
lheiro ser mais diretivo no aconselhamento, o que não significa
assumir a responsabilidade das decisões pelo aconselhando.

12 COLLINS, Gary. Aconselhamento cristão. Século XXI. p. 77.


244    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

Em outra de suas obras, Ajudando uns aos outros pelo


aconselhamento, Gary Collins faz uma tabela na qual apre-
senta os meios errados e certos de lidar com a crise. Transcre-
vemos o quadro em sua íntegra.

Quadro 1  Meios errados e certos de lidar com a crise13


Meios errados de lidar com a crise Meios certos de lidar com a crise
1. Negar que existe um problema 1. Enfrentar o fato de que existe um pro-
blema.
2. 
Fugir do problema ignorando-o, 2. T entar compreender melhor a situação.
ocultando-o, ou tentando escapar
dele através do álcool ou outras
drogas.
3. 
Recusar-se a buscar ou aceitar 3. Abrir canais de comunicação com ami-
ajuda. gos, parentes, pastores, ou outros que
talvez possam ajudar.
4. 
Esconder sentimentos de tristeza, 4. 
Enfrentar os sentimentos negativos de
ira, culpa, dentre outros. culpa, ansiedade ou ressentimento, ou
pensar em atos e meios alternativos de
examinar a situação, a fim de poder li-
dar com esses sentimentos.
5. 
Não pensar em meios práticos 5. Separar o que pode ser mudado na si-
para lidar com a crise. tuação do que não pode.
6. Culpar outros por causar a crise 6. Verificar meios práticos de lidar com o
e esperar que alguém fique total- problema e tomar providências (mesmo
mente responsável por saná-la. que pequenas) tratando o problema de
modo prático.
7. Representar o papel de vítima in- 7. Aceitar a responsabilidade de enfrentar
defesa de quem outros abusaram e problemas, mesmo que esses tenham re-
que nada pode fazer, exceto sofrer. sultado de situações fora de seu controle.
8. Afastar-se dos amigos ou da fa- 8. 
Orar sobre o assunto, contando sin-
mília. ceramente a Deus suas preocupações.
9. Recusar-se a orar sobre a crise. Lembrar-se de que Deus está tanto a
par de nossas crises quanto preocupa-
10. 
Convencer-se de que a crise é do conosco.
uma evidência do castigo ou
desfavor de Deus.

13 COLLINS, Gary. Ajudando uns aos outros pelo aconselhamento. p. 118.


Capítulo 10    Aconselhamento em Situações de Crise    245

Para Clinebell, no ministério de poimênica nos casos de cri-


se o papel dos pastores, teólogos e conselheiros como desper-
tadores de sentido e de esperança realista é crucialmente im-
portante. Na busca de levar os aconselhando ao crescimento
espiritual, sua função singular é auxiliar as pessoas acometidas
por crises a “descobrir a significatividade última da vida vivida
em um relacionamento com Deus, cujo amor inabalável está
sempre disponível, mesmo em meio a terríveis tragédias”.14

Encerramos este capítulo com a orientação do conselheiro


pastoral Lothar Hoch, quando trata das formas de intervenção
pastoral e psicológica junto a pessoas em crise. Diz Hoch:

a intervenção pastoral e psicológica nessa fase da crise


não pode consistir em uma tentativa de dar explicações.
Ajuda pouco confrontar a pessoa com considerações ou
explicações teóricas de natureza teológica e psicológica
acerca do momento em que está vivendo. [...] cabe ao
aconselhamento pastoral e psicológico ser uma ajuda
para descobrir, junto com a pessoa em crise, se há uma
reserva espiritual dentro dela, algo que ficou intacto no
seu ser e que possa ser ativado. [...]

Por último, entendo que o pastor ou terapeuta possa aju-


dar a pessoa a “juntar os cacos” e a reconstruir paulati-
namente a sua vida dentro da nova realidade, fazendo
uso dos recursos espirituais, humanos e materiais que
ela ainda dispõe. Em uma situação de crise é importante
que a pessoa consiga organizar o caos, separando o que

14 CLINEBELL. p. 179.
246    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

deve ser feito primeiro e o que pode ser deixado para


depois. Cada passo dado em direção ascendente, por
menor que seja, servirá de estímulo para os passos maio-
res que serão dados no momento certo e em um ritmo
compatível com os recursos e a força interior disponíveis.
As maiores inimigas na superação de uma crise são a
apatia e a tentativa de transferir a responsabilidade de
solucioná-las a terceiros.15

Recapitulando

Este capítulo buscou tratar do aconselhamento nas situações


específicas de crise, buscando compreender o conceito de cri-
se, suas tipologias e as formas como as pessoas podem en-
frentá-las em suas vidas. O conselheiro precisa estar atento
às crises tanto evolutivas quanto acidentais que podem estar
afetando os membros de sua comunidade, podendo agir de
forma também preventiva nesse sentido. Destacou a crise da
adolescência e a síndrome do ninho vazio como exemplos de
crises sistêmicas, mostrando que elas afetam todo o entor-
no familiar. Procurou subsidiar o conselheiro na reflexão dos
elementos fundamentais de intervenção em crise, sinalizando
para as estratégias corretas e incorretas que precisam ser ob-
servadas pelos aconselhandos e pelos conselheiros.

15 HOCH, Lothar Carlos. A crise pessoal e sua dinâmica: uma abordagem a partir da
psicologia pastoral. In: HOCH, Lothar Carlos (Org.). Redes de apoio na crise. p. 41-2.
Capítulo 10    Aconselhamento em Situações de Crise    247

Referências

CLINEBELL, Howard. Aconselhamento Pastoral: modelo


centrado em libertação e crescimento. 3. ed. São Paulo:
Paulus; São Leopoldo, RS: Sinodal, 2000.

COLLINS, Gary R. Aconselhamento cristão: edição século


21. São Paulo: Vida Nova, 2004.

COLLINS, Gary R. Ajudando uns aos outros pelo aconse-


lhamento. São Paulo: Vida Nova, 2005.

Dicionário Priberam. Crise. Disponível em: <http://www.pri-


beram.pt/dlpo/crise>. Acesso em: 27 mar. 2016.

HOCH, Lothar Carlos. A crise pessoal e sua dinâmica: uma


abordagem a partir da psicologia pastoral. In: HOCH,
Lothar Carlos; SCHEUNEMANN, Arno. (Orgs.). Redes de
apoio na crise. São Leopoldo. RS: EST e ABAC, 2003.

McCULLOUGH, Paulina G; RUTENBERG, Sandra K. Lançando


os filhos e seguindo em frente. In: CARTER, Betty; McGol-
drick, Mônica. As mudanças no ciclo de vida familiar:
uma estrutura para a terapia familiar. 2. ed. Porto Alegre:
Artes Médicas, 1995.

OSORIO, Luiz Carlos. O Adolescente Hoje. Porto Alegre:


Artmed, 1989.

SARTORI, Adriana C. R.; ZILBERMAN, Mônica L. Revisitando


o conceito de síndrome do ninho vazio. In: Rev. Psiquia-
tr. Clín., vol. 36, n. 3, São Paulo, 2009. Disponível em:
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pi-
248    Tópicos Especiais em Psicologia e Teologia

d=S0101-60832009000300005>. Acesso em: 4 mar.


2016.

YOUNG, Jack. Cuidados pastorais em horas de crise. 2.


ed. Rio de Janeiro: JUERP, 1998.

Atividades

1) O conceito de crise, em uma perspectiva da origem de


seu conceito, possui uma curiosidade que é muito apro-
priada no contexto do aconselhamento. Essa curiosidade
refere-se ao termo no ideograma da língua chinesa, que
possui um duplo sentido, a saber: __________________ e
_____________________.

2) Segundo Gary Collins, as crises podem ter efeitos noci-


vos sobre o indivíduo com relação à realidade ao seu re-
dor. Isso implica certo perigo, que é, a saber:_________
_______________________________________________
_____________________.

3) Nós podemos classificar as crises em três grandes tipos,


que são: _____________________,___________________
e ___________________________________.

4) Dentre os tipos de crise existentes, uma é de caráter mais


vago e difuso. Descreva-a, demonstrando a sua peculiari-
dade e dificuldade para o conselheiro.

5) Segundo Gary Collins, há algumas metas ou tarefas do


cuidador ou conselheiro para auxiliar pessoas em crise.
Descreva-as.
Gabaritos  249

Gabaritos

Capítulo 1
1) Comportamento humano; o estudo sobre Deus; a preocu-
pação com o ser humano.

2) A Palavra de Deus falou, fala e falará em meio aos seres


humanos, agindo nos seres humanos, a favor dos seres
humanos e com os seres humanos.

3) Que o ser humano deve ser visto em uma visão holísti-


ca ou integral, considerando-o como um ser de múltiplas
dimensões: física, emocional, espiritual, material, social,
relacional, econômica etc.

4) O maior problema ou entrave para o diálogo frutífero en-


tre ambas as ciências é a postura extremada e radical,
tanto de teólogos quanto de psicólogos.

5) Karl Rahner é representante do modelo de integração pelo


diálogo. Rahner, alinha os diversos temas teológicos em
torno dos problemas do ser humano, procurando fazer
teologia para ajudar o ser humano atual. Os problemas
que a teologia estuda partem da realidade histórica do ser
humano e procuram sempre levar a consequências práti-
cas e reais. Rahner não tenta colocar o homem em lugar
de Deus, mas procura entender o homem à luz da revela-
ção e, fundamentalmente, o homem como ser em e para
Deus.
250  Gabaritos

Capítulo 2
1) O diálogo pastoral é uma conversa com um propósito es-
pecial. O pastor e o aconselhando são "um", trabalhando
em um problema que preocupa a ambos. Cada um faz a
sua própria contribuição para o processo. É um esforço
cooperativo.

2) Nível de conteúdo e nível de relação.

3) Função de acolhimento, de direção e de mediação.

4) Ambas as linguagens são importantes, pois uma comple-


menta a outra. O conselheiro precisa estar atento para
a congruência ou não de ambas. Mesmo que o conteú-
do seja o principal material do aconselhamento, a forma
como ele é enunciado diz muito acerca do mundo interno
do aconselhando.

5) Os mecanismos de defesa do ego são recursos ou estra-


tégias que um sujeito dispõe para protegê-lo contra a an-
siedade provocada pelos conflitos da vida cotidiana. O
aconselhando faz uso deles para defender-se de impulsos
e desejos inconscientes que ameaçam o seu equilíbrio psí-
quico. Como sessões de aconselhamento mobilizam an-
gústias e conflitos, os mecanismos poderão ser manifesta-
dos durante o diálogo e conversação pastoral.

Capítulo 3
1) Implica que o cuidado é uma condição imprescindível
para a própria sobrevivência humana e não apenas para
Gabaritos  251

proporcionar uma melhor qualidade de vida. Ele é uma


expressão de nossa humanidade.

2) Negação do cuidado; cuidado excessivo; descuido ou ca-


rência do cuidado.

3) O cuidado na dimensão vertical, do Deus que cuida de


sua criação e de seus filhos; o cuidado na dimensão ho-
rizontal, do ser humano que foi criado para cuidar um do
outro.

4) Além de ser uma clara orientação bíblica, conforme Atos


20.28, para cuidar bem, o cuidador precisa primeiramen-
te estar bem consigo mesmo, pois a sua condição emocio-
nal, física e espiritual é seu principal instrumento de inter-
venção. Só podemos doar ao outro aquilo que possuímos
em nós mesmos.

5) O cuidador precisa cuidar de si nas diferentes dimensões


de sua vida: física, corporal, emocional, relacional e espi-
ritualmente. Deve-se alimentar da Palavra de Deus, orar,
se alimentar bem, praticar exercícios físicos, encontrar es-
paços de lazer, cultivar amizades, buscar um supervisor ou
conselheiro para si mesmo, que lhe permita uma escuta de
suas próprias dores e angústias.

Capítulo 4
1) A própria Trindade indica um Deus de relação na sua es-
sência; Deus logo percebe que “não é bom que o homem
esteja só”, providenciando uma companheira a Adão;
Deus se comunica e se relaciona com suas criaturas.
252  Gabaritos

2) Uma das principais metas do aconselhamento é buscar


uma melhor relação do indivíduo com Deus, consigo mes-
mo e com o seu próximo. Além disso, todo o processo de
aconselhamento é eminentemente relacional, pautado em
uma relação de confiança do aconselhando para com o
conselheiro e de empatia relacional do conselheiro para
com o aconselhando.

3) Relações intrapessoais, interpessoais, intragrupais e inter-


grupais.

4) Vínculos são elos – emocionais e relacionais – que unem


duas ou mais pessoas, ou duas ou mais partes dentro de
uma mesma pessoa. A forma como os indivíduos se re-
lacionaram com as primeiras figuras parentais, de forma
saudável ou patológica, interferirão nos demais relaciona-
mentos por toda a vida. Isso precisa ser conhecido pelo
conselheiro para que ele possa melhor compreender de-
terminados tipos de condutas ou relacionamentos desen-
volvidos pelos seus aconselhandos.

5) Se o facear dos pais foi de reconhecimento, amor e pro-


teção à criança, inspirando confiança, a chance do rosto
de Deus ser associado ao amor e proteção paternas será
uma decorrência natural, ou pelo menos será muito mais
fácil de ser reconhecido dessa forma. Jesus mesmo pede
que chamemos o nosso Deus de “Pai”, conforme a oração
do Pai-Nosso.
Gabaritos  253

Capítulo 5
1) A escuta é o primeiro passo no processo terapêutico. Visa
conduzir à organização do pensamento da família através
da fala igualitária de seus membros. Isso indica também
respeito do conselheiro com o conflito trazido pela família,
que não parte de prejulgamentos ou soluções já prontas
para sua intervenção.

2) Aconselhamento Sistêmico.

3) Em falar diretamente, sem ser passional, ou seja, sem se


deixar tomar completamente pelas emoções.

4) Em um processo terapêutico familiar, dificilmente alguém


falaria “brincando” um conteúdo. Isso quer dizer que o in-
divíduo fala o que realmente pensa, apenas em um forma-
to diferente, não “tão sério”. Como diz a Bíblia, “a boca
fala do que está cheio o coração”.

5) Conjugalidade vem da definição de “jugo em conjunto” ou


seja, uma “canga”, como a que se usa para unir uma pa-
relha de bois. Por conjugalidade, entende-se uma relação
estável, que envolve pessoas em uma dinâmica relacional,
com o objetivo de viver uma vida em comum. Apesar da
definição sugerir algo que tolhe ou aprisiona, conjugali-
dade remete também a toda uma gama de possibilidades
favoráveis do viver a dois, que chamamos parceria.

Capítulo 6
1) Suportar, aguentar, carregar; sofrer, suportar; escravos e
prisioneiros que estavam sob ferros.
254  Gabaritos

2) Diz respeito à capacidade de um material deformar-se por


sofrer fortes tensões e pressões, retornando depois ao seu
estado original sem perder a sua integridade, como uma
mola ou elástico.

3) Sistema de crenças, padrões de organização e processos


de comunicação.

4) O resiliente desenvolve a capacidade de fazer das suas


adversidades e crises momentos para crescimento pessoal,
de ressignificação de si mesmo, da busca de sentido da
sua adversidade e até de sua própria existência.

5) Para Viktor Frankl, a espiritualidade é um fator essencial


para a vida humana, sendo uma condição determinante
da existência. Ela é, na verdade, um eixo organizador da
vida e da própria existência humana, revelando um pa-
radigma que permite encarar a vida, o sofrer e a própria
morte com uma nova compreensão libertária. A espiritua-
lidade é um valor que dá rumo à vida e gera esperança.

Capítulo 7
1) Os laços com as pessoas passaram a ser menos estáveis
e previsíveis; os divórcios se tornaram prática comum; as
famílias estão mais divididas e espalhadas; as comunida-
des locais se tornaram menos coesas e mais dispersas;
o individualismo e a solidão ganharam força; o aumento
da insegurança e da violência deixaram de ser uma rea-
lidade apenas das grandes cidades, passando a atingir a
sociedade como um todo; a competitividade econômica
e a acirrada disputa do mercado de emprego estão cada
Gabaritos  255

vez mais vorazes; os padrões ditatoriais de beleza, do in-


centivo ao consumo e da necessidade de status se tornam
opressores.

2) Surge diante de um perigo real ou circunstancial; é uma


sensação interna de apreensão, insegurança, preocupa-
ção, inquietação e/ou temor que é acompanhado de ele-
vada excitação física.

3) Fobias, transtorno de pânico, TOC, transtorno de ansieda-


de generalizada, transtorno de ansiedade social, transtor-
no de estresse pós-traumático.

4) A ansiedade é um mecanismo adaptativo, ligado ao ins-


tinto básico de sobrevivência. Todo ser humano possui,
inclusive os cristãos. O fato da Bíblia orientar a que não
“andemos ansiosos” não tira de nós o fato de que haverá
situações em que a ansiedade e angústia serão inevitáveis,
como a que o próprio Jesus vivenciou no jardim Getsêma-
ni.

5) Elias (1 Rs 19.1-18); Jó (livro todo). Jonas (4.3); Jeremias


(20.1-18; Lamentações 3.1-20).

Capítulo 8
1) Ressurreição, reencarnação e transmigração das almas.

2) Que a consciência das suas limitações, vulnerabilidades e


da própria finitude humana faz o indivíduo reconhecer a
sua pequenez diante da vida e do universo. Não temos o
controle de nossas vidas.
256  Gabaritos

3) Luto normal, luto patológico, luto crônico, luto inibido,


luto postergado, luto antecipatório.

4) Dentre os principais recursos terapêuticos para se atra-


vessar “o vale da morte e luto”, destacam-se as redes de
apoio relacional. Não se pode permitir que o enlutado
faça a caminhada pelo vale sozinho. Mesmo que a soli-
tude seja propícia para o indivíduo aquietar os ruídos in-
ternos da dor e do sofrer, a solidão em meio à dor da au-
sência de quem morreu pode se tornar desesperadora. A
solidão aguça e aumenta a sensação de desamparo, que
está na raiz de muitas depressões. Portanto, a presença de
um companheiro de viagem para atravessar o “vale som-
brio da morte e luto” é fundamental para que o enlutado
possa também “encontrar eco” para seu sofrer interno.

5) Salmo 90; Salmo 23; João 10.27-29; 1 Tessalonicenses


4.13-18; João 14.1-6 entre outros inúmeros textos.

Capítulo 9
1) O abuso do álcool está ligado ao aumento da violência
doméstica, a separações e divórcios, à perda de empre-
gos, a acidentes de trânsito, à inúmeras doenças físicas e
psicológicas, ao aumento da criminalidade etc. É causa-
dor de muito sofrimento para o indivíduo, para a família e
para todo o entorno social do alcoólatra.

2) Collins diz que o alcoolismo é um vício progressivo que


subjuga sua vítima, psicológica e fisicamente, mas tam-
bém é uma condição moral pela qual o indivíduo é pelo
menos parcialmente responsável. É uma atitude simplista
Gabaritos  257

e radical afirmar que o alcoolismo é só uma doença ou só


um caso óbvio de pecado.

3) Masturbação, pedofilia, infidelidade, pornografia, sexo


antes do casamento, homossexualidade etc.

4) Para desenvolver o alcoolismo, contribuem questões he-


reditárias, influências ambientais, a falta de valores espi-
rituais consolidados, bem como pressões enfrentadas na
vida, que podem servir de gatilho inicial, como: crise fi-
nanceira, desemprego, estresses pós-traumáticos, traições
e infidelidade, luto mal resolvido, divórcios etc.

5) O primeiro modelo é negativo, enfatizando a sexualida-


de como um pecado, sendo enfatizada as várias proibi-
ções frente a esse assunto. O segundo modelo é positivo,
abordando a sexualidade como uma criação e bênção de
Deus, que deve ser exercida com muita responsabilidade
pelo cristão.

Capítulo 10
1) Perigo e Oportunidade.

2) O problema das crises é que elas transtornam muito a


percepção dos indivíduos em relação à realidade que está
em seu redor, interferindo drasticamente na capacidade de
discernimento e de decisões que podemos tomar. Por isso,
o ideal é que as pessoas não tomem decisões importantes
quando estiverem submetidas a uma pressão emocional
muito forte, especialmente quando essas decisões possam
afetar uma área familiar ou seu próprio rumo na vida.
258  Gabaritos

3) Crises evolutivas ou desenvolvimentais; crises acidentais;


crises existenciais.

4) É a crise existencial. Ela diz respeito ao próprio mundo


interno do sujeito, quando ele acaba enfrentando verda-
des perturbadoras acerca de si mesmo, como, por exem-
plo: “sou um fracasso”; “não vejo sentido ou propósito em
minha vida”; “não acredito em mais nada”; “estou velho
demais para realizar meus sonhos” etc. Tais crises, mesmo
que não estejam ligadas a um problema “concreto” não
são tão simples de serem resolvidas, por vezes exigindo
muitas sessões de aconselhamento, pois envolvem ques-
tões bem profundas da psique humana.

5) O conselheiro deve ajudar a pessoa a superar o momento


agudo da crise e voltar ao seu estado normal; diminuir o
nível de ansiedade, preocupação e outras inseguranças
que podem surgir durante a crise e permanecer depois que
ela passar; ensinar técnicas de controle de emergências
para que a pessoa possa antever e lidar eficazmente com
crises futuras; ministrar os ensinamentos bíblicos sobre si-
tuações de crise, para que a pessoa possa tirar lições dos
acontecimentos e amadurecer.

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