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OS ESCRAVOS Sendo um bem que se possui, um escravo é um inferior.

E como essa inferioridade


de um homem faz de outro homem seu proprietário, um chefe, esse amo, seguro de tal
grandeza, a consagrará considerando natural a inferioridade do escravo: um escravo é um
O ESCRAVO É UM SER HUMANO sub-homem por destino, e não por acidente; a escravidão antiga tem por analogia

De todos os lados, diz Sêneca, a morte pode te surpreender: um naufrágio, psicológica menos remota o racismo. Enfim, como o poder do amo sobre esse

bandidos, "e, para não falar de um poder mais alto, o último de teus escravos tem um instrumento humano não é regulamentar, e sim total e direto, o escravo não será um

direito de vida e morte sobre ti". Plínio, inquieto, alerta a um de seus correspondentes: assalariado pontual, mas um homem dedicado que obedece do fundo da alma, e não em

seu amigo, o cavaleiro Robusto, viajou acompanhado de alguns escravos e desapareceu; virtude de regulamentos e horários definidos. A relação entre escravo e senhor é ao

ninguém mais o viu; "foi vítima de uma agressão por parte de sua gente?". Em Mogúncia, mesmo tempo desigual e inter-humana; portanto, o senhor "amará" seu escravo, pois qual

um epitáfio imortaliza o trágico fim de um amo de trinta anos que o escravo assassinou senhor não ama também seu cão, qual patrão não ama seus bons operários, qual colono

antes de se jogar no Main para encontrar a morte. Os romanos viviam num medo surdo não ama seus fiéis indígenas? O oficial que perdeu vinte homens os amava e se fazia

dos escravos, como nossos contemporâneos que têm dobermanns. Pois o escravo, esse amar. A escravidão antiga foi uma estranha relação jurídica, induzindo banais sentimentos

ser naturalmente inferior, é um familiar, a quem se "ama" e pune paternalmente e pelo de dependência e de autoridade pessoal, relações afetivas e pouco anônimas.

qual cada um se faz obedecer e "amar". Tanto que sua relação com o senhor é perigosa, Não foi, ou não foi somente, uma relação de produção. Os diferentes escravos, em
pois ambivalente: o amor de repente pode se transformar em ódio; os anais da sua inferioridade comum, desempenhavam os mais diversos papéis na economia, na
criminologia moderna relatam vários casos de bruscos furores sanguinários por parte de sociedade, até na política e na cultura; um punhado deles é infinitamente mais rico ou
criadas que até então apresentaram toda a aparência de dedicação. A escravidão antiga é poderoso que a maioria dos homens livres. Não é por causa de sua origem étnica; a
um tema para Jean Genet. escravização dos povos vencidos e o tráfico nas fronteiras do Império proporcionavam

Por mais que se diga algumas vezes, o escravo não era uma coisa: consideravam-no apenas uma pequena fração da mão-de-obra servil: os escravos provinham principalmente

um ser humano. Até os "maus senhores", que os tratavam desumanamente, impunham- do rebanho servil, do abandono de crianças e da venda de homens livres em condição de

lhes o dever moral de serem bons escravos, de servir com dedicação e fidelidade. Ora, cativeiro. Os filhos de escravas, quem quer que fosse seu pai, eram propriedade do

não se impõe moral a um animal ou a uma máquina. Só que esse ser humano é senhor, assim como a cria de seus rebanhos; o amo decide criá-los ou, ao contrário,

igualmente um bem, cuja propriedade seu amo detém; nessa época, duas espécies de seres enjeitá-los ou até afogá-los como fazemos com os gatinhos. Um romance grego relata as

podiam ser assim apropriados: as coisas, os homens. "Meu pai", escreve Galeno, "sempre [pág. 58]

me ensinou a não encarar tragicamen- [pág. 57] preocupações de uma escrava que estremece à ideia de que seu senhor amante talvez

te as perdas materiais; se me morre um boi, um cavalo ou um escravo, não faço disso um venha a matar o recém-nascido que ela traz no ventre; numa coletânea de blagues, o

drama." Platão, Aristóteles e Catão não se expressaram de forma diferente; hoje em dia Philogelôs, lemos uma muito boa que é a seguinte: "O Distraído teve um filho de uma de

um oficial diria que perdeu uma metralhadora e vinte homens. suas escravas e o pai do Distraído o aconselhou a matar a criança; o Distraído retorquiu:
'Começa por matar os teus e depois poderás me aconselhar a matar os meus!'". Quanto ao
enjeitamento, constituía uma prática usual, e não só entre os pobres; os mercadores de
escravos iam recolher os enjeitados nos santuários ou nos monturos públicos. Enfim, a
pobreza impelia os sem-recursos a venderem seus recém-nascidos a traficantes (que os
compravam ainda "sanguinolentos", mal saídos do ventre da mãe, que assim não teria
tempo de vê-los e de amá-los); muitos adultos se vendiam para não morrer de fome.
Alguns ambiciosos faziam isso para se tornarem administradores de algum nobre ou
tesoureiros imperiais: essa foi, em minha opinião, a história do todo-poderoso e
riquíssimo Pallas, descendente de uma nobre família da Arcádia, que se vendeu como
escravo para ser administrador de uma dama da família imperial e acabou como ministro
das Finanças e eminência parda do imperador Cláudio.

A VERDADEIRA NATUREZA DA ESCRAVIDÃO

Nesse império, os que entre nós se chamariam Colbert ou o superintendente


Fouquet eram escravos ou libertos do imperador; a multidão dos que chamamos
funcionários igualmente o eram: trabalhavam nos negócios administrativos do príncipe,
seu amo. Na extremidade inferior da escada, uma parte da mão-de-obra rural compõe-se
de escravos. Certamente vai longe a época da "escravidão de plantação" e da revolta de
Espártaco, e não é verdade que a sociedade romana repousa sobre a escravidão; o sistema
da grande propriedade cultivada por bandos de escravos foi, aliás, peculiar a certas
regiões, sul da Itália ou Sicília: o escravagismo não é um traço essencial [pág. 59]

da Antiguidade romana mais do que a escravatura no Sul dos Estados Unidos antes de
1865 constitui uma característica do Ocidente moderno. Fora dessas regiões de eleição e
passada sua época, a escravidão é apenas uma das relações de produção agrícola, ao lado
dos sistemas de meeiro e assalariado; algumas províncias praticamente ignoram a
escravidão rural (é o caso do Egito). Um grande proprietário usa escravos para cultivar a
parte de suas terras que ele explora ou manda explorar, em lugar de entregá-la a meeiros;
esses escravos vivem em dormitórios, sob a autoridade de um administrador também
escravo, cuja companheira cozinha para todos. Um pequeno proprietário também pode

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