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A descoberta

do
II III

Brincar
Maria Angela Barbato Carneiro
Janine J. Dodge
IV V
A descoberta
do
Brincar

VI 1

Maria Angela Barbato Carneiro


Janine J. Dodge
A descoberta do brincar

Há 50 anos a marca OMO se dedica a atender a mulher brasileira, procurando


ajudá-la na sua vida domiciliar, no seu papel de mãe, entendendo seus desejos e
suas preocupações. Nesse período, construiu-se uma história de parceria e con-
fiança, em que, além de soluções de limpeza para as roupas da família, foram
levadas às mães questões essenciais para o desenvolvimento de seus filhos.

Desde 2001, a marca OMO começou a investigar mais profundamente a


importância que o brincar e a liberdade para se sujar têm para o desenvolvi-
mento e a aprendizagem infantis. Mostrou-se que as crianças precisam de liber-
dade, mesmo que se sujem, para poderem experimentar, aprender, se desenvolver
e, finalmente, despertar seu potencial.

Através da mensagem “Porque se sujar faz bem”, foi questionada a visão


2 3

estabelecida de que a sujeira é necessariamente ruim e apresentou-se a idéia de


que as pessoas se desenvolvem quando têm liberdade para descobrir o mundo e,
nesse contexto, sujar-se é natural e inevitável.

Posteriormente, com a continuidade dos estudos, iniciou-se uma pesquisa


específica sobre os benefícios do brincar, denominada “A descoberta do brin-
car”, cujo conteúdo trouxe diversas contribuições para o profundo conhecimento
do tema.

Este livro é fruto da riqueza de informações produzida com essa pesquisa,


que, mais do que fonte de informação, acabou se tornando o próprio nome da
obra.

A marca OMO dedica esta obra às crianças do Brasil e oferece seu conteúdo
aos educadores e aos pais que também queiram se aprofundar no conhecimento
desse tema tão relevante: a importância do brincar para o desenvolvimento e a
aprendizagem infantis.


Time OMO
Colaboradores

Ana Cláudia Marques


Andréa Brandão
Bruno Couto
Carolina Arantes
Cristina Hegg
Daniela Montresol Corrêa
Edna de Próspero Marchini
Edna Maria Barian Perrotti
Elaine Molina
Eliane Regina Vanucci
Joana Dias
4 José Fogaça 5

Juliana Dias de Carvalho


Juliana Oliveira
Juliana Nunes
Lilian Cidrão
Luciana Pagotti
Marcos Sanches
Maria Helena Castro Lima
Marilena Flores Martins
Patrícia Bullara Rotundo
Paulo Cidade
Raphael Nishimura
Renata Oliveira Ao José Geraldo, com quem o convívio de 35 anos tem sido um aprendizado con-
tínuo, com quem tenho partilhado muitas descobertas na área do brincar e dividido
Tatyana Aburaya as alegrias e os impasses deste trabalho.

Maria Angela

Ao José Cláudio, meu amor e companheiro na brincadeira da vida, e ao Luc e à


Sabrina, com quem, todos os dias, redescubro o mundo brincando junto. Com vocês
eu tenho inspiração, me sinto desafiada e, acima de tudo, muito, muito feliz.

Janine
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Agradecimentos 7

Maria Angela e Janine agradecem: Maria Angela também agradece:

À Unilever Brasil e à equipe da marca OMO, que permitiram a realização, a impressão e a À Janine Dodge, pelo importante papel de articuladora neste projeto, pela esperança que
divulgação deste trabalho. tem em contribuir para melhorar a infância da criança brasileira e pela descoberta de uma
À Juliana Dias de Carvalho, pela preocupação, pela dedicação, pela parceria e pelo nova amizade.
companheirismo. À Marilena Flores Martins, pelos anos em que temos defendido juntas a causa do brincar.
Ao Paulo Cidade, ao Raphael Nishimura e ao Marcos Sanches, pela competência e pela À grande amiga Marieta Lúcia Nicolau, pelas palavras de conforto e estímulo.
sensibilidade na análise dos dados, pessoas com quem muito aprendemos na complexa área Aos familiares – tia Marieta, Salvador e Carmen Lia –, pelo apoio de sempre.
da estatística.
À Ana Cláudia Marques, pela criatividade e pela sensibilidade na elaboração e execução
das entrevistas. Janine também agradece:
À Daniela Montresol Corrêa, à Eliane Regina Vanucci, à Edna de Próspero Marchini e à
Patrícia Bullara Rotundo, profissionais da Promove, pelo trabalho e pela contínua preocupa- À Maria Angela Barbato Carneiro, pela paixão para documentar este trabalho, pelo conhe-
ção que têm ensinado muitos profissionais a valorizar o brincar e pelas significativas contri- cimento imensurável sobre o brincar, adquirido com uma vida dedicada ao seu estudo e ensino,
buições que deram ao Índice Brincar. e por ter me adotado como sua pupila, com muita confiança, paciência e carinho.
À contribuição inestimável da Dra. Ann Marie Guilmette, que se juntou ao grupo para À Marilena Flores Martins, por ter me revelado o mundo do brincar e algo novo com cada
lutar pelo direito de as crianças brincarem e para contextualizar este projeto no mundo do conversa, e pela delícia que foi desenvolver este projeto juntas.
brincar, literal e figurativamente. À Andréa Salgueiro Cruz Lima, por ter acreditado na visão deste trabalho e pelo apoio
À Maria Eugênia e à Lili, pela alegria que adicionaram a este livro, à Edna Maria Barian constante.
Perrotti, pela competência nas inúmeras revisões desta obra, e à Patrícia Secco, por ajudar a A meus pais, Christiane e David, por terem me ensinado a brincar com muito amor.
fazer acontecer sua publicação. À minha irmã, Alexa, por, desde sempre, brincar comigo.
A todos os demais profissionais que contribuíram direta ou indiretamente para que este Às meninas do Clube 2U, pela infância passada brincando juntas na fazenda.
projeto fosse realizado.
A todas as crianças brasileiras, com quem gostaríamos de compartilhar a alegria de
brincar.
Sumário
Prefácio ................................................................................................................................................... 10 5.7 A falta de tempo para brincar .............................................................................. 133
5.8 O brincar e as novas tecnologias ........................................................................ 137
1 Como tudo começou ............................................................................................................................. 15 5.9 O brincar e a escola ............................................................................................... 143
1.1 A origem da pesquisa ........................................................................................... 17 5.10 O papel do poder público e da sociedade nas políticas do brincar ............... 147
1.2 O objetivo geral da pesquisa e a apresentação do livro .................................. 21
6 O brincar na visão das crianças ......................................................................................................... 149
2 O brincar no contexto atual ............................................................................................................ 23 6.1 Considerações iniciais e metodologia da pesquisa .......................................... 151
2.1 A criança no contexto atual ................................................................................. 25 6.2 As crianças e suas rotinas: a presença da TV e as novas tecnologias .......... 155
2.2 Brincar: o difícil trabalho de conceituação ...................................................... 29 6.3 Definindo o brincar ............................................................................................... 161
2.3 As razões para brincar .......................................................................................... 33 6.4 Brincando com os pais .......................................................................................... 165
6.5 O brincar na rua e nos espaços públicos ........................................................... 167
3 Estruturando a pesquisa ...................................................................................................................... 41 6.6 Tempo para brincar ................................................................................................ 171
3.1 As premissas iniciais ............................................................................................ 43 6.7 O brincar e a escola ............................................................................................... 173
3.2 O levantamento das informações existentes .................................................... 45 6.8 O brincar e os brinquedos .................................................................................... 177
3.3 A metodologia da pesquisa qualitativa .............................................................. 47 6.9 Considerações finais das crianças ...................................................................... 183

4 Os especialistas e suas opiniões ......................................................................................................... 51 7 O brincar no Brasil: a pesquisa quantitativa ................................................................................... 185
4.1 Considerações iniciais .......................................................................................... 53 7.1 A metodologia da pesquisa quantitativa ............................................................ 187
4.2 As diferentes visões da infância ......................................................................... 55 7.2 Identificando os pais .............................................................................................. 191
4.3 As razões para brincar .......................................................................................... 59 7.3 Os pais e suas atitudes em relação ao brincar das crianças .......................... 197
4.4 Brincadeira e criatividade: uma relação importante ....................................... 65 7.4 Os benefícios do brincar ...................................................................................... 201
4.5 O brincar e os brinquedos .................................................................................... 69 7.5 O brincar das crianças brasileiras ...................................................................... 203
4.6 As transformações do brincar ............................................................................ 75 7.6 Características das crianças ................................................................................. 217
4.7 O brincar entre pais e filhos ................................................................................ 81
4.8 Espaços alternativos para o brincar ................................................................... 85 8 Proposta de um Índice Brincar ........................................................................................................... 225
4.9 O brincar e a escola ............................................................................................... 89 8.1 Desenvolvendo um índice .................................................................................... 227
4.10 O papel do poder público e da sociedade nas políticas do brincar ............... 97 8.2 Criando o Índice Brincar ...................................................................................... 229
4.11 Pesquisando o brincar .......................................................................................... 101 8.3 A aplicação e a interpretação do Índice Brincar .............................................. 231
8.4 O uso do índice para o estímulo ao brincar ...................................................... 235
5 Pais discutem o brincar ....................................................................................................................... 103
5.1 Considerações iniciais .......................................................................................... 105 Reflexões finais: Como tornar as crianças mais felizes .................................................................. 239
5.2 Contexto: a família na sociedade moderna ....................................................... 109
5.3 O conceito do brincar e o seu papel na vida das crianças .............................. 113 Referências bibliográficas ................................................................................................................... 246
5.4 As transformações no brincar ............................................................................ 119
5.5 O brincar com os filhos ........................................................................................ 123 As autoras ............................................................................................................................................... 252
5.6 A perda dos espaços para brincar ....................................................................... 129
Prefácio
mos ganhado depois de uma festa junina na tamente um número bastante representativo de
comunidade. pais em todo o Brasil, os maiores interessados
nessa nova visão do brincar e em seus benefí-
Desde então fiquei irremediavelmente “con- cios para o desenvolvimento infantil.
Há mais ou menos 25 anos, quando o meu taminada” pelo brincar e por suas inúmeras
trabalho era o de orientar pais e familiares de possibilidades. Filiei-me à IPA – International Assim, os resultados, apresentados e anali-
pequenos clientes de um centro psicopedagó- Association for the Child’s Right to Play e em sados de maneira competente e rica em deta-
gico, o grande desafio era envolvê-los ativa- 1997 fui convidada pelo então presidente, Dr. lhes, delineiam o retrato do brincar no Brasil,
mente na habilitação e reabilitação das suas Robin Moore, a criar o ramo brasileiro, que suas variáveis e seus impedimentos, mas, prin-
crianças. passou a se chamar IPA Brasil – Associação cipalmente, suas possibilidades, oferecendo a
Brasileira pelo Direito de Brincar. Continuei o todos os que se interessam pelo tema caminhos
Foi nessa época que conheci as brinque- meu trabalho como assistente social e por onde seguros a trilhar, que, com certeza, redundarão
dotecas em um congresso internacional. Na passo procuro deixar sementes do brincar para em incontáveis benefícios para as crianças bra-
volta da viagem eu não conseguia conter o meu que germinem e produzam frutos de alegria, de sileiras, seus pais, educadores e todos aqueles
entusiasmo, digno de quem havia feito a maior afeto e de convivência pacífica. que anseiam por um futuro de sucesso, convi-
descoberta de sua vida: finalmente eu teria um vência pacífica e felicidade!
instrumento concreto para sensibilizar, motivar Inconformada com a pouca valia que o
e mobilizar pais e familiares para uma ação brincar parecia ter na nossa sociedade, interes- Congratulo-me com a Unilever, empresa
conjunta em favor das crianças. Instalei então sei-me em pesquisar as causas dessa postura. apoiadora deste trabalho; com o time OMO,
na clínica uma das primeiras brinquedotecas Encontrei algumas delas nos paradigmas cul- pelo comprometimento e pela competência
do Brasil. turais que vimos transmitindo por várias gera- com que desempenhou seu papel; com a equipe
ções e que, ao lado do crescimento das cidades de pesquisadores do Instituto Ipsos, sempre
10 11
Naquele espaço as crianças desafiavam e das questões socioeconômicas, dificultam o disposta a ouvir nossas contribuições e a refa-
seus limites, faziam descobertas, aprendiam livre brincar das crianças. zer tudo enquanto o grupo todo não tivesse che-
umas com as outras, desfrutando de momentos gado a um consenso, e, principalmente, com
de intensa afetividade, aceitação incondicio- O convite feito em 2005 por Janine Dodge, Janine Dodge e com Maria Angela Barbato
nal e cumplicidade, em suas brincadeiras com representando a marca OMO, para que eu Carneiro, que não economizaram esforços e
pais, irmãos e avós. Ali também, em diferen- atuasse como consultora em uma proposta da dedicação, colocando todo o seu conhecimento
tes momentos, recebíamos pais e profissionais marca tendo como foco o brincar tornou rea- a serviço de uma análise multifacetada e pro-
para oficinas lúdicas e cursos de capacitação lidade um velho sonho de menina. Finalmente positiva, com importantes e realísticas contri-
com vivências práticas, em que todos apren- a causa do brincar, que não é só minha, mas buições para construirmos novos paradigmas
diam com todos e com muita alegria, pois brin- de muitas outras pessoas e sobretudo de todas sobre o brincar!
cávamos. Esta foi a minha mais importante as crianças brasileiras, teria mais um grande
descoberta: brincar é a primeira e mais efetiva defensor que poderia contribuir em definitivo Espero que todos os que lerem este relato
experiência em nosso aprendizado como seres para a mudança dos paradigmas que vêm impe- se deixem envolver por ele e se sintam motiva-
humanos! Ela é de longe a mais rica, a mais dindo seu reconhecimento e sua valorização dos a colocar toda a sua energia na promoção e
simples, a mais prazerosa, a mais eficaz e a de na cultura brasileira. Para tanto foram rela- na utilização do brincar como instrumento de
mais rápidos resultados. Em pouco tempo tes- cionados alguns procedimentos estratégicos, e diálogo, estímulo e desenvolvimento humano,
temunhamos a transformação de pais e mães a proposta de começarmos pela realização de não importando qual seja a sua área de atuação,
tristes, irritados, frustrados ou preocupados uma pesquisa inédita no Brasil foi aceita de pois no final das contas somos todos humanos e
com as dificuldades dos seus filhos e o futuro imediato por todo o time OMO. Com o suporte “brincar é vida”!
destes em pessoas amorosas, alegres e confian- incondicional da Unilever pudemos, final-
tes, sabendo que, embora tivessem um longo mente, conhecer melhor nossas crianças, seus Junho de 2007
trabalho pela frente, ele poderia ser agradável pais, seus sonhos e suas brincadeiras e espera-
e vitorioso! mos que esse conhecimento de fato contribua Marilena Flores Martins
para a valorização do brincar como um instru- Consultora em responsabilidade social e
Atribuo essa mudança radical de postura mento para a vida! da presente pesquisa.
não só ao trabalho clínico, mas, sobretudo, às Presidente de honra da IPA Brasil – Asso-
sessões havidas na Brinquedoteca do Sera- Outro diferencial importante para o traba- ciação Brasileira pelo Direito de Brincar.
fim, nosso mascote-espantalho que havía- lho realizado e aqui relatado foi o de ouvir dire- Avó de Cameron, Stuart, Stella e Enrico.
A descoberta
do
Brincar

Maria Angela Barbato Carneiro


Janine J. Dodge
1
COMO TUDO COMEÇOU

14 15
17

1.1
A origem da pesquisa
O desenvolvimento do processo de indus- também, que os sistemas educativos estão com
trialização, o crescimento dos centros urbanos muitas dificuldades para atender à demanda,
e as alterações nos padrões de vida, nos costu- que aumenta dia a dia.
mes e nos valores acabaram alterando a educa- A necessidade de oferecer uma educação de
ção da infância em todas as classes sociais no qualidade para todos esbarra, na maior parte
Brasil e em todo o mundo. Dentre essas trans- dos países, em dificuldades financeiras, na falta
formações, nos últimos 50 anos, merece desta- de recursos, na sua adequada aplicação e na
que o fato de que vários países têm voltado seus maneira de conciliar eqüidade e qualidade.
esforços para melhorar a educação e o cuidado Mesmo depois da Conferência de Dakar
com as crianças, passando a se preocupar com (2000), de acordo com Gonzalez (2006a), a
sua formação desde a primeira infância. comunidade internacional terá que mobilizar
Embora se saiba que a educação é a matéria- novas fontes de financiamento e buscar novas
prima para o desenvolvimento sustentável do saídas para seus problemas educacionais. Além
ser humano e que é necessário elaborar estra- disso, segundo Delors (2003), a própria educa-
tégias e programas para que ela adote a pers- ção está mudando, pois surgiram novas possibi-
pectiva de um trabalho permanente, sabe-se, lidades de aprender para além da escola, já que,
18 19

nas suas múltiplas formas, ela deve fornecer às tribuírem, com o poder público, na busca de setores privado, público e o terceiro setor. A discutir seus resultados com a sociedade para
pessoas um conhecimento dinâmico do mundo soluções. natureza multidisciplinar da equipe foi funda- ajudar no debate já iniciado por pedagogos,
desde a infância até o final da vida. Nesse sentido, a Unilever Brasil – empresa mental, uma vez que se entendia que o brincar psicólogos, médicos, artistas plásticos, profis-
Diante das novas perspectivas, muitos traba- com várias iniciativas sociais voltadas para e o desenvolvimento infantil são complexos e sionais da área da saúde, assistentes sociais e
lhos têm discutido a educação, especialmente melhorar a vida das crianças – patrocinou este multifacetados e que um projeto desse tipo ia tantos outros que estão envolvidos no universo
sob a ótica dos que ainda não conseguiram projeto de pesquisa, através da marca OMO, ser muito enriquecedor por contemplar conhe- do desenvolvimento infantil e na preservação
atingir a escolaridade obrigatória. Isso fez com para conhecer um pouco mais o desenvolvi- cimentos e visões diferentes. dos direitos da criança.
que principalmente a infância ganhasse dife- mento e a aprendizagem infantis e, em par- A equipe de trabalho teve como ponto de Este relatório é uma das maneiras de a
rentes significações em inúmeros países, até ticular, o brincar das crianças brasileiras. partida a noção de que a mensuração e o desen- equipe disseminar este projeto, que durou mais
mesmo porque as crianças já não passam mais Denominou-se o projeto de pesquisa (chamado volvimento de ferramentas para uma melhor de um ano.
os primeiros anos de vida com os pais. Muitas simplesmente “projeto” neste relatório) e, evi- compreensão de cenários sociais e para a avalia- Convidamos você, caro leitor, a entrar no
delas acabam vivendo em ambientes distintos dentemente, também esta obra de A descoberta ção e o monitoramento de projetos são um dos projeto e na sua discussão, fazendo suas pró-
dos domiciliares. do brincar. grandes desafios que se enfrentam na procura prias reflexões sobre o trabalho e, então, sobre
Entendidas como planos governamentais, as Formou-se uma equipe multidisciplinar para otimizar a utilização de recursos em ações o mundo a sua volta. Convidamos você a des-
políticas públicas cujas metas propõem ações (chamada “equipe de trabalho” neste relató- sociais mais eficientes (independentemente vendar, criticar e contemplar o brincar, assim
na área da infância nem sempre dão conta das rio) para elaborar e executar o projeto. Essa de quem iniciou ou gerencia a ação: indústria, como a conversar com outros sobre ele. Convi-
contradições e dos impasses existentes. Diante equipe incluiu profissionais de inúmeras áreas poder público ou ONGs). Com o projeto, pre- damos você a descobrir o brincar e a brincar.
dessa realidade, as indústrias, as organizações e formações variadas, entre elas pedagogia, tende contribuir para o desenvolvimento dessas
não governamentais (ONGs) e grupos organi- psicologia, administração, sociologia, antro- tecnologias sociais e dividir esse conhecimento
zados de profissionais da sociedade civil têm pologia, estatística, economia e assistência com a sociedade em geral.
buscado, cada vez mais, um aprofundamento social. Pelas experiências profissionais de seus Devido ao rico conteúdo abordado na inves-
no estudo dos problemas sociais, a fim de con- membros, a equipe também representava os tigação, a equipe de trabalho quis socializar e
1.2
O objetivo geral da pesquisa e a apresentação do livro
Ao embarcar na tentativa de fazer uma ava- O movimento entre a pesquisa de campo e
liação sobre o brincar da criança brasileira, a as reflexões teóricas que pudessem embasá-la
equipe de trabalho entendeu que se tratava de deu origem aos nove capítulos desta obra.
um estudo inédito sobre o tema, tanto pelas suas No segundo capítulo – O brincar no con-
características quanto pela abrangência. Nesse texto atual – buscou-se descrever a criança
sentido, entendeu-se que os frutos do trabalho, dentro de um contexto social atual, que mostra
quaisquer que fossem, não poderiam nem deve- as conquistas obtidas nos últimos anos em rela-
riam ser vistos como definitivos. Pelo contrário, ção aos direitos da criança, entre eles o brincar.
a equipe de trabalho esperava que eles servis- Também apontaram-se as razões que, segundo
sem para estimular uma discussão mais ampla diversos autores, demonstram a importância
sobre o brincar das crianças brasileiras e, even- do brincar e a dificuldade em se conceituar o
tualmente, mais ações e monitoramento. tema.
Nesse sentido, o principal objetivo do projeto No terceiro – Estruturando a pesquisa –
foi gerar conhecimento sobre uma importante procurou-se detalhar as etapas da investigação
questão para a infância, o brincar, e, através desse e suas metodologias.
conhecimento, contribuir para a sua melhoria. No quarto – Os especialistas e suas opiniões
O projeto acabou por desdobrar-se em três – estão descritas as opiniões dos especialistas
etapas e quatro pesquisas. Na primeira etapa, na área do brincar.
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a equipe de trabalho observou ser necessário O quinto e o sexto capítulos – Pais discutem
entender um pouco mais a literatura disponí- sobre o brincar e O brincar na visão das crian-
vel sobre o assunto e conhecer as opiniões de ças – apresentam as informações obtidas entre
especialistas na área, a fim de compreender os pais e os pequenos, na tentativa de mapear
melhor as possíveis relações entre o brincar e qual é o papel do brincar hoje na vida das
o desenvolvimento e a aprendizagem das crian- crianças. No quinto capítulo procurou-se, ini-
ças. Nessa etapa, realizou-se uma pesquisa com cialmente, caracterizar a família na sociedade
caráter qualitativo com especialistas no tema moderna, para depois aprofundar os depoimen-
brincar. No entanto, essas informações mostra- tos dos pais sobre o brincar de seus filhos.
ram-se insuficientes, apontando para a necessi- No sétimo capítulo – O brincar no Brasil: a
dade de se buscar outros dados que enriqueces- pesquisa quantitativa – detalham-se as razões
sem aqueles já obtidos anteriormente. que levaram a realizar essa parte do projeto e
Dessa forma, na segunda etapa, foram rea- descrevem-se os dados que permitiram analisar
lizadas mais duas pesquisas de caráter quali- a hipótese que objetivava buscar a relação entre
tativo, uma com pais e a outra com crianças. o brincar, o comportamento sociocognitivo das
Essas três primeiras pesquisas aconteceram crianças e o seu desempenho escolar.
na cidade de São Paulo, foram realizadas por No oitavo capítulo – Proposta de um Índice
amostragem e tiveram seus dados descritos Brincar – apresenta-se um índice que retrata
detalhadamente. essa relação, a sua aplicação nos dados pesqui-
Longas discussões na equipe de trabalho sados e na interpretação destes, além de indica-
sobre os resultados dessas pesquisas qualitati- ção para o seu uso individual.
vas originaram uma investigação mais profunda O último capítulo – Considerações finais –
para mapear o brincar da criança brasileira e aponta para as reflexões advindas das diversas
explorar, mais especificamente, as relações etapas do projeto, além de apresentar algumas
existentes entre a brincadeira e o desempenho sugestões fundamentais para a sociedade, no
escolar. Isso gerou a terceira etapa do projeto, sentido de garantir às crianças o direito à infân-
uma pesquisa de abrangência nacional com cia e, conseqüentemente, o direito de brincar.
características quantitativas.
2
O BRINCAR NO
CONTEXTO ATUAL

22 23
2.1
A criança no contexto atual
Antes de iniciarmos o trabalho de pesquisa, existir a separação entre ambos, surgindo o
é importante mostrar qual a concepção de moderno sentimento de infância.
criança que existe entre nós e qual o significado Logo, se por um lado a idéia de criança sig-
do termo brincar. nificava a de um ser de pouca idade sobre o
À primeira vista, os termos criança e infân- qual se ignoravam as condições sociais de vida,
cia parecem ser sinônimos, porém existem por outro o conceito de infância, termo também
entre eles algumas diferenças que merecem ser de origem latina – infans-infantis – que indi-
analisadas. cava aquele que não fala, está associado hoje à
Do ponto de vista etimológico, a palavra questão cultural, ou seja, implica o lugar que a
criança, de origem latina – creator-creatoris –, criança ocupa na sociedade.
significa um ser humano de pouca idade. Nesse Diante dos significados que os termos
sentido é que, ao longo da história, ela se dife- assumem, podemos perceber que, enquanto
renciava do adulto, não havendo nenhuma preo- à criança associa-se a idéia de uma etapa do
24 25
cupação com o seu comportamento, com a sua desenvolvimento humano, à infância associa-se
cultura ou, até mesmo, com o seu papel dentro a cultura, o contexto, enfim, o modo de vida no
da sociedade. qual ela está inserida.
Segundo Ariès (1975), sabe-se que até por A realidade atual tem mostrado que não há
volta do século XII havia um desconhecimento mais a preocupação com uma criança padrão,
da infância, pois a criança era encarada não só mas com a infância dentro de um contexto cul-
como um ser de pouca idade, mas, também, tural, social, político e econômico do qual a
como se houvesse um padrão médio, único e criança é parte integrante, merecendo, portanto,
abstrato de comportamento infantil no qual ela atenção e cuidado. É, certamente, cuidando da
pudesse se encaixar. Até então, as sociedades infância que poderemos, entre outras coisas,
se caracterizavam por uma visão de homem e reduzir a pobreza, diminuir a violência e a mar-
de mundo ideal fora do seu contexto histórico, ginalidade, respeitar a diversidade e melhorar o
econômico e político. A ausência de reflexão e bem-estar e a qualidade de vida das crianças e
de entendimento teórico tornava comum a prá- de suas famílias.
tica de opressão e de dominação. No século XX, passou-se a reconhecer que
Poucas eram as crianças que sobreviviam à existem muitas crianças e muitas infâncias,
falta de higiene. Muitas nasciam, porém poucas pois elas se inserem em diferentes contex-
conseguiam vingar. A sociedade não se detinha tos. Um marco importante nesse processo de
em torno da infância porque não havia nenhum reconhecimento foi a Declaração dos Direitos
interesse por ela. Era apenas um período de da Criança, assinada pela Assembléia Geral
transição, e a criança morta não era digna de das Nações Unidas em novembro de 1959. Tal
lembrança. Crianças eram vistas fora da classe documento tem por objetivo garantir às crian-
social à qual pertenciam e desconhecia-se sua ças de todo o mundo condições de uma vida
vida familiar, seus costumes. digna, gozando de proteção, alimentação,
Na arte, por exemplo, antes do século acesso à escola, à saúde, ao lazer (incluindo o
XIX, as imagens das crianças sugeriam que a brincar), isto é, o mínimo necessário para seu
sua vida se misturava com a dos adultos. Foi, desenvolvimento adequado.
porém, a partir desse período que começou a
26 27

De acordo com a obra Os direitos da criança assegurar à criança e ao adolescente, com abso- da sociedade em geral e do Poder Público asse- Portanto, viver a infância é direito de todas
(ÁTICA, 1990), luta prioridade, o direito à vida, à saúde, à ali- gurar, com absoluta prioridade, a efetivação as crianças, e a infância é entendida como con-
mentação, à educação, ao lazer, à profissiona- dos direitos referentes à vida, à saúde, à ali- dição indispensável para que as crianças exer-
infelizmente, porém, mais de trinta anos1 lização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à mentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à çam uma cidadania consciente e refletida, que
depois de assinada a declaração, ainda nascem liberdade e à convivência familiar e comunitá- profissionalização, à cultura, à dignidade, ao possa servir de base para um mundo melhor. A
todos os dias crianças que jamais poderão des- ria, além de colocá-los a salvo de toda forma de respeito, à liberdade e à convivência familiar e criança passou a adquirir, entre outras coisas, o
frutar desses direitos, crianças que crescem negligência, discriminação, exploração, violên- comunitária. direito de brincar, de modo que se possa asse-
abandonadas ou têm de viver longe da família: cia, crueldade e opressão. gurar o seu desenvolvimento.
que são pobres e não podem se alimentar bem; Acrescenta, ainda, no Capítulo II: O avanço legal, infelizmente, ainda não
que não têm chance de se desenvolver, fre- Posteriormente essa questão foi reforçada se consolidou na prática, e o financiamento
qüentando escola; que precisam ajudar no sus- ainda mais com a Lei 8069, de 13 de julho de Art. 16.o O direito à liberdade compreende das ações públicas para que os documentos se
tento da casa e não podem ao menos brincar... 1990, denominada Estatuto da Criança e do os seguintes aspectos: transformem em realidade e os princípios sejam
(ÁTICA, 1990, p. 3). Adolescente, que, no Título I, arts. 3.o e 4.o, I - ir, vir e estar nos logradouros públicos e observados ainda está longe de ser efetivado.
dispõe: espaços comunitários, ressalvadas as condições Hoje é preciso pensar na infância como algo
A partir daí em vários países, e particular- legais; dinâmico, que se constrói continuamente den-
mente no Brasil, surgiram outros documen- Art. 3.o A criança e o adolescente gozam de II - opinião e expressão; tro de um contexto socioeconômico e político e
tos que procuraram garantir à infância alguns todos os direitos fundamentais inerentes à pes- III - crença e culto religioso; que deve ser objeto de políticas públicas sérias
direitos. Dentre eles podemos citar a Consti- soa humana, sem prejuízo da proteção integral IV - brincar2, praticar esportes e divertir-se; e adequadas à realidade, não podendo mais
tuição Federal, de 1988, que em seu art. 227 de que trata esta Lei, assegurando-se-lhes, por V - participar da vida familiar e comunitária, partir de educação compensatória.
estabelece: lei ou por outros meios, todas as oportunidades sem discriminação; É dentro desse contexto e visão de infância
e facilidades, a fim de lhes facultar o desen- VI - participar da vida política na forma da lei; que se insere este trabalho.
É dever da família, da sociedade e do Estado volvimento físico, mental, moral, espiritual e VII - buscar refúgio, auxílio e alimentação.
social, em condições de liberdade e dignidade.
1 Há de se considerar que da data de assinatura da Decla-
ração dos Direitos da Criança até hoje já se passaram
quase 50 anos. Art. 4.o É dever da família, da comunidade, 2 Grifo nosso.
28 29

2.2
Brincar: o difícil trabalho de conceituação
Apesar do aumento dos estudos sobre o tema, é, hoje, ilimitada. É comum, portanto, que os
especialmente nos últimos 50 anos, provocado termos brincar e jogar, dentro da língua portu-
sobretudo pelos avanços na área da psicologia, guesa, sejam usados como sinônimos, signifi-
há uma grande dificuldade em se conceituar o cando divertimento, passatempo, zombaria. A
brincar, pois não existe entre os especialistas palavra brincar, no entanto, só existe na nossa
um consenso a respeito do assunto. A maior língua. Em outros idiomas, por exemplo, pre-
parte dos estudiosos prefere usar uma expres- valece um único termo, que é o jogar, como se
são mais ampla – atividade lúdica –, que acaba observa, por exemplo, em inglês (play) e em
sendo sinônimo de jogar. A grande dificuldade alemão (spielen).
em explicitar com exatidão os termos advém da O problema de não se conseguir chegar a
origem das palavras, das diversas perspectivas um consenso sobre o uso do termo brincar,
existentes sobre o assunto e, até mesmo, do seu mesmo dentro de uma determinada cultura,
significado na língua portuguesa. como é o caso da cultura brasileira, por exem-
De início a palavra ludus, de origem latina, plo, não é recente. Para os gregos, o sufixo inda
era usada para designar os jogos infantis. Com significava jogos infantis, embora outros três
o passar do tempo, o vocábulo incorporou-se às termos fossem usados para designar tal ativi-
línguas românicas e foi substituído por iocus, dade: paidiá, propósito do jogo, paizein, diver-
que, além do jogo, referia-se ao ato litúrgico, à sas formas de jogo, e athuro, campo de jogo.
representação cênica e aos jogos de azar. Portanto, é provável que o termo continue sendo
Aos poucos o significado do termo passou a polissêmico, variando, assim, de contexto para
ser mais amplo, associando-se a ele a idéia de contexto.
movimento, ligeireza e divertimento. Assim, a De toda maneira, Brougère (1988), em um
extensão do vocábulo a partir do termo inicial artigo intitulado “Des usages de la notion de
jeu”, nos mostrou como o uso do termo é arbi- Um deles é quanto ao fato de o jogo expressar a da infância. Foi dessa forma que a relação entre
trário, pois se limita aos vocábulos, sem levar cultura e a vida social. jogo e criança acabou persistindo até hoje, e
em conta o seu emprego nas diferentes formas Sempre que os investigadores procuraram sua associação com as crianças é outra carac-
30 31
de atividade e nos diferentes contextos. analisar a origem histórica do brincar e do terística do brincar amplamente aceita pelos
Neste trabalho, os termos brincar, jogar jogar concluíram que são resultado da criação especialistas.
e atividade lúdica serão usados como dos grupos sociais; atividades universalmente Finalmente, ao conceituar o brincar através
sinônimos. consideradas como parte integrante das cultu- das características que apresenta, é importante
Numa perspectiva mais ampla, Carneiro ras; uma das características inerentes às socie- destacar que, nos últimos 40 anos, a maioria
(1990) mostrou que há pelo menos três gran- dades estreitamente relacionadas com a educa- dos estudiosos vem associando essa atividade
des tendências em conceituar o brincar: a que ção de suas crianças (VEIGA, 1998, p. 25). ao desenvolvimento humano. A realização de
aprofunda o tema através da classificação, isto Outra característica muito importante da estudos sobre o tema tem favorecido a obser-
é, das diferentes formas de brincar, a que busca atividade lúdica é a liberdade, como muito bem vação da criança, do seu desenvolvimento e da
estudá-lo por meio das características que apre- descreveu Huizinga (1968) em sua obra Homo sua aprendizagem, mostrando como ela cons-
senta e a que busca identificar mais claramente ludens, pois toda brincadeira envolve a livre trói o conhecimento.
as suas funções. escolha. Portanto, ela pode ser considerada É por ajudar a identificar e esclarecer os
Do ponto de vista da classificação, o traba- como lazer, embora o inverso não seja verda- benefícios do brincar no desenvolvimento
lho de Piaget parece ser um dos mais aceitos. deiro. Nesse sentido, a possibilidade de esco- humano que os autores consideram que, para
Para ele há quatro tipos de jogos: os de exercí- lher está implícita na ação, e é isso que permite este estudo, conceituá-lo pela identificação
cio (pular corda, jogar bola, etc.), os simbólicos que ela seja interessante. de suas funções é a maneira mais relevante
ou de “faz-de-conta” (contar histórias, brincar A brincadeira é, portanto, o inverso do tra- de abordar o tema. Portanto, a próxima seção
com bonecos, etc.), os de regra (dominó, roda, balho, pelo fato de poder ser escolhida, e isso deste capítulo explorará, com maior detalhe, os
pega-pega, etc.) e os de construção (brincar faz com que grande parte dos teóricos identifi- estudos das funções do brincar e os benefícios
com areia, terra ou massinha, etc.). Um dos que o brincar pelo prazer. propiciados por ele.
obstáculos para definir a brincadeira com essa Antigamente os jogos faziam parte da cul- Ficará evidente que, independentemente da
classificação é o fato de que muitas delas podem tura popular e não havia, do ponto de vista da ótica estudada, tanto o jogo dirigido quanto a
ser consideradas simultaneamente em duas realização, diferenças entre os jogos das crian- brincadeira espontânea têm um valor enorme
categorias. Por exemplo, o pega-pega pode ser ças e os dos adultos. Foi com o Concílio de no desenvolvimento e na aprendizagem da
visto tanto como um jogo de exercício quanto Trento, no século XVI, que o jogo começou a criança.
de regra. ser considerado pecaminoso, pelo prazer que
Mas, apesar das discordâncias, os especia- propiciava, passando a ser visto com menos-
listas concordam em relação a alguns pontos. prezo, encarado como uma atividade própria
2.3
As razões para brincar
A primeira parte deste capítulo focalizou se conseguirem transmitir às pessoas a força e
os motivos que levaram à realização desta pes- as bases que façam com que elas continuem a
quisa, destacando que, do ponto de vista legal, aprender ao longo de toda a vida, no trabalho e
o brincar se constitui em um dos direitos fun- fora dele” (DELORS, 2003, p. 80).
damentais das crianças e, portanto, é um com- O brincar permite o exercício contínuo do
ponente das políticas públicas para a infância. aprender a conhecer, pois, brincando, a criança
Além disso, segundo a Unesco, em face dos conhece o mundo nas múltiplas interações que
novos desafios que se colocam neste princípio estabelece com ele, uma vez que, para desen-
de século, a educação surge como um elemento volver-se, é necessário que ela se envolva em
32 33
indispensável à humanidade na construção de atividades físicas e mentais. Aprende, também,
novos ideais caracterizados pela paz, pela liber- a relacionar as coisas e a ir além dos princípios
dade e pela justiça social. Num mundo conti- gerais que as envolvem. Constrói conhecimen-
nuamente em mudança, a educação deve ser tos e adquire novas informações.
dinâmica, ocorrendo ao longo de toda a vida. A educação deve favorecer o aprender a
Brincar faz parte da educação do ser humano. fazer, ou seja, preparar os indivíduos para a
Através do brincar as crianças aprendem a cul- aquisição de competências mais amplas rela-
tura dos mais velhos, se inserem nos grupos e tivas ao mundo do trabalho, para que sejam
conhecem o mundo que está a seu redor. capazes de enfrentar inúmeras situações, mui-
Segundo Delors (2003), para se viver neste tas das quais imprevisíveis.
novo século e favorecer o desenvolvimento O aprender a fazer é indissociável do apren-
contínuo de cada ser humano, a educação deve der a conhecer, mesmo porque, no mundo do
estar assentada sobre quatro grandes pilares: trabalho, acentuou-se o caráter cognitivo das
aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender tarefas. Portanto, o aprender a fazer extrapola a
a conviver e aprender a ser. transmissão de simples práticas rotineiras, pois
De acordo com esse autor, as alterações pro- à qualificação técnica se justapõem o compor-
vocadas pelas novas formas de atividade eco- tamento social, o trabalho em equipe, a capaci-
nômica e social necessitam da conciliação entre dade de iniciativa e o gosto pelo risco.
a cultura geral e a compreensão do mundo, de O brincar favorece a descoberta, uma vez
modo que a criança possa ter acesso às metodo- que auxilia a criança na concentração, na obser-
logias científicas e ao avanço do conhecimento. vação, na percepção, na análise, no estabeleci-
Para isso é preciso que ela possa aprender a mento e no teste de hipóteses, fazendo com que
conhecer, exercitando tanto a atenção quanto descortine o mundo a seu redor e adquira com-
a memória e o pensamento, o que mostra que petências e habilidades, pois o fazer também
o conhecimento não é algo finito, mas inaca- depende do saber.
bado, e que, portanto, se enriquece com qual- Num mundo em que predominam o indivi-
quer experiência. “Os primeiros anos da edu- dualismo e a competitividade, um dos maiores
cação podem ser considerados bem-sucedidos desafios da educação consiste em aprender a
viver junto, isto é, a conviver com os outros, de só que ela tenha uma escola de boa qualidade, car como um impulso para exercitar os instin- pos. Ao brincar elas desenvolvem os músculos,
modo a diminuir os altos índices de violência e mas, também, o direito de brincar. tos necessários à sobrevivência na vida adulta. absorvem oxigênio e realizam funções orgâni-
de conflitos. A atividade lúdica é parte integrante do pro- Portanto, em cada estágio do seu desenvolvi- cas, crescem, deslocam-se no espaço, experi-
Embora, historicamente, os confrontos sem- cesso educacional e permite à criança desen- mento, a criança reproduz as experiências da mentam sua força, manifestam a capacidade de
pre tenham existido, eles vêm crescendo de volver-se plenamente. raça humana em um determinado momento da controle, enfim, descobrem seu próprio corpo.
forma assustadora a partir da segunda metade Do ponto de vista do aprender a conhecer, sua história. Salienta-se a importância das des- Sobretudo para uma criança pequena, movi-
do século XX, além de ter havido um aumento brincar ajuda a criança a conhecer o mundo que cobertas surpreendentes dos cientistas sobre o mentar-se é uma forma de expressão capaz de
exacerbado da competitividade. a cerca através das interações. Ela observa, cria funcionamento do cérebro nos últimos 30 anos. mostrar como a dimensão corporal se integra
Ora, a esperança de um mundo mais humano hipóteses, descobre, tem prazer em aprender. É Elas mostraram como as experiências realiza- ao desenvolvimento mental do ser humano.
34 35
e mais justo se assenta na descoberta do outro, dessa maneira que descobre o espaço em que das pelas crianças durante a primeira infância A motricidade humana também se desen-
que passa pela descoberta de si mesmo, e isso vive, conhece a si e aos outros, adquire compe- são fundamentais para o seu desenvolvimento volve por meio da manipulação de objetos de
deve fazer parte do processo educacional. tências e habilidades. futuro. diferentes formas, cores, volumes, pesos e
Também nesse sentido o brincar favorece, Brincando, os pequenos desenvolvem a As investigações mais recentes sobre o texturas. Ao alterar sua colocação postural
na criança, o desenvolvimento de comporta- memória, o raciocínio, a imaginação e a lin- cérebro produziram três conclusões importan- conforme lida com esses objetos, variando as
mentos sociais mais adequados, que envolvem guagem, entre outros aspectos indispensáveis tes. Primeiro, a capacidade de um indivíduo de superfícies de contato com eles, a criança tra-
a cooperação e a observância de regras neces- ao convívio harmônico em sociedade. aprender e se desenvolver numa série de pla- balha diversos segmentos corporais com con-
sárias para a boa convivência grupal. Com base nesses princípios, para que nos depende da interação entre natureza (seu trações musculares de diferentes intensidades.
Finalmente, a educação deve propiciar as melhorem as condições de vida da criança bra- legado genético) e a criação (o tipo de cuidado, Nesse esforço ela se desenvolve (OLIVEIRA,
condições para que o ser humano possa desen- sileira, é fundamental que ela brinque de modo estímulo e ensino que recebe). Segundo, o cére- 2002, p. 148).
volver-se integralmente como ser único dentro que possa aprender durante a vida os saberes bro humano está estruturado de forma a se A motricidade humana é compreendida,
da sua espécie, ou seja, ele deve aprender a ser. necessários para participar de um mundo dinâ- beneficiar da experiência e de um ensino eficaz atualmente, como constitutiva do homem, con-
Já no relatório da Unesco, elaborado por mico, continuamente em transformação. durante os primeiros anos de vida. E, terceiro, cebido como uma unidade que possui uma mul-
Edgar Faure e publicado em 1972, alertava- Muitos têm sido os estudos que investigam embora as oportunidades e os riscos sejam tiplicidade de expressões, como corpo, mente,
se para a importância do desenvolvimento da o assunto sob diferentes óticas. Nesse sentido, maiores durante os primeiros anos de vida, a emoções, movimentos e pensamentos. Por esse
memória, do raciocínio, da imaginação e da podem ser enfocadas pelo menos cinco grandes aprendizagem tem lugar ao longo de todo o motivo não se pode encarar a criança como um
comunicação na vida do ser humano para que linhas: a fisiológica, a biológica, a sociológica, ciclo da vida humana (SILBERG, 2005, p. 10). receptáculo passivo, mas sim como quem age
ele possa viver e se desenvolver dignamente. a psicológica e a pedagógica, sendo que esta Nesse sentido, não há dúvida sobre o valor sobre o mundo e constrói a si próprio, pensando
Tais habilidades são adquiridas através do última tem evoluído com a contribuição das intrínseco do brincar como estímulo ao desen- e planejando suas ações. E o brincar tem um
brincar, especialmente durante os jogos de faz- quatro linhas anteriores. volvimento e à aprendizagem infantis. papel relevante nesse processo.
de-conta e de regras, quando as crianças criam A seguir, serão colocados de forma sintética Do ponto de vista físico, estão, provavel- Sabe-se que o esquema corporal, por
situações imaginárias, resolvendo seus proble- o papel e os benefícios do brincar utilizados mente, os benefícios do brincar ligados ao exemplo, surge como um conhecimento ime-
mas, desempenhando funções sociais, adqui- nesta investigação. desenvolvimento de habilidades físico-moto- diato do nosso próprio corpo, quer esteja em
rindo autonomia e se comunicando. Do ponto de vista fisiológico, as teorias ras da criança, ainda hoje os mais aparentes e estado de repouso, quer esteja em movimento,
Com base nesses pilares é importante res- baseiam-se principalmente no gasto de energia reconhecidos pelo público em geral. Segundo em função da interação de suas partes com o
saltar que, para melhorar a educação da criança excedente, ou seja, as crianças brincam para Bettelheim (1988), as crianças entram na brin- todo. Portanto, o desenvolvimento do conhe-
brasileira, fazendo com que ela se constitua gastar energia. cadeira porque ela é agradável em si e lhes cimento, da inteligência e da personalidade da
em um verdadeiro cidadão, é importante não As teorias biológicas definem o ato de brin- oferece a possibilidade de exercitar seus cor- criança tem como ponto de partida a estrutura-
ção do esquema corporal que se adquire pelo Para Elkonin (1984), o jogo é social por seu crianças, dentro de um contexto apropriado, De acordo com o estudioso suíço, a brinca-
movimento. conteúdo, sua natureza e sua origem. Nessa com materiais e com bons modelos culturais deira surge a partir do exercício de repetição,
Se brincar é ação, movimento, pressupõe perspectiva, a criança reproduz na atividade nos quais possam se inspirar, que a criança con- ou seja, da realização de uma atividade pelo
um dinamismo que se justifica mediante o inte- lúdica as relações que possui com os adultos, seguirá desenvolver condutas adequadas para prazer que ela proporciona. Através da ação
resse e a participação. “Movimentar-se é viver estando o jogo portanto estreitamente asso- a vida em grupo. O brincar coletivo, quando de repetição, a criança aprende, então, a imitar
e, mais do que isso, é conhecer o mundo que ciado às gerações em crescimento. É brincando ocorre livremente, oferece às crianças a possi- certos movimentos. Essa imitação é o prolon-
nos rodeia, sem o que não conseguiríamos dar que as gerações mais jovens são introduzidas bilidade de trocar idéias, estabelecer acordos, gamento da inteligência, no sentido de que, por
sentido à vida” (CARNEIRO, 2001, p. 52). nos costumes dos mais velhos. Historicamente, criar regras e brincar pelo tempo que acharem ela, a criança consegue diferenciar novos mode-
Segundo Kolyniak Filho (2001), o que dife- foi a brincadeira que garantiu a perpetuação necessário: ele integra a criança na cultura de los. Com o tempo a criança aprende a estabe-
rencia o movimento humano do das outras de muitos costumes. Existe, pois, nas diversas seu grupo e até mesmo pode gerar uma cultura lecer imagens mentais, que se desdobram em
36 37
espécies animais é o fato de que os homens se sociedades, uma cultura lúdica que é anterior específica da infância, que varia de acordo com imitações expressas através de desenhos, das
encontram no bojo de um processo de relações à criança e que influencia o seu brincar. Ela o ambiente social e cultural. Entre os brasilei- artes plásticas, dos sons, do ritmo e da dança,
sociais e culturais. Isso faz com que os movi- é peculiar ao local, à idade, ao gênero e até ros, por exemplo, são comuns, por parte dos dos movimentos físicos e da linguagem. Assim,
mentos reflexos próprios do bebê sejam subs- mesmo à classe social. meninos, os jogos de luta. Tais ações surgem a imitação dá lugar à simbolização, quando a
tituídos por outros resultantes da aprendiza- Ainda na perspectiva sociológica, há vários porque a criança percebe o significado da vida criança consegue interligar a idéia de um objeto
gem e influenciados pela cultura do seu tempo. estudiosos, como Winnykamen (1994), por real, especialmente hoje, quando vivemos em real ao próprio objeto.
Portanto, a interação da criança com o mundo exemplo, que investigaram o jogo revendo as uma sociedade insegura e agressiva, com mode- A função simbólica possibilita a experimen-
depende, em grande parte, dos movimentos que questões relativas ao relacionamento da criança los inadequados interferindo o tempo todo nas tação, forma pela qual a criança descobre novas
são aprendidos e desenvolvidos no grupo social com o ambiente e com os outros através de um brincadeiras. propriedades dos objetos em seu entorno. Nessa
ao qual pertence. sistema de influências recíprocas e interações As explicações psicológicas do brincar perspectiva, a brincadeira infantil pode ser
Nesse sentido, os estudos de Kolyniak Filho sociais. Segundo o autor, do ponto de vista associam-se, em geral, às teorias de Freud e de vista como uma maneira de permitir às crian-
complementam os de Huizinga (1968), mos- social, os jogos permitem o desenvolvimento Piaget. Para Freud (1948), a brincadeira pos- ças que aprendam a interligar significações, isto
trando que cada vez mais há a convicção de que de um saber fazer entre aqueles que neles se sui duas funções principais: a da reprodução é, aprendam a ligar a imagem (significante) ao
a civilização humana nasceu, se desenvolveu envolvem. dos acontecimentos desagradáveis e a da sua conceito (significado), conseguindo representar
e continua a se desenvolver jogando. Pode-se De fato, é comum que atividades espontâ- modificação. Pelo brincar, a criança representa até mesmo um objeto ausente.
ainda concordar com Henriot (1983), para quem neas infantis remetam ao jogo, cujo formato é o mundo em que vive, transformando-o de Assim, Piaget mostrou que as ações de repe-
“existir é jogar”3. especificado pelo contexto, pelas interações acordo com seus desejos e fantasias e solucio- tição, imitação e simbolização são intrínsecas
Segundo Huizinga (1968), como o jogar e por uma série de procedimentos rotineiros. nando problemas. às atividades lúdicas, em particular aos jogos
supõe convivência, o homem apresenta e Observa-se, por exemplo, o aparecimento do Se para Freud a brincadeira é a representa- passíveis de repetição e àqueles de faz-de-
aprende o contraste que vai da seriedade ao jogo de papéis (ou faz-de-conta) e sua mani- ção da realidade, para Piaget (1978) ela assume conta, que demandam importantes processos
riso, da independência à ordem, da fantasia à festação no comportamento de crianças de um papel fundamental nas etapas de desenvol- mentais, como observação, percepção, análise,
realidade. O contraste permite que o homem diferentes idades, jogo este que possibilita o vimento da criança. Foi investigando o desen- síntese, interiorização, representação e signifi-
se adapte às mudanças no seu entorno e atue exercício de diferentes funções que as crianças volvimento da inteligência que Piaget aprofun- cação. Portanto, a brincadeira é fundamental
sobre elas. Assim, o brincar teve e continua a poderão exercer na sociedade. dou seus estudos sobre o jogo. Ele mostrou as no desenvolvimento do raciocínio.
ter um papel essencial na evolução da civiliza- O brincar coletivo é visto de uma maneira contribuições da atividade lúdica para a apren- Outros estudiosos da psicologia, como
ção humana. especial pelos estudiosos, pois prepara o ser dizagem das regras, a socialização da criança, Vygotsky (1988), por exemplo, também ana-
humano para os enfrentamentos sociais da vida o aparecimento da linguagem e, sobretudo, o lisaram as relações existentes entre o jogo e
3 Expressão utilizada pelo autor. adulta. É só pela brincadeira livre com outras desenvolvimento do raciocínio. as funções mentais superiores, aprofundando
especialmente o desenvolvimento da lingua- estudioso, é indiscutível o valor do brincar no comunicação. Jogar é, portanto, a maneira de filhos, pois estão absorvidos pelo processo
gem. Segundo o estudioso, é através da brinca- processo de desenvolvimento da criança, pois a criança aprender sutilmente valores da nossa produtivo, o que impede o diálogo e a integra-
deira que a criança formula os conceitos e as é dessa forma que ela aprende a “agir na esfera conduta. Nós apenas temos que estimulá-la, ção. Os depoimentos dos pais demonstram seu
palavras se tornam algo concreto. Ele mostrou, cognitiva”4, o que depende antes das motiva- servindo-nos assim da atividade lúdica para pouco conhecimento do importante papel do
por exemplo, que o ato motor realizado durante ções internas do que de objetos externos. ensinar. brincar para transferir valores e do fato de que,
38 39
a brincadeira precede o ato mental, ou seja, são Considerando-se que o brincar é uma pro- Ainda na linha psicológica, de acordo com ao conviver e brincar juntos, poderiam influen-
as interações da criança com os objetos que jeção da vida interior da criança para o mundo, Bettelheim (1988), ao permitir a solução de ciar melhor seus filhos na aquisição dos valores
estão à sua volta que fazem com que ela atribua Vygotsky também pondera que ele pode ser problemas não resolvidos, o brincar gera uma que desejam lhes transmitir.
significado à ação. Para Vygotsky, no desenvol- entendido como uma força importante de sensação de bem-estar na criança e estimula Resumindo, os jogos e as brincadeiras sur-
vimento cognitivo, a brincadeira é o momento comunicação da criança. Outro estudioso, Bru- sua criatividade. Complementando essa obser- gem a partir da interação entre as crianças e o
em que os elementos da imaginação da criança ner (1986), também apontou para as relações vação, Jeammet (1994), ao tratar do papel do seu meio, e até mesmo entre elas próprias. Eles
se integram aos elementos elaborados e modifi- estabelecidas entre jogo, pensamento e lingua- jogo no desenvolvimento da criança, notou que, são fundamentais para que a criança seja esti-
cados da realidade. gem. Defensor do processo de aprendizagem quando ela não brinca, fica deprimida, por- mulada de modo a experimentar e descobrir
Nessa perspectiva, o brincar se coloca não por descoberta, seus estudos – apontados em que não consegue se expressar e resolver seus o mundo; aprender a situar-se e a interagir no
só como uma atividade que provoca o desen- outras pesquisas, entre elas as de Piaget – mos- problemas. Bettelheim também mostrou que, espaço e na cultura em que vive; construir o seu
volvimento da criança, mas também como um traram a existência de estágios no desenvolvi- ao brincar, as crianças aprendem que, quando conhecimento ao transformar as informações e
processo de criação que combina a realidade e mento cognitivo da criança. perdem, o mundo não se acaba, portanto perder criar novas idéias; comunicar, exercer e expres-
a fantasia. Para ele, o pensamento é fundamental, e a não é uma demonstração de inferioridade, mas sar emoções; aprender a se socializar e conquis-
A imaginação é um processo psicológico linguagem adquire um papel importante tanto um momento em que elas podem expressar as tar, gradativamente, a sua autonomia. Ou seja,
novo para a criança; representa uma forma na comunicação quanto na codificação de dificuldades. Dessa forma, o brincar se cons- os estudos mostram que, além de ter um papel
especificamente humana de atividade cons- informações. A primeira é uma das maneiras titui em ocasião privilegiada para que as crian- inerente à evolução da civilização humana, o
ciente, não está presente na consciência de de que o ser humano dispõe para lidar inteli- ças ensaiem condutas que, sob tensão, jamais brincar tem um papel indispensável no desen-
crianças muito pequenas e está totalmente gentemente com o ambiente – por isso o autor seriam tentadas a experimentar. Os estudos volvimento e na aprendizagem infantis em
ausente nos animais. Como todas as funções da identificou a linguagem como “ferramenta”, de Bettelheim e Jeammet, entre outros, refor- todos os seus aspectos: cognitivo, social, físico
consciência, ela surge originalmente na ação. O pela possibilidade que tem de ampliar a capaci- çam a noção de que o brincar é determinado e emocional – ou, de acordo com a proposta
velho adágio de que o brincar da criança é a dade humana. A outra se refere ao processo de por processos íntimos, desejos, problemas e de Delors (2003), em trabalho realizado para
imaginação em ação deve ser invertido; pode- representação, que é resultado da captação da ansiedades. Nessa perspectiva, demonstram a a Unesco, no aprender a conhecer, aprender a
mos dizer que a imaginação (...) é o brinquedo informação e da sua internalização. importância do brincar no desenvolvimento conviver, aprender a fazer e aprender a ser.
sem ação (VYGOTSKY, 1988, p. 106). Do ponto de vista da linguagem, o jogo emocional da criança.
Portanto, a brincadeira é uma transição é como uma projeção da vida interior para O brincar também é um instrumental
entre as situações da infância que são reais e o mundo, daí ser considerado uma forma de para transferir valores de uma geração para a
o pensamento do adulto, que pode se separar seguinte. Segundo Adorno (apud Di Giorgi,
totalmente de tais situações. Assim, para esse 4 Expressão utilizada pelo autor. 1980), os pais são cada vez mais estranhos aos
3
ESTRUTURANDO A PESQUISA

40 41
3.1
As premissas iniciais
O principal objetivo do projeto de pesquisa observa-se que inúmeras atividades curricula-
foi gerar conhecimento sobre uma importante res e extracurriculares substituem os tempos de
questão para a infância – o brincar – dentro do brincar. Para aquelas menos privilegiadas, o dia
contexto brasileiro e, através desse conheci- parece ser preenchido por uma combinação de
mento, contribuir para a sua melhoria. escola, tarefas domésticas e até trabalho. Qual
Ao começar a discutir o tema brincar, os é o tempo de brincar na sociedade atual?
membros da equipe de trabalho compartilha-
ram conhecimentos e percepções sobre a situa- 5. Parece que faltam, também, aos adultos,
ção atual do brincar no Brasil. Disso surgiram os momentos no dia-a-dia de olhar mais atenta-
as seguintes colocações e questões como hipó- mente para as crianças e de estar presente inte-
teses de investigação: ragindo com elas em suas atividades lúdicas.
Dado que o brincar não é inato, mas precisa de
42 43
1. A grande competitividade gerada pelas estimulação – ou seja, as crianças aprendem a
transformações econômicas nos últimos 50 brincar na interação –, se não há tempo para os
anos tem levado a sociedade brasileira, em adultos de ensiná-las a brincar, como elas pode-
geral, a se esquecer de atribuir ao jogo seu rão aprender? Para que a criança brinque é pre-
relevante papel entre as atividades humanas, ciso a participação dos pais? Que sabem os pais
principalmente entre as crianças. Nesse sen- brasileiros sobre o brincar?
tido surgiram algumas interrogações: Qual é o
valor do brincar na sociedade atual? Será que, 6. Hoje, para conseguir desenvolver um tra-
hoje, as crianças brincam menos do que antiga- balho bem remunerado, a obtenção de um alto
mente? Existem informações relevantes sobre nível de educação formal é muito importante,
o brincar que são de fácil acesso para os pais quase sempre imprescindível. Se então, teori-
brasileiros e outros interessados? camente, a criança passa boa parte do seu dia
na escola e é nela que tem maior contato com
2. Apesar de a proporção de crianças na adultos (os professores), qual é o papel da escola
população estar diminuindo, a maioria das e do professor no brincar?
crianças brasileiras passou a viver em espaços
pequenos, considerados mais seguros. É pre- Para investigar estas hipóteses, o projeto de
ciso mais espaço físico para as brincadeiras? pesquisa “A Descoberta do Brincar”, denomi-
nação que este trabalho recebeu, foi desenvol-
3. Se para a maioria das crianças brasilei- vido em três etapas consecutivas relacionadas
ras parece que faltam objetos (brinquedos) para entre si. A primeira consistiu em uma investiga-
brincar, para as que são privilegiadas econo- ção de informações existentes sobre o brincar;
micamente os brinquedos são inúmeros. Para a segunda envolveu uma pesquisa qualitativa e
brincar é preciso ter brinquedos? a terceira abordou aspectos quantitativos sobre
o tema.
4. Na vida de todas as crianças, o tempo de
brincar parece ser mais curto ou até inexistir.
Para as crianças privilegiadas economicamente,
3.2
O levantamento das informações existentes
A busca por informações sobre o brincar Essa pesquisa preliminar revelou dois
foi o ponto de partida para todo o projeto de importantes pontos:
pesquisa. Havia a necessidade de se procurar • a maior parte da bibliografia sobre o brin-
alguns referenciais que pudessem esclarecer car no Brasil trata de experiências restritas,
o assunto e oferecessem pistas para a ado- com pesquisas e informações limitadas a proje-
ção de caminhos a serem trilhados durante a tos piloto de curto alcance ou experiências clí-
investigação. nicas. Ela não apresenta grandes números que
Surgiram, naquele momento, algumas hipó- possam ajudar a pensar políticas amplas para
teses, como, por exemplo, até que ponto have- o tema.
44 45
ria receptividade a uma investigação profunda • na cultura popular, a literatura existente é
com pais brasileiros sobre o brincar e à idéia do superficial, referindo-se apenas a brinquedos e
estabelecimento de indicadores sobre o tema. locais e não à importância do brincar no desen-
Na cultura popular brasileira, qual é a relevân- volvimento infantil e ao papel dos pais e dos
cia do tema para a infância? Se o brincar era educadores na atividade lúdica. Nesse sentido,
tão importante, por que não havia indicadores apesar de o direito de brincar estar assegurado
de acompanhamento? As políticas públicas pela legislação vigente, o tema carece de uma
voltadas à infância deveriam incluir o brincar cultura de informação e avaliação que fomente
em seus pressupostos? Qual é a importância de sua ampla discussão na sociedade brasileira.
uma interação entre adultos e crianças na ativi- Esses pontos deram à equipe de trabalho a
dade lúdica? segurança de que, de fato, uma investigação pro-
Tais reflexões ajudaram a estabelecer clara- funda sobre o brincar poderia ter um impacto
mente as metas dessa etapa da pesquisa. Foram significativo na geração de conhecimento sobre
seus objetivos: a identificação e a sumarização essa importante questão para a infância.
das políticas públicas existentes e o trabalho Ao final dessa etapa, a equipe de trabalho
das ONGs sobre o assunto, procurando con- determinou a necessidade de investigar a temá-
templar agentes que não só produzissem infor- tica em profundidade através de dois caminhos.
mações como também fossem vocais no debate O primeiro pressupunha um trabalho de cará-
público sobre essas questões; a localização de ter qualitativo, uma vez que, contando com
pesquisas, materiais acadêmicos e outras publi- profissionais com atuação na área, pensava-se
cações que tratassem do tema; o levantamento em delinear as possíveis relações entre brincar
de relatórios e artigos da mídia sobre o brin- e desempenho escolar. O segundo, com carac-
car, sendo estes considerados as fontes escritas terísticas quantitativas, buscava os indicadores
sobre o tema mais representativas da cultura que apontassem para a possibilidade de estabe-
popular; a identificação dos formadores de opi- lecer tal relação.
nião a serem entrevistados na etapa qualitativa
da investigação e a elaboração das hipóteses e
do roteiro a ser utilizado naquele momento.
46 47

3.3
A metodologia da pesquisa qualitativa
Uma vez obtidas informações preliminares as perspectivas dos pais e dos formadores de
sobre o assunto, a equipe de trabalho levantou opinião.
algumas hipóteses a partir das quais foram Como já mencionado, o mundo atual é
estabelecidos três objetivos para a pesquisa repleto de transformações, e é dentro dessa rea-
qualitativa. O primeiro era entender melhor o lidade que vivem crianças, pais e entrevistados,
tema brincar e sua relevância junto à sociedade todos produtos de um processo interativo, com
brasileira. O segundo pretendia indicar as dire- diferentes contextos sociais, culturais e eco-
trizes a serem utilizadas para trabalhar um pro- nômicos. Assim, as perspectivas apresentadas
grama de responsabilidade social. O terceiro por cada um dos elementos sofrem a influência
tinha como meta levantar os insights, ou seja, do meio e se ampliam à medida que as intera-
descobrir os pontos-chave para uma pesquisa ções com ele ocorrem, favorecendo o estabe-
quantitativa, considerando as problemáticas e lecimento de relações entre os dados obtidos
48 49

com os diferentes sujeitos da investigação. Foi mente não só a influência dos pais na brinca- durante o seu processo de realização, esco- síveis relações entre o brincar e o desempenho
dentro dessa perspectiva, chamada “ecológica”, deira infantil, mas também a influência da lheram-se entrevistas semi-estruturadas como escolar. As reuniões dos grupos ocorreram na
que o trabalho se realizou. Mais precisamente, classe social e do gênero dos participantes. O procedimento metodológico. Para registrar em cidade de São Paulo, entre os dias 14 e 17 de
a perspectiva ecológica “envolve o estudo cien- estudo envolveu, ainda, aspectos relacionados detalhes as perspectivas dos participantes e fevereiro de 2006. Também na segunda parte
tífico da acomodação progressiva entre o ser à escola e à influência das novas tecnologias obter o máximo de informações necessárias, as o procedimento pautou-se em um roteiro de
humano ativo, em desenvolvimento, e as pro- sobre o brincar. entrevistas foram gravadas e, posteriormente, questões, por este oferecer maior flexibilidade
priedades mutantes dos ambientes5 imediatos Optou-se, portanto, nessa segunda fase do transcritas. durante a sua realização.
em que a pessoa em desenvolvimento vive, con- trabalho, por adotar uma metodologia de tra- Essa fase qualitativa da investigação foi A pesquisa de campo – tanto a parte quali-
forme esse processo é afetado pelas relações tamento qualitativo, porque eram necessárias subdividida, ainda, em dois momentos. No pri- tativa quanto a quantitativa – foi realizada pela
entre esses ambientes e pelos contextos mais informações que fossem além da apresentação meiro foram entrevistados individualmente 16 Ipsos Public Affairs, empresa de consultoria
amplos em que os ambientes estão inseridos” numérica dos dados levantados. Era funda- especialistas, sendo o brincar o foco principal nessa área, cujos profissionais possuem um pre-
(Bronfenbrenner, 1996, p. 18). mental descrever e analisar o material, rela- do assunto. As entrevistas ocorreram na cidade paro adequado para esse tipo de trabalho. Os
O brincar, portanto, neste trabalho, pode ser cionando-o com aquele anteriormente obtido. de São Paulo entre os dias 23 de janeiro e 22 dados categorizados foram entregues à equipe
analisado dentro dessa perspectiva não só pelo Além disso, a contextualização das informa- de fevereiro de 2006. Elas tiveram um roteiro de trabalho para serem analisados.
fato de os sujeitos sofrerem influência direta ções era muito importante: elas precisavam ser estruturado e aprofundado e duraram, em
do ambiente, mas porque ambos estão dentro estudadas dentro da realidade na qual os sujei- média, uma hora.
de um sistema social mais amplo que os afeta tos estavam inseridos, que acabava influen- No segundo momento, as entrevistas foram
diretamente. Assim, a pesquisa incluiu inicial- ciando suas opiniões. realizadas em oito grupos, quatro com pais e
5 Ambiente, segundo o autor, é o local onde as pessoas Por essas razões e em virtude da possibi- quatro com crianças, de modo a se obter mais
interagem face a face, facilmente. lidade de reformulação de algumas questões informações que pudessem estabelecer as pos-
4
OS ESPECIALISTAS
E SUAS OPINIÕES

50 51
4.1
Considerações iniciais
Escolheu-se para esta primeira parte da uma relação mais próxima e apresentá-las duas
pesquisa qualitativa uma amostra de 16 espe- vezes tornar-se-ia redundante.
cialistas da cidade de São Paulo, considerados Um ponto comum entre os entrevistados é
pelos pesquisadores formadores de opinião, que todos trabalhavam direta ou indiretamente
dada a expressão que possuíam na área. Esses com crianças e adolescentes e tinham inúmeras
profissionais deveriam estar de alguma forma preocupações em relação a eles. Apresentavam
envolvidos com a questão lúdica, pois, a par- como característica comum o reconhecimento
tir de seus depoimentos, pretendia-se entender da importância das atividades lúdicas e do brin-
melhor o tema e a sua relevância. car como um direito da criança, característica
Fizeram parte do grupo pedagogos, assis- esta exemplificada no seguinte depoimento:
tentes sociais, psicólogos, médicos, cientistas
sociais e arquitetos que atuam tanto em órgãos Sujeito PP – “A idéia [do meu trabalho] é
públicos quanto em ONGs, associações e fun- divulgar o brincar como uma coisa boa, neces-
dações ligadas à área da infância, aos meios de sária, um direito da criança. (...) Acho que já
comunicação, à escola e à medicina privada, à passou esse conceito de que brincar é perda de
universidade e às associações profissionais. tempo; é uma coisa que as pessoas já conse-
A entrevista buscou, em um primeiro guiram entender.”
momento, identificar melhor os participantes
52 53
da amostra. A fim de preservar a identidade Entre os que atuavam na área privada, havia
dos sujeitos, eles foram agrupados da seguinte algumas ressalvas em relação ao brincar, uma
forma: vez que suas inquietações referiam-se mais ao
desenvolvimento dos conteúdos escolares. No
PP – Psicólogos e/ou Pedagogos entanto, em sua maioria, os sujeitos da pesquisa
PM – Médicos tinham envolvimento direto com a temática
PO – Profissionais de ONGs abordada, explicitando o quanto as histórias
PMC – Profissionais dos Meios de pessoais e a atuação profissional os colocavam
Comunicação na militância por uma política do brincar.
PB – Profissionais de Brinquedotecas ou da Entre os que tinham formação em psicologia
Área de brinquedos ou pedagogia e aqueles ligados às universida-
PEU – Profissionais de Engenharia e des, havia um grau de informação e de conheci-
Urbanismo mento específico mais profundo sobre o assunto,
PEM – Profissionais do Ensino Municipal pois seus interesses voltavam-se para questões
PEP – Profissionais de Escola Particular pertinentes ao desenvolvimento infantil, área
PC – Profissionais possivelmente contrários ao em que há uma multiplicidade de trabalhos.
brincar Vale realçar que os profissionais tinham
diferentes olhares para o brincar dependendo
Posteriormente foram levantadas questões do contexto em que atuavam. Isso fez com que
relativas à percepção em relação à situação da suas respostas tendessem para sua realidade
infância e da criança no Brasil, às necessidades profissional. Assim, aqueles que exerciam a ati-
básicas da criança, ao brincar, a seus benefícios vidade com crianças de baixa renda trataram do
e a suas implicações, à relação entre a atividade assunto sob uma perspectiva das necessidades
lúdica, os pais e a escola, às informações sobre materiais da infância, enquanto os que se rela-
o assunto, aos espaços de brincar, à comunica- cionavam com um público de renda mais alta
ção e à responsabilidade social. Algumas das analisaram a questão no âmbito das crianças e
questões foram categorizadas e analisadas con- das famílias desse contexto socioeconômico.
juntamente, uma vez que as respostas tinham
4.2
As diferentes visões da infância
Segundo Moss (2002), parece que a criança mas demandas indispensáveis para a população
ainda é vista pela grande maioria das pessoas infantil, sendo todas elas aliadas a questões de
como reprodutora de cultura e conhecimento. É sobrevivência (alimentação, saúde e higiene),
como se fosse uma tábula rasa ou um recipiente formação (educação), convivência familiar e
vazio aguardando ser preenchido. Tal visão não social (moradia, melhoria do espaço urbano
se restringe apenas a esse aspecto, mas ao fato e segurança) e garantia do desenvolvimento e
de a criança ser considerada uma pessoa vul- da constituição de identidade da criança e do
nerável, em situação de risco, um “adulto em adolescente (as atividades lúdicas, incluindo o
54 55
espera”6 ou alguém que irá salvar o mundo. É brincar, o lazer e os esportes). Demonstraram
a imagem de um ser fraco, carente, deficiente, também que, dependendo da criança a que
incompleto. Parece que ela é um adulto em estamos nos referindo, há temas que se tornam
construção. mais relevantes.
Mas essa imagem vem se modificando. Em Aqui no Brasil, não é de surpreender que os
muitos locais, a criança já vem sendo vista como especialistas tenham apontado a necessidade
co-construtora, isto é, agente participativo e básica de acesso a alimentação, saúde e educa-
influente no mundo em que se insere. Logo, há ção como aquela mais crítica para a população
de se perceber hoje a existência de uma multi- infantil de menor renda. Daí verem, por exem-
plicidade de crianças, identificadas por diferen- plo, que
tes modos de vida, suas relações com a família,
a escola e a comunidade. Não podem, portanto, Sujeito PP – “(...) convivemos em uma situa-
ser encaradas isoladamente, mas como produ- ção dessas, de tanta desigualdade social e tanta
tos da realidade em que se inserem. criança sem ter o básico. Básico, básico, se eu
Sobre essa perspectiva, quanto à percep- for pegar a escala de hierarquia e o máximo
ção que os entrevistados tinham em relação que a gente usa bastante, o básico é a alimen-
à situação da infância e da criança no Brasil, tação, sem dúvida nenhuma. Que na verdade o
pode-se observar que eles apresentaram pers- nosso país é vergonhoso por não poder forne-
pectivas bastante interessantes. Para eles não cer as condições básicas e mínimas de sobrevi-
havia a visão de uma criança padrão no Brasil, vência e de dignidade (...).”
mas de inúmeras crianças vivendo e atuando
em diversas realidades sociais. Sujeito PEM – “Porque é básico para mim.
Os especialistas mostraram que havia vários Primeiro as pessoas têm corpo. Se o corpo não
aspectos da infância comuns a determinadas estiver saudável, bem alimentado, todo o resto
faixas etárias, independentemente da classe passa a nascer com corte. Não adianta eu falar
social a que pertencem. Eles apresentaram algu- em educação, não adianta eu falar em futuro,
universidade, país de cultura, não adianta eu
6 Termo utilizado pelo autor. falar nada se aquele corpo não estiver saudá-
vel (...) uma questão que eu acho primária, que Sujeito PO – “A criança precisa sobreviver, tem e oferece, ela freqüentar a comunidade. damente, ele não pode ser roubado, pois é ali
é a sobrevivência, é a pessoa ser humana, ou mas para o seu desenvolvimento ela precisa ter (...) possibilidade que está vetada hoje para que a criança cria a si e ao mundo, forma sua
seja, ter saúde, alimentação, um trato que a garantido o direito de brincar. O adolescente uma boa parte das crianças, porque a comu- personalidade, humaniza-se de maneira menos
torne humana, que ela seja capaz de pensar. precisa sobreviver, não morrendo pela droga, nidade está perigosa: seja porque tem trânsito, repressiva, tem reconhecida e respeitada sua
Porque senão não dá.” pelos homicídios, mas ele precisa ter o direito seja porque não tem espaço, seja porque tem individualidade como ser único que é, estabe-
56 57
de sonhar, dar vazão à sua criatividade, hora de recolher, tem tráfico. (...) Tem uma lece vínculos sólidos, integra-se em uma deter-
Sujeito PP – “[a questão de sobrevivência sonhar com uma vida diferente da que ele tem pedagogia do cotidiano e da convivência que minada cultura e experimenta a riqueza do con-
é] decorrente da própria situação econômica hoje. (...) Para que tanto as crianças como os se dava antigamente, tranqüilamente, com a vívio social, aprendendo normas e valores.
do povo brasileiro (...) uma quantidade muito adolescentes, cada vez mais, estejam prepara- nossa convivência na comunidade. Isso vale
significativa de pessoas na faixa da miséria dos – não porque alguém diz, mas pelas suas para a classe média também. Todo mundo está Sujeito PP – “O que eu acho mais impor-
(...). O mínimo que seja necessário para um vivências, pelo seu desabrochar – para fazer confinado em casa. A classe média com seu tante para toda criança é ela ser criança,
desenvolvimento saudável tanto do ponto de as melhores escolhas pra sua vida, é preciso computador e a TV. No caso dos pobres, você ter sua individualidade respeitada e
vista físico como do ponto de vista mental. (...) criar oportunidades, criar atividades que pas- agrega a esse confinamento o fato de que eles reconhecida.”
O que me parece um lamento grande é que sem pelo lúdico.” estão, também, convivendo com uma tensão
apenas uma parcela pequena da população intrafamiliar.” Sujeito PB – “A criança precisa ter tempo,
usufrui essa condição econômica.” Ficou bastante claro que os profissionais da ser menos cobrada. (...) Tem que respeitar a
amostra já não analisavam os pequenos como É interagindo no mundo que as crianças individualidade da criança, porque cada um
Todos os entrevistados concordaram sobre a seres isolados, mas sim dentro de um mundo aprendem, se reconhecem como sujeitos que tem sua particularidade. (...) E as particulari-
importância de se satisfazer as necessidades da repleto de relações e do qual são parte inte- são, descobrem o que as cerca e refletem a res- dades são cada vez menos respeitadas.”
criança e do adolescente, de modo que possam grante. Nele eles necessitam, para o seu desen- peito, tornam-se homens e mulheres. Conforme
ser garantidos o desenvolvimento e a constitui- volvimento, entre outras coisas, de oportunida- a colocação do educador Paulo Freire: “O Sintetizando, as entrevistas com especialis-
ção da identidade, de tal sorte que eles se reco- des para interagir de forma positiva e segura. homem tende a captar uma realidade fazendo-a tas mostraram que eles consideram existir, sim,
nheçam e sejam reconhecidos como sujeitos de objeto de seus conhecimentos. Assume a pos- uma cultura própria da infância e, portanto,
sua história. Sujeito PP – “O que é essencial para uma tura de um sujeito cognoscente de um objeto que as crianças têm necessidades específicas.
Uma das maneiras de garantir esses direi- criança pequena é o vínculo; o vínculo vivo, e cognoscível. Isto é próprio de todos os homens Uma delas é a garantia do desenvolvimento e
tos é através das interações que se estabelecem, não o vínculo virtual. Quer dizer, a criança, e não privilégio de alguns...” (FREIRE, 1982, da formação da identidade da criança, sendo o
sobretudo nas atividades lúdicas, no lazer e ela tem que se vincular à pessoa que cuida p. 30). brincar colocado como a maneira de concreti-
no esporte, incluindo o brincar. Elas são fun- dela. Este vínculo tem que se dar de uma Nesse contexto da importância das intera- zar essa necessidade. A seguir serão compar-
damentais a todas as crianças e adolescentes, maneira viva, reconhecendo a individualidade ções que são, sobretudo, de natureza lúdica, tilhadas as razões pelas quais os especialistas
independentemente da classe social, da família da criança.” os trabalhos de Perrotti (1990) mostram que a consideram o brincar tão importante.
ou da escola à qual possam pertencer, embora vida da cultura da infância está estreitamente
saibamos que, para os mais pobres, as oportu- Sujeito PO – “É a criança poder estar na relacionada com o espaço livre. Logo, para que
nidades são menores. comunidade, ir aos lugares que a comunidade as crianças possam desenvolver-se adequa-
4.3
As razões para brincar
A questão do brincar foi abordada especi- riza as imagens do seu entorno, formando as
ficamente nas entrevistas. Entre outras coisas, representações mentais, organizando o pen-
foi pedido aos entrevistados não só que con- samento e construindo o conhecimento. Ela
ceituassem a atividade mas também que apre- aprende, também, a lidar com situações novas e
sentassem razões da sua real importância e as inesperadas, a agir autonomamente, e consegue
transformações existentes nessa ação. conhecer e compreender o mundo exterior.
Dada a dificuldade que se tem em relação ao Ao tratarem dos benefícios que o brincar
termo, não houve consenso sobre o conceito do traz para a criança do ponto de vista do desen-
brincar. Todavia, os entrevistados comungaram volvimento físico-motor, os entrevistados mais
a idéia da importância da atividade lúdica para ligados às ONGs e à área da saúde mostraram
o ser humano. que o sedentarismo e a obesidade têm se tor-
Para os pais, a atividade lúdica é universal e nado mais freqüentes atualmente. Alertaram
se constitui em uma maneira de a criança man- para os efeitos nocivos de uma vida com menor
58 59
ter sua saúde física e mental, pois dela os peque- mobilidade e ressaltaram que a brincadeira pro-
nos participam com todo o seu ser, sabendo porciona maior agilidade e equilíbrio. Explici-
exatamente quando e o que estão jogando. É taram, portanto, que a brincadeira deve ocorrer
brincando que a criança expressa vontades e em espaços mais amplos e abertos, de modo a
desejos construídos ao longo de sua vida, ao permitir às crianças a prática de determinados
mesmo tempo que interage no mundo em que movimentos, como correr, subir, descer, saltar,
vive e se integra na cultura de sua época. O lançar, etc. Para eles, o brincar, atualmente,
jogo funciona como uma válvula de escape, tende a ser realizado em espaços menores,
dando vazão às tendências reprimidas. Quanto como ocorre com os jogos eletrônicos, impe-
mais oportunidades a criança tiver de brincar, dindo uma movimentação mais ampla por parte
mais facilmente se desenvolverá. da criança.
Os entrevistados associaram à brincadeira
a idéia de movimento, porque ela permite o Sujeito PM – “Hoje as crianças não se
estabelecimento de relações com os objetos movem tanto. O sedentarismo é maior, a obe-
que estão em volta. Para eles, o movimento sidade (...) o índice vem aumentando muito no
contribui, então, para a descoberta de limites, a Brasil.”
exploração do espaço, a manipulação dos obje-
tos, a realização de atividades desafiadoras, o Sujeito PO – “Hoje existe uma dificuldade
estabelecimento de relações, a elaboração de de desenvolvimento motor porque as crianças
conceitos e tantas outras coisas. carentes vivem em espaços muito confinados.
É importante lembrar que, embora nem (...) Subindo numa rampa, num parque, numa
sempre explícita, a relação intrínseca entre pen- balança, ela desenvolve o equilíbrio.”
samento e ação é fundamental para o desenvol-
vimento humano. Como se viu anteriormente, Concordando com os aspectos já apresen-
o movimento é, sobretudo para a criança tados, os profissionais referiram-se a mais um
pequena, uma forma de expressão e mostra a elemento que atribui tanto valor ao jogo infan-
relação existente entre ação, pensamento e lin- til: a relevância que adquire o processo de cons-
guagem. Ao movimentar-se, a criança interio- trução do conhecimento pela criança, cujos
estudos são bastante recentes no campo da pes- como a das inteligências múltiplas ou do tipo dos momentâneos que, com o tempo, passam peitando cada fase do seu desenvolvimento.
quisa científica. de estimulação (estímulos sensoriais, sinestési- a ser cristalizados, transmitidos e observados. Pode-se observar, por exemplo, que, conforme
cos, lógicos e relacionais). Para Chateau (1987), aceitando participar do a criança vai crescendo, novas formas de esti-
Sujeito PC – “Brincar é, por excelência, jogo, a criança aceita um certo código lúdico, mulação podem ser agregadas. Há, assim, um
a forma de amadurecimento do cérebro da Sujeito PB – “Brincar solicita a inteligên- como se fosse um contrato social implícito. É, caminho do brincar individual para o cole-
criança. (...) É a forma de aprendizagem da cia (...). A diferença entre uma criança que portanto, uma norma imposta, primeiro a si tivo, da atividade mais livre para a atividade
criança muito pequena (...). A primeira forma foi bem estimulada e uma que não foi é muito mesma e, depois, aos outros. dirigida, dos estímulos sensoriais para os que
de aprendizagem da criança é lúdica.” grande.” mobilizam as competências e a cognição.
60 61
Sujeito PB – “Existem os jogos que fazem Para Vygotsky (1988), a aprendizagem é
Sujeito PP – “Durante muito tempo o brin- Sujeito PP – “Um cérebro infantil precisa com que a criança pense, adquira conheci- algo externo, e o brincar tem um papel impor-
car foi considerado uma mera atividade lúdica ser desafiado, ele precisa ser estimulado, mentos, aprenda a esperar a sua vez. Porque tante nesse processo, pois auxilia a criança a
associada essencialmente ao lazer. Com o obviamente dentro de limites e nunca trans- tem muita gente que não sabe esperar, fura passar de uma etapa para outra de seu desen-
conhecimento mais intenso que se teve do bordando para o excesso. Mas à medida que fila, corta a sua frente.” volvimento. Para ele, “o aprendizado é mais do
ser humano, do desenvolvimento do cérebro, ele é mais estimulado, ele apresenta condi- que a capacidade de pensar, é a aquisição de
se descobriu que o brincar é uma forma de ções de desenvolvimento muito superior. (...) A Sujeito PP – “Nos jogos a criança aprende muitas capacidades especializadas para pensar
aprender.” brincadeira desenvolve toda a potencialidade a respeitar o outro, usar a potencialidade do várias coisas” (VYGOTSKY, 1988, p. 93). Os
corporal e cerebral. A brincadeira é muito outro, cooperar, trabalhar junto, se expressar entrevistados concordaram, de forma unânime,
Como já foi visto, os trabalhos de Piaget desafiante (...). Por isso, o brincar não pode através do corpo. (...) Você trabalha questões com essa perspectiva, apresentando a relação
e Vygotsky, entre outros, mostram como os mais ser visto como uma prenda, como aquele de respeito, compaixão; como e quando se do brincar com a aprendizagem infantil como
jogos contribuem para o estabelecimento de minuto com o qual se preenche o tédio, mas impor; como superar dificuldades. (...) É no um dos seus maiores benefícios. Ao descreve-
novas estruturas mentais e para o desenvolvi- sim como uma atividade absolutamente essen- convívio com as outras crianças que as ques- rem um continuum do brincar, eles mostraram
mento cognitivo da criança. Assim, antes de cial para o desenvolvimento do ser humano em tões emocionais vão nascendo.” como ele é integrado à aprendizagem infantil.
construir estruturas estáveis com as quais ela toda plenitude.” A última parte deste capítulo relata com mais
pode se adaptar melhor, a criança oscila entre Vale a pena lembrar que o brincar não detalhes essa visão por parte dos especialistas.
as acomodações que a auxiliam a organizar e Os depoimentos também deixaram claro que suporta imposições, porque elas são contrárias Para eles, entre 0 e 2 anos, o vínculo da
reorganizar sua conduta em função do mundo é pela brincadeira que a criança aprende a agir ao desenvolvimento. No decorrer da atividade criança com o mundo exterior ocorre através
exterior. As transformações nessas estruturas socialmente. No caso das regras, por exemplo, a lúdica, o sentimento de liberdade de escolha dos órgãos dos sentidos, mostrando, portanto,
se refletem nos tipos de jogos. princípio a criança só se impõe regras similares torna-se uma necessidade, e isso proporciona à que os estímulos oferecidos a ela devem levar
Nessa perspectiva, os profissionais afir- às que recebeu, para depois discuti-las e criar criança um sentimento de alegria e prazer. Para em conta tal característica. Dessa forma, con-
maram que o desenvolvimento cognitivo da outras novas. Há, na norma, a idéia de uma obri- Amonachvili (1986), o jogo existe para permi- cordaram com Linaza (1992), para quem os
criança depende essencialmente da estimula- gação que supõe a participação de, pelo menos, tir que a criança, em desenvolvimento, encontre primeiros jogos vão aparecendo com o domí-
ção da brincadeira como estimulação cerebral, dois indivíduos, demonstrando a combinação seus limites e supere as dificuldades. nio da criança sobre seu próprio corpo. Essas
que ela produz a partir de suas exigências e de entre os humanos. Sua regulamentação e sua Porém, apesar de a brincadeira livre ser con- atividades exercitam os novos comportamentos
seus desafios constantes. Mostraram que há observação ocorrem pela transmissão cultural. siderada muito importante para o ser humano, adquiridos, e seu avanço é determinado pela
diferentes áreas de estimulação a serem consi- É desse modo que as crianças aprendem nos os entrevistados disseram que só isso não basta, própria evolução da complexidade do compor-
deradas, exemplificando com o uso de teorias jogos as regras do seu grupo, realizando acor- que é preciso estimular a criança a brincar, res- tamento infantil. Elas mostram a enorme sensi-
bilização das crianças, como exemplificam os ção é importante, especialmente porque nessa gem, Piaget (1961) mostrou que a criança, nessa crianças de 6 a 12 anos, as brincadeiras com
seguintes depoimentos: etapa o brinquedo acaba sendo o elemento etapa de desenvolvimento, é mais analítica, e os pares da mesma idade, razão pela qual são
estimulador para o aparecimento da fantasia. seu raciocínio, mais explícito. Através da lin- mais adequados os jogos coletivos e grupais.
Sujeito PEU – “Nessa fase, você vai traba- Nessa fase as crianças apresentam situações guagem ela é capaz de comunicar o que pensa. Assim, são muito importantes os jogos de mesa
lhar com o universo sensorial, em que você vai cada vez mais ricas e complexas, demonstrando (Em linha com os estudos do autor, os entre- e os realizados nas quadras, como é o caso da
ter diferentes estímulos, desde [os que mobi- o aparecimento do processo de representação. vistados afirmaram que nessa fase o brincar queimada ou do pique-bandeira, por exemplo.
lizem] a visão, o olfato, o tato, o som. Todos Como já vimos, representar depende de apren- tem objetivos mais cognitivos, e, conseqüente- O depoimento que se segue ilustra bem esse
esses estímulos podem estar nos objetos.” dizagem, que se origina através de nossos atos mente, os resultados acabam apontando para o ponto.
62 63
motores. Por essa razão, as brincadeiras de processo de construção do conhecimento.)
Sujeito PMC – “Quando um bebê ganha movimento precedem as atividades simbólicas: Sujeito PMC – “Jogo em equipe é impres-
um brinquedinho e ele aperta e sai um som, os pequenos aprendem a perceber para depois Sujeito PO – “É uma fase em que a criança cindível para você entender a relação com o
ele está sendo educado auditivamente e está simbolizar. aprende a fazer coisas, entender como elas outro (...). A questão da cordialidade, dos limi-
brincando.” Os entrevistados indicaram que, dos 6/7 até acontecem e se desenvolvem (...). Ela aprende tes, até onde vai a oposição, a competição. (...)
os 12 anos, a brincadeira passa a envolver outro que as coisas não são dadas, são construí- É fundamental para elas [crianças] entende-
Diante de tal visão, para os especialistas, tipo de estimulação, de modo a auxiliar no das; que as ações têm resultados. São jogos rem a sociedade.”
observando e conhecendo as características desenvolvimento de competências cognitivas, e experiências que podem materializar os
infantis, seria mais fácil a escolha de estímu- do raciocínio lógico e da resolução dos pro- resultados.” Se, por um lado, não houve entre os espe-
los de diversas naturezas, de modo a auxiliar a blemas. É desejável, portanto, uma mudança cialistas um consenso em relação ao conceito
criança na passagem de uma etapa para outra. na natureza das brincadeiras, porque as crian- Sujeito PP – “As brincadeiras têm finali- do que é brincar, ficou claro, entre eles, a con-
Para as menores, objetos oferecidos devem ser ças estão em outra etapa de desenvolvimento. dade educativa cada vez mais avançada (...). cordância sobre a importância que a ativi-
de diferentes materiais e diversas texturas, de As brincadeiras, nessa etapa, se aproximam Vão se refinando os objetivos embutidos no dade assume no processo de desenvolvimento
forma a possibilitar a experimentação de sen- das atividades sérias dos adultos, adentrando o processo de brincar.” humano. Mostraram que é brincando que a
sações variadas. No entanto, os entrevistados mundo do trabalho, mas os pequenos não per- criança adquire conhecimentos, aprende a res-
disseram que as etapas de desenvolvimento dem a capacidade criativa. Nesse sentido, de acordo com Piaget (1969), peitar e ouvir os outros, entra em contato com
da criança não ocorrem separadamente. Aos o fato de a inteligência derivar da ação faz a cultura em que vive e supera desafios. Assim,
conhecimentos anteriores somam-se outros, Sujeito PEP – “É um brincar mais sério, com que ela execute e coordene as atividades ficou evidente o quanto a brincadeira é indis-
portanto alguns estímulos da etapa anterior mais técnico (...). Aquele brincar que tem de forma interiorizada e reflexiva, originando pensável em sua vida.
ainda persistem, só que devem ser mais desa- começo, meio e fim.” as operações lógicas que, na realidade, são as
fiadores. Falando sobre essas etapas, um dos grandes motoras do raciocínio.
sujeitos assim se manifestou: Sujeito PP – “É um brincar que envolve Os estudos do autor mostram ainda que,
desafios e raciocínio lógico mais avançados, a partir dos 5/6 anos, as crianças estão mais
Sujeito PO – “Nenhuma delas vai perdendo algumas experiências de dedução mais signi- socializadas, portanto utilizam, além das brin-
importância, mas outras vão ganhando uma ficativas, habilidades mais refinadas. Mas é cadeiras já citadas, os jogos de regras, que
importância maior.” brincar também.” caracterizam o processo de socialização. Nessa
perspectiva, outro aspecto mostrado pelos
Entre as crianças de 2 a 6 anos, a estimula- Ao falar sobre o pensamento e a lingua- entrevistados é que são mais comuns, entre as
4.4
Brincadeira e criatividade: uma relação importante
Durante a entrevista, os sujeitos deixaram Sujeito PO – “O jogo simbólico é impres-
clara a relação entre a brincadeira e a criati- cindível... é onde entram as bonecas, as fanta-
vidade. Na realidade, brincar é uma diversão sias; você é um adulto, você é um motorista...
imaginada, e isso nos remete ao processo de É onde a criança vivencia papéis (...), onde ela
criação. Para Ostrower (1989), criar significa ganha uma estrutura de formação da sua pró-
formar, ou seja, dar uma forma nova. Durante o pria identidade. Ela vai perceber quem ela é,
64 65
brincar a criança vai além da imitação, porque ela pode vivenciar outros papéis, e vai proces-
ela a transforma simbolizando. Há, portanto, sando as coisas da vida de forma simbólica.
uma alteração na qual a criança coloca algo Por exemplo, ela bate numa boneca, porque
de si, cria. Somente sendo criativo o indivíduo ela viu a mãe bater ou porque a mãe bateu nela
se descobre como pessoa, exprime o que traz e ela, de certa forma, está processando aquela
no seu íntimo, utiliza a linguagem. A brinca- informação através de um simbolismo. E isso
deira é uma excelente oportunidade para o eu acho importantíssimo para a vida emocio-
exercício de tal função, como ilustra o seguinte nal dela no futuro.”
depoimento:
Há, no momento do faz-de-conta, a possi-
Sujeito PP – “É importante brincar com bilidade de uma mudança profunda na brinca-
coisas que ela possa transformar com as pró- deira, que tanto pode ser provocada pelos obje-
prias mãos. (...) Ela vai desenvolver uma vida tos que apóiam e potencializam tal atividade
interna mais rica; vai ser um adulto que con- como pela imaginação infantil. Logo, os jogos
segue levar uma vida mais tranqüila, vai ser simbólicos nada mais são do que visões simpli-
mais criativo.” ficadas daquilo que existe, do que foi observado
ou experimentado pela criança. É assim que ela
Com o tempo, o pensamento intuitivo, consi- consegue ter domínio sobre a realidade à qual é
derado também espontâneo, dá origem ao pen- continuamente subordinada.
samento analítico, envolvendo relações, ordena- Segundo os entrevistados, a construção do
ções, configurações e significações, atividades imaginário tem reflexos importantes no desen-
que também ocorrem durante as brincadeiras. volvimento das competências necessárias para
É no faz-de-conta, por exemplo, que tais rela- a vida atual. Tal construção, para a criança, se
ções ficam mais explícitas, porque brincando a constitui em um exercício de preparação para
criança cria e experimenta um mundo imagi- a compreensão dos códigos existentes, para a
nário onde ela parece estar, processa o que vê, realização do processo de representação e para
atribuindo um sentido ao que sente, sonhando e a formação do raciocínio abstrato.
projetando o futuro.
66 67

Sujeito PEU – “É a partir do desenvolvi- Nobel de Economia por seus estudos sobre o é ao brincar que a criança consegue imaginar e meros benefícios, porque solicita a inteligência,
mento imaginário que você vai criar a escrita relacionamento entre a economia e as percep- criar o mundo que quer – e ser feliz. possibilita uma maior e melhor compreensão
depois. Quando você fala uma letra, por exem- ções de felicidade. Nesse sentido, foi muito do mundo, favorece a simulação de situações,
plo, ela é um código, mas para desenvolver relevante a colocação recorrente dos especialis- Sujeito PB – “Brincar é fazer um mundo antecipa soluções de problemas, sensibiliza,
esse código você precisou criar coisas que não tas de que é pelo brincar que se desenvolve a melhor. (...) As pessoas que têm na sua for- alivia tensões, estimula o imaginário e, conse-
existem. É difícil você aprender a ler quando capacidade de ser feliz na vida. Eles relaciona- mação essa magia do brincar, do sonhar, do qüentemente, a criatividade. Assim o brincar
você não tem imaginação.” ram o brincar ao desenvolvimento emocional transformar, são mais felizes, vivem melhor. O permite também o desenvolvimento do auto-
da criança, colocando como seu principal bene- sonho leva as pessoas para a frente.” conhecimento, elevando a auto-estima, propi-
Sujeito PP – “Não é que uma criança que fício o desenvolvimento da “sensibilidade”. ciando o desenvolvimento físico-motor, bem
não brincou depois vai ser bitolada (...) Eu Sujeito PB – “Se a criança brinca desde como o do raciocínio e o da inteligência, sensi-
acho que essa criança que teve mais facilidade Sujeito PEP – “O grande benefício de brin- cedo, sem culpa, com prazer, ela desenvolve bilizando, socializando e ensinando a respeitar
de brincar, se movimentar e desenvolver sua car é você saber como brincar com a vida, é a ludicidade. (...) É na infância que a gente as regras. Enfim, o brincar diverte, traz alegria
fantasia tem uma possibilidade muito maior ser sensível. (...) Quando a criança chora por- desenvolve a capacidade de ser feliz. A criança e faz sonhar.
de ser um adulto criativo (...) Na vida, no tra- que um brinquedo quebrou, ela está apren- que não aprendeu a ser feliz não liberou o seu
balho, nas decisões que vai tomar... ele não vai dendo que um monte de coisas na vida dela vai potencial de ludicidade, não vai saber tocar o
achar que só aquela decisão é a certa, ele vai quebrar e que ela vai poder chorar.” teto, não vai se encantar com as coisas.”
ter uma base para pensar em várias opções. A
criança percebe, no brincar, que ela é capaz de Sujeito PP – “Você percebe logo um adulto Resumindo, os profissionais mostraram que,
fazer isso (...) são aprendizados para a vida.” que nunca brincou. Percebe pelas suas atitu- mais do que um direito da criança, o brincar é
des. (...) É mais desconfiado, mais fechado. (...) essencial para a sua vida:
Finalmente, hoje, a capacidade do ser Quando você brinca, alguma coisa fica na sua
humano de ser feliz e a sua busca pela felici- formação final, na sua sensibilidade.” Sujeito PP – “(...) a brincadeira não é um
dade são questões amplamente discutidas por adorno, não é adereço, não é algo desejável. É
estudiosos de diversas áreas acadêmicas, desde Conforme já explicado, é ao brincar que a essencial.”
a biologia até a economia. Em 2002, o psicólogo criança aprende a transformar a sua realidade,
americano Daniel Kahneman ganhou o Prêmio simbolizando. De acordo com os especialistas, Sob essa perspectiva, a atividade traz inú-
4.5
O brincar e os brinquedos
Após perguntar aos entrevistados sobre a retrata, em geral, a economia e a técnica de
essencialidade do brincar e suas contribui- uma determinada sociedade. Mais do que o
ções para o desenvolvimento infantil, procu- próprio objeto, o importante é o significado que
rou-se saber deles se é possível brincar sem a criança atribui a ele durante a brincadeira. “O
brinquedos. brinquedo só surte efeito no cenário de uma
Para discutir essa premissa, os participantes situação organizada pela criança (...)” (BROU-
voltaram novamente à polêmica da conceitua- GÈRE, 2004, p. 260).
ção. Alguns disseram que brincar é ação, ati- As crianças percebem, desde cedo, com sua
vidade lúdica que envolve prazer e liberdade, sensibilidade, que os brinquedos representam
embora possa estar associada a uma aquisição apenas uma das dimensões do real, mas dele
de conhecimento ou habilidade. Reconhece- diferem e nem sempre contemplam o desejo
ram que as crianças podem aprender durante o que elas têm de sonhar, exercitar seus sentidos
68 69
brincar, no entanto isso ocorre de uma maneira e descobrir, acabando geralmente por impor
informal, ou seja, não há um planejamento. mais uma visão do adulto para a criança do que
Mostraram, ainda, que a brincadeira depende a da própria criança.
muito mais do imaginário para acontecer do “Ao contrário do que se dá com os adul-
que dos brinquedos, que servem para a criança tos, as crianças não procuram no brinquedo
concretizar a ação. uma forma de evasão. Desejam sim explorar
e conhecer melhor o mundo real, criando-o e
Sujeito PMC – “Brincar é aplicar a sua recriando-o à sua maneira” (SALLES OLI-
imaginação usando o seu corpo, o seu emocio- VEIRA, 1984, p. 78).
nal, lidando com o social.” Os entrevistados mostraram que princi-
palmente as brincadeiras culturais, como, por
Sujeito PP – “O brincar pressupõe uma exemplo, as rodas e as cirandas, são formas
ação. O brinquedo pode ou não fazer parte lúdicas que não demandam a presença de brin-
dessa ação.” quedos, bem como as brincadeiras antigas,
por eles denominadas de “brincar de antiga-
Sujeito PP – “O principal é brincar. Tem mente”7, ou seja, amarelinha, cabra-cega, stop,
crianças que já brincaram muito e nunca tive- esconde-esconde, pular corda...
ram brinquedo (...). O brincar é o fundamento. .
O brinquedo é decorrente do brincar.” Sujeito PO – “A cultura brasileira é rica na
produção, na criação de brincadeiras que pas-
Sujeito PB – “Brinquedo é um meio, uma sam por cantigas, experimentação de cirandas
ilustração, uma coisa que você pode acrescen- (...) trabalham as questões de grupos.”
tar ao brincar.”
Enfatizaram que, além de as brincadeiras
Para muitos estudiosos – entre eles, Brou- não exigirem brinquedos, aqueles existentes
gère (2004) –, o brinquedo é um suporte para nas lojas podem ser, em grande parte, substituí-
a brincadeira, da mesma forma que os demais
objetos existentes na cultura. O brinquedo 7 Termo usado pelos entrevistados.
dos. Principalmente entre as crianças carentes, edificam, conversam e têm a oportunidade de de varetas, por exemplo, é fabuloso para você mais vulneráveis ao consumo e mais insatisfei-
esse fato é mais freqüente. Há, portanto, uma experimentar situações que de outra forma não desenvolver a coordenação motora.” tas com o que possuem. Querem sempre o que
construção imaginária ou real de alternativas, experimentariam. há de novidade. Perderam o gosto pelos brinque-
oriundas da própria criatividade infantil. Entre as crianças em situação de vulnerabi- Sujeito PP – “A criança tenta transformar o dos e pelas brincadeiras simples e não brincam
lidade social, sua função é ainda maior, porque, mundo através do brincar. Se está tudo pronto, com aquilo que ganham nem lhe dão valor.
Sujeito PEU – “Um copinho de plástico além de permitirem a realização dos sonhos, ela não tem como agir; só mudar as coisas de Isso é reflexo da vida que levam, uma vez
pode ser transformado em um brinquedo. Um possibilitam contato com objetos que nunca lugar, apertar botões. (...) O brincar assim não que os adultos estão mais preocupados com
70 71
objeto do cotidiano pode ser transformado poderiam ter. Logo, do ponto de vista funcio- é criativo, não desenvolve a criatividade. (...) o mundo do trabalho, característica princi-
em brinquedo, mesmo sem ter sido construído nal, para os entrevistados, os brinquedos ten- Se ela só aperta botões, a criança começa a pal daqueles que gozam melhores condições
para ser brinquedo. (...) Tem uma gama de dem a ser vistos como objetos enriquecedores achar que o mundo é assim (...), que ela não socioeconômicas.
possibilidades.” do brincar, sendo, na prática, fortes aliados do precisa fazer nenhum esforço. (...) Eu acho
desenvolvimento infantil. que o melhor brinquedo é esse que a criança Sujeito PMC – “Eu vejo as crianças com
O fato de não serem considerados imprescin- Os entrevistados deixaram claro, porém, mesma consegue fazer. Isso não invalida os uma maior fixação em dinheiro. Crianças de
díveis não significa que os brinquedos tenham que nem todo e qualquer objeto lúdico é capaz outros. Mas, entre os brinquedos comprados, 5/6 anos preocupadíssimas com as questões
pouco valor. Sua importância está aliada à esti- de cumprir essa função. Para eles, os mais eu posso evitar aqueles que sejam totalmente financeiras.”
mulação que eles provocam, contribuindo para importantes são aqueles que, além de estimu- prontos, que é para a fantasia poder entrar.”
o desenvolvimento infantil. “Assim, a criança lar as habilidades e as competências social- Sujeito PEU – “Hoje se valoriza muito mais
quando brinca aprende a se expressar no mundo, mente reconhecidas, também favorecem a Sujeito PB – “O bom brinquedo é aquele o ter do que o ser. (...) Eu quero esse e aquele
criando e recriando novos brinquedos e, com criatividade. que convida a brincar. (...) Cada brinquedo outro, e nunca é suficiente. (...) O que se valo-
eles, participando de novas experiências e aqui- Fazem parte desse universo os brinquedos tem um valor simbólico; não é só o que ele riza não é o brinquedo, é o acúmulo.”
sições” (SALLES OLIVEIRA, 1984, p. 49). considerados “menos prontos”8, particular- representa de maneira genérica, mas o que ele
mente os enfatizados pela Pedagogia Waldorf, representa para cada um. Por isso que a esco- Nesse sentido, os especialistas observaram
Sujeito PB – “O brinquedo é capaz de por seu potencial criativo. lha do brinquedo tem que ser da criança e não que, antes de ser um estímulo importante, o
transformar adultos em crianças. (...) Você vê do adulto.” brinquedo passou a ser um objeto de consumo,
esse pessoal de Fórmula 1, um bando de crian- Sujeito PC – “O brinquedo é um objeto que na maior parte das vezes desnecessário para
ças grandes, brincando na beira da pista.” você pode usar para aplicar a sua imaginação. Embora não houvesse consenso, na amos- muitas crianças. Além de dificultar a esco-
Essa é a função do brinquedo.” tra, sobre quais eram os brinquedos mais ade- lha, o excesso de brinquedos acaba gerando
Ao tratar do assunto, Lima (1989) mostra quados, algumas considerações foram prati- desinteresse.
que os elementos materiais existentes em um Sujeito PO – “Os jogos, por exemplo, são camente unânimes em relação ao que se deve
espaço modificam a qualidade e a natureza das estimuladores, exigem que você vença algum evitar. Sujeito PC – “Se você dá muitos brinque-
relações. desafio. (...) São coisas boas que desenvolvem Os entrevistados observaram que houve, nos dos, a criança pára de perceber por que ela
Os brinquedos podem ajudar na estimu- habilidades imprescindíveis. (...) O velho jogo últimos 30 anos, um crescente apelo ao con- ganha o brinquedo. O que você está focando
lação das crianças, especialmente por per- sumo e ao acúmulo de bens, alterando os valores [ensinando à criança] é o comprar.”
8 Foram denominados brinquedos “menos prontos”
mitirem a descoberta e o desenvolvimento da aqueles que, para os entrevistados, oferecem à criança aprendidos pelas crianças. Atualmente elas se
imaginação. Com eles os pequenos constroem, mais possibilidade de criação. preocupam mais com a questão monetária, são Salientaram que, quando vários brinquedos
são apresentados simultaneamente à criança, características de personalidade da criança, humanas são, para os especialistas, insubsti-
ela tende a se desinteressar, não aproveitando o as peculiaridades do brinquedo, ou seja, a sua tuíveis, especialmente porque ocorrem em um
potencial de cada objeto. proximidade com o real, e, sobretudo, a intensi- momento da vida das crianças em que elas mais
Foi questionada, também, a utilização de dade e a freqüência com que é utilizado. necessitam de trocas sociais.
determinados brinquedos, como, por exemplo, Os jogos eletrônicos contribuem para o
os que simulam armas, pois se prestam para Sujeito PO – “Se você só brinca com armas sedentarismo, impondo às crianças uma certa
estimular situações de violência, o mesmo acon- tua vida inteira, o tempo todo, chega uma hora imobilidade, prejudicial ao desenvolvimento
tecendo com alguns tipos de jogos eletrônicos. que você não está mais brincando, você está humano. Além disso, segundo os entrevistados,
ensaiando um papel.” esses jogos tendem a ultrapassar os limites de
Armas de brinquedo um brincar saudável e prazeroso, gerando com-
Isso mostra o quanto o brinquedo serve para portamentos compulsivos.
No que se refere à utilização de armas de as representações das histórias, sejam elas tira-
brinquedo, esse aspecto dividiu a amostra. A das dos livros, da televisão ou até mesmo da Sujeito PB – “Ficar no computador
maioria questionou o benefício desse tipo de vida real. A cultura lúdica dispõe de uma certa não pode impedir que a criança vá chutar
objeto, apesar de haver um consenso em torno autonomia, mas só pode ser entendida dentro de bola... Até porque a obesidade infantil está
da necessidade das ações resultantes do ima- um contexto social ao qual a criança pertence. aumentando.”
ginário infantil. Sugeriu-se que os fabricantes
passassem a adotar mudança de postura em Os jogos eletrônicos e o computador Sujeito PP – “A criança fica sem limites. (...)
relação a esses brinquedos, e alguns se mos- Não pode ser das 8 da noite às 5 da manhã. É
traram favoráveis às medidas de controle sobre Os novos tempos trouxeram consigo o excesso, sai fora dos objetivos. Acaba virando
72 73
sua fabricação e distribuição. avanço da tecnologia, especialmente dos meios vício.”
de comunicação e informação. A representa-
Sujeito PM – “Tem jogos onde a agressivi- ção de tais equipamentos já faz parte da cultura Nesse sentido, os entrevistados concordam
dade fica muito concreta.” infantil. Ignorá-los seria impossível. que é necessário haver um controle da utiliza-
Os especialistas tinham claro que as trans- ção dessa modalidade de jogo, de modo a não
Sujeito PP – “As pessoas estouram, voam formações sofridas pelas sociedades, nas últi- prejudicar as crianças, pois até por volta dos
cabeças... Chegam a dizer que a vida não vale mas décadas, inseriram os pequenos no mundo 12 anos elas são incapazes de estabelecer jul-
tanto assim.” digital. Por um lado, isso trouxe benefícios, ao gamentos e apropriar-se somente dos conteúdos
favorecer a aquisição de habilidades e de conhe- positivos oferecidos pelo material.
Alguns entrevistados mostraram-se total- cimentos aos quais, talvez, de outra forma, as
mente contra a existência de armas de brin- crianças não teriam acesso. Por outro, há per- Sujeito PP – “Tudo com moderação é
quedo nas brinquedotecas, nas escolas ou nas das a serem consideradas, como, por exemplo, válido.”
residências, justificando que eles banalizam as a ausência de interação, indispensável ao desen-
situações de violência, contrariando a cultura volvimento infantil. Os depoimentos apresenta- Em síntese, para os especialistas, não há
da paz. dos a seguir ilustram melhor essa situação: necessidade de brinquedos para um brincar
de qualidade. Eles têm valor particularmente
Sujeito PC – “Temos que passar para Sujeito PB – “Hoje você tem softwares quando servem para facilitar a concretização
as nossas crianças que a violência é um muito interessantes de construção de casas, do imaginário da criança. É importante lembrar
problema.” de cidades. (...) São temas que desenvolvem a que, às vezes, o excesso de brinquedos pode
inteligência e dão informação para a criança, desestimular o brincar por dificultar a escolha.
Outros argumentaram que a brincadeira desenvolvem habilidades.” No que se refere às armas de brinquedo e aos
com armas sempre existiu e que é importante jogos eletrônicos, apesar de não haver consenso
para as crianças simbolizarem situações de Sujeito PEU – “(...) ajuda no desenvolvi- entre os especialistas sobre o seu emprego no
violência e agressividade com que têm contato mento intelectual, no raciocínio, mas perde brincar, é preciso ter em mente que o seu uso
diariamente. Porém não deixaram de consi- o esteio da criança, porque você precisa de pela criança e a sua influência sobre ela devem
derar a importância desses brinquedos dentro pares para crescer.” ser moderados.
de determinados parâmetros, mostrando que
é fundamental observar-se a faixa etária e as Mais do que enriquecedoras, as relações
4.6
As transformações do brincar
Apesar de arrolarem vantagens em relação comunicação, em particular da TV, é um dos
ao jogo, os entrevistados alertaram sobre as motivos pelos quais é muito comum, nos dias
transformações no brincar, além do fato de a de hoje, observar-se meninas com atitudes de
criança ter menos tempo para realizá-lo e, con- mocinhas, o uso de roupas mais adultas e o
seqüentemente, de ser criança. Ela retrata, no desinteresse por certos tipos de brincadeiras.
seu imaginário, a sua realidade.
Sujeito PMC – “Não agüento mais ver
Sujeito PP – “O que eu acho mais impor- menina de salto, pintada, cabelinho tingido.
tante para toda criança é ela ser importante. Isso é uma agressão contra a infância. A gente
Ter sua individualidade reconhecida.” está roubando a infância das crianças.”
74 75
Sujeito PB – “Vamos dar oportunidade Os depoimentos deixam claro como a
para a criança brincar e ser criança.” “adultização da infância”9 é nociva para o
universo infantil, porque as crianças deixam
Nos últimos anos, segundo a amostra, a de ser crianças, queimando uma etapa de seu
infância tem sofrido muita pressão devido a desenvolvimento.
um amadurecimento precoce. Isso é reflexo da Para os entrevistados, a infância tem neces-
sociedade em que vivemos e da influência dos sidades que merecem ser respeitadas. O brincar
meios de comunicação, especialmente da TV. é uma dessas necessidades, e, entre os especia-
Tal perspectiva, comum entre os entrevista- listas, foi unânime a percepção de que as crian-
dos, mostra que essas condutas vêm sendo pro- ças estão brincando cada vez menos.
vocadas pelos próprios pais, ao cobrarem dos Se brincar é um direito das crianças, por que
pequenos posturas mais adultas. Essa atitude é elas brincam menos?
ainda mais comum nas camadas menos favore- Ora, como já foi exposto, o brincar envolve
cidas, em que se observam os trabalhos domés- mais do que simples movimento, desejo ou
ticos infantis. objetos. Necessita também de espaço e tempo.

Sujeito PEP – “Houve um encurtamento da A perda de espaço para brincar


infância. (...) E a criança acaba deixando de
ser criança porque ela tem muitas atribuições Segundo os especialistas, observam-se alte-
impostas pela família.” rações no espaço urbano e nas condições de
moradia, de modo especial nas grandes metró-
Alertaram, também, para a influência exer- poles. Com isso, os espaços de brincar foram
cida pelos meios de comunicação que apresen- desaparecendo.
tam crianças com hábitos e atitudes de adultos Para os entrevistados, no tempo de sua
– influenciando na postura e no consumo de infância, os espaços para a brincadeira eram
produtos –, que são, no geral, pouco adequados mais abertos e ofereciam mais liberdade tanto
para essa fase da vida.
Na opinião deles, a influência dos meios de 9 Termo utilizado pelos entrevistados.
nas ações quanto nas interações. Havia poucos impondo aos pequenos um brincar imóvel, iso- cendo o clima de hostilidade, do qual as crian- recursos para atender a uma população de baixa
brinquedos, e os existentes não eram sofistica- lado, sem estimulação e, por vezes, com pouca ças são as principais vítimas. renda, não são previstas, nos projetos, áreas de
dos. Por essa razão, os entrevistados demons- criatividade. lazer para as crianças.
traram um certo saudosismo em relação à Assim, embora a criança tenha direito ao Sujeito PO – “A criança pobre não tem Nesses casos, ao problema da falta de espa-
infância. lazer e, portanto, à brincadeira, segundo os espaço de lazer. A maior parte das crianças ços soma-se a ausência de brinquedos.
entrevistados, é o brincar livre que está sendo de 0 a 6 anos não estão [sic] nas creches (...)
Sujeito PEP – “Eu terminava a lição e saía mais prejudicado pelas transformações do brincam num espaço exíguo, a maior parte do Sujeito PO – “Você não vê espaços para
para a rua. Conheci muita gente diferente; espaço urbano. tempo submetidas à televisão. (...) Não são uma brincar nos condomínios populares e nas
76 77
assim troquei muitas experiências. (...) A rua A rua era, por excelência, um espaço de platéia crítica, porque ninguém discute com favelas...”
possibilita a mistura, gente pobre com gente liberdade, de convívio, de trocas e de interações ela o que ela está vendo. (...) Ficam sozinhas,
rica. (...) Na rua a gente brincava junto. (...) sociais. As poucas áreas verdes, a diminuição confinadas, processam aquela informação do Para os entrevistados, as crianças com
Hoje a regra é cada macaco no seu galho. Não das moradias e a perda dos espaços públicos, jeito que elas querem. (...) O ambiente pequeno melhores condições sociais, ainda que residam
tem mais essa troca de experiências.” somadas à violência e ao aumento do trânsito, gera muita tensão intrafamiliar, de competição em apartamentos, sempre têm a possibilidade
têm impedido cada vez mais a realização do entre os membros da família. Ninguém pode de “fechar a porta, se trancar no quarto”. Con-
Para Freinet (1960), o jogo deveria corres- brincar. As brincadeiras, então, se tornaram se trancar no quarto. (...) Essa tensão leva tam com espaços alternativos, jardins e áreas
ponder às necessidade orgânicas, sociais e fun- mais reduzidas, e a oportunidade de se movi- os adultos a procurar a rua, os homens vão coletivas dos condomínios para brincar. Isso
cionais apresentadas pela criança. mentar diminuiu muito. beber, voltam agressivos. (...) Tem um aumento não significa que tais locais sejam os mais ade-
Isso, certamente, envolve o espaço, e é num da violência doméstica, da violência sexual. A quados, porque também apresentam várias res-
espaço reduzido que vivem e se movimentam Sujeito PB – “Eu podia sair de bicicleta, criança está vivendo cenas de violência dentro trições, mas o fato é que eles existem e podem
as crianças de hoje. Sua mudança é dinâmica, andar na rua. (...) A segurança mudou o hábito de casa.” ser utilizados.
portanto esse local vai sendo continuamente das pessoas. Ninguém tinha medo do filho ser
construído, destruído e reconstruído. seqüestrado.” Os entrevistados também lamentaram o fato Sujeito PEU – “São privilegiadas essas
O espaço significa, para a criança, um local de os parques públicos, à disposição de todos, crianças que moram em condomínios, que
onde se adquire o conhecimento, uma vez que Sujeito PM – “Na rua a criança pode cor- serem distantes de onde vivem as famílias de podem brincar nas áreas coletivas dos prédios
nele se desenvolvem as primeiras sensações rer, fazer traquinagens que não fazem [sic] em baixa renda, e que, para utilizá-los, essas famí- onde moram. Mesmo assim, há restrições: faz
infantis. Mas, apesar de ser nesse espaço físico casa. Você tem uma noção maior de liberdade, lias devem deslocar-se muito e, na maioria das barulho, não se pode brincar aqui e ali.”
que a criança estabelece as relações com o sente mais as coisas, sente a vida diferente.” vezes, a pé. Isso significa que, para aprovei-
mundo, ele não tem sido pensado em função de tar os parques, é necessário “gastar” dinheiro Além de terem ambientes residenciais mais
suas necessidades. Nos depoimentos, entre aqueles que traba- com transporte, despesa esta que está fora do amplos, as crianças mais favorecidas econô-
Para Lima (1989), a apropriação, a exclusão lhavam com crianças de classes menos favo- alcance da maioria das famílias, exceto em mica e socialmente dispõem de condições e
e a limitação do espaço fazem parte dos direi- recidas, as perdas dos espaços tendem a ser ocasiões especiais. oportunidades para freqüentar outros espaços
tos de quem está no poder. O espaço explicita infinitamente mais perversas. Para eles, ficar A ausência de espaços lúdicos não é um privados mais amplos e os parques públicos
as relações que os homens estabelecem entre si. em casa, em espaços reduzidos, é sinônimo de problema apenas das favelas, mas se estende para brincar.
Hoje, o espaço que as crianças têm para brincar confinamento, de submissão quase exclusiva à também aos conjuntos habitacionais populares, A perda dos espaços para um brincar mais
reflete o poder do adulto sobre elas. Consciente televisão. A exigüidade dos espaços também porque eles não contemplam áreas coletivas. ativo, sobretudo dos maiores, tem contribuído
ou inconscientemente, os mais velhos estão aumenta as tensões intrafamiliares, favore- Como geralmente são construídos com parcos para o aumento dos índices de obesidade infan-
til, aspecto já abordado neste trabalho. Princi- e se reconhece nesse espaço. Uma coisa mais inglês, esporte... (...) É uma necessidade da meras atividades às crianças lhes oferece pouca
palmente para os profissionais da saúde, dentro concentrada.” sociedade.” possibilidade de aproveitar a infância.
de casa, as oportunidades de exercícios amplos São, portanto, segundo os participantes da
e de gasto de energia acabam sendo reduzidas. A falta de tempo para brincar Sujeito PM – “A criança de um nível eco- pesquisa, “crianças executivas”...
nômico mais baixo acaba brincando mais do
Sujeito PM – “As crianças brincam sem Diferentemente da perda do espaço, que é que as crianças de classe mais alta, que têm Sujeito PB – “(...) que têm a agenda lotada;
78 79
nenhuma atividade física. (...) Ficam paradas um problema comum à maioria das crianças, a escola das 8 às 12h, depois têm natação, balé, às 7 da noite, elas estão esgotadas e não
em frente ao computador ou olhando o brin- falta de tempo é um fenômeno que, de acordo línguas... Enfim, não têm tempo de brincar.” brincaram.”
quedo brincar. (...) Estão ficando obesas.” com os entrevistados, está mais fortemente
associado às crianças das classes sociais mais Embora os entrevistados conseguissem Eles também disseram que, por pratica-
No entanto, entre os entrevistados, a ausên- altas. entender as intenções dos pais e até se identi- mente nunca ficarem sozinhas, essas crianças
cia de espaços amplos e livres não é impedi- Os entrevistados observaram que, em ficassem com elas, mostraram que as múltiplas não aprendem a administrar o próprio tempo.
mento para a criança brincar. É óbvio que, como geral, as crianças das classes mais altas brin- atividades impostas às crianças tendiam a ser
apontaram Mir, Coromina e Gómez (1997), eles cam menos porque acumulam inúmeras ativi- questionadas. Sujeito PP – “Deixar a criança encaixada
são importantes, porém não são indispensáveis dades, restando a elas pouco tempo livre. Os Perceberam os efeitos nocivos que essa num horário não é legal. Ela tem que admi-
para a realização de tal atividade. Os entrevis- pais, nesse caso, têm ansiedade de proporcio- postura acarreta aos pequenos, como desin- nistrar seu tempo. (...) O tempo dela não pode
tados sugeriram que as eventuais perdas para o nar desde cedo aos seus filhos vários tipos de teresse, perda de concentração, estresse, etc. depender só do adulto.”
desenvolvimento infantil e para a motricidade aprendizagem. Há uma preocupação de que as Foram os médicos e os estudiosos do desenvol-
humana geradas pela ausência de tais espaços crianças não fiquem ociosas. vimento infantil que melhor descreveram tais Poucas são as oportunidades que essas crian-
podem ser compensadas por outras atividades, problemas: ças “executivas” têm de brincar livremente,
desde que contenham estimulação adequada. Sujeito PP – “O pai tem que trabalhar. A situação que as deixa com grandes dificuldades
Isso não significa considerar, porém, que o empregada não tem cultura [sic]10. A televisão Sujeito PP – “À medida que você estimula para construir o imaginário e, portanto, criar.
brincar em espaços pequenos e dentro de casa é uma bomba. (...) É melhor a criança fazer todas as áreas cerebrais ao mesmo tempo,
seja suficiente. Contudo, é necessário pensá-lo você acaba criando um mecanismo de tédio, Sujeito PMC – “A criança precisa apren-
10 Este comentário (“A empregada não tem cultura”)
dentro e fora desse local. merece uma reflexão mais profunda. Os autores sugerem de desapego. (...)” der a brincar sem compromisso, sem hora
Dentro das casas, naturalmente, a brinca- que ele reflete um desprezo geral por parte das classes marcada, com liberdade. (...) Ela não cons-
deira é mais contida; já fora, ela permite mais mais favorecidas economicamente em relação à cultura Sujeito PM – “As crianças estão estressa- trói o universo dela, não estimula o seu
popular brasileira, inclusive as brincadeiras populares
amplitude nos movimentos, na ação, e, conse- e tradicionais. Observa-se que, nos últimos anos, têm das. (...) Eu não via antes criança com úlcera, imaginário.”
qüentemente, favorece uma maior autonomia. surgido inúmeros programas de “resgate” de brincadei- com depressão. Elas têm menos tempo, não
ras tradicionais brasileiras, nos quais estas últimas ser-
vem como ferramentas para recuperar a auto-estima das
conseguem sentar e relaxar.”
Sujeito PP – “A criança precisa das duas crianças (e de suas famílias) e ensinar conceitos de cida-
coisas. (...) Fora de casa é onde a criança dania. Ao contribuir com a quebra do paradigma de que Além dos efeitos prejudiciais ao bem-estar
as classes menos favorecidas não têm cultura, o brincar
extravasa, com movimentos grandes. (...) pode ajudar a reduzir preconceitos entre gerações e clas- infantil e ao seu desenvolvimento cognitivo, os
Dentro de casa ela reconhece o espaço dela ses sociais. entrevistados explicitaram que a oferta de inú-
4.7
O brincar entre pais e filhos
Uma das grandes questões que o grupo de As entrevistas mostraram que houve consenso
80 81
trabalho quis investigar foi o papel dos pais em entre os especialistas sobre a importância de tal
relação ao brincar. relação. Alguns se valeram de suas experiên-
As recentes teorias de desenvolvimento cias para abordar a questão.
mostraram que os bebês aprendem com todo
o seu corpo e com os seus sentidos. Fazem- Sujeito PB – “A gente sai, toca violão, eles
no porque querem, comunicam o que sabem, escrevem, desenham. Eu acho que isso mudou
aprendem num contexto de confiança. Eles a vida da gente.”
recolhem a informação a partir de suas ações,
como olhar para a mãe e brincar com as mãos, Sujeito PO – “Eu vejo que o meu filho é cria-
tocando na roupa de quem está a seu redor, tivo, tem vontade de conhecer coisas novas, é
colocando o dedo na boca... As descobertas fértil mentalmente. (...) Muitas competências
sobre si e sobre o mundo ocorrem através do que têm a ver com a gente brincando.”
movimento, necessitando, portanto, de um con-
tato direto com objetos e pessoas. Precisam de Ao estimular as crianças durante a brinca-
apoio, daí a importância de os pais auxiliarem deira, os pais tornam-se mediadores do pro-
nesse processo. cesso de construção do conhecimento, fazendo
Se partirmos do pressuposto de que as crian- com que elas passem de um estágio de desen-
ças aprendem desde os primeiros anos de vida, volvimento para outro. Brincar, para as crian-
é importante salientar que, tal como outras ati- ças, agrega a oportunidade de estabelecerem
vidades que desenvolvem, elas também apren- vínculos, de se sentirem mais acolhidas e segu-
dem a brincar. Embora seja costume associar ras. Isso favorece as relações interfamiliares.
as atividades lúdicas à infância, elas não são Ao ajudar a estabelecer relações de confiança
inatas. entre pais e filhos, o brincar contribui para pro-
Há muitas variáveis que interferem no pro- mover o equilíbrio físico e emocional.
cesso de aprendizado do brincar, inclusive a
classe social e os padrões culturais ou costumes Sujeito PMC – “Alicerça um vínculo. (...)
do grupo ao qual pertencem as crianças, sendo ajuda a criança a sair de uma fase para outra
o papel dos pais fundamental nesse processo. se sentindo mais segura.”
Sujeito PO – “Brincar junto é o mais impor- pelo nível de estresse em que se encontram, o Sujeito PP – “O ideal é que, na organiza-
tante de tudo. Faz parte do processo de educa- que acaba por determinar total impaciência. ção familiar, se tenha a hora da brincadeira.
ção, de relacionamento humano...” (...) Vamos desligar o celular, a TV...”
Sujeito PO – “A tendência dos pais é se
Os entrevistados apontaram algumas das preocupar com o estudo, com o conhecimento, Os entrevistados relativizaram o brincar
vantagens da brincadeira entre pais e filhos aquilo que eles acham que garante o futuro tradicional, mostrando que outras atividades
– melhor relacionamento entre eles, maior profissional do filho. (...) Qualquer outra ques- de lazer, no mundo moderno, vêm ocupando
segurança por parte das crianças e a certeza tão é desvio.” o seu lugar. Foram indicadas outras ações que
de gozarem afeto. Indicaram que haveria uma exigem a participação das crianças com os pais
redução “natural” do estresse diário para os Sujeito PP – “Tem uma ausência e uma e que, segundo eles, também se constituem em
pais à medida que se permitissem brincar com impaciência também. A vida na cidade deixa momentos lúdicos de convivência, necessários
seus filhos. Para os sujeitos, essa também é uma as pessoas mais nervosas. (...) Quando você e enriquecedores:
forma de a criança poder controlar seu cansaço chega em casa, não tem paciência para se vin-
82 83
e sua irritação. cular com a criança.” Sujeito PB – “Tem que ter oportunidade de
Para Mamede (2003), há que se considerar conversar; não precisa estar brincando com
que a família, do ponto de vista da sua estrutu- Sujeito PO – “Nós estamos muito sobrecar- brinquedo. (...) É onde você ganha confiança,
ração, vem passando por profundas modifica- regados, e isso vale para o pobre, para o rico. uma intimidade absurda.”
ções, o que acarreta diferentes configurações e Todo mundo trabalha muito. Tem um estresse
transforma literalmente as relações existentes grande. (...) Isso impede de ter uma relação Os entrevistados apontaram que a mídia,
em seu interior. Nessa perspectiva, tem-se alte- mais tranqüila, um destensionamento.” de modo especial a televisão, teria um impor-
rado o papel exercido pelos pais. tante papel de mostrar aos pais a importância
Enquanto nas famílias brasileiras de baixa Os formadores de opinião estavam cientes do brincar. Além dela, citaram que as escolas
renda os pais enfrentam dificuldades enormes de que essa situação nem sempre é contornável, e os professores deveriam ter condições para
para criar e educar seus filhos, que precoce- mas tinham absoluta clareza de que a qualidade a orientação sobre o assunto. Uma vez que os
mente precisam trabalhar, não melhorando da interação é mais importante do que a quanti- pais não dispõem de tempo para estar com seus
sua auto-estima nem rompendo com o ciclo da dade de vezes que ela possa vir a ocorrer. filhos, alguns dos entrevistados sugeriram a
pobreza, as crianças das classes sociais mais figura de outro agente mediador, no caso o edu-
altas também não têm a liberdade de brincar ou Sujeito PM – “Se você passar 20 minu- cador, que pode ter um papel fundamental na
fantasiar. tos com ele, sem mexer na panela, olhar a estimulação da criança.
Para essas crianças, tudo é oferecido em máquina de lavar... é melhor do que ficar um Observa-se, porém, que não há solução sim-
quantidade, não se diferenciando o ter do não tempão, mas dividindo a atenção com um ples para o dilema da falta de tempo dos pais
ter. Confundem desejo e consumo. Isso tem monte de outras coisas.” para estar com seus filhos. Certamente, os
contribuído para a diminuição da interação educadores podem e devem exercer um papel
entre pais e filhos e, de certa forma, para desva- Nesse caso, para os entrevistados, ainda importante na estimulação da criança, no pro-
lorizar o brincar. que o tempo que se passa com os filhos seja cesso de aprendizagem. Mas eles não devem
Além disso, de acordo com a amostra, apesar pequeno, é condição primordial que durante a assumir o papel dos pais na atividade, e sim
da importância da brincadeira, os pais não se brincadeira haja uma real dedicação às crian- complementá-lo.
revelaram dispostos a realizá-la, quer pela falta ças. Alguns chegaram a sugerir a criação de É fundamental encontrar formas de ajudar
de informação sobre o papel da atividade no uma “hora do lazer” para as famílias, na qual os pais a inserir o brincar nas rotinas cotidia-
desenvolvimento infantil, quer pelo excesso de seus integrantes poderiam se permitir exclusi- nas com seus filhos.
trabalho, gerado pela falta de tempo, ou, ainda, vamente brincar.
4.8
Espaços alternativos para o brincar
84 85
Já observamos que as transformações no na terra, para ter contato com outras texturas,
mundo atual acabaram interferindo, de forma descobrir seu próprio corpo, ter novas sen-
predominantemente negativa, no espaço, no sações, desenvolver sua percepção. (...) Para
tempo e na participação dos pais no brincar. o seu sensorial esses contatos são importan-
Diante dessa situação, os especialistas des- tes. (...) ter contato com a natureza é viver. O
tacaram quatro espaços que podem ser recon- que não é viver é você só ter contato com o
siderados e/ou criados como locais onde as carpete.”
crianças possam realizar livremente suas brin-
cadeiras: a observação da natureza, o teatro, a Sujeito PO – “É importante ter contato com
brinquedoteca e a escola. a terra, o planeta que a criança vive, na sua
Os especialistas foram unânimes quanto à essência. Eles [as crianças] hoje só conhecem
importância da observação da natureza para a o planeta de asfalto, a água de piscina.”
criança, enfatizando os benefícios provenientes
do contato físico com ela. A diversidade que Sujeito PC – “Brincar com a terra é essen-
ela apresenta faz com que as crianças possam cial. É você ver o começo do ser humano.
descobrir cores, formas, odores, sabores, e isso Mexer com a terra é ter o processo de vida
pode ser relacionado às diferenças existentes na mão. Terra é vida. Onde eu plantar, com a
entre os humanos. Situa, portanto, a criança em terra eu vou colher.”
relação aos fenômenos físicos e ao reconheci-
mento das diferenças. Para os entrevistados, o teatro é outro espaço
Os depoimentos a seguir mostram que, na de suma importância para o brincar das crian-
opinião dos especialistas, há uma necessidade ças. Ele implica o desenvolvimento de diferen-
de considerar como inserir a interação com a tes habilidades, como a do raciocínio lógico
natureza na vida das crianças, sendo os espaços – já que as histórias têm princípio, meio e fim –,
urbanos atuais inadequados nesse sentido. possui diferentes personagens que estimulam a
interação entre os pequenos e determina a divi-
Sujeito PP – “A criança tem que andar des- são dos papéis.
calça, pisar numa folha, se espinhar, brincar As relações entre o teatro e a infância são
muito antigas. Por renovar-se continuamente, de brincar mesmo. Por exemplo, quando ela caro... Brinquedos que vão realizar sonhos, dela, nem sempre os pais estão junto... E nessa
86 87
o teatro é uma forma de criação, além do que pega uma tábua de passar roupa, ela está ali desmistificar fantasias, ou apenas estimular a hora ela sorri.”
o representar cada vez mais se apresenta de criando, imaginando, ela está construindo o criança livremente. A brinquedoteca está longe
uma forma original. O teatro também permite mundinho dela e a criança até brinca sozinha de ser um amontoado de brinquedos. São objetos É indiscutível o modo como a brinquedo-
uma relação direta entre o público e os atores mesmo; ela fala sozinha e isso é bom, vai cons- imóveis na prateleira, mas nas mãos da criança teca favorece as condições de tratamento das
graças a um espaço tridimensional, exigindo, truindo o seu conhecimento.” adquirem vida, transformam-se, vão além do crianças e influi no aumento dos índices de
ainda, a criação de cenário e de figurinos. Há, real. Pois a brinquedoteca é, sobretudo, mundo recuperação.
então, uma diversidade de solicitações às quais Criadas na década de 70 no Brasil, as brin- de brincadeiras (FRIEDMANN, 1992, p. 66).
as crianças devem responder, fazendo com que quedotecas surgiram a partir de uma grande Sujeito PB – “Já ouvi testemunhos médicos
surjam inúmeras habilidades e que elas exerci- exposição de materiais pedagógicos realizada Hoje existem inúmeras brinquedotecas em incríveis. (...) Até a anestesia que a criança
tem sua criatividade. no Centro de Habilitação da Associação de todo o país, e sua atuação vem ocorrendo em toma pode ser menor, porque a criança está
Outro espaço muito destacado pelos espe- Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) de São escolas, parques, bibliotecas, hospitais, centros calma, relaxada.”
cialistas foi a brinquedoteca. Segundo eles, há Paulo. de saúde, centros comunitários, entre outros
muito que aprender das experiências desse tipo O objetivo na ocasião consistiu em apresen- locais. Sujeito PM – “Nós percebemos a vontade
de iniciativa. As brinquedotecas parecem ser, tar aos interessados os brinquedos existentes É interessante notar que foi salientado pelos que a criança tem de ficar melhor, de não
para eles, uma das alternativas mais atrativas, para os excepcionais. Dado o êxito do evento, médicos entrevistados que as atividades lúdicas depender de oxigênio, de tirar o soro, quando
porque apresentam um espaço organizado, que a instituição implantou um sistema de emprés- em hospitais interferem na saúde física e psico- ela sabe que tem uma brinquedoteca que ela
permite a livre escolha da criança tanto em rela- timo de brinquedos, seguido de outras ações, lógica da criança em tratamento de saúde. Mos- pode ir assim que tiver condições. (...) Fun-
ção aos objetos quanto às atividades. Elas têm culminando com o desenvolvimento do projeto traram que as crianças que brincam se sentem ciona como um incentivo para ela melhorar.”
estímulos adequados e educadores preparados de uma brinquedoteca terapêutica em 1986. mais felizes, apesar das doenças que possuem.
para o seu acolhimento e orientação. Possuem, Rapidamente outras foram inauguradas, espa- A brinquedoteca hospitalar surge, hoje, como A brinquedoteca apresenta, entre seus obje-
além disso, outra grande vantagem: proporcio- lhando-se por todo o país. um elemento básico no tratamento das crianças tivos, a valorização do brincar, o acesso pela
nam o acesso a uma variedade de brinquedos a com problemas de saúde. criança a uma multiplicidade de brinquedos e
quem não os tem. Mundo de brinquedos: é a primeira idéia a seu possível empréstimo, a oportunidade de
para quem entra na brinquedoteca. Brinquedos Sujeito PM – “A gente percebe muito bem experimentar os brinquedos antes de comprá-
Sujeito PP – “A brinquedoteca (...) até variados, coloridos, novos, usados, brinquedos aqui na pediatria o resultado da presença dos los, a interação entre as crianças e entre elas e
criança grande pode usar. Mas acho que a de madeira, plástico, metal, pano; aquele da pro- Doutores da Alegria. A criança no hospital está os adultos.
criança menor, ela explora muito bem esse paganda, um outro com que nossos pais brinca- sendo agredida, pega uma veia, faz um proce-
espaço, desenvolve a criatividade, é o lúdico, vam, ou aquele tão desejado, mas que é muito dimento... Ela está triste, longe do ambiente
4.9
O brincar e a escola
Além dos espaços já mencionados, os pro- tura – a incumbência de ensinar e resgatar as
fissionais destacaram a importância da escola, brincadeiras.
especialmente para crianças até 12 anos. Sob essa perspectiva, seria extremamente
Como visto anteriormente, para os entrevis- interessante que a escola abrisse um espaço
tados, o brincar se aprende brincando. Ele tem, para o jogo. Por isso, os entrevistados opinaram
portanto, uma função socializadora e integra- que o brincar deveria integrar as atividades
dora. A interação presente na ação foi e é res- realizadas no cotidiano das escolas.
88 89
ponsável pelo fato de muitas atividades lúdicas Os profissionais entrevistados que estuda-
perdurarem ao longo dos anos. ram mais profundamente o assunto, por exem-
Apesar de a sociedade moderna ter sofrido plo, foram além desse modo de pensar. Susten-
transformações em relação à maneira, ao taram a tese de que o brincar deveria ser parte
espaço e ao tempo de realização do brincar, das formas de ensinar praticadas na escola.
sabe-se que desde o nascimento os bebês apren- Argumentaram que tal necessidade se deve
dem ativamente. As relações são fundamentais ao fato de que a atividade lúdica é benéfica ao
para esse aprendizado. É assim que ocorre o aprendizado.
brincar, que se inicia no seio da família, nas Atualmente, há muitos estudos, como os de
interações com as mães, com quem as crianças De Vries e Kamii (1991), Kishimoto (1994),
estabelecem uma forte relação. Wajskop (1995), Bassedas e Solé (1999), Moy-
Na interação com os pais, durante a brin- les (2002) e Carneiro (2003), que apontam para
cadeira, a criança se desenvolve, ri, chora, a importância dos jogos na escola. Os trabalhos
pronuncia palavras, movimenta-se, conhece desses e de outros autores mostram as diversas
as primeiras normas. Nesse sentido, as pes- formas de utilização do brincar, desde a sua
soas e os brinquedos atuam como mediadores, prática pela livre escolha até como uma ativi-
criando condições para que as crianças adotem dade dirigida pela escola. Eles mostram que a
condutas, valores, atitudes e hábitos. Enfim, escola poderia utilizar os jogos para o desen-
aprendam. volvimento do raciocínio lógico e das compe-
Na sociedade moderna, pais e filhos têm tências cognitivas, além do desenvolvimento
pouco tempo para ficar juntos e brincar. Tal físico-motor e social, já realizado em muitas
realidade se mostra presente nos depoimen- escolas pelas brincadeiras de quadra. Há, hoje,
tos dos especialistas e dos pais. A família tem para os professores, recursos e metodologias
deixado de exercer a sua função integradora e adequados para ensinar brincando.
transmissora da cultura, restando à escola – um Segundo os entrevistados, seria desejável
dos poucos espaços remanescentes que ainda que a escola se apropriasse da brincadeira, por-
possuem áreas para as crianças brincar, tendo que isso traria resultados mais interessantes e
os professores como transmissores da cul- adequados às necessidades do mundo atual.
Sujeito PB – “Antigamente a gente falava As reformas existentes no sistema educa- os próprios fundamentos da cultura que difun- a cultura escolar, pois eles pressupõem que
que o principal era colocar a criança em uma tivo, na maioria dos países, acabaram por abo- diam uma cultura do passado” (LEIF e BRU- elas participem, descubram, criem. Essa visão
boa escola. Hoje a gente sabe que não é bem lir o jogo das atividades escolares, ignorando NELLE, 1978, p. 94). diverge de uma concepção mais tradicional de
assim, porque as crianças de hoje, quando sua importância. Em geral, seu uso se restringe Para que a prática da brincadeira se torne educação, em que a criança é comparada a uma
forem adultos, tudo o que elas aprenderam a situações extremamente dirigidas, que pouco uma realidade na escola, é preciso mudar a esponja que absorve os ensinamentos ofereci-
na escola em termos de ‘aprender’, de conhe- contribuem para o desenvolvimento da autono- visão dos estabelecimentos a respeito dessa dos pelo professor e na qual ele pode depositar
90 91
cimento, isso não vai valer de nada, vai estar mia e da criatividade infantil e para a manuten- ação e a maneira como entendem o currículo. o que desejar.
tudo superado, completamente superado, não ção da cultura. Isso demanda uma transformação que necessita A inclusão do jogo nas atividades escolares,
vai servir para ela. O que vai servir para ela é Para que o aprendizado pelo brincar se con- de um corpo docente capacitado e adequada- segundo os sujeitos, depende também de outros
a criatividade, é a inteligência...” cretizasse, seria essencial que as escolas fossem mente instruído para refletir e alterar suas práti- fatores, como, por exemplo, do nível de ensino e
menos conteudistas e mais formativas. cas. Envolve, para tanto, uma mudança de pos- da faixa etária da demanda atendida pela escola.
Atualmente, observam-se três maneiras de tura e disposição para muito trabalho. Isso justifica por que as atividades lúdicas são
utilizar o jogo na escola, de modo especial na Sujeito PB – “A exigência dos currículos, mais utilizadas na educação infantil11 do que
educação infantil: 1) o jogo livre ou espontâ- dos programas, faz com que o professor vire Sujeito PEU – “O brincar leva tempo. A nos níveis mais elevados de escolaridade.
neo, que permite a livre escolha da atividade uma máquina de ensinar e a criança, uma criança tem que chegar, conversar, escolher do
pela criança; 2) o jogo dirigido, considerado por máquina de aprender.” que vai brincar e ter tempo para isso. (...) Como O brincar e a educação infantil
muitos estudiosos como o jogo didático, e 3) as você vai conseguir construir essa relação com
situações planejadas de jogo, isto é, a utilização Sobre esse aspecto, os sujeitos alertaram o tempo fabril que as escolas seguem?” Atualmente, é quase sempre só na educação
dos chamados “cantos” (espaços distintos orga- para a necessidade de as instituições terem pro- infantil que a escola abre espaço para o brincar,
nizados dentro da sala de aula) para auxiliar o fissionais competentes e instruídos, que possam Essa é uma questão difícil de ser resolvida, pois aí sua associação ao desenvolvimento das
desenvolvimento das crianças. desenvolver adequadamente esse trabalho. porque tanto a escola quanto os pais não atri- crianças é mais reconhecida pela sociedade.
Apesar dessa visão ampliada das possibili- As escolas, em sua maioria, atribuem a buem o devido valor à brincadeira. No extremo, Nesse espaço, em geral, a atividade lúdica se
dades do uso do jogo na escola, ele ainda está exclusão do jogo na escola à necessidade do pensam que o brincar é perda de tempo e que realiza sob duas formas bem definidas: a do
muito distante de ser integrado realmente. Em cumprimento de uma “programação oficial”. tal atividade não serve para nada. Talvez seja jogo didático e a do jogo espontâneo, embora o
geral, isso não ocorre efetivamente, pois a ins- Sabe-se, porém, que, apesar dos Referenciais essa uma das razões pelas quais as institui- primeiro prevaleça sobre o segundo.
tituição é vista mais sob a perspectiva do tra- Curriculares Nacionais para a Educação Infan- ções chegam, no máximo, a integrar a brinca-
balho, da atividade séria, enquanto o jogo é til e dos Parâmetros Curriculares para o Ensino deira enquanto atividade dirigida no espaço Sujeito PEU – “Na educação infantil, o
encarado do ponto de vista do lazer, que não é Fundamental, a possibilidade de flexibilizar o escolar ou nas aulas de educação física. Ainda brincar é a principal atividade. O que a criança
sério. Há, portanto, um antagonismo entre jogo currículo nas instituições de ensino é bastante assim muitas unidades são contrárias à sua deve fazer na escola é brincar – dar camba-
e trabalho. “Para a maioria dos grandes pen- grande. Tais documentos constituem-se em realização. lhota, muito pulo, se sujar – e ir desenvolvendo
sadores da educação, o jogo permanece sendo orientações para o trabalho escolar. “Impuse- Outro impedimento que o brincar encontra o conhecimento a partir da brincadeira.”
um descanso. Sua função é permitir uma rege- ram a todas as crianças do ‘povo’ um tempo na escola é a natureza da orientação metodo-
11 O termo educação infantil nesta investigação incluirá
neração, lamentavelmente, das forças” (LEIF e livre de trabalho produtivo, um tempo escolar lógica por ela adotada. Se pensarmos em uma o trabalho realizado tanto com crianças de 0-3 anos (anti-
BRUNELLE, 1978, p. 108). cada vez mais longo, sem colocar em questão criança ativa, certamente os jogos englobarão gas creches) como de 4-6 anos (pré-escolas).
Sujeito PP – “O brincar é muito bem- cendo a oportunidade de as crianças realizarem Permitir a brincadeira espontânea também
aceito no ensino infantil, até os 5/6 anos. amplamente os seus movimentos em momentos pode auxiliar no desenvolvimento de conteúdos
(...) Agora, quando começa o primeiro ano, em que elas, enquanto protagonistas, podem que envolvam os pequenos. É esse o momento
o brincar some. Eles falam: ‘acabou a brin- escolher as atividades. mais adequado para que eles organizem o
cadeira; agora é coisa séria’. (...) É a cultura mundo que os rodeia, transformando os conhe-
dominante.” Sujeito PO – “As EMEIs são muito boas em cimentos adquiridos em conceitos gerais com
termos de espaço. Têm espaços até mais ade- os quais brincam. Porém esse não é um traba-
Nessa fase da criança, segundo os depoen- quados do que as escolas infantis privadas, lho simples de ser realizado. Necessita de muita
tes, tanto os profissionais quanto a sociedade que muitas vezes funcionam em casas aluga- pesquisa e estudo, e nem sempre isso é possível
tendem a valorizar a atividade, havendo uma das pequenas. (...) Podem não estar conserva- aos educadores.
menor pressão dos pais no sentido de obter um das, como deveriam, mas são bons espaços.” Nesse sentido, vale a pena lembrar a expe-
trabalho com conteúdos mais estruturados. riência bem-sucedida de Reggio Emilia, na
Em geral, as escolas de educação infantil Os entrevistados apontaram alguns impe- Itália14, onde as crianças utilizam diferentes
privadas realizam atividades lúdicas, mas estas, dimentos para a realização da brincadeira no linguagens, dentre elas o brincar. O trabalho lá
quase sempre, são muito dirigidas. O brincar interior das escolas. Um deles, provavelmente o realizado mostra que as crianças querem viven-
se torna, assim, menos espontâneo, criativo e maior, talvez seja a pressão exercida pelos pais, ciar ativamente suas experiências, e a brinca-
prazeroso. que, em particular nas classes sociais menos deira lhes oferece tal possibilidade. Segundo
favorecidas, tendem a encarar a atividade lúdica Edwards, Gandini e Forman (1999), as crianças
92 93
Sujeito PB – “As pré-escolas privadas dão como um mero divertimento, não servindo para são estimuladas a observar, reobservar, consi-
atividades de brincar, mas nem sempre deixam o desenvolvimento infantil “sério”. Dependendo derar, refletir, estabelecer hipóteses, testá-las
a criança escolher. Elas impõem. Elas estra- da linha metodológica adotada pela instituição, e representar. Isso, certamente, exige um pro-
gam a relação da criança com a atividade pra- essa visão dos pais reforça uma pressão para cesso contínuo de formação dos profissionais,
zerosa. (...) Ele [educador] deveria selecionar se ensinar conteúdos.13 Comentaram que per- para os quais o trabalho educativo, longe de ser
os objetos, proporcionar descobertas (...) ele siste ainda, em grande parte das instituições, uma rotina, passa por um constante reexame e
prepara a situação para que a aprendizagem a idéia de que, quanto mais conteúdo, melhor experimentação.
aconteça.” é a escola. Essa visão é antagônica ao uso da Infelizmente, isso não ocorre no Brasil, pois
brincadeira, o que acaba determinando que se ficou claro nos depoimentos dos profissionais
Segundo Wajskop (1995), a escola não ofe- ignore o importante papel desempenhado pelo da amostra que, no país, tem havido um maior
rece possibilidades para o desenvolvimento da brincar no processo de aprendizagem e de des- investimento para a formação docente, mas que
brincadeira livre e, quase sempre, impede que coberta pela criança. Sabe-se, porém, que, ao ainda não é suficiente, o que acaba sendo um
ela aconteça. Mostra uma prática pedagógica incluírem o jogo na escola, as instituições esta- obstáculo para o brincar na escola.
tradicional e ultrapassada, em que o fazer da rão estimulando a criatividade infantil. Uma das principais causas dessa deficiên-
criança não é respeitado. Observou-se outro grande impedimento cia consiste na falta de reconhecimento dos
A busca pela criatividade e pela espontanei- apontado pelos entrevistados: a falta de preparo profissionais de creche como educadores, dada
dade poderia ser amplamente favorecida pelo dos profissionais. a dicotomia entre o cuidar e o educar. Histo-
jogo, pois a escola ensina conhecimentos desa- “Considerando que a brincadeira deva ocu- ricamente, esses profissionais foram conside-
tualizados para o homem de amanhã. par um espaço central na educação infantil, rados auxiliares de desenvolvimento infantil
Apesar da dificuldade de realizar as brin- entendo que o professor é figura fundamental (ADIs), não se exigindo deles nenhum tipo de
cadeiras, segundo a experiência dos profissio- para que isso aconteça, criando os espaços, ofe- formação.
nais entrevistados, são as escolas públicas de recendo-lhes material e partilhando das brinca- Seu trabalho caracterizava-se apenas pelo
educação infantil as que possuem os melhores deiras das crianças” (WAJSKOP, 1995, p. 112). atendimento e pelos cuidados com a criança,
espaços e, por vezes, mais equipamentos, muito 13 Esta é uma questão que deveria ser analisada com
embora muitas necessitem de conservação.12 mais profundidade em outro trabalho, dados os docu- 14 Reggio Emilia é uma cidade italiana da região de
Em geral, têm áreas externas maiores, favore- mentos elaborados pelo Ministério da Educação, dentre Emilia-Romagna, no nordeste da Itália, que, depois
eles os Referenciais Curriculares para a Educação Infan- da Segunda Guerra Mundial, criou a Emilia Romagna,
12 É importante lembrar que todos os entrevistados til, nos quais o brincar é considerado uma das bases da uma experiência educacional em que crianças, adultos e
moravam na cidade de São Paulo. aprendizagem infantil. comunidade trabalham juntos.
94 95

como alimentação, higiene e saúde. Isso fez A falta de formação no brincar eventos acabam atingindo um público restrito, fácil reproduzir um texto, fazer um ditado,
com que se ampliassem as distâncias entre o quer pela insuficiência de tempo e de prioridade do que extrapolar e ir para o lúdico. (...) Eles
cuidado e a educação, de modo a serem enca- A falta de formação adequada para o brin- dos profissionais, quer pelo custo. são menos habilitados em termos de informa-
rados como dois processos antagônicos, e não car, segundo a amostra, independe do nível de ção, menos dispostos e com menos condições,
complementares. escolaridade dos profissionais e da natureza das Sujeito PMC – “Mesmo querendo melhorar mesmo que tivessem disposição.”
Apesar da mudança proposta pela Lei de escolas. Até mesmo os entrevistados formados a sua formação, o educador não tem como. Se
Diretrizes e Bases da Educação Nacional em Pedagogia disseram seguir os programas tiver que sustentar a família, ele tem que tra- Na percepção dos entrevistados, as escolas
9394/96, que impõe a necessidade de a forma- do ensino superior, nos quais a atividade lúdica balhar da manhã à noite, dar aulas nos fins de privadas, em geral, são mais abertas à inclu-
ção docente ocorrer em cursos de Licenciatura é pouco explorada. Para eles esse conteúdo é semana. Dificilmente as escolas liberam para são do brincar, independentemente do nível
de nível superior, por questões históricas e polí- pouco relevante na universidade, pois ela tem cursos ou pagam congressos.” de ensino. Essa permissividade está associada
ticas, muitos profissionais se vêem como “cui- um caráter exclusivamente teórico, insuficiente particularmente à orientação pedagógica ado-
dadores”, o que acaba dificultando o trabalho. para instruir a prática dos profissionais que vão Segundo os entrevistados, os professores tada pela instituição, ou ao fato de trabalhar
Acresce-se ainda a ausência de formação atuar diretamente nas escolas. poderiam ser uma referência e um canal de com os alunos em regime de tempo integral,
específica em relação ao brincar. O seguinte comunicação com os pais para mostrar-lhes a disponibilizando um momento para as ativida-
depoimento ilustra bem esse problema: Sujeito PP – “As escolas não formam pro- importância da brincadeira, porém, devido aos des “extracurriculares”, que incluem o brincar.
fissionais assim. Não existe disciplina de brin- problemas já citados, acham-se desabilitados Mas, apesar das nuances existentes na forma de
Sujeito PB – “Se as babás [sic] das creches car e ludo-educação, do papel do brincar. (...) para uma conversa dessa natureza. considerar a brincadeira na escola, os proble-
soubessem como brincar, elas iriam desco- Elas ensinam as fundamentações teóricas, Consideraram que essa situação é mais mas apontados pareceram ser comuns tanto às
brir que a criança também é fonte de prazer, mas não o ferramental. (...) O profissional grave nas escolas públicas, onde, em geral, os escolas públicas quanto às privadas.
de afetividade. (...) Elas vêem a criança como sabe a importância do brincar, mas não sabe profissionais são menos qualificados e mais
um animalzinho de estimação. A creche ali- aplicar.” estressados, portanto têm menos disponibili-
menta, dá banho, não deixa que a criança se dade para alterar suas práticas pedagógicas.
machuque, mas o pensamento da criança não Se, por um lado, há falhas na formação aca-
é estimulado.”15 dêmica, por outro, às vezes, elas são parcial- Sujeito PO – “Trabalhar em três esco-
mente supridas por congressos e encontros de las num mesmo dia... Isso vai comprometer a
15 Vale a pena observar que o termo utilizado por um dos
entrevistados para designar o profissional da educação especialistas, ocasiões em que há um número capacidade dele de formação continuada, de
infantil foi babá. maior de oficinas. Mesmo nesses casos, os preparação, de paciência. (...) É muito mais
4.10
O papel do poder público
96
e da sociedade nas políticas do brincar 97

De acordo com Rousseff e Bittar (2003), a embora a garantia de um atendimento de quali-


idéia de política pública está intrinsecamente dade ainda precise ganhar corpo, pois há uma
relacionada ao bem público. Em uma sociedade grande desvinculação entre cuidar, educar e
em que há a garantia e o respeito do Estado brincar. Além disso, faz-se necessária a disse-
pelos direitos dos cidadãos, eles podem ter minação de um maior conhecimento sobre as
acesso de forma igualitária a tais bens, como, garantias legais para que medidas mais concre-
por exemplo, à educação e à saúde. Nem sem- tas que promovam a melhoria do atual cenário
pre, porém, tal política se relaciona à idéia de possam ser postas em prática. E, por fim, na
“bem comum”, de modo que todos possam usu- opinião dos entrevistados, seria desejável uma
fruir igualmente os mesmos direitos. maior integração entre os órgãos governamen-
Na sociedade brasileira, a maioria das pes- tais que tratam da questão, o que evitaria pena-
soas depende das políticas públicas para atender lizar a criança e sua família pela situação.
suas necessidades básicas. No caso da criança, Preocupados com tal realidade, os entrevis-
além das necessidades básicas para a sua sobre- tados mostraram a necessidade da implementa-
vivência, faz parte dos seus direitos o brincar. ção de ações para revitalizar espaços públicos,
Podem ser apontados alguns fatores que têm criando alternativas para ampliar os espaços de
dificultado o atendimento dessa necessidade. brincar e de convívio social.
Historicamente, a criança brasileira sempre Mereceram destaque por parte de alguns
teve um tratamento assistencial voltado para a sujeitos os programas Escola da Família, Ruas
questão do cuidado, no sentido de prevenção de de Lazer, CEUs, brinquedotecas fixas, ônibus
acidentes e de providência de uma alimentação itinerantes e revitalização das praças e das
básica, sem grande preocupação em promover áreas públicas. No entanto, mesmo em relação
o seu desenvolvimento físico e mental ou de a eles, as posições foram bastante variadas.
garantir-lhe uma cultura própria.
Com a regulamentação do ECA (Estatuto da Sujeito PP – “Esses programas – escola
Criança e do Adolescente), a criança brasileira da Família, CEUs – são muito importantes.
passou a ser considerada uma cidadã de direito, As crianças brincam em segurança. (...) Mas
é complexa a sua utilização. (...) Eles são váli- das ONGs, em menor grau – em decorrência A presença de associações sem fins lucrati-
dos, permitem brincar, mas só em determina- de terem atuação relacionada às políticas e vos e organizações não governamentais foi, em
dos horários. Precisa melhorar, criar novos, aos programas voltados para as populações de geral, bem avaliada e tendeu a ser reconhecida
ampliar.” baixa renda –, foram os que mais perceberam entre eles.
os esforços do poder público no setor.
Sujeito PO – “Eu acho que, de uns tempos A maioria dos entrevistados, no entanto, ten- Sujeito PC – “Tem muita gente trabalhando
para cá, você tem ouvido falar mais disso, pro- deu a considerar a atuação dos gestores na área com isso [o brincar/atividades lúdicas] nas
gramas em Parques da Juventude, por exem- lúdica como sendo bastante tímida devido a ONGs. Tem projetos maravilhosos.”
plo. A gente tem ouvido falar do governo (...) vários fatores. Relacionaram, entre eles, a prio-
algumas coisas estão sendo implantadas nas ridade dada por esses gestores a outras necessi- Nessa perspectiva, essas instituições pare-
periferias. A gente que trabalha na área social dades das crianças, como é o caso da habitação, cem ser elementos-chave para a montagem de
ouve, fica sabendo de tudo.” por exemplo, considerando menos relevantes as projetos consistentes e adequados à realidade
questões relativas ao brincar. social existente, objetivando desenvolver ati-
Os entrevistados sugeriram novas ações que vidades lúdicas. Mas, apesar da competência
contemplem as parcerias entre o setor público Sujeito PO – “Eu acho que esses tipos de no assunto, os entrevistados apontaram que os
e o privado, através de programas e projetos de projetos [CEUs] com espaços culturais que a profissionais das ONGs enfrentam dois tipos
98 99
responsabilidade social. Isso poderia se cons- criança possa ir na escola e ter outras ativi- de problemas significativos: em primeiro lugar,
tituir em um diferencial para as crianças da dades em tempo integral dão conta do brincar. a localização por território e o caráter pontual
cidade. A esse respeito, destacaram a revitali- Mas precisa universalizar.” das intervenções propostas ou implementa-
zação e/ou a criação de áreas de lazer e parques das não atingem um número significativo de
públicos com estrutura, equipamentos e profis- Havia outros fatores, na opinião de alguns beneficiários. Em segundo, as dificuldades de
sionais capacitados para estimular o brincar, entrevistados, que também fragilizavam as ordem financeira. Salientaram que a questão da
ou que se responsabilizem pela segurança dos ações públicas, como os programas que apre- dependência de recursos, além de se constituir
pequenos. Outro recurso que os entrevistados sentam um caráter temporário ou o próprio em uma dificuldade burocrática, tem posto em
sugeriram foi a disponibilização de brinque- despreparo dos gestores para viabilizar esse risco a continuidade do trabalho e a caracteri-
dotecas equipadas com uma variedade de brin- tipo de ação. Apesar de todas as dificuldades, zação das ações já existentes.
quedos e que apresentem áreas externas, para eles consideraram que os gestores são agentes Diante dos obstáculos e das vantagens que
favorecer um brincar de melhor qualidade. essenciais para uma atuação mais sistemática cada setor apresenta em relação às políticas do
nessa área, porque somente assim teríamos a brincar, os entrevistados foram concordes em
Sujeito PM – “A freqüência nos parques da permanência das ações. Mais ainda: elas pode- opinar que o caminho mais eficiente para reali-
cidade é muito menor do que poderia ser. A riam ser universalizadas, atingindo a maioria zar tais políticas seria a atuação em parceria, o
prefeitura podia fazer mais coisas, atividades da população, especialmente aquela em situa- que certamente aproveitaria os avanços de cada
destinadas às crianças nos parques.” ção de maior vulnerabilidade. uma das partes, unindo, portanto, a capacidade
de proposição e articulação existente no poder
Sujeito PEU – “Nos parques poderia ter Sujeito PO – “Ele [governo] poderia assu- público, o conhecimento e o envolvimento das
água, desníveis, relevo, brinquedos que podem mir o papel de elaboração, regulamentação, várias realidades sociais pelas ONGs e a estru-
ser montados e remontados, onde você possa mobilização social, seja de quem pode colocar tura, a tecnologia e o financiamento das empre-
construir jogos diferentes. (...) Areia, mistura dinheiro, seja de quem pode ajudar a executar sas privadas.
de materiais... Tudo isso é rico para as crian- parcerias.”
ças pequenas, porque são sensações diferen-
ciadas, várias possibilidades de brincar.” Dessa forma, os participantes afastaram um
pouco o temor de que o brincar permanecesse
Os representantes dos segmentos governa- sem espaço e, portanto, desconsiderado pelo
mentais urbanistas, planejadores e profissionais poder público.
4.11
Pesquisando o brincar
A última questão apresentada aos especia- Como poderia atender às necessidades da
listas buscava saber que outros conhecimentos criança naquele momento.”
gostariam de obter sobre o brincar. Embora
100 101
provenientes de diversas áreas, eles mostram Em relação aos pais, os sujeitos tinham inte-
uma perspectiva comum em relação à pesquisa. resse em saber:
Destacaram a curiosidade de desenvolver uma
investigação de longo prazo, em que fossem • Como entendiam o universo do brincar;
observadas crianças de diferentes segmentos • Como efetivamente o valorizavam;
sociais em atividades lúdicas e que o desenvol- • Como era a sua participação nas
vimento dessas crianças fosse acompanhado brincadeiras;
até a idade adulta, observando os impactos que • Até que ponto acreditavam na importân-
nele teve o brincar. Outra questão que os insti- cia do brincar para o desenvolvimento de seus
gava era saber o quanto o brincar poderia cola- filhos, bem como nas propostas de aprendiza-
borar com a formação e a educação de crianças gem, tomando por base a educação lúdica;
e em que tipo de formação auxiliaria (cognitiva, • Como era possível sensibilizá-los e quais
afetiva, social e moral). os segmentos mais suscetíveis de serem
Quando abordados sobre que informações mobilizados;
pretendiam obter das crianças e dos pais, as • Que critérios utilizavam para comprar
respostas também coincidiram. Buscariam brinquedos.
conhecimentos que pudessem fornecer-lhes
subsídios para sensibilizar e orientar os pais Já no âmbito das crianças, buscavam infor-
sobre o assunto, e propor brincadeiras de modo mações de como elas realmente brincam,
a facilitar as situações de aprendizagem das incluindo o local, os companheiros e as ativida-
crianças. des que mais gostam de realizar.
Para o grupo de trabalho, tais questões ser-
Sujeito PP – “É para poder entrar no uni- viram para embasar o início de novas buscas
verso da criança. Serviria até para que eu que acabaram enriquecendo os dados obtidos
pudesse pensar como resgatar algumas coisas nessa primeira fase da pesquisa.
[brincadeiras] e trazer para esse momento,
para a vida atual, dentro dessa condição de
vida que nós temos, do espaço que nós temos.
5
PAIS DISCUTEM
O BRINCAR

102 103
104 105

5.1
Considerações iniciais
Os especialistas demonstraram a necessi- pessoas (16 homens e 16 mulheres), divididas
dade de se conhecer a opinião dos pais a res- em quatro grupos de oito sujeitos cada um. Os
peito da brincadeira. Era importante saber o grupos tinham o mesmo número de homens
que eles conheciam sobre a atividade, quanto e de mulheres e cumpriam dois requisitos: os
efetivamente a valorizavam, se brincavam ou entrevistados de cada grupo deveriam ter entre
não com seus filhos, até que ponto acredita- 25 e 45 anos de idade e filhos entre 7 e 11 anos.
vam no valor do lúdico para o desenvolvimento Como já foi dito, eles pertenciam aos diver-
humano, que critérios utilizavam para a escolha sos segmentos sociais e, por essa razão, foram
dos brinquedos, entre outros itens. reunidos em dois subgrupos: A e B (AB), cons-
A partir do levantamento das informações tituídos por pessoas de classes favorecidas16, e
existentes e de algumas informações desejadas C e D (CD), constituídos por aquelas pessoas
pelos especialistas, foi elaborado o roteiro a de classes menos favorecidas, de acordo com o
ser discutido pelas crianças e pelos pais, inte- Quadro 1.
grando a segunda parte da pesquisa qualitativa,
prevendo-se a realização da discussão em gru-
pos de oito pessoas. 16 Para a classificação foi utilizado o Critério de Classi-
Mais uma vez procedeu-se a uma investi- ficação Econômica Brasil, adotado pela Abep – Associa-
ção Brasileira de Empresas de Pesquisa –, que estima o
gação qualitativa, pois havia maior interesse poder de compra dos indivíduos e famílias urbanas clas-
na descrição e na análise dos dados, já que os sificando-os por classes econômicas. Essa classificação
resultados obtidos no debate poderiam oferecer é apresentada em cinco categorias – do maior ao menor
poder de compra: A, B, C, D e E. Os critérios técnicos para
pistas para o estudo das hipóteses levantadas. o cálculo das classes e a fórmula com os itens considerados
Participaram dessa etapa da pesquisa 32 estão disponíveis no site da Abep: www.abep.org.
Quadro 1: Distribuição dos grupos de pais de acordo com a classe social

Pais AB CD Total

2 5 - 45 anos com filhos entre 7 - 11 anos 2 2 4

Investigar a brincadeira nas diferentes clas- tes. Por essa razão decidiu-se analisar os pontos
ses sociais poderia apresentar alterações, uma que se tornaram mais evidentes em função da
vez que as hipóteses aventadas eram as de que etapa anterior da investigação. Além disso, os
106 107
todas as crianças não brincam mais da mesma depoimentos não foram considerados indivi-
maneira e isso talvez pudesse interferir no dualmente, mas de acordo com o segmento
desempenho escolar. social no qual os sujeitos estavam inseridos.
Foi elaborado um roteiro para a discussão É importante ressaltar que muitas das infor-
a ser aplicado com cada grupo. Nas discussões mações levantadas nessa fase da pesquisa coin-
foram exploradas as rotinas infantis, o entendi- cidiram com aquelas obtidas anteriormente
mento que os pais tinham sobre o brincar, os junto aos especialistas e acabaram servindo de
espaços lúdicos, o papel da escola na ludici- base para a elaboração de instrumento quan-
dade, a influência da mídia sobre as crianças, titativo que, talvez, pudesse detectar a relação
suas expectativas em relação ao brincar de entre o brincar e o rendimento escolar. Antes,
seus filhos e a questão das políticas públicas porém, de tratar os dados obtidos na investiga-
em relação à atividade. As discussões, realiza- ção, para compreender como ocorrem as rela-
das pelos profissionais da Ipsos Public Affairs, ções entre pais e filhos, é importante dissertar
duraram em torno de duas horas em cada grupo um pouco sobre a estruturação familiar e as
e foram gravadas de modo a garantir a fidedig- mudanças mais recentes sofridas por ela. Tais
nidade dos dados. informações são essenciais para saber como as
O debate com os sujeitos previu uma deter- famílias vivem hoje, o que priorizam, que obje-
minada ordem de questões, nem sempre seguida tivos têm em relação aos filhos e, daí, qual o
na apresentação e na análise dos dados, já que papel que os pais atribuem ao brincar.
muitas respostas eram coincidentes e redundan-
108 109

5.2
Contexto: a família na sociedade moderna
Se pesquisarmos o significado de família, civilização romana, tinha, em geral, a função
podemos considerá-la como um grupo de pes- de reprodutora. Cabia a ela a obrigação de dar
soas que têm o mesmo sangue. Porém, tal qual ao homem um filho varão, garantindo a conti-
a idéia de criança, esse conceito não pode estar nuidade da estirpe. Portanto, em muitos povos,
ligado a uma idéia abstrata, indiferenciada ou elas eram consideradas apenas “máquinas de
atemporal. fazer bebês”. Como as condições de higiene
Ainda que tivesse uma imagem idealizada eram precárias, facilmente morriam durante
e, por vezes, romântica, o conceito de família o parto. Além disso, os casais procuravam
esteve associado aos costumes dos diferentes ter muitos filhos, já que poucos sobreviviam
grupos sociais, de acordo com o período his- naquelas condições.
tórico, as relações de produção e a classe social Entre os séculos XVII e XVIII, na França
aos quais pertencia. Morar na cidade ou no principalmente, as mulheres casadas perten-
campo determinava a forma de vida, do mesmo centes à burguesia tinham o costume de man-
modo que pertencer a uma classe social deter- dar seus filhos para serem amamentados por
minava o número de filhos. amas rurais. Em geral, apenas as mães campo-
No entanto, apesar das diferenças na maneira nesas amamentavam suas próprias crianças, até
de viver de cada grupo, a mulher, desde a antiga porque o trabalho não lhes permitia ganhar o
suficiente para pagar uma ama-de-leite. Depois primeira instância educativa na qual a criança
de passarem a viver com a ama, dificilmente os se insere. É o ambiente onde ela “(...) desperta
bebês eram visitados pelos pais, o que demons- para a vida como pessoa, interioriza valores,
tra o pouco interesse que se tinha em relação à atitudes e papéis, onde se desenvolve de forma
criança. espontânea o processo fundamental da trans-
Somente por volta de 1760 é que as mulhe- missão de conhecimentos, de costumes e de
res dos segmentos mais privilegiados da popu- tradições” (HOMEM, 2002, p. 36).
lação começaram a ficar abaladas com a morte Assim é que a maioria das pessoas da
de seus bebês e passaram a amamentá-los elas moderna classe média não aprendeu muito em
mesmas. Porém, foi apenas no princípio do sua própria infância como cuidar de crianças.
110 111
século XX, quando houve uma melhora dos As coisas eram diferentes quando as famílias
cuidados maternos e a amamentação dos filhos eram mais numerosas e nossos parentes viviam
pelas próprias mães, que diminuíram as taxas perto de nós...
de mortalidade infantil. Com o crescimento Hoje, contudo, os pais sentem que se exige
da burguesia (fins do século XVI), a industria- muito mais deles, esperam criar seus filhos com
lização (séculos XVIII e XIX) e o advento do êxito num mundo complicado; além disso, são
capitalismo (século XX), houve uma melhora obrigados a arcar com essa responsabilidade
na situação econômica de muitas famílias, e as sem maior experiência prévia. Infelizmente,
mulheres passaram a adotar novos procedimen- a distância física e emocional que agora, com
tos em relação às crianças. Foi quando o recém- tanta freqüência, separa as gerações pode levar
nascido começou a ser o centro das atenções. jovens pais a temer – muitas vezes com alguma
Além dessas mudanças, segundo Shorter razão – que ao pedirem a seus pais conselhos
(1975), a vida familiar evoluiu principalmente sobre criação de filhos possam, em vez disso,
em três aspectos nos últimos 300 anos. O pri- ser submetidos à crítica e a conselhos que,
meiro deles é uma certa indiferença dos adoles- muito provavelmente, já não parecem apropria-
centes em relação à identidade da família, aos dos (BETTELHEIM, 1988, p. 7).
seus valores, enfim, àquilo que ela representa. Esse contexto tem tido um impacto signi-
“Os filhos adolescentes começaram a manifes- ficativo no brincar, que em geral era apren-
tar um desinteresse maciço pelos valores dos dido nas interações com os avós, os irmãos e
pais e pela sua própria identidade como guar- os familiares. Uma vez que essas interações
diões presuntivos da vida familiar” (SHOR- estão desaparecendo e faltam referências para
TER, 1975, p. 288-289). O segundo aspecto é a os pais ensinarem o brincar para os filhos, a
instabilidade da vida do casal, que tem se evi- atividade lúdica no contexto familiar vem se
denciado pelo crescente número de separações transformando. Logo, para resgatar o brincar,
e divórcios. E, em terceiro lugar, a queda siste- é de suma importância entender as percepções
mática da vida nuclear, o que significou para a atuais dos pais a respeito.
mulher uma liberação de alguns papéis.
No entanto, a família ainda se constitui na
5.3
O conceito do brincar e o seu papel na vida das crianças
Uma das intenções da pesquisa era investi- o conceito de brincar, pois, em sua maioria,
112 113
gar se há relação entre o brincar e o desempe- confundiram o brincar com entretenimento,
nho escolar. Para isso, buscou-se levantar qual portanto encaravam a atividade simplesmente
o entendimento que os pais da amostra selecio- como sinônimo de divertimento. Na primeira
nada tinham a respeito da atividade e até que etapa deste trabalho, foram apresentados diver-
ponto ela fazia parte da rotina dos filhos, de sos estudiosos que trataram dessa questão do
modo que se pudesse perceber a maneira como brincar. Dentre eles, Huizinga (1968), para
ela ocorria e quanto tempo dedicavam a ela. quem a atividade lúdica foi conceituada como
A mesma dificuldade de definir o brincar sinônimo de divertimento, referindo-se à possi-
apresentada pelos especialistas foi sentida no bilidade que o ser humano tem de livre escolha
depoimento dos pais que participaram da dis- e ao prazer que essa escolha lhe proporciona.
cussão. Houve muita polêmica em torno da Tal característica não existe em nenhuma outra
questão, que se mostrou desde o princípio com espécie animal. Assim, a criança tem que jogar
alto grau de complexidade. Eles afirmaram que para se desenvolver, e é a escolha livre que
o entendimento da atividade lúdica podia variar provoca o prazer na realização da ação. Pelas
de acordo com o referencial de cada um. discussões dos pais, é possível concluir que era
Alguns pais referiram-se às brincadeiras dentro dessa perspectiva que eles entendiam o
como sinônimos de brinquedos. Tais objetos, brincar, ou seja, viam-no como uma atividade
porém, como já foi tratado anteriormente, aju- que deveria ser escolhida pela criança, porém
dam a organizar as ações lúdicas, não tendo tinham dificuldade não só em defini-la, mas
nenhum valor em si mesmos. Quem lhes atribui também em apontar suas características.
significado é a criança, durante o brincar. Logo, Os pais também relacionaram o brincar à
não basta apenas os pais oferecerem brinquedos representação da sua infância, buscando nela
aos filhos: é importante que interajam com eles, o que consideravam ideal para seus filhos. No
ensinando-os a brincar. Os sujeitos da pesquisa entanto, ficou claro que, na concepção deles,
não tinham clareza sobre esse aspecto e acredi- o brincar hoje envolve tanto as ações do pas-
tavam que o fato de oferecer brinquedos pode- sado (bola, boneca, bicicleta, queimada e
ria substituir o brincar e a sua presença nele. tantas outras) quanto atividades mais atuais
Não houve consenso entre os sujeitos sobre (videogame).
Apesar dos entraves para definir o brincar, a criança conhecer o mundo, e isso permite o correndo. A criança extravasa, volta para casa
os pais se referiram a ele ressaltando alguns estabelecimento das representações mostrando realizada. Isso é que é o verdadeiro brincar.”
aspectos marcantes, especialmente ação e o seu desenvolvimento. Segundo o autor, o
interação. movimento é o fundamento de todo o amadure- Sujeito CD – “Brincar é bagunça, brincar é
Enquanto ação, os sujeitos acabaram con- cimento físico e psíquico do homem. Ele, “pela ter amigos, é ficar corado de tanto correr. Eu
fundindo a brincadeira com a atividade física, sua natureza, contém em potência as diferentes falo isso pelo meu filho. É gritante a diferença:
cujo principal destaque é o movimento. O jogo, direcções que poderá tomar a actividade psí- quando ele está com videogame, ele fica tenso,
então, se associava à idéia de atividade corpo- quica” (1975, p. 75). amuado. Quando ele desce para brincar com
ral, com o deslocamento do corpo no espaço, Também nos estudos de Piaget (1978) a ativi- os amigos, ele volta com as bochechas verme-
necessitando-se, para isso, de espaços mais dade psíquica e a motricidade formam um todo lhas. é aquela expressão viva.”
amplos. Os pais referiram-se, freqüentemente, funcional sobre o qual se estrutura o conheci-
às brincadeiras tradicionais, como as realiza- mento. Por essa razão, o jogo de exercício se Nos depoimentos apresentados, os sujeitos
das em espaços maiores, onde se reuniam gru- realiza pelo simples prazer que a atividade pro- demonstraram que tanto o movimento quanto
pos de crianças. Isso pode ser observado nos voca na criança. É, portanto, movimentando-se a presença de parceiros são fundamentais no
depoimentos que seguem: que ela conhece os limites de seu corpo, define brincar. Indagados sobre o tempo que as crian-
seu esquema corporal e interage com os objetos ças passavam brincando, deram respostas que
Sujeito AB – “Brincar inclui jogar bola, que a rodeiam a partir das sensações. Logo, o variavam de acordo com a classe social. Entre
bicicleta. Já computador não sei se é brincar. desenvolvimento da personalidade, da inteli- os sujeitos pertencentes aos segmentos A e B
Tem os jogos que eles gostam, mas brincar gência e do conhecimento das pessoas que nos havia muitas preocupações e insatisfações em
para mim é mexer, pular, suar, interagir. E o cercam tem seu ponto de partida na estrutura- relação à brincadeira de seus filhos. Segundo
computador para mim é o avesso disso!” ção do esquema corporal, que se desenvolve eles, as crianças ficam muito presas e têm pouca
pelo movimento. liberdade.
114 115
Sujeito AB – “Pular corda, pintar, jogar A ação, como característica da brincadeira, Esse desconforto tornou-se ainda maior
bola, jogar videogame. Até ver TV pode ser já havia sido apontada pelos especialistas. Na quando foram estimulados a refletir se seus
considerado brincar, porque é uma diversão.” primeira etapa desta pesquisa eles já alerta- filhos brincavam o suficiente no cotidiano. Sob
vam para algumas conseqüências em relação essa ótica, comparando o tempo de brincar de
Embora os pais tivessem associado ao brin- à saúde, especialmente a obesidade infantil, seus filhos com aquele que eles (pais) haviam
car atividades que envolviam movimento, não acarretada pela falta de movimentação. Os pais gasto quando crianças, ficou demonstrado que
tinham conhecimento de suas implicações com não mencionaram esse problema, talvez porque os primeiros brincam pouco, o que lhes traz
o desenvolvimento do ser humano. Sabe-se que, a discussão houvesse se voltado mais para os certa preocupação.
embora o movimento seja uma forma de gastar aspectos relacionados ao espaço físico.
a energia infantil – daí uma das razões de sua Conforme apontado anteriormente, outro Sujeito CD – “Numa cidade como a nossa
importância –, ele também é capaz de estimular aspecto do brincar analisado pelos pais foi a eu acho até que o meu brinca legal, mas é
tanto as ações mentais quanto a interação com relação entre ele e o processo de socialização, bem menos do que eu brincava quando era
o meio e com as outras pessoas. aspecto que verbalizaram como “interação”. criança.”
A capacidade de mover-se e de atuar é Segundo eles, os espaços maiores permitiam
muito importante para a criança porque não só que a brincadeira se realizasse com um grupo Ao falar sobre a memória das brincadeiras,
permite transladar-se como expressar-se, explo- de crianças e, nesse convívio, umas aprendiam Silva, Garcia e Ferrari (1989) mostraram que a
rar, manipular, etc. Assim consegue apropriar- as atividades com as outras. Tais brincadeiras maioria delas, principalmente as tradicionais, é
se do mundo e representá-lo através de varia- coletivas favoreceram, entre os pais, a lem- aprendida na interação com os grupos ou com
das linguagens e representações mentais. Por brança dos tempos alegres de suas infâncias. os pais. É assim que os pequenos têm a oportu-
isso consideramos a criança como um agente E, nesse sentido, eles apresentavam grande nidade de participar, de trocar e de criar.
ativo, um protagonista que processa e cate- preocupação com os filhos, porque, quase sem-
goriza a informação que obtém do ambiente pre, estes brincam sozinhos. Embora o brincar A brincadeira é, sem dúvida, um símbolo
mediante sua exploração perceptiva (PABLO e fizesse parte da rotina de suas crianças, nem diretamente relacionado à criança e isso não
TRUEBA, 1994, p. 25).17 sempre os sujeitos apreciavam a maneira como representa uma novidade. Mas, ao fazermos
Para inúmeros estudiosos, entre eles Wallon era realizado. uma viagem no tempo, descobrindo como era a
(1975), movimentar-se é condição vital para São Paulo de 1900 até por volta de 1940, retra-
Sujeito AB – “Minha maior satisfação é ver tamos uma cidade que estava em transforma-
17 Tradução nossa. minha filha com as amigas brincando no sol, ção, sim, mas uma cidade tranqüila, cheia de
árvores, com pouco trânsito, muitas ruas sem Sujeito CD – “Pra mim brincar é bicicleta, coberta e de observação de regras, portanto ração do brincar, pode-se concluir que houve
calçamento e vários terrenos baldios. (...) bola, boneca, queimada. Videogame é um brin- permitia que elas se desenvolvessem mais. consenso entre os sujeitos sobre uma caracte-
A criança brincava ontem, brinca hoje e brin- car mais modernizado, que particularmente eu rística fundamental: a atividade lúdica não é
116 117
cará amanhã. Mas em cada tempo esse brincar não considero um brincar autêntico... mas no Sujeito AB – “Nós não vemos nossos filhos algo evocado, resulta de um processo de apren-
tem uma característica e um significado espe- fundo é um brincar. Se eu for perguntar para o brincando de forma livre e solta. Não estou dizagem e, para isso, é preciso haver interação,
cífico. O brincar de “ontem” era o brincar cole- meu filho, o videogame vai ser a primeira coisa falando que eles têm que brincar como nós, pois é assim que a criança aprende.
tivo, o grupo de brincadeiras constituído pelas que ele vai identificar com o brincar.” correndo na rua, subindo em árvores, mas eles Apesar da dificuldade em conceituar o brin-
crianças da vizinhança ou pelos primos. (...) têm que ter pelo menos brincadeiras em que car e relacioná-lo ao desenvolvimento infantil,
As crianças se encontravam todos os dias, Perceberam que, por meio do lúdico, as eles possam interagir com pessoas.” os pais enxergaram benefícios decorrentes dele
e esse vínculo, sem dúvida, permitia que o crianças se apropriam das práticas sociais dos e, embora os depoimentos girassem em torno
grupo tivesse um repertório grande de brin- grupos em que vivem. Além das características anteriormente de dados empíricos e, por vezes, intuitivos, nem
cadeiras que aumentava com as contribuições apontadas, os pais participantes da pesquisa sempre por isso deixaram de ter legitimidade.
individuais (SILVA, GARCIA e FERRARI, Sujeito CD – “Desenvolve para o coletivo, explicitaram que o brincar contribui para o Dada a mudança de valores e a ausência de
1989, p. 95-96). eles aprendem a se relacionar, se entrosar com desenvolvimento da capacidade criativa. novos modelos, evidenciou-se, também, entre
os outros. Aprendem a perder, a ganhar de os pais, a insegurança sobre como se com-
No entanto, os entrevistados alegaram que uma forma natural: brincando!” Sujeito CD – “Ah! Brincar é bom para portar em relação a seus filhos. Nesse sentido,
as alterações na atividade se devem, sobretudo, tanta coisa! Ajuda a sonhar, a ter fantasias. As viu-se que, para eles (pais), a discussão sobre
à diminuição dos espaços, que impede uma Segundo Smolka e Laplane (2005), quando crianças ficam com mais criatividade.” o conceito foi muito oportuna, porque puderam
ação mais livre e coletiva. se trata de seres humanos, é impossível esca- expor e trocar idéias a respeito de seus papéis
Sentir o vento batendo no rosto ao andar par à dependência e vinculação em relação ao De fato, do processo criativo fazem parte e de suas angústias. Isso confirma a sugestão
de bicicleta ou correr, arrepiar-se ao tocar nos outro. Apesar dessas características, eles pos- nossas experiências, nossos sentimentos e nos- feita pelos especialistas sobre a necessidade
grãos de areia, sujar-se com a terra ou com a suem um tempo maior de aprendizagem do que sas vivências. Assim, o ser humano só pode de serem veiculadas informações a respeito do
lama, descobrir as cores e os perfumes das flo- outras espécies e são suas capacidades men- criar a partir daquilo que conhece e é capaz assunto, de modo a orientá-los sobre as relações
res eram situações agradáveis que lembravam tais que lhes permitem inserir-se na cultura. de representar através de inúmeras formas de que se podem estabelecer entre o brincar e as
um pouco da infância de cada um. Os trabalhos de Piaget (1978) mostram que o linguagem. Isso ocorre durante toda a vida. etapas de desenvolvimento das crianças.
Entre os sujeitos da amostra, o brincar ia desenvolvimento cognitivo da criança varia de A brincadeira, segundo Piaget (1978), é uma
além das ações realizadas por eles no passado, acordo com as relações que ela estabelece com linguagem da criança e, como tal, deve ser
como as que envolviam bola, boneca, bicicleta e seus pares. Nessa perspectiva foram interessan- respeitada. É nesse sentido que ela pode con-
tantas outras. Incluía, também, atividades mais tes as observações feitas pelos sujeitos, pois a tribuir para um maior desenvolvimento da
atuais, como o videogame e os computadores, brincadeira coletiva oferecia às crianças maior criatividade.
por exemplo. possibilidade de reflexão, de discussão, de des- Das discussões em torno do aspecto da inte-
118 119
5.4
As transformações no brincar
Foi possível observar nos depoimentos dos trassem os membros da sociedade (FERNAN-
sujeitos que eles haviam notado transformações DES, 1979, p. 349).
no brincar, pois as brincadeiras que haviam
praticado durante a infância diferiam das de Este estudo mostrou que as alterações pro-
seus filhos. vocadas na cultura acabaram se verificando no
No princípio deste trabalho foi possível brincar, pois ele é uma das formas como a cul-
perceber como a sociedade se transformou tura se manifesta. Nesse sentido mostrou que as
no último século, alterando a relação entre os atividades lúdicas haviam se alterado da mesma
povos. Ao falar sobre as transformações ocor- maneira como ocorrera com a cultura, tanto na
ridas na cidade de São Paulo no princípio do forma quanto no local de realização. Portanto,
século passado, Florestan Fernandes (1979) embora as mudanças no brincar tenham seus
mostrou como a cultura foi se modificando. reflexos no número de companheiros com os
quais a criança atua, a atividade lúdica reali-
De qualquer forma, aqueles traços que zada isoladamente aparece mais entre as crian-
caracterizam as práticas mágicas diante dos ças das classes A e B, embora tal fato também
indivíduos e as furtavam à crítica ou à análise se apresente entre as classes C e D, com a perda
dos membros do grupo, como verdadeiros arti- dos espaços públicos para o brincar mais cole-
gos de fé, intangíveis, de eficácia comprovada tivo. As crianças hoje brincam muito sozinhas,
e indiscutível, são muito mais tênues e não em espaços menores, e muitas ações comuns na
podem impedir que os valores novos, resul- infância dos pais foram substituídas por outras,
tantes da secularização da cultura, substituam como, por exemplo, os jogos eletrônicos, que
grande parte daqueles valores mágicos tradi- refletem o mundo atual, no qual os filhos estão
cionais, que constituíam tipos de solução para a inseridos.
quase totalidade de situações em que se encon- Para a maioria dos pais, talvez a maior trans-
formação no brincar tenha sido a redução do De acordo com os trabalhos do autor, há venham se modificando, no brincar tais carac-
brincar na rua e nos espaços públicos devido inúmeras variáveis que interferem na atividade terísticas ainda estão presentes.
principalmente à questão da segurança. de brincar, e isso ficou explicitado nos depoi- Embora o brincar na rua seja mais freqüente
Os sujeitos dos segmentos A e B disseram mentos dos pais. Por exemplo, em relação aos entre as crianças das populações de baixa
que as brincadeiras tendem, hoje, a ocorrer em sujeitos dos segmentos A e B, que disseram renda, tal prática não é generalizada, como se
casa e de forma individualizada, mas, apesar da residir em locais onde havia possibilidade de pode observar neste depoimento:
sua preocupação com a maneira solitária como expandir o espaço de brincar, foi possível per-
seus filhos brincam, afirmaram que, diante dos ceber que havia mais interação entre as crian- Sujeito CD – “As minhas brincam mais
problemas existentes, essa é a melhor forma de ças. Os pais haviam percebido quanto o brincar em casa, na sala, no quintal. Elas brincam
realizar a atividade. era, para a criança, um espaço de possibilida- entre elas. Não deixo irem para a rua porque
120 121
Tais alterações, segundo eles, foram fruto des que podem ser enriquecidas de acordo com é perigoso.”
não só da perda dos espaços públicos e da o ambiente. Portanto, segundo eles, os locais
diminuição das moradias, mas também da mais amplos e protegidos permitem mais movi- Também nesse segmento observou-se que os
queda das taxas de natalidade: atualmente as mento e exploração, enquanto nos menores as pais contam com seus filhos de forma sistemá-
famílias têm menos filhos, e as crianças aca- crianças têm possibilidades mais limitadas. tica nas tarefas domésticas e no cuidado com os
bam brincando isoladamente ou com animais irmãos, principalmente as meninas.
domésticos, de modo especial os cães, que são Sujeito AB – “Eu moro numa rua sem saída Finalmente, para os pais, independente-
parceiros importantes nesse tipo de ação. com bastante criança. Eles jogam bola, soltam mente da classe social, as brincadeiras, hoje,
pipa. É abençoada a minha rua.” utilizam as modernas tecnologias que fazem
Sujeito AB – “Ele brinca no quintal de parte da realidade vivida. A TV, os vídeos e o
casa, geralmente sozinho. Ele gosta de jogar Os depoimentos demonstraram que as brin- computador, segundo eles, vêm ganhando cada
bola com o cachorro.” cadeiras variavam não apenas em função dos vez mais espaço entre os pequenos, embora
contextos, mas também em relação ao sexo e à nem sempre tenham sido encarados por eles
Sujeito AB – “Minha filha brinca mais quie- classe social. positivamente.
tinha. Ela gosta de ficar desenhando, pintando No primeiro caso, os pais afirmaram que Ao tratar da rotina de seus filhos, os sujei-
enquanto vê TV. Já o meu filho joga bola sozi- as meninas realizavam brincadeiras com pou- tos apresentaram alguns fatores que compro-
nho no corredor que vai até os quartos.” cos movimentos, diferentemente dos meni- metem o brincar atual e deixaram claro que,
nos, que precisam de mais espaço. Embora os apesar das transformações e das caracterís-
A variedade das experiências lúdicas não sujeitos não a conhecessem, essa característica ticas importantes do brincar, as crianças de
remete unicamente ao gênero, masculino ou está relacionada culturalmente com o papel hoje estão, aparentemente, brincando cada vez
feminino. Idade, classe social, meio cultural que cada um desempenha na sociedade, pois, menos. Dentre as razões causadoras da redu-
e recursos econômicos intervêm nas possibi- ao longo da história, os homens sempre saíram ção do brincar entre as crianças estão a falta de
lidades e formas de brincadeira. Também não em grupos em busca de alimentos e de trabalho tempo que os pais dedicam aos filhos, a perda
devemos ignorar o que pode haver de singular para garantir o sustento da família, enquanto as dos espaços de brincar, a ausência de tempo por
na história e no modo de ser de cada criança, mulheres tiveram uma tendência a ficar em casa parte das crianças e as novas tecnologias. Esses
dirigindo-a para interesses pessoais (BROU- realizando os afazeres domésticos. Embora nos dados serão analisados mais detalhadamente a
GÈRE, 2004, p. 302). centros urbanos as funções de ambos os sexos seguir.
5.5
O brincar com os filhos
Quando indagados sobre o tempo que pas- mais vendo. Acaba não sobrando tempo para
sam com os filhos, os pais relataram que ele é curtir a família.”
muito escasso. Cada vez eles têm menos tempo
122 123
para brincar com as crianças. As respostas obti- Os depoimentos demonstram que, em uma
das, mais uma vez, coincidiram com os dados época de competição feroz, os pais vivem uma
apontados pelos especialistas, que alertaram grande contradição entre o trabalho e a con-
para a relação frágil entre pais e filhos. vivência familiar, deixando de lado muitos
Apesar de ressaltarem a função socializa- valores que consideram fundamentais para
dora da brincadeira e se mostrarem preocupa- o convívio social e o exercício da cidadania.
dos com o isolamento de seus filhos, os pais Eles mostraram, também, que levar uma vida
foram unânimes em apontar um sério problema: corrida em função do trabalho tem impacto
eles não dispõem de tempo para assumir a par- negativo na disposição deles para brincar com
ceria na brincadeira infantil. os filhos.
Segundo os pais, seu maior temor é o desem-
prego. Por isso, se submetem a jornadas mais Sujeito AB – “Eu sempre me programo
longas e cansativas, o que os impede de ter um para fazer alguma coisa, mas no fundo a gente
tempo de lazer para estar com os filhos. Todos é egoísta! A gente leva tão no automático que
os sujeitos declararam estar preocupados com acaba não propondo [nenhum passeio] para os
a manutenção do papel fundamental da família filhos. É que também a gente passa a semana
nas suas vidas. inteira fora e no fim de semana gosta de ficar
em casa, descansando, assistindo à novelinha
Sujeito AB – “Tenho uma vida corrida. das 6...”
Sou viúva, tenho dois filhos. Trabalho o dia
inteiro, à noite faço faculdade e, no fim de Sujeito AB – “De vez em quando eu vou no
semana – sábado e domingo, das 9 às 17h –, parque com os dois, mas confesso: cansa! Você
trabalho para o governo no Programa Escola tem que estar no pique, minha filha me solicita
da Família. Em troca tenho 100% de bolsa na muito: pede ajuda no escorregador, no trepa-
faculdade.” trepa. Então desanima um pouco.”

Sujeito CD – “Vendedor, se pára, não Sabe-se o quanto o lazer é fundamental para


ganha. Sábado e domingo são os dias em que o ser humano, especialmente para que ele possa
conviver com a família. Ao tratar do assunto, que o homem tem longe do trabalho para se Mundo para ir numa praça que tem escorre- esforço que as famílias fazem para garantir o
Dumazedier (1975) mostrou que o lazer é visto expressar e se divertir, por outro, para Mar- gador, quadra. É a mais perto que tem lá de mínimo de convivência, apesar dos obstáculos
como um tempo em que o indivíduo tem o cellino (1987), há duas perspectivas para o casa.” que enfrentam. Tal empenho, porém, parece ser
direito social de se expressar longe das obriga- entendimento de tal conceito. Uma enfatiza determinado mais pelas necessidades e pelas
ções cotidianas que envolvem o trabalho. Ele o aspecto da atitude, ou seja, o lazer enca- Sujeito CD – “Tem uma escola lá perto de exigências das crianças do que pela importân-
supõe atividades mais pessoais, com a maior rado como estilo de vida. A outra privilegia o casa. Minha filha vai usar a sala de informá- cia sentida pelos adultos.
possibilidade que cada um tem de autogerir aspecto do tempo livre não só do trabalho, mas tica, mas para lazer assim eles não fazem mais
124 125
seu tempo, de ter relações mais afetivas com os de outras obrigações. nada! Teve um teatro que não tinha condi- Sujeito CD – “Sou garçom durante a
outros, e isso inclui a família. O prestígio do tema lazer, segundo Camargo ções de ir. Tinha tanta gente! Não cabia todo semana, faço bico no fim de semana. Trabalho
Se for tomada como base a perspectiva do (2006), vem crescendo devido a dois fatores. mundo!” sábado a noite toda e chego domingo de manhã
autor, os depoimentos dos pais mostram que Em primeiro lugar, pela sua relevância em rela- em casa. Durmo um pouco e acordo para pas-
eles têm poucos momentos para o lazer, dimi- ção à qualidade de vida. Em segundo, porque Dispor de um “tempo livre” está muito longe sear e ficar com o meu filho e a esposa. Se não
nuindo, entre outras coisas, o tempo que pas- a cidadania não consiste apenas em residir em de ser uma realidade para os pais entrevistados, faço isso, a gente acaba vivendo uma vida
sam com seus filhos. A mudança dessa situa- uma cidade, mas supõe um espaço de relações pois os valores da sociedade atual colocam o besta.”
ção, segundo os sujeitos, só seria possível com sociais que ocorrem dentro do lazer. consumo no topo das prioridades. Os depoi-
a redução da jornada de trabalho. Apesar da polêmica, o termo pode ser com- mentos mostraram que tal forma de pensar tem, Sujeito AB – “Meu filho vai dormir lá pelas
Os pais ressaltaram a necessidade de terem preendido como um tempo disponível que por vezes, confundido a necessidade de brincar duas horas da manhã. É que eu chego tarde
um “tempo livre”, isto é, um tempo longe das implica a possibilidade de opção da atividade com a de consumir, fazendo com que eles tra- em casa, quase meia-noite, e ele me espera
necessidades e das obrigações relacionadas a ser praticada. Portanto, o lazer é o tempo e o balhem cada vez mais para atender os desejos para conversar, me acompanha no jantar e
aos afazeres profissionais. Assim, a idéia que espaço que sobram livres do trabalho e da vida materiais dos filhos, deixando de lado as neces- pede para eu pôr ele na cama.”
tinham de tempo livre estava associada ao econômica. sidades afetivas, emocionais e psicológicas.
tempo de lazer18. A mesma dificuldade que No entanto, a idéia de lazer foi encarada dife- Sujeito CD – “Minhas meninas podem
ocorrera entre os pais ao discutirem sobre o rentemente de acordo com o segmento social Sujeito CD – “Minha filha é a razão de estar caindo de sono, mas, quando eu chego, e
conceito de brincar foi verificada em relação à de que faziam parte os sujeitos da pesquisa. Ela tudo para mim! Ela me dá força para tudo e, eu chego tarde, elas levantam e ficam comigo,
idéia de lazer. incluía tanto a utilização prazerosa do tempo também, para conseguir o tão difícil dinheiro. deitadas em cima de mim, enquanto vejo TV.
Sobre esse aspecto é importante conside- livre quanto o consumo de bens. A pesquisa Praticamente quem cria ela é minha cunhada, Minha esposa fica brava, mas se não é assim,
rar que não há, entre os diversos autores, um mostrou que a classe social tem uma influência mas vai fazer o quê? Sem ele [o dinheiro] não a gente não fica junto.”
consenso sobre o conceito de lazer, o que difi- significativa em relação às atividades de lazer tenho como garantir o futuro dela!”
cultou um aprofundamento por parte dos pais praticadas pelas famílias, sobretudo no que se Os pais entrevistados não tinham clareza de
e, previamente, dos especialistas em relação à refere ao divertimento das crianças. Quanto Sujeito AB – “Trabalho de dia, faço matemá- que, no ser humano, o nascimento já significa
questão. menos favorecida a condição financeira da famí- tica à noite. No decorrer da semana, mal vejo um laço de dependência com o outro e que tal
Se por um lado, para Dumazedier – como lia, menos oportunidades de lazer ela tem. as crianças. Minha prioridade é o bem-estar relação vai se estreitando à medida que pais e
apontado há pouco –, o lazer é o tempo livre deles, para poder dar o melhor para eles.” filhos interagem mais. Nesse sentido, o brincar
Sujeito CD – “Eu moro no Jardim Brasil e é uma oportunidade para aumentar e fortalecer
18 Grifos nossos. tenho que pegar um ônibus até o Parque Novo Os depoimentos mostram que é grande o tal relação. É um momento em que a comuni-
cação entre ambos extrapola os limites físicos, ções que têm com suas mães, principalmente ajuda eles virarem adolescentes sem ter idade adaptação dos pais às necessidades dos filhos
oferecendo uma maior abertura para o desen- durante a amamentação. É junto dos pais que para isto (...).” supõe, muitas vezes, que eles percam o sono
volvimento da afetividade e das atividades as crianças aprendem as primeiras brincadeiras ou se privem do seu lazer. No entanto, a vida
mentais, permitindo a aprendizagem da expe- e vão formando sua identidade. Alguns pais se orgulham de ver os filhos, de moderna nem sempre favorece o atendimento,
riência cultural e da história de cada grupo. modo especial as meninas, com atitudes e hábi- por parte dos pais, de todas as demandas fami-
O ser humano é um ser social – por isso tam- tos próprios dos adultos. Porém, muitos deles liares, o que se explicita nas angústias presentes
A aprendizagem, nesse sentido, encontra-se bém é um ser cultural – e, através do exercício relataram que se sentem inseguros em relação nos depoimentos.
relacionada às formas de participação e apro- dessa condição, aproveita a cultura comunicada aos valores que estão transmitindo e reconhe-
priação das práticas sociais. Essas práticas con- entre os indivíduos. A experiência individual ceram o excessivo apelo ao consumo de deter- Sujeito AB – “O que eu mais sinto é não
densam a experiência social, historicamente é, essencialmente, mediada e nutrida pela dos minados produtos e da pressão dos amigos. estar presente no dia-a-dia. Queria dar mais
126 127
construída e compartilhada, de maneira que os semelhantes com os quais estabelecemos comu- atenção a ele. Ele já está com 10 anos e boa
bebês que nascem vão se apropriando do que nicação no âmbito das redes sociais das quais Sujeito CD – “Quando vai sair, ela se parte da vida dele eu estive longe.”
se apresenta disponível na cultura. Assim os participamos. Entramos no mundo fazendo-o arruma que nem uma mocinha. Passa batom,
costumes, as formas de participação na família em sociedade; aprendemos o que significa esse perfume. É uma peruinha!” Sujeito AB – “A semana inteira a casa fica
e na comunidade, as instituições educativas, o mundo no seio dessas redes. A necessidade de desarrumada. Chega fim de semana, a gente
trabalho e as diversas formas de organização manter comunicação com os outros é uma força Sujeito CD – “Me incomoda profunda- quer dar um jeito na casa. Faz comida para
social conformam essas práticas (SMOLKA e essencial que impulsiona os intercâmbios cul- mente ver minha filha de unhas pintadas, com deixar no freezer. Passa o domingo e você
LAPLANE, 2005, p. 80). turais face a face (SACRISTÁN, 2002, p. 41). batom. (...) Sei lá, acho uma coisa forçada, é percebe que mal ficou com os filhos no fim de
uma criança querendo ser mocinha.” semana. Nem um passeio na esquina você fez
A interação estabelecida entre pais e filhos Segundo Fernandes (1979), as brincadeiras com eles!”
inclui a existência de sentimentos, emoções e não são meras fontes de recreação, mas trazem Sujeito AB – “Meu filho de 9 anos me pediu
aprendizagens. A riqueza e a complexidade das consigo “a medida do homem”20, ou seja, ser- um celular. É um absurdo, mas todos na escola Em geral, os pais da amostra demonstraram
relações e das aprendizagens também ocorrem vem como fonte de atualização, perpetuação de já têm. Então eu nem sei o que é pior: dar um pouco comprometimento com a brincadeira,
durante o brincar. estados de espírito, explicitam características ou ele ser o único da sala que não tem.” pois havia, para eles, coisas mais importantes
Considerando-se que a tendência ao brincar do comportamento humano, além de atitudes do que essa atividade que entendem ser pri-
é própria19 da criança e que a interação lhe dá que podem favorecer o controle social. No geral, os depoimentos dos pais demons- mordialmente só divertimento infantil. E, uma
possibilidade de se desenvolver, para ela dar o Por exemplo, do mesmo modo que os especia- tram que, diante da pressão que eles sentem para vez que sobra pouco tempo para estar junto das
primeiro passo em direção ao seu desenvolvi- listas que participaram da fase anterior da pes- trabalhar e para conseguir mais bens materiais crianças e brincar, os pais mostraram que, em
mento é preciso que alguém a auxilie, ou seja, quisa, os pais mostraram que as crianças ficam para seus filhos, perdem de vista a percepção muitos casos, tentam compensar essa situação
interaja com ela, ensinando-a a brincar, inter- adultas mais cedo, o que nem sempre é bom para de que a infância é uma etapa curta da vida dos comprando brinquedos. Ficou evidente que
pretando seus atos e falando com ela. Nesse elas. Reconheceram que estimulam a adultiza- seus filhos e que não pode ser vivida outra vez. faltam informações para os pais sobre a impor-
sentido, a interação com os pais é fundamental, ção acelerada de seus filhos, culpando suas pró- Além das mudanças no comportamento tância do brincar no desenvolvimento de seus
e é por isso que as primeiras aprendizagens dos prias omissões e seu excesso de permissividade. das crianças, a pesquisa mostrou que a nova filhos e que eles precisam de auxílio para enten-
bebês podem ser observadas durante as intera- forma de vida gerou a necessidade de uma der como agregar positivamente sua participa-
Sujeito AB – “A gente reclama que eles adaptação mútua entre pais e filhos. Enquanto ção a essa atividade.
19 O fato de se considerar o brincar como atividade pró- estão pulando etapas, mas no fundo a gente os pais tendem a se organizar de acordo com
pria da infância não significa que ele é inato ou hereditá-
rio: a criança aprende a brincar nas relações que estabe- as necessidades das crianças, os filhos adap-
lece com os outros. 20 Expressão usada pelo autor. tam-se à maneira de viver dos mais velhos. A
5.6
128
A perda dos espaços para brincar 129

A urbanização, fenômeno comum desde etapa inicial do seu desenvolvimento. Segundo


o princípio do século passado, afetou vários a amostra de pais, esse foi um dos mais impor-
países, inclusive, de maneira muito marcante, tantes fatores responsáveis pelo comprometi-
o Brasil. Houve uma concentração populacio- mento do brincar atual.
nal em muitas cidades, determinando novas
funções dos governos, novas demandas e uma Sujeito AB – “Eu moro numa avenida.
outra forma de utilização dos espaços. Casas Todas as ruas em volta têm um alto tráfego de
foram sendo substituídas por condomínios carros. Não tem praça... um parque. Não dá
verticais, geralmente com menos espaços físi- nem para sonhar em querer brincar.”
cos externos. As áreas privadas, e mesmo as
públicas, destinadas ao lazer – considerado Sujeito CD – “Sou de uma geração que
como atividade improdutiva –, têm sido subs- podia brincar na rua, empinando pipa,
tituídas por espaços produtivos mais lucrativos. andando de carrinho de rolimã. Infelizmente,
Esse embate vem sendo estimulado ainda mais hoje a rua é impossível. Por mais que eu valo-
pela especulação imobiliária, pela falta de um rize o brincar, na rua não dá mais para deixar
planejamento urbano voltado para a saúde da as crianças soltas.”
sociedade.
Sabe-se que o direito de locomoção com Sujeito AB – “A minha infância eu passei
segurança faz parte dos direitos civis (aqueles na rua que moro hoje, eu ficava o dia inteiro
direitos humanos que dizem respeito ao próprio na rua, no campinho. Hoje mudou tudo: só tem
corpo). No entanto, na sociedade brasileira, prédio. Não tem mais lugar para brincar.”
de modo especial nos centros urbanos, esse
direito vem sendo muito prejudicado. A falta As conseqüências da urbanização pouco
de segurança para locomover-se acaba sendo planejada e da falta de espaços de lazer tam-
pior quando se trata de crianças, para quem o bém se refletem nas moradias dos pais entre-
espaço físico é fundamental para a prática de vistados, cujos espaços domiciliares são inade-
jogos e de exercícios, necessários sobretudo na quados para brincar.
Sujeito AB – “Na minha casa não dá! Não No entanto, segundo os participantes, ape- consigo juntar um dinheirinho, senão não vale Sujeito CD – “As minhas brincam mais em
tem espaço. Tem uma escada em caracol, é sar das vantagens oferecidas pelos condomí- a pena. Você volta cansado, preocupado e mal- casa, na sala, no quintal. Elas brincam mais
perigoso. Então ele acaba brincando mais de nios, eles nem sempre estão isentos de proble- humorado, brigando com todo mundo.” entre elas. Não deixo elas irem para a rua por-
videogame, computador.” mas, e é necessário muito esforço por parte dos que é perigoso.”
moradores para que sejam mantidos de forma Sujeito CD – “Uma vez por mês, no
Sujeito CD – “A realidade é que, desde que adequada para atender às demandas infantis. domingo, a gente vai no McDonald’s. Ela A falta de espaços coletivos e seguros cer-
o nenê nasceu, ele não tem espaço para brincar adora! Só que este passeio já está pesando, tamente é um dos fatores que também interfe-
130 131
dentro de casa, porque no quarto dele o nenê Sujeito CD – “É uma luta, não pode bobear porque, como lá é shopping, ela fica querendo rem na qualidade do brincar, pois, proporcio-
dorme. Na sala fica a TV, e ele, mesmo que porque senão as crianças não podem nada! A ir naqueles brinquedinhos que tem que pagar, nalmente à diminuição dos espaços internos, a
esteja com os carrinhos, acaba não brincando, briga agora da gente é que não tem lugar para aí já desanima! É melhor nem sair do que ficar realização da atividade em ambientes externos
porque fica assistindo aos programas comigo andar de bicicleta e eles não deixam andar no falando não!” passa a exigir a disponibilidade da presença
enquanto eu faço as coisas da casa. (...)” estacionamento!” dos adultos para a realização das brincadeiras,
Além dos obstáculos já descritos, acresce- o que, como já visto, se torna cada vez mais
Às vezes as crianças ficam privadas não só A fim de minimizar os problemas decorren- se, de modo especial nos grandes centros urba- difícil.
do espaço, mas também dos amigos, sobretudo tes da falta de espaço, os pais depoentes suge- nos, a falta de segurança – o grande temor dos Os seguintes depoimentos ilustram bem
na ausência dos pais, como pode ser observado riram algumas alternativas para favorecer as pais. O medo tem influenciado a mudança de esse dilema:
em seus depoimentos. brincadeiras e proporcionar às crianças expe- rotina na vida das pessoas e impedido as crian-
riências mais ricas. Dentre as sugestões ofere- ças de exercer seu direito de ir e vir. Sujeito CD – “Deixo [brincar na rua] só
Sujeito CD – “Durante a semana, quando cidas pelos pais dos segmentos A e B estavam no fim de semana. Durante a semana é den-
eu e meu marido estamos trabalhando, ele não viagens à praia, ida a espaços coletivos (Sesc, Sujeito AB – “No meu bairro andou rolando tro de casa. É que a gente fica trabalhando o
pode sair para brincar na rua. (...) Ele chega Sesi, clubes privados, passeios em parques a história de uma Kombi que seqüestrava dia inteiro, não tem quem olhe, quem controle.
da escola, tranca o portão e fica em casa. (...) municipais e de diversões). Já entre os sujeitos crianças para roubar órgãos. (...) Quando sou- Vai que eles se machucam ou se envolvem com
Às vezes ele pede para levar amigos para casa, das classes C e D, estavam visitas aos CEUs, ao bemos disso, contratamos a perua.” alguma pessoa perigosa.”
mas eu não deixo. Não deixo porque não gosto Programa Escola da Família, ida ao shopping e
que vão em casa quando a gente não está lá.” restaurantes de fast-food populares. Mesmo entre os pais dos segmentos C e D, Sujeito CD – “Onde eu moro é um lugar
No entanto, os pais deixaram claro que que pareciam ter um certo conhecimento da sua bom, mas hoje em dia nada é confiável. Eu não
Alguns pais colocam os condomínios como as visitas a tais locais não são freqüentes. Os comunidade, o medo ficou explícito em suas veto totalmente brincar na rua (...) mas minha
uma saída para esse problema. pais dos segmentos A e B afirmaram que isso declarações, especialmente no caso de terem mãe acompanha.”
dependia de suas disponibilidades e suas neces- filhos do sexo feminino.
Sujeito CD – “Ao mesmo tempo que limita, sidades, portanto estava intrinsecamente rela-
por exemplo, do portão eles não passam, cionado ao que estabeleciam como prioridades. Sujeito CD – “Eu conheço todo mundo do
amplia para eles. Minha filha não fica só bairro, sei quem é filho de quem. Tô sempre
dentro de casa. Ela tem espaço para brincar, Sujeito CD – “A última vez que fomos ao dando uma olhada, mas o pessoal todo vem
andar de patins, correr, sem a gente precisar Parque do Ibirapuera gastamos quase 50 reais! me falar para não deixar minha filha ficar na
ficar vigiando. É um lugar seguro.” É complicado! Eu prefiro sair com eles quando rua que é perigoso...” [sic]
132 133

5.7
A falta de tempo para brincar
Observou-se anteriormente nos depoimentos trabalho. Os pais também demonstraram dar
que os pais alegam que as crianças têm pouco pouco valor ao tempo livre para seus filhos brin-
espaço seguro para brincar. Esse, porém, não é o carem. Assim, além das atividades escolares, as
único obstáculo enfrentado. Igualmente impor- crianças participam de inúmeras outras, extra-
tante é a falta de tempo. Segundo os sujeitos, as curriculares, reduzindo o seu tempo de brincar.
causas variam de acordo com a classe social na
qual a criança se insere, mostrando que, depen- Sujeito AB – “Acho que as minhas [filhas]
dendo do poder econômico da família, ela tem fazem muito mais curso do que brincam. É que
mais ou menos oportunidades de brincar. acaba não sobrando muito tempo para elas
Entre os segmentos A e B, o principal brincarem, porque quando chegam em casa
motivo da falta de tempo para brincar refere-se têm que fazer lição. Daí, quando começam a
às atividades extracurriculares. Existe grande brincar, a gente manda tomar banho. Elas são
ansiedade por parte dos pais sobre o competi- cheias de horários.”
tivo mercado de trabalho atual, de modo que a
maioria pensa que, quanto mais oportunidades Sujeito AB – “[Atividade extracurricular]
de formação oferecerem aos filhos, mais facil- preenche o tempo deles com alguma coisa que
mente eles poderão se integrar no mercado de deve servir no futuro. É uma bagagem.”
Sujeito AB – “É saudável preencher o a escola. À noite, fazem lição, brincam lá entre
tempo. Cabeça vazia é complicada.” elas de bonecas, assistem um pouco de TV e
vão dormir.”
Sujeito AB – “Tem horários, aprende respon-
sabilidades, me deixa mais tranqüila saber que Sujeito CD – “De manhã ela sempre me
ela está numa aula assim do que estar em casa.” ajuda na casa um pouco – seca a louça, arruma
134 135
a cama. Fica um pouco com a irmãzinha.
Também os pais dos segmentos C e D atri- Depois deixo ela ir brincar com a vizinha. À
buíram importância às atividades extracurri- tarde vai para a escola e à noite é lição e TV.”
culares, embora a participação de seus filhos
acabasse não se efetivando em função das difi- Em suma, durante essa parte da pesquisa
culdades econômicas apresentadas. verificaram-se as conseqüências das trans-
formações sociais em relação ao espaço e ao
Sujeito CD – “A menor me pede para fazer tempo de brincar, dificultando sobretudo as
balé e a maior gostaria de fazer natação. Eu brincadeiras coletivas, consideradas as mais
particularmente gostaria que elas aprendessem prazerosas pelas crianças, e favorecendo, por-
inglês. Se pudesse, elas fariam tudo isso, mas, tanto, um brincar mais solitário e menos diver-
pelas minhas condições financeiras, não dá.” tido. O tempo também surgiu como um grande
vilão em relação à atividade, porque a compe-
Ficou claro nessa parte da pesquisa que as titividade do mundo atual tem exigido que os
rotinas das crianças variam de acordo com o pequenos freqüentem cada vez mais atividades
poder econômico de cada família. As crianças extracurriculares, uma vez que perpassa pelos
das classes C e D brincam mais, contudo, na diferentes meios sociais a idéia de que tais
maioria das vezes, particularmente as meninas, ações podem favorecer o ingresso dos peque-
acabam tendo que auxiliar as mães nos servi- nos mais tarde no mercado de trabalho.
ços domésticos. Mais uma vez os dados deste trabalho apon-
tam para a necessidade de uma profunda refle-
Sujeito CD – “Elas acordam, ajudam na xão sobre o assunto, na tentativa de encontrar
casa – varrem, arrumam o quarto e a sala. soluções rápidas que garantam o brincar da
Brincam um pouco, tomam banho, almoçam, criança de modo que ela possa se desenvolver
ajudam a mãe a arrumar a cozinha e vão para adequadamente.
5.8
136
O brincar e as novas tecnologias 137

O uso das modernas tecnologias, incluindo Os pais entrevistados dos segmentos A e B,


a mídia como recurso lúdico, provocou uma cujos filhos são freqüentemente cuidados por
série de debates entre os especialistas e tam- babás, disseram que os pequenos ficam muito
bém entre os pais. Entre os últimos, notou-se, expostos à TV, sem qualquer tipo de controle
por parte de alguns, um certo incômodo ao tra- ou critério, muitas vezes sob a influência inade-
tar da questão. Portanto, esse aspecto mereceu quada da mídia. No entanto, a pesquisa mostrou
um destaque especial neste relatório. que, para os pais de todos os segmentos sociais,
É evidente que não se pode negar a exis- a TV surge como uma alternativa praticada até
tência das modernas tecnologias no mundo em mesmo por eles para substituir o brincar. E,
que vivemos e o importante valor que possuem apesar da existência de bons programas infan-
como fontes de comunicação e de informa- tis, grande parte das crianças acaba assistindo a
ção, como recurso didático e até mesmo como programas impróprios para o estágio de desen-
recurso lúdico. No entanto, é possível questio- volvimento em que estão.
nar qual o seu papel no desenvolvimento das
crianças. Sujeito AB – “A minha vê novela, vê filmes
e um monte de programas que não são para a
Sujeito CD – “Gostaria que ele brincasse idade dela. A gente sabe que está errado, mas
mais. (...) Se puser na balança, ele mais assiste acaba cedendo. (...) É que a TV fica na sala, a
TV do que brinca.” gente que trabalha o dia inteiro também gosta
de ver, vai fazer o quê, mandar ela ir para o
Segundo os depoimentos dos pais, as crian- quarto?”
ças passam grande parte do tempo envolvidas
com a TV. A exposição da grande maioria das Sujeito CD – “Não trabalho fora, mas em
crianças brasileiras a esse meio de comunica- casa não tem sossego. É lavar, passar, feira,
ção é muito grande, pois mesmo nas regiões supermercado... As crianças vão ficando para
mais carentes dos grandes centros urbanos as trás. A gente dá conta de tudo, mas não conse-
crianças não têm alternativas para brincar. gue se dedicar a eles. Quando eles pedem para
brincar, a gente nunca pode, está sempre can- pela busca por respostas para como devem ser pelos videogames, parece ser um vilão ainda rida, mas eles trocam entre eles, então não tem
sada e fala para eles irem assistir TV.” e pela companhia. Antigamente as histórias maior. Isso porque muitos pais desconhecem a muito como controlar.”
de vida eram contadas pelos mais velhos, que tecnologia e os conteúdos ou não os dominam,
Os depoimentos mostraram que a TV é algo ofereciam as informações convenientes para a ficando sem saber com quem e com que mundo É importante lembrar que a criança, quando
habitual e imprescindível na maior parte das idade das crianças. A TV, porém, é um narrador seus filhos estão se relacionando. nasce, entra em um mundo que já possui seus
famílias. incontestável, e suas mensagens não respondem próprios objetos e sua própria cultura. Portanto,
138 139
às etapas de desenvolvimento das crianças. Sujeito AB – “Hoje eles só querem saber de objetos tecnológicos ou que remetem à tecnolo-
Sujeito AB – “Acorda cedo, vai para a Também se sabe que ver TV ou ficar diante videogame e MSN. A gente tem que desligar e gia, como, por exemplo, brinquedos de telefones
escola das 7 às 11h30. Volta, almoça, assiste da tela de um computador é quase sempre uma mandar eles saírem para brincar.” celulares e videogames, são oferecidos a ela de
um pouco de TV. Daí ele pega os hominhos atitude passiva por parte das crianças. O traba- maneira miniaturizada para que possa, aos pou-
e os carrinhos dele, espalha pela casa e fica lho de Huete (2005) mostra como elas ficam Sujeito CD – “Nem precisa ter computa- cos, ir se preparando para participar do grupo.
brincando, até a hora que eu falo para ir tomar quase imóveis diante dos inúmeros estímulos dor em casa para lutar contra essa praga. Tem Assim, os recursos eletrônicos fazem parte da
banho e fazer a lição.” visuais. Devido à grande exposição à mídia, há computador em todo lugar...” vida dos adultos e, conseqüentemente, existem
também por parte das crianças um afastamento como objetos na cultura infantil, mesmo que
Sujeito CD – “A minha acorda, toma cada vez maior do meio natural, da realidade Sujeito AB – “O computador e o videogame estes ainda não estejam ao alcance da maioria
leite vendo televisão. Deu 9 horas, já está lá concreta, da cultura criada pelo homem, e uma estão roubando momentos deles brincarem das crianças por questões econômicas.
embaixo do prédio brincando. Às 11h minha grande aproximação do artificial, do simbólico, juntos. (...) Eles se bastam. Não precisam de Segundo os entrevistados, são comuns entre
mulher tem que ficar gritando para ela subir de um mundo sem limites. mais ninguém para brincar.” as crianças as diversões eletrônicas (videoga-
senão ela perde a hora da escola.” Ao tratar do assunto, Guimarães (2000) mes), mas elas se apresentam em menor inten-
mostra que, quando os sentimentos transmiti- Sujeito AB – “Esse Orkut, não posso nem sidade e com menos sofisticação entre os seg-
Assim, o tempo que os pequenos passam na dos pela tela são fortes demais para serem com- ouvir falar! Não sei direito como funciona, mentos C e D, dado seu alto custo. O mesmo
frente da TV reduz a realização de outras ativi- preendidos pelas crianças, ou não podem ser mas sei que eles [filhos] falam com gente que se observa em relação ao computador e ao uso
dades que seriam importantes para o seu desen- relacionados à sua experiência, tornam-se per- eles nem conhecem.” da internet, que, apesar de estarem entre os
volvimento, como a leitura, o trabalho escolar, turbadores. Esse fato pode ser entendido devido itens mais desejados pelos pais para dar a seus
as atividades lúdicas, os relacionamentos fami- ao fato de a criança aprender, inicialmente, por Os depoimentos também mostram como os filhos, acabam ficando em segundo plano, por-
liares e grupais. imitação: ao submeter-se aos programas televi- pais se sentem incapazes de controlar a intera- que o fator econômico é um elemento impedi-
Diante da influência enorme da TV na vida sivos sem uma reflexão, ela pode acabar ado- ção dos filhos com os jogos eletrônicos. tivo. Eles existem apenas nas residências dos
das crianças, vale ressaltar que inúmeros estu- tando comportamentos inadequados, agindo pais que trabalham com informática, e o uso
dos apontam seus efeitos negativos nos peque- com agressividade, violação de normas, indivi- Sujeito AB – “Eu odeio esses joguinhos, da internet fica condicionado aos horários mais
nos quando eles são expostos de forma irrestrita dualismo e perda de limites. mas a gente não consegue proibir de vez. Eu avançados do dia, quando o custo é mais baixo.
ao meio. De todo modo, entre os pais entrevistados costumo controlar o horário. Tipo depois do Entre os segmentos A e B, os pais afirma-
Segundo Carlsson e Felitizen (1999), as ficou evidente que, atualmente, apesar da preocu- almoço, meia horinha e pronto.” ram que os meninos acima de 8 anos são os
crianças assistem à televisão motivadas não pação sobre as possíveis más influências da TV mais atraídos por objetos eletrônicos, gastando
pelo entretenimento que ela proporciona, mas sobre seus filhos, o computador, pela internet e Sujeito CD – “Eu só compro este de cor- com eles a maior parte do tempo livre. Uma
pesquisa feita pelo jornal Folha de S.Paulo em Eu chego em casa e ele já fala: vamos jogar
200621, com 577 crianças desses segmentos, hoje, pai?”
para saber quais os brinquedos que mais dese-
jam, mostrou que 18% dos meninos preferem A maioria dos entrevistados, porém, se
os videogames. sente profundamente incomodada pelos video-
games, não apenas pelo estado sedentário em
Sujeito AB – “Pela manhã é PlayStation. que deixa seus filhos e pela percepção de que
Um pouco de TV. O computador, libero; a favorecem o isolamento, mas, sobretudo, por
internet só depois, à noite, porque aí paga um seus conteúdos.
pulso só. Ele gosta de jogar on-line. Aí, já viu,
140 141
vai dormir de madrugada.” Sujeito CD – “É bitolado! Eles ficam senta-
dos com o corpo tenso. Além de fazer mal para
Sujeito AB – “O meu estuda de manhã e a cabeça, deve fazer mal para a visão.”
o resto do dia ele fica trancado no quarto no
MSN, no videogame, vendo TV. Cada hora é Sujeito AB – “(...) tem um jogo que meu filho
um botão. Só sai de lá para ir na aula de inglês jogando com o irmão do lado fica falando:
e quando eu brigo com ele para ir brincar um mata, mata! Pega a moto dele! Quer dizer o
pouco.” cara rouba, mata e eles fazem pontos com isto.
São valores muito ruins que são passados.”
Segundo os pais, as tecnologias fascinam as
crianças pelos recursos disponíveis, pelas res- Os pais reconhecem que, na sociedade
postas rápidas e pelo pouco esforço que neces- moderna, a TV, o computador e as atividades
sitam fazer para a sua utilização. eletrônicas, incluindo videogames, tornaram-
Entre uma minoria dos entrevistados se algo imprescindível, mas eles se mostraram
– geralmente pais (gênero masculino) mais bastante inseguros sobre como esses recursos
jovens – havia uma valorização e até mesmo deveriam ser usados por seus filhos.
defesa do seu uso como brinquedos atrativos e Sabemos que essas tecnologias são exten-
eficazes para seus filhos. sões da comunicação humana e que com elas
muito se aprende. Logo, as novas tecnologias
Sujeito CD – “Poxa! Falando sério, todo e a própria mídia, na opinião dos pais, teriam
mundo sabe quanto é bom ficar lá apertando muito a colaborar se fossem bem utilizadas. Por
os botõezinhos! Eu cresci jogando videogame enquanto, pode-se dizer que deixar a criança
e não acho que ele tenha feito mal algum...” exposta a esses meios sem supervisão e orien-
tação adulta é deixá-la à mercê de sua vulne-
Sujeito AB – “É a nossa diversão! É o rabilidade. Assim, é importante que não haja
momento que a gente brinca junto, só nós dois! exageros em relação a seu uso.
21 Folha de S. Paulo Especial, “Guia do Brinquedo”,
publicado em 26/9/2006.
5.9
O brincar e a escola
Ao longo deste trabalho, observou-se que recurso metodológico, até a preparação de situa-
é indiscutível a importância do brincar. No ções planejadas que possibilitassem ao educador
entanto, foi possível observar também que os uma maior observação dos pequenos, com o
pais não têm tempo suficiente para participar objetivo de auxiliá-los adequadamente no seu
142 143
das brincadeiras de seus filhos ou ensinar as desenvolvimento. “Permanecemos então em
atividades lúdicas de outrora, além de que as um contexto no qual, ao menos no nível do
próprias crianças possuem agendas preenchi- discurso, a importância do jogo é reconhecida,
das e os espaços para o lazer infantil foram particularmente no que concerne aos primei-
diminuindo. ros anos de estudo. Os cantos de jogos são uma
Apesar de todos os participantes da pesquisa vitrine da escola maternal22, o que lhe confere
terem demonstrado o valor da brincadeira, ficou a imagem de uma ‘escola na qual se brinca’”
claro que ela é cada vez menos praticada. (BROUGÈRE, 1998, p. 163).
Perguntou-se, então, o que isso significa para Se a princípio a escola fez uso do jogo espon-
a vida das crianças e de que maneira elas pode- tâneo, as transformações educativas ocorridas
rão recuperar a infância. As respostas mostra- sobretudo na década de 80 fizeram com que ele
ram que essas são questões de difícil solução. fosse utilizado como recurso pedagógico. De
Os saberes lúdicos promovidos nos espa- que forma conciliar essas duas posturas?
ços públicos passaram a ser transmitidos em Com a divulgação dos estudos de psicologia
locais privados, como a escola. Para os pais dos realizados por Piaget, Vygotsky, Wallon, Win-
segmentos A e B, essa instituição vem procu- nicott, Luria, Bruner e outros, tem havido nas
rando desempenhar tal função, principalmente escolas uma valorização da brincadeira, porém,
quando se trata da educação infantil, e, por esse infelizmente, isso só ocorre do ponto de vista
motivo, eles preferem que seus filhos ingressem teórico, pois, na prática, o que mais se observa
na escola o quanto antes. Talvez seja essa mais são atividades planejadas sob a forma de jogo.
uma das razões capazes de explicar o rápido “Em geral, são atividades dirigidas pela profes-
crescimento das instituições voltadas ao ensino sora, nas quais a criança segue e executa deter-
infantil. minadas tarefas, mas que são apresentadas na
A rigor, na escola de educação infantil o forma de jogo para motivar e interessar mais aos
brincar deveria ser a espinha dorsal do currí- pequenos” (BASSEDAS e SOLÉ, 1999, p. 146).
culo. Assim, o jogo poderia ser utilizado sob No entanto, alguns educadores já têm perce-
diferentes perspectivas, desde a permissão de 22 Escola maternal é o termo usado para denominar a
sua livre escolha pela criança, passando pelo educação infantil na França.
bido que é importante também inserir na escola série e nunca teve aula de Educação Física! mais tempo na escola, não só para estudar, das brincadeiras para interagir com os peque-
situações de jogo livre, em que as crianças pos- (...) Se eles não se importam nem com Educa- mas para brincar, ia ser bem diferente, porque nos. Outras vezes, sugeriram que os professores
sam interagir com mais autonomia. As expe- ção Física, que é a matéria que tem brinca- eles teriam coleguinhas para brincar juntos.” interferem inadequadamente ou as dirigem o
riências em educação infantil realizadas na deiras e as crianças adoram, imagina se nas tempo todo, impedindo que as crianças tenham
cidade de Reggio Emilia, na Itália, mostraram outras matérias eles brincam.” Os pais reconhecem algumas iniciati- momentos de livre escolha e expressem seus
a importância da utilização de situações plane- vas adotadas pelas escolas, mas têm clareza sentimentos.
jadas sob a forma de jogo. Graças a elas houve Além disso, como mostraram os profissio- de que tais espaços poderiam ter um melhor Especialmente no que tange às atividades
um aumento dos chamados “cantinhos”, cujos nais na primeira parte da pesquisa, nem sempre aproveitamento: motoras, há um desconhecimento por parte dos
materiais são escolhidos de acordo com as ava- as instituições escolares dispõem de espaço para docentes do que as crianças devem desenvol-
liações realizadas pelos educadores e planeja- a realização da atividade e, quando isso ocorre, Sujeito CD – “O CEU é muito bom. Ele é ver, uma vez que esse não é o foco no currículo
dos para auxiliar o desenvolvimento infantil. geralmente não lhe é atribuída a devida impor- uma escola e tem tudo que interessa para uma escolar tradicional. No entanto, o educador
144 145
Entretanto, a maioria das escolas de educa- tância. Em geral, as escolas são pressionadas criança. Tem quadra, piscina, salão de jogos. deve ir além da posição de um simples obser-
ção infantil preocupa-se mais em ensinar con- pelos pais, que, justificando a necessidade de as Mas eles são muito poucos. No meu bairro é vador ou de considerar a recreação um simples
teúdos às crianças – conhecimentos que, na crianças aprenderem conteúdos para enfrentar impossível de ir de tanta gente!” intervalo do seu trabalho, sem nenhuma preo-
maioria das vezes, estão desvinculados da sua o mercado de trabalho, desconsideram o brin- cupação educativa: se tiver uma boa formação,
realidade. Como as pressões realizadas pelos car, o que contribui para que seus filhos deixem Sujeito AB – “As escolas do Estado estão dará pleno sentido ao desejo de deixar a criança
pais são fortes, as crianças têm um tempo redu- de vivenciar etapas de desenvolvimento. abrindo no fim de semana para cursos, brin- jogar.
zido para o brincar espontâneo e livre, o que Segundo Cavallari (2006a), também entre cadeiras. Está muito interessante, enche de Observar as crianças durante os seus jogos é
acaba interferindo, de certa forma, no desenvol- os professores há a reclamação de que não crianças.” a melhor maneira de conhecê-las bem, de uma
vimento de sua autonomia e de sua criatividade. se pode brincar na sala de aula, pois tanto os maneira natural, impedindo a deterioração do
Se na educação infantil não há tempo para pais quanto os mantenedores e os coordena- Segundo os pais, a escola seria um espaço jogo. “É preciso, dentro dessas perspectivas,
o brincar, no ensino fundamental a situação dores pedagógicos cobram a apresentação de possível para a realização das brincadeiras, mas tornar o professor um homem livre, isto é, um
é ainda pior. Ele é totalmente desconsiderado conteúdos. ainda é muito pouco o que se faz dentro delas. indivíduo liberado: liberado do desprezo em
entre as chamadas atividades curriculares e, A escola é um lugar aonde o aluno deve relação a certos tipos de atividade e liberado
quando aparece, surge apenas na aula de Edu- comparecer diariamente e, se o trabalho for Sujeito CD – “É legal essas coisas que do temor do julgamento dos outros” (LEIF e
cação Física. Na pesquisa, os pais mostraram estimulante, ele irá com mais prazer. Os depoi- já tem nos fins de semana, mas deveria ter BRUNELLE, 1978, p. 130).
que a ausência do brincar na sala de aula e na mentos dos pais demonstraram que os peque- durante a semana também. As crianças pode- Vale a pena lembrar, tal como já apontaram
escola pode ser uma das razões pelas quais ela nos têm pouco tempo livre durante o período riam ter mais tempo na escola. Elas poderiam os especialistas, que a formação docente não
se mostra desinteressante para a criança. escolar: aumentar o horário para brincadeiras, ter trata do brincar, ou, quando acontece, isso é
um intervalo maior para simplesmente deixar feito de maneira bastante superficial, não ofere-
Sujeito CD – “Ele sempre quer faltar. Na Sujeito AB – “O meu tem 9 anos e fica solto. Ou até capacitar os professores para cendo ao profissional subsídios suficientes para
volta da escola vem reclamando: hoje foi chato, das 13 às 18h dentro da sala de aula. Tem 20 orientar brincadeiras, distribuir materiais.” as suas práticas.
a professora não deixou a gente brincar.” minutos de recreio. O tempo que ele tem para
brincar é muito pouco, porque em 20 minutos Conforme o depoimento acima, além da
Sujeito CD – “Se tivesse mais brincadei- ele tem que lanchar e brincar! Ou come ou falta de espaço no currículo, outro problema
ras, eles gostariam mais ainda de ir para a brinca!” apontado pelos pais que se verifica nas escolas
escola.” em relação à atividade lúdica é o preparo ina-
Sujeito AB – “Hoje a maior parte do tempo dequado por parte dos profissionais, que, eles
Sujeito CD – “Meu filho está indo para a 4. a a gente passa no trabalho. Se eles ficassem acreditam, em geral desconhecem o repertório
5.10
O papel do poder público
e da sociedade nas políticas do brincar
Na última parte do debate com os pais, pro- dar maior legitimidade e autoridade a progra-
curou-se investigar até que ponto os sujeitos mas desse tipo, pois geralmente são organiza-
achavam que deveria haver uma política pública ções que apresentam um maior compromisso
específica para o brincar. com o interesse social:
Em muitos momentos deste trabalho, eles
deixaram clara a falta de ações públicas que Sujeito CD – “Tem tanta ONG hoje em dia
contemplassem a criação de mais espaços de que faz umas coisas legais com criança. Tem a
lazer. Por essa razão, ter o brincar como obje- Gol de Letra, a Fundação Ayrton Senna, pode
tivo principal para sustentar ações e programas ser qualquer uma delas.”
sociais foi visto como algo interessante, abran-
gente e inovador. Quanto às empresas, os sujeitos acreditam
que elas não poderiam se abster de uma ação
Sujeito AB – “Pode ser muito legal porque social e que elas desempenham papel relevante
mexe com lazer, descanso, mexe com a parte na concretização das ações:
psicológica da criança. (...) É uma coisa óbvia,
146 147
mas inédita, né? Porque a gente sabe que Sujeito CD – “Eu acho que as empresas, os
brincar faz bem para a criança, mas ninguém empresários têm que fazer sua parte também,
incentiva isto!” não é só ganhar dinheiro. Num país como o
nosso, é obrigação cumprir os deveres deles
Sujeito AB – “Tudo bem, há outras prio- com seus funcionários, mas só isto não basta,
ridades, por exemplo, no Amazonas, que tem tem que fazer algum benefício social.”
crianças escravizadas que trabalham em for-
nos de carvão. Mas o brincar tem a ver com Sugeriram também que as campanhas publi-
isto também! Porque ele vai procurar cons- citárias fossem mais significativas, com mais
cientizar a sociedade de que a criança que conteúdo e com ações concretas. Isso possibi-
está lá deveria estar brincando.” litaria um efeito multiplicador, pois estariam
atuando com responsabilidade junto a milhares
Sujeito CD – “Educação e saúde são prio- de pessoas.
ridades, mas o brincar tem a ver com os dois! Finalmente, os pais pesquisados fornece-
A criança que não brinca não é saudável, não ram algumas sugestões tanto para a criação e
aprende, não conversa...” a otimização dos espaços lúdicos quanto para a
conservação dos espaços existentes e a disponi-
Sujeito AB – “É que ‘brincar’ pode pegar bilização de recursos humanos.
um conjunto de setores – saúde, educação –, As opiniões dos pais coincidiram, e muito,
mas pega de um jeito que leva para o lado da com as dos especialistas. Eles apontaram para
diversão, da alegria, da criança.” a relevância da divulgação, da orientação e
da informação dos pais e dos adultos sobre a
Na opinião dos depoentes, a implantação importância do brincar (incluindo o uso de
de programas desse tipo pode estar vinculada brinquedos eletrônicos), da difusão de ações e
a diferentes setores sociais. Alguns pais sugeri- agendas que envolvam o lúdico, da propagação
ram que eles pudessem envolver ações conjun- e do ensino das brincadeiras.
tas entre governo, empresas e ONGs. As ONGs
são as instituições que, segundo eles, poderiam
6
O brincar na
visão das crianças

148 149
6.1
Considerações iniciais e metodologia da pesquisa
150 151
Dando continuidade à investigação qua- escreva por que você achou que essa foi a coisa
litativa, foi possível observar que haveria um mais legal do dia.
momento realizado com crianças. A preocupa- • Desenhe ou recorte e cole uma figura do
ção em pesquisar o público infantil se pautou, gibi que mostre como você se sente depois de
sobretudo, em levantar, junto às crianças, sua brincar e quando não brinca.
própria percepção sobre o brincar e suas roti- • Desenhe e descreva aqui como seria um
nas. Para tanto foram usadas várias técnicas de planeta sem brincadeira e sem brinquedo.
pesquisa qualitativa. • Desenhe ou recorte e cole uma figura do
Além de realizar discussões em grupo com gibi que mostre sua brincadeira preferida e
as crianças, solicitou-se que elas preenchessem escreva uma frase contando por que ela é a sua
um diário ao longo de uma semana e tirassem brincadeira preferida.
fotos de suas vidas nesse período. Um kit para • Escreva um recado para os adultos para que
o diário e uma câmera (do tipo descartável eles possam entender melhor seus sentimentos
simples) foram entregues para as crianças pela e a importância do brincar para você.
equipe de pesquisa. O kit para o diário incluía Participaram dessa última etapa da inves-
o diário, lápis coloridos, gibis para recortar, tigação 24 crianças entre 7 e 8 anos, sendo
tesoura, etc. O diário era composto de 15 pági- 12 meninos e 12 meninas. As crianças tam-
nas, cada uma com uma ou duas atividades bém representavam diferentes classes sociais,
escritas para a criança realizar. Essas ativida- havendo, portanto, 12 dos segmentos A e B e
des tinham como objetivo incentivar a criança a outras 12 das classes C e D. Antes de participar
refletir sobre a sua rotina e o brincar. Incluíam, das discussões de grupo, todas as crianças pre-
entre outras atividades: encheram diários e tiraram fotos durante uma
• Desenhe aqui o lugar onde você mais gosta semana, conforme descrito acima. Para as dis-
de brincar e escreva por que você gosta de brin- cussões, elas foram divididas em quatro grupos.
car nesse lugar. Cada grupo de discussão, com seis crianças, foi
• Desenhe aqui ou recorte e cole do gibi formado de acordo com as características apre-
que você recebeu uma figura que mostre o sentadas no Quadro 2, a seguir.
que aconteceu de mais legal no seu dia hoje. E
Quadro 2

C rianças A eB C eD Total

G rupos de m eninos de 7 e 8 anos 1 1 2


152 153
G rupos de m eninas de 7 e 8 anos 1 1 2

Total 2 2 4

Os grupos se reuniram na cidade de São Apesar de haver um roteiro para a discus-


Paulo durante o mês de fevereiro de 2006. são com os grupos de crianças, ele era bastante
Cada sessão de discussão durou aproximada- flexível, dando margem às crianças para se
mente 90 minutos. Para que a entrevista fosse expressar de uma forma espontânea, favore-
realizada, seguiu-se um roteiro. As discussões cendo a obtenção de uma série de informações
foram gravadas em fita VHS e anotadas por um a respeito do brincar. O roteiro proposto para
taquígrafo, a fim de que se pudesse garantir o as discussões tratava de questões relativas à
maior número de dados. brincadeira infantil, portanto as crianças eram
Em cada grupo de discussão havia dois indagadas sobre a rotina, suas brincadeiras, o
momentos. Em um deles o pesquisador se apre- valor atribuído a elas e as sugestões que tinham
sentava através de um jogo e depois esclarecia sobre o assunto.
que os participantes iriam fazer diversas ativi- Com base nas questões propostas, foram ela-
dades e que, nesse período, só não era possí- boradas a apresentação e a análise dos dados.
vel falar ao mesmo tempo. No outro momento Nesse processo, observaram-se duas variáveis
foram realizadas as discussões e promovida – gênero e classe social –, que foram levadas
uma série de atividades com o objetivo de diag- em consideração na apresentação dos dados.
nosticar os perfis das crianças participantes do
grupo.
6.2
154 155
As crianças e suas rotinas: a presença
da TV e as novas tecnologias
Conhecer um pouco mais as rotinas infan- fazer as coisas ela vai assistir TV. Eu deito
tis, a escola que freqüentavam, o momento junto com ela e durmo abraçadinha.”
mais agradável do dia ou o dia mais gostoso
da semana, além dos desejos das crianças, fez Nos depoimentos, os meios de comunicação,
parte desse momento da pesquisa. sobretudo a TV, representam um percentual
As rotinas das crianças diferiam pouco bastante grande de tempo na vida das crianças.
dos depoimentos dos especialistas e dos pais. Pode-se observar dentre os depoimentos o fato
Portanto, o primeiro comentário feito por elas, de que as crianças até brincam, mas com a TV
especialmente pelas que freqüentavam a escola ligada, o que, de certa forma, demonstra a soli-
no período vespertino, foi quanto à presença dão que sentem:
da TV em suas rotinas diárias. Afirmaram que
adormeciam muito tarde para desfrutar a com- Meninas AB – “Eu ligo a TV no meu quarto
panhia dos pais. e fico brincando com as minhas bonecas. (...)
Ah! Porque é chato ficar sozinha brincando.
Meninas AB – “Acordo às 11 porque durmo Com a TV ligada ela fica falando.”
bem tarde! É porque todo mundo lá em casa
dorme lá pela meia-noite, então minha mãe Meninos CD – “Eu acordo e fico assistindo
deixa ficar acordada com eles. Eu fico com até a hora de ir para a escola. Depois que volto
meu pai assistindo filme de amor ou de terror. da escola, eu também assisto meus desenhos.
Daí eu durmo e ele me leva para cama. Eu Só paro para tomar banho e fazer lição.”
também durmo.”
No entanto, não são só as meninas que assis-
Meninas CD – “É que minha mãe fica tra- tem muito à TV. Entre os meninos, essa é uma
balhando até tarde. Daí quando ela acaba de atividade bastante rotineira, observando-se uma
alternância entre a TV e o videogame, objeto As escolhas feitas pelas crianças nem sem- gente, leva ela para a escola. Depois eu vou sozi-
que vem sendo cada vez mais utilizado por eles, pre foram as mais adequadas para a sua idade, nha, porque eu entro às três e fico até as sete.”
sobretudo nos segmentos A e B. Isso já havia reforçando as preocupações já explicitadas nos
sido apontado pelos pais, cujos depoimentos depoimentos dos pais e dos especialistas em Meninas CD – “Cada dia eu faço uma
mostraram bastante insegurança em relação ao relação a tal meio de comunicação. Observa-se coisa. Hoje minha mãe me mandou lavar a
uso desse moderno recurso por seus filhos. nos depoimentos dos pequenos que na maior louça e o fogão. E na hora do banho eu lavei
O salto da sociedade industrial para a pós- parte do tempo o uso da TV não é controlado o banheiro. É que ela trabalha e eu tenho que
industrial não é homogêneo em todos os países, pelos pais. ajudar muito ela.”
por isso nem todas as pessoas têm acesso ao O uso excessivo e indiscriminado da TV
videogame. Na pesquisa essa diferenciação de mostra por que é tão difícil aos pais servir de As tarefas realizadas pelas meninas são
classes fica bem nítida, porque entre as crian- modelo ou transmitir para os filhos os valores encaradas como obrigações, mostrando o peso
156 157
ças dos segmentos C e D a situação econômica em que acreditam. A situação é mais preocu- que tais afazeres representam no seu cotidiano,
da família impede o acesso à moderna tecnolo- pante ainda quando não há diálogo entre eles. prejudicando as atividades de brincar.
gia, como se pode observar nos depoimentos a A maneira como se referem aos progra-
seguir, o que faz com que as crianças acabem se mas que não são destinados à sua faixa etária Meninas CD – “Minha mãe sempre deixa
contentando somente com a TV. Afinal, a TV – sobretudo no caso das meninas – reflete o eu brincar. Mas primeiro tenho que fazer
ainda é o recurso mais barato, e sua presença quanto seus conteúdos podem servir de modelo minhas obrigações – arrumo minha cama,
acaba servindo de lazer para toda a família. para o desenvolvimento precoce, como mostra limpo a casa e lavo a louça. Depois eu faço
o seguinte depoimento: lição, depois eu brinco. Eu brinco mais à noite
Meninos AB – “Eu passo a tarde assim: vejo porque de manhã não dá tempo.”
um pouco de TV, daí eu canso, vou jogar video- Meninas AB – “‘Malhação’ é um programa
game. Daí eu canso, vou ver TV de novo.” de adolescente. (...) Eu sei que sou criança, Meninas CD – “Cuido de um irmão de 1
mas quando eu crescer e me tornar uma ado- ano. Quando eu desço [na área livre do prédio]
Meninas AB – “Em casa eu brinco com lescente, eu já vou saber tudo antes.” não dá para brincar nada porque eu tenho que
minhas Pollys, mas aí eu canso. Então vou ficar cuidando dele.”
para a TV.” A pesquisa mostrou que as meninas dos
segmentos C e D possuem um cotidiano mais No caso das meninas dos segmentos C e
Segundo os depoimentos das crianças, denso que as demais crianças, com mais res- D, observa-se também uma grande influência
dentre os programas mais assistidos estão ponsabilidades, pois, como afirmaram os pais, religiosa que participa significativamente do
“Timothy”, “Xuxa”, “Dragon Ball Z”, “Power elas ajudam nas tarefas domésticas. Freqüen- cotidiano:
Rangers”, “Chaves”, “Chapolin”, “As Meni- temente, elas também ficam responsáveis por
nas Superpoderosas” (programação infantil); cuidar dos irmãos menores: Meninas CD – “Eu tenho primeiro que
“Vale a Pena Ver de Novo”, “Malhação”, “Bang cuidar da casa, depois eu vou para a igreja e
Bang”, “Belíssima” e “JK” (seriado, novelas Meninas CD – “Meu pai e minha mãe saem depois eu brinco.”
e minissérie); filmes da “Sessão da Tarde” e para trabalhar e eu fico sozinha cuidando da
noturnos. minha irmã. Meu pai passa, dá o almoço para a Contrariamente, o trabalho doméstico ou o
158 159
envolvimento com a igreja não ocorrem com os casas de computador e internet. Diferentemente Meninas AB – “De segunda a sábado eu me colocou e agora eu tenho que fazer! (...) Eu
meninos dos segmentos C e D. Apesar disso, do que relataram os pais, elas nem sempre per- fico num lugar que é um clube. Eu vou à uma não gosto de judô nem de inglês, só de música.
eles possuem uma rotina bastante monótona e cebem que esses recursos lhes são acessíveis, hora e volto às cinco e meia. Lá eu faço balé, Mas ela disse que eu tenho que fazer.”
aparentemente sem muito controle pelos pais, uma vez que disputam com os demais membros pintura, informática.”
oscilando entre a escola, a TV e, quando o pos- da família seu uso, e quase sempre estão em Resumindo, a televisão faz parte da vida
suem, o videogame. Os depoimentos das crian- desvantagem. Algumas crianças mostraram gostar das ati- das crianças e é quase onipresente nela. Uni-
ças confirmam as afirmações dos pais de que vidades, principalmente futebol e balé, uma vez versalmente desejadas pelas crianças, as novas
o computador, nas casas dos segmentos C e D, Meninos AB – “O computador fica no que estas foram escolhidas por elas. tecnologias, como videogames, computadores
é raridade, contudo constitui-se em objeto de quarto da minha irmã porque ela já tem 13 e internet, também se tornam cada vez mais
desejo para as crianças de ambos os sexos. [anos], entendeu? Só que ela vive trancada no Meninas AB – “Eu faço balé porque adoro. companheiras e brinquedos prediletos delas,
Os depoimentos das crianças demonstraram quarto pensando em namorado! Então eu não Eu agora só ando nas pontas dos pés.” sem muito controle por parte dos pais sobre seu
que, independentemente de segmento social, os posso entrar lá! Eu quase não consigo usar.” uso. A utilização do computador e dos videoga-
meninos têm mais interesse e acesso às novas Outras acabam se divertindo, pois, apesar mes demonstra o resultado das transformações
tecnologias, embora, em alguns casos, seu uso Tal como nos segmentos C e D, os meninos de não terem escolhido os cursos, eles repre- ocorridas nos espaços infantis, que são cada
tenha uma limitação de tempo imposta pelos dos segmentos A e B têm os videogames como sentam a possibilidade de estar em grupo e vez mais restritos à casa.
pais e, mais especificamente, pelas mães: brinquedo predileto e jogam cotidianamente, brincar, o que para as crianças acaba sendo Também se observam, pelas rotinas das
alguns por longos períodos de tempo, outros mais importante do que o curso em si. Mesmo crianças, transformações na maneira como
Meninos AB – “Eu fico direto, até minha de forma moderada ou controlada. Em geral, assim, algumas crianças comentaram que não seus dias são ocupados. Enquanto as crianças
mãe chegar do trabalho. Depois que ela chega, possuem as versões mais atualizadas, como é o apreciam o que fazem porque tais atividades dos segmentos A e B, de ambos os sexos, par-
não deixa mais eu jogar. Ela diz que eu vou caso do PlayStation 2. são impostas pelos pais e porque isso compro- ticipam de uma miríade de atividades extra-
ficar viciante [sic].” Confirmando os depoimentos dos pais, mete o brincar. Ficou evidente que, na maioria curriculares organizadas e as meninas dos seg-
quando eles trabalham fora, as crianças das dos casos, a escolha dos cursos não depende mentos C e D têm muitos deveres domésticos,
Meninos AB – “Só jogo à noite com meu classes A e B, independentemente do sexo, das crianças, mas dos pais, que fazem qualquer os meninos dos segmentos C e D parecem ser
pai. De dia não pode porque minha mãe disse ficam na companhia dos avós ou participam de coisa para mantê-las ocupadas, como foi possí- aqueles com mais tempo disponível no dia.
que tira a vontade de fazer lição.” inúmeras atividades extracurriculares (cursos vel observar na fase anterior deste trabalho. Mas, independentemente de segmento social e
de idiomas e de informática, atividades artís- de sexo, as crianças, hoje, têm seus dias bas-
A tecnologia faz parte da vida das crianças ticas e físicas) quando não estão no período Meninos AB – “Ela [mãe] me colocou no tante cheios, restando pouco tempo livre para
dos segmentos A e B, que dispõem em suas escolar. inglês, judô e música. Eu não queria! Mas ela o brincar.
160 161

6.3
Definindo o brincar
Ao longo desta pesquisa, foi possível obser- Para as crianças, brincar é “uma coisa espe-
var que o brincar tem uma função fundamental cial...”, que envolve o divertimento. Para brin-
na vida das crianças, pois, entre outras coisas, car, “você chama os amigos e brinca”, mas,
desenvolve a função simbólica e permite a sua quando isso não acontece, “você pode brincar
inserção no grupo, auxilia no conhecimento com seu videogame (meninos) ou de desenhar
das normas sociais, desenvolve o conheci- (meninas)”.23
mento de si e dos outros. Percebeu-se, também,
a dificuldade que os sujeitos anteriores (os pais Meninos CD – “Ah! Tem outras coisas
e os especialistas) tiveram de definir o brincar, também: batata-quente, videogame, bicicleta,
razão pela qual, dada a polêmica que envolve o esconde-esconde. Tudo isso é brincar, oras!”
conceito, nessa parte do trabalho optou-se pela
utilização de jogos dramáticos, de modo que as Meninas AB – “(...) brincar é um monte de
crianças pudessem concretizar através de um coisas que as crianças fazem: pular corda, cor-
boneco, denominado Triarx, a concepção que rer, brincar de pega-pega, de corre-cotia...”
tinham sobre o brincar.
Nesse momento, além das verbalizações É importante lembrar que é impossível obri-
das crianças, foram utilizados os conteúdos gar a criança a brincar. A eleição da ação é
dos diários confeccionados por elas, nos quais essencial, e ela está diretamente ligada aos sen-
havia registros que representavam os sentimen- timentos, às atitudes, aos interesses e às emo-
tos após o brincar e quando as crianças eram 23 Grifos nossos por se tratar das expressões utilizadas
impedidas de realizar a atividade. pelas crianças.
ções. A brincadeira ocorre em um plano pes- “Quando eu brinco eu fico feliz, feliz que
soal, portanto subjetivo, diferenciando-se de fico até mole.”
pessoa para pessoa. Isso explica, por exemplo, a
preferência de algumas crianças pelo esconde- “Porque ele [boneco] vai virar gente. Não
esconde ou pelo jogo de quebra-cabeça. vai ficar tão branco.”
A brincadeira é, portanto, para a criança,
uma atividade gratuita, que produz o prazer Depois de brincar, as crianças afirmaram
imediato, e a ela se associa a idéia de infância. sentir bem-estar, leveza, relaxamento, alegria e
Embora Vygotsky (1988) tenha discordado plenitude.
dessa idéia, alegando que, mesmo na simples Aproveitaram também para expressar a irri-
brincadeira, há regras que a criança precisa tação que sentem quando são impossibilitadas
162 163
observar e que nem toda brincadeira é praze- de realizá-lo. Nesse caso, expressaram senti-
rosa, os pequenos mostram, através dos benefí- mentos de tristeza, angústia, raiva, fragilidade
cios produzidos pela ação, as emoções e a ale- e até mesmo de doença.
gria que sentem em realizá-la. Assim, o brincar Também foram solicitadas a representar um
é um caminho que leva a criança a se tornar planeta caracterizado pela inexistência da ati-
adulto. Nessa perspectiva, o trabalho de Guil- vidade lúdica. Em uma demonstração clara de
lemaut, Myquel e Soulayrol (1984) mostrou que quão importante é o brincar, as crianças, inde-
ele é aprendizagem, meio de expressão, criação, pendentemente de sua capacidade de defini-lo,
imitação, representação e modo de interação. explicaram que o mundo sem o brincar pode
Nesse sentido, embora as crianças não con- se tornar um lugar apático, monótono, maçante,
seguissem definir a atividade lúdica, falaram nocivo e pouco inteligente.
sobre os benefícios provocados por ela, concor-
dando mais uma vez com as opiniões de espe- Meninos AB – “É um planeta chato. Deve
cialistas e pais. Nos depoimentos as crianças ser cinza.”
levaram em conta os aspectos físicos, cogniti-
vos e emocionais. Portanto, para elas, brincar: Meninas AB – “Lá eles não devem saber
nada, porque quando eu brinco de escolinha
“É bom para a saúde, faz ficar forte e eu aprendo muito.”
maior.”
Meninos CD – “É triste porque não tem
“Faz bem porque a gente se mexe e não fica diversão. Eu acho que eles só ficam dentro de
parado.” casa assistindo TV!”

“Faz bem para os ossos. A gente cresce e Meninas AB – “As pessoas que moram lá
fica feliz.” devem ser muito más.”

“A professora disse que quando a gente


brinca fica mais inteligente.”
6.4
Brincando com os pais
Os depoimentos das crianças confirmaram dos limites, a possibilidade de enfrentar desa-
as constatações dos pais: a maioria tem pouco fios e a aquisição de autoconfiança.
tempo e/ou pouca disposição para brincar com
os filhos. Pelos seus depoimentos ficou evidente Meninos AB – “Gosto de brincar [com meu
que as crianças se ressentem da falta dos pais, pai] porque aí eu posso ir para a rua jogar
que, como vimos, são muito importantes para bola.”
auxiliar no desenvolvimento dos pequenos.
Nessa perspectiva, também confirmando Meninas CD – “É legal porque meu tio
o observado nos depoimentos dos pais, a par- me vira de cambalhota, me ensina a andar
ceria entre os meninos e seus pais é maior. Já de bicicleta sozinha. Eu tinha medo de fazer
as meninas encontram as avós e os tios como os dois: virar cambalhota e andar de bicicleta
companheiros nas brincadeiras: sem rodinha.”

Meninos AB – “Meu pai brinca de muitas Meninos AB – “É divertido... ele me deixa
164 165
coisas: futebol, quebra-cabeça, mas eu gosto ganhar dele no videogame, aí fico com o
de brincar de videogame com ele.” número de pontos maior do que ele.”

Meninas CD – “Meu tio é mais legal que Percebem também o quanto brincar com
meu pai porque meu pai não brinca comigo.” seus pais favorece uma maior interação e inti-
midade entre eles.
Como as próprias mães já demonstraram,
são elas as que menos brincam com os filhos, Meninos CD – “É legal brincar com o meu
e isso se justifica pelos afazeres domésticos e pai, porque ele é diferente! Sabe, quando a
profissionais, e não por falta de convite. gente brinca, ele ri bastante, ele não pára de
rir! É legal ver ele rindo.”
Meninos AB – “É que meu pai chega do
trabalho e não tem tanta coisa para fazer, Mesmo as crianças que não gozam o privilé-
então ele pode jogar comigo. Minha mãe, ela gio de brincar com seus pais ou parentes pare-
tem muita coisa para fazer. Tem a janta, tem o cem saber o valor afetivo dos poucos registros
almoço...” que possuem desse tipo de vivência.

Meninas CD – “Minha mãe não tem tempo. Meninas AB – “Minha mãe não brinca
Ela é motorista, cabeleireira, manicure. Ela comigo, mas uma vez ela já brincou que era
diz que não dá para ficar brincando comigo.” a vovó das minhas filhinhas. Foi legal porque
ela ficou comigo!”
Meninas CD – “Eu chamo minha mãe para
brincar, mas ela fala que está cansada. Eu Segundo as crianças entrevistadas, dentre
chamo de novo, ela se irrita e briga comigo.” as brincadeiras mais realizadas entre pais e
filhos estão os videogames, a bola e a bicicleta,
Para as crianças, a convivência com os pais enquanto entre pais e filhas estão a bicicleta, o
é extremamente valiosa, porque acabam adqui- jogo da memória e o esconde-esconde.
rindo a sensação de liberdade e de ampliação
166 167

6.5
O brincar na rua e nos espaços públicos
A rua e os espaços públicos ou coletivos mais usufruem da rua para brincar, principal-
são pouco freqüentados por essas crianças. mente os meninos.
Portanto, elas usufruem pouco esses espaços
mais amplos, importantes para se ganhar liber- Meninos CD – “Toda tarde eu vou no cam-
dade e exercer autonomia. Os depoimentos das pinho para jogar com os meus amigos.”
crianças demonstram como elas se ressentem
pelo espaço da rua tornar-se cada vez mais A pesquisa mostrou que esse espaço é muito
inacessível. Tal situação é ainda mais visível importante para as crianças, porque oferece
entre os segmentos C e D, principalmente por- maior sensação de liberdade, permite a reali-
que os espaços que possuem para brincar são zação de travessuras, possibilita o desenvolvi-
menores. mento da criatividade e, principalmente, ofe-
rece a possibilidade de estar com os outros,
Meninos CD – “Eu não posso brincar na como se pode observar nos depoimentos que
rua porque é muito perigoso. Lá está tendo seguem:
tiroteio.”
Meninas AB – “É legal porque a mãe não
No entanto, apesar da redução dos espaços, está lá para falar se a gente pode ou não pode
as crianças dos segmentos C e D são as que fazer aquilo.”
168 169

Meninos AB – “A gente brinca de cortar a dor, balança, e lá tem a Laura, o Vinícius, o Meninas CD – “Meu pai não deixa eu descer na ausência de amigos ou irmãos, elas recorrem
pipa um do outro. Todo mundo da minha rua Caio, a Giovana. São todos meus amigos.” sozinha porque tem muito moleque grande lá.” aos brinquedos e aos animais, principalmente
usa cerol.” aos cães, para brincar.
Embora para algumas crianças a falta de De qualquer maneira, independentemente
Uma boa parcela das crianças pesquisa- espaço seja um fator limitador, para outras de onde as crianças moram, a pesquisa mostrou Meninos AB – “Quando eu estou sozi-
das – de modo especial, as meninas de todos – segmentos A e B – não é tanto assim. Porém, que, para brincar, elas fazem qualquer coisa, nho em casa, não tem ninguém para brincar
os segmentos sociais – vive em condomínios, apesar de os quintais e os espaços coletivos mas preferem que isso ocorra fora de casa. comigo, eu pego os meus carrinhos e brinco.”
conjuntos habitacionais ou casas que possuem serem agradáveis às crianças, elas também
quintais coletivos. Embora tais locais sejam têm suas ressalvas. Algumas se queixam das Meninas AB – “Fora de casa é maior, dá Meninos AB – “Eu brinco de correr com a
visivelmente menores do que a rua, dão às limitações sociais impostas geralmente pelas para brincar de bastante coisa: pega-pega, bola e meu cachorro vem para driblar.”
crianças a sensação de estar nela, porque pro- mães. Outras se ressentem do peso das restri- amarelinha. Dá para entrar todo mundo do
porcionam o prazer de conquistar autonomia, ções impostas pelo condomínio, até ressaltando prédio na brincadeira. Na minha casa não
vivenciar diferentes brincadeiras, experimen- a desconfiança e a insegurança existentes no cabe.”
tar diversas relações e, especialmente, estar em local. Para as meninas, esse problema parece
grupo. ser maior. Meninos CD – “A gente se sente bem
quando brinca na rua porque a gente junta os
Meninas CD – “O meu tem parquinho, Meninos AB – “Minha mãe não deixa jogar amigos e faz aventuras.”
quadra... A gente brinca de bolinha de sabão. bola em casa. Até no quintal ela fica brava por-
Só tem um menino que é chato, os outros são que ela fala que eu vou quebrar os vasos dela.” Meninos AB – “Dentro de casa não dá para
legais.” brincar de nada, só de videogame.”
Meninas AB – “No meu prédio não pode
Meninas AB – “No meu prédio é muito andar de bicicleta. A minha amiga foi multada Em casa, muitas crianças entrevistadas
legal! Tem um monte de brinquedo, escorrega- porque ela estava andando na garagem.” demonstram ter uma sensação de solidão. Ali,
6.6
Tempo para brincar
Segundo as afirmações das crianças, elas Como foi visto, o brincar envolve a par-
brincam muito, porém não o suficiente. Elas ticipação ativa dos pequenos, seja ela física,
não têm muita precisão para mensurar o tempo emocional, mental ou social, e isso lhes causa
de brincar de que dispõem, e suas queixas extremo prazer. Mesmo não brincando da
vão desde os impedimentos das mães até suas maneira como gostariam, as crianças mos-
necessidades básicas. traram que sempre dão um jeitinho de fazê-lo
como podem, demonstrando que existem várias
Meninos AB – “Eu brinco muito porque formas de brincar e que elas sabem disso, bus-
minha mãe sempre reclama e fala que eu já brin- cando, de maneira muito inteligente, outras
quei muito, quando me chama para jantar.” alternativas para solucionar o problema.
Benjamin (1984) mostra que, embora a
Meninos AB – “Brinco bastante, só não criança tenha uma certa liberdade em aceitar os
brinco quando eu tenho que dormir, comer, brinquedos, é certo que a maior parte deles lhe
fazer lição... Só nestes horários eu não brinco.” foi imposta, mas, graças à sua imaginação, ela o
utiliza como lhe convém em suas brincadeiras.
O tempo cronológico não oferece precisão
para qualquer tipo de avaliação sobre o período Meninas CD – “De segunda eu não posso
170 171
de brincar. No entanto, o importante para as brincar porque a gente faz faxina na minha
crianças foi o tempo que passaram brincando casa e eu tenho que ajudar minha mãe. Então
e quanto ele atendeu às suas necessidades, o pego a vassoura e fico brincando de ser
que é uma questão subjetiva, que não se pode cantora.”
mensurar. Por essa razão, as opiniões variaram
muito: algumas crianças disseram que para elas Meninas CD – “Brinquei de corrida na rua
15 minutos de brincadeira eram suficientes, enquanto ia para a igreja.”
enquanto para outras 12 horas mostraram-se
insuficientes. Meninos AB – “Eu não posso jogar video-
Sobre esse aspecto interferem outros game de dia, então eu brinco na laje sozinho
fatores, como o perfil da criança e o tipo de com meu estilingue. Fico matando rato, cobra.
brincadeira. Eu finjo que eles estão no meu quintal.”

Meninos CD – “Eu brinco bastante na Assim, para as crianças, as questões sobre


minha casa, mas eu queria brincar mais. É o que se considera espaço e momento para o
que minha mãe não deixa eu ir para a rua e brincar são muito relativas: elas conseguem
dentro da minha casa eu brinco menos porque brincar não importa quais sejam o momento
eu brinco sozinho.” e o local onde estejam. Isso, no entanto, certa-
mente não significa que desfrutam as condições
Meninos AB – “No fim de semana eu fico o ideais para potencializar o seu brincar e assim
dia inteiro jogando videogame. Só posso brincar potencializar seu desenvolvimento.
no fim de semana. (...) Eu queria acordar meia- Na falta de espaço mais amplo e de mais
noite e ficar jogando videogame a noite toda.” tempo dedicado para o brincar, o espaço da
escola e o tempo que passam lá assumem
As crianças reconheceram os limites que papéis cada vez mais importantes no brincar
têm para brincar, mas nem por isso deixavam das crianças.
de fazê-lo, aproveitando todas as oportunida-
des que tinham, usando a imaginação.
172 173

6.7
O brincar e a escola
A falta de espaços públicos e da rua como brincadeiras. Para muitos ela é vista inclusive
espaço de brincar coletivo tem feito com que como o principal local onde acontece o brin-
eles sejam substituídos pela escola. Apenas car da maneira como gostam ou como querem.
para uma parcela minoritária das crianças É interessante notar que tal percepção é ainda
entrevistadas, pertencentes a todos os segmen- maior quando se trata de crianças que têm a
tos sociais, a escola em nada favorece nem esti- casa como principal espaço para exercitar o
mula o brincar. A ausência da atividade se jus- seu brincar. Para essas crianças, as brincadei-
tifica pelas práticas tradicionais utilizadas na ras que precisam de um ambiente maior, como
instituição ou pela inadequação do espaço. pega-pega, corre-cotia, polícia-e-ladrão, ocor-
rem exclusivamente na escola em função do
Meninas CD – “Na escola a única coisa espaço e de as crianças terem mais companhei-
que a gente faz é lição. O professor só deixa a ros para brincar.
gente no recreio para lanchar, depois que lan-
cha a gente tem que voltar para a classe.” Meninos CD – “Na escola é legal porque
tem espaço e muita gente para brincar. Dá
Meninos AB – “Na minha escola não pode para brincar de coisas que a gente não brinca
nada, nem correr! Não pode correr por causa em casa – pega-pega, bola.”
dos pequenininhos. Lá tem pouco espaço.”
Meninos CD – “Jogo bola mais na qua-
Já a maioria das crianças percebeu a escola dra da escola porque só posso ir no campinho
como um local para brincar e aprender as perto de casa de vez em quando.”
Meninas AB – “Pega-pega eu brincava todo Meninas CD – “Lá [na escola] eu brinco
dia, mas agora que mudei e não posso mais ir de corre-cotia, amarelinha. Se a classe tem
para a rua só brinco na escola.” disciplina e cumpre toda a lição da semana,
na sexta a gente pode brincar na sala de
174 175
As crianças explicitaram que há diferenças brinquedos.”
entre equipamentos de uma unidade escolar
para outra. Mesmo entre as escolas privadas, Nos depoimentos de algumas crianças pode-
algumas possuem um mínimo de recursos, se observar que as brincadeiras são praticadas
porém o fato de as crianças poderem estar também nas salas de aula, como metodologia
juntas parece compensar, amenizando o efeito de trabalho.
disso sobre o brincar.
Meninos AB – “Um dia a gente dividiu a
Meninos CD – “Na minha ainda não tem classe em equipe e cada equipe tinha que fazer
quadra, a gente brinca no pátio.” um plano com os números. Depois cada um
tinha que descobrir qual era o plano do outro.
O que parece ser importante para as crian- Foi a professora que ensinou. Ela falou que
ças é o fato de a escola permitir que aprendam era uma brincadeira de usar a cabeça.”
uma variedade de brincadeiras, principalmente
em grupos, e, às vezes, com os professores. Assim, diante da nova realidade vivida
pelas crianças, a escola se mostra como um
Meninas AB – “Pular corda, vivo-ou- dos únicos espaços, se não o único, onde elas
morto, ninguém ensina. A gente vê os outros podem realizar o seu brincar mais coletivo.
brincando e aprende brincando na escola.” É nesse ponto que as instituições devem estar
alerta de modo a contribuir com os pequenos,
Meninos CD – “A professora de educação permitindo que as atividades lúdicas sejam lá
física ensina muitas brincadeiras, eu já aprendi praticadas não apenas como recursos metodo-
pega-pega, corrente e pique-bandeira.” lógicos, mas também como forma de prazer, ou
seja, que haja uma livre escolha do brincar por
O depoimento a seguir mostra o grande parte dos pequenos, o que, certamente, contri-
apelo que o brincar na escola tem para as crian- buirá para o maior desenvolvimento deles.
ças e o fato de alguns professores reconhece-
rem esse apelo.
6.8
O brincar e os brinquedos
Como as crianças gostam de brincar, para Meninos CD – “Quando eu não quero brin-
elas vale a pena a atividade com ou sem brin- car com os meus carrinhos, brinco de aven-
quedos: todas são boas. tura: subo no beliche do meu irmão e pulo no
colchonete.”
Meninas AB – “É difícil não gostar de
alguma brincadeira.” Esse depoimento mostra que o fato de o brin-
quedo não estar presente em algumas situações
Elas levam em consideração o ambiente, de brincadeira não significa que ele não esteja
os amigos, os estímulos e os recursos. Há, no sendo usado. Na realidade ele tem um papel
entanto, uma variação em relação às preferên- importante, especialmente quando as crianças
cias de brincadeira, e isso ocorre em função brincam sozinhas.
do sexo das crianças. Há brincadeiras mais
de meninas, como casinha, escolinha, boneca, Meninas CD – “Brinco com brinquedo só
jogos imaginários, lojinha, modelo e cabelei- quando estou sozinha.”
reira. Outras são preferidas pelos meninos,
como, por exemplo, futebol, pipa, bolinha de Segundo Bandet e Sarazanas (1972), durante
176 177
gude, carrinho, dinossauros, “Mega Man”, muito tempo o brinquedo foi visto como uma
videogame e luta. bugiganga, isto é, um objeto sem nenhum valor.
Tais divisões não são rígidas, pois há crian- Todavia, nos últimos anos, médicos, psicólo-
ças que realizam, e muito bem, as brincadeiras gos, pedagogos, artistas plásticos, sociólogos,
do sexo oposto. Na realidade, o que vale para educadores e até mesmo pais têm se interes-
elas é brincar. sado pelo papel que o brinquedo desempenha
na vida das crianças.
Meninos AB – “Quando eu vou para a casa Até que ponto as brincadeiras e os brinque-
da minha avó, eu brinco de escolinha, porque dos se encontram ligados indissoluvelmente?
as minhas primas só brincam disso! Elas não Já vimos como algumas brincadeiras infan-
querem brincar de outra coisa.” tis se realizam independentemente de haver ou
não brinquedos. O que importa, isso sim, são
Meninas CD – “Videogame não é só para os companheiros, o espaço e a alegria de poder
menino, meninas também jogam. Mas eu não compartilhar, discutir e criar as regras para a
gosto muito, só jogo se não tiver outra coisa ação. A dança, o canto, a representação de his-
para brincar.” tórias, entre outras coisas, são atividades que
prescindem de brinquedos. Além disso, o que
Além das brincadeiras citadas, há outras é brinquedo para uns não é para outros. Por
que constituem o repertório tanto dos meninos exemplo, uma boneca pode ser objeto de uma
quanto das meninas, como, por exemplo, pega- coleção ou enfeite, assim como alguns veícu-
pega, corrente, americano, pega-boi, esconde- los podem ser protótipos de carros maiores. O
esconde, duro-ou-mole, gato-mia, queimada, brinquedo traduz o universo real ou imaginário
vôlei, alerta, polícia-e-ladrão, amarelinha, pular da criança e, por essa razão, acaba sendo fonte
corda, peteca, bolinha de sabão, batata-quente, da brincadeira.
bicicleta, patinete. Pelos depoimentos obtidos, Os depoimentos das crianças confirmam os
pode-se notar que, em conjunto, as brincadeiras estudos de Benjamin (1984). Para ele, embora
sem brinquedos acabam sendo tão divertidas a maior parte dos brinquedos seja imposta aos
quanto as demais. Por exemplo: pequenos e eles tenham pouca liberdade para
aceitá-los ou não, graças à sua imaginação eles Apesar disso, alguns estudiosos da matéria, parecem não fazer parte de seus acervos de
utilizam esses objetos como lhes convém nas como Brougère (1992), mostram que o brin- brinquedos, pois as crianças reclamaram que,
suas brincadeiras. quedo é introduzido pela família, dentro de para realizá-los, necessitavam de parceiros. E
uma esfera de consumo, ou seja, em geral é ofe- isso é mais difícil nos dias de hoje, por tudo o
Meninos AB – “Eu não posso jogar video- recido às crianças sem que sintam sua necessi- que foi demonstrado ao longo deste trabalho.
game de dia, então eu brinco na laje sozinho dade ou o peçam.
com meu estilingue. Fico matando rato, cobra. Essa variedade de objetos de diversas cate- Meninas AB – “Eu não tenho porque pre-
Eu finjo que eles estão no meu quintal.” gorias (brinquedos) é relativamente recente, e cisa de gente para jogar.”
eles ficam à disposição dos pequenos sob o pre-
Estando o jogo e a brincadeira presentes texto do prazer. Entre as crianças mais “vivas” ou mais
em todas as sociedades, não é de estranhar que Todavia, do ponto de vista da criança, o brin- “ativas”, a bicicleta, apesar de muitas crianças
estivessem presentes em todos os tempos. No quedo assume um papel privilegiado quando afirmarem não ter uma nem saber andar, se
entanto, a experiência dos adultos com relação seu uso é livre, sem interferência do adulto, colocava como o brinquedo preferido. O depoi-
aos brinquedos é bem diferente daquela reali- ocasião em que ela pode explorar o mundo. mento das crianças mostrou as restrições sofri-
zada pelas crianças. Muitas vezes elas insistem Eles transmitem imagens da nossa cultura e da das pelo brincar:
tanto na compra de um brinquedo que, mesmo própria cultura da infância.
que o critiquem, os pais acabam comprando. Porém, a necessidade de consumo pela Meninas AB – “Eu não aprendi porque não
Brougère (2004) mostrou que, nos últimos criança não se origina de um desejo, mas da posso ter. É que no meu prédio não pode andar.”
30 anos, o brinquedo se modificou tanto do representação que o adulto faz dela e de suas
ponto de vista da matéria-prima – deixando a necessidades. O brinquedo não é apenas um Os brinquedos destinados atualmente às
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madeira para trás e dando lugar ao plástico – elemento conservador das tradições, ele projeta crianças produzem novas representações e o
quanto em relação às suas características, que é sobre as crianças novas modas, novos modelos. desejo de ser outra pessoa, particularmente o
o caso do aparecimento dos jogos eletrônicos. As crianças pesquisadas, em geral, utili- adulto, o que já foi possível observar na pes-
Eles possuem, no entanto, traços culturais zavam brinquedos estruturados (prontos e de quisa quando os pais e os especialistas alerta-
específicos, porque estão inseridos em um sis- loja), em vez de brinquedos inventados e feitos ram para o processo de “adultização”. Em par-
tema social no qual as novas tecnologias estão por elas mesmas em casa. ticular, entre as meninas, a moda apresentada
presentes e suportam funções que determinam A prevalência do uso de brinquedos estru- pelos brinquedos provoca o gosto pelo con-
a sua razão de ser. turados em relação aos confeccionados pela sumo de novos modelos mais relacionados ao
própria criança se justifica, entre outras coi- processo de coleção do que à necessidade que
As mudanças estão ligadas às transforma- sas, pela ausência dos pais nas brincadeiras de elas têm de brincar. Isso fica explicitado pela
ções que o mundo conheceu; o brinquedo as seus filhos, pois os primeiros brinquedos sur- quantidade de bonecas do mesmo tipo que elas
reflete e também permite ter acesso a elas. O giram para que as mães interagissem com suas têm que diferem uma da outra apenas pelo traje
brinquedo não é um objeto de um mundo pre- crianças. utilizado.
servado do jardim-de-infância. (...) E isso por- Entre os meninos, as preferências incidem
que o jardim-de-infância nunca foi mais do que nos videogames, nos robôs, nos carrinhos e nos Meninas AB – “Eu tenho mais de 20 bone-
uma representação nostálgica da própria infân- monstros. Isso confirma o trabalho de Brougère cas, além das Pollys e das Barbies.”
cia produzida pelos adultos. As crianças vivem (1992), que mostrou que, para os garotos, ainda
de modo diverso conforme a época, a cultura são preferidos os brinquedos que estimulam Nesse caso, foi possível observar que não
e a classe social. Elas não são excluídas, mas brincadeiras de luta e de guerra. Embora a pipa vale apenas a quantidade das bonecas, mas a
o estatuto, o lugar delas é construído de modo tenha aparecido nos depoimentos, diferente- sua marca.
diferente de acordo com o lugar e o momento mente do que ocorreu em outras épocas, ela era
(BROUGÈRE, 2004, p. 14). utilizada por uma minoria de crianças. Meninas CD – “Tenho duas bonecas: a Bei-
Já entre as meninas a escolha recaiu sobre os jinho e a Karina.”
Sobre esse aspecto, a pesquisa mostrou que bichos de pelúcia e os diversos tipos de boneca.
os brinquedos ainda cumprem um importante A escolha das pelúcias, por exemplo, está muito Logo, tanto pela quantidade de objetos,
papel, especialmente quando as crianças brin- próxima do brincar de boneca, quando as quanto pela sua qualidade, o tipo de brinquedo
cam sozinhas, embora elas consigam fazê-lo crianças assumem diferentes papéis. tido pelas crianças explicitava, também, entre
sem eles. Os jogos, na modalidade de jogos de regras, elas, a distância entre as classes sociais. Igual-
mente em relação ao tipo de brinquedo de que observa-se que o valor dos brinquedos é muito presenteá-las, daí o fato de estes serem encon- foi o fato de os brinquedos representarem para
as crianças dispunham, a classe social à qual mais atribuído ao número de objetos que as trados entre os diversos segmentos sociais, as crianças pesquisadas um mediador capaz
elas pertencem determinava o local onde eram crianças possuem e às marcas que eles apresen- variando em relação à matéria-prima, ao tama- de incluí-las no grupo, em particular para as
guardados tais objetos. tam do que à necessidade que as crianças têm nho, aos novos lançamentos e, principalmente, meninas.
de brincar com eles. aos preços.
Meninos AB – “No meu quarto tem muito Com a industrialização do brinquedo, apa- A pesquisa mostrou que as crianças, mesmo Meninas CD – “Eu quero uma Stephany
brinquedo. Na sala de jogos tem mais ainda. rece sua subordinação ao dinheiro. A bola, a tendo um grande número de brinquedos, não nova para brincar com minhas amigas. Todas
Eu tenho uma sala só para brincar.” boneca, o carrinho são, a exemplo de outros brincam muito com eles. elas têm!”
brinquedos, elementos universais, presen-
Já entre as crianças dos segmentos C e D tes ao longo do tempo em diferentes culturas. Meninos AB – “Tenho 103 dinossauros. (...) Com exceção, em alguns casos, do video-
observou-se uma dificuldade em guardar os Quando, porém, transformam-se em objetos Não brinco mais com eles, já enjoei. Agora só game, as crianças não sentem um controle dos
180 181
brinquedos pela falta de espaço. Quando havia industrializados e comercializáveis, o uso e a coleciono.” pais sobre algum brinquedo ou brincadeira
a possibilidade de fazê-lo, isso ocorria como se posse do brinquedo passam a depender do fato específica.
fosse um jogo de encaixes, fazendo com que os de se ter ou não dinheiro para comprá-lo. Não Meninas AB – “Todo mundo tem a Polly,
objetos não ficassem acessíveis à criança. basta o brinquedo ser um elemento universal. está na moda! Eu já tenho duas! (...) Está na Menino AB – “Meu pai e minha mãe não
Pela forma como os brinquedos estavam No momento em que ele é fabricado e anun- moda porque é um brinquedo novo que passa gostam que eu jogue... Só videogame, que não
nas fotos que as crianças tiraram e pelos depoi- ciado a um determinado preço, o acesso a ele na TV.” posso brincar toda hora.”
mentos, foi possível perceber a maneira como fica restrito às classes sociais que podem dispor
os brinquedos eram considerados pela maio- desse dinheiro para adquiri-lo (SALLES OLI- Meninas AB – “Meu pai briga comigo por- Meninas CD – “Posso brincar de tudo, só
ria delas: apenas como objetos de consumo VEIRA, 1984, p. 35). que diz que eu tenho muito brinquedo! Mas a não posso fazer muita bagunça.”
descartáveis. Hoje, portanto, quase sempre o brinquedo gente gosta!”
De acordo com os depoimentos, a falta de é um objeto de consumo que reflete a classe Meninos CD – “Só não posso ir para a rua
interesse dos pequenos por seus brinquedos se social do seu consumidor. Nem sempre a sua Mais uma vez foi possível observar o apelo sozinho, o resto eu posso tudo, ficar quanto
manifestava pela sua ausência nas brincadei- aquisição está associada à necessidade. ao consumo de brinquedos veiculados pela tele- quiser no videogame!”
ras, na maneira como estavam dispostos em Produzido e veiculado por um sistema eco- visão, o que faz com que as crianças das classes
seu quarto ou nos locais onde permaneciam nômico em que a mídia possui um papel funda- C e D não estejam imunes a ele. Tal situação Os brinquedos, portanto, nunca morreram
guardados, no “trabalho” que dava para terem mental, o brinquedo põe a criança em contato acabou se mostrando frustrante, pois as crian- e nunca morrerão, pois basta um desejo de
acesso a eles e, até mesmo, pela postura severa com um objeto que, segundo Brougère (1992), ças terminam por brigar com os pais por não criança para que eles sejam ressuscitados sob
de algumas mães com relação à conservação e tem funções e conteúdos dominados pela ima- ter os brinquedos solicitados. uma nova versão.
à organização dos objetos. gem apresentada na mídia. Alguns oferecem a Hoje eles são objetos industrializados, que
possibilidade de simulações, outros organizam Meninas CD – “Eu quero uma Barbie. Meu utilizam a cultura globalizada, sem a qual esta-
Meninos AB – “Eu não gosto de pegar os as funções, mas todos propõem a representação pai sempre fala que vai comprar, mas nunca riam desprovidos de sentido. É uma maneira
hominhos porque depois tem que arrumar.” do mundo. É, então, por meio da representação compra!” de a sociedade elaborar sua imagem de forma
do real que o brinquedo produz nas crianças adaptada e destinada à infância.
Meninos CD – “Minha mãe me arregaça se um universo imaginário, autônomo e singular, Meninos CD – “Minha mãe não cumpre o
eu quebro ou deixo jogados os brinquedos. No a imagem do desejável. que ela fala! Ela diz que ia dar um carrinho
videogame eu não bagunço nada.” Observa-se que as crianças, então, ganham de controle remoto e até hoje não deu!”
brinquedos antes mesmo que os peçam, pois os
Atualmente, entre os segmentos A e B, adultos os compram todas as vezes que desejam Outra questão que se evidenciou na pesquisa
182 183

6.9
Considerações finais das crianças
Ao final da interação com as crianças atra- Eyer, Hirsh-Pasek e Gilinkoff mostraram
vés dos diários e das discussões, solicitou-se que “o brincar24 representa para a primeira
que elas enviassem uma mensagem para os infância o que a gasolina é para o carro” (2006,
adultos para que eles pudessem entender melhor p. 244), portanto, ele é o combustível para todas
a importância do brincar para elas. Todos os as atividades mentais, físicas, sociais e emocio-
recados produzidos foram dirigidos aos pais ou nais das crianças.
aos professores e todos se referiram ao fato de A investigação mostrou que as próprias
deixá-las brincar mais e de maneira mais livre. crianças fazem um apelo para brincar, pois
Os depoimentos obtidos mostram, na visão para elas a brincadeira é a chave do aprendi-
dos pequenos, um pouco dessa necessidade que zado e da felicidade.
eles têm de brincar no mundo de hoje:
“Pai e mãe, por favor, deixem as crian-
Meninos CD – “Pais, pára [sic] de bri- ças brincar. Senão vamos ficar tristes. Somos
gar com a gente e deixa a gente sair para crianças e não adultos.”
brincar.”
“Toda criança tem direito de brincar.”
Meninos AB – “Professores, a gente quer
brincar mais na escola.” “Brincar é importante pra gente, tá? Vê se
deixa nós [sic] brincar.”
Meninas AB – “Pais, por favor, deixa [sic]
a gente brincar quando quiser!” 24 Grifo nosso.
7
O BRINCAR NO BRASIL:
A PESQUISA QUANTITATIVA

184 185
186 187

7.1
A metodologia da pesquisa quantitativa
Foi observado, na primeira parte do traba- de diversos fatores e que tal atividade, por sua
lho, que o brincar é um tema importante que vez, influencia inúmeras dimensões da vida da
precisa ser amplamente discutido e que não criança, como, por exemplo, o desenvolvimento
conta com nenhum tipo de medida ou projeto físico e mental, a aprendizagem, a socialização
político de âmbito nacional. Constatou-se, e a afetividade. Vygotsky (1988; 1999) já enfati-
durante todo este trabalho, a falta de informa- zava as relações estabelecidas entre as crianças
ções mais precisas sobre a perspectiva dos pais e o ambiente que as cerca, mostrando a rele-
em relação ao assunto, apesar de eles serem vância que assumem no desenvolvimento das
considerados influenciadores relevantes sobre o funções mentais superiores. Nesse âmbito, vale
brincar das crianças. a pena considerar que, enquanto os indivíduos
Nesse sentido, para potencializar o brincar estão inseridos em uma cultura, esta, por sua
no desenvolvimento infantil, a equipe de traba- vez, se multiplica em subculturas diferentes,
lho entendeu que era imprescindível mapear a que apresentam características homogêneas,
atitude dos pais brasileiros sobre essa questão. como a organização de atividades básicas, o
Para isso, pensou-se em uma pesquisa mais desempenho de papéis e os tipos de ambientes,
ampla de caráter nacional. Elaborar uma inves- entre outras coisas que poderiam ser observa-
tigação de maior abrangência neste trabalho era das durante o brincar.
muito importante, até porque, como foi exposto A primeira parte da investigação limitou-se
inicialmente, não existe um modelo de criança, exclusivamente ao levantamento de dados den-
mas muitas crianças; logo, muitas infâncias, tro da cidade de São Paulo. Nesta parte quan-
dada a diversidade de contextos apresentados titativa, o universo de trabalho foi estendido
no país. para todo o Brasil, representando-o em todas
Sabe-se que no brincar há a interferência as regiões e em todos os estratos de porte de
cidade (pequenas, médias e grandes), num total das em maior número, contemplando 80% da A segunda parte incluiu perguntas sobre
de 77 municípios. amostra, dada a sua maior convivência com os quais eram as atividades realizadas entre pais e
O universo considerado para a pesquisa filhos, enquanto os pais somam 20% dos entre- filhos, especialmente o brincar. Esses questio-
foi o de pais com filhos de idades entre 6 e 12 vistados. Essas proporções também foram pon- namentos foram feitos, num primeiro momento,
anos, porque nessa faixa etária seria possível deradas para corresponder exatamente à distri- de maneira espontânea e, depois, de forma
perceber as possíveis relações entre a brinca- buição encontrada no universo. estimulada.
deira e o desempenho escolar, pois trata-se de O trabalho de campo foi realizado por pes- Na terceira parte, levantaram-se dados com
188 189
crianças que já freqüentam a escola. Também quisadores capacitados e contratados pela Ipsos indagações estimuladas que mostrassem como
se escolheu essa faixa etária porque a equipe Public Affairs entre os dias 15 de junho e 2 de os pais viam as brincadeiras de suas crianças.
de trabalho partiu da premissa de que, nessa julho de 2006, tendo durado 18 dias. Buscava-se entender os hábitos das brincadei-
fase, diferentemente dos primeiros cinco anos Utilizou-se como procedimento metodo- ras dos filhos, como, por exemplo, quais brin-
de vida da criança, os pais já não estimulam lógico um questionário com 47 perguntas, que cadeiras eles praticavam, onde as realizavam,
tanto o brincar, apesar de essa atividade conti- não foi preenchido pelos pais, mas pelos pesqui- com quem e qual a participação deles (dos pais)
nuar sendo crucial para o desenvolvimento dos sadores, pois as respostas envolviam pontuação, nelas.
filhos. Nesse sentido, o grupo de trabalho sen- o que dificultaria a obtenção de dados por estes Finalmente, os pais foram indagados sobre
tia que havia um bom escopo para um trabalho últimos. Todas as entrevistas foram pessoais e algumas variáveis de desenvolvimento infantil
social, considerando especialmente esses pais e domiciliares. A seleção dos domicílios foi feita que pudessem caracterizar melhor as crianças,
essas crianças. através de sorteio aleatório de setores censitá- como peso e altura, sobre questões de desem-
Tanto o perfil dos pais quanto o dos filhos rios do IBGE. Os mapas digitais foram distri- penho social e emocional e sobre a forma como
foram considerados como universo a ser repre- buídos aos entrevistadores com a indicação do viam o desempenho de seus filhos na escola.
sentado. Com uma margem de erro de cerca ponto inicial e da sistemática para percorrer Os dados obtidos foram tabulados e apresen-
de 3,1%, a amostra representa um total de cada setor. tados de diversas maneiras pelo grupo de espe-
31.560.000 pais e 24.320.000 filhos. Do ponto de vista metodológico, a opção cialistas da empresa de pesquisa Ipsos Public
A amostra foi desenhada de forma despro- pelo questionário ocorreu porque ele permiti- Affairs, o que permitiu um amplo estudo do
porcional, para possibilitar leituras regionais ria a descrição de determinadas característi- assunto. A apresentação e a análise dos resul-
com bases mais robustas. Posteriormente os cas, além de medir algumas variáveis do grupo tados, antes de se constituírem em uma etapa
resultados foram ponderados para que cada social. O questionário buscava investigar qua- conclusiva, foram fruto de um processo dialó-
segmento da amostra correspondesse à exata tro tipos de informação, do ponto de vista didá- gico, ocorrido nas diversas reuniões entre todos
proporção encontrada na população brasileira. tico, que poderiam ter relação com o brincar da equipe de trabalho. Portanto, a equipe espera
Tanto para o desenho da amostra quanto para e favorecer uma discussão mais detalhada do que este estudo possa embasar novas investiga-
se estabelecer os fatores de ponderação, utili- assunto. ções sobre correlações entre a prática do brin-
zaram-se apenas dados oficiais fornecidos pelo A primeira parte consistia em uma identi- car e o desempenho escolar das crianças.
IBGE (Censo 2000 e PNAD). ficação dos sujeitos, com informações como
Os sujeitos escolhidos pertencem a todas idade, sexo, classe social, atividades exercidas,
as classes sociais. As mães foram considera- nível de escolaridade, profissão, lazer, etc.
7.2
Identificando os pais
Antes de começar a apresentação detalhada De acordo com a Tabela I, a maioria dos
sobre os dados obtidos, segue uma descrição pais, ou seja, 70,1%, tinham o primeiro grau,
específica da amostra. percentual que se apresentava maior no inte-
Os sujeitos escolhidos, ou seja, os pais, apre- rior e menor nas capitais, enquanto 21,7%1 pos-
sentavam uma média de 1,42 filho com idade suiam curso médio e 8,2%2 haviam concluido o
variando de 6 a 12 anos. Como muitos pais curso superior. A maior parte de pais com nível
tinham mais de um filho na idade determinada de escolaridade superior concentrava-se nas
pela pesquisa, foi realizado um sorteio envol- capitais.
vendo as crianças, para que nas respostas dadas Pela Tabela I pode-se observar como o dese-
eles considerassem especificamente apenas um 1 Percentual médio obtido entre os sujeitos.
dos filhos na avaliação solicitada. 2 Percentual médio obtido entre os sujeitos.

Tabela I – Dados Populacionais

190 191
Dados da PNAD para população
brasileira com 16 anos ou mais

Amostra Brincar
Pais com filhos
Total Brasil entre 6 e 12
anos

% % %

Escolaridade
Até 8.a série 68,2 69,5 70,1
Colegial 21,5 22,0 21,7
Superior ou acima 10,3 8,5 8,2
TOTAL 100 100 100

Economicamente ativo
Sim 70,0 80,1 80,3
Não 30,0 19,9 19,7
TOTAL 100 100 100

Idade do responsável
Até 29 anos 17,1 16,4 16,4
De 30 a 39 anos 24,8 47,4 46,9
40 anos ou mais 58,0 36,2 36,7
TOTAL 100 100 100
nho da amostra representou fielmente o uni- dão prazer e satisfação, era fundamental enten- vidades realizadas pelos pais que poderiam ser o oitavo lugar das atividades prazerosas reali-
verso considerado (pais com filhos entre 6 e 12 der melhor a posição relativa que a inter-relação mais compartilhadas com os filhos, além da zadas pelos pais (14%). Num outro momento
anos) no que se refere às três variáveis básicas dos pais com o(s) filho(s) ocupa no cotidiano de TV, seriam estar com a família e passear com da pesquisa, ao serem estimulados, 53% dos
de controle: escolaridade, situação de atividade atividades dos pais ligadas ao prazer e à descon- as crianças. Ficar com a família, envolvendo os pais afirmaram que brincam diariamente com
econômica e idade dos pais. tração. Também tendo como objetivo fomentar filhos, foi uma informação previamente obtida os filhos. Isso sugere que os pais brincam,
Do conjunto dessas variáveis, destaca-se a a maior valorização do brincar, era importante durante as entrevistas realizadas na primeira sim, com os filhos, mas que essa atividade não
diferença do perfil dos pais em relação à situa- mapear a agenda de prioridades dos pais para parte da pesquisa e que poderia ter alguma desempenha um papel tão relevante para eles.
ção de atividade econômica (70% de ativos na as crianças de forma geral. relação com o brincar. No entanto, de forma Outra questão abordada foi o que os sujei-
população brasileira acima de 16 anos e 80,1% Quando solicitados a mencionar esponta- espontânea, a atividade lúdica propriamente só tos consideravam importante para as crianças,
192 193
no universo em estudo). Diferença marcante de neamente as atividades que lhes proporciona- apareceu nessa parte da investigação, ocupando como se pode observar no Gráfico I.
perfil ocorre também com a idade: enquanto no vam mais prazer, as escolhidas foram aquelas
total Brasil há uma concentração de 58% com mais relaxantes, acessíveis e de postura pas-
mais de 40 anos, no universo considerado esse siva: assistir à TV (48%) e ouvir música (27%)
percentual é de cerca de 36,2%, sendo a maior (Tabela II). Evidentemente, o fato de assistir à Gráfico I – Prioridade para as Crianças
concentração de pais na faixa etária de 30 a 39 TV aparecer em primeiro lugar na lista dos pra-
anos (47,4%). zeres dos pais é um fator que pode ter influen- %
Para o grupo de trabalho, duas questões for- ciado as respostas das crianças nas entrevis-
mavam a chave para o mapeamento das atitu- tas realizadas na etapa anterior do trabalho, Melhorar a qualidade do ensino nas escolas 56

des dos pais em relação ao brincar. Conside- quando tal tipo de atividade mereceu destaque
rando a premissa de que, dada uma escolha, os especial. Ter mais segurança nas ruas e nas escolas 53

pais iriam preferir adotar atividades que lhes Os dados obtidos mostram ainda que as ati-
Ter mais acesso à saúde 51

Ter acesso a atividades complementares à


32
escola (informática, idiomas)
Tabela II – Atividades Prazerosas para os Pais
Passar mais tempo na escola 29
RESPONDENTE CLASSE SOCIAL REGIÃO
Total Pai Mãe AB C DE NO/CO NE SE SUL
% % % % % % % % % %
Ter mais áreas de lazer voltadas para crianças 26
Assistir à TV (noticiários, novelas, filmes, esportes) 48 51 46 46 45 51 52 51 47 40
Ouvir música 27 29 26 27 22 31 14 31 29 32 Ser preparada desde cedo para
26
Ficar com a família 25 26 24 20 25 27 19 36 23 17 o mercado de trabalho
Passear com os filhos 22 19 25 27 27 17 10 15 30 26
Ir à igreja/culto 19 17 22 4 17 25 28 17 16 24
Brincar mais/crianças poderem brincar 19
Praticar esportes (andar, nadar, jogar, etc.) 18 31 6 34 18 13 12 13 24 15
Passear, sair com amigos 17 17 16 14 20 15 9 18 14 29
Brincar com os filhos 14 16 13 14 17 12 2 12 20 19 Poder trabalhar legalmente mais cedo 6
Visitar a família 14 16 12 6 18 14 13 16 9 27
Ler jornais/revistas/livros 14 15 13 33 15 8 18 11 15 10
BASE 1.014 474 540 122 384 508 170 300 397 146 Base: total da amostra
Pergunta: Entre os itens que estão neste cartão, qual o(a) sr.(a). considera uma prioridade para as crianças?
Pergunta: Agora gostaria de conhecer algumas de suas atividades. Por favor, gostaria que o(a) sr.(a) me dissesse quais são as 3 atividades que lhe dão mais prazer em ordem de preferência. Total de menções em respostas múltiplas; entrevistado poderia mencionar até três respostas
Total de menções em respostas múltiplas, entrevistado poderia mencionar até três respostas Respostas estimuladas através de cartão
Respostas espontâneas
Coincidentemente com os dados obtidos nas chaves para o sucesso num mercado de trabalho e contra “Devemos deixar as crianças brincar o poder trabalhar mais cedo e empata com as tare-
entrevistas com os pais, houve por parte deles muito competitivo. máximo possível”. fas domésticas.
uma grande preocupação com a qualidade3 do Ao serem indagados sobre o assunto, 98% Como podemos observar na Tabela III Isso confirma um dos principais pontos de
ensino nas escolas, aspecto este diretamente dos pais concordaram total ou parcialmente com (abaixo), a preparação extracurricular ganha de preocupação dos pais em relação ao futuro dos
relacionado à inserção dos filhos no mercado de a frase “devemos preparar as crianças para serem todas as outras alternativas com grande van- filhos: a vida profissional e a entrada no mercado
trabalho. adultos bem-sucedidos profissionalmente” e 81% tagem. O brincar mais livre ganha apenas do de trabalho.
Os sujeitos explicitaram que sua maior priori- dos pais concordaram total ou parcialmente
dade consiste em oferecer aos filhos uma escola com a frase “o mercado de trabalho está cada
de melhor qualidade, o que ainda não está dis- vez mais competitivo e será difícil para os meus Tabela III – Avaliação de Prioridade dos Pais para seus Filhos por Contraposição (Trade-off)
ponível a todas as crianças brasileiras. Porém, filhos conseguirem um bom emprego”.
embora os pais demonstrassem se esforçar para Como se pode observar no Gráfico I, a ques-
% %

que isso acontecesse com seus filhos, foi possível tão da segurança também aparece como uma Proporcionar às crianças cursos para preparação para o
88 x 12
Fazer as crianças ajudarem nas

perceber, já na primeira parte deste trabalho, que das prioridades, precedendo a preocupação com
mercado de trabalho tarefas domésticas

nem todos conseguem atingir seus objetivos no a saúde. Como enfatizado, na etapa qualitativa Proporcionar às crianças cursos para preparação para o
x
Fazer com que as crianças

que se refere à educação formal dos pequenos. anterior, para os especialistas e os pais, a ques-
86 14
mercado de trabalho comecem a trabalhar mais jovens

Embora a educação formal seja hoje muito tão da segurança, em particular nas ruas, é vista Proporcionar às crianças cursos para preparação para o Deixar as crianças

questionada e a melhoria da qualidade dos ser- como grande impedimento para o brincar mais mercado de trabalho
73 x 27
brincar o máximo possível
194 195
viços que a escola presta à população se consti- livre de seus filhos. Deixar as crianças Fazer com que as crianças
tua em uma expectativa dos pais pertencentes às O fato de que, para os pais, passar mais brincar o máximo possível
58 x 40
comecem a trabalhar mais jovens

diversas classes sociais, sabe-se que a educação e tempo na escola e ter acesso a atividades extra-
o professor, como muito bem apontou Sacristán curriculares é de maior prioridade do que o brin-
Fazer as crianças ajudarem nas Deixar as crianças
tarefas domésticas
51 x 49
brincar o máximo possível

(2002), até podem ser substituídos do ponto de car, que aparece em penúltimo lugar na tabela,
vista da informação, mas não do ponto de vista talvez ajude a explicar a afirmação de especialis-
Fazer as crianças ajudarem nas Fazer com que as crianças
tarefas domésticas
49 x 48
comecem a trabalhar mais jovens

da função socializadora e das relações huma- tas e pais na fase qualitativa da pesquisa de que Base: total da amostra

nas. Além disso, a educação moderna tem como o tempo que as crianças têm para se dedicar ao Pergunta: Agora eu vou ler uma série de atitudes que podemos ter em relação às crianças. Para cada par de atitude que eu citar, por favor, diga-me
qual das frases o(a) sr.(a) considera a mais importante para as crianças

objetivo a obtenção de conteúdos culturais e de brincar está diminuindo.


Resposta única para cada conjunto de frases. Frases foram rodiziadas em cada questionário
Respostas estimuladas através de cartão

certas habilidades que devem estar presentes em Os aspectos que poderiam ser impedimentos
um projeto educacional. Nesse sentido, o brin- ao brincar também foram avaliados na pesquisa Aqui vale alertar para o fato de que passar pilares da educação para o futuro propostos por
car, com as suas importantes funções mentais, através da técnica de trade-off. Essa técnica mais tempo na escola e aumentar a quantidade Delors (1996) e do brincar como meio impres-
sociais e culturais, poderia servir de aliado da expõe o entrevistado a um par de argumentos, de conhecimentos dos filhos por meio de cursos cindível dessa aprendizagem. Segundo José
escola no seu projeto educacional. obrigando-o a se posicionar. Simula uma situa- extracurriculares não necessariamente os deixa- Cláudio Terra, autor de vários livros sobre ges-
Outra relação que pode ser feita a partir dos ção da vida real em que, ao ser confrontado com riam mais bem preparados para o mercado de tão do conhecimento, o paradigma da educação
dados constantes no Gráfico I – e que é seme- determinadas posições, o entrevistado precisa trabalho. mudou:
lhante ao que foi relatado pelos pais na parte optar para se posicionar ou para tomar determi- Parece que ainda existe entre os pais brasilei-
qualitativa deste trabalho – é que tanto a melho- nadas decisões. ros o paradigma da educação infantil que con- “As organizações com conceitos mais avan-
ria da qualidade do ensino quanto o tempo pas- Neste teste, o brincar foi contraposto a três sidera possível ensinar na escola (e em cursos çados de gestão estão buscando e contratando
sado na escola e o acesso às atividades comple- fatores que atuam no sentido de interferir nessa complementares) todos os conhecimentos que pessoas capazes de ir muito além da mera apli-
mentares são motivo de grande preocupação por dimensão da vida das crianças, quais sejam: 1) uma criança precisa ter para garantir a sua inser- cação de conhecimentos prévios. De forma
parte deles. Como já vimos, essas preocupações “Devemos proporcionar às crianças cursos como ção com êxito no mercado de trabalho. crescente, o que vale é a capacidade de encon-
surgiram em grande parte por serem vistas como informática e idiomas para preparação para o Hoje os maiores especialistas em educação trar a informação e expertise que se necessita,
3 A palavra qualidade possui diferentes significados, mas,
mercado de trabalho”; 2) “Devemos fazer com entendem que o processo de educação continua processar novas informações, fazer conexões
no caso da escola, ela se refere, geralmente, à excelência do que as crianças ajudem nas tarefas domésticas” ao longo da vida do indivíduo e que a educação não óbvias e colaborar de forma efetiva para a
trabalho realizado, envolvendo projeto pedagógico, com- e 3) “Devemos fazer com que as crianças come- formal na escola é uma parte desse processo, e criação do novo e para a solução de desafios não
promisso e competência dos profissionais, adequação do
ensino à realidade e às expectativas do aluno e avaliação cem a trabalhar mais jovens”. não uma finalidade. Por isso a importância do previstos” (TERRA, em entrevista às autoras,
processual. Essas afirmações foram contrapostas entre si aprender a conhecer de acordo com os quatro em 12/3/2007).
196 197

7.3
Os pais e suas atitudes em relação ao brincar das crianças
No questionário, algumas informações ver- dos pais era, portanto, permeada pelas per-
savam sobre a atitude dos pais em relação ao cepções que tinham do próprio passado, pela
brincar de seus filhos, tentando descobrir um avaliação do presente e pelas expectativas em
pouco mais sobre suas crenças, as posturas e relação ao futuro. Tal resultado é perfeitamente
as atitudes, conhecendo o passado e tentando admissível, pois, segundo Sacristán (2000),
refletir sobre o futuro. só é possível contribuir com o futuro a partir
Diante de tal observação, verificou-se que de uma reflexão sobre o presente, valendo-se
64% dos pais concordaram que precisavam do passado. Refletir sobre o futuro também é
deixar as crianças ter mais tempo para brin- impossível sem se referir ao passado e ao pre-
car. Porém, 59% deles eram de opinião de que sente, já que a partir desses alicerces são cons-
a criança que brinca muito fica sem limites. A truídas as linhas-mestras do que está por vir
maioria deles, isto é, 63%, concordou que brin- (Sacristán, 2000, p. 37).
cara mais que os filhos durante a infância e 70% Usando técnicas estatísticas multivariadas
afirmaram ainda que as crianças de sua época com os dados obtidos, foi possível mapear as
eram mais felizes do que as de agora, porque atitudes dos pais em relação a essas questões e
brincavam mais. identificar cinco segmentos de pais brasileiros,
A maneira de encarar o brincar por parte como mostra o Gráfico II, na página seguinte.
Gráfico II – Distribuição da Segmentação Atitudinal dos Pais

Segmento 3
Segmento 2
27%
10%

Segmento 1
apresentavam um certo saudosismo, conside-
19% rando que haviam tido uma infância melhor
do que a de seus filhos, e possuíam uma posi-
198 Segmento 4 199
ção neutra em relação ao brincar. Para eles, a
25%
atividade não foi muito valorizada, mas não
Segmento 5 desprezavam a sua necessidade por parte das
19% crianças.
Outro grupo (segmento 4) de pais, 25%
deles, apresentou muita preocupação com a
formação dos filhos e acreditava que as novas
Base: total da amostra gerações terão dificuldades profissionais no
futuro. Além disso, foi o que apresentou mais
Pergunta: Frases atitudinais com escala de concorda ou discorda sobre percepções a respeito do brincar, do próprio passado, expectativas em relação ao futuro, etc.
Resposta única para cada frase. Frases foram rodiziadas em cada questionário
Respostas estimuladas através da leitura das frases
saudosismo, porque considerou que sua infância
havia sido melhor do que a atual. Era contrário
a um brincar mais livre e intensivo, sobrepondo
Nessa análise, foi possível perceber que 19% crianças para a vida adulta e não estava muito à atividade uma formação mais acadêmica e a
dos pais (segmento 1) acreditavam que as crian- preocupado com o futuro. Também apresen- preparação dos filhos para o futuro, no qual não
ças devem brincar o máximo possível; eram tou maior carga negativa no que diz respeito enxergavam o valor do brincar.
mais conscientes em relação aos benefícios ao relacionamento com os filhos e foi o grupo Finalmente, os demais 19% dos sujeitos
advindos da atividade (não só a diversão); apre- que mais declarou que gostaria de ficar mais (segmento 5), a maioria pertencente aos grupos
sentavam uma postura crítica a respeito das fra- tempo com suas crianças. Demonstrou alie- C, D e E, não valorizaram o brincar das crian-
ses que impunham restrições ao brincar e não nação e desinformação sobre o brincar, não ças, pois, segundo eles, isso não melhora suas
tinham muitas preocupações em transformar as tendo consciência dos benefícios advindos dele, condições de vida e também não as prepara
crianças em adultos precoces, e sim em fazer no entanto não apresentou resistência ao tema para o futuro. Tal grupo de pais não se mos-
com que elas pudessem aproveitar a infância, brincar, acreditando que vale a pena brincar trou saudosista, o que levou os pesquisadores a
justamente em função dos benefícios trazidos por brincar. supor que eles não haviam tido uma boa infân-
por tal atividade. Alguns pais, 27% (segmento 3), acredita- cia e, portanto, não tinham brincado. Esses pais
Um segundo conjunto de pais, isto é, 10% vam que o futuro dos filhos seria bom inclusive apresentaram, ainda, um certo pessimismo com
(segmento 2), cujo maior número de partici- profissionalmente; pensavam que tal confiança relação ao futuro de seus filhos e uma preocu-
pantes (52%) pertencia ao segmento D, mani- se devia à formação para o futuro, seguindo a pação constante no que diz respeito à formação
festou pouca preocupação com a formação das lógica do “plantar hoje para colher amanhã”; das crianças.
7.4
Os benefícios do brincar
Quanto aos benefícios apresentados pelo pais entende que o brincar tem um papel impor-
brincar, predominou, tanto nas respostas espon- tante no estado emocional de suas crianças,
tâneas quanto nas estimuladas, a opinião de embora 5% da amostra pesquisada tenha afir-
que ele deixa as crianças mais felizes e alegres, mado que a brincadeira não traz nenhum benefí-
bem como as diverte (Gráfico III, abaixo). Isso cio ou que não sabe dos benefícios que essa ativi-
demonstra que, intuitivamente, a maioria dos dade proporciona.

Gráfico III – Benefícios do Brincar


Espontâneo Estimulado

51
Deixa as crianças mais felizes
78
34
Diverte 64
31
Ensina as crianças a conviver e a se relacionar 58
21
Ocupa o tempo das crianças 45
20
Deixa as crianças mais tranqüilas/calmas 49

Torna as crianças mais inteligentes 18


48

Desenvolve a criatividade 18
200 50 201
17
Desenvolve habilidades físicas 46
16
Desenvolve o lado emocional 41
14
Ajuda no aprendizado 47
13
Ensina a respeitar as regras 43

Base: total da amostra


Pergunta A: Na sua opinião qual o principal benefício que brincar traz para as crianças?
Pergunta B: Agora, olhando para esse cartão, quais dessas opções o(a) sr.(a) acha que brincar traz para as crianças?
Respostas múltiplas, tanto para a pergunta espontânea quanto para a estimulada
Respostas espontâneas na A e estimuladas através de cartão na B

Em relação aos benefícios do brincar que entre os pais os benefícios que o brincar traz para
estão claramente ligados ao desenvolvimento o desenvolvimento das crianças. Quando estimu-
infantil, é interessante observar que o que apa- lados, o reconhecimento dos benefícios tem um
rece mais no gráfico como respostas espontâneas aumento significativo.
(31%) e como alternativas estimuladas (58%) está Vale ressaltar que, conforme já discutido, os
relacionado à socialização das crianças. Con- pais podem exercer um papel muito importante
forme visto na pesquisa qualitativa, esse aspecto no brincar de seus filhos. Ao estimular as crian-
parece ser um dos mais ameaçados, uma vez ças durante a brincadeira, os pais tornam-se
que as crianças estão com relativamente pouco mediadores do processo de construção do conhe-
espaço e oportunidades seguras para brincar em cimento, fazendo com que elas passem de um
grupo. estágio de desenvolvimento para outro. Também,
Também é notável que, com exceção dos ao brincar com os pais, as crianças podem se
benefícios relacionados à socialização das crian- beneficiar de uma sensação de maior segurança
ças, menos de 1/5 dos pais mencionou de forma e liberdade para exploração, além de se sentirem
espontânea os demais benefícios para o desen- mais próximas e mais bem compreendidas, o que
volvimento infantil, com esse número subindo pode contribuir para o melhor desenvolvimento
para quase metade dos pais quando estimulados. de sua auto-estima e independência.
Esse fato mostra a importância de se divulgar
7.5
O brincar das crianças brasileiras
A equipe de trabalho considerou que um dos freqüente, os companheiros e o incentivo ou
primeiros desafios para se entender e analisar o não dos pais às brincadeiras.
brincar da criança brasileira consiste no levan- Dada a grande multiplicidade de informa-
tamento e na preparação de uma base de dados ções obtidas, nem todas serão apresentadas
detalhando minuciosamente esse brincar na neste relatório. Segue um resumo das informa-
percepção dos pais. ções consideradas mais relevantes. Primeiro
202 203
A definição das brincadeiras investigadas na serão apresentados os dados referentes aos
pesquisa quantitativa considerou as seguintes lugares onde as crianças brincam, seguidos de
dimensões: suas características, definidas em uma exploração dos dados referentes às brinca-
função do tempo e do espaço disponíveis; quais deiras mais freqüentes das crianças e seus com-
os participantes nas brincadeiras dos filhos e se panheiros nessas atividades.
elas aconteciam isoladamente ou em grupo (e,
se em grupo, com quem). Onde as crianças brincam
A partir das análises dessas dimensões, che-
gou-se a um total de 35 atividades lúdicas para As Tabelas IV e V detalham onde as crian-
serem incluídas na pesquisa. Em uma primeira ças brasileiras mais brincam e quais desses
etapa, essas ações foram detalhadas levando- lugares são considerados adequados para brin-
se em consideração o costume, a freqüência, car pelos pais.
o tempo médio para a realização, o local mais

Tabela IV – Local Onde as Crianças mais Brincam

SEXO DA CRIANÇA IDADE DA CRIANÇA REGIÃO CLASSE SOCIAL


Total
Total
6a8 9 a 12 NO/ 1.a Menção
Menino Menina NE SE SUL AB C DE
anos anos CO
% % % % % % % % % % % % %
Quintal da casa 56 59 54 60 54 62 43 63 61 52 53 60 26
No quarto dele(a) 49 40 58 47 50 36 42 53 68 58 59 39 22
Escola 46 47 46 50 44 43 55 41 47 53 43 48 7
Rua 40 48 32 35 44 39 51 38 24 19 36 48 18
Sala 33 28 38 35 31 32 36 29 39 28 33 34 10
Casa de amigos/parentes 32 29 35 30 33 35 29 35 24 22 31 35 7
Praça pública/parque perto de casa 9 11 8 9 10 6 8 13 6 18 11 6 2
Outros espaços da casa 8 7 10 8 8 8 8 7 12 7 11 7 3
Área de serviço da casa 5 5 5 6 5 9 8 3 1 4 6 5 2
Área de lazer ou playground do prédio/conjunto habitacional 3 5 1 4 3 1 3 4 3 15 2 1 1
BASE 1.014 504 510 427 587 170 300 397 146 122 384 508 1.014

Pergunta: Em que lugar o seu filho mais brinca?


Total de menções em respostas múltiplas, entrevistado poderia mencionar até três respostas
Respostas espontâneas
Tabela V – Percentual de Pais que Consideram cada Local como
As Tabelas VI e VII apresentam os princi- Outro item relevante é o uso mais intensivo
Adequado para Crianças Brincarem
pais dados levantados neste mapeamento. Para do videogame por crianças das classes A e B
SEXO DA CRIANÇA IDADE DA CRIANÇA REGIÃO CLASSE SOCIAL
cada uma das 35 brincadeiras pesquisadas, (61%), percentual que decresce nas classes C
Total
9 a 12 NO/
a Tabela VI, na próxima página, mostra se as (43%) e D e E (29%).
crianças brincam dela, descreve quem são essas Em relação às brincadeiras mais tradicio-
Menino Menina 6 a 8 anos NE SE SUL AB C DE
anos CO
% % % % % % % % % % % %
Quintal da casa 88 90 86 88 89 95 83 89 87 90 87 88
crianças (sexo, idade, região e classe social) e nais, comumente praticadas na rua, tem-se uma
constata a opinião dos pais sobre a atividade. incidência maior entre as classes C, D e E. Brin-
Escola 84 86 82 91 79 75 85 83 97 90 85 82
Num quarto de brincar 76 74 79 77 76 69 79 75 82 90 77 72

cadeiras como pega-pega e esconde-esconde


Num cantinho de brincar (cantinho da sala, por exemplo) 76 72 79 76 75 78 69 75 88 76 76 75
No quarto dele(a) 75 73 77 73 76 58 72 80 84 92 79 68
Brinquedoteca
Clube
74
73
77
76
71
71
76
76
72
72
58
68
69
70
78
74
91
85
93
94
75
74
69
68
Variações regionais são praticadas por 69% das crianças das classes
Praça pública/parque perto de casa 71 70 71 70 71 69 81 67 61 74 67 73
D e E, por 65% das da classe C e por 54% das
Apesar de algumas das variações importan- das classes A e B. Pular corda, brincar de ama-
Área de lazer ou playground do prédio/conjunto habitacional 69 71 68 72 67 55 75 68 77 81 68 67
Sala 68 65 70 69 67 67 59 72 74 68 67 68

tes na Tabela VI estarem ligadas às diferenças relinha e bambolê são atividades praticadas
Outros espaços da casa 63 60 67 62 64 62 60 63 74 72 61 63
Casa de amigos/parentes 62 62 63 62 62 44 57 71 70 72 61 61

de distribuição de renda entre as regiões, como, por 48% das crianças das classes D e E, 41%
Área de serviço da casa 38 41 36 38 39 51 53 22 38 17 36 45
Rua 31 34 29 31 32 24 44 26 28 26 27 36
Cozinha
BASE
9
1.014
8
504
10
510
10
427
8
587
13
170
10
300
6
397
11
146
7
122
8
384
10
508
por exemplo, a freqüência com que as crian- das da classe C e 36% das das classes A e B.
Pergunta: Independentemente de ele(a) brincar ou não, o(a) sr.(a) considera esse espaço adequado para brincar? ças brincam com novas tecnologias, a maioria Bolinha de gude e pipa são outras brincadeiras
dessas variações reflete a diversidade cultural cuja ocorrência acontece em maior proporção
Total de menções em respostas múltiplas. Para cada local o pai/mãe respondia sim ou não sobre a adequação do local (tabela traz o percentual de sim)
Respostas estimuladas. Leituras da lista e solicitação de sim ou não para cada local

regional no Brasil. nas classes C, D e E em relação às classes A e


Chama bastante atenção o fato de, em pri- Apesar de terem citado a casa como o local Observa-se que brincar com coleções é uma B. Isso mostra que a transmissão entre gerações
204 205
meiro lugar, só 7% dos pais mencionarem a onde as crianças mais brincam, de acordo com das atividades que apresentam grande variação: das brincadeiras culturais, tradicionalmente
escola como o lugar onde os filhos mais brin- a Tabela VI, mais adiante, 79% dos pais men- 63% das crianças da região Sudeste costumam praticadas nas ruas, está ocorrendo principal-
cam quando não estimulados a responder. Esse cionaram que seus filhos brincam de andar de brincar dessas atividades, enquanto no Sul essa mente através das classes C, D e E.
número sobe para 46% quando todas as men- bicicleta, patinete, skate e afins, quando dis- proporção é de 18% (diferença de 45%). No entanto, vale ressaltar que apenas 31%
ções são consideradas, vindo atrás do quintal põem dessa oportunidade. Fica evidente na Destacam-se também as diferenças obser- dos pais (inclusive classes C, D e E) vêem a
da casa e do quarto dele/dela, com 56% e 49%, referida tabela que ambos, meninos e meninas, vadas em: brincar em parques, espaços públi- rua como um lugar adequado para brincar, o
respectivamente. Na parte qualitativa da pes- praticam essa atividade e que o fazem de forma cos – 69% no Nordeste e 38% no Norte/Centro- que coloca mais em risco a continuação dessas
quisa, observa-se que, para as crianças, a escola coletiva. Na pesquisa qualitativa, observou-se Oeste; brincar com animal de estimação – 59% brincadeiras tradicionais.
ocupa um lugar privilegiado entre os locais que esse tipo de brincadeira é altamente valo- no Sudeste e 35% no Norte/Centro-Oeste – e
onde elas mais brincam e gostam de brincar. rizado pelas crianças, mas, apesar de ser consi- brincar de montar quebra-cabeça – hábito mais Variações por sexo das crianças
É interessante notar que a escola se destaca derado bom para os filhos por 81% dos pais, só comum entre as crianças do Sudeste (52%) e
em segundo lugar nos espaços que os pais con- 66% mencionaram que incentivam a sua prá- menos comum no Norte/Centro-Oeste (28%). Não é surpreendente que os dados mostrem
sideram adequados para o brincar, com 84% tica. Talvez essa atividade não aconteça mais que, no geral, há diferenças significativas entre
afirmando sua adequação. Isso sugere que tal- freqüentemente e não seja incentivada pelos Classe econômica o brincar dos meninos e das meninas e que
vez haja uma oportunidade para considerar pais por ser praticada quase sempre na rua essas diferenças acontecem considerando-se
como inserir melhor o brincar na escola para (74% das vezes), um lugar que, conforme visto A prática das diversas brincadeiras por cada tanto as brincadeiras tradicionais como aque-
potencializar o desenvolvimento infantil. anteriormente, eles consideram inadequado e classe econômica traz embutidos os condicio- las ligadas às novas tecnologias. Por exemplo,
Semelhante ao que foi enfatizado pelos espe- perigoso para brincar. nantes econômicos e alguns aspectos atitudi- enquanto apenas 34% dos meninos brincam
cialistas e pelos pais na fase qualitativa da pes- nais importantes. No geral, as atividades apre- com bonecos, bonecas e homenzinhos, 79% das
quisa, poucos pais (31%) acham a rua um espaço De que as crianças brincam sentam as mesmas freqüências entre os diversos meninas escolheram essas brincadeiras como
adequado para brincar, apesar de 18% deles terem segmentos. as suas prediletas; e, enquanto apenas 26%
dito que, em primeiro lugar, a rua é o lugar onde Uma das ambições do projeto de pesquisa era Vale pontuar aquelas que são mais pratica- delas jogam videogames, 51% deles elegeram
o(a) seu(sua) filho(a) mais brinca e 40% dos pais realizar um grande mapeamento nacional das das pelas classes de maior poder aquisitivo e essa atividade como sua preferida. Mais uma
terem falado que seus filhos brincam na rua (total brincadeiras e hábitos de brincar das crianças conseqüentemente ligadas à possibilidade de vez pode-se notar a influência cultural sobre as
de menções). No entanto, ao serem questionados brasileiras. A equipe de trabalho entendia que posse. O uso do computador, por exemplo, é brincadeiras nos dias de hoje, que reflete, além
sobre as características dos lugares onde os filhos isso poderia contribuir de forma considerável um grande destaque. Enquanto 60% das crian- de outros aspectos, os papéis sociais ocupados
brincam, 81% dos pais falaram que a rua é um para o desenvolvimento de ações relacionadas ças das classes A e B o utilizam, apenas 16% o por cada um dentro da sociedade.
lugar perigoso para brincar. ao brincar ao servir como base de referência. fazem na classe C e 6% nas classes D e E.
Tabela VI – Mapeamento do que as Crianças Brincam e Opinião dos Pais sobre Essas Atividades

ACHA QUE É BOM ACHA


OU RUIM
QUEPARA
É BOM
OSOU
FILHOS?
RUIM PARA OS FILHOS? INCENTIVA? INCENTIVA?
SEXO DA CRIANÇASEXO DA CRIANÇA
IDADE DA CRIANÇA
IDADE DA CRIANÇA
REGIÃO REGIÃO
REGIÃO REGIÃO CLASSE SOCIAL CLASSE SOCIAL
% das crianças % das crianças
Estou Estou
que brincam que brincam Nem bom nem Nem bom nem Neutro/ Neutro/
Brincadeira/atividade
Brincadeira/atividade Menino Menina
Menino 6 aMenina
8 anos 96a a12
8 anos NO/CO
9 a 12 anos NE NO/CO SE NE SUL SE AB SUL C AB DE C Bom
DE RuimBom ruimRuim ruim
NS/NR NS/NR
Sim Não Sim Tanto faz
Não Tanto
NS/NR faz NS/NR
Assistir a TV/vídeos/DVDs
Assistir a em
TV/vídeos/DVDs
casa em casa 97 9797 9897 98
98 97
98 99 97 99 99 96 99 97 96 100 97 98 100 97 98 84
97 10 84 6 10 6 66 23 66 11 23 0 11 0
Brincar com animalBrincar
de estimação
com animal de estimação 49 4952 4752 46
47 52
46 35 52 50 35 59 50 40 59 57 40 52 57 46 52 73
46 20 73 7 20 0 7 56 0 33 56 11 33 0 11 0
Cantar/ouvir música
Cantar/ouvir música 81 8174 8874 77
88 84
77 84 84 82 84 85 82 63 85 82 63 77 82 84 77 93
84 3 93 5 3 0 5 78 0 13 78 8 13 0 8 0
Desenhar Desenhar 81 8175 8775 85
87 78
85 81 78 82 81 82 82 74 82 75 74 82 75 81 82 95
81 2 95 3 2 3 83 11 83 6 11 6
Brincar com boneca,
Brincar
boneco,
comhomenzinhos
boneca, boneco,
e acessórios
homenzinhos e acessórios 57 5734 7934 64
79 51
64 52 51 62 52 58 62 47 58 49 47 57 49 58 57 74
58 17 74 8 17 0 8 58 0 28 58 13 28 0 13 0
Dançar Dançar 57 5740 7440 57
74 58
57 52 58 57 52 62 57 50 62 57 50 55 57 59 55 80
59 11 80 8 11 0 8 63 0 21 63 15 21 0 15 0
Brincar com coleções
Brincar
(cartas
comdecoleções
jogadores
(cartas
de futebol,
de jogadores
figurinhas
de futebol, figurinhas
autocolantes, papéis
autocolantes,
de carta...)papéis de carta...) 46 4652 4052 48
40 45
48 40 45 41 40 63 41 18 63 60 18 43 60 45 43 70
45 15 70 14 15 1 14 50 1 31 50 19 31 0 19 0
Jogar videogame conectado
Jogar videogame
à TV/game
conectado
boy à TV/game boy 38 3851 2651 32
26 42
32 25 42 47 25 41 47 29 41 61 29 43 61 29 43 58
29 30 58 12 30 0 12 42 0 47 42 12 47 12
Andar de bicicleta,Andar
patinete,
de bicicleta,
skate, patins,
patinete,
carrinho
skate,
depatins,
rolimã,carrinho de rolimã,
carrinho de lombacarrinho de lomba 79 7984 7484 76
74 81
76 86 81 78 86 79 78 70 79 89 70 77 89 77 77 81
77 11 81 8 11 0 8 66 0 23 66 11 23 0 11 0
Jogar bola Jogar bola 68 6886 5086 66
50 70
66 70 70 70 70 65 70 72 65 76 72 64 76 70 64 78
70 16 78 6 16 6 64 26 64 10 26 10
Jogar bolinha de gude
Jogar bolinha de gude 38 3864 1364 44
13 34
44 18 34 46 18 38 46 46 38 28 46 36 28 42 36 52
42 38 52 9 38 1 9 38 1 49 38 12 49 1 12 1
Brincar de pega-pega,
Brincar
esconde-esconde,
de pega-pega, esconde-esconde,
polícia-e-ladrão polícia-e-ladrão 65 6563 6863 67
68 64
67 59 64 66 59 68 66 67 68 54 67 65 54 69 65 70
69 20 70 9 20 0 9 55 0 32 55 13 32 0 13 0
Ficar no computador
Ficar
– jogando
no computador
videogame,
– jogando
navegando
videogame,
na navegando na
internet, no MSN (e-mail)
internet,ou
nobate-papo
MSN (e-mail) ou bate-papo 16 1619 1419 12
14 20
12 16 20 15 16 19 15 15 19 60 15 16 60 6 16 66
6 22 66 11 22 1 11 48 1 38 48 14 38 0 14 0
Ler histórias (livros
Ler
e gibis)
histórias (livros e gibis) 59 5959 6059 47
60 68
47 69 68 61 69 58 61 47 58 67 47 55 67 61 55 94
61 2 94 4 2 4 85 8 85 7 8 0 7 0
Brincar com tinta Brincar com tinta 45 4540 5140 58
51 36
58 36 36 50 36 49 50 36 49 54 36 45 54 43 45 75
43 17 75 8 17 0 8 59 0 31 59 9 31 0 9 0
Brincar na terra/areia
Brincar na terra/areia 55 5562 4962 69
49 45
69 45 45 60 45 55 60 56 55 54 56 46 54 62 46 53
62 38 53 8 38 0 8 39 0 50 39 11 50 11
Brincar de teatrinho,
Brincar
casinha,
de teatrinho,
escolinha,casinha,
lojinha escolinha, lojinha 43 4320 6620 47
66 40
47 45 40 40 45 47 40 33 47 38 33 46 38 41 46 72
41 18 72 9 18 0 9 55 0 30 55 14 30 0 14 0
Jogar esportes que
Jogar
não esportes
seja por competição
que não seja(futebol,
por competição
vôlei...) (futebol, vôlei...)
41 4155 2655 32
26 47
32 30 47 40 30 43 40 48 43 50 48 40 50 39 40 82
39 11 82 7 11 0 7 69 0 22 69 9 22 0 9 0
Brincar com massinha
Brincar com massinha 41 4134 4834 55
48 30
55 31 30 47 31 42 47 35 42 42 35 42 42 40 42 78
40 12 78 9 12 1 9 61 1 26 61 13 26 0 13 0
Escrever histórias Escrever histórias 31 3130 3330 28
33 34
28 37 34 25 37 34 25 30 34 32 30 28 32 33 28 87
33 3 87 7 3 3 7 70 3 16 70 11 16 3 11 3
Brincar de faz-de-conta/fantasiar-se/maquiar-se
Brincar de faz-de-conta/fantasiar-se/maquiar-se 35 3516 5416 42
54 31
42 30 31 36 30 39 36 30 39 45 30 35 45 33 35 66
33 23 66 10 23 1 10 48 1 38 48 14 38 0 14 0
Contar histórias Contar histórias 49 4944 5344 53
53 46
53 59 46 41 59 53 41 40 53 49 40 45 49 52 45 89
52 5 89 6 5 6 72 17 72 11 17 11
Brincar de roda Brincar de roda 28 2816 4016 38
40 21
38 14 21 37 14 27 37 27 27 26 27 26 26 30 26 66
30 20 66 13 20 0 13 48 0 32 48 19 32 0 19 0
Tocar um instrumento
Tocar(bateria,
um instrumento
flauta, piano)
(bateria,
por flauta,
diversão/NÃO
piano) por diversão/NÃO
em aula ou lição de
emcasa
aula ou lição de casa 8 812 4 12 64 10
6 3 10 10 3 9 10 8 9 20 8 7 20 6 7 89
6 6 89 5 6 5 64 22 64 14 22 14
Soltar pipa Soltar pipa 27 2748 6 48 276 26
27 17 26 32 17 26 32 27 26 21 27 24 21 31 24 43
31 49 43 8 49 0 8 32 0 58 32 10 58 0 10 0
Brincar de montarBrincar
quebra-cabeça/brincar
de montar quebra-cabeça/brincar
de lego ou outros de lego ou outros
brinquedos de montar
brinquedos de montar 46 4648 4348 49
43 43
49 28 43 50 28 52 50 42 52 54 42 46 54 44 46 89
44 4 89 6 4 0 6 71 0 18 71 11 18 0 11 0
Pular corda/amarelinha/brincar
Pular corda/amarelinha/brincar
de bambolê de bambolê 44 4421 6721 44
67 44
44 44 44 46 44 46 46 33 46 36 33 41 36 48 41 70
48 19 70 10 19 1 10 50 1 33 50 17 33 0 17 0
Brincar com água:Brincar
numa piscina,
com água:
banheira,
numa com
piscina,
esguicho
banheira, com esguicho 48 4848 4848 52
48 45
52 41 45 52 41 54 52 32 54 71 32 45 71 45 45 70
45 20 70 11 20 0 11 51 0 35 51 14 35 0 14 0
Jogos de tabuleiroJogos
(War,deBanco
tabuleiro
Imobiliário,
(War, Banco
dama, Imobiliário,
dominó, ludo,dama, dominó, ludo,
xadrez, cartas/baralho,
xadrez,
bingo)
cartas/baralho, bingo) 34 3440 2840 29
28 37
29 31 37 38 31 33 38 31 33 48 31 35 48 30 35 72
30 20 72 7 20 0 7 54 0 35 54 11 35 0 11 0
Jogar ioiô/pião Jogar ioiô/pião 16 1624 8 24 168 16
16 4 16 27 4 13 27 14 13 17 14 13 17 18 13 58
18 28 58 13 28 1 13 41 1 44 41 15 44 0 15 0
Jogos com papel eJogos
caneta
com
(tipo
papel
stop,
e caneta
forca, jogo-da-velha)
(tipo stop, forca, jogo-da-velha)
29 2930 2930 26
29 32
26 17 32 27 17 34 27 36 34 41 36 28 41 28 28 70
28 15 70 14 15 1 14 50 1 30 50 20 30 0 20 0
Jogar pingue-pongue/pebolim
Jogar pingue-pongue/pebolim 10 1013 6 13 66 12
6 1 12 16 1 10 16 9 10 9 9 7 9 12 7 60
12 24 60 15 24 1 15 44 1 38 44 18 38 0 18 0
Brincar em parques/praças/espaços
Brincar em parques/praças/espaços
públicos (escorregar,
públicos (escorregar,
balançar, escalar) balançar, escalar) 60 6063 5663 64
56 57
64 38 57 69 38 63 69 56 63 71 56 57 71 59 57 81
59 12 81 8 12 0 8 65 0 22 65 13 22 0 13 0
Brincar na praia, rio
Brincar na praia, rio 40 4041 4041 40
40 41
40 21 41 60 21 38 60 29 38 61 29 42 61 34 42 73
34 17 73 9 17 1 9 58 1 29 58 13 29 1 13 1
Ir ao cinema, teatro,
Ir ao
shows
cinema, teatro, shows 19 1921 1821 15
18 22
15 7 22 23 7 23 23 16 23 62 16 18 62 10 18 81
10 9 81 10 9 0 10 62 0 23 62 15 23 15

Pergunta: Vou ler


Pergunta:
uma listaVoudeler
atividades
uma listaedebrincadeiras
atividades ee gostaria
brincadeiras
que mee gostaria
dissesse
que semeo seu
dissesse
filho costuma
se o seubrincar.
filho costuma
Para cada
brincar. Para cada
brincadeira, responda
brincadeira,
por favor
responda
se o sr.
poracha
favorque
se éo bom
sr. acha
paraque
o seu
é bom
filhopara
e seooseu
sr. ofilho
incentiva
e se oasr.
brincar.
o incentiva a brincar.
Total de mençõesTotal
emderespostas
mençõesmúltiplas.
em respostas múltiplas.
Respostas estimuladas.
Respostas Leituras
estimuladas.
da listaLeituras
e solicitação
da lista
deecostume
solicitação de costume
Tabela VII – As 15 Brincadeiras Realizadas mais Freqüentemente

SEXO DASEXO
CRIANÇA
DA CRIANÇA IDADE IDADE IDADE IDADE REGIÃO REGIÃO CLASSE SOCIAL
CLASSE SOCIAL COMPANHIA
COMPANHIA
% das crianças
% das crianças
que que
% das crianças
% das crianças Outras Outras
brincam brincam
+ de três+ de três
que brincam
que brincam crianças/crianças/
vezes por
vezes
semana
por semana
Brincadeira/atividade
Brincadeira/atividade Menino Menino Menina Menina6 a 8 anos
6 a 8 anos
9 a 12 anos
9 a 12 anos
NO/CO NO/CO
NE NE SE SE SUL SULAB AB C C DE DE Pais Paisamigos amigos Sozinho Sozinho
Outros Outros
Assistir aAssistir
TV/vídeos/DVDs
a TV/vídeos/DVDs
em casa em casa 97 97 96 96 98 98 94 94 95 95 96 96 98 98 96 96 96 96 94 94 97 97 94 94 97 97 27 27 38 38 25 25 10 10
Brincar com
Brincar
animal
comdeanimal
estimação
de estimação 49 49 82 82 79 79 85 85 81 81 82 82 83 83 78 78 88 88 65 65 94 94 79 79 80 80 4 4 26 26 52 52 18 18
Cantar/ouvir
Cantar/ouvir
música música 81 81 78 78 72 72 82 82 79 79 77 77 73 73 78 78 86 86 54 54 85 85 79 79 75 75 21 21 39 39 33 33 7 7
DesenharDesenhar 81 81 59 59 54 54 64 64 62 62 57 57 55 55 55 55 67 67 52 52 63 63 59 59 59 59 6 6 45 45 47 47 3 3
Brincar com
Brincar
boneca,
com boneco,
boneca, boneco,
homenzinhos
homenzinhos
e acessórios
e acessórios 57 57 59 59 49 49 63 63 62 62 56 56 45 45 68 68 61 61 42 42 68 68 53 53 61 61 3 3 65 65 30 30 2 2
Dançar Dançar 57 57 57 57 42 42 65 65 61 61 54 54 49 49 54 54 65 65 47 47 52 52 53 53 60 60 9 9 56 56 30 30 4 4
Brincar com
Brincar
coleções
com coleções
(cartas de
(cartas
jogadores
de jogadores
de futebol,
de futebol,
figurinhas
figurinhas
autocolantes,
autocolantes,
papéis depapéis
carta...)
de carta...) 46 46 57 57 57 57 56 56 54 54 59 59 57 57 49 49 64 64 22 22 62 62 62 62 51 51 6 6 64 64 26 26 4 4
Jogar videogame
Jogar videogame
conectado
conectado
à TV/jogar
à TV/jogar
game boygame boy 38 38 51 51 55 55 43 43 50 50 52 52 21 21 48 48 58 58 65 65 67 67 52 52 42 42 7 7 64 64 25 25 4 4
Andar deAndar
bicicleta,
de bicicleta,
patinete,patinete,
skate, patins,
skate,carrinho
patins, carrinho
de de
rolimã, carrinho
rolimã, carrinho
de lombade lomba 79 79 45 45 45 45 45 45 47 47 44 44 57 57 35 35 45 45 53 53 39 39 45 45 47 47 8 8 68 68 22 22 2 2
Jogar bola
Jogar bola 68 68 45 45 55 55 28 28 52 52 40 40 38 38 38 38 50 50 55 55 45 45 42 42 47 47 3 3 95 95 1 1 1 1
Jogar bolinha
Jogarde
bolinha
gude de gude 38 38 44 44 49 49 21 21 47 47 43 43 63 63 41 41 40 40 54 54 45 45 43 43 46 46 2 2 95 95 1 1 2 2
Brincar de
Brincar
pega-pega,
de pega-pega,
esconde-esconde,
esconde-esconde,
polícia-e-ladrão
polícia-e-ladrão 65 65 42 42 49 49 36 36 43 43 42 42 48 48 36 36 43 43 47 47 41 41 38 38 46 46 1 1 98 98 1 1 1 1
Ficar no computador
Ficar no computador
– jogando– jogando
videogame,
videogame,
navegando
navegando
na na
internet,internet,
no MSN (e-mail)
no MSN ou
(e-mail)
bate-papo
ou bate-papo 16 16 42 42 43 43 41 41 38 38 44 44 24 24 44 44 48 48 39 39 65 65 22 22 27 27 7 7 37 37 53 53 4 4
Ler histórias
Ler histórias
(livros e (livros
gibis) e gibis) 59 59 41 41 40 40 43 43 42 42 41 41 46 46 31 31 49 49 31 31 51 51 36 36 42 42 15 15 34 34 48 48 3 3
Brincar com
Brincar
tinta
com tinta 45 45 40 40 35 35 44 44 47 47 33 33 43 43 41 41 41 41 33 33 36 36 44 44 39 39 3 3 73 73 23 23 1 1

Pergunta:Pergunta:
Vou ler uma
Voulista
ler uma
de atividades
lista de atividades
e brincadeiras
e brincadeiras
e gostariae que
gostaria
me dissesse
que me dissesse
se o seu se
filho
o seu
costuma
filho costuma
brincar. Para
brincar.
cadaPara
brincadeira
cada brincadeira
de que de que
costuma costuma
brincar, com
brincar,
que com
freqüência
que freqüência
ele brinca?ele brinca?
Total de menções
Total de menções
em respostas
em respostas
múltiplas múltiplas
RespostasRespostas
estimuladas.
estimuladas.
Leituras da
Leituras
lista eda
solicitação
lista e solicitação
de costumede costume
e freqüência
e freqüência

Como entender a Tabela VII:


Todas as informações referentes a sexo, idade, região e classe social da criança devem ser interpretadas
1) A coluna % das crianças que brincam indica a realização ou não das atividades. Por exemplo: dessa mesma maneira.
49% das crianças brincam com “Animal de estimação”. 3) As informações referentes à companhia indicam, para as crianças que brincam mais de três
2) A coluna % das crianças que brincam + de três vezes por semana indica o percentual de vezes por semana, o percentual de ocasiões em que elas brincam com uma determinada companhia.
crianças que brincam mais de três vezes por semana dentre as que brincam daquela atividade. Por Por exemplo: as crianças que brincam mais de três vezes por semana com “Animais de estimação”
exemplo: das crianças que brincam com “Animal de estimação” (49% das crianças, conforme foi (82%, conforme citado acima), em 52% das ocasiões o fazem sozinhas, em 4% das ocasiões o fazem
citado acima), 82% brincam dessa atividade mais de três vezes por semana. acompanhadas pelos pais, e assim por diante.
As brincadeiras mais freqüentes De forma semelhante, apesar de só 38% dos
210 211
e os companheiros para brincar pais mencionarem que seus filhos costumam
jogar videogames conectados à TV ou game
A Tabela VII, nas páginas 208-209, apre- boy, a Tabela VII apresentada anteriormente Tabela VIII – Brincadeiras de que as Crianças Mais Brincam Sozinhas
senta as 15 brincadeiras mais praticadas pelas mostra que essa atividade é praticada com alta
crianças, o perfil das crianças que as praticam e freqüência por quem tem oportunidade, em
seus companheiros nesse brincar. particular pelos meninos. Crianças que Várias vezes
Mais uma vez, assistir a TV/vídeos/DVDs Pode-se observar (Tabela VII) que a maio- brincam na semana

apareceu, como na pesquisa qualitativa ante- ria das brincadeiras realizadas pelas crianças Brincadeira/atividade % %*
rior, ocupando o primeiro lugar nas brincadei- com mais freqüência é mais passiva e feita de
Desenhar 81 47
ras realizadas com mais freqüência pelas crian- forma solitária em mais de 25% das vezes. As
ças, o que demonstra a grande influência que exceções são as atividades ativas tradicionais de Ler histórias (livros/gibis) 59 48
essas tecnologias exercem sobre os pequenos. menino – jogar bola (de que 68% das crianças Brincar com animal de estimação 49 52
É interessante observar, ainda, que, dentre esse brincam freqüentemente) e brincar de pega- Ficar no computador - (jogos/navegação) 16 53
universo de brincadeiras mais comuns, essa pega, esconde-esconde, polícia-e-ladrão (de que Tocar instrumento por diversão 8 50
atividade é também aquela que mais pontos 65% das crianças brincam freqüentemente) –,
obteve entre as cinco brincadeiras com maior atividades que são feitas na companhia de outras
Pergunta: Quem brinca junto na grande maioria das vezes?
Total de menções em que a resposta foi “Brincar sozinho”
participação dos pais (27% das vezes – vide crianças em 95% das vezes. Respostas estimuladas
Tabela XII, na página 214). É importante observar que, apesar de só
Em ordem de porcentagem das crianças que brincam
* Porcentagem de ocasiões em que as crianças brincam sozinhas nas
Conforme a Tabela VI, nas páginas 206- 49% dos pais mencionarem que seus filhos cos- brincadeiras em que brincam mais de três vezes por semana.

207, 84% dos pais acharam que assistir a TV/ tumam brincar com um animal de estimação,
vídeos/DVDs em casa é bom para os filhos, fica evidente pela Tabela VII que, quando têm
e 66% declararam que incentivam os filhos a um animal de estimação em casa, as crianças
isso (contra 23% que declararam não incenti- brincam freqüentemente com ele e, na grande
var os filhos). Considerando que, na pesquisa maioria das vezes (52%), sozinhas com ele.
qualitativa, observou-se que as crianças gos- Os resultados da Tabela VII coincidem com
tam muito de estar com os pais, isso talvez os da Tabela VIII (na página ao lado), refor-
ajude a explicar a importância da TV na vida çando que, em algumas brincadeiras, segundo a
das crianças. pesquisa, as crianças brincam muito sozinhas.
Alinhada com tudo o que se aprendeu gralmente presentes nas atividades lúdicas Tabela X – Atividades Pouco Freqüentes
a respeito na pesquisa, a Tabela VIII ilus- das crianças hoje.
tra que as crianças que têm acesso às novas As brincadeiras mais freqüentes nos fins
Várias
tecnologias (ficar no computador e jogar de semana, conforme a Tabela IX (abaixo), são Crianças que
vezes na
Só fim de
Raramente Total
videogame conectado à TV/jogar game boy) as realizadas em espaços maiores. A justifica- brincam
semana
semana

costumam se engajar freqüentemente nes- tiva para isso, de acordo com os dados obtidos Brincadeiras/atividades % % % % %
sas atividades. Essas brincadeiras são clara- anteriormente neste trabalho, é ser este o único Ir ao cinema, teatro, shows 19 3 9 88 100
mente mais praticadas por meninos e acon- momento em que os pais dispõem de um pouco Brincar na praia, no rio 40 8 12 80 100
tecem de forma isolada e em grupo. O índice mais de tempo para estar com seus filhos. Como
212 213
das crianças que brincam provavelmente só os espaços amplos são mais inseguros, segundo
Pergunta: Com que freqüência seu filho brinca?
Total de menções em respostas múltiplas
não é muito maior em função de ser ainda eles e os especialistas, sobretudo nas grandes Respostas estimuladas. Leitura da lista e solicitação de costume e freqüência

restrito a famílias economicamente mais pri- cidades, para freqüentá-los as crianças têm de
vilegiadas. De qualquer maneira, a pesquisa estar acompanhadas. Daí sua prática ficar res-
apontou que as novas tecnologias estão inte- trita aos fins de semana.
Os pais, especialmente os dos segmentos C tamente isso envolve custos, dificultando, por-
e D da população, já haviam apontado as difi- tanto, a sua realização com freqüência.
culdades de oferecer a seus filhos determinados A Tabela XI (abaixo) mostra que essas ati-
Tabela IX – Brincadeiras Mais Freqüentes nos Fins de Semana tipos de lazer, dadas as necessidades econômi- vidades também são aquelas que, quando acon-
cas das famílias. O mesmo ocorreu em relação tecem, incluem mais a participação dos pais,
ao fato de irem à praia ou ao rio ou de terem o que provavelmente contribui para torná-las
acesso a outros tipos de passeios culturais. Cer- mais desejadas pelas crianças.
Crianças Várias
Só fim de
que vezes na Raramente Total
semana
brincam semana
Brincadeira/atividade % % % % %
Brincar em parques e espaços públicos 60 27 34 39 100
Brincar com água: esguicho, banheira, piscina 48 34 23 43 100 Tabela XI – Atividades com Maior Participação dos Pais
Esportes: vôlei, futebol (não por competição) 41 71 22 7 100
Andar de bicicleta, patinete, skate, patins, carrinho de rolimã 79 69 21 10 100 Participação
dos pais
Pergunta: Com que freqüência ele(a) brinca?
Total de menções a brincadeiras durante a semana e no fim de semana Brincadeira/atividade (% de vezes)
Respostas estimuladas. Leitura da lista e solicitação de costume e freqüência Ir ao cinema, teatro, shows 65
Jogar pingue-pongue e pebolim foram excluídos da lista acima pela baixa porcentagem das crianças que brincam
Brincar na praia, no rio 57
Contar histórias 35
Assistir a TV/vídeos/DVDs em casa 27
Brincar em parques/praças/espaços públicos (escorregar, balançar, escalar) 27

Entre as atividades menos freqüentes estão como, por exemplo, teatro, cinema e shows, como Universo de brincadeiras: todas as atividades pesquisadas
Pergunta: Quem brinca junto na grande maioria das vezes?
as que envolvem sobretudo aspectos culturais, se pode observar na Tabela X (na página ao lado). Total de menções a pais como participantes na grande maioria das vezes
Respostas estimuladas
A Tabela XII (abaixo) destaca a pouca panham mais os filhos nas atividades “assis- Gráfico IV – Momento em que Pais e Filhos Brincam Juntos (em%)
participação dos pais nas brincadeiras mais tir a TV/vídeos/DVDs em casa” e “cantar/
freqüentes dos filhos. Quando realizadas ouvir música”, que são na realidade as mais
214 215
mais de três vezes por semana, os pais acom- passivas.
35
31
26
Tabela XII – As Cinco Brincadeiras com Maior Participação dos Pais

Outras
COMPANHIA
8
crianças/
Brincadeira/atividade Total Pais amigos Sozinho Outros Total
Assistir a TV/vídeos/DVDs em casa 96 27 38 25 10 100
Cantar/ouvir música 78 21 39 33 7 100 Manhã Almoço Tarde Noite
Ler histórias (livros e gibis) 41 15 34 48 3 100
Dançar 57 9 56 30 4 100
Base: total que costuma brincar com o filho (97%)
Andar de bicicleta, patinete, skate, patins, carrinho de rolimã, Pergunta: Em que momento(s) o(a) sr.(a) costuma brincar junto com o seu filho?
carrinho de lomba 45 8 68 22 2 100 Resposta única – principal horário – 1.a menção
Respostas estimuladas. Períodos do dia foram mostrados com cartão
Pergunta: Quem brinca junto na grande maioria das vezes?
Total de menções a pais como participante na grande maioria das vezes
Respostas estimuladas.
Total: dentre as crianças que brincam da atividade, % das que brincam mais de três vezes por semana
Companhia: % de ocasiões em que brincam com cada companhia
Pais: brincadeiras com maior % de ocasiões em que os pais participam

As escolhas podem ser justificadas pelo fato da tarde, quando as mães estão um pouco mais
de que, quanto mais cedo durante o dia, menos livres, e o chamado “horário nobre” da tele-
Apesar de seus depoimentos mostrarem que Quando indagados em que momento a brinca- possibilidades a grande maioria dos pais tem visão, o começo da noite, quando os níveis de
não participam com freqüência da maioria das deira acontecia entre eles, as respostas incidi- de brincar com seus filhos, pois estão envolvi- audiência televisiva são os mais altos. Portanto,
brincadeiras dos filhos, 93% dos pais afirma- ram no período da tarde e após o jantar, antes dos em atividades de trabalho dentro ou fora de não é estranho que assistir a TV/vídeos/DVDs
ram que existe um momento em que brincam de as crianças dormirem, como mostra o Grá- casa. Os momentos em que os pais mais brin- em casa seja mencionado como a atividade na
com eles, enquanto 7% afirmaram que não. fico IV (na página ao lado). cam com os filhos coincidem com o período qual os pais mais participam com os filhos.
7.6
Características das crianças
Para uma melhor compreensão dos benefí- Na parte qualitativa da pesquisa, os especia-
cios do brincar para o desenvolvimento infan- listas e os pais já tinham destacado a questão da
til, levantou-se uma série de características aprendizagem e da qualidade do ensino ao qual
emocionais, físicas e ligadas ao aprendizado os filhos têm acesso como uma de suas grandes
das crianças a fim de correlacioná-las com as preocupações e também um dos grandes temas
brincadeiras praticadas. É importante lembrar da infância. Essa questão foi avaliada pela per-
que essas questões foram mapeadas sempre por cepção que os pais têm do desempenho escolar
meio das respostas dos pais e, portanto, refle- dos filhos. Os resultados estão na Tabela XIII
tem suas próprias percepções, não tendo sido (abaixo).
realizadas observações diretas dessas crianças.

Tabela XIII – Classificação do Desempenho Escolar

216 SEXO DA CRIANÇA 217


TOTAL
Menino Menina

% % %
Ótimo 40 33 47
Bom 41 47 36
Regular 17 18 15
Ruim 1 1 1
Péssimo 0 1 0
TOTAL 100 100 100

BASE 1014 504 510

Pergunta: De modo geral, como o(a) sr.(a) classificaria o desempenho de seu filho na escola?
Resposta única
Respostas estimuladas. Leitura da lista de alternativas

A maior parte dos pais faz uma avaliação altos da escala, porque o sistema de avaliação
positiva desse desempenho, classificando-o no ensino básico funciona com essas duas
como ótimo (40%) ou bom (41%), enquanto 17% grandes categorias (ótimo/bom ou plenamente
consideram o desempenho do filho regular. satisfatório/satisfatório).
Cabem aqui duas considerações importan- Os pais também foram indagados sobre 12
tes sobre essa avaliação. Primeiro, ela mede características e comportamentos dos filhos.
a percepção dos pais, que não necessaria- Desses, três características foram eleitas pela
mente coincide com a avaliação educacional equipe de trabalho para serem contrapostas às
da escola ou dos educadores. O mais impor- brincadeiras: criatividade, extroversão e inde-
tante a ser destacado é que tanto a avaliação pendência. Essas características foram escolhi-
da situação quanto a importância dada à edu- das por serem consideradas importantes aspec-
cação dos filhos são baseadas nessa percepção. tos do perfil do profissional que terá sucesso no
Segundo, do ponto de vista da medição, é natu- mercado de trabalho no futuro e são tratadas
ral que a concentração se dê nos pontos mais em três tabelas nas páginas seguintes.
Conforme a Tabela XIV (abaixo), consi- que 50% dos pais consideraram que seus filhos ram os filhos extrovertidos, enquanto os demais ou a extroversão dos filhos: 15% consideraram
derando uma escala de cinco pontos, em que 1 estão no ponto máximo. Por sua vez, 26% consi- se dividiram em proporções quase iguais nos os filhos no ponto 5 da escala (tímido), 13% no
significa muito criativo e 5 pouco criativo, os deraram que seus filhos são criativos (ponto 2 na demais pontos da escala ao avaliar a timidez ponto 4, 14% no ponto 3 e 17% no ponto 2.
entrevistados deveriam responder em que ponto escala) e 12% (níveis 4 e 5) fizeram uma avalia-
se encaixava seu filho. A tabela abaixo mostra ção mais negativa sobre a criatividade dos filhos.
218 219
Tabela XV – Extroversão/Timidez

Tabela XIV – Criatividade das Crianças


SEXO DA CRIANÇA
TOTAL
Menino Menina
SEXO DA CRIANÇA % % %
TOTAL
Menino Menina (1) extrovertido 41 43 39
(2) 17 16 17
% % %
(3) 14 15 13
(1) muito criativo 50 48 53
(4) 13 10 16
(2) 26 27 24
(5) tímido 15 15 15
(3) 11 11 11
(4) 8 9 7 TOTAL 100 100 100

(5) pouco criativo 4 5 4 BASE 1014 504 510


TOTAL 100 100 100
Pergunta: Agora vou ler algumas características e comportamentos opostos e mostrar um cartão com
BASE 1014 504 510 números de 1 a 5. Gostaria que o(a) sr.(a) apontasse qual número representa melhor o comportamento de
seu filho.
Pergunta: Agora vou ler algumas características e comportamentos opostos e mostrar um cartão com Resposta única
números de 1 a 5. Gostaria que o(a) sr.(a) apontasse qual número representa melhor o comportamento de Respostas estimuladas. Leitura da lista de alternativas
seu filho
Resposta única
Respostas estimuladas. Leitura da lista de alternativas

Quando os pais avaliam a independência parte dos pais, ou seja, 25% consideraram os
dos filhos, as opiniões se dispersam ainda filhos independentes (ponto 1 da escala) e uma
mais, como pode ser visto na Tabela XVI, proporção um pouco maior (27%) considerou
Pode-se observar na Tabela XV (na página ao 5 significa tímidos, a percepção dos pais sobre o na página 221. Nesse caso, a escala de cinco os filhos dependentes (ponto 5 na escala). Os
lado) que, considerando uma escala parecida, em grau de extroversão de seus filhos foi um pouco pontos varia de 1 (independente) a 5 (depen- demais se distribuíram pelos pontos 2 (16%), 3
que 1 significa que os filhos são extrovertidos e menos concentrada. Por sua vez, 41% considera- dente). Os extremos concentraram a maior (17%) e 4 (15%).
Tabela XVI – Independência das Crianças

TOTAL SEXO DA CRIANÇA

Menino Menina

% % %
(1) independente 25 27 23
(2) 16 18 14
(3) 17 19 15
220 221
(4) 15 15 15
(5) dependente 27 21 34
TOTAL 100 100 100

BASE 1014 504 510

Pergunta: Agora vou ler algumas características e comportamentos opostos e mostrar um cartão com
números de 1 a 5. Gostaria que o(a) sr.(a) apontasse qual número representa melhor o comportamento de
seu filho.
Resposta única
Respostas estimuladas. Leitura da lista de alternativas

Os dados apresentados parecem demons- apresentaram correlações significativas com


trar uma correlação entre brincadeira e intro- certos comportamentos da criança. Isso equi-
versão/timidez e entre brincadeira e dependên- vale a dizer que cada conjunto de brincadeiras
cia ou autonomia, na opinião dos pais. Assim, assinalado apresenta efeito positivo ou negativo
quanto mais a criança brinca, mais se aproxima no que concerne ao temperamento tido como
dos índices considerados satisfatórios, e quanto desejável.
menos isso acontece, mais fica nos índices Assim, por exemplo, crianças que brincam
insatisfatórios. de tinta demonstram criatividade. Da mesma
A Tabela XVII, nas páginas 222-223, exem- forma, a criança que é estimulada a brincar de
plifica como cada brincadeira apresenta cor- jogos de tabuleiro, como dama e xadrez, apre-
relações com as características pessoais das senta uma boa dose de independência.
crianças, além do desempenho escolar e do Entretanto, convém dizer que a direção da
IMC (índice de massa corporal), calculado a causa e efeito dessas correlações não pode ser
partir do peso e da altura das crianças. inferida pelos dados da pesquisa, embora se
As atividades destacadas na Tabela XVII possa constatar que essas relações existem.
Tabela XVII – Correlação do Tempo em que Brinca de Cada Brincadeira com Características e IMC

Atencioso
Atencioso
Desem-Desem-
Tranqüi-Tranqüi- Indepen-
Indepen- Ama- Ama- Socia- Socia- com senti-
com senti-
Passividade
Passividade Confiança
Confiança Alegria Alegria
Curiosidade
Curiosidade
Extroversão
Extroversão
Criatividade
Criatividade Liderança
Liderança IMC IMC penho penho
lidade lidade dência dência bilidadebilidade bilidadebilidade mentosmentos
dos dos
escolar escolar
outros outros

AssistirAssistir
a TV/vídeos/DVDs
a TV/vídeos/DVDsem casa em casa
Jogar videogame
Jogar videogame
conectadoconectado
à TV/jogar
à TV/jogar
game boy game boy
Ficar noFicar
computador
no computador
Jogar bola
Jogar bola
Soltar pipa
Soltar pipa
Andar deAndar
bicicleta,
de bicicleta,
patinete,patinete,
skate...skate...
BrincarBrincar
de pega-pega,
de pega-pega,
esconde-esconde,
esconde-esconde,
polícia-e-ladrão
polícia-e-ladrão
Jogar pingue-pongue/pebolim
Jogar pingue-pongue/pebolim
Jogar ioiô/pião
Jogar ioiô/pião
BrincarBrincar
com água:comnuma
água:piscina,
numa piscina,
banheira,banheira,
com esguicho
com esguicho
BrincarBrincar
na praia,nario
praia, rio
DançarDançar
BrincarBrincar
com animal
com animal
de estimação
de estimação
BrincarBrincar
em parques/praças/espaços
em parques/praças/espaços públicos públicos
BrincarBrincar
na terra/areia
na terra/areia
Jogos deJogos
tabuleiro
de tabuleiro
Jogar esportes
Jogar esportes
que NÃO queseja
NÃO porseja
competição
por competição
(futebol,(futebol,
vôlei...)vôlei...)
DesenharDesenhar
BrincarBrincar
com tintacom tinta
BrincarBrincar
com massinha
com massinha
Cantar/ouvir
Cantar/ouvir
músicamúsica
Tocar umTocar
instrumento
um instrumento
Ir ao cinema,
Ir ao cinema,
teatro, shows
teatro, shows
BrincarBrincar
de faz-de-conta/fantasiando-se/maquiar-se
de faz-de-conta/fantasiando-se/maquiar-se
BrincarBrincar
de teatrinho,
de teatrinho,
casinha, casinha,
escolinha,
escolinha,
lojinha lojinha
BrincarBrincar
com boneca,
com boneca,
boneco,boneco,
homenzinhos
homenzinhos
e acessórios
e acessórios
Contar Contar
históriashistórias
EscreverEscrever
históriashistórias
Ler histórias
Ler histórias
(livros e(livros
gibis)e gibis)
BrincarBrincar
de montarde montar
quebra-cabeça/brincar
quebra-cabeça/brincar
de legode lego
BrincarBrincar
de rodade roda
BrincarBrincar
com coleções
com coleções
Jogar bolinha
Jogar bolinha
de gudede gude
Pular corda/amarelinha/brincar
Pular corda/amarelinha/brincar de bambolê
de bambolê
Jogos com
Jogos papel
comepapel
caneta e caneta
(tipo stop,
(tipoforca,
stop,jogo-da-velha)
forca, jogo-da-velha)
8
PROPOSTA DE UM
ÍNDICE BRINCAR

224 225
8.1
Desenvolvendo um índice
Com os dados obtidos na pesquisa quantita- do brincar, assunto contraditório pela extrema
tiva, além de fazer um mapeamento do brincar valia e pela pouca informação quantitativa –, a
da criança brasileira, pretendia-se chegar a uma criação de um Índice Brincar poderia ser uma
sugestão de índice que pudesse ser discutido de maneira de sugerir ações, no âmbito de plane-
modo a favorecer um amplo debate da socie- jamento e gestão, no qual os índices têm sido
dade civil e do poder público sobre o brincar. amplamente utilizados.
No entanto, pode-se perguntar: o que é um Finalmente, um Índice Brincar pode-
índice e quais as razões que justificariam o seu ria mobilizar os pais quanto aos benefícios
uso? Um índice é uma medida quantitativa utili- do brincar para as crianças, conscientizar a
226 227
zada nas pesquisas com forte significado social, sociedade sobre a importância de um brincar
ou seja, utilizada em trabalhos que envolvem de qualidade e abrir a possibilidade de imple-
áreas sociais e que embasam o planejamento mentar ações sociais de modo a influenciar a
de ações, subsidiam a elaboração de políticas agenda pública sobre o brincar.
governamentais e contribuem para o monitora- O Índice Brincar nesta pesquisa procurava,
mento de ações no âmbito proposto. Os índi- em curto prazo, despertar a atenção sobre a
ces são, atualmente, utilizados para “avaliar os relação entre o lúdico e o desempenho escolar
avanços ou retrocessos nas condições de vida ou o desenvolvimento infantil, ajudando a sen-
da população, apontar a eficácia ou ineficácia sibilizar a sociedade para a importância dessa
das políticas públicas ou defender suas posi- atividade. Como todos os outros indicadores
ções quanto às prioridades sociais a atender” utilizados em pesquisas, a equipe tem consciên-
(JANNUZZI, 2004). cia de que os índices estão sujeitos a críticas,
É importante salientar que o uso desse porém, a longo prazo, visa ao uso do Índice
recurso deixou de ser restrito à academia e aos Brincar para ajudar a transformar as atitudes
órgãos técnicos, integrando o vocabulário dos de pais, educadores, formadores de opinião,
responsáveis pelas políticas públicas desenvol- escolas, hospitais, poderes públicos, empresas e
vidas e/ou apoiadas por agentes públicos e pri- ONGs em relação ao lúdico, quebrando o para-
vados, porque essa é uma forma de se permitir digma atual do brincar na sociedade brasileira,
a ampliação dos estudos e mostrar a real con- na qual é considerado uma atividade de relati-
tradição entre a teoria e a prática. Resta ainda vamente pouco valor para o desenvolvimento
frisar que os índices são bastante utilizados infantil.
para provocar debates, sobretudo quando há Além disso, a referida equipe entende que
questões de difícil avaliação, como é o caso do isso não deve ser obstáculo para novos estu-
brincar. dos e novas pesquisas, mas, sim constituir-se
Neste trabalho, viram-se três benefícios em um estímulo para continuar desenvolvendo
importantes na elaboração de um Índice Brin- e aprimorando trabalhos relacionados com o
car. Como esta pesquisa lidou com uma questão brincar.
social – o desenvolvimento da criança através
8.2
Criando o Índice Brincar
A partir de inúmeras discussões e diversas brincadeira com correlação negativa mais femi-
análises das correlações entre as características nina, incluiu-se uma também masculina, e assim
das crianças, o desempenho escolar e o brincar, por diante. Por este critério obteve-se ao final um
a equipe de trabalho priorizou a relação entre o total de 16 brincadeiras compondo o índice.
brincar e o desempenho escolar para a criação do 4.o) Pontuação: a pontuação foi atribuída consi-
Índice Brincar. derando-se a média de freqüência ou intensidade
O índice foi desenvolvido seguindo-se seis de cada criança, comparada à média geral.
passos: Brincadeiras com correlação positiva: se a
1.o) Realizaram-se as correlações das prin- criança tem uma freqüência ou intensidade acima
cipais dimensões das brincadeiras (freqüência e da média geral, ela ganha um ponto; se tem abaixo,
intensidade) com o desempenho escolar declarado fica com zero.
pelos pais. Para essas duas dimensões encontra- Brincadeiras com correlação negativa: se a
ram-se brincadeiras com correlações positivas e criança tem uma freqüência acima da média ela
negativas. perde um ponto e se for abaixo fica com zero.
2.o) Para não privilegiar uma brincadeira que Dessa forma a pontuação pode variar de -10 a
fosse predominante em alguma das duas prin- +10.
cipais variáveis de perfil considerados (sexo e 5.o) Finalmente normatizou-se a escala para
classe), fez-se teste de médias para identificar as uma graduação de três pontos, variando de um
brincadeiras que fossem marcadamente só das brincar de menor qualidade até um brincar de
228 229
classes A e B ou só entre meninas, por exemplo. maior qualidade. O Índice Brincar 1 significava
3.o) Escolha das brincadeiras: foram selecio- um brincar de menor qualidade; o Índice Brincar
nadas para entrar no cálculo do índice as brinca- 2 era um brincar médio e o Índice Brincar 3 repre-
deiras que apresentassem as correlações positivas sentava um brincar com maior qualidade, ou seja,
mais altas (por freqüência ou intensidade) com com maior número de brincadeiras correlaciona-
desempenho escolar e não apresentassem dife- das positivamente ao desempenho escolar.
renças significativas entre as médias por classe ou 6.o) Desenvolvimento de uma ferramenta de
sexo. fácil aplicação do Índice Brincar, em forma de
Incluíram-se também algumas brincadeiras programa computacional, cuja interface é um
com correlações negativas. Nesse caso foi neces- questionário de simples preenchimento.
sário incluir algumas brincadeiras mesmo apre- Esse questionário é apresentado na Tabela
sentando diferenças entre sexo ou classe. Para XVIII (abaixo).
mantermos o critério de equilíbrio, ao incluir uma

Tabela XVIII – Questionário para Classificação no Índice Brincar OMO

Por favor, para cada brincadeira que eu ler me diga:


a) quantos dias b) quantos
a) quantos dias por mês seu filho costuma brincar
por mês minutos por dia
b) quantos minutos por dia ele costuma brincar de cada brincadeira
a. Jogar pingue-pongue/pebolim
b. Brincar com água: numa piscina, banheira, com esguicho
c. Brincar na praia/rio
d. Brincar com massinha
e. Brincar com tinta
f. Ir ao cinema, teatro, shows
g. Brincar com boneca, boneco, homenzinhos e acessórios
h. Contar histórias
i. Brincar de roda
j. Jogar bolinha de gude
k. Assistir a TV/vídeos/DVDs em casa
l. Jogar bola
m. Brincar de pega-pega/esconde-esconde/polícia-e-ladrão
n. Brincar na terra/areia
o. Ler histórias (livros e gibis)
p. Pular corda/brincar de amarelinha/bambolê
8.3
A aplicação e a interpretação do Índice Brincar
Ao elaborar um Índice Brincar, a equipe rentes à primeira aplicação do Índice Brincar,
de trabalho entendia que ele poderia ser apli- considerando o universo pesquisado de pais no
cado em diversos contextos sociais – em nível Brasil com filhos com idade de 6 a 12 anos.
comunitário, municipal, estadual, federal ou Uma vez calculados os índices das crianças
internacional – ou mesmo por interessados do cujos pais foram entrevistados, observou-se que
primeiro, segundo ou terceiro setores da eco- 39% das crianças tinham um brincar de menor
nomia. Dessa maneira, o índice poderia apon- qualidade (Índice Brincar 1), 25% situavam-se
tar para o desenvolvimento e o monitoramento em um nível médio (Índice Brincar 2) e 35%
de ações relacionadas ao tema, contribuindo, apresentavam maior qualidade e diversidade
assim, para a melhoria das condições da infân- (Índice Brincar 3).
cia no Brasil. A Tabela XIX (abaixo) mostra o perfil des-
A seguir, a interpretação dos dados refe- ses três grupos.

Tabela XIX – Perfil do Índice Brincar


230 231
Índice Brincar

Total
Nível 1 Nível 2 Nível 3

% % % %
Menino 50 55 49 45
Menina 50 45 51 55
TOTAL 100 100 100 100

NO/CO 17 22 16 12
NE 30 29 25 34
SE 39 37 38 43
SUL 14 13 21 12
TOTAL 100 100 100 100

A 3 2 3 4
B 9 9 4 12
C 38 31 45 40
D 45 51 42 41
E 5 7 6 3
TOTAL 100 100 100 100

BASE 1.014 373 256 385

Conforme mostrado no Gráfico V, na bom rendimento escolar, o que também ocorria


página 232, segundo os pais investigados, com 47% das crianças que integravam o Índice
somente 26% das crianças que constavam no Brincar 2 e com 51% das que faziam parte do
Índice Brincar 1 apresentavam um ótimo ou Índice Brincar 3.
Gráfico V – Relação do Índice Brincar OMO com Bom Desempenho Escolar (em %) Gráfico VII – Relação do Índice Brincar OMO e a Extroversão (em %)

Bom desempenho Extroversão


escolar 51 45
47 42
37

26

Índice 11
Índice Índice 2
Índice 2 Índice 3
Índice 3
Índice
Índice 11 Índice
Índice 22 Índice
Índice 33
Finalmente, foram avaliadas as relações apresentaram um alto nível de independência,
entre o brincar e a independência e a autono- enquanto esse nível subiu para 26% entre as
232 233
mia, apresentadas no Gráfico VIII (abaixo). crianças do Índice Brincar 2 e para 28% entre
Assim, 21% das crianças do Índice Brincar 1 as crianças classificadas no Índice Brincar 3.
Do ponto de vista da criatividade – vide máxima em criatividade, sendo esse patamar
Gráfico VI (abaixo) – das crianças com Índice de 50% para as crianças do Índice Brincar 2 e
Brincar 1, 47% apresentaram pontuação 55% para as do Índice Brincar 3. Gráfico VIII – Relação do Índice Brincar OMO e a Independência (em %)

Independência
Gráfico VI – Relação do Índice Brincar OMO e Criatividade (em %)
28
26
Criatividade 21
55
50
47

Índice 1
Índice 1 Índice
Índice 2
2 Índice
Índice 3
3

Embora os dados obtidos com os pais mos- Vale ressaltar novamente que a equipe de
trassem uma correlação entre a intensidade das trabalho reconhece que as características de
brincadeiras e o rendimento escolar, ficou para desenvolvimento infantil medidas são compor-
Índice
Índice 1 1 Índice
Índice 2 2 Índice
Índice 3 3
a equipe de trabalho uma questão: o que os pais tamentos que dependem de diversos fatores,
entendiam por tal rendimento? Como acontece existindo vários aspectos que agem e interfe-
com todo trabalho inovador, a equipe de traba- rem nessas dimensões da vida das crianças.
Também foi avaliada a extroversão, con- nível alto de extroversão, enquanto para as lho reconhece que os resultados desta pesquisa Aqui procurou-se isolar e avaliar o peso e a
forme mostrado no Gráfico VII, na página crianças do Índice Brincar 2 e do Índice naturalmente se desdobram em mais questões, interferência de um desses aspectos que muitas
ao lado. Das crianças do Índice Brincar 1, Brincar 3 esse nível foi de 42% e 45%, que, portanto, podem servir como ponto de vezes não é priorizado: o brincar.
37% apresentaram, na opinião dos pais, um respectivamente. partida para novas investigações.
234 235

8.4
O uso do índice para o estímulo ao brincar
A partir de todo o trabalho, a equipe envol- por exemplo, aquelas nas quais se utilizam
vida resolveu realizar uma brincadeira e se pôs massinha, tinta, colagem e desenho. Basta que
a traduzir as aprendizagens da pesquisa para o o material esteja disponível para que ela possa
uso prático e simples de alguém, por exemplo, explorá-lo, criando algo que lhe seja significa-
um pai, que quisesse aplicar o Índice Brincar a tivo e genuíno. Essas atividades podem ainda
uma criança específica – por exemplo, seu filho ser uma boa alternativa para o excesso de tempo
–, visando ajudar a melhorar a qualidade do seu gasto com atividades passivas, como a TV, por
brincar. exemplo.
Segue esse exercício, que talvez possa ser- Outras atividades importantes para as crian-
vir para avaliar, em uma outra situação e com ças do nível 1 são aquelas do mundo da fantasia
uma outra perspectiva, o brincar da criança ou do “faz-de-conta”. Brincando com bonecos,
brasileira. fantoches, réplicas e fantasias, a criança pode
dar asas à imaginação, criar, além de experi-
Índice Brincar 1 mentar diversos papéis, formas de pensar e agir,
ampliando assim sua percepção do mundo.
A criança que está no Índice Brincar 1 Brincar em grupo pode ser um momento
poderá ter benefícios com o aumento das brin- interessante e rico, em que figuras mais próxi-
cadeiras que desenvolvem a criatividade, como, mas da criança, como pais, avós e cuidadores,
236 237

podem vivenciar conjuntamente brincadei- Índice Brincar 2 bém é uma forma de se divertir, assim como no desenvolvimento global da criança, incor-
ras tradicionais: pega-pega, estátua, esconde- também o são as brincadeiras em grupo, como porando-se a elas as novas brincadeiras que
esconde, cirandas, jogos, entre outras. A par- As crianças que se encontram no nível 2 pega-pega, esconde-esconde, jogos com bola, poderão ser aprendidas e compartilhadas pelos
ticipação dos adultos, principalmente dos pais, poderão ser beneficiadas com o desenvolvi- jogos com regras e jogos de cooperação, entre adultos.
nas brincadeiras tem um imenso valor para a mento de jogos e brincadeiras que aumen- outras formas. Quando brinca em grupo, a A introdução e a exploração dos jogos coo-
criança, pois é uma oportunidade de ela se sen- tem sua autonomia e independência, atributos criança experimenta e treina a possibilidade perativos são um importante estímulo para esse
tir aceita incondicionalmente por eles. necessários para uma participação ativa nos de ser autônoma, de dividir, liderar, obedecer a grupo, pelo fato de as crianças apresentarem
Quando a criança brinca com os pais, com grupos. regras, competir e colaborar com seus pares. indicadores de que já desenvolveram caracte-
adultos ou com outras crianças, os vínculos se Uma criança com Índice Brincar 2 normal- A participação dos pais no momento do rísticas importantes para uma educação qualifi-
fortalecem, ela aprende a ser, descobre suas mente é tranqüila e confiante. Em seu dia-a-dia brincar, além de favorecer intensas trocas afe- cada. Esses jogos, além de facilitarem a resolu-
potencialidades, lida melhor com as frustra- vivencia uma variedade razoável de brincadei- tivas, pode estimular a participação da criança, ção de conflitos, oferecem oportunidades para o
ções, percebe suas emoções e as do outro, ras fundamentais para seu desenvolvimento. que então se sente respeitada e aprende a res- desenvolvimento da capacidade de negociação,
desenvolvendo a empatia, fortalece sua auto- Essas brincadeiras deverão ser mantidas, peitar as regras sociais. o exercício da liderança e a vivência de valores.
imagem e estimula seu pensamento crítico e a somando-se a elas novas experiências para o Assim, brincando, a criança aprende a
imaginação criadora. desenvolvimento da criatividade e o estímulo Índice Brincar 3 conviver, descobre o outro, desenvolve a tole-
O acesso a livros adequados para cada do aprender a fazer. rância à diversidade, o sentimento de empatia,
período etário do desenvolvimento infantil e Atividades de expressão oral e artística, A criança que está no Índice Brincar 3 tem solidariza-se exercitando diferentes formas de
a possibilidade de inventar histórias em grupo como dramatização, brincar com massinha, um comportamento tranqüilo, com tendência a administrar conflitos, além do prazer de criar
estimulam a criatividade, a linguagem e a inte- tinta, colagem e desenho, ou a construção dos ser amável e alegre. Geralmente gosta de brin- em equipe, encontrando novas formas de fazer
ração, além de possibilitar à criança apropriar- próprios brinquedos, desenvolvem o potencial car em grupo e demonstra empatia com o outro. com a contribuição de todos.
se do momento em que vive, aprendendo a criador, contribuindo também para o aperfei- Por vivenciar uma gama de diferentes brinca-
conhecer, habilidade essa que precisará cultivar çoamento da comunicação e da linguagem. deiras, é uma criança curiosa e criativa.
por toda a vida para ser uma pessoa realmente Ir ao cinema e ao teatro, com programação Para esse grupo, as brincadeiras já viven-
vitoriosa. adequada à faixa etária de cada criança, tam- ciadas devem ser mantidas por sua importância
Reflexões finais:
Como tornar as crianças mais felizes
Quando se chega ao final de um projeto de do brincar em uma grande variedade de pro-
pesquisa, é preciso avaliar se os objetivos foram jetos sociais, independentemente da origem
atingidos e se as premissas apontadas inicial- destes.
mente se confirmaram ou não. Ou seja, é neces- Nesse sentido, espera-se ter executado um
sário saber o que de fato se aprendeu e quais as projeto de pesquisa cujas informações tenham
contribuições oferecidas pelo trabalho. relevância de tal ordem que estimulem debate
Esta pesquisa teve, portanto, como principal sobre o lúdico e favoreçam a possibilidade de
objetivo aprofundar os conhecimentos a res- ação para a melhoria do brincar na sociedade
238 239
peito de uma importante questão relacionada à brasileira no geral.
infância, o brincar, e, através dele, contribuir Espera-se, também, que este relatório do
para a sua melhoria. projeto tenha sensibilizado o leitor sobre a
Na perspectiva dos pesquisadores esse obje- importância do brincar no processo de desen-
tivo foi atingido por meio de três pontos. Pri- volvimento e aprendizagem infantil.
meiro, contextualizando e discutindo ampla- Embora haja carência de estudos longitudi-
mente o brincar na família de hoje, realizando nais que tenham observado as diferenças entre
um estudo – composto de três pesquisas de as crianças que brincam e as que não brin-
caráter qualitativo na cidade de São Paulo – a cam em suas relações com o desenvolvimento
respeito do entendimento sobre o brincar e o infantil, muitos estudiosos, principalmente da
valor dado a ele por especialistas nesse tema, área da psicologia, como apresentado no início
pelos pais e pelas crianças. deste trabalho, já mostraram o valor da brinca-
Segundo, realizando, por meio de uma deira no desenvolvimento infantil e o quanto
quarta pesquisa de caráter quantitativo, um ela é reconhecida como necessidade básica da
grande mapeamento nacional do brincar da criança. Portanto, é dessa forma que ela deve
criança brasileira, com levantamento sobre per- ser respeitada.
cepções e atitudes dos pais brasileiros para aju- Foi visto ainda que o brincar provoca
dar na valorização e na implementação de um mudanças qualitativas nas crianças do ponto
brincar diferenciado para seus filhos. de vista do comportamento, do sentimento, da
E, por último, estabelecendo uma metodo- aprendizagem e da comunicação. E, apesar de
logia de pesquisa (desenvolvimento de instru- aparentemente contraditórias, essas caracterís-
mento e padrões de análise) que pudesse ser ticas conseguem coexistir harmoniosamente.
reproduzida e, dessa maneira, servisse para Daí o fato de que, durante essa atividade, as
uma melhor compreensão do brincar no cená- crianças vão da observância de regras a situa-
rio social no decorrer do tempo. Ao propor um ções imaginárias, da seriedade ao riso, à des-
Índice Brincar que sintetize e facilite a replica- contração, da imitação à fantasia, da exploração
ção dessa metodologia, o projeto também per- à descoberta. É certo que as potencialidades
mite incorporar a avaliação e o monitoramento dos seres humanos são colocadas em anda-
mento quando eles brincam, pois é dessa forma interferindo no brincar. No mapeamento do confiança das crianças em suas experiências e informações oferecidas à criança do que a pos-
que eles aprendem, fazendo com que a herança brincar das crianças brasileiras, observou-se descobertas durante as brincadeiras, além de sibilidade de ela brincar.
biopsicológica se relacione com o contexto. que, apesar de muitas crianças terem um reper- estreitar a relação entre pais e filhos. Para a equipe de trabalho, isso sugere que
Como foi demonstrado, do ponto de vista tório de atividades lúdicas bastante abrangente, Outro ponto que ficou explicitado durante muitos pais ainda não perceberam ou entende-
histórico, o brincar sempre existiu. Porém, no dia-a-dia suas atividades tendem a variar toda a investigação foi a dificuldade em con- ram que no mundo atual o acúmulo de informa-
na pesquisa foi possível perceber que hoje ele pouco. ceituar o brincar, questão esta também comum ções não garante êxito profissional. Os especia-
é desvalorizado em função da supervaloriza- Ficou evidente na pesquisa que a mídia, em nos meios acadêmicos. listas e a literatura existente demonstram que,
ção dos conteúdos, embora as crianças, apesar particular a TV, tem assumido um papel muito A pesquisa quantitativa mostrou que 98% para obter êxito profissional, é cada vez mais
dos obstáculos apresentados e da ausência dos influente no lazer infantil e que as crianças dos pais concordam que devem preparar as importante as pessoas serem criativas, autôno-
240 241
pais como companheiros da brincadeira, ainda costumam assistir à TV de forma passiva. No crianças para serem adultos bem-sucedidos mas e curiosas, além de terem mais facilidade
brinquem. entanto, viu-se que o comportamento lúdico é profissionalmente. Ou seja, todos os pais mos- para resolver problemas. Tais características,
Verificaram-se, no trajeto desta investiga- aquele que exige a participação ativa da criança traram uma preocupação grande com o desen- como mostrou esta pesquisa, podem estar asso-
ção, as bruscas transformações sofridas pelo para poder ser significativo. volvimento de seus filhos. No entanto, a pes- ciadas à freqüência e à qualidade do brincar,
contexto, determinadas pelos processos de Não se pode negar que a TV tem um poder quisa também mostrou que apenas 14% dos pais aspectos muitas vezes desprezados.
industrialização e urbanização. Esses dois fato- sedutor, ao aliar imagem, som, cores e movi- percebem espontaneamente o brincar como um Um terceiro ponto que ficou bem explícito
res têm provocado uma escassez de espaços mento, mas, embora possua aspectos positivos, importante aliado no desenvolvimento infantil, durante o projeto foi que, tanto quanto os pais,
lúdicos, determinando, assim, tanto um confi- como a veiculação rápida da informação, ima- reconhecendo a ajuda no aprendizado como um os especialistas e as crianças mostraram menos
namento das crianças quanto seu isolamento. gens de realidades distantes e até mesmo bons dos principais benefícios dessa atividade. satisfação na brincadeira quando realizada
Tal realidade refletiu-se nas brincadeiras, nos divertimentos, há de se tomar cuidado com a A equipe de trabalho considera que isso individualmente.
ambientes, nos parceiros e até mesmo nos exposição indiscriminada das crianças a esse demonstra uma grande oportunidade e a neces- A equipe de trabalho sugere que isso se deve
objetos utilizados para esse fim, pois, como foi meio. Elas são alvos fáceis diante da TV e, no sidade de informar melhor os pais sobre a ao fato de que, como foi visto, o processo de
visto, o contexto não é algo externo aos peque- seu mundo fantástico, reproduzem situações importância do brincar no desenvolvimento e construção da identidade se dá pela socializa-
nos, mas parte integrante deles, quer através imaginárias similares às que vêem na telinha. na aprendizagem de seus filhos. ção. É brincando com os outros que as crianças
das relações escolares, familiares e sociais, Diferentemente do que se exige da criança A divergência ficava mais clara à medida aprendem quem são, que características pos-
quer através de objetos e símbolos. diante da TV, o comportamento lúdico é aquele que se observavam, na pesquisa quantitativa, suem e como poderão vir a ser. Percebem-se
Também, durante toda a pesquisa, observou- que envolve a participação ativa dela para poder três principais posturas diferentes por parte dos como parte integrante de um grupo, e isso faz
se a pouca interação lúdica entre pais e filhos. ser significativo. pais. parte da evolução humana como fonte e pro-
A pesquisa quantitativa mostrou que 53% dos Nessa direção, a equipe de trabalho sugere De um lado, encontravam-se aqueles que duto da cultura.
pais brincam com os filhos diariamente e 14% que seria importante sensibilizar os pais para a admitiam a importância do lúdico para o desen- Os sujeitos explicitaram nos depoimentos
deles classificam essa atividade como uma das importância da participação ativa das crianças volvimento da criança e estimulavam tal ação. que, ao brincar, as crianças partilham com os
que lhes dão mais prazer. nas suas atividades de lazer e para a possibili- De outro estavam os que achavam que a brin- mais velhos e com as outras crianças a cultura
Considerando que, historicamente, os laços dade de diminuir o número de horas que elas cadeira era perda de tempo, um mero diver- do seu grupo, discutindo, refletindo, criando
estabelecidos entre as crianças e entre elas e os passam em frente à TV em prol de mais tempo timento. A eles se acrescentava um terceiro regras, analisando, enfim, se socializando.
adultos durante as atividades lúdicas permiti- investido num brincar de maior qualidade e, grupo, que teoricamente adotava postura favo- Apontaram que uma das funções da brinca-
ram a perpetuação da cultura, a equipe de tra- idealmente, na companhia dos pais. A partici- rável ao brincar, mas que, na prática, negava deira é a socialização, porque é brincando que
balho entendeu que essa pouca interação lúdica pação ativa dos pais deve ser estimulada, pois, espaço à atividade. Para esse último grupo as crianças se inserem na cultura.
entre pais e filhos, entre outras coisas, acabou como foi visto, fortalece a segurança e a auto- de pais, era mais importante a quantidade de Dentre as vantagens apresentadas pela brin-
cadeira coletiva está a aprendizagem de valores que a brincadeira seja pouco permitida na escola dos educadores. A equipe de trabalho entende mesma maneira eram mais tímidas, individua-
e regras, fundamentais para um convívio social e freqüentemente excluída da sala de aula. que uma pedagogia do brincar certamente será listas, inseguras, dependentes e, às vezes, mais
harmônico, nem sempre fácil na vida moderna. Em uma sociedade em que predominam o mais complexa, mas também mais humana e, agressivas.
Talvez esse aspecto esteja fazendo diferença na conhecimento e a informação, é natural que o uma vez assimilada, poderá ser um campo fér- Diante dos dados obtidos, a equipe de traba-
vida das crianças hoje, pois foi um dado muito lúdico se oponha ao trabalho, porque, enquanto til de diálogo entre adultos e crianças. lho ousou fazer algumas sugestões que poderão
discutido entre especialistas e pais. Brincando o jogo é diversão, portanto perda de tempo, o O verbo ensinar, muito usado na escola, auxiliar pais e educadores a dar mais quali-
sozinha, a criança não precisa respeitar regras, trabalho é produção. Essa é uma das justifica- vem agregado a outro, que é aprender, mas essa dade ao brincar das crianças, tornando-as mais
satisfaz imediatamente seus próprios desejos, tivas pelas quais o jogo, quando utilizado na simultaneidade só ocorrerá se isso se processar felizes.
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sem que tenha a necessidade de negociar, refle- instituição, limita-se apenas a uma atividade em um lugar agradável, interessante e estimu- Para os pequenos que têm pouco interesse
tir e ceder. didática, não havendo possibilidade de escolha lador. Portanto, por que não pensar na brinca- em explorar os movimentos e que brincam
Os participantes também foram unânimes pela criança. deira dentro dos muros da escola? sozinhos, seria importante que os pais estives-
em demonstrar insatisfação na realização do Nesse sentido, é interessante observar a Mudar certamente envolve um preparo sem atentos para que suas atividades recreati-
brincar quase exclusivamente em locais meno- controvérsia que emergiu na pesquisa, mesmo adequado dos profissionais nos cursos de for- vas fossem mais bem distribuídas, ou seja, que
res, fechados e privados, pois há menos pos- entre os especialistas, explicitando a dicotomia mação, como demonstraram os especialistas, eles deixassem de passar tantas horas em frente
sibilidade de agir, explorar, descobrir, criar e existente entre o jogo livre e o jogo dirigido. e isso necessita de conhecimento, de políticas à TV, substituindo esse tempo por atividades
interagir com outros. Além disso, quando os No entanto, a maior parte dos sujeitos, espe- e, sobretudo, de vontade. A equipe de trabalho mais artísticas (massinha, desenho, pintura)
locais existem, não há equipamentos para os cialmente as crianças, enfatizou o prazer da espera que este projeto sirva para aumentar e momentos de faz-de-conta. Isso daria asas
pequenos brincarem. livre escolha no brincar, ou seja, a brincadeira essa vontade de incorporar o brincar dentro da à imaginação, possibilitando a eles vivenciar
A pesquisa mostrou, ainda, que um dos pou- enquanto expressão de liberdade. escola e da sala de aula. papéis, criar e ampliar, assim, sua percepção.
cos espaços amplos destinados ao brincar cole- Esse dado mostrou-se bastante interessante, Olhando para o futuro, do ponto de vista dos Certamente tais atividades estariam contri-
tivo é a escola, mas, apesar disso, ela possui um porque o brincar tem origem nas motivações pais entrevistados, na análise quantitativa dos buindo também para o desenvolvimento da lin-
papel controverso em relação à atividade lúdica. intrínsecas de cada um, de modo que tais moti- dados foi possível perceber que havia uma rela- guagem, de outras formas de expressão, para a
Enquanto pais e especialistas afirmaram que vações determinam as ações e os desejos de ção entre a freqüência de algumas brincadeiras socialização, para a aceitação da diversidade
ela é um local de trabalho, para as crianças ela cada pessoa. Uma vez que seus desejos sejam realizadas no dia-a-dia e alguns comportamen- em todas as suas formas, para a criação de
foi vista como um espaço de brincar. satisfeitos ou as ações realizadas, as crianças tos apresentados pelas crianças na escola. E foi novos vínculos, para a criação e a observância
De acordo com Lief e Brunelle (1978), jogar demonstram sensação de alegria, felicidade e a partir dessa análise que se elaborou o Índice de regras.
educa tanto quanto viver, porém nem sempre bem-estar, como apontaram, de forma quase Brincar apresentado anteriormente. No caso dos mais tranqüilos e confiantes,
jogar instrui, e esta é, justamente, a polêmica unânime, os pais na última etapa da pesquisa, a Assim, por exemplo, crianças que brinca- que têm brincadeiras variadas dentro da média,
fundamental que envolve a escola, pois, para a etapa quantitativa. vam com mais freqüência e diversidade, ou seria importante mantê-los dessa forma e esti-
grande maioria dos pais, ela tem a função de Quanto a esse aspecto, há de se concordar seja, que apresentavam, segundo a opinião da mular, ainda mais, atividades que objetivem a
instruir. com Criado (1998), para quem é impossível equipe de trabalho, “um brincar de qualidade”, expressão artística, o desenho e a construção de
Para eles a escola se aproxima da preocu- obrigar a criança a brincar. mostravam comportamentos mais adequados. seus próprios brinquedos. Por certo tais ativi-
pação, por ser um local de trabalho, enquanto a Então, como conciliar as duas concepções Eram mais cooperativas, mais alegres, mais dades estariam auxiliando o desenvolvimento
brincadeira está associada à permissão, por per- do brincar dentro da escola? tranqüilas, mais extrovertidas, mais autônomas da criatividade na descoberta de soluções para
mitir o lazer, e à idéia do não comprometimento, Essa não é uma situação fácil de ser solu- e, até mesmo, mais curiosas. Contrariamente, os problemas encontrados, o atendimento das
por ser associada à infância. Essa visão faz com cionada e menos ainda confortável por parte aquelas que brincavam pouco e sempre da necessidades afetivas, o exercício da autonomia
e a construção da identidade, além do conhe- bém deve incluir um brincar de qualidade, potencializados serão seu desenvolvimento e
cimento dos valores éticos na construção dos aspecto que eles mesmos reconheceram quando sua aprendizagem.
relacionamentos. estimulados. Nessa perspectiva, o futuro das crianças,
Já as crianças que possuem uma boa qua- Vale ressaltar que a equipe de trabalho sua vontade e sua necessidade de brincar são
lidade no brincar, que são mais cooperativas, entende que, para o leitor, este relatório talvez determinados pelas condições oferecidas pela
que vivenciam uma série de brincadeiras diver- gere mais perguntas do que respostas. Não pode- sociedade em que vivem e pelo contexto em
sificadas no seu dia-a-dia e que se caracterizam ria ser diferente, uma vez que se propôs a fazer que se inserem.
pela curiosidade na descoberta, criatividade e algo original e inusitado. Espera-se, no entanto,
autonomia nas ações e sociabilidade, devem como já foi dito, que este projeto de pesquisa É preciso aceitar que toda criança deve ter
continuar sendo estimuladas nessas ativida- tenha levantado informações relevantes sobre o o direito de viver suas fantasias. O mundo da
des, de modo a aprimorar ainda mais o seu brincar que estimulem um debate mais amplo e fantasia é o reino da criação, suas fronteiras
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desenvolvimento. profundo sobre o assunto, favorecendo assim a vão muito além dos limites dos sentidos e sua
Existe uma grande discussão entre os espe- possibilidade de ação para a melhoria do brin- lógica é diferente daquela que governa o mundo
cialistas em relação ao aprender brincando. car na sociedade brasileira em geral. da razão. A criança que está fantasiando, mis-
Inúmeras experiências demonstram que o A pesquisa mostrou que, para as crianças, as turando sonho e realidade, está fazendo uso
jogo pode contribuir para a aprendizagem. questões sobre o que se considera um momento mais intenso e mais ousado da inteligência,
No entanto, resta saber como a aprendizagem ideal para o brincar e sobre o que constitui um como pequena divindade criadora de mundos.
ocorre com as crianças quando elas brincam e brinquedo são muito relativas: elas conseguem Ela deve ter assegurado esse direito para ser
quais as relações entre jogo e aprendizagem. brincar quando e onde estiverem e com o que criança (DALLARI, 1986, p. 62).
Levando em conta que o desenvolvimento estiver à mão.
humano continua ao longo da vida e que a apren- Observou-se que, para brincar, as crianças À medida que os adultos, pelo exercício da
dizagem acontece em qualquer lugar, a equipe fazem qualquer coisa, dando grande valor a cidadania, se tornam fundamentais na deter-
de trabalho sugere que o brincar deve ser parte essa atividade fora de casa. Tanto para os pais minação do contexto no qual as crianças estão
integrante da aprendizagem. Assim, todos nós, e os especialistas quanto para as crianças, elas inseridas, cabe a cada um a vontade e a ação
cidadãos e cidadãs, devemos repensar os con- têm necessidade de espaços mais amplos, por- para garantir a elas a oportunidade de brincar
ceitos de educação “formal” e “informal”, pas- que eles permitem não apenas o movimento com qualidade. O grande desejo dos pais de
sando o brincar – hoje visto pela maioria como em sua plenitude, a exploração do ambiente, a poder melhorar a qualidade de suas vidas e a de
“informal” – para dentro da educação “formal” diversidade de opções, a aventura, mas também suas famílias pode ser realizado ao possibilitar
da escola e para dentro da família como fonte a brincadeira coletiva e a liberdade de sentir, às crianças sonhar, criar um futuro mais feliz,
importante da interação entre pais e filhos. perceber, imaginar, criar regras e respeitar-se brincar.
As mudanças de atitudes são complexas em mutuamente. Então, caro leitor, feche este livro e saia
todos os tipos de assuntos, principalmente em Chegando ao final, a equipe de trabalho veri- para brincar com as crianças, elas ficarão muito
temas como o brincar, que implicam decisões ficou que a natureza humana se transforma pelo felizes.
consideradas importantes para os pais (bem- efeito das relações resultantes entre o homem e
estar e futuro dos filhos) e sobre as quais não seu meio. Quanto mais amplo e estimulante for
se dispõe de muitas informações. No mínimo, o espaço e quanto mais possibilidades as crian-
acredita-se que este trabalho revela a necessi- ças tiverem de interagir brincando com seu
dade de mostrar e divulgar a importância para entorno, com outras crianças e com seus pais,
os pais que a agenda básica das crianças tam- mais ricas serão suas vivências e mais bem
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As autoras 253

Maria Angela Barbato Carneiro Janine J. Dodge


Licenciada em Pedagogia pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Sedes Sapientiae, Trabalha como gerente de marca para a empresa multinacional Unilever desde 2002. Atuando
em São Paulo, cursou, posteriormente, o mestrado na área de Educação na PUC/SP e o douto- na área de marketing, tem liderado a integração de responsabilidade social no negócio das mar-
rado na área de Ciências da Comunicação na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. cas visando a sustentabilidade a longo prazo, com destaque para seu trabalho sobre o brincar e
Desde o início de sua carreira vem se dedicando à educação, atuando nos diferentes níveis o desenvolvimento e a aprendizagem infantil, quando foi gerente da marca OMO.
de escolaridade, tanto em instituições de caráter público quanto de caráter privado. Tem exercido várias funções de interesse público no Canadá, atuando na prefeitura da
Iniciou seus estudos como pesquisadora no Laboratório de Brinquedos e Materiais Pedagó- cidade de Ottawa, na programação e execução de atividades para crianças num parque público,
gicos (Labrimp), na Faculdade de Educação da USP. Foi presidente da Associação Brasileira de e assessorando um membro do Parlamento canadense. Tem trabalhado ainda como voluntária
Brinquedotecas e se dedica desde 1986 a estudar o brincar. Nos últimos anos, vem mantendo na estruturação da ONG Roots of Empathy, um extenso programa executado no Canadá e na
intercâmbio com a Universidade de Alcalá de Henares, na Espanha. É vice-coordenadora do Austrália que envolve atualmente mais de 150 mil crianças em sala de aula e que tem se mos-
Curso de Pedagogia da Faculdade de Educação da Pontifícia Universidade Católica de São trado muito eficaz na redução da agressão e da violência.
Paulo (PUC/SP), onde ministra aulas de Políticas de Educação Infantil, coordena o Programa Já trabalhou nos setores financeiro e de mídia no Banco Interamericano de Desenvolvi-
de Educação Continuada (PEC) – Municípios – 2.a edição em parceria com a Universidade de mento (BID), nos Estados Unidos; no Credicard e na Editora Abril, no Brasil; no Scotiabank,
São Paulo, a Fundação para o Desenvolvimento da Educação e as secretarias de educação de no Canadá, e no Banco Sudamericano, no Chile.
nove municípios paulistas. Coordena, ainda, na PUC/SP, o Núcleo de Cultura, Estudos e Pes- Formada pela Universidade de Toronto em Relações Internacionais com foco no desenvol-
quisas do Brincar e da Educação Infantil, onde orienta pesquisas, divulga trabalhos e realiza vimento da América Latina, Janine possui mestrado em Administração de Negócios (MBA)
grupos de estudo e cursos de formação na área. pela York University, também em Toronto (Canadá).
Tem inúmeras publicações sobre o assunto, entre elas o livro Brinquedos e brincadeiras: É casada com José Cláudio, com quem tem dois filhos, Luc e Sabrina, fonte constante de
formando ludoeducadores. aprendizado e alegrias.

Contato: mabarbato@uol.com.br Contato: janine@terraforum.com.br


Ilustrações CD Índice Brincar OMO
Maria Eugênia
Responsáveis pela Elaboração do Conteúdo
254 Projeto Gráfico & Editoração Promove 255

Lili Tedde Marilena Flores Martins                


Maria Ângela Carneiro
Revisão
Carmen Garcez Ilustrações
Edna Maria Barian Perrotti Maria Eugênia
Frank de Oliveira
Projeto Gráfico
Coordenação Editorial Lili Tedde
Ler é Fundamental Produções e Projetos
Criação da Ferramenta Estatística
Realização Instituto Ipsos 
Secco Assessoria Empresarial
Responsável pela Animação
Concepção Sem Fronteiras Comunicação
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Produção
Impresso em junho de 2007 Kitmais® Comércio e Serviços Ltda.

Editora Boa Companhia


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