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PLANEJAMENTO

URBANO E MEIO
AMBIENTE

Professor Dr. André Cesar Furlaneto Sampaio

GRADUAÇÃO

Unicesumar
Reitor
Wilson de Matos Silva
Vice-Reitor
Wilson de Matos Silva Filho
Pró-Reitor Executivo de EAD
William Victor Kendrick de Matos Silva
Pró-Reitor de Ensino de EAD
Janes Fidélis Tomelin
Presidente da Mantenedora
Cláudio Ferdinandi

NEAD - Núcleo de Educação a Distância


Diretoria Executiva
Chrystiano Mincoff
James Prestes
Tiago Stachon
Diretoria de Graduação e Pós-graduação
Kátia Coelho
Diretoria de Permanência
Leonardo Spaine
Diretoria de Design Educacional
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Head de Produção de Conteúdos
Celso Luiz Braga de Souza Filho
Head de Curadoria e Inovação
Tania Cristiane Yoshie Fukushima
Gerência de Produção de Conteúdo
Diogo Ribeiro Garcia
Gerência de Projetos Especiais
Daniel Fuverki Hey
Gerência de Processos Acadêmicos
Taessa Penha Shiraishi Vieira
Gerência de Curadoria
Carolina Abdalla Normann de Freitas
Supervisão de Produção de Conteúdo
Nádila Toledo
Coordenador de Conteúdo
Paulo Pardo
Qualidade Editorial e Textual
Daniel F. Hey, Hellyery Agda
Design Educacional
C397 CENTRO UNIVERSITÁRIO DE MARINGÁ. Núcleo de Educação a Giovana Cardoso
Distância; SAMPAIO, André Cesar Furlaneto. Projeto Gráfico
Jaime de Marchi Junior
Planejamento Urbano e Meio Ambiente. André Cesar Furlaneto José Jhonny Coelho
Sampaio. Arte Capa
Maringá-Pr.: UniCesumar, 2017. Reimpresso em 2019. Arthur Cantareli Silva
273 p.
“Graduação - EaD”. Ilustração Capa
Bruno Pardinho
1. Ambiente. 2. Planejamento. 3. Urbano. 4. EaD. I. Título. Editoração
Ellen Jeane da Silva
ISBN 978-85-459-0612-4
CDD - 22 ed. 711.4 Revisão Textual
711.4 CIP - NBR 12899 - AACR/2 Pedro Afonso Barth
Helen Braga Prado
Ilustração
Marcelo Goto
Ficha catalográfica elaborada pelo bibliotecário
João Vivaldo de Souza - CRB-8 - 6828

Impresso por:
Em um mundo global e dinâmico, nós trabalhamos
com princípios éticos e profissionalismo, não so-
mente para oferecer uma educação de qualidade,
mas, acima de tudo, para gerar uma conversão in-
tegral das pessoas ao conhecimento. Baseamo-nos
em 4 pilares: intelectual, profissional, emocional e
espiritual.
Iniciamos a Unicesumar em 1990, com dois cursos
de graduação e 180 alunos. Hoje, temos mais de
100 mil estudantes espalhados em todo o Brasil:
nos quatro campi presenciais (Maringá, Curitiba,
Ponta Grossa e Londrina) e em mais de 300 polos
EAD no país, com dezenas de cursos de graduação e
pós-graduação. Produzimos e revisamos 500 livros
e distribuímos mais de 500 mil exemplares por
ano. Somos reconhecidos pelo MEC como uma
instituição de excelência, com IGC 4 em 7 anos
consecutivos. Estamos entre os 10 maiores grupos
educacionais do Brasil.
A rapidez do mundo moderno exige dos educa-
dores soluções inteligentes para as necessidades
de todos. Para continuar relevante, a instituição
de educação precisa ter pelo menos três virtudes:
inovação, coragem e compromisso com a quali-
dade. Por isso, desenvolvemos, para os cursos de
Engenharia, metodologias ativas, as quais visam
reunir o melhor do ensino presencial e a distância.
Tudo isso para honrarmos a nossa missão que é
promover a educação de qualidade nas diferentes
áreas do conhecimento, formando profissionais
cidadãos que contribuam para o desenvolvimento
de uma sociedade justa e solidária.
Vamos juntos!
Seja bem-vindo(a), caro(a) acadêmico(a)! Você está
iniciando um processo de transformação, pois quando
investimos em nossa formação, seja ela pessoal ou
profissional, nos transformamos e, consequentemente,
transformamos também a sociedade na qual estamos
inseridos. De que forma o fazemos? Criando oportu-
nidades e/ou estabelecendo mudanças capazes de
alcançar um nível de desenvolvimento compatível com
os desafios que surgem no mundo contemporâneo.
O Centro Universitário Cesumar mediante o Núcleo de
Educação a Distância, o(a) acompanhará durante todo
este processo, pois conforme Freire (1996): “Os homens
se educam juntos, na transformação do mundo”.
Os materiais produzidos oferecem linguagem dialógica
e encontram-se integrados à proposta pedagógica, con-
tribuindo no processo educacional, complementando
sua formação profissional, desenvolvendo competên-
cias e habilidades, e aplicando conceitos teóricos em
situação de realidade, de maneira a inseri-lo no mercado
de trabalho. Ou seja, estes materiais têm como principal
objetivo “provocar uma aproximação entre você e o
conteúdo”, desta forma possibilita o desenvolvimento
da autonomia em busca dos conhecimentos necessá-
rios para a sua formação pessoal e profissional.
Portanto, nossa distância nesse processo de cresci-
mento e construção do conhecimento deve ser apenas
geográfica. Utilize os diversos recursos pedagógicos
que o Centro Universitário Cesumar lhe possibilita.
Ou seja, acesse regularmente o Studeo, que é o seu
Ambiente Virtual de Aprendizagem, interaja nos fóruns
e enquetes, assista às aulas ao vivo e participe das dis-
cussões. Além disso, lembre-se que existe uma equipe
de professores e tutores que se encontra disponível para
sanar suas dúvidas e auxiliá-lo(a) em seu processo de
aprendizagem, possibilitando-lhe trilhar com tranqui-
lidade e segurança sua trajetória acadêmica.
AUTOR

Professor Dr. André Cesar Furlaneto Sampaio


Doutor (2013) e mestre (2006) em Geografia pela Universidade Estadual de
Maringá (UEM). Possui especialização em Engenharia e Gestão Ambiental,
pelo Instituto de Engenharia do Paraná (IEP/2003). Engenheiro florestal,
graduado pela Universidade Federal do Paraná (UFPR/2002). Durante doze
anos tem dedicado a vida profissional a trabalhos na área ambiental. Foram
muitas consultorias realizadas e diversos projetos ambientais concretizados,
perfazendo experiências em diversos temas como: arborização urbana,
paisagismo, recuperação de áreas degradadas, estudos de impacto ambiental,
manejo de áreas para conservação (Unidades de Conservação), inventário
florestal, ecologia da paisagem, geoprocessamento, levantamentos
geoambientais, fitossociologia e florística, dentre outras. Seus trabalhos e
atuações em áreas urbanas, principalmente relacionados ao meio ambiente,
como o Censo da Árvore, que realizou com apoio do Centro Universitário
Cesumar (Unicesumar)(levantamento quali-quantitativo da arborização de
vias públicas da cidade de Maringá), assim como, vários planos de manejo de
unidades de conservação em áreas urbanas, e estudos geográficos em diversos
municípios, dão subsídios técnicos para ministrar e organizar a disciplina de
Planejamento Urbano e Meio Ambiente do curso de Negócios Imobiliários.

Para informações mais detalhadas sobre sua atuação profissional, pesquisas e


publicações, acesse seu currículo, disponível no endereço a seguir:

<http://lattes.cnpq.br/3598587630674234>.
APRESENTAÇÃO

PLANEJAMENTO URBANO E MEIO AMBIENTE

SEJA BEM-VINDO(A)!
Prezado(a) aluno(a), vivemos atualmente em um mundo urbano. A cada ano que pas-
sa mais a humanidade se estabelece nos centros urbanos e essa tendência não possui
muitas probabilidades de mudar. Cada vez mais as cidades se tornam o símbolo máximo
da humanidade. A história da humanidade, o passado, presente e futuro se encontram
nas cidades. A grande diversidade ideológica, cultural, religiosa, social e étnica da huma-
nidade em conjunto com a grande diversidade ambiental: tipos de clima, solo, relevo,
vegetação e fauna, acabam por moldar as cidades pelo mundo. Homem e natureza se
relacionam com maior intensidade nos centros urbanos. Temos nas cidades a demons-
tração do enorme poder de transformação do homem sobre a natureza, mas também,
um exemplo da ineficácia do homem no controle de sua criação. Entender o funciona-
mento das cidades é tão complexo como entender o funcionamento de um ecossistema
natural, são muitos aspectos a serem correlacionados, e de região para região se distin-
guem. Concluímos assim que o que é urbano está intimamente ligado à sociedade, e
claro, ao meio ambiente (natureza).
Sabemos que a humanidade é extremamente dependente da natureza e seus recursos
da forma como existem nos últimos milhares de anos e que precisamos buscar a susten-
tabilidade. A ciência tem evidenciado que o caminho do desenvolvimento sustentável
é o único realmente viável se quisermos melhor qualidade de vida no futuro. A luta para
consolidar um desenvolvimento (progresso) que não traga sofrimento e perdas à hu-
manidade por falta ou má distribuição de seus recursos naturais, tem como palco mais
importante as cidades, pois são nelas que se concentram as pessoas. A cidade, seu fun-
cionamento, infraestrutura, divisões, comércio, ruas e avenidas, demonstram os ideais e
percepções das pessoas que a habitam. Cabe aqui ressaltar os dizeres de Meinig (2002,
p. 35), estudioso da geografia e das paisagens cujos estudos veremos na Unidade II, que
afirma que “qualquer paisagem é composta não apenas por aquilo que está à frente dos
nossos olhos, mas também por aquilo que se esconde em nossas mentes”. As cidades
são o reflexo de sua sociedade.
As cidades não melhoram suas condições se a sociedade não melhora em termos so-
ciais, culturais, econômicos, políticos e ambientais. Sabendo disso é óbvio concluir que
conseguir melhoras em uma cidade tem grandes dificuldades. Quanto mais existir um
mundo melhor, mais teremos planejamento urbano eficaz e o contrário também é ver-
dade. Ou seja, buscando uma cidade mais justa, organizada e eficiente existirá grande
contribuição para um mundo melhor. Entra em cena o pensamento de cunho ambienta-
lista e voltado à sustentabilidade, que atualmente é usual no planejamento urbano: agir
localmente para mudar globalmente.
Com tudo que foi dito fica evidente que quando falamos em planejamento urbano en-
tramos em um universo de informações multidisciplinares, envolvendo geografia, bio-
logia, ecologia, economia, engenharia, sociologia, psicologia, antropologia entre outros.
O que obviamente é de grande complexidade e impossível de ser totalmente destrin-
chado e detalhado apenas nesta disciplina. Trataremos dos conceitos e ideais mais bá-
sicos e voltados ao entendimento do planejamento urbano para uma boa formação do
APRESENTAÇÃO

profissional voltado aos negócios imobiliários. O entendimento pleno sobre plane-


jamento urbano necessita de um grande arcabouço técnico, dificilmente encontra-
do em apenas um tipo de profissional.
Portanto, vamos iniciar um processo de aprendizagem no universo do planeja-
mento urbano e por consequência em meio ambiente, para fornecer aos leitores e
alunos uma ferramenta para a realização de uma análise crítica e construtiva desse
tema tão vasto e necessário na atualidade.
O livro se divide em cinco unidades. Na Unidade I, trataremos dos principais aspec-
tos históricos do surgimento das cidades e da evolução do planejamento urbano no
Brasil e no mundo, chegando ao final nas consequências e problemas mais graves
que ocorrem nos centros urbanos.
Na Unidade II, trataremos de fundamentos de cunho ambiental importantes para
um melhor entendimento do planejamento urbano atual, onde entram conceitos
como meio ambiente, biodiversidade, sustentabilidade e o estudo das paisagens
naturais, culminando no entendimento da importância das áreas verdes urbanas
e no funcionamento da legislação e licenciamento ambiental para o planejamento
urbano.
Na Unidade III, começaremos a tratar do planejamento urbano em um viés mais
técnico, mostrando os principais conceitos, etapas e dimensões de atuação.
Na Unidade IV, trataremos da legislação específica voltada ao planejamento das
cidades, com foco no Estatuto da Cidade; detalhando o funcionamento de instru-
mentos como o Plano Diretor e o Zoneamento Urbano, além de evidenciar o funcio-
namento do parcelamento do solo nas cidades. A unidade finaliza-se tratando das
incorporações imobiliárias e suas etapas legislativas.
Por fim, na Unidade V, falaremos sobre os principais setores para a gestão urbana,
diretamente vinculados à infraestrutura das cidades: saneamento básico, com foco
no tratamento de resíduos sólidos; energia elétrica e sua relação com as cidades;
mobilidade urbana, entrando em seus conceitos principais e a situação no Brasil.
Por fim, serão demonstradas algumas novas tecnologias, de cunho sustentável, que
trarão benefícios ao planejamento urbano.
Desejo a você uma ótima leitura e estudo.
09
SUMÁRIO

UNIDADE I

HISTÓRICO E ASPECTOS GERAIS DO PLANEJAMENTO URBANO

15 Introdução

16 A Humanidade e o Surgimento das Cidades

18 Evolução Histórica das Cidades

29 A Evolução do Urbanismo e Planejamento Urbano no Mundo e no Brasil

34 Principais Problemáticas e Impactos Ambientais Urbanos

55 Considerações Finais

61 Referências

64 Gabarito

UNIDADE II

FUNDAMENTOS AMBIENTAIS PARA PLANEJAMENTO URBANO

67 Introdução

68 Cenário Ambiental Mundial e Brasileiro

72 Conceitos Básicos de Fundamentos Ambientais

92 Análise da Paisagem para Planejamento Urbano

103 Legislação e Licenciamento Ambiental

123 Considerações Finais

130 Referências

135 Gabarito
10
SUMÁRIO

UNIDADE III

PLANEJAMENTO URBANO: ETAPAS E DIMENSÕES

139 Introdução

140 Conceitos Técnicos Importantes do Planejamento Urbano

146 Etapas do Planejamento Urbano

151 Dimensões do Planejamento Urbano

157 Áreas Verdes Urbanas

175 Considerações Finais

180 Referências

183 Gabarito

UNIDADE IV

PLANEJAMENTO URBANO: INSTRUMENTOS LEGISLATIVOS DE


PLANEJAMENTO URBANO

187 Introdução

188 Análise das Principais Ferramentas do Estatuto da Cidade

204 Zoneamento Urbano e Parcelamento do Solo 

213 Incorporações Imobiliárias

219 Considerações Finais

225 Referências

227 Gabarito
11
SUMÁRIO

UNIDADE V

PRINCIPAIS SETORES DA GESTÃO URBANA

231 Introdução

232 Saneamento Básico

245 Rede Elétrica

251 Mobilidade Urbana

258 Novas Tecnologias para uso no Planejamento Urbano

264 Considerações Finais

270 Referências

272 Gabarito

273 CONCLUSÃO
Professor Dr. André Cesar Furlaneto Sampaio

I
HISTÓRICO E ASPECTOS

UNIDADE
GERAIS DO PLANEJAMENTO
URBANO

Objetivos de Aprendizagem
■■ Conhecer o histórico do surgimento das cidades.
■■ Compreender a evolução e transformações das cidades ao longo do
tempo.
■■ Conhecer o histórico do planejamento urbano no Brasil.
■■ Conhecer os principais problemas urbanos e seus impactos sobre o
meio ambiente e a sociedade.

Plano de Estudo
A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade:
■■ A humanidade e o surgimento das cidades
■■ Evolução histórica das cidades
■■ Evolução do urbanismo e planejamento urbano no mundo e no Brasil
■■ Principais problemáticas e impactos ambientais urbanos
15

INTRODUÇÃO

Caro (a) aluno (a), atualmente estamos vivendo tempos históricos, pois acontece
diante de nossos olhos, a maior onda de urbanização da história da humanidade.
Pode-se dizer que esse processo iniciou-se em 2005 e a previsão é que se fina-
lize em 2050. Passaremos de 3,2 bilhões de pessoas nas cidades para 6,3 bilhões.
Para 2050, a previsão é que cerca de 64% a 70% da humanidade esteja concen-
trada nas zonas urbanas. A população mundial de 7,2 bilhões de pessoas poderá
chegar a 9,6 bilhões em 2050. (LEITÃO, 2013; ONU, 2012).
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Em termos gerais, o grande crescimento populacional será especialmente na


região do continente africano, pois no restante do mundo já existe uma diminui-
ção do crescimento populacional. De toda forma em todos os países a população
cada vez mais se intensificará nas cidades (ONU, 2012).
No Brasil e em outros países, onde a população não será tão grande quando
comparada ao território e a quantidade de recursos naturais, teremos inúme-
ros desafios, pois existe a tendência de imigrações dos povos subdesenvolvidos.
Teremos de estar aptos a receber uma população carente e ter recursos para capa-
citá-los profissionalmente e evoluir em termos de qualidade de vida para todos.
Estão previstos desafios mundiais extraordinários como: adequar às regi-
ões costeiras para as mudanças climáticas; modernizar a mobilidade urbana;
melhorar a qualidade de vida; conseguir controlar e trabalhar melhor nossos
resíduos sólidos; construir sistemas eficientes de alerta de eventos catastróficos;
conservar os recursos naturais de forma eficiente como a água, o solo e a biodi-
versidade. Teremos uma agenda de grandes tarefas que precisará da cooperação
entre povos em detrimento da competição (LEITÃO, 2013).
Diante de tantos desafios é muito importante entender o histórico que nos
levou até o momento atual e traçar prognósticos sobre o futuro. Como disse
Gandhi: “se quisermos progredir, não devemos repetir a história, mas sim, fazer
uma história nova”.

Introdução
16 UNIDADE I

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
©shutterstock

A HUMANIDADE E O SURGIMENTO DAS CIDADES

A história do surgimento das cidades fica entrelaçada pela história da humanidade,


pois as cidades só surgiram por causa da existência de uma espécie específica o
Homo sapiens (ser humano). Mas antes de focar nessa história, acho importante
demonstrar que na escala de tempo do universo e da existência de nosso pla-
neta a humanidade e as cidades existem por um tempo ínfimo, o que demostra
nossa insignificância diante da natureza em todo seu processo de transformações.
O universo tem cerca de 15 bilhões de anos, o planeta terra 4,6 bilhões de
anos, a vida surgiu na terra entre 4,1 a 3,5 bilhões de anos. Já o homem, devida-
mente como Homo sapiens, tem sua existência fora da casa dos bilhões, muito
menos da dos milhões, existe há apenas aproximados 400 mil anos. De todo esse
minúsculo tempo que a humanidade existe, faz ridículos 10 mil anos que se vive
em grandes comunidades, o restante do tempo se viveu coletando e caçando ali-
mento, como nômades, vivendo em pequenos grupos. Foi só após a descoberta
da agricultura e da criação de animais que surgiram as cidades, a economia e
as civilizações, pois só assim a humanidade conseguiu se aglomerar em gran-
des grupos. No final das contas foi a agropecuária que criou nossas sociedades
(DIAMOND, 2010).
Nosso tempo de existência é muito pequeno, o que demonstra que temos de ser
cautelosos, respeitar a maquinaria que é a natureza, suas engrenagens e peças. Só assim
seremos aptos para sobreviver por longos períodos dentro da escala do universo.

HISTÓRICO E ASPECTOS GERAIS DO PLANEJAMENTO URBANO


17

Como vimos, a humanidade passou seu maior tempo de existência como


nômade. Adaptavam-se a natureza não produzindo grandes alterações nas pai-
sagens. A caça e a coleta de alimentos sustentavam apenas quatro pessoas por
KM2, ou seja, não éramos numerosos ainda (MUMFORD, 1982).
As cidades nasceram após a formação de aldeias, mas não se trata apenas
do aumento de casas e do crescimento da população. Ela inicia sua existência
quando serviços diferentes, não ligados à agropecuária, começam a existir, como:
a fabricação de artefatos, serviços religiosos, medicinais e militares. Formou-se
assim uma nova classe de trabalhadores, de início subalternos dos agricultores,
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

mantidas pelo excedente do produto total. A sociedade assim caminhou para


se tornar capaz de evoluir e de projetar a sua evolução. A cidade caracteriza-se
como sendo o centro maior desta evolução (BENEVOLO, 1993).
Por meio do contínuo aumento populacional, somado com a consolida-
ção da prática da agricultura intensiva, surgiu um novo estilo de vida na qual a
formação das cidades se tornou essencial. Essas alterações induziram mudan-
ças fundamentais, na economia e nas ordens sociais, tecnológica e ideológica
(ABIKO et al., 1995). O domínio da locomoção em cavalos, a invenção da roda,
de utensílios como carroças e a metalurgia trouxeram grandes modificações na
sociedade e a formação de cidades, cada vez mais complexas e grandes (CASILHA;
CASILHA, 2009).
Com o crescimento das cidades e de suas populações foram se formando
regras para organização da sociedade, houve uma organização política e hierar-
quização das classes de trabalhadores. Entra em cena a religião, uma característica
importante nas cidades primitivas, em que as pessoas deviam servir a um deus
poderoso, geralmente representado por um rei de carne e osso. Com o temor aos
superiores políticos, a organização das cidades e seu avanço se deram de forma
rápida e organizada (CASILHA; CASILHA, 2009). O desenvolvimento dentro
desses moldes acabou por trazer bastante desigualdade social e temos reflexos
disso até hoje na sociedade.
A evolução das cidades acompanha a evolução da humanidade e seus perí-
odos históricos, dessa forma, é importante marcamos a divisão desses períodos.
Observe o Quadro 1, a seguir.

A Humanidade e o Surgimento das Cidades


18 UNIDADE I

Quadro 1 – Divisão dos períodos históricos da existência da humanidade

Períodos Pré-história Antiguidade Idade Média Idade Idade


Moderna Contemporânea

(Das origens (De 4000 a.C. (De 476 a (De 1453 a (De 1789 aos
do homem a 476) 1453) 1789) dias atuais)
até 4000 a.C)

Evento
Origem da Queda do
que marca Invenção da Queda de Revolução Fran-
espécie Império
o início de escrita. Constantinopla. cesa.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
humana. Romano.
cada era
Fonte: o autor

EVOLUÇÃO HISTÓRICA DAS CIDADES

Caro (a) aluno (a), trataremos de aspectos


históricos sobre o surgimento e evolução
das cidades e como consequência vislum-
braremos os problemas mais comuns da
urbanização.

CIDADES DA PRÉ-HISTÓRIA E
ANTIGUIDADE

No fim do que se chama de período pré-


-histórico nascem as primeiras cidades.
Seu surgimento fica estimado entre 5.000
a 3.000 a.C. na Mesopotâmia (planalto vulcânico entre dois rios - Tigre e Eufrates),
região hoje dentro dos limites do Iraque (CASILHA; CASILHA, 2009).

HISTÓRICO E ASPECTOS GERAIS DO PLANEJAMENTO URBANO


19
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Figura 1- Mapa da região da Mesopotâmia

A Mesopotâmia faz parte da região conhecida como Crescente Fértil, onde as pri-
meiras civilizações como um todo se consolidaram. Local em que existia maior
facilidade para o cultivo da terra, devido à fertilidade do solo proporcionada
pelas cheias dos rios. Além é claro, de água abundante para irrigação, consumo
e transporte. Trata-se de uma região com cerca de 400.000 a 500.000 km² que
hoje é povoada por 40 a 50 milhões de pessoas, englobando a Palestina, Israel,
Jordânia, Kuwait, Líbano e Chipre, além de partes da Síria, do Iraque, do Egito,
do sudeste da Turquia e sudoeste do Irã. Os rios que irrigam essa região são:
Jordão, Eufrates, Tigre e o Nilo (ABIKO et al., 1995).
Podemos dizer que as primeiras cidades foram as constituídas na civilização
dos Sumérios. Incrivelmente esse povo possuía grandes edificações, bairros espe-
cializados, ruas, sistemas de irrigação, grandes templos e grandes fortificações no
entorno. Tinham conhecimento amplo principalmente sobre arquitetura, mate-
mática e astronomia. Dentre suas construções destacam-se complexos sistemas
de controle da água dos rios, canais de irrigação, barragens e diques. São conside-
rados os inventores da escrita, que era chamada de cuneiforme, pois os símbolos

Evolução Histórica das Cidades


20 UNIDADE I

escritos em placas de argila eram feitos com instrumentos em formato de cunha.


As construções de maior imponência das cidades dos sumérios eram os zigura-
tes, se assemelhavam as pirâmides do Egito em grandiosidade, serviam para o
armazenamento de produtos agrícolas e como templos religiosos. Os sumérios
construíram muitas cidades importantes como: Ur (a maior que chegou a ter
25.000 habitantes), Nipur, Lagash e Eridu (KRAMER, 1977; BOUZON, 1998).

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Figura 2 - Zigurate da cidade de UR.

A origem dos sumérios ainda é misteriosa, são muitos os estudos e dúvidas sobre
a formação desse povo. Existem indícios que tenham sido um povo oriundo dos
planaltos iranianos, mas também podem ter procedido das próprias planícies
mesopotâmicas. De forma geral pode ter sido uma mistura de povos em que a
língua predominante era a suméria (CARDOSO, 1998).
As cidades da antiguidade eram chamadas de cidade-estado, devido a sua
grande importância e independência. Existiram muitas disputas entre povos e a
formação de impérios durante a antiguidade, e a conquista das cidades foi cru-
cial. Um longo período histórico se consolidou, nele estão presentes os egípcios,
acádios, babilônicos entre outros. Em todos os impérios e povos antigos as cida-
des se organizaram em torno da agricultura e da religião (ABIKO et al. 1995).

HISTÓRICO E ASPECTOS GERAIS DO PLANEJAMENTO URBANO


21

A maior cidade da antiguidade, que chegou a possuir mais de quinhentos mil


habitantes e foi um grande centro religioso chamava-se Babilônia. Possuía for-
tificações, muralhas, fossos e baluartes ao seu redor, o que junto com o grande
poder militar consolidava a segurança para os cidadãos. Havia praças agitadas
além de edifícios públicos como teatros, estádios, ginásios, centros educacionais
e culturais (CASILHA; CASILHA, 2009). Por volta de 2000 a.C Babilônia foi pla-
nificada. A cidade tinha um formato retangular de 2500 por 1500 metros e era
dividida pelo rio Eufrates. Foi traçada com regularidade geométrica tendo ruas
largas e retas (largura constante), muros recortados em ângulos retos e com a
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

presença de prédios de 3 e 4 pavimentos (ABIKO et al., 1995).


Outra civilização importante para o histórico das cidades foi a grega, que se
iniciou aproximadamente em 2.500 a. C. Suas cidades beiravam o mar e iam até
as encostas de montanhas. Existia uma preocupação com o desenho urbano, e a
configuração usual era a ortogonal, tipo um tabuleiro de xadrez. As ruas tinham
hierarquia e as casas seguiam alguns parâmetros urbanísticos como a necessi-
dade de terraços. Os gregos já se preocupavam com o tamanho das cidades, pois
sabiam que as cidades dependiam dos recursos mais próximos e de sua produção
agropecuária, ou seja, uma população fora de limites traria grandes problemas
sociais. O solo árido da Grécia não colaborava para a formação de grandes cida-
des, por isso quando a população chegava a cerca de 30 mil habitantes era habitual
iniciar a construção de uma nova cidade. Não somente o problema de recursos
naturais fazia a necessidade de controle de população nas cidades, mas também
a democracia que se iniciava, em que os conflitos de ideias em grandes popula-
ções trariam distúrbios mal vistos (BENEVOLO, 1993).
As principais cidades gregas foram: Atenas, Esparta e Tebas. Possuíam as
características das cidades-estados: eram independentes, com governo e padrões
militares próprios. O que as unificava eram os aspectos culturais, como a língua,
cujo alfabeto foi desenvolvido no Período Arcaico e um planejamento urbano,
semelhante entre cidades, devido à troca de informações e comunicação que
existiam. Os povos que formaram essas cidades gregas vieram de migrações do
Norte da Europa e eram chamados de povos indo-europeus. Algumas caracterís-
ticas de planejamento urbano e pensamentos dos gregos acabaram se difundindo
em outros impérios (BENEVOLO, 1993).

Evolução Histórica das Cidades


22 UNIDADE I

Os romanos foram outra grande civilização do período da antiguidade que


se utilizou de padrões helênicos (gregos) para o planejamento de suas cidades.
Devido à vastidão do império Romano por um período existiu paz entre os povos
antigos e as cidades passaram a não possuir muros e apresentavam grande urba-
nização. As preocupações com a expansão urbana foram diminuindo ao ponto
da cidade de Roma em cem anos saltar de 400 mil para 1,2 milhão de habitan-
tes. Essa expansão se realizou devido a uma ênfase dada à infraestrutura de
transportes, a formação de aquedutos que traziam água de grandes distâncias,
pelo início de uma preocupação com o esgotamento sanitário, que na época, em

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Roma, era feito por galerias subterrâneas (enormes e em perfeito estado até hoje);
pela divisão do território em quadras (bairros) com distribuição de serviços e a
exploração de territórios que abasteciam a cidade (CASILHA; CASILHA, 2009).
Mesmo com todos os esforços e novas tecnologias, o crescimento da cidade
de Roma e de sua população não foi harmonioso. Cerca de 25% da popula-
ção de Roma não tinha o que fazer, faltavam serviços. A comida tinha que ser
distribuída para que não houvesse enorme mortalidade por fome. A lista de
pessoas que precisavam de doa-
ção de alimentos chegou a ter 320
mil nomes no auge da expansão
de Roma. Devido à vastidão do
império havia muitos produtos
importados (grande parte dos
cerais), com isso, a agricultura
no entorno de Roma se concen-
trou em vinhas, formou-se um
tipo de monocultura, causando
o declínio de muitos serviços
(BENEVOLO, 1993).
Figura 3 - Ruínas na cidade de Roma

HISTÓRICO E ASPECTOS GERAIS DO PLANEJAMENTO URBANO


23

Além dessas civilizações antigas citadas, existiram outras com grandes mani-
festações urbanísticas por volta de 2.500 a. C. no vale do rio Indo na Índia e por
volta de 1.500 a.C. no vale dos rios Amarelo e Yang-Tsé-Kiang na China. Na
América surgiram civilizações como os Incas, Maias e Astecas, também com
grandes construções voltadas ao culto religioso e o armazenamento de alimen-
tos e sementes. A antiguidade foi consolidando o planejamento das cidades e
muito do que são as cidades atualmente tem ideias e conceitos vindos desses
povos e épocas.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

CIDADES DA IDADE MÉDIA

A partir da queda do império Romano houve uma grande mudança no modo


de viver da humanidade. Ocorreram as invasões bárbaras e serviços e comércio
tiveram estagnações nos centros urbanos. Grande parte da população migrou
novamente para o campo. O cris-
tianismo e a igreja católica se
fortaleceram e assim se criou
o sistema feudal. Bispos exer-
ciam a função de governantes
e a agricultura se fortaleceu
formando grande senhores feu-
dais, que acabaram por formar
e comandar novas cidades. Os
senhores feudais trocavam o
trabalho de habitantes por pro-
teção e apoio militar. As cidades
então voltaram a ser de tama-
Figura 4 - Castelo medieval
nho reduzido, a terem muralhas
e grande nível de subsistência. Formaram-se as grandes praças centrais em
que se localizavam as igrejas e os mercados e por consequência as ruas radiais
(CASILHA; CASILHA, 2009).

Evolução Histórica das Cidades


24 UNIDADE I

No século XI o sistema feudal entrou em crise, começaram a surgir os ele-


mentos pré-capitalistas, como o desenvolvimento do comércio das cidades e
a criação de uma nova classe social, o que acabou sendo a ruína dos senhores
feudais. Novos interesses econômicos e políticos se consolidaram com o comér-
cio intenso entre ocidente e oriente. As atividades nas cidades se ampliaram.
Verifica-se então que o comércio foi um dos grandes fatores que ocasionaram a
intensificação do meio urbano, tendo, dessa forma, as grandes capitais europeias
se beneficiado com seu crescimento que surgira após a ascensão de uma econo-
mia transatlântica (GRECO, 2012 apud VARGAS et al., 2014).

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
CIDADES DA IDADE MODERNA

A partir do século XII houve crescimento econômico e com isso maior desenvol-
vimento das chamadas cidade capitais. Os monarcas se consolidaram no poder.
Com isso até o século XV grandes centros comerciais se concretizaram em cida-
des como Constantinopla e Veneza, Florença e Paris, porém, as cidades de forma
geral raramente passavam de 50 mil habitantes. O sistema de coleta de imposto
se formou de forma rígida para que existisse dinheiro para a construção e o cres-
cimento das cidades. Porém, o planejamento era precário, ruas estreitas, falta
de serviços de higiene o que acabava por acarretar disseminações de doenças,
como a peste negra que chegou a dizimar um terço da população da Europa. Boa
parte do comércio começou a se estabelecer para fora das muralhas e o cresci-
mento das cidades foi ficando cada vez mais desordenado (BENEVOLO, 1993).
A queda da cidade de Constantinopla (atualmente Turquia) consolidou o
início da Idade Moderna (Renascentismo), pois o domínio da cidade para os
Otomanos mudou o comércio mundial para o oceano Atlântico. Constantinopla
era, até o momento de sua queda, uma das cidades mais importantes no mundo,
pois sua localização funcionava como ponte para as rotas comerciais que liga-
vam a Europa à Ásia por terra (ABIKO et al. 1995).

HISTÓRICO E ASPECTOS GERAIS DO PLANEJAMENTO URBANO


25

No século XVI começaram as invasões e ocupações iniciais na América,


com cidades fundadas seguindo traçados pré-determinados, ou seja, embasados
no planejamento das cidades europeias, como por exemplo: Cidade do México,
Filadélfia, Washington, Lima e Buenos Aires (CASILHA; CASILHA, 2009).
O desenho urbano da época elaborava cidades com predominância de traça-
dos regulares, com simetria de proporções rígidas na execução das vias e praças.
Eram cidades que seguiam um modelo uniforme, como um tabuleiro de xadrez,
definindo quarteirões iguais, na maioria das vezes quadrados. Nas áreas centrais
continuavam as praças com igrejas e edifícios de organização social (paço muni-
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

cipal, comércio e casa dos mais ricos)


(BENEVOLO, 1993).
No século XVIII as cidades
americanas já cresciam vertigi-
nosamente, tendo um tráfego de
veículos (carroças) extremos com
engarrafamentos frequentes. Boa
parte das cidades americanas sur-
giram com o comércio forte da idade
moderna, porém, com a revolução
industrial novos planejamentos e
formações vieram (CONSCIENCE
PRODUCTIONS, 2012, on-line)1. Figura 5 - Queda de Constantinopla em 1453

CIDADES DA IDADE CONTEMPORÂNEA

Surgiu a revolução industrial e com ela grande modificações econômicas, sociais e


ambientais no mundo. As cidades sofreram alterações em seu planejamento devido
a isso. Houve um explosivo crescimento demográfico nas cidades, iniciando
na Inglaterra depois França e Alemanha. Após 1850 ocorreu a quadruplicação
da população mundial e com isso a população urbana se multiplicou por dez
(HAROUEL, 1990).

Evolução Histórica das Cidades


26 UNIDADE I

Na Europa como nos Estados Unidos o uso dos trens colaborou muito para cres-
cimento e desenvolvimento das cidades, pois facilitou o comércio de importação e
exportação de produtos para longas distâncias. As fábricas começaram a ser cons-
truídas em proximidade das ferrovias e as habitações dos trabalhadores também,
pois o transporte público ainda não existia. Viver nas cidades voltou a ser inte-
ressante para as pessoas e iniciou-se o êxodo rural. As condições sanitárias das
cidades não haviam evoluído muito desde a idade média, porém, mesmo assim
a oferta de trabalho nas indústrias atraiu as pessoas para as cidades. Londres, o
berço da revolução industrial, em 1810 passou de um milhão de habitantes, na

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
época somente Roma havia chegado nesse nível de população (CORRÊA, 1995).
Com o crescimento vertiginoso das cidades surgiram os urbanistas, pessoas
que planejavam o desenho urbano para melhor adaptação da sociedade às cidades,
tentando evitar os problemas urbanos. O termo foi cunhado em 1910, porém, em
1830 já havia um pensamento urbanista moderno, diferenciado do da antiguidade
e idade média (BENEVOLO, 1971). As condições sanitárias e mesmo a qualidade
de vida dos trabalhadores das indústrias nas cidades por volta de 1816 começa-
ram a indignar uma considerável parte da sociedade e com isso foram surgindo
pensamentos de reorganização das cidades. Em 1830 epidemias começaram a
surgir nas principais cidades do mundo, como a cólera e o tifo, com isso, a partir
de 1850 começaram adaptações amplas
para melhorar as condições das princi-
pais cidades do mundo, principalmente
em termos sanitários. O urbanismo pre-
dominante na época foi chamado de
sanitarista. Muralhas foram derrubadas,
as ampliações das cidades tiveram ruas
mais largas entre outras ações. Paris foi
uma das cidades em que houve grandes
modificações, bairros com epidemias
foram demolidos, áreas foram limpas,
bulevares foram construídos trazendo
Figura 6 - Indústria têxtil em Boston, Estados Unidos, 1910

HISTÓRICO E ASPECTOS GERAIS DO PLANEJAMENTO URBANO


27

mais verde para a cidade. Outras cidades se estimularam para fazer modifica-
ções admirando o sucesso de Paris (MACEDO, 2012, on-line)2.
Nesse período, Londres despejava a maior parte de seu esgoto e captava a sua
água de uso comum no mesmo rio, chamado Tâmisa. Esse era um dos fatores
que faziam aumentar a incidência de epidemias na cidade. Foi então, em 1848,
aprovada a primeira lei sanitária, denominada Public Health Act, para sanar
esse problema. Essa lei foi precursora dos Códigos Sanitários brasileiros. Aliás,
foi base de todas as demais que procuram atuar no espaço urbano garantindo
condições de salubridade (abaste-
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

cimento de água e controle de sua


potabilidade, canalização de esgo-
tos, drenagem de áreas inundáveis,
abertura de vias e vielas sanitá-
rias). Seguindo essas premissas
sanitárias outras cidades inglesas
foram reurbanizadas: Manchester,
Liverpool, Birmingham e Leeds
(ABIKO et al., 1995).
O sistema capitalista se soli-
dificou nos principais países
Figura 7 - Cidade de Londres
do mundo e com isso o espaço
urbano se modificou. A cidade tornou-se um lugar privilegiado para a ocor-
rência de uma série de processos sociais. De acordo com Corrêa (1995), esses
processos têm sua distribuição espacial na própria organização espacial urbana,
sendo eles:
■■ Centralização e área central.
■■ Descentralização e os núcleos secundários.
■■ Coesão e as áreas especializadas.
■■ Segregação e as áreas sociais.
■■ Dinâmica social da segregação.
■■ Inércia e as áreas cristalizadas.

Evolução Histórica das Cidades


28 UNIDADE I

As indústrias centralizaram as cidades, mas com o passar do tempo começou a


não haver espaços centrais para as indústrias. Iniciou-se assim um processo de
descentralização no começo do século XX. Indústrias mais poluentes e novas
começaram a se instalar na periferia formando núcleos secundários na cidade,
causando descentralização (CORRÊA, 1995).
Aos poucos as indústrias se deslocaram, apenas as pequenas que consumiam
pouco espaço e tinham ótimos lucros continuaram centrais, pois só assim era
possível suportar os elevados preços dos imóveis do centro. A descentralização
das cidades variava em função dos tipos de atividades realizadas na mesma e de

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suas tendências à descentralização e do tempo em sequência que essa leva para
descentralizar, pela divisão territorial do trabalho e pela procura por outros seto-
res da cidade (CORRÊA, 1997).
O fenômeno da segregação social nas cidades, que sempre ocorreu, começa a
ser acentuado com a revolução industrial. As determinações econômicas, políticas
e ideológicas e a transformação das áreas centrais em áreas importantes de negó-
cios, acabaram por dividir setores da cidade para cada classe social. A capacidade
de renda e/ou nível cultural, involuntariamente imposta, acabava por definir a
região da cidade que a pessoa iria habitar (CASTELL, 1976; LEFÉBVRE, 1991).
Acabou por se formar um padrão nas cidades de “Inércia e as áreas cris-
talizadas”, ou seja, regiões e edificações que se mantinham com o mesmo uso
inicial, como: áreas centrais quase exclusivas ao comércio devido à alta valori-
zação (CORRÊA, 1995).
O automóvel foi inventado e muitas adaptações nas cidades vieram. Os tra-
balhadores não precisavam mais morar tão próximos das indústrias e comércio,
novos arranjos urbanos ocorreram (CONSCIENCE PRODUCTION, 2012,
on-line)1.

HISTÓRICO E ASPECTOS GERAIS DO PLANEJAMENTO URBANO


29
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A EVOLUÇÃO DO URBANISMO E PLANEJAMENTO


URBANO NO MUNDO E NO BRASIL

Durante os séculos XVIII e XX (idade contemporânea) acabaram por se formar


dois grupos de destaque no urbanismo, os de origem antiurbana (utópicos) e
os técnicos-setoriais.
Os antiurbanos tinham pensamentos voltados ao socialismo, contrários a
industrialização, pois seus idealizadores não queriam o desenvolvimento das
indústrias, preconizavam uma organização mais comunitária, próxima da natu-
reza. Planejavam cidades do início, gostavam de demolições e reconstruções
grandiosas, por isso se encaixaram e foram chamados de utópicos (CAMPOS
FILHO, 2001).
A chamada cidade-jardim, proposta por Ebenezer Howard, pode ser descrita
como uma adaptação da ideologia antiurbana, pois tenta unir uma produção
agrícola com a industrial de pequena escala. O desejo de Howard era compor
cidades de 30 mil habitantes, planejadas como antídoto para os males da indus-
trialização selvagem (CAMPOS FILHO, 2001). Três princípios fundamentam o
trabalho de Howard: eliminação da especulação dos terrenos (deveriam pertencer
à comunidade, que os alugaria); controle do crescimento e limitação da popu-
lação (a cidade deveria estar cercada por um cinturão agrícola que forneceria

A Evolução do Urbanismo e Planejamento Urbano no Mundo e no Brasil


30 UNIDADE I

toda a subsistência da população) e deveria existir um equilíbrio funcional entre


cidade e campo, residência, comércio e indústrias (ABIKO et al. 1995). A ideia de
urbanismo de Howard tem até hoje boa aceitação, principalmente na Inglaterra
e acabou por influenciar o desenho urbano de muitas cidades e bairros no Brasil
como: Maringá, Goiânia, Jardim América e Barra da Tijuca.
Os técnicos-setoriais se diferenciavam dos antiurbanos, pois procuravam
resolver os problemas de forma pontual, faziam remediações isoladas, não pos-
suíam visão global. Não tinham grandes planos utópicos (ABIKO et al. 1995).
Após a segunda guerra mundial houve uma tentativa de reduzir o crescimento

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de Londres. Foi implantado um cinturão verde de produção agrícola e uma rede
de pequenas e médias cidades-satélites no seu entorno. Buscava-se subdividir o
espaço urbano em unidades autossuficientes quanto possível. Essa solução apro-
ximou urbanistas antiurbanos dos técnicos-setoriais (CAMPOS FILHO, 2001).
Muitos trabalhos de cunho científico, voltados à economia e sociologia,
acabaram por ajudar na evolução do urbanismo. Podem-se destacar os traba-
lhos dos alemães Engels e Marx, que viveram nos anos de 1800 e solidificaram o
pensamento socialista. Foram eles que trouxeram um pensamento sobre a terra
urbana (imóvel) como mercadoria, como fornecedora de renda, que atualmente
são assuntos diretamente vinculados ao planejamento urbano e aos planos dire-
tores. O problema da habitação de qualidade, com o mínimo de infraestrutura
foi assunto muito discutido na obra de Engels. O pensamento marxista acabou
por colaborar para a construção de um urbanismo mais sistemático e científico
(CAMPOS FILHO, 2001).
No início do século XIX surgiram vários urbanistas que seguiam ideias base-
adas em unir os ideais antiurbanos e técnico-setoriais, que foram chamados de
globalizantes utópicos pró-industriais e pró-urbanos. Destaca-se, nessa época,
Le Corbusier, que visou combinar áreas verdes, edificações verticais e alta den-
sidade urbana, a fim de reduzir custos da urbanização, um pensamento ainda
atual e bastante interligado com o pensamento do desenvolvimento sustentável
(CAMPOS FILHO, 2001).

HISTÓRICO E ASPECTOS GERAIS DO PLANEJAMENTO URBANO


31

Em 1933, ocorreu o IV Congresso Internacional de Arquitetura Moderna


(C.I.A.M), cujo tema foi a ‘Cidade Funcional’. Foi um evento histórico com a
participação de profissionais de renome do urbanismo e que solidificou o pensa-
mento urbanista denominado racionalista ou funcionalista. As conclusões desse
encontro foram reunidas em um documento denominado a Carta de Atenas,
em que foram determinadas ações para o desenvolvimento de um urbanismo
menos estético e mais funcional. Foram definidas quatro funções fundamen-
tais para uma cidade: habitar; trabalhar; circular e cultivar o corpo e o espírito,
sendo seus objetivos: a ocupação do solo, a organização da circulação e a legis-
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lação (ABIKO et al. 1995).


Muito do que temos hoje no Brasil e no mundo em termos de planejamento
urbano, principalmente em termos legislativos, vem das conclusões da Carta
de Atenas, em que se propunha a obrigatoriedade do planejamento regional
e intra-urbano, a submissão da propriedade privada aos interesses coletivos, a
industrialização dos componentes, a padronização das construções e a edifica-
ção como predominante no espaço urbano, mas relacionada com amplas áreas
de vegetação. Ficou estabelecido o zoneamento funcional, ou seja, a separação
da circulação de veículos e pedestres, a eliminação da rua corredor e uma esté-
tica geometrizante. São exemplos de planejamentos baseados nessas premissas
da Carta de Atenas: Rio de Janeiro e Brasília, além de várias cidades da França
e Estados Unidos (ABIKO et al. 1995).
As grandes críticas ao urbanismo racionalista são devido a sua visão estreita
em relação às diferentes classes sociais e suas expectativas dentro das cidades,
assim como, o entendimento simplificado dos motivos que levam a expansão
urbana. Acreditava-se que o crescimento desmesurado de uma cidade seria
fruto, quase que exclusivo, de ações de interesses privados e à displicência do
poder público. Mecanismos econômicos e sociais acabaram por ficar subjuga-
dos (ABIKO et al. 1995; CAMPOS FILHO, 2001).

A Evolução do Urbanismo e Planejamento Urbano no Mundo e no Brasil


32 UNIDADE I

As ideias sobre urbanismo vêm evoluindo e durante o século XX foram muito


discutidas. Em 1952, em La Tourrete - França, em reunião do “Grupo Economia
e Humanismo”, foram fixadas novas dimensões do Planejamento Territorial, por
meio da “Carta do Planejamento Territorial”, em que este ficou com seu objetivo
definido da seguinte forma: criar pela organização racional do espaço e implan-
tação de equipamentos apropriados, as condições ótimas de valorização da terra
e as situações mais convenientes ao desenvolvimento humano de seus habi-
tantes. No documento ficaram estabelecidas as vinculações entre quatro ideias
básicas do Planejamento Territorial: a organização do espaço, o apetrechamento

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do território, o seu aproveitamento econômico e o desenvolvimento do homem
(BIRKHOLZ, 1967 apud ABIKO et al., 1995).
Posteriormente, em 1958, realizou-se em Bogotá - Colômbia, o “Seminário
de Técnicos e Funcionários em Planejamento Urbano”, sob os auspícios do Centro
Interamericano de Vivenda e Planejamento (CINVA), ocasião em que foi elabo-
rada a Carta dos Andes, que constituiu um documento sobre o Planejamento
Territorial Contemporâneo. Segundo a definição da Carta dos Andes: plane-
jamento é um processo de ordenamento e previsão para conseguir, mediante
a fixação de objetivos e por meio de uma ação racional, a utilização ótima dos
recursos de uma sociedade em uma época determinada. O Planejamento é, por-
tanto, processo do pensamento, método de trabalho e um meio para propiciar o
melhor uso da inteligência e das capacidades potenciais do homem para benefício
próprio e comum (BIRKHOLZ, 1967 apud ABIKO et al. 1995). Como veremos
em capítulos subsequentes, essa definição assemelha-se ao conceito de susten-
tabilidade, que hoje rege boa parte do planejamento urbano.
Para Goitia (1992), em um pensamento ainda atual, existe lentidão de orga-
nismos oficiais, planificadores e urbanistas em seus diagnósticos, prognósticos,
ações e gestão urbana, que não alcançam a velocidade dos problemas existentes,
que se ampliam de forma vertiginosa e freiam o planejamento urbano eficiente.
A cidade vai-se transformando com um crescimento que acaba por não ser tec-
nicamente ordenado e que naturalmente é desorganizado. Forma-se assim um

HISTÓRICO E ASPECTOS GERAIS DO PLANEJAMENTO URBANO


33

crescimento urbano que produz tanto problemas nos núcleos centrais, quanto
nas periferias das cidades que sofrem com a falta de acessos e de transporte cole-
tivo. Acaba que muito da ordenação espacial é vinculada a acessibilidade, meios
de transporte público eficazes e uma rede viária capaz e inteligentemente plane-
jada para atender toda a demanda necessária.
Por meio da história o urbanismo foi sendo moldado, chegando hoje ao
que chamamos de planejamento urbano. Hoje o urbanismo como conceito fica
definido como aquele que trabalha (historicamente) com o desenho urbano e o
projeto das cidades, sem especificamente considerar todos os processos sociais
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

que ocorrem nas cidades. Colocou-se um termo mais abrangente para abarcar
toda a complexidade de fazer funcionar uma cidade: Planejamento urbano.
Temos dentro do planejamento urbano visão mais ampla, muito além do desenho
urbano, pois sabe-se que nas cidades temos problemáticas complexas, entreme-
adas entre fatores sociais, econômicos, ecológicos, culturais, éticos, políticos,
geográficos e tantos outros. Por isso, ainda não existe uma ideia unificadora que
possa ser definida como a solução de todos os problemas urbanos, uma “receita
de bolo” para se fazer todos os planejamentos urbanos. O que fica entendido é
que apenas o planejamento urbano, sem o funcionamento de um ordenamento
de cunho nacional e muitas vezes mundial, em termos de regras e legislação que
busquem com eficiência bem comum, não é suficiente para controlar e absorver
todos os problemas que se formam nas cidades. A busca pelo desenvolvimento
sustentável vem sendo um caminho de ligação no mundo todo para a construção
de cidades cada vez mais equilibradas em termos sociais, econômicos, culturais e
ambientais. Historicamente fica clara a influência das tecnologias sobre as modi-
ficações urbanas, a humanidade vem conseguindo se adaptar e alterar o espaço
urbano para melhor. Principalmente, devido ao surgimento de novas tecnologias,
pois nos dias atuais a importância dessas evoluções científicas é cada vez maior.

A Evolução do Urbanismo e Planejamento Urbano no Mundo e no Brasil


34 UNIDADE I

O PROCESSO DE URBANIZAÇÃO
O processo de urbanização, principalmente nos países em desenvolvimen-
to, é uma das mais agressivas formas de relacionamento entre o homem e o
meio ambiente. As cidades antigas eram menores, mais harmônicas e, mes-
mo quando erguidas em locais ambientalmente inadequados, agrediam
menos o meio ambiente.

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A partir da revolução industrial, o processo de crescimento das cidades se
acelerou pelas duas razões já apontadas: a necessidade de mão-de-obra nas
indústrias e a redução do número de trabalhadores no campo. A industria-
lização promoveu de modo simultâneo os dois eventos, um de atração pela
cidade, outro de expulsão do campo. Antes da revolução industrial não ha-
via nenhum país onde a população urbana predominasse. No começo deste
século, apenas a Grã-Bretanha possuía a maior parte de sua população vi-
vendo em cidades (MUNFORD, 1982). Pode-se afirmar que o Século XX é o
século da urbanização, pois nele se acentuou o predomínio da cidade sobre
o campo.
Fonte: adaptado de Educoas (2016, on-line)³

PRINCIPAIS PROBLEMÁTICAS E IMPACTOS


AMBIENTAIS URBANOS

Com a maioria das pessoas vivendo nas


cidades não é de se admirar que tenha-
mos hoje um mundo de problemas a serem
resolvidos nesses centros urbanos. Muitos
problemas estão presentes desde as cida-
des mais antigas, fazem parte do histórico
do planejamento urbano e até hoje não
se conseguiu sobrepujá-los totalmente.
Logicamente a maioria desses problemas
não serão resolvidos apenas com novas
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HISTÓRICO E ASPECTOS GERAIS DO PLANEJAMENTO URBANO


35

propostas de arranjo urbano, dependem de políticas eficientes mundiais, nacio-


nais e regionais, principalmente nas dimensões sociais, econômicas, ambientais
e culturais. Vamos demonstrar as principais problemáticas urbanas mundiais e
por consequência os impactos ambientais que são causados.
Considero importante, antes de analisarmos as problemáticas, esclarecer o
conceito legislativo de impacto ambiental. Segundo Sánchez (2006), o impacto
ambiental é um desequilíbrio provocado pelo choque da relação do homem
com o meio ambiente. O impacto ocorre quando se muda uma situação base,
ou seja, situação ambiental existente ou uma condição na ausência de determi-
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

nada atividade.
Conforme a Resolução n° 01/86 CONAMA, impacto ambiental pode ser
definido como:
[...] qualquer alteração das propriedades físicas, químicas e biológicas
do meio ambiente, causada por qualquer forma de matéria ou ener-
gia resultante das atividades humanas que, direta ou indiretamente,
afetam a saúde, a segurança e o bem-estar da população; as ativida-
des sociais e econômicas; a biota e a qualidade dos recursos ambientais
(RESOLUÇÃO CONAMA 01/86, Art. 1, Parágrafo 1, on-line)4.

Conforme o inciso II do artigo 6º dessa resolução, o impacto ambiental pode


ser positivo (benéfico) ou negativo (adverso), diretos e indiretos, imediatos e a
médio e longo prazos, temporários e permanentes, e pode proporcionar ônus
ou benefícios sociais. O impacto pode possuir também seu grau de reversibili-
dade, e propriedades cumulativas e sinérgicas. São essas as características dos
impactos ambientais estudadas e analisadas nos licenciamentos ambientais de
empreendimentos impactantes. Nos próximos capítulos falaremos mais sobre
o licenciamento ambiental e sua importância para o planejamento urbano, por
enquanto, é importante guardar bem a conceituação de impacto ambiental.
Importante ressaltar que o impacto ambiental dentro dessa concepção legal
só existe por meio da atividade humana no contexto, ou seja, não pode ser resul-
tante de fenômenos naturais. Sendo assim, mesmo grandes alterações do ambiente
causadas por furacões, terremotos, chuvas intensas dentre outros não se enqua-
dram como impactos ambientais, sendo considerados por muitos autores como
efeitos ambientais (SILVA, 1999; MOREIRA, 1985).

Principais Problemáticas e Impactos Ambientais Urbanos


36 UNIDADE I

Para que ocorra um impacto ambiental sempre existe o que se chama de


aspectos ambientais, que são as causas potenciais de impactos, ou seja, se con-
cretizam como causas quando o impacto acontece. O “aspecto” é definido pela
NBR ISO14001 como “elementos das atividades, produtos e serviços de uma
organização que podem interagir com o meio ambiente”. O aspecto tanto pode
ser uma máquina ou um equipamento como atividade executada por ela ou por
alguém que produzam (ou possam produzir) algum efeito sobre o meio ambiente.
Chamamos de “aspecto ambiental significativo” aquele aspecto que tem um
impacto ambiental significativo, podendo ser positivo ou negativo.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Resumindo, caro (a) aluno(a), aspecto ambiental seria qualquer interven-
ção indireta ou direta de atividades ou serviços de uma determinada empresa ou
cidade sobre o meio ambiente, quer seja adversa ou benéfica. Para exemplificar
podemos dizer que dentro de uma cidade pode ocorrer uma atividade admi-
nistrativa (descarte de resíduos sólidos em lixão a céu aberto) que acarreta um
aspecto ambiental (geração de poluentes - chorume) e que por sua vez pode acar-
retar um impacto ambiental (poluição do lençol freático através de chorume).
O quadro a seguir mostra exemplos de atividades, aspectos e impactos ambien-
tais que podem ocorrer em uma cidade.

Quadro 2 – Atividades antrópicas, aspectos ambientais e impactos ambientais em centros urbanos

ATIVIDADE ASPECTO AMBIENTAL IMPACTO AMBIENTAL

Erosão, poluição de nascentes,


Aplicação de políticas Geração de Desigualdade
perda de área florestal entre
ficais injustas. Social e favelização.
outros.

Descarte de Resíduos
Geração de chorume e Poluição da atmosfera e de
Sólidos em Aterro
gases poluentes. recursos hídricos entre outros.
controlado.

Transporte Coletivo Poluição atmosférica, aumen-


Geração de tráfego intenso
Inadequado e inefi- to de problemas de saúde
de veículos.
ciente. entre outros.

Fonte: o autor

HISTÓRICO E ASPECTOS GERAIS DO PLANEJAMENTO URBANO


37

Quando existe planejamento urbano inadequado ou falho, os impactos ambien-


tais vão crescendo anualmente e, consequentemente, os danos causados por eles
também. Assim forma-se o que chamamos de passivo ambiental. Trata-se de um
termo com foco na atuação de empresas, porém, é funcional para a administra-
ção de uma cidade. Passivo ambiental são os danos causados ao meio ambiente,
as atividades e o custo de recuperação desses danos, representa a obrigação,
a responsabilidade social da empresa ou administração pública com aspectos
ambientais (RIBEIRO; GRATÃO, 2000). O que chamamos de problemáticas
urbanas é o complexo conjunto de atividades, aspectos e impactos que ocorrem
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

nas cidades, causando prejuízos à sociedade.


Analisando o histórico do surgimento das cidades, é notável que o aden-
samento populacional nas cidades e seu crescimento vertiginoso são as causas
(aspectos ambientais) de inúmeros impactos ambientais. Além disso, a forma
como muitas cidades foram surgindo, sem nenhum planejamento ou com apenas
instruções básicas, também colaboraram muito na formação de problemáticas
urbanas. Essas chamadas cidades espontâneas, em que as áreas simplesmente
eram ocupadas, criando-se ruas para a mobilidade da população, edificações
habitacionais no entorno e uma área central destinada a comércio e serviços,
trouxeram visão estreita do que realmente é um planejamento urbano (VARGAS
et al., 2014).
As problemáticas urbanas estão ligadas aos impactos ambientais, pois grande
parte dos problemas que observamos nas cidades vem de alterações antrópicas
(feitas pelo homem) não planejadas, ou com planejamentos ineficazes. Sendo
assim, fica claro que as ações dos homens (humanidade) são os motores que
geram problemas urbanos, aspectos ambientais e impactos ambientais.
A seguir, abordaremos conceituações e caracterizações das principais pro-
blemáticas urbanas e os impactos ambientais associados. Nas unidades IV e V
desse livro trataremos de algumas soluções possíveis para mitigar (reduzir) ou
mesmo sanar os problemas e impactos tratados nesta unidade.

Principais Problemáticas e Impactos Ambientais Urbanos


38 UNIDADE I

DESIGUALDADE E SEGREGAÇÃO SOCIAL

O conceito de desigualdade social pode ser amplo, englobando desde desigual-


dade de escolaridade, gênero, oportunidade entre outras. Porém, de forma geral
entende-se desigualdade social como desigualdade econômica (renda), pois
como já disse Milton Santos (2000) (geógrafo brasileiro renomado): o dinheiro
é o centro do mundo.
Mesmo em uma cidade bem planejada e com recursos naturais e financei-
ros abundantes é comum percebemos a existência de desigualdade social, esta

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
sempre existirá. A igualdade plena para todos os cidadãos é realmente um sonho
impossível de ser alcançado, porém, quanto mais perto conseguirmos estar dessa
igualdade melhor será para a sociedade em geral, para o grande coletivo de pes-
soas. Em termos gerais, a desigualdade não é ruim para a sociedade, em certos
níveis ela pode estimular melhoras, o grande problema está nas proporções dessa
desigualdade que desde 1970 vem aumentando de forma preocupante no mundo
todo (PIKETTI, 2013).
De acordo com o Relatório do Fórum Econômico de Davos (2016) apenas
62 pessoas detém tanta riqueza quanto à metade da população mundial. No
Global Wealth Report (Relatório da Riqueza Global) do ano de 2015, elaborado
pelo banco Credit Suisse, verifica-se que entre 2010 e 2015 ainda é notável e alar-
mante o crescimento da desigualdade mundial. Nesse relatório fica demonstrado
que a concentração de renda mundial alcançou níveis críticos, semelhantes aque-
les encontrados na época da industrialização antes da Primeira Guerra Mundial.
Incrivelmente os dados mostram que 0,7% da população existente possui 45,2%
de toda a riqueza monetária do mundo. Os dados são semelhantes aos demons-
trados por Thomas Piketti (2013), no best seller sobre desigualdade Capital no
Século XXI, em que o autor fez uma análise econômica profunda e detalhada da
desigualdade social no mundo. Também são similares ao Relatório do Fórum
Econômico de Davos (2016) que enfatiza que entre 2010 e 2015 a desigualdade
aumentou vertiginosamente, sendo demonstrado que 50% da população mun-
dial diminuiu em 41% sua condição econômica, em contraponto aqueles 62

HISTÓRICO E ASPECTOS GERAIS DO PLANEJAMENTO URBANO


39

mais ricos acresceram seu patrimônio em 500 bilhões de dólares, atingindo 1,76
trilhões de dólares. O preocupante dessa aceleração da desigualdade é que se
continuar teremos um colapso, pois existirá um fosso sem fim entre esses prati-
camente 1% da humanidade e seu restante. Poderemos chegar ao momento em
que a taxa de retorno do capital (taxa de lucro de investimentos e empreendi-
mentos do mundo) passe a ser maior do que a taxa de crescimento da economia
mundial, ou seja, os grandes empresários e acionistas ficarão mais poderosos que
a economia mundial. Hoje, já estamos com um poder exacerbado nas mãos de
poucos e a tendência é isso aumentar (PIKETTI, 2013).
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

No Brasil, a desigualdade social historicamente é acentuada. Vem diminuindo


com oscilações nos últimos 20 anos, porém, ainda de forma tímida. Os dados
de imposto de renda e índices associados à desigualdade são pouco divulgados
e alguns não possuem boa confiabilidade o que traz dificuldades para trazer
resultados completos sobre a desigualdade social brasileira. Segundo dados da
ONU, em 2005 o Brasil era a 8º nação mais desigual do mundo. O índice Gini,
que mede a desigualdade de renda, divulgou em 2009 que a do Brasil caiu de
0,58 para 0,52 (quanto mais próximo de 1, maior a desigualdade). Em 2015 o
Global Wealth Report (Relatório da Riqueza Global) demonstrou que o Brasil
teve queda da desigualdade, seguindo caminho inverso da maioria dos paí-
ses. Apesar das reduções o Brasil continua fortemente desigual como confirma
dados de 2012 das declarações de Imposto de Renda Pessoa Física (IRPF), que
demonstram que os 50% mais pobres possuem apenas 2% do patrimônio bra-
sileiro, 8,13% das pessoas possuem 87,40% da riqueza e somente 0,9% detêm
59,90% da renda brasileira.
Nas cidades essa desigualdade brasileira pode ser observada na favelização,
pobreza, miséria, desemprego, desnutrição, marginalização, violência e causa
a chamada segregação, pois tamanha discordância de renda traz ocupação do
espaço diferenciada, mesmo que o poder público faça o melhor zoneamento
urbano e consiga boa infraestrutura para a cidade. A contradição que envergonha
nossa nação nesses dados é que o Brasil possui o décimo maior PIB do mundo.

Principais Problemáticas e Impactos Ambientais Urbanos


40 UNIDADE I

A solução para desigualdade social se concentra na educação de qualidade


bem distribuída no mundo, em políticas fiscais justas, salários justos e infra-
estrutura de saúde, mobilidade e saneamento (ONU, 2012). A diminuição da
desigualdade só será possível por meio das instituições de um país, principal-
mente as educativas. Parte dessas soluções podem se enquadrar no planejamento
urbano de uma cidade, outras dependem de outros setores e gestões políticas
com planejamento de longo prazo.
A desigualdade social é um problema que visualizamos nas cidades e que
acaba por ter sinergia com outros problemas e que, por fim, acarretam impactos

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
ambientais. Para exemplificar, vamos lembrar que as ocupações ilegais e favelas
tem ligação direta com a desigualdade social. Como sabemos as áreas centrais
ou com boas infraestruturas de uma cidade são mais valorizadas e essa valori-
zação dificilmente decai. O imóvel e terrenos no Brasil de modo geral são caros,
sendo que para maioria da população brasileira se torna inviável adquirir um
imóvel, mesmo com trabalho e dedicação durante uma vida inteira. Imóveis de
qualidade e bem localizados acabam só sendo possíveis para pessoas afortunadas,
que conquistaram boas oportunidades ou receberam herança de parentes ricos.
Até mesmo o aluguel de um imóvel pode ser inviável, com isso, fica difícil evitar
a favelização. Através das favelas surge o poder do crime organizado e gera-se
aumento de violência. Em termos ambientais por essas favelas ou áreas de ocu-
pação ilegal serem normalmente
em áreas de morro ou naturais,
ocorrem desmatamentos, ero-
são, desbarrancamentos entre
outros impactos. Essas regiões
acabam por não ter infraestru-
tura de esgoto ou água pluvial,
até mesmo a coleta de lixo usual-
mente pode não ocorrer, sugere
então a poluição de nascentes,
rios, solo e lençol freático.
Figura 8 - Favela da Rocinha, Rio de Janeiro, Brasil

HISTÓRICO E ASPECTOS GERAIS DO PLANEJAMENTO URBANO


41

As ocupações ilegais e a favelização são parte integrante do processo de urba-


nização no Brasil, existindo como prática de mais de 100 anos atrás. A partir
dos anos 80 as invasões evoluíram de simples ocupações gradativas de famílias
carentes para enormes ocupações massivas e organizadas. Isso se deve em parte
a crise econômica que se iniciou em 1979. Várias cidades brasileiras apresen-
tam, a partir dessa data, a ocorrência de ocupações coletivas e organizadas de
terra, mais raras nas décadas anteriores (MARICATO, 1999). Hoje temos ocu-
pações massivas e gradativas ocorrendo, movimentos de sem teto se amplificam
e o número e extensão de favelas ainda cresce nas principais cidades brasileiras.
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CARÊNCIA DE SANEAMENTO BÁSICO

Saneamento básico envolve um conjunto de serviços e ações que tem o intuito


de promover a salubridade ambiental, trazendo assim maior qualidade de vida
tanto em zonas urbanas como rurais. Acaba sendo um arcabouço de medidas
para mitigação (redução) de impactos ambientais, além de um instrumento da
saúde pública que intervém sobre o meio físico do homem para eliminar as con-
dições deletérias da saúde. De acordo com Andrade (2013, on-line)5 os serviços
relacionados ao Saneamento Básico, são:
■■ Abastecimento de água.
■■ Coleta, remoção, tratamento e disposição final dos esgotos.
■■ Coleta, remoção, tratamento e disposição final de resíduos sólidos, lixos.
■■ Drenagem das águas pluviais.
■■ Higiene dos locais de trabalho e de lazer, escolas e hospitais.
■■ Higiene e saneamento de alimentos.
■■ Controle de artrópodes e de roedores (vetores de doenças).
■■ Controle de poluição do solo, do ar e da água, poluição sonora e visual.
■■ Saneamento em épocas de emergência (quando ocorrem calamidades ou
desastres ambientais).

Principais Problemáticas e Impactos Ambientais Urbanos


42 UNIDADE I

O Brasil tem carência de todos esses serviços em muitas regiões, porém, de


maneira geral é mais evidente os descasos com os resíduos sólidos, que tratare-
mos em item específico devido suas particularidades; abastecimento de água;
drenagem das águas pluviais; e o que tange o esgoto sanitário. Focaremos então
nos problemas envolvendo essas três últimas grandes áreas do saneamento.
O Saneamento Básico de maneira geral, envolve o recurso natural deno-
minado água, que possui algumas informações básicas. Trata-se de um recurso
natural renovável, ou seja, sua quantidade não se altera no planeta (se mantem
em um ciclo). O que pode ser alterado é sua distribuição e qualidade. Segundo

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
o Atlas da Água, dos especialistas norte-americanos Robin Clarke e Jannet King,
a Terra dispõe de aproximadamente 1,39 bilhão de quilômetros cúbicos de água,
e essa quantidade não vai mudar. A água encontra-se distribuída entre doce e
salgada da seguinte forma 97,5% salgada (mares e oceanos) e apenas 2,5% doce.
Dessa quantidade de água doce 68,9% encontra-se em forma de gelo (calotas
polares, geleiras e no cume de montanhas); 29,9% são águas subterrâneas (aquí-
feros); 0,9% são de áreas brejosas e pântanos; e apenas cerca de 0,3% estão nos
rios e lagos. Utilizamos essa água doce principalmente de rios e lagos, destinando
70% para a irrigação na agricultura; 20% para a indústria e cerca de 10% para
uso humano e tratamento de animais.
De acordo com o relatório trienal divulgado em 2009 pela Organização das
Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), se o tratamento
e uso da água no mundo continuar degradante, em 2025, cerca de 3 bilhões de
pessoas sofrerão com a escassez de água, devido à poluição desenfreada e das
modificações em sua distribuição no planeta.
O maior problema da água no mundo é sua distribuição: 60% em apenas 9
países, enquanto 80 outros enfrentam escassez. Estima-se que menos de um bilhão
de pessoas consomem 86% da água existente; 1,4 bilhões sofrem de escassez e
2 bilhões não possuem água tratada, o que acarreta 85% das doenças segundo
Organização Mundial da Saúde (2015). O descaso com o tratamento da água é
enorme, pois se estima que mais de 80% da água usada no mundo não é cole-
tada e nem tratada, isso ocorre principalmente nos países em desenvolvimento.

HISTÓRICO E ASPECTOS GERAIS DO PLANEJAMENTO URBANO


43

Mesmo a água sendo um recurso renovável existe um tempo para que ocorra sua
renovação (cerca de 43 mil km cúbicos por ano) para possibilitar o uso humano,
com isso, pode-se prever que seriam necessários 3,5 vezes a quantidade de água
doce do mundo se toda a população mundial consumisse água como um euro-
peu ou americano (OMS, 2015).
No Brasil água é um recurso abundante, possuímos os dois dos maiores
aquíferos do mundo (Guarani e Alter do Chão), além de uma quantidade inve-
jável de rios e lagos (cerca de 12% da água doce do mundo). Porém, o nível de
poluição sobre nossas águas e desperdício é imenso, principalmente, devido
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

à contaminação vinda de produtos químicos de origem agrícola (pesticidas),


industrial (chumbo e outros metais pesados) e residencial (esgoto doméstico).
Outro problema é que possuímos território vasto e a água acaba por ser desi-
gualmente distribuída: 72% na região amazônica, 16% no Centro-Oeste, 8% no
Sul e no Sudeste e 4% no Nordeste.
O Instituto Trata Brasil (2016, on-line)6 traça um diagnóstico da situação brasi-
leira em termos de abastecimento:
■■ 82,5% dos brasileiros são atendidos com abastecimento de água tratada.
Porém, mais de 35 milhões de brasileiros ficam sem o acesso a este ser-
viço básico.
■■ A cada 100 litros de água coletados e tratados, em média, apenas 67 litros
são consumidos. Perde-se 37% da água, seja com vazamentos, roubos e
ligações clandestinas, falta de medição ou medições incorretas no con-
sumo de água.
■■ A soma do volume de água perdida por ano nos sistemas de distribuição
das cidades daria para encher 6 (seis) sistemas Cantareira.
■■ A região Sudeste apresenta 91,7% de atendimento total de água; enquanto
isso, o Norte apresenta índice de 54,51%. A região Norte é a que mais
perde, com 47,90%; enquanto isso, o Sudeste apresenta o menor índice
com 32,62%.

Principais Problemáticas e Impactos Ambientais Urbanos


44 UNIDADE I

■■ A média de consumo per capita de água no Brasil em três anos é de 165,3


litros por habitante ao dia. Em 2014, este valor foi 162 l/hab.dia. Em três
anos, a região Sudeste apresentou o maior índice com 192 l/hab.dia e o
menor foi o Nordeste com 125,3 l/hab.dia. Em 2014, o Sudeste conti-
nuou como maior índice 187,9 l/hab.dia e o Nordeste como o menor de
118,9 l/hab.dia.

A drenagem das águas de uma cidade é outro requisito importante do Saneamento


Básico, que influi na qualidade das águas. Quando mal implementado e geren-
ciado pode causar grandes prejuízos e impactos ambientais. Nas cidades ocorre

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
uma grande impermeabilização do solo, as calçadas, ruas e edificações impedem
que a água da chuva possa infiltrar no solo. Essa água da chuva é conduzida pelas
chamadas galerias pluviais para bacias hidrográficas do município (nascentes,
córregos e rios). A população de uma cidade raramente percebe os impactos que
as águas pluviais acabam por fazer nas bacias hidrográficas, que normalmente
estão em Áreas de Preservação Permanente (APP) (matas ciliares, parques, nas-
centes), pois os estragos ficam escondidos pelo mato. Quando chove o lixo que
a população descarta nas ruas acaba indo diretamente para essas áreas naturais
contaminando rios e animais, além de condicionar o aparecimento de vetores de
doenças. Além disso, as águas pluviais, na maioria dos casos, acabam adquirindo
velocidades intensas dentro do sistema de drenagem e quando são descartadas
causam erosões enormes deformando leitos de rios, podendo chegar a causar o
aterramento do leito original. A seguir seguem fotos dos municípios de Maringá
e Umuarama no Paraná, em que constata-se grandes impactos das águas plu-
viais em APP dessas cidades.

HISTÓRICO E ASPECTOS GERAIS DO PLANEJAMENTO URBANO


45

Figura 9 - Galeria pluvial no Parque Municipal dos Figura 10 - Saída de várias galerias pluviais em
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Xetá - Umuarama. Fonte: o autor área de nascentedo corrego principal do Parque


dos Xetá. Fonte: o autor.

Figura 11 - Voçoroca degradando leito de córrego Figura 12 - Voçoroca causada por descarga de
do Parque Municipal dos Xetá. Fonte: o autor. água pluvial no Bosque dos Pioneiros –
Maringá-PR. Fonte: o autor.

Figura 13 - Erosão nas margens do Córrego Cleópatra Figura 14 - Voçoroca no leiro do Córrego Cleópatra
no Bosque dos Pioneiros. Fonte: o autor. e água poluída vinda de galerias pluviais. Fonte: o
autor.

Principais Problemáticas e Impactos Ambientais Urbanos


46 UNIDADE I

A infiltração é importante dentro do ciclo natural da água (ciclo hidrológico),


pois regula a vazão dos rios, distribuindo-a ao longo de todo o ano, evitando,
assim, os fluxos repentinos, que provocam inundações. A impermeabilização de
grandes áreas como o que ocorre nas cidades traz graves problemas de infiltra-
ção, justamente por isso é importante haver considerável porcentagem de áreas
permeáveis nos lotes particulares e áreas de uso público.
Estima-se que de toda água que se precipita sobre as áreas continentais do
mundo, a maior parte (60 a 70%) se infiltra, porém, uma significativa parte de 30
a 40% escoa diretamente para as bacias hidrográficas. Quanto maior for à imper-

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
meabilização de uma região menor será a porcentagem de água que se infiltra e
isso é danoso para o sistema hidrológico. A água que se infiltra tem a função de
manter os rios fluindo em uma vazão padronizada o ano todo, mesmo quando
existem épocas de estiagem. Quando diminui a infiltração, necessariamente
aumenta o escoamento superficial das águas das chuvas e teremos vazões des-
reguladas, mais erosão e mais poluição (HARTMAN, 1996).
Grande concentração de lixo nas ruas associada à concentração de chuvas é
a fórmula básica para a formação de inundações nas cidades. As bocas de lobo
ficam entupidas o que impede o fluxo das águas na galeria pluvial, levando acú-
mulo de água para as ruas da cidade. Enorme grau de impermeabilização nas
cidades associado a níveis alto de precipitação levam a formação de enchentes,
pois a vazão dos rios se eleva rapidamente fazendo estes transbordarem levando
acúmulo de água para regiões urbanas e rurais.
Outra área importante do Saneamento Básico e diretamente associada ao
recurso água é relacionada à coleta, tratamento e disposição final dos esgotos
de uma cidade. O Instituto Trata Brasil (2016, on-line)6 traça um diagnóstico da
situação brasileira em termos de coleta e tratamento de esgoto:
■■ 48,6% da população têm acesso à coleta de esgoto.
■■ Mais de 100 Milhões de brasileiros não tem acesso a este serviço.
■■ Mais de 3,5 milhões de brasileiros, nas 100 maiores cidades do país, des-
pejam esgoto irregularmente, mesmo tendo redes coletoras disponíveis.
■■ Mais da metade das escolas brasileiras não tem acesso à coleta de esgotos.

HISTÓRICO E ASPECTOS GERAIS DO PLANEJAMENTO URBANO


47

■■ 47% das obras de esgoto do PAC, monitoradas há seis anos, estão em situ-
ação inadequada. Apenas 39% foram concluídas e, hoje, 12% se encontram
em situação normal.
■■ 40% do esgoto do Brasil não são tratados, sendo descartado in natura nas
bacias hidrográficas.
■■ A média das 100 maiores cidades brasileiras em tratamento dos esgo-
tos foi de 50,26%. Apenas 10 delas tratam acima de 80% de seus esgotos.
■■ Na região Norte apenas 14,36% do esgoto é tratado, e o índice de atendi-
mento total é de 7,88%. A pior situação entre todas as regiões.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

■■ Na região Nordeste apenas 28,8% do esgoto é tratado.


■■ No Sudeste 43,9% do esgoto é tratado. O índice de atendimento total de
esgoto é de 78,33%.
■■ Na região Sul 43,9% do esgoto é tratado.
■■ No Centro-Oeste 46,37% do esgoto é tratado. A região com melhor desem-
penho, porém a média de esgoto tratado não atinge nem a metade da
população.
■■ As capitais brasileiras lançaram 1,2 bilhão de m³ de esgotos na natureza
em 2013.

Mesmo em casos de sucesso das melhores cidades brasileiras em saneamento


básico ranqueadas pelo Instituto Trata Brasil, vemos que não se alcança ple-
namente 100% dos serviços necessários. A cidade de Franca - SP ocupa há
vários anos a primeira colocação como tendo o melhor saneamento básico do
Brasil, mesmo assim, 22% do esgoto da cidade ainda não é tratado. A cidade de
Maringá-PR ocupa a segunda colocação e seu índice de perda de água é consi-
derado invejável, pois ela perde 22% da água para abastecimento. Em termos de
desperdício 22% claramente é uma alta porcentagem, porém, para o nível bra-
sileiro trata-se de um ótimo índice.

Principais Problemáticas e Impactos Ambientais Urbanos


48 UNIDADE I

ACÚMULO DE RESÍDUO SÓLIDO (LIXO)

Podemos definir resíduos sólidos como toda e qualquer sobra da atividade humana
que gere algum tipo de material sólido. Os resíduos sólidos podem ser classifica-
dos em domésticos, hospitalares, comerciais, industriais e especiais (entulhos de
construção civil ou matéria animal e vegetal). De acordo com sua composição
química sua classificação se divide em duas classes: orgânicos (material natural,
restos de seres que já foram vivos) e inorgânicos (material industrializado ou
que não se originou diretamente de organismo vivo).

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Os resíduos sólidos urbanos (RSU), nos termos da Lei Federal nº
12.305/10 que instituiu a Política Nacional de Resíduos Sólidos, englo-
bam os resíduos domiciliares, isto é, aqueles originários de atividades
domésticas em residências urbanas e os resíduos de limpeza urbana,
quais sejam, os originários da varrição, limpeza de logradouros e vias
públicas, bem como de outros serviços de limpeza urbana (ABRELPE,
2014, p. 38)7.

Segundo previsões do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente


(PNUMA) (2015, on-line)8 o lixo mundial saltará de uma média de 1,3 bilhão de
toneladas para 2,2 bilhões de toneladas anuais até o ano de 2025. Existe um con-
senso em termos técnicos que a gestão e o descarte correto dos resíduos sólidos
são imprescindíveis para que o mundo alcance o desenvolvimento sustentável.
Existe no mundo todo, principalmente nos países mais desenvolvidos, um
exagerado consumo de produtos industrializados necessários ou supérfluos,
com isso um problema de geração de resíduos sólidos imensa, com destinação
e usos bastante inadequados causando ou intensificando impactos socioambien-
tais, tais como: degradação do solo, poluição de recursos hídricos (nascentes,
rios, lençóis freáticos, aquíferos e oceanos), enchentes, poluição do ar, prolife-
ração de vetores de doenças e a degradação social de catadores de resíduos que
acabam por trabalhar em condições insalubres nas ruas e nas áreas de disposi-
ção final (BESEN et al., 2010).

HISTÓRICO E ASPECTOS GERAIS DO PLANEJAMENTO URBANO


49

Além dos problemas socioam-


bientais existe grande desperdício de
dinheiro dentro do que chamamos da
problemática do lixo. De acordo com
relatório do Programa da ONU para
o Meio Ambiente (PNUMA, on-line)8
realizado em 2015, constatou-se que
90% do lixo eletrônico do mundo, com
valor estimado em 19 bilhões de dóla-
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Figura 15- Lixo eletrônico


res, foi comercializado ilegalmente ou
jogado no lixo a cada ano. A indústria eletrônica, uma das maiores do mundo,
chega a gerar uma média por ano de 41 milhões de toneladas desse tipo de lixo,
tudo vindo de produtos como computadores, impressoras, máquinas fotográfi-
cas, celulares e smartphones. Segundo previsões, este número pode chegar a 50
milhões de toneladas já em 2017.
Quando falamos em lixo orgânico também é possível constatar o imenso des-
perdício que existe no mundo, pois grande parte desse tipo de lixo é composto
por restos de alimentos estragados por não terem sido consumidos. Um relatório
da organização britânica Institution of Mechanical Engineers (IMechE), intitu-
lado Global Food; Waste not, Want not (Alimentos Globais; Não Desperdice,
Não Sinta Falta), (2013, on-line)9 estimou que o equivalente entre 30% e 50% dos
alimentos produzidos no mundo por ano, ou seja, entre 1,2 bilhão e 2 bilhões de
toneladas, nunca são ingeridos. Se considerarmos que 795 milhões é o número de
pessoas que passam fome no mundo atualmente, segundo dados do relatório anual
sobre a fome “Estado da Insegurança Alimentar no Mundo 2015” (ONU, 2015,
on-line)10, publicado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação
e a Agricultura (FAO), o Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola
(IFAD) e o Programa Alimentar Mundial (PAM), seria possível sanar a fome do
mundo com os alimentos desperdiçados.
Para comprovar que o acúmulo de resíduos sólidos gerado pela humanidade
é imenso nada melhor que analisar sua proporção nos oceanos, pois esses englo-
bam a maior parte da área do planeta. Em um estudo divulgado no encontro anual
da Associação Americana para o Avanço da Ciência, no ano de 2015, elaborado

Principais Problemáticas e Impactos Ambientais Urbanos


50 UNIDADE I

por especialistas que analisaram dados de resíduos recolhidos nos oceanos em


192 países no ano de 2010, se estimou que uma média de 8 milhões de toneladas
de lixo plástico são lançadas nos oceanos anualmente. As 20 nações que despe-
jam as maiores quantidades seriam responsáveis por 83% do plástico descartado
nos oceanos. A China encabeça essa lista de 20 nações, produzindo mais de um
milhão de toneladas. Os Estados Unidos ficou em vigésimo lugar, isso devido a
suas boas práticas de limpeza em regiões costeiras. Existe uma grande ameaça
desse lixo a biodiversidade marinha, pois boa parte desse plástico acaba por ser
consumida por animais podendo levar a morte, além de problemas de poluição

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
em larga escala (MUNDO E CIÊNCIA, 2015, on-line)11.
Diante dessa problemática de acúmulo de resíduos sólidos o Brasil avan-
çou em termos legislativos em 2010 com a instituição da Política Nacional de
Resíduos Sólidos (PNRS - A Lei nº 12.305/10), que é considerada bastante atual
e contém instrumentos importantes para permitir o avanço necessário ao país
no enfrentamento dos principais problemas ambientais, sociais e econômicos
decorrentes do manejo inadequado dos resíduos sólidos. Trataremos com maior
detalhamento dessa lei na unidade V, pois ela faz parte das soluções para a pro-
blemática do lixo no Brasil. Apesar da lei ser bem embasada em termos técnicos
a sua implementação não vem ocorrendo na velocidade que em tese seria mais
apropriada para a resolução dos problemas. Muitos munícipios, empresas e até
mesmo os cidadãos brasileiros não estão seguindo os requisitos da lei.
O Brasil gerou aproximadamente 78,6 milhões de toneladas de resíduos
sólidos urbanos em 2014, crescimento de 2,9% em relação ao volume do ano
anterior. A média de geração de resíduos sólidos urbanos no país, segundo dados
da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais
(Abrelpe) em 2014 foi de 1,08 kg por hab./dia, ou seja, um total de 387,63 kg por
hab./ano, um padrão próximo aos dos países da União Europeia, cuja média é
de 1,2 kg por dia por habitante (ABRELPE, 2014, on-line)7.
Segundo a Abrelpe (2014, on-line)7 o país obteve um índice de 58,4% de
destinação final adequada em 2014, o que é significativo, porém, a quantidade
desses resíduos destinada a locais inadequados totaliza 29.659.170 toneladas no
ano (41,6%) que acabaram em lixões ou aterros controlados, ambos locais que
do ponto de vista ambiental não possuem o conjunto de sistemas necessários

HISTÓRICO E ASPECTOS GERAIS DO PLANEJAMENTO URBANO


51

para a proteção do meio ambiente e da saúde pública. Mesmo com uma legisla-
ção aprimorada e esforços empreendidos em todas as esferas governamentais,
continuamos a ter destinação inadequada de resíduos sólidos urbanos, pois em
2014 uma alarmante porcentagem de 59,8% de nossos municípios (3.334 muni-
cípios) continuaram a realizar uma destinação final imprópria. Conclui-se que a
situação de coleta e destinação adequada vem aumentando a cada ano no Brasil,
porém, a velocidade da melhora é lenta diante de uma problemática tão séria.
É crescente a quantidade de geração de resíduos a cada ano, com isso existe
aumento da demanda por serviços de logística, infraestrutura e, principalmente,
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

recursos humanos e financeiros. Comparando-se os anos de 2010 a 2014 a produ-


ção de resíduos sólidos urbanos cresceu 29%, a cobertura dos serviços de coleta
passou de 88,98% para 90,68% e a quantidade de postos de trabalho diretos subiu
mais de 18%. Mesmo com aumentos de serviços e adequações a implantação da
destinação final adequada, estabelecida para ocorrer até agosto de 2014 pela Lei
12.305/2010, não ocorreu. O percentual de resíduos encaminhados para aterros
sanitários permaneceu praticamente inalterado nos últimos anos, sendo 57,6%
em 2010 e 58,4% em 2014, infelizmente as quantidades destinadas inadequa-
damente aumentaram, e chegaram a cerca de 30 milhões de toneladas por ano,
em 2014. O que comprova novamente que a velocidade das melhoras é inefi-
caz diante da velocidade progressiva do problema (ABRELPE, 2014, on-line)7.
Gastou-se em média R$ 119,76 por habitante/ano na coleta de resíduos sóli-
dos urbanos e demais serviços de limpeza urbana no Brasil no ano de 2014, mas
o triste é que esse valor é insuficiente e demonstra descaso, pois com ele é pos-
sível constatar que houve aumentos irrisórios ao longo dos anos para liquidar
com essa problemática. A variação do aumento foi de apenas 0,3% entre 2010 e
2014 (ABRELPE, 2014, on-line)7.
Em recente estudo lançado pela ABRELPE, sob o título “Estimativa dos
Custos para Viabilizar a Universalização da Destinação Adequada de
Resíduos Sólidos no Brasil”, foi identificado o volume de recursos re-
queridos para garantir o desenvolvimento de um sistema de gestão de
resíduos tal como previsto pela PNRS, com atendimento das metas pu-
blicadas no Plano Nacional de Resíduos Sólidos. Conforme apresenta-
do, o setor requer investimentos em infraestrutura da ordem de R$ 11,6
bilhões até 2031 e cerca de R$ 15 bilhões por ano para operação plena
dos sistemas que serão implementados (ABRELPE, 2014, p. 115)7.

Principais Problemáticas e Impactos Ambientais Urbanos


52 UNIDADE I

Estatisticamente é possível ver que se trata de um problema de proporções


violentas, mesmo assim, a consciência dos cidadãos sobre a questão parece não
avançar. Eu mesmo constato isso diariamente em minha cidade (Maringá-PR),
considerada uma das melhores do Brasil em planejamento e qualidade de vida,
e vejo constantemente as pessoas jogarem lixo nas ruas: bitucas de cigarro,
papel, plástico, latinhas entre outros, tudo de forma descarada, como se fosse
algo inofensivo. Como engenheiro florestal participo constantemente de pla-
nos de manejo de parques em áreas urbanas. Nesses parques normalmente são
instaladas grandes descargas pluviais das cidades, e com essas águas vem o lixo

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
descartado nas ruas, é com tristeza que vejo o acúmulo de resíduos inundando
as áreas verdes dessas cidades, aumentando vetores de doença como zika, den-
gue, malária dentre outras, além de prejuízos e poluição aos recursos naturais
como água, solo e biodiversidade.

TRÂNSITO CAÓTICO

De acordo com Organização Mundial da Indústria Automobilística (OICA)


em 2008 a frota de carros no mundo passou de 1 bilhão e a cada ano aumenta
consideravelmente. Países em desenvolvimento como o Brasil avançaram escan-
dalosamente em número de venda de carros, o país chegou a ocupar o quarto
lugar como mercado de carros nos últimos anos. No ano de 2015 o Brasil rebai-
xou ficando na oitava colocação,
segundo dados da consultoria
Jato Dynamics. Com tanto carro
no mundo formou-se uma crise
em termos de mobilidade urbana
que aflige as principais cidades do
mundo. O número de automóveis
nas metrópoles do Brasil seguem
essa tendência de aumento. Desde
de 2001 até 2012 a frota brasileira
mais que dobrou, passando de 24
Figura 16 - Tráfego em Katmandu, Nepal

HISTÓRICO E ASPECTOS GERAIS DO PLANEJAMENTO URBANO


53

milhões para 50 milhões de veículos (INCT, 2013, on-line)12.


Nas áreas metropolitanas o problema da poluição do ar tem-se constituído
numa das mais graves ameaças à qualidade de vida de seus habitantes. Além
disso, devido à enorme quantidade de veículos automotores no mundo existe
hoje uma contribuição muito expressiva da poluição desses para o aquecimento
global. De acordo com dados do Banco Mundial cerca de 15% das emissões de
gases de efeito estufas vem desse tipo de veículo e em vinte anos estima-se que
chegará a 20% (BANCO MUNDIAL, 2015, on-line)13.
Na maior cidade do Brasil, São Paulo, a poluição atmosférica consiste em
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

um dos problemas mais graves em termos de qualidade de vida. Não se trata


somente dos gases tóxicos dos veículos, mas também de indústrias além de con-
dições e fatores geográficos, climáticos e antropogênicos. Os efeitos nocivos são
percebidos pela população através de doenças, principalmente cardiorrespirató-
rias, e na deterioração dos materiais (LANDMANN, 2004). Segundo dados da
Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (CETESB, 2001) estima-se que
90% dessa poluição atmosférica seja causada pelos veículos automotores. Para
piorar estudos do laboratório de poluição atmosférica da Universidade de São
Paulo (USP) evidenciam que os paulistanos vivem em média dois anos a menos
por causa dessa poluição. Em 2013 foram calculadas quase 20 mortes por dia na
cidade devido à poluição atmosférica (CRUZ, 2015, on-line)14.
Outro problema do uso extremo de veículos automotores nas cidades são
os congestionamentos, que por sinergia aumentam estresse e doenças que ata-
cam fisiologicamente e psicologicamente. Além disso, os congestionamentos
colaboram em muito com o aumento da poluição atmosférica, pois aumentam
o tempo de uso dos veículos. De forma geral estima-se que o tráfego de veículos
responde por cerca de 90% das emissões de CO, 80 a 90% das emissões de NOx,
hidrocarbonetos e uma boa parcela de particulados, constituindo uma ameaça
à saúde humana (WRI et al, 1996, on-line)15.
Existe diferença na toxidade e tipos de poluentes que cada tipo de veículo
automotor joga na atmosfera.

Principais Problemáticas e Impactos Ambientais Urbanos


54 UNIDADE I

Veículos pesados (ônibus e caminhões) são responsáveis pela maior


fração das emissões de óxidos de nitrogênio e de enxofre, enquanto
que os veículos leves (automotores de passeio e de uso misto), movidos
à gasolina e a álcool, são os principais emissores de monóxido de car-
bono e hidrocarbonetos. O diesel é notadamente o combustível mais
poluente e economicamente custoso, se considerarmos todas as perdas
ambientais, infraestruturais e governamentais do seu uso (TEIXEIRA
et al., 2008, p. 244).

Podemos citar a perda de espaços para os carros como outra consequência do


uso intenso de veículos automotores. As cidades acabam sendo projetadas para
dar mais espaço aos carros do que as pessoas. Ficamos dependentes desses veí-

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
culos e hoje a mobilidade urbana vai entrando em colapso. Várias atitudes estão
sendo tomadas no mundo inteiro para sanar a problemática, nem todas funcio-
nais e nem todas possíveis de aplicação em todas as cidades. Trataremos dessas
soluções no último capítulo desse livro.

Nossa tarefa deveria ser nos libertarmos, aumentando o nosso círculo de


compaixão para envolver todas as criaturas viventes, toda a natureza e sua
beleza.
(Albert Einstein)

HISTÓRICO E ASPECTOS GERAIS DO PLANEJAMENTO URBANO


55

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Prezado(a) aluno(a), chegamos ao fim desta unidade, de um conteúdo intenso


e amplo. Trata-se da base fundamental dessa disciplina, portanto um capítulo
muito importante.
Vimos nesta unidade o surgimento das cidades, o histórico do planejamento
urbano e algumas problemáticas encontradas nos centros urbanos. Vimos que
a população mundial está crescendo e se intensificando nas zonas urbanas, que
o mundo fica cada vez mais tecnológico e globalizado, que as cidades se expan-
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

dem e fazem grandes aglomerados de pessoas. Como consequência a demanda


mundial por recursos naturais aumenta exponencialmente e previsões para o
futuro são amedrontadoras. Existe a necessidade de modificações em termos
de políticas e planejamento urbano para colaborar na redução dos impactos da
humanidade sobre os recursos naturais.
Nas cidades estão os maiores problemas da humanidade e atualmente quase
todos ligados à sustentabilidade. Tratamos nesta unidade das problemáticas mais
usuais nas cidades, porém, existem outras não mencionadas e igualmente amplas
e complexas. Por exemplo, problemas como a fome e a demanda de energia tam-
bém se enquadram como presentes nas zonas urbanas, mas não foram tratados
de forma explícita nesta unidade, porém, serão trabalhados de forma transversal
durante todo o conteúdo. Veremos nas próximas unidades fundamentos básicos
para entender melhor as problemáticas já tratadas e outras, além de fundamentos
legais e administrativos para trazer soluções em termos de planejamento urbano.
O conteúdo desta unidade teve como intuito não somente uma introdução
histórica ao planejamento urbano, mas também condensar informações que
levem o estudante a reflexão e a uma visão argumentativa mais ampla sobre a
situação socioambiental mundial, esperamos que tenha sido atingido o objetivo.
Até a próxima unidade.

Considerações Finais
56

UM OLHAR SOBRE FLORIANÓPOLIS


Estive de férias por alguns dias em Janeiro e fui visitar a famosa ilha do Estado de Santa
Catarina chamada Florianópolis. Já havia visitado o local outras vezes, mas dessa vez
prestei mais atenção nas condições ambientais. Isso me levou a várias questões de
cunho filosófico. O fato é que Florianópolis, assim com vários lugares naturais magní-
ficos do Brasil, foi vítima da febre imobiliária, e a falta de bom senso de vários cidadãos
brasileiros. Isso aconteceu no Brasil inteiro, mas em Floripa chama muito a atenção, pois
o lugar é magnífico, uma obra prima da natureza. Fiquei imaginando a ilha antes dessa
urbanização exacerbada, sem um planejamento adequado, com certeza era de uma be-
leza muito mais esplendida do que aquela que se vê hoje.
Os seres humanos já estavam lá em 4.800 a.C. Os índios Tupi Guaranis viveram no local
sem causar impactos significativos à paisagem da ilha, provavelmente por sua popula-
ção ser pequena em relação ao tamanho da área. A ilha, por ter a “sorte” de se situar em
local estratégico para o comércio marítimo e para questões militares, foi intensamen-
te povoada e muito degradada. Na época da sua colonização obviamente não havia
a consciência ambiental que imaginamos hoje existir. Mas o que vejo é que aqueles
colonizadores pioneiros provavelmente tinham mais respeito pelo local do que a socie-
dade de hoje, pois acredito que eles não vislumbravam um progresso tão desordenado
e desrespeitoso com a natureza da ilha, ou talvez apenas não dispunham dos meios
suficientes para degradar ainda mais.
Podemos dizer que o estrago feito inicialmente teve sérios agravantes, mas existia uma
cultura de desenvolvimento constituída pela inexistência de conhecimento sobre sus-
tentabilidade do meio ambiente. Hoje, apesar das informações disponíveis e do conhe-
cimento adquirido sobre os impactos que causamos à natureza, a sociedade continua a
degradar, e isso se torna mais desrespeitoso do que as ações feitas pelos nossos pionei-
ros, porque mesmo sabendo dos riscos, continuamos a cometer os mesmos erros. Afinal,
nossa consciência ambiental se resume a ações muito pequenas, com falsas cobranças
de leis rígidas, adequadas (consideradas as melhores do mundo em termos de conser-
vação da natureza), mas inaplicáveis.
Talvez seja uma mera questão de ponto de vista, pois vejo que muitas pessoas nem
percebem ou não acham tão absurdo caminhar pela ilha e observar prédios e casas ins-
talados nas áreas íngremes dos morros... os manguezais, as praias e rios sendo incessan-
temente aterrados e aquela imensa quantidade de turistas, dos quais, grande parte, não
têm um mínimo de educação e noções de convívio social, sim, porque sujar, degradar
e destruir não são ações individuais, refletem na sobrevivência da sociedade como um
todo. E isso tudo não combina em nada com a beleza natural da ilha.
Definitivamente para mim o “progresso” tido como padrão de nossa sociedade e nature-
za não combinam, ao menos não da maneira que foi concebida em Floripa.
57

Seria um sonho se em Florianópolis tivesse sido dada a devida importância às belezas


naturais. Mas a dura realidade é que o “progresso”, a necessidade do mercado que a po-
pulação urbanizada de hoje exige, consumiram o respeito pelo lugar. O órgão ambiental
do estado (FATMA), assim como a maioria desses órgãos, parece não possuir número de
funcionários suficiente, além de enfrentar outros problemas políticos, sociais e ambien-
tais.
O nome Florianópolis foi dado em homenagem a Floriano Peixoto, porém, também nos
suscita que existam flores em meio à urbanização, porém, se continuar assim sem um
turismo controlado, uma ocupação adequada, planejada dentro de conceitos ambien-
tais bem definidos e uma conscientização da população, provavelmente o nome mude
para CAOSNÓPOLIS.
Fonte: Sampaio e Borgo (2016, on-line)16
58

1. As primeiras cidades são por vezes consideradas grandes assentamentos perma-


nentes nos quais os seus habitantes não são mais simplesmente fazendeiros da
área que cerca o assentamento, mas passaram a trabalhar em ocupações mais
especializadas, em que o comércio, o estoque da produção agrícola e o poder
foram centralizados. Sociedades que vivem em cidades são chamadas de civili-
zações. Dos eventos históricos citados abaixo, qual contribuiu de forma mais
enfática para a criação das primeiras cidades?
a. A descoberta do fogo.
b. A criação da roda.
c. A invenção da escrita cuneiforme.
d. A descoberta da agricultura.
e. O nascimento de Jesus Cristo.

2. Considere as seguintes afirmações sobre o histórico das cidades e da huma-


nidade:
I. As primeiras cidades ocorreram por volta de 2.500 a. C. no vale do rio Indo na
Índia e por volta de 1.500 a.C. no vale dos rios Amarelo e Yang-Tsé-Kiang na
China.
II. Segundo históricos, a cidade de Roma possuía mais de um milhão de habi-
tantes no século I a.C., sendo considerada por muitos como a única cidade a
superar essa marca até o início da Revolução Industrial.
III. A invenção da escrita é o evento que marca o início da era histórica da antigui-
dade, em que surgiram as primeiras cidades.
IV. As primeiras cidades remetem seu surgimento entre 5.000 a 3.000 a.C., nos
vales do rio Nilo no Egito e dos rios Tigre e Eufrates, na Mesopotâmia.
a. Somente I, II e IV estão corretas.
b. Somente IV está correta.
c. Somente II e III estão corretas.
d. Somente III e IV estão corretas.
e. Todas estão corretas.
3. A cidade jardim é um modelo de cidade concebido por  Ebenezer Howard, no
final do século XIX, consistindo em uma comunidade autônoma cercada por um
cinturão verde num meio-termo entre campo e cidade. A ideia era aproveitar as
vantagens do campo eliminando as desvantagens da grande cidade, mas nem
sempre pode ser um sinónimo de ecocidade (WIKIPÉDIA, 2014, on-line)17.
59

Vários bairros e cidades brasileiras utilizaram conceitos da cidade jardim em seu


planejamento. Qual cidade ou bairro abaixo não apresenta fundamentos das
Cidades Jardins em seu planejamento:
a. Maringá.
b. Goiânia.
c. Barra da Tijuca (RJ).
d. Jardim América (SP).
e. Salvador.

4. Quando falamos em problemáticas urbanas necessariamente acabamos por fa-


lar em atividades humanas, aspecto ambiental e impactos ambientais, pois fa-
zem um conjunto de fatores que acaba por formar grandes problemas urbanos.
Assinale a alternativa que indica um exemplo de aspecto ambiental:
a. Manuseio de produto tóxico.
b. Construção de estradas.
c. Poluição atmosférica.
d. Contaminação do solo.
e. Vazamento de esgoto.

5. Considere as seguintes afirmações sobre problemáticas urbanas, impactos


ambientais e recursos naturais:
I. Apenas 8,13% da população brasileira possui 87,40% de toda riqueza mone-
tária do país.
II. A água doce no Brasil fica distribuída da seguinte forma: 72% na região ama-
zônica, 16% no Centro-Oeste, 8% no Sul e no Sudeste e 4% no Nordeste.
III. A média de geração de resíduos sólidos urbanos no Brasil em 2014 foi de 1,08
kg por hab./dia, ou seja, um total de 387,63 kg por hab./ano.
IV. Cerca de 15% das emissões de gases de efeito estufas vem de veículos auto-
motores.
a. Somente I, II e IV estão corretas.
b. Somente II e IV estão corretas.
c. Somente II e III estão corretas.
d. Somente III e IV estão corretas.
e. Todas estão corretas.
MATERIAL COMPLEMENTAR

História do futuro - O horizonte do Brasil no século


XXI – 2013
Mirian Leitão
Editora: Intrínseca
Sinopse: história do Futuro é um grandioso livro de reportagem
em que a jornalista Miriam Leitão mapeia o território do que está
por vir com base em entrevistas, viagens, análises de dados e
depoimentos de especialistas, depois de três anos de pesquisas.
Ela aponta tendências que não podem ser ignoradas em áreas
como meio ambiente e clima, demografia, educação, economia,
política, saúde, energia, agricultura, tecnologia, cidades e mundo. E adianta que o futuro será
implacável para os países que não se prepararem para ele.
61
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17

2016.
GABARITO

1. D.
2. D.
3. E.
4. E.
5. E.
Professor Dr. André Cesar Furlaneto Sampaio

II
FUNDAMENTOS

UNIDADE
AMBIENTAIS PARA
PLANEJAMENTO URBANO

Objetivos de Aprendizagem
■■ Compreender os conceitos básicos de fundamentos ambientais
ligados ao planejamento urbano.
■■ Conhecer os princípios básicos de análise de paisagem para
planejamento urbano.
■■ Conhecer as principais leis e como funciona o licenciamento
ambiental.

Plano de Estudo
A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade:
■■ Cenário Ambiental Mundial e Brasileiro
■■ Conceitos básicos de fundamentos ambientais
■■ Análise da paisagem para planejamento urbano
■■ Legislação e licenciamento ambiental
67

INTRODUÇÃO

Caro(a) aluno(a), nesta unidade trataremos dos fundamentos básicos ambientais


para o planejamento urbano. Iniciaremos com um histórico sobre questões socio-
ambientais fundamentais, depois conceituaremos termos relevantes, seguiremos
para uma visão técnica ambiental sobre análise de paisagem para o planejamento
urbano e, por fim, veremos uma base de legislação específica dentro desses temas.
Essa unidade fundamenta-se nos quesitos primordiais em termos de meio
ambiente para o devido planejamento urbano e tem cunho mais prático. Entram
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

em questão conceitos e fundamentos de grande multidisciplinaridade, portanto


complexos, pois vocês poderão não estar familiarizados. Falaremos de assun-
tos voltados a biologia, engenharia florestal, geografia, engenharia ambiental,
direito ambiental, ecologia dentre outras disciplinas (ciências), porém, todos
muito ligados ao planejamento urbano, já que este, atualmente, tem alto envol-
vimento com o desenvolvimento sustentável.
A preocupação com a qualidade do ambiente em que vivemos ainda é muito
recente na história da humanidade. Pouco mais de 50 anos se passaram desde
que o movimento ambientalista se iniciou nos Estados Unidos e se espalhou pelo
mundo. O livro “Primavera Silenciosa” da bióloga Rachel Carson, publicado em
1962, é considerado um dos clássicos da história desse movimento. Contendo
uma série de narrativas sobre os problemas ambientais que estavam ocorrendo em
várias partes do mundo, o livro denunciava os impactos do modelo de desenvol-
vimento econômico então adotado. Sua publicação colocou a temática ambiental
na pauta da política internacional e a partir daí muitos eventos foram organiza-
dos para discutir o assunto. Hoje, o tema ambiental encontra-se envolvido em
todos os setores da sociedade e principalmente no planejamento urbano.
Ótima leitura!

Introdução
68 UNIDADE II

CENÁRIO AMBIENTAL MUNDIAL E BRASILEIRO

Caro (a) Aluno(a), para um início de reflexão vamos traçar um cenário sobre a
questão ambiental no mundo e no Brasil atualmente. Somos atualmente cerca
de 7,3 bilhões de pessoas e para 2020 as projeções mais otimistas da FAO (Food
and Agriculture Organization - Organização das Nações Unidas para Agricultura
e Alimentação) dizem que seremos 8,3 bilhões. A demanda alimentar mundial
saltará de 2,45 para 3,97 bilhões de toneladas de alimentos. Estatística preocu-
pante, pois em nove anos o mundo terá de dobrar a produção agrícola. Apenas

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14 países ainda possuem terras férteis e aráveis para a agricultura. O Brasil é um
deles, pois tem potencial enorme para aumentar sua produção de alimentos e
sem precisar desmatar ou ocupar áreas de importância ecológica vital (ONU,
2013, on-line)1.
Porém, essa necessidade de aumentar a produção do agronegócio está sendo
tratada de forma irresponsável. As Políticas públicas seguem um ideal de que é
necessário desmatar, avançar sobre os ecossistemas remanescentes para que a
fome no mundo não aumente. Empresas e governo utilizam-se hoje do medo
da falta de alimentos para lucrar rápido e degradar muito. No Brasil o chamado
novo Código Florestal, aprovado em 2012, trouxe vários retrocessos em termos
de proteção ambiental, colaborando para desmatamentos e ocupação de áreas
que deveriam ser destinadas a conservação da natureza (nascentes, beiras de rios,
várzeas, topos de morro...). Muita hipocrisia se espalha pelo mundo.
A tecnologia para produção de alimentos evoluiu de forma extraordinária
nos últimos 30 anos e alimento não falta, nunca faltou em quantidade. Thomas
Malthus, um economista britânico, cometeu um engano nos anos de 1800,
quando propôs que o aumento da população cresceria mais que a produção de
alimentos, mas a ideia persistiu. Hoje temos variadas formas de produzir alimen-
tos, algumas bastante impactantes em termos ambientais, mas de maneira geral
conseguimos ter produção eficiente, ou seja, produzir mais em cada vez menos
espaço. A fome e a miséria do mundo sempre existiram devido à má distribuição
de renda e outras especificidades e não da ineficácia da produção agropecuária
ou da falta de alimentos.

FUNDAMENTOS AMBIENTAIS PARA PLANEJAMENTO URBANO


69

O desperdício e o despreparo com os alimentos são grandes vilões. Por


exemplo, na colheita, transporte, e organização nos supermercados e centrais de
abastecimento (CEASA) se perde cerca de 50% dos alimentos. O desperdício está
por toda parte como nos grãos que se espalham pelas rodovias caídos de cami-
nhões e nas toneladas de restos de comida deixados nos pratos dos restaurantes.
No ano de 2014 esses alimentos perdidos dariam conta de conter toda fome anual
na América Latina (ONU, 2013, on-line).1 É fato que, mesmo havendo formas
muito viáveis de sanar a fome a humanidade preferiu não se preocupar com ela,
por achar um problema difícil demais para se perder tempo. Continuamos com
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cerca de 795 milhões de pessoas passando fome.


Apesar de toda fome no mundo temos consumo de carne fora do normal
e aumentando gradativamente. A pecuária vem se utilizando de métodos bas-
tante impactantes em sua produção, desmatando florestas naturais e utilizando
de grandes espaços, o que traz sérios problemas para um mundo tão carente de
conservação. Sem uma mudança radical, nas formas de produzir e de se alimen-
tar problemas ambientais podem alcançar um patamar sem igual, mas existe
como conciliar uma produção agropecuária mais sustentável e matar a fome do
mundo, parte da solução é educacional e a outra envolve uma produção mais
orgânica, misturando técnicas como nos Sistemas Agroflorestais (SAF) e tra-
zendo mais prosperidade aos pequenos agricultores.
A conservação da natureza ainda é tratada de forma pouco eficaz. Temos
mais de 40% das florestas tropicais do mundo destruídas ou em processo de
arenização (abertura de áreas para ampliação do agronegócio são o principal
motivo). Pesquisas indicam que 60% dos serviços ecossistêmicos estão degra-
dados, incluindo aí a distribuição mais igualitária de chuvas, a purificação e
filtragem da água, controle hidrológico, a formação de solos, a polinização, e
até mesmo o controle climático. Estima-se que exista no mundo aproxima-
damente 8 milhões de espécies de vida, porém a ciência classificou apenas 1,8
milhão e desse número cerca de 20% das espécies estão no Brasil. Temos um
país megadiverso. Precisamos da biodiversidade, tanto pelo equilíbrio dos ecos-
sistemas, como para nossa economia, pois em torno de 60% do PIB (Produto
Interno Bruto) mundial está relacionado diretamente com os produtos vindos

Cenário Ambiental Mundial e Brasileiro


70 UNIDADE II

dela. Madeira, remédios, algodão, comida, tinta, papel e tantos outros produ-
tos essenciais existem por causa da diversidade de espécies (MINISTÉRIO DO
MEIO AMBIENTE, 2016, ON-LINE)2.
Em meu trabalho como professor e pesquisador ambiental, constantemente
me fazem uma pergunta: todas as espécies tem uma função para a humanidade,
são realmente necessárias? Minha resposta é que toda a estrutura dos ecossistemas
que temos e suas espécies vieram de bilhões de anos de adaptação e modificação.
Foi isso que Charles Darwin revelou para o mundo com sua teoria da evolução
(atualmente quase completamente comprovada). Sabendo disso, fica fácil enten-

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der que cada espécie tem suas funções, que são divididas de muitas maneiras,
e que de certa forma se substituem corrigindo a falta das que foram extintas,
porém, existe limite. Não um limite para a natureza, pois essa com o tempo se
refaz, esse limite é para nós, humanos. Os pernilongos e baratas, por exemplo,
se extintos não afetariam os ecossistemas ou a humanidade de forma abrupta,
são espécies substituíveis em uma escala de tempo razoavelmente curta. Mas se
pensarmos nas abelhas, morcegos e outros grandes polinizadores, a substituição
seria mais complexa e demandaria muito tempo, podendo ocasionar desequi-
líbrio extremo para nossa sobrevivência. Temos de ser cautelosos, respeitar a
maquinaria que é a natureza, suas engrenagens e peças.
O aquecimento global é outro problema grave e que vem sendo polemizado,
mas com certeza não pode ficar desacreditado. O famoso astrônomo Carl Sagan
dizia: “a terra é uma anomalia, não se sabe de outro planeta com vida em todo o
nosso universo em expansão. Somos raros e com isso frágeis” (SAGAN, 2008, p
90). Muitas espécies prosperaram na Terra há muito mais tempo do que a nossa
e não existem mais. Um exemplo claro são os dinossauros que viveram por mais
de 180 milhões de anos, mas foram totalmente extintos.
Para comparar basta lembrar que o ser humano está na terra há apenas 400
mil anos. Mudanças no planeta podem nos extinguir com certa facilidade, somos
quebradiços. A temperatura da terra viável para nossa sobrevivência só é possível
devido ao efeito estufa. Afetar o equilíbrio da “nossa” estufa significa um suicí-
dio global. O chamado efeito estufa é um fenômeno causado por gases existentes

FUNDAMENTOS AMBIENTAIS PARA PLANEJAMENTO URBANO


71

na atmosfera. Dentre os principais está o gás carbônico (CO2), o metano (CH4)


e o óxido nitroso (NH2) que quanto mais forem liberados mais se aquece o pla-
neta. Por acaso, um número absurdo de plantas e animais unicelulares foram há
mais de 300 milhões de anos, absorvidos, fervidos e aprisionados nas entranhas
de nosso planeta e se transformaram em gás, carvão e petróleo (muitos gases de
efeito estufa aprisionados). Utilizamos essa energia acumulada para manter nosso
conforto e sobrevivência. Estamos devolvendo 300 milhões de anos de polui-
ção, principalmente gás carbônico, na nossa atmosfera. Além disso, novamente
o agronegócio, principalmente a pecuária, e sua escala de produção absurda,
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

geram a maior parte dos gases de efeito estufa na nossa atmosfera (quantidade
de estrume e espaço absurdos). Isso sem dúvida está gerando efeitos negativos.
O mais terrível que pode acontecer é uma elevação da temperatura que nos leve
a extinção (SAGAN, 2008).
A situação tem como ser revertida, mas o caminho que trilhamos ainda
não está correto. Existe um discurso lindo sobre sustentabilidade, mas as ações
são insuficientes. Existe uma ânsia por um mundo melhor baseada no respeito
à natureza, uma ideia que vem crescendo e conquistando o mundo, espero que
cresça cada vez mais veloz. Todo esse cenário sobre as questões ambientais são
relevantes em termos de políticas públicas urbanas, pois nas cidades estão em
maior número os grandes pensadores e as conquistas para esse mundo melhor.

Cenário Ambiental Mundial e Brasileiro


72 UNIDADE II

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CONCEITOS BÁSICOS DE FUNDAMENTOS


AMBIENTAIS

Caro (a) aluno (a), devido as enormes problemáticas de cunho ecológico e ambien-
tal que temos atualmente, é de extrema importância que se forme na população
brasileira e em seus vários grupos um conhecimento mais aprofundado de ter-
mos usualmente utilizados em assuntos corriqueiros na mídia e mesmo no
cotidiano como: conservação da natureza, conservação de recursos naturais,
planejamento urbano e outros assuntos vinculados. Aprofundar esse conheci-
mento na sociedade é o que chamamos de educação ambiental. Acredita-se que
com melhor conhecimento da situação e de fundamentos básicos a sociedade
tenderá a construir um país melhor, um mundo melhor. Isso tem muita relação
com nosso primeiro termo a ser definido.

PERCEPÇÃO AMBIENTAL

Percepção ambiental se refere à maneira que uma pessoa ou um grupo de pes-


soas com características socioculturais semelhantes compreendem o lugar em
que vive, seu espaço, a paisagem ao seu redor.

FUNDAMENTOS AMBIENTAIS PARA PLANEJAMENTO URBANO


73

O termo, também se refere, à ciência ou disciplina que estuda e analisa essa


visão dos seres humanos sobre o espaço. Algo que pode ser trabalhado em dife-
rentes áreas como: marketing e propaganda; pedagogia e educação; geografia,
psicologia, antropologia, dentre outras. É a ciência que estuda e formaliza méto-
dos para pesquisar a percepção ambiental das pessoas, de grupos diferentes da
sociedade.
Muitas vezes, o entendimento da percepção ambiental é visto como algo
banal, menosprezado. Porém, é sabido que entender como as pessoas percebem
seu ambiente e as questões de seu entorno é crucial para prever o futuro. Como
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sabemos a humanidade possui grande poder de transformação da paisagem, do


meio ambiente. Por isso entender o que se passa na mente humana, nos grupos
e comunidades que formamos em nossa sociedade nos trará uma visão melhor
das mudanças no nosso meio físico e biológico que estão por vir.
Vários autores com trabalhos relevantes em estudos da percepção ambien-
tal demonstram a ideologia sobre a relação do homem com o espaço, com a
paisagem. Santos (1997, p. 90) diz que “é em torno do homem que o sistema da
natureza conhece uma nova valorização e, por conseguinte, um novo significado”;
Holzer (1992, p. 125) diz que “na perspectiva humanística, compreender o espaço
reflete o estudo dos sentimentos espaciais e das ideias de um povo a partir de sua
experiência”. Meinig (2002, p. 35) diz que “qualquer paisagem é composta não
apenas por aquilo que está à frente dos nossos olhos, mas também por aquilo
que se esconde em nossas mentes”. Tuan (1983, p.18), declara que “os espaços do
homem refletem a qualidade dos seus sentidos e sua mentalidade”. Assim, fica
demonstrado que o espaço reside não apenas fora, mas também dentro do ser
humano. No final das contas o espaço reflete a concepção da sociedade, ou dos
grupos de maior poder dentro dessa sociedade.
Tuan (1983) em vários trabalhos estuda o que influencia na percepção de
cada pessoa (sentidos, idade, conhecimento etc.). Surgem questinamentos como:
“Terá diferença a forma de percepção de uma pessoa que more há mais ou menos
tempo em um lugar? Haveria diferença na intensidade do conhecimento do lugar
por essas pessoas?”. Ele conclui, formando a ideia que a percepção depende do
conhecimento e do tipo de relação que se tenha com o lugar (TUAN, 1983, p. 213).

Conceitos Básicos de Fundamentos Ambientais


74 UNIDADE II

Nossa sociedade em termos mundiais foi formada a partir de uma ideologia


desenvolvimentista, de um desenvolvimento baseado no uso e degradação desen-
freado dos recursos naturais. Atualmente, a ciência nos alerta que essa percepção
ambiental de nossos antepassados e pioneiros é degradante para a civilização.
Isso nos leva a um dos grandes problemas da atualidade: ainda grande parte da
humanidade possui essa mesma percepção ambiental de tempos remotos, dese-
jando esse desenvolvimento a partir de uso sem planejamento de longo prazo.
Sendo assim, para o planejamento urbano a percepção ambiental dos cida-
dãos e seus grupos é importante de ser diagnosticada, pois com isso será possível

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
perceber o que a população deseja de modificações, do nível de entendimento
das problemáticas existente, dos possíveis cenários para o futuro entre outros
aspectos relevantes.

MEIO AMBIENTE

Durante um estudo que fiz para minha tese de doutorado em geografia elaborei
um questionário sobre termos ambientais. Apliquei-o em alguns grupos relacio-
nados à conservação das florestas do município de Maringá-PR, principalmente
pioneiros da cidade. Eram conceitos básicos e muito usuais. Meio ambiente era
um deles. Nenhum dos entrevistados conseguiu uma resposta completa dentro
da conceituação legal e científica de meio ambiente. Algo normal, pois realmente
é uma conceituação abrangente e por isso mesmo difícil de ser dada por com-
pleto. A ideia geral e equivocada dos entrevistados foi que meio ambiente era a
proteção da natureza.
De acordo com Reigota (2001) existem três concepções básicas de meio
ambiente presentes na sociedade: a) Naturalista: em que o meio ambiente é visto
como sinônimo de natureza intocada, evidenciando-se somente os aspectos natu-
rais; b) Antropocêntrica: que evidencia a utilidade dos recursos naturais para a
sobrevivência do ser humano; c) Globalizante: que é pautada nas relações recí-
procas entre natureza e sociedade.

FUNDAMENTOS AMBIENTAIS PARA PLANEJAMENTO URBANO


75

A literatura sobre o assunto nos diz que essa visão globalizante é o pensa-
mento mais contemporâneo e mais adequado para o termo. Abaixo seguem
conceituações bem aceitas sobre o termo.
Segundo Coimbra:
[...] meio ambiente é o conjunto dos elementos físico-químicos, ecos-
sistemas naturais e sociais em que se insere o Homem, individual e
socialmente, num processo de interação que atenda ao desenvolvimen-
to das atividades humanas, à preservação dos recursos naturais e das
características essenciais do entorno, dentro de padrões de qualidade
definidos (COIMBRA, 2002, p.31).
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De acordo com a Resolução Conama 306/2002 meio Ambiente é o conjunto de


condições, leis, influência e interações de ordem física, química, biológica, social,
cultural e urbanística, que permite, abriga e rege a vida em todas as suas formas
(CONAMA, 306/2002).
A Lei nº 6.938/1981 (Política Nacional de Meio Ambiente), em seu artigo
3º, parágrafo primeiro, define meio ambiente como “o conjunto de condições,
leis, influências e interações de ordem física, química e biológica, que permite,
abriga e rege a vida em todas as suas formas”. Acrescentado em seu artigo 3º,
parágrafo quinto: “que compõem o meio ambiente: a atmosfera, as águas interio-
res, superficiais e subterrâneas, os estuários, o mar territorial, o solo, o subsolo,
os elementos da biosfera, a fauna e a flora” (BRASIL, Lei nº 6.938, 1981).
Acaba que meio ambiente é amplo e dependendo do contexto pode ter diver-
sas interpretações. Constantemente em planejamento urbanos fala-se em meio
ambiente urbano, referindo-se às interações e condições da paisagem de ordem
física, química e biológica na região urbana que regem a vida, reduzindo assim
a área de abrangência do termo meio ambiente. O termo legislativamente se
refere à regência da vida e isso sinaliza a intenção de equilíbrio e proteção dos
ecossistemas, demonstra uma visão globalizante, incluindo o homem em inte-
rações importantes.

Conceitos Básicos de Fundamentos Ambientais


76 UNIDADE II

ECOSSISTEMA X BIOMA

Dois termos muito utilizados e confundidos.


Bioma é conceituado como uma área originalmente ocupada por um conjunto
de vida (vegetal e animal) constituído pelo agrupamento de tipos de vegeta-
ção contíguos e identificáveis em escala regional, com condições geoclimáticas
similares e história compartilhada de mudanças, o que resulta em diversidade
biológica própria. No Brasil temos seis biomas oficiais: Amazônia (49,29% do
território brasileiro), Cerrado (23,92%), Mata Atlântica (13,04%), Caatinga

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(9,92%), Pampa ou Campos Naturais (2,07%) e Pantanal (1,76%) (IBGE, 2006).
Importante frisar que atualmente as áreas da maioria dos biomas, com exce-
ção do bioma Amazônico, não é mais constituída em sua grande parte por áreas
naturais, hoje as áreas naturais estão fragmentadas, o território deles está ocu-
pado em grande parte por cidades, pastagens, plantios agrícolas e silviculturais.
Outro detalhe que considero importante lembrar é que um bioma possui várias
tipologias vegetacionais, não apenas uma como muitos acabam supondo. Por
exemplo, no bioma Amazônico não existe apenas um tipo de vegetação, não se
trata apenas de um tipo de floresta, são vários, porém, possuindo característi-
cas semelhantes e agrupados em uma mesma região. No bioma Mata Atlântica
costuma ocorrer muito esse tipo de equívoco, pois existe uma tipologia florestal
também denominada Mata Atlântica (Floresta Ombrófila Densa), porém, den-
tro desse bioma temos vários tipos de vegetação: a Floresta Atlântica, a Floresta
Seca do Rio Paraná (Floresta Estacional Semidecidual), a Floresta com Araucária
(Floresta Ombrófila Mista), além de áreas com savanas e campos (IBGE, 2012).
Para ecossistema a definição é a seguinte: sistema integrado e autofuncionante
que consiste em interações dos elementos bióticos e abióticos e cujas dimensões
podem variar consideravelmente. Diferentemente do bioma no ecossistema a
ênfase fica na relação entre elementos bióticos e abióticos, além disso, a escala
do ecossistema é variável. Uma poça de água pode ser um ecossistema, um poço,
um tipo de floresta, uma cidade e até mesmo um bioma pode ser enquadrado
como um ecossistema. Basta que nesses locais esteja sendo tratada das relações
entre os elementos abióticos e bióticos e o fluxo de energia relacionado.

FUNDAMENTOS AMBIENTAIS PARA PLANEJAMENTO URBANO


77

Para concluir podemos dizer que um bioma pode ser analisado como ecos-
sistema. A principal diferença está na função da palavra e na escala. Bioma quer
definir uma região, ecossistema quer tratar de uma região em seus aspectos inte-
rativos. Bioma sempre tem escala regional, são grandes áreas, já ecossistema
variam a escala podendo ser enormes e minúsculos dependendo do contexto.

BIODIVERSIDADE
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Sempre achei que biodiversidade fosse um termo muito conhecido, pois é muito
comum tanto na mídia como nos setores profissionais que lidam com conserva-
ção da natureza. Por isso me surpreendi quando fiz uma pesquisa sobre termos
ambientais, a mesma que mencionei na conceituação de meio ambiente, e nenhum
entrevistado soube definir corretamente o termo. Achava que seria o mais conhe-
cido e no final foi o menos conhecido da pesquisa. Considero isso assustador, pois
se trata de um termo de extrema relevância para o entendimento da importân-
cia da conservação da natureza e não é complexo, sua definição básica é simples.
Basta dizer que se trata de todo os tipos de seres vivos, só assim já podemos
dizer que a resposta está correta. Um fato que pode explicar a falta de conheci-
mento de meus entrevistados é que todos tinham acima de 70 anos, ou seja, com
a idade avançada acabaram por não ouvir muito ou entender o termo.
Vamos observar e analisar melhor o termo.
Segundo Wilson (1997), famoso biólogo, coautor de teorias importantes como
a da biogeografia de Ilhas, que foi duas vezes vencedor do Prêmio Pulitzer, bio-
diversidade é a totalidade da variação hereditária em formas de vida, em todos
os níveis de organização biológica, desde os genes e cromossomos dentro de cada
espécie isolada até o próprio espectro de espécies e afinal, no mais alto nível, as
comunidades que vivem em ecossistemas como florestas e lagos.
Na definição de Wilson fica claro que a biodiversidade se refere a todas
as formas de vida, ou seja, todas as espécies. Porém vai além, considerando a
diversidade genética existente dentro de cada indivíduo de cada espécie. O fator
genético é muito importante, pois é a variabilidade genética que irá propiciar
a uma população de uma espécie a conseguir se adaptar e viver longamente, a

Conceitos Básicos de Fundamentos Ambientais


78 UNIDADE II

evoluir. Se a população de uma determinada espécie tem pouca variabilidade


genética isso significa que são aparentados e nos cruzamentos isso causará ao
longo do tempo deterioração das formas de adaptabilidade, ou seja, enfraque-
cimento e até extinção da espécie.
No final das contas, a biodiversidade é a diferença de conformações genéti-
cas que permitiu as formas vivas existentes e que permite novas formas de vida
futura, assim como, esperança de maior qualidade de vida para a humanidade
(LIMA, 1999).
Considero a biodiversidade o recurso natural mais importante que temos,

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pois conseguindo a conservação dele todos os outros recursos naturais vão obter
benefícios e maior nível de conservação. Da biodiversidade vem nossos remé-
dios (hipertensivos de veneno de cobras, remédios de variadas doenças de rãs e
tipos de plantas entre outros), nossas roupas (variedades de algodão e seda vinda
do bicho-da-seda), nossos móveis (várias espécies de árvores), nossos alimentos
(animais, vegetais, frutas, verduras entre outros) e a matéria prima de inúme-
ros materiais industrializados. Quanto mais espécies de vida existir na natureza
maior equilíbrio dos ecossistemas ocorrerão, com isso a biodiversidade acaba
sendo importante para a humanidade em termos de formação do solo, polini-
zação e até mesmo na regulação climática.
Mesmo sendo tão importante para a humanidade, hoje, a biodiversidade
corre sérios riscos. Estima-se que as espécies estejam desaparecendo com uma
velocidade muito acima do normal (cerca de 1000 vezes acima), considerando
os últimos milhões de anos, tudo devido às ações humanas.

QUALIDADE DE VIDA

Trata-se de um termo que possui multidimensionalidade, contendo vários domí-


nios e conceitos. Consideremos a seguinte definição:
[...] qualidade de vida é a percepção do indivíduo de sua posição na
vida no contexto da cultura e sistema de valores nos quais ele vive e
em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações
(WHOQOL GROUP, 1994, p. 5).

FUNDAMENTOS AMBIENTAIS PARA PLANEJAMENTO URBANO


79

Para avaliar a qualidade de vida a Organização Mundial da Saúde elaborou


um instrumento para sua medição composto por 100 itens. Para a elaboração
desse instrumento considerou-se toda sua multidimensionalidade. Dividiram-se
os principais domínios relacionados: domínio físico, domínio psicológico, nível
de independência, relações sociais, meio ambiente e espiritualidade, religião e
crenças pessoais. Dentro do domínio meio ambiente foram considerados os tópi-
cos: recreação e lazer, o ambiente físico considerando a poluição, ruídos, trânsito
e clima (WHOQOL GROUP, 1994).
Segundo Cortella (2013) para ter qualidade de vida, ou seja, o bem viver
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temos que viver as inúmeras dimensões de nossa existência: família, trabalho,


amizade e cidadania, sem ter sofrimento e culpa.
Preencher todos os requisitos para que se considere uma qualidade de vida
no mais alto nível é extremamente complexo, pois muitos dos fatores que levam
a boa qualidade de vida não são de responsabilidade exclusiva do cidadão,
dependem das instituições, de políticas públicas, de infraestrutura, da conser-
vação ambiental entre outros fatores. Em tese quanto melhor planejada é uma
cidade e quanto melhor for à gestão de um país mais os índices de qualidade de
vida aumentarão.

PAISAGEM

Paisagem é um termo amplo e de visões científicas diferenciadas. Foi na ciência


geográfica que o termo foi moldado com maior detalhamento. Para conceituar
cientificamente a paisagem, principalmente na Geografia, formou-se uma dico-
tomia, que de forma geral perdura até hoje. Essa dicotomia é constituída pela
diferenciação entre paisagem natural e paisagem cultural:
[...] a paisagem natural seria os elementos combinados de geologia,
geomorfologia, vegetação, rios e lagos, enquanto a paisagem cultural,
humanizada, incluiria todas as modificações feitas pelo homem, como
nos espaços urbano e rural. Esses conceitos se atrelam a abordagens
filosóficas e a uma questão de método de análise. Pode-se dizer que
a diferenciação acima foi originalmente ligada ao Positivismo, numa
escala mais estática, onde se focalizam os fatores geográficos agrupa-

Conceitos Básicos de Fundamentos Ambientais


80 UNIDADE II

dos em unidades espaciais e na geografia francesa sob a influência de


Paul Vidal de La Blache que imprimiu uma forma mais dinâmica, en-
tendendo-a com um caráter mais processual. Os estudos de paisagem
inicialmente foram focados na descrição das formas físicas da superfí-
cie terrestre, sendo que progressivamente foram sendo incorporadas as
ações do homem no transcurso do tempo, com a individualização das
paisagens culturais frente às naturais (SILVEIRA, 2009, p. 3).

O termo “paisagem” (landschaft) como conceito geográfico foi designado pelo


geógrafo alemão Alexander Von Humboldt, que o introduz como definição cen-
tral em seus estudos (HOLZER, 1999).

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Humboldt constituiu uma disciplina científica estudando a paisagem, no
século XIX, porém, o conceito de paisagem não ficou bem definido, gerando
ambiguidades que duram até hoje, no mundo inteiro. De forma geral, o termo
designava, tanto uma porção limitada da superfície de terra que possuía um ou
mais elementos que lhe davam unidade, como também a aparência da terra tal
como era percebida por um observador (SALGUEIRO, 2001).
A partir do século XX, a discussão sobre paisagem começa a ser mais apro-
fundada e se tem uma evolução que chega aos conceitos e métodos de estudo
da atualidade.
Com os avanços da Ecologia e da Teoria Geral dos Sistemas na primeira
metade do século XX, o conceito de sistema foi plenamente incorporado aos
estudos da paisagem. Dessa forma, Sotchava, em 1963, formou a noção de geos-
sistema: um fenômeno natural, influenciado pelos fatores econômicos e sociais,
que podem transformar sua estrutura e suas peculiaridades espaciais, surgindo
dessas influências as paisagens antropogênicas, ou seja, os estados variáveis e
primitivos dos geossistemas naturais (SOTCHAVA, 1977).
É na década de 60, que o conceito de paisagem se amplia tanto em caráter
subjetivo como sistêmico. Georges Bertrand situa a paisagem dentro de uma
proposta de uma geografia física global, deixando de lado a abordagem dicotô-
mica tradicional, ensejando uma geografia comprometida com a busca do todo
concreto (MARTINELLI; PEDROTTI, 2001, p. 41). Mesmo tentando uma unifi-
cação da geografia e do estudo da paisagem, a metodologia e o sistema proposto

FUNDAMENTOS AMBIENTAIS PARA PLANEJAMENTO URBANO


81

por Bertrand, de forma geral, enquadravam-se mais na visão sistêmica e física da


paisagem. A paisagem do ponto de vista da geografia humanística segue novos
rumos com os estudos utilizando-se do conceito de percepção ambiental, com
muita influência dos trabalhos do geógrafo Yi-Fu Tuan.
Atualmente, a paisagem entra em estudos tanto de enfoque subjetivo, como
de enfoque sistêmico. Dentro do enfoque subjetivo, com estudos voltados para
a área da fenomenologia, a definição de paisagem de Tuan (1979, p. 89): “uma
imagem integrada, construída pela mente e pelos sentidos”, demonstra um olhar
diferenciado e mais subjetivo, dando valor ao que é visto e sentido, estando pre-
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sente na paisagem: crenças, valores, heranças intelectuais e espirituais. Com esse


enfoque a geografia se aproxima da filosofia e da antropologia. Ficando presente
a percepção ambiental como fundamento básico para a definição de metodo-
logias de trabalho.
Dentro do enfoque sistêmico a subjetividade fica totalmente de lado, abrin-
do-se espaço para o estudo da estrutura, funcionalidade e agrupamentos dos
elementos da paisagem em diferentes escalas. O homem fica presente, mas com
ações e não com visões. Neste enfoque, a geografia se aproxima mais da ecologia.
Várias metodologias e formas de estudo da paisagem são atualmente utiliza-
das. Dentro do enfoque sistêmico ficam as metodologias de: Paisagem Integrada,
Geoecologia da Paisagem, Ecologia da Paisagem e Geossistema. As aplicações dos
estudos abrangem: verificações e planejamento de graus de alteração antrópica,
de aptidões e limites do uso do solo, de planejamento de ocupação em bacias
hidrográficas, de zoneamento urbano, de gestão de áreas portuárias e de plane-
jamento de áreas agrícolas.
A definição de paisagem de Bertrand (2004) demonstra de forma geral um
olhar sistêmico e dentro da metodologia de geossistema:
[...] a paisagem não é a simples adição de elementos geográficos dis-
paratados. É, em uma determinada porção do espaço, o resultado da
combinação dinâmica, portanto instável, de elementos físicos, bioló-
gicos e antrópicos que, reagindo dialeticamente uns com os outros,
fazem da paisagem um conjunto único e indissociável, e em perpétua
evolução (BERTRAND, 2004, p. 141).

Conceitos Básicos de Fundamentos Ambientais


82 UNIDADE II

Atualmente, o estudo da paisagem na geografia integraliza o homem a esta,


porém, a forma de verificação, qualificação e quantificação da participação do
homem na paisagem é que fica diferenciada. A proposta de Bertrand (Figura 1)
foi umas das metodologias de melhor aceitação acadêmica para a inclusão das
ações antrópicas na paisagem.

(Geomorfologia + Clima + Hidrologia) (Vegetação + Solo + Fauna)

POTENCIAL ECOLÓGICO EXPLORAÇÃO BIOLÓGICA

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GEOSSISTEMA

AÇÃO ANTRÓPICA

Figura1 - Modelo de entendimento de Paisagem proposto por Bertrand.


Fonte: Oliveira (2016, on-line)3

Dentro destas informações e pensamentos é que Monteiro (2000) chega a sua


definição de paisagem, em que diz que a paisagem é o resultado da integração
dinâmica de seus elementos e componentes que estão em constante evolução,
afirmando também que sua delimitação pode ser feita infinitamente segundo os
objetivos das pesquisas e a analises dos pesquisadores.
Metzger (2001) diz que a palavra “paisagem” tem diferentes conotações em
função do contexto e da pessoa que a usa. Pintores, geógrafos, geólogos, arquite-
tos, dentre outros, cada um acaba tendo uma visão diferenciada sobre o sentido
do que seja paisagem. Porém, o sentido de espaço “vivenciado”, de inter-rela-
ções do homem com o meio ambiente está presente na maioria das definições.
A paisagem sempre tem amplitude, distanciamento, pois sempre se precisa de
um ponto de visão de observação ao longe. As definições de paisagem sempre
vêm associadas às percepções, cultura, formação e subjetividades dos observa-
dores. Seguindo esse raciocínio e intencionando uma definição integralizadora

FUNDAMENTOS AMBIENTAIS PARA PLANEJAMENTO URBANO


83

da paisagem Metzger (2001, p.4) define esta como “[...] um mosaico heterogê-
neo formado por unidades interativas, sendo esta heterogeneidade existente
para ao menos um fator, segundo um observador e numa determinada escala
de observação.”
Dentro do planejamento urbano são importantes análises que integrem as
visões tanto físicas quanto humanas sobre a paisagem e suas transformações, por
isso, para elaboração de um plano diretor são importantes levantamentos tanto
físicos como antropológicos e até mesmo de teor psicológico.
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DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

A sociedade em termos globais percebendo que os níveis de degradação da natu-


reza estavam alcançando patamares muito prejudiciais acabou por formular o
termo sustentabilidade ou desenvolvimento sustentável para designar a busca
por um desenvolvimento de maior equilíbrio com o uso dos recursos naturais.
Durante a Eco 92 (reunião mundial para discussão de assuntos ambientais e de
desenvolvimento realizada em 1992 no Rio de Janeiro) foi formulado um docu-
mento ratificado por 179 países denominado Agenda 21, nesse o conceito foi
moldado e foram determinadas mais de 2.500 recomendações para o alcance dos
objetivos da sustentabilidade. Usualmente é o conceito mais aceito sobre o tema.
[...] desenvolvimento Sustentável é um modelo econômico, político, so-
cial, cultural e ambiental equilibrado, que satisfaça as necessidades das
gerações atuais, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de
satisfazer suas próprias necessidades (AGENDA 21, 2002).

São diversos conceitos utilizados na literatura, que tentam aprofundar a ques-


tão. Vamos analisar alguns:
Desenvolvimento Sustentável é definido como aquele que atende às
necessidades das gerações atuais sem comprometer a capacidade das
futuras gerações terem suas próprias necessidades – utilizar recursos
naturais sem comprometer sua produção, tirar proveito da Natureza
sem devastá-la e buscar a melhoria da qualidade de vida à sociedade
(ARGERICH, 2004, p. 31).

O desenvolvimento sustentável é um projeto social e político que apon-

Conceitos Básicos de Fundamentos Ambientais


84 UNIDADE II

ta para o ordenamento ecológico e a descentralização territorial da pro-


dução, assim como, para a diversificação dos tipos de desenvolvimen-
to e dos modos de vida das populações que habitam o planeta. Nesse
sentido, oferece novos princípios aos processos de democratização
da sociedade que induzem a participação direta das comunidades na
apropriação e transformação de seus recursos ambientais (LEFF, 2002,
p. 57).

De forma geral, Desenvolvimento Sustentável visa o bem estar da coletividade


no presente e no futuro e propõe alcançar esse objetivo através da construção
de um novo modelo de mundo, ainda não existente, que englobe ações que sus-

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tentem a diversidade e a disponibilidade de recursos naturais, no mínimo nas
seguintes dimensões: social, econômica, ambiental e cultural.
A ideia básica de sustentabilidade se fundamenta na formação de um mundo
melhor considerando as necessidades da humanidade para uma qualidade de
vida melhor. O termo é constantemente usado de modo simplista baseado em
fundamentos de marketing e propaganda. Porém, tem muita complexidade, pois
ainda está em desenvolvimento. Para se fundamentar a sustentabilidade e seus
objetivos é necessário entender como conseguir que a humanidade prossiga sua
vivência, sem sofrimentos, por falta ou má distribuição de seus recursos naturais
(água, solo, fauna e flora, biodiversidade, petróleo, gases entre outros).
O conceito tem muitas utopias, pois se trata de um sonho de equilíbrio, e
esse fato é constantemente utilizado como crítica a ideologia. Referente a essas
críticas, considero que o que é utópico não deveria ser execrado e sim buscado.
Aliás, grandes pensadores sempre exaltaram a utopia. Como dissera o escritor
uruguaio Eduardo Galeano originalmente em uma entrevista para o programa
Singlars na Tv Catalunya da Espanha, no qual citou a fala do diretor de cinema
argentino Fernando Birri (2015, on-line)4.
A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta
dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por
mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve
para isso: para que eu não deixe de caminhar.

FUNDAMENTOS AMBIENTAIS PARA PLANEJAMENTO URBANO


85

A sustentabilidade é constantemente confundida com a proteção exacerbada da


natureza, um tipo de bloqueio do progresso, mas é fato que quando se fala nela
entra em cena a capacidade da humanidade de permanecer no planeta terra com
dignidade. Os homens são o foco e não a natureza. O conceito inclui a humani-
dade como parte da natureza e a instruí a se planejar para viver dentro de uma
força tão poderosa. É fato que o planeta Terra pode prosseguir sem a humanidade,
pois dispõe de um tempo imenso. Ciclos naturais de aquecimento, de glaciações
e de reestruturação geológica acontecem de toda forma. A humanidade nunca
dispôs desses bilhões de anos. Precisa do equilíbrio dos ecossistemas da forma
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em que estão nos últimos milhares de anos. Fugindo disso a sobrevivência dos
mais de sete bilhões de seres humanos ficaria comprometida (SAGAN, 2008).
Para se chegar à realização dessa “utopia” existe um consenso que as atuações
devam ser, principalmente, em quatro dimensões: social, econômica, cultural
e ambiental. Outras dimensões são citadas por diversos autores como a dimen-
são política, ética, estética, entre outras, porém, de forma geral elas acabam se
enquadrando nas quatro citadas.
Seguindo os preceitos da agenda 21 e das discussões globais em torno do
tema, para se alcançar o desenvolvimento sustentável, em termos sociais, cabe
alterar modos de vida e quebrar paradigmas. A sociedade deve agir dentro do
que é realmente importante para sobrevivermos e termos dignidade. Temos que
identificar a verdadeira felicidade e seguir socialmente nesse sentido. Precisamos
de distribuição de renda mais justa para que existam avanços em termos sociais.
Temos uma desigualdade econômica escandalosa no mundo e para o bem social
isso tem de ser regulado. Entra em cena o estancamento da corrupção e do for-
talecimento de políticas econômicas com tributação mais ordenada e justa entre
as classes sociais (AGENDA 21, 2002; PIKETTI, 2013).
Em termos econômicos, as mudanças necessárias focam nos nossos modos
de consumir e produzir. Entram em cena os limites, as tolerâncias: não ultrapas-
sar a linha onde o ganho econômico pode trazer prejuízos sociais e ambientais,
pois no final das contas, em longo prazo, tudo será prejuízo econômico. Ter efici-
ência em nossas produções é considerado a chave da questão. A ideia de melhora
na economia se fundamenta dentro da sustentabilidade no extermínio do pen-
samento imediatista (usar tudo da forma mais rápida possível). Deseja-se um

Conceitos Básicos de Fundamentos Ambientais


86 UNIDADE II

mundo focado no planejamento de longo prazo, com políticas contínuas seguindo


um ideal claro de crescimento equilibrado e avançando em tecnologias que nos
ajudem a alcançar eficiência e usos inteligentes dos recursos naturais (AGENDA
21, 2002; PIKETTI, 2013).
Culturalmente, o que fica claro no desejo da sustentabilidade é a valorização
dos variados tipos de povos e suas formas de viver. Cada cultura fornece, diversi-
dade de informações, criatividade na resolução de problemas e, claro, consumo
diferenciado de nossos recursos. A humanidade tem o costume de exterminar
culturas para acumular riquezas materiais, desperdiçando toda a sabedoria inte-

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lectual de milhares de anos. Não é por acaso que não sabemos ao certo como os
Incas, Maias e Egípcios faziam suas construções.
A primeira civilização humana, os Sumérios, como já vimos, viveram há
3.500 anos antes de Cristo, avançaram consideravelmente na astronomia: sabiam
que a terra era redonda e tinham uma boa noção do funcionamento do sistema
solar. Estavam bem adiantados na matemática e arquitetura. Todo esse conheci-
mento foi perdido. Esse tipo de atitude não pode mais ocorrer no mundo desejado
dentro do desenvolvimento sustentável. Precisamos comer alimentos diferen-
tes, ter desejos de consumo diferentes, artes diferentes, inspirações diferentes,
valorização de espaços de forma diferentes. Ou seja, culturalmente a humani-
dade deve entender que existir diferenças culturais é algo benéfico (AGENDA
21, 2002; CORTELLA, 2013).
Finalmente, em termos ambientais, é essencial entendermos o funciona-
mento natural dos processos ecológicos. Ouvir os cientistas e trabalhar as áreas
naturais para que continuem a nos fornecer recursos com abundância e melho-
rando a distribuição por todo planeta. As florestas, savanas, oceanos, desertos e
as mais variadas áreas naturais têm suas funções ecológicas e alterá-las de forma
pouco inteligente causa desregulação ambiental.
O mais preocupante hoje para o mundo são as alterações climáticas.
Precisamos da atmosfera bem regulada ou nosso futuro fica incerto. A base para
se conseguir estabilidade climática é traçada na conservação de áreas naturais
e na redução drástica da poluição. Perder a qualidade de água, ar, solo e biodi-
versidade não pode mais ser um caminho para o desenvolvimento sustentável
(AGENDA 21, 2002; SAGAN, 2008; WILSON, 1997).

FUNDAMENTOS AMBIENTAIS PARA PLANEJAMENTO URBANO


87

A base para conquistar os objetivos em todas as dimensões de atuação citadas


é uma boa estrutura de educação mundial, com foco bem claro na valorização
da ciência e da sabedoria. Por sermos indivíduos únicos, com peculiaridades
e predisposições, é necessário em padrões educacionais reconhecer diferenças
entre as pessoas, descobrir aptidões de cada um e fornecer oportunidades ade-
quadas. A educação de qualidade tem que ajudar na caminhada de lapidação de
talentos e virtudes naturais.
Outro fator primordial na educação é conseguir instaurar conceitos éticos
novos de forma global, fortalecendo a ideologia da sustentabilidade. A defini-
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ção de ética dada por Clovis de Barros Filho e Mário Sergio Cortella (2014), diz
que ela é a inteligência compartilhada para aperfeiçoar a convivência humana.
Sendo assim, é necessário que os sistemas educacionais trabalhem a inteligência
humana em prol de melhor convivência e por consequência os ganhos sociais,
ambientais, econômicos e culturais seriam gigantescos.
As leis atuais que regem o planejamento urbano no Brasil seguem preceitos
do desenvolvimento sustentável e recomendações da Agenda 21, em sua maio-
ria inseridos na lei denominada Estatuto da Cidade. Hoje em cada um dos países
signatários da Agenda 21 existem estratégias para o alcance da sustentabilidade.
No Brasil, até mesmo na Constituição Federal (1988) é possível verificar a busca
da sustentabilidade, como por exemplo no Art. 225, que diz:
[...] todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado,
bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, im-
pondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e
preservá-lo para as presentes e futuras gerações.

Só quando a última árvore for derrubada, o último peixe for morto e o últi-
mo rio for poluído é que o homem perceberá que não pode comer dinheiro.
(Provérbio Indígena)

Conceitos Básicos de Fundamentos Ambientais


88 UNIDADE II

AVALIAÇÃO DE IMPACTO AMBIENTAL

Esse tipo de avaliação é a base de nosso sistema de licenciamento ambiental e tam-


bém é utilizada para algumas certificações ambientais. A seguir uma conceituação:
[...] a Avaliação de Impacto Ambiental (AIA) é um instrumento de po-
lítica ambiental formado por um conjunto de procedimentos capaz de
assegurar, desde o início do processo, que se faça um exame sistemático
dos impactos ambientais de uma ação proposta (projeto, programa, pla-
no ou política) e de suas alternativas, e que os resultados sejam apresen-
tados de forma adequada ao público e aos responsáveis pela tomada de

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decisão, e por eles devidamente considerados (MOREIRA, 1985, p. 3).

Portanto, trata-se de um processo formal para identificar os efeitos de determinada


atividade sobre o ambiente (físico, biológico, econômico e social) e determinar as
medidas para prevenir, corrigir e compensar os impactos, além de monitorá-los.
É preconizado pela Lei 6.938/81, no licenciamento de atividades efetivas ou
potencialmente poluidoras, sendo um instrumento da Política Nacional do Meio
Ambiente. O resultado da avaliação do impacto ambiental norteia a aprovação
ou não do projeto, bem como a definição das condicionantes para sua implan-
tação, ou seja, é prévio à autorização da obra ou atividade.
De acordo com a Associação Internacional de Avaliação de Impactos
Ambientais (1999), os objetivos do processo de AIA são:
[...] assegurar que as considerações ambientais sejam explicitamente
tratadas e incorporadas ao processo decisório; Antecipar, evitar, mini-
mizar ou compensar os efeitos negativos relevantes biofísicos, sociais e
outros; Proteger a produtividade e a capacidade dos sistemas naturais
assim como os processos ecológicos que mantém suas funções; Promo-
ver o desenvolvimento sustentável e otimizar o uso e as oportunidades
de gestão de recursos (MELO; SÁ, 2008, on-line)5.

Podemos dizer que o objetivo maior de uma AIA é compatibilizar o desenvol-


vimento econômico e social com proteção e melhoria da qualidade ambiental,
tendo como ideal o desenvolvimento sustentável.
A AIA de empreendimentos e atividades modificadoras do meio ambiente é
feita através da elaboração de documentos técnicos. O mais complexo e completo
desses relatórios é o chamado Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e Relatório de

FUNDAMENTOS AMBIENTAIS PARA PLANEJAMENTO URBANO


89

Impacto AmbientaI (RIMA), mas podendo existir outros documentos técnicos


específicos, conforme o tipo de atividade a ser licenciada, tais como:
■■ Plano de Controle Ambiental (PCA) - exigido para concessão de Licença
de Instalação de atividade de extração mineral de todas as classes previstas
no Decreto-Lei 227/67; deve conter os projetos executivos de minimiza-
ção dos impactos ambientais avaliados através de EIA/RIMA na fase de
Licenciamento Prévio (LP). No caso específico da extração mineral da
Classe II, existe a possibilidade de substituição do EIA/RIMA pelo Relatório
de Controle Ambiental - RCA, a critério do órgão ambiental competente
(RESOLUÇÃO CONAMA 009/90). O PCA tem sido exigido também por
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alguns órgãos de meio ambiente para outros tipos de atividade.


■■ Relatório de Controle Ambiental (RCA) - exigido para a obtenção da
Licença Prévia (LP) de atividade de extração mineral da Classe II (Decreto-
Lei 227/67), na hipótese de dispensa do EIA/RIMA, devendo ser elaborado
de acordo com as diretrizes estabelecidas pelo órgão ambiental competente
(RESOLUÇÃO CONAMA 010/90). O RCA tem sido exigido também por
alguns órgãos de meio ambiente para outros tipos de atividade.
■■ Estudo de Impacto de Vizinhança (EIV) – determinado pelo Estatuto da
Cidade para empreendimentos em área urbana.

Mas afinal, o que é o EIA/RIMA?

A Resolução CONAMA 01/86 cria o EIA como sendo o documento técni-


co-científico norteador do licenciamento ambiental de determinadas atividades,
é por meio da análise desse documento que o órgão ambiental dará seu parecer
sobre a viabilidade das atividades de maior impacto ambiental pretendidas no
Brasil. Fica estipulado que esse deve ser composto dos seguintes itens:
■■ Descrição do projeto e suas alternativas.
■■ Etapas de planejamento, construção, operação.
■■ Delimitação e diagnóstico ambiental das áreas de influência.
■■ Identificação, medição e valorização dos impacto.

Conceitos Básicos de Fundamentos Ambientais


90 UNIDADE II

■■ Identificação das medidas mitigadoras: aquelas capazes de diminuir o


impacto negativo, sendo, portanto, importante que tenham caráter pre-
ventivo e ocorram na fase de planejamento da atividade.
■■ Programa de monitoramento dos impactos.

Já o Relatório de Impacto Ambiental (RIMA) é o documento que irá apresentar


os resultados dos estudos técnicos e científicos do EIA em linguagem acessível
à comunidade envolvida. Deve ser ilustrado por mapas, cartas, quadros, gráfi-
cos e demais técnicas de comunicação visual, de modo que se possam entender,

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claramente, as possíveis consequências ambientais do projeto e suas alternati-
vas, comparando as vantagens e desvantagens de cada uma delas.
Segundo a Resolução CONAMA 01/86 (CONAMA, 1992) o RIMA deve
conter:
■■ Os objetivos e as justificativas do projeto, sua relação e sua compatibi-
lidade com as políticas setoriais, planos e programas governamentais.
■■ A descrição do projeto e suas alternativas tecnológicas e locacionais, espe-
cificando para cada um deles, nas fases de construção e operação, a área
de influência, as matérias primas e mão-de-obra, as fontes de energia, os
processos e técnica operacionais, os prováveis efluentes, emissões, resí-
duos de energia e os empregos diretos e indiretos a serem gerados.
■■ A síntese dos resultados dos estudos de diagnóstico ambiental da área de
influência do projeto.
■■ A descrição dos prováveis impactos ambientais da implantação e da ope-
ração da atividade, considerando o projeto, suas alternativas, os horizontes
de tempo de incidência dos impactos e indicando métodos, técnicas e
critérios adotados para sua identificação, quantificação e interpretação.

FUNDAMENTOS AMBIENTAIS PARA PLANEJAMENTO URBANO


91

■■ A caracterização da qualidade ambiental futura da área de influência,


comparando as diferentes situações da adoção do projeto e suas alterna-
tivas e a hipótese de sua não realização.
■■ A descrição do efeito esperado das medidas mitigadoras previstas em
relação aos impactos negativos, mencionando aqueles que não puderam
ser evitados, e o grau de alteração esperado.
■■ O programa de acompanhamento e monitoramento dos impactos.
■■ A recomendação quanto à alternativa mais favorável (conclusões e comen-
tários de ordem geral).
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O EIA e o Rima são dois documentos distintos com objetivos diferenciados, mas
o RIMA é dependente do EIA.

Conceitos Básicos de Fundamentos Ambientais


92 UNIDADE II

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ANÁLISE DA PAISAGEM PARA PLANEJAMENTO


URBANO

Para um bom planejamento urbano é necessário entender a paisagem em que o


município está localizado. Tanto em termos direcionados ao entendimento das
ações do homem naquele espaço no passado e no presente, ou seja, o entendimento
das necessidades de ocupação do solo para que o desenvolvimento econômico
da região seja funcional para trazer harmonia social. Entram perguntas como:
quais são os recursos mais explorados? Qual o tamanho da população e o nível
de seu consumo em recursos naturais? Quais atividades antrópicas mais impac-
tantes existem no município? Quais os impactos ambientais mais preocupantes
e sua localização? Também é necessário entender a paisagem em termos físicos,
com critério técnico. Responder perguntas como: quais os tipos de relevo pre-
sentes do município? Quais os tipos de solo e sua qualidade? Quais tipologias
florestais e a biodiversidade existente? Existem unidades de conservação e cor-
redores ecológicos implantados? Qual o nível de qualidade da água? Quantas
bacias hidrográficas existem no município e quais os principais rios?

FUNDAMENTOS AMBIENTAIS PARA PLANEJAMENTO URBANO


93

Informações sobre a paisagem de um município devem, por lei ser coleta-


das e estudadas para traçar um diagnóstico das problemáticas da cidade e um
prognóstico sobre o futuro. Trata-se de uma etapa do chamado Plano Diretor de
uma cidade, que trataremos na próxima unidade. Neste tópico, vamos concei-
tuar alguns critérios físicos da paisagem importantes no planejamento urbano,
não aprofundaremos em tópicos subjetivos de análise antropológica dos cida-
dãos de uma cidade.
Estudando a paisagem de um município será possível planejar ou replane-
jar o desenho urbano, principalmente na abordagem das questões ambientais,
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sociais, econômicas, culturais e da saúde, para benefício de todos. Com o devido


estudo da paisagem e de seus usos o desenho urbano dentro de critérios da sus-
tentabilidade deverá ter como objetivos:
■■ Reutilizar e regenerar áreas abandonadas ou socialmente degradadas.
■■ Evitar a expansão urbana: priorizando espaços construídos e recuperando
ambientes degradados.
■■ Compatibilizar o uso do solo: equilibrando empregos, transporte, habi-
tação e equipamentos.
■■ Assegurar a conservação, a renovação e a utilização do patrimônio cul-
tural urbano.
■■ Adotar critérios sustentáveis de desenho e planejamento urbano.

Em geral, o estudo da paisagem de um município deve ser feito considerando


como suas unidades de estudos as bacia hidrográficas existentes, pois em cada
bacia existirão condições de relevo, solo e vegetação diferenciados que leva-
rão a cuidados e usos do solo diferenciados. Identificar as áreas mais frágeis
ambientalmente em cada bacia hidrográfica de um município é essencial para a
determinação de um bom desenho urbano e de um zoneamento urbano (divi-
são do município em diferentes zonas de uso), que veremos na unidade IV com
maior detalhamento.

Análise da Paisagem para Planejamento Urbano


94 UNIDADE II

BACIA HIDROGRÁFICA

A bacia hidrográfica pode ser definida como uma área limitada por um divisor
de águas, que a separa das bacias adjacentes e que serve de captação natural da
água de precipitação através de superfícies vertentes. Por meio de uma rede de
drenagem constituída por cursos d’água, ela faz convergir os escoamentos para a
seção de exutório, seu único ponto de saída (LINSLEY; FRANZINI, 1978; TUCCI,
1997 apud BORSATO; MARTONI, 2004). Com essa definição fica evidente que
a bacia é o elemento fundamental de análise no ciclo hidrológico, principal-

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mente na sua fase terrestre, que engloba a infiltração e o escoamento superficial.
A quantidade de água que atinge os cursos d’água vai depender do tamanho da
bacia, da precipitação total e de seu regime e das perdas devido à evaporação, à
transpiração e à infiltração (CHRISTOFOLETTI, 1974).

Interflúvio

Subafluente

Confluência
Escoamento
superficial

Afluente
Escoamento
subterrâneo
Vale Rio principal

Figura 2 - Bacia Hidrográfica


Fonte: Secretaria da Educação do Paraná (2016, online)6

O estudo de vários aspectos (físicos e biológicos) da paisagem de uma bacia


hidrográfica que vão dar subsídio para um eficiente manejo. O bom manejo
de uma bacia inclui o planejamento de corredores biológicos (mata ciliares

FUNDAMENTOS AMBIENTAIS PARA PLANEJAMENTO URBANO


95

conectando fragmentos de vegetação) e estratégias para minimizar os impac-


tos da fragmentação da vegetação como a perda de biodiversidade. O manejo
de bacias hidrográficas é definido por Brooks et al.(1991) como o processo de
organizar e orientar o uso da terra e de outros recursos naturais numa bacia
hidrográfica, a fim de produzir bens e serviços, sem destruir ou afetar adversa-
mente o solo e a água.
Segundo Lima (2007, on-line)7 para se ter uma boa estratégia de uso dos
recursos naturais dois importantes conceitos devem ficar bem claros:
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1. Existe uma inter-relação delicada entre o uso da terra, do solo e da água. O


que quer que aconteça a um, afetará os outros.
2. Existe uma interligação entre as cabeceiras, a média bacia, a baixa bacia e o
estuário. Em outras palavras, essa estratégia implica em que o uso dos recursos
naturais, bem como qualquer outra atividade efetuada em uma área qualquer,
devem ser planejados com base nos limites naturais das bacias hidrográficas e
não nos limites políticos (limite de propriedade, limite de municípios etc.).

O importante disto tudo é reconhecer que a bacia hidrográfica é a unidade natu-


ral de planejamento de recursos naturais e que a água é o agente unificador de
integração no manejo de bacias hidrográficas, baseado em sua vital e estreita
relação com outros recursos naturais. Portanto, o conhecimento da hidrologia,
bem como do funcionamento hidrológico da bacia hidrográfica, são fundamen-
tais para o planejamento e manejo dos recursos naturais renováveis, visando o
uso autossustentável em bacias hidrográficas (LIMA, 2007, on-line)7.
Temos dois grupos de fatores de interesse para planejamentos ambientais e
urbanos em uma bacia hidrográfica, que são: os fatores abióticos que englobam
aspectos hídricos, geologia, geomorfologia e pedologia; e os fatores bióticos que
são basicamente a vegetação e a fauna (MUCHAILH, 2007). Também se pode
incluir a ação antrópica como fator biótico, mas essa por ser a causadora dos
impactos em princípio deve ser estudada a parte e entrarão em estudos diver-
sos do diagnóstico de um plano diretor.

Análise da Paisagem para Planejamento Urbano


96 UNIDADE II

Os fatores abióticos para melhor adequação de estudos de paisagem devem ser


estudados primeiramente, pois fazem parte da gênese de formação do ambiente
a ser estudado (CREPANI et al. 2001). Dentro dos fatores abióticos temos os
aspectos hídricos e os aspectos terrestres (Geológico e geomorfológico).

ASPECTOS HÍDRICOS (FATOR ABIÓTICO)

A poluição que vem comprometendo as águas de muitas bacias hidrográficas

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prejudica o abastecimento público em áreas urbanas e nas áreas rurais, onde o
recurso hídrico é essencial para a sobrevivência e manutenção da produção agrí-
cola. Essas alterações também podem acarretar em desequilíbrios ecológicos,
afetando várias formas de vida, inclusive podendo levar à extinção de espécies.
Em uma bacia hidrográfica, o ecossistema encontra-se em equilíbrio dinâ-
mico, sendo as variáveis que o afetam interdependentes (MUCHAILH, 2007).
Exemplificando a importância da questão hídrica para as formações vegetais,
Campos, Romagnolo e Souza (2000) afirmam que os processos hidrodinâmicos e
hidrossedimentológicos são os fatores mais importantes para o estabelecimento
da sucessão vegetacional em áreas aluviais (beiras de córregos), determinando
a seleção de espécies e a formação e evolução do substrato, vindo a refletir na
dinâmica, na estrutura e no padrão de distribuição da vegetação a variabilidade
espacial local.
Um fator preocupante que deve ser levado em consideração é que o sis-
tema hidrográfico é composto por diversas bacias que convergem para formar
os grandes rios, funciona como condutor de elementos naturais, mas também
de elementos contaminantes, ou seja, alterações desses fluxos comprometem
todo o ecossistema nele inserido, e nos situados à jusante. Portanto, o equilíbrio
na microbacia está diretamente condicionado aos processos hídricos (FIORIO
et al., 2003).

FUNDAMENTOS AMBIENTAIS PARA PLANEJAMENTO URBANO


97

ASPECTOS GEOLÓGICOS E GEOMORFOLÓGICOS (FATOR


ABIÓTICO)

O relevo está diretamente relacionado com as rochas que o sustentam, com o


clima que o esculpe e com os solos que o recobrem. Informações de ordem geo-
lógica que formam o histórico da formação de solos e do relevo de uma região
ou de uma paisagem. As informações mais importantes a serem consideradas
dentro dos fatores abióticos em termos de planejamento são de viés geomorfo-
lógico: a forma, a declividade e o tamanho da pendente, as quais traduzem o
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grau de dissecação do relevo nas unidades das paisagens (GUERRA; BOTELHO,


2001 apud MUCHAILH, 2007).
Uma bacia hidrográfica tem seu relevo basicamente formando um per-
fil topográfico com as seguintes partes: interflúvios, vertentes e leitos fluviais
(CHRISTOFOLETTI, 1974).
Interflúvios são as regiões mais elevadas de uma Bacia Hidrográfica, servindo
de divisor entre uma bacia e outra. Também, são chamados de divisores topográ-
ficos ou divisores de água, dependendo da análise. Nos interflúvios predominam
os processos de erosão areolar (em círculos), realizadas pelo intemperismo físico
e químico, que tendem a rebaixar o relevo normalmente, mas dependem do inter-
flúvio e do clima para isso. Os sedimentos resultantes desses processos tendem a
se deslocar em direção ao leito fluvial (canal do rio), caracterizando assim uma
região fornecedora de material (CHRISTOFOLETTI, 1974).
Vertente pode ser definida como superfícies inclinadas associada às áreas
planas de uma bacia. Entretanto, as vertentes são mais do que superfícies; são
consideradas as partes mais importantes de uma bacia, principalmente por
estabelecerem conexão dinâmica entre os topos dos interflúvios e o fundo do
vale, ou leito fluvial, e por comportarem, geralmente, a maior parte da vegeta-
ção. Além de servirem de região de transporte e fornecimento de sedimentos,
a inclinação das vertentes é fundamental na densidade de drenagem em uma
bacia. Em vertentes muito inclinadas e sem a presença de vegetação nas suas
encostas, o resultado em geral é rápido e desastroso, causando perda de solo

Análise da Paisagem para Planejamento Urbano


98 UNIDADE II

(erosão) e voçorocas (grandes buracos). Os sedimentos são carreados em dire-


ção ao fundo do vale, ocasionando o assoreamento do rio, tornando-se mais raso
(CHRISTOFOLETTI, 1974).
Partindo-se do princípio de que rampas de vertentes muito extensas podem
proporcionar escoamentos com velocidades elevadas, pode-se afirmar que o com-
primento de rampa influi diretamente na perda de solo em uma área (CURCIO,
2006). Existem vários tipos de rampas que geram comportamentos diferentes
de formação de erosão, esses são detalhados e técnicos e não aprofundaremos,
basta para o gestor entender que são importantes.

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O leito fluvial é denominado como sendo o canal de escoamento de um rio
(CHRISTOFOLETTI, 1974).
Analisando os aspectos apresentados temos que o modelamento do relevo e
os processos morfogenéticos são responsáveis pelo grau de fragilidade do meio e
é esse grau que deve ser vislumbrado e entendido para um bom manejo da bacia.
O que recobre o relevo são rochas, mas em particular o solo. De acordo
com a Embrapa (1999) os solos são coleções de corpos naturais constituídos por
parte sólida, líquida e gasosa, tridimensionais, dinâmicos, formados por mate-
riais minerais e orgânicos, que ocupam a maior parte do manto superficial das
extensões continentais. Contém matéria viva e podem ser vegetados.
É o solo, com suas frações minerais e orgânicas, ar e solução, o ancoradouro
que torna as raízes capazes de fixarem as plantas e de funcionar como o reserva-
tório para água e nutrientes. Assim, o sucesso das plantas depende da capacidade
do solo, como meio, para que as raízes possam se desenvolver (KRAMER, 1975).
Além disso, a textura e a porosidade são características altamente importantes,
determinando, em grande parte, a disponibilidade dos nutrientes para as plantas
e animais do solo. O solo é o resultante da interação de cinco fatores ambientais:
material de origem, clima, relevo, organismos e tempo (ODUM, 1988).
O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUD), através do
GLSOD (Global Assessment of Soil Degradation – Projeto de Avaliação Mundial
da Degradação do Solo), registrou que 15% dos solos do planeta (aproxima-
damente 20 bilhões de hectares) uma área do tamanho dos Estados Unidos e
Canadá junto, estão classificados como degradados devido às atividades huma-
nas (OLDEMAN, 1994)

FUNDAMENTOS AMBIENTAIS PARA PLANEJAMENTO URBANO


99

Os solos das regiões ocupadas pelo homem estão se perdendo rapidamente e,


por isso, deveriam ser considerados como um recurso natural não renovável e ter
seu uso cercado de toda proteção e cuidado que tal situação exige (CREPANI et
al. 2001). Portanto, para o planejamento do uso adequado do solo em paisagens
fragmentadas, é fundamental a identificação dos tipos de solos, para obter o grau
de fragilidade da área (Quadro 1). Somente assim, a definição de áreas a serem
destinadas à conservação ou ao uso agropecuário terá uma fundamentação téc-
nica que será determinante no êxito da implantação de projetos de recuperação
ambiental. Atualmente, vários trabalhos de planejamento que visam à diminui-
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ção do impacto causado pelas ações antrópicas, têm utilizado como informação
básica os solos, por meio dos mapas pedológicos (FIORIO et al., 2003).

Quadro 1 - Classes de fragilidade para os tipos de solos classes de fragilidade

CLASSES DE FRAGILIDADE TIPO DE SOLO

Latossolo Vermelho (Distroférrico e Eutrofér-


Muito Fraca rico), Latossolo Vermelho distrófico textura
argilosa

Latossolo Vermelho e Vermelho-Amarelo, textu-


Fraca
ra média/argilosa

Latossolo Vermelho-Amarelo, Nitossolo Ver-


melho distroférrico e eutroférrico, Nitossolo
Média
Háplico, Podzólico Vermelho-amarelo textura
média/argilosa
Alta Cambissolo

Muito Alta Neossolos Litólicos e Neossolo Quartzarênico


Fonte: adaptado de Crepani et al. (2001)

Portanto, o processo de planejamento do uso do solo, em que serão definidos os


destinos de cada zona de um município ou de uma região, somente poderá ser
realizado com êxito se for considerado o solo como um dos elementos determi-
nantes de áreas de fragilidade. Com base na classificação de solos da área e na
determinação de suas vulnerabilidades é que poderá se planejar o ambiente de

Análise da Paisagem para Planejamento Urbano


100 UNIDADE II

forma a garantir a sua estabilidade. Para tanto, é necessário o conhecimento de


seus atributos e variabilidade espacial, que só é possível quando são disponíveis
levantamentos pedológicos em escalas compatíveis com os objetivos desejados
(FIORIO et al., 2003).

ASPECTOS DA VEGETAÇÃO (FATOR BIÓTICO)

Cada bacia hidrográfica dependendo da região que se encontra no Brasil pode ter

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diferentes tipos de florestas e vegetação. Dentro de cada bioma do país existem
várias tipologias vegetacionais que se espalham em diferentes bacias hidrográficas.
As principais tipologias vegetacionais existentes no Brasil são: Floresta Ombrófila
Densa (parte da Amazônia e das áreas florestais próximas ao oceano atlântico),
Floresta Ombrófila Aberta (transição entre cerrado e floresta na região amazô-
nica), Floresta Ombrófila Mista (conhecida como floresta com araucária), Floresta
Estacional Semidecidual (tipo que tem em torno de 50% de espécies que perdem
as folhas em período favorável), Floresta Estacional Decidual (tipo que prati-
camente todas as espécies perdem folhas no período favorável), Campinarama
(tipo de vegetação específico da região amazônica), Savana (vários tipos de
cerrado englobados), Savana Estépica (região da caatinga com várias fitofisiono-
mias englobada) e Estepes (áreas
de campos naturais) (IBGE, 2012).
O Brasil apresenta a maior
riqueza de espécies da flora
do mundo. Segundo a Lista
de Espécies da Flora do Brasil
(Reflora), o país conta com 46.096
espécies descritas, sendo 4.747
algas, 32.830 angiospermas, 1.524
de briófitas, 5.712 fungos, 30 gim-
nospermas e 1.253 samambaias e
licófitas (MMA, 2016, on-line)2.
©shutterstock

FUNDAMENTOS AMBIENTAIS PARA PLANEJAMENTO URBANO


101

Analisar que tipos de florestas e as espécies da flora existentes dentro de uma


paisagem é fator importante para um planejamento de uso de solo. Os tipos de
vegetação e seus níveis de conservação vão responder questões quanto à qualidade
do solo e a biodiversidade existente. Essas áreas de vegetação trarão benefícios
de proteção ao solo (redução de erosão, ou seja, diminuição da velocidade de
vazão da água e aumento de infiltração), melhoras na qualidade da água, pois
ajudam na purificação e filtragem; melhoras no microclima; abrigo para fauna,
principalmente polinizadores que irão colaborar nas produções agrícolas, além
de predadores naturais para pragas. Além de questões de cunho genético e eco-
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lógico para equilíbrio dos ecossistemas e conservação da biodiversidade.


Determinar regiões onde seja de maior relevância a conservação de áreas
verdes será crucial, como: as margens de rios e nascentes; topos de morro; áreas
de mananciais; áreas de fragilidade de solo; áreas com existência de remanescen-
tes em bom estado de conservação (fontes de sementes e espécies); entre outras.

ASPECTOS DA FAUNA (FATOR BIÓTICO)

Segundo o Catálogo Taxonômico da Fauna do Brasil, 116.087 espécies de animais


são conhecidas no Brasil. Destas aproximadamente 11 mil são de vertebrados,
com destaque para as aves com quase 3 mil espécies, o que representa 30% das
aves conhecidas no mundo. Entre os ani-
mais invertebrados aproximadamente 94
mil espécies, cerca de 85% do total, são de
artrópodes, com destaque para uma grande
diversidade de besouros, mais de 32 mil
espécies descritas, e borboletas, com quase
13 mil (MMA, 2016, on-line)2.
Tamanha diversidade de espécies de
animais necessitam de quantidade de habitat
proporcional para que haja a devida conser-
vação. Sem ter onde viver grande parte da
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Análise da Paisagem para Planejamento Urbano


102 UNIDADE II

nossa fauna pode ser extinta. Como existiu intensa devastação das florestas, e
até hoje o processo de desmatamento continua no Brasil, isso impactou direta-
mente a fauna, que, hoje, tenta ocupar espaço em uma paisagem fragmentada e
antropizada. A existência de vegetação florestal não garante a presença da fauna,
que pode já ter sido extinta em uma paisagem, sendo que a ausência desses ani-
mais tem profundas implicações sobre os ecossistemas.
Redford (1992) demonstra dados alarmantes, especialmente referindo-se à
inexistência de ambientes naturais não contaminados por efeitos antropogêni-
cos no planeta. O autor relata os efeitos antrópicos sobre a fauna, destacando a

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importância dos animais de grande porte na dispersão e predação de sementes
e dos herbívoros. Essas evidências também foram citadas por Bodmer (1989),
relacionando que espécies predadoras de sementes, como queixadas, veados e
antas, foram elementos importantes na determinação da composição da estru-
tura da floresta, mas, a despeito disso, são raramente encontrados atualmente.
Conforme Fernandez (2000), a maior parte dos ambientes florestais isolados
na paisagem no Brasil (não conectados por corredores ecológicos) estão pro-
fundamente alterados e vazios de vida animal e de futuro. Não menos grave é a
constatação de que, além do empobrecimento da fauna nos ambientes contínuos
existentes, a fragmentação de habitats tem constantemente afetado as popula-
ções e seus fluxos biológicos. Cabe ressaltar, que as probabilidades de extinção de
espécies da fauna são dependentes dos padrões da paisagem e de algumas pro-
priedades críticas das espécies que determinam sua persistência em paisagens
fragmentadas, como: habilidade de dispersão, requerimento de área, necessidade
de habitats especializados e a resistência a efeitos de borda (DALE et al., 1994).
Sabemos então que uma paisagem precisa de áreas naturais bem distribu-
ídas e conectadas para que exista conservação ambiental. Sabemos também
que a humanidade necessita de ecossistemas equilibrados para continuar exis-
tindo à longo prazo. Sendo assim, fica óbvio que precisamos equalizar bem na
paisagem os usos necessariamente antrópicos como edificações, ruas, estradas,
pastagem, plantios agrícolas entre outros; com os usos de teor conservacionista
como: corredores ecológicos (áreas naturais que possibilitem a conexão entre
habitats fragmentados, promovendo o movimento de organismos, auxiliando na

FUNDAMENTOS AMBIENTAIS PARA PLANEJAMENTO URBANO


103

preservação da biodiversidade de ecossistemas e nas funções das comunidades)


e áreas fontes (áreas naturais possuidoras de uma população estável de espécies).

LEGISLAÇÃO E LICENCIAMENTO AMBIENTAL


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Veremos a seguir como a legislação ambiental pro-


grediu no Brasil nas últimas décadas mesmo com
tantos conflitos. Em seguida vamos notar como
Código Ambiental contribui para o equilíbrio do
meio ambiente e planejamento urbano e encerra-
mos o tópico mostrando como o licenciamento
ambiental é um dos principais instrumentos de
gestão ambiental estabelecidos pela lei.

HISTÓRICO DA LEGISLAÇÃO
AMBIENTAL E DA AVALIAÇÃO DE ©shutterstock

IMPACTOS AMBIENTAIS (AIA)

A legislação ambiental brasileira progrediu muito nas últimas décadas, apesar


de conflitos e leis retrógradas que constantemente surgem. De maneira geral
a legislação ambiental brasileira se desenvolveu juntamente com a criação de
um instrumento de medição de impactos, que já mencionamos, denominado
Avaliação de Impactos Ambientais (AIA). A criação desse instrumento téc-
nico e legal colaborou na formação da legislação ambiental e do licenciamento
ambiental no Brasil. Dessa forma, vamos analisar o histórico do surgimento da
legislação e do AIA no Brasil.

Legislação e Licenciamento Ambiental


104 UNIDADE II

O poder do homem de transformar uma paisagem, de alterar o meio ambiente,


foi aumentando gradativamente com o tempo, mas foi durante a Revolução
Industrial, que essa capacidade se tornou mais predatória. Com isso a década de
1960 pode ser considerada uma referência quanto à origem das preocupações
com as perdas da qualidade ambiental (TOZONI-REIAS, 2004).
Em 1969, os Estados Unidos aprovaram o “National Environmental Policy
Act-NEPA”, que corresponde, no Brasil, à Política Nacional do Meio Ambiente.
O NEPA instituiu a execução de Avaliação de Impacto Ambiental (AIA) inter-
disciplinar para projetos, planos e programas e para propostas legislativas

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de intervenção no meio ambiente. O documento que apresenta o resultado
dos estudos produzidos pela AIA recebeu o nome de Declaração de Impacto
Ambiental (“Environmental Impact Statement-EIS”). O EIS mostrou-se um ins-
trumento eficiente, principalmente no que se refere à participação da sociedade
civil nas tomadas de decisão pelos órgãos ambientais, via Audiências Públicas.
Seguramente, o grau de educação e politização, esclarecimento e conscientiza-
ção da sociedade americana foram fatores determinantes para a efetividade do
instrumento (BRASIL, 1995).
De acordo com Dias (2001), os problemas ambientais associados ao desen-
volvimento econômico não eram exclusivos dos Estados Unidos, com isso a
concepção da Avaliação de Impactos Ambientais (AIA), formalizada no NEPA,
difundiu-se mundialmente, mas sofrendo adaptações em diferentes níveis, isso
devido à necessidade de ajustar-se ao sistema de cada governo de cada jurisdi-
ção – país, região, governo local – em que foi introduzida.
A partir da década de 70, foram vários os países que adotaram a AIA para
dar regulamentação a empreendimentos impactantes e atividades modificado-
ras do meio: a Alemanha em 1971, Canadá em 1973, França e Irlanda em 1976
e Holanda em 1981. Desde sua criação, a AIA e seus estudos ambientais têm
sido considerados instrumentos valiosos para a discussão do planejamento, em
todos os níveis, permitindo que o mesmo atinja plenamente os anseios conser-
vacionistas, sociais e econômicos da sociedade (GOULART; CALLISTO, 2003).

FUNDAMENTOS AMBIENTAIS PARA PLANEJAMENTO URBANO


105

A Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente Humano, conhecida


como Conferência de Estocolmo, realizada em 1972 em Estocolmo, na Suécia, foi
à primeira Conferência global voltada para o meio ambiente, e foi decisiva para
o surgimento de políticas de gerenciamento ambiental, direcionando a atenção
das nações para as questões ambientais (PASSOS, 2009).
A Declaração de Estocolmo, derivada da Conferência, traz sete pontos prin-
cipais, em que podemos ver orientações visando o reconhecimento do meio
ambiente como um bem a ser protegido, além de referir amplas metas e objeti-
vos para tal. Traz também um rol de vinte e seis princípios destinados a nortear
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

decisões relativas à questão ambiental, com o escopo de garantir um quadro de


vida adequado e a perenidade dos recursos naturais (PASSOS, 2009).
Outras iniciativas, como a criação de um Plano de Ação para o Meio Ambiente,
composto por 109 recomendações de gestão do meio ambiente, e o Programa das
Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), responsável pela implemen-
tação deste Plano de Ação, refletem a relevância da Conferência de Estocolmo
como representante da primeira tentativa de estabelecer melhor organização nas
atividades do homem sobre o meio ambiente. Desde então, a proteção ambien-
tal passou a integrar as discussões e agendas políticas de todas as nações, sendo
que o meio ambiente passou, inclusive, a ser considerado como direito funda-
mental, essencial para a vida humana (PASSOS, 2009).
O processo de consolidação institucional da aplicação da AIA, em nível
mundial, ocorreu nos anos 80, em que se consolidaram avanços nas discussões
acerca da concepção, fases de execução, atores sociais envolvidos e sobre a inser-
ção no processo de tomada de decisão. Esses avanços têm como denominador
comum à ampliação do caráter participativo da AIA, com a inserção do público
em diferentes fases do processo de avaliação e uma maior transparência e efeti-
vidade da ação administrativa (BRASIL, 1995).
Até em países que a Avaliação de Impactos Ambientais (AIA) não é prevista
na legislação, esse instrumento acaba sendo aplicado por força das exigências de
organismos internacionais (DIAS, 2001). Atualmente, fazem uso da AIA, todos
os principais organismos de cooperação internacional, como os órgãos setoriais

Legislação e Licenciamento Ambiental


106 UNIDADE II

da Organização das Nações Unidas (ONU), o Banco Mundial (BIRD), o Banco


Interamericano de Desenvolvimento (BID), entre outros (MOREIRA, 1985).
Após a Conferência de Estocolmo iniciou-se a discussão de mecanismos de
proteção do meio ambiente e desenvolvimento socioeconômico, partindo-se, em
seguida, para a Rio-92, Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e
Desenvolvimento, realizada na cidade do Rio de Janeiro, em 1992.
O primeiro Estudo de Impacto Ambiental realizado no Brasil foi o da
Barragem e Usina Hidrelétrica de Sobradinho, em 1972. No entanto, o estabele-
cimento de critérios básicos e organização das exigências para estudos com AIA

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ocorreu apenas em 1986, através da Resolução CONAMA 001/86. Um estudo de
AIA para Sobradinho foi realizado porque o Banco Mundial exigiu a realização
de uma AIA, mesmo sem a exigência legal (BARBIERI, 1995). Outros projetos,
como a usina hidrelétrica de Tucuruí, no Pará, e o terminal porto-ferroviário
Ponta da Madeira, no Maranhão (ponto de exportação do minério extraído pela
Companhia Vale do Rio Doce - CVRD, na Serra do Carajás), foram realizados
segundo as normas das agências internacionais, já que o Brasil ainda não dispu-
nha de normas ambientais próprias (BRASIL, 1995).
O primeiro passo relativo à exigência legal sobre AIA e para formalização
de uma legislação ambiental mais incisiva no Brasil foi dado em 1980, na legis-
lação federal que dispõe sobre as diretrizes básicas para o zoneamento industrial
nas áreas críticas de poluição, pela Lei nº 6803:
[...] além dos estudos normalmente exigíveis para o estabelecimento de
zoneamento urbano, a aprovação das zonas especiais a que se refere o
parágrafo anterior (zonas de uso estritamente industrial – ZEl´s) será
precedida de estudos especiais de alternativas e de avaliações de impac-
to, que permitam estabelecer a confiabilidade da solução a ser adotada
(LEI 6803, art. 10, parágrafo 3, on-line)8.

Entretanto, após quase 10 anos, da Primeira Conferência Mundial, realizada em


Estocolmo, é que o Brasil define o grande marco da política ambiental nacional,
e o primeiro dispositivo legal relacionado à AIA, a Política Nacional do Meio
Ambiente (PNMA) - Lei n° 6.938 de 31 de agosto de 1981.
Dentre as várias inovações e avanços que a PNMA introduz é importante
destacar a criação do SISNAMA - Sistema Nacional do Meio Ambiente que fica
definido pela composição de vários órgão, hierarquicamente divididos:

FUNDAMENTOS AMBIENTAIS PARA PLANEJAMENTO URBANO


107

■■ Conselho de Governo (órgão gerenciador).


■■ CONAMA (órgão consultivo e deliberativo).
■■ IBAMA (órgão executor).
■■ Órgãos Estaduais (órgão executor e fiscalizador de cada estado).
■■ Órgãos Municipais (órgãos executores e fiscalizadores nos municípios –
Secretarias de Meio Ambiente).

Outro ponto importante é a responsabilização do Estado em relação às suas ini-


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ciativas. Com a Política Nacional do Meio Ambiente (PNMA) o ambiente passa


a ser patrimônio público. São definidos legislativamente termos como: degra-
dação da qualidade de vida, poluição, poluidor e recursos ambientais. Ficam
estabelecidos padrões de qualidade ambiental, zoneamento ambiental, avalia-
ção de impactos ambientais, licenciamento e revisão de atividades poluidoras.
Dois anos depois foi regulamentado o Decreto n° 88.351, de 1° de junho
de 1983, e esse que relacionou a AIA aos sistemas de licenciamento de obras e
atividades.
Finalmente em 1986 o CONAMA, através da Resolução 001/86, definiu
como deve ser feita a AIA, criando o Estudo de Impactos Ambientais (EIA) e o
Relatório de Impacto Ambiental (RIMA). É nessa resolução que fica determinado
os conteúdos mínimos desses documentos, as diretrizes básicas para elabora-
ção e ainda a relação de atividades sujeitas a apresentá-los. Na sequência várias
outras resoluções CONAMA designaram vários tipos de projetos ambientais que
atuam na ceara de análise de impactos ambientais, mas de forma mais sucinta
para viabilização de empreendimentos menores e com características diferencia-
das como Plano Básico Ambiental (PBA), Laudos Geoambientais entre outros.
Importante citar que a Constituição Federal de 1988, destinou um capítulo
inteiro dedicado ao meio ambiente, consolidando os princípios, diretrizes e ins-
trumentos adotados na PNMA (DIAS, 2001).
O fechamento do círculo da regulação legal do meio ambiente no Brasil chega
com a aprovação da Lei dos Crimes contra o Meio Ambiente (Lei n° 9605 de 12
de fevereiro de 1998), na qual reconhece filiação holística idêntica à da Lei n°

Legislação e Licenciamento Ambiental


108 UNIDADE II

6938/81. Essa lei considera crime condutas lesivas ao meio ambiente, provenientes
da não observância da regulamentação pertinente ao licenciamento ambiental:
Art. 60 - Construir, reformar, ampliar, instalar ou fazer funcionar, em
qualquer parte do território nacional, estabelecimentos, obras ou servi-
ços potencialmente poluidores, sem licença ou autorização dos órgãos
ambientais competentes, ou contrariando as normas legais e regula-
mentares pertinentes” (LEI nº 9.605/98, Art. 60, on-line)9.

A AIA também está presente na Agenda 21 (2002, p. 18) em que, no capítulo


de promoção do desenvolvimento sustentável, é definida a ação: “Desenvolver,

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
melhorar e aplicar métodos de avaliação de impacto ambiental com o objetivo
de fomentar o desenvolvimento industrial sustentável”.
Segundo Rocha (2005) o Brasil possui uma legislação moderna e avançada,
mas que carece de melhor fiscalização para a sua aplicação e cumprimento, de
modo a garantir efetividade na proteção ambiental.
Temos hoje um grande conjunto de leis, resoluções e normas voltadas à con-
servação ambiental e a proteção do meio ambiente, a seguir alguns exemplos:
■■ Lei nº 6.938/81: dispõe sobre a Política Nacional do Meio Ambiente, seus
fins e mecanismos de formulação e aplicação.
■■ Constituição da República Federativa do Brasil (1988): prevê todo um
capítulo integralmente dedicado ao meio ambiente – Artigo 225.
■■ Resolução nº 001/86 CONAMA: estabeleceu as definições, as responsabi-
lidades, os critérios básicos e as diretrizes gerais para uso e implementação
da avaliação do impacto ambiental.
■■ Resolução nº 006/87 CONAMA: estabeleceu regras especiais para o
licenciamento ambiental de obras de grande porte, evidenciando a obri-
gatoriedade de prévio Estudo de Impacto Ambiental quando da solicitação
da Licença Prévia (LP) do empreendimento.
■■ Resolução nº 009/87 CONAMA: disciplinou a participação da sociedade
no controle do conteúdo dos estudos de impacto ambiental, por meio da
realização de audiências públicas.

FUNDAMENTOS AMBIENTAIS PARA PLANEJAMENTO URBANO


109

■■ Resolução nº 237/97 CONAMA: regulamentou, em normas gerais, as com-


petências para o licenciamento nas esferas federal, estadual e distrital, as
etapas do procedimento de licenciamento, entre outros fatores a serem
observados pelos empreendimentos passíveis de licenciamento ambiental.
■■ Lei Federal nº 3.924, de 1961, que dispõe sobre os monumentos arqueo-
lógicos e pré-históricos.
■■ Lei Federal nº 5.197, de 1967, que dispõe sobre a proteção à fauna.
■■ Lei Federal no 6.513, de 1977, que dispõe sobre a criação de áreas espe-
ciais e de locais de interesse turístico.
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■■ Lei no 10.257, de 2001, que institui o Estatuto da Cidade.


■■ Decreto nº 750, de 1993, que dispõe sobre o corte, a exploração e a
supressão de vegetação primária ou nos estágios avançado e médio de
regeneração da Mata Atlântica, e dá outras providências.
■■ Resolução CONAMA nº 009, de 1996, que dispõe sobre a definição de
“corredores entre remanescentes”, assim como estabelece parâmetros e
procedimentos para a sua identificação e proteção.

Além dessas normas federais, devemos observar: as legislações estaduais e muni-


cipais de meio ambiente referentes à utilização, proteção e conservação dos
recursos ambientais; o uso e a ocupação do solo; e às penalidades por ativida-
des lesivas ao meio ambiente, da área em estudo.

Legislação e Licenciamento Ambiental


110 UNIDADE II

Nos últimos anos, ganharam redobrada importância os alertas sobre o au-


mento de poluentes na atmosfera, provocado pela queima de combustíveis
fosseis e pelo desmatamento. Segundo especialistas, esses subprodutos do
crescimento econômico são os principais causadores dos desastres ambien-
tais e das mudanças climáticas, que ocorrem em ritmo acelerado e preocu-
pam cidadãos de todo o mundo. Essa informação é parte da apresentação
da coletânea que reúne as principais normas federais relacionadas ao meio

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
ambiente, da câmara dos deputados de 2010.
Para saber mais sobre como funciona a legislação do meio ambiente, sugiro
que leia toda legislação ambiental brasileira acessando o link abaixo:
<http://bd.camara.gov.br/bd/bitstream/handle/bdcamara/1362/legisla-
cao_meio_ambiente_2ed.pdf>.

Fonte: BRASIL (2010, on-line).10

CÓDIGO FLORESTAL

A lei federal de proteção e regulamentação de uso das florestas nativas do Brasil


chama-se Código Florestal e merece um tópico a parte. Trata-se de uma lei muito
importante para a agricultura, para o equilíbrio ambiental e também para o pla-
nejamento urbano, pois regula a ocupação dos espaços de um município tanto
em sua zona urbana como rural. Antes de caracterizar o novo Código Florestal
que foi aprovado em 2012 e trouxe muita polêmica, vamos recordar um pouco
do histórico das leis de proteção às florestas brasileiras.
No ano de 1934 (época de ouro do café no Brasil) o governo de Getúlio
Vargas, pressionado por algumas organizações conservacionistas (Sociedade de
Amigos de Alberto Torres, Clubes de Amigos da Natureza, Sociedade Geográfica
do Rio de Janeiro, Sociedade dos Amigos das Árvores e a Sociedade dos Amigos
da Flora Brasílica) e provavelmente no intuito de estatizar a floresta e valori-
zar plantios comerciais que já geravam lucro, transformou um anteprojeto do

FUNDAMENTOS AMBIENTAIS PARA PLANEJAMENTO URBANO


111

Código Florestal em Decreto no dia 23 de Janeiro de 1934 e colocou em vigor no


dia 21 de Julho de 1935. Esse Código Florestal negava o direito absoluto de pro-
priedade, pois proibia, mesmo em propriedades privadas, o corte de árvores ao
longo dos cursos d’água, de árvores que abrigassem espécies raras ou que pro-
tegessem mananciais. Ficava também proibido, dentro de propriedades rurais,
cortar mais de três quartos das árvores existentes na área. As indústrias eram
obrigadas a replantar árvores suficientes para manter suas operações. No mesmo
código ficava determinada a criação de uma Guarda Florestal e era esboçada a
base de organização de parques nacionais e estaduais (DEAN, 1996).
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

O Código Florestal de 1935 não foi muito respeitado, até por que tinha mui-
tas falhas que permitiam o desmate de forma exagerada. O governo não tinha
infraestrutura suficiente para o controle do respeito ao código, assim como, não
tinha prioridade à aplicação da lei. O jurista Osny Pereira comparou o direito
florestal brasileiro da época com os de outros países e concluiu que a legislação
brasileira era uma das mais suaves e leves do mundo em relação à proteção das
florestas. A floresta heterogênea era vista, na época, como pouco lucrativa, não
se tinha a menor ideia do valor da biodiversidade e o intuito do código florestal
era principalmente estatizar a floresta, mas de forma alguma bloquear os lucros
e o avanço da cafeicultura. O código permitia o corte de 100% de uma floresta
nativa em uma propriedade se houvesse o replantio que poderia ser com espécies
comerciais (exóticas) e em plantios homogêneos. Nos casos de florestas “virgens”
o proprietário não ficava obrigado a preservar a quarta parte da vegetação, só
não deveria cortar árvores em topos de morro e beiras de rio (SIQUEIRA, 2007,
on-line)11. Para exemplificar as falhas e aberturas para o desmatamento que eram
fornecidas pelo código segue a citação a seguir:
[...] as falhas do Código Florestal logo se evidenciaram. Um proprietá-
rio poderia cortar madeiras de lei valiosas e alegar que tinha cumpri-
do sua obrigação de replantar simplesmente permitindo que nascesse
capoeira em seu lugar. Os tribunais decidiam que um proprietário que
havia reduzido à floresta em sua terra a um mínimo de um quarto po-
dia então vender essa fração com floresta; o novo proprietário desfru-
taria do direito de derrubar três quartos de sua aquisição -- e assim
por diante, até, provavelmente, o último broto de árvore. As firmas in-
dustriais facilmente se furtavam a sua obrigação de replantar contra-
tando empreiteiros independentes, que não eram sujeitos pelo código.

Legislação e Licenciamento Ambiental


112 UNIDADE II

O governo federal, além disso, dispunha de recursos insuficientes para


cumprir o código. A Guarda Florestal prevista não se instalou; em seu
lugar, esperava-se que as forças policiais locais empreendessem a pro-
teção florestal como um encargo adicional. EM 1953, no Brasil inteiro,
apenas 216 municípios haviam criado as comissões de consultoria flo-
restal estipuladas. O Conselho Federal de Florestas, com poucas reser-
vas para proteger e nenhuma polícia para aplicar a lei em propriedades
privadas, continuava a se ocupar com a arborização do Rio de Janei-
ro. A cláusula que obrigava os proprietários a notificar a derrubada ao
Serviço Florestal, com trinta dias de antecedência, fracassava diante
da incapacidade da burocracia de responder no prazo de trinta dias.
Na verdade, poucos proprietário sequer faziam a notificação (DEAN,

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
1996, p. 277 e 278).

Em 1965 foi instituído outro código florestal (Lei 4.771 de 1965), que no decor-
rer do tempo foi sendo complementado através de resoluções e leis estaduais
e municipais. Esse código determinou a exigência de Áreas de Preservação
Permanente (APP), sendo essas áreas, trechos de mata que tem sua localização
determinada: ao longo dos rios, em faixa marginal e proporcional ao tamanho
da drenagem; ao redor das lagoas ou reservatórios d’água naturais ou artificiais;
nas nascentes, mesmo nos chamados “olhos d’água”, seja qual for a sua situação
topográfica; em topo de morros, e serras; e em encostas com declividade superior
a 45°, equivalente a 100% na linha de maior declive, entre outros. A conserva-
ção destas áreas contribui com a manutenção da qualidade ambiental de uma
bacia hidrográfica e de toda uma região, e de maneira geral, sobretudo, viabiliza
a conexão de remanescentes e o fluxo gênico. São, portanto, de extrema impor-
tância ecológica e social (SOCIEDADE CHAUÁ, 2008).
Adicionalmente, esse mesmo Código Florestal, com complementações de
legislações estaduais, estabeleceu também a necessidade das chamadas Reservas
Legais: áreas de floresta nativa presente em propriedades rurais que devem ter
usos limitados, não podendo existir o corte raso, apenas manejo sustentável e
usos indiretos. A porcentagem de Reserva Legal que o proprietário devia manter
em sua fazenda variava com o bioma. Se a fazenda estivesse no Cerrado deveria
se manter 35% como Reserva Legal, se estivesse na Amazônia (bioma) deve-
ria manter 80% e nos outros biomas a porcentagem era de 20% (SOCIEDADE
CHAUÁ, 2008).

FUNDAMENTOS AMBIENTAIS PARA PLANEJAMENTO URBANO


113

Porém, sempre foi visível o desrespeito às determinações desse antigo Código


Florestal, assim como, a falta de pessoal dos órgãos ambientais para fiscalização
e regularização de propriedades rurais.
Há muito tempo discussões sobre alterações no Código Florestal vem sendo
feitas, e recentemente foi aprovado um novo Código Florestal: Lei 12.651/12, com
alterações feitas pela Lei 12.727/12. Muitas modificações foram regulamentadas.
As novas exigências são dependentes do tamanho do imóvel, da existência de
desmatamento de áreas protegidas (Área de Preservação Permanente e Reserva
Legal), e principalmente da época que ocorreu esses desmatamentos. Foi espe-
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

cificada a data de 22 de julho de 2008, que se refere à versão mais recente da Lei
9.605/98 (Lei de Crimes Ambientais - LCA), como a data limite onde possa ter
ocorrido desmatamento em uma propriedade rural.
Exemplificando, pode-se dizer que uma propriedade de até quatro módu-
los fiscais (considerada agora como de pequeno proprietário em todo Brasil)
que tenha todo seu imóvel desmatado antes de 22 de julho de 2008 deverá ter
de recuperar muito pouco, ou até mesmo nada da vegetação original. Um médio
proprietário em situação idêntica terá que recuperar mais, mas mesmo assim
muito menos do que jamais a legislação antiga permitiu. Se caso o desmatamento
tenha ocorrido após a data especificada, a situação fica completamente diferente
para ambos. Se parte do desmatamento foi antes e parte depois de 2008, a situa-
ção será outra ainda. O quadro 1 resume as principais diferenças entre o antigo
Código Florestal (1965) e a lei atual (2012).

Legislação e Licenciamento Ambiental


114 UNIDADE II

Quadro 2 - Principais alterações na legislação referente ao Código Florestal

Lei Federal 4771/65 (Código Revogado) Lei Federal 12.651/12 (Código Floresta aprovado, com
alteração da lei 12.727/12)
Área não desmatada Desmatada até 2008

Geral 20% sem contar APP. 20% incluindo APP. 0% a 20% incluindo APP,
dependendo do tama-
nho do imóvel e data de
desmatamento.
Reserva Legal

Amazônia e 35% (Cerrado) e 80% (Flores- 20%, 35%, 50% e 80% 0% a 80% incluindo APP
Cerrado tas) sem contar APP. incluindo APP. depende do tamanho do

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
imóvel, data de desma-
tamento, zoneamento
ecológico, tamanho
de áreas protegidas no
município e Estado.
Rios < 10 m 30 m, a partir do leito maior, 30 m, a partir do leito Tamanho da APP não de-
com vegetação nativa. regular, com vegetação penderá mais, em regra,
nativa. do tamanho do rio, mas
Rios entre 10 50 m, a partir do leito maior, 50 m, a partir do leito do tamanho do imóvel
e 50 m com vegetação nativa. regular, com vegetação (medido em Módulos Fis-
nativa. cais - MF). Proteção a par-
tir do leito regular, sendo
Rios entre 50 100 m, a partir do leito maior, 100 m, a partir do leito
permitida a recuperação
e 100 m com vegetação nativa. regular, com vegetação
de 50% com o uso de
nativa.
espécies exóticas. Imóvel
APPs

Rios entre 100 m, a partir do leito maior, 100 m, a partir do leito até 1 MF = proteção de
100 e 200 m com vegetação nativa. regular, com vegetação 0 a 5 m (50% exóticas),
nativa. Imóvel de 1 a 2 MF =
proteção de 0 a 8 m (50%
exóticas), Imóvel de 2 a 4
MF = proteção de 0 a 15
m (50% exóticas), Imóvel
até 4 a 10 MF = proteção
de 20 a 100 m e Imóvel >
10 MF = proteção de 30
a 100 m.

FUNDAMENTOS AMBIENTAIS PARA PLANEJAMENTO URBANO


115

Nascentes Todas protegidas num raio Apenas as perenes Só as perenes, protegidas


de 50 m. protegidas com um raios de 0 a 15 m dependendo
de 50 m. do tamanho do imóvel e
da existência de outras
APP.
Encostas Protegidas acima de 45 graus. Protegidas acima de 45 Não protegidas.
graus.

Topos de Protegidos no terço superior. Protegidos no terço su- Não protegidos.


morro perior, porém, com nova
conceituação de morro
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

que faz reduzir área


protegida.
Manguezais Protegidos em toda sua Protegidos em parte, pois Protegidos, mas com
extensão. feições apicum e salgado exceção dos que te-
podem ser explorados nham carcinicultura ou
entre 10% (Amazônia) e salinas instaladas; áreas
35% (restante do Brasil) degradadas podem ser
de sua extensão. utilizadas para conjuntos
habitacionais.

Fonte: adaptado de Valle (2012, on-line)12.


Nota: Módulo Fiscal varia de 5 a 110 hectares, dependendo da região.

A nova lei instituiu que o tamanho da propriedade tem relação com o nível de
proteção de recursos naturais que essa terá de seguir. De acordo com a Lei federal
nº 8.629/93, que dispõe sobre dispositivos constitucionais para reforma agrária,
têm-se que as propriedades rurais são classificadas em pequenas, médias e gran-
des de acordo com a quantidade de módulos fiscais. Os módulos ficais foram
instituídos pela lei nº 6.746, de 10 de dezembro de 1979, procuram refletir a área
mediana, o tipo de exploração e renda predominantes nos imóveis por municí-
pio, com isso, possuem intuitos de cálculos de impostos e de determinações de
reforma agrária para as propriedades rurais. Seguindo o disposto no art. 4º da
Lei nº 8.629/93, considera-se:
■■ Pequena propriedade - o imóvel rural de área compreendida entre 1 (um)
e 4 (quatro) Módulos Fiscais.

Legislação e Licenciamento Ambiental


116 UNIDADE II

■■ Média propriedade o imóvel rural de área superior a 4 (quatro) e até 15


(quinze) Módulos Fiscais.
■■ Grande propriedade - o imóvel rural de área superior a 15 (quinze)
Módulos Fiscais.

As alterações propostas foram vistas por grande parte dos agricultores brasi-
leiros, principalmente os politicamente ativos, denominados ruralistas, como
aceitáveis e pelo meio científico e ambientalistas foram taxadas como extrema-
mente impactantes e degradantes ao meio ambiente.
O antigo código florestal (Lei 4.771 de 1965) foi descrito por muitos cientis-

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
tas envolvidos em estudo das paisagens como direcionado para a conservação.
Metzger (2002) concluiu que esse contemplava muito dos requisitos para a for-
mação de um equilíbrio ambiental nas paisagens brasileiras, porém, realmente
foi pouco respeitado e aplicado.
Para as áreas urbanas as modificações causaram polêmica, pois acabaram
por validar ocupações ilegais em morros (as encostas com declividade entre 25°
e 45° poderão manter as atividades atualmente existentes, bem como a infraes-
trutura instalada) e desrespeitos à lei antiga existentes em todos os municípios
brasileiros como a ocupação de APP com ruas, edificações entre outros aspectos.
Ocorreram também acertos na nova lei voltados as áreas urbanas. A APP
em áreas urbanas, na vigência da Lei 4771/65, sempre foi motivo de questiona-
mentos, já que certos setores consideravam que o Código Florestal era só para
aplicação em área rural. A nova lei deixou explícito a incidência e validade de
APP tanto nas áreas rurais como em urbanas. Cada município pode regulamen-
tar legislação específica para APP, podendo deixar as áreas de proteção maiores,
apenas não podem diminuir o determinado pela lei federal. De maneira geral
dentro de área urbana estão sendo consolidados um mínimo de 30 metros de
proteção de rios em faixa marginal, considerando a borda da calha regular de
alagamento; e 50 metros para nascentes.
Outra modificação importante trata da regularização fundiária, que fica admi-
tida quando houver interesse social e específico de assentamentos inseridos em
área urbana consolidada e que ocupam APP, mediante aprovação de projeto de
regularização. Para a regularização de interesse social não é mencionada metra-
gem de faixa de APP a ser considerada e para a de interesse específico é definido

FUNDAMENTOS AMBIENTAIS PARA PLANEJAMENTO URBANO


117

uma faixa não edificável de 15 m ao longo os rios ou de qualquer curso d’água.


A definição de Área Urbana Consolidada fica registrada na Lei 11.977/09
(Programa Minha Casa Minha Vida): parcela da área urbana com densidade
demográfica superior a 50 habitantes/ha e malha viária implantada e que tenha,
no mínimo, 2 dos seguintes equipamentos de infraestrutura urbana implanta-
dos: drenagem de águas pluviais urbanas; esgotamento sanitário; abastecimento
de água potável; distribuição de energia elétrica; ou limpeza urbana, coleta e
manejo de resíduos sólidos.
Modificações também foram feitas a respeito dos reservatórios artificiais,
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

áreas que acabam por formar lagos, bebedouros e até mesmo áreas de lazer tanto
na zona urbana como rural. Para novos reservatórios a faixa de preservação será
definida no licenciamento ambiental do empreendimento. Em área rural exige-se
APP de no mínimo 15 m para reservatórios de até 20 hectares, aqueles menores
que 1 hectare não precisam de APP. Em área urbana fica entre 15 e 30 metros
dependendo de especificações técnicas detalhadas na lei.
Foi criado um novo sistema de cadastramento das propriedades rurais para
regularização ambiental, denominado Cadastro Ambiental Rural (CAR), onde
o próprio proprietário pode desenhar a situação de sua propriedade e fazer o
cadastro (todos os proprietários rurais são obrigados a fazer). Criou-se também
um sistema para organizar as recuperações de APP e Reserva Legal, denominado
Programa de Regularização Ambiental (PRA), em que devem ficar determina-
das as áreas de recuperação e o projeto para efetuá-la. Somente entram como
parte do PRA áreas desmatadas ilegalmente ou além do limite permitido pelo
novo Código Florestal.

LICENCIAMENTO AMBIENTAL

O licenciamento é um dos instrumentos de gestão ambiental estabelecido pela lei


Federal n.º 6938, de 31/08/81, também conhecida como Lei da Política Nacional
do Meio Ambiente. O processo inicia-se com uma empresa ou pessoa física que
deseja realizar um empreendimento, ou seja, um empreendedor. Atualmente são
muitos os empreendimentos sujeitos a licenciamento ambiental, dificilmente

Legislação e Licenciamento Ambiental


118 UNIDADE II

um empreendimento não terá de ser licenciado ambientalmente. A Resolução


CONAMA 237/97 determina os tipos de empreendimentos que precisam de
licenciamento ambiental. O empreendedor irá solicitar o licenciamento ambien-
tal de seu empreendimento ao órgão ambiental (Federal, Municipal ou Estadual,
depende do empreendimento, seu tamanho e localização). No processo de licen-
ciamento o empreendedor terá de pedir três licenças:
■■ Licença Prévia (LP) - Licença que deve ser solicitada na fase de plane-
jamento da implantação, alteração ou ampliação do empreendimento.
Aprova a viabilidade ambiental do empreendimento, não autorizando o

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
início das obras.
■■ Licença Instalação (LI) - Licença que aprova os projetos. É a licença que
autoriza o início da obra/empreendimento. É concedida depois de aten-
didas as condições da Licença Prévia.
■■ Licença de Operação (LO) - Licença que autoriza o início do funciona-
mento do empreendimento/obra. É concedida depois de atendidas as
condições da Licença de Instalação.

A solicitação de qualquer uma das licenças deve estar de acordo com a fase em
que se encontra a atividade/ empreendimento: concepção, obra, operação ou
ampliação, mesmo que não tenha obtido anteriormente a Licença prevista em
Lei. No caso de loteamentos urbanos não é necessária à licença de operação,
basta apenas chegar até a licença de instalação.
Dependendo do empreendimento e de suas características o órgão ambiental
irá solicitar diversos tipos de relatórios e projetos ambientais. Para empreendi-
mentos grandes e impactantes, designados na Resolução CONAMA 01/1986,
haverá a solicitação de uma Avaliação de Impactos Ambientais (AIA) completa
e mais complexas que outros estudos, com a apresentação do documento cha-
mado de Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e Relatório de Impacto Ambiental
(RIMA). As orientações técnicas de como deverão ser composto os estudos em
questão ficarão determinadas em um Termo de Referência (TR), de elaboração
de responsabilidade do órgão ambiental.

FUNDAMENTOS AMBIENTAIS PARA PLANEJAMENTO URBANO


119

O EIA-RIMA ou outros projetos ambientais que possam ser requeridos


Estudo Ambiental Simplificado (EAS), Relatório Ambiental Preliminar (RAP),
Plano Básico Ambiental (PBA), Relatório de Controle Ambiental (RCA), Plano
de Controle Ambiental (PCA), Estudo de Impacto de Vizinhança (EIV) entre
outros), deverão ser desenvolvidos por uma empresa prestadora de serviços
ambientais, essa deverá designar uma equipe multidisciplinar, que tenha compe-
tência para apresentar os projetos dentro do designado por Termo de Referência
(TR) a ser fornecido pelo órgão ambiental. O EIA-RIMA ou dependendo do
empreendimento outros projetos serão analisados pelo órgão ambiental, que
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

poderá pedir ajustes, ou até mesmo novos estudos, ou simplesmente negar ou


aprovar o empreendimento (RESOLUÇÃO CONAMA 01/1986).
Após aprovado, o empreendimento será instalado e entrará em operação
seguindo as determinações impostas pelos estudos (EIA-RIMA). A fiscalização
da execução das propostas ambientais (medidas e programas ambientais) ficará
sobre responsabilidade do órgão ambiental e caso não sejam realizadas a con-
tento o empreendimento corre o risco de perder seu licenciamento de operação
(CONAMA, 1992).
O texto acima resume todo o processo de licenciamento de um empreendi-
mento. Dentro desse processo de licenciamento temos a Avaliação de Impactos
Ambientais (AIA), e é nela que recai toda a responsabilidade do futuro funciona-
mento do empreendimento. Toda essa atenção gera uma interação, geralmente,
tensa entre os quatro personagens principais dessa história (Empreendedor,
Órgão Ambiental, Empresa Ambiental e Comunidade). Todos devem trabalhar
juntos, porém, os interesses e objetivos finais de cada um normalmente são dife-
rentes, e é principalmente esse fato que causa toda a tensão e estresse que um
licenciamento com AIA quase sempre tem. De forma generalizada e simplória
podemos traçar os perfis dos personagens a seguir.
O empreendedor, na maioria das vezes, deseja profundamente que seu
empreendimento seja aprovado o mais rápido possível e com o mínimo custo
para execução de medidas e programas ambientais, pois existe, normalmente,
um medo muito grande dessas medidas e programas inviabilizarem o lucro ima-
ginado a ser gerado pelo empreendimento.

Legislação e Licenciamento Ambiental


120 UNIDADE II

O órgão ambiental, na maioria das vezes, deseja realizar um licenciamento


que contenha bons estudos, que demonstrem com clareza os impactos a serem
gerados e as maneiras de se compensar e mitigar esses, ou seja, não deseja que
exista muitas dúvidas, pois estão ligados com o empreendimento e com os técni-
cos que realizaram o estudo pela corresponsabilidade, que legalmente é atribuída
a todos os personagens envolvidos. De forma geral o trabalho do órgão ambiental
no processo de licenciamento fica reduzido se a equipe que foi contratada para
a realização dos estudos for realmente qualificada e apresentar um estudo com-
pleto, que não cause dúvidas sobre os impactos a serem gerados e as formas de

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se trabalhar com esses. Um estudo bem elaborado gerará argumentos suficien-
tes para aprovação ou não do empreendimento.
O órgão ambiental que irá ser responsável pelo processo de licenciamento
poderá ser o IBAMA (Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais),
isso quando as atividades do empreendimento em questão envolverem a participa-
ção de mais de um estado ou quando a legislação prever que se trata de atividade
de competência federal; ou o OEMA (Órgão Estadual de Meio Ambiente), quando
a atividade do empreendimento envolver apenas um Estado e não for atribuída
por lei como de competência federal (CONAMA , 1992).
A empresa prestadora de serviços ambientais e sua equipe são, dentre os
personagens, a de perfil mais complexo, pois é onde temos o maior número de
pessoas pensando em todos os aspectos do empreendimento e seus impactos.
Ela possui um vínculo financeiro, mesmo que indesejado legalmente, com o
empreendedor e irá possuir um vínculo de corresponsabilidade técnica com o
órgão ambiental. Normalmente o que a empresa e sua equipe desejam é que os
impactos do empreendimento sejam os menores possíveis e que as formas de
viabilização das medidas e programas sejam simples, pois isso facilita em muito
todo o trabalho. O grande problema é que nem sempre esse desejo se torna rea-
lidade, durante a AIA pode-se constatar surpresas que levam os impactos e as
medidas e programas a um grau alto de complexidade.
Outro personagem substancial nessa história é a população envolvida, ou
seja, a comunidade que sofrerá os impactos decorrentes do empreendimento em
questão. Esse sim é o personagem mais complexo, pois, geralmente, existe uma

FUNDAMENTOS AMBIENTAIS PARA PLANEJAMENTO URBANO


121

parte da população que é a favor do empreendimento, outra que é completamente


contra e uma parcela que fica neutra, praticamente sem envolvimento. As pes-
soas envolvidas, que compõem esse personagem, vão fazer pressão nos outros
três personagens de diferentes formas e dependendo do empreendimento e seus
impactos. Encaixam nesse perfil ONGs, Fundações, Associações, Pesquisadores
de Universidades, políticos, grupos religiosos, órgão da administração pública,
empresas localizadas nas áreas de influência do empreendimento, entidades
civis, ministério público e outros que possam estar envolvidos diretamente com
o empreendimento ou seus impactos.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

EMPREENDEDOR ORGÃO AMBIENTAL

LICENCIAMENTO
AIA
CONFLITO DE INTERESSES

EMPRESA AMBIENTAL COMUNIDADE

Figura 3 – Personagens principais do processo de Licenciamento Ambiental e de Avaliação de Impactos


Ambientais.
Fonte: o autor.

Como podemos imaginar, dentro de todo esse processo poderá existir corrup-
ção, pois o conflito de interesses geralmente é amplo. Entramos num complexo
jogo político e técnico que é o processo de licenciamento e a AIA.
Para empreendimentos urbanos de pequeno porte e impactos o Estatuto
da Cidade determina que o licenciamento ambiental poderá ser feito através da
análise de um estudo ambiental específico denominado Estudo de Impacto de
Vizinhança (EIV). Segundo o Art. 37.  do Estatuto da Cidade o EIV será execu-
tado de forma a contemplar os efeitos positivos e negativos do empreendimento
ou atividade quanto à qualidade de vida da população residente na área e suas
proximidades, incluindo a análise, no mínimo, das seguintes questões:

Legislação e Licenciamento Ambiental


122 UNIDADE II

■■ Adensamento populacional.
■■ Equipamentos urbanos e comunitários.
■■ Uso e ocupação do solo.
■■ Valorização imobiliária.
■■ Geração de tráfego e demanda por transporte público.
■■ Ventilação e iluminação.
■■ Paisagem urbana e patrimônio natural e cultural.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Importante salientar que a elaboração do EIV não substitui a elaboração e a
aprovação de EIA, porém, depende do órgão ambiental e do tipo de empreendi-
mento quais tipos de estudos serão solicitados. Tanto para EIA quanto para EIV
deverá ser dada publicidade aos documentos integrantes dos estudos, que devem
ficar disponíveis para consulta, no órgão competente, para qualquer interessado.

FUNDAMENTOS AMBIENTAIS PARA PLANEJAMENTO URBANO


123

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Prezado(a) aluno(a)! Agora que você já conheceu todo um cenário da situação


ambiental mundial e brasileira, que entendeu fundamentos e conceitos ambien-
tais importantes para o planejamento urbano, que percebeu a importância da
avaliação de um impacto ambiental é hora de seguirmos para entendermos como
tudo isso acaba se enquadrando dentro planejamento urbano propriamente dito.
Principalmente no documento intitulado Plano Diretor Urbano, que vamos tra-
tar nas próximas unidades.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Outro ponto essencial desta unidade, que deve ser dada muita atenção
é a legislação ambiental brasileira, que é tida como uma das mais completas
do mundo, porém, tem uma aplicabilidade com muitas falhas. Nossos órgãos
ambientais não possuem infraestrutura e corpo técnico suficientes para execu-
tar todas as minúcias e burocracias determinadas pelas leis, tornando processos
que envolvam meio ambiente em geral lentos. Trata-se de uma legislação extensa
e complexa e cada vez mais influente no Brasil, por isso é importante que você
sempre consulte o órgão ambiental da sua região, além de consultar as normais
legais específicas para entender os pormenores ambientais dos empreendimen-
tos ambientais em que vocês irão trabalhar.
O papel do gestor imobiliário será melhor executado quando este tiver uma
visão ampla sobre os empreendimentos em que trabalha, podendo sanar dúvidas
e orientar tanto a elaboração, planejamento, execução e vendas de um empreen-
dimento. Os quesitos ambientais são fundamentais para isso.
Nas próximas unidades os temas trabalhados aqui surgirão constantemente,
pois fazem parte do imenso arcabouço de conhecimento necessário para um
bom planejamento urbano. Obviamente o gestor imobiliário não será um espe-
cialista ambiental e não entenderá por completo todo o tema, mas a base aqui
apresentada é fundamental para todo profissional envolvido com cidades e seu
planejamento.

Considerações Finais
124

SAUDADE DA FLORESTA COM ARAUCÁRIA


Hoje eu acordei com saudades. Saudades da floresta que nem tive tempo de conhecer
a fundo. Da floresta que, quando avisto depois de uma longa viagem, me traz aque-
la sensação gostosa de estar chegando em casa. A Floresta com Araucária. Ela é uma
floresta única, onde a araucária, com seu formato de candelabro e suas folhas verde
escuro fazem uma combinação inigualável com o verde mais claro de outras espécies. A
Floresta com Araucária é parte da famosa Floresta Atlântica, aqui do Brasil, e ocorria em
grande parte do sul do país, e também em pequeno trecho na Argentina e no Paraguai.
Isso quer dizer que era muita floresta, o equivalente a duas vezes o tamanho da Ingla-
terra. Mas ela foi muito explorada, porque a madeira da araucária, da imbuia e de outras
espécies era muito valiosa.
Muitos e muitos navios seguiam para a Europa no século passado, recheados dessas
madeiras, que podiam ser usadas para móveis, construções – eram mais de 1 milhão de
metros cúbicos por ano. Depois, a floresta foi dando espaço para cidades e para a agro-
pecuária, e hoje está espremida, isolada nos terrenos que eram menos propícios para o
uso humano. E muito pouco – quase nada - restou dela, como era, em sua origem. Entre
1930 e 1990, a floresta se esvaiu em velocidade assustadora. Na década passada, já não
existiam remanescentes pristinos, e os de melhor qualidade representavam fragmentos
dispersos em menos de 1% da cobertura original. E isso deveria ser um motivo suficiente
para cuidarmos do que sobrou, certo? Afinal, ela é única e só existe por aqui. Eu, que
nasci em meados da década de 1970, já conheci pouco dessa floresta em sua forma
próxima da original. Ainda tive chance de ver algumas araucárias grandes, imponentes,
majestosas, talvez as mais antigas que restaram.
Imbuias, grandes, mas de tronco torto, porque aquelas mais vistosas, se foram, pois
eram mais valiosas, e hoje podem, de repente, até ser um móvel velho de madeira es-
cura e esquecido em sua casa. E isso me deixa preocupado, pois bem poucas pessoas
percebem o destino triste que estamos dando a essa floresta – ela continua caindo, in-
felizmente. Poucos sabem o quanto estamos perdendo com isso – enquanto focamos
esforços hercúleos para cuidar da Amazônia, que merece toda a atenção também, es-
quecemos daquilo que nos cerca - não conseguimos olhar pela janela de nossa casa e
perceber que estamos perdendo uma riqueza única, uma variedade de vida incrível que
as próximas gerações só poderão conhecer pelas histórias que iremos contar. Trabalhos
de monitoramento de desmatamento na Mata Atlântica, que começaram há 30 anos,
feitos por duas instituições muito respeitadas no país (INPE e Fundação SOS Mata Atlân-
tica) indicam que a Floresta com Araucária foi a que mais perdeu espaço no Brasil - e as
maiores áreas desmatadas ficam no Paraná, o estado que escolhi para viver. Se havia
muito pouco de floresta, hoje há quase nada.
A Floresta com Araucária tinha uma grande variedade de plantas e animais. Só de árvo-
res, eram pelo menos 350 espécies. Hoje, muitas delas estão ameaçadas de extinção, jus-
tamente porque a floresta perdeu mais de 99% da área que ocupava. Mas a lista, que é
grande, poderia ser ainda maior, porque não temos as informações sobre muitas outras
125

espécies. A araucária que dá nome à floresta é uma das poucas espécies de pinheiro na-
tivo do Brasil, e sua semente, o pinhão, traz ao inverno frio aqui do sul do Brasil um sabor
sem igual – ele é alimento para os animais, mas também é uma delícia cozido ou assado.
Algumas árvores têm aroma muito agradável, como é o caso da sassafrás, a minha es-
pécie ameaçada predileta. Ela é parente da imbuia, e por seu aroma, foi muito utilizada
pela indústria para fabricação de creme dental e perfumes. Ela era cortada sem dó – tira-
vam até suas grandes raízes da terra para extrair seu óleo essencial, que também podia
ser utilizado em equipamentos de precisão, por ser mais estável a variações de tempe-
ratura, por exemplo. E assim ela foi desaparecendo, e hoje só é encontrada naquelas
florestas em que os donos já tinham alguma consciência de que o futuro de algumas
espécies dependia do cuidado da floresta.
Mas vendo a floresta cair todos os dias, eu não podia ficar parado, eu não podia somen-
te me lamentar. Eu decidi trabalhar e ajudar essa floresta, junto com meus amigos da
Sociedade Chauá – um grupo de pessoas que ao olharem pela janela e verem a floresta
ficando cada vez mais distante, resolveram se unir e lutar para que ela não desapareça.
Percebemos que, além da floresta cair muito rápido, ninguém dava atenção às espécies
menos comuns ou então ameaçadas. Pouco se sabia sobre a época de encontrar frutos
e sementes, e como fazer para produzir mudas – nossa gota de esperança para que elas
continuem a existir.
E assim surgiu o projeto que há 10 anos trabalha com essas espécies - procurando, mar-
cando e monitorando as árvores porta-sementes, fazendo viagens a campo (algumas
plantas só são encontradas a 6 h de viagem) para colher os frutos, plantar as sementes,
acompanhar cada segundo de seu desenvolvimento, até que elas possam ser levadas
para o campo e então cresçam! Todas essas etapas são feitas por uma equipe de técni-
cos e voluntários que cuidam de cada muda como se fosse uma joia preciosa, desde o
momento que a semente é colhida na floresta, passando pelo cuidado na germinação e
nos primeiros meses de desenvolvimento no viveiro, até seus primeiros anos de vida em
campo. São pelo menos 130 espécies produzidas no Viveiro Chauá, e cerca de 80 delas
não são produzidas em nenhum outro lugar. Do viveiro já saíram aproximadamente 40
mil mudas, e a dedicação dessas pessoas todas faz a diferença para essas espécies – sim,
elas têm uma chance de sobreviver, mesmo que 99% da floresta que era seu lar já tenha
desaparecido.
Fonte: Hoffmann (2016, on-line)13
126

1. Considere as seguintes afirmações sobre termos que envolvem meio ambiente


e planejamento urbano:
I. Percepção ambiental se refere à maneira que uma pessoa ou um grupo de
pessoas com características socioculturais semelhantes compreende o lugar
em que vive, seu espaço, a paisagem ao seu redor.
II. Meio ambiente é o conjunto dos elementos físico-químicos, ecossistemas na-
turais e sociais em que se insere o Homem, individual e socialmente, num
processo de interação que atenda ao desenvolvimento das atividades huma-
nas, à preservação dos recursos naturais e das características essenciais do
entorno, dentro de padrões de qualidade definidos.
III. Qualidade de vida é a diferença de conformações genéticas que permitiu
as formas vivas existentes e que permite novas formas de vida futura, assim
como, esperança de maior qualidade de vida para a humanidade.
IV. Biodiversidade é a percepção do indivíduo de sua posição na vida no con-
texto da cultura e sistema de valores nos quais ele vive e em relação aos seus
objetivos, expectativas, padrões e preocupações.
a. Somente I, II e IV estão corretas.
b. Somente I e II estão corretas.
c. Somente II e III estão corretas.
d. Somente III e IV estão corretas.
e. Todas estão corretas.

2. Uma resolução CONAMA em especial estabeleceu as definições, responsabili-


dades, critérios básicos e as diretrizes gerais para uso e implementação da Ava-
liação do Impacto Ambiental (AIA) nos processos de licenciamento ambiental.
Assinale a alternativa que indica essa resolução:
a. Resolução nº 001/86 CONAMA.
b. Resolução nº 237/97 CONAMA.
c. Resolução nº 009/87 CONAMA.
d. Resolução nº 006/87 CONAMA.

3. A ONU – Organização das Nações Unidas – caracterizou o termo sustentabilidade


no ano de 1987 por meio da redação do documento Nosso Futuro Comum. São
muitos os autores que tentam definir o desenvolvimento sustentável e em tese
não existe ainda a definição perfeita, é uma ideologia e terminologia ainda em
construção. Pensando no que foi trabalhado na aula e em seus conhecimentos
de mundo, assinale a alternativa que melhor define o termo sustentabilidade:
127

a. Sustentabilidade significa explorar o que é necessário à vida humana.


b. Sustentabilidade significa prover o sustento do homem a qualquer custo,
mesmo que isto demande acabar com a matéria-prima (recursos naturais).
c. Sustentabilidade significa usar o que a natureza é capaz de repor, sem que
haja preocupação com o futuro.
d. Sustentabilidade significa abandonar qualquer tipo de exploração da nature-
za e viver de modo prosaico.
e. Sustentabilidade visa o bem estar da coletividade no presente e no futuro e
propõe alcançar esse objetivo através da construção de um novo modelo de
mundo, ainda não existente, que englobe ações que sustentem a diversidade
e o equilíbrio, no mínimo nas seguintes dimensões: social, econômica, am-
biental e cultural.
4. Considere os conceitos e termos:
I. A totalidade da variação hereditária em formas de vida, em todos os níveis de
organização biológica, desde os genes e cromossomos dentro de cada espé-
cie isolada até o próprio espectro de espécies e afinal, no mais alto nível, as
comunidades que vivem em ecossistemas como florestas e lagos.
II. Conjunto de condições, leis, influência e interações de ordem física, química,
biológica, social, cultural e urbanística, que permite, abriga e rege a vida em
todas as suas formas.
III. Um modelo econômico, político, social, cultural e ambiental equilibrado, que
satisfaça as necessidades das gerações atuais, sem comprometer a capacida-
de das gerações futuras de satisfazer suas próprias necessidades.
-------------------------------------------------------------------------
A. Desenvolvimento Sustentável.
B. Biodiversidade.
C. Meio Ambiente.
Assinale a alternativa que relaciona as definições e os termos de forma cor-
reta:
a. I - A, II – B, III – C.
b. I - B, II – C, III – A.
c. I - B, II – A, III – C.
d. Todas incorretas.
128

5. Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e Relatório de Impacto Ambiental (RIMA)


são requeridos para empreendimentos previstos na Resolução CONAMA 01/86
e que poderão causar significativa degradação ambiental. Assinale a alternativa
correta sobre esses documentos:
a. EIA é um documento técnico-científico norteador do licenciamento ambien-
tal de todas as atividades impactantes ao meio ambiente.
b. O RIMA é uma demonstração resumida dos resultados do EIA, trazendo ape-
nas as informações básicas da área de estudo.
c. O EIA tem linguagem técnica pouco aprofundada e apresenta os detalhes bá-
sicos dos estudos efetuados na área de influência do empreendimento.
d. O RIMA é o documento que irá apresentar os resultados dos estudos técnicos
e científicos do EIA em linguagem acessível à comunidade envolvida.
MATERIAL COMPLEMENTAR

Para assimilar melhor o conteúdo, assista o trecho do Globo Rural sobre o Rio Xingu e os impactos
ambientais. Acesse e confira!

<http://www.youtube.com/watch?v=L3rULxQvUXM>.
<http://www.youtube.com/watch?v=M09PPMaPeZ4>.

Também recomendo assistir A lei da água, um documentário brasileiro que explica a relação entre
o novo Código Florestal e a crise hídrica brasileira. O filme mostra a importância das florestas para
a conservação dos recursos hídricos no Brasil, e problematiza o impacto do novo Código Florestal,
aprovado pelo no Congresso em 2012, nesse ecossistema e na vida dos brasileiros.
<https://www.youtube.com/watch?v=jgq_SXU1qzc>.

Material Complementar
REFERÊNCIAS

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Em: < http://media.wix.com/ugd/eacbf4_f0baf384a668445389b9d6b2d7ffac89.
13

pdf>. Acesso em: 28 out. 2016.


135
GABARITO

1. B.
2. A.
3. E.
4. B.
5. D.
Professor Dr. André Cesar Furlaneto Sampaio

PLANEJAMENTO URBANO:

III
UNIDADE
ETAPAS E DIMENSÕES

Objetivos de Aprendizagem
■■ Compreender alguns conceitos técnicos usuais no planejamento
urbano.
■■ Conhecer as etapas do planejamento urbano.
■■ Conhecer as dimensões de atuação do planejamento urbano.
■■ Compreender a importância, divisões e noções de manejo das áreas
verdes urbanas.

Plano de Estudo
A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade:
■■ Conceitos técnicos importantes do Planejamento Urbano
■■ Etapas do planejamento urbano
■■ Dimensões do planejamento urbano
■■ Áreas Verdes Urbanas
139

INTRODUÇÃO

Caro(a) aluno(a), entraremos na área do planejamento urbano propriamente dita.


Vamos conceituar e diferenciar termos usuais dentro do planejamento urbano
como: planejamento, gestão; urbanismo, governança e gerência. Iremos demons-
trar as diferentes etapas do planejamento urbano e sua ligação com o chamado
Plano Diretor. Vamos entender as várias dimensões de atuação do planejamento
urbano e seus planos diretores. Por fim, focaremos em conceitos e na importân-
cia das chamadas áreas verdes urbanas para a qualidade de vida dos cidadãos e
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

no desenvolvimento de uma cidade.


Hoje o planejamento urbano no Brasil é vinculado a lei do Estatuto da Cidade
(Lei Federal n° 10.257/2001), em que ficam determinados os vários instrumen-
tos de planejamento e gestão de uma cidade. Trataremos com maior detalhe
sobre essa lei na próxima unidade, porém, é importante lembrar que foi por
meio dela que se configurou o documento intitulado plano diretor, que funda-
menta os designíos do planejamento urbano. Primeiramente, foi a Constituição
Federal de 1988 que incluiu um capítulo específico referente a política urbana,
prevendo uma série de instrumentos, dentre eles o Plano Diretor. Porém, foi
somente em 2001 com o Estatuto da Cidade que realmente houve regramento
e determinação de diretrizes específicas para a elaboração de um planejamento
urbano e execução de uma gestão urbana vinculada a ele.
Nesta unidade, veremos que a legislação vigente traça bons caminhos para
um planejamento urbano eficiente, porém, para segui-los existe a necessidade
de gerenciar conflitos de interesses. Na legislação os objetivos principais do pla-
nejamento urbanos são: buscar a função social das propriedades urbanas, dar
garantia de que se formem cidades sustentáveis e efetuar uma gestão democrá-
tica com participação popular. Ou seja, uma tarefa hercúlea.
Bom estudo!

Introdução
140 UNIDADE III

CONCEITOS TÉCNICOS IMPORTANTES DO


PLANEJAMENTO URBANO

Existem muitos conceitos dentro


do que chamamos de planejamento
urbano que constantemente são con-
fundidos ou mesmo integrados como
sinônimos. Ainda existem outros que
equivocadamente são vistos como

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
banais, ou menores dentro do pro-
cesso. No intuito de esclarecer e
evitar confusões futuras, vamos con-
ceituar e assim diferenciar alguns dos
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principais conceitos que envolvem


planejamento urbano.

PLANEJAMENTO URBANO

O termo planejamento urbano facilmente pode ser confundido com urbanismo,


desenho urbano, gestão urbana e principalmente com plano diretor, porém, não
se trata de sinônimos. São termos conectados, que buscam objetivos em comum,
dentre eles a melhor organização da cidade.
O planejamento urbano deve ser considerado como aquele mais amplo, que
engloba todos esses outros termos citados. Por ser amplo e agregar vários con-
ceitos em um só, facilmente o conceito real do termo pode ser distorcido, como
rotineiramente pode se observar na literatura voltada ao planejamento urbano.
O importante para entendermos o planejamento urbano é que ele não
pode ser restrito a uma disciplina específica. Nesse sentido, o campo
se abre para conhecimentos e metodologias que abrangem aspectos da
sociologia, da economia, da geografia, da engenharia, do direito e da
administração (DUARTE, 2011, p. 25).

PLANEJAMENTO URBANO: ETAPAS E DIMENSÕES


141

São várias as conceituações de planejamento urbano e devido à vastidão do


termo elas acabam por se completar. De acordo com DROR (1973, p. 323) “pla-
nejamento é o processo de preparar um conjunto de decisões para ação futura,
dirigida à consecução de objetivos através dos meios preferidos”. Para Souza
(2002, p. 45) “o planejamento é a preparação para a gestão futura, buscando-se
evitar ou minimizar problemas e ampliar margens de manobra”. Para Duarte
(2011) é o processo de idealização, criação e desenvolvimento de soluções que
visam melhorar ou revitalizar certos aspectos dentro de uma determinada área
urbana, tendo como objetivo principal proporcionar aos habitantes uma melho-
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

ria na qualidade de vida.


Trata-se de uma ferramenta de investigação para prever o futuro e com essa
previsão determinar ações para que exista um novo futuro, diferente do previsto,
melhorado. Um futuro que traga benefícios de longo prazo para a sociedade,
principalmente em qualidade de vida e sustentabilidade de recursos ambientais.

PLANO DIRETOR

Plano Diretor é o principal documento para orientar a gestão urbana, trata-se


das determinações do planejamento urbano documentadas e dirigidas para que
exista uma gestão eficaz e as ações designadas tragam os resultados previstos.
Segundo a ABNT (1991), o plano diretor é o Instrumento básico, exigido
por lei, de um processo de planejamento municipal para a implantação de uma
política de desenvolvimento urbano, norteando a ação dos agentes públicos e
privados. Também Villaça e Saboya definem o que vem a ser um plano diretor:
[...] seria um plano que, a partir de um diagnóstico científico da reali-
dade física, social, econômica, política e administrativa da cidade, do
município e de sua região, apresentaria um conjunto de propostas para
o futuro desenvolvimento socioeconômico e futura organização espa-
cial dos usos do solo urbano, das redes de infraestrutura e de elementos
fundamentais da estrutura urbana, para a cidade e para o município,
propostas estas definidas para curto, médio e longo prazos, e aprovadas
por lei municipal (VILLAÇA, 1998, p. 238).

Conceitos Técnicos Importantes do Planejamento Urbano


142 UNIDADE III

Plano diretor é um documento que sintetiza e torna explícitos os obje-


tivos consensuados para o Município e estabelece princípios, diretrizes
e normas a serem utilizadas como base para que as decisões dos atores
envolvidos no processo de desenvolvimento urbano convirjam, tanto
quanto possível, na direção desses objetivos (SABOYA, 2007, p. 39).

Existe, realmente, muita semelhança com o termo planejamento urbano, pois


estão intimamente ligados. A diferença principal está no fato do plano diretor
ser um documento técnico, com diretrizes e métodos de elaboração determi-
nados por lei. Este pode ser denominado como a escrita de um planejamento
urbano, um método para elaboração de um planejamento urbano. Outro fator

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
importante, é que o plano diretor se transformará em lei específica e influen-
ciará diversas outras leis municipais.
De acordo com o Art. 40. do Estatuto da Cidade (2001, on-line)1 o plano
diretor, aprovado por lei municipal, é o instrumento básico da política de desen-
volvimento e expansão urbana.
§ 1o O plano diretor é parte integrante do processo de planejamento muni-
cipal, devendo o plano plurianual, as diretrizes orçamentárias e o orçamento
anual incorporar as diretrizes e as prioridades nele contidas.
§ 2o O plano diretor deverá englobar o território do Município como um todo.
§ 3o A lei que instituir o plano diretor deverá ser revista, pelo menos, a cada
dez anos.
§ 4o No processo de elaboração do plano diretor e na fiscalização de sua
implementação, os Poderes Legislativo e Executivo municipais garantirão:

■■ I – a promoção de audiências públicas e debates com a participação


da população e de associações representativas dos vários segmentos da
comunidade;
■■ II – a publicidade quanto aos documentos e informações produzidos;
■■ III – o acesso de qualquer interessado aos documentos e informações
produzidos.

No Art. 41. do Estatuto da Cidade (2001, on-line)1 é definido que um plano


diretor será obrigatório a um município quando este se enquadrar em alguma
das condições abaixo:

PLANEJAMENTO URBANO: ETAPAS E DIMENSÕES


143

■■ I – com mais de vinte mil habitantes;


■■ II – integrantes de regiões metropolitanas e aglomerações urbanas;
■■ III – onde o Poder Público municipal pretenda utilizar os instrumentos
previstos no § 4o do art. 182 da Constituição Federal;
■■ IV – integrantes de áreas de especial interesse turístico;
■■ V – inseridas na área de influência de empreendimentos ou atividades
com significativo impacto ambiental de âmbito regional ou nacional.
■■ VI - incluídas no cadastro nacional de Municípios com áreas suscetíveis
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

à ocorrência de deslizamentos de grande impacto, inundações bruscas ou


processos geológicos ou hidrológicos correlatos.   

O Art. 42. do Estatuto da Cidade (2001, on-line)1 referência o conteúdo mínimo


e poderes de um plano diretor:
■■ I – a delimitação das áreas urbanas onde poderá ser aplicado o parcela-
mento, edificação ou utilização compulsórios, considerando a existência de
infraestrutura e de demanda para utilização, na forma do art. 5o desta Lei;
■■ II – disposições requeridas pelos arts. 25, 28, 29, 32 e 35 desta Lei;
■■ Art. 25. O direito de preempção confere ao Poder Público municipal pre-
ferência para aquisição de imóvel urbano objeto de alienação onerosa
entre particulares.
■■ Art. 28. O plano diretor poderá fixar áreas nas quais o direito de construir
poderá ser exercido acima do coeficiente de aproveitamento básico ado-
tado, mediante contrapartida a ser prestada pelo beneficiário.
■■ Art. 29. O plano diretor poderá fixar áreas nas quais poderá ser permi-
tida alteração de uso do solo, mediante contrapartida a ser prestada pelo
beneficiário.
■■ Art. 32. Lei municipal específica, baseada no plano diretor, poderá deli-
mitar área para aplicação de operações consorciadas.
■■ III – sistema de acompanhamento e controle.

Conceitos Técnicos Importantes do Planejamento Urbano


144 UNIDADE III

GESTÃO URBANA

Gestão urbana pode ser conceituada como um conjunto de instrumentos, ativi-


dades, tarefas e funções que objetivam determinar um bom funcionamento de
uma cidade. Deve responder às necessidades e demandas da população e dos
vários agentes privados, públicos e comunitários de forma harmônica, mesmo
havendo grandes conflitos de interesses (ACYOLI; DAVIDSON, 1998, apud
DUARTE, 2011).
Cabe a gestão urbana executar as ações determinadas pelo plano diretor.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Trata-se de uma etapa do planejamento urbano. Deseja-se de uma boa gestão
urbana que:
■■ Realize os plano urbanístico e suas propostas (Plano Diretor).
■■ Possua corpo técnico capacitado e multidisciplinar.
■■ Realize fóruns sociais para efetivas a participação democrática.
■■ Utilize de princípios da administração pública e privada para trazer resul-
tados efetivos.

A gestão urbana tem a função de transformar sonhos em realidade, é a etapa


final e mais dinâmica de um planejamento urbano.

GOVERNANÇA

Segundo o Banco Mundial, em seu documento Governance and Development,


de 1992, a definição geral de governança é a maneira de exercer autoridade, con-
trole e poder de governo na administração dos recursos sociais e econômicos de
um país, estado ou, município, visando o desenvolvimento. Implica na capaci-
dade dos governos e autoridades de planejar, formular e implementar políticas
e cumprir funções.
Trata-se de um conceito amplo que acaba por englobar a gestão urbana.
Existe a ideia de que somente com uma eficiente governança teremos um

PLANEJAMENTO URBANO: ETAPAS E DIMENSÕES


145

desenvolvimento sustentado, que incorpore ao crescimento econômico equi-


dade social e também direitos humanos (SANTOS, 1997).
Governança possui variadas aplicações em diversos campos de atuação,
muitas vezes com sentidos diferentes. Por exemplo, na expressão “governança
corporativa”, largamente empregada na Administração de Empresas, o intuito é
tratar das práticas e dos relacionamentos entre os Acionistas/Cotistas, Conselho
de Administração, Diretoria, Auditoria Independente e Conselho Fiscal, exis-
tentes em uma corporação, tendo a finalidade de otimizar o desempenho da
empresa e facilitar o acesso ao capital.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Conforme Melo (1997 apud Gonçalves, 2005) refere-se ao modus operandi


das políticas governamentais, incluindo questões ligadas ao formato político
institucional do processo decisório, à definição do mix apropriado de financia-
mento de políticas e ao alcance geral dos programas.
Governança trata das formas de governabilidade e portanto é um termo que
possui divergências entre conceituações, pois existem diferentes formas de orga-
nizar e buscar uma governança eficiente. Por exemplo, se opondo a abordagem
do Banco Mundial, em que o foco está na criação de condições de governabi-
lidade e na garantia do funcionamento do livre jogo das forças de mercado o
conceito de governança, numa versão mais independente descrita como gover-
nança participativa ou governança social negociada, é descrito como uma fonte
de novos experimentos na prática democrática.
Nesta perspectiva, a abordagem da governança pode ser vista como uma pos-
sibilidade de restaurar a legitimidade do sistema político pela criação de novos
canais de participação e parcerias entre o setor público e o setor privado ou ini-
ciativas voluntárias, contribuindo para novas formas democráticas de interação
público-privada (GROTE; GBIKPI, 2002; HIRST, 2000; FREY, 2002).
De forma geral, governança diz respeito às formas e processos utilizados para
produzir resultados eficientes. A governança não é uma ação isolada da socie-
dade civil buscando maiores espaços de participação e influência. Ao contrário,
o conceito unifica a ação do Estado e sociedade na busca de soluções e resulta-
dos para problemas comuns (GONÇALVES, 2005).

Conceitos Técnicos Importantes do Planejamento Urbano


146 UNIDADE III

URBANISMO

Por meio da história o urbanismo foi sendo moldado, chegando hoje ao que
chamamos de planejamento urbano. Hoje, o urbanismo como conceito fica
definido como aquele que trabalha (historicamente) com o desenho urbano e o
projeto das cidades, sem especificamente considerar todos os processos sociais
que ocorrem nas cidades. Colocou-se um termo mais abrangente para abarcar
toda a complexidade de fazer funcionar uma cidade.
O urbanismo estaria mais ligado ao desenho da cidade, tanto na escala

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
de espaços amplos e de ordenação territorial quanto na escala do de-
senho de mobiliário urbano e espaços intraurbanos (DUARTE, 2011,
p. 25).

Ultramari (2009) conceitua de forma um pouco diferente, dizendo que o urba-


nismo fica ligado ao ato de intervir, devido a uma ação anterior. Já o ato de
planejar, ficaria relacionado ao planejamento urbano.

ETAPAS DO PLANEJAMENTO URBANO

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PLANEJAMENTO URBANO: ETAPAS E DIMENSÕES


147

O planejamento urbano se configura em diversas etapas que serão detalhadas


neste tópico.
Algumas etapas do planejamento urbano são gerais. Encontraremos
variações de nomenclatura em diferentes autores e documentos, mas
todos seguem aproximadamente as mesmas fases, as quais invariavel-
mente são atravessadas pela questão básica do planejamento: quais são
os seus objetivos? (DUARTE, 2011, p. 29).

Seguindo a didática e divisões salientadas por Duarte (2011) um planejamento


urbano deve consistir em três etapas: análise (diagnóstico e prognóstico), pro-
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

postas e a gestão.

ANÁLISE (DIAGNÓSTICO E PROGNÓSTICO)

Na fase de análise, deverá ser elaborado um diagnóstico sobre a realidade do


município tentando responder a seguintes questões: quais são as condições eco-
nômicas, sociais, ecológicas (ambientais), culturais, infraestruturais, gerenciais
e territoriais do município na atualidade? Como o município chegou a essa rea-
lidade? O que foi feito no passado? (DUARTE, 2011).
Para isso, é necessário um grande inventário, uma grande coleta de dados e
tratamentos técnicos. Será necessário a formação de uma equipe multidiscipli-
nar, de preferência mesclando funcionários públicos com privados, que estejam
familiarizados com as problemáticas da região. Serão tratados dados ambientais
e geográficos (análise da paisagem), dados demográficos (taxa crescimento, com-
posição etária, escolaridade entre outros), legais (Legislação existente), sociais
e econômicos (renda população, atividades econômicas entre outros), além de
vários outros dependendo de particularidades do município.
Os dados irão gerar relatórios técnicos e mapas demonstrando a realidade
do município. São exemplos de mapas: mapa de Taxa de Crescimento da cidade,
mapa de densidade populacional, mapa de desmatamentos, mapa de áreas degra-
dadas, mapa de áreas de ocupação ilegal, mapa geomorfológico, mapa de solos,
mapa de vegetação, mapa de uso do solo entre outros. Quanto mais completo for o
diagnóstico, em tese melhor será o planejamento. O diagnóstico deve determinar

Etapas do Planejamento Urbano


148 UNIDADE III

quais são os Condicionantes, as Potencialidades e as Deficiências de uma região,


o conjunto denominado CPD.
Após o diagnóstico vem o prognóstico que consiste em responder a seguinte
questão: considerando as situações observadas no diagnóstico, se nada for feito,
como será a cidade no futuro? (DUARTE, 2011)
O futuro previsto no prognóstico não será totalmente desejado, existirão coi-
sas ruins e boas. As previsões poderão ser delimitadas para vários anos à frente,
em diferentes temas, seguindo o que os dados podem fornecer (5, 10 20 anos).
Enxergando esses futuros serão verificados vários problemas. O intuito da pró-

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
xima etapa será justamente verificar como sanar as falhas que levam aos futuros
não desejáveis e como modificar para alterar a realidade prevista.
Não se trata de futurologia ou de achismos. No entanto é inegável (e
seria ingênuo imaginar o contrário) que muitas vezes as previsões,
mesmo as mais cautelosas, sejam contraditas por mudanças bruscas
na realidade. Se tomarmos anos do censo como parâmetro, houve, em
1991, diversos prognósticos sobre a situação socioeconômica em que
o país se encontraria em 2000 – ano do censo seguinte. No entanto,
nenhum deles contou com a possibilidade de uma mudança estrutural
como a do Plano Real e a consequente relativa estabilização econômica
e monetária do país. Essas mudanças profundas, mesmo quando em
escalas maiores que as da cidade, afetam a vida urbana e são imprevi-
síveis. Nem por isso o prognóstico, que pode ser completamente refu-
tado anos depois pela realidade, é uma fase que deve ser desmerecida
(DUARTE, 2011, p. 33).

PROPOSTAS

Nesta etapa são pensadas propostas para levar o município a um futuro diferente
e melhor do que o verificado no prognóstico. O corpo técnico com a devida par-
ticipação popular deve determinar onde existem falhas no planejamento urbano
e ações que acertem para que ocorra melhorias, que em tese devem ser pensa-
das para o coletivo, para a melhoria da qualidade de vida da grande maioria dos
cidadãos.

PLANEJAMENTO URBANO: ETAPAS E DIMENSÕES


149

Duarte (2011) exemplifica o que propostas bem delimitadas podem trazer


para melhoria das condições de um município:
Vejamos o caso de Brotas, no interior de São Paulo, com pouco mais de
20 mil habitantes, em 2005, e com a economia focada na agropecuária
(cujo valor adicionado representa oito vezes o da indústria), e, portan-
to, sem grandes perspectivas de crescimento, se o seu prognóstico fosse
feito nesses termos. Porém, nos anos 1990, houve a ascensão do eco-
turismo, no qual as belezas naturais aliadas a esportes não convencio-
nais (chamados radicais) juntaram-se, criando um importante nicho
de mercado turístico no Brasil. Brotas – uma pequena cidade pitoresca,
com suas corredeiras, cachoeiras e fazendas – viu nesse novo mercado
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

em ascensão uma perspectiva de desenvolvimento socioeconômico e


fez do ecoturismo um negócio rentável que emprega a população local
(DUARTE, 2011, p.36).

Obviamente, os diagnósticos e prognósticos não vão trazer uma visão plena de


resolução dos problemas urbanos por completo, existirão muitas dúvidas e pro-
postas que dependerão de estimativas e visões administrativas e políticas de
especialistas. Muitos problemas verificados dependerão de variados fatores muitas
vezes imprevisíveis, ou seja, dificilmente todas as ações propostas terão no final
o efeito desejável. Muito importante que as propostas sejam feitas com visões
técnicas bem definidas e auxiliadas por visões de cunho político administrativo.
As propostas devem ter Metas, Estratégias e Ações. Será identificado um
problema como: o aumento de área desmatada de floresta nativa no município
nos próximos 10 anos. Dentro desse problema deverão ser estabelecidas ações e
estratégias solucionadoras afim de atingir uma meta. Por exemplo, ter a meta de
zerar o desmatamento nos próximos cinco anos, fazendo determinadas ações.
Em Paragominas - MT, por exemplo, a prefeitura se uniu com a ONG The Nature
Conservancy para solucionar problema semelhante e atingir desmatamento zero.
O processo envolveu agricultores, pecuaristas, empresários e ambientalistas em
acordos legislativos e técnicos e atingiram a meta, que além de zerar o desmata-
mento, aumentou a área verde do município.
Outro exemplo de problema seria: o aumento da população de favelas em
um determinado período. Uma meta poderia ser: reduzir para 0% a popula-
ção em favelas em 20 anos. Como estratégias e ações entrariam: regularização

Etapas do Planejamento Urbano


150 UNIDADE III

Fundiária; inserção de infraestrutura como saneamento, escolas, hospitais entre


outras; e relocação da população carente em prédios dignos em áreas propícias.

GESTÃO URBANA

Já tratamos do conceito de gestão em item anterior. Porém, cabe a ênfase dada


pelos dizeres de Duarte (2011):
[...] na gestão urbana, as leis que regulamentam as diversas propostas

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dos planos diretores, a clareza do provimento de recursos necessários,
o corpo técnico capacitado para implementar e gerenciar as propostas
e os fóruns para o envolvimento da sociedade civil organizada, com
o intuito de corrigir rumos do desenvolvimento urbano, são funda-
mentais. Poluição que vem comprometendo as águas de muitas bacias
hidrográficas prejudicam o abastecimento público em áreas urbanas e
nas áreas rurais, onde o recurso hídrico é essencial para a sobrevivência
e manutenção da produção agrícola. Essas alterações também podem
acarretar em desequilíbrios ecológicos, afetando várias formas de vida,
inclusive podendo levar à extinção de espécies (DUARTE, 2011, p. 38).

A gestão deve ser dinâmica, deve monitorar resultados das ações e gastos e com
isso trazer dados para futuros diagnósticos e prognósticos das atualizações de
planos diretores.
A figura a seguir demonstra um esquema das etapas do planejamento urbano.

Potencialidades
Avaliação
Oportunidades

Metas
Condicionantes Estratégias Ações Implementação
Objetivos

Deficiência
Controle
Restrições

Análise
Propostas Gestão
Diagnóstico + Prognóstico

Figura 01 – Etapas do Planejamento Urbano.


Fonte: Duarte (2011, p. 32).

PLANEJAMENTO URBANO: ETAPAS E DIMENSÕES


151
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DIMENSÕES DO PLANEJAMENTO URBANO

Duarte (2011) demonstra que o planejamento urbano e sua gestão urbana podem
ser divididos em várias dimensões de atuação. Não por coincidência grande parte
dessas dimensões são também as dimensões da Sustentabilidade.

DIMENSÃO AMBIENTAL

Nos capítulos anteriores já mencionamos a vastidão dessa dimensão e as inúme-


ras problemáticas existentes. Trata-se de uma dimensão transversal, pois ela está
diretamente conectada com as outras dimensões. Dentro do gerenciamento do
município a atuação nessa dimensão se encaixa mais diretamente nas funções
de várias secretárias como: meio ambiente, saúde, agricultura e social. Porém,
qualquer ação ou proposta relacionada ao meio ambiente trará consequências
as outras dimensões.
A proteção de mananciais, a proteção de áreas naturais frágeis, o manejo
das áreas verdes urbanas, o saneamento básico (incluindo a coleta e tratamento
de resíduos sólidos), o uso da água, o controle de erosões, a organização da

Dimensões do Planejamento Urbano


152 UNIDADE III

agricultura e o licenciamento ambiental, são os principais pontos de atuação


focados nessa dimensão. Que se preocupa com os recursos naturais e seus usos.

DIMENSÃO SOCIAL

A dimensão social é aquela preocupada diretamente com o bem-estar dos cida-


dãos. Enquadra-se nessa dimensão: a educação, saúde, cultura, cidadania, esportes,
lazer, segurança, assistência social e habitação.

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Promover funcionalidade e eficácia nos serviços necessários nesta dimensão
é complexo e necessita de uma organização política e de planejamento muito bem
embasada, seguindo critérios técnicos bem delineados. Primeiramente para todo
o resto ser bem estruturado os serviços voltados a educação básica e saúde devem
ser prioritários, prevendo qualidade e disponibilidade para todos os cidadãos.
Tanto cultura quanto esportes são dependentes de bons programas públi-
cos vinculados a uma legislação que conceda melhores oportunidades a artistas
e esportistas da região. Quando cultura e esportes são bem conduzidos em uma
cidade o turismo tende a crescer, trazendo mais oportunidades. Segundo Duarte
(2011) a cultura tem normalmente duas vertentes de atuação bem demarcadas:
[...] no caso da cultura, duas vertentes devem ser estimuladas: uma de-
las é promover eventos culturais para a população com o intuito de pro-
porcionar enriquecimento no âmbito intelectual e psicológico; a outra
é valorizar as manifestações culturais típicas de cada região. Isso tem
um valor especial no caso do Brasil, que é um país tão diverso, para que
não haja a promoção apenas de uma cultura oficial ou hegemônica, de
modo que as manifestações locais ganhem relevância social e até eco-
nômica (DUARTE, 2011, p. 74-75).

O aspecto importante dessa dimensão é que ela está diretamente vinculada à


dimensão territorial e infraestrutural, pois o Estatuto da Cidade coloca como
ponto chave de um plano diretor a busca da função social da propriedade urbana.
O delineamento da cidade deve ser pensado para o benefício de maior número de
cidadãos, prevendo uma divisão de zoneamentos e obras públicas que forneçam

PLANEJAMENTO URBANO: ETAPAS E DIMENSÕES


153

bom desenvolvimento e qualidade de vida em todas as regiões da cidade.


Em termos habitacionais é necessário ter um cenário de desenvolvimento
que não existam grandes implosões populacionais. Planejar bem a inclusão de
indústrias e os empregos que serão atraídos, prevendo ocupar as qualificações
técnicas já existentes nos cidadãos. Deve se tentar prever quando poderá ocorrer
significativos aumentos populacionais e assim evitar crescimento desordenado,
porém, em muitos casos não é possível tamanha previsibilidade, quando isso
ocorre os sistemas implantados de planejamento devem estar funcionando para
mitigar os impactos das grandes implosões populacionais.
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Contudo, cabe ao planejamento urbano direcionar a política habita-


cional do município, evitando que haja interferência em seus recursos
naturais e propiciando uma adequação habitacional ao direcionamento
territorial que a cidade entendeu como o melhor para si. Também cabe
ao planejamento urbano propor soluções para melhorar as condições
de habitabilidade de seus cidadãos. Para os planejadores urbanos, ha-
bitabilidade deve conter não somente a moradia propriamente dita,
como também as boas condições urbanas do entorno, como áreas ver-
des, equipamentos de educação, saúde e mobilidade urbana (DUARTE,
2011, p. 75).

Sobre a segurança pública é importante ressaltar que a maior atribuição dessa


seara é de responsabilidade do Estado. Na esfera municipal as ações acabam
sendo limitadas, tanto por verba quanto por corpo técnico. Porém, o município
pode planejar sua infraestrutura e zoneamento urbano buscando inibir a crimi-
nalidade. Implantar legislação que facilite a entrada de cursos técnicos e mesmo
a formação de uma educação básica de qualidade funcionam como prevenções
ao aumento da criminalidade. O acesso à cultura, ao lazer e ao esporte também
ficam diretamente vinculados a diminuição de criminalidade. Aspectos como
uma boa iluminação pública, guarda municipal estrategicamente posicionada
e o devido manejo das unidades de conservação e parques públicos também
influem na segurança de uma cidade.
A assistência social é essencial, pois ela que tentará equalizar as condições
sociais, tentando enquadrar socialmente aqueles que acabaram por ficar à mar-
gem da sociedade. Disponibilizar corpo técnico capacitado e disposto em centros

Dimensões do Planejamento Urbano


154 UNIDADE III

de assistência social bem distribuídos pela cidade, colocados em pontos estraté-


gicos é um dos pontos fundamentais.
A promoção da cidadania pode ser colocada como o último grau da dimen-
são social, pois depende do bom funcionamento de outras dimensões e das ações
dentro da própria dimensão social. Cidadania trata da questão da identidade e
do pertencimento de um cidadão a uma coletividade. Deseja-se que o cidadão
sinta-se incluindo e respeitado, podendo exercer seus direitos cívicos, políticos
e sociais. Marshall (apud CARVALHO, 2001) afirma que a cidadania só é plena
se dotada de todos os três tipos de direito:

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
1. Civil: direitos necessários à liberdade individual, liberdade de expressão e de
pensamento; direito de propriedade e de conclusão de contratos; direito à jus-
tiça; que foi instituída no século 18.

2. Política: direito de ser participativo no exercício do poder político, como can-


didato ou eleitor, no conjunto das instituições de autoridade pública, constituída
no século 19.

3. Social: conjunto de direitos relativos ao bem-estar econômico e social, desde


a segurança até ao direito de partilhar do nível de vida (qualidade de vida),
segundo os padrões prevalecentes na sociedade, que são conquistas do século 20.

DIMENSÃO ECONÔMICA

Trata dos recursos financeiros de um município e das variadas formas de se


trabalhar esses recursos. Considerar-se os recursos financeiros das empresas e
cidadãos e do poder público.
O planejamento urbano e a gestão urbana de forma geral devem estar sem-
pre pensando em formas de beneficiar os empreendedores e trabalhadores de
uma região, para que existam ganhos justos e bem distribuídos na sociedade.
De forma geral, a responsabilidade socioambiental das empresas deve constar
como item importante para promover benefícios financeiros nas leis efetuadas
nesse intuito.

PLANEJAMENTO URBANO: ETAPAS E DIMENSÕES


155

Em relação aos recursos financeiros do órgão público do município, esses


vêm em grande parte de impostos tanto de âmbito municipal, estadual e federal,
porém, cabe salientar que existem maneiras do município aumentar sua renda
trabalhando alguns produtos. Como exemplo podemos, citar a boa administra-
ção de resíduos sólidos que pode promover renda com o desenvolvimento de
produtos como: lenha, briquetes, adubo, reciclagem entre outros. A boa admi-
nistração de um município também pode trazer aumento de recurso financeiros,
como exemplo podemos citar a boa administração das áreas verdes onde muni-
cípio poderá ter mais ganhos com leis do tipo ICMS Ecológico e das futuras leis
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

para Pagamento de Serviços Ambientais (PSA).


A agricultura e a pecuária, a indústria e o comércio, bem como os ser-
viços, são aspectos da dimensão econômica que com frequência têm
secretarias especiais ou, ao menos, projetos municipais específicos para
apoiar os empresários dos setores primário (agricultura e pecuária), se-
cundário (indústria) e terciário (comércio e serviços) (DUARTE, 2011,
p. 71).

Um bom planejamento urbano deve ter bom entendimento da macroeconomia


em termos nacionais e internacionais, assim como, do funcionamento econômico
da região em que se encontra para assim poder fazer os devidos planejamentos
e gestão para gerar mais oportunidades de negócios e empregos ao município.
Outro ponto importante é a organização dos programas de geração de renda alter-
nativa para aqueles que estejam temporariamente afastados do mercado formal.
São programas importantes para evitar perdas econômicas e cenários de pobreza
nas cidades. Devem ser mobilizado para o bem coletivo, atendendo casos espe-
ciais dos mais necessitados e com fiscalização ampla e eficiente.
O bom desenvolvimento do turismo em uma região é outro ponto importante
para aumentar os recursos financeiros de um município, principalmente a longo
prazo. Atualmente fica estabelecida secretaria especial para o planejamento do
turismo, que acaba tendo vínculo com meio ambiente e cultura principalmente.

Dimensões do Planejamento Urbano


156 UNIDADE III

DIMENSÃO INFRAESTRUTURAL

Trata dos serviços públicos essenciais, obras, infraestrutura e do transporte. No


planejamento urbano devem ser colocadas as necessidades dentro dos temas
destacados e estimados os gastos para o gerenciamento de toda essa dimensão.
No final das contas é uma dimensão vinculada a todas as outras, pois as neces-
sidades existentes nela vem dos diagnósticos efetuados nas outras dimensões.
Nessa dimensão ficam estabelecidas as necessidades infraestruturais para
a resolução das problemáticas encontradas em todas as dimensões do planeja-

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mento urbano.

DIMENSÃO GERENCIAL

Dimensão vinculada diretamente a gestão urbana. Trata das funções do órgão


público municipal (prefeitura) na administração dos recursos humanos, recursos
financeiros, governança (governo), do gerenciamento dos impostos (fazenda),
da comunicação interna entre secretarias e na administração geral.
Diferentemente da dimensão econômica que o foco fica nas formas de ampliar
os recursos, aqui o foco é a destinação dos recursos, o ordenamento desses recur-
sos em orçamentos de destinação com cronograma específico. As perguntas que
se estabelecem nessa dimensão são: como serão utilizados os recursos e as for-
mas de destinação desses? Como funcionarão as equipes, os profissionais e suas
funções dentro das necessidades do município?

DIMENSÃO TERRITORIAL

Essa dimensão trata do planejamento do uso do solo no município, fica vincu-


lada as outras dimensões, pois a divisão do território em zonas diferenciadas de
uso serão feitas em função dos resultados dos diagnósticos da dimensão ambien-
tal, social, econômica, infraestrutural e gerencial. Nessa dimensão o foco será a
determinação do zoneamento urbano, do parcelamento do solo e suas diretrizes.

PLANEJAMENTO URBANO: ETAPAS E DIMENSÕES


157
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ÁREAS VERDES URBANAS

Como vimos nas unidades e tópicos anteriores a humanidade está cada vez mais
urbana e com isso o vínculo com áreas naturais, com um entendimento e vivên-
cia maior com a natureza tende a se enfraquecer. A existência de áreas verdes
urbanas acaba por tentar mitigar esse efeito de desconexão da humanidade com
a natureza, trazendo para as áreas urbanas mais verde, mais vida.

O QUE SÃO ÁREAS VERDES URBANAS?

As chamadas Áreas Verdes Urbanas ou Arborização Urbana divide-se em três


setores individualizados que estabelecem interfaces entre si:
1) Áreas verdes públicas, destinadas ao lazer ou que oportunizam ocasiões de
encontro e convívio direto com a natureza como praças e parques;

2) Áreas verdes privadas, compostas pelos remanescentes vegetais significativos


incorporados à malha urbana (matas ciliares, remanescentes florestais, reservas
legais, Áreas de Preservação Permanente entre outros); e

Áreas Verdes Urbanas


158 UNIDADE III

3) Arborização de ruas e vias públicas (LORUSSO, 1992 apud MUNEROLI;


MASCARÓ, 2010).

Normalmente, o gerenciamento das Áreas Verdes Urbanas em um municí-


pio fica dividido em dois setores: o de áreas verdes e o da arborização de ruas
(GREY; DENEKE, 1978). No primeiro deles, encontra-se as atividades de plane-
jamento e administração dos jardins, praças, parques e demais modalidades de
áreas verdes públicas, tanto a nível de distribuição espacial global dentro do pro-
jeto urbanístico, quanto ao nível de projeto paisagístico, execução e manejo de

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unidades individuais. No segundo estão as atividades de planejamento, implan-
tação e manejo da arborização de ruas e avenidas que constitui a rede de união
as áreas verdes (MILANO, 1988).
Um bom planejamento das áreas urbanas deve priorizar a conservação,
manutenção e segurança destes espaços devido suas variadas importâncias para
sociedade.

IMPORTÂNCIA DAS ÁREAS VERDES URBANAS

De forma geral a existência de áreas naturais (ecossistemas) seja em áreas urbanas


ou rurais é importante por suas funções ecológicas que como vimos colaboram
para a continuidade da humanidade no planeta.
Grote e Gbikpi (2002) separaram as funções dos ecossistemas em quatro
categorias:
1. Funções de Regulação – relacionadas à capacidade dos ecossistemas de regu-
larem processos ecológicos essenciais de suporte à vida. Todos esses processos
são mediados pelos fatores abióticos e bióticos de um ecossis­tema. Essas funções
são responsáveis por manter a saúde dos ecossistemas, e têm impactos diretos e
indiretos sobre as populações humanas. Exemplos: regulação de gás, de oferta
de água, climática, nutrientes do solo e forma­ção do solo e controle biológico.
2. Funções de hábitat – são essenciais para a conservação biológica e genética
e para a preservação de processos evolucionários. Podem ser nominadas como
função e refúgio, ou seja, espaços naturais onde a vida vegetal e animal possa

PLANEJAMENTO URBANO: ETAPAS E DIMENSÕES


159

se abrigar; e função de berçário, espaços natu­rais ideais para a reprodução de


determinadas espécies, muitas vezes endêmicas de uma região, ou migratórias
que possuem certas exigên­cias para sua reprodução.
3. Funções de produção – ligadas à capacidade dos ecossistemas de for­necerem
alimentos e uma série de produtos para o consumo humano, a partir da produ-
ção de uma variedade de hidrocarbonatos, obtidos por meio de processos como
a fotossíntese, sequestro de nutrientes e por meio de ecossistemas seminaturais,
como as terras cultivadas. Exemplos: pro­dução de frutos, madeira, produtos far-
macêuticos, cera, tinta, borracha, ornamentação, entre outros.
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4. Funções de informação – relacionadas à capacidade dos ecossistemas natu­


rais de contribuírem para a manutenção da saúde humana, fornecendo reflexão,
inspiração artística, enriquecimento espiritual, desenvolvimento cognitivo, recre-
ação e experiência estética. Nessa categoria, incluem-se conhecimento estético,
recreação e (eco)turismo, inspiração cultural e artística, informação histórica e
cultural, além de informações culturais e científicas.
As áreas verdes urbanas possuem todas essas funções gerais de áreas natu-
rais para a humanidade, porém, exercem alguns benefícios específicos urbanos
diretamente vinculados a qualidade de vida dos cidadãos:

■■ Sombreamento (Temperatura)

Árvores diminuem a incidência da luz em mais de 90%, diminuindo a tempe-


ratura e a incidência de luz direta sobre quem caminha ou se exercita debaixo
delas. Áreas com mais árvores, em São Paulo, por exemplo, podem ter a tempe-
ratura até 10°C abaixo de áreas não arborizadas no mesmo horário. Em um país
tropical como o Brasil com a maioria das cidades possuindo altas temperaturas
esse poder de melhoria microclimática das áreas verdes urbanas é de extrema
importância para a melhoria da qualidade de vida dos cidadãos brasileiros.

Áreas Verdes Urbanas


160 UNIDADE III

■■ Diminuição da Poluição sonora

Observa-se que o efeito das árvores e outras plantas como protetoras do som é
mais importante psicológica do que fisicamente nas cidades, pois para existir um
bloqueio de som efetivo a área verde em questão deve ser densa e extensa, apenas
a superfície foliar de poucas árvores não são capazes de bloquear o som. É pre-
ciso considerar que o efeito protetor varia de acordo com a frequência dos sons,
com a posição das árvores em relação à fonte emissora, com a estrutura e com-
posição dos plantios e com a estação do ano. Porém, psicologicamente falando
existem variados estudos comprovando que cidadãos que vivem em áreas com

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maior índice de áreas verdes relatam melhor conforto acústico (TAKAHASHI
apud MARTINS, 1995).

■■ Redução da Poluição atmosférica

Segundo Lapoix (1979), cortinas vegetais experimentais implantadas em áreas


urbanas foram capazes de diminuir em 10% o teor de poeira do ar. Os efeitos
da vegetação sobre poeiras e partículas devem ser considerados sob dois aspec-
tos: o efeito aerodinâmico, dependente de modificações na velocidade do vento
provocadas pela vegetação e o efeito de captação das diversas espécies vegetais.
A remoção de gases tóxicos da atmosfera pelas plantas pode, segundo vários
autores, ocorrer quando estes, acumulados nas partículas de poeira, são retidos
temporariamente junto com o material particulado (MAYER; ULRICH, 1974).
Sabe-se também que as árvores são capazes de aprisionar Carbono (C) em
suas estruturas (galhos, tronco, raízes e folhas), por meio de processos fisioló-
gicos, esse fato é chamado de “sequestro de carbono”. Estudos apontam que as
árvores urbanas podem diminuir o nível de carbono atmosférico em até quatro
vezes mais do que as árvores individuais não urbanas, porque a diferença está rela-
cionada com a variação no tamanho do diâmetro das copas (NOWAK; CRANE,
2002). Mc Pherson (1994 apud MUNEROLI, 2010) num estudo realizado com
118 árvores na cidade de Chicago constatou uma média de crescimento anual
do diâmetro de 1,1 centímetros, em comparação com 0,4 centímetros em árvo-
res plantadas em áreas florestais em Indiana e Illinois/Chicago, USA.

PLANEJAMENTO URBANO: ETAPAS E DIMENSÕES


161

Em um mundo engajado cada vez mais na redução do aquecimento global


essa função de “sequestro de carbono” realizado pelas árvores é especialmente
importante, principalmente considerando que as áreas urbanas cada vez mais se
ampliam. Portanto, conseguir aumentar o aprisionamento desse gás tóxico em
áreas urbanas é item fundamental para a melhoria do clima em termos mundiais.

■■ Colaboração para Equilíbrio Hidrodinâmico

As áreas verdes urbanas aumentam a permeabilidade do solo, reduzem erosão e


diminuem riscos de enchentes, pois estão vinculadas a hidrodinâmica existente
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nas bacias hidrográficas em que os municípios são implantados. Pesa também o


fato da poderosa evapotranspiração das árvores, pois apenas uma árvore pode eva-
potranspirar 150 mil litros em um ano, ou seja, uma média de 400 litros de água
por dia, que vai colaborar na formação de nuvens e chuvas, ou seja, na melhora
da distribuição destas no continente ou até mesmo no globo (MARTINS, 1995).

■■ Colaboração nos Processos Ecológicos na Paisagem

As Áreas Verdes Urbanas colaboram na formação dos chamados corredores eco-


lógicos. Conforme Soulé e Gilpin (1991) e Saunders, Hobbs e Margules (1991),
esses corredores são estruturas lineares na paisagem, que ligam pelo menos dois
fragmentos de áreas naturais que originalmente eram conectados. Trata-se de
estruturas reconhecidamente importantes para o controle de fluxos hídricos e
biológicos na paisagem (FORMAN; GODRON,1986).
São importâncias ecológicas reconhecidas dos corredores ecológicos:
■■ Aumento da diversidade genética (ALMEIDA VIERA; CARVALHO 2008
apud METZGER 1999).
■■ O aumento da conectividade da paisagem, possibilitando o uso de vários
pequenos fragmentos remanescentes de habitat, que isoladamente não
sustentariam as populações (AWADE; METZGER 2008; BOSCOLO et
al. 2008; MARTENSEN et al. 2008 apud METZGER 1999).
■■ Amenização dos efeitos da fragmentação (PARDINI et al. 2005 apud
METZGER 1999).

Áreas Verdes Urbanas


162 UNIDADE III

■■ Potencial de amenizar os impactos de mudanças climáticas, numa escala


temporal mais ampla (MARINI et al., 2009 apud METZGER 1999).

■■ Benefícios Socioeconômicos

Considerar a existência de benefícios econômicos e sociais das árvores é apenas


um processo lógico, uma vez que existem benefícios de ordem ecológica (clima
e poluição), biológica (saúde física do homem) e psicológica (saúde mental do
homem). Gold (1977) concluiu que as árvores nas cidades aumentam a satisfa-
ção dos usuários de parques e bairros e com isso contribuem para o aumento do

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valor das propriedades e proporcionam um estímulo a sensibilidade humana.
Os benefícios econômicos, segundo Grey e Deneke (1978), podem ser classi-
ficados como diretos e indiretos. Contudo os mais significativos são os indiretos.
Como exemplo, a redução do consumo de energia destinada a condicionado-
res de ar, proporcionada pela sombra das árvores, no verão; e, em se tratando
de espécies decíduas, a redução no consumo de energia destinada a aquecedo-
res de ambiente, pela ausência da sombra no inverno.

Texto Quando se vê um arvoredo o importante não são as árvores, mas os


espaços entre elas.
(Oscar Niemeyer)

ÍNDICES DE ÁREAS VERDES URBANAS

Não existe até o momento uma padronização nacional para o cálculo desse
índice, o que dificulta qualquer comparação com outros municípios. Vários são
os tipos de índices gerados para referenciar o verde das cidades e seus habitan-
tes, porém, de forma geral esses índices apenas computam dados quantitativos,

PLANEJAMENTO URBANO: ETAPAS E DIMENSÕES


163

itens qualitativos como biodiversidade, atração de polinizadores, grau de redu-


ção de poluição atmosférica entre outros não são avaliados. Com isso, ainda hoje,
o conhecimento do quanto cada cidade possui de vegetação e o nível de benefí-
cios alcançados são incompletos. Abaixo alguns índices existentes:
■■ IVA – Quantidade de espaços livres de uso público, em km² ou m², pela
quantidade de habitantes. Geralmente só contabiliza áreas verdes de acesso
ao público: parques, praças e cemitérios entre outros.
■■ ICV (Índice de Cobertura Vegetal) – considera toda área vegetal exis-
tente, seja arbórea ou não arbórea, pública ou particular.
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■■ EMBRAPA – IEV – Índice de Espaços Verdes – índice ainda em constru-


ção, que pretende aplicar medidas quantitativas e qualitativas.

Esse novo índice que está sendo proposto pela Embrapa propõe a utilização de
uma nova metodologia, onde seja possível diagnosticar em termos qualitativos
o cumprimento de funções ecológicas por parte dos espaços verdes. Os resul-
tados do trabalho realizado para a construção desse índice demonstraram que
dados somente quantitativos podem omitir fatores importantes, limitando o deli-
neamento de ações de manejo em cidades. Para uso localizado, o IEV pode ser
aplicado diretamente pelos gestores de regiões urbanas, para que possam defi-
nir prioridades e tomar decisões (ALVAREZ, 2012, on-line)2.
O Índice de Áreas Verdes básico na Alemanha é de 13 m2/habitante divi-
didos em 6 m2/habitante de parques de bairros em 7 m2/habitante de parques
distritais. A Associação Nacional de Recreação dos Estados Unidos no Congresso
Internacional de Recreação, realizado em 1956 na Filadélfia recomendou um
índice de 28m² a 40m² e área verde por habitante. Cavalheiro (1982) indicou
que as cidades alemãs, em termos de cobertura verde total, atingissem um índice
médio de 33,5 m² de área verde por habitante. A cidade de Maringá, no estado
do Paraná, uma das mais bem arborizadas no Brasil, possui uma área de cober-
tura vegetal arbórea de vias públicas (copas) que cobre 5,92% da área urbana. O
IVA de Maringá-PR fica em torno de 25,24/m2/hab.

Áreas Verdes Urbanas


164 UNIDADE III

PRINCIPAIS PROBLEMAS DAS ÁREAS VERDES URBANAS

De maneira geral pode-se dizer que os principais problemas para as áreas ver-
des urbanas, em especial as árvores de vias públicas são:
■■ Falta de planejamento incluindo áreas verdes urbanas. Em muitas cida-
des só é verificada a importância de inserção de parques e árvores após
a implantação da infraestrutura urbana básica, com isso, uma reestru-
turação para inclusão fica complexa. Ou seja, normalmente ocorre dos
planejamentos urbanos só levarem em conta a arborização no final do

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planejamento.
■■ A infraestrutura para a manutenção das áreas verdes urbanas em geral é
subdimensionada, ocasionando problemas de difícil solução com o pas-
sar do tempo.
■■ A mão de obra para a execução de serviços públicos voltados a manu-
tenção e melhoria das áreas verdes urbanas em geral é pouco qualificada.
■■ A produção de mudas para árvores de vias públicas é pequena e pouco
desenvolvida (sem padrão de qualidade definido) no Brasil. Até mesmo a
qualidade e diversidade de mudas para projetos de recuperação de áreas
degradadas não possui quantidade e nem qualidade suficiente para suprir
a demanda nacional.
■■ Os problemas mais graves das áreas verdes urbanas demoram a aparecer.
Espécies inadequadas a infraestrutura existente vão provocar problemas
na medida que crescem, sendo assim, serão muitos anos até que se per-
cebam os erros cometidos.
■■ Uma área verde urbana de qualidade em uma cidade possui um custo de
manutenção alto.
■■ De forma geral a população é mal informada sobre os benefícios e dos
fatores que influem em uma boa qualidade de Áreas Verdes Urbanas.

PLANEJAMENTO URBANO: ETAPAS E DIMENSÕES


165

UNIDADES DE CONSERVAÇÃO

Unidade de Conservação (UC) é a denominação dada pelo Sistema Nacional de


Unidades de Conservação da Natureza (SNUC) (Lei nº 9.985, de 18 de julho de
2000) às áreas naturais passíveis de proteção por suas características especiais.
São as áreas naturais que recebem regulamentação de áreas protegidas como par-
ques e outras categorias (ASSOCIAÇÃO O ECO, on-line 2015)3.
São espaços territoriais e seus recursos ambientais, incluindo as águas
jurisdicionais, com características naturais relevantes, legalmente ins-
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tituídos pelo Poder Público, com objetivos de conservação e limites


definidos, sob regime especial de administração, ao qual se aplicam
garantias adequadas de proteção da lei (Lei nº 9.985, de 18 de julho de
2000 art. 1º, I, on-line)4.

As UC têm a função de salvaguardar a representatividade de porções significa-


tivas e ecologicamente viáveis das diferentes populações, habitats e ecossistemas
do território nacional e das águas jurisdicionais, preservando o patrimônio bioló-
gico existente. Além disso, garantem às populações tradicionais o uso sustentável
dos recursos naturais de forma racional e ainda propiciam às comunidades do
entorno o desenvolvimento de atividades econômicas sustentáveis (ASSOCIAÇÃO
O ECO, 2015, on-line)3.
Sendo a proteção do meio ambiente uma competência que concorre a todas
as esferas do Poder Público, à iniciativa privada e toda sociedade civil, coube
a lei do SNUC disponibilizar a estes entes, os
mecanismos legais para a criação e a gestão de
UC (no caso dos entes federados e da iniciativa
privada) e para participação na administração
e regulação do sistema (no caso da sociedade
civil), possibilitando assim o desenvolvimento
de estratégias conjuntas para as áreas naturais a
serem preservadas e a potencialização da relação
entre o Estado, os cidadãos e o meio ambiente
(ASSOCIAÇÃO O ECO, on-line 2015).3 ©shutterstock

Áreas Verdes Urbanas


166 UNIDADE III

As unidades de conservação da esfera federal do governo são administra-


das pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).
Nas esferas estadual e municipal, por meio dos Sistemas Estaduais e Municipais
de Unidades de Conservação.
O SNUC agrupa as unidades de conservação em dois grupos, de acordo com
seus objetivos de manejo e tipos de uso: Proteção Integral e Uso Sustentável. As
Unidades de Proteção Integral têm como principal objetivo preservar a natureza,
sendo admitido apenas o uso indireto dos seus recursos naturais, ou seja, aquele
que não envolve consumo, coleta ou dano aos recursos naturais: recreação em

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contato com a natureza, turismo ecológico, pesquisa científica, educação e inter-
pretação ambiental, entre outras. As Unidades de Uso Sustentável, por sua vez,
têm como objetivo compatibilizar a conservação da natureza com o uso susten-
tável dos recursos, conciliando a presença humana nas áreas protegidas. Nesse
grupo, atividades que envolvem coleta e uso dos recursos naturais são permitidas,
desde que praticadas de uma forma a manter constantes os recursos ambien-
tais renováveis e processos ecológicos (ASSOCIAÇÃO O ECO, on-line 2015).3

Os parques urbanos são inseridos na urbanização como parte dos espaços


livres de edificação. Sob esse aspecto, sua distribuição nas várias escalas de
urbanização é parte de um projeto da sociedade sobre sua cidade como
um todo. Por outro lado, o desenho do espaço em si pode ser sido em face
dos contextos em que são implantados como parte dos mecanismos de
controle social. São levantados sucintamente estes aspectos para receber
contribuições em área que consideramos de intensa implicação no desenho
urbano. Para saber mais, acesse: <http://www.revistas.usp.br/paam/article/
viewFile/40250/43116>>
Fonte: Magnoli (2006)

PLANEJAMENTO URBANO: ETAPAS E DIMENSÕES


167

A seguir, as categorias de Unidades de Conservação determinadas pelo SNUC


em seus grupos:

Unidades do Grupo Proteção Integral


1. Estação Ecológica: área destinada à preservação da natureza e à realiza-
ção de pesquisas científicas, podendo ser visitadas apenas com o objetivo
educacional.
2. Reserva Biológica: área destinada à preservação da diversidade biológica,
na qual são realizadas medidas de recuperação dos ecossistemas alterados
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para recuperar o equilíbrio natural e preservar a diversidade biológica,


podendo ser visitadas apenas com o objetivo educacional.
3. Parque Nacional: área destinada à preservação dos ecossistemas natu-
rais e sítios de beleza cênica. O parque é a categoria que possibilita uma
maior interação entre o visitante e a natureza, pois permite o desenvolvi-
mento de atividades recreativas, educativas e de interpretação ambiental,
além de permitir a realização de pesquisas científicas.
4. Monumento Natural: área destinada à preservação de lugares singula-
res, raros e de grande beleza cênica, permitindo diversas atividades de
visitação. Essa categoria de UC pode ser constituída de áreas particula-
res, desde que as atividades realizadas nessas áreas sejam compatíveis
com os objetivos da UC.
5. Refúgio da Vida Silvestre: área destinada à proteção de ambientes naturais,
no qual se objetiva assegurar condições para a existência ou reprodução
de espécies ou comunidades da flora local e da fauna. Permite diversas
atividades de visitação e a existência de áreas particulares, assim como
no monumento natural.

Unidades de Uso Sustentável


1. Área de Proteção Ambiental (APA): área dotada de atributos naturais,
estéticos e culturais importantes para a qualidade de vida e o bem-estar
das populações humanas. Geralmente, é uma área extensa, com o obje-
tivo de proteger a diversidade biológica, ordenar o processo de ocupação
humana e assegurar a sustentabilidade do uso dos recursos naturais. É
constituída por terras públicas e privadas.

Áreas Verdes Urbanas


168 UNIDADE III

2. Área de Relevante Interesse Ecológico: área com o objetivo de preservar


os ecossistemas naturais de importância regional ou local. Geralmente,
é uma área de pequena extensão, com pouca ou nenhuma ocupação
humana e com características naturais singulares. É constituída por ter-
ras públicas e privadas.
3. Floresta Nacional: área com cobertura florestal onde predominam espécies
nativas, visando o uso sustentável e diversificado dos recursos florestais e
a pesquisa científica. É admitida a permanência de populações tradicio-
nais que a habitam desde sua criação.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
4. Reserva Extrativista (RESEX): área natural utilizada por populações
extrativistas tradicionais onde exercem suas atividades baseadas no extra-
tivismo, na agricultura de subsistência e na criação de animais de pequeno
porte, assegurando o uso sustentável dos recursos naturais existentes.
Permite visitação pública e pesquisa científica.
5. Reserva de Fauna: área natural com populações animais de espécies nati-
vas, terrestres ou aquáticas; adequadas para estudos técnico-científicos
sobre o manejo econômico sustentável de recursos faunísticos.
6. Reserva de Desenvolvimento Sustentável: área natural em que vivem
populações tradicionais que se baseiam em sistemas sustentáveis de explo-
ração de recursos naturais. Permite visitação pública e pesquisa científica.
7. Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN): área privada com
o objetivo de conservar a diversidade biológica, permitida a pesquisa
científica e a visitação turística, recreativa e educacional. É criada por ini-
ciativa do proprietário, que pode ser apoiado por órgãos integrantes do
SNUC na gestão da UC.

ICMS ECOLÓGICO

O ICMS Ecológico é um mecanismo tributário que possibilita aos municípios


acesso a parcelas maiores que àquelas que já têm direito, dos recursos financeiros
arrecadados pelos Estados através do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e
Serviços, o ICMS, em razão do atendimento de determinados critérios ambientais

PLANEJAMENTO URBANO: ETAPAS E DIMENSÕES


169

estabelecidos em leis estaduais. Não é um novo imposto, mas sim a introdução


de novos critérios de redistribuição de recursos do ICMS, que reflete o nível da
atividade econômica nos municípios em conjunto com a preservação do meio
ambiente (TNC, 2016, on-line)5.
O ICMS Ecológico acaba por estimular a conservação ambiental, pois de
forma geral nas regras impostas em cada Estado em que esse sistema foi intro-
duzido quanto mais Unidades de Conservação, quanto mais áreas conservadas
e devidamente manejadas existirem em um município maior será o valor de
repasse. Portanto, é um tipo de lei vinculada a busca da sustentabilidade, levando
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

benefícios financeiros para municípios com boas atitudes ambientais. Esse tipo
de legislação tem a tendência de começar a crescer no mundo todo, pois cons-
tantemente os serviços prestados por áreas naturais conservadas não é calculado
como parte essencial da produção econômica, trata-se de um erro nos cálcu-
los econômicos, que aos poucos tende a ser corrigido com leis como a do ICMS
Ecológico. No Brasil outra lei semelhante que está sendo trabalhada é a lei para
Pagamento de Serviços Ambientais (PSA), que seguirá algumas premissas já
estabelecidas pelo ICMS Ecológico (TNC, 2016, on-line)5.

Mas como nasceu o ICMS ecológico?


Para entender seu surgimento precisamos relembrar alguns detalhes da nossa
Constituição Federal. Conforme inciso II do artigo 155 da Constituição Brasileira,
a competência para instituir imposto sobre “operações relativas à circulação de
mercadorias e sobre prestações de serviços de transporte interestadual e intermu-
nicipal e de comunicação (...)”, é dos estados e do Distrito Federal, sendo certo
que, no caso do ICMS, o exercício da competência tributária é necessário e não
facultativo. Portanto, cada estado da Federação tem competência legal, atribuída
pela Constituição Federal, e deve instituir o ICMS em seus respectivos territó-
rios. Esse é o motivo da eventual diferença de valores, por exemplo, no preço
dos combustíveis quando viajamos para outro estado.
Além das questões de mercado (frete, por exemplo), a diferença pode ocor-
rer em virtude de uma alíquota diferente no ICMS nesse ou naquele estado. De
todo modo, importante compreendermos que o fato gerador para a incidên-
cia do Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) ocorre na

Áreas Verdes Urbanas


170 UNIDADE III

menor porção territorial da divisão federativa do estado, ou seja, nos municí-


pios. Ou seja, a arrecadação do estado referente a esse imposto ocorre em virtude
de transações realizadas nos municípios. Forma-se uma quantia de arrecadação
que fica sob coordenação do estado, porém, parte dessa quantia deve ser repar-
tida para os municípios considerando sua participação na arrecadação. Nesse
sentido, o artigo 158, inciso IV da Constituição, ao tratar da “Repartição das
Receitas Tributárias”, rege que pertence aos municípios: “vinte e cinco por cento
do produto da arrecadação do imposto do Estado sobre operações relativas à
circulação de mercadorias e sobre prestações de serviços de transporte interes-

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
tadual e intermunicipal e de comunicação” (TNC, 2016, on-line)5.
O primeiro Estado a se utilizar da possibilidade criada pelo artigo 158 da
Constituição foi o Paraná. Nascendo assim o chamado ICMS Ecológico como
forma de “compensação”, pois os municípios possuíam diversas restrições legais
para expandir suas atividades econômicas e assim gerar maior receita de ICMS e
participar com uma fatia do repasse do ICMS. Essa restrição ocorria em virtude
da presença de Unidades de Conservação e áreas de mananciais responsáveis pelo
abastecimento de água para outros municípios. Ou seja, se o município quisesse
possuir mais pastos e plantações e/ou outras atividades econômicas tradicionais,
como a implantação de indústrias, ele ficava impedido em parte de seu território
pela manutenção obrigatória de áreas naturais (TNC, 2016, on-line)5.
Com o tempo, a experiência do Paraná foi evoluindo e a lei passou de um
conceito de compensação para o espírito de um real “incentivo econômico”, pre-
miando aqueles municípios que tivessem boa gestão de suas áreas naturais. Isso
ocorreu com a inserção de critérios qualitativos na avaliação para a pontuação
do município no momento de calcular qual seria o tamanho da fatia do bolo
a que ele faria jus. Como se vê, esse mecanismo cria uma oportunidade para o
Estado influenciar no processo de desenvolvimento sustentável dos municípios,
premiando algumas atividades ambientalmente desejáveis, o que torna o ICMS
Ecológico um instrumento de política pública que representa a operacionaliza-
ção de um conjunto de princípios inovadores para o aprimoramento da gestão
ambiental brasileira, em especial do princípio do provedor-recebedor (TNC,
2016, on-line)5.

PLANEJAMENTO URBANO: ETAPAS E DIMENSÕES


171

O pioneirismo do Paraná foi replicado em outros estados da Federação, que


passaram a legislar no mesmo sentido, cada qual vinculando critérios de repasse
que melhor atendessem aos interesses da população local e suas peculiaridades,
tais como: existência de unidades de conservação, áreas de manancial para abas-
tecimento público, saneamento ambiental, coleta seletiva de lixo, preservação de
patrimônio histórico, reservas indígenas e assim por diante. O ICMS Ecológico
foi reconhecido por diversas entidades e organismos como um instrumento de
incentivo à conservação, chegando, inclusive, a receber premiação internacio-
nal (TNC, 2016, on-line)5.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Hoje, 16 dos 26 Estados brasileiros já adotam o mecanismo, de acordo com


o portal <www.icmsecologico.org.br>, criado em 2009 com o objetivo de divul-
gar informações sobre o ICMS Ecológico nos estados brasileiros. Uma iniciativa
da The Nature Conservancy (TNC), em parceria com Conservação Internacional
(CI) e Fundação SOS Mata Atlântica, o portal serve como referência para pes-
quisadores, estudantes, gestores públicos, sociedade civil organizada e outros
profissionais com interesse no tema.
Cada um desses 16 Estados possui uma legislação específica de ICMS
Ecológico. No Paraná a Lei do ICMS Ecológico ou Lei dos Royalties Ecológicos
é o nome que se dá a Lei Complementar nº 59, de 1º de outubro de 1991, apro-
vada pela Assembleia Legislativa do Estado do Paraná. A Lei Complementar nº
59/91 dispõe sobre a repartição de 5% do ICMS, a que alude o art. 2º da Lei nº
9.491/90, aos municípios com mananciais de abastecimento e unidades de con-
servação ambiental, assim como adota outras providências.

FUNDAMENTOS BÁSICOS DO PLANEJAMENTO DE ÁRVORES DE


VIAS PÚBLICAS

Para se planejar a arborização urbana de uma cidade, de um bairro ou, até


mesmo, de um loteamento ou condomínio habitacional, a principal pergunta
que devemos fazer é: o que, como, onde e quando plantar? Muitas pessoas ima-
ginam que apenas uma espécie de árvore pode ser introduzida em uma cidade
inteira, porém, isso não é verdade. Cada local, cada rua da cidade apresentará

Áreas Verdes Urbanas


172 UNIDADE III

características físicas diferenciadas, onde nem sempre uma única espécie fun-
cionará para trazer os benefícios sem causar alguns danos em calçadas, fiação
elétrica e tubulações subterrâneas. Oura questão é que ter diversidade de espé-
cies nas ruas e praças colabora para aumentar a biodiversidade na região toda.
Na literatura sobre arborização urbana, normalmente sugere-se que uma cidade
tenha no mínimo 10 espécies, cada uma com 10% de frequência na cidade. Em
tese ter espécies acima desse percentual expõe a arborização a um risco, pois
existindo a incidência de um patógeno (ser vivo causador de doenças) e esse
possuindo certa preferência por determinada espécie, ou que a espécie seja mais

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
vulnerável a esse patógeno, o ataque pode acarretar uma infestação muito danosa,
principalmente se a frequência dessa espécie for acima de 10%. Outro detalhe
importante é que quanto mais diversidade de espécies existir na cidade mais atra-
ção de variados tipos de polinizadores e dispersadores de sementes ocorrerá. Por
isso para o Brasil, um país tropical, com enorme biodiversidade, o ideal é pen-
sar em ter de 3 a 5% para cada espécie, aumentando ainda mais a diversidade
(GREY; DENEKE, 1978; SAMPAIO; DE ANGELIS, 2008).
Para se pensar em quais espécies utilizar, além de aspectos físicos do local
(fiação elétrica, tamanho de calçada, tubulações, insolação) deve-se pensar tam-
bém em características da espécie em relação a sua adaptabilidade, sobrevivência
e no desenvolvimento dessa espécie no local de plantio.
Uma arborização urbana mal planejada pode acarretar muitos prejuízos e
incômodos, por isso atualmente municípios de médio e grande porte são cha-
mados pelo ministério público a apresentarem Planos de Diretor de Arborização
Urbana.
O Plano Diretor de Arborização de vias públicas fica conceituado como a
formulação e o estabelecimento de métodos, medidas e diretrizes a serem ado-
tadas para o direcionamento do gerenciamento, planejamento e replanejamento
da arborização urbana, para melhoria do manejo, expansão e preservação das
árvores na cidade. De forma geral as etapas para elaboração desse plano são as
seguintes (SAMPAIO; DE ANGELIS, 2008):
■■ Diagnosticar a situação atual da arborização (Inventário).

PLANEJAMENTO URBANO: ETAPAS E DIMENSÕES


173

■■ Caracterizar o planejamento já existente e as condições atuais de


gerenciamento.
■■ Definir as diretrizes de manejo e expansão da Arborização de Vias Públicas
no município.
■■ Estabelecer um planejamento de composição florística (quais espécies
serão utilizadas).
■■ Estabelecer modificações no sistema de gerenciamento da arborização
urbana melhorando a informatização das ações e documentos referen-
tes à arborização.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

■■ Estabelecer metodologia para manter o inventário permanentemente


atualizado.
■■ Estabelecer um programa de produção e aquisição de mudas compatível
com as diretrizes estabelecidas para substituição e expansão da arboriza-
ção (Padrão de qualidade de mudas e plantio).
■■ Revisar a legislação municipal de proteção à arborização urbana.
■■ Integrar os órgãos gerenciadores da arborização urbana.
■■ Promover o estabelecimento de parcerias entre entidades de interesse
comum (Prefeitura, Universidades etc.).
■■ Iniciar projetos para desenvolvimento de ações que colaborem para a
expansão e melhoria da arborização urbana.

Para definir as espécies a serem utilizadas alguns conceitos básicos devem ser
sempre seguidos:
■■ A implantação da arborização deve funcionar como instrumento para
tornar a cidade mais atrativa para o turismo.
■■ Biodiversidade – Frequência máxima por espécie de 10 até 15% para toda
a cidade (GREY; DENEKE, 1978)
■■ Priorizar espécies nativas.
■■ Nunca inserir espécies exóticas invasoras.

Áreas Verdes Urbanas


174 UNIDADE III

■■ Deve-se priorizar o uso de espécies compatíveis com as condições ambien-


tais e físicas de cada zoneamento ou logradouro a ser planejado.
■■ Deve-se priorizar o uso de espécies de crescimento lento e boa aceitação
de poda em locais abaixo de redes elétricas.
■■ Locais com maior tráfego de veículos e maior poluição devem ter, quando
a estrutura urbana permitir, adensamento maior de vegetação.

Não apenas a seleção das espécies é crucial para um bom planejamento e exe-
cução de uma arborização em vias públicas, outro fator essencial é a qualidade

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
das mudas, pois o estresse que as plantas irão passar em ambiente urbano será
rígido, pois trata-se de um ambiente de forma geral inapropriado, normalmente
com muita poluição, solo compactado, pouca água, poucos nutrientes, além de
outros fatores, ou seja, somente mudas de boa qualidade e de espécies bem sele-
cionadas serão funcionais.
Outra questão relevante diz respeito as espécies exóticas invasoras. Toda e
qualquer espécie desse tipo não é bem-vinda, pois são consideradas a segunda
maior causa de extinção de espécies no planeta, afetando diretamente a biodiver-
sidade, a economia e a saúde humana. Muitos acham que toda espécie de árvore
é benéfica ao meio ambiente, mas trata-se de um engano.
As espécies exóticas invasoras são aquelas originais de outras regiões, ou seja,
não nativas, mas que uma vez introduzidas se estabelecem vigorosamente a ponto
de ocupar os espaços de forma dominante, diminuindo em muito a biodiversi-
dade. Plantando essas espécies na arborização urbana estaremos favorecendo a
ocupação de parques e matas nativas. Espécies de árvores como leucena, alfe-
neiro, uva-do-japão, santa-bárbara são exemplos dessas espécies que vem de
outros países e possuem grande facilidade e vigor no Brasil, se estabelecendo
como pragas (MMA, 2006).

PLANEJAMENTO URBANO: ETAPAS E DIMENSÕES


175

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Prezado(a) aluno(a), nesta unidade, conceituamos os principais termos envolvidos


diretamente no planejamento urbano, vimos as várias etapas e dimensões
dele, analisamos as bases do documento que viabiliza o planejamento urbano e é
essencial a esta disciplina, o chamado Plano diretor e por fim vimos a importân-
cia das áreas verdes urbanas tanto em termos ecológico como para melhoria das
condições urbanas, ligadas diretamente a qualidade de vida de seus habitantes.
Saber de todas essas etapas, dimensões, termos, documentos e mesmo da
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

questão das áreas verdes urbanas colabora para que o gestor imobiliário tenha
visão global do funcionamento de uma cidade (zona urbana) e com isso possa
fazer trabalhos, consultorias e uma gestão melhor de empreendimentos que
esteja envolvido.
Exemplificando: conhecer o plano diretor de uma cidade ajuda a compre-
ender o mercado de terras, as futuras áreas de expansão e as demandas mais
importantes de uma cidade, portanto uma ótima ferramenta de colaboração na
gestão imobiliária.
Como sabemos, existe cada vez mais informação e pressão da sociedade por
tecnologias e empreendimentos voltados a sustentabilidade, entender os porme-
nores das áreas verdes urbanas e seus benefícios socioambientais e econômicos
tanto para as cidades, como para um loteamento, uma casa, um condomínio ou
para um empreendimento imobiliário qualquer é essencial para possuir diferen-
cial em futuras negociações e planejamentos de empreendimentos imobiliários.
Com isso, chegamos ao fim de mais uma unidade, que novamente possui con-
teúdo necessário para o pleno entendimento das unidades sequentes, portanto
é de extrema importância que o entendimento das informações aqui descritas
fique bem consolidado para um aproveitamento sólido dessa disciplina.
Nos encontramos na próxima unidade para novos assuntos e vínculos.

Considerações Finais
176

A HISTÓRIA DE SIBI
Lembro-me de ter conhecido Sibi assim que ela nasceu. É sempre emocionante presen-
ciar um nascimento, mas o fato é que não só vi Sibi nascer como também vi ela crescer
e se desenvolver.
Nasceu delicada e frágil, tendo ainda que enfrentar muitas dificuldades na infância. A
alimentação era precária e tinha de ser dividida entre muitos. Faltavam também carinho
e atenção. Mesmo com tudo que sofreu no início da vida, Sibi sempre foi cheia de boas
ações.
Quando alcançou a idade de poder sair daquele lugar onde viveu por anos sob condi-
ções precárias, foi forçada a viver em um local pior ainda, diferente das terras paradisí-
acas onde moraram seus antepassados. Foi para uma grande cidade. Neste novo lar a
vida não passava de uma subsistência solitária e cinzenta, sem prazeres nem futuro para
seus filhos, onde o respeito por ela era pequeno e, mesmo que fizesse todo esforço para
demonstrar seu sofrimento, acabava sempre passando despercebida.
Além de ser muitas vezes ignorada e sofrer maus tratos, preconceito, sede e fome, ti-
nha também que suportar críticas por pequenas peculiaridades de sua existência que
incomodavam algumas pessoas. Estes vizinhos mal-humorados reclamavam do espaço
que Sibi ocupava, do jeito que ela se enfeitava e diziam até que ela era perigosa. O mais
absurdo disso tudo é que a função que Sibi exercia era importante. Ela beneficiava a
todos que viviam por ali. Sofreu e mesmo assim quase tudo que proporcionou foram
coisas boas.
Sinto-me mal, pois vi tudo isso acontecer e fiz pouco para ajudar. Quando Sibi morreu
assassinada sorrateiramente porque estava atrapalhando a propaganda e marketing de
uma empresa, fiquei decepcionado com as pessoas e comigo mesmo.
Um belo dia fui chamado para falar sobre minha amiga Sibipiruna (Poincianella pluviosa
var. peltophoroides), para as mesmas pessoas que usaram e abusaram dela a vida inteira
e pude ver que onde mais deveria se ter respeito é onde menos se tem. Relembrei a his-
tória daquela árvore que saiu dos viveiros municipais pouco estruturados e foi viver no
meio urbano, onde não tinha espaço suficiente para criar nutrientes, onde faltava água
e sobrava fumaça tóxica, onde suas sementes não tinham como germinar, onde injúrias
físicas e vandalismos eram constantes, onde pessoas reclamavam da sujeira das folhas e
dos frutos ao invés de enxergar os benefícios do verde e finalmente, onde foi anelada e
morreu por que tampava o logotipo de uma loja. Ninguém chorou ou deu importância,
mas isso é rotineiro em nossas cidades.
Fonte: SAMPAIO, A.C.F. (2016, online)6
177

1. Considere as seguintes definições e termos:


I. Trata-se de uma ferramenta de investigação para prever o futuro e com essa
previsão determinar ações para que exista um novo futuro, diferente do pre-
visto, melhorado. Um futuro que traga benefícios de longo prazo para a so-
ciedade, principalmente em qualidade de vida e sustentabilidade de recursos
ambientais.
II. Instrumento básico, exigido por lei, de um processo de planejamento munici-
pal para a implantação de uma política de desenvolvimento urbano, nortean-
do a ação dos agentes públicos e privados.
III. Um conjunto de instrumentos, atividades, tarefas e funções que objetivam
determinar um bom funcionamento de uma cidade. Deve responder às ne-
cessidades e demandas da população e dos vários agentes privados, públicos
e comunitários de forma harmônica, mesmo havendo grandes conflitos de
interesses.
A. Governança.
B. Gestão Urbana.
C. Planejamento Urbano.
D. Plano Diretor.
Assinale a alternativa que elenca corretamente as definições aos termos:
a. I – C; II – D e III -B.
b. I – A; II – D e III -B.
c. I – C; II – D e III -A.
d. I – D; II – C e III -B.
e. I – C; II – B e III - D.

2. Seguindo a didática e divisões salientadas por Duarte (2011) um planejamento


urbano deve consistir em três etapas. Assinale a alternativa que elenca essas
etapas:
a. Análise, Diagnóstico e Prognóstico.
b. Diagnóstico, Gestão e Planejamento.
c. Planejamento, Plano diretor e Gestão.
d. Análise, Propostas e Gestão.
178

3. Duarte (2011) demonstra que o planejamento urbano e sua gestão urbana po-
dem ser divididos em várias dimensões de atuação. Não por coincidência grande
parte dessas dimensões são também as dimensões da Sustentabilidade. Assina-
le a alternativa que elenca corretamente dimensões do planejamento urbano:
a. Ambiental, Social e Cultural.
b. Econômica, Infraestrutural e Estética.
c. Ambiental, Social, Econômica e Territorial.
d. Ecológica, Ambiental e Administrativa.
e. Econômica, Social e Industrial.

4. A humanidade está cada vez mais urbana e com isso o vínculo com áreas natu-
rais, com um entendimento e vivência maior com a natureza tende a se enfra-
quecer. A existência de áreas verdes urbanas acaba por tentar mitigar esse efeito
de desconexão da humanidade com a natureza, trazendo para as áreas urbanas
mais verde, mais vida. Assinale a alternativa que demonstre outros benefícios
das áreas verdes urbanas:
a. Diminuição do preconceito.
b. Melhoras na desigualdade social.
c. Cura de transtornos mentais.
d. Diminuição de Poluição Atmosférica.
e. Diminuição de O2.

5. O SNUC agrupa as unidades de conservação em dois grupos, de acordo com


seus objetivos de manejo e tipos de uso: Proteção Integral e Uso Sustentável.
Assinale a alternativa que demonstra exemplos de unidades de conservação
do grupo Proteção Integral:
a. RPPN e Estação Ecológica.
b. RESEX e RPPN.
c. Parque Nacional e RESEX.

d. Refúgio da Vida Silvestre e Estação Ecológica.


MATERIAL COMPLEMENTAR

Terra Prometida
Ano: 2012
Diretor: Gus Van Sant
Sinopse: Steve Butler (Matt Damon) trabalha numa
empresa especializada em extração de gás. Um dia, lhe
é solicitado que viaje até uma cidade do interior para
convencer os moradores da região que eles não devem
se opor à chegada da empresa extratora. Porém, ao lidar
diariamente com as pessoas, Steve acaba questionando
suas próprias convicções.

Para saber mais sobre como foi o processo de evolução para construção do Central Park em
Nova York veja o vídeo indicado. Se trata da história da Conservação do Central Park (que nos
espelhamos).

<https://www.youtube.com/watch?v=iKd4lJR9A2I>.

Material Complementar
REFERÊNCIAS

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REFERÊNCIAS

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pacos-verdes-urbanos-artigo-de-ivan-andre-alvarez>. Acesso em: 28 out. 2016.
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4
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pdf>. Acesso em: 28 out. 2016.
183
GABARITO

1. A.
2. D.
3. C.
4. D.
5. D.
Professor Dr. André Cesar Furlaneto Sampaio

PLANEJAMENTO URBANO:

IV
UNIDADE
INSTRUMENTOS LEGISLATIVOS
DE PLANEJAMENTO URBANO

Objetivos de Aprendizagem
■■ Compreender os principais instrumentos para planejamento urbano
da lei Estatuto da Cidade.
■■ Compreender as designações básicas do Zoneamento Urbano e do
Parcelamento do solo.
■■ Conhecer detalhes básicos sobre Incorporações Imobiliárias..

Plano de Estudo
A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade:
■■ Análise das principais ferramentas do estatuto da cidade
■■ Zoneamento urbano e parcelamento do solo
■■ Incorporações imobiliárias
187

INTRODUÇÃO

Caro(a) aluno(a), nesta unidade entraremos em características legislativas e


administrativas do planejamento urbano de cunho mais prático. Trataremos de
leis importantes que direcionam as ações de planejamento urbano no Brasil, em
especial o Estatuto da Cidade.
O Estatuto da Cidade (Lei no 10.257, de 2001) é a lei maior em termos de
planejamento urbano e nela ficam determinadas minúcias para a elaboração de
um Plano Diretor Urbano, ficando estabelecidos diversos instrumentos para um
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

planejamento urbano eficiente. No próprio Estatuto da Cidade ainda se estabe-


lecem os preceitos para o Zoneamento urbano, que é a base para se organizar
o uso do solo de uma cidade. Porém, vale salientar que as leis dão o suporte e
direcionamento, mas isso não impede de existirem equívocos técnicos e admi-
nistrativos e atuações políticas que acarretem um planejamento urbano ineficaz.
Trataremos também da lei de parcelamento do solo e incorporações imo-
biliárias, ambas intimamente ligadas com negócios imobiliários, leis que lidam
com a base do mercado atualmente, ou seja, importantes para você, futuro pro-
fissional deste ramo.
Nessas leis existem pormenores que devem ser vistos com cuidado, pois
demonstram conceitos e instrumentos legislativos que quando bem entendidos
abrem possibilidades em termos de gestão política, administrativa e técnica, ou
seja, são a base para um bom gerenciamento de diferentes tipos de atividades,
mas principalmente aquelas ligadas a gestão urbana.
Você deve estar preparado, pois é uma unidade que trata de leis, por, isso de
certo modo, cansativa e exigente, mas para que não fique desanimado é importante
frisar que tendo o entendimento dessa base legal bem consolidado virão muitos
benefícios, pois poucos são aqueles que realmente possuem um bom conheci-
mento das leis, mesmo essas sendo a base administrativa do Brasil. Boa leitura!

Introdução
188 UNIDADE IV

ANÁLISE DAS PRINCIPAIS FERRAMENTAS DO


ESTATUTO DA CIDADE

O Brasil por muitos anos vem tendo o acesso à terra, à busca pela igualdade
social e o respeito ao meio ambiente como agendas políticas polêmicas e neces-
sárias. Porém, continuamos a ter uma desigualdade social elevada, um acesso
à terra urbana e rural ainda dificultoso e alta degradação ambiental ocorrendo
em nossa sociedade. No decorrer dessas buscas uma incontestável vitória para
um Brasil melhor foi à formulação e promulgação da Constituição Federal de

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
1988, que mesmo com algumas emendas ainda hoje pode ser considerada uma
legislação que advoga em prol do planejamento de longo prazo e delineia bons
caminhos para um Brasil mais justo.
Um exemplo dos benefícios de nossa
Constituição são as leis importantes
que foram formuladas seguindo seus
princípios e determinações, dentre as
quais encontra-se o chamado Estatuto
da Cidade (Lei no 10.257, de 2001).
Foi na Constituição Federal de 1988
que pela primeira vez na história, foi
incluído um capítulo específico para
a política urbana, prevendo uma série
de instrumentos (capítulo II, 1988,
on-line)1:
Art. 182 - a política de desenvolvimento urbano, executada pelo Poder
Público Municipal, conforme diretrizes gerais fixadas em lei tem por
objetivo ordenar o pleno desenvolvimento das funções sociais da cida-
de e garantir o bem estar de seus habitantes.

■■ § 1º - o plano diretor, aprovado pela Câmara Municipal, é o instrumento


básico da política de desenvolvimento e expansão urbana;
■■ § 2º - a propriedade urbana cumpre sua função social quando atende às
exigências fundamentais de ordenação de cidade, expressa no plano diretor.

PLANEJAMENTO URBANO: INSTRUMENTOS LEGISLATIVOS DE PLANEJAMENTO URBANO


189

O Estatuto da Cidade foi criado para regulamentar os arts. 182 e 183 da Constituição
Federal, estabelecendo diretrizes gerais da política urbana e dando outras provi-
dências. A partir de 2001, o texto da constituição de 1988, o Estatuto da Cidade
(Lei 10.257/2001) e a Medida Provisória nº 2.220/01, deram as diretrizes para a
política urbana do país, nos níveis federal, estadual e municipal. Outras leis tam-
bém colaboram na organização e diretrizes. Algumas das principais são:
■■ Lei nº 6.766/79 – Dispõe sobre o Parcelamento do Solo Urbano e dá outras
Providências (BRASIL, 79, on-line).2
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

■■ Lei nº 10.098/2000 – Normas gerais de acessibilidade das pessoas portado-


ras de deficiência ou com mobilidade reduzida (BRASIL, 2000, on-line).3
■■ LEI Nº 12.305/2010 - institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos;
altera a Lei no 9.605, de 12 de fevereiro de 1998; e dá outras providências
(BRASIL, 2010, on-line).4

O planejamento urbano desejado por estas leis tem alta relação com a chamada
Função Social da Propriedade Urbana, que entende que para as propriedades
urbanas serem organizadas e geridas por determinações legais do poder público,
então essas devem estar harmonizadas dentro dos interesses da coletividade,
para aumentar o bem estar comum. Ou seja, para que uma propriedade urbana
cumpra sua função social ela deve estar enquadrada dentro das determinações
das leis citadas acima, principalmente a Constituição e o Estatuto da Cidade.
De forma geral, o Estatuto da Cidade é considerado por uma ampla parcela
de profissionais, políticos e legisladores como um instrumento construído com
muito esforço social coletivo, com alta legitimidade, e que leva o país a entrar
em um contexto de transformação extremamente benéfico em termos sociais,
econômicos e ambientais. Mundialmente essa lei é prestigiada.
O Estatuto da Cidade (EC), lei federal brasileira nº 10.257, aprovada em
2001, tem méritos que justificam seu prestígio em boa parte dos países
do mundo. As virtudes do EC não se esgotam na qualidade técnica ou
jurídica de seu texto. A lei é uma conquista social cujo desenrolar se
estendeu durante décadas. Sua história é, portanto, exemplo de como
setores de diversos extratos sociais (movimentos populares, entidades
profissionais, sindicais e acadêmicas, pesquisadores, ONGs, parlamen-
tares e prefeitos progressistas) pode persistir muitos anos na defesa de
uma ideia e alcançá-la, mesmo num contexto adverso. Ela trata de reu-

Análise das Principais Ferramentas do Estatuto da Cidade


190 UNIDADE IV

nir, por meio de um enfoque holístico, em um mesmo texto, diversos


aspectos relativos ao governo democrático da cidade, à justiça urbana
e ao equilíbrio ambiental. Ela traz à tona a questão urbana e a insere
na agenda política nacional num país, até pouco tempo, marcado pela
cultura rural (MARICATO, 2010, p. 5).

DIRETRIZES DO ESTATUTO DA CIDADE

As diretrizes do Estatuto da Cidade são importantes para entender a ideolo-

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
gia e os objetivos principais pretendidos pela Lei nº 10.257, seguem (Artigo 2,
2001, on-line)5:
I – garantia do direito a cidades sustentáveis, entendido como o direito à
terra urbana, à moradia, ao saneamento ambiental, à infraestrutura ur-
bana, ao transporte e aos serviços públicos, ao trabalho e ao lazer, para as
presentes e futuras gerações;

II – gestão democrática por meio da participação da população e de asso-


ciações representativas dos vários segmentos da comunidade na formu-
lação, execução e acompanhamento de planos, programas e projetos de
desenvolvimento urbano;

III – cooperação entre os governos, a iniciativa privada e os demais se-


tores da sociedade no processo de urbanização, em atendimento ao in-
teresse social;

IV – planejamento do desenvolvimento das cidades, da distribuição es-


pacial da população e das atividades econômicas do Município e do terri-
tório sob sua área de influência, de modo a evitar e corrigir as distorções
do crescimento urbano e seus efeitos negativos sobre o meio ambiente;

V – oferta de equipamentos urbanos e comunitários, transporte e servi-


ços públicos adequados aos interesses e necessidades da população e às
características locais;

VI – ordenação e controle do uso do solo, de forma a evitar:

■■ a) a utilização inadequada dos imóveis urbanos;


■■ b) a proximidade de usos incompatíveis ou inconvenientes;

PLANEJAMENTO URBANO: INSTRUMENTOS LEGISLATIVOS DE PLANEJAMENTO URBANO


191

■■ c) o parcelamento do solo, a edificação ou o uso excessivos ou


inadequados em relação à infraestrutura urbana;
■■ d) a instalação de empreendimentos ou atividades que possam
funcionar como pólos geradores de tráfego, sem a previsão
da infraestrutura correspondente;
■■ e) a retenção especulativa de imóvel urbano, que resulte na
sua subutilização ou não utilização;
■■ f) a deterioração das áreas urbanizadas;
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

■■ g) a poluição e a degradação ambiental;


■■ h) a exposição da população a riscos de desastres.

VII – integração e complementaridade entre as atividades urbanas e ru-


rais, tendo em vista o desenvolvimento socioeconômico do Município e
do território sob sua área de influência;

VIII – adoção de padrões de produção e consumo de bens e serviços e


de expansão urbana compatíveis com os limites da sustentabilidade am-
biental, social e econômica do Município e do território sob sua área de
influência;

IX – justa distribuição dos benefícios e ônus decorrentes do processo de


urbanização;

X – adequação dos instrumentos de política econômica, tributária e fi-


nanceira e dos gastos públicos aos objetivos do desenvolvimento urbano,
de modo a privilegiar os investimentos geradores de bem-estar geral e a
fruição dos bens pelos diferentes segmentos sociais;

XI – recuperação dos investimentos do Poder Público de que tenha resul-


tado a valorização de imóveis urbanos;

XII – proteção, preservação e recuperação do meio ambiente natural e


construído, do patrimônio cultural, histórico, artístico, paisagístico e ar-
queológico;

XIII – audiência do Poder Público municipal e da população interessada


nos processos de implantação de empreendimentos ou atividades com
efeitos potencialmente negativos sobre o meio ambiente natural ou cons-
truído, o conforto ou a segurança da população;

Análise das Principais Ferramentas do Estatuto da Cidade


192 UNIDADE IV

XIV – regularização fundiária e urbanização de áreas ocupadas por po-


pulação de baixa renda mediante o estabelecimento de normas especiais
de urbanização, uso e ocupação do solo e edificação, consideradas a situ-
ação socioeconômica da população e as normas ambientais;

XV – simplificação da legislação de parcelamento, uso e ocupação do


solo e das normas edilícias, com vistas a permitir a redução dos custos e
o aumento da oferta dos lotes e unidades habitacionais;

XVI – isonomia de condições para os agentes públicos e privados na pro-


moção de empreendimentos e atividades relativos ao processo de urba-
nização, atendido o interesse social;

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
XVII - estímulo à utilização, nos parcelamentos do solo e nas edificações
urbanas, de sistemas operacionais, padrões construtivos e aportes tecno-
lógicos que objetivem a redução de impactos ambientais e a economia de
recursos naturais.

INSTRUMENTOS DO ESTATUTO DA CIDADE

O Estatuto da Cidade (2001, on-line)5 determina vários instrumentos de cunho


administrativo e legislativo para a efetivação de um planejamento urbano enqua-
drado dentro das diretrizes determinadas pela lei. Alguns desses instrumentos
são amplamente conhecidos e muitas vezes a própria nominação facilita sua
caracterização, outros são mais peculiares e diferenciados, a esses daremos des-
taque e definição mais detalhada:
Art. 4o  do Estatuto da Cidade: para os fins desta Lei, serão utilizados,
entre outros instrumentos:

I – planos nacionais, regionais e estaduais de ordenação do territó-


rio e de desenvolvimento econômico e social;
II – planejamento das regiões metropolitanas, aglomerações urba-
nas e microrregiões;
III – planejamento municipal, em especial:
■■ a) plano diretor;
■■ b) disciplina do parcelamento, do uso e da ocupação do solo;

PLANEJAMENTO URBANO: INSTRUMENTOS LEGISLATIVOS DE PLANEJAMENTO URBANO


193

■■ c) zoneamento ambiental;
■■ d) plano plurianual;
■■ e) diretrizes orçamentárias e orçamento anual;
■■ f) gestão orçamentária participativa;
■■ g) planos programas e projetos setoriais;
■■ h) planos de desenvolvimento econômico e social;
IV – institutos tributários e financeiros:
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

■■ a) imposto sobre a propriedade predial e territorial urbana


- IPTU;
■■ b) contribuição de melhoria;
■■ c) incentivos e benefícios fiscais e financeiros;
V – institutos jurídicos e políticos:
■■ a) desapropriação;
■■ b) servidão administrativa;
■■ c) limitações administrativas;
■■ d) tombamento de imóveis ou de mobiliário urbano;
■■ e) instituição de unidades de conservação;
■■ f) instituição de zonas especiais de interesse social;
■■ g) concessão de direito real de uso;
■■ h) concessão de uso especial para fins de moradia;
■■ i) parcelamento, edificação ou utilização compulsórios;
■■ j) usucapião especial de imóvel urbano;
■■ l) direito de superfície;
■■ m) direito de preempção;

Análise das Principais Ferramentas do Estatuto da Cidade


194 UNIDADE IV

■■ n) outorga onerosa do direito de construir e de alteração de


uso;
■■ o) transferência do direito de construir;
■■ p) operações urbanas consorciadas;
■■ q) regularização fundiária;
■■ r) assistência técnica e jurídica gratuita para as comunidades
e grupos sociais menos favorecidos;
■■ s) referendo popular e plebiscito;

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
■■ t) demarcação urbanística para fins de regularização fundiária;

■■ u) legitimação de posse (Incluído pela Medida Provisória nº


459, de 2009)

■■ v) legitimação de posse (Incluído pela Lei nº 11.977, de 2009)


VI – estudo prévio de impacto ambiental (EIA) e estudo prévio de
impacto de vizinhança (EIV).

Vamos para os destaques dos instrumentos mais peculiares.

MECANISMOS CONSTITUCIONAIS DE PLANEJAMENTO E


EXECUÇÃO ORÇAMENTÁRIOS

Os mecanismos constitucionais de planejamento e execução orçamentários são:


o Plano Plurianual (PPA), que contém um planejamento a ser realizado durante
os quatro anos de mandato do Prefeito, a Lei de Diretrizes Orçamentária (LDO),
que compreende as metas e prioridades da administração pública para o ano sub-
sequente e define o que vai ser apresentado na Lei Orçamentária Anual (LOA).
Esta por sua vez, apresenta a previsão de receitas e despesas do município para
o ano seguinte, demonstra o que a administração pretende arrecadar e onde pre-
tende investir os recursos arrecadados.

PLANEJAMENTO URBANO: INSTRUMENTOS LEGISLATIVOS DE PLANEJAMENTO URBANO


195

Fato é que cada governo tem seu PPA, ele existe para o governo Federal,
Estadual e Municipal. É aprovado por lei quadrienal, tendo vigência do segundo
ano de um mandato majoritário até o final do primeiro ano do mandato seguinte,
respeitando as épocas de eleições de cada governo. Portanto, apesar de sua dura-
ção ser de quatro anos, sua vigência não coincide com a dos mandatos.

CONTRIBUIÇÃO DE MELHORIA
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Um dos objetivos dessa tributação que pode ser utilizada como instrumento
de planejamento urbano é vetar o enriquecimento injusto devido à execução
de obras públicas que privilegiem regiões de uma cidade. A seguir citações que
definem com maior detalhamento:
[...] a contribuição de melhoria é um tributo instituído pelo Decreto-
-Lei 195 e pelo CTN, que na Constituição da República Federativa do
Brasil de 1988 está disposta no seu art. 145, III. É aplicada em vários
países, destacando-se três sistemas básicos de cobranças: Sistema de
custo, sistema de valorização e sistema misto, todavia, é um tributo de
aspecto quantitativo simplificado, já que não possui base de cálculo e
não deve ser confundido com a taxa e com o IPTU com alíquota dife-
renciada pela localização do imóvel (MACHADO, 2012, p. 1).

A espécie de tributo cujo fato gerador é a valorização de imóvel do


contribuinte, decorrente de obra pública, e tem por finalidade a justa
distribuição dos encargos públicos, fazendo retornar ao Tesouro Pú-
blico o valor despendido com a realização de obras públicas, na medi-
da em que destas decorra valorização de imóveis (MACHADO, 2004,
p.414,415).

ZONAS ESPECIAIS DE INTERESSE SOCIAL

São áreas demarcadas no território de uma cidade, para assentamentos habita-


cionais de população de baixa renda. Devem estar previstas no Plano Diretor e
demarcadas na Lei de Zoneamento. Podem ser áreas já ocupadas por assenta-
mentos precários, e podem também ser demarcadas sobre terrenos vazios. No

Análise das Principais Ferramentas do Estatuto da Cidade


196 UNIDADE IV

primeiro caso, visam flexibilizar normas e padrões urbanísticos para, por meio
de um plano específico de urbanização, regularizar o assentamento. No caso de
áreas vazias, o objetivo é aumentar a oferta de terrenos para habitação de inte-
resse social e reduzir seu custo (DUARTE, 2011).
Os objetivos do estabelecimento de ZEIS (Zonas Especiais de Interesse
Social), de acordo com o Estatuto das Cidades são:
■■ Permitir a inclusão de parcelas da população que foram marginalizadas
da cidade, por não terem tido possibilidades de ocupação do solo urbano
dentro das regras legais.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
■■ Permitir a introdução de serviços e infraestrutura urbana nos locais aonde
eles antes não chegavam, melhorando as condições de vida da população.
■■ Regular o conjunto do mercado de terras urbanas, pois reduzindo-se as
diferenças de qualidade entre os diferentes padrões de ocupação, reduz-
-se também as diferenças de preços entre elas.
■■ Introduzir mecanismos de participação direta dos moradores no processo
de definição dos investimentos públicos em urbanização para consolidar
os assentamentos.
■■ Aumentar a arrecadação do município, pois as áreas regularizadas pas-
sam a poder pagar impostos e taxas- vistas nesse caso muitas vezes com
bons olhos pela população, pois os serviços e infraestrutura deixam de
ser encarados como favores, e passam a ser obrigações do poder público.
■■ Aumentar a oferta de terras para os mercados urbanos de baixa renda.

CONCESSÃO DE DIREITO REAL DE USO

Este instrumento de política pública não foi uma criação do Estatuto da Cidade,
o Decreto – Lei 271 de 28.02.67(1967, on-line)18, anteriormente já previa a
Concessão de Direito Real de Uso, em seu art. 7º, caput, como:
[...] é instituída a concessão de uso de terrenos públicos ou particula-
res remunerada ou gratuita, por tempo certo ou indeterminado, como
direito real resolúvel, para fins específicos de regularização fundiária

PLANEJAMENTO URBANO: INSTRUMENTOS LEGISLATIVOS DE PLANEJAMENTO URBANO


197

de interesse social, urbanização, industrialização, edificação, cultivo da


terra, aproveitamento sustentável das várzeas, preservação das comuni-
dades tradicionais e seus meios de subsistência ou outras modalidades
de interesse social em áreas urbanas (Lei 271 de 28.02.67, art. 7).

A Concessão de Direito Real de Uso trata-se, portanto, de um contrato por meio


do qual a Administração transfere do uso de terreno público ou privado – não se
mencionando a transferência de domínio – por tempo determinado ou indeter-
minado, oneroso ou gratuito. Com o compromisso por parte do concessionário
de destiná-lo estritamente dentro dos fins previstos em Lei, sendo assim aten-
dido o princípio da supremacia do interesse público. Vamos ver os pormenores
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

de como Ferreira (2016, on-line)6 trata o tema:


Chamada Concessão de direito real de uso, reconhece a outorga de imó-
veis da União em favor de pessoa jurídica de direito público ou de en-
tidades sem fins lucrativos para o cumprimento de interesse público ou
social, ou, ainda, objetivando o aproveitamento econômico de interesse
nacional (FERREIRA, 2016, p 1)6.

A concessão do direito real de uso é admitida somente em favor dos


Estados membros, dos Municípios, do Distrito Federal ou de entidade
sem fins lucrativos, que seja voltada para a educação, a cultura, a saúde
ou a assistência social (FERREIRA, 2016, p 1)6.
Admite-se, também, a concessão do direito real de uso a favor de en-
tidade da administração pública federal indireta (FERREIRA, 2016, p
1)6.
Para que seja aplicada tal concessão, algumas regras devem ser segui-
das. Entre elas, o poder exclusivo da União em outorgar o direito real
de uso pela cessão de direitos, podendo ser redigido contrato com cláu-
sulas de condições especiais para a concessão. Assim sendo, tal con-
cessão é um ato administrativo do Estado, que deve como todos atos
dessa natureza, ser averbado em cartório de registro de imóveis. Ao
ser realizado requerimento para a concessão, a Secretaria de Patrimô-
nio da União deve estudar o pedido, afim de responde-lo, podendo ser
celebrada a cessão de direitos mediante o estabelecido no Decreto lei
9.760/46. As regras do usufruto e do uso são aplicadas à concessão do
direito real de uso, em caráter subsidiário (FERREIRA, 2016, p 1)6.
A concessão pode ser extinta por desistência da entrega do bem por
parte do poder que o concede, ou seja, a União. Também pode ser ex-
tinto pela morte do beneficiário da concessão ou pelo simples termo

Análise das Principais Ferramentas do Estatuto da Cidade


198 UNIDADE IV

final, pungido ao contrato. Tal concessão somente é realizada em prol o


interesse nacional e bem estar social, assim sendo, em favor da coletivi-
dade. Caso não sejam respeitadas tais condições, pela não utilização da
coisa em conformidade com o que se estabelece dentro destes critérios,
a extinção do contrato de concessão é eminente e certa (FERREIRA,
2016, p 1)6.

CONCESSÃO DE USO ESPECIAL PARA FINS DE MORADIA

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Trata-se de um instrumento semelhante ao usucapião, porém não acarreta a aqui-
sição da propriedade, mas sim uma concessão de uso, explicitamente e somente
para uso como moradia. O pedido pode ser feito administrativamente pelo inte-
ressado e, nesse caso, a Administração Pública tem o prazo de doze meses para
apreciá-lo, a contar da data do protocolo do requerimento. Havendo recusa (ou
omissão) administrativa, o pedido pode ser feito judicialmente. A concessão tem
certas peculiaridades especificadas nas citações a seguir:
[...] assim, será concedido ao ocupante de imóvel público urbano de
até 250 metros quadrados, pertencente à Administração direta ou in-
direta, o direito ao uso e não ao domínio. Como requisitos, exige-se
que o morador não possua outro imóvel urbano ou rural e que utilize o
imóvel público para moradia sua ou de sua família, por mais de cinco
anos pacífica e ininterruptamente, sendo válido somar ao seu o tempo
em que seu antecessor ocupara o imóvel, desde que também de forma
contínua, até 31 de junho de 2001 (PESSOA; VIEIRA, 2016, on-line)7.

Existe, também, a Concessão coletiva, quando se tratar de imóveis com


mais de 250 metros quadrados ocupados por população de baixa ren-
da que preencha os requisitos antes mencionados. Tal modalidade é
autorizada quando não seja possível identificar o terreno ocupado por
cada possuidor individualmente, situação em que será atribuída igual
fração ideal (250 m²) a cada um deles, não sendo necessário observar a
real dimensão do terreno em que cada um ocupe, ressalvada a hipótese
em que os ocupantes estabeleçam frações ideais diferenciadas através
de acordo escrito, sem que, ao efetuarem a divisão, ultrapassem os 250
metros quadrados da fração ideal a cada possuidor (PESSOA; VIEIRA,
2016, on-line)7.

PLANEJAMENTO URBANO: INSTRUMENTOS LEGISLATIVOS DE PLANEJAMENTO URBANO


199

USUCAPIÃO ESPECIAL DE IMÓVEL URBANO

Trata-se de uma modalidade de usucapião também denominada de usucapião


pro moradia ou usucapião pro misero, uma vez que transforma, em propriedade,
a posse do possuidor que não tiver qualquer outro imóvel, rural ou urbano, para
fins de habitação.
Para que seja válida essa modalidade de usucapião existem alguns requisitos:
o imóvel deve ter extensão de, no máximo, 250 metros quadrados; posse mansa
e pacífica por um lapso temporal de 5 (cinco) anos ininterruptos; não ser o pos-
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

suidor proprietário de qualquer outro imóvel rural ou urbano, e que o possuidor


utilize esse imóvel para fins de moradia sua ou de sua família. Nesse sentido dis-
põe o art. 183 da CR/88 e art. 1.240 do CC (Constituição Federal, 1988):
Art. 183 - Aquele que possuir como sua área urbana de até duzentos
e cinquenta metros quadrados, por cinco anos, ininterruptamente e
sem oposição, utilizando-a para sua moradia ou de sua família, adqui-
rir-lhe-á o domínio, desde que não seja proprietário de outro imóvel
urbano ou rural.

Art. 1.240. Aquele que possuir, como sua, área urbana de até duzen-
tos e cinquenta metros quadrados, por cinco anos ininterruptamente e
sem oposição, utilizando-a para sua moradia ou de sua família, adqui-
rir-lhe-á o domínio, desde que não seja proprietário de outro imóvel
urbano ou rural.

DIREITO DE SUPERFÍCIE

De acordo com Miotto (2009, on-line)8, trata-se de uma concessão realizada


por um proprietário de terreno a outra pessoa, especificamente para constru-
ção e utilização durante certo tempo, salvo para realização de obra no subsolo a
não ser que inerente ao objeto da concessão, que pode ser gratuita, ou mediante
pagamento de valor fixo à vista ou parcelado.

Análise das Principais Ferramentas do Estatuto da Cidade


200 UNIDADE IV

Pela utilização, o superficiário deverá pagar todos os encargos e tributos


que incidam sobre o imóvel como um todo, terreno mais construção, como se
proprietário fosse. Esse direito pode ser transferido a terceiros, sem qualquer
necessidade de autorização do concedente (proprietário do terreno), transferin-
do-se também por sucessão. O concedente apenas possui direito de preferência
na eventual alienação do direito de superfície, visando primordialmente à conso-
lidação da propriedade. Igualmente, o superficiário tem preferência na aquisição
do terreno em caso de sua venda pelo concedente.
Uma vez finda a concessão, a construção passará a ser propriedade do con-

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
cedente. Essa incorporação dar-se-á independentemente de indenização, a não
ser que as partes convencionem em contrário no contrato de concessão. Antes
do prazo, a concessão pode se rescindir em caso de destinação diversa ao ter-
reno que porventura venha a ser dada pelo superficiário.

DIREITO DE PREEMPÇÃO

De acordo com os artigos 513 a 520 do Código Civil (CC), trata-se do direito
de preferência que tem o vendedor de um bem no caso do comprador querer
vendê-lo após a sua aquisição. Este direito, que também é denominado direito
de prelação, pode ser convencional, quando assim for acertado entre as partes,
ou legal, no caso da venda de bem desapropriado pelo poder público. Ou seja,
se o poder público for vender um bem que foi desapropriado, seu antigo pro-
prietário terá garantido o direito de preferência em adquiri-lo pelo preço pago
na desapropriação.

OUTORGA ONEROSA DO DIREITO DE CONSTRUIR E DE


ALTERAÇÃO DE USO

A Outorga Onerosa do Direito de Construir, também conhecida como “solo


criado”, refere-se à concessão emitida pelo Município para que um proprietário de
imóvel edifique acima do limite estabelecido pelo Coeficiente de Aproveitamento

PLANEJAMENTO URBANO: INSTRUMENTOS LEGISLATIVOS DE PLANEJAMENTO URBANO


201

Básico (conceituado no tópico referente ao Zoneamento Urbano), mediante con-


trapartida financeira a ser prestada pelo beneficiário.
O objetivo da Outorga Onerosa é trazer novos recursos ao Poder Público, no
intuito de recuperar parte dos investimentos executados para suprir as demandas
geradas pelas altas densidades populacionais nas cidades. Os recursos podem ser
utilizados para (art. 31 ESTATUTO DA CIDADE, 2001, on-line)5):
I – regularização fundiária;

II – execução de programas e projetos habitacionais de interesse


social;
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

III – constituição de reserva fundiária;

IV – ordenamento e direcionamento da expansão urbana;

V – implantação de equipamentos urbanos e comunitários;

VI – criação de espaços públicos de lazer e áreas verdes;

VII – criação de unidades de conservação ou proteção de outras


áreas de interesse ambiental;

VIII – proteção de áreas de interesse histórico, cultural ou paisa-


gístico;

TRANSFERÊNCIA DO DIREITO DE CONSTRUIR

A Transferência do Direito de Construir confere ao proprietário de um lote a


possibilidade de exercer seu potencial construtivo em outro lote, ou de ven-
dê-lo a outro proprietário. Deve ser utilizada, portanto, em áreas que o Poder
Público tenha, por qualquer motivo, interesse em manter com baixa densidade.
Obviamente, as áreas que podem receber o potencial construtivo devem ser
aquelas em que a densificação seja desejável ou, ao menos, tolerável (SABOYA,
2008, on-line)9.

Análise das Principais Ferramentas do Estatuto da Cidade


202 UNIDADE IV

O Estatuto da Cidade (2001, on-line)5, no seu artigo 35 estabelece que esse


instrumento pode ser utilizado em áreas que o Poder Público considere neces-
sárias para:
■■ implantação de equipamentos urbanos e comunitários;
■■ preservação, quando o imóvel for considerado de interesse histórico,
ambiental, paisagístico, social ou cultural;
■■ servir a programas de regularização fundiária, urbanização de áreas ocu-
padas por população de baixa renda e habitação de interesse social.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Um exemplo são aquelas áreas que, por imposição da necessidade de preserva-
ção ambiental ou do Patrimônio Histórico, devem ter seu potencial construtivo
limitado. Nesses casos, a Transferência do Direito de Construir atua como um
fator de amenização da pressão imobiliária nos terrenos, diminuindo a pressão
pela sua ocupação (SABOYA, 2008, on-line)9.
Esse instrumento pode trazer amplos benefícios ambientais, a cidade de
Curitiba, em 2014, iniciou um processo legislativo para aplicar esse instrumento
em relação às áreas naturais em área urbana, que designadas como Reservas
Particulares do Patrimônio Nacional (RPPN) poderiam comercializar seus direi-
tos de construção em outros imóveis, ou seja, permitindo assim a conservação
dessas áreas, que podem constar em regiões valorizadas.

OPERAÇÕES URBANAS CONSORCIADAS

Operações urbanas consorciadas são intervenções pontuais realizadas sob a coor-


denação do Poder Público e envolvendo a iniciativa privada, os moradores e os
usuários do local, buscando alcançar transformações urbanísticas estruturais,
melhorias sociais e valorização ambiental (SABOYA, 2008, on-line)9.
Nesse instrumento, o Poder Público deve delimitar uma área e elaborar um
plano de ocupação, no qual estejam previstos aspectos tais como a implementa-
ção de infraestrutura, a nova distribuição de usos, as densidades permitidas, os
padrões de acessibilidade etc. Trata-se, portanto, de um plano urbanístico em

PLANEJAMENTO URBANO: INSTRUMENTOS LEGISLATIVOS DE PLANEJAMENTO URBANO


203

escala quase local, através do qual podem ser trabalhados elementos de difícil
tratamento nos planos mais genéricos (tais como altura das edificações, rela-
ções entre espaço público e privado, reordenamento da estrutura fundiária etc.)
(SABOYA, 2008, on-line)9.
Como exemplo de utilização desse tipo de instrumento podemos citar as
obras de edificações da zona olímpica feitas no Rio de Janeiro para as Olímpiadas
no Brasil. As construções foram feitas com parcerias público privadas, seguindo
as regras desse instrumento de ordenamento e planejamento urbano.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Cem vezes pensei: Nova York é uma catástrofe; cinquenta vezes, que é uma
bonita catástrofe.
(Le Corbusier)

Análise das Principais Ferramentas do Estatuto da Cidade


204 UNIDADE IV

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
©shutterstock

ZONEAMENTO URBANO E PARCELAMENTO DO SOLO

Zoneamento é um tradicional instrumento do planejamento urbano, profun-


damente difundido durante o século XX, caracterizado pela aplicação de um
sistema legislativo (normalmente em nível municipal) que procura regular o
uso e ocupação do solo urbano por parte dos agentes de produção do espaço
urbano, tais como as construtoras, incorporadoras, proprietários de imóveis e
o próprio Estado.
Ele foi utilizado pela primeira vez na Alemanha, mas foi nos Estados Unidos
que ele ganhou força a partir do início do século XX, e hoje ele é utilizado no
mundo todo, sendo considerado primordial no planejamento das cidades.
O Zoneamento faz parte do Plano Diretor de uma cidade, sendo basicamente
a divisão da cidade em áreas distintas em que apenas determinados usos da terra
e tipos de edifícios podem ser construídos. A lógica utilizada é que certas ativi-
dades não podem permanecer no mesmo circuito, como é o caso das indústrias
e residências; aeroportos e lixões; entre outros.
De acordo com Juergensmeyer e Roberts (2003), para zonear uma cidade é
importante observar os seguintes objetivos:

PLANEJAMENTO URBANO: INSTRUMENTOS LEGISLATIVOS DE PLANEJAMENTO URBANO


205

■■ Controle do crescimento urbano.


■■ Proteção de áreas inadequadas à ocupação urbana.
■■ Minimização dos conflitos entre usos e atividades.
■■ Controle do tráfego.
■■ Manutenção dos valores das propriedades.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Figura 1- Título: Zoneamento Urbano de Rio Branco-AC


Fonte: Araújo (2010, on-line)10

O zoneamento, como parte do Plano Diretor, vai ser delineado e promulgado


como uma lei específica da cidade para ordenar o uso do solo. O Estatuto da
Cidade e outras leis vinculadas acabam por construir alguns princípios que
devem ser seguidos pelo zoneamento:
■■ Deve ter participação popular na sua formulação.
■■ Interesse público deve prevalecer sobre o interesse particular.

Zoneamento Urbano e Parcelamento do Solo


206 UNIDADE IV

■■ Evitar ou diminuir conflitos entre usos e atividades urbanas.


■■ Prevalecimento do transporte público sobre o individual.
■■ Seguir o ideal do desenvolvimento sustentável.
■■ Respeitar os limites ambientais e a legislação específica.
■■ Promover o ordenamento urbanístico.
■■ Valorização do patrimônio cultural, ambiental e paisagístico.
■■ Manutenção e melhoria da qualidade de vida.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
■■ Estimular o desenvolvimento econômico, social e ambiental.

Para que esses princípios sejam cumpridos o zoneamento urbano dispõe dos
chamados Índices e Parâmetros Urbanísticos, que vão ditar as regras nas dife-
rentes zonas da cidade, delimitadas no zoneamento do plano diretor. Cada zona
terá esses índices e parâmetros diferenciados, de modo que os princípios acima
sejam seguidos e seus objetivos atingidos. A seguir vamos detalhar os princi-
pais aspectos desses índices.

COEFICIENTE DE APROVEITAMENTO (CA) OU ÍNDICE DE


APROVEITAMENTO

Parâmetro que visa a controlar o adensamento construtivo das edificações, de


modo a evitar saturação ambiental. Define o máximo de área edificável – ou
potencial construtivo – dos terrenos em cada zoneamento (quanto maior o CA,
maior o potencial construtivo do terreno) (PREFEITURA DO RIO DE JANEIRO,
2009, on-line)11.
O Coeficiente de Aproveitamento é um número que, multiplicado pela área do
lote, indica a quantidade máxima de metros quadrados que podem ser construí-
dos em um lote, somando-se as áreas de todos os pavimentos. Pode ser definido
em básico e máximo. O Coeficiente de Aproveitamento Básico é um índice que
indica o quanto pode ser construído no lote sem que a edificação implique numa

PLANEJAMENTO URBANO: INSTRUMENTOS LEGISLATIVOS DE PLANEJAMENTO URBANO


207

sobrecarga de infraestrutura para o Poder Público. Na maioria dos planos dire-


tores o básico é o usual para a zona determinada e o máximo é aquele que pode
ser atingido utilizando-se de instrumentos como a Outorga Onerosa do Direito
de Construir e a Transferência do Direito de Construir.

Área adicional Coeficiente de


mediante aproveitamento
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

contratapartida ao máximo
Poder Público

Coeficiente de
aproveitamento
básico

Figura 2 – Título: Diferença entre Coeficiente de Aproveitamento Básico e Máximo


Fonte: Saboya (2008, on-line)9

TAXA DE OCUPAÇÃO (TO)

Trata-se da porcentagem da área do terreno que pode ser ocupada pela edifica-
ção ou por sua projeção vertical (quanto maior a TO, maior a área que pode ser
ocupada). Tem objetivo de proteção ambiental e/ou paisagística (PREFEITURA
DO RIO DE JANEIRO, 2009, on-line)11.

Zoneamento Urbano e Parcelamento do Solo


208 UNIDADE IV

GABARITO

Parâmetro que limita a altura das edificações. Tem finalidade paisagística


(PREFEITURA DO RIO DE JANEIRO, 2009, on-line)11.

AFASTAMENTOS MÍNIMOS (LATERAIS E DE FUNDOS)

Parâmetros que visam a evitar que a implantação de uma edificação retire dos

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
vizinhos o direito à iluminação, à ventilação, entre outros (PREFEITURA DO
RIO DE JANEIRO, 2009, on-line)11.

2.5 Quota (Cota) de Terreno por Unidade Residencial (QT)


Parâmetro que define, para cada zoneamento, o número de unidades habi-
tacionais permitido por lote (quanto menor a QT, maior o n.º de unidades)
(PREFEITURA DO RIO DE JANEIRO, 2009, on-line)11.

2.6 Taxa de Permeabilização (TP)


Parâmetro que define a porcentagem do terreno a ser mantida descoberta e
permeável (quanto maior a TP, maior a área do terreno em que a água pode ser
infiltrada no solo) (PREFEITURA DO RIO DE JANEIRO, 2009, on-line)11.

NÚMERO DE OCUPANTES

As várias zonas limitam a construção de estruturas baseando-se no número de


habitantes ou trabalhadores a ocupar a área. Por exemplo, ruas próximas a gran-
des shoppings e arranha-céus podem ficar congestionadas por causa do grande
número de pessoas que entram e saem da dada estrutura. Também chamado zone-
amento por densidade (PREFEITURA DO RIO DE JANEIRO, 2009, on-line)11.

PLANEJAMENTO URBANO: INSTRUMENTOS LEGISLATIVOS DE PLANEJAMENTO URBANO


209

Lei de Uso e Ocupação de Solo: Parâmetros

Galeria de pedestres e embasamento

Fundos
6
Lateral 5
Lateral 4
3
2
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Frontal

Taxa de ocupação: porcentual Afastamento: distância mínima Gabarito: número máximo de


do terreno que pode ser entre a edificação e as linhas pavimentos (andares) e altura
ocupado pela edificação. divisórias do terreno. máxima da edificação.

Índice de aproveitamento do terreno (IAT): Várias possibilidades


para a mesma área
número que, multiplicando pela área do terreno,
construída!
define o valor máximo de m² que podem ser
construídos (área total edificável - ATE), somadas
as áreas de todos os pavimentos.

Parece complicado, mas não é! Veja só:


Terreno = 20 x 30, IAT = 3, Gabarito = 8
1) Primeiro calculamos a área do terreno (A)
Área do terreno (A) = 20 x 30 = 600m²
2) Depois calculamos a área total que pode ser
construída (ATE)
ATE = A x AIT = 400 x 3 = 1800m²
3) Esses 1800m² podem ser divididos em até 48
andares (número máximo de pavimentos).
Existem várias opções para construir! Exemplos:
8 pavimentos de 225m², com 25% de TO
4 pavimentos de 450m², com 50% de TO

Figura 3: Cartilha de exemplificação dos Índices e Parâmetros Urbanísticos


Fonte: Prefeitura do Rio de Janeiro, (2009, on-line)11.

Zoneamento Urbano e Parcelamento do Solo


210 UNIDADE IV

PARCELAMENTO DO SOLO

O parcelamento do solo urbano tem o objetivo de colocar em ordem o espaço


para habitação. Para tanto, foram criadas as leis descritas abaixo:
■■ Lei N° 6.766/79, que dispõe sobre o parcelamento do solo e dá outras
providências.
■■ Lei N° 9.785/99, que altera o Decreto-Lei nº 3.365, de 21 de junho de
1941 (desapropriação por utilidade pública) e as Leis nº 6.015, de 31 de
dezembro de 1973 (registros públicos) e 6.766, de 19 de dezembro de 1979

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
(parcelamento do solo urbano).

Os Estados, Distrito Federal e Municípios podem criar normas complemen-


tares para o parcelamento dos solos, dando ênfase nas características regionais
e locais.
O parcelamento do solo urbano poderá ser realizado mediante parcelamento
ou desmembramento. Loteamento é considerado a divisão voluntária do solo
em lotes com abertura para vias e logradouros públicos. Já o desmembramento
é o simples aproveitamento da zona urbana com as vias existentes.

A Lei nº 9.785/99, em seu 2º artigo (1999, on-line)12, destaca:

§ 1º - Considera-se loteamento a subdivisão da gleba em lotes destinados à edi-


ficação, com abertura de novas vias de circulação, de logradouros públicos ou
prolongamento, modificação ou ampliação das vias existentes.

§ 2º - Considera-se desmembramento a subdivisão de glebas em lotes destina-


dos à edificação, com aproveitamento do sistema viário existente, desde que não
implique na abertura de novas vias e logradouros públicos, nem no prolonga-
mento modificação ou ampliação dos já existentes.

§ 3º - Considera-se lote o terreno servido de infraestrutura básica cujas dimensões


atendam aos índices urbanísticos definidos pelo plano diretor ou lei municipal
para a zona em que se situe.

PLANEJAMENTO URBANO: INSTRUMENTOS LEGISLATIVOS DE PLANEJAMENTO URBANO


211

§ 4º - Consideram-se infraestrutura básica os equipamentos urbanos de esco-


amento das águas pluviais, iluminação pública, redes de esgoto sanitário e
abastecimento de água potável, e de energia elétrica pública e domiciliar e as
vias de circulação pavimentadas ou não.

§ 5º - A infraestrutura básica dos parcelamentos situados nas zonas habitacionais


declaradas por lei como de interesse social (ZHIS) consistirá, no mínimo, de:
I – vias de circulação;
II – escoamento das águas pluviais;
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

III – rede para o abastecimento de água potável; e


IV – soluções para o esgotamento sanitário e para a energia elétrica domiciliar.

A Lei ainda define onde não será permitido o parcelamento do solo:


I – em terrenos alagadiços e inundações, antes de tomadas as providências para
assegurar o escoamento das águas;
II – em terrenos que tenham sido aterrados com material nocivo à saúde pública,
sem que sejam previamente saneados;
III – em terrenos com declividade igual ou superior a 30% (trinta por cento),
salvo se atendidas exigências específicas das autoridades;
IV – em terrenos onde as condições geológicas não aconselham a edificação;
V – em áreas de preservação ecológica ou naquelas onde a poluição impeça con-
dições sanitárias suportáveis, até a sua correção.

O art. 4º da Lei n.º 6.766/79(1979, on-line)2 dispõe que os loteamentos deverão


atender, pelo menos, aos seguintes requisitos:
I – as áreas destinadas a sistemas de circulação, a implantação de equipamento
urbano e comunitário, bem como a espaços livres de uso público, serão propor-
cionais à densidade de ocupação prevista pelo plano diretor ou aprovada por lei
municipal para a zona em que se situem.

II – os lotes terão área mínima de 125m² (cento e vinte e cinco metros quadra-
dos) e frente mínima de 5 (cinco) metros, salvo quanto à legislação estadual ou
municipal determinar maiores exigências, ou quando o loteamento se destinar

Zoneamento Urbano e Parcelamento do Solo


212 UNIDADE IV

a urbanização específica ou edificação de conjuntos habitacionais de interesse


social, previamente aprovados pelos órgãos públicos competentes;

III – ao longo das águas correntes e dormentes e das faixas de domínio público
das rodovias, ferrovias e dutos, será obrigatória a reserva de uma faixa não edifi-
cável de 15 (quinze) metros de cada lado, salvo maiores exigências da legislação
específica;

IV – as vias de loteamento deverão articular-se com as vias adjacentes oficiais,

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existentes ou projetadas, e harmonizar-se com a topografia local.

De maneira geral, o objetivo da Lei nº 6.766/79, com alterações na Lei nº


9.785/99, é legalizar o parcelamento dos solos urbanos para habitações entre
outros fins. Outro objetivo é dar autonomia aos municípios sobre o parcela-
mento dos solos, podendo ser criadas leis estaduais e municipais que definam
os parâmetros de parcelamento mediante a lei nacional.
Duarte (2011) demonstra que o planejamento urbano e sua gestão urbana
podem ser divididos em várias dimensões de atuação. Não por coincidência
grande parte dessas dimensões são também as dimensões da Sustentabilidade.

• Metropolização: consiste no crescimento superior das metrópoles em re-


lação às pequenas e médias cidades. Isso ocorreu no Brasil, principalmente
nas décadas de 50, 60 e 70.
• Macrocefalia Urbana: consiste no crescimento desordenado das grandes
metrópoles. Tal processo ocorreu no Brasil, principalmente nas cidades de
São Paulo e Rio de Janeiro, devido à urbanização via metropolização que
aconteceu nessas regiões. Caracteriza-se a macrocefalia urbana pela falta de
moradia para todos em condições apropriadas, o que pode ser percebido
pela expansão de lotes irregulares, das favelas ou comunidades carentes em
péssimas condições.
Fonte: Colégio Unificado (2014, on-line)13

PLANEJAMENTO URBANO: INSTRUMENTOS LEGISLATIVOS DE PLANEJAMENTO URBANO


213
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INCORPORAÇÕES IMOBILIÁRIAS

A atividade de incorporação de imóveis é altamente vinculada ao planejamento


urbano, pois deve seguir as determinações da legislação, conhecer o mercado e
as tendências de crescimento das cidades.
O mercado imobiliário teve um crescimento extraordinário nas últimas déca-
das no Brasil. De acordo com Castro Filho (2011) esse crescimento foi devido a
vários fatores, porém, pode-se destacar os seguintes:
■■ Maior oferta de crédito para o setor, tanto para o produtor, como para o
próprio consumidor.
■■ O crescente poder aquisitivo das famílias brasileiras.
■■ Uma exponencial redução da taxa básica de juros, adotada pelo Banco
Central, por vários anos.
■■ No desejo do governo de tentar erradicar o déficit habitacional, que
apresenta patamares vergonhosos, por meio da adoção, por exemplo, do
programa Minha Casa, Minha Vida.

Incorporações Imobiliárias
214 UNIDADE IV

Atualmente dentro desse mercado flamejante existe uma figura central, que
acaba por organizar as metodologias de comercialização mais usuais, ou seja, o
Incorporador de Imóveis. A incorporação de imóveis já estava prevista no orde-
namento jurídico a partir da década de 60, ou seja, antes mesmo da própria lei
que regulamenta a incorporação no Brasil (Lei n. 4.591/64). Com a legislação a
atividade se regularizou e organizou-se de forma que atualmente é o centro de
grande parte dos negócios imobiliários.
De acordo com a Lei nº 9.514 de 21 de dezembro de 1997 a incorporação
imobiliária é nome dado para o conjunto de atividades exercidas com a finalidade

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
de construir ou promover a construção de edificações ou conjunto de edifica-
ções, bem como a sua comercialização, total ou parcial, compostas de unidades
autônomas que, em seu conjunto, formam um condomínio.
Importante salientar que a incorporação não é para edificações já constru-
ídas, trata-se de comércio de intenção de construção, porém, tudo apoiado em
projetos, conceitos de construção e legislação.
Figuram normalmente como incorporações imobiliárias negociações envol-
vendo edifícios de apartamentos; casas geminadas; habitações isoladas urbanas
ou rurais; e salas comerciais.
No art. 29, a Lei 4.591/64 conceitua o incorporador:
[...] a pessoa física ou jurídica, comerciante ou não, que embora não
efetuando a construção, compromisse ou efetive a venda de frações
ideais de terreno objetivando a vinculação de tais frações a unidades
autônomas, em edificações a serem construídas ou em construção sob
regime condominial, ou que meramente aceite propostas para efetiva-
ção de tais transações, coordenando e levando a termo a incorporação
e responsabilizando-se, conforme o caso, pela entrega, a certo prazo,
preço e determinadas condições, das obras concluídas (Lei 4.591/64,
Art. 29, on-line)14.

Mesmo podendo ser uma pessoa física, com o mercado imobiliário tão agitado
e burocrático dificilmente se encontram incorporadores como pessoas físicas,
normalmente são pessoas jurídicas.
Castro Filho (2011) faz uma descrição mais prática do incorporador de
imóveis:

PLANEJAMENTO URBANO: INSTRUMENTOS LEGISLATIVOS DE PLANEJAMENTO URBANO


215

[...] é que vai ao mercado buscar terrenos aptos ao desenvolvimento


de empreendimentos imobiliários, usualmente, no modelo de condo-
mínio edilício (ou horizontal), estabelecendo com o dono do terreno
a forma de aquisição deste bem imóvel (observa-se ser muito comum
nos dias de hoje o modelo de permuta por unidades construídas no
próprio terreno). Ademais, é ele quem concebe o projeto de edificação,
levando-o à aprovação pelas autoridades competentes, providencia o
registro dos documentos necessários perante o Oficial de Registro de
Imóveis, nos termos da Lei de Incorporação, empreende diretamente
ou por meio de terceiros a venda das unidades e, por fim, constrói ou
delega a construção, sob sua supervisão. Natural, ainda, que estabeleça
com o agente financiador da obra uma linha de crédito a ser ofertada
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

para futuros adquirentes, em condições preestabelecidas contratual-


mente (CASTRO FILHO, 2011, p. 3).

Castro Filho (2011) considera uma falha legislativa o fato de que um incorpora-
dor não necessitar de qualquer qualificação especial, e nem tampouco o registro
do incorporador em qualquer órgão de controle de classe. O autor argumenta
que é um fato absurdo que um mercado de grande complexidade permita aven-
tureiros sem a mínima qualificação.
Dentro da incorporação imobiliária um dos passos principais determinados
pela legislação é o registro da incorporação, que fica sendo o requisito essencial
para que um empreendimento imobiliário possa ser colocado à venda seja na
fase de construção ou oferta ao público. De acordo com o art. 31, da Lei 4.591/64
(1964, on-line)14 o registro deve ser feito no cartório competente de Registro de
Imóveis, sendo necessários os seguintes documentos:
a. título de propriedade de terreno, ou de promessa,
irrevogável e irretratável, de compra e venda ou de ces-
são de direitos ou de permuta do qual conste cláusula
de imissão na posse do imóvel, não haja estipulações
impeditivas de sua alienação em frações ideais e inclua
consentimento para demolição e construção, devida-
mente registrado;
b. certidões negativas de impostos federais, estaduais e
municipais, de protesto de títulos de ações cíveis e crimi-
nais e de ônus reais relativa ao imóvel, aos alienantes do
terreno e ao incorporador;

Incorporações Imobiliárias
216 UNIDADE IV

c. histórico dos títulos de propriedade do imóvel, abran-


gendo os últimos 20 anos, acompanhado de certidão dos
respectivos registros;
d. projeto de construção devidamente aprovado pelas auto-
ridades competentes;
e. cálculo das áreas das edificações, discriminando, além
da global, a das partes comuns, e indicando, para cada
tipo de unidade a respectiva metragens de área construída;
f. certidão negativa de débito para com a Previdência

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Social, quando o titular de direitos sobre o terreno for res-
ponsável pela arrecadação das respectivas contribuições;
g. memorial descritivo das especificações da obra proje-
tada, segundo modelo a que se refere o inciso IV, do art.
53, desta Lei;
h. avaliação do custo global da obra, atualizada à data do
arquivamento, calculada de acordo com a norma do inciso
III, do art. 53 com base nos custos unitários referidos no
art. 54, discriminando-se, também, o custo de construção
de cada unidade, devidamente autenticada pelo profissio-
nal responsável pela obra;
i. discriminação das frações ideais de terreno com as uni-
dades autônomas que a elas corresponderão;
j. minuta da futura Convenção de condomínio que regerá
a edificação ou o conjunto de edificações;
k. declaração em que se defina a parcela do preço de que
trata o inciso II, do art. 39;
l. certidão do instrumento público de mandato, referido
no § 1º do artigo 31;
m. declaração expressa em que se fixe, se houver, o prazo
de carência (art. 34);

PLANEJAMENTO URBANO: INSTRUMENTOS LEGISLATIVOS DE PLANEJAMENTO URBANO


217

n. atestado de idoneidade financeira, fornecido por esta-


belecimento de crédito que opere no País há mais de cinco
anos.
o. declaração, acompanhada de plantas elucidativas, sobre
o número de veículos que a garagem comporta e os locais
destinados à guarda dos mesmos. 

No final o que ocorre é que o incorporador, pessoa física ou jurídica, comerciante


ou não, compromete-se a construir o edifício e a entregar, a cada adquirente,
a sua respectiva unidade, dentro de certo prazo e de determinadas condições.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Consolida-se assim uma venda antecipada, uma operação que realiza-se sob a
forma de promessa de venda, devidamente registrada.
É por meio do registro que o futuro comprador pode sentir maior segurança
na negociação, principalmente devido ao Memorial de incorporação (arquivado
no registro), que demostra segurança jurídica, idoneidade do empreendedor,
transparência, a qualidade do imóvel e minúcias do empreendimento (tama-
nho, localização, projeto...).
Outro ponto importante que foi criado no intuito de deixar esse tipo de
negociação mais segura ao comprador é o chamado Patrimônio de Afetação
(instituído pela Lei 10.931/04), que é a segregação patrimonial de bens do incor-
porador para uma atividade específica, com o intuito de assegurar a continuidade
e a entrega das unidades em construção aos futuros adquirentes, mesmo em
caso de falência ou insolvência do incorporador. A formação do patrimônio de
afetação pode ser feita por averbação de termo firmado pelo incorporador no
registro de imóveis competente, e pode ocorrer desde a entrega da documenta-
ção ao Registro de Imóveis para o registro da incorporação até a averbação do
“habite-se” (PAIVA, 2011, on-line)15.
Outro efeito importante é que o terreno e as acessões objeto da incorpora-
ção imobiliária podem entrar no Regime Especial de Tributação (RET), bem
como os demais bens e direitos a ela vinculados, em que apenas o patrimônio
da incorporadora responderá pelas dívidas tributárias da incorporação afe-
tada. A opção pelo RET será efetivada quando atendidos os seguintes requisitos
(NASRALLAH, 2015, on-line)16:

Incorporações Imobiliárias
218 UNIDADE IV

■■ Afetação do terreno e das acessões objeto da incorporação imobiliária.


■■ Inscrição de cada incorporação afetada no Cadastro Nacional da Pessoa
Jurídica – CNPJ.
■■ Entrega do termo de opção pelo RET na unidade competente da Secretaria
da Receita Federal (art. 2º da Lei nº 10.931/2004).

A opção obriga o contribuinte a efetuar o recolhimento dos tributos a partir do


mês em que foi efetuada e será considerada definitiva, não gerando, em qual-
quer hipótese, direito à restituição ou à compensação com o que for apurado

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
pela incorporadora. Para cada incorporação submetida ao RET, à incorporadora
ficará sujeita ao pagamento mensal equivalente a 4% (quatro por cento) das recei-
tas mensais recebidas, o qual corresponderá ao pagamento unificado de IRPJ;
CSLL; PIS e COFINS. Considera-se receita mensal o total das receitas recebidas
pela incorporadora com a venda de unidades imobiliárias que compõem cada
incorporação submetida ao RET, bem como, as receitas financeiras e “variações
monetárias” decorrentes dessa operação. As demais receitas relativas às atividades
da incorporação submetida ao RET, serão tributadas na incorporadora. Do total
das receitas recebidas, podem ser deduzidas as vendas canceladas, as devoluções
de vendas e os descontos incondicionais concedidos. Para fins de repartição de
receita tributária, do percentual de 4% (quatro por cento) serão considerados:
1,71% como COFINS; 0,37% como PIS; 1,26% como IRPJ; e 0,66% como CSLL
(NASRALLAH, 2015, on-line)16.
Até 31.12.2018, para os projetos de incorporação de imóveis residenciais de
interesse social, cuja construção tenha sido iniciada ou contratada a partir de
31.03.2009, o percentual correspondente ao pagamento unificado do Imposto
de Renda e das contribuições ao COFINS, PIS e CSLL será equivalente a 1% da
receita mensal recebida (NASRALLAH, 2015, on-line)16.

PLANEJAMENTO URBANO: INSTRUMENTOS LEGISLATIVOS DE PLANEJAMENTO URBANO


219

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Prezado(a) aluno(a), nesta unidade, verificamos a importância da criação e do


entendimento de leis que possam regularizar a qualidade de vida da popula-
ção e do meio ambiente nas cidades. Entre os temas debatidos, conhecemos o
Estatuto da Cidade, o plano diretor e o parcelamento dos solos. Os temas dis-
cutidos e suas devidas legislações são importantes para que o cidadão saiba o
seu lugar, seus direitos e deveres dentro do espaço urbano. Todas as medidas
de planejamento devem contar com a participação da comunidade, devem ser
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

conhecidas e cobradas pela população. É importante ressaltar que não basta ape-
nas uma legislação bem elaborada. É preciso uma conscientização do cidadão
em dividir o espaço urbano sem conflitos de interesses, respeitando limites e se
tornando um fiscal dos seus próprios direitos.
O entendimento dessas leis pode trazer a você, futuro profissional, além de
uma formação de cidadania mais completa, também importantes ferramentas
de gestão, principalmente no que tange a consultoria dentro do mercado imo-
biliários, pois bons consultores devem ter uma visão ampla do que acontece e
poderá a vir acontecer em uma cidade. Além disso, devem saber propor medidas
que aumentem qualidade, lucro, eficiência e agilidade de um empreendimento.
Para os cidadão que almejam entrar na vida pública (política), principal-
mente em cargos legislativos como os de vereadores e deputados o entendimento
dessas leis e seus instrumentos poderá trazer grande diferencial nas futuras pro-
postas e formulação de novas leis.
Como de praxe o conteúdo dessa unidade é essencial para um pleno apro-
veitamento e entendimento da próxima unidade, onde finalizaremos a disciplina.
Importante lembrar que quando estudamos leis não devemos tentar apenas deco-
rar artigos, números e textos, mas sim compreender os motivos de sua criação
e como tendem a funcionar na vida prática, com isso a compreensão dessas leis
torna-se mais eficiente.

Considerações Finais
220

DO TURISMO IMOBILIÁRIO À FINANCEIRIZAÇÃO DO MERCADO: OSCILAÇÕES DA


PRODUÇÃO IMOBILIÁRIA EM NATAL/RN – 2000 a 2010.
Sobre a produção imobiliária em Natal:
A produção imobiliária registrada em Natal oscilou muito mais de acordo com fatores
exógenos do que endógenos. No entanto, as implicações dessas oscilações trazem con-
sequências diretas em pelo menos duas questões locais: a segregação socioespacial e
a fragmentação urbana. A constante busca por sobre lucros através da inovação tipo-
lógica e apropriação da renda fundiária faz a diferença como fator determinante para
realização dos empreendimentos. Dessa forma o mercado sempre procura regiões com
preços mais baixos nas quais a alteração do uso do solo propicie uma apropriação da
renda da terra. Na maioria dos casos essas regiões não dispõem de infraestrutura e ser-
viços adequados e sufi cientes para os novos usos, acarretando problemas que vão ter
que ser absorvidos pela comunidade e resolvidos com recursos públicos. A busca por
ganhos extraordinários, somada às limitações impostas pela legislação urbanística que
estabelece padrões de sustentabilidade para infraestrutura instalada finda por acarretar
um maior distanciamento geográfico entre a área urbana e os novos empreendimentos,
especialmente aqueles destinados às populações de renda mais baixa. A produção em
Natal cresceu seis vezes em relação à década anterior, expandiu-se para todas as zonas
administrativas assumindo faces diferenciadas em cada uma delas. A verticalização que
já era intensa na zona leste propaga-se para a zona sul onde poderá causar impactos
muito negativos decorrentes da falta de capacidade de suporte do sistema viário. Sur-
gem novas tipologias em parte influenciadas pelo padrão turístico comum na cidade
como também pelo padrão adotado pelas grandes empresas que se instalaram recente-
mente. As empresas locais, especialmente as grandes, se ressentem da forte concorrên-
cia externa e passam a procurar parceiros para expandir e abrir seu capital. A utilização
das Sociedades de Propósito Específico (SPE’s) tornou-se uma prática corriqueira que
até o momento tem contribuído para dar maior agilidade à produção protegendo o
consumidor dos riscos que podem afetar as grandes corporações. No momento em que
a cidade se prepara para mais uma revisão do seu Plano Diretor, com base nos resulta-
dos encontrados, poderiam ser feitos alguns questionamentos: • No caso específico de
Natal, as restrições colocadas pelo plano diretor não estariam contribuindo para alar-
gar ainda mais o processo de segregação socioespacial? Transferindo populações para
municípios vizinhos, com infraestrutura mais precária ainda? • Não seria possível pro-
por uma flexibilização das prescrições urbanísticas que proporcionasse uma expansão
gradual da verticalização daquela região? • Seguindo uma tendência do mercado, não
seria possível estabelecer regras que incentivassem a mescla no padrão das unidades
de um mesmo empreendimento fazendo com que diminuísse em parte o processo de
segregação?
A discussão dessas e de outras questões com base em dados concretos seria importante
para melhor fundamentar o planejamento urbano e contribuir para encontrar um meio
termo que conduzisse a um desenvolvimento urbano sustentável, ambiental e econo-
221

micamente. O ciclo de expansão imobiliária, aparentemente, deve continuar tendo em


vista as constantes intervenções do governo na macroeconomia com o intuito de man-
ter e até aquecer o consumo e enfrentar uma iminente recessão nos países desenvolvi-
dos. No caso de específico de Natal a Copa do Mundo e a construção do aeroporto de
São Gonçalo são irreversíveis e inexoravelmente vão atrair mais investimentos públicos
e privados até 2014. Por fim as Olimpíadas no Rio de Janeiro devem estimular o turismo
no país como um todo e Natal, assim como todo o Nordeste, se beneficiará de mais
uma provável onda de consumo turístico. Concluindo, acredita-se que o funcionamento
dos dois sistemas paralelamente (SFH e SFI) tem gera- do um importante acréscimo no
volume do crédito imobiliário e, por conseguinte, na produção privada de habitações.
Tal produção tem sido muito importante, juntamente com os programas de interesse
social, para atender o crescimento da demanda por habitação nos últimos anos. O fi-
nanciamento via mercado de capitais transformou-se numa opção importante, porém
no caso do município de Natal tem concentrado sua produção para as demandas de
renda média e alta. Em municípios vizinhos há casos em que empresas de capital aberto
têm produzido em um padrão mais popular. Toda essa conjuntura tem acarretado uma
expressiva produção de unidades habitacionais, porém ainda é evidente o acirramento
da segregação sócioespacial e da fragmentação urbana. O mercado imobiliário, agora
em associação com o capital financeiro, produz cada vez mais diferenciações espaciais
e tipológicas como forma de atrair os consumidores e auferir sobre lucros. Com isso a
cidade amplia seu aspecto segmentado, mais agravado ainda pelo processo de metro-
polização e a ausência de uma gestão eficiente.
Fonte: Queiroz (2010, on-line)17.
222

1. Dentro das diretrizes do Estatuto da Cidade está a ordenação e controle do uso


do solo, que tem objetivos claros e evidenciados na lei. Assinale a alternativa
que elenca corretamente um objetivo da ordenação e controle do uso do solo
de um município:
a. Evitar a utilização dos imóveis urbanos.
b. Aproximar usos incompatíveis ou inconvenientes.
c. Evitar a instalação de empreendimentos ou atividades que possam funcionar
como polos geradores de tráfego.
d. Evitar a retenção especulativa de imóvel urbano, que resulte na sua subutili-
zação ou não utilização.

2. O Estatuto da Cidade determina vários instrumentos de cunho administrativo


e legislativo para a efetivação de um planejamento urbano enquadrado dentro
das diretrizes determinadas pela lei. Assinale a alternativa que elenca um ins-
trumento de viés tributário:
a. Desapropriação.
b. Servidão administrativa.
c. Limitações administrativas.
d. Contribuição de Melhoria.

3. Os mecanismos constitucionais de planejamento e execução orçamentários


contém um planejamento a ser realizado durante os quatro anos de mandato
de um prefeito. Um desses mecanismos pode ser descrito como aquele que
apresenta a previsão de receitas e despesas do município para o ano seguinte,
demonstra o que a administração pretende arrecadar e onde pretende investir
os recursos arrecadados. Assinale a alternativa que elenca esse instrumento:
a. Plano Plurianual (PPA).
b. Lei de Diretrizes Orçamentária (LDO).
c. Lei Orçamentária Anual (LOA).
d. Lei Orçamentária Básica (LOB).
223

4. O Zoneamento faz parte do Plano Diretor de uma cidade, sendo basicamente a


divisão da cidade em áreas distintas em que apenas determinados usos da terra
e tipos de edifícios podem ser construídos. A lógica utilizada é que certas ativi-
dades não podem permanecer no mesmo circuito, como é o caso das indústrias
e residências; aeroportos e lixões; entre outros. De acordo com Juergensmeyer e
Roberts (2003), para zonear uma cidade é importante observar alguns objetivos,
assinale a alternativa que elenca um desses objetivos:
a. Aumento do crescimento urbano.
b. Ocupação de áreas de preservação.
c. Identificar conflitos entre usos e atividades.
d. Manutenção dos valores das propriedades.

5. Considere a seguinte conceituação: segregação patrimonial de bens do incor-


porador para uma atividade específica, com o intuito de assegurar a continui-
dade e a entrega das unidades em construção aos futuros adquirentes, mesmo
em caso de falência ou insolvência do incorporador. Assinale a alternativa que
nomina o conceito em questão:
a. Patrimônio de Afetação.
b. Registro de Imóvel.
c. Incorporação Imobiliária.
d. Regime Tributário Especial.
MATERIAL COMPLEMENTAR

Saneamento Básico - O Filme


Ano: 2007
Diretor: Jorge Furtado
Sinopse: os moradores de Linha Cristal, uma pequena vila
de descendentes de colonos italianos localizada na serra
gaúcha, reúnem-se para tomar providências a respeito da
construção de uma fossa para o tratamento do esgoto.
Eles elegem uma comissão, que é responsável por fazer
o pedido junto à subprefeitura. A secretária da prefeitura
reconhece a necessidade da obra, mas informa que não
terá verba para realizá-la até o final do ano. Entretanto, a
prefeitura dispõe de quase R$ 10 mil para a produção de um vídeo. Esse dinheiro foi dado pelo
governo federal e, se não for usado, será devolvido em breve. Surge então a ideia de usar a quantia
para realizar a obra e rodar um vídeo sobre a própria obra, que teria o apoio da prefeitura. Porém
a retirada da quantia depende da apresentação de um roteiro e de um projeto do vídeo, além de
haver a exigência que ele seja de ficção. Dessa forma, os moradores se reúnem para elaborar um
filme, que seria estrelado por um mostro que vive nas obras de construção de uma fossa.
225
REFERÊNCIAS

CASTRO FILHO, H. P. de. Breve estudo sobre a atividade de incorporação imobili-


ária. Revista Jus Navigandi, Teresina, ano 16, n. 2790, fev. 2011.
DUARTE, F. Planejamento Urbano. Curitiba: Ibpex, 2011.
JUERGENSMEYER, J. C.; ROBERTS, T. Land use planning and development regula-
tion law. St. Paul: Thomson West, 2003.
MACHADO, E. S. A Contribuição de Melhoria no Brasil. Revista de Administração
Pública, v. 46, n. 4, p. 1-20, 2012.
MACHADO, H. de B..Curso de direito tributário. 24 ed. revista, atualizada e ampliada.
São Paulo: Malheiros, 2004.
MARICATO, E. o Estatuto da Cidade Periférica. In: CARVALHO, C. S.; ROSSBACH, A.
(org.) O Estatuto da Cidade: comentado. São Paulo: Ministério das Cidades, Aliança
das Cidades, 2010.

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so em: 28 out. 2016.
2
Em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l6766.htm>. Acesso em: 28 out.
2016.
3
Em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l6766.htm>. Acesso em: 28 out.
2016.
Em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2010/lei/l12305.htm>.
4

Acesso em: 28 out. 2016.


5
Em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/LEIS_2001/L10257.htm>. Acesso
em: 28 out. 2016.
6
Em: <http://iversonkfadv.jusbrasil.com.br/artigos/241918767/concessao-de-direi-
to-real-de-uso >. Acesso em: 28 out. 2016.
7
Em: < http://www.ambitojuridico.com.br/site/index.php?n_link=revista_artigos_
leitura&artigo_id=6570>. Acesso em: 28 out. 2016.
8
Em: <http://www.migalhas.com.br/dePeso/16,MI91744,71043-Breves+considera-
coes+sobre+o+direito+de+superficie+CC+arts+1369+a>. Acesso em: 28 out. 2016.
9
Em: <http://urbanidades.arq.br/2008/03/outorga-onerosa-do-direito-de-cons-
truir>. Acesso em: 28 out. 2016.
10
Em: <http://planejurb.blogspot.com.br/>. Acesso em: 28 out. 2016.
REFERÊNCIAS

Em: <http://www.rio.rj.gov.br/documents/91237/ddbd40f5-fa89-40ff-b7e3-c2a-
11

9339f578d>. Acesso em: 28 out. 2016.


Em: <https://www.planalto.gov.br/CCivil_03/Leis/L6766compilado.htm>. Acesso
12

em: 28 out. 2016.


Em: <http://www.centrodeensinounificado.com.br/wordpress/?p=451>. Acesso
13

em: 28 out. 2016.


Em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L4591compilado.htm>. Acesso
14

em: 28 out. 2016.


Em: <http://registrodeimoveis1zona.com.br/?p=224>. Acesso em: 28 out. 2016.
15

Em: <http://tributarionosbastidores.com.br/2015/11/05/ret/>. Acesso em: 28 out.


16

2016.
Em: <http://lares.org.br/Anais2012/images/644-955-1-DR.pdf >. Acesso em: 28
17

out. 2016.
Em: <https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del0271.htm>. Acesso
18

em: 28 out. 2016.


227
GABARITO

1. D.
2. D.
3. C.
4. D.
5. A.
Professor Dr. André Cesar Furlaneto Sampaio

PRINCIPAIS SETORES DA

V
UNIDADE
GESTÃO URBANA

Objetivos de Aprendizagem
■■ Conhecer o funcionamento básico do Saneamento Básico, um dos
principais setores de gestão urbana.
■■ Conhecer o funcionamento básico das Redes Elétricas, um dos
principais setores de gestão urbana.
■■ Conhecer fundamentos básicos sobre Mobilidade Urbana, um dos
principais setores de gestão urbana.
■■ Conhecer algumas inovações tecnológicas e soluções modernas para
os principais problemas urbanos.

Plano de Estudo
A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade:
■■ Saneamento básico
■■ Rede elétrica
■■ Mobilidade urbana
■■ Novas tecnologias para uso no planejamento urbano
231

INTRODUÇÃO

Prezado(a) aluno(a), vimos em nosso conteúdo que o mundo está cada vez mais
urbano e que essa tendência dificilmente será modificada, a necessidade de pre-
ver e resolver os problemas urbanos fica cada vez mais urgente. Portanto, para
finalizar essa disciplina iremos tratar de alguns casos de sucesso. Na nossa pri-
meira unidade traçamos um panorama das principais problemáticas relacionadas
às cidades no Brasil e do mundo, nesta unidade veremos com maiores detalhes
como funcionam os principais setores de gestão e planejamento urbano, algu-
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

mas soluções urbanas e tecnologias relacionadas a esses setores.


Mirian Leitão em seu livro História do Futuro, em um capítulo específico
sobre as cidades, analisou os principais problemas e propostas de soluções. Suas
argumentações guiaram a formulação desta última unidade. O Brasil atualmente
possui mais de 85% de sua população vivendo em áreas urbanas, se juntarmos a
isso o fato de que foram cometidos muitos erros políticos, administrativos e de
planejamento urbano em nossas cidades, nos vem um grande desânimo, devido
aos escandalosos problemas que o país enfrentará para melhorar suas cidades
nos próximos anos. Porém, justamente pelo problema ser grande é que solu-
ções revolucionárias tendem a surgir. O Brasil tem modelos a seguir e ideias a
copiar ou a transformar. Deixar as cidades como estão seria o maior erro pos-
sível, precisamos de revoluções. É fato que as cidades brasileiras continuarão a
crescer nas próximas décadas, por migração e razões naturais, e que em grande
parte são retrógradas, desiguais e insustentáveis. Porém, estamos em situação
melhor que a de muitos países. O Brasil pode conseguir elevar a qualidade de
vida de seus cidadãos. Em tese a solução encontra-se em investimentos certos, na
aplicação de novos métodos de produção industrial e rural, na coragem de colo-
car em prática ideias audaciosas e na inserção de novas tecnologias. Vamos ver
detalhes desse funcionamento urbano e propostas de soluções (LEITÃO, 2013).
Bom estudo!

Introdução
232 UNIDADE V

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
©shutterstock

SANEAMENTO BÁSICO

Vimos em nossa primeira unidade a grande problemática de nosso país em rela-


ção ao saneamento básico. Mas antes de verificarmos soluções ou condições de
melhoria, vamos entender um pouco da legislação relacionada ao saneamento
básico.
Atualmente no Brasil, a lei de saneamento básico, que está em vigor, é a Lei
11.445/2007. Esta prevê obrigações para o poder público como: a necessidade de
elaboração de um plano de saneamento básico; mecanismos de controle social;
sistema de informações sobre os serviços articulado com o Sistema Nacional de
Informações em Saneamento.
De acordo com o seu Art. 2ª desta lei, os serviços públicos de saneamento
básico serão prestados com base nos seguintes princípios fundamentais (2007,
on-line)1:
I - universalização do acesso;

II - integralidade, compreendida como o conjunto de todas as


atividades e componentes de cada um dos diversos serviços de
saneamento básico, propiciando à população o acesso na confor-
midade de suas necessidades e maximizando a eficácia das ações
e resultados;

PRINCIPAIS SETORES DA GESTÃO URBANA


233

III - abastecimento de água, esgotamento sanitário, limpeza urba-


na e manejo dos resíduos sólidos realizados de formas adequadas
à saúde pública e à proteção do meio ambiente;

IV - disponibilidade, em todas as áreas urbanas, de serviços de


drenagem e de manejo das águas pluviais adequados à saúde pú-
blica e à segurança da vida e do patrimônio público e privado;

V - adoção de métodos, técnicas e processos que considerem as


peculiaridades locais e regionais;

VI - articulação com as políticas de desenvolvimento urbano e re-


gional, de habitação, de combate à pobreza e de sua erradicação,
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

de proteção ambiental, de promoção da saúde e outras de relevan-


te interesse social voltadas para a melhoria da qualidade de vida,
para as quais o saneamento básico seja fator determinante;

VII - eficiência e sustentabilidade econômica;

VIII - utilização de tecnologias apropriadas, considerando a capa-


cidade de pagamento dos usuários e a adoção de soluções graduais
e progressivas;

IX - transparência das ações, baseada em sistemas de informações


e processos decisórios institucionalizados;

X - controle social;

XI - segurança, qualidade e regularidade;


XII - integração das infraestruturas e serviços com a gestão efi-
ciente dos recursos hídricos.

A lei 11.445/2007 também define uma série de requisitos para o plano de sane-
amento, entre eles o diagnóstico da situação atual, os objetivos e metas para
o futuro, programas, projetos e ações necessárias. O controle social deve ser
feito por meio de um órgão colegiado de caráter consultivo, com represen-
tações dos titulares dos serviços, de órgãos governamentais relacionados ao
saneamento, das prestadoras de serviços, dos usuários e de entidades da socie-
dade civil. O sistema de informações deve integrar-se ao Sistema Nacional de
Informações em Saneamento Básico (SINISA), cujos objetivos estabelecidos no
art. 53 são(2007,on-line)1:

Saneamento Básico
234 UNIDADE V

■■ Coletar e sistematizar dados relativos às condições da prestação dos ser-


viços públicos de saneamento básico.
■■ Disponibilizar estatísticas, indicadores e outras informações relevan-
tes para a caracterização da demanda e da oferta de serviços públicos de
saneamento básico.
■■ Permitir e facilitar o monitoramento e avaliação da eficiência e da eficá-
cia da prestação dos serviços de saneamento básico.
O saneamento básico é considerado uma das prioridades das cidades, pois é
por meio dele que teremos salubridade urbana, ou seja, saúde ambiental, dimi-

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
nuindo a incidência de doenças infecciosas e parasitárias. Segundo a Fundação
Nacional de Saúde – FUNASA –, os investimentos em saneamento têm um efeito
direto na redução de gastos com a saúde pública. Estima-se que a cada R$ 1,00
gasto em saneamento básico, economiza-se R$ 4,00 na área de medicina cura-
tiva. Veremos as seguir vários tópicos sobre os principais setores do saneamento
básico, seu funcionamento e indicações de tecnologias e soluções aos problemas
dessas áreas (VARGAS et al., 2015).

ABASTECIMENTO DE ÁGUA

De acordo com a lei 11.445 de 2007, o abastecimento de água potável no Brasil


é constituído pelas atividades, infraestruturas e instalações necessárias ao abas-
tecimento público de água potável, desde a captação até as ligações prediais e
respectivos instrumentos de medição. Em outras palavras, consiste na retirada da
água potável de uma fonte bruta (que pode ser subterrânea ou superficial), a qual
é transferida para a rede de tratamento e em sequência para o reservatório onde
é distribuída para as residências (VARGAS et al, 2015) (veja na figura a seguir).

PRINCIPAIS SETORES DA GESTÃO URBANA


235

Estação de
Tratamento de Água

E.E¹. de Reservatório
água bruta
Curso
de água Cidade
adutora de Adutora de
água bruta água tratada
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Figura 1 - Sistema de Abastecimento de água (1- Estação Elevatória)­­­


Fonte: adaptado de Kobiyama et al. (2008)

Existem padrões da qualidade predefinidos na legislação, os quais devem ser


seguidos tanto pelas agências de saneamento básico quanto pelos responsáveis
pela abertura de poços artesianos. É importante destacar que, para a utilização
de águas de rios ou mesmo de poços artesianos, no caso de uso particular, é
necessária a permissão do órgão ambiental estadual, geralmente um pedido de
outorga de uso da água (VARGAS et al., 2015).
A resolução do CONAMA nº 357, de 17 de março de 2005, define a classifi-
cação dos corpos de água e as diretrizes ambientais para o seu enquadramento.
Segundo essa resolução, eventuais interações entre substâncias não poderão
conferir às águas características capazes de causar efeitos letais ou alteração de
comportamento, reprodução ou fisiologia da vida, bem como de restringir os
usos preponderantes previstos.
Como vimos na unidade I existe grande desperdício de água no processo,
além de cada vez mais o acesso à água de qualidade ficar comprometido pela
poluição que continua a ocorrer em grande escala por todo Brasil.
Em São Paulo, onde o índice de desperdício é de 25,7%, a Companhia de
Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) tem, desde 2009, um pro-
grama para combater o problema. O objetivo é reduzir o índice atual para 19%
até o fim desta década. O programa em questão visa à troca de inúmeros ramais,
ou seja, quase uma reconstrução do sistema. Exemplos como esse demonstram
que o poder público deve ter uma preocupação extra com a qualidade das obras

Saneamento Básico
236 UNIDADE V

para saneamento, seja para abastecimento de água, drenagem pluvial ou esgoto.


Atualmente, o maquinário para essas obras tem evoluído e existem diversos
métodos não destrutivos que possibilitam perfurações no subsolo sem a neces-
sidade de quebrar calçadas e com custos cada vez mais reduzidos.
Em relação à poluição a tecnologia vem melhorando de forma primorosa.
Uma recente invenção, denominada Slingshot, é capaz de purificar e ajudar a
fornecer água limpa a quem mais precisa. O aparelho tem sua criação detalhada
em um documentário de mesmo nome, foi criado pela equipe do famoso inven-
tor Dean Kamen. O sistema ferve e evapora a água proveniente de qualquer

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
fonte – rios, oceanos ou até esgotos – e condensa o vapor, permitindo recolher
água purificada. As primeiras versões eram grandes e exigiam o consumo de
muita eletricidade. Porém, os novos modelos já são quase portáteis e capazes
de produzir 45 litros de água potável por hora, consumindo menos de 1 kWh
de eletricidade. Invenções como essa demonstram o poder da tecnologia e da
inventividade do homem.
Porém, continua sendo mais barato e inteligente diminuir a poluição desen-
freada para não necessitar de medidas emergenciais como a citada. No Brasil,
onde temos grande quantidade de água e boa distribuição, a conservação de
várzeas, de áreas naturais nos mananciais, de matas ciliares e de proteção de nas-
centes já nos traria bons resultados. Vinculada a essa proteção natural, o cessar
completo de descarte de efluentes irregulares, principalmente esgoto in natura
em nossos rios, traria vantagens quase incalculáveis em termos econômicos,
sociais e ambientais.
Bons exemplos de resultados comprovados em relação à conservação de
áreas naturais para melhorar quantidade e qualidade de água podem ser vis-
tos na serra da Mantiqueira. Um programa de conservação da água, instalado na
região, coordenado há dez anos pelo biólogo Paulo Henrique Pereira, secretário de
Meio Ambiente de Extrema-MG, virou modelo mundial e já recebeu prêmio da
Organização das Nações Unidas – ONU. O local, um manancial, pode ser con-
siderado como se fosse uma imensa caixa d´água, de onde brotam inúmeros rios
importantes como o Aiuruoca, o Rio Grande, formador do Paraná; afluentes do
Paraíba do Sul, que vão para o Rio de Janeiro; e o Jaguari, principal veio do Sistema

PRINCIPAIS SETORES DA GESTÃO URBANA


237

Cantareira, que teve que recentemente ser explorado até o nível do volume morto
para garantir o abastecimento da capital paulista. O programa atingiu resultados
excelentes, aumentando significativamente a água e sua qualidade. Mesmo com um
modesto apoio governamental federal e estadual de Minas Gerais, sem nenhuma
ajuda de São Paulo, contando mais com recursos do município e de Organizações
Não Governamentais, o município de Extrema conseguiu recuperar sete mil hec-
tares com o plantio de um milhão de árvores. Fez isso remunerando proprietários
rurais como se fossem produtores de água, garantindo a recuperação de florestas em
áreas de pastagens que estavam localizadas em importantes regiões para a captação
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

de água (ARAUJO, 2015, on-line)2.


Outra medida que pode ser eficaz, em países tropicais como o Brasil, para
colaborar em reduzir desperdício de água, são os sistemas de captação de água
da chuva inseridos em prédios e residências. Esse tipo de sistema está se popu-
larizando e utiliza a água captada para irrigação de jardins, limpeza e descargas
de vasos sanitários.

COLETA E TRATAMENTO DE ESGOTO

Depois que utilizamos a água para algum fim, ela dá origem ao que chamamos
de esgoto. Ele pode ser classificado em três formas: doméstico, industrial e plu-
vial. Como o próprio nome já diz, o esgoto doméstico é aquele que sai das nossas
casas, o industrial é oriundo das indústrias e o pluvial é aquele que provém das
águas da chuva que percorrem as cidades possuindo uma alta carga de poluen-
tes. Cada um desses tipos de esgoto possui diferentes substâncias, necessitando
de sistemas específicos para o seu tratamento (VARGAS, et al., 2015).
A lei nº 11.445/07 (2007,on-line)1 define esgotamento sanitário como aquele
constituído pelas atividades, infraestruturas e instalações operacionais de coleta,
transporte, tratamento e disposição final adequados dos esgotos sanitários, desde
as ligações prediais até o seu lançamento final no meio ambiente.
De acordo com a SABESP (2013, on-line)3, a coleta de esgoto funciona
da seguinte forma: nas casas, comércios ou indústrias, ligações com diâmetro

Saneamento Básico
238 UNIDADE V

pequeno formam as redes coletoras. Essas redes são conectadas aos coletores-
-tronco (tubulações instaladas ao lado dos córregos), que recebem os esgotos
de diversas redes. Dos coletores-tronco, os esgotos vão para os interceptores,
que são tubulações maiores, normalmente próximas aos rios. De lá, o destino
será uma Estação de Tratamento, que tem a missão de devolver a água, em boas
condições, ao meio ambiente, ou reutilizá-la para fins não potáveis (veja na ima-
gem a seguir).

Residências
Estação de Tratamento

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
de esgoto
Rede Mar
coletora Elavatória
de esgoto

Rede de drenagem Drenagem

Figura 2 - Título: Sistema de Coleta e Tratamento de Esgoto


Fonte: Oliveira e Poloni (2010, on-line).4

Quanto à instalação dos esgotos residenciais, ela deve seguir o padrão das empre-
sas de saneamento que atuam em seu estado, e a ligação dos esgotos deve ser
feita por elas (VARGAS et al., 2015).
Na resolução Conama nº 357/05, encontram-se todas as normas para as
condições e padrões de lançamento de efluentes. De acordo com Art. 26, os
órgãos ambientais federais, estaduais e municipais, no âmbito de sua compe-
tência, deverão, por meio de norma específica ou no licenciamento da atividade
ou empreendimento, estabelecer a carga poluidora máxima para o lançamento
de substâncias passíveis de estarem presentes ou serem formadas nos proces-
sos produtivos de modo a não comprometer as metas progressivas obrigatórias,
intermediárias e final, estabelecidas pelo enquadramento para o corpo de água.
A lei nº 11.445/07 (2007,on-line)1, em seu Art. 44, define que o licenciamento
ambiental de unidades de tratamento de esgotos sanitários e de efluentes gera-
dos nos processos de tratamento de água considerará etapas de eficiência, a fim
de alcançar progressivamente os padrões estabelecidos pela legislação ambiental,

PRINCIPAIS SETORES DA GESTÃO URBANA


239

em função da capacidade de pagamento dos usuários. E em seu § 1º ela descreve


que, na ausência de redes públicas de saneamento básico, serão admitidas solu-
ções individuais de abastecimento de água e de afastamento e destinação final dos
esgotos sanitários, observadas as normas editadas pela entidade reguladora e pelos
órgãos responsáveis pelas políticas ambiental, sanitária e de recursos hídricos.
O esgoto doméstico é formado por águas residuais de banheiros, pias, tan-
ques etc. A maior parte dele (cerca de 99,9%) é composto por líquidos, sendo o
percentual de sólidos apenas 0,1%. Exatamente esse pequeno percentual é o que
causa grandes problemas. Quando o esgoto é jogado diretamente no rio sem qual-
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

quer tipo de tratamento ele provoca um fenômeno conhecido com Eutrofização


Artificial. A eutrofização é caracterizada pelo aumento de nutrientes no ecossis-
tema aquático, causando proliferação excessiva de algas e bactérias, diminuição
do oxigênio dissolvido na água e morte de peixes e outros organismos. Em casos
extremos, a eutrofização pode levar à morte do ecossistema, além de aumentar
a exposição a doenças infecciosas. Por isso, não basta que o esgoto seja ape-
nas coletado em sua residência, é importantíssimo que ele seja também tratado
(MIOLA, 2011, on-line)5.
As Estações de Tratamento de Esgotos (ETE) são estruturas dotadas de um
sistema capaz de reduzir o potencial poluidor dos efluentes. Ou seja, são locais
que têm a capacidade de “limpar” a água suja. Normalmente elas são projetadas
para tipos específicos de esgotos e possuem algumas limitações. Por exemplo,
uma ETE industrial (que trata efluentes da indústria) dificilmente tem a capaci-
dade de tratar esgotos domésticos. Isso ocorre porque as técnicas utilizadas para
montagem do sistema devem ser adequadas às características do tipo de esgoto
que se quer tratar (MIOLA, 2011, on-line)5.
As ETE que tratam os esgotos domésticos geralmente são projetadas para
retirar a matéria orgânica proveniente dos resíduos humanos, mas não têm uma
eficiência muito boa para alguns tipos de subs­tâncias como, por exemplo, o óleo
de cozinha. Esse tipo de resíduo, além de provocar o entupimento de encana-
mentos, é altamente poluidor. Um litro de óleo tem a capacidade de poluir cerca
de 10 mil litros de água, mas algumas estimativas dizem que esse número pode
chegar a um milhão. Por isso é preciso ter alguns cuidados com essas substân-
cias (MIOLA, 2011, on-line)5.

Saneamento Básico
240 UNIDADE V

O esgoto proveniente da pia da cozinha, que normalmente é rico em gor-


duras, não deve ser jogado diretamente na rede de esgoto coletora. É preciso
que ele passe primeiramente pela caixa de gordura. Essa estrutura é obrigatória
para todas as residências e tem a função de reter a gordura, evitando o entupi-
mento da tubulação e a entrada de ratos e baratas de esgoto nas casas. Para que
esse sistema funcione adequadamente, é necessário fazer a limpeza da caixa pelo
menos uma vez por mês. A gordura e os resíduos (restos de alimentos) retirados
devem ser colocados em sacos plásticos resistentes e descartados junto com o
lixo doméstico. Sabendo disso é importante nunca jogar óleo na pia, um hábito

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
comum no Brasil. O óleo de cozinha usado deve ser guardado em latas, vidros
ou garrafas de refrigerante vazias e destinado para instituições que possam reci-
clá-lo, como fábricas de sabão e biodiesel. Se não há essa possibilidade, ou se não
existe nenhum posto de coleta para esse tipo de resíduo próximo de sua resi-
dência, a coisa mais correta a se fazer e colocar o óleo usado em garrafas PET e
entregá-las ao caminhão de lixo. Desta forma, se diminui o risco de que ele entre
em contato com a água e a polua (MIOLA, 2011, on-line)5.
Outra conduta importante com relação aos cuidados com o sistema de esgo-
tamento sanitário é a separação das águas das chuvas. As águas pluviais devem
ter um sistema próprio de drenagem nas áreas urbanas e não podem ser mistura-
das aos esgotos. Porém, é comum existirem ligações clandestinas de esgoto, seja
residencial e industrial nas redes pluviais. Ao ligar o encanamento que drena a
água da chuva na rede de esgoto, além de sujar água limpa, ocorre também uma
sobrecarga na rede coletora (MIOLA, 2011, on-line)5.
Trata-se de uma grande vergonha para o Brasil ainda não possuir 100% de
esgoto tratado e continuar a descarregar grande carga desse efluente maligno
em bacia hidrográficas e no oceano. O investimento em questão é vasto, porém,
seus benefícios a longo prazo são incalculáveis em termos sociais, ambientais e
econômicos. Obviamente, é fácil pensar que não existindo uma corrupção desen-
freada o objetivo de concluir o sonho de termos esgoto para todos já deveria ter
sido cumprido há décadas atrás.

PRINCIPAIS SETORES DA GESTÃO URBANA


241

REDE PLUVIAL

Segundo Bernardes et al. (2006), o manejo de águas pluviais consiste no con-


junto de intervenções estruturais e não estruturais, com o objetivo de controlar
o escoamento superficial nas cidades, evitando assim desastres naturais relacio-
nados ao excesso de água e doenças decorrentes de inundações.
A lei nº 11.445/07 (2007,on-line)1 define a drenagem e o manejo das águas
pluviais urbanas como um conjunto de atividades, infraestruturas e instalações
operacionais de drenagem urbana de águas pluviais, de transporte, detenção ou
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

retenção para o amortecimento de vazões de cheias, tratamento e disposição


final das águas pluviais drenadas nas áreas urbanas.
Na unidade I vimos os grandes problemas que galerias pluviais mal dimen-
sionadas podem causar e da relação delas com o lixo nas ruas, inundações, e
erosões nos córregos. Projetos bem delineados e execuções de qualidade pode-
riam sanar grande parte dos problemas em relação às galerias pluviais. Outro
ponto importante é o descarte de lixo nas ruas que leva ao entupimento de bocas
de lobo e poluição. Existem tecnologias para diminuir o lixo, porém, não são de
eficiência plena e muitas vezes de alto custo. Resta aplicar campanhas de cons-
cientização da população. Bitucas de cigarro, papéis de bala, copos plásticos,
sacolas, latinhas e outros inúmeros resíduos são arremessados nas ruas de forma
vergonhosa em nosso país, causando problemas gravíssimos como os vistos na
unidade I. Quando conseguiremos cidadãos conscientizados?

GERENCIAMENTO DE RESÍDUOS SÓLIDOS URBANOS

Os resíduos sólidos podem ser classificados em domésticos, hospitalares, comer-


ciais, industriais e especiais (entulhos de construção civil ou matéria animal e
vegetal). Eles podem ainda ser classificados, de acordo com sua composição quí-
mica, em orgânicos e inorgânicos (VARGAS et al., 2015).
De acordo com a lei nº 11.445/07 (2007,on-line)1, a limpeza urbana e o
manejo de resíduos sólidos são um conjunto de atividades, infraestruturas e ins-
talações operacionais de coleta, transporte, transbordo, tratamento e destino final

Saneamento Básico
242 UNIDADE V

do lixo doméstico e do lixo originário da varrição e limpeza de logradouros e


vias públicas. No Art. 5° desta lei, fica claro que ações e serviços de saneamento
básico são de responsabilidade privada, incluindo o manejo de resíduos que é
de responsabilidade do gerador. Porém em seu Art. 6º, vislumbramos que o lixo
originário de atividades comerciais, industriais e de serviços cuja responsabi-
lidade pelo manejo não seja atribuída ao gerador pode, por decisão do poder
público, ser considerado resíduo sólido urbano.
No dia 2 de agosto de 2010, foi instituída no Brasil a Política Nacional de
Resíduos Sólidos, por meio da lei nº 12.305 (2010, on-line)6, que altera a Lei no

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
9.605, de 12 de fevereiro de 1998 e dá outras providências. Essa lei demorou vinte
anos para ser aprovada e foi recebida como uma grande vitória para ambientalis-
tas e legisladores. De acordo com seu artigo 7, os objetivos da Política Nacional
de Resíduos Sólidos são:
I - proteção da saúde pública e da qualidade ambiental;

II - não geração, redução, reutilização, reciclagem e tratamento


dos resíduos sólidos, bem como disposição final ambientalmente
adequada dos rejeitos;

III - estímulo à adoção de padrões sustentáveis de produção e con-


sumo de bens e serviços;

IV - adoção, desenvolvimento e aprimoramento de tecnologias


limpas como forma de minimizar impactos ambientais;

V - redução do volume e da periculosidade dos resíduos perigosos;

VI - incentivo à indústria da reciclagem, tendo em vista fomentar


o uso de matérias-primas e insumos derivados de materiais reci-
cláveis e reciclados;

VII - gestão integrada de resíduos sólidos;

VIII - articulação entre as diferentes esferas do poder público, e


destas com o setor empresarial, com vistas à cooperação técnica e
financeira para a gestão integrada de resíduos sólidos;

IX - capacitação técnica continuada na área de resíduos sólidos;

X - regularidade, continuidade, funcionalidade e universalização


da prestação dos serviços públicos de limpeza urbana e de mane-
jo de resíduos sólidos, com adoção de mecanismos gerenciais e

PRINCIPAIS SETORES DA GESTÃO URBANA


243

econômicos que assegurem a recuperação dos custos dos serviços


prestados, como forma de garantir sua sustentabilidade operacio-
nal e financeira, observada a Lei nº 11.445, de 2007;

XI - prioridade, nas aquisições e contratações governamentais,


para:

a. produtos reciclados e recicláveis;


b. bens, serviços e obras que considerem critérios
compatíveis com padrões de consumo social e
ambientalmente sustentáveis;
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

XII - integração dos catadores de materiais reutilizáveis e reciclá-


veis nas ações que envolvam a responsabilidade compartilhada
pelo ciclo de vida dos produtos;

XIII - estímulo à implementação da avaliação do ciclo de vida do


produto;

XIV - incentivo ao desenvolvimento de sistemas de gestão am-


biental e empresarial voltados para a melhoria dos processos pro-
dutivos e ao reaproveitamento dos resíduos sólidos, incluídos a
recuperação e o aproveitamento energético;

XV - estímulo à rotulagem ambiental e ao consumo sustentável.

A lei apesar de bem vista tem difícil aplicação e até o momento não obteve todo
o sucesso desejado, sendo muita vezes tachada como uma lei que “não pegou”.
Um fato infeliz já que as determinações da lei se cumpridas poderiam ser grande
parte da solução do problema dos resíduos sólidos, principalmente pela chamada
logística reversa que a lei estabelece e conceitua como:
[...] instrumento de desenvolvimento econômico e social caracte-
rizado por um conjunto de ações, procedimentos e meios desti-
nados a viabilizar a coleta e a restituição dos resíduos sólidos ao
setor empresarial, para reaproveitamento, em seu ciclo ou em ou-
tros ciclos produtivos, ou outra destinação final ambientalmente
adequada (Lei nº 12.305/2010 Art. 3, 2010, on-line)6.

Pela lei cada setor existente no processo de produção e utilização de resíduos


sólidos deve ter responsabilidade e função específica para seu gerenciamento:
■■ Consumidores: devolver os produtos que não são mais usados em pos-
tos (locais) específicos.

Saneamento Básico
244 UNIDADE V

■■ Comerciantes: instalar locais específicos para a coleta (devolução) des-


tes produtos.
■■ Indústrias: retirar estes produtos, por meio de um sistema de logística,
reciclá-los ou reutilizá-los.
■■ Governo: criar campanhas de educação e conscientização para os con-
sumidores, além de fiscalizar a execução das etapas da logística reversa.
■■ No final, muitas vantagens para a sociedade e o meio ambiente poderiam
ser criadas com a aplicação da logística reversa e da lei como um todo:

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
■■ Possibilita o retorno de resíduos sólidos para as empresas de origem, evi-
tando que eles possam poluir ou contaminar o meio ambiente (solo, rios,
mares, florestas etc.).
■■ Permite economia nos processos produtivos das empresas, uma vez que
estes resíduos entram novamente na cadeia produtiva, diminuindo o con-
sumo de matérias-primas.
■■ Cria um sistema de responsabilidade compartilhada para o destino dos
resíduos sólidos. Governos, empresas e consumidores passam a ser res-
ponsáveis pela coleta seletiva, separação, descarte e destino dos resíduos
sólidos (principalmente recicláveis).
■■ As indústrias passarão a usar tecnologias mais limpas e, para facilitar a
reutilização, criarão embalagens e produtos que sejam mais facilmente
reciclados.

Conseguir a aplicação dessa lei seria um grandioso passo para conseguir solucio-
nar parte dos problemas com os resíduos sólidos. A conscientização da população,
de empresas e até mesmo do governo em prol do problema deveria ser fácil,
diante de algo tão sério, porém, o que vemos é um descaso gigantesco com o
tema. Mesmo em países europeus existe pouca conscientização. Em Londres,
na Inglaterra, grande parte dos resíduos são incinerados, utilizando tecnologia
de ponta e produzindo energia elétrica, porém causando poluição atmosférica e
descartando muita matéria prima (recursos naturais). Em países como o Brasil,
a reciclagem pode ser ainda mais vantajosa, pois tem o potencial de aumentar
significativamente empregos.

PRINCIPAIS SETORES DA GESTÃO URBANA


245
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

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REDE ELÉTRICA

O sistema de distribuição de energia elétrica no Brasil é regulado por resoluções


da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), as quais, por sua vez, se orien-
tam pelas diretrizes estabelecidas nas leis aprovadas pelo Congresso Nacional e
nos decretos estabelecidos pelo Executivo Federal.
Antes da privatização do setor, no início dos anos 2000, as empresas eram
verticalizadas e não havia separação dos negócios da cadeia produtiva (gera-
ção, transmissão e distribuição). Hoje independentes, as distribuidoras são o
elo entre o setor elétrico e a sociedade: essas instalações recebem das compa-
nhias de transmissão a maior parte do suprimento de energia elétrica destinado
ao abastecimento do País. 
A conexão e o atendimento ao consumidor do ambiente regulado são reali-
zados pelas distribuidoras de energia. Além delas, as cooperativas de eletrificação
rural, entidades de pequeno porte, distribuem energia elétrica exclusivamente
para seus associados. 
A energia distribuída é a energia efetivamente entregue aos consumidores
conectados à rede elétrica de uma determinada empresa de distribuição. Essa rede
pode ser aérea, suportada por postes ou por dutos subterrâneos. O setor privado

Rede Elétrica
246 UNIDADE V

é responsável por 67% da energia distribuída no País. Os sistemas de energia elé-


trica no Brasil incluem todas as redes e linhas que operam em tensão inferior a
230 mil volts, seja em alta, média ou baixa ou tensão (ANEEL, 2016, on-line)7.
As contas de energia no Brasil serão submetidas ao sistema de bandeiras
tarifárias a partir de 2015. Bandeiras nas cores amarela e vermelha, indicando con-
dições de geração de energia menos favoráveis e desfavoráveis, respectivamente,
resultarão em acréscimos de valores nas tarifas. A bandeira verde, terceira opção
prevista pelo sistema, representa condição favorável de geração e, por consequên-
cia, não exige adição de valores nos boletos de energia (ANEEL, 2016, on-line)7.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
A citação a seguir resume o funcionamento das redes elétricas no Brasil e a
predileção pelas redes aéreas.
A rede de distribuição de energia elétrica é composta pelas redes elétri-
cas primárias (média tensão – MT) e redes secundárias (baixa tensão
– BT), que formam uma infraestrutura determinante para o sucesso
da transmissão da energia elétrica. Do uso dos cabos isolados com
papel impregnado aos cabos isolados com compostos termoplásticos
ou termofixos, em baixa e média tensão, muitas foram às mudanças e
adaptações que o sistema elétrico passou ao longo dos anos. Muitos in-
vestimentos em redes aéreas e subterrâneas foram feitos desde o início
do século, predominando a primeira opção por conta da praticidade e
do custo. Embora seja um sistema viável e com vantagens – estéticas e
também de qualidade –, as redes subterrâneas foram deixadas de lado
no princípio da eletrificação brasileira, mas retomadas nos últimos
anos (MARTINS, 2012, on-line)8.

Houveram muitas inovações nas rede elétricas desde a segunda guerra mundial,
de forma geral a longo prazo as redes subterrâneas possuem vantagens com a
rede elétrica, vantagens de teor estético, referentes à durabilidade e manutenção
dos equipamentos e até mesmo ambiental por reduzir a necessidade de podas
nas árvores urbanas (MARTINS, 2012)8.
No Brasil prevalecem as redes aéreas, que ao longo do tempo receberam
muitas inovações como novos equipamentos que aumentam sua durabilidade e
facilitam à manutenção. Exemplo são as redes compactas e isoladas, que melho-
ram em muito as necessidades de podas nas árvores (MARTINS, 2012)8.
De forma geral, os benefícios das redes subterrâneas são incontestáveis,
porém, os custos de readequação das redes já estabelecidas são enormes, estimados

PRINCIPAIS SETORES DA GESTÃO URBANA


247

em oito vezes mais que o da rede aérea. O que pesa no orçamento são os trans-
formadores, cabos isolados, conexões da rede primária e os protetores de rede.
Os protetores de rede nem possuem fabricantes nacionais e tem alto custo de
importação.
Porém, em regiões ainda sem implantação de rede o sistema pode ser mais
viável, mas deve-se levar em conta a densidade da carga, o tipo de serviço e a
previsão da demanda de energia, com isso o valor final pode ser interessante. O
Brasil ainda não possui políticas públicas e não existe grande interesse das com-
panhias elétricas em substituir os sistemas aéreos (MARTINS, 2012)8.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Figura 3 - escavação de rua em uma construção em condutos para a colocação de fibra óptica e cabo elétrico

Segundo dados da Aneel, as redes subterrâneas não chegam a 2% do total de


redes urbanas de média e baixa tensão. No Brasil, existem 794.699 km de redes
e apenas 12.348 km são subterrâneas. Dessas uma boa parte sob cuidados da
empresa Light, que é responsável por 58% do total brasileiro de média tensão e
35% de baixa tensão, acumulando 45% da soma (MARTINS, 2012)8.

Rede Elétrica
248 UNIDADE V

Em termos de produção de energia para distribuição nas redes elétricas, o


Brasil tem um longo e promissor caminho a percorrer. No país a média de con-
sumo de energia elétrica per capita está em 2,5 mil kWh por ano, bem abaixo
dos 8,2 mil kWh por ano das nações da Organização para a Cooperação e
Desenvolvimento Econômico (OCDE), a matriz elétrica contrasta com boa parte
do mundo. Mais de 80% da geração é oriunda de fontes renováveis, com ênfase
para as hidrelétricas, enquanto em boa parte do mundo o carvão é o principal
insumo (OSÓRIO, 20139; ANEEL, 2008). O Brasil apresenta cerca de 64% de sua
energia elétrica provinda de empreendimentos hidrelétricos, a expressiva maioria

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
de sua produção (ANEEL, 2016, on-line)7. Apesar de ser considerada uma fonte
renovável de energia, esses empreendimentos hidrelétricos não são vistos como
“limpos” em termos ambientais, pois os impactos que ocorrem para a implan-
tação e operação deles são muito significativos. Isso ocorre porque as áreas de
inundação geralmente são enormes, existe variações na vazão das bacias hidro-
gráficas onde os empreendimentos são instalados, mortandade da icitiofauna,
desmatamentos e principalmente pelo fato de que muitos desses empreendimen-
tos estão planejados na região Amazônica.
Um destaque recente no País tem sido o forte crescimento da participação
das energias renováveis alternativas, como a eólica, a solar e a biomassa, que já
respondem por cerca de 15% da oferta elétrica interna (ANEEL, 2016, on-line)7.
Portanto, o futuro brasileiro no campo das renováveis é promissor: em usi-
nas eólicas, o País já é um dos dez maiores geradores do mundo, com 8,6 mil
MW, e detém potencial considerável, com mais de 300 mil MW de capacidade
podendo ser adicionados nos próximos anos, volume equivalente a 21 hidrelé-
tricas de Itaipu; em solar, a ANEEL prevê que, até 2024, quase 5 milhões de
pessoas produzam sua própria energia. A fonte solar, cuja participação atual na
matriz não chega a 0,1%, poderia responder por 3% em dez anos, sem conside-
rar o imenso potencial para o uso residencial e industrial. Até 2050, o governo
brasileiro estima que a geração solar distribuída possa alcançar até 118 mil MW
(ANEEL, 2016)7.
A geração distribuída renovável vem crescendo rapidamente no mundo,
diminuindo a lacuna entre os que têm energia e os que não têm. Outro aspecto

PRINCIPAIS SETORES DA GESTÃO URBANA


249

levantado é que o engajamento dos governantes em ter metas, como vem sendo
feito com as fontes eólica e solar. Desde o início de 2016, 173 países estabele-
ceram metas para as energias renováveis e 146 países elaboraram políticas de
apoio. Houve melhora no financiamento de projetos e a demanda por servi-
ços mais modernos nas economias emergentes, aliada a preocupação ambiental
e energética. O investimento feito em 2015 também foi destaque. No mundo
foram gastos US$ 186 bilhões em eletricidade e combustível de origem renová-
vel. Dessa vez, os países em desenvolvimento ultrapassaram os desenvolvidos
nos investimentos. O Brasil assumiu metas no Acordo sobre Mudança Climática
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

de Paris, quando se comprometeu, até 2030, a elevar de 10% para 23% o uso de
energias renováveis alternativas na sua matriz elétrica e tem potencial para isso
(ANEEL, 2016, on-line)7.
Novidades recentes demonstram que o Brasil começa a incentivar o uso de
energia renovável alternativa nas residências, pois a Agência Nacional de Energia
Elétrica (ANEEL) aprovou em 2015 aprimoramentos na Resolução Normativa
nº 482/2012 que criou o Sistema de Compensação de Energia Elétrica, permi-
tindo que o consumidor instale pequenos geradores (tais como painéis solares
fotovoltaicos e microturbinas eólicas, entre outros) em sua unidade consumi-
dora e troque energia com a distribuidora local com objetivo de reduzir o valor
da sua fatura de energia elétrica. Para o planejamento urbano é uma ótima notí-
cia, sendo que toda a energia necessária das cidades poderá no futuro vir apenas
dessas fontes de energia, principalmente a solar, trazendo benefícios na busca
do desenvolvimento sustentável.
Segundo as novas regras, que começam a valer a partir de 1º de março de
2016, será permitido o uso de qualquer fonte renovável, além da cogeração qua-
lificada, denominando-se micro geração distribuída a central geradora com
potência instalada até 75 quilowatts (KW) e mini geração distribuída aquela com
potência acima de 75 kW e menor ou igual a 5 MW (sendo 3 MW para a fonte
hídrica), conectadas na rede de distribuição por meio de instalações de unida-
des consumidoras (ANEEL, 2016, on-line)7.
Quando a quantidade de energia gerada em determinado mês for supe-
rior à energia consumida naquele período, o consumidor fica com créditos que

Rede Elétrica
250 UNIDADE V

podem ser utilizados para diminuir a fatura dos meses seguintes. De acordo com
as novas regras, o prazo de validade dos créditos passou de 36 para 60 meses,
sendo que eles podem também ser usados para abater o consumo de unidades
consumidoras do mesmo titular situadas em outro local, desde que na área de
atendimento de uma mesma distribuidora. Esse tipo de utilização dos créditos
foi denominado “autoconsumo remoto” (ANEEL, 2016, on-line)7.
Outra inovação da norma diz respeito à possibilidade de instalação de gera-
ção distribuída em condomínios (empreendimentos de múltiplas unidades
consumidoras). Nessa configuração, a energia gerada pode ser repartida entre os

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
condôminos em porcentagens definidas pelos próprios consumidores. A ANEEL
criou ainda a figura da “geração compartilhada”, possibilitando que diversos inte-
ressados se unam em um consórcio ou em uma cooperativa, instalem uma micro
ou mini geração distribuída e utilizem a energia gerada para redução das fatu-
ras dos consorciados ou cooperados (ANEEL, 2016, on-line)7.
Com relação aos procedimentos necessários para se conectar a micro ou
mini geração distribuída à rede da distribuidora, a ANEEL estabeleceu regras
que simplificam o processo: foram instituídos formulários padrão para realiza-
ção da solicitação de acesso pelo consumidor. O prazo total para a distribuidora
conectar usinas de até 75 kW, que era de 82 dias, foi reduzido para 34 dias.
Adicionalmente, a partir de janeiro de 2017, os consumidores poderão fazer a
solicitação e acompanhar o andamento de seu pedido junto à distribuidora pela
internet. A Agência acompanhará de perto a implantação das novas regras do
Sistema de Compensação e prevê que até 2024 cerca de 1,2 milhão de unidades
consumidoras passem a produzir sua própria energia, totalizando 4,5 giga watts
(GW) de potência instalada (ANEEL, 2016, on-line)7.
Fato interessante no Brasil é que a energia diretamente utilizada pelos cida-
dãos não assume grande porcentagem no total, o grande consumo é industrial.
Atualmente seis setores industriais consomem 30% da energia elétrica produ-
zida no país. Dois deles são mais vinculados ao mercado doméstico, que é o
cimento e a indústria química. Mas os outros quatro têm uma parte considerá-
vel da produção para exportação: aço, alumínio primário, ferroligas e celulose
(BERMANN, 2011 apud BRUM, 2011, on-line)10.

PRINCIPAIS SETORES DA GESTÃO URBANA


251
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

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MOBILIDADE URBANA

A mobilidade urbana é dependente da organização do espaço que deve estabe-


lecer normas de acessibilidade no deslocamento de pessoas pelos mais diversos
motivos, como escola, trabalho, lazer entre outros. A acessibilidade e a mobili-
dade urbana estão completamente relacionadas à organização do território e aos
sistemas de transporte (VARGAS et al., 2015).
Um novo termo ganha intensidade nos dias de hoje, a mobilidade sustentá-
vel das cidades que depende das políticas que determinam diretrizes para dispor
deslocamentos com conforto e segurança com custos e tempo aceitáveis e com
eficiência no uso das matrizes de energia com consequente menor interferência
no meio ambiente (VARGAS et al., 2015).
Merlin (apud SOUSA, 2003, p. 32) distingue as mobilidades realizadas no
espaço urbano, classificando-a em quatro grupos:

Mobilidade Urbana
252 UNIDADE V

■■ Mobilidade residencial: é a circulação entre o local de moradia em dire-


ção a qualquer ou­tro ponto em meio a um mesmo espaço urbano. É o
desejo de adaptar as características do local às necessidades familiares.
■■ Mobilidade ocasional: não obedece a um período determinado. Os moti-
vos são: profissio­nal, lazer, visita a parentes etc.
■■ Mobilidade semanal: está relacionada aos trabalhadores e estudantes
que exercem ativi­dades longe de suas residências, repetindo-se as via-
gens semanalmente.
■■ Mobilidade quotidiana: é quase obrigatória. É o circuito de ligação diário

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
entre o local de moradia e os locais de trabalho e escola.

Nesse contexto, surgiu a Lei nº 12.587/2012(2012, on-line)11, que é tratada como


uma política para o desenvolvimento urbano e objetiva a integração entre os
diferentes modos de transporte e a melhoria da acessibilidade e mobilidade das
pessoas e cargas nas cidades. Em seu Art. 3, é tratado sobre o Sistema Nacional
de Mobilidade Urbana como o conjunto organizado e coordenado dos modos
de transporte, de serviços e de infraestruturas que garante os deslocamentos de
pessoas e cargas no território do Município. Nos parágrafos desse artigo, são
considerados:
§ 1o São modos de transporte urbano:

I - motorizados; e

II - não motorizados.

§ 2o Os serviços de transporte urbano são classificados:


I - quanto ao objeto:

a) de passageiros;

b) de cargas;

II - quanto à característica do serviço:

a) coletivo;

b) individual;

PRINCIPAIS SETORES DA GESTÃO URBANA


253

III - quanto à natureza do serviço:

a) público;

b) privado.

§ 3o São infraestruturas de mobilidade urbana:


I - vias e demais logradouros públicos, inclusive metroferrovias,
hidrovias e ciclovias;

II - estacionamentos;

III - terminais, estações e demais conexões;


Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

IV - pontos para embarque e desembarque de passageiros e cargas;

V - sinalização viária e de trânsito;

VI - equipamentos e instalações; e

VII - instrumentos de controle, fiscalização, arrecadação de taxas e


tarifas e difusão de informações.

O Art. 4° dessa lei considera:


I - transporte urbano: conjunto dos modos e serviços de transpor-
te público e privado utilizados para o deslocamento de pessoas e
cargas nas cidades integrantes da Política Nacional de Mobilidade
Urbana;

II - mobilidade urbana: condição em que se realizam os desloca-


mentos de pessoas e cargas no espaço urbano;

III - acessibilidade: facilidade disponibilizada às pessoas que pos-


sibilite a todos autonomia nos deslocamentos desejados, respei-
tando-se a legislação em vigor;

IV - modos de transporte motorizado: modalidades que se utili-


zam de veículos automotores;

V - modos de transporte não motorizado: modalidades que se uti-


lizam do esforço humano ou tração animal;

VI - transporte público coletivo: serviço público de transporte de


passageiros acessível a toda a população mediante pagamento in-
dividualizado, com itinerários e preços fixados pelo poder público;

Mobilidade Urbana
254 UNIDADE V

VII - transporte privado coletivo: serviço de transporte de pas-


sageiros não aberto ao público para a realização de viagens com
características operacionais exclusivas para cada linha e demanda;

VIII - transporte público individual: serviço remunerado de trans-


porte de passageiros aberto ao público, por intermédio de veículos
de aluguel, para a realização de viagens individualizadas;

IX - transporte urbano de cargas: serviço de transporte de bens,


animais ou mercadorias;

X - transporte motorizado privado: meio motorizado de transpor-


te de passageiros utilizado para a realização de viagens individua-

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
lizadas por intermédio de veículos particulares;

XI - transporte público coletivo intermunicipal de caráter urba-


no: serviço de transporte público coletivo entre Municípios que
tenham contiguidade nos seus perímetros urbanos;

XII - transporte público coletivo interestadual de caráter urbano:


serviço de transporte público coletivo entre Municípios de dife-
rentes Estados que mantenham contiguidade nos seus perímetros
urbanos; e

XIII - transporte público coletivo internacional de caráter urba-


no: serviço de transporte coletivo entre Municípios localizados
em regiões de fronteira cujas cidades são definidas como cidades
gêmeas.

O Art. 5o da Política Nacional de Mobilidade Urbana estabelece seus princípios:


I - acessibilidade universal;

II - desenvolvimento sustentável das cidades, nas dimensões so-


cioeconômicas e ambientais;

III - equidade no acesso dos cidadãos ao transporte público cole-


tivo;

IV - eficiência, eficácia e efetividade na prestação dos serviços de


transporte urbano;

V - gestão democrática e controle social do planejamento e avalia-


ção da Política Nacional de Mobilidade Urbana;

VI - segurança nos deslocamentos das pessoas;


VII - justa distribuição dos benefícios e ônus decorrentes do uso

PRINCIPAIS SETORES DA GESTÃO URBANA


255

dos diferentes modos e serviços;

VIII - equidade no uso do espaço público de circulação, vias e lo-


gradouros; e

IX - eficiência, eficácia e efetividade na circulação urbana.

O estabelecimento das diretrizes é realizado no Art. 6o:


I - integração com a política de desenvolvimento urbano e respectivas políticas
setoriais de habitação, saneamento básico, planejamento e gestão do uso do solo
no âmbito dos entes federativos;

II - prioridade dos modos de transportes não motorizados sobre os motorizados


Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

e dos serviços de transporte público coletivo sobre o transporte individual mo-


torizado;

III - integração entre os modos e serviços de transporte urbano;

IV - mitigação dos custos ambientais, sociais e econômicos dos deslocamentos


de pessoas e cargas na cidade;

V - incentivo ao desenvolvimento científico-tecnológico e ao uso de energias


renováveis e menos poluentes;

VI - priorização de projetos de transporte público coletivo estruturadores do ter-


ritório e indutores do desenvolvimento urbano integrado; e

VII - integração entre as cidades gêmeas localizadas na faixa de fronteira com


outros países sobre a linha divisória internacional.

E os objetivos dessa política são especificados no Art. 7o e são os seguintes:


I - reduzir as desigualdades e promover a inclusão social;

II - promover o acesso aos serviços básicos e equipamentos sociais;

III - proporcionar melhoria nas condições urbanas da população


no que se refere à acessibilidade e à mobilidade;

IV - promover o desenvolvimento sustentável com a mitigação dos


custos ambientais e socioeconômicos dos deslocamentos de pes-
soas e cargas nas cidades; e

V - consolidar a gestão democrática como instrumento e garantia


da construção contínua do aprimoramento da mobilidade urbana.

Mobilidade Urbana
256 UNIDADE V

A responsabilidade de cobrar a acessibilidade e a fiscalização dessa lei é de toda


a sociedade, por isso, é essencial que a população se informe e se organize por
meio de documentos formais para cobrar que tais medidas entrem em vigor.
De acordo com o IBGE (2010, on-line)12 existem 294 aglomerações urbanas
no Brasil, ou seja, regiões em que vários municípios ficam muito próximos um
dos outros, trazendo maior necessidade de mobilidade entre seus habitantes e
trafego de veículos intenso. Nessas aglomerações vivem mais da metade da popu-
lação brasileira (106,8 milhões). Portanto, muitos brasileiros estão sofrendo para
se locomoverem nas cidades, desperdiçando horas preciosas apenas em desloca-

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
mento. No mundo todo a mobilidade urbana é um problema, pois as cidades de
forma geral foram planejadas para os automóveis, consumindo grande espaço e
cada vez precisando de mais.
Países como Alemanha e Holanda por muitos anos vem criando incentivos
para o uso de transportes alternativos, como as bicicletas e associando isso a
um eficiente transporte público conseguiram grandes avanços. Até mesmo uma
mega cidade como Nova York deu passos importantes nessa busca. A partir de
2007 uma política diferente de mobilidade foi inserida na cidade, encurralando
o uso do carro ao invés de abrir espaço para eles. O foco ficou para os pedes-
tres e ciclistas. Foram fechadas ruas movimentadas em determinados períodos
semanais para os carros, transformando essas em espaços públicos. Nessas ruas
foram inseridas infraestrutura para as pessoas sentarem e de lazer, o mesmo foi
feito em praças e ruas de pouco tráfego, criando uma malha gigantesca de ciclo-
via. Em seis anos uma das cidades mais perigosas para pedestres e ciclistas se
tornou favorável a eles. O número de ciclistas duplicou e o número de acidentes
continuou o mesmo. O aluguel de bicicletas foi implementado e o uso conti-
nua a aumentar. No mundo todo, exemplos como o de Nova York vem sendo
seguido (LEITÃO, 2015).
O desenho das cidades e seu zoneamento são armas importantes para a mobi-
lidade. As áreas periféricas devem ser trabalhadas dentro da descentralização,
inserindo pequenos centros de utilização civil e social nessas áreas, produzindo
assim pouca necessidade de locomoção. Associando essa ideia de descentralização

PRINCIPAIS SETORES DA GESTÃO URBANA


257

à ideia de restringir o espaço para os carros a cidade de Barcelona implantou os


chamados superquarteirões. A ideia foi juntar blocos de nove quadras e trans-
formá-los em apenas um quarteirão, formando um quadrado de 400 metros de
lado. Dessa maneira, o trânsito de carros nas ruas internas foi substituído por cal-
çadões, ciclovias, espaços de lazer e áreas verdes, conforme cita Trentini (2016):
[...] os superquarteirões levam em conta fatores como a habitabilidade,
a mobilidade sustentável, o aumento das áreas verdes e a biodiversi-
dade, e a promoção da participação dos cidadãos. Com o projeto, o
governo almeja que os espaços públicos sejam voltados para as pessoas,
com ênfase na interação, saúde e recreação. Afinal, o uso da cidade vai
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

além do deslocamento feito por carros. As medidas, além de beneficiar


os residentes, estão alinhadas aos desafios da sustentabilidade global. O
projeto dos superquarteirões pretende organizar a cidade de uma for-
ma que os pedestres, ciclistas e transporte público tenham prioridade
real (TRENTINI, 2016, p. 02, on-line)13.

As superquadras ainda estão sendo testadas e os carros de moradores poderão


adentrar as áreas apenas a 10km/h. Pretende-se instalar os superquarteirões em
nove diferentes lugares da cidade. Por enquanto, a implementação de cinco super-
quarteirões foi cotada em € 1,7 milhão. Ao todo, o projeto custará em torno de €
10 milhões. Dessa forma, Barcelona toma um impulso na tentativa de recon-
quistar as ruas da cidade, utilizando de urbanismo tático para encorajar a coesão
social, a convivência e os intercâmbios humanos. O que parece ser um melhor
caminho do que o trilhado até aqui por carros, poluição e todos os seus fatores
consequentes (TRENTINI, 2016, on-line)13.
O futuro da mobilidade urbana ainda é incerto, mas novas tecnologias vêm
surgindo com poder de grandes transformações. A tendência das pessoas tra-
balharem mais em casa pelo uso da internet, a disponibilização de bicicletas
ou pequenos veículos elétricos para o uso dos cidadãos, implantação de trans-
porte públicos velozes e menos poluentes com menos exigência de espaço como
os Veículos Leves sobre Trilhos (VLT) ou os trens suspensos de Wuppertal
(Alemanha) entre outras ideias dão um vislumbre que a mobilidade urbana
pode mudar para melhor.

Mobilidade Urbana
258 UNIDADE V

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Figura 4 - Sistema para trem suspenso em Wuppertal (Alemanha)

Se quisermos progredir, não devemos repetir a história, mas sim, fazer uma
história nova.
(Mahatma Gandhi)

NOVAS TECNOLOGIAS PARA USO NO


PLANEJAMENTO URBANO

Caro(a) Aluno(a), neste tópico vamos tratar brevemente de algumas tecnolo-


gias inovadoras que podem ser muito influentes para o planejamento urbano,
seja por influírem nas construções urbanas, melhorarem saneamento, mobili-
dade ou fatores sociais, econômicos e ambientais de uma cidade.

PRINCIPAIS SETORES DA GESTÃO URBANA


259

Pesquisadores da cidade de São Paulo desenvolveram uma possível solução


para as águas das chuvas que castigam a cidade de São Paulo e causam as
inundações durante o verão. Os pesquisadores da USP desenvolveram um
asfalto poroso, ou seja, permeável, que absorve as águas da chuva e, con-
sequentemente, diminui os riscos de alagamentos. O projeto, chamado de
Pavimento Permeável Reservatório, é uma parceria entre o Departamento
de Engenharia Hidráulica da USP e a Prefeitura de São Paulo, coordenado
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

pelo Prof. José Rodolfo Martins (PALMERIO, 2010, on-line)14.


O asfalto permeável é uma tecnologia que vem sendo testada e modificada
em diferentes partes do mundo, existindo diferentes tipos, como por exem-
plo em Pricenton nos EUA bons resultados foram atingidos. O intuito é reter
as águas das chuvas que normalmente escorrem com velocidade direta-
mente para as bocas de lobo quando da existência de asfaltos tradicionais.
Em uma cidade como São Paulo, em que boa parte de sua área é imperme-
abilizada por pavimentos, evitar que o fluxo de água se dirija rapidamente
para os córregos e rios é essencial para controlar as inundações. O coorde-
nador do projeto, Prof. Martins, destaca que com esses pavimentos permeá-
veis existirá uma retenção da água, por um período, em uma segunda cama-
da de pedras e que gradualmente, através de drenos a água continuará seu
caminho para as galerias de água da cidade (PALMERIO, 2010).
Para saber mais acesse: <http://www.usp.br/aun/exibir?id=3577>.
Fonte: adaptado de Palmério (2010, on-line)14

TÉCNICAS E MATERIAIS DE CONSTRUÇÃO

Existem no mundo diferentes materiais e técnicas de construções diferentes das


usualmente utilizadas no Brasil. Nos Estados Unidos a maioria das casas são cons-
truídas seguindo os modelos SteelFrame e WoodFrame, em que a estrutura da
casa é pré montada com partes de aço ou madeira e depois fechadas com placas
de cimento e gesso. No Brasil, já existem tijolos ecológicos, onde o uso de arga-
massa é mínimo, pois este vem com encaixes e são fabricados de forma menos
impactantes ao meio ambiente. Essas técnicas trazem benefícios ambientais como:

Novas Tecnologias para uso no Planejamento Urbano


260 UNIDADE V

■■ Uso mínimo de água.


■■ Redução em cerca de 90% a quantidade de resíduos (entulho).
■■ Economia em energia elétrica devido ao conforto térmico da construção.

■■ Redução de resíduos líquidos e contaminação da água.

Além de técnicas e materiais diferenciados novos tipos de projetos para mora-


dias vêm sendo executados, em que casas são desmontadas e podem com maior
facilidade serem transportadas para novos locais. Além disso, normalmente os
projetos introduzem todo tipo de inovação em prol da sustentabilidade. Como

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
exemplo podemos citar o estúdio de design holandês Fiction Factory que desen-
volveu uma casa sustentável que pode ser construída em apenas um dia. A
criação recebeu o nome de Wikkelhouse e pode ser adaptada de acordo com as
preferências do cliente, seu tamanho e uso variam de acordo com a necessidade
de cada um. A grande diferença desse modelo de construção para os tradicio-
nais é a matéria-prima. No lugar de tijolo ou concreto, a residência tem as suas
paredes feitas em papelão. O material é feito pela própria empresa, com alta qua-
lidade. Assim, as folhas de papelão são adaptadas para formarem a base da casa.
A estrutura é formada por grandes tiras desta base de papelão, que conta com
24 camadas do material, coladas por uma cola de alta resistência. Elas formam
blocos de 1,2 metros de largura. A quantidade de tiras escolhidas pelo compra-
dor determina o tamanho da casa. O mínimo são três, mas a quantidade pode
ser infinita (CICLOVIVO, 2016, on-line)15.

TURBINA EÓLICA SEM HÉLICE

A empresa start-up, Tunisiana, de energia verde, Saphon Energy assumiu a missão


de reinventar completamente as turbinas eólicas, transformando-as em estrutu-
ras sem hélices em forma de antena parabólica balançando em um movimento
de 8 – uma construção inspirada no projeto das velas do navio de séculos atrás.
Essa tecnologia elimina a necessidade de hélices, aumentando a eficiência da
turbina e reduzindo pela metade os custos de produção. De acordo com Anis
Aouini, o criador e fundador da Saphon Energy, o seu conversor eólico sem

PRINCIPAIS SETORES DA GESTÃO URBANA


261

hélices escapa às limitações de eficiência das turbinas convencionais, que devido


à física da sua concepção não conseguem capturar mais de 59% da energia ciné-
tica produzida pelo vento. O dispositivo converte esta energia com a ajuda de
pistões e pode armazená-la para uso posterior em um acumulador hidráulico
(KOOP, 2016, on-line)16.

BACTÉRIA QUE CONSOME PLÁSTICO


Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Trata-se de um projeto com teste previsto em 2016. Duas pesquisadoras: Miranda


Wang e Jeanny Yao, de Vancouver, Canadá, vêm trabalhando na ideia desde que
estavam no colégio. O objetivo delas é criar uma bactéria que se alimenta dos resí-
duos plásticos, retornando água e CO2 para os oceanos. O sistema funciona em
duas etapas: na primeira, o plástico é dissolvido com o uso de solventes, depois
as bactérias entram em ação. A estimativa é que cada litro de solução com bacté-
rias possa remover nove gramas de plástico das águas. As pesquisadoras estimam
que o produto possa estar comercialmente viável em até dois anos (INSTITUTO
DE MICROBIOLOGIA DA UFRJ, 2015, on-line)17.

CÉLULAS SOLARES PARA ENVELOPAR EDIFÍCIOS

A energia fotovoltaica pode vir a ser a solução de inúmeros problemas ambien-


tais, econômicos e sociais, existe muita tecnologia no setor sendo desenvolvida,
como essas células para envelopar edifícios.
A ideia dos edifícios “energia zero” é que esses consigam gerar toda a energia
que consomem, ou em alguns casos até mais. Atualmente, eles estão mais perto
de se tornar realidade graças à viabilização de um novo conceito de captação de
energia solar. Uma equipe de pesquisadores australianos alcançou a maior efi-
ciência já registrada em células solares flexíveis não tóxicas e com baixo custo
de produção, e indicam que estas poderão ser usadas para envelopar edifícios,
transformando suas paredes em gigantescos painéis solares. A promessa de edi-
fícios de energia zero é antiga, mas vem esbarrando em dois obstáculos: o alto

Novas Tecnologias para uso no Planejamento Urbano


262 UNIDADE V

custo das células solares de película fina, que podem ser fabricadas por impres-
são em formato de rolo, e o fato de que elas geralmente são feitas materiais caros
e tóxicos - CdTe (telureto de cádmio) e CIGS (cobre-índio-gálio-seleneto), agora
começa a encontrar saídas (INOVAÇÃO TECNOLÓGICA, 2016, on-line)18

TINTA QUE ABSORVE POLUIÇÃO ATMOSFÉRICA

A tecnologia nova está sendo desenvolvida por cientistas de uma universidade

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
italiana e já está em algumas áreas turísticas da cidade.
Roma é considerada uma das 20 cidades mais poluídas da Europa, por isso
busca formas de conter esse impacto ambiental que afeta diretamente a quali-
dade de vida de seus habitantes. A prefeitura de Roma está investindo em uma
nova microtecnologia contida em uma tinta que absorve gases poluentes. A
primeira experiência com o produto foi testada no túnel Umberto I, de 9 mil
metros, subterrâneo, com tráfego intenso e agora todo pintado de branco com
a nova tinta. A nova tinta feita a base de cimento, e de um princípio ativo foto-
catalítico, é capaz de absorver a poluição do ar, chegando a reduzir pela metade
esses gases no ambiente. Os testes de laboratório tiveram sucesso mostrando que
os gases de escapamento inseridos em numa caixa de acrílico forma absorvidos
pela tinta antipoluição. A nova tinta acionada pela luz, que estimula substâncias
como o dióxido de titânio, reduzindo imediatamente os níveis dos poluentes, em
mais de 50%. A combinação da luz natural ou artificial com o produto cria oxi-
dantes radicais que interagem com esses poluentes do ar e os transformam em
moléculas de sal. Três semanas antes do teste no túnel mencionado, antes deste
ter sido pintado, os pesquisadores auferiram os níveis de poluição atmosférica
no local. Depois de pintado, uma nova pesquisa revelou um corte de 51% dos
gases poluentes. A invenção foi apoiada pelas pesquisas da faculdade de enge-
nharia química da universidade de Roma, La Sapienza, e está sendo usada para
obras públicas. Os estudos indicam que uma parede de um metro quadrado pin-
tada com a tinta antipoluição pode possuir o mesmo efeito de uma árvore alta
em termos de absorção de poluentes, com isso, estima-se que com cem metros

PRINCIPAIS SETORES DA GESTÃO URBANA


263

quadrados será possível eliminar os gases poluentes produzidos em um ano por


12 automóveis. Quando utilizada em ambientes internos a tinta pode comer bac-
térias, vírus e fontes de mau cheiro em até 90%. A esplêndida nova substância
está sendo testada em superfícies de metal e acredita-se que em breve poderá
ser aplicada em carros, ou seja, nossos veículos poluentes poderão “engolir” a
poluição que produzem (SINQUISP, 2016, on-line)19.
São muitas as tecnologias que surgem no mundo, porém, nem todas pros-
peram, mesmo possuindo demanda e sendo estratégicas para construção de um
mundo melhor, pois o “jogo” político e econômico existente é complexo e de
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

forma geral organiza as tecnologias que realmente acabam por surgir no mer-
cado. O caso do sistema de caronas de aplicativos como UBER demonstra quanta
polêmica pode surgir como novos sistemas e novas ideias. Resta a nós cidadãos
sempre que possível incentivar e procurar que cada vez mais boas iniciativas
sejam trazidas a público e inseridas no mercado.

Novas Tecnologias para uso no Planejamento Urbano


264 UNIDADE V

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Prezado(a) aluno(a), o objetivo deste livro foi passar uma visão geral do histó-
rico, desenvolvimento, situação atual e tendências do futuro para o planejamento
urbano. Tarefa difícil, pois o tema é amplo e possui muitos vieses, porém, consi-
deramos que o texto elaborado consegue cumprir a missão, deixando o aluno de
negócios imobiliários bem informado e capacitado para atuar como profissio-
nal e cidadão nas possíveis colaborações nas diversas cidades que estes atuarão.
Prever o futuro é a parte mais difícil, porém, mesmo com tantos problemas

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
a enfrentar é possível enxergar um futuro próspero para o planejamento urbano
e para o desenvolvimento sustentável, principalmente se cada vez mais existirem
profissionais e pessoas dedicadas a um objetivo comum: fazer um mundo melhor.
Os desafios continuam a existir, mas ideias inovadoras, tecnologias revolu-
cionárias estão surgindo, com apoio de políticos (governo), empreendedores,
empresários, pesquisadores, ONGs e dos cidadãos novos tempos virão.
Ponto importante a ser lembrado é que grande parte das soluções no final
das contas são custosas em termos monetários e exigem do poder público muita
criatividade na criação de leis e incentivos para serem colocadas em prática.
Outro detalhe que pesa é que nossos governantes muitas vezes possuem visão
retrógrada, contrária a mudanças de padrões e paradigmas, isso colabora para
perdemos oportunidades de gerar mudança. A aceitação e fé em ideias revolu-
cionárias acredito ser crucial para futuras boas transformações, antes mesmo
da busca de recursos e estratégia política, é importante acreditar e investir nes-
sas ideias e novas tecnologias, pois sem isso novos caminhos ficam lentos e, na
maioria das vezes, inviáveis.
Bom, caro(a) aluno(a), com isso encerramos o conteúdo básico de nossa
disciplina, que será lapidado e até mesmo ampliado nas aulas ao vivo, com mais
informações, argumentações, históricos e interações. Esperamos que tenha gos-
tado e realmente adquirido conhecimento.

PRINCIPAIS SETORES DA GESTÃO URBANA


265

LEGISLAÇÃO MUNICIPAL EM PROL DA CONSERVAÇÃO


A legislação e programas para incentivo e conservação de recursos naturais no nível
municipal é de extrema importância, pois os principais recursos financeiros que pos-
sam ser destinados à conservação, em especial aqueles decorrentes do ICMS Ecológico,
ficam sob o gerenciamento municipal. Abaixo ficam expostos exemplos de programas
municipais que colaboram com a conservação de recursos naturais.
PROGRAMA CONSERVADOR DAS ÁGUAS - EXTREMA – MG
Síntese do programa:
Tem sua base fundamentada no Programa Produtor de Água, da Agência Nacional de
Águas (ANA), e foi o primeiro projeto brasileiro a fazer Pagamentos por Serviços Am-
bientais (PSA) a proprietários rurais. Atualmente serve como modelo mundial, sendo que
foi premiado pela Organização das Nações Unidas – ONU. O órgão executor é a prefeitura
municipal, mas parceiros como a ONG The Nature Conservancy (TNC), Agência Nacional
das Águas (ANA) e o Instituto Estadual de Florestas (IEF) colaboram com recursos e apoio
técnico. Para construção do programa foi necessário um minucioso diagnóstico de toda
área rural do município e identificação da bacia hidrográfica mais degradada que foi
definida como a primeira a ser beneficiada. Nessa bacia foi estabelecido um diagnóstico
socioambiental e identificados todos os produtores rurais da região. Na sequência um
levantamento de uso do solo da bacia identificando os principais locais de necessida-
de de recuperação. O esquema de funcionamento do projeto foi então colocado em
prática, sendo destinada uma parte do orçamento do município para o projeto, além
de recursos de instituições parceiras; elaborada uma lei municipal organizando todo o
processo até o rapasse (Lei municipal 2.100/05); negociações com os proprietários; ela-
boração de projetos para cada propriedade com objetivos e metas a serem atingidas;
elaboração de um contrato entre a prefeitura e os proprietários rurais para execução
dos projetos; o monitoramento mensal da execução e dos resultados; o pagamento aos
proprietários após comprovação das metas atingidas. Os resultados até o momento
beneficiam 108 propriedades e buscam a recuperação de 1.202 hectares. O programa
em questão não tem regras exclusivas para RPPNs, porém, traz benefícios indiretos para
unidades de conservação, pois colabora na consolidação de processos de PSA que na
maioria dos casos beneficiam diretamente unidades de conservação como RPPNs. Para
saber mais sobre o programa acesse: <http://lcf.esalq.usp.br/prof/pedro/lib/exe/fetch.
php?media=ensino:graduacao:livro_projeto_conservador_das_aguas_web_1_.pdf>.

CONDOMÍNIOS DA BIODIVERSIDADE (ConBio) e REPASSE DE ICMS A RPPNs MUNI-


CIPAIS - CURITIBA – PR
Síntese do programa:
Um projeto de iniciativa da ONG Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação
Ambiental (SPVS) e do Mater Natura (Instituto de Estudos Ambientais) intitulado Condo-
266

mínios da Biodiversidade (ConBio), iniciado no ano 2000, solidificou resultados de uma


iniciativa pública da prefeitura de Curitiba – PR. Ambas as iniciativas ficam aqui sinteti-
zadas por possuírem vínculos importantes.
O ConBio atua na zona urbana de Curitiba buscando remanescentes de vegetação na-
tiva, avaliando o estado de conservação deles e organizando ações de cunho socioam-
biental com essas áreas e seus proprietários. Durante 16 anos de execução o ConBio
visitou mais de mil e trezentas propriedades, fazendo um trabalho de assistência e orien-
tação técnica, ensinando boas práticas de manejo e conservação da biodiversidade para
os proprietários. O projeto aproximou seus participantes, o que resultou na criação da
Associação de Protetores de Áreas Verdes de Curitiba e Região Metropolitana (APAVE) e
na criação de inúmeras Unidades de Conservação, em especial 14 Reservas Particulares
do Patrimônio Natural (RPPN) municipais. Também capacitou mais de mil e duzentos
professores da rede pública de ensino em educação para conservação; participou da
elaboração de políticas públicas e marcos legais na RMC, principalmente sobre Paga-
mento por Serviços Ambientais; promoveu e difundiu a conservação da Floresta com
Araucária e estabeleceu parcerias com o setor público e privado, firmando-se como um
Programa de Conservação da Natureza em Ambiente Urbano.
Apoiada e estimulada pelo ConBio à prefeitura de Curitiba foi pioneira ao elaborar
uma legislação municipal para incentivar a criação de RPPNs Municipais. A primeira lei
sobre o tema foi a Nº 12.080/2006, porém, sofreu revisões e foi viabilizada como a Lei
Nº 14.587/2015. Hoje o município tem um procedimento para reconhecimento dessas
unidades de conservação e possibilita que os proprietários comercializem o potencial
construtivo dessas áreas para outras regiões da cidade. Com isso ocorre uma valorização
dessas áreas naturais devido ao aumento de possibilidades de ganhos financeiros. Esse
processo é possível devido ao instrumento legal de gestão urbana chamado Transferên-
cia do Direito de Construir, instituído pelo Estatuto da Cidade (Lei no 10.257, de 2001),
que confere ao proprietário de um lote a possibilidade de exercer seu potencial constru-
tivo em outro lote, ou de vendê-lo a outro proprietário. A prefeitura designou as regras
para a utilização desse instrumento legal em áreas naturais urbanas, exigindo a criação
de RPPNs Municipais para isso. O processo ainda é considerado burocrático e custoso,
pois as exigências para a criação das RPPNs e para conseguir a liberação da Transferência
do Direito de Construir (Potencial Construtivo) são onerosas e demoradas, porém, vem
surtindo efeitos como a criação de 15 RPPNs no município.Para saber mais sobre os pro-
gramas, acesse os seguintes links:
<http://www.fundacaogrupoboticario.org.br/pt/noticias/pages/grande-curitiba-ma-
nanciais-serao-mais-protegidos.aspx>.
<http://observatorio.wwf.org.br/blog/2015/03/05/curitiba-e-pioneira-ao-incentivar-a-
-criacao-de-reservas-particulares-mas-custos-ainda-sao-altos/>.
Fonte: o Autor.
267

1. De acordo com a lei de saneamento 11.445/2007 (2007,on-line)1 os serviços pú-


blicos de saneamento básico devem ser prestados com base em princípios fun-
damentais. Assinale a alternativa que elenca um desses princípios:
a. Universalização de cobrança.
b. Integralidade, compreendida como o conjunto de todas as atividades e com-
ponentes de cada um dos diversos serviços de saneamento básico, propician-
do à população o acesso na conformidade de suas necessidades e maximi-
zando a eficácia das ações e resultados.
c. Abastecimento de água, esgotamento sanitário, limpeza urbana e manejo
dos resíduos sólidos realizados de forma que no mínimo não deixem resíduos
aparentes na cidade.
d. Disponibilidade, em todas as áreas de preservação permanente, de serviços
de drenagem e de manejo das águas pluviais adequados à saúde pública e à
segurança da vida e do patrimônio público e privado.

2. No dia 2 de agosto de 2010, foi instituída no Brasil a Política Nacional de Resídu-


os Sólidos, por meio da lei nº 12.305 (2010, on-line)6, que altera a Lei no 9.605,
de 12 de fevereiro de 1998 e dá outras providências. Essa lei estabelece a cha-
mada logística reversa, onde cada setor existente no processo de produção e
utilização de resíduos sólidos deve ter uma responsabilidade e função específica
para seu gerenciamento. Assinale a alternativa que demonstra a função dos
comerciantes:
a. Devolver os produtos que não são mais usados em postos (locais) específicos.
b. Instalar locais específicos para a coleta (devolução) destes produtos.
c. Retirar estes produtos, através de um sistema de logística, reciclá-los ou reu-
tilizá-los.
d. Criar campanhas de educação e conscientização para os consumidores, além
de fiscalizar a execução das etapas da logística reversa.
268

3. Merlin (apud SOUSA, 2003, p. 32) distingue as mobilidades realizadas no espa-


ço urbano, classificando-a em quatro grupos. Assinale a alternativa que elenca
esses grupos:
a. Mobilidade residencial, mobilidade ocasional, mobilidade semanal e mobili-
dade quotidiana.
b. Mobilidade espacial, mobilidade ocasional, mobilidade semanal e mobilida-
de quotidiana.
c. Mobilidade residencial, mobilidade recorrente, mobilidade semanal e mobi-
lidade quotidiana.
d. Mobilidade residencial, mobilidade ocasional, mobilidade mensal e mobilida-
de quotidiana.

4. Novas tecnologias podem influir nas construções urbanas, melhorar saneamen-


to, mobilidade ou fatores sociais, econômicos e ambientais de uma cidade. As-
sinale a alternativa que elenca um exemplo desse tipo de tecnologia viável:
a. Slipknot.
b. Tele transporte.
c. Turbinas solares.
d. Tinta que absorve poluição.

5. Considere a seguinte descrição: projeto que almeja que os espaços públicos se-
jam voltados para as pessoas, com ênfase na interação, saúde e recreação. Afinal,
o uso da cidade vai além do deslocamento feito por carros. As medidas, além de
beneficiar os residentes, estão alinhadas aos desafios da sustentabilidade global.
Assinale a alternativa que nomeia corretamente o projeto descrito:
a. Superquarteirões.
b. Minhocoduto.
c. Super retângulo.
d. Projeto New York.
MATERIAL COMPLEMENTAR

Slingshot
Ano: 2014
Sinopse: este inteligente documentário retrata o gênio
excêntrico Dean Kamen e como ele explora a sua mais
recente invenção, a qual pode potencialmente resolver os
problemas de água potável do mundo.

Ouro Azul: As Guerras Mundiais pela Água/Blue


Gold: World Water Wars
Ano: 2011
Sinopse: este documentário mostra o que estamos a
fazer à nossa água potável e o que faremos quando
esta faltar. O desenvolvimento excessivo e desenfreado
da agricultura, da construção e da indústria aumenta a
procura da água potável, resultando na desertifi cação
da Terra. Em todas as partes do mundo a água está a
ser poluída, extraída e esgotada exponencialmente.
“Ouro Azul” aborda ainda as atuais e as futuras
guerras pela água, assim como o fato da falta de água
em muitos países do mundo se dever à manipulação e corrupção por parte dos Governos,
administrações locais e das corporações multinacionais da água. Corporações que obrigam
países em desenvolvimento a privatizarem o seu fornecimento de água potável em troca de
lucro; investidores de Wall Street que apostam em esquemas de dessalinização e exportação de
grandes quantidades de água; governos corruptos que utilizam a água para proveitos políticos e
econômicos - emerge um controle militar da água, novos mapas geopolíticos e formas estruturais
de poder, montando assim o palco para a guerra pela água no mundo.

Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=dIJw7GOFI1E>.

Material Complementar
REFERÊNCIAS

AGÊNCIA NACIONAL DE ENERGIA ELÉTRICA (ANEEL) Atlas de energia elétrica do


Brasil. Agência Nacional de Energia Elétrica. 3. ed. Brasília : Aneel, 2008.
BERNARDES, R.S.; SCÁRDUA, M.P.; CAMPANA, N.A. Guia para a elaboração de pla-
nos municipais de saneamento. Brasília: Ministério das cidades, 2006.
KOBIYAMA, M.; MOTA, A.A.; CORSEUIL, C.W. Recursos hídricos e saneamento. 1. ed.
Curitiba: Ed. Organic Trading, 2008.
LEITÃO, M. História do futuro: O horizonte do Brasil no século XXI. São Paulo: Intrín-
seca, 2013.
SOUSA, M. T. R.. Uma abordagem sobre o problema da mobilidade e acessibili-
dade do transporte coletivo, o caso do bairro Jardim São João no município de
Guarulhos-SP. Dissertação (Mestrado em Engenharia Civil). Universidade de Cam-
pinas, Campinas, 2003.
VARGAS, K. B; MIOLA, D. T. B.; NASCIMENTO, P. B. do. Planejamento Urbano e Meio
Ambiente. Maringá: Centro Uiversitário de Maringá - EAD, 2015.

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-mantiqueira-abastecem-regiao-mais-populosa-do-pais.html>. Acesso em: 28 out.
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Em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2010/lei/l12305.htm>.
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REFERÊNCIAS

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Em: <http://thecityfixbrasil.com/2016/05/23/superquarteiroes-a-nova-estrategia-sus-
tentavel-de-barcelona/?utm_source=TCFB&utm_medium=Facebook&utm_campaig-
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Em: < http://www.inovacaotecnologica.com.br/noticias/noticia.php?artigo=celu-
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Em: <http://www.sinquisp.org.br/sindicato-dos-quimicos-noticias.php?id=522>.
19

Acesso em: 28 out. 2016.


GABARITO

1. B.
2. B.
3. A.
4. D.
5. A.
273
CONCLUSÃO

Prezado(a) aluno(a)! O intuito dessa disciplina foi trazer uma base geral sobre
meio ambiente e planejamento urbano, ou seja, deixá-lo bem informado e
capacitado para enteder como os dois assuntos estão conectados, quais são as
problemáticas existentes e como se associam, e quais são as possibilidades de
solução e como podem ser construídas.
O conteúdo trouxe uma visão ambiental ampla, por isso, de início foi
demonstrado um breve histórico do universo, do nosso planeta e na sequência
da humanidade, deixando explícito que no ínfimo tempo de existência dos seres
humanos já houveram grandes transformações ambientais causadas por suas ati-
vidades. As modificações do homem sobre a natureza estão muito conectadas as
cidades, as civilizações que existiram. Toda história do planeta e da humanidade
servem como aprendizado para termos bons planejamentos futuros, principal-
mente urbanos, pois nós aprendemos errando, então nada melhor que rever os
erros do passado para corrigir o futuro.
Nesse livro também foram passados fundamentos e conceitos básicos de
meio ambiente, sintetizados dentro da análise de paisagens; outro ponto foram
os conceitos gerais de planejamento urbano; a legislação foi bastante evidenciada,
culminando em uma análise criteriosa sobre o Estatuto da Cidade, a principal lei
em relação ao planejamento urbano; por fim vimos novas tecnologias e casos de
sucesso na resolução de problemáticas urbanas. Todo esse arcabouço de temas
se bem estudado e compreendido trará a você futuro profissional e até mesmo
aqueles que já atuam no setor, fortalecimento profissional e almejamos que tam-
bém ajude a tornar os alunos dessa disciplina em cidadãos mais conscientes em
relação às questões socioambientais.
Importante frisar que a leitura do livro deve ser complementada com as aulas
gravadas e aulas ao vivo, além de exercícios, leituras e vídeos recomendados.
Desejamos a você muito sucesso!