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REVISTA

Sapientia
nº 39 Ano 09 – Janeiro / Fevereiro 2021

Ex-ministra
Izabella Teixeira
“O Brasil continua sendo
um país extremamente
importante. Nós somos
importantes como país e
como sociedade, mas os
interlocutores, ou parte
dos interlocutores do
Brasil, hoje, infelizmente,
estão aquém do que nós
somos como sociedade
e o que nós temos nas
nossas instituições.”

DAS GRAÇAS AO BANIMENTO: DO AFASTAMENTO RELATIVO AO BEM-VINDOS AO


O QUE ESTÁ POR TRÁS DO ENGAJAMENTO ESTRATÉGICO: ANTROPOCENO
DEPLATFORMING DE DONALD A CONSTRUÇÃO DA PRESENÇA
TRUMP DA CHINA NA AMÉRICA LATINA
(Victor Dias Grinberg) (Fernanda Magnotta) (Regina Araújo)

Fonte: Alexandre Campbell / Blog A Criatura


EDITORIAL

EDITORIAL
Primeiramente, a você que está nos lendo agora, seja muito bem-
vindo à 39ª edição da Revista Sapientia, que se faz ainda mais necessária
após a divulgação do Edital que oficializa o CACD 2021, publicado em
fevereiro deste ano.

Por conta disso, nesta edição, abrimos a revista com uma entrevista
de capa com a ex-ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, que
compartilha com o Sapientia um panorama sobre a situação ambiental do
Brasil. Ainda Sobre Diplomacia, a Conselheira Marise Ribeiro Nogueira,
do Setor Político de Direitos Humanos e Cidadania da Embaixada do Brasil
em Washington, DC, nos apresenta uma reflexão sobre a questão de raça
na diplomacia brasileira. Já em Espaço Aberto, o mestre em Comunicação
pela Faculdade Cásper Líbero e professor nas graduações de Relações
Internacionais e Ciências Econômicas da Faculdade Armando Alvares
Penteado, Victor Dias Grinberg, debate sobre o que está por trás do
EXPEDIENTE deplatforming de Donald Trump. Para inspirar os candidatos à diplomacia,
em Prata da Casa, o ex-aluno do Sapientia, aprovado no CACD de 2018,

Direção Geral
Maurício Gurjão, compartilha conosco pensamentos e dicas a respeito de
Priscila Canto Dantas do Amaral Zillo sua trajetória de estudos para o concurso até a tão sonhada aprovação.

Coordenadora e Editora-Chefe
Fernanda Magnotta Depois, em Perspectivas da Política Externa, a professora de
Política Internacional para o Concurso do Itamaraty, Fernanda Magnotta,
Revisão
fala sobre a construção da presença da China na América Latina. Por
Tg3 Design e Conteúdo
fim, em Professor Sapientia Comenta, a professora de Geografia do
Agradecimentos Sapientia, Regina Araújo, traz um breve debate sobre o Antropoceno,
Claudia Simionato
Fernanda Magnotta termo importantíssimo de se ter no vocabulário. E não se esqueça de
Guilherme Casarões conferir, também, as Iniciativas Sapientia que aconteceram no começo
Izabella Teixeira
deste ano e as indicações especiais dos nossos professores em Sapientia
Marise Ribeiro Nogueira
Maurício Gurjão Indica. Boa leitura!
Paulo Matiazi
Regina Araújo
Victor Dias Grinberg Equipe Sapientia
Sapientia Aedificat

ADVERTÊNCIA
A Revista Sapientia é uma publicação do Curso Sapientia, preparatório
para o Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata (CACD).
Seu conteúdo tem cunho estritamente acadêmico, sem nenhuma
ISSN da publicação digital: 2446-8827
relação oficial com o Ministério das Relações Exteriores ou quaisquer
outros órgãos do governo. Tampouco as opiniões dos entrevistados e
autores dos artigos publicados expressam ou espelham as opiniões da
Endereço instituição Sapientia. Esta revista é imparcial política ideologicamente
Avenida Queiroz Filho, 1560 e procurará sempre democratizar as discussões, ouvindo diferentes
Sala 110, Torre Rouxinol opiniões sobre um mesmo tema. Nosso maior objetivo é fomentar
Vila Hamburguesa - São Paulo - SP o debate, salutar à democracia e à construção do conhecimento
CEP: 05319-000
e da sabedoria dos candidatos à Carreira de Diplomata. A marca
Telefone: (11) 3871-2484
Sapientia é patenteada. É permitida a reprodução das matérias
e dos artigos, desde que previamente autorizada por escrito pela
www.revistasapientia.com.br Direção da Revista Sapientia, com crédito da fonte.

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SUMÁRIO

SUMÁRIO

06 ENTREVISTA DE CAPA É doutora e mestre pelo PPGRI San Tiago Dantas


(UNESP/UNICAMP/PUC-SP). Especialista em
Ex-ministra Izabella Teixeira
política dos Estados Unidos, atualmente é senior
Ex-ministra do Meio Ambiente fellow do Centro Brasileiro de Relações Internacionais
(CEBRI) no núcleo “Américas - EUA”, professora
Fernanda Magnotta
e coordenadora do curso de Relações Internacionais
da FAAP e atua como consultora de Comissão de
Relações Internacionais da Ordem dos Advogados
17 SOBRE DIPLOMACIA
do Brasil (OAB/SP). É autora do livro “As ideias
A questão de raça na diplomacia brasileira importam: o excepcionalismo norte-americano no
Marise Ribeiro Nogueira alvorecer da superpotência” (2016).

Natural de Niterói, RJ, graduada em Medicina pela


UNIRIO, Mestre em Radiologia pela UFRJ, ingressou
no Ministério das Relações Exteriores como diplomata,
40 PROFESSOR SAPIENTIA COMENTA
em 2003. Trabalhou nas áreas de direitos humanos, Bem-vindos ao Antropoceno
consular e administração. Atualmente, é conselheira na Regina Araújo
Embaixada do Brasil em Washington.
Possui graduação em Geografia pela Universidade de
São Paulo (1985). Mestre (1992) e doutora (2001)
em Geografia (Geografia Humana) pela mesma
20 ESPAÇO ABERTO
Universidade. Também é autora do “Manual do
Das graças ao banimento: o que está por trás Candidato: Geografia”, editado pela FUNAG (2000).
do deplatforming de Donald Trump Trabalha, ainda, preparando provas de geografia para
Victor Dias Grinberg grandes processos seletivos.

Victor Dias Grinberg é mestre em Comunicação pela


Faculdade Cásper Líbero e professor nas graduações
de Relações Internacionais e Ciências Econômicas da
43 INICIATIVAS SAPIENTIA
Faculdade Armando Alvares Penteado (FAAP). O Curso Sapientia agora é pós-graduação. Saiba
mais sobre a Trilha Regular Extensiva nesta edição
da Revista Sapientia. Conheça, também, nossa nova
websérie: Grandes Nomes da Diplomacia.
25 PRATA DA CASA
Bate-papo com nosso ex-aluno,
recém-chegado ao Instituto Rio Branco
47 SAPIENTIA INDICA
Maurício Gurjão, formado em Direito pela Universidade Os professores do Curso Sapientia, Guilherme
Federal do Ceará (UFC) e mestre em Políticas Públicas Casarões, Regina Araújo e Claudia Simionato,
e Sociedade pela Universidade Estadual do Ceará fazem indicações de conteúdos para complementar os
(UECE). Ex-aluno do Curso Sapientia. estudos para o CACD.

32 PERSPECTIVAS DA POLÍTICA EXTERNA


51 CHARGE
Do afastamento relativo ao engajamento S.O.S
estratégico: a construção da presença
da China na América Latina Paulo Matiazi

Fernanda Magnotta

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ENTREVISTA

EX-MINISTRA
IZABELLA TEIXEIRA

Por Fernanda Magnotta

O mundo não está


só mudando porque as
pessoas querem que seja
verde, ele está mudando
porque isso está se
transformando também
em oportunidade de
geração de emprego,
de competitividade,
de investimento, de
compartilhamento de
inovação tecnológica. É
uma disputa por espaços
de poder no século 21. Não
é só o poder econômico,
é o poder de influenciar.
Fonte: Alf Ribeiro/Shutterstock.com

6
ENTREVISTA

Izabella Teixeira é bióloga, foi funcionária de Izabella Teixeira - Um outro fato relevante
carreira do Ibama e serviu como ministra do Meio nessa história é que dentro desse sistema é que se
Ambiente do Brasil entre 2010 e 2016. Nesta entrevista discute, pela primeira vez, a necessidade de avaliação
exclusiva para a Revista Sapientia, compartilha de impacto ambiental. O Brasil recepciona essa ideia.
pensamentos a respeito da situação ambiental do Brasil Isso está na política nacional do meio ambiente do
no passado e atualmente. Brasil. Está lá nos princípios dos instrumentos da
política. Um desses instrumentos, além da avaliação
Revista Sapientia – Que panorama histórico de impacto ambiental, é o licenciamento ambiental.
ambiental do Brasil pode ser traçado, principalmente a Eu estou trazendo essa história porque não só o
partir do início da Nova República? mundo internacional influenciou a gestão de recursos
ambientais no Brasil, como o Brasil sempre buscou ter
Izabella Teixeira - Eu sou funcionária de um alinhamento com essa contemporaneidade.
carreira, então eu trabalho nessa agenda desde 1984
ou 1985. Vamos marcar quando foi criado o primeiro Revista Sapientia – Considerando o histórico
Ministério do Meio Ambiente, com a Nova República desmatamento e queimadas da Amazônia, quais
e, portanto, a nova diretriz brasileira de construção consequências esses atos trouxeram para o Brasil em
das políticas ambientais e da relação dessas políticas relação à causa ambiental e como o nosso país lidou
ambientais com uma trajetória que vem desde a com elas até hoje?
Conferência de Estocolmo, em relação aos temas de
desenvolvimento e meio ambiente. Então, do ponto de Izabella Teixeira - O Brasil, na sua diplomacia
vista internacional, a gente não pode esquecer que todo e na implementação de políticas ambientais,
sistema ambiental brasileiro tem uma forte influência nacionalmente falando, tinha ali uma concentração,
do sistema norte-americano. No contexto de Estocolmo, uma convergência de interesses na construção da
o Brasil defende, quando é proposto pelas Nações expressão de soft power por essa agenda. Não é por
Unidas, que se discuta essa agenda de desenvolvimento outra razão que o Brasil tem uma importante atitude,
e meio ambiente. Eram três pilares que norteavam o uma importante guinada promovida pelo Itamaraty.
diálogo de cooperação internacional na época. Eu não No final dos anos 1980, em 1988, mais precisamente, o
vivi isso, eu tinha 9 ou 10 anos de idade, mas, talvez Brasil enfrenta uma grande crise global internacional
a história das políticas, das várias fases da política sobre as questões ambientais. O Brasil passa a ser
externa brasileira, deixe bem claro nos registros em veementemente criticado pelo desmatamento e
que o Brasil, em pleno governo militar, quer discutir queimadas da Amazônia, então, ali é um outro marco
isso no âmbito da agenda de desenvolvimento. Então, importante. De 1985 a 1990, esses cinco anos são muito
o até então secretário geral do Ministério do Interior, representativos na agenda ambiental e de cooperação
ministro Henrique Brandão Cavalcanti, que depois internacional, porque temos a criação do Ministério
foi ser ministro do meio ambiente no Brasil, convence de Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente, o
o governo brasileiro e cria essa primeira estrutura de primeiro ministério de meio ambiente do Brasil, o que
Meio Ambiente no País, chamada Secretaria Especial significa uma mudança, uma nova interlocução do
de Meio Ambiente, a SEMA, e ali nasce toda a ideia Brasil com o Banco Mundial, que negocia o primeiro
de lidar com as questões de desenvolvimento. Então, empréstimo brasileiro bilateral de operação financeira
vamos chamar os primórdios de desenvolvimento exclusivamente para o meio ambiente. É o Programa
sustentável, e assumir que o próprio sistema nacional Nacional de Meio Ambiente, o primeiro grande
de ambiente do Brasil é estruturado a partir disso. programa estruturado para lidar com as questões
ambientais que traz, por exemplo, toda a questão de
Revista Sapientia – Além da criação da proteção da reserva da biosfera da Mata Atlântica. Quer
Secretaria Especial de Meio Ambiente, quais outros dizer, é a implementação da gestão ambiental em nível
fatos e acontecimentos vieram a contribuir com essa estadual e coordenação do governo federal. Isso se
trajetória de desenvolvimento ambiental? traduz depois, por exemplo, na criação da proteção da
biosfera via UNESCO. Então, trabalhou-se no âmbito

7
ENTREVISTA

multilateral e no âmbito da cooperação multilateral podemos dizer que existiu algum outro acontecimento
financeira com o Banco Mundial, numa leitura mais que marcou o Brasil nessa época?
estruturante de alinhamento de implementação
de política, de financiamento internacional. Então, Izabella Teixeira - Também foi nessa época
esse é um período extremamente importante no que surgiu a primeira crise realmente global de meio
realinhamento com a contemporaneidade. ambiente. Até então, as discussões eram muito sobre
chuvas ácidas, impactos transfronteiriços. Na década
O Brasil financiou o contrato do primeiro de 1980, aconteceu a Convenção de Viena, com seus
programa internacional de cooperação multilateral debates sobre o buraco na camada de ozônio que causa
e financeira: o empréstimo do Programa Nacional impactos globais, pois, afetando a atmosfera, afeta-se a
de Meio Ambiente. Isso mudou a gestão ambiental humanidade como um todo. Neste momento, de novo,
no Brasil, porque mudou a visão de cooperação o Brasil teve um papel extremamente importante.
internacional. Nesse momento, houve uma grande O Brasil, não só do ponto de vista governamental,
crítica global sobre o financiamento dos bancos mas do engajamento do setor privado, foi um dos
multilaterais de desenvolvimento para estruturas países em desenvolvimento mais bem-sucedidos na
de energia, como hidrelétricas, com seus impactos implementação das soluções para a questão do CFC e
ambientais. É o famoso relatório da Comissão dos gases associados. Isso fez com que, de fato, hoje
Internacional de Barragens, que provoca uma possamos monitorar dentro do buraco da camada de
grande crítica da sociedade global para esses ozônio, então, soubemos agir e equacionar o problema
grandes financiadores e determina, com isso, uma dessa ameaça global. Foi também nessa década que
mudança de patamar, de parâmetros ambientais. tivemos a grande pressão internacional no Brasil sobre
Passam a ser adotados formalmente, pelos bancos a Amazônia. Tem uma famosa capa da revista Time
multilaterais de desenvolvimento do mundo, as que mostra uma foto da Amazônia queimando e sendo
salvaguardas ambientais como paramentos de desmatada e uma grande campanha internacional,
concessão de empréstimo. O Brasil foi criticado. exigindo que o Brasil tomasse providências. Era
Esse relatório atingiu o Brasil no financiamento das governo do Presidente Sarney, na Nova República.
hidrelétricas na Amazônia, como Balbina e Tucuruí,
e isso determinou, portanto, os novos parâmetros do O Brasil estava aprovando a sua constituição
BID, no Banco Mundial, em todas as agências que com o seu artigo 225 dedicado especialmente ao meio
fomentavam e continuam fomentando investimento ambiente. Dialogava com isso, com essa transformação
para o desenvolvimento. Também é nessa época que do mundo que estava acontecendo ou que iria acontecer
o Brasil tem um empréstimo do BID com o Programa em magnitude, particularmente, na década de 1990,
de Meio Ambiente de Comunidades Indígenas, numa preparação para o século 21.
que foi colocado como um importante instrumento
para lidar com os investimentos sobre impactos Então, na época, a primeira reação do
socioambientais que estariam associados à construção governo brasileiro foi muito parecida com a que
da BR-364 (aquela que liga primeiro Cuiabá a Porto nós estamos vivendo hoje em relação à pressão para
Velho e depois ao Acre), e toda uma discussão que a internacionalização da Amazônia, da ameaça à
existia, e existe – está lá a rodovia, que é importante soberania, etc. Foi, então, que o Itamaraty convenceu
para conectar a Amazônia com o resto do Brasil. Aí o presidente a um passo extremamente importante,
tivemos um traço super importante em relação a essa de política externa - esse é um dos momentos mais
conexão do Estado do Mato Grosso com o Estado de interessantes na contemporaneidade da política
Rondônia, com o Estado do Acre, que foram disputas externa brasileira: o Brasil recepcionou a conferência
ambientais e socioambientais, e veio esse programa Rio-92 e o Presidente Sarney tomou algumas atitudes.
que eu coordenei, inclusive.
Primeiramente, ele estabeleceu o programa
Revista Sapientia – Além dessas questões Nossa Natureza, que recriou a gestão ambiental
ambientais envolvendo financiamentos e fronteiras, pública no Brasil; criou-se o Ibama, que mudou toda a

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ENTREVISTA

lógica do governo federal e definiu que essa operação, curso, tratando do Brasil, e um programa dedicado às
dentro do Sistema Nacional do Meio Ambiente, lidaria questões ambientais e socioambientais da Amazônia
com a combinação de interesses nacionais e ações para com doação internacional. Era um programa de 150
benefícios globais. milhões de dólares.

A segunda coisa que o Presidente Sarney fez Neste conjunto de medidas, a cooperação
foi estabelecer o primeiro programa de combate internacional é trabalhada tanto do ponto de vista
ao desmatamento da Amazônia, o PEA, Programa bilateral como do financeiro e institucional. O Brasil
Emergencial da Amazônia Legal, como um valeu-se muito disso e foi, progressivamente, na
enfrentamento ao desmatamento. Na Rio-92, o Brasil evolução das suas políticas públicas em meio ambiente,
concorda em assinar, em promover uma cooperação preenchendo, negociando e sendo parte ativa, por
internacional com o PPG7. Aí nasceu o primeiro exemplo, das negociações de atos multilaterais
programa de cooperação internacional para proteção com as conversões de Basileia, conversão poluentes
das florestas tropicais, com recursos doados pelos persistentes, convenção de espécies ameaçadas em
países envolvidos do G7, numa interlocução e uma extinção. E isso teve uma grande moldura, a moldura
estratégia que, no meu ponto de vista, foi extremamente Rio-92, em que o Brasil, além de anfitrião, foi um dos
positivo porque propiciou que a gente tivesse um países líderes, pela sua diplomacia, capacidade de
programa nacional de Meio Ambiente, que estava em interlocução ao liderar a concepção da conversão de

Fonte: Gustavo Frazao/Shutterstock.com

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ENTREVISTA

clima e a convenção da biodiversidade. Então, esse interesses nacionais. Fomos andando, obviamente com
momento foi muito rico. O Brasil soube aproveitar outros problemas, com as dificuldades, a complexidade
muito bem, não só do ponto de vista formal de estado de uma economia em desenvolvimento, e depois
a estado, país a país, entre governos, que é o ambiente uma economia emergente, mas o Brasil tem ainda
multilateral, mas também do ponto de vista do cenário importantes fatores nessa construção.
internacional. Houve a participação da sociedade civil
dentro das reuniões do multilateralismo e, a partir daí, A nossa democracia, com a construção e o
a ONU passou a adotar formalmente que os espaços são engajamento da sociedade civil, não só ambientalista,
abertos à sociedade civil global. É nesse contexto que mas da sociedade civil lato sensu (porque o Brasil tem
o Brasil vai avançando nas suas políticas ambientais políticas ambientais que são socioambientais, então a
e trabalhando com cooperação internacional. Em nossa visão de meio ambiente é socioambiental), está na
nenhum momento existe qualquer ameaça à soberania lei. Então, trazemos toda essa questão de justiça social,
porque isso, na realidade, está equacionado lá no de direitos humanos, de agenda de gênero, trabalho
princípio da declaração de Estocolmo, o princípio 21. escravo ou não escravo, tudo isso está no envoltório de
relações econômicas e sociais do Brasil.
Revista Sapientia – Considerando a trajetória
de cooperação internacional e meio ambiente, Para terminar o raciocínio, temos a ciência e
mencionada anteriormente, quais seriam os princípios uma evolução das políticas de ciência. Por exemplo,
e interesses por trás dela? o Brasil certamente tem a melhor ciência do mundo
em monitoramento de uso da terra. Uma aliança com
Izabella Teixeira - A trajetória de cooperação a Nasa para combate a incêndios florestais aconteceu
internacional e meio ambiente sempre esteve alinhada na década de 1990, e os americanos ajudaram a formar
com dois princípios importantes. Primeiro, os interesses nossa natureza dentro do Ibama. Também trabalhamos
nacionais e, portanto, a expressão e alinhamento com a com o IBGE, com a Embrapa, e esse alinhamento da
política externa brasileira, com essa consolidação do soft sociedade civil, das ONGs e do setor privado vem
power; por outro lado, a defesa dos interesses nacionais associado com o engajamento e fortalecimento de uma
brasileiros, porque proteção ambiental sempre foi uma estruturação do diálogo com a ciência.
agenda estratégica de interesses nacionais. E isso está
claro em todos os quadros regulatórios brasileiros, O protagonismo no Brasil tem uma história
em todas as manifestações de política externa e de que vem sendo contada desde 1985, uma história
muito bem contada, uma história com assimetrias,
mais assertivas em determinadas circunstâncias que
em outras, mas uma história nunca de retrocesso,
é uma história de alinhamento com o futuro, com
contemporaneidade e alinhamento entre a política
externa, políticas ambientais e políticas econômicas.
Então, essa trajetória toda do Brasil marca os quadros
legais dentro da Constituição, com a evolução
da jurisprudência ambiental, o direito ambiental
brasileiro e a evolução de instrumentos tecnológicos
importantes para o equacionamento de problemas de
gestão ambiental, como a questão do monitoramento
do uso da terra pelos satélites e ações de fiscalização,
ou mesmo uma ambição do Brasil em desenhar um
lugar de conservação.

O Brasil tem o maior inventário de fauna


do mundo, criado na minha gestão. Ninguém tem
Fonte: EQRoy/Shutterstock.com isso, essa diversidade toda. Não são projeções, é

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ENTREVISTA

robustez científica, com o networking dos países do ponto de vista do governo brasileiro, as falas na
consolidados. Então, essa agenda ambiental brasileira, ONU são muito expressivas, então, isso é uma posição
com cooperação internacional, não fica circunscrita clara, não tem o que se discutir.
a financiar e apoiar projetos: ela influencia redes,
ela influencia a ciência, a tecnologia, as questões A segunda coisa é que também temos um governo
socioambientais, as populações extrativistas, ela lida que é negacionista em relação aos temas globais, como
com a erradicação da pobreza e com a erradicação da a questão climática, então, isso nos coloca em xeque.
fome no Brasil, porque começamos a fazer combinações É um governo que não dialoga com a sociedade, isso
de integração de políticas públicas e de fortalecimento é um princípio político deles. Não há interlocução
dessa expressão do soft power brasileiro na política com as ONGs ou a sociedade civil organizada, não só
externa internacional. ONG ambientalista. É um governo que não acredita
muito no multilateralismo e que ainda reforça visões
Revista Sapientia – O que vem pela frente, sobre interesses nacionais de soberania. Tem falas
considerando sua colocação sobre essa construção explícitas dizendo que os interesses nacionais não
ao longo de todo o período da Nova República com estavam sendo defendidos. Isso mostra um profundo
protagonismo no Brasil e a tentativa de reverter essa desconhecimento e, na realidade, um forte viés
imagem deteriorada que havia ficado nos anos 1980? ideológico dos representantes do governo brasileiro
A princípio, o que temos agora é um novo debate que veem o mundo, veem essa discussão de uma
ambiental sobre a forma como o Brasil vem sendo visto, maneira completamente diferente do que foi a trajetória
como o próprio governo lida com isso no contexto de que o Brasil consolidou. O problema de ver diferente
novas cobranças internacionais, também da agenda faz parte do debate democrático, o que eu acho muito
Europeia e agenda dos Estados Unidos, com Biden. O sério ou muito sensível é que os argumentos são sem
que a senhora enxerga, futuramente, como desafios? consistência, insuficientes, descabidos. São argumentos
que não dialogam com o arcabouço democrático
Izabella Teixeira - O que eu posso dizer é que brasileiro, nem com o que está acontecendo no mundo
a gente tem que observar algumas coisas que não estão e são argumentos que, na realidade, vão contra as
sendo percebidas. A primeira coisa é que o Brasil é instituições. Então, as instituições públicas que lidam
muito maior do que o atual governo está determinando com isso, que são responsáveis por isso, estão sob forte
em termos de “políticas não ambientais”, se eu questionamento. Tudo isso está sendo objeto, segundo
posso usar essa expressão. Não é um governo de os especialistas, de posturas até então nunca vistas de
uma visão inovadora, mesmo que seja numa direção desmonte, de desfragmentação e mais do que isso, de
mais conservadora. O primeiro secretário de Meio fragilização da capacidade institucional de atuar nesse
Ambiente do Brasil, doutor Paulo Nogueira Neto, que mundo. O Brasil está de um jeito e o mundo está no
foi o secretário que estruturou o Sistema Nacional realinhamento com o século 21, o século 21 já está aí,
de Meio Ambiente, era um homem conservador, com um novo alinhamento com a contemporaneidade.
então, não estamos falando disso. O que o Brasil
tem hoje, infelizmente, são pessoas que são contra o Revista Sapientia – E o que, exatamente,
multilateralismo, são negacionistas climáticos, são podemos concluir a respeito desse novo alinhamento
pessoas que não têm familiaridade com a linguagem com a contemporaneidade?
internacional. Não se trata de conservadorismo versus
contemporaneidade, ou sobre ser mais ortodoxo ou Izabella Teixeira - Esse novo alinhamento
mais heterodoxo, não se trata disso. Na realidade, com a contemporaneidade explica três coisas muito
temos um conjunto de interlocutores no governo claramente. Primeiro, as crises globais. A humanidade,
brasileiro, não necessariamente todos, mas a voz com a covid-19, está vivendo uma crise global. O
política maior é uma voz que na realidade fragmenta mundo parou, querendo ou não querendo e temos,
exatamente os pilares da política ambiental, quer dizer, na realidade, uma agenda motivada por uma questão
é negacionista do ponto de vista dos temas globais e do de saúde com grandes implicações no mundo como
multilateralismo da ordem internacional, a cooperação um todo e, possivelmente, numa disruptura, ou
internacional, isso está sendo totalmente questionado mostrando, ou tendo como causa – ninguém sabe

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ENTREVISTA

ainda – uma questão fortemente ligada a uma relação valor ético e moral para o europeu de todas as idades.
do homem com a natureza. A Organização Mundial da É evidente que os temas multilaterais estejam sendo
Saúde divulgou uma notícia dizendo que a origem da tratados ou acolhidos pelos europeus de uma maneira
covid-19 não é o mercado de Wuhan. Várias epidemias muito distinta, mas com seus velhos interesses, onde
e pandemias, como a ebola e outras, tem a ver com a questão ambiental e a questão verde passa a ter
a relação de desmatamento, de ruptura de ciclos um peso muito mais relevante do que no passado,
ecológicos. A imprensa estava noticiando a diretora diria eu, mais estratégico, inclusive, por causa dos
de meio ambiente da OMS que falou isso, mostrando interesses geopolíticos, e não é à toa que um acordo
como essa relação do homem com a natureza pode comercial de União Europeia com o Brasil e Mercosul
ser discutida com grandes impactos, em termos ganhe a expressão, o debate, a disputa pelas questões
de saúde global. Então, temos essa crise global da ambientais e não por outras questões. E não é à toa
pandemia juntamente com outras crises globais, como que os investimentos do setor privado, a questão dos
a climática, a crise da transição da natureza, que é fundos privados financeiros, declaram cada vez mais
muito traduzida pelo colapso dos estoques de recursos exigências da economia circular, e entender essas novas
naturais do mundo, a chamada resiliência do planeta, economias que estão vindo modeladoras de negócios,
e traduzida pela poluição, pela degradação ambiental. e modeladoras de investimentos, é muito importante.
Então, essas crises estão colocadas, além da crise social
de desigualdades que emergiu com uma força muito
grande em função da covid-19.

Nós estamos vivendo, enxergando hoje a


diferença de mundo. Não vamos esperar 2025. Nós
já tivemos que fazer isso em 2020 para desenhar uma
estratégia em 2050. Quem está desse lado, está do lado
da solução. E quem está do lado do velho, está do lado
do problema.

A China não quebrou a ordem internacional.


Quem saiu da agenda multilateral, quem fez ruptura
foi o ex-presidente dos Estados Unidos, o presidente
Trump, que mexeu nessa equação e provocou
fragilidades. A China é um importante ator na agenda
climática, na agenda da biodiversidade. A China é o
país que mais emite gases de efeito estufa no século
21. Até o século 20, os países desenvolvidos tiveram
Fonte: Ricochet64/Shutterstock.com
responsabilidades, e agora as economias emergentes
têm responsabilidade no século 21, por causa, também,
do seu aumento de emissões.
Revista Sapientia – Em relação à questão da
Então, esse momento mundial é marcado contemporaneidade e das evoluções pelas quais já
por algumas variáveis importantes. A primeira é a passamos desde as últimas décadas, quais seriam,
retomada dos Estados Unidos, a reinserção a partir então, os motivos, além da questão ambiental e do
de uma escolha da sociedade americana na eleição do verde, para o mundo estar mudando tanto?
presidente Biden. Temas como justiça climática, direitos
humanos e nova democracia elegeram o presidente Izabella Teixeira - O mundo não está só
dos Estados Unidos. Isso não foi uma pauta marginal, mudando porque as pessoas querem que seja verde,
foi uma pauta central. Mudança do clima foi um tema ele está mudando porque está se transformando
central no debate americano. O segundo pilar dessa também em oportunidade de geração de
conversa é com os europeus. A sustentabilidade é um emprego, de competitividade, de investimento, de

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ENTREVISTA

compartilhamento de inovação tecnológica. É uma a transformação, poderá lidar com barreiras tarifárias
disputa por espaços, configuração de espaços, de nos próximos cinco ou seis anos.
poder no mundo no século 21. Essa agenda estará
cada vez mais influenciando a disputa de poder, por Revista Sapientia – Deveria, o Brasil, então,
isso eu disse que ela é geopolítica. Não é só o poder se preparar para acompanhar todas essas mudanças e
econômico, é o poder de influenciar. É um poder de começar a mudar junto? Focando mais no futuro e não
afirmação de compartilhamento, de comportamentos e só no presente?
de informação. Então, a cooperação internacional não
está mais ligada a esse diálogo internacional, não está Izabella Teixeira - O Brasil tem que estar
mais restrita à relação de estado a estado, país a país. preparado para lidar com isso. Não adianta falar que a
Ela é muito mais ampliada. Ela vai acontecer e já está gente protege o meio ambiente e continuar com o fluxo
acontecendo, mobilizada por mercados, mobilizada do desmatamento, perdendo e degradando o meio
por comportamento de consumidores. Tem um ambiente. Então, há uma transformação importante
fenômeno da Greta importante porque ele não traduz na Europa acontecendo que influencia, por exemplo,
só o interesse das novas gerações associadas à Greta, toda cooperação externa nos países de baixa renda e
tem os pais da Greta, tem essa geração de 30 a 40 anos de média renda. O Reino Unido acabou de cortar 50%
que está tomando decisões. Então, há transformações do dinheiro. Os Estados Unidos, com a sua oferta de
importantes que estão acontecendo, as pessoas estão se cooperação, vai trabalhar essa abrangência, de alcançar
iludindo com o curto prazo – “ah, mas o Brasil continua a cooperação internacional para países de baixa renda,
a exportar” –, vai continuar, mas se não acompanhar mais pobres e mais vulneráveis. Se não mudarmos, não

Fonte: Per Grunditz/Shutterstock.com

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ENTREVISTA

percebermos isso, vamos ter problemas, porque o raio de trabalhar o verde como resultado de qualidade de
de impacto é maior, não é mais só ali, num “clube”. vida. Não são as smart cities de dez anos atrás, são as
Tem que atuar globalmente. novas cidades que estão vindo com esse olhar de maior
eficiência urbana, climática, ambiental e de qualidade
Revista Sapientia – Além dos pontos citados de vida e bem-estar. Isso está acontecendo no mundo
acima, qual seria o outro ponto dessas agendas real e está cada vez mais influenciando a agenda de
ambientais para prestarmos atenção? cooperação internacional, ou a maneira de dialogar
internacionalmente porque, como eu disse, não é só
Izabella Teixeira - Além dos Estados Unidos e mais uma relação entre Estado e Estado, é uma relação
da Europa, eu destacaria a agenda asiática. O mundo entre setor privado e setor privado, e do setor privado
asiático também vem com as suas transformações, com a sociedade, com a ciência. São muitos stakeholders
então, tanto Índia quanto China, todos estão trabalhando isso com seus interesses globais, porque
trabalhando essas agendas climáticas, agenda de nós somos uma sociedade conectada.
sustentabilidade, agenda de economia circular, de
economia verde, porque isso tudo também está Revista Sapientia – Na sua opinião, quais
associado à chamada tecnologia de inovação e eles são aspectos o Brasil deveria seguir para que consigamos
campeões nisso. Então, por exemplo, na questão de evoluir ainda mais nessas agendas?
energia solar, não resolveremos essa equação sem os
asiáticos. Na agenda de restauração de solo, de manejo Izabella Teixeira - O Brasil é um país
de solo e produção de alimentos, eles têm um papel não predominantemente urbano, 90% da nossa população
só com o mercado, de combinação de investimentos vive nas cidades e essas soluções estão sendo discutidas
e infraestrutura, por exemplo, que setor demanda. no mundo. Eu fico impressionada que ao invés de nós
Então, esses países estão discutindo, estão vivendo isso irmos para uma agenda de concertar, de convergir,
numa equação global de novo multilateralismo, uma de ter um único silo de visão, um guarda-chuva
operação de novos negócios e investimentos. Muito do para conectar soluções na intenção de fortalecer esse
dinheiro do mundo está lá e boa parte da população papel internacional do Brasil, promovendo o fluxo
do mundo também. Três quartos da população está lá. de investimentos, compartilhamento de inovações
Então, como eles estão tratando essa agenda, com essas tecnológicas, de tecnologia, de acesso a novas
novas economias é muito fascinante, porque eles estão modelagens de negócios, acesso a novos modelos de
fazendo combinações muito interessantes, eles estão geração de emprego, estejamos falando de outras coisas.
vindo de fato com a questão da inovação. Por exemplo,
as novas cidades da China ou da Coreia do Sul são muito O Brasil está discutindo o fechamento da fábrica
voltadas ao equacionamento de desigualdade social e da Ford, mas devia estar discutindo se vai ter fábrica de

Fonte: D-Krab/Shutterstock.com

14
ENTREVISTA

carro elétrico. O mundo está discutindo a eletrificação contexto internacional não é só poder comprar carro
da frota de veículos, então, se fechamos a Ford, o que importado ou geleia ou queijo. Quando o Collor fez a
vamos abrir? Vai ter aqui no Brasil um polo de produção abertura do país, a principal coisa era a gente poder
de carros elétricos ou nós teremos que comprar carros ter acesso a produtos internacionais. Não é isso. A
elétricos da Argentina por causa do Mercosul? “Mas cooperação internacional não é viajar para o exterior.
eu tenho biomassa”, podemos ter o carro elétrico junto Cooperação internacional tem que construir parcerias,
com o etanol – temos partida, mas destinamos todo tem que construir alianças e isso requer visão, requer
nosso etanol para a solução de diesel. estratégia, requer tempo, requer objetivos, requer
saber o que a gente quer. O Brasil não sabe que o
Então, na realidade, isso é um exemplo concreto Brasil quer, esse é o problema. Então, o mundo está
de que a solução não é cortar ICMS, isso é ação de curto mudando, a cooperação internacional está mudando,
prazo. Deveríamos estar discutindo qual é a visão “outros adultos estão na sala”, como a gente fala,
estratégica do Brasil de substituição do diesel na matriz outras salas estão sendo expostas, o tema climático
de combustível, porque é isso que está se discutindo alinha isso com todo mundo, é um tema geopolítico e
no mundo. No meio da crise, temos que discutir o o Brasil ainda está discutindo o que vai fazer com base
curto prazo, mas também temos que entender as na visão da década de 1970.
consequências disso daqui a dez anos. E isso significa
que o Brasil poderá pagar custos adicionais por uma Todo mundo sabe que deu errado, porque
visão retardada e assimétrica. Eu ousaria dizer que, se tivesse dado certo, a Amazônia teria o melhor
mais que miopia, temos alguns atores que estão IDH do Brasil. E não tem o melhor IDH do Brasil.
convictos de que estamos na década de 1970, no século Os piores IDHs do Brasil estão lá. Então, eu acho
passado, não perceberam que nós estamos indo… que é uma visão não só extemporânea, assimétrica,
errada e equivocada, mas também é uma visão tão
Eu ousaria dizer que, depois da covid-19, nós tola de cooperação internacional, tão pequena que
vamos estar de fato vivendo no século 21. Trouxemos o contradiz a tradição do Brasil, contradiz a tradição da
futuro para o presente. Se você tiver um filho hoje, seu nossa excelência, da nossa diplomacia e contradiz a
filho vai estar aqui em 2100. Ele vai ter 79 anos. Falar tradição da interlocução das nossas instituições e da
de 2050 é logo ali. Acho que nem o ambientalista mais nossa sociedade. Os temas ambientais climáticos são
radical previu algo que parasse o mundo. A covid-19 temas geopolíticos. Essa é a minha fala. Eles ganham
parou o mundo. E nós estamos dependentes da ciência, contorno geopolítico no mundo.
nós estamos dependentes de uma nova relação com o
meio ambiente, estamos olhando a crise climática já Eu acho que o Brasil tem realmente que
acontecendo conosco. entender o seu potencial, entender que é um país que
tem alternativas, isso é extremamente importante.
O risco climático já está na equação de todas Agora, o fato de ter muitas alternativas pode ser
as grandes empresas do mundo, de todos os grandes imobilizador. Nós tínhamos o protagonismo, nós
investidores do mundo. E a gente continua desmatando éramos o G1, o Brasil entrava em qualquer lugar e
a Amazônia, entregando para o crime sabendo que isso hoje nós não temos isso. Isso é uma constatação depois
pode afetar a produtividade do agronegócio brasileiro, de dois anos. Eu frequento os fóruns internacionais e
que é o setor mais exportador de economia brasileira. vejo que tudo é tratado com muita cautela. O Brasil
Então, eu acho tudo isso uma visão tola, uma visão continua sendo um país extremamente importante,
ineficiente, improdutiva. Ela não é uma visão política. nós somos importantes como país e como sociedade,
Visão política é quando você disputa espaços, mas mas os interlocutores ou parte dos interlocutores
de maneira construtiva. Eles não disputam espaço do Brasil hoje, infelizmente, estão aquém do que
dessa maneira, disputam espaço a curto prazo e nós somos como sociedade e o que nós temos nas
isso determina que nós, da sociedade brasileira, nossas instituições. Isso não quer dizer que a gente
possamos observar essa transformação do mundo, não possa retomar. Há caminhos e caminhos, e nós
possamos entender melhor como é que este contexto podemos agir. O que a gente propõe como setor
internacional está no dia a dia das nossas escolhas. O privado ou sociedade civil tem que ter a capacidade

15
ENTREVISTA

de interlocução com o governo. Quem continuar na um casamento. Você tem que saber o que você quer do
realidade discutindo o passado, trazendo o passado e seu casamento ou então vai naufragar. Não adianta só
não comprando vacina, nem produzindo vacina e nem achar interessante. Você tem que ter uma visão e hoje
tendo estratégia, vai continuar vulnerável e vai estar no nós não temos. O governo federal hoje, no Brasil, não
final da fila e, possivelmente, vai lidar com custos que tem uma visão estratégica, atual, contemporânea da
poderiam ter sido evitados. agenda ambiental e dos temas ambientais climáticos
no contexto da geopolítica internacional e no contexto
Vale pontuar, inclusive, que essa postura que da cooperação internacional. Estamos convivendo com
o governo federal assume não está alinhada com a contradições: a sociedade brasileira se movimenta, o
postura dos governos subnacionais. Os governos subnacional se movimenta, o setor privado brasileiro
estão avaliando, andando, buscando caminhos de se movimenta numa direção e o governo federal
cooperação internacional no alinhamento com a se movimenta em outra. Temos que desfazer essa
contemporaneidade. Então, movimentos como o contradição porque senão o Brasil poderá arcar com
consórcio de governadores, de prefeitos e prefeituras, custos. Não são custos somente no sentido de não
na área de cidades sustentáveis, na área dessas novas ter dinheiro. É não participar dos fóruns estratégicos.
cidades com tecnologia, ou mesmo esse movimento Tudo isso pode ser evitado porque o Brasil tem uma
subnacional da vacina, são exemplos. O diálogo do liderança inata, importante, em buscar soluções e
governador João Dória com a China é um exemplo de construir convergência em termos desses temas globais
cooperação internacional. Tem interlocução, sabe o que ambientais. É isso que eu quero dizer.
quer, tem projeto. O Brasil precisa saber o que quer.
Se a gente não souber o que a gente quer, a gente não
conversa com ninguém do mundo internacional. No
mundo internacional, quando você se senta à mesa,
você tem que saber o que você quer. Se você quer uma
aliança, você tem que saber o que você quer. É como

Fonte: Afotostock/Shutterstock.com

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SOBRE DIPLOMACIA

Marise Ribeiro Nogueira – Fonte: Arquivo Pessoal

A QUESTÃO DE RAÇA NA
DIPLOMACIA BRASILEIRA

Por Marise Ribeiro Nogueira1

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SOBRE DIPLOMACIA

Em recente entrevista à rede de TV norte- Serve, ainda, como exemplo da implementação das
americana MSNBC, o secretário de Estado dos EUA, responsabilidades assumidas pelo Brasil ao tornar-se
Antony Blinken, afirmou: “vamos garantir que o parte da Convenção Internacional para a Eliminação
departamento [de Estado] se pareça, de fato, com o país da Discriminação Racial.
que representa. O nosso maior trunfo aqui dentro e,
também, lá fora, é a nossa diversidade. Vamos recrutar, Segundo o Instituto Rio Branco, até 2019 o PAA
vamos reter e vamos nos responsabilizar”. concedeu 720 bolsas a 428 bolsistas, dos quais 42 foram
aprovados no Concurso de Admissão à Carreira de
A declaração de Blinken vem ao encontro do Diplomata (CACD). O índice de aprovação entre os
compromisso do presidente Joe Biden de promover a bolsistas é de aproximadamente 7,3%, ao passo que
equidade racial em todas as instituições e políticas do o índice geral situa-se entre 0,5 e 1% Atualmente,
governo dos EUA. A preocupação de que a diplomacia é oferecida bolsa no valor anual de R$ 30.000,00 a
reflita a diversidade da sociedade norte-americana candidatos negros que tenham sido aprovados em
não é novidade; vem evoluindo desde o período pós- alguma das três fases do CACD, sem, no entanto, ter
Segunda Grande Guerra, por iniciativa dos movimentos alcançado a média necessária à aprovação final. Os
negros. A presença de negros em posições de destaque recursos devem ser utilizados na preparação para o
na diplomacia, como os secretários de Estado Colin concurso. A partir de 2015, com a entrada em vigor
Powell e Condoleezza Rice, assim como Susan Rice na da Lei 12.990/2014 (“Lei de Cotas”), que reserva 20%
chefia da Missão dos EUA junto às Nações Unidas, são das vagas de concursos públicos para negros (pretos e
exemplos de sucesso. pardos), a presença negra na diplomacia brasileira foi
ainda mais reforçada.
No âmbito da formação de diplomatas,
destacam-se as bolsas Thomas Pickering e Charles B. O Itamaraty foi pioneiro ao implementar o PAA,
Rangel, oferecidas pela chancelaria e coordenadas assim como foi o primeiro ministério a aplicar a Lei de
pela Howard University (uma das mais conceituadas Cotas. Com o objetivo de promover a igualdade racial
universidades historicamente negras dos EUA).
Criadas em 1992 e 2002, respectivamente, essas bolsas
são oferecidas a estudantes de graduação que fazem
parte de minorias étnicas, de gênero e geográfica,
entre outras, e de baixa renda. Os bolsistas recebem
auxílio financeiro e mentoria por dois anos, submetem-
se ao concurso de ingresso na carreira diplomática e
comprometem-se a permanecer no Serviço Exterior
por período mínimo de cinco anos. De 2002 a 2020, o
“Charles B. Rangel Fellowship” ofereceu 45 bolsas por
ano, que contemplaram 374 estudantes.

Na sociedade brasileira também havia


consciência da diminuta quantidade de negros
diplomatas. O tema tornou-se alvo de críticas cada
vez mais frequentes no contexto das discussões sobre
o racismo, que o então presidente Fernando Henrique
Cardoso admitiu existir no país. Visando corrigir essa Fonte: OlegRi/Shutterstock.com

desigualdade, em 2002 foi instituído o Programa de


Ação Afirmativa (PAA) do Instituto Rio Branco - Bolsa
Prêmio de Vocação para a Diplomacia. O programa 1
Marise Ribeiro Nogueira é natural de Niterói (RJ), graduada em
tem por objetivo “buscar a igualdade de oportunidades Medicina pela UNIRIO, Mestre em Radiologia pela UFRJ, ingressou
no Ministério das Relações Exteriores como diplomata, em 2003.
de acesso de negros à carreira de diplomata e acentuar Trabalhou nas áreas de direitos humanos, consular e administração.
a diversidade étnica nos quadros do Itamaraty”. Atualmente, é conselheira na Embaixada do Brasil em Washington.

18
SOBRE DIPLOMACIA

e de gênero internamente, em 2014 foi instituído o ingressou no MRE em 1918. Foram necessários mais 60
Comitê Gestor de Gênero e Raça (CGGR). Criado anos até a admissão da primeira mulher negra, Monica
em resposta à demanda do Grupo de Mulheres Menezes de Campos, no IRBr, em 1978. O primeiro
Diplomatas, o CGGR deveria elaborar o perfil do embaixador de carreira negro, Benedicto da Fonseca
Itamaraty, buscando identificar, entre outros aspectos, Filho, chegou ao cargo em 2010. As dificuldades
mecanismos responsáveis pela baixa proporção de superadas por esses pioneiros não são as mesmas de
mulheres diplomatas (que correspondem, em média, hoje, quando o PAA e as cotas procuram corrigir as
a 25% do total de diplomatas) e sua sub-representação disparidades e tornar a diplomacia mais semelhante à
no topo da carreira. Com relação aos negros “cara do Brasil”.
diplomatas, na ausência de autodeclaração, sua
proporção permanece indeterminada. Estimativas Nos EUA, dados do Escritório de Contabilidade
sugerem que esse grupo corresponda, atualmente, a do Governo (“Government Accountability Office”)
cerca de 5% dos diplomatas. registram um aumento de 6% para 7% de diplomatas
negros entre 2002 e 2018. No Brasil, 18 anos de ações
Tendo em conta o perfil demográfico nacional, afirmativas resultaram em um aumento de quase seis
negros e mulheres, que correspondem a mais da vezes na quantidade de diplomatas negros. Ainda
metade da população, estão extremamente sub- estamos longe do ideal, mas, como afirma Oliveira, “a
representados na diplomacia brasileira. A primeira mudança pode ser lenta, mas é consistente”.
diplomata brasileira, Maria José Rabello de Castro,

Fonte: Brandi Lyon Photography/Shutterstock.com

REFERÊNCIAS

Entrevista de Anthony Blinken a Andrea Mitchell, da MSNBC.


https://www.state.gov/secretary-antony-j-blinken-with-andrea-mitchell-of-msnbc-andrea-mitchell-reports/

Oliveira J.L.L. – “NEGROS E DIPLOMACIA: Presença de afro-descendentes no Ministério das Relações Exteriores.
Estudo comparado Itamaraty - Departamento de Estado norte-americano“. Dissertação de Mestrado. IRBr, 2011

http://www.institutoriobranco.itamaraty.gov.br/perguntas-frequentes

Richardson C. – The State Department was Designed to Keep African-Americans Out. New York Times, 23/6/2020.
https://www.nytimes.com/2020/06/23/opinion/state-department-racism-diversity.html

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ESPAÇO ABERTO

Fonte: Worawee Meepian/Shutterstock.com

DAS GRAÇAS AO BANIMENTO: O QUE


ESTÁ POR TRÁS DO DEPLATFORMING
DE DONALD TRUMP

Por Victor Dias Grinberg2

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ESPAÇO ABERTO

Era 16 de junho de 2015 quando Donald Trump, palcos, foi possível utilizar os algoritmos e estrutura
direto de seu prédio homônimo, em Nova York, das mídias para ações estratégicas. Nesse contexto,
anunciou formalmente sua intenção de concorrer é lógico que as big techs se mobilizaram (talvez não
à Presidência dos Estados Unidos. Poucas pessoas quando as pessoas esperavam).
poderiam, à época, dizer que não sabiam quem era
Trump – seja pela sua empresa, sua participação em Para entender melhor o porquê, como e quando
filmes como “Esqueceram de Mim 2” ou “Zoolander”, das empresas agirem é fundamental olharmos
ou até seu longo posto de apresentador da versão criticamente para o modelo de negócios delas. A
estadunidense de “O Aprendiz”. Nesse momento, ele primeira coisa que precisamos estabelecer é que não
desfrutava de cerca de 3,5 milhões de seguidores no existe “nada” grátis na Internet – se algo é oferecido sem
Twitter – rede social digital que consagrou seu estilo custo para você, algo igualmente ou mais importante
político antes mesmo da eleição. está sendo “tirado” de você e, muitas vezes, são seus
dados. Da mesma forma, se um dia essas redes sociais
Esse marco é importante porque, desde este digitais foram para conectar os alunos de Harvard,
dia, o crescimento de seguidores foi paulatino, hoje, certamente, essa é a menor parte do negócio.
acentuado e expressivo, atingindo a marca de mais
de 88 milhões na sua conta @realDonaldTrump antes No relatório aos investidores referente ao
de ser permanentemente suspenso em 8 de janeiro terceiro trimestre de 2020, o Facebook apresentava dois
de 2021, poucos dias antes do fim do seu primeiro e tipos de arrecadação: anúncios e outros. O primeiro
único mandato. indicava faturamento de 21 bilhões de dólares – com
um crescimento de 22% em relação ao mesmo período
Apesar de hoje não estar mais ativa, a conta de 2019 – e “outros”, que incluem pequenos negócios
figurava entre as dez maiores do mundo, atrás apenas da empresa e suas subsidiárias, faturou apenas 249
de Barack Obama (129 milhões), Justin Bieber (113 milhões de dólares – uma queda de 7% em relação ao
milhões), Katy Perry (109 milhões), Rihanna (101 mesmo período de 2019. No Twitter, a situação não
milhões) e Cristiano Ronaldo (90 milhões). Essa é uma é muito diferente – com 936 milhões de arrecadação
plateia invejável para qualquer comunicador – seja no terceiro trimestre de 2020, anúncios representam
artista ou político – e, se considerarmos a arquitetura 808 milhões desse valor – um aumento de 15% em
de qualquer rede social digital, podemos pensar relação ao mesmo período de 2019. Ou seja, apesar da
quão mais longe poderia chegar cada um dos tweets etiqueta de “redes sociais”, essas empresas cada dia
publicados ao bel prazer do então Presidente. se estruturam mais como empresas de comunicação
e publicidade. Por este olhar, vamos tentar entender a
Todo esse contexto é importante para fenomenologia de políticos online e a reticência dessas
entendermos como, em pouco menos de seis empresas em embargar suas falas.
anos, Trump se viu no meio de um movimento
de “deplatforming” – que são ações individuais ou Se olharmos Trump e o porte da sua conta no
coordenadas, por iniciativa de indivíduos, grupos ou Twitter, a frequência na qual esse canal era usado para
de organizações, visando reduzir ou limitar o alcance anúncios políticos com exclusividade e, pela estrutura
de publicações controversas, chegando até a restrição dialógica, a possibilidade de interagir com a pessoa que
de acesso a plataforma. é tida por muitos como a “mais poderosa do mundo”,
dá para perceber que, comercialmente, se torna um
A terminologia, apesar de ter sido ressignificada ativo para a empresa – faz com que os apoiadores
na era da internet, não é tão nova quanto parece. A e críticos estejam constantemente no site, estejam
ideia originalmente estava atrelada ao que comumente
nos referimos a “dar palco” para as pessoas e, assim, o
ativismo estava concentrando no afastamento desses
indivíduos controversos de universidades, editoriais, 2
Victor Dias Grinberg é mestre em Comunicação pela Faculdade
Cásper Libero e professor nas graduações de Relações Internacionais
publicações e programas televisivos. Na rede,
e Ciências Econômicas da Faculdade Armando Alvares Penteado.
dependendo menos da pressão nos donos desses Contato: vdgrinberg@faap.br

21
ESPAÇO ABERTO

Fonte: Evan Al-Amin/Shutterstock.com

contribuindo com seus dados para aprimoramento que apontaram para interferência estrangeira por
das suas capacidades de anúncio e, por consequência, meio desses canais, a expectativa para ações tangíveis
gerando o próprio volume de tráfego que atrai nas eleições de 2020 eram altas – para todas as partes
os anunciantes. Um bom ciclo vicioso para esses era fundamental que a eleição fosse imaculada e a
faturamentos bilionários. democracia preservada, apesar de cada um enxergar
isso de uma forma.
Desta forma, não é um absurdo pensar que
interferir nas publicações de grandes contas pode afetar Essa foi uma prova de fogo que as big techs
na parte mais lucrativa do negócio – inclusive, de forma tiveram que superar, dado o aumento da insatisfação
velada, imagina-se que isso sem dúvida norteia todas popular no papel que essas empresas estavam tendo
as suas ações. Porém, essa matemática de Liberdade no combate à desinformação. Numa escala de 0 a 10,
de Expressão, Opinião Pública e Lucratividade não é não dá para dizer que foram exemplares e decisivos,
estática – e para infelicidade de Trump, a conta ficou tampouco foram omissos e, sustentados por parcerias
negativa em 6 de janeiro de 2021. com órgãos públicos, agências de checagem e
consórcios internacionais tiveram um desempenho
Para ser justo, o Twitter e o Facebook se viram acima da média – um 7.
na desconfortável posição de contradizer o chefe de
Estado estadunidense algumas vezes nesses quatro Ainda assim, tudo isso era insuficiente para o que
anos de governo, ocultando suas postagens ou até aconteceria na primeira semana de janeiro. Incitados
colocando avisos de imprecisão ou falta de veracidade por Trump, apoiadores invadiram o Capitólio (sede do
nas suas afirmações. Desde as investigações de 2016, Legislativo Federal) em Washington como uma fútil

22
ESPAÇO ABERTO

tentativa de impedir a certificação de Joe Biden como redes sociais e poucas pessoas entendem realmente
46º Presidente dos Estados Unidos. Esse triste episódio como isso se dará daqui para frente.
não só resultou numa mancha da primeira democracia
moderna do Ocidente como também estampou toda a A primeira coisa que falta no entendimento na
internet pela sua violência. sociedade como um todo é que essas redes de fake news
não se resumem ao “tio do Whatsapp” que repassa
A ênfase no papel da internet na organização e uma teoria da conspiração no âmbito familiar. Essas
compartilhamento do produto desse ataque fez com são redes extremamente poderosas e articuladas de
que as big techs saíssem da defesa – em que respondiam desinteligência que agem com uma finalidade política,
pontualmente a ameaças de anunciantes – para uma econômica e/ou social específica – seu parente é a ponta
posição assertiva de suspender e/ou banir Trump para da lança desse ecossistema – por isso que combater é
evitar uma debandada do público geral. Foi uma ação mais fácil do que parece, porém mais custoso do que
embalada como protetiva dos valores das respectivas se imagina.
empresas, mas respaldada por interesses comerciais.
A segunda coisa, pensando nos recursos
Quando isso aconteceu, teve quem celebrou mobilizados, é a falta de transparência sobre a
e teve quem criticou. Respaldado pelos “termos” e lucratividade das big techs com fake news e propagandas
“condições de serviço”, especificamente no que diz conectadas a essas contas. Pressionadas por
respeito a “incitar” ou “propagar violência”, tanto desmonetizar ou reduzir o alcance desses conteúdos
Twitter, Facebook, quanto outas empresas, optaram faz com que, no final do dia, seja mais fácil não ter
pelo banimento imediato e permanente das redes de esse conteúdo em sua rede e, aos poucos, ter fechado
Trump. E assim estava feito o deplatforming de Trump - o cerco – já que está mais difícil ganhar com isso aos
inédito e sem precedente. olhos públicos. Por outro lado, foi isso que levou ao
surgimento e consolidação de sites como o Parler.
O caso, por mais que pareça encerrado, está
apenas começando. Trump foi uma espécie de boi-de- E por fim, falando no Parler, no imbróglio
piranha para o enfretamento da desinformação nas causado pelo Trump, já desgastado pela pressão da

Fonte: Johnny Silvercloud/Shutterstock.com

23
ESPAÇO ABERTO

Apple e da Google para que a empresa agisse contra a


incitação de violência na rede, a Amazon sedimentou o
debate ao promover o grande deplatforming da extrema
direita ao tirar do ar os servidores do serviço, por
alguns dias, deixando o grupo offline. Curiosamente
(ou não) eles acabaram procurando refúgio em
servidores russos que tem suas próprias controvérsias
sobre outros clientes que abriga.

A internet não existe há tanto tempo para


que a gente fale em absolutos sobre o futuro, mas a
realidade presente é uma: quando se mistura política
e redes sociais, as regras precisam ser claras e é preciso
um tratamento isonômico para manutenção tanto
da democracia quanto da confiança nas instituições
(públicas e privadas). Ainda temos muito trabalho na
frente da educação digital para que toda transparência
seja suficiente para entendermos com clareza o que se
passa no mundo dos 1s e 0s.

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PRATA DA CASA

Maurício Gurjão Bezerra Heleno – Fonte: Arquivo Pessoal

BATE-PAPO COM NOSSO EX-ALUNO,


APROVADO NO CONCURSO
DA DIPLOMACIA

Por Fernanda Magnotta

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PRATA DA CASA

Maurício Gurjão Bezerra Heleno foi aluno A carreira acadêmica, você não sabe direito para
do Sapientia. Aprovado no CACD de 2018, ele onde você vai, você pode ir para qualquer canto do
compartilha, na entrevista a seguir, um pouco da sua Brasil. Eu senti, naquele momento, que a carreira
experiência rumo ao Instituto Rio Branco. diplomática atenderia tanto o meu gosto pessoal de
trabalhar com temas internacionais, como também
Revista Sapientia – Qual a sua idade, origem e atenderia a necessidade material mesmo, de ter uma
formação original? vida confortável e estável.

Maurício Gurjão - Eu tenho 32 anos, sou de Revista Sapientia – Como foi a sua trajetória
Fortaleza, fiz minha preparação toda lá. Sou formado de estudos até a aprovação?
em Direito pela Universidade Federal do Ceará -
UFC e mestre em Políticas Públicas e Sociedade, pela Maurício Gurjão - Eu comecei a preparação
Universidade Estadual do Ceará - UECE. Eu comecei em 2015, terminei a dissertação em 2014. Comecei,
a estudar para o concurso depois de terminar o na época, fazendo cursos telepresenciais, eu acho
mestrado. Comecei a estudar para o concurso em 2015 que nem existem mais. Mas a minha preparação foi
e fui aprovado em 2018. toda em Fortaleza. Não contratei coach na época, nem
nada, nunca contratei. Eu fui mais pela orientação de
Revista Sapientia – Quando você decidiu que professores, conversa com colegas mais veteranos.
gostaria de ser diplomata e por quê? A trajetória foi basicamente essa. Eu trabalhei em
alguns momentos como professor, mas foi pouco, não
Maurício Gurjão - Eu sempre fui um pouco chegou a tomar muito tempo da minha preparação.
indeciso a respeito da minha escolha, da escolha sobre E eu tive a sorte e o privilégio mesmo de poder me
a minha carreira, tanto que eu fiz o mestrado, porque dedicar exclusivamente ao CACD. Eu passei na
eu não tinha certeza se eu queria carreira acadêmica quarta tentativa.
ou a carreira diplomática ou até mesmo a carreira
jurídica. O que eu sabia é que eu gostava de temas Só para acrescentar, eu comecei pelos cursos
internacionais e gostaria de trabalhar com esses temas, telepresenciais e depois fui para os cursos online.
de preferência. A minha monografia, por exemplo, foi Nunca fiz curso presencial. Estudei, basicamente, em
sobre a intervenção humanitária na Líbia, foi em 2011, casa mesmo. A maior parte do tempo com material de
no ano da minha graduação e eu pude acompanhar PDF, material das bibliotecas públicas, principalmente
meio que em tempo real o que estava acontecendo. da UFC e coisa que eu consegui com os amigos, foi
Foi uma experiência boa, de ler todo dia sobre aquele mais ou menos isso.
tema, ler e escrever sobre ele, no calor do momento. E,
no mestrado, a minha dissertação foi sobre a política Revista Sapientia – Quais foram as suas
externa do governo Lula para a África. Então, eu sempre principais dificuldades? Como as superou?
tive essa identificação com temas internacionais.
Maurício Gurjão - As principais dificuldades?
Eu escolhi fazer o mestrado como se fosse uma Acho que um pouco de ansiedade, com mudanças de
reserva, uma opção. Caso eu não conseguisse a carreira edital, mudanças no formato de prova, principalmente
diplomática, eu teria pelo menos um mestrado e nas provas de línguas. Quando eu comecei, era ainda
poderia seguir para um doutorado, caso eu escolhesse prova de marcar e depois mudou para [prova] de
a carreira acadêmica. E eu acho que, ao longo do escrever, isso no caso de francês e espanhol. E isso
mestrado mesmo, eu acabei decidindo pela carreira me deixou bem preocupado na época, eu lembro,
diplomática porque eu vi que a carreira acadêmica, quase desesperado mesmo porque o meu francês não
naquele momento, estava se tornando uma opção era bom. E aí eu tive que repensar toda preparação
menos viável. Foi uma época em que a expansão para a prova escrita. Então, de maneira geral, essas
universitária diminuiu e eu vi que seria melhor tentar mudanças de formato de prova tornam a preparação
a carreira diplomática, porque é um concurso estável, mais difícil. Sempre um choque emocional grande,
que acontece todo ano. É uma carreira mais previsível. uma ansiedade grande, uma incerteza sobre se você

26
PRATA DA CASA

vai estar preparado para esse novo formato. Não só sempre uma forma boa de você se deparar com a sua
nesse caso, mas na prova em geral, eu só usei o caso do própria preparação também. E ter aquele colega mais
francês e espanhol como exemplo. experiente ali é bom também, porque você sempre
vai aprender alguma coisa com ele. E é importante,
E como eu superei as dificuldades? Eu acho que também, você selecionar bons colegas porque eu escuto
primeiro tendo uma rede de apoio forte, uma rede de muito que o ambiente de preparação para o CACD é
apoio que está sempre ao seu lado. No meu caso, foi a muito competitivo, é muita rivalidade, até coisa pior,
família, amigos e a namorada, noiva e depois esposa, gente que tenta te colocar para baixo. Eu tive a sorte
que acreditaram em mim sempre e me apoiaram na de ter excelentes colegas e saber selecionar, também,
decisão de continuar os estudos mesmo, porque viam quem eu queria perto de mim e quem eu não queria.
que eu me dedicava e viam que eu tinha condições Tanto que eu formei um grupo de estudos. Eu formei
de passar, que era uma preparação séria, então valia não, participei de um grupo de estudos, junto com
a pena continuar tentando. Essa rede que, na hora do colegas que estudaram no Sapientia, e todos passaram.
desespero, vai te socorrer. Eu acho que isso aí é o mais Valeu muito essa dica que eu dei. Nós quatro éramos
importante na preparação, eu imagino, do ponto de colegas com níveis de preparação diferentes. Então,
vista emocional. Outra principal dificuldade é mais no cada um meio que aprendeu com o outro ali, a gente
sentido de ter um senso prático para a prova, de evitar foi estudando juntos e cada um foi passando no seu
ficar estudando aquele tema porque você gosta e acabar tempo. Eu acho que foi uma experiência muito boa ter
perdendo o sentido de preparação “mesmo” para a colegas leais e bem preparados e dedicados.
prova. Não acredito em uma preparação perfeita, você
sempre vai passar um pouco por tentativa e erro, é Revista Sapientia – Quais dicas você não
normal isso. Por mais que você tenha um orientador ali, recebeu de ninguém, mas gostaria de ter recebido?
um coach ou qualquer coisa do tipo, você sempre vai,
em alguma medida, errar e tentar fazer outra coisa com Maurício Gurjão - Eu não me lembro de ter
base nos seus erros passados. Então, é importante, para uma dica inédita, que nunca me deram. Mas eu tenho
superar essa dificuldade de se preparar para a prova, dicas que eu considero fundamentais. A primeira é
ter esse sentido de que você está estudando para uma você ser muito organizado. Esse ponto, eu acredito
prova específica, você não está estudando porque você que foi fundamental para minha aprovação no último
gosta ou porque você vai escrever uma dissertação ou ano, porque eu vinha tendo um bom desempenho, mas
um artigo sobre aquele tema. Então, para superar essa não chegava ali na faixa de aprovação. Eu acredito que
dificuldade, é importante você estar sempre treinando quando comecei a me organizar melhor, nem me acho
questões objetivas, no caso, o TP; sempre escrevendo muito organizado, mas passei a me organizar melhor,
também, fazendo simulados, olhando os guias de eu consegui reter mais informação e, no momento da
estudo com as provas dos aprovados para você saber prova eu cheguei mais fresco, digamos assim, com o
como aquelas pessoas fizeram para passar, como é que conteúdo que eu tinha estudado ao longo de toda a
elas responderam, de forma prática, aquelas perguntas. preparação. A questão de organizar cadernos e ter um
Sem divagação, sem sair do rumo do que foi pedido. material de consulta rápido para aqueles temas, isso é
muito importante na preparação, porque você estuda
E eu acho que, nesse sentido, é bom, também, muitas coisas ao longo de muito tempo e a memória
você ter uma rede de colegas que estão ali no mesmo acaba te traindo, às vezes no momento que você mais
nível de preparação que você, ter colegas com níveis precisa, que é a hora da prova. Você pode esquecer
de preparação variados é bom. Um mais experiente, o nome de um acordo ou um processo histórico, ou
um que está no mesmo nível que você, um que está alguma questão de geografia, alguma coisa que está
mais recente que você, porque aí você vai ter noção sendo perguntada na hora ali, e você sabe que estudou
de como essa preparação evolui, você pode se ver aquela coisa, mas não está com aquelas informações
naquele colega mais novato e dar dicas para ele de prontas e organizadas para você colocar na prova.
coisas que você errou no passado e que não deveria Então, eu diria que ser mais organizado e trabalhar com
ter feito. E eu acredito que a melhor forma de aprender essa questão da memória e do esquecimento é muito
é ensinar, então, ajudar um colega mais recente é importante, é fundamental mesmo para a preparação.

27
PRATA DA CASA

E aí, como eu falei no tópico anterior, a questão mecanismos para aproveitar aquilo que já estudou. É
da tentativa e erro também é normal, eu acho que é aí que entra a organização.
uma dica que eu daria para todos, não se abalar porque
você errou em algum ponto da preparação, porque a Revista Sapientia – Pensou em desistir em
preparação sempre vai ter alguma falha, você acerta algum momento? Como resistiu?
em um lugar e erra em outro. E a vida mesmo é assim,
de tentativa e erro. Outra dica que eu daria, talvez Maurício Gurjão - Não, não pensei em desistir,
essa dica não poderia ser recebida de ninguém, é dar e aí retomo um ponto que eu respondi antes. A rede
prioridade igual às disciplinas. Não privilegiar uma em de apoio foi fundamental nesse sentido, porque eu
detrimento de outras. Isso aconteceu comigo porque eu tive pessoas ao meu redor que acreditaram na minha
achava que era muito bom em História do Brasil, por preparação e viam que eu estava me dedicando
exemplo, porque tinha tirado nota muito boa na TPS mesmo, pra valer, e com condições de passar; eu
na terceira fase em um ano, e no ano seguinte achei que acreditei também, e fui em frente. Aí entra também a
não precisava estudar tanto e acabei dando um peso questão de ter recursos para continuar. Aí pesa muito
bem menor para História do Brasil em comparação com a questão da igualdade de oportunidades, porque
as outras disciplinas e aí, naquele ano, tirei nota baixa eu tive a oportunidade de pagar cursos para poder
na prova escrita, na terceira fase. Eu percebi que não continuar, porque seria muito difícil não passar em
dá para confiar, porque são cobradas outras coisas. Eu um ano e não ter condições de estudar no ano seguinte.
posso ter tido a sorte, naquele ano, de tirar nota boa, de De qualquer forma, o Sapientia me ajudou muito
ter respondido coisas que eu dominava bem e, no ano nesse sentido, porque eu fui monitor de economia
seguinte, ter surgido questões que eu não dominava, durante dois anos e isso me deu acesso a vários cursos
então, não dá para confiar que você domina aquela do Sapientia, na condição de monitor, e isso reduziu
disciplina inteira a ponto de não precisar estudá-la muito o peso financeiro da preparação durante esses
tanto. A minha recomendação é você dar um tratamento dois anos, de modo que eu tive que pagar só aqueles
igual às disciplinas. A não ser naqueles casos de uma cursos nos quais eu tinha que mandar o simulado e
disciplina que você tem muita deficiência, aí você vai receber uma correção do professor, ou seja, eu tive que
ter que priorizá-la. Isso aí acontece mais para quem pagar os cursos de segunda e terceira fase, que são
está começando, eu imagino. Alguém que não domina as provas dissertativas, mas, de resto, eu tive acesso
muito a economia, por exemplo, você ainda está a muitas aulas de teoria e de resolução de questões
aprendendo os conceitos do zero, talvez você precise gratuitamente, em troca do meu trabalho como
dar um pouco mais de atenção, mas sem prejudicar monitor. Então, eu recomendo, para quem tiver mais
muito as outras disciplinas. No caso de francês, dificuldade, buscar essas alternativas, seja no Sapientia
também, o meu francês foi praticamente do zero na ou seja em outros cursos, de tentar uma monitoria, de
preparação do CACD. E aí eu tive que dar uma atenção tentar alguma forma de serviço em troca de curso,
maior, realmente, porque era uma coisa urgente, não se for possível, claro. Basicamente, foram esses dois
dava para esperar muito melhorar no francês porque pontos. Emocionalmente, eu tive uma rede de apoio
a prova já estava perto, era uma perspectiva de curto boa, e financeiramente, eu tive condições de pagar
prazo mesmo, até o final do ano eu tinha que estar bem por cursos dissertativos e aproveitar a oportunidade
em francês, então eu tinha que estudar mais. Então, sendo monitor.
acho que essas duas dicas são boas. Você ter um nível de
organização alto, não ficar estudando aleatoriamente, Revista Sapientia – Como era a sua rotina
sem rumo, sem anotar nada, sem ter o seu caderno e, de estudos no dia a dia?
também, a outra dica é tratar as disciplinas igualmente
e, também, aceitar que a preparação vai ter tentativa Maurício Gurjão - A minha rotina variou ao
e erro, e você vai errar muitas vezes, mas, também, longo da preparação porque eu comecei morando
quando você aceitar, vai passar. O importante é ter em com os meus pais, depois eu me casei, então, a
mente que essa preparação é cumulativa, aquilo que rotina mudou, mas, em geral, eu posso dizer que
você está estudando vai sendo absorvido, vai ficando eu me dedicava, não lembro exatamente, depende
gravado na sua memória e é importante que você tenha também do período da preparação. Antes do edital,

28
PRATA DA CASA

eu diria que foi uma preparação de seis a oito horas no domingo, estuda o tempo todo. Não acredite nisso
por dia, às vezes mais. Depois do edital, intensificava porque o cérebro não funciona assim, é biologicamente
a preparação, então acredito que de oito a dez horas impossível você estudar o tempo todo, o dia todo. O
por dia de estudos. Mas, basicamente, eu organizava cérebro precisa de descanso, precisa limpar aquelas
a minha rotina de modo a estudar pelo menos uma toxinas que são acumuladas ao longo do dia, e o sono
língua por dia, eu colocava uma das línguas como a é fundamental para isso, para que, no dia seguinte, ele
primeira disciplina do dia. E aí eu separava uma hora volte a funcionar normalmente e a memória também
e meia ou duas horas para cada disciplina ao longo funciona bem, ela precisa de descanso. É o descanso, é
do dia. Tentava estudar de quatro a cinco disciplinas: o sono que vai fazer com que a sua memória selecione
uma de línguas, no primeiro horário do dia, depois aquilo que é mais importante, selecione aquilo que
estudava outra disciplina e aí dava umas três horas você estudou e que é mais importante ao longo do
de estudo mais ou menos, almoçava, descansava um dia. Se você não descansar, a sua memória não vai
pouco e retomava o estudo com base nesses blocos funcionar; se você não descansar e for muito pilhado
de uma hora e meia a duas horas por disciplina. Da na sua preparação, você vai chegar na prova e vai errar
tarde, até à noite, eu estudava mais umas duas ou três a página, vai esquecer, vai ficar nervoso, vai ter pressão
disciplinas durante uma hora e meia, ou duas horas, alta ou então uma queda de pressão. O seu corpo vai
cada bloco. No final da preparação, quando eu estava sentir. O seu corpo tem que estar preparado para a
mais organizado, eu já tinha predefinido tudo o que eu maratona de provas e ele só vai estar preparado se você
ia estudar naquele dia. Isso é muito importante, você estiver com a cabeça boa e descansada. Então, se você
saber o que você vai estudar naquele dia. Segunda- tem algum coleguinha que fala que estuda o tempo todo,
feira, tal língua de manhã, e tais disciplinas; terça-feira, todo dia, que não descansa e está sempre estudando,
tal língua e tais disciplinas e assim sucessivamente. não acredite, ou então acredite, mas tenha em mente
Aí, no fim das contas, eu contava quanto de estudo eu que ele ou ela vai explodir em algum momento, vai
dedicava para cada disciplina, para manter a igualdade ficar doente, vai perder dias de preparação ou vai
de peso entre elas, como eu falei naquele tópico anterior, surtar na hora da prova e não vai conseguir responder
não privilegiar nenhuma disciplina em detrimento da bem. Então, é melhor você respeitar o seu corpo e isso
outra. Então, eu tinha que organizar a tabela de modo inclui praticar exercícios também, se alimentar bem,
a dar tratamento igual a todas as disciplinas. História evitar álcool ou o consumo exagerado de álcool. É
do Brasil tinha que ter tantos blocos, Economia tinha você tratar bem o seu corpo porque é ele que vai dar
que ter tantos blocos, um número equivalente. E aí eu o fundamento para o seu cérebro funcionar. E me
organizava a minha tabelinha com base nisso. lembro, também, que eu praticava exercício físico antes
de começar a estudar, eu praticava em casa mesmo,
Voltando ao ponto sobre rotina, antes de sair o eu não gostava de praticar fora, correr na rua. Depois
edital, eu estudava até aos sábados e tirava o domingo de praticar exercícios, eu começava a estudar. Então,
de folga, o domingo todo mesmo. Às vezes eu estudava tenha em mente que é preciso estar com o corpo são
um pouco no domingo se eu sentisse que faltou alguma para a sua mente funcionar bem.
coisa durante a semana, mas, em regra, eu folgava
no domingo. Depois do edital, eu incluí o domingo Revista Sapientia – Quantas vezes realizou
também, até o fim de tarde, só tirava o domingo à noite o exame e como se saiu em cada um? Houve muitas
para descansar. diferenças nas abordagens das provas?

É importante você cuidar da saúde física e mental Maurício Gurjão - Eu passei na quarta tentativa
também. Isso inclui descanso, dormir bem, ter um e eu não sei se a minha preparação foi um caso à parte,
relaxamento, seja uma série, um filme, um videogame, mas, no meu caso, não houve muita oscilação, foi
alguma coisa do tipo, que faça o teu cérebro descansar, uma escadinha, digamos assim, para cima. Em 2015,
para que ele esteja pronto no outro dia para absorver eu cheguei à terceira fase, mesmo sendo a primeira
mais conteúdo. Acontece muito de aparecer gente que tentativa, mas não fiquei perto de passar. Daí em
diz que estuda o dia todo, manhã, tarde, noite, e não diante eu fui sempre subindo um pouco na minha
descansa e diz que estuda no dia seguinte e estuda classificação, até passar. Então, se fosse desenhar a

29
PRATA DA CASA

minha preparação, seria uma escadinha mesmo. Eu no sentido de dialogar com outras pessoas, de
já vi muitos depoimentos de colegas que oscilaram, negociar temas, de colocar seus pontos de vista de
que tiveram um ano bom e o ano seguinte tiveram um forma razoável, de forma que possa convencer os seus
desempenho pior que no anterior, e isso trouxe uma colegas, possa convencer, também, pessoas de fora
dificuldade adicional pelo ponto de vista emocional, do Ministério, com outros pontos de vista, e é tudo
mas, no meu caso, não, eu tive a sorte de sempre ter um muito novo e muito interessante. Eu diria que não
desempenho melhor que o anterior e isso foi bom para sinto a menor falta do meu tempo de preparação para
mim, no sentido psicológico, por saber que eu estava o CACD, porque é tudo muito melhor hoje em dia. A
melhorando ali mesmo. preparação para CACD é como se você dedicasse o seu
tempo a uma coisa externa a você. Você está tentando
Sobre se houve muita diferença nas abordagens, passar no concurso, está se dedicando àquela prova ali.
não. Eu tentava me adaptar ao edital, a diferença era Não é uma coisa para você, digamos assim. E agora, no
essa. Como falei antes, houve mudança de prova Itamaraty, não, você sente que tudo que você faz, tudo
objetiva para prova escrita, e exigiu uma adaptação, que você aprende está servindo para você de alguma
a diferença de abordagem foi essa mesma, no sentido forma, você está se aprimorando profissionalmente e
de me adaptar às mudanças do edital. A diferença foi intelectualmente, de acordo com seus interesses e as
no sentido de me organizar melhor, como eu falei nos suas prioridades, não de acordo com o que o edital
tópicos anteriores, de ter um caderno ali para consulta te impõe. E aí eu me sinto à vontade, também, hoje,
rápida, de ter mais material de aula para consultar, foi de estudar coisas que eu não podia estudar durante
mais nesse sentido de me organizar mesmo e de me o CACD porque eu tinha que fazer a prova. Hoje eu
adaptar. Eu não diria que houve grandes diferenças posso ler literatura, posso ler temas que eu gosto como
nas abordagens, não. filosofia, política, economia, que não serviriam para o
CACD, mas servem para os meus interesses pessoais
Eu acho que eu só acrescentaria, como dica, a e profissionais, no meu engrandecimento intelectual e
questão da regularidade, de ter um estudo regular, uma profissional. Então, eu diria que é uma nova fase mesmo,
quantidade boa de horas, mas regular, respeitando o completamente diferente do que era antes e bem
seu limite, como eu falei no tópico anterior. Não adianta melhor em todos os sentidos. E sem contar, também,
você estudar muito em um dia e acordar no outro que ganho muito bem para fazer isso, e trabalho e me
esgotado. Então, é melhor você manter a regularidade. dedico, e não tenho o que reclamar mesmo da profissão
Acho que, mantendo essa abordagem na preparação, hoje. Eu vivo numa cidade boa, em Brasília, apesar de
você vai notar, vai sentir uma evolução constante. muitos colegas não gostarem, eu gosto daqui, e tenho
uma vida tranquila, materialmente confortável, com
Revista Sapientia – Como está sendo sua um salário bom e tenho a oportunidade de trabalhar
vida desde a aprovação? com o que eu gosto, com temas internacionais e posso
estudar, também, as coisas que eu admiro e que eu
Maurício Gurjão - Bem melhor do que antes da tenho interesse, então, eu diria que a vida melhorou
aprovação, eu diria. Agora eu posso estudar coisas de completamente depois da aprovação.
acordo com o meu interesse, não apenas para passar
no concurso. Isso, sem contar, claro, que eu estou Revista Sapientia – Qual o seu sonho dentro
numa profissão muito boa, muito interessante, muito do Itamaraty?
desafiadora. Posso trabalhar com temas extremamente
interessantes e dinâmicos, que exigem de mim tanto a Maurício Gurjão - Eu não costumo pensar
capacidade de escrever e de refletir, como a capacidade muito onde eu vou estar daqui dez ou 20 anos, eu
de dialogar com outras áreas do Itamaraty, e com áreas acredito que o caminho se faz caminhando e eu prefiro
fora do Itamaraty, de outros ministérios, tanto no pensar no dia atual e nos dias seguintes. Eu prefiro,
Brasil quanto em outros países, e é sempre um desafio a cada dia, fazer aquele dia. É claro que sempre tem
constante. Estou atuando em uma área que exige um um dia de maior cansaço, maior desgaste, mas, dentro
cuidado permanente em se manter atualizado, em das possibilidades, dentro dos limites, fazer o melhor
buscar estudar o tema, buscar, também, se aprimorar ali naquele momento, ser um profissional decente em

30
PRATA DA CASA

todos os sentidos, digamos, tratar bem os colegas, reputação. Eu não diria que eu tenho um sonho
saber que você vai trabalhar com eles ao longo de de estar em alguma posição. Eu diria que a minha
muitos anos, ser cooperativo, ajudar o colega sempre ambição é de ser um profissional respeitado, ser um
que possível, ser atencioso também, ser propositivo diplomata respeitado dentro do Ministério, respeitado
com os seus chefes, mostrar que você não está ali só pelos colegas; se possível, respeitado fora do Itamaraty
para cumprir ordem, não está ali só para bater o cartão, também. Eu gosto de escrever, eu gosto de pesquisar
você está ali para pensar também, para contribuir com meus temas de preferência, coisas que eu estudei ao
o trabalho da divisão. Você tem ideias, você tem algo longo da graduação e da pós-graduação, então, eu
a propor. Apesar do Itamaraty ser muito hierárquico, diria que tenho essa ambição também de poder ser
as decisões, normalmente, vêm de cima para baixo, um pesquisador, de escrever coisas relevantes e poder
sempre há um espaço para você colocar a sua ideia debater com a sociedade fora e dentro do Itamaraty, e
também, de baixo para cima. Você sempre dá o seu não ser só um cumpridor de ordens, mas alguém capaz
pitaco ali e às vezes passa, e você contribui para de refletir sobre a política externa brasileira, sobre a
alguma coisa. Acontece de você propor alguma fala, sociedade brasileira, a inserção do Brasil no mundo e
algum discurso ou uma posição brasileira em algum poder contribuir com o debate público. Eu diria que
tema da negociação, e aí a sua ideia passa. O chefe são essas as minhas ambições dentro do Itamaraty. Se
aprova, aceita e ele vai subindo a ideia. A ideia ganha isso se traduzir em um cargo ou em uma posição de
vida própria e é assim que funciona. Então, eu diria alto nível, tudo bem, mas, se não for possível, tudo bem
que a minha abordagem pra vida profissional é essa. É também, contanto que eu sinta que fiz o meu melhor e
você pensar naquele dia ali e não daqui a 20 anos. Você que não sacaneei ninguém, e que fui um bom colega,
fazendo o seu melhor a cada dia, você tratando bem um bom profissional, honesto e cooperativo, eu vou
os seus colegas e sendo propositivo, sendo proativo, ficar satisfeito sim.
o seu chefe vai reconhecer e você vai construir uma

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PERSPECTIVAS DA POLÍTICA EXTERNA

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DO AFASTAMENTO RELATIVO AO
ENGAJAMENTO ESTRATÉGICO: A CONSTRUÇÃO
DA PRESENÇA DA CHINA NA AMÉRICA LATINA³

Por Fernanda Magnotta⁴

32
PERSPECTIVAS DA POLÍTICA EXTERNA

Após a era maoísta e, particularmente, com cuidadosamente selecionadas e preparadas da


as reformas econômicas levadas a cabo por Deng República Popular”.
Xiaoping, no fim dos anos 1970, a inserção internacional
da China viveu um novo momentum. No instante em Além do turismo guiado, o período foi
que os Estados Unidos enfrentavam o auge da Guerra marcado também pela tradução de várias obras
Fria e a América Latina sofria com a estagnação da literárias chinesas para espanhol, português, francês
chamada “década perdida”, a China inaugurava um e inglês e vice-versa, contribuindo para o aumento
período de crescimento de mais de 10% ao ano. Em das publicações em circulação nas duas regiões.
pouco tempo, se tornaria a segunda maior economia Na esteira das produções culturais, nos anos 1950
do mundo, provocando não só alterações sistêmicas na os primeiros filmes chineses chegaram à América
política mundial, mas também no tipo de engajamento Latina, assim como exposições de arte latino-
mantido em diferentes regiões do globo. americanas, grupos de música e dança se tornaram
cada vez mais comuns na China (RATLIFF, 1969).
Ao pensar sobre o histórico da aproximação entre
China e América Latina, Carol Wise (2020) classifica as Segundo Ellis (2014), durante o período,
relações sino-latino-americanas a partir de diferentes o relacionamento entre China e os países latino-
fases ao longo dos últimos 50 anos, referindo-se ao americanos era “limitado, focado principalmente
período de 1949 a 1979 pelo título de “realidades em ganhar reconhecimento diplomático daqueles
econômicas em meio ao proselitismo ideológico”, e de países que reconheciam Taiwan como o governo
1980 a 2000 por “do surrealismo ao realismo”. legítimo” e focado em “construir relações políticas
e laços de amizade e influência em geral”. Eram,
O início da primeira fase (1949-1979) é marcado, no limite, relações caracterizadas por festas e trocas
segundo a autora, por “diferenças políticas rígidas” ocasionais entre partidos e principalmente por
entre China e América Latina. Isso porque, de um eventos culturais simbólicos.
lado, a China passava por transformações no regime
doméstico e por uma reestruturação econômica sob De acordo com Wise (2020) as relações
acentuada assistência soviética, ao mesmo tempo ganharam novos contornos apenas na década
em que pleiteava reconhecimento internacional seguinte, quando, em face do aumento do
desprendendo-se de Taiwan. De outro, boa parte dos isolamento internacional e da rigidez diplomática
países latino-americanos (Argentina, Brasil, Chile e da China durante a Revolução Cultural, os laços
Peru, por exemplo) enfrentava dificuldades políticas econômicos com América Latina aumentaram. De
oriundas da oscilação entre governos democráticos 1960 a 1969, apesar dos efeitos da chamada “Grande
civis e autocracias militares (WISE, 2020). É interessante Fome Chinesa” e da crise do balanço de pagamentos
pontuar que em meados dos anos 1950, de acordo com latino-americanos, o comércio entre estes atores
Halperin (1967), interessava à China minar a influência cresceu mais de quatro vezes. Segundo Ratliff (1969),
soviética, o que poderia ter gerado uma aproximação portanto, o fim dos anos 1960 foi marcado por uma
com os partidos comunistas latino-americanos. contradição importante: de um lado, os desafios
No entanto, de acordo com o autor, a separação
geográfica e a baixa representatividade da região
para a luta internacional pelo comunismo não faziam
disso uma prioridade de Pequim. Prevalecia, assim, o
3
Esse texto é um excerto da tese de doutorado da autora, intitulada
“A política dos Estados Unidos para a China na América Latina
distanciamento e o baixo nível de interesse mútuo. no início do século XXI: acomodação versus confrontação”.
4
É doutora e mestre pelo PPGRI San Tiago Dantas (UNESP/
UNICAMP/PUC-SP). Especialista em política dos Estados
Conforme retratou Ratliff (1969), de 1949 a
Unidos, atualmente é senior fellow do Centro Brasileiro de Relações
1959, a penetração chinesa na região acontecia por Internacionais (CEBRI) no núcleo “Américas – EUA”, professora
táticas modestas e de alcance limitado no campo e coordenadora do curso de Relações Internacionais da FAAP e
atua como consultora da Comissão de Relações Internacionais
da diplomacia cultural. Consistia basicamente em
da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/SP). É autora do livro
promover o turismo guiado, “conduzindo visitantes “As ideias importam: o excepcionalismo norte-americano no
estrangeiros em visitas supervisionadas a regiões alvorecer da superpotência” (2016).

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PERSPECTIVAS DA POLÍTICA EXTERNA

relacionados ao desenvolvimento eram semelhantes Durante a “era Mao”, o contexto da Guerra Fria
entre China e América Latina, o que impulsionava fazia com que restasse ao mundo em desenvolvimento
o relacionamento, mas, de outro, “o prestígio e a estratégias de inserção internacional baseadas na
influência cuidadosamente cultivados pareciam ter promoção de movimentos revolucionários ou de
murchado” em função do endurecimento do regime libertação nacional. No entanto, como a maior parte das
chinês nos assuntos domésticos. elites políticas da América Latina era anticomunista,
a proposta revolucionária chinesa de oposição aos
De 1970 a 1979, com a chegada ao poder de um Estados Unidos e à União Soviética não encontrava
grupo mais internacionalista no Partido Comunista apoio significativo na região (XIANG, 2008).
Chinês (Deng Xiaoping e Chen Yun), houve um
processo de progressiva normalização das relações Com as reformas pró mercado, a China alterou
diplomáticas com vários países e de maior engajamento a política de financiamento de partidos comunistas
da China nas estruturas multilaterais. Era o início da mundo afora, o que contribuiu para o reconhecimento
chamada estratégia de “modernização socialista” e da da RPC por diferentes países, mesmo no caso daqueles
política da “one China policy”, que logrou êxito em obter governados por lideranças abertamente críticas ao
um assento permanente no Conselho de Segurança regime anterior. Em 1974, Argentina, Brasil, Chile,
da Organização das Nações Unidas (ONU). Antes de México e Peru já mantinham relações diplomáticas
1971, a China havia conseguido angariar apenas dois com Pequim. Durante a mesma década, segundo Wise
votos (Chile e Cuba) entre os países da América Latina (2020) é relevante pontuar ainda que a RPC expressou
para sua admissão na ONU. Nesse novo momento, 12 apoio político para os países da América Latina sobre
dos 24 membros da região assumiram uma posição questões relacionadas à soberania, justiça econômica
favorável ou neutra (WISE, 2020). e direito à autodeterminação, além de ter votado de
forma consistente com esses países no âmbito da ONU.

Fonte: Esfera/Shutterstock.com

34
PERSPECTIVAS DA POLÍTICA EXTERNA

Foi também durante os anos 1970 que China da ida do presidente Jiang Zemin a Washington em
e Estados Unidos consolidaram o seu processo de 1997 para a “segunda normalização” das relações
reaproximação, marcado pela visita de Nixon a bilaterais, a primeira delegação da China foi liderada
Pequim, em 1972, e a abertura da embaixada norte- em 1981 pelo chanceler Huang Hua, que viajou pela
americana no país. Esse movimento, associado Colômbia, México e Venezuela. Desde então, seguiu-
à narrativa de uma política desenvolvimentista se uma série de viagens importantes, incluindo a
“pragmática, não ideológica” favoreceu o aumento turnê de 1985 do primeiro-ministro Zhao Ziyang na
das interações, sobretudo econômicas, entre China e Argentina, Brasil, Colômbia e Venezuela. O mesmo
América Latina. Como consequência, diversos acordos ocorreu do lado latino-americano para a China,
foram negociados, fazendo com que o comércio entre com incursões do presidente chileno Patricio Alwyn
estes atores aumentasse em nove vezes (WISE, 2020). (1992), do presidente mexicano Carlos Salinas Gortari
Vale lembrar que o crescimento das economias em (1993), do presidente brasileiro Itamar Franco (1993),
boa parte da América Latina durante a década de do presidente peruano Alberto Fujimori (1995), do
1970 fez com que as lideranças chinesas nutrissem presidente argentino Carlos Saul Menem (1995), do
particular interesse pelas teorias de desenvolvimento presidente chileno Eduardo Frei (1995) e do presidente
da região (XIANG, 2008). É importante, no entanto, brasileiro Fernando Henrique Cardoso (1995).
ter claro que o período também foi marcado por
diversas contradições, como a conturbada relação Estava clara, já neste momento, a estratégia
entre a China de Mao e Cuba de Fidel, nos anos 1960, e chinesa de acumular moeda forte e buscar a
o apoio da China tanto à administração do presidente industrialização por meio da importação de matérias
Allende no Chile, no início da década de 1970, quanto primas e insumos intermediários indisponíveis
a seu sucessor Pinochet (WISE, 2020). no mercado interno, enquanto exportaria bens
manufaturados (WISE, 2020). De acordo com o Tenth
A segunda fase do relacionamento entre China Five-Year Plan do premier chinês Zhu Rongji, era
e América Latina (1980-2000), por sua vez, começou preciso implementar uma “going outside strategy” que
marcada por diferenças significativas no contexto incentivasse empresas com vantagens comparativas
interno dos países. Enquanto a China desfrutava de a fazer investimentos no exterior, que estabelecesse
certa estabilidade política e econômica em função operações de processamento, exploração de recursos
das reformas, na América Latina prevalecia a estrangeiros com parceiros locais, contratasse
fragmentação política e a crise macroeconômica. Isso projetos internacionais de engenharia e aumentasse a
favoreceu que, durante esta década, o relacionamento exportação de mão de obra (GALLAGHER, 2016).
entre os países ocorresse prioritariamente por meio
de projetos de desenvolvimento e empréstimos A terceira fase das relações China-América
(WISE, 2020). É relevante lembrar também que, do Latina (Pós-2000), finalmente, foi anunciada pelo boom
ponto de vista político, logo após a crise ocorrida das commodities. Trata-se, precisamente, do período
em 1989, na Praça Tiananmen, enquanto a China delimitado para o estudo proposto nessa tese. A alta
era amplamente criticada no Ocidente, delegações demanda chinesa fez com que, no início do século
oficiais chinesas seguiam sendo recebidas nos países XXI, particularmente de 2003 a 2013, a elevação dos
latino-americanos (WISE, 2020). preços alcançasse níveis históricos, o que permitiu
ganhos significativos para países como Argentina,
Segundo Xiang (2008), a partir de 1990 uma Brasil, Chile e Peru (WISE, 2020).
nova onda de pensadores sobre o hemisfério ocidental
surgiu na China, sob a liderança de Li Shenzhi e a A história econômica da América Latina
tradução do The Cambridge History of Latin America. já havia vivenciado um momento de “loteria das
Além disso, como pontua Wise (2020), foi durante commodities”, como descreveu Gallagher (2016), entre
este período que a cooperação econômica com a o fim do século XIX e a Grande Depressão, quando
China se propagou em países como Brasil, Chile, a região abasteceu a Europa durante seu período de
Argentina, Peru e México e que se intensificaram desenvolvimento industrial. Dos anos 1930 até o fim
visitas oficiais de líderes de primeiro escalão: além da década de 1970, sob a influência do pensamento

35
PERSPECTIVAS DA POLÍTICA EXTERNA

cepalino, no entanto, veio o período de industrialização e investimento na região no decorrer da década


substitutiva de importações e o amplo investimento subsequente (PAZ, 2006), o que também contribuiu para
em infraestrutura na América Latina. Nos anos 1980, que o intercâmbio se intensificasse.
sob a batuta do Consenso de Washington, os governos
latino-americanos lograram algum êxito em controlar De acordo com os dados do China-Latin America
a inflação e a irresponsabilidade fiscal, mas ficaram Finance Database, elaborado pelo Inter-American Dialogue,
muito vulneráveis a choques externos, com crises que a China se tornou, no período, importante financiadora
afetaram México, Brasil, Uruguai e Argentina. de projetos do subcontinente, tendo fornecido, desde
2005, mais de US$ 141 bilhões em empréstimos e
Foi um período em que a ajuda financeira linhas de crédito para os governos da América Latina
ocorreu sobretudo via Fundo Monetário Internacional (GALLAGHER e MYERS, 2019). Como consequência
(FMI) e Banco Mundial, mas com condicionantes desse movimento, os rendimentos latino-americanos
de intensa liberalização, desregulamentação e cresceram, segundo Gallagher (2012), “mais rápido
privatizações. As pressões norte-americanas vieram durante o boom da China do que em qualquer outro
também com acordos e negociações relacionadas período desde que a região ganhou independência das
a comércio e investimento, como o North American potências coloniais”.
Free Trade Agreement (NAFTA) e a Área de Livre
Comércio das Américas (ALCA). Em um contexto de Como demonstrado, portanto, durante a primeira
crescimento lento e de instabilidade, acentuado ainda década dos anos 2000, as relações comerciais e de
mais pela crise financeira de 2008, é que o boom chinês investimento ganharam novo impulso entre China e
ocorreu (GALLAGHER, 2016). É digno de nota que o América Latina. A partir de então, as trocas econômicas
período coincide com dois marcos importantes para mais estreitas foram acompanhadas por laços políticos
a expansão econômica chinesa: o primeiro, em 2001, igualmente mais fortes, movimento marcado pela visita
quando a RPC foi incorporada à Organização Mundial do então presidente Hu Jintao a vários países da região
do Comércio (OMC); o segundo, em 2002, quando o e ao encontro da Asia - Pacific Economic Cooperation
Partido Comunista decidiu adotar a “going out strategy” (APEC), em 2004, e a publicação do primeiro policy paper
(Zouchūqū Zhànlüè), anteriormente mencionada, como sobre a América Latina e o Caribe, pelo governo chinês
parte de seu décimo plano quinquenal (ELLIS, 2014). em 2008 (JENKINS, 2010).

De acordo com a análise de Gallagher (2016), De acordo com a sistematização empreendida por
durante este período de boom nas relações com a China, Paz (2006), de 2004 a 2008, o presidente Hu Jintao esteve
as economias latino-americanas cresceram 3,6% ao ano, mais no subcontinente do que o presidente George W.
melhor impulso desde o período de industrialização, Bush, assim como muitos líderes latino-americanos,
entre os anos 1930 e 1980. Não só o intercâmbio da a exemplo Lula da Silva (Brasil), Nestor Kirchner
China cresceu significativamente na América Latina, (Argentina) e Hugo Chávez (Venezuela), que também
como também, em pouco mais de dez anos, os países viajaram mais para Pequim do que para Washington.
latino-americanos multiplicaram em mais de 20 vezes A China assinou acordos de parceria estratégica com
o volume de recursos com o envio de produtos para Venezuela (2001), México (2003), Argentina (2004), Peru
o mercado chinês. Além disso, em menos de uma (2008), Chile (2012), Costa Rica e Equador (2015), além
década, a participação da China cresceu de 1% para de manter um acordo anterior com o Brasil (1993). No
11% no comércio da região (GALLAGHER, 2012) e período, o número de países da região que reconheceram
países como Brasil e Chile passaram a ter, na China, a RPC em detrimento de Taiwan aumentou com o
o seu principal destino de exportação. Cabe lembrar estabelecimento de relações diplomáticas com República
também, que mesmo enfrentando resistências iniciais, Dominicana (2004), Granada (2005) e Costa Rica (2007) -
Chile, Venezuela, Peru, Argentina e Brasil aceitaram, em alguns casos a partir de incentivos como subsídios e
em 2004, a demanda chinesa que reivindicava o concessões. Mesmo no Paraguai, onde a resistência tem
reconhecimento do país como economia de mercado. sido grande, o então presidente Lugo chegou a anunciar,
Em contrapartida, os chineses prometeram um após sua eleição, que pretendia também reconhecer a
investimento de 100 bilhões de dólares em comércio RPC (JENKINS, 2010; WISE, 2020).

36
PERSPECTIVAS DA POLÍTICA EXTERNA

Fonte: Estudio Maia/Shutterstock.com

O país também passou a ser cada vez mais superou todos os outros objetivos políticos, enquanto
envolvido em fóruns multilaterais na região. Passou a a interação econômica entre as duas regiões
ter status de observador permanente na Organização permaneceu limitada. Desde a década de 1970, a
dos Estados Americanos (OEA) desde 2004. Após América Latina tem sido vista como um modelo de
resistência inicial, também foi aceita como membro desenvolvimento alternativo para a China e, depois
do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), dos anos 1980, a América Latina se tornou um fator
em 2008. Além disso, a China é membro do Forum mais importante no desenvolvimento econômico
for East Asia - Latin America Cooperation (FEALAC), da China.
criado em 2001, que reúne ministros e funcionários
de 33 países das duas regiões e iniciou uma série de No século XXI, esses parecem ser os interesses
diálogos com organizações regionais como o Mercosul chineses na região: na área econômica, obter matéria
e a Comunidade Andina (JENKINS, 2010). Vale prima (sobretudo cobre, minério de ferro e petróleo)
lembrar, além disso, que o próprio 12o encontro da para abastecer o desenvolvimento industrial do
APEC ocorreu no Chile e não na Ásia ou na América país e os padrões de consumo de alimentos que
do Norte, como de costume (PAZ, 2006, CHOO, 2009, acompanham os níveis de renda mais altos, assim
VIGEVANI e ARAGUSUKU, 2015). Durante o período, como ter acesso ao mercado latino-americano; na
a China também intensificou as trocas militares área política, fortalecer a política de “one China
com países latino-americanos, incluindo venda de policy” na região em que mais há países no mundo
armas para Venezuela, Bolívia, Trindade e Tobago, que continua a reconhecer Taiwan (STALLINGS,
Peru, Equador e Argentina, bem como o intercâmbio 2008; PAZ, 2006).
de pessoal e realização de exercícios militares
(KOLESKI e BLIVAS, 2018). Do ponto de vista latino-americano, por
sua vez, o principal interesse está relacionado ao
Em suma, de acordo com Xiang (2008), desde aumento do comércio e do investimento. Apesar
a fundação da RPC em 1949, a percepção da China disso, segundo Tokatlian (2008), é possível notar o
sobre a América Latina tem três dimensões distintas: desejo da América Latina de diversificar as relações
geopolítica, de desenvolvimento e econômica. Durante de poder no hemisfério ocidental, ainda que isso leve
todo o período da Guerra Fria, a dimensão geopolítica a políticas diferentes entre os países.

37
PERSPECTIVAS DA POLÍTICA EXTERNA

Hoje, diante do aumento de interdependência


entre a China e a América Latina, muito se tem
problematizado sobre as consequências dessa
aproximação. Segundo Jenkins (2010), há visões
contrastantes sobre o impacto da presença chinesa no
mundo em desenvolvimento. A “visão otimista”, de
acordo com o autor, enfatiza os ganhos no comércio,
no investimento e em termos geopolíticos. Destaca, em
primeiro lugar, a importância do crescente mercado
chinês para os exportadores do sul, além do aumento
da demanda chinesa por matérias primas, o que já
beneficiou muito os países agroexportadores nos
primeiros anos da década de 2000. Em seguida, aponta
para a contribuição chinesa no que concerne aos
investimentos em infraestrutura. Finalmente, coloca a
China como alternativa para a dominação europeia na
África e dos Estados Unidos na América Latina.

A visão pessimista, por sua vez, enfatiza


a concorrência entre a China e outras economias
em desenvolvimento, sobretudo no campo das
exportações. Essa interpretação vê com ressalva
o aumento da competitividade chinesa em bens
manufaturados e sugere que a elevada demanda por
matéria prima tende a condenar os demais países em
desenvolvimento a um tipo de especialização que
promove a desigualdade dos termos de troca. Nos
países mais industrializados da região, fabricantes
locais com frequência têm pressionado por medidas
antidumping contra produtos chineses. A aplicação
dessas sanções tornou-se, no entanto, mais difícil,
uma vez que países como Argentina, Brasil, Chile,
Peru e Venezuela concederam à China o status de
economia de mercado. Também vê com restrições o
tipo de liderança representada pela China, em que o
desenvolvimento econômico é obtido sob o comando
de um regime político autoritário. Para Jenkins (2010),
os otimistas exageram nos ganhos econômicos e os
pessimistas exageram nas perdas políticas.

38
PERSPECTIVAS DA POLÍTICA EXTERNA

REFERÊNCIAS

CHOO, Jaewoo. “China’s Relations with Latin America: Issues, Policy, Strategies, and Implications.” Journal of
International and Area Studies (Institute of International Affairs, Graduate School of International Studies, Seoul
National University) 16, n. 02 (Dez 2009): 20.

ELLIS, Evan R. China on the Ground in Latin America: Challenges for the Chinese and Impacts on the Region.
New York: Palgrave Macmillan US, 2014.

GALLAGHER, Kevin P. “Inter-American Dialogue Policy Brief.” Capitalizing on the China Cycle: Time is Running out
For Latin America. 2012. http://ase.tufts.edu/gdae/Pubs/rp/GallagherCapitalizeChinaCycle.pdf.

GALLAGHER, Kevin P. The China Triangle: Latin America’s China Boom and the Fate of the Washington
Consensus. New York: Oxford University Press, 2016.

GALLAGHER, Kevin P., e MYERS, Margaret. The Dialogue: leadership for the Americas. 2019.
https://www.thedialogue.org/map_list/ (acesso em 01 de Ago de 2019).

HALPERIN, Ernst. “Peking and the Latin American Communists.” The China Quarterly (Cambridge University
Press), n. 29 (Mar 1967): 44.

JENKINS, Rhys. “China’s Global Expansion and Latin America.” Journal of Latin American Studies (Cambridge
University Press) 42, n. 4 (Nov 2010): 29.

KOLESKI, Katherine, e BLIVAS, Alec. “China’s Engagement with Latin America and the Caribbean.” U.S.-China
Economic and Security Review Commission, 2018, 65.

PAZ, Gonzalo Sebastián. “Rising China’s “Offensive” in Latin America and the U.S. Reaction.” Asian Perspective
(Lynne Rienner Publishers) 30, n. 4 (2006): 18.

RATLIFF, William E. “Chinese Communist Cultural Diplomacy toward Latin America, 1949-1960.” The Hispanic
American Historical Review 49, n. 1 (Fev 1969): 27.

STALLINGS, Barbara. “The U.S.-China-Latin America Triangle: Implications for the Future.” In: China’s Expansion
into the Western Hemisphere: Implications for Latin America and the United States, por Guadalupe Paz e Riordan
Roett. Washington DC: Brookings Institution Press, 2008.

VIGEVANI, Tullo, e ARAGUSUKU, Juliano. “A orientação da política brasileira na integração regional, considerando
as relações com Estados Unidos e China, em tempos de crise interna.” 2015.

WISE, Carol. Dragonomics: How Latin America is Maximizing (or Missing Out) on China’s International
Development Strategy. New Haven: Yale University Press, 2020.

XIANG, Lanxin. “An Alternative Chinese View.” In: China’s Expansion into the Western Hemisphere: Implications
for Latin America and the United States, por Guadalupe Paz e Riordan Roett. Washington DC: Brookings Institution
Press, 2008.

39
PROFESSOR SAPIENTIA COMENTA

Fonte: Jamesteohart/Shutterstock.com

BEM-VINDOS AO
ANTROPOCENO

Por Regina Araújo5

40
PROFESSOR SAPIENTIA COMENTA

A expressão Antropoceno foi cunhada no energia nos últimos 70 anos do que ao longo dos mais
alvorecer do século XXI pelo cientista holandês Paul de 11 mil anos de duração do Holoceno.
Crutzen (1933-2021). Crutzel já havia sido laureado
com o Nobel de química em 1995 por suas descobertas • Em 2017, existiam cerca de 59 mil barragens no
sobre o efeito dos clorofluorcarbonetos nas moléculas mundo. Apenas 1,4% delas haviam sido construídas
de ozônio da atmosfera, que resultaram no banimento até 1850; 10% foram construídas entre 1850 e 1950 e
desses gases por meio do Protocolo de Montreal, e todo o resto, que representam 95,7% da capacidade dos
foi também o primeiro cientista a medir aerossóis de reservatórios do mundo, foram erguidas após 1950.
queimadas no Brasil, ainda na década de 1970.
• A produção global de plástico de
A ideia de Antropoceno surgiu em uma aproximadamente duas megatoneladas ano em 1950
conferência científica sobre o Holoceno, época para 359 toneladas ano em 2018. Entre 4,8 e 12,7
geológica que começou há 11,7 mil anos, realizada no megatoneladas de detritos de plástico ingressam
México em 2000. Na ocasião, Crutzen teria alertado anualmente nos oceanos, enquanto microplásticos são
os colegas sobre o fim do Holoceno e sobre o início transportados pelos ventos distribuídos globalmente,
de uma nova época geológica, uma fase da história até mesmo aos campos de neve do Ártico.
planetária marcada pela disseminação de objetos
técnicos na superfície do planeta e pela humanização • Em 1950, 1% do alto mar (situado fora dos
intensiva das paisagens. limites do mar territorial) era usado para a pesca, e
nenhuma de suas espécies estava em risco de colapso
Desde então, a ideia que os efeitos ambientais por superexploração. Em 2016, 63% do alto mar global
da ação humana seriam importantes o suficiente havia se transformado em área de pesca e 87% das
para deixar marcas na história natural da Terra espécies de pescado eram exploradas, superexploradas
não parou de ganhar adeptos. Um grupo cada vez ou já haviam colapsado. Em termos gerais, a população
maior de cientistas reuniu evidências de que as de pescados havia declinado em 38%, enquanto
mudanças na biota, na sedimentação e na geoquímica algumas espécies de baleias havia diminuído em mais
do planeta atestam a importância das atividades de 90%.
humanas como força geológica desde pelo menos a
Revolução Industrial. De acordo com os autores do estudo, o período
de “grande aceleração” iniciado em meados do
Ainda que não exista consenso sobre o marco século XX marcaria o início da era humana, agora
de passagem entre o Holoceno (iniciado no final inscrita no tempo profundo da história do planeta.
na última era glacial) e o Antropoceno, um artigo A Comissão Internacional de Estratigrafia ainda não
publicado na Revista Nature em outubro de 2020 validou esses argumentos e o Antropoceno ainda não
(https://www.nature.com/articles/s43247-020- consta oficialmente na tabela geológica, mas o termo
00029-y#Fig1) argumenta que, embora o homem já já se tornou corrente entre pesquisadores de ciências
seja uma força geológica há pelo menos 300 anos, naturais e humanas.
marcadores tais como o crescimento da população
humana, o aumento do consumo de energia e o A Comissão Internacional de Estratigrafia
aumento da produção sugerem que o Antropoceno já realizou diversos debates e operou sucessivas
deva ser considerado a partir de meados do século mudanças de nomenclatura e de limites dos íons,
XX. Vejamos alguns marcadores que foram utilizados eras e períodos geológicos, fundamentais para os
no estudo:

• O consumo de energia da humanidade foi


5
Possui graduação em Geografia pela Universidade de São Paulo
(1985). Mestre (1992) e doutora (2001) em Geografia (Geografia
de aproximadamente 14,6 zetajoules entre o início do Humana) pela mesma Universidade. Também é autora do “Manual
Holoceno em 1950 e cerca de 22 zetajoules entre 1950 do Candidato: Geografia”, editado pela FUNAG (2000). Trabalha,
ainda, preparando provas de geografia para grandes processos
e 2020. Sendo assim, a humanidade consumiu mais
seletivos.

41
PROFESSOR SAPIENTIA COMENTA

profissionais da área e para a geografia, que trabalha Enquanto os objetos técnicos se


com dinâmicas geológicas e as formas da litosfera. multiplicavam, surgia o mito da natureza
Mas o debate atual é diferente, pois ele abre uma nova virgem, que deveria ser preservada de qualquer
perspectiva na abordagem da relação do homem com a manipulação humana. A corrente ambientalista
natureza e da gestão ambiental. O que está em jogo é se conhecida como preservacionismo, responsável
a natureza ainda pode ser pensada fora do escopo das pela delimitação dos primeiros parques naturais do
ações humanas. mundo, está ancorada nesse mito: de acordo com
os preservacionistas, os ambientes naturais devem
Assim como a história geológica da Terra, a ideia permanecer intactos, pois representam pedaços do
de natureza das sociedades contemporâneas também mundo natural em seu estado primitivo, portanto,
é construção humana de longa duração. Na Grécia anterior à intervenção humana. A literatura
Antiga, Aristóteles defendia que o sistema natural romântica europeia ajudou a projetar na natureza
era dotado de uma ordem, na qual os componentes selvagem as imagens do paraíso perdido e da
teriam sido criados para atender os anseios e satisfazer paz interior, que contrastavam vivamente com a
as necessidades humanas. No século XVI, a ideia de contaminação ambiental e o ritmo acelerado da
sistema natural concebida pelo pensamento aristotélico vida nas grandes cidades.
foi retomada na Europa, orientando grande parte dos
naturalistas europeus. O debate sobre o Antropoceno parece
anunciar que já é muito tarde para isso: as evidências
Com a Revolução Industrial e a emergência do apontam para o fato de que, globalmente, não é mais
meio técnico, em grande parte dos países europeus, possível estabelecer políticas de preservação ou
o final do século XVIII é marcado pela intensificação mesmo de conservação da natureza sem considerar
do processo de humanização das paisagens e pelos os padrões de interação direta e continuada entre
impactos ambientais resultantes deste processo. as sociedades e os ecossistemas. Para enfrentar a
emergência climática, assim como grande parte
Neste contexto, a natureza selvagem, intocada dos desafios ambientais contemporâneos, é preciso
pelas mãos humanas, ganhou uma valorização positiva. tornar em padrões de interação mais sustentável.

Fonte: DisobeyArt/Shutterstock.com

42
INICIATIVAS SAPIENTIA

INICIATIVAS
SAPIENTIA

Queridos sapientes,

Agora que lançamos a nova edição da Revista Sapientia, já podemos começar o ano de
2021 de verdade, não é mesmo?

Por isso, nada melhor do que começarmos falando da Trilha Regular Extensiva para
o Concurso do Itamaraty, que é a nossa metodologia de estudos inovadora e planejada
minuciosamente com o objetivo de aumentar o foco e a produtividade durante a preparação
para o Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata, o famoso CACD.

E, apesar de o ano mal ter começado, já realizamos a 6ª edição do CONACD, o nosso


Congresso Nacional dos Aspirantes à Carreira de Diplomata, que teve como objetivo ensinar
aos ceacedistas a forma certa de estudar para o concurso, de forma pragmática e sem perda de
tempo. Neste ano, o congresso durou oito dias e contou com a participação de nossos professores
que são referência na preparação para o Concurso do Itamaraty. Ao todo, foram realizados oito
painéis para mostrar aos candidatos quais são os fundamentos essenciais para quem quer se
preparar para o CACD e como estudar, de forma objetiva, as disciplinas exigidas na prova.

Também já tivemos novos episódios do SapiCast, o podcast do Sapi, no qual falamos sobre
assuntos relevantes para a preparação para o CACD, como dicas de estudo, compartilhamento
de informações sobre os temas mais quentes dos editais, e muito mais.

Pensou que acabou? Que nada! Neste comecinho de ano, já compartilhamos muitos
conteúdos interessantes e relevantes no Blog Sapi, a nossa plataforma voltada para a publicação
de indicações de leituras importantes para o concurso, fatos históricos e atualidades, dicionários
jurídicos e de economia, entre outros temas que todo ceacedista deve saber.

43
INICIATIVAS SAPIENTIA

E para fechar os conteúdos do começo do ano com chave de ouro, estreamos uma nova
websérie na Sapi TV, o nosso canal do Youtube, sobre os Grandes Nomes da Diplomacia, com
entrevistas de alguns dos diplomatas vivos mais importantes da história da diplomacia brasileira.

Ah, e caso você tenha se esquecido, a nossa querida TRE também virou pós-graduação,
oferecendo ainda mais conteúdos para você acrescentar ao seu currículo.

Para saber mais sobre a nossa pós-graduação online e outras iniciativas, basta visitar o
nosso site (www.cursosapientia.com.br).

A TRILHA REGULAR EXTENSIVA


TAMBÉM É PÓS-GRADUAÇÃO

Não lembra como funciona a nossa Pós-Graduação? A gente explica. Basicamente, ao se


matricular na modalidade completa da Trilha Regular Extensiva para o CACD, você poderá
optar por participar do nosso programa de Pós-Graduação em Análise da Política Internacional
Contemporânea e Estudos Brasileiros.

O programa tem carga horária total de 360 horas e garante a emissão de certificado de pós-
graduação homologado pelo Ministério da Educação (MEC), mediante a aprovação em uma
avaliação final que será aplicada ao término das aulas.

“Mas, por que fazer a Pós-Graduação do Sapientia?”. Os motivos são vários. Além de
ser um ótimo recurso de preparação para o concurso do Itamaraty, haja vista as aprovações de
nossos ex-alunos, a nossa pós também agrega experiência ao seu currículo. E, como você já deve
saber, títulos de pós-graduação fazem toda a diferença em qualquer oportunidade de trabalho,
ainda mais em concursos públicos.

Por isso, se você, futuro ceacedista, ainda não conhece a nossa Trilha Regular Extensiva, o
Sapi te convida a conhecê-la agora mesmo. Acesse o nosso site e saiba mais sobre essa oportunidade
de garantir a melhor preparação para o concurso da diplomacia, com o corpo docente que mais
contribuiu na aprovação de diplomatas nos últimos oito anos.

44
INICIATIVAS SAPIENTIA

TRILHA DE FRANCÊS DO ZERO

No ano passado, depois de muita espera, lançamos a Trilha de Francês do Zero, nossa
metodologia de estudos da língua francesa que aborda o conteúdo específico que é cobrado
nas provas de francês do CACD, possibilitando que nossos alunos aprendam não só a dominar
o idioma, como também a focar apenas no que é necessário para controlar de forma plena a
estrutura da prova e as exigências da banca examinadora. Resumindo, o foco da nossa TFZ não
é a fluência, e sim, a aprovação no concurso.

“E por que eu deveria estudar francês para o concurso com a Trilha de Francês do
Zero?”. Em primeiro lugar, porque o nosso professor Arthur Marra tem uma bagagem enorme
de conhecimentos e estudos sobre a língua, sem falar no fato de que ele já prepara candidatos
para a prova de francês do CACD há muitos anos. Depois, a nossa Trilha de Francês, diferente
de outros cursos, tem o conteúdo constantemente atualizado pelo professor para garantir que
você sempre receba o melhor material de estudos possível.

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QUER SER DIPLOMATA, MAS NÃO


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Saiba que é para isso que criamos a Orientação Pedagógica Individual Exclusiva para
o CACD, uma orientação 100% online e gratuita, cujo objetivo é orientar candidatos iniciantes
que ainda não fazem ideia de como iniciar a preparação para o concurso.

Nossa intenção é ajudar você, futuro diplomata, que ainda não tem clareza de qual
estágio da preparação se encontra ou está com dificuldade de traçar seu planejamento de forma
estratégica, a encontrar um plano de estudos ideal considerando as suas maiores necessidades
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45
INICIATIVAS SAPIENTIA

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base no seu perfil de aprendizado, mais perto da aprovação no concurso você estará.

Solicite sua orientação individual agora mesmo clicando aqui.

COMEÇOU A MARATONA
PARA O CACD 2021

Após uma espera incessante por alguma atualização sobre o Concurso da Diplomacia,
recebemos, em fevereiro deste ano, a melhor notícia de todas com a publicação do Edital que
oficializa a realização do CACD 2021.

É por isso que agora, mais do que nunca, precisamos manter o foco na preparação para
a prova da primeira fase do concurso.

E, para te ajudar nessa missão, o Sapi já deu início ao Maratona CACD 2021, um
intensivão de revisão que tem como objetivo abordar os conteúdos citados no edital de forma
intensa, prática e estratégica, priorizando os temas mais recorrentes e atuais que podem ser
cobrados na primeira fase do Concurso do itamaraty.

Para conhecer mais sobre o Maratona e garantir a sua vaga na revisão que conta com
professores que são referência em aprovação no CACD, basta clicar aqui.

PARA MAIS INFORMAÇÕES:

E-mail: querosabermais@cursosapientia.com.br
WhatsApp: (11) 99459-7860

46
SAPIENTIA INDICA

PROFESSORES DO SAPIENTIA
DÃO DICAS PARA AJUDAR NA SUA
PREPARAÇÃO PARA O CACD

Por Guilherme Casarões, Regina Araújo e Claudia Simionato

47
SAPIENTIA INDICA

Guilherme Casarões (Política Internacional)


Fonte: Ronstik/Shutterstock.com

Minha indicação para os ceacedistas é o livro O Fim do Poder, do venezuelano


Moisés Naím, editor-chefe da Foreign Policy. Trata-se de análise abrangente e rigorosa
sobre as grandes transformações das relações internacionais das últimas décadas,
numa leitura fluida e objetiva. Ainda que o livro possua várias virtudes, entre as quais
oferecer um panorama completo sobre o mundo contemporâneo, o mais valioso do livro
é o diálogo permanente com os grandes temas de política internacional que interessam
a quem está se preparando para o concurso. Naím argumenta que o mundo passa por
três transformações, a que ele chama de a revolução do “mais”, da “mobilidade” e da
“mentalidade”: novas realidades demográficas, produtivas, tecnológicas e ideológicas que
moldam a realidade global atual e que impõem uma nova compreensão da própria ideia
de poder, rompendo com a acepção clássica das relações internacionais.

48
SAPIENTIA INDICA

Regina Araújo (Geografia)


Fonte: Insolite/Shutterstock.com

O documentário apresenta uma seleção de exemplos da extensiva humanização das


paisagens que caracteriza o Antropoceno, apresentando dados sobre o avanço das terras
cultivadas sobre os ambientes naturais e exemplos da grandiosidade da intervenção humana,
tais como os gigantescos muros de contenção na China, as maiores máquinas terrestres já
construídas, as minas de potássio na Rússia e as lagoas de evaporação de lítio no deserto
do Atacama.

Antropoceno, a Era Humana


Direção: Jennifer Baichwal, Nicholas
de Penciere Edward Burtynsky
País: Canadá
Ano: 2018

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SAPIENTIA INDICA

Claudia Simionato (Português)


Fonte: Andrei Diachenko/Shutterstock.com

Apesar das muitas incertezas do período pelo qual passamos, é incabível supor
que a pandemia por covid-19 e seus efeitos não serão um tema presente no exame,
inclusive na prova de português da segunda fase. Em razão disso, para aqueles que já se
preocupam com a prova de redação, recomendo a leitura do livro A Bailarina da morte,
de Lilia Moritz Schwarcz e Heloisa Murgel Starling, recém-lançado pela Companhia das
Letras. O livro, escrito durante a pandemia de 2020, trata da gripe espanhola no Brasil,
em 1918, cuja população ficou à mercê de uma mutação do vírus H1N1 até o declínio
daquela pandemia, em 1919. É uma boa leitura para quem busca material para referências
históricas e articulação com o presente, pois comparações dos efeitos avassaladores dos
vírus em território nacional não faltam. Outra recomendação é o podcast 451 MHz, da
revista Quatro cinco um. Duas vezes por mês, na primeira e terceira sexta de cada mês,
o podcast “para quem lê até com os ouvidos” é conduzido pelo editor Paulo Werneck e
pode ser ouvido gratuitamente. Com entrevistas sobre temas de ficção ou não ficção,
debates e resenhas de livros recentes, o podcast conta até o momento com 33 episódios
e passou por Carlos Drummond e sua nova biografia, Manuel Bandeira e sua relação com
a morte (não tão) iminente – episódio com a participação do grande crítico Davi Arrigucci
Jr. –, Machado de Assis e sua importância histórica inquestionável, além de temas como
garimpo na Amazônia, ditadura e literatura, Luiz Gama e o antirracismo, entre muitos
outros. É um ótimo podcast para quem quer saber, mas já se cansou de ler com os olhos.

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CHARGE

Por Paulo Matiazi

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