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Logo que chegou a casa correu ao quarto de Fábio

e abraçou-o com uma voracidade que parecia denotar


fome de três dias quando na verdade se despedira dele
ainda nessa manhã. Fábio não estranhou pois estava
habituado aos exageros maternais, com a sua ponta
de loucura de bobo da corte. A veia histriónica de
Faustina era o contraveneno para a gravidade habitual
dele. Ela fê-lo rir, disseram coisas loucas e disparatadas
e acabaram envolvidos numa cena de pugilato que
ela perdeu, como sempre, em trinta segundos, por
ko técnico. Antes de se deitar Faustina tomou um
Xanax e um chá de tília. Ainda começou a pensar na
carta que ia escrever a Beauregard mas não resistiu à
mistura da tisana com o ansiolítico e soçobrou quase
imediatamente num sono vertiginoso.
Ao acordar ouviu na rádio que nessa noite se ia
verificar um fenómeno raro: uma chuva de estrelas
cadentes. Naturalmente ficou excitada. Na sua vida,
já não tão curta assim, lembrava-se de um eclipse, de
um maremoto e de um tornado pequeníssimo, mas
por um motivo ou por outro estivera distraída à sua
passagem e para que isso não voltasse a acontecer
preparou-se cedo para o desfrutar.
Logo depois do jantar ela e Fábio instalaram-se
no terraço, pesquisando os céus que pareciam cortinas
negras de um baldaquino picado de estrelas lançado
sobre os seus leitos de repouso.
A noite de Maio ressoava de alegrias ocultas,
como um colossal búzio, e a lua cheia, enorme no seu
halo branco, espreitava entre os pinheiros, como um
olho de mãe atento e afectuoso.
Ao longe via-se o recorte boleado das montanhas
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de Sintra e o veludo sombrio dos campos onde bru-
xuleavam umas luzes fracas que pareciam pó de asas
de borboleta ou revérbero de pirilampos perdidos
na serra como um exército destroçado. Mais perto,
rodeando a base do promontório num vaivém inces-
sante de panos roçagantes orlados de espuma, o mar
parecia um gigante apaixonado a brincar com a noiva,
aos suspiros, aos arrancos, aos gemidos, revelando às
vezes a sua verdadeira natureza num rugido alucinado
e brutal.
A casa ficava num declive e fora concebida pelo
arquitecto como dois volumes desnivelados, com uma
única aresta comum, para se integrar naturalmente na
paisagem desposando as suas formas, com um avan-
ço de várias dezenas de anos em relação à ideologia
dominante que continuava a produzir villas balnea-
res eriçadas de varandas e torreões como pequenos
castelos do conde Drácula, para servir os apetites da
burguesia endinheirada que pagava fortunas por uma
tira de vista de mar.
O plano inferior da casa avançava sobre o vazio
como um ancoradouro, sustentado por quatro robus-
tas colunas que escondiam os artelhos de pedra na
erva. Aí, entre vasos de plantas exóticas e estátuas de
arenito, protegidos dos ventos dominantes por pérgo-
las de bambu, costumavam seroar os donos da casa e
seus convidados sempre que as condições climatéricas
o permitiam, pelo que todas as conversas importantes
e os acontecimentos de maior relevo acabavam por dar
à costa nesta zona da casa e beneficiavam do impacto
dramático da grandiosidade do espaço envolvente.
A anunciada chuva de estrelas esteve longe de ter
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efeitos pirotécnicos, assemelhando-se mais a um jogo
de futebol cheio de lances de bola imprevistos.
Fábio e Faustina, depois do entusiasmo inicial
em que não tinham poupado exclamações e os co-
mentários adequados ao tema da desproporção entre
a pequenez do homem e a grandeza do universo,
contentavam-se em assinalar a recorrência da queda
de estrelas com murmúrios quase inaudíveis e pre-
enchiam as pausas ou com longos silêncios ou com
farrapos de frases impregnadas de nostalgia.
— Imagina que uma delas, na sua desgarrada
trajectória, vinha embater neste chão de cimento —
disse Faustina. E continuou: — É uma morte que não
assusta, a mais bela das mortes, desintegrarmo-nos…
sermos absorvidos pela luz…
— É maravilhosa esta sensação de vertigem ao
contrário. Sinto a pressão do espaço de encontro ao
meu corpo… Não sei se caio, se voo…

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