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Coletânea de Poesia Contemporânea

DESENVOLVIMENTO E
HUMANIDADES
ALÉM DO ISOLAMENTO SOCIAL
]

Editor
Luiz Geovane Andrade Santana

Organizadores
José Cláudio Rocha
Jaílda Souza do Nascimento
Carlos Soares Sobrinho Junior
Ivan dos Reis Cardoso
Rodrigo Magno dos Santos Vale

Capa
José Cláudio Rocha
Rodrigo Magno dos Santos Vale

Permitido download e compartilhamento desse livro, desde que se atribuam os créditos


aos autores, não se podendo alterar a obra, sendo vedada sua utilização para fins
comerciais

Editora Alucinação
Rua do Ouro SN, Monte Gordo
CEP 42840-112 - Camaçari-Bahia
@editoraalucinacao

Camaçari 2021
A Universidade do Estado da Bahia (UNEB), por meio do
Centro de Referência em Desenvolvimento e Humanidades
(CRDH), inscreveu, selecionou e catalogou essa coletânea
intitulada “Desenvolvimento e Humanidades: além do isolamento
social”. Trata-se de uma obra composta por mais de 140 textos
literários inéditos: poesias, poemas, narrativas e sonetos de
alguns autores experientes, e outros que, pela primeira vez,
ousaram escrever e publicar um texto de sua autoria.
Em dezembro de 2019, houve a transmissão de um novo
coronavírus ( SARS- COV-2) o qual foi identificado em Wuhan na
China e causou a Covid 19. Por causa desse vírus o mundo
entrou em estado de isolamento social e a palavra de ordem:
“Ficar em casa!” era propagada nas mídias, nas redes sociais,
pelas pessoas em geral, pois a intenção era proteger uns aos
outros da contaminação do vírus. Inicialmente foi um período de
profunda reflexão, pois, muitas pessoas se sentiam deprimidas,
temerosas, outras profundamente tristes por perderem amigos e
familiares vítimas da pandemia.
O cotidiano das pessoas se restringia a viverem dentro
das quatro paredes das suas residências. Em 2020 o mundo
mudou drasticamente, pois trabalhar, estudar, negociar,
comprar, vender, se relacionar, visitar, enfim as relações
aconteciam através das redes sociais e isso causou um abalo
emocional na vida de muita gente.
Então essa coletânea surge da necessidade de propor que
as pessoas pudessem expressar suas emoções, por meio da
escrita de textos literários, seus anseios, angústias, medos,
inseguranças, temores, dores, expectativas, sonhos. Cada texto
expressa os sentimentos dos autores que buscam, através de
versos e prosas, contar um pouco desse triste episódio que
marcou a história da humanidade neste século.
Essa obra é fantástica, porque apesar do contexto em que
foi escrita é de uma sensibilidade incrível! O desafio foi lançado
durante o isolamento social e a quantidade de inscritos superou
nossas expectativas. Alguns autores descobriram sua veia poética
no auge da pandemia. Cada texto lido e revisado nos
surpreendia, pois, conseguimos perceber as emoções que
perpassavam os escritos e o resultado foi essa bela manifestação
artística. Cada autor com sua singularidade conseguiu retratar o
cenário do momento. Esse livro é um presente para as futuras
gerações, pois, poderão ler e refletir, como também se emocionar
com cada história contada aqui.
Jailda Souza Do Nascimento

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PALAVRAS DO REITOR
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Vita brevis, ars longa. A vida é curta, a arte é longa.


Na idade média os studium, estabelecimentos de
ensino superior, juntaram se formando organizações
corporativas as universitas. Uma das faculdades presente em
todas as universitas era a de artes. Ali se estudavam a
retórica de Cícero, as obras antigas de Donato e de Prisciano,
logo substituídas pelas de Alexandre de Villedieu e de
Eberhard de Béthune. Em Paris a Dialética era soberana, o
Organon de Aristóteles, e os grandes em lógica Abelardo,
Gilberto de la Porrée. Apenas para lembrar que as
universidades sempre foram espaço da arte. Arte como
exercício único que acolhe toda e qualquer forma de expressão
dos sentimentos humanos. Por isso a arte é longa. Ela não
envelhece, ela não morre.
O trabalho desenvolvido pelo CDRH, “Desenvolvimento
e Humanidades: além do isolamento social” é uma Coletânea
de Poesias Contemporânea resultado acadêmico, universitas,
de escutar e fazer ouvir o sentimento, as angústias e a luta
para manter vivas a esperança e a vida. Em todos os
momentos em que as sociedades foram assoladas por pestes e
por pandemias, obras de fé ou trabalhos devotados à ciência
foram produzidos e são memórias, cujo registro permite que
possamos colher lições e avançarmos no conhecimento de
nossa humanidade. Os atos de fé, as procissões, as orações
escritas sob a inspiração dos santos, a ciência se esforçando
para responder ao chamamento de socorro dos povos, que
somente podiam clamar. Foi assim em nossa Salvador quando
da epidemia do Cólera Morbus de 1854. Nesses momentos
podemos ver como somos, como são os nossos costumes e
tradições, o mundo mental e psicológicos que definem nossa
forma de viver e de sobreviver.
Os textos, as poesias produzidas nessa obra são
testemunhos do nosso sentir, viver e produzir alguma
compreensão acerca desse momento. Ele já é parte da história
da humanidade, mas, sobretudo, é parte de nossa história e
terá neste trabalho um registro honesto e sensível de como ele
foi vivenciado por nós, os soteropolitanos.

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Adélia Carvalho termina sua narrativa assim:

“Por fim, a mensagem que nos resta


Dura apenas um segundo:
Quem despreza a dor do outro
Não tem lugar nesse mundo!”

Para a nossa Universidade a dor do outro é a nossa


dor. Somos a casa estendida, somos todos UNEB.

José Bites de Carvalho.

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APRESENTAÇÃO
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Acredito, seguramente, que a coletânea despertará


interesses perenes aos leitores e leitoras de diversas idades,
origens e convicções, intitulada de “Coletânea de textos
literários – Desenvolvimento e humanidades: além do
isolamento social.” Trata-se de uma obra potente e singular, a
qual possui abordagens significativas, revelando categorias
sociais, psicológicas, educativas, de espiritualidade, de
temporalidade, de esperança, de existência e de defesa da
ciência, tendo como temática nuclear o momento da crise
pandêmica do coronavírus SARS-CoV-2 com o isolamento
social.
Primeira produção dessa natureza, eclética, com
inauguração de expressiva demanda de escritores, além de
manifestações consecutivas de participação, prospectando
uma nova edição em um futuro breve. Composta por mais de
140 (cento e quarenta) textos literários, circunscrita por
gêneros narrativos, crônicas e líricos, caracterizada por
escritores pré-modernistas e modernistas, ou seja, traços
literários, majoritariamente, de poemas que expressam
concretude, retratados por assuntos da vida cotidiana. No
entanto, alguns textos pautados no subjetivismo, em grau
menor. Importa, sobremaneira, relatar a trajetória de
constituição da coletânea partindo do ponto de sua
idealização, lançamento do edital para seleção, acolhimento e
revisão dos textos e relatório final.
A ideia de construção do material artístico em questão
surgiu no primeiro semestre de 2020, pelo professor doutor
José Cláudio Rocha, coordenador do Centro de Referência em
Desenvolvimento e Humanidades (CRDH), com sede no Centro
Histórico de Salvador, docente da Universidade do Estado da
Bahia, atuando no Campus I - Salvador e Campus XIX -
Camaçari e o pelo professor doutor Ivan dos Reis Cardoso,
também docente da Universidade do Estado da Bahia,
professor/pesquisador do CRDH, atuando no Campus XI –
Serrinha. Materializada a proposta, lança-se o edital nº
01/2020, objetivando o estabelecimento das regras de
participação, bem como a recepção e seleção dos textos
literários.

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Pós-seleção e organização dos textos, evidencia-se uma
coletânea formada por integrantes da academia (professores,
estudantes e pesquisadores), dos movimentos sociais de
várias áreas, poetas neófitos e poetas experientes, mas foi o
protagonismo popular a grande marca deste documento
artístico.
O pensamento dos dois docentes, para além da
simples produção do livro, que pudesse corporificar-se em um
instrumento pedagógico, vivo, capaz de passar de mão em
mão, verbalização em verbalização, despertando consciências
para a promoção da cultura, do gosto pela literatura,
concessão da vez e da voz ao povo, incentivando-o através de
composições poéticas, refletindo sobre o momento crítico,
sobretudo, do papel social a desempenhar.
Para atender aos critérios seletivos, uma comissão foi
constituída, sendo formada pelos professores José Cláudio
Rocha e Ivan dos Reis Cardoso e pelos
estudantes/pesquisadores Jailda Souza Nascimento e Carlos
Soares Sobrinho Junior, todos do CRDH. As tarefas de
homologação das inscrições, revisão gramatical, padronização
dos tamanhos de fontes, o devido cuidado na preservação das
estruturas frasais, criatividade, subjetividade e sentidos das
obras, foram cumpridas com responsabilidade respeitando a
ideia de cada escritor e escritora. Interpolar – vida
profissional, vida pessoal, aulas online mediadas por
tecnologias, reuniões virtuais, lives, webnários, demandas de
pesquisas, relatórios institucionais e a coletânea para dar
conta, em meio à pandemia do coronavírus -, rito específico e
extraordinário. Ufa! Ao longo do ano de 2020 os passos foram
dados, curtos, porém com segurança e, ao final, o resultado
satisfatório com a publicação exitosa da coletânea.
É uma literatura substancial! São textos que
produzem vozes em silêncio dizendo muita coisa. Proferem
palavras e frases, as quais nos pedem para não desistir da
vida, do nosso semelhante, dos nossos sonhos, dos projetos
humanitários. Fornecem elementos motivacionais para
encampar as lutas por uma sociedade fraterna, que respeite e
garanta os direitos humanos. As mensagens reunidas e
postas em um só volume carregam sentidos e argumentos
irrefutáveis.

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Portanto, apresentar este significativo elenco de textos
poéticos é para mim uma grande honra, pois configura tecer
comentários de uma obra de grande relevância para o Centro
de Referência em Desenvolvimento e Humanidades, para a
Universidade do Estado da Bahia, para a sociedade e,
especialmente, para os escritores e escritoras.
Não é uma obra para ficar nas prateleiras de estantes,
mas, sim, na itinerância acompanhando leitores,
compartilhando conteúdos, verbalizando com outras pessoas,
expressando seus significados e significâncias. A
interdisciplinaridade é outra característica presente que se
manifesta nas entrelinhas textuais. Podemos constatar uma
variedade de abordagens no campo da política, pedagógica,
economia, psicologia.
O sucesso literário, a partir da publicação da
coletânea, gerou uma motivação entre todos nós ao ponto de
projetarmos futuras edições de textos poéticos. Entretanto,
outras composições textuais permearão o CRDH, como:
resumos, resenhas, artigos etc. Tudo alinhado aos princípios
da produção coletiva e da aprendizagem colaborativa adotados
pelo Centro de Referência em Desenvolvimento e
Humanidades.

Carlos Soares Sobrinho Junior

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PREFÁCIO
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DESENVOLVIMENTO E HUMANIDADES: ALÉM DO


ISOLAMENTO SOCIAL, é uma coletânea de textos poéticos de
poetas e poetisas que atenderam a um Edital nº01/2020 do
CRDH/UNEB com o objetivo de recebimento, análise e seleção
de poesias, poemas e sonetos para comporem a referida
coletânea. Estamos reunidos aqui fazendo poesia, e prefaciar
este conjunto de textos é como anunciar e compartilhar
sentimentos, revelações, achados, descobertas, cores e sons
que nos levam à supremacia do desenvolvimento e
humanidade que há em cada um de nós. Assim, aqui não se
pretende como um analisador ou avaliador, ou leitor
privilegiado em primeira leitura para prefaciar, divulgar a
qualidade de cada peça do conjunto, nem a qualidades do
conjunto de textos em sua inteireza. E como fazer um prefácio
de um livro de textos poéticos sem fazer poesia?
Adriano Pereira da Silva diz: “A praga foi anunciada”;
Agnes anuncia o “Isolamento, solidão”, “mas, abro a janela e
vejo na rua máscaras que não festejam carnaval” (Mario
Abreu), “assim, conduzo-me pela estrada à frente” diz Paulo
Antônio Barreto Junior. E é dessa forma que seguimos; cada
um e cada uma tecendo os caminhos além do isolamento
social, por que as máscaras, estas não podem nos calar.

Olho o mundo
E procuro respostas em outros olhares.
A máscara que esconde os sorrisos,
Parece calar a boca, mas não;
E não aquieta o pensamento e o sentimento.
Há pessoas em isolamento, mas, colaborativas,
Aprendente sempre e reflexivas,
Fazendo ciência, repensando o consumismo,
Os usos e desusos e aclimatando o altruísmo.

A máscara pode me esconder parcialmente,


Mas não pode me calar, me anular.
Posso falar com gestos e escritos,
Com sinais, poesias, canções e/ou orações,
Posso ser remoto, por canal ou plataformas

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Publicar livros livres e coletâneas,
Ou ser cristalino aos olhos vívidos:
- Serás outrora o tempo de agora!

Falarei invocando com oração:


“... livra-nos do mal, amém”.
Ou, como Arantes, pelos tons da canção:
“Por mais que uns não queiram.
Será de outros que esperam.
Ver o dia raiar.”
Falarei como o Cristo Redentor:
Estátua, com braços abertos,
Sem abraço imediato,
Mas com breve entrelaço moroso e inato.

Para o vírus tem mulheres e homens resolutos,


A intrepidez, diligência ou teimosia,
Vestem as nossas feições brasilianas.
Que as bandeiras, lábaros ou flâmulas,
Minhas e tuas; quais cores ou traços,
Sejam traduzidas em movimentos,
Além das hastes que as levam ao vento,
Conducentes de respeito e de paz,
Em versos livres por humanos seres livres,
Agora, com máscaras, depois, desmascaradamente.

Como as máscaras não podem nos calar, mesmo em


pandemia, mesmo diante de perdas e sofrimentos, de ações,
de labutas diárias seguimos além dos isolamentos, e das
leituras anteriores trago para este prefaciar, lá das “Po(éticas)
da formação” de Dante Galeffi, que está aí "o sentido deste
divertimento poético: um gesto aberto à criação incorporada,
partilhada, oferecida ao inesperado” (GALEFFI, 2012, p.7).
São 148 textos poéticos enviados para comporem esta
coletânea onde o leitor ou leitora pode se emocionar, se
surpreender, se informar e deixar aflorar os mais sublimes
sentimentos que experimentamos ao fazer a leitura de
poesias. Neste livro os autores, escreveram textos poéticos
com versos que podemos classificar como versos livres, uma
característica da literatura moderna e contemporânea com
muita criatividade e inovação nos escritos desenhados.

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Temos então uma produção literária organizada no
CRDH / UNEB, logo de cunho acadêmico, nas asas da
extensão universitária, para nosso deleite em leitura, em
possibilidades de trabalhos educacionais, e que possa inspirar
interpretações e outras escritas, nossas e de novos poetas e
poetisas, pois assim é que pensamos: uma obra com
característica de continuidade, na formação, na inspiração,
nas escritas e nas publicações.

Ivan dos Reis Cardoso

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DIAS E DIAS
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Dias em tons de azul


Embalam a vida.
Dias em tons de cinza
Arrefecem a alma.
Dias sombrios
Absorvidos por uma pandemia vil.
Provocam calafrios.
Há esperança no devir.
Flui como botão de rosa a abrir.
Eclode!

Abigail Santos Fonseca

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SALINAS DA MARGARIDA, TERRA MÃE QUERIDA!
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Terra de águas tranquilas, cristalinas e mornas.


Terra de mar aberto, de mangues diversos e rios.
Terra de mariscos, peixes e camarão.
Terra do mar, do mangue e da mata.
Terra de trilhas, de montes, de pedras.
Terra de pescadores, marisqueiras e agricultores.
Terra do sol, do sal e dos ventos.
Terra das conchas, das artes, das danças.
Terra de fé, de devoção e tradição.
Terra de brancos, pretos e índios.
Terra da farinha de mandioca, do beiju e do dendê.
Terra de gente bonita, gente guerreira, gente da gente.
Oh! Salinas, querida que em tuas terras me abriga!
Cuida de mim, mãe querida! Cuida da minha vida!

Ademilson Barreto

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NÃO SEI MAIS QUAL O CAMINHO PARA TUA CASA
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Não sei mais qual o caminho para tua casa.


Apaguei os dados do aplicativo que utilizava comigo.
E agora não ando pelas ruas onde poderia por um sinal, um
clarão.
Uma lembrança qualquer, chegar à tua casa.
Me teletransportar.
Nenhum mapa poderia me mostrar como navegar até você,
por causa das sentinelas.
Enquanto a cura não chega, preciso de você para me curar.
Se for caminhando e olhar para as coisas como nunca mais
fiz, talvez encontre você.
Uma flor, um passarinho, uma casa colonial, uma pracinha,
um gato no telhado.
Você é diferente e até me assusta com esses olhos grandes e
interrogadores.
Mas quando chego à tua casa, sou bem-vinda!
Sento-me na poltrona mais confortável e ouço músicas e
cantos.
Não sei mais qual o caminho para tua casa.
Não encontrei no GPS a rota que me conduzia até você.
E agora me demoro no caminho marcado com placas de
sinalização onde tento decifrar como fazer para chegar à tua
casa.
Do fundo do meu ser, meu espírito te busca.
O mapa é armadilha, não sei do espaço, lugar, situação.
A gente podia ir de bike na tua casa.
Enquanto a cura não chega, preciso de você para me curar.
Se for caminhando e olhar para as coisas como nunca mais
fiz, talvez encontre você.
A lua, uma estrela, um viaduto, um arranha-céu, uma coruja
na árvore.
Hoje descobri que para chegar à tua casa eu devo ouvir minha
intuição.
O caminho que me leva até você é feito de reflexos e refrações.
Você, outro si mesmo, que abre a porta dizendo mi casa, su
casa.
Aderia Campos

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SOCIEDADE
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Gente do céu olha só pra essa sociedade!


Quanta frieza!  Quanta maldade!
E em meio a tanto agito, tanta histeria, pra completar as
relações sociais falidas!
Ainda surge uma epidemia!

Distância? Isolamento?
Ou talvez o necessário para autorreflexão?
Autoconhecimento?

Mil teorias, palavras vazias, buscando o humano


desenvolvimento.
Mas, se não agirmos meus caros! Será só lamento!
Então, me permita indagar! Como vão seus sentimentos?

O atual momento é de olhar pra dentro.


Ver o que há fora desse mundo barulhento.
Aparentar, postar, curtir e outros infinitivos, encontramos
tantos por aí!
Mas, será que se aglomerar em sociedades rasas tem nos
permitido
— como humanos — desenvolver, evoluir?

Adriana Neves

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TRANSIÇÃO
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A praga foi anunciada.


Cantada em verso e prosa.
Por Bule-Bule e toda imprensa.

Começou em Wuhan
E logo se alastrou!
De Bérgamo à Málaga
De Xique — Xique à Salvador.

A OMS disse: — Fique em casa!


Mas o presidente não gostou.
Ele próprio foi à rua.
E a sua ignorância se confirmou.

Notícias estranhas surgiram


Houve correria ao mercado.
Entre o feijão e o pão.
Venceu o papel, dupla face!

A cloroquina não deu certo.


Pensar positivo também!
Só a ciência e consciência
Com máscara e álcool-gel 70.

Meus planos para o ano fumaçaram!


E os seus? Creio que também!
É melhor dar um tempo.
E pensar no ano que vem!

Não é o fim dos tempos.


Nem o início de uma nova era.
É tempo de ficar em casa.
Esperando ouvir: — Acabou!

Adriano Pereira da Silva

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ALÉM DA SOLIDÃO
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Isolamento, solidão.
Período de remissão.
Recordações de outrora. 
Cada um segue o caminho.
A busca de alento para o coração. 
Tempo olvido.
Pensamento a divagar.
Transformação de valores 
E prioridades. 
Educação e aprendizado.
Mais ciência com consciência.
Mais palavras, poesia a entoar. 
Distância, acenos a nos prover.
Enlaçados no cerne do coração.
Uma paz na obscuridade do caos.
No pensamento permeia 
A esperança de um alvorecer.
De amor.

Agnes Ilumi Nagashima

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VÍRGULA
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Quando tudo parece mudar:


Trevas, nuvens negras, tempestades.
Será que o valor não está em você?
Autoconhecer!
As flores insistem em se esconder na primavera.
Como um sinal de fracasso.
As aves pensam em fugir às cegas.
É impossível encontrar uma direção.
Uma decisão! 
Ventos: isso é o suficiente para mudar a rota.
Mesmo que, o curso da natureza siga uma ordem. 
É possível uma interferência no tempo.
Provar aquilo que só você sabe:
Autoconhecer!
Águas sufocantes
Tentam suprimir, 
Desvincular, inibir.
Elas te impõem como um escravo. 
Que não tem voz!
Que não tem vontade!
Que não tem atitude!
O não reconhecimento
Que leva ao empobrecimento
Insistem em ver esta estrela morrer.
Um passo pode dar à luz ao ponto final!
Mas, por que não preferir a vírgula?
Ela é suprema
E te dá poder.
Para fazer o que quiser!

Alan Soares

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SE EU FOSSE COMEÇAR O MEU MUNDO HOJE 
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Se eu fosse começar o meu mundo hoje?


Eu dava um zig em Deus e
Faltava ao encontro marcado no Jardim do Éden.
Para que ir lá se eu mesmo já mandava em tudo?
Daria um abraço num rio.
Mergulharia por um sossegado momento.
Se eu fosse começar meu mundo hoje?
Nele não haveria sofrimento
E a vida duraria como um vento.
Se o meu mundo começasse hoje?
Teria roupa colorida no varal.
Secando a luz de uma Lua que,
Contente, eu mesmo inventaria. 
Toda azul com listras brancas e cheiro de manga.
No meu mundo, palhaços e mágicos
Beberiam cerveja ao Sol na proa dos barcos.
E atravessariam sorrindo o Estígio.
Madalena me daria um beijo na boca.
Com a língua de jasmim e estrelas fixas.
E eu teria sede de mais beijo e
Muito, muito prestígio. 
E eu seria mais famoso.
Que qualquer esperança ou qualquer Pandora!
Se o mundo fosse feito por mim?
O mar seria, na hora, feito de mel e anis.
As montanhas eram de papel como eu quis.
E os homens teriam pés de sapo.
Mas não saltariam como eles.
Os grilos seriam trombones.
Não haveria dinheiro, nem doenças.
Ninguém passaria fome
Para que outros tivessem raros carros brancos.
Se meu mundo fosse feito por mim?
Não haveria crenças, nem ciências.
Nem todas as demências desse mundo que eu não fiz.
Haveria um arco-íris ao contrário.
Com caldeirões de feijão, cozido e amor.
Depois da estrada de tijolos amarelos. 

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Todas as crianças seriam felizes!
E os animais teriam direito a viver e brincar com elas.
Para sempre. 
No meu mundo não existiriam as palavras gratitude e
gratidão.
Nem as pessoas que as dizem sem pensar na razão.
Baleias e pinguins tomariam café comigo.
Cedinho num boteco de esquina e eu tocaria violão.
Onde as plantas e as gentes nos fariam companhia.
Um caracol me sorriria da janela do outro lado da rua.
E cantaria All of Me com a voz de Billie Holiday.
Depois, poderia morrer e nascer de novo.
Num pôr do sol que eu me esqueci de inventar.

Alberto Batinga Pinheiro

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FORA DO LUGAR
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Ainda era maio, outono na maturidade.


Mas a sensação era de frio no punho.
Um vírus se espalhou, terreno fecundo encontrou, nasceu
uma pandemia.
Pessoas assustadas, necessitadas de apoio profundo.
A indiferença crescia e se instalava.
O problema aumentava e com toda força abalou o mundo.

Camuflaram a realidade, brincaram com o contágio.


Gritaram atrocidades, que nada aconteceria, que o medo por
si só mataria.
No íntimo, a rotina se tornou estranha e apáticos viviam.
Mesmo com o isolamento o número de mortos subia.
Não viram risco na proliferação, somavam-se na aglomeração.
Com ignorância, a dádiva da vida aos poucos se perdia.

Ordens das mansões, trabalhadores seguiam sua sina.


Cientes de sua mortalidade e sem forças para reclamar.
Alguns privilegiados em carreatas, protestos, embelezaram a
hipocrisia.
Ignoraram a situação. Não se evitou! Então a hora era de
remediar.
Regras de isolamento decretadas, por muitos ironizadas.
Evitaram pânico de uns e em outros a tristeza a imperar.

A impotência frente ao problema crescia, a afetividade foi


violada.
Abraços extintos, clamores aos santos todos e também à
resiliência.
Era o que restava... e no caos vigente, apenas a natureza pôde
respirar e se encontrar.
Enquanto famílias sofriam a dor da imprudência.
Se o vento embalava as folhas, o céu se enchia de cor, o
homem lá não estava.
Pois, residia no pranto e em vão tentava recobrar a
consciência.

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Uma preocupação mundial, julgada como banal!
Não se podia esperar luz no firmamento.
E hoje olho para trás e vejo aquela gente vazia, tão somente
dinheiro tinha.
Tão fora do lugar, desprovida de sentimento.
Dos verdadeiros valores, da brevidade da vida.
E de que tudo pode se findar em qualquer momento.

Alciene Brasileiro Oliveira

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MUITO ALÉM DE UMA CAVERNA
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No tumulto dos impérios, na história do homem e da


Terra a guerra já tirou tantas vidas, doença ainda é megera.
Pois, nessa era de ironia, nesse tempo de evolução!
Quem é que imaginaria que a tal pandemia nos traria a
agonia de ser a caverna de Platão?       
Sonhos paralisados, ruas sem movimentação, escolas
esvaziadas, famílias sem ganha-pão, políticos trocando farpas,
sistema de saúde sob pressão, violência em disparada,
homem sofrendo no sertão, corrida pela ganância, burocracia
matando o cidadão, empresas desesperançadas, economia na
contramão, prisão em forma de casa, aumento da depressão.
É que, nos deixando a liberdade tolhida, o coronavírus
desarrumou nossa vida, só para dizer que essa caverna tem
saída e se chama compaixão. Já dizia Shakespeare, o
pensador, “é preciso lutar pelo amor, a dor do outro também é
minha dor, o amor se vê com o coração.”
É, meu caro amigo, não te fies na sombra da tristeza,
nem te encantes pelo eco errado, pois o futuro sempre espelha
a grandeza de quem faz da vida, aprendizado. Se a distância
nos amedronta, é porque entendemos a lição: dependemos do
nosso próximo, “uma andorinha só não faz verão”. Assim,
nesse momento, que aprendamos a aprender: quem não vive
para servir também não serve para viver.
O universo nos colocou no caminho do pensamento,
fez do mundo réu confesso pelo excesso de sofrimento. O que
importa, todavia, é espalhar fé e amor. Em terra de cego, o
que contagia é buscar superar a dor. Se, “quem acredita
sempre alcança”, só me cabe essa lembrança: as margens
plácidas que ouvem do Ipiranga sabem que a luz da caverna é
a esperança e que somos todos, o grande escultor.
Por fim, a mensagem que nos resta 
Dura apenas um segundo:
Quem despreza a dor do outro 
Não tem lugar neste mundo!

Aléfia Carvalho

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O HORIZONTE É VOCÊ
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Lá no horizonte, não muito distante...


Têm algo para você. Na verdade, para mim, para você, para
nós.
Basta olhar atentamente, com o olhar da curiosidade.
Parece mentira, mas não é!
É o vento, a vida, o bem.

Talvez você não consiga enxergar.


Despolua teu olhar.
Fixe! Mire! Respire! Fite e sinta.
O vento da bonança, da esperança logo vai chegar.

Tá sentindo? Ainda não?


Então espere. Talvez você ainda não tenha se entregado
completamente.
Completamente a vida, ao amor, a dor, a tudo que o existir te
permite.

Quando olhar novamente, você verá e irá entender.


Que o longe é perto, e o perto longe!
E, que tudo o que está no horizonte é a forma simples de
dizer: está tudo bem não enxergar que a vida é o agora, o
presente, o sentir. 
E que a mudança em meio a desesperança irá chegar. 

Alessandra Barbosa

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EU GOSTO DA SOLIDÃO!
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Eu gosto da solidão?
Eu gosto é do SOL!
Gosto dos solícitos.
Solidários.
SO-LI-DA-RI-E-DA-DE!
Ser solícito, solidário.
Exercer a solidariedade é estar e ser SOL!
Só? Solitário!
Em meio a tantas angústias.
Dos que só recebem e não se doam.
Banho-me de frases, olhares, posturas mesquinhas.
Soberba, insensatez incessante.
Estou só?
Sondo-me! Observo-me! Revigoro-me! Respiro! Inspiro. 
SORRI!
Sorrir. Sorria!
Não estou só, estou ao SOL!
Dias melhores não tardará.
SÓ RIA quando tudo terminar!

Alessandra Freire

26
UM NOVO CAMINHO
_______________________________________________________

Tudo segue em um grande caminho.


De mãos dadas, reconstruindo.
Saindo das muralhas do passado.
A gritante vontade de ir e vir.
Presos a uma reflexão, o presente se torna uma proteção.

Nada mais está em seu lugar.


A empatia aquece os corações.
Seguindo novos caminhos, novas direções.
Vibrando, irradiando muitas emoções. 
A Construção de novos dias faz renovar a trilha.

Os sonhos coloridos, numa imensa arte de viver.


O Toque mais iluminado vendo o rosto dos meus.
Há quanto tempo não tinha o  tempo de perceber o eu.
Juntos, mas isolados
Percebendo a importância do ser ao lado.

Aprendendo com momentos 


Numa junção de pensamentos.
Nesta intensa oportunidade 
Semeamos a saudade, a verdade, a igualdade 
Dentro de cada ser.

Há uma escuridão 
Atormentando a multidão.
Acelerando e entristecendo corações
Nas entrelinhas, afastando e separando.
Os braços dos abraços, o sorriso dos lábios.
Necessariamente, viver assim?

Todos por motivos maiores


Isolados dentro do seu eu: proteger. 
Amar, doar-se, admirar, estabelecer, viver.
A vida segue adiante 
Envolvendo a cada instante.

Ressurgiu um novo mundo. 

27
Uma nova forma de pensar.
A Natureza renasce, inalamos um novo ar.
Vejo as flores e os frutos mais doces do pomar.
Desejando o universo com um brilho no olhar.
E o que dizer a todos, quando vamos nos encontrar?

Alessandra San

28
O VÍRUS CHAMADO COVID – 19
_______________________________________________________

O vírus chamado Covid—19 já virou sensação.


Já atingiu o mundo inteiro, inclusive o Japão.
Estamos sem saber até onde vai chegar.
Pois, é um vírus invisível que pode até matar.

O primeiro caso no Brasil 23 de fevereiro.


Já atingiu todos os estados inclusive Rio de Janeiro.
Não sabemos o que fazer muitos estão desorientados.
Ouvindo outro vírus chamado Bolsonaro.

Esse presidente louco parece que quer mesmo é nos matar.


Dizendo que o certo é irmos trabalhar!
Coloca sempre a economia como primeira opção.
Enquanto isso o vírus vai matando a população.

Veja que os outros países também estão sofrendo.


De minuto em minuto, pessoas estão morrendo.
Ainda estão em busca, de remédios e vacina.
E Deus trabalhando através da medicina.

Segundo os especialistas, nós devemos nos isolar.


Ficarmos em casa para o vírus não nos contaminar.
Aqui mesmo no Brasil já é algo assustador!
Pessoas morrendo nos hospitais sem nenhum respirador.

É difícil acreditar, mas já é realidade.


O vírus existe sim e chegou à sociedade.
Vamos ser fortes, pois isso vai passar!
Para que num futuro bem próximo.
Podemos nos abraçar!

Alex Ferreira da Silva

29
AS SOMBRAS DA PESTE
_______________________________________________________

Na penumbra do quarto acendi uma vela, para que assim


houvesse como chamar a atenção dela. Queima solitária, a
pequena luz amarela, como se por um momento pudesse, com
a cera cadente, encarar como luz de estrela, quando, na noite
ascendente de céu salpicado de brilhos, mesmo aquela, entre
todas no firmamento pontuado, a mais bela, com sua chispa
de intensa centelha consumisse, em si, tudo que houvesse de
mim e, sempre assim, tal como a pequena vela a chama se
chega ao fim, e pouco a pouco cintilando sumisse, no céu
meu amor apagou-se dela. Ainda no quarto, vejo a sombra
que me assombra toda noite, como figura indizível, parada na
meia luz em a noite, olha imóvel e fixamente sem dizer
palavra, mas como se falasse, ou como se quisesse me crava,
teu medo seja o que for não sou eu não, teu medo é de
quando eu me for e ficar a solidão. As sobras das sombras da
noite como capuz de um lúgubre incômodo, se alonga pelas
réstias de luz em meio à penumbra do cômodo, ainda que
aparente não disser nada, ou qualquer mera profecia, a figura
oculta no canto inerte sentencia o lento começo da alvorada, e
se desfaz em tênue nuance enevoada, na medida em que a luz
invade a janela, e, como se nunca estivesse estado ali, as
sombras esvaem entoando uma querela, tudo que um dia foi
se acaba em si, tudo que um dia será, começa aqui; olhe nos
olhos de quem está rendido, e no coração aflito de quem está
perdido. Lá fora, a canção só não pode ser ouvida pelos
mudos, não porque não a ouçam como que surdos, mas,
porque não a podem cantar, e os loucos dançam a se embalar
alucinados, rodam negando a peste a se gabar eles marcham
para o cadafalso da força como condenados. Enquanto o
coração confinado em conflito, bate retumbante em seu ritmo
aflito para que cheguem até o fim, pois nada do que fizerem
será por mim, mas por ti, quando a noite recair e as mesmas
sombras por vir, esgueirando-se pelas frestas, tombando
sobre as cobertas e se reconfigurando na imagem imóvel no
canto do quarto junto do móvel, e sussurrando a se ouvir a
sombra irá repetir menino franzino em seu canto sozinho, em
seu sono pequenino, em seu sonho daninho de um peito

30
ferido com coração partido, por uma lembrança esquecida de
um amor para toda vida. Com o vulto abandonado à própria
sorte, rezo para que não volte, ainda que não esteja mais aqui
quem sempre esperou por ti.

Álvaro L. M. Fonseca

31
SEXTOU?
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Sextou? 
Onde?
No RV? 
No Pelô?
No paredão da minha rua?
Ou...?
— Fique em casa!
— Por hora sem enxame ou chame gente!
— Parou!
Ah!  Agora é sextar de casa!
Trabalhando como dá para meu ofício docente continuar!
Sextando sigo no vazio dos dias sem a Fé deixar...
Peço a Oxalá e Iemanjá para guardar os que precisam sair
para ofícios realizar!
Mas, hoje sextarei de casa e curtirei minha balada mesmo
isolada!
Sextou!

Amanda Maria 

32
SEMEADURA
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É hora de plantar
flores no abismo;
deixá-las crescer
para admirá-las,
apesar dos espinhos;
das pétalas rosáceas,
fazer o antídoto
contra o tormento.
É hora de cheirar
a vida, mesmo
em frascos fechados
em ar comprimido,
esperando o momento certo
para sentir o aroma
e perfurmar o mundo,
pulverizar a existência
com o néctar da amanhã.

AnaCarol Cruz

33
EU NO MUNDO 
_______________________________________________________

Movo-me mudo, transformo, religo.


Reflito, revolto e sinto.
As amarras, feridas, marcas, solidão.

O passado passou! Disseram, com a escravidão.


Mulher negra, ferida, se encaixa no padrão.
Alisa, prende cacho e crespo não é bonito não!

Eu no mundo leio, aprendo.


Liberto minha alma das amarras dos injustos padrões.
Autoestima, crescimento, para lutar e vencer as opressões.

Ana Cláudia Valverde

34
DIAS DAS MÃES DE UMA VOVÓ NA QUARENTENA
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O confinamento, a perda da rotina habitual e o contato


social e físico reduzidos, causaram angústia, frustração,
sensação e isolamento da vovó para com seus familiares,
especialmente seus filhos e netas. Ela sentiu-se triste e
frustrada e ficou com medo de perder a conexão com seus
entes queridos.
Os sentimentos negativos eram por todos esperados
durante a situação de isolamento social, imposta por uma
quarentena como a que vivemos contra o coronavírus. Mas
este sentimento ficou aguçado para ela no último dia das
Mães.
Quando ficamos doentes e vamos para o hospital, nos
sentimos irritados. Interpretamos a internação como um
castigo. Acontece algo parecido numa quarentena, quando
somos obrigados a ficar em casa. A gente entende ser
necessário, que é para nos proteger, mas a sensação que
temos, é de castigo.
Para manter a mente saudável, é preciso “desenvolver
ferramentas” para lidar com as emoções nesse momento.
Mas na vovó, os efeitos do isolamento foram o
contrário: ela resolveu se adaptar às mudanças e criou saídas
práticas para o problema que surgiu, exercendo criatividade.
A vovó pensou: estamos isolados dentro de casa, mas
não precisamos enfrentar essa crise sozinha. Não podemos
ficar parados. Preciso exercitar minhas energias para não
desanimar e essa tristeza se aprofundar. Então, mexeu com a
mente e trabalhou as emoções, o que foi muito importante
para se manter forte e contar essa história.
Quarentena é um “tapa na cara” para a gente lembrar
que não podemos perder a conexão com as pessoas, pois
estamos esquecendo de olhar para dentro. A gente está
sempre correndo, deixando a vida nos atropelar. Agora vamos
viver o ócio, sem deixar que o ócio fique angustiante.
A vovó aceitou o momento, lembrou-se da sensação de
paz que tem com as netas, e retornou a infância, em viagem
de primeira classe, aproveitou o momento, fez uma
videoconferência para ouvir as inocentes opiniões das netas
sobre a quarentena!

35
A vovó divertiu-se muito!
Moral da história: precisamos criar ferramentas para superar
o medo e as frustrações do isolamento social.
Ana Maria Maciel

36
ACORDAR
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Eu não sinto saudade 


Dos carros, da pressa, do barulho agoniado das filas,
Do meu corpo apertado no último ônibus
Agitado por não saber ser.

Do ar-condicionado 
Nem da língua que o naturalizou assim: 
Ar 
Em condição comprimida.

Eu nem sei como suportei respirar


O tempo sem tempo, 
O ritmo que nunca deixou caber 
A forma chamada de outra, 
Porque entendida como im-pro-du-ti-va  
Existência 
Que não deve se aproximar da natureza,
Mas dela somente subtrair.

Para que tanta gente acorde, tanta gente tem que dormir na
eternidade?
O olho de quem vê livra a minha vó da peste?
E quem vai desligar os botões da inconsciência da
inconsistência da humanidade?

Ana Pedrosa

37
ÁGUA
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Feitos de água
Sem chuva ou oceano
Rio ou riacho
Doce, salgada
Há dias que a gente deságua.
Névoa ou orvalho
Aquífero ou poço
Filete ou tromba d’água.
Goteira ou poça d’água
Em fonte ou barreiro
Onda ou aguaceiro
Retina, ribeira a marejar.
Represa e lagos, sangrando.
Das nuvens saturadas
O líquido fluido transborda.
Corrente, fluente, torrente.
Apenas, 
Água

Anderson Gomes da Epifânia

38
O AMOR AO ESTUDO
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Se estou forte eu estudo.


Se estou triste eu estudo.
Se estou ansioso eu estudo.
Se estou corajoso eu estudo.

Se estou com raiva eu estudo.


Se estou amoroso eu estudo.
Se estou religioso, eu estudo.
Se me sinto ignorante eu estudo.

Se estou calmo eu estudo.


Se estou curioso eu estudo.
Se me revolto e sou contrariado eu estudo.
Se for atrapalhado e criticado eu estudo.

Mas, por que eu tanto estudo?


Se estudo é porque eu amo o estudo.

André Miranda Santos

39
FÁBRICAS A PLENO VAPOR
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Bons dias falados por pessoas que se confundem com as


máquinas das fábricas que não pararam à noite. 
Conversas sobre dólares, euro e libras.
Real já está desvalorizado, não estão mais nas rodas de
compras, vendas, consumismo e conversas superficiais e
interesseiras. 
Olá, tudo bem? Frases de efeito pouco interessadas em saber
como o outro está. 
Chuva, sol, pouco importa! Ninguém quer saber se há
poluição, desmatamento, vírus, pandemias. 
Homens e mulheres correm, diuturnamente, a mando de seus
patrões.
A economia não pode parar! 
O dinheiro precisa circular!
Não importa se alguns milhares morrerem!
Não deu tempo dizer boa noite hoje. Estamos com pressa.
Economia, dinheiro, bolsa de valores invertidos e fábrica de
caixões a pleno vapor.

Andrea Barreto Borges

40
A POESIA COMO REMÉDIO 
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Em tempos de isolamento social


Quando fecham todas as janelas,
Quando cessam todos os abraços,
Há uma flor cheirosa e tão bela!
Em tempos que espreita a tristeza.
Quando ronda o vírus algoz,
Coroando-nos com quarentena.
Há uma esperança radiosa em nós!

Por mais que os dias sejam longos.


Em meio às notícias contristadas
Somos convidados a não se abater.
Não deixe sua força ser abalada!
Molhe o jardim de tuas crenças.
Cuide bem, meu bem de sua rotina.
Pois, existem porções diárias de alento.
Homeopáticas doses de uma vacina!

O princípio da cura pelo semelhante


Vem de responsabilidade e respeito.
A ciência vencendo a ignorância.
A solidariedade como um direito!
Nesses dias de clausura e isolamento
Para nos tirar do marasmo e do tédio.
Trilhemos com corações corajosos.
Medicando a poesia como remédio!

Antônio Marcos de Almeida Ribeiro

41
SE FOR PRECISO MENINA, CHORE! 
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Eu ainda ouço ecoar em meus ouvidos.


Quando diziam aos gritos:
— ENGULA O CHORO!
E eu engoli.

Com o passar do tempo comecei a repetir a mesma frase


e deixar ecoar dentro de mim.
Sentia quando a tristeza se transformava em raiva.
Não me reconhecia no espelho
com os olhos vermelhos e a cara amarrotada.
—  ENGULA O CHORO!
Repetia sem fim.
Isso me matava aos poucos!

Queria mudar. 
No entanto,
foi desse jeito que eu aprendi.
E é por isso que hoje eu digo:
— Menina, chore!

Haverá tempo de sobra para sorrir.


A felicidade está nas pequenas conquistas.
E você precisa estar leve para seguir.
Se for preciso menina, chore!
Essa dor que te sufoca, só você pode sentir.

Ariana Sena

42
RACHADURAS
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A criatura, encolhida num canto 


Em espanto, se assusta com seu tato.
O corpo, o qual achava conhecer,
Agora se revela em curiosos traços.

Algo começa acontecer. . . Rachaduras?


A matéria se expande, explode! 
O homem, a gema, a loucura
Questiona aquele estrondo tão forte!

Disfarça, sem graça, em estado de graça. 


Bagunçado, curioso e agoniado.
Pensamentos minando de forma febril
O homem se vê extasiado!

Ao abrir os olhos, faíscas em sinfonia. 


Expõem o que estava ocultado. 
Um universo operando em harmonia
Em sua alma, sua mente e lábios.

Ainda na solidão do isolamento


Abraçando a dimensão de sua natureza.
Entende todas as mazelas e bênçãos do eu
Transformando sua existência em certeza! 

Certeza de que a perspicácia cósmica


Proporcionada pelo conhecimento, 
Destrói a frágil penumbra mórbida
Que um dia foi alimentado por lamentos.
.

Azure Gnose

43
MEDIANERAS
______________________________________________________

Aglomerados, mas separados por paredes de concreto.


O que nos une é justamente o que nos divide. 
Nós estamos perto, mas fazemos de tudo para ficar longe. 
E é nas medianeras que enxergamos para além do que as
janelas permitem ver.
A verdade é que o isolamento sempre esteve aqui. 
Mas ele nunca foi tão evidente!
São apenas 20 metros de distância, mas nós não nos
conhecemos.
Nós não fazemos questão de nos conhecer. 
O cidadão metropolitano é do mundo! 
Mas o mundo se encaixa numa tela de cinco polegadas. 
Por isso, não há vida do outro lado da rua. 

Bruna Couto 

44
SONETO DO OCORRER
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Na distopia do real pulsante


E na falta de cuidado e cura com o momento.
Embora cravejem de desencanto
Desse gole jamais me alimento.

Re-existir é a ordem do momento.


Se refletir, redimir será meu pranto.
Entre lou(cura) e epifania sangro no lamento.
Inovar, criar e recriar mil novos momentos.

No alvorecer do novo tempo!


Quiçá preparado para o rebento, à renovação pulsa.
Quiçá é o incremento, do coletivo que encanta.

Temos a certeza de uma só proeza:


Nada se constrói só, tampouco o vento.
Mas o que fica é a firmeza de um posicionamento. 

Caio Coelho

45
REFLEXÃO DE UM MUNDO EM TRANSE
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Endemia? Epidemia? Não, pandemia!


— Que fenômeno foi esse provocando tanta turbulência?
Enquanto o mundo inteiro, de forma descompassada, corria.
Afetando a saúde, a política, as comunidades e a economia.

— Que composto molecular é esse, Einstein?


Que fez recolher a comunidade, a sociedade e a humanidade?
— É para refletir as relações humanas no campo e na cidade.
— Em um colossal esforço na busca da fraternidade.

— Que coisa foi essa, Lampião?


Que até seu bando não pôde sair.
Para evitar, pessoas, o vírus atingir.
Independente de etnia, classes ou religião.

— Que doença é essa, OMS?


Deixando a Saúde na UTI.
Também pais, mães e pessoas as quais conheci.
Decidindo pelo isolamento social, sem poder sair.

— Que crise é essa, Karl Marx?


Que fez o capitalismo entrar em recessão.
Podendo faltar água, dinheiro e pão.
Para mim, as famílias e toda a Nação.
Diante de uma absurda dependência e exploração.

— Qual a saída, Mandela?


Para conter o novo coronavírus e promover o desenvolvimento?
— Certamente, trilhar a via do movimento para o crescimento.
— No caminho seguro de um verdadeiro projeto e investimento.
— Na indústria, na ciência, na educação e na descoberta por
talento.

Em resposta, o CRDH também acrescenta!


— Promover a solidariedade na contemporaneidade.
— Educar as gerações para a igualdade.
— Utilizando inovação, tecnologia e criatividade.

Carlos Soares Sobrinho Junior

46
AMOR EM TEMPOS DE QUARENTENA
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Num mundo 
Onde as mãos frias
Não se encontram
Que arranjemos força
Para tocar as almas 
Perdidas no caminho
E dizer, mesmo longe,
Mas com muito carinho:
— Já que o amor aproxima
Você, nunca estará sozinho! 

Carolina Pinheiro Machado Teles

47
DISTÂNCIAS
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Quando somos bem pequenos descobrimos que podemos


andar e ir até à cozinha.
E de repente vamos descobrindo, que andar não é tão difícil
assim.
Então, passamos a correr não só a casa, mas a rua, o
quarteirão inteiro.
Então, vamos crescendo e descobrindo que estamos aqui para
vencer distâncias.
Agora não existe mais nada que nos impeça ir,
Pois, não queremos apenas chegar a algum lugar no fim do
quarteirão, 
Queremos ir alto, ver de cima.
Então, subimos montes e passamos a escalar montanhas, 
Cada vez maiores e mais íngremes, até que nos superamos.
Mas essa coisa de querer chegar a algum lugar, ainda está
viva.
Rompemos fronteiras, descobrimos alturas, nossas ambições
são cada vez maiores.
Então, criamos asas... Voamos e chegamos até a lua;
Da lua queremos conhecer outros planetas, a nossa galáxia,
outras estrelas, 
E quem sabe até descobrir que o infinito tem um fim, como
andar até a cozinha. 
Como chegar ao final da rua ou mesmo no fim do quarteirão? 
Impressionante é que, o que nos motiva é a mesma força, a
fé.
E tudo é dado na medida do crescimento e da descoberta de
que podemos ser, 
Fazer e até chegar onde queremos.
Então, ficamos nos estimulando a andar, a voar, a ir até à
cozinha...

Carolina Rodrigues

48
QUARENTENA – REFLEXÕES E SONHO
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O frio, a fome e incertezas habitam a madrugada. 


Nas ruas vazias o impacto da solidão.
Olhares lúgubres, perdidos em si mesmos.
Jogados nas marquises, andarilhos a ermo.

O mundo em volta se fecha em copas.


Um estranho silêncio, buzinas entupidas.
Alheios à quarentena, alijados do conhecimento.
A nova doença é mais uma forma de sofrimento.

Vivem à margem de uma sociedade evoluída.


Indiferentes à moda, a mídia, ao poder do capital. 
Com vestes de desesperança, vagueiam na cidade. 
Não têm direito: ao isolamento, respeito e dignidade.

São invisíveis aos olhos dos seus pares e da lei.


Inúmeras vezes julgados por ter vícios insólitos.
Uma legião de seres sem expectativas ou trajetória
A exclusão teima repetir o período objeto da História.

Sonho com mudanças reais em futuro breve para o povo.


Discriminação, racismo, as diferenças ficarão no passado.
Novas gerações, outros sentidos para a humanidade.
A Educação plantará novas sementes de igualdade.

Não haverá armadilhas à espreita, ou bala perdida.


Não haverá medo da morte por ser confundido (a).
Terá fartura nas mesas, sem auxílio emergencial.
Emprego para todos, acesso saúde, sem sangue no jornal.

Ceci Silva
    

49
HUMANIDADE UNIDA
_______________________________________________________

Da noite para o dia. 


Mudança em nossa vida começou.
Por causa de um vírus que da China se originou.
Fechamos, às pressas, nossas portas. 
Isolados ficamos
Confinados estamos. 
Depois que o coronavírus chegou!

Álcool em gel para começar.


Isolamento social é necessário para enfrentar.
Máscaras para não se contaminar.
E uma longa quarentena é necessária realizar.
Para que o desenvolvimento humano não precise estagnar!

Esse vírus é perigoso e todo mundo precisa se cuidar.


Da criança ao idoso
Esse inimigo invisível quer levar!

E enquanto a cura não vem. 


A humanidade unida precisa estar.
Isso é importante, mesmo depois que a pandemia acabar!

O coronavírus veio, então, nos testar.


Unir mais a família e nosso emprego valorizar.
Respeitar quem está na linha de frente.
Dando a vida para nos salvar.
Médicos e enfermeiros, jamais nós poderemos esquecer.
Pois, são verdadeiros combatentes!
E esse vírus mortal
Irão vencer.

Estes versos deixam aqui a reflexão.


Que tudo ficará bem em qualquer localização!
Se seguirmos às regras com respeito.
Mesmo nesta longa e necessária solidão!

Cláudia Gomes

50
TRIBUTO AO POETA MOR
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Às vezes, Alves!
Sinto que o querubim 
Toca minha fronte.
E me empolgo
A parecer que te conheço.
Em poesia
Para parecer preciso.
E preciso te dizer
E logo, Castro!
Porque sinto
Que fizeste a tua parte.
Porque sinto
Que inda agora
Confundo-me.
Porque me afundo
Entre erros e vocábulos
De pouco significado.
Era um para ser
Que parece ficou dormente
Mas não me dobro!
E de tempo em tempo
Surge algo novo.
E só o tempo
Para testar e
Verificar o aceite.

Cleber Couto

51
CRISÁLIDAS DO TEMPO
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Eu brotei de espécies variadas Revivi estações minuciosas


Reboliços de vidas ardilosas Estilhaços do tempo nas
calçadas.

Eu serei das espécies mais amadas? Ou serei quais lagartas


asquerosas? Hoje o vento soprou em meio às rosas E as
minhas canções foram cantadas.

De um acasalamento nasce o fruto Borboletas copulam a


saudade Ovulando nas folhas alquimia.

A vida se transforma em um minuto Em que o sol trará


fertilidade.
E os raios se inundam de magia.

E vou improvisar mais um soneto É parte do martírio que


invento Fugir da dor no próprio sofrimento Meu grito pela
praça, no coreto.

Se o amor, aqui, tornou-se obsoleto Eu traço o meu caminho


pelo vento Porque do amor nunca se está isento E vou me
declarar toda em terceto.

Expor minha poesia quase nua Acenando em asas pela


esquina Pintando o meu sol de violeta.

Se tu me vês lagarta pela rua Meu corpo de crisálida-menina.


Faz-me voar assim, sou borboleta.

Crisna Vaneska da Conceição

52
O DRAMA DE UM PRETO
_______________________________________________________

Não, eu não quero que sinta pena. 


Quero que revise esse sistema.
Se o problema não é meu, 
De quem é esse problema?
Será que eu sempre vou ser:
Pobre, preto e imundo?
Denomine como quiser: 
Afavelado, vagabundo.
Mas quero que saibas também
Faço parte desse mundo.
Não, eu não vou me calar!
Eu não posso me negar!
Sim, sou pobre, preto e afavelado! 
No dia que deixar de ser.
Ah! Deixarei o meu legado! 
Por que pode ter certeza 
Eu serei mais um anulado.
Pois, para esta sociedade,
O preto é sempre suspeito. 
Poucas são suas regalias.
Onde estão nossos direitos?
Ah! Essa nossa sociedade
Está cheia de defeitos.
Não, eu não quero falar sozinho. 
Então vamos nos unir! 
Até quando nossa cor 
Vai poder nos definir? 

Crislane Lopes

53
POSSIBILITAR-SE NO ISOLAMENTO
_______________________________________________________

E a gente se possibilitou a licença poética.


E a gente se possibilitou a alterar a contagem da hora.
E a gente se possibilitou a rever a velha lista de filmes.
Possibilitou-se a olhar o céu sem olhar o relógio.
Possibilitou-se a curtir todas as notas músicas das antigas e
novas experiências musicais.
Possibilitou-se a saborear a rotina do lar nas mesas cheirosas
e pratos limpos.
Possibilitou-se sentir a cama sem correr contra o tempo.
Possibilitou-se o prazer legítimo das letras musicais da
Música Popular Brasileira.
Possibilitou-se respirar em meditação contemplando o sol.
Possibilitou-se aquela leitura guardada.
Reinventou contato com pessoas queridas que se acostumou
no dia a dia.
Reinventou a coletividade de um lar quase inabitado.
Aproveitou o silêncio para ouvir o próprio eu.
Possibilitou o sorriso em dentes não escovados.
Retornou a observar as nuvens e enxergar novos formatos.
Respirou...
Lavou os cabelos...
Desenhou os lábios de batons vermelhos e sorriu.

Dandara Lopes Correia

54
VIVA 
_______________________________________________________

A vida é uma passagem, única.


Uma viagem cheia de alegrias, desafios e, também, tristezas. 
É para ser sentida, vivida!

É necessário permitir-se, reconstruir-se. 


Lutar e superar as pedras que surgirem no caminho.
É ter em mente que ninguém é sozinho!

Quando sentir dor, angústia!


Procure um amigo. 
Um ombro para desabafar,
Descarregar as lágrimas.

Voltar atrás às vezes é necessário. 


Apesar de ser doloroso,
Mas é preciso enfrentar a dor.
Refletir sobre: o que aconteceu? Como ocorreu?
E nessa viagem de volta
Reencontre-se, renove-se.

Nada é perfeito. As alegrias virão, mas as tristezas também. 


Mas sempre terá alguém para lhe acolher.
Superar a dor é possível!
É apenas um momento.
Passar por ela é fortalecer-se. 
Render-se?
Jamais!
A vida é bela demais para deixá-la tão cedo.

Derivânia Santos

55
BELOS DIAS?
_______________________________________________________

Festeja-se o silêncio nacional aos gritos de desespero da alma!


Presa e presa fácil, aprisionada pela segunda vez, primeiro em
corpo carnal, segundo entre paredes e máscaras-políticas.
O medo é uma questão de sobrevivência, o toque proibiu-se, o
abraço está terminalmente interditado, o beijo é uma restrição
nacional com direito a intervenção da lei. Afetividade aqui
não! 
Os noticiários intensificam a dor, cutucam as feridas até
sangrarem em retroescavadeiras de lágrimas.
A morte é festejada indiferente em estatísticas elástico-
compreensivas, em gráfico crescente, deprimente e opressor.
A vida esvai-se! Não temos respiradores para todos! “E daí?”
— Ecoou certa voz política em contexto fúnebre!
Residência-cárcere, telejornais que disseminam o vírus mais
que o ar que respiro. Nenhuma palavra de cura, nenhum
alento.  Apenas estatísticas mutilantes, restrições,
recolhimento forçado.
Lamento viver esta etapa da história nada romântica, nada
interessante, sendo uma testemunha-ocular, uma vítima em
potencial?
O horizonte enegreceu em fuligem viral, a vida perece como se
o cumprimento de apocalíptica profecia de Nostradamus. O
que fazer? Se sair de casa morre, se ficar em casa enlouquece!
Nada está bem. 
Em meio à pandemia mundial de um vírus invisível: o tédio, a
solidão e o desespero matam mais que os telejornais diários
brasileiros.
 O que fazer com o direito de ir e vir privado, vigiado? Uma
fuga poética para dentro de si? Uma dose de mal do século,
bem que viria a calhar neste momento de delirius tremend
das nações!

Ed Carlos Alves Santana

56
RESPEITAR À DIVERSIDADE
_______________________________________________________

Pensar em desenvolvimento 
Também, em humanidades.
Em tempos de barbaridades
É plausível fazer o isolamento.

Mas, não basta só esse elemento.


Pois, é necessária a humildade.
Agir com amor e com bondade
Estando nesse distanciamento. 

Deve agir com responsabilidade 


E para haver esse acontecimento
É preciso respeito à diversidade. 

Buscar também o conhecimento


Sempre voltado à fraternidade
É necessário ter esse alinhamento. 

Edisvânio Nascimento

57
SEDUÇÃO
_______________________________________________________

Os teus olhos febris de amor me seduziram.


Abraçaram-me, me inibiram, me agastaram.

Os teus olhos de águia me avistaram.


Percebendo-me sua presa, me degustaram.

Os teus olhos perfumados me impregnaram.


E adocicadamente me conquistaram.

Os teus olhos cancioneiros me enlevaram.


Em harmoniosa sinfonia me encantaram.

Os teus olhos ardorosos me envolveram.


E minh’alma, outrora fria, aqueceram.

Os teus olhos mansos e amorosos me prenderam.


E em seus braços aconchegantes me acolheram.

Os teus olhos sensuais, os meus sonhos, erotizaram.


Sem por quês o meu viver modificaram.

Os teus olhos do meu corpo se apossaram.


Descobriram os seus mistérios e a eles se apegaram.

Os teus olhos de águas mansas, cristalinas.


Inscreveu-me em sua história, minha menina!

Os teus olhos virtuais profetizaram.


Os desejos que, em mim, silenciaram.

Os teus olhos, meninos, marotos, trabalharam.


E as certezas que eu tinha dissiparam.

Os teus olhos, luz do dia, o meu ser divinizou.


E sem pudor e sem reservas a ele se entregaram.

Os teus olhos com os meus olhos se encontraram.


Suas utopias e desejos, sem medida, partilharam.

Edson Barreto Lima

58
PANELA DO GRITO
_______________________________________________________

Diz-me sobre a notícia a decifrar.


O Choro da Cidade a Cantar.
A Ópera do Século XXI 
Traz o Novo Mundo pra cá!
Guardado em Quarentena 
A Esperar.
De o Ócio o parafuso estrelar.
Tirado da confusão.
A Dança Ancestral
Da Evolução.
Evoluir em movimento circular.
Na liberdade limitada respirar.
Meu cordão produz um Carnaval com violão.
As cores devassando tudo aqui.
Nudez de amor pra poder dormir.
Vou espalhar letras
Para todos reunir
De onde estiver
Escrever um Texto.
Cada um com uma letra. 
Feliz de quem for a admiração.
Motriz quem for a interrogação.
Parar na Vírgula.
Ser reticente na vida.
E a palavra amor 
Para gritar
Gritar
Gritar

Edson Santos Costa

59
QUARTA-FEIRA
_______________________________________________________

Hoje é quarta-feira, amor! Eu tive que olhar no calendário


para saber o dia. Minhas semanas têm sido domingo-
domingo-domingo-domingo-domingo-domingo-sábado. É
estranho estar aqui, confinado numa casa com as mesmas
pessoas o tempo todo. Parece que estou vivendo o BBB, mas
sem câmeras, sem eliminação e sem prêmio.
Pensando bem, talvez o prêmio seja minha própria segurança
e a segurança dos que também estão comigo — mas só a
segurança física, porque a segurança emocional quebrou o
isolamento e foi embora há muito tempo.
Hoje é quarta-feira, amor! E parece outro domingo. Outro
domingo insano, que eu fico andando pela casa procurando o
que fazer, quando nenhum dos meus amigos está disponível
para conversar, quando os jogos parecem todos insossos, o
violão não tem mais graça e escrever é a única forma de me
comunicar com alguém. 
O vaguear dos meus domingos é simples: da cama para
cozinha, da cozinha para cama. À noite ainda rola ficar
tomando um ventinho na varanda. 
Hoje é quarta-feira, amor! E eu só queria poder ir ao
mercadinho da frente, que não é lá muito barato, mas
cumprimentar o dono que é sempre cheio de papo; queria
poder andar todo destrambelhado no parque com minha
bicicleta; e sentar em roda rindo com meus amigos.
A vida muda e muda a gente. Em pouco tempo a vida parece
outra: os carros passando na avenida parecem produzir um
som diferente, o senhor que andava de bicicleta e fazia a
segurança do bairro já não está mais lá, os momentos de
intimidade agora parecem muito distantes.
Hoje é quarta-feira, amor! Há tanta coisa acontecendo que é
difícil acompanhar. O futuro carrega uma incerteza que eu
nunca vi antes e nem os que já viram muitas coisas
conseguem dizer para os que não viram quase nada, como eu,
o que será daqui em diante. 
Eu aguardo amor! Hoje ainda é quarta-feira e eu tenho muitos
domingos pela frente.
Edvaldo Marques

60
LOCKDOWN ACIONADO!
_______________________________________________________

O modo de segurança foi ativado.


Nossa conexão presencial foi compulsoriamente
interrompida. 
Saímos do ar!
Início de 2020, e estávamos todos animados.
De repente a conexão caiu, perdemos o sinal.
Entre surtos e sustos, nos isolamos.
Lockdown acionado! 
Restrição e distanciamento acoplados.
Não, não é desprezo é esperança.
Esperança de não encaminhar o vírus.
De não socializar a doença. 
Nem enviar seus anticorpos.
De guardá-los em cache, até poder eliminá-lo.
Esperança que um dia tudo passe.
E que logo possamos compartilhar presencialmente nossas
vidas sociais.
A tristeza e a solidão são imensas.
Mas, não há formatação que delete desse coração. 
O vírus amor que absorve meu peito.
Estou processando a situação. 
Consigo até acessar as informações,
Apesar de ser muito difícil organizar as emoções.
A batalha contra o Corona Vírus é uma luta contra um mal
invisível.
Invadiu facilmente o espaço cibernético, e tem nos assustados
a todos.
Só pensamos em componentes que nos ajude a sobreviver,
não morrer, não adoecer.
Não é fácil ver a exploração dos nossos limites, frente ao
inevitável tormento.
De ter nossas defesas hackeadas por um vírus banda larga.
Estamos diante de algo que parece ficção científica, mas é
real.
Tecnologia avançada, com componentes altamente mortais,
indexados.

Eliana da Silva Neiva Brito

61
NA QUARENTENA
_______________________________________________________

Na quarentena 
Começamos a repensar a vida.
A fazer o que nunca fizemos.
Ou o que um dia pensamos em fazer.
Mas dizíamos que não tínhamos tempo.

Na quarentena
Alguns estão lendo os livros que estavam na prateleira.
Outros estão fazendo a prateleira para os livros.
Muitos estão aprendendo coisas novas.
E tem os que estão vendo a vida passar.

Na quarentena
A solidariedade e o companheirismo cresceram.
As pessoas estão se ajudando.
Algumas estão inovando para ajudar.
E tem as que pensam que nada está acontecendo.

Na quarentena
Organizamo-nos
E isso vale para a casa.
Também para a vida
Muito mais para nossa existência. 

Na quarentena
Tem os que mergulham nas redes sociais.
Também tem os que se entregam a solidão.
Todos nós estamos presos à chuva de informações.
Mas poucos estão vendo os corações.

Everton Terra Nova

62
NORMALIDADE
_______________________________________________________

A sua existência era fonte de apreensão.


A tentativa era que o novo trouxesse alegria.
Nada tinha sabor com a repetição.
Ser igual era sinônimo de melancolia. 

Hoje tudo se reverteu.


A oportunidade tão sonhada
Foi dada à humanidade que se surpreendeu.
E a vida foi ceifada sem previsão de ser retomada.

O retorno está repleto de grandes perguntas.


Não se sabem quem e o que se encontrará.
A certeza vem recheada de dúvidas.
O futuro pertence ao que ainda se criará.

O antes usual tanto desprezado.


Tratado com tanta insatisfação.
Hoje, certamente, tem que ser considerado.
Sem abraço, calor e, sim, reflexão.

Na verdade, não sabemos como acabará.


Nem onde e como todos renascerão.
A estabilidade será o ponto que se desafiará.
Que só os ventos do verão responderão!

Normal hoje é conceito de forma abstrata.


Sem definição e tempo estabelecido.
Mas uma certeza é demonstrada:
O passado que não retorna com nada parecido.

Fábio Freitas

63
A VIAJANTE DO TEMPO 
_______________________________________________________

Na minha mente
Nem presente 
Nem passado
Nem futuro.
Todas as coisas acontecem em um só tempo.
Aqui e agora
Não há linearidade.
Minha alma opera em círculos infinitos.

Minha memória vai ao passado.


Muda os eventos.
A ordem dos acontecimentos.
Os detalhes perdem a nitidez.
Como em uma imagem desfocada.
Enquanto preencho as lacunas com novas formas.

Minha imaginação vai ao futuro.


Fantasia com meus desejos mais secretos.
Desafia as leis da natureza.
Visita cenários deformados pela ansiedade.
Torna inevitáveis minhas auto profecias.

Observo o horizonte. 
O colapso de todas as possibilidades se aproxima.
E, ao mesmo, tempo já chegou.
Sou o gato de Schrödinger
Minha caixa me aprisiona enquanto me liberta.
Não posso escapar de serem todas as coisas
simultaneamente.
Viajo no tempo sem ir a lugar algum.

Fernanda Furtado Caldas

64
LIBERDADE INCONFIDENTE
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Liberdade Inconfidente!
É o que necessito para dizer o que sinto.
O grito outrora reprimido ganha força e vontade.
Amar-te-ei de verdade.
Nas escadas de um prédio
Ou em outro local inusitado.
A balada dos desesperados 
E a redenção de um fim de semana frustrado.
Liberdade Inconfidente!
Um soco no opressor hipócrita e falso moralista.
Indiferente ao caos social.
A ruptura com o convencional:
A voz dos esquecidos e coadjuvantes.
Deste mundo injusto e alucinante.
Liberdade, força motriz da humanidade.
Salve a Inconfidência Mineira!
Ou qualquer outra delinquência, ou improcedência.
Liberdade Inconfidente!
A praça é do povo, mas o capital é do burguês.
Liberdade inconfidente neste mundo de insensatez.

Filadelfo Amorim

65
COMPASSO
_______________________________________________________

Fui para o palco!


Cantei em meio a dor.
Performei na tempestade
Sem nenhum pudor.

Sentia-me sufocado.
Precisava cantar
Entrando no ritmo.
Vi o vendaval acalmar.

Sentimentos confusos.
Mente perturbada.
Coração acelerado.
Dualidade aflorada.

Entre compassos
Notas e modulações.
Curo a minha alma
Através de canções.

Cantando os impasses.
Afinando às pendências
Encontrei na harmonia
A minha sobrevivência.

Como uma partitura


É difícil de ler.
Assim é a vida
Difícil de entender.

Fredson Martins

66
GANHAR
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Viera da Itália, não o doce vinho.


E sim a notícia que causou muito aflito!
O primeiro caso, em nosso país.
E bem dessa forma aqui dou início.

Hoje são milhares, que choram em seus lares.


E nem seus cadáveres podem enterrar.
Pois, sei que é difícil, e muito sofrido.
Mas eu acredito que vamos ganhar.

Ganhar contra a dor e contra o terror.


Que do outro lado insiste em falar!
Ganhar contra a ira, com a poesia.
Ganhar entre os que tentam nos calar.

O vírus tá aí!  Não dá para negar.


Não é gripezinha, nem cura com chá.
Embora uns tentem o minimizar.
Muitos já não sabem como superar.

Entendo a ira, mas não a insira.


Em toda a esperança que tenta ficar.
Não mande embora, nem feche a porta.
Pra doce palavra que vem apoiar.

Vamos evoluir, para não ruir.


Se em outro tempo isso regressar.
Pois, sei que é certo, que o mundo inquieto.
Sempre nos assusta quando vem falar.

Mas não fique triste, e nem desanime.


Se quem mais  ama não pode abraçar.
Pois, isso, é a luta dura, mas curta.
Que todos que amam terão de enfrentar!

Gabriel Cossil

67
AIS
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No encontro dos meus Ais 


Reencontro 
No encontro, então. 
Intuo o que não há.
Quase nada.
 
Ter termos
Não estamos 
Fugindo ao inopinado 
Anacrônicos ao léu
Presos. 

No encontro EU
Vejo
Anacrústicos sons
Compasso Acéfalo
Tético.

Ao isola-me 
Shadow Me  
Solidão 
Meras 
Metediços saberes.  

O orbe é um buque. 
É preferível a alcova do isolamento.

Gabriel Oliveira
  

68
AURORA DAS MENTES
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E lá estava ela perdida, entre tantas palavras e ações.


Palavras que nem sempre traziam o reflexo da realidade. 
Apenas soltas ao vento na intencionalidade descabida de
preencher o tempo e ocupar os corpos.
Corpos às vezes sedentos! 
Ávidos pelo alimento que lhes garantisse a sobrevida até o
novo amanhecer.
Em meio a tantos caminhos, curvas, vielas, praças e vilas. 
Sem que muitos a pudessem vê-la, ainda respirava.
Agonizante pelos golpes e açoites que tantos lhe desferiram. 
Ela ainda respirava e pulsava. 
Como agonizante, mas resistente grotão rumo ao caudaloso
rio.
Seu alimento era certeza presente nas veias dos ditos corpos e
mentes que vagavam na noite escura da ignorância.
Seu nome, assim como o infinito, se fizera representar de
maneira simbólica, também por oito letras, tracejando e
remetendo ao movimento da simbologia infinita.
Educação. 
Afetuosa e sábia manifestação do dom.
Tão logo se apresentara, e ousara transformar o aroma do
mundo e o brilho do sol.
Redesenhando rios e estradas, nunca exploradas pelo neófito
espírito em meio às trevas.
Que a senhora ocupe o mundo e transforme vidas!
Senhora Educação.

Gabriel Teixeira

69
AO TEMPO DO ISOLAMENTO
_______________________________________________________

Ó tempo
Espontaneamente me isolei há um tempo
De entes queridos e amores vividos
Escondi-me de tal forma
Que até minha alma envergonhou-se de mim.

Agora com o isolamento obrigatório


Pude encontrar-me
Vi minha própria alma e avistei a terra dos meus
pensamentos
Reconstruí o que estava partido e o que havia perdido eu
reencontrei.

Saboreei esse momento a sós comigo


Reunindo os meus pensamentos
E vejo como o tempo foi preciso
Desse isolamento comigo.

Perdoei-me da alma aflita


Perdoei-me de maus pensamentos
Perdoei-me dos choros soluçados
Finalmente, encontrei-me.
Agora minha alma não está mais perdida,
Encontrei-a no tempo do isolamento.

Agora oh tempo, ache a cura dos maus tempos


Permita-me sair do isolamento
Pois não há coração que aguente tanto tempo
A falta do abraço de quem amamos e protegemos.
Vai embora oh tempo do isolamento
Achai a cura desse mau tempo!
Pois já é tempo de sorrir e de sair da solidão.

Geisa Félix

70
TÍTULO: IR E VIR
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A epidemia arrepia e vira pandemia.


O COVID-19 virou mau convite em 2020.
Fique em casa...
O povo treme de medo, a guerra está declarada.

Onde está o inimigo? Quem é este invasor? Quais são as suas


armas?
Não o vejo e não o vemos, mas somos seus hospedeiros.
O mundo inteiro em apuros, por trás dos muros.

O bom combate se faz sem armas? E sem armadilhas?


Estamos isolados em pequenas ilhas de pavor. Quanta dor!
Quanta fome!

O toque agora é só de recolher e inventar o que não fazer.


A gente espia a pandemia isolar a Terra do seu povo.
O Sol escureceu, apesar do brilhode novo.

Liberdades ameaçadas e confusão das leis.


Afinal, quem manda? O chefe ou os subordinados?
E a cada dia eu estou mais ilhadoem mim, distante do que me
fez social.

Impuseram-me isso.
O terror impera com prudência e sofisticação
Com hipocrisias e tiranias dos eleitos, as quais ressecam a
flor em meu peito.
O jardim ameaça não mais florir. Quero de volta o meu direito
de ir e vir. 

Geisiel de Albuquerque Silva

71
O HOMEM PRIMITIVO
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Que idade eu tenho? Não importa


Sou um homem primitivo
Vivo de atitudes erradas, em desequilíbrio.
Meu corpo e minha alma, um desafio.
Andar sobre trilhos, atingir objetivos.
E lucrar a todo custo.
Mas a que preço eu vivo? Vivo com fome. 
Vivo nas ruas, vivo em perigo.
Vivo sob um processo e dentro da ignorância. 
Vou seguindo
Atravesso séculos e séculos e vou resistindo.
Mas no intuito de um equilíbrio
Eu confesso, estou cansado.
Eis que me deparo com um vírus.
Então eu paro e reflito: evoluir, desenvolver.
Qual o lucro disso?
Sou humano, preciso ser sensível.
Despertarei então minh´alma e 
Sairei da ignorância
Farei todo sacrifício.
Pois, este confinamento me deixa aflito.
Eu que nunca imaginei isto.
Vejo-me aqui refletindo.
Acho melhor parar e rever.
Meus princípios e acordar.
Será que ainda há tempo?
Penso que com fé eu consigo.

Genice Nogueira

72
ABALO
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Em um dia estamos a passadas largas.


Em congestionamentos e dívidas a serem pagas. 
De repente algo chegou e nos tomou.
Nos fez cárceres e corpos intocáveis. 

Tudo foi ficando quieto e vazio.


Reféns em casa, cercados pelo invisível.
Tendo fome e medo, tristeza e incerteza.
Obrigados a tudo isso e mais uma vez o noticiário acaba.

A falta de contato enche de desespero.


Apenas os olhares descrevem o momento.
Diz sobre abraços e saudade lacrada.

A voz abafada relata mais uma morte abraçada.


De novo em casa espero um milagre.
Porque não há ninguém, não há nada.

Genildo Santos

73
O MEDO DE SONHAR
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O medo de sonhar leva os humanos ao desespero.


Leva as pessoas a pensarem que estão sozinhas num mundo
cruel.
Conto-lhe agora com bastante maestria, porém, um pouco
preocupado, a história de uma pessoa aparentemente normal.
Seu nome era senhor X, tinha Y anos de idade e morava na
cidade Z.
Anoiteceu mais um dia e começa o desespero do senhor X, o
inusitado acontecerá.
Ele sonhará novamente, e antes de ir para a cama, o Sr.º X
liga para seu melhor amigo, doutor S.
E eles começam a conversar:
— Não aguento mais viver assim meu amigo, eu não sei se é
sonho ou pesadelo? Mas é muito ruim, diz senhor X.
— Você tem que passar esse trauma, pois é como um irmão
para mim. Não pode viver assim, diz o senhor S.
Após passar mais de uma hora conversando se despendem.
— Obrigado, amigo! Boa noite! Diz o senhor X.
— Boa noite! Tenha bons sonhos! Diz o senhor S.
O senhor X pega um livro para ler, antes de completar metade
do livro, pega no sono.
Mais uma vez ele olha para os lados e vê tudo estranho, tudo
sem lógica.
E fica imaginando como sair daquele sonho.
E de repente ele vê um labirinto redondo, quadrado de forma
triangular, com a beleza que não se põe mesa.
Senhor X curioso, entrou naquele labirinto quando ouviu
uma voz:
— Entrou, não tem mais volta! Disse a voz.
Pensando ser brincadeira, ele tenta sair, mas não consegue.
Então, senhor X se desespera e grita pedindo ajuda.
Porém, a única coisa que ouve é seu próprio eco.
Ele começou a andar, anda tanto, porém não chega a lugar
algum.
Passando três horas, senhor X está fortemente abatido.
Estar cansado e tenta acordar.
Quando já está conseguindo, ele reflete:

74
Se eu acordo, fujo da batalha e não consigo acabar com o
trauma, mas se eu ficar poderei não encontrar a saída e ficar
pior do que estou.
E o senhor X tomou uma posição, ele acordou.
E até hoje não conseguiu curar esse trauma.
E você caro leitor com traumas, sonhos, pesadelos, não tome
a mesma posição do senhor X, não desista.
Vá até o final, mesmo com sofrimento, luta e garra, porque a
esperança é a última que morre.
Não tenha medo de sonhar!

Geo Noronha

75
ESQUERDA OU DIREITA?
_______________________________________________________

Vivi para ver um presidente sendo escolhido pelo povo, porque


prometeu liberar porte de arma.
Vivi para ver um ex-presidente sendo preso injustamente, só
que não, e o povo dizendo: — Roubou, mais fez!
Pessoas a todo o momento, mudando de ideia e de lado.
Direita e esquerda, um caldeirão inflamado.
Se não escolhe nem um, nem outro, então é conivente.
Conivente com o quê? Com o que  um cara cheio da grana
faz?
Sou a favor, do certo pelo certo!
Dos direitos trabalhistas.
De uma melhor educação.
Saúde bem amparada.
De um governo que olha pelo preto pobre das favelas
marginalizadas.
Não sou contra escolher um lado, como também não sou
contra se não escolher nenhum.
Viva a democracia!
Graças às muitas lutas, esse direito foi dado, não joguemos
fora por negócio de lado A ou B.
Tomar partido, ligeiramente nos cega e faz com que nos
esqueçamos de todas aquelas pessoas que morreram para
nossa voz ter vez!
Que não seja em vão!
Que nossa participação esteja presente!
De modo, a caracterizar nossa empatia por meio da dor
alheia.
Que toda ação seja consagrada por presença de fé e não falta
da mesma!
Direita ou esquerda, não é a questão!
Lutamos por igualdade e liberdade!
União é o que precisamos, vamos defender interesses comuns,
nossa nação sangra e anseia por uma sociedade justa, com
leis que abrangem a todos e não apenas um!

Gerisvânia Teles

76
DESABAFO: ESCOLA SEM ESCOLA
_______________________________________________________

Um dia você acorda e tudo mudou.


Não vê mais os sorrisos.
Nem é recebido com abraços.
Nem tão pouco tem de resolver brigas.

Um dia você acorda e sente falta de tudo:


Da loucura das salas lotadas.
Dos gritos.
E ter de falar mais alto.
De ser pai, ser mãe, ser amigo e, por vezes, psicólogo.

Um dia você acorda e enxerga um vazio.


Um mundo de incertezas.
Onde as pessoas te olham de cara feia.

Um dia você acorda e o mundo mudou.


O que ficou?
Sensação de impotência, de medo.
Um peito abafado de sentimentos.
Uma mente atormentada pelos fantasmas de um futuro não
tão distante.

Viver de esperanças? É necessário e nocivo.


Sinto falta da sala de aula, de quem eu fui.
E de quem eles são...
Sinto falta de toda aquela bagunça,
Dos corredores lotados.
Dos esbarrões.
Dos olhares que nunca nos perdem de vista.
De respirar a vida.
E o toque virou proibido.

Géssica Muricy Santana

77
ESPERANÇA
_______________________________________________________

Sempre flertei com Élpis.


Sentia uma grande atração pela esperança.
Pelo desejo de até o último minuto acreditar que tudo
mudaria.
Acreditava que ela era o alimento da minha alma.
Que ela era a poesia da eterna promessa de um coração sem
dor!
Mal sabia que esse alimento sempre esteve envenenado pelo
medo da distopia, que dessa vez as cortinas caíram,
mostrando ao mundo que a esperança também murcha,
cansa que sua crença sucumbe.
Hoje, vejo que todas as esperanças de um mundo melhor são
seguidas de tristezas.
Élpis foi a mais sórdida das amantes.
Hoje, vejo que os desejos de uma vida mais justa formam
corrente, cujo elo é a esperança.
Esperança essa que vive sozinha na caixa de Pandora, morta
pela solidão.

Gilberto Batista

78
PARA ALÉM DO ISOLAMENTO NOSSOS CORPOS
ENTRELAÇAM-SE
_______________________________________________________

Quando você se aproximou quase sem querer,


Logo teus olhos cruzaram com os meus.
Vasculhando os mais íntimos dos meus pensamentos.
Sem resistência e para além do isolamento, o toque de tuas
mãos entrelaçou todo meu corpo, dominando-o.
Teus dedos escorregadios passeiam pelo meu rosto em
ebulição, deixando o teu perfume embriagar os dois últimos
sentidos.
Já não sinto as pernas.
Já não sinto o ar.
Tua voz trêmula tenta me despertar traduzindo a mais doce
verdade.
Quase que inesperadamente, os meus lábios se aproxima dos
teus.
É neste momento que, o meu consciente deixa de existir, sou
uma overdose de prazer.

Gilde Luana de Lima Silva


“G”

79
ISOLAMENTO
_______________________________________________________

É, tem SOL

AMENO

Assim mesmo, sem o "t”

Para mostrar que:

Mesmo só,

Haverá sol.

E no calor que aquece

Nossa esperança,

Distância.

Nunca faltará

Ameno.

Gilmar Figueiredo

80
HUMILDEMENTE PEDINDO: SE PUDER, FIQUE EM CASA!
_______________________________________________________

Se puder, fique em casa!


E evite aglomeração.
O melhor é não se expor
Esta é minha opinião.

O novo coronavírus
Afetou a humanidade.
Mas vamos ficar unidos
Mostrando capacidade.

Vamos nos esquivar dele


Usando criatividade.
Pois, ele se prolifera,
Com muita velocidade.

Mesmo com profissionais


Fazendo o atendimento.
É melhor não precisar
Mantenha o recolhimento.

Fique atento ao vírus


E preste muita atenção!
Se você fizer o certo
Ele não te pega não.

Use máscara e álcool gel


Que esse hábito não mude!
Mas, se aparecerem sintomas,
Vá ao posto de saúde.

Caso fique resfriado


É melhor se prevenir.
Proteja a boca e nariz
Na hora em que for tossir.

81
Limpar bem o ambiente
E lavar sempre as mãos.
Esfregar bem direitinho
Usando água e sabão.

Pois, o tal coronavírus


Fez reboliço geral.
Veio das bandas da China
Essa infecção viral.

Gilmara Silva

82
VOZES DE MULHERES QUE SOMAM
_______________________________________________________

Agora que já te escutei, posso te sentir!


Vou poder retribuir em versos
As estrofes que vão compor essa delicada poesia.
Mas com um rico detalhe, será feita através de suas palavras
Daquilo que sua alma está cheia.
E precisa transbordar, nas emoções que se misturaram, e
emaranhou no pensamento.
Desaguando sobre um rio de sentimentos
Olhei da janela, vi um lindo pássaro a voar!
Fui seguindo com os olhos fixos
E na sede de liberdade, voei com ele para bem longe deste
lugar.
Mas tive que retornar e pousei no aconchego do meu lar.
Pois, não tinha um ninho como os dos passarinhos.
No entanto, pude experimentar o amor de minha família.
E eu que estou sozinha, acordei e vi o sol brilhar.
Logo, meu coração palpitou de alegria.
O tempo passará a ser meu melhor companheiro,
Como aqueles amigos de infância!
Aproveito cada instante, faço tudo que gosto, e sinto vontade.
Transporto-me para a magia do ser criança,
Mas tenho que voltar a trabalhar.
Não posso viver em um conto de fadas!
Dinheiro não nasce dos galhos, das árvores.
Saio por necessidade, mas estou com medo de respirar.
Tento me proteger mantendo a distância, usando máscaras,
cumprindo as orientações de higiene e segurança...
E mesmo assim todos estão vulneráveis.
Sigo resiliente pedindo a Deus, clemência pela humanidade.
Confiante que o mundo voltará a ter paz.
O mais importante é poder perceber, as várias lições que a
vida ensina.
E uma delas é a tomada de consciência para o ser humano
valorizar mais a família.

Gisele Cunha

83
MEU EU CONFINADO
_______________________________________________________

Eu vejo o mundo “enquadrado”


Pela tela, pela janela, sou ilha.
Mergulho na essência de mim mesmo.
E quão difícil se torna a viagem,
Mas o verbo se fez medo.
O pensamento se veste em formas.
O silêncio ecoa de lutos em massa.
O pranto se deleita ao riso,
Não há contentamento.
As sentimentalidades ocultas em potencial
Evidenciam as entrelinhas do “ser”,
O encanto do abraço e do “toque”,
A saudade em confinamento.
A força das “redes” em prol do louvor e do canto,
Do zelo, da palavra e do comando.
Da vã filosofia e do saber:
Solitude ou solidão.
Os simples mortais,
De sensibilidades mórbidas,
Urgem contar os dias
E entender que somos pó,
Pois, a cura será em forma de canção e poesia.
E as fronteiras serão só contramão
Quando tudo isso passar, ou não.
Vislumbrar a beleza do eu, do nós
Numa existência superiormente plena,
De afagos e almas afins, afins de amor, de amar!

Gal Gabhê

84
ELA
_______________________________________________________

Em espiral
Amacia a pele
Espírito livre, lua, luz.
Brisa, dorso, mar, amar.
Força e dor do ventre ao seio.
Encantadora na sua alegria de ser
Mulher como e com outras mulheres,
Refaz caminhada, num círculo, seu ciclo,
A gira da vida, a guia, a gaia, a base da sua,
Cujo sentido, símbolo, poema algum triangulará.

Gredson dos Santos

85
EU, PÁSSARO-NUVEM
_______________________________________________________

Deitada no chão do meu quintal


Contemplo o céu azul de esperança.
As nuvens de algodão ganham formas
Fazem-me voltar a ser criança.

Dragões, elefantes, dinossauros


Brincam de se esconder.
Pula amarelinha uma fadinha
Serelepe a me entreter.

Dias, confinada em casa.


Já não me importa que horas são,
Mas pareço um pássaro sem asa!

Me recomponho, me desfaço.
Sou pássaro-nuvem
Cantarolando e bailando no espaço.

Ionã Scarante

86
VIDA DE BOLHA
_______________________________________________________

A chuva cai.
Impõe seu silêncio de vida e morte.
Da janela vejo o rio descer correnteza abaixo.
Um barulho estrondoso como nunca ouvido.
Carregando tudo que da cidade se vivia.
Os festerês, os arerês, os beberes,
Os bordados e os babados.
Tudo rolando rio abaixo.
Os arteiros, os artistas,
Os amantes, os amados e os mal-amados.
Recolheram-se em suas bolhas salva-vidas.
Tentando segurar-se nas raízes da Terra-mãe.
O silêncio do tempo
Impera nas ruas vazias.
As pedras desenhadas no chão.
Mostram seus arranjos florais
Dos tempos idos.
As casas, os casarões todos fechados.
Dão notícias dos que foram e não voltaram.
Dos pesadelos e dos sonhos abandonados.
Dentro das bolhas
A vida estreita ameaça o respiro.
Notícias assassinas chegam via satélite.
Estradas abertas só para dentro de si.
A cada um inventa sua viagem.
Com ou sem bússola.

Iranice Carvalho

87
DESAPRENDI
_______________________________________________________

Desaprendi caminhar despreocupada...


Desaprendi cumprimentar a garotada...
Desaprendi como se faz para entender,
O que um abraço apertado,
Ou um aperto de mão é capaz de dizer.
Está tudo diferente...
Prefiro estar em casa,
É mais seguro,
Me sinto preservada.
Quando sair é preciso,
A ansiedade toma conta,
Cabeça baixa, apressada...
Caminhando, desejando...
Voltar logo para casa!
Preocupada com o invisível,
Parece sonho, pesadelo...
Parece até brincadeira...
O que vive o mundo inteiro!
No desaprender, aprendi...
Queria mesmo era esquecer,
Tudo isso que senti...
Gostaria de esquecer,
Grande parte do que vi!
Esquecer do sofrimento,
Das angústias, e lamentos
Desse tempo de tormento,
E de tanto sofrimento,
Que a Covid-19 fez sentir!

Irene da Encarnação Andrade

88
RE OFERTA
_______________________________________________________
Galos cantam anunciando a madrugada
A rua é movimentada pelo trabalho dos seus cantos
circulando por entre as esquinas A aranha se aproxima, traça
um plano de ataque
Num bote, abraçar para sempre o inseto da minha infância
Aquele, ressurgido da natureza que descansa com a nossa
ausência O sono se perde em um tal novo sentido
Ele, agora, não mais estrutura o dia
Parece não haver divisões precisas entre os turnos
Entre o sol e a lua
Insônias impõem-se sem respeitar despertadores
Acesa, eu ouço gritos
Estar em casa nem sempre é estar num território seguro de
tudo
Ficar em casa para as mulheres e crianças, por vezes, é
perigoso! Sabia? Nas casas, refugiadas pessoas, choram
Precisam fugir
O que da Penha falou sobre tipos de violências, muitas Marias
vivenciam numa só cena Depois de tudo, o dia amanhece
cansado
Logo cedo, bem cedinho, o doméstico remonta escravidões
femininas O trabalho é doméstico
A violência é doméstica
O cansaço, as dores são das meninas
São tantas sujeiras entre as frestas
Meu amigo me lembrou de como agora podemos repará-las
Quem sabe dentro, de mim, de ti
Nestas noites em claro, defronte desta outra vida
Em amanheceres, onde cintilam azuis dourados
Depois de artes e seus artistas salvarem a madrugada e a
mim
Lá, quando vi o amor pedindo para entrar, ficar
Onde, a vida, novamente ofertada, faz do presente oferenda!

Isabelle Sanches

89
GOTAS
_______________________________________________________

Quando as gotas de chuva


Deixarem de se misturar com lágrimas tristes,
Voltaremos aos abraços,
Com braços de luz e mãos aderentes,
Com afagos densos e perenes,
E desejos manifestados.

Quando as gotas de chuva lavar todo mal,


E o sol derreter a partícula maldita,
Lavarei meus pés nas ondas quebrantadas,
E em um soluço do mar sentirei o sal d’água.
Bailarei nos campos como insetos e tangarás,
E saborearei o mel sem o fim de remediar.

Quando as gotas forem de amor incondicional,


E a pele verter suor sem ser de febre doentia,
Seremos um, seremos nós, corpos vívidos.
No contínuo estirão da lida,
Na dança enlevada da vida.

Ivan dos Reis Cardoso

90
SE CUIDE
_______________________________________________________

Com a chegada da Covid-19


Ficar em casa é uma ordem!
Pois, o vírus é contagioso
Causa óbitos, é perigoso!

Essa ordem “Fique em casa!”


Trouxe angústia a muita gente.
Pois, para muitos é difícil.
Conviver com seus parentes.

Mas, será que não é tempo


De mudar essa concepção?
E buscar alternativas
Para viver em comunhão?

Não se sabe até quando


A pandemia vai durar.
Por isso, fica a dica!
Cultive a harmonia em seu lar.

Nesse momento o que não precisamos


É guerrear entre nós.
Pois, estamos em batalha
Contra um inimigo algoz.

Nesse tempo de isolamento social


É preciso se cuidar.
Pois, o nosso inimigo,
Não se consegue enxergar.

Essa ordem “Fique em casa!”


Poderá nos proteger.
Do contato com o vírus
Para não adoecer.

91
Se sair, use máscara!
Leve o álcool em gel também.
Pois, são estas as armas
Que no momento se têm!

Jailda Souza do Nascimento

92
SOLIDÃO CITADINA
_______________________________________________________

Os dias são monótonos e interrogativos!


Um inverno taciturno paira no ar.
Mas, não é inverno!
Um profundo silêncio soturno divaga,
Pincelando tardes frias e pálidas.

As noites não são mais enamoradas.


As águas do chafariz não bailam serenatas,
Das batidas prematuras dos romances,
Como no primeiro encontro de amantes.

Assim, acorda silenciosa, silente, vaga.


Quase não é contemplada.
Pássaros compõem sua breve chegada
E logo uma manhã se deságua.

Os religiosos domingos matinais


Jejuam sem as cerimoniosas missas madrigais.
O tilintar dos sinos soam a procurar
Num compasso finito e agudo, sem melodia.

E tornam-se filhos de um amanhã órfão.


Saudades da aurora perdida,
Do tempo marcado não deglutido.
Jamais aspiramos um futuro vivido!

Jacqueline Santos Magalhães

93
NOSSA HUMANIDADE – NOSSA SOBREVIVÊNCIA!
_______________________________________________________

A informação chegou! Parecia tão longe! Boatos?


É costume nosso. O que é do outro não nos atinge!
Ficamos compadecidos, entristecidos. Mas sabe como é?
Não é comigo, está tudo bem! Mas aí tudo mudou! Um caso
mais perto e mais perto.
E “tudo que parecia sólido se desmanchou no ar”!
A humanidade ruiu?! A humanidade sumiu?! A humanidade
surgiu!
Ligo a televisão. Ouço o rádio. Há tantas informações!
Uns dizem para não se preocupar! Outros nos preocupam e
nos amedrontam.
O que fazemos em meio a todos esses jogos escusos?
Dados forjados? A economia parou?! A saúde entrou em
colapso?
Mas, ela já não estava assim?! E a humanidade, o que
aconteceu?
Vejo notícias. Ouço histórias, muitas histórias!
Uns se trancam em casas e aguardam o desfecho.
Outros saem em busca da sua humanidade. Nossa
Humanidade! Insanidade?
E as notícias? Essas circulam. 10.000 mortes! 100 mil! 200
mil!
Onde isso vai parar? E isso vai parar?! Quando parar? Como
parar?
A humanidade se reúne para pensar. A ciência procura a
cura, formas de conter! Deter!
A política de explorar! A economia entra em colapso. E
quando foi diferente?
As desigualdades ainda mais presentes. Porém, não nas ruas,
não na gente comum!
O vírus se espalha nos corpos, nas mentes, nas ideias e
ideais.
Enquanto isso, observamos estarrecidos, a letalidade do que
vemos e vivemos.
Egoísmo? Indiferença? Penso que não! Claro que não! Não da
gente comum!
Mortandades sim! Infelizmente! Mas, sejamos otimistas!

94
Transcendamos este ciclo com esperança! Na humanidade? E
em quem mais?
Em quem insiste, persiste e não hesite nem duvide!
Somos guerreiros, somos de fé e ação! Somos da revolução!
Isso nos identifica!
Resistência. Insistência. Persistência. Comunalidade.
Alteridade. Irmandade!
Essa é a nossa Identidade! Nossa Humanidade! Nossa
Sobrevivência!

Jackeline Ìyádun e Magnos Santos

95
MEU EU ESCREVENTE
_______________________________________________________

Da ponta do lápis juntando contornos e traçados,


Letras, rapidamente, formam palavras, frases e contextos.
Do deslizar da caneta, desenrolam-se ideias soltas, bobas,
dignas ou pungentes.
Traçados, entrelaçados, insistentes imperativos: escreva!
Da ponta dos dedos por sobre o teclado, aspirações,
desilusões e vontades são externadas.
Formam tramas, dramas, rimas, um tudo,
contraditoriamente, nada.
O oculto e o desvelado, o grotesco e o sublime.
Palavras que expressam,
Palavras que exprimem.
E eu, que não era nada, me reinvento em vocábulos, fábulas,
descrições e crônicas.
Não há distanciamento que as contenha.
Epidemia de expressividade que ascende a pandemia.
Somos muitos, somos tantos e tantas a comunicar a
esperança.
Sem receitas, sem receios, me desmancho e me refaço aos
risos,
No gozo íntimo de saber que tudo isso é escrever.
Dizer, seduzir, transcender para ser mais que tínhamos sido.
Muito mais do que podemos ser.

Jaqueline Meire Santos

96
PAREDES POR TODO LADO
_______________________________________________________

Dias atrás, a humanidade vivia livre.


Corria, andava, sorria sem precisar se preocupar.
Não tinha isolamento era pouco o sofrimento.
Fazia tudo o que era preciso para o desentendimento
E o sofrimento na sociedade não existir.

Hoje as pessoas vivem isoladas, trancadas em suas casas com


medo do mundo lá fora.
Passa dias e horas criando atividades para o estresse
diminuir.
Não é fácil viver isolado com parede por todo lado.
Mas o isolamento foi necessário para a saúde prevenir.

É uma forma de mostrar coisas que estavam esquecidas,


Uma delas é a convivência em família que a sociedade insistia
em deixar.
Crianças estão sendo lembradas que antes eram trocadas pelo
famoso celular.
Brincadeiras estão sendo inventadas e algumas ressuscitadas
no seio do lar.
Tudo isso por um vírus silencioso e muito perigoso, que o
mundo veio visitar.
Estabelecendo distanciamento, tirando o aperto de mão.
O abraço já não é mais possível entre todos os irmãos.

Foi preciso desenvolver regras para a doença não se alastrar.


Estabelecendo normas e leis para o povo nas suas casas
ficarem.
Mas, não fique preocupado, isso é tudo passageiro. Viva!
Sorria! Inspire-se!
Faça tudo isso com amor e sem medo.
Viva amor! Viva liberdade! Viva intensamente!
Viva de verdade!

Jean Gonçalves

97
QUARENTENA
_______________________________________________________

O corpo preso nas paredes.


O convívio preso no corpo e no olhar.
O corpo é livre.
A liberdade é corpo.
A prisão não existe.
As paredes são metáforas.
A liberdade está dentro do corpo
E no olhar...

Jean da Silva Santos

98
SEMPRE TERÁ A MELHOR VERSÃO DE MIM
_______________________________________________________

A criatividade que parece tanta.


O jeito afagado e alegria branda.
Iludiram-me com sorriso alastrado
Digo-te meu menino!
Sempre terá a melhor versão de mim, amostrado!
Tento buscar força solene.
Mas que ilusão!
Tenho vocÊ.
Que me compreende!
Amar-te é a melhor formar de viver. Expresso
“Ah! Que saudade de VOCÊ!”
Vou pegar o melhor embrulho colocar-te dentro, endereçar e
dizer: — Essa caixinha de sorriso e jeito estridente é meu
presente!
Ufa! Sou truculento (escrevente), mas sempre, sempre...
Terá a melhor versão de mim, toco de gente.

Jefferson Manoel da Silva

99
NORDESTINA MULHER
_______________________________________________________

Nordestina mulher. Mulher que sente e se sente. Mulher mãe


que apenas sente. Que calor é esse que queima pele da gente?
Calor de quem ama sem pedir nada em troca, mulher que
mesmo após ter trabalhado com a inchada, o dia todo espera
o filho na porta.

Mulher é riqueza, nordestina e a mais pura beleza. Beleza


espelhada na praia da Barra e no Farol de Itapuã, na cozinha
de lá de casa ela aparece também fazendo café toda manhã,
às vezes ela faz faxina na casa de dona Maria, eita mulher
rendera.

Ela costura, ela passa, ela é atriz, ela é de lá do Piauí, mulher


que corre, corre foi parar em Maceió, o que cidade linda só
não sei se é mais linda que ela, Gabriela é ela cinderela,
cinderela do sertão, não importa tem cinderela na cidade
também.

Mulher é algo tão extraordinário que deveria nascer em


jardim, nordestina nem se fala ela nasce mesmo igual a
mandacaru na terra seca, chão rachado sem muita beleza
ainda sim ela tem esperança de chuva, esperança de plantar e
de colher.

Vou finalizando cada verso, cada contexto, com lágrimas vou


me despedindo. Com lágrimas vou me recompondo, tenho
orgulho dessa terra, terra mãe que deu luz ao Brasil, mãe que
fez gente digna de ser chamada nordestina.

Joana Carolina Rocha Barreto

100
ISSO MESMO, VOCÊ
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O homem que primeiro comeu o lixo


Não o conhecia assim,
Não o sentia como tal,
Não via o objeto como dejeto.
O primeiro homem que se alimentou de restos
Tinha sede,
Tinha fome,
Tinha rosto, mas não tinha nome.
Para que o vissem, gritava aos pedestres,
Àqueles que, incrédulos,
Fingiam não ver o que sucintamente viam:
A máscara que lhes cobre o rosto,
Deixa que os olhos sintam o gosto
Da dor daquele que, de fome,
Alimenta-se do outro.
Enquanto eu bebo da fonte,
O tempo se esvai
E eu sou apenas mais um homem.

João Pablo Trabuco

101
QUEM AMA TROCO ESPERANÇA
_______________________________________________________

Além dessa cadeia que nos cerca:


Existe um lugar!
Existem pessoas!
Existe uma vida!
Um lugar esperando para ser explorado.
Pessoas esperando para serem libertas.
Uma vida resistindo para que seja vivida.
Paramos no tempo!
Mas, o tempo não parou para nós.
Todos os planos, sonhos e projetos agora se encontram a
vagar dentro do nosso Inconsciente.
Esperando que um dia possamos realizá-los, a utopia de
recuperar o que já
Escorreu como água por nossas mãos.
O que fazer?
Só nos resta continuar sonhando.
Sonhar com um pós-guerra.
Sonhar com uma vida bem vivida.
E de fato vivê-la com mais intensidade.
Que os mínimos detalhes possam ser mais valorizados!
Que o imperceptível possa agora ser enxergado!
E que o tempo seja mais aproveitado!

Jonatas Reis

102
UM DIA QUEM SABE
_______________________________________________________

Um dia, quem sabe.


Tudo isso se acabe?
Um dia, quem sabe.
Voltarei a passear na cidade?
Logo eu, justamente eu,
Que tenho alma livre?
Coração alegre.
Desejo de liberdade pulsante.
Me encontro perdido dentro de mim mesmo.
Tudo por causa de um vírus.
Vírus esse que nos mostra todas as nossas fraquezas,
egoísmos, mazelas sociais etc...
Tiraram-me o mundo!
Lembrei-me do pássaro.
Resolvi soltá-lo.
Soltá-lo para um mundo que renasce em contraste com a
humanidade que padece.
Padece de amor, carinho & liberdade.
Um dia quem sabe
Ele volte a me visitar?
Um dia, quem sabe.
Escutarei seu cantar?
Um dia... um dia ... um dia ...

Jorge Henrique Mister

103
TRANSUMANIDADE
_______________________________________________________

A pandemia,
Atinge a maioria,
Maioria da população,
Que vive na “uberização” e precarização,
Do seu trabalho,
Que sustenta essa nação,
Nos campos, nas fábricas, na construção,
Mas que vive - mesmo assim - a exclusão,
Dos fluxos e refluxos,
De poder, riqueza, renda e comunicação,
Alimentados pelo vírus do ódio e da corrupção,
Alienados dos meios de produção,
Alijados da qualidade na educação,
Enganados pelos meios de comunicação,
Contaminados com o vírus da ocasião,
Gripe, hepatite, COVID-19, sempre uma nova situação.
O caminho para a superação,
Do preconceito, da fome, da opressão,
É provocar em todo o mundo uma revolução,
Na microfísica do poder da dominação,
A partir do conhecimento, sentimento e emoção,
Sem mitos, sem mentiras, sem armas, sem inquisição,
Que nos dê o direito a memória, a história e a verdade,
Que promova um desenvolvimento com solidariedade,
Que reconheça os direitos de toda humanidade,
Explícitos, implícitos em nossa condição humana,
Diversidade que da natureza emana
Descritos por nossa sociologia mundana,
Presente em nossa realidade pós-humana,
Desenvolvimento de uma civilização transumana.

José Cláudio Rocha

104
POPRUA, OUTRAS POPULAÇÕES E A COVID-19
___________________________________________________

A Covid-19 chegou ao mundo.


Para trazer muitas reflexões
Como também, para mudar:
Pensamentos, conceitos.
Atitudes, mudar gerações!

Para quem está em situação


De Rua no Brasil, como faz
Para não sair, ficar em casa?
Nossa realidade é cruel!
Para nós, essa ordem
Não adianta, só atrasa!

Estar nas ruas é difícil!


E agora com a pandemia ficou
Muito mais complicado!
Pois, habitação, saúde, educação, dentre outras!
É direito do povo brasileiro.
E dever do estado!

Oferecem-nos abrigos
Na modalidade de isolamento social.
Mas, quando essa pandemia passar?
Teremos que voltar
Para ruas?
Para o tormento?

Fico aqui pensando que


Durante e após o
Coronavírus, Covid-19

Quem mais padecerá


É a Poprua, a periferia, a
Preta, a LGBTQIAP + povos indígenas
E de terreiros.
A população pobre!

Acorda povo brasileiro!

105
Pois, a luta por direitos
Persiste e continua.
Vamos juntos e juntas
Mudar essa realidade?
Pois, ela também é minha!
É nossa! E é sua!

Quando esse pesadelo passar


E tudo parecer que voltou ao normal.
Teremos muitos de nós
Sem emprego informal e formal.

Só ai nos daremos conta


Que teremos um exército de
Pessoas desempregadas.
Vivendo uma realidade:
Triste, nua e crua!
E com certeza aumentará
O batalhão de pessoas
Vivendo em situação de rua.

José Vanilson Torres da Silva

106
O PESO DO MUNDO
_______________________________________________________

A unção vem de cima.


A desunião vem de baixo
Ou a humanidade se une,
Ou será mais uma catástrofe?

Não sei mais o que fazer!


Não sei mais o que pensar!
Oro a Deus todos os dias...
Para me equilibrar!

Senhor dê paz ao povo...


Que não para de lutar!
O mundo está pesado!
Eu não quero desabar!

Oh Meu Deus Que tristeza...


Está o lado de cá!
Mas, estou certa...
Que um dia...
Tudo isso...
Vai passar!

Juliana Arize

107
DIÁRIO DE QUARENTENA
_______________________________________________________

A cada dia uma nova pergunta, uma nova incerteza, mas a


minha fé em dias melhores continua inabalável. Mas choro.
Já nem me lembrava do quanto fazia bem chorar. Esvazia o
peito. Não tinha tempo para choro. Trabalho, casa, estudos,
família e o tempo passava.
Os afazeres continuam. Casa e trabalho. O “home office” não
me deixa esquecer a Universidade, que me causa angústias
com suas mazelas e, ao mesmo tempo, da importância do
papel social que desempenha na vida de tantos. Ser unebiana
e unebiano é um estado de muitos significados.
Apendi coisas novas. Revi familiares através das tecnologias.
Converso com tias, primas, irmã, amigas e colegas do tempo
de escola. Querida turma C! Vejo minha amada vó por
chamada de vídeo. Convivo com pessoas que me fazem
repensar todos os dias em minhas ações, em minha história
de vida em minhas dores e dessabores. Choro!
Choro com um filme. Choro com a alegria do outro ao passar
na TV. Choro com a dor do outro. Choro de raiva ao ouvir
tamanhas asneiras de representantes nacionais que deveriam
nos orientar. E como choro!
Agradeço a presença do meu marido ao meu lado em todos os
choros, amparando minhas lágrimas e me dizendo: “não veja
isso, ou não assista àquilo”. Mas, às vezes assisto, faz parte.
Não consigo ficar alheia ao mundo. Não quero e não aceito ser
alheia às dores do mundo. Recolho-me, choro e volto.
Ah! Minha filha Júlia! O que seria dessa quarentena se ela
não existisse? Obrigada filha! A melhor companhia do mundo
inteiro. O melhor sabor ao acordar ao seu lado. Não há
palavras para descrever. Júlia é a alegria da minha vida. E a
alegria dela, ao lado de sua cadela, me faz lembrar que,
apesar de eu não ter aptidões para animais domésticos, está
sendo importante para a construção e regulação das emoções
dela. Choro de alegria!
Continuo com o coração cheio de esperança de que menos
vidas sejam ceifadas por um vírus invisível aos nossos olhos e
tão desacreditado por muitos. Eu, respeito a ciência, o que
seria das nossas vidas sem ela?

108
Sigo estudando, trabalhando, sorrindo e amando. Sou feita de
emoção, arte e amor. Poucos me conhecem frágil, e de tão
frágil, me faço fortaleza para continuar as batalhas diárias de
incertezas. E a grande certeza, até o momento, é que não
tenho como sair dessa quarentena à mesma que entrei.

Juliana Melo Silva

109
DISTÂNCIA
_______________________________________________________

Entre o olhar e o horizonte


Uma distância presente.
Entre a voz e o escutar
Distância eloquente.
Entre o pensamento e a lembrança
Distância, sabor de esperança.
Entre os corpos que se atraem
Distância que esvai.
Que vem e vai deixando rastros,
Marcas pesadas!
De dor
De angústia
De tristeza
De desamor
De abandono
De desenganos.
Por que se distanciar se o desejo é estar?
Por que se amargurar se o desejo é amar?
Amor que dizes sentir!
Como poder confiar?

Julieta Lisboa dos Santos

110
BRINDEMOS À CIÊNCIA!
_______________________________________________________

Ano de 2020! Contexto apocalíptico, pandemia, isolamento:


territórios de medo, incertezas! Dias de fechar, enclausurar,
proteger! Viajar para dentro de si, navegando em um oceano
de incertezas e solidão.
Dias que exigem de nós a saída do eu em direção ao olhar e
escuta do outro, do coletivo e da incontornável realidade:
somos mortais! Mesmo diante das nossas grandiosas
epopeias, fomos surpreendidos com a potência do invisível.
Construídas ao longo das muitas jornadas, narrativas e
certezas foram abaladas, devastadas! Somos incompletos,
falíveis, reprogramáveis. Seres precisantes de calibração e
ressignificação.
A humanidade habitou, usou, depredou, quase esgotou o
planeta e descobriu que precisa, desesperada e,
continuadamente, apender!
Diante de nós, um mundo de incertezas e de perguntas novas,
que teimam e nos empurram para a necessidade de (re)
compreender, (re) aprender com o silenciamento, o isolamento
e a solidão.
Diante de nós, uma profusão de verbos, conjugados por todas
as nações: testar, resolver, anunciar, criar, inventar,
descobrir, prevenir: curar.
Emergência paradoxal, para que o ser humano saia da inércia
rumo à aventura do reinventar-se e adaptar-se ao novo
normal, que logo se anuncia como urgência inquestionável,
pulsante.
Dias de luta, de quedas, de dores, de transmutação para o
novo humano! Tal qual lagarta, rastejante que passa as dores
do casulo-prisão angustiante.
E saindo do casulo que era a certeza-prisão, alçaremos voos
absurdos, obtusos, na imensidão, tal qual os voos de
borboletas, insólitos rumo à aventura descomunal do renascer
das nossas relações, nossas crenças e na ciência.
Tece dúvidas, pondera, mede, esquece, volta, angustia-se
frente ao desconhecido e abissal. Brota a flor preciosa e
fecunda, com todos os tons: A Ciência.

111
Científico, pois, é esse movimento pulsante, incessante de
indagar, perguntar, tarefa de ousadia, teimosia, resistência,
persistência. Fazer ciência, caminhando sobre as duras
incertezas, sobre as pedras e durezas da ignorância: exercício
de libertação!
Pois, ela, a Ciência, embora caminhe pelas veredas das
dúvidas, carrega o dom e o ofício de libertar a humanidade.
Vai além, desconfia, tece a dúvida, questiona e atravessa o
umbral.
Que separa as certezas enraizadas, a passividade e calmarias
da imensa luta que é a edificação do conhecimento e de uma
nova e desejável Ciência: ponte, travessia e portal.
Inspirando a humanidade a novas, destemidas- aventuras,
irmanando em fecundos diálogos: os seres, o material e o
espiritual.

Jusceli Carvalho Cardoso

112
HUMANAMENTE FALANDO: QUEM SE CUIDA, CUIDA DOS
OUTROS!
_______________________________________________________

Estamos em um momento
Com tudo modificado.
Enfrentando um triste vírus.
Que muito tem preocupado!
Enquanto a ciência
Não encontrar providência
São necessários os cuidados.

São necessários cuidados


Para não adoecer.
Dinheiro não traz de volta
A vida de quem morrer!
Vamos ser inteligentes
Para não ficar doentes
Temos que nos precaver.

Evite ir para as ruas


Se não tem necessidade.
É melhor ficar na roça
Do que ir para a cidade!
É assim que eu prefiro
Pois, sobre o corona-vírus
Ninguém tem imunidade.

Portanto, não levem a mal


Prestem atenção no que digo!
Sabão, máscara e álcool gel
Diminuem esse perigo!
Peço que Deus nos ajude
E que a gente se cuide.
É um conselho de amigo!

As equipes da saúde
Têm trabalhado bastante.
Mesmo correndo perigos
Elas são perseverantes!

113
Porém, estar confirmado:
Ou o povo vai ter cuidado,
Ou o vírus segue adiante.

Portanto, aqui vou pedir


Não é querendo ser chato.
Mas, por amor a vida
É que faço este relato!
Quem quiser sobreviver
Procure se precaver.
É este o momento exato!

Justino Justo

114
DE REPENTE, UM VENTO MAU
_______________________________________________________

De repente, um vento mau se espalhou.


Desde o Oriente e chegou até aqui na nossa Bahia.
De repente, um mal.

Um vento que varreu as ruas e esvaziou as cidades,


Recolhemo-nos em nossos ninhos de concreto.
Estamos sendo sacudidos por um vendaval que
Empoeira sem que possamos sentir a poeira que
Derruba e ainda tentamos nos levantar que
Levou pessoas, tirando-lhes o fôlego.
Até o derradeiro suspiro, sem vela, sem cortejo,
Sem despedida, sem amigos.

Um vento ruim
Combatido por um exército esgotado,
Com muitas baixas por excesso de bravura
São sobreviventes numa peleja desumana.
Ao invés de armas e munições
Combatendo com ciência e oração.

De repente, além do isolamento social,


Paramos para ouvir a melodia da chuva
Abrimos a janela para entrar a esperança
Sentimos a nossa própria brisa, degustamos o autocontrole,
O amor-próprio, sedentos por resiliência,
Apoiados na lucidez por melhores dias, sentimo-nos
Arejados pela empatia, pelo compadecimento
E pela solidariedade.
Pois, o vento haverá de ser vencido.

Kelly Cristina

115
TEMPOS DIFÍCEIS
_______________________________________________________

São tempos difíceis!


De portas trancadas, pessoas em casa
A rua e o contato humano se tornaram ameaças.

São tempos de muita dor!


De medo e angústia
De despedidas rápidas e doloridas.

Mas ainda resta esperança


Ela que faz a aliança.
Os povos não podem dar as mãos
Mas se comunicam com o coração.

E ele em uma batida pulsante diz:


Que as portas serão destrancadas!
As nossas vidas retomadas
Pois, a tão sonhada cura será encontrada.

Laiane Carvalho de Souza

116
MEDO
_____________________________________________________________

Eu tô meio encasulada, virada e desvirada.


Presa na extensão de mim
Rodopiando em pés cansados, descalços na beira do barco,
empurrando ao abismo olhares engessados, começando por
mim
por dentro de mim....
Eu tô desabrochando
por dentro
no isolamento
no distanciamento dos sonhos.
Aquecida pela ilusão que habita o desencanto
Meu casulo fala comigo, se move, se retorce, se espreme, todo
retorcido.
Coloco a cabeça para fora, respiro e piro.
O medo ronda a distensão social
povo sofrido
ninguém unido.
Um rompimento em meio ao caos já instalado
grito entalado
todo mundo encurralado.
Fixo as paredes do meu quarto. Em mim, habito.

Não te sinto
longe

Menos afeto, mais grito, panelas em desatino.


longe
Diz Tan
te amo
Tânias, Joanas, Pedros... um tanque no meio... dedos
apontados em desrespeito.
De quem é a culpa? Importa?
Medo.

Laiara Lacerda Fonseca

117
UM LINK PARA A SOLIDÃO
_____________________________________________________________

Palavra de ordem: fique em casa!


Isolamento social virou solução
Amizades virtualizaram-se
Gerando um link para a solidão.

Quer conversar? Envie um “Zap”.


Quer ver alguém? Faça um vídeo chamada.
Quer um abraço? Manda um emoji.
E estamos a um link para a solidão.

Não importa quantas horas de acesso.


Realmente, não importa!
Pois, quando nos desligamos das redes sociais,
A solidão bate à porta!

Não tem amigo


Não tem namorado
A distância de um metro é fria.
Sem abraço, sem toque, sem calor.

A família também está distante,


Os carinhos se guardaram
Abriram espaço para a reflexão.
Entender os sentimentos e valorizar
Quem sempre esteve por perto.

As pequenas coisas hoje têm valor.


E quanto vale sua vida?
De máscara no rosto
E álcool gel na mão
Estamos à beira de um link para solidão!

Laise Souza Almeida

118
AFINANDO A VISÃO
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Minha força está no silêncio!


Descobri isso durante o isolamento.
Mergulhei fundo nas crises de ansiedade.
Enfrentei os medos com coragem.
E, como uma mãe, acolhi as lágrimas e abracei meu corpo
trêmulo.
Ninei a criança ferida que me habita.
Fiz da dor o sustento.
Sei que não há como prever o futuro.
Mas, sou otimista diante do que estamos passando.
Basta abrir os olhos invisíveis.
E enxergar além do mundano.

Lara Bessa

119
A LEI
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Será o fim do mundo ou uma nova era?


Marcas do destino em cada janela
Mães e filhos juntos erguem as mãos pro céu.
 
O caminho é escuro acenda a sua vela
Escute ecoar o compasso da espera
É hora de colher o mais puro mel.
 
A Lei é estar em casa
Curar toda mágoa, abrir o coração.
A Lei é estar em casa
É manter a calma, escutar a canção.
 
Encarar o abismo e o que ele nos revela
Seguir rumo à paz ou será à guerra?
Quem tinha razão na Torre de Babel?
Fazer a si mesmo pergunta sincera
Serei a semente de uma primavera
Ou o prisioneiro de um carrossel?

Leandro Pessoa

120
SORRISO

Explode em mil sentidos


A Porta.
Escape de quando se está entre quatro paredes – a porta.
De quando se emerge do inconsciente, pelos sonhos, a porta.
Protege os filhos do frêmito, dos gemidos, do escândalo, quando o
gozo está na porta.
Separa o gato, no corredor,
dos quartos, onde a roupa aguarda, ansiosa,
que se abra do armário,a porta.
Porta que aguenta ser batida com força
quando o corpo adolescente
seus humores, já não suporta.
A porta dos fundos deu lugar ao riso, e virou “O” Porta.
A porta da frente, porta da rua,
Já quase esquece para que existe;
muito pouco se abre, precavida, medrosa,
de que por ela passe sem convite, com Covid, a morte.
Danada fica quando em metáfora
se chama o ignorante de “porta”,
pois, se as paredes têm ouvidos
é ela quem tudo sabe
pondo-se a decidir para quem consente,para o que se encerra.
Porta dos Sonhos
Porta dos Fundos
Porta do Armário
Porta do Gozo
Porta da Frente.
Não sei se ela abro, ela não sabe se se fecha
ou o que fazer quando o desejo aporta.

Lêda Lessa

121
SORRISO
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O sorriso é expressão de alegria e de felicidade, mas que


não significa que tudo vai bem. É uma forma de dizer um olá,
sem precisar de palavras, precisa-se apenas de um sentimento
sincero. O sorriso de quem sofre e de quem batalha todos os dias
para botar o pão na mesa, de gente que corre atrás dos seus
objetivos, são sorrisos sinceros, de quem independente de
qualquer coisa está ali, plantando hoje para colher amanhã.
Tem gente que sorrir com o olhar, com seu carinho e
aconchego ao abraçar, que faz o seu dia ser especial, que lhe
contagia com uma energia que simplesmente faz bem, que chega
e ilumina e assim em nossa vida se concretiza. E simplesmente
no falar, é possível sentir a paz que algumas pessoas nos
transmitem, seja no jeito de sorrir, abraçar ou agir. Mas não se
deixe enganar, há sorrisos lindos, porém falsos, mentirosos de
pessoas que só aproveitam da sua bondade, há sorrisos de quem
não lhe deseja o bem, de gente que muitas vezes não lhe motiva,
não lhe estende a mão, mesmo sabendo das suas necessidades.
Há tanta gente no mundo necessitando de um simples
sorriso, de um gesto que o faça ver que a vida, mesmo em meio a
tanto sofrimento, é bela. Por isso, não perca a sua linda forma de
sorrir, você pode iluminar e marcar outras vidas, o hoje é uma
nova história, é você quem decide colorir vida ou deixá-la em
preto e branco. Sei que haverá dias em que não conseguirá
sorrir, e está tudo bem, pois a cada manhã que acordamos a
esperança renasce no coração daqueles que buscam a cada dia
ser melhor, no coração daqueles que desejam amar e fazer a vida
florir, mesmo em meio às dificuldades e tristes realidades que há
neste mundo.
Não permita que nada nem ninguém ofusquem o brilho
do teu sorriso, com ele você fica mais lindo (a). Siga em frente,
sonhando, lutando, buscando alcançar seus objetivos e
iluminando outras pessoas ao seu redor e aquelas que
encontrarem pelo caminho, sorria e permita-se renovar a alma.

Lena Pereira
Inspirações de uma adolescente

122
ISOLAMENTO? IH! SEM LAMENTO
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Isolamento é para fazer ou para deixar de fazer?


Enquanto a porta da rua é um perigo,
A porta do interior é um abrigo
Mas o que há no seu abrigo?
Há briga, há bronca ou há broto?
Talvez haja de tudo um pouco, inclusive o broto da paz
E muita gente que não sabe o que faz...

Há quem mostre alegria para encobrir a tristeza;


Ou quem mostre o desespero para encobrir o vazio.
Mas há mesmo que se mostrar ou é hora de se
metamorfosear?

Vamos precisar nos reinventar, pois, o que pareço ser é


pouco,
E o que mostro é menos ainda.
Enquanto os sentidos iludem, os sentimentos aludem para
algo que precisa sair.
Cada um, a sentir sua essência, com pressão, provocação e
tentação
Para lapidar o que há de mais rude e ver o brilho que surge

Você veio buscar ou veio trazer?


Veio plantar ou veio colher?
Cada um, com sua consciência, precisou se recolher e sentir-
se crescer.

Lilian Lessa

123
PARECENÇAS DE UM TEMPO VAZIO
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Às vezes parece que o tempo parou


Ou que “a vida está suspense”,
Assim me disseram numa prosa. Parou
Na hora que passa lenta
No dia que repousa inteiro
Improdutivo, raso, solitário,
Vazio.

É que às vezes parece que o tempo parou


Imerso em virulências e máscaras,
Em muros, em regras e interdições.
Já não há lugar para abraços,
Afagos, paixões...
Resta-nos a ilusão de que a vida acontece em telas,
Vazia.

Às vezes parece que o tempo parou.


No contraponto, há um mundo que se recupera:
Ar, natureza, fauna. Menos gente!
Ao mesmo tempo em que se implora:
Mais economia!
Oposto de menos vida? Num mundo...
Vazio.

Lílian Lima Gonçalves dos Prazeres

124
ANO NOVO NA QUARENTENA
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SERÁ QUE O ANO NOVO, SÓ PRECISA COMEÇAR EM


JANEIRO?
Será QUE AS NOSSAS PROMESSAS, SÓ PRECISAM SER
ESCRITAS EM 31 DE DEZEMBRO?
Será que NOVOS SONHOS, PRECISAM ESPERAR UM NOVO
ANO?
Será QUE OS ABRAçoS, AS DESCULPAS E AS SAUDADES,
SÓ PODEM SER DADOS OU SUPERADOS EM Dezembro?
Será que OS AMIGOS E A FAMíLIA, SÓ PRECISAM SER
LEMBRADOS COM O CARTÃO DE NATAL?
QUE HOJE EM DIA JÁ NÃO É MAIS ENVIADO, MAS UM
TEXTO PRONTO QUE É MANDADO.
Será, QUE O ANO NOVO É SÓ LENTILHA, ESPUMANTE E
FAMÍLIA?

Será, será, será que...

Não SEI, TALVEZ!


MAS DE UMA CERTEZA EU TENHO. O ANO NOVO PODE
COMEÇAR AQUI E AGORA.
Sem GRANDES FESTAS, BANQUETES e RECEPÇÕES,
MAS COM UM CORAÇÃO LIMPO, PURO E VIVO.

Será, será, será que…

Não sei, talvez,


Podemos mudar o ano novo, todos os dias.
Podemos mudar o ano novo para Maio, Junho ou quando você
desejar.

Desejar estar,
VIVO PARA VIVER.
VIVO PARA APROVEITAR,
TODAS AS BÊNÇÃOS QUE HãO DE CHEGAR, SEM O ANO
NOVO PRECISAR ESPERAR.
Lilian Soares da Silva

125
POEME-SE
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Ei, menina
Deixe de maresia,
A vida é poesia,
Poeme-se
Com M de Maria,
PoAme-se!
O verso Amar
Se recita todo dia
Com rima ou sem rima
Na tristeza ou na alegria
Amar é verso averso
Da solidão e da agonia.

Ei, menina
Que traz no ventre a vida
Você é toda poesia
Mistério mulher e semente
Esperança de um novo dia
Rio que corre,
Lua que gira
Milenar sabedoria
Rima divina
Do uniVerso
em sintonia!

Lilith Marques
Quarentena, Lua crescente

126
SERÁ O COLAPSO, SOCIAL?
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Um momento tão distinto,


Reedição da história
Para alguns, um labirinto.
A outros, oportunidade de glória.
E o que nele há de vir?
Do que chamamos de evolução
De uma sociedade a sentir
Um vazio de desilusão?
Afinal, o que mudou
No coração da sociedade?
Por tudo o que se lutou
Contra toda a impiedade.
Lutas de classes, reivindicações,
Conquistas e avanços custosos
O que houve? Regressões?
Perecem-se também os faltosos.
E o tal do social,
Há muito tempo defendido?
Na luta do bem contra o mal
Será que temos refletido?
Sobre o que justiça chamamos
Quando nos é conveniente,
Na defesa daquilo que amamos,
Com valores aparentes?
Ou será que naufragamos?
Ao tentar nos tornar decentes?

Lindomar Bonfim Carneiro

127
ALÉM DO QUE PODEMOS “SIMPLESMENTE” VER
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E de repente, o mundo ficou mudo


E todos vivenciaram o silêncio dos surdos
Sentimos então, juntos, não, S E P A R A D O S, a escuridão
dos cegos
Mudos, Surdos, Cegos
Isolados em casas, mas que isso, isolados em nós.
Um interno ainda bruto, fundo, caduco, desconhecido
NÓS!
Passamos a lapidar nossas almas,
Redescobrimo-nos.
E como um mudo, passamos a nos expressar com as mãos
Nossos corpos reaprenderam a dançar
Criaram uma melodia própria, envoltos de uma autêntica
canção
Como surdos, passamos a profundamente sentir, enfim a
sentir
Sentir a mim, a ti, sentir: O próximo!
E com escuridão inerente aos olhos cegos, passamos a não
julgar, mas se igualar!
Cor, Sexo, Religião
Diante da evidente discriminação econômica, gritamos,
apenas: NÃO!
Combatentes na luta contra a Segregação
Além do Isolamento...
Reunião, União, Compaixão
Sem darmos as mãos, mas apenas pelo coração
Hoje, amanhã...
Além do Isolamento...
Estamos construindo uma nova GERAÇÃO!

Lorena Neves da Silva

128
AINDA HÁ TEMPO
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Desejo que tenhamos aprendido que fama, dinheiro, orgulho e


vaidade, isso não é tudo.
Que possamos trocar tudo isso por um pouco mais de tempo!
Mais tempo com quem queremos bem, estimamos, enfim, que
amamos.
Tempo para o que temos de mais importante: a família.
Compreender que ter sucesso é, sobretudo, desfrutar do
tempo que a gente tem, é estar atento a não sacrificar nossa
saúde, em troca de recurso financeiro ou status social.
É importante tentar não se preocupar tanto com o futuro e
perder a oportunidade de viver o presente, afinal, não somos
donos do amanhã.
O tempo de agora é um bem precioso que temos nessa vida.
Depende de nós aproveitarmos cada instante e não permitir
que assim como a água ele escoe por entre os dedos das
mãos.
Corre que ainda há tempo.

Luciane Carvalho

129
COLECIONADOR DE RITOS-III
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Eu vivo como o embrião de um poema,


dentro de um país já sem voz;
e por favor,
não me digas o que fazer
com o leite de suas tetas,
nem me contes o que fazem os parvos
nos balcões do horror
quando o vento
exuma os sonhos renitentes
de dentro do ventre
de um sonhador...
Pelas escadas ainda rolam cabeças
diante de suas pálpebras abertas
mas quando os jogadores
derramam as taças
vocês varrem a sujeira
antes de fotografar.
Agora,
os vermes vestem outras vestes,
disfarçam-se de tarântulas
para nos devorar
e as vidas feito patacas
são consumidas sem alarido
sem falar dos vinhos tintos
que viram sangue
prurido,
nos banquetes dos que pagam pouco,
mas que podem bancar.
A cura é o êxodo do abandono,
é o efeito canibalizar
é o caos feito de “fake”,
por aqueles que se acham donos
até do nosso descaminhar.

Luciano Fraga

130
DESEJO DE AMAR
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Em tempos de quarentena me pego pensando em você...

Penso na solidão
Penso no calor
Penso na distância Penso no amor.

Penso em seu caminhar


Penso em poder te tocar
Penso na maciez de seus lábios Penso em poder te beijar.

Penso na liberdade Penso no seu olhar Penso na vida


Penso na saudade.

Penso em você na roça numa casinha


Lá na beira do rio, nós dois na cozinha.

Em frente ao fogão de lenha


Você na mesa, sentada, corpo canela... ardente.
Olhar sedutor, meio despojada.

Como num sonho


De você me aproximo.
E começamos a nos beijar.

Te abraço pela cintura


Meu corpo e seu corpo começam a dialogar.

Sinto seu cheiro, sua pele macia.


Sinto seu cabelo entre meus dedos
Sinto seu paladar.

La naquela cozinha o mundo parece parar...


Esqueço-me de tudo.
Da Pandemia, da quarentena.
Dois corpos entrelaçados, dois corações acelerados, um único
desejo de amar.

Luiz Cláudio da Silva Santos.

131
Medit-AR
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Com duas letrinhas me proponho a pensar. Como são


importantes e o mundo a lhes bus- AR?
Como o próprio nome diz não me furto de enxergar os
encantos de DEUS pai com a Mãe Terra só somar.
A pandemia chegou...
Se você agoniou, não julga, por favor!
Pois, em alguns momentos, todos nós, de alguma maneira
colaboramos.
E no nosso respi-AR, ficamos a imaginar o momento do amor
que no mundo já chegou.
Onde é que você tá? Na luz ou no complô? E as pessoas de
pouco amor a ele condenou. Será o vírus o vilão? Ou quem
sabe o seu não perdão?!
O AR a pairar e vários pensamentos a devane-AR
Se você for medit-AR algo vai encontr-AR.
Com licença meu amor o novo momento chegou.
As leis universais vão atuar uns vão desbravar e com muita
luz mud-AR.
O financeiro quem cuidou? A quem se destinou?
Os humanóides a pensar com o ego a consagr-AR.
Como vou comprar um quilo de AR!
Deixe instaurar o amor no coração e na vasta imensidão dos
seus corpos a derr-AMAR.
Não fique a procurar onde o anticorpo está.
A Mãe Terra já mostrou, a cura se instalou.
Vamos juntos meus irmãos em conexão respi-AR.
Uns, a chor-AR e outros a brilh-AR. Quem está a observar?
A mudança já está e o Prana à pergunt-AR?
Como você vai som-AR?
Para a igualdade ancor-AR? Ou para prejudic-AR?
Am-AR...

Manuela Barreto

132
CONVITES
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O isolar-nos fez um convite.


Convite de evitar o externo.
E olhar para o interno.
Convite de afastar o incerto.
E vivenciar é correto.
Convite especial!
Convite informal!
Convite presencial!
Convite de mergulhar no mar interior.
De buscar o que passou.
De pensar no que ficou.
De estar no que plantou.
Convites...
O viver nos convida o tempo todo...
Convida a Paz.
Convida a Luz.
Convida ao Amor.
Convida também a dor.
Somos andantes em tempos de dor.
E estamos à procura de uma flor.
Flor da ida.
Flor da vinda.
Flor da lida.
Flor que nos traga a Vida.
E assim estamos todos numa trilha.
O isolar, nos fez um convite.
Convite a observar.
Convite a sonhar.
Convite a olhar.
Somos convidados a nos integrar.
E assim nos agregar.
O isolar, nos fez um convite, a reverenciar a Vida.

Márcia de Andrade Vieira

133
ALÉM DO MAL
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A experiência potente da vida humana se mede pelo que


Os seres são capazes de aguentar no vetor da existência.
Não posso mudar o que aconteceu no tempo, mas dentro
Do isolamento, melhoro para ser capaz de crescer além dele.

Além de todo mal, o passado é o presente que não é mais: e


passará!
Além de todo mal, o futuro será o presente que não mais é: e
passará!
Além de todo mal, o presente deixará de ser, a partir daquilo
que é:
E passará! Assim reside o tempo em suas três fases e nós
dentro dele

Se tudo passa, aquela peste que nos tirou nossa saúde mental
Tirou aqueles que amamos e mostraram que ela é para todos
independentes
De classe social, raça, sexualidade e credo, em breve passarão
também.

Dentro do isolamento, refleti entre o momento e o eterno, e


acredito
Que recuperar-se não é uma utopia ou impotência, só
depende da busca.
Dentro do cárcere com ansiedade, persigo a valorização da
vida, e você?

Marciano Gualberto

134
QUARENTENA
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Quanto antes
Nem tão pouco
As ilusões se vão
E numa concretude
Tudo arde e entorna.

Percebemos
Mas não aprendemos
E na insanidade
Não nos damos conta
Da nossa existência.

Comprimidos
Em nós mesmos
Suficientes nos dão
E confiamos
Os sentimentos.

Desse crucial momento


Alerta é alma
Inusitado é o que há
Perplexos
Olhamos atônitos.

Não há noção
De tudo que se faz
É o movimento
Incongruente
De Entender.

Marco Túlio

135
SOBRE VÍRUS E REPRESENTANTES
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Nesses dias lúgubres,


o sol parece brilhar
ainda mais claro:
a irracionalidade,
a insensatez
são vírus para se combater
com a ponta dos dedos!

Marcos Nunes Loiola

136
DISTÂNCIA
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Os dias passam e a distância parece não ter fim


Mas o que eu posso fazer se isso é o melhor para ela, para
mim?

O tempo fere e esse espaço me tortura de todas as formas


Eu não me rendo, pois, agora é o momento que meu amor
mais forte se torna

Um mal que não se vê me faz querer limpar quase tudo


E me mostrou que realmente me importo com quem é meu
mundo

Um isolamento que machuca e nos protege ao mesmo tempo


Me fez notar que quem eu amo sempre vai estar aqui dentro

Longe daquela que tanto me faz bem


Percebi que distanciar, nesse momento, é querer o bem de
alguém...

Marcus Vinícius Nascimento

137
PARA DIAS DE CONFINAMENTO
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Acordar e respirar o ar puro desse dia


Renascer sempre com a esperança de transformação.
Tudo se transforma nessa vida!
Uma ferida não precisa sangrar todos os dias, pois,
O amor é uma possibilidade...
Gosto quando a alegria invade meus olhos como
Um feixe de luz que acende minhas retinas multicores.
A vida ganha sabor e recomeça com um riso tímido.
O que te move?
O que me move?
Levar a vida como o vento e apreciar a dança das nuvens.
O que levaremos não cabe nas malas,
A bagagem é o coração e tudo que pesa é desnecessário.
Gosto de banana com aveia, canela e mel. Isso é tão
prazeroso!
Gosto de olhar o tempo e saber que tudo muda a todo o
momento.
E que nem todos os dias serão dias de confinamento.
Gosto de escutar o vento e sua melodia anunciando a
passagem do tempo, de sentir a brisa do mar encrespando
ainda mais os meus cabelos.
Gosto de pensar no que as pessoas pensam, quando as luzes
se apagam.
Nesse momento, observo o mundo e outros mundos, quando
as luzes das casas se apagam.
Mas a vida segue sua rota indefinida e quando amanhece,
recomeçamos!
Gosto quando a vida recomeça com nascer do sol, porque ela
não termina quando fecho os olhos.

Mari Gonçalves

138
DEITAR-SE
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A utopia,

esta prima do sonho,

irmã da fantasia

renasceria

depois do tiro

medonho

E se deitaria.

Marilson Santana

139
CULTIVANDO A CURA
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A dor que deveras sentir


No isolamento entre paredes multicores.
Uma saudade tentou
me invadir
Querendo
transbordar em me o
desamor.

Mas, abro a janela e vejo na rua


Máscaras que não festejam carnaval.
E minha vida desprotegida tão nua
Confirmo para o
bem vencer o mal.

Pelo sangue, exame testa positivo.


Passo a viver preso mesmo não sendo nocivo
Olhos tristes
vidrados na
fotografia.

E para
quebrar a dor
e o desamor
Cultivo em
quinze dias
uma flor
Para quem lá fora me espera com amor, Maria.

Mario Abreu

140
O SOM DO SILÊNCIO
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De repente o mundo inspira


Para um silêncio não desejado.
Que agora mais que um fato se torna fardo,
É tato e corpos afastados.
O som de quase nada ecoa ao vento.
Sem fala
Sem abraços
Sem toque
Sem beijos
Apenas sorrisos.
Indeléveis e abstêmios
Difícil quanto fardo
Logra a peça dos inválidos.
Dos invisíveis da rua
Que estendem as mãos nuas
E só tocam o vazio.
Encontro de olhos descobertos
Secos e tímidos.
Pedintes de um tempo mudo
Quase surdo e avassalador.
Do sentimento finito que chega Agarrado na desconhecida
peste, Quase nua, trágica e desalmada.
Faz gente dormente que sente
Com silêncio seu orgulho posto à prova.
Envolto nessa densa névoa
Onde nada é quase tudo,
E o depois?
Quem vai traduzir o choro e a risada contida?
Dessa esfera de silêncio.
Do tempo adormecido.
Na dureza enclausurada do dia.
Desse espaço mouco.
Na tradução do silêncio.
Que ensina e alimenta
A esperança, vida e finitude.

Martha Lisboa

141
4 OU 40
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Dessa cortina de vírus, quero gritar chega!


Veio do nada e em qualquer um, pega!
Até o nada vem de algo, não nega!
Assassino invisível aos olhos nus se entrega!

Tudo isso foi planejado!?


Tudo isso foi organizado!?
...
Muitas perguntas sem respostas

Ontem não havia tempo.


Hoje temos mais tempo.
Poucos sabem aproveitar esse tempo.
Quanto tempo ainda nos resta desse tempo?

Famílias reunidas, outras distantes.


Há quem se acha melhor que o outro, arrogantes.
Bando de insignificantes.
Na vida nos resta apenas instantes.
O medo de morrer constante.

A humanidade em plena igualdade, mentira!


Há os que vão à rua para matar a fome na barriga, por isso
parem de besteira.
Há os que não têm casa, quem têm Stay Home! Isso não é
brincadeira.

Os de cima cegos pelo poder escondem a verdade.


Os de baixo sofrem sempre mais, esta é a realidade.
Na vida não somos nada, me pergunto existe em nós a
humanidade?

4, 40, quarentena, preso em casa para o bem de todos.


Longe dos abraços, dos carinhos e dos beijos.
Fiquem em casa privilegiados!
Os que não têm que não sejam contaminados.

Michel Carvalho

142
ISOLAMENTO SOCIAL
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No século XXI surge a pandemia


Situação desagradável e de muita agonia.
Precisamos aceitar a distância social
Para garantir a vida macrossocial.

Mesmo distantes, os sujeitos podem dialogar.


Pois, conta com a internet que possibilita contactar.
Mas, acredite meu irmão!
São poucos os que têm acesso.
A internet não é de graça e pede sempre ingresso.
Esse ingresso é muito caro!
E exige vigilância,
Pois, não é todo canto que cabe a sua entrada e constância.

Vou concluindo essa conversa


Com a sensação de que não findou.
Parece até com Covid19 que no mundo se instalou.
Até breve, meu irmão!
Espero que possamos dialogar
Em outros tempos mais tranquilos
Que eu almejo alcançar!

Miriam Barreto de Almeida Passos

143
MOMENTO DE VER
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Hoje se percebe
Tens filhos
És um
E tens um lar, mas nunca os viu.

Valorar o que se tem


Prioridades vão além
De uma vida a se viver
De uma vida a se querer.

Tempo, uma desculpa.


Oportunidade é agora.
Um pedido rigoroso: fiquem em casa!

Forçado é o motivo.
Enclausurar? É a saída.
Conflagrar para erradicar o invisível inimigo
E esse medo acabar.

E no mundo todos juntos


Numa luta em comum.
Solidariedade sobressai em ajudar
E como uma lição, aprender o valor da vida.

Mizael Macedo Moreira

144
SAUDADES DE M.
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Ai,
Meu coração pulsa forte e anseia por você.
Que vontade de receber as suas lambidas úmidas em minhas
pernas e em todo o meu ser.
Sentir-me, em meio ao calor escaldante que me efervesce,
encharcado por ti.
Num encontro que encontro, cheiros, sons, agito, prazer... e
muito mais;
Um vai e vem constante, deitado, em pé, molhado, suado.
Sentindo num beijo, o queijo da brasa que aquece o meu
paladar.
Água na boca para saciar a sede quase louca de amar e
refrescar o desejo da minha alma de te encontrar.
Oh! Maravilhoso mar. Como é bom te sonhar e perceber o
quanto tu és envolvente e a sua praia me faz viver!

Murilo Teixeira
"Com saudades do mar em dias de quarentena"

145
POR ENTRE MÁSCARAS
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Um olhar... O que nos restou apreciar


Diante máscaras que insistem perdurar
Olhar diz coisas que a boca não fala
Que nos cala, entala, congela
Congela de dor, amor, incertezas...
O olhar nos conduz a um lugar de luz, reflexão.
Mas também nos leva a um mundo sem razão
Profundo é o olhar, que acolhe e guarda segredo...
Olharde medo, respeito, condenaçãoe anseio.
Anseio de dias melhores, relações melhores e empatia para
vida.
O olhar carrega o mais profundo segredo,
A palavra mais sincera guardada na alma do medo.
Um olhar. Ah! Um olhar...
É repleto de leituras, agruras, histórias, vida, morte, tristeza e
amargura.
Um olhar profundo nas dores do mundo
Num sonhador a pensar que tudo de ruim um dia passará
Um olhar é universo, onde podemos viajar.
Viajar para bem longe, sem destino, sem porquês e sem hora
para voltar.

Naiara Batista

146
PAVANA EXISTENCIAL
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Eu me sinto bem
Como não me sentia
Desde há muito tempo.
Sinto uma mistura
De tristeza e alegria.
Tudo junto ao mesmo tempo.
Sinto o vazio de minhas velhas crenças,
De minhas velhas convicções.
Eu quero me livrar
De tudo o que não traga
Aquela sensação tão boa,
De pertencer a algum lugar.
De ser alguém para alguém,
Ainda que por um momento.
A melancolia virou um jeito de alcançar
Aquilo que está feliz.
Não dá!
Sinto-me leve e solto,
E livre pra alcançar
Alturas que jamais pensei.
É tanto sentimento
Dentro de uma canção,
Que não cabe em um só coração!
Por isso que eu canto
Para poder dividir
Aquilo que não basta em mim.

Nícolas Vladimir

147
RIMA SEM PARTIDO
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Nunca pude pensar, nem por instante


Que a escolha dum representante
Repartiria em dois lados uma nação
Um ameaça, outro pede perdão

Sinto o medo de uma criança


Que não vê ninguém além do homem mau
Entrega-se, no fundo, sem esperança
Àquele que do ódio faz arsenal

Ouvi que estamos entre a cruz e a espada


Penso! Realmente, a situação é delicada
Porém, mais vale uma meta reconstruída
Do que uma democracia ameaçada

Se posso nesse poema contar com sua estima


Deixa te dizer qual minha razão
Não é por partido que faço essa rima
É por que sou liberdade e não prisão

Se chegou até aqui já conhece minha opção


Escolho a bravura e não a truculência
Prefiro o planejamento a incompetência
Opto pela igualdade e não pela exclusão
Não pego em armas, prefiro um livro na mão

Caso alcancemos um tempo perverso


E o medo infante dê lugar a amargura
A quem não via ditadura, nem retrocesso
Fica incumbido de levar esses versos à censura

Nikatia Belau

148
MINHA ETERNA RAINHA, MINHA MÃE
_______________________________________________________

Era assim:
Brinquedos espalhados à gangorra a balançar-me
Entre os arvoredos frutas maduras caiam,
Quando saboreadas pelos pássaros ou quando ventava mais
forte,
E minha mãe estava sempre cuidada de mim, mesmo à
distância, nos seus afazeres,
O céu era mais bonito e com ar mais puro.
Meu sorriso de criança com jeito de inocência era igual a um
paraíso de flores,
Sentia-me num verde pleno deitava rolava
E pescava no riacho concentrado nesta infância.
Eu podia fazer tudo porque tinha certeza que brincar a
vontade porque a minha protetora Estava ali para cuida de
mim,
Parece que estou viajando para o meu mundo passado
Tempo que jamais voltara,
Compondo essa poesia sentir-me criança outra vez.
Com essa pandemia estou longe da senhora, em corpo, mais
jamais estarei longe do seu Espírito, porque eis a minha
eterna rainha a minha linda mainha!

Nilson C. Carvalho

149
O AMANHÃ
_______________________________________________________

O amanhã é tempo de novas ações


e progresso.
A humanidade sabe o quanto
aprendeu.
Precisa criar uma nova história.
Descobrir o que fazer é toda esperança agora.

As possibilidades de mudanças
vicejam.
Conectadas às comunidades
interagem melhor.
A liberdade, ora privada, agora
sinaliza:
Uma vida plena de livre escolha.

Os obstáculos no caminho
foram removidos.
A ideia de crescimento
permeia.
E que a invasão da tecnologia seja para o uso do bem.

Que enveredar pela construção e


socialização,
De direitos à educação e saúde.
Seja o fator principal de toda liberdade.

Odenval Paulo de Santana Filho

150
HUMANAMENTE DESENVOLVEU-SE
_______________________________________________________

Refeito, enfim, após ter escapado


do caos tecido pela pandemia
avaliou as dores que vivia
― distantes bem do que há presenciado ―

e concluiu: embora tenha a vida


me feito sofrer tanto... tanto... tanto...
ao me negar de si, o seu encanto
e radicar em mim mordaz ferida,

bem pequenino é o meu sofrimento


ante o que se abateu à humanidade,
crivada por letal enfermidade
chorou sem ter direito ao argumento...,

à despedida de quem tanto amava,


tampouco no seu seio lhe deitar
flores finais regadas pelo amar...
Pensou e repensou o que acordava

a sua mente. Reagiu. Selou


consigo mesmo um compromisso eterno:
tirar seu coração daquele inverno
sombrio que até então o acompanhou,

pô-lo ao sol, ao lado de um florido


campo de luz, de fé e de esperança,
banhá-lo em aderente confiança
e dar a sua vida outro sentido.

Patrice Moraes

151
MANUTENÇÃO DA VIDA NA TERRA
_______________________________________________________

A água está escassa.


Salvador está sem árvore.
Os animais pedem socorro,
os asfaltos,
os prédios.
As necessidades humanas
desenfreadas
acabam com a natureza.
Agora temos o vírus.
Sem cura.
Estamos no caos.
Os recursos renováveis
são finitos também.
Tudo é finito!
Somo-nos finitos.
Alimentamo-nos.
Modificamos a natureza.
Brigamos com ela.
Esquecemo-nos do amanhã
sem canção.
Como manter a vida na terra?

Patrícia Ferreira dos Santos

152
SONETO DO CONFINAMENTO
_______________________________________________________

Eis o momento ímpar em minha vida.


Encontro-me preso em meu mundo.
Afasto-me do ontem e abro a ferida
que cicatrizará no amanhã profundo!

A essência que precede o meu ser


anuncia a sina do meu confinamento.
Recolho-me à espera de um saber
que tornará novo o meu pensamento!

Antes, porém, altero o meu presente


para uma jornada rumo ao interior.
Da minha alma sedenta por experiências.

Assim, conduzo-me pela estrada à frente.


Certo de que ao final surgirá o amor,
apesar de todos os perigos e ausências. 

Paulo Antônio Barreto Junior

153
QUEM PENSA SOZINHO NÃO EXISTE
_______________________________________________________

Na esteira da humanidade
Tudo aqui nos isola ou retarda
Mesmo estando num burgo à tarde
Somos sós se ninguém nos aguarda.

Todo aquele que pensa sozinho


E faz planos distantes de todos
Desconhece quem está no caminho
Pois, não vive a partilha dos louros.

De que vale ser Rei sem um súdito


Ou até General sem a tropa
Se o relógio só mostra o minuto
Para alguém que puder lhe dar corda?

É assim que nosso tempo se mostra


Como troça com que não entende
Que teremos uma nova aposta
Se soubermos o que é ser doente.

Num modelo de mundo que aflora


Que precisa ser forte e presente
Necessário é a jovem ou senhora
Pois, são frutos da mesma semente.

Mas o que me constrange agora


É saber que o futuro não existe
Para quem não respira ou resiste
Se a dor não escolhe a hora.

Onde então precisamos rever


Nossos planos e sonhos de antes
Ante as trevas que turvam o poder
Dos que vão nos guiar adiante.
•••

Poeta Braga Costa

154
CINESIA
_______________________________________________________

Para além daquela porta


Entre o remoto e o vindouro
Do lado de lá do muro
A versão nova de nós.

Um ser contido sonha


Um ser parado, pensa
Um ser assente, cansa
Um ser se desconcentra
Um ser assenta a sanha
Um ser conserta o som
Do concerto que o alimenta.

Um ser assume a ponta


Um ser se movimenta
Um ser respeita o tempo
Um ser conserva a meta
Um ser sustenta o viço
Um ser abraça o curso
Avesso ao isolamento.

Um ser decanta o novo


Semelha o que é veloz
Acossa o que está dentro
Um ser passa, constrói
Semeia outras lembranças
Que estão dentro de nós!

Rafael dos Prazeres

155
O POEMA INVISÍVEL
_______________________________________________________

"Atenção:
por uma questão de segurança nacional,
e saúde pública,
as visitas serão suspensas
por tempo indeterminado,
e os banhos de sol serão realizados
em regime de escala a ser divulgado
em breve.
Essas mudanças valem a partir de amanhã",
disse o diretor,
"e são necessárias",
ele continuou,
"para preservar a saúde de todos".

Houve muita reclamação, é claro,


principalmente por causa das visitas.
Eu, por outro lado, gostei das mudanças,
mas não posso contar isso para ninguém.

Rafael Rodrigues

156
“AHH! VEM MARIA”
_______________________________________________________

Ahh! Vem Maria, mesmo com essa pandemia.


Quem cuidará das minhas crias?
É serviço essencial, disse um tal prefeito da cidade de Jesus.
É como se fosse da família! Disse a atriz global.

E a família da Maria?
Os Joãos estão sendo cuidados pela senhora Maria,
Mãe de Maria, hoje não mais essencial!
E, assim, lá vai Maria.
Vai Maria! Porém use as máscaras, a de tecido,
e a da coragem, para sair todos os dias.

Todos os dias, os Joãos querem abraçá-la, quando ela chega


do trabalho.
Maria não quer abraço, nem beijo algum.
Maria se isola no seu quarto, chora,
e roga aos ancestrais pela sua saúde,
da senhora Maria, dos Joãos, e dos patrões, os Santos, pede
proteção à Omolu.

A segurança dos pequenos é a segunda prioridade.


A primeira é a comida.
Afinal, os Santos foram gentis!
Com muito sacrifício, estão mantendo os serviços de Maria.
Se ela não fosse quase da família...
Ahh! Vem Maria.

Railda Maria

157
DESENVOLVIMENTO E HUMANIDADES
_______________________________________________________

Além do isolamento social.


E assim está caminhando nossa sociedade numa estrada sem
fim,
precisando de muita orientação, educação para sua
sobrevivência.
Situação de causa e efeito precisando ser melhorada,
vivenciando uma situação a ser respeitada, estudando e
vendo seus comportamentos numa terra almejada e desejada.
Melhor se não houvesse esta pandemia doentia para melhorar
a todos com este isolamento tão sombrio,
vindo para ensinar que a convivência familiar é muito
importante para nos educar.
O desenvolvimento do homem é útil para toda humanidade
deixando de lado toda sua descrença social,
sabendo que temos uma grandeza espiritual.
Valorizando a todos os seres com seus ideais, sejam eles
profissionais e pessoais.
Nossa sociedade caminha continuamente errada sem dar
valor à humanidade, devemos pensar no próximo com mais
amor no coração.
Não podemos deixar de dar atenção aos que precisam de
nossa atenção e atitudes do bem.
Que o isolamento social sirva, neste momento, para uma boa
reflexão, que com pouco se vivi também.
E que para a vida neste planeta se requer tão pouco, mais
atenção e humanidade.
Será de grande crescimento humanitário para todos nós, o
Planeta ressurgirá que a todos num mesmo barco fizeram
estar.
Aprendemos muito bem toda a lição, aqui no Universo um só
maestro compondo e regendo todas as lições.
Iremos assim todos juntos caminhar com a semente do amor
pela estrada a jogar.
Pois, os frutos com certeza iremos todos pegar, cada um em
sua horta e um novo sistema vão buscar.

158
Além do isolamento social que todos tiveram, foi bem útil
pessoal! Cada um vivenciando sua experiência no seu clima
de amor fraternal.
Para frente caminhará a humanidade servindo de lição para
grandes oportunidades.
Unidos todos nós estaremos para ajudar a criar, renovando
tantos projetos para todos ajudar.
Neste empreendimento nos faz ser útil com nossa
colaboração.
No Planeta e no mundo onde todos nós somos irmãos.
Unindo a todos nós com um bom desenvolvimento
humanitário que devemos caminhar.
Levando uma bandeira: paz, amor e harmonia.
Esta sim foi uma bela lição de equilíbrio e magia.
Buscando o interior de fé e amor.
Que bom! Este Desenvolvimento e Humanidades
Além do isolamento social.

Regina Caciquinho
Escritora Holística

159
SEMENTE
_______________________________________________________

Entre carros e sombras,


e concretos, e buzinas, e corpos suados.
Descendo ladeiras e subindo morros.
Atropelos matinais nos ônibus abarrotados.
Entre balas e cigarros, e o calor do asfalto.
Surgiram brotos e galhos tortos.
E do vermelho sangue na calçada,
nasceu uma flor de lótus.
No meio da lama e do breu da esquina.
A chuva lavou as lágrimas das janelas.
Os pássaros tomaram posse dos seus ninhos.
Os moinhos espantaram os dragões.
As casas de repouso se tornaram lares,
habitados por seres que se perceberam humanos.
E do medo invisível que dissipou o caos.
Brotou uma semente destemida
em meio a dor e amor, e sangue.
Germinou o fruto da esperança.
Essa criança teimosa que desbrava o breu,
floresceu.
E a rua se encheu de gente colorida.
Gente que de tanto ver a morte,
mesmo sem norte,
aprendeu a respeitar a vida.

Roberto Araújo

160
O PLANETA PADECE
_______________________________________________________

E os gritos abafados dos homens,


Agora competem com o barulho esquecido dos pássaros.
A rebeldia, outrora necessária, hoje nos castiga,
Vestida de ignorância, ela desfila um perfume truculento.
A racionalidade grita, aprisionada numa penitenciaria comum.
Eu sou inocente! Berrei quando vi a ciência passar.
Mas a ciência me olha sobre os ombros, simpática me diz:
“Sou fábula antiga. Sobrevivo na leitura e no fazer dos dias”.
Compreendi, ali, que ela sofrera com a falta de fé coletiva,
Presos, libertos em pensamentos humanos, cansados pela inércia
física.
Afinal, pensar cansa. Isso seria trabalho? Quem diria!
Dependurados, enfeitamos as nossas nas próprias crisalidas,
E como doe não ter asas. Como custa enfrentar o tempo!
Os dias se transmutaram em páginas levemente amareladas,
E as questões apontadas nas linhas são conflitantes, pesadas.
Aquele tenso da literatura russa nos acompanha logo no café,
A incerteza nunca esteve tão certa com a necessidade de
mudanças.
Do fascínio das descobertas diárias, singelas e sensíveis
Ao fascismo sorrateiro e esgueirado fazedor de rugas e feridas.
A política interdita às ágoras; e os debates anunciam os
confrontos,
Armados de dúvidas reais em pleno palácio das informações
ligeiras.
A ciência passou novamente largando no vento um bilhete em
branco.
PENSE! PENSE! PENSE! Idolatremos a dúvida,
Ela nos carrega feito o leito do Paraguaçu, que nunca esteve tão
belo!
Máscaras caindo e máscaras a postos no suplício das horas.
Se Manoel de Barros estivesse entre nós, escreveria algo do tipo:
“O planeta está com a roda quebrada, no chão, e tem cheiro de
terra.”
Na ausência do poeta, cabe a nós, desfrutar o belo castigo da
existência.

Rodrigo Barreto

161
COMO DÓI
_______________________________________________________

Dói não poder visitar nossos avós.


Dói não poder abraçar nossos filhos.
Dói não poder visitar um amigo.
Dói não poder chegar perto de nossos pais.
Precisou aparecer um vírus pequenino,
invisível a olho nu, para nos mostrar o quanto somos frágeis e
indefesos e que, nesta hora, não adianta ter dinheiro.
Uma pandemia que pode levar à destruição,
nos dando uma grade lição.
Ensinando-nos que somos todos irmãos;
Ensinando-nos que devemos amar uns aos outros;
Ensinando-nos que amar é a solução.
Hoje, queremos abraçar, beijar, mas não podemos, sequer,
chegar perto um do outro.
Manter a distância é preciso!
Quando tivemos a oportunidade de fazer, não fizemos.
Agora que queremos, não podemos.
Um vírus invisível, matando, dilacerando corações, nos
lembrando de que somos todos irmãos.
Precisou surgir um vírus capaz de matar, para nos ensinar e
nos mostrar que perante Deus somos todos iguais.

Romário Filho

162
DRUMONIANAMEMTE 1
_______________________________________________________

Despontou um horizonte
com novas formas de ser
e pensar o mundo.
Uma mudança de trajetória.
Batidas na porta da frente!
Não há mais passagem no bonde do tempo perdido!
O medo nos ecoa.
Restam mutações instantâneas.
Não há condições de sermos mais os mesmos.
Não seremos mais os mesmos!
Nesse vendaval de novos pores do sol
somos impelidos para uma reflexão,
somos jogados no calabouço dos valores.
Que caminho era esse que estávamos trilhando?
Em que momento nos perdemos?
Em que instante o ter cegou o ser?
O certo é que estamos atordoados.
E também é certo que precisamos seguir.
Precisamos respirar fundo e dizer ao espelho:
— Nós temos que sobreviver!
Nós vamos chegar ao outro lado da ponte.
Mesmo que estejamos na plena convicção de nossa
fragilidade,
precisamos mudar de atitude.
Drumonianamente assumir:
— Não nos afastemos!
Continuemos à espera do dia no qual voltaremos a caminhar
de mãos dadas.

Romilson Calixto

163
DESENVOLVER O MOVIMENTO
_____________________________________________________

É chegada a hora de DESENVOLVER o moviMENTO de


humanizar.

Isolar o moviMENTO do egoísmo do umbigo.

E tudo sem DÓ.

Mas se podem usar outras notas dessa escala,

Que não se cala,

Nos gritos do silêncio da desigualdade,

Essa sem idade, sem freio, mas, com rumo,

Em nós, humanidade.

Humano que buscou se desenvolver,

Teses, TCC, mas tecer o quê? Para quê?

É chegada a hora do isolamento,

Da fera que produzir,

Nesse grande desenvolvimento,

Ou no novo descobrimento,

Que um bom alimento,

É, simplesmente, HUMANIZAR a mente.

Ronaldo Bonfim

164
TEMPO
___________________________________________________

Tempo, tempo, tempo...


Porque tanta pressa?
Quanto de ti ainda me resta?
Quanto de ti ainda verei?
Dias desses, eu era menina,
Hoje cansada em desassossego,
E tu, ainda faceiro,
Passando apressado
Nem olhas o meu sofrimento,
Meu descontentamento.
Tempo, tempo, tempo...
Porque tanta pressa?
O que é que eu tenho que te interessa?
Me diz, onde foi que eu errei?
Me deixa acabar o que nem comecei,
Me leva contigo nas curvas da vida
E faça curar minha alma ferida,
Me olha nos olhos mais de uma vez.
Tempo, tempo, tempo...
Porque tanta pressa?
Se tudo tem era e tem hora certa
Se nada acontece sem o merecer?
Me ensina o caminho mais reto,
Embala meus sonhos desde o alvorecer
Não deixes que tudo se finde ainda,
Minh’alma tem pressa, eu quero viver!

Rute Roberta

165
PESSOAS COM DEFICIÊNCIA??
_______________________________________________________

Pessoas? É, pessoas!
Pessoas? É isso mesmo, pessoas!
Como assim?
É pessoas, pessoas, pessoas.
Simplesmente, pessoas!
Que trabalham, estudam, se casam, têm filhos, pagam
contas, não fazem nada.
Doentes, não?
Não!
Adoecem sim, ficam gripadas, com Zica, Covid 19, câncer,
depressão...
É é?
É! Também sofrem, choram, gritam, torcem, sorriem, são
tristes, são felizes!
São exatamente como você.
Você é doente, é? Ou é gente?
Mas elas???...
Não, não têm mais elas!
Temos nós! Quem somos nós?

Sandra Rosa

166
QUARENTENA
_______________________________________________________

Havia aqui um deserto,


Lavoura seca,
Terra sem amor.

O ceifador
Isolou minha alma junto a sua.

Na quarentena
Meus olhos,
Sua roupa ao chão,
Braços com desejos
Ofegantes,
Gemidos.

De tempos em tempos
Preciso me lembrar
Que o mal não vem para todos!

Refugio-me no seu interior


Equilíbrio,
Me salvo em sua companhia.

Selma Aguiar dos Santos

167
PARA ALÉM DO ENVELHECER EM TEMPOS DE
DISTANCIAMENTO
_______________________________________________________

Os velhos já cumprem seu isolamento natural


Distanciados, sem eira nem beira
A sociedade acha normal

Não há pensamento no futuro


Vive-se no agora o tempo pretérito
Revivendo doces lembranças
E amargas derrotas

O tempo transforma juventude em velhice


O corpo escultural em flacidez
O cabelo preto em grisalhos
O rosto belo na pele enrugada

Envelhecer é ser esquecido


No tempo perdido
Pela família, pela sociedade e pelo Estado
Muitos órfãos de instituições vivas
Nada faz mais sentido

Envelhecer é perceber as fraquezas


É notar a lentidão
Perder os reflexos
Jogar tudo no chão
É transição

Envelhecer não é morrer


Porque morrer é a todo instante
É equidistante
Entre ser criança e adulto

É realmente confuso
Só perceber o envelhecer
Sentir e viver
Que a vida passa
Num compasso, num passo, num paço.

Sheila Marta Carregosa

168
MINHA MÃE
_______________________________________________________

Você é tudo em minha vida.


Minha água, minha terra,
Você faz meu coração bater mais forte todos os dias.

Você é minha luz.


Não sei como falar de você.
Sei que é tudo para mim,
É meu diamante.

Você é um anjinho que atura minhas bobagens,


Você é linda e maravilhosa.
Um verdadeiro presente de Deus.

Você é minha rainha,


Mora em meu coração,
Você é tudo.
Não sei o que faria sem você.

Este poema é para você,


Que está sempre comigo,
Beijos das suas gêmeas,
Siga seus sonhos.

Sofia e Beatriz Freitas Rocha

169
CONFINAMENTO
_______________________________________________________

No desolado isolamento
Em grito, lamento!
Indago aos quatro ventos
Quando chega este fim?
Há fim no confinamento?
Confins dizem de limites
Onde se fazem fronteiras
De encontro e separação
Intersecção de dois extremos
Fim e começo se encontrarão...

Soraia Sales

170
ENTRE NARRATIVAS
_______________________________________________________

Era para ser um conto poético do dia 12 de abril de 2020. De


um lado, a celebração da Páscoa pelos cristãos, que poderia
ser entre os dias 22 de março e 25 de abril, do outro, a
comemoração histórica dos 59 anos do primeiro homem no
espaço, pelo avanço da ciência: o cosmonauta soviético Yuri
Gagari pisou na lua e disse: “A terra é Azul! Se fora em
tempos atuais ratificaria que ela é redonda.”

As narrativas poderiam entrar em disputa, mas torço por dias


sem disputas. Daí, eu sigo na coexistência e me vejo situando-
me na magia do simbólico. De um lado, a ressurreição do
Cristo, do outro, a alegria de olhar a lua mais próxima, como
resultado da minha humanidade.

E pelo pensamento mágico me permito a navegar no conto de


Clarice Lispector intitulado “Felicidade Clandestina” e com
isto, de um lado, situar-me nas celebrações sem
necessariamente comungar com ideia da cruz, do pecado, do
sofrimento necessário para a expurgação da alma, mas sim no
desejo do milagre da multiplicação dos peixes, da
transmutação da água para o vinho e da não putrefação da
carne. Do outro, situo-me no desejo utópico de uma ciência
colaborativa de carne e osso, nos ofertando a possibilidade de
sonhar com a lua e nos devolver o planeta terra em azul. Azul!
Minha cor predileta que inspirou a música de Caetano Veloso
pela qual trago um pequeno trecho “Os pés da Índia e a mão
da África, Os pés no céu e a mão no mar” escancarando
outras narrativas religiosas que não a cristã, entre Iemanjá e
Krishina.

Suely Messeder

171
O TEMPO
_______________________________________________________

Eu penso no tempo
E em como ele mudou
Penso em tudo que se foi
E em como a gente não aproveitou.

Eu penso no tempo
E em tudo o que ele trará
Como a nossa esperança
Ou o pouco que dela restar
Será ou não suficiente pra gente recomeçar?

Eu penso no tempo que não tinha pra te abraçar


E como eu queria que ele voltasse
E parasse antes disso tudo começar
Que não nos obrigasse a nos afastar
Para mais tarde a gente se salvar.

Eu queria que esse mesmo tempo


Que tem nome de isolamento
E sobrenome recomeço
Mostrasse para a humanidade
Que, na verdade
O que restará é aquilo que a gente já sabe
Que sem vontade e coragem
Não há quem resista à sua passagem.

Suzana Martins

172
INFORMES DOS ARTRÓPODES
_______________________________________________________

Ontem um gafanhoto me contou


De como tem sido bom
Viver em quarentena humana

Os óbitos de insetos reduziram


E as sociedades de saúvas
Não buscam mais terapia como antes
Pois, o medo da morte esmagada
É coisa rara depois do Decreto Federal

Vespas circulam com liberdade


Mas, abelhas ainda lamentam
Pelas irmãs escravizadas em colmeia racional
E organizam uma revolta armada Apis

Mariposas mudaram seus hábitos


E já circulam em dias ensolarados
Com suas primas borboletas
Que multiplicaram casulos em todo planeta

Assim, a taxa de reprodução aumentou


E o amor passou a ser regra da oviparidade

Em chamada de vídeo
Dona aranha comemorou a vida
E compartilhou em live a conclusão
Da Assembleia Socialista dos Artrópodes (ASA):
De que a humanidade poderia ser exterminada
Ou prolongar seu isolamento social eternamente.

Thiago Dias

173
VIRALIZE
_______________________________________________________

Para conter a Covid-19


Vamos nos unir.
Se amem! Se guardem!
Temos que nos prevenir.

Permaneçam em casa!
Não caiam em conversinha
Porque o coronavírus
Não é uma gripezinha.

O vírus é capaz de tirar


O direito da felicidade.
Está sendo tão difícil
Não poder ter liberdade!

Estamos isolados
Parece uma prisão.
Saudade de um abraço
E de um aperto de mão.

Que situação complicada


Este vírus nos assombrou.
O que estamos vivendo
Parece um filme de terror.

Primeiro salvar as vidas


Depois a economia.
Será que o presidente viu
O impacto da pandemia?

Tantas vidas já se foram


Devido a esta doença.
Aos familiares das vítimas
Deixo aqui minhas condolências.

Que isso sirva de exemplo


A vida tem muito valor.

174
Aproveite cada segundo
E valorize quem nos criou.

Vamos manter a calma


É um momento de aflição.
Fique em casa!
E faça uma oração.

Valdeir Dias Oliveira

175
TRAGO VERDADES
_______________________________________________________

Quem durante o carnaval, diria que hoje estaríamos em


isolamento social?
Tem quem diga que a pandemia é coisa de Comunista.
Há quem pense que é hora de ir às ruas, mostrar que estar
pronto para o combate.
E não é combatchy, por mais que muita gente queira, não vai
rolar o fight.
A métrica do baile, hoje, toca só, sozinho.
Tá liberado mandar telegrama, fazer vídeo-chamada, mas, por
favor,
na quarentena, não chama ninguém pra sua cama.
Toma tento da responsabilidade! Isso tudo vai passar.
Como uma onda no mar... Mesmo que a onda seja brava,
Depois das águas de março, chega a hora da ressaca.
E não é ressaca de samba.
Nem todo mundo bebe, mas a perna sai bamba.
E no fim das contas, depois de tudo isso, vai chegar a hora
certa de comemorar,
beijar, abraçar, manifestar o afeto, mandar embora as asas do
tédio.
Que na quarentena insiste em nos atazanar!
Oh! Quarentena chata! Não vemos a hora de isso tudo acabar!
Bom seria se nada disso existisse, fosse um mero pesadelo.
Mas já que é real, na lata. Todos os dias, todas as horas
só se fala disso, no jornal.
Vamos então pensar que vai passar e colocar a cabeça no
lugar.
Pedir ao pai pra confortar o coração das famílias, das
crianças.
E daqueles que nesse momento perdem uma mãe, um tio, um
irmão.
Só nos resta agora fazer a nossa parte.
Ficar em casa! Lavar as mãos e sonhar com o desejo futuro.
Imagina... a métrica tocando em sol, solzinho, na beira da
praia.
Com o pé na areia, lembrando que fez o seu papel.

176
Salvou os seus mais velhos, o colega do trabalho, o vizinho...
E coloca em prática o seu direito mais simples: o direito e o
desejo de viver!

PrettadeLuz

177
O POETA E A QUARENTENA
_______________________________________________________

Nesta quarentena,
Não escreverei meu último poema.
Entenda o que digo!
O vírus só se propaga se tiver abrigo.

De pessoa para pessoa


O hóspede mortal se alastra sorrateiro.
Se puder fica em casa
Não seja mais um hospedeiro.

Cuide de si e dos seus, motivado,


Cada um fazendo sua parte.
Todos tomando cuidado,
Será apenas uma fase.

Aprendemos duas lições:


Que não podemos deixar passar
O verdadeiro significado de Educação
E da palavra Amar.

Vinícius Costa M.

178
PIRARUCUCADO CANTILENA DA PARANÓIA
_______________________________________________________

Quarentena – para alguns, a infeliz cantilena


do isolamento social. Para outros, uma amena
da tragédia social. Já a poucos o intento mouco
de uma novel eugenia nacional.

O ódio que farfalha das ventas da média burguesia


de quem se julga detentor dos domínios do Capital.
É tão inábil à sã consciência – que, no afã de sua indecência
se recolhe a protestos vis, face à prevenção da pandemia.

Endossada a isto, ao canto ideológico do novo mito


– ou no ataque muar de quem nega ao chefe traidor.
Um óbvio ululante assola – quase que em efeito delirante
o dado social terrivelmente assustador.

É a solidariedade brasileira – essa real cantarina.


Que se diz real – mas na tônica social é tão laboralmente
assassina
que “comuniza” o pobre, as minorias e o protesto lavrador.

Para descer o cruzeiro do interior – que do morro vai à


esquina
impor (na opressão) que a ética tradicional seguirá a sua sina
de (re)escravizar a vida – mesmo que a morte seja, aqui, a sua
menor dor.

Wagner de Oliveira Rodrigues

179
MISTÉRIO
_______________________________________________________

O mundo gira e a vida passa


Pessoas sofrem
Um inimigo silencioso agindo lentamente
Se espalhando e matando rapidamente.

Pessoas impacientes acabam-se tornando pacientes


Dos desconhecidos que não estão presentes
Centenas e milhares de parentes
Infelizmente hoje ausentes.

Há aqueles que ainda lutam, são combatentes.


De quem será a culpa?
Por detrás disso há uma mente agindo misteriosamente
Com planos de mudar a ordem do mundo
extraordinariamente?

Dias difíceis!
Não há coisas fáceis
O fácil não dura!
O difícil precisa de suor e luta.

Guerra, caos, desordem, mortes...


Não para por aí, os de cima dão as ordens!
Por vezes até sofrem os que seguem
Não há coisas fáceis
O fácil não dura!
O difícil precisa de suor e luta

Guerra, caos, desordem, mortes...


Não para por aí, os de cima dão as ordens!
Por vezes até sofrem os que seguem
Perguntem e os que mais sofrem?

Todos sabem a resposta


Pior cego é aquele que não quer ver
Cadê a humanidade gente?
Perdeu-se, está ausente?

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Toda a beleza e a bondade se perdendo
Que depois disso surjam pessoas melhores, pois temo que um
dia nosso estado selvagem se faça presente completamente.

Autor desconhecido

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POSFÁCIO
_______________________________________________________

Está obra é uma homenagem a todas as vítimas da Covid -


19.

No início do processo de organização desta obra,


pensei que ficaria comigo a missão de escrever a apresentação
da coletânea, para garantir que estivessem presentes todos os
aspectos formais e institucionais previstos nas normas
técnicas, mas só Deus conhece os seus planos, quis o destino
que este trabalho fosse apresentado pelos brilhantes textos de
meus companheiros nesta jornada: Jailda, Carlos e Ivan, que
– sem perder a leveza do texto poético – conseguiram não
deixar escapar nenhum detalhe da criação desta coletânea de
poesias brasileiras contemporâneas.
A mim, coube a missão de escrever este posfácio,
abrindo um portal para um multiverso de possibilidades e
dimensões que nossa criatividade pode encontrar em meio a
uma realidade tão brutal como a que vivemos. É como diz
nosso camarada Alberto Batinga: “Está obra é uma maré de
humanismo, num momento em que ele está ficando bastante
escasso.”
A organização deste trabalho não foi fácil, como
sempre, enfrentamos muitos obstáculos. Primeiro, a
quantidade de textos nos surpreendeu positivamente,
confirmando aquilo que nossa intuição já nos dizia: as
pessoas precisavam falar de suas angústias durante o
isolamento social. Reuniões online, muitos de nós ficamos
doentes com a Covid -19, outros tiveram que cuidar de seus
parentes e amigos enfermos. Neste momento foi que Rodrigo
foi incorporado à equipe e nos ajudou a concluir todo o
trabalho.
Esta coletânea veio para romper as barreiras que
ainda possam existir em relação ao texto acadêmico-científico
e o texto artístico-literário. A diversidade é a fonte da
criatividade humana e esta coletânea revela a ética da
alteridade presente em tudo que o CRDH/UNEB faz, pois,
esta obra é fruto de um trabalho coletivo de todos aqueles que
participaram enviando textos, trabalhando na organização ou
torcendo para que tudo desse certo.

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Agradecemos de coração a todos os membros do
CRDH/UNEB pela energia positiva que nos permite
transformar sonhos em realidade, como é o caso desse
trabalho. Para que pudéssemos tocar o projeto da coletânea,
outros projetos estavam sendo tocados por outras equipes e
quem sai ganhando é a sociedade. Podem ter certeza de que
esta coletânea é só o começo, muitos outros projetos vão ser
desenvolvidos pela equipe do CRDH/UNEB.
Por fim, quero dizer que somos protagonistas de nosso
tempo, testemunhas da história. Essa obra é uma fonte
histórica de tudo que estamos vivendo com a pandemia do
Coronavírus. Ela é um sopro de esperança, “mas é claro que o
sol, vai voltar amanhã. Mais uma vez, eu sei. Espera que o sol
já vem.” Como cantou o eterno poeta, Renato Russo.

José Cláudio Rocha

Ladeira do Carmo, Pelourinho


Salvador – Bahia

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