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A Teologia da Retribuição.

Por que
Deuteronômio 28 precisa ser lido com
cuidado?

A Aliança e a expressão da Lei


Por Gutierres Fernandes Siqueira

Não é função fácil interpretar o Antigo Testamento. Muitas doutrinas equivocadas como a
Teologia da Prosperidade e a Teologia Judaizante usam e abusam do Velho Testamento. É,
também, difícil combater tais doutrinas e práticas porque elas apresentam uma "aparência
bíblica" com inúmeros versículos fora do seu devido contexto. E, é claro, tudo isso nasce de
uma hermenêutica deficiente ou completamente ausente.

Você certamente já ouviu clichês como: "Quem não entrega o dízimo gasta na farmácia" ou
"crente que tem promessas de Deus não morre" e outras inúmeras frases infelizes. Assim como
já deve ter escutado uma pregação sobre prosperidade baseada em Deuteronômio 28 e outros
textos veterotestamentários. Agora, quer dizer que entregar o dízimo livra o crente de doenças
e infortúnios? Quer dizer que a vida é simples como uma negociação mercantil? Só uma mente
contaminada por uma visão pobre da Teologia Retribuitiva, diga-se de passagem, pode formular
uma frase que não passa no teste de veracidade.

A essência da Teologia da Retribuição consiste na noção de que a fidelidade a Deus é


plenamente recompensada com vida e bênção e a infidelidade é castigada com sofrimento e
miséria. A retribuição divina alcança uma dimensão material, sendo a prosperidade e a
estruturação familiar os pontos mais altos dessa aliança (leia-se "negociação") com Deus.

Ser fiel a Deus é garantia de prosperidade, saúde e família estruturada? O "bom crente" será
sempre uma ilha de tranquilidade diante das perturbações da vida? Em outras palavras, a
Teologia Retribuitiva é bíblica? Ora, a resposta é um "sim" e um "não", pois tal conclusão
depende do texto lido e o contexto escolhido. Com Deuteronômio 28 e outros textos mosaicos é
possível responder positivamente, enquanto que todo o Livro de Jó, o Salmo 73 e o Livro de
Habacuque darão uma resposta completamente negativa. E olha que são somente exemplos em
livros do Antigo Testamento. Em Hebreus 11, por exemplo, é evidente que a resposta soe
negativa e, também, nas epístolas paulinas como Romanos e Gálatas.

Por que há duas respostas para a mesma pergunta? Isso acontece porque o público não é o
mesmo. E acima de tudo, não se pode esquecer a Teologia da Aliança. As promessas
retribuitivas da Lei Mosaica referiam-se a aliança de Deus com a nação de Israel. Não se
aplicam a indivíduos ou à Igreja neotestamentária, mas somente à nação israelita como "povo
escolhido". O Novo Testamento [Novum Testamentum] não é apenas um conjunto de livros pós-
Cristo, mas a expressão, a aplicação e a explicação da Nova Aliança. 

A Aliança com Deus

Aliança é constantemente citada como a “concordância entre Deus e os seres humanos, na qual
Deus promete abençoar aqueles que o aceitarem e se comprometerem com Ele” [1]. Ainda
assim, é preferível lembrar o que escreveu J. Rodman Williams:
Uma aliança divina é um contrato obrigatório estabelecido soberanamente por Deus. Há, como
em alianças humanas, duas partes; mas não há acordo mútuo de termos. Uma aliança divina é
uma questão de mão única; Deus mesmo faz toda a promessa e estabelece todos os termos.
Trata-se essencialmente de uma aliança de Deus com o homem, não de Deus e o homem
firmando uma aliança entre eles. Assim, na Escritura, a designação é com frequência “minha
aliança”. A aliança ainda é bilateral, conquanto a aliança em si seja uma disposição soberana
de Deus. [2]
A Aliança é um pacto de salvação, sendo que a Aliança de Abrãao norteia todo o Antigo
Testamento, pois passa pela Aliança com Moisés (a revelação da Lei) e a Aliança com Davi
(reafirmação do pacto), mas o seu cumprimento está na pessoa e na obra de Jesus Cristo, o
filho de Davi. A aliança é uma forma de descrever o relacionamento de Deus com o seu povo e
indica um contínuo trabalhar de Deus na história, ou seja, é a história da salvação.

A Aliança de Deus com o seu povo é uma só, pois é a Aliança com o seu Filho. As identificações
históricas servem para entendermos o progresso da revelação, mas é necessário atentar para o
fato que a “nova” aliança é a consumação da experiência genuína de salvação com a pessoa de
Jesus Cristo. Era a promessa que passou por Abraão, Moisés e Davi. É a “aliança superior” (Hb
7.22 ARA), a “melhor aliança” (Hb 8.6 ARA), ou seja, “Jesus tornou-se... a garantia de uma
aliança superior” (NVI). É a “aliança da graça”. 

A Nova Aliança é superior, portanto, a Igreja está sob esse pacto. A Igreja não é Israel e Israel
não é a Igreja. O avanço (certamente há um termo melhor) da revelação de Cristo mostra mais
claramente a face da graça divina, mas ela nunca deixou de ser exposta no Antigo Pacto. “A
superioridade veio do progresso da revelação e não dos erros ou deliberada falsa informação
das alianças anteriores” [3]. 

Diante de um texto veterotestamentário é importante perguntar se tal mandamento ou tal


promessa se estende a toda humanidade pela Igreja universal ou que seja somente aplicada ao
povo de Israel. O mesmo vale para o mandamento do sábado ou para as
concepções retributivas. O sábado, só para exemplificar,  é colocado como sinal da Antiga
Aliança em Jeremias 17. E todos sabemos que a sua validade ficou restrita como sinal daquela
aliança. A Aliança, portanto, "não existe no vazio, mas em um tempo e lugar" [4] e assim se
entende a diferença entre Israel e a Igreja com os seus devidos papéis.

Deuteronômio 28

Portanto, o livro de Moisés e o capítulo 28 está dentro de um contexto, ou seja, o contexto da


aliança de Deus com Israel. O capítulo não pode ser usado sem “observações” para uma plateia
neotestamentária, ou seja, para pessoas que estão sob a Aliança da Graça. Como diz
sabiamente Ron Rhodes: “Ao interpretar as promessas de Deus, deixe o contexto determinar o
significado apropriado das palavras bíblicas” [5].

A Teologia Retribuitiva é um aspecto do Antigo Pacto, mas não podemos esquecer que com
Cristo tudo mudou. A Aliança consumada em Cristo não é mais com uma nação, mas sim com a
sua Igreja. E, a retribuição era um aspecto de aliança nacional, pois mesmo sobre os indivíduos
a retribuição não parece evidente. “Na literatura sapiencial, particularmente no livro de Jó,
constatamos que a teodiceia retribuitiva recebe um questionamento” [6]. 

Portanto, é necessário que o texto bíblico seja interpretado corretamente para que o pregador
não expresse aquilo que a própria Escritura condena.

Por que as promessas de


“prosperidade material” no Antigo
Testamento não são para os nossos
dias?
Por Gutierres Fernandes Siqueira

Abaixo segue um esboço que apresentarei neste domingo na Escola Bíblica Dominical. O esboço procura
responder a pergunta acima.

Por que as promessas de “prosperidade material” no Antigo Testamento não são


para os nossos dias?

1. Porque hoje Deus não trabalha com uma nação específica, como era Israel no Antigo
Pacto, mas sim com a Igreja. Hoje todos aqueles que aceitam o sacrifício de Cristo são o
Israel de Deus (Gálatas 6.16).

2. Algumas promessas bíblicas foram feitas para indivíduos específicos. A promessa de


Deus para um personagem bíblico não significa o mesmo para nós. Exemplo é Abraão em
Gênesis 12.2: “Eu farei de ti uma grande nação; abençoar-te-ei, e engrandecerei o
teunome; e tu, sê uma bênção”. É claro que nenhum de nós pode reivindicar essa
promessa.

3. Algumas promessas bíblicas foram feitas somente para a nação de Israel. Exemplo
disso é o famoso capítulo de Deuteronômio 28.1-68.

4. Em nenhum texto do Novo Testamento a saúde perfeita ou a prosperidade material é


prometida como fruto da obediência a Deus. As “promessas” do Novo Testamento são
perseguições e provações. Como disse Paulo: “E na verdade todos os que querem viver
piamente em Cristo Jesus padecerão perseguições” (2 Timóteo 3.12). Leia também
Mateus 5. 10-11. e Marcos 10. 29-30.

5. Os versos de sabedoria contidos em Provérbios não podem ser traduzidos como
promessas. O livro de Provérbios mostra princípios gerais observados sobre o cotidiano e
a vida das pessoas. Um exemplo está em Provérbios 24.25, que diz: “mas para os que
julgam retamente haverá delícias, e sobre eles virá copiosa bênção”. De fato, como
observa o Rei Salomão, os que julgam retamente desfrutam de delícias derivadas da
justiça. É uma observação que Salomão viu na vida dele e de muitos outros, mas essa
observação não é uma promessa. O autor quer dizer que a prática da justiça conduz
normalmente para uma vida de delícias, mas isso não é automático. É possível praticar a
justiça e desfrutar de amargura. Jesus mesmo disse: “Bem-aventurados os que são
perseguidos por causa da justiça” (Mateus 5.10). Nenhuma perseguição é uma delícia.
Portanto, os versos dos provérbios devem ser vistos como princípios gerais e não como
promessas automáticas.

6. Os conceitos de alguns personagens registrados na Bíblia não significam promessas


bíblicas. O maior exemplo está no livro de Jó. Muito do que é dito pelos amigos de Jó
depois é contestado pelo próprio Deus no início ou no final do livro. Para Bildade, por
exemplo, Jó sofria aquele mal porque não era justo: “Se fores puro e reto, certamente
mesmo agora ele despertará por ti, e tornará segura a habitação da tua justiça” Jó 8.6. O
próprio Deus testemunhou a justiça de Jó (1.8). Bildade estava errado, mas as palavras
deles estão registradas para entendermos a história e não para aplicarmos os seus
conceitos equivocados para os nossos dias.

7. A chave de compreensão do Antigo Testamento passa por Jesus Cristo. A Bíblia diz:
“Havendo Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos
profetas, nestes últimos dias a nós nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de
todas as coisas, e por quem fez também o mundo” (Hebreus 1. 1-2) A chave de
interpretação das promessas do Antigo Testamento precisam ser feitas a partir de uma
leitura geral das Escrituras.

8. A Bíblia é mais do que um livro de experiências. O esquema “espiritualize, alegorize e


devocionalize” não serve para todos os textos bíblicos e pode distorcer o conteúdo de
muitos textos. É necessário um exercício de correta interpretação do texto bíblico levando
em conta o contexto imediato, a gramática, o tempo, o tipo de literatura, o contexto
histórico, as interpretações históricas etc. Exemplos dessas contextualizações abusivas são
as campanhas neopentecostais, tais como “318 pastores”, “Ano de Elias”, “Jejum de
Sansão” etc.

Bibliografia:

LUTZER, Erwin W. Quem é Você para Julgar? 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2005. p 64-66.

RHODES, Ron. O Livro Completo das Promessas Bíblicas. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. p
19-27. 

ROMEIRO, Paulo. Decepcionados com a Graça. 1 ed. São Paulo: Mundo Cristão, 2005. p 117-
131.