Você está na página 1de 11

cartilha sobre

critérios

mínimos
Um documento político

sobre o EAD e os critérios mí


nimos
0. Introdução
Durante as últimas assembleias e reuniões realizadas
pelo Centro Acadêmico Florestan Fernandes, alguns
repasses e debates foram estabelecidos a respeito I) do
contexto atual da pandemia; II) dos problemas gerados
pelo adiamento do vestibular da Unesp (fato que gerou a
separação dos calendários dos veteranes e dos
ingressantes); III) da conjuntura das crises social, política,
econômica e sanitária vividas no atual momento; IV) da
qualidade do Ensino Remoto (ER); e V) dos impactos sofridos
pelas alunas, alunes e alunos do curso. Levando em
consideração as falas, opiniões e levantamentos sobre
essa realidade, torna-se necessário refletir e pensar sobre
o papel social da Universidade Pública em meio à
pandemia.

A reunião da Comissão Permanente de Ensino (CPE), que


a princípio será realizada na sexta-feira do dia 16/04, para
debater a unificação dos critérios mínimos na possibilidade
de realização das aulas, torna necessário o diálogo prévio
com a base estudantil, visando a coleta de dados acerca
da opinião das alunas e alunos do curso de Ciências
Sociais para realizar um balanço do Ensino Remoto; é
imprescindível, portanto, o debate para levantar as
principais considerações que a base deseja levar como
critérios mínimos para a reunião.

Dessa forma, este documento foi elaborado com o intuito


de contextualizar e situar todes para que seja possível
realizar encontros com as salas do curso fomentando o
debate e, posteriormente, uma assembleia na qual se
constituirá um documento com as considerações
levantadas pelo corpo discente.
1. Calendário da Unesp
Na última reunião de congregação foi tirado um
encaminhamento para que a CPE discutisse novamente os
critérios mínimos e trouxesse uma possível proposta de
unificação dos mesmos. Na última reunião aberta da
gestão do Centro Acadêmico, foi levantada a necessidade
de uma nova conversa com o corpo estudantil de Ciências
Sociais a fim de realizar um balanço dos semestres
anteriores e critérios até então validados à tempo dessa
proposta de unificação; para isso, houve a indicação de
reuniões por sala (ou ano) para fomentar a discussão e
nivelar tais critérios. Juntamente desse debate, há a
questão da possibilidade de diferentes calendários letivos
para ingressantes e veteranes, visto que a data de
rematrícula se aproxima e os vestibulandos seguem
aguardando novas informações a respeito de uma data
definitiva para a segunda fase do vestibular da UNESP. Caso
essa medida seja aprovada, ela apresenta danos não só
para o corpo estudantil como um todo devido a quebra de
comunicação para com os novos alunos; mas também
levando a um período de férias reduzido, ou talvez,
inexistente, para o corpo docente que precisará intercalar
os calendários.

Também é necessário frisar o caráter que se prometeu


temporário do Ensino Remoto, alegando que o mesmo não
precisaria se adequar às metodologias e pedagogias
básicas do curso, visto que, tratava-se apenas de uma
saída emergencial. Embora as aulas presenciais ainda não
sejam uma possibilidade, é necessário reivindicarmos e nos
posicionarmos de forma combativa a manutenção desse
Ensino à Distância precarizado e sem data para se
encerrar.
Além do déficit de ensino gerado pelo sistema remoto, é
preciso pensar em questões materiais de aprendizagem e
na impossibilidade de diversos discentes de
acompanharem o curso dessa maneira; assim como
problemas de saúde mental, financeiros e diversas
problemáticas que se não surgiram, se agravaram durante
o período de pandemia. Tudo isso deve ser levado em
consideração no momento de discutir e repensar os
critérios mínimos.

2. Críticas ao Ensino Remoto e Precarização


do Ensino na Universidade Pública
É de suma importância relembrar que, com a eclosão da
pandemia de Covid-19 em março de 2020, as REItorias das
Universidades Públicas (Estaduais e Federais) apresentaram
o ER enquanto única saída possível, para que, mesmo em
meio ao isolamento social, fosse possível manter um de
seus tripés: o ensino. Juntamente à imposição do Ensino
Remoto, foi feita a defesa de que esta modalidade não se
equivaleria ao EaD (Ensino a Distância), pois teria um
caráter estritamente circunstancial e emergencial.
Acreditamos que há uma diferenciação entre as duas
modalidades, mas com o Ensino Remoto conservam-se os
danos pedagógicos dos meios remotos e evidenciam-se as
condições impostas pelo improviso, que podem ser lidas
como uma precarização do modelo a distância como
substituto do presencial. Possuímos inúmeras críticas ao
Ensino Remoto, pois esse modelo passa longe de oferecer
um processo de educação que defendemos, para além de
pertencer a um projeto de mercantilização da educação.
O ER não possui uma mínima estrutura ou planejamento
estratégico pedagógico pensados para minar ou diminuir
as desigualdades na educação, e no contexto em que está
inserido vem como improviso, um tapa buraco para manter
uma mentalidade produtivista e que simula uma
normalidade inexistente. Assim, boa parte das/dos
estudantes e professoras/es não foram devidamente
familiarizados à intermediação tecnológica da educação, e
as aulas passaram acontecer de modo sincrônico com
longas durações, e sem definir plataformas comuns para
utilização e principalmente sem garantir as condições
mínimas de estudo e acessibilidade.

Muito embora, a falta de acessibilidade não é único


problema causado pela imposição do Ensino Remoto na
Educação Pública, pois este representa também a
mercantilização do conhecimento e da educação, onde
grandes conglomerados, mercadores da educação e
empresas de tecnologia encontraram um meio lucrativo
para aprimorar seus softwares e equipamentos eletrônicos.
Como exemplo, podemos citar as ações de empresas
como a plataforma de vídeo Zoom que estão cada vez
maiores, superando o valor de capitalização da Vale,
Ambev e da Petrobrás.

Outra crítica possível é frente a precarização do processo


de ensino aprendizagem e a perda de qualidade
pedagógica. Pois este processo não pode ser reduzido
meramente a reprodução de conteúdos e formulações
acríticas, tão pouco ser subordinado à resposta de
avaliações de maneira mecânica, muito pelo contrário.
A relação de ensino aprendizagem depende da
socialização e de vínculos entre estudantes e docentes e
deve estar sempre em constante preocupação com as
condições de estudo e os diversos ritmos de aprendizagem.
As relações do trabalho docente também são
profundamente impactadas com a educação não
presencial, levando muitas vezes à sobrecarga física e
emocional, por vezes até mesmo ao desemprego.

A discussão crítica do Ensino Remoto se faz necessária,


pois temos declarações de REItores afirmando a
manutenção deste modelo não presencial de educação,
mesmo após o período pandêmico. Se não bastasse a
mercantilização e a precarização trazidas pelo Ensino
Remoto, na UNESP fazem 5 anos que não há novas
contratações de professores sob o argumento de uma
constante crise orçamentária. Portanto, nossa crítica deve
ser no sentido de denunciar e evidenciar a trajetória de
precarização da educação pública (superior e básica) ao
mesmo passo em que firmamos o pé na defesa de uma
educação verdadeiramente popular, com qualidade e a
serviço do povo. E devemos sempre questionar: Qual seria o
papel social de uma universidade durante uma pandemia?
A quem serve o conhecimento nela produzido?

Alguns problemas do EaD são:

I) Não há espontaneidade para interações em sala de aula;

II) Não há possibilidade de socialização, troca de


informações e conhecimentos nos espaços que não são de
aulas;
III) É necessário possuir meios eletrônicos como
computador, o que não é realidade para todos os
brasileiros, o que significa que há uma desigualdade de
acesso a esse modelo de ensino;

IV) É necessário ter um bom acesso à internet;

V) Não são todas/os as/os estudantes que têm domínio da


utilização de computadores/internet;

VI) Atenuação das diferenças de ritmo de aprendizagem;

VII) Em um contexto de pandemia e isolamento social,


alguns outros pontos podem ser somados as já
mencionadas problemáticas da EaD:

VIII) Muitas pessoas estão dentro de casa com suas


famílias, o que acarreta na acumulação e sobrecarga de
trabalho doméstico;

IX) Aumento das tarefas de cuidados com crianças para


estudantes que são mães e pais, uma vez que escolas
privadas e o próprio governo estadual de João Dória estão
implementando medidas parciais ou totais de EaD;

X) Em caso de contaminação com o vírus COVID19, famílias


despendem de todo o tempo possível disponível no cuidado
e preocupação com a pessoa doente;

XI) Agravamento de quadros de ansiedade e depressão –


entre outros transtornos psicológicos.
Dito isto, há algum tempo observamos um quadro de
desmonte estrutural dos cursos de ciências humanas na
Universidade Pública, cenário que não se faz diferente na
Ciências Sociais - principalmente no que diz respeito ao
campus de Araraquara e seu respectivo processo de fusão
de departamentos. O processo de redepartamentalização
tocado às pressas e suas consequentes falhas, desde a
ausência de contratação de professores substitutos para
as áreas troncos ou até mesmo bolsistas didáticos para
assumir as disciplinas base; assim como, a consequente
realocação de docentes para matérias das quais não são
especializados, fugindo do pilar de ensino e pesquisa tão
prezado na Universidade e levando à perda de qualidade
das disciplinas ofertadas. Pensando na precarização do
curso, é preciso levar em consideração o cancelamento do
concurso de contratação docente para a área de
Sociologia em março de 2020, a qual já possuía banca
prevista, porém foi cancelado devido ao início da
pandemia, e que permanece sem previsão de retomada
desde então.

3. O Papel da Universidade Pública em meio a


Pandemia
Além disso, desde o começo da pandemia ouvimos o
mesmo discurso: a afirmação acrítica de que a
Universidade não pode parar mesmo no período em que
estamos vivendo. Contudo, é necessário que nos
perguntemos: a Universidade não pode parar por quê? e
para quem?
Nós compreendemos que a principal tarefa histórica
daqueles que estudam e formulam ciência em 2021 seja a
derrota de Bolsonaro e do Bolsonarismo, além da
participação ativa na divulgação de artigos científicos e na
propagação da verdade dentro disputa ideológica contra
o obscurantismo e o negacionismo propagado de forma
tão ampla pelo (des)governo de Jair Bolsonaro e sua
gangue de ministros.

Nesse sentido, é válido afirmar que as Universidades


deveriam respeitar tal tarefa histórica, respeitando também
e principalmente as limitações dos seus estudantes. O
Ensino Remoto nada fez senão piorar as condições de
aprendizagem e transformar a Universidade cada vez mais
num espaço precarizado e excludente. A mesma
Universidade que se gaba e faz propaganda afirmando que
têm maioria de estudantes em condição de vulnerabilidade
social, não pode escorraçar esses estudantes dos espaços
intelectuais por não ter as mesmas condições de acesso do
que os melhores posicionados na estratificação social.

O projeto de precarização da Universidade não é de hoje.


Desde 2009 temos registros de tentativas de
implementação do Ensino a Distância (EAD) na UNESP como
método pedagógico oficial, além de termos visto repetidas
vezes nossos cursos passarem por reformas na grade de
modo a acomodar sua estrutura à total falta de esforço por
parte da Reitoria em contratar mais Professores para
cursos/departamentos que estão defasados desde 2014.
Nesse marco, é fundamental a compreensão de que o
Ensino Remoto veio para ficar. Sob a desculpa da urgência
da continuidade dos trabalhos acadêmicos durante a
pandemia, foi implementado; Em nome da modernização e
adaptabilidade da Universidade, será efetivado no plano
pedagógico. Essa condição nos impõe uma nova dinâmica
de luta: A luta pelo perfil de universidade que defendemos.
Se a nossa vontade é que a universidade seja popular,
pública e que tenha a capacidade de extrapolar seus
próprios muros, seremos contra o ensino remoto. Do
contrário, estaremos entregando de mão beijada a
estrutura da UNESP à serviço da mercantilização do ensino.

Centro Acadêmico de Ciências Sociais Florestan Fernandes.