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PODER JUDICIÁRIO

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO

Registro: 2021.0000387309

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos estes autos de Agravo de Instrumento nº


2075076-64.2021.8.26.0000, da Comarca de Itu, em que é agravante MUNICIPIO
DA ESTÂNCIA TURÍSTICA DE ITU, é agravado DOMINGOS MARTELINI
NETO.

ACORDAM, em sessão permanente e virtual da 15ª Câmara de Direito


Público do Tribunal de Justiça de São Paulo, proferir a seguinte decisão: Não
conheceram do recurso. V. U., de conformidade com o voto do relator, que integra
este acórdão.

O julgamento teve a participação dos Desembargadores ERBETTA FILHO


(Presidente sem voto), EUTÁLIO PORTO E RAUL DE FELICE.

São Paulo, 21 de maio de 2021.

TANIA MARA AHUALLI


Relator
Assinatura Eletrônica
PODER JUDICIÁRIO
TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE SÃO PAULO

Agravo de Instrumento nº 2075076-64.2021.8.26.0000


Agravante: MUNICÍPIO DA ESTÂNCIA TURÍSTICA DE ITU
Agravado: DOMINGOS MARTELINI NETO
Comarca: ITU
Juiz da Vara de origem: Fernando França Viana
Voto nº 00088

AGRAVO DE INSTRUMENTO – Execução fiscal -


Município de Itu – Decisão agravada que rejeitou embargos
infringentes mantendo a extinção da execução fiscal - Valor
da execução que é inferior ao valor de alçada considerada
a data da propositura da ação – Interpretação do art. 34 da
Lei 6.830/80 que não permite recursos contra decisões
proferidas em feitos com valor menor ao de alçada –
Precedentes do c. STJ e deste TJSP – Decisão mantida -
Recurso não conhecido.

Trata-se de agravo de instrumento interposto pelo MUNICÍPIO DA


ESTÂNCIA TURÍSTICA DE ITU contra a r. decisão copiada às fls. 14/15 que, em
execução fiscal ajuizada em face de DOMINGOS MARTELINI NETO, rejeitou os
embargos infringentes opostos e manteve a r. sentença recorrida, pela qual foi julgada
extinta sem resolução do mérito a execução, porquanto ajuizada em desfavor de pessoa
falecida antes da propositura da ação e/ou regular citação, bem como em razão da
impossibilidade de alteração do polo passivo da demanda.

Recorre a Municipalidade pretendendo a reforma da decisão agravada.


Aduz que é de responsabilidade do contribuinte providenciar junto ao cadastro imobiliário a
alteração de seus dados e a consequência de sua omissão, nesse tópico, resulta na
responsabilidade tributária do pagamento de todos os tributos anteriores ou posteriores à
transferência da propriedade de seu imóvel. Assim, o executado era parte legítima para
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figurar no polo passivo, uma vez que não houve, até o momento, comunicação de alteração
cadastral referente à transferência do bem de sua propriedade. Além disso, tratando-se de
cobrança de IPTU, ainda que assim não fosse, referido imposto é propter rem, ou seja,
segue o imóvel e não o seu proprietário. Sustenta, ainda, a possibilidade de alteração do
polo passivo, na forma do art. 2º, da Lei 6.830/80, não sendo o caso de aplicação da Súmula
392 do STJ.

Recurso tempestivo e isento de preparo.

Desnecessária a intimação da parte contrária para oferecimento de


contraminuta, porquanto não aperfeiçoada a relação processual.

É o relatório.

O recurso não merece ser conhecido.


Depreende-se dos autos que a Municipalidade promoveu execução fiscal
pretendendo a cobrança de IPTU referente ao exercício de 2014, no valor de R$566,63 (fls.
8/10). No entanto, a ação foi extinta sem julgamento do mérito, em razão de ter sido
ajuizada em face de pessoa já falecida quando da propositura da demanda (fls. 11/13).
Inconformada, a ora agravante interpôs recurso de apelação, o qual foi
recebido como embargos infringentes, e estes, por sua vez, foram rejeitados pela decisão
objeto deste recurso (fls. 14/15).
Esta 15ª Câmara de Direito Público possui entendimento pacífico no
sentido da impossibilidade de conhecimento de recursos quando o valor atribuído à causa
for inferior ao valor de alçada.
Assim dispõe o art. 34 da Lei de Execução Fiscal:

“Art. 34. Das sentenças de primeira instância proferidas em execuções


de valor igual ou inferior a 50 (cinquenta) Obrigações Reajustáveis do
Tesouro Nacional - ORTN, só se admitirão embargos infringentes e de
declaração”.

E quanto ao valor de 50 ORTN, decidiu o C. Superior Tribunal de


Justiça:

“PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL REPRESENTATIVO DA


CONTROVÉRSIA. ART. 543-C, DO CPC. TRIBUTÁRIO. EXECUÇÃO
FISCAL. VALOR DE ALÇADA. CABIMENTO DE APELAÇÃO NOS
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CASOS EM QUE O VALOR DA CAUSA EXCEDE 50 ORTN'S. ART. 34


DA LEI N.º 6.830/80 (LEF). 50 ORTN = 50 OTN = 308,50 BTN =
308,50 UFIR = R$ 328,27, EM DEZ/2000. PRECEDENTES.
CORREÇÃO PELO IPCA-E A PARTIR DE JAN/2001.
1. O recurso de apelação é cabível nas execuções fiscais nas hipóteses
em que o seu valor excede, na data da propositura da ação, 50
(cinqüenta) Obrigações Reajustáveis do Tesouro Nacional - ORTN, à
luz do disposto no artigo 34, da Lei n.º 6.830, de 22 de setembro de
1980.
2. A ratio essendi da norma é promover uma tramitação mais célere nas
ações de execução fiscal com valores menos expressivos, admitindo-se
apenas embargos infringentes e de declaração a serem conhecidos e
julgados pelo juízo prolator da sentença, e vedando-se a interposição de
recurso ordinário.
3. Essa Corte consolidou o sentido de que "com a extinção da ORTN, o
valor de alçada deve ser encontrado a partir da interpretação da norma
que extinguiu um índice e o substituiu por outro, mantendo-se a
paridade das unidades de referência, sem efetuar a conversão para
moeda corrente, para evitar a perda do valor aquisitivo", de sorte que
"50 ORTN = 50 OTN = 308,50 BTN = 308,50 UFIR = R$ 328,27
(trezentos e vinte e oito reais e vinte e sete centavos) a partir de
janeiro/2001, quando foi extinta a UFIR e desindexada a economia".
(REsp 607.930/DF, Rel. Ministra Eliana Calmon, Segunda Turma,
julgado em 06/04/2004, DJ 17/05/2004 p. 206)
(...)
7. Dessa sorte, mutatis mutandis, adota-se como valor de alçada para o
cabimento de apelação em sede de execução fiscal o valor de R$ 328,27
(trezentos e vinte e oito reais e vinte e sete centavos), corrigido pelo
IPCA-E a partir de janeiro de 2001, valor esse que deve ser observado à
data da propositura da execução.
(...)
9. Recurso especial conhecido e provido. Acórdão submetido ao regime
do art. 543-C do CPC e da Resolução STJ 08/2008.
(REsp 1168625/MG, Rel. Ministro LUIZ FUX, PRIMEIRA SEÇÃO,
julgado em 09/06/2010, DJe 01/07/2010)

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Adotando-se, assim, a forma de cálculo estabelecida pelo STJ, o valor de


alçada correspondia a R$ 982,78 na data do ajuizamento da ação, em novembro de 2016,
enquanto a dívida executada era de R$ 566,63, sendo, portanto, inferior ao valor de alçada,
o que impede a interposição de recursos, incluindo o de agravo de instrumento, contra
decisões proferidas na execução fiscal.

Quanto a extensão do art. 34 da LEF aos agravos de instrumento, já


decidiu o c. STJ:

“PROCESSUAL CIVIL E TRIBUTÁRIO. EXECUÇÃO FISCAL. VALOR


DA CAUSA INFERIOR A 50 ORTNS. ALÇADA. RECURSO DE
AGRAVO DE INSTRUMENTO. APLICAÇÃO. 1. A execução judicial
para cobrança da Dívida Ativa da União, dos Estados, do Distrito
Federal, dos Municípios e respectivas autarquias é regida pela Lei n.
6.830/1980 e, subsidiariamente, pelo Código de Processo Civil,
conforme dispõe o art. 1º da referida Lei de Execução Fiscal. 2. O art.
34 da LEF estabelece o valor de alçada para eventual acesso ao
segundo grau de jurisdição no montante de 50 (cinquenta) Obrigações
Reajustáveis do Tesouro Nacional - ORTNs. 3. Em interpretação
sistemática do regramento legal, conclui-se pelo não cabimento do
agravo de instrumento contra decisões interlocutórias na hipótese de a
execução fiscal não alcançar o valor de alçada do art. 34 da Lei n.
6.830/1980, conforme antigo entendimento jurisprudencial sedimentado
na Súmula 259 do ex-TFR. 4. Hipótese em que não é cabível a
interposição do agravo de instrumento, tendo em vista que o IBAMA
pretende a revisão de decisão interlocutória a respeito da utilização do
BACENJUD/RENAJUD, em execução fiscal de baixo valor. 5. Recurso
especial não provido.” (REsp nº 1.743.062/SC, Rel. Min. GURGEL DE
FARIA, PRIMEIRA TURMA, j. 21/8/2018).

Na ocasião daquele julgado, o relator deixou expressamente consignado


que:

“(...) E, de fato, em interpretação sistemática do regramento legal,


bastante razoável entender pelo não cabimento do agravo de

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instrumento, na hipótese de a legislação processual impor valor mínimo


de alçada para eventual acesso ao segundo grau de jurisdição.

Com efeito, se o legislador pretende não permitir o duplo grau de


jurisdição nas execuções de pequeno valor, com o fim de dar maior
celeridade ao processo executivo, não se revela coerente permitir a
interposição de agravo de instrumento contra decisões interlocutórias
proferidas nesses feitos, com exceção lógica das decisões que possam
afetar a própria regra de competência do órgão judicial de segundo
grau, como destacado na Súmula 259 do TFR: decisões referentes ao
valor da causa ou à admissibilidade de recurso.

A propósito da intenção do legislador quanto ao processo executivo


fiscal de baixo valor, a interpretação conferida por este Tribunal
Superior ao art. 34 da Lei n. 6.830/1980 é no mesmo sentido da
celeridade da tramitação.

Se a competência do órgão judicial de segundo grau só pode ser


inaugurada no caso de a execução fiscal possuir valor superior à alçada
fixada pela lei, não faz sentido permitir o acionamento do Tribunal para
a revisão de decisões interlocutórias. Imperiosa, portanto, à luz
princípio da especialidade, a observância do valor de alçada fixado
pela Lei n. 6.830/1980 para fins de interposição do agravo de
instrumento.

Nessa linha, deve-se reconhecer que o valor de alçada do art. 34 da Lei


n. 6.830/1980 também se aplica aos agravos de instrumentos, nos
termos de antigo entendimento jurisprudencial sedimentado na Súmula
259 do TFR: "Não cabe agravo de instrumento em causa sujeita à
alçada de que trata a Lei 6.825/80, salvo se versar sobre o valor da
causa ou admissibilidade de recurso”.

De rigor, portanto, a manutenção da decisão ora, agravada, já que este


recurso não merece ser conhecido.

Considera-se prequestionada toda matéria infraconstitucional e


constitucional, observando-se que é pacífico no âmbito do Colendo Superior Tribunal de

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Justiça que, tratando-se de prequestionamento, é desnecessária a citação numérica dos


dispositivos legais, bastando que a questão posta tenha sido abordada no bojo do processo.

Ante o exposto, pelo presente voto, NÃO SE CONHECE do recurso.

Tânia Ahualli
Relatora

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