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SUBSCREVEMOS: “POSTE”, “SERVO”, “OMISSO”

Em algumas de suas colunas na Folha de S.Paulo e em


postagens nas suas redes sociais, o professor Conrado
Hübner Mendes criticou o Procurador-Geral da República,
Augusto Aras. Todas as críticas foram feitas a uma
autoridade pública, e não ao indivíduo que ocupa o cargo; e
dizem respeito a escolhas inerentes ao cargo, abertas por
definição a controvérsias, e sujeitas ao escrutínio público.

O PGR agora tenta intimidar seu crítico por meio de uma


representação à Comissão de Ética da Universidade de São
Paulo, na qual Mendes é professor de Direito
Constitucional. Segundo reporta o jornalista Felipe
Recondo, do portal JOTA, Aras pretende também processar
Mendes criminalmente por calúnia, difamação e injúria[1].
Trata-se de iniciativa intimidatória, inédita na história da
Procuradoria-Geral da República: jamais os antecessores de
Aras, mesmo quando duramente criticados na imprensa,
buscaram calar críticos que se dispuseram a apontar limites
às suas ações.

Aras melindrou-se, entre outras coisas, porque foi chamado


de “omisso” e “servo” do Presidente da República.
Classificou as críticas como “fake news”, porque seriam
desprovidas de fundamento fático. Mas, ao contrário do que
sua representação contra o professor Mendes diz, há razões
de sobra para criticá-lo por omissão e servilidade.

Em novembro de 2019, Augusto Aras posicionou-se contra


abertura de investigação contra Jair Bolsonaro e seu filho
por suposta obstrução às investigações sobre a morte de
Mariele Franco[2]; em junho de 2020, demorou dias para
manifestar tímida reprovação à esdrúxula ideia de
“intervenção militar constitucional”[3], defendida por
manifestantes com os quais Jair Bolsonaro havia
confraternizado repetidas vezes, e só o fez após protestos
contra seu silêncio; em agosto de 2020, minimizou críticas
ao chamado “dossiê antifascista”, no qual o governo
perfilava policiais e professores universitários por suas
posições políticas, tratando-o como atividade típica de
inteligência[4]; em setembro de 2020, contrariando
posições até então defendidas por seus antecessores e a
jurisprudência mais recente do STF, manifestou apoio à tese
defendida por Flávio Bolsonaro, para garantir-lhe foro
privilegiado estendido para além do tempo do cargo de
deputado estadual[5]; no mesmo mês, opinou contra
investigação sobre interferências de Jair Bolsonaro em
benefício de Frederick Wassef, advogado da família
Bolsonaro que se tornou célebre por esconder o miliciano
Fabrício Queiroz[6]; apenas em fevereiro de 2021, quando
o país contabilizava mais de 200.000 mortes pelo novo
coronavírus, Aras instaurou “apuração preliminar” sobre as
condutas de Jair Bolsonaro no enfrentamento da pandemia
de Covid-19,[7] após muitas críticas por sua omissão; em
abril de 2021, Aras manifestou-se contra
qualquer apuração relativa a Jair Bolsonaro pelo uso da Lei
de Segurança Nacional contra críticos do governo[8]; e, há
poucos dias, rejeitou tomar qualquer providência após
divulgação do áudio telefônico entre Jair Bolsonaro e o
senador Jorge Kajuru[9].
Como se vê, há motivos abundantes para criticar Augusto
Aras por sua inação, e Conrado Hübner Mendes foi preciso
em chamá-lo de “omisso”. E há também motivos de sobra
para denunciar a falta de iniciativa de Aras em relação ao
Presidente da República, a quem o Procurador-Geral da
República deveria fiscalizar com independência. Além das
omissões já citadas, que sempre favorecem os interesses
políticos e familiares do Presidente da República, Aras não
perde oportunidade para demonstrar alinhamento político e
ideológico com Jair Bolsonaro. Do apoio à abertura de
templos e igrejas no auge da pandemia[10] à cantilena
contra o uso de verbas por governadores no enfrentamento
da doença,[11] Augusto Aras tem feito da Procuradoria
Geral da República um órgão previsível: para onde
apontarem os interesses do governo, para lá ela rumará.
Não é servilidade a palavra que define a autoridade de
quem a Constituição exige altivez e independência, mas que
escolhe se portar como representante dos interesses de um
presidente?

Diante desse histórico, a representação de Augusto Aras


contra o professor Mendes ironicamente comprova o acerto
de outra crítica feita ao PGR: sua “desfaçatez”. É
impensável que, no cenário trágico que hoje assola do
Brasil, Aras entenda que artigos de jornal e tweets de um
professor universitário que o criticam no exercício de sua
atividade pública mereçam as mais duras respostas, mas
que os incessantes comportamentos hostis à Constituição e
a medidas sanitárias consensuais, praticados pelo Presidente
da República, redundem sempre em previsível
arquivamento — ou, quando muito, em investigação
preliminar (que todos imaginamos como acabará).

A tentativa de intimidação de Augusto Aras a um professor


universitário que o critica, cuja liberdade ele deveria
respeitar e defender, em comparação à passividade
constante que ele reserva ao Presidente da República, a
quem ele
deveria rigorosamente fiscalizar, exemplificam a tibieza
com que ele exerce seu cargo. Quem se agiganta perante
críticos, mas se apequena diante de atos que possam
configurar crimes das maiores autoridades, é desprovido da
coragem indispensável ao exercício da Procuradoria-Geral
da República. Vê-se aqui renovada a “covardia jurídica”
que Conrado Hübner Mendes bem denunciou.

Daqui para frente, ao sentir-se impelido a abusar da estatura


de seu cargo para intimidar seus críticos, exortamos o
Procurador-Geral da República a render-se, como de
costume, à omissão: permaneça um “poste”, para fazer jus à
imagem que agora o acompanhará por toda a história.

Brasil, 18 de maio de 2021.

***

Nós, professoras e professores, e profissionais do direito


abaixo assinados, subscrevemos ipsis litteris todas as
críticas feitas por Conrado Hübner Mendes ao Sr. Augusto
Antônio Brandão Aras, Procurador-Geral da República, em
especial aquelas destacadas na representação por ele
encaminhada à Universidade de São Paulo contra o
professor.

Em ordem alfabética:

1. Adriane Sanctis de Brito (Centro de Análise da Liberdade


e do
Autoritarismo)
2. Profª. Amélia Sampaio Rossi (Faculdade de Direito da
PUC-PR)
3. Prof. André Luiz Souza Coelho (Faculdade Nacional de
Direito – UFRJ)
4. Prof. André Rodrigues Corrêa (FGV Direito SP)
5. Profª. Angela Cassia Costaldello (Faculdade de Direito
da UFPR)
6. Prof. Argemiro Cardoso Moreira Martins (Faculdade de
Direito da UnB)
7. Aristóteles de Queiroz Camara (advogado)
8. Prof. Bartolomé Clavero (Facultad de Derecho,
Universidad de Sevilla)
9. Prof. Breno Baía Magalhães (Faculdade de Direito da
UFPA)
10. Prof. Carlos Eduardo Batalha da Silva e Costa
(Faculdade de Direito de
São Bernardo do Campo)
11. Prof. Carlos Luiz Strapazzon (PPGD Unoesc, PPGD
Universidade
Positivo)
12. Profª. Catarina Helena Cortada Barbieri (FGV Direito
SP)
13. Profª. Clarissa Piterman Gross (FGV Direito SP)
14. Prof. Cláudio Ladeira de Oliveira (Centro de Ciências
Jurídicas – UFSC)
15. Prof. Claudio Michelon (Edinburgh Law School, The
University of
Edinburgh)
16. Prof. Daniel Wunder Hachem (Faculdade de Direito da
UFPR e da
PUCPR)
17. Profa. Danielle Hanna Rached (FGV Direito Rio)
18. Danyelle Reis Carvalho (Centro de Análise da
Liberdade e do
Autoritarismo)
19. Prof. Diogo R. Coutinho (Faculdade de Direito da USP)
20. Prof. Emerson Gabardo (Faculdade de Direito da UFPR
e da PUCPR)
21. Prof. Emilio Peluso Neder Meyer (Faculdade de Direito
da UFMG)
22. Profª. Eloísa Machado (FGV Direito SP)
23. Profª Eneida Desiree Salgado (Faculdade de Direito da
UFPR)
24. Profª. Estefânia Maria de Queiroz Barboza (Faculdade
de Direito da
UFPR)
25. Prof. Fabio de Sa e Silva (College of International
Studies, University of
Oklahoma)
26. Prof. Fabio Leite (Faculdade de Direito, PUC Rio)
27. Fernando Romani Sales (Centro de Análise da
Liberdade e do
Autoritarismo)
28. Profª. Flavia Portella Püschel (FVG Direito SP)
29. Gabriel Busch de Brito (Núcleo Direito e Democracia –
CEBRAP)
30. Prof. Geraldo Prado (Faculdade de Direito, UFRJ)
31. Profª. Gisele Guimarães Cittadino (Faculdade de
Direito, PUC Rio)
32. Prof. Glauco Salomão Leite (Universidade Católica de
Pernambuco)
33. Prof. Guilherme Leite Gonçalves (Faculdade de Direito
da UERJ)
34. Prof. Gustavo Ferreira Santos (Faculdade de Direito da
Universidade
Católica de Pernambuco)
35. Prof. Heikki Pihlajamäki (Faculty of Law, University of
Helsinki)
36. Profª. Heloisa Fernandes Câmara (Faculdade de Direito
da UFPR)
37. Profª. Irene Martín (Facultad de Derecho, Universidad
Autonóma de
Madrid)
38. Prof. Jairo Néia Lima (Universidade Estadual do Norte
do Paraná –
UENP)
39. Prof. Jesús Vallejo (Facultad de Derecho, Universidad
de Sevilla)
40. Prof. José Augusto Garcia de Sousa (Faculdade de
Direito da UERJ)
41. José Emílio Medauar Ommati(PUC Minas e
Universidade de Itaúna)
42. Prof. José Garcez Ghirardi (FGV Direito SP)
43. Prof. José Guilherme Giacomuzzi (Faculdade de Direito
da UFRGS)
44. Prof. José M. Portillo (Universidad del País Vasco)
45. Prof. José de Magalhães Campos Ambrosio (Faculdade
de Direito da
UFU)
46. Prof. José Reinaldo de Lima Lopes (Faculdade de
Direito da USP)
47. Profa. Juliana Cesario Alvim Gomes (Faculdade de
Direito UFMG)
48. Profª. Juliana Diniz (Faculdade de Direito da UFC)
49. Juliana Vieira dos Santos (advogada)
50. Prof. Juliano Zaiden Benvindo (Faculdade de Direito da
UnB)
51. Profª Katya Kozicki (Faculdade de Direito da UFPR)
52. Prof. Leonardo Gomes Penteado Rosa (Departamento
de Direito da
UFLA)
53. Lucas Adam Martinez Faria (Advogado)
54. Profª. Luciana Gross Cunha (FGV Direito SP)
55. Profª. Luciana Silva Reis (Faculdade de Direito da
UFU)
56. Prof. Luiz Guilherme Arcaro Conci (Faculdade de
Direito da PUC-SP)
57. Prof. Manuel Burón (Facultad de Derecho, Universidad
Autónoma de
Madrid)
58. Prof. Manuel Cancio Meliá (Facultad de Derecho,
Universidad
Autónoma de Madrid)
59. Prof. Marcelo Neves (Faculdade de Direito da UnB)
60. Prof. Marciano Seabra de Godoi (Faculdade de Direito,
PUC-MG)
61. Profª. Maria Cecília de Araujo Asperti (FGV Direito
SP)
62. Profª. Maria Paula Dallari Bucci (Faculdade de Direito
da USP)
63. Profa. Maria Tereza Fonseca Dias (Faculdade de Direito
da UFMG)
64. Profª. Mariângela Gama de Magalhães Gomes
(Faculdade de Direito da
USP)
65. Marina Dias (Instituto de Defesa do Direito de Defesa)
66. Marina Feferbaum (FGV Direito SP)
67. Marina Slhessarenko Fraife Barreto (Centro de Análise
da Liberdade e
do Autoritarismo)
68. Profa. Marta Machado (FGV Direito SP)
69. Prof. Miguel Godoy (Faculdade de Direito da UFPR)
70. Prof. Miguel Reale Jr. (Faculdade de Direito da USP)
71. Prof. Osny da Silva Filho (FGV Direito SP)
72. Prof. Otavio Pinto e Silva (Faculdade de Direito da
USP)
73. Prof. Paulo Ricardo Schier (PPGD UniBrasil)
74. Prof. Paulo Rosenblatt (Universidade Católica de
Pernambuco)
75. Prof. Rafael Mafei Rabelo Queiroz (Faculdade de
Direito da USP)
76. Prof. Raoni Bielschowsky (Faculdade de Direito da
UFU)
77. Prof. Raoni Bielschowsky (Faculdade de Direito da
UFU)
78. Profª. Raquel de Mattos Pimenta (FGV Direito SP)
79. Profª. Renata Nagamine (Programa de Relações
Internacionais, UFBA)
80. Prof. Rubens Glezer (FGV Direito SP)
81. Profa. San Romanelli Assumpção (IESP-UERJ)
82. Prof. Saulo Monteiro Martinho de Matos (Faculdade de
Direito UFPA)
83. Prof. Sérgio Said Staut Júnior (Faculdade de Direito da
UFPR)
84. Profª. Sheila Christina Neder Cerezetti (Faculdade de
Direito da USP)
85. Profª. Tathiane Piscitelli (FGV Direito SP)
86. Prof. Thomas Bustamante (Faculdade de Direito da
UFMG)
87. Prof. Vera Karam de Chueiri (Faculdade de Direito,
UFPR)
88. Profª. Viviane Muller Prado (FGV Direito SP)