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Organização e seleção de textos:·


Manoel Barros da Motta

Tradução:
Elisa Monteiro
Inês Aucran Dourado Barbosa

Dits et lcrits
Edição francesa preparada sob a direção de Daniel Defen e
Françoís Ewald com a colaboração de Jacques Lagrange

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FORENSE
UNIVERSITÁRIA
1' ediçilo - 200~
Apresentação
~ Êditwn., (Jatlimard, /994
~) f'r,•.,.,r., U11l••t1'$itnire.r d~ 1-,,111,·~.
/984. ldititms Gallima,.d. /994 t li••ml"in
Mnnim F'm11~.• Ed1111ra. 2(JQ/, parn o 1ex10 Fom·ault

Trnduúdo de:
Diu éf ckdt,t

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f"mufdi.t ,/f!J Affetirrs l;1rm1t,tfrs. dr I 'Amb(f,Umlr dt: Frmu·f uu Brc.ftl ,., "" lu MmJ<m d,• Fmurc ,lt· Rw ,J;:
Construida sob o signo do novo, a obra de Michel Foucault
Janeiro. .
Este li\tro, rubfü::i.do no funhi1(, do Jlrog,r:m1a de pafticip:içào fl f)Uhlic;içào. ()OmClll oomo ~•.po10 ~ M_m1s.ti:~t0
, . •• subverteu, transformou, modificou nossa relação com o saber
f r~mci~ dt1s Rctl\ÇÕ4:S E~•criures , Ll:i Emb.tiXOOà d~l 1:-tal\Çú lk> Brasil e e.la M:,isvn dt Fr:mt.:c: tk1 R,o de Jaflcu'<l. e a verdade. A relação da filosofia com a razão não é mais a
Ouvmi,· çmlllic! o\"'t'f' l'tútlr tlu Minh1~r<' Frmtç,ris Clwri< ,/e ln C11ltwc-C~11101 N11tfon<1I 1/11 Li~•,.,. mesma depois da História da loucura. Nem podemos pensar
Ohr:1 puhlM.:1du ctun .a ~juda de.) Minir.ttf.rio f'm1,ç~s da Cuitum -Ci::tUrtl Nacivuut J,,, l,.iu(,.
da mesma forma o estatuto da punição em nossas sociedades.
A intervenção teórico-ativa de Michel F'oucault introduziu tam-
bém uma mudança nas relações de poder e saber da cultura
contemporânea, a partir de sua matriz ocidental na medicina,
CIP•Bl'a~il. 011uk,,o·i ção,na,(omc
Si1..Jic:a,o Nrn.:i,,nat dos Editores de th·ros. RJ.
na psiquiatria, nos sistemas penais e na sexualidade. Pode-se
dizer que ela colabora para efetuar uma mudança de episte·
1'1!6< r¾ouc;wlt, Micbel. 1926-19S4
Ú-il:l\ ~"'uulid.a.lc, rc,Htic.,/Michd fouc:auh:<>(!:31lit~io e s.ele.çio de me, para além do que alguns chamam de pós-estruturalismo
tt.:iuo~ M:mod Ban-os. da MCltUt~ 1r.tdu,ç~o Slisa M.<>nt4-=im, 111~ Autr;1:n Dour.a.lCI
O.:.ch:~t. - Rio de: faoeiro; Fnreu$4.:: Unlvt:~itáriu, 2004.
ou pós-modernismo.
(Oi1os e t~ricos: V)
A edição francesa dos Ditos e escritos em 1994 pelas Edições
Tr.a.h~ dt:: Dit!> t:t ~crirs. Gallimard desempenha um papel fundamental na difusão de
ISBN 8S-218·0324-7
uma boa parte da obra do filósofo cujo acesso ao público era di-
1. t.i<L 2. Scx<,. 3. Ciênci• f"llni<:a. 4. Filo,ofta lni•><<sa- Si<:uk> XX.
1. Títuln. li. Strie. fícil. ou em muitos casos impossível. Além de suas grandes
0)-2557. rno 194 obras, como As palav,-as e as coisas. História da loucura, Vi-
cuo 1 (44) giar e punir; O nascimento da clínica. Raymond Roussel e Histó-
P1111h1~;, ,_,..oJui,~ co1:11J ,"'MJ r--tdal. &~,Lttuer Íot'll\3 l'U p« qualqu,tT~IO d~M,..,,,fll.t J~tCO. ria da sexualidade, Foucault multiplicou seus escritos e a
,ittn 1"11-'fllU»W tltf'~S3 Jc, EJ\t('(' (Lri ,,, 9.610, Jlt 19,0.:t!n).
ação dos seus ditos, na Europa. nas Américas. na Ásia e no
Norte da Áfrtca. Suas intervenções foram das relações da loucu-
ra e da sociedade, feitas no Japão, a reportagens sobre a revolu-
ção islâmica em Teerã, e debates no Brasil sobre a penalidade e a
Reservados os direitos de propriedade ~esta edição pela: política. Este trabalho foi em parte realizado atravês de um
EDITORA PORENSE UNIVERSITARIA LTDA. grande número de textos, intervenções. conferências. introdu-
Rio de ./cmeiro: ções, prefácios e artigos publicados numa vasta gama de paí-
Rua do Rosário. 100 - 20041-002 - Telefa)(: (21) 2509-3148/2509-7395
SãaPau/o; ses que vai do Brasil aos Estados Unidos, à Tunísía, à Itália e
Largo de São Fr.mcisco. 20- 01005--010- Telefax: (11) 31<»-2005/3107-0842 ao Japão. As Edições Gallimard recolheram esses textos numa
t -mail: e<litora@forenseunívcrsitaría.com.br p1imeira edição em quatro volumes, com exceção dos livros. A
ltt1p:/lwww.forcnseuniversi1aria.com.br
estes seguiu-se uma outra edição em dois volumes, que con-
Impresso no Brasil serva a totalidade dos textos da plimeira. A edição francesa
Prime.d i11 Bmúl pretendeu a exaustividade. organizando a totalidade dos textos
publicados quando Michel Foucault vivia. embora seja prová-
VI Mrrll<:l fo11caull. - Dilos e r-:scn los Apresenlaçào VII

vd que alguma pequ ena lacuna exista neste trabalho. O testa- ton~o aos gregos". Este percurso se realiza por meio de um
menlo de Foucault. por outro lado, excluía as publicações COI1Junto de. textos, entrevistas e intervenções que acompa-
pcislumas. Daniel Dcfert e François Ewald realizaram, assim, nham os dois volumes da H istória da sexualidade: Uso dos
111n monumental trabalho de edição e estabelecimento dos prazeres e Cuidado de s~ publicados bem perto de sua morte.
textos. situando de maneira nova as condições de sua publica - Sob o signo de uma ontologia da atualidade, Foucault elabora
c.;ão; controlaram a s circunstâncias das tra duções, verificaram uma problematização múltipla da subjetividade que vai além
as citações e erros de tipografia. Jacques Lagrange ocupou-se do estudo das disciplinas.
da bibliografia. Defert elaborou uma cronologia, na verdade
uma microbiografia de Foucault para o primeiro volume, que
mantivemos na edição brasileira, em que muitos elementos Percurso da psiquiatria: da monomania e da
novos sobre a obra e a ação de Michel Foucault aparecem. Ela m onstruosidade à noção de indivíduo perigoso
aponta para a correspondência de Foucault, inédita até hoje.
. Este trabalho. eles o fizeram com uma visada ética que, de Depois de estudar o poder psiquiátrico que retifica em mui-
maneira muito justa, parece-me, chamaram de intervençã o tos aspectos suas análises da história da loucura a partir de
mínima. Para isso, a edição francesa de Defert e Ewald apre- uma nova analítica do poder, Fouca ult passou a estudar de
sentou os textos segundo uma ordem puramente cronológica. fo rma detalhada a noção de a normalidade, cuja genealogia re-
Esse cuidado não impediu os autores de reconhecerem que a ~non~a à noçã? de monstro, noçã o juridica que se refere seja
reunião dos textos produziu algo de inédito. A publicação do as leis da sociedade, seja às da natureza. Neste s entido, ele
conju nto destes textos constitui um evento tão importante estudará no s eu curso o desenvolvimento da experti,se médi-
quanto o das obras já publicadas. pelo que complementa, reti- co-legal_em matéria penal a partir de um amplo dossiê que co-
fica ou esclarece. As numerosas entrevistas - quase todas bre o ~e~ulo XlX. A noção de monomania ocupa aí um lugar
nunca publicadas em português - permitem atualizar os ditos estrateg1co. O estudo do caso de Pierre Riviere, realiZado por
de F'oucault com relação a s eus contemporâneos e medir o Foucault e um grupo de pesquisadores a ele associa dos será
efeito das intervenções que permanecem atuais, no ponto vivo objeto de uma publícação à parte. Pierre Riviêre será fil ~ado
das questões da contemporaneidade, sejam elas filosóficas, li- por René Allio. Os dossiês que Foucault estuda não se limitam
terárias ou históricas. A omissão de textos produz, por outro ao século XIX, cobrindo também o século XVII, o que Foucault
lado. efeitos de interpretação. inevitáveis, tratando-se de uma chama de Idade Clássica na França no estudo dos casos de
seleção. hermafroditis mo. Esses estudos desembocam no estado atual
A eclição brasileira dos Ditos e escritos é uma ampla seleção da ~nter:ven~ào psiquiátrica na prá tica penal. Eles interrogam
que tem como objetivo tornar a cessível ao público leitor brasi- as 1mphcaçoes da noção de individuo pertgoso ante uma or-
leiro o maior número possível de textos de Foucault que não dem social inteiramente pensada em termos de objetivos de
estivessem ainda editados em português. Como não nos era segurança e perigo. ·
possível editar integralmente todos os textos. optamos por Fou~ault tra__balh ou a noção de indivíduo perigoso numa
urna distribuição temática em alguns ca mpos que foram obje- comunicação no simpósio de Toronto, sobre lei e psiquiatria,
to ele trabalho de Foucault. em outubro de 1978, no Clarke Institute of Psychiatry. Tra-
O quinto volume da série nos apresenta um conjunto de ta-se de uma síntese de s eu seminário sobre as expertises mé-
textos quc- versam sobre a problemá tica do último Foucault. dico-legais.
Eles tratam da constituição de uma histô1ia da sexualidade Foucault parte, assim. da atualidade. A questão que retor-
que vai desembocar numa genealogia da ética e da constitui- na é a das Luzes: ~-o que somos hoje?' Este é. a meu ver. o
ção do sujeito na cultu ra ocidental. Foucault vai realizar aí o campo da reflexão histórica sobre n ós mesmos. Kant, Fichte,
que Henry Joly chamou, num paralelo com Heidegger, de "re- Hegel, Nietzsche, Max Weber, Husserl. Heidegger e a Escola de
VIII Michel Foucault - Ditos e Escritos Apresentação IX

Frankfurt tentaram responder a essa questão. Inscrevendo- Trata-se de uma série de casos que ocorreram entre 1800 e
me nessa tradição, meu objetivo é trazer respostas muito par- 1835 e cuja forma era aproximadamente igual. São os casos
ciais e provisórias a essa questão através da história do pen- relatados por Metzger; o caso Sélestat; o caso de Henriette
samento ou, mais precisamente. através da análise histórica Cornier, em Paris; o de Catherine Ziegler. em Viena; o de John
das relações entre nossas reflexões e nossas práticas na socie- Howison, na Escócia; e o de .Abraham Prescott. Foucault alu-
dade ocidental" (ver p. 301 neste volume). de ajnda a outros do mesmo tipo a que se referem os psiquia-
O questionamento da justiça também parte de hoje. É o tri- tras da época: Metzger, Hoffbauer, Esquirol, Georget, William
bunal contemporâneo que ele interroga. O que exige hoje o tri- Ellis e Andrew Combe. A questão que levanta Foucault sobre
bunal? Na contemporaneidade. quando vai julgar um réu, não esses crimes é por que foram eles que estiveram em jogo nos
exige dele apenas que responda: "sou o autor dos crimes. Isso debates e discussões entre médicos e juristas. São casos ini-
é tudo. Julguem-me, já que vocês devem fazê-lo, e me conde- cialmente bastante diversos do que fora até então a jurispru-
nem, se quiserem" (ver p. 2 neste volume). É o que mostra Mi- dência da loucura criminal. Como se colocava até o fim do
chel Foucault no seu diagnóstico da máquina penal hoje. Bem século XVIII a questão da loucura para o direito penal? Fou-
mais do que isso é pedido a ele: "além do reconhecimento. é cault observa que ela apenas se colocava nos casos em que "o
preciso uma confissão. um exame de consciêncíá, uma expli- Código Civil e o direito canônico também a colocavam" (ver p.
cação de si, um esclarecimento·daquilo que se é" (ver p. 2 nes- 5 neste volume). Isto é, "quando ela se apresentava na forma
te volume). É um suplemento ao universo que é necessário de demência e de debilidade mental, ou sob a forma do furor".
para os juízes e os jurados, para os advogados e o Ministério Em ambos os casos, tratando-se de um estado definitivo ou de
Público. Um outro tipo de discurso tem de.lhes ser fornecido: um surto, a manifestação da loucura fazia-se por muitos si-
"aquele que o acusado sustenta sobre si mesmo. ol.i aquele nais que eram facilmente reconhecíveis, no entanto "o desen-
que ele permite, por suas confissões. lembranças, confidên- volvimento da psiquiatria crtminal não se realizou através do
cias etc., que se sustente a seu respeito" (ver p. 2 neste volu- aperfeiçoamento do problema tradicional da loucura" (ver p. 5
me). Quando esse discurso falta, produz a obstinação de neste volume). quer seja sob a modalidade de sua evolução,
quem preside o tribunal e a irritação do júri: considera-se, diz parcialidade ou generalidade de seu caráter, ou ainda pela
Foucault, que o réu não joga o jogo. Foucault estabelece um análise minuciosa dos sintomas do furor. Toda essa proble-
paralelo entre os condenados à morte qúe é preciso levar à ca- mática com os debates que acompanhou foi substituída por
deira elét1;ca ou à guilhotina porque tremem de medo. Para um novo problema: o dos ''crimes que não são precedidos,
serem executados, devem andar um pouco com suas próprias acompanhados ou seguidos de nenhum dos sintomas tradi-
pernas, se desejam de fato sê-lo. assim como é preciso que cionais, reconhecidos, visíveis da loucura" (ver p. 6 neste volu-
"eles falem um pouco de si mesmos se quiserem ser julgados" me). O que se vai acentuar é que previamente cada caso é a
(ver p. 2 neste volume). Este elemento suplementar ê, assim, ausência, antes da passagem ao ato, de qualquer "perturba-
"indispensável à cena judiciária". Impossível julgar, condenar, ção anterior do pe_nsamento ou da conduta, nenhum delírio;
sem que ele ·forneça de uma maneira ou de outra o material tampouco havia agitação ou desordem como no furor" (ver p. 6
sobre si. Foucault alega como exemplo o argumento de um neste volume). Michel Foucault diz de uma forma significati-
advogado francês em um caso de rapto e assassinato de uma va, marcante, que o "crime havia surgido dentro do que se po-
criança. Nesse processo. em que Badinter foi advogado de de- d eria chamar de. grau zero da loucura" (ver p. 6 neste volume).
fesa, seu argumento era: "Pode-se condenar à morte alguém Um segundo ponto vai ser ressaltado; é um traço comum no
que não se conhece?" Na medida em que pouco se conhecia qual se insiste de maneira mais demorada. Não são delitos le-
dele. Badinter pleiteava mais contra a pena de morte do que ves; trata-se de crimes graves: "quase todos assassinatos, às
pelo réu. F'oucault traça o quadro hístóiico da intervenção da vezes acompanhados de estranhas crueldades (o canibalismo
psiquiatria no âmbito penal. a partir do início do século XIX. da mulher de Sélestat)" (ver p. 6 neste volume). Foucault res-
X Michel Foucault - Ditos e Esc1ilos Apresentacão XI
1
salta que a psiquiatrização da delinqüéncia se fez "pelo alto". que nada mais é do que crtme" (ver p. 8 neste volume). Fou-
A intervenção da psiquiatria se deu não pela psiquiatrtzação cault ressalta que, apesar de todas as reticências ante a noção
das pequenas violências e da vagabundagem. onde se admitia dessa figura, ela foi aceita pelos magistrados, isto é, a análise
antes existir toda uma área comum à loucura e à ilegalidade. psiquiátrica dos crimes a partir dessa noção aparentemente
Sua penetração "à força" na justiça penal se deu, diz Fou- inaceitável foi integrada. A questão que levanta Foucault é
cault, "criticando o grande acontecimento criminal. extrema- para a cruzada que se realizou em prol da patologização do
mente violento e raro" (ver p. 6 neste volume). O terceiro aspec- crime, tendo como bandeira a noção de monomania homicida.
to comum desses casos é que esses grandes assassinatos se O paradoxo é grande porque. lembra Foucault. no fim do
realizaram na família, no cenário doméstico ou em suas re- século XVUI, Pinel, sobretudo, mas também o conjunto dos
dondezas. Trata-se de filhos que mataram os pais; pais que primeiros alienistas protestavam contra o internamento con-
mataram seus próprtos filhos: empregados que mataram o fi- fuso que não separava delinqüentes e doentes. A questão que
lho do patrão. Neles estão presentes na sua maior parte o par Foucault levanta situa-se do lado dos magistrados e do apare-
criança-adulto, ou ainda adolescente-adulto. São as relações lho judiciário, que aceitou senão a noção, "pelo menos os pro-
que na época eram as "mais sagradas e mais naturais" e tam- blemas a ela relacionados" (ver p. 10 neste volume). Foucault
bém as mais inocentes, as que deveriam ser menos investidas ressalta que, de forma obstinada. os magistrados de tudo fize-
de paixão e interesse. Na verdade são "crimes contra a nature- ram para afastar essa noção proposta pelos médicos e da qual
za, contra essas leis que acreditamos imediatamente escritas se serviam os advogados. O que ocorreu foi que, através do de-
no coração humano e que ligam as famílias e as gerações" (ver bate sobre os crimes monstruosos, gradativamente foi-se inte-
p. 6 neste volume). Foucault conclui então dizendo que ~a for- grando a idéia de um parentesco "sempre possível entre loucura
ma de crimes que, no início do século XIX, parece pertinente e delinqüência" (ver p. 10 neste volume). A questão que Fou-
para que se coloque a seu respeito a questão da loucura é, cault levanta é: por que a instituição penal, que durante tanto
portanto, o crime contra a natureza" (ver p. 7 neste volume). tempo prescindiu da intervenção da medicina sem colocar
Não é o homem que se move nos limites da lei e da nonna que nunca o problema da loucura, passou a recorrer ao saber mé-
coloca a questão da loucura e da criminalidade associadas, dico a partir da segunda década do século XIX? Sua resposta é
mas "o grande monstro". Assim. a psiquiatria do crime vai ini- que não se trata do lugar que foi concedido ao perito psiquia-
ciar sua história do século XIX por meio de uma "patologia do tra nem da importância nova concedida ao problema da irres-
monstruoso". ponsabilidade patológica. Não foi por intermédio do código
Foucault ressalta que todos esses crimes são cometidos nem dos princípios teóricos que a medicina legal penetrou na
sem razão, ainda que baseados numa ilusão delirante: crtmes penalidade. Diz Foucault que foi por baixo, do lado dos meca-
que aparecem sem interesse, sem paixão, sem motivo; o grande nismos de punição e do sentido que lhes foi atribuído. Punir
assassinato monstruoso sem motivo nem antecedente. Como tornou-se •·um conjunto de procedimentos orquestrados para
diz Foucault: "a irrupção súbita da contranatureza na nature- modificar os infra.tores" (ver p. 11 neste volume). Isto é, procu-
za é então a forma singular e paradoxal sob a qual se apresen- ra-se adaptar as formas de punição à natureza do delinqüente
ta a loucura criminal ou o crtme patológico" (ver p. 7 neste ou criminoso. Anteriormente, para punir, bastava encontrar o
volume). Foucault chama essa forma de paradoxal na medida autor: agora, na era em que a punição impli.c a o trabalho obri-
em que a loucura manifesta-se apenas na forma do crime e gatório. a vigilância permanente, o estado de isolamento com-
cujo sintoma é o crime. Isso produz o que Foucault chama de pleto ou parcial, a punição deve agir não propriamente sobre o
invenção: surge a figura da monomania homicida. crime, mas sobre o criminoso. Será "aquilo que o torna crimi-
E sobre a figura da monomania homicida, entidade "clíni- noso, seus motivos, aquilo que o move, sua motivação profun-
ca", que é para 1roucault absolutamente fictícia, "de um crime da, suas tendências, seus instintos". Estes serão o ponto de
louco. um crínie que seria inteiramente louco. uma loucura intervenção, de mira, da ação punitiva reformadora. No en-
XII Michel Foucault - Dilos e Escritos Apresentação XIII

tanto. os grandes crimes sem motivo colocam para o juiz um irá produzir na psiquiatria legal novas figuras patológicas.
grande problema, no quadro atual da penalidade reformado· como as da necrofilia, da cleptomania, do exibicionismo, ou
ra: "como é possível punir alguém de quem se ignoram todos ainda com a análise de comportamentos, como a pederastia
os motivos, e que permanece mudo diante dos seus juízes - ou o sadismo. "haverá a possibilidade de uma análise causal
exceto para reconhecer os fatos, e para convir que estava de todas as condutas. delinqüentes ou não. qualquer que seja
perfeitamente consciente daquilo que fazia?" {ver p. 12 neste o grau de sua criminalidade" {ver p. 16 neste volume). Essa
volume). De um lado, há o gesto voluntário, consciente era· análise vai produzir o que Michel Foucault chama de labirinto
cional, que apresenta todos os elementos que exige uma con- infinito do problema jurídico e psiquiátrico do crime. De um
denação legal, e, por outro, não hã motivo, o réu não tem lado, a determinação do ato por um nexo causal; de outro. o
vantagem nem apresenta nenhuma má tendência que permi- ato livre. Surge a questão crucial: "para que se possa conde-
tisse tornar claro o que era preciso punir. Assim, esses crimes nar alguém, é necessário que seja impossível reconstruir a in-
monstruosos valorizados pelos psiquiatras tornavam-se gra- teligibilidade causal de seu ato?" (ver p. 17 neste volume).
ves problemas para o aparelho judiciário. Os médicos vão ser Foucault situa como pano de fundo para essa nova modalidade
chamados. então, para integrar o ato criminoso à conduta de colocação do problema o que ele chama. em termos kantia-
global do sujeito, e será na medida em que essa integração nos, de condições de possibilidade: o desenvolvimento intenso
aparecer melhor que o sujeito aparecerá como suscetível de da Europa Ocidental e o esquadrinhamento policial da socie-
punição. Ajustam-se, então, duas necessidades: a da medici- dade e do mundo urbano. E ele acrescenta que os conflitos so-
na como higiene pública e a da punição legal como técnica de ciais, as lutas de classes, os conflitos políticos. as revoltas
transformação individual. O cJime monstruoso vai ser a forma armadas. desde os luddistas até a Comuna, levaram os pode-
sob a qual coincidem, de um lado, as demonstrações médicas res a assimilar "os delitos políticos ao crime de direito comum"
de que enfim a loucura surge sempre como perigosa e, de ou- (ver p. 17 neste volume). E Foucault acrescenta ainda um
tro, a impotência da justiça para determinar a punição de um novo elemento capital: o fracasso constantemente referido do
crime do qual não pode determinar seus motivos. surgindo, aparelho penitenciário. Em lugar da recuperação dos conde-
assim, a figura inscrita simultaneamente no aparelho judiciá- nados, a prisão tornava-se uma escola de delinqüência. que
rio e penal do homem perigoso. A prática da penalidade nos linha como efeito não uma proteção contra o crime. mas um
séculos XIX e XX vai fazer "do indivíduo perigoso o principal reforço do meio c1;minoso. Assim, a antropologia criminal vai
alvo da intervençã<;> punitiva" {ver p. 14 neste volume). Essa propor o abandono da noção jurídica de responsabilidade e si-
temática do indivíduo perigoso vai produzir na Itália a antro- tu.ar como questão básica o grau de periculosidade que ele
pologia do homem criminoso, com Lombroso e sua escola. e, constitui para a sociedade. Para ela. os réus reconhecidos
na Bélgica, a teoria da defesa social. Foucault situa-se em se- pela lei como os responsáveis, isto é, os dóentes. os loucos, os
guida no período do século XIX, em que surge na cena inter- anonnais, vítimas de impulsos irresistíveis, são de fato os
nacional a antropologia criminal, com seu primeiro congresso mais perigosos. A pena não deve ser uma punição, mas um
em 1885, e a edição do texto de Prins, em 191 O {A defesa so- 111ecanismo de defesa da sociedade. Assim, vai-se considerar
cial e CL<; transformações do direito penal, em Bruxelas, 191 O). que hã três tipos fundamentais de reação social ao crime, isto
F'oucault lembra que a noção de monomania passou a ser 1•, ao perigo representado pelo criminoso: o primeiro. sua eli-
abandonada um pouco antes de 1870. A monomania foi subs- 111inação definitiva. com a morte ou encarceramento: o segun-
tituída como loucura parcial pela idéia de uma doença mental do, pelo tratamento, com eliminação provisória; e, por fim. a
que afetava a afetividade, os instintos, os comportamentos au- l'IJminação relativa e parcial. com a esterilização e a castra-
tomáticos. Na concepção da monomania, diz Foucault. a hipó- <;.to. Agora, diz Foucault, a "noção de degeneração permitia li-
tese patológica formava-se onde não havia motivo para um ~ar o menor dos criminosos a todo um pe1igo patológico para a
ato. mas, com a nova análise do instinto e da afetividade que sociedade, e finalmente para toda a espécie humana" (ver p.
XIV Michel Foucault - Dítos e Escritos Apresentação XV

19 neste volume). É comum dizer, obsetva Foucault. que as sas têm duas ordens: encadeamento de fatos e criação de ris-
teses da antropologia crtminal passaram rapidamente a ser cos inerentes a determinado tipo de ação, de equipamento, de
desqualificadas. e isto por múltiplas razões: sua ligação com o empreendimento. Os ri~cos precisam ser diminuídos de forma
cientificismo e uma certa ingenuidade positivista do qual o sistemátíca e rtgorosa, mas não poderão ser eliminados. E
próprio século XIX se libertou, seu parentesco com o evolucio- Foucault cita Saleilles: •·uma relação de causalidade que se re-
nismo, que fora também rapidamente desacreditado, e, ainda, laciona a um fato puramente material. que em si mesmo se
o desmantelamento que a psicanálise e a neurologia operaram apresenta como um fato arriscado,{...) não contrário aos usos
da teoria neuropsiquiátrica da degeneração. A tese de Fou- da vida moderna,(...) e conseqüentemente desafiando as aver-
cault é diversa: é que a antropologia criminal não desapareceu sões e aceitando os riscos, é a lei da vida de hoje, é a regra co-
de forma tão radical e que suas teses mais exorbitantes e prin- mum, e o direito é feito para refletir essa concepção atual do
cipais "foram se enraizando no pensamento e na prática pe- espírtto" {ver p. 21 neste volume). Então, essa responsabilidade
nal" {ver p. 19 neste volume). Foi, na verdade, uma mutação sem culpa, ligada ao risco, 'Jamais poderá desaparecer comple-
no campo jurídico o sustentáculo maior dessa permanência. tamente, a indenização não será feita para sancioná-la como
Foucault analisa essa mudança a partir da noção de respon- uma quase-punição. mas para reparar seus efeitos, {... ) e
sabilidade. Ela vem do direito civil, e não da criminologia. Foi tender (...) a diminuir seus riscos no futuro" (ver p. 21 neste
esta, diz Foucault. que permitiu que "o pensamento penal se volume). Eliminando o elemento culpa do sistema de respon-
multiplicasse em dois ou três pontos capitais". Foi o direito ci- sabilidade, no direito, foi introduzida pelos civilistas a noção
vil que tomou possível que se enxertassem no direito criminal de probabilidade causal e de risco. O que cabe à sanção? Ela
as principais teses da criminologia da época. Diz Foucault que deve defender, proteger e fazer pressão sobre os inevitáveis
foi o direito civil "que possibilitou. no direito penal, a articula- riscos.
ção entre o Código e a ciência" (ver p. 20 neste volume). É a Foucault então afirma que é de forma estranha que essa
noção de acidente, rtsco e responsabilidade que produz a mu- descriminalização da responsabilidade decidiu que vai setor-
dança do direito civil. nar um modelo para o direito penal. Isto vai ocorrer a partir
Importância especial assume o problema do acidente, a
das proposições da antropologia criminal. Assim, há uma res-
partir principalmente do século XIX. Neste, com o desenvolvi-
posta para o que é um criminoso nato ou degenerado com
mento do assalariamento, das técnicas industrtais, da mecani-
uma personalidade criminosa. É "alguém que, conforme um
zação da produção. com a expansão dos meios de transporte,
encadeamento causal difícil de reconstituir, porta um índice
do mundo urbano, surgem dois fenômenos importantes: o pri-
particularmente elevado de probabilidade criminal, sendo em
meiro é o dos riscos. que terceiros ficam sujeitos a correr,
como, por exemplo. o dos transportadores que se expõem a si mesmo um risco de crime" (ver p. 22 neste volume). Assim, se
é possível. sem estabelecer a culpabilidade, determinar uma
acidentes, os passageiros e também outros que estiverem pró-
ximos. O segundo fato é que os acidentes poderiam ter uma responsabilidade civil apenas pela avaliação do risco criado,
correlação com o tipo de falta que, no entanto, poderia ser mí- igualmente "se pode tornar um indivíduo penalmente respon-
nima. por descuido ou desatenção, e que podia ser cometida sável sem ter que determinar se ele era livre e se havia cul-
por um indivíduo incapaz de arcar com sua responsabilidade pa, mas correlacionando o ato cometido ao Iisco de crimina-
civil e o pagamento dos danos a ela conexos. Assim, tratava-se lidade que constitui sua própria personalidade" (ver p. 22
de fundamentar uma responsabilidade sem culpa que levou neste volume). Diz Foucault: ''A punição não terá então por fi-
os civilistas a defender certos princípios importantes. Em pri- nalidade punir um sujeito de direito que terá voluntariamente
meiro lugar, a responsabilidade diz respeito ao encadeamento infringido a lei; ela terá o papel de diminuir, na medida do pos-
das causas e efeitos. e não à seqüência dos erros cometidos. A sível - seja pela eliminação, pela exclusão, por restrições
responsabilidade gira em torno da causa, e não do erro. As cau- diversas, ou ainda por medidas terapêuticas-, o risco de cri-
XVI Michel Foucault - Ditos e Escritos Apresen\..ação XVII

mtnalidade representado pelo sujeito em questão" (ver p. 22 do com as circunstâncias ou as intenções". Foucault ressalta
neste volume}. que, ao se colocar de forma progressiva. no primeiro plano. não
Assim, a idéia de defesa social que vai ser exposta por Piins o criminoso como sujeito do ato, mas também o indivíduo peri-
no começo do século XX vai se formar por esse processo de des- goso como virtualidade de atos, passar-se-ia a dar à sociedade
locamento para a justiça criminal do que foi elaborado no cam- direitos sobre o indiVÍduo a partir do que ele é. Agora ele é defi-
po do novo direito civil. Encontrou-se no fim do século XIX o nido não pelo seu status, como no Antigo Regime. mas segundo
que P'oucault chama de comutador, que era necessário entre a sua "constituição, seus traços de caráter ou suas variáveis
criminologia acessível ao direito e uma penalidade capaz de dar patológicas" (ver p. 24 neste volume). Trata-se de algo exorbi-
conta do saber cnminológico. Esse comutador, diz Foucault, é tante, diz Foucault. ante o direito penal imaginado pelos refor-
a noção capital de 1isco instituída pelo direito com a idéia de madores do século XVIII, e que deveria exercer a punição de
uma responsabilidade sem culpa. Então, por meio da antropo- forma totalmente igualitária de acordo com as infrações que a
logia, da psicologia e da psiquiatria, pode ser instituída a idéia lei define de forma prévia e explícita. À objeção de que, mesmo
de uma imputabilidade sem liberdade. Foucault data de ma- no século XIX, os infratores es tavam tão presentes quanto suas
neira precisa o ponto de emergência da noção de ser perigoso infrações, Foucault diz que é real. Mas ele obse1va que o princí-
ou periculosidade: Prins a teria introduzido na sessão de 12 de pio que regeu a penalidade moderna do ponto de vista jurídico
setembro de 1905 da União Internacional de Direito Penal. no e moral foi de que a penalidade d evia apenas se exercer apenas
X Congresso Internacional de Direito Penal, realizado em Ham- sobre o que se faz. Insidiosamente, no entanto. fonnou-se uma
burgo. Assim, Foucault ressalta que o que foi elaborado tendo penalidade sobre o que se é, a partir da noção de indivíduo pe-
como ponto de partida os grandes crimes foi o conceito de indi- rigoso presente de forma virtual na monomania dos primeiros
VÍduo perigoso mais do que a questão da liberdade. Sua tese é alienistas. Passar a autorizar o direito a intervir sobre os indM-
de que não há a evolução de uma moral da liberdade para uma duos em função do que eles são pode fazer-nos entrever o que
"ciência do determinismo psíquico". O que fez o direito penal daí pode advir: uma sociedade assustadora, diz Foucault. Po-
foi, para Foucault, compreender, organizar e codificar Ma sus- rém, no nível do funcionamento, "os juízes necessitam acredi-
peita e a identificação dos indiVÍduos perigosos, da figura rara e tar que eles julgam um homem tal como ele é e segundo aquilo
monstruosa do monomaníaco àquela, freqüente, cotidiana, do que ele ê" (ver p. 25 neste volume).
degenerado, do perverso, do desequilibrado nato, do imaturo Sobre a problematização do indivíduo criminoso, é impor-
etc." (ver p. 23 neste volume} . Ele considera que essa mudança tante ressaltar a forma como .Foucault aborda essa questão.
se operou através do que chama "um continuo mecanismo de de maneira bem ampla no quadro de suas pesquisas em rela-
apelação e de interação entre o saber médico ou psicológico e a ção à política. Diz ele, em relação ao crime e à punição: "seria
instituição judiciária" (ver p. 23 neste volume). Foucault ressal- errôneo. naturalmente, imaginar que a política nada tem a ver
ta que quem cedeu não foi a instituição judiciária. As noções com a prevenção do crime e com seu castigo. portanto ela
que se formaram a partir das fronteiras e trocas entre essas nada teria a ver com um certo número de elementos que modi-
instâncias, diz Foucault, "são operatórias para a medicina legal ficam sua forma, seu sentido, sua freqüência, mas também
e para os peritos psiquiátricos em matéria penal" (ver p . 24 nes- seria totalmente falso pensar que existe uma fórmula política
te volume). A questão que ele ressalta é que, para além das in- capaz de resolver a questão do crime e terminar com ele" (ver
certezas de um saber problemático da antropologia criminal ou p. 228 neste volume}. O mesmo, diz ele, para a sexualidade:
da c1iminologia, no direito introduziram-se os rudimentos de ela tem relação com es truturas, e também exigências, leis, re-
um outro direito. A partir de Beccaria, a penalidade moderna gulamentações políticas cuja importância é para ela capital;
só dã à sociedade direito sobre os indivíduos com base no que • mas se há algo que não se pode esperar da política é que haja
eles fazem: "somente um ato, definido como infração pela lei, "formas nas quais a sexualidade deixaria de ser problemática"
pode ocasionar uma punição, sem dúvida modificável de acor- (ver p. 228 neste volume}.
XVIII Michel Foucault - Ditos e Esc1itos Apresentação XIX

O problema então será "pensar as relações dessas diferen- conferência foi realizada no quadro de uma temporada cuja
tes expeiiências com a política; o que não significa que se bus- organização foi feita pelos serv:iços culturais do Ministéiio das
cará na política o princípio constituinte dessas experiências Relações Exteriores. Daniel Defert comenta que Foucault fa-
ou a solução que regulará definitivamente seu destino. É pre- lou em Tóquio, Kioto, Kiushu, visitou uma prisão em Fukuoka
ciso elaborar os problemas que experiências desse tipo colo- e passou pelo templo de Seiongi. em Uenohara, no sopé do
cam para a política" (ver p. 228 neste volume). Foucault ressalta Monte Fuji. Foucault discutiu com o presidente do partido so-
a necessidade da determinação do que significa "colocar um cialista Japonês, lchio Sukata, sobre as experiências adminis-
problema" na política. Ele comenta a observação de R. Rorty, trativas na Europa e no Japão. Ele leu antes de ir para o Japão
que "observa que, nessas análises, não recorro a nerihum Paul Demiéville, Allan Watts e Shunyu Suzuki.
'nós' - a nenhum desses 'nós' cujo consenso, valores, tradição Nessa conferência, como diz Watanabe, tradutor de uma
formam o enquadre de um pensamento e definem as condi- parte do primeiro volume da História da sexualidade no Ja-
ções nas quais é possível validá-lo" (ver p. 228 neste volume). pão, Foucault analisa o papel desempenhado na Europa pelas
Ele diz que é aí exatamente que está o problema: "saber se efe- lécnicas do poder utilizadas pela Igreja Católica, cujo objeto
tivamente é dentro de um 'nós' que convém se colocar para de- era a formação do indivíduo. Watanabe propõe discutir com
fender os princípios que são reconhecidos e os valores que são F'oucault sobre sexualidade e política e sobre as propostas e
aceitos ... E ele formula a alternativa que propõe, isto é, que é hipóteses apresentadas por ele em Vontade de saber,. primeiro
preciso, "ao elaborar a questão, tornar possível a formação fu- volume da História da sexualidade. Este livro, publicado em
tura de um 'nós'". Para Foucault "o 'nós' não deve ser prév:i,o à dezembro de 1976, já nasceu sob o signo de uma revisão per-
questão: ele só pode ser o resultado- e o resultado necessarta- manente, pois, como diz Daniel Defert, Foucault lhe confiden-
mente provisório - da questão, tal como ela se coloca nos no- ciara que não tinha a intenção de escrever os seis volumes
vos termos em que é formulada". Ele cita o caso da Hlc;tória da planejados inicialmente (ver p. 50, vol. I da edição brasileira
loucura, dizendo que para ele não existia um "nós" preexisten- desta obra). Ele considera que, ao falarmos da liberação se-
te e acolhedor. Diz ele: "Entre Laing, Cooper, Basaglia e eu, xual e da injustiça da censura, os mais importantes fenôme-
não havia nada em comum, nem relação alguma" (ver p. 229 nos atuais que envolvem a sexualidade nos escapam. Trata-se
neste volume). Formou-se uma comunidade de ação a partir da hipótese repressiva que Foucau1t critica. Diz ele que essa
de um trabalho feito: este foi o resultado de um problema que hipótese "oculta o fenõmeno da proliferação anormal dos dis-
se colocou, diz Foucault, ''para.nossos leitores, e também para cursos a respeito do sexo" (ver ps. 26-27 neste volume). De
alguns dentre nós" (ver p. 229 neste volume). fato, trata-se de um fenômeno essencial para dar conta das
E ele resume de forma iluminadora suas relações com a po- relações entre o poder e a sexualidade. Watanabe ressalta que
lítica a partir da interrogação dos problemas que a atualidade isso não significa subestimar a injustiça da censura. Trata-se,
coloca: "Jamais procurei analisar seja lá o que for do ponto de no entanto, da necessidade de "situá-la como uma peça de um
vista da política; mas sempre interrogar a política sobre o que aparelho de poder mais importante" (ver p. 27 neste volume).
ela tinha a dizer a respeito dos problemas com os quais ela se que Michel Foucault chama de dispositivo de sexualidade. Ele
confrontava" (ver p. 229 neste volume). supôe que na França devem existir censuras diversas e exclu-
sões apesar da suspensão das proibições relativas à porno-
grafia feita por Gíscard d'Estaing, Diz que no Japão a censura
Liberar a sexualidade? De O império dos sentidos à funciona de uma maneira nitidamente mais arbitrária do que
experiência do budismo zen na França, e que isso torna evidente tratar-se de uma estraté-
gia de poder. Censuram-se por demais as imagens e menos os
No Japão, em 1978, Michel Foucault pronunciou uma con- discursos. Quanto à imagem, a censura se concentra nos pê-
ferência sobre o filósofo e o poder no mundo ocidental. Essa los pubianos e no sexo. Quanto aos discursos, censuram-se
XX Michel Foucaull - Ditos e E:sc1ílos Apresentação XXI

as obras líterârias, mas os textos exibicionistas das revistas ser privado dele" (ver ps. 28-29 neste volume). Foucault res-
semanais são tolerados. Ele resume dizendo que existia no J a- salta que não se trata de castração no sentido comum; diz ser
pão, de um lado, uma verdadeira avalanche de discursos so- preferível dizer que o homem foi destacado de seu sexo, foi
bre sexo, e, de outro, a ação da censura burra. que impede até dele separado. Watanabe comenta que esse acontecimento
a importação de revistas de moda se os pêlos pubianos não causou sensação devido à ilusão mítica e coletiva que os japo-
são eliminados. Foucault discute, em seguida, o filme de Nagi- neses conservam do sexo masculino desde a época antiga, e
sa Oshima, O império dos sentidos, que Foucault diz ter visto ressaltando que o que aparece em O império dos sentidos é di-
duas vezes. No Japão via-se, diz Watanabe, a imagem separa- ferente da simples castração. Referindo-se à conferência de
da em duas no meio da tela, pois as partes proibidas tinham Foucault na Universidade de Tóquio, Watanabe lembra que o
sido cortadas. Foucault diz que não acredita que "as imagens ponto inicial da História da sexualidade era uma anâlise com-
mostradas nesse filme nunca tenham sido mostradas anteri- parada entre a expansão do número de histéricas no fim do
01mente" (ver p. 28 neste volume). O que não quer dizer que se século XVIII e início do século XIX e as abordagens médicas
trate de um filme qualquer. Novas maneiras de ver o corpo hu- desenvolvidas no século XIX. De um lado, desenvolve-se a his-
mano, seja a cabeça, o braço, e não necessariamente as ima- teria, esquecimento dos se.xos, e, de outro, "intensificam-se os
gens sexuais, são mostradas de um ângulo inteiramente novo esforços para íncluir todas as manifestações do sexo em um
em filmes recentes. Não é disso que se trata no filme de Oshi- discurso da sexualidade" (ver p. 29 neste volume). Foi o que
ma. O que Foucault ressalta e com que ficou ''bastante impac- Míchel Foucault chamou scientfa sexualis: atitude própria do
tado [foi] pela forma das relações entre o homem e a mulher, Ocidente, desde a Idade Média, a respeito do sexo. Por outro
mais precisamente pelas relações desses dois personagens lado, lembra Watanabe, Foucault emitiu a hipótese de que no
com o sexo do homem" (ver p. 28 neste volume). Diz ele que o mundo grego, no Império Romano e na Ásia, o sexo "era prati-
falo, que esse "objeto é a ligação entre os dois, tanto para o ho- cado como ars erotica, unicamente para intensificar e aumen-
mem como para a mulher, e ele parece pertencer aos dois de tar os prazeres dos atos sexuais" (ver p. 29 neste volume).
maneira diferente" (ver p. 28 neste volume). A amputação que Watanabe apresenta alguns elementos para definir a situação
aparece no final do filme é, para Foucault. absolutamente ló- japonesa dizendo que, desde a era Meiji, o ascetismo confucío-
gica. Ele situa a forma especifica ou particular com que na nísta e um certo ascetismo protestante produziram tabus que
cultura francesa e, em geral. no Ocidente o sexo do homem eram anteriormente desconhecidos dos japoneses. Portanto,
aparece. O sexo do homem é seu atributo; com ele se identifica lembra ele, antes da modernização, ou da europeização, o sexo
e mantém relações absolutamente privilegiadas. Quanto às no Japão parecia poder "se classificar no domínio da ars eroti-
mulheres. estas se "beneficiam do sexo masculino unicamen- ca", enquanto na atualidade articula-se "curiosamente com a
te no caso em que esse direito lhes é concedido pelos homens, scientía sexualis da Europa~ (ver p. 30 neste volume). Watana-
seja porque eles o emprestam ou porque o impõem a elas" (ver be lembra ainda, citando as revistas femininas, nas quais.se
p. 28 neste volume). Assim. o gozo masculino situa-se num percebe que estão inundadas de discursos segundo o princí-
piimeiro plano e é essencial. pio da liberação sexual de estilo europeu, que se pretende
No filme de Oshima, ressalta Foucault de maneira diversa, "que mais saber sobre o sexo garante mais gozo" (ver p. 30
''o sexo masculino é um objeto que existe entre os dois perso- neste volume). Ele declina alguns títulos que vão desde a
nagens. e cada um possui ao seu modo um direito a esse obje- 'Tudo o que você não sabe sobre o corpo masculino" até "Aqui-
to. É um instrumento de prazer para os dois e. jâ que eles lo que você ignora a respeito da homossexualidade". Transfor-
obtêm prazer dele, cada um ao seu modo, aq1_:1ele que obtém ma-se o sexo em discurso ·a respeito de tudo e qualquer coisa.
mais prazer acaba tendo mais direito a ele. E precisamente A superabundância do saber sobre o sexo, para Watanabe,
por isso que, no final do filme, a mulher possui exclusivamen- engendra frustração e toma dificil estabelecer a fronteira en-
te esse sexo; ele pertence somente a ela. e o homem permite tre ars erotica e. scientia sexualis atualmente. Foucault argu-
XXII Michel Foucault - Ditos e Escritos Apresentação XXUI

menta que, quando o saber mais pseudocientífico do que carecer de força de persuasão, mas também ser um pouco pe-
cientifico sobre o sexo não é dispensado apenas aos médicos e rigoso, pois este desejo que se exige ser liberado é na verdade
sexólogos. mas a todo mundo, e esse conhecimento passa a (... ) apenas aquilo que foi diferenciado do resto na forma de
ser aplicado aos seus atos sexuais por todos e cada um, desejos carnais pela disciplina da Igreja Católica e pela técni-
trata-se de um saber situado entre a ars erolica e a scientia se- ca do exame da consciência" (ver p. 31 neste volume). Neste
xualis. Ele se refere ao caso de Reich e seus discípulos, consi- momento de sua análise, Foucault situa na Idade Média o mo-
derando, assim, a posição dos reichianos: "se você conhece m ento em que, no mundo cristão, passou-se a analisar os ele-
verdadeira·m ente o seu inconsciente e o seu desejo, você pode mentos do desejo pensando que ele constituía o prenúncio do
atingir o orgasmo, e este orgasmo é bom e deve lhe dar muito pecado. Ele ressalta que não se fala nessa perspectiva de pra-
prazer" (ver p. 30 neste volume). Foucault considera que neste zer. Nessa viagem, Foucault visitou um templo budista zen e
caso a scientía sexualís é um elemento extremamente rudi- lá pôde verificar a significação específica da prática do corpo
mentar da ars erotica, porque toma como critério exclusivo o no zen. Se na prática da confissão no cristianismo o corpo é
orgasmo. Há de se ressaltar que, mais do que de desejo. tra - objeto de exame, ·tendo em vista apenas saber o que de inde-
ta-se aqui de gozo, e também ver que neste se esquece o que cente se produz nele, no zen. exercício religioso totalmente di-
ele comporta de para além do princípio do prazer. isto é, tam- ferente, o corpo serve de suporte, de instrumento. Na prática
bém de desprazer. Watanabe lembra a ligação estabelecida zen o corpo "é submetido a regras estritas (...) para atingir al-
por Foucault entre a scientía sexualis e a confissão, na qual guma coisa através dele" (ver p. 32 neste volume) .
ele situa de forma contínua a posição cristã e a da psicanálise. Referindo-se aos problemas com que se depara a sociedade
de tal maneira que o padre-pastor apreende tudo o que se pas- francesa contemporânea para além das disputas partidárias,
sa no interior de cada crente. sendo esta uma modalidade de Foucault ressalta que a lguns problemas sensibílizaram inten-
estabelecimento do sujeito no Ocidente. Ele lembra que no Ja.- samente as pessoas. Ele se refere a alguns programas da tele-
pão a questão do sujeito era a mais importante no plano filo- visão e a certas publicações que trataram do problema da
sófico e ético ante a modernização segundo o modelo europeu morte, do problema do poder, que as instituições médicas
no século XIX. Muitos japoneses devem ter se chocado com o exerciam sobre o corpo. a vida e a morte. Trata-se aí não da ig-
fato de que a "formação do sujeito-indivíduo tenha sido apre- norância médica, mas de um temor do saber médico e do ex-
endida do ponto de vista da técnica do poder" (ver p. 31 neste cesso de poder a ele vinculado. Vinculadas a essa questão e a
volume). Ele lembra que o próprio Foucault indicou que nem o essas lutas que ultrapassam o quadro do sistema de partidos
budismo nem o xintoísmo perceberam a humanidade dessa e a polaridade direita-esquerda, Foucault afirma que, na Eu-
forma. Na atualidade. quem vai ao Japão percebe, diz Fou - ropa, os "pretensos partidos de extrema esquerda apresentam
cault. que esse país "assimilou perfeitamente a tecnologia do o que se pode chamar de uma 'propensão para o fracasso'" (ver
mundo ocidental moderno" (ver p. 31 neste volume). No en- p. 34 neste volume). Ele cita o caso dos movimentos em rela-
tanto, no nível humano, "a mentalidade e as relações huma- ção à prisão que com muita intensidade sacudiram a França
nas são muito diferentes" (ver p. 31 neste volume). Em Vontade de 1972 a 1974. E quando Giscard d'Estaing foi eleito para a
de saber, uma hipótese de política ante o sexo-desejo foi for- presidência, realizou inúmeras reformas originais e "criou o
mulada por Foucault. Como apoio antagônico ao desejo esta- cargo de subsecretário de Estado adjunto ao Ministério da
vam o corpo e o prazer. Watanabe ressalta, no entanto. que o Justiça dedicado exclusivamente aos problemas da prisão".
próprio corpo é ambíguo, e "podemos pensá-lo como um dis- Imediatamente a posição da extrema esquerda foi de crítica:
positivo atravessado pelo poder" (ver p. 31 neste volume). Res- "Trata-se de uma encampaçào pelo sistemar Foucault ressalta
pondendo a Watanabe, Foucault sintetiza sua posição ante o que as diferenças entre os movimentos supostamente revo-
que chama o slogan- "Liberem o desejo" - dos movimentos de lucionários e as lutas contra o poder cotidiano existem precisa-
liberação da sexualidade. Esse slogan. diz ele. "parece não só mente porque os pretensos revolucíoná1ios não querem o su-
X.XIV Michel Foucault - Ditos e Escritos Apresentação XXV

cesso e de tudo fazem para que jamais ele seja obtido. Em práticas. Por prática da pa,.,.hesia ele entende duas coisas: em
oposição a essa perspectiva, a luta contra o poder cotidiano primeiro lugar, o uso da parrhesia em tipos específicos de re-
tem o objetívo de ter êxito. Os pretensos revolucionários acre- lacionamentos humanos, e, em segundo, os procedimentos e
ditam que vão ganhar. Se pensam que a construção de um ae- as técnicas usados nessas relações. Nas relações humanas, a
roporto ou de uma central elétrica em tal ou tal lugar é parrhesiaocorre como atividade no contexto de pequenos gru-
prejudicial. eles a impedem até o fim. Foucault resume o que pos de pessoas, como era realizada, por exemplo, pelos epicu-
pensa ser atualmente a maior parte das funções de poder, ristas. Em segundo lugar, ela pode ser vista no quadro da vida
contra as quais o indivíduo resiste. Ela se difunde pelas vias pública. O cinismo a realizava como uma atividade pública.
do saber. Saber que "não se limita ao saber da ciência"; saber Por fim, a parrhesiaocorre como um elemento de relações pes-
em sentido amplo que compreende todos os saberes especiali- soais entre indivíduos: era um traço comum do estoicismo.
zados, tais como os da tecnologia e os da tecnocracia. Referin- É interessante observar também o que Foucault diz ares-
do-se ao hospital, Foucault leva em conta a melhoria dos peito da existência e da experiência histórica do movimento
tratamentos µ,édicos, a eficácia dos produtos da medicina; ecológico: "houve todo um movimento dito 'ecológico' - aliás.
mas, por outro lado, há ocasiões em que se reforça o poder muito antigo, e que não remonta apenas ao século XX - que
médico e aumenta o seu caráter arbitrário. A resistência ao manteve em um certo sentido e freqüentemente uma relação
poder não pode então negligenciar a medicina ou o próprio co- de hostilidade com uma ciência, ou em todo caso com uma
nhecimento do tratamento médico. Pelo contrário, na medida tecnologia garantida em termos de verdade. Mas, de fato, essa
em que os intelectuais estão ligados à rede de saber e de po- ecologia também falava um discurso de verdade: era possível
der, na área médica ou jurídica, eles podem desempenhar um fazer a critica em nome de um conhecimento da natureza, do
papel importante que consiste em oferecer e difundir as infor- equilíbrio dos processos do ser vivo. Escapava-se então de uma
mações que até agora se mantinham confidenciais, como um dominação da verdade, não jogando um jogo totalmente estra-
saber de especialistas. Foucault conclui dizendo que o desve- nho ao jogo da verdade, mas jogando-o de outra forma ou jo-
lamento desses segredos vai permitir o controle da "função do gando um outro jogo, uma outra partida, outros trunfos no
poder", esta nova função dos intelectuais específicos que ele Jogo da verdade" (ve.r ps. 280-281 neste volume).
contrapõe àquela da consciência universal, do tipo Zola, que
para Foucault é u1n caso típico.
Se Foucault se opõe à pretensão de o filósofo legislar sobre Dos jogos da linguagem aos jogos do poder
·tudo, ele propõe no entanto a possibilidade de uma prática
dos governados. Diz ele que "é possível exigir dos governos Em A Filosofia Analítica da Política. Foucault retifica o obje-
uma certa verdade em relação aos projetos finais, às escolhas to inicial da conferência que ia realizar em Tóquio, na sede do
gerais de sua tática, a um certo número de pontos particula- jornal Asahi. Ele propusera inicialmente como tema da confe-
res de seu programa: é a parrhesía (a livre fala) do governado rência abordar o problema particular das plisões. Mas, tendo
que pode, que deve interpelar o governo em nome do saber, da tido a experiência de uma prisão, pois visitou duas na região
experiência que ele tem, a partir do fato de que ele é um cida- de Fukuoka, que. "em relação ao que conhecemos na Europa,
dão, sobre o que o outro faz, sobre o sentido de sua ação, so- (... ) representa não apenas um aperfeiçoamento, um progres-
bre as decisões que ele tomou~ (ver p. 292 neste volume). so, mas uma verdadeira mutação que necessitaria ser pensa-
Em outubro/novembro de 1983, em Berkeley, Foucault da e discutida com especialistas japoneses" (ver p. 37 neste
continuou seus estudos sobre o mundo antigo tratando da volume), J<'oucault sentiu-se pouco à vontade para tratar do
história da parrhesia, o dizer livre, a partir de Eulipides, e es- problema penal tal como ele se configura na Europa. Por isso
tudando a crise das democracias antigas. como recorda Da- ele dá à sua comunicação mais generalidade, não se limitando
niel Defert. Ele analisa a parrhesia do ponto de vista de suas ao problema penal.
XX.VI Michel foucault - Dilos e Escritos Apresentação XXVII

Foucault discute a partir de sua surpresa diante do que um carnada pelo fascismo e pelo stalinismo de forma nua e mons-
jornalista escreveu no Le monde: "por que tantas pessoas co- truosa.
locam hoje o problema do poder?", e o jornalista prossegue: Foucault lembra que uma das mais antigas funções do filó-
"um dia certamente irão se espantar com o fato de que esta sofo ou do sábio no Ocidente era "colocar um limite ao excesso
questão do poder nos tenha preocupado tào intensamente em de poder, (... ) a cada vez e em todos os casos em que havia o
risco de ele se tornar perigoso". Foucault diz que no Ocidente
todo esse final do século :XX".
Foucault diz não acreditar que nossos sucessores, "se re- o filósofo teve o perfil de um antidéspota para mais ou para
menos, e ele situa as modalidades sobre as quais isto se deli-
fletirem um pouquinho, possam espantar-se por muito tempo
neia, a partir do início da filosofia grega.
com o fato de que, justamente nesse final do século X?'-• ~s
A primeira figura do filósofo antidéspota foi "definindo, ele
pessoas de nossa geração tenham colocado, com tanta 1:1s1:s-
próprio, o sistema das leis segundo as quais (...) o poder deve-
tência, a questão do poder" (ver p. 38 neste volume). Diz ~le
ria ser exercido" (ver p. 40 neste volume). Este é o papel do fi-
que essa questão nos foi posta por nossa atualidade e tambem lósofo legislador, assumido na cultura grega por Solon, o que
por nosso passado, "tão recente", diz ele, •·que mal parece ter coincide com o momento em que a filosofia começa a sepa-
terminado" (ver p. 38 neste volume). rar-se da poesia. É a figura do filósofo moderador do poder.
Foucault caracteriza as duas manifestações exasperadas do Uma segunda possibilidade se delineia quando o filósofo
poder no século XX, o fascismo e o stalínism?, co~o grandes exercita o antidespotismo "tornando-se conselheiro do prínci-
epiderrúas. Ambos levaram seus efeitos a dimensoes de~e?- pe, ensinando-lhe essa sabedoria, essa Virtude, essa verdade
nhecidas até então, mas ele ressalta que essas duas modahda- que serão capazes, quando ele tiver que governar, de impedi-lo
des de superpoder "apenas fizeram prolongar tod~ ~m·a sé:i_e de abusar de seu poder" (ver p. 40 neste volume). Trata-se do fi-
1 de mecanismos que já existiam nos sistemas soc1a1s e pohtI- lósofo pedagogo, encarnado por Platão indo a Siracusa. aos do-
1
cos do Ocidente. Primeiramente. a organização dos grandes mínios de Dênis, o Tirano.
11 partidos, o desenvolvimento de aparelhos policiais. a ex.istên- A terceira e última possibilidade do antidespotismo do filó-
\1 cia de técnicas de repressão como os campos de trabalho. sofo será de dizer que "sejam quais forem os abusos que o
tudo isso foi uma herança efetivamente instituída pelas socie- poder pode exercer sobre ele ou sobre os outros, ele, como filó-
dades ocidentais liberais, e que o stalinismo e o fascismo ape- sofo, em sua prática filosófica e em seu pensamento filosófico,
1 nas incorporaram" (ver p. 38 neste volume). Foucault opõe-se permanecerá. em relação ao poder, independente" (ver p. 40
11 assim à idéia de que o fascismo e o stalinismo seriam apenas neste volume). Diz Foucault que ele rirá do poder. é Diógenes
respostas a conjunturas e situações particulares, . m~s q:1e diante de Alexandre.
existem "virtualidades de qualquer modo estruturais, mtrm- Foucault emite a hipótese de lançarmos um olhar etnológi-
r1 secas a nossos sistemas, que podem se revelar à menor opor- co a partir da Grécia sobre o Ocidente. Diz ele que então "ve-
'I tunidade, tornando perpetuamente possíveis essas espécies ríamos essas três figuras do filósofo girarem. se substituírem
de grandes excrescências do poder", nas quais Foucault ~nclui umas às outras; veríamos se delinear uma oposição significa-
0 sistema do Chile, de Pinochet. e o sistema do CamboJa. Se
tiva entre o filósofo e o príncipe, entre a reflexão filosófica e o
1 no século XIX o grande problema era de como a expansão da exercício do poder" (ver p. 40 neste volume). Foucault conside-
produção da riqueza podia ser acompanhada da paup~rização ra a oposição el'ltre reflexão filosófica e o exercício do poder o
absoluta ou relativa daqueles mesmos que as produziam, no que melhor caracteriza a filoso·fia, e diz ele que "o papel de mo-

! século :XX as sociedades ocidentais são atravessadas pelo que


Foucault chama de surda apreensão e mesmo "movimentos
de revolta totalmente explícitos que questionam essa espécie
de superprodução do poder" (ver p. 39 neste volume) en-
deração em relação ao poder talvez ainda mereça ser desempe-
nhado" (ver p. 40 neste volume). No entanto, Foucault considera
q ue, se na Antigüidade -houve filósofos legisladores ou conse-
lheiros do príncipe. nunca existiu cidade platônica, e, embora
XXVIJI Michel Foucaull - Dilos r. Escrítos Apresentação XXIX

Alexandre fosse discípulo de Aristóteles. seu império não foi burocracia ou ainda do terror burocrático, eram o próprto opos-
aristotélico, assim como o Império Romano não foi estóico. to do regime da liberdade, o contrário mesmo da liberdade tor-
ainda que o estoicismo tenha influenciado todo o mundo e nada história" (ver p. 42 neste volume).
principalmente a elite imperial. A referência a Marco Aurélio é Foucault caracteriza como de cômica amargura a posição
significativa; o estoicismo era uma maneira de ser imperador desses filósofos ocidentais modernos: pensando-se numa re-
para ele, e não uma arte de governar. lação de oposição essencial ao poder, quanto mais foram ouvi-
Foucault distingue a experiência do Ocidente da que se dos e investidos nas instítuições políticas, mais ..serviam para
passou na China e no Japão, quer dizer, no Oriente; assim. na autorizar formas excessivas de poder" (ver p. 42 neste volu-
cultura oriental nunca houve uma "filosofia capaz de se incor- me). Ele se refere ao tragicômico de Hegel no regime bismar-
porar a uma prática política, a uma prática moral de uma so- ckiano e mais terrível, o "tragicômico de Nietszche, cujas
ciedade inteira" (ver p. 41 neste volume). Foucault opõe o obras completas foram presenteadas por Hitler a Mussolini
papel do confucionismo no Oriente ao do aristotelismo na Ida- por ocasião de sua viagem a Veneza que devia sancionar o
de Média. A perspectiva confucionista permitiu ao Oriente Anschluss". Foucault chega a dizer que mais do que o apoio
experimentar "uma forma de pensamento que, refletindo a or- dogmático das religiões, a fílosofia autenticou Estados sem
dem do mundo ou estabelecendo-a, prescrevesse ao mesmo freio. Marcante é o exemplo do stalinismo. Neste, Foucault
tempo a estrutura do Estado, a forma das relações sociais, as chega a dizer que o Estado filosófico torna-se "literalmente in-
condutas individuais, e as prescrevesse efetivamente na pró- consciente na forma do Estado puro" (verp. 42 neste volume).
pria realidade da história" (ver p. 41 neste volume). Assim, O que era paradoxo torna-se crise nessa forma-Estado que,
Aristóteles não foi o Confúcio do Ocidente, e neste, pelo menos diz Foucault, mais do que qualquer outra, era ao mesmo tem-
até o fim do século XVIII, não existiu um "Estado filosófico". po "uma filosofia que havia justamente anunciado e previsto a
Foucault ressalta que a Revolução Francesa veio mudar esse decadência do Estado" (ver p. 42 neste volume). E. no entanto,
quadro. Passam a existir então regimes políticos que têm rela- "tornou-se um Estado verdadeiramente privado, impedido de
ções não apenas ideológicas, mas organizacionais, com filoso- qualquer reflexão filosófica e de qualquer possibilidade de re-
fias, e ele situa quatro exemplos paradigmáticos. A Revolução flexão'' (ver p. 42 neste volume).
Francesa e o império napoleónico tinham. com o pensamento Torna-se então legítima, e Foucault diz mesmo recomendá-
de Rousseau, ligações orgânicas. O Estado prussiano e Hegel vel, a interrogação histórica sobre essas relações estranhas
também mantiveram um laço des sa natureza. O terceiro mo- que o Ocidente deixou que se estabelecessem entre esses filó-
delo é a ligação orgânica. por mais paradoxal que seja, entre o sofos e o poder. E tudo isso no momento em que a filosofia to-
Estado hitlerista. Wagner e Nietzshe. Foucault considera que mava como princípio ao menos o de moderador do poder se
no século XIX surgiu na Europa algo que jamais existira, não tomava o ponto de vista do contrapoder quando podia di-
Estados filosóficos. ou o que ele chama também de Esta- zer ao poder: detenha-se, não vá adiante. Algumas perguntas
dos-filosofias, isto é, "filosofias que são simultaneamente Es- possíveis seriam: Há uma traição da filosofia? Ou teria sido
tados. e Estados que pensam sobre si, que refletem sobre si ela sempre filosofia do poder? E a questão de dizer ao poder
mesmos, que se organizam e definem suas escolhas funda- que se detenha não seria tomar de forma virtual ou secreta o
mentais a partir de proposições filosóficas. dentro de sistemas lugar do poder tornando-se a lei da lei? Pelo contrário, outras
filosóficos e como a verdade filosófica da história" (ver ps. questões poderiam ser evocadas. como formular que "a filoso-
41-42 neste volume). Fenômeno surpreendente e perturbador fia nada tem a ver com o poder. que a vocação profunda,
para Foucault. porque todas essas filosofias que se tornaram essencial da filosofia é se relacionar com a verdade, ou inter-
Estados eram filosofias da liberdade desde o século XVIII até rogar o ser" (ver p. 43 neste volume); e que, portanto, perden-
Marx e, no entanto. ''essas filosofias da liberdade instituíram. do-se nesses domínios empíricos, como a questão da política e
a cada vez. formas de poder que, seja na forma do terror, da do poder, não lhe resta outra alternativa que não se compro-
XXX Michel F'oucaull - Ditos e Esc1itos Apresentação XXXl

meter. Se foi traída é porque se traiu, colocando questões que jetivos com que se tecem as relações de poder no cotidiano.
não eram dela. Foucault desloca, para a análise das relações de poder, o que
.Foucault levanta a possibilidade de um outro caminho que a filosofia analítica faz dos jogos de linguagem. Atuaria então
a filosofia podia desempenhar em relação ao poder. Este papel a filosofia mais nas relações que atravessam "o corpo social do
não seria o de fundação ou de recondução do poder. Seria que nos efeitos de linguagem, que atravessam e sustentam o
possível para a filosofia "desempenhar um papel ao lado do pensamento". Foucault propõe, então, uma filosofia analíti-
contrapoder". Este novo papel pode ser desempenhado como co-política.
condição de que ele não consista em impor ante o poder a pró- Situando o quadro da filosofia analítica anglo-saxônica,
pria lei da filosofia. Então, o filósofo como profeta, pedagogo fouGault a contrapõe a Humboldt ou Bergson. Essas posições
ou legislador não pode ser mais a posição do filósofo. Cabe à filosóficas superqualificam ou desqualificam maciçamente a
filosofia a tarefa de ·'analisar, elucidar, tornar visível. e, por- linguagem. Em Humboldt, a linguagem surge como "criadora
tanto, intensificar as lutas que se desenrolam em torno dopo- de qualquer relação possível entre o homem e o mundo, por-
der, as estratégias dos adversários no inter:ior das relações de tanto a própria criadora do mundo como aquele do ser huma-
poder, as táticas utilizadas. os focos de resistência" (ver p. 43 no" (ver p. 44 neste volume). Em Bergson, pelo contrário, a
neste volume). Não se trata mais de situar o poder nem aquém linguagem é impotente, imóvel. morta, espacial, e sempre trai
nem além, nem em termos de bem ou mal, mas situá-lo em a experiência da consciência e do tempo. Para a filosofia ingle-
"termos de existência". As perguntas sobre se o poder é bom sa, que não cai nesses excessos positivos ou negativos. a filo-
ou mau, legítimo ou ilegítimo, se ele é uma questão de dir.eito sofia nem engana nem revela; a linguagem é um jogo. A noção
ou de moral-não devem mais ser feitas. Trata-se pura e sim- de jogo desempenha, então, um papel estratégico. Não há mais
plesmente de tentar de formas múltiplas e mesmo de todas as lugar para uma qualificação negativa ou encomiástica, par-
formas "aliviar a questão do poder de todas as sobrecargas cial. global, "definitiva, absoluta. unilateral", nem se pode di-
morais e jurídicas pelas quais ela foi até agora afetada" (ver p. zer "que as relações de poder somente podem fazer uma coisa,
43 neste volume). A pergunta que deve ser feita, aparentemen- que é coagir e obrigar" (ver p. 45 neste volume).
te ingênua, é: "em que consistem. na verdade, as relações de O enunciado estratégico de Foucault é: as relações de po-
poder?" (ver p. 44 neste volume}. A função da filosofia não é der funcionam, e o que é preciso estudar precisamente são "os
agora descobrir o que está oculto, mas tornar Visível o que jogos de poder em termos de tática e estratégia, de norma e de
precisamente é visível, ou ainda, "é fazer ver aquilo que ve- acaso, de aposta e de objetivo" (ver p. 45 neste volume). Fou-
mos", diz Foucault, fazer aparecer o que está tão próximo, tão cault afirma que foi nessa linha que procurou trabalhar. Ele
ligado a nós mesmos que em função disso não o percebemos. realiza uma autoclínica quando diz que preferiu estudar jogos
Surge então como tarefa possível da filosofia elucídar "quais de poder bem mais limitados do que o grande jogo do Estado
são as relações de poder às quais estamos presos e nas com os cidadãos ou com os outros Estados. Diz que o fez "cer-
quais a própria filosofia, pelo menos há 150 anos, está parali- tamente por causa de uma tendência de caráter ou talvez de
sada.. (ver p. 44 neste volume). Foucault diz que existe um uma inclinação para a neurose obsessiva" (ver p. 45 neste vo-
modelo desse uso da filosofia na filosofia analítica anglo- lume). Os jogos de poder mais limitados e humildes a que ele
saxônica, quando "pensa o uso cotidiano que se faz da língua se refere são os que giram em torno "da loucura, da medicina,
nos diferentes tipos de discursos" (ver p. 44 neste volume). da doença, do corpo doente, jogos de poder em torno da pena-
Sua tarefa é realizar uma leitura crítica do pensamento "a par- lidade e da prisão".
tir da maneira como as coisas são ditas". Homologamente. O que está em questão nesses jogos de poder é o status da
Foucault diz ser possível imaginar uma filosofia cuja função é razão e da desrazào, da vida e da morte, do crime e da lei. Coi-
anahsar o que se passa cotídianamente nas relações de poder. sas, diz Foucault, que "constituem a trama de nossa vida
Sua tarefa seria situar quais são as formas, articulações e ob- cotidiana, e a partir das quais os homens construíram seu
XXXll M lthel 1-'oucault - Dilos e Escrilos Apresentação XXX]IJ

discurso da tragédia" (ver p. 45 neste volume). Ante o jogo dos cault é: por que escrever uma história da sexualidade? Fou-
partidos políticos nas campanhas eleitorais, que afirmam cault diz partir de uma s4rpresa: o fato de que Freud e a
irem jogar nas eleições uma partida capital para o seu futuro. psicanálise tiveram como ponto de partida um fenômeno qtte
seja qual for o número de eleitores e o resultado das eleições. no fim do século XIX tinha grande importância no mundo oci-
há a surpresa que a sensibilidade das pessoas não coincide dental, na sociedade e na psiquiatria. Esse fenômeno que fas-
com a avaliação dos políticos. de algo historicamente decisivo cinara médicos e pesquisa.dores era a histeria. Foucault não
ou mesmo trágico. Por outro lado, há um frêmito ininterrupto leva em conta o problema propriamente médico da histeria: o
em torno de questões que atravessam a sociedade contempo- fato de que o sujeito possa ignorar através de seu sintoma his-
rânea, e não apenas a França. quanto a "saber como se vai térico toda uma parte de seu passado ou de seu corpo. Freud
morrer. saber o que será feito de você quando for jogado em ancorou a psicanálise nesse desconhecimento pelo sujeito por
um hospital, saber o que ocorrerá com sua razão ou com seu ele própiio, revelando não um desconhecimento geral do sujei-
julgamento a partir do que disserem sobre sua sanidade. sa- to em si mesmo, mas "um desconhecimento de seu desejo ou
ber o que se é quando se fica louco, saber o que se é e o que de sua sexualidade". Assim, Foucault situa o ponto de partida
ocorrerá quando uma infração for cometida e quando se co- da psicanálise, do desconhecimento pelo sujeito do seu pró-
meçar a entrar na máquina da penalidade" (ver p. 46 neste prio desejo e como "meio geral simultaneamente de análise
volume). É a angústia, a vida. o afeto, que atingem nossos teórica e de investigação prática dessas doenças" (ver p. 58
contemporâneos, diz Foucault, "a loucura e a razão, a morte e neste volume). Foucault ainda questiona: o que é o desconhe-
a doença, a penalidade, a prisão, o crime. a lei, tudo isso faz cimento de seus próprios desejos? Ele diz que essa é a pergun-
parte do nosso cotidiano, e é esse cotidiano que nos parece ta de Freud e que ele não parou de formulá-la. No entanto.
essencial" (ver p. 46 neste volume). Atualmente, não se trata ante essa questão, ele situa um outro fenômeno que diz ser
apenas de confronto no interior desses jogos, mas, num senti- quase o oposto deste e que ele chama, pedindo licença por in-
do mais forte de resistência. do jogo e mesmo de recusa do ventar um neologismo, de fenômeno de supersaber, isto é,
próprio jogo. Foucault situa então o problema da prisão e, por "um saber de qualquer forma excessivo, um saber ampliado,
outro lado, a luta encarniçada em torno da construção do Llm saber ao mesmo tempo intenso e extenso da sexualidade,
novo aeroporto de Tóquio, na região de Narita. não no plano individual, mas no plano cultural, no plano
Foucault situa ainda outra característica do movimento social, em formas teóricas ou simplificadas'' (ver p. 58 neste
que-ele analisa: seus fenômenos são difusos e descentraliza- volume). Foucault menciona, assim, a surpresa da cu]tura oci-
dos. A última característica dessas lutas é que são lutas ime- dental de um tipo de "hiperdesenvolvimento do discurso da
diatas. sexualidade, da teoria da sexualidade. da ciência sobre a se-
xualidade, do saber sobre a sexualidade" (ver p. 58 neste vo-
lume). Assim, no fim do século XIX, surge no Ocidente um
Da moral cristã ao retomo aos gregos fenômeno duplo bastante importante para o Ocidente e mes-
mo para uma parte do Oriente. Foucault explica, assim, a re-
Foucault fala que teve a oportunidade de ver a maior parte ferência que fIZera à scientia sexualis e à ars erotica, isto é, a
de seus livros e artigos traduzidos em japonês quando da con- oposição entre as sociedades em que domina um discurso
ferência "Sexualidade e poder", realizada na Universidade de científico ou pseudocientifico sobre o sexo, tal como no Oci-
Tóquio, em 1978. Ele diz que vai falar não das etapas de seu dente, e as sociedades em que se procura manter um discurso
trabalho, mas das hipóteses. A reformulação do plano dessa sobre a sexualidade muito extenso, abundante e difundido,
pesquisa prometida em s eis volumes já está presente para ele, mas que não visa a instaurar uma ciência. Busca de fato insti-
•!mbora diga que não chegará ao sexto volume prometido, diz tuir uma arte- arte que visaria a produzir, "através da relação
ele, com a maior imprudência. A questão que formula Fou- sexual ou com os órgãos sexuais. um certo tipo de prazer que

li
XXXII Michel Foucaull - Ditos e Escritos Apresentação XXXIII

discurso da tragédia" (ver p. 45 neste volume). Ante o jogo dos cault é: por que escrever uma história da sexualidade? Fou-
partidos políticos nas campanhas eleitorais, que afirmam cault diz partir de uma surpresa: o fato de que Freud e a
irem jogar nas eleições uma partida capital para o seu futuro. psicanálise tiveram como ponto de partida um fenômeno que
s eja qual for o número de eleitores e o resultado das eleições, no fun do século XIX tinha grande importância no mundo oci-
há a surpresa que a sensibilidade das pessoas não coincide dental, na sociedade e na psiquiatria. Esse fenômeno que fas-
com a avaliação dos políticos, de algo historicamente decisivo cinara médicos e pesquisadores era a histeria. Foucault não
ou mesmo trágico. Por outro lado, há um frêmito ininterrupto leva em conta o problema propriamente médico da histeria: o
em torno de questões que atravessam a sociedade contempo- fato de que o sujeito possa ignorar a través de seu sintoma his-
rânea, e não apenas a França, quanto a "saber como se vai térico toda uma parte de seu passado ou de seu corpo. Freud
morrer, saber o que será feito de você quando for jogado em a ncorou a psicanálise nesse desconhecimento pelo sujeito por
um hospítal, saber o que ocorrerá com sua razão ou com seu ele própiio, revelando não um desconhecimento geral do sujei-
julgamento a partir do que disserem sobre sua sanidade, sa- to em si mesmo, mas "um desconhecimento de seu desejo ou
ber o que se é quando se fica louco, saber o que se é e o que de sua sexualidade". Assim, Foucault situa o ponto de partida
ocorrerá quando uma infração for cometida e quando se co- da psicanâlise, do desconhecimento pelo sujeito do seu pró-
meçar a entrar na máquina da penalidade" (ver p. 46 neste prio desejo e como "meio geral simultaneamente de análise
volume). É a angústia, a vida, o afeto, que atingem nossos teórica e de investigação prâtica dessas doenças" (ver p. 58
contemporâneos, diz Foucault, "a loucura e a razão, a morte e neste volume). Foucault ainda questiona: o que é o desconhe-
a doença, a penalidade. a prisão, o crime, a lei, tudo isso faz cimento de seus próprios desejos? Ele diz que essa é a pergun-
parte do nosso cotidiano, e é esse cotidiano que nos parece ta de Freud e que ele não parou de fonnulá-la. No entanto,
essencial" {ver p . 46 neste volume). Atualmente, não se trata ante essa questão, ele situa um outro fenômeno que diz ser
apenas de confronto no interior desses jogos, mas, num senti- quase o oposto deste e que ele chama, pedindo licença por in-
do mais forte de resistência, do jogo e mesmo de recusa do ventar um neologismo, de .fenômeno de supersaber, isto é,
· próprio jogo. Foucault situa então o problema da prisão e. por "um saber de qualquer forma excessivo, um saber ampliado,
outro lado, a luta encarniçada em tomo da construção do um saber ao mesmo tempo intenso e extenso da sexualidade,
novo aeroporto de Tóquio, na região de Narita. não no plano individual, mas no plano cultural, no plano
Foucault situa ainda outra característica do movimento social, em formas teóricas ou simplificadas" (ver p. 58 neste
que ele analisa: seus fenômenos são difusos e descentraliza- volume). Foucault menciona, assim, a surpresa da cultura oci-
dos. A última característica dessas lutas é que são lutas ime- dental de um tipo de "hiperdesenvolvimento do discurso da
diatas. sexualidade, da teoiia da sexualidade, da ciência sobre a se-
xualidade, do saber sobre a sexualidade" (ver p. 58 neste vo-
lume}. Assim, no fim do século XIX, surge no Ocidente um
Da moral cristã ao retorno aos gregos fenômeno duplo bastante importante para o Ocidente e mes-
mo para uma parte do Oriente. Foucault explica, assim, a re-
Foucault fala que teve a oportunidade de ver a maior parte ferência que fizera à scientia sexualis e à ars erotica, isto é, a
de seus livros e artigos traduzidos em japonês quando da con- oposição entre. as sociedades em que domina um discurso
ferência "Sexualídade e poder", realizada na Universidade de cientifico ou pseudocientífico sobre o sexo, tal como no Oci-
Tóquio, em 1978. Ele diz que vai falar não das etapas de seu dente, e as sociedades em que se procura manter um discurso
trabalho, mas das hipóteses. A reformulação do plano dessa sobre a sexualidade muito extenso, abundante e difundido.
pesquis a prometida em seis volumes já está presente para ele, mas que não visa a instaurar uma ciência. Busca de fato insti-
1
~mbora diga que não chegará ao sexto volume prometido, diz tuir uma arte- arte que visaria a produzir. "através da relação
ele, com a maior imprudência. A questão que formula Fou- sexual ou com os órgãos sexuais, um certo tipo de prazer que
XXXJV Micl1el Foucaull - Dilos e Escritos Apresentação XXXV

se procura ton1ar o mais intenso, o mais forte ou o mais dura- via, sustentava em todo caso um discurso na forma de arte
douro possível" (ver p. 6 1 neste volume). Encontra-se, assim, erótica" (ver p. 62 neste volume). Em seguida, intervém o cris-
na Grécia e na antiga Roma, bem como em muitas sociedades tianismo. Este, pela primeira vez na história do mundo oci-
orientais, na China e no Japão, um conjunto muito numeroso dental, teria interposto "uma grande interdição à sexualidade,
de discursos em que se buscam métodos para intensificar o que teria dito não ao prazer e por aí mesmo ao sexo" (ver ps.
prazer sexual (por outro lado, no Ocidente, não existe a arte 62-63 neste volume}. Esse não, esse interdito, produzirá "um
erótica, ou, como disse Foucault, "não se ensina a fazer amor, silêncio sobre a sexualidade" (ver p. 63 neste volume). Entra
a obter prazer, a dar prazer aos outros"). A iniciação à arte eró- em cena então a burguesia, que, ao se tornar hegemônica, en-
tica é clandestina e basicamente interindivid uai. contrando-se em urna posição de "dominação econômica e de
Por outro lado, tem-se ou se tenta ter o que Foucault cha- hegemonia cultural, teria retomado de qualquer forma a seu
ma de scíentia sexualis sobre a sexualidade das pessoas. Vi- cargo, para aplicá-lo mais severamente ainda e com meios
sa-se não ao prazer delas, não se trata de maximizar o prazer, ainda mais rigorosos, esse ascetismo cristão" (ver p. 63 neste
mas sim de uma questão: qual é a verdade no individuo do volume). A recusa cristã do sexo iria se prolongar até o fim do
que é seu sexo e a sua sexualidade? Trata-se, então, da verda- século XIX, quando Freud começaria a levantar seu véu. A
de do sexo, e não da intensificação do prazer. Foucault chega a história da sexualidade é feita, assim, estudando-se os meca-
dizer que seria muito interessante fazer a história comparada nismos de repressão, de interdição, do que se rejeita, exclui e
sobre a ars erotica no Oriente e a scientia sexualis no Oci- recusa. Faz-se cair a responsabilida de dessa recusa, no Oci-
dente. Ele diz que o que ele procura fazer na História da se- dente, sobre o cristianismo, com seu dizer não à sexualidade.
xualidade é exatamente a história dessa ciência sexual no [<'oucault considera que este esquema é inexato e que não se
Ocidente. A questão de Foucault é: por que as sociedades eu- sustenta por múltiplas razões. Ele pensa que uma história
ropéias tiveram tanta necessidade de uma ciêntia sexual? lsto mais rica da sexualidade pode ser feita a partir de uma positi-
é, por que queremos saber preferent emente sobre a verdade vidade, isto é, a partir do que a motivou e impulsionou. mais
do sexo mais do que atingir a intensidade do prazer? A respos- do que a proibiu. Foucault acrescenta uma segunda objeção
ta a essa pergunta tem um esquema habitual conhecido. Foi não metodológica, que retirou dos estudos sobre a Antigüida-
graças a Freud e a partir dele e também por meio de um con- de romana feitos por Paul Veyne, a qual ele diz ser preciso le-
junto de movimentos políticos, sociais e culturais múltiplos, var em conta por ser muito importante.
que se começou aos poucos a "libertar a sexualidade dos gri- Quais são as características da moral cristã quanto ao
lhões que a prendiam, começou -se a lhe permitir falar, ela que sexo, quando é oposta à moral pagã greco-romana? Foucault
até então tinha sido, durante séculos. votada ao silencio" (ver resume essa problemática em três pontos principais: "o c1is-
p. 62 neste volume). Assim, simultaneamente, estaríamos li- ttanismo teria imposto às sociedades antigas a regra da mo-
berando a própria sexualidade e criando condições para to- nogamia; em segundo, o cristianismo teria atribuído como
mar consciência dela. Esse fenômeno moderno se contrapõe, função, não somente privilegiada ou principal, mas corno fun-
nos séculos anteriores, ao peso da moral burguesa, por um c,:ào exclusiva, como única função da sexualidade, a reprodu-
lado, e ao da moral cristã, por outro. Esta última seria conti- c,:t10 - somente fazer amor com a finalidade de ter filhos» {ver p.
nuada pela primeira; assim, as morais cristãs e burguesas te- f-i4 neste volume). Em terceiro lugar, diz J<'oucault, há um pon-
riam "impedido o Ocidente de se interessar pela sexualidade" to a partir do qual ele poderia ter começado sua análise: que o
(ver p. 62 neste volume). Há um esquema histórico triádico, prazer sexual é desqualificado completamente. Ele é um mal
ou seja, desenvolvido em três tempos, três períodos. A primei- e, portanto, deve ser evitado, e a ele é necessário atribuir o mí-
ra época ou o primeiro período é a Antigüidade greco-romana. 11lmo de importância: e assim utilizar-se desse prazer a des-
Nesta. a sexualidade era s upostamente livre e , diz Foucault, pl'ito dele mesmo para procriar. As relações sexuais devem
"se expressava sem dificuldades e efetivamente se desenvol- produzir prazer no casamento. em sua forma única, legítima,
\( XXVI M1t lwl 111111 ,11111 l>1111"' <' Escrllos Ap1·esentação XXXVII

1111 11 1011og,11nla. O que mostram os trabalhos de Paul Veyne é fios. Não se trata nem de rebanho nem de pastor. Porém, no
◄ 1111 '
esses três princípios da moral sexual existiam na cultura Egito, na Mesopotâmia e na Síria. no mundo do Mediterrâneo
rolllana antes do aparecimento do cristianismo. O estoicismo Oriental e na sociedade hebraica, o tema do pastoreio, que se
e sua moral baseada em estruturas sociais ideológicas do Im- desdobra nos aspectos religioso, político, moral e social, é um
pério Romano haviam começado bem antes do cristianismo a tema absolutamente fundamental. Assim, Davi, que Foucault
"inculcar esses princípios nos habitantes do mundo romano" chama de o primeiro rei de Israel, recebe a tarefa de Deus de
(ver p. 64 neste volume). Assim, "casar-se e respeitar sua mu- se tornar o pastor. Foucault opõe o poder pastoral ao poder
lher, fazer amor com ela para ter filhos, libertar-se o mais pos- político tradicional. Não se trata do domínio sobre um territó-
sível das tiranias do desejo sexual já era uma coisa aceita rio, mas sobre um conjunto de indivíduos; sua função mais
pelos cidadãos, pelos habitantes do Império Romano antes do importante não é nem a da vitóiia nem a da conquista, e tam-
surgimento do cristianismo" (ver p. 64 neste volume). Fou- bém não as riquezas ou escravos que pode obter através de
cault ressalta que o cristianismo não pode ser responsabi- guerras. Ele não visa a fazer mal aos inimigos, mas o "bem em
lizado por toda essa série de interditos, desqualificações e relação àqueles de que cuida", devendo assegurar simulta-
limitações da sexualidade que a ele são imputados habitual- neamente a subsistência dos indivíduos e do grupo; não visa
mente. ao triunfo, mas a ser benfazejo.
Ele pergunta então se o cristianismo não teria desempe- Esse poder é uma incumbência: o bom pastor sacrifica-se
nhado nenhum papel na história da sexualidade. Diz ele que pelo bem de suas ovelhas. É o inverso do poder tradicional, do
seu papel não foi introduzir novas interdições, mas trazer no- bom súdito ou do bom cidadão figurado na muito conhecida
vas técnicas. "um conjunto de novos mecanismos de poder máxima "dulce et decorum est pro patría more", que desde a
para inculcar esses novos imperativos morais" no momento época de Felipe, o Belo, ou Felipe IV, da França, supõe o sacri-
em que penetrou no mundo romano, no império, e tornou-se fício pela pátria e pela coroa por que é responsável (Ernst Kan-
depressa a religião do Estado {ver p. 65 neste volume). Fou- torowicz. Os dois corpos do rei).
cault ressalta que é mais do lado dos mecanismos de poder do É a Kantorowicz que Foucault dedica Vigiar e punir, em que
que do lado das idéias morais e das proibições éticas que ele trata do menos-corpo do condenado, que fala ainda da fórmu-
pretende estabelecer a história da sexualidade no Ocidente. a la morrer pelo rei e pela pátria, de Guilherme de Nogaret, que
partir da presença do cristianismo no mundo romano. Quais sobreviveu até a época moderna. A idéia de sacrificio cujos li-
são os mecanismos de poder introduzidos pelo cristianismo? mites extremos aparecem no horror moderno dos campos de
Esse poder é o que Foucault chama de poder pastoral. concentração é tematizada na idéia de sacrifício pela comuni-
Na modalidade do poder pastoral, surge uma categoria de dade. no que Enéas Sílvio Piccolomini, futuro papa Pio II.
indivíduos singulares bem específicos que vão desempenhar "considera que não se deve ver como uma crueldade, já que
na sociedade cristã o papel de condutores em relação aos ou- pela saüde do corpo deve amputar-se um pé e uma mão, e
tros, que são, diz Foucault, "como suas ovelhas ou o seu reba- que, mesmo o príncipe. cabeça do corpo místico da República,
nho" (ver p. 65 neste volume). Essa nova função, a introdução deve sacrificar sua vida quando o bem comum o exige" (Os
desse novo tipo de poder ou dependência, Foucault considera dois corpos do rei. p. 249). A temática cristã do sacrifício vem
como um fenômeno de extrema importância. Jamais na Antí- modular aqui a idéia do poder do príncipe, o poder de vida e
güidade greco-romana houve idéias semelhantes. Em Platão, morte do príncipe. recaindo sobre sua própria pessoa.
por exemplo, há a metáfora que explica o político: ela não se Foucault considera que a organização do pastorado no
refere a um pastor, mas a um tecelão. Este "agencia os dife- cristianismo desde o século III produziu um dispositivo de po-
rentes indivíduos da sociedade como se fossem os fios que ele der muito importante na história do Ocidente e com um im-
tece para fabricar um belo tecido" (ver p. 65 neste volume). pacto muito particular na história da sexualidade. Mas o que
Assim. a cidade-estado é um tecido do qual os cidadãos são os significa o poder pastoral para Foucault? Para o homem da ci-
XXXVIII Mlchel Fottcaull- Dilos e Escrtlos Apresentação XXXIX

vilizaçào do Ocidente? Ele ressalta que o primeiro aspecto do de. Foucault observa que o pastor cristão precisa saber "tudo
pastorado é que a salvação é para todo indivíduo uma obriga- o que fazem as suas ovelhas, tudo o que faz o seu rebanho e
ção. De um lado, no mundo cristão ocidental. salvar-se é um cada um dos membros do rebanho a cada instante, mas ele
assunto individual, porém a salvação não é objeto de uma es- deve também conhecer o interior do que se passa na alma, no
colha livre, na medida em que todos os indivíduos e cada um coração, no mais profundo dos segredos do indivíduo" (ver p.
têm de fazer tudo o que for necessário para se salvar. Disso 69 neste volume). O pastorado cristão. no seu exercício, exige
advém o poder do pastor; ele se ocupa da salvação obrigatórta de forma absoluta esse conhecimento da interioridade dos
das ovelhas, e sua autoridade provém de que ele deve obrigar indivíduos. De que se trata? Qual o sentido de conhecer a in-
as pessoas a fazer tudo para se salvarem. Foucault nota. em terioridade dos indivíduos? Há uma bipolaridade de significa-
segundo lugar, que essa salvação obrigatória é procurada pelo ções aqui: por um lado, o pastor vai dispor de meios de
indivíduo e somente pode ser alcançada se ele aceitar a auto- análise, de refle,x:ão, de detecção daquilo que se passa; por ou-
ridade de um outro. Assim, cada uma das ações do indivíduo tro, ele deverá ser obrigado a dizer a seu pastor tudo o que se
poderá ser conhecida pelo pastor, isto é, este poderá dizer sim passa no âmago d e sua alma, "será obrigado a recorrer, do
ou não em relação a ela. Surge então, diz Foucault, para além ponto de vista do seu pastor, a essa prática tão específica do
das estruturas jurídicas já conhecidas pela sociedade. "uma cristianismo: a confissão exaustiva e permanente" (ver p. 70
outra forma de análise do comportamento, uma outra forma neste volume). Esse procedimento gera como resultado a pro-
de culpabilização, um outro tipo de condenação muito mais dução de uma verdade. É essa verdade, diz Foucault. "que se
refinado, muito mais estrito, muito mais sustentado: aquele desenvolve durante a direção de consciê.ncia, a direção das al-
que é garantido pelo pastor" (ver p. 68 neste volume). Sua po- mas que irá, de qualquer modo, constituir a ligação permanen-
sição lhe permite, diz Foucault. "vigiar, ou pelo menos exercer te do pastor com o seu rebanho e com cada um dos membros
sobre as pessoas uma vigilância e um controle contínuos" (ver do seu rebanho" (ver p. 70 neste volume). Assim, a produção
p. 68 neste volume). dessa verdade interior subjetiva é um elemento decisivo do
O terceiro ponto é que o pastor estava na posição de exigir poder pastoral.
dos outros uma obediência absoluta. Esse fenõmeno é total- O cristianismo se relacionava com o mundo romano, que já
mente novo porque, no mundo romano, se o poder imperial foi havia incorporado sua moral da monogamia da sexualidade e
absolutamente autocrático, não existia a idéia de exigir de al- da reprodução. por volta do século II ou III d.C. Por outro lado,
guém uma obediência total, absoluta e incondicional. A obe- diz Foucault, o cristianismo se deparava com um modelo de
diência ao cristianismo não visa a um hábito, uma aptidão ou vida religiosa intensa sob duas modalidades: a do monaquismo
um mérito; o mérito absoluto é, observa Foucault, ser obedi- hindu e a do monaquismo budista; além dos monges cristãos,
ente, e obediente ao pastor, sendo a humildade a forma inte- que se espalharam por todo o Oriente mediterrâneo, retoman-
riorizada dessa obediência. do, em grande parte, as práticas ascéticas. Existe, segundo
Foucault finaliza essa série de considerações dizendo que Foucault, uma hesitação da posição cristã entre o ideal de as-
no pastorado há algo que remete à histõría da sexualidade, na cetismo integral e "uma sociedade civil que havia incorporado
medida em que o advento do pastorado trouxe consigo um um certo número de ímperativos morais". Assim, o cristianis-
conjunto de procedimentos e de técnicas que dizem respeito à 1,no vai tentar dominar o modelo de ascetismo budista, e, por
verdade e à produção da verdade. Quanto a esse ponto, ele se outro lado. vai controlá-lo "para poder dirigir, do interior, essa
inclui na tradição dos mestres da sabed01;a e da verdade, como sociedade civil do Império Romano'' (ver p. 70 neste volume).
foram , por exemplo, os filósofos da era pré-socrática e os pe- l•oucault pensa que foi a concepção da carne que assegurou
dagogos. O pastor como mestre ensina a escritura. os manda- os meios para isso ocorrer, isto é, estabelecer um equilíbrio
mentos, quer seja de Deus ou da Igreja. c a moral. Há, porém, en tre um ascetismo que recusava o mundo e o domínio de
um outro sentido em que o pastor cristão é o mestre da verda- uma sociedade civil laica na sua estrutura.
XL Mid1el Foucaull - Dilos e Escritos Apresentação XLI

Foi a sexualidade pensada como algo de que era preciso próptios. Um dos interlocutores de Foucault refere-se ao con-
desconfiar o meio encontrado pelo cristianismo para controlar traponto da aula inaugural no College de France, em que o
os indivíduos instaurando um novo tipo de poder. A sexuali- discurso da sexualidade era marcado pela repressão e pela in-
dade introduzia permanentemente no indivíduo possibilida- terdição, enquanto a partir da vontade de saber esse discurso
des de tentação e queda. No entanto, observa Foucault, não se é não mais objeto de repressão, mas manifestação de uma po-
tratava de recusar de forma absoluta tudo o que viesse do cor- sitividade. "alguma coisa que prolifera no âmbito cientifico"
po como sendo de caráter maléfico ou nocivo. Não optando por (ver ps. 72-73 neste volume). Foucault responde que não se
um ascetismo radical, o corpo, os prazeres, a sexualidade, era trata de construir uma teorta geral do poder. O que ele faz se
preciso fazê-los funcionar numa sociedade que possuía orga- dá no nível empírtco; sua questão não é de onde vem o poder,
nização familiar e necessidades de reprodução. A carne cristã mas "por onde ele passa, e como isso se passa (... }, de que
não era um mal absoluto do qual devíamos nos liberar, mas modo se podem descrever algumas das principais relações de
era uma fonte permanente no interior do individuo, em sua poder exercidas em nossa sociedade" (ver p. 73 neste volume).
subjetividade, de uma tentação. Esta. diz Foucault: "corria o Ele diz que não foi o primeiro a tentar fazer isso e que os psica-
risco de levar o indivíduo a ultrapassar as limitações impostas nalistas, Freud e seus sucessores, assim como toda uma série
pela moral corrente, ou seja: o casamento, a monogamia, a se- de figuras, como Marcuse e Reich, tentaram ver como o poder
xualidade para reprodução e a limitação e a desqualificação se passa no psiquismo do sujeito, no inconsciente do indivi-
do prazer" (ver p. 71 neste volume). É uma moral que ele con- duo ou na economia de seu desejo. Questões às quais Fou-
sidera relativamente moderada, que oscila entre o ascetismo e cault se refere nessas análises tocam no papel do pai, no
o funcionamento da sociedade civil; que opera através do dispo- desejo do indivíduo ou ainda na interdição da masturbação e
sitivo ou aparelho do pastorado; que se funda no conhecimento, como ela vem se inscrever no psiquismo das crianças. O que
no saber ao mesmo tempo exterior e intertor dos indivíduos, surpreende Foucault nessas análises é que nelas o poder ti-
mediante um conhecimento meticuloso e detalhado por si nha sempre o papel de dizer não, de proibir, de interditar. de
mesmo e pelos outros. E por meio de um mecanismo de subje- traçar um limite. Assim, os prtncipais efeitos do poder eram
tivação da construção de uma consciência de si advertida de "todos esses fenômenos de exclusão, de histericizaçâo. de
suas próprias fraquezas , suas tentações, "sua própria carne. obliteração, de segredos, de esquecimento ou, se vocês quise-
é pela constituição dessa subjetividade que o cristianismo rem, de constituição do inconsciente" (ver p. 74 neste volume).
conseguiu fazer funcionar essa moral" (ver p. 71 neste volu- Assim, nessa concepção, em que Foucault diz que - para os
me). Foucault condensa sua tese dizendo que a técnica de in- psicanalistas ele ia muito depressa- o inconsciente era cons-
teriorização. a técnica de tomada de consciência, a técnica do tituído a partir de uma relação de poder, o poder surgia a par-
despertar de si sobre si mesmo em relação "às suas fraquezas, tír de mecanismos de proibição. Quanto a essa tese. Foucault
ao seu corpo, à sua sexualidade. à sua carne. foi a contribui- muda a partir do estudo preciso da emergência do sistema pe-
ção essencial do cristianismo à história da sexualidade" (ver p. nal. da prisão e dos sístemas de vigilância e punição no Oci-
71 neste volume). O que é a carne então? Ela é a própria sub- dente nos séculos XVlll e XIX. Desenvolve-se no Ocidente, ao
jetivídade do corpo ou, ainda. é a sexualidade presa no in- mesmo tempo que o capitalismo. "toda uma série de técnicas
terior dessa subjetividade, dessa forma de sujeição nova do para vigiar, controlar, se encarregar do comportamento dos
indivíduo assim mesmo. Ela é um efeito, o primeiro da intro- indivíduos. dos seus atos. de sua maneira de fazer. de sua lo-
dução do poder pastoral no mundo romano. Para Foucault, calização, de sua residência, de suas aptidões, mas esses me-
não se trata da introdução de um mecanismo negativo de in- canismos não tinham como função essencial proibir" (ver p.
terdição e recusa. Trata-se de pôr em ação um mecanismo de 74 neste volume). Seu objetivo ptincipal, o fundamento de sua
controle e poder que é , ao mesmo tempo, um mecanismo de eficácia e solidez era obrigar os indivíduos a aumentar sua for-
saber dos indivíduos, sobre eles próprtos e em relação a eles ça. sua aptidão para o aparelho produtivo da sociedade. Diz
XLII Michel f•'oucaull - Ditos e Escritos Aµreser1taçào XLIII

Foucault: "investir nos indivíduos, situá-los onde eles são terdito e pela repressão, tornando problemática a idéia de U-
mais úteis, formá-los para que tenham esta ou aquela capaci- beraçâo ou de revolução.
dade; é isso que se tentou fazer no exército, a partir do século Lacan pensou inicialmente a psicanálise na época discipli-
XVII. quando as grandes disciplinas foram impostas, o que nar, mas antecipou também a psicanálise na época chamada
não era feito outrora" (ver p. 75 neste volume). Foucault res- imperial. Três momentos, três etapas podem ser citadas, se-
salta que o mesmo ocorreu com a classe operária, que foi pro- gundo a periodização original, proposta por J.-A. Miller.
duzida através de mecanismos disciplinares de poder cujo O primeiro Lacan. o da época disciplinar, "formalizou o in-
mecanismo essencial não era negativo. A tese de Foucault é consciente a partir do algoritmo saussuriano do signo. deu .
que os mecanismos de poder que têm uma inscrição mais for- uma estrutura formal unificante ao Édipo, ao mecanismo da
te em nossa sociedade são aqueles que produzem algo, que castração e ao recalque, através da elaboração dos conceitos
conseguem se ampliar. se intensificar. A questão que ele se de nome-do-pai e de metáfora" (J .-A. Miller, Cours de orienta-
propôs foi: será que em nossa sociedade o poder teve por for- tíon lacanienne III. p. 245). E ainda a libido pelos conceitos de
ma e finalidade interditar e dizer não? Sua tese é que o meca- desejo e de metonímia. Essa formulação possui um enunciado
nismo principal não é o de interdição, mas o de produção, fundamental: o inconsciente é estruturado como uma lin-
intensificação e multiplicação. A sexualidade, assim, muito guagem. Essa versão de Freud foi, aliás, acompanhada pela
mais "do que um elemento do indivíduo que seria excluído proposta de um retorno a ele, ao tranchant da descoberta
.dele. é constitutiva dessa ligação que obriga as pessoas a se freudiana, àquilo que Lacan chamou "seu diamante de sub-
associar com sua identidade na forma da subjetividade" {ver versão".
p. 76 neste volume}. Na segunda fase do ensino de Lacan. considerada por Jac-
Todos os conceitos de Freud - o recalque, a repressão, a ques-Alain Miller como de transição, opera-se uma subversão
função da censura etc. - estão marcados péla época da disci- de Freud. Na prime.ira fase de seu ensino, há uma função dis-
plina dominante. Aliás. se a obra de Freud e de Marx puderam ciplinar central: a instância paterna, o nome-do-pai. Nesse
ser acopladas - se surgiu o freudo-marxismo. de Marcuse e segundo momento, Lacan subverte o nome-do-pai por uma
Reich -, isso se deu, sem dúvida, graças à sua dupla depen- pluralização. Há ainda um outro deslocamento: a operação do
dência em relação ao dispositivo da disciplina. Não foi por aca- recalcamento não é mais atribuída à interdição paterna, à in-
so que Michel F'oucault criticou a hipótese repressiva para terdição do pai, mas à própria ação da linguagem. Lacan
definir o poder sobre o sexo, substituindo-a por um dispositi- introduz uma reviravolta mais decisiva, na medida em que
vo de s exualidade que permitia situar a emergência dos dis- s ubverte o conceito de desejo pelo de gozo. Agora, ao invés d e
cursos sobre o sexo. Ele ironiza o hino "franciscano" sobre a ressaltar a falta, Lacan vai enfatizar o que preenche a falta.
liberaç.ão da sexualidade. Cabe re ssaltar aqui que é uma mudança do conceito de su-
J.-A. Miller descreve a época lacaniana da psicanálise a jeito e mesmo sua substituição que está em questão.
partir de Michael Hardt e Antonio Negri no livro Império: "Nes- O conceito de sujeito que apareceu em Lacan no discurso
te período de crise dos anos 1960 e 1970, a_expansão da de Roma - com a fórmula: o sujeito finalmente em questão - é
proteção social e a universalização da disciplina, ao mesmo essencialmente uma falta-a-ser e o oposto ou o negativo de
tempo nos países dominan tes e nos países subordinados, um ser. Isso é figurado por ums barrado($). Porém, Lacan, no
criaram uma nova margem de liberdade para a multidão labo- ::;eminário "Mais Ainda", substituiu o sujeito por algo total-
riosa. Em outras palavras, os trabalhadores utilizaram a era mente diverso, que é o ser falante ou o Jalasser; o parlêtre.
disciplinar a fim de estender os poderes sociais do trabalho, O sujeito surge particularmente separado do corpo, e La-
aumentar o valor da força de trabalho etc." (A. Negri; M. can o correlaciona com a palavra e o significante. Já o ser fa-
Hardt, Império, Rio de Janeiro, Record, 2001, p. 293}. A etapa lante. Jalasser ou parletre, é uma instância cuja ancoragem se
atual do que eles chamam império não procede mais pelo in- d,~ no corpo; portanto o corpo aqui é que produz a diferença.
XLIV Michel Foucault - Ditos e Esérjtos Apresentação XLV

Quando se trata do sujeito, são os efeitos do significante como sujeito está sempre feliz. É um axioma: a pulsão sempre se sa-
significação que contam, e os mecanismos da metáfora e da tisfaz, quer seja de forma direta, de maneira econômica, dolo-
metomínia são particularmente importantes aí. Por outro lado, rosa ou agradável. Essa tese corresponde à saída da época
a teoria do ser falante trata os efeitos do significante como afe- disciplinar, organizada a partir do interdito e da transgressão.
tos, isto é, os seus efeitos no corpo, e não como significação. O Agora só há arranjos, modos de gozos, não há mais exterior.
efeito maior, para Lacan, é o que ele chamou gozo, que precisa A sociedade disciplinar, pensada no livro Império, a partir
do suporte corporal. Assim. Lacan o denominou substância a da leitura deule.ziana de Foucault, supõe a saída do regime
partir de Aristóteles enquanto o sujeito se dá numa modalida- disciplinar e sua substituição pelo regime de·controle. De qual-
de diversa da substância, isto é, não é substancial. É interes- quer forma. sujeitos estão numa relação de exterioridade com
sante articular isto com a elaboração feita por Foucault entre os aparelhos e dispositivos que os dominam, e o poder disci-
o corpo e os prazeres. Com o conceito de ser falante, Lacan re- plinar apoiava-se nos aparelhos em que Foucault traçou a ge-
nuncia ao sujeito, lembra-nos Jacques-Alain Miller: eXiste nealogia no Antigo Regime, sobre qs quais já editamos um
agora um corpo afetado pelo significante. Todas as categorias bom número de textos no quarto volume dessa edição. Quan-
do seu ensino são abaladas por essa nova fórmula, e Lacan do Foucault passou a estudar a genealogia do sujeito e sua
chega a dizer que o inconsciente pode ser substituído pela pa- hermenêutica. ele passou a estudar de forma mais marcada
lavrafalasser. Por isso é que ele lembra que a função que La- as formas de subjetivação. Se o poder disciplinar foi constitu-
can chamou de sujeito é algo que se distingue de qualquer tivo das relações de poder no capitalismo, na época atual os
instância da subjetividade. Ele manteve esse termo para mecanismos de dominação são interiorizados porque a socie-
transferi-lo a uma função do significante com o fim de proibir dade capitalista se orientou para uma sociedade de comuni-
o retomo do sujeito clássico. Trata-se de uma nadificação da cação ou informação e difundiu de maneira mais plástica,
subjetividade clássica. móvel, fugidia, a dominação. O que existe são redes em que o
Há, por fim, o terceiro Lacan com seu último ensino, cuja domínio não é mais exterior. o que Negri chama de alienação
elaboração cobre a década de 1970, a mesma, aliás. em que autônoma, porque não é mais uma dominação externa, e que
Michel Foucault publicou Vigiar e punir e construiu o conceito Jacques-Alain Miller chamou de dominação êxtima, a que ope-
de sociedade disciplinar. O conceito fundamental dessa ter- ra no mais intimo da subjetividade.
ceira fase é o de gozo. mas gozo na medida em que ele não tem Essa leitura da história da psicanálise supõe, na verdade, a
contrário. Antes dessa nova definição e formalização, o con- tese que foi desenvolvida por Lacan na sua ética da psicanáli-
ceito de gozo estava em tensão com o sígnificante mortífero. se: "o movimento no qual é aITastado o mundo em que vi-
Do ponto de vista do significante, dizia-se que o sujeito estava vemos, promovendo até às suas últimas conseqüências a
morto e o gozo, interdito a quem fala. Agora, a próptia lingua- instalação dos serviços dos bens, implica uma amputação, sa-
gem torna-se aparelho de gozo; o significante é o operador de crificios, a saber, este estilo de puritanismo na relação com o
gozo. Na psicanálise, tínhamos aprendido a opor o gozo ao desejo que se instalou historicamente" (J. Lacan. Le séminaí-
prazer. Na nova formalização de Lacan, não exíste essa oposi- re, Livro VU: L'éthique de la psychanalyse, Paris, Êditions du
ção prazer/gozo. Ela se dissolve. O prazer se transforma em Seu.H. 1986, ps. 350-351).
um regime de gozo. De fato. em 1960. o movimento do capitalismo - que. atual-
Na última fase, os conceitos herdados da Hngüísüca estru- mente. em escala global, parece não ter oposto - parecia orde-
tural cederão lugar a um novo organon, pulsional, abandona- nado nessa formulação de Lacan por uma ética e uma prática
do pela leitura estruturalista inicial. Lacan pensa agora no puritanas. Trata-se, evidentemente. de uma referência a Max
nível da pulsão. Diferentemente do desejo. a pulsão não está Weber, que ligava a emergência do capitalismo a uma repres-
articulada a uma defesa, ele a resumiu numa fórmula, num são do gozo, no qual a prática da acumulação supunha não
aforismo de televisão: "o sujeito é feliz". No nível pulsional, o gozar. Porém, no avesso da psicanálise. o que Lacan vai esta-

j,
XLVI Michel Foucault - Ditos e Escritos Apresentação XLVII

belecer, em 1970. 10 anos depoís do seminário sobre a ética. laceramento interrompe o fio da história e suas cadeias de
um pouco antes de Foucault começar o moVimento do Grupo razões quando prefere "o risco da morte à certeza de ter de
de Informações sobre as Prtsões. é o caráter ultrapassado do obedecer~ (ver p. 77 neste volume). A possibilidade da insur-
diagnóstico sobre o movimento do mundo como marcado pelo reição é o ponto último de sustentação; para Foucault, mais
estilo puritano. Na atualídade, pelo contrário, o que marca o importante mesmo que os direitos naturais, e constituí o sus-
estilo novo é a permissiVidade. e o difícil é a interdição interdi- tentáculo de todas as liberdades e direitos reivindicados, exer-
tar, isto que, em sua versão nacional, tomou a forma conheci- cidos ou adquiridos. Se o poder nas sociedades não é absoluto
da do "é proibido proibir". Trata-se de um moVimento pelo e, para além "das ameaças. violências e persuasões. há possi-
qual o capitalismo separou-se do puritanismo. Essa interpre- bilidade desse momento (...) em que os poderes nada mais
tação integra na leitura da sociedade disciplinar a formação podem e no qual. na presença dos patíbulos e das metralha-
da psicanálise, não propriamente a partir do dispositivo de se- doras, os homens se insurgem" (ver p. 77 neste volume), se
xualidade pensado em continuidade com a confissão, mas a nesse instante os sujeitos estão fora da história e na história,
partir do poder - repressão, poder e recalcamento. é porque ali se aposta na vida e na morte e por isso as insurrei-
ções encontraram "nas formas religiosas sua expressão e sua
dramaturgia". As insurreições eram viVidas durante séculos,
A insurreição na história: a irredutibilidade do ato como espera do salvador ou advento do reino dos últimos
dias. do domínio exclusivo do bem. retomo do tempo, promes-
Ante o fenômeno da revolução iraniana. Foucault situa o sa do além. E era assiro a própria maneira de Viver as insurrei-
sentido ético da revolta das massas. Ele foi muito critícado por ções. Com o advento da era das revoluções. há dois séculos, e
seu apoio à revolução, como por maior parte das posições que sua projeção sobre a história, ela "organizou nossa percepção
tomou em vários éampos. Assim, diz ele: "Alguns marxistas do tempo. polarizou as esperanças" (ver p. 78 neste volume).
disseram que eu era um perigo para a democracia ocidental - Realizou-se, assim, um gigantesco esforço para que.a insur-
isso foi escrito-, um socialista escreveu que o pensador mais reição se aclimatasse no âmbito de uma história racional. A
próximo de mim era Adolf Hitler em Mein Kampj Fui conside- revolução definiu as leis do desenvolVimento da insurreição.
rado pelos liberais um tecnocrata agente do governo gaullista; deu-lhe legitimidade, determinou suas condições prévias, suas
pelas pessoas de direita, gaullistas ou outros, um perigoso anar- finalidades e modos de se concluir, além de estabelecer quais
quista de esquerda; um professor amertcano perguntou por eram as boas e más insurreições. Neste contexto, lembra Fou-
que, nas universidades americanas, se convidaria um cripto- cault, "chegou-se mesmo a definir a profissão de revolucioná-
marxísta como eu. que seria manifestadamente um agente da rio" (ver p. 78 neste volume). À tese de que a insurreição foi
KGB etc." (ver p. 221 neste volume). colonizada na Real-Politik, Foucault prefere a pergunta de Hor-
A posição de Foucault localiza-se ante o que há de irredutí- ckheimer: "Mas será ela assim tão desejável. essa revolução?"
vel no ato da revolta. Diante do dito dos iranianos "para que o (ver p. 78 neste volume).
xá se vá, estamos prontos para morrer aos milhares", ele co· Referindo-se à revolução iraniana, Foucault centra-se no
menta que, ainda que pertencendo à históiia, as insurreições enigma da insurreíção. O que era surpreendente no Irã? Fou-
dela escapam. vão além. Trata-se de um movimento irredutí- cault obseiva que os homens e mulheres iranianos, quando
vel para Foucault quando "um só homem, um grupo, uma mi- arriscavam suas Vidas, escreViam "a fome, as humilhações, o
noria ou todo um povo diz: 'Não obedeço mais', e joga na cara ódio pelo regime e a vontade de mudá-lo (...) nos confins do
de um poder que ele considera injusto o risco de sua vida" (ver céu e da terra, em uma história sonhada que era tão religiosa
p. 77 neste volume). Irredutível, diz Foucault, porque poder quanto política" (ver p. 78 neste volume). Ele ressalta que as
algum é capaz de tornar absolutamente impossível a revolta. famosas manifestações. cujo papel era muito importante, e Vi-
O homem rebelde não tem definitivamente explicação, seu di- savam a responder à ameaça do exército até paralisá-lo, de-
XLVTII Michel Foucault - Ditos e Escritos Apresentação XLIX

senvolviam-se segundo um ritmo de cerimônias religiosas e . também para qualquer despotismo, tanto o de hoje quanto o
remetiam "a uma dramaturgia intemporal na qual o poder é de antigamente" (ver p. 80 neste volume). Ser hoje contra as
sempre maldito" {ver p. 78 neste volume). Superposição es- mãos cortadas depois de ter sido antes contra as torturas da
pantosa. diz ele, que lembra indiretamente a Idade Média, ao polícia secreta do xá não constitui vergonha. Não ê vergonho-
notar que ela parece próximo "dos velhos sonhos que o Oci- so mudar de opinião. Foucault afirma que ninguém tem o di-
dente conheceu outrora, quando se queria escrever as figuras reito de dizer para que se revoltem por alguêm em nome da
da espiritualidade no terreno da política" (ver p. 79 neste volu- libertação final de todos os homens. Ele não concorda, no en-
me). Referindo-se ao papel da religião, diz ele que aparente- tanto, com os que dizem que é "inútil se insurgir. sempre será
mente os anos de censura e perseguição, a tutelagem da classe a mesma coisa". Assim. "não se impõe a lei a quem arrisca sua
política, a proíbição dos partidos, o massacre dos grupos revo- vida diante de um poder" (ver p. 80 neste volume). Foucault
lucionários levariam a pensar que a população só podia apoiar inclui aqui a questão: existe ou não motivo para se revoltar?
sua revolta depois dos traumas do desenvolvimento, da re- Questão que ele deixa aberta diante do fato mesmo de que as
forma e da urbanização, e de todos os fracassos do regime. insurreições existem de fato. Lugar importante e decisivo
Foucault considera verdadeiro esse aspecto; por outro lado, onde "a subjetividade (não a dos grandes homens, mas a de
considera o papel da espiritualidade islâmica uma realidade qualquer um) se introduz na história e se lhe dá seu alento"
intensa e complexa, por isso não se deveria pensar que o ele- (ver p. 80 neste volume). Ele declina as modalidades em que
mento religioso na revolução rapidamente apagar-se-ia em essa ação da subjetividade se faz presente hoje: "um delin-
beneficio de ideologias supostamente menos arcaicas. Fou- qüente arrisca sua vida contra castigos abusivos; um louco
cault ressalta a solidez institucional do clero xiita cujo domí- não suporta mais estar preso e decaído; um povo recusa o re-
nio da população era forte e movido por vigorosas ambições gime que o oprime" (ver p. 80 neste volume). Por outro lado,
políticas, e ainda o contexto do movimento islâmico, que ocu- esse ato não inocenta o delinqüente, não cura o louco e nem
pa posição estratégica e em expansão em dois continentes. O garante ao povo que se insurgir que virão os dias prometidos.
que Foucault chama de transposição na cena política iraniana E Foucault prossegue: "Ninguém, aliás, é obrigado a ser soli-
combina e funde o que ele diz ser "o mais importante e o mais dário a eles. Ninguém é obrigado a achar que aquelas vozes
atroz: a estupenda esperança de fazer novamente do Islã uma confusas cantam melhor do que as outras e falam da essência
grande civilização viva, e as formas de xenofobia virulenta; os do verdadeiro." A conclusão de Foucault é simples: sua exis-
riscos mundiais e as rivalidades regionais. E o problema dos tência basta "e que tenham contra elas tudo o que se obstina
imperialismos. E a submissão das mulheres etc." (ver p. 79 em fazê-las calar" (ver p. 80 neste volume). Toma-se impor-
neste volume). Foucault distingue o que ele chama "a parte tante então ouvi-las e buscar o que elas querem dizer; trata-se
mais íntima e intensamente vivida da insurreição" (ver p. 79 mais de uma questão de realidade do que de moral. Foucault
neste volume) do tabuleiro político sobrecarregado que lhe era ressalta de fonna bastante enfática que "todas as desilusões
contíguo. Foucault nota que esse contato não significava da história de nada valem". A existência de tais vozes faz com
identidade, e que a "espiritualidade à qual se referiam aqueles que o tempo dos homens não tenha "a forma da evolução, mas
que iam morrer não tem comparação com o governo sangrento Justamente a da 'história'" {ver p. 80 neste volume). Foucault
de um clero fundamentalista" (ver p. 79 neste volume). Des- considera isso inseparável de um outro princípio, o caráter
qualificar a insurreição por haver hoje um governo de mulãs sempre perigoso do poder de um homem sobre o outro. Não se
não é diferente do que fizeram estes quando quiseram autenti- trata de considerar o poder um mal, mas ele é em seus meca-
car seu regime pelas significações que tinha a insurreição. nismos interminável. e não bastam as regras. Ele diz que sua
Foucault diz que tanto em uma posição quanto na outra existe moral teórica é inversa do pensamento estratégico que dis-
medo. Trata-se de tomar evidente "o que há de irredutível em sesse: "Que importa tal morte, tal grtto, (...) em relação à gran-
1 um movimento dessa ordem. E de profundamente ameaçador de necessidade do conjunto (...). " Se para um o que importa é
1, Michel Foucault - Dilos e Esclitos Apre.sentação LI

o principio geral na situação particular em que estamos, no do conceito de sujeito, e é em torno deste que giram os
para Foucault é necessário "ser respeitoso quando uma sin- cursos do fim de sua vida e também seus dois últimos livros.
gularidade se insurge, intransigente quando o poder infringe o Se antes havia quase uma estrutura sem sujeito. e se Pasqui-
universal". É o papel de quem espreita, "por baixo da história, no o localiza corno corpo dócil fabricado pelas disciplinas. o
o que a rompe e a agita", e vigia "um pouco por trás da política sujeito surge efetivamente na histõ1;a da sexualidade como
o que deve incondicionahnente limitá-la" (ver p. 81 neste volume). "lugar de uma problematização, objeto de uma preocupação, o
eixo em torno do qual vai se concentrar toda uma reflexão re-
lativa ã relação consigo mesmo e os outros, reflexão constitu-
Na ética do cuidado de si, um exemplo: a escrita tiva da conduta de vida" ("La volonté de savoir", p. 95).
.E m maio de 1968, Michel Foucault assistiu a uma sessão
Pasquale Pasquino comenta que Foucault sempre pensou, do seminário de Lacan que tratava de constituir uma leitura
desde seu primeiro livro sobre a História da loucura, que não do quadro de Velásquez Las Meninas, objeto de uma análise
existem objetos naturais. Neste sentido, a sexualidade não fulgurante de Foucault em As palauras e as coisas. Lacan, en-
constituiria um invariante, mas ela se inscreve numa história. tão, além de dizer que na psicanálise não se trata de outra
Esta história, diz Pasquino, não é nem o desdobramento de coisa senão da relação das palavras e das coisas, propõe a
uma substância nem a busca de uma origem. Esta .história se Foucault o seguínte: "Não sei se você aceitará o título, cabe a
interroga pela maneira como o Ocidente pensou no curso do você dizer-me se o que tentamos fazer sobre um ponto preci-
tempo "esse campo de relações entre os sujeitos (mulheres so, ou por alguma via, ê algo que se pode chamar história da
e/ou homens) ao qual se deu, a partir do século XIX, o nome subjetividade. Definiríamos um campo como você já o fez para
de sexualidade" (Le débat, n 2 41, set./nov. 1986. Paris, Edi- O nascimento da clínica ou para a História da loucura, um
ções Gallimard). Tal história da sexualidade desemboca em campo histórico" (Jacques Lacan, Seininário inédito "O objeto
uma história da ética entendida, lembra Pasquino, não como da psicanálise", p. 35 da lição de 18 de maio de 1968).
história dos comportamentos ou dos códigos morais, como diz Escrevendo sobre si mesmo como se fosse um outro, sob o
Foucault, "o conjunto dos valores e das regras de ação que são pseudônimo de Maurice Florence, Michel Foucault assim fala
propostas aos indivíduos e aos grupos por intermédio de apa- ele seu novo percurso e do sentido de sua nova investigação:
relhos prescritivos" (Michel Foucault, L'usage des plaisirs, "Michel Foucault tenta agora. sempre dentro do mesmo proje-
Collection Bibliotheque des Histoíres, Paris. Edições Galli- to geral. estudar a constituição do sujeito como objeto para ele
mard, 1984, p. 32). Na verdade, ela pesquisa "as formas da próprio: a formação dos procedimentos pelos quais o sujeito é
relação consigo próprio. tais como "foram definidas, modifica- levado a se observar, se analisar, se decifrar e se reconhecer
das, reelaboradas e diversificadas" (L'usage eles plaisirs. ps. como campo de saber possível. Trata-se, em suma, da história
38-39) no curso da história do Ocidente. O que, no entanto, ela ·subjetividade', se entendermos essa palavra como a ma-
ressalta Pasquino, e é fundamental, é que "essa histótia da neira pela qual o sujeito faz a experiência de si mesmo em um
ética ou da conduta da vida sexual se apresenta como história jogo de verdade, no qual ele se relaciona consigo mesmo. A
das problematizações da suqjetívidade, a saber, como recons- questão do sexo e da sexualidade pareceu constituir para Mi-
trução das formas das condutas de vida, consideradas aqui r.hel Foucault não, certamente. o único exemplo possível, mas
do ponto de vista 'do governo de si', e não daquele 'das discipli- pelo menos um caso bastante privilegiado: é efetivamente a
nas'" (Pasquale Pasquino, "La volonté de savoir", Le débat, n 2 esse respeito que. através de todo o cristianismo e talvez mais
41, sct./nov. 1986, Paris, Edições Gallímard, p. 94). E Pasqui- além, os indivíduos foram chamados a se reconhecerem como
no lembra que Foucault realiza um deslocamento radical de sujeitos de prazer, de desejo. de concupiscência, de tentação
três conceitos de nossa história do pensamento: verdade, su- e. por diversos meios (exame de si, exercícios espirituais. reco-
jeito e poder. Cabe ressaltar o deslocamento efetuado em tor- nhecimento de culpa, confissão), foram solicitados a desen-
1,11 1\111 -111•1 I• 01w1111J1 DU OH<· Es(-rllos Apresentação LIII

volver, a respeito deles mesmos e do que constitui a parte passo, àqueles para quem, em suma, trabalhar - ou seja,
mais secreta, mais individual de sua subjetividade. o jogo do manter-se em reserva e na inquietação - equivale à demissão,
verdadeiro e do falso" (ver p. 236 neste volume). é evidente que não somos do mesmo planeta" (ver p. 196 neste
Foucault vai nos revelar que da Antigüidade ao cristianis- volume).
mo passa-se de uma moral que era essencialmente a busca de Foucault elaborou um enorme manuscrito sobre o segun-
uma ética pessoa] para uma moral como obediência a um sis- do volume da HLstõ,·ia da sexualidaq.e, em que se volta para o
tema de regras. O interesse que ele manifestou pela Antigüi- mundo antigo greco-romano. Daniel Defert nos informa que
dade deu-se por uma razão atual: "foi porque, por toda uma ele comportava. em março de 1983, quatro partes: a primeira,
série de razões. a idéia de uma moral como obediência a um consagrada ao que se chamava o uso dos prazeres, estava di-
código de regras está desaparecendo, já desapareceu. E a esta vidida em dois grandes capítulos: "Noções e princípios" e MA
ausência de moral corresponde, deve corresponder uma bus- onirocrítica de Artemidoro de Daldes"; a segunda tratava das
ca que é aquela de uma estética da existência" (ver p. 290 ''Práticas da temperança"; a terceira, da cultura de si; e a
neste volume). Assim. esta análise não trata nem do compor- quarta, das exigências de austeridade que, como refere Defert.
tamento nem das idéias, nem das sociedades nem das ideolo- estava dividida em três capítulos: 1) o corpo; 2) a esposa; 3) os
gias. mas o que se formula como problematizações que dizem garotos.
respeito ao ser, isto é, como diz Foucault, "as problematiza- A referência inicial de Michel Foucault é a VitaAntonii, que
ções através das quais o ser se apresenta como podendo e de- apresenta a notação escrita das ações e dos pensamentos
vendo ser pensado, e as práticas a partir das quais elas se como um elemento fundamental da vida ascética. Atanásio
formam" (ver p. 199 neste volume). diz: "Eis uma coisa a ser observada para nos assegurarmos de
Foucault chegou a planejar a edição de um livro, Le gouuer· não pecar. Consideremos e escrevamos, cada um, as ações e
nement de soi et des autres, na coleção que co-dirigia com os movimentos de nossa alma. como para nos fazer mutua-
Paul Veyne e François Wahl, corno nos informa Daniel Defert. mente esquecê-los, e estejamos certos de que, por vergonha
Esse projeto tomava várias formas, tinha várias possibilida- de sermos conhecidos, deixaremos de pecar, e nada teremos
des. com estudos sobre Alcibíades e com a noção de preocu- de perverso no coração. Pois qu em, quando peca. consente em
pação de si e de vida política. Seu interesse intenso pelos ser visto e, quando pecou, não consegue mentir para esconder
estóicos o levara a trabalhar também em Epicteto. escutar. es- sua falta? Ninguém fornicaría diante de testemunhas. Da mes-
crever e práticas de si. ma forma. escrevendo nossos pensamentos como se devêsse-
Neste sentído, o texto sobre a escrita de si é um exemplo mos comunicá-los mutuamente, estaremos mais protegidos
bastante significativo de um conjunto de estudos que Fou- dos pensamentos impuros. por vergonha de tê-los conheci-
cault passou a elaborar na última etapa de sua obra sobre as dos. Que a escrita substitua o olhar dos companheiros de as-
artes de si mesmo, ou a estética da existência e o domínio de si ces e: enrubescendo tanto por escrever quanto por sermos
e dos outros na cultura greco-romana. Esse trabalho. na ver- vistos, abstenhamo-nos de qualquer mau pensamento. Disci-
dade, desorganizara o programa de ediçào que ele havia pro- plinando-nos dessa maneira. podemos forçar o corpo à sub-
gramado a partir de Vontade de saber; e nesse sentido ele missão e frustrar as armadilhas do inimigo" (ver ps. 144-145
agradeceu a seus ouvintes do College de France e a seu editor neste volume). Foucault figura aqui a função da escrita; ela
Pierre Nora por terem tido paciência de seguir os trajetos e aparece claramente em sua relação de complementaridade
des~ios do seu trabalho. Quanto a isso, ele formula o que po- com a anacorese, e seus efeitos são múltiplos: atenuar os peri-
denamos chamar de ética do pesquis ador ante um certo tipo gos da solidão, oferecer o que se faz ou pensa a um olhar pos-
de imobilismo intelectual. Diz ele: "Quanto àqueles para quem sível. A escrita tem o papel de um companheiro, suscitando o
se esforçar, começar e recomeçar, tentar, enganar-se, retomar respeito humano e a vergonha. Diz r'oucault que é possível en-
tudo de fio a pavio, e ainda encontrar meios de hesitar a cada tão fazer primeiro uma analogia: o que numa comunidade são
1 1V Ili li li• l /•11111 111111 Ditos e Escritos Apresentação LV

os outros para o asceta, "o caderno de notas será para o solitá- {ver p. 146 neste volume). E ele cita Sêneca, que dizia a Luci-
rio" (ver p. 145 neste volume). Ele nota que uma segunda ana- lius: "é preciso ler(...) mas também escrever". O próprio Epicte-
logia se levanta simultaneamente: "o constrangimento que a to, cujo ensino era oral, insistia no papel da escrita. e muitas
presença do outro exerce na ordem da conduta, a escrita o vezes como exercício pessoal: ." que possa a morte me apanhar
exercerá na ordem dos movimentos interiores da alma" (ver p. pensando. escrevendo, lendo" (ver p. 146 neste volume). E con-
145 neste volume). A escrita ocupa aqui um papel próximo à tinuava: ''Mantenha os pensamentos noite e dia à disposição
confissão ao diretor espiiitual, que Foucault analisou nos tex- (...); coloque-os por escrito, faça sua leitura; que eles sejam
tos de Cassiano como sendo reveladora de todos os movimen- o objeto d.e tuas conversações contigo mesmo. com um outro"
tos da alma. Essa escrita dos movimentos interiores em (ver p. 146 neste volume). Foucault nota que em Epícteto a
Atanásio surge como a arma do combate espiiitual: "enquanto "escrita aparece regularmente associada à 'meditação'. ao
o demônio é uma potência que engana e faz com que o sujeito exercício do pensamento sobre ele mesmo que reativa o que
se engane sobre si mesmo (toda uma grande parte da Víta ele sabe, torna presentes um princípio, uma regra ou um
Antoníi é consagrada a essas astúcias), a escrita constitui exemplo, reflete sobre eles, assimila-os. e assim se prepara
uma experiência e uma espécie de pedra de toque: revelando para encarar o real" (ver p. 147 neste volume). Foucault afir-
os movimentos do pensamento, ela dissipa a sombra interior ma que a escrita está associada ao exercício do pensamento
onde se tecem as tramas do inimigo" (ver p. 145 neste volu- de duas formas diversas. A primeira é de uma série que ele
me}. Foucault considera que esse texto, dos mais antigos considera linear: "vai da meditação â atividade da escrita e
produzidos pelo cristianismo sobre o problema da escrita es- desta ao gwnmazeín, quer dizer, ao adestramento na situação
piritual, não esgota todos os sentidos e modalidades que ela real e à experiência" (ver p. 147 neste volume), o que quer di-
vai assumir posteriormente, mas torna possível detectar de zer: trabalho de pensamento. trabalho pela ação da escrita,
forma retrospectiva alguns dos aspectos que a função da es- trabalho no real. A segunda modalidade é circular. diz Fou-
crita vai desempenhar na cultura filosófica sobre si antes do cault: a meditação vem antes das notas; estas permitem a
c1istianismo. Foucault detecta nesses três elementos "sua es- releitura, a qual vai revigorar a meditação. De qualquer ma-
treita ligação com a corporação dos companheíros, seu grau neira, seja qual for o ciclo de exercícios em que se dá, é a escri-
de aplicação aos movimentos do pensamento. seu papel de ta uma etapa fundamental no movimento para o qual todas as
prova da verdade" (ver p. 146 neste volume). Em Plutarco, Sê- askêsí.s se voltam ou se dirigem: isto é a "elaboração dos dis-
neca e Marco Aurélio, com procedimentos completamente di- cursos recebidos e reconhecidos como verdadeiros em prin-
ferentes e com uma valorização também totalmente diversa. cípios racionais de ação". Foucault chama de etopoiêitíca a
diz Foucault, esses elementos jâ se encontram. função da escrita. Esta expressão ele retirou de Plut.arco. isto
.F'oucault considera que nenhuma técnica, nenhuma habi- é. a escrita opera a "transformação da verdade em êthos" .
lidade profissional pode ser adquirida sem exercício: a arte de Onde se localiza a escrita etopoiéitica? Nos documentos dos
Viver. teclmê tou biou, não pode ser aprendida sem urna aské· séculos l e II, parece encontrar-se no exterior de duas formas
sis. Como deve esta ser compreendida? Trata-se de um treino já conhecidas e utilizadas para outros fins: os hupomnêmatae
de si por si mesmo. Muito mais tarde, pitagóricos, socráticos e a correspondência. O que constituía os hupomnênata? Diz
cínicos iriam lhe dar muita ímportãncía. O treino de si por si. Foucault que, no "sentido técnico, podiam ser livros de conta-
que compreendia abstinências, memo1izações, e.xames de cons- bilidade. registros públicos. cadernetas individuais que ser-
ciência. meditação e escuta do outro, entre todas as formas viam de lembrete" (ver p. 147 neste volume). Todo um público
que tomava a escrita para si e para o outro. desempenhou pa- culto os utilizava como guia de conduta, onde as citações
pel significativo por um tempo bastante extenso. Referindo-se eram anotadas, assim como fragmentos de obras, ações e
aos textos da era imperial. Foucault diz que os "que se relacio- exemplos que haViam sido vistos ·ou de que se conhecera a
nam com as práticas de si constituem boa parte da escrita" narrativa, e ainda pensamentos e reflexões escutados ou que
1 \11 Mt1 11, 1!•111111111Jt 1>lto.s e Escritos Apresentação LVII

vieram à lembrança. Eram. diz Foucault, "uma memória ma- so daquele. não visa a buscar o indizível. nem revelar o oculto.
terial das coisas lidas. ouVidas ou pensadas" (ver p. 147 neste ou ainda dizer o não-dito. Eles vão no sentido contrário, pro-
volume). E podiam também se oferecer como um tesouro que curando captar o já dito, "reunir o que se pôde ouvir ou ler . e
se reunira tendo em Vista futuras releituras e meditações. isso com uma finalidade que nada mais é que a constituição
Constituíam também o que se podia considerar como maté- de si- (ver p. 149 neste volume). Os hupomnêmata devem ser
ria-prima para a elaboração mais sistemática de tratados em situados n o quadro de urna tensão presente naquele momen•
que se davam meios e argumentos para lutar e se pôr contra to históctco com uma cultura muito marcada pela tradição,
um certo tipo de falta. tal como: a inveja, a cólera, a adulação, pelo valor do já dito. pelo discurso recorrente e a prática da ci-
o blablablá; ou ainda uma circunstância difícil: um luto, um tação consagrada pela Antigüidade e pela autoridade. A ética
exílio, u ma desgraça. Foucault cita o exemplo de Plutarco, que se desenvolve então se orienta de formas muito explícitas
que. não tendo tempo para escrever u m tratado da forma ade- para o cuidado de si, visa a objetivos muito precisos, tais como:
quada, envia os hupomnêmata a Fundanus, que lhe pedira "recolher-se em sí. atingir a si mesmo, viver consigo mesmo.
conselhos para lutar contra as agitações da alma. Estes, ele os bastar-se a si mesmo, aproveitar e gozar de si mesmo" (ver p.
redigira sobre si mesmo a respeito do tema da tranqüilidade 149 neste volume). Foucault diz que este é o objetivo dos hu-
da alma. É uma amostra do que eram essas cadernetas de pomnêmata: "fazer do recolhimento do logos fragmentãrlo e
anotações. Para Foucault, os hupomnêmata não devem ser transmitido pelo ensino, pela escuta ou pela leitura um meio
considerados meros s uportes da memória cuja conquista deve para o estabelecimento de uma relação de si consigo mesmo",
ser feita de tempos em tempos ou para substituir as eventuais o mais possível a dequada e equilibrada. Há aí, diz ele, algo de
falhas da memória. Eles são. na verdade, ''um material e um paradoxal para nós: "como se confrontar consigo por meio da
enquadre para exercícios a serem freqüentemente executa- ajuda de discursos imemoriais e recebidos de todo lado". Fou-
dos: ler, reler, meditar. conversar consigo mesmo e com ou- cault diz que se a redação dos hupomnêmata pode contribuir
tros etc." (ver p. 148 neste volume). Devem estar "prokheiron, para a formação de si por esses logoi, isso se deve a três razões
ad manum, in promptu". isto é, à mão, n ão no sentido de pode- básicas: "os efeitos da limitação devidos à junção da escrita
rem vir à consciência, mas na acepção de que "devem poder com a leitura, a prática regrada do disparate que determina as
ser utilizados, tão logo seja necessárto, na ação" (ver p. 148 escolhas e a apropriação que ela efetua" (ver p. 149 neste vo•
neste volume). Tratar-se-á, então, de constituir um "logos bio· lume). Quanto ao primeiro ponto, isto é, a articulação da prá-
ethíkos-, um aparato de discursos auxiliares que podem (e tica de si e da leitura, Foucault nos remete à insistência de
aqui Foucault cita Plutarco) "levantar eles mesmos a voz e (...) Sêneca. Que a prática de si Implique a leitura advém do fato
fazer cala r as paixões como um dono que, com uma palavra. de que não seria possível extrair "tudo do seu próprio âmago".
acalma o rosnar dos cães" (ver p. 148 neste volume). Os h u· E nem por si mesmo prover os princípios cuja racionalidade
pomnêmata, como lembra Sêneca, não estão meramente colo- precisamos sempre para nos conduzir: quer sejamos guia ou
cados num armário de lembranças, mas implantados na alma exemplo. a ajuda dos outros é n ecessária; no entanto, não é
de fonna profunda, nela arquivados fazendo "parte de n ós preciso dissociar a Jeitura e a escrita. A elas se deve recorrer
mesmos". E Foucault conclui: "que a alma os faça não somen- de forma alternada e ··moderar uma por intermédio da outra",
[ 1
te seus. mas si mesmo" (ver p. 148 neste volume). A escrita diz Foucault, citando Sêneca. Ficamos esgotados pelo excesso
dos hupomnêmata é um elemento "importante nessa subjeti- da escrita quando o trabalho do estilo o exige. diz Sêneca. Mas
vação do discurso". Embora possuam um caráter pessoal. os se o excesso de leitura dispersa, diz ele a Lucilius : "Abundân-
hupomnêmata não devem ser entendidos como diários ou n ar- cia de livros, conflitos da mente" (ver p. 150 neste volume).
rativas de experiências espirituais. Não são uma narrativa de Passando incessantemente de livro para livro sem se deter,
si mesmo que vise a esclarecer os arcanos da consciência e sem tomar notas, o risco é nada reter , dispersar-se e mesmo
por isso purificá-los. Diz Foucault que seu movimento é inver- t'squecer de si mesmo; assim, a escrita será uma forma de re-
1 VIII MIi 111'11-'111w.111H Dilos e Escritos Apresentação LIX

colher a leitura e se recolher nela. O grande defeito da stultitía ela afirma, adequada no que prescreve. útil de acordo com as
se dá pela agitação da mente, pela instabílídade da tensão. circunstâncias em que nos encontramos" (ver p. 151 neste vo-
pela mudança de opiniões e vontades, e, conseqüentemente. lume). A escrita aparece então como um exercício pessoal; ela
pela fragilidade diante dos acontecimentos, que se opõe à es- é feita por si e para si e tem a forma de uma arte da verdade
crita como exercício racional. Um outro aspecto importante da díspar. Trata-se, diz Foucault, de uma modalidade racional de
escrita dos hupomnêmata e que se propõe a stultítia é que ela "combinar a autoridade tradicional da coisa já dita com a sin-
fixa os elementos adquiridos para com eles constituir ~o pas- gularidade da verdade que nela se afirma e a particularidade
sado.., ao qual se pode retomar ou dele se afastar sempre, en- das circunstâncias que determinam seu uso" (ver p. 151 neste
quanto a stultitia dirige a mente para o futuro, torna-a ávida volume). E novamente Foucault recorre a Sêneca dirigindo-se
de noVidades e impede que o espírito dê a si próprio um ponto a Lucilius, que recomenda a este que leia sempre autores cuja
de mira que assegure a posse de uma verdade adquirida. Jc'ou- autoridade é reconhecida, e retomar a eles mesmo que se de-
cault diz que a prática dos hupomnêmata é comum "à moral seje avançar em outros. A leitura deve ser uma defesa contra a
dos estóicos e à dos epicuristas: a recusa de uma atitude de pobreza, a morte e outros flagelos. Dela, diz Séneca, "de tudo
pensamento voltada para o futuro (que, devido à sua incerte- que tiveres percorrido, extrai um pensamento para digerir
za, suscita a inquietude e a agitação da alma) e o valor positivo bem esse dia". É o que ele diz fazer, escolhendo de tudo o que
atribuído à posse de um passado, do qual se pode gozar sobe- acaba de ler um pensamento: "Eis meu ganho de hoje; é em
ranamente e sem perturbação" (ver p. 150 neste volume). Epicuro que o encontrei, pois também gosto de invadir o terre-
Assim, os hupomnêmata contribuem para que a alma seja no alheio. Como trânsfuga? Não; como explorador [tanquam
afastada da preocupação com o futuro, dirigindo sua reflexão explorator)" (ver p. 151 neste volume). Esse disparate delibera-
para o passado. O segundo ponto que Foucault ressalta em do não vai excluir a unificação, é o terceiro ponto ressaltado
oposição à dispersão da stu.ltitia é que a escrita dos hupomnê- por Foucault. No entanto. a unificação n~o se realiza no que
mata é e mesmo deve ser o que ele chama "uma prática regra- ele chama a arte de compor um conjunto. E no próprio copista
da e voluntária do disparate". Trata-se da escolha de que ela se estabelece, sendo o resultado dos hupomnêmata. É,
elementos por natureza heterogêneos, seu trabalho sendo diz Foucault. no próprio gesto de escrever, na sua leitura e re-
oposto ao dos gramáticos, que pretendem conhecer o conjun- leitura que isto se dá. Ele distingue aí dois processos: de um
to das obras de um autor ou uma obra inteira. Opõe-se tam- lado, unifica esses fragmentos. subjetivando-os na prática da
bém ao ensino dos filósofos profissionais, que impõem, na escrita pessoal. Essa unificação é referida por Séneca com me-
doutrina de uma escola, uma perspectiva unificada. Foucault táforas da coleta do néctar pelas abelhas, a digestão alimentar
cita quanto a isso Epicteto, que diz que "pouco importa que se ou o processo da soma. Diz ele que devemos digerír a matéria,
. tenha lido ou não todo Zenão ou Crisipo; pouco importa que porque, caso contrário, ela vai entrar na memória, e não na: in-
se tenha aprendido exatamente aquilo que eles quiseram di- teligência; é preciso unirmo-nos ao pensamento dos outros e
zer, e que se seja capaz de reconstituir o conjunto de sua ar- fazê-lo nosso. A idéia de adição completa sua proposta, "vi-
gumentação" (ver p. 151 neste volume). sando a unificar cem elementos diversos tal como a adição faz,
Foucault diz que na caderneta de notas dois princípios do- de números isolados, um número único" (ver p. 152 neste vo-
minam, um que ele chama "a verdade local da sentença" e lume). Assim, a função da escrita será de constituir um corpo.
"seu valor circunstancial de uso". O exemplo citado é o de Sé- Mas de que corporeidade se trata? Não é um corpo de doutri-
neca, mais uma vez, que anota para si mesmo e para seus cor- na, mas. como diz Foucault. o próprio corpo daquele ''que.
respondentes textos de filósofos de sua própria corrente, m_a s transcrevendo suas leituras, delas se aproprtou e fez sua a
que reco1Te também aos materialistas, como Demócrito, ou a verdade delas" (ver p. 152 neste volume). Aí está a função
Epicuro. O que importa de fato é que se possa considerar a transformadora da escnta. Ela transforma as coisas vistas ou
frase que é extraída como "uma sentença verdadeira no que ouvidas "em forças e em sangue" (in vires ín sanguínem). mas,
LX Michcl l~oucault - Ditos e Escritos Apresentação LXI

pelo lado inverso, o copista, através dessa nova coleta do que é garganta. embora eu não tenha ·gargarejado': pois posso em-
dito, vai produzir sua própria identidade. Foucault cita a carta pregar essa palavra, usada por Novius e por outros. Minha
84 de Sêneca, que é para ele um tratado das relações entre lei- garganta restabelecida, fui para perto de meu pai e assisti à
tura e escrita. Nela, Sêneca se volta para a questão ética da se- sua oferenda. A seguir, fomos almoçar. O que pensas que jan-
melhança, da fidelidade e da oríginalidade. Quando se elabora tei? Um pouco de pão, enquanto eu via os outros devorarem
o que vamos guardar de um autor, isso deve ser feito de tal for- ostras, cebolas e sardinhas bem gordas. Depois, começamos a
ma que ele não possa ser reconhecido; nas notas em que se re- amassar as uvas; suamos e gritamos bastante [... ). Na sexta
constitui o que se leu. não se trata de criar uma série de hora, voltamos para casa. Estudei um pouco, sem resultado;
retratos mortos, diz Foucault, referindo-se a esta carta: "É sua a seguir conversei um pouco com minha mãezinha. que estava
própria alma que é preciso cliar no que se escreve; porém, as- sentada no leito [... ). Enquanto conversávamos assim, edis-
sim como um homem traz em seu rosto a semelhança natural putávamos qual dos dois amaria mais o outro [...), o disco
com seus ancestrais, também é bom que se possa perceber no soou e anunciaram que meu pai entrara no banho. Ceamos
que ele escreve a filiação dos pensamentos que se gravaram então, após termos nos banhado no lagar; não tomando ba-
em sua alma" (ver ps. 152-153 neste volume). Pelas leituras nho no lagar, mas após termos nos banhado, ceamos e ouvi-
escolhidas e por uma escrita assimiladora, é possível formar
mos com prazer as alegres conversas dos camponeses. De
uma identidade, e por meio dela pode-se ler o que Foucault
volta para casa, antes de me virar de lado para dormir, execu-
chama de genealogia espiritual. Pode-se dizer que se forma aí
to minha tarefa [meum pensum explico); presto conta do meu
um coro. com vozes ora agudas, graves e médias, timbres de
dia ao meu dulcíssimo mestre [diet rationem meo suavissimo
mulheres e de homens: "Nenhuma voz individual pode nele se
magistro reddol a quem eu gostaria - mesmo que tivesse de
distinguir; somente o conjunto se impõe ao ouvido[ ... ). Gosta-
Iia que fosse assim com nossa alma, que ela tivesse boa provi- perder sua influência - de desejar ainda mais... " (ver ps.
são de conhecimentos, preceitos, exemplos retirados de muitas 160-161 neste volume). Foucault ressalta o que no fim da car-
épocas, mas convergindo em uma unidade" (ver p. 153 neste ta aparece como a sua articulação com a prática do exame de
volume}. consciência: no término do dia, imediatamente antes de ador-
Observemos quanto à função das cartas, quando elas evo- mecer, dá-se uma espécie de leitura do dia decorrido; ~desen-
cam o hábito de fazer a revisão do dia, prática corrente no pi- rola-se ai em pensamento o rolo em que estão inscritas as
tagorismo, no epicurismo e no estoicismo. A revisão do dia atividades do dia, e é este livro imaginário da memóiia que é
era, ao que parece, mais um exercício mental do que algo que reproduzido no dia seguinte na carta", escrita ao mestre e
tomasse a forma de um texto escrito. Será na combinação da amigo. Foucault ressalta que essa formulação está muito lon-
correspondência como um exercício de si que isso vai apare- ge do combate espiritual descrito por Atanásio. na Vita Anto-
c-er. No exercício, nota-se, diz Foucault, a união sutil de um nií. O que aparece em Marco Aurélio é diferente também de
conjunto de anotações sobre o corpo. a saúde, as sensações fí- uma correspondência como a de Cícero ou dos hupomnêmata,
sicas. a dieta, os sentimentos no qual se dá uma extrema vigi- que visavam à constituição de si mesmo como objeto de ação
lância da atenção focalizada em si mesmo: "Nós nos sentimos racional e a subjetivação de um já dito fragmentário e objeto
bem. Eu pouco dormi por causa de um pequeno tremor qu~. de escolha. No monasticismo, tratava-se de desalojar do inte-
no entanto, parece ter se acalmado. Passei o tempo, desde as rior da alma os movimentos mais recônditos para deles se
primeiras horas da noite até a terceira do dia. parte lendo a libertar. No relato epistolar. aquilo do que se trata é fazer coin-
Agriculíura de Caton. parte escrevendo felizmente, na verda- cidir "o olhar do outro e aquele que se lança sobre si mesmo ao
de, menos do que ontem. Depois, após ter saudado meu pai, comparar suas ações cotidianas com as técnicas de uma téc-
sorvi âgua com mel até a goela: e cuspindo-a, adocei minha nica de vida~ (ver p. 162 neste volume).
LXII Michel Fouc;iult - Ditos e Escritos

Sobre a edição brasileira


A edição brasileira é bem mais ampla do que a americana,
publicada em três volumes, e também do que a italiana. Sua
diagramação segue praticamente o modelo francês. A única
1978 - A Evolução da Noção de "Indivíduo Perigoso~ na
diferença significativa é que na edição frances~ a cada ano
Psiquiatria Legal do Século XIX . . . . . . . . . . . . . 1
abre-se uma página e os textos entram em seqüência numera-
da (sem abrir página}. Na edição brasileira, todos os textos l 978- Sexualidade e Política. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 26
abrem página e o ano se repete. Abaixo do titulo há uma indi- 1978 - A Filosofia Analítica da Política. . . . . . . . . . . . . . 37
cação de sua natureza: artigo, apresentação, prefácio, confe- 1978- Sexualidade e Poder. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 56
rência, entrevista, discussão, intervenção, resumo de curso. 1979 - É Inútil Revoltar-se?. . . . . • . . . . . . . . . . . . . . . . 77
Essa indicação, organizada pelos editores, foi mantida na edi- 1980 - O Verdadeiro Sexo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 82
ção brasileira, assim como a referência bibliográfica de cada
1981 - Sexualidade. e Solidão. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 92
texto, que figura sob seu título.
A edição francesa possui um duplo sistema de notas: as 1982 - O Combate da Castidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . 104
notas numeradas foram redigidas pelo autor, e aquelas com 1982 - O Triunfo Social do Prazer Sexual: uma
asteiisco foram feitas pelos editores franceses. Na edição bra- Conversação com Michel Foucault . . . . . . . . . . . 119
sileira, há também dois sistemas, com a diferença de que as l983- Um Sistema Finito Diante de um
notas numeradas compreendem tanto as originais de Michel Questionamento Infinito. . . . . . . . . . . . . . . . . . . 126
Foucault quanto as dos editores franceses. Para díferenciá- 1 983 - A Escrtta de Si . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 144
las, as notas do autor possuem um (N.A.) antes de iniciar-se o 1983 - Sonhar com Seus Prazeres. Sobre a
texto. Por sua vez, as notas com asterisco, na edição brasilei- "Onirocritica" de Artemidoro ................ ).!5§" (
ra, se referem àquelas feitas pelo tradutor ou pelo revisor téc-
I 983- O Uso dos Prazeres e as Técnicas de Si. ...... ; .~J r•A· _
nico, e vêm com um (N.T.} ou um (N.R.) antes de iniciar-se o
texto. 1984- Política e Ética: uma Entrevista ............. 218 ~::
Esta edição permite o acesso a um conjunto de textos antes 1~~ Polêmica, Política e Problematizações ......... 225
inacessíveis, fundamentais para pensar questões cruciais da 1984..,... Foucault .............................. 234 ,_.
cultura contemporânea. e, ao mesmo tempo, medir a extensão L984- O Cuidado com a Verdade ................. 240
e o alcance de um trabalho, de um work in progress dos mais 1984 - O Retomo da Moral . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 252
importantes da história do pensamento em todas as suas di-
mensões, éticas. estéticas. literárias, políticas, histórjcas e fi- 1984 - A Ética do Cuidado de Si como Prática
da Liberdade . . . . . . . . . . . . . . . • . . . . . . . . . • . 264 · ~
losóficas.
1984 - Uma Estética da Existência . . . . . . . . . . . . . . . . 288 / ✓
Manoel Barros·da Motta 19âã;)verdade, Poder e Si Mesmo ............... êo7'
19ar- A Tecnologia Política dos Indivíduos ......... ~ -w
Organização da Obra Ditos e Escrttos .............. 319
1983 - O Uso dos Prazeres e as Técnicas de Si 193

em parle tradicionais, em parte novas, e que se fund amentam


1983 em instituições religiosas, judiciátias. pedagógicas, médicas;
mudanças também na maneira como os indivíduos são leva-
dos a dar sentido e valor à sua conduta. aos seus deveres, aos
seus prazeres, aos seus sentimentos e sensações, aos seus
O Uso dos Prazeres e as Técnicas de Si sonhos.
Tratava-se, em suma, de ver como se constituiu. nas socie-
dades ocidentais modernas, uma "experiência~. de modo que
os indMduos puderam reconhecer-se como sujeitos de uma
"O uso dos prazeres e as técnicas de s1", Le débat, n9 27, novembro de 19K:I ·sexualidade'" que abre para campos muito diversos de conhe-
ps. 46-72. cimento e que se articula a um s istema de regras cuja força de
Introdução geral de Uso dos prazeres. de Cuidado de si e de As confi:Sõe!' _i ' " coerção é muito valiável. Portanto, história da sexualidade
carne que M. Foucault se apressou em publicar com_ algumas vartaçoe\ t ,1,
1
como experiência - se entendemos por experiência a correla-
culou e foi Citada como artigo até a publicação dos livros em maio de l 9H ção. em uma cultura, entre campos de s aber, tipos de norma-
tividade e formas de subjetividade. ·
Falar dessa forma da sexualidade implicava libertar-se de
Modificações um esquema de pensamento que era, então, bastante corren-
te: fazer da sexualidade uma invariante, e supor que, se ela
Esta série de pesquisas foi publicada mais tarde do q1w 1·11 assume, em suas manifestações. formas historicamente sin-
havia previsto e de uma forma inteiramente ~ife_r~nte. gulares, é por efeito de diversos mecanismos de repressão aos
Eis por que. Elas não deveriam ser uma h1st~na dos eo111 qua~s ela se encontra exposta em qualquer sociedade; o que
portamcntos nem uma história das repr:sentaço~s, ma~ 11~1111 ugu1val~ a coloc~r fora ~<:_am o histórico o~~o e o sujeito
história da MsexuaUdade": as aspas tem sua 1mporlarn 1.,.
do dese10, e a exi@: gue~ forma geral da P!2!bição dê conta do
Também não era meu propósito reconstruir uma história d.1 1 q~pode hav~r de his tórico na sexualidade. Porém, este tra-
condutas e das práticas sexuais - de suas suce~sivas_fo rn ,.w, balho crítico não bastava por si só. Faiãr da ·sexualidade"'
de s ua evolução e difusão. Tampouco era mmha mtetl(:nn
analisar as idéias (cientificas, religiosas ou filosóficas) a l r:iv,11• t·omo uma experiência historicamente singular também su-
punha que se pudesse dispor de instrumentos capazes de
das quais esses comportamentos foram represe_ntad~s ._(iwi
tarta, primeiramente, de me deter nessa noção, tão co!1d1;11 1- 1 ' una~ ,_em sua característica própria e em suas correlações,
recente, de "sexualidade": tomar distância em relaçao _ª 1·111, os7.ies eixos que a constituem: a formação dos s aberes ue se T)
contornar sua evidência familiar, analisar o contexto teorh•o • rderem a el!!, os ~temas de po.d.er qu_e regulam a sua prátiça
prático ao qual ela é associada. O próprio termo ..sex1:alicl: 11 li r as formas nas quais os indivíduos podem e devem se reco-
não surgiu tardiamente, no início do século XIX? Esse 1., 11, 11he~ como sujeitos dessa sexualidad; Ora, a res peito dos ~
não deve ser subestimado nem supertnterpretado. Ele a:-:sll ,,, clots primeiros pontos, o trabalho que realizei anteriormente -
la algo diverso de um remanejamento de :'ocabulárt~; mas 1111 11 11cja a propósito da medicina e da psiquiatria, seja a respeito
assinala, evidentemente, a súbita emergencia daquilo a q1 11 t 11 do poder punitivo e das práticas disciplinares - me havia for-
refere. o uso desse termo se estabeleceu em relação a 0111111,, ltc'cido os instrumentos dos quais necessitava; a análise das
fenômenos: todo um recorte de áreas de conhecimentos dlv, 1 práticas discursivas permitia acompanhar a formação dos sa-
sos (abarcando tanto os mecanismos biológicos da repnul11 brres, escapando ao dilema entre ciência e ideologia: a análise
ção como as variantes individuais ou sociais do compu1 ln r1nR relaçôes de poder e de suas tecnologias permitia enfo-
mento); a tnstauração de um conjunto de regras e de nOI 111.11 1 , 1\-las como estratégias abertas, escapando à alternativa
194 Michel Foucault - Ditos e Escrttos 1983 - O Uso dos Prazeres e as Técnicas de SI 195

lj
entre um poder concebido como dominação ou denunciado ciso também operar um deslocamento teórico para analisar o
1 como simulacro. que freqüentemente se descreve como as manifestações do
Em contrapartida, o estudo das maneiras como os indiví- "poder": ele me levara a interrogar-me, sobretudo, sobre as
duos são levados a se reconhecerem como sujeitos sexuais me relações múltiplas, as estratégias abertas e as técnicas racio-
impunha dificuldades bem maiores. ~ ã o de desejo ou a de nais que articulam o exercício dos Eoderes. Parecia que, ago-
~eito~ejante;:_constituiam, então, senão urna teoria, elo ra, serta preciso operar um erceiro deslocam~ para
menos um_tema.__t~ó..rtco_g ~ e aceito. Essa aceitação era. analisar o que era designado como u1e1 ci'; convinfia pesqui-
ernsimesma, estranha: este era de fato o tema que se encon- sar quais eram as formas e as modalidades da relação consigo
trava, segundo certas variações, no próprio cerne da teoria mesmo, por meio das quais o indivíduo se constituía e se reco-
clássica da sexualidade, assim como nas concepções que vi- nhecia como sujeito. Após o estudo de um certo número de
savam a se afastar dela; era ele também que parecia ter sido ciências empíricas nos séculos XVII e XVIII - e posteriormente
herdado, nos séculos XIX e XX, de uma longa tradição cristã. o estudo dos jogos de verdade referidos às relações de poder, a
A experiência da sexualidade pode perfeitamente se distin- partir do exemplo das práticas punitivas -, um outro trabalho
guir, como uma figura histórtca singular. da experiência cristii parecia se impor. estudar os jogos de verdade na relação con-
da "carnen: ambas, porém, parecem assombradas pela prc sigo mesmo e a constitui ão de si pr-óprio como sujeito, to-
sença do "homem de desejon. De qualquer forma. parecia difi mando por área aê referência e campo de investigação o que
cil analisar a formação e o desenvolvimento da experiência da se poderia chamar de "histórta do homem de desejo".
sexualidade a partir do século xvm. sem fazer. a respeito do Entretanto, ficou claro que empreender essa genealogia me
desejo e do s ujeito desejante, um trabalho histórtco e critico. afastava bastante do meu projeto primitivo. Eu devia esco-
sem empreender- uma "genealogiaM. Porém, ~ão gl!ero_djzer. lher: ou manwr- o plano estabelecido, acompanhando-o de um
com isso, f~er_uma_história das suc~slvas concepções.do.de rápido exame histór-ico do tema do desejo. ou reorganizar todo
sejo. da ~oncupiscên_fia ou da llbi.do,.JJ1as sj_gl analisar as p_r:'1 o estudo em torno da lenta formação. durante a Antigüidade,
tlcas através das quais os indivíduos foram ltvad9J;_a voltar é.l de uma hermenêutica de si. Optei pela última via, ao pensar
atenção para si mesmos, a decifrar-se, a reconhecer-se.. ~ a as que. apesar de tudo, aquilo a que me atenho - aquilo a que me

i sumir-se como sujeitos de desejo, estabelece;rulo de s1 pan,


consigo inesmos uma certa relação que lhes permite desco
./ biir, no desejo. a verdade de seu ser, seja ele natural ou decai
, do. Em suma. a idéia era a de pesquisar nessa genealogia o
modo pelo qual os indivíduos for-am levadQ§.. a exercer sobrf•
eles mesmos. e sobre os outros, uma h erm~nêutica do desejo.
ative, ao que quis me ater faz muitos anos - é uma tarefa para
evidenciar alguns elementos que poderiam servir a uma histó-
ria da verdade. Uma história que nao serta aquela do que po-
deria existir de verdadeiro nos conhecimentos. mas sim uma
análise dos "jogos de verdade". dos jogos do verdadeiro e do
falso através dos quais o ser se constitui historicamente como
propiciada. sem dúvida. por.seu comportamento sexual. sem. expertêncta. ou seja, como podendo e devendo ser pensado.
no entanto, constituir seu domínio exclusivo. Em suma, par:1 Por meio de quais Jogos de verdade o homem se pôs a pensar o
compreender como o indivíduo moderno podia fazer a expt· seu ser próprio ao se perceber como louco, ao se olhar- como
riência de si próprio como sujeito de uma "sexualidade" seria doente, ao refletir sobre si mesmo como ser Vivo, falante e tra-
útil distinguir previamente a maneira pela qual outrora, e d11 balhador, ao se julgar e se punir como criminoso? Através de
rante séculos, o homem ocidental havia sido levado a reconhe quais jogos de verdade o ser humano se reconheceu como ho-
cer-se como suj~ito de desejo. mem de desejo? Parecea-me que, colocando assim a questão e
Um deslocamento teórico havia sido necessário para anall tentando elaborá-la a propósito de um período tão distante
saro que era freqüentemente designado como o progresso dm1 dos meus horizontes. outrora familiares, eu abandonava se-
conhecimentos: ele me conduzira à interrogação sobre as for guramente o plano pretendido, porém cernia de mais perto a
mas de práticas discursivas que articulavam o saber. Foi pn· interrogação que há muito tempo me esforço para colocar, em-
196 Michel Foucault - Ditos e Escrttos 1983- O Uso dos Prazeres e as Técnicas de Si 197

bora essa abordagem me eXigisse alguns anos a mais de tra- a obstinação do saber se ela apenas garantisse a aquisição de
balho. Certamente esse longo desVio implicava riscos, mas eu conhecimentos, e não, de uma certa maneira e tanto quanto
Unha um motivo, e acreditei ter encontrado nessa pesquisa possível, o extravio daquele que conhece? Há momentos na
um certo proveito teórico. vida em que a questão de saber se é possível pensar de forma
Os riscos? Eram de retardar e desorganizar o programa de diferente da que se pensa e perceber de forma diferente da que
publicação que eu havia previsto. Agradeço aos que seguiram se vê é indispensável para continuar a ver ou a refletir. Talvez
os trajetos e os desvios do meu trabalho - penso nos ouvintes me digam que esses jogos consigo mesmo devem permanecer
do Collêge de France - e naqueles que tiveram a paciência de nas coxias, e que, na melhor das hipóteses, fazem parte des-
aguardar a sua conclusão-, em Pierre Nora, em primeiro lu- ses trabalhos de preparação que desaparecem por si mesmos
gar. Quanto àqueles para quem se esforçar, começar e reco- a partir do momento em que produzem efeitos. Mas o que é
meçar, tentar, enganar-se, retomar tudo de fio a pavio, e ainda então a filosofia hoje - quero dizer, a atividade filosófica - se-
encontrar meios de hesitar a cada passo, àqueles para quem, não o trabalho crítico do pensamento sobre si mesmo? E se
em suma, trabalhar- ou seja, manter-se em reserva e na in- ela não consistir, ao invés de legitimar o que já se sabe. em
quietação - equivale à demissão, é eVidente que não somos do tentar saber como e até onde seria possível pensar de modo di-
mesmo planeta. ferente? Há sempre algo de denisório no discurso filosófico
O perigo era também o de abordar documentos que eu co- quando ele pretende, do exterior, estabelecer a lei para os ou-
nhecia muito mal. Corria o risco de submetê-los, sem me dar tros, dizer-lhes onde está a sua verdade e de que maneira
conta, a formas de análise e a modos de questionamento que, achá-la, ou quando pretende demonstrar-se por positividade
Vindos de outros lugares, não lhes convinham; os livros de Pe- ingênua; porém, é seu direito eXJ>lorar o que, em nosso próprio
ter Brown, os de Pierre Hadot e, em muitas ocasiões, suas opi- pensamento, pode ser modificado, pelo exercício que ele faz de
niões e as conversas que mantivemos foram de .grande valia · um saber que lhe é estranho. O "ensaio" - que é preciso enten-
para mim. Também corria o risco, pelo contrário. de perder. der como experiência transformadora de si mesmo e não como
no esforço para me familiarizar com 'os textos antigos, o eixo apropriação simplificadora de outrem - é o corpo Vivo da filo-
das questões que desejava expor; Hubert Dreyfus e Paul Rabi- sofia, se pelo menos esta for ainda o que era antigamente, ou
now, em Berkeley. possibilitaram, através de suas reflexões. seja, uma "ascese", um exercício de si, no pensamento.
de suas questões, e graças à sua exigência, que eu fizesse um
trabalho de reformulação teórica e metodológica. Os estudos que se seguem, tal como os outros que realizei
Paul Veyne constantemente me ajudou durante esses anos . anteriormente, são estudos de "história" pelos campos tratados
Ele sabe o que é pesquisar o verdadeiro, como historiador de e pelas referências que tomam; porém não são trabalhos de
verdade; mas também conhece o labirinto em que se entra "historiador". O que não significa que eles resumam ou sinteti-
quando se deseja fazer a história dos jogos do verdadeiro e do zem o trabalho feito por outros. Eles são, se quisermos enfo-
falso; ele é daqueles, muito raros hoje em dia, que aceitam en- cá-los do ponto de vista de sua "pragmática", o protocolo de um
frentar o perigo, para todo e qualquer pensamento, que a exercício que foi longo, hesitante, e que freqüentemente neces-
questão da história da verdade traz consigo. Seria difícil ten- sitou ser retomado e corrigido. Um exercício filosófico: sua
tar circunscrever sua influência sobre essas páginas. aposta era a de saber em que medida o trabalho de pensar sua
Em compensação, o motivo que me impulsionou é muito própria história pode libertar o pensamento do que ele pensa f
simples. Para alguns, espero que ele possa bastar por si só. Ê silenciosamente, e permitir a ele. pensar de modo diverso.
a curiosidade; o único tipo de curiosidade que, de qualquer Será que tive razão de correr esses riscos? Não cabe a mim
forma, vale a pena ser praticada com um pouco de obstinação: dizê-lo. Sei apenas que, ao deslocar desse modo o tema e os
não aquela que busca se assimilar ao que convém conhecer. marcos cronológicos de meu estudo, tive a possibilidade de
mas a que permite desprender-se de si mesmo. De que valeria proceder a duas generalizações que me permitiram, ao mesmo
198 Michel Foucault - Ditos e Escritos l 983 - O Uso dos Prazeres e as Técnicas de Si 199

tempo, situá-lo em um horizonte mais amplo e precisar me- sua vida uma obra que seja portadora de certos valores estéti- .
lhor seu método e seu objeto. cos e que corresponda a certos critérios de estilo. Essas "artes
Ao retornar assim, da época moderna, através do cristia- da existência", essas "técnicas de si" perderam certamente
nismo. à Antigüidade. pareceu-me que não seria possível evi- parte de sua importância e de sua autonomia ao serem inte-
tar uma pergunta, ao mesmo tempo muito simples e muito 1/ gradas, com o cristianismo, no exercício de um poder pastoral
geral: por que o comportamento sexual. por que as ativi.dades e, mais tarde, às práticas de tipo educativo, médico ou psico-
e os prazeres que dele decorrem são objeto de uma preocupa- lógico. De qualquer modo, seria preciso certamente fazer e re-
ção moral? Por que esse cuidado ético que, pelo menos em fazer a longa históiia dessas estéticas da existência e dessas
certos momentos, em algumas sociedades ou em certos gru - . __ t~cnologias de si. Já faz muito tempo que Burckhardt enfati-
pos. parece mais importante do que a atenção moral dirigida a zou a sua importância na época do Renascimento; mas sua
outros domínios. no entanto essenciais para a vida individual sobrevivência, sua histórta e seu desenvolvimento não se deti-
1
ou coletiva, como as condutas alimentares ou o cumprimento veram ali. Em todo caso, pareceu-me que o estudo da proble-
dos deveres cívicos? Sei bem que uma resposta vem imediata- matização do comportamento sexual na Antigüidade podia
mente à mente: é porque eles são objeto de interdições funda- ser considerado como um capitulo - um dos primeiros capítu-
mentais, cuja transgressão é considerada uma falta grave. los - dessa história geral das "técnicas de si".
Mas isso seria dar como solução a própria questão; e, sobretu- Tal é a ironia desses esforços feitos para mudar a maneira
do, implicaria desconhecer que a preocupação ética relativa â de ver, para modificar o horizonte do que se conhece e para
conduta sexual não esteve sempre, em sua intensidade e em tentar dele se distanciar um pouco. Será que eles levaram de
suas formas, relacionada diretamente ao sistema de interdi- fato a pensar de modo diverso? Talvez eles tenham permitido
ções: ocorre freqüentemente que a preocupação moral seja pensar de outra forma aquilo que já se pensava, e perceber o
intensa ali onde, precisamente, não há obrigação nem proibi- que se fez sob um ângulo diverso e d.e modo mais nítido. Acre-
ção. Em suma, a interdição é uma coisa, e a problematiZação ditava-se tomar distãncia e. no entanto. ficou-se na vertical de
moral. outra. Portanto. pareceu-me que a questão que deveria si mesmo. A viagem rejuvenesce as coisas e envelhece a rela-
servir de fio condutor era a seguinte: como, por que e sob que ção consigo mesmo. Creio perceber melhor agora de que ma-
forma a atividade sexual foi constituída como domínio moral? neira. um pouco às cegas, e por fragmentos sucessivos e
Por que esse cuidado ético tão insistente, apesar de variável diferentes, fui pego nessa empreitada de urna história da ver-
em suas formas e em sua intensidade? Por que essa Mproble- dade: analisar não os comportamentos nem as idéias, não as
matizaçào"? Afinal, é certamente por isso que a tarefa de uma sociedades nem suas "ideologias", mas sim as problematiza-
história do pensamento - em oposição ã histórta dos compor- ções através das quais o ser se apresenta como podendo e de-
tamentos ou das representações - é definir as condições nas vendo ser pensado, e as práticas a partir das quais elas se
quais o ser humano "problematiza" o que ele é, o que faz e o formam. A dimensão arqueológica da análise permite analisar
mundo em que vive. as próprias formas da problematização: sua dimensão genea-
Porém, ao colocar essa questão muito geral, e ao colocá-la lógica, sua formação a partir das práticas e de suas modifica-
para a cultura grega e greco-latina, pareceu-me que essa pro- ções. Problematização da loucura e da doença a partir de
blematização estava ligada a um conjunto de práticas que cer- práticas sociais e médicas, definindo um certo perfil de "nor-
tamente tiveram uma importância considerável em nossa:-.
sociedades: é o que se poderia chamar de Martes da existên
eia". Estas devem ser entendidas como as práticas racionais,. l. (N.A.J Seria Inexato acreditar que. desde Burckhardt, o estudo dessas artes
voluntárias pelas quais os homens não apenas determina m e dessa estética da existência foi totalmente negligenciado. Pode-se, por
para si mesmos regras de conduta. como também busca111 exemplo. encontrar uma análise notável sobre elas no livro recente de s. Cre-
transformar-se, modificar-se em seu ser singular, e fazer dt• enblatt, Renaíssance se/ffashioning. 1980.
:lOO MIC'hCI Foucaull - Ditos e Escrttos 1983 - O Uso dos Prazeres e as Técnicas de S1 20 l

matização"; problematização da vida,. da linguagem e do tra- As formas de problematização


balho em práticas discursivas, obedecendo a certas regras
"epistêmicas''; problematização do crime e do comportamento Vamos supor que aceitemos, por um instante. categorias
criminoso, a partir de certas práticas punitivas, obedecendo a tão gerais quanto as de M paganismo", ''cristianismo", "morar e
um modelo "disciplinar". E, agora, gostaria de mostrar como, "moral sexual"; suponhamos que nos perguntemos em que
na Antigüidade, a atividade e os prazeres sexuais foram pro- pontos a "moral sexual do cristianismo" se opôs, o mais niti-
blematizados através das práticas de si. colocando em jogo os damente possível, à "moral sexual do paganismo antigo". Proi-
critérios de uma "estética da existência". bição do incesto, dominação masculina. sujeição da mulher?
Eis as razões pelas quais recentrei todo o meu estudo sobre Evidentemente, não serão essas as respostas dadas: a exten-
a genealogia do homem de desejo, da Antigüidade clássica aos são e a constância desses fenômenos são conhecidas em suas
primeiros séculos do cristianismo. Segui uma distribuição formas variadas. Provavelmente outros pontos de diferencia-
cronológica simples: um piimelro volume. Uso dos prazeres, é ção seriam propostos. O valor do próp.tio ato sexual: o cristia-
consagrado à maneira como a atividade sexual foi problemati- nismo o teria associado ao mal, ao pecado, à queda. à morte,
zada por filósofos e médicos, na cultura grega clássica, no sé- enquanto a Antigüidade o teria dotado de significações positi-
culo Na.e. Cuidado de si é dedicado a essa problematização vas. A delimitação do parceiro legitimo: o cristianismo, di-
nos textos gregos e latinos dos dois p.timetros séculos de nos- ferentemente do que se passava nas sociedades gregas ou
sa era; fmabnente, As confissões da carne tratam da formação romanas, apenas a teria aceitado no casamento monogâmico
da doutrina e da pastoral da carne. Quanto aos documentos e, no interior dessa conjugalidade. lhe teria imposto o princi-
que utilizarei, eles serão na maior parte textos "prescritivos": pio de uma finalidade exclusivamente de procriação. A des-
ou seja, textos que, seja qual for sua forma (discurso, diálogo, qualificação das relações entre indivíduos do mesmo sexo: o
tratado, coletânea de preceitos, cartas etc.). têm como objeto cristianismo as teria rigorosamente excluído, ao passo que a
principal propor regras de conduta. Porém. por "textos pres- Grécia as teria exaltado - e Roma as teria aceitado, pelo me-
critivos" não entendo qualquer livro de moral: somente recor- nos entre homens e rapazes. A esses três pontos de oposição
rerei a eles para encontrar esclarecimentos dos textos teóricos maior, seria possível acrescentar o alto valor moral e espiritual
sobre a doutrina do prazer ou das paixões. O campo que anali- que o cristianismo, diferentemente da moral pagã, teria atri-
sarei é constituído por textos que pretendem estabelecer re- buído à abstinência rigorosa. à castidade permanente e à
gras, dar opiniões, conselhos de como se conduzir de modo virgindade. Em suma, em relação a todos esses pontos que
adequado: textos "práticos", mas que são eles próprios objeto foram considerados, por tanto tempo, tão Importantes - natu-
de "prática", uma vez que exigem ser lidos. apreendidos. medi- reza do ato sexual, fidelidade monogâmica, relações homosse-
tados. utilizados, postos à prova, e que visam a constituir fi- xuais, castidade -, parece que os antigos haviam sido um
nalmente o arcabouço da conduta cotidiana. Esses te.xtos têm tanto indiferentes. e que nada disso teria chamado demasia-
a função de operadores que permitem aos indivíduos lnten-o- damente sua atenção. nem teria constituído para eles proble-
gar-se sobre sua própria conduta, velar por ela, formá-la e mas muito agudos.
moldar a si mesmo como sujeito ético: em suma. eles decor- Ora, isso não é exato, e seria possível mostrá-lo facilmente.
rem de uma função "etopoiéitica'', para transpor um termo que Poderíamos demonstrá-lo através do jogo dos empréstimos di-
se encontra em Plutarco. Porém, uma vez que todos esses es- retos e das continuidades muito estreitas que podemos cons-
tudos se encontram no ponto de cruzamento entre uma análi- tatar entre as primeiras doutrinas cristãs e a filosofia moral
se das problematizações e uma história das práticas de si, da Antigüidade: o primeiro grande texto cristão sobre a práti-
gostaria de me deter. antes de começar, nessas duas noções: ca sexual na vida matrimonial- trata-se do capítulo X do livro
justificar as formas de "problematização" que foram manti- II do Pédagogue, de Clemente de Alexandria - baseia-se em
das, e explicar o que se pode entender como "práticas de sr. um certo número de referências às Escrituras. mas bem mais
202 Michel Foucault - Ditos e Escrttos 1983 - O Uso dos Prazeres e as Técnicas d~ Si 203

em um conjunto de ptincípios e de preceitos diretamente reti- parecem ter constituído a herança "naturalista" e cíentífica de
rados da filosofia pagã. Porém, também setia possível mos- uma tradição cristã que situava o prazer no campo da morte e
trar, no cerne mesmo do pensamento grego ou greco-romano, do mal.
a presença dos ternas, das inquietações e das exigências de Ora, essa descrição é, na verdade, uma tradução - uma
austetidade que, freqüentemente, se acredita serem próptias tr~d~ção livre, no estilo da época - de um texto escrito por um
do cristianismo, ou mesmo da moral das sociedades euro- medico grego, Areteu, no século I da nossa era. Podemos en-
péias modernas. Há inúmeras manifestações disso: um medo. contrar outros testemunhos, na mesma época, desse temor do
um modelo, uma imagem, um exemplo. ato sexual e das suspeitas de que ele pode acarretar - caso for
1) Um medo. Os jovens que sofrem de uma perda de esper- desregrado e implicar uma perda involuntária de esperma - os
ma "carregam em todos os hábitos do corpo a marca da cadu- mais nocivos efeitos na vida do indivíduo. Soranus, por exem-
cidade e da velhice; eles se tornam relaxados, sem força, plo. considerava que a atividade sexual era, sempre, menos
entorpecidos, estúpidos, prostrados, curvados, incapazes de favorável para a saúde do que a pura e simples abstenção e a
qualquer coisa, com a tez pálida, branca, efeminada, sem ape- virgindade. Mais antetiormente ainda, a medicina dera insis-
tite, sem vivacidade, os membros pesados, as pernas torpes. tentes conselhos de prudência e de economia no uso dos
de uma fraqueza extrema, enfim, quase totalmente perdidos. prazeres sexuais: evitar seu uso intempestivo, avaliar as con-
Essa doença chega a ser, para muitos, um caminho para a pa- d_içõ~s nas quais eles são praticados, temer a sua própria vio-
ralisia; como. de fato. a potência nervosa não serta atingida. lenc1a e os erros de dieta. Alguns chegam a dizer que apenas
uma vez que a natureza estâ enfraquecida no seu princípio re- ~e deve praticá-los "caso se queira prejudicar a si mesmo''. Um
generador e na própria fonte da vida?" Essa doença "em si mtenso medo, bastante antigo, conseqüentemente.
mesma vergonhosa" é "petigosa, uma vez que ela conduz ao 2) Um modelo. Sabe-se de que forma Francisco de Sales
marasmo, e nefasta à sociedade, já que se opõe à propagação exortava à virtude conjugal: ele oferecia aos esposos um espe-
da espécie; por ser, em todos os aspectos, a fonte de uma infi lho natural, propondo-lhes o modelo do elefante e dos belos
nidade de males, ela exige socorro urgente" .2 modos que ele demonstrava em relação à sua esposa. O ele-
Reconhece-se facilmente nesse texto as obsessões que .i fante "não passa de um grande animal. entretanto é o mais
medicina e a pedagogia nutriram, a partir dos séculos XVII <' digno que vive sobre a terra, e o que possui mais tino. (... J Ele
XVIII, em torno do puro dispêndio sexual - aquele em que nàu jamais troca de fêmea e ama ternamente aquela que escolheu,
há fecundidade nem parceiro: o esgotamento progressivo cio ~om a qual, no entanto, apenas acasala de três em três anos, e
organismo, a morte do indívíduo, a destruição de sua raç:a <', 1~so somente por cinco días e tão secretamente que jamais é
finalmente, o dano causado a toda a humanídade foram regu VIsto nesse ato; no entanto, ele é visto claramente quando, no
larmente, ao longo de uma literatura loquaz, prometido~ sexto dia, antes de qualquer coisa, vai diretamente ao rio no
àqueles que abusassem de seu sexo. Esses medos índuziclo:- 1 qual lava todo o corpo, não voltando de forma alguma à mana-
da antes de estar purificado. Não temos aí belas e honestas
disposiçõesr 3 Ora, esse texto é uma vatiação de um tema que
2. (N.A.) Areteu. Des signes des maladies cltroniques, 11. 5. Na tradução fra11 foi transmitido por uma longa tradição (através de Aldrovandi,
cesa, L. Renard (1834) comenta essa passagem da seguinte forma: "A gouu1 Gessner, Vincent de Beuvais e o famoso Physiologicus). Já en-
réia que está em pauta aqui se diferencia essencialmente da doença que t<:111 contramos essa fórmula em Plínio, que a lntroduction à la víe
esse nome hoje em dia, e que se chama, mais adequadamente. blenorr;1g1:1 dévote segue ?e
modo muito aproximativo: "É por pudor que
[...). A gonorréia simples ou verdadeira, da qual fala aqui Areteu, é caraclc·1 i os elefantes so se acasalam em segredo( ... ). A fêmea só se dei-
?.ada pelo corrimento. involuntário e fora do coito. do líqutdo espermático 1111;,
turado ao humor prostático. Essa doença vergonhosa é freqüenteme111,,
provocada pela masturbação e é uma conseqüência desta ... 3. (N.A.) Francisco de Sales, lntroduction à. la uie déoote, m. 39.
204 Michel Foucault- Ditos e Escritos 1983 - O Uso dos Prazeres e as Técnicas de Si 205

xa cobrir de dois em dois anos, e, como se diz, durante cinco questão colocada e uma forma de austeridade à qual alguns
dias a cada ano, não mais; no sexto, eles se banham no rio e só moralistas confe.r iam grande valor.
se juntam à manada após o banho. Eles não conhecem o adul- . 3) Uma imagem. Nos textos do século XIX há uma figura
tério."4 Plínio não pretendia, certamente, propor um esquema tipo: o homossexual ou o invertido - seus gestos, sua aparên-
tão explicitamente didático quanto o de Francisco de Sales; cia, sua maneira de enfeitar-se, seu coquetismo, assim como
entretanto, ele se referia a um modelo de conduta visivelmente a forma e as expressões do seu rosto, sua anatomia, a morfo-
valorizado. Isso não significa que a fidelidade recíproca dos logia feminina de todo o seu corpo fazem, regularmente, parte
cônjuges tenha sido um preceito geralmente recebido e aceito dessa descrição desqualificadora; esta se refere, simulta-
pelos gregos e romanos. Mas era um conselho, insistentemen- neamente, ao tema de uma inversão dos papéis sexuais e ao
te dado, em certas correntes filosóficas, como o estoicismo
princípio de um estigma natural dessa ofensa à natureza; acre-
tardio; era também um comportamento muito apreciado como
uma manifestação de virtude, de firmeza de caráter e de domí· ditava-se - isso era dito - que "a própria natureza tornou-se
nio de si mesmo. Louvava-se Catão, o Jovem, que, até a idade cúmplice dessa mentira sexual". 8 Sem dúvida, seria preciso
em que decidiu se casar, não tivera relação com nenhuma estabelecer a longa história dessa imagem (à qual se fez cor-
mulher, e mais ainda Lelius, que, "em sua longa vida, apenas responder comportamentos efetivos, através de um complexo
se aproximou de uma mulher, a primeira e a única a quem jogo de induções e de desafios). Seria possível ler, na intensi-
desposou". 5 Poderíamos remeter a mais longe ainda a defini- dade tão fortemente negativa desse estereótipo, a dificuldade
ção desse modelo de conjugalidade recíproca e fiel. Nicocles, secular, em nossas sociedades, para integrar os dois fenôme-
no discurso que lsócrates lhe atribui, mostra toda a importân- nos - aliás. diferentes-, que são a inversão dos papéis sexuais
cia moral e política que atribui ao fato de ]amais ter tido, após e a relação entre índivÍduos do mesmo se.xo. Ora, essa ima-
seu casamento, relação sexual com outra pessoa, a não ser gem, com a aura repulsiva que a envolve, atravessou séculos·
com sua mulher". 6 E. na sua cidade ideal, Aristóteles quer que ela já estava _intensamente delineada na literatura gre~
seja considerada como "ação desonrosa" (e isso de maneirn co-ro~ana da epoca imperial. Ela é encontrada na figura do
"absoluta e sem exceção") a relação do marido com outra mu - Ejfemmatu.s, traçada pelo autor de uma Physiognomonis anô-
lher e a da esposa com outro homem. 7 A "fidelidade" sexual do nima do século N; na descrição dos padres de Atargatis, dos
marido em relação à esposa legítima não era exigida pelas leis q~ais zomba Apuleu nas Metamorjoses; 9 na simbolização que
nem pelos costumes; entretanto, não deixava de ser uma D10n de Pruse propõe do daimon da intemperança, durante
um~ de suas conferências sobre a monarquia; 10 na fugaz evo-
caçao dos pequenos retóricos todos perfumados e cacheados
4. (N.A.) Plínio, Hístoire naturelle, vm, 5. 13. Refert-me, de maneira geral, par.i que Epicteto interpela no fundo de sua sala, e aos quais per-
os textos latinos e gregos. à "Collection des Uníversités de France", e, para <>li gunta se são homens ou mu1heres. 11 Seria possível vê-la tam-
que aí não figuram, à ··eotlectionI..oeb". São as traduções da C.U.F. que repro• bém na imagem da juventude decadente, tal como Séneca, 0
duz! na maior parte do tempo; no sentido contrário, indiquei em nota a lrad1 1
ção utilizada. MUito freqüentemente, coloquei no texto a transcrição de cel'lo11
Retórico, a vê, com grande repugnância, à sua volta: "A paixão
termos gregos, quando era necessário para esclarecer o sentido da lraduç;'lo, malsã de cantar e dançar enche a alma de nossos efeminados·
. '
.Agradeço à Biblioteca de Saulcboir e a seu dtretor. Eles me ajudaram, sobre·
tudo a partir do momento- recente- em que as condições de trabalho na Bll ,11
oteca Nacional se detelioraram consideravelmente. 8. (N.A.} H. Dauvergne, Lesfon:;ats, 1841, p. 289.
5. (N.A.) Plutarco. Víe de Caton, VII. 9. (N.A.) Apuleu, Métamorplwses, VIII, 26 sq.
6. (N.A.) lsócrates, A Nicocles. 10. (N.A.) Dlon de Pruse, Díscours, IV, 101-115.
7. (N.A.) Aristóteles, Politique, VII, 16, 1335 b. 11. (N.A.) Epícteto, Entretiens, III, 1.
206 Michel Foucault - Ditos e Escntos 1983 - O Uso dos Prazeres e as Técnicas de Si 207

ondular os cabelos. tornar a voz suficientemente fina para para renunciar ao prazer sexual. Bem antes disso, a Grécia
igualá-la às carícias das vozes femininas, rivalizar com as mu- conheceu e honrou modelos desse tipo, como o de Apolônio de
lheres por meio da lassidão de atitudes, estudar-se em inda- Tiane, um taumaturgo que havia feito o voto de castidade, e
gações muito obscenas, eis o ideal de nossos adolescentes[ ... ). que, desde então, durante toda a sua vida, jamais tivera rela-
Enfraquecidos e exasperados desde o nascimento, eles per- ções sexuais. 15 Para alguns, essa extrema virtude era a marca
manecem voluntariamente sempre prontos a atacar o pudor visível do domínio que exerciam sobre si mesmos e, portanto.
dos outros. sem se ocupar do seu próprio." 12 Mas essa ima- do poder que eram dignos de assumir sobre os outros: assim,
gem. em seus traços mais essenciais, é ainda mais antiga. O Agésilas de Xenofonte não apenas "não tocava naqueles que
primeiro discurso de Sócrates, no Fedro, faz alusão a ela, ao não lhe inspiravam nenhum desejo", como também renuncia-
censurar o amor dedicado aos rapazes flácidos, educados na va a beijar o rapaz a quem amava; e ele tomava cuidado para
delicadeza da sombra, todos enfeitados de maquiagens e ade- alojar-se nos templos ou em lugar visível "para que todos pu-
reços. 13 É também com esses traços que Agatão aparece nas dessem ser testemunhas de sua temperança". 16 Mas, para ou-
Thesmophories: tez pálida, faces raspadas, voz de mulher, de- tros, essa abstenção estava diretamente relacionada a uma
licadeza, roupa alaranjada, rede de cabelo; tudo isso leva seu forma de sabedoria que os punha diretamente em contato
interlocutor a perguntar se está verdadeiramente na presença com algum elemento superior à natureza humana, e que lhes
de um homem ou de uma mulher. 14 Seria totalmente inexato dava acesso ao próprio ser da verdade: este era certamente o
ver nisso uma condenação do amor dirigido aos rapazes. ou Sócrates de quem todos queriam se aproximar, de quem todos
daquilo que chamamos, geralmente. de relações homosse- se enamoravam, e de cuja sabedoria todos procuravam se
xuais. É preciso reconhecer aqui o efeito de avaliações inten- apossar - sabedoria essa que se manifestava e se experimen-
samente negativas a respeito de certos aspectos possíveis da tava justamente pelo fato de que ele próprio era capaz de não
relação entre horp.ens, assim como uma viva repugnância em tocar na beleza provocadora de Alcebíades. 17 A temática de
relação a tudo aquilo que pudesse marcar uma renúncia vo- uma relação entre a abstinência sexual e o acesso à verdade já
. luntária aos prestígios e às marcas do papel viril. O domínio estava intensamente marcada.
dos amores masculinos certamente pôde ser "livre" na Anti- Não se deve, entretanto, esperar demais dessas referên-
güidade grega, muito mais, em todo caso, do que foi nas socie- cias. Não se poderia delas inferir que a moral sexual do cristia-
dades européias modernas; não resta dúvida, entretanto, que nismo e a do paganismo formam uma continuidade. Os temas,
bem precocemente é marcado por intensas reações negativas os princípios, as noções podem certamente encontrar-se em
e por formas de desqualificação que se prolongarão por muito ambos: eles não têm, no entanto, o mesmo lugar nem o mes-
tempo. mo valor. Sócrates não é um padre no deserto lutando contra
4) Um modelo. O herói virtuoso, que é capaz de desviar-se a tentação: e Nicocles não é nenhum marido cristão; o riso de
do prazer como de uma tentação à qual sabe resistir, é uma fi- Aristófanes diante de Agatão travestido tem poucos traços em
gura familiar ao cristianismo. Mas é igualmente conhecida ela comum com a desqualificação do invertido, que será encon-
Antigüidade pagã a imagem desses atletas da temperança que trada bem mais tarde no discurso médico. Além disso, é preci-
são suficientemente senhores de si e de suas concupiscências so ter em mente que a Igreja e a pastoral cristã defenderam o

12. (N.A.) Séneca. O Retórico, Controtierses, 1. Prefácio, 8. 15. (N.A.l F1lostrato. Vie d'Apolloníus de Tya11e. 1. 13.
13. (N.A.) Platão. Phédre, 23 c, d. 16. (N.A.) Xenofonte, Agésl!as. 6.
14. (N.A.) Aristófanes. Thesmophories. 17. (N.A.) Platão, Le banquer. 217a -219e.
208 Mtchel Foucault - Ditos e Escritos 1983 - O Uso dos Prazeres e as Técnicas de SJ 209

16
ptincípio de uma moral, cujos preceitos eram coercitivos e de disso. Entretanto, parece que isso não havia sido assim na
alcance universal (o que não excluía as diferenças de prescri- Antigüidade. Em primeiro lugar, isso aparece muito clara-
ção relativas ao status dos indivÍduos, nem a existência de mente na dissimetria bem particular a toda essa reflexão mo-
movimentos ascéticos com suas ·aspirações próprias). No pen- ral sobre o comportamento sexual: as mulheres em geral são
samento antigo, em contrapartida, as exigências de austeri- obrigadas (exceto a liberdade que pode dar-lhe um status, tal
dade não eram organizadas em uma moral unificada, como o de cortesã) a coações e:x-tremamente estritas; no en-
coerente, autotitárta e imposta a todos do mesmo modo; elas tanto, não é às mulheres que essa moral é dirigida; não são os
eram, de preferência, um suplemento, uma espécie de "luxo" seus deveres, nem suas obrigações que lhes são relembrados,
em relação à moral corrtqueiramente admitida; aliás, elas se justificados ou desenvolvidos. Esta é uma moral de homens:
apresentam em "focos dispersos". Estes tinham otigem em di- uma moral pensada, escrtta, ensinada por homens e dirigida
ferentes movimentos filosóficos ou religiosos e encontravam aos homens, evidentemente livres. Moral viril. conseqüente-
meios de se desenvolver em múltiplos grupos; propunham, mente, na qual as mulheres apenas apareciam a título de ob-
mais do que impunham, estilos de moderação ou de rigor, jetos ou, no máximo, como parceiras que convém formar,
cada qual com sua característica particular: a austeridade pi- educar e vigiar, quando elas estão sob o seu poder e das quais.
tagórica não era a dos estóicos que, por sua vez, era muito di- em contrapartida, é preciso abster-se, quando estão sob o po-
ferente da recomendada por Epicuro. Não se deve concluir, a der de um outro (pai, marido, tutor). Este é, sem dúvida, um
partir dessas poucas aproximações que puderam ser esboça- dos pontos mais notáveis dessa reflexão moral: ela não tenta
das, que a moral cristã do sexo era, de certa forma, "pré- definir um campo de conduta e um domínio de regras válidas
fonnada" no pensamento antigo; de preferência, é preciso en- - segundo as modulações necessárias - para os dois sexos; é
tender que muito precocemente se formou, na reflexão moral uma elaboração da conduta masculina feita do ponto de vista
da Antigüidade, uma temáfü:a - "uma quadritemática" - da dos homens, para dar forma à conduta deles.
~ austeridade sexual, em torno e a respeito da vida do corpo, da Melhor ainda: ela não se dirige aos homens a propósito de
instituição do casamento, das relações entre homens e da condutas que poderiam decorrer de algumas interdições reco-
existência de sabedoria. E essa temática - através das insti- nhecidas por todos e solenemente lembradas nos códigos, nos
tuições, dos conjuntos de preceitos, das referências teóricas costumes ou nas prescrições religiosas. Ela se dirtge a eles a
extremamente diversas, e a despeito de muitos remanejamen- propósito de condutas nas quais justamente eles devem fazer
tos - manteve, através dos tempos, uma certa constância: uso de seu direito, de seu poder, de sua autoridade e da sua li-
como se houvesse, desde a Antígüidade. quatro pontos de pro- berdade: nas práticas de prazeres que não são condenadas,
~ blematização a partir dos qu~is se reformulava incessante- em uma Vida matrimonial na qual, no exercício de um poder
mente - de acordo com esquemas freqüentemente diferentes - marttal. nenhuma regra ou costume impede o homem de ter
o cuidado com a austeridade sexual. relações extraconjugais, nas relações com os rapazes que,
Ora, é preciso notar que esses temas de austeridade não pelo menos dentro de certos limites, são admitidas, corriquei-
coincidiam com as delimitações que as grandes interdições
sociais, civis ou religiosas podiam traçar. Seria possível pen-
sar que, de fato, é ali onde as proibições são mais fundamen- 18. (N.A.) É possível pensar que o desenvolvimento de uma moral das relaçõ.e-s
de casamento, e mais precisamente as reflexões sobre o comportamento se-
tais, ali onde as obrigações são mais coercitivas, que, de forma
xual dos esposos no relacionamento conjugal (que adqutrtam uma !mportân•
geral, as morais desenvolveram as mais insistentes exigências eia tão grande na pastoral crtstã), é uma conseqüência da introdtição, aliás
de austeridade: o caso pode se produzir e a história do cristia- lenta, tardia e difícil, do modelo cnstão do casamento ao longo da alta Idade
nismo ou da Europa moderna dariam, sem dúvida, exemplos Média (cf. ú. Duby, le chevalier, lafemme et le prêtre, 1981).
21 O Michel Foucault - Ditos e Escritos 1983 - O Uso dos Prazeres e as Técnicas de Si 21 I

ras e até valorizadas. É preciso conceber esses temas de aus- Moral e práticas de si
teridade sexual. não como uma tradução ou comentário de
proibições profundas e essenciais. mas sim como elaboração e Para responder a essa questão, é preciso introduzir algumas
estilização de uma atividade no exercício do seu poder e a prá- considerações de método; ou, mais precisamente. convém se
tica de sua liberdade. interrogar sobre o objeto que se propõe quando se pretende es-
O que não significa que essa temática de austeridade se- tudar as formas e as transformações de uma "moral".
xual represente apenas um refinamento sem conseqüência e A ambigüidade desta palavra é conhecida. Entende-se
uma especulação sem ligação com qualquer preocupação pre- "moral" como um conjunto de valores e de regras de conduta
cisa. Pelo contrário, é fácil perceber que cada uma dessas que são propostas aos indivíduos e aos grupos por meio de di-
grandes figuras da austeridade sexual se relaciona com um versos aparelhos prescritivos, como podem ser a família, as
eixo da experiência e com um conjunto de relações concretas: instituições educativas. as Igrejas etc. Ocorre que essas re-
relações com o corpo, com a questão da saúde, e, por trás des- gras e valores sejam bem explicitamente formulados em uma
ta, com todo o jogo da vida e da morte; relação com o outro doutrina coerente e em um ensinamento explícito. Mas ocorre
sexo, com a questão da esposa como parceira privilegiada, e, também que sejam transmitidos de maneira difusa e que, lon-
por trás dela. com todo o jogo da instituição familiar e do laço ge de formarem um conjunto sistemático, constituam um jogo
que ela cria; relação com o seu próprio sexo, com a questão complexo de elementos que se compensam, se corrigem, se
dos parceiros que se podem escolher, e o problema do ajusta- anulam em certos pontos, permitindo, dessa forma, com-
mento entre papéis sociais e papéis sexuais; enfim, relaçüo promissos ou escapatórias. Feitas essas ressalvas, pode-se
com a verdade, na qual se coloca a questão das condições es- chamar esse conjunto prescrttivo de "código moral". Porém,
pirituais que permitem ter acesso à sabedoria. entende-se também por "moral" o comportamento real dos in-
Há, assim, todo um recentramento a operar. Mais do que divíduos em sua relação com as regras e valores que lhes são
buscar os interditos de base que se escondem ou se manifes- propostos: designa-se, assim, a maneira pela qual eles se sub-
tam nas exigências de austeridade sexual, é preciso procurar metem mais ou menos completamente a um princípio de con-
a partir de que região da experiência e sob que formas o com- duta, pela qual obedecem ou resistem a uma interdição ou a
portamento sexual foi problematizado, tornando-se objeto de uma prescrição, pela qual respeitam ou negligenciam um con-
cuidado. elemento para reflexão, matéria de estilização. Mal:-, junto de valores; o estudo desse aspecto da moral deve deter-
precisamente. é preciso perguntar-se por que os quatro gn111 minar de que modo, e com que margem de variação ou de
des domínios de relações em que parecia que o homem livre transgressão, os indivíduos ou grupos se conduzem em refe-
nas sociedades antigas tinha podido desenvolver sua ativid,1 rência a um sistema prescritivo, que é explícita ou implicita-
de sem encontrar maiores proibições tenham sido justamen I e· mente dado em sua cultura, e do qual eles têm consciência
os lugares de uma intensa problematização da prática s exua l. mais ou menos clara. Chamemos esse nível de fenômenos de
Por que foi a respeito do corpo, da esposa, dos rapazes e ela "moralidade dos comportamentos".
verdade que a prática dos prazeres foi questionada? Por que a Isso, porém, não é tudo. De fato, uma coisa é uma regra de
inserção ou a interferência da atividade sexual nessas rel:i conduta; outra, a conduta que se pode comparar com essa re-
ções se tornaram objeto de preocupação, de debate e de refü· gra. Porém, outra coisa ainda é a maneira como é preciso
xão? Por que esses eixos da experiência cotidiana propicianu, 1 "conduzir-se'', ou seja, a maneira como se deve constituir a si
um pensamento que buscava a rarefação do comportamen ln mesmo como sujeito moral, agindo em referência aos elemen-
sexual, sua moderação, seu enquadramento, e a definição eh· tos prescrttivos que constituem o código. Dado um código de
um estilo austero na prática dos prazeres? Como o comporia condutas e para um determinado tipo de ações (que pode ser
mento sexual, uma vez que implicava esses diferentes tipos d,· definido por seu grau de concordãncia ou de divergência em
relações, foi pensado como domínio da experiência moral? relaçào a esse código), há diferentes maneiras de o individuo
212 Mlf hel Foucault - Ditos e Escritos 1983 - O Uso dos Prazeres e as Técnicas de Si 213

"se conduzir" moralmente, diferentes maneiras para o indiví- Há também diferentes possibilidades nas formas de "elabo-
duo, ao agir. não operar simplesmente como agente. mas sim ração~ do trabalho ético realizado sobre si mesmo, não apenas
como sujeito moral dessa ação. Seja um código de prescrições para tornar seu comportamento conforme a uma regra dada,
sexuais or denando aos dois cônjuges uina fidelidade conjugal mas sim para tentar transformar a si mesmo em sujeito moral
estrita e simétrica, assim como a manutenção de uma vontade de sua conduta. Assim, a austeridade sexual pode ser pratica-
procriadora - mesmo nesse quadro tão rigoroso, ele terá mui- da através de um longo trabalho de aprendizagem, de me-
tas maneiras de praticar essa austeridade, várias maneiras de morização e de assimilação de um conjunto sistemático de
"ser fiel". Essas diferenças podem dizer respeito a diversos preceitos, e através do controle regular da conduta na exati-
pontos. dão com que essas regras são aplicadas; pode-se também pra-
Elas se referem ao que se poderia chamar de determinação ticá-la sob a forma de uma renúncia brusca, completa e
da substância ética, ou seja. a maneira pela qual o individuo definitiva aos prazeres; pode-se também praticá-la na forma
deve constituir este ou aquele aspecto dele próprio como ma- de um combate permanente, cujas peripécias - até nos fracas-
téria principal de sua conduta moral. Dessa forma, pode-se sos passageiros - podem ter sentido e valor; ela pode ainda ser
fazer recair o essencial da prática de fidelidade no estrito res- exercida através de uma decifração, tão c uidadosa, perma-
peito às interdições e às obrigações nos próprios atos que são nente e detalhada quanto possível, dos movimentos do desejo,
realizados. Porém. pode-se também fazer consistir o essencial em todas as suas formas, mesmo as mais obscuras sob as
da fidelidade no domínio dos desejos, no combate obstinado quais ele se oculta.
que se trava contra eles, na força com a qual se consegue r e- Por fim, outras diferenças se referem ao que se poderia
sistir às tentações: o que constitui o conteúdo da fidelidade <: chamar de teleologia do sujeito moral: pois uma ação não é
essa vigilância e essa luta; os movimentos contraditórios d;1 moral somente em si mesma e na sua singularidade; ela o é
alma, bem mais do que os próprios atos em sua realização, se-· também por sua inserção e pelo lugar que ela ocupa no con-
rão, então, a matéria da prática moral. Pode-se ainda fazê-ln junto de uma conduta; ela é um elemento e um aspecto dessa
consistir na intensidade, na continuidade, na recíprocidack conduta, e marca uma etapa em sua duração, e um progresso
dos sentimentos que se experimenta em relação ao cônjuge. e· eventual em sua continuidade. Uma ação moral tende à sua
na qualidade da relação que líga, permanentemente, os dois própria realização: mas, por outro lado. ela visa, através des-
ta, à constituição de uma conduta moral que conduza o indiví-
esposos. duo não simplesmente a ações sempre conformes a valores e a
As diferenças podem também incidir sobre o modo d e su regras. mas também a um certo modo de ser, característico do
jeição, ou seja, sobre a maneira pela qual o individuo se rela sujeito moral. E. sobre esse ponto, há várias diferenças possí-
ciona com essa regra e se reconhece ligado à obrigação ele- veis: a fidelidade conjugal pode decorrer de uma conduta mo-
colocá-la em prática. Pode-se, por exemplo, praticar a fidelid:1 ral que conduza a um controle de si mesmo cada vez mais
de conjugal e se submeter ao preceito que ela impõe, por se rc completo; ela pode ser urna conduta moral que manifesta um
conhecer como parte do grupo social que a aceita e que a afastamento súbito e radical do mundo; ela pode também ten-
proclama abertamente, e que dela conserva silenciosamente o der a uma tranqüilidade perfeita da alma, a uma total insensi-
hábito; mas pode-se também praticá-la por se considerar h<'\1 bilidade ante as agitações das paixões, ou a uma pulificação
de.iro de uma tradição espiritual, que se tem a responsabilicl:'l que garanta a salvação após a morte e a imortalidade bem-
de de preservar ou de fazer reviver; pode-se também exe1Tr1 aventurada.
essa fidelidade respondendo a um apelo, propondo-se co1w 1 Em suma, uma ação, para ser dita "moral", não deve se re-
exemplo, ou tentando dar à sua vida pessoal uma forma qw· duzir a um ato ou a uma séiie de atos conformes a uma regra,
corresponda a critérios de brilho, de beleza, de nobreza ou dt· a uma lei ou a um valor. Na verdade, toda ação moral implica
perfeição. uma relação com o real em que ela se realiza, e uma relação
214 Michel Foucault - Ditos e Escritos 1983 - O Uso dos Prazeres e as Técn1cas de SI 215

com o código ao qual ela se refere; mas também implica uma verdade que eles jamais podem ser totalmente dissociados,
certa relação consigo mesmo; esta não é simplesmente •·cons- mas eventualmente podem se desenvolver com uma certa au-
ciência de si", mas constituição de si corno "sujeito moral", na tonomia, é preciso também admitir que, em certas morais, a
qual o individuo circunscreve a parte dele próprio que consti- ênfase é posta, sobretudo, no código, em sua sistematização,
tui esse objeto de prática moral, define a sua posição em rela- riqueza, capacidade de ajustar-se a todos os casos possíveis e
ção ao preceito que ele acata, determina para si um certo de cobrir todos os campos de comportamento: em tais morais,
modo de ser que valerá corno cumprimento moral dele mesmo devemos buscar a sua importância do lado das instâncias de
e, para realizar-se. age sobre ele mesmo, levand.o -o a se co- autoridade que defendem esse código, que impõem sua apren-
nhecer, a se controlar, a pôr-se à prova. a se aperfeiçoar e a se dizagem e obediência, que sancionam as infrações; nessas
transformar. Não há ação moral particular que não se refira à condições, a subjetivação se realiza, basicamente. de uma for-
unidade de uma condt:lta moral; não há conduta moral que ma quase jurídica, na qual o sujeito moral se refere a uma lei
não exija a constituição de si mesmo como sujeito moral; não ou a um conjunto de leis, à qual ele deve se submeter, sob
há constituição do sujeito moral sem "modos de subjetivação" pena de cometer faltas que o expõem a um castigo. Seria com-
e sem uma ·•ascética" ou "práticas de si" que os fundamentem. pletamente inexato reduzir a moral cristã - talvez se devesse
A ação moral é indissociável dessas formas de ativtdade sobre dizer, "as morais cristãs" - a um modelo desse tipo: talvez não
si, que não são menos diferentes de uma moral para outra do fosse falso pensar que a organização do sistema penitencial no
que o sistema de valores, de regras e de proibições. início do século XIII, e seu desenvolvimento até as vésperas da
Essas distinções devem ter apenas efeitos teórtcos. Elas Reforma, provocaram uma fortíssima "juridificação" - no sen-
também têm conseqüências para a análise histórica. Quem tido estrito, uma intensa "codificação" - da experiência moral:
quiser fazer a história de uma "moral'' deve considerar as dife-
é contra ela que reagiram muitos movimentos espirituais e as-
rentes realidades que essa palavra comporta. História das
céticos que se desenvolveram antes da Reforma.
"moralidades": é a que estuda em que medida as ações de tais
individuas ou de •tais grupos são conformes, ou não, às regras Em contrapartida, podem-se muito bem conceber morais l'\
e aos valores que são propostos por diferentes instâncias. His- nas quais o elemento forte e dinâmico deve ser buscado do
tória dos "códigos", aquela que analisa os diversos sistemas d e lado das formas de subjetivação e das práticas de si. Nesse
regras e de valores que predominam em uma determinada so- caso, o sistema de códigos e de regras de comportamento pode
ciedade ou grupo, as instâncias ou aparelhos de coerção que ser bastante rudimentar. Sua observação exata pode ser rela-
os põem em prática, e as formas que assumem sua multiplici- tivamente secundária, pelo menos se comparada ao que é exi-
"'- dade, suas divergências ou suas contradições. Enfim, história gido do indivíduo para que, na relação que ele tem consigo
~ da maneira como os individuas são chamados a se constituí- mesmo, em suas diferentes ações, pensamentos ou sentimen-
'---l:e!n como sujeitos de conduta moral: essa história será a doA tos, ele se constitua como sujeito moral; a ênfase é posta en-
modelos propostos para a instauração e o desenvolvimento tão nas formas de relação consigo próprio, nos procedimentos
das relações consigo próprio, para a reflexão sobre si, para o e técnicas por meio das quais ele as elabora, nos exercícios pe-
conhecimento, o exame, a decifração de si por si, para a s los quais ele se propõe a si mesmo como objeto a conhecer, e
transformações que se busca operar em si mesmo. Eis aqui o nas práticas que permitem transformar seu próprio modo de
que se poderia chamar de história da "ética" e da "ascética", ser. Essas "morais orientadas para uma ética" (e que não coin-
entendida como história das formas de subjetivação moral e cidem necessariamente com as morais do que se chama de re-
das práticas de si que são destinadas a garanti-la. núncia ascética) foram muito importantes no cristianismo, ao
Se de fato é verdade que qualquer "morar. no sentido am- lado das moráis ''orientadas para o código": entre elas houve.
plo, comporta os dois aspectos que acabo de indicar, o dos có- às vezes, justaposições; às vezes, rivalidades e conflitos; e, por
digos de comportamentos e o das formas de subjetivação; se<~ vezes, composição.
216 Michel Foucault - Ditos e Escritos 1983 - O Uso dos Prazeres e as Técnicas de Si 217

Parece, pelo menos em uma primeira abordagem, que as gos, as formas de relação consigo mesmo (e as práticas de si
reflexões morais na Antigüidade grega ou greco-romana foram que a elas correspondem) foram deftnidas, modificadas, ela-
muito mais orientadas para as práticas de si e para a questão boradas e diversificadas.
da askêsis do que para as codificações de condutas e para a Não se supõe que os códigos não tenham importância, nem
definição estrtta do permitido e do proibido. Se tomarmos como que permaneçam constantes. Porém, é possível notar que. afi-
exceções A república e As leis, encontraremos muito poucas nal. eles giram em torno de alguns princípios bastante sim-
referências ao princípio de um código que definiria em deta- ples e pouco numerosos: talvez os homens não inventem
lhes a conduta adequada, da necessidade de uma instância muito mais na ordem das interdições do que na dos prazeres.
encarregada de vigiar sua aplicação, da possibilidade dos cas- Sua permanência também é bastante grande: a proliferação
tigos que sancionariam as infrações cometidas, das condições visível das codificações (relativas aos lugares, aos parceiros.
e circunstâncias que poderiam afetar o valor de um ato. aos gestos permitidos ou proibidos) se produzirá bem mais
Embora a necessidade de respeitar a lei e os costumes - os no- tarde no cristianismo. Em contrapartida, parece - esta é, em
moi- seja muito freqüentemente enfatizada, o importante está todo caso, a hipótese que eu gostaria de explorar aqui - que há
menos no conteúdo da lei e em suas condições de aplicação do todo um campo de historicidade complexa e rica na maneira
que na atitude que faz com que elas sejam respeitadas. A ên- como o indivíduo é chamado a se reconhecer como sujeito mo-
fase é posta na relação consigo mesmo que permite não se dei- ral da conduta sexual. Seria o caso de verificar de que modo,
xar levar pelos apetites e prazeres, que permite proteger-se do pensamento grego clássico à constituição da doutrina e da
contra seu domínio e superioridade. manter seus sentidos em pastoral cristã da carne, essa subjetivação foi definida e
um estado de tranqüilidade, manter-se livre de qualquer es- transformada.
cravização interna em relação às paixões. e atingir um modo
de ser que pode ser definido pelo gozo pleno de si mesmo ou
pela perfeita soberania sobre si mesmo.
Daí a escolha de método que fiz ao longo desse estudo so-
bre as morais sexuais da Antigüidade pagã e cristã. Manter
em mente a distinção entre os elementos de código de uma
moral e os elementos de ascese; não esquecer sua coexistên-
cia, suas relações, sua relativa autonomia nem suas possíveis
diferenças de ênfase; levar em conta tudo aquilo que, nessas
morais, parece indicar o privilégio das práticas de si. o in-
teresse que se poderia atribuir a elas, o esforço que era feito
para desenvolvê-las, aperfeiçoá-las e ensiná-las, o debate que
se desenvolvia a seu respeito. Assim fazendo, teríamos de
nsformar a questão tão freqüentemente colocada sobre a
ntinuidade (ou a ruptura) entre as morais filosóficas da
Antigüidade e a moral cristã: em vez de se perguntar quais são
os elementos do código que o cristianismo pôde tomar em-
prestado do pensamento antigo, e quais são aqueles que elt·
acrescentou por sua própria conta, para definir o que é
permitido ou o que é proibido na ordem de uma sexualidade
supostamente constante. conviria perguntar de que modo, na
continuidade, na transferência ou na modificação dos códi-

1 ,!
1984 - Política e Ética: uma Entrevista 219

1984 1934 dedicado ao Fiihrerturn no estoicismo. 1 Releia a página


de introdução e as últimas observações do livro sobre o Fiih-
rersideal e o verdadeiro humanismo constituído pelo Volkesti-
mulado pel~ comando do chefe ... Heidegger nada escreveu de
Política e Ética: uma Entrevista mais sérto. E lógico que nada disso çondena o estoicismo ou o
kantismo.
Mas acho que é preciso tomar consciência de vários fatos: a
pouca ligação "analítica" entre uma concepção filosófica e a
atitude política concreta daquele que a sustenta; as "melho-
"Polltics and ethics: an ínterview" ("Política e ética: uma entrevistafl; entrevis- res" teorias não constituem uma proteção eficaz contra esco-
ta com M. Jay, L. Lõwentbal, P. Rabinow, R. Rorty e C. Taylor; Universidade lhas políticas desastrosas; alguns grandes temas como o
de Berkeley, abril de 1983}, respostas traduzidas em inglês, U1 Rablnow (P.),
ed., The Foucault Reader, Nova Iorque, Pantheon Books, 1984, ps. 373-380. "humanismo" podem servir para qualquer coisa, assim como
para mostrar com que gratidão Pohlenz teria saudado Hitler.
Disso não concluo que seja possível dizer qualquer coisa na
- Ultimamente foramfeitas, na Amértca, comparações entre ordem da teoria; mas, pelo contrário, que se deve ter uma ati-
seu trabalho e o de Jürgen Habermas. Disseram que o senhor tude exigente, prudente, "experimental"; é preciso a cada ins-
preocupava-se muito com a ética, e ele com a política. Haber- tante, passo a passo, confrontar o que se pensa e o que se diz
mas, por exemplo, após suas primeiras leituras, vê em Heideg- com o que se faz e o que se é. Pouco me importam aqueles que
ger um herdeiro politicamente desastroso d.e Nietzsche. Ele dizem: "Você tomou essas idéias emprestado de Nietzsche:
associa Heidegger ao neoconservadorismo alemão. Os neo- ora, Nietzsche foi usado pelos nazistas. portanto... ": mas em
conseroadores são, para ele, os herdeiros conservadores de contrapartida sempre procurei relacionar, da maneira mais ri-
Nietzsche, enquanto o senhor é seu herdeiro anarquista. Mas é gorosa possível, a análise histórica e teórtca das relações de
d.essa maneira que o senhor interpreta a tradição filosófica, poder, das instituições e dos conhecimentos com os movimen-
não é? tos, críticas e experiências que as questionam na realidade. Se
- É fato. Quando Habermas estava em Paris, discutimos me ative a toda essa "prática" não foi para "aplicar" idéias,
longamente, e fiquei realmente surpreso ao ouvi-lo reconhe- mas para experimentá-las e modificá-las. A chave da atitude
cer o quanto para ele o problema de Heidegger e das implica- política pessoal de um filósofo não deve ser buscada em suas
ções políticas do seu pensamento era alguma coisa muito idéias, como se pudesse delas ser deduzida, mas sim em sua
presente e importante. Entre as coisas que ele me disse, uma filosofia como vida, em sua vida filosófica, em seu êthos.
delas me deixou pensativo, e a respeito da qual gostaria de me Entre os filósofos franceses que participaram da re-
interrogar novamente: após ter me explicado como, de fato, o sistência durante a guerra estava CavaiUês, um historiador da
pensamento de Heidegger constituía um desastre político, ele matemática interessado pelo desenvolvimento de suas estru-
me falou de um dos seus professores, um grande kantiano turas internas. Nenhum dos filósofos do engajamento político,
que era mu.i to conhecido por volta de 1930-1940, e me expli- Sartre, Simone de Beauvoir ou Merleau-Ponty, fez nada disso.
cou o quanto havia ficado surpreso e decepcionado quando, - Trata-se de alguma coisa que poderia também ser aplica-
ao consultar fichários de biblioteca, encontrou em 1934 tex- da em seu trabalho histórico? Parece-me que seus leitores vêem
tos completamente nazistas desse ilustre kantiano.
Acabo recentemente de fazer a mesma experiência com
Max Pohlenz, que durante toda sua vida se fez arauto dos va- l. Pohlenz (M.}, Anti.kes Fiihrertum. Cícero de Ojficüs urtd das Lebensídeal des
lores universais do estoicismo. Lancei-me sobre seu texto de Panaitíos, Leipzig, Teubner, 1934.
220 Mtchel Foucault - Ditos e Escritos 1984 - Política e Ética; u ma EntreVista 221

no senhor mais do que o senhor desejaria, um pensador político - É difícil situar tudo isso dentro de uma luta que já está en-
- ou isso seria ir longe demais? Fazer do senhor um herdeiro gajada, já que os limites são .fixados pelos outros ...
anarquista de Nietzsche me parece totalmente e rrôneo; isso se· - É dificil projetar essas questões que têm várias dimen-
ria situar seu trabalho em um contexto equivocado. sões, várias facetas, em um espaço político pessoal. Alguns
- Concordo o bastante para dizer que de fato o que me inte- marxistas disseram que eu era um perigo para a democracia
ressa é muito mais a moral do que a política ou, em todo caso, ocidental - isso foi escrito-, um socialista escreveu que o pen-
a política como uma ética. sador mais próxí~o de mim era Adolf Hitler em Mein Kampj.
- Mas seria possível dizer o mesmo do seu trabalho há cinco Fui considerado pelos liberais um tecnocrata agente do gover-
ou dez anos? Ou seja, na época em que o senhor parecia mais no gaullista; pelas pessoas de direita, gaullistas ou outros, um
um.filósofo ou historiador do poder do que um historiador dn si perigoso ana rquista de esquerda; um professor americano
mesmo ou dn s4ieito? Sem dúvida, isso fez com que o senhor perguntou por que. nas universidades americanas, se convi-
fosse visto mais como alguém que preconizava uma concepção daria um criptomarxísta como eu, que seria manifestamente
diferente da política do que como alguém que não preconizava um agente da KGB etc. Isso não tem nenhuma importância;
nenhuma. Esta é a razão pela qual marxistas, habermanistas e fomos todos expostos a isso e imagino que o senhor também.
outros viram no senhor uma figura que devia ser combatida. Não se trata absolutamente de fazer de minha situação um
- O que me chocou desde o início foi ter sido considerado caso particular mas, se o senhor quiser, penso que, ao colocar
um inimigo pelos marxistas, um inimigo pelas pessoas de di- esse tipo de questão ético-epistemológico-política, não se está
reita, um inimigo pelas pessoas do centro. Acho que se meu mais situado em um cenário de controvérsias.
trabalho fosse essencialmente político, chegaria a encontrar - A denominação pensador ético, referindo-se ao senhor. me
seu lugar em alguma parte. parece justa, muito interessante, mas é preciso esclarecer que o
- Onde? senhor não é puramente contemplativo. Há anos atua em seto-
- Não sei. .. Se fosse político, seria preciso encontrar sua lo- res bem particulares da sociedade francesa e, o que é interes-
calização no campo político. De fato, quis sobretudo questio- sante e o que, talvez, tambêm constitua um desa.fio maior para
nar a política e fazer aparecer no campo da política, assim os partidos políticos, é a maneira como o senhor procede, rela·
como no do questionamento histórico e filosófico, problema s cionando uma análise a um tipo de ação que não é ideológica
que não podiam ser colocados. As questões que tento colocar em si mesma, e que é portanto mais difícil de nomear. .. Além
não são determinadas por uma concepção política prévia e disso, o senhor ajuda outras pessoas a prosseguirem suas lu·
não tendem à realização de um projeto político definido. tas em campos especifrcos; temos aí, certamente, uma ética - se
É certamente isso que as pessoas querem dizer quando me é possível dizer dessa forma - da interação entre a teoria e a
recriminam por não apresentar uma teoria de conjunto. Mas prática; uma ética que consiste em associá-las. O pensamento e
acredito justamente que as formas de totalização oferecidas a ação estão ligados de maneira ética, mas esta maneira pro-
pela política são sempre, efetivamente. muito limitadas. Pro- duz resultados que é precisQ.t;hamar de políticos.
curo, pelo contrário, fora de qualquer totalização, ao mesmo - Sim, mas penso que 4 tica é uma prática, e o êthos, uma
tempo abstrata e restritiva, abrir problemas tão concretos e ge· maneira de ser. Tomemos uni exemplo que toca a todos nós. a
rais quanto possível - problemas que viram a política pelo Polônia. Se colocarmos a questão da Polônia em termos pro-
avesso, atravessam as sociedades em diagonal, e sa.o parte priamente políticos, é evidente que se chega rapidamente a
constituinte de nossa história e , ao mesmo tempo, constituí- dizer que nada pode ser feito. Não é possível fazer um desem-
dos por ela; assim como o problema das relações razão/loucu- barque de pára-quedistas ou enviar tanques blindados para
ra. a questão da doença, do crime ou da sexualidade. E seria libertar Varsóvia. Acredito que é preciso se dar conta disso po-
preciso tentar colocá-los como questões da atualidade e da liticamente. mas creio que se concorda em dizer que, por ra-
história, como problemas morais, epistemológicos e políticos. zões éticas, é preciso colocar o problema da Polônia na forma
222 Michel Foucault - Ditos e Escritos 1984 - Poütíca e Ética: uma Entrevista 223

de uma não-aceitação do que se passa lá e da passividade dos qual não disporiam sozinhas; e isso supõe, entre outras coisas,
nossos governos; creio que essa é uma atitude ética e também pontos de vista comuns, que podem também implicar relações
política; ela não consiste apenas em dizer: eu protesto, mas de subordinação, porque uma das condições necessárias des-
em fazer dessa atitude um fato político tão consistente quanto sa ação comum pode ser ter cabeças, ou líderes - mas isso,
possível, para que aqueles que governam aqui ou ali sejam para Hannah Arendt, não poderia constituir relações de domi-
obrigados, de certa maneira, a levá-lo em conta. nação; existe, a seguir, um outro aspecto d.o poder, um aspecto
- Há uma maneira de encarar a política - nos Estados Uni- d.e qualquer fonna subentendido nessas mesmas relações:
dos, ela é associada a Hannah Aren.dt, e atualmente a Jürgen aquele que estabelece, de maneira inequívoca, relações de do-
Habermas - que, além de considerar o poder como uma relação minação de certos indivíduos sobre outros. O senhor reconhece
d.e dominação, vê sua possibilidade na ação organizada, na esses dois aspectos do poder? Ou o poder se define sobretudo,
ação comum. Essa idéia de que o poder pode ser um consenso, para o senhor, em termos do segundo aspecto?
uma esfera de intersubjetividade, uma ação comum, é uma - O senhor tem toda razão em colocar esse problema da re-
idéia que seu trabalho parece querer abranger. Dificilmente se lação de dominação porque efetivamente me parece que, em
encontrará em sua obra a visão de uma política diferente. Tal- muitas análises feitas por Arendt ou, em todo caso, na sua
vez, nesse sentido, o senhor possa ser considerado um pensa- perspectiva, constantemente se dissociava a relação de domi-
dor antipolítico. nação da relação de poder; mas me pergunto se essa distinção
- Tomarei exemplos muito simples que, acredito, nào se não é um pouco verbal; é possível, na verdade, reconhecer que
afastarão do tema que o senhor escolheu: considerando o sis- certas relações de poder funcionam de tal forma que em geral
tema penal. as questões colocadas atualmente, sabe-se muito constituem um efeito de dominação, mas a rede constituída
bem que. em muitos países democráticos, se procura fazer pelas relações de poder quase não permite uma distinção pre-
funcionar a justiça penal na forma do que, nos Estados Uni- cisa. Penso que a partir desse tema geral é preciso ser ao mes-
dos. se chama de informaljustice, e na França, de forma socie- mo tempo extremamente prudente e empírico. Nada prova,
tária. Ou seja, confere-se na realidade aos grupos, aos líderes por exemplo, que na relação pedagógica - quero dizer, na rela-
dos grupos. uma certa forma de autoridade que obedece a ou- ção de ensino, essa passagem que vai daquele que sabe mais
tras regras e a outros instrumentos, mas que também produz àquele que sabe menos - a autogestão produza os melhores
efeitos de poder que não são necessariamente válidos unica- resultados; nada prova. pelo contrário, que isso não paralise
mente pelo fato de eles não serem estatais. de não passarem as coisas. Eu responderia de modo geral que sim, com a con-
pela mesma rede de autoridade. Para retornar à sua questão, dição de que ê preciso observar todos os detalhes.
a idéia de uma política consensual pode, efetivamente. em um - Se estipularmos que o modelo do consenso talvez não pas-
dado momento, servir seja de principio regulador, seja sobre- se de uma possibilidade fictícia, não há dúvida d.e que as pes-
tudo de principio critico em relação a outras formas políticas; soas podem agir em.função dessaficção de tal maneira que os
mas não acredito que isso acabe com o problema da relação de resultados obtidos srjam superiores à ação que resultaria des-
poder. sa concepção da política, a meu ver mais deprimente, como do-
- Posso Jazer uma pergunta sobre esse tema, partindo de minação e repressão; deforma que, se empiricamente o senhor
Hannah Arendt? Arendt reservava o emprego da palavra "po- ti.ver razão, e se a utopia não puder nunca se realizar; pragmati-
der'' apenas para um dos dois sentidos, mas utilizemo-lo em camente isso poderia, em um certo sentido, ser melhor; mais
um sentido mais amplo, digamos que ela percebeu as duas ver- saudável, mais libertador - o senhor pode ligar a isso os valo-
tentes possíveis do poder. Há, entre as pessoas, relações que res posití.uos que quiser - se o consenso permanecesse para
lhes permitem realizar coisas que elas não poderiam executar nós como uma meta a ser atingida, mais d.o que uma meta que
de outra maneira; as pessoas estão ligadas por relações de po- rejeitamos e declaramos fora do nosso alcarice.
der no sentido em que elas têm, juntas, uma capacidade da - Sim, é o que penso - digamos. como princípio critico ...
224 Mlehel Foucault - Ditos e Escritos

- Princípio regulador? 1984


- Não diria princípio regulador, pois seria ir longe demais,
porque, a partir do momento em que se diz princípio regula-
dor, admite-se que é em função disso que o fato deve se
organizar, dentro dos limites que podem ser definidos pela ex-
periência ou pelo contexto. Diria sobretudo que talvez esta Polêmica, Política e Problematizações
seja uma idéia crítica a ter sempre em mente: perguntar-se
qual é a parte de não-consensualidade implicada em tal rela-
ção de poder, e se esta parte de não-consensualidade é neces-
sária ou não. e então é possível interrogar qualquer relação de "Polemics, pollUcs and problematlzaUons• ("Polêmica. polltica e problemati-
poder dessa forma. Em última instância, diria: talvez não se zações"; entrevista com P. Rabinow. maio de 1984), respostas traduztdas em
deva ser a favor da consensualidade, mas contra a não-con- inglês. in Rabinow (P.). ed., The Foucault Reader, Nova Iorque, Pantheon.
sensualidade. Books. 1984, ps. 381-390.
- O problema da sujeição não é o mesmo da organização. Na
época atual, vemos freqüentemente, em nome d.o consenso, da
libertação, da expressão pessoal etc., um.funcionamento total- - Por que o senhor se mantém afastado da polêmica?
mente diferente dos campos de poder que não é o da domina- - Gosto de discutir e trato de responder às perguntas que
ção no sentido estrito, mas que tampouco é muito atraente. Do me fazem. Não gosto, é verdade, de participar de polêmicas. Se
meu ponto de vista, um dos avanços realizados pelos analistas abro um livro em que o autor taxa um adversário de kesquer-
do poderfoi mostrar que certas concepções de styeição, que não dista pueril", fecho-o imediatamente. Essas não são as mi-
era uma organização no sentido estrito, podiam ser; no entant.o, nhas maneiras de fazer: não pertenço ao mundo daqueles que
muito perigosas. delas se utilizam. Em relação a essa diferença, considero uma
- O poder do tipo disciplinar, tal como aquele que é exerci- coisa essencial: trata-se de toda uma moral. aquela que se re-
do - pelo menos que foi exercido - em um certo número de fere à busca da verdade e à relação com o outro.
instituições, no fundo aquelas que Goffman chamava de insti- No jogo sério das perguntas e respostas. no trabalho de
tuições totais, é a bsolutamente localizado, é uma fórmula in- elucidação recíproco, os direitos de cada um são de qualquer
ventada em um momento determinado, que produziu um forma imanentes à discussão. Eles decorrem apenas da situa-
certo número de resultados, que foi vivida como totalmente ção de diálogo. Aquele que questiona nada mais faz do que
insuportável ou parcialmente insuportável; mas é claro que usar um direito que lhe é dado: não ter certeza, perceber uma
não é isso que representa de maneira adequada todas as rela- contradição, ter necessidade de uma informação suplemen-
ções de poder e as possibilidades de relação de poder. O poder tar, defender diferentes postulados, apontar um erro de racio-
não é a disciplina; a disciplina é um procedimento possível do cínio. Quanto àquele que responde, ele tampouco dispõe de
poder. um direito a mais em relação à própria discussão; ele está li-
- Mas existem relações de disciplína que não sejam neces- gado, pe.la lógica do seu própiio discurso, ao que disse previa-
sariamente relações de dominação? mente e, pela aceitação do diálogo, ao questionamento do
- Certamente, há disciplinas consensuais. Tentei indicar outro. Perguntas e respostas decorrem de um jogo- simulta-
os limites do que eu pretendia fazer, ou seja, a análise de uma neamente agradável e difícil - em que cada um dos dois
figura histórica precisa. de uma técnica precisa de governo parceiros se esforça para só usar os direitos que lhe. são dados
dos indivíduos. Conseqüentemente, essas análises não po- pelo outro, e pela forma de diálogo convencionada.
dem, de forma alguma, valer, para mim, como uma analítica O polemista prossegue investido dos piivilégtos que detém
geral de qualquer relação de poder possível. antecipadamente, e que nunca aceita recolocar em questão.
226 MJchcl Foucault - Dttos e Escr1tos
1984 - Polêmlca, Política e Problematizações 227

Possui, por principio, os direitos que o autorizam à guerra e


que fazem dessa luta um empreendimento justo: não tem di- rias e derrotas não passam, no fundo, de maneiras de dizer. E
ante dele um parceiro na busca da verdade, mas um adversá- no entanto._ também são, na ordem do discurso, maneiras d~
rio, um inimigo que está enganado, que é perigoso e cuja f~er ~ue nao deixam de ter conseqüência. Há efeitos de este-
própria ex:istência constitui uma ameaça. O jogo para ele não nliz~ç~o: alguém já Viu uma idéia nova surgir de uma po-
consiste, portanto, em reconhecê-lo como sujeito com direito lêmica. E pode_rta ser _de outra maneira, uma vez que os
à palavra, mas em anulá-lo como interlocutor de qualquer i~1terlocutores sao nela mcitados não a avançar, não a se ar-
diálogo possível, e seu objetivo final não será se aproximar n scar se~pre mais no que dizem, mas a se fechar incessante-
tanto quanto possível de uma difícil verdade, mas fazer triun- mente no Justo direito que eles reivindicam, na sua legitimidade
far ajusta causa da qual ele é, desde o inicio, o portador mani- que devem defender e na afirmação de sua inocência! E O mais
festo. O polemista se sustenta em uma legitimidade da qual grave: nessa comédia, imita-se a guerra. a batalha, os aniqui-
seu adversário, por definição, está excluído. la1?~ntos ou rer:idições incondicionais; assim se faz passar 0
Talvez seja preciso fazer um dia a longa história da polêmi- maximo do seu mstinto de morte. Ora, é bastante perigoso le-
ca como figura parasitária da discussão e obstáculo à busca var a c~r que o ac~sso à verdade possa passar por semelhan-
da verdade. Muito esquematicamente, creio que seria possível t:s c~nhos e vahdar assim, mesmo que somente de forma
reconhecer atualmente nela a presença de três modelos: o re- s1mbóhca,_ as práticas políticas reais que poderiam ser por
ligioso, o jurídico e o político. Como na heresiologia, a polêmi- ele~ a1:1tonzadas. Imaginemos por um momento que. em uma
ca se encarrega de determinar o ponto de dogma intangível, o pol~m1ca, um dos dois adversários receba, por um toque de
princípio fundamental e necessário que o adversário negligen- vannha mãgica,_op~d~r d~ _exercer sobre o outro todo o poder
ciou, ignorou ou transgrediu; e, nessa negligência, denuncia a que ele deseja. E mutil, abas, imaginá-lo: basta ver como na
falta moral; na origem do erro, descobre a paixão, o desejo, o URSS se desenrolaram, não faz tanto tempo assim, os debates
interesse, toda uma série de fraquezas e apegos inconfes- a respeito da lingüística ou da genética. Seriam eles desvios
sáveis que a transformam em culpabilidade. Como na prática aberr~ntes ~o que deveria ser ajusta discussão? Não; em sua
jurídica. a polêmica na.o abre a possibilidade de uma discus- re~ d1m~nsao, são as conseqüências de uma atitude polêmica
são no mesmo plano, ela instrui um processo; ela não se rela- CUJOS efe1t~s geralmente permanecem suspensos.
ciona com um interlocutor, mas com um suspeito; ela reúne - Atr~.v~s de se1;;5 livros, o senhor é considerado um tdealis-
as provas de sua culpabilidade e, designando a tnfração que ta, um nulrsta, um novo filósofo w, um antimarxista, um neocon-
ele cometeu, pronuncia o veredicto e lança a condenação. De servador: .. Onde o senhor na verdade se situa?
qualquer forma, não estamos na ordem de uma investigação - Acredito efetivamente que fui situado, sucessiva e às
realizada em comum; o polemista diz a verdade na forma de v_ez~s simult~neamente, em todos os lugares do tabuleiro polí-
julgamento e de acordo com a autoridade que ele próprio se t~co. a~~rqu1sta'. esquerdista, marxista baderneiro ou enrus-
atribuiu. Porém, este é o modelo político mais poderoso atual- tido, °:nhsta, antimarxista explícito ou dissimulado, tecnocrata
mente. A polêmica define alianças, recruta partidários, pro- ª SeIVI_ço do gaullismo, neoliberal... Um professor americano
duz a coalizào de interesses ou opiniões. representa um se quetxava do fato de um criptornarxtsta como eu ser convi-
partido; faz do outro um inimigo portador de interesses opos- da?º pelos Estados Unidos e fui denunciado na imprensa dos
tos contra o qual é preciso lutar até o momento em que, pa1ses do Leste como cúmplice da dissidência. Nenhuma des~
vencido, ele nada mais terá a fazer senão se submeter ou de- sas caracteriz~ções é em si mesma importante; seu conjunto,
saparecer. e':11 con_trap~rtid~, faz sentido. E devo reconhecer que essa sig-
É claro que a reativação, na polêmica, dessas práticas mficaçao nao deixa: tanto assim, de ter a ver corrúgo.
políticas, jurídicas ou religiosas não passa de teatro. Gesticu- . É ve~dad~ que nao gosto de me identificar e que me divirto
la-se: anátemas, excomunhões. condenações, batalhas. vitó- co:'11 a_d1vers1dade dos julgamentos e das classificações de que
fui ObJeto. Alguma coisa me diz que eles poderiam ter encon-
228 Mtchel Foucault - Ditos e Escrttos 1984 - Polém.ica. Política e ?roblematízaçOes 229

trado finalmente para mim um lugar mais ou menos aproxi- dre ~e um _p~nsamento e definem as condições nas quais é
mativo após tantos esforços em direções tão variadas; e, como passivei vahda-lo. Mas o problema é justamente saber se efeti-
não posso evidentemente duvidar da competência daqueles vamente é dent_I-o de um "nós" que convém se colocar para de-
que se atrapalham em seus julgamentos divergentes, como ?s
fen~er plinct_?iO~ que _são reconhecidos e os valores que são
não é possível denunciar sua distração ou seu preconceito, é ª?e1tos. ou se nao e prec1so, ao elaborar a questão, tomar pos-
preciso se contentar em ver, em sua incapacidade de me s1vel a formação futura de um "nósn. Creio que o "nósn não
situar. alguma coisa que tem a ver comigo. deve ser préVio à questão: ele só pode ser o resultado - e ore-
E que certamente diz respeito, fundamentalmente, à mi- sultado necessariamente provisório - da questão, tal como ela
nha maneira de abordar as questões da política. É verdade se coloca nos novos termos em que é formulada. Não estou
que minha atitude não decorre dessa forma de crítica que, a c~z:to, por exemplo, de que no momento em que escreVia a His-
pretexto de um exame metódico, recusaria todas as soluções torrn. da loucura haVia um "nós" preexistente e acolhedor ao
possíveis. exceto uma, que seria a boa. Ela é de preferência da qual bastaria que eu me referisse para escrever meu li~o e
ordem da "problematizaçãon: ou seja, da elaboração de um do- do qual esse li~o fosse a expressão espontânea. Entre Laing,
mínio de fatos, práticas e pensamentos que me parecem colo- C_ooper, Basagha e eu, não havia nada em comum, nem rela-
car problemas para a política. Não creio, por exemplo, que çao alguma. Mas o problema que se colocou para nossos leito-
exista nenhuma "política'' que possa, diante da loucura ou da res. ~ também para alguns dentre nós. foi o de saber se era
doença mental, deter a solução justa e definitiva. Mas penso poss1vel constituir um "nós" a partir do trabalho feito e que
que. na loucura, na alienação, nas perturbações do com- fosse capaz de formar uma comunidade de ação.
portamento, há razões para questionar a política: e a essas Ja~~is procurei analisar seja lá o que for do ponto de vista
questões a política deve responder, porém ela jamais as res- da poh~ca: mas se~pre interrogar a política sobre o que ela ti-
ponderá totalmente. Da mesma forma, em relação ao crime e nha a dizer a respeito dos problemas com os quais ela se con-
à punição: seria errôneo, naturalmente. imaginar que a políti- frontava. Eu a interrogo sobre as posições que ela assume e as
'1 ca nada tem a ver com a prevenção do crime e com seu casti- r~ões que ela dá para isso; não exijo que ela determine a teo-
go, portanto ela nada teria a ver com um certo número de na do que faço. Não sou um adversário nem um partidário do
elementos que modificam sua forma, seu sentido, sua fre- marxismo; eu o questiono sobre o que ele tem a dizer a respei-
qüência, mas também seria totalmente falso pensar que existe to das experiências que o questionam.
uma fórmula política capaz de resolver a questão do crime e Quanto aos acontecimentos de maio de 68, eles decorrem,
terminar com ele. O mesmo para a sexualidade: ela não deiXa me parece, de uma outra problemática. Nessa época eu não
de ter relação com estruturas, exigências, leis, regulamenta- estava na França; e só voltei vários meses depois. Pareceu-me
ções políticas que têm para ela uma importância capital: no ~ossível reconhecer neles elementos totalmente contraditó-
entanto, não se pode esperar da política formas nas quais a nos: por um lado, um esforço amplamente afirmado em colo-
sexualidade deixaria de ser problemática. car p~ra a política toda uma série de questões que não
Trata-se, então, de pensar as relações de~sas diferentes ex- decornam tradicionalmente do seu domínio estatutário (a
periências com a política: o que não s ignifica que se buscará questão das mulheres. das relações entre os sexos, da mediei-
na política o princípio constitwnte dessas experiências ou a ~ª· ~~ d~ença mental, do meio ambiente, das minorias, da de-
solução que regulará definitivamente seu destino. É preciso lmqüenc1a) ; e, por outro lado, uma vontade de retranscrever
elaborar os problemas que experiências desse tipo colocam todos _esses . problemas no vocabulário de uma teoria que
para a política. Mas também é preciso determinar o que signi- decoma mais ou menos diretamente do marxismo. Ora, 0
fica "colocar um problema" na polftica. R. Rorty observa que. processo que se instalou nesse momento conduziu não ao
nessas análíses, na.o recorro a nenhum "nós" - a nenhum des- confisco dos problemas colocados pela doutrina marxista
ses "nós" cujos consenso, valores. tradição formam o enqua- mas. pelo contrário, a uma impotência cada vez mais manifes~
230 Michel Foucault - Ditos e Escrttos 1984 - Polêmica, PolíUca e Problematizações 231

ta do marxismo em enfrentar esses problemas. De forma que lidades de conhecimento e essas formas de moral haviam
nos encontramos diante de interrogações dirigidas à política podido ser pensadas e modificadas por essas técnicas discipli-
sem que elas próprtas tenham nascido de uma doutrina políti- nares. No caso da sexualidade, procurei enfatizar a formação
ca. Desse ponto de vista. tal liberação do questionamento me de uma atitude moral; procurei, porém. reconstituir essa for-
1 parece ter desempenhado um papel positivo: pluralidade das mação através do jogo que ela estabeleceu com as estruturas
questões dirigidas à política, e não reinscrtção do questiona- políticas {basicamente na relação entre domínio de si e domi-
li
1
mento no quadro de uma doutrina política. nação dos outros) e com as modalidades do conhecimento (co-
- O senhor diria que seu trabalho está centrado nas relações nhecimento de si e dos diferentes campos da atividade}.
entre a ética. a política e a genealogia da verdade? De forma que, nesses três campos - o da loucura, o da de-
- De certa maneira, serta possível dizer que, seguramente, linqüência, o da sexualidade -, privilegiei a cada vez um as-
tento analisar as relações entre ciência, política e ética. Mas pecto particular: o da constituição de uma objetividade, o da
não acredito que isso serta uma representação totalmente formação de uma política e de um governo de si, o da elabora-
exata do trabalho que quero fazer. Não gostaria de me manter ção de uma ética e de uma prática de si. Mas a cada vez tentei
nesse nível: procuro. sobretudo. ver corno os processos pude- também mostrar o lugar ocupado pelos dois outros compo-
ram influenciar uns aos outros na constituição de um domí- nentes, necessários para a constituição de um campo de e.xpe-
nio cientifico, de uma estrutura política, de uma prática riência. Trata-se na realidade de diferentes exemplos nos
moral. Tomemos o exemplo da psiquiatrta: é certamente pos- quais estão implicados os três elementos fundamentais de
sível analisá-la hoje em sua estrutura epistemológica - embo- toda experiência: um jogo de verdade. das relações de poder,
ra ela ainda seja bastante vaga: também é possível analisá-la das formas de relação consigo mesmo e com os outros. E se
no contexto das instituições políticas nas quais ela é aplicada; cada um desses exemplos privilegia, de certa maneira, um
é possível, além disso, estudá-la em suas implicações éticas. desses três aspectos - uma vez que a experiência da loucura
tanto do lado daquele que é objeto da psiquiatria quanto do recentemente se organizou sobretudo como um campo desa-
lado do próprio psiquiatra. Meu objetivo, porém, não é esse. ber, a do crime, como um campo de intervenção política, en-
Procurei ver sobretudo como, na constituição da psiquiatria quanto a da sexualidade se definiu como um lugar ético-, eu
como ciência, na delimitação do seu campo e na definição do quis mostrar a cada vez como os dois elementos estavam pre-
seu objeto, uma estrutura política e uma prática moral esta- sentes, que funções eles exerceram e como cada um deles foi
vam implicadas: no duplo sentido de que elas eram supostas afetado pelas transformações dos dois outros.
pela organização progressiva da psiquiatrta como ciência e - O senhorfalou antes de uma ''história dns problemáticas".
também eram influenciadas por essa constituição. Não teria O que isso quer dí.Zer precisamente?
havido psiquiatria tal como a conhecemos sem todo um jogo - Por muito tempo procurei saber se serta possível caracte-
de estruturas políticas e sem um conjunto de atitudes éticas; rizar a histórta do pensamento, distinguindo-a da história das
porém, inversamente, a constituição da loucura como um idéias - ou seja, da análise dos sistemas de representações - e
campo de saber influenciou as práticas políticas e as atitudes da história das mentalidades - isto é, da análise das atitudes e
éticas a ela refendas. Tratava-se de determinar o papel da po- dos esquemas de comportamento. Pensei que havia aí um ele-
lítica e da ética na constituição da loucura como campo parti- mento que poderia caracterizar a história do pensamento: era
cular de conhecimento científico, mas também de analisar os o que se poderia chamar de problemas ou, mais exatamente,
efeitos deste nas práticas políticas e éticas. de problematizações. O que distingue o pensamento é que ele
O mesmo ocorre a respeito da delinqüência. Tratava-se de é totalmente diferente do conjunto das representações impli-
ver que estratégia política, dando seu estatuto à criminalida- cadas em um comportamento; ele também é completamente
de, havia podido invocar certas formas .de saber e certas diferente do campo das atitudes que podem determiná-lo. O
atitudes morais; tratava-se também de ver como essas moda- pensamento não é o que se presentifica em uma conduta e lhe
1984 - Polêmica, PoUtlca e Problematizações 233
232 Mtchel Foucault - Ditos e Escritos

Mas o trabalho de uma história do pensamento seria en-


dá um sentido: é, sobretudo, aquilo que permite tomar uma contrar na origem dessas diversas soluções a forma geral de
distâ ncia em relação a essa maneira de fazer ou de reagir, e to- problematização que as tornou possíveis - até em sua própria
má-la como objeto de pensamento e interrogá-la sobre seu oposição: ou, ainda, o que tornou possíveis as transformações
sentido, suas condições e seus fms. O pensamento é liberdade das dificuldades e obstáculos de uma prática em um proble-
em relação àquilo que se faz. o movimento pelo qual dele nos ma geral para o qual são propostas diversas s oluções práticas.
separamos, constituímo-lo como objeto e pensamo-lo como É a problematização que corresponde a essas dificuldades,
problema. mas fazendo delas uma coisa totalmente diferente do que Sim-
Dizer que o estudo do pensamento é a análise de uma Iib~r- plesmente traduzi-las ou manifestá-las; ela elabora para suas
dade não significa qu e se trate de um sistema foi::~al r efen_do propostas as condições nas quais possíveis respostas podem
a penas a ele próprio. De fato, para que um domm10 de açao. ser dadas; define os elementos que constituirão aquilo que as
para que um comportamento entre no campo do pensamento diferentes soluções se esforçam para responder. Essa elabora-
é preciso que um certo número de fatores tenham-no tornado ção de um dado em questão, essa transformação de um con-
incerto, tenham-no feito perder s ua familiaridade, ou tenham junto de complicações e dificuldades em problemas para os
suscitado em tor no dele um certo número de dificuldades. quais as diversas soluções tentarão trazer uma resposta é o
Esses elementos decorrem de processos sociais, econômicos, que constitui o ponto de problematização e o trabalho especí-
ou políticos. Porém, eles aí desempenh~ apenas a _função de fico do pensamento.
incitação. Podem existir e exercer sua açao por mwto tempo, É possível perceber como estamos distantes de uma análi-
antes que haja uma efetiva problematiZação pe_lo ?ensamento. se em termos de desconstrução (qualquer confusão entre es-
Este, quando inteivém, não toma uma forma uruca, que seria ses dois métodos seria imprudente). Trata-se, pelo contrário,
0 resultado direto ou a expressão necessária dessas dificulda-
de um movimento de análise crítica pelo qual se procura ver
des: ele é uma resposta original ou específica freqüentemente como puderam ser construídas as diferentes soluções para
multiforme, às vezes contraditória em seus diferentes aspe~- um problema: mas também como essas diferentes soluções
tos. para essas dificuldades, que são definidas por ele atraves decorrem de uma forma especifica de problematização. Fica
de uma situação ou um contexto e que valem como uma ques - então evidente que qualquer nova solução que fosse acrescen-
tão possível. tada às outras decorreria da problematização atual, modifi-
Várias respostas podem ser dadas para um mes~o con- cando somente alguns postulados ou princípios sobre os
junto de dificuldades . Na maior parte do tempo, diversas quais se sustentam as respostas dadas. O trabalho de refle-
respostas sao efetivamente propostas. Ora, o que é precis~ xão filosófica e histórica é retomado no campo de trabalho do
compreender é aquílo que as torna simultaneamente poss1- pensamento com a condição de que se compreenda a proble-
veis; é o ponto no qual se origina sua simultaneidade; é o solo matização não como um ajustamento de representações, mas
que pode nutrir umas e outras, em sua diversidade, e, talvez, como um trabalho do pensamento.
a despeito de suas contradições. Ante as dificuldades encon-
tradas pela prática da doença mental no século ~II, foram
propostas soluções diversas: a de Tuke e a de Pinel podem
aparecer como exemplos: da mesma forma, para dificul~ades
encontradas pela prática penal foi proposto todo um ~onJunto
de soluções na segunda metade do s éculo XVIII: ou amda, to-
mando um exemplo bastante distante, para as dificuldade~ da
ética sexual tradicional as diversas escolas filosóficas da epo-
ca helenística propuseram soluções diferentes.
1984 - Foucault 235

1984 errf um_ dado momento permitir ao sujeito em geral tomar


co_nhec1mento de um objeto já dado no real. A questão é deter-
mm~r o que deve ser o sujeito, a que condições ele está sub-
me~do. ~ua~ o seu status, que posição deve ocupar no real ou
Foucault ~o rmagmáno para se tomar sujeito legitimo deste ou daquele
tipo de conhecimento; em suma, trata-se de determinar seu
modo de "subjetivação"; pois este não é eVidentemente o mes-
mo quando o conhecimento em pauta tem a fom1a de exegese
"Foucault", in Huisman (D.J ed., Dietiónnaire des philosophes, Pans, PUF, de um texto sagrado, de uma observação de história natural
1984, t. I, ps. 942-944. ou de _an~lise do comportamento de um doente mental. Mas a
No !rúclo da década de 1980. Denis Hutsman propôs a F. Ewald redigir o ver- ques~~ e também e ao mesmo tempo determinar em que
bete que seria dedicado a Foucault no Dietlonnaire des phüosophes. que ele c?nd1çoes alg~ma coisa pôde se tomar objeto para um conhe-
preparava para as Presses Universitalres de France. F. Ewald. na época assis- ~1mento poss1vel, como ela pôde ser problematizada como ob-
ten te de M. Foucault no College de France, fez o convite a este último. M. Fou- J_eto a ser conhecido, a que procedimento de recorte ela pôde
cault havta redigido na época uma primeira versãO do volume II da Htstória da
sexualidade, que ele considerava precisar ser mais trabalhada. Uma parte da ser submetida, que parte dela própria foi considerada perti-
introdução que ele havia redigido para essa obra era uma apresentação re- nen_te. Trata-se, portanto, de determinar seu modo de objeti-
trospectiva do seu trabalho. Foi este o texto entregue a Denis Huisman, com- vaçao, que tampouco é o mesmo de acordo com o tipo de saber
plementado por uma curta apresentação e uma bibliografia. Combinou-se em pauta.
que ele serta assinado por "Maunce Florence", que resultava na evidente
abreviação "M.F.•. Assim ele foi publicado. Aqui figura apenas o texto redigido Essa objetivação e essa subjetivação não são independen-
por Michel Foucault. tes ~ma ~a outra; do seu desenvolv1mento mútuo e de sua li-
gaçao reciproca se originam o que se poderia chamar de "jogos
de verdade": ou s eja. não a descoberta das coisas verdadeiras,
(Se Fouca ult está inscrtto na tradição füosôfica, é certa- ma~ as regras segundo as quais. a respeito de certas coisas
mente na tradição cr[tica de Kant. e sena possível} 1 nomear aqullo que um sujeito pode dizer decorre da questão do verda~
sua obra Hístória crítica do pensamento. Ela não deverta ser d:jro e do fals~. ~m suma, a história crítica do pensamento
entendida como uma história das idéias que fosse simulta- nao é uma histona das aquisições nem das ocultações da ver-
neamente uma análise dos erros que poderiam ser posterior- d~d~; _é a hi~tórt_a _da e"!ergência dos jogos de verdade: é a
mente avaliados; ou uma decifração dos desconhecimentos histona das vendtcções . entendidas como as formas pelas
aos quais elas estão ligadas e dos quais poderia depender o quais se a rticulam , sobre um campo de coisas, discursos ca-
que pensamos hoje em dia. Se por pensamento se entende o pazes ~e serem ditos verdadeiros ou falsos: quais foram as
ato que coloca, em suas divers as relações possíveis, um sujei- condiçoes dessa emergêncla, o preço com o qual. de qualquer
to e um objeto, uma his tória critica do pensamento seria uma f?rma, ela foi paga, seus efeitos n o real e a maneira pela qual,
análise das condições nas quais se formaram ou se modifica- hgando um ~erto tipo de objeto a certas modalidades do sujei-
ram certas relações do sujeito com o objeto, uma vez que estas to, ~la constituiu, por um tempo, uma área e determinados in-
são constitutivas de um saber possível. Não se trata de definir dividuas. o a priori histórico de uma experiência possível.
as condições formais de uma relação com o objeto: também O~~• essa qu~s tão - ou esta série de questões - que é a de
não se trata de destacar as condições empíricas que puderam u~a arqu_eologia do_saber", Michel Foucault não a propôs e
nao gostaria de propo-la a respeito de qualquer jogo de verda-
~e. Mas somente a ~espeito daqueles em que o próprio sujeito
1. Este trecbo entre colchetes é de F. Ewald. e colocado .co~o ~bJeto de saber possível: quais são os proces-
sos de subJetivaçao e de objetivação que fazem com que o su-
236 Michel Foucault - Ditos e Escrttos 1984 - Foucautt 237

jeito possa se tomar, na qualidade de sujeito, objeto de estudo dos modos pelos quais o sujeito pôde ser inserido como
conhecimento. Não se trata certamente de saber como se objeto nos jogos de verdade.
constituiu durante a história um ·•conhecimento psicológico", Tomar_como fio condutor de todas essas análises a questão
mas como se formaram diversos jogos de verdade através dos das relaçoes entre sujeito e verdade implica certas escolhas de
quais o sujeito se tomou objeto de conhecimento. Michel Fou- método. E, inicialmente, um ceticismo sistemático em relação
cault tentou inicialmente conduzir essa an~lise de duas ma- a todos os universais antropológicos , o que não significa que
neiras. A respeito do aparecimento e da inserção, em domínios todos eles sejam rejeitados de início, em bloco e de uma vez
e segundo a forma de um conhecimento com status cientifico, p~r lu~as._ mas que nada dessa ordem deve ser admitido que
da questão do sujeito que fala, trabalha e vive; tratava-se en- nao SeJa ngorosamente indispensável; tudo o que nos é pro-
tão da formação de algumas "ciências humanas", cujo estudo posto em nosso saber. como sendo de validade universal,
tinha como referência a prática das ciências empíricas e de quanto à natureza humana ou às categorias que se podem
seus discursos, característica dos séculos XVII e XVIII (Aspa- aplicar ao sujeito, eXige ser e.xperimentado e analisado: recu-
lauras e as coisas). Michel Foucault também tentou analisar a sar o -u niversal" da loucura, da "delinqüência" ou da ~sexuali-
constituição do s ujeito como ele pode aparecer do outro lado dade" não significa que aquilo a que essas noções se referem
de uma divisão normativa e se tomar objeto de conhecimento não seja nada ou que elas não passem de fantasias Inventadas
- n a qualidade de louco, de doente ou de delinqüente: e isso pel~ necessidade de uma causa duvidosa; é, portanto, bem
através de práticas como as da ps iquiatria, da medicina clini- mais do que a simples constatação de que seu conteúdo varia
ca e da penalidade (História da loucura, O nascimento da clfn.i- com o tempo e as circunstâncias; é se interrogar sobre as con-
ca, Vigiar e puni.i). dições que permitem , conforme as regras do dlzer verdadeiro
Michel Foucault tenta agora, sempre dentro do mesmo pro- ou falso, reconhecer um sujeito como doente mental ou fazer
jeto geral, estudar a constituição do sujeito como objeto para com que um sujeito reconheça a parle mais essencial dele
ele próprio: a formaç.ão dos procedimentos pelos quais o s ujei- próp~lo na modalidade do seu desejo sexual. A primeira regra
to é levado a se observar, se analisar, se decifrar e se re- de metodo para esse tipo de trabalho é. portanto. esta: contor-
conhecer como campo de saber possível. Trata-se, em suma, nar tanto quanto possível, para interrogá-los em sua cons-
da história da "subjetividade", se entendermos essa palavra tituição histórica. os universais antropológicos (e também,
como a maneira pela qual o sUjeito faz a experiência de si mes- certamente, os de um humanismo que defenderia os direitos
mo em um jogo de verdade, no qual ele se relaciona consigo os priVilégios e a natureza de um ser humano como verdad;
mesmo. A questão do sexo e da sexualidade pareceu cons- imediata e atemporal do sujeito). Também é preciso inverter o
tituir para Michel Foucault não, certamente, o único exemplo procedimento filosófico de remontar ao sujejto constituinte,
possível, mas pelo menos um caso bastante privilegiado: é efe- do q~al se exige dar conta do que pode ser todo objeto de co-
tivamente a esse respeito que., através de todo o cristianismo e nhecimento em geral; trata-se, pelo contrário, de descer ao es-
talvez mais além, os indivíduos foram chamados a se reconhe- tudo das práticas concretas pelas quais o s ujeito é constituído
cerem como sujeitos de prazer, de desejo, de concupiscência, na imanência de um campo de conhecimento. Sobre isso, é
de tentação e, por diversos meios (exame de si, exercícios espi- também preciso estar atento: recusar o recurso filosófico a um
rituais, r econhecimento de culpa, confissão) , foram solicita- su~ei~o constituinte não significa fazer como se o sujeito n ão
dos a desenvolver, a respeito deles mesmos e do que constitui existisse e se abstrair dele em beneficio de uma objetividade
a parte mais secreta. mais individual de sua subjetiVidade. o pura; essa n~;usa visa a fazer aparecer os processos próprios
jogo do verdadeiro e do falso. a uma expenencia em que o sujeito e o objeto "se formam e se
Trata-se, em suma, n essa história da sexualidade, de transformam" um em relação ao outro e em função do outro.
constituir uma terceira parte: ela vem somar-se às análises Os discursos da doença mental, da delinqüência ou da sexua-
das relações entre sujeito e verdade ou, mais precisamente, ao lidade só dizem o que é o sujeito dentro de um certo jogo muito
238 Michel Foucault - Ditos e Escritos 1984 - Foucault 239

particular de verdade; mas esses jogos nao são impostos de cal de atuação; diversas da mesma forma nos procedimentos e
fora para o sujeito, de acordo com uma caus alidade necessá- técnicas que elas fazem funcionar: essas relações de poder ca-
ria ou determinações estruturais; eles abrem um campo de racterizam a maneira como os homens são "goven1ados" uns
experiência em que sujeito e objeto são ambos constituídos pelos outros; e sua análise mostra de que modo, através de
apenas em certas condições simultâneas, mas que não param certas formas de "governo", dos loucos, dos doentes, dos cri-
de se modificar um em relação ao outro, e, portanto, de modi- minosos etc., foi objetivado o sujeito louco, doente, delinqüen-
ficar esse mesmo campo de expertência. te. Tal análise não significa dizer que o abuso de tal ou tal
Daí um terceiro princípio de método: dirigir-se como cam- poder produziu loucos, doentes ou criminosos ali onde nada
po de análise às "práticas", abordar o estudo pelo viés do que havi~• T?ªs que as fonnas diversas e particulares de "governo"
"se fazia". Assim, o que se fazia com os loucos, os delinqüentes dos md1vfduos foram determinantes nos diferentes modos de
e os doentes? É poss ível, certamente, tentar deduzir, a partir objetivação do sujeito.
da representação que se fazia deles e dos conhecimentos que Verifica-se como o tema de uma "história da sexualidade"
se acreditava ter sobre eles. as instituições nas quais eles pode se inscrever dentro do projeto geral de Michel Foucault:
eram colocados e os tratamentos aos quais eram submetidos: trata-se de analisar a "sexualidade" como um modo de expe-
é também possível investigar qual era a forma das "verdadei- riência hist?ri~arnente singular, no qual o sujeito é objetivado
ras" doenças mentais e as modalidades de delinqüência real para ele propno e para os outros, através de certos procedi-
em uma época dada para explicar aquilo que então se pen- mentos precisos de "governo". ·
sava. Michel Foucault aborda as coisas de uma maneira total-
mente diferente. Estuda, inicialmente, o conjunto das maneiras Maurtce Florence
de fazer mais ou menos regradas , mais ou menos pensadas.
mais ou menos acabadas através das quais se delineia si-
multaneamente o que constituía o real para aqueles que pro-
curam pensá-lo e dominá-lo, e a maneira como aqueles se
constituíam como sujeitos capazes de conhecer, analisar e
eventualmente modificar o real. São as "práticas" concebidas
ao mesmo tempo como modo de agir e de pensar que dão a
chave de inteligibilidade para a constituiçã.o correlativa do su-
jeito e do objeto.
Ora, a partir do momento em que, através dessas práticas,
estava em pauta estudar os diferentes modos de objetivação
do s ujeito. compreende-se a importância que deve ter a análi-
se das relações de poder. Mas ainda é preciso, certamente. de-
finir o que pode e o que pretende ser uma análise desse tipo.
Não se trata evidentemente de interrogar o "poder" sobre sua
origem, seus princípios ou seus limites legítimos. mas de es-
tudar os procedimentos e as técnicas utilizados nos diferentes
contextos institucionais. para atuar sobre o comportamento
dos indivíduos tomados isoladamente ou em grupo. para for-
mar, dirigir, modificar sua maneira de se conduzir, para impor
finalidades à sua inação ou inscrevê-la n as estratégias de con-
junto, conseqüentemente múltiplas em sua forma e em seu lo-
J984 - O Cuidado com a Verdade 241

- Uso dos prazeres e Cuidado de si parecem de início um tra·


1984 balho de um historiador positivo, uma sistematização das mo-
rais sexuais da Antigüidade. É disso mesmo que se trata?
- É um trabalho de historiador, mas especificando que es-
ses livros, assim como os outros, são um trabalho de história
O Cuidado com a Verdade do pensamento. História do pensamento quer dizer não sim-
plesmente história das idéias ou das representações, mas
também a tentativa de responder à seguinte questão: como
um saber pode se constituir? Como o pensamento, enquanto
ele tem relação com a verdade, pode ter também urna histó-
·o cuidado com a verdade" (entrevista com F. Ewald), Magazine littéraire, n 9 ria? Esta é a pergunta feita. Procuro responder a um problema
207, maio de 1984, ps. 18-23. prec iso: nascimento de um.a moral, de uma moral uma vez
que ela é uma reflexão sobre a sexualidade, sobre o desejo, o
prazer.
Que fique claro que não faço uma história dos costumes,
- A vontade de saber anunciava para amanhã uma história dos comportamentos, uma história social da prática sexual,
da sexualidade. Seu prosseguimento apareceu oit.o anos de- mas uma história da maneira com que o prazer, os desejos, os
pois e segundo um plano totalmente diferente d.o que foi anun- comportamentos sexuais foram problematizados, refletidos e
ciado. pensados na Antigüidade em relação a uma certa arte de viver.
- Mudei de opinião. Um trabalho, quando não é ao mesmo Evidentemente. essa arte de viver só foi exercida por um pe-
tempo uma tentativa de modificar o que se_ pensa e mes~o ? queno grupo de pessoas. Seria ridículo pensar que aquilo que
que se é, não é muito interessante. Comecei a escre:7er do1~ h- Séneca, Epicteto ou Musonius Rufus podem dizer a res peito
vros de acordo com meu plano primitivo; m as muito rapida- do comportamento sexual representava, de urna maneira ou
mente me entediei. Isso era uma imprudência de minha parte de outra. a prática geral dos gregos e dos romanos. Mas consi-
e contrário aos meus hábitos. dero que o fato de que essas coisas tenham sido ditas sobre a
- Por que então o senhor o fez? sexualidade, que elas tenham constituído uma tradição que
- Por preguiça. Imaginei que chegaria o dia em que saberia se encontra transposta, metamorfoseada. profundamen te re-
antecipadamente o que gostaria de diZer e em que eu não teria ma nejada no cristianismo, constitui um fato histórico. O pen-
nad a mais a fazer do que diZê-lo. Isso foi um reflexo de enve- samento tem igualmente uma história; o pensamento é um
lhecimento. Pensei ter enfim chegado à idade em que nada fato hiStórico, embora tenha outras dimensões além desta.
mais resta a fazer senão desenrolar o que se tem n a cabeça. Quanto a isso, esses livros são absolutamente s emelhantes
Era ao m esmo tempo uma forma de presunção e uma reação aos que escrevi sobre a loucura ou sobre a penalidade. Em Vi.·
de abandono. Ora, trabalhar é tentar pensar uma coisa dife- giar e punir; não pretendi fazer a história da instituição prisão,
rente do que se pensava antes. o que teria exigido um material totalmente diferente e um ou-
- O leitor acreditou nisso. · tro tipo de análise. Em troca, me perguntei como o pensamen-
- Diante dele, tenho ao mesmo tempo um pouco de eserú- to da punição teve, no fim do século XVIII e no início do XIX.
pulo e posslvelmente de confiança. O leitor é como o ouvinte uma certa história. O que procuro fazer é a história das rela-
de um curso. Sabe perfeitamente reconhecer quando se tra- ções que o pensamento mantém com a verdade; a história do
balhou ou quando se contentou em relatar o que se tem na ca- pensamento, uma vez que ela é pensamento sobre a verdade.
beça. Talvez ele se decepcione, mas n ão pelo fato de eu não ter Todos aqueles que dizem que para mim a verdade n ão existe
dito nada diferente do que já dizia. são mentes simplistas.
242 Míchel Foucault- Ditos e Escritos 1984 - O Cuidado com a Verdade 243

- A verdade, entretanto, assume em Uso dos prazeres e em duas vias de acesso inversas para uma mesma questão: como
Cuidado de si uma forma bastante diferente da que tinha nas se c~nstituí uma "experiência" em que estão ligadas a relação
obras precedentes: a forma dolorosa da sL!ieição, da ocyetí- consigo mesmo e a relação com os outros.
vação. - Tenho a impressão de que o leitor vai sentir uma dupla es-
- A noção que unifica os estudos que realizei desde a Histó- tranheza. A primeira em relação ao senhor mesmo, ao que se
ria da loucura é a da problematízação, embora eu não a tivesse espera do senhor. ..
ainda isolado suficientemente. Mas sempre se chega ao essen- - Perfeito. Assumo inteiramente essa diferença. Faz parte
cial retrocedendo; as coisas mais gerais são as que aparecem do jogo.
em último lugar. É o preço e a recompensa de qualquer tr~ba- ' - A segunda estranheza recai sobre a sexualidade, sobre as
lho em que as articulações teóricas são elaboradas a partir d e relações entre o que o senhor descreve e nossa própria evidên-
um certo campo empírico. Em Hi.stóri.a da loucura, tratava-se cía da sexualidade.
de saber como e por que a loucura. em um dado momento, - Sobre a estranheza, não é preciso, contudo, exagerar. É
fora problematizada através de uma certa prática institucio- verdade que há uma certa doxa a respeito da Antigüidade e da
nal e de um certo aparato de conhecimento. Da mesma forma, moral antiga freqüentemente representada como "tolerante"
em Vigíar e punir tratava-se de analisar as mudanças na pro- liberal e agradável. Mas, no entanto, muitas pessoas sabe~
blematização das relações entre delinqüência e castigo atra- que na Antigüidade houve uma moral austera e rigorosa. É
vés das práticas penais e das instituições penitenciárias no sabido que os estóicos eram a favor do casamento e da fideli-
final do século XVIII e início do XIX. Como atualmente se pro- dade conjugal. Nada digo de extraordinário ao defender essa
blematiza a atividade sexual? . "severidade" da moral filosófica.
Problematização nãó quer dizer representação de um obje- - Eufalava da estranheza em relação aos temas que nos
to preexistente, nem taxppouco a criação pe!o.discu~so de_um são famüiares na análise da sexualidade: os da lei e os da in-
objeto que não existe. E o conjunto ?ªs praticas ?1scurs1vas terdição.
ou não discursivas que faz alguma cmsa entrar no Jogo do ver- - Trata-se de um paradoxo que surpreendeu a mim mes-
dadeiro e do falso e o constitui como objeto para o pensamento mo, apesar de eu já desconfiar um pouco disso em A vontade
(seja sob aforma da reflexão moral, do conhecimento científi- de saber, ao propor a hipótese de que não seria simplesmente
co, da análise política etc.). a partir dos mecanismos da repressão que se poderia analisar
- Uso dos prazeres e Cuidado de si resultam. sem dúvida, a constituição de um saber sobre a sexualidade. O que me
dn. mesma problemática. Eles tampouco parecem muito diferen- surpreendeu na Antigüidade é que os pontos sobre os quais a
tes das obras precedentes. reflexão é mais ativa a respeito do prazer se..xual não são de
- "Inverti" realmente a apresentação. A respeito da loucura, forma alguma os que representavam as formas tradicional-
parti do problema de que ela podia constituir em um certo con- mente aceitas da interdição. Pelo contrário, era ali onde a se-
texto social, político e epistemológico: o problema que a loucura ~ualidade era mais livre que os moralistas da Antigüidade se
constituía para os outros. Aqui, parti do problema que a con- mterrogaram com mais intensidade e chegaram a formular as
duta sexual podia constituir para os próprios indivíduos (ou doutrinas mais rigorosas. O exemplo mais simples: o status
pelo menos para os homens da Antigüidade). No primeiro caso, das mulheres casadas lhes proibia qualquer relação sexual
tratava-se enfim de saber como se "governavam" os loucos, e fora do casamento; mas, sobre esse "monopólio", quase não se
agora como "se governa" a si mesmo. Mas _eu imediatamen~e encontra reflexão filosófica, nem preocupação teórica. Em
acrescentaria que, no caso da loucura, tentei encontrar a partir contrapartida, o amor com os rapazes era livre {dentro de cer-
dela a constituição da experiência de si mesmo como louco, no t~s limites), e S_?bre esse tema se elaborou toda urna concep-
quadro da doença mental, da prática psiquiátrica e da i':stit~i- çao da contençao, da abstinência e da ligação não sexual. Não
ção asilar. Gostaria de mostrar aqui como o governo de s1 sem- é, portanto, a interdição que permite dar conta das formas de
tegra a uma prática do governo dos outros. São, em suma, problematização.
244 Michel Foucault - Ditos e Escritos 1984- O Cuidado com a Verdade 245

- Parece que o senhor ia mais wnge, que opunha às cate- - As descrições das disciplinas em Vigiar e punir nos ha-
gorias da "lei" e do "interdito" as da "arte de uiver", das "técni- viam acostumado às prescrições mais minuciosas. É curioso
cas de si" e da "estilização da existência". que, desse ponto de uista, as prescrições da moral sexual da
- Utilizando mêtodos e esquemas de pensamento bastante Antigüidade nada tenham a invejar em relação a elas.
comuns eu poderia dizer que certas interdições eram efetiva- - É preciso entrar nos detalhes. Na Antigüidade, as pes-
mente colocadas como tais, e que outras, mais difusas, se ex- soas estavam muito atentas aos elementos da conduta e exi-
primiam na forma da moral. Creio que pensar essa moral na giam que cada um prestasse atenção neles. Mas os modos de
própria forma com que os contemporâneos a haviam refletido, atenção não eram os mesmos daqueles que foram conhecidos
ou seja. na forma de uma arte da existência, ou melhor. de em seguida. Assim, o próprio ato sexual, sua morfologia, a
uma técnica de vida. está mais de acordo com os campos que maneira com que se busca e se obtém prazer, o "objeto" do de-
eu abordava e com os documentos de que dispunha. Trata- sejo quase não parecem ter sido um problema teórico muito
va-se de saber como governar sua própria vida para lhe dar a importante na Antigüidade. Em compensação, o objeto de
forma mais bela possível (aos olhos dos outros. de si mesmo e preocupação era a intensidade da atividade sexual, seu ritmo,
das gerações futuras, para as quais se poderá servir de exe~- o momento escolhido: era também o papel ativo ou passivo
plo). Eis o que tentei reconstituir: a formação e o desenvolVI- que se desempenhava na relação. Serão encontrados assim
mento de uma prática de si que tem como objetivo constituir a mil detalhes sobre os atos sexuais em sua relação com as es-
si mesmo como o artesão da beleza de sua própria vida. tações, as horas do dia, o momento de repouso e de exercício.
- As categorias "arte de viver" e ''técnicas de si" não têm ou ainda sobre a maneira como um rapaz deve se conduzir
como único campo de validade a experiência sexual dos gregos . para ter uma boa reputação, mas nenhum desses catálogos
e dos romanos. de atos permitidos e proibidos que serão importantes na pas-
- Não acredito que haja moral sem um certo número de toral crtstã.
práticas de si. É possível que essas práticas de si estejam as- - As diferentes práticas que o senhor descreve em relação ao
sociadas a estruturas de código numerosas, sistemáticas e corpo, à mulher; aos rapazes parecem, cada uma delas, pensa-
coercitivas. É até possível que elas quase se apaguem em be- das para elas mesmas. Sem estarem ligadas por um sistema ri·
nefício desse conjunto de regras que então aparecem como o goroso. Essa é uma outra diferença em relação às suas obras
essencial de uma moral. Mas também é possível que consti- precedentes.
tuam o foco mais importante e mais ativo da moral e que seja -Aprendi, lendo um livro, que eu tinha reduzido toda a ex-
em torno delas que se desenvolva a reflexão. As práticas de si periência da loucura na época clássica à prática da interna-
assumem assim a forma de um~ te desi)~eI:3-ti~amente in - ção. Ora, a História da loucura é construída sobre a tese de
dependente de uma legislação moral.vcnstia~1s1:°? certa~ que houve pelo menos duas experiências da loucura distintas
mente reforçou bastante, na reflexão moral, o pnnc1p10 da lei uma da outra: uma havia sido a da internação; a outra era
e a estrutura do código, embora as práticas de ascetismo te- uma prática médica que tinha origens muito longínquas.
nham nele conservado uma importância muito grande. Nada há de extraordinário na possibilidade de existirem dife-
- Nossa experiência moderna da sexualidade começa, en- rentes experiências {tanto simultâneas quanto sucessivas)
tão, com o cristianismo. que tenham uma única referência_
- o cristianismo antigo trouxe para o ascetismo antigo vá- - A arquitetura dos seus últimos liuros Jaz pensar wn pouco
rias modificações importantes: intensificou a forma da lei, no índice da Ética a Nicômaco. 1 O senhor examina cada práti-
mas também desviou as práticas de si na direção da herme- ca wna após a outra. O que estabelece então a ligação entre a
nêutica de si e do deciframento de si mesmo como sujeito de
desejo. A articulação entre a lei e o desejo parece bastante ca-
racterística do cristianismo. l. Aristóteles. tthique à Nicomaque, trad. 1i1cot, Parls. Vrin, 1959.
246 Mlchel Foucault - Ditos e Escritos 1984 - O Cuidado com a Verdade 247

relação com o corpo, a relação com a casa e a mulher, a relação expõe os motivos pelos quais o incesto é proibido, ele explica
como rapaz? que casar com sua própria mãe implicaria tal diferença de ida-
- Um certo estilo de moral, que é o domínio de sL A ativida- de que os filhos não poderiam ser belos nem saudáveis.
de sexual é representada, percebida corno violência e, portan- - Sófocles, no entanto, parece ter dito outra coisa.
to, problematizada do ponto de vista da dificuldade que se tem - O interessante é que essa interdição, grave e importante.
para controlá-la. A hubrís é fundamental. Nessa ética, é preci- pode estar no cerne de uma tragédia. Não está, no entanto, no
so constituir para si regras de conduta graças às quais se po- centro da reflexão moral.
derá assegurar esse dorrúnio de si, que pode por sua vez se - Por que interrogar esses períodos sobre os quais alguns di·
ordenar em três princípios diferentes: 1º) A relação com o cor- rão que são muito longínquos?
po e o problema da saúde. 2 2 ) A relação com as mulheres, na - Parto de um problema nos termos em que ele se coloca
verdade com a mulher e a esposa, urna vez que os cônjuges atualmente e tento fazer sua genealogia. Genealogia significa
partilham a mesma casa. 3º) A relação com esses indivíduos que-encaminho a análise a partir de uma questão atual.
tão particulares que são os adolescentes e que são capazes de - Qual é então a questão atual?
se tornarem um dia cidadãos livres. Nesses três campos, o do- - Por muito tempo, alguns imaginaram que o rtgor dos có-
mínio de si vai assumir três formas diferentes; não há, corno digos sexuais, na forma como os conhecemos, era indispensá-
será evidente em relação à carne e à sexualidade, um campo vel às sociedades ditas "capitalistas". Ora, a supressão dos
que os unificaria a todos. Entre as grandes transformações códigos e o deslocamento das interdições foram, sem dúvida,
que serão trazidas pelo cristianismo, está a de que a ética da realizados com mais facilidade do que se acreditava (o que pa-
carne vale da mesma maneira para os homens quanto para as rece indicar que sua razão de ser não era aquilo que se acredi-
mulheres. Na moral antiga, pelo contrário, o domínio de si só é tava); e se formulou novamente o problema de urna ética como
um problema para o indivíduo que deve ser senhor de si e se- forma a ser dada à sua conduta e à sua vida. Estávamos, en-
nhor dos outros, e não para aquele que deve obedecer aos ou- fün, enganados ao acreditar que toda a moral se resumia às
tros. Esta é a razão pela qual essa ética diz respeito apenas interdições e que a supressão destas resolvia por si só a ques-
aos homens e pela qual ela não tem a mesma forma quer se tão da ética.
trate das relações com seu próprto corpo, com a esposa ou - O senhor teria escrito esses livros para os movimentos de
com rapazes. liberação?
- A partir dessas obras, a questão da liberação sexual apa- - Não para, mas em função de uma situação atual.
rece destituída de sentido. - A respeito de Vigiar e punir, o senhor disse que era seu
- É possível dizer que na Antigüidade se trata de uma "primeiro livro". Esta expressão não poderin. ser mais oportuna-
vontade de regra, uma vontade de forma, de uma busca de mente utilizada por ocasião da publicação de Uso dos prazeres
austeridade. Como ela se formou? Será que essa vontade e de Cuidado de si?
de austeridade não passa da tradução de uma interdição fun- - Escrever um livro é, de certa maneira, abolir o preceden-
damental? Ou, pelo contrário, não terá sido ela a matriz, da te_ Percebe-se finalmente que o que se fez está - reconforto e
qual a seguir dertvaram certas formas gerais de interdições? decepção - bastante próximo do que já se escreveu.
- o senhor propõe, então, uma inversão completa na manei- - O senhorfala de "se desprender de si mesmo". Por que en-
ra tradicional de considerar a questão das relações da sexuali- tão uma vontade tão singular?
dade com a interdição? - O que pode ser a ética de um intelectual - reivindico o ter-
- Havia na Grécia interdições fundamentais. A proibição do mo intelectual que, no momento atual, parece provocar náu-
incesto, por exemplo. Mas elas pouco chamavam a atenção seas em alguns - a não ser isso: tornar-se permanentemente
dos filósofos e dos moralístas, se as compararmos à grande capaz de se desprender de si mesmo (o que é o contrário da
preocupação de manter o domínio de si. Quando Xenofonte atitude de conversão)? Se eu quisesse ser exclusivamente um
248 Mlchel Foucault - Ditos e Escritos 1984 - O Cuidado com a Verdade 249

universitário, teria, sem dúvida, sido mais sensato escolher diquei-me precisamente a verificar como certas formas de
um campo, e um, apenas um, no qual teria desenvolvido mi- poder, que eram do mesmo tipo, podiam originar saberes ex-
nha atividade, aceitando uma problemática dada e tentando tremamente diferentes quanto a seu objeto e a sua estrutura.
fazê-la funcionar, ou modificando-a em certos pontos. Eu te- Consideremos ~ problema da estrutura hospitalar: ela origi-
lia então podido escrever livros como aqueles que havia pen- nou a intemaçao do tipo psiquiátrico, que correspondeu à
sado ao programar, em A vontade de saber, seis volumes de formação de um saber psiquiãtrico cuja estrutura epistemoló-
uma história da sexualídade, sabendo antecipadamente o que gica pode criar muito ceticismo. Mas em um outro livro. o
queria fazer e onde queria chegar. Ser ao mesmo tempo um nascimento da clínica. tentei mostra r como nessa mesma es-
universitário e um intelectual é tentar fazer funcionar um tipo trutura hospitalar se desenvolveu um saber anatomopatológí-
de saber e de análise, que é ensinado e aceito na universidade, co, fundador de uma medicina de uma fecundidade científica
de modo a modificar não somente o pensamento dos outros, totalmente diferente. Há, portanto, estruturas de poder, for-
mas também o seu próprio. Esse trabalho de modificação do mas institucionais bastante próximas: internação psiquiátri-
seu próprio pensamento e dos outros parece ser a razão de ser ca, hospitalização médica, às quais estão ligadas formas de
dos intelectuais. saber diferentes, entre as quais é possível estabelecer rela-
- Sartre, por exemplo, dava antes a impressão de ser um in- ções. relações de condições, e não de causa e efeito, nem afor-
telectual que passou sua vi.da desenvolvendo uma intu.içãofun- tiori de identidade. Aqueles que dizem que, para mim. o saber
damentaL Essa vontade de "se desprender de si mesmo" é a máscara do poder não me parecem ter a capacidade de
parece singularizá-lo. compreender. Quase não há resposta para eles.
- Não saberia dizer se existe alguma coisa singular. Mas o - O que o senhor acha útílfazer no momento?
que espero é que essa mudança não tome a forma nem de
uma iluminação súbita que "abra os olhos", nem de uma per- - Aquilo que considero de fato importante fazer agora.
meabilidade a todos os movimentos da conjuntura; gostaria - ~~ duas últimas obras marcam uma passagem da políti-
que fosse uma elaboração de si por si mesmo, uma transfor- ca à etica. Certamente nessa ocasião será esperada do senhor
mação estudiosa, uma modificação lenta e á rdua através da uma resposta para a questão: o que é precisofaze r, o que é pre-
ciso querer?
preocupação constante com a verdade.
- As obras precedentes deram do senhor uma imagem de - A função de um intelectual não é dizer aos outros o que
pensador do aprisionamento, dos sujeitos submeti.dos, coagi- eles devem fazer. Com que direito o faria? Lembrem-se de to-
dos e disciplinados. Uso dos prazeres e Cuidado de si nos ofe- das as profecias, promessas, injunções e programas que os
recem a imagem completamente diferente de sujeitos livres. intelectuais puderam formular durante os dois últimos sécu-
Parece haver ali uma impOrtante modificação em seu próprio los, cujos efeitos agora se vêem. O trabalho de um intelectual
pensamento. não é moldar a vontade política dos outros; é. através das aná-
- Seria preciso voltar ao problema das relações do saber e lises que faz nos campos que são os seus. o de interrogar no-
1 1
do poder. Acredito efetivamente que aos olhos do público eu vamente as evidên cias e os postulados. sacudir os hábitos, as
seja aquele que disse que o s aber se confundia com o poder. maneiras de fazer e de pensar, dissipar as familia ridades acei-
que ele não passava de uma tênue mãscara lançada sobre _as t~s, retomar a avaliação das regras e das instituições e, a par-
estruturas da dominação e que estas eram sempre opressao, tir dessa nova problematização (na qual ele desempenha seu
aplisionamento etc. Sobre o primeiro ponto, res~nderei com trabalho específico de intelectual), participar da formação de
uma gargalhada. Se eu tivesse dito ou desejado dizer ~ue os~ uma vontade política (na qual ele tem seu papel de cidadão a
ber era o poder. eu o teria dito e. dizendo-o, não teria tido mais desempenhar).
nada para dizer, pois, identificando-os, não vejo por que mt.~ - Ultimamen.te. os intelectuais foram muito recriminados por
obstinarta em mostrar as diferentes relações entre eles. De- seu sUêncio.

1 1
250 Mlchel Foucault - Ditos e Esclitos 1984 - O Cuidado com a Verdade 251

- Embora a contratempo, não se deve entrar nessa contro- do de ser marxistas no momento em que os comunistas che-
vérsia, cujo ponto de partida era uma mentira. Em compensa_:- gavam ao P?der, 1!1ªs no fato de os escrúpulos de sua aliança
ção, a campanha em si não deixa de ter um certo interesse. E lhes terem 1mped1do, em tempo útil, de fazer com os intelec-
preciso se perguntar por que os socialistas e o governo a lan- tuais o trabalho de pensamento que os teria tomado capazes
çaram ou retomaram, arriscando-se a fazer surgir entre eles de governar. Governar de outra maneira que não fosse com
próprtos e toda uma opinião de esquerda um divórcio que não suas palavras de ordem envelhecidas nem com as técnicas
servia para eles. Superficialmente, e para alguns, havia certa- mal rejuvenescidas dos outros."
mente um disfarce na constatação de uma imposição: "Você - Há uma abordagem comum nas diferentes interoenções
se cala". significando: "Já que não queremos ouvi-lo, cale-seK. que o senhor pôdefazer em relação à política, particularmente
Entretanto, na verdade, havia nessa cótica uma espécie de a respeito da Polõnla?
pergunta e uma queixa: "Fale-nos, portanto, um pouco sobre - Tentar propor algumas questões em termos de verdade e
aquilo de que tanto necessitamos. Durante todo o peliodo em de erro. ~uando o ministro do Extertor disse que o golpe de
que, com muita dificuldade, administramos nossa aliança Jaruzelski era_ um assunto que só interessava à Polônia, isso
eleitoral com os comunistas, não se tratava evidentemente de era verdade? E verdade que a Europa é tão insignificante ao
sustentar o mais insignificante discurso que não fosse o de ponto de que sua divisão e a dominação comunista exercida
uma ortodoxia ·socialista' aceitável para eles. Havia entre eles par~ além de uma linha arbitrária nào nos dissessem respei-
e nós suficientes motivos de desentendimento para não acres- to? E verdade que a privação das liberdades sindicais elemen-
centarmos mais aquele. Portanto. nesse período, você devia se tares em t~m país socialista seja um assunto sem importância
calar e deixar que nós o chamássemos pelas necessidades de em um pais governado por socialistas e comunistas? Se é ver-
nossa aliança, de 'esquerdinha', 'esquerda americana' ou 'ca- dade que a presença dos comunistas no governo não tem in-
liforniana·. Mas uma vez que estávamos no governo. tínhamos fluência nas principais decisões de política exterior, 0 que
necessidade de que você falasse. E nos fornecesse um discur- pensar desse governo e da aliança na qual ele se fundamenta?
so de dupla função: ele manifestaria a solidez de uma opinião E.:'sas qu:stõ:s não definem certamente uma política; mas
de esquerda em torno de nós (na melhor das hipóteses, sena o sao questoes as quais aqueles que definem a política deveriam
da fidelidade; entretanto, nos contentaríamos com o da baju- responder.
lação); mas haveria também um real a ser dito - econômico e - O papel que o senhor se atribuí em política corresponderia
político - que outrora mantivemos cuidadosamente afastado a esse princípio do "livre discursoff, que nos dois últimos anos
de nosso próprio discurso. Tínhamos necessidade de que as constituiu o tema dos seus cursos?
pessoas ao nosso lado sustentassem um discurso de raciona- - Na~a é mais inconsistente do que um regime político indi-
lidade governamental que não fosse nem aquele, mentiroso, ferente a verdade; mas nada é mais perigoso do que um siste-
de nossa aliança, nem aquele. nu e cru, de nossos adversários ?1~ político qu~ 1!ret~nde prescrever a verdade. A função do
de direita (os que temos hoje). Gostaríamos de introduzi-lo no- dizer verdadeiro nao deve tomar forma de lei, como seria
vamente no jogo; mas você nos largou no meio do rio e ficou ~gualmente v~o acreditar que ele consiste de pleno direito nos
sentado na margem." A isso, os intelectuais poderiam respon- Jogos espontaneos da comunicação. A tarefa do dizer verda-
der: "Quando os forçamos a mudar de discurso. vocês nos d:iro é ~m trabal?o interminável: respeitá-la em sua comple-
condenaram em nome dos seus slogans mais manjados. E xidade e uma obngação que nenhum poder pode economizar.
agora que vocês mudaram de lado, pressionados por um real Exceto para impor o silêncio da escravidão.
que vocês não foram capazes de perceber, pedem-nos para
lhes fornecer não o pensamento que lhes permitiria enfren-
tá-lo, mas o discurso que mascararia sua mudança. O mal
não está, como se disse, no fato de os intelectuais terem deixa-
l 984 - O Retomo da Moral 253

1984 - Admitindo - e eu o admito! - que realizei com As palavras


e as coisas, a História da loucura e mesmo com Vigiar e punir
um estudo filosófico essencialmente baseado em um certo uso
do vocabulário, do jogo. da experiência filosófica e que me li-
bertei totalmente do que me impossibilitava de agir, é verdade
O Retorno da Moral que agora tento me desprender dessa forma de filosofia. Po-
rém é certamente para me servir dela como campo de expe-
riência a estudar. a planejar e a organizar. De modo que esse
período, que pode ser considerado por alguns como urna não-
~a retomo da moral" (entrevista com G. Barbedette e A. Scala. em 29 de maio filosofia radical, é, ao mesmo tempo, uma maneira de pensar
de 1984). us nouvelles littéraíres, nº 2.937, 28 de Junho-5 de Julho de 1984.
mais radicalmente a experiência filosófica.
ps. 36-41.
Este título irúe!Jz, dado como todos os títulos de artigos pela redação do jor- - Será que o senlwr toma explícitas coisas que apenas
nal. lembra as condições de publicação desta última entrevista. Apesar de seu podiam ser lidas nas entrelinhas em seus livros precedentes?
grande esgotamento, M. Foucaull havia aceitado a proposta desta entrevista - Devo dizer que eu não veria as coisas dessa forma. Parece
feita por um Jovem filósofo , André Scála, amigo de Gilles Deleuze. Era discre- que, em História da loucura, em As palavras e as coisas e tam-
tamente um gesto de a.mi:Zade para com Gilles Deleuze. que ele Vla pouco
nesses últimos anos. Pelo fato de G!lles Barbedette e André Scala terem inter- bém em Vigiar e puni,; muitas coisas que se encontravam im-
rogações muito diferentes, são na verdade duas entrevista~ que se e1:trecru- plícitas não podiam se tornar explícitas por causa da maneira
zam. Quando a transcrição das fitas cassete tennmou, M. FoucaultJa estava pela qual eu colocava os problemas. Tentei destacar três gran-
hospitalizado, e ele encarregou Daniel Defert de editar esta entrevista como des tipos de problemas: o da verdade, o do poder e o da condu-
julgasse melhor, sem que ele a revisse. Ã entrevista foi publicada três dias
após o falecimento de M. Foucault.
ta individual. Esses três grandes domínios da experiência só
podem ser entendidos uns em relação aos outros, e não po-
dem ser compreendidos uns sem os outros. O que me incomo-
- O que surpreende na leitura de seus últimos liuros é uma dou nos livros precedentes foi o fato de eu ter considerado as
escrita clara, correta, poli.da, muito diferente do estilo ao qual duas primeiras experiências sem levar em conta a terceira.
estáuamos habituados. Por que essa mudança? Fazendo aparecer esta última experiência, pensei que havia
- Estou começando a reler os manuscritos que escrevi para ali uma espécie de fio condutor que não tinha necessidade,
essa história da moral e que se referem ao início do cristianis- para se justificar, de recorrer aos métodos ligeiramente retóri-
mo (esses livros- é um motivo do seu atraso - são apresenta- cos pelos quais se esquivava de um dos três domínios funda-
dos em uma ordem inversa daquela de sua escrita). Relendo mentais da experiência.
esses manuscritos abandonados há muito tempo. percebi a -A questão do estilo implica também a da existência. Como é
mesma recusa do estilo de As palavras e as coisas. de História possívelfazer do estilo de vida um grande problema filosófico?
da loucura e de Raymond Roussel. Devo dizer que isso foi um - É uma questão difícil. Não estou certo de poder dar uma
problema para mim, porque essa ruptura não se produziu resposta. Creio efetivamente que a questão do estilo é central
progressivamente. Abandonei esse estilo muito brusca~ei;t~. na experiência antiga: estilização da relação consigo mesmo,
de 1975 a 1976, quando surgiu a idéia de fazer uma h1stona estilo de conduta, estilização da relação com os outros. A Anti-
do sujeito que não fosse a de um acontecimento ~ue teria güidade não parou de colocar a questão de saber se era possí-
ocorrido certa vez e do qual seria preciso relatar a ge:nese e o vel definir um estilo comum a esses diferentes domínios da
resultado. conduta. Efetivamente. a descoberta desse estilo teria, sem
-Ao desprender-se de wn certo esti.lo, o senhor não setor- dúvida. possibilitado chegar a uma definição do sujeito. A uni-
nou mais filósofo do que o era anteri.ormente? dade de uma "moral de estilo" apenas começou a ser pensada
254 Michel Foucault - Ditos e Escritos 1984 - O Retomo da Moral 255

no Império Romano, nos séculos li e III, e imediatamente em moral. De modo que, mesmo assim, é muito dificil saber quem
termos de código e de verdade. participava dessa moral na Antigüidade e no Império. Portan-
- Um estilo de existência - isso é admiráveL O senhor consi- to, estava-se bem distante das adequações morais, cujo es-
dera os gregos admiráveis? quema os sociólogos e os historiadores elaboram dirigindo-se
-Não. a uma pretensa população média. O que Peter Brown e eu ten-
tamos fazer permite isolar. no que eles têm de singular, indivi-
- Nem exemplares, nem admiráveis?
duos que desempenharam um papel na moral antiga ou no
-Não. cristianismo. Estamos no inicio desses estudos sobre o estilo,
- O que o senhor acha deles? e seria interessante verificar qual era a difusão dessa noção,
- Não muito brilhantes. Muito rapidamente eles se choca- do século IV a.e. ao século Ida nossa era.
ram contra tudo aquilo que acredito ser o ponto de contradi- -NãosepodeestudaramoraldewnfúósofodaAntigüid.ade
ção da moral antiga: entre, de um lado, essa busca obstinada sem levarem conta, ao mesmo tempo, toda a sua.filosofia, e em
de um certo estilo de vida e, de outro, o esforço para torná-lo particular quando se pensa nos estóicos. se díz que éjustamen-
comum a todos, estilo do qual eles se aproximaram, sem dúvi- te porque Marco Aurélio não tinha nem .fisica nem lógica que
da mais ou menos obscuramente, com Sêneca e Epícteto, mas sua moral era mais voltada para o que o senhor chama de códi-
que só encontrou a possibilidade de se investir no interior de go do que para o que o senhor chama de ética.
um estilo religioso. Toda a Antigüidade me parece ter sido um - Se entendi bem, o senhor fez dessa longa evolução o
"profundo erro". resultado de uma perda. Vocês veriam em Platão, em Aris-
- O senhor não é o único a introduzir a noção de estilo em tóteles, nos primeiros estóicos uma filosofia particularmente
história. Peter Brown ofez em La genese de l'Antiquité tardive. 1 equilibrada entre as concepções da verdade, da política e da
-Tomei emprestado o uso que faço do "estilo", em grande vida privada. Pouco a pouco, do século III a.e. ao século II de
parte, de Peter Brown. Porém o que vou dizer agora, e que não nossa era, as pessoas teriam abandonado as interrogações
se relaciona com o que ele escreveu, não o inclui de forma al- sobre a verdade e sobre o poder político, passando a se inter-
guma. Creio que essa noção de estilo é muito importante na rogar sobre as questões da moral. De fato. de Sócrates a Aris-
história da moral antiga. Se há pouco falei mal dessa moral. tóteles, a reflexão filosófica em geral constituía a matriz de
posso tentar agora falar bem dela. Inicialmente, a moral anti- uma teoria do conhecimento, da política e da conduta indivi-
ga apenas se dirigia a um pequeno número de indivíduos; ela dual. Depois, a teoria política entrou em decadência porque a
não exigia que todo mundo obedecesse ao mesmo esquema de cidade antiga desapareceu e foi substituída pelas grandes mo-
comportamento. Ela apenas dizia respeito a uma pequena mi- narquias que sucederam a Alexandre. A concepção da verda-
noria de indivíduos, mesmo dentre aqueles que eram livres. de, por razões muito complicadas, mas, parece, da mesma
Havia muitas formas de liberdade: a liberdade do chefe de ordem, entrou também em retrocesso. Finalmente, chegou-se
Estado ou a do chefe do Exército, que nada tinha a ver com a ao seguinte: no século I, disseram que a filosofia não tem que
do sábio. Mais tarde essa moral se difundiu. Na época de Sê- se ocupar de forma alguma da verdade em geral, mas das ver-
neca, com mais forte razão do que na de Marco Aurélio, ela dades úteis, ou seja, a política e, sobretudo, a moral. Temos
devia valer eventualmente para todos; porém jamais se pre- aqui a grande cena da filosofia antiga: Sêneca começa a fazer
tendeu fazer dela uma obrigação para todos. Era um assunto filosofia precisamente durante o tempo em que estava afasta-
de escolha dos indivíduos; cada um podia vir a partilhar dessa do da atividade política. Ele foi exilado, voltou ao poder e o
exerceu, mas retornou a um meio-exílio, morrendo em um
exfüo total. Foi nesses periodos que o discurso filosófico to-
l. Brown (P.) e Lamont (R.). The maktng ojlate antiqu(ty, 1978 (Lagenese de mou todo o seu sentido para ele. Este fenômeno muito impor-
l'Antiqwté tardíve, Paris, Galllmard. 1983). tante, essencial é. se vocês quiserem, a desgraça da filosofia
256 Mlchel Foucault - Ditos e Escritos 1984 - O Retomo da Moral 257

antiga ou, em todo caso, o ponto histórico a partir elo qual ela - Nada a ver? Sim e não. De um ponto de vista filosófico es-
originou uma forma de pensamento que será retomada no trito, a moral da Antigüidade grega e a moral contemporânea
cristianismo. nada têm em comum. Em contrapartida, se tomamos o que
- Em muitas ocasiões, o senhor parece fazer da escrita uma estas morais prescrevem, impõem e aconselham, elas são ex-
prática de si pri.vílegiada. A escrita está no centro da "cultura traordinariamente próximas. É preciso fazer aparecer a proxi-
de si"? . midade e a diferença e. através de seu jogo, mostrar de que
- É verdade que a questão de si e da escrita de si foi não modo o mesmo conselho dado pela moral antiga pode funcio-
central. mas sempre muito importante na formação de si mes- nar de modo diverso em um estilo contemporâneo de moral.
mo. Tomemos por exemplo Platão, deixando de lado Sócrates. - Talvez se pense que .fizemos da sexualidade uma expe-
que apenas conhecemos através de Platão. Platão é alguém de riência muito diferente daquela que o senhor atribui aos gregos.
quem o mínimo que se pode dizer é que ele não cultivou a prá- Há lugar; tanto neles como em nós, para o delírio amoroso. para
tica de si como prática escrita, como prática de memória ou perder a cabeça? O erotismo deles se relaciona ao estranho?
como prática de redação de si a partir de suas recordações; se - Não posso lhe responder de modo geral. Responderei em
ele escreveu consideravelmente a respeito de um certo núme- "filosofês", ou seja, a partir do que os textos filosóficos me en-
ro de problemas políticos, morais, metafísicos, os te..xtos que sinaram. Acredito que nesses textos, que vão do século Na.e.
demonstram, no debate platônico, a relação consigo mesmo ao século II de nossa era, quase não há concepção do amor
parecem relativamente restritos. O mesmo ocorre com Aristó- que tenha sido validada por ter representado as experiências
teles. Em troca, a partir do século Ide nossa era, vemos escri- às quais o senhor se refere: da loucura ou da grande paixão
tos muito mais numerosos que obedecem a um modelo de amorosa.
escrita como relação consigo mesmo (recomendações, conse- - Nem mesmo o Fedro, de Platão?
lhos, advertências dadas aos alunos etc.). Durante o Império, - Não! Creio que não! Seria preciso pesquisar mais porme-
ensinava-se aos jovens como se comportar durante as lições norizadamente, mas creio que no Fedro há pessoas que, após
que lhes eram dadas; em seguida, mas apenas depois, se lhes uma experiência amorosa, negligenciam a tradição corrente e
ensinava a formular suas questões: mais tarde. a dar sua opi- constante de sua época, que fundamentava a erótica em uma
nião, a formular suas opiniões em forma de lições, e finalmen- maneira de "fazer a corte" para atingir um tipo de saber que
te em forma didática. Os textos de Sêneca, de Epicteto e de lhes possibilitaria, por um lado, se amarem e, por outro, te-
Marco Aurélio comprovam isso. Eu não estaria totalmente de rem, a respeito das leis e obrigações impostas aos cidadãos, a
acordo com a opinião de que a moral antiga foi uma moral da atitude adequada. Assistimos à emergência do delirto amoro-
atenção para consigo mesmo ao longo de sua história; porém so em Ovídio, no momento em que vemos surgir a possibilida-
ela se transformou nisso em certo momento. O cristianismo de e a abertura de uma experiência na qual o indivíduo, de
introduziu peiversões, modificações muito consideráveis quan- alguma forma, perde a cabeça, não sabe mais quem ele é, ig-
do organizou funções da penitência extremamente amplas. que nora sua identidade e víve sua experiência amorosa como um
implicavam que se desse conta de si, e que se o contasse a um perpétuo esquecimento de si. Esta é uma experiência tardia
outro. mas sem que ele tivesse escrito nada disso. Por outro que não corresponde absolutamente à de Platão ou à de Aiis-
lado, o cristianismo desenvolveu, na mesma época ou pouco tóteles.
depois, um movimento espiritual de conexão das experiências - Estávamos até agora habituados a encontrá-lo no espaço
individuais - por exemplo, a prática do diário - que permitia histórico que vai da Idade Clássica aofinal do século XIX, e eis
julgar ou, em todo caso, avaliar as reações de cada um. que o senhor surge onde ninguém esperava: na Antígüidadel
- Entre as práticas de si modernas e as práticas de si gregas Há ht}je um retomo aos gregos?
talvez existam enormes diferenças. Elas não têm nada a ver - E preciso ser prudente. Na verdade, há um retorno a uma
umas com as outras? certa forma da experiência grega; esse retorno é um retorno à
258 Michel Foucault- Dttos e Escritos 1984 - O Retomo cta Moral 259

moral. É preciso não esquecer que essa moral grega tem sua menos da mesma maneira, levando em conta a cada vez as di-
origem no século V a.e., e que a :filosofia grega se transformou ferenças de contexto e indicando a parte dessa experiência
pouco a pouco em uma moral na. qu_al no~ rec~n:iecemos ago- que talvez se possa salvar e aquela que, pelo contrário, se
ra, e na qual esquecemos qual fot - e preciso dize-lo-, 3: conse- pode abandonar.
qüência fundamental no século IV: a filosofia pohtica, em - O senhor encontrou naquilo que descreve um ponto de con-
suma, a filosofia. tato entre uma experiência da liberdade e da verdade. Há pelo
- Mas o retorno aos gregos não é o sintoma de uma crise do menos um.filósofo para quem a relação entre liberdade e verda-
pensamento, como foi o caso no Renascimento, por ocasião do de foi o ponto de partida do pensamento ocidental: é Heidegger;
cisma religioso, e mais tarde após a Revolução Francesa? a partir daí, ele funda a possibilidade de um discurso anistóri-
- É muito parecido. O cristianismo represent~u por. m:1ito co. Se Hegel e Marx estavam anteriormente em sua linha de
tempo uma certa forma de filosofia. Houve depois, penod1ca- mira, será que agora o senhor não colocou aí Heidegger?
mente, esforços para reencontrar na Antigüidade uma forma - Certamente. Heidegger sempre foi para mim o filósofo es-
de pensamento que não fosse contaminada pelo cristianis1,11?· sencial. Comecei a ler Hegel, depois Marx. e me pus a ler Hei-
Nesse retorno regular aos gregos, há certamente uma espec~e degger em 1951 ou 1952; e em 1953 ou 1952 - não me lembro
de nostalgia, uma tentativa de recuperação de uma forma on- mais - li Nietzsche. Ainda tenho as notas que tomei sobre Hei-
ginal de pensamento e um esforço para conceber o mundo degger no momento em que o lia - são toneladas! -, e elas são
grego fora dos fenômenos cristãos. No século XVI, tratava-se muito mais importantes do que aquelas que tomei sobre He-
de encontrar, através do cristianismo, uma filosofia de qual- gel ou Marx. Todo o meu futuro filosófico foi determinado
quer forma greco-cristã. Essa tentativa assu,miu, a partir de por minha leitura de Heidegger. Entretanto, reconheço que
Hegel e de Schelling, a forma de uma recuperação dos gre~os Nietzsche predominou. Não conheço suficientemente Heideg-
fora do cristianismo - refiro-me ao primeiro Hegel -. tentativa ger, não conheço praticamente Ser e tempo,2 nem as coisas re-
que encontramos em Nietzsche. Tentar repensar os gre~~s centemente editadas. Meu conhecimento de Nietzsche é bem
hoje consiste não em defender a moral g~ega como_ o domm10 melhor do que o de Heidegger; mas não resta dúvida de que
da moral por excelência, da qual se tena necessidade para estas são as duas experiências fundamentais que fiz. É pro-
pensar, mas sim fazer de modo que o pensamento eu~.?p~u vável que se eu não tivesse lido Heidegger, não teria lido
possa lançar-se no pensamento grego _como _uma expenenc1a Nietzsche. Tentei ler Nietzsche nos anos 50, mas Nietzsche so-
ocorrida certa vez e a respeito da qual e poss1vel ser totalmen- zinho não me dizia nada. Já Nietzsche com Heidegger foi um
te livre. abalo filosófico! Jamais escrevi sobre Heidegger, e escrevi so-
- Os retornos de Hegel e de Nietzsche aos gregos colocavam bre Nietzsche apenas um pequeno artigo; no entanto, são os
emjogo a relação entre a história e a filosofia. Para Hegel, trata. dois autores que mais li. Creio que é importante ter um peque-
va-se de fundamentar o pensamento histórico no pensamento no número de autores com os quais se pensa, com os quais se
fl.losóji.co. Para Nietzsche e para o senhor h,á, pelo contrário, en trabalha, mas sobre os quais não se escreve. Talvez eu escreva
tre a história e a filosofia, a genealogia e uma maneira de se tor- sobre eles algum dia, mas neste momento eles apenas serão
nar estranho para si mesmo. Seu retorno cws gregos Jaz part:e para mim instrumentos de pensamento. Finalmente, há do
de uma fragilização do solo no qual pensamos e vivemos? O meu ponto de vista três categorias de filósofos: os filósofos que
que o senhor quis arruinar? não conheço; os que conheço e dos quais falo; e os filósofos
- Não quis anuinar nada! Creio que nessa "pesca" 9~e se que conheço e dos quais não falo.
faz em relação aos gregos não é absolutamente necessano fi-
xar limites, nem estabelecer previamente uma espécie de pro•
grama que permitiria dizer: aceito tal parte dos gregos e r~jeilo 2. Heidegger (M.). Seín und2'eit (L'être et le temps, trad. R. Boehm e A. de Wae·
tal outra. Toda a experiência grega pode ser retomada mais 01 , lhens. Parts, Gallímard, 1964).
260 Michel Foucault - Ditos e Escritos 1984 - O Retomo da Moral 261

- Isto não é preciswnente afonte dos mal-entendidos que helenista. não sou latinista! Tenho algum conhecimento de la-
envolvem sua obra? · tim e também de grego. mas não tão bom! Voltei a estudá-los
- O senhor quer dizer que meu nietzscheísmo fundamental nesses últimos anos com a finalidade de colocar um certo nú-
seria a origem dos diferentes mal-entendidos? Aqui o senhor mero de questões que, por um lado, podem ser reconhecidas
me faz uma pergunta que me embaraça, pois sou o mais mal pelos helenistas e latinistas e, por outro, tomam a forma de
localizado daqueles para quem esta questão deveria ser for- problemas verdadeiramente filosóficos.
mulada! Ela se dirige àqueles que formulam, eles mesmos, as - O senhor repete: mudei, não.fiz aquilo que hauia anuncia-
perguntas! Só posso respondê-la dizendo: sou simplesmente do. Por que o senhor o anunciou?
nietzschiano e tento, dentro do possível e sobre um certo nú- - É verdade que quando escrevi o primeiro volume da Histó-
mero de pontos. verificar. com a ajuda dos textos de Nietzsche ria da sexualidade, há sete ou oito anos, tinha totalmente a
- mas também com as teses antinietzschianas (que são igual- intenção de escrever estudos de história sobre a sexualidade a
mente nietzschianas!) -, o que é possível fazer nesse ou na- partir do século XVI. e de analisar o futuro desse saber até o
quele domínio. Não busco nada além disso, mas isso eu busco século XIX. Porém, ao fazer esse trabalho me dei conta de que
bem. isso não funcionava; permanecia um problema importante:
- Seus livros Ja.lam de uma coisa diferente daquilo que seus por que fizemos da sexualidade uma experiência moral? En-
títulos anunciam. O senhor nãojoga com o leitor o duplojogo da tão me fechei, abandonei os trabalhos que havia feito sobre o
surpresa e da decepção? século XVII e voltei para trás: inicialmente. ao século V, para
- É provável que os livros que escrevi não correspondam verificar os primórdios da experiência cristã; depois, ao perío-
exatamente aos títulos que lhes dei. É uma rata da minha par- do imediatamente precedente ao fim da Antigüidade. Final-
te, mas ao escolher um título eu o mantenho. Escrevo um mente terminei, há três anos. pelo estudo da sexualidade nos
livro, o refaço, encontro novas problemáticas, mas o livro per- séculos V e IV a.e. Vocês me dirão: foi pura distração da sua
manece com o seu título. Há uma outra razão. Nos livros que parte no início, ou havia um desejo secreto que você havia es-
escrevo, tento cernir um tipo de problema que ainda não tinha condido e que, no final, revelou? Não sei quase nada sobre
sido enfocado. Conseqüentemente. nessas condições, é ne- isso. Confesso que nem quero saber. Minha experiência, tal
cessário que eu consiga fazer aparecer no final do livro um como a vejo agora. é que eu apenas poderia realizar essa His-
certo tipo de problema que não pode ser transcrito no titulo. tória da sexualidade de modo conveniente, retomando o que
Estas são as duas razões pelas quais existe, entre o título e o teria se passado na Antigüidade para verificar como a sexuali-
livro, essa espécie de "jogow. É certo que seria preciso me dizer dade foi manipulada, Vivida e modificada por um certo núme-
que esses livros não rimam de forma alguma com esses títulos ro de atores.
e é preciso efetivamente mudá-los, ou que há uma espécie de - Na introdução de Uso dos prazeres, o senhor expõe o pro-
defasagem que surge entre o título do livro e seu conteúdo; e blema fundamental de sua história da sexualidade: de que
que essa defasagem é para ser tomada como a distância que modo os indivíduos se constituem como siyeitos de desejo e de
tomei de mim mesmo ao fazer esse livro. prazer? Essa questi'ÍD do sujeito, como o senhor mesmo diz,foi o
- Para realizar seu projeto níetzschiano das genealogias, o que imprimiu uma nova direção aD seu trabalho. Ora. seus li-
senhor teve que ultrapassar disciplinas e Jazer emergir os sa- vros precedentes parecem destruir a soberania do sujeito; não
beres das instituições que os criaram. Mas será que o poder da há aqui um retorno a uma questão quejamais poderia ser elimi-
instituição é tão perigoso assim para que o senhor tenha que di- nada e que seria para o senhor o cadinlw de um trabalho
zer queJaz "estudos de história e não de historiador", e que não .• ~ -~?
mJ,nt.o.
é "helenista nem latinista"? -Trabalho infinito, certamente; é exatamente com isso que
1
- Sim, lembro isso porque de qualquer forma isso sena dito me confrontei, e foi isso que quis fazer, já que meu problema
por alguém - posso até mesmo lhe dizer por quem! Não sou não era defmir o momento a partir do qual alguma coisa como
1
262 Michel Foucault - Ditos e Escritos 1984- O Retomo da Moral 263

o sujeito apareceria, mas sim o conjunto dos processos pelos pontos pelos quais a busca contemporânea pôde se inaugurar
quais o sujeito existe com seus diferentes problemas e obstá- antigamente em grupos singulares. A busca de uma forma de
culos, e através de formas que estão longe de estarem concluí- moral que seria aceitável por todo mundo - no sentido de que
das. Tratava-se então de introduzir de novo o problema do todo mundo deveria submeter-se a ela - me parece catas-
sujeito que eu havia mais ou menos deixado de lado em meus trófica.
primeiros estudos, e de tentar seguir os caminhos e as dificul- Entretanto, seria um contra-senso querer fundamentar a
dades através de toda a sua história. Talvez. haja um pouco de moral moderna na moral antiga, fazendo recair o impasse na
obscurtdade na maneira de dizer as coisas. mas de fato o que moral cristã. Se realizei um estudo tão longo foi precisamente
eu quis realmente fazer foi mostrar de que modo o problema para tentar destacar de que modo o que chamamos de moral
do sujeito não deixou de existir ao longo dessa questão da se- cristã estava incrustada na moral européia, não desde o inicio
xualidade que, em sua diversidade, não pára de reencontrá-lo do mundo cristão, mas desde a moral antiga.
e de multiplicá-lo. - Já que o senhor não a.firma nenhuma verdade universal,
- Esse sl,/jeito é, para o senhor, condição de possibilidade de que suspende os paradoxos no pensamento, que Jaz. da filoso-
uma experiência? fia uma questão permanente, o senhor não seria um pensador
- De forma alguma. É a experiência. que é a racionalização cético?
de um processo ele mesmo provisório, que redunda em um - De forma alguma. A única coisa que não aceitarei no pro-
sujeito, ou melhor, em sujeitos. Eu chamaria de subjetivação grama cético é a tentativa dos céticos de atingir um certo nú-
o processo pelo qual se obtém a constituição de um sujeito, mero de resultados em uma ordem dada, pois o ceticismo
mais precisamente de uma subjetividade, que evidentemente jamais foi um ceticismo total! Ele tentou levantar os proble-
nào passa de uma das possibilidades dadas de organização de mas em campos determinados, depois defender dentro de ou-
uma consciência de si. tros campos noções efetivamente consideradas como válidas:
- Ao lê-lo, tem-se a impressão de que não havia uma teoria em segundo lugar, creio que, para os céticos, o ideal era ser
do sujeito nos gregos. Será que eles deram uma defmu;,ão do otimista sabendo relativamente pouca coisa, mas sabendo-as
sujeito que teria sido perdida com o cristianismo? · de maneira segura e imprescritível. enquanto aquilo que eu
- Não creio que seja necessário reconstituir uma experiên- quis fazer é um uso da filosofia que permite limitar os do-
cia do sujeito ali onde ela não foi formulada. Estou bem mais mínios de saber.
próximo das coisas do que isso. E já que nenhum pensador
grego jamais encontrou uma definição do sujeito, jamais a
buscou, eu diria simplesmente que ali não há sujeito. Isso não
significa que os gregos não se esforçaram para definir as con-
dições nas quais ocorrerta uma experiência que não é a do
sujeito, mas a do indivíduo-, uma vez que ele busca se consti-
tuir como senhor de si mesmo. Faltava à Antigüidade clássica
ter problematizado a constituição de si como sujeito: inversa-
mente. a partir do cristianismo, houve o confisco da moral
pela teoria do sujeito. Ora, creio que uma experiência mo-
ral essencialmente centrada no sujeito não é mais satisfatória
atualmente. E, por isso mesmo, um certo número de questões
se coloca hoje para nós nos mesmos termos em que elas se
colocavam na Antigüidade. A busca de estilos de vida, tão dife-
rentes quanto possível uns dos outros, me parece um dos
1984 -A ÉUca do Cuidado de S1 como Prática da Liberdade 265

1984 vivo. Ora, em meus cursos no College de France, procurei con-


siderá-lo através do que se pode chamar de uma prática de si,
que é, acredito, um fenômeno bastante importante em nossas
sociedades desde a era greco-romana, embora não tenha sido
A Ética do Cuidado de Si como Prática da muito estudado. Essas práticas de si tiveram., nas civilizações-//
grega e romana, uma importância e, sobretudo, uma autono-
Liberdade mia muito maiores do que tiveram a seguir, quando foram até
certo ponto investidas pelas instituições religiosas, pedagóg:i-
cas ou do tipo médico e psiquiátrico. 1"
- Há então agora uma espécie de deslocamento: esses jogos
de verdade não se referem mais a uma prática coercittua, mas a
"A ética do cUidado de st como práUca da liberdade~ (entreVísta com H. Bec-
ker, R. Fomet-Betancourt, A. Gomez-Müller, em 20 de Janeiro de 1984), Con- uma prática de autoformação do sr,yeito.
cordia. Revista internacional de filosofia, n 9 6 , julho-dezembro de 1984, - Isso mesmo. É o que se poderia chamar de uma prática
ps. 99-116. ascética, dando ao ascetismo um sentido muito geral, ou seja,
não o sentido de uma moral da renúncia, mas o de um exercí-
cio de si sobre si mesmo através do qual se procura se elabo-
- Gostaríamos inicialmente de saber qual é atualmente o ob· rar, se transformar e atingir um certo modo de ser. Considero
jeto d.o seu pensamento. Acompanhamos os seus últimos de· assim o ascetismo em um sentido mais geral do que aquele
senuoluúnentos, principalmente os seus cursos no College de que lhe dá, por exemplo, Max Weber; mas está, em todo caso,
France em 1981-1982 sobre a hermenêutica do stgeito, e que- um pouco na mesma linha.
ríamos saber se o seu procedimento filosófrco atual é sempre - Um trabalho de si sobre si mesmo que pode ser compreendi-
determinado pelo pólo subjetividade e verdade. do como uma certa liberação, como um processo de liberação?
- Esse sempre foi. na realidade, o meu problema. embora - Sobre isso, eu seria um pouco mais prudente. Sempre
eu tenha formulado o plano dessa reflexão de uma maneira desconfiei um pouco do tema geral da liberação uma vez que,
um pouco diferente. Procurei saber como o sujeito humano se não o tratarmos com um certo número de precauções e_
entrava nos jogos de verdade, tivessem estes a forma de uma dentro de certos limites, corre-se. o risco de remeter à idéia de 1
ciência ou se referissem a um modelo científico, ou fossem que existe urna natureza ou uma essência humana que. após 1
como os encontrados nas instituições ou nas práticas de con- um certo número de processos históricos, econômicos e so- 1,
trole. Este é o tema do meu trabalho As palavras e as coisas. ciais, foi mascarada, alienada ou aprisionada em mecanis- 1
no qual procurei verificar de que modo. nos discursos científi- mos, e por mecanismos de repressão. Segundo essa hipótese,
cos, o sujeito humano vai se definir como individuo falante. basta romper esses ferrolhos repressivos para que o homem
vivo. trabalhador. Nos cursos do Collêge de France enfatizei se reconcilie consigo mesmo, reencontre sua natureza ou re-
essa problemática de maneira geral. tome contato com sua origem e restaure uma relação plena e
- Não há um salto entre a sua problemática anterior e a da positiva consigo mesmo. Creio que este é um tema que não
subjetividade/verdade, principalmente a partir do conceito de pode ser aceito dessa forma, sem exame. Não uero dizer ue
"cuidado de si"? a liberaç~ ouque es~ u aquela forma de liberação não exis _:-
- O problema das relações entre o sujeito e os jogos de ver- tam: quando um P.OVo_cQlonizacfo pr9~ura se lib__~ar..do_seu cQ:
dade havia sido até então examinado por mim a partir seja de lonizador, essa é certamente uma prática de liberação, no
práticas coercitivas - como no caso da psiquiatria e do siste- ~ do estrito. Mas é sabido, nesse caso aliás preciso, que
ma penitenciário-, seja nas formas de jogos teóricos ou cientí- _e~sa...p.rática deJ ib.e.r.ação não basJa 11-ar? d~finir as Qráticas de_
ficos - como a análise das riquezas. da linguagem e do ser liberdade que serão em seguida n~ce~sárias :P-ara ue e~
266 Michel foucault - Ditos e Esc.r ttos 1984 - A Ética do Culdado de Si como Prática da Uberdade 267

povo, essa sociedade e esses indiVíduos possam defini~ p~ra uma prática de liberdade. Se tomarmos o exemplo da sexuali-
eles mesmos formas aceitáveis e satisfatórtas da sua existen- dade, é verdade que foi necessárto um certo número de libera-
1
cia ou da sociedade política. É por isso que insisto sobretudo
nas práticas de liberdade, mais do que nos proces~os de libe-
ções em relação ao poder do macho, que foi preciso se liberar
de uma moral opressiva relativa tanto à heterossexualidade
ração, que mais uma vez têm seu lugar, mas que nao me p~re- quanto à homossexualidade: mas essa liberação não faz sur-
cem poder, por eles próprios, definir todas as formas práticas gir o ser feliz e pleno de urna sexualidade na qual o sujeito
de liberdade. Trata-se então do problema com o qual me de- tivesse atingido uma relação completa e satisfatória. A libera-._
frontei muito precisamente a respeito da sexualidade: se~á ção abre um campo para novas relações de oder, ue devem
que isso corresponde a dizer "liberemos nossa _sexualid~de ? sercontroladas por práticas de liberdade. - - -
fü problema não serta antes tentar definir as praticas de liber- - - A própria liberação não poderia ser um modo ou uma for-
dade atravéS das quais serta possível definir o prazer sexual, ma de prática de liberdade?
as relações eróticas, amorosas e passionais com os outros? O - Sim, em um certo número de casos. Há casos em que a li-
problema ético da defmiçào das práticas de libei_:dade é, para beração e a luta pela libertação são de fato indispensáveis
mim, muito mais importante do que o da afmnaçao, um pouco para a prática da liberdade. Quanto à sexualidade, por exem-
repetitiva, de que é preciso liberar a sexualidade ou o desejo. plo - e eu o digo sem polêmica, porque não gosto de polêmicas.
,_ - O exercício das práticas de liberdade não exige um certo pois as considero na maioria das vezes infecundas -, houve
grau de liberação? . _ um esquema reichiano, decorrente de uma certa maneira de
- Sim, certamente. E preciso introduzir n ele a noçao. de ler Freud ; ele supunha que o problema era inteiramente da
dominação. As análises que procuro fazer incidem essencial- ordem da liberação. Para dí.Zer as coisas um pouco esquemati-
mente sobre as relações de poder. Considero isso como algu- camente. haveria desejo, pulsão, interdição, repressão, inte-
ma coisa diferente dos estados de dominação. As relações de Iiortzação e o problema seria resolvido rompendo com essas
poder têm urna extensão consideravelmente grande n~~ r ela- interdições , ou seja, liberando-se delas. E sobre isso acredito
ções humanas. Ora, isso não significa que o poder pohtico es- que se esquece totalmente - e sei que caricaturo aqui posições
teja em toda parte, mas que, nas relações humanas. há ~odo muito mais interessantes e sutis de numerosos autores - o
um conj unto de relações de poder que podem ser exei_:c1das problema ético que é o da prática da liberdade: como se pode
entre indivíduos, no seio de uma família, em uma relaçao pe- praticar a liberdade? Na ordem da sexualidade, é evidente
dagógica. no corpo político. Essa análise das relações de poder que, liberando seu desejo, se saberá como se conduzir etica-
constitui um campo extremamente complexo; ela às vezes_ en - mente nas relações de prazer com os outros.
contra o que se pode chamar de fatos, ou estados de dom1~a- - O senhor disse que é preciso praticar a liberdade eti-
ção, nos quais as relações de poder, em vez de ser~~ móveis e camente...
permitirem aos diferentes parceiros uma estrateg;.a que os - Sim, pois o que é a é.ti_ca senão a prática da liberdade/ a
modifique. se encontram bloqueadas e cristalizadas. Quando prática refletida da liberdade? -
um indiVíduo ou um grupo social chega a bloquear um campo - Isso signifICa que o senhor compreende a liberdade como
de relações de poder, a torná-las imóveis e f1'cas e a impedir wna re9:ljg.ade já ética em si mesma.?
qualquer reversibilidade do movimento - ~~r instrur:i-ie?tos ...?~ ctade é a condição ontológica da ética. Mas a ética ê )
que tanto podem ser econômicos quanto pohticos ou militares aJorma refletida assumida pela116erdade:r -
- estamos diante do que se pode chamar de um estado de do- - A ética é o que se realiza na busca ou no cuidado d e si?
~nação. É lógico que, em tal estado, as práticas ~e liberdade - O cuidado de si constituiu, no mundo greco-romano. o
não existem, existem apenas unilateralmente ou sao extrema- modo pelo qual a liberdade individual - ou a liberdade cívica.
mente restritas e limitadas. Concordo, portanto, com o senhor até certo ponto - foi pensada como ética. Se se considerar toda
que a liberação é às vezes a condição política ou histórtca para uma séri.e de textos desde os prtmeiros diálogos platônicos atê
268 Michel Foucault - Ditos e Escritos 1984 - A ÉUca do Cuidado de Si como Prática da Liberdade 269

os grandes textos do estoicismo tardio - Epícteto, Marco Auré- - ?ertamente. Não é possível cuidar de si sem se conhecer.
lio ... -, ver-se-á que esse tema do cuidado de si atravessou Q_cmdado de si é certamente_cLc-0nlJ&cimento de si - este é o
verdadeiramente todo o pensamento moral. É interessante ver lado socrático-platônico-, mas é também o conhecimento de
que, pelo contrário, em nossas sociedades, a partir de u m cer- u_?.1 c~rto número de regras de conduta ou de princípios que
to momento - e é muito difícil saber quando isso aconteceu -, sao s_1multaneamente verdades e prescrições. Cuidar de si é se , . /
o cuidado de si se tornou alguma coisa um tanto suspeita. ~ mr dessas verdades: nesse caso a ética se liga ao jogo aa g
Ocupar-se de si foi, a partir de um certo momento, denuncia-
do de boa vontade como uma forma de amor a si mesmo, uma
forma de egoísmo ou de interesse individual em contradição
-verâade. - - -=
- O senhor d_isse que se trat~ de Jazer d.essa verdade apre-
en~":-ª• mem?n..zada, progressivamente aplicada, um quase-
com o interesse que é n ecessário ter em relação aos outros siyeito que reina soberanamente em você. Que status tem esse
ou com o necessário sacrtficio de si mesmo. Tudo Isso ocorreu quase-sujeito?
durante o cristianismo, mas não diria que foi pura e simples- - Na corrente
1 platônica, pelo menos de acordo com o final
mente fruto do cristianismo. A questão é muito mais comple- do Alcibíades, o problema para o sujeito ou para a alma indi-
xa, pois no cristianismo buscar sua salvação é também__gma Vidual é voltar os olhos para ela mesma, para se reconh ecer
maneira de cuidar de si. Mas a salvação no cristianismo é rea- naquilo que ela é, e, reconhecendo-se naquilo que ela é, lem-
lizada ~vés da renúncia~ s_!_ mesmo: Há um paradoxo no b~ar-se das verdades com as quais tem afinidade e que ela
cuidado de si no cristianismo, mas este é um outro problema. pode contemplar: em contrapartida, na corrente que pode ser
Para voltar à questão da qual o senhor falava, acredito que, c~amada, ~ obalmente, de estóica, o problema é aprender atra-
nos gregos e romanos - sobretudo nos gregos-, para se con- ves d? e~smo de u~ certo número de verdades. de doutrinas,
duzir bem, para praticar adequ adamente a liberdade, era ne- as pnme1ras constituindo os princípios fund amentais e as ou-
cessário se ocupar de si mesmo, cuidar de s i, ao mesmo tempo t~a~, regr_as de conduta. Trata-se de fazer com que esses prin-
para se conhecer - eis o aspecto familiar do gnôthi seauton - e c1p10s digam em cada situação e de qualquer forma
para se fonnar, superar-se a si mesmo. para dominar em s i os espontaneamente como vocês devem se conduzir. Encontra-
apetites que poderiam arrebatá-lo. Para os gregos a liberdade mos aqui uma metáfora, que não vem dos estóicos, mas de ·
individual era alguma coisa muito importante - contraria- Pluta:c?· que diz: ké preciso que vocês tenham aprendido os
mente ao que diz o lugar-comum, mais ou menos derivado de prin:1p1os de uma. maneira tão constante que, quando os seus
Hegel, segundo o qual a liberdade do individuo não teria ne- deseJos, apetites, temores Vierem a se revelar como cães que
nhuma importância diante da bela totalidade da cidade: não ro~nam, o logos falará como a voz do mestre que, com um só-
ser escravo (de uma outra cidade, daqueles que o cercam, da - gnt?, faz calar os cães''.2 Esta é a idéia de um logos que funcio-
queles que o governam , de suas próprias paixões) era um na~1a de qualquer forma sem que você nada tivesse feito: você
tera se tornado o logos ou o logos terá se tornado você.
tema absolutamente fundamental: a preocupação com a liber-
- Gostaríamos de voltar à questão das relações entre a liber-
dade fo i um problema essencial, permanente. durante o~oto
grandes séculos da cultura antiga. Nela temos toda um , ética ª.
dade e ética. Quando o senhor diz que a ética é a parte racio- ·
nal da liberdade, isso significa que a liberdade pode tomar
li que girou em torno do cuidado de si e que confere à ética an i-
, ga sua forma tão particular. Não digo que a ética seja o cuida-
do de s i, mas que, na Antigüidade, a ética como prática racional
l , Platão. Alcíbíade, 133 a-d (trad. M. Crolset), Paris, Les Belles Lettres. "Col-
da liberdade girou em torno de.sse imperativo fundamental:
lectlon des Universités de France", 1925. ps, 109-110 .
"cuida-te de ti mesmo" . .!f 2,Alusão ao trecho de Plu1arco De la tranquillté de l"ãme, 465c (trad, J. Du-
- Imperativo que implica a assimilação dos logoi, das ver- mortler e J. Defradas), út Oeuvres morales. Par1s, Les Belles Lettres, "Col-
dades. lectron des Uruversitts de France". 1975, t. vn. 1• parte, p. 99.
270 Michel Foucault- Ditos e Escritos 1984 -A Ética do Cuidado de Si como Prática da Liberdade 271

consciência de si mesma como prática ética? Será ela de início e isso é importante, para um homem livre que se conduz
sempre liberdade por assim dizer moralizada, ou será preciso adequadamente, saber governar sua mulher, seus filhos, sua
um trabalho sobre si mesmo para descobrir essa dimensão éti.- casa. Nisso também reside a arte de governar. O êthos tam-
ca da liberdade? bém implica uma relação com os outros, já que o cuidado de si
- Os gregos problematizavam efetivamente sua liberdade e permite ocupar na cidade, na comunidade ou nas relações in-
a liberdade do indivíduo, como um problema ético. Mas ético terindividuais o l~gar conveniente - seja para exercer uma
no sentido de que os gregos podiam entendê-lo: o êthos era a magistratura ou para manter relações de amizade. Além dis-
maneira de ser e a maneira de se conduzir. Era um modo de so, o cuidado de si implica também a relação com um outro,
ser do sujeito e uma certa maneira de fazer, visível para os ou- uma vez que, _pa~ u~ar bem de ~l. é preciso oÜvir as liçõe§
tros. O êthos de alguém se traduz pelos seus hábitos, por seu de um mestre. _Precisa-se de um guia, de um conselheiro, de
porte, por sua maneira de caminhar, pela calma com que res- ~ª!Digo, de alguém que lhe diga a verdade. Assim, o proble-
ponde a todos os acontecimentos etc. Esta é para eles a forma ma das relações com os outros está presente ao longo desse
concreta da liberdade; assim eles problematizavam sua liber- desenvolvimento do cuidado de si.
dade. O homem que tem um belo êthos, que pode ser admira- - O cuidado de si visa sempre ao bem dos outros: visa a ad-
do e citado como exemplo, é alguém que pratica a liberdade de ministrar bem o espaço de poder presente em qualquer relação,
uma certa maneira. Não acredito que haja necessidade de ou seja, administrá-lo no sentido da não-dominação. Qual pode
uma conversão para que a liberdade seja pensada como êthos; ser; nesse contexto, o papel do fiwsofo, daquele que cuida do
ela é imediatamente problematizada como êthos. Mas, para cuidado dos outros?
que essa prática da liberdade tome forma em um êthos que - Tomemos o exempJo de Sócrates: é precisamente ele
seja bom, belo, honroso, respeitável, memorável e que possa quem interpela as pessoas na rua, os jovens no ginásio, per-
servir de exemplo, é preciso todo um trabalho de si sobre ~i guntando: ''Tu de ocupas de ti?" O deus o encarregou disso, é
mesmo. sua missão, e ele não a abandonará, mesmo no momento em
- É nisso que o senhor situa a análise do poder? que for ameaçado de morte. Ele é certamente o homem que
-Já que, para os gregos, liberdade significa não-escravidão r-=cuida!do cuidado d~Q.s: esta é a posição particular..do f1::.
- o que é, de qualquer forma, uma definição de liberdade bas- ~ } Nf~ digamos simplesmente, no caso do homem livre.
tante diferente da nossa-. considero que o problema já é intei- acredito que o postulado de toda essa moral era que aquele
ramente político. Ele é político uma vez que a não-escravidão que cuidasse adequadamente de si mesmo era, por isso mes-
em relação aos outros é uma condição: um escravo não tem mo, capaz de se conduzir adequadamente em relação aos
ética. A liberdade é, portanto, em si mesma política. Além dis- outros e para os outros. Uma cidade na qual todo mundo cui-
so, ela também tem um modelo político, uma vez que ser livn· dasse de si adequadamente funcionaria bem e encontraria
significa não ser escravo de si mesmo nem dos seus apetites, o
que implica estabelecer consigo mesmo uma certa relação de
domínio, de controle, chamada de archê - poder, comando.
nisso o princípio ético de sua permanência. Mas não creio que
se possa dizer que o homem grego que cuida de si deva inicial- ,
mente cuidar dos outros. Esse tema só intervirá, me parece,
I
I

- O cuidado de si, como o senhor disse, é de certa maneira o mais tarde. Não se deve fazer passar o cuidado dos outros na
/i\ cuidado dos outros. Nesse sentido, o cuidado de si também é frente do cuidado de si; o cuidado de si vem eticamente em
/ sempre ético. ético em si mesmo. primeiro lugar, na medida em que a relação consigo mesmo é
- Para os gregos, não é por ser cuidado dos outros que ele é ontologicamente primária.
ético. O cuidado de si é ético em si mesmo; porém implica rela - - Será ·que esse cuidado de si, que possui um sentido ético
ções complexas com os outros. uma vez que esse~thos da li- positivo, poderia ser compreendido como uma espécie de con-
berdade é também uma maneira de cuidar dos outros: por versão do poder?
272 Michel Foucault - Ditos e Escritos 1984-A Ética do Cuidado de St como Prática da Liberdade 273

- Uma conversão, sim. É efetivamente uma maneira de eia a todas as ligações terrestres; renúncia a tudo o que pode
controlá-lo e limitá-lo. Pois se é verdade que a escravidão é o ser amor de si, apego ao si mesmo terrestre. 3 Mas acredito
grande risco contra o qual se opõe a liberdade grega, há tam- que, no pensamento grego e romano, o cuidado de si não pode
bém um outro pertgo que, à primeira vista, parece ser o inver- em si mesmo tender para esse amor exagerado a si mesmo
so da escravidão: o abuso de poder. No abuso de poder, o que viria a negligenciar os outros ou, pior ainda, a abusar d.o
exercício legítimo do seu poder é ultrapassado e se impõem poder que se pode exercer sobre eles.
aos outros sua fantasia, seus apetites, seus desejos. Encon- - Trata-se, então, de um cuidado de si que, pensando em sí
tramos aí a imagem do tirano ou simplesmente a do homem mesmo, pensa no outro?
poderoso e rtco, que se aproveita desse poder e de sua Iiqueza - Sim, certamente. Aquele que cuida de si. a ponto de saber
para abusar dos outros, para lhes impor um poder indevido. exatamente quais são os seus deveres como chefe da casa,
Percebemos, porém - em todo caso, é o que dizem os filósofos como esposo ou como pai, descobrirá que mantém com sua
gregos-, que esse. homem é na realidade escravo dos seus mulher e seus ftlhos a relação necessária.
apetites. E o bom soberano é precisamente aquele que exerce
- Mas a condição humann, no sentido da fmitude, não de-
seu poder adequadamente, ou seja, exercendo ao mesmo tem-
sempenha quanto a isso um papel muito importante? O senhor
po seu poder sobre si mesmo. É o poder sobre si que vai regu-
falou da morte: se você tem medo da morte, não pode abusar do
lar o poder sobre os outros.
~ e..o.s Qu,tros. Creio que esse problema dafinitude
- O cuidado de s~ separado do cuidado dos outros, não corre é muito importante; o medo da morte, dafinitude, de ser vulne-
o risco de "se absolutizar"? Essa absolutização do cuidado de rável está no cerne do cuidado de si.
si não poderia se tomar umajorma de exercício de poder sobre
- Certamente. É aí que o cristianismo, ao introduzir a sal-
os outros, no sentido da dominação do outro?
vação como salvação depois da morte, vai desequilibrar ou,
- Não, porque o Iisco de dominar os outros e de exercer so- em todo caso, p erturbar toda essa temática do cuidado de si.
bre eles um poder tirânico decorre precisamente do fat.o de Embora, lembro mais uma vez, buscar sua salvação significa
não ter cuidado de si mesmo e de ter se tornado escravo dos certamente cuidar de si. Porém, a condição para realizar sua
seus desejos. Mas se você se cuid~ ~dequada1?ente~ou seja, salvação será precisamente a renúncia. Nos gregos e roma-
se sabe ontologicamente o que voce e, se tambem. e do que nos, pelo contrário, a partir do fato de que se cuida de si em
é capaz, se sabe o que é para você ser cidadão em uma cidade, sua própria vida e de que a reputação que se vai deixar é o
ser o dono da casa em um oi.kos, se você sabe quais são as coi- único além com o qual é possível se preocupar, o cuidado de si
sas das quais deve duvidar e aquelas das quais não deve duvi- ~~erá en tão-estar- inteiramente...c entrado em si mesmo. na-
dar, se sabe o que é conveniente esperar e quais são as coisas, quilo que se faz, no lugar que se ocupa entre os outros; ele po-
pelo contrárto, que devem ser para você completamente indi- derá estar totalmente centrado na aceitação da morte - o que
ferentes, se sabe, enfim, que não deve ter medo da morte, pois ficará muito evidente no estoicismo tardio - e mesmo, até cer-
( bem, você não pode a partir deste momento abusar do seu po- to ponto, poderá se tornar quase um desejo de morte. Ele po-
~ er sobre os outros. Não há, portanto,-perigo. Ess~ idéia apa- derá ser, ao mesmo tempo, senão um cuidado dos outros, pelo
recerá muito mais tarde, quando o amor por s1 se tornar menos um cuidado de si benéfico para os outros. É interes-
suspeito e for percebido como urna das possíveis origens das sante verificar, em Séneca, por exemplo, a importância do
diferentes faltas morais. Neste novo contexto. o c.J..Li!lado d~i
assumirá inicialmente a forma da renúncia a si mesrr?o'. Isso
se encontra de uma maneira bastante clara no Traité de la vir- 3. Grególio de Nisa. Tmtté de la virginiti, cap. XIII: "Le soln de sot-meme com•
ginité de Gregório de Nisa, no qual se vê a noção de cuidado ele mence avec l'a.ll'ranchissement du martage•. 303c-305c (trad. M. Aubineau),
si, a epimeleia heautou, basicamente definida como a renún - Paris, Éd. du Cerf. col. "Sources ChréUennes", n 9 119. 1966, ps. 423-431.
274 Michel Foucault- Ditos e Escrttos 1984 -A Ética do Cuidado de Si como Prática da Liberdade 275

tema: apressamo-nos em envelhecer, precipitamo-nos para o exemplo, tal forma de conhecimento era possivel. Procurei
final, que nos permitirá nos reunirmos conosco mesmos. Essa mostrar como o próprt6' ~ e constituía, nessa ou naque-
espécie de momento que precede a morte, em que nad_a mais la forma determinada, como sujeito louco ou são, como sujeito
pode acontecer. é diferente do desejo de morte que sera ~ova- delinqüente ou não, através de um certo número de práticas,
mente encontrado nos cristãos, que esperam a salvaçao da que eram os jogos de verdade, práticas de poder etc. Era certa-
morte. É como um movimento para precipitar sua existência mente necessário que eu recusasse uma certa teoria a priori
até o ponto em que só houver diante dela a possíbilidade da do sujeito para poder fazer essa análise das relações possivel-
morte. mente existentes entre a constituição do sujeito ou das dife-
- Propomos agora passar para um outro tema. Em seus c~r- rentes formas de sujeito e os jogos de verdade, as práticas de
sos no College de France, o senhor hauiafalado das relaçoes poder etc.
entrépoder:.e-~ { agora o senhorfala das relações entre su· - Isso signiftca que o s4ieito não é uma substância. ...
jei.to· êuerdade. Há uma complementaridade entre os dois pa- - Não é uma substância. É uma forma, e essa forma nem
res de noções, poder/saber e sujeito/uerdade? sempre é, sobretudo, idêntica a si mesma. Você não tem con-
- Meu problema sempre foi, como dizia no início, o das rela- sigo próprio o mesmo tipo de relações quando você se consti-
ções entre sujeito e verdade: como o sujeito entra em um certo tui como sujeito político que vai votar ou toma a palavra em
jogo de verdade. Meu primeiro problema foi: o que ocorreu, uma assembléia, ou quando você busca realizar o seu desejo
por exemplo, para que a loucura tenha sido problematizada a em uma relação sexual. Há, indubitavelmente, relações e in-
partir de um certo momento e após um certo número de pro- terferências entre essas diferentes formas do sujeito; porém,
cessos, como uma doença decorrente de uma certa medicina? não estamos na presença do mesmo tipo de sujeito. Em cada
Como o sujeito louco foi situado nesse jogo de verdade defini- caso, se exercem, se estabelecem consigo mesmo formas de
do por um saber ou por um modelo médico? E fazendo essa relação diferentes. E o que me interessa é, precisamente, a
análise me dei conta de que, contrariamente ao que era um constituição histórica dessas diferentes formas do sujeito, em
tanto habitual naquela época - por volta do início dos anos 60 relação aos jogos de verdade.
-, não se podia certamente dar conta daquele fenômeno sim- - Mas um siyeito louco, doente, delinqüente - taluez mesmo
plesmente falando da ideologia. Havia, de fato~ - o s4ieito sexual - era um s4ieito que era objeto de um discurso
basicamente essa grande prática da internação desenvolvida teórico, um siyeito, digamos, "passivo", enquanto o sujeito de
desde o início do século XVII e que foi a condição para a inser- que o senhor falaua nos dois últimos anos em seus cursos n.o
ção do sujeito louco nesse tipo de jogo de verdade - _que m.e re- College de Franc:e é um styeito "ativo", politicamente ativo,, o
metiam ao problema das JE.s ~ oder, mmto mais do cuidado de si diz respeito a todos os problemas da prática polí-
que ao problema da ideologia. Assim, fui levado a colocar o tica, do gouerno etc. Parece que há no senhor uma mudança
problema saber /poder. que é para mim não o problema fun- não de perspectiva, mas de problemática.
damental, mas um instrumento que permite analisar, da ma- - Se é verdade, por exemplo, que a constituição do sujeito
neira que m.e parece mais exata, o problema das relações louco pode ser efetivamente considerada como a conseqüên-
entre sujeito e jogos de verdade. . . cia de um sistema de coerção - é o sujeito passivo-, o senhor
- Mas o senhor sempre nos "impediu» defalar sobre o sigetio sabe muito bem que o sujeito louco não é um sujeito não livre
em geral. e que, precisamente, o doente mental se !::Qflstitui~ omo s.w~j-
- Não, eu não "impedi". Talvez tenha feito formulações ina- to lo.11Co em relação e diante daquele gue o declara louco. A
dequadas. O que eu recusei foi precisamente que se fizesse (1ÜstefüDque foi tão Importante na história da psiquiatria êno
previamente uma teoria do sujeito - como seria possível fazer, mundo asilar do século XIX, parece ser a própria ilustração da
por exemplo, na fenomenologia ou no existencialismo-, e que, maneira pela qual o sujeito se constitui como sujeito louco. E
a partir desta, se colocasse a questão de saber corno, por não foi absolutamente por acaso que os grandes fenômenos
276 Mtchel Foucault - Ditos e Escritos 1984 -A Ética do Cuidado de Si como Prática da Liberdade 277

da histeiia foram observados precisamente onde havia um pre, dos dois lados, pelo menos uma certa forma de liberdade.
máximo de coerção para obrigar os indivíduos a se constituí- Mesmo quando a relação de poder é completamente desequili-
rem coroo loucos. Por outro lado, e inversamente, eu diria que, brada, quando verdadeiramente se pode dizer que um tem
se agora me interesso de fato pela maneira com a qual o su- todo poder sobre o outro, um poder só pode se exercer sobre o
jeito se constitui de uma maneira ativa, através das práticas •outro à_medida_q.ue ainda reste a esse último a possibilidade
de si.~ ssas -erãtiZàs nào-sª-º· ~ etanto~ lg!!_m,a coisa.g_Y&.Q_ e se matar de pular Qelajanela ou de matar o outro. Isso sig-
próprio indivíduo7 nvenle. São esquemas que ele encontra em nifica que, nas relações de poder, há necessariamente possi-
sua cultura e- que- me sãopropostos, sugeridos, impostos bilidade de resistência, pois se não hou'-:esse possibilidade de
por sua cultura, sua sociedade e seu grupo socié!l. ~Sia - de resistência violenta, de fuga, de sufitenugios,
- Pãrece que haueria uma espécie de defteiência em sua pro- de estratégias que invertam a situação-, não haveria de forma
blemática, ou seja, a concepção de uma resistência contra o po- alguma relações de poder. Sendo esta a forma geral, recu-
der; e isso supõe um si.geito muito ativo, muito cuidadoso em so-me a responder à questão que às vezes me propõem: "Ora,
relação a si mesmo e aos outros. portanto, política e filosofica- se o poder está por todo lado, então não há liberdade." Res-
mente capaz. ~ pondo: se há relações de poder em todo o campo social, é por-
- Isso nos leva ao problema do que entendo por pode~ Qua- que há liberdade por todo lado. Mas há efetivamente estados
se não emprego a palavra poder, e se algumas vez€&-'O faço é de dominação. Em inúmeros casos, as relações de poder estão
sempre para resumir a expressão que sempre utilizo: as rela-· de tal forma fixadas que são perpetuamente dessimétiicas e
ções de poder. Mas há esquemas prontos: quando se fala de que a margem de liberdade é extremamente limitada. Para to-
poder, as pessoas pen sam imediatamente em uma estrutura mar um exemplo, sem dúvida muito esquemático, na estrutu-
política, em um governo, em uma classe social dominante, no ra conjugal tradicional da sociedade dos séculos XVIII e XIX.
senhor diante do escravo etc. Não é absolutamente o que pen- não se pode dizer que só havia o poder do homem; a mulher
so quando falo das relações de poder. Quero dizer que, nas podia fazer uma porção de coisas: enganá-lo, sunupiar-lhe o
relações humanas, quaisquer que sejam elas - quer se trate dinheiro, recusar-se sexualmente. Ela se mantinha, entretan-
de comunicar verbalmente, como o fazemos agora, ou se tra- 1 to, em um estado de dominação, já que tudo isso não passava
te de relações amorosas, institucionais ou econômicas-, o po- finalmente de um certo número de astúcias que jamais chega-
der está sempre presente: quero dizer, a relação em que cada
vam a inverter a situação. Nesse caso de dominação - econô-
/ um procura dirigir a conduta do outro. São, portãnto, relaçoes mica. social, institucional ou sexual -, o problema é de fato
que se podem encontrar em diferentes níveis, sob diferentes
formas.c:,s sas relações de R,Qd.eLs.ão...móveis, ou seja, podem s e saber onde vai se formar a resistência. Estará, por exemplo,
modificar, não são dadas de uma vez or todas. O fato, por em uma classe operária que vai resistir à dominação política -
exemplo~ de eu ser mais velho e de que no iníciÕ os senhores no sindicato. no partido - e de que forma - a greve, a greve ge-
tenham ficado intimidados, pode se inverter durante a conver- ral, a revolução, a luta parlamentar? Em tal situação de domi.-
sa, e serei eu quem poderá ficar intimidado diante de alguém, nação, é preciso responder a todas essas questões de uma
precisamente por ser ele mais jovem."-Essas relaç.õ.~ poder maneira específica, em função do tipo e da forma precisa de
~ _rtant~ ôveis, reversíveis e instáveis. Certamente é dominação. Mas a afirmação: "Vocês vêem poder por todo
preciso enfatizar também que só é possível haver relações de lado: então não há lugar para a liberdade", me parece total-
poder quando os sujeitos forem livres. Se um dos dois estiver mente inadequada. Não é possível me atribuir a idéia de que o
completamente à disposição do outro e se tornar sua coisa, poder é um sistema de dom.inação que controla tudo e que não
um objeto sobre o qual ele possa exercer uma violência infini- / deLxa nenhum espaço para a liberdade.
ta e ilimitada. não haverá relações de poder. Portanto, para - O senhorfalava há pouco do homem livre e dofilósofo como
q~ ~xerça uma relação de poder, é preciso que haja sem- duas modalidades diferentes do cuidado de si. O cuidado de sí
\
278 Mlchel Foucaull - Ditos e Escritos 1984 -A ÉUca do Cuidado de SI como Prática da Liberdade 279

do fili5sofo teria uma certa especif'icidade e não se confunde bém daquela do príncipe. O filósofo se toma o conselheiro, o
com o do homem livre. pedagogo,_u_diretor de consciência do príncipe.
- Eu diria que se trata de dois Jugares diferentes no cuida- - Essa problemática do cuidado de si poderia s er o cerne de
do de si, mais do que de duas formas de cuidado de si; creio um novo pensamento politico, de uma política diferente daquela
que o cuidado é o mesmo em sua forma mas, em intensidade, que se conhece hoje em dia?
em grau de zelo por si mesmo - e, conseqüentemente, de zelo - Confesso que não avancei muito nesta direção e gostaria
também pelos outros-, o lugar do filósofo não é o de qualquer muito de voltar justamente a problemas mais contempo-
homem livre. râneos, para tentar verificar o que é possível fazer com tudo
- Será que a partir disso seria possível pensar uma ligação isso na problemática política atual. Mas tenho a impressão de
fundamental entre jUosofia e política? que, no pensamento político do século XIX- e talvez fosse pre-
- Sim, com certeza. Acredito que as relações entre filosofia ciso retroceder mais ainda, a Rousseau e a Hobbes-, o sujeito
e política são permanentes e fundamentais. Certamente, se político foi pensado essencialmente como sujeito de direito,
c onsiderarmos a história do cuidado de si no pensamento gre- quer em termos naturalistas, quer em termos do direito posi-
go, a relação com a política é evidente. E de uma forma, aliás, tivo. Em contrapartida, parece que a questão do sujeito ético é
muito complexa: por um lado. vê-se, por exemplo, Sócrates - alguma coisa que não tem muito espaço no pensamento políti-
tanto em Platão, no Alcibíades.4 quanto em Xenofonte, nas co contemporâneo. Enfim, não gosto de responder a questões
Mémorables5 - . que interpela os jovens dizendo-lhes: ~Não. que não tenha examínado. Gostaria, entretanto, de poder re-
mas então me diga, queres te tornar um homem político, tomar essas questões que abordei através da cultura antiga.
governar a cidade, ocupar-te dos outros. mas tu não te ocu- - Qual seria a relação entre a uia da filosofia, que leva ao co-
paste de ti mesmo, e se não te ocupas de ti mesmo, serás um nhecimento de si. e a uia da espiritualidade?
mau governante": dentro dessa perspectiva, o cuidado de si apa- - Entendo a espiritualidade - mas não estou certo de que
rece como uma condição pedagógica, ética e também ontológi- esta seja uma definição que possa se manter por muito tempo
ca para a constituição do bom governante. Constituir-se como - como aquilo que se refere precisamente ao acesso do sujeito
sujeito que governa implica que se tenha se constituíd_o a um certo modo de ser e às transformações que o sujeito deve
como sujeito que cuida de si. Mas, por outro lado, vemos Só- operar em si mesmo para atingir esse modo de ser. Acredito
crates dizer na Apologia:6 "Eu interpelo todo mundo", pois que, na espiritualidade antiga, havia identidade ou quase, en-
todo mundo deve se ocupar de si mesmo; mas ldgo acrescen- tre essa espiritualidade e a filosofia. Em todo caso, a preocu-
ta: 7 "Fazendo isso, presto o maior serviço à cidade e, em vez de pação mais importante da filosofia girava em torno de si, o
me punir, vocês deveriam me recompensar ainda mais do que conhecimento do mundo vindo depois e, na maior parte do
vocês recompensam um vencedor dos jogos olímpicos." Há, tempo, como base para esse cuidado de si. Quando se lê Des-
portanto, uma articulação muito forte entre filosofia e política, cartes, é surpreendente encontrar nas Meditações exatamen-
que se desenvolverá a seguir, justamente quando o filósofo ti-
te esse mesmo cuidado espiritual, para aceder a um modo de
ver não somente que cuidar da alma dos cidadãos, mas tam-
ser no qual a dúvida não será mais permitida e no qual enfim
se saberá; 8 mas defmindo dessa forma o modo de ser ao qual a
filosofia dá acesso, percebe-se que esse modo de ser é inteira-
4. Platão, Akibiade, op. cít.., 124b, p. 92, l27d-e, p. 99. mente definido pelo conhecimento, e é certamente como aces-
5. Xenofonte, Mém.orabl.es, livro III. cap. VII, 9 {trad. É. Chambry). Paris, Gar-
nJer. coJ. "Classlques Gamter•, 1935, p. 412.
6. Platão. Apologíe de Socrate. 30b (trad. M. Crotset), Paris, Les Belles Lettrc~.
"Collectlon des Universttés de France•, 1925, p. 157. 8. Descartes, Méditations sur laphilosophie premiêre (1641), in Oewres, Par1s,
7. lbid. .. 36c-d, p. 166. Gallimard, COI. "Bíbllothêque de la Plêiade", 1952. ps. 253-334.
r
1 280 Mlchel Foucault - Ditos e Escritos 1984 -A Ética do Cuidado de Si como Práttca da Liberdade 281

so ao sujeito que conhece ou àquele que qualificará. o sujci~o que não remonta apenas ao século XX - que manteve em um
como tal que se definirá a filosofia. Desse ponto de VISta, creio certo sentido e freqüentemente uma relação de hostilidade
que ela sobrepõe as funções da espiritualidade ao ideal de um com uma ciência, ou em todo caso com uma tecnologia garan-
fundamento da cientlflcidade. tida em termos de verdade. Mas. de fato, essa ecologia tam-
- Essa noção de cuidado de si, no sentido clássico, deveria bém falava um discurso de verdade: era possível fazer a critica
ser atualizada contra esse pensamento moderno? em nome de um conhecimento da natureza, do equilíbrio dos
- Absolutamente. De forma alguma faço isso para dizer: processos do ser vivo. Escapava-se então de uma dominação
"Infelizmente, esquecemos o cuidado de si; pois bem, o cuida- da verdade, não jogando um jogo totalmente estranho ao jogo
do de si é a chave de tudo. Nada é mais estranho para mim do
M da verdade, mas jogando-o de outra forma ou jogando um ou-
que a idéia de que a filosofia se desviou em um dado momento tro jogo, uma outra partida, outros trunfos no jogo da verda-
e esqueceu alguma coisa e que existe em algum lugar de sua de. Acredito que o mesmo aconteça na ordem da política, na
história um princípio, um fundamento que seria preciso re- qual era possível fazer a critica do político - a partir, por exem-
descobrir. Acredito que todas essas formas de análise, quer plo, das conseqüências do estado de dominação dessa política
assumam uma forma radical, dizendo que. desde o seu ponto inconveniente-. mas só era possível fazê-lo de outra forma jo-
de partida, a filosofia foi esquecida, quer assumam uma forma gando um certo jogo de verdade, mostrando quais são suas
muito mais histórica, dizendo: "Veja. em tal filosofia, alguma conseqüências, mostrando que há outras possibilidades ra-
coisa foi esquecida", não são muito interessantes, não se pode cionais. ensinando às pessoas o que elas ignoram sobre sua
deduzir delas muita coisa. O que, entretanto, não significa própria situação, sobre suas condições de trabalho, sobre sua
que o contato com esta ou aquela filosofia não possa prod~zir exploração.
alguma coisa, mas seria preciso então enfatizar que essa coisa - O senhor não acha que, a respeito da questão dos jogos de
é nova. verdade e dos jogos de poder. se pode constatar na história a
- Isso n.os faz propor a questão: por que se deveria atual- presença de uma modalidade particular dessesjogos de verda-
mente ter acesso à verdade, no sentido político, ou seja, no de, que tería um status particular em relaçdo a todas as outras
sentido da estratégia política contra os diversos pontos de "blo- possibilidades dejogos de verdade e de poder e que se caracte-
queio" do poder no sistema relacional? rtzaria. por sua essencial abertura, sua oposição a qualquer
- Este é efetivamente um problema: afinal, por que a verda- bloqueio do poder; ao poder; portanto, no sentido da domina-
de? Por que nos preocupamos com a verdade, aliás, mais do ção-submissão?
que conosco? E por que somente cuidamos de nós mesmo~ - Sim. é claro. Mas. quando falo de relações de poder e de
através da preocupação com a verdade? Penso que tocamos a1 jogos de verdade, não quero de forma alguma dizer que os jo-
em uma questão fundamental e que é , eu diria, a questão do gos de verdade não passem. tanto um quanto o outro, das
Ocidente: o que fez com que toda a cultura ocidental passas~e relações de poder que quero mascarar - esta seria uma carica-
a girar em torno dessa obrtgação de verdade, que assumiu :7a- tura assustadora. Meu problema é, como já disse, saber como
rias formas diferentes? Sendo as coisas como são, nada pode os jogos de verdade podem se situar e estar ligados a relações
mostrar até o presente que seria possível definir uma estraté- de poder. Pode-se mostrar, por exemplo, que a medtcalização
gia fora dela. É certamente nesse campo da obrigação de ver- da loucura, ou seja. a organizaçào de um saber médico em
dade que é possível se deslocar, de uma maneira ou de outra. torno dos indivíduos designados como loucos, esteve ligada a
algumas vezes contra os efeitos de dom~a~ão qu~ __POd~m toda uma série de processos sociais, de ordem econômica em
estar ligados às estruturas de verdade ou as mstltutçoes u~- um dado momento, mas também a instituições e a práticas de
carregadas da verdade. Para dizer as coisas muito esquemah- poder. Esse fato não abala de forma alguma a validade cientí-
camente, podemos encontrar numerosos exemplos: houve fica ou a eficácia terapêutica da psiquiatria: ele não a garante.
todo um movimento dito "ecológico" - aliás, muito antigo. e· mas tampouco a anula. Que a matemática. por exemplo. este-
11

282 Michel Foucault - Ditos e Escritos


1984 - A Ética do Cuidado de Si como Prática da Liberdade 283

ja ligada - de uma maneira aliãs totalmente diferente da p~i- alguma coisa diferente e de mudar mais ou menos tal ou tal
quiatria - às estruturas de poder, é també~ verdade, nao regra, e mesmo eventualmente todo o conjunto do jogo de ver-
fosse a maneira como ela é ensinada, a maneira como o con- dade. Isso foi sem dúvida o que deu ao Ocidente, em relação
senso da matemática se organiza, funciona em circuito fecha- às outras sociedades, possibilidades de desenvolvimento que
do, tem seus valores, determina. o que é bem (verdade) ou mal não se encontram em outros lugares. Quem diz a verdade?
(falso} na matemática etc. Isso não significa de forma alguma
Indivíduos que são livres, que organizam um certo consenso e
que a matemática seja apenas um jogo de poder, mas ~ue o
se encontram inseridos em uma certa rede de práticas de po-
jogo de verdade da matemática esteja de uma certa ~aneira_ll- der e de instituições coercitivas.
gado, e sem que isso abale de forma alguma sua valtdade, a Jo-
- A uerdade não será então uma construção?
gos e a instituições de poder. É claro _que, ~m um certo
número de casos, as ligações são tais que e perfeitamente pos- - Depende: há Jogos de verdade nos quais a verdade é uma
sível fazer a história da matemática sem levar isso em conta, construção e outros em que ela não o é. É possível haver, por
embora essa problemática seja sempre interessante e os h!s - exemplo, um jogo de verdade que consiste em descrever as
toriadores da matemática tenham começado a estudar a his- coisas dessa ou daquela maneira.: aquele que faz uma descri-
tória de suas instituições. Enfim, é claro que essa relação que ção antropológica de uma sociedade não faz uma construção,
é possível h aver entre as relações de poder e os jogos d~ verd~- mas uma descrição - que tem por sua vez um certo número de
de na matemática é totalmente diferente daquela que e poss1- regras, historicamente mutantes, de forma que é possível di-
vel h aver na psiquiatria; de qualquer forma, n ão é possível de zer, até certo ponto, que se trata de uma construção em rela-
forma alguma dizer que os jogos de verdade não passem nada ção a uma outra descrição. Isso não significa que não se está
além de Jogos de poder. . . diante de nada e que tudo é fmto da cabeça de alguém. A par-
- Esta questão remete ao problema do s uJeito, uma vez que, tir do que se pode dizer, por exemplo, a respeito dessa trans-
nos jogos de verdade, trata-se de saber quem diz a verdad_e, formação dos jogos de verdade, alguns concluem que se disse
como a diz e por que a diz. Pois, no jogo de verdade, pode-seJo- que nada existia - acharam que eu dizia que a loucura não
gar dizendo a verdade: há umjogo,joga-se à vera ou a verdade existia, quando o problema era totalmente inverso: tratava-se
éumjogo. _ ... .. de s aber como a loucura, nas diferentes definições que lhe fo-
- A palavra "jogo" pode induzir em erro: qu~do digo Jogo , ram dadas, em um certo momento, pôde ser integrada em um
me refiro a um conjunto de regras de produçao da ver~ade. campo institucional que a constituía como doença mental.
Não um jogo no sentido de imitar ou de representar... ; e um ocupando um certo lugar ao lado das outras doenças.
conjunto de procedimentos que condu:em a um cert~ res1:11ta: - Na realidade, há também um problema de comunicação no
do, que pode ser considerado, em funça? dos seu_s pnncfp1os e cerne do problema da verdade, o da transparência das pala-
das suas regras de procedimento, vãhdo ou nao. ganho ou vras do discurso. Aquele que tem a possibUid.ade de formular
perda. verdades também tem um poder; o poder de poder dizer a ver-
- Há sempre o problema do "quem": trata-se de um grupo. d<' dade e de expressá-la como quiser.
um conjunto? _ - Sim. No entanto, isso não significa que o que ele diz não
- Pode ser um grupo, um indivíduo. EXiSte ru de fato _w~1 seja verdade, como a maior parte das pessoas acredita: quando
problema. Pode-se observar, no que diz respeito a esses mu 111 as fazemos constatar que pode haver uma relação entre a ver-
pios Jogos de verdade, que aquilo que sempre car~ctertzou dade e o poder, elas diZem: "Ah, bom! Então nao é a verdade!"
nossa sociedade, desde a época grega, é o fato de nao haw , - Isso faz parte do problema da comunicação, pois, em uma
uma definição fechada e imperativa dos Jogos de verdade qw· sociedade em que a comunicação possui um grau de transpa-
seriam permitidos, excluindo-se todos os outros. Sempre ha rência muito elevado, os jogos de verdade talvez sf#am. mais in-
possibilidade, em determinado jogo de verdade, de descobrl1 dependentes das estruturas de poder.
284 Michel Foucault - Ditos e Escritos 1984 - A Ética do Cuidado de Si como Prática da Uberdade 285

- O senhor tocou em um problema importante: imagino estudante, à tutela de um professor autoritário etc. Acredito
que o senhor tenha me dito isso pensando um pouco em Ha- que é preciso colocar esse problema em termos de regras de
bermas. Tenho muito interesse no que faz Habermas, sei que direito, de técnicas racionais de governo e de êthos, de prática
ele não está absolutamente de acordo com o que digo - con- de si e de liberdade.
cordo um pouco mais com o que ele diz-, mas há contudo al- - Poderíamos entender o que o senhor acaba de dizer como os
guma coisa que sempre foi para mim um problema: quando critériosfundamentais do que o senhor chamou de uma nova éti·
ele dá às relações de comunicação esse lugar tão importante ca? Tratar-se-ia de tentar jogar com o mínimo de dominação .. .
e, sobretudo, uma função que eu diria "utópica". A idéia de - Acredito que este é efetivamente o ponto de articulação
que poderia haver um tal estado de comunicação no qual os entre a preocupação ética e a luta política pelo respeito dos di-
jogos de verdade poderiam circular sem obstáculos, sem res- reitos, entre a reflexão critica contra as técnicas abusivas de
trições e sem efeitos coercitivos me parece da ordem da uto- governo e a investigação ética que permite instituir a liberda-
pia. Trata-se precisamente de não ver que as relações de de individual.
poder não são alguma coisa má em si mesmas, das quais seria - Quando Sartrefala de poder como mal supremo, parece fa-
necessário se libertar; acredito que não pode haver sociedade zer al1!5àO à realidade do poder como dominação; provavel-
sem relações de poder, se elas forem entendidas como estraté- mente, o senhor concorda com Sartre.
gias através das quais os indivíduos tentam conduzir, deter- - Sim, acredito que todas essas noções tenham sido mal
minar a conduta dos outros. O problema não é, portanto, definidas e que não se saiba muito bem do que se fala. Eu
tentar dissolvê-las na utopia de uma comunicação perfeita- mesmo não tenho certeza, quando comecei a me interessar
mente transparente, mas se imporem regras de direito, técni- por esse problema do poder, de ter falado dele muito clara-
cas de gestão e também a moral, o êthos, a prática de si, que mente nem de ter empregado as palavras adequadas. Tenho,
permitirão, nesses jogos de poder, jogar com o mínimo possí- agora, uma visão muito mais clara de tudo isso; acho que é
vel de dominação. preciso distinguir as relações de poder como jogos estratégi-
- O senhor está muito distante de Sartre, que nos dizia: "O cos entre liberdades - jogos estratégicos que fazem com que
poder é o mal." uns tentem determinar a conduta dos outros. ao que os ou-
- Sim, e freqüentemente me atribuíram essa idéia, que está tros tentam responder não deixando sua conduta ser determi-
muito distante do que penso. O poder não é o mal. O pader são nada ou determinando em troca a conduta dos outros - e os
jogos estratégicos. Sabe-se muito bem que o poder não é o estados de dominação, que são o que geralmente se chama de
mal! Considerem, por exemplo, as relações sexuais ou amoro- poder. E, entre os dois. entre os jogos de poder e os estados de
sas: exercer poder sobre o outro, em uma espécie de jogo es- dominação, temos as tecnologias governamentais, dando a
tratégico aberto, em que as coisas poderão se inverter, não é o esse termo um sentido muito amplo - trata-se tanto da manei-
mal; isso faz parte do amor, da paixão, do prazer sexual. To- ra com que se governa sua mulher, seus filhos, quanto da ma-
memos também alguma coisa que foi objeto de criticas fre- neira com que se dirige uma instituição. A análise dessas
qüentemente justificadas: a instituição pedagógica. Não vejo técnicas é necessária, porque muito freqüentemente é através
onde está o mal na prática de alguém que, em um dado jogo de desse tipo de técnicas que se estabelecem e se mantêm os es-
verdade. sabendo mais do que um outro, lhe diz o que é preci- tados de dominação. Em minha análise do poder, há esses
so fazer, ensina-lhe, transmite-lhe um saber, comunica-lhe três níveis: as relações estratégicas, as técnicas de governo e
técnicas; o problema é de preferência saber como será possí- os estados de dominação.
vel evitar nessas práticas - nas quais o poder não pode deixar - Em seu curso sobre a hermenêutica d.o sr.yeíto se encontra
de ser exercido e não é ruim em si mesmo - os efeitos de domi- um trecho no qual o senhor diz que o único ponto original e útil
nação que farão com que um garoto seja submetido à au- de resistência ao poder político está na relação de si consigo
toridade arbitrária e inútil de um professor prtmárto; um mesmo.
286 Michel Foucault - Ditos e .E scritos 1984 -A Ética do Cuidado de Si como Prática da Líberdade 287

- Não acredito que o único ponto de resistência possível ao -0 senhor pensa que a to.reja dafilosofia é advertir dos peri.-
poder político - entendido justamente como estado de domi- gos do poder?
nação - esteja na relação de si consigo mesmo. Digo que a go- - Essa tarefa sempre foi uma grande função da filosofia.
vernabilidade implica a relação de si consigo mesmo, o que Em sua vertente crítica - entendo crítica no sentido amplo - a
significa justamente que, nessa noção de governabilidade, filosofia é justamente o que questiona todos os fenômenos de
Viso ao conjunto das práticas pelas quais é possível constituir, dominação em qualquer nível e em qualquer forma com que
definir, organizar, instrumentalizar as estratégias que os indi- eles se apresentem - política, econômica, sexual, institucio-
víduos. em sua liberdade, podem ter uns em relação aos ou- nal. Essa função crítica da filosofia decorre. até certo ponto,
tros. São indivíduos livres que tentam controlar, determinar, do imperativo socrático: "Ocupa-te de ti mesmo". ou seja:
delimitar a liberdade dos outros e, para fazê-lo, dispõem de "Constitua-te livremente, pelo domínio de ti mesmo."
certos instrumentos para governar os outros. Isso se funda- ;/
menta então na liberdade. na relação de si consigo mesmo e
na relação com o outro. Ao passo que, se você tenta analisar o
poder não a partir da liberdade, das estratégias e da governa-
bilidade, mas a partir da instituição política, só poderá enca-
rar o sujeito como sujeito de direito. Temos um sujeito que era
dotado de direitos ou que não o era e que. pela instituição da
sociedade política, recebeu ou perdeu direitos: através disso.
somos remetidos a uma concepção jurtdica do sujeito. Em
contrapartida, a noção de governabilidade permite, acredito,
fazer valer a liberdade do sujeito e a relação com os outros, ou
seja. o que constitui a próprta matéria da ética.
- O senhor pensa que a filosofia tem alguma coisa a dizer so-
bre o porquê dessa tendência a que,·er determinar a conduta do
outro?
- Essa maneira de determinar a conduta dos outros assu-
mirá formas muito diferentes. suscitará apetites e desejos de
intensidades muito vartadas segundo as sociedades. Não co-
nheço absolutamente antropologia, mas é possível imaginar
que há sociedades nas quais a maneira com que se dirige a
conduta dos outros é tão bem regulada antecipadamente que
todos os jogos são, de qualquer forma, realizados. Em com-
pensação, em uma sociedade como a nossa- isso é muito evi-
dente, por exemplo, nas relações familiares, nas sexuais ou
afetivas -, os jogos podem ser extremamente numerosos e,
conseqüentemente, o desejo de determinar a conduta dos ou-
tros é muito maior. Entretanto, quanto mais as pessoas forem
livres umas em relação às outras, maior será o desejo tanto de
umas como de outras de determinar a conduta das outras.
Quanto mais o jogo é aberto. mais ele é atraente e fascinante.

' t
1984- Uma Estética da Existência 289
,y
1984 e~giram muito p:eparo, muitos esforços e que me deixaram <fi.//
ate o final com nao poucas incertezas e hesitações. ~
- Há sempre uma certa "intencionalidade" em seus livros
que.freqüentemente escapa aos leitores. A Histótia da loucura
Uma Estética da Existência era, no fundo, a história da constituição desse saber que se
chama psicologia; As palavras e as coisas era a arqueologia
das ciências humanas; Vigiar e punir, a focalização das disci-
plinas cw corpo e da alma. Talvez o que esteja no centro de seus
últimos livros seja o que o senhor chama de "jogos de verdade".
"Uma estética da eXístência" (entrevista com A. Fontanal, Le monde, 15-16 de - Não creio que haja uma grande diferença entre esses livros
julho de 1984. p. XI.
e os precedentes. Quando escrevemos livros, desejamos que
Esta entrevtsta, publicada inicialmente com o título ..Alle fonti del p1acere". in estes modifiquem inteiramente tudo aquilo que pensávamos e
Panorama, n 2 945, de 28 de maio de 1984, foí de tal forma mutilada e defor-
mada que Alessandro Fontana teve que fazer um esclareclmento público. Ele ~ue, no final, nos percebamos inteiramente diferentes do que
escreveu então a M. Foucault dizendo que ir ia consertá-la integralmente. eramas no ponto de partida. Depois nos damos conta de que no
fundo pouco nos modificamos. Talvez tenhamos mudado de
perspectiva, girado em torno do problema, que é sempre o mes-
- Sete anos se passaram desde A vontade de saber. Sei que mo, isto é, as relações entre 0 sujeito, a verdade e a constituição
seus últimos livros lhe colocaram problemas e que o senhor teve da experiência. Procurei analisar de que modo domínios como
dificuldades. Gostaria que o senhor falasse dessas díficulda- os da loucura, da sexualidade, da delinqüência podem entrar
des e de sua viagem pelo mundo greco-romano que era, senão em um certo jogo da verdade e como, por outro lado, através
desconhecido pelo senhor; pelo menos um pouco distante. dessa inserção da prática humana, do comportamento. no jogo
- As dificuldades provinham do próprio projeto, que pre- da verdade, o próprio sujeito é afetado. Era este o problema da
tendia Justamente evitá-las. história da loucura, da sexualidade.
Tendo programado meu trabalho em vários volumes a par- - Não se trata nofundo de uma nova genealogia da moral?
tir de um plano preparado de antemão, eu me disse que havia - Não fossem a solenidade do título e a marca grandiosa
chegado o momento em que poderia escrevê-los sem dificulda- que Nietzsche lhe imprimiu, eu diria que sim.
de. e desenvolver simplesmente o que tinha em mente, confir- - ~m um artigo publicado em Le débat de novembro de
mando-o pelo trabalho de pesquisa empírica. 1983, o senhor falou, a propósito da Antigüidade, de morais
Morri de tédio escrevendo esses livros: eles se pareciam de- voltadas para a ética e de morais voltadas para o código. Tra·
mais com os precedentes. Para alguns, escrever um livro sem- ta-se da partilha entre as morais greco-romanas e aquelas que
pre implica correr algum risco. Por exemplo, não conseguir nasceram com o cristianismo?
escrevê-lo. Quando se sabe de antemão onde se quer chegar, - ~om o cristianismo, vimos se inaugurar lentamente, pro-
falta uma dimensão da experiência, a que consiste precisa- gressivamente, uma mudança em relação às morais antigas,
mente em escrever um livro correndo o risco de não chegar a o que eram essencialmente uma prática, um estilo de liberdade..
fim. Tentei assim mudar o projeto geral: ao invés de estudar a Naturalmente, havia também certas normas de comporta-
sexualidade nos confins do saber e do poder, tentei pesquisar mento que regravam a conduta de cada um. Porém, na Anti-
mais para trás como havia se constituído, para o próprio güidade, a vontade de ser um sujeito moral, a busca de uma
sujeito, a experiência de sua sexualidade como desejo. Para
destacar essa problemática, fui levado a estudar mais porme-
nortzadamente te.xtos muito antigos, latinos e gregos, que me 1. Ver O Uso d.os Prazeres e as Técnicas de Si neste volume.
290 M!chel Foucault - Ditos e Escrttos
1984- Uma Estética da Existência 291

ética da existência eram principalmente um esforço para afir- - Há cinco anos, começou-se a ler, em seu seminário do Col- }
mar a sua liberdade e para dar à sua própria vida uma certa lege de France, Hayek e von Mises. 2 Então as pessoas pensa- l
fonna. na qual era possível se reconhecer, ser reconhecido pe-
ram: através de uma reflexão sobre o liberalismo, Foucault está (
los outros e na qual a própria posteridade podia encontrar um preparando um livro sobre a política. O liberalismo parecia tam-
exemplo.
bém um desvio para encontrar o indivíduo além dos mecanis- \
Quanto a essa elaboração de sua própria vida como uma mos do poder. Suas criticas ao sigeiro fenomenológico são ·
obra de arte pessoal, creio que, embora obedecesse a cânones conhecidas. Nesta época, começava-se a falar de um sujeito de
coletivos, ela estava no centro da experiência moral, da vontade práticas, e a releitura do liberalismo girou um pouco em tomo
de moral na Antigüidade, ao passo que, no cristianismo, com a disso. Não é mistério para ninguém que muítas uezes se disse o
religião do texto, a idéia de uma vontade de Deus, o princípio de seguinte:=não há suieito na obra de Foucault. Os~ujeitos são
uma obediência, a moral assumia muito mais a forma de um semp_re si.yeitctdQ.s,..eles são o ponto de aplicação defécrfüns:
código de regras (apenas algumas práticas ascéticas eram mais disciplinas normativas, mas jamais são sujeitos soberanos.
ligadas ao exercício de urna liberdade pessoal). ·
- É preciso distinguir. Em primeiro lugar, penso efetiva-
Da Antigüidade ao cristianismo, passa-se de uma moral 1 mente que não há um sujeito soberano, fundador, uma forma
que era essencialmente a busca de uma ética pessoal para universal de sujeito que poderíamos encontrar em todos os lu-
uma moral como obediência a um sistema de regras. Se me in- gares. Sou muito cético e hostil em relação a essa concepção
teressei pela Antigüidade foi porque. por toda uma série dera- do sujeito. Penso, pelo contrário, que o sujeito se constitui
zões, a idéia de uma moral como obediência a um código de através das práticas de sujeição ou, de maneira mais autôno-
regras está desaparecendo, já desapareceu. E a esta ausência ma, através de práticas de liberação, de liberdade. como na
de moral correspon deve corresponder uma busca que é Antigüidade - a partir, obviamente, de um certo número de re-
aquela de uma stética da exísténcí~~)' gras, de estilos, de convenções que podemos encontrar no
-Todo o saber acumulã.ao, nesses últimos anos, sobre o cor- meio cultural.
po, a sexualidade, as disciplinas, melhorou nossa relação com
- Isso nos leva à atualidade política. Os tempos são dificeis:
os outros, nosso ser no mundo?
no plano ínternacional. há a chantagem de Yalta e o confronto
- Não posso me impedir de pensar que toda uma série de de blocos; no plano interrw, o espectro da crise. Em relação a
coisas que foram colocadas em discussão, mesmo indepen-
tudo isso, parece que há apenas entre a esquerda e a direita
dentemente das escolhas políticas, em torno de certas formas uma diferença de estilo. Como determinar-se então, diante des·
de existência, de regras de comportamento etc., foram profun- sa realidade e de suas imposições, se ela não apresenta apa·
damente benéficas: a relação com o corpo, a relação entre ho- rentemente altematiua possível?
111 mem e mulher, com a sexualidade.
- Creio que sua questão é ao mesmo tempo justa e um pou-
11 - Então esses saberes nos qjudaram a viver melhor.
co fechada. Seria preciso decompô-la em duas ordens de
- Não houve apenas uma transformação nas preocupa-
questões: em primeiro lugar, será preciso aceitar ou não? Em
ções, mas também no discurso filosófico, teórico e critico: de
segundo lugar, se não aceitarmos, o que é possível fazer?
fato, na maior parte das análises feitas, não se sugeria às pes-
Devemos responder à primeira questão sem nenhuma ambi-
soas o que elas devertam ser, o que devertam fazer, no que de-
güidade: é preciso não aceitar os resíduos da guerra, o prolon-
vertam crer e pensar. Tratava-se antes de fazer aparecer d,!:_
que modo, até hoje, os mecanismos sociais tinham funciona-
d.· º· .corno as formas de repressão e. de imposição tinham atuj
-
1/ gamento de uma certa situação estratégica na Europa, nem o
fato de que a metade da Europa se tenha deixado dominar.
do e, a partir disso, me parece que se permitia que as pessoas 1-\e,
tivessem a possibilidade de se determinar, de fazer - sabendo
tudo isso - a escolha de sua existência. 2. Trata-se do seminárto de 1979-1980, dedicado a certos aspectos do pensa-
mento liberal do século XIX.
292 Michel Foucault - Ditos e Escritos 1984 - Uma Estética da Existência 293

A seguir, coloca-se outra questão: "O que é possível fazer do reestruturam a siderurgia da Lorraine, quando abrem o
contra um poder como o da União Soviética, em relação ao dossiê do ensino livre?"
nosso próprio governo e com as pessoas que, dos dois lados da - Nessa descida ao inferno, que é uma longa meditru;ão,
cortina de ferro, entendem que deva ser questionada a divi- uma longa busca - uma descida na qual se vai de qualquer for·
são. tal como ela foi estabelecida?" Em relação à União Sovié- ma em busca da verdade - , que tipo de leitor o senhor gostaria
tica, não há muito a fazer, exceto ajudar, o mais eficazmente de encontrar? É Jato que, se talvez há ainda bons escritores, há
possível, os que lutam localmente. Quanto aos dois outros 'al- cada vez menos bons leitores.
vos. há muito a fazer, estamos com a faca e o queijo na mão. - Eu responderia, leitores. E é verdade que não se é mais
- Não é preciso então assumir uma atitude por assim dizer lido. O primeiro livro que se escreve é lido porque não somos
hegelinna, que consiste em aceitar a realidade tal como ela é, conhecidos, porque as pessoas não sabem quem somos, e ele
tal como ela nos é apresentada. Resta uma última pergunta: é lido na desordem e na confusão, o que para mim está muito
"Existe uma verdade na política?" bem. Não há razão para que se faça não apenas o livro, mas
- Acredito muito na verdade para não supor que haja dife- também a lei do livro. A única lei é: todas as leituras são possí-
rentes verdades e diferentes maneiras de dizê-la. É claro que veis. Não vejo maior inconveniente se um livro, ao ser lido, é
não se pode pedir a um governo para dizer a verdade, toda a lido de diferentes maneiras. O grave é que, à medida que se es-
verdade. nada mais que a verdade. Em troca, é possível exigir crevem livros, já não se ê mais lido e, de deformação em defor-
dos governos uma certa verdade em relação aos projetos fi- mação, uns pegando carona nos outros, chega-se a dar do
nais, às escolhas gerais de sua tática. a um certo número de livro uma imagem absolutamente grotesca.
pontos particulares de seu programa: é a parrhesia (a livre Aqui se coloca efetivamente um problema: é preciso entrar
fala} do governado que pode, que deve interpelar o governo em na polêmica e responder a cada uma dessas deformações e,
nome do saber, da experiência que ele tem, a partir do fato de conseqüentemente, estabelecer uma lei para os leitores - o
que ele é um cidadão, sobre o que o outro faz, sobre o sentido que me repugna-. ou então deixar - o que igualmente me re-
pugna - que o livro seja deformado até se tornar a caricatura
de sua ação, sobre as decisões que ele tomou. dele mesmo?
É preciso, no entanto, evitar uma armadilha na qual os go- Haveria uma solução: a única lei sobre a imprensa. a única
vernantes querem fazer com que os intelectuais caiam. e na lei sobre o livro que eu gostaria de ver instaurada seria a proi-
qual estes freqüentemente caem: "Coloquem-se em nosso lu- bição de utilizar duas vezes o nome do autor, com um maior
gar e digam o que vocês fariam." Esta não é uma questão à direito ao anonimato e a um pseudônimo, para que cada livro
qual se tenha que responder. Tomar uma decisão em uma ma- seja lido por ele mesmo. Há livros para os quais o conhecimen-
téria qualquer implica um conhecimento dos documentos que to do autor é uma chave de inteligibilidade. Porém, exceto
nos é recusado. uma análise da situação que não se teve pos- para alguns grandes autores, para a maior parte dos outros
sibilidade de fazer. Trata-se de uma armadilha. Entretanto, esse conhecimento não serve rigorosamente para nada. Ele
não resta a menor dúvida de que, como governados, temos apenas serve de tela. Para alguém como eu, que não sou um
perfeitamente o direito de colocar as questões de verdade:3 "O grande autor mas apenas alguém que produz livros, gostaria
que vocês fazem quando, por exemplo, são hostis aos euro- que eles fossem lidos por eles mesmos, com suas imperfeições
mísseis ou quando. pelo contrário, vocês os defendem. quan- e suas eventuais qualidades.

3. Alusão ao projeto de Livre blanc que M. Foucault havta proposto a um pe•


queno grupo de trabalho que se reunia no hospital 1'amier, grupo conhecido
como "Académie Tamier".
1988 - Verdade, Poder e Si Mesmo 295

também se relaciona com categorias muito gerais, até univer-


1988 sais, e com estruturas formais. Porém o pensamento e as rela-
ções sociais são duas coisas bem diferentes. As categorias
universais da lógica não estão aptas a dar conta adequada-
mente da maneira como as pessoas realmente pensam. Entre
Verdade, Poder e Si Mesmo a hístória social e as análises formais do pensamento há uma
via, uma pista - talvez muito estreita -. a do historiador do
pensamento.
- Em História da sexualidade, o senhor se refere àquele que
"perturba a lei conw aquele que antecipa. por pouco que seja, a
'Truth, power, self' ("Verdade, poder e si.,; entreVistacom R. Martin, Universi-
dade de Vennont, 25 de outubro de 1982; trad. F. Durand-Bogaert), ú1 Hutton
liberdade futura". O senhor vê seu trabalho dessaforma?
(P. H.), Gutman (H.) e Martin (L. H.), ed., Technologies ofthe self. A seminar - Não. Durante muito tempo, as pessoas me pediram para
with Michel Fow:;ault. Amherst, Toe University of Massachusetts Press, 1988. lhes explicar o que iria acontecer e lhes fornecer um programa
ps. 9-15. para o futuro. Sabemos muito bem que, mesmo quando inspi-
rados pelas melhor es intenções, esses programas sempre se
tornam uma ferramenta, um instrumento de opressão. A Re-
- Por que o senhor decidiu vir à Universidade de Vermont? volução Francesa se serviu de Rousseau, que tanto amava a
- Para explicar mais precisamente a certas pessoas a natu- liberdade, para elaborar um modelo de opressão social. O es-
reza do meu trabalho, para conhecer a natureza dos trabalhos talinismo e o leninismo horrorizariam Marx. Meu papel - mas
delas, e para estabelecer relações permanentes. Não sou um este é um termo muito pomposo - é mostrar às pessoas que
escritor, um filósofo nem uma grande figura da vida intelectual: elas são muito mais livres do que pensam, que elas tomam por
sou um professor. Um fenômeno social me intriga: desde os verdadeiros, por evidentes certos temas fabricados em um
anos 60 certos professores tendem a se tornar homens públi- momento particular da história, e que essa pretensa evidência
cos, com as mesmas obrigações. Não quero bancar o profeta e pode ser crtticada e destruída. O papel de um intelectual é
dizer: "Sentem-se, por favor, o que tenho a diZer é muito impor- mudar alguma coisa no pensamento das pessoas.
tante." Vim para discutirmos nosso trabalho comum. - Em seus textos, o senhor parece fascinado pelos indiví-
- Muito freqüentemente o senhor é taxa.do de "filósofo", mas duos que vivem à margem da sociedade: loucos, leprosos, cri-
também de "historiador", de "estrutu.ralísta" e de "mar.A.ista". minasos, transviados, hermqfrodítas, assassinos, pensadores
Sua cadeira no College de France se intitula UHistória dos siste- obscuros. Por quê?
mas de pen.samentoH. O que isso significa? - Sou às vezes criticado por preferir pensadores marginais
- Não considero necessário saber exatamente quem sou. O a basear meus exemplos nos fundamentos da história tradi-
que constitui o interesse principal da vida e do trabalho é que cional. Eu lhe daria uma resposta esnobe: é impossível consi-
eles lhe permitem tornar-se diferente do que você era no iní- derar como obscuros personagens como Bopp ou Ricardo.
cio. Se, ao começar a escrever um livro, você soubesse o que - Mas qual é sei.t interesse nos rrjeitados pela sociedade?
irá dizer no final, acredita que te.lia coragem de escrevê-lo? O -Analiso as figuras e os processos obscuros por duas ra-
que vale para a escrtta e a relação amorosa vale também para zões: os processos políticos e sociais que permitiram a organi-
a vida. Só vale a pena na medida em que se ignora como zação das sociedades da Europa Ocidental não são muito
terminará. aparentes, foram esquecidos ou se tornaram habituais. Esses
Meu domínio é o da história do pensamento. O homem é processos fazem parte da nossa paisagem mais familiar e não
um ser pensante. A maneira como ele pensa tem relação com os percebemos mais. Ora, em sua maioria, eles um dia escan-
a sociedade, com a política, com a economia e com a história; dalizaram pessoas. Um dos meus objetivos é mostrar às pes-
296 Mtchel Foucault - Dttos e Escritos 1988 - Verdade. Poder e Si Mesmo 297

soas que um bom número de coisas que fazem parte de sua lhado como psicólogo em urna prisão francesa. Quando estava
paisagem familiar - que elas consideram universais - são o na Tunísia, vi pessoas serem presas por motivos políticos. e
produto de certas transformações históricas bem precisas. isso me influenciou.
Todas as minhas análises se contrapõem à idéia de necessida- - A época clássica é uma época pivô em todos os seus escri-
des universais na existência humana. Elas acentuam o cará- tos. O senhor sente nostalgí.a d.a clareza dessa época, ou da
ter arbitrário das instituições e nos mostram de que espaço de "visibilidade" da Renascença, quando tudo era unificado e ex-
liberdade ainda dispomos, quais são as mudanças que podem posto?
ainda se efetuar. - Toda essa beleza das épocas antigas é mais um efeito do
- Seus textos são porta.dores de correntes emocionais pro- que urna fonte da nostalgia. Sei perfeitamente que fomos nós
fundas raramente encontradas nas análises científicas: a an- que a inventamos. Mas é melhor sentir esse tipo de nostalgia,
gústia, em Vigiar e punir, o desespero e a esperança, em As assim como é bom, quando se têm filhos, ter uma relação sa-
palavras e as coisas, a indignação e a tristeza, em História da tisfatória com sua infância. É bom sentir nostalgia em relação
loucura. a certos períodos, desde que isso seja uma maneira de manter
- Cada um dos meus livros representa uma parte da minha uma relação refletida e positiva com o presente. Mas se a nos-
história. Por uma razão ou por outra, foi-me concedido experi- talgia se torna um motivo para se mostrar agressivo e incom-
mentar ou viver essas coisas. Tomando um exemplo simples, preensivo em relação ao presente, então é preciso bani-la.
trabalhei em um hospital psiquiátrico durante os anos 50. De- - O que o senhor lê por prazer?
pois de ter estudado filosofia, quis ver o que era a loucura: eu - Os livros e os autores que produzem em mim uma grande
tinha sido omito louco para estudar a razão, fui bastante emoção: Faulkner, Thomas Mann, o romance de Malcolm
racional para estudar a loucura. Nesse hospital, eu tinha a li- Lowry, Sous le volcan.
berdade de ir dos pacientes à equipe médica, pois não tinha - O que, intelectualmente, influenciou seu pensamento?
uma função precisa. Era a época do florescimento da neuroci- - f<'iquei surpreso quando dois dos meus amigos de Berke-
rurgia, o início da psicofarmacologia. o reino da instituição ley escreveram, em seu livro, que eu tinha sido influenciado
tradicional. Em um primeiro momento, aceitei as coisas como por Heidegger. 1 Certamente é verdade, mas ninguém na Fran-
necessárias, mas depois de três meses (tenho um pensamento ça o havia apontado. Nos anos 50, quando eu era estudante,
lento!), comecei a me perguntar: "Mas para que essas coisas lia Husserl, Sartre, Merleau-Ponty. Quando uma influência se
são necessárias?" Ao fim de três anos. deixei esse emprego e faz sentir com muita intensidade, procura-se abrir uma jane-
fui para a Suécia, com um sentimento de grande mal-estar la. Heidegger - e isso é bastante paradoxal - não é, para um
pessoal; lá comecei a escrever uma história dessas práticas. francês, um autor muito dificil de compreender. O fato de cada
Histórí.a da loucura era considerado o primeiro de vários vo- palavra ser um enigma não é uma condição muito ruim para
lumes. Gosto de escrever os primeiros volumes, mas detesto se compreender Heidegger. Ser e tempo é um livro difícil, mas
escrever os segundos. Viram, em meus livros, uma atitude os textos mais recentes são menos enigmáticos.
psiquiatricida. quando era uma descrição do tipo histórico. O Nietzsche foi uma revelação para mim. Tive a impressão de
senhor conhece a diferença entre uma verdadeira ciência e descobrir um autor muito diferente daquele que me havia sido
uma pseudociência? Uma verdadeira ciência reconhece e ensinado. Eu o li apaixonadamente e rompi com minha vida,
aceita sua própria história sem se sentir atacada. Quando se abandonei o emprego no hospital psiquiátrico, deiXei a Fran-
diz a um psiquiatra que sua instituição nasceu do leprosário.
ele se enfurece.
- Qual foi a origem de Vigiar e punir? l. Dreyfus (H.) e Rablnow (P.), MicheLFoucault beyondstructuralism and her·
- Devo confessar que não tenho nenhuma ligação direta meneutics, Chicago, Uruversity of Chicago Press, 1982 (Michel Foucault. un
com as prisões ou com os prisioneiros, embora tenha traba- parcours philosophíque, tTad. F. Durand-Bogaert. Paris, Gallímard, 1984).
298 Michel Foucault - Ditos e Escritos 1988 - Verdade, Poder e Si Mesmo 299

ça: tinha o sentimento de ter sido capturado. Através de pensam sem agir. Todo mundo pensa e age ao mesmo tempo.
Nietzsche, tinha me tomado estranho a todas essas coisas. A mane.i ra como as pessoas agem e reagem está ligada a uma
Nem sempre estou bem integrado à vida social e intelectual maneira de pensar, e essa maneira de pensar está, natural-
francesa. Quando tiver oportunidade, deixo a França. Se eu mente. ligada à tradição. O fenômeno que tentei analisar é
fosse mais jovem, teria emigrado para os Estados Unidos. aquele, muito complexo, pelo qual, em um tempo relativamen-
- Porquê? te curto, as pessoas passaram a reagir diferentemente aos cri-
- Vislumbro oportunidades aqui. Vocês não têm uma vida mes e aos criminosos.
intelectual e cultural homogênea. Como estrangeiro, não te- Escrevi dois tipos de livros. Um, As palavras e as coisas,
nho que me integrar. Nenhuma pressão se exerce sobre núm. tem exclusivamente como objeto o pensamento científico; o
Há aqui muitas grandes universidades, todas com interesses outro, Vigiar e punir; tem como objeto as instituições e os
diferentes. Mas, certamente, a universidade poderia me ex- principias sociais. A história da ciência experimentou um de-
cluir da maneira mais indigna. senvolvimento diferente daquele da sensibilidade. Para serre-
- O que o leva a dizer que a universidade poderia exdui-lo? conhecido como discurso científico, o pensamento deve
.,,,~_ Tenho muito orgulho de que certas pessoas pensem que corresponder a certos critérios. Em Vigiar e punir, textos, prá-
represento um perigo para a saúde intelectual dos estudan- ticas e individuos se confrontam.
tes. Quando as pessoas começam a raciocinar nas atividades Se verdadeiramente procurei analisar as mudanças em
intelectuais em termos de saúde, é porque alguma coisa não meus livros, não foi para encontrar suas causas materiais,
vai muito bem. Para eles, sou um homem perigoso, já que sou mas para mostrar a interação entre diferentes fatores e a ma-
um criptomarxista, u.m irracionalista, um niilista.
,,. _,., - Seria possivel deduzir da leitura de As palavras e as coisas
neira como os individuas reagem. Acredito na liberdade dos
•.,· que as iniciativas individuais de reforma são impossíveis, por-
individuos. Diante da mesma situação, as pessoas reagem de
maneira muito diferente.
que as descobertas têm todos os tipos de significações e de im-
plicações que seus inventores não podem compreender. Em - O senhor conclui Vigiar e punir dizendo: "Interrompo aqui
Vigiar e punir, por exemplo, o senhor mostra que se passou su- esse livro que deve servir de pano de fundo histórico para diver-
bitamente da corrente dos trabalhos forçados à viaturafecha- sos estudos sobre o poder de normalização e a formação do sa-
da de polícia, do espetáculo do suplício ao s·e u encargo pelos ber na sociedade moderna." Que relação o senhor vê entre a
mecanismos disciplinares e pela instituição. Mas o senhor normalizaçáo e a idéia de que o homem está no centro do saber?
acentua também o Jato de que essa mudança que, na época, - Através dessas diferentes práticas - psicológicas, médi-
parecia uma reforma, não passava, na verdade, da padroniza- cas, penitenciárias, educativas - formou-se uma certa idéia,
ção dos poderes punitivos da sociedade. Como a mudança um modelo de humanidade; e essa idéia do homem tomou-se
consciente é possível? atualmente normativa, evidente, e é tomada como universal.
- Como o senhor pode me atribuir a idéia de que a mudan- Ora, é possível que o humanismo não seja universal, mas cor-
ça é impossível, já que sempre relacionei os fenômenos que eu relativo a uma situação particular. O que chamamos de hu-
analisava à ação política? Todo o trabalho de Vigiar e punir é manismo foi utilizado pelos marxistas, pelos liberais, pelos
um esforço para responder a essa questão e para mostrar de nazistas e pelos católicos. Isso não significa que devamos
que maneira um novo modo de pensamento se instaurou. rejeitar o que chamamos de "direitos do homem" e de "liberda-
. Somos todos seres que vivem e que pensam. Aquilo contra de", mas implica a impossibilidade de dizer que a liberdade ou
lo qual reajo é a ruptura que existe entre a história social e a os direitos do homem devem estar circunscritos dentro de cer-
( ) !1história das idéias. Supõe-se que os historiadores das socie- tas fronteiras. Se, por exemplo, o senhor tivesse perguntado
ldades descrevam a maneira como as pessoas agem sem pen- há 80 anos se a virtude feminina fazia parte do humanismo
sar, e os historiadores das idéias, a maneira como as pessoas universal, todo mundo teria respondido que sim.
1

300 Michel Foucault - Ditos e Escrttos

e assusta no humanismo é ue ele a ~senta uma 1988


certà forma de nossa ~tica __ç.omo um::model0 universal válido
para quaJquer tip_p_de liberdade~ Penso que nosso futuro-cõi'i'i='- -
porta mais segredos, liberdades possíveis e invenções do que o
humanismo nos permite imaginar, na representação dogmáti-
ca que fazem dele os diferentes componentes do espectro polí- A Tecnologia Política dos Indivíduos
tico: a esquerda, o centro e a direita.
- É isso o que euocam as "técnicas de si"?
- Sim. Na ocasião, o senhor disse que pensava que eu era
imprevisível. É verdade. Mas às vezes dou a Impressão de ser 'Toe polilical technology of lndMduals" ("A tecnologia política doo1nd1v·-
muito sistemático e muito rígido. duos·; Universidade de Vermont. outubro de 1982; trad. P.-E. Dauzat) l~
Os problemas que estudei são os três problemas tradicio- H1;1tton (~- H.). Gutman (H.) e Martin (L. H.J. ed., Teclmologies of the se![. A'se-
m1nar wit/1Mtchel Fou.cault, Amherst. Toe University of Massachusetts 1988
nais. 1) Que relações mantemos com a verdade através do sa- ps. 145-162. · ·
ber científico, quais são nossas relações com esses "jogos de
verdadeM tão importantes na civilização, e nos quais somos si-
multaneamente sujeitos e objetos? 2) Que relações mantemos Uma questão surgida no final do século XVIII define o qua-
com os outros. através dessas estranhas estratégias e rela- dro g~ral do que chamo de "técnicas de si". Ela se tornou um
ções de poder? Por fim. 3) quais são as relações entre verdade, dos polos da füosotla moderna. Essa questão se separa nitida-
poder e si mesmo? mente das que~tões ftlosóficas ditas tradicionais: o que é o
Gostaria de concluir a entrevista com uma pergunta: o que m_un?o? O que e o homem? O que foi feito da verdade? o que
haveria de mais clássico do que essas questões e de mais sis- f01 feito do ~onhecimento? De que modo o saber é possível? E
temático do que passar da questão um à questão dois e ã assim por diante. A meu ver, a questão surgida no final do sé-
questão três para voltar à questão um? É Justamente nesse culo XVIII é a seguinte: O que somos nesse tempo que é o nos-
ponto que me encontro. so? Voces encontrarão essa questão formulada em um texto
de Ka~t. Isso não significa que seria preciso deixar de lado as
questoes precedentes a respeito da verdade, do conhecimento
e1:c. Elas constituem, pelo contrário, um campo de análise tão
solido quanto consistente, ao qual eu daria de boa vontade a
denominação de ontologia formal da verdade. Porém acredito
q:1e a atividade filosófica concebeu um novo pólo, e que esse
polo se caracteriza pela questão. permanente e perpetuamen-
te renovada: "O que somos hoje?" Este é, a meu ver, 0 cam-
po da reflexão histórica sobre nós mesmos. Kant, Fichte He-
gel, Nietzsche, Max Weber, Husserl, Heidegger e a Escoia de
Frankfurt tentaram responder a essa questão. lnscrevendo-
n:_ie, nessa tr~~i~ão, meu objetivo é trazer respostas muito par-
c1a1s e provison~s a es~a questão através da história do pen-
samento ou, mats precJsamente. através da análise histórica
das relações entre nossas reflexões e nossas práticas na socie-
dade ocidental.
Precisemos resumidamente que, através do estudo da lou-
cura e da psiquiatria, do crime e do castigo, tentei mostrar
302 Michel Foucault - Ditos e Escritos 1988 - A Tecnologia Política dos IndiVíduos 303

como nos constituímos indiretamente pela exclusão de alguns obscura? A razão é simples. A obra de Frank é o primeiro
outros: criminosos, loucos etc. Meu atual trabalho trata, do- grande programa sistemático de saúde pública para o Estado
ravante, da questão: como constituímos diretamente nossa moderno. Ele indica, com riqueza de detalhes, o que uma ad-
identidade por meio de certas técnicas éticas de si, que se de- ministração deve fazer para garantir o abastecimento geral,
senvolveram desde a Antigüidade afé ôs ·riossõs dias? Foi esse uma moradia decente, a saúde pública, sem esquecer as insti-
o objeto do seminário. tuições médicas necessárias à boa saúde da população, em
Gostaria de estudar agora um outro campo de questões: a suma, para proteger a Vida dos indivíduos. Por esse livro, po-1
maneira pela qual, por intermédio de alguma tecnologia políti- demos perceber que o cuidado com a vida do individuo se tor-
ca dos indivíduos, fomos levados a nos reconhecermos como nou, nessa época, um dever do Estado. ..J
sociedade, como elemento de uma entidade social, como parte Na mesma época, a Revolução Francesa anuncia as gran-
de uma nação ou de um Estado. Gostaria de lhes dar um resu- des guerras nacionais da nossa era, que colocam em ação os
mo, não das técnicas de si, mas da tecnologia política dos in- exércitos nacionais e acabam, ao atingir seu apogeu, nas
divíduos. imensas carnificinas coletivas. Creio que podemos observar
Certamente, temo que os materiais de que trato sejam de- um fenômeno semelhante durante a Segunda Guerra Mun-
masiadamente técnicos e históricos para uma conferência dial. Haveria dificuldade de encontrar em toda a história
aberta ao público. Não sou absolutamente um conferencista, carnificina comparável à da Segunda Guerra Mundial e, pre-
e sei que esses materiais seriam mais adequados para um se- cisamente nesse período, nessa época, foram colocados em
minário. Porém, apesar de sua tecnicidade talvez excessiva, prática os grandes programas de proteção social, de saúde
tenho duas boas razões para apresentá-los a vocês. Em pri- pública e de assistência médica. Também nessa mesma época
meiro lugar, acredito que é um pouco pretensioso expor de foi, senão concebido, pelo menos publicado o plano Beveridge.
maneira mais ou menos profética aquilo que as pessoas de- Poderíamos resumir essa coincidência pelo slogan: Deixem-se
vem pensar. Prefiro deixá-las tirar suas próprias conclusões massacrar e nós lhes prometemos uma vida longa e agradá-
ou inferir idéias gerais das interrogações que me esforço para vel. A garantia da Vida faz dupla com uma sentença de morte.
levantar através da análise de materiais históricos bem preci- A coexistência, no seio das estruturas políticas, de enor-
sos. Acho que isso é mais respeitoso em relação à liberdade de mes máquinas de destruição e de instituições dedicadas à
cada um e, desse modo, essa é a minha abordagem. Meu se- proteção da vida individual é uma coisa desconcertante que
gundo motivo para lhes apresentar materiais tão técnicos é merece ser investigada. Ê unia das antinomias centrais de
que não vejo por que o público de uma conferência seria me- nossa razão política. E é sobre essa antinomia de nossa racio-
nos inteligente, menos informado ou menos culto do que o de nalidade política que eu gostaria de me debruçar. Não porque
um curso. Ataquemos então agora o problema da tecnologia as carnificinas coletivas sejam o efeito, o resultado ou a con-
política dos indivíduos. seqüência lógica de nossa racionalidade, nem que o Estado te-
Em 1779, foi publicado o primeiro volume de uma obra do :Qha a obrigação de cuidar dos indivíduos, já que ele tem o
alemão J. P. Frank, intitulada System einer vollstãndigen Me· direito de matar milhões de essoas. Tampouco pretendo ne-
dicinischen Polizey; cinco outros tomos deveriam segui-lo. gar que as carnificinas coletivas ou a proteção social tenham
Quando o último volume saiu da gráfica, em 1790, a Revolu- suas explicações econômicas ou suas motivações afetivas.
ção Francesa já haVia começado. 1 Por que aproximar um Perdoem-me por voltar ao mesmo ponto: somos seres
evento tão célebre quanto a Revolução Francesa dessa obra pensantes. Em outras palavras, quer matemos ou sejamos
mortos, quer façamos a guerra ou exijamos ajuda como desem-
pn;gados, quer votemos pró ou contra um governo que amputa
l. Frank (J. P .) . System eíner ool!standígen Medícínischen Poli?.ey, Mannheim. as verbas da seguridade social e aumenta as despesas milita-
e. F. Schwann. 1780-1790, 4 vol. res, somos pelo menos seres pensantes e fazemos tudo isso em
1 !

304 Michel Foucault - Ditos e Escritos 1988 - A Tecnologia Política dos Indivíduos 305

nome, certamente, de regras de conduta universais, mas tam- a certas regras. Essas regras não observam simplesmente os
bém em virtude de uma racionalidade histólica bem precisa. É costumes e as tradições, mas também um determinado co-
essa racionalidade, assim como o jogo da morte e da vida cujo nhecimento racional. Atualmente, a expressão "razão de Esta-
enquadre foi por ela definido, que eu gosta.lia de estudar em do" evoca bem mais, como sabem, o arbítrio ou a violência.
uma perspectiva histólica. Esse tipo de racionalidade, que Porém, na época. ela era entendida como urna racionalidade
constitui um dos traços essenciais da racionalidade política própria à arte de governar os Estados. De onde esta arte de go-
moderna, desenvolveu-se nos séculos XVII e XVIll através da vernar tira sua razão de ser? A resposta a essa questão provo-
idéia geral de "razão de Estado", assim como de um conjunto cou o escândalo do pensamento político nascente, na aurora
bem específico de técnicas de governo chamado, na época, em do século XVII. E, no entanto, segundo os autores citados, ela
um sentido bem particular, de polícia. é muito simples. A arte de governar é racional com a condição
Comecemos pela "razão de Estado". Lembrarei sucinta- de observar a natureza daquele que é governado, ou seja, o
mente um pequeno número de definições retiradas de autores próprio Estado.
italianos e alemães. No final do século XVI, um jurista italia- Proferir tal evidência, tal lugar-comum era, na verdade,
no, Botero. dá esta definição de razão de Estado: "Um conhe- romper simultaneamente eom duas tradições opostas: a tra-
cimento perfeito dos meios através dos quais os Estados se dição c:óstã e a teoria de Maquiavel. Esta pretendia que um
constituem. se consolidam, subsistem e se desenvolvem." 2 governo, para ser fundamentalmente justo, devia respeitar
Um outro italiano, Palazzo, escreve no início do século XVII todo um sistema de leis: humanas, natura.is e divinas.
(Discours du gouvernement et de la vér[table raison d'État, A esse respeito, há um texto revelador de São Tomás, no
1606): 3 "Uma razão de Estado é um método ou uma arte que qual ele explica que o rei, no governo de seu reino. deve imitar
nos permite descobiir como fazer reinar a ordem ou a paz no o governo da natureza por Deus. O rei deve fundar cidades
seio da República." E Chemnitz, autor alemão da metade do exatamente como Deus criou o mundo: ele deve conduzir o
século XVI1 (De ratione Status, 1647),4 dá, por seu lado, esta homem à sua finalidade, tal como Deus fez em relação aos se-
definição: "Determinada avaliação política necessária para to- res naturais. E qual é a finalidade do homem? A saúde fisica?
dos os negócios públicos, conselhos e projetos, cuja única fi- Não, responde São Tomás. Se a saúde do corpo fosse a finali-
nalidade é a preservação, a expansão e a felicidade do Estado" dade do homem, ele necessitaria apenas de um médico, não
- notem bem estas palavras: preservação do Estado, expansão de um rei. A :óqueza? Tampouco. Um administrador bastaria.
do Estado e felicidade do Estado - "e com essa finalidade são A verdade? Tampouco, responde São Tomás, pois para encon-
empregados os meios mais rápidos e cômodos". trar a verdade não há necessidade de um rei. mas apenas de
Detenhamo-nos em certos traços comuns a essas defini- um mestre. O homem precisa de alguém que seja capaz de
ções. Em primeiro lugar, a razão de Estado é considerada abrir a via para a felicidade celeste, conformando-se, aqui em-
como urna "arte", ou seja, como uma técnica que se conforma baixo, ao que é honestum. Cabe ao reí conduzir o homem ao
honestum, sua finalidade natural e divina.
O modelo de governo racional apreciado por São Tomás/
2. Botero (G.), DeUa ragione dí Stato dieci libri, Roma, V. Pellagallo, 1590 (Raí-
não é absolutamente político, embora, nos séculos XVI e XVII..j
sonetgouuemement d'État en dix livres, trad. G. Chappuys, Parts, Chaudíêre.
se estivesse à procura de outras denominações da razão de
1599). Estado, dos princípios capazes de guiar concretamente um
3. Palazz.o (G. A.) Discorso dei governo e della ragione vera di Stato, Veneza, de governo. Não havia mais interesse pelas finalidades naturais
Franceschi. 1606 (Discours du gouvemement et de [a raison vraie d'État. trad. ou divinas do homem, mas sim pelo que era o Estado.
A. de Valliêres. Douay, B. Bellêre. 161 l). A razão de Estado se opõe também a um outro tipo de aná-
4. Chemnitz (B. P. von), DissertatíD de ratíone Status in imperío nostro roma- lise. Em O príncipe, o problema de Maquiavel é saber como é
no-gennaníco. Freistadii, 1647. possível proteger, contra seus adversários internos ou exter-
r
1
306 Michel Foucault - Ditos e Escritos 1988 - A Tecnologia Politica dos indMduos 307

nos, uma província ou um território adquirido por herança ou sível quando se conhece a força do Estado: é por meio desse
por conquista. Toda a análise de Maquiavel tenta definir o que saber que ela pode ser mantida. É necessário conhecer a ca-
consolida a relação entre o príncipe e o Estado, embora o pro- pacidade do Estado e os meios para desenvolvê-lo, assim
blema posto no início do século XVII pela noção de razão de como a força e a capacidade dos outros Estados, dos Estados
Estado fosse o da própria existência e o da natureza dessa rivais ao meu. O Estado governado deve fazer frente aos
nova entidade que é o Estado. É certamente por isto que os outros. O governo não poderia se restlingir unicamente à apli-
teóricos da razão de Estado se esforçaram para se manter tão cação dos princípios gerais de razão, de sabedoria e de pru-
distantes quanto possível de Maquiavel: este gozava de uma dência. Um saber específico é necessário: um .saber concr.e.to,
péssima reputação na época, e eles não podiam reconhecer o preciso, mensurado, que se relaciona ao pcfd erio do Estado. A
problema dele no seu, que não era o problema do Estado, mas arte de governar. caracteristica da razão de Estado, está ínti-
sim o das relações entre o príncipe - o rei - e seu território e mamente ligada ao desenvolvimento do que se chamou, nessa
seu povo. Apesar de todas as querelas em torno do príncipe e
época. de aritmética política - ou seja, o conhecimento que
da obra de Maquiavel. a razão de Estado assinala um marco
importante no aparecimento de um tipo de racionalidade possibilita a @ompetência política. O outro nome dessa arit-
extremamente diferente daquele próprio à concepção de Ma- mética política - vocês o sabem perfeitamente - era a estatísti-
quiavel. O propósito dessa nova arte de governar é precisa- ca, uma esta:lfstica sem nenhuma relação com a probabilídade,
mente não fortalecer o poder do principe. Trata-se de consolidar mas correlacionadâi ao conhecimento pelo Estado das forças
o próprio Estado. respectivas dos diferentes Estados.
Resumindo o que dissemos, a razão de Estado não remete O segundo ponto importante decorrente dessa idéia dera-
à sabedoria de Deus. à razão. nem às estratégias do príncipe. zão do Estado não é senão o surgimento de relações inéditas
Ela se relaciona ao Estado, à sua natureza e à sua racionali- ~ tre.P-olíti~ e história. Desse ponto de vista, a verdadeira na-
dade própria. Esta tese :,:...,u:I.e.,11:1e-a finalidade de UlILgo.vem.Q tureza do Estado não é mais concebida como um equilíbrio
~r...o-Estado - implica diversas idéias que considero entre vários elementos que unicamente uma boa lei poderia
impõrtãhte a bordar para acompanhar o progresso e o desen- manter reunidos. Ela aparece então como um conjunto de for-
volvimento de nossa racionalidade política moderna. ças e de trunfos capazes de serem fortalecidos ou enfraque-
A primeira dessas idéias s e refere à relação inédita estabe- cidos conforme a política adotada pelos governos. Importa
lecida entre a política como prática e a política como saber. Ela aumentar essas forças, uma vez que cada Estado se encontra
trata da possibilidade de um saber político específico. Segun- em uma rivalidade permanente com os outros países, nações
do São Tomás, bastava ao rei se mostrar virtuoso. O chefe da e Estados, de modo que cada Estado não tenha apenas, diante
cidade, na r.epu.·blica platônica. devia ser filõs~fo. ~ela primei~- de si, um futuro perpétuo de lutas. ou pelo menos de competi-
ra vez. o homem que deve dirigir os outros no amb1to do Esta- L,..
do deve ser um político: ele deve poder se apoiar em uma ções com Estados semelhantes. Ao longo de toda a Idade Mé-
competência e um saber políticos específicos. dia, predominou a idéia de que todos os reinos da terra seriam
um dia unificados em um último império, precisamente antes
o Estado é uma coisa que existe por si. É uma espécie de da volta de Cristo. Desde o inicio do século XVII, essa idéia an-
objeto natural. apesar de os juristas se esforçarem para saber
como ele pôde se constituir de maneira legítima. O Estado é tenormente familiar passa a ser vista como um sonho, que
em si mesmo uma ordem das coisas, e o saber político o dis- havia sido um dos traços mais importantes do pensamento
tingue das reflexões jurídicas. ,O saber político trata não dos político ou do pensamento histórico-político durante a J..dade-
jlireitQs..dQ.. ovo nem das leis humanas ou divinas, mas da na- Média. Esse projeto de reconstnlção do Império Romano se

-tureza do Estado gue deve ser governado. O governo só é pos- cfissfpa para sempre. A partir de então, a política deve lidar
308 Michel Foucault - Ditos e Escritos 1988 - A Tecnologia Política dos Indivíduos 309

com urna irredutível multiplicida.de de Estad<!.ê, q~ lutam e ri- Estado para fazer do indivíduo um elemento de peso para o
valizam ~I!J..umª h!§tq_rjé;} lí_p litada. Estado? Quando se analisa o papel do Estado em nossa socie-
A terceira idéia que podemos extrair dessa noção de razão dade, o mais freqüente é concentrar-se nas instituições -
de Estado é a seguinte: uma vez que o Estado é sua própria fi- exército, função pública, burocracia, e assim por diante-. no
nalidade e 9.ue a finalidade e~lusiva dos ~ o s dev~ tipo de pessoas que as dirigem, ou se analisam as teorias ou
não apenas a conservação, mas também o fortalecimento per- ideologias elaboradas para justificar ou legitimar a existência
do Estado.
manente e o desenvolvimento das forças do Estado. fica claro
O que pesquiso, pelo contrário, são as técnicas, as práticas
que os governos não tênu:J. se reocu ar com os indivíduos; que dão uma forma concreta a essa nova racionalidade políti-
ou rfiêihor, eles apenM...têm__qu.e..§.~preoc:!:!J>ar c_Qm~ indi- ca e a esse novo tipo de relação entre a entidade social e o indi-
víduos quando eles a~resentaJ!l algumj_nteress~ par.u~~a fl: viduo. De modo bastante surpreendente, encontram-se - pelo
na!idade: o que eles fazem, sua vida, sua morte, sua atividade, menos em países como a Alemanha e a França onde, por dife-
sua conduta indiVidual, seu trabalho. e assim por diante. Eu rentes razões, o problema do Estado era considerado o mais
diria que, nesse tipo de análise das relações entre o indivíduo importante - pessoas que reconhecem a necessidade de defi-
e o Estado, o indivíduo interessa ao Estado unicamente quan- nir, de descrever e de organizar muito explicitamente essa
do ele pode fazer alguma coisa pelo poderio do Estado. Mas ele nova tecnologia do poder, as novas técnicas que permitem in-
é, desse ponto de vista, um elemento que poderíamos definir tegrar o indivíduo à entidade social. las valorizaram esta ne-
como um marginalismo político em seu gênero, já que aqui so- cessidade, e lhe deram um nom =. polic~ m francês, e Polízei,
mente está em questão a sua utilidade política. Do ponto de em alemão. (Creio que police em in esfum um sentido muito
vista do Estado, o indivíduo apenas existe quando ele promo- diferente.) Cabe a nós precisamente tentar dar melhores defi-
ve diretaroente uma mudança, mesmo que rrúnima, no pode- nições do que significavam esses vocábulos francês e alemão:
rio do Estado, seja esta positiva ou negativa. O Estado tem políce e Polizei. ·
que se ocu par do indivíduo apenas quando ele pode introduzir O sentido deles é pelo menos desconcertante, já que, pelo
tal mudança. E tanto o Estado lhe pede para viver, trabalhar. menos do século XIX até hoje, eles são empregados para de-
produzir e consumir. como lhe exige morrer. signar uma coisa totalmente diferente. uma instituição bas-
Essas idéias são manifestamente aparentadas com um ou- tante precisa que, pelo menos na França e na Alemanha - não
tro conjunto de idéias que podemos encontrar na filosofia sei como é nos Estados Unidos -, nem sempre gozou de uma
grega. Na verdade, a referência às cidades gregas é muito fre.- excelente reputação. Mas o fin_aLdo século XVI ao fim do sé-
qüente nessa literatura política do início do século XVII. Po- culo XVIII, os termos._police·'J {_PolizeJ tiveram um sentido si-
rém, creio que um pequeno número de temas semelhantes multaneamente mais ã:mpio e'-ma-1s preciso. Nessa época. l
dissimula que alguma coisa bem diferente está em gestação quando se falava de polícia, falava-se das técnicas específicas
nessa nova teoria política. Efetivamente, no Estado moderno, que permitiam a um governo. no âmbito do Estado, governar o
a integração acessória dos individuos à utilidade do Estado f1>ovo sem perder de vista a grande utilidade dos individuos
não toma a forma da comunidade ética característica da cida- 1_Eara o mundo.
de grega. Nessa nova racionalidade política, ela é adquirida Visando a analisar um pouco mais precisamente essa nova
com a ajuda de uma técnica bem particular que se chamava, tecnologia de governo, creio que seria melhor tentar apreen-
então, policia.
Tocamos aqui no problema que eu gostaria de analisar em
algum trabalho futuro. Esse problema é o seguinte: que tipos
J dê-Ia nas três principais formas que qualquer tecnologia é le-
vada a assumir ao longo de seu desenvolvimento e de sua
história: um sonho. ou melhor, uma utopia; depois, uma prá-
de técnicas políticas, que tecnologia de governo foram aplica- tica na qual regras regem verdadeiras instituições; e, final-
das. utilizadas e desenvolvidas no quadro geral da razão de mente, uma disciplina acadêmica.

1 1
31 O Michel Foucault - Ditos e Escntos 1988-A Tecnologia Política dos lnctMduos 311

Louis Turquet de Mayerne dá um bom exemplo, no início Sob muitos pontos de vista, esse texto se aproxima das
do século XVII. da opinião da época em face da técnica utópica utopias políticas tão numerosas na época e mesmo após o sé-
ou universal de governo. Em seu livro, La monarchie aris- culo XVI. Porém, ele também é contemporâneo dos grandes
to·démocratíque (1611}, 5 ele propôs a especialização do poder debates teóricos sobre a razão de Estado e sobre a organiza-
executivo e dos poderes de polícia. cuja tarefa era velar pelo ção administrativa das monarquias. Ele é altamente repre-
respeito cívico e pela moral pública. sentativo do que deveria ser, na concepção da época, um
Turquet sugeria a criação, em cada província, de quatro Estado bem governado.
conselhos de polícia encarregados da manutenção da ordem O que esse texto demonstra? Demonstra prtmeiramente
pública. Dois cuidariam das pessoas; os dois outros, ~o.s que a "polícia" aparece como uma administração que dirige o
bens. O primeiro conselho deveria cuidar dos aspectos positi- Estado concomitantemente com a justiça, o exército e as fi-
vos. ativos e produtivos da vida. Em outras palavras, ele se nanças. No entanto, ela na verdade engloba todas essas ou-
ocuparia da educação, determinaria com gr~nde pr~ci~ão os tras administrações e, como explica Turquet, estende suas
interesses e as aptidões de cada um. Testaria a aptidao das atiVidades a todas as situações. a tudo aquilo que os homens
crianças desde o começo de suas vidas: toda pessoa com mais fazem ou empreendem. Seu ãmbito engloba a justiça, as fi-
de 25 anos deveria ser inscrita em um registro, no qual se in- ~ ças..!_ ~ ç!to. 6 -
dicariam suas aptidões e sua ocupação, os demais sendo con- Assim, como vocês vêem, a polícia, nessa utopia, engloba
siderados como a escóJia da sociedade. tudo, mas de um ponto de vista extremamente particular. Ho-
o segundo conselho devia se ocupar dos aspectos negati- mens e coisas são aí considerados em suas relações. O que
vos da vida: dos pobres. viúvos, órfãos, anciãos, que tinham l!!!,eressa à p.olícia é a coexistência dos bom~ ~ ~ k
necessidade de ajuda; ele também devia regulamentar o caso rio, suas relaç~ de propriedade,..o-que..eles_prQgµzem, o q~
de pessoas destinadas a um trab~lho, _n:ias que ~~diam se étrÕcado nÓcomércio, e ass,iro por dia nte. Ela também se in-
mostrar recalcitrantes, daqueles cuJas atividades eXJgíam uma teressa pela maneira como eles vivem, pelas doenças e aciden-
ajuda pecuniária, e ele devia administrar _u~ escritório ~e tes aos quais eles estão expostos. Em suma, é de um homem
doações e de empréstimos financeiros aos md1gentes. Devia vivo, ativo e produtivo que a polícia cuida. Turquet emprega
também cuidar da saúde pública - doenças, epidemias - e dos uma expressão extraordinária: o homem é o verdadeiro objeto ~
acidentes, tais como incêndios e inundações, e organizar uma da policia, afirma ele basicamente. 7
espécie de seguro destinado às pessoas que precisavam ser Ora, não tenho certamente que temer que vocês pensem que
protegidas de tais acidentes. foijei essa expressão unicamente com a fmalidade de encontrar
o terceiro conselho devia se especializar em mercadorias e um desses aforismos provocadores, aos quais - dizem - eu não
produtos manufaturados. Devia indicar o que era preciso pro- conseguiria resistir, mas se trata precisamente de uma citação.
duzir e como fazê-lo, assim como controlar o mercado e oco- Não creiam que estou tentando dizer que o homem não passa
mércio - o que era uma função muito tradicional da polícia. O de um subproduto da polícia. O que importa nessa idéia do ho-
quarto conselho cuidaria do donúnio. isto é, do terri~ório e do mem como verdadeiro objeto da polícia é uma mudança histó-
espaço, dos bens privados e das heranças, das doaçoes e ven- rica das relações entre poder e indivíduo. De modo geral, eu
das, sem esquecer dos direitos senhoriais, das estradas, dos diria que ~ der feudal era constitui.dQJ!elas relações entre su-
rios. dos edifícios públicos etc. jeitos jurídicos, uma vez que eles estavam presos a relações ju-

5. Turquet de Mayeme (L.}, La monarchie artsto•démocratique, ou le gouueme· 6. Ibid.• livro I, p. 19.


ment composé des trois formes de légítimes républiques, Paris. 1611. 7. lbid.
1988-A Tecnologia PolíUca dos Indivíduos 313
312 M!chel .Foucault - Ditos e Escritos

ridicas pelo fato de seu nascimento, de sua classe ou de seu ciedade como as relações sociais "que prevalecem entre os ho-
engajamento pessoal, ao passo que, com esse novo Estado de mens". 11 Às vezes ainda, ele afirma que a polícia vela p~lg vivo_!_
polícia, o governo passa a se ocupar dos indivíduos em função É nessa definição que gostaria de me deter, porque ela é a

--
de seu status juridico, certamente, mas também como homens, mais original e acredito que escl~ as outras duas. Aliás, é
seres que vivem, trabalham e comerciam. sobre essa definição quê-1:>e' Lamare msiste. Eis então suas
Passemos agora do sonho à realidade e às práticas admi- observações sobre as 11 finalidades da polícia. A polícia se
nistrativas. Há um compendium francês do inicio do século ocupa da religião, não certamente do ponto de vista da verda-
XVIII que nos apresenta, em uma ordem sistemática, as gran- de dogmática, mas sim daquele da qualidade moral da vida.
des regulamentações de polícia do reino francês. Trata-se de Cuidando da saúde e do abastecimento. ela se dedica a pre-
um tipo de manual ou de enciclopédia sistemática para uso servar a vida; tratando do comércio, das fábricas, dos trába-
dos comissários de Estado. O autor, N. de Lamare, compôs lhadores, dos pobres e da ordem pública, ela se ocupa das
essa enciclopédia da polícia (Traíté de la police, 1705), em 11 comodidades da vida. Velando pelo teatro, pela literatura. pe-
capítulos.8 O primeiro trata da religião; o segundo, da morali-
dade; o terceiro, da saúde; o quarto, do abastecimento; o
quinto, das ruas, pontes e calçadas e dos edifícios públicos; o
sexto, da segurança pública; o sétimo, das artes liberais (de
maneira geral, das artes e das ciências): o oitavo, do comércio;
los espetáculos. seu objeto não é senão os prazeres da vida.
Em suma. a vida é o objeto da polícia. O indispensável, o útil e
o supérfluo: estes são os três tipos de coisas das quais neces-
sitamos, ou que podemos utilizar em nossa vida. Que os ho-
mens sobrevivam, vivam, façam mais do que simplesmente l
~I
o nono. das fábricas; o décimo, dos empregados domêsticos e sobreviver ou viver: esta é exatamente a missão da polícia.
dos carregadores: o décimo primeiro, dos pobres. Essa era, Essa sistematização da prática administrativa francesa me
tanto para De Lamare como para seus sucessores, a prática parece importante por diversas razões. Em primeiro lugar -
administra.uva da f<'rança. Esse era, portanto, o âmbito da po- como vocês podem ver - ela se esforça para classificar as ne-
lícia, da religião dos pobres, passando pela moralidade, pela cessidades, o que é, seguramente. uma antiga tradição filosó-
saúde, pelas artes liberais. Vocês encontrarão a mesma clas- fica, mas com o projeto técnico de determinar a correlação
sificação na maioria dos tratados ou compendiums relativos à entre o grau de utilidade para os.Jndivíduos e o grau de utili-
policia. Como na utopia de Turquet- exceção feita ao exército, dade para o Estado. A tes.e do livro de De Lamare é que, no
à justiça propriamente dita e às contribuições diretas-, a polí- fundo, o que é supérfluo para os indivíduos pode ser indispen-
cia cuidava aparentemente de tudo. sável para o Estado, ~ vice-ve.rsa. O segundo ponto importante ,~
Mas como era, desse ponto de vista, a prática administrati- é que De Lamare faz da felicidade humana um objetivo políti- ~
va francesa efetiva? Qual era a lógica que operava por trás da co. Sei muito bem que. desde a aurora da filosofia política nos
intervenção nos ritos religiosos, nas técnicas de produção em países ocidentais, todo mundo sabia e dizia que o objetivo per-
pequena escala, na vida intelectual e na rede viária? A respos- manente dos governos devia ser a felicidade dos homens, mas
ta de De Lamare parece um tanto hesítante. Às vezes ele espe- a felicidade em questão aparecia então como o resultado ou o
cifica que "a polícia cuida de tudo aquilo que diz respeito à efeito de um governo verdadeiramente bom. Doravante, a feli-
felicidade dos homens", 9 às vezes indica que a "polícia vela por cidade não é mais somente um simples efeito. A felicidade dos
tudo aquilo que regulamenta a sociedade" 1º - e ele entende so- indivíduos é uma necessidade para a sobrevivência e o desen-
volvimento do Estado. É uma condiç.ão, um instrumento, e
8. Tomo 1. livro I. cap. I, p. 4.
9. Ibid.. prefácio, p. li.
1 l.Jbid.. p. 4.
10. Ibid., livro I. cap. I. p. 2.
314 Michel Foucault - Ditos e Escritos 1988 - A Tecnologia Política dos Indivíduos 315

não simplesmente uma conseqüência. A felicidade dos ho- Do meu ponto de vista, a obra de Justi é uma demonstra-
mens se torna um elemento do poderio do Estado. Em terceiro ção muito mais detalhada da evolução do problema da polícia
lugar, De Lamare afirma que o Estado deve se ocupar não ape- do que a introdução de De Lamare em seu compendium Há di-
nas dos homens ou de uma massa de homens vivendo juntos, versos motivos para isso. Primeiramente, von Justi estabele-
mas sim da sociedade. A sociedade e os homens como seres ceu uma importante distinção entre o que ele chama de
sociais, indivíduos fortes em todas as suas relações sociais: policia (die Polizei) e o que nomeia a política (die Politik). Die
este é, aliás, o verdadeiro objeto da polícia. Politik é fundamentalmente, para ele, a tarefa negativa do
Eis_que, last but not least, ~ : . . Se.,torna 1:J-11};:w.l!.t,_2.iPl!: Estado. Para o Estado, ela consiste na luta contra os seus ini-
n~ Nao se tratava simplesmente de uma prática adminis- migos internos e externos, usando a lei contra os primeiros e o
trativa concreta ou de um sonho. mas de uma disciplina no exército contra os segundos. A Polizei, em contrapartida, tem
sentido acadêmico do termo. Ela era ensinada com o nome de uma missão positiva. e seus instrumentos não são mais as ar-
Polizeíwissenschaft nas diversas universidades alemãs, em mas, mas sim as leis, a defesa ou a interdição. A finalidade da
particular em Gõttingen. A Universidade de Gõttingen devia polícia é fazer aumentar permanentemente a produção de
ter uma importância capital para a história política da Euro- alguma coisa nova. considerada como podendo consolidar a
pa, já que nela foram formados os funcionários prussianos, vida cíVica e o poderio do Estado. A polícia governa não pela
austríacos e russos - aqueles que deviam realizar as reformas lei. mas intervindo de modo específico, permanente e positivo
de José II ou da Grande Catarina. E vários franceses, princi- na conduta dos indivíduos. Embora a distinção semântica en-
palmente do círculo de Napoleão, conheciam as doutrinas da tre a Politik- assumindo as tarefas negativas- e a Poltzei- ga-
Polizeiwissenschaft. rantindo as tarefas positivas - tenha logo desaparecido do
O documento mais importante de que dispomos a respeito discurso e do vocabulário políticos, o problema da intervenção
do ensino da polícia é uma espécie de manual de Polizeiwis- permanente do Estado na vida social, mesmo sem a forma da
senschaft. Trata-se dos Éléments de police de Justi. 12 Neste li- lei, é característico de nossa política moderna e da problemá-
vro, neste manual dirigido aos estudantes, a missão da polícia tica política. O debate que prosseguiu. após o final do século
permanece definida como em De Lamare - velar pelos indiví- XVIII, em torno do liberalismo, do Polizeistaat. do Rechtsstaat,
duos vivendo em sociedade. No entanto. Justi organiza sua do Estado de direito, e assim por diante, encontra sua origem
obra de maneira muito diferente. Ele começa estudando o que nesse problema das tarefas positivas e negativas do Estado.
chama de "os bens imóveis do Estado", ou seja, seu território. na possibilidade de que o Estado assuma apenas tarefas ne-
Ele o enfoca sob dois aspectos: como ele é povoa.do (cidades e gativas. excluindo qualquer tarefa positiva, sem poder de in-
campo), e depois, quem são seus habitantes {número, cresci- tervenção no comportamento dos homens.
mento demográfico. saúde, mortalidade, imigração etc.). Justi Há um outro ponto importante nessa concepção de von
analisa a seguir os "bens e efeitos" - ou seja. as mercadorias, a Justi, que devia influenciar profundamente todo o corpo polí-
fabricação de bens, assim como sua circulação. que levanta tico e administrativo dos países europeus no final do século
problemas relativos ao seu custo, ao crédito e à moeda. Enfim, XVIII e no início do XIX. Um dos conceitos mais importantes
a última parte de seu estudo é dedicada à conduta dos indiví- do livro de von Justi é efetivamente o ê população '' ê,creio que
duos: sua moralidade, suas aptidões profissionais, sua ho- se buscará em vão esta noção em qualquer outro tratado de
nestidade e seu respeito à lei. polícia. Sei perfeitamente que von Justi não inventou nem a
noção nem a palavra. mas vale a pena notar. a respeito do vo-
cábulo população, que von Justi leva em conta o que os demó-
12.Justi (J. H. von). Gmndsatze der Polízey-Wíssenschaft, Gõttingen, Van grafos. na mesma época, estavam descobrindo. Para ele, os
den Hoecks, 1756. elementos físicos ou econômicos do Estado, considerados em
316 Michel Foucault - Ditos e Escntos 1988-A Tecnologia Política dos Indivíduos 317

sua totalidade, constituem um meio do qual a população é tri- política a matriz de um grande número de postulados, de evi-
butária e que, reciprocamente. depende da população. Por dências de vários tipos, de instituições e de idéias que consi-
certo. Turquet e os utopistas como ele falavam também dos deramos adquiridas, é duplamente importante, de um ponto
rios, das florestas e dos campos etc., mas eles os entendiam de vista teórico e prático, prosseguir essa crítica histórica,
essencíalmente como elementos capazes de render impostos e essa análise histórica de nossa racionalidade política, que é
lucros. Para von Justi, pelo contrário, a população e o meio um pouco diferente das discussões referentes às teortas políti-
mantêm permanentemente uma relação recíproca e viva. e cas. mas também das divergências de escolhas políticas. O
cabe ao Estado administrar essas relações recíprocas e vivas fracasso atual das grandes teorias políticas deve redundar
entre esses dois tipos de seres vivos. Podemos dízer que, desde não em uma maneira de pensar não política, mas em uma in-
então, no fim do século XVIII a população se toma o verdadei- vestigação sobre o que foi nosso modo de pensar político ao
ro objeto da polícia; ou, em outras palavras, o Estado deve an- longo desse século.
tes de tudo cuidar dos homens como população. Ele exerce Eu diria que, na racionalidade política cotidiana, o fracasso
seu poder sobre os seres vivos como seres viventes, e sua polí-
das teorias políticas não é provavelmente devido à política
tica é, em conseqüência, necessariamente· uma biopolítica.
nem às teorias, mas sim ao tipo de racionalidade nas quais
Sendo a população apenas aquilo de que o Estado cuida, vi-
elas se originaram. Desse ponto de vista, a principal caracte-
sando, é claro, ao seu próprio beneficio, o Estado pode, ao seu
bel-prazer, massacrá-la. A tanatopolitica é, portanto, o avesso • rística de nossa racionalidade moderna não é a constituição
do Estado, o mais frio de todos os monstros frios, nem o de-
da biopolítica.
senvolvimento do individualismo burguês. Eu nem mesmo di-
Sei perfeitamente que são apenas projetos esboçados e li-
rta que é um esforço constante para integrar os indivíduos à
nhas diretrtzes. De Botero a von Justi. do final do século XVI
totalidade política. A piincipal característica de nossa ra-
ao do século XVIII, podemos pelo menos conjecturar o desen-
cionalidade políticá se relaciona, a meu ver, com este fato:
volvimento de uma racionalídade política ligada a uma tecno-
logia política. Da idéia de que o Estado possui sua natureza e ~ sa integração dos indivíduos em uma cÕmunidade ou em
sua finalidade próprias à idéia do homem concebido como in- uma totalidade resulta de uma correlação germanente en-
1
dividuo vivo ou elemento de uma população em relação com tre uma individualização sempre levada m..aj_s adiante e a con-
~
1 um meio, podemos acompanhar a intervenção crescente do solida~ o dessa totalidade. Desse ponto de vista, podemos
Estado na vida dos indivíduos, a importância crescente dos entender por que a antinomia direito/ordem possibilita ara-
problemas da vida para o poder político e o desenvolvimento cionalidade política moderna.
de campos possíveis para as ciências sociais e humanas. uma O direito, por defmição, remete sempre a um sistema juii-
vez que elas consideram esses problemas do comportamento dico, enquant.9_a-or.q__em se relaciona a um sistema adminis-
individual no interior da população e as relações entre uma trativo, a um~ ôem precisa do Estado - o que era muito
população viva e seu meio. exatamente a idéia de todos esses utopistas da aurora do sé-
Permitam-me agora resumir muito sucintamente meu pro- culo XVII, mas também dos administradores muito concretos
pósito. Inicialmente, é possível analisar a racionalidade políti- do século XVIII. Creio que o sonho de conciliação do direito e
ca, tal como se pode analisar qualquer racionalidade cientifica. da ordem, que foi o desses homens, deve permanecer no esta-
Por certo essa racionalidade política se articula a outras for- do de sonho. É impossível conciliar direito e ordem porque,
mas de racionalidade. Seu desenvolvimento é amplamente quando se tenta apreendê-los, é unicamente sob a forma de .
tributário dos processos econômicos, sociais, culturais e téc- uma integração do direito à ordem do Estado.
nicos. Ela sempre se encarna nas instituições e nas estraté- Minha última observação será a seguinte: não seria possí-
gias, e tem sua especificidade própria. Sendo a racionalidade vel isolar - como vocês vêem - o aparecimento da ciência so-

li
318 Mlchel Foucault- Ditos e Escritos

cial e o desenvolvimento dessa nova racionalidade política, Organização da Obra


nem dessa nova tecnologia política. Todos sabem que a etno- Ditos e Escritos
logia nasceu da colonização (o que não significa que ela seja
uma ciência imperialista); do mesmo modo, creio que se o ho-
mem - nós, seres de vida, de fala e de trabalho - se tomou ob-
jeto para diversas outras ciências, é preciso buscar a razão
disso, não em uma ideologia, mas sim na existência dessa tec-
nologia política que formamos no seio de nossas sociedades.
VolumeI

1954 - Introdução (út Binswanger)


1957 - A Psicologia de 1850 a 1950
1961 - Prefácio (Folie et déraiSon)
A Loucura Só Existe em uma Sociedade
1962 - Introdução (út. Rousseau)
O MNão" do Pai
O Ciclo das Rã.s
1963 - A Água e a Loucura
1964 - A Loucura, a Ausência da Obra
1965 - Filosofia e Psicologia
1970- Loucura, Literatura, Sociedade
A Loucura e a Sociedade
1972 - Resposta a Demda
O Grande Internamento
1974 - Mesa-redonda sobre a Expertise Psiquiátrtca
1975 - A Casa dos Loucos
Bancar os Loucos
1976 - Bruxaria e Loucura
1977 - O Asilo Ilimitado
198 I - Lacan, o "Libertador" da Psicanálise
1984 - Entrevista com Michel Foucault

Volume li

1961 - "Alexandre Koyré: a Revolução Astronômica. Copérnico,


Kepler, Borelli"
1964 - Informe Histórico
1966 - A Prosa do Mundo
Michel Foucault e Gilles Deleuze Querem Devolver a
Nietzsche Sua Verdadeira Cara
O que É um Filósofo?
1967 - Introdução Geral (às Obras Filosóficas Completas de
Nietzsche)
320 Micbel Foucault - Ditos e Escritos Organização da Obra Ditos e Escritos 321

Nietzsche, Freud, Marx Sete Proposições sobre o Sétimo Anjo


A Filosofia Estruturalista Permite Diagnosticar o que É Haverá Escândalo, Mas...
"a Atualidade" 1971 - As Monstruosidades da Critica
Sobre as Maneiras de Escrever a História 1974 - (Sobre D. Byzantios)
As PalaVTas e as Imagens Anti-retro
1968 - Sobre a Arqueologia das Ciências. Resposta ao Círculo de 1975- A Pintura Fotogênica
Epistemologia Sobre Marguerite Duras
1969 - Introdução (inAmauld e Lancelot) Sade, Sargento do Sexo
Ariadne Enforcou-se 1977 - As Manhãs Cinzen tas da Tolerância
Michel Foucault Explica Seu Último LiVTo 1978 - Eugêne Sue que Eu Amo
J ean Hyppolite. 1907- 1968 1980 - Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse e os Vermes Cotidianos
Linguística e Ciências Sociais A Imaginação do Século XIX
1970 - Prefácio à Edição Inglesa 1982 - Pierre Boulez, a Tela Atravessada
(Discussão) 1983 - Michel Foucau lt/Pierre Boulez - a Música Contemporânea
A Posição de Cuvier na História da Biologia e o Público
Theatrum Philosophíeum 1984 - Arqueologia de uma Paixão
Crescer e Multiplicar Outros Espaços
I 971 - Nietzsche, a Genealogia, a História
1972 - Retomar à História
1975 - Com o que Sonham os Filósofos? Volume [V
1980 - O Filósofo Mascarado
1983 - Estruturalismo e Pós-estruturalismo 1971 - (Manifesto do GIP)
1984 - O que São as Luzes? (Sob re as Prisões)
1985 - A Vida: a E:i.-pertêncía e a Ciência Inquirtçao sobre as Prisões: Quebremos a Barreira do
Silêncio
Conversação com Michel Foucault
Volume III A Prisão em Toda Parte
Prefácio a Enquête dans Vingt Prtsons
1962 - Dizer e Ver em Raymond Roussel Um Problema que me Interessa Há Multo Tempo É o do
Um Saber Tão Cruel Sistema Penal
1963 - Prefácio à Transgressão 1972 - Os Intelectuais e o Poder
A Linguagem ao Infinito 1973 - Da Arqueologia à Dinástica
Distância, Aspecto, Origem Prisões e Revolta nas Prisões
1964 - Posfácio a Flaubert (A Tentação de Santo Antão) Sobre o Internamento Penitenciárto
A Prosa de Acteão Arrancados por Intervenções Enérgicas de Nossa
Debate sob re o Romance Permanência Eufórica na Histórta, Pomos as "Categorias
Por que se Reedita a Obra de Raymond Roussel? Um Lógicas" a Trabalhar
Precursor de Nossa Literatura Moderna 1974 - Da Natureza Humana: Justiça contra Poder
O Mallarmé de J.-P. Richard Sobre a. Prisão de Attica
1965 - "As Damas de Companhia" 1975 - Prefácio (in Jackson)
1966 - Por Trás da Fábula A Prisão Vista por um Filósofo Francês
O Pensamento do Exterior Entrevista sobre a Prisão: o Livro e o Seu Método
Um Nadador entre Duas Palavras 1976- Perguntas a Michel Foucault sobre Geografia
1968- Isto Não É um Cachimbo Michel Foucault: Crime e Castigos na URSS e em Outros
1969 - O que É um Autor? Lugares...
322 Michel Foucault - Ditos e Escritos

1977 - A Vida dos Homens Infames


Poder e Saber
Poderes e Estratégias
1978 - Diálogo sobre o Poder
A Sociedade Disciplinar em Crise
Precisões sobre o Poder. Resposta a Certas Críticas
A ..Governamentalidade~
M. Foucault. Conversação sem Complexos com um Filósofo
que Analisa as ''Estruturas do Poder"
1979 - Foucault Estuda a Razão de Estado
1980- A Poeira e a Nuvem
Mesa-redonda em 20 de Maio de 1978
Posfácio de L'impossíble PriSon
1981 - "Omnes et Singulatun~: uma Critica da Razão Política

Volume V

1978 - A Evolução da Noção de .. rndivíduo PerigosoM na Psiqwatria


Legal do Século XIX
Sexualidade e Política
A Filosofia Analítica da Política
Sexualidade e Poder
1979 - É Inútil Revoltar-se?
1980 - O Verdadeiro Sexo
1981 - Sexualidade e Solidão
1982 - O Combate da Castidade
O Triunfo Social do Prazer Sexual: uma Conversação com
Michel Foucault
1983 - Um Sistema Finito Diante de um Questionamento Infinito
A Escrita de Si
Sonhar com Seus Prazeres. Sobre a ..Onírocritica" de
Artemidoro
O Uso dos Prazeres e as Técnicas de Si
1984 -.Política e Ética: uma EntreVista
Polêmica, Política e Problematizações
Foucault
·· O Cuidado com a Verdade
• O Retorno da Moral
A Ética do Cuidado de Si corno Prática da Liberdade
Uma Estética da Existência Impressão e Acabamento GRÁFICA LIDADOR LTDA.
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