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As Terras da Minha Viagem

...

Não me lembro de ter entrado neste comboio. Deve ter sido há muitos anos. Lembro-me só de, no início da

viagem, atravessar campos imensos que parecia não acabarem nunca; tinham cores muito vivas, havia

animais coloridos e de ar divertido, fazendo coisas que nunca mais vi fazer, e havia castelos de conto de

fadas. Aos poucos deixei de ver disso, talvez porque agora o comboio vá muito mais depressa e não dê

tempo...

Havia muitos comboios noutras linhas, até perder de vista; parece-me, pensando agora, que tinham

percursos idênticos ao do meu; agora, que a linha corre mais perto do mar, já não há duas linhas iguais!

Eu ia sozinho no comboio, como aliás ainda vou; mas as carruagens, que são muitas, vão quase cheias, não de

pessoas, mas de seres que não são mais do imagens das verdadeiras pessoas que, essas, vão noutros

comboios, onde, possivelmente em vários deles, haverá imagens minhas.

...

Durante a primeira parte da viagem havia entretenimentos que consistiam em charadas mais ou menos

complicadas destinadas a fornecer instruções para, em determinadas alturas, mudarmos a agulha num

desvio da linha. É que, por mais incrível que possa parecer, nem nos perguntaram se queríamos embarcar,

não nos disseram nunca para onde vai o comboio, não temos meios para o fazer parar nas estações, mas

exigem que decidamos, em cada desvio, qual a direcção a tomar! As instruções que temos, quando as

conseguimos decifrar a tempo, pouco dizem sobre as vantagens das diferentes opções e, como na maior

parte dos sítios, se tem uma visão muito reduzida da linha, ou porque é numa curva sem visibilidade, ou à

entrada de um túnel escuro, sei lá?, acabamos por atirar um pouco à sorte.

Como disse, os passageiros do meu comboio não me ajudam nessas decisões; ajudaram sim em decifrar

algumas daquelas charadas do início da viagem. Agora procuro apenas ter os resultados que consegui obter

até agora tão organizados quanto possível porque já me apercebi de que os desvios chegam cada vez mais

depressa e a capacidade de decidir no momento é crucial.

Quem nunca tenha viajado nestes comboios talvez não perceba isto: quando nos aparece um desvio à vista

para agulhar, temos de analisar as duas vias possíveis pelo que delas está à vista: vamos procurar escolher

aquela que nos pareça seguir o caminho mais suave, em que a velocidade do comboio seja a menor possível e

as curvas não nos atirem contra as paredes da carruagem; os túneis são em geral de evitar porque não dão

qualquer visibilidade. Mas o que se consegue antever da via pode ser ilusório!

Só a boa ordem das nossas notas de viagem, com o acesso o mais fácil possível e, e isto é muito importante!,

a reacção dos outros passageiros, nos pode ser útil.

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Repare-se que essas pseudo-pessoas são imagens de viajantes noutros comboios que podem, alguns, já

terem ali passado ou em locais semelhantes ou ir mais adiantados na viajem! Embora elas não falem porque

não são reais, manifestam-se com mímicas diversas dando a conhecer um pouco do seu íntimo.

......

O meu comboio agulhou para uma planície coberta por um prado florido e orlada, à direita de montanhas

nevadas e à esquerda de cidades ruidosas. A velocidade baixou e quase me pareceu que parava – eu sei que

isso seria impossível! - e tornou-se nítido o barulho do vento nas ervas húmidas e até o ruído dos insectos!

Nas montanhas ao longe viam-se outros comboios em corridas sinuosas, por viadutos entrelaçados e túneis

enigmáticos; dentro das cidades, no lado oposto, todas as pessoas viajam de metro, em linhas escuras, sem

cruzamentos e sem nunca verem para onde vão.

Subitamente passa junto ao meu comboio outro tão devagar como o meu e muito perto. Os passageiros

olham-se, e alguns até se reconhecem de se terem visto noutras coincidências dos seus percursos. Os

comboios circulam tão perto e tão devagar que algumas pessoas se tocam e falam das suas viagens. Há

pessoas, mais destemidas, que saltam de um comboio para o outro, pensando que isso lhes fará mudar o

destino. Na verdade, fazem-no por pouco tempo, porque como não conseguem mudar toda a bagagem não

teriam condições de conforto por muito tempo ... ou mesmo perderiam a própria identidade. E assim

resignam-se a continuar a viajem sozinhas.

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Parece-me agora que velocidade está a baixar; não se consegue ver para a frente, naturalmente, e por isso

é ainda difícil adivinhar o motivo. Será que vai parar mesmo? Sim está a parar junto a um apeadeiro. É uma

construção muito antiga mas escrupulosamente conservada. Na gare, muito em destaque, está um grande

relógio; está aparentemente parado. Percebe-se que não vamos saber quanto tempo vamos aqui ficar;

quando partirmos é a mesma hora e o mesmo minuto que era quando chegamos. Então esta paragem não faz

parte da viagem?

Aqui encontram-se passageiros de diversos comboios; ninguém parece ter nada para fazer em concreto,

mas a actividade é geral; as pessoas cruzam-se e interpelam-se; fala-se muito, é por isso muito diferente

do convívio dentro das carruagens. As pessoas exprimem-se com entusiasmo e procuram, no lapso de tempo

em que ficarão na gare, criar elos e relações tão fortes quanto possível. Não é possível saber se alguém se

vai rever noutra paragem ou num eventual cruzamento de rotas; tampouco se sabe quanto dura a paragem;

ou melhor: sabe-se que não tem duração. Por isso os conhecimentos que se possam fazer vão só constituir a

nossa história, a nossa bagagem, a nossa cultura, os nossos afectos.

As amizades não têm data: existem apenas. A memória das passagens por estações como esta fica

definitivamente ligada ao nosso álbum, faz parte de nós, sem idade, sem máculas, tal como a própria gare.

Quando voltar à carruagem, levarei mais conteúdo anímico comigo.

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O comboio segue agora tranquilamente entre dunas suaves com o mar a acaricia-las e nevoeiro ao longe

transformando o horizonte em infinito. Este cenário hipnotiza-me e leva-me a outras paragens. Revejo-me

agora num pequeno apeadeiro sem nada daquelas coisas fúteis das grandes estações para nos distrair.

Sinto o cheiro suave de umas flores dispersas rente ao chão e por trás dele o do alcatrão presente em

tudo o que é ferroviário. Sentei-me no único banco existente junto à entrada tendo o cuidado de me

certificar que poderia controlar os movimentos do meu comboio, não vá perdê-lo! Por trás está uma aldeia

de pequenas casas brancas, quase todas com as janelas emolduradas em cor viva, assim como os contornos

das paredes. Algumas, maiores, têm ao lado um anexo rural com a porta principal, da largura de um carro de

bois. As ruas em terra esperam a passagem de mais um desses carros, que deixará naturalmente marcas

espalhadas pelo percurso. Quando embarcar no meu comboio, deixarei esta imagem de pacatez, da calma

auto-suficiência rural que é a negação do stress urbano, à sua própria destruição: se o meu comboio voltar

a passar por aqui, o que é tão impossível como a mesma água passar duas vezes por baixo da mesma ponte, o

que eu verei será a mesma aldeia tentando disfarçar-se de cidade, com ruas calcetadas (as mesmas, só que

em vez de passarem carros de bois a cinco quilómetros à hora passam carros a cinquenta!), casas de muitos

andares, com vistas de umas para as outras, iguais às de qualquer outra ex-aldeia, e as pessoas ... essas

estarão a trabalhar numa cidade a sério.

Esta aldeia ainda tem espaço! Dos dois lados da estrada principal, que é pouco mais que a única, estendem-

se as casas, com as suas quintas num prolongamento geométrico das suas eiras, até ao pinheiral que lhes

faz de fundo e moldura. A estrada termina no mar de forma natural, porque é para lá que as pessoas vão

para pescar, recolher algas ou descansar no domingo. Um dia servirá para atulhar com os carros de

domingueiros destruidores de espaços. Um dia, os que descerem por esta estrada até ao mar, não vão ter

nem tempo para cheirar a terra e as suas plantas, os pinheirais, a estrada e os seus carros de bois, nem o

cheiro a mar a aumentar à medida que nos chegamos.

Vou deixar esta estação, com uma sensação de despedida, não só dela mesma, mas de um estilo de vida que

o desenvolvimento do futuro não conseguirá recuperar. Se a esta estação falta alguma coisa, não são

seguramente escadas rolantes e placards electrónicos, aços inoxidáveis e funcionários invisíveis. Faltarão

porventura pessoas a encher-lhe o cais e cruzando-se na pequena porta cruzando, como as formigas num

carreiro, a sua imensa informação que, transmitida aos descendentes faz a sua cultura. Nas grandes

cidades e nas ex-aldeias vazias, a cultura tem de comprar-se, como tudo o resto, e é sabido que só se pode

comprar o que outros quiserem pôr à venda.

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Também vieste de longe no comboio da tua viagem parar a este apeadeiro. Tu que estavas impregnada de

grande cidade e viagens muito longas, e que descobriste o encanto destes cheiros; e que se podia andar

descalço e ir à praia à noite; e que o sol era a sério e o prazer a brincar; que soubeste que a distância não

mata e que a vida é a mesma viagem para todos, qualquer que seja a língua que se fale. Tu que conheceste a

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vida simples desta aldeia, o calor do sol e o sal deste mar, que trocaste comigo os segredos das nossas

viagens e que tanto esperavas do destino da tua, tiveste-a tão subitamente interrompida. Não voltarei a

esta aldeia, até porque ela vai deixar de existir, mas nas suas ruínas estarão as marcas dos teus pés

descalços. Na minha memória ficarão indissociáveis o azul daquele mar e o dos teus olhos.

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O sol levanta-se deixando nua uma cidade onde quem passa arrasta mais uma viagem. Cada movimento

sugere uma paragem ou um rumo. Naquele vi montanhas distantes, ambientes rurais e os cheiros inefáveis

da natureza, vi as nuvens e cabras selvagens correndo à solta. Aproximei-me da janela; a velocidade do meu

comboio é enorme, ou pelo menos parece! Senti ânsia de parar nessas imaginadas montanhas e respirar

profundamente aquele ar tão puro. Estavam ali, à distância de um braço ... ou talvez de um aceno. Ou seriam

imaginárias?

Noutro vi o calor das planícies desertas, do desejo, da sede e da saciedade. Ofuscou-me. O calor

transforma as pessoas em seres passivos, dolentes e moles. Deverei reagir: não me convêm estes sítios.

Esfrego os olhos e foco-os nas sombras. Todas se movem com a rapidez do comboio, tapando e destapando

vidas e escondendo definitivamente memórias. A planície quente fica para sempre no esquecimento. Vendo

a movimentação da cidade tenho uma noção mais clara dos rumos que pretendo tomar, se o comboio em que

viajo o permitir; é o mar azul, a montanha fresca que me seduzem.

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O comboio vai lento, deve ser um túnel porque perdi a noção do lugar e do tempo. Há muitos túneis nesta

viagem onde isso acontece. Por vezes, nesses momentos, acontece que os passageiros que não são mais do

que imagens se voltam para o interior e convivem como se tivessem algo em comum além de estarem presos

à carruagem. Encontrei num compartimento passageiros muito animados, parecendo ser todos iguais e

dizendo todos a mesma coisa. A sua conversa começou por me interessar até ter verificado que não

trocavam ideias mas sim falavam sós para se ouvirem a si próprios. Pareceu-me insanidade. Também tu, tu

que estavas ali, serias assim? Encontrei-te numa dessas vezes só no teu compartimento, longe daquela

insanidade, e vi toda a sabedoria que existia em ti, todo um ser pensado e aberto. Foi nesse curto túnel da

minha viagem que te li nos olhos e bebi da tua mente. Compreendi o teu destino e a tua viagem. Terminaste-

a de volta ao compartimento insano, sem que deixasses que se desse pela tua saída ...

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Nova paragem, agora o pequeno apeadeiro está num desfiladeiro no limite de uma zona montanhosa. Desço

para tomar ar e esticar os membros, como os gatos ao acordar. Subo um pouco da bordadura da linha e

avisto uma maravilhosa montanha toda verde e fresca. É precisamente a réplica real da que tinha imaginado

ao atravessar aquela cidade. Corro por ela acima, respiro todo o ar que posso, rebolo-me na sua frescura

até ficar impregnado do aroma das suas flores. Se o paraíso existe deve ser assim! São os rios de água

muito transparente que brotam de todos os lados, a luz que se cruza com os cheiros confundindo os

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sentidos, é o tempo parado, o infinito do espaço e do tempo. Lá longe o comboio parece um brinquedo, não

por estar longe, mas porque, por momentos, perdeu o sentido face à imensidão desta paisagem. Não fui o

único a perder-se aqui; outros passageiros deverão estar a sentir algo de semelhante: é um espasmo de

liberdade e alegria que se sente mas de que ninguém falará. Como se fosse um sonho que se esquece ao

acordar. Mas sei que não foi. E a frescura da geada nas ervas em que me envolvi ficou para sempre. Corri

mais para cima, o ar era mais frio e a sua rarefacção inebriante. Então tive de parar e sentar-me; olhei à

volta para aquela paisagem ampla, bela e sedutora e enchi os olhos. Lentamente fui descendo, escorregando

por vezes na humidade do chão, até que retomei o comboio. Ainda quis voltar a ver a montanha pela janela

mas foi o próprio apeadeiro que ma ocultou. Tenho-a apenas na memória. Tive-a na mão, aquela que tinha

imaginado ao alcance de um aceno, tenho-a agora em mim e nem um aceno seu levo comigo nesta viagem.

Gríseo Cacir

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