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CULTURA E

PÓS-MODERNIDADE
AULA 4

Profª Talita Nascimento


CONVERSA INICIAL

Nesta aula, vamos conhecer um pouco da vida e principais conceitos de


Jacques Derrida (El Biar, Argélia, 1930 – Paris, França, 2004), filósofo da
desconstrução, reconhecido por suas críticas ao estruturalismo e militância
pelo direito dos refugiados.
Como contexto geral, temos a crise das chamadas grandes narrativas,
problematização feita por diferentes autores – característica central do que
denominamos como pós-modernidade. Nesse cenário, Derrida põe em xeque
verdades consagradas ao longo do tempo, estabilizadas por séculos.
O autor, que propõe técnicas que buscam desnaturalizar conceitos e
verdades consagradas em análise de textos – em seu documentário, afirma
que alguém que lê cada parágrafo e o interpreta pode saber mais do que alguém
que conhece a história toda (Derrida, 2002). Por essas informações, já podemos
perceber o quanto Derrida se tornou e ainda é muito polêmico.
Por ser amplamente reconhecido no campo universitário, Derrida faz
conferências em diferentes países, inclusive no Brasil, onde chama atenção para
a necessidade de valorizar nossas origens.
Ao se aprofundar em conceitos e teorias da linguagem e problematizar
teorias consolidadas, é considerado complexo e muitas vezes incompreendido
em suas proposições. Para os nossos objetivos, interessa compreender o
conceito de desconstrução – que, para nós, se aproxima da atitude de
desnaturalização e relativização, que, segundo a teoria de Derrida, vai além de
uma problematização e reflexão sobre a naturalização da realidade construída –
para ser uma crítica direta à constituição da língua e, portanto, da própria
constituição do pensamento (com relação à definição dos termos conforme
explicada pelo estruturalismo – corrente consagrada não só nas ciências sociais,
como também na filosofia da linguagem, antropologia, psicanálise, entre outros
campos).
Para esta aula, será necessário revisitar saberes introdutórios das
ciências sociais, como as concepções básicas de Saussure (2002) e do
estruturalismo como corrente de pensamento que compreende a realidade
social, a cultura como resultado na sua relação com um sistema maior, uma
estrutura.

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TEMA 1 – JACQUES DERRIDA

Derrida destoou sua teoria da de outros autores chamados de pós-


estruturalistas. Como professor na França e nos Estados Unidos, produziu mais
de 100 obras que são utilizadas em diferentes áreas como antropologia,
literatura, linguística, psicanálise e filosofia; lecionou em Harvard, Yale e Hopkins
– esteve no Brasil três vezes (em 1995, na Universidade de São Paulo – USP e
na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP; em 2001, no Rio
de Janeiro; e, em 2004, para sua última palestra, num evento organizado na
Maison de France, no Rio de Janeiro, onde tratou de diferentes temas e apontou
como potências para o presente as tradições africanas e indígenas).

Crédito: Magnon Almeida.

Filho de família judia que sofreu com a repressão antissemita, Derrida


dizia que queria ser jogador de futebol; foi expulso do colégio normal superior
por conta da redução de cotas para judeus; escreveu seu primeiro romance com
15 anos; como filósofo, foi considerado subversivo e, como pensador, foi também
militante da causa dos refugiados, se mostrou sensível às questões do outro. Já
sofrendo com um tumor no pâncreas, ressaltava que “todo e qualquer colóquio
de filosofia tem necessariamente uma significação política”.
Conhecido como o pai da desconstrução, “estratégica, atitude, técnica” de
análise, afirma que o escrito é carregado de contradições e confusões, uma vez
que “não existem fatos, apenas interpretações” e se aproxima de Deleuze e
Foucault por suas críticas da razão.

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Criticado e acusado de “querer desconstruir tudo”, entendia que a análise
desconstrutiva é um exercício para construir uma consciência histórica e avaliar
a contribuição da própria história para a compreensão da condição humana –
isso destacando que, para o autor, a narrativa histórica está mais para literatura
do que para ciência, uma vez que o texto não acompanha a realidade do objeto,
mas trata-se de um enredo imposto pelo historiador.
Parece confuso? Pois é: Derrida se insere na discussão sobre filosofia da
linguagem – o que é uma tarefa árdua e que nos convida a mergulhar em
algumas concepções extremamente filosóficas para compreender sua análise. É
de fato uma leitura que pode ser considerada complexa, que fica mais simples
quando compreendemos sua postura geral com relação ao objeto de estudo –
ao entrar no rol de pós-estruturalistas e pós-modernistas, que negam a
existência de uma realidade que seja estável, de um conhecimento confiante.
Torna-se importante compreender, inicialmente, as críticas que esse autor faz
ao estruturalismo.

TEMA 2 – ESTRUTURALISMO

Não somos nós que falamos – mas somos falados pela língua! A língua
interfere no modo de vermos o mundo. Não somos nós quem fazemos nossa
história, com base em concepções exclusivas, individuais – nos comportamos
baseados em estruturas dadas, que orientam, de certa maneira determinam
nosso comportamento.
Para compreender o pensamento de Derrida, importa revisitar as
definições básicas do estruturalismo por ele criticado. Dentre os aspectos
centrais, tem-se a concepção de que há uma estrutura concreta, um ponto de
origem, uma essência que determina e nos permite compreender o significado
das coisas (na linguística); da cultura; das relações sociais (na antropologia e
ciências sociais).
O termo é amplamente conhecido a partir da obra do suíço Ferdinand de
Saussure (1857-1913), filósofo e linguista que exerce influência até os dias de
hoje nos estudos culturais e na literatura. Para Saussure (2002), a língua é um
sistema homogêneo, com um conjunto de signos que é exterior aos indivíduos;
um conjunto de unidades que obedecem a princípios de funcionamento e que
constituem um todo coerente. O seu objeto de estudo é a língua (e não a fala),

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que se estabelece com base em manifestações concretas e em cada ato
linguístico efetivo.
Ao analisar a dimensão coletiva, social da língua, Saussure (2002) centra-
se nas regras e convenções que permitem à língua operar (buscando uma lógica
oculta por trás da fala). O autor se interessou pelo que é comum a todos os
falantes e que funciona em nível inconsciente. Com base nessa concepção,
concentra-se mais na estrutura da língua (sem fazer referência a aspectos
históricos, evolutivos dos idiomas).

Crédito: Estante Virtual.

Para compreensão dessa discussão, interessa definir de maneira


resumida e pedagógica alguns conceitos básicos:

 Sistema: conjunto de princípios (verdadeiros ou falsos) que formam um


corpo de doutrina.
 Estrutura: modo como as diferentes partes de um todo estão dispostas;
que lhe serve de sustento, de apoio, de referência.
 Estrutura, para o estruturalismo: corresponde ao que não pode ser
observado, mas apreendido por estudos científicos.
 Língua: conjunto de signos (língua é social, coesiva; a fala, individual,
particular). Um sistema em que um elemento se define pelos demais.
 Linguagem como jogo: metáfora – como num jogo de xadrez, cada peça
não é determinada pela sua materialidade, mas no interior do jogo. Ou
seja, o jogo depende da nossa compreensão de como as peças se
relacionam entre si (das funções estabelecidas para cada peça em
relação às outras).

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 Signo: produção humana dotada de sentido (natural: da natureza; signos
acordados: palavras, sinais, ícones).
 Signo linguístico: associação de um conceito com uma imagem
acústica, formada por duas partes inseparáveis – significante e
significado. Trata-se de uma forma de apreender a realidade.
 Arbitrariedade linguística: é uma atividade simbólica; as palavras criam
conceitos e estes organizam a realidade. O signo não está relacionado
necessariamente, naturalmente ao significado.
 Arbitrariedade do signo: não existe relação necessária, natural, entre a
imagem acústica (o significante) e o sentido a que ela nos remete (o
significado).
 Dicotomia: um par de conceitos definidos um em relação ao outro.
 Significante: espécie de imagem acústica – impressão psíquica do som
(sequência de fonemas).
 Significado: conceito.

Fonte: Saussure, 2002.

O estruturalismo virou moda a partir de Levi Strauss, nos anos 1960 e


1970. Para o antropólogo, a estrutura seria uma grade inconsciente que funciona
com base em um jogo de relações e oposições que atravessa os sujeitos, ou
seja, não são os sujeitos que falam – mas a estrutura que se deixa falar, com
base nos sujeitos.
Ao estudar os mitos, o fetichismo, o animismo (as representações
simbólicas), temas rejeitados pela ciência racionalista, o pesquisador os
identificou como expressões legítimas, buscando comprovar que as estruturas
dos mitos eram idênticas em qualquer parte da Terra, apresentando como ideia
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central a existência de uma estrutura mental de toda a humanidade,
independentemente de qualquer fator externo como clima, religião etc.
De acordo com essa corrente de pensamento, o objeto de estudo das
ciências humanas não é o homem e sim as estruturas que o determinam. No
estruturalismo, a língua é um sistema sobre o qual o indivíduo pouco ou nada
pode fazer – os sujeitos não falam, são falados pela linguagem.

2.1 Críticas ao estruturalismo

Para explicar a crítica de Derrida de maneira mais pedagógica, observe


este exemplo: segundo os estruturalistas, nesse jogo dialógico, quando, num
diálogo, o indivíduo fala casa, tudo o que está sendo dito se realiza dentro da
cabeça de quem está falando e como fato para quem o está ouvindo, como uma
questão dada e entendida. Derrida critica essa concepção e indica que o
indivíduo pode dizer casa e o ouvinte pode entendê-lo de diversas maneiras,
como lar, país, nação, prédio etc. Ou seja, não estamos falando de um
significante e um significado – mas, de significantes que podem levar a outros
significantes, o que Derrida indica como uma negociação do significante.
Com base nessa concepção, diferente da dos estruturalistas, Derrida
aponta que esse jogo de fala e escrita não está dado a priori e que nele o
indivíduo pode, sim, fazer inserções, explicação essa que nos permite
compreender também a atitude da desconstrução que Derrida indica como forma
de “abrir o texto” para além dele próprio, o que veremos em outro tópico.
O crítico desafia a ideia de que há uma estrutura concreta e realça a noção
de que não há estrutura ou centro, não existem pontos sólidos, ideias primárias
com base nas quais as relações se estabelecem. Indica, portanto, que não há
uma relação direta entre significante e significado, uma vez que temos infinitas
mudanças de significados que podem ser retransmitidas de um significado para
outro.
Derrida rejeita a estrutura binária, que, para ele, vai além da simples
oposição. Essa estrutura, que sustenta a história da filosofia, concebeu o mundo
em um sistema de oposições, como alma/corpo; mal/bem; cultura/natureza;
mulher/homem; dentro/fora; entendimento/percepção; noite/dia, entre outras.
Para ele, essa lógica de dicotomias da vida moderna utilizadas para analisar e
julgar a realidade são falsas.

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Segundo o pensador, há como apagar essas diferenças entre significante
e significado:

Primeiramente, a forma clássica consiste em […] submeter o signo ao


pensamento; a outra forma (aquela que estamos usando aqui em
oposição à primeira), consiste em questionar o sistema anterior no qual
os procedimentos e reduções funcionaram: a oposição entre o sensível
(perceptível) e o inteligível. (Derrida, 1978, p. 281)

Dessa maneira, seria possível remodelar o esquema


significante/significado, para algo em que cada conceito (significante) pode
desencadear outro significante, numa corrente sem fim de significante para
significante – o que, para Derrida, abre o texto, o coloca em movimento – tarefa
intitulada por ele como desconstrução.
Ao sistematizar a discussão proposta pelo autor, temos como rupturas:

 a rejeição da história da metafísica, com suas hierarquias e dicotomias;


 a rejeição do estruturalismo (e do esquema saussuriano);
 a noção de que, quando exploramos a estrutura, não encontramos um
ponto-final, fundante; vamos encontrar uma cadeia de relações;
 a rejeição da existência de uma estrutura binária (indo-se além das
oposições entre significante e significado);
 a crítica ao idealismo que remete a uma essência, a um ponto ideal, a
uma ideia primordial, que refere uma unidade menor ou exemplar que se
reflete nas coisas materiais;
 a crítica ao materialismo, que remete a unidades atômicas finais;
 a afirmação da inexistência de verdades absolutas e interpretações
verdadeiras de textos;
 a crítica à visão linear do tempo e da história (crítica mística ao fim da
história, como no marxismo).

Ao estudar os conceitos específicos de Derrida, podemos entender


melhor a sua crítica ao estruturalismo e a sua proposta de revisão de teorias.

TEMA 3 – DESCONSTRUÇÃO

As discussões propostas por Derrida versam sobre diferentes temáticas.


Sua obra, nas primeiras décadas, pode ser considerada mais conceitual e depois
passa a ser mais política. Dentre os seus conceitos mais discutidos em artigos

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das ciências sociais, temos a desconstrução, a diferença (différence) e a
hospitalidade.
O gesto da desconstrução consiste em desnaturalizar, não assumir o que
foi condicionado pela história, pelas instituições, pela sociedade como natural.
Transcrevemos um recorte do documentário sobre Derrida (2002) para
ilustrar a maneira pela qual o autor se insere na discussão da filosofia da
linguagem:

A escrita é finita. O fato de a escrita ser finita quer dizer que, desde o
momento em que há uma inscrição, há necessariamente uma seleção
e, consequentemente, uma rasura, uma censura, uma exclusão. [...]
qualquer coisa dita é seletiva, finita e, por consequência, tão marcada
pela exclusão, pelo silêncio, pelo não dito [...]. Vocês mesmos estão
escrevendo, quer dizer, estão escrevendo imagens que, por sua vez,
podem ser editadas, selecionadas, cortadas, coladas. Então, estamos
preparando, de maneira muito artificial, um texto que vocês vão
escrever e filmar e nele eu sou uma espécie de material para sua
escrita. Assim, com tanto material para a escrita deste filme, o material
deve falar um pouco da escrita e da biografia. (Derrida, 2002)

Quando se considera uma teoria como verdadeira, Derrida problematiza


o fato de que os sistemas filosóficos se estendam no tempo sem terem seus
pressupostos examinados. Com base nessa concepção, propõe a
desconstrução – tarefa que se estende a vários campos do saber, já que, em
toda teoria, há elementos ficcionais que nem sempre são percebidos. Nesse
contexto, a desconstrução busca identificar o que está oculto nas entrelinhas; o
que, diferentemente do que alguns dos críticos de Derrida apontam, não significa
destruir a teoria – mas abrir a possibilidade de renová-la.
Ao compreender a crítica inicial que o autor faz do estruturalismo, já
entramos na concepção básica dessa estratégia proposta por Derrida de como
analisar, desconstruir um texto. Da desnaturalização das oposições, da abolição
de hierarquias, da desmistificação ou desideologização dos filosofonemas
ocidentais ocorre o resultado da desconstrução – que é a abertura do texto e ao
texto.
Para Derrida, quando lemos um texto temos a impressão de que podemos
compreender grande parte do que o autor quer transmitir; entretanto, para ele,
os textos estão crivados do que chama de aporias (contradições, dificuldades,
dúvidas, paradoxos). Para o autor, inexiste uma verdade absoluta, uma vez que
seria impossível qualquer interpretação dita verdadeira.
Dessa maneira, a desconstrução pode ser compreendida por estas
características:

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 ela aparece pela primeira vez na obra De la grammatologie, por influência
de Heidegger;
 é uma maneira de ler textos e revelar suas aporias (contradições,
paradoxos, dúvidas);
 trata-se de comparar um texto com ele mesmo;
 e também de questionar a autoevidência lógica de algumas dicotomias;
 compreende um esforço para quebrar barreiras, ultrapassar fronteiras que
se estabeleceram ao longo da história da filosofia;
 é uma estratégia subjetiva e objetiva, interpretativa;
 compõe uma forma de reorganizar o pensamento ocidental, com base nas
suas contradições e desigualdades lógico-discursivas;
 é uma releitura do mundo como realidade;
 o significado do texto seria o resultado da diferença entre as palavras
usadas (seja num artigo, seja num romance, seja num ensaio etc.);
 ao se decompor a estrutura da linguagem, poderão ser descobertas
diferentes significações de um texto;
 a desconstrução implica uma prática narrativa;
 Derrida insiste na necessidade de se desmontar os aspectos mais
enrijecidos da história da filosofia.

Para a sua compreensão, importa ressaltar ainda o que não é a


desconstrução:

 a desconstrução não é um modo de leitura;


 não é uma crítica; sai dos textos e não tira os textos do seu rumo;
 não é uma interpretação diferenciada (ainda que acolha a liberdade
interpretativa);
 não se trata da neutralização de oposições (desconstruir a oposição
significa inverter a hierarquia);
 não se trata de destruir, mas de decompor elementos da escrita, para
então descobrir as partes do texto que estão dissimuladas.

Mediante uma análise da obra de Derrida, é possível identificar uma


segunda fase da desconstrução. O autor aborda a desconstrução como um
engajamento para buscar novidade no que cada autor fornece – uma vez que é
uma tarefa que objetiva ver o que está emperrado em cada texto, desmontar as
engrenagens que já não estão ali funcionando. Nesse contexto, desconstruir
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seria uma tentativa de ultrapassar as margens da filosofia em nome de uma
preocupação com a alteridade.
Em 1989, na obra Força da lei: o fundamento místico da autoridade
(Derrida, 2007), a desconstrução passa a ter um alcance ético e político, na
abordagem de temas como democracia, justiça, hospitalidade e
responsabilidade, presentes de maneira intensa nas palestras e conferências do
autor, que tem uma história marcada por uma militância dos direitos dos
refugiados. Em 1996, foi membro fundador do Parlamento Internacional de
Escritores; na ocasião, elabora uma carta que fundamenta as condições de
acolhimento a escritores perseguidos.

3.1 Seria possível desconstruir o direito?

Em palestra que reuniu juristas, filósofos e teóricos da literatura, em 1989,


Derrida discursou sobre a desconstrução da justiça, colocando em xeque a
posição dos que defendiam a desconstrução e a daqueles que indicavam que a
desconstrução não permitiria uma ação ou discurso justo. Derrida adverte que,
com a atitude de desconstrução, a justiça estaria indo contra o direito, “[...]
arruinando toda e qualquer possibilidade de fazer justiça” (Derrida, 2010, p. 4).
Mesmo reconhecendo que não há elementos normativos e critérios
seguros para diferenciar o direito da justiça e que o direito seria a força
autorizada, que se justifica ou que tem aplicação justificada; mesmo que a justiça
não seja o direito ou mesmo a lei, Derrida ressalta que só pode vir a haver justiça
por intermédio do direito e da lei.
Tal argumento demonstra e acaba por responder a algumas críticas feitas
ao autor, que não objetiva desmontar concepções – mas, permitir, abrir espaço
para a verificação, a revalidação do que já está posto e concretizado como
referência e que nem sempre foi compreendido por completo pela própria
limitação e sedimentação conceitual.

TEMA 4 – DIFERÊNCIA; DIFFÉRANCE; DIFFÉRENCE

Como ferramenta que se insere na concepção de desconstrução, Derrida


cria o conceito de différence (termo traduzido de diferentes maneiras – como
diferença ou diferência). Ao mudar a grafia original da palavra em francês
(colocando o a no lugar do e), o autor indica uma mudança na formulação que o

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novo conceito fornece – ou seja, a diferência representa o movimento que
produz as diferenças, acusando o princípio de identidade de ser responsável
por se alinhar o saber a uma totalidade racional, fechada, que leva a
subordinação de um polo a outro.
Nessa concepção, o significado de um texto seria o resultado da
différence entre as palavras usadas (não a diferença entre os termos opostos),
da referência, do que representam. Assim, os diferentes significados de um texto
poderão ser descobertos ao se decompor a estrutura da linguagem.
Ao constatar que recebemos da tradição metafísica um conjunto de
oposições (alma/corpo, voz/escrita; voz/pensamento; racional/irracional), essas
dicotomias são também vistas de maneira hierárquica, como a alma sendo
apresentada como superior ao corpo; com a valorização da razão, que exclui a
loucura etc. Derrida constata que não há uma norma neutra, mas hierarquizante
de valores que acabam gerando violência, uma vez que podem excluir um dos
lados.
Ao questionar as oposições, negando a exclusão, Derrida mostra que
cada noção só tem sentido em relação a uma outra. Para a compreensão do
conceito de différance, sistematizamos algumas de suas características e
concepções principais:

 ela não é a diferença entre dois termos opostos;


 a significação de um texto é o resultado da différence entre as palavras
usadas – mais do que da referência das coisas que elas representam;
 há um alargamento do campo do conceito;
 diferentes significações do texto podem ser descobertas ao se decompor
a estrutura da linguagem na qual foi redigido.

Segundo Saussure (2002), a palavra homem só faz sentido em relação à


palavra mulher; e seu significado seria construído pelo conflito dessas posições
que, para Derrida, formam um positivo e um negativo que encerram uma
hierarquia violenta, uma vez que um dos termos governa ou tem vantagem sobre
o outro. Sendo assim, desconstruir a oposição seria derrubar as hierarquias
percebidas para, então, revelar a natureza arbitrária construída das oposições
estabelecidas em conflito.

TEMA 5 – ALTERIDADE E HOSPITALIDADE

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Derrida, que teve sua história marcada pela segregação, olha de maneira
particular para a recusa de alteridade – que afeta o estrangeiro, a mulher, o
idoso, a criança e mesmo o animal. Ressalta que a exclusão é a negação do
diferente, aquele que fica, de alguma maneira, marginalizado.
Quando trata da ambivalência da hospitalidade, Derrida discute um tema
que, para ele, tem significado pessoal, como militante da causa dos refugiados,
lembrando que ele sofreu, na infância, com o antissemitismo. Segundo explica,
a relação entre acolhedor e acolhido implica uma inovação teórica.

[...] o estrangeiro é, antes de tudo, estranho à língua do direito na qual


está formulado o dever de hospitalidade, o direito ao asilo, seus limites,
suas normas, sua polícia, etc. Ele deve pedir a hospitalidade numa
língua que, por definição não é a sua, aquela imposta pelo dono da
casa, o hospedeiro, o rei, o senhor, o poder, a nação, o Estado, o pai,
etc. Estes lhe impõem a tradução em sua própria língua, e esta é a
primeira violência. A questão da hospitalidade começa aqui: devemos
pedir ao estrangeiro que nos compreenda, que fale nossa língua, em
todos os sentidos do termo, em todas as extensões possíveis, antes e
a fim de poder acolhê-los entre nós? (Derrida; Dufourmantelle, 2003,
p. 15)

Ao conceber que hospitalidade vem do latim hospes (formado de hostis –


estranho), que também significa inimigo (hostilis) ou estrangeiro, que por vezes
é reconhecido como hóspede, Derrida chega ao termo hostipitalidade; pois, ao
hospedar, o hospedeiro se torna refém – uma vez que é acolhido pela visitação
do outro. Nesse contexto, deve obedecer aos valores do outro, sob o risco de se
tornar um intruso, se tornando refém de quem acolhe.
Ao abrir essa discussão, Derrida aponta que a origem do termo
estrangeiro, etimologicamente, pode ser hóspede ou inimigo; ressalta a condição
de hóspede percebida como ameaça, um potencial parasita – que causará
hostilidade. A ambivalência da questão está na constituição do termo
hospitalidade, seu entendimento dependendo, então, da remoção de fronteiras
que nos separam do outro. Nesse contexto, Derrida defende o direito de ser bem-
vindo, uma vez que a negação da hospitalidade rouba do forasteiro sua condição
de ser humano.
Separamos alguns pontos da discussão feita pelo autor sobre o tema:

 a hospitalidade possui normas, formuladas na língua do anfitrião;


 existem restrições à hospitalidade, no direito internacional;
 a negação da hospitalidade rouba do forasteiro a sua condição de
humano;

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 a hospitalidade se dá com base na desconstrução do outro;
 deve haver abertura para o outro;
 Derrida se opõe a Kant quando indica que o direito da propriedade está
acima da lei de hospitalidade e que o estrangeiro seja recebido sob
condições sob um período, mas que, após ser submetido a uma
inquisição, deva se identificar e apresentar seus documentos;
 a hospitalidade deve acolher sem impor condições;
 Derrida propõe a criação de uma cidade franca, que se coloque acima das
nações;
 o direito ao asilo é restritivo e cada vez menos respeitado;
 o autor aponta a necessidade de se conceder ajuda ao imigrante;
 Derrida propõe a adoção da hospitalidade incondicional.

Abrir as portas a cada um e a cada uma, a todo e a qualquer outro, a


todo recém-chegado, sem perguntas, mesmo sem identificação, de
onde quer que ele viesse e fosse ele quem fosse. (Derrida, 2001, p.
47)

A obrigação única que cada um de nós tem com o outro [...] leva a uma
hospitalidade pura ou incondicional [...] A hospitalidade pura ou
incondicional, a hospitalidade em si, abre-se ou está aberta
previamente para alguém que não é esperado nem convidado, para
quem quer que chegue como um visitante absolutamente estranho,
como um recém-chegado, não identificável e imprevisível, em suma,
totalmente outro. (Derrida; Dufourmantelle, 2003, p. 15)

Com base nessa discussão, Derrida (1996) defende as cidades-refúgios


em seu primeiro congresso sobre o tema, no Conselho de Escritores da Europa,
em Estrasburgo.

5.1 Outras discussões

 Referências: estamos presos aos modos coronelistas e coloniais de mais


de um século.
 Democracia: Derrida problematiza a concepção de democracia para
além de seu sentido tradicional – ela deveria, minimamente, estar
relacionada a reciprocidade, igualdade, simetria, numa concepção que
leva consigo uma promessa. E, ao pensar o todos, o autor afirma o dilema
de conciliar a exigência da igualdade com o respeito à singularidade do
outro.

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Então, quando falo de uma democracia por vir, não me refiro a uma
democracia futura, a um novo regime, a uma nova organização de
Estados-nação (ainda que isto possa ser desejável), mas quero dizer,
com este por vir, a promessa de uma autêntica democracia que nunca
se concretiza no que chamamos democracia. Isso é um modo de se
prosseguir criticando o que hoje se dá em todo lugar em nossas
sociedades sob o nome de democracia. Isso não significa que a
democracia por vir será simplesmente uma democracia futura
corrigindo ou aperfeiçoando as atuais condições das assim chamadas
democracias. Significa, antes de tudo, que esta democracia com a qual
sonhamos está ligada conceitualmente a uma promessa. A ideia de
uma promessa está inscrita na ideia de democracia: igualdade,
liberdade, liberdade de expressão, liberdade de imprensa – todas estas
coisas estão inscritas como promessas da democracia. (Derrida, citado
por Duque-Estrada, 2002, p. 244)

 Perdão: em palestra realizada em uma universidade na África do Sul,


Derrida fala sobre o perdão. Nessa análise, diferencia perdoar alguém
de perdoar alguma coisa. Indica que alguém só pode ser perdoado do
que for imperdoável, pois se alguém perdoa o que é facilmente perdoável,
então não é real o perdão. Sendo assim, quando um deve perdoar o que
é imperdoável, acaba por fazer o impossível. O autor aponta a distinção
entre reconciliação e perdão. A reconciliação demanda um acordo, já o
perdão tem relação com a cura da ferida.

NA PRÁTICA

Como atividade prática, indicamos que assista ao documentário sobre


Derrida, produzido em 2002 por Amy Ziering Kofman e Kirby Dick com base em
conferências realizadas pelo filósofo de 1995 a 2000 e em filmagens de trechos
do seu dia a dia (Derrida, 2002).
O autor, que não gostava nem de ser fotografado, teve suas primeiras
imagens divulgadas quando se envolveu com questões políticas. Derrida
argumentava que sentia desconforto com sua imagem em fotografias – ele
inclusive publicou, durante 20 anos, sem que aparecesse sua imagem nos livros.
Trata-se de um documentário rico, não apenas por tratar de um grande
teórico, crítico da filosofia da linguagem e de conceitos ditos sólidos, mas por ser
um personagem instigante, que chamou atenção pelo seu posicionamento e
militância pelos direitos civis, principalmente os dos refugiados.

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Crédito: Livraria da Travessa.

Respeitando e valorizando o histórico de vida do autor, bem como sua


militância pelo direito dos refugiados, lhe convidamos também para refletir sobre
a crise migratória com base nas concepções de Derrida sobre alteridade e
hospitalidade.
Para enriquecer sua análise, sugerimos que pesquise dados sobre a crise
migratória para melhor compreender a proporção dessa problemática,
adiantando que se trata de uma questão grave e urgente, uma vez que só em
2019 mais de 200 mil pessoas chegaram à Europa pelo Mediterrâneo.

FINALIZANDO

Cultura e pós-modernidade é o nosso tema geral. Nesta aula conhecemos


um autor que não só discute profundamente, mas propõe uma análise que acaba
por justificar um dos aspectos centrais da pós-modernidade: a descrença em
verdades absolutas.
Com base na atitude da desconstrução, vimos a possibilidade de
questionarmos teorias e conceitos consolidados, bem como de buscarmos ir
além do que cada autor “quis dizer” com seus conceitos e explicações sobre o
mundo, o que nos abre a possibilidade de enxergar para além do que foi escrito
– buscando a chamada diferência entre os termos utilizados, que, para Derrida,
não seguem uma estrutura fixa, determinante e sim abrem precedente para
diferentes concepções.

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Além de ser um conceito que nos permite revisitar, de maneira
diferenciada, teorias consolidadas, a desconstrução pode ser associada com a
desnaturalização e o questionamento das estruturas e referências
problematizadas por todos os autores que vimos até aqui, quando falam da
sociedade contemporânea.
Para elucidar de maneira mais didática a semelhança e a diferença entre
os autores já estudados, propomos um esquema que nos permite situar e/ou
inserir os autores já estudados na discussão sobre a contemporaneidade
(modernidade líquida, tardia ou pós-modernidade).
Enquanto Bauman e Baudrillard identificam a quebra com referências
culturais, institucionais, com base na sociedade do consumo, Derrida e
Lyotard (autor a ser estudado na próxima aula) discutem a quebra com
referências teóricas. Para revisar e fazer uma comparação didática, temos:

 Bauman: discute a modernidade líquida, pontuando a angústia e as


consequências das não referências da atualidade, com relação à
modernidade sólida, o que está associado com consequências do
desenvolvimento do capitalismo, das relações de consumo, na
modernidade líquida.
 Baudrillard: assim como Bauman, também assinala a quebra de
referências da sociedade contemporânea como consequência das
relações da sociedade do consumo com as inovações tecnológicas, mas
se aprofunda na explicação teórica, conceitual sobre como isso acontece
(abordando noções como valor de uso, valor de troca, valor-símbolo,
relação entre valor-signo e simulacro/hiper-realidade).
 Derrida: diferentemente dos dois primeiros autores mencionados, fornece
instrumentos teóricos para problematizar, desnaturalizar o pensamento
moderno como base teórica que explica, significa a realidade. O que pode
também ser interpretado como uma causa da angústia da não
referência.

Perceba que estamos discutindo a contemporaneidade, mas com objetos


e análises diferentes – sendo a quebra de referências identificada como seu
aspecto central. É interessante nos perguntarmos: até que ponto isso pode ser
apenas angustiante? Ou, como bem ressalta Derrida: com a atitude da

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desconstrução, conseguiremos ler para além do que está escrito e descobrir
novas análises de textos e teorias que parecem já ter sido esgotados?
Interessa-nos, também, ressaltar que não estamos tratando apenas de
constatações conceituais, teóricas mesmo Derrida, que propõe uma análise mais
filosófica, chama atenção para problemáticas e angústias factuais como a
violência de não se considerar ou de se negar a dignidade do outro – ponto
também apresentado por todos os autores. Cada um, a sua maneira, explica
como a sociedade contemporânea é capaz de negligenciar a vida alheia.
Além desse aspecto angustiante das constatações feitas, temos também
a visão de que, ao desnaturalizar as estruturas até então consideradas rígidas e
determinantes, há espaço para novas possibilidades – que também podem ser
vistas de maneira mais otimista. E você, de que maneira percebe essa
desnaturalização/problematização das estruturas?

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REFERÊNCIAS

DERRIDA. Direção de Amy Ziering Kofman e Kirby Dick. Portugal: A Culturgest,


2002. 1 DVD. 85 min.

DERRIDA, J. Cosmopolitas de todos os países, mais um esforço! Coimbra:


Minerva, 2001.

_____. Força de lei: o fundamento místico da autoridade. Trad.: Leyla Perrone-


Moisés. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

DERRIDA, J.; DUFOURMANTELLE, A. Da hospitalidade. São Paulo: Escuta,


2003.

DUQUE-ESTRADA, P. C. Derrida e a escritura. In: DUQUE-ESTRADA, P. C.


(Org.). As margens: a propósito de Derrida. São Paulo: Loyola, 2002.

SAUSSURE, F. de. Curso de linguística geral. 24. ed. São Paulo: Pensamento-
Cultrix, 2002.

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