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Após 1945, o mundo ingressa na história do tempo

presente, e continua mudando. Em meio a guerras,


'oluções e um ininterrupto desenvolvimento económico,
social e tecnológico, desaparecem sistemas políticos e
valores que pareciam consolidados. No limiar do século
XXI, no contexto de uma nova revolução científico-
:ecnológica e de um processo de globalização ainda mal
impreendido, a humanidade já não sabe de seu futuro e
vive um tempo de dúvidas.

ARTIGOS DE

Daniel Aarão Reis Filho


"O inundo socialista: expansão e apogeu" e "Crise
e desagregação do socialismo"

Maria Yedda Leite Linhares


"Descolonização e lutas de libertação nacional"

Ana Maria dos Santos


"América Latina: dependência, ditaduras e guerrilhas"

Keila Crinberg
"O mundo árabe e as guerras árabe-israelenses"

Marcelo Ridenti
"1968: rebeliões e utopjas"-
. ORGANIZAÇÃO DE
Marco António Pamplona " Daniel Aarão Reis Filho,
"A questão nacional no mundo contemporâneo"
Jorge ferreira
Octavio lanni e Celeste Zenha
"Globalização e nova ordem internacional"

Celeste Zenha
"Mídia e informação no cotidiano contemporâneo"

ISBN 978-85-200-0529-3 Ciro Flamarion Cardoso


"No limiar do século XXI"

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i

Daniel Aarão Reis Filho


Jorge Ferreira
Celeste Zenha
(organizadores)

O século XX
Volume III
O tempo das dúvidas
Do declínio das utopias às globalizações

^-edição

CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA

Rio de Janeiro
2008
COPYRIGHT C 2000 by Daniel Aarão Reis Filho, Jorge Ferreira e Celeste Zenha
Sumário

CAPA
Evelyn Grumach

PROJETO GRÁFICO
Evelyn Grumach e João de Souza Leite

PREPARAÇÃO DE ORIGINAIS
Nerval Mendes Gonçalves APRESENTAÇÃO 7

EDITORAÇÃO ELETRÔNICA
Art Line O mundo socialista: expansão e apogeu, 11
Daniel Aarão Reis Filho

Descolonização e lutas de libertação nacional 35


CIP-BRASIL CATALOGAÇÃO NA FONTE
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ Maria Yedda Leite Linhares
S452 O século XX / organização, Daniel Aarão Reis Filho, Jorge Ferreira, Celeste
v.3 Zenha. - 4a ed. - Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008. América Latina: dependência, ditaduras e guerrilhas 65
4a ed. 3v.
Ana Maria dos Santos
Conteúdo: v. 1. O tempo das certezas: da formação do capitalismo à Primeira
Grande Guerra - v. 2. O tempo das crises: revoluções, fascismos e guerras - v. 3. O
tempo das dúvidas: do declínio das utopias às globalizações. O mundo árabe e as guerras árabe-israelenses 97
Inclui bibliografia e filmografia Keila Grinberg
ISBN 978-85-200-0529-3

1. História moderna - Século XX. 2. Civilização moderna - 1950-. I. Reis Filho,


1968: rebeliões e utopias 133
Daniel Aarão, 1946-. H. Ferreira, Jorge. III. Zenha, Celeste. Marcelo Ridenti
00-1148 CDD - 909.82
CDU - 93 Crise e desagregação do socialismo 161
Daniel Aarão Reis Filho

A questão nacional no mundo contemporâneo 185


Direitos desta edição adquiridos pela Marco António Pamplona
EDITORA CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA
um selo da
DISTRIBUIDORA RECORD DE SERVIÇOS DE IMPRENSA S.A.
Rua Argentina 171 - Rio de Janeiro, RJ - 20921-380 - Tel.: 2585-2000
Globalização e nova ordem internacional 205
Octavio lanni
PEDIDOS PELO REEMBOLSO POSTAL
Caixa Postal 23.052, Rio de Janeiro, RJ - 20922-970

Impresso no Brasil
2008
O S É C U L O XX

Mídia e informação no cotidiano contemporâneo 225 Apresentação


Celeste Zenha

No limiar do século XXI 249


Ciro Flamarion Cardoso

BIBLIOGRAFIA, FILMOGRAFIA E CRONOLOGIA 277

É nossa esperança que este livro interesse, de modo geral, aos cidadãos e, em
especial, aos estudantes de segundo grau e graduandos de ciências humanas,
ajudando-os a pensar nos problemas do século que expira e a refletir sobre
os desafios do século que se abre. Mas o destinatário principal dos textos é o
professor de segundo grau, que, em seu trabalho cotidiano, dispõe de tão
poucos instrumentos para apoiar suas aulas de história contemporânea, uma
carência que se acentua ainda mais quando se trata da história do século XX
e da história chamada do tempo presente (posterior à Segunda Guerra
Mundial).
Esclarecemos que não apresentamos aqui um manual de história con-
temporânea preocupado em mostrar um panorama o mais minucioso possí-
vel do encadeamento dos processos sociais, económicos, políticos e culturais
que marcaram os últimos cem anos. Os textos preparados para esta coleção,
embora se refiram a esses processos e, frequentemente, na melhor tradição,
adotem o estilo da narrativa, estão mais interessados em levantar e apresen-
tar questões, debater problemas, propor hipóteses interpretativas, em suma,
estimular e enriquecer a reflexão e a perspectiva dos leitores.
Adotamos, na escolha dos professores que redigiram os textos, um crité-
rio básico: o do pluralismo. Estão aqui reunidos, para além da experiência
académica que a todos caracteriza, professores de diversas instituições (UFF,
UFRJ, PUC/RJ, UERJ, USP, Unicamp, UFRGS), de vários estados, de níveis
diferenciados de titulação (professores titulares, adjuntos, doutorandos) e,
acima de tudo, de diversas concepções e orientações metodológicas. Estamos
certos de que a abertura à diversidade e ao contraditório confere vitalidade
ao pensamento crítico de que tanto precisamos para estar à altura das com-
plexidades dos tempos atuais.
O primeiro volume, O tempo das certezas, abre-se com dois estudos in-
trodutórios, redigidos pelos professores Francisco Falcon e Edmilson
Rodrigues, a respeito da unificação do mundo pelo capitalismo e de alguns
O S É C U L O XX APRESENTAÇÃO

casos, paradigmáticos, de revoluções burguesas. Seguem-se três textos sobre curta, um trabalho realizado com a participação dos graduandos do
a expansão europeia e a segunda revolução industrial, de fins do século XIX, Departamento de História da UFF, Rachel Barreto e Roberto Amaral.
e sobre as resistências que esses processos suscitaram nas metrópoles e no Esta apresentação não poderia terminar sem agradecimentos especiais a
mundo partilhado pelas potências, sob responsabilidade, respectivamente, todos os professores e estudantes que se conjugaram neste trabalho e confia-
dos professores Edgar de Decca, Francisco Palomanes Martinho, Adriana ram no projeto, redigindo os textos e formulando sugestões e críticas, e à edi-
Facina e Ricardo Figueiredo Castro. O volume se encerra com uma reflexão tora, que apostou na sua viabilidade. Registre-se igualmente o apoio da
sobre a Primeira Grande Guerra, apresentada pela professora Mareia Motta. CAPES, que, no âmbito do PROIN, proporcionou recursos que contribuí-
O segundo volume, O tempo das crises, começa com cinco estudos sobre ram, parcialmente, para a consecução de nossos planos.
o período que se estende do fim da Primeira Guerra Mundial ao início da
Segunda Guerra Mundial. Dois textos sobre as décadas críticas, dos anos 20
e 30, a cargo dos professores José Jobson Arruda e Leandro Konder; dois ou-
tros sobre as revoluções russas e a construção do socialismo soviético nos
anos 30, de autoria, respectivamente, dos professores Daniel Aarão Reis e
Jorge Ferreira; e uma reflexão sobre os fascismos, do professor Francisco
Carlos Teixeira da Silva. Segue-se um texto sobre a Segunda Guerra Mun-
dial, do professor Williams Gonçalves. O volume termina com mais dois tra-
balhos a respeito de processos históricos que se desenrolaram após 1945: do
professor Paulo Vizentini, sobre a Guerra Fria, e do professor Enrique
Padrós, sobre as décadas de prosperidade que marcaram os chamados trinta
anos gloriosos do capitalismo internacional.
O terceiro volume, O tempo das dúvidas, dá continuidade à reflexão
sobre os processos da história do tempo presente. São considerados aqui os
seguintes temas: o apogeu e a desagregação do socialismo realmente existen-
te (professor Daniel Aarão Reis), a decomposição dos impérios coloniais e as
lutas de libertação nacional (professora Maria Yedda Linhares), a América
Latina sob o signo da dependência, das ditaduras e das guerrilhas (professo-
ra Ana Maria dos Santos), o mundo árabe e as guerras árabe-israelenses
(professora Keila Grinberg) e o convulsivo e utópico ano de 1968 (professor
Marcelo Ridenti). Quatro estudos fecham este volume e a coleção, todos
sobre questões que já estão na transição do século XX para o século XXI: a
questão nacional no mundo atual (professor Marco António Pamplona); a
nova ordem internacional e o processo de globalização (professor Octavio
lanni); o impacto da revolução científico-tecnológica (professora Celeste
Zenha) e os desafios que se apresentam no limiar de um novo século (pro-
fessor Ciro Flamarion Cardoso).
A respeito dos temas trabalhados, há ainda textos anexos, em cada volu-
me, relacionando sugestões bibliográficas, filmográficas e uma cronologia
O mundo socialista:
expansão e apogeu
Daniel Aarão Reis Filho
Professor titular de História Contemporânea
da Universidade Federal Fluminense
Entre 1945, quando se encerrou a Segunda Guerra Mundial, e 1985, quan-
do teve início o processo da perestroika, o mundo socialista, apesar de pro-
blemas e contradições, conheceu um tempo de sucesso, de expansão e de gló-
ria. No entanto, desde a segunda metade dos anos 70 e, sobretudo, a partir
dos anos 80, começaram a se multiplicar os sinais de uma crise maior, embo-
ra muito poucos imaginassem a sua profundidade.
O estudo da evolução do sistema socialista, encetado pelo presente texto,
considerará, em primeiro e principal lugar, o seu núcleo paradigmático, a
União Soviética, mas também trabalhará, de modo muito rápido, com outras
referências e experiências socialistas: as que tiveram lugar na Europa
Central, desde o término da Segunda Guerra Mundial, as chamadas demo-
cracias populares; as que ocorreram na Ásia Oriental (Coreia e Vietnã) e na
China (triunfo da revolução chinesa em 1949), onde o socialismo se afirmou
por meio de guerras camponesas conduzidas pelos comunistas; as que se de-
senvolveram na Europa Ocidental, com o surgimento de uma alternativa que
se pretendeu radicalmente diferente do modelo soviético: o eurocomunismo;
as que se verificaram na América Latina, com o triunfo da revolução cuba-
na, em 1959, que se transmudou desde o começo dos anos 60 numa revolu-
ção socialista; e, finalmente, as experiências realizadas na África e no mundo
árabe, onde propostas nacionalistas e estatistas, largamente inspiradas nas
experiências soviética e chinesa, haveriam de condicionar as lutas de liberta-
ção nacional e a construção de novos estados nacionais soberanos.
A narrativa se desdobrará em três períodos. Em primeiro lugar, o tempo
da expansão e da supremacia do socialismo soviético, que se estende de 1945
— término da Segunda Guerra Mundial — a 1953-54, quando se encerram
a guerra civil da Coreia e a Guerra do Vietnã contra o colonialismo francês.
Em 1953 desaparece igualmente J. Stalin, que chefiara o governo soviético
durante quase vinte anos. Com ele, como se verá, tenderam também a desa-

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O S É C U L O XX O MUNDO SOCIALISTA: EXPANSÃO E APOGEU

parecer certas escolhas estratégicas e certos padrões da cultura política até 1. EXPANSÃO E SUPREMACIA DO MONOLITO SOVIÉTICO
então prevalecente no âmbito do comunismo internacional.
O segundo período assinala o apogeu do socialismo e, ao mesmo tempo, A URSS emergiu da Segunda Guerra Mundial, do ponto de vista da econo-
o aparecimento de várias crises que passam a solapar o sistema. Ele prolonga- mia e da demografia, semi-arrasada, devastada pelos exércitos nazistas, so-
se de 1953 a 1975, quando triunfa a longa guerra do Vietnã contra os Estados bretudo em sua parte ocidental, ocupada durante anos. Mas seu prestígio po-
Unidos. O mundo socialista conheceu nesse período um processo de extrema lítico era imenso e sua força militar, incontrastável, particularmente na
diversificação, estendendo-se sua área de influência à América Latina (Cuba), Europa. O modelo soviético irradiava força, reconhecida por amigos e inimi-
à África, à Ásia e ao mundo islâmico. Ao mesmo tempo, acentuaram-se as gos. Afinal, fora capaz de ser o fator decisivo na derrocada do nazismo. Os
contradições internas, que desembocaram, em alguns momentos, em invasões povos da URSS, sobretudo o povo russo, embora traumatizados pelos sacri-
militares e guerras entre os Estados socialistas. Apesar das fraturas expostas, fícios impostos, estavam aliviados e orgulhosos, coesos em torno de suas ins-
o socialismo constituía-se numa realidade incontornável do ponto de vista da tituições e de seus dirigentes, entre os quais emergia a figura de J. Stalin,
dinâmica das relações internacionais. Muitos não avaliavam detidamente então incensado como guia político genial.
suas contradições internas, seus impasses, preferindo destacar os denomina- De modo geral, em todo o mundo, e também naturalmente na URSS,
havia uma grande esperança de que seria possível agora reconstruir um
dores comuns que uniam aqueles Estados, movimentos e partidos que reivin-
mundo mais justo, fraterno, solidário, livre e democrático. Não tinham sido
dicavam referências políticas, económicas e ideológicas que a História consa-
estes os valores em torno dos quais se formara a Grande Aliança que derro-
grara como socialistas. Outros ainda insistiam no fato de que o sistema socia-
tara o nazismo?
lista avançava lenta mas sistematicamente, quase sem interrupções, a partir da
Entretanto, as exigências do processo de reconstrução do país, ou a ma-
Segunda Guerra Mundial, enquanto encolhiam as áreas firmemente controla-
neira como o poder soviético entendeu orientar este processo, e, principal-
das pelo seu rival maior — o capitalismo internacional e os EUA, em particu- mente, as circunstâncias da Guerra Fria, abertamente irrompida desde 1946,
lar. Não raros analisavam o socialismo, especialmente o socialismo soviético, modelaram o futuro de outra forma, fazendo retornar a atmosfera dos rit-
como um sistema em ascensão, enquanto os EUA lideravam um bloco de paí- mos febris, da tensão e do medo, típica dos planos quinquenais experimen-
ses capitalistas condenado ao declínio e à decadência... tados ao longo dos anos 30.
No terceiro período, a última década que precedeu o desencadeamento Instaurou-se o mundo fechado da bipolarização, a serviço dos interesses
da perestroika (1975-1985), estuda-se o chamado socialismo desenvolvido. e da dinâmica dos complexos industriais e militares de cada campo, ou seja,
De um lado, o socialismo nunca parecera tão forte. Mas já havia então sinais dos setores comprometidos com a corrida armamentista e com toda a sorte
de um processo crítico, que impunha reformas drásticas. Aquele sistema, que de bens e serviços que apoiavam a produção para a guerra. Neste quadro,
pretendia encarnar o futuro, passou a ser obrigado a examinar suas contra- continuaram a merecer a maior prioridade, em termos de investimentos, e os
dições e impasses, a avaliar seu passado, os problemas acumulados, e a defi- maiores cuidados, em pessoal e demais recursos, os dinossauros comedores
nir novos rumos. de ferro e de aço: indústrias de armas e munições, de máquinas e de bens in-
Os períodos aqui definidos são apenas balizas para orientar a reflexão, e termediários, a produção de energia e a construção de vias de transportes.
não marcos rígidos que apenas confundiriam, já que a História, como se A economia de comando, mobilizada (Sapir, 1990) com suas caracterís-
sabe, não se constitui em blocos separados, mas transcorre num fluxo contí- ticas típicas: estatização geral das atividades, planejamento centralizado,
nuo, sempre remodelado e reorientado pela vontade e pela imaginação dos proliferação de agências centrais de controle, ditadura política, relegação, a
seres humanos, agindo segundo suas circunstâncias. um plano secundário, dos interesses imediatos e das demandas das pessoas
comuns por condições melhores de vida, de trabalho, de transporte etc.
Em 1950, o anúncio dos resultados do IV Plano Quinquenal evidenciou

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O S É C U L O XX O MUNDO SOCIALISTA: EXPANSÃO í APOGEU

a força e a fraqueza destas escolhas estratégicas. Enquanto a produção de A oeste, graças ao avanço das tropas soviéticas até Berlim, foi possível,
carvão, de petróleo, de aço e de energia elétrica, entre outras do mesmo tipo, em primeiro lugar, anexar à URSS importantes territórios: os chamados Esta-
registravam novos recordes impressionantes, a produção de bens de consu- dos bálticos (Letónia, Estónia e Lituânia), a parte oriental da Polónia e uma
mo, e sobretudo a agricultura de grãos, apontavam para uma situação de es- porção da Roménia — transformada em República Soviética da Moldávia.
tagnação ou, em algumas áreas, para o declínio. O V Plano, formalmente Com este movimento, Moscou recuperou as fronteiras do velho Império
aprovado em fins de 1952, por ocasião do XIX Congresso do Partido Tzarista, perdidas em 1917. Ironia da história: o traçado desta geografia fize-
Comunista da União Soviética (PCUS), mas já sendo implementado desde o ra parte do acordo germano-soviético assinado em agosto de 1939...
ano anterior, manteve e aprofundou estas opções. Era preciso se defender da Na área da Europa Central (Polónia, Tchecoslováquia, Alemanha Orien-
Guerra Fria, cujos perigos rondavam. Mais uma vez, os cintos deveriam ser tal e, depois, República Democrática Alemã (RDA), Hungria, Roménia,
apertados... e as consciências e vontades, mobilizadas. Albânia, Bulgária e lugoslávia), quase toda ocupada pelos exércitos soviéti-
O relançamento dos métodos habituais. De um lado, campanhas positi- cos, a expectativa de Moscou era formar um cinturão de Estados no mínimo
vas, para aumentar a produção e a produtividade, emulação entre unidades não-hostis. Com efeito, na fase final da guerra, havia um acordo entre as po-
de produção, industriais e agrícolas, cidades, regiões, distribuição de prémios, tências da Grande Aliança de que os países da área não poderiam ser inimigos
incentivos morais e materiais, processos de promoção social. De outro lado, o da URSS, como tinha sido o caso depois do triunfo da revolução russa, em
emprego do Terror, com suas duas faces, coagindo e inibindo, mas também 1917. Mas nem por isso seriam tangidos ao socialismo. O consenso, que
mobilizando em campanhas cie identificação, delação e derrubada dos chama- abrangia igualmente muitas regiões do mundo (Europa Ocidental, Ásia e
dos inimigos do povo. América do Sul), era o de organizar, em toda parte, governos de união nacio-
Em sua dimensão punitiva, o Terror, mais uma vez, traumatizou a socie- nal, com ampla participação, inclusive de comunistas e socialistas. Mais
dade e o próprio partido. Entre os soldados e civis presos pelos nazistas, e re- tarde, eleições livres teriam lugar, cada povo definindo seu futuro como bem
cambiados para a URSS logo depois da guerra, um pouco mais de 40% lhe aprouvesse. A construção era coerente com os valores que haviam mobili-
foram para os campos de trabalhos forçados, sob suspeita de colaboracionis- zado os povos contra o nazismo e inspirada, na medida em que era sensível às
mo. Pequenas nações não-russas, na região do Cáucaso, foram deportadas particularidades de cada região e de cada país. Mas não resistiu à prova da
em bloco, também acusadas de servilismo diante do invasor. Nas fileiras do Guerra Fria e de suas exigências.
Assim, no caso da Europa Central, sociedades extremamente diversifica-
partido, do mais alto escalão (queda brusca de N.A. Voznessenski, ministro
das, historicamente constituídas em suas especificidades políticas, linguísti-
do Plano) à base (a depuração alcançou 30% de dirigentes locais no conjun-
cas, religiosas e culturais, tiveram que entrar num molde único, rígido e cen-
to da URSS), a instalação de uma atmosfera de areias movediças.
tralizado, o modelo soviético. Foram revogados com maior ou menor rapi-
Pata compensar, as mobilizações em torno de mitos unificadores, com-
dez os governos de união nacional, e se unificaram em ritmo marcial os par-
provadamente eficazes ao longo da História: a defesa da Pátria ameaçada, a
tidos socialistas e comunistas locais. A repressão cuidou das oposições à ma-
fortaleza socialista sitiada por um mundo capitalista hostil e o culto à perso- neira soviética, com direito a grandes processos públicos, torturas e confis-
nalidade do guia genial, o Pai do Mundo do Trabalho, o camarada J. Stalin. sões. Nasciam as democracias populares, que nunca foram democráticas,
Em 1949, por ocasião do seu septuagésimo aniversário, houve um delírio tampouco populares... condicionadas, desde o início, por uma aliança sub-
inédito de homenagens e festividades. O homem adquiriu dimensões semidi- missa com o poderoso vizinho (Claudin, 1983).
vinas. E parecia tanto mais forte quanto mais se fortalecia o sistema que o re- No outro extremo do mundo, na Ásia Oriental, o socialismo faria outros
conhecia como chefe supremo e inquestionável. avanços, aí sem praticamente ajuda nenhuma dos soviéticos.
Com efeito, o sistema socialista estendia-se para a Europa e para a Ásia, O processo social, mais uma vez, surpreenderia a todos, impondo situa-
superando a situação de isolamento que marcara a trajetória da revolução ções imprevistas, difíceis de analisar. Revoluções nacionalistas radicais,
russa desde 1917. tendo os camponeses como principal força social, baseadas em organizações

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armadas de massas, os exércitos guerrilheiros populares, estavam se candida- lares de longa duração. Após a Segunda Guerra Mundial, começou a surgir
tando ao poder num certo número de países que haviam sido parcial ou to- um termo, ainda algo impreciso, o maoísmo (de Mão Tsé-tung, presidente do
talmente ocupados pelos japoneses durante a Segunda Guerra Mundial Partido Comunista Chinês e principal estrategista do Exército Popular de
(China, Coreia, Vietnã, Indonésia, Birmânia, Malásia, Filipinas etc.). O pro- Libertação (ELP)), para designar todas estas novidades que poucos analistas
blema, para as potências capitalistas, sobretudo para as europeias, é que os estavam dispostos a levar a sério (Reis Filho, 1981).
comunistas asiáticos e seus aliados tinham a hegemonia, ou grande influên-
A respeito dos méritos e dos deméritos do maoísmo, muito já se escre-
cia, em quase todos estes exércitos guerrilheiros...
veu. O fato que nos basta aqui é que suas referências estavam sendo capazes
Entre as potências da Grande Aliança, como já foi referido, havia o acor- de mobilizar vontades e constituir forças capazes de aspirar ao poder políti-
do de que, nestes países, também deveriam se organizar governos de união co. O recuo da História, hoje alcançado, já não permite dúvidas quanto à
nacional, eleições livres etc., em suma, a mesma metodologia prevista para real autonomia destes movimentos guerrilheiros e destes comunistas em rela-
outras partes do mundo. Mas ninguém imaginou, nem mesmo os soviéticos, ção a Moscou. Nem o grande Stalin confiava neles, nem eles tinham por que
que os comunistas pudessem vencer eleições e se assenhorear do poder. confiar em Stalin.
Em 1945, os comunistas vietnamitas, liderados por Ho Chi Minh, apro- Contudo, nada disto foi considerado. Uma vez mais, a irrupção da Guer-
veitando-se da derrocada do Japão, e antes que os europeus, no caso, os fran- ra Fria teve, aqui também, efeitos uniformizadores ignorando particulari-
ceses, chegassem para tentar reocupar o lugar de potência colonial perdida dades e autonomias, e escolhendo aliados mesmo que estes, muitas vezes, não
durante a guerra, proclamaram a independência nacional. Tiveram o cuida- tivessem nenhum compromisso com a democracia nem tivessem se destacado
do de afirmar bastante bem sua autonomia e seus vínculos à nação a que per- na luta contra os japoneses. Quanto às lutas de libertação nacional na região
tenciam. Não eram peões, nem muito menos agentes de Moscou. O mesmo da Ásia Oriental, elas seriam, de modo geral, derrotadas (Birmânia, Filipinas,
fariam os comunistas chineses, ao longo das difíceis negociações que se esta- Malásia), ou se veriam, progressivamente, encurraladas, empurradas, literal-
beleceram logo depois da rendição dos japoneses com vistas à constituição mente, até cair na órbita do socialismo soviético (China, Vietnã e Coreia).
de um governo de união nacional da China. Mantiveram conversações com As sucessivas crises que então sobrevieram, como a de Berlim, cujo blo-
representantes civis e militares do governo americano, emitiram os sinais queio estendeu-se de novembro de 1948 a maio de 1949, e, mais grave, a da
possíveis no sentido de mostrar suas especificidades nacionais e suas perspec- Coreia, que virou guerra civil, entre 1950 e 1953, dando asas à intervenção
tivas de autonomia. direta dos EUA (sob o manto das Nações Unidas), para defender o governo
Ocorrera, de fato, ao longo da guerra, na Ásia Oriental, um fenómeno aliado da Coreia do Sul, e da China, para sustentar os norte-coreanos, só fi-
novo: com epicentro na base vermelha de Yanan, no noroeste da China, con- zeram apertar os nós da aliança entre URSS e comunistas asiáticos.
trolada pelos comunistas chineses, constituiu-se uma espécie de internacional Do ponto de vista dos EUA, estava sendo criada em torno da Ásia e da
comunista asiática, bastante frouxa em termos orgânicos, mas razoavelmen- China, em particular, uma cortina de bambu, equivalente à cortina de ferro
te afinada em termos sociais, estratégicos e programáticos. Seus denomina- (expressão cunhada por W. Churchill), que separava a Europa em duas par-
dores comuns, de uma forma muito esquemática, podem ser assim sintetiza- tes inconciliáveis. Nesta leitura, todos os comunistas asiáticos não passavam
dos: desenvolver a luta nacional de forma radical, libertando as nações da de peões de Moscou. Estas circunstâncias diminuíram drasticamente as mar-
Ásia de qualquer tipo de colonialismo; basear-se fundamentalmente nos gens de manobra no sentido da construção de um socialismo próprio, origi-
camponeses, mobilizados em torno de programas de reforma agrária; formar nal. De fato, a aliança com a URSS, na forma como se realizou, e consideran-
alianças as mais amplas, incluindo a burguesia e pequena burguesia urbanas, do as circunstâncias da época, implicava empréstimos, assessores, mas, prin-
desde que estivessem dispostas a lutar com os camponeses pela independên- cipalmente, importação de modelos de organização política e económica in-
cia nacional; conduzir a luta de forma armada, apoiada em exércitos guerri- compatíveis com a diversidade e com a especificidade. Uma aliança graníti-
lheiros populares, cercando as cidades a partir dos campos em guerras popu- ca, como então se dizia.

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O S É C U L O XX O MUNDO S O C I A L I S T A : E X P A N S Ã O E APOGEU

Dela escapou apenas a Jugoslávia, à custa de muita ousadia e determina- vencidos, mas estariam tão enfraquecidos que não seria difícil sua neutraliza-
ção. Os comunistas iugoslavos, e os vários povos que constituíam a federa- ção. De preferência com um mínimo de derramamento de sangue. Era funda-
ção iugoslava, sob liderança de J. Tito, recusaram as ambições soviéticas e mental, nesta perspectiva, evitar o apocalipse nuclear, denunciar a corrida ar-
enfrentaram as campanhas de todo o tipo feitas para desestabilizar seu go- mamentista, encurralar e isolar os círculos mais agressivos do imperialismo.
verno. Em torno de um projeto próprio — o então chamado socialismo au- Do ponto de vista do campo socialista, a URSS passou a admitir abertu-
togestionário —, conquistaram sua autonomia, e saíram vitoriosos, mas foi ras antes consideradas inconcebíveis, como, por exemplo, a de que poderia
a exceção que confirmou a regra. haver, em tese, vários caminhos para alcançar o socialismo. Em lugar do mo-
A regra era o bloco sem falhas e sem fissuras, um monolito coeso em nolito, centrado em Moscou, um esboço de policentrismo socialista.
torno da URSS e de J. Stalin. Num mundo de combate acirrado, dizia-se, não Em síntese, grandes mudanças, reorientações capitais em termos de polí-
havia alternativa, nem qualquer tipo de desvio podia ser tolerado. Era a me- tica internacional. Elas criariam as condições para o fim da Guerra da Coreia
lhor maneira de vencer, e o socialismo venceria. Pelo menos, uma coisa era (conversações de Panmunjom/1953), para os acordos que puseram fim à
certa: o sistema socialista estava se expandindo. guerra nacional do Vietnã contra o colonialismo francês, reconhecendo, no
norte do país, a independência da República Democrática do Vietnã
(Conferência de Genebra/1954), para a reconciliação com a lugoslávia (visi-
ta de dirigentes soviéticos a Belgrado/1955) e, finalmente, mas não menos
2. APOGEU E CRISES DO SOCIALISMO MONOLÍTICO importante, para uma distensão significativa nas relações com os EUA (visi-
ta de N. Kruchev aos EUA/1959).
A morte de J. Stalin, em 1953, foi diversamente apreciada. Nos campos de No plano interno, mudanças não menos capitais estavam em curso.
trabalhos forçados na URSS houve imenso júbilo, e algumas tentativas de Em primeiro lugar, um processo geral de institucionalização da revolução
motim, logo esmagadas a ferro e fogo. Um pouco por toda a parte, analistas na sociedade soviética, compreendendo uma série de medidas ou políticas: a
apressados anunciavam que a morte do Grande Chefe desencadearia o caos afirmação da supremacia do Partido Comunista (a rigor, esta referência nunca
na URSS. Contudo, não foi isto que aconteceu. Houve, certamente, uma fora abandonada na teoria, mas, na prática, nos tempos áureos da ditadura de
grande dor e um profundo sentimento de desamparo no país. Entre os comu- J. Stalin, o partido perdera quase que completamente sua força política); a ên-
nistas e seus aliados, em todo o mundo, consternação. Mas a perda seria as- fase no caráter coletivo da direção política, em todos os níveis; a defesa do res-
similada em tempo relativamente rápido, operando-se a sucessão sem con- peito ao que se passou então a chamar a legalidade socialista; a eliminação ou
vulsões maiores. O sistema parecia ter reservas, e sobreviveu sem grandes so- subordinação de organizações que haviam ganho considerável autonomia
bressaltos à morte do guia genial. Entretanto, alguns aspectos essenciais das dentro do Estado e que funcionavam como verdadeiros estados dentro do
orientações e da cultura política ligadas ao nome de Stalin — o stalinismo — Estado (polícia política, assessoria particular do ditador etc.).
passaram a ser questionados e superados. Ao mesmo tempo, deu-se início a um processo de liberalização dos con-
O embate sem quartel às forças do capitalismo internacional, numa at- troles e da repressão — como se fosse um degelo, título da novela do escritor
mosfera de enfrentamentos de vida ou morte, foi dando lugar a propostas russo, I. Ehrenburg: anistia para os presos políticos e comuns, afrouxamen-
mais conciliatórias, baseadas numa outra política, a da coexistência pacífica to dos controles sobre os meios de comunicação, incentivo à crítica e revita-
entre sistemas diferentes. A URSS não abdicava do triunfo do socialismo, lização das instâncias coletivas de decisão, anúncio de políticas descentrali-
considerado inevitável historicamente. Mas os caminhos nesta direção se- zantes e democratizantes.
riam menos lineares. O socialismo, segundo as novas orientações, iria de- No plano do desenvolvimento económico, agitavam-se novas referências
monstrar sua superioridade em todos os níveis. Com o tempo, somente uma e prioridades: era preciso agora conferir maior atenção às necessidades das
minoria de empedernidos se manteria na defesa do capitalismo. Eles seriam pessoas comuns: habitações populares, transportes coletivos, saúde e educa-

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cão, agricultura etc. N. Kruchev, o dirigente então em ascensão, gostava de


coes (o Sputnik), o primeiro homem ao espaço (Y. Gagarin), a primeira
dizer que o socialismo era bom, mas seria melhor com manteiga... ou seja,
sonda à Lua. No centro do palco, N. Kruchev, rompendo com o padrão tra-
chegara o momento de prestar atenção às demandas imediatas da população,
dicional dos dirigentes soviéticos, sisudos e carrancudos, apresentava-se
elevar seus níveis de vida, melhorar suas condições de trabalho. Toda uma ên-
como um bom velhinho, loquaz, amável, tomando banhos de povo, abrindo
fase foi atribuída à agricultura, conhecido ponto fraco da economia soviética, expectativas e parecendo ter soluções para todos os problemas.
desde os anos 30, quando ocorrera a terrível e desastrosa coletivização força- Entretanto, as promessas róseas desenhadas pelo novo líder não se con-
da dos camponeses. Houve reajustes de preços, definição de uma política de cretizavam, as cores começavam a desbotar, despertando contradições e in-
incentivos, atribuição de créditos para a expansão da indústria química (adu- certezas.
bos, pesticidas etc.) e, sobretudo, uma agressiva política de desbravamento de A agricultura, apesar dos enormes investimentos, não reagia. As políticas
terras virgens — a meta era melhorar substancialmente o abastecimento do implementadas por N. Kruchev, como a do desbravamento de terras virgens,
povo, igualando, e superando, os níveis de produtividade registrados pelos que mobilizara colossais recursos económicos e humanos, davam resultados
países capitalistas avançados. mitigados, quando não geravam desperdícios. Em 1963, a URSS teve que im-
O XX Congresso do Partido Comunista, realizado em fevereiro de 1956, portar grandes quantidades de grãos dos países capitalistas para evitar a
consagrou todas estas mudanças de rumo, consolidando o clima de degelo. fome. A superpotência conseguia enviar foguetes à Lua, mas não era capaz de
Entretanto, no fim dos trabalhos, N. Kruchev reservara para os delegados uma alimentar o próprio povo. Uma lástima. Em outros setores, embora tenham
surpresa: leu para eles um informe, reservado (dito secreto), em que se formu- sido registrados alguns avanços, como na construção civil, as promessas não
lavam gravíssimas denúncias a J. Stalin. O guia genial era apresentado como se concretizavam, ou os resultados não eram considerados satisfatórios.
um reles criminoso, o dirigente semidivino foi descido aos infernos, virou de- Os responsáveis pelos setores tradicionalmente privilegiados pelos planos
mónio. A URSS tornara-se uma grande potência, não graças a Stalin, como quinquenais criticavam as novas orientações. No partido, apareceram resistên-
todos até então imaginavam, mas apesar dele, de seus erros e de seus crimes. cias às propostas democratizardes, que previam o voto secreto para a escolha
Foi uma comoção. Os delegados ficaram aturdidos, mas consagraram a dos dirigentes e limites para que pudessem ser reeleitos, e ao processo de des-
liderança de N. Kruchev, aquele audacioso dirigente que ousara derrubar do centralização, que previa a constituição de centros regionais de planejamento.
pedestal o Maquinista da Locomotiva da História, J. Stalin. O movimento As contradições avolumavam-se. Apontava-se o fato de que N. Kruchev,
comunista no mundo cambaleou, atordoado. Muitos simplesmente não embora denunciando os males do culto à personalidade, estava retomando, a
aguentaram o impacto daquelas revelações e abandonaram as fileiras. seu modo, os padrões de direção política de um grande chefe. Medidas volun-
Outros começaram a se perguntar aonde queria ir N. Kruchev. O fato é que taristas, decisões sem consulta, reviravoltas, aquilo tudo começou a inquietar,
o monolito estremeceu, aparecendo as primeiras fissuras. Nunca mais ele sobretudo, as elites dirigentes.
seria o mesmo. No plano internacional, os frutos obtidos não mereciam avaliações posi-
Na União Soviética criou-se uma atmosfera ambígua: insegurança e dú- tivas unânimes. Ao contrário: suscitavam ásperas críticas. A política de dis-
vidas, ao lado de sentimentos de confiança e de euforia, inéditas desde os tem- tensão com os EUA não produzira resultados conclusivos. Em 1960, a confe-
pos longínquos da revolução de 1917. Não apenas a vida corrente iria me- rência de Paris, entre as grandes potências, fracassara. Um pouco mais tarde,
lhorar (o socialismo com manteiga), mas também o sistema parecia mostrar em 1962, a crise dos mísseis, em Cuba, quase levara o mundo à guerra atómi-
condições de se auto-reformar, com maiores margens de liberdade, de deba- ca. A decisão de colocar os mísseis na Ilha revolucionária, atribuída a N.
te e de crítica. Além disso, a URSS surpreendia e fascinava o mundo com seus Kruchev em pessoa, aprofundou seu desgaste, pois a retirada dos mesmos, im-
avanços tecnológicos, materializados no controle das mais modernas e des- posta pelo bloqueio americano, foi ressentida como uma humilhação.
trutivas bombas (atómica e de hidrogénio), e, sobretudo, com a liderança O mundo socialista deixara de ser um monolito e apresentava agora
que tomava na corrida espacial, lançando o primeiro satélite de comunica- enormes fissuras. Na Europa Ocidental, os comunistas italianos, sob a dire-

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cão de Palmiro Togliatti, passaram a defender um perfil e um rumo próprios universidade em Moscou especialmente voltada para estudantes do Terceiro
para o socialismo nos países capitalistas avançados: a evolução haveria de Mundo — a Universidade da Amizade dos Povos Patrice Lumumba. Em
ser gradual, pacífica e baseada nas instituições democráticas. Apoiando-se muitos momentos críticos, a intervenção soviética fora decisiva para inverter
no legado teórico de António Gramsci, defendiam uma alternativa própria situações, como, por exemplo, em 1956, quando apoiara G. A. Nasser, líder
que, mais tarde, tomou o nome de eur o comunismo. Na Ásia, a China de nacionalista árabe, na crise desencadeada com a intervenção anglo-francesa
Mão Tsé-tung, desconfiada das decisões de seu poderoso vizinho, começou a em reação à nacionalização do canal de Suez. Ou quando, nos inícios da re-
denunciar o revisionismo de N. Kruchev. As críticas, no início, eram de cará- volução cubana, entre 1959 e 1962, sustentara Fidel Castro e seus liderados
ter teórico, textos que só os iniciados conseguiam decifrar. Cedo, no entan- com seu poderio político, material e logístico.
to, as contradições radicalizaram-se, dando lugar a destemperos verbais, ex- A verdade, no entanto, é que estes aspectos positivos, e outros, não
primindo antagonismos inconciliáveis. Esfumara-se a aliança granítica e boa foram considerados determinantes pelos adversários de N. Kruchev, que o
parte da responsabilidade do processo era imputada ao estilo de N. Kruchev, derrubaram em 1964. Nas acusações que então lhe desferiram, estava sobre-
sem o qual, argumentavam os adversários, as contradições poderiam ter sido tudo a de que concentrara demasiados poderes, subestimando o primado da
mais bem administradas. direção coletiva, incorrendo nos mesmos erros de voluntarismo e de falta de
Na Europa Central, aparentemente imobilizada e sob controle, houve respeito pela vontade do partido, além de se deixar embalar pelos vícios do
um surto de rebeldias. Ainda^em 1953, poucos meses depois da morte de J. culto à personalidade, por ele mesmo tão violentamente criticados em 1956.
Stalin, um primeiro sinal: uma violenta insurreição popular na parte oriental Não é muito fácil formular um balanço preciso do período em que N.
de Berlim, controlada pelos soviéticos, precisou ser esmagada de forma vio- Kruchev governou a URSS. Alguns sustentam que ali se perdeu uma oportu-
lenta. Anos mais tarde, a Albânia passou a acompanhar, às vezes a antecipar, nidade histórica de reformar o socialismo, que conservava na sociedade um
as críticas chinesas aos desvios soviéticos. Ao mesmo tempo, em 1956, mais prestígio real. Como pontos positivos, inegáveis, o afrouxamento dos con-
troles repressivos,' a desmitificação de J. Stalin, o fim do Terror, as anistias,
duas rebeliões. Na Polónia, foi possível controlá-la com concessões parciais,
as tentativas de institucionalizar e democratizar a revolução, uma preocupa-
combinadas com expurgos no partido e no Estado. Mas na Hungria, o des-
ção maior quanto às demandas da sociedade. No plano internacional, a
contentamento popular foi longe demais, mesmo para os novos padrões que
abertura, em tese, a um certo policentrismo no mundo socialista, uma real
se desejava instaurar. Uma espécie de revolução popular tomou as ruas de
contribuição à construção de uma atmosfera menos acirrada e belicosa. Por
Budapeste com um programa extremamente subversivo: reivindicava a neu-
outro lado, a dificuldade em assumir com toda a consequência estas próprias
tralidade do país, a retirada das tropas soviéticas, a democratização real das orientações, as constantes recaídas em tradições criticadas (a questão do~
instituições. O movimento foi considerado anticomunista e anti-soviético — culto à personalidade), os ziguezagues frequentes (o esmagamento pela força
uma senha para que os tanques interviessem, o que fizeram com a eficácia e da revolução húngara), o voluntarismo tipicamente stalinista (o desbrava-
a brutalidade habituais. A revolução húngara foi sufocada em sangue e em mento das terras virgens), os anúncios apocalípticos de vitórias não-conclu-
exílios — e deixou claros os limites do policentrismo socialista, pelo menos sivas, o autoritarismo sempre presente...
na área da Europa Central. N. Kruchev tinha as limitações próprias de um homem politicamente
Mas nem tudo eram contradições, havia também circunstâncias favorá- formado nos anos 30 dentro da corrente dirigida por J. Stalin, o que se evi-
veis, e o socialismo soviético delas extraía forças e alento. Entre os países do dencia muito bem nas incongruências e na superficialidade com que foi criti-
chamado Terceiro Mundo, a URSS apresentava-se como, e era de fato, a cada no informe dito secreto a trajetória do guia genial. No fim, suas inúme-
grande retaguarda dos interesses dos povos oprimidos em luta pela liberta- ras iniciativas pareciam ter cansado as diversas correntes da sociedade. Sua
ção nacional. Votava sempre em favor de suas causas nas instâncias interna- queda foi, assim, observada com indiferença. Restou-lhe uma aposentadoria
cionais, oferecendo contrapeso às potências capitalistas, capitaneadas pelos vigiada — sinal dos novos tempos, que ele próprio, mais do que ninguém,
EUA. Ajudava em armas e assessoria muitas lutas em curso. Criara até uma ajudara a criar.

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3. O SOCIALISMO DESENVOLVIDO — FORÇA E FRAQUEZAS DE mas na luta contra o Estado de Israel, que polarizava amplamente as forças
UM SISTEMA políticas identificadas com o Islã, a URSS aparecia como aliada contra os
EUA e os Estados europeus. \a África, ao sul do Saara, a desagregação do velho Im
A fase que se abriu então, até o início da perestroika, em 1985, mais de vinte
anos, foi, em sua época, considerada a de expansão máxima do socialismo — acelerada com a Revolução dos Cravos em Portugal, em 1974, estava levan-
o tempo do socialismo desenvolvido. Uma nova Constituição, aprovada em do ao poder nas duas principais colónias, Angola e Moçambique, movimen-
1977, exaltava os avanços obtidos, consagrando juridicamente a URSS como tos de libertação nacional (Frelimo e MPLA) aliados da URSS. Os principais
potência socialista. De um outro ângulo, crítico, apareceu uma outra formula- dirigentes identificavam-se com o marxismo-leninismo e se propunham a as-
ção: o socialismo realmente existente. Aquelas sociedades, sobretudo a soviéti- sociar explicitamente seus projetos políticos ao socialismo internacional.
ca, não tinham sido idealizadas nem previstas, mas existiam na realidade. Além disso, em vários outros Estados, constituíam-se elites políticas, às vezes
Contra a teimosia dos fatos, alegavam os partidários da expressão, não havia através de golpes militares, que procuravam aliança e apoio (armas e asses-
argumentos. soramento) em troca de concessões estratégicas. Um caso que se tornou em-
Apesar dos problemas e das contradições, a URSS e o socialismo pare- blemático, entre outros, foi o da Etiópia, onde estiveram, inclusive, tropas
ciam imbatíveis, dotados de uma dinâmica invencível. Os dirigentes soviéti- cubanas, apoiando militares nacionalistas que se diziam socialistas, ou alia-
cos, agrupados em torno da figura de um novo secretário-geral, L. Brejnev, as- dos do socialismo. Sem contar a existência de outros experimentos, funda-
sumiam o discurso da estabilidade e da eficácia. mentalmente nacionalistas, que nada tinham a ver com o marxismo-leninis-
Em prol da estabilidade, esvaziaram ou simplesmente revogaram as po- mo, mas que se inspiravam nos modelos soviéticos de organização política e
líticas reformistas democratizantes e descentralizantes propugnadas por N. económica (partido único, plano centralizado, estatização de setores econó-
Kruchev. O Partido Comunista, na nova Constituição, foi solenemente rea- micos estratégicos etc.) e/ou que se aproximavam em busca de apoio.
firmado como vanguarda da sociedade e do regime. Do ponto de vista da Na América Latina, a revolução cubana — vitoriosa com um programa
economia, houve todo um esforço para definir políticas no sentido de supe- nacionalista e democrático — transformara-se em revolução socialista, em
rar os problemas diagnosticados desde os anos 50: deslanchar a agricultura, larga medida, em virtude das pressões americanas. Ali também os soviéticos
abastecer melhor as cidades, estimular os avanços qualitativos, introduzir só colheram os frutos amadurecidos, pois estiveram praticamente ausentes
novos métodos de gestão e de organização do trabalho. Assim, o programa da luta revolucionária contra o regime de Batista — derrubado em janeiro de
de reformar o socialismo, enunciado por N. Kruchev, permanecia de pé. 1959 — e dos momentos imediatamente subsequentes, quando a revolução
Na esfera das relações internacionais a URSS consolidava-se como su- radicalizou-se numa espiral de ações e de reações onde a intransigência do
perpotência. E o socialismo registrava êxitos espetaculares, históricos. Estado americano fez lembrar as atitudes tomadas na Ásia Oriental em fins
No Sudeste Asiático, a Guerra do Vietnã, mais uma, agora contra os dos anos 40, com os mesmos efeitos.
EUA, encerrara-se, em 1975, com uma completa vitória dos nacionalistas, A revolução cubana afirmara sua autonomia ao longo dos anos 60,
hegemonizados pelos comunistas, apoiados pela URSS. Logo em seguida, quando sua extensão para a América Latina foi considerada uma hipótese
cairiam também o Laos e o Camboja. Os americanos, embora tendo deixa- possível (Fernandes, 1979). Contudo, após a morte do Che Guevara, em ou-
do a região arrasada, foram obrigados a contabilizar uma derrota humilhan- tubro de 1967, e do fracasso do projeto da grande zafra, em 1970, quando
te. Parecia realizar-se a metáfora da queda dos dominós, formulada desde se pretendeu, em vão, colher o recorde histórico de 10 milhões de toneladas
1946, segundo a qual era preciso deter, a qualquer custo, eventuais vitórias de açúcar, o alinhamento político e diplomático com a URSS tendeu a se es-
dos comunistas, pois elas tenderiam a se encadear de forma incontornável. tabilizar, com a prevalência de aspectos centrais do modelo soviético (parti-
No mundo árabe e muçulmano, houve ziguezagues (recuo da URSS no do único, plano centralizado, estatização geral da economia, forças armadas
Egito) e algumas derrotas históricas (queda de A. Sukarno na Indonésia), profissionais calcadas no modelo soviético etc.). Cuba revolucionária, embo-

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rã mantendo margens de autonomia, alinhava-se, afinal, na órbita soviética teiriços entre a URSS e a China (1969), o questionamento explícito que esta
e em suas organizações políticas e militares (Comecon, Pacto de Varsóvia última começou a fazer do traçado das fronteiras entre os dois países, chega-
etc.). No restante da América Latina, a derrota da experiência da Unidade ram a alimentar a hipótese de uma guerra de grandes proporções entre os
Popular, chefiada por Salvador Allende, em 1973, fora um retrocesso, assim dois ex-aliados.
como uma constelação de ditaduras militares no subcontinente latino-ameri- Entretanto, a alternativa maoísta, embora tenha seduzido durante um
cano (Argentina e Brasil, entre outras). Contudo, ainda ao longo dos anos certo tempo muitas correntes radicais em todo o mundo, tendeu a declinar
70, a URSS tentaria, às vezes com êxito, estabelecer relações com regimes mi- em virtude do fracasso de suas principais propostas. As Cem Flores, que vi-
litares nacional-estatistas que ressurgiram na região — no Panamá, na savam promover um amplo debate na sociedade sobre o socialismo, não flo-
Bolívia e no Peru. No fim da década, em 1979, o triunfo dos sandinistas na riram como se esperava, e feneceram muito rapidamente, podadas pelo apa-
Nicarágua e o fortalecimento de um movimento nacionalista radical em El relho repressivo. O Grande Salto para a Frente foi um grande salto para trás,
Salvador, além de outras evoluções na área, prenunciavam um novo surto de gerando fome e desespero, o que foi assumido pelo próprio Mão autocritica-
vitórias de movimentos guerrilheiros — uma nova queda de dominós? mente. Finalmente, a Grande Revolução Cultural Proletária, apesar de, ini-
Todo este avanço, paradoxalmente, não unificara o mundo socialista, cialmente, ter registrado certos avanços no sentido da democratização do
cujas divisões acentuavam-se. Na Europa Central, permanecia uma situação poder e do aparelho educacional, cedo teve sua dinâmica limitada a lutas in-
instável — crises sucessivas na Polónia, movimentos diversos —, porém conciliáveis entre correntes partidárias pelas instâncias centrais do Estado.
tendo um denominador comum — a luta por autonomia na Albânia, na Em vez de grande revolução, passou a ser uma pequena luta política (no sen-
Hungria e na Roménia, somando-se à já histórica dissidência da Jugoslávia, tido histórico) pela afirmação do próprio Mão Tsé-tung na liderança do par-
e, finalmente, a Primavera de Praga, em 1968, quando se tornou necessário tido e do Estado chineses.
fazer intervir mais uma vez os tanques para esmagar uma tentativa de cons- No início dos anos 70, a aproximação entre os EUA e a China foi a evi-
truir um socialismo democrático, plural (Broué, 1979). Na Europa Oci- dência mais segura da seriedade com que se cogitava da ameaça soviética. Ao
dental, multiplicavam-se os adeptos do eurocomunismo, principalmente na mesmo tempo, porém, integrando os chineses nas instituições internacionais
Itália, dificultando o exercício da liderança de Moscou no quadro do que res- (ingresso na ONU), contribuiu para atenuar o radicalismo que se tornara
tava do movimento comunista internacional. marca registrada do maoísmo. Quando Mão desapareceu, em 1976, a China
Na China, apareceu uma ameaça maior. Chefiados por Mão Tsé-tung, os já se encontrava envolvida no processo das Quatro Modernizações (da in-
comunistas chineses trataram, várias vezes, ao longo dos anos 50 e 60, de dústria, da agricultura, da ciência e das forças armadas) — que a levaria
construir alternativas aos soviéticos. As políticas das Cem Flores (1956), do longe no caminho da prosperidade e da aliança com os capitais internacio-
Grande Salto para a Frente (1958) e da Grande Revolução Cultural Pro- nais (V. Pomar, 1987).
letária (1965-1969) constituíram, associadas a uma agressiva política exter- De sorte que, apesar das contradições no próprio campo socialista, a
na de apoio aos movimentos de libertação nacional em toda a parte, o cerne URSS não deixava de aparecer como superpotência e de ser respeitada como
do maoísmo, já não apenas um modelo de guerra camponesa de libertação tal. Os encontros regulares dos presidentes americanos com o sempiterno se-
nacional, mas uma tentativa de surgir como um novo farol para a revolução cretário geral soviético — L. Brejnev —, que permanecia firme no cargo, au-
mundial. A proposta de cercar as cidades pelos campos assumia agora um al- torizavam a hipótese da formação de uma espécie de condomínio mundial —
cance maior: o de cercar as cidades do planeta (o mundo rico) pelos campos o mundo regido pelos interesses dos EUA e da URSS.
— os países pobres e oprimidos. O problema é que os chineses colocavam a Acordos comerciais interligavam com cada vez maior força ambos os
URSS no contexto do mundo rico. E mais: situavam-na como mais perigosa lados. Nos anos 70, o comércio entre americanos e soviéticos multiplicou-se
ainda do que os EUA, pois, enquanto estes últimos estavam em decadência, por oito, as importações soviéticas de cereais atingindo a média anual de 40
aquela encontrava-se numa trajetória ascendente. Os choques armados fron- milhões de toneladas no início dos anos 80 (Nove, 1990). Em contrapartida,

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a URSS aparecia como grande fornecedora de petróleo para a Europa Estado, constituíam-se grupos com dinâmica própria, indevidamente chama-
Ocidental, iniciando-se a construção de um gasoduto ligando esta região à dos de feudos (Hough, 1969), sem falar nas máfias, das quais se ouviram as
Sibéria. Com a França e a República Federal Alemã (RFA), principalmente, primeiras denúncias em meados dos anos 70.
a URSS tecia acordos políticos e económicos de grande alcance. A Ostpolitik Autonomias desafiando a ambição do poder central de tudo controlar,
(abertura para o Leste), encabeçada pelo social-democrata Willy Brandi, escorrendo por entre as malhas de um Estado cuja onipotência só existia nas
desde 1969, contribuíra para diminuir notavelmente as tensões na área, le- teorias do totalitarismo, redefinindo, reajustando e até invertendo as orien-
vando, inclusive, ao reconhecimento das fronteiras e da personalidade diplo- tações provenientes das instâncias centrais.
mática da República Democrática Alemã (RDA), sem que tivesse sido neces- As frequentes campanhas em prol da disciplina e contra o desperdício no
sário tirar uma pedra do Muro de Berlim, erguido desde 1961. trabalho, contra o alcoolismo e o absenteísmo, evidenciavam as dificuldades
Em 1975, o acordo final da Conferência sobre a Segurança e a Coope- em controlar e mobilizar uma sociedade que parecia apática e desinteressada
ração na Europa (CSCE), assinado em Helsinque, consagrou as fronteiras (eles fingem que nos pagam, nós fingimos que trabalhamos).
negociadas em Yalta, um antigo programa da diplomacia soviética (Mai- A sociedade emitia outros sinais inquietantes.
danik, 1998). As resistências nacionais, recusando-se a se deixar moldar nos parâme-
Como se não bastasse, a URSS começou a surgir como potência naval tros do homo sovieticus. O processo de integração dos povos soviéticos, can-
mundial. Seus navios de guerra e submarinos atómicos apareciam em águas tado em prosa e verso, parecia não estar funcionando na prática. Desde os
e portos do Sudeste Asiático (Vietnã), do Índico, do Mar Vermelho (lêmen anos 70, denunciava-se a existência de importantes tensões (D'Encausse,
do Sul), do Atlântico (Angola), do Caribe e até mesmo do Mediterrâneo 1978). E o que fazer com uma juventude que não se reconhecia mais nos
Oriental. Sucediam-se advertências sombrias e apocalípticas: aonde iria mitos e nos líderes fundadores da revolução, parecendo seduzida por pa-
parar o expansionismo soviético? drões dos países capitalistas? Os próprios trabalhadores exprimiam descon-
A URSS passara por profundas transformações, verdadeiras mutações tentamento, registrando-se greves e tentativas de formação de sindicatos li-
sociais, percebidas, entre outros, por M. Lewin (1988). Em meio século, o vres (Werth, 1992). Sem falar no fenómeno da chamada dissidência, desgas-
processo de urbanização registrará um impressionante crescimento: de 59 tando com suas denúncias e seus escândalos uma ordem que se queria perfei-
milhões para 180 milhões de pessoas. No início dos anos 80, cerca de 66% ta (Soljenitsin, 1975).
da população viviam em cidades, mais 17 pontos percentuais em vinte anos. Sintomas, dificuldades, lados ocultados por uma propaganda maciça, de
No mesmo período, os centros urbanos de mais de l milhão de habitantes grande potência, mas nem por isso menos reais.
saltaram de 3 para 23, concentrando mais de 25% da população total, ab- Já não se falava mais, como nos tempos de N. Kruchev, em alcançar,
sorvendo um afluxo de 35 milhões de migrantes. muito menos superar, os EUA. Os indicadores económicos despencavam.
Outra mudança qualitativa — a qualificação da mão-de-obra. Nos anos Entre 1965 e 1970, ainda fora possível registrar excelentes médias anuais de
80, 40% da população urbana economicamente ativa eram formados por di- crescimento industrial: em torno de 8,5%. Contudo, entre 1981 e 1985, es-
plomados em segundo grau (cerca de 18 milhões) ou universitários (13,5 mi- tas mesmas médias caíram para 3,5%. A comparação dos planos quinque-
lhões). Estava em curso uma progressiva sofisticação da força de trabalho. nais aplicados nos anos 60 e 80 mostra defasagens em até 10 pontos entre
Cada vez menos trabalhadores manuais, cada vez mais qualificação. Desde metas definidas e resultados de fato alcançados. No X Plano, entre 1981 e
meados dos anos 70, um outro índice económico revelador: uma leve supre- 1985, somente a produção de gás conseguiu superar as previsões (Nove,
macia do setor de serviços em relação ao setor industrial. 1990). Na agricultura, a média anual nos anos 80 decrescera, apesar dos ma-
Nesta sociedade crescentemente urbanizada e instruída, extraordinaria- ciços investimentos, para 1,4%, abaixo do crescimento demográfico, sobre-
mente complexa, tornava-se cada mais difícil — e mesmo inviável — manter tudo das nações não-russas.
os padrões centralistas dos anos 30 (Werth, 1992). No próprio coração do Em vinte anos a produtividade declinara de 6,3% para menos de 3% e

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O SÉCULO XX
O MUNDO SOCIALISTA: E X P A N S Ã O E A P O G E U

os investimentos, de 7,8% para 1,8% (Werth, 1992). De um lado, aumenta- vetustos senhores que o sucederam, I. Andropov e K. Tchernenko, ambos
vam os estoques de artigos invendáveis. De outro, demandas insatisfeitas. cedo ceifados pela morte, pareceram uma perda de tempo. De certo modo,
Definitivamente, o pais não estava conseguindo alcançar os ritmos que ti- era sintomático que as elites reagissem assim às urgências dos desafios: per-
nham feito a glória dos planos nos anos 30. diam tempo quando não estavam em condições de esperar.
Onde estaria o nó básico? Na agricultura, que, desde os anos 50, recebia Mas quem poderia prever a iminência de um colapso histórico?
recursos extraordinários, aparentemente a fundo perdido? Na mão-de-obra,
com sua inapetência para o trabalho, e sua insubmissão diante das ordens e
prescrições? Nos critérios dos planos, enfatizando sempre os aspectos quan-
titativos e descurando os qualitativos? Na corrupção, que se alastrava ern BIBLIOGRAFIA
todos os níveis? No abismo colossal verificado entre o discurso oficial e a
prática das elites? Broué, P. 1979. A primavera dos povos começa em Praga. São Paulo, Kairós.
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Hough, J. 1969. The soviet prefects. Cambridge, Cambridge University Press.
tados positivos esperados. Houvera ali um erro de cálculo. Os soviéticos Lewin, M. 1988. O fenómeno Gorbachev. Rio de Janeiro, Paz e Terra.
imaginavam estar participando de uma operação de polícia internacional, Maidanik, K. 1998. "Depois de outubro, e agora? Ou As três mortes da revolução russa".
nos moldes da que haviam protagonizado na Tchecoslováquia em 1968, mas Tempo. Revista do Departamento de História da UFF, n. 5. Rio de Janeiro, Sette
tinham mergulhado numa guerra de guerrilhas longa e desgastante. Muitos Letras.
já falavam do Afeganistão como o Vietnã soviético... Nove, A. 1990. An economic history of th e USSR. Londres, Penguin Books.
No mundo socialista o dinamismo vinha apenas da China, mas ele não Pomar, V. 1987. O enigma chinês: capitalismo ou socialismo. São Paulo, Alfa-Ômega.
Reis Filho, D. 1981. A revolução chinesa. São Paulo, Brasiliense.
reforçava a URSS, pois, além das reservas que os chineses cultivavam em re-
. 1997. Uma revolução perdida. São Paulo, Fund. Perseu Abramo.
lação aos soviéticos, eles pareciam optar, justamente, por uma política de
Sapir, J. 1990. Uéconomie mobilisée. Paris, La Découverte.
descoletivização do campo, que nada tinha a ver com o modelo apresentado Soljenitsin, A. 1975. O Arquipélago Gulag. São Paulo,,Difel.
por Moscou. Nos demais países socialistas reinava uma atmosfera morosa, Werth, N. 1992. L'Histoire de 1'Union Soviétique. Paris, PUF.
apenas interrompida pelos protestos e pelo inconformismo na área da
Europa Central, na Polónia em particular, com os movimentos sociais de
sempre, que agora desembocavam, porém, num fenómeno estranho e inédi-
to: a formação de um sindicato autónomo em relação aos comunistas — o
Solidariedade.
A URSS parecia necessitar de reformas. Não era um gigante imóvel, nem
estagnado. Internamente, evidenciava um grande dinamismo social e um
certo desenvolvimento económico, embora declinante. Externamente, ainda
provocava respeito e medo.
Mas seria necessário eleger prioridades, fazer opções. Ora, na primeira
metade dos anos 80, a longa agonia de L. Brejnev e os curtos mandatos dos

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Descolonização e lutas de
libertação nacional
Maria Yedda Leite Linhares
Professora titular de História Moderna e Contemporânea
e professora emérita da Universidade Federal do
Rio de Janeiro
INTRODUÇÃO

Em 1961, ainda durante a guerra de libertação da Argélia, escrevia Jean-Paul


Sartre o memorável prefácio ao livro de um intelectual negro, da Martinica,
argelino de coração, Frantz Fanon, que se tornaria o manifesto-denúncia do
colonialismo e o grito de revolta contra a dominação imperialista da Europa
(Fanon, 1961).

"Não faz muito tempo, a terra contava com 2 bilhões de habitantes, ou seja,
500 milhões de homens e 1,5 bilhão de indígenas. Os primeiros dispunham do
Verbo, os outros o pediam emprestado. Entre uns e outros, reis de fancaria,
feudais, uma burguesia inteiramente falsa, serviam de intermediários. Perante
as colónias, a verdade se mostrava nua: as 'metrópoles' queriam que ela se
apresentasse vestida; era preciso que o indígena as amasse. Como se, de algum
modo, fossem mães. A elite europeia procurou fabricar um indigenato de elite;
selecionavam-se adolescentes que tinham sobre a testa, marcados a ferro, os
princípios da cultura ocidental e a boca recheada de mordaças sonoras, belas
palavras pastosas que se colavam aos dentes; após uma breve estada na metró-
pole, eram enviados de volta, truncados. Mentiras ambulantes, nada mais ti-
nham a dizer a seus irmãos; estes faziam eco; de Paris, de Londres, de Amsterdã,
lançávamos as palavras 'Partenon! Fraternidade!' e, em alguma parte da África,
da Ásia, lábios se entreabriam: '...tenon! ...nidade!'. Era a idade de ouro."

Sartre foi a grande voz da consciência europeia anticolonialista. Filósofo,


escritor, romancista, jornalista, panfletista, das ruas e das praças públicas de
Paris desafiou a sociedade conservadora e retrógrada, as "forças da ordem",
os poderes constituídos da República, colocando-se sempre em defesa dos
oprimidos, da liberdade de expressão e das manifestações de solidariedade
aos que se opunham à opressão, à hipocrisia, ao medo e ao oportunismo.
Representou a grande força moral da inteligência livre e independente.

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O S É C U L O XX
D E S C O L O N I Z A Ç A O E LUTAS DE L I B E R T A Ç Ã O N A C I O N A L

Naquele momento, estava no auge o confronto entre dominadores e do-


Como justificar essa investida europeia sobre o mundo? Recentemente,
minados, ou seja, entre colónias e metrópoles. Povos e regiões da Terra que
um historiador árabe, nascido na Palestina, mas de longa e profunda vivência
tinham sofrido, no passado, a ocupação direta por países estrangeiros, come-
na Europa (Inglaterra) e nos Estados Unidos, Edward W. Said, num livro com-
çavam a manifestar, por meios diversos, a sua insatisfação. A Ásia, por exem-
plexo e erudito, analisou esse problema — o das relações entre, de um lado, o
plo, fora berço de civilizações magníficas que marcaram conquistas funda-
imperialismo, ou seja, a extensão do domínio e da soberania sobre diferentes
mentais da Humanidade, no tocante ao domínio sobre a natureza e o avan-
populações e territórios, com o objetivo de aumentar força e poder, e, de
ço técnico, tais como a domesticação de animais, a agricultura para a obten-
ção de alimentos, a cerâmica para a fabricação de utensílios, a metalurgia, o outro, a cultura. Trata-se, fundamentalmente, em saber — e explicar — como
papel, a pólvora, bem como instituições que tornaram possível a vida social intelectuais ilustres (as visões e perspectivas de Joseph Conrad, Jane Austen, a
(cidades, organizações políticas que levaram à constituição de Estados, a ópera Aída, de Verdi) vêem e justificam a atuação do homem branco civiliza-
moeda, a escrita). A Ásia ostentava, de fato, uma vivência histórica de 5 mil dor em outras regiões e junto a outros povos. Trata-se, evidentemente, de po-
anos. No entanto, a partir do século XVI, com as primeiras navegações eu- líticas que serviram a interesses concretos de industriais, comerciantes e ban-
ropeias que atingiram o Índico e o oceano Pacífico, o isolamento dessas ve- queiros, em busca de lucros e novas áreas de investimentos, escudados, para
lhas civilizações começava a ser interrompido. tanto, na Igreja, em busca da propagação da Fé, nos exércitos e nas marinhas,
Foi, porém, a partir do século XVIII e, sobretudo, com a superioridade que mantinham poderosas indústrias, no Estado de caráter burguês, garanti-
técnica ostentada pelos paíséída revolução industrial e capitalista (principal- dor da grandeza de seus cidadãos, e nos intelectuais, em busca de temas, lei-
mente a Inglaterra e a França, logo seguidas pela Holanda) que os povos al- tores e poder. A experiência imperialista era parte do cotidiano.
tamente civilizados da Ásia, dotados de padrões éticos bem diversos dos va- Bernard Shaw (1856-1950), escritor britânico e com sólidas origens ir-
lores fundados na preeminência dos bens materiais, valores esses que se in- landesas, encarava de outra forma os fins do imperialismo. Escrevia ele em
troduziam incorporados à ocupação ocidental, viram-se ameaçados pela O homem do destino:
perda de sua identidade cultural. Tratava-se de mais ainda, ou seja, a perda
de riquezas, de autonomia, como uma tentativa de ser-lhes arrancado o pas- "O inglês nasce com certo poder milagroso que o torna senhor do mundo.
sado pelas raízes. Quando deseja uma coisa ele nunca diz a si mesmo que a deseja. Espera pa-
Quanto à África, a espoliação de que foi vítima tivera início no século cientemente até que lhe venha à cabeça, ninguém sabe como, a insopitável con-
XVI com os desembarques no litoral ocidental atlântico, inicialmente em vicção de que é seu dever moral e religioso conquistar aqueles que têm a coisa
busca de ouro e, logo a seguir, como fonte supridora de escravos negros, o que ele deseja possuir. Torna-se, então, irresistível [...] Como grande campeão
inusitado trabalhador, transformado em mercadoria altamente lucrativa, que da liberdade e da independência, conquista a metade do mundo e chama a isso
iria enriquecer os comerciantes e ser a mão-de-obra das novas colónias da de colonização. Quando deseja um novo mercado para seus produtos adultera-
América. Os invasores mudaram os velhos e sólidos padrões das sociedades dos de Manchester, envia um missionário para ensinar aos nativos o evangelho
tribais, impondo o racismo e outras formas de corrupção em decorrência do da paz. Os nativos matam o missionário; ele recorre às armas em defesa da
tráfico de homens, mulheres e jovens mal saídos da infância. cristandade; luta por ela, conquista por ela; e toma o mercado como uma re-
Ao longo do século XIX, aprofundou-se a ocupação do continente afri- compensa do céu [...]"
cano; seus povos e seus territórios foram partilhados entre as potências da
Europa, já então monopolizadoras do novo saber científico e tecnológico da Bernard Shaw representava, em plena era do imperialismo, a consciência
Revolução Industrial e das técnicas da organização económica do capitalis- crítica da Inglaterra aliada ao espírito irredento do irlandês dublinense, con-
mo. A Europa entrava, a partir dos anos 70 do século XIX, numa nova era
testador por princípio. Mas a sorte dos impérios coloniais não seria longa. A
de expansão e conquista do mundo. A essa era os próprios contemporâneos
crise do capitalismo, a partir de 1929, a ascensão fulgurante do nazi-fascis-
denominaram de imperialismo.
mo aliada à emergência do Japão, no Extremo Oriente, como se estivesse a

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O S É C U L O XX D E S C O L O N I Z A Ç Ã O E LUTAS DE L I B E R T A Ç Ã O N A C I O N A L

confirmar os temores do Império Alemão do Kaiser Guilherme n quanto ao Na Ásia, a insatisfação era grande nas classes dirigentes locais, sobretu-
perigo amarelo, o desencadeamento da guerra em 1939 e sua expansão mun- do no mandarinato, os letrados privilegiados que monopolizavam saber e
dial até 1945, todos esses são os fatores que irão desencadear a desagregação prestígio. Maior insatisfação, no entanto, residia entre camponeses que re-
dos impérios, nos anos que sucederam o fim do conflito mundial. presentavam o grosso da população colonizada e que, cada vez mais, se jun-
Restará sempre uma pergunta: o imperialismo como sistema jurídico-po- tavam aos movimentos nacionalistas de influência comunista.
lítico-militar chegará ao seu fim na década de 1980, no entanto, que novas Os impérios coloniais construídos, em grande parte, ao longo do século
formas de dominação irão favorecer e consolidar a divisão do mundo entre XIX pareciam iniciar, de fato, um processo de liquidação. Na África, na
ricos e pobres e com que novas ou velhas justificativas? Tentaremos respon- índia, na Indonésia, era como se ingleses, franceses, belgas, portugueses e ho-
der a esta questão ao longo do presente texto. landeses começassem a sentir que a dominação do homem branco sobre o
planeta Terra entrava em fase de extinção. No lugar dos senhores dominado-
res que, a partir do século XVI, em etapas sucessivas, avançaram sobre todos
os oceanos e mares, surgiriam, na esteira da Segunda Guerra Mundial, popu-
1. A DESCOLONIZAÇÃO NO PÓS-GUERRA lações com identidade cultural própria. Os conquistadores modernos anexa-
ram continentes inteiros, quer sob a dominação de seus soldados e gover-
A guerra ainda não terminara de todo na Europa e no Extremo Oriente, nadores, quer sob o patrocínio e a díreção de seus comerciantes, religiosos e
quando se reuniu, em abril-junho de 1945, a Conferência de São Francisco, aventureiros, reconhecidos hoje como Estados, povos e nações.
Estados Unidos, com o objetivo de discutir, entre os aliados militares vitorio- Esse movimento, acelerado ao longo dos anos 50 e 60, recebeu a deno-
sos sobre o nazi-fascismo, a feitura de uma Carta ou de uma Constituição in- minação de descolonização, que resultou no fim dos impérios coloniais,
ternacional capaz de assegurar a paz entre os povos. Daí resultou a Carta da parte de um longo processo de mudança no plano internacional. E foram di-
Organização das Nações Unidas (ONU), que recebeu a assinatura de cerca versos os caminhos da independência.
de 50 Estados fundadores. Decorrido um quarto de século, esse número che-
gou a 120, o que serve como indicador da rapidez com que se deu o proces-
so de constituição dos novos Estados afro-asiáticos. Afinal, descolonização por quê?
Neste fim de século, o número de países membros da ONU já é superior
a 190. Novos países emergiram das lutas contra o colonialismo, acrescentan- No seu nascedouro, a palavra descolonização já vem carregada de ideologia,
do-se, ainda, nos anos mais recentes, aqueles que resultaram do desmorona- parecendo definir um destino histórico dos povos colonizados: depois de ter
mento dos Estados socialistas na Europa, bem como de desmembramentos colonizado, o europeu descoloniza, estando, pois, implícita a vontade do
na Ásia, no subcontinente indiano, no Oriente Médio e na própria África, re- país colonizador de abrir mão de pretensos direitos adquiridos em determi-
sultantes de velhas heranças tribais e reivindicações internas, reivindicações nado momento. A generalização do termo implica, de certa forma, uma in-
essas, em parte, alimentadas pelos interesses externos, quer da antiga metró- terpretação eurocêntrica-da História, ou seja, a noção de que só a Europa
pole quer das rivalidades internacionais então em jogo. possui uma História ou é capaz de elaborá-la. Os outros não têm História:
Tratava-se de um processo de mudança que teve início logo após o tér- nem passado a ser contado nem futuro a ser elaborado.
mino da guerra na Europa, e se intensificou na década de 1950. Nas colónias Enquanto o longo processo de colonização resultou de uma ação euro-
africanas, o movimento de participação no conflito mundial foi acentuado, peia, a partir do século XVI, extremamente complexa e diversificada, a des-
desde o primeiro chamado da metrópole à solidariedade de súditos e colo- colonização deve ser vista como um amplo processo histórico ligado à crise
nos, com consequência positiva no pós-guerra, no tocante ao movimento de do capitalismo na década de 1930 e à Segunda Guerra Mundial, de devasta-
independência. doras consequências para os impérios coloniais. Os movimentos nacionais

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D E S C O L O N I Z A Ç À O E LUTAS DE L I B E R T A Ç Ã O NACIONAL
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que estão no bojo da aspiração dos povos colonizados são bastante comple- ria a evolução dos partidos, sobretudo os de esquerda, com larga margem de
xos nas suas diversas possibilidades, realizações e frustrações. Na realidade, prestígio para os partidos comunistas, como ocorreu na França, na Bélgica,
como processo histórico de grande envergadura, a descolonização não foi na Holanda, na Grécia, na Jugoslávia.
ainda concluída no que ela poderia significar em termos de bem-estar e auto- O eclipse, embora temporário, da Europa correspondia à ascensão mun-
determinação dos povos que viveram na órbita do colonialismo. dial dos Estados Unidos, líder de um novo capitalismo, sem rivais e sem con-
A guerra que se encerrava em 1945, com a derrota da Alemanha, da correntes. Nação milionária, vencedora sobre o Japão, financiadora e cons-
Itália e do Japão, deixava atrás de si um saldo negativo para vencidos e ven- trutora da vitória em todas as frentes, tinha, no entanto, que encarar o evi-
cedores: um passivo em vidas humanas de 100 milhões, entre civis e milita- dente prestígio da União Soviética, conquistado através da extraordinária re-
res, e o genocídio de 5 milhões de judeus, além de astronómicas perdas ma- sistência de seu povo e de seus exércitos à ocupação do país pelas tropas de
teriais desigualmente distribuídas e calculadas em termos da destruição de Hitler. A investida do exército soviético em direção a Berlim consagrou a vi-
equipamentos urbanos, instalações de infra-estrutura, campos agrícolas, fa- tória final sobre a Alemanha. A partir desse momento, torna-se indiscutível
tores esses que trouxeram o caos para o terreno de batalha em que se trans- a liderança dessas duas potências no plano mundial, a URSS e os Estados
formara a Europa. No entanto, o progresso técnico foi acelerado nesses anos Unidos da América.
de conflito, através das novas descobertas para o combate às doenças (DDT, No Pacífico, o colapso do Japão, definitivo e arrasador, após o lança-
penicilina) e para o desenvolvimento de meios mais rápidos de comunicação mento de duas bombas atómicas (Hiroshima e Nagasaki), revelava que o cré-
(radar, aviação supersônica), elementos que iriam apressar a reconstrução do dito da derrota não era somente dos Estados Unidos. Coube à China uma
sistema económico. Mais rapidamente do que no pós-guerra de 1918, o ca- importante participação na luta contra o Império Japonês. País de propor-
pitalismo se equipava para a sua reconstrução. ções continentais e imensa população, a China emergia de um longo período
de guerras internas que resultaram na derrota final das então chamadas for-
ças nacionalistas de Chiang Kai-shek e na vitória dos comunistas de Mão
O eclipse da Europa Tsé-tung. Seria esse um fato decisivo para a evolução e o final desmorona-
mento dos impérios coloniais no Extremo Oriente e no Sudeste Asiático, nas
Naquele momento, falava-se no eclipse da Europa, ressaltando-se o conteú- décadas seguintes.
do revolucionário do conflito que se encerrava, tendo em vista a importante
participação da URSS na derrota do nazi-fascismo e o seu reconhecimento
como nova potência mundial. Considerava-se, entre vencidos e vencedores A formação dos blocos internacionais e a divisão do mundo
— com temor para uns, com esperança para outros —, que o socialismo era
parte da experiência soviética como uma alternativa de desenvolvimento O estudo da descolonização não pode ser levado a cabo sem que se tenha em
para povos, países e nações que gravitavam na órbita do capitalismo. mente o quadro internacional no qual ela se desenvolve, bem como as ques-
Considere-se, ainda, o fato de que a ocupação de territórios pelos exérci- tões estruturais que moldam esse imenso processo de mudança. De um lado,
tos inimigos criara uma nova versão de nação em armas, na medida em que a hegemonia dos Estados Unidos sobre o mundo capitalista e sua relação
o prestígio da resistência, aluando como guerrilha, contra os exércitos nazis- com uma Europa em crise. De outro, o novo prestígio da União Soviética e a
tas e fascistas, tanto na Europa como na Ásia, contribuiu para abalar o poder constituição, a partir de 1949, com a inclusão de uma China comunista, do
das burguesias locais, acusadas de colaborar com o inimigo. Os partidos po- bloco socialista, integrado pelos países do Leste europeu, que sofreram a
líticos que emergiram no pós-guerra iriam sofrer a influência desses movi- dupla ocupação militar de alemães e soviéticos. Os tratados de paz assinados
mentos de opinião pública, internamente, bem como no tocante à situação em Paris (10 de fevereiro de 1947) traçaram as novas fronteiras da Itália, da
das colónias. Tratava-se de uma divisão social interna profunda que marca- Hungria, da Roménia, da Bulgária e da Finlândia, deixando um saldo alta-

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O S É C U L O XX DESCOLONIZAÇÃO E L U T A S DE L I B E R T A Ç Ã O N A C I O N A L

mente favorável para a União Soviética. Com eles, nasce o bloco socialista e a Inglaterra revidar o ataque, com a brilhante participação das tropas fran-
é dado o sinal de partida à Guerra Fria. cesas resistentes ao governo colaboracionista de Vichy e o apelo às popula-
É evidente que a tensão internacional desses anos de pós-guerra teve ções locais. A vitória das tropas francesas em Bir-Hakeim (Líbia, junho de
forte influência no processo de descolonização, assim como a intensificação 1942), por exemplo, após 16 dias de cerco por parte do general Rommel, foi
das rivalidades levou a confrontos que não se limitavam à simples oposição decisiva para a recuperação do prestígio francês na região.
entre comunistas e democratas ou entre capitalismo e socialismo, desenca- Por outro lado, as dificuldades militares por que estavam passando as até
deando conflitos armados prolongados. Já nos anos 60, autores se referiam então poderosas metrópoles foram muito importantes para enfraquecer a
a mudanças estruturais no sistema capitalista; daí, as referências a neocapi- imagem das potências colonizadoras junto a seus colonizados. Começava a
talismo e neocolonialismo. Nas relações colônia-metrópole, os capitais bus- ficar seriamente abalado o mito da superioridade do homem branco. A en-
cam lucros não mais no controle da terra destinada à agricultura de exporta- trada do Japão na guerra (dezembro de 1941) em decorrência do ataque a
ção e nem na construção da rede de transportes, mas em atividades nos seto- Pearl Harbor, base dos Estados Unidos no Pacífico, iria comprovar, mais
res estratégicos, tais como minérios, combustíveis e modernas indústrias de uma vez, que os outros povos da Terra, que não estavam incluídos, segundo
transformação. a ideologia dominante do colonizador europeu, entre os dominadores elei-
Por outro lado, cabe a entidades e agências internacionais, sob o coman- tos, seriam capazes de enfrentar os invencíveis da véspera. As vitórias japo-
do da superpotência capitalista, dirimir dúvidas e rivalidades, atenuando, nesas no continente asiático e no Pacífico, sobre holandeses, ingleses, france-
assim, conflitos que anteriormente eclodiam na própria esfera interimperia- ses e americanos, foram contundentes. Assim, a extensão do conflito euro-
lista. Tratava-se de diminuir a competição entre aliados do mesmo bloco. A peu ao Norte da África, ao continente asiático e ao Pacífico passará a envol-
ONU, o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional (FMI), além das ver, direta ou indiretamente, outros povos e outras regiões julgadas, até
organizações militares de defesa de áreas estratégicas (o Atlântico Norte e o então, inatingíveis. A guerra se tornara mundial; no seu bojo, emergiam e se
Sudeste da Ásia), eram bem mais do que atenuadores de conflito para se multiplicavam as aspirações de independência dos povos dominados.
tornarem articuladores e executores de objetivos centrais da política do As dificuldades terríveis por que passavam os países imperiais pareciam
capitalismo. demonstrar que o homem branco era vulnerável. Assim, a desagregação dos
impérios coloniais construídos de longa data insere-se nesse contexto inter-
nacional, e se prolongará nos anos do pós-guerra. A tomada de consciência
A tomada de consciência dos povos colonizados dos povos colonizados se dá no momento em que eles são chamados a parti-
cipar na guerra em defesa de suas respectivas metrópoles, obtendo, como re-
A Segunda Guerra Mundial desempenhou um papel fundamental no movi- compensa, garantias de autonomia ou de independência, nem sempre respei-
mento de revolta das colónias contra as metrópoles. A França, a Bélgica, a tadas (Cardoso, 1973).
Holanda, a Inglaterra estavam envolvidas num conflito de vida e de morte que A maneira pela qual se desenvolveu essa colaboração dependeu de vários
comprometia a sua própria sobrevivência como países e como nações. No fatores que têm a ver com as características do processo de colonização de
caso dos três primeiros, sob ocupação militar alemã, desde 1940, coube aos cada região ou colónia e que foram decisivos no tocante às formas de atua-
movimentos de resistência antifascista, liderados ou inspirados pela estratégia ção do imperialismo em situações e momentos específicos (fatores históricos,
britânica de luta desesperada contra a Alemanha e, a partir de 1942, pelas or- económicos, geográficos, estratégico-militares). Assim, por exemplo, regiões
ganizações comunistas nos países ocupados, buscar o apoio das colónias. diferentes como a África Negra, o Norte da África (o Magrebe), o Oriente
No caso do Norte da África, sobretudo após a campanha das tropas Próximo, o Sudeste Asiático, o Extremo Oriente não poderão ser compreen-
blindadas do general alemão Erwin Rommel (1891-1994) — o Afrika Korps didas em bloco; a forma de atuação das potências colonizadoras teve certa
(1941-1943) — no Saara, tendo como alvo o Egito e o Canal de Suez, pôde especificidade em cada caso, assim como o processo de descolonização deve

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O SÉCULO XX DE5COLONIZAÇÀO E LUTAS DE L I B E R T A Ç Ã O NACIONAL

ser encarado, e sua evolução posterior, respeitando-se tais diferenças históri- A crise internacional que se intensifica já a partir de 1947 deu origem a
cas, como tradições e culturas, níveis de desenvolvimento histórico, recursos um longo período de guerra fria, definindo não apenas uma rivalidade entre
naturais etc. (Linhares, 1967). dois poderios militares (os Estados Unidos e a União Soviética) ou duas re-
Os movimentos nacionais que se manifestam mais ativamente nos anos giões da terra, o Ocidente e o Oriente, o Oeste e o Leste, um capitalista e o
da Guerra Fria, como na índia, na Indochina, na Argélia, no Marrocos e na outro comunista, mas sobretudo, segundo a propaganda difundida na época,
China, são, na realidade, antigos e têm uma longa história com raízes cultu- ou seja, a diferença entre dois mundos e duas concepções de vida, a democra-
rais profundas. Tais povos têm uma tradição de resistência a invasões estran- cia e a tirania. Essa ideologia, apregoada aos quatro ventos, associava capi-
geiras e jamais aceitaram de braços cruzados a dominação do imperialismo talismo a liberdade e socialismo ou comunismo a atraso e opressão. Novos
europeu. Não há dúvida, porém, de que o nacionalismo que se manifesta nas conceitos surgem, como o de Terceiro Mundo, para simbolizar a parte da hu-
colónias no pós-guerra tem novas feições e seus líderes se apresentam como manidade que se situaria numa espécie de limbo da História, nem no Pri-
porta-vozes de aspirações populares, embora nem sempre de forma coerente. meiro Mundo (o do capitalismo e da democracia, da riqueza e da abundân-
Por exemplo, o nacionalismo de Nehru (índia) apresenta características aris- cia) nem no Segundo Mundo (o do comunismo e da ausência de liberdade).
tocráticas e autoritárias que o distinguem de um Lumumba (Congo, ex- Aos dois primeiros mundos outorgava-se, ainda nos parâmetros da pro-
belga) ou de Nasser (Egito). paganda internacional, o privilégio de serem desenvolvidos, já que detento-
Outros líderes, como^Ho Chi Minh, que comandou a guerra pela liberta- res do controle tecnológico (sobretudo atómico), cabendo ao Terceiro
ção do Vietnã, ex-Indochina (francesa), simbolizavam a corrente de esquer- Mundo, sob este título, um novo adjetivo, o de subdesenvolvido. O subde-
da mais radical e comunista dos movimentos de descolonização. Nem todos senvolvimento nascia, assim, já carregado da ideologia do capitalismo ao
aqueles que se distinguiram nas lutas que foram travadas ao longo desse pe- qual caberia a tarefa de elaborar políticas de ajuda e de assistência a essa
ríodo contra a dominação das potências imperialistas merecem ser colocados outra parte do planeta, o mundo à parte, isto é, a América Latina, a África,
na galeria de heróis da pátria. O Congo Belga, por exemplo, após o assassi- o Sudeste da Ásia e os arquipélagos do Pacífico. A luta pela descolonização
nato de Patrice Lumumba, ou Uganda, com a destituição do Partido Nacio- não traduz somente o desejo de libertação ante os impérios dominadores. Ela
nalista de Apoio Milton Obote (o Congresso do Povo de tendência socialis- é também, na maioria dos casos, parte da construção de uma nova História
ta) pelo general Idi Amin (1971), países esses cujas lideranças ainda lutavam da humanidade em meio a um poder internacional em fase de redefinição
pela independência e pela melhoria das condições de vida de seus povos, (capitalismo versus socialismo) e aos milhões de condenados da Terra
foram mergulhados na guerra civil e na brutalidade de práticas de opressão (Fanon, 1961).
insuportável, ora em benefício dos interesses da ex-metrópole e seus títeres
locais (Tchombe, em Katanga) e o reconhecimento do Zaire de Mobutu pela
Bélgica (1966), ora na implantação de um governo ditatorial cruel como o
que levou o povo de Uganda à mais triste miséria. 2. APOGEU E CRISE DOS IMPÉRIOS
É indiscutível que a tomada de consciência dos povos coloniais contra a
dominação por parte do homem branco rico e poderoso, escudado nos seus A expansão da Europa Ocidental — mediterrânea e atlântica —, a partir do
exércitos e nas suas marinhas de guerra, cioso de sua superioridade cultural fim do século XV, foi o fato marcante que acompanhou a desintegração do
e tecnológica, de seus bancos milionários, de seus trens e de seus caminhões, mundo feudal e o nascimento do capitalismo. Data daí a formação dos pri-
desenvolve-se mais rapidamente nesse pós-guerra mundial, em parte graças à meiros impérios mercantilistas que resultaram da conquista e ocupação das
nova correlação de forças entre os países do mundo capitalista: de um lado, Américas, caracterizando o domínio sobre oceanos e mares do globo terres-
a própria transformação ocorrida no interior das velhas metrópoles e, de tre, o início da expropriação da África negra para a comercialização de seus
outro, a divisão entre os vencedores contra o fascismo. habitantes como escravos, a conquista do subcontinente indiano, as primei-

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rãs investidas dos comerciantes e missionários da cristandade sobre a China crescimento demográfico e às crises agrícolas irlandesas, permitirá a emigra-
e seu império, sobre o Japão e o oceano Pacífico com suas ilhas e arquipéla- ção em massa para o apossamento de regiões pioneiras nas novas colónias de
gos, além da Nova Zelândia e do continente australiano. povoamento (Canadá, Cabo, Austrália, Nova Zelândia). Nas Antilhas e na
O século XIX acompanhou a reformulação desses impérios em várias re- Guiana, é mantido o sistema tradicional de colónias, ou seja, a permanência
giões, entre elas, as Américas (os impérios espanhol e português), a África, ao da minoria branca, de origem europeia, detendo o controle da agricultura
longo de seus oceanos e mares, através de suas savanas e florestas, cortando comercial com trabalho escravo de origem africana.
seus rios e desertos; a Ásia do Oriente Próximo ao Índico, ao Sudeste Asiáti- A partir de 1874, em decorrência da primeira crise que abalou o sistema
co e ao Pacífico. Deles resultou uma nova organização imperial, a partir de capitalista caracterizada como sendo de superprodução, a Inglaterra retoma
uma certa concepção eurocêntrica do mundo. o interesse pelo sistema imperialista e sua expansão. Líder incontestada da
O desenvolvimento do capitalismo com base na ideologia liberal do livre revolução industrial, senhora dos mares e, conseqúentemente, aferrada às
cambismo e na suposição de que a superioridade do homem branco era in- concepções de livre comércio e livre navegação, ela seguirá seu curso na de-
discutível constituiu o fundamento moral da nova partilha do mundo — a fesa do liberalismo económico. De fato, somente no fim do século, a concor-
primeira fora sacramentada no Tratado de Tordesilhas, entre Portugal e a rência de produtos industriais e práticas comerciais provenientes do então re-
Espanha, no fim do século XV das grandes navegações oceânicas. Nesses centemente proclamado Império Alemão (1870) começam a ameaçar a hege-
dois momentos da História Mundial, foi nos gabinetes de ministros e ho- monia britânica.
mens de negócio europeus que se fez a divisão de territórios, com suas rique- Por outro lado, também a França republicana, após a derrota do império
zas e seus habitantes, entre os Estados do mundo capitalista, como fora de Napoleão III, ante o exército prussiano e a diplomacia de Bismarck (1870-
antes, em nome de Cristo e das dinastias católicas, também em busca de ri- 1871), recupera-se rapidamente na economia e na política e joga-se, com ape-
quezas. Assim foi, sobretudo, a partilha da África, entre 1880 e 1914 tite e competência, na corrida colonial, que fora iniciada com a ocupação da
(Wesseling, 1998), em nome do poder civilizatório. A história da África, Argélia, na década de 1830. A retomada do projeto imperial francês, conce-
como também a de outros povos que passaram a viver na órbita do imperi- bido pelos políticos republicanos radicais, após o Congresso de Berlim de
alismo, começava a ser concebida e difundida para a autojustificação do pro- 1878, e comandada por Jules Ferry e Léon Gambetta, "lançou a Terceira Re-
jeto de dominação europeia. pública na rota imperial", com a intervenção na Tunísia (Wesseling, 1988,
pp. 26-39), que deu o sinal de partida para o avanço sobre o Norte da África
— o Magrebe, região esta muçulmana, de profunda influência da cultura ára-
O apogeu da dominação be, desde o fim do século VII. Ainda, segundo esse projeto expansionista, a
França, sob a influência de um poderoso grupo colonial instalado nas finan-
No meado do século XIX, quase nada restava dos velhos impérios mercanti- ças, no Parlamento e na imprensa, projeta a sua participação na partilha do
listas. Estes desapareceram na onda desencadeada pela Revolução Francesa mundo não-europeu, ainda fora da órbita de dominação do homem branco.
de 1789-1795, redundando nos movimentos de independência das colónias A França se apresentava, então, como uma espécie de herdeira da políti-
da América que haviam sido fundadas pelos ingleses (ao norte), pelos espa- ca dos reis feudais que promoveram as Cruzadas em defesa dos lugares san-
nhóis (do México ao Chile) e pelos portugueses (Brasil). Somente a Grã- tos da Palestina. Conseqúentemente, passa a se opor, como um prolonga-
Bretanha permanecia como grande potência marítima e imperial, embora mento nos tempos modernos, à presença dos turcos otomanos no Oriente
procurasse evitar, até 1874, novas anexações, salvo aquelas situadas na rota Próximo. Sediados em Bizâncio, Constantinopla, desde o fim do século XV,
da índia pelo Cabo, então conhecidas como as escalas da índia. O crescimen- os turcos alargaram o seu domínio sobre a Península dos Bálcãs e, no fim do
to do desemprego provocado pela revolução industrial em curso, então na século XVII, chegaram com seus exércitos às portas de Viena. Ainda sob o
fase de desenvolvimento tecnológico poupador de mão-de-obra, aliado ao impacto das primeiras vitórias, construíram um império, avançando sobre as

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terras árabes, penetrando no Norte da África, a partir do Egito, em direção


ao poente, o Magrebe, ou seja, o Mediterrâneo africano. gio e força não-ostensiva, eram algumas das denominações que designavam
a redistribuição de terras e povos para garantir o poder mundial nas mãos de
Ao longo de todo o século XIX, foi o Império Otomano alvo das maqui-
alguns: a Inglaterra, a França, a Alemanha, a Itália, a Holanda, a Bélgica,
nações das potências europeias. Era comum a opinião de que os turcos esta-
Portugal e a Espanha, estes dois últimos como senhores sobreviventes dos ve-
riam acampados nas terras que conquistavam, significando com isso a falta
lhos impérios mercantilistas.
de coesão política do Império Otomano e, até certo ponto, a prática de asso-
Coube, principalmente, a J. A. Hobson, Rudolf Hilferding, Karl
ciar autoridades locais às tarefas executivas e de administração. Era, tam-
Kautsky, Rosa Luxemburgo e Lenin, economistas, políticos, ativistas da
bém, uma forma de chamar a atenção para o atraso, a decadência e a inferio-
Internacional Comunista e antiimperialistas, fundamentados na análise do
ridade cultural do regime otomano. Em contrapartida, a Europa levaria con-
capitalismo monopolista e do novo papel do Estado militarista, ver no impe-
sigo a missão civilizadora do homem branco, como uma carga a pesar sobre
rialismo uma etapa na história da humanidade. Afirmava Hobson, econo-
os seus ombros, assim pregava o escritor inglês, expressão do imperialismo,
Rudyard Kiplíng (1865-1936). mista liberal inglês: "[...] a análise do imperialismo, com seus naturais supor-
tes, militarismo, oligarquia, burocracia, protecionismo, concentração de ca-
A arma desenvolvida e usada para promover a ruptura e o desmembra-
pital e violentas flutuações do comércio, faz com que ele se apresente como
mento desse império foi o nacionalismo. Do Adriático ao Mar Negro, do
o perigo supremo dos modernos Estados nacionais". Para Lenin, que escre-
Danúbio às margens do Mediterrâneo, os povos sob o domínio otomano se
veu o seu famoso livro Imperialismo, última etapa do capitalismo (1916), em
levantaram por sua independência. No entanto, árabes e berberes, do Egito
meio à Primeira Guerra Mundial, caberia ao nacionalismo, resultante da do-
ao Marrocos, perderam os elos jurídicos que os ligavam ao Império
minação estrangeira, dar o primeiro passo para desencadear a crise final do
Otomano para entrarem na órbita de dominação da Europa, segundo uma
partilha decidida pelas potências e pelos interesses de cada uma delas. capitalismo.
A contundência das ideias de Lenin, aliada à vitória do Partido
Afinal de contas, que interesses eram esses? A política executada e segui-
Bolchevique na Revolução Russa de 1917, exerceu uma grande influência
da consistia em definir o que então era chamado de Equilíbrio do Poder, ou
sobre os movimentos nacionalistas no interior das colónias, sem que, no en-
seja: evitar que uma potência, através de alianças militares ou da extensão
tanto, viesse a se cumprir, pelo menos até o momento, a previsão de Lenin
territorial, viesse a exercer o predomínio sobre o continente europeu e a
quanto ao fim do capitalismo.
ameaçar a paz entre os poderosos ou a própria hegemonia britânica sobre os
mares do planeta. O desenvolvimento do capitalismo, acelerado a partir da
segunda metade do século XIX, passara a depender não somente da expan-
O começo do fim dos impérios
são dos mercados, mas também do acesso às matérias-primas cada vez mais
numerosas e diversas, da produção de alimentos, da construção e do contro-
Ao se encerrar o século XIX, após duas décadas de acirradas rivalidades, ne-
, lê dos meios de transporte e de comunicação. Havia a crença de que o poder
gociações e acordos entre as potências em litígio, algumas das principais
seria posto numa balança, que trataria de fazer uma distribuição razoavel-
mente equitativa entre aqueles que o monopolizavam, parte de uma missão questões relativas às áreas em disputa pareciam ter sido resolvidas, como ve-
civilizatória de que a Europa fora incumbida por algum desígnio da História. remos a seguir.
A Inglaterra continuava sendo a grande potência marítima e imperial.
Não era, pois, por acaso que se louvava em prosa e verso a superioridade
Com a ascensão dos conservadores, depois da crise de 1874, teve início uma
do continente europeu. A partilha da África, o reconhecimento de áreas
campanha por uma Inglaterra Maior (Greater Britain), o ministro Disraeli
de influência, como reserva de domínio das potências imperialistas, a deno-
coroou a rainha Vitória imperatriz da índia, e intelectuais como Kipling e
minação de protetorados para territórios que mantinham governos nominal-
Chamberlain pregavam a missão civilizadora do homem branco. Em nome
mente locais, áreas de influência como expressão de uma política de prestí-
da defesa da índia, anexa no Sudeste Asiático a Birmânia (hoje Mianmar) e

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DESÇO IONIZAÇÃO E LUTAS DE L I B E R T A Ç Ã O N A C I O N A L
a Malásia. Na África Oriental, apodera-se do Quénia, de Uganda, com o ob-
jetivo propalado de defender as nascentes do rio Nilo e garantir a proteção Pacífico, a Indochina (Anam, Laos, Camboja, Cochinchina e Tonquim); na
do Canal de Suez, em nome da liberdade de navegação; ocupa o Egito, o Oceania, Nova Caledónia, além de pequenas ilhas esparsas (Taiti, por exem-
Sudão, o Chipre e a Somália; na África do Sul, anexa o interior da Colónia plo); no Oriente Próximo, os mandatos da Liga das Nações, resultantes da
do Cabo, através de Cecil Rhodes, surgindo as Rodésias (do Norte e do Sul); partilha do Império Otomano, a Síria e o Líbano.
em 1902, após a guerra contra os bóeres, antigos colonos holandeses, con- A Holanda, em 1939, conservava a herança do velho império mercanti-
quista o Transvaal e Orange. Em 1910, outorga o estatuto de Domínio ao lista: as índias Neerlandesas (Arquipélago de Sonda), Java, famoso por seus
Canadá, à Austrália, à nova Zelândia e à África do Sul. vulcões, Celebes e Sumatra, além de Bornéu e Nova Guiné, concentravam
Às vésperas da guerra de 1914-18, o Império Britânico englobava um toda a energia colonizadora da metrópole holandesa. Com 2 milhões de qui-
quarto da população da Terra e dominava a produção mundial de arroz, lómetros quadrados e 70 milhões de habitantes, tinha uma grande importân-
cacau, chá, lã, borracha, estanho, manganês, ouro, níquel, juta, açúcar, car- cia para a metrópole colonizadora, uma Holanda de apenas 35 mil quilóme-
vão, cobre e, ainda, o petróleo do Oriente Médio. Controlava 15% da pro- tros quadrados e uma população de 8 milhões, que se orgulhava de sua obra
dução mundial de trigo, carne, manteiga, algodão, ferro e aço. Além do mais, colonial. Generalizara-se, então, a ideia de que se tratava de um modelo
85% dos seus 500 milhões de habitantes eram constituídos de negros, india- exemplar de empreendimento, prosperidade e organização. Java, por exem-
nos e amarelos. plo, era apontada como a primeira usina do globo em alimentos (Hubert
A França possuía ~um império colonial menos espetacular do que a Deschamps, 1952), graças ao baixo custo da produção em virtude dos bai-
Inglaterra. Fizera-se mais rapidamente. Enquanto os ingleses guardaram a xos salários, resultante de abundância da mão-de-obra e da ausência de me-
índia de suas conquistas anteriores, pouco restou aos franceses, após 1815: lhores perspectivas de vida para a população local.
Martinica, Guadelupe, Guiana, a Ilha da Reunião, cinco feitorias na índia. A guerra contra a potência colonizadora iria revelar a natureza do falso
Na década de 1830, a França conquistou a Argélia, com dificuldade, e ane- paraíso colonial neerlandês. Este é um dos exemplos em que a ocupação
xou Libreville, no Gabão, costa ocidental africana. Com as anexações da pelas tropas japonesas demonstrou que o colonizador branco não era intocá-
partilha imperialista, do fim do século, da política interimperialista que pre- vel e, muito menos, invencível. A guerra contra os ocupantes estendeu-se
cede a guerra de 1914-18 e, ainda, após os Tratados de Versalhes que sela- contra a potência colonizadora, resultando no surgimento de um país, a
ram a derrota do Império Alemão e a perda das colónias alemãs, podia a Indonésia, em dezembro de 1949. No início de 1942, as tropas holandesas
República Francesa ostentar, em 1939, às vésperas de outro conflito que viria capitularam perante a invasão japonesa, provocando a organização de um
a ser mundial, um império que fornecia 25% do comércio exportador fran- movimento nacionalista (Poder para os Filhos do Povo) liderado por
cês, ocupando 13 milhões de quilómetros quadrados e com 110 milhões de Sukarno e Harta. Após a rendição do Japão (agosto de 1945), tem início a
habitantes. As suas principais áreas de dominação eram as seguintes: guerra de libertação nacional contra as forças neerlandesas. O reconheci-
— Na África do Norte, a Argélia, 8 milhões de habitantes, dos quais mento da soberania do novo Estado Federal da Indonésia se dará cinco anos
cerca de l milhão de franceses residentes e colonos; a Tunísia e o Marrocos, mais tarde, após longas e penosas negociações (15 de agosto de 1950).
como protetorados; A Bélgica, país pequeno e sem tradições colonialistas, entrou na corrida
— O Saara, estendendo-se para o sul até as proximidades do Congo; essa imperialista como parte da iniciativa pessoal de seu rei Leopoldo n (1835-
África negra dividia-se, administrativamente, em duas federações: a África 1909), que aliava sua fama dinástica (Saxe-Coburgo) aos seus interesses
Ocidental Francesa e a África Equatorial Francesa (principais colónias: o pelos negócios. Subiu ao trono em 1865 e, em 1876, criou em Bruxelas a
Senegal, a Costa do Marfim, o Sudão Ocidental); Togo e Camarões, ex-colô- Associação Internacional para a Exploração e a Civilização da África, esti-
nias alemãs, mandatos da Sociedade das Nações; mulado pelas viagens e descobertas de David Livingstone, J. H. Speke, H. M.
— Nas Antilhas, sem alterações; no oceano Índico, Madagáscar; no Stanley. Em pouco tempo, a Associação passava para a direção pessoal do rei
belga e iniciava seus trabalhos de exploração e comercialização dos produtos

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da imensa região do rio Congo. Em 1886, proclamou o Estado Independente Na medida em que se internacionaliza o conflito, as tropas imperiais en-
do Congo, do qual se tornou, em caráter privado, soberano absoluto. tram em cena e a Grã-Bretanha passa a necessitar da cooperação de seus sú-
Deixou-o em herança ao país do qual era rei, a Bélgica, passando a intitular- ditos e colonos. A partir de dezembro de 1941, com a entrada dos Estados
se Congo Belga.
Unidos na guerra e a intensificação do conflito no Pacífico, torna-se mais
Como os holandeses na Indonésia, os belgas investiram grandes capitais
clara a estratégia alemã de investir sobre a índia, através do Oriente
no Congo, na exploração de minérios, nas plantações de borracha e nas
Próximo. Daí a guerra no Norte da África em direção a Suez e a importância
obras missionárias. Como na Indonésia, tanto o processo de colonização
que adquire o pequeno império colonial italiano (Líbia, Abissínia, Eritréia).
quanto o de descolonização notabilizaram-se por seus procedimentos cruéis
Da mesma forma, a extensão da guerra ao Pacífico passa a envolver ter-
e por sua extrema violência. A independência do Congo (Zaire) foi por de-
ritórios sob jurisdição inglesa naquela região. A posição triunfal de uma
mais atribulada, tendo passado por várias fases, dos anos 50, sob a lideran-
nova potência na política mundial, os Estados Unidos, ao lado da agitação
ça de Patrice Lumumba, à proclamação da independência em 1960 e ao as-
crescente no interior do mundo imperializado e da reação dos partidos de es-
sassinato de Lumumba em 1961, por ordem de Moisés Tshombe, protegido
dos belgas e americanos; entre 1963 e 1964, intervenção por tropas da ONU, querda na Europa contra a política do imperialismo constituem elementos
nova intervenção de Tshombe; em 1965, golpe chefiado por Mobutu, que decisivos que irão incidir sobre as políticas coloniais, de um lado, e, de outro,
permaneceu no poder, em meio a reviravoltas, até 1997. A situação interna- sobre os caminhos da descolonização. Será fundamental a atuação dos inte-
cional (Guerra Fria) provoca e prolonga o estado de anarquia e profunda lectuais em todas as partes do mundo. Suas vozes serão ouvidas e irão se unir
violência nesse e em outros processos de libertação. em protesto contra a tirania e a desigualdade tornada insuportável.
Portugal, com seu império, ou o que dele restou e resistiu até meados de Coube à Inglaterra a iniciativa da descolonização, ao anunciar através
nosso século, fazia figura de primo pobre ao lado de seus colegas ricos. Dos do primeiro-ministro trabalhista Clement Attlee, em fevereiro de 1947, que
tempos áureos, conservara Diu e Goa, no Índico; uma parte de Timor, no daria a independência da índia até junho de 1948, com o reconhecimento de
Arquipélago de Sonda; Macau, perto de Cantão, na China, como uma anti- um plano de partilha entre indianos (índia) e muçulmanos (Paquistão), cor-
ga feitoria; Angola e Moçambique, na África, no primeiro plano, e, no se- respondendo, assim, ao que vinha sendo exigido de longa data pelas elites lo-
gundo, o Arquipélago de Cabo Verde e Guiné. Eram restos de uma História cais do Partido do Congresso (Gandhi e Nehru) e da Liga Muçulmana
brilhante, em certo sentido, os quais contribuíram para revelar o atraso de (Jinnah Mohamed Ali). Em contrapartida, a Inglaterra se engajava, naqueles
uma forma de dominação defasada e retrógrada e denunciar a fragilidade do anos, na aplicação de uma política social de grande envergadura, sob o co-
sistema económico e social da metrópole. A consequência foi a Revolução mando dos trabalhistas, em defesa do bem-estar social, o que possibilitou a
dos Cravos, de abril de 1974, que derrubou o regime ditatorial fundado por seu povo conhecer uma nova era de prosperidade.
António de Oliveira Salazar, em 1932.
Ao ter início a guerra na Europa, em 1939, o Império Britânico parecia
tão sólido e saudável quanto em 1914. No entanto, sua dominação na índia,
por exemplo, sempre sofreu contestações e provocou revoltas locais. No 3. OS CAMINHOS PARA A INDEPENDÊNCIA
Egito, no Sudão Anglo-Egípcio, na África do Sul, em Gana, onde se manteve
ferrenha a oposição da nação Achanti, na Nigéria, de magníficas e invejáveis O processo de independência resultou de um conjunto de fatores e de ações
tradições culturais, as tropas coloniais inglesas sofreram muitos reveses. A que envolveram o poder colonial e as condições internas específicas das co-
fórmula britânica do self government (autonomia local) e do indirect rule lónias, em uma conjuntura internacional favorável à mudança do status quo
(administração indireta) resultou, em grande parte, de negociações entre po- político dos impérios em causa. Em 1942, o Comité Francês de Libertação
deres locais e autoridades coloniais; deve ser compreendida, também, como Nacional, em oposição ao governo de Vichy, com o objetivo de obter o su-
uma política de cooptação das burguesias e da intelectualidade locais. porte dos movimentos antifascistas no plano internacional e, sobretudo, dos

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setores mais esclarecidos das colónias, proclamava o seu desejo de alterar as A grande agitação que passou a caracterizar o mundo colonial, com suas
relações coloniais. Em janeiro de 1943, o general de Gaulle, em nome de uma conjunturas específicas, iria, sem dúvida, fazer parte dos objetivos e desíg-
França Livre, anunciava, em discurso pronunciado na Argélia, a outorga da nios dos americanos, bem aparelhados e municiados para qualquer interven-
cidadania a milhares de muçulmanos. No ano seguinte, em Brazzaville, em ção mais incisiva, inclusive militar, sob a bandeira da ONU. Os soviéticos,
conferência que reunia governadores da África, mas sem a presença de afri- por seus próprios meios de vigilância e, também, militares (fornecimento de
canos, recomendava-se a integração na comunidade francesa, como se só armas aos guerrilheiros, auxílio a governos subsidiados), se fazem presentes.
existisse uma independência possível, a da França. É, nesse sentido, que a rivalidade da Guerra Fria, ao encerrar os conflitos ar-
Em 1945, já se consolidava a ideia de uma União Francesa, compreen- mados entre os grandes Estados, desloca-os para o mundo dos povos coloni-
dendo a França e as diferentes partes da comunidade. A presença de repre- zados. Ao contrário da História dos Tempos Modernos, o poder da grande
sentantes dos povos sob domínio da França (africanos, asiáticos, argelinos, potência, detentora da bomba atómica, de destruir o mundo inapelavelmen-
malgaxes) na Assembleia Constituinte francesa, predominantemente de es- te, faz com que as rivalidades se transfiram para os territórios dos deserda-
querda (maioria de socialistas e comunistas), não deixou de causar mal-estar dos da Terra e aí sejam esvaziadas ou compensadas.
nos setores conservadores. Na Grã-Bretanha, após a ampla vitória eleitoral A cronologia das lutas pela independência leva em consideração essa
da esquerda trabalhista, transparecia uma tendência a liberar, em alguns constelação de fatores. Edward Said chama a atenção para o fato de que, no
casos, os elos de dependência direta, política e administrativa, do império. auge da política imperialista, eram raros aqueles que poderiam achar que as
No fundo, apesar da existência de diretrizes gerais por parte das metrópoles, coisas mudariam. Nos anos de 1950, todo o Sudeste da Ásia, de dominação
o movimento de independência das colónias tomará rumos diferentes e espe- britânica, tinha se tornado independente, da mesma forma a Indonésia se
cíficos, em que cada caso terá características próprias. tinha constituído em luta contra os japoneses e os holandeses. A Indochina,
Fatores diversos incidirão sobre a marcha da descolonização. São fatores outra invenção artificial do colonialismo, sob o comando do líder comunis-
relacionados com a nova posição dos Estados Unidos no cenário mundial e ta Ho Chi Minh (1954), se libertava da França, após uma espetacular cam-
suas relações conflitantes com a União Soviética. Ambas aspiram chegar à panha militar, com o fim em Diem Bien Phu, carreando a admiração interna-
hegemonia mundial. Ambas dispõem de instrumentos de poder e de dissua- cional para o povo vietnamita. A África de ocupação francesa, inglesa e
são e podem influir nas áreas onde o processo de independência é mais com- belga — África Oriental, Ocidental e do Norte — também chega ao fim em
plexo: interesses económicos em choque, localização estratégica, posição meio a celebrações e festas mas, também, guerras terrivelmente cruéis, como
ideológica distinta das lideranças locais. Aos Estados Unidos interessava, em foram os casos da Argélia, do Congo Belga, de Uganda, de Angola. Em 1990,
última instância, deter o avanço do comunismo e a expansão da ideologia de haviam surgido 49 novos Estados africanos (Said, 1995, p. 254).
inspiração marxista, inclusive a do nacionalismo, em qualquer parte do
mundo. A União Soviética desenvolvia suas ações em todas as frentes, era
prestigiada nos meios intelectuais e políticos de esquerda e possuía simpati- A independência tardia
zantes nos movimentos nacionalistas anticolonialistas.
O mundo do pós-guerra era polarizado: o bloco ocidental, escudando-se Em 1955, reuniu-se em Bandung, na Indonésia, uma conferência convocada
no Plano Marshall, de caráter económico e financeiro, e na Organização do pelo grupo de Colombo, congregando os cinco países recém-independentes
Tratado do Atlântico Norte (OTAN), de caráter militar, representava o poder — índia, Paquistão, Ceilão, Birmânia e Indonésia — e, pela primeira vez, os
do grande Capital; o bloco oriental, em contrapartida, apoiava-se no Conselho chefes de Estado de 29 países da Ásia e da África (18 a 24 de abril), que se
de Assistência Económica Mútua (Comecon) e, ainda, para questões políticas apresentavam como um terceiro mundo. Pronunciavam-se pela neutralidade
de coordenação dos partidos comunistas, no Kominform, e o Pacto de e pelo socialismo mas declarando-se contra o Ocidente, ou seja, os Estados
Varsóvia, de natureza militar, acenava para a mudança, assim se pensava. Unidos, e contra a União Soviética. Comprometiam-se a ajudar a libertação

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dos povos subjugados. Era o espírito de Bandung, que perdurou por mais de mesa de reunião com os líderes nacionalistas autênticos. Entre os mais notá-
uma década, até ser diluído ante as dificuldades e desilusões enfrentadas veis, distinguiram-se Agostinho Neto, Mário de Andrade e Viriato Cruz do
pelos novos países libertados da dominação colonial direta. No entanto, MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), Amilcar Cabral,
Bandung traduziu um momento de esperança na organização mundial e no PAIGC (Partido Africano pela Independência da Guiné e de Cabo Verde).
futuro da democracia. Nesse período, a condenação a Portugal vinha de todas as partes. Na
A outorga da independência não significava, necessariamente, a conquis- ONU, restavam-lhe raros aliados, a Espanha (então franquista) e, obviamen-
ta da felicidade para todos e, muito menos, o reconhecimento da autodeter- te, a África do Sul, tristemente notabilizada pelo cruel regime de dominação,
minação do novo país no plano económico, político e cultural. Os velhos in- baseado no racismo e na separação absoluta entre brancos (minoria) e ne-
teresses coloniais tinham raízes profundas, os elos de dependência eram re- gros (grande maioria), o apartheid; este somente foi abolido em 1992, em
sistentes e as bases das antigas culturas locais, com suas tradições tribais, ha- plebiscito, graças à política de Frederik de Klerk, seguido da eleição de
viam sido seriamente atingidas e, em muitos casos, destruídas pela ação do Nelson Mandela como presidente da República da África do Sul (1994).
•colonialismo. No plano internacional, o capitalismo se reestruturava no sen- Apesar da reprovação geral, Portugal continuava a receber suprimentos
tido de se adaptar às mudanças, em face da vertiginosa inovação de tecnolo- em armas pela OTAN, que eram enviadas aos seus exércitos sediados na
gias altamente sofisticadas na sua capacidade de destruição mas, também, no África. Em face das pressões externas mas, sobretudo, em vista da revolta in-
conhecimento do espaço cósmico, no avanço da cibernética e das ciências da terna cada vez mais generalizada entre os africanos, Portugal fez algumas
vida. Chega-se a falar no neocapitalismo que regeria os laços de dependência concessões, tais como: supressão formal do trabalho forçado, supressão do
neocolonial, ou seja, as metrópoles, em associação com a dinâmica do capi- indigenato, o instituto jurídico que isolava os nativos da minoria local de
talismo hegemónico, continuam a manter os mecanismos de subordinação. evoluídos ou assimilados, e que incluía a possibilidade de ampliar o acesso à
Por outro lado, a crise do regime comunista nos países do bloco soviéti- cidadania e a aplicação de sanções do Código Civil e, não mais, do Código
co, o fim do estado de Guerra Fria, com a nova política no Extremo Oriente Penal, em matéria de contratos de trabalho. A política africana portuguesa
e a desestalinização da URSS, tudo isso acarreta uma revolução no sistema começava, no entanto, a ser pesada demais aos cofres lusitanos, apesar dos
mundial. A desagregação da União Soviética revela a fragilidade do regime reforços em munições e outros recursos materiais e financeiros provenientes
comunista e anuncia a existência de uma China que diz permanecer fiel ao de seus aliados, sobretudo da África do Sul.
socialismo, parecendo retomar a sua milenar vocação imperial. Assim, as dé- Entre 1968 e 1972, por exemplo, a maior parte do exército português
cadas que separam Bandung deste fim de século assistiram às grandes mu- (142 mil homens) se encontrava na África, na defesa das colónias em guerra,
danças que afetaram as relações internacionais e reforçaram as bases do ca- enquanto o movimento armado pela libertação tinha o apoio da opinião pú-
pitalismo como sistema económico mundial. blica internacional, contava com a solidariedade africana e com o suporte em
Na década de 1960, os últimos da Guerra Fria, verificaram-se alterações material bélico e assistência aos militantes de países da área socialista e gover-
e mudanças importantes no estatuto político de Angola, Moçambique, São nos simpatizantes escandinavos. Em 1973, os portugueses tinham perdido o
Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau e o Arquipélago do Cabo Verde, que vêem sua controle do espaço aéreo (os africanos passaram a dispor de mísseis). Nesse
independência reconhecida, após vinte anos de guerras coloniais (sob a lide- momento, Amilcar Cabral era assassinado em Conakri (Costa do Marfim),
rança de suas respectivas organizações nacionalistas) e a ocorrência da revo- uma grande perda, sem dúvida. A guerrilha se estende em Angola com capa-
lução democrática portuguesa em 1974. Até então, Portugal fazia figura de cidade de suscitar o apoio popular. Em Moçambique, a luta armada se apode-
último baluarte do colonialismo, tal qual fora concebido e praticado — ul- ra de Cabo Delgado e Niassa. Portugal tenta negociar, oferecendo, em troca,
tracolonialista, assim intitulado, na época, por autores radicais (Anderson, maior autonomia aos territórios. Finalmente, em 25 de abril de 1974, jovens
1966), expoente de um colonialismo dependente e subdesenvolvido, na me- oficiais das Forças Armadas em Portugal derrubam a ditadura, apoiados no
dida em que jamais aceitara fazer qualquer concessão ou mesmo sentar à povo cujas armas eram os cravos que levavam e a alegria estampada nos ros-

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O S É C U L O XX D E S C O L O N I Z A Ç Ã O E LUTAS DE LIBERTAÇÃO NACIONAL

tos. Era a democracia em marcha e a decretação do fim do colonialismo. O África do Sul, tem todas as condições para exercer importante influência po-
exército colonial fora derrotado e voltava-se contra a metrópole, em nome da lítica e económica no país, o que tem sido comprovado nos últimos anos com
liberdade. o fim do chamado socialismo africano, na década de 1980, após a morte de
Economicamente, as colónias eram importantes para Portugal, sobretu- Samora Machel, chefe da Frente de Libertação Nacional, primeiro presidente
do o potencial de Angola — petróleo de Cabinda, minérios e recursos agrí- de Moçambique e que se proclamava comunista. Foi vítima, em 1986, de um
colas. Daí serem muitos os interesses em jogo, durante a dominação portu- acidente de aviação.
guesa e as duas décadas seguintes à declaração de independência. A nova era, O caso de Guiné-Bissau difere daqueles já mencionados. Não dispunha
no entanto, não foi de paz. A intransigência do colonialismo português teve dos mesmos atrativos económicos e estratégicos de Angola e Moçambique e
como sucessores os participantes da guerra civil que, mais uma vez, trará o não tinha o peso político que os dois podiam ostentar. A crise do comunismo
caos ao país, agora transformado em mais um cenário da competição inter- internacional também teve suas consequências locais, superadas, porém, já
nacional, manipulando rivalidades intertribais. A própria divisão do movi- no início da década de 1990. Sua política interna é orientada no sentido de
mento anticolonialista — os três grupos que lideravam a libertação — torna- uma aproximação mais estreita com a zona franca União Económica e
se crucial após 1974, que marca o fim da dominação portuguesa: o MPLA, Monetária do Oeste Africano. Também o Arquipélago de Cabo Verde teve
multirracial e marxista (URSS), com o predomínio da nação quibundo; a sua independência proclamada em 1975. Nos últimos anos, vem passando
Frente de Libertação Nacional de Angola, anticomunista, apoiada pelos por um programa de reformas no sentido de adaptar as novas instituições li-
Estados Unidos e pelo ex-Zaire (Congo), no norte do país; a União Nacional berais à tradição política e administrativa herdada dos anos de governo so-
pela Independência Total de Angola, inicialmente maoísta e que, mais tarde, cialista. Quanto a São Tomé e Príncipe, este tem a peculiaridade de ser o
recebe o apoio da África do Sul, tornando-se anticomunista e mantendo menor país africano, com uma pequena população de cerca de 40 mil habi-
como base de atuação a região centro-sul. tantes e, no entanto, sem capacidade de produzir alimentos suficientes para
Alastra-se a guerra civil, a partir de 1975, com as diferentes facções em seu próprio povo. Sua libertação foi conquistada, como o restante, também
luta recebendo apoio de potências estrangeiras. Daí por diante, predomina o em 1975. No momento, vive com dificuldades e na expectativa de desenvol-
caos. A maioria maciça de brancos angolanos (350 mil) emigra, uma parte ver o turismo local.
chega ao Brasil. Tropas sul-africanas invadem Angola, dando suporte ao
UNITA no ataque a Luanda. Cuba passa a apoiar militarmente o MPLA.
Com a retirada de Portugal, Agostinho Neto, líder do MPLA, é proclamado Esperanças e frustrações
presidente da República Popular de Angola, cujo regime foi reconhecido
como sendo socialista. Com sua morte, em 1979, a presidência passou a seu Ora por meios pacíficos, ora por intermédio de longas e cruéis lutas internas,
por vezes até mesmo com o caráter de guerras civis, como foi o caso no
sucessor, José Eduardo dos Santos, sem vislumbre de paz para a região nem
Congo Belga e em Angola, por exemplo, os velhos impérios coloniais chega-
a satisfação dos interesses em jogo.
ram ao fim. Na Ásia, na África, nas Antilhas e nas Guianas, nas ilhas do
Em Moçambique, nas suas linhas gerais, a evolução não foi muito dife-
Pacífico, onde quer que se tivesse estabelecido o poder do império, criado e
rente no que concerne à descolonização. Oitenta por cento da sua população
multiplicado a partir da Europa, foi profunda e devastadora a dominação
são pequenos produtores de subsistência e o país vive praticamente de auxí-
para as culturas locais e seus sistemas sociais. Por onde o homem branco pas-
lios externos. A guerra civil que se estendeu entre 1974 e 1990 tem como
sou, ficaram suas marcas como um rastro indelével, e de tal forma que quan-
saldo negativo a morte de l milhão de pessoas e a saída de 1,7 milhão de ha- do foi embora quase nada restava a ser conservado nem desenvolvido pelos
bitantes que passaram à condição de refugiados. A própria declaração de in- que foram vítimas da sua dominação. Restaram, na maioria, povos ame-
dependência, em 1975, foi acompanhada da saída de 500 mil colonos, uma drontados, arriscados a perder até a própria memória impressa, quase imper-
sangria ponderável em mão-de-obra qualificada. Seu vizinho poderoso, a ceptivelmente, no que lhe restava como identidade.

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Muitos foram os impérios modernos, do século XVI até os Estados lucro a qualquer sacrifício (Linhares, 1981). Tal caminho não poderia ser tri-
Unidos de nossos dias. Nossa atenção, no entanto, recaiu sobre aqueles que lhado pelas sociedades asiáticas e africanas pré-coloniais, como bem advertia
desapareceram como potências imperiais na segunda metade deste nosso sé- Jean Chesneaux, ao lembrar que o estudo da burguesia asiática não se inscre-
culo e, assim mesmo, em alguns aspectos apenas. Essa derrocada se constitui ve diretamente na história da burguesia dos países industrializados
como o fato mais importante do mundo contemporâneo, a História de nos- (Chesneaux, 1976). Assim, cada povo constrói a sua própria história, e cada
sos dias marcada pela violência e pelo genocídio. Conforme diz um historia- povo tem uma história que é a sua, diferentemente do que pregavam os colo-
dor do imperialismo: se este (o imperialismo) "avançou implacavelmente nos nizadores, tanto no púlpito quanto na banca do professor: o cérebro do nati-
séculos XIX e XX, o mesmo se deu com a resistência a ele" (Said, 1995, p. vo, o negro do Zaire, por exemplo, era uma tabula rasa sobre o qual cabia ao
25). Séria um erro pensar que os dirigentes, como Attlee, De Gaulle ou colonizador imprimir o que lhe conviesse! Seria a ideologia do colonialismo.
Mário Soares, por mais esclarecidos que tenham sido, concederam a inde- Conquistada a independência, alguns desses novos Estados entraram no
pendência à índia, ou a Gana, à Argélia, ao Senegal ou à Costa do Marfim, reino das guerras civis fratricidas e sem retorno. Resta-lhes agora encontrar
i Angola ou a Moçambique. o seu próprio caminho e construí-lo, grão por grão, pedra por pedra.
Da mesma forma, seria no mínimo ingénuo atribuir o fim da segregação Em conclusão, poder-se-ia dizer que a história do mundo ainda não foi
racial na África do Sul a De Klerk ou mesmo a Mandela, embora tendo sido escrita, e só poderá sê-lo no dia em que os deserdados da terra participarem
importantes, justos e iluminados na sua conduta como chefes de Estado. A do banquete dos herdeiros da terra, como convivas e como donos da casa.
descolonização foi uma conquista dos povos dominados, resultado de uma Nesse dia, eles não estarão repetindo como um eco as palavras de ordem que
resistência longa e nem sempre de aparência espetacular, por vezes silencio- partem dos antigos patrões, nem se interessarão mais em decorar a primeira
sa. Foi o que aconteceu na Ásia, no Norte da África, no Sul da África, em frase do livro de história da classe inicial: nos ancêtres, lês gaulois — nossos
qualquer parte por onde a Europa e, mais tarde, os Estados Unidos passa- antepassados, os gauleses!
ram, exibindo a sua superioridade de civilizados e as suas convincentes E, para que assim seja, o mundo será repensado em seus valores mate-
armas de fogo. Se, por um lado, o imperialismo ampliou seu raio de influên- riais, seus dogmas económicos, seus sistemas de organização, suas aspirações
cia, por outro, cresceu a capacidade do ser humano de resistir à dominação. hegemónicas e autoritárias, sobretudo suas pretensões imperiais. Claro que
Na índia, no Egito, na Argélia, em Gana, e assim por diante, a instalação nos referimos a uma utopia e a ela devemos ser fiéis. A crise de identidade e
do dominador se fez com violência e igualmente violenta foi a resistência a crise do sistema político vigente em alguns dos países africanos e asiáticos
local. O ato final de independência foi sempre precedido de prolongados dis- (violência, corrupção, nepotismo) fazem parte do que foi aqui apontado
túrbios, quando não de longas e cruentas guerras de libertação (na como heranças do colonialismo recente e não extinto de todo.
Indochina-Vietnã, a guerra contra a França durou de 1946 a 1954; na
Argélia, além da grande resistência armada ao estabelecimento da França, no
século XIX, a guerra final de libertação durou seis anos, de 1954 a 1962).
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deriam eles levar às populações conquistadas ou abordadas? O primeiro con-
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1. AMÉRICA LATINA NO SÉCULO XX: DEPENDÊNCIA ECONÓMICA
E CONFLITO SOCIAL

Depois da independência, no século XIX, os países hispano-americanos pro-


curaram estabelecer uma nova ordem económica, política e social e restaurar
os seus vínculos com o mercado mundial. Isto foi conseguido após um perío-
do de anarquia, de guerras civis, de rebeliões, de conflitos regionais e inter-
nacionais, de quarteladas, de golpes e ditaduras. Depois de lutas pelo poder
de durações variadas, organizaram-se repúblicas liberais, com constituições
que seguiam o modelo americano. Em algumas delas, o processo foi logo co-
mandado por oligarquias regionais, que já controlavam a produção para ex-
portação desde a colónia. Estas oligarquias mantiveram forte controle do
Estado, de tal maneira que anulavam o real funcionamento das instituições
liberais. A democracia e a cidadania eram mais de fato que de direito e se li-
mitavam às elites.
Em alguns países o capital externo dominou a produção e o predomínio
político foi disputado por setores afinados com os interesses internacionais.
Nenhum grupo oligárquico nacional conseguiu comandar esse processo e a
produção foi organizada pelo capital estrangeiro. As fontes de produção
para o mercado internacional eram comandadas de fora e não se articulavam
com o restante da economia nacional. Os lucros eram remetidos para as ma-
trizes e as rendas geradas pelo setor exportador não eram reinvestidas em be-
nefício do desenvolvimento geral do país. Os outros setores económicos na-
cionais mantinham o controle da mão-de-obra e a estabilidade política ne-
cessários ao enclave agrícola e o mineiro. Dessa maneira, o capital estrangei-
ro participava das mesmas formas de exploração do trabalhador usadas
pelos setores oligárquicos.
Uma série de reformas procurou constituir um mercado de terras e de
mão-de-obra, necessário à produção para exportação. Houve a expropria-

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AMÉRICA LATINA: DEPENDÊNCIA, DITADURAS E GUERRILHAS
O S É C U L O XX

cão das terras da Igreja, das comunidades indígenas remanescentes e das pe- económico, a luta contra o imperialismo, o fim das desigualdades sociais.
quenas propriedades. As terras comunais passaram para a propriedade indi- Apesar do refluxo do movimento camponês, a América Latina vivia um am-
vidual e logo os camponeses as perderam. Eliminados os obstáculos que imo- biente revolucionário. Aumentou a gravitação das forças armadas na políti-
bilizavam as terras, seguiram-se várias formas de exploração da mão-de- ca. As pressões das massas eram respondidas com golpes de Estado e por di-
obra tornada disponível por essas reformas. Elas foram acompanhadas de re- taduras (como na América Central e no Caribe, na Argentina e no Peru). Ou
pressão e de leis de trabalho, tanto na produção mineira quanto na agrícola. então foram incorporadas a projetos de desenvolvimento por movimentos
A resistência se traduziu nas guerras camponesas reprimidas com violência. reformistas, nacionalistas e populistas, alguns deles autoritários. Em 1936,
No México, a luta camponesa teve continuidade com a insurreição de metade dos países latino-americanos vivia sob regimes militares. No México,
Emiliano Zapata na revolução mexicana de 1910, pressionando pela refor- Lázaro Cárdenas radicalizou a reforma agrária (1935-37) e expropriou as
ma agrária, que foi depois consagrada na Constituição de 1917, mas aplica- companhias de petróleo estrangeiras em 1938.
da muito mais tarde. Após a Segunda Guerra Mundial, e especialmente na década de 1950, as
No início do século XX, a própria integração ao mercado mundial leva- mudanças no capitalismo internacional levaram a um investimento maior no
ra a um certo grau de modernização e de urbanização. Criou-se uma infra- processo de industrialização dos países periféricos. O modelo nacionalista e
estrutura de transporte, comunicações e serviços adequada à produção ex- desenvolvimentista se esgotava e acabaria por ceder lugar ao desenvolvimento
portadora e seu escoamento. A diversificação incluiu até uma produção ma- associado. A necessidade de conter a União Soviética e o comunismo, a Guerra
nufatureira para o incipiente mercado interno. Houve o aparecimento e au- Fria, orientava a política externa dos Estados Unidos no continente e fazia in-
mento dos setores médios ligados às profissões e à burocracia das empresas teragir a ação militar, política e económica. Na América Latina, as lutas por
e do Estado. Em alguns setores, chegou-se a organizar um proletariado. Tam- reforma e a instabilidade aumentavam. O movimento camponês renascia, com
bém a oligarquia tendia a se diversificar, para incluir banqueiros, empresá- novas pressões por reforma agrária. Ampliavam-se o descontentamento social
rios da indústria e do comércio. A tomada de consciência e a pressão políti- e os movimentos pela democracia e contra as ditaduras. Chegava ao fim o mo-
ca desses novos grupos adquiriam feição antioligárquica. Pressionavam por delo de aliança populista (suicídio de Vargas e queda de Perón).
reformas e ampliação da democracia: tal foi o caso do radicalismo na Argen- Na década de 1960, a necessidade de capital externo, para dar continui-
tina e da luta contra a reeleição de Porfirio Díaz em 1910, no México. dade ao processo de desenvolvimento industrial, levava à redefinição dos
No período entre as duas grandes guerras, as crises mundiais de 1920 e vínculos com os centros desenvolvidos e às mudanças nas políticas económi-
1929 afetaram a economia exportadora da América Latina e, conseqúente- cas e sociais. O novo modelo económico não podia mais incorporar o au-
mente, também o poder da oligarquia. O processo de modernização e diver- mento das reivindicações operárias. Falharam as iniciativas para desestabili-
sificação avançou: em alguns países chegou-se até ao desenvolvimento de zar Cuba e a revolução cubana apresentava para o continente a opção socia-
uma indústria que substituía as importações de bens de consumo para o mer- lista. A criação de focos guerrilheiros em vários países dava uma dimensão
cado interno. Até então, a principal área de influência dos Estados Unidos revolucionária aos protestos no campo. Nos anos 60, as soluções políticas
eram a América Central e o Caribe. A partir de 1920, sua influência come- tenderam a se radicalizar. Tornou-se difícil manter o sistema representativo,
çou a se consolidar no continente e, com a Política de Boa Vizinhança, foram quando as alianças entre os grupos sociais se romperam. Começou-se a pro-
abandonando a política de intervenção militar direta. Os Estados Unidos curar o desenvolvimento sem as tensões sociais, com segurança e ordem, com
eram o principal inversor na mineração (cobre no Chile), na extração e refi- novos golpes de direita: os militares foram de novo chamados à cena.
no de petróleo (Venezuela), na agricultura tropical e até mesmo no processo Aumentou a militarização da política latino-americana, nos anos 60 e
de industrialização que se iniciava. 70. De 1962 a 1967, os governos militares ascenderam na Argentina, Peru,
A organização do movimento operário e sua militância cresceram. Guatemala, Equador, República Dominicana, Honduras, Brasil e Bolívia. De
Surgiram partidos de esquerda e reformistas: defendiam o desenvolvimento 1968 a 1973, novos golpes ocorreram no Peru, Panamá, Equador e

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AMÉRICA LATINA: DEPENDÊNCIA, DITADURAS E GUERRILHAS

Honduras e, de 1973 a 1976, no Chile, Uruguai e Argentina. Em muitos paí- O movimento operário argentino atingira níveis mais complexos de or-
ses, os militares que tomaram o poder nessa época baseavam-se na sua assu- ganização e militância já no início do século XX. Sofrera a influência dos
mida competência para encaminhar o desenvolvimento de seus países. As po- movimentos operários e revolucionários da França, Alemanha, Espanha e
líticas económicas a serem implementadas deviam estar a salvo das conse- Itália, que, na Argentina, respondiam a uma realidade de más condições de
quências do pluralismo político. A instabilidade dos regimes civis, as lutas vida e de oposição da União Industrial que contestava o direito à associação.
partidárias e as tensões que o próprio desenvolvimento poderia criar eram O Partido Socialista foi fundado em 1896, mas o anarquismo manteve a sua
vistas como incompatíveis com a ordem e a segurança necessárias às novas influência até 1920. Desde o fim do século XIX, houve tentativas de criação
políticas de modernização capitalista. de uma central obreira e de federações regionais. Reivindicava-se a regula-
No final da década de 1970 e no início da de 1980, a América Latina ex- mentação da jornada de trabalho, descanso dominical, leis sobre acidentes e
perimentaria um processo de transição para a democracia, quer pela via re- higiene, tribunais arbitrais, direito a pensões. Greves e repressão eram de
volucionária, quer de maneira pacífica, conduzida e pactuada pelos próprios grande magnitude, seguidas de violência e de campanhas e leis contra os cha-
militares que tinham dominado por tanto tempo o cenário político. mados agitadores estrangeiros.
Em 1920, foi fundado o Partido Comunista, que pretendeu a unificação
do movimento sindical. A Liga Patriótica Argentina tentou criar sindicatos li-
vres e a Ação Católica começou a orientar o movimento sindical. Logo, o sin-
2. ARGENTINA: TRABALHADORES URBANOS E PERONISMO dicalismo argentino se fracionou em três centrais e em sindicatos autónomos.
Em 1929, com a deterioração da economia do país, com crise, desemprego e
A independência do domínio espanhol consolidou o domínio da região por- greves, formou-se o Comité de Unidade Sindical Classista. As lideranças sin-
tenha, intermediária entre as outras províncias e o mercado internacional. dicalistas e socialistas fundaram a Confederação Geral dos Trabalhadores
Nos séculos XIX e XX, a economia se desenvolveu em torno da agricultura (CGT), que, em 1935-36 estava sob a direção dos militantes comunistas. Sua
cerealífera e da pecuária bovina, especialmente para o mercado europeu. O plataforma era luta pelo desenvolvimento da indústria nacional, nacionaliza-
Pampa foi aberto à produção e os indígenas, exterminados. Houve mecani- ção das empresas de capital estrangeiro; luta pelas liberdades sindicais e cum-
zação da agricultura, extensão da rede ferroviária, crescimento dos frigorífi- primento da legislação trabalhista; consolidação do regime democrático sem
cos e moinhos, entrada maciça de imigrantes europeus. Um grande fluxo imi- abdicar dos seus princípios de reestruturação da sociedade.
gratório se dirigia para a cidade, aumentando o mercado urbano, mas a in- A crise de 1929 e a depressão mundial tiveram reflexos económicos e po-
dústria leve somente tomaria impulso depois de 1930. líticos na Argentina. A oligarquia conspirava com os dissidentes radicais, que
Após décadas de lutas internas e externas, de caudilhismos e ditaduras, denunciavam a inclinação da UCR para a esquerda. Setores liberal-naciona-
consolidou-se o domínio de uma oligarquia conservadora (1880-1916) que listas do exército restauraram, em 1930, via golpe militar, a pseudodemocra-
afastou as massas da política, mantendo-se no poder graças a acordos políti- cia da aristocracia comercial e dos proprietários de terra, especialmente os li-
cos entre os presidentes e os grupos dominantes em cada província. A domi- gados ao capital estrangeiro. Teve início a "década infame" (1932-42). Em
nação oligárquica foi contestada pelo radicalismo, movimento que expressa- face da perspectiva de vitória dos radicais, os conservadores só se manti-
va a presença de setores médios e de trabalhadores urbanos, de descendentes nham no poder pela fraude eleitoral, pela corrupção governamental e dei-
de imigrantes, de setores marginais dos proprietários de terra. A União Cívica xando o campo livre para o capital estrangeiro. Os radicais retomaram a ten-
Radical (UCR) permaneceu no poder de 1917 a 1930, com reformas peque- dência insurrecional e a abstenção eleitoral. Perseguiu-se os sindicatos comu-
nas que deixavam intactas as bases económicas do poder dos conservadores. nistas e o movimento sindical voltou a se cindir com a recriação da União
A UCR serviu como freio aos impulsos ascendentes das massas, à mobilização Sindical Argentina, com a bandeira da luta contra o fascismo.
rural e à atividade sindical, com repressão violenta e massacres (1919-21). Os militares se dividiram. Crescia uma facção pró-fascista no exército

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que se inclinava pelo abandono do caráter moderador e para um novo tipo presários em geral, políticos conservadores, marinha e setores do exército,
de intervenção com um projeto nacional a ser implementado pelas forças ar- sindicatos, estudantes. Os Estados Unidos apoiavam a mobilização. O regi-
madas: fez-se circular um artigo clamando pela eliminação dos políticos. O mento do Campo de Mayo, com apoio da marinha, exigiu a renúncia de Pe-
Grémio dos Oficiais Unidos (GOU) mobilizava oficiais e os organizava em rón, que se demitiu e foi preso. No meio trabalhista houve inquietação pre-
várias guarnições. Em 1943, teve lugar o golpe militar com caráter antioli- vendo-se a ofensiva patronal contra as conquistas dos trabalhadores; os ofi-
gárquico, antiliberal, anticomunista. Dissolveu e pôs na ilegalidade os parti- ciais do GOU temeram por seu destino no crescente antimilitarismo. A CGT,
dos políticos, impôs severas barreiras às atividades sindicais. Decretou inter- encorajada por Eva Duarte Perón e pelo coronel Domingo Mercante, convo-
venção nas universidades, a censura, a regulamentação e o fechamento de cou greve geral para 18 de maio. A polícia foi preparada para o evento pelo
jornais e emissoras de rádio. Reprimiu os jornais judeus e comunistas. Pro- coronel Filomeno Velasco, peronista. Mas, no dia 17 de maio, 200 mil traba-
punha um programa de modernização industrial, de guerra e defesa, e o lan- lhadores marcharam sobre Buenos Aires e Perón falou aos descamisados.
çamento das bases para a indústria pesada como parte da construção do po- Perón se elegeu com o seu justicialismo: justiça social, independência
derio da nação. económica e soberania nacional, distributivismo, fomento à indústria do-
A oposição dentro do exército, da marinha e dos grupos democráticos méstica e política externa independente. Era uma doutrina de harmonia e
foi eliminada pela busca de apoio popular e pela cooptação de setores das bem-estar social, de um governo acima da luta de classes, pensada como uma
forças armadas através de gastos militares e reorganização do exército. Em alternativa entre capitalismo e comunismo, como uma filosofia social-cristã.
outubro de 1943, o coronel Juan Domingo Perón se colocou à frente do Propunha a transformação das lealdades corporativas ou particulares de
Departamento de Trabalho e Previdência, e dali procurou organizar o movi- classe, em uma fidelidade mais ampla, à Nação e aos objetivos nacionais.
mento dos trabalhadores em benefício do projeto político do seu grupo. Dirigentes sindicais fundaram o Partido Laborista, com base nas associa-
Ofereceu postos governamentais a líderes sindicais, promulgou 29 leis traba- ções profissionais. Seu presidente era Luís Gay, líder do Sindicato dos
lhistas novas, tomou parte em 311 disputas, arbitrando 174, concedeu au- Trabalhadores em Empresas Telefónicas. Perón procurou ampliar suas bases
mentos salariais e o 13° salário. Ao mesmo tempo, promoveu a formação de de apoio nos sindicatos e trabalhadores e nas massas urbanas. Os sindicatos
sindicatos paralelos e a intervenção na CGT, prendeu 48 líderes sindicais e se transformaram em mediadores entre os trabalhadores e o poder político.
perseguiu sindicatos que se recusavam a colaborar. Estendeu as reformas sociais, a legislação trabalhista e aumentou os benefí-
A lei de associações profissionais reconheceu a existência legal dos sindi- cios aos sindicatos. Os assuntos trabalhistas ficavam a cargo de Evita, assim
catos e o processo de sindicalização aumentou. A CGT chegou a 500 mil fi- como os instrumentos de assistência social.
liados em 1945, passando a 1,9 milhão em 1949 e 2,3 milhões em 1954. Mas Como parte do programa redistributivista e de manutenção dos salários
somente os sindicatos com situação legal podiam participar das negociações baixos, taxou os fazendeiros e concedeu subsídios para alimentos. Naciona-
coletivas. As reivindicações dos sindicatos articulados ao peronismo eram lizou as empresas de serviço público. Com as divisas acumuladas durante a
atendidas, levando os outros à dissolução. Os sindicatos cumpriam a função guerra, estimulou a industrialização. Apoiou a burguesia industrial, conce-
de mediação entre o trabalhador e o poder público. O governo, por sua vez, dendo-lhe créditos, tarifas adequadas e controle do câmbio, e acenando com
buscava a participação dos operários como consumidores e como fonte de le- a contenção do proletariado. No entanto, a burguesia hesitava em apoiar
gitimação política. A satisfação das reivindicações dos trabalhadores coinci- abertamente o governo. A reforma agrária permaneceu fora do programa.
dia com o projeto de desenvolvimento económico. A criação de uma base Nas forças armadas, usava-se a estratégia de preencher com seus membros
sindical preparava Perón para uma saída eleitoral em 1946, apesar da cres- altos postos governamentais e de estimular o carreirismo, procurando des-
cente oposição de setores democráticos. politizá-las.
Ao fim da Segunda Guerra Mundial aumentava a pressão para que o go- Perón permaneceu no poder de 1946 a 1955. Empreendeu forte centrali-
verno exonerasse Perón. Ela partia dos radicais, comunistas, imprensa, em- zação do aparelho do Estado ao mesmo tempo que consolidou o sindicalis-

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O S É C U L O XX AMÉRICA LATINA: DEPENDÊNCIA, DITADURAS E GUERRILHAS

mo argentino. Mas, após 1949, as mudanças nas condições económicas co- setor popular e manteve-se na oposição. Intensificou-se a luta entre militares
meçaram a afetar o regime e a estimular as tensões sociais. As importações e organizações peronistas, que culminou com o Cordobazo de 1969 e 1971.
cresceram muito. A agricultura sofria declínio e estagnação, com as secas, Como consequência, aumentaram o predomínio e a influência dos militares,
com a concorrência americana, com a transformação das terras em pastos e assim como o autoritarismo. A violência se estenderia com o estabelecimen-
com a expulsão dos arrendatários. Ela não podia mais financiar suprimento to da guerrilha e de novo golpe militar em 1976, que aboliu a CGT. Após o
de bens de consumo intermediário e de matérias-primas. Houve aumento da fracasso da Guerra das Malvinas, começaria o processo de transferência do
dívida e da inflação. As reservas cambiais se esgotavam e o déficit aumenta- poder aos civis.
va. O novo plano quinquenal procurava os investimentos estrangeiros e a as-
sociação com as multinacionais.
A orientação económica mudaria para estimular a agricultura e as expor-
tações, e para diminuir o déficit público e a inflação. Diminuiu-se a ênfase na 3. A LUTA PELO SOCIALISMO: A REVOLUÇÃO CUBANA E A
indústria, no consumo interno, no setor urbano e nos trabalhadores. To- NICARÁGUA SANDINISTA
maram-se medidas para reduzir o consumo, com congelamento dos salários
e controle sobre a oferta de alimentos. Como resultado, aumentaram o custo Depois da guerra pela independência em 1898, Cuba se tornara um país de
de vida, o empobrecimenta geral especialmente no campo, a instabilidade po- faz-de-conta. O intervencionismo americano na guerra contra a Espanha se
lítica. Mas a política económica falhou. A oposição ao governo vinha de se- perpetuava no século XX, institucionalizado pela emenda Platt à constitui-
tores altos e médios, com tentativa de golpe por parte de oficiais da reserva. ção cubana. O exército fora organizado pelos Estados Unidos e controlado
O governo entrou em conflito com a Igreja. Em 1952 morria Evita, para se através de nomeações e promoções políticas. O presidente eleito em 1908 era
transformar na santa dos descamisados. O controle dos sindicatos através funcionário da Cuban American Co. A política era marcada pela luta de fac-
dos mecanismos trabalhistas e assistencialistas do peronismo começaria a fa- ções das classes dominantes que acabavam em intervenção dos marines.
lhar: em 1954, uma greve espontânea mobilizou os metalúrgicos. A ascensão de Gerardo Machado em 1924 transformou a política em
O governo se tornou mais demagógico e repressivo: reprimiu as greves, gangsterismo. Sua eleição foi financiada pela companhia de eletricidade, de
submetendo os grevistas à lei militar, expurgou a CGT e as forças armadas. propriedade americana. A oposição vinha de um pequeno movimento operá-
Procurou silenciar as críticas aumentando a abrangência dos crimes contra o rio predominantemente anarquista, na indústria de tabaco e na construção.
Estado. Expropriou o jornal La Prensa. Ao mesmo tempo aumentava a pro- Em 1925, foi fundado o Partido Comunista. Os estudantes da Universidade
paganda do regime. Em julho de 1955, o líder radical Arturo Frondizi criti- de Havana lideravam a oposição. Uma greve geral obrigou Machado a dei-
cou a violência, a corrupção e a política do governo, sendo aprisionado. O xar Cuba em 1933, substituído por um governo provisório, deposto logo de-
apelo de Perón às massas, a possibilidade de armar os trabalhadores e a im- pois pelos estudantes, trabalhadores e soldados, que decretou o fim da emen-
plantação de mais um estado de sítio mobilizou o exército. Várias guarnições da Platt, o direito ao voto para a mulher, a jornada de 8 horas de trabalho, o
regionais se revoltaram e Perón renunciou, refugiando-se em um navio de salário mínimo e o direito dos camponeses à terra que cultivavam. Naciona-
guerra paraguaio. O general Eduardo Lonardi tomou posse como presidente lizou-se a companhia elétrica americana. O período ficou conhecido como
da junta militar. "a revolução frustrada".
Depois de Perón, a Argentina não conseguiu encontrar a estabilidade, al- Em 15 de janeiro de 1934, Fulgencio Batista, que como sargento tinha
ternando-se períodos de golpes e ditaduras militares. Os governos que se se- participado da rebelião contra Machado, depôs o regime com o apoio ame-
guiram fizeram esforços para destruir o peronismo e a atração que exercia ricano e permaneceu no controle político até 1959. Em 1940, uma nova
sobre as massas. Em eleições livres, os peronistas poderiam obter vitórias. O Constituição concedia direitos individuais e do trabalhador, previdência so-
movimento sindical peronista permaneceu como expressão organizada do cial e limitação do latifúndio. Batista contava com o apoio de alguns líderes

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AMÉRICA LATINA: DEPENDÊNCIA, DITADURAS E GUERRILHAS

comunistas na frente antifascista. Fundou-se também uma nova Confede-


em Santiago de Cuba, para controlá-lo e conseguir armas. Derrotados,
ração dos Trabalhadores Cubanos. Mas a vida política caracterizou-se pela
violência, corrupção, nepotismo e gangsterismo. A oposição vinha do Par- foram assassinados 65 deles durante a captura ou rendição; muitos foram
horrivelmente torturados. A autodefesa de Fidel circulou mais tarde com o
tido do Povo Cubano (ortodoxo), que pretendia recuperar os ideais da revo-
lução frustrada de 1933, com a plataforma de independência económica, li- panfleto "A História me Absolverá". Por ele, revelou-se um liberal constitu-
berdade política e governo honesto. Ameaçado de perder o controle das elei- cionalista, clamando por um governo democrático. Libertado em 1955, exi-
lou-se no México.
ções em 1952, um golpe colocou Batista novamente no poder.
A economia cubana caracterizava-se pela monocultura da cana-de-açú- No México, lançou o Movimento 26 de Julho. Um grupo treinou-se em
guerrilha para desembarcar em Cuba. Nele estavam o jovem médico argenti-
car, que deslocara as atividades de subsistência da população rural. Era gran-
no Ernesto Guevara, Camilo Cienfuegos e José António Echeverría, da
de a concentração da propriedade e boa parte das terras estava em mãos es-
Federação de Estudantes Universitários. A situação em Cuba já parecia madu-
trangeiras, especialmente americanas. O comércio era quase que exclusiva-
ra para a revolução: agitação entre os trabalhadores urbanos e raiva entre os
mente com os Estados Unidos. Com a evolução da fabricação do açúcar, as
camponeses. Em 1956, o barco Granma os levou, e mais 81 patriotas, que fo-
centrales (usinas) caíram sob o controle americano. Os camponeses perde-
ram descobertos e atacados. Procuraram refúgio em Sierra Maestra. Ali resis-
ram as suas terras para os latifundiários, que depois as alugaram a colonos,
tiram e seguiram a estratégia de abertura de colunas guerrilheiras cercando a
que forneciam cana para as centrales.
área. Sua estratégia era minar o moral das tropas de Batista, com ataques de
Vinte centrales detinham 1/5 da área total de Cuba e as condições dos
surpresa. Logo descobriram que necessitavam do apoio dos camponeses para
trabalhadores eram as piores. Os salários foram reduzidos e o tempo de de-
continuar a luta. Os rebeldes se tornaram em camponeses e tomaram medidas
semprego entre as colheitas (tempo morto) estendeu-se por quase nove
mais radicais, como distribuição das terras dos partidários do regime.
meses, durante os quais era grande a miséria: as famílias chegaram a se ali-
O movimento não se isolou na serra. Os guerrilheiros mantinham conta-
mentar de raízes e morar em cavernas. O domínio do capital estrangeiro
to com bases de apoio na cidade, para obter armas, dinheiro e voluntários.
também era marcante no tabaco, transporte, energia, bancos, serviços públi-
Grupos urbanos radicais se organizavam e mantinham o governo sob pres-
cos. Ao mesmo tempo, os investimentos em turismo e cassinos faziam de
são, com ataques e manifestações seguidos de violenta repressão. Em 1958,
Havana a Monte Cario do Caribe, com aumento do jogo, da prostituição e
Batista lançou uma grande ofensiva em Sierra Maestra. Suas tropas foram
do crime.
derrotadas, e seu comandante Mário Quevedo se juntou aos guerrilheiros.
Nos anos 40 e 50, o crescimento económico se acelerou e Cuba se tornou
Duas colunas de guerrilheiros lideradas por Guevara e Cienfuegos foram en-
o maior produtor mundial de açúcar, num mercado açucareiro controlado
viadas à capital. Castro seguiu para Santiago. Tropas do exército se recusa-
por grandes especuladores. Novos investimentos foram feitos na mineração
vam a lutar. Batista fugiu para a República Dominicana, levando consigo
e no turismo. Aumentava a dependência dos Estados Unidos, e com o con-
avultada soma em dólares.
trole económico vinha a dependência cultural. A distribuição da renda se tor-
O apoio dos camponeses influenciou nas ações do governo revolucioná-
nou ainda mais desigual, com alto nível de desemprego e miséria pelo traba-
rio. O novo regime promulgou de imediato uma lei de reforma agrária em
lho sazonal, que empurrava os migrantes rurais para as vilas miseráveis em
maio de 1959, que transformou o agro cubano. Como maiores proprietários
torno das cidades. Os protestos encontravam violenta repressão.
do solo cubano, a lei afetou tremendamente os interesses americanos. As
Em face da situação económica e social e do fechamento político depois
plantações, as grandes fazendas e as propriedades maiores foram expropria-
do golpe de Batista, a oposição se voltou para a ação armada. Em 26 de julho
das: limitou-se o tamanho da propriedade e os camponeses receberam terras.
de 1953, o advogado Fidel Castro, seu irmão Raul, o jovem pedreiro Juan
As plantações de açúcar foram, de início, trabalhadas como cooperativas,
Almeida, a bacharel Melba Hernandez, o estudante de economia Abel San-
com seus membros recebendo salários e participando dos lucros. Como isso
tamaría, e sua irmã Haydée e 125 outros atacaram o quartel de Moncada,
dividia o campesinato, mais tarde se transformaram em fazendas estatais ou

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propriedades do povo. Radicalizando ainda mais, todas as propriedades


l AMÉRICA LATINA: DEPENDÊNCIA, DITADURAS E GUERRILHAS

A estrutura do partido se pautava pelo centralismo democrático e enfati-


acima de 67 hectares foram também nacionalizadas e os pequenos agriculto- zava a moralidade comunista, a criação de um novo homem, caracterizado
res foram organizados na Associação Nacional de Pequenos Agricultores. pelo coletivismo, sacrifício pessoal, amor ao trabalho e ódio ao parasitismo
De 1959 a 1963, a economia foi cada vez mais coletivizada e controlada e à exploração. A nova Constituição, embora optasse pelo presidencialismo,
pelo Estado. Em 1960, as empresas estrangeiras foram nacionalizadas. seguia os modelos do Leste europeu. Foram estabelecidas Assembleias do
Prostíbulos e cassinos foram fechados, com grande campanha para reabilitar Poder Popular (municipais, provinciais e nacionais), com representantes elei-
as prostitutas. Praias, hotéis e clubes foram abertos a toda a população. A re- tos para apresentar e defender os desejos e opiniões dos seus constituintes.
forma urbana diminuiu os aluguéis e proibiu a especulação imobiliária. Logo começaram as pressões dos americanos, que temiam o estabeleci-
Procurou-se limitar a dependência do açúcar e dos Estados Unidos, diversifi- mento de um Estado comunista em seu quintal. Os Estados Unidos apoiaram
car a produção agrícola e desenvolver a indústria. Centralizou-se o planeja- a contra-revolução. Cuba foi bombardeada por aviões que decolavam da
mento económico na Junta Central de Planificação. Houve dificuldades na Flórida. Navios eram sabotados em portos cubanos. Cortaram o forneci-
produção agrícola e industrial, e o sistema económico foi reorganizado em mento de petróleo e a Standard Oil e a Shell se recusavam a refinar o petró-
1970, afrouxando um pouco o controle do Estado sobre a economia até che- leo importado da União Soviética. As cotas de açúcar foram reduzidas e as
gar a uma certa expansão nos anos 80. exportações para Cuba suspensas, com sérios prejuízos para a estrutura pro-
Uma das belas iniciativas da revolução foi a campanha de alfabetização, dutiva. Cuba foi expulsa da Organização dos Estados Americanos (OEA).
onde jovens formaram brigadas e se espalharam pelo país, vivendo com o Aumentava a sua aproximação com o bloco socialista, mas sem negar seu de-
povo e ensinando-o a ler. Junto com as letras se procurava despertar a cons- sejo de negociar com os Estados Unidos.
ciência política e criar novos cidadãos de uma nova sociedade. Um dos pri- Em 1961, Fidel declarou que a revolução era socialista. No mesmo ano,
meiros atos da revolução foi expandir e melhorar as escolas públicas. As es- em abril, a Agência Central de Informações (CIA) organizou uma força inva-
colas particulares foram privatizadas. As universidades foram reorganizadas, sora que desembarcou na baía dos Porcos. Vários atentados foram feitos à vida
para um ensino mais técnico e profissional. No campo da saúde, teve-se de de Fidel Castro. O regime cubano se prepararia para enfrentar a contra-revo-
praticamente começar do zero: metade dos médicos tinha deixado o país. lução, criando Comités para a Defesa da Revolução em cada bairro. Cuba con-
Mas estabeleceu-se um sistema de saúde estatal disponível para todos os ci- tinuaria a manter sua longa luta de resistência ao imperialismo, sua verdadeira
dadão1., de qualidade e eficiência reconhecidas internacionalmente. Cuba existência, seguindo como modelo para os povos oprimidos da América
tornou-se um centro médico de referência mundial. Latina, contando com a solidariedade internacional. No entanto, o bloqueio
Ao entrar em Havana, Fidel Castro descrevia seu programa como demo- americano perdurou e estes se recusaram a abandonar a base de Guantánamo,
cracia humanista sobre a base de liberdade para todos. Estava determinado continuando a campanha de sabotagem e subversão, com a televisão e o rádio
a dividir o poder com outros grupos. A revolução nacionalista, porém, se in- enviando mensagens anti-revolucionárias a partir da Flórida. A luta cubana
clinava para o marxismo-leninismo. A direção coube a Castro e seus coman- continuava para a liberação das cadeias do subdesenvolvimento.
dantes de Sierra Maestra, Fidèl como primeiro-ministro em 1959. Aliados de O modelo cubano viria a influenciar as táticas de revolução na América
Batista e contra-revolucionários foram presos e executados. Elementos mo- Latina. O camponês passou a ser visto como classe revolucionária. Não se
derados foram afastados do governo. Em 1963, foi criado o Partido Unido precisava esperar que as condições estivessem maduras para começar a revo-
da Revolução Socialista, substituído em 1965 pelo novo Partido Comunista lução, pois a insurreição mesmo criaria essas condições. Seriam criados
Cubano, cujo Comité Central era de comandantes fidelistas. Organizações focos, grupos móveis de guerrilheiros para difusão e extensão da luta revolu-
de massa mobilizavam vários setores da população: em 1960 foi criada a cionária. Acreditava-se na capacidade de uma vanguarda revolucionária em
Federação das Mulheres Cubanas, para ajudá-las a participar plenamente da mobilizar e levar ao triunfo a revolução. Nessa América subdesenvolvida, o
vida económica, política e social do país. campo formava a área básica para a luta armada: para Che Guevara, o cam-

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po lideraria a cidade. Essas diretrizes estiveram presentes nas lutas guerrilhei- Em 1936, Somoza depôs o presidente e promoveu novas eleições em que
ras da Bolívia, Peru e Nicarágua. foi o vencedor. O regime cultivava o apoio dos Estados Unidos, permitindo
Como Cuba, a Nicarágua também era uma zona dentro da geopolítica o estabelecimento de bases militares e o uso do país como campo de treina-
dos Estados Unidos. A primeira intervenção armada direta americana veio mento dos opositores do presidente da Guatemala pela CIA, enviando solda-
em 1855 e a ocupação militar durou de 1912 a 1925 e de 1926 a 1933, pri- dos para a Guerra da Coreia. Assassinado em 1956, foi substituído por seus
meiro se inclinando para o setor que julgava mais confiável, os conservado- filhos educados em West Point: Luís, na Presidência, e Anastasio Somoza
res e, no final, promovendo um acordo com os liberais. Dessa maneira, as Debayle, no comando da Guarda Nacional, que assumiria também a Presi-
lutas políticas e as rebeliões populares internas eram marcadas pelo naciona- dência em 1972.
lismo, contra o domínio e o controle americano e pela liberação nacional. A família Somoza controlou boa parte da riqueza da nação, explorou o
O café foi introduzido em 1850 e já em 1890 era o principal ramo de ex- governo para seu ganho pessoal, recebeu comissões por concessões de terras
portação. O cultivo do café foi estimulado através de prémios, subsídios, pu- e minas e aumentou os laços com bancos e investidores americanos. No ter-
blicações técnicas, concessões de terras, construção de telégrafos e ferrovias, remoto de 1972, que arrasou Manágua, permitiu que a Guarda Nacional se
encorajamento do sistema de crédito para financiar a produção. Construiu- apossasse do material vindo da ajuda internacional e o vendesse, que sa-
se todo um sistema para garantir o fornecimento de mão-de-obra: recruta- queasse o setor comercial da cidade e ainda canalizou os recursos dos fundos
mento forçado dos indígenas e mestiços através de leis sobre vagabundagem, internacionais de ajuda para seus próprios bolsos. Os recursos para a recons-
taxas de trabalho, endividamento do peão nos armazéns do proprietário e trução de Manágua financiaram mansões para os oficiais da Guarda
proibição de cultivar produtos básicos de subsistência. Tudo era para forçar Nacional.
o trabalho no latifúndio. A insatisfação popular começou a se manifestar mais abertamente con-
As consequências da expansão do café foi a perda das terras pelas comu- tra o governo ao mesmo tempo que parte da elite económica principiava a
nidades indígenas e pelos cultivadores de produtos de subsistência. Havia negar apoio à ditadura. A economia da Nicarágua era dominada por três
miséria entre os períodos de colheita, rebeliões, fuga para as cidades, monta- grupos: o Banco Nicaragúense, de proprietários liberais e do algodão; o
nhas do norte e para a floresta atlântica. A diversificação após a Segunda Banco de América, da oligarquia conservadora, de empresas comerciais, da
Guerra Mundial incluiu algodão, açúcar, banana, madeira, carne e ouro, mas especulação imobiliária e da construção; e a família Somoza e seus colabora-
aprofundou o despojamento dos camponeses. O controle das exportações e dores mais próximos, que ultrapassava e concorria com os dois primeiros e
do crédito permanecia em mãos de investidores estrangeiros associados à ameaçava a sua estabilidade. Depois de 1972, além das greves e demonstra-
elite local. ções, jovens da elite começaram a se juntar à Frente Sandinista de Libertação
A ditadura da família Somoza começou a se gestar quando os Estados Nacional (FSLN) e setores empresariais começaram a ajudar financeiramen-
Unidos patrocinaram a criação da Guarda Nacional da Nicarágua. Quando te o movimento. A repressão, os massacres empreendidos pela Guarda
saíram, o comando da Guarda passou para Anastasio Somoza Garcia, filho Nacional contra os camponeses e suas violações dos direitos humanos foram
de um cafeicultor, educado nos Estados Unidos. Depois de promover o assas- denunciados pela Igreja Católica e investigados pela Anistia Internacional. O
sinato de Augusto César Sandino, líder liberal da guerrilha contra a ocupa- regime encontrou ainda a pressão de Jimmy Cárter, eleito presidente dos
ção americana, Somoza consolidou seu controle: expulsou oficiais concor- Estados Unidos em 1977.
rentes, permitiu a matança de centenas de homens, mulheres e crianças na Em 1961, foi criada no exterior, por Carlos Fonseca'Amador, Carlos
área destinada aos antigos guerrilheiros; permitiu aos militares toda sorte de Borge e Silvio Mayorga, a FSLN, que se engajou numa luta de dezoito anos
corrupção, extorsão e exploração do jogo, prostituição e contrabando. Isto contra os Somoza e sua Guarda Nacional. Teve origem nos movimentos es-
isolou as forças armadas do povo, tornando-as uma máfia de uniforme, de- tudantis de 1944-1948 e 1959-1961. Os novos guerrilheiros roubaram al-
pendentes do líder. guns bancos e fugiram para Honduras, de onde começaram a luta. Depois do

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assassinato de Sandino, os sandinistas originais tinham continuado a luta mento da oposição aos Somoza e as rebeliões espontâneas em várias cidades
contra Somoza e foram eliminados, mas um deles, o velho Santos Lopez, en- impediram que a divisão se aprofundasse.
sinou aos guerrilheiros da FSLN a arte de sobreviver nas selvas e as táticas e Em agosto de 1978 o Comandante Zero (Éden Pastora) tomou o Palácio
estratégias da guerra de guerrilhas. De 1961 a 1963, as forças sandinistas Nacional, fazendo cerca de 2 mil reféns, ação que teve grande repercussão
permaneceram pequenas e sofreram várias derrotas. Depois solidificaram o mundial e desmoralizou a Guarda Nacional. Foi convocada uma greve geral
apoio rural e urbano, com os camponeses do norte e os estudantes da Frente e começou a insurreição armada nacional. No princípio de 1979, a FSLN
Revolucionária Estudantil. A ofensiva de 1966-67 incluiu assaltos a bancos lançou uma ofensiva no Norte e no Oeste do país. A ofensiva final veio em
e o justiçamento de um torturador da Guarda Nacional. junho-julho de 1979 e Somoza fugiu do país. A Junta de Reconstrução Na-
A estratégia era criar focos revolucionários por todo o país, para atrair o cional, unindo todas as oposições e organizações populares, entrou em
povo à luta, e procurar aliança com camponeses e operários para estabelecer Manágua, com vistas a organizar o país.
condições de uma Guerra Popular Prolongada. A brutalidade da repressão O programa de governo tinha sido estabelecido em Punta Arenas, Costa
aumentava o apoio camponês aos sandinistas. Em 1974, conseguiram uma Rica. Prometia criar um sistema democrático e convocar eleições. Mas o con-
grande vitória ao invadir a festa em homenagem ao embaixador americano ceito de democracia dos sandinistas era mais amplo: envolvia o melhoramen-
Turner B. Shelton e tomar os importantes convidados como reféns. Em troca to das condições de vida da população e a ampliação da participação políti-
exigiram, e conseguiram, a libertação de prisioneiros sandinistas, uma gran- ca. A reconstrução se associava à transformação das estruturas políticas e so-
de quantia em dinheiro e a transmissão pelos meios de comunicação das ciais em benefício dos excluídos do somozismo. O poder era dividido entre a
mensagens dos guerrilheiros ao povo da Nicarágua. democracia burguesa e a popular, com predomínio dos sandinistas.
A oposição popular ao regime aumentou rapidamente, em 1978, após o O governo que se instalou era heterogéneo, refletindo a aliança multi-
assassinato de Pedro Joaquín Chamorro, líder da União Democrática de Li- classista da luta contra Somoza. Mas a direção coube aos nove membros di-
bertação e proprietário do jornal La Prensa. A oposição incluía conservadores retores da FSLN, mais popular e organizada. Anunciou-se a criação de uma
e liberais dissidentes; associações de empresários progressistas; organizações "Nova Nicarágua". As liberdades civis e políticas foram respeitadas, mesmo
estudantis e de trabalhadores; partidos cristãos e movimentos evangélicos. para os criminosos de guerra e os cúmplices de Somoza. A pena de morte foi
Alguns deles se aproximaram da FSLN, mas outros procuraram ajuda ameri- abolida. A liberdade de imprensa foi restabelecida, e os jornais de oposição,
cana para uma alternativa não-armada a Somoza: pretendiam tirar Somoza e como o novo La Prensa, foram livres para criticar a revolução e manifestar
manter a Guarda Nacional como garantidora de um regime económico, polí- as preocupações da elite económica. Novos pequenos partidos representan--
tico e social mais democrático, aberto para o restante da elite. O temor de que do essa minoria não-sandinista também continuaram funcionando. A políti-
a Nicarágua se tornasse uma nova Cuba fez com que a OEA procurasse um ca externa era baseada na autodeterminação e no não-alinhamento.
acordo entre Somoza e grupos de políticos tradicionais, sem sucesso. Em maio de 1980, foi criado e ampliado o Conselho de Estado, compos-
A FSLN dividiu-se em três facções. Os proletários, saídos da frente urba- to de representantes dos diversos grupos sociais e das organizações popula-
na em 1975, procuravam ampliar o movimento de massa organizando os res ligadas aos sandinistas. Milhares de cidadãos se mobilizavam nessas or-
operários nas fábricas, nas periferias das cidades. A facção da Guerra ganizações, que davam ao povo a oportunidade de participar, e trabalhavam
Popular Prolongada vinha da FSLN original e preferia continuar com a anti- voluntariamente em projetos governamentais. As forças armadas sandinistas
ga forma de luta, de guerrilha rural especialmente no Norte, acumulando incluíam o exército, as milícias populares e o Comité de Defesa Sandinista:
forças. Os terceiristas ou insurgentes se afastaram da ortodoxia marxista-le- elas se orientavam politicamente para proteger o sistema revolucionário por-
ninista, propunham a união de todas as oposições em uma frente ampla e que uma boa parte da Guarda Nacional permanecia em Honduras e Ronald
conclamavam o povo para a insurreição rural e urbana. Neles se incluíam Reagan, em sua campanha, lamentava o golpe marxista-leninista na
Daniel e Humberto Ortega Saavedra e Victor Tirado Lopez. O rápido cresci- Nicarágua. As eleições foram convocadas para 1985, quando o projeto de

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AMÉRICA LATINA: DEPENDÊNCIA. DITADURAS í GUERRILHAS

reconstrução estivesse mais avançado. Os pequenos partidos de elite protes-


prejuízos e gastos. A economia do país entrou em crise, agravada pela reces-
taram contra essas medidas, que qualificavam de traição aos princípios de
são mundial.
Punta Arenas.
Em 1985, foram realizadas as primeiras eleições limpas da história da
O governo confiscou as propriedades da família Somoza e seus associa-
Nicarágua, com observadores internacionais. A FSLN obteve 67% dos votos
dos, nacionalizou bancos e seguradoras. Empresas privadas honestas e efi-
e a Presidência. Começaria o processo de consolidar a revolução, que conti-
cientes, assim como grandes propriedades rurais, puderam continuar sendo
nuaria a ser impedido pela ação dos contras e dos Estados Unidos.
exploradas. Foram concedidos empréstimos para que as empresas agrícolas
e industriais pudessem se recuperar. Procurou-se ampliar o número de clien-
tes para os produtos da Nicarágua, incluindo nações não-alinhadas e socia-
listas. As exportações eram feitas através de organizações governamentais.
4. MILITARISMO E POLÍTICA NO PERU: O GOVERNO REVOLUCIONÁRIO DAS
Nas terras confiscadas, foram instaladas Cooperativas de Produção e
FORCAS ARMADAS
Unidades de Produção Estatal. Estabeleceram-se impostos sobre a renda e a
propriedade. O programa social incluía leis de proteção ao trabalhador,
A recuperação da economia exportadora de matérias-primas no Peru rece-
obras públicas, campanhas de alfabetização, de vacinação, de criação de
beu novo alento com a Primeira Guerra Mundial e a vinda de capitais exter-
agentes de saúde, tabelamento dos aluguéis reforma agrária com o objetivo
nos: algodão, açúcar, seda, borracha, prata, cobre e petróleo. A retomada da
mais geral de redistribuiçãò da renda.
exportação consolidou uma oligarquia costeira, mercantil e financeira, pro-
Iniciou-se de pronto a hostilidade contra o projeto revolucionário.
dutora de açúcar e algodão, mas manteve os latifundiários tradicionais da
Internamente, houve a ação das antigas classes dominantes. Através de seus
serra (gamonales). Com apoio de investimentos estrangeiros começou-se
partidos, associações de classe, jornais e rádio, criticavam os programas do
também um desenvolvimento industrial. A oligarquia de 55 famílias, asso-
governo e pressionavam pela realização imediata de eleições. A alta hierar-
ciada aos haciendados da serra e ao capital estrangeiro, dominou o governo
quia católica manifestava sua preocupação com o destino da Igreja em uma
peruano até 1968.
Nicarágua que pensava caminhar para o socialismo. Muitos empresários li-
O processo de modernização aumentava a pressão sobre a terra das co-
quidavam seus bens e deixavam o país ou então se recusavam a colaborar,
munidades e sobre o camponês. A capitalização das minas deprimia a econo-
descapitalizando suas empresas. Externamente, o governo americano acusa-
mia das comunidades vizinhas e reduzia as oportunidades de emprego. O de-
va a Nicarágua de se tornar um satélite económico soviético. Incidentes na
senvolvimento do capitalismo no Peru provocou modificações nos modos de
fronteira de Honduras e a solidariedade com a Frente Farabundo Marti de
vida, de trabalho e de organização do camponês. Alterou arranjos seculares
Libertação Nacional em El Salvador foram usados para justificar a ação do
entre latifúndio e trabalhador rural. O termo "camponês" englobava uma
governo Reagan contra a Nicarágua.
série de situações diferentes no campo, que se caracterizavam pela condição
O governo americano começou a ajudar os contra-revolucionários, a
subalterna, pela sujeição à violência privada do latifundiário. Por não falar
quem chamava de "lutadores da liberdade", com armas, dinheiro e treina-
espanhol, por pertencer a outra cultura, por ser índio ou mestiço, o cam-
mento. A CIA preparou manual para sabotar a Nicarágua. Os contras reali-
ponês estava à margem da vida nacional. Não lhe era permitida a organiza-
zavam incursões no território da Nicarágua a partir de Honduras e da Costa
ção para reivindicar direitos dentro das regras do jogo democrático: sindica-
Rica, com antigos elementos da guarda e mercenários americanos, inclusive
tos rurais eram considerados subversão.
assassinando jovens alfabetizadores. Também se dedicavam à sabotagem, ao A partir da década de 1920, apareceram os movimentos de contestação
terrorismo, à ameaça aos funcionários eleitorais, ao sequestro, assassinato, e se formaram novos agrupamentos políticos de oposição. Em 1924, foi fun-
emboscadas, atentados, bombardeio de aeroportos. Em 1984, minaram os
dada a Aliança Popular Revolucionária Americana (APRA) por Victor Raul
portos da Nicarágua. Tal situação levou ao estado de sítio, trouxe grandes Haya de Ia Torre, com um nacionalismo populista. Em face das pressões dos

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novos grupos contra a oligarquia e contra o capital estrangeiro, o regime se


do seus altos lucros e o monopólio do refino e distribuição e outras vantagens
fechava e ditaduras militares alternavam-se a governos conservadores que
em clausulas secretas. O fato foi encarado como vergonha nacional.
acenavam com pequenas reformas. Na década de 1950, surgiu a Ação
A perspectiva de ameaça à ordem e às hierarquias institucionais mobili-
Popular (AP). Também nos anos 50 e 60, os camponeses começaram a se or-
zaria novamente, em 1968, os militares peruanos. Para eles, as medidas para
ganizar em comunidades e sindicatos, com greves e invasões, para recuperar
superar as pressões populares, controlar e pacificar o campesinato e afastar
as terras ancestrais e alcançar a verdadeira cidadania.
a possibilidade insurgente só poderiam ser levadas a cabo dentro de um ab-
A luta camponesa esteve centralizada em dois tipos de movimentos: or-
soluto controle do Estado pelas forças armadas. As reformas para evitar a
ganizações rurais de massa e unidades de guerrilha. Procurou também se
desordem institucional deveriam ser impostas de cima para baixo, dentro de
coordenar em escala nacional e alargar seus objetivos, associando-se a gru-
um projeto militar, da lógica e da disciplina castrenses. A reforma agrária foi
pos revolucionários urbanos. A estratégia foi primeiro a participação em
vista como única maneira de desmobilizar os camponeses e de evitar que, da
larga escala em torno de demandas imediatas e o uso de ações relativamente
luta pela posse da terra, eles passassem à contestação do Estado.
não-violentas, como a ocupação das haciendas, revitalizando tradições cole-
Em outubro de 1968, um golpe militar, sob a liderança do general-de-di-
tivistas no trato com a terra retomada. A princípio, os grupos armados eram
visão Juan Velasco Alvarado, depôs o governo de Belaunde Terry. O país
subordinados e para a defesa dos invasores.
passou a ser governado por urna junta militar, que se autodenominou
A formação de unidades de guerrilha começou com a chegada de Hugo
Governo Revolucionário das Forças Armadas. Visavam a uma revolução na-
Blanco, trotskista que falava quéchua; dos estudantes da Frente Obrero
cionalista para liquidar o subdesenvolvimento e a dependência, geradores de
Campesino Estudantil Popular com Manuel Scorza; de setores dissidentes
miséria, fome, desigualdades e injustiça. Concebiam o desenvolvimento
dos partidos de esquerda que enxergavam as possibilidades revolucionárias
como um processo de transformação estrutural. Defendiam uma posição hu-
dos comuneros da serra. O MIR, em 1965, tinha quatro frentes guerrilheiras.
manista, o resgate da cultura peruana e uma política antiimperialista.
Derrotado, em 1965, o movimento guerrilheiro, após intensa ação das forças
Propunham melhorar as condições de vida das camadas populares, que esta-
armadas, o campesinato viveria em estado de insurreição latente e se torna-
vam perigosamente predispostas a reagir de forma violenta à sua exploração.
ria a preocupação crescente dos militares.
O laboratório de gestação do regime foi o Centro de Altos Estudos
No Peru, os setores-chave da economia estavam em mãos do capital es-
Militares. Recusavam-se os modelos estrangeiros, questionava-se a eficácia
trangeiro e companhias americanas eram responsáveis por 90% da exporta-
das lideranças civis e dos instrumentos democráticos no Peru. Na repressão às
ção de minerais. A política económica e a luta contra a inflação e o déficit se-
guerrilhas, entraram em contato com a exploração e marginalização do indí-
guiam os princípios do liberalismo, sob a inspiração de conselheiros ameri-
gena. A falta de identidade nacional foi vista com dificuldade para constituir
canos. A crise económica se agravou em 1965, com a baixa nas exportações
verdadeiros cidadãos e soldados peruanos e para perpetuar um estado de in-
e diminuição da entrada maciça de capitais externos. A moeda foi desvalori-
surreição. Ante o comunismo internacional e o expansionismo chileno, asso-
zada e procurou-se uma política de estabilização com restrições ao gasto pú-
ciavam-se segurança nacional e desenvolvimento. A defesa nacional se ligava
blico, com reforma fiscal e acordos com as companhias de petróleo.
às exigências de bem-estar do povo e ao planejamento económico, social e po-
O governo da AP foi marcado pela corrupção, escândalos financeiros,
lítico, para o qual os militares se viam mais capacitados. A sobrevivência da
problemas económicos e crise política, com obstrução no Congresso. A
corporação militar dependeria das mudanças fundamentais na sociedade.
International Petroleum Company (IPC) esgotara os campos, sem título legal
Em 3 de outubro de 1968, a refinaria de Talara e os campos de La Brea e
e sem compensação para os cofres públicos, devido à remessa de lucros e isen-
Paririas, da IPC, foram ocupados, declarando-se caducas as concessões petro-
ções de impostos. Daí surgiu um movimento pela nacionalização da explora-
líferas contrárias ao interesse nacional e reservando as áreas mais importantes
ção do petróleo. Em troca de novos recursos da Agência Internacional para o
para a reorganização da estatal Petroperu. Outras nacionalizações em setores
Desenvolvimento (AID), o governo chegou a um acordo com a IPC, garantin-
estratégicos da economia se seguiram até 1975: minas, ferrovias, transportes

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e comunicações, serviços públicos. Em muitos casos foram pagas indeniza- impediam o desenvolvimento. Enquadrou-se em um projeto maior de desen-
ções. Formou-se o Banco da Nação, com aquisição da participação estrangei- volvimento capitalista nacional. A reforma teve o objetivo de incorporar o
ra nos bancos privados. Estabeleceram-se 200 milhas de fronteiras marítimas camponês à economia de mercado, fazendo dele um proprietário, de aumen-
e nacionalizou-se a indústria da pesca. Novas empresas estatais foram criadas. tar a produção e a produtividade, de eliminar o latifúndio e transferir capi-
Procurou-se diversificar os mercados e as fontes de financiamento. tais privados da agricultura para o setor industrial. Mais radical e extensiva
As instalações açucareiras foram ocupadas e transformadas em coopera- que em alguns países da América Latina, a reforma agrária peruana foi im-
tivas, proclamando-se então a inutilidade do sindicalismo no novo sistema. posta de forma paternalista e autoritária, sem a participação ativa do cam-
Tentou-se estimular a industrialização e a autogestão pelos operários, com ponês. Teve o sentido de reduzir a mobilização política independente ou ra-
projetos de participação nos lucros. A indústria nacional foi protegida dical do camponês da serra.
com tarifas contra a concorrência estrangeira. Organizou-se a Corporação A fragmentação do latifúndio e a redistribuição de terras previstas não
Financeira de Desenvolvimento. Promoveu-se a reforma universitária, para privilegiavam a apropriação individual por pequenos e médios proprietários.
despolitizar a Universidade, fixando uma orientação técnica, profissional e No caso das empresas agroindustriais, estabeleceu-se o sistema de cooperati-
apolítica. vas, tendo os antigos empregados como donos. Na serra, foram criadas as
Externamente, o Peru assumiu uma política terceiro-mundista e não-ali- Sociedades Agrícolas de Interesse Social como meio de resolver os conflitos
nhada. Rompeu com o bloqueio a Cuba, reatou relações com a China e ex- entre camponeses despojados de suas terras, arrendatários e comunidades vi-
pandiu o comércio com o bloco socialista. Participou do Pacto Andino, mer- zinhas, todos reivindicando as mesmas terras usurpadas durante séculos. Os
cado comum com Bolívia, Colômbia, Equador, Venezuela e Chile, como arrendatários receberiam a propriedade e uma indenização. Todos se torna-
meio para aumentar suas exportações. Manteve uma relação formal com os riam sócios da cooperativa trabalhada pelos antigos empregados permanen-
Estados Unidos, sem fechar os canais de negociação e realizando novos con- tes da hacienda, o que desencadeou protestos dos camponeses. Os que rece-
tratos de inversão com firmas estrangeiras. Renegociou as relações com o im- biam a terra tinham que pagar por ela.
perialismo. Os investimentos estrangeiros perderiam seu caráter de enclave: A implantação da reforma agrária moveu-se lentamente e, ao fim do go-
o cobre produzido por consórcios internacionais seria refinado pelo Estado, verno militar, menos de 1/4 da população rural dela se beneficiou. Houve re-
comercializado pela Mineiro-Peru e as empresas comprariam seus insumos sistência, fraude e sabotagem dos grandes proprietários. O governo foi inca-
no país. Os Estados Unidos mantiveram atitude cautelosa pela experiência paz de desenvolver uma política agrícola que beneficiasse o agricultor.
com Cuba. Durante a reforma teve lugar um importante processo de mobilização cam-
Em 24 de junho de 1969, no Dia do índio, o governo promulgou a lei de ponesa, que reagiu à forma de constituição das cooperativas, aos abusos e
reforma agrária. A lei estabelecia a expropriação de todas as grandes pro- tentativas de evasão da reforma agrária; pressionou pela sua radicalização e
priedades e, no caso da agroindústria, de todo o complexo. Criou-se um pela organização autónoma do campesinato. Em 1974, a região andina se
Tribunal Agrário, cujas sentenças seriam rápidas, sem apelação e executadas viu novamente ante as invasões de terras, com as comunidades enfrentando
imediatamente. Previa indenização, parte em dinheiro e parte em bónus da as empresas associativas.
dívida agrária, mas segundo o valor declarado pelos proprietários para efei- Nos meados dos anos 70, a revolução peruana enfrentaria a crise que
to de pagamento de impostos. Anulava os contratos que ligavam a concessão deixou para os militares a opção de radicalizar o processo de reforma, com
de terra no latifúndio à prestação de serviços pessoais. E, 48 horas depois do apoio popular, ou de procurar uma política económica mais ortodoxa, com
anúncio, 60% das terras açucareiras já estavam sob controle governamental. apoio da burguesia e classe média. As tentativas de expansão do regime além
Nos Estados Unidos, a medida foi encarada como progressista, de acor- das forças armadas e a possibilidade da radicalização das reformas dividiram
do com as recomendações da Aliança para o Progresso, sem características os militares. A direita se reorganizava, sob a bandeira do anticomunismo,
políticas e com seriedade. Significava a remoção das estruturas arcaicas que com apoio de empresários, produtores agrícolas, associações profissionais, e

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acusava o governo de abandonar a livre empresa e de favorecer uma econo- da Segunda Guerra Mundial, essas mudanças se refletiriam na estrutura de
mia de Estado. APRA e AP exerciam pressões para o retorno ao governo classes, nas relações entre os grupos sociais, na natureza do Estado e nas po-
civil, com o apoio de setores da marinha e facções militares preocupados líticas económicas. A organização do movimento operário e sua militância
com o isolamento do país na América Latina. Como reação à pressão, o go- cresceram, da mesma maneira que os setores intermediários, demandando o
verno se tornava cada vez mais ditatorial. seu espaço político e ampliando as suas reivindicações. A oligarquia tendeu
Em 1975, o general Morales Bermúdez, formado em economia, liderou a se diversificar e a aceitar parcialmente soluções reformistas, redimensio-
o golpe contra Alvarado e logo depois afastou do governo e do comando das nando as suas alianças. A América Latina, porém, ainda conservava a feição
tropas os oficiais progressistas. A nova junta militar recuou do processo re- de um continente camponês, apesar do crescimento da população urbana, o
formista. Adotou-se uma política económica deflacionária e de estabilização que contribuía para as pressões derivadas da luta pela melhor distribuição de
ortodoxa, de acordo com o Fundo Monetário Internacional: redução dos sa- terra, pelo direito à sindicalização e pela reforma agrária.
lários reais, desvalorização da moeda, abandono do controle dos preços, li- Mantinha-se a América Latina sob o signo da dependência e das desi-
beração das remessas de lucros por empresas estrangeiras. Também se encer- gualdades sociais, contra as quais se tentaria mobilizar as forças nacionais.
rou o processo de reforma agrária. Anularam-se as conquistas dos trabalha- O desenvolvimento e a industrialização, especialmente a indústria básica,
dores nas cooperativas. Como resultado, fome e desnutrição voltaram a cres- foram vistos como os motores da independência nacional, da eliminação das
cer. O protesto popular encontrava a repressão. Depois da greve geral de desigualdades sociais e da pobreza, da promoção da democracia e da supera-
1977, foi convocada uma Assembleia Constituinte. ção das repúblicas oligárquicas. Construir as bases económicas da Nação e
As eleições se fizeram em clima de repressão e trouxeram maioria de cen- ampliar a democracia significavam também afastar os traços, ainda existen-
tro-direita. O governo aplicou o receituário neoliberal: diminuição do papel tes, de uma economia e uma sociedade coloniais que se constituíam em obs-
do Estado na economia; transferência de recursos e de empresas para o setor táculos ao desenvolvimento. Igualmente significava a integração dos setores
privado; promoção da concorrência pela eliminação de subsídios e controles populares ao projeto de desenvolvimento nacional.
de preços; desmonte das barreiras tarifárias que protegiam a indústria nacio- Neste processo de mudança cresceram significativamente os papéis do
nal, a fim de expô-la à concorrência externa; encorajamento das exportações Estado. As soluções nacionais variaram: foram desde a manutenção do Esta-
de matérias-primas. No começo dos anos 80, a economia peruana afundou. do burguês e de alguns princípios da democracia . ;presentativa em regimes
O empobrecimento, a concentração de renda e a desintegração social avan- autoritários, passando pelo populismo e pela ditadura militar, até o estabele-
çaram. Aumentaram o crime e a violência. O tráfico de cocaína se espalhou. cimento do socialismo. Constituíram-se, então, na América Latina, regimes
Em 1980, o Sendero Luminoso, fundado dez anos antes por facções do diversos, a que podemos chamar de nacional-estatizantes, como o peronismo
Partido Comunista do Peru (Bandeira Vermelha), iniciava sua ação armada, na Argentina, o socialismo cubano, o sandinismo na Nicarágua e o Governo
sob a liderança de Abimael Guzmán. Revolucionário das Forças Armadas no Peru.
As ideologias que acompanhavam a constituição desses governos apre-
sentavam-se como revolucionárias e populares, propunham uma nova via
para o desenvolvimento, contra c explorador estrangeiro e contra a desigual-
5. CONCLUSÃO
dade e a injustiça social. Alguns desses regimes, francamente autoritários e,
embora apoiando um projeto capitalista, que favoreciam uma elite burguesa,
Na América Latina, a ordem económica, política e social estabelecida desde dirigiam-se ao povo e propunham uma ampliação da participação democráti-
o fim do século XIX modificou-se pela integração ao desenvolvimento capi- ca. Outros eram francamente revolucionários ao tentarem eliminar a depen-
talista, pela modernização e urbanização, e por uma certa industrialização. dência pela superação do capitalismo que a criara: a Revolução Cubana aba-
Avançando-se no século XX, e especialmente após a crise de 1929 e depois laria ainda mais os sistemas tradicionais de dominação na América Latina.

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O mundo árabe e as guerras
árabe-israelenses
Keila Grinberg
Doutoranda em História Social
da Universidade Federal Fluminense
"Mesmo quando há duas partes que têm razão, a justiça é um jogo ilusório,
porque é sempre julgada pelo lado de quem vê."
YORAM KANIUK, escritor israelense

INTRODUÇÃO

A primeira palavra que vem à cabeça de qualquer um que pense em Oriente


Médio é conflito. Região que deu origem às grandes civilizações e a religiões
que ainda hoje encontram seguidores nos quatro cantos do mundo, é triste
constatar que ela tenha passado a ocupar as manchetes dos jornais com
temas tão sangrentos como explosões de carros-bomba, campos de refugia-
dos, assassinatos de políticos e ameaças de guerras até nucleares.
Com aproximadamente 7,2 milhões de quilómetros quadrados situados
na encruzilhada dos continentes asiático, africano e europeu, a região deno-
minada Oriente Médio abrange os países Afeganistão, Arábia Saudita,
Barein, Catar, Egito, Emirados Árabes Unidos, lêmen, Ira, Iraque, Israel,
Jordânia, Kuwait, Líbano, Omã, Síria, Turquia e Territórios da Autoridade
Nacional Palestina. O termo não é tão antigo quanto a presença humana no
local; cunhado por ingleses no início do século XX, ele foi usado para desig-
nar as extensões de terra e água a meio caminho entre o mar Mediterrâneo e
as fronteiras da índia, região controlada na época pelo Império Britânico.
Hoje, englobando este vasto conjunto de países que possuem menos em
comum do que se imagina, suas bordas geográficas são os estreitos de
Dardanelos e Bósforo a noroeste, o oceano Índico a sudeste, o vale do rio
Nilo a sudoeste e o Afeganistão a nordeste.
O atual Oriente Médio conta com uma população de cerca de 230 mi-
lhões de habitantes, que, divididos em várias etnias, falam pelo menos seis
línguas diferentes e professam três religiões distintas, para contar só as majo-

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O S É C U L O XX o M U N D O Á R A B E E AS G U E R R A S A R A B E - I S R A E L E N S E S

rifarias. Aí começam os problemas: para entender os conflitos destes povos nos são árabes. Assim, de um modo geral, são árabes aqueles que se identifi-
designados genericamente como árabes e judeus, suas alianças e disputas, é cam com a língua, a cultura e os valores dos árabes, e são muçulmanos aque-
preciso conhecê-los de fato. les que seguem a religião do islã, fundada por Maomé.
Quando Maomé, no século VII, fundou a religião muçulmana, dificil- Quase o mesmo pode ser dito dos judeus: primeira das religiões mono-
mente se poderia imaginar que ela seria um dia a crença de praticamente teístas, o judaísmo nasceu na chamada terra de Canaã, situada entre a mar-
todo o Oriente Médio, Norte da África, Sudão, Paquistão, e de parcelas da gem direita do rio Jordão e o mar Mediterrâneo, quando os então chamados
índia e da Indonésia. Espremidos entre os impérios Bizantino e Persa, os ára- hebreus adotaram os preceitos difundidos pelos profetas Abraão e Moisés e
bes de então eram pura e simplesmente as pessoas que viviam na península consolidados nos Dez Mandamentos e no Pentateuco, os cinco primeiros li-
Arábica. Acreditando que Maomé lhes tinha revelado uma nova fé, adota- vros do Antigo Testamento. Considerando Jerusalém sua capital sagrada, os
ram Meca como capital religiosa e o Corão como livro sagrado, tornando-se judeus posteriormente viveram na região sob o domínio de vários povos e
então muçulmanos (crentes, ou fiéis, em árabe) ou partidários da religião do impérios, nem todos tolerantes. Depois das destruições dos dois templos de
islã (também em árabe, submissão a Deus). Depois da morte do profeta, tro- Jerusalém, um pelos neobabilônios e o outro pelos romanos, os judeus se dis-
pas árabes dispuseram-se a propagar a religião através de expansão militar e, persaram pelo mundo e, mesmo que sempre tenham existido comunidades
em relativamente pouco tempo, constituíram um império que acabou se es- judaicas na região, só em fins do século XIX grupos de judeus europeus co-
tendendo por 6 mil quilómetros, do oceano Índico ao Atlântico, dominando meçaram a se organizar politicamente para constituir um lar nacional judai-
a península Ibérica, o Norte da África e parte dos impérios Bizantino, co, que — mais tarde ficou decidido — deveria ser localizado na Palestina,
Sassânida e Persa, indo até as fronteiras com a índia e a China, e tendo como naquela época parte do Império Otomano, onde viviam pequenas comunida-
sucessivas capitais as cidades de Meca, Damasco, Bagdá e Cairo.1 des de árabes agricultores.2
Nesse império, o islamismo era a religião oficial e a língua árabe tornou- O surgimento do sionismo, ou o movimento que preconiza a volta a
se rapidamente o principal meio de comunicação. Assim, os povos conquis- Sion, colina de Jerusalém que simboliza a Terra Prometida, na década de
tados pelos árabes muçulmanos foram arabizados e islamizados. Com exce- 1890, foi profundamente marcado pelo crescente anti-semitismo europeu. A
ção dos territórios europeus, da Ásia Menor e do Império Persa, todos os falência da política de integração dos judeus à sociedade europeia, posta em
povos conquistados adotaram o árabe como primeira língua; além disso, prática em vários países durante todo o século XIX, ficou evidente quando
fora os cristãos e judeus — que tinham o direito de administrar suas comu- massacres de comunidades inteiras de judeus — os chamados pogroms — co-
nidades e beneficiar-se da liberdade de culto mediante o pagamento de um meçaram a acontecer na Rússia e quando o judeu francês Alfred Dreyfus foi
imposto especial —, todos também passaram a professar a religião muçul- acusado de passar informações secretas de seu exército para o inimigo ale-
mana. Tempos mais tarde, alguns destes mesmos grupos conquistados ex- mão. Este episódio, que provocou inúmeras manifestações anti-semitas na
pandiram ainda mais a fé islâmica, como os berberes do Norte da África, que França e é hoje considerado um dos maiores erros judiciários da história
a propagaram ao sul do Saara. É por isso que, hoje em dia, mesmo não fa- francesa, impressionou vivamente o jornalista vienense Theodor Herzl, que,
zendo parte do Oriente Médio, habitantes de países como a Argélia e o também judeu, escreveu o livro O Estado Judeu, publicado em 1896, e orga-
Marrocos adotam a religião muçulmana e são considerados árabes. Ao nizou o primeiro congresso sionista na Basileia no ano seguinte.3
mesmo tempo, nem todos os que se converteram ao islamismo adotaram os Foi em contraposição ao anti-semitismo europeu, portanto, que a ideia
valores, a cultura e a língua árabes, como os turcos, que falam a língua turca, de construção do Estado Judeu ganhou força. Movimento nacionalista como
e os iranianos, que até hoje usam o persa. Não são árabes, portanto. O con- muitos que sacudiam a Europa naquele momento, a versão política do sionis-
trário também aconteceu: nem todos os que passaram a ser árabes com o mo pregava a criação de um Estado laico (não necessariamente na Palestina)
tempo se converteram ao islamismo, como os católicos e os judeus já men- que solucionasse os problemas de segurança dos judeus. Muito influenciados
cionados. Nem todos os árabes são muçulmanos, e nem todos os muçulma- pelo socialismo europeu, a maioria de seus militantes preconizava uma di-

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mensão socializante do sionismo, que, através de comunidades coletivistas — dividados otomanos. A este movimento correspondeu um outro, interno, de
os kibutzitn —, permitisse a criação de uma nova sociedade, baseada em va- igual ameaça à integridade territorial. Eram os movimentos nacionalistas
lores igualitários, diferentes daqueles hegemónicos em suas terras natais. árabes, que, influenciados pelas mesmas ideias que deram origem ao sionis-
Mesmo assim, nessa época e até meados do século XX, quando o sentimento mo e impulsionados pelo exemplo dos sérvios e gregos nos Bálcãs, buscavam
anti-semita já tinha virado política oficial na Alemanha nazista, a ideia sionis- autonomia e independência em regiões de fala árabe, como a Arábia, o
ta foi desconsiderada pela maioria dos judeus, muitos ainda confiantes na Iraque, o Líbano e o Egito. Contando com ajuda externa, estes movimentos
emancipação pessoal ou na integração socialista à sociedade europeia, outros cresceram e ajudaram a minar ainda mais o império, que, após uma nesga de
preferindo adotar a solução individual da imigração para, principalmente, as modernização com a Revolução dos Jovens Turcos, teve seu golpe final de-
Américas. Nem todos os judeus, portanto, tornaram-se sionistas.
pois da Primeira Guerra Mundial, a última travada pelo Império Otomano
como grande potência.4
O mais importante destes movimentos foi o liderado por Hussein, que,
além de herdeiro da família hachemita, descendente de Maomé, era também
O FIM DO IMPÉRIO OTOMANO E A NOVA CONFIGURAÇÃO POLÍTICA DO ORIENTE
o guardião das regiões mais sagradas do islã, as cidades de Meca e Medina,
MÉDIO
situadas na província árabe do Hijaz, na Arábia. Hussein pretendia consti-
tuir um grande "Reino Árabe", que incluiria, além da própria Arábia, a
Quando judeus sionistas começaram a emigrar para a Palestina, o Império
Síria, o Iraque e a Palestina. Em 1915, ele iniciou uma correspondência com
Otomano estava em crise. Turcos originários da Ásia Central e convertidos ao
Sir Henry McMahon, alto comissário britânico para o Egito, comunicando
islamismo, os otomanos reunificaram o mundo muçulmano no século XVI,
suas pretensões e buscando a concordância britânica para a proclamação de
constituindo um império que duraria até a Primeira Guerra Mundial. Embora
um Califado Árabe para o islã. Embora tendo inicialmente recusado, o go-
o declínio do império tenha começado ainda em meados do século XVII,
verno inglês acabou dando o aval para a revolta árabe contra os otomanos,
quando o exército otomano foi barrado às portas de Viena, foi só no século
iniciada em 1916 com o auxílio do coronel Lawrence, o famoso Lawrence da
XIX que ele realmente entrou em crise, com o interesse das potências euro-
Arábia.5
peias em expandir-se naquela direção. Era a época da disputa por áreas estra-
Ao mesmo tempo, a Inglaterra precisava administrar as pretensões da
tégicas no mundo inteiro, e o território otomano era prioridade principalmen-
França, sua principal aliada na guerra, que estava interessada na Síria, no
te para Rússia e Inglaterra. A primeira, já de posse de tratados comerciais que
Líbano e na Palestina. As negociações entre os dois países resultaram nos
lhe davam liberdade de navegação e comércio no mar Negro e nos estreitos de
acordos de Sykes-Picot, assinados secretamente, com aprovação russa, ainda
Bósforo e Dardanelos, visava aumentar sua influência nos territórios de popu- no início da revolta árabe. Neste acordo, as duas potências realizaram a par-
lação eslava dominados pelos otomanos e, com isso, consolidar sua hegemo- tilha do Oriente Médio e reconheceram um possível Estado Árabe Indepen-
nia na região. O Império Britânico, por sua vez, pretendia controlar as rotas dente, mas não nas fronteiras desejadas pelos árabes. Num texto recheado de
de acesso às suas áreas de controle na Ásia e, ao mesmo tempo, impedir o ambiguidades, os ingleses não consideraram a Síria e a Palestina como incluí-
avanço de outras potências. Interessados em comércio e diplomacia, estes paí- das nas áreas pretendidas pelos árabes, mas, interessados no apoio destes à
ses estavam, sobretudo, investindo na rivalidade entre si mesmos. derrocada final dos otomanos, nunca se preocuparam em esclarecer comple-
Em 1854, no conflito que ficou conhecido como Guerra da Criméia, a tamente os limites de seus acordos.
Inglaterra e sua aliada França apoiaram o Império Otomano na vitória con- Em todas estas negociações, a região mais problemática era a da
tra a Rússia, e por isso consolidaram definitivamente seu poder na região, fi- Palestina, cobiçada tanto pela França quanto pela Inglaterra; provisoriamen-
xando as tarifas aduaneiras e controlando todas as trocas comerciais dos en- te resolvida por uma divisão entre a Inglaterra e uma proposta de administra-

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cão internacional nos lugares santos, esta questão foi aprofundada pela decla- ÁRABES E SIONISTAS NA PALESTINA: O INÍCIO DA CONVIVÊNCIA
ração feita por Lorde Balfour, em 1917, de que o Império Britânico "encara
favoravelmente, com estima, o estabelecimento na Palestina de um lar nacio- Quando foi iniciada a colonização judaica na Palestina, em fins do século
nal para o povo judeu". De fato, visando conseguir o apoio dos sionistas — XIX, eram raras as cenas de violência entre árabes e judeus sionistas.
que já somavam mais de 70 mil pessoas nessa época — para salvaguardar seus Comprando terras de proprietários árabes absenteístas, estabelecidos em
interesses na região, e devido a intensas negociações diplomáticas entre repre- Jerusalém ou em Beirute, muitos judeus chegaram imbuídos dos ideais de
sentantes sionistas e oficiais britânicos, os ingleses colocaram-se em favor das cooperação mútua e, bem ao estilo da época, acreditavam estar trazendo
pretensões sionistas. No entanto, mesmo enfatizando a necessidade de respei- progresso e civilização para os habitantes da região. E, de fato, inicialmente,
to aos direitos civis e religiosos das comunidades não-judaicas locais, a os árabes palestinos se beneficiaram bastante com a nova situação, desfru-
Declaração Balfour não menciona especificamente a existência da comunida- tando do acesso ao novo mercado de trabalho aberto com a criação de co-
de árabe no local, causando grande insatisfação entre os membros desta. munidades agrícolas coletivistas e a existência de novas cidades, como Tel-
Assim, no que se refere à Palestina, a política britânica acabou sendo ex- Aviv, fundada em 1909.
tremamente dúbia: numa sucessão de acordos e declarações secretas (eles só No início da década de 1930, viviam cerca de 840 mil árabes na
seriam tornados públicos alguns anos depois), os ingleses conseguiram se Palestina; destes, apenas 75 mil eram cristãos, que viviam nas áreas urbanas,
comprometer tanto com Hussein e seus seguidores, quanto com os sionistas, eram alfabetizados e tinham acesso aos baixos e médios escalões da adminis-
apoiando as pretensões nacionais dos dois sem, no entanto, entrar em deta- tração inglesa. Os árabes muçulmanos, no entanto, estavam em situação
lhes sobre os limites geográficos das futuras nações. Reforçando a posição de bem pior; 70% deles viviam do cultivo de grãos, vegetais, azeite de oliva e ta-
árbitro num conflito largamente antevisto, a Inglaterra ainda garantia, de baco em terras que não possuíam. Sempre endividados com seus patrões, a
quebra, o acesso ao Canal de Suez. quem deviam o aluguel das terras que ocupavam, estes agricultores viviam
As outras regiões do Império Otomano foram desmembradas após o fim em estado de grande pobreza. Mesmo assim, a situação deles era melhor do
da Primeira Guerra Mundial, dando origem a novos países e a regiões con- que a dos outros árabes muçulmanos do Oriente Médio: entre 1922 e 1946,
troladas diretamente por britânicos e franceses, segundo os limites traçados 100 mil árabes entraram na área controlada pelo mandato britânico, buscan-
no acordo Sykes-Picot e com a supervisão da Liga das Nações. A nova con- do as oportunidades económicas criadas com a colonização judaica.
figuração geopolítica do Oriente Médio, portanto, ficou sendo a seguinte: a Até o crescimento da imigração judaica na região, portanto, os palesti-
Turquia torna-se uma República Nacional Independente; a Síria passa a ser nos não possuíam qualquer reivindicação territorial de cunho nacionalista.
Mandato Francês em 1920; no Iraque e na Transjordânia, os britânicos co- Foi só depois de as potências estrangeiras terem dividido o Oriente Médio,
locam, respectivamente, os irmãos Faissal e Abdallah no trono, ambos filhos criando artificialmente países árabes em outras áreas e firmando um com-
do líder Hussein. Esta divisão e o interesse britânico em controlar as áreas promisso pelo estabelecimento de um lar judeu, que os palestinos fundaram
petrolíferas da região fizeram com que o sonho da criação de um Reino seu próprio movimento nacional, baseados no argumento de que, se os ju-
Árabe fosse por água abaixo, ainda mais porque, agora, Hussein tem um deus tinham direito àquela terra, eles o tinham também, e mais ainda por lá
rival: é Ibn Saud, que, sem ter participado das revoltas árabes e da Primeira estarem há mais tempo do que os sionistas. Pode-se dizer, portanto, que o
Guerra Mundial, congregava 70 mil homens em uma fraternidade religiosa, sionismo motivou a formação do nacionalismo palestino. Embora algumas
política e militar. Ibn Saud tinha como objetivo unificar a Península Arábica tentativas tenham sido feitas no sentido de construir bases para uma possível
e, aproveitando a fraqueza de Hussein com a partilha do Oriente Médio, se convivência mútua — foram criadas organizações conjuntas, como a União
proclamou rei do Hijaz, formando a Arábia Saudita, numa atitude que Internacional de Operários Ferroviários, Postalistas e Telegrafistas, a União
nunca seria bem aceita pelos seguidores de Hussein. dos Trabalhadores Árabes, com apoio da Histadrut (central sindical judai-
ca), e a Fraternidade Operária —, durante as décadas de 1920 e 1930, judeus

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e palestinos deram início a urna disputa que não teria fim, já que seus objeti- sés do mundo, viam na Palestina sua única esperança de sobrevivência; os pa-
vos eram semelhantes e excludentes; ambos queriam pôr fim ao Mandato lestinos, assustados com as dimensões que a imigração judaica estava toman-
Britânico e criar uma nação independente no mesmo lugar. do, temiam perder o pouco que tinham para os sionistas; e os britânicos es-
Neste sentido, a revolta palestina ocorrida na cidade de laffo, em 1921, tavam divididos entre a obrigação do apoio aos refugiados judeus e o temor
foi apenas a primeira de uma série de conflitos, devidamente explorados pelo de provocar uma aliança entre os árabes e o Eixo, justamente por permitir a
governo britânico, que, colocando em prática uma política ambígua e dualis- imigração judaica. A declaração de que a Inglaterra "simpatiza com os refu-
ta, ora fazia concessões a palestinos, ora a judeus, contribuindo para que as giados dos países ocupados pela Alemanha" mas "vê-se obrigada a admitir
duas partes usassem cada vez mais da violência como forma de pressionar que o reinicio da imigração legal judia, nas atuais circunstâncias, corre o risco
por seus interesses. Um dos mais graves incidentes foi o ocorrido em Hebron, de ter a pior repercussão para o país e de constituir uma séria ameaça para os
em 1929, quando judeus foram massacrados por árabes extremistas. Tanto interesses ingleses no Oriente Médio" é boa demonstração disto (ver quadro
palestinos quanto judeus formaram, assim, suas organizações de autodefesa; 1: As principais ondas de imigração judaica para a Palestina).
estes criaram a Haganah, organização que viria a ser a base do exército israe- Em 1937, um relatório feito pela Comissão Peei, grupo inglês responsá-
lense no futuro, além de unidades paramilitares como o Irgun, chefiada pelo vel por investigar os conflitos na Palestina, propõe, pela primeira vez, a par-
futuro primeiro-ministro Menachem Begin. Os palestinos compensavam a tilha da região, veementemente recusada pelos árabes reunidos na Síria no
falta de organização com o excesso de contingente, desencadeando ataques Congresso Pan-Árabe, em 1938 ("A Palestina é árabe, e preservá-la como tal
em igual intensidade aos dos judeus. é dever de todos os árabes"), mas aceita com reservas pela comissão executi-
Enquanto se armavam, os judeus também trabalhavam no sentido de va sionista. A situação é compreensível — para quem não tinha nada, qual-
construir as bases de seu futuro Estado, criando instituições, redes de auto- quer proposta é uma vitória, mas para quem ocupava o território inteiro, a
ajuda e, principalmente, buscando fundos para o incremento da imigração. mínima cessão já significaria uma derrota —, mas ela só provocou o aumen-
Os palestinos, no entanto, agiam de forma diferente: negando-se a criar uma to da revolta palestina. Assim, revendo sua posição, os britânicos optaram
Agência Árabe (equiparada à Agência Judaica, responsável pela imigração), por restringir radicalmente a entrada de judeus na Palestina em 1939, justa-
eles fecharam-se ao contato com os britânicos, que tinham a partir de então mente o ano em que Hitler dá início à guerra que acabaria por exterminar 6
apenas no mufti de Jerusalém um interlocutor com quem negociar. Ao milhões de judeus.
mesmo tempo, sem apoio dos outros países árabes, que, já tendo conseguido Os ingleses então adotam a política do Livro Branco, limitando a imigra-
suas independências, não fazem grande esforço pela causa palestina, os pa- ção de judeus a 50 mil por cinco anos; depois disto, a retomada do processo
lestinos se vêem perdidos entre o abandono de seus vizinhos e a posição bri- imigratório ficaria condicionada à concordância dos árabes. Desta vez,
tânica. Esta situação só seria agravada com o aumento da imigração judaica, foram os judeus que optaram pela via da violência para rechaçar a decisão
motivado pelo crescimento de medidas anti-semitas na Europa. Até então, britânica: em 1945, mesmo contra a posição da Agência Judaica, segmentos
era permitida a entrada de 5 mil judeus por ano. O início da perseguição na- extremistas minoritários da comunidade judaica dão início à luta armada
zista, no entanto, fez com que a população judaica da Palestina aumentasse que vai resultar, entre outras ações, na explosão do Hotel King David em
muito rapidamente. A perspectiva de uma maioria populacional judaica, Jerusalém, sede do governo inglês, pelo Irgun. De fato, a posição dos judeus
portanto, acabou sendo a gota d'água para o início, em 1936, da revolta pa- da Palestina era difícil e dúbia, por conta da necessidade de continuar ao
lestina generalizada, que, tendo o objetivo de interromper a imigração judai- lado dos ingleses na disputa europeia contra os nazistas: "Combateremos ao
ca, dura três anos.6 lado da Inglaterra como se o Livro Branco não existisse, e combateremos o
Assim, às vésperas da Segunda Guerra Mundial, britânicos, judeus e pa- Livro Branco como se a guerra não existisse", dizia o líder Ben-Gurion, da
lestinos estavam em uma encruzilhada, ainda que de dimensões diferentes: os Agência Judaica.
judeus, perseguidos na Europa e proibidos de imigrar para a maioria dos paí- Mas tal separação de perspectivas já não seria possível: ante o desfecho

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da guerra e as notícias sobre o genocídio de judeus, aumentava a pressão pú- parte dos territórios destinados aos palestinos, o Egito preocupava-se em não
blica pela aceitação da entrada daqueles 100 mil que ainda aguardavam, na deixar que a Transjordânia tivesse êxito, e o Líbano pretendia apenas reafir-
Europa ou em navios clandestinos, uma solução para o seu destino. Em mar sua recente independência.
1947, este estado de coisas chega ao clímax: o navio Exodus, que aportou A recém-criada Liga Árabe escondia em seu nome as profundas diver-
em Haifa com 4,5 mil judeus sobreviventes de campos de extermínio, é ex- gências de objetivos que a caracterizariam a partir de então, e o resultado
pulso pelas autoridades britânicas, e é obrigado a voltar para a Alemanha. A disto pode ser percebido através da divisão territorial ocorrida com o armis-
partir daí, tendo perdido o controle da situação — também provocada pelo tício de 1949: além de Israel passar a ocupar um território 21% maior do
aumento da beligerância de palestinos e judeus contra britânicos —, a que aquele designado pela ONU, o rei Abdallah consegue anexar a
Inglaterra leva o problema às Nações Unidas, que, na conturbada sessão de Cisjordânia a seu território (que, a partir de então, passa a ser o Reino da
29 de novembro de 1947, decide pelo fim do Mandato Britânico e pela par- Jordânia), o Egito toma conta da faixa de Gaza e Jerusalém é dividida. O Es-
tilha da Palestina em dois Estados autónomos e independentes: um árabe pa- tado Palestino não chega a sair do papel, e o lema "O caminho de Jerusalém
lestino e um judeu. Este teria 14 mil quilómetros quadrados, englobando as passa pela unidade árabe" é bastante revelador do segundo plano ocupado
áreas entre o deserto do Neguev e o golfo de Acaba, o lado esquerdo do lago pela questão palestina entre as prioridades árabes: primeiro a unidade, de-
Tiberíades e a zona compreendida entre Tel-Aviv e Haifa, enquanto o pales- pois o Estado Palestino.
tino, com 11 mil quilómetros quadrados, estaria situado na Cisjordânia e na Os principais perdedores desta guerra, portanto, não são os países árabes,
faixa de Gaza; a cidade de Jerusalém, cobiçada por ambos os lados, seria in- que vêem a criação do Estado de Israel como um "enclave ocidental" no
ternacionalizada. Novamente, os sionistas aceitam a partilha e os palestinos Oriente Médio, e sim os palestinos, forçados a se exilar fora do novo território
a recusam, seguindo o mesmo raciocínio de que seria uma derrota permitir israelense. A questão é controversa: a história oficial israelense defende que os
que os judeus legitimassem sua presença na Palestina.7 cerca de 750 mil palestinos que deixaram suas terras — metade da população
Logo que o plano da partilha foi tornado público e a data para o fim do palestina local — o fizeram instigados pelos seus vizinhos árabes, que preten-
Mandato Britânico marcada, os choques entre palestinos e judeus intensifica- diam usá-los na luta contra Israel, enquanto que a explicação árabe defende a
ram-se. Massacres de lado a lado, como o da população árabe da aldeia de tese da expulsão pelas forças armadas israelenses. Até hoje objeto de polémica,
Deir Yassin e o dos habitantes do kibutz Kfar Etzion, se sucediam. Ao mesmo principalmente entre os representantes da mais recente historiografia israelen-
tempo, as forças armadas judaicas organizavam-se para um provável con- se, que enfatiza a grande responsabilidade de Israel no êxodo dos refugiados
fronto de maiores proporções, enquanto tropas dos países árabes vizinhos ini- palestinos, o fato é que, em 1950, 957 mil pessoas — cerca de metade da po-
ciavam movimentações. Os britânicos apenas observavam de longe e, no dia pulação palestina — viviam nos campos criados pela UNRWA (agência criada
pela ONU em 1949 para tratar dos problemas dos palestinos refugiados da
14 de maio de 1948, retiraram-se de Jerusalém. Não havia qualquer represen-
guerra), sem o direito de retornar às suas casas, nem de, à exceção da Jordânia,
tante da ONU para substituí-los. Estava dado o sinal para o início da guerra.
estabelecer residência nos países árabes vizinhos. Ao mesmo tempo, a Lei do
À proclamação oficial da criação do Estado de Israel, feita por David
Retorno, aprovada em 1950 pelo Parlamento de Israel, concede cidadania is-
Ben-Gurion em Tel-Aviv, correspondeu o ataque dos países árabes ao redor.
raelense a todos os judeus que desejarem imigrar para o novo país, assim como
Com um exército mais bem armado, o suporte do armamento tcheco e o au-
aos 160 mil árabes palestinos que permaneceram em seus locais de origem. É
mento contínuo no contingente de pessoal, por conta da chegada de imigran-
assim que o momento de fundação do Estado de Israel, solução dos problemas
tes europeus, Israel levou a melhor. A superioridade dos israelenses também dos refugiados judeus da Segunda Guerra Mundial, está indelevelmente ligado
era política, já que seus inimigos compunham um bloco nada coeso: o mufti à criação do problema dos refugiados palestinos que, passados mais de cin-
de Jerusalém pretendia "jogar os judeus ao mar", a Síria pensava na funda- quenta anos, ainda persiste.8
ção da "Grande Síria" (que incorporaria a Transjordânia, o Líbano e a
Palestina), a Transjordânia aceitava a criação de Israel desde que anexasse

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A BUSCA DA IDENTIDADE ÁRABE árabes. Apoiando-se nos princípios do reencontro da dignidade árabe e da
necessidade do progresso económico, Nasser se constituiu num símbolo po-
A derrota da Liga Árabe no conflito que resultou na independência do Estado pular da unidade e do não-alinhamento às potências estrangeiras, que se ma-
de Israel deixou marcas profundas na cultura política árabe. Para muitos, o terializou na construção da barragem de Assuã e na nacionalização da
sionismo era uma nova versão do colonialismo das grandes potências mun- Companhia do Canal de Suez em 1956.
diais, e só uma união nacional árabe poderia libertá-los do domínio estrangei- Esta última foi a gota d'água para o início de um conflito que envolveu
ro. De fato, desde a dissolução do Império Otomano que o mundo árabe está as principais potências mundiais. Dispostas a aplacar a independência políti-
à busca de sua identidade, perdida quando a unidade muçulmana garantida ca de Nasser, essas potências cancelaram um empréstimo do Banco Mundial
pelas autoridades otomanas deixou de existir. À ocidentalização trazida pelas para a construção da barragem de Assuã. O líder egípcio revidou imediata-
potências europeias, os árabes não tinham nenhum projeto a contrapropor. mente, nacionalizando a companhia que gerenciava o Canal de Suez.
Desde então, para superar o sentimento de derrota histórica para valores e Construído em 1869, o canal estava aberto a todas as nações, mas era admi-
princípios dos quais não compartilham, muitos árabes voltam-se para o pas- nistrado pelos britânicos, que o consideravam vital para a manutenção de
sado, buscando na "Idade de Ouro", ou seja, na época de Maomé, a solução seu poder marítimo e interesses coloniais. Agora, Nasser acusava o bloco ca-
para os problemas contemporâneos. Assim, movimentos como o da pitalista de boicotá-lo, por conta das relações entre o Egito e o bloco soviéti-
Irmandade Muçulmana, formado em 1928 no Egito, defendiam o uso do islã co, e ameaçava buscar fundos de recuperação económica na URSS. A respos-
para alcançar o progresso, pretendendo que a observância dos preceitos reli- ta foi rápida: com apoio britânico e francês, e preocupado com a alteração
giosos abrissem as portas para a modernidade. Outros movimentos, como o no equilíbrio de forças da região, Israel realiza pequenos ataques no Egito,
arabismo, defendiam o oposto: que a base de união dos árabes fosse a criação na região da faixa de Gaza, adotando a doutrina militar do ataque preventi-
de uma nação única, que unisse a cultura e a experiência histórica árabes e vo. Em retaliação, este país fechou o Canal de Suez e o acesso ao golfo de
seus interesses em comum.9 Acaba aos navios israelenses. Este é o motivo imediato para a invasão de
Até o fim da guerra de 1948, portanto, o nacionalismo árabe não passa- Israel, que em pouco tempo toma o deserto do Sinai e chega às portas da ci-
va de um projeto fragmentado. A partir desse momento, além do sionismo, dade do Cairo. A intervenção da ONU não demorou a resolver o conflito,
a Guerra Fria viria dar forte impulso a este movimento, conferindo-lhe um mas ele deixou marcas por toda parte.
cunho popular inexistente até então. A unidade árabe era fortalecida pela Inicialmente, ficou claro para as potências europeias, principalmente
ideia de Terceiro Mundo, a partir da qual os países em processo de desenvol- para a Grã-Bretanha, que a era dos impérios coloniais estava definitivamen-
vimento, mantendo o descompromisso com os blocos americano e soviético, te sepultada. Certas do apoio americano à ofensiva, elas não só foram inca-
exerceriam uma ação conjunta, especialmente na Assembleia Geral das pazes de administrar o conflito, não conseguindo derrubar Nasser ou revo-
Nações Unidas. gá-lo da intenção de fechar o Suez, como foram obrigadas a acatai a decisão
É neste contexto que surge a liderança política do oficial egípcio Gamai das Nações Unidas de interrompê-lo. Por outro lado, este acontecimento foi
Abrlel Nasser. Revoltado com a derrota para Israel e com a corrupção do alto decisivo na disputa de áreas estratégicas entre EUA e URSS. Aproveitando o
escalão de seu próprio país, Nasser toma o poder no Egito, em 1952, com vácuo de poder criado pela decadência britânica, os EUA tomaram a posição
um pequeno grupo clandestino de oficiais, os chamados oficiais livres, após de não defender as ações das potências europeias, para impedir uma polari-
o assassinato do primeiro-ministro e do guia supremo da Irmandade zação na qual a URSS acabaria por consolidar a simpatia de que já dispunha
Muçulmana. Embora não tenha conseguido canalizar todas as forças políti- no mundo árabe. Mesmo assim, os americanos não permitiram que as amea-
cas egípcias e tivesse uma ideologia vagamente constituída como "socialismo ças soviéticas de um ataque nuclear à Inglaterra e França ganhassem força,
árabe", que oscilava entre a simpatia à Irmandade Muçulmana e a adesão ao prometendo devolver na mesma moeda se tal fato se realizasse.
Partido Comunista, o nasserismo foi amplamente aceito nos outros países De diferentes formas, foram os próprios países do Oriente Médio que

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saíram fortalecidos com o confronto. Israel liderou a invasão e acabou con- Israel, que, por sua vez, retaliava contra a Jordânia e a Síria. Com informa-
quistando toda a península do Sinai, só concordando em se retirar com a pre- ções nunca confirmadas de que Israel planejava um ataque às fronteiras sí-
sença de tropas da ONU no local. Sua aliança com a França e a Inglaterra re- rias, o Egito faz um acordo de defesa mútua com este país, mais como uma
força o mito árabe de serem os israelenses o trampolim do imperialismo oci- forma de controlar o conflito — não permitindo que outras lideranças amea-
dental. Nasser tira proveito desta situação e, por ter enfrentado com êxito os çassem a posição egípcia — do que com vistas a estendê-lo. Ao mesmo
fortes países estrangeiros — o canal é reaberto em 1957, já sob administra- tempo, entendendo que a internacionalização do golfo de Acaba e a presen-
ção egípcia —, acaba consolidando seu nome como a maior liderança do ça de tropas da ONU na península do Sinai eram uma afronta à sua sobera-
mundo árabe, dando impulso ao projeto de unificação de uma única nação, nia, Nasser pede a retirada dessas tropas, enquanto fecha novamente o golfo
principalmente com a criação da República Árabe Unida, que englobava de Acaba à navegação israelense. É difícil ter a dimensão das pretensões de
Síria e Egito.
Nasser; ao que parece, ele não desejava a guerra, mas sim criar uma situação
Este consenso, no entanto, não duraria por muito tempo; a partir da dé- que, obrigando a intervenção dos Estados Unidos, resultasse em um arranjo
cada de 1960, os recursos petrolíferos do Oriente Médio, principalmente do político em seu favor. Ao mesmo tempo, talvez contasse que, no caso de uma
Iraque, Kuwait, Arábia Saudita, Líbia e Argélia, passam a ser efetivamente guerra, o apoio da URSS fosse suficiente para que saísse vitorioso. Mas não
importantes para a economia mundial. Assim, se Nasser pretendia usar a ri- aconteceu uma coisa nem outra.
queza dos Estados produtores de petróleo como um instrumento para criar Para Israel, toda esta situação foi considerada uma declaração de guerra.
um bloco árabe sob liderança egípcia, a Arábia Saudita e os outros países do Não disposto a negociar um acordo que resultasse na preponderância do
Golfo Pérsico queriam usar sua própria riqueza para alcançar maior influên- Egito, apostava na superioridade de seu exército. Ao mesmo tempo, no caso
cia nos assuntos árabes. Estas divergências demonstram que as pretensões do de um conflito armado, contava com a ajuda americana. E foi de fato o que
nasserismo tinham limites claros. Em 1961, os sírios rompem com os egípcios, aconteceu: no dia 5 de junho de 1967, Israel destruiu a força aérea egípcia;
opondo-se à supremacia dos nasseristas em seu país. No Iraque, a direção do em poucos dias, os israelenses ocuparam toda a península do Sinai, a Cisjor-
movimento pela união árabe é disputada por Kassem, novo líder local. Apesar dânia, as colinas do Golan (então pertencentes à Síria) e, principalmente,
de todas as divergências, um ponto é comum: o apoio da URSS à causa árabe, anexaram Jerusalém, no conflito-relâmpago que ficou conhecido como
o que intensifica os contatos e o apoio entre Israel e os Estados Unidos. Guerra dos Seis Dias.
A política defendida por Nasser fez com que o Egito ocupasse a posição Esta guerra mudou definitivamente o equilíbrio de forças no Oriente
de principal defensor dos interesses árabes nas relações com Israel. Nesse Médio. A partir de então, ficou claro que Israel era o país militarmente mais
momento, a fidelidade à causa árabe exigia a tomada de posição contra o poderoso da região, o que aumentava seus atrativos para os Estados Unidos.
Estado de Israel. Isto incluía, evidentemente, os palestinos, que até 1964 ti- Por isso mesmo, Israel pretende conservar suas conquistas, que lhe trariam
nham na liderança egípcia seu principal porta-voz. Nesse ano, uma conferên- fronteiras seguras e defensáveis. A questão é que as novas fronteiras lhe tra-
cia da cúpula dos líderes árabes criou a Organização pela Libertação da riam o controle sobre um número muito maior de palestinos, majoritaria-
Palestina (OLP), que ficara sob controle do Egito e de forças ligadas aos mente alocados em campos de refugiados. Isto fez com que o sentimento de
exércitos árabes vizinhos a Israel. Ao mesmo tempo, grupos de palestinos identidade palestina se fortalecesse e contribuiu para que fossem intensifica-
educados no exílio começaram a agir no sentido de organizar movimentos dos os ataques terroristas contra Israel. Também para os Estados árabes, a
genuinamente palestinos: assim foi criado o Fatah, liderado por lasser rápida vitória israelense representou uma grande humilhação e aumentou a
Arafat, que defendia o confronto direto com Israel e a independência em re- hostilidade árabe geral contra Israel. Divididos entre a possibilidade de reta-
lação aos outros países árabes; e outros movimentos nacionalistas menores, liação e a solução dos problemas pela via política, os países árabes aceitaram
igualmente defensores da luta armada e da utilização das táticas terroristas. a Resolução 242 da ONU, que previa a retirada progressiva das tropas israe-
Em 1967, alguns grupos começaram a empreender ações diretas contra lenses dos territórios ocupados. Encastelados em suas posições, os dois lados

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agora negavam-se à negociação: setores do governo israelense divergiam vencibilidade de Israel: pegos de surpresa, eles necessitaram do apoio ameri-
quanto ao futuro dos territórios, alegando a necessidade da existência de um cano para enfrentar o ataque dos árabes, e suas perdas humanas foram tais
cordão de isolamento que os protegesse dos inimigos vizinhos, e os árabes que abalaram a autoconfiança israelense. Ao mesmo tempo, essa foi a pri-
uniram-se nos três "nãos", proferidos na Conferência de Cartum, ainda no meira guerra em que os países árabes usaram o petróleo como arma política:
ano de 1967: "Não à paz com Israel, não a qualquer negociação com Israel, ameaçando reduzir a produção enquanto Israel continuasse ocupando terras
não ao reconhecimento de Israel".10 árabes, a tática teve sucesso, ainda mais porque, exatamente nessa época, um
Mas um novo fator veio contribuir para o desenrolar dos acontecimen- aumento nas necessidades dos países industriais tornava a Organização dos
tos: apelando para a luta armada, grupos de fedayim (guerrilheiros) e mem- Países Exportadores de Petróleo (OPEP) mais poderosa, tanto que, em fins
bros da organização palestina Fatah voltaram a atacar Israel. Alceados na de 1973, aumentaram em 300% o preço do produto.
fronteira entre Israel e a Jordânia, estes grupos constituíam-se cada vez mais A política de usar o petróleo como arma teve, no entanto, uma outra
em um fator de desestabilização da região, pela força de seus ataques, e em consequência: a intervenção americana, que foi feita para salvaguardar seus
uma nova liderança, já que, a cada atentado, dispunham de mais populari- próprios interesses, passou a ser permanente, aumentando inclusive a depen-
dade entre a população árabe. Como Israel revidasse aos ataques, aumenta- dência dos países árabes em relação a este país. Foi assim que os Estados
vam também as pressões políticas sobre Nasser de que assumisse uma posi- Unidos passaram a ocupar o papel de mediadores no conflito, tentando for-
ção de controle do conflito. Mas não foi isto o que aconteceu: em 1970, mular, a partir da gestão do presidente Jimmy Cárter, uma política conjunta
Nasser morre de um súbito ataque cardíaco, sendo substituído por Anuar com a URSS para resolução dos conflitos no Oriente Médio. Embora esta
Sadat, mas deixando vazia a liderança do mundo árabe. Enquanto isso, o ter- perspectiva não tenha sido de todo bem-sucedida, a paz entre Israel e o Egito
rorismo cresce: aviões israelenses são sequestrados, atletas israelenses são acabou sendo feita sob os auspícios dos Estados Unidos, através do histórico
massacrados na Olimpíada de Munique de 1972. O poder e a popularidade acordo de Camp David, em 1978. Segundo o acordo, além da formalização
dos palestinos envolvidos em ações terroristas chegam a tanto que, onde
da paz, os israelenses se retirariam do Sinai e seriam iniciadas negociações
quer que estivessem, constituíam um poder à parte, quase um Estado dentro
nos próximos cinco anos para discutir a concessão de autonomia às colónias
do Estado. Sua autonomia em território jordaniano chegou a tal ponto que,
de Gaza e da Cisjordânia, onde vivia a maioria dos palestinos.
em 1970, o rei Hussein decide reprimi-los, já que estava sendo impossível
Embora saudada no mundo inteiro como o início da aproximação que
controlá-los. Para manter a soberania e a governabilidade em seu próprio
poria fim ao conflito já quase centenário, o acordo de Camp David foi mar-
reino, o monarca desfere uma intensa ação repressiva contra os palestinos,
que resulta em 4 mil mortos e um sem-número de expulsões, no episódio que cado por manifestações hostis em todos os países árabes. Os palestinos o re-
ficou conhecido como Setembro Negro, depois repetido no Líbano. jeitaram, por sequer terem sido consultados sobre o destino dos territórios
As retaliações de Israel, o desejo de revidar aos acontecimentos de 1967 onde viviam, e a Síria e a Líbia o consideraram uma traição, passando a lide-
e a escalada do terrorismo precipitaram mais um confronto direto com Is- rar um movimento que condenaria o Egito ao ostracismo. Não foi à toa que,
rael. Na tentativa de recuperar os territórios perdidos, o Egito e a Síria inva- três anos depois, Sadat foi assassinado por militantes que se opunham à sua
dem Israel no Yom Kippur (Dia do Perdão, em que os judeus ficam em jejum) política de aproximação com Israel e o Ocidente. Mesmo assim, as linhas
do ano de 1973; apesar das muitas perdas, Israel consegue rechaçar o ataque, principais de sua política foram mantidas por seu sucessor, Hosni Mubarak.
avançando em território egípcio até a entrada da cidade do Cairo. O provi- A partir de então, o mundo árabe se veria genericamente dividido entre aque-
sório acordo de paz determinado pelas superpotências garante a saída das les países chamados "pró-Ocidente", cuja política aceitava a ingerência ame-
tropas israelenses. Sem vitórias espetaculares de nenhuma parte, esta guerra ricana e a negociação com Israel, corno o Egito, e os outros, que tentavam
veio consolidar o poderio militar israelense, o apoio dos Estados Unidos ao manter uma política independente, caracterizada por relações em diferentes
Estado de Israel, mas ao mesmo tempo representou um baque no mito de in- níveis com a URSS, como a Síria, o Iraque e a Líbia.

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Nesse princípio da década de 1980, no entanto, outros fatores passaram tais para os dois lados. Ao mesmo tempo, pode-se dizer que os objetivos de
a influenciar a arena política do Oriente Médio, criando novos focos de con- ambos foram alcançados: o regime islâmico não caiu (ao contrário, consoli-
flito: ao impasse entre Israel e os palestinos (acrescido, logo depois, da pro- dou-se, principalmente depois da comoção causada pela morte de Khomeini
blemática do Líbano) vieram se somar os problemas no Golfo Pérsico, com em 1989), nem a revolução iraniana se espalhou pelo Golfo Pérsico, pelo
a revolução islâmica, a Guerra Irã-Iraque e, posteriormente, a invasão do menos até então.
Kuwait pelo Iraque e a Guerra do Golfo. O confronto entre Ira e Iraque também revelou ao mundo a crescente im-
Apesar de não ser um país árabe, os acontecimentos que revolucionaram portância do petróleo na região; as grandes potências só intervieram quando
o Ira em 1979 abalaram toda a região. Desde os anos 20 governado pela di- foram atingidos navios petroleiros que, se destruídos, poderiam prejudicar o
nastia Pahlevi, o Ira vinha sendo modernizado t ocidentalizado pelas suces- suprimento do combustível ao Ocidente. Além disso, com o fim da guerra, o
sivas gerações de xás, que viam na observância estrita da religião um atraso Iraque despontou como o protetor dos regimes dos países do Golfo Pérsico,
a ser superado. País de numerosa população xiita, no entanto, o regime mo- em lugar da Arábia Saudita, que até então ocupava esta posição. Afinal, este
dernizante sempre precisou contar com uma grande dose de repressão, para país dominava o Conselho de Cooperação do Golfo, criado em 1981, em de-
conter a oposição dos grupos religiosos, que se fazia cada vez mais popular. trimento do Ira, favorável a uma organização islâmica, e do Iraque, partidá-
Na década de 1970, este movimento conheceu um líder, que, refugiado na rio de um conselho geral árabe; assim, fazendo uma política que favorece os
França, preparava-se para voltar ao país: era o aiatolá Khomeini, que apela- países do golfo em prejuízo das outras regiões árabes do Oriente Médio, a
va aos muçulmanos para~que restaurassem a autoridade do islã na socieda- Arábia Saudita contribui para o acirramento das rivalidades, além de permi-
de. Para Khomeini e seus seguidores, a religião poderia fornecer as resolu- tir o aumento das desigualdades sociais entre os países de maiores e menores
ções dos problemas de forma que o Estado moderno fora incapaz de fazer. reservas petrolíferas. Países como o Kuwait tinham uma renda per capita de
Incentivando a solidariedade através da organização de redes de ajuda 13 mil dólares por ano, ao passo que os mais pobres, como o Egito, conta-
mútua, de escolas e postos de saúde, eles mobilizam milhares de fiéis, dando vam apenas com 650 dólares.
início à revolução islâmica, em 1979, que resulta na proclamação da Esta situação de rivalidades e tensões é agravada com a crise económica
República Islâmica no ano seguinte.11 do Iraque, que, devendo 70 bilhões de dólares ao fim da guerra com o Ira,
Embora esta não tenha sido a única razão, foi a gota d'água para que o busca uma saída que, ao mesmo tempo, solucione seus problemas internos t
Iraque invadisse o Ira em 1980. Mesmo tendo uma questão de fronteira mal consolide sua liderança no mundo árabe. Esta solução foi a invasão de
resolvida desde 1975, o governo laico de Saddam Hussein preocupava-se Kuwait, ocorrida em agosto de 1990. Usando como argumento a divisão ar-
com a grande popularidade que o novo regime islâmico poderia alcançar tificial entre os dois países feita pelos ingleses e acusando o Kuwait de causai
entre a sua população, cuja maioria também era xiita. Assim, a guerra tem o baixa no preço do petróleo, por vender mais do que a cota estabelecida pela
objetivo de, além de obter um acordo sobre a questão das fronteiras, destruir OPEP, Saddam Hussein provoca a primeira grande crise internacional após o
o regime de Khomeini e conquistar a chefia moral do mundo árabe, vaga fim da Guerra Fria, que realiza alianças antes impensáveis, como entre os
desde a exclusão do Egito da Liga Árabe. Se a guerra não provocou maiores EUA, URSS e a Síria, sem contar com a oposição da Arábia Saudita, ameaça-
cisões na sociedade iraquiana, ela o fez no mundo árabe: a Síria apoiou o Ira da diretamente pela agora maior potência militar da região.
por conta de sua própria rivalidade com o Iraque, e os outros países ficaram Liderada pelos Estados Unidos e com autorização da ONU, uma grande
do lado deste, na esperança de que a derrota do Ira pudesse conter a ameaça coalizão internacional ataca o Iraque em 1991. Tentando envolver seus tra-
aos seus próprios regimes políticos. dicionais aliados diretamente no conflito para rachar a aliança da OTAN, o
A guerra dura oito anos e só acaba com o cessar-fogo proclamado pelas Iraque lança alguns mísseis em Israel, na esperança de que este declare guer-
Nações Unidas, sem que nenhum dos lados possa proclamar-se vencedor; ne- ra e force a entrada dos outros países da região. Mas seu cálculo não funcio-
nhum dos dois conquistou territórios, e as perdas em vidas foram monumen- na; orientado pelos Estados Unidos, Israel não se envolve no conflito, e o

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único a apoiar Hussein é lasser Arafat. Com isso, as forças militares do
Isto aconteceu em 1977, quando Begin tornou-se primeiro-ministro à
Iraque são rapidamente destruídas. O poder americano, no entanto, não é
frente do partido Likud, e a partir daí a colonização dos territórios ocupados
suficiente para derrubar o regime de Saddam Hussein, que, mesmo sofrendo
tornou-se política oficial do novo governo. Assim, foi organizada uma rede
o embargo económico imposto pelas grandes potências, continua se susten-
de assentamentos, localizados principalmente na Cisjordânia, em que eram
tando no Iraque.
oferecidas vantagens económicas para aqueles que, não necessariamente re-
Ao fim da guerra, a responsabilidade maior sobre a administração do
ligiosos, desejassem mudar-se para lá. Logo, dar-se-ia o passo para a anexa-
conflito recai sobre os Estados Unidos; por conta da crise da URSS, despon-
ção futura dos territórios e, no caso dos ultra-ortodoxos, estariam abertos os
tam finalmente como o único mediador possível para garantir a estabilidade
caminhos da redenção messiânica.
no Oriente Médio, e ela depende, nesse momento, basicamente da busca de
Esta política israelense era fortalecida pela atuação da guerrilha palesti-
uma solução para a questão palestina.
na, liderada pela OLP. Desde o início da década de 1970, os ataques terroris-
tas multiplicavam-se, o que reforçava o argumento da impossibilidade de
qualquer negociação. Com os acordos de Camp David, a situação da OLP
complicava-se, já que o Egito não era mais um aliado. Assim, a direção da
A QUESTÃO PALESTINA
organização decide pela mudança de orientação política, passando a buscar
soluções diplomáticas para a luta pelo reconhecimento da autodeterminação
Desde o início da década "de 1970, com a escalada do terrorismo palestino,
dos palestinos.
fica claro que uma solução deve ser encontrada para o problema dos refugia-
Esta opção não é feita sem dificuldades; muitos palestinos, a essa altura,
dos palestinos. Além disso, como reza a cartilha do direito internacional, a
nascidos e criados em campos de refugiados, relutam em desistir da luta ar-
condição de refugiado é provisória, não permanente, e o fortalecimento de li-
mada. É assim que novos grupos, como a Frente Popular de Libertação da
deranças como lasser Arafat fazia questão de lembrar ao mundo todo, e em
Palestina e futuramente o Hamas, vão criando dissensos que tendem a se
especial a Israel, que o custo a pagar pelo desprezo à situação dos palestinos
aprofundar com o tempo. Apegada a uma carta de intenções mais radical
seria alto para ambos os lados.
que seus próprios líderes, a OLP se vê continuamente identificada com sua
A questão é que nem todos concordavam com isso. Em Israel, desde as facção extremista, já que, para ter sob seu comando o conjunto dos vários
conquistas das terras consideradas bíblicas n2 Guerra dos Seis Dias — a pequenos grupos palestinos, é obrigada a apoiar atos dos quais nem sempre
Samaria e a Judéia (que compõem a Cisjordânia), o Sinai e as colinas do está a favor. É neste contexto, de atos terroristas palestinos e incremento na
Golan são transformados em territórios ocupados, enquanto que a Cidade
colonização dos territórios, que se dá a invasão do Líbano por Israel em
Velha de Jerusalém é anexada pelo Estado de Israel —, a interpretação de que
1982. Um dos mais fracos Estados do mundo árabe, há anos que o Líbano
a era messiânica estava para começar torna-se popular entre os judeus ultra-
vinha sendo palco de uma guerra civil entre cristãos e muçulmanos que não
ortodoxos que, liderados pelo rabino Kook, defendem a anexação de todos
via fim; além disso, o desejo de ver este território anexado ao seu Estado faz
esses territórios. Para estas pessoas, os palestinos não tinham qualquer direi-
com que a Síria se aproxime mais e mais do Líbano, chegando a intervir efe-
to àquelas terras, que pertenceriam aos judeus por direito divino e histórico. tivamente em 1976. Depois dos acordos de Camp David, os palestinos con-
Diante da recusa do governo israelense em autorizar a colonização dessas centram-se mais e mais naquela região, aliando-se aos sírios. Com o início
áreas, foram constituídos grupos, como o Gush Emunim (Bloco dos Fiéis), das ofensivas de Israel ao sul do Líbano, onde se localizam as bases da OLP,
que passaram a fazê-lo de forma clandestina, ao mesmo tempo que participa-
o conflito se acirra.
vam de uma articulação de direita, formada também por Menachem Begin
Em 1982, Israel inicia uma ofensiva no Líbano, com a justificativa de re-
(ex-militante do Irgun) e por militares que defendiam a manutenção de um
chaçar focos de guerrilha ao norte do país, mas, na verdade, com o objetivo
escudo territorial contra ataques árabes, para tomar o poder.
de eliminar "qualquer presença física ou simbólica, sob forma militar ou or-

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ganizacional" dos palestinos no Líbano, além de garantir no poder o presi- A mudança de orientação da OLP representou um sério problema para o
dente cristão Bachir Gemayel, aliado de Israel. Indo mais longe do que acon- governo israelense. Como este continuasse a se recusar a negociar com aque-
selhava a prudência, Israel invade a cidade de Beirute, matando civis e au- les com quem até os Estados Unidos já conversavam, começaram as pressões
mentando ainda mais o número de refugiados que existiam na região. para que esta política fosse modificada, ainda mais depois da Guerra do
Mesmo assim, como era grande a capacidade de resistência dos palestinos, os Golfo, na qual este país consolidou sua posição de grande mediador dos con-
choques com o exército israelense causavam grande número de baixas de flitos locais e mostrou ser, mais uma vez, quem garantia em última instância
ambas as partes, o que começou a gerar certo descontentamento por parte da a segurança de Israel. Além disso, a OLP havia saído extremamente enfra-
população israelense, que passou a criticar o afã de seu Estado em prosseguir quecida dos conflitos no Golfo, por ter sido a única instituição a apoiar o
nos ataques. Iraque, e precisava reconquistar espaços políticos; Israel, por sua vez, por
Esta posição foi consolidada a partir dos massacres dos campos de refu- conta das rivalidades produzidas pelo mesmo confronto, deixou sua posição
giados de Sabra e Chatila, quando mais de mil civis foram mortos por uma de isolamento, aproximando-se da Jordânia e da Arábia Saudita. Hora me-
facção cristã treinada e mantida por Israel, em área controlada por este país. lhor não havia para o início do processo de paz.
Caindo como uma bomba na opinião pública israelense, a notícia do aconte- A primeira conferência de paz, portanto, sairia em 1991, mesmo com a
cimento rachou a sociedade ao meio: o movimento Paz Agora conseguiu reu- má vontade do primeiro-ministro israelense Itzhak Shamir; mais radical do
nir 400 mil pessoas (10% da população israelense) em uma manifestação gi- que Begin, que já havia aceitado negociar com Sadat nos anos 70, Shamir só
cedeu quando os EUA ameaçaram congelar empréstimos a Israel. Mesmo
gantesca pelo fim da guerra, considerada "o Vietnã de Israel". Pela primeira
assim, as conversações não avançaram muito. Isto só foi acontecer quando,
vez, soldados recusavam-se a ir para os campos de batalha, alegando razões
envolvidos na campanha eleitoral israelense de 1992, o partido Avodá (tra-
de consciência. Estava rachado o consenso sionista. Pouco tempo depois,
balhista) encampou a paz em seu discurso político, conseguindo, por isso, a
caía Ariel Sharon, ministro da Defesa de Israel, e, apesar da vitória israelen-
vitória contra o Likud, tendo Itzhak Rabin, antigo membro da linha dura do
se nos campos de combate — a liderança da OLP realmente deixou o país,
exército israelense, como primeiro-ministro. A partir daí, as intenções come-
mudando-se para a Tunísia —, as pressões internas obrigaram o primeiro-
çam a dar frutos: os palestinos concordam com os planos de autonomia gra-
ministro Begin a renunciar.
dual para os territórios, começando por Gaza, e, em 1993, depois aceitos por
Amargando mais uma derrota, a OLP entra em crise; suas táticas de ne- ambas as partes os termos dos acordos de Oslo, Arafat e Rabin realizam o
gociação não mais seduziam suas bases, principalmente aqueles 2,5 milhões histórico aperto de mãos na Casa Branca, sob o olhar aprovador do presi-
de habitantes da Cisjordânia e da faixa de Gaza. O desespero desta popula- dente americano Bill Clinton (ver quadro 2: a dispersão dos refugiados pales-
ção foi o que levou à intifada (ressurreição), ou "revolução das pedras", que tinos [l 996]). 12
começou espontaneamente em 1987 e tomou de surpresa tanto Israel quan- O acordo previa a autonomia palestina sobre Gaza e a cidade de Jericó,
to a OLP. Armados com paus e pedras, jovens palestinos atacavam soldados na Cisjordânia, com a retirada do exército de Israel e a substituição por uma
israelenses, que reagiam à bala. Mais do que rapidamente, grupos islâmicos polícia palestina; aos poucos, a autonomia englobaria outras áreas, forman-
extremistas como o Hamas, que pregavam a destruição de Israel e não reco- do, por fim, a Autoridade Nacional Palestina, que o governo israelense ainda
nheciam a liderança da OLP, começaram a participar dos ataques. Assustado não tinha coragem de chamar de Estado. O clima bom criado pelas negocia-
com a possibilidade de perder de vez a liderança da população palestina, ções foi alimentado pelo acordo de paz com a Jordânia, em 1994; ele deu iní-
Arafat usa a intifada como instrumento de propaganda, angariando a simpa- cio a uma fase de cooperação económica entre Israel e vários países árabes,
tia mundial aos revoltosos. Ao mesmo tempo, na reunião do Conselho como o Marrocos, a Tunísia e a própria Jordânia.
Nacional Palestino de 1988, ele renuncia de vez ao terrorismo, ao mesmo A situação não estava tão boa para Arafat, que continuava enfrentando
tempo que proclama o reconhecimento do direito de Israel à existência e en- a oposição de grupos fundamentalistas como o Hizbolá, que não aceitavam
fatiza a necessidade próxima de criação do Estado Palestino. o acordo de paz e continuavam assassinando judeus indiscriminadamente

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nos territórios, e para Rabin, que tinha que enfrentar a oposição interna dos que marcam o governo de Arafat são uma sombra no andamento do proces-
fundamentalistas judeus, os colonos ultra-ortodoxos que habitavam os terri- so de paz, que ainda está longe de acabar. Mesmo assim, a estabilização da
tórios e se recusavam a deixá-los, participando também eles de manifesta- Autoridade Nacional Palestina faz com que, hoje, poucos se recusem a admi-
ções violentíssimas contra aqueles que consideravam seus inimigos: em tir que a fundação oficial do Estado Palestino é apenas uma questão de tempo.
1994, o colono americano Baruch Goldstein matou 29 muçulmanos que re- Simultaneamente, os anos 90 foram testemunha do agravamento das
zavam na Tumba dos Patriarcas, em Hebron, lugar sagrado para muçulma- condições sócio-econômicas da maioria da população árabe. O crescimento
nos e judeus. Morto após o atentado, a atitude de Goldstein foi duramente económico propiciado pela produção petrolífera não correspondeu a uma
criticada pelo governo israelense, mas ele foi enterrado como herói por seus elevação no padrão de vida geral, ainda mais porque a população árabe con-
correligionários. A escalada de violência parecia não ter limites, e realmente tinua crescendo muito e os sistemas políticos da maioria dos países do
não tinha: em novembro de 1995, foi a vez do primeiro-ministro Rabin ser Oriente Médio não têm como objetivo uma distribuição mais justa da rique-
assassinado pelo fundamentalista religioso judeu Ygal Amir, ao fim de uma za. Com isso, vem aumentando o fosso entre os poucos ricos e os muitos po-
manifestação de paz em Tel-Aviv.13 bres da região, o que contribui para a maior descrença nas formas tradicio-
O assassinato de Rabin abriu uma grande ferida na sociedade israelense: nais de se fazer política e, conseqiientemente, no fortalecimento dos movi-
pela primeira vez, um atentado dessas proporções era cometido por um mentos fundamentalistas.
judeu, que alegava que Rabin estava impedindo a continuação do processo De fato, embora não se pretenda reduzir um fenómeno religioso a suas
messiânico. Mesmo que í demora em implementar os acordos, o aumento de causas sócio-econômicas, é de assustar o número de partidos que vêm se for-
atos terroristas nas cidades de Jerusalém e Tel-Aviv e o violento discurso do talecendo e ganhando apoio popular em diversos países muçulmanos, usan-
Likud contra a paz contribuíssem para a queda de popularidade de Rabin, a do muitas vezes a violência para alcançar seus objetivos. A Argélia e o
maioria da população não esperava tal atitude. Uma semana após o atenta-
Afeganistão são apenas os exemplos mais evidentes desta situação, e a contí-
do, 74% da população passavam a apoiar o processo de paz. Mas isto não
nua existência de grupos fundamentalistas entre a população palestina é
seria suficiente para que o partido Avodá voltasse a vencer as eleições, repre-
prova da vitalidade de suas ideias.14
sentado por Shimon Peres; os numerosos atentados terroristas palestinos que
Da mesma forma, Israel, hoje, vive as consequências do profundo dissen-
voltaram a ser perpetrados em Israel acabaram por fazer pender a balança
para o lado do Likud, e Benjamin Netanyahu assumiu o governo israelense so ideológico e cultural entre judeus seculares e fundamentalistas. Acirrando
em 1996 com a promessa de frear todas as negociações possíveis com os pa- um conflito que teve origem no próprio momento de fundação do Estado,
lestinos. A pressão americana, no entanto, o obrigou a fazer algumas conces- opostos à paz com os árabes e à pluralidade política e religiosa, os judeus fun-
sões, que resultaram nos acordos de Wye, em 1998, que, por sua vez, leva- damentalistas são a maior ameaça à consolidação da democracia em Israel.
ram à crise de seu governo de coalizão de direita, obrigando-o a antecipar É um quadro de perplexidade, este pintado no limiar do século XXI: nas-
eleições gerais para 1999, um ano antes do previsto. cidos sob o signo da modernização ocidentalizante, os Estados nacionais do
Oriente Médio se deparam, cada vez mais, com movimentos que unem polí-
tica à religião, criando fundamentos históricos em acontecimentos ocorridos
há séculos e séculos para as opções que defendem, quase nunca pela via da
CONCLUSÃO negociação e do direito. Isto muda completamente a situação com a qual is-
raelenses e árabes estavam acostumados a lidar há quase um século, quando
Haverá paz no Oriente Médio? O impasse nas negociações entre palestinos e o inimigo era o vizinho. Agora, o perigo está no lado de dentro.
israelenses, a pobreza da população dos territórios da Autoridade Nacional
Palestina, as tentativas de continuação da construção de bairros israelenses
em áreas destinadas à devolução aos palestinos e as denúncias de corrupção

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QUADRO l NOTAS
As principais ondas de imigração judaica para a Palestina
1 O islamismo e Jerusalém — A relação entre Jerusalém e o islamismo começou quando,
PERÍODO NÚMERO ORIGEM tendo conquistado a cidade durante a expansão imperial, os muçulmanos construíram
o Domo da Rocha e a Mesquita Aqsa, o primeiro complexo de prédios religiosos do
1882-1903 (!' alia) 20/30.000 Rússia
islã, em cima do Monte do Templo. A escolha da cidade foi importante; por ser a mais
1904-1923 (2'-y aliás) 35/40.000 Rússia e Europa Oriental sagrada para o judaísmo e o cristianismo, ela fez parte da estratégia de legitimar a nova
1932-1938 (5a alia) 217.000 Alemanha e Polónia religião e o novo império que então nasciam. O local selecionado foi a rocha sobre a
1939-1948 (61 alia) 153.000 Refugiados dos campos de qual Abraão ter-se-ia disposto a sacrificar seu filho Isaac em nome da fé monoteísta, e
concentração europeus onde mais tarde teria repousado a Arca do Templo. Para os muçulmanos, a cidade pas-
1948-1951 687.000 Países árabes e Europa Central sou a ser sagrada porque nela foi construído o santuário da "revelação final", que,
1952-1960 54.000 Norte da África substituindo o Templo judaico de Salomão, continuava as revelações feitas a judeus e
165.000 Egito (1956) cristãos mas corrigia os erros nos quais estes haviam incorrido. Além disso, mesmo que
75.000 Europa Central a palavra "Jerusalém" nunca tenha sido mencionada no Corão, o versículo 17:1 conta
1961-1964 228.000 Marrocos que Deus teria levado Maomé em uma jornada, à noite, da mesquita sagrada, em Meca,
para a mesquita mais distante (em árabe, al-Masjid al-Aqsa). Embora uma interpreta-
1965-1971 -- 81.000 EUA e Europa Ocidental ção considere que essa mesquita seja no céu, a interpretação contemporaneamente acei-
116.000 América Latina ta pelos muçulmanos entende que a mesquita distante localizava-se em Jerusalém.
1972-1974 143.000 URSS 2 O judaísmo e Jerusalém — De acordo com o Antigo Testamento, Jerusalém passou a
ser sagrada para os judeus quando o rei Davi trouxe a Arca Sagrada para esta cidade,
1975-1989 230.000 EUA, Europa Ocidental,
construindo um palácio real, fortalecendo suas fortificações e fazendo de Jerusalém a
América Latina, Ira (1979),
capital do Reino de Israel. Durante o reinado de seu filho Salomão, um grande templo
Etiópia (1985-1986)
foi construído no Monte do Templo, no lugar onde Abraão teria levado seu filho Isaac
a partir de 1989 450.000 Ex-URSS para o sacrifício. A partir de então, ela passou a ser o centro da vida judaica. Mesmo com
a destruição deste templo e do seguinte que o substituiu, e com a dispersão dos judeus
Fonte: François Massoulié. Os conflitos do Oriente Médio. São Paulo, Ática, 1994, p. 64.
pelo mundo, Jerusalém continuou sendo a direção para onde os judeus se voltavam em
suas orações. Para estes, a peregrinação a Jerusalém é considerada uma alia (subida, em
hebraico), por ser o lugar espiritualmente mais elevado passível de ser alcançado.
QUADRO 2 Jerusalém permanece também como o símbolo da fidelidade dos judeus à religião, ex-
A dispersão de refugiados palestinos (1996) pressa no salmo "Se eu esquecer de ti, ó Jerusalém, que a minha mão destra perca a sua
destreza...".
PAÍS NÚMERO 3 Os vários sionismos — A palavra "sionismo" esconde várias correntes distintas. Embora
Jordânia 1.358.706 todas tenham em comum o objetivo de criar um lar judaico, não havia consenso quanto
à forma, os motivos, nem ao local onde isto deveria acontecer. Ainda antes de Theodor
Cisjordânia 532.438
Herzl escrever seu O Estado Judeu, alguns religiosos já proclamavam a necessidade do
Gaza 716.930
retorno dos judeus a Sion, formando a corrente do sionismo religioso. Para Herzl e seus
Líbano 352.668
seguidores, o sionismo devia visar, através da ação política e diplomática, à fundação de
Síria 347.391 um Estado "normal", não necessariamente na Palestina — chegaram a considerar a pro-
Total 3.308.133 posta britânica de migrarem para Uganda —, onde os judeus estivessem livres das perse-
Fonte: Rosemary Sayigh. "L'avenir brouillé dês refugies", in Lê Monde Diplomatique; guições anti-semitas; para Ahad Ha'am, adepto do sionismo cultural, Israel deveria se
manière de voir 34, maio 1997, p. 24. tornar um refúgio para a preservação da cultura e identidade judaicas, que corriam o

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risco de se perder com a assimilação existente nos países ocidentais da Europa. Há ainda árabe. Em 1959, sem qualquer crédito entre os líderes árabes, Amin al-Husséini retirou-
os sionistas práticos, como David Ben-Gurion, que, depois da derrota da via diplomáti- se dá vida pública, indo residir no Líbano, onde faleceu quinze anos depois.
ca, optam pela infiltração na Palestina, mesmo ilegalmente, e os "revisionistas", que, li- 7 O Holocausto e a criação do Estado de Israel — Ainda hoje, é difícil determinar a in-
derados por Zeev Jabotinski, pretendem conquistar toda a Palestina e a Transjordânia, fluência tida pelo Holocausto na decisão da ONU. Não fosse a comoção pública gera-
mesmo que à força. Unidos pelo objetivo comum da criação do Estado até 1948 (à exce- da pelo extermínio em massa de milhões de judeus, talvez os países não se decidissem
ção dos "revisionistas", os únicos a não aceitarem o plano de partilha da ONU), estas em favor da criação de Israel; por outro lado, com ou sem massacre, a situação na
correntes demonstraram suas profundas divergências após a fundação do Estado de Palestina já havia se tornado insustentável, e a decadência do Império Britânico era uma
Israel, quando tornaram explícitos os seus distintos projetos para o país. realidade nos quatro cantos do mundo. O fato é que, com aqueles que pereceram no
4 Os Jovens Turcos — Em fins do século XIX, desenvolveram-se no Império Otomano Holocausto, morreram também as outras correntes políticas judaicas existentes antes
vários grupos de oposição ao sultão e seu governo. O mais importante deles foi o do da guerra. Boa parte daqueles que haviam optado por ficar na Europa o fizeram na es-
conjunto de oficiais chamados "Jovens Turcos", organizado no Comité para a União e perança da integração ou, principalmente, da erradicação do anti-semitismo através da
o Progresso. Em uma grande revolta em 1908, forçaram o sultão a instituir um gover- instauração da sociedade socialista, onde as diferenças — fossem quais fossem — não
no parlamentar constitucional. Prometendo igualdade étnica e religiosa, os Jovens teriam razão de ser. Ao fim da guerra, estavam quase todos mortos, e com eles os vá-
Turcos levaram adiante o programa de reforma e modernização do império, abrindo es- rios e populares partidos socialistas judaicos. Embora alguns tenham sido recriados
colas femininas e discutindo a extensão dos direitos de cidadania às mulheres. Esse pro- posteriormente, nenhum logrou obter a pujança de antes; ao mesmo tempo, aqueles ho-
jeto, no entanto, durou pouco: assolado pelas dívidas e pela Primeira Guerra Mundial, mens que sobreviveram — e talvez justamente por isto — ficaram mais e mais simpáti-
o ministro da Guerra, Enver Pasha, adotou uma política austera, justificando-a pela cos ao sionismo, o que, sem dúvida, contribuiu para o fortalecimento da causa.
manutenção da ordem e da segurança nacional, que resultou inclusive na repressão a 8 A Declaração de Independência do Estado de Israel — País até hoje sem Constituição,
várias minorias nacionais, como os arménios e os curdos. por conta das divergências entre seus fundadores, Israel tem na sua Declaração de Inde-
5 Lawrence da Arábia — Thomas Edward Lawrence, coronel britânico, era o encarrega- pendência, lida por Ben-Gurion em Tel-Aviv no dia 14 de maio de 1948, seu documen-
do de representar o Foreign Office (Assuntos Exteriores) junto a Hussein, negociando to fundador. Ele explicita os diferentes projetos concomitantes naquele momento,
com ele a implementação do "Reino Árabe", tão logo a guerra acabasse. Confidente de quando, para alguns, Israel devia ser um Estado nacional moderno e laico, aberto às di-
Faissal, filho de Hussein, Lawrence participou da revolta árabe contra o Império ferenças étnicas e religiosas e, para outros, devia ser regido pela Halachá, as leis religio-
Otomano em 1916, o que lhe valeu glória, a fama de "rei não-coroado dos árabes" e a sas escritas e aplicadas para judeus. Seguem trechos: "A Terra de Israel foi o lugar de
alcunha "Lawrence da Arábia". Como o grande "Reino Árabe" prometido nunca nascimento do povo judeu. Aqui se formou sua identidade nacional, espiritual e religio-
tivesse saído do papel, apesar de seu envolvimento, Lawrence resolveu desaparecer da sa. Aqui os judeus conquistaram independência e criaram uma cultura de importância
cena política. Com um pseudónimo, tornou-se soldado raso da força aérea britânica e nacional e universal. Aqui escreveram a Bíblia e ofereceram-na ao mundo. Exilado da
acabou morrendo em 1935, num acidente de moto. Terra de Israel, o povo judeu conservou-se fiel a ela durante os séculos de sua dispersão,
6 O mufti de Jerusalém — Amin al-Husseini (1893-1974) foi a maior autoridade árabe sob nunca deixando de rezar e esperar por sua volta e pela restauração da liberdade nacio-
mandato inglês. Descendente de uma importante família de Jerusalém, Husseini comple- nal. [...] O Estado de Israel será aberto à imigração de judeus de todos os países onde
tou seus estudos na Faculdade de Teologia egípcia de Al Azhar. Após ter servido no exér- estão dispersos; ele desenvolverá o país, para benefício de todos os seus habitantes; será
cito otomano durante a Primeira Guerra, Husseini tornou-se presidente do Clube fundado sobre os princípios de liberdade, justiça e paz ensinados pelos profetas de
Nacionalista Árabe, onde começou a desenvolver suas atividades anti-sionistas. Desde a Israel; assegurará uma completa igualdade dos direitos sociais e políticos a todos os
década de 1920, participou de violentos ataques contra judeus; condenado à prisão pelos seus cidadãos, sem distinção de credo, raça ou sexo; garantirá a plena liberdade de
ingleses, recebeu anistia e foi escolhido o Grande Mufti de Jerusalém pelas autoridades consciência, culto, educação e cultura; assegurará a salvaguarda e a inviolabilidade dos
mandatárias, além de presidente do Conselho Supremo Muçulmano, passando a ser, si- lugares santos e dos credos de todas as religiões e respeitará os princípios da Carta das
multaneamente, o representante oficial e religioso da população árabe. Durante a revol- Nações Unidas. [...] Nós lançamos um apelo ao povo judeu de todo o mundo para se
ta de 1936, foi obrigado a fugir para o Iraque; de lá, apoiado pela Alemanha nazista, ligar a nós na tarefa da imigração [...], e a nos assistir no grande combate a que nos en-
participou de um golpe de Estado contra os ingleses. Aliado dos alemães, apoiou o recru- tregamos, para realizar o sonho perseguido de geração em geração: a redenção de
tamento de voluntários muçulmanos para lutar no exército nazista nos Bálcãs. Depois do Israel. Confiantes no Eterno Todo-Poderoso, assinamos esta declaração sobre o solo da
fim da guerra, Husseini participou da criação da Liga Árabe no Egito e, a partir de então, pátria, na cidade de Tel-Aviv, nesta sessão da assembleia provisória do Estado, realiza-
tentou criar governos árabes na Palestina, sem ter obtido sucesso nem apoio do mundo da na véspera do shabat, 5 lyar, 5708, 14 de maio de 1948."

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O S É C U L O XX O M U N D O Á R A B E E AS G U E R R A S Á R A B E - 1 S R A E L E N S E S

9 A Irmandade Muçulmana — "Estabelecidos desde o início do movimento, estes prin- sunitas também adotaram atos de extremismo, como o assassinato do presidente egíp-
cípios continuam em vigor. 1. Creio que tudo está sob a ordem de Deus; que Maomé cio Anuar Sadat. Mesmo assim, apoiando o regime fundamentalista do aiatolá
assegura a veracidade de toda profecia dirigida a todos os homens, [...] que o Corão é Khomeini, os xiitas reviveram a jihad (guerra santa), que proclama o combate do islã
o livro de Deus, que o islã é uma lei completa para dirigir esta vida e a próxima. [...] 2. contra todos os inimigos, heréticos e "corruptores da terra", como o escritor Salman
Creio que a ação correta, a virtude e o conhecimento estão entre os pilares do islã. Rushdie, que, por ter utilizado elementos da tradição muçulmana em seu livro Versos
Prometo agir corretamente, realizando as práticas do culto e evitando as coisas más; satânicos, foi condenado à morte através da fatwa (julgamento religioso emitido pelo
terei prazer nos bons costumes, abominarei os maus, difundirei ao máximo os hábitos aiatolá).
muçulmanos [...], reforçarei os rituais e o idioma do islã e trabalharei para difundir as 12 A literatura da paz — "Fui escolhido, junto com meu colega e amigo Yoram Kaniuk,
ciências e os conhecimentos úteis em todas as classes da nação. [...] 4. Creio que o mu- como co-presidente do comité [misto de intelectuais — israelenses e palestinos — con-
çulmano é responsável por sua família, que ele tem o dever de conservá-la em boa tra a ocupação e pela paz e a liberdade de expressão]. Cada um de nós se esforçou em
saúde, na fé e nos bons costumes. Prometo fazer o possível para tanto e insuflar os en- compreender as dificuldades que o outro encontrava, as pressões que sofria por parte
sinamentos do islã nos membros de minha família. Não deixarei meus filhos entrarem de sua sociedade, e respeitar suas dificuldades. [...] Estou comovido por constatar que
numa escola que não preserve as suas crenças e os seus bons costumes. Suprimirei deles essa amizade tardia que me une a esses colegas judeus ressuscita em mim as lembran-
todos os joinais, livros e publicações que negam os ensinamentos do islã, assim como ças de juventude, do tempo em que eu era aluno da escola em Haifa, minha cidade
as organizações, grupos e clubes desse tipo. 5. Creio que o muçulmano tem o direito natal. A política não existia para nós, nessa época, e sólidos vínculos de camaradagem
de fazer reviver o islã pela renascença dos seus diferentes povos, que a bandeira do islã e de amizade nos uniam a nossos companheiros judeus: frequentávamos a mesma es-
deve cobrir o género humano e que cada muçulmano tem por missão educar o mundo cola e morávamos na mesma rua."
segundo os princípios do islã. Prometo ainda lutar para realizar essa missão enquanto Emil Habibi, escritor palestino, primeiro árabe israelense a ocupar uma cadeira
eu viver, e para isso sacrificar tudo o que eu possuo." na Knesset (Parlamento) de Israel.
François Massoulié. Os conflitos do Oriente Médio. São Paulo, Ática, 1994, p. 29. 13 O fundamentalismo religioso — Movimento que usa a religião como fundamento de
10 A Resolução 242 do Conselho de Segurança da ONU— "O Conselho de Segurança posições políticas, o fundamentalismo (ou integrismo) é também uma tentativa de con-
da ONU, expressando a inquietude que continua a causar-lhe a grave situação no servar as tradições, opondo-se a qualquer tipo de modernização. Embora todos os fun-
Oriente Médio, [...] 1. Afirma que a obediência a sua Carta de Princípios exige a ins- damentalistas sejam fervorosos adeptos de suas religiões, nem todos os religiosos orto-
tauração de uma paz justa c duradoura no Oriente Médio, que deverá compreender a doxos são fundamentalistas. Em Israel, por exemplo, são fundamentalistas aqueles ju-
aplicação dos dois princípios seguintes: I. Retirada das forças israelenses dos territó- deus que justificam a violência contra os palestinos através do suposto direito bíblico
rios ocupados no recente conflito; II. Cessação de todas as declarações de beligerância de propriedade das terras da Cisjordânia. Os muçulmanos fundamentalistas, por sua
e de todos os estados de beligerância; respeito e reconhecimento pela soberania, inte- vez, são aqueles que concordam em matar os considerados infiéis, usando a jihad
gridade territorial e independência política de cada Fttado da região e pelo seu direito (guerra santa) em nome da defesa dos princípios do islã.
de viver etn paz dentro de fronteiras seguras e reconhecidas, protegido contra ameaças 14 A condição feminina no islamismo — "A imagem de mulheres cobertas da cabeça aos
de força; 2. Afirma ainda a necessidade: a) De garantir a liberdade de navegação pelas pés, fugindo da fúria dos estudantes da milícia talibã [alunos do islã], que tomou o
vias navegáveis internacionais da região; b) De se alcançar uma solução justa para o poder no Afeganistão, chocou o mundo. [...] Às vésperas do século XXI, os talibãs
problema dos refugiados; c) De garantir a inviolabilidade territorial e a independência exigem que as mulheres restrinjam seus movimentos ao espaço interno do lar e cu-
política de cada Estado da região, através de medidas que compreendem a criação de bram totalmente o corpo. Proíbem-nas de trabalhar fora e ir à escola, ao menos en-
zonas desmilitarizadas [...]." quanto os líderes religiosos [mulas] analisam o que devem aprender. Andar na rua, so-
11 Os xiitas — Do árabe shia (partido), são os muçulmanos partidários de Ali, primo e mente acompanhada de um parente do sexo masculino. De ônibus, só respeitando a
genro de Maomé, que sustentam que só as tradições do Profeta transmitidas através de divisão feita com uma corrente para que homens e mulheres não se sentem próximos
membros de sua família podem ser aceitas. O grupo a que se opõem é o dos sunitas, uns dos outros. Aquelas que ousam desobedecer são severamente punidas. Há diver-
que seguem também a suna (lei, regra tradicional, em árabe) e os ensinamentos dos sos relatos de espancamento de mulheres na rua por não estarem adequadamente ves-
quatro primeiros califas (soberanos sucessores de Maomé). Usualmente identificados tidas. [...] Confusão semelhante vivem as mulheres da Arábia Saudita, especialmente
com a ala radical do islamismo, esta definição não é necessariamente correta, já que os depois que a Guerra do Golfo levou para seu país centenas de militares americanas

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O S É C U L O XX o MUNDO Á R A B E E AS G U E R R A S Á R A B E - I S R A E L E N S E S
que fazem tudo o que elas nunca sonharam. [...] [Lá], as mulheres que mostram de- Soares, Jurandir. 1991. Israel x Palestina: as raízes do ódio. Porto Alegre, Editora da
mais o corpo podem ser castigadas pela polícia religiosa, e vídeos, livros e publicações Universidade do Rio Grande do Sul.
são censurados. Como no Afeganistão, cinema, música, álcool, pornografia e jogo são 1991. Oriente Médio: deMaomé à Guerra do Golfo. Porto Alegre, Editora da
expressamente proibidos. Apesar disso, com um número cada vez maior de mulheres Universidade do Rio Grande do Sul.
chegando às universidades e viajando para estudar no exterior, as reivindicações co- The Jerusalém Report. 1996. Yitzhak Rabin, o soldado da paz. Rio de Janeiro, Nova
meçam a crescer. Sabe-se que muitas delas usam roupas ocidentais e até jeans por Fronteira.
baixo das túnicas. As jovens recém-formadas queixam-se da falta de oportunidades de
trabalho."
Sônia de Souza Costa, "Mulher invisível: a revolução no Afeganistão reabre o de-
bate sobre a condição feminina no islamismo", Revista Manchete, 12/10/1995,
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130 131
r
1968: rebeliões e utopias
Marcelo Ridenti
Professor Iivre-docente do Instituto de Filosofia
e Ciências Humanas da Unicamp
INTRODUÇÃO

As novidades dos movimentos sociais e culturais de 1968 levaram o jornalis-


ta Zuenir Ventura a chamá-lo "o ano que não terminou", pois as bases em
que se apoiam as sociedades do presente teriam um forte laço de continuida-
de com aquele ano de ruptura com o passado. Contudo, assim como nenhum
raio cai com céu azul, os eventos marcantes de 1968 foram gestados nas con-
dições históricas precedentes. Em outras palavras, os acontecimentos ex-
traordinários de 1968 devem ser pensados como uma condensação da expe-
riência histórica passada e prenúncio da História futura.
Nos anos imediatamente anteriores a 1968, foram vitoriosas ou estavam
ocorrendo inúmeras revoluções de libertação nacional: a revolução cubana
de 1959, a independência da Argélia em 1962, e a Guerra do Vietnã. O su-
cesso dessas revoluções é fundamental para a compreensão das lutas e do
ideário contestador de 1968: havia povos subdesenvolvidos que se rebela-
vam contra as grandes potências, para criar um sonhado mundo novo.
Por outro lado, os revoltosos de 1968 criticavam o modelo soviético de
socialismo, tido como burocrático e acomodado à ordem internacional esta-
belecida pela Guerra Fria, sem interesse em incentivar as transformações so-
ciais, políticas e económicas necessárias para chegar ao comunismo. Esse
modelo só ruiria de vez com a desagregação da União Soviética, em 1991,
mas já era contestado em 1968, por exemplo, no interior do Partido
Comunista na Tchecoslováquia, cuja Primavera de Praga foi destruída pela
intervenção militar soviética. A revolução cultural proletária, em curso na
China a partir de 1965 — que mais tarde viria a revelar seu lado trágico —,
também parecia a setores jovens do mundo todo uma resposta ao burocratis-
mo de inspiração soviética.
Movimentos de protesto e mobilização política surgiram por toda parte
em 1968: das manifestações nos Estados Unidos contra a Guerra do Vietnã

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O S É C U L O XX 1968: REBELIÕES E UTOPIAS

à Primavera de Praga; do maio libertário dos estudantes e trabalhadores desenvolvimento e livrar-se de dominações imperialistas ou ainda colonialis-
franceses ao massacre de estudantes no México; da alternativa pacifista dos tas (caso sobretudo de alguns países da África).
htppies, passando pelo desafio existencial da contracultura, até os grupos de Desde o início dos anos 60, os EUA passaram a mandar conselheiros mili-
luta armada, espalhados mundo afora. tares ao Vietnã do Sul; já estavam lá 16.300 soldados em 1963, mas não deve-
O comportamento das pessoas também mudava, por exemplo, nas rela- riam entrar em combate, a princípio. O suposto ataque, nunca comprovado, a
ções entre os sexos (emancipação feminina crescente), no uso de anticoncep- dois destróieres americanos no Golfo de Tonquim, em agosto de 1964, serviu
cionais e de drogas, na consolidação da televisão como principal meio de co- de pretexto para o envolvimento militar direto dos Estados Unidos na guerra.
municação de massas, ocupando lugar cada vez maior no cotidiano das po- O Vietnã dividira-se em dois após a libertação do jugo colonial francês,
pulações etc. Travavam-se lutas radicais de negros, mulheres e outras mino- uma metade comunista, a outra capitalista, no intrincado jogo político da
rias pelo reconhecimento de seus direitos. Grupos da chamada nova esquer- época da Guerra Fria, em que a União Soviética e os Estados Unidos dispu-
da sonhavam com a construção de uma sociedade alternativa, de um homem tavam palmo a palmo a hegemonia política no cenário internacional.
novo, nos termos de Che Guevara, recuperando o jovem Marx. Enfim, os Enquanto soviéticos e chineses forneciam armas e apoio logístico aos comu-
sentimentos e as práticas de rebeldia contra a ordem e de revolução por uma nistas, os americanos resolveram intervir diretamente na guerra, enviando
nova ordem fundiam-se criativamente. tropas. Sucede que eles não esperavam encontrar lá tantas dificuldades: os
vietnamitas — apesar de serem um povo pobre, agricultor e subdesenvolvido
— têm uma tradição guerreira milenar, que havia sido recentemente provada
na luta feroz de independência contra a França (1945-54). Transformou-se
GUERRA DO VIETNÃ E SUAS REPERCUSSÕES EM 1968 num pesadelo o que inicialmente se anunciava como mais um passeio das
forças armadas americanas num país estrangeiro, para salvá-lo do império
O ano de 1968 iniciou-se com uma virada no andamento da Guerra do comunista do mal e garantir os valores democráticos da "civilização ociden-
Vietnã, conhecida como ofensiva do Tet: a partir de 30 de janeiro, por oca- tal": em 1968, já haviam morrido 14.692 americanos no Vietnã, além de
sião dos feriados do Ano Novo lunar (Tet), os comunistas do Vietnã do 92.820 feridos.
Norte atacaram maciçamente o Vietnã do Sul e as forças americanas ali se- Até a ofensiva do Tet, a maioria da imprensa e da população dos EUA
diadas. Os comunistas perderam de 30 a 40 mil homens, sem conseguir man- apoiara a guerra. Essa situação foi mudando com as crescentes baixas nas pró-
ter as posições inicialmente conquistadas, o que fez os analistas em geral prias fileiras, a ousadia guerreira dos vietnamitas e o envolvimento bélico cres-
abordarem a ofensiva como uma derrota militar. Contudo, pode-se conside- cente dos EUA. Foi-se tornando inaceitável para seus próprios cidadãos ver
rá-la como uma vitória política, pois a ousadia da ofensiva e as baixas ame- todos os dias na televisão os horrores de uma luta em que a mais rica potência
ricanas provocaram impacto no governo e na opinião pública dos Estados mundial despejava toneladas de bombas num dos países mais atrasados do
Unidos, que até então pareciam estar vencendo a guerra sem maiores dificul- mundo e, mesmo assim, ia perdendo a guerra, com alto custo em vidas de
dades, depois de três anos de presença ativa na região. Eles estavam lá para americanos. Derrotados militar e moralmente, eles só voltariam para casa em
impedir a queda do governo capitalista do Vietnã do Sul, acossado pelos março de 1973, com o saldo de 57.605 mortos em combate.
guerrilheiros comunistas da Frente Nacional para a Liberação do Vietnã do O eventos históricos diferenciados de 1968 em todo o mundo estiveram
Sul — chamada pejorativamente pelos americanos de Vietcong. diretamente marcados pelas repercussões da Guerra do Vietnã: do Brasil ao
O Vietnã era palco de uma das revoluções de libertação nacional da Japão, da Tchecoslováquia ao México, da Itália à Austrália, da França aos
época, que tanto empolgaram militantes do mundo todo, contagiados tam- Estados Unidos. Essas repercussões ganhavam sentido um pouco diferente,
bém pelo êxito da revolução cubana de 1959 e pela independência da Argélia conforme a conjuntura local de cada país ou região em que se espalhavam os
de 1962, dentre outros exemplos de combates de povos para superar o sub- protestos contra a guerra, ou ainda de acordo com setores distintos da popu-

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O S É C U L O XX 1968: REBELIÕES E UTOPIAS

lação de cada país. Por exemplo, na América Latina, inclusive no Brasil, re- mio Nobel da Paz em 1964, ele foi um dos responsáveis pelas conquistas his-
percutia sobretudo em setores da juventude o chamamento de Che Guevara tóricas das leis de 1964-65, que garantem formalmente aos negros os mes-
para que se constituíssem no continente novos Vietnãs contra o domínio im- mos direitos civis de qualquer cidadão americano. Por exemplo, a nova legis-
perialista dos EUA. A ideia de seguir o exemplo revolucionário vietnamita lação proibia que escolas não admitissem negros, incentivando a educação
teve muitos adeptos na Europa e até mesmo nos Estados Unidos; contudo, pública inter-racial.
nesses países, entre os cidadãos que se opunham à guerra, predominavam os Em 1968, contudo, as circunstâncias haviam mudado. Com o surgimen-
argumentos pacifistas e liberais, de respeito aos direitos humanos e de auto- to de vários grupos radicais negros — a afirmar o black power, o poder
determinação dos povos. negro, contra a sociedade excludente dos brancos — passavam a ser contes-
Seria preciso fazer estudos específicos sobre a repercussão particular da tadas as propostas de King, de integração racial e de não-violência. No prin-
Guerra do Vietnã nas lutas de 1968 em cada país. Mas é um fato que em pra- cípio de 1968, King já havia perdido muito de sua influência sobre as novas
ticamente todos os cantos da Terra levantaram-se ondas de indignação con- gerações. Não obstante, em abril, ele foi vítima de um atentado racista que o
tra a guerra. matou, em Memphis, transformando-o em mártir da causa negra. A reação
Evidentemente, a guerra marcou o ano de 1968 com mais intensidade no dos negros diante do assassinato foi variada: da prostração até explosões es-
país em que ela se deu, o Vietnã, onde cada momento da vida de seus habi- pontâneas de violência revanchista. Grupos radicais — como os Panteras
tantes tinha ligação com as consequências e horrores das batalhas. Já para a Negras —, procuraram conter os ânimos populares, temendo que revoltas
população do outro contendor, os EUA, a guerra estava fisicamente distante, desorganizadas pudessem dar ao governo o pretexto que esperava para liqui-
mas não deixava de impor sua presença ao longo de 1968: nas televisões, nos dá-los. De fato, conseguiram manter a calma em metrópoles como Nova
jornais, nas famílias que enviavam seus filhos para a guerra e por vezes os York, Los Angeles, Cleveland e Detroit. Mas os distúrbios raciais espalha-
perdiam, nas vidas dos veteranos que retornavam com traumas e dificulda- ram-se por mais de 150 cidades, como Washington, Seattle e São Francisco,
des de reintegração social, nas canções e outras obras de arte, nos protestos gerando inúmeras mortes, ferimentos e prisões.
de rua, nos movimentos pacifistas, nos jovens que desertavam ou se recusa- Apesar das divergências, tanto os adeptos de King como os do black
vam a servir o exército etc. power posicionavam-se contra a Guerra do Vietnã, até porque os negros es-
Se, em movimentos contestadores de outros países, a Guerra do Vietnã tavam na linha de frente nos campos de batalha e o belicismo era identifica-
foi um dos aspectos presentes, nos EUA ela se constituiu no aspecto central. do com os setores brancos mais retrógrados. As posições dos movimentos
A ela estiveram ligados eventos marcantes de 1968, como os distúrbios e negros variavam da moderação de King — que em 1965 já se declarara con-
protestos radicais dos negros e de outras minorias, a campanha política para trário a "uma das guerras mais sem sentido da/História" — até o terceiro-
a Presidência, a revolta dos estudantes e a emergência da contracultura. Nos mundismo radical (e minoritário) de líderes como Stokely Carmichael, que
Estados Unidos, 1968 representou os estertores de movimentos sociais ante- em 1967 fizera um discurso em Havana pela revolução total, inserindo as
riores, como o dos direitos civis, e o esgotamento da visão liberal-social-de- reivindicações afro-americanas como parte das lutas para "mudar as estrutu-
mocrática, herdeira do New Deal de Roosevelt. Por outro lado, 1968 anun- ras imperialistas, capitalistas e racistas dos Estados Unidos".
ciou movimentos que se desenvolveriam nos anos seguintes, como os das Em 1968 também se desenvolveu nos EUA um capítulo importante da
mulheres, dos homossexuais, do meio ambiente etc. busca das mulheres pela igualdade entre os sexos. Elas participaram ativa-
A partir de meados dos anos 50, florescera nos EUA um importante mo- mente da luta contra a Guerra do Vietnã, imposta pela sociedade "fálica e
vimento pelos direitos civis dos negros, que sofriam forte segregação. A lide- imperialista". O mesmo ocorreria em seguida com movimentos de homosse-
rança negra mais importante nesse período foi a do pastor Martin Luther xuais, gays e lésbicas.
King, grande orador, pacifista, que teve seu auge político nas grandes mani- No campo da política institucional, os eventos libertários de 1968 — no-
festações negras de Birmingham, no Alabama, em 1963. Ganhador do Prê- tadamente o combate à Guerra do Vietnã — também tiveram força significa-

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tiva. 1968 foi um ano de eleições presidenciais nos EUA. As engrenagens do pela televisão, esses conflitos chamaram mais a atenção do público do que a
sistema político tradicional continuavam a funcionar. Até porque, como bem Convenção Democrata (ainda em 1965, cerca de 93% dos lares americanos
já se observou, o 1968 americano foi mais acapitalista do que anticapitalis- tinham televisão, e cada americano assistia em média a cinco horas diárias da
ta. O Partido Republicano, mais conservador, indicou Richard Nixon para programação, o que fazia desse veículo o principal meio de comunicação,
concorrer à Presidência. Era o homem forte, que prometia defender o sonho com repercussões políticas evidentes). A reação da imprensa e da maioria da
americano para agradar à maioria silenciosa, chocada com as ondas de rebel- população foi de indignação com a violência policial, mas também de temor
dia que invadiam as ruas e com as mudanças de comportamento da juventu- em relação às atitudes dos jovens, vistos como drogados, libertinos e arrua-
de e das minorias, especialmente dos negros. Apesar de conservador, Nixon ceiros que buscavam desestabilizar o sistema político constituído.
detectava o mal-estar com a Guerra do Vietnã e prometia encontrar uma so- O terreno estava aplainado para Nixon. Guardadas as devidas propor-
lução para retirar os EUA do conflito — promessa que, depois de eleito, não ções, ele significou para os EUA da época algo parecido com De Gaulle na
cumpriria nesse mandato. França: o pulso firme capaz de manter a lei e a ordem contra as ameaças dos
No Partido Democrata, a luta interna pela candidatura à Presidência foi movimentos libertários de 1968. Nixon foi apoiado nas urnas pela maioria
dura, especialmente depois que o desgastado candidato natural do partido, o da população, temerosa de eventuais mudanças, simbolizadas no imaginário
presidente Lyndon Johnson, desistiu de pleitear a reeleição. Concorriam: o do cidadão mediano pela desordem da contracultura.
vice-presidente Hubert Humphrey — homem da máquina partidária —, o A Guerra do Vietnã também foi o eixo em torno do qual se articulou o
herdeiro político do presidente John Kennedy, seu irmão Robert Kennedy, na movimento de contracultura, pregando paz e amor, convocando o jovem
época defensor de uma plataforma de abertura para os direitos sociais e para que "faça amor, não faça guerra". No campo musical, esse movimento
Eugene McCarthy, com um programa próximo do de Kennedy, porém mais foi especialmente significativo, nas canções de Janis Joplin, Jimi Hendrix,
explicitamente comprometido com a retirada dos americanos do Vietnã, o The Mamas and the Papas, Simon & Garfunkel, entre outros, cujos precur-
que lhe valia maior apoio das bases universitárias. A disputa pela indicação sores foram Bob Dylan e Joan Baez, que cantavam denúncias ao racismo e à
democrata era acirrada, com ligeira vantagem para Kennedy, quando ele foi Guerra do Vietnã, em 1968. Bandas inglesas famosas internacionalmente,
assassinado num atentado, em Los Angeles, no dia 5 de junho. como os Beatles e os Rolling Stones, também estavam afinadas com a contra-
O atentado foi um reflexo da política dos EUA, pró-Israel, nos conflitos cultura. Paralelamente, desenvolvia-se a pop art, com Andy Warhol, Roy
que agitavam o Oriente Médio, especialmente desde a Guerra dos Seis Dias, Lichtenstein ou Jasper Johns. Na literatura destacavam-se novos temas, in-
que estava completando um ano na data do atentado a Kennedy. Ele foi ba- troduzidos por escritores como Norman Mailer e John Updike. Na
leado por um palestino que morava na Califórnia. Robert Kennedy — tão Broadway entrava em cartaz a peça Hair, abordando o cotidiano da juven-
pró-Israel quanto os demais candidatos — era alvo preferencial pelo seu tude e a contestação dos valores tradicionais.
prestígio pessoal e de sua família. Além da nova música e do parentesco com manifestações em todas as
A Convenção do Partido Democrata, realizada em Chicago, no fim de artes, a contracultura caracterizava-se por pregar a liberdade sexual e o uso
agosto, acabou indicando Humphrey candidato, tido como continuador da de drogas — como a maconha e o LSD, cujo uso era considerado uma forma
política já desgastada do presidente Johnson, especialmente em relação à de protesto contra o sistema. O amor livre e as drogas seriam liberadores de
Guerra do Vietnã. O partido saiu dividido da convenção, estreitando demais potencialidades humanas escondidas sob a couraça imposta aos indivíduos
suas possibilidades de vitória nas eleições, vencidas por Nixon em novembro. pelo moralismo da chamada sociedade de consumo. Aliás, contra os valores
Para agravar a situação dos democratas, nos dias de sua convenção, dessa sociedade, começaram a se formar comunidades alternativas, com eco-
Chicago foi palco de verdadeira batalha campal entre a polícia e os manifes- nomias de subsistência no campo e um modo de vida inovador, como as do
tantes contra a Guerra do Vietnã — compostos por pacifistas do movimento movimento hippy.
hippy e por jovens organizados em agrupamentos de esquerda. Transmitidos A contracultura era particularmente difundida nos meios universitários,

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caso de Columbia em Nova York e Berkeley na Califórnia. Ficaria famosa a de outros países tenham sido mero reflexo do francês. A própria cronologia
frase "não confie em ninguém com mais de trinta anos" — afinal, a taxa de de 1968 atesta que movimentos estudantis importantes — como o brasileiro
natalidade crescera consideravelmente nos EUA, do pós-guerra ao fim dos — precederam o maio francês, ainda que posteriormente tenham sofrido sua
anos 50 e início dos 60, fenómeno conhecido como baby boom, de onde pro- influência.
vinham os jovens universitários de 1968. Durante a Segunda Guerra Mundial, parte da França foi ocupada pela
O movimento estudantil americano foi muito significativo de 1964 a Alemanha nazista, que também instalou ao sul, em Vichy, um governo fran-
1970. Diferentemente da França e do Brasil, 1968 não foi o ápice do movi- cês colaboracionista, liderado por Pétain, que havia sido herói nacional da
mento estudantil nos EUA, apenas um momento significativo das lutas que Primeira Grande Guerra. Com a liberação da França e o fim da guerra, ins-
se articulavam em torno do combate à Guerra no Vietnã e ao serviço militar titui-se a Quarta República, na qual o país foi dirigido por partidos de cen-
obrigatório, mobilizando os jovens muito além da minoria mais identificada tro esquerda, que promoveram a modernização da sociedade, acompanhada
com a contracultura. Mas eles jamais conseguiram romper o isolamento dos de direitos sociais e liberdades democráticas, com ajuda financeira do Plano
campi universitários, tendo sido sempre vistos à distância e com desconfian- Marshall, bancado pelos EUA, temerosos de possíveis avanços comunistas
ça pelo restante da população — ao contrário do que ocorreu na França, por na Europa. Mas os governos de orientação social-democrata tiveram de con-
exemplo. De modo que é preciso atentar para as especificidades das lutas de viver com os problemas gerados pelos resquícios coloniais franceses: espe-
jovens e estudantes em cada um dos países em que elas se deram, como será cialmente a partir de 1954, intensificou-se a luta pela independência da
exposto a seguir. Argélia, que viria a dividir a opinião pública francesa até 1962, quando se
efetivou a independência.
A crise gerada pela guerra na Argélia acabou reconduzindo a centro di-
reita ao poder, em junho de 1958, sob o comando do general De Gaulle, líder
1968 ESTUDANTIL E OPERÁRIO NA FRANÇA carismático que comandara a resistência no exterior, durante a Segunda
Guerra Mundial, e dirigira o governo provisório, no pós-guerra. A partir de
Se é legítimo dizer que houve um movimento social mais destacado no ano 1958, o poder Executivo ganhou força, no período que se convencionou cha-
de 1968, sem dúvida foi o dos estudantes, que se mobilizaram em todos os mar de Quinta República, com a entrada em vigor de nova Constituição, que
cantos do globo, nos países avançados e nos subdesenvolvidos, nos capitalis- dava poderes maiores ao presidente, em detrimento do poder Legislativo. De
tas e nos comunistas. Os movimentos estudantis tiveram suas especificida- Gaulle, a princípio favorável a manter tropas na Argélia, mudou de rumo e
des, pois ocorreram em países diferentes, cada um dos quais com sua própria combateu a extrema direita, bem-organizada e colonialista, conseguindo
organização social e educacional, passando por diversas conjunturas políti- levar a bom termo a crise da Argélia. Ele comandaria a França com pulso
cas. Todavia, eles também apresentaram significativos pontos de identidade, firme e sem maiores problemas até 1968.
na medida em que havia vários aspectos históricos supranacionais, isto é, co- Os eventos de maio viriam a constituir-se numa surpresa, pois a econo-
muns aos vários Estados onde houve agitação estudantil. Por isso, alguns mia estava estabilizada e predominava certo marasmo político também no
chegam a falar numa Internacional Estudantil espontânea, movimento não pólo mais forte à esquerda, o Partido Comunista Francês (PCF). Chocado
organizado politicamente em termos internacionais, mas com inúmeras afi- pela crise do stalinismo após 1956, e muito burocratizado, ele não se mostra-
nidades entre seus componentes. va capaz de ameaçar a ordem estabelecida.
Cada um dos movimentos estudantis de 1968 mereceria destaque. Na A França mudara e as instituições já não davam conta de representar a
impossibilidade de tratar de todos eles, vale a pena deter-se um pouco no sociedade — foi o que se descobriu em maio de 1968, quando o país entrou
mais conhecido de 1968: o de maio, na França, que costuma ser tomado co- em ebulição a partir da mobilização estudantil.
mo referencial para o estudo da época. Isso não significa que os movimentos Os estudantes tinham tradição de luta, inclusive no período mais recen-

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te, quando se posicionaram pela retirada francesa da Argélia, com inúmeras embora estivessem muito ativos no movimento pequenos grupos de esquer-
manifestações de rua até 1962. A partir do fim dos anos 50, formaram-se or- da e, principalmente, a União Nacional dos Estudantes da França (UNEF), o
ganizações da juventude à esquerda do PCF, que ganhavam força crescente. Sindicato Nacional do Ensino Superior (SNESup), entidade dos docentes
Em 1968, havia no meio estudantil correntes trotskistas, maoístas e anar- universitários, entre outros órgãos de estudantes e professores, inclusive se-
quistas. Elas tiveram importância no movimento, mas estiveram longe de di- cundaristas.
rigi-lo: as manifestações de massas foram autónomas e espontâneas, marca- No dia 13 de maio, a situação agravou-se para os partidários da ordem:
das pela recusa de qualquer organização nos moldes tradicionais e profunda- percebendo o ânimo dos operários de suas bases, a Confederação Geral do
mente críticas do burocratismo, da hierarquia e da cisão que costuma ser ge- Trabalho (CGT), central sindical ligada ao PCF, e a Confederação Francesa
rada na relação entre dirigentes é dirigidos. Democrática do Trabalho (CFDT), próxima dos socialistas, declararam uma
Em 22 de março de 1968, os estudantes ocuparam a Universidade de greve de 24 horas em solidariedade aos estudantes e fizeram uma manifesta-
Nanterre, nos arredores de Paris, em protesto contra a prisão de seis estudan- ção de centenas de milhares de pessoas. Começaram a suceder-se greves e
tes do Comité Vietnã nacional. Em homenagem a esse dia — que costuma ser ocupações espontâneas de fábricas, que logo paralisariam a França.
caracterizado como o marco inicial do movimento que se estenderia até Os estudantes franceses conseguiram o que queriam: solidariedade e
junho —, formou-se o grupo 22 de Março, crítico dos métodos organizacio- ação conjunta com os trabalhadores, cuja atividade política já não era con-
nais marxistas-leninistas; seu membro mais destacado foi Daniel Cohn- trolada por qualquer organização. Não obstante, essa solidariedade nas ruas
Bendit, estudante de nacionalidade alemã radicado na França, que passou a não significou a constituição de um comando organizado operário-estudan-
ser processado. Em maio, a agitação atingiria a tradicional Sorbonne, que til de novo tipo, mesmo porque a insurreição estudantil, espontânea e com-
acabou sendo ocupada pela polícia, gerando revolta dos estudantes, que bativa, não tinha uma proposta de organização política ou sindical — ao
foram para as ruas protestar e enfrentar a polícia no Quartier Latin (bairro contrário, uma característica do maio universitário era a recusa a qualquer
universitário no coração de Paris). Os eventos geraram prisões e crescentes organização, apesar dos esforços dos grupos de vanguarda trotskistas e
ondas de protesto estudantil para libertar os colegas. maoístas. Naquele momento, tratava-se mais de negar os valores e a ordem
No dia 10 de maio, cerca de 15 mil manifestantes são impedidos de en- estabelecidos do que de propor qualquer alternativa concreta. Nessa medida,
trar no Quartier Latin, cujos principais pontos haviam sido fechados pela era de esperar que, cedo ou tarde, apesar de abalada, a CGT retomasse sua
polícia. Mesmo assim, os estudantes resolvem ocupar o bairro, são atacados hegemonia sobre a maioria dos operários de esquerda.
pela polícia e acontece verdadeira batalha, de mais de quatro horas. A vio- Nos meios operários e estudantis, misturavam-se os propósitos, que va-
lência do combate incendeia a França: os estudantes ocupam todas as facul- riavam desde o desejo de melhorias salariais e trabalhistas dentro da ordem
dades; vão se sucedendo passeatas e enfrentamentos com a polícia. O gover- reformada, passando pela contestação radical da sociedade do bem-estar e
no cede, libera a Sorbonne e todo o Quartier Latin no dia 13. Imediatamente, do consumo, até as propostas revolucionárias anticapitalistas. Bandeiras ver-
os estudantes ocupam a universidade e tratam de levantar barricadas para melhas (marxistas) e pretas (anarquistas) espalhavam-se pelas ruas e monu-
defendê-la, nos moldes da tradição republicana francesa. Forma-se uma co- mentos; frases libertárias e criativas eram pichadas nos muros; revoltosos
muna estudantil no bairro, que promove comícios, debates e festas, sem que ocupavam barricadas em clima de festa e prazer, abraçavam-se e beijavam-se
se destacassem líderes específicos, num clima de total liberdade, recusa em em público; apareciam declarações de apoio às lutas de libertação nacional
relação à ordem estabelecida e suas instituições, inclusive os partidos de es- no Terceiro Mundo, especialmente no Vietnã; o rosto de Che Guevara, assas-
querda consolidados, notadamente o PCF. Este, por sua vez, via no movi- sinado em 1967, ressurgia em bandeiras e cartazes; manifestantes entoavam
mento um esquerdismo juvenil estéril. a Internacional.
O movimento de maio inaugurava novo estilo de ação e manifestação, Vários artistas aderiam ao movimento, que interrompeu o Festival de Ci-
fora de partidos ou sindicatos, recusando qualquer tipo de tutela política, nema de Cannes e ocupou o tradicional Teatro Odéon. Em 20 de maio, havia

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10 milhões de trabalhadores em greve, além de todo o sistema universitário. operária levaram a uma crise geral de autoridade na França, propagada aos
A França parou de trabalhar: metade do país sonhava com transformações, quatro cantos pela imprensa escrita, pelo rádio e pela televisão, que levavam
a outra metade as temia, resguardando-se, intimidada, para dar o troco na ao mundo palavras, sons e imagens da contestação. O governo sentia-se po-
primeira oportunidade. O filósofo Jean-Paul Sartre declarava que o movi- liticamente frágil para enfrentar a revolta e temia lançar mão de armas con-
mento estudantil estaria preparando a verdadeira via ao socialismo e à liber- tra o manifestantes, o que poderia levar a uma guerra civil, recurso a que re-
dade, que seriam inseparáveis. Sucediam-se declarações de apoio de expres- correria apenas em último caso. Por outro lado, até mesmo instituições con-
sivos intelectuais de esquerda, na França e no exterior, como Herbert solidadas de esquerda, como o PCF e a CGT, sentiam questionada sua auto-
Marcuse, autor de .livros afinados com o ideário do movimento, ainda antes ridade sobre os trabalhadores. O presidente De Gaulle mantinha negociações
de seu surgimento. com os comunistas para a ruptura do impasse, que surpreendia e ameaçava
Mesmo sem jamais terem obtido controle sobre o conjunto dos revolto- os dois lados. Esboçou-se o acordo de Grenelle (rua do Ministério do
sos, floresceram pequenos e variados grupos contestadores: trotskistas, anar- Trabalho), entre governo, patrões e operários, fazendo concessões trabalhis-
quistas, maoístas e outros, como os situacionistas, autores de muitas das fra- tas. Mas o movimento grevista não arrefeceu de imediato.
ses mais criativas pichadas nos muros de Paris e outras cidades. Os situacio- Em 29 de maio, De Gaulle chegou a sair subitamente de Paris para man-
nistas eram herdeiros e dissidentes do surrealismo, propunham uma fusão ter conversações secretas com generais do exército no exterior, particular-
entre a política e a arte, bem como a "revolução integral na vida cotidiana". mente Massu, comandante das forças francesas sediadas na Alemanha
Em 1957, eles haviam criado uma Internacional Situacionista, que a princí- Ocidental. Rearticulavam-se os conservadores: os generais garantiram apoio
pio era mais artística que política, invertendo esses pólos em meados dos a De Gaulle, se preciso, usando a força para restabelecer a ordem. Em con-
anos 60, ao defender a autogestão e a revolução proletária como uma festa, trapartida, o presidente comprometeu-se a libertar os últimos militares ainda
em que a regra é gozar a vida. As ideias de festa de libertação coletiva e de presos, devido a suas ações terroristas na França, contra a independência da
fruição dos prazeres pessoais foi muito marcante na França de 1968. Argélia.
Situacionistas escreveram alguns dos livros mais significativos e influen- De Gaulle retornou decidido a, mais uma vez, colocar ordem na casa fran-
tes no período, como A sociedade do espetáculo, de Guy Debord, e Tratado cesa: no dia 30 de maio, dissolveu o Parlamento e convocou eleições gerais.
de saber-viver para o uso das novas gerações, de Raoul Vaneigem. Ambos Ameaçada pelo desenrolar dos acontecimentos, a maioria silenciosa conserva-
foram publicados em 1967, ano do filme A chinesa, de Jean-Luc Godard, dora abandonava suas tocas, ia às ruas de Paris em apoio ao presidente, fazen-
que profetizara o maio de 68 e a influência sobre setores da juventude da re- do manifestações de centenas de milhares de pessoas. Revertia-se a situação. A
volução cultural, em curso na China a partir de 1966. Essa influência basea- própria esquerda institucionalizada, esperançosa de vencer nas urnas, tratava
va-se em imagens ideais libertárias, projetadas no exterior pela revolução de garantir um desenrolar normal do pleito, preparando o fim da greve. Isso
cultural — imagens que talvez tivessem ténue ligação com seu real significa- valia tanto para os comunistas, liderados por Georges Marchais, como para os
do na pátria de Mão. socialistas, capitaneados por François Mitterrand e Mendès-France.
A identidade de alguns jovens revoltosos franceses de 1968 com a revolu- Em seguida, o governo implementaria medidas do acordo de Grenelle e,
ção cultural chinesa dava-se porque viam nela: o combate ao processo de bu- por outro lado, mandaria a polícia recuperar fábricas, repartições públicas e
rocratização nos países socialistas; uma política externa de solidariedade com estabelecimentos escolares ocupados por revoltosos. Encontrou pouca resis-
as nações do Terceiro Mundo; a ênfase na ação espontânea das massas no pro- tência, que se estendeu num ou outro local isolado até o fim de junho. No dia
cesso de ruptura da divisão entre campo e cidade, trabalho intelectual e traba- 12, o governo colocou na ilegalidade 11 grupos revolucionários estudantis,
lho manual; igualitarismo social, em detrimento das forças do mercado; admi- proibiu manifestações e prendeu militantes. No dia 23, a direita francesa
nistração popular direta; uso da energia e do entusiasmo da juventude etc. venceu o primeiro turno das eleições gerais, com 43,65% dos votos para can-
Nas circunstâncias descritas, a insubordinação e as greves estudantil e didatos gaullistas. A vitória foi confirmada no segundo turno, em 30 de

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junho: o centro e a direita conseguiram 358 cadeiras no Parlamento, de um de hipóteses para compreender o fenómeno. Isso talvez seja indicativo de que
total de 485. maio de 1968 na França e o conjunto mundial dos movimentos daquele ano
Derrotado o movimento de maio, intelectuais e militantes franceses bus- ainda estão carregados de atualidade.
caram explicá-lo. Até hoje não há consenso nas interpretações, muitas vezes
contraditórias entre si. Por exemplo, alguns pensam que os eventos de maio
na França foram um fenómeno essencialmente estudantil e de juventude, a
comprovar que a luta de classes já não seria adequada para compreender os 1968 NO BRASIL
movimentos sociais contemporâneos; ao passo que outros entendem que o
caráter distintivo do movimento foi a greve geral dos trabalhadores, que lhe No Brasil, acima da influência dos fatores internacionais e da identidade com
deu o conteúdo fundamental de classe. Alguns vêem os movimentos estudan- movimentos contestadores de outros países, 1968 teve especificidades locais
tis de 68 como um passo importante para adaptar a Universidade à vida mo- determinantes. O movimento estudantil daquele ano, por exemplo, nasceu
derna, pois até então ela estaria ultrapassada, em descompasso com as novas de uma dinâmica de luta própria, anterior a maio de 1968.
necessidades do mercado de trabalho. Outros contestam essa interpretação: Em 31 de março de 1964, um golpe militar interrompera o processo de
os estudantes de 68 não estariam à procura de uma carreira dentro da democratização política e social, marcado pela mobilização popular em
ordem, mas buscavam contestá-la radicalmente, promovendo uma grande busca das reformas de base, que permitiriam melhor distribuição da riqueza
recusa de todos os aspectos da ordem estabelecida. Segundo certos autores, e de direitos. O golpe deu fim às crescentes reivindicações de trabalhadores
1968 é um mito em grande parte criado pela mídia; para outros, é o ano fun- urbanos e rurais, estudantes, intelectuais e militares de baixa patente, cuja
dador de uma forma inovadora de fazer política, que teria aberto um novo politização ameaçava a ordem estabelecida.
período na História. Para uns, maio foi uma revolta individualista, o adven- A falta de resistência ao golpe gerou surpresa e foi atribuída por muitos
to atrasado na França de um consumismo permissivo, que anunciaria o flo- aos erros dos dirigentes dos partidos de esquerda, que não se prepararam
rescimento subsequente da ideologia capitalista, ao combater as noções de para resistir, notadamente o Partido Comunista Brasileiro (PCB). Formara-se
proletariado e de nação como sujeitos coletivos. Para outros, significou a
uma corrente de opinião favorável à criação de uma vanguarda realmente re-
abertura de uma brecha no sistema, um vislumbre de que a revolução socia-
volucionária, para opor uma resistência armada à ditadura e avançar em di-
lista e libertária seria possível na Europa.
reção à superação do capitalismo.
Philippe Bénéton e Jean Touchard chegaram até a construir uma classifi-
Em outubro de 1965, o regime extinguiu os partidos constituídos. Impôs
cação de oito tipos diferentes de interpretações sobre maio de 68 na França
normas que levariam à existência legal de apenas dois partidos: a situacionis-
— tipos que talvez também possam ser válidos para pensar outros movimen-
tos daquele ano. Maio de 68 seria visto como: 1. complô anticapitalista para ta Aliança Renovadora Nacional (Arena) e a oposição moderada do
subverter a ordem; 2. crise da Universidade, ligada essencialmente à margi- Movimento Democrático Brasileiro (MDB), que viria a ser calada com cas-
nalização social dos estudantes; 3. revolta da juventude; 4. crise da civiliza- sações de políticos e outros mecanismos, sempre que se excedesse aos olhos
ção, geradora de consumismo numa sociedade tecnificada; 5. conflito de dos governantes.
classe de um novo tipo, mais cultural e político do que económico; 6. confli- Fora do campo institucional, vários grupos procuravam combater a dita-
to de classe de tipo tradicional; 7. crise política, dada a ausência de alterna- dura e organizar os movimentos populares: além do PCB, a Ação Popular
tivas viáveis; 8. encadeamento de circunstâncias. Keith Reader aumentou (AP), o Partido Comunista do Brasil (PC do B), a Política Operária (Polop) e
essa tipologia: 9. exercício de modernização social, prefigurando o ressurgi- dezenas de pequenos grupos que comporiam a "nova esquerda revolucioná-
mento do individualismo nos anos 70 e 80; 10. oportunidade revolucionária ria" — caso da Ação Libertadora Nacional (ALN) e da Vanguarda Popular
perdida ou traída; 11. interpretações culturais. Revolucionária (VPR). Dada a. repressão que praticamente dizimou os seto-
A despeito de todas essas interpretações, está longe de fechar-se o leque res combativos do sindicalismo e de outros movimentos populares, a princi-

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pai fonte de recrutamento de militantes estava no meio estudantil, berço do compareceu ao ato. Arrependeu-se: grupos operários de Osasco e do ABC, es-
único movimento de massas que se rearticulou nacionalmente nos primeiros tudantes e militantes da nova esquerda resolveram expulsar do palanque o go-
anos do pós-64, lançando-se em significativos protestos de rua em 1968. vernador e os dirigentes sindicais considerados pelegos, que tiveram de refu-
1968 iniciou no Brasil com manifestações de estudantes. Por um lado, giar-se na Catedral. Depois de queimar o palanque, a pequena multidão de re-
eles reivindicavam ensino público e gratuito para todos, uma reforma que voltosos saiu em passeata, gritando: "Só a luta armada derruba a ditadura."
democratizasse o ensino superior e melhorasse sua qualidade, com maior Em junho, o movimento estudantil ganharia novamente as ruas, atingin-
participação estudantil nas decisões, mais verbas para pesquisa — voltada do seu ápice em todo o país. Ocorriam greves, ocupações de faculdades, pas-
para resolver os problemas económicos e sociais do Brasil. Por outro lado, os seatas etc. Os estudantes exploravam as divergências na cúpula do regime,
estudantes contestavam a ditadura e o cerceamento às liberdades democráti- indecisa entre a abertura e o fechamento político nacional. O palco principal
cas. Naquela época, a maioria dos universitários estudava em escolas públi- era o Rio de Janeiro, onde os estudantes conseguiam adesão popular a suas
cas e o acesso ao ensino superior era bem mais restrito que nos dias de hoje, manifestações: no dia 19 de junho, mais de cem pessoas foram presas após
havendo uma demanda muito maior que a oferta de vagas. sete horas de enfrentamento nas ruas; no dia 21, as cenas repetiram-se, ainda
As manifestações estudantis de rua vinham acontecendo desde 1966, mais agravadas, com quatro mortos, dezenas de feridos e centenas de presos
com repressão policial, mas foi em 1968 que amadureceu a rebelião estudan- durante a sexta-feira sangrenta. No dia 22, ocorreu a primeira de uma série
til. No início do ano, mobilizaram-se por mais vagas os excedentes (estudan- de ocupações de escolas pelo país afora, na tradicional Faculdade de Direito
tes que obtinham média nos vestibulares, mas não entravam na Universidade de São Paulo, logo seguida pela Faculdade de Filosofia. Sucediam-se protes-
porque o número de aprovados excedia o número de vagas disponíveis); en- tos, manifestações, ocupações e passeatas também em Belo Horizonte,
quanto os frequentadores de um restaurante estudantil carioca, conhecido Curitiba, Brasília, Salvador, Recife, Fortaleza, Porto Alegre, João Pessoa,
como Calabouço, pleiteavam sua ampliação e melhoria. Essas reivindicações Florianópolis, Natal, Belém, Vitória, São Luís e outros centros universitários.
específicas associavam-se à luta mais geral contra a política educacional e No dia 26 de junho, teve lugar a Passeata dos Cem Mil, em que estudan-
contra a própria ditadura. tes, intelectuais, artistas, religiosos e populares tomaram as ruas do Rio de
O primeiro grande conflito de rua de 1968 surgiu em torno do restauran- Janeiro para protestar contra a repressão policial às manifestações e contra a
te Calabouço, que foi invadido a tiros pela polícia em 28 de março. Resul- ditadura. Dada a pressão da opinião pública, o governo não reprimiu a pas-
tado: vários feridos e um morto, o secundarista Edson Luís de Lima Souto. seata, na qual foi escolhida uma comissão ampla para iniciar um diálogo
O corpo foi levado para a Assembleia Legislativa. Compareceram ao enterro com o governo, que não prosperou. O movimento estudantil entrava num
milhares de pessoas, enquanto no resto do país houve passeatas de protesto. impasse: as autoridades não faziam concessões e intensificavam a repressão.
Numa delas, em Goiânia, a repressão policial matou mais um estudante. Paralelamente, uma organização paramilitar de extrema direita, o Comando
Em abril e maio, ocorreram novas manifestações públicas, mas os estu- de Caça aos Comunistas (CCC), composto por estudantes e policiais, reali-
dantes em geral recolheram-se no interior das faculdades, para refazer forças. zava uma série de atentados terroristas.
Enquanto isso, nos sindicatos de trabalhadores, esboçavam-se movimentos de Em julho, operários fizeram uma greve em Osasco, cidade da Grande
contestação, dos mais moderados aos mais radicais. Em abril, estes últimos li- São Paulo. Na época, Osasco foi chamada "a Meca das esquerdas", devido
deraram uma greve em Contagem, cidade industrial próxima a Belo Ho- à atração exercida pela combatividade do Sindicato dos Metalúrgicos — em
rizonte: abalado pelo surgimento inesperado do movimento operário, o gover- contraste com a mobilização operária escassa em quase todo o país. José
no fez concessões. Já os setores mais moderados constituíram o Movimento Ibrahim, presidente do Sindicato, e os principais líderes do movimento eram
Intersindical Antiarrocho (MIA), logo abortado. A entidade chegou a convi- também estudantes, muito influenciados pelo exemplo da revolução cubana.
dar o governador de São Paulo, Abreu Sodré, para o comício de 1° de Maio na Decidido a não fazer mais concessões, o governo reprimiu duramente a
Praça da Sé. Esperançoso de conseguir algum respaldo popular para seu pro- greve. A maioria de seus líderes caiu na clandestinidade; os que ainda não
jeto de vir a tornar-se presidente da República, indicado pelo regime, Sodré eram militantes de organizações de esquerda passaram a sê-lo.

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O S É C U L O XX 1968: R E B E L I Õ E S E UTOPIAS

Em 3 de agosto de 1968, foi preso o principal líder estudantil carioca, O ano de 1968 encerrou-se no Brasil sob o signo da repressão: em 13 de
Vladimir Palmeira. No dia 29, a Universidade de Brasília foi violentamente dezembro, o regime civil-militar baixara o Ato Institucional número 5 (AI-
invadida pela polícia. O número de passeatas e de participantes ia diminuin- 5), conhecido como "o golpe dentro do golpe". Com ele, os setores militares
do drasticamente. Em 3 de outubro, morreu um estudante na Faculdade de mais direitistas oficializaram o terrorismo de Estado, que passaria a deixar
Filosofia da USP, em ataque de estudantes de direita abrigados na Univer- de lado quaisquer pruridos liberais, até meados dos anos 70. Agravava-se o
sidade. Mackenzie, na rua Maria Antônia, em São Paulo. Nos dias seguintes, caráter ditatorial do governo, que colocou em recesso o Congresso Nacional
houve passeatas e choques com a polícia. Esta, no dia 15 de outubro, des- e as Assembleias Legislativas estaduais, passando a ter plenos poderes para:
mantelou o Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), em Ibiúna, cassar mandatos eletivos, suspender direitos políticos dos cidadãos, demitir
prendendo todos os presentes, cerca de 700 universitários. Era o fim do mo- ou aposentar juizes e outros funcionários públicos, suspender o habeas cor-
vimento estudantil de 1968. Muitos de seus integrantes passariam a concen- pus em crimes contra a segurança nacional, legislar por decreto, julgar cri-
trar suas atividades na militância política clandestina contra a ditadura, em mes políticos em tribunais militares, entre outras medidas autoritárias.
organizações de esquerda — algumas delas já começavam a fazer uma ou Paralelamente, nos porões do regime, generalizava-se o uso da tortura, do as-
outra ação armada em 1968. sassinato e de outros desmandos. Tudo em nome da segurança nacional, tida
A contestação radical à ordem estabelecida difundia-se socialmente na como indispensável para o desenvolvimento do posteriormente denominado
música popular, na literatura, no teatro, no cinema e nas artes plásticas. milagre brasileiro na economia.
Romances como Quarup, de António Callado; filmes como Terra em transe, Com o AI-5, foram presos, cassados, torturados, mortos ou forçados ao
de Glauber Rocha, e Os fuzis, de Ruy Guerra, entre outros do Cinema Novo; exílio inúmeros estudantes, intelectuais, políticos e outros oposicionistas. O
peças encenadas no Teatro de Arena e no Oficina; canções como Pra não dizer regime instituiu rígida censura a todos os meios de comunicação e manifesta-
que não falei das flores (Caminhando), de Geraldo Vandré, Procissão, de ções artísticas, colocando um fim à agitação política e cultural do período.
Gilberto Gil, Soy loco por ti, América, de Capinam e Gil, e outras de compo- Não seria tolerada qualquer oposição ao governo. O ano rebelde de 1968
sitores como Sérgio Ricardo, Chico Buarque, Edu Lobo, Milton Nascimento seria sucedido por anos de chumbo.
e seus parceiros; as exposições de artes plásticas, caso da Nova Objetividade
Brasileira, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro; enfim, inúmeras
manifestações culturais diferenciadas, entre 1964 e 1968, cantavam em verso
e prosa a esperada revolução brasileira — com base principalmente na ação OUTROS 1968s
das massas populares, em cujas lutas a intelectualidade de esquerda estaria or-
ganicamente engajada. 1968 foi um ano de agitação e protesto em países do mundo todo: México,
Em 1968, os setores artísticos críticos da ordem estabelecida estavam di- Itália, Alemanha, Japão, Egito, Senegal, Suécia, Bélgica, Holanda, Inglaterra
vididos, grosso modo, em dois grandes campos: o dos nacionalistas e o dos etc. Para dedicar algumas palavras a mais à América Latina, vale destacar o
vanguardistas. Os primeiros procuravam usar uma linguagem autenticamen- movimento estudantil do México.
te brasileira, na luta pela afirmação de uma identidade nacional-popular que De 26 de julho a 2 de outubro de 1968, o México viveria dias de protes-
seria, no limite, socialista. Já os vanguardistas — capitaneados pelo movi- tos, passeatas, repressão e luto nas ruas, tomadas por estudantes e professo-
mento tropicalista de Caetano Veloso e Gilberto Gil — criticavam o nacio- res. Eles desafiavam o poder do Partido Revolucionário Institucionalizado
nal-popular, buscando sintonizar-se com as vanguardas europeia e america- (PRI), condutor de um sistema político autoritário, fechado e corrupto, vi-
na, particularmente com a contracultura, incorporando-as criativamente à gente há décadas. Setores das classes médias opositoras do regime conse-
cultura brasileira. Apesar das divergências e das rivalidades entre eles, os ar- guiam conviver com ele, em parte, pela autonomia concedida pelo governo à
tistas engajados nos dois campos viriam a sofrer perseguições, censura a suas maior universidade do país — a Universidade Autónoma do México (Unam),
obras e até mesmo prisão e exílio. escola pública, respeitada como intocável templo do saber. Essa autonomia

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O S É C U L O XX 1968: REBELIÕES E UTOPIAS

foi ameaçada quando a polícia ocupou a Unam, no dia 18 de setembro de rã, novas relações entre política e cultura, entre os cidadãos e o Estado. A in-
1968, em resposta a protestos e a uma greve. Encabeçados pelo reitor, pro- satisfação nos meios intelectualizados foi-se avolumando, inclusive na dire-
fessores, funcionários e estudantes saíram em defesa da universidade. ção do PC, que afastou o até então todo-poderoso Novotny. A luta contra as
A partir daí, ocorreu nova série de atos públicos duramente reprimidos, velhas estruturas ganhou a adesão sobretudo dos jovens, afinados com a
que deixaram vários mortos e feridos. O mais trágico deles foi o de 2 de ou- onda juvenil libertária internacional.
tubro. Às vésperas dos Jogos Olímpicos do México, sequioso por garantir a Sentindo-se ameaçadas pelos ventos liberalizantes, as burocracias no
lei e a ordem para o evento, o governo — articulado com a Central de poder nos demais países do Leste europeu trataram de reprimir o mau exem-
Inteligência Americana (CIA) — mandou a polícia abrir fogo contra os ma- plo: em 20 de agosto de 1968, tropas do Pacto de Varsóvia — lideradas pelas
nifestantes na Praça das Três Culturas, Tlatelolco. No massacre, morreram forças armadas da União Soviética — invadiram a Tchecoslováquia para re-
centenas de pessoas, cerca de 1,5 mil foram presas, outras tiveram de se es- colocar no poder gente de sua confiança. Houve protestos e escaramuças que
conder. Com isso, o governo logrou desarticular o movimento universitário. deixaram cerca de 30 mortos e centenas de feridos ao longo da ocupação de
No âmbito da América Latina, também é essencial observar que 1968 foi um mês. Contudo, predominou a resistência passiva, estampada, por exem-
um ano importante para a mudança de postura de setores significativos de plo, em frases criativas pichadas nos muros de Praga, com espírito irónico
uma das instituições mais importantes: a Igreja Católica. Em agosto, foi rea- próximo daquele de maio de 68 em Paris: "circo russo na cidade: não ali-
lizada em Medellín, na Colômbia, a Conferência Episcopal Latino-America- mentem os animais"; "Ivan, pense na tensão sexual de Lena"; "grande expo-
na (Ceiam), na qual se esboçaram a opção preferencial pelos pobres e a defe- sição de armas soviéticas na praça Venceslau: entrada franca, saída difícil".
sa dos direitos humanos, constantemente violados pelas ditaduras que domi- O exército tchecoslovaco ficou nos quartéis, devidamente instruído por
navam a região. generais locais, inimigos das reformas. A população saiu às ruas para protes-
Não foi, contudo, apenas nos países capitalistas que tiveram lugar as ma- tar, houve uma greve geral, o PC realizou um congresso clandestino, mas os in-
nifestações de 1968. Também em sociedades ditas socialistas — como vasores mantiveram o controle da situação. Após instalar no comando do PC
Polónia, lugoslávia e Tchecoslováquia — estudantes e outros setores sociais homens de sua confiança, os invasores deixaram o país; então, caberia à polí-
ganharam as ruas para expressar sua insatisfação com regimes burocratiza- cia política da própria Tchecoslováquia fazer o trabalho sujo da repressão.
dos e autoritários, com raízes stalinistas, muito distantes das promessas li- Talvez tenha sido a última oportunidade perdida para reformar o socialismo
bertárias da tradição de pensamento marxista, inclusive da experiência dos real: os documentos da época atestam que a ideologia do movimento tchecos-
primórdios da revolução soviética. lovaco era de avanço socialista, não de retorno ao capitalismo. O socialismo
Um dos eventos mais significativos de 1968 foi a Primavera de Praga. Em real no Leste europeu, apodrecido em suas estruturas internas, viria a ruir
janeiro, o reformador Alexander Dubcek foi escolhido primeiro-secretário do como um castelo de cartas, mais de vinte anos depois, em outra conjuntura in-
Partido Comunista (PC), o cargo mais alto na direção do país. Iniciava-se a ternacional, dando lugar ao retorno do capitalismo, cujos novos capitães de
breve experiência que eles chamaram de socialismo democrático, ou "socialis- empresa seriam os mafiosos que operavam no câmbio negro durante o socia-
mo de face humana". O planejamento económico ficava a cargo de Ota Sik, lismo e os próprios burocratas que tanto haviam defendido o comunismo...
que inovava, ao flexibilizar o controle económico estatal centralizado. De ja-
neiro a agosto de 1968, a Tchecoslováquia conheceu extraordinário floresci-
mento cultural e político. Abriu-se espaço para a discussão política ampla,
houve descentralização das decisões, criaram-se conselhos de trabalhadores, a CONCLUSÃO
história recente do país era debatida e as artes ganharam impulso.
O estopim do processo que conduziu à Primavera de Praga foi a posição Em 1968, o mundo já seria uma aldeia global, na expressão célebre da época,
assumida, em julho de 1967, por alguns autores presentes ao 4° Congresso do sociólogo canadense Marshall McLuhan, que anunciava o fim da era da
da União dos Escritores Tchecoslovacos, que reivindicavam o fim da censu- imprensa escrita e sua substituição pela era da comunicação audiovisual ime-

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O S É C U L O XX 1968: REBELIÕES E UTOPIAS

diata em todo o mundo. A rápida difusão das notícias pela aldeia global po- lutas sociais amplas e interesses imediatos das pessoas; aparecimento de as-
de ser considerada um dos aspectos para compreender a generalização inter- pectos precursores do pacifismo, da ecologia, da antipsiquiatria, do feminis-
nacional de eventos como os protestos estudantis de Paris ou a Guerra do mo, de movimentos de homossexuais, de minorias étnicas e outros que vi-
Vietnã. A influência da televisão na França, no Brasil e em outros países, riam a desenvolver-se nos anos seguintes.
seria maior nos anos 70, mas já era considerável no fim da década de 1960. Já se disse, com propriedade: o ano de 1968 não deve ser mitificado, mas
Nos EUA, ela já era enorme em 1968. sua importância não pode tampouco ser minimizada. As contestações de
Contudo, se os meios de comunicação de massa tiveram um papel consi- 1968 marcaram a História contemporânea. A profundidade e a extensão des-
derável para informar os agentes sociais das agitações que se iam sucedendo sas marcas são até hoje objeto de muita discussão. Talvez o fascínio de 1968
em todas as partes do mundo, isso não significa que os protestos se espalha- venha de sua ambiguidade na promessa de construir formas de futuro reno-
ram como reflexo do fenómeno da televisão, ou como mera imitação, mas vadas, quer de um novo tipo de capitalismo, quer de socialismo. No entanto,
porque estavam dadas as condições para que as notícias recebidas tivessem o peso do passado viria a provar-se muito maior do que os militantes de 1968
repercussão e as informações incorporadas colaborassem na construção de supunham — tão grande que muitos militantes da época viriam a passar para
novas ações criativas, política e culturalmente. o campo conservador vitorioso, chegando até mesmo a ocupar cargos como
Algumas condições materiais eram compartilhadas pelas diversas socie- os de primeiros-ministros e presidentes da República de governos que adotam
dades em que houve o florescimento cultural e político de 1968 — além das medidas neoliberais em todo o mundo de hoje. Em que medida as promessas
especificidades locais. Essas condições eram mais significativas nos países libertárias de 1968 foram, não foram, estão sendo ou ainda poderão ser cum-
centrais, mas importantes também em países em desenvolvimento, como o pridas? As interrogações sobre 1968 permanecem em aberto.
México e o Brasil: crescente urbanização, consolidação de modos de vida e
cultura das metrópoles, aumento quantitativo das classes médias, acesso cres-
cente ao ensino superior, peso dos jovens na composição etária da população,
incapacidade do poder constituído para representar sociedades que se reno- FRASES PICHADAS NOS MUROS FRANCESES EM MAIO DE 1968
vavam, avanço tecnológico (por vezes ao alcance das pessoas comuns, que
passaram a ter cada vez mais acesso, por exemplo, a eletrodomésticos, nota- "É proibido proibir"; "a imaginação no poder"; "sejamos realistas, peçamos
damente aparelhos de televisão, além de outros bens, como a pílula anticon- o impossível"; "a mercadoria, nós a queimaremos"; "a barricada fecha a rua
cepcional — o que possibilitaria mudanças consideráveis de comportamento) mas abre o caminho"; "a palavra é um coquetel molotov"; "a humanidade
etc. Essas condições materiais não explicam por si sós as ondas de rebeldia e nunca será feliz até o último capitalista ser enforcado nas tripas do último
revolução, apenas abriram possibilidades para que frutificassem ações políti- burocrata"; "o homem [...] é violento quando oprimido, doce quando é
cas e culturais inovadoras, buscando colocar a imaginação no poder. livre"; "nosso modernismo não passa de uma modernização da polícia";
Foram características dos movimentos libertários de 1968 no mundo "limpeza = repressão"; "as fronteiras que se danem"; "corra, camarada, o
todo: inserção numa conjuntura internacional de prosperidade económica; velho mundo está atrás de você"; "a felicidade é uma ideia nova na Escola de
crise no sistema escolar; ascensão da ética da revolta e da revolução; busca Ciência Política"; "não mude de emprego, mude o emprego de sua vida";
do alargamento dos sistemas de participação política, cada vez mais desacre- "você está sendo intoxicado: rádio, televisão, jornal, mentira"; "estamos
ditados; simpatia pelas propostas revolucionárias alternativas ao marxismo tranquilos: 2 + 2 não são mais 4"; "a liberdade do outro amplia a minha ao
soviético; recusa de guerras coloniais ou imperialistas; negação da sociedade infinito" (frase original do anarquista clássico, Bakunin); "abrir as portas
de consumo; aproximação entre arte e política; uso de recursos de desobe- dos asilos, das prisões e outros liceus"; "acho que meus desejos são realida-
diência civil; ânsia de libertação pessoal das estruturas do sistema (capitalis- de porque acredito na realidade de meus desejos"; "faça amor, não faça guer-
ta ou comunista); mudanças comportamentais; vinculação estreita entre ra"; "inventem novas perversões sexuais"; "aquele que fala de revolução

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O S É C U L O XX 1968: REBELIÕES E UTOPIAS

sem mudar a vida cotidiana tem na boca um cadáver"; "quanto mais eu faço .. 2000. Em busca do povo brasileiro: artistas da revolução, do CPC à era da TV.
amor, mais eu tenho vontade de fazer a revolução; quanto mais eu faço a re- Rio de Janeiro, Record.
volução, mais eu tenho vontade de fazer amor"; "o sexo da noite sorriu ao Valle, Maria Ribeiro do. 1999. 1968: ó diálogo é a violência: movimento estudantil e di-
olho unânime da revolução"; "levemos a revolução a sério, mas não nos le- tadura militar no Brasil. Campinas, ed. da Unicamp.
vemos a sério"; "revolução, eu te amo"; "a morte é necessariamente uma Veloso, Caetano. 1997. Verdade tropical. São Paulo, Companhia das Letras.
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158
159
L. Brejnev entre alunos
das escolas primárias: o
apogeu do socialismo
realmente existente

Homenagem tradicional:
recém-casados no
mausoléu de Lenin
O mundo socialista: expansão e apogeu Descolonizacão e lutas de libertação nacional

A descolonizaçáo dos Estados novos, 1945-1990

A descolonização no sudeste asiático e na África

inoiogia aas
descolonizações no
Sudeste Asiático e na África

ORIENTE MÉDIO

Monumento a luri
Gagarin, herói soviético lèmen do Norte
Arábia Saudita
primeiro homem a ir Iraque
Jordânia (Transjordània)
ao espaço LJbia, Síria
Israel (divisão da Palestina)

Alguns arquipélagos e ilhas - B


a Guiana -, no Caribe e no
Pacifico, não são independentes.

Bahrern l 1971
Émirados Àratws J

O urso Panda vence o Tio


Sam: cartaz celebrando os
Jogos Olímpicos de A descolonização entre 1945 e 1990
Moscou, em 1980,
boicotados pelos EUA
Ernesto Che Guevara:
símbolo de uma revolução
autónoma e libertária

A vitória da Frente
Sandinista de Libertação
Nacional (FSLN), em
1979: última vaga da
onda revolucionária dos
A descotonização no mundo pós-Segunda Guerra Mundial: anos 1950-1960
África, Ásia e ex-União Soviética
Os sucessivos mapas de Israel: da formação do Estado aos
í
As disputas entre israelenses e palestinos: as terras
dias atuais (1947-1999) declaradas governamentais pelo Estado de Israel
e o mapa da autonomia palestina
- FlPOCHMCb, MOfl CYflbBA
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POCCHfl OBJBÁMiO
B03POPCS!

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A Rússia gnta para os


russos: "Acordem, minha
O estranho ano que sorte está nas vossas
subverteu o mundo mãos!" Cartaz feito para
as eleições de 1991

1968: paz e amor


contra a guerra, flores
contra baionetas

Cartaz da campanha
eleitoral de B. leltsin,
em 1991: "A Rússia
fatalmente renascerá!
Para presidente, o
deputado do povo!"

A condecoração do
1968 e as promessas de
carcereiro: S. Evstigneev,
emancipação: a dança, as
chefe de campos de
drogas, o sexo e o rock
rnnrpntrarãn annc 1Q80
O desamparo dos
desamparados:
o comandante da mentira
(quadro de Piotr
Belov, 1986)

A nova russa, numa nova Rússia A longa luta das nacionalidades:


identidade, autonomia, independência
A questão nacional no mundo contemporâneo Globalização e nova ordem internacional

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A URSS: um império que explodiu Num mundo cada vez mais integrado,
o crescimento das desigualdades
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! A sociedade em rede: o crescimento ininterrupto da teia

A teia mídiãtica: a família


em torno da televisão

Numero de computador»
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espaços e dos tempos 1.000a 10.000(19!


históricos e a expectativa
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de participação
Crise e desagregação do socialismo
Daniel Aarão Reis Filho
Professor titular de História Contemporânea
da Universidade Federal Fluminense

O espaçoporto da
"Academia do Espaço
(1953)

A Terra e a Lua
fotografadas do espaço
(16-12-1992)

Mapas das páginas 3,4, 6, 7, 8, 11, 12 e 13: Atlas Strategique, Gérard Chaliand e Jean-Pierre Rageau
Outras imagens: arquivos dos autores
Desde meados do século XIX, quando se estruturou como teoria da História,
o socialismo contemporâneo sempre se caracterizou por uma grande
autoconfiança, manifestando a certeza de que suas propostas tenderiam a se
impor, mais cedo ou mais tarde, não principalmente pelo poder de convenci-
mento de seus argumentos, embora isto também contasse, mas porque forças
económicas, sociais e políticas, de modo objetivo, trabalhavam em favor de
sua vitória.
Assim como os iluministas haviam imaginado a sociedade humana numa
espécie de ascensão linear, expressa na crescente afirmação da razão e dos di-
reitos humanos, e no triunfo das luzes sobre as trevas, e do progresso como
uma espécie de fatalidade, da mesma forma, os socialistas, que se considera-
vam, e com razão, herdeiros dos ideais da Grande Revolução Francesa, acre-
ditavam no triunfo certo da justiça e da igualdade. E extraíam alento, mesmo
em meio a eventuais derrotas políticas, da convicção, profundamente enrai-
zada, de que a História apontava para a alternativa socialista. Eles cultiva-
vam um aforismo, muito comum entre todas as correntes socialistas, que lhes
dava energia e determinação: o mundo marcha para o socialismo. Não se
tratava de uma conclusão derivada de sonhos, ou de desejos, mas de uma
previsão científica. Esta era, com efeito, uma novidade — poderosíssima —
aportada pelo socialismo teorizado por K. Marx e F. Engels — a sociedade
socialista não era fruto de uma construção baseada na imaginação, mas uma
certeza baseada no, e autorizada pelo, conhecimento de leis científicas que
regiam o movimento da sociedade. Cabia aos seres humanos apenas adaptar-
se a estas leis, ou, no máximo, propiciar sua realização. A metáfora da revo-
lução corno a parteira da História era perfeitamente cabível nesta formula-
ção. A sociedade humana estava grávida de seu futuro — o socialismo.
Restava aos revolucionários apenas promover as condições para que o parto
pudesse acontecer da melhor forma.
O desdobramento da História, até avançado o século XX, apesar de

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muitos percalços, de sucessos imprevistos e de interpretações inusitadas do


Ásia Oriental, no Caribe — apresentariam, sobretudo nos anos imediata-
pensamento dos teóricos fundadores, parecia dar foros de verdade a estas
mente posteriores à conquista revolucionária do poder, estas mesmas carac-
propostas. Vozes mais críticas, certamente, poderiam argumentar que era
terísticas virtuosas, atribuídas por muitos à estatização da economia e ao
cada vez mais difícil conseguir um consenso, entre os próprios marxistas, a
planejamento centralizado — grande dinamismo económico e invulgar capa-
respeito do verdadeiro sentido das palavras e das previsões de Marx. Elas ha-
cidade de automodernização.
viam passado por tantas adaptações, releituras e redefinições, na longa via-
Ora, a partir dos anos 70, justamente, começaram a surgir novos e im-
gem da Europa Ocidental à Ásia Oriental, passando pelas Rússias e pelo previstos indícios, como se estivesse havendo uma espécie de inversão de
Caribe, que se tornara praticamente impossível almejar uma ortodoxia reco- temperatura e pressão. A princípio, de uma forma quase que sub-reptícia,
nhecida por todos os adeptos do socialismo marxista. A partir de certo mo-
apenas do conhecimento dos serviços de espionagem e de contra-espionagem
mento, houve, inclusive, enfrentamentos armados, de alguma envergadura,
ou de alguns especialistas refinados. Depois, cada vez mais claramente, apa-
entre Estados socialistas (URSS X China; China X Vietnã; Vietnã X Cam-
recendo em conferências académicas, transbordando para os veículos de co-
boja), sem contar experimentos socialistas esmagados a ferro e fogo... por
municação de massa: os países socialistas já não estavam mais conseguindo
outros socialistas... em nome do socialismo, naturalmente (Hungria/1956 e
fazer avançar a economia nos ritmos anteriores. O mais grave é que o pro-
Tchecoslováquia/1968, entre outros). Diante de tal diversidade de pontos de
cesso não se referia apenas a índices quantitativos — que declinavam de
vista, alguns chegaram a propor uma expressão algo tautológica que ga- forma visível, embora ainda fossem positivos — mas, principalmente, a índi-
nhou, contudo, muita notoriedade: o socialismo realmente existente não fora ces qualitativos — relativos aos produtos, aos procedimentos tecnológicos
previsto, nem talvez desejado, muito menos correspondia às elaboradas adotados, aos métodos de organização da gestão administrativa e do traba-
construções teóricas do século XIX, mas estava lá, teimoso como os fatos, lho. Enquanto os grandes países capitalistas, sobretudo os EUA, até como
como gostava de dizer um grande revolucionário, V. Lenin.
resposta à crise económica dos anos 70, ingressavam firmemente numa nova
Assim, apesar de constituído por propostas muito distintas, e, com fre-
revolução científico-tecnológica, descobrindo novas fronteiras económicas
quência, mutuamente hostis, o socialismo realmente existia — e se expandia.
— a informática, as telecomunicações, a robótica, a biotecnologia, a produ-
De sorte que, até meados dos anos 70 do século XX, partidários e inimigos
ção de novos materiais —, transformando a produção e a sociedade, anun-
das formulações de K. Marx, os primeiros com esperança, os segundos com
ciando mutações civilizatórias (Dreifuss, 1997), os Estados socialistas pare-
receio, ainda podiam dizer — e diziam: o mundo marcha — está marchando ciam incapazes de sequer acompanhar o processo.
— para o socialismo. As contradições — alguns já falavam em impasses — não se limitavam à
Ao longo dos anos 70, contudo, e sobretudo na virada para os anos 80, si- economia. Cada vez se tornava mais difícil manter padrões centralistas e di-
nais precursores de uma crise maior começaram a ser observados e apontados. tatoriais de dominação — dos partidos comunistas e/ou de líderes carismáti-
Em primeiro lugar, entrou em questão a capacidade dos países socialistas cos — sobre sociedades crescentemente urbanizadas, instruídas e informadas
em garantir taxas crescentes de desenvolvimento económico. Tal fora o gran- (Lewin, 1988). O discurso igualitário transmudava-se em retórica vazia em
de trunfo do socialismo soviético nos anos 30, quando a URSS, impulsiona- face das desigualdades gritantes que separavam os membros do partido e das
da pelos Planos Quinquenais, e ignorando a crise que abalava as economias elites políticas e económicas e o resto da população. Instaurava-se uma pro-
liberais, avançara celeremente em direção à sua modernização, em ritmos funda crise de referências, o desinteresse, a apatia e o cinismo num contexto
alucinantes, queimando etapas. Depois da Segunda Guerra Mundial, e ape- de defasagem entre valores proclamados — nos quais as próprias elites, visi-
sar de devastada, surgira no cenário internacional como uma grande super- velmente, já não acreditavam mais — e valores reconhecidos e praticados.
potência, rivalizando económica e militarmente com a maior potência mun- Mesmo entre os países socialistas, para além dos conflitos ideológicos,
dial — os EUA. políticos e armados, já referidos, reproduziam-se, na normalidade de suas re-
Mais tarde, as demais economias socialistas — na Europa Central, na lações, mecanismos de subordinação estranhos à teoria do internacionalismo

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proletário e típicos dos laços estabelecidos entre potências capitalistas e paí- militar, que era de seu interesse concentrar recursos no atendimento das de-
ses ditos subdesenvolvidos ou em desenvolvimento. mandas de sua população cada vez mais urbanizada e sofisticada. Mas não
Assim, o mundo socialista surpreendeu-se em profunda crise interna, se esperava tanta ousadia. Alguns críticos, inclusive, denunciariam
agravada pelas pressões agressivas do mundo capitalista, animado por seus Gorbachev como um perigoso farsante, prometendo o que não tinha condi-
êxitos económicos e pela renascente onda neoliberal, nucleada pela Ingla- ções de cumprir. As comparações com N. Kruchev eram inevitáveis. Também
terra de Margaret Thatcher e pelos EUA de Ronald Reagan. este último pretendera inovar, mas acabara preso nas malhas do sistema e li-
Tal é o contexto em que se desdobram as tentativas de reforma empreen- quidado por ele.
didas pelo socialismo contemporâneo que passaremos agora a narrar: a as- Entretanto, e rapidamente, o líder soviético afirmou-se na cena interna-
censão de M. Gorbachev e a política da perestroika (reestruturação) soviéti- cional, ganhando simpatias, quebrando resistências e preconceitos, conquis-
ca; os estremecimentos e a derrocada do socialismo na Europa Central e, um tando, com suas propostas e seu charme, a atenção dos líderes e das popula-
pouco mais tarde, da própria URSS, a política das Quatro Modernizações na ções dos principais países capitalistas, assim como do resto do mundo.
China e, finalmente, as tentativas desesperadas de Cuba e demais periferias No plano interno, porém, prevaleciam os apelos tradicionais à discipli-
do mundo socialista, incluindo-se aí o eurocomunismo. na, ao trabalho e à necessidade de se conseguir um novo equilíbrio entre o
pesado centralismo estatal e a autonomia das empresas. O mote do novo go-
verno, num primeiro momento, resumia-se numa palavra: acelerar (uskorie-
nie). Acelerar a produção (Féron, 1995), romper a pasmaceira, superar a es-
A URSS E A PERESTROIKA tagnação, termo inventado para designar os regimes anteriores e a era de L.
Brejnev, em particular.
A eleição de M. Gorbachev para o cargo de secretário-geral do Partido Em outubro de 1985 apareceu uma nova palavra, que se tornaria mun-
Comunista da União Soviética, em março de 1985, exprimiu um consenso ge- dialmente conhecida: perestroika, ou seja, recolocar as coisas em construção,
nérico favorável a reformas, embora ainda não houvesse um programa clara- reconstruir, reestruturar. Tratava-se, portanto, de algo bem mais profundo
mente definido em relação a metas, prazos e ritmos. Uma coisa era certa: a do que apenas pôr o pé no acelerador, era preciso considerar fatores de or-
URSS não poderia mais continuar sendo governada por aquela gerontocracia dens diversas, estruturais, imaginar reformas que pusessem em questão as es-
que se havia constituído nas altas cúpulas do Estado e do partido e da qual truturas económicas do país.
eram genuínos representantes os antecessores imediatos do novo secretário-ge- O livro escrito por M. Gorbachev, com o título, justamente, de
ral: L. Brejnev, I. Andropov e K. Chernenko, aptos, no melhor dos casos, ape- Perestroika (Gorbachev, 1987), virou campeão de vendas na URSS e em todo
nas a tocar os negócios correntes, mas incapazes de enfrentar os grandes desa- o mundo. Fazia uma análise sem concessões dos males mais evidentes da eco-
fios, internos e externos, colocados pelos sinais críticos que se multiplicavam. nomia soviética: desperdícios, negligência ante as demandas dos consumido-
M. Gorbachev surpreenderia o mundo com propostas inesperadas, so- res, preocupação exagerada com a quantidade e subestimação de critérios
bretudo em relação à corrida armamentista: moratória unilateral dos testes qualitativos, centralismo excessivo. E apontava para novos horizontes: uma
nucleares, redução de 50% dos armamentos estratégicos, diminuição dos sociedade produtiva, autónoma, harmónica, comprometida com a paz e a
mísseis intermediários, destruição dos arsenais nucleares até o ano 2000, prosperidade.
controles estritos sobre as armas convencionais. Por outro lado, advogava a A questão era saber como transitar do socialismo realmente existente
desativação dos conflitos regionais, inclusive levantando, sem constrangi- para a nova sociedade que se almejava construir. Do homem velho, empare-
mentos, a delicada questão do Afeganistão. dado nos métodos e conceitos superados, para o Homem Novo, portador de
No mundo capitalista houve espanto e incredulidade. Sabia-se que a todas as virtudes. Em suma, como sair do Presente para o Futuro.
URSS estava disposta a fazer concessões para se aliviar do chamado fardo O XXVII Congresso do Partido Comunista, reunido em fevereiro de

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1986, quase um ano depois da eleição de M. Gorbachev, pouco avançou Entretanto, como pretender que as empresas pudessem se tornar autóno-
neste sentido, indicando a existência de indecisões, dúvidas, divergências. mas sem haver um sistema bancário definido para apoiá-las, sem uma refor-
Enquanto uns preferiam denunciar as carências do sistema, mas reconhecen- ma de preços, até então fixados arbitrária e administrativamente, sem uma le-
do os aspectos positivos, outros, ao contrário, defendiam as conquistas, res- gislação prevendo — e regulando — a demissão dos trabalhadores, sem lei de
salvando a existência de contradições. No conjunto, porém, os debates per- falências? Ora, nada disso fora debatido ou votado, de sorte que a autonomia
maneciam num plano geral, não tendo sido possível definir programas con- das empresas ficava suspensa no ar, expressão mais de um desejo, do que de
cretos de enfrentamento e superação dos problemas. Todos eram a favor de uma política, sem condições de fixar-se na realidade. E assim a economia não
acelerar (uskorienie). Ninguém era contra reestruturar (perestroika). Mas as se reestruturava.
coisas não saíam do lugar. Como se houvesse ali resistências que não ousa- Mas a glasnost fazia progressos. Aproveitando-se das brechas abertas, e
vam aparecer claramente. das margens de liberdade garantidas, começou um processo impiedoso de
Houve então o desastre da usina nuclear de Chernobyl, na Ucrânia. Pela críticas ao sistema. Nada parecia escapar àquela sociedade subitamente des-
primeira vez, desde a revolução pelo alto em fins dos anos 20, a URSS expu- perta. O arco das denúncias não podia ser mais amplo. O meio ambiente de-
nha de modo tão evidente suas feridas. Para os soviéticos e para todo o predado, comprometendo a atual e as futuras gerações; o alcoolismo e o con-
mundo. Os partidários das reformas utilizaram-se então do acontecimento sumo de drogas em geral; a má qualidade dos produtos oferecidos aos con-
para reforçar as críticas às mazelas do sistema. E fizeram surgir um outro sumidores, evidenciando a subestimação dos interesses dos cidadãos; os mé-
termo russo, que também daria a volta ao mundo: glasnost, ou seja, publici- todos burocráticos e autoritários de gestão e administração; as penosas con-
dade dos atos de interesse público ou, numa outra versão, transparência. Se dições das mulheres, obrigadas a cumprir estafantes jornadas de trabalho
tivesse havido transparência na gestão da usina, argumentaram os reformis- fora do lar, e ainda a desincumbir-se do trabalho doméstico (sem o auxílio
tas, o desastre teria sido certamente evitado. dos eletrodomésticos, caros e de baixa qualidade), e aturar as intermináveis
As reformas pareceram ganhar alento. Em novembro de 1986, aprovou- filas e o machismo renitente do homem soviético. Como se não bastasse,
se uma lei sobre o trabalho individual privado. Em maio de 1987, um novo
ainda eram carentes de educação sexual e/ou de suficiente disponibilidade de
estatuto para as cooperativas. Em ambas as iniciativas, a intenção de auto-
métodos anticoncepcionais. Entre outras estatísticas alarmantes, citava-se o
nomizar as atividades económicas, enfraquecendo os controles centralistas
fato de que a URSS, com o equivalente a 5 ou 6% da população mundial, re-
tradicionais. Mas os receios ainda eram muito grandes, de modo que a nova
gistrava 25% dos abortos no mundo, segundo a Organização Mundial da
legislação veio marcada por uma série de restrições e sanções, desestimulan-
do, na prática, aquilo que se queria, na teoria, encorajar. Em meados de Saúde, duas a quatro vezes mais do que nos demais países socialistas, seis a
1988, não havia mais do que 370 mil pessoas legalmente habilitadas para o dez vezes mais do que nos países capitalistas. Nem a educação e a saúde, con-
trabalho individual, autónomo, e mais 246 mil nas cerca de 20 mil coopera- sideradas até então setores modelares do socialismo soviético, eram poupa-
tivas em funcionamento. Para um país de 280 milhões de habitantes, não das, acusadas de equipamento obsoleto e pessoal mal treinado. Sem falar nas
fazia muita diferença. desigualdades irritantes que privilegiavam os comunistas, sobretudo os diri-
Em junho de 1987, mais um avanço formal: aprovou-se uma lei sobre a gentes, estes seres mais iguais entre os iguais (Orwell, 1984).
autonomia da empresa, para vigorar a partir de janeiro do ano seguinte. M. Finalmente, mas não menos importante, a corrupção, invadindo e trans-
Gorbachev dizia que era preciso substituir métodos essencialmente adminis- bordando por todos os poros da sociedade.
trativos por métodos essencialmente económicos, conferindo às empresas O escândalo do tráfico do algodão no Usbequistão, entre outros, chocou
autonomia para estabelecer contratos com fornecedores e clientes, admitir e a sociedade: 4 milhões de toneladas em cerca de dez anos haviam sido desvia-
demitir funcionários, estabelecer metas e beneficiar-se com os ganhos obti- dos. A fraude envolvia altas autoridades, inclusive em Moscou, mas implica-
dos. O Plano Quinquenal tenderia a assumir caráter indicativo, limitando-se va milhares de pessoas. Não havia como colocar toda aquela gente na cadeia.
a fixar índices de produtividade a serem considerados pelas empresas. Na verdade, tratava-se de uma prática largamente disseminada. Para escapar

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dos rigores e da ineficácia do centralismo excessivo, constituíam-se na URSS consagrado como o The man of the year, da revista Time. Na URSS, porém,
redes autónomas de poder para impulsionar atividades, negócios, autoprote- avolumavam-se as contradições.
ção, como se fossem feudos, embora o conceito fosse impróprio. Na própria, Convocou-se, então, no intuito de resolver os impasses, a XIX Confe-
cúpula do poder não existira durante anos o grupo (que as más línguas cha- rência Pan-Soviética do Partido Comunista. Congregando milhares de dele-
mavam de máfia) de Dniepropetrovsk (formado em torno da construção da gados, eleitos num processo de grandes debates a respeito de teses previa-
grande hidrelétrica do mesmo nome), cujo chefe era o próprio L. Brejnev? mente publicadas, esperava-se que dali pudesse se constituir a requerida legi-
Voltara também com grande ênfase o debate sobre o stalinismo, agora não timidade democrática para fixar rumos e avançar na sua consecução.
mais restrito, como nos tempos de N. Kruchev, aos anos 30 e ao âmbito do Mais uma vez, fez-se o consenso sobre generalidades: críticas ao centra-
partido. Questionava-se agora a coletivização forçada. A questão dos campos lismo, ao quantitativismo, ao autoritarismo, elogio da autonomia, dos crité-
de trabalho. As antigas dissidências, os líderes apagados da memória como rios qualitativos, da democracia. A principal decisão, contudo, foi a de...
Bukharin e Zinoviev. O próprio Trotski, figura maldita, emergia do passado. convocar uma outra assembleia, a ser eleita por toda a sociedade, um Con-
Solicitava-se, agora, sua reinclusão no panteão das lideranças revolucionárias. gresso dos Deputados do Povo, formado por 2.250 eleitos. Eles debateriam
Um grupo de jornais e revistas, entre os quais se destacavam Ogoniok (V. uma agenda e elegeriam um Soviete Supremo, com cerca de 500 deputados,
Korotitch) e Notícias de Moscou (E. lakovlev), abria espaço para denúncias, que, por sua vez, através do voto secreto, elegeria um presidente com amplos
críticas e artigos heréticos. As edições e reedições esgotavam-se, disputadas poderes para implementar as deliberações tomadas.
; nas ruas. Havia uma atmosfera de ajuste de contas. Uma ânsia de tabula ra- Mudanças políticas importantes, sem dúvida. Na prática, o partido esta-
sa, como um messianismo às avessas. Em parte alguma, argumentava-se, va passando à sociedade os poderes para eleger deputados que decidiriam o
houvera tantos desastres e tanta ignomínia como na URSS. Os chefes, tira- rumo do país. O presidente a ser eleito não seria mais responsável perante o
nos. Os génios, imbecis. O paraíso socialista, um inferno. O Homem Novo, partido, mas perante a assembleia que o elegera. No entanto, em termos de
uma farsa. programas concretos para fazer avançar a perestroika, salvo a legislação já
A resistência começou a se explicitar, rejeitando com violência as críticas, aprovada, de efeitos escassos, as coisas continuavam empacadas.
numa reação de ex-combatentes. O receio da mudança: aonde aquilo tudo Seguiu-se a campanha para a eleição do Congresso. Os debates, acalora-
iria parar? Afinal, tratava-se de renovar ou de destruir o socialismo? Todos dos, contraditórios, públicos, mobilizaram intensamente uma sociedade
ainda se diziam favoráveis à perestroika e à glasnost, mas o que significavam acostumada ao silêncio, mas que parecia tomar gosto por aquela agitação.
exatamente aquelas palavras? Nunca jornais e revistas venderam tanto suas edições, nem as emissões de
Na alta cúpula, sob o fogo contraditório de reformistas (partidários de ra- rádio e televisão foram tão ouvidas e vistas quanto naqueles meses do inver-
dicalizar a perestroika) e conservadores (receosos de que o processo pudesse no de 1988-89. Todos os termas foram debatidos: desde questões relativas à
perder o rumo), instalava-se a dúvida. Duas reuniões do Comité Central, rea- organização geral da sociedade, como, por exemplo, de que modo poderiam
lizadas em junho e outubro de 1987, evidenciaram uma atmosfera de oscila- ser combinadas as virtudes do mercado e do plano, até assuntos atinentes ao
ções. Na primeira, efetuaram-se mudanças importantes, reforçando as corren- cotidiano, como as questões do aborto, das drogas, dos hospitais, dos salá-
tes reformistas. Contudo, na segunda, demitiu-se B. Yeltsin, que dirigia então rios. M. Gorbachev aparecia em toda a parte, incentivando, suscitando o de-
o partido em Moscou e que se notabilizara na denúncia às resistências à pe- bate e a crítica, visitando minas, fábricas e kolkhozes. Permanecia como o
restroika, convertendo-se, em função de sua ação e de seus discursos, numa grande líder do processo, galvanizando as vontades, consagrando-se. Tudo
espécie de líder da corrente reformista. Nas duas reuniões, como se fosse um aquilo começara em 1985, há quase quatro anos, mas, agora, finalmente,
pêndulo, dando no cravo e na ferradura, fortalecia-se, sempre, M. Gorbachev, havia a esperança de que as reformas, devidamente respaldadas por amplas
numa posição de liderança, distante de extremos considerados igualmente maiorias, se convertessem em realidade palpável.
equivocados. Internacionalmente, seu prestígio continuava alto, ascendendo, Entretanto, certas dissonâncias começaram a surgir, formuladas, com

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frequência, pelas pessoas comuns. Corria a anedota de que as pessoas, ao batalha campal entre russos e ucranianos. O estopim fora um banal jogo de
abrirem a geladeira, não encontravam a perestroika. As filas aumentavam de futebol, mas foi possível perceber a força dos ódios nacionais latejando.
tamanho. Reapareceu o racionamento de alguns produtos, como a gasolina, Como se o vírus do nacionalismo estivesse à solta.
a manteiga, a carne e o açúcar. A colheita de cereais, em 1988, fora um fra- Em fevereiro de 1988, veio à luz o conflito entre arménios e azerbaijanos
casso, quase 20% a menos do que o patamar alcançado dez anos antes. Gor- em torno da região do Alto Karabach. Tratava-se de um território majorita-
bachev responsabilizava o passado, naturalmente. Mas aquele passado esta- riamente povoado de arménios encravado na República do Azerbaijão. O im-
va custando a passar. Afinal, a perestroika viera para melhorar ou para pio- bróglio fora criado ainda no período de Stalin. Ora, os arménios queixavam-
rar a vida das pessoas? se de discriminação e de perseguições. E solicitavam a transferência do terri-
Uma outra catástrofe, um terremoto na Arménia, em dezembro de 1988, tório para a jurisdição da República da Arménia. No Azerbaijão, a popula-
uma espécie de novo Chernobyl, contribuiu para estimular as incertezas, evi- ção sentiu-se ameaçada e reagiu com massacres (pogroms), a arma tradicio-
denciando as carências técnicas, a precariedade do socorro, a falta de medi- nal do nacionalismo exacerbado. Os arménios deram o troco e se instaurou
camentos, os erros grosseiros no planejamento da construção dos prédios. A uma verdadeira guerra civil, que não foi possível debelar até o fim da URSS.
URSS, superpotência, mostrava, mais uma vez, suas chagas e elas pareciam, Assim, desenharam-se múltiplos focos de tensão. No Extremo Ocidente,
estranhamente, com as dos países subdesenvolvidos. os países bálticos e a Moldávia. Em novembro de 1988, o Parlamento esto-
Apesar de tudo, a participação nas eleições foi maciça. Contudo, os re- niano proclamou o primado das leis da república sobre as leis soviéticas. Em
sultados geraram apreciações diversas. De um lado, os partidários da acele- fevereiro do ano seguinte, a Lituânia anunciou seu direito à autodetermina-
ração das reformas foram vitoriosos nos grandes centros urbanos. B. Yeltsin, ção. No Cáucaso, as nacionalidades não paravam de se engalfinhar, suceden-
por exemplo, embora tendo sido expurgado do Bureau Político em fins de do-se grandes manifestações nacionalistas nas capitais da região. Numa
1987, teve quase 90% dos votos em Moscou. De outro lado, na URSS pro- delas, em Tbilissi, na Geórgia, em abril de 1989, o exército soviético abriu
funda, em 25% das circunscrições, houve candidaturas únicas, embora a lei fogo contra os manifestantes, matando 16 pessoas. Na Ásia Central, a iden-
facultasse múltiplos candidatos. Nas 17 regiões do Casaquistão, república tidade muçulmana surgia das sombras. Até os ucranianos e bielo-russos, es-
soviética da Ásia Central, os primeiros-secretários do partido foram candida- tes últimos sem nenhuma tradição estatal nacional, formulavam programas
tos únicos e, naturalmente, vencedores. nacionalistas. Entre os próprios russos apareciam vozes pregando a ideia de
Um outro aspecto que se evidenciou no processo eleitoral: o reforço das que talvez fosse o caso liquidar com aquele império, que cada um seguisse o
identidades nacionais, sobretudo nos chamados países bálticos (Lituânia, seu caminho.
Letónia e Estónia), onde se constituíram, e foram vitoriosas, as autodenomi- Entretanto, o Congresso dos Deputados do Povo instalara-se. Grandes
nadas frentes populares, que já começavam a advogar a separação da URSS. maiorias aprovaram todas as reformas propostas por Gorbachev, elegendo-o
A questão nacional, largamente subestimada pelas elites dirigentes sovié- presidente do Parlamento com 94,35% dos votos. Todos os poderes lhe
ticas, tenderia, desde então, a se afirmar no centro da cena política. foram concedidos. Aparentemente, contudo, as coisas não melhoravam. Em
O primeiro alarme soara em dezembro de 1986, no Casaquistão. A ten- julho, um amplo movimento grevista nas minas de carvão espalhou-se pela
tativa, contrariando as tradições, de impor um russo como primeiro-secretá- Ucrânia. Durou duas semanas e estimulou uma série de outras manifestações
por toda a URSS. As prateleiras das lojas continuavam vazias. A escassez e as
rio do partido desencadeara a cólera popular na capital do país, Alma-Ata,
filas, o racionamento e o mercado negro atormentavam o cotidiano das pes-
obrigando Moscou a recuar. No ano seguinte, no centro do sistema, na pró-
pria Rússia, surgira uma organização ultranacionalista, Patniat (Memória). soas comuns. Até os preços do petróleo, principal produto de exportação e
Poucos meses depois, ainda em 1987, uma grande manifestação nacionalista gerador de divisas, despencavam nas cotações internacionais, aumentando
em Riga, capital da Letónia, reivindicou autonomia e respeito pela identida- os déficits e provocando inflação. A impressionante popularidade de
de do país. Ainda naquele ano, em Kiev, na Ucrânia, houve uma verdadeira Gorbachev no mundo, que, em toda uma primeira fase, legitimara com o

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selo internacional suas promessas e ousadias, pesava cada vez menos em face fugir do controle. Em toda a parte, os parlamentos locais proclamavam a res-
do descalabro que passara a dominar a sociedade e a economia soviéticas. De pectiva soberania, ou seja, somente admitiam as leis da União quando não
que adiantava todo o prestígio do líder da perestroika, se os capitais interna- entrassem em desacordo com á própria legislação. Na prática, era um pro-
cionais teimavam em não afluir? Quanto aos empréstimos e aos financia- cesso de secessão que ainda não dizia o seu nome. Contudo, e apesar das evi-
mentos das agências internacionais, aportavam a conta-gotas, não conse- dências, quase ninguém ainda ousava dizer o indizível: a URSS estava pres-
guindo alterar o quadro crítico. tes a desaparecer.
Sucediam-se as equipes económicas e as propostas mais originais e inte- Das próprias nações eslavas (Rússia, Ucrânia e Bielo-Rússia), considera-
ressantes. Contudo, nada, ou quase nada, funcionava. As reformas, os decre- das até então como os mais sólidos baluartes da União Soviética, desponta-
tos e as leis eram anunciados, mas não passavam à realidade, como se traga- vam forças desagregadoras. Em junho de 1990, depois de eleger triunfalmen-
dos por mal definidas resistências. te B. Yeltsin seu presidente, o Parlamento russo aprovou a soberania. No mês
Em 1989, o socialismo desapareceu na Europa Central. Um prenúncio? seguinte, os parlamentos da Ucrânia e da Bielo-Rússia tomaram, por ampla
Na Polónia, o Solidariedade assumira o poder. Na República Democrática maioria, a mesma decisão política.
Alemã, apresentada como o mais próspero país socialista do mundo, grandes M. Gorbachev, apoiando-se na tradição, aparentava ainda estar nos con-
manifestações tinham levado à queda do todo-poderoso E. Honecher e, um troles. Em julho de 1990, quando do XVIII Congresso do Partido Comu-
pouco mais tarde, à do Muro de Berlim, erguido em 1961, e que parecia eter- nista, conseguiu aprovar todas as suas propostas. Em setembro do mesmo
no. Na Hungria, eleições livres eram convocadas e nenhum analista previa a ano, o Soviete Supremo voltou a lhe conferir poderes extraordinários para
vitória dos comunistas locais. Pouco depois, uma revolução pacífica, dita de implementar as reformas consideradas necessárias por decreto. Mas de que
veludo, na Tchecoslováquia e uma outra, violenta, na Roménia, apearam os lhe servia concentrar poderes, se, visivelmente, não sabia como exercê-los?
comunistas do poder. Indagado sobre como a URSS reagiria a esta debanda- Não definia um programa claro de enfrentamento das crises. Oscilava entre
da, o porta-voz de Gorbachev cantarolou os versos de My way, ou seja, como reformistas e conservadores.
na canção, cada um seria livre para traçar o próprio destino. Desta vez os tan- No segundo semestre de 1990, passou a chamar para o governo homens
ques permaneceriam tranquilos nos quartéis. mais decididos a preservar, a qualquer custo, a URSS de um processo de de-
Como não poderia deixar de ser, o processo fulminante de desmantela- sagregação, do que conduzi-la no rumo das reformas tão anunciadas mas
mento das mal chamadas democracias populares reforçou as correntes que que não se concretizavam. No Ministério do Interior (B. Pugo), no KGB (V.
estavam apostando na desagregação da URSS. Os parlamentos dos países Kriuchkov), no cargo de primeiro-ministro (V. Pavlov), no comando das re-
bálticos, eleitos em 1989, aprovavam leis que apontavam para a secessão. De lações externas (A. Bessmertnykh), no novo posto de vice-presidente da
um lado, criavam símbolos típicos de estados-nações, como bandeiras e URSS (G. lanaev), instalavam-se personagens estranhos às perspectivas da
hinos próprios. De outro lado, estabeleciam legislações que garantiam auto- perestroika/glasnost. Ao mesmo tempo, seus aliados mais fiéis, como E.
nomia em assuntos fiscais e culturais, enfatizando sempre que as leis das re- Chevarnadze, ex-ministro de Relações Exteriores, e A. lakovlev, ex-respon-
públicas deveriam primar sobre as da União, num desafio claro às tradições sável pelas questões ideológicas no Partido Comunista, afastavam-se do cen-
centralistas soviéticas. Na Lituânia, num gesto ousado, em março de 1990, o tro do palco, denunciando conspirações golpistas, favoráveis à restauração
Parlamento local proclamou a independência do país. M. Gorbachev reagiu da ditadura do Partido Comunista.
com dureza ao ato e até mesmo líderes políticos ocidentais, como F. A muito custo, conseguiu-se formular a proposta para um novo pacto fe-
Mitterrand e H. Khol, aconselharam prudência aos lituanos. derativo. Teria o nome de União das Repúblicas Soberanas e seria levado a
No Cáucaso, assim como na Ásia Central, generalizava-se uma situação referendo em todas as repúblicas soviéticas.
de guerra civil. As tentativas conciliatórias eram recusadas num contexto de As correntes mais radicais, porém, sobretudo entre as nações não-russas,
massacres de caráter étnico. As contradições radicalizavam-se e pareciam recusavam-se sequer a participar do referendo, preferindo a solução do des-

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O S É C U L O XX C R I S E E D E S A G R E G A Ç Ã O DO SOCIALISMO

compromisso total com a URSS. Na Lituânia, onde o processo independen- mente definido: impostos, jurisdições respectivas, forças armadas, diplomacia,
tista fora mais longe, sucediam-se as manifestações. Em janeiro, choques prevaleciam as declarações genéricas, exprimindo indecisões, divergências.
com tropas especiais enviadas por Moscou resultaram em mortes de manifes- M. Gorbachev parecia desorientado. No plano internacional, seu prestí-
tantes, radicalizando os antagonismos. Gorbachev desautorizou os coman- gio não mais rendia dividendos para seu país. Os investimentos tardavam.
dantes locais, deplorou os excessos e mandou instaurar inquéritos. Os empréstimos pingavam devagar. A ida de Gorbachev à reunião do Grupo
A perestroika aproximava-se do fim? dos 7, reunindo os principais capitalistas do mundo, em julho, foi patética.
Em 17 de março de 1991, afinal, houve o referendo tão anunciado. Mais Inquirido por G. Bush, presidente dos Estados Unidos, como um mau aluno
uma consulta à população. Seis repúblicas não participaram do voto por um severo mestre-escola, não teve forças para se impor. Como se os paí-
(Lituânia, Letónia, Estónia, Geórgia, Moldávia e Arménia). A grande maio- ses mais ricos do planeja já estivessem desconfiando de seu poder real, apos-
ria, 76,4%, votara pela manutenção da União. Mas o voto era carregado de tando numa outra alternativa (B. Yeltsin).
ambiguidades porque, no âmbito de várias repúblicas, como na Ucrânia, Foi então que sobreveio o golpe restaurador.
votou-se também, e também por ampla maioria, em favor da soberania local Aproveitando-se da ausência de M. Gorbachev, em férias no Mar Negro,
e regional, o que relativizava em muito o sim dado à União Soviética. os golpistas o prenderam em sua casa de veraneio, anunciaram que estava
De sorte que, uma vez mais, todas as ilações eram possíveis. enfermo e desferiram o movimento de sua deposição. Em suas declarações,
A Geórgia, por exemplo, proclamou sua independência, em abril de não falavam em nome do socialismo, nem do comunismo, mas na necessida-
1991. O mesmo já fizera a Lituânia, reafirmando sua independência em fe- de de salvar a União.
vereiro, através de um referendo, com 90,5% dos votos favoráveis. Faltou-lhes, contudo, força para alcançar seus objetivos. A cadeia de co-
Foi nesta atmosfera oscilante que se abriram as conversações a respeito mando simplesmente não funcionou. As ordens, recebidas, não eram cum-
de um novo Tratado da União. Um novo pacto, capaz de reconhecer a auto- pridas. B. Yeltsin tomou o comando da oposição, mas nem foi necessário
nomia das repúblicas, porém, mantendo a União. lutar porque o golpe desagregou-se por si mesmo, sem alento, sem organiza-
Foi uma barganha dura. Participaram as três repúblicas eslavas (Rússia, ção e sem consistência. Um fiasco.
Ucrânia e Bielo-Rússia), as cinco da Ásia Central (Turcomenistão, Tadjiquis- M. Gorbachev, liberado, ainda tentou se equilibrar, mas era terrível seu
tão, Casaquistão, Usbequistão e Quirguistão) e a do Azerbaijão, no Cáucaso. desgaste, inclusive porque todos os golpistas eram seus homens de confian-
Formulou-se um texto que agradou a todos mas completamente inócuo. Não ça, ocupando altas posições de mando, nomeados por ele.
seria possível reconstruir uma União em bases tão indefinidas. Acelerou-se o desmoronamento.
Nessa ocasião, em eleições diretas, inéditas na história da URSS, realizadas Às duas repúblicas, que já haviam proclamado a independência (Li-
em junho de 1991, B. Yeltsin foi eleito presidente da República da Rússia, logo tuânia e Geórgia), se seguiram as demais: Estónia (20 de agosto), Letónia (21
no primeiro turno, com 57,3% dos sufrágios. Ao mesmo tempo, aliados seus de agosto), Ucrânia (24 de agosto), Bielo-Rússia (25 de agosto), Moldávia
foram eleitos, também pelo voto direto, prefeitos das principais cidades russas, (27 de agosto), Casaquistão e Quirguistão (28 de agosto), Azerbaijão (30 de
como Leningrado e Moscou. Rapidamente, B. Yeltsin e seus simpatizantes, em agosto), Usbequistão (31 de agosto), Tadjiquistão (9 de setembro), Arménia
decorrência da legitimidade democrática adquirida, começaram a radicalizar (21 de setembro) e Turcomenistão (26 de outubro).
seus propósitos favoráveis à soberania da Rússia. Neste sentido, cabia ao novo Em rápidos movimentos, B. Yeltsin dissolveu o Partido Comunista e o
governo russo exercê-la, em todos os níveis (controle das riquezas, arrecadação KGB, recebendo do Parlamento russo plenos poderes para implementar as
de impostos, política externa, organização das forças armadas etc.). Se o fizes- decantadas reformas.
se, de fato, que poder restaria à União e a M. Gorbachev? No começo de dezembro, os dirigentes das três repúblicas eslavas, reuni-
Em agosto de 1991, afinal, foi possível chegar a um texto de compromisso dos em Minsk, capital da Bielo-Rússia, anunciaram a fundação de uma
sobre uma nova União, renovada. Mais uma vez, contudo, nada ficava clara- Comunidade de Estados Independentes, aberta às repúblicas que formavam

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O S É C U L O XX C R I S E E D E S A G R E G A Ç Ã O DO S O C I A L I S M O

a URSS, sem sequer consultar M. Gorbachev. Em 21 de dezembro de 1991, nos lotes, válidos por quinze anos, prorrogáveis (segundo dados oficiais, 220
em Alma-Ata, capital do Casaquistão, formou-se a Comunidade com 11 ex- milhões de contratos, num universo de 900 milhões de pessoas). Um novo
repúblicas soviéticas. Um comunicado reiterou que a União Soviética deixa- processo de reforma agrária descoletivizou o campo chinês, apostando na
ra de existir. Foram ainda necessários quatro dias para Gorbachev assumir a ambição de lucro e de realização pessoal e familiar dos pequenos campone-
nova realidade e assinar sua renúncia. ses, ainda viva, apesar, ou por causa, dos experimentos (na maior parte, de-
O verdadeiramente inacreditável acontecera: a União Soviética deixara sastrados) de coletivização empreendidos (Pomar, 1987).
de existir. Como resultado, houve um gigantesco crescimento da produção agríco-
la, de 240 milhões de toneladas de cereais, em 1979, para quase 500 milhões
de toneladas (dados de 1997), dinamizando o conjunto da economia. Por
outro lado, e de forma controlada pelo Estado, abriram-se zonas económicas
A CRISE DO SOCIALISMO CONTEMPORÂNEO especiais para o ingresso seletivo de capitais internacionais, promovendo-se
o crescimento industrial e as exportações, além de importação de tecnologia.
A desintegração da União Soviética, que acompanhou a do socialismo na Um ritmo febril de negócios tomou conta do país, acentuado recente-
Europa Central, pôs em evidência uma crise maior: a do socialismo contem- mente pela incorporação de Hong Kong, onde se mantiveram intactas as
porâneo. bases do desenvolvimento económico anterior, do qual, aliás, já fazia parte,
Ela teria outras incidências, afetando as principais propostas e experiên- em larga medida, o Estado chinês.
cias revolucionárias que surgiram no século XX. No plano político, o Partido Comunista manteve firme o comando do
Na China, desde os anos 70, e sobretudo após a morte de Mão Tsé-tung, Estado e da sociedade. Os sucessivos movimentos que pretenderam questio-
em 1976, a preocupação e os debates a respeito do socialismo tenderam a nar esta Ordem foram reprimidos com violência, notadamente o processo
dar lugar à preocupação e aos debates a respeito da modernização e do enri- que levou, em 1989, ao massacre da Praça da Paz Celestial, quando, em
quecimento do país. nome do socialismo, mais uma vez, lutas pela liberdade e pela democracia
A política dita das Quatro Modernizações (da indústria, da agricultura, foram silenciadas com tiros e tanques (Andrade e Favre, 1989).
da ciência e da tecnologia e das forças armadas), sob a direção de Deng Xiao A repressão, passado um momento de constrangimento, quando se fize-
Ping, embora mantendo uma retórica de adesão ao socialismo, e mesmo ao ram ouvir os protestos de praxe, não inibiu os negócios; ao contrário, eles
comunismo, e apesar de reverenciar a pessoa do próprio Mão, na prática, eli- tenderam a crescer e seguem em ritmo ascendente, constituindo a China uma
minou gradual e firmemente todo o legado do maoísmo, enquanto estratégia fronteira económica e geográfica crucial para a atual prosperidade do capi-
de luta revolucionária pela tomada do poder político e enquanto tentativa de talismo internacional.
construção de um padrão próprio de socialismo. O interessante é que o marxismo e o socialismo continuam sendo ritual-
O fracasso do Grande Salto para a Frente (1958-1959) — na verdade, mente invocados por um partido comunista que, na prática, rege o mais fre-
um salto para trás — e as enormes frustrações associadas à Grande Revo- nético desenvolvimento capitalista. A isto as autoridades chamam o socialis-
lução Cultural Proletária (1965-1969) prepararam um terreno fértil para a mo com características chinesas.
descrença nas utopias socialistas e, no mesmo movimento, para o investi- As duas outras experiências socialistas da Ásia Oriental — a Coreia e o
mento em métodos e processos unicamente voltados para o desenvolvimen- Vietnã — também não conseguiram afirmar-se como focos de irradiação de
to económico e para o reforço do Estado nacional. propostas inovadoras. Na Coreia, a longa ditadura pessoal de Kim Il-Sung,
Assim, desde 1979, liquidaram-se as comunas populares, restabelecen- transmitida a seu filho, apresenta como saldo um país faminto e com reduzi-
do-se a família nuclear como unidade de produção básica, com a qual são as- díssima capacidade de sedução política. Já o Vietnã, que galvanizou imensas
sinados contratos de responsabilidade de arrendamento e gestão de peque- esperanças, mobilizando em seu favor a opinião pública internacional duran-

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O S É C U L O XX
CRISE E DESAGREGAÇÃO DO S O C I A L I S M O
te mais de uma década, até a vitória da guerra de libertação nacional, em
1975, não soube, ou não pôde, manter o mesmo nível de solidariedade. Ao drástica de influência. Longe de se beneficiarem da derrota do socialismo so-
contrário, nas guerras travadas contra os vizinhos próximos (China e viético, centralista, estatista e ditatorial, e apesar de todo o esforço em se
Camboja), ou na manutenção de um regime alérgico à democracia, perdeu atualizarem (a tentativa de aggiornamento dos comunistas italianos), pro-
progressivamente a capacidade de entusiasmar, que era sua marca registrada pondo-se a encarnar um socialismo plural e democrático, os eurocomunistas
enquanto viveu o grande líder revolucionário nacional Ho Chi Minh. tenderam a se enfraquecer, e até mesmo a desaparecer como alternativa ali,
No outro extremo do mundo, a revolução cubana, depois de incendiar as onde chegaram a adquirir força nos anos 60 e 70.
Finalmente, as correntes social-democratas, antigas rivais, desde os anos
imaginações, e de ter se convertido num território onde disputavam-se a ou-
20, sempre denunciando as derivas ditatoriais do socialismo soviético, passa-
sadia e a originalilidade, sobretudo ao longo dos anos 60, tendeu a perder au-
ram por um processo de crescente dissociação em relação ao socialismo
tonomia no quadro de uma aliança cada vez mais dependente com a URSS.
(Przeworski, 1989). Na prática, abandonaram-no como perspectiva, aproxi-
Nos anos da perestroika, percebendo a hipótese da falência que se avizi-
mando-se, gradativamente, das correntes liberais, adotando seus padrões de
nhava, o socialismo cubano recobrou uma certa vitalidade, enfatizando as
política económica, formando com elas alianças que até hoje perduram e das
tradições e as características nacionais (Bandeira, 1998). Entretanto, num
quais são expressão todos estes partidos social-democratas atualmente exer-
quadro de circunstâncias extremamente desfavoráveis, o país teve que se
cendo o poder em países europeus, mas que não ameaçam, nem teórica, nem
abrir para o capital internacional, para o turismo e para o dólar, e para as
praticamente, a ordem capitalista.
práticas e os valores associados — o câmbio paralelo, a prostituição, o arri-
E assim, neste fim de século XX, inícios de um novo século, as revoluções
vismo e os pequenos tráficos. Como na China, o Partido Comunista tenta se-
que assaltaram os céus, e desafiaram o capitalismo, empreendendo a cons-
gurar o rumo, mantendo e reforçando a estrutura centralizada e ditatorial do
poder, apesar de algumas aberturas parciais. trução de modelos alternativos, desagregaram-se (URSS e Europa Central),
evocam apenas ritualmente o socialismo (China), abandonaram-no comple-
A resistência cubana tem algo de patético, consideradas as desproporção
de forças e falta de alternativas imediatas. Mas conserva também um caráter tamente como proposta (correntes social-democráticas) ou, no limite, encon-
tram-se numa resistência desesperada, mais associada à luta pela sobrevivên-
épico, a dignidade desse pequeno povo, muito maior do que as suas circuns-
tâncias, desafiando as armadilhas do destino. cia nacional-estatal (Cuba) do que a efetivas promessas socialistas.
Não é possível, entretanto, negar o impacto que tiveram na aventura hu-
Não escaparam do terremoto que desagregou o socialismo soviético nem
mana do século que está terminando. E talvez a melhor maneira de avaliar as
mesmo as correntes socialistas que lhe moviam oposição.
suas chances de futuro seja efetuar um balanço de suas heranças, construti-
As mais radicais, decididas a um enfrentamento aberto contra o capita-
vas e destrutivas.
lismo, como os trotskistas e os conselhistas, sem falar das diversas tendências
anarquistas, esperavam prosperar à sombra da crise, ou do fim, do socialis-
mo soviético. Nunca imaginaram, na perspectiva de que o mundo marchava
para a frente, e para o auto-aperfeiçoamento, que o socialismo soviético pu-
AS AMBÍGUAS HERANÇAS DO SOCIALISMO QUE REALMENTE EXISTIU
desse evoluir para o capitalismo. Entretanto, no contexto da crise geral de
confiança na alternativa socialista, viram os seus já reduzidos contingentes
O socialismo foi decisivo para a destruição do nazismo. Sem a URSS, a his-
estreitarem-se ainda mais.
tória da humanidade, dominada pela besta nazista, poderia ter sido radical-
Num outro extremo, os eurocomunistas, que defendiam propostas de
mente diferente.
uma transição pacífica e institucional para o socialismo, e que chegaram,
Pode-se dizer o mesmo dos impérios coloniais europeus. Sem a retaguarda
num certo momento, a ganhar projeção, sobretudo em alguns países da
soviética, política, militar, diplomática, moral, seria impensável a sua desagre-
Europa Ocidental (Itália, Espanha e França), também registraram queda
gação, pelo menos na velocidade em que se verificou.

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O SÉCULO XX
C R I S E E D E S A G R E G A Ç Ã O DO S O C I A L I S M O

As referências socialistas também seriam de capital importância para a capitalismo. Seus valores mais centrais — igualitarismo, solidariedade, coope-
constituição das correntes nacional-estatistas na América Latina, na Ásia e ração, coletivismo —, além do fato de que não eram levados a sério pelas pró-
na África. Mais ou menos revolucionárias, elas foram muito importantes na prias elites socialistas, acabaram associados à ineficiência e à ditadura.
afirmação das soberanias nacionais, na modernização das economias e no es- Talvez esteja aí — no enfraquecimendo de seus valores — um dos aspec-
tabelecimento de alianças com os interesses dos trabalhadores urbanos. tos centrais do declínio do socialismo neste fim de século. Enquanto não for
O Estado do bem-estar social (welfare state), basicamente construído após possível extrair de suas ambíguas heranças uma reatualização destes valores,
a Segunda Guerra Mundial, embora já esboçado no período entre as duas será difícil imaginar o renascimento do socialismo.
Guerras (Constituição de Weimar, Frente Popular na França etc.), e que aten-
deu às demandas históricas dos trabalhadores, sobretudo na área da Europa
Ocidental, deveu-se também, e amplamente, à existência do socialismo soviéti-
co e seus congéneres. A ameaça vermelha aconselhava à prudência e às conces- BIBLIOGRAFIA
sões. Em determinadas circunstâncias, mais valia perder os anéis do que os
dedos, ou a cabeça. Andrade, M. e Favre, L. 1989. A Comuna de Pequim. São Paulo, Busca Vida.
Finalmente, e apesar de todos os pesares, os regimes socialistas, frequen- Bandeira, L. A. M. 1998. De Marti a Fidel. A Revolução Cubana e a América Latina. Rio
temente, foram capazes, internamente, de afirmar a soberania das sociedades de Janeiro, Civilização Brasileira.
sob sua orientação, de modernizar as respectivas economias e de melhorar, às Blackburn, R. (org.). 1992. Depois da queda. São Paulo, Paz e Terra.
vezes substancialmente, os padrões das condições de vida e de trabalho de Dreifuss, R. 1997. A época das perplexidade!. Petrópolis, Vozes.
seus habitantes. Féron, B. 1995. La Russie, espoirs et dangers. Paris, Lê Monde/Marabout.
Gorbachev, M. 1987. Perestroika. Rio de Janeiro, Best-Seller.
Como heranças destrutivas, o socialismo deixou, sem dúvida, um rastro Gorender, J. 1992. Origens e fracasso da perestroika. São Paulo, Atual.
de intolerância. A negação das liberdades e do pluralismo, a cultura do cen- Lewin, M. 1988. O fenómeno Gorbachev. Rio de Janeiro, Paz e Terra.
tralismo e da ditadura, se, por vezes, pôde ser legitimada em face do cerco e Orwell, G. 1984. 1984, São Paulo, Ática.
das ameaças dos países capitalistas, nem sempre correspondeu a situações de Pomar, V. 1987. O enigma chinês: capitalismo ou socialismo. São Paulo, Alfa-ômega.
perigo iminente. Ao contrário, o que se verificou, constantemente, foi que o Przeworski, A. 1989. Capitalismo e social-democracia. São Paulo, Companhia das Letras.
socialismo tendeu a apertar os laços do constrangimento e da repressão na Reis Filho, D. 1997. Uma revolução perdida. São Paulo, Fundação Perseu Abramo.
medida mesma da força que adquiria. O que autoriza a hipótese de que a in-
clinação ditatorial-repressiva esteja ligada, de certo modo, a algumas de suas
referências fundadoras (a política como ciência, o messianismo operário, as
vanguardas iluminadas etc.).
O fato é que as ditaduras passaram a ser consideradas intoleráveis, prin-
cipalmente ali, onde o socialismo formou sociedades mais complexas, ins-
truídas e urbanizadas, como no caso da URSS.
Do mesmo modo, se o estatismo centralista jogou papel dinâmico no
processo da decolagem modernizante, ele se revelaria particularmente inca-
paz de assegurar ritmos ascendentes de desenvolvimento em sociedades mais
sofisticadas.
Num plano mais geral, o socialismo que realmente existiu não foi capaz,
historicamente, de construir e de gestar uma alternativa ética, convincente, ao

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A questão nacional no mundo
contemporâneo
Marco António Pamplona
Professor adjunto de História da América
da Universidade Federal Fluminense
Professor associado de História da América
da Pontifícia Universidade Católica-RJ
Podemos dizer que a globalização tornou o Estado-nação obsoleto? Ou, ao
contrário, devemos afirmar que ódios nacionalistas (isto é, as atitudes de
ódio justificadas pelo nacionalismo de diferentes tipos) estão inviabilizando
a atual tendência ao cosmopolitismo? Eis duas perguntas feitas hoje, com
frequência, a respeito do nosso tópico.
Na Europa, considerada por muitos o "continente-berço" da moderna
sociedade ocidental, tem-se observado nos últimos anos o surgimento de
uma sólida entidade supranacional — a Comunidade Europeia (CE) —, cuja
continuidade e importância contribuem para reforçar o argumento de que
esse nosso fim de século caracteriza-se pela crescente fragmentação das cha-
madas soberanias políticas nacionais. Simultaneamente, temos assistido,
com a "implosão" do "Império Soviético" nos anos 90, ao surgimento de
uma "nova geração" ou leva de Estados-nações bastante diferenciados da-
queles que emergiram ao longo das lutas anticoloniais que marcaram a
África e a Ásia entre os anos 40 e 70 deste nosso século. O movimento que
ora presenciamos parece-nos sugerir a possibilidade de uma sobrevida —
não sabemos por quanto tempo — do antigo modelo de Estado-nação.
; í Somam-se a esta última tendência as lutas pela soberania política do Tibete e
do Timor Leste, as demandas da Escócia de um parlamento próprio, o cla-
mor das vozes separatistas e das identidades étnicas em guerra na antiga
Jugoslávia e as múltiplas unidades nacionais que, mesmo em potencial, pude-
ram emergir com sua fragmentação.
Não seria exagero, pois, afirmarmos que o nacionalismo tem sido um
componente-chave da modernidade, um instrumento crucial para conferir
sentido às sociedades contemporâneas, marcadas pela impessoalidade, gran-
de heterogeneidade e em rápida transformação. Em uma primeira aproxima-
ção, pode-se caracterizar o nacionalismo, grosso modo, como um "sentimen-
to de identidade coletiva", ou de entendimento comum e partilha de valores,
experimentado entre pessoas que, como bem afirma Benedict Anderson
(1991), talvez nunca se encontrem ou se conheçam, mas estão persuadidas de

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A QUESTÃO NACIONAL NO MUNDO C O N T E M P O R Â N E O
O S É C U L O XX

que pertencem todas a uma dada "comunidade de espíritos irmanados". Sem a escolha do conjunto de símbolos e demais elementos — lugares sagrados,
este peculiar sentimento de identidade e pertença coletiva, dificilmente poder- paisagens, monumentos, heróis etc. — que, com o tempo, mostrar-se-iam es-
se-ia começar a falar dos grandes Estados integrados cuja existência acompa- senciais para a criação de uma memória coletiva que tivesse como objetivo le-
nhou o desenvolvimento da modernidade ocidental. gitimar a presença de determinados grupos hegemónicos em uma dada socie-
Historicamente, o nacionalismo apresentou-se sob uma grande variedade dade. Eles contribuíram, enfim, para o que se convencionou chamar, muito
de formas. Ao longo do século XIX, por exemplo, quando esteve a serviço de apropriadamente, de "invenção das tradições" (Hobsbawm e Ranger, 1984).
programas políticos variados, podia ser considerado revolucionário ou conser- O segundo momento compreendeu, de acordo com Hobsbawm, a maior
vador, buscar romper com o passado ou mesmo lutar pela permanência dos parte do século XIX. Nele, vê-se como a retórica nacionalista já desenvolvida
vínculos entre a tradição e a autoridade. Adeptos da secularização ou do sin- pode dar margem ao surgimento de movimentos mais estrita ou genuinamen-
cretismo que retinha tradições religiosas, os movimentos nacionalistas servi- te políticos. Isto é, algumas daquelas vanguardas intelectuais teriam já se poli-
ram igualmente a uma multiplicidade de propósitos: alguns, integradores e tizado e o discurso nacionalista se tornado indissociado da questão do Estado.
unificadores; outros, separatistas e disruptivos. Em diferentes tempos e luga- A militância dessas elites políticas teria acompanhado o processo de formação
do Estado nacional moderno e, conseqúentemente, de sua base territorial. O
res, esses movimentos iriam assumir ora o caráter de elite, ora o de massa.
surgimento de muitas unidades políticas contemporâneas, quer nas Américas
Pensando apenas o mundo ocidental e, mais especificamente, a velha
Europa, alguns ousados autores arriscaram uma cronologia aproximada do quer na Europa, remete-nos, pois, a esse "longo" tempo oitocentista.**
O terceiro momento mencionado (mas não o último, como já afirma-
desenvolvimento desses nacionalismos. Segundo a sugestão do historiador
mos) teve início em fins do século XIX e estendeu-se ao longo do século
Eric Hobsbawm (1991), por exemplo, pode-se destacar três importantes mo-
mentos ao longo desse desenvolvimento. O primeiro deles remete-nos ao fim atual, pelo menos até o começo dos anos 80. Trata-se do momento em que o
nacionalismo assumiu, segundo Hobsbawm, o caráter de movimento de
do século XVIII e às décadas iniciais do XIX. Profundamente marcado pelas
massa. A propaganda política passou a fazer uso da tecnologia e dos meios
duas grandes revoluções da modernidade — a americana e a francesa —, esse
de comunicações desenvolvidos e permitiu ao nacionalismo generalizar-se de
momento teria correspondido à constituição, enquanto ideia, daquela dita
tal modo que, em alguns casos, o fez confundir-se com a própria cultura po-
"comunidade de espíritos irmanados", que tão bem se faz sentir nas diferen-
lítica das sociedades em que foi gestado. Assim, em se tratando quer da as-
tes expressões do romantismo na pintura e artes plásticas e povoa a literatu-
censão dos fascismos europeus no primeiro pós-guerra, quer da emergência
ra, a história e a filosofia modernas. A construção dessa comunidade "imagi-
de um mundo bipolar no segundo pós-guerra, não seria exagero afirmar que
nada" encontrar-se-ia, nesse primeiro tempo, associada aos movimentos de
a retórica nacionalista mostrou-se extremamente eficaz como fenómeno de
artistas e literatos. Essas vanguardas intelectuais mostraram-se, quase sem-
pre, bastante preocupadas com o vernáculo falado e escrito, ocupando-se por massa em ambos os casos.
Entretanto, a partir das décadas de 1980 e 1990, simultaneamente ao
isso da definição de normas que melhor permitiriam demarcar a sua singula-
fim da Guerra Fria, desmoronaram certos paradigmas da modernidade até
ridade — isto é, o idioma nacional. * Foram eficazes também no que se refe-
re à recuperação do folclore, da história e das tradições locais. Foram esses
intelectuais os que, de forma pioneira, organizaram as fontes necessárias para ** Cabe lembrar que nas Américas esse considerado "segundo momento", identificado
com vanguardas políticas, coincidiu com o "primeiro", identificado com vanguardas
ditas literárias. Entre nós, ambos os papéis couberam, com frequência, aos mesmos pro-
tagonistas, não ocorrendo, pois, uma clara distinção entre os dois momentos menciona-
* Observe-se, a esse respeito, que também entre nós, nas Américas, coube ao romantismo,
dos por Hobsbawm. Em suma, a luta pela soberania política nas regiões libertadas do
aos seus literatos, filólogos e lexicógrafos, tal demarcação de singularidade do idioma, dife-
renciando, assim, o inglês americano, o português falado no Brasil e o castelhano falado em jugo colonial fez com que a tarefa de organização de um novo Estado independente tor-
diferentes regiões na América Latina dos respectivos idiomas herdados de suas metrópoles nasse mais importante os argumentos naquele sentido do que aqueles outros, referentes
no passado. mais diretamente à construção da nação.

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então tidos como absolutos. Em meio a uma tal crise de certezas, o mito do tista, bem como a importância do consenso progressivamente construído em
Estado-nação passou a ser questionado também. torno da identificação do Terceiro Estado com a nação, no século XVIII, em
Para explicar uma tal mudança cabe fazermos algumas considerações especial durante os anos que precederam a Revolução Francesa.
sobre o conceito de nação e os diferentes significados que lhe foram atribuí- No contexto da modernidade, pois, o termo nação viu-se bastante trans-
dos historicamente. O conceito irá tornar-se, assim, relativizado e a nação formado. Após as revoluções modernas, terminou a exclusividade da Adels-
deixará de ser vista como algo dado a priori. Poderemos nos indagar melhor nation, ou nação da nobreza. Junto a ela cresceu a Volksnation, ou nação do
a respeito daquela sua aparente universalidade e da eficácia política que sem- povo. Mas, para que esta última e importante transformação ocorresse,
pre lhe vinha atribuída. Posteriormente, em função da vital importância de dando lugar ao terceiro significado do termo — isto é, nação como sinónimo
se rediscutir o significado do conceito hoje, caberá analisarmos os impasses de povo e de direitos, não mais de privilégios —, foi necessária uma mudan-
enfrentados pelo estado-nação em um cenário contemporâneo crescentemen- ça de mentalidades ou do próprio modo de pensar da maioria da população.
te "globalizado", onde, paradoxalmente, também o localismo vem sendo re- Sob a ação da propaganda nacionalista de intelectuais e académicos e de van-
vitalizado. Vejamos. guardas políticas, mobilizaram-se alguns setores letrados das classes médias
Em primeiro lugar, falemos do conceito em si. De acordo com o eminen- urbanas, antes dessa ideia assumir maior ressonância entre as massas. Ao
te filósofo contemporâneo Jiirgen Habermas (1996, p. 282), há muito per- longo do século XIX, essa nova forma de auto-entendimento da nação se de-
deu-se o uso clássico atribuído pelos romanos à expressão latina natio, que, senvolveu com vigor. Entretanto, a própria particularidade da experiência de
tal como a gens, apresentaVa-se diferente da ideia de civitas ou de comunida- cada nação — isto é, sua identificação a um determinado povo ou comuni-
de política. Em outras palavras, as nações foram inicialmente concebidas na dade política que partilha entre si determinados direitos — contribuiria
cultura latina como comunidades de pessoas de uma mesma ascendência, igualmente para afastar todas as coisas consideradas estrangeiras, rebaixar
que ainda não se encontravam integradas à forma política do Estado, mas os demais Estados-nações e discriminar ou excluir minorias nacionais, de
que eram mantidas juntas apenas por condições decorrentes do "povoamen- base étnica e religiosa, especialmente os chamados "povos de cor" e os ju-
to" ou ocupação do território, pela linguagem comum, costumes e tradições. deus. Perigosamente, desde o fim do século XIX, esse novo entendimento
Um segundo e igualmente importante significado histórico do termo este- tomou a imaginação das massas. De forma paradoxal, um conceito "políti-
ve referido à ideia de Adelsnation, ou nação da nobreza. Aqui, Habermas tem co" já transformado de nação emprestou de sua velha forma "pré-política"
em mente o período da Alta Idade Média na Europa Ocidental, onde nação algumas conotações — em especial aquela que se refere à habilidade de gerar
tornara-se sinónimo de Stãnde, ou privilégios. No sentido político, os Stãnde estereótipos. Associados à nação enquanto conceito de origem, estes estereó-
eram baseados em contratos ou acordos entre os nobres (como no caso da fa- tipos contribuiriam, no mais recente contexto da modernidade, para propi-
mosa Magna Carta), nos quais o rei ou imperador, que dependia de impostos ciar novas e mais numerosas exclusões.
e de apoio militar, garantia privilégios à aristocracia, mas também à Igreja e Ainda que de diferentes modos, a construção das nações modernas e a
às cidades — isto é, garantia-lhes uma participação limitada no exercício do formação dos Estados modernos, dois processos independentes, puderam
poder político. Estas instâncias corporativas, depois chamadas "Estados convergir. No Norte e Oeste da Europa, por exemplo, as nações desenvolve-
governantes", passaram a se reunir em parlamentos ou dietas. Tais "Estados" ram-se em territórios previamente delimitados. Na Europa Central e
representavam efetivamente o "país" ou a "nação", em oposição à Corte. Ao Oriental, a definição da base territorial foi precedida da difusão de uma ideia
tornar-se "nação", a aristocracia ganhava uma existência política que a sim- de nação cristalizada em torno de línguas, culturas e histórias comuns. Em
ples condição de Corte não lhe podia garantir. E, sabemos, da condição de ambos os casos, podemos dizer que os resultados revelaram-se mais integra-
"nação", certamente não desfrutava a massa da população, composta de "sú- dores que disruptivos. Assim, os habitantes de um mesmo território passa-
ditos privados". Isto explica a importância atribuída à palavra de ordem ram a partilhar o sentimento de pertença a uma mesma comunidade política
"King in Parliament" à época da Revolução Gloriosa, na Inglaterra seiscen- — república ou monarquia parlamentar. A identidade nacional vinha cons-

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truída, naquele momento, não apenas em torno de uma história comum, lín- O movimento tendencial — não absoluto — que se convencionou cha-
gua ou cultura, mas também e sobretudo em torno do sentimento de respon- mar "globalização" implica a divisão internacional do trabalho emergente,
sabilidade política para com o outro, vivenciado naquela dada comunidade. em que barreiras de comércio desaparecem em grande medida e mercadorias
Cidadãos começavam a perceber-se como parte de um "mesmo todo" defini- e trabalho passam a mover-se mais livremente entre os continentes. Esta
do em termos legais, isto é, de uma dada ordem política crescentemente ins- mesma transformação tendencial conduziu, no plano da cultura mais parti-
titucionalizada. cularmente, ao colapso de inúmeras antigas tradições e valores religiosos em
Hoje, cabe perguntar-se o que mudou nesse quadro. Sabe-se que, desde o diversos cantos do mundo. Ao longo desse movimento — chamado por al-
início de seu desenvolvimento, nem a economia capitalista nem a cultura mo- guns autores de "mundialização" (Ortiz, 1996) — as pessoas vêem-se com-
derna se deixaram constranger efetivamente pelas fronteiras ditas nacionais pelidas a separar antigas práticas e crenças de seus contextos prévios ou ori-
então existentes. Transnacional desde o começo, o capitalismo esteve identi- ginários, a incorporar a diversidade do "outro" (culturas, povos, modos de
ficado à livre circulação de capital e força de trabalho. Mesmo na fase em vida etc.) em suas próprias auto-imagens e relações sociais cotidianas
que fortes políticas protecionistas nacionais acompanharam a industrializa- (Featherstone, 1990, e Smith, 1996). Nesse novo contexto, seus passados ét-
ção de algumas regiões do globo — como entre 1880 e 1945 —, o capital fi- nicos são atualizados e as antigas culturas fragmentadas são remodeladas.
nanceiro permaneceu transnacional. De igual alcance e difusão mostraram- Assim como a dupla face de Janus, o quadro contemporâneo apresenta
se muitos dos artefatos culturais difundidos com o capitalismo. Assim, hoje, sua imagem reversa, isto é, aquela outra que parece menos integrar e mais
a condição de cristão, europeu, ocidental e branco não se encontra restrita à desagregar. Presencia-se, pois, o aumento e a proliferação de todos os tipos
França, Inglaterra, Espanha ou a qualquer outro país europeu. Dentre os ar- de movimentos sociais e protestos em que identidades particulares costumam
tefatos culturais mais difundidos transnacionalmente no século XIX, pode- ser reivindicadas — do feminismo ao movimento ecológico, dos movimentos
mos destacar o movimento do romantismo, o romance realista, o estilo vito- pelos direitos civis aos revivalismos religiosos. Assiste-se, em especial, ao
riano de mobiliário, a orquestra sinfónica, a ópera e o bale e o modernismo nascimento de novos nacionalismos étnicos, acompanhados por vezes de
nas artes em geral. No século XX, pode-se dizer que se tornaram dignos de fundamentalismos religiosos ou de antagonismos de grupos que se acredita-
nota as novelas de televisão, o jeans, o rock'n'roll, a arquitetura pós-moder- va estivessem há muito enterrados. Em suma, são numerosos os protestos ét-
na, os microcomputadores domésticos etc. Hoje, é correto afirmar que a cha- nicos pela autonomia e secessão, as guerras de irredentismo nacional e os
mada soberania nacional mantém-se atravessada tanto pela economia quan- conflitos raciais explosivos articulados à disputa sobre mercados de trabalho
to pela cultura transnacionais. A profecia da "aldeia global" de McLuhan ou às demandas de uma melhor condição social. Manifestações desse tipo
vem sendo confirmada permanentemente pela generalização dos meios de têm proliferado em todos os continentes.
transporte de massa e de comunicação eletrônica. Certos símbolos, como o Daí o desafiante paradoxo contemporâneo: em uma era de reconhecida
logo da Coca-Cola, e mesmo certas imagens públicas, como a de Lady Di, . e irrefreável tendência à globalização e transcendência, encontramo-nos, si-
tornaram-se universais, ainda que, neste último caso, por um breve tempo e multaneamente, em meio a um turbilhão de conflitos sobre identidades polí-
com um trágico fim. ticas e fragmentação étnica. Hoje, a índia, o Cáucaso, os Bálcãs, o Chifre da
Em outras palavras, somos lembrados de forma constante que o mundo África e a África do Sul são conhecidos cenários desses conflitos sangrentos.
em que habitamos tornou-se menor e mais integrado. Em todos os lugares, Sabe-se, entretanto, que também em sociedades afluentes e, talvez considera-
vínculos bastante estreitos são forjados entre as economias e as sociedades. das por isso, equivocadamente, mais estáveis — como as do Canadá, Grã-
Estados e nações inicialmente independentes e politicamente soberanos Bretanha, Bélgica, Espanha, França, Itália e Alemanha — os tremores e te-
vêem-se crescentemente interligados por uma complexa rede de organiza- mores causados pelos movimentos étnicos ampliados, pelo racismo e nacio-
ções e regulamentos interestatais que acaba transformando-os em uma ver- nalismo xenófobos, são sentidos por todos periodicamente.
dadeira "comunidade internacional". Sob vários aspectos, podemos nos considerar, ainda hoje, tributários da

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construção desse conceito de nação na modernidade. Enquanto elaboração luta, para os próximos anos. Enfim, hoje podemos facilmente imaginar um
do presente que evoca um passado, a formulação do conceito de nação apre- outro pequeno grupo de Estados-nações surgindo aqui e ali: Tibete, Timor
senta-se como praticamente universal. Isto é, quaisquer que sejam os crité- Leste, Porto Rico, Assam, Escócia (com a discussão sobre um Parlamento es-
rios utilizados para defini-la, ninguém mais se espanta com a existência das cocês) e outros. Mas, enquanto processo global e geral, parece-nos que, pro-
nações no nosso dia-a-dia, da mesma forma como ninguém admite mais a vavelmente, este tipo de tendência pode estar chegando ao fim. Temos, hoje,
existência de indivíduos sem nacionalidades. Entretanto, em que pese a uni- cerca de pouco mais de 200 Estados-nações e não parece que tenhamos mui-
versalidade dessa sua formulação, a realização da nação necessita ser sempre tas chances de chegar a 300 Estados-nações no século vindouro.
particularizada — isto é, uma nação jamais poderá se confundir com outra. Percebe-se já uma certa 'estabilidade'. Devemos perguntar-nos por quê.
Colombianos, irlandeses, brasileiros, franceses etc. guardam, todos, caracte- Que significado podemos atribuir a esta "estabilização"? Como a prolifera-
rísticas particularíssimas — quaisquer que sejam —, tidas como essenciais ção de nações e a "estabilização" podem se relacionar em meio à tendência
para a definição de cada um deles. É essa singularidade da "realização do globalizante do sistema económico capitalista mundial? Todos vivemos, ainda
conceito de nação" que aparece, talvez, como a grande responsável pela sua hoje, em sociedades definidas como nacionais, que devem sua identidade à
utilização política, considerada bastante eficaz. Dito de outro modo, é em unidade organizacional dos chamados Estados modernos — ou seja, às comu-
nome dessas "nações realizadas" que se fazem muitas das guerras contempo- nidades políticas de que fazemos parte, as quais definem-se em sua maior
râneas. Esses os nacionalismos que contribuem para justificar macabras parte ainda em termos nacionais, não obstante a globalização. Mas há tam-
"limpezas étnicas", realizadas tanto em tempos de guerra como de paz. Tal bém uma outra e segunda ordem de perguntas. Afinal, por que se torna razoá-
utilização política ampliada da ideia de nação destoa bastante da própria cla- vel suspeitar — como o fazem certos autores — que a trajetória do Estado-
reza analítica do conceito, e dos atributos diversificados que pode receber em nação clássico esteja se aproximando do fim? Em que medida esse "modelo"
qualquer época que seja pensado. e suas possibilidades foram já exauridos?* Em que medida instituições que se
Entre os desafios contemporâneos do cenário mundial em transformação percebem possuidoras de algum papel ou responsabilidade na promoção da
encontra-se, sem dúvida, a questão das novas identidades nacionais. Este
paz e segurança coletivas — como, por exemplo, a ONU — se baseiam ainda
"breve século XX" — como o caracterizou Eric Hobsbawm — viu-se marca-
na velha fórmula "a cada Estado uma nação e a cada nação um Estado"?
do por uma "nova hegemonia internacional" do Estado-nação. Desde o iní-
Impossível tratar dessas e de outras perguntas sem uma breve reflexão
cio, deve-se lembrar, a formação da Liga das Nações deu-se na esteira do co-
prévia sobre os entendimentos e tratamentos que vêm sendo conferidos ao
lapso dos Impérios dos Habsburgos, dos Hohenzollern, dos otomanos, dos conceito de Estado-nação, hoje. A literatura que contempla o tema é bastan-
Romanov e dos Ch'ing — sendo os dois últimos impérios de dimensões con- te diversificada, como já notamos, e incorpora referenciais teóricos diversos.
tinentais. Mais tarde, com o crescimento das Nações Unidas (ONU), seria Das muitas definições correntes, recuperemos aquela proposta por Benedict
atingido um número de filiados superior em quatro vezes ou mais ao dos an- Anderson: a nação como "comunidade política imaginada", "limitada" e
tigos representantes da Liga das Nações. No pós-45, assistiu-se igualmente ao "soberana". Comunidade porque, independentemente das desigualdades e
colapso de impérios transoceânicos, como os dos britânicos, franceses, portu- heterogeneidades que existem em todas as sociedades — relativas a clivagens
gueses e japoneses. Em tempos mais recentes, a União Soviética e a lugoslávia de classe, raciais, étnicas, político-partidárias ou religiosas —, toda nação é
viram-se profundamente cindidas, dando origem, cada qual, a grande núme- sempre pensada como a expressão de algum tipo de camaradagem ou compa-
ro de novas unidades nacionais, ao menos em potencial. E, em que pese a pre-
sente euforia em Pequim sobre a reincorporação de Hong Kong, é bastante
pouco provável que a antiga China Imperial, que incluía no passado tanto a * Estas e outras perguntas surgiram na palestra proferida por Benedict Anderson, "Sobre
as promessas do Estado-nação para o século XXI", durante o Seminário "A crise dos pa-
Mongólia como Taiwan, possa vir a ser recriada; ou mesmo que a integrida-
radigmas e os desafios do século XXI", realizado no Auditório da Universidade Cândido
de da atual República Popular da China possa ser garantida de forma abso- Mendes, em junho de 1997.

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nheirismo entre os seus integrantes. Essa espécie de sentimento de "comu- Vejamos alguns exemplos marcantes desse processo, nos tempos em que
nhão" povoa a imaginação de seus integrantes, encontrem-se estes dispersos vivemos. O último grande surto de criação de Estados-nações que marcou os
no espaço (as nações da diáspora) ou distantes no tempo. A possibilidade dos anos 90 esteve referido ao desmembramento de um Estado que dera conti-
integrantes de populações de diferentes regiões sentirem-se todos irmanados nuidade no passado às dimensões territoriais e políticas daquele que fora o
de alguma forma (ainda que por breves momentos, como durante um jogo último grande império colonial europeu. O fim da URSS em 1991 transfor-
decisivo de Copa do Mundo), especialmente em um país de dimensões conti- mou as 15 repúblicas soviéticas em países independentes de uma hora para
nentais, expressa esse sentimento. Igualmente demonstrado, tal sentimento outra e desencadeou um conjunto de problemas para os seus povos, em meio
está na relação entre gerações no interior de um mesmo Estado-nação. Afinal, a deslocamentos económicos bruscos, estruturas políticas enfraquecidas, ten-
o que faz com que nos sintamos responsáveis para com as gerações futuras ou sões étnicas e conflitos armados. Como parte integrante desse conjunto de
devedores para com as gerações passadas, quando nos deparamos com a imi- problemas sobressai o nacionalismo, assumindo por vezes formas excessiva-
nência de uma guerra em que "nossa" nação está envolvida? Em todos esses
mente violentas.
casos, a comunidade permanece imaginária. Mas, nessa condição, com enor-
Aumentando a insegurança em relação à questão nacional agora enfren-
me eficácia, promove ações reais. A grande maioria desses nossos co-nacio-
tada, está o fato de que, no passado — e isto também ocorreu em boa parte
nais ignora a nossa existência, assim como nós nunca conheceremos pessoal-
do Terceiro Mundo, especialmente na África —, as fronteiras existentes ha-
mente esses nossos "irmãos". Enfim, quanto ao fato de ser limitada e sobera-
viam sido desenhadas pelo poder imperial, não para refletir diferenças étni-
na, pode-se dizer o seguinte. Em primeiro lugar, toda nação é idealmente li-
cas e nacionais reais, mas sim para atender a sua conveniência. Tais frontei-
mitada por fronteiras, sejam estas territoriais ou da imaginação, e nenhuma
nação jamais teve como pretensão englobar toda a humanidade. Até porque ras artificiais apenas exacerbaram as relações entre os diferentes grupos étni-
sua própria identidade como nação supõe a existência de outras nações igual- cos. Muitas repúblicas da União continham duas ou mais nacionalidades
mente demarcadas territorialmente. Em segundo lugar, toda nação é, por de- que, historicamente, possuíam relações complicadas. Ademais, não raro, vá-
finição, soberana porque, idealmente, não se subordinaria a desígnios a ela rios segmentos de uma nacionalidade viam-se divididos entre uma ou mais
exteriores ou a imposições advindas de outras formas de organização de repúblicas, de modo a fazer valer mais uma vez o velho lema do "dividir para
poder — como no caso dos impérios dinásticos multiétnicos ou das religiões melhor governar".
que se pretendiam universais, a exemplo do catolicismo medieval. Sabemos que o nacionalismo do passado, isto é, do que foi uma vez a
A grande vantagem desta definição de Benedict Anderson, brevemente União Soviética, não constituiu efetivamente um fenómeno homogéneo. Seu
expressa acima, é que nos permite um rompimento radical com a ideia de caráter e sua intensidade variaram entre os diferentes grupos étnicos e tam-
que a nação é "natural" ou é algo dado a priori. Porque apresentada quase bém no interior destes. Entretanto, nos últimos tempos, foram os movimen-
sempre como uma característica quase "inata do ser humano" — como diria tos nacionalistas de base étnica os que cresceram mais rapidamente. Suas
Gellner (1993, pp. 18-19) — (todos os homens dizem ter uma nacionalida- propostas são bem variadas: buscam território, independência política ou
de), esta qualidade "natural" costuma ser interiorizada sem maiores discus- autonomia, avanço ou melhores condições de vida para o seu grupo e uma
sões. Anderson e outros autores mais recentemente enfatizaram o caráter de série de outras demandas afins, geralmente a expensas de outros povos.
construção histórica do conceito — levando-nos a refletir sobre as condições Por isso, temos diversos exemplos de nacionalistas em Estados vizinhos
e os agentes históricos dessa construção, sobre os momentos, enfim, em que reivindicando um mesmo território. A Arménia e o Azerbaijão, duas repúbli-
tal imaginação se realiza como vontade política. cas em guerra de disputa territorial pela região de Nagorno-Karabakh, já es-
As ideias de nacionalidade foram criações conscientes de grupos de pes- tavam envolvidas nessa luta quatro anos antes de se tornarem independentes.
soas determinadas, que as elaboravam e revisavam em diferentes momentos, A Península da Criméia, outro território violentamente disputado, constituía
de forma a poderem conferir novos sentidos a um dado universo de práticas um principado ou canado (governado por um cã) muçulmano independente,
sociais e políticas de que partilhavam (Miller, 1995, p. 6). até ser conquistada pela Rússia no século XVIII. Após a Revolução

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Bolchevique tornou-se parte da República Russa e com ela permaneceu até Mas retomemos o paradoxo contemporâneo em torno do conceito de
1954, quando Kruchev transferiu-a para a Ucrânia, como presente. Quando nação. Sabemos que a nação é exclusiva e particular por definição. É sempre
a Ucrânia tornou-se independente, em 1991, os nacionalistas russos insisti- reconhecida por não ser outra nação. E, sob esse aspecto, ela é, por definição,
ram fortemente para que a península fosse devolvida à Rússia. Antes de ser "não-global". Assim, de uma determinada perspectiva — a do nacional —, a
abolido em 1993, o Parlamento russo voltou a reivindicar formalmente a nação é sempre primária e qualitativamente única. Mas, do outro ponto de
Criméia. E, mesmo com o presidente Boris Yeltsin repudiando essa demanda, vista — o do global —, ela poderá ser sempre apenas um dos vários compo-
a convicção de que a Criméia pertence à Rússia continuou tendo um fortíssi- nentes de um dado sistema. Sob esse aspecto, às nações não importa que elas
mo apoio popular entre os russos. Simultaneamente, os ucranianos também sejam quantitativamente mais ou menos importantes umas que as outras, já
se entregaram à causa nacionalista com fervor, fazendo acreditar a todos os que, qualitativamente, elas não possuiriam diferenças entre si.
seus compatriotas que abrir mão da Criméia seria apenas um primeiro passo Devemos perguntar-nos, hoje, qual o lugar dessas nações em um mundo
para a posterior dissolução da própria Ucrânia. globalizado e, mais ainda, como esse mundo globalizado consegue se ajustar
O nacionalismo reapareceu igualmente combativo nos casos de secessão, à heterogeneidade de seus componentes. Por ora, são muitas as observações
em que promovia a independência de territórios já ocupados. Foi o caso das e conjeturas transitórias a respeito, mas não passam disso. Vamos a elas.
chamadas "repúblicas autónomas" ou "regiões autónomas" no interior da Primeiro, cabe lembrar que, no campo do poder e da política, pelo
União. Esse estatuto sempre controverso servia para designar as áreas em menos até o presente, "o mundo" não existe; isto é, não como uma unidade
que minorias étnicas predominavam ou tinham predominado no passado. política em si, com autonomia. Nesta última acepção, apenas os chamados
Na Rússia, a Chechênia — um desses casos — declarou-se independente. "Estados-nações" existem. Mesmo que, de tempos em tempos, alguns deles
Yeltsin, embora não disposto a reconhecer sua soberania, não conseguiu evi- sejam poderosos o suficiente para possuírem políticas globais ou para orga-
tar que os novos governos de algumas repúblicas autónomas e que outras di- nizarem instituições globais com o objetivo de atingir certos propósitos, são
visões políticas similares aumentassem sua autoridade a expensas de os Estados-nações, em separado ou em alianças e blocos, que continuam
Moscou. Também em outros novos Estados independentes houve uma ou dando as cartas. A Organização das Nações Unidas (assim tão apropriada-
mais regiões com grupos étnicos reivindicando autonomia. Assim, a Geórgia mente chamada) originou-se como uma dessas instituições. Nunca teve po-
enfrentou movimentos secessionistas em Abkhazia e em Ossetia do Sul. O deres em si mesma, além daqueles que lhe foram outorgados pelos seus mem-
povo gagauz e a "República de Transdniectra" demandaram sua indepen- bros, e nunca houve uma só política sua que não pudesse ter sido sabotada
dência da Moldávia e na Ásia Central irromperam movimentos secessionis- por um ou mais membros — em especial por aqueles considerados os mais
tas ao norte do Casaquistão e ao leste no Tadjiquistão. Por fim, na Criméia, poderosos. O efetivo sistema de Estados do mundo contemporâneo consiste
um forte movimento hoje reivindica a sua separação da Ucrânia. não nos 200 ou mais membros politicamente soberanos que hoje pertencem
Do ponto de vista do que restou de controle administrativo em mãos de .à ONU (e que crescem em número assombrosamente a cada dia), mas sim no
antigos comunistas, tais movimentos podiam até tornar-se úteis. Eles pode- relativamente pequeno número (pois não perfaz uma dezena) de Estados de
riam auxiliar na prorrogação, se bem apoiados, da permanência no poder de fato económica e militarmente poderosos. A continuidade desse pequeno
muitos daqueles indivíduos que serviram à burocracia oficial no passado. grupo dos excessivamente poderosos inviabiliza ou retarda a existência de
Daí, não poucas vezes, presenciarmos o apoio irrestrito de alguns desses ad- medidas globais nesse campo. Hobsbawm nos lembra como, sozinhos, os
ministradores a posições nacionalistas contemporâneas sobre os conflitos EUA sabotaram uma medida global em passado recente, quando recusaram
territoriais, secessionistas e étnicos, sempre que tais movimentos se mostra- aceitar um dos poucos acordos internacionais aprovados por todos os de-
rem capazes de reacender por conta própria um apoio doméstico significati- mais — o da redução da emissão de gases provocadores do efeito estufa ao
vo à burocracia, pelo menos entre aqueles que pertencem ao grupo étnico nível mínimo requerido (março, 1998).
majoritário de uma determinada região (Katz, Outubro 1994). Do ponto de vista mais estritamente económico, pode-se dizer que a

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"transnacionalidade" tampouco é total aqui. Embora boa parte da economia mentar no que se refere às suas partes: de um lado, o sistema "oficial", o das
contemporânea, como, por exemplo, a referente ao mercado financeiro, seja "economias nacionais" dos Estados, e de outro, o bastante real, mas em
operada do lado "de fora" e se apresente, por vezes, aparentemente "sem o grande medida não oficial — o das instituições e unidades transnacionais.
controle" dos Estados, a economia mundial continua existindo nos marcos ou Ambas as partes associam-se nos extremos por meio daquelas já há muito
limites de um sistema de Estados. Há pelo menos dois modos de se perceber conhecidas instituições económicas "transnacionais", do tipo do Fundo
isto, basta observar: a) como muitas transações ainda são efetuadas no inte- Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial, consideradas globais
rior das fronteiras dos diferentes Estados, i.e., na condição de comércio inter- nos seus termos de referência, mas ainda dependentes do sistema dos Esta-
no, não internacional (voltado para a importação e exportação) e b) como a dos, ou melhor, dos Estados mais ricos e poderosos, especialmente dos EUA,
economia ainda se mantém em grande medida sujeita às várias leis, institui- para sobreviverem.
ções e políticas dos governos dos Estados. É claro que também tais governos Quanto às questões culturais e científicas no mundo atual, pode-se dizer
(especialmente os dos Estados pequenos que não dispõem de reservas de pe- que a tecnologia, particularmente a de comunicação, associada à língua, e a
tróleo) operam sob forte sujeição e tentação da economia "transnacional". etnicidade constituem aspectos rapidamente dominados pelos efeitos de glo-
Para evitar esses limites, a economia "transnacional" passa por muitos balização tão bem manifestos na economia. Assim, por exemplo, nas técni-
arranjos. As grandes empresas ou corporações, por exemplo, saem, ainda cas de comunicação e no desenvolvimento da ciência e da tecnologia, as par-
que temporariamente, para uma "base exterior" — isto é, mudam suas sedes ticularidades tornam-se crescentemente irrelevantes. A capacidade do poder
para lugares onde têm mais condição de evitar o fisco ou onde o suborno aos de qualquer lugar do mundo em inibir a transmissão e o desenvolvimento de
governos sai mais barato. Desenvolvem, simultaneamente, suas próprias ins- ideias dessa natureza diminuiu dramaticamente. Não apenas os governos de
tituições encarregadas de burlar ou de tornar sem efeito as leis dos Estados Estados-nações que faziam isso tornaram-se menos comuns, como também a
— consultorias globais e agências que avaliam e classificam condições de cré- tecnologia de comunicação tornou-se praticamente impossível de ser contro-
dito e acabam determinando, incidentalmente, o crédito de muitos governos. lada unilateralmente. A universalidade tradicional da ciência (que é mantida
Soma-se a isso o fato de que na economia contemporânea é tecnologicamen- ainda resolutamente moderna, e não pós-moderna, como desejariam alguns)
te possível controlar de qualquer parte do mundo — por meio da transmis- manteve-se. Com ela afirmou-se uma única língua global. No passado, mo-
são de dados e de sistemas de comunicação — processos e fluxos de produ- vimentos nacionalistas em diferentes lugares orgulhavam-se da criação de
ção e distribuição que estejam ocorrendo em lugares distintos. Em outras pa- universidades que passariam a fazer forte uso dos vernáculos locais — o
lavras, é possível distribuir os pedaços da produção e distribuição de um bem tcheco, o flamengo, o finlandês e o catalão — em detrimento das chamadas
(como num gigantesco sistema de putting-out work) a quantos países for ne- línguas das culturas dominantes, mais ampla e internacionalmente aceitas.
cessário, para que se obtenha uma redução de custos e preços de modo a Hoje, inversamente, grande parte do ensino universitário, seja na Holanda
torná-los mais competitivos, seja procurando mão-de-obra mais barata, seja ou na Finlândia, é conduzida em inglês. A recém-criada Universidade da
em busca de subsídios tributários ou de condições ambientais mais precárias Europa Central, em Budapeste, também opera em inglês, e não em alguma
e não fiscalizadas. Sobretudo a partir das décadas de 1980 e 1990, quando língua da região. Mas, não é apenas nesse campo, relacionado à ciência ou à
se deu um enorme salto qualitativo nas tecnologias de informação e comuni- informação erudita, que o inglês tem se afirmado. Sua importância dá-se,
cação, pudemos passar a observar esse processo, quando setores como o bio- hoje, sobretudo na condição de língua da tecnologia e do mercado. Como
químico, o farmacêutico e o de informática começaram a liderar os investi- tal, o inglês tornou-se fundamental para os envolvidos com a computação, os
mentos, hoje estimados em dezenas de milhões de dólares, nesses ditos "ve- técnicos do transporte aéreo ou marítimo mundial, os operadores do merca-
tores tecnológicos de ponta", capitaneados por um seleto grupo de atores lí- do financeiro, os desportistas internacionais e muitos dos produtores de bens
deres com suas corporações. culturais em geral, sobretudo os encarregados da cultura de massa (Hobs-
Podemos falar, em suma, de um sistema dual e ambíguo, porém comple- bawm, março, 1998).

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Do ponto de vista político, porém, o quadro permanece delicado. Em seu nacional pôde ser mantido. Para isso, cada um dos blocos promoveu uma
último livro, Zigmunt Bauman (1999) recupera a diferença entre o que ou- crescente coordenação entre as ordens administradas por cada Estado seu de-
trora chamávamos globalização (e que ele melhor precisa como "universali- pendente, em nome da suposta insuficiência militar, económica e cultural de
zação") e o que hoje podemos entender por "globalização". A primeira ex- cada um deles. Promovia-se, assim, gradual e inexoravelmente, um novo prin-
pressão, segundo este autor, vinha associada mais fielmente ao paradigma da cípio de integração supra-estatal naquele momento. Mas a base permanecia a
modernidade, assim como outros conceitos também a ele associados — co- mesma — as soberanias militar, económica e cultural que compunham o tripé
mo "civilização", "desenvolvimento", "convergência" e "consenso" —, sobre o qual já há muito se apoiavam os Estados-nações modernos.
í todos entendidos como termos-chave para o pensamento moderno inicial e Com tais mudanças, o cenário global tornou-se, cada vez mais, um palco
clássico. Naquela primeira acepção, "globalização" transmitia a intenção e de coexistência e competição entre grupos de Estados e não entre os próprios
determinação de se produzir uma ordem. Mais que isso, indicava a possibili- Estados tomados isoladamente. Lembremos que até a iniciativa da Conferên-
dade da produção dessa determinada ordem em escala universal, verdadeira- cia de Bandung, surgida nos anos 50, propondo a criação de um incongruen-
mente global. Já a nova expressão apresenta-se de uma forma totalmente in- te "bloco dos sem-bloco", e recusando, consequentemente, o alinhamento
versa. Hoje a globalização refere-se sobretudo aos efeitos de alcance univer- político tout court, era um reconhecimento indireto daquele princípio.
sal, porém notoriamente não-pretendidos e imprevistos. Hoje, o significado Assim, para preservar sua capacidade de policiar a lei e a ordem, os Estados
maior transmitido por esstconceito é o do caráter indeterminado, indiscipli- tiveram de buscar alianças e entregar, voluntariamente ou não, pedaços cada
nado e quase de autopropulsão dos muitos assuntos mundiais. Globalização vez maiores de suas soberanias.
refere-se, assim, à ausência de um centro, de um painel de controle, de uma Hoje, em tempos de globalização, alguns Estados estão longe de se com-
comissão diretora ou do que o valha. Para alguns trata-se da própria "desor- portarem como se estivessem sendo forçados a desistir de seus direitos sobe-
dem mundial", com suas forças anónimas operando na vasta "terra de nin- ranos. Ao contrário, alguns tentam, com todo afã, abrir mão desses direitos,
guém" ou na "selva" contemporânea. A questão é que esta última deixou de implorando para que sua soberania lhes seja retirada e/ou dissolvida em for-
ser "natural" e inculta, mas assemelha-se mais à "selva manufaturada" de mações supra-estatais. Assistimos, simultaneamente, a etnias esquecidas ou
que nos fala Anthony Giddens: a terra inculta e pós-domesticada surgida "mortas" há muito tempo que passam a renascer ou são oportunamente in-
após a conquista e como resultado dela, surgida em tempos de fraqueza ou ventadas. Ainda que pequenas ou incompetentes demais para passarem nos
mesmo impotência de seus agentes ordenadores habituais, entre eles o testes tradicionais de soberania, algumas dessas etnias reivindicam seu pró-
Estado moderno, antes considerado soberano e possuidor de base territorial prio Estado e, com ele, o direito de legislar e policiar a ordem em seu territó-
definida. Com o enfraquecimento do Estado, enquanto agente reivindicador rio (quando já o possuem). Também novas e velhas nações escapam de gaio-
do monopólio dos meios de coerção e do uso deles em seu território sobera- las federalistas em que haviam sido encarceradas contra a sua vontade. Mas
no, diríamos, parodiando Weber, a "selva manufaturada" ganhou espaço. muitas acabam usando a recém-adquirida liberdade de decidir apenas para
Desde fins do século XLX, com a afirmação do modelo do Estado-nação, buscar a dissolução de sua independência política, económica e militar logo
a política externa teve como horizonte global a sustentação do princípio da adiante, seja no Mercado Comum Europeu, seja na Aliança da Organização
plena e inconteste soberania de cada Estado sobre seu território, com a elimi- do Tratado do Atlântico Norte. Parece que o superlotado edifício da ONU
nação dos poucos "espaços vazios" que, porventura, pudessem restar no não fora projetado para abrigar tantas representações e acomodar os escritó-
mapa do planeta e o afastamento do perigo da ambivalência, decorrente da rios de um número tão grande de "iguais". Parece que as incertezas ou efei-
ocasional superposição de soberanias nacionais e étnicas ou mesmo de impor- tos imprevistos não importam mais. E vem-nos a constatação de que, para-
tantes reivindicações territoriais. Mesmo quando, neste nosso século, por doxalmente, foi com a morte da soberania do Estado-nação que a ideia
quase cinquenta anos, dois blocos de poder foram sobrepostos a um mundo mesma de condição estatal ou nacional tornou-se efetivamente popular e
já previamente dividido em Estados soberanos, o princípio básico do Estado pôde ser difundida em boa parte do mundo.

202 203
O S É C U L O XX

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204
A globalização do mundo expressa um novo ciclo de expansão do capitalis-
mo, como modo de produção e processo civilizatório de alcance mundial.
Um processo de amplas proporções, envolvendo nações e nacionalidades, re-
gimes políticos e projetos nacionais, grupos e classes sociais, economias e so-
ciedades, culturas e civilizações. Assinala a emergência da sociedade global
como uma totalidade abrangente, complexa e contraditória. Uma realidade
ainda pouco conhecida, desafiando práticas e ideais, situações consolidadas
e interpretações sedimentadas, formas de pensamento e voos da imaginação.
Para reconhecer essa nova realidade, precisamente no que ela tem de
novo, ou desconhecido, torna-se necessário reconhecer que a trama da histó-
ria não se desenvolve apenas em continuidades, sequências, recorrências. A
mesma história adquire movimentos insuspeitados, surpreendentes. Toda
duração se deixa atravessar por rupturas. A mesma dinâmica das continuida-
des germina possibilidades inesperadas, hiatos inadvertidos, rupturas que
parecem terremotos.

"Em minha opinião, a continuidade não é, de modo algum, a característica


mais saliente da História [...] Em todos os grandes momentos decisivos do pas-
sado, deparamos subitamente com o fortuito e o imprevisto, o novo, o dinâmi-
co e o revolucionário [...] O que devemos considerar como significativos são as
diferenças e não as semelhanças, os elementos de descontinuidade e não os ele-
mentos de continuidade [...] se não mantivermos nossos olhos alertados para o
que é novo e diferente, todos perderemos, com a maior facilidade, o que é es-
sencial, a saber, o sentimento de viver em um novo período [...] O estudo da
História contemporânea requer novas perspectivas e uma nova escala de valo-
res" (Barraclough, 1976, pp. 13-15 e 35).

De maneira lenta e imperceptível, ou de repente, desaparecem as frontei-


ras entre os três mundos, modificam-se os significados das noções de países

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O SÉCULO XX GLOBALIZAÇÃO E NOVA ORDEM INTERNACIONAL

centrais e periféricos, do norte e sul, industrializados e agrários, modernos e internacional do trabalho e mundialização dos mercados. As forças produti-
arcaicos, ocidentais e orientais. Literalmente, embaralhou-se o mapa do vas básicas, compreendendo o capital, a tecnologia, a força de trabalho e a
mundo, umas vezes parecendo reestruturar-se sob o signo do neoliberalismo, divisão internacional do trabalho, ultrapassaram fronteiras geográficas, his-
outras parecendo desfazer-se no caos, mas também prenunciando outros ho- tóricas e culturais, multiplicando-se assim as suas formas de articulação e
rizontes. Tudo se move. A história entra em movimento, em escala monu- contradição. Esse é um processo simultaneamente civilizatório, já que desa-
mental, pondo em causa cartografias geopolíticas, blocos e alianças, polari- fia, rompe, subordina, mutila, destrói ou recria outras formas sociais de vida
zações ideológicas e interpretações científicas. e trabalho, compreendendo modos de ser, pensar, agir, sentir e imaginar.
As noções de colonialismo, imperialismo, dependências e interdependên- A nova divisão internacional do trabalho envolve a redistribuição das
cias, assim como as do projeto nacional, via nacional, capitalismo nacional, empresas, corporações e conglomerados por todo o mundo. Em lugar da
socialismo nacional e outras, envelhecem, mudam de significado, exigem concentração da indústria, centros financeiros, organizações de comércio,
novas formulações. Na medida em que se desfazem as hegemonias construí- agências de publicidade e mídia impressa e eletrônica nos países dominantes
das durante a Guerra Fria, declinam as superpotências mundiais, envelhecem operam um processo de redistribuição do poder. Assim, em poucas décadas,
ou apagam-se as alianças e acomodações estratégicas e táticas sob as quais a partir do término da Segunda Guerra Mundial, ocorrem "milagres" econó-
desenhava-se o mapa do mundo até 1989, quando caiu o Muro de Berlim, o micos em países com escassa tradição industrial, assim como em cidades sem
emblema do mundo bipolarizado. nações, tais como Hong Kong e Cingapura, mas estrategicamente situadas
Simultaneamente, começam a emergir novos pólos de poder, revelam-se em cartografias geopolíticas. Forma-se toda uma cadeia mundial de cidades
os primeiros traços de outros blocos geopolíticos, manifestam as primeiras globais, que passam a exercer papéis cruciais na generalização das forças
acomodações e tensões entre os Estados-nações preexistentes, bem como produtivas e relações de produção em moldes capitalistas, bem como na po-
entre os que se formam com a desagregação da Jugoslávia, Tchecoslováquia larização de estruturas globais de poder. Simultaneamente, ocorre a reestru-
e União Soviética. Também as nações consolidadas, bem como os sistemas de turação de empresas, grandes, médias e pequenas, em conformidade com as
alianças que pareciam convenientes e permanentes, abalam-se ou desabam. exigências da produtividade, agilidade e capacidade de inovação abertas pela
No dia seguinte à queda do Muro de Berlim, os governantes dos Estados ampliação dos mercados, em âmbito nacional, regional e mundial. O fordis-
Unidos começaram a preocupar-se com a preeminência do Japão na orla do mo, como padrão de organização do trabalho e produção, passa a combinar-
Pacífico e em outras partes do mundo. No dia seguinte à unificação da se com ou ser substituído pela flexibilização dos processos de trabalho de
Alemanha, quando a Alemanha Federal absorveu a República Democrática produção, um padrão mais sensível às novas exigências do mercado mun-
Alemã, a Comunidade Europeia estremeceu. dial, combinando produtividade, capacidade de'inovação e competitividade.
Mais uma vez, no fim do século XX, o mundo se dá conta de que a histó- Sob todos os aspectos, a nova divisão internacional do trabalho e produção
ria não se resume no fluxo das continuidades, sequências e recorrências, mas implica outras e novas formas de organização social e técnica do trabalho, de
que envolve também tensões, rupturas e terremotos. Tanto é assim que per- mobilização da força de trabalho, quando se combinam trabalhadores de
manece no ar a impressão de que terminou uma época, terminou estrondosa- distintas categorias e especialidades de modo a formar-se o trabalhador cole-
mente toda uma época, e começou outra não só diferente, mas muito diferen- tivo desterritorializado. Nesse sentido é que o mundo parece ter-se transfor-
te, surpreendente. Agora, são muitos os que são obrigados a reconhecer que mado em uma imensa fábrica. Tanto assim que já lhe cabe a metáfora de fá-
está em curso um intenso processo de globalização das coisas, gentes e ideias. brica global. Uma fábrica em que se expressam e sintetizam as forcas produ-
Está em curso novo surto de universalização do capitalismo, como modo tivas atuantes no mundo: e agilizadas pelas condições e possibilidades aber-
de produção e processo civilizatório. O desenvolvimento do modo capitalis- tas tanto pela globalização dos mercados e empresas como pelos meios de
ta de produção, em forma extensiva e intensiva, adquire outro impulso, com comunicação baseados na eletrônica. A partir da eletrônica, compreendendo
base em novas tecnologias, criação de novos produtos, recriação da divisão a telecomunicação, computador, o fax e outros meios, o mundo dos negócios

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O S É C U L O XX GLOBALIZAÇÃO E NOVA ORDEM INTERNACIONAL

agilizou-se em uma escala desconhecida anteriormente, desterritorializando começa a ser obrigado a compartilhar ou aceitar decisões e diretrizes prove-
coisas, gentes e ideias. nientes de centros de poder regionais e mundiais. Assim como a cidadania
A emergência das cidades globais é bem um produto e uma condição do tem sido principalmente tutelada, regulada ou administrada, também a sobe-
modo pelo qual se dá a dispersão das atividades económicas pelo mundo. Na rania nacional passa a ser crescentemente tutelada, regulada ou administra-
mesma medida em que se movimentam e dispersam as empresas, corporações da. Se, por um lado, o Estado-nação é levado a limitar e orientar os espaços
e conglomerados, promovendo uma espécie de desterritorialização das forças da cidadania, por outro lado, as estruturas globais de poder são levadas a li-
produtivas, verifica-se uma simultânea reterritorialização em outros espaços, mitar e orientar os espaços da soberania nacional. Aliás, o exercício da pró-
uma concomitante polarização de atividades produtivas, industriais, manufa- pria cidadania, em âmbito local, nacional, regional e mundial, tem sido deli-
tureiras, de serviços, financeiras, administrativas, gerenciais, decisórias. Ao mitado ou agilizado pelo jogo das forças que preponderam em escala global.
romper as fronteiras nacionais, atravessando regimes políticos, culturas e ci- Acontece que a sociedade global já é uma realidade, ainda que em processo
vilizações, tanto quanto mares e oceanos, ilhas, arquipélagos e continentes, as de formação e institucionalização. Vista como um todo em movimento, a so-
forças produtivas e as instituições que garantem as relações capitalistas de ciedade global estabelece algumas das condições e possibilidades que podem
produção reterritorializam-se em outros lugares, em muitos lugares ao mesmo nortear as condições e as possibilidades de nações e nacionalidades, assim
tempo revelando-se ubíquos. Graças aos recursos tecnológicos propiciados como de indivíduos, grupos, classes, coletividades, povos, movimentos so-
pela eletrônica e informática, ocorre todo um vasto rearranjo do mapa do ciais, partidos políticos, correntes de opinião pública.
mundo. Produzem-se novas redes de articulações, por meio das quais se dese- A regionalização pode ser vista como uma necessidade da globalização,
nham os contornos e os movimentos, as condições e as possibilidades do ca- ainda que seja simultaneamente um movimento de integração de Estados-na-
pitalismo global. ções. Pode muito bem ser as duas coisas combinadamente, se bem que a aná-
Simultaneamente à nova divisão internacional do trabalho, o que signifi- lise dos fatos, e não apenas dos institutos jurídico-políticos, indique a preva-
ca novo impulso no desenvolvimento extensivo e intensivo do capitalismo no lência das forças económicas que operam em escala mundial. Sob certos as-
mundo, ocorre uma crescente e generalizada transformação das condições de pectos, a regionalização pode ser uma técnica de preservação de interesses
vida e trabalho no mundo rural. O campo é industrializado e urbanizado, ao "nacionais" por meio da integração, mas sempre no âmbito da globalização.
mesmo tempo que se verifica uma crescente migração de indivíduos, famílias Envolve os Estados-nações na dinâmica da mundialização. Jogando com as
e grupos para os centros urbanos próximos e distantes, nacionais e estrangei- convergências e os antagonismos entre nacionalismo, regionalismo e globa-
ros. A tecnificação, maquinização e quimificação dos processos de trabalho lismo, encontram-se as empresas, corporações e conglomerados transnacio-
e produção no mundo rural expressam o industrialismo e o urbanismo, en- nais. Tecem a globalização desde cima, em conformidade com a dinâmica
tendendo-se o urbanismo como modo de vida, padrões e valores sociocultu- dos interesses que expressam ou simbolizam. Desenham as mais diversas car-
rais, secularização do comportamento e individualização. Nesse sentido é tografias do mundo, planejadas segundo as suas políticas de produção e co-
que a globalização do capitalismo está provocando a dissolução do mundo mercialização, preservação e conquista de mercados, indução de decisões go-
agrário. Isto quer dizer que se reduz ou supera a contradição cidade-campo, vernamentais em âmbito nacional, regional e mundial. Em suas alianças es-
o que pode significar a vitória definitiva da cidade sobre o campo, ou seja, tratégicas, ou por meio de suas redes de comunicações, podem estar presen-
nos moldes em que se movia até meados do século XX, o mundo agrário dei- tes em muitos lugares ou mesmo em todo o mundo. Esse o contexto em que
xou de ser um motor decisivo da história. tendem a ocorrer, resolver-se ou agravar-se as convergências e tensões entre
Juntamente com a expansão das empresas, corporações e conglomerados nacionalismo, regionalismo e globalismo.
transnacionais, articulada com a nova divisão internacional do trabalho e a Vista assim, no âmbito da globalização do capitalismo, a controvérsia
emergência das cidades globais, verifica-se o declínio do Estado-nação. Pare- sobre mercado e planejamento perde muito da sua retórica ideológica. As
ce reduzir-se o significado da soberania nacional, já que o Estado-nação empresas, corporações e conglomerados transnacionais sempre planejam as

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GLOBALIZAÇÃO E NOVA ORDEM INTERNACIONAL

suas atividades, com base nos mais rigorosos requisitos da técnica, dos recur-
socioculturais, são forças decisivas na criação e generalização de relações,
sos intelectuais acumulados. Planejam em escala nacional, regional e mun-
processos e estruturas que articulam e tensionam o novo mapa do mundo.
dial. Constróem cartografias minuciosas dos espaços controlados, disponí-
No contexto da sociedade global, desenvolvem-se estruturas de poder
veis e potenciais, tendo também em conta minuciosamente os recursos de ca-
propriamente globais. São estruturas que expressam as configurações e os
pital, tecnologia, força de trabalho, novos produtos, marketing, lobbing etc.
movimentos, as articulações e as contradições no âmbito da sociedade glo-
Um dos signos principais dessa história, da globalização do capitalismo,
bal. Naturalmente apóiam-se também em Estados nacionais, centrais e peri-
é o desenvolvimento do capital em geral, transcendendo mercados e frontei-
féricos, dominantes e subalternos, ao sul e ao norte, ocidentais e orientais. As
ras, regimes políticos e projetos nacionais, regionalismos e geopolíticas, cul- estruturas de poder globais evidentemente não prescindem das nacionais e
turas e civilizações. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, e em escala
- ainda mais ampla desde o término da Guerra Fria, o capital adquiriu propor-
regionais, dos sistemas regionais de integração económica e dos blocos geo-
políticos. Umas vezes apóiam-se neles, assim como em outras combatem-
ções propriamente universais. Articula os mais diversos subsistemas econó- nos. Isso fica evidente nas controvérsias sobre como administrar a dívida in-
micos nacionais e regionais, os mais distintos projetos nacionais de organiza- terna e externa, como desestatizar ou desregular a economia, reduzir tarifas,
ção da economia, as mais diferentes formas de organização social e técnica acelerar a integração regional etc. São controvérsias em boa medida induzi-
do trabalho, subsumindo moedas, reservas cambiais, dívidas externas e in- das pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), pelo Banco Mundial (ou
ternas, taxas de câmbio, cartões de crédito e todas as outras moedas reais ou Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento, BIRD) e pelo
imaginárias. O capital em geral, agora propriamente universal, tornou-se o Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (GATT), recentemente transformado
parâmetro das operações económicas em todo o mundo. Pode simbolizar-se em Organização Mundial do Comércio (OMC), mas também agilizadas
no dólar americano, iene japonês, marco alemão ou na moeda deste ou pelos lobbings, marketings e a mídia, sempre em escala mundial. São estru-
daquele país. Mas não se reduz a esta ou aquela moeda. A despeito de uma e turas globais de poder, às vezes contraditórias em suas diretrizes ou práticas,
outra serem utilizadas na prática, já é evidente que sob todas manifesta-se mas sempre pairando além de soberanias e cidadanias nacionais e regionais.
uma moeda propriamente global. Expressa as formas e os movimentos do Parecem desterritorializadas, já que se deslocam ao acaso das suas dinâmicas
capital em geral, propriamente universal, subsumindo amplamente as formas próprias, deslocadas de bases nacionais, do jogo das relações entre Estados
singulares e particulares do capital. nacionais. E reterritorializam-se em outros lugares, principalmente cidades
Já são muitos os que reconhecem que passou a época em que se imagina- globais, transcendendo nações e nacionalidades, fronteiras e geografias.
va a moeda simbolizando a soberania nacional, economia independente, Sob vários aspectos, na época da globalização do mundo reabre-se a pro-
auto-sustentada, autárquica. Mesmo as economias nacionais mais poderosas blemática do trabalho. O modo pelo qual o capitalismo se globaliza, articu-
movimentam-se em conformidade com a dinâmica do capital em geral, ope- lando e rearticulando as mais diversas formas de organização técnica da pro-
rando em escala global, subsumindo real ou formalmente os capitais nacio- dução, envolve ampla transformação na esfera do trabalho, no modo pelo
nais. Mais do que a mercadoria, o capital não tem ideologia (Walter, 1991; qual o trabalho entra na organização social de vida do indivíduo, família,
O'Brien, 1992; The Economist, 19 de setembro de 1992; Bird, 1998). grupo, classe e coletividade, em todas as nações e continentes, ilhas e arqui-
Ocorre que o capitalismo tornou-se propriamente global. A reprodução pélagos. Visto em perspectiva ampla, o desenvolvimento do capitalismo glo-
bal tem transformado as condições sociais e técnicas das atividades económi-
ampliada do capital, em escala global, passou a ser uma determinação predo-
cas, influenciando ou modificando as formas de organização do trabalho em
minante no modo pelo qual se organizam a produção, distribuição, troca e
todos os setores do sistema económico mundial, compreendendo os subsiste-
consumo. O capital, a tecnologia, a força de trabalho, a divisão do trabalho
mas nacionais e regionais. Modificam-se bastante e radicalmente as técnicas
social, o mercado, o marketing, o lobbing e o planejamento, tanto empresa-
produtivas, as formas de organização dos processos produtivos, as condições
rial como das instituições multilaterais, além do governamental, todas essas
técnicas, jurídico-políticas e sociais de produção e reprodução das mercado-
forças estão atuando em escala mundial. Juntamente com outras, políticas e
rias, materiais e culturais, reais e imaginárias.

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O S É C U L O XX G L O B A L I Z A Ç Ã O E NOVA ORDEM INTERNACIONAL

Aos poucos, ou de repente, conforme o caso, a grande maioria da popu- viu diante de uma imensa fronteira de expansão, que apenas começa a ser re-
lação assalariada mundial se vê envolvida no mercado global; um mercado cuperada nas décadas finais do século XX. Um espaço de amplas proporções
em que se movem compradores e vendedores de força de trabalho, mercado- que conta com um contingente excepcionalmente numeroso de trabalhado-
rias, valores de uso e valores de troca. São transações que multiplicam e gene- res disponíveis, em larga medida qualificados. Talvez se possa dizer que a
ralizam os dinamismos das forças produtivas e relações de produção, propi- abertura do conjunto das nações do que era o mundo socialista, ou o "segun-
ciando uma acumulação acentuada e generalizada do capital, em âmbito do mundo", representa uma fronteira inesperada e excepcional para novos
mundial. Aí organizam-se e desenvolvem-se, de modo articulado e contradi- surtos de acumulação originária. Aí criaram-se condições novas e muito fa-
tório, as mais diversas formas de capital, tecnologia, força de trabalho, divi- voráveis para o desenvolvimento extensivo e intensivo do capitalismo
são de trabalho. ''Socialização" do processo produtivo, formação do traba- (Koves, 1981, pp. 133-134; Mandei, 1990, pp. 381-404; Smith, 1993, pp.
lhador coletivo, racionalização, planejamento, disciplinamento, calculabilida- 55-99; The Economist, 30 de outubro de 1993; Kurz, 1992). As mesmas
de, publicidade, mercado, alianças estratégicas de empresas, redes de informá- condições propícias aos novos surtos de expansão mundial do capitalismo,
tica, mídia impressa e eletrônica, campanhas de formação e indução da opi- da reprodução ampliada do capital em escala global, essas mesmas condições
nião pública sobre os mais diversos temas da vida social, económica, política trazem consigo a criação e a reprodução de desigualdade, carências, inquie-
e cultural de uns e outros nos mais diversos cantos e recantos do mundo. tações, tensões, antagonismos.
A relevância do trabalho, em geral e em suas formas particulares e singu- Esse o contexto em que se desenvolve a globalização da questão social. As
lares, começa a revelar-se quando se reconhece que o capitalismo transfor- mais diversas manifestações da questão social, nos mais diferentes países e
mou o mundo em uma espécie de imensa fábrica. Em relativamente poucas continentes, adquirem outros significados, podendo alimentar novos movi-
décadas, principalmente após a Segunda Guerra Mundial (1939-45), a in- mentos sociais e suscitar interpretações desconhecidas. Ocorre que as condi-
dustrialização espalhou-se pelo mundo. A Guerra Fria (1946-89) foi também ções de vida e trabalho, em todos os lugares, estão sendo revolucionadas pelos
uma época de desenvolvimento extensivo e intensivo do capitalismo no processos que provocam, induzem ou comandam a globalização. A nova di-
mundo. A contra-revolução mundial embutida na Guerra Fria favoreceu a visão internacional da produção e do trabalho transforma o mundo em uma
criação e o desenvolvimento de indústrias em nações subdesenvolvidas, agrá- fábrica global. A mundialização dos mercados de produção, ou forças produ-
rias, periféricas, do Terceiro Mundo. Inicialmente desenvolveram-se políticas tivas, tanto provoca a busca de força de trabalho barata em todos os cantos
de industrialização substitutivas de importação e, depois, de industrialização do mundo como promove as migrações em todas as direções. O exército in-
orientada para a exportação, sendo que em vários casos combinam-se as dustrial de trabalhadores, ativo e de reserva, modifica-se e movimenta-se, for-
duas políticas. Em poucas décadas, muitas nações asiáticas, latino-america- mando contingentes de desempregados mais ou menos permanentes, ou sub-
nas e africanas ingressaram no sistema industrial mundial. As empresas, cor- classes, em escala global. Toda essa movimentação envolve problemas cultu-
rais, religiosos, linguísticos e raciais, simultaneamente sociais, económicos e
porações e conglomerados transnacionais desenvolveram-se e generaliza-
políticos. Emergem xenofobias, etnocentrismos, racismos, fundamentalismos,
ram-se. Intensificou-se o movimento de capital, tecnologia e força de traba-
radicalismos, violências.
lho. Formaram-se e expandiram-se as alianças estratégicas, os centros e os
A mesma mundialização da questão social induz uns e outros a percebe-
sistemas decisórios. Emergiram as cidades globais, como elos e polarizações rem as dimensões propriamente globais da sua existência, das suas possibili-
fundamentais da sociedade global, muitas vezes os lugares privilegiados das dades de consciência. Juntamente com o que é local, nacional e regional, re-
estruturas globais de poder. vela-se o que é mundial. Os indivíduos, grupos, classes, movimentos sociais,
Desde que se desagregou o bloco soviético e reduziram-se as barreiras às partidos políticos e correntes de opinião pública são desafiados a descobrir
inversões estrangeiras na China, Vietnã e outros países com regimes socialis- as dimensões globais dos seus modos de ser, agir, pensar, sentir, imaginar.
tas, sem esquecer a transição para a economia de mercado em todos os paí- Todos são levados a perceber algo além do horizonte visível, a captar confi-
ses que compunham o bloco soviético, desde essa ocasião o capitalismo se gurações e movimentos da máquina do mundo.

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O S É C U L O XX GLOBALIZAÇÃO E NOVA ORDEM INTERNACIONAL

São muitos os que já reconhecem que vivem no mesmo planeta, como dessa contradição nos horizontes da globalização, quando essa contradição
realidade social, económica, política e cultural. O planeta Terra já não é mais se universaliza em forma desconhecida para indivíduos, grupos, classes, co-
apenas um ente astronómico, mas também histórico. O que parecia, ou era, letividades e povos. Além da contradição força de trabalho e capital, desen-
uma abstração logo se impõe a muitos como realidade nova, pouco conheci- volve-se a contradição sociedade e natureza, dinamizada pela reprodução
da, com a qual há que se conviver. O planeta Terra torna-se o território da ampliada do capital, em âmbito global. "A causa principal da segunda con-
humanidade. tradição é o uso e a apropriação autodestrutiva da força de trabalho, do es-
À medida que se desenvolve a globalização, que o mercado se mundiali- paço e da natureza externa, ou ambiente" (O'Connor, 1992, p. 12).
za e expande-se a fábrica global, o globo terrestre se revela o nicho ecológi- Mais uma vez, recoloca-se o problema das diversidades dos nichos eco-
co de todo o mundo. Muitos são os que passam a reconhecer que o céu e a lógicos, das formas sociais de vida e trabalho, das singularidades das cultu-
terra, a água e o ar, a fauna e a flora, os recursos minerais e a camada de ozô- ras, dos conhecimentos acumulados por tribos, povos e nações sobre o seu
nio, tudo isso diz respeito a todos, aos que sabem e aos que não sabem, nos ambiente, suas relações com a ecologia, com o ciclo das estações, as formas
quatro cantos do mundo. de reprodução das condições ambientais em que vivem e reproduzem grupos
É muito significativo que a problemática ambiental, ou propriamente eco- e coletividades, tribos e nações.
lógica, tenha sido reaberta em termos bastante enfáticos na época da globali- Esse o contexto em que muitos começam a compreender que possuem
zação. Em poucos anos, formaram-se movimentos sociais empenhados em de- problemas similares, a despeito de viverem em condições diversas, em luga-
nunciar as agressões ao meio ambiente, reivindicar medidas de proteção, exi- res distantes, sob distintas formas de governo. Reconhecem que seus direitos
gir a reposição de condições originais. A terra, fauna, flora, água, ar, recursos e deveres transcendem o local e o nacional, transbordando para o âmbito
do subsolo, tudo passou a preocupar a opinião pública, mobilizar movimen- mundial. A mesma globalização da economia, política, sociedade e cultura
tos sociais, suscitar a criação de cursos universitários e programas de pesqui- estabelece algumas das bases de uma percepção da sociedade global em for-
sa, estimular a edição de livros e revistas, tudo isso destinado a proteger, obs- mação, da cidadania em escala mundial.
tar e repor os ambientes, os nichos ecológicos. Aos poucos, muitos se dão Quando o planeta Terra deixa de ser apenas um ente astronómico para
conta de que vivem no planeta Terra, e precisam entender-se enquanto habi- ser também histórico, recoloca-se de modo original a dialética sociedade e
tantes que dependem da vida deste planeta. "A difusão global das políticas natureza. Em pouco tempo, reabre-se a convicção de que o modo pelo qual
económicas e dos estilos de vida baseados na indústria está exaurindo a rique- a sociedade se apropria da natureza, tornando-a histórica, é também o modo
za ecológica do nosso planeta, mais rapidamente do que pode ser reposta. pelo qual se reabre a contradição sociedade-natureza.
Estão em perigo os recursos naturais dos quais depende a crescente população O planeta Terra está tecido por muitas malhas, visíveis e invisíveis, con-
mundial" (The Group of Green Economists, 1992, p. 16; Serres, 1991). sistentes e esgarçadas, regionais e universais. São principalmente sociais, eco-
A forma pela qual a globalização provoca uma nova consciência de que nómicas, políticas e culturais, tornando-se às vezes ecológicas, demográficas,
todos habitam o planeta Terra cria também desafios teóricos. Além dos va- étnicas, religiosas, linguísticas. A própria cultura encontra outros horizontes
lores fundamentais do humanismo laico e religioso, científico e filosófico, a de universalização, ao mesmo tempo que se reafirma ou recria em suas sin-
consciência de que o ecocosmo está sendo depauperado pela própria ativida- gularidades. O que era local e nacional pode tornar-se também mundial; o
de de indivíduos, grupos, classes, governos, empresas e corporações, essa que era antigo pode revelar-se novo, renovado, moderno, contemporâneo.
consciência reaviva ideais humanísticos e defronta-se com desafios teóricos. Formas de vida e trabalho, imaginários e visões do mundo diferentes, às
Primeiro, logo se recoloca o clássico problema da dialética sociedade e natu- vezes radicalmente diversos, encontram-se, tensionam-se, subordinam-se, re-
reza, uma preocupação sempre presente nas ciências da natureza, nas ciên- criam-se. "Frequentemente a homogeneização desdobra-se no argumento da
cias sociais e na filosofia. Segundo, em pouco tempo recoloca-se o problema americanização ou mercantilização, e muitas vezes os dois argumentos estão
da contradição sociedade e natureza. Muitos são obrigados a dar-se conta intimamente relacionados. Mas o que estes argumentos deixam de conside-

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rar é que, tão logo as forças das várias metrópoles são levadas às novas so- identidades, as nações e as nacionalidades. Esses são os meios pelos quais
ciedades, elas tendem a indigenizar-se de uma ou outra forma. Isto é verdade desterritorializam-se mercados, tecnologias, capitais, mercadorias, ideias,
para estilos de música e habitação, tanto quanto é verdade para ciência e ter- decisões, práticas, expectativas e ilusões.
rorismo, espetáculos e constituições" (Appadurai, 1990, p. 5). Nómade "é a palavra-chave que define o modo de vida, o estilo cultural
É claro que são muitas as formas culturais mutiladas ou mesmo destruí- e o consumo dos anos 2000. Pois todos carregarão consigo então a sua iden-
das pela globalização. O capitalismo expande-se mais ou menos avassalador tidade: o nomadismo será a forma suprema da ordem mercantil [...] Os
em muitos lugares, recobrindo, integrando, destruindo, recriando ou subsu- meios de transporte (automóvel, avião, trem, navio), suportes naturais deste
mindo. São poucas as formas de vida e trabalho, de ser e imaginar, que per- nomadismo, serão lugares privilegiados de reunião de objetos nómades: tele-
manecem incólumes diante da atividade "civilizatória" do mercado, empresa, fones, telefax, televisores, leitores de vídeo, computadores, fornos microon-
forças produtivas, capital. das [...] Seja em avião, trem, navio ou em domicílio, o indivíduo se alimenta-
A sociedade global não é somente uma realidade em constituição, que ape- rá movendo-se a fim de não perder tempo" (Attali, 1991, pp. 81-82). O mer-
nas começa a mover-se como tal, por sobre nações e impérios, fronteiras e geo- cado global cria a ilusão de que tudo tende a assemelhar-se e harmonizar-se.
políticas, dependências e interdependências. Revela-se visível e incógnita, pre- "Em todos os lugares, tudo cada vez mais se parece com tudo o mais, à me-
sente e presumível, indiscutível e fugaz, real e imaginária. De fato, está em dida que a estrutura de preferência do mundo é pressionada para um ponto
constituição, apenas esboçada .aqui e acolá, ainda que em outros lugares apa- comum homogeneizado" (Levitt, 1991, p. 43).
reça inquestionável, evidente. São muitos os que têm dúvidas e certezas, con- Nesse nível, a sociedade global é um universo de objetos, aparelhos ou
vicções e ceticismos sobre ela. equipamentos móveis e fugazes, atravessando espaços e fronteiras, línguas e
Ocorre que o que é mais visível e evidente é o lugar, o local e o nacional, dialetos, culturas e civilizações. Ao tecer a economia e a política, a empresa
a identidade e o patriotismo, o provincianismo e o nacionalismo. Ainda que e o mercado, o capital e a força de trabalho, a ciência e a técnica, a eletrôni-
problemático, esse lugar articula geografia e história, espaço e tempo, servin- ca e a informática, tece também os espaços e os tempos, as nações e os con-
do de ponto de referência, parâmetro, paradigma. São séculos de tradições e tinentes, as ilhas e os arquipélagos, os mares e os oceanos, os singulares e os
façanhas, heróis e santos, monumentos e ruínas cristalizados em valores e universais. O mundo se povoa de imagens, mensagens, colagens, montagens,
: : padrões, práticas e ilusões, línguas e religiões. Sob vários aspectos, o enraiza- bricolagens, simulacros e virtualidades. Representam e elidem a realidade,
mento no lugar e a ilusão da identidade podem dificultar a percepção do que vivência, experiência. Povoam o imaginário de todo o mundo. Elidem o real
é outro, estrangeiro, diferente ou estranho, assim como o que é internacio- e simulam a experiência, conferindo ao imaginário a categoria da experiên-
nal, multinacional, transnacional, mundial, cosmopolita ou global. São gra- cia. As imagens substituem as palavras, ao mesmo tempo que as palavras re-
dações da geografia e história, do real e possível, do ser e devir, que às vezes velam-se principalmente como imagens, signos plásticos de virtualidades e si-
ultrapassam os dados imediatos da consciência, as percepções empíricas e mulacros produzidos pela eletrônica e a informática.
pragmáticas, as convicções sedimentadas, as categorias elaboradas, as inter- Esses objetos, aparelhos ou equipamentos, tais como o computador, tele-
pretações conhecidas. visão, telefax, telefone celular, sintetizador, secretária eletrônica e outros,
Esse dilema, com suas implicações epistemológicas, complica-se um permitem atravessar fronteiras, meridianos e paralelos, culturas e línguas,
pouco mais quando começamos a notar que a sociedade global se constitui mercados e regimes de governo. Estão articulados em si e entre si, seguindo
na época da eletrônica, dinamizada pelos recursos da informática. Esse, tam- a mesma sistemática, em geral a mesma língua, predominantemente o inglês.
bém, um motivo por que a sociedade global se mostra visível e incógnita, E permitem transmitir, modificar, inventar e transfigurar signos e mensagens
presente e presumível, indiscutível e fugaz, real e imaginária. Ela está articu- que se mundializam. Correm o mundo de modo instantâneo e desterritoria-
lada por emissões, ondas, mensagens, signos, símbolos, redes e alianças que lizado, elidindo a duração. Criam a ilusão de que o mundo é imediato, pre-
tecem os lugares e as atividades, os campos e as cidades, as diferenças e as sente, miniaturizado, sem geografia nem história.

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O S É C U L O XX GLOBALIZAÇÃO E NOVA ORDEM INTERNACIONAL

É claro que a globalização não tem nada a ver com homogeneização. Tanto é assim que a busca ou a afirmação da diversidade, enquanto ori-
Esse é um universo de diversidades, desigualdades, tensões e antagonismos, ginalidade ou identidade, com frequência mobiliza recursos do outro, do
simultaneamente às articulações, associações e integrações regionais, trans- país dominante, da cultura invasora. A afirmação da autonomia, indepen-
nacionais e globais. Trata-se de uma realidade nova, que integra, subsume e dência, soberania ou hegemonia na maioria dos casos mobiliza também va-
recria singularidades, particularidades, idiossincrasias, nacionalismos, pro- lores e padrões culturais, formas de pensamento, técnicas sociais ou mesmo
vincianismos, etnicismos, identidades ou fundamentalismos. Ao mesmo utopias produzidas no "exterior", ou buscadas pelos nativos ou levadas
tempo que se constitui e movimenta, a sociedade global subsume e tensiona pelos conquistadores (Fanon, 1968; Memmi, 1967; Mansur, 1962).
uns e outros: indivíduos, famílias, grupos e classes, nações e nacionalidades, São muitas as ideias, correntes de pensamento, teorias, técnicas, ideolo-
religiões e línguas, etnias e raças. As identidades reais e ilusórias baralham- gias e utopias que entram na fermentação dos movimentos sociais e partidos
se, afirmam-se ou recriam-se. No âmbito da globalização, abrem-se outras políticos, em suas reivindicações e lutas para afirmar autonomia, indepen-
condições de produção e reprodução material e espiritual. É como se a histó- dência, soberania ou hegemonia. Aí entram: catolicismo, protestantismo, li-
ria, vista agora em suas dimensões propriamente universais, encontrasse pos- beralismo, evolucionismo, positivismo, marxismo, estruturalismo, estrutu-
sibilidades desconhecidas; assim como a geografia parece redescobrir-se. No ral-funcionalismo, teoria sistémica, giro linguístico, hermenêutica, socialis-
âmbito da globalização, compreendendo nações e nacionalidades, movimen- mo, comunismo, social-democracia, neoliberalismo, corporativismo, fascis-
tos sociais e fundamentalismos, redes e alianças, soberanias e hegemonias, mo, militarismo e outras correntes de pensamento, técnicas de controle e mu-
fronteiras e espaços, ecossistemas e ambientalismos, blocos e geopolíticas, dança social, ou teorias da sociedade e história.
nesse contexto multiplicam-se as condições de integração e fragmentação. As É claro que em todos os casos há sempre o resgate ou a recriação das ma-
mesmas forças empenhadas na globalização provocam forças adversas, trizes culturais e civilizatórias, das raízes de cada povo, tribo ou nação.
novas e antigas, contemporâneas e anacrónicas, recriando e multiplicando Muitas vezes, são estes os elementos que operam como parâmetros, quadros
articulações e tensões. de referência, a partir dos quais ocorre o empréstimo, assimilação ou recria-
A mesma fábrica das diversidades fabrica desigualdades. A dinâmica da ção de elementos "exteriores". Mas afirmação da autonomia, independên-
sociedade global produz e reproduz diversidades e desigualdades simultanea- cia, identidade, soberania ou hegemonia em geral se reforçam no contrapon-
mente às convergências e integrações. Pode ser ilusório imaginar que a diver- to com o outro.
sidade situa-se no ser-em-si, identidade. Esse, quando se verifica, é um esta-
do episódico; e quando permanece, ocorre o risco da recorrência, da reitera- "Nos tempos do domínio britânico, um período de amarga sujeição, que foi
§í : também um período de mobilização intelectual,! o nacionalismo hindu procla-
ção da mesma. A trama das relações, o jogo do intercâmbio, a audácia do
confronto, podem produzir diferença, diversidade, antagonismo; com os ris- mou o passado hindu; e a religião foi inexplicavelmente mesclada com o desper-
cos das perdas e dos ganhos, precisamente com os riscos de mudança ou tador político. Mas a índia independente, com os seus planos quinquenais, sua
transfiguração. industrialização e sua prática da democracia, investiu na mudança. Havia sem-
Essa tem sido a dialética das trocas, intercâmbios, encontros, conquistas, pre uma contradição entre o arcaísmo do orgulho nacional e a promessa do
dominações, colonialismos, imperialismos, interdependências, alianças ou novo; e a contradição afinal rompeu e abriu a civilização. A turbulência na
associações, envolvendo grupos, classes, coletividades, povos, culturas e civi- índia, desta vez, não veio da invasão ou conquista estrangeira; tem sido gerada
lizações. Desde a invenção do Novo Mundo à invenção do oriente, desde a desde dentro. A índia não pode responder no velho estilo pelo retrair-se no ar-
conquista da África às incursões europeias e americanas na Ásia, sob todos caísmo. As suas instituições emprestadas têm funcionado como instituições em-
os colonialismos e imperialismos, em todos os casos a dialética da história prestadas. Mas a índia arcaica não tem substitutos para a imprensa, o Parlamen-
produz e reproduz conquistas e destruições, convergências e diversidades, in- to e os tribunais. A crise da índia não é apenas política ou económica. A crise
tegrações e antagonismos (Panikkar, 1977; Said, 1990; Wolf, 1982). mais ampla é a de uma civilização ferida, que afinal tornou-se consciente de suas

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O S É C U L O XX GLOBALIZAÇÃO E NOVA ORDEM INTERNACIONAL

insuficiências e de sua carência de meios intelectuais para mover-se adiante" "O primeiro fator foi a assimilação por asiáticos e africanos das ideias, técnicas
(Naipul, 1978, pp. 9-10). e instituições ocidentais, que podiam ser aproveitadas contra as potências ocu-
pantes — um processo em que eles demonstraram ser mais aptos que a maioria
Globalização rima com integração e homogeneização, da mesma forma dos europeus tinha previsto. O segundo foi a vitalidade e capacidade de auto-re-
que com diferenciação e fragmentação. A sociedade global está sendo tecida novação de sociedades que os europeus tinham, com excessiva facilidade, consi-
por relações, processos e estruturas de dominação e apropriação, integração derado estagnadas, decrépitas ou moribundas. Foram esses fatores, em conjunto
e antagonismo, soberania e hegemonia. Trata-se de uma configuração histó- com a formação de elite que sabia como explorá-los, que resultaram no fim do
rica problemática, atravessada pelo desenvolvimento desigual, combinado e domínio europeu" (Barraclough, 1976, p. 153).
contraditório. As mesmas relações e forças que promovem a integração sus-
citam o antagonismo, já que elas sempre se deparam com diversidades, alte- Ao globalizar-se, o mundo se pluraliza, multiplicando as suas diversida-
ridades, desigualdades, tensões, contradições. Desde o princípio, pois, a so- des, revelando-se um caleidoscópio desconhecido, surpreendente. Ao lado
ciedade global traz no seu bojo as bases do seu movimento. Ela é necessaria- das singularidades de cada lugar, província, país, região, ilha, arquipélago ou
mente plural, múltipla, caleidoscópica. A mesma globalização alimenta a di- continente, colocam-se também as singularidades próprias da sociedade glo-
versidade de perspectivas, a multiplicidade dos modos de ser, a convergência bal. Por sobre a coleção de caleidoscópios locais, nacionais, regionais ou
e a divergência, a integração^ a diferenciação, com a ressalva fundamental continentais, justapostos e estranhos, semelhantes e opostos, estende-se um
de que todas as peculiaridades são levadas a recriar-se no espelho desse novo vasto caleidoscópio universal, alterando e apagando, bem como revelando e
horizonte, no contraponto das relações, processos e estruturas que configu- acentuando cores e tonalidades, formas e sons, espaços e tempos desconheci-
ram a globalização. dos em todo o mundo. Entrecruzam-se, fundem-se e antagonizam-se pers-
As próprias perspectivas de auto-afirmação, autoconsciência, luta pela pectivas, culturas, civilizações, modos de ser, agir, pensar, sentir e imaginar.
emancipação ou desalienação revelam-se enriquecidas e dinamizadas pelo Tanto se apagam e recriam diversidades preexistentes como formam-se
contato, intercâmbio ou contraponto de modos de vida e trabalho, formas de novas. Ao mesmo tempo que expressa e deflagra processos de homogeneiza-
ser, agir, pensar, sentir, imaginar. As permutas reiteradas ou contínuas, os in- ção, provoca diversidades, fragmentações, antagonismos.
tercâmbios e as tensões entre formas socioculturais diferentes, entre povos No âmbito da globalização, quando começa a articular-se uma totalida-
com distintas formas de vida e trabalho, tudo isso tende a potenciar ativida- de histórico-geográfica mais ampla e abrangente que as conhecidas, abalam-
des, produções, horizontes. É claro que tribos, comunidades, povos, nacio- se algumas realidades e interpretações que pareciam sedimentadas. Alteram-
nalidades e nações, com seus recursos socioculturais ou civilizatórios, têm se os contrapontos singular e universal, espaço e tempo, presente e passado,
sido agredidos, subjugados, suprimidos ou mutilados pelos surtos de expan- local e global, eu e outro, nativo e estrangeiro, oriental e ocidental, nacional
são do capitalismo pelo mundo: mercantilismo, colonialismo, imperialismo, e cosmopolita. A despeito de que tudo parece permanecer no mesmo lugar,
alianças estratégicas de corporações, integração regional e geopolítica, com- tudo muda. O significado e a conotação das coisas, gentes e ideias modifi-
preendendo correntes de pensamento como o liberalismo, neoliberalismo, cam-se, estranham-se, transfiguram-se.
evolucionismo, positivismo, funcionalismo, marxismo, socialismo, fascismo,
cristianismo e outras. Em geral, no entanto, os povos da Ásia, Oceania,
África, América Latina e Caribe têm sido capazes de mobilizar elementos ob-
tidos de povos colonizadores, conquistadores, colonialistas ou imperialistas
para desenvolver suas perspectivas de auto-afirmação, autoconsciência e
luta. Na maioria dos casos, umas vezes com limitações e outras com sur-
preendentes invenções, combinaram-se duas ordens de fatores.

222 223
O S É C U L O XX

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224
Hoje, na virada do milénio, temos a certeza de que nossas vidas em muito se
diferenciam daquelas vividas por nossos avós. Vários objetos dos quais nos
rodeamos e não podemos prescindir no cotidiano existem há pouco mais de
trinta anos. Mas, para além disso, a maneira das pessoas pensarem, julgarem
e programarem suas vidas também se modificou. Muitos sentimentos ganha-
ram novos significados, explicações e contextos para serem vivenciados. Tais
mudanças não se deram de uma hora para a outra, elas foram ocorrendo
paulatinamente. No entanto, podemos dizer que o ritmo dessa mudança ace-
lerou-se de maneira importante após o fim da Segunda Grande Guerra.
Depois que a bomba atómica explodiu, com espanto e terror, a humani-
dade procurou juntar alguns dos milhares de estilhaços do "velho mundo" e
pouco a pouco fomos nos surpreendendo com as novas formas acrílicas e ve-
lozes que se mostravam a nossa frente. Datam do pós-guerra o fast food, a
TV, a penicilina, a pílula anticoncepcional, o gay power, os Black Panthers,
a Aids, a Guerra Fria, o fim da União Soviética, a crise do petróleo, as via-
gens espaciais, os sucessos de John Lennon, Tom Jobim e Madonna.
Passados mais de cinquenta anos após a tragédia de Hiroshima, é possível
perguntar: no que nos tornamos? Que mundo nós perdemos? O que em nós
persiste, além da nostalgia, da vida que nossos avós levaram?

1. A CASA

Em 1958, vinte e dois anos depois da última obra sem diálogos de Charles
Chaplin, um filme mudo recebia o Oscar. Entre as duas películas, alguns
pontos em comum e muitas, muitas diferenças. O mais antigo, Tempos mo-
dernos, foi produzido em preto-e-branco nos EUA por um diretor inglês. No
contexto da grande depressão dos anos 30, Chaplin aborda a violência com
que a automação capitalista proporcionada pelo avanço tecnológico altera a
vida das pessoas simples, preocupadas com a sobrevivência diária e muitas

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vezes perseguidas por motivos que lhes são desconhecidos. A poética do va- nos mais variados lugares do planeta, as suas "maravilhas" muito lentamen-
gabundo-operário apaixonado pela bela órfã idealista contrasta com o olhar te chegavam às prateleiras das lojas dos países menos favorecidos.
onipotente, frio e ganancioso do capitalista, preocupado em garantir que os Efetivamente, muitos dos resultados do avanço tecnológico ocorrido duran-
seus operários trabalhem durante cada segundo em que estão na fábrica. te a guerra foram utilizados na produção de novas mercadorias imediata-
Em Meu tio, Jacques Tati critica de maneira romântica e divertida as mo- mente consumidas pelos americanos e, ao fim da década de 1950, pelo res-
dificações que o progresso industrial produz no cotidiano de Paris. O diretor tante das nações mais prósperas. A pesquisa científica, aliada ao processo de
apresenta uma casa construída nos padrões modernistas e abastecida com fabricação em massa de Henry Ford, barateava a produção e criava novos
eletrodomésticos. O cenário clean, ascético e moderno da casa, que às vezes hábitos de consumo.
toma a forma de um rosto macabro, é comparado com as ruas e sobrados de A mesa do americano comum sentiu rapidamente as novas mudanças: à
uma parte velha de Paris ainda alheia à americanização e à febre de consu- primeira grande novidade, os enlatados, largamente consumidos durante a
mo. A obra de Chaplin refere-se à automação da indústria e às modificações guerra, seguiu-se a comida congelada acompanhada pela aquisição de gela-
que ocorrem na maneira do operário trabalhar, sua submissão crescente e in- deiras e freezers, frutas e legumes de regiões longínquas tornando-se disponí-
condicional ao ritmo imposto pela máquina, que passa a lhe determinar ini- veis devido ao transporte aéreo. Com a "corrida espacial", os produtos de-
cialmente os gestos e posteriormente o comportamento fora da fábrica. Tal senvolvidos para a alimentação dos astronautas (alimentos desidratados, sa-
situação é apresentada como capaz de levar o homem à perda da inteligên- bores artificiais etc.) foram paulatinamente incorporados à dieta cotidiana
cia, de seus sentimentos, da sua capacidade de avaliação e, conseqúentemen- do homem comum.
te, de suas características humanas. Para termos uma ideia das mudanças ocorridas nos hábitos aumentares,
Tati, no fim da década de 1950, em plena era de ouro do capitalismo basta imaginar uma cozinha sem fogão a gás ou elétrico, sem geladeira, liqui-
americano, chama a atenção para as mudanças que estavam ocorrendo den- dificador, torradeira, freezer e microondas. Para nós, parece muito remoto o
tro da casa dos trabalhadores assalariados inebriados com a possibilidade de tempo em que nossas avós acordavam com o tempo ainda escuro a fim de
disporem de todo um arsenal de aparelhos capaz de minimizar o serviço do- acender o fogão a lenha, tirar o leite da vaca e assar o pão, cuja massa havia si-
méstico e de aproximá-los das classes mais abastadas. O monstro-constru- do preparada de véspera. Como imaginar a dieta diária de uma família que não
ção, tal como a linha de montagem de Chaplin, coloca os seus habitantes em tinha outro recurso para armazenar a carne senão o de salgá-la? Dentre toda
situações constrangedoras, onde as "facilidades eletrodomésticas" fogem ao essa parafernália doméstica que se apresentava como integrante do confortável
controle daqueles que deveriam manejá-las para seu proveito. Aliás, a sensa- futuro que os novos tempos traziam, um eletrodoméstico em especial apresen-
ção que a casa automatizada provoca é a de constrangimento, onde aqueles tava os primeiros sinais de uma popularidade vertiginosa, que iria trazer modi-
que nela habitam estão sempre sujeitos à disciplina, ao individualismo e à so- ficações fundamentais na vida diária do homem comum — a televisão.
lidão impostos por um espaço cuidadosamente planejado. Em contraste, os
velhos prédios pouco funcionais para a vida moderna são apresentados com
poesia num cenário que possibilita a vida em liberdade e os sentimentos de
camaradagem, amizade e aconchego. 2. A TELEVISÃO
Entretanto, essa amarga nostalgia de um mundo que desaparecia rapida-
mente diante da modernidade e do progresso tecnológico não encontrou Primórdios
muito eco junto à maior parte da população, tanto dos países mais próspe-
ros quanto dos mais miseráveis. É verdade que no início da década de 1960 De acordo com Albert e Tudesq (1982), a transmissão de imagens fixas à dis-
ainda estávamos muito distantes do mundo atual globalizado. Se o American tancia tornou-se alvo de preocupação de pesquisadores europeus desde a me-
way o f life tornava-se o modelo de vida perseguido por mais e mais pessoas tade do século XIX. Assim, foram desenvolvidos procedimentos que utiliza-

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vam o telégrafo elétrico (pantelégrafo) e os cabos telefónicos (belinógrafo) mente serviam como uma espécie de atores coadjuvantes para as brincadei-
para tal finalidade. No entanto, a televisão só se tornaria possível através da ras e piadas realizadas pelo apresentador, mas também desempenhavam o
conjunção de três séries de pesquisas: a) aquelas referentes à fotoeletricidade, papel de convidados numa sala dê estar, entabulando uma conversa íntima e
quer dizer, a capacidade de certos corpos de transformar, por radiação de elé- afável com todos os telespectadores que, de suas casas, participavam desses
trons, a energia elétrica em energia luminosa; b) os procedimentos de análise colóquios nos quais eram expostas as situações de vida mais simples e coti-
de fotografias decompostas e logo depois recompostas em linhas de pontos dianas. Não é difícil para nós pensarmos em exemplos de programas atuais
claros e escuros; e c) o domínio das ondas hertzianas para a transmissão de que mais ou menos correspondem à fórmula do "1:0 para você". É bastante
sinais elétricos correspondentes a cada um dos pontos da imagem analisada. enigmático que este aparelho, que ganhou um lugar tão importante na vida
A complexidade dos fenómenos e a sofisticação dos procedimentos que diária dos homens comuns, tenha permanecido durante pelo menos vinte e
deveriam ser controlados para assegurar, 25 vezes por segundo, a captação cinco anos sem nem ao menos aproximar-se do sucesso e das alterações que
da transmissão e a restituição dos milhares de pontos de cada imagem expli- viria a sofrer e ajudar a operar na sociedade e no planeta. Em 1939, a BBC
cam o longo período de amadurecimento e a quantidade de tentativas que se inglesa operava com o sistema EMI, de 405 linhas, dos estúdios de
deram até que, em 1926, o televisor, aperfeiçoado pelo inglês John Logie Alexandra Palace. De longe a melhor televisão do mundo, ela oferecia vinte
Baird um ano antes em seu laboratório, obtivesse sua primeira licença expe- e quatro horas de programação semanal, contando com 20 mil receptores na
rimental. A partir de 1929, Baird passou a transmitir um programa diário de região londrina (Albert & Tudesq, 1982, p. 92). A guerra interrompeu esse
meia hora. processo em todo o mundo. Com a paz, também essa atividade foi retoma-
De qualquer maneira, até o fim da Segunda Guerra Mundial, o uso de da, mas em moldes muito diferentes e obviamente restrita aos países mais in-
tais aparelhos foi bastante tímido se o compararmos com o poder que passa- dustrializados, seguindo orientações e obtendo resultados muito distintos de
rão a exercer a partir dos anos 50 e, principalmente, 60 deste século. Ao que acordo com o país em que seria implantada.
tudo indica, os primeiros impactos ocasionados por esta invenção não foram
tão intensos quanto aqueles decorrentes da introdução do gramofone, do
filme e, sobretudo, do rádio nas décadas anteriores. Gumbrecht, ao analisar A retomada do pós-guerra
a experiência alemã, afirma que, "embora a compra de um aparelho que não
era caro tenha se tornado possível a muitos", o consumo da televisão não As firmas de material radiofónico passaram a se ocupar com esse novo mer-
correspondeu às expectativas iniciais. Com poucas chances de concorrer com cado que se expandia com o auxílio de significativos avanços técnicos refe-
o fascínio de presenciar in loco as reuniões políticas e esportivas de massa, a rentes às câmeras eletrônicas, aos tubos dos receptores e à instalação das
televisão ainda não havia encontrado, ao menos na Alemanha, sua lingua- emissoras. A adoção, nos anos 50, das ondas videométricas (VHF) e depois
gem própria. decimétricas (UHF), multiplicando os canais disponíveis, permitiu que a tele-
De acordo com a matéria de capa do Spiegel de 31/08/1955, Peter visão saísse de uma situação de estagnação. Um dos problemas mais graves
Frankenfeld, com o seu "1:0 para você", pode ser considerado o primeiro enfrentados foi o da definição das imagens e sua normatização: enquanto os
grande astro de televisão da Alemanha. A dinâmica de seu show teria pro- Estados Unidos conservavam as 525 linhas e a Inglaterra (BBC) permanecia
porcionado a abertura de um caminho do estúdio e do f alço para o "lar" do com suas 405, a França operava com 819 e os outros países europeus utili-
telespectador (Gumbrecht, 1998, p. 267). O programa contava com a leitu- zavam 625, numa espécie de standard mundial. A invenção do magnetoscó-
ra de cartas e com o agradecimento dos presentes dos telespectadores, mas o pio pela empresa americana Ampex substituiu, em 1956, o antigo procedi-
sucesso era garantido pela participação da plateia, que respondia aos apelos mento de registro das imagens sobre película cinematográfica (kinescope)
de Frankenfeld: "Eu preciso de três homens corajosos que participem de pela banda magnética, barateando o processo de produção e dando maior
qualquer coisa" (citado por Gumbrecht, 1998). Esses voluntários não so- flexibilidade às programações das emissoras.

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O S É C U L O XX MÍDIA E I N F O R M A Ç Ã O NO COTIDIANO C O N T E M P O R Â N E O

Para que se possa ter uma ideia do grau do crescimento e da difusão al- Contrastando com este perfil, a BBC explorava com talento as obras da
cançados pela televisão nos anos que se seguiram ao fim da guerra, vale literatura britânica, além de dar grande destaque às provas desportivas ou hí-
notar que em 1945 os americanos tinham em torno de uma dúzia de estações picas e também à cobertura dás grandes cerimónias oficiais, tais como os fu-
disponíveis para cerca de 10 mil receptores. Sete anos mais tarde, havia nos nerais de Jorge VI e o coroamento de Elizabeth H. Nos dois casos, as emis-
Estados Unidos 108 estações, número que em três anos se elevou para 455, sões de informação e as grandes discussões políticas ganharam uma impor-
chegando a 580 em 1960. Da mesma forma, o aumento da quantidade de re- tância fundamental, cujos contornos se tornaram, no decorrer das décadas
ceptores foi vertiginoso: 30 mil em 1947, 157 mil em 1948, 876 mil em seguintes, cada vez mais nítidos e incisivos. "
1949,3,9 milhões em 1950,15 milhões em 1952 e 34,7 milhões em 1961. O A televisão ampliou determinadas crises políticas, como o macarthismo
investimento publicitário que financiava os programas acompanhou esta es- nos anos de 1952-54, desempenhou um papel evidente nas campanhas elei-
calada: de 9,8 milhões de dólares investidos em 1948 para 1,5 bilhão em torais, favoreceu a eleição de Eisenhower contra Stevenson em 1956 e cum-
1960 (Albert Sc Tudesq, 1982, p. 97). priu uma função decisiva na de Kennedy contra Nixon em 1960, quando os
A regulamentação contra a concentração, que proibia uma empresa de dois candidatos se confrontaram por quatro vezes diante das câmeras, sendo
possuir mais de sete estações, limitou as grandes sociedades de radiodifusão vistos em cada transmissão por 60 a 75 milhões de americanos. Mas foi du-
às grandes capitais do país. No entanto, estas networks (redes de teledifusão) rante a década de 1960 que a televisão aprendeu algumas das suas mais im-
tinham seus programas transmitidos por suas filiadas. Desta maneira, a portantes lições para atuar de maneira cada vez mais competente, efetiva e
NBC, CBS e posteriormente a ABC rapidamente eliminaram suas concorren- indispensável.
tes e, através da programação, passaram não só a dominar o mercado ame-
ricano mas, devido ao crescimento do setor no resto do mundo, a expandir-
se em escala internacional. Os anos 60
Quanto ao perfil do material transmitido, o código da National
Association of Radio Television Broadcaster, ao qual se submetiam todas as
Stewart Burns afirma que o poder dos mass media (meios de comunicação de
estações desde 1952, não impôs limites muito significativos às programa-
massa), especialmente as redes de televisão, exerceu um papel fundamental
ções, que sem dúvida caracterizavam-se àquela época pela presença desmesu-
no que se refere aos movimentos sociais da década de 1960, em particular o
rada de anúncios publicitários durante as teletransmissões, chegando a al-
dos negros, das mulheres e dos pacifistas. Estes foram os primeiros movi-
cançar o índice de 20% do tempo referente ao "horário nobre". Os progra-
mentos a desfrutar das vantagens da era do vídeo. A mídia "enquadrou",
mas encontravam-se sob o jugo dos ratings, indicadores de audiência que
demonstravam o que deveria ser mantido ou eliminado, determinando desta distorceu e frequentemente banalizou as suas mensagens políticas, mas tam-
maneira a produção de programas capazes de reter o maior número possível bém as transmitiu para uma imensa audiência por todo o território america-
de telespectadores. Entre os altos níveis de audiência alcançados, as reporta- no, atingindo até mesmo o exterior. De maneira que, se eles se tornaram mo-
gens esportivas ganharam lugar privilegiado garantindo um público amplo e vimentos de massa, foi porque, de alguma forma, obtiveram acesso aos
fiel. Além disso, concursos e competições repartiam o tempo de transmissão meios de comunicação. E, segundo Burns, quando a mídia perdeu o interes-
com os seriados, os shows de- variedades e as novelas. As grandes compa- se, retirando-lhes os refletores, esses movimentos declinaram significativa-
nhias cinematográficas, que tanto haviam prosperado durante a guerra, pri- mente. Qual a dimensão do poder que exerceram é difícil precisar. Mas não
meiramente temiam a concorrência da televisão; todavia, no fim da década é difícil avaliar a importância da transmissão diante das câmeras do discurso
de 1950, passaram a fornecer às emissoras seus filmes antigos e em seguida proferido por Martin Luther King para cerca de 5 mil negros amontoados
iniciaram uma produção de películas destinadas especialmente para a TV. Os nas cercanias da Holt Street Baptist Church, num quadro tão emocionante
programas de melhor nível cultural ou de reflexão política não conseguiram quanto o comentário do repórter presente: "They were on f ire for freedom!"
acesso aos horários considerados nobres. (Eles estão ardendo por liberdade!) Em que medida o eco das palavras de

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O S É C U L O XX MlDIA E I N F O R M A Ç Ã O NO C O T I D I A N O C O N T E M P O R Â N E O

King foi ampliado pelas ondas hertzianas, produzindo efeitos inusitados por Assim, nas Malvinas, já há tecnologia para mostrar os combates, mas os
toda a nação sensibilizada pelo apelo: "Se vocês protestarem corajosamente, jornalistas são mantidos à distância. Sem imagens, os telejornais descobrem
e com dignidade e amor cristão, quando os livros de história forem escritos uma saída engenhosa: reconstroem a batalha utilizando gráficos de computa-
pelas gerações futuras, os historiadores terão que parar e dizer: Lá viveu um dor, simulações. A porta estava aberta para a busca de um arsenal de efeitos vi-
grande povo — um povo negro —, que injetou um novo sentido e dignidade suais capaz de substituir as imagens que faltam, ou criar outras, muito mais ex-
nas veias da civilização. Esse é nosso desafio e nossa maior responsabilida- citantes, apagando os limites entre realidade e ficção. O conflito das Malvinas
de "(Martin Luther King Jr., Stride Toward Freedom: the Montgomery Story. foi um campo de provas para a mídia inventar as imagens da guerra que lhe
Nova York: Harper Brothers, 1958, citado por Burns, 1988). eram inacessíveis. Em Granada, o próprio exército americano veio a filmar a
A simples cobertura dos acontecimentos pelas emissoras de televisão não invasão, mostrando apenas o que desejava (Laymert et alii, 1996, p. 158).
apenas transmitia a informação sobre um determinado fato, mas também Na Guerra do Golfo, o poder militar encontrou uma maneira de assumir
agia sobre o que estava sendo divulgado. Aos poucos a mídia e a sociedade o controle da produção e divulgação da sua própria realidade, apresentada
aprendiam sobre o poder de que poderiam dispor. Grandes ensinamentos pelas emissoras de televisão e cuidadosamente fabricada por algumas estra-
foram difundidos no que diz respeito aos conflitos internacionais, dentre os tégias fundamentais: a) a produção de material de propaganda que pudesse
quais o do Vietnã forneceu as referências para o modo como o establishment ser veiculado como informação militar sobre a alta tecnologia de que dispu-
militar veio a lidar com a mídia nas guerras futuras. nha o comando aliado; b) o monopólio da produção e difusão de informa-
De acordo com um programa inglês intitulado O poder da imagem, as ção pelas forças armadas americanas, limitando o trabalho dos repórteres ao
relações entre a televisão e a guerra podem ser compreendidas se agrupadas de locutores e, no máximo, à tradução para outros idiomas da "fala militar
em duas fases. Na primeira, que cobre a Guerra do Vietnã e a guerra interna que transitava pelos pools americanos"; e c) a transmissão "ao vivo", instan-
contra os que se opõem à intervenção americana, mas que cobre também a tânea produzindo um efeito de realidade.
Primavera de Praga e a oposição dentro do bloco soviético, a televisão des- A guerra hi-tech, a guerra eletrônica, veloz, clean, precisa e fulminante,
cobre o poder das imagens e delas tira o maior partido que pode. Na segun-
deveria acontecer imediatamente na televisão. Nenhuma distância no espaço
da, que para uns começa com Nixon e as lições do Vietnã, para outros já bem
nenhum intervalo no tempo deveriam se interpor entre o telespectador con-
antes, com Kennedy, são os políticos que descobrem o poder das imagens e
fortavelmente instalado em casa e o campo de batalha em Bagdá, Dahram,
passam a querer controlá-las (Laymert et alii, 1996, p. 157).
Jerusalém, Riad, Tel-Aviv... E aqui, o fluxo de imagens da CNN, que vão se
atropelando e se substituindo no vídeo, engata diretamente na descarga de
A criação de uma realidade televisiva ansiedade que faz de todos nós os voyeurs do destino dos outros e dos nos-
sos próprios destinos. (Garcia dos Santos, Laymert, 1996, p. 160).
A primeira lição que os militares tiraram da guerra foi explicitada pelo secre- A realidade da guerra que se apresenta nos lares de todo o mundo numa
tário de Estado Dean Rusk: "Precisamos pensar muito numa questão: um fantástica superprodução é a da guerra sem cadáveres, sem sofrimento, mas
conflito armado pode durar muito tempo se os seus piores aspectos são mos- com muita emoção — um videogame. E embora o próprio exército aliado
trados pela televisão? Talvez devesse haver algum tipo de censura." As mani- tenha reconhecido que 70% das 88 mil toneladas de explosivos tenham atin-
festações pacifistas contra a intervenção no Vietnã explicavam a razão de tal gido seus alvos e que só 70% dos bombardeios foram efetuados com as deno-
preocupação. minadas "bombas limpas", o poderio militar dos EUA ganhou feições de fic-
Como decorrência, a divulgação de imagens ao vivo durante o conflito ção científica, como se a humanidade tivesse inaugurado uma nova forma de
emerge como um problema. Quem controla a geração dessas imagens? Que resolver cientificamente os grandes conflitos ocasionados por interesses inter-
impacto elas podem ter? Como enquadrá-las, administrá-las, comentá-las e nacionais. Nesse incrível teatro de operações, os telespectadores imóveis mas
direcionar a sua leitura? mobilizados cumprem o papel de informar-se, fechar-se em casa e apoiar os

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militares, integrando uma retaguarda solidária e um público fiel para as estre- utilização da parafernália técnica (câmeras, refletores etc.) necessária para a
las que acenam diariamente em suas maravilhosas aeronaves. Neste momen- captura de imagen. e sons até o cuidado estético a que submetem pelo menos
to, a produção da informação pela televisão distingue-se daquelas empreendi- alguns dos participantes do programa (maquiagem e guarda-roupa). Além
das no passado: não se trata mais de uma teleaudição (a Segunda Guerra disso, alguns discursos parecem excepcionalmente adequados à situação, o
Mundial) ou de uma "tele-visão" (a Guerra do Vietnã) mas de uma verdadei- que nos obriga a pensar nos médicos, em como seus colegas poderiam estra-
ra teleação, onde os telespectadores atuam como "parceiros de guerra". nhar a emissão de frases um pouco reflexivas demais quando o profissional,
A efetivação desse amálgama entre atores sociais e produtores de "reali- diante de grande pressão, necessita reunir todos os esforços para obter res-
dades televisivas", ou seja, de imagens vivenciadas por uma vastíssima au- postas às questões impostas pela situação de emergência. De qualquer modo,
diência, pode ser percebida em pelo menos duas outras situações bastante a população do Hospital Martin Luther King teve o seu cotidiano converti-
contemporâneas. A primeira se encontra no programa intitulado World's do em uma "realidade televisiva" na qual não desempenha de forma apenas
Most Amazing Vídeos (os vídeos mais incríveis do mundo). A exibição de ví- passiva os papéis que lhe são imputados. Neste caso, como no da Guerra do
deos nos quais pessoas aparecem em grande perigo ou em situações muito es- Golfo, parece que a dicotomia entre a imagem e aquilo que ela representa foi
tranhas é acompanhada pela voz de um narrador que relata a cena apresen- de alguma maneira atenuada.
tada. Esta narrativa é alternada com depoimentos de indivíduos que estavam Os processos de captação e edição de imagens tornaram-se cada vez mais
presentes no vídeo como protagonistas ou como coadjuvantes. familiares para os telespectadores, principalmente depois do sucesso dos pro-
Desta forma, são explicitados detalhes e impressões sobre o aconteci- gramas do tipo The making of e do sucesso das câmeras de vídeo para uso
mento registrado e quase sempre uma conclusão de ordem ética é apresenta- doméstico. Pode-se dizer que poucos são ingénuos a ponto de acreditar que
da no fim. Neste caso, a realidade vivida pelas pessoas é reapresentada de o acontecimento apresentado na televisão não poderia ser "editado" e inter-
forma mista. Em parte ela sofre o tratamento dado pelos especialistas de pro- pretado de outra maneira. Tais modificações, talvez nem muito profundas, se
dução em televisão, mas aqueles que foram capturados pelo câmera ganham agregam a uma crescente demanda por uma maior interatividade entre teles-
um outro tipo de participação posterior distinto daquele do registro inicial. pectador e geradores de imagem, tendência que talvez já aparecesse de forma
Vale a pena ressaltar que, na sua maioria, os vídeos são enviados para a emis- embrionária no pioneiro "1:0 para você"(como vimos anteriormente) na
sora que produz o programa por telespectadores que, desta forma, passam a busca por uma familiaridade necessária na relação com a audiência de teles-
atores e a co-roteiristas também. pectadores. Neste imenso set (inter)planetário, as possibilidades de atuação
Um outro exemplo é o programa intitulado Sala de Emergência. Este se através da televisão são imensas e transformam cotidianamente os hábitos,
assemelha muito a alguns bem-sucedidos seriados (como Chicago Hope, as maneiras de julgar, eleger, sentir e perceber a vida em sociedade(s).
Plantão Médico e Mulher) cuja temática central é a vida estressante e herói- Uma das transformações importantes para a qual nos devemos voltar é a
ca de uma equipe médica que atende a situações de emergência num hospi- da própria noção de cultura. O que antes era percebido como exclusividade
tal. O que torna este seriado distinto dos demais é que todas as imagens das de um determinado grupo social num determinado território, um arcabouço
situações apresentadas não são simulações, mas sim registros de aconteci- de patrimónios artísticos, científicos e intelectuais ao qual uma parcela signi-
mentos reais, vivenciados num hospital de verdade por médicos, enfermeiros ficativa da população mundial nunca poderia ter acesso e do qual jamais po-
e pacientes no decorrer do seu cotidiano e, dessa forma, apreendidos pela deria partilhar, hoje é compreendido como maneiras diferentes de emprestar
produção televisiva. Cabe ressaltar que os não-atores expressam suas angús- sentido aos atos sociais de maneira plural através de diferentes formas de
tias, sentimentos e opiniões sobre as situações por eles experimentadas. Não produção e tipos de uso. Pelo que expomos, a previsão de um planeta onde
é difícil imaginar que, apesar da autenticidade dos acontecimentos televisio- a maior parte da população convertida em audiência telespectadora encon-
nados, as situações ali desenvolvidas de alguma maneira diferem daquelas vi- trar-se-ia subjugada passivamente pelos produtores de uma cultura empobre-
vidas cotidianamente pelas populações que frequentam hospitais — desde a cida, cuja função seria a de manter a submissão e a homogeneidade, não con-

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O SÉCULO XX
MlDIA E INFORMAÇÃO NO C O T I D I A N O CONTEMPORÂNEO

tava com a participação daqueles sem os quais a televisão não pode sobrevi- 3. A INFORMÁTICA
ver: os consumidores de sua programação, de sua propaganda, aqueles que
Certeau julgou capazes de efetuar um consumo criativo. Uma pequena história do computador
Muitas marcas de sabão em pó prometem lavar melhor que o produto
concorrente, como todos os políticos postulam acabar com a corrupção. Tais Já no século XDC, um matemático inglês denominado Babbage inventou uma
discursos não gozam mais de crédito pela população. Muitas frases conver- máquina a vapor que realizava equações diferenciais chamada Difference en-
teram-se em slogans, convenções utilizadas mais como recurso estilístico do gine. Do tamanho de uma locomotiva, ela possuía um programa de armaze-
que conteúdo de uma mensagem a ser transmitida. Daí anúncios como "Sede namento, podia realizar cálculos e os imprimia automaticamente. Por volta
é tudo; imagem é nada. Beba Sprite", onde a tentativa de convencimento de 1832, dez anos depois da invenção de sua calculadora, ele iniciou os tra-
torna-se alvo de zombaria por parte, inclusive, daqueles que deveriam estar balhos para a construção de um computador de finalidades variadas. Apesar
convencendo o telespectador a beber um determinado refrigerante. de nunca haver sido construído e parecer um tanto ou quanto primitivo para
O conteúdo da propaganda, na verdade, é: você está cansado de ser alvo os padrões atuais, o projeto já apresentava os elementos básicos de um mo-
de sedução para o consumo de mercadorias e não é bobo. Nós sabemos que derno computador, incluindo o processo de armazenamento de informações
você vai beber o que acha mais gostoso, mas simplesmente não esqueça o através de cartões perfurados que Babbage havia concebido com base no tear
nome deste produto, que você já conhece. Sabemos quão complexas se tor- de Joseph-Marie Jacquard.
naram as estratégias de marketing, tão complexas a ponto de muitas empre- Em 1889, o inventor americano Herman Hollerith, também inspirado nas
sas com problemas de imagem lançarem mão de expedientes tais como o fi- carteias de padronagem utilizadas por Jacquard, elaborou uma máquina com
nanciamento de obras sociais, de restauro ou de empreendimentos culturais. a finalidade de obter mecanicamente os resultados do censo americano. Com
Apesar do modelo americano haver se tornado o preponderante, estamos grande sucesso, não somente ele conseguiu em seis semanas obter os resulta-
bem longe de uma homogeneização cultural, espectro que rondava a imagi- dos mas introduziu sua leitora de cartões no mundo dos negócios, fundando
nação de muitos intelectuais durante as décadas passadas. Da mesma manei- em 1896 a Tabulating Machine Company, que em 1924 tornou-se a Inter-
ra, os sinistros futuros vislumbrados como "o império das máquinas", que national Business Machines (IBM). O sistema de cartões perfurados foi utili-
teriam escravizado ou mesmo extinto a humanidade, nos parecem cada vez zado até 1960, sendo adotado por inúmeras companhias pelo mundo afora.
mais como resultados de projeções de medos e ansiedades provenientes da Nos anos que se seguiram, vários engenheiros realizaram significativos
Guerra Fria. De maneira que, chegando ao ano 2000, nos encontramos progressos nesse campo, entre eles Vanevar Bush e John Atanasoff. Mas foi
l
muito mais distantes dos futuros anunciados nas décadas passadas. Nem o somente após a guerra que os avanços realmente importantes se sucederam.
despotismo autoritário-militarista imposto por um único ditador ou por um Em 1946, na Universidade da Pensilvânia, sob o patrocínio do exército ame-
conjunto de máquinas, nem o holocausto nuclear, nem tampouco as utopias ricano, Mauchly e Eckert desenvolveram o ENIAC (computador e integra-
comunistas tornaram-se presentes: talvez tenham se convertido para sempre dor numérico eletrônico). A máquina pesava 30 toneladas, tinha 70 mil re-
num futuro de um determinado passado. De todo modo, muitos receios são sistores, 18 mil válvulas a vácuo e ocupava a área de um ginásio esportivo.
justificados, pois hoje vivenciamos mudanças profundas nos nossos cotidia- Na esteira do seu precursor do século XIX, a versão comercial do ENIAC,
nos relacionadas às formas de produzir. Muitas das causas atribuídas a essas denominada UNIVAC-1, foi um grande sucesso no processamento dos dados
mudanças têm sido imputadas aos diferentes e cada vez mais correntes usos do censo americano de 1950.
de uma máquina que ganhou uma importância ainda maior que a televisão Em 1971, o advento do microprocessador, com a capacidade de incluir
no nosso século e que talvez já possa ser comparada ao marco estabelecido um computador em um chip, ocasionou uma verdadeira revolução no mundo
pela difusão do uso dos motores a vapor — o computador. da eletrônica. Passados cinco anos, o engenheiro Ed Robert, através de sua pe-
quena empresa denominada MITS, localizada em Albuquerque, no Novo

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México, construiu uma "caixa de computação", ou seja, um computador em interativo. Não foi apenas todo o sistema de tecnologia que mudou, mas
pequena escala que continha um microprocessador. Esta máquina serviu de também as interações sociais e organizacionais. Assim, o custo médio do
base para que Steve Wosniak e Steve Jobs, após terem abandonado os estudos processamento de informação caiu de aproximadamente 75 dólares por cada
regulares, idealizassem na garagem da casa de seus pais, em Menlo Park, Vale milhão de operações, em 1960, para menos de um centavo de dólar em 1990
do Silício, o primeiro microcomputador de sucesso comercial, o Apple H. (Castells, 1998, p. 62).
Lançada em 1976, com três sócios e um capital de 91 mil dólares, a A primeira revolução em tecnologia da informação concentrou-se nos
Apple Computer alcançou em 1982 a marca de 583 milhões de dólares em Estados Unidos, mais precisamente na Califórnia, nos anos 70, baseando-se
vendas, anunciando a era da difusão do computador. A reação da IBM foi rá- nos progressos alcançados nas duas décadas anteriores e sob a influência de vá-
pida: em 1981, ela introduziu sua versão de microcomputador com o nome rios fatores institucionais, económicos e culturais, tais como o patrocínio ofe-
de personal computs (PC), como serão chamados posteriormente todos os recido pelo Departamento de Defesa, bem como o empreendimento e brilhan-
microcomputadores. O Macintosh, da Apple, lançado em 1984, foi o primei- tismo de uma geração de ex-universitários, provenientes principalmente de
ro passo rumo às máquinas de fácil utilização, com a introdução de tecnolo- Stanford e Harvard, que, bem ao estilo do American way of lif e e assumindo o
gia baseada em ícones e interfaces com o usuário desenvolvida originalmen- mito do selfmade man, tornaram-se inventores, empresários e posteriormente
te pelo Centro de Pesquisa Xerox. gigantes no mundo dos negócios — como a lendária figura de Bill Gates.
No decorrer da década de 1970, dois jovens desistentes de Harvard, Bill É possível dizer que este processo de revolução tecnológica se deu dentro
Gates e Paul Allen, desenvolveram um software para PCs, garantindo defini- de limites geográficos bastante estreitos — o Vale do Silício, localizado no
tivamente a popularidade dos microcomputadores e a fundação da condado de Santa Clara, 48 quilómetros ao sul de São Francisco, entre
Microsoft (primeiro em Albuquerque e, dois anos depois, em Seattle, onde Stanford e São José. Durante os anos 70, milhares de mentes jovens e bri-
moravam os pais de Bill Gates). lhantes de todas as partes do mundo foram atraídos para esta "nova meça
Nos últimos dezessete anos, o aumento da capacidade dos chips resultou tecnológica". Reuniam-se em clubes para a troca de ideias e de informações
num aumento impressionante da capacidade dos microcomputadores, dimi- sobre os avanços mais recentes. As descobertas e aplicações interagiam e
nuindo assim as funções dos computadores maiores. No início dos anos 90, eram testadas em um repetido processo de tentativa e erro: aprendia-se fa-
computadores de um só chip tinham a capacidade de processamento de um zendo. Estes encontros profícuos possibilitaram o surgimento de mais de 22
computador IBM de cinco anos antes. Sistemas baseados em microprocessa- empresas nos anos que se seguiram, como a Microsoft, Apple, Comenco e
dores em rede, compostos de computadores pessoais menores (clientes), ser- North Star. A partir dos anos 90, o Vale do Silício viu proliferarem empresas
vidos por máquinas com maior capacidade (servidores), poderão vir a su- japonesas, taiwanesas, coreanas, indianas e europeias que ali chegaram à
plantar computadores mais especializados em processamento de informação, procura de novas tecnologias e informações comerciais valiosas. Além disso,
como os main frames tradicionais e os supercomputadores. Na verdade, uma devido ao seu posicionamento nas redes de inovação tecnológica, a área da
parcela importante do avanço na área se deve à grande evolução da capaci- baía de São Francisco tem sido capaz de aderir a cada novo desenvolvimen-
dade de formação de redes. to. Por exemplo, o surgimento -da multimídia em meados da década de 1990
Desde meados da década de 1980, os microcomputadores não podem ser criou conexões comerciais e tecnológicas entre as capacidades de projetos
concebidos isoladamente: eles atuam em rede, com mobilidade cada vez para computadores das empresas do Vale do Silício e os estúdios de produ-
maior, com base em computadores portáteis. Essa versatilidade e a possibili- ção de imagens em Hollywood, logo apelidados de indústria "Siliwood"
dade de aurrtentar a memória e os recursos de processamento, ao comparti- (Castells, 1998, p. 73).
lhar a capacidade computacional de uma rede eletrônica, mudaram decisiva-
mente a era dos computadores nos anos 90, ao transformar o processamen-
to e armazenamento de dados centralizados em um sistema compartilhado e

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As supervias da informação serviços empresariais em rede e uma entrada subsidiária para o vasto "sistema
de comunicação da constelação da Internet (Castells, 1998, p. 369).
Os dois primeiros experimentos em larga escala que anunciaram as supervias Já a Arpanet surgiu em 1969 como resposta ao lançamento do satélite
de informação, e que Ithyiel Sola Pool chamou de "tecnologias de liber- russo Sputnik. Inicialmente constituiu-se como estratégia militar para possi-
dade", foram introduzidos pelo Estado: o Minitel francês e a Arpanet ameri- bilitar a sobrevivência das redes de comunicação em caso de ataque nuclear.
cana. A primeira liga centros de servidores que podem ser acessados por ter- Precursora da Internet, ela foi encetada no âmbito mundial, com o apoio mi-
minais com pouca capacidade de memória, e ficou restrita às fronteiras fran- litar, por empresas de informática financiadas pelo governo americano, para
cesas. Já foi descrita como o resultado do esforço da tecnocracia francesa criar um clube mundial de usuários de computadores e bancos de dados. A
para remediar a fraqueza dos setores eletrônicos daquele país, e conquistou história do desenvolvimento da Internet e da convergência de outras redes de
grande aceitação nos lares franceses, crescendo em proporções fenomenais. comunicação para ela nos fornece material essencial para o entendimento de
Em meados dos anos 90, este sistema oferecia 23 mil serviços e faturava 7 bi- suas características técnicas, organizacionais e culturais. É possível sintetizá-
lhões de francos, sendo usado por um em cada quatro lares franceses e por la como uma inusitada sinergia entre estratégia militar, grande cooperação
um terço da população adulta. Pelo menos duas razões contribuíram para o científica e inovação contracultural. Desde o início de seu funcionamento, foi
seu sucesso. aberta aos centros de pesquisa que cooperavam com o Departamento de
Em primeiro lugar, o comprometimento do governo francês com o expe- Defesa dos EUA. Em 1983, houve uma cisão entre a Arpanet, dedicada a ob-
rimento, como um elemento do desafio apresentado pelo relatório Nora- jetivos científicos, e a Milnet, voltada para aplicações militares. Outras duas
Minc sobre a informatização da sociedade, preparado em 1978 a pedido do redes, a CSnet e a Bitnet, se desenvolveram e começaram a usar para fins de
primeiro-ministro. A segunda era a simplicidade de uso e a objetividade do comunicação a Arpanet que passou a chamar-se Internet, ainda custeada
sistema de faturamento bem organizado, que o tornaram acessível e confiá- pelo Departamento de Defesa e operada pela Fundação Nacional da Ciência.
vel ao cidadão comum, que dele se apropriou para sua expressão pessoal, in- Mas todo esse caráter institucional da Internet foi desde cedo flexibilizado
clusive para usos surpreendentes, como o das conversas pornográficas. por uma "contracultura computacional" que traria contribuições inestimá-
Quando, na década de 1990, o Minitel enfatizou seu papel como provedor veis aos seus usuários. O modem foi uma das descobertas tecnológicas que
de serviços, também deixou evidente suas limitações naturais como meio de nasceram dos pioneiros dessa contracultura, originalmente rotulados de
comunicação. Sob o aspecto tecnológico, o Minitel contava com uma tecno- "hackers"', antes que o termo assumisse uma conotação negativa. O modem
logia de transmissão de vídeo muito antiga, cuja revisão poria fim a seu apelo foi inventado por dois estudantes de Chicago em 1978, quando tentavam en-
básico como um dispositivo eletrônico gratuito. Além disso, não se baseava contrar um sistema para transferir programas de um microcomputador para
em computadores pessoais, mas, de forma geral, em terminais "burros", li- outro via telefone a fim de evitar se locomoverem durante o inverno.
mitando substancialmente a capacidade autónoma de processamento de in- Em 1979, difundiram o protocolo Xmodem gratuitamente, permitindo
formação. Sob o aspecto institucional, sua arquitetura, organizada em torno que computadores transferissem arquivos diretamente sem passar por um
de uma hierarquia de redes de servidores, com pouca capacidade de comuni- sistema principal. Ainda nesse ano, três estudantes de Duke e da Universi-
cação horizontal, era muito inflexível para uma sociedade culturalmente so- dade da Carolina do Norte — não participantes da Arpanet — criaram uma
fisticada como a francesa, visto que havia novas esferas de comunicação versão modificada do protocolo Unix que possibilitou a ligação de computa-
além do Minitel. dores por meio da linha telefónica comum. Usaram-na para iniciar um fórum
A solução óbvia adotada pelo sistema francês foi oferecer a opção, paga, de discussões on-line sobre computadores, o Usenet, que logo se tornou um
de ligar-se à Internet em âmbito mundial. Com isso, o Minitel ficou dividido dos primeiros sistemas de conversa eletrônica em larga escala. O advento da
internamente entre um serviço burocrático de informação, um sistema de computação pessoal e comunicabilidade de redes estimulou o desenvolvi-

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O S É C U L O XX
MlDIA E INFORMAÇÃO NO C O T I D I A N O CONTEMPORÂNEO

mento dos sistemas de boletins informativos (BBS), primeiro nos Estados


Mas o entretenimento não é o único setor que se beneficia da "Internet
Unidos e depois no mundo, os quais necessitam apenas de PCs, modems e
rápida". Transações comerciais entre consumidores e empresas e entre em-
linha telefónica. Por isso se tornaram os quadros de aviso eletrônicos de
presas (business to business} começam a acontecer em tempo real, com lei-
todos os tipos de interesses e afinidades, criando o que Howard Rheingold
lões instantâneos de mercadorias e serviços e pagamentos virtuais. Os custos
chama de "comunidades virtuais", hoje existindo aos milhares e milhares
por transação despencam vertiginosamente, o que faz com que novos concei-
(Castells, 1998, p. 378).
tos de produtividade possam apoiar os que, talvez com algum exagero, falem
No início dos anos 90, a possibilidade de agregar sons e imagens (estáticas
em "nova economia".
e em movimento) transformou a Internet e difundiu um apelo comercial. Uma
As inúmeras associações não-governamentais que atuam política e social-
miríade de páginas tomou a forma de uma grande teia — a World Wide Web.
mente com fins diversos para melhorar as condições de vida no planeta há
A coexistência de vários interesses e culturas na Internet tornou a forma
muito se utilizam do espaço da Internet com seus sites, onde é possível encon-
da World Wide Web uma rede flexível formada por sub-redes, onde institui-
trar desde estatutos até denúncias, bancos de dados, listas de discussões e
ções, empresas, associações e pessoas físicas criam os próprios sites, feitos de
colagens variáveis de textos e imagens. E apesar de todos os esforços atuais questionários para a elaboração de pesquisas. Num tempo onde a luta contra
para regular, privatizar e comercializar a Internet e seus sistemas tributários, qualquer tipo de discriminação ganhou proporções cada vez mais amplas, o
ela continua tendo como características: a penetrabilidade, descentralização uso de meios de comunicação interativos parece imprescindível. Principal-
multifacetada e flexibilidade. Além disso, podemos dizer que, apesar da re- mente quando percebemos que muitos problemas antes enfrentados em nível
cente invasão de empresas com finalidades comerciais no espaço da WEB, a local por cada país hoje recebem o apoio de associações que ganharam força
sua grande riqueza está no fato de ser construída de forma aberta e ainda em nível mundial, entre os quais podemos citar a Anistia Internacional e o
pouco controlável pelos criadores de conteúdo. O controle é dos usuários. Greenpeace. Esforços que, conjugados, têm, mesmo que ainda insuficiente-
mente, obtido resultados impossíveis para as associações restritas à atuação
no nível nacional. Parece que, sem dúvida, os usos para os novos meios de co-
A grande fusão: a multimídia e a Internet municação entre os homens não se limitarão à mera diversão.

Na segunda metade da década de 1990, um novo sistema de comunicação


eletrônica começou a ser formado a partir da fusão da mídia de massa perso-
4. CONCLUSÃO
nalizada, globalizada, com a comunicação mediada por computadores — a l
multimídia, que estende o âmbito da comunicação eletrônica para todo o do-
Diante de todas essas maravilhosas invenções, quais as mudanças realmente
mínio da vida: da casa ao trabalho, de escolas a hospitais, de entretenimento
profundas que podemos sentir no nosso dia-a-dia nessa virada do século?
a viagens. Apesar da grande aposta que muitas empresas e até mesmo gover-
Para além de tantas luzes e cores, a maneira de percebermos o mundo em que
nos vêm realizando, os possíveis usos e perfis deste meio de comunicação pa-
vivemos se mostra diferente, o sentido da nossa experiência como seres hu-
recem ainda bem pouco definidos.
manos e, principalmente, a forma de produzirmos conhecimento e cultura
A possibilidade de fazer com que o conteúdo do rádio, do cinema, e da
parecem ter se modificado enormemente. Com a fusão da multimídia, dois
televisão ganhe a flexibilidade e a ubiqúidade da Internet, até então limitada
discursos que se haviam separado com Platão parecem novamente reunidos.
pela capacidade (bandwidth) de transmissão das linhas telefónicas, tornou-
O discurso racional e escrito une-se à estética da imagem na produção de co-
se realidade com as alternativas dos cabos e microondas. Já é possível tecni-
nhecimento. Por outro lado, a dicotomia que dividia a cultura entre popular
camente — e está se tornando viável comercialmente — ouvir rádio, ver TV
e erudita, compartimentando e hierarquizando o património cultural da hu-
e assistir a filmes em um PC ligado à Internet.
manidade, vem sendo claramente abalada. O próprio processo de desenvol-

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O S É C U L O XX M Í D I A E I N F O R M A Ç Ã O NO COTIDIANO CONTEMPORÂNEO

vimento científico e tecnológico necessário à implementação da Internet Martin-Barbero, Jesus. 1997. Dos meios às mediações. Rio de Janeiro, Ed. UFRJ.
mostrou como objetivos distintos formas de conhecimento variáveis e con- Nigroponte, Nicholas. 1995. A vida digital. São Paulo, Companhia das Letras.
cepções culturais (além de éticas) absolutamente diversas, que puderam con- O'Donnell, James J. 1998. Avatars ofthe world: from papyms to cyberspace. Cambridge,
vergir numa convivência que, embora contraditória, não se tornou inviável. Harvard University Press.
Sem dúvida, os processos de transmissão e produção de cultura vêm se Ortiz, Renato et ai. 1991. Telenovela: história e produção. São Paulo, Brasiliense.
Virilio, Paul. 1993. O espaço crítico e as perspectivas do tempo real. São Paulo, Ed. 34.
modificando; nesse movimento as velhas instituições precisam ser revitaliza-
. 1994. A máquina de visão. Rio de Janeiro, José Olympio.
das. O papel da escola, das universidades e, principalmente, a função do pro-
fessor necessitam ser avaliados. Nunca o homem teve a sua disposição uma
tal quantidade de informações e um aparato tecnológico tão poderoso para
lhe servir. Como utilizá-lo? Diante desta realidade, as pretensões ao conheci-
mento enciclopédico ou totalizador parecem ainda mais sem sentido.
Durante alguns séculos, o conhecimento racional preocupou-se em reunir,
em coletar, mas neste fim de milénio possuímos uma tecnologia capaz de sis-
tematizar, de organizar, de articular com enorme velocidade, sofisticação e
eficiência não apenas informações, mas indivíduos e culturas que, até o mo-
mento, permaneceram distantes e incomunicáveis. Como muitos já vêm ex-
perimentando, os limites impostos pelas fronteiras geopolíticas, pelas insti-
tuições e pelas atitudes excludentes e segregatórias tornam-se menos eficien-
tes no novo espaço pelo qual podemos navegar com temores, é verdade, mas
também com esperança e entusiasmo.

BIBLIOGRAFIA

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do México, FCE.
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246 247
No limiar do século XXI
Ciro Flamarion Cardoso
Professor titular de História Antiga
da Universidade Federal Fluminense

l l
SERÁ O FUTURO PREVISÍVEL?

Os seres humanos sempre tiveram o desejo de prever o futuro. Sendo o


mundo e a vida cheios de incertezas individuais e coletivas, conhecer o que
vai acontecer ajudaria muito pessoas e governos a tomar decisões acertadas.
No entanto, por muito tempo se acreditou que "o futuro a Deus pertence".
Literalmente, pois se tratava de consultar oráculos divinos, por exemplo,
como ocorria na Antiguidade.
Neste fim de século, gostaríamos também de saber o que o futuro nos re-
serva. A ficção científica, género que pertence à cultura popular de nossa era
e se manifesta na literatura, no cinema, na televisão, nas histórias em quadri-
nhos, entre outros veículos de expressão, dedica-se com frequência ao exer-
cício da predição.
Los Angeles, Califórnia, 2019. Multidões percorrem as ruas do bairro
chinês (Chinatown) sob uma chuva constante e respiram um ar enfumaçado.
O clima mudou devido a uma catástrofe ecológica, e mesmo durante o dia
parece ser de noite. Vêem-se imensos anúncios japoneses. Grandes labaredas
se levantam do chão de vez em quando. Carros Voadores coexistem com ou-
tros que rodam pelas ruas. Lembrando vagamente em sua forma as pirâmi-
des do México antigo, os dois imensos edifícios da corporação Tyrell, que fa-
brica andróides, dominam uma cidade onde se destacam a pobreza, a sujeira
e a poluição. São as cenas iniciais de Blade runner: o caçador de andróides,
filme de Ridley Scott. Como muitas outras obras literárias e cinematográfi-
cas ficcionais desde então, parece indicar que nada de bom se pode esperar
do futuro próximo, no que sem dúvida constitui um juízo negativo também
acerca deste nosso século XX que está terminando.
Trata-se, portanto, de ficção: um filme de 1982, aliás baseado num ro-
mance de Philip K. Dick escrito em 1966 e revisado em 1968. O curioso é
que, se compararmos o futuro próximo tal como visto no livro e no filme,

251
NO LIMIAR DO SÉCULO XXI
O S É C U L O XX

turais — por exemplo a natalidade ou a oferta e a procura —, abriram cami-


acharemos coisas comuns — ambas as visões são decididamente pessimistas nho para que os historiadores pudessem perceber igualmente aqueles proces-
— mas, também, diferenças consideráveis. Diferenças que se devem em parte
sos lentos de mudança. Tudo isto significou uma profunda reinterpretação do
às opiniões dos autores respectivos (no caso do filme, os que escreveram o
tempo no contexto do humano: sabemos, sem lugar a dúvidas, que o futuro
roteiro, Hampton Fancher e David Peoples, além do próprio diretor); mas
não será como o presente, õ que torna tentador procurar prevê-lo sem recor-
não somente a isto. O que estou querendo dizer é que a imagem do futuro —
rer a elementos sobrenaturais, mas sim a alguma lógica que se suponha embu-
na cultura popular mas também em tentativas que se pretendem científicas,
tida nas transformações que se desenvolvem diante de nossos olhos.
como a "futurologia" de um Herman Kahn (1922-1983), por exemplo —
A percepção do tempo também mudou por outro caminho. Um universo
está sempre marcada pela experiência passada e sobretudo presente daquele estável, recente (com uns 6 mil anos de existência), onde uma humanidade
que a emite. As inquietações de 1966-68 não eram idênticas às de 1982. considerada como habitante do centro desse cosmo, criada separadamente e
O que vai acontecer no futuro dependerá sempre, em grande parte, de coi- posta à frente dos outros seres vivos do planeta, se organizaria de forma tam-
sas que ainda não começaram a atuar ou pelo menos ainda não foram perce- bém imutável, vem cedendo lugar, a partir da revolução científica do século
bidas por nós, de lutas sociais — com suas vitórias, derrotas e acomodações XVII, a um universo diferente, bem como a uma percepção diversa do huma-
— que já se estão travando mas cujo resultado é incerto, bem como de outras no. Desde que Darwin propôs, no século XIX, uma forma convincente de
ainda não travadas e que não há como prever de verdade. Isto garante que um teoria da evolução biológica das espécies — modificada e aperfeiçoada, dé-
dos princípios dos que arriscam previsões — o de que os fatores deixados fora cadas mais tarde, com a descoberta das mutações rápidas, rompendo com o
do esquema explicativo que permite o prognóstico permanecerão constantes gradualismo anterior, mais perto de nós com a interpretação do código gené-
ao longo do período considerado — sempre demonstre ser falso, principal- tico —, o criacionismo religioso fundamentalista, com suas espécies imóveis
mente nos casos em que o período em questão não for bem curto em sua du- e uma criação especial do ser humano, ficou cada vez mais difícil de ser de-
ração. Em suma, o futuro é, em grande medida, imprevisível. Quando fala- fendido racionalmente. Ao mesmo tempo, os progressos da astronomia, da
mos dele, no fundo estamos falando é do presente e de como o interpretamos: cosmologia, da geologia e da paleontologia descartavam a possibilidade de
projetamos, a partir desse presente, o que poderia vir a ser o futuro. um universo de curta duração em que a humanidade fosse mais ou menos
Desde fins do século passado, antes ainda do surgimento de uma discipli- coetânea com o "início dos tempos": o sistema solar tem uma história; e o
na formal, se bem que duvidosa em sua pretensão científica — a futurologia homem é um animal relativamente recente em termos geológicos, tão depen-
—, os prognósticos acerca do futuro têm sido feitos de uma forma que pre- dente da evolução biológica para seu surgimento no planeta quanto os ou-
tende ser racional. O que permite que seja assim é uma atitude nova diante tros. A cosmologia, a geologia e a paleontologia, incluindo a humana, mos-
do tempo, atitude que distingue as sociedades recentes das de outras épocas tram que tanto o universo quanto nosso próprio /planeta e suas espécies ani-
da história humana. mais e vegetais já foram muito diferentes do que hoje são.
As revoluções sociais e políticas contemporâneas — Francesa, de 1830, de Em 1943, um alemão refugiado nos Estados Unidos, Ossip K.
Flechtheim, defendeu a ideia de que deveria ocorrer um esforço comum de
1848, Comuna de Paris, Revolução Russa de 1917 etc. — desencadearam a
sociólogos, historiadores, psicólogos, economistas e cientistas políticos que
percepção coletiva de que as sociedades humanas são mutáveis. Podem trans-
tratassem de examinar as tendências da sociedade, da ciência e da tecnologia
formar-se, seja por meio de processos longos e lentos sobre os quais não pare-
no presente para prever o que o futuro reserva. Foi Flechtheim que cunhou o
ce que indivíduos ou grupos tenham grande controle em termos gerais (revo-
neologismo "futurologia". Embora desde então diversos governos e empre-
lução agrícola, revolução urbana, revolução industrial etc.), seja no curto
sas tenham recorrido a futurólogos e baseado muitas decisões no que estes
prazo, em processos que dão a impressão (por vezes ilusória) de estarem mais previram, a verdade é que seus prognósticos, examinados após algumas dé-
ligados à vontade e à decisão. As revoluções político-sociais e, depois, a cres- cadas (quando não, às vezes, logo após terem sido feitos), falharam quase
cente intervenção de políticas estatais em múltiplos domínios do social, cujo sempre lamentavelmente.
controle, no passado, considerava-se vinculado exclusivamente a fatores na-

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O S É C U L O XX NO LIMIAR DO SÉCULO XXI

Herman Kahn, o mais famoso dos futurólogos, escreveu em 1972 um dos para escusar quem as faz, caso não se cumpram. Tais prognósticos se ba-
livro destinado a mapear o que poderia vir a acontecer nas décadas de 1970 seiam na grande resistência à mudança a curto ou médio prazo — chamada
e 1980: livro que nem de perto previu, por exemplo, os problemas energéti- de inelasticidade — característica de certos elementos maciços e delimitáveis
cos e em particular os choques do petróleo. Na verdade, sua observação da organização social (capacidade instalada de produção ou taxas de natali-
sobre os árabes era no sentido de que, sendo o Ocidente o único mercado dade e mortalidade os exemplificam), que os torna previsíveis de um modo
para seu óleo cru, problemas de abastecimento não eram de se esperar. Isto, geral, desde que o prazo considerado não seja muito longo. De novo, embo-
cinco anos após a fundação da Organização dos Países Exportadores de ra sejam estas as previsões menos problemáticas, riao são as que mais interes-
Petróleo (OPEP) e um ano antes do primeiro choque do petróleo. O que sig- sam tanto aos historiadores quanto às demais pessoas.
nifica também que, num plano mais geral, Kahn foi incapaz de prever um
processo de fato já iniciado quando escrevia e que, quase vinte anos depois,
em 1991, desembocaria na Guerra do Golfo.
Existem, sem dúvida, previsões com menos chances de erro. Se Kahn se DO PASSADO PRÓXIMO AO FUTURO PRÓXIMO
limitasse a afirmar, por exemplo, que no futuro previsível o petróleo conti-
nuaria central como fonte de energia e teria de ser obtido, na sua maior Em muitos aspectos, o nosso fim de século mantém vínculos com um passa-
parte, pelos países ocidentais, em países árabes e na Venezuela, não teria er- do multissecular. Assim, é impossível não o levar em conta, por exemplo, ao
rado: a própria crise desencadeada pela OPEP em dezembro de 1973 confir- tratar dos fundamentalismos religiosos na Irlanda do Norte ou no norte da
maria o seu prognóstico. Analogamente, se hoje em dia asseverarmos que África. Entretanto, acho que, na abordagem esquemática do mundo em que
nas próximas décadas o computador, o fax, a telefonia celular, que permite agora vivemos e portanto do que nos reserva o futuro próximo, é mais útil
escapar às redes telefónicas fixas, bem como outros elementos que se ligam à remontar somente aos anos 1955-65, quando as tendências mais salientes da
comunicação, à informação e sua transmissão, permanecerão extremamente situação atual já começavam a estar visíveis.
importantes, creio que seja muito pequena a possibilidade de erro em tal pre- Aquela década, situada no interior de um período de grande expansão da
visão. Não por acaso, os escritores de ficção científica, entre 1920 e 1945 — economia capitalista mundial (1947-73), prova, com efeito, pela leitura de
isto é, logo após a divulgação da teoria da relatividade por Einstein e a con- textos nela produzidos, que certos elementos, recentes ou surgidos então pela
firmação da relatividade generalizada pela observação astronómica, quando primeira vez, foram percebidos, corretamente, como prenúncios de mudan-
do eclipse total do Sol em 1919 —, descreveram com bastante detalhe o que ças muito profundas na ordem das coisas, no modo como os seres humanos
viria a ser a bomba atómica detonada pela primeira vez em 1945, deduzin- viviam, pensavam, se pensavam e comunicavam'.
do-a da teoria relativista no que esta estabelece acerca da relação entre massa Naqueles anos, algum tempo após a construção de um protótipo famoso
e energia. Mas o que se valoriza mais é exatamente o tipo de previsão em que mas cujo impacto sobre a consciência coletiva não foi de pronto muito gran-
é maior a possibilidade de erro: gostaríamos de prever realidades complexas, de, os computadores começaram a mostrar seu poder de transformar múlti-
nas quais intervenham múltiplos fatores de vários tipos, sendo impossível plos aspectos do mundo contemporâneo. A pílula anticoncepcional simboli-
isolar só alguns, formadores de um pequeno setor do social cuja lógica seja zava o início de um divórcio possível entre as ideias de procriação e de pra-
perceptível; e acontecimentos e rupturas específicos, em cujo aparecimento a zer sexual — falou-se, até, de "revolução sexual" —, bem como tornava
incidência do acaso é muito forte. mais visível a presença de profunda crise da moral tradicional, ao passo que
Em economia e em demografia são comuns as predições condicionais — nenhuma alternativa viável a ela estava à vista. Por caminhos diferentes, a di-
se as tendências observadas hoje continuarem a se manifestar e se os fatores fusão da televisão (em especial o que implicava quanto à universalização de
não considerados em nosso modelo explicativo ficarem constantes, então expectativas de consumo pela publicidade e ao telejornalismo com reporta-
acontecerá aquilo que prevemos —, que mantêm aberta uma porta dos fun- gens instantâneas ao vivo) e o começo do transporte comercial de passagei-

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O S É C U L O XX NO LIMIAR DO S É C U L O XXI

ros em aviões a jato evidenciaram que o mundo estava se tornando mais co- positários do conhecimento que eram tradicionalmente, já que sua experiência
municado e, portanto, "menor" e menos heterogéneo do que antes. Em acumulada é tornada irrelevante por mudanças rápidas e profundas demais —
1957, iniciava-se a era espacial, que, no que teve de mais influente e durável e com a história: o mundo do presente parecia tão diferente do de antes que
até agora, revolucionaria as comunicações através das transmissões por saté- qualquer correlação com o passado dava a impressão de não fazer sentido. É
lite, afetando tanto a televisão quanto a telefonia. Nos Estados Unidos, já era óbvio que esta impressão se baseava numa visão parcial demais das coisas,
perceptível, pela primeira vez na história, que os trabalhadores dos setores de pois em muitíssimos aspectos o passado continua conosco apesar de todas as
serviços e gestão se haviam tornado mais numerosos do que os operários das novidades: já invocamos o exemplo dos fundamentalismos religiosos.
fábricas e os trabalhadores da agricultura e das minas, o que logo viria a Quanto ao espaço, por um lado, como já mencionamos, o tipo de rela-
acontecer também em muitos outros países. Em regiões que haviam sofrido ção tradicional do mundo desenvolvido europeu e americano com o resto do
em suas economias todo o impacto da Segunda Guerra Mundial, mas tam- planeta, marcado pelo mito da superioridade inerente do homem branco,
bém nos Estados Unidos, tornara-se evidente que as mulheres, crescentemen- pelo racismo e por diversas outras formas de segregação e discriminação,
te inseridas no mercado de trabalho, reivindicavam equidade e maior parti- tinha de mudar na nova era da descolonização e do que veio a ser chamado
cipação nos diversos aspectos da vida económica, política e social. de neocolonialismo. Por outro lado, se tradicionalmente as culturas diferen-
Também se notava, entre 1955 e 1965, que a cada ano novas colónias tes, por definição consideradas inferiores, eram outrora vistas pelos brancos
ganhavam independência política e entravam para a Organização das dos países mais ricos e desenvolvidos como estando situadas em outras par-
Nações Unidas (ONU), caracterizando o esfacelamento dos impérios colo- tes do mundo — a América do Norte ao sul dos Estados Unidos, a África, a
niais tradicionais e a necessidade de que fossem estabelecidos novos padrões Ásia, a Oceania — consideradas "exóticas", esta visão das coisas foi abala-
nas relações entre países desenvolvidos e menos desenvolvidos, mesmo por- da cada vez mais por diversos fatores.
que muitos destes últimos, nações recentemente independentes, trataram de A prosperidade japonesa e depois a dos chamados "tigres asiáticos" —
formar, na ONU e fora dela, um "bloco neutralista" independente dos dois Cingapura, Formosa (Taiwan), Coreia do Sul e Hong Kong (reintegrada re-
grandes blocos em que a Guerra Fria partilhava o mundo, o ocidental, lide- centemente à China) — ameaçavam tal modo de ver, bem como as iniciativas
rado pelos Estados Unidos, e o socialista, sob a égide da União Soviética e políticas do neutralismo ou a exportação da revolução por Cuba: eis agora
agora contando com vários outros países, inclusive a China: a conferência de amarelos, outrora considerados inferiores, adquirindo níveis de desenvolvi-
Bandung, de 1955, simboliza esta tentativa — na verdade efémera, mas de mento capitalista que em diversos setores faziam inveja aos Estados Unidos
grande impacto ao ocorrer — dos novos países africanos e asiáticos no sen- e à Europa Ocidental; ou negros e amarelos que ousavam ter uma política
tido de terem uma posição política própria. Por fim, a década em que no mo- externa própria e comum; ou, ainda, latinos que ameaçavam a hegemonia
mento nos centramos marcou o auge do movimento dos negros americanos dos Estados Unidos em seu próprio quintal. Mas também estavam aconte-
e da África do Sul pela igualdade civil, o que teve grandes consequências — cendo: as reivindicações feministas, denunciando a discriminação de uma
não somente nos países onde aconteceram, nem só no tocante aos negros. metade da humanidade pela outra, em diversas modalidades e graus, em
No conjunto, tais transformações, algumas delas mais perceptíveis de todo o mundo; a posta em evidência da situação dos negros e outras mino-
início nos Estados Unidos, significaram uma reformulação em profundidade rias étnicas nos Estados Unidos, o que também viria a ocorrer na Europa
dos conceitos de tempo e espaço. Ocidental através da imigração maciça de asiáticos, africanos e caribenhos,
Quanto ao tempo, sentiu-se que havia uma aceleração: não somente as com suas múltiplas consequências sociais. Temos aí processos que serviram
coisas estavam acontecendo rapidamente demais, como também o acesso cres- para demonstrar que "o outro", aquilo que é diferente e exige equidade, es-
cente a uma informação instantânea aumentava a vertigem. Alteravam-se, tava também dentro dos países economicamente avançados da Europa e da
concomitantemente, as relações entre as gerações — num mundo onde as América do Norte.
transformações se dão a um ritmo alucinante, os velhos deixam de ser os de- As mudanças começaram a ser percebidas, como mencionamos, em

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O S É C U L O XX NO LIMIAR DO S É C U L O XXI

1955-65, desembocando essa percepção e o mal-estar resultante, agindo em recentes e de contornos ainda nebulosos no relativo aos graus e modalidades
conjunto com outros fatores específicos de tipo nacional, em múltiplos e he- de sua incidência no futuro próximo: a biotecnologia, segundo muitos desti-
terogéneos movimentos de protesto nos Estados Unidos e na Europa em nada a revolucionar a produção de alimentos, a indústria farmacêutica, a
1968. Aquelas transformações são vistas por muitos autores como configu- medicina e a luta contra a poluição, entre muitos outros setores das ativida-
rando algo profundo ao ponto de significar o fim de uma era multimilenar des humanas. Para começar, seria mais exato usar a palavra no plural — bio-
da história: segundo alguns, a que foi inaugurada pelos inícios da agricultu- tecnologias —, posto que cobre um campo muito heterogéneo no tocante a
ra e da criação de gado; segundo outros, a que teve início com o surgimento formas e áreas de pesquisa científica e aplicação tecnológica. O desenvolvi-
das primeiras cidades no que é hoje o sul do Iraque, por volta de 3200 a.C. mento rápido da biologia molecular, acompanhado em 1973 pelo início das
Não será, porém, exagerada uma tal apreciação? Acho que, pelo contrário, manipulações genéticas ("engenharia genética"), levaram a que se fizessem
ela está solidamente baseada em dados. promessas e prognósticos otimistas demais quanto aos prazos, os quais não
Em 1989 havia, nos Estados Unidos, uns 15 milhões de negócios opera- se cumpriram. Por exemplo, em 1981 se previa que os produtos biotecnoló-
dos, em tempo integral, de casa. E hoje, cerca de 30 milhões de estaduniden- gicos, dentro de dez anos, dominariam 10% das vendas das indústrias far-
ses trabalham em casa, total ou parcialmente, graças aos computadores inte- macêuticas; passada a década, a proporção real era de l % somente.
grados em redes, aos telefones celulares, ao fax. Em 1995, a exportação de É provável que só por volta do ano 2000, ou pouco depois, o impacto
serviços e propriedade intelectual (patentes) equilibrou, naquele país, a soma biotecnológico se tenha tornado suficiente para permitir uma avaliação mais
das exportações de artigos eletrônicos e veículos automotores. Três quartos realista do que de fato irá mudar com ele. Desde já, porém, antevê-se que os
da força de trabalho estão, lá, situados nos serviços e nas atividades vincula- problemas que trará estarão muito longe de limitar-se à investigação científi-
das à informação e ao conhecimento. Desde a década de 1970, em modalida- ca e às estruturas de produção: as biotecnologias já provocam inúmeros
des variáveis, as mesmas tendências percebem-se no resto do mundo desen- questionamentos em termos de ética, regulamentação e visão do mundo,
volvido — Europa Ocidental, Japão —, significando, por exemplo, que em além de tornarem necessária a criação de instituições (que ainda não exis-
tais países já seria possível o fim da concentração urbana, condição impres- tem) dotadas de legitimidade suficiente para lidar com todas as delicadas
cindível, nos últimos 5 mil anos para sustentar todas as sociedades que apre- questões que o assunto continuará crescentemente a suscitar. Em todo caso,
sentassem graus consideráveis de complexidade; hoje em dia, se as grandes boa parte da insistência atual de países como os Estados Unidos no sentido
cidades viessem a desaparecer em tais países, mediante uma dispersão das re- de forçar outros governos à adoção de uma legislação sobre as patentes —
sidências e atividades, tal evento não implicaria perdas para a produção, a como a que o Brasil aprovou recentemente — se estriba em previsões que se
eficiência e a comunicação de informação. Isto mostra a que ponto as trans- referem ao porvir das biotecnologias. No futuro próximo, estaremos pagan-
formações em vias de ocorrer no mundo — de máxima incidência nos países do pelo uso farmacêutico (patenteado por firmas estrangeiras) de nossas pró-
tecnológica e economicamente mais avançados — são profundas. prias fauna e flora.
Tais transformações mostram forte propensão a continuar o seu desen- Um elemento de contornos ainda menos claros atualmente é o conjunto
volvimento nas próximas décadas, em pleno século XXI. A verdade é que de tecnologias que podem vir a resultar da química supramolecular. Desde a
elas estão muito longe de darem tudo o que podem dar, de revolucionarem década de 1960, cientistas como Donald J. Cram, Jean-Marie Lehn e Charles
todos os aspectos que podem vir a mudar nos múltiplos domínios da econo- J. Pedersen (ganhadores do Prémio Nobel em 1987) conseguiram criar sinte-
mia, da política, dos modos de vida, da cultura. Partindo de tal premissa, ticamente receptores moleculares artificiais que utilizavam como substrato
torna-se possível projetar algumas das tendências de nosso fim de século no íons metálicos e tiveram, desde então, numerosas aplicações em biologia, em
início do próximo. Vamos fazê-lo, se bem que em forma muito seletiva, por medicina, na duplicação da frequência de um feixe de laser etc. Prevê-se seu
questões de espaço. enorme impacto futuro no processamento óptico da informação e, mais em
Mencionarei entre as tendências aludidas, para começar, uma das mais geral, na construção de arquiteturas supramoleculares artificiais, em combi-

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nações que formem múltiplas camadas microscópicas de estrutura controla- mundo, em especial, ocorre uma desmassificação da produção: o mercado
da, o que poderia abrir todo um mundo novo na miniaturização e na eficiên- tende a atomizar-se, com pessoas (indivíduos, famílias) efetuando compras
cia incrementada da eletrônica e das máquinas. por mala-direta, pela televisão, pela Internet.
Falarei agora do que costuma ser chamado, um tanto vagamente, de "re- A verdade é que as descrições da "revolução informacional" e da "glo-
volução informacional". Surgiram e se desenvolveram vertiginosamente, nas balização" costumam ser altamente idílicas, ocultando certas consequências
últimas décadas, novos modos de criar, armazenar e explorar o conhecimen- nefastas ou considerando-as, irrealísticamente, como tendências passageiras.
to e a informação — isto é, algo intangível quando comparado aos fatores de Imagens Insistentes enfatizam o indivíduo livre, criativo, totalmente informa-
produção que era costumeiro considerar ao tratar da economia: capital, ma- do, capaz de escolher. Em outras palavras, estaríamos assistindo ao triunfo
térias-primas, terra, trabalho. Na verdade, informação e conhecimento subs- dos indivíduos e dos consumidores. Uma das imagens preferidas é a da auto-
tituem cada vez mais outros recursos, baixando os custos de produção e ges- programação individual da cultura, da instrução e do lazer pelo uso da tele-
tão. Assim, por exemplo, quanto a um programa de computador dirigindo visão a cabo interativa, do videocassete, da multimídia, da obtenção de
uma máquina-robô que corta aço: conseguem-se mais peças com a mesma dados por fax. Insiste-se muito em que indivíduos, mais do que grupos ou
quantidade de matéria-prima do que se fossem cortadas por operadores hu- instituições, é que são ligados pelos novos meios de comunicação.
manos. A manipulação genética e molecular cria novos materiais menos vo- Serão assim tão livres os indivíduos, mesmo aqueles que têm acesso às
lumosos e mais leves, ao que a miniaturização também contribui. Isto se tra- novas tecnologias (ainda uma minoria se considerarmos a totalidade da po-
duz em menores custos de produção, armazenagem e transporte; ainda mais pulação do planeta, e não somente casos como o dos Estados Unidos ou do
porque, paralelamente, estabelece-se uma informação instantânea da relação Japão)? Não sofrerão, em suas escolhas, a interferência de fatores como a
estoque/fluxo de materiais ou produtos prontos, graças à informática. ideologia de classe, a publicidade, a propaganda política, a formação no in-
Se o conhecimento se torna o recurso central e mais remunerado, o terior de certas crenças e valores (na família, na escola, nas igrejas, pela im-
tempo revela-se igualmente essencial, em função da aceleração do ritmo da prensa, pela televisão) desde a infância?
inovação, dos investimentos, das transações. A competição é intensa e há Fala-se que, nos Estados Unidos, o comprador de um carro Volvo pode
redes computadorizadas que movem capitais instantaneamente; capitais, escolher entre 20 mil possibilidades para criar o seu veículo ideal. Mas, e se
estes, que migram sem dificuldade entre setores económicos e países, tornan- o seu veículo ideal for um carro não-poluente, movido a eletricidade e não a
do muito difíceis a previsão e o controle financeiros por parte dos governos. gasolina? A tecnologia necessária existe, já foram inventados carros elétricos
O anterior exige uma infra-estrutura crescente de meios de comunicação muito eficientes, e há governos que, pressionados pelos ecologistas, por sua
avançados: computadores ligados em redes, estas em redes maiores; telefonia vez exercem pressões para a multiplicação dos veículos automotores elétri-
celular; fax. E, na gestão, obriga à terceirização — isto é, a encomendar cer- cos: mas a resistência das empresas produtoras de automóveis e daquelas li-
tas etapas de produção ou serviços a outros, em lugar de concentrá-los na gadas ao refinamento e distribuição do petróleo tem sido vitoriosa, a produ-
própria firma —, à descentralização, à reorganização profunda das empre- ção de carros elétricos é ínfima e nada indica que aumente muito no futuro
sas, a encorajar a iniciativa pessoal de empregados reunidos em equipes pe- próximo, mesmo porque, de momento, o preço da gasolina anda baixo.
quenas. Tais modificações conduzem, afirma-se, a novas possibilidades para Assim, a "liberdade" do comprador de veículos é, no fundo, superficial, limi-
empresas pequenas e médias eficientes e inovadoras. Também levam à remu- ta-se a escolhas não-fundamentais.
neração altamente diferenciada do trabalho. É preciso dizer também que a dialética da globalização e da pulverização
O mundo unifica-se economicamente, muito mais do que no passado, no concomitante de mercados locais muito especializados não conta a história
que se costuma chamar de "globalização". No limite, seria possível imaginar toda das tendências atuais. Senão, como explicar a formação de blocos de
a humanidade toda ligada entre si mundialmente pela Internet e por outras mercados com base em acordos entre os membros e proteção contra os de
tecnologias avançadas de comunicação. No entanto, nas partes mais ricas do fora? No caso da Europa, tais acordos, aliás, vão muito além de simples

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questões comerciais — razão pela qual os novos passos da integração euro-
peia encontram e continuarão encontrando a oposição crescente dos interes- do número de idosos não-acompanhado pelo de contribuintes), formulou
ses de base nacional e daqueles que são prejudicados pela unificação (muitos perguntas como a seguinte: por que seria erróneo dar 50 bilhões de francos
dos agricultores, por exemplo). Os Estados Unidos, sempre citados quando do tesouro nacional para aumentar os recursos da seguridade social, e assim
se fala em globalização e integração mundial, tratam de formar seu próprio garanti-la, se o governo considerava correto dar 50 bilhões de francos daque-
bloco regional com o Canadá e o México. Além disso, apesar de seu discur- le tesouro para sanear um banco, o Crédit Lyonnais, antes de privatizá-lo?
so em favor do livre comércio e que estigmatiza o protecionismo japonês, o Isto, num país que contava com 6 milhões de marginalizados, marcado por
governo estadunidense impõe milhares de tarifas protecionistas que prejudi- uma deterioração de serviços sociais antes altamente eficientes como resulta-
cam ou impedem múltiplas importações, além de dirigir sua política monetá- do de medidas de "austeridade" decididas com total insensibilidade social,
ria de modo a favorecer as exportações nacionais, e distribui subsídios a seus pela diminuição progressiva dos benefícios da seguridade social, pelo aumen-
agricultores, bem como às suas indústrias eletrônicas e espaciais. Mesmo os to do número dos trabalhadores que ganhavam menos do que o salário mí-
países latino-americanos do Cone Sul tentam dar consistência ao seu próprio nimo, de que o governo deveria garantir a universalidade, bem como pelo in-
bloco regional, o Mercosul. Assim, embora a teoria segundo a qual o merca- cremento de formas temporárias e precárias de emprego, enquanto o desem-
do mundial tenderia a f racionar-se em blocos estanques seja no mínimo um prego total alcançava 12% das pessoas em idade de trabalhar, sem qualquer
exagero, o protecionismo ainda é força bem viva, a qual vai em direção con- perspectiva de diminuição.
trária a uma globalização completa e incondicional. A greve fez o governo francês recuar, mostrando com clareza não existir
O amadurecimento dos efeitos da revolução informacional e da globali- qualquer coisa inevitável no neoliberalismo. O que há são, simplesmente, um
zação coincide, neste fim de século — e, ao que tudo indica, isto continuará sistema de poder e escolhas políticas e sociais acerca de quem sairá ganhan-
no início do próximo —, com os efeitos do fim da Guerra Fria, tornando des- do (uma pequena minoria) e quem sairá prejudicado (a imensa maioria da
necessário, ao capitalismo, competir com qualquer outro sistema. E, desde população, à qual se impõem sempre novos sacrifícios, numa socialização
1973, trata-se de um capitalismo em crise económica prolongada, desejoso das perdas mas nunca dos ganhos). Tal greve se articulou em torno da reivin-
de obter economias de custos. Como aconteceu com cada patamar tecnoló- dicação de uma solidariedade social ameaçada: por que seria impossível ao
gico novo nas fases anteriores da revolução industrial, também a "revolução Estado continuar proporcionando direitos estáveis aos trabalhadores, em
informacional", bem como a "globalização", Dignificam, entre outras coisas, lugar de só garantir aos empresários o direito de investir e lucrar, sem se sen-
desemprego maciço. E esta nova época, em que, pelo menos durante algum sibilizar com sacrifícios sociais inaceitáveis!1 Nas eleições seguintes, o poder
tempo, cessou ou atenuou-se a luta ideológica, permite aos governos cortar político foi retirado da direita e dado a uma esquerda moderada.
maciçamente as despesas sociais que configuravam salários invisíveis: uma A luta entre a pequena minoria beneficiada e a enorme maioria prejudi-
educação pública gratuita de alto nível, um sistema de saúde eficiente pelo cada pelas novas tendências do capitalismo, sem dúvida, continuará nas pró-
qual não se pagava, um sistema de pensões satisfatório e assim por diante. ximas décadas. O mesmo se pode dizer quanto à tendência ao agravamento
Se os efeitos da nova etapa do capitalismo são especialmente deletérios da heterogeneidade, em nível mundial tanto quanto dentro de cada país, que
em países como o nosso — onde, sem qualquer exagero, podem tornar-se ge- é tendência embutida na "revolução informacional" e nas modalidades de
nocidas —, mesmo as nações mais avançadas do mundo não escapam a eles. "globalização" ligadas a ela. No início do século XX, com a exceção da
Em novembro e dezembro de 1995 ocorreu, na França, a mais forte onda França, os países desenvolvidos tinham tendência ao aumento de suas popu-
grevista que aquele país conheceu desde 1968. O povo francês, diante da im- lações; América Latina, África e Ásia também apresentavam populações
plementação das políticas neoliberais em nome das regras do mercado e de crescentes, mas a alta fertilidade era em parte contrabalançada, ali, por taxas
imperativos demográficos declarados incontornáveis pelo governo (aumento altas de mortalidade. A humanidade constava de uns 2 bilhões de pessoas.
Tais tendências não se mantiveram, porém: hoje em dia, numa humanidade

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de quase 6 bilhões, podendo chegar a uns 10 bilhões em meados do século mentar o desemprego e a concentração de renda, e não diminuí-los; e vão
XXI, o crescimento populacional se dá quase exclusivamente nas regiões piorar níveis de vida já insuportáveis, e não melhorá-los. É verdade que, no
mais pobres; nos países mais avançados a população cai, ou aumenta pouco. caso específico do Brasil, caiu ultimamente a taxa de fertilidade. Mas a po-
Este dado aponta para um agravamento dos desequilíbrios mundiais: a de- pulação continuará aumentando ainda por bastante tempo, dada a lentidão
mografia se expande onde os meios tecnológicos e outros recursos disponí- com que a queda mencionada terá, por fim, efeitos visíveis na demografia.
veis aumentam menos. Em outras palavras, ainda faltam vários anos para que gerações com menos
Em termos do planeta visto como um todo, a pressão populacional já se mulheres cheguem à idade fértil, o que, mesmo com taxas decrescentes de
faz sentir em forma de padrões catastróficos de desmatamento, incremento fertilidade, garantirá que a população continue crescendo.
da poluição, empobrecimento do número de espécies vegetais e animais, A "globalização" acentua a heterogeneidade — mesmo nos países mais
ecossistemas cada vez mais desequilibrados. A opinião pública, nos países desenvolvidos — pelo fato de tender a formar bolsões prósperos de alta pro-
mais desenvolvidos, tende a culpar de poluição e de destruição de recursos as dutividade, alta tecnologia e intensa integração ao resto do mundo, contras-
nações menos desenvolvidas. A verdade, no entanto, é que, com a adoção tando com outras áreas menos dinâmicas. O contraste é especialmente mar-
nos países do norte de regulamentações severas contra a poluição, apoiadas cado no interior dos países menos avançados económica e tecnologicamente.
na sanção de fortes multas, sobretudo desde a década de 1970, houve uma Os desníveis de desenvolvimento dentro das fronteiras de um mesmo país
emigração de indústrias poluentes, assim como de atividades extrativas (cor- não são, é claro, uma novidade, mas o que parece ser certo é que, nas novas
tes de madeira, por exemplo), do norte para o sul, aproveitando-se de que os condições, eles se intensifiquem. Há quem fale na emergência de um "arqui-
países do que antes era chamado de Terceiro Mundo não fiscalizam os aten- pélago de alta tecnologia" ou de "tecnopólos": o condado de Orange na
tados à ecologia com severidade e eficiência. Tais indústrias põem em alto Califórnia, Osaka no Japão, a região de Lyon na França, a do Ruhr na
risco a população das áreas onde se instalam e, no fim das contas, todo o pla- Alemanha, as de Cantão e Hong Kong na China, além de outras zonas simi-
neta. Mesmo assim, não se pode negar a correlação entre população crescen- lares, num mundo em que as decisões de nível mais alto já não dependerão
te e destruição do meio ambiente, ultrapassados certos patamares. dos governos estatais, mas sim de companhias transnacionais em aliança
A este ponto de fricção entre nações mais e menos desenvolvidas se agre- com os diversos sistemas locais de poder presentes no "arquipélago" em
ga o da migração (mesmo quando considerada ilegal pelos países receptores) questão, espalhados pelo mundo, que em alguns casos teriam a possibilidade
das segundas em direção às primeiras — que, entre outras coisas, tem reacen- até de virem a configurar cidades-Estados independentes. Em suma, as redes
dido o racismo e aumentado as ações violentas contra imigrantes, vistos formadas pelas empresas transnacionais estariam ignorando crescentemente
como competidores por empregos em países com altas taxas de desemprego, o sistema de nações-Estados e suas fronteiras.
na Europa em especial; nos Estados Unidos, a discriminação e por vezes a Ao longo do século XX, o número de países independentes triplicou.
violência alcançam tanto os imigrantes ilegais quanto os estadunidenses chi- Esta é uma tendência que deverá continuar no futuro previsível. Acompa-
canos, negros e pertencentes a outras minorias. Também em países menos nhada, crêem alguns, da diminuição radical dos poderes efetivos dos gover-
dotados de capitais e tecnologia ocorre a introdução de novos sistemas de nos centrais de tais países. Já hoje, a facilidade com que os capitais se trans-
produção e se praticam políticas neoliberais que causam desemprego. São ferem de um lado a outro, por exemplo, mostra a existência de fatores que
previsíveis conflitos internacionais — há especialistas que esperam, para o tais governos não controlam cabalmente. No entanto, não acredito na ten-
próximo século, verdadeiros massacres deliberados ao sul da linha equato- dência ao recuo dos poderes estatais como algo geral. Por uma simples razão:
rial, praticados pelos países do norte —, mas também no interior de países não existe à vista uma alternativa efetiva ao sistema estatal para efetuar as
como o nosso. Pois, aos numerosos recém-chegados que acorrem ao merca- negociações internacionais imprescindíveis, estabelecer e implementar políti-
do de trabalho cada ano, os governos só acenam com políticas que vão au- cas de todo tipo, levar a cabo as mobilizações sociais julgadas necessárias.

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Parece também claro que numerosos governos continuarão contestados em uma forma eclética (mistura de tendências heterogéneas) de pensar acerca do
sua legitimidade por movimentos dissidentes ou separatistas poderosos — mundo de nosso século, a qual mesclava elementos de várias correntes inte-
corno hoje ocorre na Argélia, no Egito, na Espanha e na Bélgica, por exem- lectuais contemporâneas: aquelas derivadas de Karl Marx, Sigmund Freud e
plo — e também que a capacidade dos Estados para implementação efetiva algumas correntes filosóficas (existencialismo, fenomenologia alemã).
de suas políticas continuará tão variável quanto sempre foi. A visão resultante insistia na ideia de alienação: os seres humanos vivem
Dito isto, é preciso reconhecer o surgimento de um fenómeno novo: numa sociedade e dentro de relações sociais que evidentemente eles mesmos
diante da falta de interesse estatal em lidar com assuntos delicados (práticas fizeram, mas que lhes parecem estranhas e hostis, como se fossem uma coisa
de tortura e genocídio por agentes governamentais ou por ocasião de guerras "lá fora", sobre a qual os homens não tivessem controle. Conforme predo-
como a que ensanguentou a antiga Jugoslávia, problemas ecológicos, infân- minasse algum dos ingredientes da mistura num certo autor, a alienação pa-
cia abandonada etc.), também porque muitos desses assuntos envolvem ne- recer-lhe-ia resultar: seja do capitalismo, sistema em que o trabalho humano
cessariamente uma cooperação internacional que os governos e a própria se processa de maneira a produzir objetos que se separam do interesse e do
ONU não têm sabido realizar a contento, proliferam nesta segunda metade controle dos produtores diretos para se transformar em coisas que se vendem
do século XX as chamadas Organizações Não-Governamentais (ONGs). De e compram, em mercadorias, tanto ao tratar-se de trabalho que resulte em
caráter multinacional, fazendo uso das possibilidades abertas pelas redes in- objetos materiais quanto do trabalho intelectual; seja do naturalismo cientí-
terativas e outras formas atuais de comunicação rápida, elas têm agido como fico (isto é, de uma visão do mundo e das coisas que se limite à ciência e aos
forças de pressão sobre os Estados contra testes atómicos, sobre empresas elementos racionais) predominante no pensamento ocidental; seja de costu-
que agridem o meio ambiente, em programas assistenciais diversos e em mui- mes sociais repressivos, ou da vida social uniformizada pela publicidade e
tas outras áreas. É frequente que tenham uma imagem positiva, que se deve pelos meios de comunicação de massa ou, ainda, burocratizada por um
a algumas das mais conhecidas e sérias, como a Greenpeace e a Anistia poder estatal poderoso demais.
Internacional. Mas não se deve esquecer que formam grupo muito heterogé- A libertação da alienação, por sua vez, podia ser vista como: a reconstru-
neo: há, por exemplo, uma multidão dessas organizações de tipo claramente ção revolucionária da vida social e do poder estatal; a criação de uma nova
corporativo (ligadas, por exemplo, a determinadas profissões) ou, mesmo, cultura moral não-repressiva; ou o fato de cada um abrir-se às suas experiên-
aquelas vinculadas a ideias e políticas de extrema direita. Pode-se prever a cias e vivências individuais mais autênticas, que estavam sendo ocultadas ou
permanência destas organizações como um dos elementos da política nas reprimidas pelo conformismo resultante da massificação, por exemplo.
próximas décadas, se bem que muitas delas atravessem, nos dias que correm, Os intelectuais franceses mais influentes, nessa corrente heterogénea ba-
séria crise de financiamento. seada numa mistura de tendências, foram, provavelmente, os filósofos Jean-
Paul Sartre (1905-1980) e Maurice Merleau-Ponty (1908-1961). Por outros
caminhos, ideias no fundo bastante compatíveis com as deles estavam sendo
defendidas, na América do Norte, pelo canadense Marshall McLuhan (1911-
NOSSO FIN DESIÈCLE: QUÃO DURÁVEIS SERÃO AS SUAS 1980), ou por um membro da mal denominada "Escola de Frankfurt",
TENDÊNCIAS INTELECTUAIS? Herbert Marcuse (1898-1979). Ora, nem estes nem os outros nomes ligados
à tendência mencionada foram jamais os elementos dominantes, numerica-
O debate acerca de tendências intelectuais costuma ser uma discussão de po- mente ou quanto ao poder efetivo de que dispusessem, nas universidades e
sições minoritárias. Minoritárias mesmo nos ambientes universitários. em outras instituições académicas de qualquer país. Mas sua influência foi
Assim, por exemplo, na década de 1950 e na seguinte, até 1968, na França, bem maior e mais duradoura do que a daqueles que de fato detinham, nelas,
com enorme influência sobre outros países, inclusive o Brasil, tomara corpo mais postos de mando e controle institucional.

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O debate acerca do mundo e da vida neste fim de século organiza-se, residiria, pelo contrário, "nos poros" de toda a sociedade, e o que está presen-
analogamente, em torno de pensadores, quase sempre de classe média e uni- te em toda parte não tem um núcleo estratégico que possa ser atacado decisi-
versitários, que são uma pequena minoria. Esta minoria enxerga de preferên- vamente —, são os governos que contam com os meios de implementar polí-
cia os elementos que a preocupam mais. Assim, ao ouvi-la, teríamos a im- ticas que influem na vida e no bem-estar da maioria dos habitantes de seus
pressão de os que debates acerca de coisas como feminismo (ou, mais em países — nestas últimas décadas, quase sempre negativamente.
geral, papéis masculinos e femininos, no que se costuma chamar hoje em dia As questões que me parecem ser de fato as mais urgentes e vitais podem
de "género"), ecologismo (proteção de um meio ambiente cada vez mais ser sintetizadas em certo número de perguntas, de que mencionarei algumas.
ameaçado, incluindo objetivos específicos como o banimento da energia nu- Como construir uma teoria global das sociedades contemporâneas que, ad-
clear, produtora de lixo atómico de alto perigo), multiculturalismo (o reco- quirindo alto grau de confiança e consenso, possa servir à retomada de lutas
nhecimento de que cada cultura só pode ser julgada de dentro, constituindo também globais contra o sistema capitalista e seus representantes à frente
seus valores um sistema não-comparável com outros, válido por definição e dos Estados? Como usar, na luta social que, sem dúvida, precisa ser renova-
que deveria ser respeitado), descriminalização (ou seja, extinção das leis que da, os novos elementos tecnológicos agora disponíveis? Por exemplo, se hou-
penalizam) e desmedicalização (retirada da lista de doenças e, portanto, fim ver boas razões para tal, que objetivos sociais justifiquem, o que hoje são
das políticas de saúde pública nisto baseadas) do homossexualismo e do uso meras irritações, como os vírus de computador, podem se transformar em
de drogas — em suma, o debatera partir de posições que nos Estados Unidos arma: é possível causar bilhões de dólares de prejuízo ao capitalismo mun-
são conhecidas como "politicamente corretas" — configurariam as discus- dial e globalizado num período muito curto mediante um uso adequado do
sões mais importantes, mais vitais e urgentes do mundo atual. computador e das redes informáticas como instrumentos da luta social.
Continuando com as perguntas, como lutar contra a erosão dos direitos
Há uma diferença, porém: enquanto os pensadores de meados do século
adquiridos penosamente pelos trabalhadores e pelos cidadãos em geral, urna
tinham a pretensão de falar à humanidade como um todo e de estabelecer so-
vez encerrada a época em que predominaram as ideias do Estado do bem-
luções aplicáveis universalmente, os da atualidade costumam aceitar que
estar (welfare state), substituídas por aquelas de implacáveis neoconservado-
falam "de um determinado lugar" (lugar social, num sentido limitado a inte-
rismo e neoliberalismo, que, quando no poder, não se sensibilizam com os
resses de grupos; lugar ideológico, neste mesmo sentido fragmentado) e para
sofrimentos sociais, aceitando tranquilamente o empobrecimento da maioria
um setor específico e delimitado de pessoas (conforme o caso: mulheres,
das pessoas e níveis de vida majoritários cada vez piores, em nome das regras
gays, negros, ecologistas e assim por diante). do mercado, da eficiência e da competitividade capitalistas? O exemplo fran-
Pessoalmente, acho mais importantes e urgentes outras discussões — sem, cês de 1995 a que aludimos antes mostra que mesmo meios de combate tra-
com isto, querer dizer que aquelas careçam de importância. Penso, mesmo, dicionais, como as greves em cadeia, quando usados adequadamente e com
que ao não serem considerados estes outros debates mais gerais, ao não se agir grande consenso social, podem ser altamente eficientes. Em contraste, as pes-
de acordo com eles, as reivindicações parcializadas do "politicamente corre- soas que vêem, por exemplo, um objetivo auto-suficiente e prioritário na luta
to" têm poucas chances de cumprir-se de modo cabal e satisfatório. Na verda- por um financiamento estatal adequado à pesquisa científica tendente a ven-
de, elas começam a ser desafiadas e derrotadas cada vez mais — nos Estados cer a AIDS se esquecem de que as atitudes governamentais a respeito fazem
Unidos, onde suas bandeiras foram hasteadas mais entusiasticamente, tam- parte de políticas muito mais gerais: a deterioração friamente calculada da
bém na Europa — pelo fortalecimento de tendências políticas muito reacioná- medicina social garantida pelo Estado e o acoplamento, também facilitado
rias que detêm agora frações importantes do poder político ou, estando forte- ou mesmo forçado pelos governos mediante chantagem financeira (cortes
mente representadas na sociedade, pretendem aumentar sua representação das verbas garantidas às universidades, por exemplo), da pesquisa científica
político-institucional. Pois, ao contrário do que pregam aqueles que duvidam básica cada vez mais aos interesses e ao financiamento direto das empresas e
de que o Estado seja o lugar crucial em que se concentra o poder social — este do capital privado, cujas finalidades nada têm de sociais.

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Como evitar que no processo de globalização capitalista, dificilmente ao pessimismo resultante da diluição da crença na razão humana e sua
evitável nas atuais circunstâncias, se agrave progressivamente o descompas- possibilidade de basear conhecimentos válidos (verdadeiros) da natureza e
so tecnológico e económico entre os países mais ricos e desenvolvidos e os das sociedades, conduz à noção de que o conhecimento humano se limita aos
o-:tros? E poderíamos continuar a formular perguntas. Perguntas para as códigos e signos, mais exatamente à ação deles nos processos em que se gera
quais, de momento, há poucas respostas; e respostas que são insatisfatórias o sentido (semioses), estudados por uma disciplina, a semiótica: tal conheci-
em muitos casos. mento seria incapaz de dizer seja o que for acerca do mundo natural e social
O próprio fato de que questões como estas não sejam as que mobilizem em si. Como os processos de criação de significados, a partir dos signos e das
atualmente a maior parte dos intelectuais, mesmo dos que se considerem mensagens (verbais e não-verbais) que permitem difundi-los, dependem de
progressistas, leva à pergunta essencial: como, por quê, por quais caminhos como sejam decodificados (decifrados, compreendidos), pensou-se que o co-
se deu o abandono das perspectivas voltadas para a visão global (ao contrá- nhecimento humano fosse necessariamente relativo: os significados depende-
rio de uma visão compartimentada) do social, única forma de poder oferecer riam de uma hermenêutica, isto é, de um processo de interpretação inescapa-
alternativas ao estado de coisas vigente nas sociedades humanas? velmente marcado por sistemas de poder e por interesses que nunca são uni-
As opiniões a respeito estão longe de qualquer unanimidade. A meu ver, versais, estão sempre ligados a grupos delimitados.
a resposta tem ligação centralmente com três tipos de fatores. Ao mesmo tempo, certos processos do século atual, por exemplo a des-
As visões globais do social — das quais a mais influente e mobilizadora colonização e as reivindicações feministas e de diversos grupos discriminados
foi por muito tempo o marxismo — são uma herança do iluminismo, movi- em seus direitos e possibilidades, foram entendidos no contexto da noção de
mento de ideias do século XVIII, de sua confiança no progresso histórico da uma "culpa do Ocidente" — recordam-se os horrores da conquista e da co-
razão. Ora, tal herança se enfraqueceu por ter sido percebida por muitos lonização na América, o tráfico de escravos, as atrocidades do colonialismo
pensadores como estando ligada às atrocidades de nosso século — um sécu- contemporâneo, as guerras mundiais, o pesadelo nazista, as torturas duran-
lo de avanço da barbárie nas relações entre pessoas e coletividades, como foi te a guerra de independência da Argélia, barbaridades sem número durante
demonstrado por Eric Hobsbawm. A debilitação da crença na razão abriu a guerra do Vietnã, a ciência a serviço da destruição de seres humanos e do
caminho à influência crescente de correntes contrárias ao racionalismo, à meio ambiente (neste ponto é corriqueira a confusão da ciência cornos seus
ciência e à ideia mesma de progresso. No caso específico do marxismo, sua usos; e com a tecnologia, coisa ligada à ciência mas diferente dela) —, tudo
própria insistência na união indissolúvel da teoria e da prática o tornou vul- isto em nítido contraste com o eurocentrismo e o privilégio anteriormente
nerável, como corrente intelectual, às derrotas políticas sucessivas do socia- concedido à história ocidental como algo válido, universalmente. Estas con-
lismo e à crescente perda de credibilidade, como modelos a imitar, dos siste- vicções do passado desaparecem agora, substituídas pelo multiculturalismo
mas sociais e políticos que pretendiam estar baseados no marxismo — isto é, encarado como valor absoluto.
a desilusão cada vez maior com o chamado "socialismo realmente existen- No contexto de tais fatores é que se deu a desilusão da chamada "gera-
te". Ao desaparecer este último num rápido processo, em 1989-91, restando ção de 1968", a qual crera na possibilidade de mudar globalmente as socie-
somente uma Cuba isolada e uma China que parece muito mobilizada pela dades humanas num sentido positivo e, cada vez mais desencantada após ter
magia do mercado, o capitalismo se configura como o único sistema ora vi- acreditado sucessivamente no existencialismo, no marxismo, na "via chinesa
gente no mundo — coisa que muitos concluíram apressadamente ser algo de- ao socialismo" e no eurocomunismo, acabou por desembocar — melancoli-
finitivo e inelutável. camente — no socialismo moderado, no apoio a movimentos específicos e
Outro elemento explicativo é a importância atribuída à presença, nas so- delimitados de reivindicação (feminismo, ecologismo, regionalismo, movi-
ciedades humanas, de sistemas simbólicos e sígnicos que passaram a perceber- mento negro, movimento gay), ou mesmo em posições tecnocráticas, neoli-
se como, em grande parte, programando "de fora" a ação humana. Associada berais ou neoconservadoras.

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O S É C U L O XX NO L I M I A R DO SÉCULO XXI

O termo "pós-moderno" foi aplicado em primeiro lugar a uma arquite- muito simples: os problemas sociais, tanto os tradicionais quanto outros, de-
tura que pretendia livrar-se da modernidade e suas formas despojadas — se rivados das tendências mais recentes que resumimos, só fazem agravar-se em
antes se dizia que less is more (o despojamento é acréscimo, é ganho), agora todo o mundo; e a busca de soluções através da luta social passa necessaria-
se passou a dizer que less is a bore (o despojamento é tedioso) — para cair mente por teorias assim. Elas também deverão surgir em reação ao indivi-
num ecletismo formal que, de certo modo, canibalizava e mesclava os estilos dualismo absoluto reinante na atualidade, produto da descrença nas teorias
precedentes: dando a entender, às vezes, que tudo de básico que deveria ser globais e da erosão considerável sofrida neste século pelas instâncias coleti-
inventado já o foi (sinal claro de uma crise). vas integradoras mais influentes no passado (família, nação, sindicato, parti-
Com o tempo, "pós-modernismo" passou a ser expressão de aplicação do, religiões tradicionais, sistemas éticos antes vigentes), sem que tenham
. -M
mais geral, caracterizando entre outras coisas um modo de ver o mundo e as surgido alternativas viáveis. Como tal individualismo coincide no tempo
sociedades que desconfia da explicação científica e das teorias com preten- com o sucesso de teorias que proclamaram a "morte do homem", há quem
sões globais — com o argumento, por exemplo, de que as sociedades de hoje fale, ironicamente, numa "vitória póstuma do sujeito". Quanto a mim, é mi-
estão desagregadas em "subculturas" autónomas, cada intelectual dirigindo- nha firme convicção que os seres humanos formam coletividades solidárias
se de fato a alguma delas, mesmo quando tenha a ilusão de falar à humani- que o nível individual escamoteia ao ser absolutizado: mas tal dimensão co-
dade como um todo — e proclamando diversas "mortes": morte do homem letiva é uma parte inseparável do fato de pertencer à humanidade, pelo que,
(como sujeito e objeto do conhecimento e de uma ação social globalmente posições unilaterais que a neguem não podem ser duradouras.
transformadora), morte da história (o futuro, no essencial, seria o prolonga- Deve considerar-se, também, que o pós-modernismo é um produto espe-
mento do presente), morte das ideologias e dos sistemas explicativos holísti- cífico do desencanto intelectual de minorias pensantes de tradição ocidental.
cos (que lidem com totalidades). Nos países islâmicos, por exemplo, os numerosos excluídos das vantagens do
Que pensar dessa tendência — bastante heterogénea, aliás, embora não mundo contemporâneo refugiam-se não nos ideais pós-modernos mas sim
possamos detalhar aqui as suas variantes — pessimista quanto às possibilida- no mito da volta a um islã original, depurado, perseguindo a utopia teocrá-
des humanas de conhecer o mundo e a sociedade e de transformá-los median- tica (isto é, baseada na possibilidade de um governo dirigido por Deus ou,
te uma ação baseada em tal conhecimento, negativa ao ponto de ter sido ca- mais exatamente, por pessoas reconhecidas como representantes Dele) do ca-
racterizada como a orfandade intelectual de uma geração? Pessoalmente, lifado unificado da Alta Idade Média como solução — ilusória, claro está —
creio que, exatamente no que tem de negativa e pessimista, será passageira. para os males do presente. Em países como o Japão ou a China também não
Duvido muito da longevidade de teorias que se concentrem em dizer-nos o parece considerável a influência pós-moderna. A América Latina, porém, por
que não podemos ser ou fazer, quando mais não seja porque, historicamente, suas próprias origens históricas, configura-se tradicionalmente como impor-
se nota que as interdições intelectuais despertam irresistível impulso de deso- tadora das modas ocidentais, pelo que, em nossos países, tal influência é,
bediência... Mas essas noções ainda estarão conosco por algum tempo, até pelo contrário, muito visível, mesmo na ausência ou insignificância numéri-
que surjam novas teorias globais dotadas de credibilidade e poder de mobili- ca das "novas elites" de natureza profissional e gerencial — mais apoiadas
zação, passado o trauma das recentes e esmagadoras vitórias políticas das po- na manipulação de conhecimentos profissionais e informações do que no
sições direitistas (neoconservadorismo, neoliberalismo). O surgimento dessas controle da propriedade ou do capital — que autores como Alex Callinicos e
novas teorias é, por outro lado, difícil atualmente, em especial no tocante ao Christopher Lasch percebem como sendo a base social do pós-modernismo
conhecimento de uma sociedade humana em fluxo, em processo ainda inaca- nos Estados Unidos e na Europa.
bado — portanto, difícil de perceber em seus contornos — de transformação
radical das modalidades de convivência, produção e comunicação.
Tais teorias globais novas surgirão sem falta, no entanto, por uma razão

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O S É C U L O XX NO LIMIAR DO SÉCULO XXI

BIBLIOGRAFIA
muito longe de ser algo superado, como hoje em dia pretendem tantos.
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n° 2,1996, pp. 7-30. Como panorama interpretativo do século que agora ter- respeito do estado atual das visões histórico-sociais, consulte-se: Cardoso,
mina — ou que, segundo o autor, terminou em 1991 —, ver Hobsbawm, Eric. Ciro Flamarion e Vainfas, Ronaldo (orgs.). Domínios da História. Rio de
Era dos extremos: o breve século XX: 1914-1991. São Paulo, Companhia das Janeiro, Campus, 1997; Cardoso, Ciro Flamarion. Ensaios racionalistas. Rio
Letras, 1995. de Janeiro, Campus, 1988 (os dois últimos ensaios, pp. 61-117).
Acerca dos avanços científicos e tecnológicos que estão na base de trans-
formações como a engenharia genética e a "revolução informacional", bem
como dos efeitos de tais elementos sobre a vida das pessoas e sobre o capita-
lismo contemporâneo — o que inclui o debate acerca da "globalização" —,
recomendamos também alguns escritos. Witkowski, Nicolas (org.). Ciência e
tecnologia hoje. São Paulo, Editora Ensaio, 1994 é sumário útil e bastante
completo do tema indicado por seu título, atualizado até 1991, quando foi
publicado originalmente na França. Negroponte, Nicholas. A vida digital.
São Paulo, Companhia das Letras, 1995 tece interessantes considerações
acerca da vida cotidiana tal como influída pelas novas tecnologias da infor-
mação (um dos capítulos se intitula "Onde as pessoas e os bits se encon-
tram"). Lojkine, Jean. A revolução informacional. São Paulo, Cortez
Editora, 1995 trata de teorizar, de um ponto de vista marxista, o impacto das
mencionadas tecnologias da informação sobre as estruturas do capitalismo
na época atual. Para uma finalidade similar, mas numa perspectiva distinta,
vale a pena ler: Petras, James. Ensaios contra a ordem. São Paulo, editora
Scritta, 1995. Santos, Milton. Técnica, espaço, tempo. Globalização e meio
técnico-científico informacional. São Paulo, Hucitec, 1994 redefine, da pers-
pectiva de um geógrafo e em conjunto com diversas outras obras do autor, as
novidades trazidas à categorização do espaço pelos fatores ligados à "revo-
lução informacional" e à "globalização".
Para os dilemas intelectuais e políticos de nossa época, eis aqui algumas
indicações. Kaplan, E. Ann (org.). O mal-estar no pós-modernismo. Teorias
e práticas. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1993 oferece uma gama de opiniões
sobre o pós-modernismo e suas ligações com o feminismo e as teorias de uma
"cultura popular". Bobbio, Norberto. Direita e esquerda. Razões e significa-
dos de uma distinção política. São Paulo, editora Unesp, 1995 demonstra
que a distinção entre posições políticas e sociais de direita e de esquerda está

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141 min. A partir dos anos 30, durante a ocupação francesa na Indochina, a saga de uma pro-
A amizade entre um jornalista americano e seu fotógrafo cambojano, que é preso prietária de seringai e de sua filha adotiva, ambas apaixonadas pelo mesmo homem.
num campo de concentração (comunista) durante a guerra. Baseado em fatos reais Épico que procura conciliar romance e as implicações políticas da colonização fran-
da Guerra do Camboja, vividos em 1973 pelo repórter Sidney Schanberg do The cesa na Indochina.
New York Times, e também pelo intérprete Ngor, médico que sofreu os mesmos dra- Nascido para matar (Full metal jacket). Direção de Stanley Kubrick, 1987, Estados
mas do seu personagem. Unidos da América, 116 min.
Sombras da China (Shadow of China). Direção de Mitsuo Yanagimachi, 1990, Estados Após treinamento insano, grupo de soldados é enviado ao Vietnã, em 1968, passan-
Unidos/Japão/Hong Kong, 102 min. do a enfrentar os horrores da guerra.
Em 1976, jovem comunista chinês, insatisfeito com os novos rumos políticos de seu O ano que vivemos em perigo (The year of living dangerously). Direção de Peter Weir,
país, foge para Hong Kong. Sua namorada o segue semanas depois, mas eles só vol- 1983, Austrália, 115 min.
tam a se encontrar após treze anos: ela é uma cantora de cabaré e ele um poderoso e Em 1965, pouco antes do golpe que tentou derrubar o presidente Sukarno, um inex-
rico empresário. periente jornalista australiano chega a Jacarta para cobrir o que parece ser o fim de
Tempos de viver (Huozhe). Direção de Zhang Yimou, 1983, China, 129 min. uma ditadura. Intrigante drama político, o filme é feliz na recriação da atmosfera de
Saga familiar chinesa, que cobre o período dos anos 40 aos 70, que conta história de turbulência em que vivia a Indonésia.
uma casal que enfrenta todo os tipos de problemas, desde a guerra até a Revolução Platoon (Platoon). Direção de Oliver Stone, 1986, Estados Unidos, 120 min.
Cultural de Mão. Universitário que combate no Vietnã narra seus traumas, pesadelos e horrores em
cartas enviadas à avó distante. Fruto das experiências vividas pelo diretor na guerra,
é o próprio inferno revivido por um grupo de marines que se engaja na loucura e na
Descolonização e lutas de libertação nacional mais plena violência, tentando sobreviver.
Um grito de liberdade (Cry freedom). Direção de Richard Attenborough, 1987,
A marca do gavião (The mark ofthe hank). Direção de Michael Audley, 1958, Inglaterra, Inglaterra, 157 min.
83 min. A história real de Steve Biko, jovem líder negro em luta contra o apartheid na África
Jovem político africano educado na Inglaterra enfrenta vários obstáculos para a do Sul, vista sob a ótica de um jornalista branco que se conscientiza aos poucos da
emancipação de seu povo. O pior dos problemas é seu irmão, líder revolucionário situação e também é perseguido. Baseado em dois livros de Donald Woods.
que quer a independência por meio da luta armada.
Batalha de Argel (La Bataglia di Algeri). Direção de Gillo Pontecorvo, 1965, Itá-
lia/Argélia, 135 min. América Latina: dependência, ditaduras e guerrilhas
Em 1954, na Argélia, ex-presidiário se associa a uma organização nacionalista que
combate o domínio francês. Reconstituição, em forma de documentário, da luta dos A casa dos espíritos (The house of the spirits). Direção de Bille August, 1993,
argelinos pela sua independência da França, mostrando os anos cruciais da rebelião. Alemanha/Portugal/Dinamarca, 145 min.
Dien Bien Phu (Dien Bien Phu). Direção de Pierre Schoendoerffer, 1992, França, 140 min. As quatro gerações de uma família, os Truebas, mostrando painel histórico de seu
Em 1954, jornalista americano, há dez anos residente em Hanói, investiga os fatos país, o Chile, durante quase 50 anos (1926/73).
que levariam ao término da guerra entre a França e a então Indochina (atual Vietnã). A História Oficial (La Historia Oficial). Direção de Luiz Puenzo, 1985, Argentina, 112 min.
O próprio diretor, Schoendoerffer, que foi cinegrafista do exército francês na Na Buenos Aires de 1983, casal vive em paz com a filha adotiva, até que amiga che-
Indochina, chegou a ser preso pelos vietcongues comandados por Ho Chi Minh. gada do exílio revela o absurdo do regime militar argentino.
Havana (Havana). Direção de Milos Forman, 1979, Estados Unidos, 121 min. Chove sobre Santiago (II pleut sur Santiago). Direção de Helvio Soto, 1975,
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Gandhi (Gandhi). Direção de Richard Attenborough, 1982, Inglaterra, 188 min. e assassinaram o presidente Salvador Allende, instalando a ditadura do general
A vida e as lutas do líder espiritual e político indiano Mohandas Karamchand Augusto Pinochet. O diretor, à época exilado, rodou o filme na Bulgária.
Gandhi, que liderou seu imenso país na luta para libertar-se do domínio inglês. Estado de sítio (Etat de siège). Direção de Costa-Gavras, 1973, França, 120 min.

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A partir de um fato político real — o sequestro e assassinato do diplomata e espião ligiosas para combater o líder de uma fanática organização terrorista árabe em Paris
americano Dan Mitrione por grupos de esquerda no Uruguai —, o diretor retrata o e Marselha.
cenário de tensão e medo vivido por vários países da América Latina, como seques- Exodus (Exodus). Direção de Otto Preminger, 1960, Estados Unidos, 213 min.
tros, torturas, assassinatos e intimidações. Baseado no best seller de Leon Uris, o filme expõe os problemas vividos por judeus
Lamarca. Direção de Sérgio Rezende, 1994, Brasil, 130 min. nos seus conflitos com os árabes às vésperas da criação do Estado de Israel.
Em 1964, capitão do exército brasileiro deserta e passa a atuar em grupos da esquer- Golda (A woman called Golda). Direção de Alan Gibson, 1982, Estados Unidos, 200 min.
da armada. Reconstituição da caçada dos órgãos de repressão a Carlos Lamarca, A vida e a carreira política da primeira-ministra Golda Meir, de Israel.
morto em 1971, no interior da Bahia. Hanna K (Hanna K) Direção de Costa-Gavras, 1983, França, 108 min.
Latino (Latino}. Direção de Haskell Wexler, 1985, Estados Unidos, 105 min. Drama sobre uma advogada dividida entre o ex-marido, um israelense, e a defesa de
Veterano de guerra de origem latino-americana treina tropas anti-sandinistas para um terrorista palestino.
combater o regime da Nicarágua. Casualmente, se apaixona por nicaragiiense e de- O longo caminho de volta. Direção de Mark Jonathan Harris, 1997
cide abandonar sua tarefa. Documentário sobre os refugiados judeus entre 1945, fim da Segunda Guerra
Pra frente, Brasil. Direção de Roberto Farias, 1983, Brasil, 105 min. Mundial, e 1948, ano de fundação do Estado de Israel. Vencedor do Oscar de me-
Suspense político de grande repercussão na época do lançamento, por denunciar a re- lhor documentário de 1998.
pressão paramilitar. A história é ambientada durante a Copa de 1970. O silêncio do palácio (Lês silences du palais). Direção de Moufida Tiatli, 1994,
Salvador, o martírio de um povo (Salvador). Direção de Oliver Stone, 1986, Estados França/Tunísia, 127 min.
Unidos, 123 min. Cantora de 25 anos volta ao palácio onde foi criada — ela era filha de uma empre-
As experiências do jornalista Richard Boyle nos conflitos políticos-ideológicos de El gada. Ao saber da morte do príncipe, recorda momentos do seu passado. Drama sen-
Salvador em 1980-81. sível sobre a condição da mulher na Tunísia.
Tangos, o exílio de Gardel (Tangos, el exílio de Gardel). Direção de Fernando Solanas, Pânico em Munique (21 hours atMunich). Direção de William A. Graham, 1976, Estados
1985, Argentina/França, 119 min. Unidos da América, 100 min.
Exilados argentinos em Paris planejam montar um espetáculo sobre Carlos Gardel e, Nas Olimpíadas de 1972, em Munique, Alemanha, terroristas da Organização para
paralelamente, revivem as lembranças da terra natal distante e os projetos de vida in- a Libertação da Palestina (OLP) penetram nos alojamentos para matar alguns atletas
terrompidos pela ditadura militar na Argentina. e treinadores de Israel, dando origem a intensa movimentação policial e política.
Uma canção para Carla (Carla's song). Direção de Ken Loach, 1996, Inglaterra/Alema- Sadat (Sadat). Direção de Richard Michaels, 1983, Estados Unidos, 140 min.
nha/Espanha, 127 min.' A vida de Anuar El Sadat, o líder egípcio sucessor de Gamai Abdel Nasser, com os
Motorista de ônibus escocês apaixona-se por jovem nicaragiiense. Decidido a con- mais importantes acontecimentos históricos egípcios, inclusive a Guerra dos Seis
quistá-la, parte com ela para a Nicarágua, onde enfrentará os horrores da guerra Dias, a Guerra do Yom Kippur e os acordos de Camp David.
civil, no início dos anos 80.

O mundo árabe e as guerras árabe-israelenses 1968: Rebeliões e utopias

A história de Hanna (Hanna's war). Direção de Menahem Golan, 1988, Estados Unidos, A primeira noite de um homem (The graduate). Direção de Mike Nichols, Estados
148 min. Unidos, 1967, 105 min.
No verão de 1937, a jovem Hanna Senesh, filha de um famoso poeta húngaro vítima Jovem recém-diplomado é seduzido e iniciado sexualmente por mulher de meia-
do anti-semitismo, vai trabalhar em uma fazenda agrícola na Palestina. Admitida idade, por cuja filha ele mais tarde se apaixona.
posteriormente como oficial da força aérea britânica, volta para a Hungria, com 2001 - uma odisseia no espaço (2001: a space odyssey). Direção de Stanley Kubrick,
nova identidade, para lutar contra os invasores nazistas e tentar salvar sua família. Inglaterra, 1968, 141 min.
Cartel de Rasdjani (Union sacrée/Brother in arms). Direção de Alexandre Arcady, 1989, Durante expedição a Júpiter, o computador HAL 9000 tenta assumir o controle da
França, 110 min. nave e vai eliminando aos poucos a tripulação. O objetivo da viagem era investigar
Dois policiais, um árabe e um judeu, precisam superar suas divergências histórico-re- um misterioso monolito negro que parecia emitir sinais de outra civilização.

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O S É C U L O XX BIBLIOGRAFIA, FILMOGRAFIA E CRONOLOGIA

Submarino amarelo (Yellow submarine). Direção de George Durning, 1968, Inglaterra, Hair (Hair