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FICHAMENTO DE LEITURA

Curso: MESTRADO EM DESENVOLVIMENTO REGIONAL


Professor: Miguel Ângelo Perondi
Aluno: Marcelo Guilherme Kühl
Disciplina: Fundamentos do Desenvolvimento Regional
Tipo: Livro
Assunto / tema: Educação – Economia Política
Referência bibliográfica:
SCHULTZ, Theodore W. A Transformação da Agricultura tradicional.
Rio de Janeiro, Zahar, 1965. (Capítulos 3, 4 e 11). (digitalizado)
Resumo / conteúdo de interesse:
Referente ao Capítulo III do Livro – A Eficiência Distributiva da Agricultura
Tradicional:
Nesse capítulo o autor tem o objetivo de verificar a eficiência com que os praticantes da
agricultura tradicional distribuem os fatores que têm à sua disposição, conceituando que
esse tipo de agricultura são aquelas que praticam as mesmas formas de cultivo, pois “não
experimentam qualquer alteração significativa no estado de seus conhecimentos”, por
gerações, seja cultivando o mesmo tipo de terra, mesmas espécies, mesmas técnicas e
práticas de produção, assim, resultando em comunidades agrícolas pobres, formula dessa
maneira, sua hipótese: “Há comparativamente poucas ineficiências significativas na
distribuição dos fatores de produção na agricultura tradicional”, - eficiente mas pobre -
limitando sua pesquisa somente a esse tipo de comunidade agrícola, excluindo todas as
outras, mesmo as pobres, porém que já experimentaram alguns tipos de mudanças, sejam
internas: mudança de atitudes, emprego de maquinários, produtos diferentes; ou externas:
fatos fora do controle, como distribuição de recursos humanos (alistamento a forças
armadas), ações políticas, desastres ou alterações naturais (represas, deslizamentos,
secas, inundações). Também faz questão, em sua hipótese (eficiência da distribuição dos
fatores existentes na agricultura tradicional), em alguns requisitos fundamentais, para que
ela não sofra incertezas na sua investigação, primeira: da introdução de quaisquer meios
vindos de fora (como boas sementes, manejos diferenciados dos quais depende
conhecimento, itens que poderiam ser prescritos por um perito – na agronomia/economia);
segunda: todo fator produtivo disponível (na comunidade) será empregado, citando
exemplos: todas as terras disponíveis e o conhecimento atual, além de canais de irrigação,
animais de tração e todo trabalhador (detalhes serão feitos no capítulo IV sobre a mão de
obra e seu peso na eficiência). A pesquisa de Schultz foi direcionada aos estudos de outros
pesquisadores, sendo um deles numa comunidade indígena em Guatemala (Panajachel) e
outro numa comunidade agrícola na Índia (Senapur), ambas pobres, porém eficientes. No
primeiro caso, estudo feito por Sol Tax, convivendo com a comunidade indígena por seis
anos (1935-1941), descreveu o cenário de pobreza da mesma, descrevendo seus hábitos,
rotinas de trabalho e comércio, acesso escolar (quase inexistente) pelas crianças;
intitulando como um sistema capitalista microscópico e pobre. Todos os bens necessários
(utensílios, ferramentas, insumo, roupas e alimentos) à esse modus operantes, eram
“importados” de outras cidades, sendo suas únicas fontes de rendas: cebola, alho, frutas e
café. Tax descreve que o índio dessa comunidade é acima de tudo um homem de negócios,
que apesar de buscar algumas melhorias, elas de fato tem pouco efeito sobre a produção.
Esse povo, através de tabulações feitas (preços, custos, retornos), demonstra ser eficiente
na distribuição dos fatores que estão a sua disposição, pois não há: “indivisibilidade
significativas nos métodos de produção, nos fatores e nos produtos”, não tem desemprego
(todos cooperam, mesmo as crianças), preços e produtos são flexíveis. Depois de 20 anos,
o prof. Tax, visita a comunidade, e para sua surprese, quase nada se modificou. No
segundo caso, estudo efetuado (tese de doutorado) por W. David Hopper, que viveu por um
ano e meio (1953-1955) na Índia (Senapur), em sua qualidade antropólogo, observando
aspectos sociais, culturais, mas com foco na economia da comunidade. Algumas
constatações: presença de castas (classes sociais) que perpetuam nas gerações, tendo
privilégios como acesso a escolas; número de animais produtivos alto (vacas, búfalas, bois);
poços de irrigação, vales, açudes, ferramentas (diversas); mais trabalho especializado
(ferreiros, oleiros, carpinteiros entre outros) e apesar disso tudo, Senapur é pobre. Neste
cenário, Hopper examina os fatores de produção: recursos naturais, reprodutíveis (internos
e externos) à comunidade, forças competitivas, mercados, produto e seu valor; dizendo
estar admirado pela maneira que aquele povo usas esses fatores, técnicas refinadas ao
longo de gerações (por experiências sucessivas), nas mais diversas áreas do trabalho,
dotadas de sabedoria empírica (experiência e observação). Fazendo, o autor, uma
tabulação de fatores produtivos, e tendo o valor da cevada como sendo o comparativo com
outros, chegou a conclusão que : “Não há prova de que poderia ser obtida uma melhoria no
rendimento econômico, alterando as distribuições presentes, enquanto a vila depender dos
recursos e tecnologias tradicionais”, de outra forma, levou comparou também preços
implícitos e preços de mercado reais, tendo uma “estreita aproximação” entre eles. Assim,
os fatores de produção dessa vila eram distribuídos eficientemente, apoiando a hipótese
proposta por Schultz; das observações, por ele feitas, nos dois estudos (comunidades) o
mesmo traz algumas implicações e inferências, entre elas: não há ineficiências significativas
na distribuição dos fatores, o que torna as comunidades pobres é porque esses fatores não
são capazes de produzir mais; outra, o analfabetismo indica falta de aumento de
produtividade (pela falta do conhecimento), porém não implica num pré-requisito para uma
distribuição eficiente de fatores; e finaliza o capítulo com a implicação que nas comunidades
com essas características em comum, não aparece a produtividade marginal de valor zero,
assunto esse do próximo capítulo.
Referente ao Capítulo IV do Livro – A Doutrina do Trabalho Agrícola de Valor Zero:
Seu conceito: trabalhadores da agricultura que em nada contribuem para a produção, de
maneira que por mais que trabalhem não há aumento na produtividade, portanto mão de
obra excedente, o autor explicita, que são trabalhadores que querem, são capazes e de fato
estão trabalhando, segundo a doutrina desse conceito 25% dos trabalhadores estão
enquadrados nele. Shultz indica falhas nessa doutrina de Leibenstein, pois a mesma está
embasada em concepções errôneas da produtividade do trabalho agrícola, não consistindo
com os dados relevantes, indicando duas prerrogativas nas comunidades pobres: a
produtividade do trabalhador é baixa, e na diminuição deles a produtividade agrícola
também cai, disso implica a segunda: não existe trabalho agrícola valor zero. Shultz faz
distinção de três estados econômicos: para o Produto Marginal do trabalho na agricultura: a)
sendo muito baixo, no qual esse trabalho produz tanto quanto o comparável em outros
setores; b) é inferior ao do trabalho comparável em outros setores da economia
(desequilíbrio da agricultura moderna); c) tem valor zero. É nesse último estado que o
mesmo coloca atenção, indicando que esse conceito será usado aos efeitos sobre a produção,
da retirada de mão de obra, sem modificações técnicas de produção ou na quantidade e
forma de recurso humano e não-humano. Entre as refutações à doutrina, Shultz declara que:
a mesma foi usada, imputando um julgo sobre a força trabalhadora no estado valor zero,
como sendo a culpada do desemprego em massa no EUA, durante a depressão da década de
1930; que seus dados principais são ineficientes, pois não levam em conta a sazonalidade na
agricultura; e , pronunciamentos de peritos agrícolas, (levados por essa doutrina), que não
levam em conta o que a comunidade agrícola pode produzir com os fatores que estão a sua
disposição e sim com a modernização da agricultura (assuntos completamente diferentes,
segundo Schultz). Cita ainda exemplos onde aconteceram diminuições da mão de obra, em
virtudes de acontecimentos externos (epidemia), com uma redução também na produção,
rebatendo o valor zero do trabalhador, trazendo dados populacionais, produtivos, entre
outros, citando o caso da Índia, na pandemia 1918-1919 e a safra 1919-1920, provando a
redução da produção em decorrência da redução de trabalhadores, concluindo que “Seria
difícil encontrar em qualquer amparo nesses dados, para a doutrina de que uma parte da
força trabalho da agricultura na Índia, ao tempo da pandemia, tinha uma produtividade
marginal igual a zero.”, demonstrada essa por análises estatísticas comparando taxas de
mortalidade com taxas de produção, concluindo que a doutrina é falsa, o que a torna suspeita
em suas raízes.
Referente ao Capítulo XI do Livro – A Demanda de Novos Fatores Pelos Agricultores:
Conceituada por Shultz, “a agricultura moderna é obviamente uma consequência de terem os
agricultores adquirido e aprendido a usar novos e superiores fatores de produção”,
enfatizando e colocando no reino da fantasia, a noção que todos os agricultores são resolutos
em suas tradições. Assim ele examina, fazendo uma análise, nesse capítulo três itens
importantes quanto ao uso pelos agricultores de novos fatores agrícolas, ofertados pelos
fornecedores: a) como os agricultores em comunidades pobres, estão preparados para aceita-
los? b) Quando procuram por eles? c) Quanto de sabedoria, experiência e treinamento para
aprender o uso deles? Segue com as análises:
a) Grau de Aceitação: a abordagem aqui usada, para uma maior aceitação pelos
agricultores é com relação a rentabilidade, ao usar exemplos da Índia, México e Peru, o autor
enfatiza o fato de novos fatores (como melhores sementes), afetam diretamente no aumento
da produção, aumentando a rentabilidade, assim não precisa fazer muitos outros esforços
para convencer o agricultor; apontando ainda estudos de aumento da rentabilidade quando
se tem abertura para comércio exterior. Mas quais são os componentes determinantes da
rentabilidade para aceitação desse novo fator, que além do seu preço, juntos é o que importa
na decisão dessa aceitação? Responde o autor: aumento absoluto e não relativo do
rendimento obtido sobre esse novo fator; riscos e incertezas (tempo, pragas); tipo da pose da
terra (repartição entre custos e retornos) entre proprietário da terra e agricultor;
conhecimento e as habilitações adicionais que podem ser necessários para usar efetivamente
os novos fatores (essa busca pelo conhecimentos tem custos e retornos, por vezes o custo não
colabora pela aquisição/aceitação do novo fator).
b) Como aprender a utilizá-los: com graus de aprendizado indo do mais simples ao mais
complexo, pouca atenção foi dispensada por economistas, nesse quesito, observa Shultz;
trazendo exemplo de simples, aquele utilizado na agricultura do milho híbrido e complexo a
substituição do rebanho de gado comum por um leiteiro. Ou seja, a substituição dos fatores
agrícolas tradicionais pelos modernos, sempre exigirá aprendizado, o qual o autor classifica
em conhecimentos e habilitações úteis, que podem ser adquiridos de três maneiras: 1ª)
tentativa e erro, pela experiência, sendo dispendioso e lento; 2ª) treinamento no trabalho
através de demonstrações e discussões ofertadas por fornecedores, ou cursos de curta
duração em escolas (aqui ele cita as da Dinamarca e a antiga União Soviética), relata também
que “os agricultores também aprendem uns dos outros. O primeiro a tentar uma novidade é
um professor dos seus vizinhos.” 3º) Esse enaltecido pelo autor, por ser o mais eficiente a
longo prazo: a instrução, considera como um investimento em capital humano. O que Shultz
analise nesse quesito é do ponto de vista econômico, em cada uma dessas atividades
(especialização, treinamento, habilitações, treinamentos, instruções), que as considera como
um investimento, analisando custos e retornos básicos.
Finalizando esse capítulo, Shultz conclui: “A rentabilidade do uso de um novo fator agrícola
constitui uma forte variável esclarecedora, na análise do grau de aceitação por parte dos
agricultores.” ; com relação a esses novos fatores: “Aprender a melhor maneira de usá-los
implica tanto novos conhecimentos como novas habilitações, por parte dos agricultores.”

Citações: Página
1 ...durante anos, não experimentam qualquer alteração significativa no estado dos
seus conhecimentos. 47
2 Não há prova de que poderia ser obtida uma melhoria no rendimento econômico,
alterando as distribuições presentes, enquanto a vila depender dos recursos e 56
tecnologias tradicionais.
3 O primeiro a tentar uma novidade é um professor dos seus vizinhos. 175
4 O treinamento no trabalho tem um grande papel a desempenhar, especialmente
durante uma geração, até que a instrução possa encarregar-se da maior parte do
trabalho básico indispensável para estabelecer os fundamentos para o 177
conhecimento e a especialização.

Indicação da obra: professores de todas as áreas, pedagogos, acadêmicos de


cursos ligados à agronomia, economia, administração, educação, pós-graduandos
em ensino.

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