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Capítulo extraído da seguinte referência:

VON SPERLING, M. (2014). Princípios do tratamento biológico de águas residuárias. Vol. 1.


Introdução à qualidade das águas e ao tratamento de esgotos. Editora UFMG. 4a ed., 472 p. ISBN
9788542300536.

Para uso interno dos estudantes no período de ensino remoto emergencial (2020).

CAPÍTULO 1
NOÇÕES DE QUALIDADE DAS ÁGUAS

1.1. INTRODUÇÃO
Na ótica da Engenharia Ambiental, o conceito de qualidade da água é muito mais amplo do que a simples
caracterização da água pela fórmula molecular H2O. Isto porque a água, devido às suas propriedades de
solvente e à sua capacidade de transportar partículas, incorpora a si diversas impurezas, as quais definem
a qualidade da água.

A qualidade da água é resultante de fenômenos naturais e da atuação do homem. De maneira geral, pode-
se dizer que a qualidade de uma determinada água é função das condições naturais e do uso e da
ocupação do solo na bacia hidrográfica. Tal se deve aos seguintes fatores:

• Condições naturais: mesmo com a bacia hidrográfica preservada nas suas condições naturais, a
qualidade das águas é afetada pelo escoamento superficial e pela infiltração no solo, resultantes da
precipitação atmosférica. O impacto é dependente do contato da água em escoamento ou infiltração
com as partículas, substâncias e impurezas no solo. Assim, a incorporação de sólidos em suspensão
(ex: partículas de solo) ou dissolvidos (ex: íons oriundos da dissolução de rochas) ocorre, mesmo na
condição em que a bacia hidrográfica esteja totalmente preservada em suas condições naturais (ex:
ocupação do solo com matas e florestas). Neste caso, têm grande influência a cobertura e a
composição do solo.
• Interferência dos seres humanos: a interferência do homem, quer de uma forma concentrada, como
na geração de despejos domésticos ou industriais, quer de uma forma dispersa, como na aplicação de
defensivos agrícolas no solo, contribui na introdução de compostos na água, afetando a sua qualidade.
Portanto, a forma em que o homem usa e ocupa o solo tem uma implicação direta na qualidade da
água.

A Figura 1.1 apresenta um exemplo de possíveis interrelações entre o uso e ocupação do solo e a geração
de focos alteradores da qualidade da água de rios e lagos. O controle da qualidade da água está associado
a um planejamento global, no nível de toda a bacia hidrográfica, e não individualmente, por agente
alterador.

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Fig. 1.1. Exemplos de interrelação entre uso e ocupação do solo e focos alteradores da qualidade da
água

Em contraposição à qualidade existente de uma determinada água, tem-se a qualidade desejável para esta
água. A qualidade desejável para uma determinada água é função do seu uso previsto. São diversos os
usos previstos para uma água, os quais são listados no Item 1.3.1. Em resumo, tem-se:

• qualidade de uma água existente: função das condições naturais e do uso e da ocupação do solo na
bacia hidrográfica
• qualidade desejável para uma água: função do uso previsto para a água.

Dentro do enfoque do presente texto, o estudo da qualidade da água é fundamental, tanto para se
caracterizar as conseqüências de uma determinada atividade poluidora, quanto para se estabelecer os
meios para que se satisfaça determinado uso da água.

1.2. A ÁGUA NA NATUREZA

1.2.1. DISTRIBUIÇÃO DA ÁGUA NA TERRA


A água é o constituinte inorgânico mais abundante na matéria viva: no homem, mais de 60% do seu peso
são constituídos por água, e em certos animais aquáticos esta porcentagem sobe a 98%. A água é
fundamental para a manutenção da vida, razão pela qual é importante saber como ela se distribui no nosso
planeta, e como ela circula de um meio para o outro.

Os 1,36x1018 m3 de água disponível existentes na Terra distribuem-se da seguinte forma:

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- Água do mar: 97,0%
- Geleiras: 2,2%
- Água doce: 0,8% ..........  água subterrânea: 97%
 água superficial: 3%

- TOTAL: 100,0%

Pode-se ver claramente que, da água disponível, apenas 0,8% pode ser utilizada mais facilmente para
abastecimento público. Desta pequena fração de 0,8%, apenas 3% apresentam-se na forma de água
superficial, de extração mais fácil. Esses valores ressaltam a grande importância de se preservarem os
recursos hídricos na Terra, e de se evitar a contaminação da pequena fração mais facilmente disponível.

1.2.2. CICLO HIDROLÓGICO


Uma vez visto como a água se distribui em nosso planeta, é importante também o conhecimento de como
a água se movimenta de um meio para outro na Terra. A essa circulação da água se dá o nome de ciclo
hidrológico.

A Figura 1.2 apresenta o ciclo hidrológico de uma forma simplificada. Nesse ciclo, distinguem-se os
seguintes mecanismos de transferência da água:

• precipitação
• escoamento superficial
• infiltração
• evaporação
• transpiração

Fig. 1.2. Ciclo hidrológico

a) Precipitação

A precipitação compreende toda a água que cai da atmosfera na superfície da Terra. As principais formas
são: chuva, neve, granizo e orvalho. A precipitação é formada a partir dos seguintes estágios:

• resfriamento do ar à proximidade da saturação


• condensação do vapor d'água na forma de gotículas
• aumento do tamanho das gotículas por coalizão e aderência até que estejam grandes o suficiente para
formar a precipitação

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b) Escoamento superficial

A precipitação que atinge a superfície da Terra tem dois caminhos por onde seguir: escoar na superfície
ou infiltrar no solo. O escoamento superficial é responsável pelo deslocamento da água sobre o terreno,
formando córregos, lagos e rios e eventualmente atingindo o mar. A quantidade de água que escoa
depende dos seguintes fatores principais:

• intensidade da chuva
• capacidade de infiltração do solo

c) Infiltração

A infiltração corresponde à água que atinge o solo, formando os lençóis d'água. A água subterrânea é
grandemente responsável pela alimentação dos corpos d'água superficiais, principalmente nos períodos
secos. Um solo coberto com vegetação (ou seja, com menor impermeabilização advinda, por exemplo, da
urbanização) é capaz de desempenhar melhor as seguintes importantes funções:

• menos escoamento superficial (menos enchentes nos períodos chuvosos)


• mais infiltração (maior alimentação dos rios nos períodos secos)
• menos carreamento de partículas do solo para os cursos d'água

d) Evapotranspiração

A transferência da água para o meio atmosférico se dá através dos seguintes principais mecanismos,
conjuntamente denominados de evapotranspiração:

• Evaporação: transferência da água superficial do estado líquido para o gasoso. A evaporação depende
da temperatura e da umidade relativa do ar.
• Transpiração: as plantas retiram a água do solo pelas raízes. A água é transferida para as folhas e
então evapora. Este mecanismo é importante, considerando-se que em uma área coberta com
vegetação a superfície de exposição das folhas para a evaporação é bastante elevada.

1.3. A ÁGUA E O SER HUMANO

1.3.1. USOS DA ÁGUA


São os seguintes os principais usos da água:

• abastecimento doméstico
• abastecimento industrial
• irrigação
• dessedentação de animais
• preservação da flora e da fauna
• recreação e lazer
• criação de espécies
• geração de energia elétrica
• navegação
• harmonia paisagística
• diluição e transporte de despejos

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Destes usos, os quatro primeiros (abastecimento doméstico, abastecimento industrial, irrigação e
possivelmente dessedentação de animais) implicam na retirada da água das coleções hídricas onde se
encontram. Os demais usos são desempenhados na própria coleção de água.

Em termos gerais, apenas os dois primeiros usos (abastecimento doméstico e abastecimento industrial)
estão frequentemente associados a um tratamento prévio da água, face aos seus requisitos de qualidade
mais exigentes.

A interrelação entre o uso da água e a qualidade requerida é direta. Na lista de usos acima, pode-se
considerar que o uso mais nobre seja representado pelo abastecimento de água doméstico, o qual requer a
satisfação de diversos critérios de qualidade. De forma oposta, o uso menos nobre é o da simples diluição
de despejos, o qual não possui nenhum requisito especial em termos de qualidade. No entanto, deve-se
lembrar que diversos corpos d'água têm usos múltiplos previstos, decorrendo daí a necessidade da
satisfação simultânea de diversos critérios de qualidade. Tal é o caso, por exemplo, de represas
construídas com finalidade de abastecimento de água, geração de energia, recreação, irrigação e outros.

Alguns dos usos da água permitem interpretações conflitantes com relação aos seus objetivos. A
utilização de uma água para preservação da fauna e da flora possui uma dimensão bem ampla, e a
caracterização específica dos seres que se pretende preservar está sempre cercada de certo elemento de
subjetividade. Esta subjetividade está associada ao arbítrio, por parte do ser humano, no sentido de quais
espécies ele julga importante sejam preservadas, e quais espécies ele considera não sejam importantes de
ser preservadas. O mecanismo desse processo decisório é, sem sombra de dúvida, essencialmente
polêmico.

1.3.2. ROTAS DO USO DA ÁGUA


Além do ciclo da água no globo terrestre, existem ciclos internos, em que a água permanece na sua forma
líquida, mas tem as suas características alteradas em virtude da sua utilização. A Figura 1.3 mostra
exemplos de rotas do uso da água. Nestas rotas, a qualidade da água é alterada em cada etapa do seu
percurso:

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ROTAS DO USO E DISPOSIÇÃO DA ÁGUA
Água, esgotos e água pluvial

ÁGUA SUPERFICIAL esgotos


tratados
água
bruta ESTAÇÃO DE
TRATAMENTO
ESTAÇÃO DE DE ESGOTOS
TRATAMENTO água pluvial
DE ÁGUA esgoto
bruto reúso
água
tratada REDE DE
COLETA DE
ÁREA ESGOTOS
URBANA
esgoto
bruto
água
tratada REDE DE ESTAÇÃO DE
DISTRIBUIÇÃO TRATAMENTO
DE ÁGUA DE ESGOTOS
ESTAÇÃO DE
TRATAMENTO abastecimento de água e
DE ÁGUA esgotamento sanitário individuais reúso
ÁREA agrícola
água RURAL
bruta

ÁGUA SUBTERRÂNEA

Fig. 1.3. Rotas do uso da água

• Água bruta. Inicialmente, a água é retirada do rio, lago ou lençol subterrâneo, possuindo uma
determinada qualidade;
• Água tratada. Após a captação, a água sofre transformações durante o seu tratamento para se adequar
aos usos previstos (ex: abastecimento público ou industrial);
• Água usada (esgoto bruto). Com a utilização da água, esta sofre novas transformações na sua
qualidade, vindo a constituir-se em um despejo líquido.
• Esgoto tratado. Visando a remoção dos principais poluentes, os despejos sofrem um tratamento antes
de serem lançados ao corpo receptor. O tratamento dos esgotos é responsável por uma nova alteração
na qualidade do líquido.
• Água pluvial. A água pluvial escoa no solo, incorpora novos constituintes e, no meio urbano, é
coletada em sistemas de drenagem pluvial antes de ser lançada no corpo d´água.
• Corpo receptor. A água pluvial e o efluente da estação de tratamento de esgotos atingem o corpo
receptor, onde, face à diluição e mecanismos de autodepuração, a qualidade da água volta a sofrer
novas modificações.
• Reúso. Os esgotos tratados podem ser usados, sob certas condições, na agricultura, indústria e no
meio urbano.

É um papel fundamental da Engenharia Sanitária e Ambiental o gerenciamento destas rotas da água,


incluindo o planejamento, projeto, execução e controle das obras necessárias para a manutenção da
qualidade da água desejada em função dos seus diversos usos. O presente texto centra-se no aspecto do
tratamento dos esgotos, embora, neste volume, seja analisado também o impacto do lançamento dos
esgotos nos corpos receptores.

1.4. IMPUREZAS ENCONTRADAS NA ÁGUA

1.4.1. CARACTERÍSTICAS DAS IMPUREZAS


Os diversos componentes presentes na água, e que alteram o seu grau de pureza, podem ser retratados, de
uma maneira ampla e simplificada, em termos das suas características físicas, químicas e biológicas.

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Estas características podem ser traduzidas na forma de parâmetros de qualidade da água, os quais são
abordados no Item 1.5. As principais características da água podem ser expressas como:

• Características físicas
• Características químicas
• Características biológicas

A Figura 1.4 apresenta de forma diagramática estas inter-relações. Os principais tópicos são explicados
em maiores detalhes nos itens seguintes. Antes de se proceder à análise dos diversos parâmetros de
qualidade da água, apresenta-se uma introdução a dois tópicos de fundamental importância: (a) sólidos
presentes na água e (b) organismos presentes na água.

As características específicas das águas residuárias encontram-se abordadas no Capítulo 2.

Fig. 1.4. Impurezas contidas na água (adaptado de Barnes et al, 1981)

1.4.2. SÓLIDOS PRESENTES NA ÁGUA


Todos os contaminantes da água, com exceção dos gases dissolvidos, contribuem para a carga de sólidos.
Por esta razão, os sólidos são analisados separadamente, antes de se apresentarem os diversos parâmetros
de qualidade da água. Simplificadamente, os sólidos podem ser classificados de acordo com (a) as suas
características físicas (tamanho e estado) ou (b) as suas características químicas. Grande destaque é dado
aos sólidos, em vários volumes desta série, apresentando outras classificações complementares e mais
aprofundadas.

• classificação pelas características físicas


• sólidos em suspensão
• sólidos coloidais
• sólidos dissolvidos

• classificação pelas características químicas


• sólidos orgânicos
• sólidos inorgânicos

a) Classificação por tamanho

A divisão dos sólidos por tamanho é sobretudo uma divisão prática. Por convenção, diz-se que as
partículas de menores dimensões, capazes de passar por um papel de filtro de tamanho especificado

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correspondem aos sólidos dissolvidos, enquanto que as de maiores dimensões, retidas pelo filtro são
consideradas sólidos em suspensão. A rigor, os termos sólidos filtráveis e sólidos não filtráveis são mais
adequados. Numa faixa intermediária situam-se os sólidos coloidais, de grande importância no tratamento
da água, mas de difícil identificação pelos métodos simplificados de filtração em papel. Nos resultados
das análises de água, a maior parte dos sólidos coloidais entra como sólidos dissolvidos, e o restante como
sólidos em suspensão.

A Figura 1.5 mostra a distribuição e classificação das partículas segundo o tamanho. De maneira geral,
são considerados como sólidos dissolvidos aqueles com diâmetro inferior a 10 -3 µm, como sólidos
coloidais aqueles com diâmetro entre 10-3 e 100 µm, e como sólidos em suspensão aqueles com diâmetro
superior a 100 µm .

Fig. 1.5.Classificação e distribuição dos sólidos em função do tamanho

b) Classificação pelas características químicas

Ao se submeter os sólidos a uma temperatura elevada (550oC), a fração orgânica é volatilizada,


permanecendo após combustão apenas a fração inorgânica. Os sólidos voláteis representam portanto uma
estimativa da matéria orgânica nos sólidos, ao passo que os sólidos não voláteis (fixos ou inertes)
representam a matéria inorgânica ou mineral.

1.4.3. ORGANISMOS PRESENTES NA ÁGUA


A microbiologia é o ramo da biologia que trata dos microrganismos. Em termos da avaliação da
qualidade da água, os microrganismos assumem um papel de grande importância dentre os seres vivos,
devido à sua grande predominância em determinados ambientes, à sua atuação nos processos de
depuração dos despejos ou à sua associação com as doenças ligadas à água.

Alguns grupos de microrganismos têm propriedades em comum com os vegetais, enquanto outros
possuem algumas características de animais. Há vários anos, a classificação dos seres vivos apresentava
como os dois grandes reinos apenas os Vegetais e os Animais, tendo-se grupos de microrganismos
presentes em cada uma destas grandes subdivisões.

Posteriormente, reconhecendo as dificuldades de enquadramento dos microrganismos apenas nestas duas


categorias, foram criados novos reinos. Embora haja outras classificações, a mais aceita atualmente
introduziu uma nova categoria de classificação acima do reino, o Domínio, dividido em: Bacteria,
Archaea e Eukarya, cobrindo os seguintes cinco reinos dos seres vivos: Monera, Protista, Fungi,
Plantae e Animalia. Os monera são seres mais simples, sem núcleo diferenciado, como archaea,

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bactérias e cianobactérias. Os protistas são também seres simples, mas com núcleo diferenciado, como
algas e protozoários. Os fungos compreendem fungos microscópicos e cogumelos. Em resumo, tem-se
(Quadro 1.1):

Quadro 1.1. Reinos do mundo vivo


Domínio Reino Organismos Procarionte/eucarionte Unicelular/pluricelular
Bacteria bactérias, cianobactérias
Monera Procariontes unicelulares
Archaea arqueobactérias
Protista protozoários, algas
uni ou pluricelulares
Fungi fungos
Eukarya Eucariontes
Plantae todos os vegetais
pluricelulares
Animalia todos os animais
Fonte: Tortora et al (2006), Uzunian e Birner (2006)

Os organismos em que o núcleo das células encontra-se confinado por uma membrana nuclear (algas,
protozoários e fungos, além dos animais e vegetais) são denominados eucariontes (eucariotos), ao passo
que os microrganismos mais simples, que possuem o núcleo disseminado no protoplasma (bactérias,
arqueobactérias e cianobactérias) são denominados procariontes (procariotos). De maneira geral, os seres
eucariontes apresentam um maior nível de diferenciação interna. Os vírus não foram incluídos na
classificação acima por possuírem características totalmente particulares.

A diferença crucial entre seres mais simples como os monera e protistas e os demais (vegetais e animais)
é o elevado nível de diferenciação celular encontrado nos últimos. Isto quer dizer que, num monera e num
protista, as células de um mesmo indivíduo são morfológica e funcionalmente similares, o que reduz
sobremaneira a capacidade de adaptação e desenvolvimento do indivíduo. Já em organismos com
diferenciação celular ocorre uma divisão de trabalho. Nos organismos superiores, as células diferenciadas
(mas geralmente de mesmo tipo), reúnem-se em grupos maiores ou menores, denominados tecidos. Os
tecidos, por sua vez, constituem os órgãos (ex: pulmão), e estes formam os sistemas ou aparelhos (ex:
sistema respiratório). O grau de diferenciação celular é, portanto, um indicativo do nível de
desenvolvimento de uma espécie. O Quadro 1.2 apresenta características básicas dos reinos do mundo
vivo.

Quadro 1.2. Características básicas dos reinos do mundo vivo


Característica Monera/Protista/Fungi Plantae Animalia
Célula Unicelular / multicelular Multicelular Multicelular
Diferenciação celular Inexistente / existente Elevada Elevada
Fonte de energia Luz / matéria orgân. / matéria inorgân. Luz Matéria orgânica
Clorofila Ausente / presente Presente Ausente
Movimento Imóveis / móveis Imóveis Móveis
Parede celular Ausente / presente Presente Ausente

O Quadro 1.3 apresenta uma descrição sucinta dos principais microrganismos de interesse dentro da
Engenharia Ambiental.

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Quadro 1.3. Principais microrganismos de interesse na Engenharia Ambiental
Microrganismo Descrição
Bactérias • Organismos unicelulares.
• Apresentam-se em várias formas e tamanhos.
• São os principais responsáveis pela conversão da matéria orgânica.
• Algumas bactérias são patogênicas, causando principalmente doenças
intestinais.
Arqueobactérias (archaea) • Similares às bactérias em tamanho e componentes celulares básicos
• A parede celular, material celular e composição do RNA são diferentes
• Importantes nos processos anaeróbios
Algas • Organismos autotróficos, fotossintetizantes, contendo clorofila.
• Importantes na produção de oxigênio nos corpos d'água e em alguns
processos de tratamento de esgotos.
• Em lagos e represas, podem proliferar em excesso, causando uma
deterioração da qualidade da água
Fungos • Organismos predominantemente aeróbios, uni ou multicelulares, não
fotossintéticos, heterotróficos.
• Também de importância na decomposição da matéria orgânica.
• Podem crescer em condições de baixo pH.
Protozoários • Organismos unicelulares sem parede celular.
• A maioria é aeróbia ou facultativa.
• Alimentam-se de bactérias, algas e outros microrganismos.
• São essenciais no tratamento biológico para a manutenção de um equilíbrio
entre os diversos grupos.
• Alguns são patogênicos.
Vírus • Organismos parasitas, formados pela associação de material genético (DNA
ou RNA) e uma carapaça protéica.
• Causam doenças e podem ser de difícil remoção no tratamento da água ou do
esgoto.
Helmintos • Animais superiores.
• Ovos de helmintos presentes nos esgotos podem causar doenças.
Fonte: Silva & Mara (1979), Tchobanoglous e Schroeder (1985), Metcalf & Eddy (2003)

Um resumo das principais características dos diversos grupos componentes dos domínios procariota e
eucariota está apresentado no Quadro 1.4.

Quadro 1.4. Características básicas dos principais grupos de microrganismos


Característica Procariontes Eucariontes
Bactérias Cianobactérias Algas Protozoários Fungos
Membrana nuclear Ausente Ausente Presente Presente Presente
Fotossíntese Minoria Maioria Sim Não Não
Movimento Algumas Algumas Algumas Móveis Imóveis
Fonte: adaptado de La Riviere (1980)

1.5. PARÂMETROS DE QUALIDADE DA ÁGUA


A qualidade da água pode ser representada através de diversos parâmetros, que traduzem as suas
principais características físicas, químicas e biológicas. Os itens seguintes descrevem os principais
parâmetros de forma sucinta, apresentando seu conceito, sua origem (natural ou antropogênica, isto é,
causada pelo homem), sua importância sanitária, sua utilização e a interpretação dos resultados de análise
(compilado de Hadad, 1971; von Sperling, 1983; Peavy et al, 1985; Tchobanoglous & Schroeder, 1985;
Richter e Azevedo Netto, 1991; Vianna, 1992; WHO, 1993). Todos esses parâmetros são de determinação
rotineira em laboratórios de análise de água.

Os parâmetros abordados neste item podem ser de utilização geral, tanto para caracterizar águas de
abastecimento, águas residuárias, mananciais e corpos receptores. É importante esta visão integrada da
qualidade da água, sem uma separação estrita entre as suas diversas aplicações. Devido a esta razão,

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apresenta-se neste texto a descrição de parâmetros que não são normalmente enfocados na literatura de
tratamento de esgotos. A caracterização aprofundada da qualidade das águas residuárias encontra-se no
Capítulo 2.

No texto a seguir, são feitas referências aos seguintes padrões de qualidade da água:

• Padrão de potabilidade: Portaria 2914 (2011), do Ministério da Saúde


• Padrão de corpos d´água: Resolução CONAMA 357 (2005), do Ministério de Meio Ambiente, e
eventuais legislações estaduais
• Padrão de lançamento: Resoluções CONAMA 357 (2005) e 430 (2011), do Ministério de Meio
Ambiente, e eventuais legislações estaduais

Os padrões de corpos d´água e de lançamento são de grande importância para o presente livro, sendo
discutidos em detalhe no Capítulo 3.

1.5.1. PARÂMETROS FÍSICOS

Cor

Conceito: Responsável pela coloração na água


Forma do constituinte responsável: Sólidos dissolvidos
Origem natural:
• Decomposição da matéria orgânica (principalmente vegetais - ácidos húmicos e fúlvicos)
• Ferro e manganês
Origem antropogênica:
• Resíduos industriais (ex: tinturarias, tecelagem, produção de papel)
• Esgotos domésticos
Importância:
• Origem natural: não representa risco direto à saúde, mas consumidores podem questionar a sua
confiabilidade, e buscar águas de maior risco. Além disso, a cloração da água contendo a matéria
orgânica dissolvida responsável pela cor pode gerar produtos potencialmente cancerígenos
(trihalometanos - ex: clorofórmio)
• Origem industrial: pode ou não apresentar toxicidade
Utilização mais frequente do parâmetro:
• Caracterização de águas de abastecimento brutas e tratadas
Unidade: uC (unidades de cor) ou uH (unidades Hazen - mgPt–Co/L)
Interpretação dos resultados:
• Deve-se distinguir entre cor aparente e cor verdadeira. No valor da cor aparente pode estar incluída
uma parcela devida à turbidez da água. Quando esta é removida por centrifugação, obtém-se a cor
verdadeira
• Em termos de tratamento e abastecimento público de água:
- águas com cor acima de 15 uC podem ser detectadas em um copo d´água pela maioria dos
consumidores
- valores de cor da água bruta inferiores a 5 uC usualmente dispensam a coagulação química;
valores superiores a 25 uC usualmente requerem a coagulação química seguida por filtração
- águas com cor elevada implicam em um mais delicado cuidado operacional no tratamento da água
- ver Padrão de Potabilidade (≤ 15 uC)
• Em termos de corpos d'água
- ver Padrão para Corpos d'Água

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Turbidez

Conceito: A turbidez representa o grau de interferência com a passagem da luz através da água,
conferindo uma aparência turva à mesma
Forma do constituinte responsável: Sólidos em suspensão
Origem natural:
• Partículas de rocha, argila e silte
• Algas e outros microrganismos
Origem antropogênica:
• Despejos domésticos
• Despejos industriais
• Microrganismos
• Erosão
Importância:
• Origem natural: não traz inconvenientes sanitários diretos. Porém, é esteticamente desagradável na
água potável, e os sólidos em suspensão podem servir de abrigo para microrganismos patogênicos
(diminuindo a eficiência da desinfecção)
• Origem antropogênica: pode estar associada a compostos tóxicos e organismos patogênicos
• Em corpos d'água: pode reduzir a penetração da luz, prejudicando a fotossíntese
Utilização mais frequente do parâmetro:
• Caracterização de águas de abastecimento brutas e tratadas
• Controle da operação das estações de tratamento de água
Unidade: uT (Unidade de Turbidez)
Interpretação dos resultados:
• Em termos de tratamento e abastecimento público de água:
- numa água com turbidez igual a 10 uT, ligeira nebulosidade pode ser notada; com turbidez igual a
500 uT, a água é praticamente opaca
- valores de turbidez da água bruta inferiores a cerca de 20 uT podem ser dirigidas diretamente
para a filtração lenta, dispensando a coagulação química; valores superiores a 50 uT requerem
uma etapa antes da filtração, que pode ser a coagulação química ou um pré-filtro grosseiro
- ver Padrão de Potabilidade (variável em função da origem da água e do tipo de tratamento –
consultar Padrão)
• Em termos de corpos d'água
ver Padrão para Corpos d'Água

Sabor e odor

Conceito: O sabor é a interação entre o gosto (salgado, doce, azedo e amargo) e o odor (sensação
olfativa).
Forma do constituinte responsável: Sólidos em suspensão, sólidos dissolvidos, gases dissolvidos
Origem natural:
• Matéria orgânica em decomposição
• Microrganismos (ex: algas)
• Gases dissolvidos (ex: gás sulfídrico H2S)
Origem antropogênica:
• Despejos domésticos
• Despejos industriais
• Gases dissolvidos (ex: H2S)
Importância:
• Não representa risco à saúde, mas consumidores podem questionar a sua confiabilidade, e buscar
águas de maior risco. Representa a maior causa de reclamações dos consumidores.
• Valores especialmente elevados podem indicar a presença de substâncias potencialmente perigosas.
Utilização mais frequente do parâmetro:
• Caracterização de águas de abastecimento brutas e tratadas

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Unidade: Concentração limite mínima detectável
Interpretação dos resultados:
• Na interpretação dos resultados, são importantes a identificação e a vinculação com a origem do sabor
e do odor
• Em termos de tratamento e abastecimento público de água:
• ver Padrão de Potabilidade

Temperatura

Conceito: Medição da intensidade de calor


Origem natural:
• Transferência de calor por radiação, condução e convecção (atmosfera e solo)
Origem antropogênica:
• Águas de torres de resfriamento
• Despejos industriais
Importância:
• Elevações da temperatura aumentam a taxa das reações físicas, químicas e biológicas (na faixa usual
de temperatura)
• Elevações da temperatura diminuem a solubilidade dos gases (ex: oxigênio dissolvido)
• Elevações da temperatura aumentam a taxa de transferência de gases (o que pode gerar mau cheiro,
no caso da liberação de gases com odores desagradáveis)
Utilização mais frequente do parâmetro:
• Caracterização de corpos d'água
• Caracterização de águas residuárias brutas
Unidade: °C
Interpretação dos resultados:
• Em termos de corpos d'água:
- A temperatura deve ser analisada em conjunto com outros parâmetros, tais como oxigênio
dissolvido
• Em termos de tratamento de águas residuárias
- A temperatura deve proporcionar condições para as reações bioquímicas de remoção dos
poluentes
- Ver Padrão de Lançamento de Efluentes

1.5.2. PARÂMETROS QUÍMICOS

pH

Conceito: Potencial hidrogeniônico. Representa a concentração de íons hidrogênio H+ (em escala


antilogarítmica), dando uma indicação sobre a condição de acidez, neutralidade ou alcalinidade da água.
A faixa de pH é de 0 a 14.
Forma do constituinte responsável: Sólidos dissolvidos, gases dissolvidos
Origem natural:
• Dissolução de rochas
• Absorção de gases da atmosfera
• Oxidação da matéria orgânica
• Fotossíntese
Origem antropogênica:
• Despejos domésticos (oxidação da matéria orgânica)
• Despejos industriais (ex: lavagem ácida de tanques)
Importância:

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• Não tem implicação em termos de saúde pública (a menos que os valores sejam extremamente baixos
ou elevados, a ponto de causar irritação na pele ou nos olhos)
• É importante em diversas etapas do tratamento da água (coagulação, desinfecção, controle da
corrosividade, remoção da dureza)
• pH baixo: potencial corrosividade e agressividade nas tubulações e peças das águas de abastecimento
• pH elevado: possibilidade de incrustações nas tubulações e peças das águas de abastecimento
• Valores de pH afastados da neutralidade: podem afetar a vida aquática (ex: peixes) e os
microrganismos responsáveis pelo tratamento biológico dos esgotos
Utilização mais frequente do parâmetro:
• Caracterização de águas de abastecimento brutas e tratadas
• Caracterização de águas residuárias brutas
• Controle da operação de estações de tratamento de água (coagulação e grau de
incrustabilidade/corrosividade)
• Controle da operação de estações de tratamento de esgotos (digestão anaeróbia)
• Caracterização de corpos d'água
Unidade: -
Interpretação dos resultados:
• Geral:
- pH < 7: condições ácidas
- pH = 7: neutralidade
- pH > 7: condições básicas
• Em termos de tratamento e abastecimento público de água:
- diferentes valores de pH estão associados a diferentes faixas de atuação ótima de coagulantes
- frequentemente o pH necessita ser corrigido antes e/ou depois da adição de produtos químicos no
tratamento
- a variação do pH influencia o equilíbrio de compostos químicos
- ver Alcalinidade e Acidez
• Em termos de tratamento de águas residuárias
- valores de pH afastados da neutralidade tendem a afetar as taxas de crescimento dos
microrganismos
- a variação do pH influencia o equilíbrio de compostos químicos
- valores de pH elevados possibilitam a precipitação de metais
- ver Padrão de Lançamento de Efluentes
• Em termos de corpos d'água
- valores elevados de pH podem estar associados à proliferação de algas
- valores elevados ou baixos podem ser indicativos da presença de efluentes industriais
- a variação do pH influencia o equilíbrio de compostos químicos
- ver Padrão de Corpos d'Água
Reações e equações de importância:
H2O ↔ H+ + OH-
pH = - log[H+]

Alcalinidade

Conceito: Quantidade de íons na água que reagirão para neutralizar os íons hidrogênio. É uma medição
da capacidade da água de neutralizar os ácidos (capacidade de resistir às mudanças de pH: capacidade
tampão). Os principais constituintes da alcalinidade são os bicarbonatos (HCO3-), carbonatos (CO32-) e
os hidróxidos (OH-). A distribuição entre as três formas na água é função do pH.
Forma do constituinte responsável: Sólidos dissolvidos
Origem natural:
• Dissolução de rochas
• Reação do CO2 com a água (CO2 advindo da atmosfera ou da decomposição da matéria orgânica)
Origem antropogênica:
• Despejos industriais

14
Importância:
• Não tem significado sanitário para a água potável, mas em elevadas concentrações confere um gosto
amargo para a água
• É uma determinação importante no controle do tratamento de água, estando relacionada com a
coagulação, redução de dureza e prevenção da corrosão em tubulações
• É uma determinação importante no tratamento de esgotos, quando há evidências de que a redução do
pH pode afetar os microrganismos responsáveis pela depuração
Utilização mais frequente do parâmetro:
• Caracterização de águas de abastecimento brutas e tratadas
• Caracterização de águas residuárias brutas
• Controle da operação de estações de tratamento de água (coagulação e grau de incrustabilidade /
corrosividade)
Unidade: mg/L de CaCO3 (também em miliequivalentes/L = equivalente/m3; os valores são diferentes
dos expressos em mg/L)
Interpretação dos resultados
• Em termos de tratamento e abastecimento público de água
- a alcalinidade, o pH e o teor de gás carbônico estão interrelacionados
- pH > 9,4: hidróxidos e carbonatos
- pH entre 8,3 e 9,4: carbonatos e bicarbonatos
- pH entre 4,4 e 8,3: apenas bicarbonato
• Em termos de tratamento de águas residuárias
- processos oxidativos (como a nitrificação) tendem a consumir alcalinidade, a qual, caso atinja
baixos teores, pode dar condições a valores reduzidos de pH, afetando a própria taxa de
crescimento dos microrganismos responsáveis pela oxidação
Reações e equações de importância:
Equilíbrio do carbonato:
CO2 + H2O ↔ H2CO3
H2CO3 ↔ H+ + HCO3-
HCO3- ↔ H+ + CO32-
Cálculo da alcalinidade:
Alcalinidade (mg/L) = 100 x { [(HCO3-)/(61x2)] + [(CO32-)/60] + [(OH-)/(2x17)] } (concent. em mg/L)
Na faixa usual de pH, próxima à neutralidade, a maior contribuição para a alcalinidade é dos
bicarbonatos. Assim: Alcalinidade (mg/L) ≈ (HCO3-)/1,2 (concent. em mg/L)

Acidez

Conceito: Capacidade da água em resistir às mudanças de pH causadas pelas bases. É devida


principalmente à presença de gás carbônico livre (pH entre 4,5 e 8,2).
Forma do constituinte responsável: Sólidos dissolvidos e gases dissolvidos (CO2, H2S)
Origem natural:
• CO2 absorvido da atmosfera ou resultante da decomposição da matéria orgânica
• Gás sulfídrico
Origem antropogênica:
• Despejos industriais (ácidos minerais ou orgânicos)
• Passagem da água por minas abandonadas, vazadouros de mineração e borras de minério
Importância:
• Tem pouco significado sanitário
• Águas com acidez mineral são desagradáveis ao paladar, sendo recusadas
• Responsável pela corrosão de tubulações e materiais
Utilização mais frequente do parâmetro:
• Caracterização de águas de abastecimento (inclusive industriais) brutas e tratadas
Unidade: mg/L de CaCO3 (também em miliequivalentes/L = equivalente/m3; os valores são diferentes
dos expressos em mg/L)
Interpretação dos resultados:

15
• Em termos de tratamento e abastecimento público de água
- o teor de CO2 livre (diretamente associado à acidez), a alcalinidade e o pH estão
interrelacionados
- pH > 8,2: ausência de CO2 livre
- pH entre 4,5 e 8,2: acidez carbônica
- pH < 4,5: acidez por ácidos minerais fortes (usualmente resultantes de despejos industriais)
Reações e equações de importância:
Equilíbrio de carbonatos: ver Alcalinidade
Reações com o enxofre:
H2S ↔ H+ + HS-
H2S + 2O2 ↔ H2SO4

Dureza

Conceito: Concentração de cátions multimetálicos em solução. Os cátions mais frequentemente


associados à dureza são os cátions bivalentes Ca2+ e Mg2+. Em condições de supersaturação, esses
cátions reagem com ânions na água, formando precipitados. A dureza pode ser classificada como dureza
carbonato (associada a HCO3- e CO32-) e dureza não carbonato (associada a outros ânions, especialmente
Cl- e SO42-). A dureza correspondente à alcalinidade é a dureza carbonato, enquanto que as demais formas
são caracterizadas como dureza não carbonato. A dureza carbonato é sensível ao calor, causando
precipitação em elevadas temperaturas.
Forma do constituinte responsável: Sólidos dissolvidos
Origem natural:
• Dissolução de minerais contendo cálcio e magnésio (ex: rochas calcáreas).
Origem antropogênica:
• Despejos industriais
Importância:
• Não há evidências de que a dureza cause problemas sanitários, e alguns estudos realizados em áreas
com maior dureza na água indicaram uma menor incidência de doenças cardíacas
• Em determinadas concentrações, causa um sabor desagradável e pode ter efeitos laxativos
• Reduz a formação de espuma, implicando num maior consumo de sabão
• Causa incrustação nas tubulações de água quente, caldeiras e aquecedores (devido à maior
precipitação nas temperaturas elevadas)
Utilização mais frequente do parâmetro:
• Caracterização de águas de abastecimento (inclusive industriais) brutas e tratadas
Unidade: mg/L CaCO3 (também em miliequivalentes/L = equivalente/m3; os valores são diferentes dos
expressos em mg/L)
Interpretação dos resultados:
• Em termos de tratamento e abastecimento público de água
- dureza < 50 mg/L CaCO3: água mole
- dureza entre 50 e 150 mg/L CaCO3: dureza moderada
- dureza entre 150 e 300 mg/L CaCO3: água dura
- dureza > 300 mg/L CaCO3: água muito dura
- ver Padrão de Potabilidade
Reações e equações de importância:
Ver Alcalinidade
Equilíbrio carbonato:
CaCO3 ↔ Ca2+ + CO32-
Ca2+ + 2HCO3- → CaCO3 + CO2 + H2O
Cálculo da dureza total:
Dureza (mg/L) = 50 x { (Ca2+)/20 + (Mg2+)/12,2 } (concentrações em mg/L)

16
Ferro e manganês

Conceito: O ferro e o manganês estão presentes nas formas insolúveis (Fe3+ e Mn4+) numa grande
quantidade de tipos de solos. Na ausência de oxigênio dissolvido (ex: água subterrânea ou fundo de lagos
e represas), eles se apresentam na forma solúvel reduzida (Fe2+ e Mn2+). Caso a água contendo as
formas reduzidas seja exposta ao ar atmosférico (ex: na torneira do consumidor), o ferro e o manganês
voltam a se oxidar às suas formas insolúveis (Fe3+ e Mn4+), que precipitam, o que pode causar cor na
água, além de manchar roupas durante a lavagem.
Forma do constituinte responsável: Sólidos em suspensão ou dissolvidos
Origem natural:
• Dissolução de compostos do solo
Origem antropogênica:
• Despejos industriais
Importância:
• Tem pouco significado sanitário nas concentrações usualmente encontradas nas águas naturais
• Em pequenas concentrações causam problemas de cor na água
• Em certas concentrações, podem causar sabor e odor (mas, nessas concentrações, o consumidor já
terá rejeitado a água, devido à cor)
Utilização mais frequente do parâmetro:
• Caracterização de águas de abastecimento brutas e tratadas
Unidade: mg/L
Interpretação dos resultados:
• Em termos de tratamento e abastecimento público de água
- ver Padrão de Potabilidade (≤ 0,3 mg/L para ferro e ≤ 0,1 mg/L para manganês)
• Em termos do tratamento de águas residuárias:
- ver Padrão de Lançamento
• Em termos dos corpos d'água
- ver Padrão de Corpos d'Água
Reações e equações de importância:
Oxidação do ferro e manganês:
2Fe2+ + ½ O2 + 5H2O → 2Fe(OH)3 + 4H+
Mn2+ + ½ O2 + H2O → MnO2 + 2H+

Cloretos

Conceito: Todas as águas naturais, em maior ou menor escala, contêm íons resultantes da dissolução de
minerais. Os cloretos (Cl-) são advindos da dissolução de sais (ex: cloreto de sódio).
Forma do constituinte responsável: Sólidos dissolvidos
Origem natural:
• Dissolução de minerais
• Intrusão de águas salinas
Origem antropogênica:
• Despejos domésticos
• Despejos industriais
• Águas utilizadas em irrigação
Importância:
• Em determinadas concentrações imprime um sabor salgado à água
Utilização mais frequente do parâmetro:
• Caracterização de águas de abastecimento brutas
• Caracterização de esgotos tratados usados para irrigação
Unidade: mg/L
Interpretação dos resultados:
• Em termos de tratamento e abastecimento público de água

17
- ver Padrão de Potabilidade
• Em termos dos corpos d'água
- ver Padrão de Corpos d'Água

Nitrogênio

Conceito: Dentro do ciclo do nitrogênio na biosfera, este se alterna entre várias formas e estados de
oxidação. No meio aquático, o nitrogênio pode ser encontrado nas seguintes formas: (a) nitrogênio
molecular (N2), escapando para a atmosfera, (b) nitrogênio orgânico (dissolvido e em suspensão), (c)
amônia (livre NH3 e ionizada NH4+), (d) nitrito (NO2-) e (e) nitrato (NO3-).
Forma do constituinte responsável: Sólidos em suspensão e sólidos dissolvidos
Origem natural:
• Constituinte de proteínas e vários outros compostos biológicos
• Nitrogênio de composição celular de microrganismos
Origem antropogênica:
• Despejos domésticos
• Despejos industriais
• Excrementos de animais
• Fertilizantes
Importância:
• O nitrogênio na forma de nitrato está associado a doenças como a metemoglobinemia (síndrome do
bebê azul)
• O nitrogênio é um elemento indispensável para o crescimento de algas e, quando em elevadas
concentrações em lagos e represas, pode conduzir a um crescimento exagerado desses organismos
(processo denominado eutrofização)
• O nitrogênio, nos processos bioquímicos de conversão da amônia a nitrito e deste a nitrato, implica
no consumo de oxigênio dissolvido do meio (o que pode afetar a vida aquática)
• O nitrogênio na forma de amônia livre é diretamente tóxico aos peixes
• O nitrogênio é um elemento indispensável para o crescimento dos microrganismos responsáveis pelo
tratamento de esgotos
• Os processos de conversão do nitrogênio têm implicações na operação das estações de tratamento de
esgotos, em termos de consumo de oxigênio, consumo de alcalinidade e sedimentabilidade do lodo
• Em um corpo d'água, a determinação da forma predominante do nitrogênio pode fornecer
informações sobre o estágio da poluição (poluição recente está associada ao nitrogênio na forma
orgânica ou de amônia, enquanto uma poluição mais remota está associada ao nitrogênio na forma de
nitrato)
Utilização mais frequente do parâmetro:
• Caracterização de águas de abastecimento brutas e tratadas
• Caracterização de águas residuárias brutas e tratadas
• Caracterização de corpos d'água
Unidade: mg/L
Interpretação dos resultados:
• Em termos de tratamento e abastecimento público de água
· ver Padrão de Potabilidade
• Em termos de tratamento de águas residuárias
- é necessário um adequado balanço C:N:P no esgoto para o desenvolvimento dos
microrganismos (cerca de 100:5:1 em termos de DBO:N:P)
- ver Padrão de Lançamento (amônia)
• Em termos dos corpos d'água
· ver Padrão de Corpos d'Água (amônia, nitrato, nitrito e, em certas condições, nitrogênio
total)
Reações e equações de importância:
Formas do nitrogênio:

18
N total = N orgânico + N amônia + NO2- + NO3-
Equilíbrio da amônia:
NH3 + H+  NH4+
Oxidação da amônia a nitrito:
2NH4+ + 3O2 → 2NO2- + 4H+ + 2H2O + Energia
Oxidação do nitrito a nitrato:
-
2NO2- + O2 → 2NO3 + Energia
Oxidação da amônia a nitrato (nitrificação) (reação global):
NH4+ + 2O2 → NO3- + 2H+ + H2O + Energia
Redução do nitrato a nitrogênio gasoso (equivalentes do não consumo de oxigênio para a oxidação da
matéria orgânica em condições anóxicas e do consumo de H+):
2NO3- + 2H+ correspondem a N2 + 2,5O2 + H2O
Detalhamento no presente livro: Itens 2.2.3.4 e 3.4

Fósforo

Conceito: O fósforo na água apresenta-se principalmente nas formas de ortofosfato, polifosfato e fósforo
orgânico. Os ortofosfatos são diretamente disponíveis para o metabolismo biológico sem necessidade de
conversões a formas mais simples. As formas em que os ortofosfatos se apresentam na água (PO 43-,
HPO42-, H2PO4-, H3PO4) dependem do pH, sendo a mais comum na faixa usual de pH o HPO42-. Os
polifosfatos são moléculas mais complexas com dois ou mais átomos de fósforo.
Forma do constituinte responsável: Sólidos em suspensão e sólidos dissolvidos
Origem natural:
• Dissolução de compostos do solo
• Decomposição da matéria orgânica
• Fósforo de composição celular de microrganismos
Origem antropogênica:
• Despejos domésticos
• Despejos industriais
• Detergentes
• Excrementos de animais
• Fertilizantes
Importância:
• O fósforo não apresenta problemas de ordem sanitária nas águas de abastecimento
• O fósforo é um elemento indispensável para o crescimento de algas e, quando em elevadas
concentrações em lagos e represas, pode conduzir a um crescimento exagerado desses organismos
(eutrofização)
• O fósforo é um nutriente essencial para o crescimento dos microrganismos responsáveis pela
estabilização da matéria orgânica
Utilização mais frequente do parâmetro:
• Caracterização de águas residuárias brutas e tratadas
• Caracterização de corpos d'água
Unidade: mg/l
Interpretação dos resultados:
• Em termos de tratamento de águas residuárias
- é necessário um adequado balanço C:N:P no esgoto para o desenvolvimento dos microrganismos
(cerca de 100:5:1 em termos de DBO:N:P)
- em lançamentos de efluentes a montante de represas com problemas de eutrofização,
frequentemente se limita o P total em 1,0 a 2,0 mg/l
• Em termos dos corpos d'água

19
- os seguintes valores de P total podem ser utilizados como indicativos aproximados do estado de
eutrofização de lagos (lagos tropicais provavelmente aceitam concentrações superiores): (a) P <
0,01-0,02 mg/l: não eutrófico; (b) P entre 0,01-0,02 e 0,05 mg/l: estágio intermediário; (c) P>
0,05 mg/l: eutrófico
- ver Padrão de Corpos d'Água
Detalhamento no presente livro: Item 3.4

Oxigênio dissolvido

Conceito: O oxigênio dissolvido (OD) é de essencial importância para os organismos aeróbios (que
vivem na presença de oxigênio). Durante a estabilização da matéria orgânica, as bactérias fazem uso do
oxigênio nos seus processos respiratórios, podendo vir a causar uma redução da sua concentração no
meio. Dependendo da magnitude deste fenômeno, podem vir a morrer diversos seres aquáticos, inclusive
os peixes. Caso o oxigênio seja totalmente consumido, tem-se as condições anaeróbias (ausência de
oxigênio), com possível geração de maus odores.
Forma do constituinte responsável: Gás dissolvido
Origem natural:
• Dissolução do oxigênio atmosférico
• Produção pelos organismos fotossintéticos
Origem antropogênica:
• Introdução de aeração artificial
• Produção pelos organismos fotossintéticos em corpos d´água eutrofizados
Importância:
• O oxigênio dissolvido é vital para os seres aquáticos aeróbios
• O oxigênio dissolvido é o principal parâmetro de caracterização dos efeitos da poluição das águas por
despejos orgânicos
Utilização mais frequente do parâmetro:
• Controle operacional de estações de tratamento de esgotos
• Caracterização de corpos d'água
Unidade: mg/L
Interpretação dos resultados:
• Em termos de tratamento de águas residuárias
- é necessário um teor mínimo de oxigênio dissolvido (> 1 mg/L ou eventualmente mais) nos
reatores dos sistemas aeróbios
• Em termos dos corpos d'água
- a solubilidade do OD varia com a altitude e a temperatura. Ao nível do mar, na temperatura de
20°C, a concentração de saturação na água limpa é igual a 9,2 mg/L
- valores de OD superiores à saturação são indicativos da presença de algas (fotossíntese, com
geração de oxigênio puro)
- valores de OD bem inferiores à saturação são indicativos da presença de matéria orgânica
(provavelmente esgotos)
- com OD em torno de 4-5 mg/L os peixes mais exigentes não sobrevivem; com OD igual a 2 mg/L
praticamente todos os peixes não sobrevivem; com OD igual a 0 mg/L tem-se condições de
anaerobiose
- ver Padrão de Corpos d'Água
Reações e equações de importância:
Oxidação da matéria orgânica (consumo de oxigênio):
C6H12O6 + 6O2 → 6CO2 + 6H2O + Energia
Fotossíntese (produção de oxigênio):
6CO2 + 6H2O + Energia → C6H12O6 + 6O2
Oxidação da amônia a nitrato (nitrificação) (consumo de oxigênio):
NH4+-N + 2O2 → NO3--N + 2H+ + H2O + Energia
Redução do nitrato a nitrogênio gasoso (equivalentes do não consumo de oxigênio para a oxidação da
matéria orgânica em condições anóxicas e do consumo de H+):

20
2NO3--N + 2H+ correspondem a N2 + 2,5O2 + H2O
Detalhamento no presente livro: Item 3.2

Matéria orgânica

Conceito: A matéria orgânica presente nos corpos d'água e nos esgotos é uma característica de primordial
importância, sendo a causadora do principal problema de poluição das águas: o consumo do oxigênio
dissolvido pelos microrganismos nos seus processos metabólicos de utilização e estabilização da matéria
orgânica. Os principais componentes orgânicos são os compostos de proteína, os carboidratos, a gordura e
os óleos, além da uréia, surfactantes, fenóis, pesticidas e outros em menor quantidade. A matéria
carbonácea (com base no carbono orgânico) divide-se nas seguintes frações: (a) não biodegradável (em
suspensão e dissolvida) e (b) biodegradável (em suspensão e dissolvida). Em termos práticos, usualmente
não há necessidade de se caracterizar a matéria orgânica em termos de proteínas, gorduras, carboidratos
etc. Ademais, há uma grande dificuldade na determinação laboratorial dos diversos componentes da
matéria orgânica nas águas residuárias, face à multiplicidade de formas e compostos em que esta pode se
apresentar. Em assim sendo, utilizam-se normalmente métodos indiretos para a quantificação da matéria
orgânica, ou do seu potencial poluidor. Nesta linha, existem duas principais categorias: (a) Medição do
consumo de oxigênio (Demanda Bioquímica de Oxigênio - DBO; Demanda Química de Oxigênio - DQO)
e (b) Medição do carbono orgânico (Carbono Orgânico Total - COT). A DBO e a DQO são os
parâmetros tradicionalmente mais utilizados, e encontram-se analisados em maiores detalhes em vários
outros itens do presente livro.
Forma do constituinte responsável: sólidos em suspensão e sólidos dissolvidos
Origem natural:
• Matéria orgânica vegetal e animal
• Microrganismos
Origem antropogênica:
• Despejos domésticos
• Despejos industriais
Importância:
• A matéria orgânica é responsável pelo consumo, pelos microrganismos decompositores, do oxigênio
dissolvido na água
• A DBO e a DQO retratam, de uma forma indireta, o teor de matéria orgânica nos esgotos ou no corpo
d'água, sendo, portanto, uma indicação do potencial do consumo do oxigênio dissolvido
• A DBO e a DQO são os parâmetros de maior importância na caracterização do grau de poluição de um
corpo d'água
Utilização mais frequente do parâmetro:
• Caracterização de águas residuárias brutas e tratadas
• Caracterização de corpos d'água
Unidade: mg/L
Interpretação dos resultados:
• Em termos de tratamento de águas residuárias
- a DBO dos esgotos domésticos está em torno de 300 mg/L e a DQO em torno de 600 mg/L
- a DBO e a DQO dos esgotos industriais variam amplamente, com o tipo de processo industrial
- a DBO e a DQO efluentes do tratamento são função do nível e do processo de tratamento
- ver Padrão de Lançamento
• Em termos dos corpos d'água
- ver Padrão de Corpos d'Água
Reações e equações de importância:
Conversão aeróbia da matéria orgânica (oxidação):
C6H12O6 + 6O2 → 6CO2 + 6H2O + Energia
Conversão anaeróbia da matéria orgânica (rota simplificada):
C6H12O6 → 3CH4 + 3CO2 + Energia
Detalhamento no presente livro: Item 2.2.3.3

21
Micropoluentes inorgânicos

Conceito: Grande parte dos micropoluentes inorgânicos são tóxicos. Entre estes, têm especial destaque os
metais. Entre os metais que se dissolvem na água incluem-se o arsênio, cádmio, cromo, chumbo,
mercúrio e prata. Vários destes metais se concentram na cadeia alimentar, resultando num grande perigo
para os organismos situados nos níveis superiores. Felizmente as concentrações dos metais tóxicos nos
ambientes aquáticos naturais são pequenas. Vários metais, em baixas concentrações, são nutrientes
essenciais para o crescimento de seres vivos. Além dos metais, há outros micropoluentes inorgânicos de
importância em termos de saúde pública, como os cianetos, o flúor e outros.
Forma do constituinte responsável: sólidos em suspensão e sólidos dissolvidos
Origem natural:
• A origem natural é de menor importância
Origem antropogênica:
• Despejos industriais
• Atividades mineradoras
• Atividades de garimpo
• Agricultura
Importância:
• Alguns elementos e compostos, em baixas concentrações, são nutrientes para seres vivos
• Vários elementos e compostos, em determinadas concentrações, são tóxicos para os habitantes dos
ambientes aquáticos, para os consumidores da água e para os microrganismos responsáveis pelo
tratamento biológico dos esgotos
Utilização mais frequente do parâmetro:
• Caracterização de águas de abastecimento brutas e tratadas
• Caracterização de águas residuárias brutas e tratadas
• Caracterização de corpos d'água
Unidade: µg/L ou mg/L
Interpretação dos resultados:
• Em termos de tratamento e abastecimento público de água
- ver Padrão de Potabilidade (vários elementos e compostos – consultar Padrão)
• Em termos de tratamento águas residuárias
- em determinadas concentrações, podem causar inibição no tratamento biológico de
esgotos
- ver Padrão de Lançamento
• - Em termos dos corpos d'água
· ver Padrão de Corpos d'Água
Detalhamento no presente livro: Item 2.2.6.2

Micropoluentes orgânicos

Conceito: Alguns compostos orgânicos são resistentes à degradação biológica, não integrando os ciclos
biogeoquímicos, e acumulando-se em determinado ponto do ciclo (interrompido). Entre estes, destacam-
se os defensivos agrícolas, alguns tipos de detergentes (ABS, com estrutura molecular fechada), os
perturbadores endócrinos e um grande número de produtos químicos. Uma grande parte destes
compostos, mesmo em reduzidas concentrações, está associada a problemas de toxicidade.
Forma do constituinte responsável: sólidos dissolvidos
Origem natural:
• Vegetais com madeira (tanino, lignina, celulose, fenóis)
Origem antropogênica:
• Despejos industriais
• Detergentes
• Hormônios e fármacos
• Processamento e refinamento do petróleo
• Defensivos agrícolas

22
Importância:
• Os compostos orgânicos incluídos nesta categoria não são biodegradáveis
• Vários compostos, em determinadas concentrações, são tóxicos para os habitantes dos ambientes
aquáticos, para os consumidores da água e para os microrganismos responsáveis pelo tratamento
biológico dos esgotos
Utilização mais frequente do parâmetro:
• Caracterização de águas de abastecimento brutas e tratadas
• Caracterização de águas residuárias brutas e tratadas
• Caracterização de corpos d'água
Unidade: µg/L ou mg/L
Interpretação dos resultados:
• Em termos de tratamento e abastecimento público de água
- ver Padrão de Potabilidade (vários compostos – consultar Padrão)
• - Em termos de tratamento águas residuárias
- ver Padrão de Lançamento
• - Em termos dos corpos d'água
- ver Padrão de Corpos d'Água
Detalhamento no presente livro: Item 2.2.6.2

1.5.3. PARÂMETROS BIOLÓGICOS


A relação dos microrganismos de interesse na Engenharia Sanitária e Ambiental (bactérias, algas, fungos,
protozoários, vírus e helmintos) está apresentada no Quadro 1.2.

Os microrganismos desempenham diversas funções de fundamental importância, principalmente as


relacionadas com a transformação da matéria dentro dos ciclos biogeoquímicos. No tratamento biológico
dos esgotos, os microrganismos são os responsáveis pelas reações de conversão da matéria orgânica e
inorgânica. A microbiologia do tratamento dos esgotos é apresentada no Capítulo 1 do Volume 2 da
presente série.

Outro aspecto de grande relevância em termos da qualidade biológica da água é o relativo à possibilidade
da transmissão de doenças. Os organismos patogênicos dos esgotos são discutidos no Capítulo 2 do
presente livro.

A determinação da potencialidade de uma água transmitir doenças pode ser efetuada de forma indireta,
através dos organismos indicadores de contaminação fecal, pertencentes principalmente ao grupo de
coliformes. Os coliformes encontram-se descritos no Capítulo 2.

1.5.4. FORMA FÍSICA REPRESENTADA PELOS PARÂMETROS DE


QUALIDADE
É importante o conhecimento da forma, em termos de sólidos ou gases, representada pelos diversos
parâmetros de qualidade da água. Nos processos de tratamento, os sólidos em suspensão são removidos
por operações e processos unitários diferentes dos utilizados para a remoção dos sólidos dissolvidos e
também, naturalmente, dos gases dissolvidos. O Quadro 1.5 apresenta a caracterização, em termos de
forma física, dos principais parâmetros de qualidade.

Quadro 1.5. Forma física preponderante representada pelos parâmetros de qualidade


Característica Parâmetro Sólidos em Sólidos Gases
suspensão dissolvidos dissolvidos
Parâmetros físicos Cor x
Turbidez x
Sabor e odor x x x

23
Parâmetros químicos pH x x
Alcalinidade x
Acidez x x
Dureza x
Ferro e manganês x x
Cloretos x
Nitrogênio x x
Fósforo x x
Oxigênio dissolvido x
Matéria orgânica x x
Metais x x
Micropoluentes orgânicos x
Parâmetros biológicos Organismos indicadores x
Algas x
Bactérias x

1.5.5. UTILIZAÇÃO MAIS FREQUENTE DOS PARÂMETROS


Ao se solicitar uma análise de água, deve-se selecionar os parâmetros a serem investigados pela análise.
O Quadro 1.6 apresenta uma relação da associação mais frequente entre parâmetros e tópico a ser
estudado. A lista inclui apenas os parâmetros mais usuais, e deve-se lembrar que o conhecimento das
particularidades de cada situação é que deve definir os parâmetros a serem incluídos na análise. As
principais utilizações são:

• caracterização de águas para abastecimento


o águas superficiais (brutas e tratadas)
o águas subterrâneas (brutas e tratadas)
• caracterização de águas residuárias (brutas e tratadas)
• caracterização ambiental de corpos d'água receptores (rios e lagos)

24
Quadro 1.6. Principais parâmetros a serem investigados numa análise de água
Caracte- Parâmetro Águas para abastecimento Águas Corpos
rísticas residuárias receptores
Água superficial Água subterrânea Bruta Tra- Rio Lago
Bruta Tratada Bruta Tratada tada
Parâmetros Cor x x x (1) x x x
físicos Turbidez x x x x x x
Sabor e odor x x x x
Temperatura x x x x x
Parâmetros pH x x x x x x x
químicos Alcalinidade x x x
Acidez x x
Dureza x x
Ferro e manganês x x x x
Cloretos x x
Nitrogênio x x x x x x x x
Fósforo x x x x
Oxigênio dissolvido x (2) x x
Matéria orgânica x x x x
Micropol.inorg.(diversos)(3) x x x x x x x x
Micropol.orgân.(diversos)(3) x x x x x x x x
Parâmetros Organismos indicadores x x x x x x x x
biológicos Algas (diversas) x x (2) x
Bactérias decomp. (diversas) x (2)
Notas:
(1) Causada por Fe e Mn
(2) Durante o tratamento, para controle do processo
(3) Devem ser analisados aqueles que possuírem alguma justificativa, devido ao uso e ocupação do solo na bacia
hidrográfica

1.6. REQUISITOS DE QUALIDADE DA ÁGUA


Como comentado, os requisitos de qualidade de uma água são função de seus usos previstos. O Quadro
1.7 apresenta, de forma simplificada, a associação entre os principais requisitos de qualidade e os
correspondentes usos da água. Nos casos de corpos d'água com usos múltiplos, a qualidade da água deve
atender aos requisitos dos diversos usos previstos.

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Quadro 1.7. Associação entre os usos da água e os requisitos de qualidade
Uso geral Uso específico Qualidade requerida

- Isenta de substâncias químicas prejudiciais à saúde


- Isenta de organismos prejudiciais à saúde
Abastecimento
- - Adequada para serviços domésticos
de água
- Baixa agressividade e dureza
doméstico
- Esteticamente agradável (baixa turbidez, cor, sabor e
odor; ausência de macrorganismos)
Água é incorporada ao produto (ex: alimento, - Isenta de substâncias químicas prejudiciais à saúde
bebidas, remédios) - Isenta de organismos prejudiciais à saúde
- Esteticamente agradável (baixa turbidez, cor, sabor e
Abastecimento odor)
industrial
Água entra em contato com o produto - Variável com o produto
Água não entra em contato com o produto - Baixa dureza
(ex: refrigeração, caldeiras) - Baixa agressividade
Hortaliças, produtos ingeridos crus ou com - Isenta de substâncias químicas prejudiciais à saúde
casca - Isenta de organismos prejudiciais à saúde
- Salinidade não excessiva
Irrigação
Demais plantações - Isenta de substâncias químicas prejudiciais ao solo e às
plantações
- Salinidade não excessiva
- Isenta de substâncias químicas prejudiciais à saúde dos
Dessedentação
- animais
de animais
- Isenta de organismos prejudiciais à saúde dos animais
Preservação da - Variável com os requisitos ambientais da flora e da
flora e da - fauna que se deseja preservar
fauna
Criação de animais - Isenta de substâncias químicas prejudiciais à saúde dos
animais e dos consumidores
- Isenta de organismos prejudiciais à saúde dos animais
e dos consumidores
Aquicultura
- Disponibilidade de nutrientes
Criação de vegetais - Isenta de substâncias químicas tóxicas aos vegetais e
aos consumidores
- Disponibilidade de nutrientes
Contato primário (contato direto com o meio - Isenta de substâncias químicas prejudiciais à saúde
líquido; ex: natação, esqui, surfe) - Isenta de organismos prejudiciais à saúde
Recreação e - Baixos teores de sólidos em suspensão e óleos e graxas
lazer Contato secundário (não há contato direto - Aparência agradável
com o meio líquido; ex: navegação de lazer,
pesca, lazer contemplativo)
Usinas hidrelétricas - Baixa agressividade
Geração de
Usinas nucleares ou termelétricas (ex: torres - Baixa dureza
energia
de resfriamento)
- - Baixa presença de material grosseiro que possa por em
Transporte
risco as embarcações
Diluição de - -
despejos

1.7. POLUIÇÃO DAS ÁGUAS


A Lei 6938, de 31/08/81 (DOU, 1981), que dispõe sobre a Política Nacional de Meio Ambiente, dá as
seguintes conceituações:

Poluição: a degradação da qualidade ambiental resultante de atividades que direta ou indiretamente:


a) prejudiquem a saúde, a segurança e o bem-estar da população;
b) criem condições adversas às atividades sociais e econômicas;
c) afetem desfavoravelmente a biota;
d) afetem as condições estéticas ou sanitárias do meio ambiente;
e) lancem matérias ou energia em desacordo com os padrões ambientais estabelecidos
Degradação da qualidade ambiental: a alteração adversa das características do meio ambiente.

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Outra conceituação, menos formal, de poluição das águas é: a adição de substâncias ou de formas de
energia que, direta ou indiretamente, alterem a natureza do corpo d'água de uma maneira tal que
prejudique os legítimos usos que dele são feitos.

Esta definição é essencialmente prática e, em decorrência, potencialmente polêmica, pelo fato de associar
a poluição ao conceito de prejuízo e aos usos do corpo d'água, conceitos esses atribuídos pelo próprio ser
humano. No entanto, esta visão prática é importante, principalmente ao se analisar as medidas de controle
para a redução da poluição.

O Quadro 1.8 lista as principais fontes de poluentes, conjuntamente com os seus efeitos poluidores mais
representativos.

Quadro 1.8. Principais fontes de poluição das águas


Fonte
Principais
Águas residuárias Águas pluviais
Constituinte parâmetros Possível efeito poluidor
Urbanas Industriais Urbanas Agricultura
representativos
e pastagem
Sólidos em Sólidos em • Problemas estéticos
suspensão suspensão totais • Depósitos de lodo
XXX → XX X
• Adsorção de poluentes
• Proteção de patogênicos
Matéria Demanda • Consumo de oxigênio
orgânica Bioquímica de XXX → XX X • Mortandade de peixes
biodegradável Oxigênio • Condições sépticas
Nutrientes Nitrogênio • Crescimento excessivo de algas
Fósforo • Toxicidade aos peixes (amônia)
XXX → XX X
• Doença em recém-nascidos (nitrato)
• Poluição da água subterrânea
Organismos Coliformes
XXX → XX X • Doenças de veiculação hídrica
patogênicos
Matéria Pesticidas • Toxicidade (vários)
orgânica não Alguns • Espumas (detergentes)
biodegradável detergentes
XX → X XX • Redução da transferência de oxigênio (detergentes)
Produtos • Biodegradabilidade reduzida ou inexistente
farmacêuticos • Maus odores (ex: fenóis)
Outros
Metais Elementos • Toxicidade
específicos (As, • Inibição do tratamento biológico dos esgotos
XX → X
Cd, Cr, Cu, Hg, • Problemas na disposição do lodo na agricultura
Ni, Pb, Zn etc) • Contaminação da água subterrânea
Sólidos Sólidos • Salinidade excessiva - prejuízo às plantações (irrigação)
inorgânicos dissolvidos totais
XX → X • Toxicidade a plantas (alguns íons)
dissolvidos Condutividade • Problemas de permeabilidade do solo (sódio)
elétrica
x: pouco xx: médio xxx: muito→: variável em branco: usualmente não importante

Nos livros da presente série, maior atenção é dada ao equacionamento da poluição dos esgotos
domésticos, através do seu adequado tratamento. Dentro deste enfoque, a maior ênfase é dada ao tópico
da matéria orgânica e do consumo de oxigênio dissolvido, o qual, apesar de já em grande parte
equacionado na maioria dos países desenvolvidos, constitui-se possivelmente no principal problema de
poluição das águas nos países em desenvolvimento. No entanto, são enfocados também os outros
poluentes típicos dos esgotos domésticos, ou seja, organismos patogênicos e nutrientes.

Existem basicamente duas formas em que a fonte de poluentes pode atingir um corpo d'água (ver Figura
1.6):

• poluição pontual
• poluição difusa

Na poluição pontual, os poluentes atingem o corpo d'água de forma concentrada no espaço. Um exemplo
é o da descarga em um rio de um emissário transportando os esgotos de uma comunidade.

Na poluição difusa, os poluentes adentram o corpo d'água distribuídos ao longo de parte da sua extensão.
Este é o caso típico da poluição veiculada pela drenagem pluvial, a qual é descarregada no corpo d'água
de uma forma distribuída, e não concentrada em um único ponto.
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Fig. 1.6. Poluição pontual e poluição difusa

O enfoque do presente livro é para o controle da poluição pontual por meio do tratamento dos esgotos
previamente coletados e transportados. Em vários países desenvolvidos, grande atenção tem sido dada à
poluição difusa, pelo fato dos lançamentos pontuais já terem sido em grande parte equacionados.
Entretanto, nos países em desenvolvimento, há praticamente tudo a se fazer ainda em termos do controle
da poluição pontual originária de cidades e indústrias.

1.8. QUANTIFICAÇÃO DAS CARGAS POLUIDORAS


Para a avaliação do impacto da poluição e da eficácia das medidas de controle, é necessária a
quantificação das cargas poluidoras afluentes ao corpo d'água. Para tanto, são necessários levantamentos
de campo na área em estudo, incluindo amostragem dos poluentes, análises de laboratório, medição de
vazões e outros. Caso não seja possível a execução de todos estes itens, pode-se complementar com dados
de literatura. Informações típicas a serem obtidas em um levantamento sanitário de uma bacia
hidrográfica são (Mota, 1988):

• Dados físicos da bacia: aspectos geológicos; precipitação pluviométrica e escoamento; variações


climáticas; temperatura; evaporação etc.
• Informações sobre o comportamento hidráulico dos corpos d'água: vazões máxima, média e mínima;
volumes de reservatórios; velocidades de escoamento; profundidade etc.
• Uso e ocupação do solo: tipos; densidades; perspectivas de crescimento; distritos industriais; etc.
• Caracterização sócio-econômica: demografia; desenvolvimento econômico etc.
• Usos múltiplos das águas.
• Requisitos de qualidade para o corpo d'água.
• Localização, quantificação e tendência das principais fontes poluidoras.
• Diagnóstico da situação atual da qualidade da água: características físicas, químicas e biológicas.

Como comentado, de maneira geral, os poluentes são frequentemente originários das seguintes fontes
principais:

• esgotos domésticos
• despejos industriais
• escoamento superficial
· área urbana
· área rural

Em vários cálculos, a quantificação dos poluentes deve ser apresentada em termos de carga. A carga é
expressa em termos de massa por unidade de tempo, podendo ser calculada por um dos seguintes

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métodos, dependendo do tipo de problema em análise, da origem do poluente e dos dados disponíveis
(nos cálculos, converter as unidades para se trabalhar sempre em unidades consistentes, como por
exemplo, kg/d):

• carga = concentração x vazão


• carga = contribuição per capita x população
• carga = contribuição por unidade produzida (kg/unid produzida) x produção (unid produzida/dia)
• carga = contribuição por unidade de área (kg/km2.dia) x área (km2)

Esgotos domésticos e industriais:

carga = concentração x vazão

concentração (g / m3 ) . vazão ( m3 / d )
carga ( kg / d ) =
1.000 (g / kg)

Obs: g/m3 = mg/L

Esgotos domésticos:

carga = população x carga per capita

população ( hab) . carga per capita (g / hab.d)


carga ( kg / d) =
1.000 (g / kg)

Esgotos industriais:

carga = contribuição por unidade produzida x produção

carga (kg/d) = contribuição por unidade produzida (kg/unid) x produção (unid/d)

Drenagem superficial:

carga = contribuição por unidade de área x área

carga (kg/d) = contribuição por unidade de área (kg/km2.d) x área (km2)

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