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Tradição + Inovação

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Legislação Penal Especial


Obra organizada pelo Instituto IOB – São Paulo: Editora IOB, 2014. ISBN 978-85-8079-040-5

Informamos que é de inteira responsabilidade do autor a emissão dos conceitos.


Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio ou forma sem a
prévia autorização do Instituto IOB. A violação dos direitos autorais é crime estabelecido na Lei
nº 9.610/1998 e punido pelo art. 184 do Código Penal.
Sumário
Capítulo 1. Lei de Drogas, 15
1. Princípios Penais e Processuais Penais: Princípio da
Insignificância, 15
2. Princípio da Proporcionalidade, 16
3. Princípio da Legalidade e Norma Penal em Branco, 16
4. Princípio da Eficiência e Repressão ao Tráfico de
Drogas, 17
5. Conceito de Droga, 18
6. Art. 28, 18
7. Natureza Jurídica do Art. 28, 19
8. Sanções, 20
9. Aspectos Constitucionais, 20
10. Art. 33, 21
11. Associação para o Tráfico, 23
12. Tráfico Privilegiado, 24
13. Inquérito Policial, 24
14. Instrumentos Específicos de Investigação, 25
15. Rito Especial, 26
16. Prisão e Liberdade Provisória, 27

Capítulo 2. Lei dos Crimes Hediondos, 29


1. Contexto Histórico e Análise Crítica sobre a Lei dos
Crimes Hediondos, 29
2. Lei dos Crimes Hediondos – Aspectos Constitucionais, 30
3. Sistemas para Aferição dos Crimes Hediondos, 30
4. Rol dos Crimes Hediondos, 31
5. Crimes Equiparados aos Hediondos – Terrorismo e
Tortura, 32
6. Crimes Equiparados aos Hediondos – Tráfico de
Drogas, 33
7. Consumação, Tentativa e os Crimes Hediondos, 34
8. Vedações Constitucionais, 34
9. Liberdade Provisória – Lei dos Crimes Hediondos e Lei
de Drogas, 35
10. Regime de Cumprimento de Pena, 36
11. Prisão Temporária, Delação Premiada e Associação
Criminosa, 37

Capítulo 3. Organizações Criminosas, 39


1. Crime Organizado – Introdução, 39
2. Conceito de Organização Criminosa, 40
3. Tipo Penal Próprio, 40
4. Organização Criminosa, Associação Criminosa e
Milícia Privada, 42
5. Investigação e Meios de Obtenção da Prova, 42
6. Colaboração Premiada, 43
7. Lei da Ficha Limpa e JeCrim, 44

Capítulo 4. Identificação Criminal – Lei nº 12.037/09, 46


1. Identificação Civil, 46
2. Situações Excepcionais à Identificação Civil, 46
3. Identificação Criminal, 47
4. Identificação Criminal – Perfil Genético, 48

Capítulo 5. Estatuto do Desarmamento –


Lei nº 10.826/03, 50
1. Órgãos – Requisitos – Registro, 50
2. Porte – Atribuição para Expedição, 51
3. Abolitio Criminis Indireta ou Temporária, 52
4. Posse de Arma de Uso Proibido – Restrito – Permitido
– Arma de Fogo Desmuniciada – Defeituosa –
Desmontada – Potencialidade Lesiva, 52
5. Munição – Conceito – Fiscalização e Controle –
Equiparação do Objeto Material, 53
6. Posse Irregular de Arma de Fogo de Uso Permitido, 54
7. Porte Ilegal de Arma de Fogo de Uso Permitido, 55
8. Disparo de Arma de Fogo – Absorção do Crime Mais
Grave – Concurso de Crime, 56
9. Posse ou Porte Ilegal de Arma de Fogo de Uso
Restrito, 57
10. Posse ou Porte Ilegal de Arma de Fogo de Uso
Restrito – Condutas Equiparadas – Crime Material e
Pluriofensivo, 58
11. Condutas Equiparadas – Artefatos Explosivos ou
Incendiários – Adulteração ou Eliminação de Sinais
Característicos de Arma de Fogo, 59
12. Comércio Ilegal de Arma de Fogo – Penalização –
Condutas Equiparadas, 59
13. Tráfico Internacional de Arma de Fogo – Penalização –
Causa de Aumento de Pena, 60
14. Tráfico Internacional de Arma de Fogo – Crime
Insuscetível de Liberdade Provisória – Posicionamento
Jurisprudencial – Inconstitucionalidade, 60

Capítulo 6. Tortura – Lei nº 9.455/97, 62


1. Introdução – Histórico da Tortura no Brasil –
Promulgação da Lei de Tortura – Entendimento
Jurisprudencial, 62
2. Delito de Natureza Castrense – Crime Militar –
Competência – Classificação da Tortura quanto
ao Resultado do Crime – Bem Jurídico Tutelado –
Modalidades de Tortura, 63
3. Crimes em Espécies. Tortura-constrangimento –
Tortura-prova – Sujeito Ativo e Passivo – Consumação
do Delito – Elemento Subjetivo do Tipo, 64
4. Princípio da Inadmissibilidade das Provas Obtidas
por Meio de Provas Ilícitas – Inidoneidade Jurídica da
Prova – Tortura-Crime – Tortura Racial, 65
5. Crimes em Espécies – Tortura Castigo – Maus-Tratos –
Elemento Subjetivo do Crime Castigo, 66
6. Omissão Perante a Tortura – Modalidades de Crime
Omissivo – Texto Constitucional – Responsabilidade do
Omitente, 67
7. Tortura Qualificada pela Morte x Homicídio Qualificado
pela Tortura – Aplicação da Lei de Tortura, 68
8. Causas de Aumento de Pena na Tortura, 69
9. Interdição do Exercício de Cargo – Função – Emprego
Público – Efeito da Condenação – Competência para
Julgamento, 70
10. Vedação de Benefícios – Texto Constitucional e Lei
de Tortura – Prescrição – Cumprimento de Pena –
Tratamentos Diferenciados no Crime de Tortura, 71
11. Extraterritorialidade – Condicionada e incondicionada
– Entendimento Doutrinário – Convenções
Internacionais sobre Tortura, 72

Capítulo 7. Abuso de Autoridade – Lei nº 4.898/65, 74


1. Abuso de Autoridade, 74
2. Crimes em Espécie – Elemento Subjetivo – Sujeito
Ativo – Não Admissão de Tentativa, 75
3. Hipóteses de Abuso de Autoridade – Liberdade de
Locomoção – Inviolabilidade de Domicílio – Sigilo da
Correspondência – Liberdade de Consciência e Crença
– Livre Exercício do Culto Religioso – Liberdade de
Associação, 76
4. Direitos e Garantias do Exercício do Voto
– Direito de Reunião – Incolumidade Física do
Indivíduo – Direitos e Garantias do Exercício
Profissional, 77
5. Medida Privativa de Liberdade Individual – Submissão
a Vexame ou Constrangimento
– Comunicação de Prisão ao Juiz – Cobrança de
Custas e Emolumentos – Ato Lesivo da Honra ou
Patrimônio, 77
6. Sanções Civil, Administrativa, Penal – Extinção da
Pena Acessória, 79
7. Abuso de Autoridade de Militar – Comprovação de
Vestígios de Abuso de Autoridade, 80

Capítulo 8. Portador de Deficiência – Lei nº 7.853/89, 81


1. Pessoa Portadora de Deficiência – Regulamentação –
Conceito e Categoria de Deficiências Previstas em Lei, 81
2. Tutela Penal às Pessoas Portadoras de Deficiências –
Tipificação das Condutas, 82

Capítulo 9. Estatuto do Índio – Lei nº 6.001/73, 83


1. Princípios – Definições – Direitos dos Indígenas –
Conceito de Índio e Comunidade Indígena, 83
2. Arts. 56, 57, 58 e 59, 84

Capítulo 10. Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/06), 86


1. Lei nº 11.340/06 – Lei Maria da Penha – Mecanismos
de Coibição e Direitos Fundamentais, 86
2. Lei Maria da Penha – Procedimento e Medidas de
Urgência, 87
3. Lei Maria da Penha – Ação Penal e Aspectos
Relevantes, 89
4. Lei Maria da Penha – Noções Gerais, 90
5. Lei Maria da Penha – Evolução Jurisprudencial, 91
Capítulo 11. Genocídio – Lei nº 2.889/56, 92
1. Conceito – Competência – Elementos e Características
do Genocídio, 92
2. Arts. 1º a 6º da Lei nº 2.889/56, 93

Capítulo 12. Racismo, 94


1. Introdução e Aspectos Constitucionais, 94
2. Arts. 3º, 5º, 6º, 7º, 8º, 9º, 10, 11, 12, 13 e 14 da Lei
nº 7.716/1989, 95
3. Arts. 4º e 20 – Aspectos Finais Previstos na Lei nº
7.716/1989, 97

Capítulo 13. Lei de Agrotóxicos – Lei nº 7.802/89, 99


1. Conceito – Figuras Típicas – Elementares do Crime, 99

Capítulo 14. Lei das Contravenções Penais – Decreto-Lei


nº 3.688/41, 101
1. Introdução, 101
2. Estudo comparativo: Código Penal e Lei de
Contravenções Penais, 101
3. Efeitos da Condenação, Medida de Segurança e Ação
Penal, 102
4. Reincidência, 104
5. Parte Especial – Arma Branca, 104
6. Das Contravenções Referentes à Pessoa, 105
7. Das Contravenções Referentes ao Patrimônio, 106
8. Das Contravenções Referentes à Incolumidade Pública
– Parte I, 107
9. Das Contravenções Referentes à Incolumidade Pública
– Parte II, 109
10. Das Contravenções Referentes à Paz Pública, 110
11. Das Contravenções Referentes à Fé Pública, 111
12. Das Contravenções Relativas à Organização do
Trabalho e das Contravenções Relativas à Polícia de
Costumes, 112
13. Dos Jogos de Azar, 113
14. Vadiagem, Mendicância e Outras Contravenções, 114

Capítulo 15. Crimes contra a Ordem Tributária –


Lei nº 8.137/1990, 116
1. Competência, 116
2. Súmula Vinculante nº 24, 117
3. Arts. 1º e 2º da Lei nº 8.137/1990, 117
4. Crimes Funcionais, 118
5. Princípio da Insignificância, 120

Capítulo 16. Crimes contra a Ordem Econômica, 121


1. Lavagem de Capitais, 121
2. Lei nº 9.613/98 – Art. 2º, 122
3. Lavagem de Dinheiro – Art. 4º, 122

Capítulo 17. Crimes contra o Sistema Financeiro Nacional


– Lei nº 7.492/86, 124
1. Aspectos Gerais da Lei nº 7.492/86, 124
2. Conceito de Instituição Financeira, 124
3. Dos Crimes contra o Sistema Financeiro Nacional –
Parte I, 125
4. Dos Crimes contra o Sistema Financeiro Nacional –
Parte II, 126
5. Do Aspecto Procedimental, 127

Capítulo 18. Crimes da Lei de Licitações –


Lei nº 8.666/93, 130
1. Licitação no Direito Penal – Origem – Garantia e
Observância da Isonomia – Sanções Administrativas, 130
2. Crimes de Licitação – Arts. 90 a 94 da Lei nº 8.666/93, 131
3. Crimes de Licitação – Arts. 95 a 99 da Lei
nº 8.666/93 – Processo e Procedimento Judicial na Lei
de Licitações, 132

Capítulo 19. Crimes Falimentares – Lei nº 11.101/05, 133


1. Recuperação Judicial, Extrajudicial, Extrajudicial e
Falência – Violação de Sigilo Empresarial – Divulgação
de Informações Falsas – Indução a Erro, 133
2. Arts. 172, 173, 174, 175, 176, 177, 178, 134
3. Equiparação ao Devedor – Sentença de Falência –
Efeitos da Condenação – Prescrição, 135
4. Arts. 183, 184, 185, 186, 187 e 188, 136

Capítulo 20. Crimes Ambientais – Lei nº 9.605/98, 138


1. Introdução aos Crimes Ambientais – Responsabilidade
Penal da Pessoa Jurídica – Conceito de Meio
Ambiente – Decisão Jurisprudencial, 138
2. Penas Previstas na Lei dos Crimes Ambientais –
Circunstâncias Atenuantes da Pena, 139
3. Circunstâncias Agravantes na Pena de Crimes
Ambientais – Suspensão Condicional da Pena (Sursis)
– Formação de Título Executivo, 140
4. Ação Penal – Laudo de Reparação – Crimes de Menor
Potencial Ofensivo – Suspensão Condicional do
Processo, 141
5. Delitos contra a Fauna – Exportação de Animais
Silvestres – Introdução de Espécime Animal – Prática
de Abuso e Maus-Tratos – Emissão de Efluentes ou
Carreamento de Materiais, 142
6. Diferenciação entre Animais – Aplicação da Pena
Considerando as Circunstâncias – Causas de Aumento
de Pena – Excludente de Ilicitude e Tipicidade, 143
7. Pesca – Conceito de Pesca – Pesca em Período Proibido
ou Interditado por Órgãos Competentes – Pesca
Mediante Explosivos ou Outras Técnicas Proibidas, 144
8. Conservação da Natureza – Proteção aos Mangues –
Exploração Econômica de Terras Públicas – Comércio
de Motosserra – Majoramento de Pena, 145
9. Crimes contra Florestas, Vegetação, Logradouro
Público e Propriedade Privada, 146
10. Crimes contra Pesquisa, Lavra ou Extração de Recursos
Minerais, 147
11. Poluição e Outros Crimes Ambientais – Poluição
Culposa, 148
12. Crimes contra Ordenamento Urbano e Patrimônio
Cultural, 149
13. Crimes contra a Administração Ambiental, 150

Capítulo 21. Interceptação de Comunicações Telefônicas


(Lei nº 9.296/96), 152
1. Interceptação de Comunicações Telefônicas –
Introdução, 152
2. Requisitos das Interceptações Telefônicas e Prazos, 153
3. Procedimentos e Sigilo das Interceptações Telefônicas, 154
4. Considerações Finais, 154

Capítulo 22. Lei de Execução Penal (Lei nº 7.210/84), 156


1. Considerações Iniciais e Princípios, 156
2. Comissão Técnica de Classificação e Prisão Especial, 157
3. Direitos Políticos do Preso e Assistência ao Egresso, 158
4. Trabalho do Preso, 159
5. Disciplina dos Presos, 159
6. Benefícios do Preso, 161
7. Monitoração Eletrônica, 161
8. Órgãos da Execução Penal, 162
9. Estabelecimentos Penais, 163
10. Regimes de Cumprimento de Pena, 164
11. Permissão e Autorização de Saída, 165
12. Livramento Condicional, 166

Capítulo 23. Lei de Crimes contra o Consumidor –


Lei nº 8.078/90, 169
1. Arts. 61, 63, 64 e 65 do Código de Defesa do
Consumidor, 169
2. Arts. 66, 67 e 69 do CDC – Crimes de Propaganda e
Publicidade Enganosa, 170
3. Arts. 70, 71, 72 e 73 do CDC, 171
4. Arts. 74, 75, 76, 77, 78, 79 e 80 do CDC, 171

Capítulo 24. Juizado Especial Criminal – Lei nº 9.099/95, 174


1. Origem dos Juizados Especiais Criminais, 174
2. Exceção à Lei dos Juizados Especiais Criminais –
Lei Maria da Penha – Formas de Violência Doméstica
e Familiar – Representação – Jurisprudência, 175
3. A Figura do Idoso no Juizado Especial, 176
4. JeCrim – Atos Processuais – Publicidade dos Atos –
Validade – Citação – Intimação, 176
5. JeCrim – Fase Preliminar – Termo Circunstanciado
– Encaminhamento Frustrado – Ausência de Partes –
Audiência Preliminar, 177
6. Conciliação nos Juizados Especiais, 178
7. Ação Penal Pública Condicionada à Representação, 179
8. Transação Penal, 180
9. Transação Penal – Não Cabimento – Pressupostos, 181
10. Denúncia Oral, 182
11. Audiência de Instrução – Citação – Intimação, 183
12. Audiência de Instrução – Adiamento – Abertura, 184
13. Apelação – Embargos de Declaração, 185
14. Descumprimento da Pena de Multa, 186
15. Representação de Crimes de Lesão Corporal Leve e
Culposa, 187
16. Suspensão do Processo, 187
17. Condições para a Suspensão do Processo, 188
18. Revogação da Suspensão do Processo, 189

Capítulo 25. Lei de Proteção a Vítimas e Testemunhas –


Lei nº 9.807/99, 190
1. Art. 1º da Lei de Proteção a Vítimas e Testemunhas, 190
2. Arts. 2º e 3º da Lei de Proteção a Vítimas e
Testemunhas, 191
3. Arts. 4º, 5º e 7º da Lei de Proteção a Vítimas e
Testemunhas, 192
4. Arts. 9º, 10 e 11 da Lei de Proteção a Vítimas e
Testemunhas, 194
5. Delação Premiada, 195

Capítulo 26. Lei de Prisão Temporária (Lei nº 7.960/89), 196


1. Lei nº 7.960/89 – Prisão Temporária – Introdução, 196
2. Lei nº 7.960/89 – Prisão Temporária – Decretação e
Direitos do Preso, 197
3. Lei nº 7.960/89 – Prisão Temporária –
Inconstitucionalidade, Constitucionalidade e
Tortura, 198

Capítulo 27. Lei de Biossegurança – Lei nº 11.105/05, 200


1. Lei de Biossegurança, 200
2. Lei nº 9.434/97 – Remoção de Órgãos, 201
3. Lei nº 9.434/97 – Remoção de Órgãos – Crimes em
Espécie, 202
Capítulo 28. Estatuto do Idoso – Lei nº 10.741/03, 204
1. Introdução ao Estatuto do Idoso, 204
2. Idade – Sursis – Prescrição – Precedentes e Sujeito
Passivo, 205
3. Obrigações da Sociedade e Prioridades, 206

Capítulo 29. Lei de Trânsito (Lei nº 9.503/97), 207


1. Lei de Trânsito – Considerações Iniciais e Conceitos, 207
2. Adulteração de Sinal de Veículo Automotor, 208
3. Disposições Gerais dos Crimes de Trânsito, 208
4. Decisão Cautelar do Juiz, Reincidência e Multa
Reparatória, 209
5. Circunstâncias que Agravam as Penas e Fuga do Local
do Crime, 210
6. Crimes em Espécie – Arts. 302 a 305 do CTB, 211
7. Crimes em Espécie – Arts. 306 e 307 do CTB, 212
8. Crimes em Espécie – Arts. 308 a 312 do CTB, 213

Capítulo 30. Estatuto da Igualdade Racial e Racismo, 215


1. Estatuto da Igualdade Racial – Aspectos Introdutórios,
215
2. Estatuto da Igualdade Racial – Políticas Públicas e
Ações Afirmativas, 216
3. Tutela à Saúde da População Negra – Tutela do
Patrimônio Cultural, 217
4. Aspecto Cultural da População Negra, 219
5. Direito à Liberdade de Consciência, de Crença e ao
Exercício de Cultos Religiosos, 220
6. Acesso à Terra e à Moradia, 221
7. Direito ao Trabalho, 221
8. Disposições Finais, 222

Gabarito, 226
Capítulo 1
Lei de Drogas

1. Princípios Penais e Processuais Penais:


Princípio da Insignificância

Tem-se como conceito de crime que se trata de um fato típico, ilícito e culpável,
pela teoria tripartida do delito.
Para que haja um fato típico, faz-se necessário que exista uma conduta hu-
mana, um resultado, nexo causal entre a conduta e o resultado e, por fim, a
tipicidade, a qual poderá ser formal ou material.
Para que se entenda o princípio da insignificância, é preciso focar os estudos
na tipicidade material.
O sujeito, quando nasce, é portador de bens e direitos, como a vida e a dig-
nidade sexual, por exemplo. Quando o direito identifica os bens da vida mais
importantes, deverá protegê-los e, assim, este bem se torna um bem jurídico.
É preciso entender que, no âmbito da Lei de Drogas, o bem jurídico que deve
ser protegido é a saúde pública.
Se o sujeito, através de sua conduta, atinge o bem jurídico tutelado (saúde
pública), haverá tipicidade material. Se a conduta atingir o bem jurídico, mas de
forma insignificante, não há justificativa para que se mova toda a estrutura do
Poder Judiciário, sendo o fato atípico.
Recentemente, a Primeira Turma do STF (HC nº 110.475) reconheceu o princí-
pio da insignificância no crime de porte de drogas para uso próprio.

Exercício
1. Cabe o princípio da insignificância na Lei de Drogas?
16 Legislação Penal Especial

2. Princípio da Proporcionalidade

O princípio da proporcionalidade e sua sistematização servem para explicar algu-


mas situações jurídicas, dentre estas a questão da Lei de Drogas.
Quando se estuda o princípio da proporcionalidade, a primeira ideia que se
tem é a de relações proporcionais, ou seja, é preciso que haja comparação para
que se meça proporcionalidade.
Para a quantificação, é preciso que se meça a adequação, a necessidade e a
chamada proporcionalidade em sentido estrito.
Para que se diga que uma medida jurídica é proporcional, deve-se observar se
esta é a medida mais adequada.
Vislumbrada a questão da adequação, o próximo pilar é a questão da neces-
sidade. Há casos em que a prisão preventiva é juridicamente adequada, porém o
juiz pode entender pela falta de necessidade para tal. Assim, não havendo neces-
sidade, esta prisão se torna desproporcional.
Os principais crimes da Lei de Drogas são: porte de drogas para uso próprio,
disposto no art. 28, e tráfico de drogas, previsto no art. 33.
A proporcionalidade no Direito Penal tem um duplo viés. Se há o sentimento
mais humanitário em relação ao preso, proporcional é a pena que não seja ex-
cessiva. De outra forma, para o Ministério Público, deve ser observada uma pena
que não seja irrisória.
É preciso observar que, em um caso concreto, o juiz pode declarar a incons-
titucionalidade de um dispositivo, uma vez que o princípio da proporcionalidade
está previsto na Constituição Federal.

Exercício
2. Em que consiste o princípio da proporcionalidade na Lei de Drogas?

3. Princípio da Legalidade e Norma Penal em


Branco
O conceito de droga está na Lei de Drogas, mas trata-se de um conceito aberto. O
parágrafo único do art. 1º da referida lei dispõe: “Para fins desta Lei, consideram-
-se como drogas as substâncias ou os produtos capazes de causar dependência,
assim especificados em lei ou relacionados em listas atualizadas periodicamente
pelo Poder Executivo da União.”
Legislação Penal Especial 17

No art. 66, a lei estabelece: “Para fins do disposto no parágrafo único do art.
1º desta Lei, até que seja atualizada a terminologia da lista mencionada no precei-
to, denominam-se drogas substâncias entorpecentes, psicotrópicas, precursoras e
outras sob controle especial, da Portaria SVS/MS nº 344, de 12 de maio de 1998.”
É possível observar que a Portaria nº 344, de 1998, não é uma lei, e é apro-
vada pelo Poder Executivo. Tal Portaria consiste na lista que existe atualmente,
informando quais são as drogas existentes.
Faz-se necessário entender que o álcool é uma substância que causa depen-
dência, mas não está contido na lista.
No conceito de droga existe uma lei, porém, tal diploma não traz quais são as
drogas, tratando-se de uma norma penal em branco. Isso, porque é a Portaria nº
344, de 1998, que traz o rol acerca de quais sejam as substâncias consideradas
drogas.
Ainda, cumpre esclarecer que, caso o Poder Executivo tire uma substância do
rol daquelas que são consideradas drogas, ocorrerá o fenômeno denominado
abolitio criminis. Assim, tudo o que aconteceu da data para trás deixou de ser
crime.

Exercício
3. O fato de o conceito de drogas estar em um ato do Poder Executivo fere o
princípio da legalidade penal?

4. Princípio da Eficiência e Repressão ao Tráfico


de Drogas

Lei penal eficiente é uma lei penal que funcione. O Direito Penal tem sanções e,
por isso, é diferente dos outros ramos do Direito (ultima ratio).
A pena possui duas finalidades (macro): retributiva e preventiva. A prevenção
pode se dar de forma geral e especial. A prevenção geral seria um aviso a todos
e a especial é direcionada a determinado sujeito.
A prevenção geral negativa seria no sentido de impedir que as pessoas come-
tam crimes. De forma diversa, a prevenção positiva seria no sentido de reafirmar
a vigência da norma.
Em relação à eficiência da Lei de Drogas, é preciso observar que nenhuma lei
penal é eficiente. Isso, porque a lei penal é um mal necessário e atualmente prisão
não significa castigo, mas sim recrutamento para o crime organizado.
18 Legislação Penal Especial

Exercício
4. A busca pela eficiência admite a relativização de garantias constitucionais?

5. Conceito de Droga
O conceito objetivo e normativo de droga irá condicionar os limites da persecução
penal. Se droga é o objeto material dos crimes relacionados à droga, é preciso
que se conheça a amplitude deste conceito.
Não se pode mais utilizar a palavra tóxico, pois em 1976 surgiu a Lei de Dro-
gas anteriormente vigente e tal lei era conhecida como Lei de Tóxicos. Em 2006,
tal lei foi revogada expressamente pela Lei de Drogas atual (Lei nº 11.343/06).
O conceito de droga, portanto, é uma substância ou produto que cause de-
pendência. Ainda, o produto deve estar na Portaria SVS/MS nº 344, de 1998.
Trata-se de um conceito de natureza objetiva.
Se surgir uma droga nova, o Ministério da Saúde não precisará esperar o
Congresso aprovar uma lei para incluir esta droga no rol, bastando o Ministro da
Saúde incluir, em um ato normativo, a nova substância. Desta forma, nota-se que
aparentemente foi proposital a utilização de norma penal em branco.
O que não é permitido, em hipótese alguma, é o Poder Judiciário alterar esse
conceito. Isso é chamado pela doutrina constitucionalista de ativismo judicial.
Quem dá a última palavra se o ativismo judicial é constitucional ou não é o Su-
premo Tribunal Federal.
O conceito de drogas está previsto no parágrafo único do art. 1º e art. 66 da
Lei nº 11.343/06 (Lei de Drogas). Droga é a soma de uma substância ou produ-
to que cause dependência e que esteja na Portaria nº 344/98 do Ministério da
Saúde.

Exercício
5. O conceito de droga pode ser ampliado para receber novas substâncias?

6. Art. 28
O art. 28 da Lei de Drogas possui cinco verbos (condutas típicas), que inserem a
pessoa que praticou um dos verbos na tipificação deste artigo. É considerado um
crime de menor potencial ofensivo e, por isso, a competência para julgamento é
do Juizado Especial Criminal.
Legislação Penal Especial 19

É preciso observar que usar droga não é crime. Para tal afirmativa há explicações.
A primeira é que no dispositivo aqui estudado há cinco condutas: adquirir,
guardar, ter em depósito, transportar ou trazer consigo. É possível observar que
o verbo usar não está previsto no art. 28 e, por isso, não é considerado crime.
Na bioética existe um princípio chamado de princípio da autonomia, ou seja, o
sujeito tem autonomia para fazer o que quiser com o corpo, desde que não preju-
dique ninguém. Ainda, pelo princípio da alteridade, a conduta de alguém só será
penalmente reprovável se prejudicar terceiros.
É preciso observar a diferença entre guardar e ter em depósito. Guardar é
armazenar a droga para terceiros. De forma diversa, ter em depósito é ter a droga
para uso próprio. Já transportar é levar, por um meio de transporte, a droga de
um ponto para outro. Adquirir é buscar a droga por meio oneroso ou gratuito.
Se a quantidade da droga que a pessoa traz consigo for pequena, esta não
poderá ser presa em flagrante. Desta forma, assinará termo circunstanciado e
será apresentada imediatamente ao Juizado Especial Criminal.
Ressalte-se que, se ficar caracterizado que o trazer consigo não era para con-
sumo pessoal, o sujeito é enquadrado no tráfico de drogas, sendo lavrado auto
de prisão em flagrante. Faz-se necessário lembrar que o crime de tráfico de dro-
gas é equiparado a crime hediondo.

7. Natureza Jurídica do Art. 28


O art. 28 da Lei de Drogas traz uma infração penal, mas há uma forte discussão
doutrinária a respeito deste dispositivo. Nota-se que este artigo possui uma carga
de reprovabilidade diferente dos demais crimes. Analisando-se formalmente, se
trata de um crime, mas há diferenciação acerca das sanções.
A primeira sanção é a advertência sobre os malefícios da droga. A segunda é
a prestação de serviços à comunidade, preferencialmente direcionados à recupe-
ração de usuários. A terceira é a medida educativa de comparecimento a cursos
e programas educativos.
Alguns doutrinadores entenderam que houve a descriminalização do porte
para uso, porém esta tese foi rechaçada pelo STF. A segunda tese trouxe que se
trata de uma infração penal sui generis, ou seja, trata-se de um crime, mas sua
pena é diferente. Tal tese também não emplacou. Outra tese fala a respeito da
despenalização do art. 28, ou seja, houve uma substituição na carga repressiva
prisional que existia na lei anterior.
É preciso observar que o fato de as sanções do art. 28 não caracterizar pena de re-
clusão, detenção ou prisão simples, não significa que não se trate de um crime. Mes-
mo sendo uma infração penal de menor potencial ofensivo, é uma infração penal.
20 Legislação Penal Especial

8. Sanções

O legislador optou por continuar sancionando criminalmente o porte de drogas


para uso próprio, sendo as sanções escolhidas para a repressão a este crime. A
pessoa não será presa, pois não há previsão de detenção, de reclusão e de prisão
simples.
A primeira pena será a advertência sobre os malefícios que a droga causa ao
organismo da pessoa. Tal advertência será feita pelo juiz.
A segunda pena é a prestação de serviços comunitários, preferencialmente
voltados à recuperação de pessoas dependentes.
A terceira pena é o comparecimento a programas educativos. O sujeito é con-
denado a comparecer em um determinado local para assistir palestras sobre os
malefícios das drogas. Trata-se de comparecimento obrigatório, sendo assinado
termo de presença, que será juntado ao processo, computando ao final o cumpri-
mento da pena e a extinção da punibilidade.
Ressalte-se que a lei dá balizas, que podem ir de cinco a 10 meses.
Se o sujeito faltar no programa educativo ou não prestar o serviço comu-
nitário, receberá uma admoestação verbal do juiz ou uma multa de 40 a 100
dias-multa, com base no valor do saláriomínimo. Ainda, se o sujeito não pagar a
multa, também não será preso, ou seja, independentemente de respeitar-se ou
não a pena aplicada, o indivíduo nunca será preso.
Em relação à prescrição, trabalha-se com a prescrição de dois anos. Trata-se da
prescrição de pretensão punitiva e da prescrição da pretensão executória. Assim,
se o Estado, entre o recebimento da denúncia e a aplicação da pena demorar
mais de dois anos, o crime está prescrito.

9. Aspectos Constitucionais

O tráfico de drogas estava previsto no art. 12 da Lei de Tóxicos (Lei nº 6.368) e


agora está previsto no art. 33 da nova Lei de Drogas (Lei nº 11.343/06).
É preciso observar a planificação constitucional do tráfico de drogas. Sabe-se
que há diferentes níveis de hierarquia de normas no mundo.
Hans Kelsen desenvolveu a Teoria Pura do Direito. Sua grande contribuição foi
desenvolver uma teoria segundo a qual há uma hierarquia das normas, ou seja,
existem normas que valem mais do que as outras.
Na pirâmide de Hans Kelsen, tem-se primeiramente a norma fundamental. Em
seguida se tem a Constituição da República, seguida das Leis Complementares,
Legislação Penal Especial 21

depois das Leis Ordinárias e, por fim, as normas inferiores. Em regra, a Constitui-
ção da República vale mais do que a Lei Ordinária.
O art. 5º, XLII, da CRFB/88 dispõe: “a lei considerará crimes inafiançáveis e
insuscetíveis de graça ou anistia a prática da tortura, o tráfico ilícito de entorpe-
centes e drogas afins, o terrorismo e os definidos como crimes hediondos, por
eles respondendo os mandantes, os executores e os que, podendo evitá-los, se
omitirem.”
A Lei de Crimes Hediondos também define que o traficante não tem direito
a indulto. Ressalte-se que o tráfico de drogas é inafiançável, mas é prescritível.
Dispõe o art. 5º, LI, da Constituição: “nenhum brasileiro será extraditado, sal-
vo o naturalizado, em caso de crime comum, praticado antes da naturalização, ou
de comprovado envolvimento em tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins,
na forma da lei.” Nota-se que o brasileiro pode ser extraditado, se for naturaliza-
do e se tiver envolvimento com o tráfico ilícito de drogas.
A terceira menção diz respeito à competência da polícia federal. Traz o art.
144, § 1º: “A polícia federal, instituída por lei como órgão permanente, organiza-
do e mantido pela União e estruturado em carreira, destina-se a: (...) II – prevenir
e reprimir o tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins, o contrabando e o
descaminho, sem prejuízo da ação fazendária e de outros órgãos públicos nas
respectivas áreas de competência.”
Faz-se necessário entender que a polícia federal somente é competente para
investigar o tráfico de drogas se este for transnacional, ou seja, se houver o en-
volvimento de pessoas de dois ou mais países.
Ainda, dispõe o art. 243 da CRFB/88: “As glebas de qualquer região do País
onde forem localizadas culturas ilegais de plantas psicotrópicas serão imediata-
mente expropriadas e especificamente destinadas ao assentamento de colonos,
para o cultivo de produtos alimentícios e medicamentosos, sem qualquer indeni-
zação ao proprietário e sem prejuízo de outras sanções previstas em lei.”

Exercício
6. Se a pessoa for flagrada carregando semente de planta de drogas, pratica
tráfico?

10. Art. 33
Conforme visto anteriormente, como conceito de drogas tem-se que é substância
ou produto que cause dependência, e que esteja presente na Portaria nº 344 do
Ministério da Saúde.
22 Legislação Penal Especial

O tipo penal do art. 33 possui 18 verbos. Dispõe o art. referido: “Art. 33.
Importar, exportar, remeter, preparar, produzir, fabricar, adquirir, vender, expor à
venda, oferecer, ter em depósito, transportar, trazer consigo, guardar, prescrever,
ministrar, entregar a consumo ou fornecer drogas, ainda que gratuitamente, sem
autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar: Pena
– reclusão de 5 (cinco) a 15 (quinze) anos e pagamento de 500 (quinhentos) a
1.500 (mil e quinhentos) dias-multa.”
Em relação à questão do importar e exportar, por certo não é um desembara-
ço alfandegário e aduaneiro oficial. Tem-se aqui a competência da Justiça Federal.
Ainda, outra peculiaridade diz respeito aos verbos prescrever e ministrar. O
crime próprio é aquele que só pode ser praticado por um determinado e específi-
co grupo de pessoas. Quem tem legitimidade para prescrever drogas é o médico,
devendo ser incluído aqui também o dentista. Na modalidade ministrar, além do
médico e do dentista, tem-se o farmacêutico. Ressalte-se que o balconista da
farmácia, se receber como atribuição do farmacêutico ministrar drogas, também
entraria no rol de quem pode ministrar drogas.
Quanto aos verbos ter em depósito, transportar, trazer consigo, guardar e ad-
quirir, estes são os verbos também do art. 28 da Lei de Drogas. Assim, são verbos
de intersecção entre os arts. 28 e 33 da referida lei.
Se o dolo da pessoa é praticar esses verbos para consumo, enquadra-se no
art. 28. Todavia, se o dolo da pessoa é praticar esses verbos, mas não para consu-
mo pessoal, enquadra-se no art. 33.
Sendo a pena mínima de cinco anos e a pena máxima em abstrato de 15 anos,
não há problema algum com a possibilidade de prisão preventiva, mesmo sendo
réu primário. O art. 313, I, do Código de Processo Penal veda a prisão preventi-
va, se a pena for igual a quatro anos no máximo e o réu seja primário. É preciso
observar que sempre se trabalha com a pena máxima em abstrato para saber se
cabe ou não prisão preventiva.
Outro ponto importante diz respeito ao crime impossível. A Súmula nº 145
do STF estabelece: “Não há crime, quando a preparação do flagrante pela polícia
torna impossível a sua consumação.”
Se a venda provocada não é crime, já que a consumação pela venda é im-
possível, ou seja, a pessoa vendeu porque foi estimulada a vender e não porque
quis, é impossível que o crime se consume. Faz-se necessário observar aqui que a
venda provocada não é crime, mas a pessoa pode ser enquadrada no verbo trazer
consigo, já que este verbo estava consumado.
Trata-se de um tipo misto alternativo, ou seja, tanto faz se o agente praticou
um ou mais verbos do tipo penal, pois a pena será a mesma.
Legislação Penal Especial 23

No momento em que o juiz proferir a sentença (art. 68 do CP), leva-se em


consideração a quantidade de droga, a conduta social e a personalidade do agen-
te, aumentando-se a pena-base.

Exercício
7. A venda de droga provocada é crime?

11. Associação para o Tráfico

Quando se fala em associar-se para o tráfico não está se falando em tráfico.


Há uma grande diferença entre associar-se e os 18 verbos do art. 33 da Lei de
Drogas.
O tráfico de drogas está previsto no art. 33 da lei aqui estudada e a associação
para o tráfico está prevista no art. 35, portanto, são crimes autônomos. Nota-se
que se associação para o tráfico não é tráfico, pode haver o crime de associação
ao tráfico antes que o tráfico aconteça. É preciso observar que o ato de associa-
ção, antes mesmo do tráfico em si, já constitui crime.
Desta forma, se o sujeito associar-se a alguém para, no futuro, cometer o
tráfico e não praticar o tráfico, ainda assim responderá pelo crime de associação
ao tráfico, pois este crime independe do tráfico.
Para se falar em crime de associação ao tráfico é preciso de, no mínimo, duas
pessoas. É preciso observar que ainda que uma dessas pessoas seja menor de
idade o crime estará caracterizado. Se uma dessas pessoas sofrer doença mental,
também está caracterizado o tráfico.
Nota-se que basta que apenas um dos indivíduos seja maior e capaz e tenha
pleno discernimento do objetivo da associação, para que se caracterize o requisi-
to subjetivo do crime de associação para o tráfico.
Outro relevante ponto é que o crime de associação para o tráfico não é equi-
parado a crime hediondo. São equiparados a hediondo apenas o tráfico, terroris-
mo e tortura. É possível observar que o risco para a saúde pública, no crime de
associação para o tráfico é menor do que o crime de tráfico em si.
No art. 35 da Lei de Drogas, o verbo é associar-se, ou seja, o simples encontro
entre duas pessoas, contudo, o encontro entre as pessoas não pode ser acidental,
ocasional.
O crime de associação para o tráfico não é equiparado a crime hediondo, uma
vez que não está no rol dos delitos equiparados a hediondos.
24 Legislação Penal Especial

É necessário observar, ainda, que se o agente, acidentalmente, resolve praticar


o tráfico de drogas com outra pessoa, não haverá associação para o tráfico, mas
sim concurso de pessoas.
Por fim, é preciso entender que quem cometeu o crime de associação ao trá-
fico poderá progredir de regime com 1/6 da pena cumprida.

12. Tráfico Privilegiado

O art. 33, § 4º, da Lei de Drogas trata do tráfico privilegiado. Estabelece o refe-
rido dispositivo: “Nos delitos definidos no caput e no § 1º deste artigo, as penas
poderão ser reduzidas de um sexto a dois terços, desde que o agente seja primá-
rio, de bons antecedentes, não se dedique às atividades criminosas nem integre
organização criminosa.”
Trata-se de previsão legal que beneficia a pessoa condenada por tráfico de
drogas, por força de seu comportamento pessoal e qualidades subjetivas.
Havia uma discussão sobre o trecho “vedada a conversão em penas restritivas
de direitos”. Ocorre que há uma decisão do STF (HC nº 97.256, STF), na qual
foi declarada a inconstitucionalidade deste trecho. A razão jurídica para esta
decisão é que esta expressão retirou do juiz a possibilidade de decisão nos casos
concretos.
Sabe-se que o Senado deve fazer controle político da decisão, editando Re-
solução. De tal forma, o Senado Federal riscou a expressão da lei através da
Resolução nº 05.
Com isso, existe a possibilidade hoje, no Brasil, de o traficante condenado
cumprir apenas uma pena restritiva de direitos, em determinados casos: se o réu
for primário, tiver bons antecedentes, se não se dedicar às atividades criminosas
e se não integrar organização criminosa.
Uma crítica feita é no sentido de que é difícil provar na prática que a pessoa
integre organização criminosa, sendo esta uma prova que precisa ser feita pela
acusação. É possível provar através de testemunhas, tatuagens, prova documen-
tal, mas exige esforço descomunal da acusação.

13. Inquérito Policial

Algumas leis penais especiais possuem momentos processuais que lhe diferen-
ciam do Código de Processo Penal. No CPP, considera-se como rito comum o rito
comum ordinário, sumário e sumaríssimo, contudo, há procedimentos especiais.
Legislação Penal Especial 25

O art. 48 traz uma importante regra e estabelece em seu texto: “O procedi-


mento relativo aos processos por crimes definidos neste Título rege-se pelo dis-
posto neste Capítulo, aplicando-se, subsidiariamente, as disposições do Código
de Processo Penal e da Lei de Execução Penal.”
Tal dispositivo, em seus parágrafos, remete ao art. 28, ou seja, traz a compe-
tência do Juizado Especial Criminal.
A primeira regra trazida pelo art. 49 diz respeito à Lei nº 9.807/99 (lei de pro-
teção às vítimas e testemunhas). Existe esta menção, pois referido diploma legal
visa proteger a pessoa que denunciar um traficante de drogas.
Outro importante ponto é que, havendo a prisão em flagrante, o delegado
comunicará o juiz e dará vista ao Ministério Público em 24 horas.
O primeiro laudo, realizado para saber se a substância é ou não droga, é cha-
mado de laudo de constatação, servindo para analisar a natureza e a quantidade
da droga (exemplo: 10 kg de cocaína). É preciso ressaltar que droga deve estar
dentro da Portaria nº 344/98 do Ministério da Saúde.
Se o indiciado estiver preso, o inquérito policial será encerrado em 30 dias. Se
o indiciado estiver solto, o inquérito policial será encerrado em 90 dias. Encerran-
do-se o prazo, pode o delegado pedir ao juiz, devendo ser ouvido o Ministério
Público, a prorrogação do prazo por igual período, nos termos do art. 51, pará-
grafo único.
Faz-se necessário entender que quando se fala em tráfico de drogas, fala-se
em certa organização de quem a pratica e, por isso, a investigação é diferenciada.
O prazo da prisão temporária para os crimes hediondos e equiparados é de
30 dias, prorrogáveis por mais 30, já que é uma investigação que necessita de
apuração de maiores detalhes.
Observe-se que há três tipos de investigação: aquela feita pelo Promotor de
Justiça diretamente, pelo Parlamentar investigando através de uma CPI e pelo
delegado de polícia e sua equipe.

Exercício
8. Como funciona a questão pericial na investigação preliminar?

14. Instrumentos Específicos de Investigação


A Lei de Drogas cuida de todos os crimes referentes a esta lei, mas é possível que
para a prática do tráfico de drogas, por exemplo, seja constituída uma organiza-
ção criminosa. Assim, é preciso estudar também a lei que trata do assunto.
26 Legislação Penal Especial

Os dois instrumentos específicos de investigação são a infiltração de agentes


e a chamada não atuação que, pela doutrina, recebe o nome de ação controlada.
A infiltração de agentes ocorre quando um policial especializado, bem trei-
nado, finge ser um criminoso e passa a fazer parte de um bando ou quadrilha,
praticando atos criminosos.
De acordo com o disposto na nova lei, somente poderá ocorrer a infiltração
de agentes caso haja indícios de organização criminosa. Ainda, a prova somente
pode ser obtida desta forma. Nota-se que a infiltração é um método específico de
investigação, mas é subsidiário.
O prazo máximo de duração da infiltração de agentes é de seis meses, poden-
do ser prorrogado, desde que seja justificado.
Em relação à não atuação, esta deve ocorrer em território brasileiro. No entan-
to, a nova Lei do Crime Organizado dispõe em seu art. 9º: “Se a ação controlada
envolver transposição de fronteiras, o retardamento da intervenção policial ou
administrativa somente poderá ocorrer com a cooperação das autoridades dos
países que figurem como provável itinerário ou destino do investigado, de modo
a reduzir os riscos de fuga e extravio do produto, objeto, instrumento ou proveito
do crime.”
O art. 13 da Lei nº 12.850/13 estabelece: “O agente que não guardar, em sua
atuação, a devida proporcionalidade com a finalidade da investigação, responde-
rá pelos excessos praticados.”
Dispõe o parágrafo único: “Não é punível, no âmbito da infiltração, a prática
de crime pelo agente infiltrado no curso da investigação, quando inexigível con-
duta diversa.”
Nota-se que aqui se está diante de uma causa legal de inexigibilidade de
conduta diversa.

Exercício
9. É considerado um método ilegal de investigação:
a) Ação controlada.
b) Infiltração de agentes.
c) Interceptação telefônica.
d) Tortura para liberar vítima de sequestro.

15. Rito Especial


Concluído o inquérito policial este será encaminhado para o Ministério Público,
terá o prazo de 10 dias para pedir novas diligências, requerer o arquivamento ou
oferecer a denúncia.
Legislação Penal Especial 27

O juiz, ao invés de receber a denúncia, notifica o acusado que, por sua vez,
apresentará sua defesa prévia no prazo de 10 dias. Se não apresentar a defesa
prévia, o juiz nomeará um defensor público para fazê-lo, também em 10 dias.
Depois de apresentada a defesa, o juiz decide em cinco dias, podendo pe-
dir diligências. Aqui existe uma peculiaridade, pois no rito comum, concluído
o inquérito policial, o Ministério Público oferece a denúncia e na Lei de Drogas
notifica-se o acusado para que apresente defesa e o juiz decida se recebe ou não
a denúncia.
Nota-se que no rito comum, o juiz nem se oportunizará para a defesa a chan-
ce de haver a argumentação para o não recebimento da denúncia. Desta forma,
a Lei de Drogas é mais favorável.
Ainda, a defesa prévia, prevista no art. 396 do Código de Processo Penal não
é a mesma utilizada na Lei de Drogas, e os argumentos podem ser os mesmos.
No rito especial da Lei de Drogas, busca-se o que está previsto no art. 397 do
Código de Processo Penal, que é conhecida como absolvição sumária.
No rito especial da Lei de Drogas, se a argumentação não for aceita, o juiz
receberá a denúncia e marcará a audiência de instrução e julgamento. No rito
comum, se a argumentação não for aceita, o juiz marca a audiência de instrução
e julgamento.
Outra especificidade da Lei de Drogas diz respeito ao interrogatório do acusa-
do. A partir de 2008 o interrogatório deixou de ser um simples meio de prova (era
o primeiro ato da instrução). Após a Lei nº 11.719/08, o interrogatório tornou-se o
último ato da audiência. No rito especial da Lei de Drogas, de 2006 a 2008, o inter-
rogatório também era o primeiro ato da audiência e atualmente continua sendo.

16. Prisão e Liberdade Provisória

A Lei de Drogas, em seu art. 44 veda a concessão de liberdade provisória para tra-
ficantes de drogas. Contudo, esta questão foi decidida pelo STF (HC nº 104.339,
STF) e o Plenário concedeu a ordem de habeas corpus a um homem preso por
tráfico de drogas para que este respondesse em liberdade. Assim, houve a decla-
ração de inconstitucionalidade do art. 44 da Lei de Drogas, que proibia a liberda-
de provisória para traficantes.
A Lei nº 12.403/11 modificou a realidade das prisões no país. A alma desta
lei traz as chamadas medidas cautelares processuais penais. Tais medidas, para
serem aplicadas, precisam da análise judicial de adequação, necessidade, propor-
cionalidade e subsidiariedade. Quem analisa qual cautelar deve ser aplicada ao
caso concreto será o juiz.
28 Legislação Penal Especial

É preciso saber que o STF entendeu que o legislador estava retirando do juiz
sua atribuição de escolha da medida cautelar mais adequada e necessária e, as-
sim, neste ponto o art. 44 é inconstitucional. Desta forma, permite-se a conces-
são de liberdade provisória para traficantes de drogas.
A liberdade provisória pode ser cumulada com outras medidas cautelares pre-
vistas nos arts. 319 e 320 do Código de Processo Penal.
Nota-se que o art. 44 da Lei de Drogas trazia um engessamento legislativo,
impedindo a liberdade provisória e o STF derrubou a proibição legal. Assim, a
partir deste momento, foi devolvida ao magistrado a possibilidade de utilizar a
liberdade provisória com as novas cautelares.
Com a decisão proferida pelo Supremo Tribunal Federal, o pedido vai ao juiz,
que deverá dizer qual a medida cautelar adequada e necessária. Ressalte-se que,
em nome do princípio da presunção da inocência e do princípio da individualiza-
ção da pena, houve essa importante decisão do STF.

Exercício
10. Cabe liberdade provisória para o traficante de drogas?
Capítulo 2
Lei dos Crimes Hediondos

1. Contexto Histórico e Análise Crítica sobre a


Lei dos Crimes Hediondos
A Lei dos Crimes Hediondos surgiu depois que determinada infração penal foi
praticada. Ocorreu o sequestro de um empresário famoso, que causou forte co-
moção nacional. Assim, para responder àquele crime específico, o Congresso Na-
cional fez nascer a chamada Lei dos Crimes Hediondos.
Algum tempo depois, ocorreu o homicídio da atriz Daniella Perez e, até aquele
momento, o homicídio qualificado não era hediondo.
Em seguida, a falsificação de medicamentos também entrou no rol dos crimes
considerados hediondos.
A Lei dos Crimes Hediondos surgiu com uma série de restrições, o que hoje
está muito relativizado.
Faz-se necessário observar que quando a Lei dos Crimes Hediondos entrou em
vigor, trazia que o regime de cumprimento da pena de prisão seria integralmente
fechado.
Ainda, a prisão temporária que, em regra, dura cinco dias, prorrogáveis por
mais cinco, na Lei dos Crimes Hediondos há previsão de 30 dias prorrogáveis por
mais 30.
Ressalte-se que até os dias atuais não há conceito do que seja crime hediondo.
No entanto, ainda que não haja conceito de crime hediondo, a Lei nº 8.072/90
é aplicada.
Se no plano histórico esta lei surgiu com uma missão, no plano epistemoló-
gico nem todos são unânimes. Isso por que, em 1990 o Brasil possuía 90.000
pessoas presas. Hoje o país tem 500.000 presos.
Em respeito aos princípios constitucionais, a Lei dos Crimes Hediondos foi, por
exemplo, declarada inconstitucional para o regime integral fechado. Entendeu o
30 Legislação Penal Especial

STF que tal fato feria a individualização da pena, uma vez que não é o legislador
quem escolhe qual é a pena e o regime, mas sim o juiz.

2. Lei dos Crimes Hediondos – Aspectos


Constitucionais

Existe uma expressão jurídica chamada “mandato expresso de criminalização”. A


Constituição Federal traz em seu bojo a previsão de crimes hediondos.
O art. 5º, XLIII, da Constituição da República Federativa do Brasil dispõe:
“Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza,
garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilida-
de do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos
termos seguintes:
(...)
XLIII – a lei considerará crimes inafiançáveis e insuscetíveis de graça ou anistia
a prática da tortura, o tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins, o terrorismo
e os definidos como crimes hediondos, por eles respondendo os mandantes, os
executores e os que, podendo evitá-los, se omitirem;”
Sob o ponto de vista de natureza jurídica, é preciso separar em dois grupos:
crime hediondo de um lado e crimes equiparados de outro.
Os crimes hediondos estão previstos no art. 1º da Lei nº 8.072/90 e os crimes
equiparados estão fora desta lei (Lei de Tortura, Lei de Drogas e o art. 20 da Lei
de Segurança Nacional, que traz os atos de terrorismo).
Ressalte-se que respondem os mandantes, os executores e aqueles que, po-
dendo evitar o crime, se omitirem.
Nota-se que a Carta Magna proíbe o direito à fiança, o direito à graça e tam-
bém à anistia.
Fiança é uma medida cautelar de natureza pessoal consistente no recolhi-
mento de um valor, durante a investigação ou processo, para que a pessoa possa
responder o processo em liberdade.

3. Sistemas para Aferição dos Crimes Hediondos

É preciso entender os sistemas para aferição dos crimes hediondos, ou seja, veri-
ficar qual sistema será utilizado para identificar um crime hediondo.
Legislação Penal Especial 31

Há três sistemas possíveis. O primeiro é o sistema legal ou rígido, em que a


própria lei enumera quais são os crimes hediondos.
O art. 1º da Lei dos Crimes Hediondos tem uma peculiaridade. Isso por que,
o rol apresentado é taxativo, ou seja, só é hediondo aquilo que está neste artigo.
O tráfico de drogas, o terrorismo e a tortura são crimes equiparados a hediondos.
Assim, pelo critério legal ou rígido, o rol é taxativo.
O segundo sistema é o judicial ou flexível. Aqui o juiz escolherá no caso con-
creto qual crime é hediondo e qual não é. Neste sentido, nota-se que em tal
sistema não há rol na lei, o juiz trabalha no caso concreto.
O terceiro é o sistema misto ou híbrido. Aqui há um rol previsto na lei, porém
este rol é exemplificativo. Entretanto, nada impede que o juiz rotule algumas
condutas como hediondas, ainda que não estejam no rol.
Por todo o observado, é possível perceber que o Brasil escolheu o sistema legal
ou rígido.
O sistema legal traz segurança jurídica, sendo este um ponto positivo.

4. Rol dos Crimes Hediondos

A Lei dos Crimes Hediondos (Lei nº 8.072/90) traz em seu art. 1º o seguinte rol:
“Art. 1º São considerados hediondos os seguintes crimes, todos tipificados no
Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 – Código Penal, consumados
ou tentados:
I – homicídio (art. 121), quando praticado em atividade típica de grupo de
extermínio, ainda que cometido por um só agente, e homicídio qualificado (art.
121, § 2º, I, II, III, IV e V);
II – latrocínio (art. 157, § 3º, in fine);
III – extorsão qualificada pela morte (art. 158, § 2º);
IV – extorsão mediante sequestro e na forma qualificada (art. 159, caput, e
§§ 1º, 2º e 3º);
V – estupro (art. 213, caput e §§ 1º e 2º);
VI – estupro de vulnerável (art. 217-A, caput e §§ 1º, 2º, 3º e 4º);
VII – epidemia com resultado morte (art. 267, § 1º).
VII-A – (VETADO)
VII-B – falsificação, corrupção, adulteração ou alteração de produto destinado
a fins terapêuticos ou medicinais (art. 273, caput e § 1º, § 1º-A e § 1º-B, com a
redação dada pela Lei nº 9.677, de 2 de julho de 1998).”
32 Legislação Penal Especial

Latrocínio é um crime contra o patrimônio e, portanto, não vai a júri popular.


Tal crime ocorre quando a pessoa rouba e mata o sujeito.
Também no âmbito dos crimes contra o patrimônio há também o crime de
extorsão qualificada pela morte e a extorsão mediante sequestro e na forma qua-
lificada.
O estupro é um crime contra a dignidade sexual, tendo ocorrido mudanças.
Tal crime pode ser cometido por homem ou mulher e a vítima também pode ser
homem ou mulher.
O crime de epidemia com resultado morte é aquele em que o sujeito, de
forma dolosa, busca transmitir na sociedade um vírus ou uma doença, algo
patogênico.
O parágrafo único do referido dispositivo estabelece em sua redação: “Pa-
rágrafo único. Considera-se também hediondo o crime de genocídio previsto
nos arts. 1º, 2º e 3º da Lei nº 2.889, de 1º de outubro de 1956, tentado ou
consumado.”
Genocídio é a prática de atos destinados a eliminar um grupo determinado
de pessoas.

5. Crimes Equiparados aos Hediondos –


Terrorismo e Tortura

Em matéria de lei, o que havia acerca do terrorismo estava apenas no art. 20 da


Lei de Segurança Nacional. Ainda assim, tal dispositivo não trazia com muita cla-
reza o conceito de terrorismo, já que traz a seguinte redação:
“Art. 20. Devastar, saquear, extorquir, roubar, sequestrar, manter em cárcere
privado, incendiar, depredar, provocar explosão, praticar atentado pessoal ou atos
de terrorismo, por inconformismo político ou para obtenção de fundos destina-
dos à manutenção de organizações políticas clandestinas ou subversivas.
Pena: reclusão, de 3 a 10 anos.”
Por conta da omissão legislativa em informar o que seria ato de terrorismo,
surgiu uma briga na doutrina. De um lado o professor Antônio Scarance Fernan-
des defendeu que o terrorismo está previsto no Brasil no art. 20, acima referido.
De outro lado, Alberto Silva Franco entende que a lei somente diz atos de terro-
rismo, mas não traz quais são ou o que é, havendo desrespeito ao princípio da
taxatividade.
O crime de tortura no Brasil está na Lei nº 9.455/97, que traz em seu art. 1º
a seguinte redação:
Legislação Penal Especial 33

“Art. 1º Constitui crime de tortura:


I – constranger alguém com emprego de violência ou grave ameaça, causan-
do-lhe sofrimento físico ou mental:
a) com o fim de obter informação, declaração ou confissão da vítima ou de
terceira pessoa;
b) para provocar ação ou omissão de natureza criminosa;
c) em razão de discriminação racial ou religiosa;
II – submeter alguém, sob sua guarda, poder ou autoridade, com emprego de
violência ou grave ameaça, a intenso sofrimento físico ou mental, como forma de
aplicar castigo pessoal ou medida de caráter preventivo.
Pena – reclusão, de dois a oito anos.”

6. Crimes Equiparados aos Hediondos – Tráfico


de Drogas

Desde 2006 até os dias atuais, quando a Lei de Drogas surgiu em um contexto
repressor e hoje foi relativizada pela jurisprudência, há um abrandamento da si-
tuação do traficante. Neste abrandamento, analisa-se se o crime continua sendo
hediondo.
O art. 44 da Lei nº 11.343/06 dispõe:
“Art. 44. Os crimes previstos nos arts. 33, caput e § 1º, e 34 a 37 desta Lei são
inafiançáveis e insuscetíveis de sursis, graça, indulto, anistia e liberdade provisória,
vedada a conversão de suas penas em restritivas de direitos.”
Com o tempo, algumas destas proibições caíram. Atualmente pode ocorrer a
conversão da pena de prisão em penas restritivas de direitos, bem como liberdade
provisória.
Sursis é suspensão condicional da pena; o sujeito recebe uma pena privativa
de liberdade de até dois anos de reclusão e o juiz suspende o cumprimento da
pena para que sejam cumpridos alguns requisitos. Assim, sendo cumpridos os
requisitos, a pena é extinta.
Indulto é um benefício de execução penal para os condenados, concedido
pelo Poder Executivo.
O tráfico privilegiado de drogas traz uma situação em que a quantidade de
drogas é pequena ou o sujeito é primário ou não integra nenhuma organização
criminosa. Este indivíduo pode receber uma diminuição significativa de sua pena.
Indaga-se se este crime continua sendo hediondo e sobre o assunto há duas
34 Legislação Penal Especial

correntes. A primeira entende que continua sendo hediondo, pois todo tráfico
de drogas é equiparado a hediondo (corrente majoritária). A segunda corrente
entende que todo delito privilegiado não pode ser hediondo. Desta forma, é pos-
sível observar que o privilégio não exclui a hediondez do delito.
O art. 35 da Lei de Drogas dispõe acerca da associação para o tráfico:
“Art. 35. Associarem-se duas ou mais pessoas para o fim de praticar, reitera-
damente ou não, qualquer dos crimes previstos nos arts. 33, caput e § 1º, e 34
desta Lei:
Pena – reclusão, de 3 (três) a 10 (dez) anos, e pagamento de 700 (setecentos)
a 1.200 (mil e duzentos) dias-multa.”
Nota-se que o simples fato de se associarem para cometimento do tráfico já
constitui crime. Tal infração não constitui crime hediondo ou equiparado a he-
diondo, uma vez que associação para o tráfico não é tráfico.

7. Consumação, Tentativa e os Crimes


Hediondos

O art. 1º da Lei dos Crimes Hediondos traz que é hediondo o crime tentado ou
consumado, trazendo em seguida o rol das infrações consideradas hediondas.
Existem os denominados bens da vida, como dignidade sexual, patrimônio, liber-
dade de ir e vir, direito a uma Administração Pública com moralidade, dentre outros.
Observe-se que é preciso que haja um bem da vida para que o Direito Penal
possa protegê-lo.
Se a conduta atinge a esfera do bem jurídico, o crime está consumado. Exem-
plo: o bem jurídico protegido no tráfico de drogas é a saúde pública.
Na tentativa também existe um bem jurídico protegido pelo Direito, mas a con-
duta não atinge este bem jurídico por circunstâncias alheias à vontade do agente.
Para que se verifique se cabe a tentativa, havendo uma conduta passível de
fragmentação é possível descobrir se o crime é tentado ou não. Exemplo: matar
alguém. É possível fragmentar os atos executórios.
Um crime que não admite a tentativa é o de dirigir embriagado.

8. Vedações Constitucionais
De acordo com o texto constitucional, os crimes hediondos e equiparados são
insuscetíveis de fiança.
Legislação Penal Especial 35

A Lei nº 12.403/11, que trata da prisão cautelar e medidas cautelares revolu-


cionou o sistema de medidas cautelares, inclusive a fiança. Antes desta lei, quan-
do a pessoa era presa em flagrante, seu advogado tentava conseguir liberdade
provisória em caso de flagrante formalmente em ordem. Se o flagrante fosse
ilegal, o meio seria relaxamento do flagrante.
A liberdade provisória é uma medida cautelar, permitindo que o sujeito res-
ponda o processo criminal em liberdade.
Antes da lei acima referida, a liberdade provisória poderia ser com ou sem
fiança. Depois de vigente a lei, a liberdade provisória pode ser concedida com 10
medidas cautelares, sendo a fiança apenas uma delas.
A Constituição Federal continua com sua redação no sentido de que não cabe
fiança para crimes hediondos, mas acerca das outras cautelares não faz menção
alguma. Assim, por respeito ao princípio da legalidade, tem cabimento as demais
medidas cautelares diversas da fiança, como é o caso da monitoração eletrônica,
por exemplo.
Quanto ao tráfico, o art. 44 da Lei de Drogas dispõe que tal crime é insusce-
tível de diversos benefícios, dentre estes a liberdade provisória. Desta forma, se o
dispositivo traz que não cabe liberdade provisória para traficante, não cabe com
ou sem medidas cautelares.

9. Liberdade Provisória – Lei dos Crimes


Hediondos e Lei de Drogas

A Lei dos Crimes Hediondos, em seu art. 2º, dispõe:


“Art. 2º Os crimes hediondos, a prática da tortura, o tráfico ilícito de entorpe-
centes e drogas afins e o terrorismo são insuscetíveis de:
I – anistia, graça e indulto;
II – fiança.”
Ressalte-se que entre 1990 e 2007 o inciso II trazia vedação à fiança e também
à liberdade provisória. A Lei nº 11.464/07 tirou a liberdade provisória do inciso II,
sendo mantida somente vedação à fiança.
Parte da doutrina começou a questionar no sentido de que a vedação à liber-
dade provisória foi revogada por lei posterior à Lei de Drogas. A Lei de Drogas
proíbe a liberdade provisória em seu art. 44 para o crime de tráfico, porém a Lei
dos Crimes Hediondos somente fala em fiança.
Nota-se que aqui existiu um conflito aparente de normas, que deve ser resol-
vido por meio do princípio da especialidade.
36 Legislação Penal Especial

Ocorre que o STF declarou inconstitucional a vedação à liberdade provisória


prevista no art. 44 da Lei de Drogas.
Assim, em tese é cabível liberdade provisória para quem pratica crime hedion-
do ou equiparado. Isso não significa que todos aqueles processados ou investiga-
dos por crimes hediondos ou equiparados serão colocados na rua, responderão o
processo em liberdade. O que a lei e a jurisprudência nos informam é que isso foi
deslocado do plano normativo para o plano jurisprudencial, ou seja, é o juiz quem
vai determinar se cabe ou não liberdade provisória.
Quando uma pessoa é presa em flagrante esta prisão é formalizada com um
documento denominado auto de prisão em flagrante (APF).
Depois de lavrado o auto de prisão em flagrante, este deve ser remetido ao
juiz que, por sua vez, poderá tomar uma das três decisões. Poderá o juiz relaxar
o flagrante se este se deu de forma ilegal; conceder liberdade provisória com ou
sem uma das 10 cautelares; ou ainda converter a prisão em flagrante em prisão
preventiva.
Para que se verifique se é cabível a prisão preventiva, é preciso que sejam
analisados alguns artigos em conjunto, quais sejam, arts. 282, 312 e 313 do CPP.
Verifica-se ainda, que sem que estejam presentes os requisitos para que seja
decretada a prisão preventiva, somente sobrará a liberdade provisória.
Ainda, é possível perceber que sendo a fiança uma medida cautelar incabível,
restam nove outras que podem ser aplicadas.

10. Regime de Cumprimento de Pena

Em 1990 surgiu a Lei dos Crimes Hediondos (Lei nº 8.072/90), e o regime de


cumprimento de pena era integral fechado.
Tal situação perdurou até fevereiro de 2006, quando o STF declarou o regime
integral fechado inconstitucional. Entendeu o STF que o regime não poderia ser
integral fechado, pois no Código Penal há um sistema de progressão de regimes,
bem como na Lei de Execução Penal. Nota-se que é preciso que seja observada a
ressocialização do sujeito.
Assim, disse o Supremo ser inconstitucional a vedação devido ao princípio da
individualização da pena, ou seja, cada um merece uma reprimenda diferente,
bem como uma progressão própria.
Ocorre que a decisão foi proferida em HC e em se tratando de controle difuso
de constitucionalidade somente vale para o sujeito que impetrou o habeas cor-
pus. Entretanto, o STF fez algo denominado modulação dos efeitos, pois transfor-
mou um efeito inter partes em erga omnes.
Legislação Penal Especial 37

Desta forma, a partir de fevereiro de 2006 não existia mais regime integral fe-
chado. Neste sentido, passou a valer a regra geral, ou seja, progressão de regime
com 1/6 da pena.
Em 2007 foi aprovada pelo Congresso Nacional a Lei nº 11.464, modificando
o patamar para progressão de regime. A partir deste ano passou a haver a pro-
gressão com 2/5 ou 3/5. Assim, ressalte-se que 1/6 é a regra geral. Para que o
sujeito saia do regime fechado e vá ao semiaberto, é preciso que alguns requisitos
sejam cumpridos, que são de ordem objetiva (2/5 e 3/5 da pena) e subjetiva (bom
comportamento carcerário).
Também é pacífico na jurisprudência que em caso de violência e de crime
hediondo, é possível que o juiz peça o laudo criminológico.

11. Prisão Temporária, Delação Premiada e


Associação Criminosa
Além da prisão em flagrante e prisão preventiva, existe uma terceira hipótese de
prisão, denominada prisão temporária. Tal modalidade ocorre quando na fase de
investigação policial é necessário que o sujeito esteja preso para que se facilite a
investigação.
Em regra, a prisão temporária, prevista pela Lei nº 7.960/89, dura cinco dias
prorrogáveis por mais cinco. No entanto, para os crimes hediondos o prazo é de
30 dias prorrogáveis por mais 30.
Em relação à delação premiada, esta se dá quando é entregue um prêmio a
um dos membros de uma organização criminosa, por exemplo, para que este
sujeito delate e desmantele o grupo.
A delação premiada da Lei dos Crimes Hediondos consiste em uma redução
de pena, que varia de 1/3 a 2/3.
Quanto aos requisitos para que se consiga a delação premiada é necessário
que a própria pessoa que praticou o crime hediondo ou equiparado ofereça vo-
luntariamente essa ajuda. Ainda é preciso que ocorra efetivamente o desmante-
lamento daquele grupo.
O art. 8º da Lei dos Crimes Hediondos traz a seguinte redação:
“Art. 8º Será de três a seis anos de reclusão a pena prevista no art. 288 do CP,
quando se tratar de crimes hediondos, prática da tortura, tráfico ilícito de entor-
pecentes e drogas afins ou terrorismo.”
Ressalte-se que o concurso da Magistratura, bem como o concurso do Minis-
tério Público dizem que esta delação somente se aplica para o crime de associa-
ção de quadrilha ou bando para prática de crimes hediondos.
38 Legislação Penal Especial

O art. 9º da lei trazia uma causa de aumento de pena para as hipóteses das ví-
timas vulneráveis. Esta presunção de violência não existe mais, pois o art. 224 do
Código Penal foi revogado pela Lei nº 12.015/09. Assim, esta revogação esvaziou
o art. 9º da Lei dos Crimes Hediondos.
Indispensável observar que não houve revogação do art. 224 do Código Penal
de forma a deixar uma lacuna normativa, já que a mesma lei que revogou o dis-
positivo criou um crime novo chamado estupro de vulnerável. Ainda, o legislador
remeteu este novo artigo no rol da Lei dos Crimes Hediondos.

Exercício
11. De acordo com a Lei dos Crimes Hediondos, reformulada pela jurisprudên-
cia, é cabível:
a) Fiança.
b) Anistia.
c) Liberdade provisória.
d) Indulto.
Capítulo 3
Organizações Criminosas

1. Crime Organizado – Introdução

O primeiro diploma que se verifica sobre o crime organizado é a Lei nº 9.034/95,


que hoje foi revogada.
Em 2004 o Decreto nº 5.015 colocou dentro do sistema normativo uma con-
venção internacional.
Uma corrente doutrinária entendeu que o conceito de organização cri-
minosa presente na Convenção de Palermo poderia ser usada para suprir a
omissão da Lei nº 9.034/95. Todavia, outra corrente entendia que não poderia
ser usada.
O STF, quando dizia que não poderia ser utilizada, argumentava que seria ne-
cessária uma lei federal para trazer o conceito de organização criminosa.
Já o STJ argumentava no sentido de que seria possível, pois o Decreto teria
força de lei ordinária.
Hoje há dois conceitos de organização criminosa, um na Lei nº 12.694/12 e
outro na Lei nº 12.850/13.
A Lei nº 12.694/12 trouxe o conceito de organização criminosa, mas este
conceito está voltado exclusivamente para aplicação desta lei.
Quando se tratar de procedimento, de ação penal para processar e julgar o
crime organizado e houver necessidade do colegiado composto por três juízes,
utiliza-se o conceito desta lei (Lei nº 12.694/12).
Na Lei nº 12.850/13, além do conceito da criminalidade organizada, há outras
situações que devem ser observadas.
40 Legislação Penal Especial

2. Conceito de Organização Criminosa

O art. 1º da Lei nº 12.850/13 dispõe:


“Art. 1º Esta Lei define organização criminosa e dispõe sobre a investigação
criminal, os meios de obtenção da prova, infrações penais correlatas e o procedi-
mento criminal a ser aplicado.”
O § 1º do referido artigo estabelece:
“§ 1º Considera-se organização criminosa a associação de 4 (quatro) ou mais
pessoas estruturalmente ordenada e caracterizada pela divisão de tarefas, ainda
que informalmente, com objetivo de obter, direta ou indiretamente, vantagem de
qualquer natureza, mediante a prática de infrações penais cujas penas máximas
sejam superiores a 4 (quatro) anos, ou que sejam de caráter transnacional.”
Nota-se que na parte final do § 1º fala-se em pena superior a quatro anos.
Desta forma, não entra aqui a pena igual a quatro anos, mas somente penas
superiores.
Ainda, o político que integra organização criminosa fica impedido de partici-
par de eleição, nos termos da Lei da Ficha Limpa.
O § 2º do art. 1º da lei aqui estudada dispõe:
“§ 2º Esta Lei se aplica também:
I – às infrações penais previstas em tratado ou convenção internacional quan-
do, iniciada a execução no País, o resultado tenha ou devesse ter ocorrido no
estrangeiro, ou reciprocamente;
II – às organizações terroristas internacionais, reconhecidas segundo as nor-
mas de direito internacional, por foro do qual o Brasil faça parte, cujos atos de
suporte ao terrorismo, bem como os atos preparatórios ou de execução de atos
terroristas, ocorram ou possam ocorrer em território nacional.”

3. Tipo Penal Próprio

O art. 2º da Lei de Organizações Criminosas dispõe:


“Art. 2º Promover, constituir, financiar ou integrar, pessoalmente ou por inter-
posta pessoa, organização criminosa:
Pena – reclusão, de 3 (três) a 8 (oito) anos, e multa, sem prejuízo das penas
correspondentes às demais infrações penais praticadas.”
É preciso observar que quem financia pessoal ou indiretamente também res-
ponde por este crime.
Legislação Penal Especial 41

Se um menor de idade integrar o grupo, computa-se sua participação para


que seja observado o número de integrantes. Neste sentido, a ausência de cul-
pabilidade pela inimputabilidade não ajuda a organização criminosa como tese
de defesa.
Estabelece o § 1º do referido artigo:
“§ 1º Nas mesmas penas incorre quem impede ou, de qualquer forma, emba-
raça a investigação de infração penal que envolva organização criminosa.”
Estabelece o § 2º:
“§ 2º As penas aumentam-se até a metade se na atuação da organização
criminosa houver emprego de arma de fogo.”
Já o § 3º tem a seguinte redação:
“§ 3º A pena é agravada para quem exerce o comando, individual ou cole-
tivo, da organização criminosa, ainda que não pratique pessoalmente atos de
execução.”
Nota-se que aqui há uma agravante genérica e, portanto, quem determina o
quanto de aumento é o juiz.
Outra causa de aumento de pena vem determinada no § 4º:
“§ 4º A pena é aumentada de 1/6 (um sexto) a 2/3 (dois terços):
I – se há participação de criança ou adolescente;
II – se há concurso de funcionário público, valendo-se a organização criminosa
dessa condição para a prática de infração penal;
III – se o produto ou proveito da infração penal destinar-se, no todo ou em
parte, ao exterior;
IV – se a organização criminosa mantém conexão com outras organizações
criminosas independentes;
V – se as circunstâncias do fato evidenciarem a transnacionalidade da orga-
nização.”
Dispõe o § 5º do mesmo artigo:
“§ 5º Se houver indícios suficientes de que o funcionário público integra orga-
nização criminosa, poderá o juiz determinar seu afastamento cautelar do cargo,
emprego ou função, sem prejuízo da remuneração, quando a medida se fizer
necessária à investigação ou instrução processual.”
Esclarece o § 6º:
“§ 6º A condenação com trânsito em julgado acarretará ao funcionário pú-
blico a perda do cargo, função, emprego ou mandato eletivo e a interdição para
o exercício de função ou cargo público pelo prazo de 8 (oito) anos subsequentes
ao cumprimento da pena.”
42 Legislação Penal Especial

Dispõe o § 7º:
“§ 7º Se houver indícios de participação de policial nos crimes de que trata
esta Lei, a Corregedoria de Polícia instaurará inquérito policial e comunicará ao
Ministério Público, que designará membro para acompanhar o feito até a sua
conclusão.”

4. Organização Criminosa, Associação Criminosa


e Milícia Privada
A antiga quadrilha ou bando hoje possui a denominação associação criminosa.
Ainda, existem as milícias privadas e, por fim, as organizações criminosas, que são
agora estudadas.
O art. 288 do Código Penal dispõe acerca do crime de associação criminosa:
“Art. 288. Associarem-se mais de três pessoas, em quadrilha ou bando, para
o fim de cometer crimes:
Pena – reclusão, de um a três anos.”
Já o dispositivo que trata da organização criminosa traz o número de pessoas
de forma diferenciada, pois para este crime é preciso que haja quatro ou mais
pessoas. Ainda, os verbos se dão de forma diferente, além da estrutura ordenada
e divisão de tarefas.
A constituição de milícia privada traz os seguintes verbos: constituir, organi-
zar, integrar, manter e custear (organização paramilitar, milícia particular, grupo
ou esquadrão com a finalidade de praticar qualquer dos crimes previstos neste
Código). A pena é reclusão de quatro a oito anos.
Se o verbo presente na denúncia do Ministério Público for custear, já se sabe
que se trata do crime de milícia privada. No mesmo sentido, se trata deste crime
quando o verbo for manter.
A organização paramilitar é uma organização que tenta tomar as vezes do
Estado. Já a milícia particular não tem a mesma preocupação, mas atuam impon-
do sua vontade, vendendo segurança local. Grupo de extermínio é formado por
pessoas que se unem para exterminar um determinado grupo de pessoas. Já no
esquadrão da morte há um grupo de pessoas voltado para a prática de crimes
dolosos contra a vida, mas sem uma vítima determinada.

5. Investigação e Meios de Obtenção da Prova


O art. 3º da Lei nº 12.850/13 dispõe:
“Art. 3º Em qualquer fase da persecução penal, serão permitidos, sem prejuí-
zo de outros já previstos em lei, os seguintes meios de obtenção da prova:
Legislação Penal Especial 43

I – colaboração premiada;
II – captação ambiental de sinais eletromagnéticos, ópticos ou acústicos;
III – ação controlada;
IV – acesso a registros de ligações telefônicas e telemáticas, a dados cadastrais
constantes de bancos de dados públicos ou privados e a informações eleitorais
ou comerciais;
V – interceptação de comunicações telefônicas e telemáticas, nos termos da
legislação específica;
VI – afastamento dos sigilos financeiro, bancário e fiscal, nos termos da legis-
lação específica;
VII – infiltração, por policiais, em atividade de investigação, na forma do art.
11;
VIII – cooperação entre instituições e órgãos federais, distritais, estaduais e
municipais na busca de provas e informações de interesse da investigação ou da
instrução criminal.”
Colaboração premiada significa um acordo feito entre polícia, promotor e um
dos membros da organização criminosa para soltar vítimas, oferecer localização
de produtos de infração, enfim, colaborar, em troca de benefícios, como extinção
da pena, por exemplo.
Ação controlada se dá quando o Estado age contra o crime organizado de
forma controlada.
Quanto ao inc. VII, ressalte-se que agente infiltrado em organização crimi-
nosa pratica crime. Este agente pratica crime para que não descubram que ele é
policial e, assim, diante desta excludente supralegal de culpabilidade, chamada
inexigibilidade de conduta diversa, este sujeito pode praticar atos típicos e ilícitos.
Necessário observar que o rol de meios de obtenção de provas não é exaustivo.

6. Colaboração Premiada
A Lei nº 12.850/13 traz outra denominação à delação premiada, qual seja a cola-
boração premiada, mas a essência é a mesma. Na colaboração premiada, aquele
que colabora com o Estado receberá um prêmio. Exemplo: identificação dos de-
mais coautores.
Quem entrega o prêmio é o magistrado e isso é feito em dois momentos. No
primeiro momento, quando é feito o acordo, o juiz homologa. Em um segundo
momento de atuação, após o acordo formalizado, este começa a ser cumprido e
depois de cumprido o juiz chancela aquele prêmio.
44 Legislação Penal Especial

É preciso entender que o juiz não pode, de ofício, propor um acordo. Quem
propõe, faz o requerimento, é o delegado ou o Promotor de Justiça.
O art. 4º da Lei nº 12.850/13 dispõe:
“Art. 4º O juiz poderá, a requerimento das partes, conceder o perdão judicial,
reduzir em até 2/3 (dois terços) a pena privativa de liberdade ou substituí-la por
restritiva de direitos daquele que tenha colaborado efetiva e voluntariamente com
a investigação e com o processo criminal, desde que dessa colaboração advenha
um ou mais dos seguintes resultados:
I – a identificação dos demais coautores e partícipes da organização criminosa
e das infrações penais por eles praticadas;
II – a revelação da estrutura hierárquica e da divisão de tarefas da organização
criminosa;
III – a prevenção de infrações penais decorrentes das atividades da organiza-
ção criminosa;
IV – a recuperação total ou parcial do produto ou do proveito das infrações
penais praticadas pela organização criminosa;
V – a localização de eventual vítima com a sua integridade física preservada.”
É preciso observar que no Brasil quem premia é o magistrado, que o fará de
forma proporcional ao benefício trazido à investigação.

7. Lei da Ficha Limpa e JeCrim


A denominada Lei da Ficha Limpa (Lei Complementar nº 135, de 2010) trouxe
alterações à Lei de Inelegibilidades.
Tal diploma trouxe que são inelegíveis aqueles que praticam alguns crimes,
dentre os quais consta quadrilha ou bando. Contudo, sabe-se que quadrilha ou
bando não mais possui tal denominação, já que hoje se tem a associação crimino-
sa, mas a organização criminosa possui um tipo penal autônomo.
Assim, pode ser colocada no rol da lei a organização criminosa, com o concei-
to da nova lei. Desta forma, os agentes políticos detentores de mandato eletivo
ou que queiram concorrer para ingresso na seara política deverão ter em sua
folha de antecedentes a ausência total e completa da prática de alguns crimes.
Faz-se necessário observar que o mero fato de fazer parte de organização cri-
minosa já torna o indivíduo inelegível, em caso de condenação. É preciso enten-
der aqui que tal condenação não precisa ser definitiva e com trânsito em julgado.
A Lei nº 9.099/95 só trabalha com infrações penais até dois anos, no máximo,
de pena.
Legislação Penal Especial 45

O art. 22 da Lei de Organizações Criminosas dispõe:


“Art. 22. Os crimes previstos nesta Lei e as infrações penais conexas serão
apurados mediante procedimento ordinário previsto no Decreto-Lei nº 3.689, de
3 de outubro de 1941 (Código de Processo Penal), observado o disposto no pa-
rágrafo único deste artigo.”
Desta forma, nota-se que o dispositivo acima referido afasta o Juizado Espe-
cial Criminal.
Ainda, estabelece o parágrafo único do artigo acima referido:
“Parágrafo único. A instrução criminal deverá ser encerrada em prazo razoá-
vel, o qual não poderá exceder a 120 (cento e vinte) dias quando o réu estiver
preso, prorrogáveis em até igual período, por decisão fundamentada, devidamen-
te motivada pela complexidade da causa ou por fato procrastinatório atribuível
ao réu.”

Exercício
12. A nova Lei das Organizações Criminosas pacificou um grave problema re-
lacionado a esse tema. O que esta nova lei fez que modificou a realidade
normativa brasileira, resolvendo um problema?
a) Trouxe um conceito de organização criminosa.
b) Eliminou a ação controlada da Lei de Drogas.
c) Revogou a colaboração premiada daquelas sete leis.
d) Trouxe de volta o regime integral fechado da Lei dos Crimes Hediondos.
Capítulo 4
Identificação Criminal – Lei
nº 12.037/09

1. Identificação Civil

A Lei nº 12.037/09 possui lastro constitucional, o que significa que as possibili-


dades previstas por esta lei têm roupagem no art. 5º, inc. LVIII, da Constituição
Federal de 1988.
Dispõe o art. 1º da Lei nº 12.037/09:
“Art. 1º O civilmente identificado não será submetido a identificação criminal,
salvo nos casos previstos nesta Lei.”
Quem tem identidade civil, em regra, não será submetido a identificação cri-
minal, mas há exceções.
A identidade civil é atestada por alguns documentos, como RG, CTPS, carteira
profissional (exemplo: OAB), passaporte, identificação funcional (funcionários pú-
blicos) e outro documento público que permita a identificação.
O parágrafo único do art. 2º estabelece:
“Parágrafo único. Para as finalidades desta Lei, equiparam-se aos documentos
de identificação civis os documentos de identificação militares.”
O que se está trabalhando aqui é a identificação civil, não se devendo confun-
di-la com a identificação criminal.

2. Situações Excepcionais à Identificação Civil


A identificação criminal pode ser de três ordens: identificação dactiloscópica,
fotográfica e genética.
O art. 3º da Lei nº 12.037/09 dispõe:
“Art. 3º Embora apresentado documento de identificação, poderá ocorrer
identificação criminal quando:
Legislação Penal Especial 47

I – o documento apresentar rasura ou tiver indício de falsificação;


II – o documento apresentado for insuficiente para identificar cabalmente o
indiciado;
III – o indiciado portar documentos de identidade distintos, com informações
conflitantes entre si;
IV – a identificação criminal for essencial às investigações policiais, segundo
despacho da autoridade judiciária competente, que decidirá de ofício ou median-
te representação da autoridade policial, do Ministério Público ou da defesa;
V – constar de registros policiais o uso de outros nomes ou diferentes quali-
ficações;
VI – o estado de conservação ou a distância temporal ou da localidade da
expedição do documento apresentado impossibilite a completa identificação dos
caracteres essenciais.”
Ressalte-se aqui que as hipóteses acima referidas são taxativas e não exem-
plificativas.
Neste sentido, qualquer tentativa de forçar uma identificação criminal fora
dos casos expressos será uma atitude arbitrária e ilegal e, portanto, nula, conta-
minando o restante do procedimento.
O parágrafo único do art. 3º dispõe:
“Parágrafo único. As cópias dos documentos apresentados deverão ser junta-
das aos autos do inquérito, ou outra forma de investigação, ainda que considera-
das insuficientes para identificar o indiciado.”

3. Identificação Criminal

Dispõe o art. 5º da lei aqui estudada:


“Art. 5º A identificação criminal incluirá o processo datiloscópico e o fotográ-
fico, que serão juntados aos autos da comunicação da prisão em flagrante, ou do
inquérito policial ou outra forma de investigação.”
Seu parágrafo único traz a seguinte redação:
“Parágrafo único. Na hipótese do inciso IV do art. 3º, a identificação criminal
poderá incluir a coleta de material biológico para a obtenção do perfil genético.”
O art. 4º traz a seguinte regra:
“Art. 4º Quando houver necessidade de identificação criminal, a autoridade
encarregada tomará as providências necessárias para evitar o constrangimento
do identificado.”
48 Legislação Penal Especial

A identificação criminal através da colheita de impressões digitais (identifi-


cação dactiloscópica) já é por si só, um constrangimento, porém, evita-se maior
constrangimento permitindo-se a limpeza dos dedos ao final do procedimento.
O art. 6º da Lei nº 12.037/09 dispõe:
“Art. 6º É vedado mencionar a identificação criminal do indiciado em atesta-
dos de antecedentes ou em informações não destinadas ao juízo criminal, antes
do trânsito em julgado da sentença condenatória.”
Nota-se que há um marco temporal que divide a possibilidade de menção à
identificação criminal e a impossibilidade.
O art. 7º estabelece:
“Art. 7º No caso de não oferecimento da denúncia, ou sua rejeição, ou ab-
solvição, é facultado ao indiciado ou ao réu, após o arquivamento definitivo do
inquérito, ou trânsito em julgado da sentença, requerer a retirada da identificação
fotográfica do inquérito ou processo, desde que apresente provas de sua identi-
ficação civil.”
A ressalva constante no dispositivo é a seguinte: o sujeito pode retirar a identi-
ficação fotográfica do inquérito ou processo, desde que apresente um documen-
to de identificação civil.

4. Identificação Criminal – Perfil Genético

A Lei nº 12.654/2012 incluiu dispositivos na lei aqui estudada (Lei nº 12.037/09).


Conforme dito anteriormente, há três formas de identificação criminal: foto-
gráfica, datiloscópica e obtenção de perfil genético.
O parágrafo único do art. 5º da Lei nº 12.037/09 dispõe:
“Parágrafo único. Na hipótese do inciso IV do art. 3º, a identificação criminal
poderá incluir a coleta de material biológico para a obtenção do perfil genético.”
O inciso IV do art. 3º dispõe que se for imprescindível para a investigação
criminal, o juiz pode autorizar a identificação criminal.
O art. 5º-A estabelece:
“Art. 5º-A. Os dados relacionados à coleta do perfil genético deverão ser
armazenados em banco de dados de perfis genéticos, gerenciado por unidade
oficial de perícia criminal.”
Estabelece o § 1º do referido artigo:
“§ 1º As informações genéticas contidas nos bancos de dados de perfis ge-
néticos não poderão revelar traços somáticos ou comportamentais das pessoas,
Legislação Penal Especial 49

exceto determinação genética de gênero, consoante as normas constitucionais


e internacionais sobre direitos humanos, genoma humano e dados genéticos.”
O § 2º dispõe:
“§ 2º Os dados constantes dos bancos de dados de perfis genéticos terão
caráter sigiloso, respondendo civil, penal e administrativamente aquele que per-
mitir ou promover sua utilização para fins diversos dos previstos nesta Lei ou em
decisão judicial.”
Há o § 3º, que traz em sua redação:
“§ 3º As informações obtidas a partir da coincidência de perfis genéticos de-
verão ser consignadas em laudo pericial firmado por perito oficial devidamente
habilitado.”
O art. 7º-A dispõe:
“Art. 7º-A. A exclusão dos perfis genéticos dos bancos de dados ocorrerá no
término do prazo estabelecido em lei para a prescrição do delito.”
Como a lei foi silente, a prescrição aqui referida é qualquer das existentes,
uma vez que deve ser feita interpretação teleológica.
O art. 7º-B dispõe:
“Art. 7º-B. A identificação do perfil genético será armazenada em banco de
dados sigiloso, conforme regulamento a ser expedido pelo Poder Executivo.”

Exercício
13. São métodos de identificação criminal, exceto:
a) Fotografia.
b) RG.
c) Impressão digital.
d) DNA.
Capítulo 5
Estatuto do Desarmamento
– Lei nº 10.826/03

1. Órgãos – Requisitos – Registro

O Estatuto do Desarmamento é a Lei nº 10.826/03, que dispõe sobre registro,


posse e comercialização de armas de fogo e munição, sobre o Sistema Nacional
de Armas (Sinarm), define crimes e dá outras providências.
O Decreto nº 3.665/2000 dispõe em seu art. 3º, XIII o conceito de arma de
fogo. Trata-se de arma que arremessa projéteis empregando a força expansiva
dos gases gerados pela combustão de um propelente confinado em uma câma-
ra que, normalmente, está solidária a um cano que tem a função de propiciar
continuidade à combustão do propelente, além de direção e estabilidade ao
projétil.
Já o acessório é o artefato que, acoplado a uma arma, possibilita a melhoria
do desempenho do atirador, a modificação de um efeito secundário do tiro ou a
modificação do aspecto visual da arma.
Munição, por sua vez, é um artefato completo, pronto para carregamento e
disparo de uma arma, cujo efeito desejado pode ser: destruição, iluminação ou
ocultamento do alvo; efeito moral sobre pessoal; exercício; manejo; outros efeitos
especiais.
A arma branca é aquela que não tem aptidão para disparo, sendo classificada
como própria e imprópria. A arma própria tem o conflito em sua essência, como
espada, punhal e estrela ninja. Já a arma imprópria é aquela que possui outra
função, como a faca de cozinha, a chave de fenda, a tesoura, dentre outras.
É preciso esclarecer que a arma branca não é punida pelo Estatuto do Desar-
mamento, mas sim pela Lei de Contravenções Penais. Ainda, há julgados defen-
dendo a atipicidade da conduta por falta de regulamentação.
Legislação Penal Especial 51

Exercício
14. Julgue o seguinte item:
O Estatuto do Desarmamento inovou incluindo, como objeto jurídico, a mu-
nição e o acessório para crimes envolvendo arma de fogo.

2. Porte – Atribuição para Expedição

Sobre o porte de arma, dispõe o art. 22 do Decreto nº 5.123/2004.


“Art. 22. O Porte de Arma de Fogo de uso permitido, vinculado ao prévio
registro da arma e ao cadastro no Sinarm, será expedido pela Polícia Federal, em
todo o território nacional, em caráter excepcional, desde que atendidos os requi-
sitos previstos nos incisos I, II e III do § 1º do art. 10 da Lei nº 10.826, de 2003.”
A autorização para o porte de arma de fogo de uso permitido, em todo o
território nacional, é de competência da Polícia Federal e somente será concedida
após autorização do Sinarm, conforme disposto no art. 10 do Estatuto.
O § 1º do art. 10 dispõe:
“§ 1º A autorização prevista neste artigo poderá ser concedida com eficácia
temporária e territorial limitada, nos termos de atos regulamentares, e dependerá
de o requerente:
I – demonstrar a sua efetiva necessidade por exercício de atividade profissional
de risco ou de ameaça à sua integridade física;
II – atender às exigências previstas no art. 4º desta Lei;
III – apresentar documentação de propriedade de arma de fogo, bem como o
seu devido registro no órgão competente.”
Observa-se que o porte de arma de fogo é pessoal, intransferível e revogável
a qualquer tempo, sendo válido apenas com relação à arma nele especificada e
com a apresentação do documento de identificação do portador (art. 24, Decreto
nº 5.123/2004).
O proprietário de arma de fogo de uso permitido registrada, em caso de mu-
dança de domicílio ou outra situação que implique o transporte da arma, deverá
solicitar guia de trânsito à Polícia Federal para as armas de fogo cadastradas no
Sinarm, na forma estabelecida pelo Departamento de Polícia Federal (art. 28).

Exercício
15. Julgue o seguinte item:
As armas registradas no Sinarm recebem, por força de lei, o porte.
52 Legislação Penal Especial

3. Abolitio Criminis Indireta ou Temporária


O art. 12, que trata da posse irregular de arma de fogo de uso permitido, não entrou
em vigor juntamente com a lei, tendo ficado no aguardo de sua regulamentação.
O início da vigência do referido dispositivo se dava, originalmente, após 180
dias da publicação do Estatuto, já que este foi o prazo concedido por esta lei para
regularização ou destruição da arma de fogo possuída ilegalmente, presumindo-
-se, antes de seu decurso, a boa-fé do proprietário ou possuidor.
O termo inicial do prazo foi, entretanto, modificado pela Medida Provisória
nº 174, de 2003, convertida na Lei nº 10.884/04, passando a ser não mais a data
da publicação da nova Lei de Arma de Fogo, mas a da publicação do respectivo
decreto de regulamentação.
Ocorre que tal prazo foi posteriormente prorrogado por diversas vezes. É im-
portante observar que referido delito não foi abolido, mas teve um período de
vacatio legis diferenciado.
Nota-se que houve um período de temporária atipicidade, em que o sujeito
não podia mais ser alcançado pela Lei nº 9.437/97, pois esta já havia sido re-
vogada expressamente, e nem pela nova legislação, visto que ainda não havia
decorrido o prazo legal para regularização da arma.
A situação temporária de vácuo legislativo, durante o qual o dispositivo ficou
aguardando para começar a irradiar efeitos, não se refere às situações anteriores
já consolidadas. A situação circunscreve-se às condutas que continuaram a ser pra-
ticadas, em estado de permanência, após a entrada em vigor da nova legislação.
Desta forma, conforme dito anteriormente, não há que se falar em abolitio
criminis, mas sim um mero vácuo legislativo.

Exercício
16. Julgue o seguinte item:
Houve abolitio criminis no crime de porte de arma de fogo, por força da não
entrada em vigor do art. 12 do Estatuto, junto com o restante da lei.

4. Posse de Arma de Uso Proibido – Restrito


– Permitido – Arma de Fogo Desmuniciada –
Defeituosa – Desmontada – Potencialidade Lesiva
Estudaremos nesta unidade os conceitos de arma.
Arma de fogo de uso proibido: é a arma que não pode ser utilizada em hipó-
tese alguma, não podendo nem o exército autorizar o uso desta arma. Contu-
Legislação Penal Especial 53

do, se não apresentar potencialidade lesiva, poderá ser utilizada como objeto de
adorno, devendo inclusive ser lacrada, impedindo seu uso.
Arma de uso restrito: é a arma que só pode ser utilizada pelas forças armadas,
por algumas instituições de segurança ou pessoas físicas, mas desde que com uso
autorizado pelas forças armadas.
Arma de uso permitido: é aquela que o particular (pessoa física ou jurídica)
pode ter, desde que feito o registro, de acordo com a legislação normativa do
exército.
Arma de fogo defeituosa: é a arma inapta para efetuar disparos. Não será
considerada arma para efeitos dos crimes previstos no Estatuto do Desarmamen-
to (porque não coloca em perigo a incolumidade pública).
Arma de fogo desmuniciada ou desmontada, quando sendo transportada,
mesmo sem possibilidade de uso imediato, caracteriza, a princípio, o crime previs-
to nos arts. 14 ou 16, dada a inclusão da elementar “transportar” pelo legislador.
Mas observar o RHC nº 81.057: se a arma não tiver potencialidade lesiva ime-
diata, não configura crime.
O entendimento não é pacífico.
O objeto material do Estatuto do Desarmamento, em vários crimes, não é a
arma. Com outros objetos materiais (projéteis, por exemplo), é possível punir o
agente.

Exercício
17. Julgue o seguinte item:
Arma sem potencialidade de disparo, mas carregada com seis projéteis, per-
mite a responsabilidade criminal do agente pelo Estatuto do Desarmamento.

5. Munição – Conceito – Fiscalização e Controle –


Equiparação do Objeto Material

Falaremos desta unidade sobre a munição, que é também objeto material do Es-
tatuto do Desarmamento (é possível a punição de alguém pelo porte da munição,
independente da posse da arma).
É a unidade de carga destinada à propulsão de projéteis, por meio da expan-
são dos gases resultantes da deflagração da pólvora. Não se confunde com fogos
de artifício ou com acessórios de arma de fogo.
54 Legislação Penal Especial

Cabe ao Ministério da Justiça, pela Polícia Federal, fiscalizar e controlar o ar-


mamento e a munição utilizados.
A entrega de arma de fogo, acessório ou munição deverá ser feita na Polícia
Federal ou nos órgãos e entidades credenciadas pelo Ministério da Justiça. O Es-
tatuto do Desarmamento tem o propósito muito claro de retirar a arma das mãos
do particular, mesmo que a posse da arma seja irregular.
A nova lei equiparou a posse ou o porte de acessório ou de munição à arma
de fogo (equiparação de objeto material). O sujeito que for detido transportando
somente a munição de armamento de uso restrito incidirá nas mesmas penas da-
quele que transporta a própria arma de uso restrito municiada. Isto, porque o Es-
tatuto trabalha com crimes de perigo abstrato, ou seja, o legislador presume que
estes objetos, por si só, já permitem a dedução de potencial situação de perigo.
Portanto, não é necessária a prova do perigo: basta a conduta e resultado
jurídico.
Com relação ao princípio da ofensividade no caso de arma desmuniciada, com
munição apta para o disparo, a letra da lei determina ser crime. Mas há uma cor-
rente doutrinária que fala que há crime impossível (por absoluta impropriedade
do objeto) neste caso, porque munição em arma inoperante não serve para nada.
Para que possa incriminar depende de lesividade, e isso só ocorre quando a muni-
ção estiver próxima à arma apta para detonação. Em não havendo potencialidade
jurídica, o bem jurídico tutelado nunca será atingido.

Exercício
18. Julgue o seguinte item:
Existe munição de uso permitido e de uso restrito, cujo porte ou posse acar-
retarão diferentes consequências penais.

6. Posse Irregular de Arma de Fogo de Uso


Permitido
Estudar-se-á, agora, os crimes do Estatuto do Desarmamento.
No art. 12, temos a posse irregular de arma de fogo de uso permitido: “Pos-
suir ou manter sob sua guarda arma de fogo, acessório ou munição, de uso
permitido, em desacordo com determinação legal ou regulamentar, no interior de
sua residência ou dependência desta, ou, ainda no seu local de trabalho, desde
que seja o titular ou o responsável legal do estabelecimento ou empresa: Pena –
detenção, de 1 (um) a 3 (três) anos, e multa.”
Legislação Penal Especial 55

Permite a suspensão condicional do processo.


Considera-se interior da residência a área que seja de sua titularidade e de-
pendências do imóvel toda a área que se encontra dentro dos limites do imóvel.
São ações nucleares os verbos possuir e o verbo manter (aquele que não é o
dono, mas é responsável por cuidar da arma).
É elemento normativo jurídico do tipo a expressão “em desacordo com deter-
minação legal ou regulamentar”. Assim, a pessoa que tem registro da arma de
fogo de uso permitido não comete o crime.
Com relação ao “local do trabalho”, se o agente não é o titular do local de
trabalho configura porte e não posse.

Exercício
19. Julgue o seguinte item:
Posse de arma de fogo sem o registro concedido pela autoridade competen-
te caracteriza posse ilegal de arma de fogo.

7. Porte Ilegal de Arma de Fogo de Uso


Permitido
O registro assegura a posse de arma de fogo nos locais indicados pela lei. A au-
sência do registro torna a posse irregular (arts. 12 ou 16). A concessão permite
que o interessado transporte a arma consigo. O porte ilegal pode configurar os
crimes dos arts. 14 (uso permitido) ou 16 (uso restrito).
Veja-se, agora, o art. 14: Portar, deter, adquirir, fornecer, receber, ter em depó-
sito, transportar, ceder, ainda que gratuitamente, emprestar, remeter, empregar,
manter sob guarda ou ocultar arma de fogo, acessório ou munição, de uso permi-
tido, sem autorização e em desacordo com determinação legal ou regulamentar:
Pena – reclusão, de 2 (dois) a 4 (quatro) anos, e multa.
Trata-se de tipo misto alternativo (a prática de dois ou mais verbos num mes-
mo contexto configura um único crime).
O fato deve ocorrer fora do interior da residência ou local de trabalho para
configurar este crime.
A alegação de portar arma por medo de ser vítima de crimes não justifica a
arma do porte e nem exclui a ilicitude da conduta.
No parágrafo único do art. 14, tem-se a inafiançabilidade do crime deste
artigo. Mas a ADIn 3.112-1 retirou do Estatuto do Desarmamento esta norma. O
56 Legislação Penal Especial

STF, em uma interpretação conforme a Constituição, fez uma releitura deste e de


outros dispositivos deste diploma legal.

Exercício
20. Julgue o seguinte item:
Portar a arma de casa até o trabalho, por força da expressa previsão legal,
caracteriza o ato de posse de arma de fogo.

8. Disparo de Arma de Fogo – Absorção do


Crime Mais Grave – Concurso de Crime

“Art. 15. Disparar arma de fogo ou acionar munição em lugar habitado ou em


suas adjacências, em via pública ou em direção a ela, desde que essa conduta não
tenha como finalidade a prática de outro crime: Pena – reclusão, de 2 (dois) a 4
(quatro) anos, e multa.”
O parágrafo único também traz a inafiançabilidade, que foi retirada do siste-
ma jurídico pelo STF via ADIn.
Disparo efetuado em lugar desabitado não configura o crime.
Se o dolo é a prática de outro crime, o agente responde pelo outro crime que
pretende praticar.
Parte da doutrina entende que se o crime for mais grave, o agente responderá
pelo crime mais grave. Mas, se o crime for menos grave que o de disparo de arma
de fogo, deverá o agente responder pelo disparo.
No tipo objetivo ocorrem cinco hipóteses:
– disparo em lugar habitado;
– disparo em lugar adjacente a lugar habitado;
– disparo em via pública (absorve o porte ilegal do art. 14 do estatuto, pois
a objetividade jurídica é a mesma);
– disparo em direção à via pública;
– acionamento de munição em qualquer desses lugares ou em direção a
eles.
Se agente que se encontra no interior de sua residência ou local de trabalho e
atira em direção à via pública, o delito de posse irregular é absorvido pelo crime
de disparo.
Legislação Penal Especial 57

Se o disparo foi efetuado no mesmo contexto do crime contra a pessoa, ficará


por este absorvido, a menos que o delito contra a pessoa seja de menor gravida-
de. Havendo disparo, e, posteriormente, em contexto diferente, o crime de dano,
haverá concurso de crimes (material, formal ou continuidade delitiva).

Exercício
21. Julgue o seguinte item:
Não se pune a modalidade culposa, ante a falta de previsão expressa (CP, art.
18, parágrafo único), sendo atípico o disparo acidental.

9. Posse ou Porte Ilegal de Arma de Fogo de Uso


Restrito

Nesta unidade será estudado o art. 16 da Lei de Drogas, que mistura a posse e o
porte de arma de fogo, mas agora as de uso restrito.
O Decreto nº 3.665/00 considera armas de fogo de uso restrito as que possuí-
rem características similares às de uso das forças armadas ou que as tornem aptas
para uso da força policial.
Os verbos do tipo são vários: possuir, deter, portar, adquirir, fornecer, receber,
ter em depósito, transportar, ceder, ainda que gratuitamente, emprestar, remeter,
empregar, manter sob sua guarda ou ocultar.
São objetos materiais do crime arma de fogo, acessório ou munição de uso
proibido ou restrito.
Elemento normativo do crime: sem autorização e em desacordo com determi-
nação legal ou regulamentar.
Pena: reclusão, de 3 (três) a 6 (seis) anos, e multa. Trata-se de flagrante des-
respeito ao princípio da proporcionalidade.
É tipo misto objetivo (aplicação do princípio da alternatividade). O agente,
praticando mais de um dos verbos do tipo, comete um único crime, mas o
juiz pode aumentar a pena pela culpabilidade (circunstância judicial do art.
59 do CP).
Em se tratando de arma de uso restrito ou proibido, a lei não fez diferencia-
ções das condutas de posse ou porte. Isto por que o foco aqui é o tipo de arma-
mento utilizado, e não apenas com a conduta.
58 Legislação Penal Especial

Exercício
22. Julgue o seguinte item:
O bem jurídico do crime de posse de arma de uso restrito é a preservação
do estado de segurança, integridade corporal, vida, saúde e patrimônio dos
cidadãos indefinidamente considerados contra possíveis atos que os expo-
nham a perigo.

10. Posse ou Porte Ilegal de Arma de Fogo de


Uso Restrito – Condutas Equiparadas – Crime
Material e Pluriofensivo

O art. 16 da Lei nº 10.826/03 trata da posse ou porte ilegal de arma de fogo de


uso restrito. Seu parágrafo único traz as figuras equiparadas ao crime.
Embora as condutas estejam no parágrafo único do art. 16, não significa que
o objeto material se restrinja às armas de fogo, aos acessórios ou às munições de
uso restrito. Desta forma, admite-se que o objeto material do crime seja arma de
fogo de uso permitido. Exemplo: numeração raspada.
As condutas incriminadas na primeira figura são: a supressão, que significa a
eliminação total, mediante raspagem ou qualquer outro método, e a alteração,
ou seja, a modificação parcial da numeração ou do sinal de identificação de arma
de fogo (de uso permitido, restrito ou proibido) ou artefato. Nota-se que se trata
de crime material.
O crime é pluriofensivo, de maneira que o bem jurídico tutelado é a seriedade
dos cadastros do Sistema Nacional de Armas (Sinarm) e a incolumidade pública.
Ainda, a arma pode também passar a ser de uso restrito pelo aumento de seu
calibre, transformação em pistola, aumento do comprimento do cano, dentre
outras formas.
No momento em que o agente efetua a mudança das características da arma
de fogo, tornando-a apta para o emprego militar ou dando-lhe características
similares a materiais bélicos, ou ainda lhe aumentando o calibre nominal, a arma
de fogo imediatamente passará a ser de uso proibido (crime material).

Exercício
23. Julgue o seguinte item:
A arma de fogo só será convertida de uso permitido para de uso restrito após
a validação formal do Comando do Exército.
Legislação Penal Especial 59

11. Condutas Equiparadas – Artefatos Explosivos


ou Incendiários – Adulteração ou Eliminação
de Sinais Característicos de Arma de Fogo

O inciso III do parágrafo único do art. 16 da Lei nº 10.826/03 dispõe que nas mes-
mas penas incorre quem possuir, detiver, fabricar ou empregar artefato explosivo
ou incendiário, sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou
regulamentar.
Um exemplo de artefato explosivo ou incendiário seria a banana de dinamite.
Cumpre ressalvar que o Código Penal traz o crime de explosão no art. 251. A
diferença é que aqui há presunção de perigo. Assim, quando a incolumidade pú-
blica estiver concretamente em perigo, usa-se o Código Penal e quando o porte,
a detenção, o fabrico ou o emprego de artefato explosivo não colocar pessoas em
concreto em perigo, usa-se a Lei de Armas.
O inciso IV, por sua vez, traz as condutas de portar, possuir, adquirir, transpor-
tar ou fornecer arma de fogo com numeração, marca ou qualquer outro sinal de
identificação raspado, suprimido ou adulterado.

Exercício
24. Julgue o seguinte item:
O delito de explosão exige o perigo comum, fato não obrigatório para o
delito de posse de artefato explosivo sem autorização.

12. Comércio Ilegal de Arma de Fogo –


Penalização – Condutas Equiparadas

O crime de comércio ilegal de arma de fogo vem previsto no art. 17 da Lei nº


10.826/03.
“Art. 17. Adquirir, alugar, receber, transportar, conduzir, ocultar, ter em de-
pósito, desmontar, montar, remontar, adulterar, vender, expor à venda, ou de
qualquer forma utilizar, em proveito próprio ou alheio, no exercício de atividade
comercial ou industrial, arma de fogo, acessório ou munição, sem autorização ou
em desacordo com determinação legal ou regulamentar:
Pena – reclusão, de 4 (quatro) a 8 (oito) anos, e multa.”
O parágrafo único dispõe que se equipara à atividade comercial ou industrial,
para efeito deste artigo, qualquer forma de prestação de serviços, fabricação ou
comércio irregular ou clandestino, inclusive o exercido em residência.
60 Legislação Penal Especial

Exercício
25. Julgue o seguinte item:
Montar e, depois, vender a arma de fogo caseira não caracteriza o crime
de comércio ilegal de arma de fogo por falta da elementar típica atividade
comercial ou industrial.

13. Tráfico Internacional de Arma de Fogo –


Penalização – Causa de Aumento de Pena
O art. 18 da lei aqui estudada traz o crime de tráfico internacional de arma de
fogo, dispondo em sua redação as condutas de importar, exportar, favorecer a en-
trada ou saída do território nacional, a qualquer título, de arma de fogo, acessório
ou munição, sem autorização da autoridade competente. A pena é de reclusão
de quatro a oito anos, e multa.
O art. 19, por sua vez, dispõe que nos crimes previstos nos arts. 17 e 18, a
pena é aumentada da metade se a arma de fogo, acessório ou munição forem de
uso proibido ou restrito. Nota-se que aqui se tem uma causa de aumento de pena.
Já o art. 20 do mesmo diploma legal dispõe que nos crimes previstos nos arts.
14, 15, 16, 17 e 18, a pena é aumentada da metade se forem praticados por in-
tegrante dos órgãos e empresas referidas nos arts. 6º, 7º e 8º desta Lei. Exemplo:
soldados, integrantes da guarda civil metropolitana, dentre outros.

Exercício
26. Julgue o seguinte item:
Importador de armas de uso proibido, sem autorização da autoridade com-
petente, caso condenado a uma pena mínima, poderá iniciar o cumprimento
da pena em regime aberto.

14. Tráfico Internacional de Arma de Fogo –


Crime Insuscetível de Liberdade Provisória
– Posicionamento Jurisprudencial –
Inconstitucionalidade
O art. 21 do Estatuto do Desarmamento trata da liberdade provisória:
“Art. 21. Os crimes previstos nos arts. 16, 17 e 18 são insuscetíveis de liber-
dade provisória.”
Legislação Penal Especial 61

O STF entendeu que o legislador, ao estipular esta regra, desrespeitou o Pacto


Federativo e a individualização cautelar concreta dos magistrados (ADIn nº 3.112-1).
O Plenário do STF declarou a inconstitucionalidade dos artigos do Estatuto do
Desarmamento que tornavam crime inafiançável o porte ilegal e disparo de arma
de fogo, e o que negava a liberdade provisória para os acusados de posse, porte
e comércio ilegal de arma.
A maioria dos ministros acompanhou o relator, que acolheu parecer do Minis-
tério Público Federal, segundo o qual o porte ilegal e o disparo de arma de fogo
“constituem crimes de mera conduta que, embora reduzam o nível de segurança
coletiva, não se equiparam aos crimes que acarretam lesão ou ameaça de lesão à
vida ou à propriedade”.
O relator considerou inconstitucionais os arts. 14 e 15, que proíbem o estabe-
lecimento de fiança para os crimes de porte ilegal de arma de fogo de uso per-
mitido e disparo de arma de fogo. Também foram considerados inconstitucionais
os dispositivos que negavam liberdade provisória aos acusados de posse ou porte
ilegal de arma de uso restrito, comércio ilegal de arma e tráfico internacional de
arma.
Isso, porque haveria violação à presunção de inocência, o devido processo
legal, a ampla defesa e o contraditório.

Exercício
27. Julgue o seguinte item:
De acordo com o STF, a liberdade provisória, medida cautelar com previsão
no CPP, pode ser afastada pelo legislador para leis penais especiais, como a
Lei de Armas.
Capítulo 6
Tortura – Lei nº 9.455/97

1. Introdução – Histórico da Tortura no


Brasil – Promulgação da Lei de Tortura –
Entendimento Jurisprudencial

O conceito de tortura é a inflição de castigo corporal ou psicológico violento, por


meio de expedientes mecânicos ou manuais, praticados por agentes no exercício
de funções públicas ou privadas, com o intuito de compelir alguém a admitir ou
omitir fato lícito ou ilícito, seja ou não responsável por ele (Curso de Direito
Constitucional, Uadi Lammêgo Bulos, 2001, p. 211).
O crime de tortura foi tipificado pela primeira vez no Brasil no art. 233 do ECA
(hoje revogado). Referido dispositivo recebeu inúmeras críticas, por se tratar de
norma por demais ampla, ferindo, assim, o princípio da reserva legal.
O art. 233 limitava-se a dizer “submeter à tortura”, sem definir em que con-
sistiria essa prática, ou seja, sem fornecer os elementos necessários para que se
extraísse o exato significado da expressão tortura.
Mesmo com as críticas da doutrina, o STF, por maioria de votos, entendeu que
o delito estava tipificado no art. 233 do ECA, contrariamente ao ponto de vista
ora defendido.
Com a promulgação da Lei nº 9.455/97, esta discussão foi superada, pois a
nova lei, em seu art. 4º, revogou expressamente o dispositivo do ECA.
Ainda, além de revogar o antigo dispositivo, a nova lei fixou o exato signifi-
cado, com todas as elementares, do crime de tortura, em estrita obediência aos
ditames do princípio da reserva legal.
Legislação Penal Especial 63

Exercício
28. Julgue o seguinte item:
A revogação do crime de tortura, do art. 233 do ECA, pela Lei de Tortura,
impede que a criança seja vítima dos crimes da Lei nº 9.455/97.

2. Delito de Natureza Castrense – Crime Militar


– Competência – Classificação da Tortura
quanto ao Resultado do Crime – Bem Jurídico
Tutelado – Modalidades de Tortura

O crime de tortura, tipificado pela Lei nº 9.455/97, não se qualifica como delito
de natureza castrense, razão pela qual, encontra-se na esfera de competência
penal da Justiça Comum, federal ou local a depender do caso.
Ainda que praticado por membro das Forças Armadas ou por integrante
da Polícia Militar não será julgado pela Justiça Militar por falta de competência
material.
Quanto à ação penal, o crime de tortura trata-se de ação penal pública incon-
dicionada.
A inércia do Ministério Público autorizará a propositura da ação penal privada
subsidiária, nos termos dos arts. 29 do Código Penal e art. 5º, LIX, da Constitui-
ção Federal
Dessa forma, o dever do Estado de investigar, processar e julgar possíveis atos
cometidos por um torturador independe da vontade da vítima.
A tortura é crime material, pois se consuma no momento em que o intenso
sofrimento é causado à vítima. O dolo do agente está na vontade livre e cons-
ciente de torturar.
Se houver eventual resultado posterior, como lesão ou morte, a própria lei
dará tratamento especial.
Quanto ao bem jurídico tutelado, nos crimes de tortura-persecutória ou tor-
tura-prova, tortura-crime ou tortura-racismo, os bens jurídicos protegidos são a
integridade corporal e a saúde física e psicológica das pessoas.
No caso de prática de crime por agente público, tutela-se, secundariamente,
a Administração Pública, traída em seus objetivos de legalidade, impessoalidade,
moralidade e eficiência.
Importa destacar que, a tortura-persecutória ou tortura-prova, nada mais é
que torturar alguém para obter uma confissão ou informação relevante. A tor-
64 Legislação Penal Especial

tura-crime é aquela em que o torturador pratica o ato visando que sua vítima
cometa um crime, na tortura-racismo o agressor obriga sua vítima a praticar atos
de racismo.

Exercício
29. Julgue o item a seguir.
Tortura praticada em quartel, por policial militar, será julgada pela Justiça
Militar.

3. Crimes em Espécies. Tortura-constrangimento


– Tortura-prova – Sujeito Ativo e Passivo –
Consumação do Delito – Elemento Subjetivo
do Tipo

O crime de tortura se caracteriza mediante o constrangimento de alguém


com emprego de violência ou grave ameaça, causando-lhe sofrimento físico
ou mental.
Na tortura-constrangimento ou tortura-prova, a finalidade da tortura é a ob-
tenção de informação, declaração ou confissão da vítima ou terceira pessoa.
Quanto à finalidade alcançada pela tortura, segundo o autor Victor Eduardo
Rios Gonçalves, pouco importa a natureza da informação visada pelo agente,
podendo ser comercial, criminosa, eleitoral, pessoal, etc.
Em se tratando de crime comum, no crime de tortura, o sujeito ativo pode
ser qualquer pessoa, sendo o sujeito passivo, aquele contra quem é empregada a
violência ou grave ameaça.
Quando praticado por agente público, o Estado, titular da Administração,
também será sujeito passivo mediato, uma vez que foi atingido em seus fins de
buscar o bem comum, e de zelar pelo respeito à dignidade humana, nos termos
do art. 1º, III, da CF.
A consumação deste crime se dá no momento em que são empregados os
meios violentos, como os choques ou breves afogamentos além da grave amea-
ça, ou seja, a partir da produção do resultado naturalístico.
Nesse caso, o tipo penal exige como elemento normativo extrajurídico, que do
constrangimento, resulte o sofrimento físico ou mental, independentemente da
obtenção de informação ou confissão da vítima.
Legislação Penal Especial 65

O elemento subjetivo do tipo é o dolo com a finalidade especial, em que se


exige a vontade de empregar a violência ou ameaça com o fim de obter a prova,
provocar a ação criminosa da vítima ou de terceiro ou ainda, atingir o objetivo
discriminatório.

Exercício
30. Julgue o item a seguir.
Ofensas verbais, independentemente do contexto e intensidade, não podem
ser consideradas como forma de tortura, por incompatibilidade com o ele-
mento subjetivo do crime de tortura.

4. Princípio da Inadmissibilidade das Provas


Obtidas por Meio de Provas Ilícitas –
Inidoneidade Jurídica da Prova – Tortura-Crime
– Tortura Racial

A tortura é um meio de obtenção de prova ilícita por natureza; alguns doutrina-


dores entendem que, se for para beneficiar o réu, a prova obtida por meios ilícitos
pode ser admitida. (corrente temerária)
Tal interpretação tende a minimizar ou abolir a eficiência de garantia consti-
tucional com natureza de cláusula pétrea. Para todos os efeitos, o ato de tortura
jamais admite relativização e não poderá ser negociado de forma alguma.
A vedação à admissibilidade das provas obtidas por meios ilícitos tem funda-
mento no princípio da ampla defesa, pois do contrário, se tornaria um estímulo à
prática de tortura pelos agentes do Estado.
Um direito absoluto não pode ser relativizado, nem mesmo sob a alegação de
que os fins justificariam os meios, para a validação de provas que viessem a ser
de interesse público.
Outro argumento que sustentaria a impossibilidade de aceitar as referidas
provas como lícitas seria o regresso brasileiro causando uma instabilidade social.
O indubio pro reu não rege apenas o Processo Penal, como é preceito consti-
tucional e norteia toda a persecução penal.
Para o Supremo Tribunal Federal, a ação persecutória do Estado, qualquer que
seja a instância de poder a qual se instaure, para revestir-se de legitimidade, não
pode apoiar-se em elementos probatórios ilicitamente obtidos.
66 Legislação Penal Especial

Tal entendimento reconhece a garantia constitucional do due process of law,


que tem no dogma da inadmissibilidade das provas ilícitas, uma de suas mais
expressivas projeções concretizadoras no plano do sistema de direito positivo.
A tortura-crime ocorre a partir do constrangimento de alguém com emprego
de violência ou grave ameaça, causando-lhe sofrimento de ordem física ou men-
tal com o objetivo de provocar ação ou omissão de natureza criminosa.
Já a tortura racial ocorre em razão de discriminação racial ou religiosa. Aquele
que praticar crime de tortura racial também responderá por crime de racismo, nos
termos da Lei nº 7.716/89 em concurso formal imperfeito.

Exercício
31. Julgue o item a seguir.
Em nome da verdade real, prova obtida por tortura poderá ser, em tese,
admitida. Tal relativização tem fundamento no princípio pas de nullité sans
grief.

5. Crimes em Espécies – Tortura Castigo – Maus-


-Tratos – Elemento Subjetivo do Crime Castigo

A tortura castigo é aquela em que ocorre a submissão de alguém, que esteja sob
a guarda, poder ou autoridade, com emprego de violência ou grave ameaça, a
intenso sofrimento físico ou mental, como forma de aplicar castigo pessoal ou
medida de caráter preventivo.
Para as condutas mencionadas, segundo a Lei nº 9.455/97 haverá a punição
com pena de reclusão, de dois a oito anos.
A tortura castigo se diferencia das demais espécies de tortura tipificadas na Lei
de Tortura, para tanto, deverá a vítima ser submetida a intenso sofrimento físico
ou mental.
Ao contrário das demais espécies de tortura, a tortura castigo trata-se de
crime próprio, pois somente poderá ser cometido por quem possua autoridade,
guarda ou poder sobre a vítima, ou seja, pelo pai, tutor, curador, diretor ou fun-
cionário de hospital ou de colégio.
O sujeito passivo deste crime poderá ser apenas a pessoa que esteja sob a guar-
da de autoridade, por exemplo, o filho, o tutelado, o curatelado ou o internado.
O crime de maus-tratos, por sua vez previsto no art. 136 do Código Penal
não se confunde com o crime de tortura. Para a determinação entre uma e outra
Legislação Penal Especial 67

conduta, necessária se faz a apreciação do grau de aflição imposta à vítima sub-


metida ao intenso sofrimento físico ou mental.
Como elemento subjetivo do tipo no crime de tortura castigo surge o dolo
específico de castigar a vítima com imposição de intenso sofrimento com a finali-
dade específica de aplicar um castigo pessoal ou de caráter preventivo.
Nesse caso, o tipo penal possui, portanto, um elemento subjetivo do injusto.

Exercício
32. Julgue o item a seguir.
Se o sofrimento físico não for intenso, não poderá ser tipificado o crime de
tortura.

6. Omissão Perante a Tortura – Modalidades


de Crime Omissivo – Texto Constitucional –
Responsabilidade do Omitente

Quanto à omissão perante a tortura e a consequente responsabilidade daquele


que se omite, a Lei nº 9.455/97 prevê a pena de detenção de um a quatro anos,
se constatada tal conduta ao que tinha o dever de evitá-las ou apurá-las.
Assim, a Lei de Tortura traz de forma expressa, a previsão normativa para res-
ponsabilizar os torturadores por omissão.
Lembrando que, somente será penalmente relevante a omissão daquele que
tenha o dever expresso de agir, ou seja, diante da violação do dever de agir.
No tipo penal a lei impõe duas modalidades de crime omissivo, sendo na
primeira, a omissão praticada por quem tinha o dever de evitar a tortura e na
segunda forma, a omissão praticada por quem tinha o dever legal de apurar a
prática da tortura.
A Constituição Federal, ao determinar a punição dos autores da tortura, refe-
re-se aos mandantes e executores e ainda, aos que, podendo evitá-lo, se omitem.
A intenção do legislador constitucional foi de punir, com igual gravidade, os
executores, os mandantes e aqueles que, por omissão, cooperarem para o come-
timento do delito.
Ocorre que, o legislador ordinário seguiu por um caminho diverso ao inserir,
em dispositivo à parte, figura privilegiada para os omitentes, embora o legislador
constituinte tenha nivelado à categoria do sujeito ativo nesse crime.
68 Legislação Penal Especial

Responde pela figura privilegiada, aquele que se omitiu na apuração dos fa-
tos, sendo o indivíduo que, tomando conhecimento após o cometimento da tor-
tura, nada fez para esclarecer a verdade e punir os culpados.
Quanto ao indivíduo que presenciou a tortura mas nada fez, aderindo à con-
duta principal dos demais torturadores, mediante dolo direto ou eventual, a solu-
ção será responsabilizá-lo pelo mesmo crime do qual participou com a sua omis-
são. (Concurso de Pessoas)
Porém, segundo a corrente mais garantista, se houver um crime previsto com
pena menor para a conduta praticada, o torturador responderá pela figura privi-
legiada, segundo o princípio da legalidade.

Exercício
33. Julgue o item a seguir.
Se o omitente se omitiu culposamente, não poderá responder nem pelo
crime principal, nem pela forma privilegiada de tortura, pois não existe par-
ticipação culposa em crime doloso.

7. Tortura Qualificada pela Morte x Homicídio


Qualificado pela Tortura – Aplicação da Lei de
Tortura

Na prática, pode-se considerar que tanto na tortura qualificada pelo homicídio


quanto no homicídio qualificado pela tortura, alguém foi torturado e alguém
morreu.
Para que se possa diferenciar os tipos penais é preciso analisar na Lei de Tor-
tura e verificar se da prática da tortura resultar a morte, com previsão de pena de
reclusão de oito a dezesseis anos.
Nessa hipótese, a morte resulta da prática de tortura, sendo aplicável a Lei
nº 9.455/97.
Já a pena no homicídio qualificado pela tortura, conforme o Código Penal
estabelece, pode chegar à pena máxima de reclusão de 30 anos.
O homicídio qualificado é aquele em que o evento morte é praticado por
meios com o emprego de veneno, fogo, explosivo, asfixia, tortura ou qualquer
outro meio insidioso ou cruel, ou que possa resultar perigo comum.
Todo homicídio qualificado é doloso, ou seja, o objetivo do agente é matar
alguém.
Legislação Penal Especial 69

Assim, se a tortura for empregada como meio para o cometimento de um


homicídio doloso, o crime será o tipificado no art. 121, § 2º, III, do Código Penal,
e não o da Lei nº 9.455/1997.
Dessa forma, a Lei de Tortura prevê, exclusivamente, a morte preterdolosa,
isto é, a vontade de realizar apenas a tortura, da qual, por atuação culposa do
torturador, resulta a morte não querida.

Exercício
34. Julgue o item a seguir.
Delitos preterdolosos não podem ser qualificados, por força da culpa penal
em relação ao resultado delitivo.

8. Causas de Aumento de Pena na Tortura

Quanto às majorantes e causas de aumento de pena no crime de tortura, a pena


poderá ser aumentada de um sexto até um terço se o crime for cometido por
agente público.
O crime também terá aumento de pena de um sexto até um terço se o crime
for cometido contra criança, gestante, portador de deficiência, adolescente ou
maior de 60 anos, ou se o crime for cometido mediante sequestro.
No caso do agente público, como se trata de uma norma penal em branco é
preciso analisar o conceito de agente público, devendo ser considerada qualquer
pessoa que exerça cargo, emprego ou função pública, de natureza civil ou militar,
ainda que transitoriamente ou sem remuneração.
Importante destacar que, por função pública, entende-se aquela que perse-
gue fins próprios do Estado, mesmo que o agente não esteja no exercício da
função, mas o crime deve guardar alguma relação com a função.
Um exemplo que pode ser citado é o policial que não está no exercício de
sua função e comete ato de tortura, nesse caso, o simples fato de ser um agente
público não incide causa de aumento de pena.
Lembrando que para a consideração de deficiente, a lei não faz qualquer dis-
tinção entre a deficiência física ou mental.
Será considerada criança, aquele que possuir menos de 12 anos e adolescen-
te, o maior de 12 e menor de 18 anos, nos termos do art. 2º, caput, do Estatuto
da Criança e do Adolescente.
70 Legislação Penal Especial

O Estatuto do idoso informa que o indivíduo para ser considerado como tal,
deverá ter mais de 60 anos, mas para todos os efeitos, 60 anos completos já de-
termina a condição de idoso.
Na Lei de Tortura, o crime de sequestro é aquele em que ocorre a privação
da liberdade com a intenção de torturar a vítima, o que demonstra alto grau de
reprovação das condutas.
Essa previsão não se confunde com o disposto no art. 148 do Código Penal,
nessa hipótese, o dolo era sequestrar e em razão desse ato resultou grave sofri-
mento físico ou moral à vítima.

Exercício
35. Julgue o item a seguir.
O reconhecimento da causa de aumento de pena do crime de tortura, pra-
ticado por agente público, depende, para a sua configuração, da relação
entre a tortura e a função do agente.

9. Interdição do Exercício de Cargo – Função


– Emprego Público – Efeito da Condenação –
Competência para Julgamento

Há duas situações no CP que acarretam a perda de cargo, função ou mandato


eletivo, no caso de condenação criminal.
Se o juiz criminal condenou um agente público por peculato, este perde o
cargo? O juiz precisa escrever na sentença dele que o sujeito perdeu o cargo, daí
o efeito automático. Ou o juiz coloca expressamente, ou não surte efeitos.
Lei de Tortura. “Art. 1º, § 5º – A condenação acarretará a perda do cargo,
função ou emprego público e a interdição para seu exercício pelo dobro do prazo
da pena aplicada.”
“A condenação acarretará”, como efeito extrapenal secundário genérico e
automático, o qual independerá de expressa menção na sentença, “a perda do
cargo, função ou emprego público e a interdição para seu exercício pelo dobro
do prazo da pena aplicada”.
Cuidado – Automático não significa autoaplicável, e sim carente de funda-
mentação.
Quando se lê dispositivo autoaplicável, significa que mesmo que o juiz não
diga nada, isso acontecerá com a pessoa. Não precisa de uma declaração funda-
mentada na sentença.
Legislação Penal Especial 71

A autoaplicabilidade diz respeito à necessidade ou não do juiz escrever isso


na sentença.
O fato do efeito da condenação ser automático, não significa que ele é au-
toaplicável.
Alguns agentes públicos, por força de disposição expressa da Constituição,
não podem perder o cargo só por efeito da condenação por tortura.
Os militares, apesar do efeito da condenação ser automático, para eles não
é autoaplicável. Mesmo que o juiz criminal não diga nada na sua decisão que
condenou o militar por tortura, ele preenche o requisito da perda do cargo por
ser automática, mas ele não será afastado da polícia militar pela publicação da
sentença criminal, pois quando se trata de Justiça Militar, a CF exige decisão da
própria Justiça Militar.
Os servidores públicos condenados por tortura perdem a função ou o cargo
público. Entretanto, essa perda não pode acontecer na justiça comum que é, em
regra, a competente para julgar as condutas. Por força do § 4º do art. 125 da
CF/88, essa perda deve se dar no Tribunal de Justiça Militar (TJM) estadual ou nos
Tribunais de Justiça onde aqueles não existirem. Nunca pelos juízes de primeiro
grau ou mesmo no TJ no mesmo ato da sentença condenatória que estabeleceu
a pena.

Exercício
36. A perda da função pública de policial militar é condicionada a julgamento
posterior pelo Tribunal de Justiça Militar (TJM) estadual ou nos Tribunais de
Justiça, onde aqueles não existirem. Verdadeiro ou falso?

10. Vedação de Benefícios – Texto Constitucional


e Lei de Tortura – Prescrição – Cumprimento
de Pena – Tratamentos Diferenciados no
Crime de Tortura
A lei de tortura foi equiparada à lei dos crimes hediondos, aqueles do art. 1º da
Lei nº 8.072/90. O genocídio também é hediondo.
Além desses crimes do art. 1º, há os crimes que não são hediondos, mas equi-
parados a eles: o tráfico de drogas, o terrorismo e a tortura.
Tortura é crime hediondo? Não, mas é equiparado a hediondo. Terá um trata-
mento mais rigoroso em relação a benefícios.
72 Legislação Penal Especial

A tortura é inafiançável, não admitindo a liberdade provisória com fiança.


Isso não significa que o juiz de direito não possa conceder liberdade provisó-
ria. O delegado não pode, mas o juiz sim. É possível, por exemplo, que o juiz con-
ceda liberdade provisória com proibição de sair da comarca, de chegar próximo à
vítima e monitoração eletrônica.
A partir da Lei nº 12.403/2011, há um leque de medidas cautelares diversas
da fiança, que viabilizaram a liberdade provisória.
No plano das cautelares, não há ainda a condenação definitiva, por isso o
sujeito é considerado não culpável pela Constituição.
O delito está sujeito à prescrição, uma vez que somente são considerados im-
prescritíveis o racismo (art. 5º, XLII, da CF e Lei nº 7.716/89) e as ações de grupos
armados, civis ou militares, contra a ordem constitucional e o Estado Democrático
(arts. 5º, XLIV, da CF e 20, da Lei nº 7.710/83).
A Tortura prescreve. Se o Estado não tiver atenção, será extinta a punibilidade
pela prescrição.
A Lei nº 8.072, de 25 de julho de 1990, a chamada Lei dos Crimes Hediondos,
impôs tratamento penal mais severo à tortura, mediante: a) a proibição da pro-
gressão de regime; b) o aumento do prazo para obtenção do livramento condicio-
nal para 2/3 de cumprimento da pena; c) a proibição da anistia, graça e indulto; d)
a proibição de fiança e liberdade provisória; e) excepcional apelação em liberdade
da sentença condenatória; f) 2/5 ou 3/5 de pena cumprida para progredir de re-
gime; g) regime inicial fechado.

Exercício
37. A tortura, crime grave que atinge a dignidade humana, é imprescritível e
inafiançável. Verdadeiro ou falso?

11. Extraterritorialidade – Condicionada e


incondicionada – Entendimento Doutrinário –
Convenções Internacionais sobre Tortura
A lei brasileira pode ser usada para processar e punir os torturadores que agem
fora do país.
O processo ocorrerá no Brasil, não precisando ser necessariamente brasileiro.
“Art. 2º O disposto nesta Lei aplica-se ainda quando o crime não tenha sido
cometido em território nacional, sendo a vítima brasileira ou encontrando-se o
agente em local sob jurisdição brasileira.”
Legislação Penal Especial 73

A lei brasileira pode ser usada para processar e punir os torturadores que
agem fora do País.
A questão da extradição do condenado é outra discussão de direito interna-
cional público.
O art. 7º do CP já traz a extraterritorialidade; o que há é uma lei especial
tratando de um crime específico com hipótese de extraterritorialidade especial. A
primeira parte (crime de tortura praticado no estrangeiro sendo a vítima brasilei-
ra) se refere a uma hipótese de extraterritorialidade incondicionada.
Não é preciso mais nenhuma outra condição para punir o torturador de um
brasileiro fora do Brasil, basta que o sujeito pratique o crime de tortura nos ter-
mos da legalidade dos crimes brasileiros.
Por sua vez, a segunda parte (crime de tortura praticado no estrangeiro en-
contrando-se o agente em local sob jurisdição brasileira) se trata de hipótese de
extraterritorialidade incondicionada para alguns autores (Guilherme Nucci, Ga-
briel Habib) e condicionada para outros (Fernando Capez, Marcelo André).
A condição não está prevista na lei de tortura, nem no Código Penal, mas em
duas convenções sobre tortura:
– Convenção Contra a Tortura e Outros Tratamentos ou Penas Cruéis, Desu-
manas ou Degradantes (art. 12); e
– Convenção Interamericana para Prevenir e Punir a Tortura (art. 5º).
A lei será aplicada caso não haja extradição. Isto quer dizer que, se for caso de
extradição, não incidirá a lei do país em que o agente se encontrar.
Se for caso de extradição da pessoa que torturou, não será aplicada a lei do
país em que o agente se encontrar.
A tortura praticada sob jurisdição do Brasil fora do Brasil é condicionada, em
virtude das Convenções.

Exercício
38. O Brasil pode processar e condenar aqui, no Brasil, um polonês que torturou
um chinês em embaixada brasileira na África do Sul. Verdadeiro ou falso?
Capítulo 7
Abuso de Autoridade –
Lei nº 4.898/65

1. Abuso de Autoridade

A representação dirigida ao Ministério Público é mera notitia criminis informal.


Há diferença entre a representação do CPP como condição objetiva de proce-
dibilidade das ações penais condicionadas à representação e a simples represen-
tação da lei de abuso de autoridade.
O MP pode, diante dos contextos e fatos, não ter representação, pois não é
uma ação penal pública condicionada à representação.
Sem a representação do CPP, o inquérito não pode ser instaurado, a ação
penal pública condicionada não pode começar.
Outra coisa é o direito de representação e de petição que todos têm contra a
prática de abuso de autoridade.
Qualquer pessoa pode pleitear perante as autoridades competentes a punição
dos responsáveis por abuso.
Trata-se do direito de representação previsto na Constituição Federal, nos se-
guintes termos:
Quando um agente público abusa de seus poderes, atribuídos em razão da
natureza da sua função, ele pratica uma infração administrativa, civil e penal, e o
cidadão brasileiro tem o direito constitucional de exercer uma petição para que
exista a punição dos responsáveis pela prática de abuso de poder.
Se o objetivo é responsabilizar o agente que praticou o abuso de autoridade
penalmente, deve a vítima se dirigir ao MP, se quer responsabilizar civelmente
ou administrativamente, deve a vítima se dirigir até a autoridade superior do
agente.
Legislação Penal Especial 75

Exercício
39. O direito de representação será exercido por meio de petição dirigida à au-
toridade superior que tiver competência legal para aplicar a lei penal. Verda-
deiro ou falso?

2. Crimes em Espécie – Elemento Subjetivo –


Sujeito Ativo – Não Admissão de Tentativa

Nesta unidade serão estudados os aspectos gerais sobre os crimes de abuso de


autoridade.
A Lei nº 4.898/65, além de regular o direito de representação, define os crimes
de abuso de autoridade e estabelece a forma de apuração das responsabilidades
administrativa, civil e penal.
A lei foi criada num período autoritário, e, portanto, tem intuito simbólico,
promocional e demagógico, mormente pelas penas muito baixas, passíveis de
substituição por multa e facilmente alcançáveis pela prescrição (que fulmina o jus
puniendi).
O elemento subjetivo do crime de abuso de autoridade é sempre o dolo. Não
há previsão de crime culposo nesta lei. O sujeito ativo é somente a autoridade. É,
portanto, crime próprio.
O conceito de autoridade está no art. 5º da lei: “Considera-se autoridade,
para os efeitos desta lei, quem exerce cargo, emprego ou função pública, de na-
tureza civil, ou militar, ainda que transitoriamente e sem remuneração.”
Considerando que a qualidade de autoridade integra o tipo dos crimes de
abuso de autoridade como elementar, admite-se o particular ser coautor ou partí-
cipe deste crime, porque as condições de caráter elementar comunicam-se.
Os crimes estão previstos nos arts. 3º e 4º da lei.
Os crimes desta lei não admitem tentativa, uma vez que qualquer atentado é
punido como crime consumado. São os chamados crimes de atentado.

Exercício
40. Julgue o seguinte item:
Pratica uma das condutas previstas nos arts. 3º e 4º da Lei nº 4.989/65 a
autoridade que esteja fora de suas funções e, ainda assim, invoque essa
condição ao praticar o abuso.
76 Legislação Penal Especial

3. Hipóteses de Abuso de Autoridade –


Liberdade de Locomoção – Inviolabilidade
de Domicílio – Sigilo da Correspondência
– Liberdade de Consciência e Crença – Livre
Exercício do Culto Religioso – Liberdade de
Associação

Agora, serão abordados os crimes em espécie na lei dos crimes de abuso de au-
toridade.
“Art. 3º: Constitui abuso de autoridade qualquer atentado:
a) à liberdade de locomoção: todas as pessoas têm o direito de ir, vir e ficar,
garantido pelo habeas corpus. Não pratica este crime a autoridade que age nos
estritos limites da lei (exemplo: policial que prende sujeito cometendo crime em
flagrante), porque aí não haverá ilicitude.
b) à inviolabilidade do domicílio: o domicílio só poderá ser violado quando
alguém estiver praticando um crime no interior da residência ou se houver ordem
judicial (nestes casos não haverá o crime de abuso de autoridade).
c) ao sigilo da correspondência: somente poderá a autoridade violar o sigilo
da correspondência nos casos de remessas enviadas a presos. Se um particular
violar a correspondência, não praticará abuso de autoridade, mas sim o crime
previsto no CP.
d) à liberdade de consciência e de crença: o Brasil é um estado laico, de modo
que todas as crenças são protegidas igualmente.
e) ao livre exercício do culto religioso: é exemplo de abuso de autoridade por
esta alínea o diretor do presídio que proíbe aos presos cultos de uma determinada
religião.
f) à liberdade de associação: exceto as associações de caráter paramilitar (ve-
dadas pela Constituição), as demais associações são protegidas pela lei de abuso
de autoridade.”

Exercício
41. Julgue a seguinte afirmativa:
O agente público que impede excessos de associação contra a violência
atenta contra a liberdade de associação e pratica abuso de autoridade.
Legislação Penal Especial 77

4. Direitos e Garantias do Exercício do Voto


– Direito de Reunião – Incolumidade Física do
Indivíduo – Direitos e Garantias do Exercício
Profissional

Segue-se o estudo do art. 3º: “Constitui abuso de autoridade qualquer atentado:


g) aos direitos e garantias legais assegurados ao exercício do voto: trata-se de
qualquer atentado à capacidade eleitoral ativa dos cidadãos. São exemplos das
garantias legais que rodeiam o voto o fato de ser ele secreto. Aqui, o mesário
pode praticar o crime de abuso de autoridade.
h) ao direito de reunião: é o direito de se reunir pacificamente, sem armas, em
local previamente comunicado ao poder público. Contudo, se os manifestantes
não comunicarem o poder público, a reunião se torna ilegal, e, assim, as autori-
dades poderão impedir tal reunião.
i) à incolumidade física do indivíduo: todas as pessoas têm o direito de não so-
frer, por parte do Estado, nenhuma postura do poder público que atente contra a
integridade física. Aqui, a autoridade responderá pelo abuso de autoridade mais
o crime de violência praticado.
j) aos direitos e garantias legais assegurados ao exercício profissional: como
nas demais situações, o direito será respeitado se for exercido nos limites da lei.

Exercício
42. Julgue a seguinte afirmativa:
O mesário pratica abuso de autoridade ao impedir um eleitor bêbado de
votar.

5. Medida Privativa de Liberdade Individual –


Submissão a Vexame ou Constrangimento
– Comunicação de Prisão ao Juiz – Cobrança
de Custas e Emolumentos – Ato Lesivo da
Honra ou Patrimônio
Serão abordadas agora as condutas descritas no art. 4º da Lei de Abuso de Au-
toridade:
78 Legislação Penal Especial

“Art. 4º Constitui também abuso de autoridade:


a) ordenar ou executar medida privativa da liberdade individual, sem as forma-
lidades legais ou com abuso de poder: se o réu é primário e a pena máxima é até
quatro anos, não cabe a prisão preventiva. Se, ainda que nestas condições, um
juiz determinar a prisão do réu, ele praticará ato de abuso de autoridade. Neste
mesmo caso, também responderá o agente que efetuou a prisão, se sabia que a
ordem era ilegal.
b) submeter pessoa sob sua guarda ou custódia a vexame ou a constrangi-
mento não autorizado em lei: é o caso de uma autoridade policial que obriga o
preso a vexame ou constrangimento não autorizado por lei.
c) deixar de comunicar, imediatamente, ao juiz competente a prisão ou deten-
ção de qualquer pessoa: o prazo é de 24 horas a partir da lavratura do auto de
prisão em flagrante.
d) deixar o Juiz de ordenar o relaxamento de prisão ou detenção ilegal que
lhe seja comunicada: o juiz deve fazer a análise da legalidade do procedimento
administrativo do auto de prisão em flagrante. Havendo ilegalidade, deve a prisão
ser relaxada. Se o juiz não o fizer, cometerá abuso de autoridade.
e) levar à prisão e nela deter quem quer que se proponha a prestar fiança,
permitida em lei.
f) cobrar o carcereiro ou agente de autoridade policial da carceragem, custas,
emolumentos ou qualquer outra despesa, desde que a cobrança não tenha apoio
em lei, quer quanto à espécie quer quanto ao seu valor: impede a negociação
não prevista em lei.
g) recusar o carcereiro ou agente de autoridade policial recibo de importân-
cia recebida a título de carceragem, custas, emolumentos ou de qualquer outra
despesa: inaplicável.
h) o ato lesivo da honra ou do patrimônio de pessoa natural ou jurídica, quan-
do praticado com abuso ou desvio de poder ou sem competência legal.
i) prolongar a execução de prisão temporária, de pena ou de medida de se-
gurança, deixando de expedir em tempo oportuno ou de cumprir imediatamente
ordem de liberdade.”

Exercício
43. Julgue a seguinte afirmativa:
Delegado que mantém preso temporariamente um suspeito além do prazo
legal comete abuso de autoridade.
Legislação Penal Especial 79

6. Sanções Civil – Administrativa, Penal,


Extinção da Pena Acessória

Nesta unidade, serão estudadas as sanções, o que evidenciará o caráter simbólico


desta lei.
Reza o art. 6º da lei: “O abuso de autoridade sujeitará o seu autor à sanção
administrativa civil e penal.”
É possível que as sanções sejam cumuladas.
A sanção administrativa será aplicada de acordo com a gravidade do abuso
cometido, podendo ser advertência, repreensão, suspensão do cargo, função ou
posto por prazo determinado com perda de vencimentos e vantagens, destituição
da função, demissão ou demissão a bem do serviço público.
A representação que busque este tipo de sanção deve ser dirigida ao chefe do
agente que praticar o abuso.
A sanção civil, caso não seja possível fixar o valor do dano, consistirá no paga-
mento de uma indenização.
A sanção penal será aplicada de acordo com as regras do Código Penal e
consistirá em:
a) multa;
b) detenção por 10 dias a seis meses: aqui fica bem claro o caráter desta lei
que, por ter sido criada em uma época ditatorial, tinha o claro interesse de prote-
ger, na verdade, as autoridades. Esta pena, pelas regras do Código Penal, poderia
inclusive ser substituída por multa, porque não ultrapassa seis meses.
c) perda do cargo e a inabilitação para o exercício de qualquer outra função
pública por prazo de até três anos: tratam-se de efeitos da condenação (e não
pena acessória).
Importante a leitura da Súmula nº 171, do STJ, que proibia a substituição das
penas privativas de liberdade no caso de abuso de autoridade por multa.
Observe, ainda, que o § 5º da lei não é mais aplicado, porque a pena assessó-
ria foi extinta com a reforma penal de 1984.

Exercício
44. Julgue a seguinte afirmativa:
As penas da lei de abuso de autoridade foram revogadas pela parte geral do
Código Penal de 1984, mostrando-se inaplicáveis.
80 Legislação Penal Especial

7. Abuso de Autoridade de Militar –


Comprovação de Vestígios de Abuso de
Autoridade
Finalizando o estudo da lei de abuso de autoridade, segue-se, agora, a compe-
tência e a perícia.
Na Súmula nº 172, do STJ temos que compete à Justiça Comum processar e
julgar militar por crime de abuso de autoridade, ainda que praticado em serviço.
Trata-se de enunciado de 1996. Mas este entendimento já vinha sendo apli-
cado pelo STJ desde 1993. Justiça Militar tem competência para julgar os crimes
militares, do CPM. Os crimes de abuso de autoridade não estão previstos no CPM,
e, portanto, não têm natureza militar.
Importante, também, a regra do art. 14 da lei: “Se a ato ou fato constituti-
vo do abuso de autoridade houver deixado vestígios o ofendido ou o acusado
poderá:
a) promover a comprovação da existência de tais vestígios, por meio de duas
testemunhas qualificadas;
b) requerer ao Juiz, até 72 horas antes da audiência de instrução e julgamen-
to, a designação de um perito para fazer as verificações necessárias.”
É regra diferente da norma geral do CPP. Embora o CPP seja lei anterior à lei
do abuso de autoridade, aplica-se o CPP: desaparecidos os vestígios, pode-se
fazer o exame indireto, mas, havendo vestígio, é imprescindível o exame de corpo
de delito. Portanto, quando o MP receber uma representação, é prudente que
requisite, antes da denúncia, a perícia, para aferir a materialidade do delito.
Importante ainda os parágrafos do mesmo artigo:
“§ 1º O perito ou as testemunhas farão o seu relatório e prestarão seus de-
poimentos verbalmente, ou o apresentarão por escrito, querendo, na audiência
de instrução e julgamento.
§ 2º No caso previsto na letra a deste artigo a representação poderá conter a
indicação de mais duas testemunhas.”

Exercício
45. Julgue a seguinte afirmativa:
Tenente da Polícia Militar, fardado, que usa arma da corporação para subme-
ter pessoa sob sua custódia a constrangimento não autorizado por lei será
julgado pela Justiça Militar.
Capítulo 8
Portador de Deficiência –
Lei nº 7.853/89

1. Pessoa Portadora de Deficiência –


Regulamentação – Conceito e Categoria de
Deficiências Previstas em Lei

A expressão “portador de deficiência”, embora não seja a mais adequada, é a


utilizada pela lei.
A preocupação do legislador, com esta lei, é nivelar desigualdades. Na aplica-
ção e interpretação da lei, considera-se valores de igualdade, tratamento, oportu-
nidade, justiça social, respeito à dignidade da pessoa humana, bem-estar e outros
indicados pela CF ou justificados pelos princípios gerais do direito.
A efetivação dos direitos dos portadores de deficiência é dever do governo e
da sociedade.
No art. 2º da lei, temos que cabe ao poder público assegurar aos portadores
de deficiência o pleno exercício de todos os direitos sociais.
O decreto que regulamenta esta lei é o nº 3.298/99.
Pelo decreto, considera-se deficiência toda perda ou anormalidade de uma
estrutura ou função psicológica, fisiológica ou anatômica que gere incapacidade
para o desempenho da atividade dentro do padrão considerado normal para o
ser humano.
Deficiência permanente é aquela que ocorre ou se estabilize durante período
de tempo suficiente para não permitir recuperação ou ter probabilidade de que
se altere, apesar de novos tratamentos.
Categorias de deficiência: física, auditiva, visual, mental e múltipla (aquela
que acumula duas ou mais deficiências específicas).
82 Legislação Penal Especial

Exercício
46. Julgue a seguinte afirmativa:
O legislador escolheu, dentre outras, a tutela penal para assegurar a obser-
vância dos direitos das pessoas portadoras de deficiência.

2. Tutela Penal às Pessoas Portadoras de


Deficiências – Tipificação das Condutas
As condutas tipificadas, relacionadas aos portadores de deficiência enquanto víti-
ma, estão nos incisos do art. 8º da Lei nº 7.853/89:
“I – recusar, suspender, procrastinar, cancelar ou fazer cessar, sem justa causa,
a inscrição de aluno em estabelecimento de ensino de qualquer curso ou grau,
público ou privado, por motivos derivados da deficiência que porta (havendo justa
causa, não haverá configuração do crime: havendo incompatibilidade entre o cur-
so e a deficiência, é justificável a não inserção da pessoa no contexto educacional);
II – obstar, sem justa causa, o acesso de alguém a qualquer cargo público, por
motivos derivados de sua deficiência (engloba cargos em comissão e por provi-
mento mediante concurso; havendo incompatibilidade funcional entre o cargo e
as aptidões físicas ou psicológicas, não se configura o crime);
III – negar, sem justa causa, a alguém, por motivos derivados de sua deficiên-
cia, emprego ou trabalho;
IV – recusar, retardar ou dificultar internação ou deixar de prestar assistência
médico-hospitalar e ambulatorial, quando possível, à pessoa portadora de defi-
ciência (aqui, não se fala mais em justa causa, mas na possibilidade ou não de
prestar atendimento médico-hospitalar);
V – deixar de cumprir, retardar ou frustrar, sem justo motivo, a execução de
ordem judicial expedida na ação civil a que alude esta Lei (trata-se da ação civil
pública também prevista nesta lei: a sentença da lei, quando descumprida, gera
o crime deste inciso);
VI – recusar, retardar ou omitir dados técnicos indispensáveis à propositura da
ação civil objeto desta Lei, quando requisitados pelo Ministério Público (também
trata da ação).

Exercício
47. Julgue a seguinte afirmativa:
(TJ/PI – Juiz de Direito – Cespe) Os crimes contra portadores de deficiência
são punidos com pena de detenção e multa, sendo cabível a substituição da
pena privativa pela restritiva de direitos.
Capítulo 9
Estatuto do Índio –
Lei nº 6.001/73

1. Princípios – Definições – Direitos dos Indígenas


– Conceito de Índio e Comunidade Indígena

A Lei nº 6.001/73 veio para trazer as populações indígenas para uma harmoniosa
integração total. Aos índios, aplicam-se as leis do país, resguardados os usos,
costumes e tradições indígenas, bem como as condições peculiares reconhecidas
na Lei.
No art. 2º, temos os direitos dos índios, e o dever dos Estados e dos Municí-
pios, bem como aos órgãos das respectivas administrações indiretas, nos limites
de sua competência em efetivar os direitos dos índios:
– estender aos índios os benefícios da legislação comum;
– prestar assistência aos índios e às comunidades indígenas ainda não inte-
grados à comunhão nacional;
– respeitar, ao proporcionar meios para o seu desenvolvimento, as peculiari-
dades inerentes à sua condição;
– assegurar a possibilidade de livre escolha dos seus meios de vida e subsis-
tência;
– garantir a permanência voluntária no seu habitat, proporcionando-lhes ali
recursos para seu desenvolvimento e progresso;
– respeitar, no processo de integração à comunhão nacional, a coesão das co-
munidades indígenas, os seus valores culturais, tradições, usos e costumes;
– executar, sempre que possível mediante a colaboração dos índios, os pro-
gramas e projetos tendentes a beneficiar as comunidades indígenas;
– utilizar a cooperação, o espírito de iniciativa e as qualidades pessoais do
índio, tendo em vista a melhoria de suas condições de vida e a sua integra-
ção no processo de desenvolvimento;
84 Legislação Penal Especial

– garantir, nos termos da Constituição, a posse permanente das terras que


habitam, reconhecendo-lhes o direito ao usufruto exclusivo das riquezas
naturais e de todas as utilidades naquelas terras existentes (lembrar que a
propriedade é do Estado);
– garantir o pleno exercício dos direitos civis e políticos que em face da legis-
lação lhes couberem.
Nos arts. 3º e 4º da lei, temos os conceitos importantes.

Exercício
48. Julgue a seguinte afirmativa:
Índio é todo indivíduo de origem e ascendência pré-colombiana que se iden-
tifica e é identificado como pertencente a um grupo étnico cujas caracterís-
ticas culturais o distinguem da sociedade nacional.

2. Arts. 56, 57, 58 e 59

O art. 56 do Estatuto do índio dispõe sobre a condenação de índio por infração


penal, estabelecendo que a pena deverá ser atenuada e na sua aplicação o Juiz
atenderá também ao grau de integração do silvícola.
As penas de reclusão e detenção serão cumpridas, se possível, em regime
especial de semiliberdade, no local de funcionamento do órgão federal de assis-
tência aos índios mais próximos da habitação do condenado.
Essa regra prevista em 1973 deve ser recebida com ressalvas, pois, dependen-
do da situação, o índio não tem culpabilidade, ou seja, não há reprovação social
pela conduta praticada.
O art. 57 da mesma lei dispõe que será tolerada a aplicação, pelos grupos
tribais, de acordo com as instituições próprias, de sanções penais ou disciplinares
contra seus membros, desde que não revistam caráter cruel ou infamante, proibi-
da em qualquer caso a pena de morte.
Nesse sentido, o Estado brasileiro interfere de certa maneira, no tocante à lei
penal aplicável aos índios, a maior prova disso é justamente a criação do Estatuto
do Índio.
O art. 58 diz que constituem crimes contra os índios e a cultura indígena
perturbar ou ridicularizar a prática de cerimônia ou culto, utilizar o índio ou
sua comunidade como objeto de propaganda turística ou de exibição para fins
lucrativos.
Legislação Penal Especial 85

Ainda constitui crime contra os índios, propiciar por qualquer meio, a aqui-
sição, o uso e a disseminação de bebidas alcoólicas, nos grupos tribais ou entre
índios não integrados.
No art. 59, da Lei nº 6.001/73, a pena será agravada de um terço no caso de
crime contra a pessoa, o patrimônio ou os costumes, em que o ofendido seja o
índio não integrado ou comunidade indígena.
Aqui tem-se uma causa de aumento de pena para todos os crimes contra a
pessoa humana ou contra a dignidade sexual do índio.

Exercício
49. Julgue a seguinte afirmativa:
Diretor da Funai que subtrai objetos de dentro da habitação de silvícola terá
sua pena atenuada, por fazer parte do círculo de confiança da comunidade
indígena.
Capítulo 10
Lei Maria da Penha
(Lei nº 11.340/06)

1. Lei nº 11.340/06 – Lei Maria da Penha


– Mecanismos de Coibição e Direitos
Fundamentais

A mulher, vítima de violência doméstica, efetivamente sofre violência física, ou


psicológica, ou sexual ou de natureza patrimonial, as quais podem se dar de
forma isolada ou cumulativamente. Esta mulher deve procurar as autoridades em
busca de auxílio (autoridades policiais).
O art. 11 da Lei nº 11.340/06 apresenta dois momentos, sendo o primeiro a
questão do atendimento emergencial. Neste atendimento, a autoridade policial
deve tomar algumas cautelas, sendo a primeira a proteção policial.
A segunda medida é o encaminhamento desta mulher, que sofreu violência
doméstica, ao hospital. Não havendo hospital na região, a mulher deve ser en-
caminhada ao posto de saúde. É preciso observar que se a mulher foi vítima de
violência e precisa ser submetida à perícia imediata para a coleta de sêmen, em
caso de estupro, deve ser incluído o Instituto Médico Legal (IML).
A terceira medida é o transporte desta mulher a um abrigo ou a um local
seguro, caso não haja abrigo na comarca.
A quarta medida é acompanhar a vítima para retirada de seus pertences de
seu domicílio ou do local da ocorrência, se necessário.
Por fim, a quinta medida, é a informação de seus direitos, bem como os ser-
viços disponíveis.
É preciso compreender que aqui, deve haver a comunicação imediata ao Mi-
nistério Público e ao juiz.
É importante entender que a proteção policial não será aquela que acompa-
nha a pessoa em tempo integral.
Legislação Penal Especial 87

Ainda, dispõe o art. 313, III, do Código de Processo Penal:


“Art. 313. Nos termos do art. 312 deste Código, será admitida a decretação
da prisão preventiva:
(...)
III – se o crime envolver violência doméstica e familiar contra a mulher, criança,
adolescente, idoso, enfermo ou pessoa com deficiência, para garantir a execução
das medidas protetivas de urgência;”

Exercício
50. Sobre a Lei nº 11.340/06 (Lei Maria da Penha), que criou mecanismos para
coibir e prevenir a violência doméstica e familiar contra a mulher, é correto
afirmar:
a) A prisão preventiva do acusado passou a ser obrigatória, com a inclusão
do inciso IV ao art. 313 do Código de Processo Penal, que estabelece as
hipóteses em que se admite a sua decretação.
b) Diversas medidas cautelares foram previstas, sob a denominação de
“medidas protetivas de urgência que obrigam o agressor”, permitin-
do ao magistrado a utilização imediata de instrumentos cíveis e penais
contra o acusado, alternativa ou cumulativamente.
c) O juiz competente para apuração do delito praticado contra a mulher
deverá, quando for o caso, oficiar imediatamente ao juízo cível para a
adoção de medidas consideradas urgentes, como a separação de cor-
pos e a prestação de alimentos provisionais ou provisórios.
d) As medidas restritivas de direito previstas na lei, como a proibição de
frequentar determinados lugares, têm caráter de pena e, portanto, só
podem ser aplicadas pelo juiz ao final do procedimento.

2. Lei Maria da Penha – Procedimento e Medidas


de Urgência

O art. 12 da Lei nº 11.340/06 trata dos procedimentos e dispõe:


“Art. 12. Em todos os casos de violência doméstica e familiar contra a mulher,
feito o registro da ocorrência, deverá a autoridade policial adotar, de imediato, os
seguintes procedimentos, sem prejuízo daqueles previstos no Código de Processo
Penal:
88 Legislação Penal Especial

I – ouvir a ofendida, lavrar o boletim de ocorrência e tomar a representação a


termo, se apresentada;
II – colher todas as provas que servirem para o esclarecimento do fato e de
suas circunstâncias;
III – remeter, no prazo de 48 (quarenta e oito) horas, expediente apartado
ao juiz com o pedido da ofendida, para a concessão de medidas protetivas de
urgência;
IV – determinar que se proceda ao exame de corpo de delito da ofendida e
requisitar outros exames periciais necessários;
V – ouvir o agressor e as testemunhas;
VI – ordenar a identificação do agressor e fazer juntar aos autos sua folha de
antecedentes criminais, indicando a existência de mandado de prisão ou registro
de outras ocorrências policiais contra ele;
VII – remeter, no prazo legal, os autos do inquérito policial ao juiz e ao Minis-
tério Público.”
O art. 41 dispõe que não se aplica o Juizado Especial Criminal em caso de
violência doméstica contra a mulher.
O art. 15 da Lei Maria da Penha trata da competência e estabelece:
“Art. 15. É competente, por opção da ofendida, para os processos cíveis regi-
dos por esta Lei, o Juizado:
I – do seu domicílio ou de sua residência;
II – do lugar do fato em que se baseou a demanda;
III – do domicílio do agressor.”
É possível observar que o domicílio do agressor não é a primeira hipótese de
competência cível.
Ainda, uma peculiaridade das Varas do Juizado de Violência Doméstica e Fa-
miliar Contra a Mulher é a possibilidade de realização de atos processuais no
período noturno.
Quanto às medidas protetivas de urgência, dispõe o art. 18 da Lei nº 11.340/06:
“Art. 18. Recebido o expediente com o pedido da ofendida, caberá ao juiz, no
prazo de 48 (quarenta e oito) horas:
I – conhecer do expediente e do pedido e decidir sobre as medidas protetivas
de urgência;
II – determinar o encaminhamento da ofendida ao órgão de assistência judi-
ciária, quando for o caso;
III – comunicar ao Ministério Público para que adote as providências cabíveis.”
Legislação Penal Especial 89

3. Lei Maria da Penha – Ação Penal e Aspectos


Relevantes

Existe um Ministério Público que trabalha somente com violência doméstica e


familiar.
O Ministério Público atua no plano civil, por exemplo, quando há interesses de
incapazes. Exemplo: divórcio em que haja um menor de idade. Trata-se de uma
decisão civil que envolve família.
É importante que este mesmo promotor tenha conhecimento cível (em espe-
cial família, sucessões) e criminal.
O Ministério Público, quando necessário, pode requisitar força policial, servi-
ços públicos de saúde, de educação, de assistência social e de segurança. Tam-
bém deve fiscalizar os estabelecimentos públicos de atendimento à mulher em
situação de violência. Deve, ainda, cadastrar os casos de violência doméstica e
familiar contra a mulher.
Se a mulher, vítima de violência doméstica, não possui um defensor, esta re-
ceberá assistência judiciária gratuita de um Defensor Público.
É importante frisar que, antes da criação de vara específica, a competência
para casos tratados na lei fica com a vara criminal, que ganha competência cumu-
lativa com a competência cível.
O art. 41 reza: “Aos crimes praticados com violência doméstica e familiar con-
tra a mulher, independentemente da pena prevista, não se aplica a Lei nº 9.099,
de 26 de setembro de 1995.”
É preciso observar que a composição civil é afastada, bem como a transação
penal. Outro benefício trazido pela Lei nº 9.099/95 é a suspensão do processo,
que também não pode ser aplicado a crimes que envolvam a Lei Maria da Penha,
não importando a pena do crime.

Exercício
51 A Lei nº 11.340/2006 (Lei Maria da Penha) resguarda os direitos da mulher con-
tra a violência doméstica e familiar. No plano processual, pode-se afirmar que:
a) Possui rito especial, previsto na Lei nº 11.340.
b) Possui rito especial que será utilizado, em todo o País, apenas nos casos
em que a vítima for do gênero feminino.
c) Proíbe a concessão de fiança ou liberdade provisória, quando qualquer
infração penal for praticada contra a mulher.
90 Legislação Penal Especial

d) Proíbe a aplicação da Lei nº 9.099/95, mesmo para as infrações penais


de menor potencial ofensivo, quando praticadas contra a vítima mulher.

4. Lei Maria da Penha – Noções Gerais

A Lei Maria da Penha tem uma peculiaridade, pois é destinada à proteção das
mulheres. Tudo o que está previsto nesta lei serve para a proteção de mulheres,
fato que é constitucional.
Fórmula: violência + vulnerabilidade + mulher = aplicação da Lei Maria da
Penha. Assim, para que se aplique a lei aqui estudada é importante que se
tenha a violência, as situações de vulnerabilidade e que a vítima seja do sexo
feminino.
Há cinco espécies de violência: física, sexual, psicológica, patrimonial e moral.
A violência psicológica está presente, por exemplo, no crime de ameaça.
Já a violência moral atinge a moral da mulher, como no crime de injúria, por
exemplo.
Quanto às situações de vulnerabilidade, há três hipóteses. A primeira é o am-
biente doméstico (critério espacial). O segundo critério é o da relação familiar
(critério de parentesco). A terceira hipótese é chamada de relação íntima de afeto.
É preciso entender que “ficar” não caracteriza a situação de vulnerabilidade,
tendo sido o fato decidido pelo STJ.
Ainda, faz-se necessário observar que a relação íntima de afeto dispensa a
coabitação.
Outro ponto importante é que a mulher possui proteção, ainda que o sujeito
seja ex-namorado.
Em relação à empregada doméstica, nota-se que não há relação íntima de
afeto, mas existe o âmbito doméstico. Assim, a empregada doméstica está prote-
gida contra a violência de seu patrão ou de um terceiro no ambiente doméstico.

Exercício
52. Não constitui forma de violência contra a mulher:
a) Violência física.
b) Violência sexual.
c) Violência cultural.
d) Violência patrimonial.
Legislação Penal Especial 91

5. Lei Maria da Penha – Evolução Jurisprudencial

No momento em que a lei foi criada, segundo as estatísticas, a grande vítima era
a mulher. Assim, como o homem é exceção, já estaria protegido pelo Código
Penal. Contudo, a prática demonstrou que o homem também pode ser vítima
em relações íntimas de afeto. Desta forma, em alguns casos, o Poder Judiciário
aplicou trechos da Lei Maria da Penha para proteção do homem, ressaltando-se
que esta não é a regra.
O transexual é aquele que nasce com uma personalidade diferente do corpo
que carrega, sendo realizadas cirurgias para alterar o sexo. No caso do transexual,
a jurisprudência entendeu que há proteção, uma vez que juridicamente trata-se
de mulher.
Quanto à empregada doméstica, esta também está protegida pela lei aqui
estudada, conforme julgado do STJ.
Ainda, a lei protege a vítima mulher, não necessitando que o agressor seja do
sexo masculino.
Conforme visto anteriormente, a ex-namorada também se encontra protegida
pela Lei Maria da Penha.
Faz-se necessário entender, ainda, que em se tratando de casal de namoradas
(homossexualismo), há incidência da proteção da lei. Isso, porque não há distin-
ção de orientação sexual. Observe-se, no entanto, que em se tratando de casal
homossexual masculino, não há aplicação da lei.
Capítulo 11
Genocídio – Lei nº 2.889/56

1. Conceito – Competência – Elementos e


Características do Genocídio
O genocídio representa uma modalidade criminosa que possui dolo específico de
eliminar um grupo ou etnia de forma maciça.
Em 1944, o advogado judeu polonês Raphael Lemkin, criou a palavra geno-
cídio combinando a palavra grega génos que significa raça, povo, tribo, grupo,
nação com a palavra caedere que quer dizer destruição, aniquilamento, ruína,
matança.
Dessa forma, queria descrever em apenas uma palavra, o crime praticado pe-
los nazistas. Essa terminologia foi utilizada pelo Tribunal de Nuremberg.
Entre a criação da palavra pelo advogado polonês e a tipificação na lei brasi-
leira, temos um lapso temporal. Em 1948 as Nações Unidas aprovaram a Conven-
ção para a Prevenção e Punição de Crimes de Genocídio.
Esta Convenção estabeleceu o genocídio como crime de caráter internacional,
e as nações signatárias se comprometeram a efetivar as ações para evitar e punir
o crime de genocídio.
No Brasil, a referida Convenção foi ratificada pelo Decreto nº 39.822/52 e,
logo em seguida, no ano de 1956, foi editada e Lei nº 2.889/56 que copiou os
tipos de genocídio descritos na Convenção.
O Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional, também ratificado pelo Bra-
sil através do Decreto nº 4.388/2002, seguiu os mesmos conceitos da Convenção.
Vale frisar que, o tipo penal do delito de genocídio protege, em todas as suas
modalidades, bem jurídico coletivo ou transindividual, figurado na existência do
grupo racial, étnico ou religioso, a qual é posta em risco por ações que podem
também ser ofensivas a bens jurídicos individuais, como direito à vida, à integri-
dade física ou mental e à liberdade de locomoção.
Legislação Penal Especial 93

Exercício
53. Analise a seguinte assertiva como verdadeira ou falsa:
O genocídio tentado é crime hediondo, nos termos do parágrafo único do
art. 1º da Lei nº 8.072/1990.

2. Arts. 1º a 6º da Lei nº 2.889/56

O art. 1º da lei que disciplina o genocídio descreve as condutas que configuram


a prática criminosa.
Assim, matar membros de determinado grupo, causar lesão grave à integrida-
de física ou mental de membros do grupo, submeter intencionalmente o grupo
a condições de existência capazes de ocasionar-lhe a destruição física total ou
parcial.
Também constitui prática genocida adotar medidas destinadas a impedir os
nascimentos no seio do grupo e efetuar a transferência forçada de crianças de
um grupo para outro.
Como o crime de genocídio pode se dar a partir de diversas formas, tem-se a
previsão dada a partir da técnica legislativa a seguinte solução apresentada.
Será punido com as penas do art. 121, § 2º, do Código Penal, no caso da letra
a, de 12 a 30 anos. Com as penas do art. 129, § 2º, no caso da letra b, sendo de
2 a 8 anos. Com as penas do art. 270, no caso da letra c, de 10 a 15 anos.
Com as penas do art. 125, no caso da letra d, com a pena de 3 a 10 anos e
com as penas do art. 148, no caso da letra e, com a pena de 2 a 5 anos.
Dessa forma, se a conduta for matar, será aplicada a pena para o crime de
homicídio e assim sucessivamente.
Lembrando que, para configurar o crime de genocídio, o ato matar deve
ter como pano de fundo, a intenção de eliminar determinado grupo étnico ou
religioso.
O simples ato de incitar a prática de genocídio, direta e publicamente, consti-
tui a culminação da pena pela metade da imposta no art. 1º da Lei nº 2.889/56.
O art. 6º da Lei de Genocídio prevê que os crimes não serão considerados
crimes políticos para efeitos de extradição.

Exercício
54. O crime de genocídio exige elemento subjetivo específico.
Capítulo 12
Racismo

1. Introdução e Aspectos Constitucionais

A Lei nº 7.716/1989, conhecida como Lei do Racismo, traz condutas consideradas


criminosas e a identificação do racismo está mais relacionada à segregação racial
do que uma agressão verbal relacionada à raça da pessoa.
O racismo, para o conceito utilizado pela legislação, é uma ideologia direcio-
nada para afirmar a superioridade de uma raça sobre outra.
A Constituição Federal estabelece que todos são iguais perante a lei e, portan-
to, não é possível diferenciar as pessoas no plano jurídico.
Existe a denominada discriminação racial positiva, como aquela prevista na Lei
Maria da Penha.
A discriminação racial pode ser positiva se buscar tratar desigualmente as
pessoas desiguais por um bom motivo. Ainda, a discriminação racial se confunde
com o racismo.
A xenofobia diz respeito à intolerância, à raiva e ao ódio direcionados a es-
trangeiros.
Já a homofobia diz respeito à intolerância, à raiva e ao ódio direcionados a
pessoas homossexuais.
Desde 1965, a ONU adotou uma Convenção tentando direcionar para todos
os países que compõem as Nações Unidas a elaboração de uma lei para punir atos
de discriminação. Trata-se de uma diretriz internacional do século passado que
buscou irradiar essa preocupação global com a eliminação de todas as formas de
discriminação.
Na Constituição de 1988, existiu uma preocupação do constituinte em deixar
claro que o Brasil não admite oficialmente atos de racismo.
Legislação Penal Especial 95

Dispõe o art. 1º, III, da Constituição Federal de 1988:


“Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos
Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de
Direito e tem como fundamentos:
(...)
III – a dignidade da pessoa humana;”
O art. 4º, VIII, também da Magna Carta estabelece:
“Art. 4º A República Federativa do Brasil rege-se nas suas relações internacio-
nais pelos seguintes princípios:
VIII – repúdio ao terrorismo e ao racismo;”
Dispõe o art. 5º da Constituição Federal que todos são iguais perante a lei,
sendo tratados igualmente os iguais e desigualmente os desiguais.
Por fim, cumpre observar que o racismo é um crime inafiançável e impres-
critível.

2. Arts. 3º, 5º, 6º, 7º, 8º, 9º, 10, 11, 12, 13 e 14 da
Lei nº 7.716/1989

O art. 3º da Lei nº 7.716/1989 dispõe:


“Art. 3º Impedir ou obstar o acesso de alguém, devidamente habilitado, a
qualquer cargo da Administração Direta ou Indireta, bem como das concessioná-
rias de serviços públicos.
Parágrafo único. Incorre na mesma pena quem, por motivo de discriminação
de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional, obstar a promoção funcional.
Pena: reclusão de dois a cinco anos.”
O art. 5º do mesmo diploma legal estabelece:
“Art. 5º Recusar ou impedir acesso a estabelecimento comercial, negando-se
a servir, atender ou receber cliente ou comprador.
Pena: reclusão de um a três anos.”
Dispõe o art. 6º também da lei aqui estudada:
“Art. 6º Recusar, negar ou impedir a inscrição ou ingresso de aluno em esta-
belecimento de ensino público ou privado de qualquer grau.
Pena: reclusão de três a cinco anos.”
O parágrafo único do dispositivo acima referido estabelece que se o crime for
praticado contra menor de 18 anos a pena é agravada de 1/3 (um terço).
96 Legislação Penal Especial

Estabelece o art. 7º:


“Art. 7º Impedir o acesso ou recusar hospedagem em hotel, pensão, estala-
gem, ou qualquer estabelecimento similar.
Pena: reclusão de três a cinco anos.”
O art. 8º da mesma lei dispõe:
“Art. 8º Impedir o acesso ou recusar atendimento em restaurantes, bares,
confeitarias, ou locais semelhantes abertos ao público.
Pena: reclusão de um a três anos.”
O art. 9º traz a seguinte redação:
“Art. 9º Impedir o acesso ou recusar atendimento em estabelecimentos espor-
tivos, casas de diversões, ou clubes sociais abertos ao público.
Pena: reclusão de um a três anos.”
Estabelece o artigo seguinte:
“Art. 10. Impedir o acesso ou recusar atendimento em salões de cabeleireiros,
barbearias, termas ou casas de massagem ou estabelecimento com as mesmas
finalidades.
Pena: reclusão de um a três anos.”
Dispõe o art. 11:
“Art. 11. Impedir o acesso às entradas sociais em edifícios públicos ou residen-
ciais e elevadores ou escada de acesso aos mesmos:
Pena: reclusão de um a três anos.”
O art. 12 traz a seguinte redação:
“Art. 12. Impedir o acesso ou uso de transportes públicos, como aviões, na-
vios barcas, barcos, ônibus, trens, metrô ou qualquer outro meio de transporte
concedido.
Pena: reclusão de um a três anos.”
O artigo seguinte dispõe:
“Art. 13. Impedir ou obstar o acesso de alguém ao serviço em qualquer ramo
das Forças Armadas.
Pena: reclusão de dois a quatro anos.”
Por fim, o art. 14 tem a seguinte redação:
“Art. 14. Impedir ou obstar, por qualquer meio ou forma, o casamento ou
convivência familiar e social.
Pena: reclusão de dois a quatro anos.”
Legislação Penal Especial 97

3. Arts. 4º e 20 – Aspectos Finais Previstos na Lei


nº 7.716/1989

O art. 4º da Lei nº 7.716/1989 sofreu uma alteração em 2010, e traz a seguinte


redação juntamente com seus parágrafos:
“Art. 4º Negar ou obstar emprego em empresa privada.
§ 1º Incorre na mesma pena quem, por motivo de discriminação de raça ou de
cor ou práticas resultantes do preconceito de descendência ou origem nacional
ou étnica:
I – deixar de conceder os equipamentos necessários ao empregado em igual-
dade de condições com os demais trabalhadores;
II – impedir a ascensão funcional do empregado ou obstar outra forma de
benefício profissional;
III – proporcionar ao empregado tratamento diferenciado no ambiente de tra-
balho, especialmente quanto ao salário.”
O art. 20 da lei aqui estudada dispõe:
“Art. 20. Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça,
cor, etnia, religião ou procedência nacional.
Pena: reclusão de um a três anos e multa.”
É preciso observar que o induzimento é uma sugestão mais leve, uma indireta,
dar a ideia a alguém. Já incitar exige uma postura ativa mais enfática.
O § 1º do artigo acima referido estabelece:
“§ 1º Fabricar, comercializar, distribuir ou veicular símbolos, emblemas, orna-
mentos, distintivos ou propaganda que utilizem a cruz suástica ou gamada, para
fins de divulgação do nazismo.
Pena: reclusão de dois a cinco anos e multa.”
O § 2º tem a seguinte redação:
“§ 2º Se qualquer dos crimes previstos no caput é cometido por intermédio
dos meios de comunicação social ou publicação de qualquer natureza:
Pena: reclusão de dois a cinco anos e multa.”
Insta salientar que aqui a preocupação é com a propagação da ideologia
racista.
Dispõe o § 3º:
“§ 3º No caso do parágrafo anterior, o juiz poderá determinar, ouvido o Mi-
nistério Público ou a pedido deste, ainda antes do inquérito policial, sob pena de
desobediência:
98 Legislação Penal Especial

I – o recolhimento imediato ou a busca e apreensão dos exemplares do ma-


terial respectivo;
II – a cessação das respectivas transmissões radiofônicas, televisivas, eletrôni-
cas ou da publicação por qualquer meio;
III – a interdição das respectivas mensagens ou páginas de informação na rede
mundial de computadores.”
Capítulo 13
Lei de Agrotóxicos
– Lei nº 7.802/89

1. Conceito – Figuras Típicas – Elementares do


Crime

A Lei nº 7.802/89 foi criada para proteger o meio ambiente e a saúde humana.
Dispõe sobre a experimentação, a produção, a embalagem e rotulagem, o trans-
porte, o armazenamento, a comercialização, a propaganda comercial, a utiliza-
ção, a importação, a exportação, o destino final dos resíduos e embalagens, o
registro, a classificação, o controle, a inspeção e a fiscalização de agrotóxicos,
seus componentes e afins.
O conceito de agrotóxicos consta do art. 2º da lei.
O Brasil bateu o recorde de consumo de agrotóxicos no ano de 2009, mas en-
tenda que o crime não está no uso dos agrotóxicos, mas sim na utilização contra
as regulamentações legais.
As figuras típicas estão nos arts. 15 e 16 da lei.
“Art. 15. Aquele que produzir, comercializar, transportar, aplicar, prestar ser-
viço, der destinação a resíduos e embalagens vazias de agrotóxicos, seus compo-
nentes e afins, em descumprimento às exigências estabelecidas na legislação per-
tinente estará sujeito à pena de reclusão, de dois a quatro anos, além de multa.”
Este artigo apresenta algumas condutas que podem ou não serem rotulados
como figuras típicas, a depender do elemento normativo do tipo: “em descum-
primento às exigências estabelecidas na legislação pertinente.” Trata-se de norma
penal em branco, pois este artigo não traz o regramento completo para a confi-
guração do crime. Assim, quando o agente pratica qualquer um dos verbos do
tipo desrespeitando a legislação respectiva, pratica o crime, e está sujeito à pena
de 2 a 4 anos (não cabe suspensão do processo, mas cabe substituição por pena
restritiva de direito).
100 Legislação Penal Especial

Trata-se de crime omissivo. Os valores dispostos no artigo são calculados,


atualmente, em dias-multa.

Exercício
55. Prestador de serviço contratado para aplicar agrotóxico que, após a aplica-
ção do produto, descarta as embalagens vazias do produto em região desa-
bitada não pratica crime, pois a ausência de pessoas impede a consumação
do delito.
Capítulo 14
Lei das Contravenções
Penais – Decreto-Lei
nº 3.688/41

1. Introdução

Infração penal é gênero, que se subdivide em duas espécies: crime e contraven-


ção. Crimes são aqueles punidos com detenção ou reclusão e contravenção é
punida com prisão simples.
A competência para julgar contravenções penais nunca será da Justiça Fede-
ral, mas sim da Justiça Estadual.
É preciso observar que toda contravenção penal será de competência do Jui-
zado Especial Criminal, independente da pena máxima.
A Lei de Contravenções Penais é dividida em duas partes: parte geral e parte
especial.
A parte geral traz uma série de regras gerais, que norteiam a aplicação e in-
terpretação de todas as infrações em espécie.
A lei não possui extraterritorialidade, de forma diversa do disposto no Código
Penal.
Por fim, é preciso observar dois sinônimos para contravenção penal: delito
anão e delito liliputiano.

2. Estudo comparativo: Código Penal e Lei de


Contravenções Penais

É preciso observar que a Constituição Federal de 1988 assegura um mínimo de


dolo ou culpa para que exista infração penal.
Não é punível a tentativa de contravenção.
102 Legislação Penal Especial

As penas são:
I – prisão simples.
II – multa.
A prisão simples deve ser cumprida sem rigor penitenciário, em regime semia-
berto ou aberto.
O condenado à pena de prisão simples fica sempre separado dos condenados
à pena de reclusão ou de detenção.
Ainda, o trabalho para quem for condenado definitivamente por contraven-
ção penal é facultativo. Todavia, se a pena passa de quinze dias, o trabalho passa
a ser obrigatório.
O art. 21 do Código Penal fala do erro de proibição, que significa o desconhe-
cimento de que aquele ato é proibido pelo Direito. O juiz analisa no caso concreto
se aquela pessoa não tinha como conhecer a lei. Caso o juiz entenda desta forma,
afasta-se a culpabilidade.
No caso de ignorância ou de errada compreensão da lei, quando escusáveis,
a pena pode deixar de ser aplicada.
Pode ser notado que aqui há uma exclusão de punibilidade e não de culpa-
bilidade.
A multa converte-se em prisão simples, de acordo com o que dispõe o Código
Penal sobre a conversão de multa em detenção.
Ocorre que desde 1996, o sistema de descumprimento de multa se tornar
cadeia não existe mais. O que acontece hoje é que em caso de não pagamento
da multa, converte-se em dívida de valor, vai para a Procuradoria da Fazenda e o
sujeito sofre uma Execução Fiscal.
O Código Penal dispõe que o máximo que um indivíduo pode permanecer
preso no Brasil é 30 anos. Já na lei aqui estudada, o prazo máximo é de cinco
anos. Dispõe o art. 10:
“A duração da pena de prisão simples não pode, em caso algum, ser superior
a cinco anos, nem a importância das multas ultrapassar cinquenta contos.”
Desde que reunidas as condições legais, o juiz pode suspender por tempo não
inferior a um ano nem superior a três, a execução da pena de prisão simples, bem
como conceder livramento condicional.

3. Efeitos da Condenação, Medida de Segurança


e Ação Penal
O art. 12 da Lei de Contravenções Penais trata de penas acessórias, mas é ne-
cessário entender que não mais existem penas acessórias no sistema criminal
Legislação Penal Especial 103

brasileiro. Neste sentido, é preciso interpretar a expressão “penas acessórias”


como efeitos da condenação.
As penas acessórias são a publicação da sentença e as seguintes interdições
de direitos:
I – a incapacidade temporária para profissão ou atividade, cujo exercício de-
penda de habilitação especial, licença ou autorização do poder público;
II – a suspensão dos direitos políticos.”
A incapacidade para exercício de profissão ou atividade dura de um mês a
dois anos, desde que o motivo da prática da infração tenha relação com sua
profissão. Já a suspensão dos direitos políticos dura enquanto durar a execução
da pena.
Aplicam-se, por motivo de contravenção, as medidas de segurança estabele-
cidas no Código Penal, à exceção do exílio local.
Presumem-se perigosos, além dos indivíduos a que se referem os incisos I e II
do art. 78 do Código Penal:
“I – o condenado por motivo de contravenção cometido, em estado de em-
briaguez pelo álcool ou substância de efeitos análogos, quando habitual a
embriaguez;
II – o condenado por vadiagem ou mendicância;”
Tal dispositivo deve ser considerado como revogado tacitamente por ser in-
compatível com a ordem constitucional.
São internados em colônia agrícola ou em instituto de trabalho, de reedu-
cação ou de ensino profissional, pelo prazo mínimo de um ano: (Regulamento)
I – o condenado por vadiagem (art. 59);
II – o condenado por mendicância (art. 60 e seu parágrafo);
Faz-se necessário advertir que a contravenção penal de mendicância foi revo-
gada expressamente no ano de 2009.
O prazo mínimo para que uma pessoa fique internada em manicômio judiciá-
rio, no Código Penal é de um a três anos e na lei aqui estudada são seis meses
(art. 16).
O parágrafo único do art. 16 também está revogado tacitamente, uma vez
que trata da liberdade vigiada, modalidade de medida de segurança que não
mais existe.
Por fim, o art. 17 da Lei de Contravenções Penais dispõe que a ação penal é
pública.
104 Legislação Penal Especial

4. Reincidência

“Art. 7º Verifica-se a reincidência quando o agente pratica uma contravenção


depois de passar em julgado a sentença que o tenha condenado, no Brasil ou no
estrangeiro, por qualquer crime, ou, no Brasil, por motivo de contravenção.
É preciso entender que contravenção anterior ao crime não torna o sujeito
reincidente. O art. 63 do Código Penal dispõe que será considerado reincidente
aquele que praticar um crime anterior e não uma contravenção anterior.
Desta forma, havendo contravenção anterior definitivamente julgada e crime
posterior, o sujeito não é reincidente por falta de previsão legal.
Se o sujeito praticou um crime e pratica outro, é reincidente. Se o sujeito
praticou contravenção e pratica outra, é reincidente. Se o sujeito praticou crime
em primeiro lugar, é reincidente, mas se praticou contravenção em primeiro lugar,
não é reincidente.
Ainda, quem praticar contravenção no estrangeiro, não é punido aqui no
Brasil. Neste sentido, se não importa para fins de punição, não importa também
para fins de reincidência.
A reincidência é uma circunstância agravante de natureza pessoal. Assim, na
segunda fase da dosimetria da sentença, o juiz aumentará a pena.
É preciso observar que cinco anos depois de extinta a pena em que foi reco-
nhecida a reincidência, o sujeito volta a ser tecnicamente primário.
Para que se prove a reincidência, é preciso da Certidão de Antecedentes Cri-
minais, não podendo ser atestado, xerox de processo, dentre outros documentos.
Havendo no primeiro processo: perdão judicial, transação penal na audiência
preliminar, suspensão do processo no oferecimento da denúncia, composição civil
dos danos na audiência preliminar ou ainda crime militar próprio ou crime políti-
co, não há que se falar em reincidência.
Se o crime anterior for tentado ou culposo, sendo praticado outro delito,
haverá reincidência.
Se o sujeito for condenado à pena de multa no primeiro processo, o sujeito
também é reincidente.
Por fim, é preciso observar que a reabilitação criminal não elimina a reinci-
dência.

5. Parte Especial – Arma Branca

A parte especial da Lei de Contravenções Penais começa com as contravenções


referentes à pessoa.
Legislação Penal Especial 105

Os arts. 18 e 19 foram tacitamente revogados pela Lei de Armas de 1997,


que por sua vez foi revogada expressamente pelo Estatuto do Desarmamento
em 2003.
Entretanto, o art. 19 continua sendo utilizado em relação às chamadas armas
brancas (aquilo que não é arma de fato, aquilo que não é uma arma relacionada
à explosão, pólvora, projéteis). Exemplo de arma branca: faca, peixeira, foice,
pedaços de pau com pregos etc.
“Art. 19. Trazer consigo arma fora de casa ou de dependência desta, sem
licença da autoridade:
Pena – prisão simples, de quinze dias a seis meses, ou multa, de duzentos mil
réis a três contos de réis, ou ambas cumulativamente.”
É preciso que seja observada a voluntariedade. Se o sujeito está com a arma
branca e está voluntariamente apto a praticar algo mais sério, está caracterizada
voluntariedade para infração penal. Tirando a voluntariedade, exclui-se o elemen-
to subjetivo do injusto e, portanto, teoricamente não foi praticada a contraven-
ção penal.
Ainda, acerca da confiscação da arma branca, o entendimento jurisprudencial
majoritário é de que a arma pode ser apreendida.

6. Das Contravenções Referentes à Pessoa


“Art. 20. Anunciar processo, substância ou objeto destinado a provocar aborto:
Pena – multa de hum mil cruzeiros a dez mil cruzeiros.”
Aborto é o ato de interromper involuntariamente o processo de gestação, ou
seja, quando a gestação é artificialmente interrompida, existe o crime de aborto,
previsto no Código Penal.
Nota-se que apesar do artigo acima referido trazer uma pena pecuniária, é
uma pena criminal, trata-se de uma infração penal.
“Art. 21. Praticar vias de fato contra alguém:
Pena – prisão simples, de quinze dias a três meses, ou multa, de cem mil réis
a um conto de réis, se o fato não constitui crime.
Parágrafo único. Aumenta-se a pena de 1/3 (um terço) até a metade se a
vítima é maior de 60 (sessenta) anos.”
Vias de fato é todo ato de violência física que não caracteriza lesão corporal;
é uma violência que não consegue deixar lesão corporal para ser periciada como
lesão. Exemplos: sujeito dá um tapa nas costas de outro indivíduo; rasgar a roupa
da pessoa; puxão de cabelo etc.
106 Legislação Penal Especial

Quanto à ação penal, o art. 88 da Lei nº 9.099/95 modificou o tipo de ação


penal, dispondo que para lesão corporal leve é necessária representação:
“Art. 88. Além das hipóteses do Código Penal e da legislação especial, depen-
derá de representação a ação penal relativa aos crimes de lesões corporais leves
e lesões culposas.
Ronaldo Batista Pinto, Guilherme Nucci e Damásio de Jesus defendem que
por analogia esta representação também migrou para vias de fato. A segunda
corrente, em que consta até mesmo o STF, defende que o art. 17 da parte geral
das contravenções dispõe que para toda contravenção a ação penal é pública
incondicionada.
“Art. 22. Receber em estabelecimento psiquiátrico, e nele internar, sem as
formalidades legais, pessoa apresentada como doente mental:
Pena – multa, de trezentos mil réis a três contos de réis.”
Assim, é possível internação, desde que sejam respeitadas as formalidades
legais.
“§ 1º Aplica-se a mesma pena a quem deixa de comunicar a autoridade com-
petente, no prazo legal, internação que tenha admitido, por motivo de urgência,
sem as formalidades legais.
§ 2º Incorre na pena de prisão simples, de quinze dias a três meses, ou multa
de quinhentos mil réis a cinco contos de réis, aquele que, sem observar as pres-
crições legais, deixa retirar-se ou despede de estabelecimento psiquiátrico pessoa
nele internada.
Art. 23. Receber e ter sob custódia doente mental, fora do caso previsto no
artigo anterior, sem autorização de quem de direito:
Pena – prisão simples, de quinze dias a três meses, ou multa, de quinhentos
mil réis a cinco contos de réis.”

7. Das Contravenções Referentes ao Patrimônio

A contravenção penal é uma infração penal que atinge um bem jurídico menos
importante de forma menos grave.
O STF, no Recurso Extraordinário nº 583.523, entendeu que uma das contra-
venções não foi recepcionada pela Constituição Federal.
A não recepção ocorre quando uma lei aprovada (válida e vigente) antes da
Constituição Federal de 1988 é incompatível com o texto constitucional.
De forma diversa, se uma lei foi aprovada depois de 1988 e em seu contexto há
algo que contrarie o texto constitucional, esta lei será considerada inconstitucional.
Legislação Penal Especial 107

“Art. 25. Ter alguém em seu poder, depois de condenado, por crime de furto
ou roubo, ou enquanto sujeito à liberdade vigiada ou quando conhecido como
vadio ou mendigo, gazuas, chaves falsas ou alteradas ou instrumentos emprega-
dos usualmente na prática de crime de furto, desde que não prove destinação
legítima:
Pena – prisão simples, de dois meses a um ano, e multa de duzentos mil réis
a dois contos de réis.”
Tal dispositivo foi declarado como não recebido pela ordem constitucional,
pois a declaração do STF tem eficácia retroativa.
É preciso observar que há ainda outras contravenções penais referentes ao
patrimônio.
“Art. 24. Fabricar, ceder ou vender gazua ou instrumento empregado usual-
mente na prática de crime de furto:
Pena – prisão simples, de seis meses a dois anos, e multa, de trezentos mil réis
a três contos de réis.”
“Art. 26. Abrir alguém, no exercício de profissão de serralheiro ou oficio aná-
logo, a pedido ou por incumbência de pessoa de cuja legitimidade não se tenha
certificado previamente, fechadura ou qualquer outro aparelho destinado à de-
fesa de lugar nu objeto:
Pena – prisão simples, de quinze dias a três meses, ou multa, de duzentos mil
réis a um conto de réis.”

8. Das Contravenções Referentes à Incolumidade


Pública – Parte I
A incolumidade pública é uma situação social de harmonia. Não havendo abalo
a essa ordem pública, tem-se uma sociedade pacífica e harmônica, mas quando
uma conduta coloca em perigo essa sociedade, há incolumidade pública.
“Art. 28. Disparar arma de fogo em lugar habitado ou em suas adjacências,
em via pública ou em direção a ela:
Pena – prisão simples, de um a seis meses, ou multa, de trezentos mil réis a
três contos de réis.”
Ocorre que hoje todo disparo de arma de fogo é regido pelo Estatuto do
Desarmamento.
O parágrafo único do art. 28 estabelece:
“Parágrafo único. Incorre na pena de prisão simples, de quinze dias a dois
meses, ou multa, de duzentos mil réis a dois contos de réis, quem, em lugar habi-
108 Legislação Penal Especial

tado ou em suas adjacências, em via pública ou em direção a ela, sem licença da


autoridade, causa deflagração perigosa, queima fogo de artifício ou solta balão
aceso.”
É preciso ressaltar que este parágrafo único foi tacitamente revogado pelo
art. 251 do Código Penal. Ainda, é preciso que se coloque em conjunto com o
dispositivo do Código Penal o art. 16, parágrafo único, III, do Estatuto do Desar-
mamento.
Soltar balão aceso é crime, de acordo com o art. 42 da Lei nº 9.605/98, sendo
um crime ambiental.
Quando a pessoa vende, fornece ainda que gratuitamente ou de qualquer
forma fogos de estampido ou de artifício para criança ou adolescente, este co-
merciante pratica o crime disposto no art. 244 do ECA:
“Art. 244. Vender, fornecer ainda que gratuitamente ou entregar, de qual-
quer forma, à criança ou adolescente fogos de estampido ou de artifício, exceto
aqueles que, pelo seu reduzido potencial, sejam incapazes de provocar qualquer
dano físico em caso de utilização indevida:
Pena – detenção de seis meses a dois anos, e multa.”
“Art. 29. Provocar o desabamento de construção ou, por erro no projeto ou
na execução, dar-lhe causa:
Pena – multa, de um a dez contos de réis, se o fato não constitui crime contra
a incolumidade pública.
Art. 30. Omitir alguém a providência reclamada pelo Estado ruinoso de cons-
trução que lhe pertence ou cuja conservação lhe incumbe:
Pena – multa, de um a cinco contos de réis.
Art. 31. Deixar em liberdade, confiar à guarda de pessoa inexperiente, ou não
guardar com a devida cautela animal perigoso:
Pena – prisão simples, de dez dias a dois meses, ou multa, de cem mil réis a
um conto de réis.
Parágrafo único. Incorre na mesma pena quem:
a) na via pública, abandona animal de tiro, carga ou corrida, ou o confia à
pessoa inexperiente;
b) excita ou irrita animal, expondo a perigo a segurança alheia;
c) conduz animal, na via pública, pondo em perigo a segurança alheia.”
Por fim, o art. 32 da Lei de Contravenções Penais foi revogado pelo art. 309
do Código de Trânsito.
Legislação Penal Especial 109

9. Das Contravenções Referentes à Incolumidade


Pública – Parte II

“Art. 33. Dirigir aeronave sem estar devidamente licenciado:


Pena – prisão simples, de quinze dias a três meses, e multa, de duzentos mil
réis a dois contos de réis.”
É possível observar que se trata de crime de perigo abstrato, havendo presun-
ção absoluta do legislador.
“Art. 34. Dirigir veículos na via pública, ou embarcações em águas públicas,
pondo em perigo a segurança alheia:
Pena – prisão simples, de quinze dias a três meses, ou multa, de trezentos mil
réis a dois contos de réis.”
Aqui é preciso lembrar do Código de Trânsito Brasileiro, que traz os crimes
de direção perigosa com racha, direção com excesso de velocidade e direção
embriagado. Assim, todas as demais formas de direção perigosa caracterizam
contravenção penal, por exemplo, ultrapassar pela direita.
A lei fala em via pública, ou seja, avenidas, estradas, logradouros, ruas, vias
internas de condomínio, inclusive praias. Não são consideradas vias públicas: es-
tacionamento de shopping, estacionamento de supermercado, posto de gasolina
e pátios.
“Art. 35. Entregar-se na prática da aviação, a acrobacias ou a voos baixos,
fora da zona em que a lei o permite, ou fazer descer a aeronave fora dos lugares
destinados a esse fim:
Pena – prisão simples, de quinze dias a três meses, ou multa, de quinhentos
mil réis a cinco contos de réis.
Art. 36. Deixar de colocar na via pública, sinal ou obstáculo, determinado em
lei ou pela autoridade e destinado a evitar perigo a transeuntes:
Pena – prisão simples, de dez dias a dois meses, ou multa, de duzentos mil
réis a dois contos de réis.
Parágrafo único. Incorre na mesma pena quem:
a) apaga sinal luminoso, destrói ou remove sinal de outra natureza ou obstá-
culo destinado a evitar perigo a transeuntes;
b) remove qualquer outro sinal de serviço público.”
Sobre este artigo, é preciso observar que hoje é a legislação municipal que
cuida deste assunto.
“Art. 37. Arremessar ou derramar em via pública, ou em lugar de uso comum,
ou do uso alheio, coisa que possa ofender, sujar ou molestar alguém:
110 Legislação Penal Especial

Pena – multa, de duzentos mil réis a dois contos de réis.


Parágrafo único. Na mesma pena incorre aquele que, sem as devidas cautelas,
coloca ou deixa suspensa coisa que, caindo em via pública ou em lugar de uso
comum ou de uso alheio, possa ofender, sujar ou molestar alguém.”
Hoje em dia, se a pessoa joga lixo na rua, pratica o crime de poluição, previsto
na Lei de Crimes Ambientais, ou seja, não se trata mais de contravenção, mas
sim de crime.
“Art. 38. Provocar, abusivamente, emissão de fumaça, vapor ou gás, que pos-
sa ofender ou molestar alguém:
Pena – multa, de duzentos mil réis a dois contos de réis.”
Nota-se que a lei não traz o que seja “abusivamente” e sempre que a lei não
trouxer o significado correto de uma expressão como esta, se está diante de uma
elementar típica valorativa. Sendo valorativa, alguém deverá atribuir um determi-
nado valor no caso concreto, e quem o fará será o magistrado.
Faz-se necessário entender que se a quantidade de gás liberado pela pessoa
for tal, a ponto de lesionar ou matar outro ser humano, o sujeito responde por
homicídio qualificado pela asfixia se foi intencional, mas caso não tenha sido
intencional, responde por homicídio culposo. Se a pessoa não morre, mas fica
seriamente lesionada, o sujeito responde por lesão corporal dolosa ou culposa, a
depender da intenção.

10. Das Contravenções Referentes à Paz Pública

“Art. 39. Participar de associação de mais de cinco pessoas, que se reúnam pe-
riodicamente, sob compromisso de ocultar à autoridade a existência, objetivo,
organização ou administração da associação:
Pena – prisão simples, de um a seis meses, ou multa, de trezentos mil réis a
três contos de réis.”
É possível perceber aqui o caráter inquisitório desta tipificação.
A primeira ressalva que deve ser feita é que este dispositivo é parcialmente
inconstitucional, pois a Constituição Federal traz que é livre e plena a liberdade de
associação. Neste sentido, sobraram no art. 39 as associações constituídas para
fins ilícitos ou de caráter paramilitar.
Ainda, o dispositivo traz o número de mais de cinco pessoas, ou seja, pelo
menos seis pessoas. O dispositivo traz também o requisito da periodicidade.
“Art. 40. Provocar tumulto ou portar-se de modo inconveniente ou desres-
peitoso, em solenidade ou ato oficial, em assembleia ou espetáculo público, se o
fato não constitui infração penal mais grave;
Legislação Penal Especial 111

Pena – prisão simples, de quinze dias a seis meses, ou multa, de duzentos mil
réis a dois contos de réis.
Art. 41. Provocar alarma, anunciando desastre ou perigo inexistente, ou pra-
ticar qualquer ato capaz de produzir pânico ou tumulto:
Pena – prisão simples, de quinze dias a seis meses, ou multa, de duzentos mil
réis a dois contos de réis.”
Tal contravenção entrou aqui por conta de trotes que causavam pânico ou
tumulto na população. Exemplo: sujeito pega um rádio amador e divulga que a
sociedade está sendo atacada por alienígenas, fazendo com que várias pessoas
se suicidem.
“Art. 42. Perturbar alguém o trabalho ou o sossego alheios:
I – com gritaria ou algazarra;
II – exercendo profissão incômoda ou ruidosa, em desacordo com as prescri-
ções legais;
III – abusando de instrumentos sonoros ou sinais acústicos;
IV – provocando ou não procurando impedir barulho produzido por animal de
que tem a guarda:
Pena – prisão simples, de quinze dias a três meses, ou multa, de duzentos mil
réis a dois contos de réis.”
Faz-se necessário entender aqui que o dispositivo traz a palavra “alheios”.
Desta forma, caso haja uma só vítima, não há que se falar nesta contravenção
penal, sendo este inclusive o entendimento do STF.

11. Das Contravenções Referentes à Fé Pública

A fé pública diz respeito à confiança que as pessoas depositam em alguns símbo-


los do Estado, em alguns documentos públicos ou com natureza pública. Exem-
plo: distintivos de autoridades.
“Art. 43. Recusar-se a receber, pelo seu valor, moeda de curso legal no país:
Pena – multa, de duzentos mil réis a dois contos de réis.”
Esta conduta consiste uma recusa do sujeito em receber uma nota ou uma
moeda de dinheiro por seu valor de face. Exemplo: a pessoa chega a um estabe-
lecimento e compra algo no valor de R$ 10,00, porém dá ao dono uma nota de
R$ 20,00. O dono se recusa a receber a nota de R$ 20,00 pelo valor de R$ 20,00,
dizendo que receberá a nota de R$ 20,00 pelo valor de R$ 10,00.
112 Legislação Penal Especial

Observe-se que moedas estrangeiras não entram nesta contravenção, uma


vez que deve ser analisado o princípio da legalidade estrita e o tipo traz “moeda
de curso legal no país”.
Se o sujeito chega a um estabelecimento com o intuito de adquirir um produ-
to e o dono diz que não receberá o dinheiro, se houver desconfiança a respeito
da fé pública daquela nota, pode se recusar e pedir que o sujeito pague de outra
forma. Se o sujeito não tiver outro meio de pagamento, o comerciante poderá
reter a mercadoria que ainda não foi vendida.
“Art. 44. Usar, como propaganda, de impresso ou objeto que pessoa inexpe-
riente ou rústica possa confundir com moeda:
Pena – multa, de duzentos mil réis a dois contos de réis.
Art. 45. Fingir-se funcionário público:
Pena – prisão simples, de um a três meses, ou multa, de quinhentos mil réis a
três contos de réis.”
Se o sujeito praticar atos privativos de funcionário público, responde pelo art.
328 do Código Penal.
“Art. 46. Usar, publicamente, de uniforme, ou distintivo de função pública
que não exerce; usar, indevidamente, de sinal, distintivo ou denominação cujo
emprego seja regulado por lei.
Pena – multa, de duzentos a dois mil cruzeiros, se o fato não constitui infração
penal mais grave.”
Esta contravenção foi tacitamente revogada no tocante a distintivo pelo art.
296, § 1º, III, do Código Penal.

12. Das Contravenções Relativas à Organização


do Trabalho e das Contravenções Relativas à
Polícia de Costumes

“Art. 47. Exercer profissão ou atividade econômica ou anunciar que a exerce, sem
preencher as condições a que por lei está subordinado o seu exercício.
Pena – prisão simples, de quinze dias a três meses, ou multa, de quinhentos
mil réis a cinco contos de réis.”
Uma primeira corrente entende que se o sujeito exerce profissão ou atividade
econômica, significa que uma única ação praticada não é considerada contraven-
ção. No entanto, uma segunda corrente entende que basta a prática de um só
ato para caracterizar esta contravenção.
Legislação Penal Especial 113

Se a atividade econômica desempenhada pela pessoa não tem previsão legal,


não incide a contravenção penal do art. 47.
“Art. 48. Exercer, sem observância das prescrições legais, comércio de antigui-
dades, de obras de arte, ou de manuscritos e livros antigos ou raros:
Pena – prisão simples de um a seis meses, ou multa, de um a dez contos
de réis.”
Em relação às contravenções relativas à polícia de costumes é preciso que se
entenda como os famosos jogos de azar.
O art. 50 da lei aqui estudada apresenta algumas peculiaridades, mas foram
revogados os arts. 51 a 58 pelo Decreto-Lei nº 6.259, de 1944.

13. Dos Jogos de Azar

“Art. 50. Estabelecer ou explorar jogo de azar em lugar público ou acessível ao


público, mediante o pagamento de entrada ou sem ele:
Pena – prisão simples, de três meses a um ano, e multa, de dois a quinze con-
tos de réis, estendendo-se os efeitos da condenação à perda dos móveis e objetos
de decoração do local.”
O § 1º estabelece que a pena é aumentada de um terço, se existe entre os
empregados ou participa do jogo pessoa menor de 18 anos.
Ainda, incorre na pena de multa quem é encontrado a participar do jogo,
como ponteiro ou apostador.
“§ 3º Consideram-se, jogos de azar:
a) o jogo em que o ganho e a perda dependem exclusiva ou principalmente
da sorte;
b) as apostas sobre corrida de cavalos fora de hipódromo ou de local onde
sejam autorizadas;
c) as apostas sobre qualquer outra competição esportiva.”
Os jogos associados ao jogo de dados também são considerados jogos de
azar, caso as pessoas joguem valendo dinheiro e dependa única e exclusivamente
de sorte.
“§ 4º Equiparam-se, para os efeitos penais, a lugar acessível ao público:
a) a casa particular em que se realizam jogos de azar, quando deles habitual-
mente participam pessoas que não sejam da família de quem a ocupa;
b) o hotel ou casa de habitação coletiva, a cujos hóspedes e moradores se
proporciona jogo de azar;
114 Legislação Penal Especial

c) a sede ou dependência de sociedade ou associação, em que se realiza jogo


de azar;
d) o estabelecimento destinado à exploração de jogo de azar, ainda que se
dissimule esse destino.”
Faz-se necessário observar que o jogo de bilhar (sinuca) não é considerado
jogo de azar, uma vez que é preciso habilidade do jogador. Ainda, o jogo de truco
também pressupõe habilidade do jogador, não sendo considerado jogo de azar.
É preciso entender que se a máquina estiver programada a fim de manipu-
lação do número de vitórias possíveis, é considerado crime contra a economia
popular, nos termos da Lei nº 1.521/51.
Quanto ao jogo de bingo, o entendimento do STF e STJ é de que se trata de
jogo de azar.
A Súmula Vinculante nº 02 do STF dispõe que é inconstitucional a lei ou ato
normativo estadual ou distrital que disponha sobre sistemas de consórcios e sor-
teios, inclusive bingos e loterias.
Se o bingo for beneficente, não se tratará de contravenção penal, por força
do princípio da adequação social.

14. Vadiagem, Mendicância e Outras


Contravenções

“Art. 59. Entregar-se alguém habitualmente à ociosidade, sendo válido para o


trabalho, sem ter renda que lhe assegure meios bastantes de subsistência, ou
prover à própria subsistência mediante ocupação ilícita:
Pena – prisão simples, de quinze dias a três meses.”
Trata-se de um dispositivo inconstitucional, mas esta inconstitucionalidade
ainda não foi declarada.
A contravenção penal de mendicância foi expressamente revogada pela Lei
nº 11.983/09.
O art. 61 traz a seguinte redação:
“Art. 61. Importunar alguém, em lugar público ou acessível ao público, de
modo ofensivo ao pudor:
Pena – multa, de duzentos mil réis a dois contos de réis.
Art. 62. Apresentar-se publicamente em estado de embriaguez, de modo que
cause escândalo ou ponha em perigo a segurança própria ou alheia:
Legislação Penal Especial 115

Pena – prisão simples, de quinze dias a três meses, ou multa, de duzentos mil
réis a dois contos de réis.
Parágrafo único. Se habitual a embriaguez, o contraventor é internado em
casa de custódia e tratamento.
Art. 63. Servir bebidas alcoólicas:
I – a menor de 18 anos;
II – a quem se acha em estado de embriaguez;
III – a pessoa que o agente sabe sofrer das faculdades mentais;
IV – a pessoa que o agente sabe estar judicialmente proibida de frequentar
lugares onde se consome bebida de tal natureza:
Pena – prisão simples, de dois meses a um ano, ou multa, de quinhentos mil
réis a cinco contos de réis.”
É preciso observar aqui que o inciso I trata de menor de 18 anos, porém hoje
existe crime disposto no ECA.
O art. 64 trata da questão da crueldade ou trabalho excessivo em relação
aos animais. Estas condutas eram consideradas contravenções penais até 1998,
todavia a partir do referido ano há crimes ambientais cuidando desta hipótese.
“Art. 65. Molestar alguém ou perturbar-lhe a tranquilidade, por acinte ou por
motivo reprovável:
Pena – prisão simples, de quinze dias a dois meses, ou multa, de duzentos mil
réis a dois contos de réis.”
Quanto às contravenções referentes à Administração Pública, há a omissão da
notificação compulsória.
O art. 67 trata da inumação ou exumação de cadáver, pois para fazê-lo é
preciso de autorização judicial.
“Art. 68. Recusar à autoridade, quando por esta, justificadamente solicitados
ou exigidos, dados ou indicações concernentes à própria identidade, estado, pro-
fissão, domicílio e residência:
Pena – multa, de duzentos mil réis a dois contos de réis.
Parágrafo único. Incorre na pena de prisão simples, de um a seis meses, e
multa, de duzentos mil réis a dois contos de réis, se o fato não constitui infração
penal mais grave, quem, nas mesmas circunstâncias, faz declarações inverídicas
a respeito de sua identidade pessoal, estado, profissão, domicílio e residência.”
“Art. 70. Praticar qualquer ato que importe violação do monopólio postal da
União:
Pena – prisão simples, de três meses a um ano, ou multa, de três a dez contos
de réis, ou ambas cumulativamente.”
Capítulo 15
Crimes contra a Ordem
Tributária – Lei nº 8.137/1990

1. Competência

A Lei nº 8.137/1990 é a lei que criminaliza condutas que atingem a ordem tribu-
tária.
Cumpre observar que tributo é gênero, que engloba as espécies, quais sejam
os impostos, as taxas, as contribuições de melhoria, as contribuições sociais e os
empréstimos compulsórios.
O art. 3º do Código Tributário Nacional dispõe:
“Art. 3º Tributo é toda prestação pecuniária compulsória, em moeda ou cujo
valor nela se possa exprimir, que não constitua sanção de ato ilícito, instituída em
lei e cobrada mediante atividade administrativa plenamente vinculada.”
Os tributos possuem características diferentes e o valor vai para entidades
diversas, a depender do tributo cobrado.
Quando o crime contra a ordem tributária for relacionado a tributos federais,
a competência para julgamento será da Justiça Federal. Se o tributo não for fede-
ral, a competência será da Justiça Estadual.
Nos crimes definidos nos arts. 1º e 2º da Lei nº 8.137/1990, o sujeito ativo
será o contribuinte.
No art. 3º, que trata dos crimes funcionais de sonegação fiscal, o criminoso é
o funcionário público que, por sua vez, tem seu conceito no art. 327 do Código
Penal.
O sujeito passivo nos crimes contra a ordem tributária é o Estado (União, Es-
tados, Distrito Federal e Municípios).
É preciso observar que há crimes contra a ordem tributária previstos no Códi-
go Penal, que serão estudados posteriormente.
Legislação Penal Especial 117

2. Súmula Vinculante nº 24

Dispõe a Súmula Vinculante nº 24:


“Não se tipifica crime material contra a ordem tributária, previsto no art. 1º, I
a IV, da Lei nº 8.137/90, antes do lançamento definitivo do tributo.”
É preciso entender que há um fato gerador, que gerará uma obrigação tribu-
tária. O pagamento se dá mediante o lançamento e se o sujeito não discutir o
valor, existe a constituição definitiva do crédito tributário sendo que, neste mo-
mento, o sujeito deve pagar.
No Direito Penal, a conduta pode ser formal ou material. Um crime material
deixa resultado naturalístico (exemplo: homicídio).
Insta salientar que a Súmula Vinculante nº 24 nos ensina que não existe crime
material contra a ordem tributária enquanto não acabar a discussão administrativa.
Ainda, cumpre observar que crime material contra a ordem tributária é o cri-
me previsto no art. 1º da lei aqui estudada.
Outro ponto importante a ser ressaltado é que enquanto o crime não aconte-
ceu, não começa a correr a prescrição.
Se o contribuinte opta pelo parcelamento e faz os devidos pagamentos, não
é criminoso. Contudo, se opta pelo parcelamento, mas para de pagar de forma
proposital, pode ser punido criminalmente. Observa-se aqui que a prescrição du-
rante o parcelamento fica suspensa.

3. Arts. 1º e 2º da Lei nº 8.137/1990

Primeiro, é preciso esclarecer que o art. 1º e seus incisos I a IV trazem crimes ma-
teriais contra a ordem tributária.
Os crimes formais são aqueles que não exigem o esgotamento da via adminis-
trativa, já que a simples prática da conduta consuma o delito.
O art. 1º e seus incisos I a V, da lei ora estudada, dispõem:
“Art. 1º Constitui crime contra a ordem tributária suprimir ou reduzir tributo,
ou contribuição social e qualquer acessório, mediante as seguintes condutas:
I – omitir informação, ou prestar declaração falsa às autoridades fazendárias;
II – fraudar a fiscalização tributária, inserindo elementos inexatos, ou omitindo
operação de qualquer natureza, em documento ou livro exigido pela lei fiscal;
III – falsificar ou alterar nota fiscal, fatura, duplicata, nota de venda, ou qual-
quer outro documento relativo à operação tributável;
118 Legislação Penal Especial

IV – elaborar, distribuir, fornecer, emitir ou utilizar documento que saiba ou


deva saber falso ou inexato;
V – negar ou deixar de fornecer, quando obrigatório, nota fiscal ou documen-
to equivalente, relativa a venda de mercadoria ou prestação de serviço, efetiva-
mente realizada, ou fornecê-la em desacordo com a legislação.”
Nota-se que as condutas previstas nos incisos I a IV são crimes materiais contra
a ordem tributária, ou seja, não basta o Ministério Público comprovar a conduta,
sendo preciso comprovar que esta conduta levou o Fisco a ter prejuízo.
O art. 2º do mesmo diploma legal dispõe:
“Art. 2º Constitui crime da mesma natureza:
I – fazer declaração falsa ou omitir declaração sobre rendas, bens ou fatos,
ou empregar outra fraude, para eximir-se, total ou parcialmente, de pagamento
de tributo;
II – deixar de recolher, no prazo legal, valor de tributo ou de contribuição so-
cial, descontado ou cobrado, na qualidade de sujeito passivo de obrigação e que
deveria recolher aos cofres públicos;
III – exigir, pagar ou receber, para si ou para o contribuinte beneficiário, qual-
quer percentagem sobre a parcela dedutível ou deduzida de imposto ou de con-
tribuição como incentivo fiscal;
IV – deixar de aplicar, ou aplicar em desacordo com o estatuído, incentivo fis-
cal ou parcelas de imposto liberadas por órgão ou entidade de desenvolvimento;
V – utilizar ou divulgar programa de processamento de dados que permita ao
sujeito passivo da obrigação tributária possuir informação contábil diversa daque-
la que é, por lei, fornecida à Fazenda Pública.
Pena – detenção, de 6 (seis) meses a 2 (dois) anos, e multa.”

4. Crimes Funcionais
Inicialmente, é preciso entender que crimes funcionais são crimes praticados por
funcionários públicos e aqui atingem o bem jurídico “ordem tributária”.
Dispõe o art. 3º da Lei nº 8.137/1990:
“Art. 3º Constitui crime funcional contra a ordem tributária, além dos previs-
tos no Decreto-lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 – Código Penal (Título
XI, Capítulo I):
I – extraviar livro oficial, processo fiscal ou qualquer documento, de que tenha
a guarda em razão da função; sonegá-lo, ou inutilizá-lo, total ou parcialmente,
acarretando pagamento indevido ou inexato de tributo ou contribuição social;
Legislação Penal Especial 119

II – exigir, solicitar ou receber, para si ou para outrem, direta ou indiretamente,


ainda que fora da função ou antes de iniciar seu exercício, mas em razão dela,
vantagem indevida; ou aceitar promessa de tal vantagem, para deixar de lançar
ou cobrar tributo ou contribuição social, ou cobrá-los parcialmente. Pena – reclu-
são, de 3 (três) a 8 (oito) anos, e multa.
III – patrocinar, direta ou indiretamente, interesse privado perante a adminis-
tração fazendária, valendo-se da qualidade de funcionário público. Pena – reclu-
são, de 1 (um) a 4 (quatro) anos, e multa.”
Estes crimes contra a ordem tributária, em regra, são estudados como se fos-
sem praticados por criminosos do colarinho branco. Contudo, isso não significa
que o sujeito precise ser rico para praticar este crime.
Cumpre observar que crime de descaminho é trazer do exterior mercadorias
lícitas sem pagar tributo.
Já o crime de apropriação indébita previdenciária está previsto no art. 168-A
do Código Penal:
“Art. 168-A. Deixar de repassar à previdência social as contribuições recolhi-
das dos contribuintes, no prazo e forma legal ou convencional:
Pena – reclusão, de 2 (dois) a 5 (cinco) anos, e multa.”
O crime de sonegação de contribuição previdenciária está disposto no art.
337-A do Código Penal:
“Art. 337-A. Suprimir ou reduzir contribuição social previdenciária e qualquer
acessório, mediante as seguintes condutas:
I – omitir de folha de pagamento da empresa ou de documento de informa-
ções previsto pela legislação previdenciária, segurados empregado, empresário,
trabalhador avulso ou trabalhador autônomo ou a este equiparado que lhe pres-
tem serviços;
II – deixar de lançar mensalmente nos títulos próprios da contabilidade da
empresa as quantias descontadas dos segurados ou as devidas pelo empregador
ou pelo tomador de serviços;
III – omitir, total ou parcialmente, receitas ou lucros auferidos, remunerações
pagas ou creditadas e demais fatos geradores de contribuições sociais previden-
ciárias:
Pena – reclusão, de 2 (dois) a 5 (cinco) anos, e multa.”
O § 1º estabelece que “é extinta a punibilidade se o agente, espontaneamen-
te, declara e confessa as contribuições, importâncias ou valores e presta as infor-
mações devidas à previdência social, na forma definida em lei ou regulamento,
antes do início da ação fiscal.”
120 Legislação Penal Especial

5. Princípio da Insignificância

É possível a aplicação do princípio da insignificância para um crime contra a or-


dem tributária.
O princípio da insignificância tem como característica principal a conduta ser
tão ínfima que não justifica o preço de um processo penal.
O crime, de forma analítica, é um fato típico, ilícito e culpável. Dentro do
fato típico, há conduta humana, nexo causal, resultado jurídico e as tipicidades
(formal ou material).
Tipicidade formal se dá quando a conduta encontra-se descrita na lei e tipici-
dade material ocorre quando a conduta atinge o bem jurídico de forma relevante.
Assim, se não for atingido o bem jurídico de forma relevante, aplica-se o prin-
cípio da insignificância.
Cumpre observar que o quanto é ou não insignificante não está disposto na
Lei dos Crimes contra a Ordem Tributária, mas, pelo art. 20 da Lei nº 10.522/2002,
é possível extrair uma situação tributária que auxilia a descobrir o patamar ade-
quado.
Dispõe o art. 20 que se a dívida for de até R$ 10.000,00, o Fisco não precisará
ajuizar a execução fiscal.
Desta forma, tanto o STJ quanto o STF reconheceram em seus acórdãos o
princípio da insignificância para tributos até R$ 10.000,00.
Em 2012, o Ministério da Fazenda editou a Portaria nº 75/2012 elevando o
valor de R$ 10.000,00 para R$ 20.000,00.
Insta salientar que há decisões recentes em que o STJ e o STF não ampliaram
os limites da insignificância para R$ 20.000,00, havendo três argumentos para
tanto.
Primeiro, nota-se que o patamar de R$ 10.000,00 está em lei federal. Ainda, o
novo limite não pode ser desconsiderado com o passar do tempo, sendo possível
que durante o trâmite do processo penal, com juros e correção monetária, o valor
atinja o valor real. Por fim, a própria Portaria nº 75/2012, em seu art. 1º, §§ 6º e
7º, permite o ajuizamento de uma ação fiscal com valor inferior a R$ 20.000,00
quando atestado o elevado potencial de recuperabilidade do devedor.
Capítulo 16
Crimes contra a Ordem
Econômica

1. Lavagem de Capitais

O objetivo da Lei nº 9.613/98 é contribuir ao combate do crime organizado em


nível transnacional. É por isso que a lei transformou algo que seria mero efeito
da condenação (perda em favor da União do produto do crime) em fato típico.
Sobre o tema há o julgamento do STF: HC nº 83.515, noticiado no Informativo
nº 361.
Veja que os verbos nucleares são ocultar e dissimular, sendo o tipo misto alter-
nativo. Isso significa que o agente, praticando um ou mais verbos, comete apenas
um único crime. Ou seja, se o autor oculta um bem e dissimula a origem de outro
valor qualquer, estará praticando um único delito. Claro que tudo deverá estar
inserido no mesmo contexto fático, caso contrário, tem-se concurso de crimes.
O crime é comum, ou seja, pode ser praticado por qualquer pessoa, inclusive
o sujeito ativo do delito antecedente. O sujeito passivo é o Estado.
Já o elemento subjetivo é sempre o dolo. Não existe lavagem de dinheiro
culposa no Brasil. Não há unanimidade acerca do dolo eventual. Entendendo, no
entanto, ser difícil falar em dolo eventual, por conta da intencionalidade exigida
nos verbos ocultar e dissimular, que não dão margem à assunção do risco.
A conduta do agente, posterior ao crime, pode ou não ser atípica pela in-
cidência do post factum impunível. O autor não concorda com os autores que
dizem ser sempre atípica. Caso assim fosse, nunca se poderia punir o homicida
pela ocultação de cadáver. O traficante atenta contra a saúde pública, e poderá,
posteriormente, quando da lavagem do dinheiro, afetar o Estado, a economia, a
ordem tributária. Nesse caso haverá concurso de crimes.
Por outro lado, caso ocorra concurso de crimes durante o processo de lava-
gem, a resposta também poderá ser positiva. Se o autor, além da lavagem, pra-
ticou falsidade material ou ideológica, haverá concurso material de crimes. Aliás,
122 Legislação Penal Especial

necessário registrar que uma eventual falsidade ideológica não é consequência


natural ou passo necessário para a prática da lavagem, não se podendo falar,
aqui, de fato posterior impunível.

2. Lei nº 9.613/98 – Art. 2º


Observe o art. 2º, em primeiro lugar, que a nomenclatura utilizada no dispo-
sitivo (“procedimento comum dos crimes punidos com reclusão, de competência
do juiz singular”) não mais se coaduna com a atual redação do CPP. Hoje se deve
falar em rito ordinário comum, conforme art. 394, § 1º, I, do CPP.
O rito é o ordinário para apuração de crimes com pena máxima superior a 04
anos de pena privativa de liberdade, o que é o caso dos crimes de lavagem de
dinheiro.
O dispositivo diz ainda que a regra é da Justiça Federal. Isso significa que a
Justiça Estadual é residual. Os critérios de fixação da competência federal são
sempre três: a) quando o crime de lavagem é cometido de forma a ofender o
sistema financeiro nacional e a ordem econômico-financeira; b) quando o crime
é cometido em detrimento de bens, serviços ou interesses da União, de suas enti-
dades autárquicas ou empresas públicas; e c) quando a apuração e o processo em
relação à infração penal antecedente sejam de competência da Justiça Federal,
nos termos do art. 109 da CF. Lembre, aliás, da extensão de tal competência a
eventuais crimes conexos àqueles de competência federal, conforme Súmula nº
122 do STJ.
Não há necessidade de identificação ou condenação pela infração anteceden-
te para que se processe o delito de lavagem de dinheiro; basta que a denúncia
venha instruída com elementos indiciários suficientes para se comprovar a exis-
tência antecedente de alguma infração penal.

3. Lavagem de Dinheiro – Art. 4º


O artigo não traz novidades, já que sempre houve a possibilidade de se asse-
gurar futura indenização à vítima, reparação do dano ou mesmo o pagamento de
despesas judiciais mediante a indisponibilidade dos bens do suspeito. Isso inclusi-
ve para evitar o enriquecimento ilícito.
Outro dispositivo que traz novidades, conforme a Lei nº 12.683/12 é o art. 7º,
que fala dos efeitos da condenação.
É preciso atenção porque não há unanimidade sobre serem, ou não, automá-
ticos os efeitos do art. 7º da Lei nº 9.613/98. Guilherme de Souza Nucci refere,
Legislação Penal Especial 123

por exemplo, que o efeito é automático, não precisando ser proclamado na de-
cisão condenatória. Isso porque não há, ao contrário do que se prevê no art. 92,
parágrafo único, do CP, regra nesse sentido.
Em sentido contrário, José Geraldo da Silva, Paulo Rogério Bonini e Wilson
Lavorenti referem que os aludidos efeitos não são automáticos, necessitando de
declaração fundamentada na sentença sobre a sua aplicação e extensão.
Isso, porque o inc. I traz ressalva a direito do lesado ou de terceiro de boa-fé,
o que somente autoriza a aplicação do efeito secundário após o afastamento de
tal ressalva. Além disso, o inc. II, ao tratar de interdição específica, depende da
análise concreta se o exercício do cargo ou da função pública, ou ainda do cargo
de diretor, membro de conselho de administração ou de gerência das pessoas
jurídicas referidas no art. 9º teve alguma influência concreta na ocorrência do
crime. Afirma-se que, se o exercício de tais funções não guarda nenhuma relação
com o crime de lavagem, seria totalmente ilegal a extensão dos efeitos da pena
para relações jurídicas públicas e privadas do réu, configurando verdadeira res-
ponsabilidade penal objetiva.

Exercício
56. (Cespe – 2009 – PC-PB – Delegado de Polícia) – Assinale a opção correta com
base na legislação sobre os crimes de lavagem de dinheiro:
a) O processo e o julgamento dos crimes de lavagem de dinheiro depen-
dem do processo e do julgamento dos crimes antecedentes, a menos
que praticados em outro país.
b) Compete à justiça estadual processar e julgar os crimes de lavagem de
dinheiro, se o crime antecedente for de competência da justiça federal.
c) Os crimes de lavagem de dinheiro são insuscetíveis de anistia, graça e
fiança, não podendo o réu apelar em liberdade.
d) A tentativa é punida com a mesma pena do crime consumado.
e) No caso de delação premiada prevista na lei, presentes os requisitos, a
pena deve ser reduzida de um a dois terços e começa a ser cumprida
em regime aberto, podendo o juiz deixar de aplicá-la ou substituí-la por
pena restritiva de direitos.
Capítulo 17
Crimes contra o Sistema
Financeiro Nacional –
Lei nº 7.492/86

1. Aspectos Gerais da Lei nº 7.492/86

De início, é preciso entender que há um conjunto geral e dentro deste conjunto


há conjuntos menores. O conjunto geral é chamado ordem econômica. Ainda, ao
se estudar esta lei, é preciso que sejam estudados outros diplomas legais.
A Comissão de Valores Mobiliários estipula regras para o Sistema Financeiro,
por exemplo. Em regra, o valor desviado do Sistema Financeiro, para receber uma
aparência de licitude, acaba sendo lavado.
A Lei nº 12.683/12 acabou com os crimes antecedentes, ou seja, qualquer in-
fração penal que dê lucro, este lucro pode ser lavado, dando aparência de licitude
para dinheiro sujo.
Há três diplomas normativos diferentes que tratam de situações aparente-
mente análogas, mas não são: Lei Complementar nº 105, de 2001 (Lei do Sigilo
das Operações Financeiras); Lei nº 7.492/86 e Lei nº 10.028, de 2000 (Crimes
contra as Finanças Públicas).

2. Conceito de Instituição Financeira

Instituição Financeira, para efeitos desta lei, é a pessoa jurídica de direito público
ou privado, que tenha como atividade principal ou acessória a captação, interme-
diação ou aplicação de recursos financeiros de terceiros, em moeda nacional ou
estrangeira, ou a custódia, emissão, distribuição, negociação, intermediação ou
administração de valores mobiliários.
É possível perceber que não é só a instituição financeira tutelada pela lei, mas
o Sistema Financeiro.
Legislação Penal Especial 125

O parágrafo único do art. 1º traz a seguinte redação:


“Parágrafo único. Equipara-se à instituição financeira:
I – a pessoa jurídica que capte ou administre seguros, câmbio, consórcio, capi-
talização ou qualquer tipo de poupança, ou recursos de terceiros;
II – a pessoa natural que exerça quaisquer das atividades referidas neste arti-
go, ainda que de forma eventual.”

3. Dos Crimes contra o Sistema Financeiro


Nacional – Parte I
“Art. 2º Imprimir, reproduzir ou, de qualquer modo, fabricar ou pôr em circula-
ção, sem autorização escrita da sociedade emissora, certificado, cautela ou outro
documento representativo de título ou valor mobiliário:
Pena – Reclusão, de 2 (dois) a 8 (oito) anos, e multa.”
Os valores mobiliários, para que sejam emitidos, precisam de autorização da
sociedade emissora e também da Comissão de Valores Mobiliários, mas o dispo-
sitivo trata somente da autorização da sociedade emissora.
“Parágrafo único. Incorre na mesma pena quem imprime, fabrica, divulga,
distribui ou faz distribuir prospecto ou material de propaganda relativo aos papéis
referidos neste artigo.”
“Art. 3º Divulgar informação falsa ou prejudicialmente incompleta sobre ins-
tituição financeira:
Pena – Reclusão, de 2 (dois) a 6 (seis) anos, e multa.”
“Art. 5º Apropriar-se, quaisquer das pessoas mencionadas no art. 25 desta lei,
de dinheiro, título, valor ou qualquer outro bem móvel de que tem a posse, ou
desviá-lo em proveito próprio ou alheio:
Pena – Reclusão, de 2 (dois) a 6 (seis) anos, e multa.”
Aqui são pessoas que lidam com empresas que estão falindo, em recupera-
ção, ou seja, o liquidante, o interventor e o antigo síndico, que hoje é a figura do
administrador judicial. Desta forma, estas pessoas que se apropriam de dinheiro,
valores ou bens, já que estão gerindo aquela liquidação e aquela falência, prati-
cam este crime.
“Art. 6º Induzir ou manter em erro, sócio, investidor ou repartição pública
competente, relativamente à operação ou situação financeira, sonegando-lhe in-
formação ou prestando-a falsamente:
Pena – Reclusão, de 2 (dois) a 6 (seis) anos, e multa.
Art. 7º Emitir, oferecer ou negociar, de qualquer modo, títulos ou valores
mobiliários:
126 Legislação Penal Especial

I – falsos ou falsificados;
II – sem registro prévio de emissão junto à autoridade competente, em condi-
ções divergentes das constantes do registro ou irregularmente registrados;
III – sem lastro ou garantia suficientes, nos termos da legislação;
IV – sem autorização prévia da autoridade competente, quando legalmente
exigida:
Pena – Reclusão, de 2 (dois) a 8 (oito) anos, e multa.”
Os crimes de gestão temerária e gestão fraudulenta estão previstos nesta lei,
no art. 4º. Gestão fraudulenta é uma fraude, uma mentira, o sujeito está men-
tindo no momento em que está gerindo um banco. Assim, há prática de atos
ordinários desempenhando as funções, mas de forma mentirosa. Já na gestão
temerária o sujeito age de forma arriscada.
É preciso entender que no caso da ação penal que recebeu o nome de “men-
salão”, os réus foram condenados por gestão fraudulenta.

4. Dos Crimes contra o Sistema Financeiro


Nacional – Parte II
Os arts. 8º, 9º e 10 trabalham com uma questão de falsidade contra a fé pública
e contra a dificuldade de fiscalização.
Se o sujeito exige juros, comissão, remuneração para qualquer operação fi-
nanceira, sem lastro legal, pratica o art. 8º. Já se o sujeito frauda a fiscalização
inserindo declarações falsas em documentos, pratica o art. 9º. Se o sujeito coloca
em valores mobiliários informação de valor falso, pratica o art. 10.
O art. 11 traz o crime de contabilidade paralela, conhecido como “Caixa
Dois”. Neste “Caixa Dois” o sujeito coloca recursos, receitas obtidas sem escri-
turação.
“Art. 12. Deixar, o ex-administrador de instituição financeira, de apresentar,
ao interventor, liquidante, ou síndico, nos prazos e condições estabelecidas em lei
as informações, declarações ou documentos de sua responsabilidade:
Pena – Reclusão, de 1 (um) a 4 (quatro) anos, e multa.
Art. 13. Desviar bem alcançado pela indisponibilidade legal resultante de in-
tervenção, liquidação extrajudicial ou falência de instituição financeira.
Pena – Reclusão, de 2 (dois) a 6 (seis) anos, e multa.
Art. 14. Apresentar, em liquidação extrajudicial, ou em falência de instituição
financeira, declaração de crédito ou reclamação falsa, ou juntar a elas título falso
ou simulado:
Legislação Penal Especial 127

Pena – Reclusão, de 2 (dois) a 8 (oito) anos, e multa.


Art. 15. Manifestar-se falsamente o interventor, o liquidante ou o síndico, a
respeito de assunto relativo à intervenção, liquidação extrajudicial ou falência de
instituição financeira:
Pena – Reclusão, de 2 (dois) a 8 (oito) anos, e multa.
Art. 16. Fazer operar, sem a devida autorização, ou com autorização obtida
mediante declaração falsa, instituição financeira, inclusive de distribuição de va-
lores mobiliários ou de câmbio:
Pena – Reclusão, de 1 (um) a 4 (quatro) anos, e multa.
Art. 17. Tomar ou receber, qualquer das pessoas mencionadas no art. 25 desta
lei, direta ou indiretamente, empréstimo ou adiantamento, ou deferi-lo a contro-
lador, a administrador, a membro de conselho estatutário, aos respectivos côn-
juges, aos ascendentes ou descendentes, a parentes na linha colateral até o 2º
grau, consanguíneos ou afins, ou a sociedade cujo controle seja por ela exercido,
direta ou indiretamente, ou por qualquer dessas pessoas:
Pena – Reclusão, de 2 (dois) a 6 (seis) anos, e multa.
Art. 18. Violar sigilo de operação ou de serviço prestado por instituição finan-
ceira ou integrante do sistema de distribuição de títulos mobiliários de que tenha
conhecimento, em razão de ofício:
Pena – Reclusão, de 1 (um) a 4 (quatro) anos, e multa.”
Nota-se que aqui se tem um crime próprio (aquele que só pode ser praticado
por determinado grupo de pessoas).
“Art. 19. Obter, mediante fraude, financiamento em instituição financeira:
Pena – Reclusão, de 2 (dois) a 6 (seis) anos, e multa.
Art. 20. Aplicar, em finalidade diversa da prevista em lei ou contrato, recursos
provenientes de financiamento concedido por instituição financeira oficial ou por
instituição credenciada para repassá-lo:
Pena – Reclusão, de 2 (dois) a 6 (seis) anos, e multa.”

5. Do Aspecto Procedimental

O art. 25 traz as pessoas que podem responder por esta lei, os penalmente res-
ponsáveis, conforme visto anteriormente.
O § 2º do referido dispositivo trata de delação premiada, contendo a seguinte
redação:
128 Legislação Penal Especial

“§ 2º Nos crimes previstos nesta Lei, cometidos em quadrilha ou coautoria, o


coautor ou partícipe que através de confissão espontânea revelar à autoridade poli-
cial ou judicial toda a trama delituosa terá a sua pena reduzida de um a dois terços.”
“Art. 26. A ação penal, nos crimes previstos nesta lei, será promovida pelo
Ministério Público Federal, perante a Justiça Federal.
Parágrafo único. Sem prejuízo do disposto no art. 268 do Código de Processo
Penal, aprovado pelo Decreto-lei nº 3.689, de 3 de outubro de 1941, será admiti-
da a assistência da Comissão de Valores Mobiliários – CVM, quando o crime tiver
sido praticado no âmbito de atividade sujeita à disciplina e à fiscalização dessa
Autarquia, e do Banco Central do Brasil quando, fora daquela hipótese, houver
sido cometido na órbita de atividade sujeita à sua disciplina e fiscalização.
Art. 27. Quando a denúncia não for intentada no prazo legal, o ofendido
poderá representar ao Procurador-Geral da República, para que este a ofereça,
designe outro órgão do Ministério Público para oferecê-la ou determine o arqui-
vamento das peças de informação recebidas.
Art. 28. Quando, no exercício de suas atribuições legais, o Banco Central do
Brasil ou a Comissão de Valores Mobiliários – CVM, verificar a ocorrência de crime
previsto nesta lei, disso deverá informar ao Ministério Público Federal, enviando-
-lhe os documentos necessários à comprovação do fato.
Art. 29. O órgão do Ministério Público Federal, sempre que julgar necessário,
poderá requisitar, a qualquer autoridade, informação, documento ou diligência,
relativa à prova dos crimes previstos nesta lei.
Parágrafo único. O sigilo dos serviços e operações financeiras não pode ser in-
vocado como óbice ao atendimento da requisição prevista no caput deste artigo.
É possível perceber que aqui o legislador relativizou o sigilo financeiro.
Art. 30. Sem prejuízo do disposto no art. 312 do Código de Processo Penal,
aprovado pelo Decreto-lei nº 3.689, de 3 de outubro de 1941, a prisão preventiva
do acusado da prática de crime previsto nesta lei poderá ser decretada em razão
da magnitude da lesão causada.”
Nota-se que este artigo traz uma disparidade em relação à nova realidade do
sistema de cautelares de 2011.
“Art. 31. Nos crimes previstos nesta lei e punidos com pena de reclusão, o réu
não poderá prestar fiança, nem apelar antes de ser recolhido à prisão, ainda que
primário e de bons antecedentes, se estiver configurada situação que autoriza a
prisão preventiva.”
Ocorre que os arts. 594 e 595 do CPP foram revogados. Assim, presentes os
requisitos da prisão preventiva, não importa em que processo se está, o sujeito
pode ser preso cautelarmente antes do trânsito em julgado.
Legislação Penal Especial 129

“Art. 33. Na fixação da pena de multa relativa aos crimes previstos nesta lei, o
limite a que se refere o § 1º do art. 49 do CP, aprovado pelo Decreto-lei nº 2.848,
de 7 de dezembro de 1940, pode ser estendido até o décuplo, se verificada a
situação nele cogitada.

Exercício
57. Assinale verdadeiro ou falso: O crime de gestão temerária e o crime de ges-
tão fraudulenta não podem ser aplicados na prática, pois ferem o princípio
da legalidade.
Capítulo 18
Crimes da Lei de Licitações –
Lei nº 8.666/93

1. Licitação no Direito Penal – Origem – Garantia


e Observância da Isonomia – Sanções
Administrativas

De acordo com o art. 3º da lei, a licitação destina-se a garantir a observância


do princípio constitucional da isonomia, a seleção da proposta mais vantajosa
para a administração e a promoção do desenvolvimento nacional sustentável e
será processada e julgada em estrita conformidade com os princípios básicos da
legalidade, da impessoalidade, da moralidade, da igualdade, da publicidade, da
probidade administrativa, da vinculação ao instrumento convocatório, do julga-
mento objetivo e dos que lhes são correlatos.
Este artigo traz todos os princípios em que devem se basear todas as licitações.
No art. 82 há quem pode ser sujeito ativo dos crimes da lei de licitação. Todos
os crimes sujeitam os seus autores, quando servidores públicos, além das sanções
penais, à perda do cargo, emprego, função ou mandato eletivo, ainda que prati-
cados na forma tentada.
O servidor público é aquele definido no Código Penal (art. 327), e a pena é
aumentada de 1/3 quando os autores forem ocupantes de cargo em comissão
ou de confiança.
A partir do art. 89, temos os crimes em espécie:
“Art. 89. Dispensar ou inexigir licitação fora das hipóteses previstas em lei, ou
deixar de observar as formalidades pertinentes à dispensa ou à inexigibilidade (as
hipóteses de dispensa e inexigibilidade estão expressas na lei, portanto, só come-
te o crime quem o fizer fora das hipóteses ali previstas).
Pena – detenção, de 3 a 5 anos, e multa.
Parágrafo único. Na mesma pena incorre aquele que, tendo comprovadamen-
te concorrido para a consumação da ilegalidade, beneficiou-se da dispensa ou
inexigibilidade ilegal, para celebrar contrato com o Poder Público.”
Legislação Penal Especial 131

Exercício
58. Governador que é definitivamente condenado pela prática de crime da Lei
nº 8.666/93 tem seu mandato suspenso por 365 dias.

2. Crimes de Licitação – Arts. 90 a 94 da Lei


nº 8.666/93

“O art. 90 dispõe que frustrar ou fraudar, mediante ajuste, combinação ou qual-


quer outro expediente, o caráter competitivo do procedimento licitatório, com o
intuito de obter, para si ou para outrem, vantagem decorrente da adjudicação do
objeto da licitação, incorre em pena de detenção de dois a quatro anos e multa.
O art. 91 dispõe que patrocinar direta ou indiretamente, interesse privado
perante a Administração, dando causa à instauração de licitação ou à celebração
de contrato, cuja invalidação vier a ser decretada pelo Poder Judiciário, incorre em
pena de seis meses a dois anos e multa e será processado pelo Juizado Especial
Cível.
O art. 92 dispõe que quem já ganhou a licitação, deverá cumprir o contrato
celebrado nos termos da proposta que foi celebrada, e o Poder Público começa a
modificar e facilita a vida do adjudicatário sem previsão legal, incorre em pena de
detenção de dois a quatro anos e multa. O parágrafo único dispõe que incide na
mesma pena o contratado que, tendo comprovadamente concorrido para a con-
sumação da ilegalidade, obtém vantagem indevida ou se beneficia, injustamente,
das modificações das prerrogativas contratuais.
O art. 93 dispõe que quem impedir, perturbar ou fraudar a realização de qual-
quer ato de procedimento licitatório incorre em pena de detenção de seis meses
a dois anos e multa.
O art. 94 dispõe que quem devassar o sigilo de proposta apresentada em
procedimento licitatório, ou proporcionar a terceiro o ensejo de devassá-lo incorre
em pena de detenção de dois anos a três anos e multa. O sigilo das propostas é
Princípio que rege a licitação, por isso incorre em prática de crime.”

Exercício
59. Pratica crime quem fraudar o caráter competitivo do procedimento licitató-
rio, mesmo sem o intuito de obter, vantagem decorrente da adjudicação do
objeto da licitação. Verdadeiro ou falso?
132 Legislação Penal Especial

3. Crimes de Licitação – Arts. 95 a 99 da Lei nº


8.666/93 – Processo e Procedimento Judicial
na Lei de Licitações

“O art. 95 dispõe que afastar ou procurar afastar licitante, por meio de violência,
grave ameaça, fraude ou oferecimento de vantagem de qualquer tipo incorre em
pena de detenção de 2 a 4 anos e multa além da pena correspondente à violên-
cia. Incorre na mesma pena quem se abstém ou desiste de licitar em razão de
vantagem pecuniária oferecida.
O art. 96 dispõe que fraudar em prejuízo da Fazenda Pública, licitação instau-
rada para aquisição ou venda de bens ou mercadorias ou contrato dela decorren-
te, incorre em pena de detenção de 3 a 6 anos e multa.
O art. 97 dispõe que admitir à licitação ou celebrar contrato com empresa ou
profissional declarado inidôneo incorre em pena de detenção de seis meses a dois
anos e multa. Incide na mesma pena aquele que, declarado inidôneo, venha a
licitar ou a contratar com a Administração.
O art. 98 dispõe que obstar, impedir ou dificultar injustamente, a inscrição
de qualquer interessado nos registros cadastrais ou promover indevidamente a
alteração, suspensão ou cancelamento de registro do inscrito, incorre em pena de
detenção de 6 meses a 2 anos e multa.”
Os crimes são de ação penal pública incondicionada, ou seja, é o MP que ofe-
rece a denúncia, não tendo em regra queixa-crime e não precisa de representação
do ofendido para o Estado atuar. Será admitida ação penal privada, se a pública
não for intentada no prazo legal no que couber as regras do CPP.
Ao receber a denúncia cita-o para apresentar defesa em 10 dias, e depois
ouvidas as testemunhas, praticadas as diligências tem cinco dias para alegações
finais. Conclusos os autos para o juiz em 10 dias proferir a sentença que caberá
apelação no prazo de cinco dias.

Exercício
60. A inação da acusação viabiliza o oferecimento de queixa-crime para os deli-
tos contra as licitações previstos na Lei nº 8.666/93. Verdadeiro ou falso?
Capítulo 19
Crimes Falimentares –
Lei nº 11.101/05

1. Recuperação Judicial, Extrajudicial,


Extrajudicial e Falência – Violação de Sigilo
Empresarial – Divulgação de Informações
Falsas – Indução a Erro

Atualmente, o legislador se preocupou em propiciar condições para que a empre-


sa não quebre, em razão da repercussão social que isso acarreta.
A recuperação judicial tem por objetivo a suspensão de todas as contas por
um determinado período, para que a empresa possa produzir riquezas e assim,
voltar a pagar os seus credores.
Não é necessário que a empresa tenha a decretação da falência para que se
consume a prática de crime falimentar.
A partir da fase da homologação de recuperação judicial, a previsão de crimes
falimentares já será possível.
Nesse sentido, o art. 168 da Lei nº 11.101/05 dispõe sobre a fraude a credores
para aquele que praticar, antes ou depois da sentença que decretar a falência,
conceder a recuperação judicial ou homologar a recuperação extrajudicial, ato
fraudulento de que resulte ou possa resultar prejuízo aos credores, com o fim de
obter ou assegurar vantagem indevida para si ou para outrem.
A pena prevista pela Lei de Falências para tais condutas será de reclusão, de
três a seis anos, e multa.
Essa pena será aumentada de 1/6 a 1/3, se o agente elaborar escrituração
contábil ou balanço com dados inexatos, omitir na escrituração contábil ou no
balanço, lançamento que deles deveria constar, ou alterar escrituração ou balan-
ços verdadeiros.
134 Legislação Penal Especial

Ainda, promover a destruição ou apagar ou corromper dados contábeis ou


negociais armazenados em computador ou sistema informatizado.
Simular a composição do capital social ou, destruir, ocultar, inutilizar total ou
parcialmente os documentos de escrituração contábil obrigatórios.
A pena será aumentada de 1/3 até a metade se o devedor manteve ou movi-
mentou recursos ou valores paralelamente à contabilidade exigida pela legislação.
No concurso de pessoas incorrem nas mesmas penas, os contadores, técnicos
contábeis, auditores e outros profissionais que, de qualquer modo, concorrerem
para as condutas criminosas, na medida de sua culpabilidade.

Exercício
61. Divulgar em rede social informação falsa sobre o devedor em recuperação
judicial, com o fim de levá-lo à falência configura crime falencial.

2. Arts. 172, 173, 174, 175, 176, 177, 178

A Lei de Falências, em seu art. 172 prevê a pena de reclusão de dois a cinco anos,
e multa para os que, à prática anterior ou posterior da sentença que decreta a
falência, concede a recuperação judicial ou homologa plano de recuperação ex-
trajudicial, ato de disposição ou oneração patrimonial ou gerador de obrigação,
destinado ao favorecimento de um ou mais credores em prejuízo dos demais.
Nas mesmas penas incorre o credor que, em conluio, possa beneficiar-se de
ato previsto no art. 172, por exemplo, um credor que tem seu crédito quirografá-
rio transformado em crédito especial.
O art. 173 estabelece a pena de reclusão de dois a quatro anos, e multa para
aqueles que se apropriam, desviam ou ocultam bens pertencentes ao devedor
sob recuperação judicial ou à massa falida, inclusive por meio da aquisição por
interposta pessoa.
Na mesma pena do artigo anterior incorre aquele que, adquirir, receber ou
usar ilicitamente, bem que sabe pertencer à massa falida ou influir para que ter-
ceiro de boa-fé, o adquira, receba ou use, nos termos do art. 174.
O art. 175 trata da habilitação ilegal de crédito para aquele que apresentar,
em falência, recuperação judicial ou extrajudicial, relação de créditos, habilitação
de créditos ou reclamações falsas, ou juntas a elas título falso ou simulado. Nesse
caso, a pena será de reclusão, de dois a quatro anos, e multa.
Legislação Penal Especial 135

Na hipótese ora tratada, existem indivíduos que forjam uma duplicata ou ou-
tro título, como uma nota promissória e se habilitam no processo de recuperação,
na tentativa de tirar proveito de forma ilegal daquela empresa.
Configura crime previsto no art. 176 exercer atividade para a qual foi inabi-
litado ou incapacitado por decisão judicial, com reclusão de um a quatro anos e
multa.

Exercício
62. Se o promotor de justiça que atuou no processo de falência adquirir bens de
devedor em recuperação judicial pratica crime falencial.

3. Equiparação ao Devedor – Sentença de


Falência – Efeitos da Condenação – Prescrição

Na falência, na recuperação judicial e na recuperação extrajudicial de sociedades,


os seus sócios, diretores, gerentes, administradores e conselheiros, de fato ou de
direito, bem como o administrador judicial, equiparam-se ao devedor ou falido
para todos os efeitos penais, na medida de sua culpabilidade, nos termos do art.
179 da Lei nº 11.101/2005.
O art. 180 da Lei Falimentar diz: a sentença que decreta a falência, concede a
recuperação judicial ou a recuperação extrajudicial de que trata o art. 163 desta
Lei é condição objetiva de punibilidade das infrações penais.
Isso significa que é necessária a sentença para o preenchimento da condi-
ção objetiva, que por sua vez é o requisito caracterizador do jus puniendi do
Estado.
São efeitos da condenação por crimes falimentares, a inabilitação para o exer-
cício de atividade empresarial, o impedimento para o exercício de cargo ou fun-
ção em conselho de administração, diretoria ou gerência das sociedades sujeitas
a esta Lei, a impossibilidade de gerir empresa por mandato ou por gestão de
negócio.
Importante ressaltar que, os efeitos de que trata este artigo não são auto-
máticos, devendo ser motivadamente declarados na sentença, e perdurarão até
cinco anos após a extinção da punibilidade, podendo, contudo, cessar antes pela
reabilitação penal.
A reabilitação criminal é a medida que torna possível buscar a quebra desse
efeito, diminuindo para apenas dois anos o cumprimento da pena.
136 Legislação Penal Especial

Segundo a lei, depois de transitada em julgado a sentença penal condena-


tória, será notificado o Registro Público de Empresas para que tome as medidas
necessárias para impedir novo registro em nome dos habilitados.
A falência interrompe o prazo prescricional quando começa a correr a recupe-
ração judicial ou a recuperação extrajudicial.

Exercício
63. Julgue o seguinte item:
A decretação da falência do devedor suspende a prescrição cuja contagem
tenha iniciado com a concessão da recuperação judicial.

4. Arts. 183, 184, 185, 186, 187 e 188

O art. 183, da Lei nº 11.101/05 dispõe que a competência será do juiz criminal da
jurisdição onde tenha sido decretada a falência, concedida a recuperação judicial
ou homologado o plano de recuperação extrajudicial.
Antes da lei de 2005, a competência para processar e julgar crimes fali-
mentares era do juiz da falência, sendo aquele juiz de natureza comercial que
acumulava competências, nessa época, o inquérito era judicial e não inquérito
policial.
De acordo com art. 184 da Lei Falimentar, os crimes serão de ação penal
pública incondicionada, ou seja, aquela que não necessita que o Estado aguarde
qualquer tipo de providência, por parte das vítimas do crime.
Se o Ministério Público perder o prazo para oferecer a denúncia, será admi-
tido que qualquer credor habilitado ou administrador judicial o faça mediante
ação penal privada subsidiária da pública, observado o prazo decadencial de seis
meses.
O art. 185 da referida Lei estabelece que recebida a denúncia ou queixa,
observar-se-á o rito previsto nos arts. 531 a 540 do Decreto-lei nº 3.689, de 3 de
outubro de 1941, sendo o rito comum sumário.
O art. 186 estabelece que, no relatório feito pelo administrador judicial e apre-
sentado ao juiz da falência a exposição circunstanciada, considerando as causas
da falência, o procedimento do devedor, antes e depois da sentença, e outras
informações detalhadas a respeito da conduta do devedor e de outros responsá-
veis, por atos que possam constituir crime relacionado com a recuperação judicial
ou com a falência, ou outro delito conexo a estes.
Legislação Penal Especial 137

A exposição circunstanciada será instruída com laudo do contador encarrega-


do do exame da escrituração do devedor.
O art. 187, da Lei nº 11.105 estabelece que, intimado da sentença que decre-
ta a falência ou concede a recuperação judicial, o Ministério Público, verificando
a ocorrência de qualquer crime previsto neste Lei, promoverá imediatamente a
competente ação penal ou, se entender necessário, requisitará a abertura de in-
quérito policial.

Exercício
64. Julgue o seguinte item:
Por força de expressa previsão legal, o rito para apurar todos os crimes falen-
ciais será o sumário, previsto nos arts. 531 a 540 do CPP.
Capítulo 20
Crimes Ambientais –
Lei nº 9.605/98

1. Introdução aos Crimes Ambientais –


Responsabilidade Penal da Pessoa Jurídica
– Conceito de Meio Ambiente – Decisão
Jurisprudencial

A lei dos crimes ambientais é uma lei importante, porque tem muitas especifici-
dades diferentes do que em regra ocorre no Direito Penal.
A CF, em seu Capítulo VI, já cita a legitimidade da responsabilidade penal
da pessoa jurídica em crimes ambientais. Este é, aliás, o único tipo de crime que
pode ser praticado por pessoa jurídica. É aplicada, aqui, a teoria da dupla impu-
tação (sempre que o processo por crime ambiental for imputado a uma empresa,
deve constar no polo passivo da relação jurídica uma pessoa física).
No art. 225 da CF tem-se uma diretriz para a proteção do meio ambiente,
para as gerações presente e futuras.
Na Lei nº 9.605/98 há as sanções penais e administrativas das condutas lesivas
ao meio ambiente.
O conceito de meio ambiente está na Lei nº 6.938/91: É o conjunto de con-
dições, leis, influências e interações de ordem física, química e biológica, que
permite, abriga e rege a vida em todas as suas formas.
Voltando ao tema da responsabilidade penal da pessoa jurídica ou ente moral,
ou ente coletivo, tem-se a previsão na lei dos crimes ambientais, no art. 3º:
“As pessoas jurídicas serão responsabilizadas administrativa, civil e penalmen-
te, conforme o disposto nesta Lei, nos casos em que a infração seja cometida por
decisão de seu representante legal ou contratual, ou de seu órgão colegiado, no
interesse ou benefício da sua entidade.”
Legislação Penal Especial 139

Tem-se, portanto, que a conduta tenha sido realizada por decisão dos repre-
sentantes legais ou contratuais da empresa, e em favor da empresa. Neste caso,
a pessoa física e jurídica serão responsabilizadas em conjunto, porque, de acordo
com o parágrafo único, a responsabilidade das pessoas jurídicas não exclui a das
pessoas físicas.
O REsp nº 546.960 é um julgado de suma importância, pois permite a imputa-
ção de crime às pessoas jurídicas. Recomenda-se a leitura do acórdão.

Exercício
65. A responsabilidade penal da pessoa jurídica é viável no sistema brasileiro por
força da dupla imputação feita ao ente moral e à pessoa física.

2. Penas Previstas na Lei dos Crimes Ambientais


– Circunstâncias Atenuantes da Pena

O estudo começa no art. 6º. “Para a imposição e gradação da penalidade, con-


sidera-se:
I – a gravidade do fato;
II – os antecedentes do infrator quanto ao cumprimento da legislação de in-
teresse ambiental;
III – a situação econômica do infrator, no caso de multa.”
No art. 7º da lei dos crimes ambientais temos a realidade do art. 44 do Código
Penal. Haverá substituição das penas por restritivas de direito, que terão a mesma
duração que a privativa de liberdade substituída, quando:
– o crime for culposo ou a PPL aplicada for inferior a quatro anos;
– circunstâncias judiciais indicarem que a substituição é suficiente para a
reprovação e prevenção do crime.
“São penas restritivas de direito aplicáveis nesta lei:
I – prestação de serviços à comunidade: difere do Código Penal, pois serão
cumpridas junto a parques e jardins públicos e unidades de conservação, e, no
caso de dano da coisa particular, pública ou tombada, na restauração desta, se
possível (caráter pedagógico da pena).
II – interdição temporária de direitos;
III – suspensão parcial ou total de atividades;
IV – prestação pecuniária;
140 Legislação Penal Especial

V – recolhimento domiciliar: baseia-se na autodisciplina e senso de responsa-


bilidade do condenado, que deverá, sem vigilância, trabalhar, frequentar curso
ou exercer atividade autorizada, permanecendo recolhido nos dias e horários de
folga em residência ou em qualquer local destinado a sua moradia habitual, con-
forme estabelecido na sentença condenatória (o descumprimento pode gerar a
substituição pela pena privativa de liberdade anteriormente substituída).”
No art. 14 tem-se circunstâncias atenuantes da lei dos crimes ambientais (no
CP, estão nos arts. 65 e 66):
“I – baixo grau de instrução ou escolaridade do agente;
II – arrependimento do infrator;
III – comunicação prévia pelo agente do perigo iminente de degradação am-
biental;
IV – colaboração com os agentes encarregados da vigilância e do controle
ambiental.

Exercício
66. O baixo grau de instrução do agente delitivo de um crime ambiental justifica
a isenção de pena, diante da complexidade intelectual dos crimes contra o
meio ambiente.

3. Circunstâncias Agravantes na Pena de Crimes


Ambientais – Suspensão Condicional da Pena
(Sursis) – Formação de Título Executivo

A Lei nº 9.605 traz um número grande de situações de fato que elevam a pena-
-base dos crimes ambientais, em caso de condenação.
Se qualquer das situações de fato, previstas nas alíneas do art. 15, figurarem
como causas de aumento de pena ou circunstâncias qualificadoras específicas,
não será possível aumentar a pena valendo-se do art. 15, sob pena de bis in idem.
A primeira circunstância agravante segue a regra do Código Penal: “I – re-
incidência nos crimes de natureza ambiental.” Importante frisar que apenas a
reincidência específica em crimes ambientais permite o aumento da pena em
processo que apura a infração ambiental praticada após o trânsito em julgado do
processo anterior.
Em segundo lugar, há o rol taxativo do inciso II.
Legislação Penal Especial 141

Tais situações fáticas justificam o aumento da sanção penal por força da di-
ficuldade ou redução da capacidade de fiscalização ambiental do Poder Público,
como nos domingos, feriados ou período noturno.
No tocante à suspensão condicional do processo, há algumas peculiaridades
no sursis para crimes ambientais.
O art. 16 traz outro patamar de pena permissiva para o sursis, diferente do
art. 77 do CP: condenação à pena privativa de liberdade não superior a três anos.
Além de não ter o sursis revogado, nos crimes ambientais ainda se exige do
agente verificação de reparação do dano, mediante laudo de reparação do dano
ambiental e acompanhamento do cumprimento das condições fixadas pelo ma-
gistrado. O próprio juiz, ao condenar o agente por crime ambiental, sempre que
possível, fixará o valor mínimo para reparação dos danos causados pela infração,
considerando os prejuízos sofridos pelo ofendido ou pelo meio ambiente. O CPP,
em 2008, adaptou-se a essa realidade determinando ao juiz que fixe o valor míni-
mo de indenização para a vítima quando o crime possuir repercussão patrimonial.

Exercício
67. O regime jurídico da suspensão condicional da pena, nos crimes ambientais,
segue a regra geral do Código Penal acrescido das alterações no prazo de
duração do período de prova.

4. Ação Penal – Laudo de Reparação – Crimes


de Menor Potencial Ofensivo – Suspensão
Condicional do Processo
A ação sempre será pública incondicionada nos crimes da lei em estudo. Ou seja,
não há necessidade de representação, requisição ou queixa-crime: o Estado está
livre para iniciar a persecução penal, sem nenhuma condição.
Nos crimes ambientais de menor potencial ofensivo a proposta de transação
penal somente poderá ser formulada se já havida a composição do dano am-
biental. Mas, na Lei nº 9.099 tem-se a composição civil dos danos, que extingue
a punibilidade. Nos crimes ambientais, esta composição deverá ser ambiental, e
não haverá a extinção da punibilidade, mas servirá como requisito para a propos-
ta de transação penal.
Reza o disposto no art. 27 da lei dos crimes ambientais:
Nos crimes ambientais de menor potencial ofensivo, a proposta de apli-
cação imediata de pena restritiva de direitos ou multa, prevista no art. 76 da
142 Legislação Penal Especial

Lei nº 9.099/95, somente poderá ser formulada desde que tenha havido a prévia
composição do dano ambiental, de que trata o art. 74 da mesma lei, salvo em
caso de comprovada impossibilidade.
Seguindo, no art. 28 há a suspensão condicional do processo, que funcionará
com algumas diferenças:
– a declaração de extinção da punibilidade dependerá do laudo de consta-
tação de reparação dos danos ambientais, salvo quando impossível;
– se o laudo comprovar que a reparação não foi completa, o prazo de sus-
pensão do processo será prorrogado até a total reparação, suspendendo-
-se também o prazo da prescrição.
– no período de prorrogação não se aplicam as condições normais do sursis
processual da Lei nº 9.099.
– findo o prazo de prorrogação, será feito um novo laudo de constatação de
reparação. Não tendo sido reparado, será novamente prorrogado.
– a declaração de extinção da punibilidade, depois de findo o prazo máxi-
mo, dependerá da comprovação de que tudo o que podia ter sido feito
para a reparação foi feito.

Exercício
68. Sem o laudo de constatação que comprove ter o acusado tomado as provi-
dências necessárias à reparação integral do dano, a extinção de punibilidade
não será reconhecida judicialmente.

5. Delitos contra a Fauna – Exportação de Animais


Silvestres – Introdução de Espécime Animal –
Prática de Abuso e Maus-Tratos – Emissão de
Efluentes ou Carreamento de Materiais
A lei penal protege a matéria-prima extraída da fauna de forma irregular, buscan-
do evitar o abate e os maus-tratos contra os animais.
O art. 29 pune aquele que matar, perseguir, caçar, apanhar, utilizar espécimes
da fauna silvestre, nativos ou em rota migratória, sem a devida permissão, licença
ou autorização da autoridade competente, ou em desacordo com a obtida.
O § 1º traz condutas equiparadas ao caput, tutelados com a mesma pena
irrisória e simbólica. Aqui, a preocupação do legislador foi inibir a interferência do
homem no desenvolvimento inicial dos animais.
Legislação Penal Especial 143

Os arts. 30 e 31 têm como preocupação a saída e a entrada de animais irregu-


lares. A exportação possui uma pena máxima de três anos, mas a introdução de
animais sem parecer acarreta pena máxima de um ano.
O art. 32 trata do crime de maus-tratos contra animais de qualquer natureza.
Também será responsabilizado quem realiza experiência dolorosa ou cruel em ani-
mal vivo, ainda que para fins didáticos ou científicos, quando existirem recursos
alternativos. A morte do animal é causa especial de aumento de pena.
O último crime estudado nessa unidade é o ato de provocar, pela emissão de
efluentes ou carreamento de materiais, a morte de espécimes da fauna aquática,
desde que em águas jurisdicionais brasileiras, sujeitas à nossa jurisdição. Ainda
responderá quem causar interferência em regiões aquáticas, atingindo o equi-
líbrio ambiental da fauna, com a degradação em viveiros, açudes ou estações
de aquicultura de domínio público; com a exploração de campos naturais de
invertebrados aquáticos e algas; ou, ainda, afundando embarcações ou lançando
detritos sobre bancos de moluscos ou corais, devidamente demarcados em carta
náutica.
Lembre-se sempre do elemento normativo desses tipos penais – não haverá
crime se existir licença, permissão ou autorização da autoridade competente.

Exercício
69. Os crimes contra a fauna tutelam tanto os animais silvestres quanto domés-
ticos ou domesticados.

6. Diferenciação entre Animais – Aplicação da


Pena Considerando as Circunstâncias – Causas
de Aumento de Pena – Excludente de Ilicitude
e Tipicidade

Questão interessante a ser estudada diz respeito à alternância da responsabilida-


de criminal a depender do tipo de animal atingido pela conduta. Teria diferença
no resultado do processo?
O art. 29, § 2º traz interessante caso: se a guarda do animal for doméstica,
mesmo de espécie silvestre, desde que não considerada ameaçada de extinção,
pode o juiz, considerando as circunstâncias, deixar de aplicar a pena. Trata-se de
hipótese de perdão judicial (ou isenção de pena) avaliados, casuisticamente pelo
juiz criminal, levando em consideração o cuidado e o carinho recebidos pelo ani-
mal silvestre, tratado como se domesticado fosse.
144 Legislação Penal Especial

São espécimes da fauna silvestre todos aqueles pertencentes às espécies nati-


vas, migratórias e quaisquer outras, aquáticas ou terrestres, que tenham todo ou
parte de seu ciclo de vida ocorrendo dentro dos limites do território brasileiro, ou
águas jurisdicionais brasileiras. O Brasil só considera espécimes da fauna silvestre,
para fins de tutela da Lei nº 9.605/98, o animal que tiver todo ou parte de seu
ciclo de vida ocorrendo dentro dos limites do território brasileiro, ou águas juris-
dicionais brasileiras.
Outro tratamento diferenciado leva em consideração os animais em extinção.
Nesse caso, a pena do crime será aumentada de metade. A pena é aumentada
até o triplo, se o crime decorre do exercício de caça profissional.
No tocante à causa excludente da ilicitude da conduta, o art. 37 permite o
abate de animal nocivo à saúde humana, desde que assim caracterizado pelo
órgão competente.

Exercício
70. No caso de guarda doméstica de espécie silvestre não considerada ameaça-
da de extinção, pode o juiz, considerando as circunstâncias, deixar de aplicar
a pena.

7. Pesca – Conceito de Pesca – Pesca em


Período Proibido ou Interditado por Órgãos
Competentes – Pesca Mediante Explosivos ou
Outras Técnicas Proibidas
Para a lei dos crimes ambientais, pesca é qualquer tentativa de retirar da água
peixe, crustáceos, moluscos e vegetais que sobrevivem no ambiente aquático.
Trata-se, como se vê, de conceito bastante amplo. E basta que seja ato tendente
à retirada dos organismos citados.
A pesca no período proibido (denominado de período defeso) ou locais inter-
ditados tem pena de detenção de um a três anos ou multa, ou ambas as penas
cumulativamente. É o crime do art. 34.
Nas mesmas penas, incorre quem:
“I – pesca espécies que devam ser preservadas ou espécimes com tamanhos
inferiores aos permitidos;
II – pesca quantidades superiores às permitidas, ou mediante a utilização de
aparelhos, petrechos, técnicas e métodos não permitidos;
Legislação Penal Especial 145

III – transporta, comercializa, beneficia ou industrializa espécimes provenien-


tes da coleta, apanha e pesca proibidas.”
No art. 35, temos outro crime, mais grave, com pena de reclusão de um a
cinco anos:
Pescar mediante a utilização de:
“I – explosivos ou substâncias que, em contato com a água, produzam efeito
semelhante;
II – substâncias tóxicas, ou outro meio proibido pela autoridade competente.”
Observe que o incido II traz uma cláusula geral e aberta.

Exercício
71. A extração de plantas aquáticas de um rio deve ser entendida, nos termos da
Lei nº 9.605/98, como ato de pesca.

8. Conservação da Natureza – Proteção aos


Mangues – Exploração Econômica de
Terras Públicas – Comércio de Motosserra –
Majoramento de Pena

Por flora deve-se entender o conjunto de plantas situadas em jurisdição brasileira.


Pune-se a destruição de floresta considerada de preservação permanente, ou
mesmo a simples utilização desse espaço com infringência das normas de prote-
ção. O crime do art. 38 admite a modalidade culposa. O ato de cortar árvores em
floresta considerada de preservação permanente, sem permissão da autoridade
competente também recebeu atenção do legislador.
Em seguida a Lei tutela o ato de destruir ou danificar vegetação primária
ou secundária, em estágio avançado ou médio de regeneração do Bioma Mata
Atlântica.
Em seguida a tutela penal volta-se para o Sistema Nacional de Unidades de
Conversação. Tais unidades, quando de Proteção Integral não podem sofrer qual-
quer dano direto ou indireto, sob pena de reclusão, de um a cinco anos.
Além das unidades de proteção integral, há ainda as Unidades de Conserva-
ção de Uso Sustentável. Nelas, é possível a utilização, inclusive com a retirada de
materiais, desde que autorizados e de forma sustentável, sob pena de reclusão.
146 Legislação Penal Especial

A lei também pune quem destrói, desmata, danifica ou explora economica-


mente florestas nativas ou plantadas ou vegetação fixadora de dunas, protetora
de mangues, ou ainda, floresta, plantada ou nativa, em terras de domínio público
ou devolutas. Importante frisar que a autorização do órgão competente impede
a tipificação da conduta.
Em seguida o legislador puniu atos preparatórios quando ameaça com deten-
ção quem comercializa motosserra sem licença ou registro da autoridade compe-
tente. A utilização também é punível.
São causas especiais de aumento de pena, de 1/6 a 1/3, se do fato resulta a
diminuição de águas naturais, a erosão do solo ou a modificação do regime climá-
tico; se o crime é cometido: a) no período de queda das sementes; b) no período
de formação de vegetações; c) contra espécies raras ou ameaçadas de extinção,
ainda que a ameaça ocorra somente no local da infração; d) em época de seca ou
inundação; e) durante a noite, em domingo ou feriado.

Exercício
72. O dia da semana utilizado pelo agente para praticar um crime contra a flora
pode interferir na individualização da pena.

9. Crimes contra Florestas, Vegetação,


Logradouro Público e Propriedade Privada
Provocar incêndio em mata ou florestas é crime, inclusive na sua forma culposa.
Trata-se de regra especial comparada ao crime de incêndio do Código Penal.
Temos na lei também os crimes cometidos com balões: qualquer balão que
possa provocar incêndio é conduta criminosa. Antecipa-se a tutela penal para o
momento da soltura do balão, prevenindo, assim, um possível incêndio.
Outro crime: extração de pedra, areia, cal ou qualquer espécie de mineral de
floresta de domínio público ou consideradas de preservação permanente sem
prévia autorização. O crime configura-se com a simples remoção de minerais.
Outro crime: corte de madeira de lei para transformação em carvão para qual-
quer exploração, econômica ou não.
Seguindo: alguns vegetais são tão protegidos pela lei ambiental que têm um
número de série individualizado. O transporte destes vegetais só pode ser feito
com uma documentação (licença). Quem receber ou adquirir, para fins comerciais
ou industriais, deve exigir e manter uma via de toda essa documentação, sob
pena de incorrer em crime ambiental.
Legislação Penal Especial 147

Incorre nas mesmas penas do crime acima citado quem vende, expõe à venda,
tem em depósito, transporta ou guarda madeira, lenha, carvão e outros produtos
de origem vegetal, sem licença válida para todo o tempo da viagem ou do arma-
zenamento, outorgada pela autoridade competente.
No art. 48 temos o crime cometido por quem impede ou dificulta, de qual-
quer forma, a regeneração natural de florestas ou demais formas de vegetação.
Já no art.49, tem-se que é crime destruir, danificar, lesar ou maltratar, por
qualquer modo ou meio, plantas de ornamentação de logradouros públicos ou
em propriedade privada alheia. Este crime prevê a modalidade culposa.

Exercício
73. Soltar balões que sobem apenas com a força do vento não é crime, sendo
um indiferente penal.

10. Crimes contra Pesquisa, Lavra ou Extração de


Recursos Minerais

A extração descontrolada de recursos minerais é um grande vilão do meio am-


biente. Por essa razão, o legislador tipificou condutas específicas para resultados
que atingem o meio ambiente, decorrentes da extração de minérios.
O simples ato de executar pesquisa, lavra ou extração de recursos minerais
sem a competente autorização, permissão, concessão ou licença, ou em desacor-
do com a obtida, já acarreta a responsabilidade criminal do pesquisador.
Terá o mesmo destino quem deixar de recuperar a área pesquisada ou explo-
rada, nos termos da autorização, permissão, licença, concessão ou determinação
do órgão competente. Toda área explorada necessita de recuperação, após o fim
do extrativismo. Mas nem todos se atentam para essa situação, que significa,
para muitos empresários, apenas despesa.
O art. 56 tipifica o manejo de substância tóxica, perigosa ou nociva à saúde
humana ou ao meio ambiente, com 12 verbos. Trata-se de tipo misto alternativo,
ou seja, a prática de mais de um verbo continuará sendo crime único, devendo
o juiz se atentar para isso na dosimetria da pena-base, em caso de condenação.
Também responde com penas de um a quatro anos quem abandona os pro-
dutos ou substâncias tóxicas ou os utiliza em desacordo com as normas am-
bientais ou de segurança. Ainda quem manipula, acondiciona, armazena, coleta,
transporta, reutiliza, recicla ou dá destinação final a resíduos perigosos de forma
148 Legislação Penal Especial

diversa da estabelecida em lei ou regulamento. Atenção para o verbo reciclar:


nem toda reciclagem é saudável ao meio ambiente.
Encerra-se essa unidade com as causas de aumento de pena para os crimes
contra a extração e uso irregulares de recursos minerais. As penas serão aumen-
tadas em caso de dano irreversível, se resulta lesão corporal de natureza grave
em outrem (a lei não pune a autolesão) ou ainda se resultar a morte de terceiro.

Exercício
74. O ato de reciclar embalagens colabora com o meio ambiente, não podendo,
em nenhum caso, ser considerado conduta criminosa.

11. Poluição e Outros Crimes Ambientais –


Poluição Culposa

Só será crime se os atos de poluição forem praticados em níveis tais que resultem
ou possam resultar em danos à saúde humana, ou que provoquem a mortandade
de animais ou a destruição significativa da flora. Fora desses casos, não existirá o
crime de poluição. Admite-se a modalidade culposa, com a poluição sendo prati-
cada violando o dever objetivo de cuidado que se espera de todos.
Se o ato de poluir tornar uma área, urbana ou rural, imprópria para a ocu-
pação humana; ou provoque a retirada, ainda que momentânea, dos habitantes
das áreas afetadas, ou que cause danos diretos à saúde da população com po-
luição atmosférica; se causar poluição hídrica que torne necessária a interrupção
do abastecimento público de água de uma comunidade ou mesmo dificulte ou
impeça o uso público das praias; se a poluição ocorrer por lançamento de resí-
duos sólidos, líquidos ou gasosos, ou detritos, óleos ou substâncias oleosas, em
desacordo com as exigências estabelecidas em leis ou regulamentos, tem-se, para
todos esses casos, uma reprimenda de reclusão, de um a cinco anos.
A negligência diante de determinação da autoridade competente, em adotar
medidas de precaução em caso de risco de dano ambiental grave ou irreversível,
também será considerada conduta criminosa pela lei.
Como último tipo penal a ser estudado nessa unidade, tem-se as condutas de
construir, reformar, ampliar, instalar ou fazer funcionar, em qualquer parte do ter-
ritório nacional, estabelecimentos, obras ou serviços potencialmente poluidores,
sem licença ou autorização dos órgãos ambientais competentes, ou contrariando
as normas legais e regulamentares pertinentes. Atente-se que a elementar típica
Legislação Penal Especial 149

“potencialmente poluidores” deve ser extraída das atividades exercidas desde a


construção até o término de execução da obra ou serviço.

Exercício
75. Arremessar cascas de laranja pela janela do ônibus, em avenida movimenta-
da de uma cidade, é crime de poluição.

12. Crimes contra Ordenamento Urbano e


Patrimônio Cultural

A Lei de Crimes Ambientais nº 9.605/98, a partir de seu art. 62 dispõe sobre os


crimes contra o ordenamento urbano e o patrimônio cultural.
Sendo crime a destruição, inutilização ou deterioração de bem especialmente
protegido por lei, ato administrativo ou decisão judicial.
São tutelados para os efeitos da referida lei, os arquivos, os registros, os mu-
seus, as bibliotecas, as pinacotecas, instalações científicas ou similares, protegidos
por lei, ato administrativo ou decisão judicial.
Assim, diante de um ato administrativo que determine a proteção de uma
área em especial, esse bem passará a receber tal proteção.
A lei estabelece a pena de reclusão, de um a três anos, e multa. Já se o crime
for culposo, a pena será de seis meses a um ano de detenção, sem prejuízo e
multa.
De acordo com art. 63 promover a alteração do aspecto ou estrutura de edifi-
cação ou local especialmente protegido por lei, ato administrativo ou decisão ju-
dicial, em razão de seu valor paisagístico, ecológico, turístico, artístico, histórico,
cultural, religioso, arqueológico, etnográfico ou monumental, sem autorização da
autoridade competente ou em desacordo com a concedida.
Para a referida conduta a lei estabelece pena de reclusão de um a três anos,
e multa. Não é necessário que esse bem alterado possua todos os valores acima
descritos, bastando apenas um destes para que incorra em crime.
O art. 64 da Lei prevê a pena de detenção de seis meses a um ano, e multa
para quem promover construção em solo não edificável, ou no seu entorno, as-
sim considerado em razão de seu valor paisagístico, ecológico, artístico, turístico,
histórico, cultural, religioso, arqueológico, etnográfico ou monumental, sem au-
torização da autoridade competente.
150 Legislação Penal Especial

Não constitui crime a prática de grafite realizada com o objetivo de valorizar


o patrimônio público ou privado mediante manifestação artística, desde que con-
sentida pelo proprietário e, quando couber, pelo locatário, ou arrendatário do
bem privado e, no caso de bem público, com a autorização do órgão competente
e a observância das posturas municipais.

Exercício
76. Considere a assertiva como correta ou incorreta: Toda pichação é criminosa.

13. Crimes contra a Administração Ambiental

O art. 66 da Lei nº 9.605/98 dispõe que será considerado crime contra a adminis-
tração ambiental, fazer o funcionário público afirmação falsa ou enganosa, omitir
a verdade, sonegar informações ou dados técnico-científicos em procedimentos
de autorização ou de licenciamento ambiental.
Também será considerado crime com detenção, de um a três anos, e multa
a concessão por funcionário público de licença, autorização ou permissão em
desacordo com as normas ambientais, para as atividades, obras ou serviços cuja
realização depende de ato autorizativo do Poder Público.
Se o crime for praticado na modalidade culposa, a pena aplicada será de três
meses a um ano de detenção, sem prejuízo da multa, nos termos do art. 67, pa-
rágrafo único, da Lei nº 9.605/98.
O art. 68 estabelece a pena de detenção, de um a três anos e multa ao fun-
cionário que deixar de cumprir o dever legal ou contratual de relevante interesse
ambiental, sem prejuízo de multa, sendo na modalidade culposa, a pena aplicada
será de três meses a um ano.
O art. 69 dispõe sobre o funcionário que obstar ou dificultar a ação fiscaliza-
dora do Poder Público no trato de questões ambientais terá a previsão de pena
de detenção, de um a três anos, e multa.
O art. 69, letra “a”, prevê a pena de reclusão, de três a seis anos, e multa para
a elaboração ou apresentação, no licenciamento, concessão florestal ou qualquer
outro procedimento administrativo, estudo, laudo ou relatório ambiental total ou
parcialmente falso ou enganoso, inclusive por omissão.
Essa pena será aumentada de um terço a dois terços, em caso de dano signifi-
cativo ao meio ambiente, em decorrência do uso da informação falsa, incompleta
ou enganosa.
Legislação Penal Especial 151

Exercício
77. A concessão, por funcionário público, de licença, autorização ou permissão
em desacordo com as normas ambientais, para as atividades, obras ou servi-
ços cuja realização depende de ato autorizativo do Poder Público, admite a
modalidade culposa.
Capítulo 21
Interceptação de
Comunicações Telefônicas
(Lei nº 9.296/96)

1. Interceptação de Comunicações Telefônicas –


Introdução
A interceptação de comunicações telefônicas está prevista na Lei nº 9.296/96,
bem como na Resolução nº 59, de 2008 do Conselho Nacional de Justiça.
Interceptação de comunicação telefônica significa ouvir a conversa de duas
pessoas sem que estas saibam.
A interceptação de comunicação telefônica pode acontecer durante a inves-
tigação criminal ou durante a ação penal. De qualquer forma é uma medida
cautelar.
O art. 1º da Lei nº 9.296/96 dispõe:
“Art. 1º A interceptação de comunicações telefônicas, de qualquer natureza,
para prova em investigação criminal e em instrução processual penal, observará o
disposto nesta Lei e dependerá de ordem do juiz competente da ação principal,
sob segredo de justiça.”
Há seis espécies de intromissão no conteúdo sigiloso alheio que devem ser
observadas: interceptação telefônica, escuta telefônica, gravação telefônica, in-
terceptação ambiental, escuta ambiental e gravação ambiental.
Interceptação telefônica ocorre quando um terceiro capta a conversa de ou-
tras duas pessoas, sem o conhecimento destas.
Escuta telefônica é a captação da conversa por um terceiro com o conheci-
mento de um deles.
Já a gravação telefônica é feita por um dos comunicadores.
A gravação ambiental é a captação da conversa, porém, esta não se dá por
telefone, mas em um ambiente, sem o conhecimento dos comunicadores.
A escuta ambiental ocorre quando um terceiro capta, mas com o conheci-
mento de um deles.
Legislação Penal Especial 153

Por fim, a gravação ambiental é feita por um dos comunicadores, uma das
pessoas da conversa.
Observe-se que a lei trata especificamente da interceptação telefônica e da
escuta telefônica.
A interceptação das comunicações telefônicas é uma medida cautelar, que
pode ser preparatória ou incidental, destinada a produzir prova a ser utilizada em
ação penal, com autorização judicial e de forma subsidiária.

2. Requisitos das Interceptações Telefônicas e


Prazos

Há seis requisitos para que haja as interceptações telefônicas que devem ser
observados.
Primeiro, somente pode ocorrer interceptação telefônica para fins criminais.
O segundo requisito é que são necessários indícios razoáveis de autoria ou
participação em infração penal.
O terceiro requisito é a indispensabilidade da prova, ou seja, somente se pode
pedir interceptação quando não houver outro meio de conseguir a informação
necessária.
O quarto é que sejam crimes, infração penal, punidos com reclusão. Assim,
caso a punição seja detenção, não há que se falar em interceptação telefônica.
O quinto requisito é que se indique o crime que está sendo praticado e a pes-
soa que será interceptada.
Por fim, o último requisito é que haja ordem do juiz competente para a ação
penal.
Desta forma, presentes todos os requisitos, é possível interceptar uma comu-
nicação telefônica.
Ainda, de acordo com o disposto na Lei nº 9.296/96, é admissível interceptar
qualquer tipo de comunicação, ou seja, não necessariamente a telefônica. Exem-
plo: computador.
Em relação aos prazos, quando o juiz recebe um pedido de interceptação
telefônica, terá 24 horas para decidir. Se o juiz descumprir a lei, poderá sofrer
penalidades disciplinares.
Indaga-se por quanto tempo o Estado pode escutar as conversas ao tele-
fone. A lei dispõe que são 15 dias, prorrogável uma vez se provada extrema
necessidade. No entanto, há interceptações que duram até mesmo dois anos.
154 Legislação Penal Especial

Sobre este assunto, a jurisprudência majoritária afirma que é possível prorro-


gar indefinidamente, desde que exista uma justificativa.

3. Procedimentos e Sigilo das Interceptações


Telefônicas

Sendo concedida pelo juiz a ordem para interceptação telefônica, tal ordem irá
para quem fez o requerimento do pedido (Delegado de Polícia ou Ministério Pú-
blico), que por sua vez requisita os serviços técnicos às concessionárias do serviço
público.
Dispõe a Súmula Vinculante nº 14: “É direito do defensor, no interesse do
representado, ter acesso amplo aos elementos de prova que, já documentados
em procedimento investigatório realizado por órgão com competência de polícia
judiciária, digam respeito ao exercício do direito de defesa.”
Observe-se que a interceptação telefônica é um apenso, uma vez que deve
ser sigiloso.
O sigilo e a juntada posterior não prejudicam o contraditório e a ampla defesa,
pois neste caso o contraditório é diferido, ou seja, postergado no tempo.
Caso nada seja encontrado, depois de realizada a interceptação telefônica, o
material deverá ser destruído. Sendo parcial a destruição, é obrigatória manifes-
tação prévia da defesa.
Outro importante tema que deve ser estudado é o encontro fortuito. Sobre
este assunto, entende a jurisprudência que poderá ser usada como prova a in-
terceptação em relação ao novo crime ou criminoso descoberto fortuitamente,
quando houver conexão ou continência com o fato investigado.
Ainda, é preciso que se diferenciem as conversas dos dados telefônicos. Con-
versa telefônica é o conteúdo do que é falado ao telefone e dado telefônico seria
o número do telefone, o horário, para quem ligou e a duração da chamada.
A interceptação da conversa telefônica somente se dará com autorização do
juiz, porém, quanto aos dados telefônicos não é necessária autorização judicial.

4. Considerações Finais

Se a ilegalidade de uma interceptação de comunicação telefônica não for alegada


em primeira instância, ocorre um problema processual de supressão de instância.
Para que uma matéria seja rediscutida em um Tribunal Superior, é preciso que esta
Legislação Penal Especial 155

matéria tenha sido trabalhada por algum juiz em instâncias inferiores, sob pena
de supressão de instância.
Outro ponto relevante é que, ao interceptar-se uma conversa telefônica, des-
cobre-se que um crime está acontecendo, é possível que o sujeito seja preso em
flagrante.
Sabe-se que a Constituição Federal garante ao sujeito o direito de se calar.
Sobre este tema, foi decidido que não há violação ao direito ao silêncio, ou seja,
é possível interceptar conversas telefônicas nos limites da lei aqui estudada e isso
não significa violação ao direito ao silêncio. Isso, porque o direito ao silêncio é
exercido depois de feita uma acusação formal.
Em relação ao segredo de justiça e a interceptação telefônica, há duas espé-
cies de segredo de justiça: contra o investigado durante a interceptação telefônica
e contra terceiros após a juntada aos autos.
O art. 10 da Lei nº 9.296/96 cuida de um interessante crime, dispondo em
sua redação:
“Art. 10. Constitui crime realizar interceptação de comunicações telefônicas,
de informática ou telemática, ou quebrar segredo da Justiça, sem autorização
judicial ou com objetivos não autorizados em lei.
Pena: reclusão, de dois a quatro anos, e multa.”
Nota-se que o bem jurídico tutelado neste crime é o sigilo das comunicações
telefônicas. Trata-se de um crime de dupla subjetividade passiva, ou seja, há duas
vítimas, obrigatoriamente.

Exercício
78. Sobre o crime do art. 10 da Lei de Interceptação Telefônica:
a) É de dupla subjetividade passiva.
b) Não admite excludente.
c) É imprescritível.
d) Caiu em desuso pela adequação social.
Capítulo 22
Lei de Execução Penal
(Lei nº 7.210/84)

1. Considerações Iniciais e Princípios


O objeto da Lei de Execução Penal é o momento em que a pessoa já foi pro-
cessada criminalmente, não cabem mais recursos, transita em julgado a decisão
criminal condenatória e, então, o Estado obriga a pessoa a cumprir a pena.
Há três tipos de penas: penas privativas de liberdade, pena restritiva de direito
e multa.
A pena restritiva de direitos está prevista no art. 44 do Código Penal e se ma-
terializa em algumas situações diversas da prisão. Exemplo: limitação de fim de
semana; pagamento de cesta básica; dentre outras.
É preciso observar que nem todo crime admite este tipo de pena, como é o
caso da violência doméstica e familiar contra a mulher (Lei Maria da Penha).
Observe-se que sempre que se fala em penas, fala-se em execução penal,
existindo uma lei para regulamentar o cumprimento das penas.
É preciso diferenciar os termos presídio e cadeia. Quando a pessoa é presa
durante o processo, o nome do local é cadeia e quando a pessoa já foi condena-
da definitivamente a uma pena de reclusão e vai cumprir esta pena, vai para um
presídio.
A execução penal traz um sistema híbrido, no qual existe a parte jurisdicional
e a parte administrativa.
Faz-se necessário entender que a Lei de Execução Penal e o sistema de execu-
ção penal têm cunho de natureza jurisdicional, apesar de algumas decisões fica-
rem no âmbito administrativo. Exemplo: se os sujeitos têm direito a jogar futebol.
Alguns princípios devem ser observados. O primeiro é o princípio da legalida-
de, pois só se pode retirar direitos de um sujeito se estes estão previstos na lei. O
segundo é o princípio da igualdade, o terceiro é o princípio da individualização da
pena e, por fim, tem-se o princípio da ressocialização.
Legislação Penal Especial 157

O princípio que não está em fase de execução penal é a presunção de inocên-


cia, uma vez que o sujeito é presumido inocente durante o processo, mas quando
for definitivamente condenado, é considerado culpado.

2. Comissão Técnica de Classificação e Prisão


Especial
Quando é feito um pedido ao juiz da execução, como o livramento condicional, e
este pedido é negado, cabe recurso de agravo em execução. Observe-se que este
é um dos dois recursos criminais em que cabe juízo de retratação.
Quando o preso ingressa no sistema penitenciário, é feito um estudo sobre
este indivíduo; há uma comissão técnica de classificação que analisa a situação
pessoal, familiar, social acerca deste sujeito. Levam-se em consideração, basica-
mente, os antecedentes criminais e a personalidade do indivíduo.
O preso condenado por crime hediondo ou por crime doloso com violência
contra a pessoa, no momento da comissão de classificação, é obrigado por lei a
fornecer ao Estado material de DNA para que seja traçado um perfil genético, o
qual vai para um banco de dados oficial. Ressalte-se que a extração do DNA deve
ser feita por técnica adequada e indolor.
Indaga-se quem julga os pedidos feitos pelo sujeito que fica preso durante
a fase processual (juiz do processo ou juiz da execução). A Resolução nº 113 do
CNJ, em seu art. 8º, traz que para que o preso seja levado à cadeia, é expedida
uma guia de recolhimento provisória. Quem analisa os pedidos de benefícios rea-
lizados, conforme disposto pelo CNJ, é o juiz da execução.
Dispõe a Súmula nº 717 do STF: “Não impede a progressão de regime de
execução da pena, fixada em sentença não transitada em julgado, o fato de o réu
se encontrar em prisão especial.”
A prisão especial está prevista no art. 295 do Código de Processo Penal. Trata-
-se da prisão que é cumprida de forma diferente. Algumas pessoas que ocupam
cargos ou fizeram algumas atividades têm direito a ficar em uma cela diferente
dos presos comuns, mas tal regalia termina assim que transitado em julgado o
processo.
Dois detalhes devem ser observados: policial militar e policial civil. Isso, porque
há presídios construídos para policiais que praticaram crimes. O presídio construí-
do no estado de São Paulo para policiais militares chama-se Romão Gomes e o
presídio para policiais civis chama-se PEPC (Presídio Especial da Polícia Civil).
Existe uma prisão especial para advogado que possui um nome específico.
Quando o advogado responde ao processo preso, fica em um local chamado sala
de Estado Maior.
158 Legislação Penal Especial

Por fim, a Súmula nº 192 do STJ dispõe: “Compete ao Juízo das Execuções
Penais do Estado a execução das penas impostas a sentenciados pela Justiça Fe-
deral, Militar ou Eleitoral, quando recolhidos a estabelecimentos sujeitos à admi-
nistração estadual.”

3. Direitos Políticos do Preso e Assistência ao


Egresso

Inicialmente, é preciso observar que preso provisório, aquele que ainda não foi
condenado, mas está preso processualmente, tem direito de votar. Neste sentido,
somente uma condenação criminal transitada em julgado consegue suspender os
direitos políticos pelo tempo que durar o cumprimento da pena.
O art. 15, III, da Constituição da República dispõe:
“Art. 15. É vedada a cassação de direitos políticos, cuja perda ou suspensão
só se dará nos casos de:
(...)
III – condenação criminal transitada em julgado, enquanto durarem seus
efeitos;”
Quanto ao egresso, estabelece o art. 26 da Lei de Execução Penal:
“Art. 26. Considera-se egresso para os efeitos desta Lei:
I – o liberado definitivo, pelo prazo de 1 (um) ano a contar da saída do esta-
belecimento;
II – o liberado condicional, durante o período de prova.”
O art. 25 traz a seguinte redação:
“Art. 25. A assistência ao egresso consiste:
I – na orientação e apoio para reintegrá-lo à vida em liberdade;
II – na concessão, se necessário, de alojamento e alimentação, em estabeleci-
mento adequado, pelo prazo de 2 (dois) meses.
Parágrafo único. O prazo estabelecido no inciso II poderá ser prorrogado uma
única vez, comprovado, por declaração do assistente social, o empenho na ob-
tenção de emprego.”
O art. 27 do mesmo diploma legal estabelece:
“Art. 27. O serviço de assistência social colaborará com o egresso para a ob-
tenção de trabalho.”
Legislação Penal Especial 159

4. Trabalho do Preso

A Lei de Execução determina que o preso deva trabalhar, porém, muitos presos
não trabalham porque o Estado não oferece vagas de trabalho dentro do presídio.
É possível observar que o trabalho é um dever legal, mas na prática acaba
sendo um prêmio. Isso, porque o preso que consegue trabalhar, a cada três dias
trabalhados tem um dia da pena descontado.
Ressalte-se que o trabalho do condenado possui duas finalidades: educativa
e produtiva.
Obviamente, as regras de segurança e higiene estão presentes neste trabalho,
mas a primeira exceção é que o preso não é celetista, ou seja, ninguém assinará
sua carteira de trabalho. Neste sentido, os direitos do trabalho previstos na CLT
não são aplicáveis ao preso.
Ainda, todos que trabalham no país ganham, no mínimo, um salário-mínimo.
Todavia, o preso ganha abaixo do salário mínimo, pois receberá 3/4 do salário
mínimo federal.
A quantia recebida a título de salário vai para uma conta judicial denominada
pecúlio. Pecúlio é o dinheiro do preso e que sobra depois de ser paga a inde-
nização da vítima. Assim, o dinheiro vai para indenização dos danos causados,
assistência à família e pequenas despesas pessoais.
O produto da remuneração pelo trabalho deverá atender ao ressarcimento ao
Estado das despesas realizadas com a manutenção do condenado.
Sobre o trabalho interno, o preso definitivo está obrigado a trabalhar. O pre-
so provisório não está obrigado a trabalhar, se quiser ficar ocioso durante a
prisão processual poderá fazê-lo. No mesmo sentido, o preso político não tem
esta obrigação.
O § 1º do art. 32 da LEP dispõe: “Deverá ser limitado, tanto quanto possível,
o artesanato sem expressão econômica, salvo nas regiões de turismo.”
Quanto à jornada de trabalho, esta não será inferior a seis horas e no máximo
oito horas por dia.
O trabalho externo ocorre quando o preso mora no presídio, mas pode traba-
lhar fora dele (autorização para trabalho externo).

5. Disciplina dos Presos

Primeiro, tanto o preso provisório quanto o definitivo precisa ser comportado,


disciplinado. Nota-se que violação de códigos disciplinares acarreta em sanções,
em penalidades.
160 Legislação Penal Especial

Se for uma falta leve ou média, simplesmente uma advertência, o diretor do


presídio cuida destas sanções, mas se o sujeito for colocado em RDD (regime dis-
ciplinar diferenciado), somente o juiz de direito poderá fazê-lo.
É preciso entender que é vedada a sanção na chamada cela escura. O art.
45, § 2º, da Lei de Execução Penal estabelece de forma clara: “§ 2º É vedado o
emprego de cela escura.”.
Ainda, são proibidas as sanções coletivas, de acordo com a redação do § 3º
do art. 45 da LEP.
As faltas disciplinares são subdivididas em faltas leves, faltas médias e faltas
graves. Falta leve e média são especificadas na legislação local, pois as sanções
não são graves. Já as faltas graves têm consequências mais sérias e, por isso, es-
tão estipuladas na Lei de Execução Penal.
Faz-se necessário observar que o sujeito que pratica uma falta grave ou tenta
praticar, receberá a mesma sanção.
Dispõe o art. 50 da Lei de Execução Penal:
“Art. 50. Comete falta grave o condenado à pena privativa de liberdade que:
I – incitar ou participar de movimento para subverter a ordem ou a disciplina;
II – fugir;
III – possuir, indevidamente, instrumento capaz de ofender a integridade física
de outrem;
IV – provocar acidente de trabalho;
V – descumprir, no regime aberto, as condições impostas;
VI – inobservar os deveres previstos nos incisos II e V, do art. 39, desta Lei.
VII – tiver em sua posse, utilizar ou fornecer aparelho telefônico, de rádio
ou similar, que permita a comunicação com outros presos ou com o ambiente
externo.
Quanto às sanções disciplinares, dispõe o art. 53 da Lei de Execução Penal:
“Art. 53. Constituem sanções disciplinares:
I – advertência verbal;
II – repreensão;
III – suspensão ou restrição de direitos (art. 41, parágrafo único);
IV – isolamento na própria cela, ou em local adequado, nos estabelecimentos
que possuam alojamento coletivo, observado o disposto no art. 88 desta Lei;
V – inclusão no regime disciplinar diferenciado.”
Quanto ao RDD, se o sujeito pratica um ato previsto como crime doloso den-
tro do presídio ou quando causa um tumulto na disciplina interna, estará sujeito
Legislação Penal Especial 161

a este regime. É grave, pois o sujeito permanecerá sozinho por 360 dias. Se o juiz
entender que não foi suficiente esta punição, poderá prorrogar por mais 360 dias.
O § 2º do art. 52 dispõe: “§ 2º Estará igualmente sujeito ao regime disciplinar
diferenciado o preso provisório ou o condenado sob o qual recaiam fundadas
suspeitas de envolvimento ou participação, a qualquer título, em organizações
criminosas, quadrilha ou bando.”

6. Benefícios do Preso

A remição penal é uma oportunidade que a Lei de Execução Penal dá ao preso


que trabalha e estuda, premiando o sujeito com um desconto em sua pena.
A remição hoje pode ser obtida pelo preso com o trabalho e com o estudo,
havendo diminuição gradativa na pena.
Observe-se que o preso que trabalha três dias, tem um dia de sua pena des-
contado. É possível observar que isso criará um conjunto de dias remidos.
Quanto ao estudo, este foi incorporado na Lei de Execução Penal recente-
mente, através da Lei nº 12.433/11. Neste caso, a cada 12 horas estudadas, é
descontado um dia da pena. Entretanto, é preciso observar que a lei só permite
quatro horas de estudo por dia.
Indaga-se se estudo e trabalho podem ser cumulados diariamente e a resposta
é que em tese sim. No entanto, na vida real este fato é praticamente impossível, já
que a maior parte dos presídios brasileiros nem mesmo professor tem.
A lei, antes de 2011, trazia que a prática de falta grave acarretava a perda de
todos os dias remidos. Hoje, a lei traz que o tempo máximo que pode ser perdido
em caso de falta grave é 1/3 dos dias remidos.
Se o sujeito conseguir se formar, tanto no ensino fundamental quanto no
ensino médio, superior ou técnico, havendo reconhecimento pelo MEC, ganhará
um acréscimo de 1/3 a mais de remição.
Por fim, a leitura está sendo considerada como estudo pela jurisprudência
para fins de remição de pena.

7. Monitoração Eletrônica

A monitoração eletrônica é uma criação que acompanha o desenvolvimento da


tecnologia, para rastrear uma pessoa em tempo real. O Estado vigia a pessoa
através de satélite.
162 Legislação Penal Especial

A monitoração eletrônica é utilizada quando a pessoa não está presa, mas o


Estado quer continuar a vigiá-la.
São dois os casos em que pode ser usada a monitoração eletrônica: no caso
da condenação criminal, do preso que está no presídio e que sai para regime
semiaberto (para saída temporária) e prisão domiciliar.
A pessoa que está em regime semiaberto pode conseguir autorização de saí-
da, para dia das mães, por exemplo, e, neste caso, pode ser monitorada eletroni-
camente. O mesmo se dá com a prisão domiciliar.
A monitoração aqui estudada é diferente da monitoração cautelar. Isso, por-
que a natureza jurídica é diferente, porém, o sistema de rastreamento é o mesmo.
Os deveres do condenado que tem autorização de saída e daquele que cum-
pre pena em casa, em prisão domiciliar, é o recebimento de visitas do agente
público responsável pela monitoração eletrônica. O sujeito não pode remover,
violar, modificar ou danificar o dispositivo.
Em caso de descumprimento dos deveres, o juiz da execução escolherá a pena
para o caso, ouvido o Ministério Público e o advogado do acusado. Dentre as
penas pode ocorrer a regressão de regime, revogação da autorização da saída
temporária, revogação da prisão domiciliar e uma advertência por escrito.
Dispõe o art. 146-D da Lei de Execução Penal acerca da revogação da moni-
toração eletrônica:
“Art. 146-D. A monitoração eletrônica poderá ser revogada:
I – quando se tornar desnecessária ou inadequada;
II – se o acusado ou condenado violar os deveres a que estiver sujeito durante
a sua vigência ou cometer falta grave.”

8. Órgãos da Execução Penal

Quando se fala em órgãos que compõem a Execução Penal, fala-se em insti-


tuições ou de funções exercidas, um conjunto de atribuições institucionais que
forma este conjunto chamado Execução Penal.
A lei começa com o CNPCP (Conselho Nacional de Política Criminal e Peniten-
ciária), que é um órgão que visita presídios de todo o Brasil para fiscalizar se a lei
está sendo cumprida.
O art. 61 da Lei de Execução Penal traz o seguinte rol:
“Art. 61. São órgãos da execução penal:
I – o Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária;
II – o Juízo da Execução;
Legislação Penal Especial 163

III – o Ministério Público;


IV – o Conselho Penitenciário;
V – os Departamentos Penitenciários;
VI – o Patronato;
VII – o Conselho da Comunidade;
VIII – a Defensoria Pública.”
O art. 66 traz especificamente o juiz da execução. Caso haja abolitio criminis
e o sujeito está cumprindo pena por aquele crime, compete ao juiz da execução
reconhecer a abolitio criminis e extinguir a punibilidade.
O inc. III do referido artigo traz diversas alíneas sobre o que o juiz da execução
poderá decidir, como: soma ou unificação de penas; progressão ou regressão nos
regimes; detração e remição da pena; suspensão condicional da pena; livramento
condicional; incidentes da execução.
Detração penal ocorre quando é contado o tempo de prisão provisória, pro-
cessual e este tempo é diminuído da pena definitiva. Assim, é o desconto na pena
definitiva do tempo de prisão provisória e quem é responsável pelo reconheci-
mento da detração é o juiz da sentença e não mais o juiz da execução.
É preciso observar que a antecipação do momento da detração serve apenas
para fixação do regime inicial do cumprimento de pena e, portanto, para todos os
outros fins a detração continua sendo feita pelo juiz da execução.
Ainda, tem o juiz como obrigação emitir anualmente o atestado de pena a
cumprir.

9. Estabelecimentos Penais

Os estabelecimentos penais se destinam ao condenado, ao preso provisório,


àqueles que recebem uma medida de segurança e também à questão do egresso.
A lei estabelece que a mulher e o maior de 60 anos precisam cumprir suas
penas em estabelecimentos próprios. Existem os presídios femininos, mas não
foram criados os presídios para idosos. Assim, na prática os maiores de 60 anos
ficam em uma cela diferenciada dos demais.
O mesmo conjunto arquitetônico poderá abrigar estabelecimentos de destina-
ção diversa desde que devidamente isolados. Neste sentido, pode haver uma co-
lônia industrial agrícola, uma casa do albergado e um presídio no mesmo terreno.
Quanto aos presídios femininos, é preciso que estes tenham berçário onde
as condenadas possam cuidar de seus filhos, inclusive amamentá-los no míni-
164 Legislação Penal Especial

mo até os seis meses de idade. Ainda sobre os presídios femininos, os agentes


penitenciários são do sexo feminino.
O § 4º do art. 83 dispõe: “Serão instaladas salas de aulas destinadas a cursos
do ensino básico e profissionalizante.”
O § 5º do artigo acima referido traz que haverá também a instalação destina-
da à Defensoria Pública.
O art. 84 da lei aqui estudada dispõe que preso provisório deve ficar separado
de preso definitivo.
Prevê a lei que preso primário deve cumprir a pena separado de preso reinci-
dente, porém, na prática, é um dispositivo que dificilmente é cumprido.
É preciso observar que o estabelecimento penal deverá ter lotação compatível
com a sua estrutura e finalidade.
A penitenciária é o local destinado aos presos condenados à pena de reclusão
em regime fechado.
Nas colônias agrícolas, industriais ou similares são desenvolvidas atividades
de indústria ou agrícola, feitas por presos que estão em regime semiaberto. Não
havendo vagas nestes estabelecimentos, em regra os presos ficam em regime
fechado ou o Tribunal manda o indivíduo esperar pela vaga em casa, no regime
albergue domiciliar.
Quanto ao regime aberto, existe um órgão do estabelecimento prisional cha-
mado Casa do Albergado, que consiste em um prédio aonde o sujeito irá para
dormir. A Casa do Albergado possui como função paralela o cumprimento da
pena restritiva de direito denominada limitação de fim de semana.
Por fim, a cadeia pública destina-se ao recolhimento dos presos provisórios,
nos termos do art. 102 da Lei de Execução Penal.

10. Regimes de Cumprimento de Pena

Uma informação importante é que quando a pessoa é acometida por uma doen-
ça mental durante o cumprimento de sua pena, se esta doença for curável, o
sujeito será tratado e volta a cumprir sua pena normalmente. Se a doença for de
difícil cura, o juiz converte a pena privativa de liberdade em medida de segurança
e a pessoa é deslocada da penitenciária para o manicômio judiciário.
Quanto aos regimes para cumprir a pena, há três regimes: fechado, semia-
berto e aberto.
A Lei de Execução Penal traz em seu art. 112 a progressão de regime, conten-
do a seguinte redação:
Legislação Penal Especial 165

“Art. 112. A pena privativa de liberdade será executada em forma progressiva


com a transferência para regime menos rigoroso, a ser determinada pelo juiz,
quando o preso tiver cumprido ao menos um sexto da pena no regime anterior e
ostentar bom comportamento carcerário, comprovado pelo diretor do estabeleci-
mento, respeitadas as normas que vedam a progressão.”
Para que o sujeito vá do regime fechado ao semiaberto, deve ser feito um
pedido com dois requisitos: requisito objetivo (tempo de cumprimento de pena) e
requisito subjetivo (comportamento do preso). Ressalte-se que tais requisitos são
cumulativos.
Quanto ao comportamento dos presos, quem irá verificar e falar se o preso
se comportou ou não é o Diretor do Presídio, por meio do atestado de conduta
carcerária.
Dispõe a Súmula Vinculante nº 26: “Para efeito de progressão de regime no
cumprimento de pena por crime hediondo, ou equiparado, o juízo da execução
observará a inconstitucionalidade do art. 2º da Lei nº 8.072, de 25 de julho de
1990, sem prejuízo de avaliar se o condenado preenche, ou não, os requisitos
objetivos e subjetivos do benefício, podendo determinar, para tal fim, de modo
fundamentado, a realização de exame criminológico.”
Antes de 2007 não poderia haver progressão de regime quando se tratasse de
crimes hediondos ou equiparados, porém o STF declarou tal fato inconstitucional.
Assim, todos podem progredir de regime.

11. Permissão e Autorização de Saída

Inicialmente, é preciso observar que autorização de saída é gênero e há duas


espécies: a permissão de saída e saída temporária.
Permissão de saída é difícil de conseguir, pois é possível quando ocorre faleci-
mento ou doença grave do cônjuge, companheira, ascendente, descendente ou
irmão ou quando há necessidade de tratamento médico muito específico.
A saída temporária está prevista no art. 122 da Lei de Execução Penal e possui
diversos requisitos.
Quem está em regime fechado não tem direito a saída temporária, mas so-
mente quem está em regime semiaberto.
Estabelece o art. 122 da lei aqui estudada:
“Art. 122. Os condenados que cumprem pena em regime semiaberto pode-
rão obter autorização para saída temporária do estabelecimento, sem vigilância
direta, nos seguintes casos:
166 Legislação Penal Especial

I – visita à família;
II – frequência a curso supletivo profissionalizante, bem como de instrução do
2º grau ou superior, na Comarca do Juízo da Execução;
III – participação em atividades que concorram para o retorno ao convívio
social.”
O parágrafo único do referido artigo traz a seguinte redação:
“Parágrafo único. A ausência de vigilância direta não impede a utilização de
equipamento de monitoração eletrônica pelo condenado, quando assim determi-
nar o juiz da execução.”
O art. 123 do mesmo diploma legal traz o seguinte texto, dispondo acerca
dos requisitos:
“Art. 123. A autorização será concedida por ato motivado do Juiz da execu-
ção, ouvidos o Ministério Público e a administração penitenciária e dependerá da
satisfação dos seguintes requisitos:
I – comportamento adequado;
II – cumprimento mínimo de 1/6 (um sexto) da pena, se o condenado for pri-
mário, e 1/4 (um quarto), se reincidente;
III – compatibilidade do benefício com os objetivos da pena.”
Observe-se que é preciso que o sujeito esteja em regime semiaberto, tenha
comportamento adequado, tenha cumprido pelo menos 1/6 da pena se for pri-
mário e 1/4 se for reincidente e que haja compatibilidade do benefício com os
objetivos da pena.
O prazo de saída, de acordo com a lei, é de sete dias, no máximo, podendo
ser renovada a saída por mais quatro vezes durante o ano.
O art. 124, § 1º traz algumas condições:
“§ 1º Ao conceder a saída temporária, o juiz imporá ao beneficiário as seguin-
tes condições, entre outras que entender compatíveis com as circunstâncias do
caso e a situação pessoal do condenado:
I – fornecimento do endereço onde reside a família a ser visitada ou onde
poderá ser encontrado durante o gozo do benefício;
II – recolhimento à residência visitada, no período noturno;
III – proibição de frequentar bares, casas noturnas e estabelecimentos con-
gêneres.”

12. Livramento Condicional

O livramento condicional é a possibilidade que o preso tem de ir para casa, fican-


do em liberdade antes do término de sua pena.
Legislação Penal Especial 167

Não se deve confundir o livramento condicional com a liberdade provisória


que, por sua vez diz respeito à possibilidade de o sujeito responder o processo em
liberdade. Desta forma, nota-se que o livramento condicional ocorre na fase de
execução e a liberdade provisória ocorre na fase processual.
Quem concede o livramento condicional é o juiz da execução, trata-se de
decisão jurisdicional.
Os requisitos para que seja concedido livramento condicional estão previstos
no Código Penal e não na Lei de Execução Penal.
O art. 83 do Código Penal dispõe:
“Art. 83. O juiz poderá conceder livramento condicional ao condenado à
pena privativa de liberdade igual ou superior a 2 (dois) anos, desde que:
I – cumprida mais de um terço da pena se o condenado não for reincidente
em crime doloso e tiver bons antecedentes;
II – cumprida mais da metade se o condenado for reincidente em crime
doloso;
III – comprovado comportamento satisfatório durante a execução da pena,
bom desempenho no trabalho que lhe foi atribuído e aptidão para prover à pró-
pria subsistência mediante trabalho honesto;
IV – tenha reparado, salvo efetiva impossibilidade de fazê-lo, o dano causado
pela infração;
V – cumprido mais de dois terços da pena, nos casos de condenação por crime
hediondo, prática da tortura, tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins, e ter-
rorismo, se o apenado não for reincidente específico em crimes dessa natureza.”
É preciso ressaltar que algumas condições devem ser cumpridas. O sujeito
deve obter um trabalho razoável para conseguir se manter, deve comunicar pe-
riodicamente ao juiz qual é a ocupação e não pode haver mudança de comarca
sem prévia comunicação ao juiz.
Ainda, o juiz pode impor condições facultativas, como não mudar de casa,
retorno à residência às 21h e não frequentar determinados lugares.
Quando ao sujeito é concedido o livramento condicional e este promete cum-
prir os requisitos, recebe a chamada carta de livramento. Trata-se do documento
que materializa a concessão do livramento condicional.
O livramento condicional pode ser revogado quando o sujeito é condenado
por outro crime em sentença irrecorrível.
Indaga-se se a revogação do livramento condicional acarreta necessariamente
na prisão do sujeito e a resposta é que quem decide é o juiz da execução.
Quanto à duração, o livramento condicional dura pelo tempo restante de
pena a cumprir.
168 Legislação Penal Especial

Exercícios
79. A Lei de Execução Penal é regida pelos seguintes princípios, exceto:
a) Ampla defesa.
b) Contraditório.
c) Jurisdição.
d) Presunção de inocência.
80. São pedidos possíveis na fase de Execução Penal, exceto:
a) Progressão de regime.
b) Pena no mínimo legal.
c) Remição da pena.
d) Saída temporária.
Capítulo 23
Lei de Crimes contra o
Consumidor – Lei nº 8.078/90

1. Arts. 61, 63, 64 e 65 do Código de Defesa do


Consumidor
Prevê o art. 61 do Código de Defesa do Consumidor: “Constituem crimes
contra as relações de consumo previstas neste código, sem prejuízo do disposto
no Código Penal e leis especiais, as condutas tipificadas nos artigos seguintes.”
Os crimes, propriamente ditos, previstos no Código de Defesa do Consumidor
estão dispostos a partir do art. 63.
“Art. 63. Omitir dizeres ou sinais ostensivos sobre a nocividade ou periculo-
sidade de produtos, nas embalagens, nos invólucros, recipientes ou publicidade:
Pena – Detenção de seis meses a dois anos e multa.
§ 1º Incorrerá nas mesmas penas quem deixar de alertar, mediante recomen-
dações escritas ostensivas, sobre a periculosidade do serviço a ser prestado.
§ 2º Se o crime é culposo:
Pena – Detenção de um a seis meses ou multa.”
É importante destacar que as condutas descritas no art. 63, § 1º, do CDC têm
que ser cometidas na forma dolosa.
Não obstante, o § 2º do art. 63 versa que há a possibilidade da prática da
conduta na forma culposa.
Versa ainda o art. 64 do CDC:
“Art. 64. Deixar de comunicar à autoridade competente e aos consumidores
a nocividade ou periculosidade de produtos cujo conhecimento seja posterior à
sua colocação no mercado:
Pena – Detenção de seis meses a dois anos e multa.
Parágrafo único. Incorrerá nas mesmas penas quem deixar de retirar do mer-
cado, imediatamente quando determinado pela autoridade competente, os pro-
dutos nocivos ou perigosos, na forma deste artigo.”
170 Legislação Penal Especial

Em relação à prestação de serviços, versa o art. 65 do CDC:


“Art. 65. Executar serviço de alto grau de periculosidade, contrariando deter-
minação de autoridade competente:
Pena – Detenção de seis meses a dois anos e multa.
Parágrafo único. As penas deste artigo são aplicáveis sem prejuízo das corres-
pondentes à lesão corporal e à morte.”
Outro ponto a ser destacado é que o disposto no art. 65 do CDC é uma nor-
ma penal em branco.

Exercício
81. O crime de omissão de sinais ostensivos de perigo admite a modalidade
culposa.

2. Arts. 66, 67 e 69 do CDC – Crimes de


Propaganda e Publicidade Enganosa

Continuando os estudos, versam os arts. 66, 67 e 69 do CDC:


“Art. 66. Fazer afirmação falsa ou enganosa, ou omitir informação relevante
sobre a natureza, característica, qualidade, quantidade, segurança, desempenho,
durabilidade, preço ou garantia de produtos ou serviços:
Pena – Detenção de três meses a um ano e multa.
§ 1º Incorrerá nas mesmas penas quem patrocinar a oferta.
§ 2º Se o crime é culposo;
Pena – Detenção de um a seis meses ou multa.
Art. 67. Fazer ou promover publicidade que sabe ou deveria saber ser enga-
nosa ou abusiva:
Pena – Detenção de três meses a um ano e multa.
Parágrafo único. (Vetado).”
O art. 67 do CDC traz a modalidade de dolo direto quando diz “que sabe” e
a modalidade do dolo eventual quando diz “deveria saber”.
“Art. 69. Deixar de organizar dados fáticos, técnicos e científicos que dão
base à publicidade:
Pena – Detenção de um a seis meses ou multa.”
Legislação Penal Especial 171

Exercício
82. Publicidade enganosa e abusiva não são condutas idênticas, entretanto, pos-
suem a mesma consequência no plano criminal.

3. Arts. 70, 71, 72 e 73 do CDC

Continuando o estudo dos crimes na relação de consumo, observa-se o disposto


nos arts. 70, 71, 72 e 73 do Código de Defesa do Consumidor.
“Art. 70. Empregar na reparação de produtos, peça ou componentes de repo-
sição usados, sem autorização do consumidor:
Pena – Detenção de três meses a um ano e multa.
Art. 71. Utilizar, na cobrança de dívidas, de ameaça, coação, constrangimento
físico ou moral, afirmações falsas incorretas ou enganosas ou de qualquer outro
procedimento que exponha o consumidor, injustificadamente, a ridículo ou inter-
fira com seu trabalho, descanso ou lazer:
Pena – Detenção de três meses a um ano e multa.
Art. 72. Impedir ou dificultar o acesso do consumidor às informações que
sobre ele constem em cadastros, banco de dados, fichas e registros:
Pena – Detenção de seis meses a um ano ou multa.
Art. 73. Deixar de corrigir imediatamente informação sobre consumidor cons-
tante de cadastro, banco de dados, fichas ou registros que sabe ou deveria saber
ser inexata:
Pena – Detenção de um a seis meses ou multa.”

Exercício
83. Afonso, comerciante, somou as dívidas de seu cliente e criou a seção – calo-
teiro do mês. Foi preso por crime contra o consumidor. Agiu certo a polícia.

4. Arts. 74, 75, 76, 77, 78, 79 e 80 do CDC


Continuando o estudo dos crimes na relação de consumo, será visto o que dis-
põem os arts. 74, 75, 76, 77, 78, 79 e 80 do Código de Defesa do Consumidor.
“Art. 74. Deixar de entregar ao consumidor o termo de garantia adequada-
mente preenchido e com especificação clara de seu conteúdo;
Pena – Detenção de um a seis meses ou multa.
172 Legislação Penal Especial

Art. 75. Quem, de qualquer forma, concorrer para os crimes referidos neste
código, incide nas penas a esses cominadas na medida de sua culpabilidade, bem
como o diretor, administrador ou gerente da pessoa jurídica que promover, per-
mitir ou por qualquer modo aprovar o fornecimento, oferta, exposição à venda
ou manutenção em depósito de produtos ou a oferta e prestação de serviços nas
condições por ele proibidas.
Art. 76. São circunstâncias agravantes dos crimes tipificados neste código:
I – serem cometidos em época de grave crise econômica ou por ocasião de
calamidade;
II – ocasionarem grave dano individual ou coletivo;
III – dissimular-se a natureza ilícita do procedimento;
IV – quando cometidos:
a) por servidor público, ou por pessoa cuja condição econômico-social seja
manifestamente superior à da vítima;
b) em detrimento de operário ou rurícola; de menor de 18 ou maior de 60
anos ou de pessoas portadoras de deficiência mental interditadas ou não;
V – serem praticados em operações que envolvam alimentos, medicamentos
ou quaisquer outros produtos ou serviços essenciais.
Art. 77. A pena pecuniária prevista nesta Seção será fixada em dias-multa,
correspondente ao mínimo e ao máximo de dias de duração da pena privativa da
liberdade cominada ao crime. Na individualização desta multa, o juiz observará o
disposto no art. 60, § 1º do Código Penal.
Art. 78. Além das penas privativas de liberdade e de multa, podem ser impos-
tas, cumulativa ou alternadamente, observado o disposto nos arts. 44 a 47, do
Código Penal:
I – a interdição temporária de direitos;
II – a publicação em órgãos de comunicação de grande circulação ou audiên-
cia, às expensas do condenado, de notícia sobre os fatos e a condenação;
III – a prestação de serviços à comunidade.
Art. 79. O valor da fiança, nas infrações de que trata este código, será fixado
pelo juiz, ou pela autoridade que presidir o inquérito, entre cem e duzentas mil
vezes o valor do Bônus do Tesouro Nacional (BTN), ou índice equivalente que
venha a substituí-lo.
Parágrafo único. Se assim recomendar a situação econômica do indiciado ou
réu, a fiança poderá ser:
a) reduzida até a metade do seu valor mínimo;
b) aumentada pelo juiz até 20 vezes.
Legislação Penal Especial 173

Art. 80. No processo penal atinente aos crimes previstos neste código, bem
como a outros crimes e contravenções que envolvam relações de consumo, po-
derão intervir, como assistentes do Ministério Público, os legitimados indicados no
art. 82, III e IV, aos quais também é facultado propor ação penal subsidiária, se a
denúncia não for oferecida no prazo legal.”

Exercício
84. A publicação em órgão de comunicação de grande circulação ou audiência,
às expensas do condenado, de notícia sobre os fatos e a condenação, tem
natureza jurídica de pena criminal.
Capítulo 24
Juizado Especial Criminal –
Lei nº 9.099/95

1. Origem dos Juizados Especiais Criminais

A Lei nº 9.099/95 dispõe sobre os Juizados Especiais Cíveis e Criminais (art. 60


e seguintes). Pertencem ao Poder Judiciário, ao qual fazem parte de uma Justiça
Ordinária.
O processo orienta-se pelos princípios da oralidade, simplicidade, informali-
dade, economia processual e celeridade, buscando sempre que possível, a con-
ciliação ou transação. Esses princípios visam diminuir a burocracia presente no
procedimento de ajuizamento das ações penais, pois o que vale é o resultado e
não a forma.
Quando a infração for de menor potencial ofensivo, não há inquérito, apenas
um termo circunstanciado.
O art. 60 da Lei dispõe que o Juizado Especial Criminal provido por juízes to-
gados ou togados e leigos, tem competência para a conciliação, julgamento e a
execução das infrações penais de menor potencial ofensivo, respeitadas as regras
de conexão e continência.
Infração penal de menor potencial ofensivo está disposta no art. 61, sendo
elas as contravenções penais (todas) e os crimes a que a lei comine pena máxima
não superior a dois anos, cumulada ou não com multa. Todas as contravenções
penais, independentemente da quantidade de pena aplicada, todos os crimes
cuja pena máxima em abstrato não supere dois anos, ou seja, pena igual ou
menor do que dois anos serão processados pelo JeCrim. Não importa a pena de
multa, se a pena privativa de liberdade ficar até dois anos a competência continua
sendo do Juizado Especial Criminal.
Legislação Penal Especial 175

Exercício
85. Contravenção penal com pena máxima em abstrato de três anos não poderá
ser processada e julgada no JeCrim, por ultrapassar o conceito de infração
de menor potencial ofensivo. Verdadeiro ou Falso?

2. Exceção à Lei dos Juizados Especiais Criminais


– Lei Maria da Penha – Formas de Violência
Doméstica e Familiar – Representação –
Jurisprudência

Continuando no estudo da Lei nº 9.099/95, nesta unidade será abordada a re-


lação desta lei com a Lei Maria da Penha (11.340/06). A Lei Maria a Penha tem
regras especiais que afastam as disposições da Lei nº 9.099/95.
O art. 41 da Lei Maria da Penha dispõe que: “Aos crimes praticados com
violência doméstica e familiar contra a mulher, independentemente da pena pre-
vista, não se aplica a Lei nº 9.099/95”.
Observe-se que não há crime previsto na Lei Maria da Penha, mas tem-se as
formas de violência doméstica e familiar contra a mulher, quais sejam: violência
física, psicológica, sexual, patrimonial e moral.
Qualquer infração que envolva essas formas de violência praticadas contra a
mulher, no âmbito doméstico, familiar ou afetiva, afasta-se a aplicação da Lei nº
9.099/95. Isto ocorre por que, por motivos de política criminal, o legislador ten-
tou moralizar a situação da violência doméstica contra a mulher.
Pela ADIn nº 4.424, o STF entendeu que os crimes de lesão, pouco importan-
do a extensão desta, praticados contra a mulher no âmbito doméstico, são de
ação penal pública incondicionada. Assim sendo, não há necessidade de repre-
sentação da vítima, mesmo em casos de lesão leve ou lesão culposa.
A consequência disso é que, mesmo nos crimes de lesão leve e culposa, não
haverá a aplicação da Lei nº 9.099/95.

Exercício
86. Lesão corporal praticada em ambiente doméstico contra vítima mulher será
apurada mediante ação penal pública condicionada à representação da
ofendida.
176 Legislação Penal Especial

3. A Figura do Idoso no Juizado Especial

Aos crimes previstos no Estatuto do Idoso, cuja pena máxima privativa de liber-
dade não ultrapasse quatro anos, aplica-se o procedimento da Lei nº 9.099/95.
O Estatuto do Idoso não modificou o conceito de infração de menor potencial
ofensivo e o art. 94 não permitiu a implementação dos institutos despenalizado-
res da Lei nº 9.099/95, ou seja, composição civil e transação penal a crimes que
não sejam de pequena monta.
O julgado da ADIn nº 3.096, diz que o estatuto deve ser interpretado em favor
do idoso e não de quem lhe viole os direitos; assim, os infratores não terão acesso
a benefícios despenalizadores civil de danos ou conversão da pena. Aplicam-se as
normas estritamente processuais para que o processo termine mais rapidamente,
em benefício do idoso.
O objetivo da Lei nº 9.099/95 é de encerrar a persecução penal, antes mesmo
do processo, pois com o oferecimento da denúncia, o MP faz uma proposta de
transação.
O art. 63 dispõe que a competência do Juizado Especial será determinada
pelo lugar em que foi praticada a infração penal. De acordo com a Teoria da
Atividade, a infração penal de menor potencial ofensivo será considerada para
fins de competência, a do lugar em que foi praticada, ou seja, ação ou omissão.
A Teoria Mista dispõe que tanto faz o lugar da ação ou omissão quanto o local
do resultado para considerar a infração de menor potencial ofensivo.

Exercício
87. Existe compatibilidade entre a proposta de transação penal e o rito especial
do JeCrim, nos casos de crimes graves praticados contra os idosos, para a
sua especial proteção. Verdadeiro ou falso?

4. JeCrim – Atos Processuais – Publicidade dos


Atos – Validade – Citação – Intimação

Os atos processuais serão públicos e poderão realizar-se em horário noturno e em


qualquer dia da semana, conforme o art. 64 da Lei nº 9.099/95.
Os atos processuais serão válidos sempre que preencherem as finalidades para
as quais foram realizados, atendidos os princípios da Lei dispostos no art. 62. O
Legislação Penal Especial 177

plano das nulidades é mais restrito, pois não se pronunciará qualquer nulidade
sem que tenha havido prejuízo.
Serão objeto de registro escrito exclusivamente os atos essenciais. Os atos
realizados em audiência de instrução e julgamento poderão ser gravados, em
caso de eventual recurso o Tribunal ou as Turmas recursais podem ter contato
com toda a audiência.
O art. 66 diz que a citação será pessoal e far-se-á no próprio Juizado sempre
que possível; caso não seja, será feita por Mandado ou Oficial de Justiça. Não
encontrado o acusado para ser citado, o Juiz encaminhará as peças existentes ao
Juízo comum para adoção do procedimento previsto em lei, para que a citação
do edital seja feita noutro Juízo.
O art. 67 dispõe que a intimação dá-se por correspondência, com aviso de
recebimento pessoal, ou se for pessoa jurídica, entrega-se para o encarregado
da recepção, que será obrigatoriamente identificado, ou sendo necessário oficial
de justiça, independentemente de mandado ou carta precatória, ou ainda por
qualquer meio idôneo de comunicação.
O art. 68 dispõe que do ato de intimação do autor do fato e do mandado de
citação do acusado, constará a necessidade de seu comparecimento acompanha-
do de advogado, com advertência de que, na sua falta, será a ele designado um
defensor público.
A nulidade ocorre caso não tenha advogado.

Exercício
88. Os princípios da informalidade e da simplicidade, regentes do rito comum
sumaríssimo do JeCrim, permitem o andamento do processo sem advogado
para o acusado. Verdadeiro ou falso?

5. JeCrim – Fase Preliminar – Termo


Circunstanciado – Encaminhamento Frustrado
– Ausência de Partes – Audiência Preliminar

Antes do rito sumaríssimo se iniciar, a Lei nº 9.099/95 trouxe a possibilidade de


audiência preliminar, buscando atender os ditames e objetivos da lei, como com-
posição civil dos danos para que a vítima seja ressarcida da infração penal ou a
transação penal entre MP e autor do fato criminoso, mediante proposta de apli-
cação imediata de pena,antes mesmo de o processo iniciar.
178 Legislação Penal Especial

O art. 69 diz que a autoridade policial que tomar conhecimento da ocorrência


lavrará termo circunstanciado e o encaminhará imediatamente ao Juizado.
O termo circunstanciado é a formalização da ocorrência policial, referente à
prática de uma infração de menor potencial ofensivo, em uma peça escrita, con-
tendo dados detalhados do ocorrido. Após a lavratura desse termo, o autor será
imediatamente encaminhado ao Juizado ou assumirá o compromisso de a ele
comparecer, pois não se importa prisão em flagrante nesses casos, muito menos
se exigirá fiança.
O art. 70 fala sobre o encaminhamento frustrado, quando não sendo possível
a realização da audiência preliminar em razão de problemas do Poder Judiciário
será redesignada data próxima, da qual ambos sairão cientes.
Na falta do comparecimento de qualquer dos envolvidos, serão eles intimados
e, se for o caso, a do responsável civil, na forma dos arts. 67 e 68 da Lei.
Na audiência preliminar, presente o representante do MP, o autor do fato e a
vítima, acompanhados por seus advogados, o Juiz esclarecerá sobre a possibilida-
de da composição dos danos e da aceitação da proposta de aplicação imediata
de pena não privativa de liberdade.

Exercício
89. O inquérito policial, para apurar infrações penais de menor potencial ofensi-
vo, pode ser instaurado de forma simplificada. Verdadeiro ou falso?

6. Conciliação nos Juizados Especiais

A conciliação será conduzida pelo Juiz ou por conciliador sob sua orientação.
Existe a possibilidade de compor civilmente os danos causados à vítima, por isso
há a figura do conciliador.
Se for uma ação penal privada ou penal pública condicionada à representação
a composição civil dos danos acarreta a renúncia ao direito de representar e a
renúncia ao direito de queixa, ocasionando a extinção da punibilidade do agente.
Os conciliadores são auxiliares da Justiça, recrutados na forma de lei local,
preferencialmente entre bacharéis de direito, excluídos os que exerçam funções
na administração da Justiça Criminal.
Conciliação é gênero, composição civil dos danos (art. 74) e transação penal
(art. 76) são espécies de conciliação, sendo que a composição civil é feita entre
vítima e agressor e a transação penal acontece entre MP e agressor, também com
Legislação Penal Especial 179

o juiz acompanhando os trabalhos da transação. A homologação efetiva só pode


ser feita por Juiz togado.
O art. 74 da Lei dispõe que a composição dos danos civis será reduzida a
escrita e homologada pelo Juiz de direito mediante sentença irrecorrível, e terá
eficácia de título executivo judicial.
Se for ação penal privada ou ação penal pública condicionada à represen-
tação, o acordo homologado acarreta a renúncia ao direito de queixa ou repre-
sentação, pois a Lei limita a esse direito de queixa e de renúncia, o direito de
representação. Se a ação penal é pública incondicionada, o Estado não precisa
do ofendido para iniciar a persecução penal, dessa forma, somente nos casos de
ação penal privada e ação penal pública condicionada é que o acordo homologa-
do pelo Juiz de Direito após a composição civil dos danos, acarreta a renúncia ao
direito de queixa e representação.

Exercício
90. A composição civil dos danos em ação penal pública incondicionada acarreta
a extinção da punibilidade. Verdadeiro ou falso?

7. Ação Penal Pública Condicionada à


Representação

Agora, passa-se ao art. 75 da Lei nº 9.099/95:


“Art. 75. Não obtida a composição dos danos civis, será dada imediatamente
ao ofendido a oportunidade de exercer o direito de representação verbal, que
será reduzida a termo.
Parágrafo único. O não oferecimento da representação na audiência prelimi-
nar não implica decadência do direito, que poderá ser exercido no prazo previsto
em lei.”
Restando infrutífera a conciliação entre vítima e agressor, a vítima terá a opor-
tunidade (na própria audiência) de apresentar a sua representação, obviamente,
quando se tratar de ação pena pública condicionada à representação.
Havendo conciliação, tem-se a renúncia, e a consequente extinção da punibi-
lidade do agente.
Assim, mesmo sendo o crime de menor potencial ofensivo, somente a partir
daí, poderá o MP oferecer a denúncia.
A representação, neste caso, é feita oralmente, e reduzida a termo.
180 Legislação Penal Especial

O não oferecimento da representação nesta oportunidade não implica em


decadência do direito. Isto é, a vítima terá, desde o conhecimento da autoria do
fato, o prazo de seis meses para se manifestar acerca da representação.
Assim, a representação em audiência não é obrigatória.
No art. 38 do CPP, consta a regra do prazo da queixa ou representação.
Após o prazo de seis meses, não poderá o Estado processar e punir o agente.
Trata-se de prazo decadencial, que resulta em extinção da punibilidade do agente.

Exercício
91. Julgue o seguinte item:
Deve-se considerar a viabilidade de oferecimento verbal de queixa na ação
penal privada.

8. Transação Penal

Será estudado a fase preliminar do rito sumaríssimo.


No art. 76 temos a transação penal: Havendo representação ou tratando-se
de crime de ação penal pública incondicionada, não sendo caso de arquivamen-
to, o Ministério Público poderá propor a aplicação imediata de pena restritiva de
direitos ou multas, a ser especificada na proposta.
Deve haver, no caso, a justa causa para o processo.
Deve-se lembrar que nesta fase ainda não há processo: o MP propõe pena
alternativa não privativa de liberdade dispensando a instauração do processo.
Inexistindo a justa causa, pode o juiz deixar de oferecer a transação e pedir o ar-
quivamento do termo circunstanciado. O juiz poderá homologar o arquivamento,
ou, discordando do MP, aplicar o art. 28 do CPP (remessa ao Promotor Geral).
A transação penal, portanto, tem amparo no princípio da oportunidade ou
discricionariedade. É o que se denomina discricionariedade regrada ou limitada,
porque a proposta da transação deve obedecer ao disposto em lei.
O objetivo é evitar a discussão sobre a culpa do agente e desafogar o judiciário
sem deixar agentes delitivos impunes.
No art. 98 da CF temos a autorização constitucional para que a transação seja
permitida e regulamentada por Lei no Brasil.
Aceita a transação, será reduzida a termo e segue para o juiz que pode ou não
homologá-la. Homologada a transação, ela não gera reincidência nem efeitos
Legislação Penal Especial 181

civis nem maus antecedentes; esgota o poder jurisdicional do magistrado e os


efeitos retroagem à data do fato.
Após o cumprimento das condições da transação, pode o juiz extinguir a
punibilidade do autor.
No § 1º do art. 76, temos a possibilidade do juiz reduzir pela metade a pro-
posta de transação consistente em pena de multa.

Exercício
92. A proposta de transação penal desrespeita o devido processo legal, pois
impõe uma sanção criminal antes da existência do processo-crime.

9. Transação Penal – Não Cabimento –


Pressupostos
Continuando no estudo da transação penal, nesta unidade serão abordadas as
hipóteses em que não cabe a transação penal.
I – ter sido o autor da infração condenado, pela prática de crime, à pena priva-
tiva de liberdade, por sentença definitiva: a prova desta circunstância é feita pela
folha de antecedentes criminais do agente.
II – ter sido o agente beneficiado anteriormente, no prazo de cinco anos, pela
aplicação de pena restritiva ou multa, nos termos deste artigo: se o agente já
foi beneficiado com outra transação pelo prazo de cinco anos, o autor não terá
direito a outra proposta.
III – não indicarem os antecedentes, a conduta social e a personalidade do
agente, bem como os motivos e as circunstâncias, ser necessária e suficiente a
adoção da medida: a análise dessas circunstâncias judiciais é feita pelo MP.
Esta última hipótese é uma interpretação de subjetivismo, por isso a dificulda-
de de aferição destas circunstâncias.
Oferecida a transação nestes casos, o juiz poderá não homologá-la.
São pressupostos para que o MP possa celebrar uma transação penal:
– proposta pelo MP;
– crime de ação pública;
– não ter sido o agente beneficiado anteriormente no prazo de cinco anos
pela transação;
– não ter sido o autor da infração condenado por sentença definitiva à pena
privativa de liberdade;
182 Legislação Penal Especial

– não ser caso de arquivamento do TC;


– circunstâncias judiciais do art. 59 do CP favoráveis;
– ser aceita a proposta por parte do autor da infração e de seu defensor
(constituído, dativo e público).
Aceita a proposta pelo autor e seu defensor, o juiz recebe-a, podendo então
homologá-la. A sentença de homologação tem natureza homologatória e con-
denatória, comporta apelação e faz coisa julgada formal e material (há sentença
antes mesmo de haver processo).
O juiz não é obrigado a homologar o acordo, devendo analisar a legalidade
desta. E não existe transação penal ex officio.
Descumprida a pena imposta pela transação, não caberá a conversão em
pena privativa de liberdade. Deve o juiz determinar a abertura de vista ao MP
para o oferecimento da denúncia.

Exercício
93. O descumprimento de transação penal homologada tem como consequên-
cia o oferecimento da denúncia por parte do Ministério Público.

10. Denúncia Oral


Praticada uma infração penal cuja pena máxima em abstrato é não superior a
dois anos ou de uma contravenção penal, estamos diante de um crime de menor
potencial ofensivo.
Lavra-se o termo circunstanciado, e marca-se audiência preliminar, na qual se
busca o impedimento do nascimento de um processo-crime. Primeiro, tenta-se a
composição civil. Infrutífera, pode haver a proposta de transação penal. Aceita, e
cumprida, extingue-se a punibilidade.
Não aceita a proposta, pode o promotor requerer:
– o arquivamento do termo circunstanciado;
– a devolução dos autos à polícia para a realização de diligências imprescin-
díveis à elucidação do fato;
– o encaminhamento do termo circunstanciado ao juízo comum, se a
complexidade ou circunstâncias do caso não permitem a formulação da
denúncia;
– o promotor oferecerá a denúncia, de imediato, e, então, inicia-se o proce-
dimento.
Legislação Penal Especial 183

Se nenhuma dessas hipóteses ocorrer, o promotor então oferecerá a denún-


cia (ou, se se tratar de ação penal privada, o defensor com poderes especiais
oferecerá a queixa, cabendo ao juiz aferir se a complexidade do caso permite o
processamento pelo juizado criminal especial). Se o autor do fato não comparece
à audiência de conciliação, o promotor também oferecerá a denúncia.
A denúncia no rito sumaríssimo será feita oralmente, e reduzida a termo. Pode
a denúncia ser oferecida sem o exame de delito quando a materialidade do crime
estiver aferida por boletim médico ou prova equivalente.

Exercício
94. Julgue o seguinte item:
A denúncia será oferecida oralmente, já a queixa-crime precisará ser escrita,
por força da necessidade de capacidade postulatória de advogado com po-
deres especiais.

11. Audiência de Instrução – Citação – Intimação


Oferecida a denúncia ou queixa no procedimento sumaríssimo, será ela reduzida
a termo, entregando cópia ao acusado, que servirá de citação e intimação para a
audiência de instrução e julgamento, da qual também tomará ciência o Ministério
Público, o ofendido, o responsável civil e seus advogados.
Na audiência de instrução e julgamento, serão colhidas e produzidas provas,
já sob o manto do contraditório.
São requisitos da denúncia oral:
– Descrição breve da infração penal, como tempo, lugar, prática e consumação.
– Qualificação do autor.
– Classificação do crime.
– Rol de testemunhas, até o máximo de cinco, por analogia ao art. 532 do
CPP, aplicado subsidiariamente por força do disposto no art. 92 da Lei nº
9.099/95.
Se o acusado não estiver presente na audiência preliminar, será citado pessoal-
mente e cientificado da audiência, devendo trazer suas testemunhas ou requerer
a intimação destas até cinco dias antes da realização da audiência.
Não cabe citação por edital nem por hora certa no JeCrim. Os autos, neste
caso, serão remetidos ao juízo comum, e será adotado o procedimento sumário
do CPP. Isto, porque o procedimento sumaríssimo é pautado no princípio da ce-
leridade processual.
184 Legislação Penal Especial

Não estando presente a vítima na audiência preliminar, será ela ou seu re-
presentante legal intimado, bem como as testemunhas arroladas pela vítima no
termo circunstanciado.

Exercício
95. É possível intimar uma testemunha por email no âmbito dos Juizados Espe-
ciais Criminais.

12. Audiência de Instrução – Adiamento –


Abertura

Seguindo no procedimento da Lei nº 9/099/95, passa-se agora à fase instrutória.


Na audiência de instrução e julgamento do procedimento sumaríssimo, ne-
nhum ato será adiado. Pode o juiz, quando imprescindível, determinar a condu-
ção coercitiva de quem deva comparecer.
O adiamento dos atos processuais fere a celeridade, princípio regente do JeCrim.
Aberta a audiência, o defensor responderá a acusação, e só depois o juiz
receberá ou não a denúncia. É diferente do que ocorre no rito comum ordinário
ou sumário, em que o réu responderá à acusação depois de recebida a acusação.
Se o acusado não tiver advogado constituído, ser-lhe-á nomeado um defen-
sor. Nesta ocasião, deve o defensor alegar todas as teses de defesa, porque deve
tentar convencer o juiz de que a denúncia ou queixa não deve ser recebida, im-
pedindo o início da ação penal.
Havendo o recebimento, serão ouvidas a vítima, as testemunhas de acusação
e defesa, interroga-se o acusado, e passa-se à fase de debates orais.
As provas serão todas produzidas na acusação, podendo o juiz limitar ou ex-
cluir as que considerar excessivas, impertinentes ou protelatórias.
De todo o ocorrido na audiência, será lavrado termo, assinado pelo juiz e
pelas partes contendo breve resumo dos fatos relevantes. Não há necessidade
de relatório na sentença, mas deverá o juiz fundamentar a sua decisão, ou seja,
apresentar todo o seu raciocínio jurídico.
Da rejeição da denúncia ou queixa, caberá apelação em 10 dias.
Recebida a denúncia ou queixa, não cabe processo: passa-se, de imediato, à
instrução.
Legislação Penal Especial 185

Exercício
96. A sentença no JeCrim não precisará ter relatório, mas a motivação é impres-
cindível sob pena de nulidade.

13. Apelação – Embargos de Declaração


Serão abordados agora, os recurso no JeCrim, que têm uma série de especificida-
des e diferenças com relação aos recursos do CPP.
Foi visto que da decisão de rejeição da denúncia ou queixa, caberá apelação
em 10 dias. Será esta apelação julgada por um órgão colegiado de primeira ins-
tância, formado por três juízes togados (não desembargadores), sendo vedada a
participação no julgamento do magistrado prolator da decisão. Trata-se da Turma
Recursal do JeCrim.
As razões e a interposição devem ser protocoladas em peça conjunta, por
escrito, em 10 dias contados da ciência das partes da decisão.
O recorrido será intimado para oferecer resposta escrita no prazo também de
10 dias (contrarrazões de apelação).
As partes serão intimadas da data da sessão de julgamento do recurso pela
imprensa.
Se a sentença for confirmada pelos próprios fundamentos, a súmula do julga-
mento servirá de acórdão.
No JeCrim, caberá a apelação também da sentença que homologa a transa-
ção e da sentença de mérito.
Será tratado agora, dos embargos de declaração no JeCrim. São cabíveis
quando, em sentença ou acórdão, houver obscuridade, contradição, omissão ou
dúvida.
Serão os embargos opostos por escrito ou oralmente no prazo de cinco dias,
contados da ciência da decisão. Se opostos contra a sentença, os embargos de
declaração suspendem o prazo para o recurso (por exemplo, a apelação), ou seja,
o prazo é parado, mas, depois, é retomado de onde parou.
Os erros materiais podem ser corrigidos de ofício.

Exercício
97. Não cabe recurso especial contra decisão proferida, nos limites de sua com-
petência, por órgão de segundo grau dos Juizados Especiais (Súmula nº 203
do STJ).
186 Legislação Penal Especial

14. Descumprimento da Pena de Multa

Agora, veja-se o art. 85 da Lei nº 9.099/95.


Não efetuado o pagamento da multa, será esta convertida em pena privativa
de liberdade ou restritiva de direitos.
Cuidado!
Quando esta lei foi publicada, esta realidade de conversão da pena de multa
não paga em privativa de liberdade era prevista no CPP. Em 1996, uma lei nova
impediu esta conversão.
Se a pena de multa não for paga não se converte mais em prisão;este artigo
da Lei nº 9.099/95 deve ser ignorado no que diz respeito às penas privativas de
liberdade.
Aplicada exclusivamente a pena de multa no JeCrim, seu pagamento será fei-
to mediante quitação na secretaria do juizado (por guia), ao fundo penitenciário,
que financia o sistema punitivo nacional.
É diferente de prestação pecuniária, que é destinada à vítima. A multa não é
pena alternativa (como o é a prestação pecuniária), mas pena autônoma.
A execução das penas privativas de liberdade, restritiva de direitos ou de multa
cumulada com essas será processada perante o órgão competente. Lembre-se
aqui da informação que foi vista acima: não é aplicado mais este artigo no que
diz respeito às penas privativas de liberdade.
A Lei nº 9.268 determina que as penas de multa não pagas são considera-
das dívidas de valor, e a execução deve ficar a cargo da Procuradoria Fiscal, nos
termos do art. 51 do CP. Ou seja, a multa penal tributária se converte em multa
tributária e será executada nos termos da Lei de Execução Fiscal.
Em sentido contrário, entende Nucci, para quem a Lei nº 9.099/95 é especial
em relação ao Código Penal, razão pela qual a multa, caso não seja paga, será
executada no próprio JeCrim. Assim, para este doutrinador, a multa não paga
poderá ser convertida em pena restritiva de direitos.

Exercício
98. Julgue o seguinte item:
Não efetuado o pagamento de multa, será feita a conversão em pena pri-
vativa da liberdade, por força do critério da especialidade do rito comum
sumaríssimo.
Legislação Penal Especial 187

15. Representação de Crimes de Lesão Corporal


Leve e Culposa
Agora, será estudado o art. 88 da Lei, já nas disposições finais: Além das hipóte-
ses do Código Penal e da legislação especial, dependerá de representação a ação
penal relativa aos crimes de lesões corporais leves e lesões culposas.
Trata, este artigo, do crime do art. 129 do CP. Este crime, em regra, sempre foi
de ação pública incondicionada. Mas a Lei nº 9.099 alterou essa realidade em 1995.
Após a entrada em vigor da Lei dos Juizados, o crime de lesão corporal ficou
estruturado, no plano da ação penal, da seguinte forma:
– havendo lesões graves, gravíssimas e seguidas de morte (art. 129, §§ 1º a
3º, do CP) a ação seria pública incondicionada.
– havendo lesões leves (art. 129, caput, CP) ou lesões culposas (neste caso
independentemente da gravidade – art. 129, § 6º, do CP ou art. 303 do
CTB), a ação penal seria pública condicionada à representação.
Tal realidade normativa está vigente até hoje, porém, há uma exceção impor-
tante que sempre é cobrada em concurso.
Se o crime envolver violência doméstica, familiar ou afetiva contra a mulher,
os crimes de lesão corporal, não importando a intensidade da lesão (gravíssima,
grave, leve ou culposa), serão apurados mediante ação penal pública incondi-
cionada, não se lhes aplicando o art. 88 da Lei nº 9.099/95. Trata-se de exceção
construída jurisprudencialmente, pelo Supremo Tribunal Federal, nas ações: ADIn
nº 4.424 e ADC nº 19.

Exercício
99. Lesão corporal praticada em ambiente doméstico, contra vítima mulher,
será apurada mediante ação penal pública condicionada à representação da
ofendida.

16. Suspensão do Processo

Chega-se ao art. 89 da Lei nº 9.099/95. É hora do estudo sobre a famosa suspen-


são condicional do processo. Atenção para o detalhe da pena mínima cominada
ao delito, e não mais para a pena máxima. Se a pena mínima de qualquer infração
penal for de até um ano, será possível suspender o processo (não é a pena), nos
termos do art. 89 do JeCrim.
188 Legislação Penal Especial

Não confunda suspensão condicional do processo (art. 89 da Lei nº 9.099)


com a suspensão condicional da pena (art. 77 do CP). Essa suspende a pena apli-
cada pelo juiz após a condenação e o final da instrução criminal; aquela impede o
próprio caminhar do processo, não se podendo falar em pena já aplicada para ser
suspensa. Outra diferença importante: enquanto o sursis (art. 77 do CP) trabalha
com a pena máxima de até dois anos, a suspensão condicional do processo (art.
89 da Lei nº 9.099) só será cabível com uma pena mínima até um ano, inclusive.
O procedimento para que seja apresentada a proposta de suspensão segue o
seguinte trâmite: o representante do Ministério Público, ao oferecer a denúncia,
poderá propor a suspensão do processo, por dois a quatro anos, desde que o
acusado não esteja sendo processado ou não tenha sido condenado por outro
crime, presentes os demais requisitos que autorizariam a suspensão condicional
da pena (art. 77 do CP).
Último detalhe relevante pode ser extraído da Súmula nº 243 do STJ: O bene-
fício da suspensão do processo não é aplicável em relação às infrações penais co-
metidas em concurso material, concurso formal ou continuidade delitiva, quando
a pena mínima cominada, seja pelo somatório, seja pela incidência da majorante,
ultrapassar o limite de um ano.

Exercício
100. No caso de expedição de carta precatória para os efeitos do art. 89 da Lei nº
9.099/95, compete ao juízo deprecante fixar as condições pessoais a serem
propostas ao acusado formuladas do Ministério Público.

17. Condições para a Suspensão do Processo

Aceita a proposta de suspensão do processo pelo acusado e seu defensor, na


presença do Juiz, este, recebendo a denúncia, poderá suspender o processo, nos
termos das condições fixadas previamente pelo representante do Ministério Pú-
blico, que segue a legislação para fazê-la, submetendo o acusado a período de
prova por dois a quatro anos, sob as seguintes condições:
1 – reparação do dano, salvo impossibilidade de fazê-lo;
2 – proibição de frequentar determinados lugares;
3 – proibição de ausentar-se da comarca onde reside, sem autorização do Juiz;
4 – comparecimento pessoal e obrigatório a juízo, mensalmente, para infor-
mar e justificar suas atividades.
Legislação Penal Especial 189

Importante: o juiz também pode estabelecer outras condições, diversas da


proposta formulada pelo Ministério Público, desde que adequadas ao fato e à
situação pessoal do acusado.
Se o acusado não aceitar a proposta prevista neste artigo, o processo prosse-
guirá em seus ulteriores termos.

Exercício
101. No caso da incidência de causa especial de aumento de pena, se a pena
mínima ultrapassar o limite legal, torna-se inadmissível a suspensão condi-
cional do processo.

18. Revogação da Suspensão do Processo


A suspensão do processo será revogada se, no curso do prazo, o beneficiário:
1 – vier a ser processado por outro crime.
Veja que a lei exige apenas o ato de ser processado, não sendo necessária
condenação definitiva com trânsito em julgado.
2 – não efetuar, podendo fazê-lo, a reparação do dano.
Diante da impossibilidade financeira do réu que aceitou a suspensão do pro-
cesso, não se pode revogar a suspensão pela não reparação do dano. O juiz deve
estar atento a esse detalhe.
Tais hipóteses são de revogação obrigatória. O juiz está vinculado ao texto da
lei e deverá fazê-lo.
Há, entretanto, hipótese de revogação facultativa. Quando o acusado vier a
ser processado, no curso do prazo, por contravenção penal, ou descumprir qual-
quer outra condição imposta pelo juiz.
Não correrá a prescrição durante o prazo de suspensão do processo. Se a
suspensão não for revogada, ao final do período de prova, o juiz extingue a pu-
nibilidade do agente.
Detalhe importante: as disposições da Lei nº 9.099/95 não se aplicam no âm-
bito da Justiça Militar, por expressa vedação legal da Lei do JeCrim (art. 90-A).

Exercício
102. A suspensão do processo depende de decisão judicial expressa para suspen-
der, também, o prazo prescricional.
Capítulo 25
Lei de Proteção a Vítimas e
Testemunhas – Lei nº 9.807/99

1. Art. 1º da Lei de Proteção a Vítimas e


Testemunhas

“Art. 1º As medidas de proteção requeridas por vítimas ou por testemunhas de


crimes que estejam coagidas ou expostas a grave ameaça em razão de colabora-
rem com a investigação ou processo criminal serão prestadas pela União, pelos
Estados e pelo Distrito Federal, no âmbito das respectivas competências, na forma
de programas especiais organizados com base nas disposições desta Lei.
§ 1º A União, os Estados e o Distrito Federal poderão celebrar convênios, acor-
dos, ajustes ou termos de parceria entre si ou com entidades não governamentais
objetivando a realização dos programas.
§ 2º A supervisão e a fiscalização dos convênios, acordos, ajustes e termos de
parceria de interesse da União ficarão a cargo do órgão do Ministério da Justiça
com atribuições para a execução da política de direitos humanos.”
Os casos que não preencherem os requisitos dispostos nesta lei, não estão
privados de eventuais medidas de proteção que se façam necessários. A Lei nº
9.807/99 não alterou o dever constitucional dos órgãos de segurança pública de
garantir a preservação da incolumidade física das pessoas (art. 144 da CF), e o art.
2º, § 2º garante o atendimento necessário a garantir a sua proteção, por parte
dos órgãos de segurança pública.
Os requisitos para ingresso no programa de proteção são:
– Situação de risco: a pessoa deve estar coagida ou exposta a grave ameaça.
Basta a probabilidade de que tal possa via a ocorrer.
– Relação de causalidade: a situação de risco em que se encontra a pessoa
deve decorrer da colaboração por ela prestada a procedimento criminal
em que figura como vítima ou testemunha.
Legislação Penal Especial 191

– Personalidade e conduta compatível: as pessoas a serem incluídas nos pro-


gramas devem ter personalidade e conduta compatíveis com as restrições
de comportamento a eles inerentes, sob pena de pôr em risco as demais
pessoas protegidas, as equipes técnicas e a rede de proteção como um
todo.
– Inexistência de limitações à liberdade: é necessário que a pessoa esteja no
gozo de sua liberdade, razão pela qual estão excluídos os condenados que
estejam cumprindo pena e os indiciados ou acusados sob prisão cautelar
em qualquer de suas modalidades.
– Anuência do protegido: o ingresso no programa, as restrições de seguran-
ça e demais medidas por eles adotadas terão sempre a ciência e concor-
dância da pessoa a ser protegida, ou de seu representante legal, que serão
expressas em termo de compromisso assinado no momento da inclusão.

Exercício
103. O requisito da situação de risco diz respeito tanto à vítima e testemunha,
quanto ao réu.

2. Arts. 2º e 3º da Lei de Proteção a Vítimas e


Testemunhas
“Art. 2º A proteção concedida pelos programas e as medidas dela decorrentes
levarão em conta a gravidade da coação ou da ameaça à integridade física ou
psicológica, a dificuldade de preveni-las ou reprimi-las pelos meios convencionais
e a sua importância para a produção da prova.
§ 1º A proteção poderá ser dirigida ou estendida ao cônjuge ou companheiro,
ascendentes, descendentes e dependentes que tenham convivência habitual com
a vítima ou testemunha, conforme o especificamente necessário em cada caso.
§ 2º Estão excluídos da proteção os indivíduos cuja personalidade ou conduta
seja incompatível com as restrições de comportamento exigidas pelo programa,
os condenados que estejam cumprindo pena e os indiciados ou acusados sob
prisão cautelar em qualquer de suas modalidades. Tal exclusão não trará prejuízo
a eventual prestação de medidas de preservação da integridade física desses indi-
víduos por parte dos órgãos de segurança pública.
§ 3º O ingresso no programa, as restrições de segurança e demais medidas
por ele adotadas terão sempre a anuência da pessoa protegida, ou de seu repre-
sentante legal.
192 Legislação Penal Especial

§ 4º Após ingressar no programa, o protegido ficará obrigado ao cumprimen-


to das normas por ele prescritas.
§ 5º As medidas e providências relacionadas com os programas serão adota-
das, executadas e mantidas em sigilo pelos protegidos e pelos agentes envolvidos
em sua execução.
Art. 3º Toda admissão no programa ou exclusão dele será precedida de con-
sulta ao Ministério Público sobre o disposto no art. 2º e deverá ser subsequente-
mente comunicada à autoridade policial ou ao juiz competente.”

Exercício
104. O ingresso no programa de proteção poderá ser compulsório nos casos
previstos na lei.

3. Arts. 4º, 5º e 7º da Lei de Proteção a Vítimas e


Testemunhas
“Art. 4º Cada programa será dirigido por um conselho deliberativo em cuja com-
posição haverá representantes do Ministério Público, do Poder Judiciário e de
órgãos públicos e privados relacionados com a segurança pública e a defesa dos
direitos humanos.
§ 1º A execução das atividades necessárias ao programa ficará a cargo de
um dos órgãos representados no conselho deliberativo, devendo os agentes dela
incumbidos ter formação e capacitação profissional compatíveis com suas tarefas.
§ 2º Os órgãos policiais prestarão a colaboração e o apoio necessários à exe-
cução de cada programa.
Art. 5º A solicitação objetivando ingresso no programa poderá ser encaminha-
da ao órgão executor:
I – pelo interessado;
II – por representante do Ministério Público;
III – pela autoridade policial que conduz a investigação criminal;
IV – pelo juiz competente para a instrução do processo criminal;
V – por órgãos públicos e entidades com atribuições de defesa dos direitos
humanos.
§ 1º A solicitação será instruída com a qualificação da pessoa a ser protegida
e com informações sobre a sua vida pregressa, o fato delituoso e a coação ou
ameaça que a motiva.
Legislação Penal Especial 193

§ 2º Para fins de instrução do pedido, o órgão executor poderá solicitar, com


a aquiescência do interessado:
I – documentos ou informações comprobatórios de sua identidade, estado
civil, situação profissional, patrimônio e grau de instrução, e da pendência de
obrigações civis, administrativas, fiscais, financeiras ou penais;
II – exames ou pareceres técnicos sobre a sua personalidade, estado físico ou
psicológico.
§ 3º Em caso de urgência e levando em consideração a procedência, gravi-
dade e a iminência da coação ou ameaça, a vítima ou testemunha poderá ser
colocada provisoriamente sob a custódia de órgão policial, pelo órgão executor,
no aguardo de decisão do conselho deliberativo, com comunicação imediata a
seus membros e ao Ministério Público.
Art. 7º Os programas compreendem, dentre outras, as seguintes medidas,
aplicáveis isolada ou cumulativamente em benefício da pessoa protegida, segun-
do a gravidade e as circunstâncias de cada caso:
I – segurança na residência, incluindo o controle de telecomunicações;
II – escolta e segurança nos deslocamentos da residência, inclusive para fins de
trabalho ou para a prestação de depoimentos;
III – transferência de residência ou acomodação provisória em local compatível
com a proteção;
IV – preservação da identidade, imagem e dados pessoais;
V – ajuda financeira mensal para prover as despesas necessárias à subsistência
individual ou familiar, no caso de a pessoa protegida estar impossibilitada de de-
senvolver trabalho regular ou de inexistência de qualquer fonte de renda;
VI – suspensão temporária das atividades funcionais, sem prejuízo dos respec-
tivos vencimentos ou vantagens, quando servidor público ou militar;
VII – apoio e assistência social, médica e psicológica;
VIII – sigilo em relação aos atos praticados em virtude da proteção concedida;
IX – apoio do órgão executor do programa para o cumprimento de obrigações
civis e administrativas que exijam o comparecimento pessoal.”

Exercício
105. Julgue o seguinte item:
A escolta e segurança nos deslocamentos da residência integram as ações
do programa de proteção.
194 Legislação Penal Especial

4. Arts. 9º, 10 e 11 da Lei de Proteção a Vítimas e


Testemunhas

“Art. 9º Em casos excepcionais e considerando as características e gravidade da


coação ou ameaça, poderá o conselho deliberativo encaminhar requerimento da
pessoa protegida ao juiz competente para registros públicos objetivando a altera-
ção de nome completo.
§ 1º A alteração de nome completo poderá estender-se às pessoas menciona-
das no § 1º do art. 2º desta Lei, inclusive aos filhos menores, e será precedida das
providências necessárias ao resguardo de direitos de terceiros.
§ 2º O requerimento será sempre fundamentado e o juiz ouvirá previamente
o Ministério Público, determinando, em seguida, que o procedimento tenha rito
sumaríssimo e corra em segredo de justiça.
§ 3º Concedida a alteração pretendida, o juiz determinará na sentença, obser-
vando o sigilo indispensável à proteção do interessado:
I – a averbação no registro original de nascimento da menção de que houve
alteração de nome completo em conformidade com o estabelecido nesta Lei,
com expressa referência à sentença autorizatória e ao juiz que a exarou e sem a
aposição do nome alterado;
II – a determinação aos órgãos competentes para o fornecimento dos docu-
mentos decorrentes da alteração;
III – a remessa da sentença ao órgão nacional competente para o registro úni-
co de identificação civil, cujo procedimento obedecerá às necessárias restrições
de sigilo.
§ 4º O conselho deliberativo, resguardado o sigilo das informações, manterá
controle sobre a localização do protegido cujo nome tenha sido alterado.
§ 5º Cessada a coação ou ameaça que deu causa à alteração, ficará facultado
ao protegido solicitar ao juiz competente o retorno à situação anterior, com a
alteração para o nome original, em petição que será encaminhada pelo conselho
deliberativo e terá manifestação prévia do Ministério Público.
Art. 10. A exclusão da pessoa protegida de programa de proteção a vítimas e
a testemunhas poderá ocorrer a qualquer tempo:
I – por solicitação do próprio interessado;
II – por decisão do conselho deliberativo, em consequência de:
a) cessação dos motivos que ensejaram a proteção;
b) conduta incompatível do protegido.
Art. 11. A proteção oferecida pelo programa terá a duração máxima de dois
anos.”
Legislação Penal Especial 195

Exercício
106. Julgue o seguinte item:
O programa de proteção às vítimas e testemunhas terá duração máxima de
dois anos, não admitindo prorrogação.

5. Delação Premiada

“Art. 13. Poderá o juiz, de ofício ou a requerimento das partes, conceder o per-
dão judicial e a consequente extinção da punibilidade ao acusado que, sendo
primário, tenha colaborado efetiva e voluntariamente com a investigação e o
processo criminal, desde que dessa colaboração tenha resultado:
I – a identificação dos demais coautores ou partícipes da ação criminosa;
II – a localização da vítima com a sua integridade física preservada;
III – a recuperação total ou parcial do produto do crime.”
“Art. 15. Serão aplicadas em benefício do colaborador, na prisão ou fora dela,
medidas especiais de segurança e proteção a sua integridade física, considerando
ameaça ou coação eventual ou efetiva.
§ 1º Estando sob prisão temporária, preventiva ou em decorrência de flagran-
te delito, o colaborador será custodiado em dependência separada dos demais
presos.
§ 2º Durante a instrução criminal, poderá o juiz competente determinar em
favor do colaborador qualquer das medidas previstas no art. 8º desta Lei.
§ 3º No caso de cumprimento da pena em regime fechado, poderá o juiz
criminal determinar medidas especiais que proporcionem a segurança do colabo-
rador em relação aos demais apenados.”

Exercício
107. Julgue o seguinte item:
A delação premiada, na lei de proteção às testemunhas, é incompatível com
a prisão cautelar.
Capítulo 26
Lei de Prisão Temporária
(Lei nº 7.960/89)

1. Lei nº 7.960/89 – Prisão Temporária –


Introdução
Sobre os requisitos necessários para a decretação da prisão temporária: não há
unanimidade acerca da necessidade de cumulação, ou não, dos três incisos do
art. 1º da Lei nº 7.960/89. De acordo com a posição majoritária, a prisão tempo-
rária somente poderá ser decretada se o agente praticar uma das infrações do
inciso III, que traz o rol de crimes considerados graves, associada tal prática ou à
imprescindibilidade para a investigação policial (inciso I) ou à situação de ausência
de residência certa ou identidade inconteste (inciso II).
Há certa desatualização do rol do inciso III do art. 1º. O crime de rapto violen-
to, por exemplo, foi revogado pela Lei nº 11.106/05, mas não saiu do sistema,
tendo sido substituído pelo inciso V do § 1º do art. 148 do CP. Da mesma forma,
o crime de atentado violento ao pudor foi revogado pela Lei nº 12.015/09, que
acrescentou o que era chamado de atentado violento ao pudor à conduta do es-
tupro (art. 213). É o que se conhece como “princípio da continuidade normativo-
-típica”, ou seja, o fato continua previsto em lei como crime, porém com outro
nomen iuris. Procede-se a uma mera readequação típica.

Exercício
108. (Prova: FGV – 2010 – PC/AP – Delegado de Polícia) – Relativamente ao tema
prisão temporária, analise as afirmativas a seguir:
I. A prisão temporária será decretada pelo Juiz, em face da representação da
autoridade policial ou de requerimento do Ministério Público, e terá o prazo
de 5 (cinco) dias. A prorrogação dispensará nova decisão judicial, devendo,
entretanto, a autoridade policial colocar o preso imediatamente em liberda-
de findo o prazo da prorrogação.
Legislação Penal Especial 197

II. Ao decretar a prisão temporária, o Juiz poderá, de ofício, determinar que


o preso lhe seja apresentado, solicitar esclarecimentos da autoridade policial
e submeter o preso a exame de corpo de delito.
III. Os presos temporários deverão permanecer, obrigatoriamente, separados
dos demais detentos.
Assinale:
a) Se somente a afirmativa I estiver correta.
b) Se somente a afirmativa II estiver correta.
c) Se somente a afirmativa III estiver correta.
d) Se somente as afirmativas II e III estiverem corretas.
e) Se todas as afirmativas estiverem corretas.

2. Lei nº 7.960/89 – Prisão Temporária –


Decretação e Direitos do Preso

De acordo com o art. 2º, caput, da Lei da Prisão Temporária, o juiz não pode
decretá-la de ofício, fazendo-se necessário o requerimento do MP ou a represen-
tação do delegado de polícia. Aliás, o posicionamento hoje majoritário é que o
juiz, no curso da investigação criminal, não poderá decretar nenhuma modalida-
de de prisão de ofício, sendo necessário requerimento do MP ou representação
da autoridade policial. Esse posicionamento advém da nova redação dada pela Lei
nº 12.403/2011 ao art. 282 do CPP.
O prazo de prisão preventiva é de cinco dias, prorrogável por igual período em
caso de extrema e comprovada necessidade (art. 2º, caput, da Lei nº 7.960/89). Em
se tratando de crime hediondo, o prazo será de 30 dias, prorrogável por igual perío-
do em caso de extrema e comprovada necessidade (art. 2º, § 4º, da Lei nº 8.072/90).

Exercício
109. (Prova: FCC – 2009 – TJ-MS – Juiz de Direito) – A prisão temporária será
decretada pelo Juiz, em face:
a) Apenas de representação da autoridade policial, e terá prazo de cinco
dias, prorrogável por igual período em caso de extrema e comprovada
necessidade.
b) Apenas de requerimento do Ministério Público, e terá prazo de cinco
dias, prorrogável por igual período em caso de extrema e comprovada
necessidade.
198 Legislação Penal Especial

c) De representação da autoridade policial ou de requerimento do Minis-


tério Público, e terá, em qualquer caso, prazo de 30 dias, prorrogável
por igual período em caso de extrema e comprovada necessidade.
d) De representação da autoridade policial ou de requerimento do Minis-
tério Público e terá, em caso de crimes hediondos e equiparados, prazo
de 30 dias, não se admitindo prorrogação.
e) De representação da autoridade policial ou de requerimento do Minis-
tério Público, e terá, na hipótese de crimes hediondos e equiparados,
prazo de 30 dias, prorrogável por igual período em caso de extrema e
comprovada necessidade.

3. Lei nº 7.960/89 – Prisão Temporária –


Inconstitucionalidade, Constitucionalidade e
Tortura

De acordo com o art. 2º, § 7º, da Lei nº 7.960/89, é possível que o juiz altere a
natureza da restrição cautelar. Admite-se, portanto, a decretação da prisão pre-
ventiva enquanto dura a prisão temporária, ou então após o término dessa prisão
temporária.
Conforme o art. 3º da Lei da Prisão Temporária, os presos temporários de-
verão permanecer, obrigatoriamente, separados dos demais detentos. A regra é
semelhante àquela prevista no art. 84 da LEP.
O art. 4º da Lei nº 7.960/89 criou mais um tipo penal na Lei nº 4.898: “pro-
longar a execução de prisão temporária, de pena ou de medida de segurança,
deixando de expedir em tempo oportuno ou de cumprir imediatamente ordem de
liberdade” (art. 4º, “i”, da Lei de Abuso de Autoridade).
Conforme o art. 5º da Lei nº 7.960/89, “Em todas as comarcas e seções ju-
diciárias haverá um plantão permanente de 24 horas do Poder Judiciário e do
Ministério Público para apreciação dos pedidos de prisão temporária”.

Exercício
110. (Prova: Cespe – 2009 – PC-PB – Delegado de Polícia) – Considerando a lei
que regulamenta a prisão temporária, assinale a opção correta:
a) Pode ser decretada a prisão temporária em qualquer fase do IP ou da
ação penal.
Legislação Penal Especial 199

b) A prisão temporária pode ser decretada por intermédio de represen-


tação da autoridade policial ou do membro do MP, assim como ser
decretada de ofício pelo juiz competente.
c) O prazo da prisão temporária, que em regra é de cinco dias, prorrogá-
veis por igual período, é fatal e peremptório, de modo que, esgotado,
o preso deve ser imediatamente posto em liberdade, não podendo ser
a prisão convertida em preventiva.
d) Quando a prisão temporária for requerida pela autoridade policial, por
intermédio de representação, não haverá necessidade de prévia oitiva
do MP, devendo o juiz decidir o pedido formulado no prazo máximo de
24 horas.
e) Não cabe prisão temporária nas contravenções nem em crimes culposos.
Capítulo 27
Lei de Biossegurança
– Lei nº 11.105/05

1. Lei de Biossegurança

Bio é o radical de “vida” e segurança é no sentido de tutela. Sendo assim, bios-


segurança significa tutela da vida.
Há uma discussão de quando se inicia a vida e, neste sentido, versa o art. 2º
do Código Civil: “A personalidade civil da pessoa começa do nascimento com
vida; mas a lei põe a salvo, desde a concepção, os direitos do nascituro.”
No Direito Penal existe o crime de aborto e, sendo assim, trabalha-se com a
vida intrauterina, portanto, para o Direito Penal, já existe vida desde o início da
gestação.
Mas para a Lei de Biossegurança, existe fecundação sem gestação, através da
fecundação in vitro.
De acordo com o art. 3º da Lei nº 9.434, de 4 de fevereiro de 1997: “A reti-
rada post mortem de tecidos, órgãos ou partes do corpo humano destinados a
transplante ou tratamento deverá ser precedida de diagnóstico de morte encefá-
lica, constatada e registrada por dois médicos não participantes das equipes de
remoção e transplante, mediante a utilização de critérios clínicos e tecnológicos
definidos por resolução do Conselho Federal de Medicina.”
De acordo com o art. 5º da Lei nº 11.105/05 (Lei de Biossegurança):
“Art. 5º É permitida, para fins de pesquisa e terapia, a utilização de células-
-tronco embrionárias obtidas de embriões humanos produzidos por fertilização
in vitro e não utilizados no respectivo procedimento, atendidas as seguintes
condições:
I – sejam embriões inviáveis; ou
II – sejam embriões congelados há 3 (três) anos ou mais, na data da publica-
ção desta Lei, ou que, já congelados na data da publicação desta Lei, depois de
completarem 3 (três) anos, contados a partir da data de congelamento.
Legislação Penal Especial 201

§ 1º Em qualquer caso, é necessário o consentimento dos genitores.


§ 2º Instituições de pesquisa e serviços de saúde que realizem pesquisa ou te-
rapia com células-tronco embrionárias humanas deverão submeter seus projetos
à apreciação e aprovação dos respectivos comitês de ética em pesquisa.
§ 3º É vedada a comercialização do material biológico a que se refere este
artigo e sua prática implica o crime tipificado no art. 15 da Lei nº 9.434, de 4 de
fevereiro de 1997.”

Exercício
111. Julgue o seguinte item:
Após a decisão do STF, na ADIn nº 3.510, o Brasil permite pesquisas com
clonagem humana, desde que tenham como objetivo final a melhoria da
saúde da população.

2. Lei nº 9.434/97 – Remoção de Órgãos

Órgão é um conjunto de tecidos que evoluiu para realizar uma determinada função.
Tecido é um conjunto de células especializadas, iguais ou diferentes entre si,
separadas ou não por líquidos e substâncias intercelulares, que realizam determi-
nada função num organismo multicelular.
A regulamentação normativa do transplante de órgãos encontra-se na Lei nº
9.434/97, no Decreto nº 2.268/97 e na Portaria nº 3.407/98.
Existem dois tipos de transplantes, o inter vivos e o post mortem.
Sobre o transplante inter vivos:
– O órgão deve ser doado, e não vendido;
– Órgão dúplice ou parcial com capacidade de regeneração;
– Menção expressa do doador e do receptor;
– Doador maior de 21 anos e o receptor deve ser cônjuge ou parente con-
sanguíneo até 4º grau.
– Receptor estranho só com autorização judicial.
– Menor de 21 anos pode ser doador de medula óssea, com consentimento
dos pais ou responsável e autorização judicial e o ato de não oferecer risco
à saúde.
– A gestante poderá ser doadora de medula óssea se não houver risco à
saúde.
202 Legislação Penal Especial

Em relação à doação post mortem, o doador deve respeitar a fila dos recepto-
res de órgãos para transplantes (salvo em caso de urgência, regulamentada pelo
art. 40 da Portaria nº 3.407/1998 – uma regulamentação médica específica para
cada órgão).

Exercício
112. O diagnóstico de coma permite, em tese, o transplante dos órgãos, como se
morto estivesse o paciente.

3. Lei nº 9.434/97 – Remoção de Órgãos – Crimes


em Espécie

“Art. 14. Remover tecidos, órgãos ou partes do corpo de pessoa ou cadáver, em


desacordo com as disposições desta Lei:
Pena – reclusão, de dois a seis anos, e multa, de 100 a 360 dias-multa.
§ 1º Se o crime é cometido mediante paga ou promessa de recompensa ou
por outro motivo torpe:
Pena – reclusão, de três a oito anos, e multa, de 100 a 150 dias-multa.
§ 2º Se o crime é praticado em pessoa viva, e resulta para o ofendido:
I – incapacidade para as ocupações habituais, por mais de 30 dias;
II – perigo de vida;
III – debilidade permanente de membro, sentido ou função;
IV – aceleração de parto:
Pena – reclusão, de três a dez anos, e multa, de 100 a 200 dias-multa.
§ 3º Se o crime é praticado em pessoa viva e resulta para o ofendido:
I – Incapacidade para o trabalho;
II – Enfermidade incurável;
III – perda ou inutilização de membro, sentido ou função;
IV – deformidade permanente;
V – aborto:
Pena – reclusão, de quatro a doze anos, e multa, de 150 a 300 dias-multa.
§ 4º Se o crime é praticado em pessoa viva e resulta morte:
Pena – reclusão, de oito a vinte anos, e multa de 200 a 360 dias-multa.”
Legislação Penal Especial 203

Versa o art. 15 da mesma lei:


“Art. 15. Comprar ou vender tecidos, órgãos ou partes do corpo humano:
Pena – reclusão, de três a oito anos, e multa, de 200 a 360 dias-multa.
Parágrafo único. Incorre na mesma pena quem promove, intermedeia, facilita
ou aufere qualquer vantagem com a transação.”
No mesmo sentido versam os arts. 16, 17, 19 e 20 da mesma lei:
“Art. 16. Realizar transplante ou enxerto utilizando tecidos, órgãos ou partes
do corpo humano de que se tem ciência terem sido obtidos em desacordo com
os dispositivos desta Lei:
Pena – reclusão, de um a seis anos, e multa, de 150 a 300 dias-multa.
Art. 17 Recolher, transportar, guardar ou distribuir partes do corpo humano
de que se tem ciência terem sido obtidos em desacordo com os dispositivos desta
Lei:
Pena – reclusão, de seis meses a dois anos, e multa, de 100 a 250 dias-multa.
Art. 19. Deixar de recompor cadáver, devolvendo-lhe aspecto condigno, para
sepultamento ou deixar de entregar ou retardar sua entrega aos familiares ou
interessados:
Pena – detenção, de seis meses a dois anos.
Art. 20. Publicar anúncio ou apelo público em desacordo com o disposto no
art. 11:
Pena – multa, de 100 a 200 dias-multa.”

Exercício
113. Julgue o seguinte item:
Mobilizar a população de um bairro para angariar fundos para custear o
transplante de órgãos de pessoa determinada caracteriza crime da lei dos
transplantes.
Capítulo 28
Estatuto do Idoso –
Lei nº 10.741/03

1. Introdução ao Estatuto do Idoso


Pela Lei nº 10.741/03 – Estatuto do Idoso, são consideradas idosas todas as pes-
soas com 60 anos completos ou mais, recebendo proteções especiais como:
– atendimento preferencial no SUS; distribuição gratuita de remédio aos
idosos, preferencialmente os de uso continuado, assim como órtese e pró-
tese; planos de saúde não podem reajustar as mensalidades de acordo
com o critério da idade; o idoso internado ou em observação em qualquer
unidade de saúde tem direito a acompanhante, pelo tempo determinado
pelo profissional de saúde.
Quanto ao transporte público: os maiores de 65 anos têm direito ao transpor-
te coletivo público gratuito apresentando a identidade; nos veículos de transporte
coletivo é obrigatória a reserva de 10% dos assentos para os idosos, com aviso
legível; nos transportes coletivos interestaduais o Estatuto garante a reserva de
duas vagas gratuitas em cada veículo para idosos com renda igual ou inferior a
dois salários mínimos. Se o número de idosos exceder o previsto, eles devem ter
50% de desconto no valor da passagem.
No tocante à violência: nenhum idoso poderá ser objeto de negligência, dis-
criminação, violência, crueldade ou opressão; quem discriminar um idoso, im-
pedindo ou dificultando seu transporte ou qualquer outro meio de exercer sua
cidadania pode ser condenado criminalmente; famílias que abandonem o idoso
em hospitais e casas de saúde, sem dar respaldo para suas necessidades básicas,
podem ser condenadas criminalmente; idosos submetidos a condições desuma-
nas, privadas da alimentação e de cuidados indispensáveis; comete crime qual-
quer pessoa que se aproprie, desvie bens, cartão magnético de conta bancária ou
cartão de crédito, pensão ou rendimento do idoso.
O dirigente de instituição de atendimento ao idoso responde civil e criminal-
mente pelos atos praticados contra o idoso. A fiscalização ocorrerá pelo Conselho
Legislação Penal Especial 205

Municipal do Idoso, pela Vigilância Sanitária e pelo Ministério Público. A punição


poderá ser advertência, multa e até à interdição do local.

Exercício
114. Julgue o seguinte item:
O idoso tem acesso à cultura com o benefício de não pagar para prestigiar
espetáculos de teatro cabendo ao estabelecimento reservar ao menos 5%
dos lugares para o exercício deste direito. Verdadeiro ou falso?

2. Idade – Sursis – Prescrição – Precedentes e


Sujeito Passivo

Pelo Estatuto do Idoso, os idosos são pessoas com idade igual ou superior a 60
anos e gozam de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sem
prejuízo da proteção integral de que trata esta lei, assegurando-lhe, por lei ou
por outros meios, todas as oportunidades e facilidades, para preservação da sua
saúde física e mental e seu aperfeiçoamento moral, intelectual, espiritual e social,
em condições de liberdade e dignidade.
O Sursis é a suspensão condicional da pena e é aplicada quando o agente é
condenado, mas a pena não é aplicada pois foi suspensa. São condições do sursis
para quem pratica crime contra idoso: pena privativa de liberdade, não superior
a quatro anos, poderá ser suspensa, por quatro a seis anos, desde que o conde-
nado seja maior de 70 anos de idade ou em razão de saúde que justifiquem a
suspensão.
O sursis comum prevê: pena máxima até dois anos, período de prova de dois
a quatro anos, entretanto, no sursis etário a pena máxima cominada até quatro
anos, o período de prova é de quatro a seis anos e o condenado deve ser maior
de 70 anos de idade ou possuir razões de saúde que justifiquem a suspensão.
Prescrição é a perda do direito de processar e de punir do Estado pela demora.
Prescrevem em metade do tempo os prazos quando no tempo do crime o agente
era menor de 21 anos ou na data da sentença era maior de 70 anos.
Crimes praticados contra o idoso cuja pena máxima não ultrapasse quatro
anos serão processados pelo rito do JeCrim, mas sem os benefícios previstos por
este rito, possibilitando o idoso ver o criminoso responder pelo crime mais rapi-
damente.
206 Legislação Penal Especial

Exercício
115. Julgue o seguinte item:
Nos crimes praticados contra os idosos por expressa previsão legal, se a
pena máxima for até quatro anos aplica-se a transação penal do art. 76 do
rito especial do JeCrim. Verdadeiro ou falso?

3. Obrigações da Sociedade e Prioridades

A família, a comunidade, a sociedade e o Poder Público têm a obrigação de asse-


gurar ao idoso, com absoluta prioridade, a efetivação do direito à vida, à saúde, à
alimentação, à educação, à cultura, ao esporte, ao lazer, ao trabalho, à cidadania,
à liberdade, à dignidade, ao respeito e à convivência familiar e comunitária.
O idoso tem direito a atendimento preferencial imediato e individualizado
junto aos órgãos públicos e privados prestadores de serviços à população objeti-
vando evitar o incômodo desnecessário em filas e esperas.
Possui também preferência na formulação e na execução de políticas sociais
públicas específicas já que somente assim o idoso exercerá seus direitos concre-
tamente, e se esta preferência não for respeitada o judiciário poderá realizar o
controle de legalidade dos atos administrativos.
A destinação privilegiada de recursos públicos nas áreas relacionadas com a
proteção do idoso possui privilégio e garantem, ao menos em tese, a efetivação
destes direitos.
É importante viabilizar formas de participação, ocupação e convívio dos ido-
sos com as demais gerações na busca de troca de experiências, manutenção da
cidadania.
O idoso tem o direito de permanecer preferencialmente com sua família ao
invés de atendimento asilar, exceto dos que não a possuem ou não tenham con-
dições de manutenção da própria sobrevivência.
Os recursos humanos nas áreas de geriatria e gerontologia devem ser de-
senvolvidos e reciclados, sendo a geriatria um ramo da medicina que busca a
prevenção e o tratamento de doenças em idades avançadas e a gerontologia uma
ciência que estuda o envelhecimento.

Exercício
116. Os idosos que não estão isentos do imposto de renda por força da idade
têm direito a fazer a declaração em primeiro lugar. Verdadeiro ou falso?
Capítulo 29
Lei de Trânsito
(Lei nº 9.503/97)

1. Lei de Trânsito – Considerações Iniciais e


Conceitos

No Código Penal há a pena privativa de liberdade (prisão) e pena restritiva de


direitos (substitutiva da pena privativa de liberdade). No Código de Trânsito existe
uma pena restritiva autônoma.
Outra novidade da lei diz respeito à possibilidade do legislador afastar uma
regra geral de competência. Quando se tem uma infração de menor potencial
ofensivo, segue-se o rito do Juizado Especial Criminal. A legislação de trânsito
excepciona esta regra geral e traz que em caso de prática de lesão corporal
culposa no trânsito é preciso que se instaure inquérito policial e não termo cir-
cunstanciado.
É preciso entender o conceito de trânsito, previsto no § 1º do art. 1º da lei
estudada:
“§ 1º Considera-se trânsito a utilização das vias por pessoas, veículos e ani-
mais, isolados ou em grupos, conduzidos ou não, para fins de circulação, parada,
estacionamento e operação de carga ou descarga.”
Como conceito de veículo automotor tem-se: todo veículo a motor de propul-
são que circule por seus próprios meios, e que serve normalmente para o trans-
porte viário de pessoas e coisas, ou para a tração viária de veículos utilizados para
o transporte de pessoas e coisas. O termo compreende os veículos conectados a
uma linha elétrica e que não circulam sobre trilhos (ônibus elétrico).
A Lei nº 12.760/12 trouxe um conceito importante, qual seja conceito de
etilômetro. Trata-se do aparelho destinado à medição do teor alcoólico no ar
alveolar.
208 Legislação Penal Especial

2. Adulteração de Sinal de Veículo Automotor

O art. 311 do Código Penal tem a seguinte redação:


“Art. 311. Adulterar ou remarcar número de chassi ou qualquer sinal identifi-
cador de veículo automotor, de seu componente ou equipamento:
Pena – reclusão, de três a seis anos, e multa.”
Os componentes e equipamentos foram inseridos no dispositivo, pois algu-
mas pessoas modificam muito seus veículos, tirando algumas características de
identificação.
A Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal entendeu em um julgado que
a conduta de alterar a placa de veículo automotor mediante colocação de fita
adesiva é típica. Desta forma, é possível observar que existe tipicidade formal e
tipicidade material.
A defesa alegou que a real intenção não seria praticar um crime, mas sim fugir
de rodízio, queria alegar que o dolo não era criminoso.
Acerca da alegação, entendeu o Supremo Tribunal Federal que o art. 311 do
Código Penal não pede em momento nenhum uma finalidade específica.

3. Disposições Gerais dos Crimes de Trânsito

O art. 291 do Código de Trânsito Brasileiro dispõe:


“Art. 291. Aos crimes cometidos na direção de veículos automotores, previs-
tos neste Código, aplicam-se as normas gerais do Código Penal e do Código de
Processo Penal, se este Capítulo não dispuser de modo diverso, bem como a Lei
nº 9.099, de 26 de setembro de 1995, no que couber.”
O § 1º traz uma exceção muito cobrada em concursos:
“§ 1º Aplica-se aos crimes de trânsito de lesão corporal culposa o disposto
nos arts. 74, 76 e 88 da Lei nº 9.099, de 26 de setembro de 1995, exceto se o
agente estiver:
I – sob a influência de álcool ou qualquer outra substância psicoativa que
determine dependência;
II – participando, em via pública, de corrida, disputa ou competição automo-
bilística, de exibição ou demonstração de perícia em manobra de veículo automo-
tor, não autorizada pela autoridade competente;
III – transitando em velocidade superior à máxima permitida para a via em 50
km/h (cinquenta quilômetros por hora).”
Legislação Penal Especial 209

Nota-se que há três exceções que, se acontecerem no caso concreto, o sujeito


não recebe os benefícios da Lei nº 9.099/95.
Outro ponto decorrente da conclusão da lei é que é feito inquérito policial
quando o sujeito é conduzido ao Distrito Policial.
O art. 292 também traz uma exceção que existe somente no Código de Trânsito:
“Art. 292. A suspensão ou a proibição de se obter a permissão ou a habilita-
ção para dirigir veículo automotor pode ser imposta como penalidade principal,
isolada ou cumulativamente com outras penalidades.”
Dispõe o art. 293:
“Art. 293. A penalidade de suspensão ou de proibição de se obter a permis-
são ou a habilitação, para dirigir veículo automotor, tem a duração de dois meses
a cinco anos.”
O § 1º traz a seguinte redação:
“§ 1º Transitada em julgado a sentença condenatória, o réu será intimado a
entregar à autoridade judiciária, em 48 horas, a Permissão para Dirigir ou a Car-
teira de Habilitação.”
O § 2º estabelece:
“§ 2º A penalidade de suspensão ou de proibição de se obter a permissão ou
a habilitação para dirigir veículo automotor não se inicia enquanto o sentenciado,
por efeito de condenação penal, estiver recolhido a estabelecimento prisional.”

4. Decisão Cautelar do Juiz, Reincidência e Multa


Reparatória
O Código de Trânsito Brasileiro traz a seguinte redação no art. 294:
“Art. 294. Em qualquer fase da investigação ou da ação penal, havendo ne-
cessidade para a garantia da ordem pública, poderá o juiz, como medida caute-
lar, de ofício, ou a requerimento do Ministério Público ou ainda mediante repre-
sentação da autoridade policial, decretar, em decisão motivada, a suspensão da
permissão ou da habilitação para dirigir veículo automotor, ou a proibição de sua
obtenção.”
É preciso observar que o Delegado representa, o Ministério requer, mas quem
decide é o juiz.
O parágrafo único dispõe:
“Parágrafo único. Da decisão que decretar a suspensão ou a medida cautelar,
ou da que indeferir o requerimento do Ministério Público, caberá recurso em
sentido estrito, sem efeito suspensivo.”
210 Legislação Penal Especial

Diante de ausência de regulamentação no CTB, buscam-se outras informa-


ções em outros diplomas normativos.
O art. 296 do CTB estabelece em sua redação:
“Art. 296. Se o réu for reincidente na prática de crime previsto neste Código,
o juiz aplicará a penalidade de suspensão da permissão ou habilitação para dirigir
veículo automotor, sem prejuízo das demais sanções penais cabíveis.”
Nota-se que o dispositivo obriga o juiz a suspender habilitação de quem é
reincidente.
Reincidente é o sujeito que pratica um crime, é condenado definitivamente,
com trânsito em julgado, e pratica novamente uma infração de trânsito. Neste
momento o indivíduo já é reincidente e, assim, deve o juiz aplicar a sanção pre-
vista no art. 296 do CTB.
A multa reparatória consiste no pagamento, mediante depósito judicial, em
favor da vítima. Assim, aqui a quantia não vai para o Estado, mas sim para a víti-
ma daquela infração. Ressalte-se que caso a vítima tenha falecido, a quantia irá
para os sucessores, sendo respeitada a ordem sucessória prevista no Código Civil.
A quantificação do valor a ser pago não é simples, uma vez que a indenização
trabalha com os danos materiais, como gastos com hospital e lucros cessantes.
Contudo, o juiz aplicará a multa reparatória de acordo com previsão do art. 49
do Código Penal.

5. Circunstâncias que Agravam as Penas e Fuga


do Local do Crime

O art. 298 do Código de Trânsito Brasileiro traz um rol de circunstâncias que sem-
pre agravam as penalidades:
“Art. 298. São circunstâncias que sempre agravam as penalidades dos crimes
de trânsito ter o condutor do veículo cometido a infração:
I – com dano potencial para duas ou mais pessoas ou com grande risco de
grave dano patrimonial a terceiros;
II – utilizando o veículo sem placas, com placas falsas ou adulteradas;
III – sem possuir Permissão para Dirigir ou Carteira de Habilitação;
IV – com Permissão para Dirigir ou Carteira de Habilitação de categoria dife-
rente da do veículo;
V – quando a sua profissão ou atividade exigir cuidados especiais com o trans-
porte de passageiros ou de carga;
Legislação Penal Especial 211

VI – utilizando veículo em que tenham sido adulterados equipamentos ou ca-


racterísticas que afetem a sua segurança ou o seu funcionamento de acordo com
os limites de velocidade prescritos nas especificações do fabricante;
VII – sobre faixa de trânsito temporária ou permanentemente destinada a
pedestres.”
Quanto ao inc. II, faz-se necessário observar que a causa que agrava a pena
não incide no art. 311 do Código Penal.
O art. 301 do Código de Trânsito Brasileiro tem o seguinte texto:
“Art. 301. Ao condutor de veículo, nos casos de acidentes de trânsito de que
resulte vítima, não se imporá a prisão em flagrante, nem se exigirá fiança, se
prestar pronto e integral socorro àquela.”
É preciso observar que se há atropelamento e a vítima morre instantanea-
mente, a jurisprudência traz que de qualquer forma o sujeito deve estacionar o
veículo, ligar para o número de emergência e aguardar no local.
Existe uma situação em que o motorista, ao atropelar o pedestre, corre o risco
de ser linchado pela população. Neste caso, deve ser utilizado um instituto do
Direito Penal denominado inexigibilidade de conduta diversa, uma vez que se o
motorista permanecesse no local seria linchado.

6. Crimes em Espécie – Arts. 302 a 305 do CTB

O primeiro ponto a ser observado é que no Código de Trânsito Brasileiro fala-se


somente em homicídio culposo.
Dispõe o art. 302 do referido diploma legal:
“Art. 302. Praticar homicídio culposo na direção de veículo automotor:
Penas – detenção, de dois a quatro anos, e suspensão ou proibição de se obter
a permissão ou a habilitação para dirigir veículo automotor.”
O homicídio culposo ocorre porque uma pessoa, dirigindo veículo automotor,
matou outra com imprudência, negligência ou imperícia. Imprudência significa a
falta do dever objetivo de cuidado; negligente é o sujeito que erra por omissão;
e a imperícia está vinculada ao exercício de uma arte, ofício ou profissão (ex.:
motorista de ônibus).
O parágrafo único traz uma causa de aumento de pena:
“Parágrafo único. No homicídio culposo cometido na direção de veículo auto-
motor, a pena é aumentada de um terço à metade, se o agente:
I – não possuir Permissão para Dirigir ou Carteira de Habilitação;
212 Legislação Penal Especial

II – praticá-lo em faixa de pedestres ou na calçada;


III – deixar de prestar socorro, quando possível fazê-lo sem risco pessoal, à
vítima do acidente;
IV – no exercício de sua profissão ou atividade, estiver conduzindo veículo de
transporte de passageiros.”
A lesão corporal culposa está prevista no artigo seguinte, contendo a seguinte
redação:
“Art. 303. Praticar lesão corporal culposa na direção de veículo automotor:
Penas – detenção, de seis meses a dois anos e suspensão ou proibição de se
obter a permissão ou a habilitação para dirigir veículo automotor.
Parágrafo único. Aumenta-se a pena de um terço à metade, se ocorrer qual-
quer das hipóteses do parágrafo único do artigo anterior.”
O art. 304 estabelece acerca da chamada omissão de socorro no trânsito:
“Art. 304. Deixar o condutor do veículo, na ocasião do acidente, de prestar
imediato socorro à vítima, ou, não podendo fazê-lo diretamente, por justa causa,
deixar de solicitar auxílio da autoridade pública:
Penas – detenção, de seis meses a um ano, ou multa, se o fato não constituir
elemento de crime mais grave.
Parágrafo único. Incide nas penas previstas neste artigo o condutor do veículo,
ainda que a sua omissão seja suprida por terceiros ou que se trate de vítima com
morte instantânea ou com ferimentos leves.”
Estabelece o art. 305 do CTB:
“Art. 305. Afastar-se o condutor do veículo do local do acidente, para fugir à
responsabilidade penal ou civil que lhe possa ser atribuída:
Penas – detenção, de seis meses a um ano, ou multa.”

7. Crimes em Espécie – Arts. 306 e 307 do CTB

O art. 307 do Código de Trânsito Brasileiro trata do crime de violar a suspensão


ou proibição de se obter a permissão ou a habilitação para dirigir veículo auto-
motor. A pena é detenção, de seis meses a um ano e multa, com nova imposição
adicional de idêntico prazo de suspensão ou de proibição.
Se o sujeito está com habilitação ou permissão suspensa, continuando a diri-
gir, sendo pego em uma blitz ou preso em flagrante dirigindo sem a permissão ou
habilitação, pratica o tipo descrito acima.
Legislação Penal Especial 213

Dispõe o parágrafo único do art. 307:


“Parágrafo único. Nas mesmas penas incorre o condenado que deixa de en-
tregar, no prazo estabelecido no § 1º do art. 293, a Permissão para Dirigir ou a
Carteira de Habilitação.”
O art. 306 do CTB traz a redação do crime de embriaguez ao volante:
“Art. 306. Conduzir veículo automotor com capacidade psicomotora alterada
em razão da influência de álcool ou de outra substância psicoativa que determine
dependência:
Penas – detenção, de seis meses a três anos, multa e suspensão ou proibição
de se obter a permissão ou a habilitação para dirigir veículo automotor.”
No intuito de impedir as pessoas de conduzirem seus veículos embriagadas, o
legislador mudou o art. 306 e instituiu que seria considerada embriagada a pes-
soa que contivesse 0,6 decigramas de álcool por litro de sangue.
Trata-se de um crime de perigo e este perigo é presumido pelo legislador.
Assim, se for ingerida esta quantidade e o sujeito dirigiu, não importa se houve
dano, o simples perigo já é crime.
Ocorre que, para que a quantia seja observada, para que se quantifique, é
preciso que seja feita uma perícia, uma prova. No entanto, o legislador esqueceu-
-se do princípio nemo tenetur se detegere, ou seja, ninguém é obrigado a produ-
zir prova contra si próprio.
Neste sentido, se o sujeito não produzir a prova, não poderá ser condenado
criminalmente. Desta forma, para corrigir esta falha, foi editada a “Lei Seca”.
O § 2º do art. 306 tem a seguinte redação:
“§ 2º A verificação do disposto neste artigo poderá ser obtida mediante teste
de alcoolemia, exame clínico, perícia, vídeo, prova testemunhal ou outros meios
de prova em direito admitidos, observado o direito à contraprova.”

8. Crimes em Espécie – Arts. 308 a 312 do CTB

O art. 308 do Código de Trânsito Brasileiro traz a seguinte redação:


“Art. 308. Participar, na direção de veículo automotor, em via pública, de cor-
rida, disputa ou competição automobilística não autorizada pela autoridade com-
petente, desde que resulte dano potencial à incolumidade pública ou privada:
Penas – detenção, de seis meses a dois anos, multa e suspensão ou proibição
de se obter a permissão ou a habilitação para dirigir veículo automotor.”
Nota-se que é um crime de perigo concreto, o dano potencial exige uma situa-
ção em que alguém ficou exposto ao risco desta competição.
214 Legislação Penal Especial

O art. 309 surgiu e revogou tacitamente a contravenção penal do art. 32.


Estabelece o citado artigo:
“Art. 309. Dirigir veículo automotor, em via pública, sem a devida Permissão
para Dirigir ou Habilitação ou, ainda, se cassado o direito de dirigir, gerando pe-
rigo de dano:
Penas – detenção, de seis meses a um ano, ou multa.”
O art. 310 dispõe:
“Art. 310. Permitir, confiar ou entregar a direção de veículo automotor a pes-
soa não habilitada, com habilitação cassada ou com o direito de dirigir suspenso,
ou, ainda, a quem, por seu estado de saúde, física ou mental, ou por embriaguez,
não esteja em condições de conduzi-lo com segurança:
Penas – detenção, de seis meses a um ano, ou multa.”
O art. 311 traz a seguinte redação:
“Art. 311. Trafegar em velocidade incompatível com a segurança nas proximi-
dades de escolas, hospitais, estações de embarque e desembarque de passagei-
ros, logradouros estreitos, ou onde haja grande movimentação ou concentração
de pessoas, gerando perigo de dano:
Penas – detenção, de seis meses a um ano, ou multa.”
O art. 312 estabelece:
“Art. 312. Inovar artificiosamente, em caso de acidente automobilístico com
vítima, na pendência do respectivo procedimento policial preparatório, inquérito
policial ou processo penal, o estado de lugar, de coisa ou de pessoa, a fim de
induzir a erro o agente policial, o perito, ou juiz:
Penas – detenção, de seis meses a um ano, ou multa.”

Exercício
117. A respeito dos crimes de trânsito, é correto afirmar:
a) Prova-se a embriaguez ao volante exclusivamente com aferição de 0,6 dg
de álcool por litro de sangue.
b) O homicídio no trânsito não é da competência do júri.
c) O valor da multa reparatória vai para o Fundo Penitenciário.
d) A suspensão da permissão para dirigir é pena autônoma.
Capítulo 30
Estatuto da Igualdade
Racial e Racismo

1. Estatuto da Igualdade Racial – Aspectos


Introdutórios
A Lei nº 12.288/10, denominada Estatuto da Igualdade Racial foi aprovada como
uma tentativa do Estado em resgatar parte da cultura deixada de lado.
A lei fala em raça, em população negra e para que se possa compreender o
alcance das expressões, é preciso trabalhar com o conceito trazido pela legislação.
Trata-se de uma lei destinada a garantir à população negra a efetivação da
igualdade de oportunidades, a defesa dos direitos étnicos individuais, coletivos e
difusos e o combate à discriminação e às demais formas de intolerância étnica.
O parágrafo único do art. 1º dispõe acerca de alguns conceitos, de grande
importância para este estudo.
Para esta lei, discriminação racial significa toda distinção, exclusão, restrição
ou preferência baseada em raça, cor, descendência ou origem nacional ou étnica
que tenha por objeto anular ou restringir o reconhecimento, gozo ou exercício,
em igualdade de condições, de direitos humanos e liberdades fundamentais nos
campos político, econômico, social, cultural ou em qualquer outro campo da vida
pública ou privada.
Desigualdade racial é toda situação injustificada de diferenciação de acesso
e fruição de bens, serviços e oportunidades, nas esferas pública e privada, em
virtude de raça, cor, descendência ou origem nacional ou étnica.
O inciso III trata da desigualdade de gênero e raça: assimetria existente no
âmbito da sociedade que acentua a distância social entre mulheres negras e os
demais segmentos sociais.
População negra é o conjunto de pessoas que se autodeclaram pretas e par-
das, conforme o quesito cor ou raça usado pela Fundação Instituto Brasileiro de
Geografia e Estatística (IBGE), ou que adotam autodefinição análoga.
216 Legislação Penal Especial

Políticas públicas são as ações, iniciativas e programas adotados pelo Estado


no cumprimento de suas atribuições institucionais.
Por fim, as ações afirmativas são os programas e medidas especiais adotados
pelo Estado e pela iniciativa privada para a correção das desigualdades raciais e
para a promoção da igualdade de oportunidades.

2. Estatuto da Igualdade Racial – Políticas


Públicas e Ações Afirmativas

O art. 4º do Estatuto da Igualdade Racial dispõe:


“Art. 4º A participação da população negra, em condição de igualdade de
oportunidade, na vida econômica, social, política e cultural do País será promovi-
da, prioritariamente, por meio de:
I – inclusão nas políticas públicas de desenvolvimento econômico e social;
II – adoção de medidas, programas e políticas de ação afirmativa;
III – modificação das estruturas institucionais do Estado para o adequado en-
frentamento e a superação das desigualdades étnicas decorrentes do preconceito
e da discriminação étnica;
IV – promoção de ajustes normativos para aperfeiçoar o combate à discrimina-
ção étnica e às desigualdades étnicas em todas as suas manifestações individuais,
institucionais e estruturais;
V – eliminação dos obstáculos históricos, socioculturais e institucionais que
impedem a representação da diversidade étnica nas esferas pública e privada;
VI – estímulo, apoio e fortalecimento de iniciativas oriundas da sociedade civil
direcionadas à promoção da igualdade de oportunidades e ao combate às desi-
gualdades étnicas, inclusive mediante a implementação de incentivos e critérios
de condicionamento e prioridade no acesso aos recursos públicos;
VII – implementação de programas de ação afirmativa destinados ao enfrenta-
mento das desigualdades étnicas no tocante à educação, cultura, esporte e lazer,
saúde, segurança, trabalho, moradia, meios de comunicação de massa, financia-
mentos públicos, acesso à terra, à Justiça, e outros.”
De acordo com o parágrafo único, os programas de ação afirmativa constituir-
-se-ão em políticas públicas destinadas a reparar as distorções e desigualdades
sociais e demais práticas discriminatórias adotadas, nas esferas pública e privada,
durante o processo de formação social do País.
Legislação Penal Especial 217

3. Tutela à Saúde da População Negra – Tutela


do Patrimônio Cultural

O art. 6º traz que o direito à saúde da população negra será garantido pelo poder
público mediante políticas universais, sociais e econômicas destinadas à redução
do risco de doenças e de outros agravos.
Dispõe o § 1º que o acesso universal e igualitário ao Sistema Único de Saúde
(SUS) para promoção, proteção e recuperação da saúde da população negra será
de responsabilidade dos órgãos e instituições públicas federais, estaduais, distri-
tais e municipais, da administração direta e indireta.
O § 2º estabelece que o poder público garantirá que o segmento da popula-
ção negra vinculado aos seguros privados de saúde seja tratado sem discriminação.
O art. 7º tem a seguinte redação:
“Art. 7º O conjunto de ações de saúde voltadas à população negra constitui
a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra, organizada de acordo
com as diretrizes abaixo especificadas:
I – ampliação e fortalecimento da participação de lideranças dos movimentos
sociais em defesa da saúde da população negra nas instâncias de participação e
controle social do SUS;
II – produção de conhecimento científico e tecnológico em saúde da popula-
ção negra;
III – desenvolvimento de processos de informação, comunicação e educação
para contribuir com a redução das vulnerabilidades da população negra.”
O art. 8º traz os objetivos da Política Nacional de Saúde Integral da População
Negra:
“Art. 8º Constituem objetivos da Política Nacional de Saúde Integral da Po-
pulação Negra:
I – a promoção da saúde integral da população negra, priorizando a redução
das desigualdades étnicas e o combate à discriminação nas instituições e serviços
do SUS;
II – a melhoria da qualidade dos sistemas de informação do SUS no que tange
à coleta, ao processamento e à análise dos dados desagregados por cor, etnia e
gênero;
III – o fomento à realização de estudos e pesquisas sobre racismo e saúde da
população negra;
IV – a inclusão do conteúdo da saúde da população negra nos processos de
formação e educação permanente dos trabalhadores da saúde;
218 Legislação Penal Especial

V – a inclusão da temática saúde da população negra nos processos de forma-


ção política das lideranças de movimentos sociais para o exercício da participação
e controle social no SUS.”
O parágrafo único traz uma peculiaridade, dispondo que os moradores das
comunidades de remanescentes de quilombos serão beneficiários de incentivos
específicos para a garantia do direito à saúde, incluindo melhorias nas condições
ambientais, no saneamento básico, na segurança alimentar e nutricional e na
atenção integral à saúde.
Dispõe o art. 9º do mesmo diploma legal:
“Art. 9º A população negra tem direito a participar de atividades educacio-
nais, culturais, esportivas e de lazer adequadas a seus interesses e condições, de
modo a contribuir para o patrimônio cultural de sua comunidade e da sociedade
brasileira.”
Patrimônio cultural é o conjunto de fatos históricos que contribuem para a
identidade brasileira. Exemplo: escravidão, chegada dos imigrantes, algumas
guerras, dentre outros.
O art. 10 traz a seguinte redação:
“Art. 10. Para o cumprimento do disposto no art. 9º, os governos federal,
estaduais, distrital e municipais adotarão as seguintes providências:
I – promoção de ações para viabilizar e ampliar o acesso da população negra
ao ensino gratuito e às atividades esportivas e de lazer;
II – apoio à iniciativa de entidades que mantenham espaço para promoção
social e cultural da população negra;
III – desenvolvimento de campanhas educativas, inclusive nas escolas, para
que a solidariedade aos membros da população negra faça parte da cultura de
toda a sociedade;
IV – implementação de políticas públicas para o fortalecimento da juventude
negra brasileira.”
Quanto à educação, nos estabelecimentos de ensino fundamental e de ensino
médio, públicos e privados, é obrigatório o estudo da história geral da África e da
história da população negra no Brasil, observado o disposto na Lei nº 9.394, de
20 de dezembro de 1996.
Nos termos do § 1º, os conteúdos referentes à história da população negra
no Brasil serão ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, resgatando
sua contribuição decisiva para o desenvolvimento social, econômico, político e
cultural do País.
O § 2º traz que o órgão competente do Poder Executivo fomentará a forma-
ção inicial e continuada de professores e a elaboração de material didático espe-
cífico para o cumprimento do disposto no caput deste artigo.
Legislação Penal Especial 219

Nas datas comemorativas de caráter cívico, os órgãos responsáveis pela edu-


cação incentivarão a participação de intelectuais e representantes do movimento
negro para debater com os estudantes suas vivências relativas ao tema em come-
moração (§ 3º).
Dispõe o art. 12 que os órgãos federais, distritais e estaduais de fomento à
pesquisa e à pós-graduação poderão criar incentivos a pesquisas e a programas
de estudo voltados para temas referentes às relações étnicas, aos quilombos e às
questões pertinentes à população negra.

4. Aspecto Cultural da População Negra


O art. 17 da lei aqui estudada traz a seguinte redação:
“Art. 17. O poder público garantirá o reconhecimento das sociedades negras,
clubes e outras formas de manifestação coletiva da população negra, com traje-
tória histórica comprovada, como patrimônio histórico e cultural, nos termos dos
arts. 215 e 216 da Constituição Federal.”
Ainda, é assegurado aos remanescentes das comunidades dos quilombos o
direito à preservação de seus usos, costumes, tradições e manifestos religiosos,
sob a proteção do Estado.
A preservação dos documentos e dos sítios detentores de reminiscências his-
tóricas dos antigos quilombos, tombados nos termos do § 5º do art. 216 da
Constituição Federal, receberá especial atenção do poder público.
O art. 19 trata das celebridades, dispondo que o poder público incentivará a
celebração das personalidades e das datas comemorativas relacionadas à trajetó-
ria do samba e de outras manifestações culturais de matriz africana, bem como
sua comemoração nas instituições de ensino públicas e privadas.
O art. 20 dispõe que o poder público garantirá o registro e a proteção da
capoeira, em todas as suas modalidades, como bem de natureza imaterial e de
formação da identidade cultural brasileira, nos termos do art. 216 da Constitui-
ção Federal.
O parágrafo único traz que o poder público buscará garantir, por meio dos
atos normativos necessários, a preservação dos elementos formadores tradicio-
nais da capoeira nas suas relações internacionais.
O art. 21 dispõe que o poder público fomentará o pleno acesso da população
negra às práticas desportivas, consolidando o esporte e o lazer como direitos
sociais.
O art. 22 reconhece a capoeira como um desporto nacional e a atividade
de capoeirista será reconhecida em todas as modalidades em que a capoeira se
220 Legislação Penal Especial

manifesta, seja como esporte, luta, dança ou música, sendo livre o exercício em
todo o território nacional. Ainda, é facultado o ensino da capoeira nas instituições
públicas e privadas pelos capoeiristas e mestres tradicionais, pública e formalmen-
te reconhecidos.

5. Direito à Liberdade de Consciência, de Crença


e ao Exercício de Cultos Religiosos

O art. 23 dispõe que é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo


assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a
proteção aos locais de culto e a suas liturgias.
Dispõe o art. 24 do mesmo diploma legal:
“Art. 24. O direito à liberdade de consciência e de crença e ao livre exercício
dos cultos religiosos de matriz africana compreende:
I – a prática de cultos, a celebração de reuniões relacionadas à religiosidade e a
fundação e manutenção, por iniciativa privada, de lugares reservados para tais fins;
II – a celebração de festividades e cerimônias de acordo com preceitos das
respectivas religiões;
III – a fundação e a manutenção, por iniciativa privada, de instituições benefi-
centes ligadas às respectivas convicções religiosas;
IV – a produção, a comercialização, a aquisição e o uso de artigos e materiais
religiosos adequados aos costumes e às práticas fundadas na respectiva religiosi-
dade, ressalvadas as condutas vedadas por legislação específica;
V – a produção e a divulgação de publicações relacionadas ao exercício e à
difusão das religiões de matriz africana;
VI – a coleta de contribuições financeiras de pessoas naturais e jurídicas de
natureza privada para a manutenção das atividades religiosas e sociais das res-
pectivas religiões;
VII – o acesso aos órgãos e aos meios de comunicação para divulgação das
respectivas religiões;
VIII – a comunicação ao Ministério Público para abertura de ação penal em
face de atitudes e práticas de intolerância religiosa nos meios de comunicação e
em quaisquer outros locais.”
Legislação Penal Especial 221

6. Acesso à Terra e à Moradia

O art. 27 do Estatuto dispõe que o poder público elaborará e implementará po-


líticas públicas capazes de promover o acesso da população negra à terra e às
atividades produtivas no campo.
Neste sentido, nos termos do artigo seguinte, para incentivar o desenvolvi-
mento das atividades produtivas da população negra no campo, o poder público
promoverá ações para viabilizar e ampliar o seu acesso ao financiamento agrícola.
O art. 29 prevê que serão assegurados à população negra a assistência técnica
rural, a simplificação do acesso ao crédito agrícola e o fortalecimento da infraes-
trutura de logística para a comercialização da produção.
O poder público promoverá a educação e a orientação profissional agrícola
para os trabalhadores negros e as comunidades negras rurais, conforme dispõe
o art. 30 desta lei.
O art. 31 destaca os quilombos, estabelecendo que aos remanescentes das
comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida a
propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes os títulos respectivos.
O art. 32 traz que o Poder Executivo Federal elaborará e desenvolverá políticas
públicas especiais voltadas para o desenvolvimento sustentável dos remanescen-
tes das comunidades dos quilombos, respeitando as tradições de proteção am-
biental das comunidades.

7. Direito ao Trabalho

A população negra não possui um regramento jurídico só para eles, mas a preo-
cupação do Estatuto se dá no sentido da inclusão da população negra no merca-
do de trabalho.
O poder público promoverá ações que assegurem igualdade de oportunidade
no mercado de trabalho, por meio de medidas que implementem a promoção da
igualdade na contratação do setor público, por exemplo.
Neste sentido, é possível a criação de um concurso público em que parte dos
candidatos aprovados pertença à população negra.
Ressalta-se que as ações para que se possa nivelar a igualdade assegurarão o
princípio da proporcionalidade de gênero entre os beneficiários.
Será assegurado o acesso ao crédito para a pequena produção, nos meios
rural e urbano, com ações afirmativas para mulheres negras, nos termos do § 5º
do art. 39 deste diploma legal.
222 Legislação Penal Especial

Ainda, de acordo com o § 6º, o poder público promoverá campanhas de


sensibilização contra a marginalização da mulher negra no trabalho artístico e
cultural.
O poder público promoverá ações com o objetivo de elevar a escolaridade e a
qualificação profissional nos setores da economia que contem com alto índice de
ocupação por trabalhadores negros de baixa escolarização (§ 7º).
O art. 41 estabelece que as ações de emprego e renda, promovidas por meio
de financiamento para constituição e ampliação de pequenas e médias empresas
e de programas de geração de renda, contemplarão o estímulo à promoção de
empresários negros.
Por fim, a lei usa a expressão turismo étnico: o poder público estimulará as
atividades voltadas ao turismo étnico com enfoque nos locais, monumentos e
cidades que retratem a cultura, os usos e os costumes da população negra.

8. Disposições Finais

O Estatuto da Igualdade Racial fez uma releitura do ordenamento jurídico brasilei-


ro, entendendo que algumas legislações em vigor precisavam de alguns ajustes.
O art. 58 desta lei tem a seguinte redação:
“Art. 58. As medidas instituídas nesta Lei não excluem outras em prol da po-
pulação negra que tenham sido ou venham a ser adotadas no âmbito da União,
dos Estados, do Distrito Federal ou dos Municípios.”
Nos termos do art. 59, o Poder Executivo Federal criará instrumentos para afe-
rir a eficácia social das medidas previstas nesta Lei e efetuará seu monitoramento
constante, com a emissão e a divulgação de relatórios periódicos, inclusive pela
rede mundial de computadores.
Os arts. 60 em diante deste diploma legal aqui estudado trazem as modifica-
ções feitas em outras leis.

Exercício
118. Assinale verdadeiro ou falso: Aos remanescentes das comunidades dos qui-
lombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade de-
finitiva, devendo o Estado emitir-lhes os respectivos títulos.
Legislação Penal Especial 223

Anotações
224 Legislação Penal Especial
Legislação Penal Especial 225
226 Legislação Penal Especial

Gabarito

1. Em regra não, conforme enten- cause dependência, pode ser in-


dimento do STJ e STF. Porém, em cluída nova droga, desde que o
fevereiro de 2012, a Primeira Tur- seja através da Portaria nº 344/98
ma do STF entendeu pela possi- do Ministério da Saúde.
bilidade da aplicação do princípio 6. Se dentro da semente houver o
da insignificância no art. 28 da Lei princípio ativo da droga, caracte-
de Drogas. riza-se o tráfico. Se não houver,
2. O princípio da proporcionalidade não haverá o crime de tráfico de
na Lei de Drogas e de suas respec- drogas.
tivas sanções deve ser analisado 7. A venda em si não estará confi-
sob duas perspectivas: a perspecti- gurada por crime impossível, por
va da proibição no excesso de pu- obra do agente provocador, mas
nição, bem como perspectiva acer- há outras condutas tipificadas no
ca da falta de rigor na punição. art. 33 que podem e vão ocasio-
3. Não. Trata-se de um caso de nor- nar a prisão em flagrante e a con-
ma penal em branco e o conceito sequente responsabilidade penal.
de drogas está complementado 8. Um simples laudo de constatação
pela Portaria SVS/MS nº 344, de para verificar a natureza e a quan-
12 de maio de 1998. tidade da droga.
4. O legislador possui competência 9. Letra D.
constitucional para fazê-lo, mas 10. Depois do HC nº 104.339 do STF, é
isso não significa que o resultado possível a liberdade provisória para
será eficiente. Significa uma ten- o traficante de drogas. Trata-se de
tativa de otimizar a persecução uma análise cautelar feita pelo juiz
penal, sempre respeitando os di- da causa no caso concreto.
reitos e garantias constitucionais. 11. Letra C.
5. Seguindo os trâmites legais, sen- 12. Letra A.
do um produto ou substância que 13. Letra B.
Legislação Penal Especial 227

14. Verdadeiro. 52. Letra C.


15. Falso. 53. Verdadeira.
16. Falso. 54. Correta.
17. Correta. 55. Errada.
18. Correta. 56. Letra E, pelo art. 1º, § 5º, da Lei nº
19. Errada. 9.613/98.
20. Errado. 57. Falsa.
21. Certa. 58. Errada.
22. Verdadeiro. 59. Falso.
23. Falso. 60. Verdadeiro.
24. Verdadeiro. 61. Correta.
62. Correta.
25. Falso.
63. Incorreta.
26. Falso.
64. Incorreta.
27. Falso.
65. Certa.
28. Falso.
66. Errada.
29. Incorreta.
67. Errada.
30. Incorreta.
68. Certa.
31. Incorreta.
69. Certa.
32. Correta.
70. Certa.
33. Correta.
71. Certa.
34. Incorreta.
72. Certa.
35. Correta.
73. Certa.
36. Verdadeiro.
74. Errada.
37. Falso.
75. Falso.
38. Verdadeiro. Há uma discussão so-
76. Incorreta.
bre erro de proibição. A questão,
77. Correta.
no entanto, fala sobre a possibili-
78. Letra A.
dade, e é possível.
39. Falso. 79. Letra D.
40. Certa 80. Letra B.
41. Errada. 81. Verdadeiro.
42. Errada. 82. Verdadeiro.
43. Certa. 83. Verdadeiro.
44. Errada. 84. Verdadeiro.
45. Errado. 85. Falso.
46. Certa. 86. Errada.
47. Errada. 87. Falso.
48. Certa. 88. Falso.
49. Falsa. 89. Falso.
50. Letra B. 90. Falso.
51. Letra D. 91. Certa.
228 Legislação Penal Especial

92. Errada. 109. Letra E.


93. Certa. 110. Letra E.
94. Errada. 111. Falso.
95. Certa. 112. Falso.
96. Certa. 113. Falso.
97. Verdadeiro. 114. Falso, o idoso tem direito a 50%
98. Errada. de desconto na entrada.
99. Errada. 115. Falso, pois não são aplicados os
100. Certa. benefícios pelo rito especial do
101. Certa. JeCrim diante dos crimes pratica-
102. Errada. dos contra os idosos.
103. Verdadeiro. 116. Falso, pois a prioridade dos ido-
104. Falso. sos é na restituição do imposto
105. Verdadeiro. de renda e não na declaração.
106. Falso. 117. Letra D.
107. Falso. 118. Verdadeira.
108. Letra D.

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