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Tradição + Inovação

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Direito Processual Penal


Obra organizada pelo Instituto IOB – São Paulo: Editora IOB, 2014. ISBN 978-85-8079-000-9

Informamos que é de inteira responsabilidade do autor a emissão dos conceitos.


Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio ou forma sem a
prévia autorização do Instituto IOB. A violação dos direitos autorais é crime estabelecido na Lei
nº 9.610/1998 e punido pelo art. 184 do Código Penal.
Sumário
Capítulo 1. Inquérito Policial, 15
1. Conceito de Inquérito Policial – Características –
Dispensabilidade – Direito de Ação – Oficiosidade
– Juizado Especial Criminal – Entendimento
Jurisprudencial, 15
2. Característica da Oficiosidade na Instauração do
Inquérito Policial – Exceções, 16
3. Inquisitoriedade do Inquérito Policial – Processo
Judicial – Elementos Essenciais – Contraditório e
Ampla Defesa – Prova Indiciária, 17
4. Características do Inquérito Policial – Sigilo –
Finalidade do Sigilo – Direito do Advogado e do
Indiciado Preso, 18
5. Indisponibilidade do Inquérito Policial – Determinação
do Arquivamento do Inquérito Policial – Indiciamento
e Desindiciamento, 19
6. Prazo para Término do Inquérito Policial – Exceções –
Prazo para Oferecimento da Denúncia, 19
7. Arquivamento do Inquérito Policial – Natureza Jurídica
e Procedimento – Arquivamento Implícito e Explícito –
Direto e Indireto – Objeto do Arquivamento, 20
8. Arquivamento no Âmbito Federal – Irretratabilidade
da Promoção do Arquivamento – Promoção do
Arquivamento e Desarquivamento do Inquérito, 21

Capítulo 2. Ação Penal, 23


1. Conceito e Classificação das Ações Penais – Espécies
de Ação Penal – Princípio da Titularidade da Ação
Penal Pública, 23
2. Princípio da Titularidade e Súmula nº 714 do
STF – Legitimação Concorrente – Princípio da
Intranscendência – Responsabilidade Penal, 24
3. Princípio da Intranscendência da Ação Penal –
Princípio da Obrigatoriedade da Ação Penal Pública
– Relativização do Princípio da Legalidade – Transação
Penal, 24
4. Princípio da Indisponibilidade da Ação Penal Pública
– Representação – Transação Penal – Mitigação do
Princípio da Indivisibilidade da Ação Penal Pública, 25
5. Natureza Jurídica da Representação – Representação e
Queixa-Crime – Irretratabilidade da Representação, 25
6. Requisição do Ministério da Justiça – Condição
Especial de Procedibilidade – Desclassificação do
Crime de Ação Penal Pública para Ação Penal de
Iniciativa Privada, 26
7. Princípios da Ação Penal de Iniciativa Privada
– Oportunidade/Conveniência – Princípio da
Disponibilidade – Concessão de Perdão – Hipóteses de
Perempção da Ação Penal, 27
8. Princípios da Ação Penal de Iniciativa Privada –
Matéria Controversa – Oportunidade de Reconciliação
– Audiência de Conciliação – Posicionamento
Jurisprudencial – Princípio da Indivisibilidade, 28
9. Espécies de Ação Penal de Iniciativa Privada – Ação
Penal Exclusiva – Ação Penal Personalíssima – Ação
Penal Privada Subsidiária da Pública, 29
10. Requisitos para Oferecimento da Denúncia ou
Queixa-Crime – Prazos – Qualificação das Partes –
Classificação Preliminar do Crime, 30
11. Denúncia e Queixa-Crime – Requisitos Específicos –
Prazos – Aditamento, 31

Capítulo 3. Jurisdição e Competência, 33


1. Jurisdição e Competência – Substitutividade e
Definitividade da Jurisdição – Regras de Competência
– Competência Absoluta e Relativa, 33
2. Competência Absoluta – Incompetência Absoluta do
Juízo – Princípio do Promotor Natural – Inexistência
Jurídica – Inexistência Material – Nulidade Absoluta do
Ato – Controle sobre a Competência, 34
3. Competência em Razão da Matéria – Justiça Especial
– Critério de Fixação de Competência – Justiça Militar
da União x Justiça Militar do Estado, 35
4. Competência em Razão da Matéria – Justiça Federal
– Órgãos da Justiça Comum – Tribunal do Júri –
Competência do Juizado Especial Criminal, 35
5. Competência em Razão da Matéria – Juizado Especial
da Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher
– Hipóteses de Violência Doméstica e Familiar –
Restrições e Aplicação Subsidiária da Lei, 36
6. Competência em Razão da Matéria – Justiças Federal
e Estadual – Crimes – Processo e Julgamento – Crimes
Conexos, 37
7. Competência em Razão da Matéria – Justiça Federal –
Crimes Cometidos a Bordo de Navios ou Aeronaves –
Condições e Características – Crimes contra o Sistema
Financeiro e a Ordem Econômica e Financeira, 38
8. Competência por Prerrogativa de Função – Foro
Privilegiado – Hipóteses de Competência – Variação
do Foro em Razão da Matéria, 39
9. Competência por Prerrogativa de Função –
Competência dos Tribunais para Julgar e Processar
– Entendimento Jurisprudencial – Competência para
Julgar e Processar Prefeitos e Vereadores, 40
10. Perpetuação da Competência – Ratione Personae –
Questões Controvertidas – Exceção da Verdade, 41
11. Competência Relativa – Hipóteses de Fixação
– Prorrogação de Competência – Competência
Territorial – Teoria do Resultado e da Atividade –
Competência por Prevenção, 42
12. Conexão e Continência – Conceitos e Critérios –
Hipóteses de Conexão – Conexão Intersubjetiva por
Concurso e por Reciprocidade – Conexão Lógica ou
Material e Objetiva Consequencial, 43
13. Conexão e Continência – Hipóteses de Conexão –
Conexão Instrumental ou Probatória – Competência
Determinada por Continência – Conflitos de
Competência, 44
14. Regras de Competência por Conexão – Instauração de
Processos Diferentes – Tribunais Superiores – Conflito
de Competência – Conflito de Atribuição, 45

Capítulo 4. Medidas Cautelares Constritivas de Liberdade, 47


1. Medidas Cautelares Constritivas de Liberdade –
Presunção de Não Culpabilidade e Medidas Cautelares
– Requisitos da Medida Cautelar Constritiva de Direito
– Homogeneidade das Medidas Cautelares, 47
2. Prisões Provisórias e Requisitos – Necessidade e
Adequação – Risco de Cometimento de Novas
Infrações Penais – Posicionamento Jurisprudencial
– Proporcionalidade da Aplicação das Medidas
Cautelares, 48
3. Descumprimento das Tutelas Cautelares – Oficiosidade
das Medidas Cautelares – Aplicabilidade do Princípio
da Especialidade – Posicionamento Jurisprudencial, 48
4. Introdução ao Processo Penal Cautelar – Contraditório
Prévio – Oitiva Prévia do Imputado – Descumprimento
da Medida Cautelar – Novas Cautelares Construtivas
de Liberdades, 49
5. Cautelares de Natureza Média e Grave – Rol de
Medidas Cautelares Diversas da Prisão, 50
6. Hipóteses de Admissibilidade da Prisão Preventiva –
Análise da Admissibilidade Jurídica – Pressupostos de
Admissibilidade, 51
7. Prisão Preventiva – Admissibilidade e Fundamentos –
Critérios de Necessidade e Adequação das Medidas
– Identificação Civil – Identificação Criminal –
Conversão da Prisão em Flagrante em Preventiva, 52
8. Requisitos da Prisão Preventiva – Plausibilidade da
Pretensão Condenatória – Conveniência da Instrução
Criminal – Fiel Aplicação da Lei Penal, 52
9. Insuficiência na Aplicação das Medidas Cautelares
– Descumprimento de Medida Cautelar – Embate
Doutrinário e Posição Majoritária, 53
10. Prisão Domiciliar Cautelar – Hipóteses de Autorização
para Cumprimento de Prisão Domiciliar Cautelar –
Prisão Domiciliar Cautelar x Prisão Albergue
Domiciliar, 54
11. Prisão em Flagrante – Natureza Jurídica
– Prisão em Flagrante Quanto aos Agentes –
Modalidades de Prisão em Flagrante, 55
12. Flagrante Esperado – Flagrante Provocado – Flagrante
Forjado – Flagrante Retardado, 56
13. Lavratura do Auto de Prisão em Flagrante – Ações da
Autoridade Policial – Direito de Silêncio – Ausência de
Autoridade Policial, 57
14. Flagrante nas Infrações de Menor Potencial Ofensivo, 58
15. Liberdade Provisória x Revogação, 58
16. Fiança – Quebra da Fiança – Pressupostos de
Admissibilidade – Critérios de Quantificação, 59
17. Prisão Temporária – Cabimento – Natureza Jurídica, 60
18. Prisão Temporária – Crimes Hediondos – Legitimidade
– Prazos, 61

Capítulo 5. Prova, 62
1. Teoria Geral da Prova – Princípio da Concentração
– Princípio da Oralidade – Princípio da Identidade
Física do Juiz – Princípio da Autorresponsabilidade e
Princípio da Comunhão da Prova, 62
2. Teoria da Prova – Ônus da Prova no Processo Penal –
Prova de Direito, 63
3. Teoria Geral da Prova – Sistemas de Apreciação da
Prova – Sistema da Prova Legal ou Tarifado – Sistema
da Íntima Convicção do Juiz – Sistema do Livre
Convencimento Motivado, 63
4. Teoria Geral da Prova – Medidas Probatórias – Busca
Domiciliar – Exceções e Requisitos Específicos
do Mandado de Busca – Busca em Escritório de
Advocacia, 64
5. Momento da Busca Domiciliar – Exceção na Busca
Domiciliar – Executor do Mandado de Busca –
Resistência do Morador – Favorecimento Pessoal, 65
6. Exceção de Inviolabilidade do Domicílio –
Consentimento do Morador – Prestação de Socorro
ou Desastre – Teoria da Aparência – Hipótese de
Flagrante Delito, 65
7. Medidas Cautelares Probatórias – Prova Oral –
Medidas Cautelares de Ofício – Produção Antecipada
de Prova Oral – Alegação de Perda da Prova, 66
8. Quebra do Sigilo de Dados e Medidas Cautelares
Probatórias – Posição Jurisprudencial – Poder de
Requisição do MP e da Comissão Parlamentar de
Inquérito – Competência, 67
9. Medidas Cautelares Probatórias – Captação e
Interceptação Ambientais – Monitoramento e Espécies
de Captação – Determinação Jurisdicional – Provas
Objetivas de Concurso, 68
10. Medidas Cautelares Probatórias – Interceptação
Telefônica – Finalidade – Prova Emprestada a
Outros Processos – Entendimento Doutrinário e
Jurisprudencial, 69
11. Interceptação Telefônica, 69
12. Interceptação Telefônica – Legitimidade, 70
13. Interceptação Telefônica – Inutilização das Conversas
Telefônicas, 71
14. Garantia da Não Autoincriminação, 71
15. Inadmissibilidade das Provas Obtidas por Meios
Ilícitos, 73
16. Provas Irregulares Obtidas pelo Acusado em sua
Defesa, 73
17. Teoria dos Frutos da Árvore Envenenada, 74
18. Prova Testemunhal, 75
19. Prova Testemunhal – Atuação Oficiosa do Juiz, 76
20. Procedimento do Interrogatório, 77
21. Confissão, 78
22. Prova Pericial, 78

Capítulo 6. Procedimento, 80
1. Procedimentos – Parte I, 80
2. Procedimentos – Parte II, 81
3. Procedimentos – Parte III, 82
4. Procedimentos – Parte IV, 83
5. Citação, 84
6. Citação e Procedimento no Crime de Lavagem de
Dinheiro, 85
7. Citação com Hora Certa, 86
8. Defesa Preliminar, 87
9. Julgamento Antecipado do Mérito, 88
10. Rito Sumário, 89
11. Procedimento – Testemunhas e Prova Documental, 90
12. Procedimento – Alegações Finais e Art. 403 do CPP, 91
13. Procedimento – Sentença – Parte I, 92
14. Procedimento – Sentença – Parte II, 92
15. Procedimento – Emendatio Libelli, 93
16. Procedimento – Mutatio Libelli, 94
17. Procedimento – Sentença – Art. 385 – Verba
Indenizatória, 95
18. Procedimento – Procedimentos Especiais do CPP, 95
19. Crimes de Responsabilidade do Funcionário Público e
Repercussão da Lei nº 12.403/11, 96
20. Crimes contra a Honra, 97
21. Procedimentos – Crimes contra a Propriedade
Imaterial, 98
22. Procedimentos – Lei de Drogas, 99
23. Regras Procedimentais – Lei Maria da Penha, 101

Capítulo 7. Tribunal do Júri, 103


1. Tribunal do Júri – Princípios, 103
2. Princípios Constitucionais – Soberania dos Veredictos
– Revisão Criminal, 104
3. Princípios – Competência Material Mínima –
Ampliação de Competência, 105
4. Procedimento (Primeira Fase) – Juízo de
Admissibilidade – Admissibilidade da Tese
Acusatória, 106
5. Pronúncia – Requisitos da Pronúncia – Prisão
Preventiva – Recursos, 107
6. Tribunal do Júri – Impronúncia – Requisitos – Recurso
Previsto, 108
7. Absolvição Sumária – Hipótese e Recurso Previsto, 109
8. Decisão de Desclassificação, 110
9. Intimação da Decisão de Pronúncia – Extinção
do Libelo Acusatório – Manifestação das Partes –
Preclusão – Manifestação das Partes, 110
10. Despacho Saneador e a Mutabilidade da Pronúncia, 111
11. Desaforamento – Competência – Legitimidade –
Hipóteses, 112
12. Sorteio dos Jurados – Ausências – Recusas – Conselho
de Sentença, 113
13. Júri – Instrução – Ordem de Oitivas – Acareação – Uso
de Algemas, 114
14. Júri – Debates Orais – Ordem, Fases e Tempo dos
Debates, 116
15. Referências Não Permitidas – Exibição e Leitura de
Documentos – Indicação da Folha dos Autos – Apartes
e Esclarecimentos, 117
16. Tribunal do Júri – Quesitação – Fontes – Ordem de
Apresentação – Votação, 118
17. Tribunal do Júri – Sentença Condenatória e
Absolutória – Sentença Desclassificatória e
Publicação, 119

Capítulo 8. Questão Prejudicial, 121


1. Questões Prejudiciais – Solução de Controvérsia –
Suspensão do Processo, 121
2. Exceções – Exceção de Suspeição – Hipóteses –
Procedimento – Exceção de Incompetência, 122
3. Conflito de Jurisdição e Restituição de Coisas
Apreendidas, 123
4. Incidente de Falsidade e Incidente de Insanidade
Mental, 124
5. Medidas Assecuratórias – Sequestro – Arresto –
Hipoteca Legal, 124

Capítulo 9. Efeitos Civis, 126


1. Efeitos Cíveis de uma Condenação Penal – Sentença
Condenatória Transitada em Julgado – Sentença
Absolutória Transitada em Julgado, 126

Capítulo 10. Nulidades, 128


1. Conceito e Espécies de Nulidade – Consequência e
Refazimento, 128
2. Princípios da Nulidade – Princípio do Prejuízo e
Princípio da Instrumentalidade das Formas, 129
3. Princípios da Nulidade – Princípio da
Consequencialidade ou Causalidade – Princípio e
Forma de Convalidação, 130
4. Rol de Nulidades – Nulidade no Inquérito Policial
– Incompetência, Suspeição ou Suborno do Juiz –
Ilegitimidade das Partes, 131
5. Rol de Nulidades – Falta de Representação – Ausência
de Corpo de Delito – Ausência de Defesa Técnica –
Ausência de Citação do Réu, 132
6. Ausência de Interrogatório do Acusado
– Ausência de Concessão de Prazo – Ausência
de Intimação do Réu – Ausência de Testemunhas
Arroladas – Incomunicabilidade e Limite Mínimo de
Jurados, 133
7. Ausência de Quesitos e Sentença – Obrigatoriedade
da Presença da Acusação e Defesa – Obrigatoriedade
de Intimação – Obrigatoriedade de Recurso de Ofício
– Quórum para Julgamento, 134

Capítulo 11. Recursos, 136


1. Espécies de Meios de Impugnação – Espécies de
Recursos – Espécies de Ações, 136
2. Recursos – Duplo Grau de Jurisdição – Jurisdição
Superior e Inferior – Exceções, 137
3. Princípios Relativos aos Recursos – Taxatividade –
Inteireza dos Prazos – Princípio da
Unirrecorribilidade, 138
4. Princípios Relativos aos Recursos – Princípio da
Reformatio in Pejus – Reformatio in Pejus Direta e
Indireta, 139
5. Princípios Relativos aos Recursos
– Princípio da Fungibilidade – Princípio da
Irrecorribilidade das Decisões Interlocutórias – Princípio
da Disponibilidade – Princípio da Voluntariedade, 140
6. Recursos – Proibição da Reformatio in Pejus –
Reformatio in Pejus Direta – Reformatio in Pejus
Indireta, 141
7. Classificação dos Recursos – Recurso Ordinário –
Recurso Extraordinário – Efeito Devolutivo, 142
8. Recursos – Efeito Regressivo, Suspensivo e Extensivo –
Carta Testemunhável, 143
9. Pressupostos Recursais Genéricos e Específicos –
Cabimento – Adequação – Tempestividade, 144
10. Pressupostos Recursais Específicos – Objetivos e
Subjetivos – Sucumbência, 145
11. Juízo de Admissibilidade – Conceito – Competência –
Consequência – Juízo de Delibação, 146
12. RESE – Previsão Legal – Legitimidade – Prazo, 147
13. RESE – Não Recebimento da Denúncia –
Incompetência do Juízo, 148
14. RESE – Pronúncia – Conceder ou Negar Habeas
Corpus – Denegar Apelação ou Julgar Deserta, 149
15. Agravo em Execução – Execução Penal – Competência
– Previsão Legal – Hipóteses de Cabimento –
Legitimidade – Efeitos, 150
16. Apelação – Previsão Legal – Legitimidade – Prazo –
Apelação Supletiva, 151
17. Apelação – Impronúncia ou Absolvição Sumária –
JeCrim, 152
18. Apelação – Decisões do Tribunal do Júri, 152
19. Julgamento dos Recursos, 153
20. Embargos Infringentes e de Nulidade – Fundamento
Legal – Hipóteses de Cabimento – Prazo –
Legitimidade, 154
21. Embargos de Declaração – Fundamento Legal – Prazo
– Cabimento – Legitimidade, 155
22. Protesto por Novo Júri – Efeitos da Revogação –
Fundamento Legal – Consequências – Revogação –
Efeito Intertemporal, 155
23. Recursos aos Tribunais Superiores – Recurso
Ordinário Constitucional – Recurso Especial – Recurso
Extraordinário – Fundamentos Legais – Hipóteses de
Cabimento – Prazos, 156

Capítulo 12. Ações de Impugnação, 158


1. Mandado de Segurança – Hipóteses de Cabimento –
Mandado de Segurança no Processo Penal, 158
2. Revisão Criminal – Pressuposto – Previsão Legal –
Legitimidade – Representação – Prazo, 159
3. Revisão Criminal – Hipóteses de Cabimento – Previsão
Legal – Prova Nova – Prova Falsa – Justificação
Criminal – Competência, 160
4. Revisão Criminal – Competência – Indenização –
Recursos – Rescisão de Decisão de Jurados, 160
5. Meios de Impugnação de Decisão Judicial – Habeas
Corpus – Previsão Legal – Espécies – Sujeitos, 161
6. Habeas Corpus – Competência – Hipóteses de
Cabimento, 162
7. Habeas Corpus – Pedido de Liminar – Requisitos –
Cabimento – Interposição de Recursos, 163

Gabarito, 167
Capítulo 1
Inquérito Policial

1. Conceito de Inquérito Policial – Características


– Dispensabilidade – Direito de Ação –
Oficiosidade – Juizado Especial Criminal –
Entendimento Jurisprudencial

Vamos iniciar, nesta Unidade, o estudo sobre Inquérito Policial (IP).


Inquérito policial é um procedimento administrativo de cunho inquisitório presi-
dido pela autoridade policial privativamente, que tem por função carrear justa cau-
sa para a deflagração da ação penal. Este conceito provém do art. 144, § 4º, da CF.
Temos, como característica do IP, a dispensabilidade: quando o MP já dispõe
de justa causa – indícios suficientes de autoria e prova da materialidade delitiva –
poderá dispensar o IP e oferecer a denúncia. Esta característica vem prevista nos
arts. 12, 27 e 46, § 1º, do CPP.
Quando o IP servir de base para a denúncia ou queixa, deverá acompanhar
estas peças.
O que se dispensa, por esta característica, é a instauração do IP, e somente
pode proceder esta dispensa o titular da ação penal (autoridade policial não).
O direito de ação é abstrato: as eventuais nulidades verificadas no inquérito
não contaminam o processo. Mas a doutrina entende que se o IP é embasado
unicamente numa interceptação telefônica clandestina, a ação penal estará ma-
culada, pois não se pode oferecer denúncia embasada numa prova ilícita.
Outra característica do IP é a chamada oficiosidade: a partir do momento que
se toma ciência do crime, por qualquer que seja o meio, a autoridade policial
instaura o IP de ofício (art. 5º, I, do CPP).
A notitia criminis pode ser por cognição direta (delatio criminis – a própria
autoridade policial toma ciência de um crime), indireta (envolve uma delação: a
16 Direito Processual Penal

autoridade policial toma ciência do crime através de terceiros) ou coercitiva (fla-


grante delito – a autoridade policial obrigatoriamente irá instaurar o IP quando da
lavratura do auto de prisão em flagrante).
A instauração de IP, portanto, pode ser feita por portaria ou através do auto
de prisão em flagrante. No JecCrim, não temos a instauração de IP, mas sim do
chamado Termo Circunstanciado (TC), que é um IP reduzido. Vem regido pelo art.
69, parágrafo único, da Lei nº 9.099/95.
Com base em denúncia anônima, entendem o STJ e o STF que não é possível
a instauração imediata do IP. É preciso que haja uma verificação, antes, da proce-
dência das informações, por meio da realização de diligências preliminares.

2. Característica da Oficiosidade na Instauração


do Inquérito Policial – Exceções

Pelo princípio da oficiosidade, a autoridade policial deverá instaurar o inquérito


quando toma conhecimento da infração, conforme já vimos. Contudo, há exce-
ções: em alguns casos a lei impõe que a autoridade policial só deverá instaurar o
IP quando houver “autorização” da parte ofendida.
Assim, a oficiosidade não é característica absoluta do IP, mas é a regra. Isto,
porque, em regra, os crimes no Brasil são de ação pública incondicionada, e nes-
tes, a instauração do IP deve ocorrer de ofício.
As exceções são os crimes de ação penal pública condicionada à represen-
tação da vítima ou à requisição do Ministro da Justiça. Nestes, não havendo a
representação ou a requisição, que são condições de procedibilidade, o IP não
poderá ser instaurado.
O prazo para a representação é decadencial de seis meses, contados do co-
nhecimento da autoria do crime. Não exercido o direito de representação, estará
extinta a punibilidade do agente.
Outra exceção à característica da oficiosidade são os crimes de ação penal
privada. Nestes, a autoridade somente pode instaurar o IP a requerimento de quem
tenha qualidade para intentar a ação, ou seja, a vítima, ou cônjuge, companheiro,
ascendente, descendente ou irmão. Nestes casos, este requerimento tem força de
autorização para que haja a instauração do IP ou do termo circunstanciado.
A representação de vítima ou de outra pessoa não faz com que, automatica-
mente, se deva instaurar o IP. A autoridade policial deve fazer uma análise prelimi-
nar para saber se o fato que chegou a seu conhecimento é realmente verdadeiro.
Poderá, portanto, não instaurar o IP ou o termo, ainda que receba a autorização.
Direito Processual Penal 17

O juiz ou o MP podem determinar a instauração de IP:


a) requisição do MP: neste caso, trata-se de uma ordem, e, em regra, a auto-
ridade policial deve instaurar o IP requisitado pelo MP;
b) requisição do juiz: ocorrerá quando, em autos ou papéis, o juiz tomar co-
nhecimento da ocorrência de um crime.

3. Inquisitoriedade do Inquérito Policial –


Processo Judicial – Elementos Essenciais
– Contraditório e Ampla Defesa – Prova
Indiciária
Seguindo no estudo do IP, verificaremos agora a inquisitoriedade. Trata-se de mais
uma característica do inquérito, pois se trata de um procedimento unilateral: uma
parte (o Estado, por intermédio da Polícia) investiga, e a outra parte está sendo
investigada. Sempre que existir um crime haverá a necessidade do Estado reprimir
essa infração penal.
O IP, portanto, não pode tramitar em estrita observância ao contraditório e à
ampla defesa. Estes princípios são essenciais para o processo, mas, ao menos o
contraditório, não vige no IP, pois não há acusação formal. No que tange à ampla
defesa, ela pode ocorrer no IP (exemplo: direito de silêncio do “acusado” durante
sua oitiva).
No art. 14 do CPP temos um exemplo desta inquisitoriedade do IP: “O ofen-
dido, ou seu representante legal, e o indiciado poderão requerer qualquer dili-
gência, que será realizada, ou não, a juízo da autoridade.” Mas, lembre-se, este
artigo não pode ser interpretado de maneira absoluta: nas infrações penais que
deixam vestígio, a autoridade policial não pode negar o pedido de realização de
exame de corpo de delito.
O IP não é um processo judicial, e sim um procedimento. A falta, durante o
processo, de contraditório e ampla defesa, gera nulidade do feito. Mas a falta
destas garantias no IP não gera nulidade alguma.
No IP, não se fala em provas, que são colhidas em juízo. As peças colhidas no
IP, portanto, deverão ser ratificadas em juízo. Essas peças ou indícios não podem,
por si só, levar a uma condenação sem que haja a devida ratificação. Mas veja:
prova indiciária não é indício. Prova indiciária é a prova indireta, ou seja, aquilo a
que se chega por indução.
O indício pode levar ao oferecimento da denúncia e à prisão preventiva (se for
suficiente), mas nunca a uma condenação.
18 Direito Processual Penal

O IP, assim, jamais poderá ser a ratio decidendi de uma condenação criminal
(art. 155 do CPP).

4. Características do Inquérito Policial – Sigilo –


Finalidade do Sigilo – Direito do Advogado e
do Indiciado Preso

Nesta unidade, verificaremos mais uma característica do Inquérito Policial, qual


seja, o sigilo. O art. 20 do CPP estabelece:
“A autoridade assegurará no inquérito o sigilo necessário à elucidação do fato
ou exigido pelo interesse da sociedade.”
Durante o IP, como já vimos, não vige o contraditório. Ademais, o IP não
tem um fim em si mesmo: ele se destina ao titular da ação penal (destinatário
imediato) e ao magistrado (destinatário mediato).
Por se tratar de investigação, o inquérito é sigiloso. Esta investigação pode, in-
clusive, não gerar elementos para que se aponte o investigado como provável autor
do fato. A publicidade da investigação obviamente prejudicará o fim do inquérito.
O IP é tão sigiloso que o próprio CPP, no parágrafo único do citado art. 20,
estabelece que:
“Nos atestados de antecedentes que lhe forem solicitados, a autoridade po-
licial não poderá mencionar quaisquer anotações referentes à instauração de in-
quérito contra os requerentes.”
O sigilo é consequência da própria inquisitoriedade do IP. E, com ele, busca-se
a eficiência das investigações bem como a preservação da imagem do investigado.
O sigilo pode ser dividido em duas formas:
a) sigilo externo (relativo ao público em geral), que é absoluto, e sua violação
gera ilegalidade;
b) sigilo interno (relativo às pessoas que participam da investigação ou a quem
este será destinado), que não é absoluto, pois poderão ter acesso ao IP o juiz, o
membro do Ministério Público e o advogado do investigado, ainda que não tenha
procuração (art. 7º, XIV, do EOAB).
Observe que os advogados não terão acesso às diligências que estão em cur-
so, mas somente às finalizadas. Só terão acesso, portanto, àquilo que já está
materializado nos autos do IP (Súmula Vinculante nº 14). Observe, ainda, que
o membro do MP que participar das diligências do IP não estará impedido nem
suspeito de oferecer a denúncia no caso (Súmula nº 234 do STJ).
Direito Processual Penal 19

5. Indisponibilidade do Inquérito Policial –


Determinação do Arquivamento do Inquérito
Policial – Indiciamento e Desindiciamento
O IP é um procedimento meio, ou seja, servirá a alguém, pois não possui um fim
em si mesmo.
Uma vez instaurado o IP, a autoridade policial não poderá arquivá-lo. Portan-
to, para a autoridade policial, o IP é um procedimento indisponível. Assim, se a
autoridade policial perceber que é caso de arquivamento (por exemplo, extinção
da punibilidade), não poderá, ela mesma, proceder a este arquivamento: deverá
relatá-lo e enviar aos seus destinatários.
Não há exceção a esta regra: a autoridade policial nunca poderá dispor do IP.
É o determinado no art. 17 do CPP.
O arquivamento do IP deve partir de requerimento do MP e decisão do juiz.
Somente o magistrado poderá determinar o arquivamento, e desde que haja
requerimento do MP (porque o juiz não pode fazer esta determinação de ofício).
A autoridade policial pode, por outro lado, indiciar o indivíduo. Indiciamento
é a formalização da imputação feita pela autoridade policial contra determinada
pessoa. Não há, no CPP, previsão expressa do indiciamento. Este instituto nasce
de uma interpretação que a doutrina desenvolveu a partir do art. 6º, V, do CPP.
Observe que com a entrada em vigor da Lei nº 12.830/13, que trata da in-
vestigação criminal conduzida pelo delegado de polícia, este é a pessoa com atri-
buição para determinar o indiciamento do indivíduo. Assim, o indiciamento é ato
privativo do delegado de polícia, e deve ser sempre fundamentado (deverão estar
identificadas a autoria, a materialidade e as circunstâncias do crime).
O indiciamento não leva automaticamente à denúncia. O juízo de indiciamen-
to é da autoridade policial, o de oferecimento da denúncia é do MP.
Ainda, durante a investigação, o delegado pode promover o chamado desin-
diciamento: é o ato pelo qual entende que o agente não se mostra mais como
provável autor do crime que se está investigando.

6. Prazo para Término do Inquérito Policial


– Exceções – Prazo para Oferecimento da
Denúncia
Analisaremos, nesta unidade, os prazos para a conclusão dos inquéritos policiais
e para o oferecimento da denúncia.
20 Direito Processual Penal

Já vimos que o IP é um procedimento inquisitivo e sigiloso, unilateral e no


qual não vige o contraditório. Mas este procedimento não pode ficar em curso
por tempo indeterminado, sem que outras autoridades tenham ciência do que
acontece na investigação.
Em regra, temos o seguinte prazo (art. 10 do CPP):
– investigado preso: 10 dias, improrrogáveis (após este prazo, a prisão se
torna ilegal e deve ser imediatamente relaxada);
– investigado solto: 30 dias, prorrogáveis por outros períodos, não
necessariamente de 30 dias, a depender da necessidade do caso, desde
que não incida a prescrição.
No quadro abaixo, temos as exceções:
Investigado Investigado
Lei Observações
preso solto
Drogas 30 dias 90 dias Os prazos podem
Lei nº 11.343/06 ser duplicados, des-
(crime de tráfico) de que haja requeri-
mento do MP e au-
torização do juiz
Lei nº 5.010/66 15 dias, que 30 dias, prorro-
IP que tramita pode ser prorro- gável por vários
perante a polícia gado por mais períodos
federal 15 dias
Observe que para o tráfico internacional, embora tramite pela justiça federal,
aplica-se a regra da Lei de Drogas.
Entendendo o MP que é o caso de oferecimento da denúncia, a regra é que
para o investigado preso, o prazo será de cinco dias, e 15 dias se o investigado
estiver solto.
Na Lei de Drogas, o prazo para oferecimento da denúncia é de 10 dias, inde-
pendentemente de o investigado estar preso ou solto.

7. Arquivamento do Inquérito Policial


– Natureza Jurídica e Procedimento –
Arquivamento Implícito e Explícito – Direto e
Indireto – Objeto do Arquivamento
O arquivamento gera o encerramento de um procedimento de jurisdição volun-
tária. É sempre determinado pelo juiz, mas o magistrado só poderá determinar o
Direito Processual Penal 21

arquivamento se houver requerimento do MP. Por isso diz-se que o juiz não defere
o arquivamento, mas sim homologa.
Se o juiz discordar do requerimento de arquivamento feito pelo MP, os autos
subirão para o Procurador-Geral. A decisão dele deve ser acatada pelo juiz. É o
disposto no art. 28 do CPP.
O arquivamento não é um ato jurisdicional: é ato apenas judicial, pois tem
conteúdo administrativo complexo (pois concorrem para o ato dois órgãos, o MP
e o juiz).
Quanto ao objeto do arquivamento, este pode ser objetivo e/ou subjetivo. O
arquivamento objetivo recai sobre os crimes que estiverem sendo investigados,
sobre as qualificadoras e sobre as causas de aumento de pena. O arquivamento
subjetivo recai sobre as pessoas que estão sendo investigadas.
De acordo com a doutrina, o arquivamento pode ser classificado como implí-
cito e explícito. Os tribunais superiores só reconhecem o arquivamento explícito,
que é o promovido expressamente pelo MP e homologado pelo juízo. O arqui-
vamento implícito decorreria da inércia do MP: imagine que haja a investigação
sobre vários fatos ou várias pessoas, mas, ao oferecer a denúncia, o promotor não
se pronuncia com relação a determinados fatos ou determinadas pessoas. Sobre
estes fatos ou pessoas não tratadas na denúncia, teria ocorrido o arquivamento
implícito.
Também não é reconhecido pela jurisprudência o chamado arquivamento in-
direto, que ocorre quando o MP não oferece a denúncia por entender que não
tem atribuição para tanto.
Finalmente, arquivamento reflexo seria o arquivamento implícito indireto do
inquérito policial.

8. Arquivamento no Âmbito Federal


– Irretratabilidade da Promoção do
Arquivamento – Promoção do Arquivamento
e Desarquivamento do Inquérito

Seguindo no estudo do inquérito policial, temos que no âmbito do MPF, quem


se manifesta sobre o arquivamento é a Câmara de Coordenação e Revisão do
Ministério Público Federal. O parecer desta câmara estará sujeito ao aval do Pro-
curador-Geral da República.
Observe: não se trata de atribuição originária do PGR, mas apenas de sujeição
do parecer da Câmara ao seu aval.
22 Direito Processual Penal

No que tange às atribuições originárias de um procurador-geral (de Justiça ou


da República), se este membro promover o arquivamento, não terá como se apli-
car o art. 28 do CPP, ou seja, o judiciário nunca poderá discordar da manifestação
do procurador-geral.
Importante ainda verificarmos que o Ministério Público é uno e indivisível (art.
127, § 1º, da CF). Assim sendo, a promoção do arquivamento apresenta viés
conclusivo, e, assim, não pode outro membro do MP se retratar da promoção de
arquivamento. O procedimento é estável, e esta é a posição do STF a respeito: é
irretratável a promoção de arquivamento.
Não estamos tratando, aqui, de desarquivamento, pois este pode acontecer
quando surgirem novos elementos, de acordo com a Súmula nº 524 do STF: o IP,
uma vez arquivado, pode ser desarquivado, quando surgirem novas provas. O art.
18 do CPP também é no mesmo sentido.
O desarquivamento é um minus, uma etapa abaixo da ação penal. Desarqui-
vam-se os autos do IP com base em notícias e novas provas para então apurar se
de fato há fatos ou provas novas. Surgindo, efetivamente, essas novas provas, a
denúncia poderá ser oferecida.
Observe que há decisões que determinam o arquivamento do IP que fazem
coisa julgada material, e, nestes casos, não poderá haver o desarquivamento. São
situações excepcionais: arquivamento com base na atipicidade da conduta ou a
extinção da punibilidade do agente.
Capítulo 2
Ação Penal

1. Conceito e Classificação das Ações Penais


– Espécies de Ação Penal – Princípio da
Titularidade da Ação Penal Pública

A ação penal pode ser conceituada como um direito público subjetivo de se exigir
do Estado uma prestação jurisdicional que venha a compor aquele conflito de
interesses gerado pelo cometimento de uma infração penal.
Importante ressaltar que a ação penal não tem apenas a titularidade pública,
podendo esta ser também privada. Toda ação penal é de interesse público, o que
muda é a iniciativa.
A ação penal de iniciativa pública é dividida em duas espécies: incondicionada
e condicionada. Por sua vez, existe a chamada ação penal privada, que é dividida
em três espécies: exclusiva, personalíssima e subsidiária da pública.
A ação penal secundária ocorre quando crimes que, em regra, são de ação pe-
nal de iniciativa privada, excepcionalmente, fazem com que a ação penal torne-se
pública.
Existe, ainda, a ação penal popular. Isso por que, nos crimes de responsabilidade,
qualquer pessoa do povo pode oferecer “denúncia” ao Congresso Nacional.
Ademais, existe a chamada ação penal adesiva. A doutrina não chega a um
conceito uniforme e alguns doutrinadores concluem que se trata de uma ação
penal de iniciativa privada, conexa ou continente à ação penal pública. Ambas
seriam processadas e julgadas conjuntamente, por força do art. 79 do CPP.
Por fim, é importante observar o princípio da titularidade. Isso porque, por for-
ça do art. 129, I, da Constituição Federal, o Ministério Público é o titular privativo
da ação penal pública.
24 Direito Processual Penal

2. Princípio da Titularidade e Súmula nº 714 do


STF – Legitimação Concorrente – Princípio da
Intranscendência – Responsabilidade Penal
O art. 145 do CP dispõe que, em regra, os crimes contra a honra são se iniciativa
privada, havendo algumas exceções. O parágrafo único do referido artigo esta-
belece que nos crimes contra a honra de funcionário público em razão de suas
funções, a ação penal pública será condicionada à representação.
Cumpre esclarecer que a Súmula nº 714 do STF mitiga o princípio da titu-
laridade. Esta Súmula inova, admitindo que, em se tratando de crime contra a
honra de funcionário público em razão de suas funções, possa ter de maneira
concorrente queixa-crime do ofendido ou denúncia, sendo ação penal pública
condicionada à representação.
Ainda, o princípio da intranscendência está ligado à responsabilidade penal,
pois a pena não pode ultrapassar a pessoa do autor do fato, a pessoa do infrator.
Assim, não podendo a pena ultrapassar a pessoa do autor do fato, a ação penal
também não pode passar daquele que, de alguma maneira, contribuiu para a
prática do crime como autor ou partícipe.
Neste sentido, observa-se que o acusado, no processo penal, atuará sempre
com legitimidade passiva ad causam ordinária.
Insta salientar que no Brasil, em crimes ambientais que envolvam pessoa jurídica,
deve haver o oferecimento da denúncia contra a pessoa física e também jurídica.

3. Princípio da Intranscendência da Ação Penal


– Princípio da Obrigatoriedade da Ação
Penal Pública – Relativização do Princípio da
Legalidade – Transação Penal
A legitimidade passiva ad causam no processo penal é ordinária. Desta forma, não
se pode demandar alguém por fato ilícito praticado por terceiro, sendo a única
hipótese a situação que envolve pessoa jurídica, nos casos de crimes ambientais.
É necessário observar, entretanto, que existe um posicionamento garantista
na doutrina que não admite responsabilidade penal da pessoa jurídica.
O princípio da obrigatoriedade da ação penal pública, também chamado de
princípio da legalidade, tem previsão infraconstitucional e estabelece que o Mi-
nistério Público, se entender que estão presentes indícios de autoria e prova da
existência do crime, está obrigado a oferecer a denúncia.
Direito Processual Penal 25

O princípio da obrigatoriedade da ação penal pública sofre exceção. Isso, por-


que há hipóteses de infrações penais de menor potencial ofensivo em que o indi-
víduo, suposto autor da infração, preenchendo os requisitos legais, terá direito a
receber uma proposta de transação penal (art. 76 da Lei nº 9.099/95).

4. Princípio da Indisponibilidade da Ação Penal


Pública – Representação – Transação Penal –
Mitigação do Princípio da Indivisibilidade da
Ação Penal Pública
O princípio da indisponibilidade estabelece que após o oferecimento da denúncia,
o Ministério Público não pode dela desistir, não pode dela dispor (art. 42 do CPP).
Referido princípio não é absoluto, sofrendo mitigação. Nos crimes que possuem
pena mínima em abstrato de até um ano, desde que o indivíduo preencha requi-
sitos legais, haverá o direito da proposta de suspensão condicional do processo.
Outra possibilidade de exceção é encontrada na Lei nº 11.340/06, já que seu
art. 16 dispõe que o juiz poderá designar audiência especial, em que a vítima
pode se retratar da representação até o recebimento da denúncia.
Ainda, o princípio da indivisibilidade deve ser observado. No entanto, para o
STF, a divisibilidade se dá em relação a uma ação em que, por exemplo, haja cinco
indiciados e somente dois seriam indiciados por haver justa causa.
Nota-se que o princípio acima mencionado traz que a ação penal pública
deve abranger todos aqueles contra os quais estejam presentes as condições para
o regular exercício do direito de ação. Ademais, a representação contra um dos
autores do fato abrangerá todos os demais autores e partícipes daquele fato.
Por fim, em caso de crime de menor potencial ofensivo, quando há o institu-
to da transação e um dos indivíduos investigado pela prática do crime aceita a
transação penal e o outro não, haverá mitigação ao princípio da indivisibilidade
da ação penal pública.

5. Natureza Jurídica da Representação


– Representação e Queixa-Crime –
Irretratabilidade da Representação
A natureza jurídica da representação é associada à condição de procedibilida-
de, pois sem ela o Ministério Público não pode oferecer a denúncia. Pode-se
26 Direito Processual Penal

afirmar que a representação possui o caráter de autorização, ou seja, ela auto-


riza o membro do MP a oferecer a denúncia.
Vale destacar que a representação feita pela vítima ou por seu representante
legal, não vincula o membro do MP para o oferecimento da denúncia.
O Ministério Público só estaria obrigado a oferecer a denúncia se houvesse
indício de autoria e prova da materialidade.
O prazo para representação no Brasil é de seis meses contados do conheci-
mento da autoria delitiva, sendo que jamais se deve transformar o referido prazo
em dias; o prazo aqui é de natureza de direito material.
Dessa forma, nos termos do art. 10 do CP, conta-se o primeiro dia do prazo,
excluindo o último dia do prazo.
Na ação penal condicionada a representação o prazo não se interrompe e
nem se suspende, tramitando de maneira reta, sem percalços. O crime será de
ação pública condicionada quando estiver previsto expressamente em lei.
A legitimidade para representar ou para oferecer a queixa-crime é da vítima
ou do seu responsável legal. No caso de morte ou declaração de ausência da
vítima, esse direito de representação passará para o cônjuge, ascendente, des-
cendente ou irmão.
A representação pode ser endereçada à Autoridade Policial, ao Ministério
Público, ao Magistrado; destaca-se que esta representação poderá ser feita por
procurador com poderes especiais.
Segundo a doutrina, pode haver a retratação da retratação, desde que ocorra
antes do oferecimento da denúncia, o que indica o oferecimento de nova repre-
sentação e, nesta hipótese, não haverá interrupção do prazo decadencial (art. 25
do CPP e art. 102 do CP).

6. Requisição do Ministério da Justiça –


Condição Especial de Procedibilidade –
Desclassificação do Crime de Ação Penal
Pública para Ação Penal de Iniciativa Privada
Na ação penal pública condicionada a requisição é do Ministro da Justiça, o qual
deverá requisitar para que haja a possibilidade do oferecimento da denúncia; isso
ocorre apenas em alguns crimes.
A natureza jurídica da requisição do Ministro da Justiça é de condição de pro-
cedibilidade da ação, isso significa que é condição especial da ação, sem a qual o
Ministério Público não poderá oferecer a denúncia.
Direito Processual Penal 27

Teremos a requisição do Ministro da Justiça nos crimes contra a honra pratica-


dos contra o Presidente da República ou Chefe de Governo estrangeiro, e crimes
praticados por estrangeiro contra brasileiro fora do território nacional.
A requisição do Ministro da Justiça não vincula o membro do Ministério Pú-
blico ao oferecimento da denúncia, visto que o MP é um órgão independente e
titular privativo da ação. Nesse sentido, a requisição nada mais é que uma autori-
zação política, para que o fato seja apurado e sem qualquer vinculação.
Mesmo se o Ministro da Justiça requisitou ao MP, este poderá promover o
arquivamento das peças de informação e da própria requisição. Pode ainda o MP
poderá dar capitulação jurídica diversa da requisição dada pelo Ministro da Justiça
quando da requisição.
O prazo para a requisição do Ministro da Justiça não está previsto em lei. As-
sim, para a doutrina, a requisição do Ministro da Justiça deve respeitar o prazo de
prescrição do crime, o que pressupõe que seja um ato refletido, não comprome-
tendo a credibilidade do governo brasileiro no plano interno e externo.
Outro ponto a ser tratado é sobre a desclassificação do crime de ação penal
pública para ação penal de iniciativa privada, pois a doutrina considera o teor da
Súmula nº 714 do STF inconstitucional. Esse entendimento se dá porque ela é apli-
cada nos crimes contra a honra praticados contra funcionário público em razão de
suas funções e considera a legitimidade do MP para o oferecimento da ação e legiti-
midade da própria vítima, ou seja, a súmula propõe uma legitimidade concorrente.

7. Princípios da Ação Penal de Iniciativa Privada


– Oportunidade/Conveniência – Princípio
da Disponibilidade – Concessão de Perdão –
Hipóteses de Perempção da Ação Penal

O princípio da oportunidade, também chamado de princípio da conveniência,


considera que a ação penal de iniciativa privada é um direito público subjetivo,
sendo que a ação penal de iniciativa privada, não obriga o ofendido a oferecer a
queixa-crime.
Dessa forma, o legislador brasileiro transferiu a titularidade do oferecimento
da queixa-crime para a vítima, por entender que, em alguns casos, o crime alcan-
ça uma esfera interna e muito pessoal, que pode se tornar a ação penal desgas-
tante demais para o ofendido.
A renúncia ao direito de queixa pode ser tácita (prática de ato incompatível
com o interesse de oferecer a queixa) ou expressa (declarada, inequívoca ou dita).
28 Direito Processual Penal

Importa destacar que a renúncia é unilateral, ou seja, independe de aceitação


da outra parte, enquanto o perdão é ato bilateral.
A renúncia extingue a punibilidade, distintamente do perdão, que deve ser
aceito pelo potencial querelado.
Pelo princípio da disponibilidade, na ação penal de iniciativa privada, mesmo
após o oferecimento da queixa-crime, o titular da ação penal (vítima ou querela-
do) pode dela dispor através do instituto do perdão.
O perdão poderá ser expresso ou tácito, por exemplo, o querelante após o
oferecimento da queixa-crime se casa com o querelado, sendo essa prática um
ato de incompatibilidade, que recai no perdão tácito.
Nos termos do art. 58 do CPP, concedido o perdão, mediante declaração ex-
pressa nos autos, o querelado será intimado a se manifestar no prazo de três dias.
O silêncio implica em aceitação tácita. Com o aceite do perdão, o juiz julgará
extinta a punibilidade.
O princípio da disponibilidade da ação penal de iniciativa privada também se
materializa com a perempção, que é causa extintiva da punibilidade embasada na
inércia do querelante.
O art. 60 do CPP define o instituto da perempção nas hipóteses em que, ini-
ciada a ação penal, o querelante deixar de promover o andamento do processo
durante 30 dias seguidos. Ou ainda, nos casos em que falecendo o querelante,
ou sobrevindo sua incapacidade, não comparecer em juízo, para prosseguir no
processo, dentro do prazo de 60 dias, as pessoas a quem couber fazê-lo.

8. Princípios da Ação Penal de Iniciativa Privada


– Matéria Controversa – Oportunidade de
Reconciliação – Audiência de Conciliação –
Posicionamento Jurisprudencial – Princípio da
Indivisibilidade

O art. 60 do CPP informa que haverá perempção quando o querelante deixar de


comparecer, sem motivo justificado, a qualquer ato do processo a que deva estar
presente, ou deixar de formular o pedido de condenação nas alegações finais.
Isto porque, se o querelante, injustificadamente, não comparecer em um ato no
qual deveria estar presente haverá um descaso em relação à demanda.
O art. 520 do CPP traz um rito especial para os crimes de calúnia, difamação e
injúria, hipótese em que as partes serão ouvidas sem a presença dos advogados. Essa
Direito Processual Penal 29

matéria é controvertida, visto que os crimes de menor potencial ofensivo são regidos
pela Lei nº 9.099/95, mas à luz do art. 520 do CPP, a previsão do rito é diferenciada.
Assim, o crime de calúnia praticado com aumento de pena terá pena máxima
de dois anos e contará com causa de aumento de 1/3, nos termos do art. 520 do
CPP, não sendo aplicável o rito previsto na Lei nº 9099/95.
Se o querelado (autor) não comparecer na audiência injustificadamente, a
conciliação restará frustrada. Já se o querelante faltar na audiência e justificou,
não haverá consequências (incidência da perempção), porém, se não houver jus-
tificativa, há uma divergência doutrinária. A primeira corrente mais tradicional
entende que o ato é obrigatório do processo, e se o querelante não comparece,
incide a perempção.
Já a segunda visão da doutrina não considera obrigatória a conciliação, por-
tanto, a ausência injustificada não seria motivo para caracterizar a perempção.
O STJ se posicionou sobre o referido tema e considerou alguns precedentes
para aplicação da perempção do art. 60, III, do CPP. Já para outros precedentes o
STJ entendeu ser a perempção inaplicável.
Pelo princípio da indivisibilidade da ação penal de iniciativa privada, entende-
-se que o ofendido deverá ofertar a queixa-crime em face de todos os autores e
partícipes daquela infração penal. Deste modo, não caberá ao ofendido escolher
contra quem irá litigar, sendo a indivisibilidade subjetiva.
O art. 48 do CPP estabelece que o Ministério Público deverá zelar pela indivi-
sibilidade da queixa-crime.

9. Espécies de Ação Penal de Iniciativa


Privada – Ação Penal Exclusiva – Ação
Penal Personalíssima – Ação Penal Privada
Subsidiária da Pública

Há três espécies de ação penal de iniciativa privada: exclusiva ou principal, perso-


nalíssima, e subsidiária da pública.
A ação penal privada exclusiva fica a cargo do ofendido, possuindo a vítima
uma legitimação extraordinária. Isso, porque o crime, no Brasil, é matéria de in-
teresse público e, portanto, quem ordinariamente oferece a ação é o Ministério
Público.
Na ação penal privada exclusiva, quem oferece a ação é a vítima ou, caso
esta não tenha condições, seu representante legal. Em caso de morte da vítima
30 Direito Processual Penal

ou caso esta seja declarada ausente, poderá oferecer a queixa-crime o cônjuge,


ascendente, descendente, companheiro ou irmão.
Já a ação penal privada personalíssima recebe este nome pois somente a ví-
tima ou o ofendido podem oferecer a petição inicial. Aqui não existe a figura do
representante legal, nem do cônjuge, ascendente, descendente, companheiro ou
irmão, ou seja, no caso de morte ou declaração de ausência do ofendido, o direi-
to de queixa não se transmite.
Atualmente, existe somente uma hipótese de ação penal privada personalíssi-
ma, qual seja, a do art. 236 do CP (induzimento a erro essencial, ou ocultação de
impedimento para o casamento que não seja casamento anterior).
Cumpre observar que um pressuposto para o oferecimento da queixa-crime
na ação penal privada personalíssima é que haja o trânsito em julgado da senten-
ça anulatória do casamento no juízo cível.
A ação penal privada subsidiária da pública tem previsão constitucional, bem
como previsão legal, nascendo com a inércia do Ministério Público. Trata-se de
um controle externo da atuação do Ministério Público, tendo a vítima legitimação
extraordinária, já que atua em nome próprio, mas no exercício do direito de punir
do Estado.
Finalmente, insta esclarecer que a vítima aqui não é um substituto processual,
uma vez que a legitimação extraordinária não exclui a legitimação ordinária do
Ministério Público.

10. Requisitos para Oferecimento da Denúncia


ou Queixa-Crime – Prazos – Qualificação das
Partes – Classificação Preliminar do Crime

Em regra, o MP tem prazo de 5 dias para oferecer a denúncia estando o indivíduo


preso, e 15 dias estando o indivíduo solto. Trata-se de prazos impróprios, já que
o não oferecimento não gera a perda do direito. O prazo para o oferecimento de
queixa-crime, por sua vez, é de seis meses.
Importante destacar que a base das ações penais, no que diz respeito aos
requisitos, é encontrada no art. 41 do CPP.
Referido dispositivo estabelece que a denúncia ou queixa-crime conterá:
1. A exposição do fato criminoso com todas as suas circunstâncias;
2. A qualificação do acusado;
3. A classificação do crime.
Direito Processual Penal 31

Caso não seja narrado o fato criminoso com todas as suas circunstâncias, é
possível que se esteja diante de uma denúncia ou queixa genérica, o que importa
um prejuízo grave para a defesa. Desta forma, uma denúncia ou queixa-crime
genérica, segundo entendimento doutrinário e jurisprudencial, deve ser rejeitada
liminarmente.
Em relação à qualificação do acusado, é preciso que este requisito seja respei-
tado para que haja individualização do sujeito.
Ademais, a classificação do crime é uma classificação preliminar, porém, é de
suma importância, já que a depender desta classificação preliminar, é possível
observar até mesmo a competência. Ainda, esta classificação pode delimitar be-
nefícios penais aplicados ou não àquele acusado.
Por fim, é necessário destacar que o não oferecimento do rol de testemunhas
quando do oferecimento da denúncia ou da queixa-crime importa em preclusão
da prova testemunhal.

11. Denúncia e Queixa-Crime – Requisitos


Específicos – Prazos – Aditamento

A queixa-crime, além dos requisitos já estudados, possui outros aspectos mais


específicos.
No oferecimento da queixa-crime, é obrigatório que haja a chamada procu-
ração específica ou procuração com poderes especiais (art. 44 do CPP) e nesta
procuração deve haver uma breve narrativa dos fatos.
Em regra, deve haver o recolhimento das custas processuais. No entanto, não
serão recolhidas estas custas nos casos em que a vítima demonstrar que não pos-
sui condições financeiras para o recolhimento.
Ademais, a queixa-crime sempre possui prazo decadencial, enquanto o prazo
atribuído à denúncia é um prazo impróprio.
Vale lembrar que é possível haver o aditamento da queixa-crime e até mesmo
da denúncia. Aditamento seria um “alargamento” da imputação delitiva. Exem-
plo: são incluídos novos réus.
Nota-se, portanto, que o aditamento possui natureza jurídica acionária.
Da decisão que não recebe um aditamento, caberá recurso em sentido estrito,
nos termos do art. 581, I, do CPP. Caso o aditamento não seja recebido, o proces-
so continuará, por força do art. 384, § 5º, do CPP.
Quanto ao objeto, o aditamento pode ser dividido de duas formas, podendo
o aditamento ser objetivo ou subjetivo. O aditamento objetivo tem como escopo
32 Direito Processual Penal

incluir novos crimes, qualificadoras e causa de aumento de pena. Já o aditamento


subjetivo tem como finalidade incluir novos denunciados.
Quanto à iniciativa, o aditamento poderá ser espontâneo ou provocado. O
aditamento espontâneo se dá quando o próprio Ministério Público ou quere-
lante, espontaneamente, adita para incluir um novo crime, novos acusados. O
aditamento provocado, por sua vez, é aquele provocado pelo juiz (art. 384, § 1º,
do CPP).
Capítulo 3
Jurisdição e Competência

1. Jurisdição e Competência – Substitutividade


e Definitividade da Jurisdição – Regras de
Competência – Competência Absoluta e
Relativa

Jurisdição é algo comum a todo juiz, pois jurisdição é a capacidade de julgar o


indivíduo. É uma manifestação da soberania estatal.
Ainda, a jurisdição apresenta características básicas, quais sejam, a substitu-
tividade e a definitividade. Cumpre salientar que estas características não são
absolutas e possuem algumas mitigações.
Quanto à substitutividade, destaca-se que, quando há conflito de interesses,
espera-se que o Estado-juiz componha em definitivo aquele conflito, de maneira
que não prevaleça nem a vontade do autor e nem a do réu, preponderando a
vontade do juiz (da lei).
Ainda que acolhida a pretensão de uma das partes, a vontade que prepon-
derará é a do Estado-juiz.
Esta característica é relativa no processo penal, em razão dos instrumentos des-
penalizadores delineados na Lei nº 9.099/95. Exemplo: composição civil dos danos.
Em relação à definitividade, havendo um conflito de interesses que tenha con-
teúdo penal, espera-se que o Estado-juiz componha este conflito de maneira
definitiva, já que somente assim se restabelece a paz social.
A definitividade da jurisdição se expressa no instituto da preclusão. Da mesma
forma, referida característica não é absoluta, tendo como exemplo de exceção o
instituto da revisão criminal.
A competência, por sua vez, é a delimitação da jurisdição. Neste sentido, as
regras de competência fixam os limites em que a jurisdição será exercida.
34 Direito Processual Penal

Observa-se que a jurisdição surge como pressuposto de existência do proces-


so, enquanto a competência surge como pressuposto de validade.
Ademais, a competência divide-se em absoluta e relativa. A competência ab-
soluta é improrrogável, podendo ser reconhecida a qualquer tempo, inclusive de
ofício, pelo juiz. Já a competência relativa se prorroga, não podendo ser arguida
a qualquer tempo ou reconhecida de ofício pelo juiz.

2. Competência Absoluta – Incompetência


Absoluta do Juízo – Princípio do Promotor
Natural – Inexistência Jurídica – Inexistência
Material – Nulidade Absoluta do Ato –
Controle sobre a Competência

O CPP traz em seu art. 69 hipóteses de fixação de competências, porém, somente


duas dizem respeito à competência absoluta, quais sejam, a competência em ra-
zão da matéria e a competência em razão da pessoa (por prerrogativa de função).
O art. 567 do CPP estabelece que a incompetência do juízo anula somente os
atos decisórios, devendo o processo, quando for declarada a nulidade, ser reme-
tido ao juiz competente. O primeiro ato decisório do processo é o recebimento
da denúncia. Assim, sendo o recebimento nulo, não haverá a primeira causa
interruptiva da prescrição.
Ainda, o art. 573, § 1º do mesmo diploma legal dispõe que a nulidade de um
ato, uma vez declarada, causará a dos atos que dele diretamente dependam ou
que dele sejam consequência.
Alguns autores tendem a associar a nulidade absoluta, especialmente no caso
de incompetência absoluta do juiz, à inexistência jurídica. No entanto, a inexistên-
cia jurídica tem sido descartada em prol da chamada inexistência material.
Inexistência material ocorre quando há vícios tão grosseiros que não tem
aptidão para produzir efeitos. Exemplo: uma sentença proferida por um juiz
absolutamente incompetente – a sentença será considerada nula e seus efeitos
devem ser imediatamente cessados.
Segundo os tribunais superiores, a nulidade absoluta não pode ser equiparada
à inexistência jurídica. Um ato absolutamente nulo por incompetência do juízo
existe e produz efeitos, até que sobrevenha uma declaração de nulidade.
Por fim, é importante observar que se o ato existe e produz efeitos, estará
sujeito à preclusão.
Direito Processual Penal 35

3. Competência em Razão da Matéria – Justiça


Especial – Critério de Fixação de Competência
– Justiça Militar da União x Justiça Militar do
Estado

No âmbito do processo penal existe a Justiça Comum, dividida em federal e es-


tadual/distrital e a chamada Justiça Especializada, dividida em eleitoral e militar.
Ocorrendo um crime no Brasil, o primeiro critério de fixação de competência é
descobrir qual será a justiça competente para processar e julgar aquele crime.
Somente haverá competência da justiça comum estadual, quando o crime
não for de competência da justiça especializada militar, eleitoral e nem da justiça
comum federal. Nota-se, portanto, que se tem uma competência residual da Jus-
tiça Comum Estadual.
A Justiça Eleitoral é uma justiça especial voltada para processar e julgar crimes
eleitorais.
Já a Justiça Militar da União é uma justiça voltada para processar e julgar cri-
mes militares cometidos por membros militares. Pode processar e julgar também
civis, se o crime for atentatório contra instituições militares.
Ademais, a Justiça Militar do Estado somente processa os militares estaduais:
bombeiros e policiais.
O desrespeito a qualquer hipótese de fixação de competência que diga respei-
to à matéria, gera incompetência absoluta.

4. Competência em Razão da Matéria – Justiça


Federal – Órgãos da Justiça Comum – Tribunal
do Júri – Competência do Juizado Especial
Criminal

A justiça especializada, no âmbito penal será sempre federal (Justiça Militar e


Justiça Eleitoral).
A justiça comum poderá ser tanto federal como estadual. O que não estiver elen-
cado no art. 109 da CF/88, será residualmente, de competência da justiça estadual.
Na justiça comum brasileira, há quatro órgãos, o Tribunal do Júri, o Juizado
Especial Criminal, o Juizado de Violência Doméstica e Familiar Contra a Mulher e
a Vara Criminal (competência residual).
36 Direito Processual Penal

O Tribunal do Júri está disposto no art. 5º, XXXVIII, “d”, da CF/88 e art. 74
do CPP.
São levados ao Tribunal do Júri, os crimes dolosos contra a vida, consumados
ou tentados e os crimes a ele conexos.
É importante destacar que, de acordo com a Súmula nº 603 do STF, não será
de competência do Tribunal do Júri os crimes de latrocínio. Referida súmula foi
editada para excluir da competência do júri os crimes contra o patrimônio, ainda
que qualificados com resultado morte.
O genocídio, previsto no art. 1º da Lei nº 2.889/56, não pode ser associado
à chacina, pois o especial fim de agir é o extermínio de um determinado grupo,
tendo motivação racial, étnica, nacional ou religiosa. Atualmente, no Brasil, a
competência do crime de genocídio, em razão da matéria, não será do Tribunal
do Júri e sim da Vara Criminal Federal.
O Juizado Especial Criminal tem previsão legal no art. 98, I, da CF/88 e na Lei
nº 9.099/95 e possui competência para processar e julgar todas as contravenções
penais e os crimes apenados em até dois anos.
De acordo com o art. 109, IV, da CF e Súmula nº 38 do STJ são excluídas da
Justiça Federal as contravenções penais.

5. Competência em Razão da Matéria – Juizado


Especial da Violência Doméstica e Familiar
contra a Mulher – Hipóteses de Violência
Doméstica e Familiar – Restrições e Aplicação
Subsidiária da Lei

A Lei nº 11.340/06 é uma lei que possui vítima própria, ou seja, a mulher, em
ambiente familiar, sendo o sujeito ativo, qualquer pessoa. A competência do Jui-
zado de Violência Doméstica e Familiar Contra a Mulher, em geral é estadual,
mas em algumas hipóteses irá repercutir na esfera federal. Poderá repercutir na
esfera federal quando, por exemplo, o marido agredir sua esposa dentro de uma
aeronave durante o voo.
As hipóteses de violência doméstica e familiar estão dispostas no art. 7º da Lei
nº 11.340/06: violência física, psicológica, sexual, patrimonial e moral.
Se o crime é doloso contra a vida, mesmo no âmbito familiar contra a mulher,
a competência para julgar é do Tribunal do Júri.
Direito Processual Penal 37

Até mesmo os crimes culposos que sejam praticados com violência domés-
tica e familiar contra a mulher terão o seu julgamento especial, pois o objetivo
é proteger qualquer ação ou omissão criminosa contra a mulher em violência
doméstica e familiar.
Observe, contudo, aplicação desta lei independe da orientação sexual da pes-
soa, isso por força do parágrafo único do art. 5º da lei. Sendo assim, nota-se que
é fundamental que a vítima seja do sexo feminino, independente da idade e da
orientação sexual.
O art. 13 da Lei nº 11.340/06 prevê a aplicação subsidiária do CPP e do CPC,
do Estatuto do Idoso e do ECA.
Para a aplicação dos juizados, o conceito de mulher não inclui pessoas transe-
xuais, mesmo com cirurgia e documentação atualizada.

6. Competência em Razão da Matéria – Justiças


Federal e Estadual – Crimes – Processo e
Julgamento – Crimes Conexos

A competência da justiça comum estadual é residual.


A competência da justiça comum federal está disposta no art. 109, IV, da
CF/88, sendo elas: infrações penais praticadas em detrimento de bens, serviços
ou interesse da União ou de suas entidades autárquicas ou empresas públicas,
excluídas as contravenções e ressalvadas as competências da Justiça Militar e da
Justiça Eleitoral.
Ainda, será julgado na justiça comum federal os crimes cometidos contra
bens, serviços ou interesses da União ou de suas entidades autárquicas ou empre-
sas públicas, a contrario sensu, e contra ou a favor de funcionário público federal
no exercício de sua função.
Os órgãos jurisdicionais da justiça federal são: Tribunal do Júri, Juizado Espe-
cial Criminal, Juizado da Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher e Res-
tante (Vara Criminal).
É de competência da justiça comum estadual causas que indígenas figurem
como autor ou vítima e não envolva o interesse indígena coletivo (Súmula nº 140
do STJ).
Nos crimes contra sociedade de economia mista e de fundações, a compe-
tência será da justiça estadual. Assim, casos que envolvam o Banco do Brasil,
a competência será da justiça comum estadual, pois se trata de sociedade de
economia mista.
38 Direito Processual Penal

Segundo a Súmula nº 122 do STJ:


“Compete à Justiça Federal o processo e julgamento unificado dos crimes
conexos de competência federal e estadual.” Esta súmula, contudo, não se aplica
às contravenções penais.

7. Competência em Razão da Matéria –


Justiça Federal – Crimes Cometidos a Bordo
de Navios ou Aeronaves – Condições e
Características – Crimes contra o Sistema
Financeiro e a Ordem Econômica e Financeira

De acordo com o art. 109, IX, da CF/88, são de competência da Justiça Federal os
crimes cometidos a bordo de navios ou aeronaves, ressalvados os de competência
da Justiça Militar.
Aeronave é gênero e abrange helicóptero, zepelim, ultraleve, entre outros.
Não integra o conceito de aeronave o paraquedas, asa-delta, planador. Não é
necessário que a aeronave ou navio estejam em movimento, devem estar em
operação, podendo estar estacionados.
Nos casos de tráfico envolvendo navio ou aeronave, quando toda a mercado-
ria for descarregada, a competência será estadual, mas se a mercadoria estiver
dentro do navio ou aeronave, a competência é Federal.
Ainda, determina o art. 109, IX, da CF/88 que se tiver um navio ou aeronave
do exército, marinha ou aeronáutica e se houver um crime a bordo, a competên-
cia é da Justiça Castrense (Justiça Especializada Militar).
Ainda, é importante destacar o disposto na Súmula nº 140 do STJ:
“Compete à Justiça Comum Estadual processar e julgar crime em que o indí-
gena figure como autor ou vítima.”
Aos juízes federais compete processar e julgar os crimes contra a organiza-
ção do trabalho e, nos casos determinados por lei, contra o sistema e a ordem
econômico-financeira.
Os crimes contra o Sistema Financeiro Nacional são de competência da Justiça
Federal, de acordo com o art. 26 da Lei nº 7.492/86, senão vejamos:
“A ação penal, nos crimes previstos nesta lei, será promovida pelo Ministério
Público Federal, perante a Justiça Federal.”
Direito Processual Penal 39

8. Competência por Prerrogativa de Função –


Foro Privilegiado – Hipóteses de Competência
– Variação do Foro em Razão da Matéria

Vulgarmente, a competência por prerrogativa de função é conhecida como foro


privilegiado, mas em prova discursiva essa expressão deve ser evitada.
Na realidade é a função política exercida pelo acusado que justificará um Tri-
bunal diferenciado para processo e julgamento daquela demanda. Não há privilé-
gio, porque o réu, por exercer uma função política, terá ao menos uma instância
suprimida. Por exemplo, quando um magistrado ou membro do Ministério Pú-
blico cometem algum delito, serão julgados diretamente na segunda instância
originariamente.
Trata-se de competência inerente ao cargo político exercido pelo acusado.
As hipóteses de competência por prerrogativa de função serão fixadas ou pelo
poder constituinte originário ou pelo poder constituinte derivado, e nunca pelo
legislador infraconstitucional.
O indivíduo que ocupa o cargo que lhe concede a prerrogativa não necessaria-
mente precisa ter cometido o crime no exercício da função ou do cargo para que
seja processado e julgado originariamente em determinado Tribunal.
O STF declarou inconstitucional o § 2º do art. 84 do CPP, que havia criado
uma nova hipótese de foro por prerrogativa de função em caso de improbidade
administrativa.
A ação de improbidade administrativa não tem cunho penal, mas sim civil.
Neste sentido, versa a Súmula nº 721 do STF:
“A competência constitucional do Tribunal do Júri prevalece sobre o foro por
prerrogativa de função estabelecido exclusivamente pela Constituição estadual.”
Os órgãos que julgam originariamente as pessoas no Brasil são: STF, STJ, TJ’s,
TRF’s e TRE’s.
O foro por prerrogativa de função varia em razão da matéria, ou seja:
– Crime de competência da Justiça Estadual: competência do TJ;
– Crime eleitoral: competência do TRE;
– Crime federal: competência do TRF.
40 Direito Processual Penal

9. Competência por Prerrogativa de Função


– Competência dos Tribunais para Julgar e
Processar – Entendimento Jurisprudencial –
Competência para Julgar e Processar Prefeitos
e Vereadores

A competência originária do Supremo Tribunal Federal para processar pessoas se


dá da seguinte forma:
– Poder Executivo: Presidente da República, Vice-Presidente da República,
Advogado-Geral da União, Ministros de Estado e Presidente do Banco
Central.
– Poder Judiciário: Membros do STJ, do TSE, do TST, do STM e do Próprio
STF.
– Poder Legislativo: Deputados Federais e Senadores.
– Outros: Procurador-Geral da República, o Comandante das Forças Arma-
das, os Membros do Tribunal de Contas da União e Chefes de Missões
Diplomáticas Permanentes.
A competência originária do Superior Tribunal de Justiça para processar pes-
soas se dá da seguinte forma:
– Poder Executivo: Governador de Estado e do Distrito Federal.
– Poder Judiciário: os Membros dos Tribunais de Justiça, dos TRF’s, TRE’s e
TRT’s.
– Poder Legislativo: Não há cargo no poder legislativo que será julgado e
processado perante o STJ.
– Outros: os Membros dos Tribunais de Contas dos Estados do Distrito Fede-
ral e dos Municípios, Membros do Ministério Público da União que atuem
perante os tribunais de segunda instância.
É de competência do Tribunal de Justiça dos Estados processar e julgar os
juízes de primeira instância do Tribunal de Justiça dos Estados e do DF, bem como
os membros do Ministério Público Estadual.
O Procurador de Justiça atrelado ao Ministério Público dos Estados não está
listado no art. 105, I, “a”, da CF/88.
Os TRF’s, TJ’s e TRE’s, julgam:
– Poder Executivo: Prefeitos, Vice-Governador, Secretário de Estado.
– Poder Judiciário: Juízes que atuam em primeira instância.
Direito Processual Penal 41

– Poder Legislativo: Deputados Estaduais e Deputados Distritais.


– Outros: Membros do Ministério Público.
Se um Juiz ou um Promotor forem denunciados por crime eleitoral serão pro-
cessados e julgados no TRE.
O Prefeito poderá ser processado pelos seguintes órgãos nos seguintes casos:
– Tribunal de Justiça: crime estadual;
– Tribunal Regional Federal: crime federal;
– Tribunal Regional Eleitoral: crime eleitoral.
É importante destacar que, por exemplo, se o Prefeito de Belo Horizonte
cometer um crime na cidade de Natal, será processado e julgado no Tribunal de
Justiça de Minas Gerais, por ser agente político em Minas Gerais.

10. Perpetuação da Competência – Ratione


Personae – Questões Controvertidas –
Exceção da Verdade

A competência por prerrogativa de função também é chamada de ratione perso-


nae; essa competência é fixada em razão do cargo que o indivíduo ocupa. Desse
modo, na hipótese da pessoa vir a ser processada, será processada originariamen-
te perante determinado órgão, por exemplo, pelo Supremo Tribunal Federal ou
determinado órgão do Poder Judiciário.
Havendo concurso de pessoas em que os envolvidos tenham, em razão do
cargo, a competência fixada para serem julgados por diferentes órgãos do Judi-
ciário, prevalecerá o órgão mais graduado para julgar os demais.
Pode acontecer, no concurso de pessoas, de apenas um dos envolvidos ter a
prerrogativa ratione personae, sendo que alguns tribunais têm optado pelo des-
membramento, garantindo que este indivíduo seja julgado pelo órgão especial, e
os demais envolvidos julgados pelo órgão de primeira instância.
De acordo com o princípio do tempus regit actum, o STF não admite a perpe-
tuação da competência por prerrogativa de função, quando já cessada a função
política que justificava o juízo diferenciado, sendo declarada a inconstitucionali-
dade do art. 84, § 1º, do CPP.
No momento da deflagração da ação penal, em casos de magistrados convo-
cados para atuar no tribunal ou procuradores da república, entendeu o STJ que se
deve levar em consideração, para fins de competência, a função exercida quando
oferecida a denúncia.
42 Direito Processual Penal

Cessada a convocação, o agente volta para a instância inferior e se considera


a sua posição ocupada na carreira.
A não perpetuação da competência por prerrogativa da função atinge tam-
bém os membros aposentados da magistratura e do ministério público.
É preciso associar a competência por prerrogativa da função com a exceção
da verdade, uma vez oposta e admitida a exceção da verdade pelo juízo de
primeira instância, será encaminhada para o foro por prerrogativa da função
do excepto.

11. Competência Relativa – Hipóteses de Fixação


– Prorrogação de Competência – Competência
Territorial – Teoria do Resultado e da
Atividade – Competência por Prevenção

As hipóteses de fixação da competência relativa são utilizadas no Processo Penal


com a finalidade de encontrar o território para fixar o processo e o julgamento
do crime.
Basicamente, a competência relativa se divide em quatro espécies: pelo
lugar da infração, pelo domicílio e residência do réu, por distribuição e pela
prevenção.
Se essas hipóteses não forem arguidas em momento oportuno, haverá a pror-
rogação da competência, isto é, o juiz que era, em tese, relativamente incompe-
tente, passa a ser competente.
No Brasil, prevalece a teoria do resultado, sendo fixada a competência no
lugar onde se deu a consumação do crime; já para o crime tentado em que o ato
foi tentado em várias comarcas, prevalece o lugar em que foi praticado o último
ato executório.
No crime de fraude por pagamento através de cheque sem provisão de fun-
dos, será competente a comarca onde houve a recusa do pagamento, nos termos
das Súmulas nos 521 do STF e 244 do STJ.
Vale lembrar ainda que, no crime de estelionato cometido por meio de che-
que falsificado, segundo a jurisprudência consolidada do STJ, será considerado
o local da obtenção da vantagem ilícita, de acordo com a Súmula nº 48 do STJ.
No crime de falso testemunho cometido por carta precatória, a fixação da
competência se dará no lugar onde a testemunha mentiu, ou seja, na comarca
deprecada e não no juízo deprecante.
Direito Processual Penal 43

Quando do cometimento de crime na divisa entre duas ou mais jurisdições,


a competência se dará pela prevenção, assim, será do juízo que primeiro houver
conhecido o caso.
A mesma regra da competência firmada pela prevenção serve para o crime
continuado, o crime permanente praticado no território em que tiver duas ou
mais comarcas, nos termos do art. 71 do CPP.
Será aplicada a competência pelo domicílio ou residência do réu quando não
for sabido o local em que a infração foi praticada; nesse caso, aplica-se o chama-
do foro subsidiário ou supletivo.
Por força do art. 73 do CPP, se o crime for de ação penal privada exclusiva
mesmo sabendo o lugar da infração, a vítima pode optar pelo foro do domicílio
ou residência do réu. (foro optativo)

12. Conexão e Continência – Conceitos


e Critérios – Hipóteses de Conexão –
Conexão Intersubjetiva por Concurso e por
Reciprocidade – Conexão Lógica ou Material e
Objetiva Consequencial

A figura do simultaneus processus tem seu fundamento no art. 79 do CPP e


indica o processamento simultâneo de todas as demandas perante um único
juízo.
Na verdade, a conexão e a continência, seja pelo número de crimes pratica-
dos, seja pelo número de pessoas envolvidas, se prestam a alterar a competência
que inicialmente era de um juiz passando-se, posteriormente, a outro.
Assim, a ideia de conexão e continência pode ser entendida como a união de
vários crimes e/ou de várias pessoas no mesmo processo; como regra, são defini-
das como hipóteses de prorrogação legal ou obrigatória da competência.
Essas demandas serão todas interligadas exigindo uma unidade de processo e
julgamento, que, para ter viabilidade, há que se escolher um único juízo compe-
tente, que julgará a ação originária e todas as demandas conexas ou continentes
à sua originária.
A conexão pode ser definida pelo nexo, ou seja, pela relação existente entre
duas ou mais infrações penais; quando essas infrações se encontrarem entrelaça-
das por um vínculo que aconselha a junção de todos os processos num processo
único.
44 Direito Processual Penal

Importante destacar que na conexão, obrigatoriamente, há pluralidade de


condutas, ou seja, haverá mais de um fato que configura mais de um crime.
Conexão intersubjetiva é aquela que irá considerar os sujeitos da ação penal.
A conexão intersubjetiva se divide em intersubjetiva por simultaneidade, por con-
curso ou concursal, ou por reciprocidade.
Prevista na primeira parte do inciso I, do art. 76 do CPP, a conexão intersub-
jetiva por simultaneidade também é conhecida como ocasional; trata-se de uma
reunião ocasional e não uma associação criminosa duradoura.
Por sua vez, a segunda parte do inciso I, trata da conexão intersubjetiva con-
cursal e, neste caso, se vislumbra a pluralidade de pessoas e pluralidade de crimes.
Já na parte final do inciso I tem-se a conexão intersubjetiva por reciprocidade,
servindo de exemplo a prática de lesão corporal entre vários indivíduos, mas sem
caracterizar o crime de rixa, pois a rixa é um crime único.
A conexão lógica ou material tem previsão no art. 76, II, do CPP e a conexão
instrumental ou probatória está disciplinada no art. 76, III, do CPP.

13. Conexão e Continência – Hipóteses de


Conexão – Conexão Instrumental ou
Probatória – Competência Determinada por
Continência – Conflitos de Competência

O art. 76, III, do CPP estabelece que também será determinada a competência pela
conexão, quando a prova de uma infração ou de qualquer de suas circunstâncias
elementares influir na prova de outra infração. É a chamada conexão instrumental
probatória ou processual, por exemplo, no crime de furto e receptação, que em
tese, serão julgados simultaneamente.
O art. 77 do CPP estabelece a continência, que ocorre quando um fato crimi-
noso contém outros fatos a impor o julgamento de todos em conjunto, ou seja,
é o vínculo que reúne vários infratores no mesmo processo, em razão de conduta
única.
Na continência por cumulação subjetiva há várias pessoas e um único crime.
Já na continência por cumulação objetiva, em razão de concurso formal de cri-
mes, apesar de haver a pluralidade de crimes temos uma única conduta.
O art. 78, III, do CPP estabelece uma hipótese de conexão ou continência
entre competência por prerrogativa da função e Tribunal do Júri. Assim, se um
prefeito comete crime doloso contra a vida juntamente com seu assessor, o pre-
Direito Processual Penal 45

feito será processado e julgado pelo Tribunal de Justiça. Trata-se de disposição


constitucional (art. 29, X, da CF), sendo que o seu assessor, em princípio, seria
julgado pelo Tribunal do Júri, conforme previsão do art. 5º, XXXVIII, “d”, da CF.
A doutrina majoritária entende que havendo a conexão e continência entre o
Tribunal de Justiça, por prerrogativa de função e Tribunal do Júri ocorrerá a cisão
dos processos, sendo o prefeito julgado pelo Tribunal de Justiça e seu assessor
pelo Tribunal do Júri.
O art. 78, IV, do CPP trata da especialidade, ou seja, havendo conflito entre a
Justiça Comum e a Justiça Especial, o processo correrá pela Justiça Especial.
Já com relação ao conflito de competência entre a Justiça Eleitoral e o Tribunal
do Júri, a 2ª Turma do STF diz que é possível afastar uma norma constitucional em
prol de outra norma constitucional, desde que haja uma norma infraconstitucio-
nal de caráter geral, impessoal e abstrato.
Como o Tribunal do Júri integra a Justiça Comum e a Justiça Eleitoral é espe-
cial, o crime seria julgado pela Justiça Eleitoral.

14. Regras de Competência por Conexão


– Instauração de Processos Diferentes
– Tribunais Superiores – Conflito de
Competência – Conflito de Atribuição

O art. 82 do CPP estabelece que ainda que presente a conexão ou a continência,


forem instaurados processos diferentes, a autoridade de jurisdição prevalente de-
verá avocar os processos que corram perante os outros juízes, salvo se já estive-
rem com sentença definitiva.
Na referida hipótese, a unidade dos processos só se dará, ulteriormente, para
o efeito de soma ou de unificação das penas.
O instituto de avocação de competência possui natureza de competência re-
lativa, pois se fosse de competência absoluta, as sentenças não poderiam ser
aproveitadas.
De acordo com o dispositivo de lei, a autoridade judiciária de competência
prevalente deve avocar para si os processos a ele conexos ou continentes à sua
demanda, a não ser que neles haja sentença definitiva, hipótese em que as penas
podem ser somadas e unificadas em sede de execução.
Os Tribunais Superiores realizam uma interpretação extensiva do art. 80 do
CPP, pois este dita que o juiz pode, sempre que julgar conveniente, cindir o pro-
46 Direito Processual Penal

cedimento, caso entenda oportuno e conveniente para a instrução. Vale lembrar


que, quando os Tribunais Superiores cindem o procedimento, eles cindem a pró-
pria competência originária.
O CPP, em relação ao tema conflito de competência não é muito técnico, pois
ao invés de falar de conflito de competência, trata do conflito de jurisdição. Esse
termo não é apropriado, já que a jurisdição é una e indivisível, não sendo possível
um conflito.
O conflito de competência pode ser tanto positivo quanto negativo; no po-
sitivo, os dois órgãos jurisdicionais se reputam competentes. No negativo ou
comum, dois órgãos jurisdicionais entendem que não são competentes para o
processamento e julgamento da demanda.
A previsão legal do conflito de competência é dada pelos arts. 113 a 117 do
CPP, sendo que a distinção entre a competência positiva e a negativa está prevista
no art. 114 do CPP.
O conflito de competência não deve ser confundido com o conflito de atribui-
ção entre os órgãos do Ministério Público, que tem o objetivo de definir o promo-
tor natural; qual o órgão competente para oferecimento da denúncia, requerer
medida cautelar.
Capítulo 4
Medidas Cautelares
Constritivas de Liberdade

1. Medidas Cautelares Constritivas de Liberdade


– Presunção de Não Culpabilidade e Medidas
Cautelares – Requisitos da Medida Cautelar
Constritiva de Direito – Homogeneidade das
Medidas Cautelares
Primeiramente, é preciso observar que o art. 5º, LVII, da Constituição Federal traz
o princípio da presunção de inocência. Referido dispositivo estabelece que nin-
guém será considerado culpado antes do trânsito em julgado de uma sentença
penal condenatória.
Destarte, alguns autores questionam as medidas cautelares, já que há de ser
considerado o princípio supramencionado. Ferrajoli, por exemplo, questiona a
constitucionalidade das medidas cautelares constritivas de liberdade à luz do es-
tado de inocência. No entanto, importante esclarecer que este posicionamento
não encontra guarida na jurisprudência pátria.
De acordo com posicionamento do STF, as medias não podem ser impostas no
sentido de antecipação de uma condenação.
Ademais, embora o STJ e o STF refiram-se, em alguns julgados, à presunção
de inocência ou estado de inocência, estes Tribunais trabalham com a ideia de
não culpabilidade.
São requisitos das medidas cautelares constritivas de direitos:
1. fumus boni iuris ou fumus comissi delicti: só se justifica a constrição de
liberdade se a pretensão condenatória mostra-se plausível;
2. periculum in libertatis ou periculum in mora: só se justifica a constrição de
liberdade se esta traduz-se em um risco à efetividade do processo;
3. grau de suficiência das medidas cautelares constritivas de liberdade.
48 Direito Processual Penal

Por fim, destaca-se que somente se concebe a prisão provisória se as demais


medidas constritivas de liberdade, menos drásticas, não se mostrarem suficientes
para neutralizar o periculum in libertatis.

2. Prisões Provisórias e Requisitos – Necessidade


e Adequação – Risco de Cometimento de
Novas Infrações Penais – Posicionamento
Jurisprudencial – Proporcionalidade da
Aplicação das Medidas Cautelares

O art. 282, I e II, do CPP traz um binômio, qual seja, necessidade/adequação.


O inciso I do art. 282 dispõe que medidas cautelares constritivas de liberdade
somente devem ser determinadas caso se mostrem necessárias para o processo.
Um dos casos trazidos por este inciso é a ordem pública que, por sua vez, é um
dos requisitos da prisão preventiva.
Também o inciso I estabelece a possibilidade de medidas cautelares pessoais
pela conveniência da instrução criminal ou da investigação e de medida cautelar
para aplicação da lei penal.
A posição dos Tribunais Superiores é a de que é possível a aplicação de me-
didas cautelares de prisão ou diversas da prisão para evitar o cometimento de
novas infrações.
O inciso II do art. 282, por sua vez, dispõe que as medidas cautelares constriti-
vas de liberdade devem guardar proporcionalidade com a gravidade em concreto
do fato. Demais disso, decreto impositivo de medidas cautelares constritivas de
liberdade deve ter fundamentação contextualizada.
Finalmente, reitera-se que tutela cautelar não pode se mostrar mais gravosa
do que a própria pena.

3. Descumprimento das Tutelas Cautelares


– Oficiosidade das Medidas Cautelares –
Aplicabilidade do Princípio da Especialidade –
Posicionamento Jurisprudencial
No que diz respeito à prisão preventiva no Brasil, esta pode ser decretada de
ofício, desde que seja no curso da ação penal. Da mesma forma, as medidas cau-
Direito Processual Penal 49

telares pessoais diversas da prisão podem ser decretadas de ofício, também desde
que no curso da ação penal.
Ocorre que, o art. 20 da Lei Maria da Penha traz a possibilidade de o juiz, de
ofício, determinar a prisão preventiva em sede de inquérito policial.
Aqueles que entendem que o dispositivo supra-aludido continua sendo apli-
cado, sustentam que deve ser observado o princípio da especialidade. Por outro
lado, outros entendem que no princípio da especialidade existe um regramento
geral e o legislador se afasta deste, dando tratamento diferenciado.
Destarte, quando o legislador limita-se a um padrão, se este for alterado, as
limitações também alcançam todos os dispositivos que a ele se remeteram.
O art. 282, § 4º, do CPP estabelece que havendo descumprimento pelo impu-
tado das medidas cautelares constritivas de liberdade determinadas, é possível a
decretação da prisão preventiva.

4. Introdução ao Processo Penal Cautelar –


Contraditório Prévio – Oitiva Prévia do
Imputado – Descumprimento da Medida
Cautelar – Novas Cautelares Construtivas de
Liberdades

O poder de cautela do juiz no processo penal é exercido difusa e pontualmente.


Ao invés de um regramento processual cautelar, existem as medidas cautelares.
É importante saber que antes de se decretar uma medida cautelar pessoal,
necessário que o juiz ouça a parte contrária para que se manifeste. Trata-se de
inovação da Lei nº 12.403/11, que tenta estabelecer minimamente as diretrizes
do que seria um processo penal cautelar no Brasil. Estabelece, assim, um contra-
ditório prévio à apreciação das medidas cautelares, que podem ser incidentais ao
inquérito ou também incidentais ao processo.
Contudo, a orientação majoritária é no sentido de que a regra do art. 282, § 3º
não pode ser aplicada ao inquérito policial tendo em vista a sua inquisitoriedade.
As medidas cautelares pessoais são aplicadas, em regra, inaudita altera parte.
É fundamental que o juiz demonstre o risco de ineficácia da medida cautelar,
caso se oportunize o contraditório prévio. Atualmente, a regra é a oitiva prévia
do imputado, nos termos do art. 282, § 3º.
Caso haja o deferimento da liminar sem a oitiva prévia, deverá o juiz demons-
trar o motivo (urgência ou perigo de ineficácia do procedimento), sob pena de
50 Direito Processual Penal

ter a defesa motivos para impetração de HC, com fundamento na ilegalidade da


medida por cerceamento do contraditório.
No caso de descumprimento da medida cautelar ou sua substituição por outra
mais grave, o art. 282, § 4º não prevê o contraditório prévio.
Importante ainda verificarmos que o art. 282, § 1º, do CPP prevê a possibili-
dade de aplicação cumulativa das novas medidas cautelares, desde que presentes
dois requisitos:
I – necessidade para aplicação da lei penal, para a investigação ou a instrução
criminal e, nos casos expressamente previstos, para evitar a prática de infrações
penais;
II – adequação da medida à gravidade do crime, circunstâncias do fato e con-
dições pessoais do indiciado ou acusado.

5. Cautelares de Natureza Média e Grave – Rol


de Medidas Cautelares Diversas da Prisão

As novas medidas cautelares diversas da prisão vêm elencadas basicamente no


art. 319 do CPP, que traz um rol de nove medidas:
I – comparecimento periódico em juízo, no prazo e nas condições fixadas pelo
juiz, para informar e justificar atividades (a avaliação do juiz deve se dar com base
na adequação e na necessidade);
II – proibição de acesso ou frequência a determinados lugares quando, por
circunstâncias relacionadas ao fato, deva o indiciado ou acusado permanecer dis-
tante desses locais para evitar o risco de novas infrações;
III – proibição de manter contato com pessoa determinada quando, por cir-
cunstâncias relacionadas ao fato, deva o indiciado ou acusado dela permanecer
distante (a proibição, aqui, é de qualquer contato – pessoal, e-mail, redes sociais,
telefone etc. – e com pessoa determinada);
IV – proibição de ausentar-se da Comarca quando a permanência seja con-
veniente ou necessária para a investigação ou instrução (lembrar que o limite
territorial de uma comarca é mais extenso que o de um município. Esta regra
pode ser flexibilizada para alcançar uma determinada região geográfica. O que se
pretende é manter o réu sempre à disposição do juízo, da autoridade policial ou
até mesmo do MP);
V – recolhimento domiciliar no período noturno e nos dias de folga quando
o investigado ou acusado tenha residência e trabalho fixos (este inciso possibilita
a detração penal);
Direito Processual Penal 51

VI – suspensão do exercício de função pública ou de atividade de natureza


econômica ou financeira quando houver justo receio de sua utilização para a
prática de infrações penais (a perda somente se dará com trânsito em julgado da
sentença penal condenatória);
VII – internação provisória do acusado nas hipóteses de crimes praticados
com violência ou grave ameaça, quando os peritos concluírem ser inimputável ou
semi-imputável (art. 26 do CP) e houver risco de reiteração (todos os requisitos
são cumulativos);
VIII – fiança, nas infrações que a admitem, para assegurar o comparecimento
a atos do processo, evitar a obstrução do seu andamento ou em caso de resistên-
cia injustificada à ordem judicial;
IX – monitoração eletrônica.

6. Hipóteses de Admissibilidade da Prisão


Preventiva – Análise da Admissibilidade
Jurídica – Pressupostos de Admissibilidade

A prisão preventiva só é decretada por autoridade judiciária, no curso da ação pe-


nal (art. 311 do CPP), com a ressalva do art. 20 da Lei Maria da Penha, que prevê
a possibilidade de decretação de prisão preventiva durante a fase de investigação.
Pode ser, ainda decretada, mediante representação da autoridade policial, reque-
rimento do MP, requerimento do querelante em casos de ação penal privada e
requerimento do assistente de acusação. Pode durar até antes do trânsito em
julgado da sentença penal condenatória.
O juízo de admissibilidade da prisão preventiva está descrita no art. 313 do
CPP, o qual traz os pressupostos necessários para que ela ocorra. Cada inciso traz
uma hipótese isolada de decretação da prisão preventiva, ou seja, não há necessi-
dade de cumular todos os incisos para ensejar a decretação da prisão preventiva.
O caput do art. 313 dispõe que é necessária uma hipótese descrita no art. 312
juntamente com algum inciso do art. 313.
Não há prisão preventiva em crime culposo, somente em crime doloso punido
com pena privativa de liberdade máxima ou superior a quatro anos. Se há causa
de aumento de pena, será inserida na pena máxima esse limite superior a quatro
anos, e então poderá decretar a prisão preventiva. Da mesma forma ocorre no
concurso de crimes e no crime continuado.
Se for reincidente em crime doloso em sentença transitada em julgado, pode-
rá decretar prisão preventiva de acordo com o inciso II do art. 313 do CPP.
52 Direito Processual Penal

Se o crime envolver violência doméstica contra a mulher, criança, adolescente,


idoso, enfermo ou deficiente, poderá ser decretada a prisão preventiva, pois tal
disposição foi criada pela Lei Maria da Penha e o rol foi ampliado em 2011.

7. Prisão Preventiva – Admissibilidade e


Fundamentos – Critérios de Necessidade e
Adequação das Medidas – Identificação Civil
– Identificação Criminal – Conversão da Prisão
em Flagrante em Preventiva

Também será admitida a prisão preventiva quando houver dúvida sobre a iden-
tidade civil da pessoa ou quando este não fornecer elementos suficientes para
esclarecê-la (art. 313 do CPP).
Prende-se privativamente com a finalidade de identificá-la. Portanto, a inten-
ção do legislador não é que o indivíduo seja preso e mantido na prisão cautelar,
mas apenas exclusivamente identificá-lo. Estando identificado, será solto. Caso
isso não ocorra o indivíduo passa a sofrer prisão ilegal e essa autoridade comete
delito de abuso de autoridade, salvo se por outra hipótese ele deva permanecer
preso naquele inquérito ou em outro.
As medidas cautelares devem estar ligadas a critérios de necessidade e ade-
quação para que se evitem excessos. Nesses moldes, a prisão preventiva não
pode durar tempo maior que o necessário à identificação criminal, acarretando
um excesso de poder.
A CF, a respeito do tempo de identificação civil, traz o art. 5º, LVIII, que dispõe
que a identificação inicial é prevista na Lei nº 12.037/09.
Para a conversão da prisão em flagrante em preventiva não se utiliza os requi-
sitos do art. 313 do CPP, mas os do art. 312 do CPP.

8. Requisitos da Prisão Preventiva –


Plausibilidade da Pretensão Condenatória
– Conveniência da Instrução Criminal – Fiel
Aplicação da Lei Penal
Para a decretação da prisão preventiva precisa-se sempre do fumus boni iuris ou
fumus comissi delicti e periculum in libertatis ou periculum in mora.
Direito Processual Penal 53

Fatos determinantes da prisão preventiva é a liberdade do imputado e se esta


configura risco ou processo ou ordem pública.
Os requisitos para a decretação da prisão preventiva estão dispostos no art.
312 do CPP:
“A prisão preventiva poderá ser decretada como garantia da ordem pública,
da ordem econômica, por conveniência da instrução criminal, ou para assegurar
a aplicação da lei penal, quando houver prova da existência do crime e indício
suficiente de autoria.”
Garantia da ordem pública seria a prisão preventiva para manutenção da paz
e da tranquilidade social, pois se colocar o indivíduo em liberdade este poderá
praticar novos crimes.
É importante destacar que o clamor popular não é fundamentação que dá
embasamento para a decretação da prisão preventiva por garantia da ordem pública.
A prisão preventiva por garantia da ordem econômica vem criada pela Lei nº
8.884/94. Se o indivíduo permanecer em liberdade, este irá reiterar a prática de
crimes contra a ordem econômica e o sistema financeiro nacional.
Na conveniência da instrução criminal, o foco é assegurar a eficácia da colhei-
ta probatória acusatória, e aquela determinada pelo juízo. O fundamento aqui é
o risco de temor das testemunhas e da vítima ao acusado. Terminada a colheita
probatória acusatória e aquela determinada pelo juízo, o fundamento se exaure,
devendo o indivíduo ser colocado imediatamente em liberdade.
Se a prisão preventiva foi decretada com base na fiel aplicação da lei penal,
o juiz só deve reavaliar a necessidade da prisão no momento em que sentenciar.
O risco de fuga tem sempre que ser concreto, não podendo ser especulativo
ou hipotético.

9. Insuficiência na Aplicação das Medidas


Cautelares – Descumprimento de Medida
Cautelar – Embate Doutrinário e Posição
Majoritária

O parágrafo único do art. 312 do CPP prevê a prisão preventiva quando as medi-
das cautelares constritivas da liberdade, determinadas em desfavor do imputado,
se mostrarem insuficientes.
De acordo com o art. 282, § 6º, do CPP, a prisão preventiva é sempre a última
alternativa (ultima rattio).
54 Direito Processual Penal

Para que haja a aplicação das medidas cautelares diversas da prisão faz-se
necessário que o crime tenha pena privativa de liberdade, independentemente
da quantidade.
De acordo com o art. 282, § 4º, do CPP, se houver o descumprimento da medida
cautelar diversa da prisão, o magistrado, em um primeiro momento, deve ponderar
se não é caso de aplicar outra, ou outras medidas cautelares diversas da prisão.
A prisão preventiva se mostrará necessária quando todas as outras medidas
cautelares aflitivas forem insuficientes. Ainda, o caput do art. 313 do CPP deixa
claro que a prisão preventiva deverá ser sempre decretada conjugando os arts.
313 e 312 do CPP.

10. Prisão Domiciliar Cautelar – Hipóteses de


Autorização para Cumprimento de Prisão
Domiciliar Cautelar – Prisão Domiciliar
Cautelar x Prisão Albergue Domiciliar

A prisão domiciliar cautelar é a prisão preventiva cumprida em domicílio, que


consiste em recolhimento do indivíduo em sua residência em período integral. Só
poderá ausentar-se mediante autorização judicial.
Hipóteses:
– Se o indivíduo for maior de 80 anos de idade. Nem todo maior de 80 anos
terá direito à prisão domiciliar, pois deve ser analisado o caso concreto. Ex.:
um maior de 80 anos de idade, perigoso, chefe de uma facção criminosa que
com um telefonema define a morte de várias pessoas, não terá tal direito.
– Sujeito extremamente debilitado em razão de doença grave. Não basta o
indivíduo possuir uma doença grave, precisa estar extremamente debilita-
do. Preencher esses dois requisitos não significa direito público e subjetivo
de cumprir a prisão em domicílio, deve ser analisado o caso concreto.
Em alguns casos, estando o sujeito extremamente debilitado em razão de
doença grave, pode ir até o hospital escoltado, e posteriormente volta ao
sistema prisional.
– Presença do indivíduo preso deve ser imprescindível aos cuidados especiais
de menor de seis anos de idade, ou pessoa deficiente. Não há exigência
que seja familiar do sujeito. Ex.: sujeito é casado com uma mulher que já
tem um filho e essa mulher vem a falecer. O sujeito cuida do filho dela
e posteriormente vai preso; nesse caso, poderá ser considerado como a
pessoa que cuida daquela criança.
Direito Processual Penal 55

– Mulher gestante a partir do sétimo mês, ou sendo a gravidez de alto risco


a qualquer tempo. Deve ser analisado o caso concreto.
Essas hipóteses não são cumulativas, e o juiz deve exigir prova idônea dos
requisitos exigidos nos artigos.
A prisão domiciliar cautelar não se confunde com a prisão albergue domiciliar
da lei de execução penal.
A lei de execução penal, em seu art. 117 possui prisão domiciliar chamada de
albergue domiciliar. Serve para pessoas que têm contra si uma sentença condena-
tória e já estão cumprindo pena em regime aberto. Os requisitos são mais bran-
dos: condenados maiores de 70 anos; acometido de doença grave; condenada
com filho menor, deficiente físico, ou mental; condenada gestante.

11. Prisão em Flagrante – Natureza Jurídica


– Prisão em Flagrante Quanto aos Agentes –
Modalidades de Prisão em Flagrante

A prisão em flagrante possui natureza administrativa, pois é basicamente a única


espécie de prisão antes do trânsito em julgado que não depende de determina-
ção judicial.
A prisão em flagrante passou a ter natureza precautelar.
O auto de prisão em flagrante em até 24 horas deve chegar ao magistrado,
que deverá analisar se a prisão é ilegal. Se for ilegal, o magistrado relaxará a
prisão. Se for legal, verificará se há hipóteses de medidas cautelares diversas da
prisão, ou ainda a prisão preventiva. Caso contrário, será concedida a liberdade
provisória.
Espécies:
Flagrante facultativo: qualquer pessoa do povo – pode. Age facultativamente,
discricionariamente. Também conhecido como flagrante discricionário. Art. 301
do CPC, 1ª parte.
Flagrante compulsório: autoridade policial e seus agentes – devem. O flagran-
te é obrigatório. Agem em estrito cumprimento do dever legal. Art. 301 do CPC,
2ª parte.
Espécies de acordo com a situação que o preso se encontra:
Art. 302 do CPP.
Incisos I e II: flagrante próprio – está cometendo a infração penal. É o flagrante
na sua essência, também conhecido como flagrante perfeito, ou flagrante pro-
56 Direito Processual Penal

priamente dito. Ocorre, ainda, se o sujeito acaba de cometer a infração penal. Ex.:
policiais escutam tiros e ao chegar ao local, encontram um corpo estendido e ao
lado um sujeito com a arma na mão.
Inciso III: flagrante impróprio – quem é perseguido, logo após, pela autori-
dade, ofendido ou por qualquer pessoa, em situação que se faça presumir ser o
autor da infração. A perseguição deve ser ininterrupta, não necessariamente o
tempo todo por uma pessoa, mas em todo momento tem que ter sido perseguido
por alguém. Deve ter início logo após a prática do crime.
Inciso IV: flagrante presumido – sujeito encontrado logo depois do come-
timento do crime em circunstâncias que levam a crer ter sido ele o autor da
infração.
Em crime permanente, enquanto não cessar a permanência, haverá a situação
flagrancial. Ex.: sequestro de oito meses, então a vítima é encontrada sendo pri-
vada da liberdade, o sujeito será preso em flagrante.

12. Flagrante Esperado – Flagrante Provocado


– Flagrante Forjado – Flagrante Retardado

O flagrante esperado é uma hipótese de prisão em flagrante legal: o agente


aguarda o início da execução do crime para prender em flagrante. Nota-se que o
autor da prisão não induz o infrator a delinquir.
O mesmo não ocorre com o chamado flagrante provocado, pois este, também
conhecido como flagrante preparado, é hipótese de flagrante ilegal, pois o autor
da prisão interfere no nexo causal, já que foi a partir de sua provocação que o
sujeito agiu.
Sobre o flagrante preparado, o STF editou a Súmula nº 145, que dispõe que
não há crime, quando a preparação do flagrante pela polícia torna impossível a
sua consumação. Importante salientar que existe uma parte da doutrina que criti-
ca a Súmula supramencionada, porém, trata-se de doutrina minoritária.
O flagrante forjado, por sua vez, é aquele em que o indivíduo preso é vítima
de uma armação cometida por policiais ou por terceiros. Nota-se, portanto, que
a prisão aqui é ilegal.
Existe, ainda, o chamado flagrante retardado, também conhecido como fla-
grante prorrogado ou diferido. Trata-se de flagrante legal, pois o que é retardado
é a atuação policial: a polícia, diante de uma situação de flagrância, estaria auto-
rizada por lei a não efetuar o flagrante e acompanhar a conduta criminosa para,
futuramente, alcançar mais dados ou prender mais indivíduos.
Direito Processual Penal 57

13. Lavratura do Auto de Prisão em Flagrante


– Ações da Autoridade Policial – Direito de
Silêncio – Ausência de Autoridade Policial

O flagrante se estende por pelo menos dois momentos:


a) captura;
b) lavratura do auto de prisão em flagrante (APF).
Um terceiro momento seria o recolhimento ao cárcere.
Capturado o indivíduo, ele é conduzido até a autoridade policial para que
esta faça alguns questionamentos. Se das respostas às perguntas do delegado
restarem fundadas suspeitas quanto ao conduzido, será lavrado o auto de prisão
em flagrante. Do contrário, o capturado será liberado.
Não há relaxamento de prisão pela autoridade policial, pois o auto ainda não
foi lavrado. Somente haverá relaxamento pelo magistrado (art. 310, I, do CPP, c.c.
art. 5º, LXV, da CF).
Entendendo pela lavratura do APF, o delegado deverá seguir o seguinte pro-
cedimento:
a) colheita do depoimento do condutor, que deverá assinar o termo da oitiva,
e receberá o termo de entrega do preso;
b) qualificação do conduzido;
c) colheita do depoimento das demais testemunhas que presenciaram os fa-
tos ou, quando não existirem estas, das que presenciaram a apresentação do
flagrado em delegacia de polícia (chamadas de testemunhas instrumentárias, em
número mínimo de 2);
d) colheita do depoimento do ofendido;
e) interrogatório do indiciado.
O preso, antes de sua oitiva, será informado de que possui o direito de per-
manecer em silêncio (ninguém será obrigado a produzir prova contra si mesmo).
Em regra, o APF será lavrado no local onde o crime foi cometido, mas esta
regra não é absoluta, porque o CPP estabelece que o APF será lavrado no local
onde for efetuada a prisão.
Se no local onde for feita a captura não houver autoridade policial, o APF será
lavrado perante a autoridade policial do lugar mais próximo.
Após a lavratura, a prisão será imediatamente comunicada ao juiz, ao MP e
à família do preso ou pessoa por ele indicada. Se o flagrado não tiver advogado,
cópia do APF será remetida à defensoria.
58 Direito Processual Penal

No prazo de 24 horas da lavratura do auto, será entregue nota de culpa


ao preso.

14. Flagrante nas Infrações de Menor Potencial


Ofensivo

O flagrante nas chamadas infrações penais de menor potencial ofensivo (pena


máxima em abstrato de até 2 anos ou contravenções penais) não implica neces-
sariamente em prisão. Se o indivíduo se comprometer a comparecer em juízo
quando chamado, ele não será preso.
Será lavrado termo circunstanciado (nunca auto de prisão em flagrante), e o
investigado deverá prestar o compromisso de comparecer perante o JeCrim quan-
do chamado. Apenas se se negar ao comparecimento, é que será o investigado
preso. Do contrário, será liberado.
Observe, contudo, que nas infrações penais de menor potencial ofensivo pra-
ticadas em violência doméstica e familiar contra a mulher, haverá a prisão em
flagrante, independentemente do compromisso de comparecer em juízo quando
chamado.
Ainda, pelo Código de Trânsito, caso o autor de crime de trânsito preste pron-
to e integral socorro à vítima, não haverá prisão em flagrante.
Importante lembrar ainda das hipóteses da Lei de Drogas, mais especificamen-
te em seu art. 28 (uso de drogas). Neste artigo, temos um delito cujas penas são
de advertência, de prestação de serviços à comunidade ou de caráter educativo
(frequência a cursos). Neste caso, não há APF, mas apenas um termo circunstan-
ciado, e o investigado não será preso (até porque as penas previstas neste artigo
não incluem penas privativas de liberdade).

15. Liberdade Provisória x Revogação

A concessão da liberdade provisória está vinculada à prisão em flagrante.


O flagrante é uma tutela precautelar, chancelada pela CF, e a contrapartida é
a liberdade provisória. Ela fulmina a possibilidade de decretação de prisão preven-
tiva fruto de um flagrante convertido.
Quando o magistrado conceder a liberdade provisória por si só, por não esta-
rem presentes os requisitos da preventiva, tem-se uma liberdade provisória (com
ou sem fiança) sem compromisso (art. 310, III, do CPP).
Direito Processual Penal 59

Mas se o juiz vislumbrar a necessidade de aplicação de outras tutelas caute-


lares, haverá a liberdade provisória com as tutelas dos arts. 319 e 320 do CPP.
O vínculo será o do comparecimento a todos os atos do processo. Ela ocorre em
casos de excludentes da ilicitude, e é concedida por ausência aparente do fumus
boni juris (art. 31, parágrafo único).
Portanto, vemos que a regra do parágrafo único do art. 310, comparada com
a do inciso III do mesmo artigo, é mais gravosa.
Existe ainda uma hipótese que alguns autores interpretam como liberdade
provisória sem compromisso. É o caso do art. 350 do CPP:
“Nos casos em que couber fiança, o juiz, verificando a situação econômica
do preso, poderá conceder-lhe liberdade provisória, sujeitando-o às obrigações
constantes dos arts. 327 e 328 deste Código e a outras medidas cautelares, se
for o caso.”
A liberdade provisória não é o instituto utilizado para revogação da prisão pre-
ventiva, mas é instituto que pretende colocar em liberdade indivíduo que esteja
sofrendo prisão em flagrante legal.
Há, na legislação, algumas vedações para a concessão de liberdade provisória.
Não será possível a LP em hipótese de prisão preventiva.
O Estatuto do Desarmamento e a Lei de Drogas traziam a vedação à LP, con-
tudo, o STF já declarou estes dispositivos inconstitucionais. Isto porque não se
pode vedar a LP genericamente em casos abstratos, devendo ser analisado cada
caso em particular.

16. Fiança – Quebra da Fiança – Pressupostos de


Admissibilidade – Critérios de Quantificação
A fiança está ligada à prisão em flagrante, mas atualmente é também uma medi-
da cautelar pessoal diversa da prisão.
Quanto à natureza jurídica, a fiança possui natureza de tutela cautelar. É au-
tônoma em relação à prisão em flagrante. Em verdade, a fiança é tida como uma
contracautela. Pode ser concedida pela autoridade policial (desde que a infração
possua pena máxima em abstrato de até quatro anos) ou pelo juiz.
Atualmente, o valor da fiança no Brasil varia de 1 a 100 salários mínimos, para
crimes com pena máxima de até quatro anos, e de 10 a 200 salários mínimos
para crimes com pena máxima superior a quatro anos. O pagamento da fiança
poderá ser dispensado ou reduzido em até 2/3 se o preso não possuir condições
financeiras para pagá-la. Se a condição financeira do indivíduo é extremamente
favorável, poderá a fiança ser aumentado em até 1.000 vezes.
60 Direito Processual Penal

A quebra da fiança (art. 342 do CPP), importa em perda da metade do valor


pago.
Há crimes que não aceitam a fiança (inafiançáveis): crimes hediondos e equi-
parados (tráfico, tortura e terrorismo), racismo e ação de grupos armados milita-
res ou civis contra a ordem constitucional e o estado democrático.
Também não caberá fiança nos casos do art. 324 do CPP:
I – aos que, no mesmo processo, tiverem quebrado fiança anteriormente con-
cedida ou infringido, sem motivo justo, qualquer das obrigações a que se referem
os arts. 327 e 328 deste Código;
II – em caso de prisão civil ou militar;
III – (revogado);
IV – quando presentes os motivos que autorizam a decretação da prisão
preventiva.

17. Prisão Temporária – Cabimento – Natureza


Jurídica
A prisão temporária vem prevista na Lei nº 7.960/89. Trata-se de medida cau-
telar preparatória para a ação penal, e sua maior incidência ocorre na fase da
investigação.
De acordo com a lei, temos:
“Art. 1º Caberá prisão temporária:
I – quando imprescindível para as investigações do inquérito policial (trata-se
de hipótese evidente de periculum libertatis, mostrando sua excepcionalidade);
II – quando o indiciado não tiver residência fixa ou não fornecer elementos
necessários ao esclarecimento de sua identidade (trata-se de hipótese pouco apli-
cável, por conta da criação da prisão preventiva para identificação civil);
III – quando houver fundadas razões, de acordo com qualquer prova admitida
na legislação penal, de autoria ou participação do indiciado nos seguintes crimes:
a) homicídio doloso (art. 121, caput, e seu § 2º);
b) sequestro ou cárcere privado (art. 148, caput, e seus §§ 1º e 2º);
c) roubo (art. 157, caput, e seus §§ 1º, 2º e 3º);
d) extorsão (art. 158, caput, e seus §§ 1º e 2º);
e) extorsão mediante sequestro (art. 159, caput, e seus §§ 1º, 2º e 3º);
f) estupro (art. 213, caput, e sua combinação com o art. 223, caput, e pará-
grafo único);
g) revogado.
Direito Processual Penal 61

h) revogado
i) epidemia com resultado de morte (art. 267, § 1º);
j) envenenamento de água potável ou substância alimentícia ou medicinal
qualificado pela morte (art. 270, caput, combinado com o art. 285);
k) quadrilha ou bando (art. 288), todos do CP;
l) genocídio (arts. 1º, 2º e 3º da Lei nº 2.889/56), em qualquer de suas formas
típicas;
m) tráfico de drogas (art. 12 da Lei nº 6.368/76);
n) crimes contra o sistema financeiro (Lei nº 7.492/86).
Neste inciso III, temos o chamado fumus comissi delicti e é um inciso de apli-
cação obrigatória, ou seja, sempre deve haver uma das hipóteses aqui elencadas,
a do inciso I ou do inciso II. Este rol é taxativo.

18. Prisão Temporária – Crimes Hediondos –


Legitimidade – Prazos
Inicialmente, importa enfatizar que alguns crimes hediondos não estão previstos
no rol dos crimes em que cabe a prisão temporária, mas a lei dos crimes hedion-
dos faz previsão específica de que cabe prisão temporária em todos os crimes
considerados hediondos. Assim sendo, os crimes hediondos ou equiparados que
não estejam previstos no rol da Lei nº 7.960/89 comportam a prisão temporária
por haver previsão especial na lei dos crimes hediondos.
A prisão temporária somente pode ser decretada pelo magistrado, mas nunca
de ofício. Também não há previsão de legitimidade do assistente de acusação
para postular a prisão temporária. Portanto, a prisão temporária será decretada
pelo juiz, a requerimento do MP ou representação da autoridade policial.
Quanto aos prazos de duração da prisão temporária, temos:
a) regra: cinco dias, prorrogáveis por igual período (a prorrogação não pode
ser concedida de ofício);
b) crimes hediondos ou equiparados: 30 dias, prorrogáveis por igual período
(Lei nº 8.072/90).
Para que haja a prorrogação do prazo não são necessários fundamentos no-
vos mas sim que os fundamentos que deram ensejo à decretação da prisão tem-
porária permaneçam.
Terminado o prazo sem que haja mandado de prisão preventiva, o preso deve
ser colocado imediatamente em liberdade, pela autoridade policial, independen-
temente de expedição de alvará de soltura, sob pena de cometer o crime de
abuso de autoridade.
Capítulo 5
Prova

1. Teoria Geral da Prova – Princípio da


Concentração – Princípio da Oralidade
– Princípio da Identidade Física do Juiz –
Princípio da Autorresponsabilidade e Princípio
da Comunhão da Prova

A oralidade do processo penal brasileiro ganhou mais destaque e espaço com a


reforma do CPP em 2008. A prova oral é aquela que permite que o Juiz tenha
um contato imediato com a vítima e com as testemunhas. Assim, oralidade só faz
sentido se estiver lado a lado com o princípio da identidade física do juiz, que veio
previsto a partir desta reforma e especificamente no § 2º do art. 399 do CPP: o
juiz que presidiu a instrução deverá ser o mesmo a julgar a causa.
Contudo, este princípio não é absoluto, pois o próprio legislador tratou de
relativizá-lo.
Alguns autores procuram dar máxima efetividade ao princípio da identidade
física do juiz e afirmam que, no caso do declínio da competência, o novo juízo
teria de refazer a colheita probatória.
A mitigação deste princípio no processo penal só pode se dar em última hi-
pótese, como no caso quando for impossível vincular o juiz que fez a instrução
àquele que irá sentenciar a causa.
Este princípio está ligado ao princípio da concentração: para garantir uma
duração razoável do processo, deverá haver concentração dos atos processuais
sempre que possível (arts. 400, 411 e 531 do CPP), ou seja, somente uma audiên-
cia para instrução, interrogatório e julgamento.
O princípio da autorresponsabilidade é aquele em que as partes são absolu-
tamente responsáveis pelas provas que venham a produzir. Ainda, o princípio da
Direito Processual Penal 63

comunhão da prova diz que no momento em que uma prova é produzida no pro-
cesso não importa por quem foi produzida, ela passa a integrar o processo, serve
somente a ele, podendo ser explorada indistintamente por qualquer das partes.

2. Teoria da Prova – Ônus da Prova no Processo


Penal – Prova de Direito

Há diversas posições na doutrina acerca do tema ônus da prova. A primeira posi-


ção doutrinária, que não deve ser seguida em concursos, entende que o ônus da
prova é inteiramente da acusação. Uma segunda posição estabelece que o ônus
da prova no Processo Penal deve ser partilhado entre as partes, entre a acusação
e a defesa, havendo, portanto, a chamada repartição do ônus da prova.
Aqueles que sustentam a primeira posição entendem que o art. 386, VII, do CPP
seria a demonstração de que o ônus da prova é somente da acusação. Contudo, a
posição que prevalece se dá no sentido de que o ônus da prova é de quem alega.
Neste sentido, o ônus da prova no processo penal pode ser da defesa quando
esta alegar um fato impeditivo, modificativo ou extintivo do direito do autor.
Exemplo: excludentes de tipicidade.
Importante observar que, ainda que a defesa não tenha provado aquilo que
alegou, a acusação não se desincumbe de provar aquilo que alegou. Desta forma,
se nem a acusação e nem a defesa provam as alegações, haverá a absolvição do
acusado.
Ademais, vale lembrar que no processo penal brasileiro, via de regra, não se
aceita a inversão do ônus da prova, havendo somente um caso em que há inver-
são do ônus da prova: na Lei de Lavagem de Capitais.

3. Teoria Geral da Prova – Sistemas de


Apreciação da Prova – Sistema da Prova Legal
ou Tarifado – Sistema da Íntima Convicção
do Juiz – Sistema do Livre Convencimento
Motivado

Inicialmente, observa-se que há diversos sistemas de apreciação da prova no pro-


cesso penal brasileiro, quais sejam: o sistema da prova legal ou tarifada; o sistema
da íntima convicção; e sistema do livre convencimento motivado.
64 Direito Processual Penal

O sistema da prova legal traz que a própria lei impõe como a prova será pro-
duzida, diante de determinada circunstância. Exemplo: art. 158 do CPP.
O sistema da íntima convicção do juiz, também conhecido como sistema da
certeza moral do julgador, faz com que o juiz não esteja obrigado a fundamen-
tar racionalmente as suas decisões. Insta salientar que referido sistema é uma
exceção.
Já o sistema do livre convencimento motivado, também conhecido como sis-
tema da persuasão racional, é aquele em que o magistrado analisa livremente
toda a prova produzida no processo e julga o caso, devendo fundamentar o moti-
vo pelo qual valorou aquela prova daquela forma. Este sistema encontra apoio no
art. 155 do CPP, bem como possui amparo constitucional, no art. 93, IX.

4. Teoria Geral da Prova – Medidas Probatórias


– Busca Domiciliar – Exceções e Requisitos
Específicos do Mandado de Busca – Busca em
Escritório de Advocacia

Serão estudadas agora as medidas probatórias, começando pela busca domiciliar.


Em regra, a busca tem como finalidade apreender documentos, instrumentos
e objetos do crime. A natureza da busca, via de regra, é cautelar, e, portanto,
devem estar presentes os requisitos do fumus boni iuris e do periculum in mora.
Excepcionalmente, a busca não terá finalidade cautelar, mas sim uma finalidade
satisfativa, visando dar cumprimento ao mandado de prisão decorrente de uma
condenação criminal transitada em julgado.
O fumus boni iuris consiste na pretensão condenatória, indícios de que na-
quele imóvel poderão ser arrecadados objetos do crime, instrumentos do crime.
Já o periculum in mora para a busca domiciliar se confere no risco de extravio do
objeto ou de que sejam destruídas aquelas provas.
Os requisitos específicos do mandado de busca domiciliar vêm previstos no
art. 243 do CPP.
Outro ponto a ser esclarecido é o fato de que as buscas realizadas em escri-
tórios de advocacia sempre devem ser acompanhadas de representante da OAB.
Por fim, cumpre salientar que, em regra, o mandado de busca domiciliar é
cumprido durante o dia, nos termos do art. 5º, XI, da CF.
Direito Processual Penal 65

5. Momento da Busca Domiciliar – Exceção na


Busca Domiciliar – Executor do Mandado
de Busca – Resistência do Morador –
Favorecimento Pessoal
Conforme já estudado, a busca domiciliar deverá se realizar durante o dia, poden-
do ter início durante o dia e se estender noite adentro.
A finalidade da busca domiciliar é a apreensão de documentos e objetos do
crime, porém, é possível que esta se dê também para a prisão de acusados que
estejam foragidos ou para a prisão quando tenha sido decretada a prisão tempo-
rária ou preventiva.
A busca domiciliar pode, excepcionalmente, ter início no período noturno
caso haja consentimento por parte do morador.
Ademais, de acordo com o art. 293 do CPP:
“Art. 293. Se o executor do mandado verificar, com segurança, que o réu
entrou ou se encontra em alguma casa, o morador será intimado a entregá-lo, à
vista da ordem de prisão. Se não for obedecido imediatamente, o executor con-
vocará duas testemunhas e, sendo dia, entrará à força na casa, arrombando as
portas, se preciso; sendo noite, o executor, depois da intimação ao morador, se
não for atendido, fará guardar todas as saídas, tornando a casa incomunicável, e,
logo que amanheça, arrombará as portas e efetuará a prisão.”
Insta salientar que, na prática a maioria dos moradores não quer se envolver,
não quer ser testemunha e, assim, a jurisprudência entendeu que os próprios
policiais podem servir de testemunha.
Se o morador que esteja escondendo um sujeito foragido se opõe à entrada dos
policiais, poderá incorrer no crime de favorecimento pessoal (crime permanente).

6. Exceção de Inviolabilidade do Domicílio –


Consentimento do Morador – Prestação de
Socorro ou Desastre – Teoria da Aparência –
Hipótese de Flagrante Delito
A inviolabilidade de domicílio possui algumas exceções que, inclusive, dispensam
a tutela jurisdicional de ingresso em uma residência. Importante ressaltar que o
art. 5º, XI, da Constituição Federal dispõe que a casa é asilo inviolável do indiví-
duo, estabelecendo, inclusive, as exceções.
66 Direito Processual Penal

A primeira exceção é o consentimento do morador. Sobre este assunto, é


preciso destacar que o consentimento para ingressar em imóvel alugado deve
ser do locatário, pois este é o morador. Se mais de um morador estiver presente,
havendo divergência, prevalece a vontade que resguarde o imóvel.
Em se tratando de imóvel alugado por dois estudantes, sendo que um deles
não está na casa, a busca somente pode ser feita na parte comum e no quarto
daquele que autorizou. Caso estes estudantes dividam uma kitchenette, a busca
domiciliar autorizada por um deles abrangeria toda a kitchenette.
Quanto à situação de desastre e prestação de socorro, cumpre destacar que
é necessário que ocorra uma ponderação de interesses entre o bem comum e a
propriedade privada. Nesta ponderação, prevalece a tutela do bem comum. Neste
sentido, em casos de desastre ou prestação de socorro, é possível entrar na casa,
independentemente de consentimento judicial prévio.
Faz-se necessário entender a chamada Teoria da Aparência. Se uma emprega-
da doméstica se faz passar por moradora, ou havendo uma situação que aparen-
tava ser de desastre ou de prestação de socorro, nestes casos o erro do policial é
escusável, não sendo este responsabilizado penal e administrativamente.
No entanto, a diligência probatória efetivada é ilícita e, portanto, qualquer
prova carreada a partir desta diligência é ilícita, devendo ser desentranhada e
inutilizada.
Finalmente, outra exceção é a hipótese de flagrante delito. Importante ressal-
tar que esta hipótese não tem hora para acontecer, podendo ser durante o dia
ou durante a noite.

7. Medidas Cautelares Probatórias – Prova Oral


– Medidas Cautelares de Ofício – Produção
Antecipada de Prova Oral – Alegação de
Perda da Prova

O instituto da produção antecipada de provas foi reformulado na reforma de


2008. O art. 156, I, do CPP passou a admitir a produção antecipada de provas
urgentes, e os critérios para a sua concessão são a proporcionalidade, a necessi-
dade e a adequação.
A produção antecipada pode ser de qualquer prova.
O art. 225 do CPP prevê a produção antecipada da prova oral, sempre com
intuito cautelar.
Direito Processual Penal 67

Atualmente, admite-se até que o juiz produza provas de ofício e até mesmo
antes de iniciada a ação penal (art. 156 do CPP).
Se as medidas cautelares de ofício fossem preparatórias para a ação penal,
elas seriam inconstitucionais, pois estaria ferida a imparcialidade do magistrado.
Mas, segundo a doutrina, se estas medidas são determinadas incidentalmente ao
processo, não haveria qualquer problema, pois corroborariam com a garantia da
efetividade da sentença.
A possibilidade de produção antecipada de prova oral existe, desde muito, no
ordenamento jurídico. Ela pode ser determinada pelo juízo e de ofício, desde que
presente o periculum in mora.
O art. 156 do CPP deve ser interpretado, para fins de fase objetiva de con-
curso, no sentido de que é possível a determinação de prova oral de ofício, antes
de iniciada a ação penal, mas vimos, nesta unidade, as críticas a este dispositivo,
que podem ser levantadas em uma eventual fase oral ou discursiva do concurso.

8. Quebra do Sigilo de Dados e Medidas


Cautelares Probatórias – Posição
Jurisprudencial – Poder de Requisição do MP
e da Comissão Parlamentar de Inquérito –
Competência

Trataremos, nesta unidade, sobre a quebra de sigilo de dados, que é uma medida
cautelar probatória.
A questão do sigilo de dados é contemplada no art. 5º, XII, da CF:
“é inviolável o sigilo da correspondência e das comunicações telegráficas, de
dados e das comunicações telefônicas, salvo, no último caso, por ordem judicial,
nas hipóteses e na forma que a lei estabelecer para fins de investigação criminal
ou instrução processual penal.”
O STF entende que, pela interpretação da LC nº 105/01, pode ocorrer a
quebra de sigilo de dados, desde que haja previsão legal e desde que seja para
fins penais. A LC nº 105/01 veio regulamentar o sigilo de dados bancários e
financeiros.
O TCU e o MP não têm legitimidade para determinar esta quebra, pois não
são órgãos ligados ao Judiciário. Devem, portanto, pedir ao magistrado que de-
termine esta quebra. O mesmo ocorre com o Delegado de Polícia. Este é o enten-
dimento do STF.
68 Direito Processual Penal

Há uma situação, contudo, que deve ser levada em consideração. A Lei nº


7.492/86 prevê a possibilidade de o MP ter acesso aos dados do investigado. E
também a LC nº 75/83 prevê que o MP pode realizar diligências investigatórias e
terá acesso a dados e ao banco de dados.
Já a LC nº 105/01, não listou o MP como autoridade que poderia ter acesso
aos dados bancários e financeiros.
O MP não poderá, portanto, de acordo com o STF, requerer diretamente a
quebra do sigilo de dados, pois estaria vulnerando a garantia fundamental do
indiciado à margem de um devido processo legal prévio. Deverá sempre pleitear
este acesso junto ao Judiciário.
Com relação às CPI’s também não teriam este poder, mas observe que, de
acordo com precedentes do STF, determinar a quebra de sigilo de dados, com
base no art. 58, § 3º, da CF, tal poder já foi autorizado.
A competência para a quebra de sigilo de dados é, portanto, exclusiva do
Poder Judiciário.

9. Medidas Cautelares Probatórias – Captação e


Interceptação Ambientais – Monitoramento
e Espécies de Captação – Determinação
Jurisdicional – Provas Objetivas de Concurso

No que tange à captação e interceptações ambientais, importa verificarmos que


a Convenção de Palermo definiu uma organização criminosa, que deu ensejo
às captações e interceptações ambientais, por sinais óticos, eletromagnéticos e
acústicos.
Consiste, basicamente, em instalação de microcâmeras no ambiente, possibi-
litando captar som, imagem e movimento.
O Estado tem a possibilidade de vigiar a vida privada do sujeito através de som,
imagem e movimento, sem corte. Trata-se, portanto, de medida demasiadamente
invasiva, que se transformará em prova, em investigação ou processo penal.
A interceptação e a escuta são necessariamente realizadas por terceiro, que
são espécies de captação realizadas por pessoas que não os interlocutores. Se
realizada por um interlocutor, o nome que se dá é gravação.
A interceptação é uma captação realizada por terceiro sem o conhecimento
de qualquer dos presentes no ambiente. Já a gravação ambiental é realizada por
um dos presentes, que capta os sinais acústicos e de imagem do ambiente.
Direito Processual Penal 69

Na repressão ao crime organizado o juiz pode autorizar a interceptação, a


escuta e a gravação ambiental, sendo que a escuta também é realizada por tercei-
ro, que conhece ao menos uma das pessoas presentes no ambiente.
O pleno do STF liberou as gravações ambientais, podendo ocorrer indepen-
dentes de autorização jurisdicional, sob o argumento de que a pessoa que está
presente no ambiente dispõe da sua própria intimidade. Mas a captação e a
interceptação dependem de autorização jurisdicional.

10. Medidas Cautelares Probatórias –


Interceptação Telefônica – Finalidade
– Prova Emprestada a Outros Processos –
Entendimento Doutrinário e Jurisprudencial
Falaremos, agora, da interceptação telefônica, que tem proteção constitucional
no mesmo art. 5º, XII, conforme já vimos.
A finalidade de uma interceptação telefônica deve ser genuinamente para fins
penais, sob pena de ser considerada como prova ilícita.
No que tange à prova emprestada relacionada com a interceptação telefônica,
há várias posições sobre o tema:
a) a prova emprestada tem natureza documental. Se o art. 5º, XII, da CF previu
a interceptação telefônica só para fins penais, este artifício traduziria uma burla
ao dispositivo.
b) para os tribunais superiores, as transcrições das conversas telefônicas po-
deriam ser exploradas como prova emprestada para fins não penais, desde que
correlatos ao crime que ensejou a interceptação telefônica.
Importante lembrar que por força da nova redação do art. 387 do CPP, o
magistrado, em caso de sentença condenatória, poderá fixar um valor mínimo de
condenação em razão dos prejuízos sofridos pela vítima, obviamente desde que
haja pedido neste sentido, feito pela vítima.
Portanto, as transcrições de conversa telefônica poderiam ser utilizadas para
embasar uma inicial indenizatória, na esfera cível.

11. Interceptação Telefônica


Primeiro, a interceptação telefônica vem prevista na Lei nº 9.296/96.
Cumpre destacar que a regra geral é que haverá o sigilo das comunicações
telefônicas, conforme disciplina a Constituição Federal em seu art. 5º, XII.
70 Direito Processual Penal

Não obstante, vale lembrar que este sigilo não é absoluto, já que foi mitigado
pela lei supramencionada.
Ainda, tem-se como gênero a captação telefônica, que se subdivide em inter-
ceptação, escuta e gravação telefônica.
A interceptação telefônica e a escuta telefônica são praticadas por terceiros e
somente podem ocorrer licitamente no Brasil com autorização judicial.
No caso da interceptação, não há o conhecimento de qualquer um dos in-
terlocutores. Já na escuta, existe o conhecimento prévio de pelo menos um dos
interlocutores.
A gravação telefônica, por sua vez, é realizada diretamente por um dos inter-
locutores.
O art. 1º da Lei nº 9.296/96 prevê a possibilidade de o magistrado determinar a
interceptação telefônica. Este mesmo dispositivo permitiu que terceiro captasse uma
conversa telefônica, sem o conhecimento prévio de qualquer um dos interlocutores.
A doutrina majoritária entende que é possível também a escuta telefônica,
sendo esta abrangida pelo dispositivo suprarreferido.
Sobre a gravação telefônica, o STF já se manifestou no sentido de que se trata
de prova lícita, dispensando autorização jurisdicional prévia, mas é preciso que se
comprove a indispensabilidade da interceptação.

12. Interceptação Telefônica – Legitimidade

Para que haja interceptação telefônica, é preciso que haja indícios razoáveis de
autoria ou de participação do indivíduo em uma infração penal, e que esta infra-
ção tenha pena de reclusão.
Em relação à legitimidade, o art. 3º da Lei nº 9.296/96 dispõe acerca do
assunto.
A interceptação telefônica pode ser uma medida cautelar tanto preparatória à
ação penal, como pode ser incidental à ação penal.
Demais disso, existe doutrina minoritária no sentido de que essa representa-
ção deveria ser endereçada ao Ministério Público e não ao juízo. Isso, porque se
a interceptação telefônica é uma medida cautelar e a autoridade policial não é
parte, esta não teria legitimidade para se dirigir ao juiz. Contudo, o entendimen-
to dos Tribunais Superiores e da doutrina majoritária se dá no sentido de que a
autoridade policial pode representar diretamente ao juízo.
Há, ainda, uma previsão no art. 3º de que o juiz poderia determinar, de ofício,
a interceptação telefônica.
Direito Processual Penal 71

Excepcionalmente, o juiz poderá admitir que o pedido seja formulado verbal-


mente, desde que presentes os pressupostos que autorizam a interceptação, caso
em que a concessão será condicionada à sua redução a termo.
A interceptação telefônica será determinada pelo prazo de 15 dias, renová-
veis por igual período. No entanto, os Tribunais Superiores admitem sucessivas
renovações.
Nos termos do art. 6º, § 1º, da Lei nº 9.296/96, no caso de a diligência possibi-
litar a gravação da comunicação interceptada, será determinada a sua transcrição.

13. Interceptação Telefônica – Inutilização das


Conversas Telefônicas

A interceptação telefônica é uma medida excepcional, a decisão que a decre-


ta deve ser devidamente motivada e fundamentada, sob pena de nulidade por
afronta ao princípio constitucional da motivação das decisões judiciais.
Considerando a hipótese da conversa não interessar ao processo, apenas o
Ministério Público e a parte interessada podem requerer o incidente de inutiliza-
ção das conversas telefônicas.
A Lei nº 9.296/1996 se refere ao MP e genericamente à parte interessada.
O incidente de inutilização pode ser determinado durante o inquérito, duran-
te ou após a instrução. Esse incidente será assistido pelo MP e acompanhado pelo
acusado (se quiser) e seu defensor.
É imprescindível a notificação da defesa técnica para acompanhar o incidente
de inutilização. Caso contrário, a idoneidade de toda a interceptação será com-
prometida, e tal prova será considerada nula e deverá ser desentranhada dos au-
tos, pois, se o réu não foi notificado, poderá alegar que todo o material apresen-
tado foi editado. Sendo declarada nula a conversa, será desentranhada dos autos.

Exercício
1. Quem pode requerer a interceptação telefônica?

14. Garantia da Não Autoincriminação

O princípio do nemo tenetur se detegere significa que ninguém é obrigado a


produzir prova contra si mesmo.
72 Direito Processual Penal

O CP tipifica o crime disposto no art. 307: “atribuir-se ou atribuir a terceiro


falsa identidade para obter vantagem, em proveito próprio ou alheio, ou para
causar danos a outrem.” E ainda há a contravenção penal: Recusa de forneci-
mento de dados qualificativos, Lei das Contravenções Penais, art. 68 (Decreto-lei
nº 3.688/41).
Fica a questão se referidas condutas podem ser praticadas pelo imputado.
O STJ entendia que se fosse praticado pelo próprio imputado seria autodefesa;
sendo assim, condutas atípicas, de acordo com o Decreto nº 678/92 (Pacto de São
José da Costa Rica).
O STF reconheceu a repercussão geral no caso, podendo ser tratado em
sede de recurso extraordinário. A ementa da repercussão levou a entender que
para o STF essas infrações penais subsistiriam, mesmo quando perpetrada pelo
imputado.
O STJ entende que o fornecimento de dados qualificativos pelo imputado,
não importa auto-incriminação. Nesse sentido, o art. 5º, LVIII, CF/88 determina
que o civilmente identificado não será submetido a identificação criminal, salvo
nas hipóteses previstas em lei.
Destaca-se o art. 186, caput, do CPP – direito ao silêncio, o qual não com-
preende os dados qualificativos.
Se o imputado usar documento falso, art. 304 do CP, irá responder pelo crime,
pois atentará contra a fé pública. O art. 339 do CP disciplina:
“Dar causa à instauração de investigação policial, de processo judicial, ins-
tauração de investigação administrativa, inquérito civil ou ação de improbidade
administrativa contra alguém, imputando-lhe crime de que o sabe inocente.”
Cumpre destacar que o art. 260 do CPP define: “Prevê a possibilidade de se
determinar a condução coercitiva do acusado para o interrogatório ou qualquer
outro ato que exija sua presença.” Conforme orientação dominante da doutrina,
isso não seria constitucional.
Vale lembrar que o art. 198 do CPP não foi recepcionado pela CF por ferir
uma garantia constitucional. Além disso, há sua ab-rogação tácita pela Lei nº
10.792/2003.

Exercício
2. Sobre o uso do bafômetro é correto sua recusa acarretar sanções adminis-
trativas, retenção do veículo e retenção da carteira de habilitação?
Direito Processual Penal 73

15. Inadmissibilidade das Provas Obtidas por


Meios Ilícitos

Ao analisar o art. 5º, LVI, da CF verifica-se a proibição de emprego de provas obtidas


por meio ilícito. As provas ilícitas stricto sensu são aquelas que atentam contra o
regramento material. As ilegítimas são as que atentam ao regramento processual.
Exemplos de prova ilegítima: colheita de um depoimento, oitiva de uma teste-
munha em juízo sem a presença da defesa técnica. Documento juntado aos autos
faltando menos de três dias úteis para o plenário do júri.
O STF entende que o inciso LVI do art. 5º da CF proíbe as provas obtidas por
meios ilícitos, ou seja, meios contrários ao direito material e ao direito processual,
não importando se a prova é ilícita ou ilegítima. Nenhuma dessas provas serão
admitidas no processo. As ilegítimas são provas inconstitucionais e devem ser
consideradas como ilícitas também sob o ponto de vista material.
No entanto, o STF só permite que o réu se utilize de uma prova ilícita porque
aquele réu estaria agindo sobre uma excludente da ilicitude, que é o estado de
necessidade, em última análise aquela prova seria lícita.
Com a reforma de 2008 – Lei nº 11.690/08 que alterou o art. 157, caput e
§ 3º do CPP, essas provas foram definidas como ilícitas, devendo ser desentra-
nhadas, quando contrárias às normas constitucionais e legais.

Exercício
3. Uma prova ilícita jamais poderá ser utilizada?

16. Provas Irregulares Obtidas pelo Acusado em


sua Defesa
São admissíveis as provas em princípio irregulares, obtidas pelo réu a fim de pro-
var sua inocência. Mesmo irregular será lícita, pois teria agido em razão de exclu-
dente de ilicitude: estado de necessidade.
Exemplo: réu invade residência e subtrai documento no qual consta a confis-
são do real infrator. O réu não responderá por violação de domicílio, pois agiu
para evitar que um mal injusto e grave lhe fosse causado.
Assim, referida prova será lícita e poderá ser utilizada no processo. O que a
torna lícita é o emprego pelo acusado, o que justifica a incidência de uma exclu-
dente de ilicitude.
74 Direito Processual Penal

Isso pode ser utilizado pelo réu em sua defesa, porém o MP não poderá se
utilizar para condenar o réu de confissão, pois o que justificava a licitude daquela
prova não estará mais presente (caráter pessoal).
Também se mostrarão lícitas as provas obtidas em legítima defesa própria ou
de terceiro, pois também há excludente da ilicitude. Essas provas serão válidas.
Também são lícitas as provas obtidas em locais públicos de livre acesso, pois
não haverá intimidade, imagem, vida privada, ou seja, é um local público de livre
acesso.

Exercício
4. Como se define a excludente de ilicitude?

17. Teoria dos Frutos da Árvore Envenenada

A teoria dos Frutos da Árvore Envenenada é uma construção inspirada na ju-


risprudência da suprema corte norte-americana, e relaciona-se aos fruits of the
poisoned tree, que seria a prova ilícita por derivação. Se a prova originária é ilícita,
todas as provas dela decorrentes também serão ilícitas. O tema surgiu pelo STF
quando tratou do tema de interceptação telefônica.
As interceptações decretadas com base no Código de Telecomunicação se
tornaram ilícitas, pois o STF entendeu que a interceptação exigiria lei própria, que
veio a se tornar a Lei nº 9.296/96.
As provas obtidas a partir dessas interceptações seguem a teoria dos frutos da
árvore envenenada. O art. 573, § 1º, do CPP versa sobre nulidades.
Assim, o STF interpretou extensivamente o art. 573 com o objetivo de alcançar
as provas, anunciando o princípio da causalidade e da nulidade, ou seja, a nulida-
de de um ato origina a nulidade dos atos consequentes.
A Lei nº 11.690/2008 positiva a teoria dos frutos da árvore envenenada no
art. 157, § 1º, do CPP, pelo qual são ilícitas e imprestáveis as provas derivadas de
outra ilícita.
Atualmente quando se fala na teoria da árvore envenenada não precisa recor-
rer ao art. 573 do CPP, pois ela tem previsão expressa no art. 157, § 1º, do CPP.
A exceção à teoria da árvore envenenada encontra-se no caso em que não
houver causalidade entre a prova originária ilícita e a prova derivada, assim, se a
segunda prova não decorreu da prova ilícita poderá, por isso, ser aproveitada no
processo.
Direito Processual Penal 75

As fontes independentes (independent sources) seriam provas derivadas de


uma prova ilícita, mas essas provas por si só foram colhidas licitamente, e por si
só conferem justa causa à deflagração da ação penal. Precisam ter nexo causal,
provas por si só capazes de conferir justa causa à demanda, sendo a prova ilícita
originária, é desentranhada dos autos e inutilizada.

Exercício
5. Existe exceção à teoria da árvore envenenada?

18. Prova Testemunhal


De acordo com o CPP, em regra toda pessoa poderá ser testemunha, sendo esta
a pessoa que vai a juízo para falar o que sabe sobre os fatos.
No art. 204 do CPP temos que a testemunha não pode se reportar a trans-
crições ou documentos, devendo reproduzir oralmente aquilo que seus sentidos
captaram. Mas não será vedado à testemunha uma prévia consulta a apontamen-
tos (art. 204, parágrafo único).
Importa lembrarmos aqui, que quanto à testemunha vige o princípio da judi-
cialidade: testemunha é aquela que presta depoimento em juízo e se comprome-
te em dizer a verdade. Esta é a testemunha em sentido estrito.
Algumas pessoas, no entanto, são liberadas da obrigação de dizer a verdade.
Estas pessoas não podem ser consideradas, tecnicamente, como testemunhas,
mas sim informantes. É o que dispõe o art. 208 do CPP.
Neste sentido, os doentes, deficientes mentais, menores de 14 anos e aqueles
que têm um vínculo de parentesco com o réu não precisarão prestar o compro-
misso de dizer a verdade.
Antes do depoimento da testemunha é possível que haja, no processo penal,
a chamada contradita: trata-se da arguição de circunstâncias ou defeitos que a
tornem suspeita de parcialidade ou indignas de fé. Se a contradita for aceita, a
pessoa poderá ser ouvida, mas na condição de informante (e não na condição de
testemunha).
Algumas pessoas estão proibidas de depor. Trata-se do rol do art. 207 do CPP:
“São proibidas de depor as pessoas que, em razão de função, ministério,
ofício ou profissão, devam guardar segredo, salvo se, desobrigadas pela parte
interessada, quiserem dar o seu testemunho.”
Observe que o advogado e o padre, mesmo desobrigados pela parte, conti-
nuam proibidos de depor.
76 Direito Processual Penal

As testemunhas não poderão, em depoimento, manifestar suas apreciações


pessoais, salvo quando estas forem inseparáveis dos fatos.
Cada testemunha deve ser ouvida separadamente, para que o depoimento
de uma não interfira no depoimento de outra. Inclusive, antes da audiência, as
testemunhas devem ser alocadas em locais separados, para garantir a incomuni-
cabilidade entre elas.
O sistema de oitiva das testemunhas é o de inquirição direta: as partes fazem
perguntas diretamente às testemunhas, podendo o juiz complementá-las.

19. Prova Testemunhal – Atuação Oficiosa do Juiz

No art. 209 do CPP, temos que o juiz poderá determinar, de ofício, a oitiva de
outras testemunhas ou das testemunhas que foram referidas (pessoas aludidas
pelas testemunhas ao longo dos depoimentos). É o que se chama de atuação
oficiosa do juiz.
As testemunhas referidas (Art. 209, § 1º: “São proibidas de depor as pessoas
que, em razão de função, ministério, ofício ou profissão, devam guardar segredo,
salvo se, desobrigadas pela parte interessada, quiserem dar o seu testemunho.”)
não se confundem com as testemunhas do juízo.
Importante lembrar que a prova testemunhal é diferente a declaração do
ofendido: ambas são provas orais, mas a vítima não é testemunha.
O sistema de inquirição da vítima é o mesmo de inquirição das testemunhas
(art. 212 do CPP), mas o valor probatório das declarações da vítima é relativo.
Em verdade, nenhuma prova tem valor absoluto. No art. 93, IX, da CF, temos
o chamado princípio da motivação das decisões judiciais. Assim, o juiz terá seu
convencimento livre, mas motivado.
Observe, contudo, que nos crimes clandestinos, a palavra da vítima tem muita
importância, principalmente se estiver em harmonia com o contexto probatório,
mas, repita-se: nenhuma prova tem valor absoluto (nem mesmo as provas periciais).
A vítima poderá até mesmo ser coercitivamente conduzida para prestar seu
depoimento. Ademais, a vítima tornou-se, com a reforma processual, um sujeito
processual mais ativo. Será, inclusive, intimada de vários atos processuais, por
exemplo, da sentença, sob pena de tal sentença não transitar em julgado sem
esta intimação.
Sobre o instituto da acareação, vale lembrar que não se trata de um direito
subjetivo. O juiz decidirá sobre a conveniência e oportunidade do instituto. Será
admitida entre todos aqueles que falaram no processo.
Direito Processual Penal 77

20. Procedimento do Interrogatório

O interrogatório é uma oitiva em contraditório, com o juiz iniciando as perguntas


(sistema presidencialista). As perguntas das partes também passam pelo juiz: as
partes formulam as perguntas ao juiz, que as transmite ao interrogado.
Trata-se de sistema diferente do sistema de inquirição das testemunhas. A
ordem de perguntas é a seguinte:
– juiz;
– acusação;
– assistente de acusação;
– defesa.
Sobre a possibilidade de o advogado de um dos réus poder direcionar per-
guntas a corréu, a Segunda Turma do STF e a Sexta Turma do STJ entendem que
existe tal possibilidade. As perguntas dos corréus viriam após as do assistente de
acusação e antes das perguntas da defesa.
No interrogatório em que há delação, o corréu deve ter a oportunidade de
intervir, sob pena de nulidade absoluta. Se o delator assumir a responsabilidade
do crime, inocentando o corréu, não haverá prejuízo aos corréus, de modo que a
sua não intervenção não trará nulidade.
Em regra, o interrogatório é o último ato da instrução criminal. Mas, lem-
bre-se que no caso da Lei de Drogas, o interrogatório é o primeiro ato da
instrução.
Pode o acusado optar por ficar em silêncio em seu interrogatório, e a natureza
do interrogatório é mista: meio de defesa e meio de prova.
Em caso de testemunhas ouvidas por precatória, prevalece que o réu será
interrogado somente após o retorno da(s) precatória(s), sob pena de nulidade
(cerceamento de defesa).
Antes do interrogatório (após a colheita da prova oral acusatória e defensiva),
o réu tem o direito de entrevistar-se reservadamente com seu advogado.
Estando o réu preso em outro estado da federação, tem direito a assistir in
loco a audiência de instrução, mas deverá peticionar solicitando tal expediente.
Não requerendo a defesa o deslocamento, a audiência será feita sem a presença
do réu.
O interrogatório por videoconferência ocorrerá em casos excepcionais (art.
185, § 2º, do CPP), somente para réus presos.
78 Direito Processual Penal

21. Confissão

A confissão vem prevista nos arts. 197 a 200 do CPP.


Quanto ao objeto, a confissão pode ser:
a) confissão simples: o acusado simplesmente admite a autoria delitiva.
b) confissão qualificada: notabiliza-se pelo reconhecimento da autoria delitiva,
mas com a invocação de uma excludente de ilicitude (assim, o acusado não reco-
nhece sua responsabilidade penal). Esta confissão pode configurar a atenuante
genérica (há, contudo, posição no sentido contrário).
c) confissão complexa: nesta, o réu reconhece a responsabilidade da imputa-
ção do crime, e vai além: reconhece também a autoria de outros crimes. Neste
sentido, a delação premiada é uma confissão complexa. O réu reconhece a sua
autoria e a dos demais autores e partícipes.
A confissão pode se dar extrajudicialmente ou judicialmente. A confissão ju-
dicial tem valor probatório (não absoluto). Já a confissão extrajudicial é tida como
mero indício de prova, porque é obtida sem contraditório, ampla defesa e garan-
tia do juiz natural.
Quanto à forma, a confissão pode ser:
a) explícita: o réu expressamente confessa a autoria delitiva. Será tida como
prova desde que mantida judicialmente.
b) implícita: trata-se de mero indício.
A confissão é retratável (art. 200 do CPP). Se o juiz fizer menção à confissão
retratada, e, com base nesta, condenar o indivíduo, é necessária a aplicação da
atenuante genérica do art. 65, III, “d”, do CP.
O silêncio nunca poderá ser interpretado em desfavor do réu, por força de
disposição constitucional.

22. Prova Pericial

Prova pericial é aquela formulada por um expert. Demanda, pois, conhecimento


técnico.
Os peritos poderão ter sua suspeição ou impedimento alegadas, pois também
possuem compromisso com a imparcialidade.
Sempre que a infração penal deixar vestígio, será necessária a realização do
exame de corpo de delito direto ou indireto, não podendo supri-lo a confissão
do acusado.
Direito Processual Penal 79

Basta um perito oficial para realizar a perícia. Mas, se se tratar de peritos não
oficiais, são necessários dois. Portanto, a Súmula nº 361 do STF é inaplicável no
que diz respeito aos peritos oficiais.
Para ser perito não oficial, é preciso o cumprimento de três requisitos: ser pes-
soa idônea, ter diploma em curso superior e ter capacidade técnica para o exame.
Se os vestígios do delito ainda existem o laudo pericial será necessariamente
direto. Mas se os vestígios desaparecerem, realiza-se o chamado exame indireto.
Por força do princípio do livre convencimento motivado do juiz, este não esta-
rá adstrito ao laudo pericial, podendo aceitá-lo ou rejeitá-lo no todo ou em parte.
É possível, no processo penal, a presença do assistente técnico, que é aquele
nomeado pelas partes, para auxiliar o perito oficial ou não oficial. É o que se
chama contraditório diferido na prova pericial. O assistente técnico poderá ser
ouvido na audiência de instrução, mas para tanto a parte deverá arrolá-lo.
As partes podem, ainda, formular quesitos para os peritos (art. 159, § 3º,
do CPP).
Capítulo 6
Procedimento

1. Procedimentos – Parte I
Procedimento é o conjunto de atos encadeados, cuja finalidade é a obtenção de
um resultado final (sentença). Quando se fala em procedimento, o princípio que
rege esta matéria é o princípio do devido processo legal. Neste sentido, deve-se
observar com rigor as regras processuais até o seu final.
O princípio do devido processo legal está previsto na Constituição Federal, em
seu art. 5º, LIV.
Os procedimentos se dividem em comuns e especiais. São três os procedimen-
tos comuns: ordinário, sumário e sumaríssimo. Já em relação aos procedimentos
especiais, estes podem ser considerados de forma residual, pois o que não for
comum será especial. Exemplo: procedimento referente a Júri.
Ademais, o procedimento comum não mais é fixado de acordo com a espécie
de pena, fato que ocorre desde 2008. Assim, ressalta-se que o procedimento
comum é fixado de acordo com a pena máxima em abstrato.
Desta forma, o procedimento será ordinário se a pena for maior ou igual a
quatro anos. Se a pena for entre dois e quatro anos, o procedimento será sumá-
rio. Por fim, o procedimento será sumaríssimo se a pena for igual ou menor que
dois anos, bem como caso se trate de contravenções penais.
O art. 394, § 5º, do CPP dispõe que se o procedimento nada mencionar a
respeito, busca-se a regra do procedimento ordinário.
Se o procedimento ordinário for fixado de forma equivocada, não haverá pre-
juízo ao acusado, pois se trata de um procedimento mais amplo, mais abrangente.

Exercício
6. (FMP – 2010 – TJ – AC) Em relação aos procedimentos criminais é correto
afirmar que se aplica:
Direito Processual Penal 81

a) O procedimento comum ordinário para apuração dos crimes cuja san-


ção máxima cominada seja superior a 4 (quatro) anos de pena privativa
de liberdade.
b) O procedimento comum sumário para apuração dos crimes cuja sanção
máxima cominada seja igual ou inferior a 4 (quatro) anos de pena pri-
vativa de liberdade.
c) O procedimento comum sumário para apuração dos crimes cuja sanção
máxima cominada seja superior a 4 (quatro) anos de pena privativa de
liberdade.
d) O procedimento comum sumaríssimo apenas para a apuração dos cri-
mes a que a lei comine pena máxima não superior a 2 (dois) anos de
prisão, cumulada ou não com multa.
e) Procedimento comum sumaríssimo para a apuração das contravenções
penais e dos crimes a que a lei comine pena máxima não superior a 2
(dois) anos de prisão, cumulada ou não com multa.

2. Procedimentos – Parte II
O primeiro ato no procedimento ordinário, que dará início ao procedimento diz
respeito à inicial acusatória. Este oferecimento da inicial é regulado pelo art. 41
do CPP.
Insta esclarecer que a inicial acusatória pode ser uma denúncia ou uma quei-
xa-crime. Se o crime for de ação penal pública, a inicial acusatória será uma de-
núncia e se for ação penal de iniciativa privada, a inicial se chamará queixa-crime.
Dispõe o art. 41 que a denúncia ou queixa conterá a exposição do fato cri-
minoso, com todas as suas circunstâncias, a qualificação do acusado ou esclare-
cimentos pelos quais se possa identificá-lo, a classificação do crime e, quando
necessário, o rol das testemunhas.
A partir do momento em que a inicial foi oferecida, os autos seguem conclu-
sos para que o juiz receba ou rejeite a inicial.
Para que o juiz receba a inicial, é preciso que haja indícios de autoria e prova
da materialidade. Ainda, devem estar preenchidos os requisitos do art. 41 do CPP.
Por fim, é preciso que não haja causas impeditivas ou extintivas da pretensão.
As hipóteses de rejeição da inicial estão previstas no art. 395 do CPP. As hi-
póteses são: inépcia da inicial; falta de pressuposto processual ou condição para
o exercício da ação penal; e falta de justa causa para o exercício da ação penal.
Recebida a inicial, o juiz ordena a citação, que é a comunicação da imputação
de um crime e convocação ao processo para se defender.
82 Direito Processual Penal

Exercício
7. (FCC – Metrô – 2010) A respeito do procedimento ordinário, é correto afir-
mar que:
a) Terá início com o interrogatório do réu.
b) A defesa prévia será apresentada até três dias após o interrogatório.
c) Serão ouvidas, na instrução, até cinco testemunhas.
d) As alegações finais orais serão oferecidas no prazo de duas horas.
e) O juiz que presidiu a instrução deverá proferir a sentença.

3. Procedimentos – Parte III

Após a citação, o próximo ato será a resposta à acusação, que deverá ser feita
pelo réu. Esta resposta à acusação é a primeira manifestação da defesa técnica
no processo penal.
A resposta à acusação é uma defesa processual, de mérito e também opor-
tunidade para indicação das provas que se pretende produzir. É o momento em
que podem ser arroladas até oito testemunhas. O prazo para resposta à acusação
é de dez dias e este prazo é impróprio, pois o desrespeito a este prazo não gera
preclusão.
Uma vez oferecida a resposta à acusação, os autos retornam ao juiz, que
decidirá sobre as questões que foram trazidas nesta peça. O juiz pode, neste
momento, absolver sumariamente o réu. Esta absolvição irá trazer uma forma de
julgamento antecipado da lide.
Pode ser que o juiz não absolva sumariamente, designando uma audiência.
Esta audiência é una, de instrução, debates e julgamento e deve ocorrer no prazo
de 60 dias.
A audiência começa com a fase de instrução e inicialmente será ouvida a
vítima, seguida das testemunhas de acusação, testemunhas da defesa, esclareci-
mento do perito (se houver requerimento de uma das partes), acareação, reco-
nhecimento de pessoas e coisas e, por fim, interrogatório.
Em seguida, haverá a fase de diligências e, finalmente os debates orais. A
regra é que os debates sejam orais, mas estes podem ser substituídos por memo-
riais escritos.
A última fase é a sentença, que será proferida em audiência ou no prazo de
10 dias.
Direito Processual Penal 83

Exercício
8. (MP-SP, Vunesp – Analista de Promotoria – 2010) Conforme preceitua o art.
396 do CPP, no procedimento comum sumário, o juiz, ao receber a denún-
cia ou queixa:
a) Notificará o acusado e designará data para seu interrogatório.
b) Nomeará defensor para articular resposta escrita em favor do acusado.
c) Determinará a intimação do acusado e seu defensor para apresentação
de defesa prévia.
d) Ordenará a citação do acusado para responder à acusação, por escrito,
no prazo de 10 (dez) dias.
e) Designará audiência de instrução, debates e julgamento, oportunidade
em que o acusado deverá, por seu defensor, apresentar defesa escrita.

4. Procedimentos – Parte IV

Há dois critérios de competência em se tratando de Juizado Especial Criminal.


O primeiro critério é a competência em razão da matéria, que aponta quais
são as infrações penais que serão julgadas pelo Juizado Especial Criminal. Serão
julgados os crimes cuja pena máxima em abstrato não ultrapasse dois anos e as
contravenções penais (art. 61 da Lei nº 9.099/95).
O segundo ponto é tratar acerca da competência territorial. Será competente
o Juizado Especial Criminal do local da prática da infração penal (art. 63 da Lei
nº 9.099/95).
Quando se fala em Juizado Especial Criminal, englobam-se três fases: policial
(de investigação), consensual e processual.
A fase policial é constituída pela lavratura do termo circunstanciado. Ainda,
não haverá prisão em flagrante e não será exigida fiança, basta que o sujeito
compareça imediatamente ao JeCrim ou se comprometa a comparecer.
A segunda fase é a chamada fase consensual, uma fase de conciliação. Aqui
dois institutos estarão presentes de forma mais forte: a composição civil e a tran-
sação penal.
Composição civil é acordo entre autor do fato e vítima, com o fito de alcançar
a indenização. Sendo homologado acordo, ocorre renúncia à representação ou
renúncia ao direito de queixa.
Havendo transação penal, haverá um acordo entre autor do fato e o Minis-
tério Público. Assim, o Ministério Público deixa de propor ação e o autor do fato
84 Direito Processual Penal

prestará medidas alternativas ou pagará uma multa. Se não der certo a concilia-
ção, haverá a terceira fase, qual seja, fase processual.
A inicial deve ser oferecida de forma oral. O juiz designará audiência de ins-
trução, debates e julgamento.
A primeira parte desta audiência é a apresentação da defesa preliminar, uma
defesa que antecede o recebimento ou rejeição. Se receber, haverá oitiva da víti-
ma, de testemunhas e, por fim, interrogatório. Na sequência, haverá os debates
orais e, finalmente, a sentença.

Exercício
9. (MPE/RS – Promotor de Justiça) Assinale a alternativa correta. A Lei nº
9.099/95 exige representação para exame das infrações penais:
a) Crimes apenados com reclusão.
b) Contravenções penais.
c) Homicídio culposo.
d) Lesões corporais leves e culposas.
e) Furto simples.

5. Citação
A citação é o ato que comunica a acusação ao réu e o chama para se defender no
processo. Nota-se que é, ao mesmo tempo, um aviso e uma convocação.
Há duas espécies de citação: real (pessoal) e ficta ou presumida (por edital).
A primeira espécie de citação pessoal é a citação por mandado, nos termos
do art. 352 do CPP. Neste sentido, o oficial de justiça vai munido de um mandado
de citação.
A segunda espécie é a citação por precatória, conforme disposto no art. 353
do CPP. Esta se dará quando o réu estiver fora da comarca ou fora da jurisdição.
Cumpre salientar que a citação por precatória tem caráter itinerante.
Por outro lado, a citação por rogatória ocorre se o réu residir no exterior. A
citação por carta de ordem é emanada por um tribunal superior, nos casos de
competência originária.
A citação por requisição também é espécie de citação pessoal, podendo ser ao
militar (art. 358 do CPP) ou ao preso (art. 360 do CPP).
A citação do funcionário público é por mandado, mas deve ser notificado o
chefe da repartição.
Direito Processual Penal 85

A citação por edital é uma citação ficta, presumida, e ocorrerá se o acusado


não for encontrado.
Dispõe o art. 366 do CPP:
“Art. 366. Se o acusado, citado por edital, não comparecer, nem constituir ad-
vogado, ficarão suspensos o processo e o curso do prazo prescricional, podendo o
juiz determinar a produção antecipada das provas consideradas urgentes e, se for
o caso, decretar prisão preventiva, nos termos do disposto no art. 312.”

Exercício
10. (MP/ES – 2010 – Cespe) O MP ofereceu denúncia contra Cláudio, imputan-
do-lhe a prática dos crimes de desacato e falsa identidade, ambos do CP. Em
face de não ter sido localizado, o denunciado foi citado por meio de edital.
Cláudio não compareceu ao interrogatório nem indicou advogado para a
sua defesa. Na situação hipotética acima apresentada, ocorrerá:
a) O arquivamento do processo até a localização do réu.
b) A suspensão do processo e do curso do prazo prescricional.
c) Apenas a suspensão do processo.
d) O prosseguimento regular do feito à revelia do autor.
e) Apenas a suspensão do curso do prazo prescricional, o que possibilitará
a produção de provas.

6. Citação e Procedimento no Crime de Lavagem


de Dinheiro
A primeira lei que tratou da lavagem de capitais foi a Lei nº 9.613/98. No entanto,
em 2012 houve uma significativa alteração pela Lei nº 12.683/12.
Quanto ao crime antecedente, importa consignar que este pode ser qualquer
infração penal. A apuração da lavagem de capitais independe do processamento
do crime antecedente, sendo que o juiz competente para julgar a lavagem poderá
determinar a unidade do processo e o julgamento simultâneo.
Ainda, não se aplica o art. 366 do CPP. Se o acusado for citado por edital e
não comparecer e nem constituir advogado, o processo seguirá até o final, com
nomeação de defensor dativo.
São cabíveis fiança e liberdade provisória, e é prevista a alienação antecipada
para preservação do valor dos bens, sempre que estes estiverem sujeitos a
qualquer grau de deterioração ou depreciação, ou quando houver dificuldade
para sua manutenção.
86 Direito Processual Penal

Exercício
11. (Promotor – 2005 – MPDFT) Assinale a alternativa incorreta:
a) Para garantir a ordem pública, poderá o juiz, em qualquer fase da per-
secução penal por crime previsto no Código de Trânsito Brasileiro, de
ofício, ou mediante requerimento do Ministério Público ou representa-
ção da autoridade policial, suspender cautelarmente a habilitação do
acusado para dirigir veículo automotor.
b) Para a apuração dos crimes previstos na legislação antitóxicos, é per-
mitida a infiltração de policiais em quadrilha de traficantes de drogas
ilícitas, com o objetivo de colher informações sobre as operações desen-
volvidas pelo bando.
c) Nos processos por crime de “lavagem” ou ocultação de bens, direitos
e valores, a lei determina que não se suspende o curso do processo em
que o acusado não compareceu ao interrogatório após haver sido cita-
do por edital.
d) Mesmo se já for civilmente identificado por documento original, o indi-
ciado ou acusado por delito de tráfico internacional de entorpecentes
será, em razão dessa imputação, criminalmente identificado.
e) Todos os crimes ambientais previstos na Lei nº 9.605/98 são objeto de
ação penal pública.

7. Citação com Hora Certa

O pressuposto da citação com hora certa é a existência de suspeita de ocultação,


atestada pelo oficial de justiça. Os requisitos estão previstos no Código de Pro-
cesso Civil.
O CPP viabiliza a existência desta modalidade de citação, porém não a regula-
menta, ou seja, é utilizado o Código de Processo Civil.
O oficial de justiça deve procurar o réu por três vezes, em seu domicílio ou
residência. Nestas três vezes, o oficial deve verificar se existe suspeita de oculta-
ção. Cumpre ressaltar que se não houver suspeita de ocultação, cita-se por edital.
O oficial de justiça deve intimar a qualquer pessoa da família, ou em sua falta
a qualquer vizinho, que no dia imediato voltará para efetuar a citação, na hora
por ele designada. Assim, o oficial de justiça retorna no dia e horário marcado e,
se o citando não estiver presente, dará por realizada a citação, deixando contrafé
com pessoa da família ou vizinho.
Direito Processual Penal 87

Ademais, deve ser tomada certa cautela, devendo ser enviada carta, telegra-
ma ou radiograma ao acusado, dando-lhe ciência da diligência realizada.

Exercício
12. (TJ-SP, Vunesp – Escrevente Técnico Judiciário – 2007) No processo penal,
caso o magistrado tenha a informação nos autos de que o réu se oculta
para não ser encontrado para a citação:
a) Determinará a citação por hora certa.
b) Determinará que seja feita a citação por edital.
c) Declarará o réu revel.
d) Determinará a expedição de mandado de prisão preventiva.
e) Determinará, com o prazo de cinco dias, o comparecimento do réu ao
cartório para ser citado pessoalmente sob pena de desobediência.

8. Defesa Preliminar

A defesa preliminar é a manifestação da defesa técnica, posterior ao oferecimen-


to da denúncia e anterior ao seu recebimento, com o objetivo de alcançar sua
rejeição ou, ao menos, o acolhimento de tese subsidiária, como a desclassificação
do crime imputado ao acusado, por exemplo.
Quando se tem a defesa preliminar, primeiro oferece-se a inicial, depois há a
defesa preliminar e somente então o juiz irá receber ou rejeitar a inicial. Trata-se
de uma exceção, pois não ocorrerá em todos os procedimentos penais.
Há três hipóteses de defesa preliminar: crimes funcionais (art. 514 do CPP),
procedimento sumaríssimo (art. 81, caput, da Lei nº 9.099/95) e Lei de Drogas
(art. 55 da Lei nº 11.343/06).
Os prazos para oferecimento da defesa preliminar são diferentes, já que se
trata de três hipóteses diversas.
Em se tratando de crimes funcionais, o prazo é de 15 dias. Já no caso do
procedimento sumaríssimo, a defesa é realizada em audiência. Por fim, em se
tratando de crimes previstos na Lei de Drogas, o prazo para oferecimento será
de 10 dias.
No procedimento sumaríssimo, a defesa preliminar acontece de forma oral,
na própria audiência.
Em geral, considera-se que o prazo é próprio, gerando preclusão se não for
observado, diferenciando-se da resposta à acusação.
88 Direito Processual Penal

O conteúdo da defesa preliminar pode ser: teses para alcançar rejeição da


denúncia, teses de desclassificação, teses de revogação de prisão ou, ainda, teses
de extinção de punibilidade.
Podem também ser juntados documentos, bem como haver o oferecimento
do rol de testemunhas.

Exercício
13. (Cespe – Ibram – 2009) Julgue se a assertiva está correta ou incorreta:
O crime de excesso de exação, cuja pena é de reclusão de três a oito anos,
não se submete ao procedimento especial dos crimes de responsabilidade
dos funcionários públicos, seguindo o procedimento ordinário.

9. Julgamento Antecipado do Mérito

O julgamento antecipado do mérito é também chamado de absolvição sumária.


Trata-se de um julgamento antecipado da lide a favor do réu, porque não houve,
ainda, a instrução criminal.
A inicial foi oferecida e recebida, réu citado e resposta à acusação foi ofereci-
da. É neste ponto que pode ocorrer a absolvição sumária, e é justamente por isso
que só pode ser a favor do réu. Afasta-se, neste caso, a lide temerária, ou seja, a
lide que não tem fundamento ou apoio.
As hipóteses legais estão no art. 397 do CPP, que não abrange as hipóteses
do tribunal do júri.
– existência manifesta de causa excludente da ilicitude do fato: são as cau-
sas previstas, por exemplo, no art. 23 do CP (estado de necessidade, legí-
tima defesa, exercício regular do direito e estrito cumprimento do dever
legal). Importante que a verificação dessas causas seja gritante. Não pode
existir qualquer dúvida ou incerteza no juiz.
– existência manifesta de causa excludente da culpabilidade do agente, salvo
inimputabilidade, como o erro de proibição. Aqui também deve existir o juí-
zo de certeza por parte do juiz. A ressalva da lei quanto à inimputabilidade
ocorre porque se o réu for declarado inimputável, será imposta medida de
segurança, que é uma sanção penal, e, portanto, não ocorre a absolvição
sumária. Nunca pode haver sanção penal sem provas, e sem processo.
– que o fato narrado evidentemente não constitui crime: novamente, não
pode haver qualquer dúvida no juiz.
Direito Processual Penal 89

– quando extinta a punibilidade do agente. Exemplo: art. 107 do CP (pres-


crição, decadência, etc.).
Se não houver absolvição sumária, pode o réu apelar. Se houver, não cabe
qualquer recurso, somente cabendo o HC.

Exercício
14. (Fumarc – Defensor Público/MG) Contra a sentença de absolvição sumária,
no processo que apura os crimes de competência do júri, utiliza(m)-se, em
regra:
a) Recurso inominado.
b) Apelação.
c) Recurso em sentido estrito.
d) Embargos infringentes.
e) Agravo regimental.

10. Rito Sumário

Tanto o procedimento ordinário quanto o sumário (e bem assim o procedimento


sumaríssimo) fazem parte do grupo de procedimentos comuns.
O procedimento ordinário é usado para crimes cuja pena máxima em abstrato
seja igual ou superior a quatro anos, mas as regras do procedimento ordinário
são utilizadas nos demais procedimentos por analogia. Isto, porque ele traz a base
dos procedimentos penais, as principais regras.
O procedimento sumário começa com o oferecimento da inicial acusatória
(denúncia ou queixa- crime, a depender do ser a ação penal, respectivamente
pública ou de iniciativa privada). Cada parte pode arrolar até cinco testemunhas.
Esta é uma particularidade do procedimento sumário.
Depois, os autos seguem conclusos, que decidirá sobre o recebimento ou a
rejeição da inicial (art. 395 do CPP).
Recebida a inicial, no mesmo despacho o juiz manda citar o réu (ciência e cha-
mamento ao processo). O réu oferecerá resposta à acusação no prazo (impróprio)
de 10 dias, arrolando até cinco testemunhas.
Os autos retornam para a conclusão e o juiz deve se manifestar acerca do que
foi arguido na resposta à acusação, podendo inclusive absolver sumariamente.
Não o fazendo, designará audiência de instrução, debates e julgamento no prazo
de 30 dias (o prazo é outra diferença em relação ao procedimento ordinário).
90 Direito Processual Penal

Não há, aqui, previsão expressa de memoriais ou de interrupção da audiên-


cia, mas tanto um quanto outro pode ocorrer por analogia ao procedimento
ordinário.
Resumindo, as diferenças entre o procedimento ordinário e sumário estão no
número de testemunhas, no prazo para audiência e na possibilidade de interrup-
ção da audiência.

Exercício
15. (MP – Acre – 2008) Em relação aos procedimentos ordinário e sumário pre-
vistos no CPP, oferecida a denúncia ou queixa, será o acusado citado para
oferecer resposta no prazo de 10 dias. A ausência de resposta implicará:
a) O seguimento normal do feito, com a designação de audiência para
oitiva de testemunhas arroladas pela acusação.
b) A intimação pessoal do acusado para que a apresente.
c) Nomeação de defensor ao acusado para que essa resposta seja oferecida.
d) O seguimento normal do feito, com a análise, ex officio pelo juiz, da
possibilidade de absolvição sumária.

11. Procedimento – Testemunhas e Prova


Documental

Em todas as oitivas é adotado o sistema cross examination – foi abandonado o


sistema presidencialista por nossa legislação. As partes dirigem-se diretamente à
vítima, testemunha ou acusado – o juiz somente intervirá se houver necessidade.
O primeiro ato da audiência diz respeito à oitiva da vítima. Caso ela não com-
pareça, poderá ser conduzida coercitivamente. Não prestará compromisso.
O segundo ato dirá respeito à oitiva das testemunhas: primeiro as da acusa-
ção, depois as da defesa. Também poderá ser determinada condução coercitiva.
Em regra as testemunhas prestam compromisso – exceto as informantes.
Os próximos atos competem ao esclarecimento do perito, acareação e reco-
nhecimento de pessoas e coisas.
O interrogatório é a oportunidade do acusado trazer ao processo a sua versão
dos fatos.
A prova documental consiste na juntada de documentos, a princípio em qual-
quer fase do processo, exceto no Júri.
Direito Processual Penal 91

Exercício
16. (Escrivão da Polícia Federal – Cespe – 2009) Julgue se assertiva está correta
ou incorreta:
Excepcionalmente, o juiz, por decisão fundamentada, de ofício ou a reque-
rimento das partes, poderá realizar o interrogatório do réu preso por meio
de sistema de videoconferência.

12. Procedimento – Alegações Finais e Art. 403 do


CPP

A manifestação final das partes (debates orais) é prevista como regra em nosso
ordenamento jurídico.
Primeiro a acusação se manifestará, em seguida a defesa. Há um prazo legal
para que as partes se manifestem: 20 minutos, prorrogável por mais 10 minutos.
A exceção consiste em substituição desses debates por memoriais escritos. No
procedimento ordinário há previsão expressa. Estes são denominados também
como “alegações finais”.
As hipóteses de admissibilidade dos debates orais pelas alegações finais são:
complexidade da causa, número alto de acusados ou deferimento de diligências
requeridas pelas partes.
Os fundamentos legais desta substituição encontram-se nos arts. 403, § 3º, e
404, parágrafo único, ambos do CPP.
Há previsão legal dos memoriais no procedimento ordinário, bem como a
possibilidade de utilização por analogia nos outros procedimentos (art. 394, § 5º,
do CPP).

Exercício
17. (TJRS – 2009 – Juiz) Acerca dos procedimentos criminais, considere as asser-
tivas abaixo:
I. Verificado que o acusado se oculta para não ser citado, segundo o CPP, o
oficial de justiça certifica a ocorrência e devolve o mandado, seguindo-se a
citação por edital.
II. No procedimento comum ordinário, não há previsão legal de alegações
finais orais, as quais foram reservadas aos procedimentos comuns, sumário
e sumaríssimo.
92 Direito Processual Penal

III. Na instrução do procedimento comum ordinário, poderão ser inquiridas até


oito testemunhas arroladas pela acusação e oito pela defesa. Nesse número
não se compreendem as que não prestarem compromisso nem as referidas.
Quais são corretas?
a) Apenas I.
b) Apenas II.
c) Apenas III.
d) Apenas I e III.
e) I, II e III.

13. Procedimento – Sentença – Parte I

O conceito de sentença é aquele que determina que esta forma o conjunto de


atos nos quais uma determinada questão é equacionada por quem tenha compe-
tência para prestar a tutela jurisdicional.
Existe a possibilidade de forma atípica de que outros, órgãos que não o Poder
Judiciário, resolvam lides. Seus requisitos são: relatório, fundamentação e conclu-
são. Estes requisitos devem acompanhar a sentença de forma geral.
O relatório deverá conter nome das partes, menção aos principais atos proces-
suais e exposição sucinta dos argumentos das partes. A exceção consistirá para o
Juizado Especial Criminal (Lei nº 9.009/95).
Já a fundamentação consistirá em exigência constitucional prevista no art. 93,
IX, da CF. Sua regra é baseada no livre convencimento motivado. A ausência de
motivação consistirá em nulidade. Será necessário também o exame de todos os
argumentos das partes e a sua exceção será para o Tribunal do Júri.
A conclusão implicará no dispositivo: o juiz fecha o raciocínio com indicação
dos artigos de lei aplicados ao caso concreto.

Exercício
18. (Juiz – TJMA – Cespe – 2007) Julgue se a assertiva está correta ou incorreta:
Chama-se de sentença suicida a que não possui fundamentação.

14. Procedimento – Sentença – Parte II

A sentença condenatória é aquela que acolhe a pretensão punitiva manifestada


pela acusação, no todo ou em parte.
Direito Processual Penal 93

Seu conteúdo é baseado no juízo de certeza. Há a declaração de existência


do direito de punir do Estado. O uso de força coativa é autorizado para garantir
o cumprimento da pena.
A pena poderá ser privativa de liberdade, restritiva de direitos, como também
de multa. Sua previsão encontra-se no art. 32 do CP.
Ao condenar o réu, o juiz poderá decretar prisão preventiva.
Já a sentença absolutória é aquela que reconhece a negativa ou a dúvida
acerca da autoria e/ou da materialidade delitiva, ou que reconhecendo-as, impõe
medida de segurança, face à inimputabilidade ou semi-imputabilidade do réu.
Possuirá duas espécies: própria (é aquela que não gera nenhuma consequência
para o acusado: foi absolvido porque não é autor ou porque o fato não aconte-
ceu) e imprópria (é aquela em que o réu foi autor, o fato aconteceu, porém, o
réu é inimputável).
O fundamento da sentença absolutória encontra-se no art. 386 do CPP, em
seus incisos I a VII.

Exercício
19. (Analista Judiciário – TJPA – FCC – 2009) Sentença absolutória imprópria é
a que:
a) Concede ao acusado a suspensão condicional da pena.
b) Impõe ao acusado somente medida de segurança.
c) Substitui a pena privativa da liberdade por multa.
d) Substitui a pena privativa da liberdade por pena restritiva de direitos.
e) Estabelece o regime prisional aberto para o cumprimento da pena pri-
vativa da liberdade.

15. Procedimento – Emendatio Libelli

É necessário que exista uma correlação entre denúncia e sentença: o réu se defen-
de dos fatos descritos na denúncia, e não da capitulação legal.
Não poderá ser feita pelo juiz análise citra/infra petitum. Se a denúncia abran-
ge um crime, não podem ser examinados pelo juiz dois delitos (extra petitum).
Caso a denúncia abranja um crime na forma simples, não pode este ser examina-
do pelo juiz na forma qualificada (ultra petitum).
A correlação entre denúncia e sentença traz o princípio da imutabilidade da acu-
sação: a acusação, que é veiculada inicialmente, que inaugura o processo penal a
94 Direito Processual Penal

partir do oferecimento da inicial acusatória, não poderá ser modificada, salvo duas
exceções. A primeira consiste na emendatio libelli e a segunda na mutatio libelli.
A primeira implica na correção da capitulação legal do crime. Não há modi-
ficação na descrição dos fatos, mas mera correção na classificação jurídica do
crime. Não há surpresa para a defesa, pois o réu se defende do fato descrito na
denúncia, e não da classificação jurídica do delito – aplicação do art. 383 do CPP.

Exercício
20. (DPU – Cespe – 2010) Julgue se a assertiva está correta ou incorreta:
Considere que, ao sentenciar determinado feito criminal, o juiz, sem modificar
a descrição do fato referido na denúncia, atribui-lhe definição jurídica diversa,
verificando, em consequência disso, que a competência é de outro juízo.
Nessa situação ocorre a perpetuatio jurisdicionis, devendo o juiz sentenciar,
desde logo, o feito, sem necessidade de remessa a outro juízo.

16. Procedimento – Mutatio Libelli

A Mutatio Libelli é a modificação da descrição do fato contida na denúncia. Al-


terando-se a descrição, é necessário que a defesa se manifeste sobre a nova
definição jurídica.
A hipótese de Mutatio Libelli consiste em nova definição jurídica do fato, em
consequência de prova existente nos autos não contida na acusação; modificação
do fato criminoso.
Por consequência, ocorrerá o aditamento da denúncia pelo Ministério Público,
no prazo de cinco dias. Se não houver aditamento, será aplicado o art. 28 do
CPP. A defesa deve se manifestar no prazo de cinco dias e o juiz decidirá sobre o
aditamento. Se admitido, será designada audiência. Cada parte pode arrolar até
três testemunhas, no prazo de cinco dias.

Exercício
21. (Juiz Federal – TRF 2ª Região – Cespe – 2009) Julgue se a assertiva está cor-
reta ou incorreta:
No caso de mutatio libelli, ouvido o defensor do acusado no prazo de cinco
dias e admitido o aditamento, não há previsão legal de realização de nova
audiência, já que a nova definição jurídica do fato terá advindo da instrução
já realizada.
Direito Processual Penal 95

17. Procedimento – Sentença – Art. 385 – Verba


Indenizatória

O art. 385 do CPP estabelece a possibilidade de o juiz condenar mesmo com o


pedido de absolvição pelo Ministério Público. Os princípios relacionados ao Minis-
tério Público são dispostos como: obrigatoriedade e indisponibilidade.
O pedido de absolvição pelo querelante implicará como causa de perempção
– causa extintiva de punibilidade (art. 60, III, 2ª parte, do CPP).
Quanto à verba indenizatória, sua previsão encontra-se no art. 387, IV, do CPP
– o juiz poderá fixar esta verba na sentença condenatória.
Trata-se de uma possibilidade de fixação de valor mínimo de indenização pelo
juiz, no caso de sentença condenatória. Um dos efeitos da condenação é a repa-
ração do dano pelo criminoso (art. 91, I, do CPP).
Geralmente esta verba indenizatória é pleiteada pelo querelante ou pelo as-
sistente da acusação. Faz-se necessário que o pedido seja expresso – o juiz não
poderá conceder de ofício.
O dano que poderá ser objeto desta verba indenizatória será aquele relacio-
nado aos prejuízos materiais ou morais, este último de complexa constatação e
difícil deliberação.

Exercício
22. (DPE/ES – 2009 – Cespe) Julgue se a assertiva está correta ou incorreta:
Ao proferir sentença condenatória, o juiz deve fixar valor mínimo para repa-
ração dos danos causados pela infração, considerando a capacidade econô-
mica do condenado.

18. Procedimento – Procedimentos Especiais do


CPP

Existem dois tipos de procedimentos: comuns e especiais. Os primeiros subdivi-


dem-se em: ordinário, sumário e sumaríssimo. Por exclusão, o que não encontra-
-se nos primeiros, serão considerados procedimentos especiais.
Os procedimentos especiais são aplicáveis para uma categoria determinada de
crimes. Faz-se necessária uma previsão legal expressa. Se não houver, deverá ser
aplicado um dos procedimentos comuns.
96 Direito Processual Penal

Imprescindível será a aplicação analógica do procedimento ordinário (art. 394,


§ 5º, do CPP).
Os procedimentos especiais no CPP, em sua importância, resumidamente são
elencados: crimes funcionais, crimes contra a honra e crimes contra a proprieda-
de imaterial, bem como o tribunal do júri.
Os crimes funcionais implicam na existência de defesa preliminar. Os crimes
contra a honra relacionam-se com a existência de audiência de conciliação. Já os
crimes contra a propriedade imaterial condizem à constatação e materialidade de
forma diferenciada.

Exercício
23. Assinale a alternativa que contenha procedimento especial:
a) Ordinário.
b) Júri.
c) Sumário.
d) Sumaríssimo.
e) Nenhuma das anteriores.

19. Crimes de Responsabilidade do Funcionário


Público e Repercussão da Lei nº 12.403/11

Os crimes praticados por funcionário público contra a Administração Pública no


exercício ou em razão de sua função são chamados crimes funcionais.
O conceito de funcionário público, para o direito penal, encontra-se no pró-
prio CP (art. 327): é todo aquele que embora transitoriamente ou sem remunera-
ção, exerce cargo, emprego ou função pública. Observe que se trata de conceito
mais amplo que o dado pelo Direito Administrativo. A norma deste dispositivo é
aplicada todas as vezes que as leis penais, em geral, mencionarem o termo fun-
cionário público.
O procedimento, nestes crimes, está previsto nos arts. 513 a 518, mas estes
dispositivos informam que somente aplica-se o procedimento típico para os cri-
mes funcionais afiançáveis. Contudo, é importante lembrar que com a alteração
trazida pela Lei nº 12.403/11, o critério de quantidade da pena não é mais uti-
lizado para verificar se o crime é afiançável ou não. A lei traz um rol de crimes
que não são afiançáveis, dentre os quais, não se encontram os crimes funcionais.
Assim, a princípio, todos os crimes funcionais são afiançáveis.
Direito Processual Penal 97

Neste procedimento especial, existe a chamada defesa preliminar, que é a


oportunidade de a defesa técnica se manifestar entre o oferecimento e o recebi-
mento da inicial acusatória, como também ocorre no procedimento dos crimes
da lei de drogas e no procedimento sumaríssimo. Busca-se, aqui, a rejeição da
inicial acusatória.
O prazo para oferecimento desta defesa preliminar é de 15 dias, prazo próprio
e preclusivo. É possível, ainda, a possibilidade de arrolar testemunhas.
Finalmente, a Súmula nº 330 do STJ determina que é desnecessária a resposta
preliminar de que trata o art. 514 do CPP, na ação penal instruída por inquérito
policial.

Exercício
24. (Cespe – Ibram–DF – Advogado – 2009) Julgue se a assertiva está correta ou
incorreta:
O procedimento especial previsto no CPP não se aplica a todos os crimes
funcionais.

20. Crimes contra a Honra

Os crimes contra a honra previstos no CP (arts. 138 a 140) são os crimes de calú-
nia, difamação e injúria.
O crime de calúnia consiste na imputação de fato falso criminoso, portanto,
exige que seja narrado fato falso e criminoso à pessoa determinada. Protege-se
a honra objetiva.
O crime de difamação consiste na imputação de fato ofensivo à reputação.
Assim como na calúnia, não basta mero juízo de valor, mas é preciso um fato cer-
to. Aqui, pode o fato ser falso ou verdadeiro, nem mesmo precisa ser um crime,
precisando apenas que seja ofensivo à reputação.
Por fim, o crime de injúria envolve um juízo de valor depreciativo, e não fato.
Portanto, não é necessária a narração (como era nos demais crimes vistos), bas-
tando a mera adjetivação. Protege-se a honra objetiva.
O procedimento, nos crimes contra a honra, é especial. A primeira particula-
ridade é a designação de uma audiência de conciliação. Trata-se de ato que deve
ser realizado na ausência de advogados, e, em havendo a conciliação, a queixa
será arquivada por conta de desistência da ação.
Outro ponto importante é a chamada exceção da verdade: trata-se de meio
de defesa indireta em que o sujeito assume que o fato aconteceu confessando
98 Direito Processual Penal

a autoria, mas ele busca provar que o fato é verdadeiro. Não é cabível no crime
de injúria. Cabe no crime de calúnia, exceto nas hipóteses do art. 138, § 3º. No
crime de difamação cabe somente em uma única hipótese: se a ofensa for contra
funcionário público no exercício das suas funções.
Pode haver contestação da exceção da verdade, no prazo de dois dias.

Exercício
25. (FCC – Juiz do Trabalho – 4ª Região – 2012) Nos crimes contra a honra, a
exceção da verdade é cabível na:
a) Injúria, se o ofendido é funcionário público e a ofensa é relativa ao
exercício de suas funções.
b) Injúria e na difamação, mas não na calúnia.
c) Calúnia e na injúria, mas não na difamação.
d) Difamação, se o ofendido é funcionário público e a ofensa é relativa ao
exercício de suas funções.
e) Calúnia, ainda que o fato seja imputado a chefe de governo estrangeiro.

21. Procedimentos – Crimes contra a Propriedade


Imaterial

A tipificação dos crimes relacionados à propriedade material está no art. 184 do


CP e arts. 187 a 195 da Lei nº 9.679/96.
Importante se atentar para o seguinte detalhe: o crime deixa vestígio?
Caso a resposta seja não, é chamado de crime de fato transeunte e aplica-se
a regra geral em relação ao procedimento.
Se, contudo, a resposta for sim, é chamado de crime de fato permanente e,
neste caso, é necessário que se apure a materialidade perante perícia resultante
de busca e apreensão dos objetos atentatórios à propriedade imaterial.
A busca e apreensão é o meio de prova que permite chegar à materialidade.
A ação penal pública vai se desenvolver de acordo com os arts. 524 ao 530-E
do CPP.
Como já vimos, será necessário o exame pericial, e a inicial somente será
recebida se vier instruída com este exame. Necessária, ainda, a prova de direito
à ação: no caso de ação penal de iniciativa privada, para que o querelante possa
ajuizar a queixa-crime, também é indispensável que comprove que é o titular do
bem jurídico violado, sob pena de rejeição desta peça.
Direito Processual Penal 99

A perícia deve ser realizada por dois peritos nomeados pelo juiz e que tenham
conhecimento sob a matéria. Os peritos verificarão, inicialmente, a existência de
fundamento para a apreensão.
A decadência segue a regra geral (seis meses contados a partir do conheci-
mento da autoria), mas existe, ainda, um prazo de 30 dias para a propositura da
ação penal, contados da intimação da sentença que homologa o laudo pericial.
Ultrapassado este prazo, é necessário que seja realizada nova perícia, desde que
ainda haja prazo decadencial.

Exercício
26. (TJ/MG – Juiz de Direito – 2009) Em se tratando de crimes contra a proprie-
dade industrial, de exclusiva ação penal privada, é correto afirmar:
a) Fazendo-se necessária a apreensão e a perícia, o laudo só terá valor se
tiver sido homologado dentro dos 30 dias anteriores à apresentação da
queixa.
b) O laudo deverá acompanhar a queixa, independente da data de sua
homologação.
c) O laudo deverá ser homologado dentro dos 15 dias anteriores à apre-
sentação da queixa.
d) Nenhuma das anteriores.

22. Procedimentos – Lei de Drogas


Os procedimentos a serem seguidos estão previstos na Lei nº 11.343/06, conhe-
cida como Lei de Drogas.
O art. 28 da Lei de Drogas fala em posse de drogas para consumo pessoal. Em
relação a esse crime, o STF entende que a competência é reservada ao Juizado Es-
pecial Criminal (JeCrim), pois é uma infração penal de menor potencial ofensivo.
É considerada uma infração penal de menor potencial ofensivo, pois as penas
impostas são restritivas de direitos, ou seja, penas alternativas.
É importante destacar que não há nenhuma previsão legal que autorize
qualquer tipo de prisão nos casos de porte de drogas para consumo pessoal.
As medidas aplicáveis pelo juiz nestes casos são as dispostas no art. 28 da Lei
de Drogas, sendo elas:
– advertência sobre os efeitos das drogas;
– prestação de serviços à comunidade;
– medida educativa de comparecimento a programa ou curso educativo.
100 Direito Processual Penal

Já em relação ao art. 33 e seguintes da mesma Lei nº 11.343/06, começa-se


a falar em tráfico de drogas.
Os procedimentos são diferenciados dos demais procedimentos penais.
O prazo para o encerramento do inquérito policial depende, pois se o indicia-
do estiver preso o prazo é de 30 dias para encerrar o inquérito e, se o indiciado
estiver solto, o prazo será de 90 dias.
Existe a possibilidade de ambos os prazos serem duplicados, ou seja, serem
contados em dobro, mediante pedido de prorrogação da autoridade policial.
O oferecimento da inicial acusatória deve ser ofertada no prazo de 10 dias,
sob pena, em relação ao réu preso, da prisão ser relaxada ou revogada. Podem
ser arroladas até cinco testemunhas pela acusação.
Depois do oferecimento da denúncia e antes do recebimento desta, apresen-
ta-se a defesa preliminar. O objetivo da defesa preliminar é alcançar a rejeição da
inicial acusatória ou a desclassificação do crime.
Ofertada a defesa preliminar, o juiz irá decidir pelo recebimento ou rejeição
da acusação. Se o juiz receber a denúncia, mandará citar o réu. Após a citação,
existe uma polêmica a respeito da possibilidade de apresentação da resposta à
acusação.
A corrente minoritária acredita que há possibilidade de apresentação da res-
posta à acusação, porém, a doutrina majoritária entende que não há possibilidade
da apresentação da resposta à acusação.
Na audiência em procedimento especial da lei de drogas, o acusado é ouvido
primeiro.
O crime de tráfico de drogas é um crime equiparado a hediondo, de acordo
com o art. 5º, XLIII, da CF.

Exercício
27. (TJ-PA, FGV – Juiz – 2007) Oferecida denúncia em face do acusado, pela
prática do crime de expor à venda drogas (art. 33 da Lei nº 11.343/06),
caberá ao juiz:
a) Designar audiência de instrução e julgamento, mandar citar o réu e
notificar o Ministério Público e as testemunhas.
b) Examinar se há justa causa para a ação penal e em seguida receber a
denúncia.
c) Designar audiência do acusado e, após o interrogatório, receber a de-
núncia caso constate que há justa causa para a ação penal.
Direito Processual Penal 101

d) Rejeitar desde logo a denúncia, pois se aplica aqui o procedimento da


Lei nº 9.099/95.
e) Ordenar a notificação do acusado para oferecer defesa prévia, por es-
crito, no prazo de 10 (dez) dias.

23. Regras Procedimentais – Lei Maria da Penha

A lei que trata da violência doméstica é a Lei nº 11.340/06, conhecida como Lei
Maria da Penha.
Como antecedentes da Lei Maria da Penha, temos as convenções e tratados
internacionais. Outro antecedente da referida lei foi o art. 226, § 8º, da CF,
que diz:
“O Estado assegurará a assistência à família na pessoa de cada um dos que a
integram, criando mecanismos para coibir a violência no âmbito de suas relações.”
Havia muita discussão sobre a Lei Maria da Penha, a respeito de sua constitu-
cionalidade, no entanto, após o julgamento da ADC nº 19 e da ADIn nº 4.424,
entendeu o STF pela Constitucionalidade.
É importante destacar, que a vítima não poderá desistir da representação
contra o agressor, uma vez que a ação é pública incondicionada.
O objeto da Lei Maria da Penha é a prevenção, políticas públicas, tratamento,
repressão (direito penal e processual penal), assim, esta não é uma lei exclusiva-
mente penal, pois possui outras preocupações, como a educação para que não
se pratique a violência doméstica.
Os crimes relacionados à violência doméstica e contra a mulher, não são de
competência do Juizado Especial Criminal (JeCrim), sendo julgados por um órgão
especial, um juizado especial, com competência cível e criminal.
A renúncia poderá ser feita, mas só ocorrerá em audiência, na presença
do juiz.
É importante destacar que essa audiência acerca da retratação ou da renún-
cia, não poderá ser feita de ofício pelo juiz, devendo ser provocado pela parte
solicitando a audiência.
Evidentemente, a vítima não poderá entregar a intimação ao agressor.
Referida lei traz a possibilidade da prisão cautelar e a prisão penal, podendo
inclusive haver prisão em flagrante, cautelar e preventiva (se preenchidos os
requisitos).
Outro ponto importante a ser destacado é que não se permite a aplicação de
penas de multa e pecuniárias.
102 Direito Processual Penal

Exercício
28. (UEG – PC/GO – Escrivão de Polícia – 2013) Sobre o crime de ameaça pra-
ticado no contexto de violência doméstica (Lei nº 11.340/2006), segundo
entendimento do Supremo Tribunal Federal, verifica-se que a ação penal é:
a) Privada personalíssima.
b) Condicionada à representação da ofendida.
c) Pública incondicionada.
d) Privada.
Capítulo 7
Tribunal do Júri

1. Tribunal do Júri – Princípios

Os princípios constitucionais referentes ao tribunal do júri estão previstos no art.


5º, XXXVIII, da CF, sendo eles: plenitude de defesa; sigilo das votações; a sobera-
nia dos veredictos; e a competência para o julgamento dos crimes dolosos contra
a vida.
Quanto ao sigilo das votações, o julgamento, ou seja, a sessão plenária, em
regra, é público, porém, a votação do Conselho de Sentença é sigilosa, pois o
objetivo é impedir a influência na votação dos jurados.
Em relação à competência material mínima, esta está prevista na Constituição
Federal e, determina que a competência do tribunal do júri será em relação aos
crimes dolosos contra a vida, consumados ou tentados.
Essa competência material pode ser ampliada pelo CPP, incluindo no rol os
crimes conexos, por exemplo, o estupro consumado e em seguida o homicídio da
vítima do estupro.
É importante destacar que, a competência do tribunal do júri pode ser
esvaziada se houver competência originária ou foro por prerrogativa de função,
definida na Constituição Federal.

Exercício
29. (TJ/SP – 175º Concurso – Juiz de Direito) Com relação à competência do Tri-
bunal do Júri para julgar crimes dolosos contra a vida, está correto dizer que:
a) O Tribunal do Júri julga todos os crimes dolosos contra a vida, por se
tratar de garantia constitucional.
b) A Constituição Federal prevê exceções a essa regra, afastando determi-
nadas situações da competência do tribunal popular.
104 Direito Processual Penal

c) O Tribunal do Júri não tem competência para julgar crimes dolosos con-
tra a vida, praticados por militares contra civis.
d) O Tribunal do Júri tem competência para julgar os crimes dolosos contra
a vida, cabendo ao juiz singular julgar os delitos eventualmente conexos.

2. Princípios Constitucionais – Soberania dos


Veredictos – Revisão Criminal
A soberania dos veredictos está disposta no art. 5º, XXXVIII, da CF. Veredicto é a
decisão proferida pelos sete jurados que compõem o conselho de sentença.
De acordo com o princípio da soberania dos veredictos, o Tribunal não pode
modificar decisão dos jurados, em grau de recurso. Se o Tribunal entender que
houve erro por parte dos jurados, irá mandar o acusado a um novo júri. Isso ocor-
re porque há uma garantia constitucional destinada ao cidadão.
Neste sentido, versa o art. 593, III, “d”, do CPP:
“Art. 593. Caberá apelação no prazo de 5 (cinco) dias:
III – das decisões do Tribunal do Júri, quando:
d) for a decisão dos jurados manifestamente contrária à prova dos autos.”
Em relação à revisão criminal, muito se confunde se esta é ou não um recurso.
A revisão criminal não é um recurso, mas sim uma ação de impugnação de uma
decisão judicial.
Por ser uma ação, a revisão criminal somente poderá ser proposta depois do
trânsito em julgado de sentença condenatória ou absolutória imprópria.
Por ser proposta após uma sentença transitada em julgado, o trânsito em
julgado passa a ser um pressuposto para a ação.
A revisão criminal dá ensejo, permite, possibilita, a existência de uma nova
relação jurídica processual.

Exercício
30. Caso o Tribunal dê provimento ao recurso de apelação, interposto pelo réu,
sob a alegação de que a decisão condenatória proferida pelos jurados foi
manifestamente contrária à prova dos autos, deverá:
a) Absolver o réu.
b) Determinar realização de novo julgamento, com os mesmos jurados.
c) Determinar realização de novo julgamento, com novos jurados.
d) Determinar a remessa ao juízo singular.
Direito Processual Penal 105

3. Princípios – Competência Material Mínima –


Ampliação de Competência

Versa o art. 5º, XXXVIII, da CF/88:


“XXXVIII – é reconhecida a instituição do júri, com a organização que lhe der
a lei, assegurados:
a) a plenitude de defesa;
b) o sigilo das votações;
c) a soberania dos veredictos;
d) a competência para o julgamento dos crimes dolosos contra a vida.”
A competência material mínima é aquela em relação à matéria, ou seja, qual
a competência do tribunal do júri, o que ele irá julgar.
Será de competência do tribunal do júri, o julgamento de crimes dolosos con-
tra a vida, consumados ou tentador. Os crimes dolosos contra a vida estão previs-
to no CP entre os arts. 121 e 128 (Homicídio; Participação em Suicídio; Infanticí-
dio; e Aborto), salvo o que dispõe o art. 121, § 3º, que versa sobre o homicídio
culposo, que é de competência do juízo singular.
Por exemplo, um agente quer estuprar uma pessoa, e, no momento do ato, o
agente coloca a mão na garganta da vítima com o intuito de imobilizá-la, porém,
acaba asfixiando-a e matando-a. Neste caso, o crime não é de competência do
tribunal do júri, uma vez que não houve dolo na conduta do agente em causar
a morte.
Contudo, se ao final da prática do estupro, o agente asfixiar a vítima, com a
intenção de matá-la, o crime passará a ser de competência do tribunal do júri,
pois no caso em tela, houve concurso material (homicídio e do estupro).

Exercício
31. (FGV – Exame de Ordem – III Exame Unificado – 2010) Assinale a alternativa
correta à luz da doutrina referente ao Tribunal do Júri:
a) São princípios que informam o Tribunal do Júri: a plenitude de defesa,
o sigilo das votações, a soberania dos veredictos e a competência exclu-
siva para julgamento dos crimes dolosos contra a vida.
b) A natureza jurídica da sentença de pronúncia (em que o magistrado se
convence da existência material do fato criminoso e de indícios suficien-
tes de autoria) é de decisão interlocutória mista não terminativa.
106 Direito Processual Penal

c) O rito das ações de competência do Tribunal do Júri se desenvolve em


duas fases: judicium causae e judicium accusacionis. O judicium accu-
sacionis se inicia com a intimação das partes para indicação das provas
que pretendem produzir e tem fim com o trânsito em julgado da deci-
são do Tribunal do Júri.
d) Alcançada a etapa decisória do sumário da culpa, o juiz poderá exarar
quatro espécies de decisão, a saber: pronúncia, impronúncia, absolvi-
ção sumária e condenação.

4. Procedimento (Primeira Fase) – Juízo de


Admissibilidade – Admissibilidade da Tese
Acusatória
O procedimento do tribunal do júri é bifásico, sendo a primeira fase o juízo de
admissibilidade, também chamada de judicium accusatione e a segunda fase o
juízo de mérito, também chamado de judicium causae.
A primeira fase é destinada para verificar se a tese acusatória é admissível, se é
viável. Funciona basicamente como um filtro, tudo o que passar por ela irá para a
segunda fase, mas poderá acontecer de não se passar nada para a segunda fase.
Já na segunda fase do tribunal do júri, será analisada a responsabilidade penal
do réu. Aí sim, entrando em cena o conselho de sentença.
As principais etapas da primeira fase são: oferecimento da inicial acusatória;
recebimento ou rejeição da inicial acusatória.
Normalmente, a peça acusatória inicial é a denúncia e esta deve observar o
que dispõe o art. 41 do CPP. Após o oferecimento da denúncia, os autos irão para
conclusão, e o juiz dará recebimento ou rejeição da inicial acusatória. Recebido
pelo juiz a inicial acusatória, ocorrerá a citação do acusado e, após, o oferecimen-
to da resposta à acusação e será aberta vistas ao Ministério Público.
É importante destacar que a citação no processo penal será feita pessoalmente,
através de oficial de justiça.
A resposta à acusação é uma manifestação da defesa técnica que deve ser
apresentada em 10 dias.
Depois de ser concedida vistas ao Ministério Público, que deve se manifestar
em cinco dias sobre a resposta à acusação, os autos voltarão para conclusão,
onde o juiz designará audiência de instrução, debates e julgamento.
Assim, a audiência da primeira fase do tribunal do júri segue a seguinte or-
dem: Audiência à Oitiva da vítima (se possível) à Oitiva das testemunhas; à Escla-
Direito Processual Penal 107

recimentos do perito à Acareação à Reconhecimento de pessoas e coisas à Inter-


rogatório à Debates orais (primeiro a acusação e depois a defesa) sendo o prazo
de 20 minutos para cada parte, prorrogáveis por mais 10 minutos à Julgamento.
No julgamento, existem quatro possibilidades: Pronúncia; Impronúncia; Ab-
solvição Sumária; Desclassificação.

Exercício
32. (MPE/SC – Promotor de Justiça – 2013) Assinale se a assertiva está correta
ou incorreta:
No procedimento relativo aos processos de competência do Tribunal do Júri,
apresentada a defesa, o juiz ouvirá o Ministério Público ou o querelante
sobre preliminares e documentos, em 10 (dez) dias.

5. Pronúncia – Requisitos da Pronúncia – Prisão


Preventiva – Recursos

A pronúncia é uma decisão interlocutória mista não terminativa. Isso significa


que esta decisão coloca fim à primeira fase do procedimento do júri e permite a
abertura da segunda fase do júri.
Os requisitos para que ocorra a pronúncia é o convencimento do magistrado
sobre indícios suficientes de autoria e prova da materialidade.
Em relação à prova material, por exemplo, versa o art. 158 do CPP:
“Quando a infração deixar vestígios, será indispensável o exame de corpo de
delito, direto ou indireto, não podendo supri-lo a confissão do acusado.”
A prova material, neste caso, é o exame de corpo de delito, que poderá ser
substituída por perícia.
O fundamento da decisão da pronúncia não poderá adentrar ao mérito da
causa, para que não influencie os jurados. Sendo assim, só poderá ser utilizado
como fundamento, o indício suficiente de autoria e na prova da materialidade.
Da denúncia decorrem duas consequências, a abertura da segunda fase do
tribunal do júri e é o marco interruptivo da prescrição (art. 117 do CPP).
É possível, desde que preenchidos os pressupostos e requisitos previstos nos
arts. 312 e 313 do CPP, que seja decretada a prisão preventiva.
Uma vez que o acusado seja pronunciado, caberá contra a pronúncia o Re-
curso em Sentido Estrito. Se o tribunal der provimento ao Recurso em Sentido
Estrito, haverá a despronúncia.
108 Direito Processual Penal

Exercício
33. (UFPR – TJ/PR – Juiz de Direito – 2012) Em que consiste a despronúncia?
a) Na decisão judicial singular que não recebe a denúncia em crimes de
competência do Tribunal do Júri.
b) Na reforma da decisão singular de pronúncia, por um colegiado ou
no exercício de juízo de retratação singular, na hipótese de recurso de
crime em sentido estrito.
c) Na decisão judicial de primeiro grau que desde logo absolve sumaria-
mente o réu nos crimes de competência do Tribunal do Júri.
d) Na decisão judicial singular que desclassifica o crime de competência do
Tribunal do Júri para outro de competência de Juiz ordinário.

6. Tribunal do Júri – Impronúncia – Requisitos –


Recurso Previsto
A impronúncia ocorre no final da primeira fase do tribunal do júri. Esta decisão é
interlocutória mista terminativa, pois coloca fim à primeira fase e não permite a
abertura da segunda fase.
A impronúncia tem previsão legal no art. 414 do CPP.
“Art. 414. Não se convencendo da materialidade do fato ou da existência de
indícios suficientes de autoria ou de participação, o juiz, fundamentadamente,
impronunciará o acusado.
Parágrafo único. Enquanto não ocorrer a extinção da punibilidade, poderá ser
formulada nova denúncia ou queixa se houver prova nova.”
É importante destacar que a impronúncia, por força do parágrafo único do
art. 414 do CPP, é uma decisão de natureza precária já que o processo pode ser
reaberto caso surja prova nova.
De acordo com o art. 416 do CPP:
“Contra a sentença de impronúncia ou de absolvição sumária caberá apelação.”
Poderá propor a apelação contra impronúncia o Ministério Público e a Defesa,
pois existe uma decisão mais favorável à Defesa, que é a absolvição sumária.

Exercício
34. (Vunesp – TJ/SP – Juiz de Direito – 2009) No procedimento relativo aos
processos de competência do Tribunal do Júri, a decisão que impronuncia o
acusado pode ser impugnada, na esfera recursal, por meio de:
Direito Processual Penal 109

a) Habeas Corpus.
b) Recurso em Sentido Estrito.
c) Agravo.
d) Apelação.

7. Absolvição Sumária – Hipótese e Recurso


Previsto
A absolvição sumária é uma sentença que coloca fim ao processo e está prevista
no art. 415 do CPP.
“Art. 415. O juiz, fundamentadamente, absolverá desde logo o acusado,
quando:
I – provada a inexistência do fato; (Exemplo: A pessoa que era tida como mor-
ta, na verdade está viva).
II – provado não ser ele autor ou partícipe do fato; (Exemplo: no dia e momen-
to dos fatos, o acusado não estava sequer em território nacional).
III – o fato não constituir infração penal; (Exemplo: hipóteses de crime impos-
sível, como matar quem já estava morto).
IV – demonstrada causa de isenção de pena ou de exclusão do crime. (As
causas de isenção de pena são as excludentes de culpabilidade (erro de proibição,
obediência hierárquica; coação moral irresistível; menoridade)).
Parágrafo único. Não se aplica o disposto no inciso IV do caput deste artigo
ao caso de inimputabilidade prevista no caput do art. 26 do Decreto-lei nº 2.848,
de 7 de dezembro de 1940 – CP, salvo quando esta for a única tese defensiva.”

Exercício
35. (Vunesp – MP/SP – Assistente de Promotor – 2011) No que diz respeito ao
procedimento dos processos de competência do Tribunal do Júri, assinale a al-
ternativa que traz, respectivamente, os recursos cabíveis contra as decisões de
rejeição da denúncia, de impronúncia, de pronúncia e de absolvição sumária.
a) Recurso em sentido estrito; apelação; apelação; apelação.
b) Apelação; apelação; apelação; recurso em sentido estrito.
c) Recurso em sentido estrito; apelação; recurso em sentido estrito; ape-
lação.
d) Apelação; recurso em sentido estrito; apelação; recurso em sentido
estrito.
110 Direito Processual Penal

e) Recurso em sentido estrito; recurso em sentido estrito; recurso em sen-


tido estrito; apelação.

8. Decisão de Desclassificação
A desclassificação é uma decisão interlocutória, pois não coloca fim ao processo,
simplesmente remete o processo ao órgão competente. Na desclassificação, o juiz
declara que o júri não é competente para julgar o fato, por não se tratar de crime do-
loso contra a vida, consumado ou tentado, ou seja, o juiz se declara incompetente.
Uma vez constatado que o fato não é de competência do tribunal do júri,
como consequência, os autos são remetidos ao juízo singular competente.
Por exemplo, o crime de latrocínio não é de competência do tribunal do júri,
por isso, os autos seriam remetidos ao juízo singular competente.
É de suma importância destacar que a primeira fase do tribunal do júri tem o
prazo de 90 dias para terminar, inclusive com o julgamento dos recursos.
Em relação aos recursos, são cabíveis:
– contra decisão de pronúncia caberá recurso em sentido estrito.
– contra decisão de impronúncia caberá recurso de apelação.
– contra absolvição sumária caberá recurso de apelação.
– contra a desclassificação caberá recurso em sentido estrito.

Exercício
36. (FCC – TJ/GO – Juiz de Direito – 2009) O procedimento de instrução prelimi-
nar em caso de competência do Tribunal do Júri deverá ser concluído em até:
a) Cento e vinte dias.
b) Trinta dias.
c) Sessenta dias.
d) Oitenta e um dias.
e) Noventa dias.

9. Intimação da Decisão de Pronúncia – Extinção


do Libelo Acusatório – Manifestação das
Partes – Preclusão – Manifestação das Partes
A intimação da decisão de pronúncia poderá ser:
– Pessoalmente: Acusado preso ou solto, Ministério Público e ao Defensor
Nomeado;
Direito Processual Penal 111

– Pela imprensa: Defensor Constituído, Querelante e Assistente do Ministé-


rio Público;
– Edital: Acusado solto que não for encontrado.
Preclusa a pronúncia, ou seja, não cabendo mais recurso da pronúncia, esta
será remetida ao Juiz Presidente do Tribunal do Júri, que, após receber os autos,
adotará algumas providências, entre elas, determinar a manifestação das partes
no prazo de cinco dias (primeiro a acusação e depois a defesa), podendo arrolar
até cinco testemunhas.
É importante lembrar que não existe mais o libelo acusatório.
No momento da manifestação das partes, estas poderão requerer diligências,
que deverão ocorrer antes do plenário.
Após a manifestação das partes, o juiz proferirá despacho saneador, deci-
dindo sobre os requerimentos das partes, ordenando as diligências necessárias.
Ainda, ocorrerá a elaboração de relatório e determinação para inclusão na pauta.

Exercício
37. (Vunesp – DPE/MS – Defensor Público – 2012) É correto afirmar, no que diz
respeito às citações e intimações, que:
a) Se o acusado, citado por edital, não comparecer, nem constituir advo-
gado, o juiz determinará que o oficial de justiça proceda à citação com
hora certa na forma estabelecida na legislação processual civil.
b) A intimação do defensor público será pessoal ou por publicação no ór-
gão incumbido da publicidade dos atos judiciais da comarca, incluindo,
sob pena de nulidade, o nome do acusado.
c) Ressalvados os casos de urgência ou de perigo de ineficácia da medida,
é obrigatória a intimação da parte contrária, acompanhada de cópia do
requerimento e das peças necessárias antes da decisão judicial acerca
do pedido de medida cautelar.
d) A intimação da decisão de pronúncia deverá ser feita pessoalmente ao
acusado ou ao defensor público ou dativo, quando não houver defen-
sor constituído pelo acusado.

10. Despacho Saneador e a Mutabilidade da


Pronúncia
A pronúncia tem o efeito de fixar os limites da acusação. A rigor, a tese acusatória
fica limitada ao que foi decidido na pronúncia.
112 Direito Processual Penal

Para melhor entendimento, vejamos o seguinte exemplo: uma denúncia traz


um fato tipificado como o homicídio qualificado (homicídio qualificado por mo-
tivo fútil). De acordo com os elementos de convicção trazidos pelo inquérito po-
licial, o Promotor de Justiça ofereceu a denúncia e classificou, provisoriamente,
como homicídio qualificado. Ao analisar os fatos, o juiz pronuncia o acusado, mas
com base no crime de homicídio simples (art. 121, caput).
Sendo assim, em plenário, somente o homicídio simples poderá ser sustenta-
do, pois a qualificadora não foi aceita pelo juiz na primeira fase.
Neste sentido, versa o art. 421, § 1º, do CPP:
“Ainda que preclusa a decisão de pronúncia, havendo circunstância superve-
niente que altere a classificação do crime, o juiz ordenará a remessa dos autos ao
Ministério Público.”
Para melhor entendimento, vejamos o seguinte exemplo: O acusado foi pro-
nunciado por homicídio tentado e, se a vítima vier a morrer após a pronúncia, o juiz
deve determinar vista dos autos ao Ministério Público, para que possa requerer a
modificação do que foi trazido na pronúncia, sendo necessária a oitiva da Defesa.

Exercício
38. (FCC – AL/PB – Procurador – 2013) Em relação ao procedimento do júri, é
correto afirmar que:
a) Contra a sentença de impronúncia caberá recurso em sentido estrito.
b) As alegações, no sumário de culpa, são orais, concedendo-se a palavra,
respectivamente, à acusação e à defesa, pelo prazo de 10 (dez) minutos
prorrogáveis por mais 10 (dez) minutos.
c) Estão isentos do serviço do júri os cidadãos maiores de 65 (sessenta e
cinco) anos que requeiram a dispensa.
d) Durante os debates as partes não poderão, sob pena de nulidade, fazer
referências à determinação do uso de algemas como argumento de
autoridade que prejudique o acusado.
e) A intimação da decisão de pronúncia será feita pessoalmente ao acusa-
do ou ao defensor nomeado e ao Ministério Público.

11. Desaforamento – Competência – Legitimidade


– Hipóteses
Desaforamento é o deslocamento da competência territorial. O crime continuará
a ser julgado pelo Tribunal do Júri, mas instalado em outra comarca.
Direito Processual Penal 113

Nesse sentido, versa o art. 70 do CP:


“A competência será, de regra, determinada pelo lugar em que se consumar
a infração, ou, no caso de tentativa, pelo lugar em que for praticado o último ato
de execução.”
O novo aforamento acontecerá na comarca da região, dando-se preferência
à mais próxima, desde que lá não subsistam os motivos que autorizaram o desa-
foramento.
O desaforamento não precisa ser necessariamente a capital do Estado.
Compete à Câmara ou Turma do Tribunal o julgamento do pedido de desafo-
ramento e, haverá oitiva do Presidente do tribunal do Júri, desde que não tenha
requerido de ofício o desaforamento.
Têm legitimidade para pedir o desaforamento o Ministério Púbico, o Assisten-
te de Acusação, Querelante, Acusado, Juiz Presidente (de ofício).
As hipóteses de desaforamento previstos em lei são:
– Interesse da ordem pública;
– Dúvida sobre a imparcialidade do júri;
– Dúvida sobre a segurança do acusado;
– Excesso de serviço (se o julgamento não puder ser realizado no prazo de seis
meses contado a partir do trânsito em julgado da decisão de pronúncia).

Exercício
39. (Cespe – MPE/RO – Promotor de Justiça – 2013) Sobre o pedido de desafo-
ramento é CORRETO afirmar que:
a) O juiz presidente deve ser ouvido quando a medida não houver sido por
ele solicitada.
b) Na pendência de recurso contra a decisão de pronúncia, não se admitirá
o pedido de desaforamento.
c) Quando efetivado o julgamento, o pedido de desaforamento não será
admitido.
d) Todas as alternativas estão corretas.

12. Sorteio dos Jurados – Ausências – Recusas –


Conselho de Sentença
Vinte e cinco jurados são escolhidos mediante sorteio, que será realizado na pre-
sença do Ministério Público, da OAB e da Defensoria Pública, que deverão ser
intimados antes do sorteio.
114 Direito Processual Penal

Há a comunicação dos entes acima mencionados, para que estes possam


acompanhar a lisura, a imparcialidade do sorteio e que nada de errado ocorreu.
Se uma das 25 (vinte e cinco) pessoas faltar, deverá justificar sua ausência e, caso
não o faça, haverá o pagamento de multa, que varia de 1 a 10 salários mínimos.
A instalação da sessão plenária depende da presença do Ministério Público,
do Defensor e das testemunhas. Faltando uma dessas pessoas, não haverá sessão
plenária.
Se o réu estiver ausente, há a possibilidade de realização do julgamento, se
estiver solto ou mesmo preso, desde que subscreva petição, junto com seu advo-
gado, comunicando a ausência.
Ainda, para ser instaurada a sessão plenária, é necessária a presença de pelo
menos 15 jurados, dos 25 que foram convocados.
A recusa pode ser:
– Facultativa: até três para cada parte.
– Peremptória: tantas quantas forem no caso de impedimento ou suspeição.
O conselho de sentença é composto por sete jurados, que prestam compromisso.
Cada jurado receberá cópia da pronúncia, da decisão que confirmou a pro-
núncia, se houver, e do relatório do processo.

Exercício
40. (FCC – MPE/SE – Analista – 2013) No que refere a procedimento do Tribunal
do Júri, é INCORRETO afirmar:
a) Poderão ser jurados os cidadãos maiores de 18 anos.
b) Estão isentos do serviço do júri aqueles que o requererem, demonstran-
do justo impedimento.
c) Contra a sentença de impronúncia caberá apelação.
d) O juiz, fundamentadamente, impronunciará desde logo o acusado
quando provado não ser ele o autor ou partícipe do fato.
e) O jurado que tiver integrado o Conselho de Sentença nos 12 (doze)
meses que antecederam à publicação da lista geral fica dela excluído.

13. Júri – Instrução – Ordem de Oitivas –


Acareação – Uso de Algemas
A audiência de instrução do Júri será composta sempre pelas seguintes fases: das
declarações do ofendido, do depoimento das testemunhas e do interrogatório.
Direito Processual Penal 115

De acordo com o CPP, a oitiva segue a respectiva ordem: primeiro ouve-se as


declarações do ofendido, se isso for possível.
Quanto aos depoimentos das testemunhas, primeiro ouve-se as testemunhas
da acusação e, em seguida, as da defesa. Estas testemunhas serão arroladas na
petição que foi elaborada logo depois ao despacho do juiz presidente, abrindo-se
prazo de cinco dias, para que acusação e defesa arrolem suas testemunhas.
Em caso de testemunha ausente, o júri somente será redesignado se a teste-
munha arrolada for imprescindível.
Antes do interrogatório as partes ou os jurados poderão requerer a acarea-
ção, reconhecimento de pessoas e coisas, esclarecimento do perito e a leitura de
peças.
A acareação é um confronto entre as vítimas, as testemunhas, os acusados,
sendo possível qualquer tipo de combinação.
O reconhecimento configura uma prova de suma importância, visto que ocor-
re na presença dos jurados.
O esclarecimento do perito nem sempre ocorrerá, mas a parte pode requerer
para que se discuta sobre seu laudo pericial, suprimindo algum ponto passível de
dúvida.
A leitura de peças é realizada por um serventuário da justiça, sendo permitida
a leitura de prova colhida por carta precatória, provas cautelares, antecipadas ou
não repetíveis.
Em relação à ordem das perguntas que poderão ser realizadas, esta sempre
terá início a partir do juiz presidente, em seguida o Ministério Público, assistente
da acusação, o defensor e por último, os jurados, que fazem as perguntas por
intermédio do juiz presidente.
A Súmula Vinculante nº 11 restringiu o uso de algemas, considerando lícito
seu emprego apenas em alguns casos, como de resistência, de fundado receio de
fuga ou perigo à ordem pública.

Exercício
41. Assinale a alternativa que contenha hipótese de prova que somente será
produzida mediante requerimento em plenário:
a) Interrogatório.
b) Prova testemunhal.
c) Oitiva da vítima.
d) Acareação.
116 Direito Processual Penal

14. Júri – Debates Orais – Ordem, Fases e Tempo


dos Debates

Os debates são divididos em três etapas: a fala inicial, reservada para acusação
e defesa, a réplica e a tréplica. Apenas a fala inicial é obrigatória, não havendo
como suprimi-la.
A existência de réplica é facultativa, servindo para que a acusação rebata a
fala inicial da defesa, e a tréplica para que a defesa possa impugnar aquilo que
foi trazido na réplica.
O tempo dos debates pode variar de acordo com o número de réus; na fala
inicial será de uma hora e meia para a acusação e o mesmo para a defesa. Na
réplica e na tréplica será de uma hora para a acusação e o mesmo para a defesa.
Havendo dois ou mais réus, o tempo de debates será aumentado para duas
horas e meia para a acusação e igual prazo para a defesa. Sendo na réplica e na
tréplica aumentado em duas horas para ambas as partes.

Exercício
42. (FGV – 2010 – II Exame de Ordem) João da Silva foi denunciado por homi-
cídio qualificado por motivo fútil. Nos debates orais ocorridos na primeira
fase do procedimento de júri, a Defesa alegou que João agira em estrito
cumprimento de dever legal, postulando sua absolvição sumária. Ao profe-
rir sua decisão, o juiz rejeitou a tese de estrito cumprimento de dever legal e
o pedido de absolvição sumária, e pronunciou João por homicídio simples,
afastando a qualificadora contida na denúncia. A decisão de pronúncia foi
confirmada pelo Tribunal de Justiça, operando-se a preclusão:
a) Nos debates orais perante os jurados, o promotor de justiça não poderá
sustentar a qualificadora de motivo fútil, mas a defesa poderá alegar a
tese de estrito cumprimento do dever legal.
b) Nos debates orais perante os jurados, o promotor de justiça poderá
sustentar a qualificadora de motivo fútil e a defesa poderá alegar a tese
de estrito cumprimento de dever legal.
c) Nos debates orais perante os jurados, o promotor de justiça não poderá
sustentar a qualificadora de motivo fútil e a defesa não poderá alegar a
tese de estrito cumprimento de dever legal.
d) Nos debates orais perante os jurados, o promotor de justiça poderá sus-
tentar a qualificadora de motivo fútil, mas a defesa não poderá alegar
a tese de estrito cumprimento de dever legal.
Direito Processual Penal 117

15. Referências Não Permitidas – Exibição e


Leitura de Documentos – Indicação da Folha
dos Autos – Apartes e Esclarecimentos

Em Plenário do Júri, as partes não podem fazer algumas menções, tanto para
acusar, quanto para defender, se forem contrárias à lei:
I – à decisão de pronúncia, às decisões posteriores que julgaram admissível a
acusação ou à determinação do uso de algemas como argumento de autoridade
que beneficiem ou prejudiquem o acusado (argumento de autoridade é a argu-
mentação exagerada sobre tais situações processuais).
II – ao silêncio do acusado ou à ausência de interrogatório por falta de reque-
rimento, em seu prejuízo.
Durante o julgamento não será permitida a leitura de documento ou a exibi-
ção de objeto que não tiver sido juntado aos autos com a antecedência mínima
de três dias úteis, dando-se ciência à outra parte.
Documento é não apenas o papel, mas também maquetes, jornais, DVDs, etc.
Isso, porque a parte contrária não pode ser surpreendia.
O processo que envolve crimes contra a vida são volumosos e, por isso, os
jurados, a acusação ou a defesa podem pedir que se indique a folha dos autos
que contém o que foi alegado.
Por fim, sobre os apartes, ganharam previsão no CPP (art. 497, XII). São in-
tervenções rápidas, oportunas e pontuais durante o discurso da parte contrária.
Tem-se até três minutos para cada aparte requerido, tempo esse que será acres-
cido ao tempo de quem foi prejudicado em sua fala e raciocínio, para a recom-
posição do tempo.
Concluídos os debates, o presidente indagará dos jurados se estão habilitados
a julgar ou se necessitam de outros esclarecimentos. Em outras palavras, o jurado
pode ter ficado com dúvida e precisará ser esclarecido.

Exercício
43. Durante os debates, em plenário do Júri, é correto afirmar que:
a) As partes sempre poderão fazer referência a qualquer notícia divulgada
por órgão da imprensa, independentemente de prévia formalidade.
b) As partes poderão fazer referência à decisão de pronúncia, desde que
moderadamente.
c) As partes não poderão fazer referência à decisão de pronúncia.
118 Direito Processual Penal

d) O titular da acusação poderá exibir quaisquer documentos aos jurados,


independentemente de prévia formalidade.

16. Tribunal do Júri – Quesitação – Fontes –


Ordem de Apresentação – Votação
Sobre a quesitação no Júri, o objeto é matéria de fato. Os quesitos serão apre-
sentados ao Conselho de Sentença, composto por sete pessoas leigas que irão se
manifestar a respeito da matéria de fato.
Os quesitos são tirados da pronúncia, das teses do debate alegados pelas
partes e do interrogatório.
Sobre as teses de defesa, não há limites para as teses apresentadas, já a acu-
sação está limitada pela decisão de pronúncia.
Ordem dos quesitos:
1º – materialidade: indaga-se aos jurados se existe comprovação material da-
quele fato que está sendo julgado.
2º – autoria/participação: o acusado deu causa ao fato praticado?
Só se pode ir ao terceiro quesito, se os dois primeiros forem respondidos po-
sitivamente: SIM.
Se a resposta for não, significa que o fato não aconteceu (ex.: se o corpo não
foi encontrado).
3º – O jurado absolve o acusado? Todo o conteúdo do que aconteceu no Júri
ficará reduzido a um quesito absolutório.
Se a resposta for SIM, a votação estará encerrada.
Se a resposta por NÃO, a votação segue.
O sigilo das votações impede que a votação continue após o 4º voto.
Por fim, continuando a votação, deve-se quesitar sobre causa de diminuição
e, em seguida, sobre causa de aumento e qualificadora.
As circunstâncias agravantes e atenuantes serão identificadas e, eventualmen-
te aplicadas pelo juiz presidente, e não serão quesitadas.

Exercício
44. Segundo as regras estabelecidas no CPP, na elaboração dos quesitos, o Juiz
de Direito:
a) Poderá redigi-los livremente, vedada a admissão de teses que não cons-
tem expressamente da denúncia ou das alegações emergentes dos de-
bates orais no Plenário.
Direito Processual Penal 119

b) Levará em consideração os termos da pronúncia ou das decisões pos-


teriores que julgaram admissível a acusação, do interrogatório e das
alegações das partes.
c) Ficará restrito às teses apresentadas pelas partes durante os debates
orais, sob pena de admitir inovação e ofensa indevida ao princípio cons-
titucional da iniciativa das partes.
d) Adotará como sua fonte a denúncia e os requerimentos escritos que
as partes deverão apresentar antes de iniciados os debates orais em
Plenário.

17. Tribunal do Júri – Sentença Condenatória e


Absolutória – Sentença Desclassificatória e
Publicação
O jurado vota e, com base nesse veredicto, o juiz profere a sentença.
Caso a sentença seja condenatória, o juiz fixa, em primeiro, a pena-base,
através da análise das circunstâncias judiciais do art. 59 do CP. Em seguida consi-
derará as circunstâncias agravantes ou atenuantes alegadas nos debates (arts. 61
e 62, 65 e 66 do CP). As circunstâncias não são quesitadas para os jurados. Na
terceira fase ficam os aumentos ou diminuições da pena, em atenção às causas
admitidas pelo júri.
Resolvida a individualização e dosimetria da pena, o juiz observará as demais
disposições do art. 387 do CPP, dentre elas, a fixação de um valor mínimo de
indenização para a vítima (se viva) ou familiares.
Por fim, o juiz estabelecerá os efeitos genéricos e específicos da condenação
(arts. 91 e 92 do CP).
E no caso de absolvição, o juiz mandará colocar em liberdade o acusado se por
outro motivo não estiver preso; revogará as medidas restritivas provisoriamente
decretadas.
Quanto à imposição da sentença absolutória imprópria, impor-se-á a medida
de segurança cabível.
Nenhum recurso suspende os efeitos de uma decisão absolutória.
Se houver desclassificação da infração para outra, de competência do juiz
singular, ao presidente do Tribunal do Júri caberá proferir sentença em seguida,
aplicando-se, quando o delito resultante da nova tipificação for considerado pela
lei como infração penal de menor potencial ofensivo, o disposto nos arts. 69 e
seguintes da Lei nº 9.099, de 26 de setembro de 1995.
120 Direito Processual Penal

Elaborada a sentença, ela será lida em plenário pelo presidente antes de en-
cerrada a sessão de instrução e julgamento, para todos os presentes.

Exercício
45. Assinale se a assertiva está correta ou incorreta:
Ao proferir sentença desclassificatória, o juiz não poderá se valer das nor-
mas previstas na Lei nº 9.099, mesmo se o novo tipo for enquadrado como
infração penal de menor potencial ofensivo.
Capítulo 8
Questão Prejudicial

1. Questões Prejudiciais – Solução de


Controvérsia – Suspensão do Processo

As questões prejudiciais são aquelas que impedem o julgamento da causa pelo


juiz criminal.
O CPP trabalha esta matéria em três artigos: 92, 93 e 94.
O art. 92 traz que se a decisão sobre a existência da infração depender da
solução de controvérsia, que o juiz repute séria e fundada, sobre o estado civil
das pessoas, o curso da ação penal ficará suspenso até que no juízo cível seja a
controvérsia dirimida por sentença passada em julgado, sem prejuízo, entretanto,
da inquirição das testemunhas e de outras provas de natureza urgente.
Ainda, conforme dispõe o art. 93, se a matéria não versar sobre o estado civil
das pessoas, desde que seja de difícil solução e não verse sobre direito cuja prova
a lei civil permite, o juiz poderá suspender o curso do processo, após a inquirição
das testemunhas e a produção das provas consideradas urgentes.
Importante observar que se o processo não for suspenso, não caberá recurso.
O art. 94, por sua vez, estabelece que a suspensão do processo pode ser de-
cretada de ofício ou a pedido das partes.

Exercício
46. (Vunesp – 2010 – Fundação Casa – Analista Administrativo) A suspensão do
curso da ação penal, nas hipóteses de questões prejudiciais, será decretada
pelo juiz:
a) De ofício ou a requerimento das partes.
b) Apenas se o acusado estiver em liberdade.
122 Direito Processual Penal

c) Apenas se houver concordância de ambas as partes.


d) Mediante prévia consulta e aceitação do acusado, na hipótese de ele
estar preso.
e) Mediante provocação de alguma das partes, não podendo ser decreta-
da de ofício.

2. Exceções – Exceção de Suspeição – Hipóteses


– Procedimento – Exceção de Incompetência
As exceções são meios de defesa exclusivamente processual. Podem ser dilatórias,
aquelas que visam prorrogar o processo (suspeição, incompetência e ilegitimida-
de de parte); ou peremptórias, aquelas que visam o fim do processo (litispendên-
cia e coisa julgada).
A exceção de suspeição tem como finalidade afastar o juiz da causa. Observa-
-se que referida exceção se estende ao promotor de justiça, aos peritos, aos intér-
pretes, aos jurados e funcionários da justiça, não sendo oponível contra delegado
de polícia.
As hipóteses da exceção de suspeição vêm previstas no art. 254 do CPP. Insta
esclarecer que não cabe esta exceção se a parte injuriar o juiz ou se a parte deu
motivo para a suspeição, de forma proposital.
Quanto ao procedimento, pode ocorrer o reconhecimento de ofício ou argui-
ção pelas partes. Neste sentido, pode ser arguida pelo Ministério Público (quando
do oferecimento da denúncia) ou pela defesa (resposta à acusação).
O juiz poderá aceitar ou negar o pedido e, se negar, deve responder em três
dias e remeter ao Tribunal competente, que poderá rejeitar liminarmente ou ocor-
rer o processamento com final julgamento.
A incompetência absoluta pode ser arguida em qualquer fase processual e a
relativa deve ser arguida na resposta à acusação.
O juiz deverá autuar a exceção em apartado, devendo ser ouvido o membro
do Ministério Público. Se o pedido não for aceito, caberá impetração de habeas
corpus.

Exercício
47. (Fundação Casa – Vunesp – 2010) A suspeição do juiz não poderá ser decla-
rada nem reconhecida, quando:
a) O juiz for sócio, acionista ou administrador de sociedade interessada no
processo.
Direito Processual Penal 123

b) O juiz for amigo íntimo ou inimigo capital de qualquer das partes.


c) O juiz tiver aconselhado qualquer das partes
d) A parte injuriar o juiz ou de propósito der motivo para criá-la.
e) Ele, seu cônjuge, ascendente ou descendente, estiver respondendo a pro-
cesso por fato análogo, sobre cujo caráter criminoso haja controvérsia.

3. Conflito de Jurisdição e Restituição de Coisas


Apreendidas

O conflito de jurisdição pode se dar de duas formas:


– Conflito positivo: quando dois ou mais juízes se declaram competentes;
– Conflito negativo: quando dois ou mais juízes se declaram incompetentes.
O conflito de jurisdição pode ser suscitado pelas partes, pelo Ministério Públi-
co e pelo juiz, de ofício.
Se for positivo, deve ser autuado em apartado e se for negativo, deve ser
autuado no mesmo processo.
Em relação ao julgamento, este se dá pelo STF quando há conflitos que envol-
vam Tribunais Superiores (entre si ou entre eles e outros Tribunais do país); pelo
STJ quando os conflitos envolvem outros Tribunais do país e entre juízes vincula-
dos a Tribunais diferentes; TRF quando os conflitos envolvem juízes federais; e TJ
quando os conflitos envolvem juízes de primeiro grau.
Quanto à restituição de coisas apreendidas, antes do trânsito em julgado da
sentença final, as coisas apreendidas não poderão ser restituídas enquanto inte-
ressarem ao processo.
A restituição pode se dar pela autoridade policial ou pelo juiz de direito, des-
de que não haja dúvida a respeito do direito do reclamante. Caso haja dúvida,
somente pode ser devolvida a coisa pelo juiz. Ademais, se a dúvida subsistir, as
partes serão remetidas ao juízo cível.

Exercício
48. (Cespe – 2013 – PC-BA – Delegado de Polícia) Assinale se a assertiva está
correta ou incorreta:
A restituição de coisas apreendidas em poder do investigado, no âmbito do
inquérito policial, pode ser ordenada pela autoridade policial, desde que
não haja vedação legal à restituição das coisas e inexista importância à pro-
124 Direito Processual Penal

va da infração ou desde que a restituição não sirva à reparação do dano


causado pelo crime e seja induvidoso o direito do reclamante, após oitiva
obrigatória do MP.

4. Incidente de Falsidade e Incidente de


Insanidade Mental
O incidente de falsidade deve ser instaurado quando houver fundada suspeita
relacionada à idoneidade de documento juntado ao processo.
Salienta-se que pode ser requerido pelas partes ou de ofício, pelo juiz.
Após a instauração do incidente, a parte responsável pela juntada do documen-
to deve se manifestar no prazo de três dias, para indicação e produção de provas.
Se a falsidade for reconhecida, os documentos devem ser desentranhados.
Ademais, haverá remessa do apurado ao MP, para apuração do crime de falso.
O incidente de insanidade mental deve ser instaurado quando houver dú-
vida acerca da integridade mental do acusado. Pode ser instaurado mediante
representação da autoridade policial, a pedido do MP, do cônjuge, ascendente,
descendente ou irmão do acusado, ou pelo juiz, de ofício.
O procedimento se dá da seguinte forma: autuação em separado; instauração
mediante portaria judicial; o processo é suspenso e a prescrição corre normalmen-
te; é nomeado curador ao indiciado ou acusado; as partes propõem quesitos; a
perícia deve ser realizada no prazo de 45 dias, admitindo-se prorrogação; deve ser
elaborado laudo, que não vincula a decisão do juiz.

Exercício
49. (Cespe – 2013 – PC-BA – Delegado de Polícia) Assinale se a assertiva está
correta ou incorreta:
A autoridade policial que, na fase de investigação criminal, desconfiar da
integridade mental do acusado, poderá, sem suspender o andamento do
inquérito policial, determinar, de ofício, que o acusado se submeta a exame
de sanidade mental, a ser realizado por peritos oficiais.

5. Medidas Assecuratórias – Sequestro – Arresto


– Hipoteca Legal
O sequestro vem previsto nos arts. 125 a 133 do CPP.
Importante observar que o sequestro recai sobre bens móveis e imóveis e
pode ser decretado na fase do inquérito policial ou da ação penal. A finalidade do
Direito Processual Penal 125

sequestro é reter os bens adquiridos com os proventos da infração. Seus requisi-


tos são os indícios veementes de proveniência ilícita de bens.
Quanto ao arresto, é preciso observar a redação dos arts. 134 e 135 do CPP.
Este recai sobre bens móveis e pode ser decretado na fase do inquérito policial ou
da ação penal. A finalidade é a garantia de indenização cível e os requisitos são a
materialidade e indícios suficientes de autoria.
A hipoteca legal, por sua vez, recai sobre bens móveis e pode ser decretada na
fase do inquérito policial ou da ação penal. Sua finalidade é a mesma do arresto,
garantia de indenização cível. Seus requisitos são: materialidade, indícios suficien-
tes de autoria e desde que o indiciado/acusado não possua bem imóvel ou que o
valor deste seja insuficiente.

Exercício
50. (X Exame Unificado) No curso de uma investigação policial que apurava a
ocorrência dos delitos de sonegação fiscal e evasão de divisas, o Procurador
da República “X” requereu ao Juízo Federal Criminal medida assecuratória,
já que obteve documentos que informavam os bens que teriam sido ad-
quiridos pelo investigado com proventos da infração penal. O Juiz Federal
decretou a medida assecuratória, que foi cumprida a contento.
A partir do caso apresentado, assinale a alternativa que indica a medida
assecuratória adotada.
a) Busca e Apreensão.
b) Arresto.
c) Sequestro.
d) Hipoteca Legal.
Capítulo 9
Efeitos Civis

1. Efeitos Cíveis de uma Condenação Penal


– Sentença Condenatória Transitada em
Julgado – Sentença Absolutória Transitada
em Julgado

Veremos agora os efeitos civis de uma decisão penal condenatória transitada em


julgado.
É necessária uma decisão definitiva, para que se constitua em título executivo
judicial. Se for condenatória, repercute no processo civil, pois autoriza a
propositura de ação civil ex delicto de execução (art. 63 do CPP).
E quem irá propor a ação de execução civil será o ofendido, seu representante
legal ou seus herdeiros.
Não há discussão “se” o condenado penal deve, e sim o “quanto” ele deve.
Sobre o valor devido, a execução poderá ser efetuada pelo valor fixado nos
termos do inciso IV do caput do art. 387 do CPP. Entretanto, se a vítima discordar
do valor mínimo fixado pelo juiz criminal, poderá utilizar a fase de liquidação civil
para a apuração do dano efetivamente sofrido.
E a sentença absolutória também pode acarretar indenização na esfera civil.
Depende do inciso do art. 386 (I, IV e VI) do CPP.
Três desses incisos vão trazer impacto na esfera cível, não permitindo a propo-
situra de ação civil ex delicto:
– está provado que não houve o fato;
– o acusado não foi o autor;
– houve o fato, mas foi praticado com excludente.
A ação para ressarcimento do dano poderá ser proposta no juízo cível, contra
o autor do crime e, se for o caso, contra o responsável civil.
Direito Processual Penal 127

Intentada a ação penal, o juiz da ação civil poderá suspender o curso desta,
até o julgamento definitivo daquela.
Não impedirão igualmente a propositura da ação civil: I – o despacho de ar-
quivamento do inquérito ou das peças de informação; II – a decisão que julgar ex-
tinta a punibilidade; III – a sentença absolutória que decidir que o fato imputado
não constitui crime e demais incisos.

Exercício
51. (MPR – MG – 2012) Assinale a alternativa correta. Impede o ajuizamento da
ação civil para reparação do dano causado por crime:
a) O acórdão que reconhece a inexistência material do fato.
b) O despacho de arquivamento do inquérito policial.
c) A decisão que julga extinta a punibilidade.
d) A sentença que decide que o fato não constitui crime.
Capítulo 10
Nulidades

1. Conceito e Espécies de Nulidade –


Consequência e Refazimento
Nulidade é a inobservância das formalidades processuais que acarreta prejuízo a
uma das partes. As formalidades no processo penal devem ser obedecidas com
extremo rigor, porque o que está em jogo neste tipo de processo é a liberdade
humana.
Para que haja nulidade, é indispensável que se comprove que a inobservância
a uma formalidade gerou prejuízo, pois não se defende a forma como um fim.
Nulidade é um vício processual, que nasce da inobservância das formalidades
processuais e que, por acarretar prejuízo, merece uma sanção.
A consequência das nulidades é o refazimento dos atos processuais nulos bem
como daqueles que derivam dele. Ou seja, o ato viciado da nulidade precisa ser
feito novamente, com a devida observância aos rigores da lei, e também os atos
decorrentes do ato nulo precisarão ser refeitos.
Assim, as nulidades estão umbilicalmente ligadas ao refazimento do ato, mas
não apenas do ato nulo. É necessário o refazimento dos atos que derivaram deste
ato nulo.
As nulidades podem ser absolutas ou relativas.
Nas nulidades absolutas, o prejuízo é demonstrado por lei. Elas podem ser
declaradas pelo juiz de ofício, embora nada impeça que exista a provocação pelas
partes. (Ademais, estas nulidades podem ser alegadas a qualquer tempo, em
qualquer fase do processo e em qualquer tipo de processo.) Finalmente, a nulida-
de absoluta não pode ser convalidada automaticamente (pois a convalidação au-
tomática só ocorre quando a nulidade não foi apontada no prazo previsto em lei).
Já nas nulidades relativas, faz-se necessária a demonstração do prejuízo para
que ela seja declarada. Não pode o juiz declarar de ofício esta nulidade e não
Direito Processual Penal 129

podem ser alegadas a qualquer tempo, pois existe prazo previsto em lei para que
haja a arguição. Finalmente, pode ser convalidada automaticamente.

Exercício
52. (MPE – SC – Promotor de Justiça – 2013) Assinale se a assertiva está correta
ou incorreta:
Segundo o CPP, algumas nulidades previstas no art. 564, III serão conside-
radas sanadas se não forem arguidas em tempo oportuno de acordo com
as regras do art. 571 do CPP; se, praticado por outra forma, o ato tiver
atingido o seu fim, ou se a parte tiver aceito os seus efeitos.

2. Princípios da Nulidade – Princípio do Prejuízo


e Princípio da Instrumentalidade das Formas

O primeiro princípio relativo às nulidades é o princípio do prejuízo: não há nulidade


se não houver prejuízo a uma das partes. Portanto, não basta a inobservância das
formalidades processuais: é necessário que esta inobservância gere um prejuízo.
O princípio do prejuízo é aplicado tanto para a nulidade absoluta quanto para
a relativa, mas é importante lembrar que na nulidade absoluta o prejuízo não
precisa de comprovação, pois é presumido por lei. Na nulidade relativa, por outro
lado, é necessária a produção da prova do prejuízo.
Veja os exemplos:
– defesa deficiente é nulidade relativa – é necessário que se comprove que a
deficiência causou dano à parte.
– incompetência absoluta é nulidade absoluta – o prejuízo existe, mas não
precisa ser comprovado.
– incompetência relativa é nulidade relativa – o prejuízo pode ou não ocor-
rer. Para que a nulidade seja decretada pelo juiz é necessário que a parte
demonstre o prejuízo decorrente do ato relativamente nulo.
O segundo princípio é o da instrumentalidade das formas: não se declarará a
nulidade de ato que não influi na verdade ou decisão da causa.
Se o ato praticado sem observância das regras não trouxe nenhuma conse-
quência para a apuração da verdade ou para a decisão da causa, não será o ato
declarado nulo. A forma é um instrumento, e nunca uma finalidade por si só.
A instrumentalidade das formas só vale para a nulidade relativa.
130 Direito Processual Penal

Exercício
53. (OAB – 2008) Assinale a opção correta acerca das nulidades no processo
penal.
a) Em matéria de nulidades, atua o princípio geral de que, inexistindo pre-
juízo, não se proclama a nulidade do ato processual, embora produzido
em desacordo com as formalidades legais (pás de nullité sans grief).
b) A suspeição do juiz é motivo de nulidade absoluta, ainda que a parte
interessada não oponha a exceção cabível.
c) Diz respeito às nulidades absolutas e relativas à seguinte afirmação do
CPP: “nenhuma das partes poderá arguir nulidade a que haja dado
causa, ou para que tenha concorrido, ou referente a formalidade cuja
observância só à parte contrária interesse.”
d) A incompetência do juízo anula todo o processo, desde o seu início.

3. Princípios da Nulidade – Princípio da


Consequencialidade ou Causalidade –
Princípio e Forma de Convalidação

Seguindo nos estudos dos princípios referentes às nulidades, veremos agora


o princípio da consequencialidade ou causalidade: a nulidade de um ato, uma
vez declarada, causará a dos atos que dele diretamente dependam ou que sejam
consequência.
O procedimento penal é formado por uma sequência de atos, que guardam
relação entre si. Portanto, se um ato é nulo (nulidade originária), os que foram
praticados depois e que decorram diretamente dele também serão nulos (nulida-
de derivada), e todos devem ser refeitos.
Com relação ao princípio da convalidação, somente se aplica de forma auto-
mática às nulidades relativas. Isto por que estas devem ser arguidas no prazo da
lei, sob pena de preclusão e convalidação.
Convalidar é tornar um ato nulo num ato válido. Pode se dar das seguintes
formas:
– por preclusão: ultrapassado o prazo para se declarar a nulidade, considera-
-se sanado o vício (aplicável somente à nulidade relativa).
– por ratificação: ocorre no caso de ilegitimidade de parte, e quando a parte le-
gítima ratifica todos os atos praticados pelo autor até a prolação da sentença.
Direito Processual Penal 131

– por suprimento: são supridas as omissões constantes na inicial acusatória,


ou seja, é acrescentado fato ou informação até então inexistente.
– por substituição: são validados vícios decorrentes da citação desde que
esta cumpra a sua finalidade.

Exercício
54. (OAB – FGV – 2012) O advogado José, observando determinado aconteci-
mento no processo, entende por bem arguir a nulidade do processo, tendo
em vista a violação do devido processo legal, ocorrida durante a Audiência
de Instrução e Julgamento. Acerca da Teoria Geral das Nulidades, é correto
afirmar que o princípio da causalidade significa:
a) A possibilidade do defeito do ato se estender aos atos que lhes são
subsequentes e que deles dependam.
b) Que não há como se declarar a nulidade de um ato se este não resultar
prejuízo à acusação ou à defesa.
c) Que nenhuma das partes poderá arguir nulidade a que haja dado cau-
sa, ou para que tenha concorrido.
d) Que as nulidades poderão ser sanadas.

4. Rol de Nulidades – Nulidade no Inquérito


Policial – Incompetência, Suspeição ou
Suborno do Juiz – Ilegitimidade das Partes

Importante verificarmos, de início, que, no decorrer do inquérito policial, não


há nulidade (entendimento majoritário). Pode existir somente irregularidade, que
contamina ato específico e nunca o processo todo.
Vamos começar a estudar, nesta unidade, o rol do art. 564 (rol meramente
exemplificativo):
I – por incompetência, suspeição ou suborno do juiz:
Se as regras de fixação de competência não forem observadas, haverá nulida-
de absoluta (incompetência material – relaciona-se ao objeto do julgamento) ou
relativa (incompetência territorial – relaciona-se ao foro ou subseção judiciária).
Suspeição (vínculo subjetivo do juiz com a parte) gera nulidade absoluta. Su-
borno (ou qualquer outra forma de corrupção) também gera nulidade absoluta.
132 Direito Processual Penal

II – por ilegitimidade de parte:


Ocorre quando autor (depende do tipo de ação penal) ou réu (diz respeito
àquele que supostamente praticou o crime) não possuem legitimidade para se-
rem parte na ação.

Exercício
55. (TJ-PR – Juiz de Direito – 2011) Sobre as nulidades no processo penal, apon-
te se as assertivas são verdadeiras (V) ou falsas (F) e assinale a única alterna-
tiva correta:
( ) Nenhum ato será declarado nulo, se da nulidade não resultar prejuízo
para a acusação ou para a defesa.
( ) A nulidade ocorrerá por incompetência, suspeição ou suborno do juiz; por
ilegitimidade da parte; por falta das fórmulas ou dos termos que a lei estabe-
lece; por omissão da formalidade que constitua elemento essencial do ato.
( ) Não será declarada a nulidade de ato processual que não houver influído
na apuração da verdade substancial ou na decisão da causa.
( ) A nulidade de um ato, uma vez declarada, causará a dos atos que dele
diretamente dependam ou sejam consequência; neste caso, o juiz que pro-
nunciar a nulidade declarará os atos a que ela se estende.
a) V, V, V, F.
b) V, V, V, V.
c) F, V, F, V.
d) F, F, F, F.

5. Rol de Nulidades – Falta de Representação –


Ausência de Corpo de Delito – Ausência de
Defesa Técnica – Ausência de Citação do Réu
Seguimos no estudo do art. 564 do CPP.
III – por falta das fórmulas ou dos termos seguintes:
a) a denúncia ou a queixa e a representação e, nos processos de contraven-
ções penais, a portaria ou o auto de prisão em flagrante: o art. 41 do CPP traz
os requisitos que devem ser observados para a elaboração da denúncia ou da
queixa. Se estes requisitos não forem observados, a inicial será inepta, e, portan-
to, nula. A ausência de representação do ofendido e a requisição do ministro da
justiça, quando da ação penal pública condicionada, também haverá nulidade.
Direito Processual Penal 133

b) o exame do corpo de delito nos crimes que deixam vestígios, ressalvado o


disposto no art. 167 (crimes de fato permanente): este exame pode ser suprido
por prova testemunhal, caso o vestígio desapareça.
c) a nomeação de defensor ao réu presente, que o não tiver, ou ao ausente, e
de curador ao menor de 21 anos: não havendo defensor (ou seja, a ausência de
defesa técnica), gera nulidade absoluta. Quanto à ausência de curador, esta dis-
posição não está mais válida desde a entrada em vigor do Código Civil de 2002.
d) a intervenção do Ministério Público em todos os termos da ação por ele
intentada e nos da intentada pela parte ofendida, quando se tratar de crime de
ação pública: o MP tem a prerrogativa de intervir em todos os atos de todos os
processos penais de ação pública (mesmo na privada subsidiária).
e) citação do réu.

Exercício
56. (RE/SP 2011 – FCC – Analista judiciário) No processo penal, especificamente
sobre as nulidades, é correto afirmar:
a) Ocorrerá nulidade no caso de comparecimento de quinze jurados para
constituição do júri.
b) Não será declarada a nulidade de ato processual que não houver influí-
do na apuração da verdade substancial ou na decisão da causa.
c) As omissões da denúncia ou da queixa poderão ser supridas a todo o
tempo, até cinco dias antes da audiência de instrução designada.
d) A nulidade por ilegitimidade do representante da parte não poderá ser
sanada, ensejando a renovação de todos os atos processuais praticados.
e) A omissão de formalidade que constitua elemento essencial do ato é
causa de nulidade absoluta e não poderá ser sanada.

6. Ausência de Interrogatório do Acusado


– Ausência de Concessão de Prazo –
Ausência de Intimação do Réu – Ausência de
Testemunhas Arroladas – Incomunicabilidade
e Limite Mínimo de Jurados
O art. 564 do CPP descreve o rol taxativo de nulidades.
No mesmo dispositivo, em seu inciso III, “f”, disciplina sobre a ausência de
fórmulas ou termos seguintes:
134 Direito Processual Penal

– sentença de pronúncia (decisão interlocutória mista não terminativa);


– libelo (existiu até 2008 – hoje não existe mais, existe algo semelhante =
petição elaborada pelas partes);
– petição elaborada pelas partes.
O art. 564, III, “g”, dispõe:
– ausência de intimação do réu para a sessão de julgamento. No Júri, quando
a lei não permitir o julgamento à revelia (casos nos quais o julgamento po-
derá acontecer com a ausência do réu, mas é fundamental a sua intimação).
O art. 564, III, “h”, dispõe:
– ausência de intimação das testemunhas arroladas na petição, para que
sejam ouvidas no plenário do júri.
O art. 564, III, “i”, dispõe:
– presença de pelo menos 15 jurados. Convocação de 25 que devem com-
parecer pelo menos 15, que serão sorteados 7 para formar o Conselho de
Sentença.
O art. 564, III, “j”, dispõe:
– sorteio dos jurados, em número legal, e sua incomunicabilidade.
O art. 564, III, “k”, dispõe:
– ausência de quesitos (destinados aos jurados) e as respectivas respostas.

Exercício
57. Quando a testemunha vai ser arrolada?

7. Ausência de Quesitos e Sentença –


Obrigatoriedade da Presença da Acusação
e Defesa – Obrigatoriedade de Intimação
– Obrigatoriedade de Recurso de Ofício –
Quórum para Julgamento

O art. 564, III, “l”, dispõe:


– ausência de acusação e defesa, na sessão de julgamento.
O art. 564, III, “m”, dispõe:
– ausência de sentença.
Direito Processual Penal 135

O art. 564, III, “n”, dispõe:


– ausência de sentenças e despachos, que comportem recurso.
O art. 564, III, “o”, dispõe:
– ausência de quorum legal para o julgamento.
O art. 564, IV, dispõe:
– omissão de formalidade que constitua elemento essencial do ato. É um rol
exemplificativo das nulidades.

Exercício
58. O que acontece se houver a ausência da acusação ou da defesa na sessão
de julgamento?
Capítulo 11
Recursos

1. Espécies de Meios de Impugnação – Espécies


de Recursos – Espécies de Ações
De uma decisão judicial, se a parte não estiver satisfeita poderá impugná-la.
Existe, assim, a possibilidade de um reexame da decisão judicial, com o obje-
tivo de alteração da decisão, o que é um direito da parte.
São duas as formas de impugnação de decisões judiciais: Recursos e Ações
de impugnação.O cabimento de uma ou outra forma depende da previsão legal.
Diferenças entre recursos e ações:
Recursos:
São interpostos, ou seja, manifestar o desejo, interesse de recorrer.
Momento: São interpostos antes do trânsito em julgado.
Relação processual: Se dá na mesma relação processual e no mesmo processo.
Assim, verificadas as três características cumulativamente estará presente a
natureza jurídica de recurso.
Tipos de Recurso do processo penal:
– Apelação criminal
– Recurso em sentido estrito – RESE, entre outros – No processo penal não
existe agravo de instrumento da mesma forma que no processo civil. O
recurso cabível para atacar decisão interlocutória, quando cabível, será o
Recurso em Sentido Estrito.
Ações:
São propostas ou impetradas.
Momento: antes ou depois do trânsito em julgado, dependendo da ação de
impugnação cabível. Algumas só antes, outras depois e outras antes ou depois
do trânsito em julgado.
Direito Processual Penal 137

Relação processual: nova relação processual que dá origem a um novo


processo.
Havendo as três características concomitantemente, não se trata de recurso,
mas de ações de impugnação.
Tipos de ações de impugnação:
– Habeas Corpus – Antes ou depois do trânsito em julgado.
– Revisão Criminal – Depois do trânsito em julgado.
– Mandado de Segurança – Antes do trânsito em julgado.
O CPP trata o Habeas Corpus e a Revisão Criminal como recursos, porém são
ações. O Código está errado.

Exercício
59. De acordo com o CPP, revisão criminal é:
a) Recurso.
b) Ação de impugnação.
c) Ação de conhecimento.
d) Questão incidental.

2. Recursos – Duplo Grau de Jurisdição –


Jurisdição Superior e Inferior – Exceções

Existem duas espécies de jurisdição, a inferior e a superior. Ambas estão atreladas


aos recursos.
A jurisdição inferior é a responsável pela análise do processo de conhecimen-
to. É quem toma contato com o processo pela primeira vez. Ela tem acesso à
petição inicial, faz a produção da prova e profere sentença.
Em regra a jurisdição inferior se dá pela primeira instância. Exceções: O Tribu-
nal pode exercer jurisdição inferior, ou seja, ser o responsável pela análise do pro-
cesso de conhecimento, nos casos de competência originária. Exemplo: Crimes
praticados por presidente da república. O STF é que toma contato pela primeira
vez na ação penal em razão do foro por prerrogativa de função.
A jurisdição superior é a responsável pelo reexame do processo. Realiza um
novo julgamento, sendo o órgão competente para apreciação do recurso.
Geralmente a competência pela jurisdição superior é dos tribunais. Exceção:
Existe órgão composto exclusivamente por juiz de primeiro grau que julga recur-
so. É o Colégio Recursal, na esfera de competência do juizado especial criminal.
138 Direito Processual Penal

Duplo grau de jurisdição é a possibilidade da decisão ou sentença ser revista


por um órgão judicial. O órgão de jurisdição inferior profere decisão que, não
satisfazendo os interesses da parte, poderá ser revista pelo órgão de jurisdição
superior. Devolve-se a matéria ao órgão para reanálise.
Não há previsão legal expressa do duplo grau de jurisdição. A previsão é implí-
cita, tácita. Extrai-se do próprio ordenamento jurídico. A CF determina a existên-
cia de tribunais e prevê recursos, podendo-se dizer que há previsão legal implícita
do duplo grau de jurisdição.

Exercício
60. Sobre o duplo grau de jurisdição, assinale a alternativa correta.
a) Não há previsão do duplo grau de jurisdição no ordenamento jurídico
brasileiro.
b) Existe previsão expressa do duplo grau de jurisdição no ordenamento
jurídico brasileiro.
c) Existe previsão tácita do duplo grau de jurisdição no ordenamento jurí-
dico brasileiro.
d) A jurisdição superior é sempre exercida pelo Tribunal.

3. Princípios Relativos aos Recursos –


Taxatividade – Inteireza dos Prazos – Princípio
da Unirrecorribilidade

Os princípios relacionados aos recursos no processo penal são matérias ligadas à


teoria geral dos recursos. São eles:
– Princípio da taxatividade – Os recursos devem estar previstos expressa-
mente em lei. Somente podem ser interpostos os recursos previstos em
lei, em sentido amplo. É indispensável que o recurso previsto em Lei seja
adequado ao caso concreto. Previsão legal + adequação ao caso concreto.
– Princípio da inteireza dos prazos – As partes possuem o direito de utilizar
integralmente o prazo para interposição de recurso – O prazo é expressa-
mente previsto em lei, em sentido amplo. O prazo fatal é sempre o da in-
terposição. O juiz não pode limitar o prazo previsto em lei, ainda que exista
anuência das partes. Para contagem do prazo desconta-se o primeiro dia,
contando-se o último. Não poderá começar nem terminar em sábado, do-
mingo ou feriados, prorrogando-se para o próximo dia útil, nesses casos.
Direito Processual Penal 139

– Princípio da unirrecorribilidade – Para cada decisão, em regra, somente é


cabível interposição de um único recurso. Existem exceções. Por exemplo, se
acórdão ao mesmo tempo contrariar lei federal e constituição federal caberá
interposição de recurso especial contra a parte que contrariar a lei federal e
recurso extraordinário contra a parte que contrariar a Constituição Federal.

Exercício
61. (Cespe – 2012) Considere que, na própria audiência, após as partes terem
apresentado suas alegações oralmente, o juiz criminal tenha proferido a
sentença condenatória. Nessa situação, conforme prescrições do CPP, o pra-
zo para recurso correrá a partir do dia:
a) Da audiência, uma vez que, nessa ocasião, as partes estavam presentes
e tomaram ciência dos autos.
b) Seguinte à audiência, pois o escrivão tem o período de 24 horas para
publicar a sentença.
c) Da publicação do inteiro teor da decisão no Diário de Justiça.
d) Em que a parte, a acusação ou a defesa tomarem ciência pessoal nos
autos.
e) Em que for juntado aos autos o mandado de intimação cumprido pelo
oficial de justiça.

4. Princípios Relativos aos Recursos – Princípio


da Reformatio in Pejus – Reformatio in Pejus
Direta e Indireta

Princípio da proibição da reformatio in pejus – O tribunal ao julgar recurso ex-


clusivo da defesa não poderá agravar a situação do acusado. É pressuposto do
princípio que o recurso seja exclusivo da defesa. Se existir recurso da acusação a
situação do acusado poderá piorar.
O pior cenário, então, é a manutenção da decisão da sentença, em caso de
recurso exclusivo da defesa.
Existem duas espécies de reformatio in pejus, ambas proibidas:
– Reformatio in pejus direta: Ocorre quando o próprio tribunal ao julgar o
recurso exclusivo da defesa agrava a situação do acusado. O erro é do
tribunal ao julgar o mérito do recurso, proferindo decisão mais gravosa do
que de primeiro grau. Exemplo: O juiz profere sentença condenatória de
140 Direito Processual Penal

quatro anos de reclusão. Somente a defesa apela. O Tribunal ao julgar o


recurso mantém a condenação e agrava a pena para seis anos de reclusão.
Consequência: O acórdão é nulo, com manutenção da sentença intacta.
– Reformatio in pejus indireta: O tribunal ao julgar o recurso exclusivo da
defesa reconhece a existência de nulidade da sentença. O tribunal não
julga o mérito do recurso exclusivo da defesa, mas apenas a preliminar
suscitada, remetendo-se o processo para primeira instância para que se-
jam refeitos os atos anulados, proferindo-se nova sentença. Se for a nova
sentença mais gravosa que a primeira, ela será nula por extrapolar o limite
da sentença anterior ferindo o princípio da não reformatio in pejus.

Exercício
62. (Cespe – 2012) Com base no CPP (CPP), assinale a opção correta acerca dos
recursos no processo penal:
a) O recurso de apelação ofertado em face de sentença condenatória ou
absolutória de réu preso ou solto tem efeito suspensivo.
b) A regra geral no CPP é a voluntariedade dos recursos. Os recursos à
sentença que conceda habeas corpus e reabilitação, contudo, devem
ser interpostos de ofício, por juiz.
c) Decisão que conceda ou denegue ordem de habeas corpus é impugná-
vel por meio de recurso de apelação.
d) O CPP preconiza, de forma expressa, a utilização do recurso, em sen-
tido estrito, como instrumento processual impugnativo adequado para
recorrer de sentença de absolvição imprópria.
e) O princípio de vedação da reformatio in pejus, expresso no CPP, impede
que o tribunal, quando do julgamento da apelação interposta pelo MP,
agrave a pena do réu.

5. Princípios Relativos aos Recursos


– Princípio da Fungibilidade – Princípio da
Irrecorribilidade das Decisões Interlocutórias
– Princípio da Disponibilidade – Princípio da
Voluntariedade
Princípio da Fungibilidade – Possibilidade do recurso não adequado interposto
ser tomado como correto, desde que não haja erro grosseiro e má-fé, e que te-
Direito Processual Penal 141

nha sido respeitado o prazo para interposição do recurso correto. Erro grosseiro é
aquele que não tem fundamentação de divergência doutrinária ou jurisprudencial.
Princípio da Irrecorribilidade das Decisões Interlocutórias – é regra o não cabi-
mento de recurso para impugnação de decisão interlocutória, e poderá ser excep-
cionada dependendo de expressa previsão legal, por exemplo, no caso de recurso
em sentido estrito. A decisão interlocutória é aquela que decide um determinado
aspecto do processo, mas não resolve a causa como um todo.
Princípio da Disponibilidade – Em regra, a parte pode desistir do recurso in-
terposto. Exceção: O Ministério Público não pode desistir do recurso interposto,
conforme o art. 576 do CPP.
Princípio da Voluntariedade – Em regra, quem deve interpor o recurso é a
parte sucumbente, ou seja, a que não teve reconhecida a sua pretensão. Entre-
tanto, há algumas situações de reexame necessário, como a decisão que concede
habeas corpus em primeiro grau.

Exercício
63. (TJ – 2005) O CPP a respeito da fungibilidade dos recursos:
a) Veda sua aplicação de forma expressa.
b) É omisso e nada dispõe a respeito.
c) Admite sua aplicação, com ressalvas.
d) Admite sua aplicação, sem ressalvas.

6. Recursos – Proibição da Reformatio in Pejus


– Reformatio in Pejus Direta – Reformatio in
Pejus Indireta
Primeiro, observa-se que o Tribunal, ao julgar recurso exclusivo da defesa, não
poderá agravar a situação do acusado. Desta forma, o pior cenário será a manu-
tenção da decisão ou sentença.
Na reformatio in pejus direta, o próprio Tribunal, ao julgar o recurso exclusivo
da defesa, agrava a situação do acusado. A consequência, neste caso, é a nuli-
dade do acórdão.
Na reformatio in pejus indireta, o Tribunal, ao julgar o recurso exclusivo da de-
fesa, reconhece a existência de nulidade. O processo é remetido para a primeira
instância, que refaz os atos anulados e profere nova sentença que, por sua vez, é
mais gravosa em relação à primeira.
Cumpre observar que, havendo reformatio in pejus indireta, a sentença será nula.
142 Direito Processual Penal

Exercício
64. (Cespe – 2012 – TJ-RO – Analista Judiciário – Oficial de Justiça) Com base no
CPP (CPP), assinale a opção correta acerca dos recursos no processo penal:
a) O recurso de apelação ofertado em face de sentença condenatória ou
absolutória de réu preso ou solto tem efeito suspensivo.
b) A regra geral no CPP é a voluntariedade dos recursos. Os recursos à
sentença que conceda habeas corpus e reabilitação, contudo, devem
ser interpostos de ofício, por juiz.
c) Decisão que conceda ou denegue ordem de habeas corpus é impugná-
vel por meio de recurso de apelação.
d) O CPP preconiza, de forma expressa, a utilização do recurso, em sen-
tido estrito, como instrumento processual impugnativo adequado para
recorrer de sentença de absolvição imprópria.
e) O princípio de vedação da reformatio in pejus, expresso no CPP, impede
que o tribunal, quando do julgamento da apelação interposta pelo MP,
agrave a pena do réu.

7. Classificação dos Recursos – Recurso Ordinário


– Recurso Extraordinário – Efeito Devolutivo
Existe uma classificação em relação aos recursos que deve ser observada.
O recurso ordinário pode ter como objeto matéria de fato e de direito, sendo
permitida ampla discussão. Exemplo: apelação.
Já no recurso extraordinário, o objeto recai apenas sobre matéria de direito.
Exemplo: Recurso Especial, julgado pelo STJ e Recurso Extraordinário, julgado
pelo STF.
É preciso entender o efeito devolutivo, um efeito do processo penal. Tal efeito
diz respeito à possibilidade de reexame e modificação da decisão impugnada.
O efeito devolutivo significa devolver a matéria para o reexame. Observa-se
que se dá pelo próprio órgão que proferiu a decisão, quando houver efeito re-
gressivo (efeito relativo ao juízo de retratação). Salienta-se, no entanto, que ge-
ralmente se dá por órgão superior.
Cumpre esclarecer que todo recurso possui efeito devolutivo. Isso, porque o
recurso é um instrumento de impugnação de decisão judicial.
Ademais, o efeito devolutivo pode ser pleno ou limitado (voluntariamente ou
por força de lei).
Direito Processual Penal 143

Exercício
65. Assinale exemplo de recurso que sempre possuirá efeito devolutivo limitado:
a) Apelação.
b) Recurso em sentido estrito.
c) Embargos infringentes.
d) Agravo em execução.

8. Recursos – Efeito Regressivo, Suspensivo e


Extensivo – Carta Testemunhável

O efeito regressivo recebe também outros nomes, como efeito iterativo ou juízo
de retratação. Trata-se da possibilidade de o juiz que proferiu a decisão voltar
atrás e reformar sua decisão.
Referido efeito é uma hipótese excepcional no campo do processo penal,
cabendo no recurso em sentido estrito e no agravo em execução, por exemplo.
Importante salientar que tudo o que vale para o recurso em sentido estrito se
estende ao agravo em execução. Existe outra possibilidade de cabimento do efei-
to regressivo, qual seja a carta testemunhável, que pode ser interposta quando os
dois recursos mencionados anteriormente não forem recebidos.
Já o efeito suspensivo ocorre para que seja suspensa a eficácia de uma deci-
são, tendo este efeito incidência excepcional no processo penal.
Sentença absolutória própria não tem efeito suspensivo. Em caso de sentença
absolutória imprópria incide, se não for comprovada necessidade de internação
provisória. Já em sentença condenatória, incide, desde que ausentes os pressu-
postos e requisitos para decretação da prisão preventiva.
Por fim, efeito extensivo significa estender o resultado do julgamento para
outra pessoa. O pressuposto aqui é que haja concurso de pessoas. Desta forma,
um dos réus recorre e o outro não e aquele que recorre alcança resultado mais
favorável. Este resultado pode ser estendido ao que não recorreu, desde que não
decorra de circunstâncias pessoais.

Exercício
66. (MPE-GO – 2010 – Promotor de Justiça) São exemplos de recursos que não
possuem efeito suspensivo:
I – Apelação da sentença absolutória.
II – Agravo da execução.
144 Direito Processual Penal

III – Recurso especial e Recurso extraordinário.


IV – Todas as demais hipóteses recursais em relação às quais a lei não dispu-
ser, expressamente, que o tenham.
a) Apenas uma proposição está correta.
b) Apenas duas proposições estão corretas.
c) Apenas três proposições estão corretas.
d) As quatro proposições estão corretas.

9. Pressupostos Recursais Genéricos e


Específicos – Cabimento – Adequação –
Tempestividade

Os pressupostos recursais dividem-se em genéricos e específicos. Começando o


estudo dos pressupostos genéricos, temos a decisão judicial e a provocação.
Para que possa ser interposto um recurso, é necessário que exista uma deci-
são judicial (pois recurso é um meio de impugnação de decisão judicial). Não é
possível, portanto, recurso “em tese”. A decisão constituirá objeto do próprio
recurso.
O outro pressuposto genérico é a provocação da parte interessada. Daí temos
que, em regra, os recursos são voluntários. Temos uma exceção: o recurso de ofí-
cio. Este recurso relaciona-se com o reexame necessário. O próprio juiz submete
a sua decisão judicial a uma reapreciação.
Esta não é a regra no nosso ordenamento jurídico, de modo que tal recurso
somente ocorrerá quando houver previsão expressa em lei (ex.: decisão que con-
cede HC em primeiro grau).
No que tange aos pressupostos específicos, eles se dividem em objetivos e
subjetivos.
Quanto aos pressupostos específicos objetivos, o primeiro deles é o cabimen-
to. Deve ser interposto o recurso expressamente previsto em lei.
Outro pressuposto é a adequação. Deve ser interposto o recurso cabível para
impugnar determinada decisão ou sentença.
Os dois primeiros pressupostos diferem-se entre si porque o primeiro (cabi-
mento) é genérico enquanto a adequação refere-se ao caso concreto.
Também temos, como pressuposto a tempestividade. O recurso deve ser inter-
posto no prazo previsto em lei.
Direito Processual Penal 145

Exercício
67. (TJ/PI – 2009 – FCC) São pressupostos comuns a todos os recursos:
a) Oportunidade, indivisibilidade, unirrecorribilidade.
b) Possibilidade jurídica, interesse de agir, indesistibilidade.
c) Previsão legal, forma prescrita em lei, tempestividade.
d) Formalidade, publicidade, oficialidade.
e) Iniciativa das partes, impulso oficial, publicidade.

10. Pressupostos Recursais Específicos – Objetivos


e Subjetivos – Sucumbência

Seguimos no estudo dos pressupostos recursais, ainda vendo os pressupostos


objetivos.
Quanto à regularidade procedimental, significa que devem ser observadas as
formalidades previstas em lei.
Outro pressuposto objetivo é a inexistência de fato impeditivo ou extintivo.
Não pode ocorrer a desistência do recurso (lembrar que a parte pode desistir, mas
o MP não), a deserção ou a renúncia ao direito de recursos.
Finalmente, deve ser observada a competência recursal. O recurso deve ser
interposto perante o juízo competente (em regra, no processo penal será compe-
tente o órgão que proferiu a decisão). O endereçamento das razões também deve
ser feito da forma correta.
Estudaremos agora os pressupostos específicos subjetivos. São eles: interesse
de recorrer e sucumbência.
Sobre o interesse de recorrer, importa saber que, por este pressuposto, deve
ser comprovada a legitimidade do recorrente. Em regra, terão legitimidade para
recorrer as partes no processo. Mas também terá legitimidade o assistente da
acusação (apelação supletiva).
Por fim, temos a sucumbência, que significa perda, ou seja, parte sucumbente
é aquela que perdeu no todo ou em parte. Ainda que a sucumbência seja parcial,
ela gera à parte o direito de recorrer.
Importante lembrar, ainda, que a sucumbência pode ser recíproca, ou seja,
cada uma das partes sucumbe em uma parte da decisão.
146 Direito Processual Penal

Exercício
68. (TJ/SE – 2009 – FCC) São pressupostos subjetivos dos recursos:
a) Legitimidade e adequação.
b) Cabimento e tempestividade.
c) Interesse jurídico e legitimidade para recorrer.
d) Prequestionamento e adequação.
e) Cabimento e interesse.

11. Juízo de Admissibilidade – Conceito –


Competência – Consequência – Juízo de
Delibação

O juízo de admissibilidade se relaciona diretamente com os pressupostos recursais,


sejam estes genéricos ou específicos, tais como, a existência da decisão judicial, a
provocação, o cabimento, a tempestividade, a regularidade procedimental, a ob-
servância da competência, a ausência de fato impeditivo ou extintivo do recurso.
O juízo de admissibilidade também é chamado de juízo de prelibação, ou seja,
antes mesmo do conhecimento do recurso. Para que o juiz receba o recurso e
determine seu processamento, os pressupostos recursais genéricos e específicos
serão observados, por exemplo, se há uma decisão judicial ou se a parte recor-
rente é legítima.
Já na fase do juízo de delibação serão apreciados os argumentos do recurso,
o seu mérito e as teses suscitadas para o recurso.
Quanto à competência, o juízo de admissibilidade está sujeito ao órgão a
quo e ao órgão ad quem. O órgão a quo é aquele que proferiu a decisão ou
a sentença impugnada pelo recurso e o órgão ad quem é o responsável pelo
reexame da matéria.
No Processo Penal existe uma ordem para a interposição do recurso, sendo ori-
ginariamente o juízo a quo o que fará a análise quanto ao juízo de admissibilidade.
Uma vez constatada a falta de algum dos pressupostos recursais, o órgão ad
quem também é competente, secundariamente, para conhecer sobre o juízo de
admissibilidade, como a intempestividade do recurso.
O preenchimento de todos os pressupostos recursais tem como consequência
o recebimento e processamento do recurso.
A petição de interposição oferece a base necessária para que o juiz verifique,
no caso concreto, se os pressupostos recursais foram atendidos.
Direito Processual Penal 147

Exercício
69. Aponte a hipótese de admissibilidade dos embargos de declaração previsto
no art. 382 do CPP:
a) Suprir a omissão da sentença condenatória sobre a aplicação do regime
disciplinar diferenciado (RDD) ao réu.
b) Reduzir a pena em decorrência de atenuante genérica olvidada na sen-
tença embargada.
c) Corrigir eventual injustiça contida na decisão embargada.
d) Fixar o regime inicial de cumprimento da pena detentiva imposta na
sentença.

12. RESE – Previsão Legal – Legitimidade – Prazo

O recurso em sentido estrito mais conhecido como RESE é utilizado para impug-
nar as decisões interlocutórias.
O RESE tem previsão legal nos arts. 581 do CPP, 294, parágrafo único, do CTB
e 2º, III, do Decreto-lei nº 201/67.
Embora a previsão do RESE seja taxativa, não é possível afirmar que as hipó-
teses de cabimento se esgotem no art. 581 do CPP. Este artigo traz um rol de 24
incisos, sendo que alguns desses incisos foram revogados tacitamente e, na maior
parte dos casos, a revogação se deu pela Lei de Execução Penal.
Foram revogadas as hipóteses previstas nos incisos XI, XII, XVII, XIX, XX, XXI,
XXII, XXIII, XIV do art. 581 do CPP.
A legitimidade para interposição do RESE é da acusação ou da defesa, con-
forme o caso, por exemplo, pode depender da sucumbência, do interesse para
recorrer.
Via de regra, se a decisão foi de pronúncia, a defesa é quem recorre, já se
a decisão foi de desclassificação no júri, a acusação poderá recorrer pedindo a
pronúncia.
A interposição do RESE pelo assistente da acusação também é admitida.
De acordo com o art. 586 do CPP, o prazo para a interposição do recurso será
de cinco dias, exceto para o prazo de 20 dias previsto no art. 581, XIV, do CPP, da
decisão que inclui ou exclui jurados da lista geral de jurados.
O prazo para que o recorrente ofereça suas razões ou contrarrazões será de
dois dias a partir da intimação.
148 Direito Processual Penal

Exercício
70. (Cespe – 2008 – MPE – Promotor de Justiça – RR) Julgue se a assertiva está
correta ou incorreta:
Tanto o recurso em sentido estrito quanto a carta testemunhável admitem
o juízo de retratação.

13. RESE – Não Recebimento da Denúncia –


Incompetência do Juízo

O artigo 581 do CPP traz a previsão legal sobre o Recurso em Sentido Estrito em
24 incisos, porém, vários foram revogados, sendo eles: XI, XII, XVII, XIX até XXIV.
Essa revogação se deu em grande parte pela edição da Lei de Execução Penal
(7.210/84).
Essa lei criou a competência do Juízo das Execuções Penais (art. 66 da LEP) e
no art. 197 traz questões sobre as decisões proferidas pelos Juízos da Execução
Penal, portanto, tudo que for típico da execução penal caberá Recurso de Agravo.
O inciso I do art. 581 dispõe sobre a rejeição da denúncia ou queixa-crime, a
qual caberá Recurso em Sentido Estrito.
As hipóteses de rejeição da inicial são: se for inepta, se faltar condição da
ação ou pressuposto processual e quando faltar justa causa. Diante desta regra,
há uma exceção, pois no âmbito do JeCrim, se a inicial for rejeitada caberá o
Recurso de Apelação.
O inciso II dispõe sobre a desclassificação, ou seja, o Juiz reconhece que não
é competente para apreciar determinada matéria, também caberá o Recurso em
Sentido Estrito, como por exemplo, a desclassificação que acontece na primeira
fase do Júri.

Exercício
71. (FCC – DPE/MT – 2009 – Defensor Público – adaptada) Não cabe recurso em
sentido estrito da decisão que:
a) Decidir o incidente de falsidade.
b) Concluir pela incompetência do Juízo.
c) Receber a denúncia ou a queixa.
d) Denegar a apelação ou a julgar deserta.
Direito Processual Penal 149

14. RESE – Pronúncia – Conceder ou Negar


Habeas Corpus – Denegar Apelação ou Julgar
Deserta

O inciso IV do art. 581 do CPP dispõe sobre a decisão de pronúncia que para ser
impugnada, caberá Recurso em Sentido Estrito. Essa pronúncia é uma decisão
interlocutória mista e não terminativa.
O art. 413 do CPP dispõe que caberá RESE se o réu for pronunciado, ou seja,
quando o Juiz estiver convencido dos indícios suficientes de autoria e também a
respeito da prova da materialidade do crime.
Quem pode contrapor essa decisão de pronúncia num primeiro momento será
a defesa, mas nada impede que o MP como custos legis intervenha nessa situação
e interponha o RESE para impugnar a decisão de pronúncia.
Esse Recurso em Sentido Estrito possui efeito suspensivo, ou seja, não irá co-
meçar a segunda fase sem que se decida a questão relativa à pronúncia, ficando
o processo parado, aguardando julgamento pelo Tribunal.
É possível se combater também, através do RESE, a possibilidade de prisão
preventiva decorrente da pronúncia.
O inciso X dispõe sobre o cabimento de RESE contra decisão que concede ou
denega ordem de habeas corpus em primeiro grau. Se a denegação se der por
Tribunal, caberá outro Recurso, o Ordinário Constitucional.
O inciso XV dispõe sobre a denegação do Recurso de Apelação, a qual caberá
Recurso em Sentido Estrito. Caso o RESE seja denegado pelo Juiz caberá outro
Recurso, chamado de Carta Testemunhável.

Exercício
72. (FCC – 2010 – TJ/MS – Juiz de Direito) Caberá recurso em sentido estrito
contra a decisão que:
a) Absolver sumariamente o réu.
b) Receber a denúncia ou a queixa.
c) Revogar o livramento condicional.
d) Pronunciar o réu.
e) Indeferir o pedido de revogação de prisão preventiva.
150 Direito Processual Penal

15. Agravo em Execução – Execução Penal –


Competência – Previsão Legal – Hipóteses de
Cabimento – Legitimidade – Efeitos

O primeiro ponto a ser estudado é a execução penal. O pressuposto é o trânsito


em julgado de sentença penal condenatória ou absolutória imprópria.
É preciso observar que, de forma diferente do processo civil, no processo penal
haverá um novo processo, que tramita em vara diferente (Vara das Execuções
Criminais).
A competência territorial será demarcada pelo local de cumprimento de pena.
A Súmula nº 192 do STJ dispõe que compete ao Juízo das Execuções Penais
do Estado a execução das penas impostas a sentenciados pela Justiça Federal, Mi-
litar ou Eleitoral, quando recolhidos a estabelecimentos sujeitos à administração
estadual.
Sobre o agravo em execução, ressalta-se que a previsão está contida no art.
197 da LEP (Lei nº 7.210/84), não devendo ser utilizado o CPP. É cabível o agravo
em execução para impugnar decisão proferida pelo juízo da execução penal (art.
66 da LEP).
Em relação à legitimidade, podem interpor o recurso aqui estudado tanto o
Ministério Público quanto a defesa.
Este recurso não possui efeito suspensivo, mas somente devolutivo, e, por fim,
o prazo para interpor agravo em execução é de 5 (cinco) dias.

Exercício
73. (FCC – 2009 – TJ-GO – Juiz) De acordo com a lei de execução penal:
a) É cabível o recurso de agravo, com efeito suspensivo, contra as decisões
proferidas na fase de execução.
b) É dispensável a prévia oitiva do condenado no incidente de regressão.
c) O respectivo procedimento judicial poderá ter início por proposta do
Conselho Penitenciário.
d) Os incidentes de excesso ou desvio de execução só podem ser suscita-
dos pelo sentenciado ou pelo Ministério Público.
e) É inadmissível a substituição da pena privativa de liberdade por medida
de segurança, ainda que sobrevenha doença mental.
Direito Processual Penal 151

16. Apelação – Previsão Legal – Legitimidade –


Prazo – Apelação Supletiva

A previsão legal do recurso de apelação pode ser encontrada em três dispositivos


diferentes: arts. 593 e 416 do CPP; e 82 da Lei nº 9.099/95.
É necessário ressalvar que o art. 416 somente será aplicado em relação ao
procedimento do júri, ao final da primeira fase.
Já o art. 82 da Lei nº 9.099/95 trata do procedimento nos Juizados Especiais
Criminais.
Quanto à legitimidade, podem interpor o recurso de apelação tanto a acu-
sação quanto a defesa, conforme o caso, pois deve ser demonstrado interesse.
Também pode apelar, de forma supletiva, o assistente da acusação.
Em relação ao prazo, na sistemática do CPP, será de cinco dias para interpo-
sição e oito dias para razões e contrarrazões. Já na Lei nº 9.099/95, o prazo será
de 10 dias para interposição e contrarrazões. Na apelação supletiva (art. 598 do
CPP), o prazo será de 15 dias, contados a partir do encerramento do prazo para o
Ministério Público, desde que não tenha havido habilitação anterior.

Exercício
74. (FCC – 2012 – MPE-AP – Promotor de Justiça) Em relação aos sujeitos pro-
cessuais, é correto afirmar:
a) O prazo para o assistente recorrer supletivamente começa a correr ime-
diatamente após o transcurso do prazo do Ministério Público.
b) O assistente será admitido enquanto não for proferida sentença de mé-
rito na ação penal condenatória.
c) Desde que devidamente habilitado, o corréu no mesmo processo pode-
rá intervir como assistente do Ministério Público.
d) Após o advento da Constituição da República de 1988, a queixa subsi-
diária deixou de ser admissível.
e) Nos casos a serem submetidos ao tribunal do júri, a assistência deverá
ser requerida até 3 (três) dias antes do julgamento para que possa o
assistente participar do julgamento em Plenário.
152 Direito Processual Penal

17. Apelação – Impronúncia ou Absolvição


Sumária – JeCrim

A primeira hipótese de cabimento da apelação está relacionada ao art. 416 do


CPP. Trata-se do final da primeira fase do procedimento do júri, em caso de im-
pronúncia ou absolvição sumária.
O Juizado Especial Criminal possui competência material bem definida, jul-
gando infrações penais de menor potencial ofensivo. A apelação, prevista pela Lei
nº 9.099/95 é cabível em caso de decisão que rejeita a inicial acusatória; sentença
absolutória ou condenatória; decisão que homologa a transação penal.
O art. 593 do CPP, por sua vez, está relacionado ao juízo singular. Os incisos I
e II do referido dispositivo, dispõem que será cabível apelação:
1. Das sentenças definitivas de condenação ou absolvição proferidas por juiz
singular;
2. Das decisões definitivas, ou com força de definitivas, proferidas por juiz
singular, que não caiba recurso em sentido estrito.

Exercício
75. (MPE/SC – 2013 – Promotor de Justiça) Julgue se a assertiva está correta ou
incorreta:
Caberá apelação contra a sentença de impronúncia, pronúncia ou de absol-
vição sumária.

18. Apelação – Decisões do Tribunal do Júri

O art. 593, III, do CPP trata da apelação cabível ao final da segunda fase do pro-
cedimento do júri, trazendo quatro hipóteses:
1. Se ocorrer nulidade posterior à pronúncia;
2. Quando for a sentença do juiz-presidente contrária à lei expressa ou à de-
cisão dos jurados;
3. Se houver erro ou injustiça no tocante à aplicação da pena ou da medida
de segurança;
4. Se for a decisão dos jurados manifestamente contrária à prova dos au-
tos. A consequência, neste caso, é um novo júri, já que existe a soberania dos
veredictos.
Direito Processual Penal 153

Exercício
76. (MPE/SC – 2013 – Promotor de Justiça) Segundo o CPP, caberá apelação no
prazo de cinco dias nas situações seguintes do rito do Júri, exceto quando:
a) Proferida decisão que pronunciar o réu.
b) For a decisão dos jurados manifestamente contrária à prova dos autos.
c) For a sentença do juiz-presidente contrária à lei expressa ou à decisão
dos jurados.
d) Houver erro ou injustiça no tocante à aplicação da pena ou da medida
de segurança.

19. Julgamento dos Recursos

O recurso em sentido estrito deve ser interposto no prazo de cinco dias, perante o
juízo a quo. Na sequência, devem ser apresentadas as razões e as contrarrazões.
Chegando ao Tribunal, é dada vista ao Procurador de Justiça ou da República,
para que este se manifeste em cinco dias.
Após esta manifestação, os autos seguem conclusos ao Relator, também pelo
prazo de cinco dias. O Relator fará o relatório do processo, que trará uma breve
exposição do objeto daquele recurso. Na sequência, o próprio Relator pede inclu-
são do feito em pauta.
No julgamento, o relator apresenta exposição do feito e, então, as partes po-
dem apresentar sustentação oral. Após a sustentação, acontece a votação.
Observa-se que o agravo em execução terá o julgamento nos mesmos moldes.
Na apelação, em regra, as razões e contrarrazões são ofertadas ao juízo a quo.
Não serão ofertadas desta forma quando houver pedido expresso na interposi-
ção. Ainda em relação à apelação, se o objeto for contravenção penal ou crime
apenado com detenção, seguirá o mesmo rito do recurso em sentido estrito.
Ademais, se o objeto for crime apenado com reclusão, haverá Revisor, que ma-
nifesta no mesmo prazo do Relator, cabendo a ele pedir designação de data para
julgamento. Os prazos são duplicados e o tempo para debate será de 15 minutos.

Exercício
77. A previsão legal acerca de Revisor ocorre no seguinte recurso:
a) Recurso em sentido estrito.
b) Apelação, em qualquer caso.
154 Direito Processual Penal

c) Apelação, nos crimes apenados com reclusão.


d) Apelação, nos crimes apenados com detenção e nas contravenções
penais.

20. Embargos Infringentes e de Nulidade –


Fundamento Legal – Hipóteses de Cabimento
– Prazo – Legitimidade
Quando se fala em embargos infringentes, é preciso entender que o objeto recai
sobre direito material. Quanto aos embargos de nulidade, o objeto recai sobre
direito processual.
Em relação aos embargos infringentes e de nulidade, o objeto recai sobre
direito material e processual.
O fundamento legal dos embargos infringentes e de nulidade encontra-se no
art. 609, parágrafo único do CPP. São hipóteses de cabimento as impugnações
que recaem sobre:
– Acórdão emanado por TJ ou TRF;
– Julgamento de apelação, RESE ou agravo em execução;
– Resultado desfavorável ao réu;
– Decisão não unânime.
Cumpre esclarecer que os embargos infringentes e/ou de nulidade somente
poderão tratar da matéria divergente. O prazo para oposição dos embargos aqui
estudados é de 10 dias e trata-se de um recurso privativo da defesa.

Exercício
78. (TJ-PR – 2012 – Assessor Jurídico) No que se relaciona à disciplina de Embar-
gos de Nulidade e Infringentes, considere as seguintes afirmativas:
1. Os embargos de nulidade não são recebidos com efeito suspensivo.
2. São cabíveis embargos de divergência em matéria criminal no STJ.
3. Os embargos infringentes visam modificar o mérito de uma decisão.
4. Não são cabíveis embargos infringentes no STF.
Assinale a alternativa correta.
a) Somente as afirmativas 1 e 3 são verdadeiras.
b) Somente as afirmativas 2 e 4 são verdadeiras.
c) Somente as afirmativas 2 e 3 são verdadeiras.
d) As afirmativas 1, 2, 3 e 4 são verdadeiras.
Direito Processual Penal 155

21. Embargos de Declaração – Fundamento Legal


– Prazo – Cabimento – Legitimidade

Os embargos de declaração possuem fundamento nos arts. 382 e 619 do CPP e


83 da Lei nº 9.099/95.
Quanto ao prazo, na sistemática do CPP, será de dois dias. A Lei nº 9.099/95,
por sua vez, prevê o prazo de cinco dias.
Os embargos de declaração, conforme dispõe o CPP, são cabíveis para apon-
tar obscuridade; ambiguidade; contradição; e omissão.
No âmbito do JeCrim, ao invés de ambiguidade, é previsto cabimento na
dúvida.

Exercício
79. (Vunesp – 2008 – TJ-SP – Juiz) Aponte a hipótese de admissibilidade dos
“embargos de declaração” (CPP, art. 382):
a) Suprir a omissão da sentença condenatória sobre a aplicação do regime
disciplinar diferenciado (RDD) ao réu.
b) Reduzir a pena em decorrência de atenuante genérica olvidada na sen-
tença embargada.
c) Corrigir eventual injustiça contida na decisão embargada.
d) Fixar o regime inicial de cumprimento da pena detentiva imposta na
sentença.

22. Protesto por Novo Júri – Efeitos da Revogação


– Fundamento Legal – Consequências –
Revogação – Efeito Intertemporal

O protesto por novo júri foi revogado pela Lei nº 11.689/08, porém, há uma
divergência a respeito dos efeitos da revogação. Esta divergência tem como fun-
damento a própria natureza da norma.
Existe uma divergência doutrinária e jurisprudencial, pois existe uma corrente
que considera protesto por novo júri uma norma de caráter exclusivamente pro-
cessual e outra entendendo que se trata de uma norma de caráter misto (penal
e processual).
156 Direito Processual Penal

O protesto por novo júri era cabível para impugnar sentença condenatória que
impusesse pena privativa de liberdade superior a 20 anos, em relação a um único
crime. Observa-se que não era admitida pena superior a este limite obtida a partir
de concurso material.
A consequência do protesto por novo júri era a realização automática de novo
julgamento, desde que preenchido o requisito objetivo.
Para aqueles que defendem que a norma possui caráter exclusivamente pro-
cessual, aplica-se o princípio tempus regit actum, o que impossibilita a utilização
do recurso em qualquer situação, seja o fato anterior ou posterior à revogação.
No entanto, para aqueles que defendem ser uma norma de caráter misto,
prevalece a lei penal, razão pela qual, se o fato foi praticado antes da vigência
da norma revogadora, poderá ser admitido o recurso, já que se trata de norma
mais benéfica.
A corrente majoritária é a que considera ser uma norma exclusivamente de
caráter processual.

Exercício
80. Para se admitir que o protesto por novo júri ainda possa ser interposto em
relação a processos cujo fato tenha ocorrido antes da Lei nº 11.689/08, que
o revogou, é necessário admitir que tal norma possui natureza:
a) Exclusivamente processual.
b) Exclusivamente penal.
c) Penal e processual (mista).
d) Cautelar.

23. Recursos aos Tribunais Superiores – Recurso


Ordinário Constitucional – Recurso Especial –
Recurso Extraordinário – Fundamentos Legais
– Hipóteses de Cabimento – Prazos

O Recurso Ordinário Constitucional (ROC) encontra três fundamentos legais:


art. 102, II, “a”, da CRFB (STF); art. 105, II, “a”, da CRFB (STJ) e art. 30 da Lei
nº 8.038/90.
Hipóteses de cabimento: denegação de ordem de habeas corpus ou mandado
de segurança por Tribunal (TJ, TRF ou STJ). Observa-se que se a denegação de ha-
Direito Processual Penal 157

beas corpus se der em primeiro grau, caberá recurso em sentido estrito. O prazo
é de cinco dias se houver denegação de habeas corpus.
O Recurso Especial é julgado pelo STJ e encontra fundamentos legais no art.
105, III, da CRFB e arts. 26 a 29 da Lei nº 8.038/90.
Hipóteses de cabimento: contrariar tratado ou lei federal, ou negar-lhes vigên-
cia; julgar válido ato de governo local contestado em face de lei federal; der à lei
federal interpretação divergente da que lhe haja atribuído outro tribunal.
O prazo para interposição é de 15 dias, não possuindo este recurso efeito
suspensivo.
O Recurso Extraordinário possui fundamentos legais no art. 102, III, da CRFB
e arts. 26 a 29 da Lei nº 8.038/90.
Hipóteses de cabimento: decisão que contrariar dispositivo da Constituição;
declarar a inconstitucionalidade de tratado ou lei federal; julgar válida lei ou ato
do governo local contestado em face da Constituição; julgar válida lei local con-
testada em face de lei federal.
O prazo para interposição também é de 15 dias, não possuindo este recurso
efeito suspensivo.

Exercício
81. (MPE-GO – 2010 – Promotor de Justiça) São exemplos de recursos que não
possuem efeito suspensivo:
I – Apelação da sentença absolutória.
II – Agravo da execução.
III – Recurso especial e Recurso extraordinário.
IV – Todas as demais hipóteses recursais em relação às quais a lei não dispu-
ser, expressamente, que o tenham.
a) Apenas uma proposição está correta.
b) Apenas duas proposições estão corretas.
c) Apenas três proposições estão corretas.
d) As quatro proposições estão corretas.
Capítulo 12
Ações de Impugnação

1. Mandado de Segurança – Hipóteses de


Cabimento – Mandado de Segurança no
Processo Penal

O mandado de segurança encontra fundamento no art. 5º, LXIX, da Constituição


Federal e na Lei nº 12.016/09.
É cabível a impetração de mandado de segurança para resguardar direito
líquido e certo, não amparado por habeas corpus ou habeas data, quando o
responsável pela ilegalidade ou pelo abuso de poder for autoridade pública ou
agente de pessoa jurídica no exercício de atribuições do Poder Público.
Cabimento: direito do advogado de acompanhar o cliente no inquérito po-
licial, direito do advogado entrevistar-se com o cliente, direito de juntar docu-
mentos, direito do terceiro de boa-fé à restituição de coisa apreendida, impugnar
despacho que indefere pedido de habilitação como assistente de acusação e, por
fim, direito de visita do inquérito policial ao advogado.

Exercício
82. (FCC – 2010 – DPE-SP – Defensor Público) Assinale a alternativa correta em
relação ao assunto indicado:
Ações de impugnação no processo penal.
a) Contra o acórdão que, por maioria de votos, julga improcedente a revi-
são criminal podem ser opostos embargos infringentes.
b) No mandado de segurança em matéria penal, impetrado pelo Minis-
tério Público contra ato judicial, o acusado integrará o polo passivo da
ação na qualidade de litisconsorte.
Direito Processual Penal 159

c) Em sede de revisão criminal, o Tribunal não pode absolver o condenado


por crime doloso contra a vida sem a necessidade de realização de novo
júri popular.
d) Não é cabível habeas corpus para se atacar nulidade da sentença penal
que condenou o acusado à pena substituída por restritiva de direitos.
e) Não cabe revisão criminal em face de sentença absolutória imprópria.

2. Revisão Criminal – Pressuposto – Previsão


Legal – Legitimidade – Representação – Prazo

A revisão criminal é uma ação, já que dá origem a nova relação processual. Ainda,
somente pode ser proposta após o trânsito em julgado de sentença condenatória
ou absolutória imprópria.
A previsão legal encontra-se nos arts. 621 a 631 do CPP.
O legitimado para propor revisão criminal é o condenado, representado por
seu advogado.
Ademais, observado o pressuposto (trânsito em julgado), não há prazo para
propositura da revisão criminal, podendo esta ser proposta a qualquer tempo.

Exercício
83. (FCC – 2012 – MPE-AL – Promotor de Justiça) Acerca da revisão criminal, é
correto afirmar que:
a) Poderá ser requerida em qualquer tempo, mesmo após a extinção da
pena.
b) Depois de falecido o réu, não se admite revisão criminal.
c) Julgando procedente a revisão, o tribunal poderá absolver o réu, modi-
ficar a pena ou anular o processo, mas não poderá alterar a classifica-
ção da infração.
d) No caso de ação penal de iniciativa privada, a revisão poderá ser reque-
rida pelo querelante.
e) Ainda que fundado em novas provas, não será admissível a reiteração
do pedido de revisão criminal.
160 Direito Processual Penal

3. Revisão Criminal – Hipóteses de Cabimento


– Previsão Legal – Prova Nova – Prova Falsa –
Justificação Criminal – Competência

As hipóteses de cabimento da revisão criminal estão previstas no art. 621 do CPP.


A primeira hipótese trata da sentença condenatória contrária ao texto expres-
so da lei penal ou à evidência dos autos.
A segunda hipótese se dá quando a sentença condenatória se fundar em de-
poimentos, exames ou documentos comprovadamente falsos.
A terceira hipótese se dá quando, após a sentença, se descobrirem novas pro-
vas de inocência do condenado ou de circunstância que determine ou autorize
diminuição especial da pena.
A prova nova pode ser produzida no decorrer da revisão criminal, porém,
há outra forma de ser produzida, qual seja, a justificação criminal. Trata-se de
medida preparatória para a propositura da revisão criminal. Cumpre esclarecer
que a competência é do juízo do processo de conhecimento.

Exercício
84. (UFPR – 2011 – DPE-PR) Sobre a revisão criminal, assinale a alternativa
correta:
a) A revisão criminal guarda natureza jurídica de recurso e visa à reforma
da sentença condenatória ou do acórdão que a confirmou.
b) A superveniência de lei mais benigna, relacionada à execução de pena,
constitui fundamento para revisão criminal.
c) É inadmitida no Brasil a revisão criminal pro societate.
d) Não cabe revisão criminal de sentença que aplica medida de segurança.
e) Não cabe revisão criminal de sentença cuja pena tenha sido objeto de
indulto ou comutação.

4. Revisão Criminal – Competência – Indenização


– Recursos – Rescisão de Decisão de Jurados

O primeiro ponto a ser observado é que somente Tribunal pode julgar revisão
criminal.
Direito Processual Penal 161

Ainda, a competência é do Tribunal no qual ocorreu o trânsito em julgado,


desde que tenha apreciado o objeto da revisão.
Havendo trânsito em julgado em primeiro grau, será competente o Tribunal
que julgaria o recurso de apelação.
O art. 626 do CPP traz a lista dos pedidos possíveis: anulação do processo;
absolvição; desclassificação; e modificação da pena.
Ademais, caberá indenização se for comprovado o chamado erro judiciário.
Conforme já mencionado, a revisão criminal é ação e, portanto, são cabíveis
os seguintes recursos: Embargos de Declaração, Recurso Especial; Recurso Ex-
traordinário; Embargos de Divergência; e Embargos Infringentes.
Importante observar que há uma corrente crescente no sentido de que a revi-
são criminal pode rescindir a decisão dos jurados.

Exercício
85. (EJEF – 2008 – TJ-MG – Juiz) Julgada procedente a revisão criminal, o Tribu-
nal poderá:
a) Alterar a classificação da infração, absolver o réu, modificar a pena ou
anular o processo.
b) Absolver o réu, cuja inimputabilidade penal resultar reconhecida na re-
visão, dispensando-o da aplicação da medida de segurança respectiva.
c) Deixar de conhecer do pedido, se o réu tiver falecido.
d) Agravar a pena imposta se surgiu na revisão prova de conduta mais
grave do condenado, não apreciada pela decisão revista.

5. Meios de Impugnação de Decisão Judicial –


Habeas Corpus – Previsão Legal – Espécies –
Sujeitos

Há dois meios de impugnação de decisão judicial: primeiro é através do Recurso,


segundo é através das Ações de Impugnação. Recurso é interposto na mesma
relação processual e sempre antes do trânsito em julgado, enquanto que as Ações
de Impugnação podem ser propostas ou impetradas antes ou depois do trânsito
em julgado.
Habeas corpus é ação de impugnação (mandamental), porque forma nova
relação processual, mas o CPP, de maneira equivocada, o classifica como Recurso.
162 Direito Processual Penal

Se uma pergunta, eventualmente, questionar qual é a natureza do Habeas


Corpus, de acordo com o CPP, deverá responder que é de Recurso, mas se nada
for falado, se for questão aberta deverá considerar o HC como Ação de Impug-
nação.
A previsão legal do HC é o art. 5º, LXVIII, da CF e arts. 647 a 667 do CPP. Há
duas espécies de HC: o preventivo e o repressivo.
O Repressivo ocorre quando já existir um constrangimento ilegal, ou quando
exista ordem de prisão ainda não cumprida.
O Preventivo ocorre quando existe uma fundada suspeita de que pode existir
um constrangimento ilegal.
Os sujeitos do HC são: impetrante; paciente e autoridade coatora. O impe-
trante é aquele que pede a concessão da ordem de Habeas Corpus, não precisa
ser advogado nem ter capacidade postulatória, podendo ser qualquer cidadão.
O paciente é aquele que sofre o constrangimento ilegal. A autoridade coatora é
aquela que determina um constrangimento ilegal, pode ser autoridade judicial,
administrativa e até mesmo particular.

Exercício
86. (Cespe – 2013 – PRF) O Habeas Corpus pode ser impetrado, perante qual-
quer instância do Poder Judiciário, por qualquer pessoa do povo em favor
de outrem, podendo, ainda a autoridade judicial competente concedê-lo de
ofício. Certo ou errado?

6. Habeas Corpus – Competência – Hipóteses de


Cabimento

Quanto à competência para impetrar Habeas Corpus, deve ser fixada a autorida-
de coatora, ou seja, determinar quem é a autoridade coatora. Será competente
para julgar o HC a autoridade judiciária imediatamente superior à autoridade
coatora.
As hipóteses de cabimento estão previstas no art. 648 do CPP, compondo um
rol ilustrativo das hipóteses possíveis.
Caberá impetração de HC quando não houver justa causa, ou seja, pode ser
em relação ao inquérito (quando a denúncia for anônima), a ação penal (ausência
de indício de autoria ou de prova da materialidade) e às prisões (falta de requisitos
ou pressupostos).
Direito Processual Penal 163

Caberá HC quando alguém estiver preso por mais tempo do que determina a
Lei, quando quem ordenar a coação não tiver competência para fazê-lo, quando
houver cessado o motivo que autorizou a coação, caberá HC. Quando não for
alguém admitido a prestar fiança nos casos em que a lei autoriza. Quando o pro-
cesso for manifestamente nulo e quando extinta a punibilidade (art. 107 do CP
traz um rol ilustrativo de extinção da punibilidade).
A doutrina brasileira do HC dispõe que qualquer que seja a limitação ao direi-
to de ir e vir, caberá impetração de habeas corpus.

Exercício
87. (Cespe – 2013 – PRF) Após denúncia anônima, João foi preso em flagrante
pelo crime de moeda falsa no momento em que fazia uso de notas de cem
reais falsificadas. Ele confessou a autoria da falsificação, confirmada após a
perícia. Com base nessa situação hipotética e nos conhecimentos específi-
cos relativos ao direito processual penal, julgue o item subsecutivo:
Caso não tenha condições de contratar advogado, João poderá impetrar
HC em seu próprio favor, no intuito de obter sua liberdade, bem como de
fazer sua defesa técnica nos autos do processo judicial, caso seja advogado.

7. Habeas Corpus – Pedido de Liminar – Requisitos


– Cabimento – Interposição de Recursos

Liminar em sede de habeas corpus, não possui expressa previsão legal e decorre
do próprio poder geral de cautela do Juiz, ou seja, uma vez levada ao conheci-
mento do juiz uma situação urgente, não poderá ele deixar de apreciar aquela
situação por falta de previsão legal expressa.
Os requisitos são os mesmos de qualquer liminar, ou seja, fumus boni juris
(aparência de que aquilo que está sendo alegado corresponde à verdade) e peri-
culum in mora (se não for concedida a liminar, existirá um dano irreparável). Se o
paciente estiver preso, é fácil comprovar o periculum in mora.
O cabimento da liminar ocorre em duas situações: se houver prisão ou se essa
prisão estiver na iminência de ocorrer ou ainda, se existir uma ordem de prisão
que ainda não foi cumprida. Além disso, ato processual já designado também
enseja cabimento de liminar.
A Súmula nº 691 do STF diz que não pode impetrar nova ordem de HC a partir
do indeferimento da liminar. Mas o próprio STF já flexibilizou por algumas vezes
164 Direito Processual Penal

a aplicação desta súmula, alegando que se o constrangimento ilegal for grave,


caberá HC novamente, a partir do indeferimento da liminar.
Como HC é ação, é possível que haja a interposição de recursos. Se a ordem
for concedida ou negada em primeiro grau caberá Recurso em Sentido Estrito
(art. 581, X, do CPP). Se a ordem for negada em Tribunal, caberá Recurso Ordiná-
rio Constitucional (arts. 102, II, “a” e 105, II, “a”, da CF).

Exercício
88. (Cespe – 2008 – Analista) Julgue se a assertiva está correta ou incorreta:
No caso de HC repressivo, se o Juiz verificar, antes do julgamento do pedido
de liminar, que a coação ilegal já cessou, não poderá julgar prejudicado o
pedido, devendo enfrentar o mérito, tendo em vista que a coação ilegal
representa violação a direito humano fundamental e pode vir a se repetir.

Anotações
Direito Processual Penal 165
166 Direito Processual Penal
Direito Processual Penal 167

Gabarito

1. A Lei nº 9.296/96 em seu art. 3º, em que mesmo cometendo uma


I e II, determina que a intercepta- conduta expressamente proibi-
ção das comunicações telefônicas da por lei, a conduta do agente
poderá ser determinada de ofício não será considerada ilícita. O
pelo juiz, ou a requerimento da art. 23 do CP disciplina quais são
autoridade policial na investiga- as excludentes: estado de neces-
ção criminal e do Ministério Pú- sidade, legítima defesa, estrito
blico na investigação criminal e cumprimento de dever legal ou
na instrução processual penal. no exercício regular de direito.
2. A doutrina e jurisprudência ma- 5. Sim, no caso em que não houver
joritárias dizem que referidas causalidade entre a prova originá-
sanções são legais em virtude do ria ilícita e a prova derivada, assim,
poder de polícia da administra- se a segunda prova não decorreu
ção pública e que não há qual- da prova ilícita e por isso poderá
quer inconstitucionalidade em ser aproveitada no processo.
relação ao uso do bafômetro. 6. Letra E.
3. A doutrina, em parte, pondera 7. Letra E.
a possibilidade de uma prova re- 8. Letra D.
conhecidamente ilícita ser apro- 9. Letra D.
veitada com base no princípio 10. Letra B.
da razoabilidade sob o critério da 11. Letra D.
proporcionalidade. Exemplo: a in- 12. Letra A.
terceptação telefônica obtida sem 13. Errada.
autorização judicial é reconheci- 14. Letra B.
damente ilícita, mas a partir dessa 15. Letra C.
prova poderia se desnudar e ata- 16. Correta.
car uma organização criminosa. 17. Letra C.
4. Considerando que todo crime é 18. Incorreta.
um ato ilícito, haverá situações 19. Letra B.
168 Direito Processual Penal

20. Incorreta. 58. Se faz a redesignação do júri.


21. Incorreta. Acusação ausente acarreta a no-
22. Incorreta. tificação da Procuradoria-Geral
23. Letra B. de Justiça para informar a ausên-
24. Incorreta. cia do Promotor. Se o advogado
25. Letra D. estiver ausente a OAB local será
26. Letra A. oficiada, e também a defensoria
27. Letra A. pública para nomear um defen-
28. Letra B. sor público caso o advogado se
29. Letra B. ausente novamente na próxima
30. Letra C. sessão.
31. Letra B. 59. Letra B.
32. Incorreta. 60. Letra C.
33. Letra B. 61. Letra A.
34. Letra D. 62. Letra B.
35. Letra C. 63. Letra C.
36. Letra E. 64. Letra B.
37. Letra C. 65. Letra C.
38. Letra D. 66. Letra D.
39. Letra A. 67. Letra C.
40. Letra D. 68. Letra C.
41. Letra D. 69. Letra D
42. Letra A. 70. Correta.
43. Letra C. 71. Letra C.
44. Letra B. 72. Letra D.
45. Incorreta. 73. Letra C.
46. Letra A. 74. Letra A.
47. Letra D. 75. Incorreta.
48. Correta. 76. Letra A.
49. Incorreta. 77. Letra C.
50. Letra C. 78. Letra C.
51. Letra A. 79. Letra D.
52. Correta. 80. Letra C.
53. Letra A. 81. Letra D.
54. Letra A. 82. Letra B.
55. Letra B. 83. Letra A.
56. Letra B. 84. Letra C.
57. Na petição que substituiu o libelo, 85. Letra A.
e no júri deve informar que as tes- 86. Correta.
temunhas devem ser ouvidas em 87. Correta.
caráter de imprescindibilidade. 88. Correta.