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EXCELENTÍSSIMO SENHOR PRESIDENTE DO SUPREMO TRIBUNAL

FEDERAL, MINISTRO LUIZ FUX

URGENTE: RISCO À VIDA E À SAÚDE


DE MULHERES GESTANTES E PUÉRPERAS.

PARTIDO SOCIALISMO E LIBERDADE – PSOL, partido


político com representação no Congresso Nacional (doc.1), devidamente registrado no
Tribunal Superior Eleitoral, inscrito no CNPJ sob o nº 06.954.942/0001-95, com sede em
SCS, Quadra 02, Bloco C, Número 252, 5º andar, Edifício Jamel Cecílio, Brasília, Distrito
Federal, representado, na forma do seu Estatuto Social (doc. 2), pelo seu Presidente, Juliano
Medeiros (doc. 3), vem, por suas advogadas abaixo assinadas (procuração em anexo, doc.
4), com suporte técnico da ANIS – INSTITUTO DE BIOÉTICA e de CRAVINAS –
CLÍNICA DE DIREITOS HUMANOS E DIREITOS SEXUAIS E
REPRODUTIVOS DA UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA e com fundamento no
disposto no art. 102, § 1º, da Constituição Federal e nos dispositivos da Lei nº 9.882/1999,
ajuizar a presente

ARGUIÇÃO DE DESCUMPRIMENTO DE PRECEITO FUNDAMENTAL


COM PEDIDO DE MEDIDA CAUTELAR,

indicando como preceitos violados os previstos nos arts. 5º, caput,


art. 1º, III; art. 3º, IV; art. 6º, caput, e art. 196, caput, da Constituição Federal, que protegem
os direitos à vida, à dignidade da pessoa humana, à igualdade de gênero, à saúde e à
maternidade, para que seja declarada a inconstitucionalidade do ato do poder público
previsto nas Notas Técnicas nº 627/2021-GCPNI/DEIDT/SVS/MS e 651/2021-
CGPNI/DEIDT/SVS/MS, do Ministério da Saúde, que preveem “a suspensão temporária
da vacinação contra a Covid-19 com a vacina AstraZeneca/Oxford/Fiocruz em gestantes
e puérperas; interrupção da vacinação contra a Covid-19 em gestantes sem comorbidades
e continuidade da vacinação contra a Covid-19 em gestantes com comorbidades”.
1. BREVE SÍNTESE FÁTICA

1
No dia em que o Brasil ultrapassou 430 mil mortes por Covid-19, e
que os índices de vacinação no país chegaram a pouco mais de 17% da população com a
primeira dose, e menos de 9% com as duas doses1, o Ministério da Saúde emitiu a Nota
Técnica nº 627/2021-GCPNI/DEIDT/SVS/MS, na qual concluiu que

Frente à ocorrência de um evento adverso grave pós vacinação em uma


gestante vacinada com a vacina AstraZeneca/Oxford com possível
associação causal com a vacina, em atendimento a uma solicitação da
Anvisa, o Programa Nacional de Imunizações orienta a interrupção do
uso da vacina COVID-19 AstraZeneca/Oxford em gestantes e
puérperas. Adicionalmente, recomenda-se a interrupção da
vacinação das gestantes e puérperas sem outros fatores de risco para
covid-19 (para o detalhamento dos fatores de risco verificar o Plano
Nacional de Operacionalização da Vacinação Contra a Covid-19).
Ressalta-se, no entanto, que o perfil de benefício/risco desta vacina
é ainda altamente favorável, e deverá continuar a ser utilizada pelos
demais grupos. Ainda a vacinação das gestantes com comorbidades
deverá prosseguir com o uso das demais vacinas COVID-19
disponíveis no país.

No dia 19 de maio de 2021, foi publicada a Nota Técnica nº


651/2021-CGPNI/DEIDT/SVS/MS, que mantém as mesmas disposições relativas à
suspensão da vacinação para mulheres gestantes e puérperas. A alteração trazida é apenas a
de que gestantes que foram vacinadas com a primeira dose da Astrazeneca/Oxford poderão
complementar o esquema com a mesma vacina, postergando, porém, a aplicação para
depois do período gestacional e puerperal, ou seja, somente depois de 45 dias do parto.
Antes, a previsão era a de que poderiam, em caráter excepcional, fazer a complementação
com a Sinovac/Butantan ou Pfizer.
Conforme se depreende do trecho acima, a medida foi adotada após
o registro do óbito de uma gestante de 35 anos, vítima de Acidente Vascular Cerebral
(AVC), que havia sido imunizada com a primeira dose de vacina da fabricante
AstraZeneca/Oxford/Fiocruz. Notícias dão conta de que a gestante foi hospitalizada em 5

1
Consórcio G1, o Globo, Extra, o Estado de São Paulo, Folha de São Paulo e UOL.

2
de maio de 2021, de que o óbito fetal ocorreu em 6 de maio de 2021, e de que a gestante
veio a óbito no dia 10 de maio de 2021.2
Cientificada do ocorrido pela própria fabricante do imunizante, a
Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) editou, na noite do dia 10 de maio, nota
técnica recomendando a suspensão imediata do uso da vacina
AstraZeneca/Oxford/Fiocruz contra a Covid-19 em gestantes. Em comunicado, a agência
reforçou que casos de trombose com plaquetopenia (formação de coágulos no sangue
associados com quadro de diminuição de plaquetas) são um evento adverso muito raro,
potencialmente relacionado a vacinas que usam adenovírus como plataforma, como no caso
das vacinas da AstraZeneca/Oxford/Fiocruz e também da Janssen - ambas aprovadas para
uso no Brasil - e, em face da aparente excepcionalidade do caso, recomendou a continuidade
da vacinação com o mencionado imunizante, dentro das indicações descritas em bula, uma
vez que, até o momento, os benefícios superam os riscos.3
Todavia, a medida adotada pelo Ministério da Saúde em muito
divergiu da orientação fornecida pela Anvisa. As Notas Técnicas nº 627/2021-
GCPNI/DEIDT/SVS/MS e 651/2021-CGPNI/DEIDT/SVS/MS, datadas de 15 e 19 de
maio de 2021, não só interromperam a vacinação de gestantes e puérperas com o
imunizante da fabricante AstraZeneca/Oxford/Fiocruz, conforme orientado, como
também acabaram por PARALISAR a imunização de TODAS as mulheres gestantes
e puérperas sem comorbidades, INCLUSIVE COM OUTRAS VACINAS
DISPONÍVEIS NO PLANO NACIONAL DE IMUNIZAÇÃO (PNI), e em
contrariedade à mais recente versão do Plano Nacional de Operacionalização da
Vacinação contra a Covid-19 (PNO).
A medida, que extrapolou a recomendação da agência
reguladora, foi adotada sem qualquer respaldo técnico, uma vez que os dados
utilizados para justificar a suspensão da vacinação são, em verdade, favoráveis à imunização
de grávidas e puérperas. Nos termos das Notas Técnicas, “gestantes e puérperas estão

2
MARIZ, Renata. Morte de gestante de 35 anos com AVC, após tomar dose da AstraZeneca, levou a Anvisa
a pedir a suspensão da vacina em grávidas. O Globo. Publicado em 11/05/2021. Disponível em:
<https://oglobo.globo.com/sociedade/saude/morte-de-gestante-de-35-anos-com-avc-apos-tomar-dose-da-
astrazeneca-levou-anvisa-pedir-suspensao-da-vacina-em-gravidas-1-25013279>.
3
BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. COMUNICADO GGMON 005/2021. Recomendação sobre
a suspensão da vacinação de gestantes com a vacina Oxford/AstraZeneca/FioCruz contra Covid-19.
Disponível em: <https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/noticias-anvisa/2021/comunicado-suspensao-da-
vacina-da-astrazeneca-para-gestantes/comunicado_ggmon_005_2021.pdf>.

3
sob risco aumentado para desenvolver formas graves de Covid-19 bem como de
complicações obstétricas dela decorrentes, tais como parto prematuro e óbito
fetal”.4
A orientação ocorreu, ainda, a despeito de relevante publicação
internacional datada do dia 13 de maio de 2021, na qual a Sociedade de Obstetras e
Ginecologistas do Canadá concluiu que a gravidez não configura fator de
contraindicação para a vacinação com o imunizante da fabricante
AstraZeneca/Oxford/Fiocruz, e acaba por expressamente recomendar a sua
aplicação nesse grupo no referido país.5
De forma que contradiz a decisão final de interromper a vacinação
de todas as mulheres gestantes sem comorbidades, o documento do Ministério da Saúde
constata que o cenário epidemiológico nacional, com elevada circulação do vírus SARS-
CoV-2, e o aumento no número de óbitos maternos pela Covid-19 em 2021, justificariam
a concessão de prioridade deste grupo na vacinação. De acordo com as referidas Notas
Técnicas, “entre 1º de janeiro de 2021 e 10 de maio de 2021, foram notificados 6.416 casos
de síndrome respiratória aguda grave (SRAG) em gestantes (257,87 casos por 100.000
gestantes), dos quais 4.103 foram confirmados como Covid-19 (167,91 casos por 100.000
gestantes)”. Dos 505 casos de SRAG em gestantes que evoluíram para óbito no
período, 475 foram confirmados para Covid-19, somente nos primeiros meses de
2021.6
Como será abordado nesta ação, é importante destacar o fato de que
a gestação é, em si, um fator de risco para a Covid-19, como revelam diversos estudos
já realizados. Por esse motivo, desde o início da pandemia, em 2020, o Ministério da Saúde
brasileiro reconhece que gestantes e puérperas são parte do grupo de risco para o novo
coronavírus. Não obstante o ponto importante de que a vulnerabilidade de gestantes e
puérperas para a Covid-19 tenha sido reconhecida ainda no início da emergência em saúde,
fatos ocorridos desde o início da vacinação no país, e até o presente momento, mostram

4
RASMUSSEN, S. A.; JAMIESON, D. J. Pregnancy, Postpartum Care, and COVID-19 Vaccination in 2021.
JAMA, v. 325, n. 11, p. 1099, 16 mar. 2021.
5
MALINOWSKI, Ann Kinga et al. Expecto Patronum! Leveraging the positive force of COVID-19 Vaccines
for Pregnant and Lactating Individuals. JOGC - Journal of Obstetrics and Gynecology Canadá. Published:May
13, 2021. Disponível em: <https://www.jogc.com/action/showPdf?pii=S1701-2163%2821%2900373-X>.
https://doi.org/10.1016/j.jogc.2021.04.015
6
Fonte indicada pelo Ministério da Saúde para os dados: SIVEP-Gripe, 10.05.2021. Dados sujeitos a alterações.

4
uma atuação prática da Pasta em desconformidade com o tratamento prioritário que esses
grupos deveriam receber.
Nesse sentido, cumpre rememorar que a inclusão de gestantes,
puérperas (até 45 dias após o parto) e lactantes portadoras de alguma comorbidade
no PNI ocorreu com grande atraso, tendo sido formalizada apenas na 5ª edição do Plano
Nacional de Operacionalização da Vacinação contra a Covid-197, datado de 15 de março
de 2021, apesar da insistência de entidades técnicas acerca da necessidade de imunização de
um grupo tão suscetível aos riscos da doença.8 A inclusão da totalidade de gestantes e
puérperas como grupo prioritário para a vacinação, por sua vez, foi ainda mais
tardia: ocorreu somente na 6ª edição do PNO, em 28/04/2021, ao passo que a
vacinação no país teve início em janeiro de 2021.9
A urgência para a inclusão e a manutenção de gestantes e puérperas
nos grupos prioritários de imunização não vem sem motivo. De acordo com estudo que
analisou dados coletados entre janeiro e outubro de 2020 nos Estados Unidos, mulheres
gestantes foram admitidas em Unidades de Terapia Intensiva (UTI) quase 4
(quatro) vezes mais que mulheres não gestantes em decorrência de síndrome
respiratória aguda provocada pelo novo coronavírus. Além disso, mulheres grávidas
estiveram quase 3 (três) vezes mais propensas a receberem ventilação mecânica
invasiva, e foram submetidas a oxigenação por membrana corporal (ECMO) com
duas vezes mais frequência. O mais alarmante dos dados, todavia, está atrelado ao risco
de morte, que foi considerado 70% superior para mulheres gestantes quando
comparado àquelas não gestantes.10

7
BRASIL. Ministério da Saúde. Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação contra a Covid-19. Brasília:
5ª edição. Disponível em: <https://www.gov.br/saude/pt-br/media/pdf/2021/marco/23/plano-nacional-de-
vacinacao-covid-19-de-2021>.
8
FEBRASGO. Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia. Recomendação Febrasgo na
Vacinação de gestantes e lactantes contra COVID-19. Disponível em:
<https://www.febrasgo.org.br/pt/noticias/item/1207-recomendacao-febrasgo-navacinacao-gestantes-e-lactantes-
contra-covid-19>.
9
BRASIL. Ministério da Saúde. Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação contra a Covid-19. Brasília:
6ª edição. Disponível em: <https://www.conasems.org.br/wp-
content/uploads/2021/04/PLANONACIONALDEVACINACAOCOVID19_ED06_V3_28.04.pdf>.
10
ZAMBRANO, Laura D. et al. Update: Characteristics of Symptomatic Women of Reproductive Age with
Laboratory-Confirmed SARS-CoV-2 Infection by Pregnancy Status — United States, January 22–October 3,
2020. Morbidity and Mortality Weekly Report (MMWR). November 6, 2020 / 69(44);1641–1647. Disponível em:
<https://www.cdc.gov/mmwr/volumes/69/wr/mm6944e3.htm?s_cid=mm6944e3_w>.

5
Esses assustadores resultados não estão isolados, mas ao lado de
diversos outros que, desde o início da pandemia da Covid-19, corroboram a associação
entre a doença e complicações maternas. Estudo de 2020 citado, inclusive, pelo Manual de
Recomendações para a Assistência à Gestante e Puérpera frente à Pandemia de Covid-19
do Ministério da Saúde11, feito com mulheres infectadas pela doença internadas no hospital
geral de Hubei, China, entre janeiro e fevereiro de 2020, indicava que a infecção por
Covid-19 na gestação poderia levar a desfechos obstétricos adversos, como o parto
prematuro.12 Desde então, a hipótese vem sendo estudada e continuamente confirmada.
Recentemente, no ano de 2021, foi publicado estudo realizado com dados da Premier
Healthcare Database referentes a internações registradas em 703 hospitais estadunidenses
entre março e setembro de 2020. Como resultado, concluiu-se que mulheres grávidas
diagnosticadas com a Covid-19 teriam 17 (dezessete) vezes mais chances de morrer
por complicações maternas associadas à doença.13
Aqui, a situação pode ser ainda pior. Em 2020, o Brasil já figurava
como o país com a maior mortalidade materna em decorrência de Covid-19 no
mundo, chegando a representar 77% da totalidade dos óbitos registrados.14 Em abril
de 2021, a taxa de mortalidade nesse grupo já havia alcançado o dobro do ano
anterior: em média, já foram 108 mortes mensais em 2021, frente a 54 mensais no
ano de 2020.15 De acordo com dados do Observatório Obstétrico Brasileiro Covid-19
(OOBr Covid-19)16, desde o início da pandemia, o Brasil registrou 1099 mortes de grávidas

11
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção Primária à Saúde. Departamento de Ações Programáticas e
Estratégicas. Manual de Recomendações para a Assistência à Gestante e Puérpera frente à Pandemia de
Covid-19. Brasília : Ministério da Saúde, 2020. Disponível em:
<189.28.128.100/dab/docs/portaldab/documentos/corona/manual_recomendacoes_gestantes_covid19.pdf
12
KHAN, S.; et al. Association of COVID-19 with pregnancy outcomes in health-care workers and general
women. Clin Microbiol Infect. 2020 Jun; 26(6): 788–790. Disponível em:
<https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7141623/>.
13
KO, Jean Y. et al. Adverse pregnancy outcomes, maternal complications, and severe illness among U.S.
delivery hospitalizations with and without a COVID-19 diagnosis. Oxford Academic. Publicado em 12/05/2021.
Disponível em: <https://academic.oup.com/cid/advance-article/doi/10.1093/cid/ciab344/6274300>.
https://doi.org/10.1093/cid/ciab344
14
TAKEMOTO, L. S. Maira et al. The tragedy of COVID-19 in Brazil: 124 maternal deaths and counting.
International Journal of Gynecology & Obstetrics. The tragedy of COVID-19 in Brazil: 124 maternal deaths and
counting. Publicado em 09/07/2020. Disponível em:
<https://obgyn.onlinelibrary.wiley.com/doi/full/10.1002/ijgo.13300>. https://doi.org/10.1002/ijgo.13300
15
MARQUES, Júlia; PERLEBERG, Jefferson. Taxa de morte materna pela covid no Brasil dobra em 2021; nº
de vítimas na pandemia é de 979. O estado de São Paulo. Publicado em 16/04/2021. Disponível em:
<https://saude.estadao.com.br/noticias/geral,taxa-de-morte-materna-pela-covid-no-brasil-dobra-em-2021-n-de-
vitimas-na-pandemia-e-de-960,70003684129>.
16
Observatório Obstétrico Brasileiro Covid-19. Disponível em:
<https://observatorioobstetrico.shinyapps.io/covid_gesta_puerp_br/>. Dados de 17/05/2021.

6
ou mulheres que acabaram de dar à luz diagnosticadas com a Covid-19, e entre janeiro e
abril deste ano, pelo menos 433 gestantes e puérperas morreram em decorrência do novo
coronavírus, segundo dados do Sivep-Gripe divulgados pelo Ministério da Saúde.17
Nestes termos, considerando que gestantes e puérperas
possuem risco de morte drasticamente aumentado para a Covid-19, que as
evidências que apontam para este risco são de conhecimento do Ministério da
Saúde, que a medida ora impugnada encontra-se em dissonância com os dados
técnicos que a embasam, que se vivencia um cenário de alarmantes e crescentes
taxas de mortalidade materna em função do novo coronavírus, que há uma notória
escassez de imunizantes, e que não existem evidências no sentido de que a
vacinação de gestantes e puérperas seja prejudicial – consistindo, muito pelo contrário,
em medida benéfica e necessária para assegurar seus direitos à vida, à saúde, à dignidade da
pessoa humana, à maternidade e à igualdade de gênero (arts. 5º, caput, art. 1º, III; art. 3º, IV;
art. 6º, caput, e art. 196, caput, da Constituição Federal) - requer-se a declaração de
inconstitucionalidade da Nota Técnica nº 627/2021-GCPNI/DEIDT/SVS/MS, do
Ministério da Saúde, a fim de que seja retomada a vacinação contra a Covid-19 na
totalidade do grupo de gestantes e puérperas, nos termos em que dispõe a mais recente
edição do Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação contra a Covid-19 (6ª edição),
e em atenção às evidências científicas que as colocam em posição de extrema
vulnerabilidade frente à crescente circulação do vírus Sars-CoV-2 e variantes no país.

2. DA PREVENÇÃO

Nos termos do art. 55, § 3º, do Código de Processo Civil, serão


reunidos para julgamento conjunto os processos que possam gerar risco de prolação de
decisões conflitantes ou contraditórias caso decididos separadamente, mesmo sem conexão
entre eles. Nesse sentido, tendo em vista que a presente demanda trata de impugnação a
ato de poder público praticado pelo Ministério da Saúde, no contexto de execução do Plano
Nacional de Operacionalização da Vacinação Contra a Covid-19, pugna o requerente pela

17
MARQUES, Júlia;PERLEBERG, Jefferson. Taxa de morte materna pela covid no Brasil dobra em 2021; nº
de vítimas na pandemia é de 979. O estado de São Paulo. Publicado em 16/04/2021. Disponível em:
<https://saude.estadao.com.br/noticias/geral,taxa-de-morte-materna-pela-covid-no-brasil-dobra-em-2021-n-de-
vitimas-na-pandemia-e-de-960,70003684129>.

7
distribuição por prevenção desta demanda ao Excelentíssimo Senhor Ministro RICARDO
LEWANDOWSKI, relator das ações que dispõem sobre a vacinação contra o novo
coronavírus no país.

3. PRELIMINARMENTE

3.1. LEGITIMAÇÃO ATIVA DO PARTIDO SOCIALISMO E


LIBERDADE (PSOL)

A legitimação ativa do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) –


enquanto partido político com representação no Congresso Nacional – fundamenta-se no
art. 2º, I, da Lei nº 9.882/1999, que estabelece como legitimados para propor Arguição de
Descumprimento de Preceito Fundamental todos aqueles já elencados no art. 103 da
Constituição Federal como legitimados para propor Ação Direta de Inconstitucionalidade
ou Ação Declaratória de Constitucionalidade.
O Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), hoje com representação
de dez parlamentares no Congresso Nacional, cumpre com o requisito de representação
disposto no art. 103, VIII, da Constituição Federal e está, portanto, legitimado à propositura
da presente ação. Rememora-se, aqui, que tal requisito não exige determinado número de
parlamentares, bastando que o partido tenha um representante para que esteja legitimado.18
Em relação à matéria arguida, esta Suprema Corte já reconheceu
partidos políticos como legitimados universais, não sendo deles exigida a demonstração de
pertinência temática para o ajuizamento de ação em sede de controle abstrato. Assim, nos
termos disposto pelo Exmo. Ministro Celso de Mello, está garantida a possibilidade de
“arguir perante o Supremo Tribunal Federal, a inconstitucionalidade de atos normativos
federais, estaduais ou distritais, independentemente de seu conteúdo material, eis que não
incide sobre as agremiações partidárias a restrição jurisprudencial derivada do vínculo de
pertinência temática”.19

18
SARLET, Ingo Wolfgang; MARINONI, Luiz Guilherme; MITIDIERO, Daniel. Curso de Direito
Constitucional. 7a. ed. São Paulo: Saraiva Educação, 2018.
19
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Medida Cautelar na Ação Direta de Inconstitucionalidade 1.407. Relator: Min.
Celso de Mello. Brasília, DF, 7 de março de 1996. Diário da Justiça, p. 86, Brasília, DF, 24 nov. 2000. Disponível em:
<https://stf.jusbrasil.com.br/jurisprudencia/14702386/medida-cautelar-na-acao-direta-de-inconstitucionalidade-adi-
1407-df>. Acesso em: 18 out. 2019.

8
3.2. CABIMENTO DA ADPF

A Constituição Federal, em seu art. 102, § 1º, prevê que “a arguição


de descumprimento de preceito fundamental, decorrente desta Constituição, será apreciada
pelo Supremo Tribunal Federal, na forma da lei”. A ADPF é regulamentada pela Lei nº
9.882/1999, cujo art. 1º define que a ação poderá ser proposta com o objetivo de evitar ou
reparar lesão a preceito fundamental, resultante de ato do poder público. Conforme
complementa o parágrafo único do referido artigo, a ADPF poderá ser proposta ainda
“quando for relevante o fundamento da controvérsia constitucional sobre lei ou ato
normativo federal, estadual ou municipal, incluídos os anteriores à Constituição”.
Esta ação faz parte daquelas que provocam o controle de
constitucionalidade abstrato e concentrado, existindo para suprir as necessidades desse
controle, uma vez que permite não apenas o questionamento de atos do Poder Público de
conteúdo normativo, como também dos demais atos do poder público em geral. Apesar
disso, a ADPF não pode ser apresentada contra qualquer ato que viole a Constituição, mas
apenas contra aqueles que contrariam preceitos fundamentais. A ação se submete, ainda, à
regra da subsidiariedade, a qual determina que a ação apenas pode ser interposta quando
não houver outro meio capaz de sanar a lesão ao preceito fundamental de modo eficaz.20
Tal regra é afastada quando constata-se a inexistência de outra ação igualmente eficaz para
solucionar a controvérsia de maneira ampla e definitiva, como no presente caso.21
Por isso, deve-se levar em consideração três requisitos para o
cabimento da ADPF: i. a existência de um ato do poder público capaz de provocar a lesão
a preceito fundamental; ii. a demonstração de ameaça ou violação a preceitos fundamentais;
e iii. o cumprimento do pressuposto da subsidiariedade, ou seja, a demonstração de que
não há outro meio eficaz de sanar a violação alegada. Será demonstrada a seguir a satisfação
desta ação a cada um dos requisitos mencionados.

20
SARLET, Ingo Wolfgang; MARINONI, Luiz Guilherme; MITIDIERO, Daniel. Curso de Direito
Constitucional. 7a. ed. São Paulo: Saraiva Educação, 2018.
21
De acordo com o Ministro Gilmar Mendes, na ADPF 33/PA, apenas se considerará que há outro meio se o meio
alternativo for capaz de resolver a controvérsia de forma ampla, geral e imediata. (BRASIL. Supremo Tribunal Federal.
Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental 33. Relator: Min. Gilmar Mendes. Brasília, DF, 07 de dez. de
2005. Diário de Justiça da União, 27 dez. 2006).

9
3.2.1. Ato do Poder Público

Entende-se por ato emanado do Poder Público, para efeitos de


avaliação de cabimento de ADPF, aqueles produzidos pelo governo federal, estadual ou
municipal que possuam natureza administrativa, judicial ou normativa, e tenham
possivelmente violado preceito fundamental. Nesta ação, o ato do poder público do qual
resulta a lesão que se pretende reparar está previsto nas Notas Técnicas nº 627/2021-
GCPNI/DEIDT/SVS/MS e 651/2021-CGPNI/DEIDT/SVS/MS, do Ministério da
Saúde, editadas em 15 e 19 de maio de 2021, que prevêem “a suspensão temporária da
vacinação contra a Covid-19 com a vacina AstraZeneca/Oxford em gestantes e puérperas;
interrupção da vacinação contra a Covid-19 em gestantes sem comorbidades e continuidade
da vacinação contra a Covid-19 em gestantes com comorbidades”.
Na presente ação, o ato do poder público impugnado consiste em
ação do Ministério da Saúde, no âmbito do Programa Nacional de Imunizações (PNI), que
afronta diretamente os preceitos fundamentais consubstanciados nos direitos fundamentais
à vida, à saúde, à dignidade da pessoa humana, à maternidade e à igualdade de gênero (arts.
5º, caput, art. 1º, III; art. 3º, IV; art. 6º, caput, e art. 196, caput, da Constituição Federal). Ainda
que se trate de norma técnica publicada no âmbito de uma política pública, o ato do
Ministério da Saúde está subordinado aos ditames constitucionais, uma vez que, no Estado
Democrático de Direito, todas as entidades e órgãos do poder público estão obrigados a
atuar no sentido de efetivar as previsões da Constituição.
Como já entendeu este Egrégio Supremo Tribunal Federal, o Poder
Judiciário pode atuar na implementação de políticas públicas com o fim de assegurar
direitos fundamentais quando a atuação da Administração Pública tem o condão de
comprometer a eficácia de direitos e políticas públicas previstos na Constituição
(Precedentes: RE 410.715-AgR/SP, ARE 894.085 AgR / SP e RE 808193 AgR / RR).
Como destacou o Exmo. Ministro Celso de Mello em pronunciamento que reflete o
entendimento pacífico desta Egrégia Corte,

“Embora resida, primariamente, nos Poderes Legislativo e Executivo, a


prerrogativa de formular e executar políticas públicas, revela-se possível,
no entanto, ao Poder Judiciário, determinar, ainda, que em bases
excepcionais, especialmente nas hipóteses de políticas públicas definidas
pela própria Constituição, sejam estas implementadas pelos órgãos estatais

10
inadimplentes, cuja omissão - por importar em descumprimento dos
encargos político-jurídicos que sobre eles incidem em caráter mandatório
- mostra-se apta a comprometer a eficácia e a integridade de direitos sociais
e culturais impregnados de estatura constitucional.” (RE 410.715-AgR,
Rel. Min. Celso de Mello)

Em ação igualmente relacionada à política de saúde, reforçou-se que


“o Poder Judiciário pode determinar a implementação de políticas públicas nas questões
relativas ao direito constitucional à saúde” (RE 894.085-AgR/SP, Rel. Min. Roberto
Barroso e RE 668.722-AgR/RS, Rel. Min. Dias Toffoli). No julgamento da ADPF
532/DF, a possibilidade de controle de constitucionalidade de norma
administrativa que “inaugura situação de constrangimento a direito social
fundamental” foi enquadrada como fundamental para a segurança jurídica e para a
confiança das/os cidadãs/ãos nas instituições políticas. (Medida Cautelar na Ação de
Descumprimento de Preceito Fundamental 532/DF, Rel. Min. Celso de Mello).
No caso em tela, a insegurança jurídica provocada é patente, a
demandar a atuação desta Egrégia Corte devido a sua abrangência e relevância
constitucional. Como previamente apontado, as mulheres gestantes e puérperas
sem comorbidades foram incluídas tardiamente no grupo prioritário de vacinação,
apenas na 6ª edição do Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação Contra
a Covid-19 (PNO). A 6ª edição trouxe uma série de atualizações extremamente
importantes, como a inclusão das gestantes e puérperas, bem como de pessoas
vivendo com HIV, como grupo prioritário de risco.
Muito se esperou para que essa inclusão fosse feita, e, após
finalmente ter sido acatada pelo Governo Federal, o Ministério da Saúde editou a Nota
Técnica nº 627/2021-CGPNI/DEIDT/SVS/MS e PARALISOU a vacinação de
gestantes e puérperas sem comorbidades com qualquer dos imunizantes
disponibilizados pelo PNI. Trata-se, pois, de situação que causa profunda instabilidade
no cenário de combate à pandemia, no qual estados e municípios já haviam se preparado
para a urgente imunização dessas mulheres. Vale destacar que a 6ª edição do PNO, com
suas importantes atualizações, permanece vigente, aprofundando as inseguranças
causadas em torno da vacinação de gestantes e puérperas provocadas pela nova
medida.

11
Não restam dúvidas de que, no atual cenário de calamidade
provocado pela Covid-19, um ato como a Nota Técnica nº 627/2021-
GCPNI/DEIDT/SVS/MS, ao comprometer a eficácia dos direitos fundamentais à vida, à
saúde, à dignidade e à maternidade, limitando a política de vacinação para grupo sob
particular risco, sem fundamentos consistentes, instaura situação de enorme instabilidade
social.
Conforme já visto, a medida adotada partiu de recomendação feita
pela Agência de Vigilância Sanitária para a suspensão da vacinação de mulheres grávidas
com o imunizante da fabricante AstraZeneca/Oxford/Fiocruz. Não houve qualquer
sugestão a respeito da paralisação da imunização com vacinas de outros
fabricantes, e muito menos a orientação para que gestantes e puérperas deixassem
de receber a vacina contra a Covid-19. A esse respeito, esta Egrégia Corte deixou claro,
nos autos da ADPF 489/DF, que “não é dado ao agente público lançar mão de método
interpretativo que reduza ou debilite, sem justo motivo, a máxima eficácia possível dos
direitos fundamentais”. (Medida Cautelar na Arguição de Descumprimento de Preceito
Fundamental 489/DF, Rel. Min. Rosa Weber).
Assim, tem-se que a discricionariedade com a qual está autorizada a
atuar a Administração Pública não pode se confundir com a arbitrariedade da qual se valeu
o Ministério da Saúde ao editar ato que restringiu direitos fundamentais de mulheres
gestantes e puérperas, sem adequada motivação ou amparo técnico-científico,
especialmente em se considerando os alarmantes dados sobre o crescimento da taxa de
transmissão da doença e o risco extremamente acentuado de desfechos obstétricos
adversos associados à Covid-19, que vão desde a maior necessidade de internação
em UTI até a morte.
Dessa forma, a declaração de inconstitucionalidade das Notas
Técnicas nº 627/2021-GCPNI/DEIDT/SVS/MS e 651/2021-
CGPNI/DEIDT/SVS/MS é imperiosa, sob pena de autorizar a Administração Pública a
burlar, na implementação de política públicas, suas atribuições constitucionais mediante a
restrição arbitrária, sem justo motivo, do direito fundamental à saúde. Como declarou o
Exmo. Ministro Ricardo Lewandowski na ADPF 770 MC/DF, ao tratar da compra de
vacinas pelos estados, Distrito Federal e municípios, “o direito social à saúde coloca-se

12
acima da autoridade de governantes episódicos, pois configura, como visto, um dever
cometido ao Estado”.

3.2.2. Preceitos fundamentais violados

A atuação do governo brasileiro na implementação de medidas


sanitárias, por óbvio, deve ser guiada pelos limites constitucionais. Além disso, no tocante
à tutela do direito fundamental à saúde, deve-se prestar especial deferência às evidências
técnico-científicas e às orientações de autoridades sanitárias internacionais para uma
elaboração de políticas públicas mais efetivas e eficientes.
Nesse sentido, vale destacar trecho da 6ª edição do PNO, em que o
Ministério da Saúde declara expressamente ter considerado “levantamento de evidências
sobre recomendações nacionais e internacionais de vacinação com vacinas Covid-
19 de gestantes, puérperas e lactantes, realizado pela Secretaria de Ciência,
Tecnologia e Insumos Estratégicos (SCTIE)” para a inclusão de gestantes, lactantes e
puérperas em grupo prioritário para a vacinação (p. 6). Como visto, tal medida foi suspensa
no último dia 15.
Ocorre que o Ministério da Saúde não está autorizado a agir como o
fez no caso concreto, em que, inicialmente, a despeito das evidências científicas relacionadas
à mortalidade materna pela Covid-19, não inclui mulheres gestantes e puérperas como
grupo prioritário para a vacinação, apesar de tê-las desde o início incluído como grupo de
risco para a doença (vide mencionada 5ª edição do PNO); e, quando finalmente as inclui
(vide mencionada 6ª edição do PNO), logo em seguida, através da Nota Técnica ora
impugnada, ignora as evidências que ele próprio considerou sobre o risco de morte para
esses grupos, as excluindo do grupo prioritário, e assim violando o direito à vida e saúde
sem justificativa razoável.
Da análise dos fatos e do marco constitucional vigente, que impede
o Poder Público de dispor arbitrariamente do direito à vida e à saúde, como o fez, resta
claro que o Ministério da Saúde exorbitou os limites de sua atuação. De acordo com as
lições de Paulo Gustavo Gonet Branco e Gilmar Ferreira Mendes, atos administrativos
como esse são uma afronta direta e imediata à Constituição, na medida em que a

13
Administração Pública está situada dentro de um bloco de constitucionalidade no qual a
Constituição Federal de 1988 é fundamento imediato de seu agir.22
O Ministério da Saúde é um órgão técnico que atua na efetivação do
direito fundamental à saúde. Nesse sentido, não pode arbitrariamente dispor de políticas
públicas de saúde, notadamente como o fez por meio das Notas Técnicas nº 627/2021-
GCPNI/DEIDT/SVS/MS e 651/2021-CGPNI/DEIDT/SVS/MS, nas quais suspende o
direito de milhares de mulheres gestantes e puérperas à imunização contra a Covid-19 - e,
portanto, à saúde - com base em justificativas contraditórias e obscuras. A gravidade da
conduta é acentuada pelo fato de que o Brasil atualmente é o país com o maior número de
mortalidade materna por Covid-19.
No presente caso, o desrespeito do Ministério da Saúde às balizas
que regem sua atuação resultou em violação aos preceitos fundamentais previstos nos arts.
5º, caput; art. 1º, III; art. 3º, IV; art. 6º, caput, e art. 196, caput, da Constituição Federal, que
protegem a vida, a dignidade da pessoa humana, os direitos à igualdade de gênero à saúde
e à maternidade que se viram prejudicadas pela infundada e repentina interrupção de sua
prerrogativa de receber imunização contra a Covid-19.

3.2.3. Subsidiariedade

A exigência de que a Ação de Descumprimento de Preceito


Fundamental seja apenas manejada quando “inexistir outro meio capaz de sanar a
lesividade” não decorre de sua previsão constitucional, mas consta, em verdade, do art. 4o,
§1º, da Lei nº 9.882/1999. Considerando tal disposição, é também do entendimento desta
E. Corte que o requisito da subsidiariedade deve ser interpretado de maneira restritiva, ou
seja, entende-se que, para que não caiba ADPF, é necessário que outra possibilidade de
ação tenha capacidade de proporcionar resultados semelhantes. Do contrário, nos termos
do disposto pelo Exmo. Ministro Celso de Mello:

a indevida aplicação do princípio da subsidiariedade poderia afetar


a utilização dessa relevantíssima ação de índole constitucional, o
que representaria, em última análise, a inaceitável frustração do
sistema de proteção, instituído na Carta Política, de valores essenciais,

22
MENDES, Gilmar Ferreira; BRANCO, Paulo Gustavo Gonet. Curso de Direito Constitucional. 12. ed. rev. e
atual. São Paulo: Saraiva, 2017.

14
de preceitos fundamentais e de direitos básicos, com grave
comprometimento da própria efetividade da Constituição.23

É também importante pontuar que esta Corte manifestou, na ADPF


388/DF, o entendimento de que a mera existência de outras ações e recursos em vias
ordinárias não afasta o cabimento da Arguição de Descumprimento de Preceito
Fundamental. Isso porque a via difusa de controle de constitucionalidade possui um efeito
limitado, que pode não dar conta de solucionar a lesão a preceitos fundamentais.24 As ações
de controle concentrado de constitucionalidade mostram-se, portanto, instrumentos
capazes de fornecer a abrangência e a celeridade necessárias a solucionar as mais amplas
violações a direitos fundamentais.
O alcance e a relevância da controvérsia constitucional posta
mostram que a palavra desta Egrégia Corte sobre as Notas Técnicas nº 627/2021-
CGPNI/DEIDT/SVS/MS e 651/2021-CGPNI/DEIDT/SVS/MS é imprescindível para
garantir a segurança jurídica em torno do direito à vida e à saúde das mulheres. As
evidências acerca da mortalidade materna associada à Covid-19 - que foram
apontadas na até então vigente edição do PNO -, associadas às recomendações
contraditórias do Ministério da Saúde, geram uma instabilidade generalizada entre
todos os estados e municípios brasileiros, os quais foram alertados de que esses
grupos possuem risco acentuado de morte, de modo que deixá-los de lado da
vacinação prioritária manterá os índices inaceitáveis de mortalidade materna por
Covid no Brasil, epicentro mundial nesse aspecto. Assim, estados e municípios ficam
no limbo entre acatar recomendações contraditórias do Ministério da Saúde e atuar para
evitar que milhares de mulheres gestantes morram pela doença, o que efetivamente seguirá
ocorrendo caso o Ministério da Saúde mantenha as medidas das referidas Notas Técnicas.
A apreciação por esta Egrégia Corte seria, portanto, forma de se assegurar que direitos
fundamentais de gestantes e puérperas de todo o país fossem restaurados.

23
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental nº 17. Relator: Min.
Celso de Mello. Brasília, DF, 20 de setembro de 2001. Diário de Justiça da União, 28 set. 2001. Disponível em:
<http://www.stf.jus.br/arquivo/informativo/documento/informativo243.htm>.
24
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental nº 388. Relator: Min.
Gilmar Mendes. Brasília, DF, 09 de março de 2016. Diário de Justiça da União, 01 ago. 2016. Disponível em:
<http://portal.stf.jus.br/processos/downloadPeca.asp?id=309917678&ext=.pdf>.

15
O requisito adotado por esta Corte para admitir a propositura de
Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental não analisa, meramente, se há
outra ação capaz de impugnar a lesão arguida, mas se essa ação terá uma eficácia equivalente
à da ADPF, o que não há para o presente caso. Como entendeu a Exma. Ministra Rosa
Weber na ADPF 489 MC/DF, é preciso uma solução satisfatória, com "eficácia típica dos
processos objetivos de proteção da ordem constitucional, vale dizer, a eficácia erga omnes e
o efeito vinculante próprios ao controle abstrato de constitucionalidade”.
No bojo da ADPF 76, entendeu-se que a interpretação do requisito
de subsidiariedade deve ser feita a partir de uma leitura cuidadosa e comprometida com a
proteção da ordem constitucional, que avalie se, de fato, uma outra ação que não a ADPF
será capaz de sustar uma lesão relevante a direitos fundamentais. Para essa leitura, a
condição de eficácia é sinônimo de amplitude, generalidade e imediatidade.25
Tendo em vista tratar-se de ação ajuizada em face de Nota Técnica
emitida pelo Ministério da Saúde (627/2021-GCPNI/DEIDT/SVS/MS), que prevê a
suspensão temporária da vacinação de gestantes e puérperas contra a Covid-19 com a vacina
AstraZeneca/Oxford/Fiocruz e paralisa a vacinação em gestantes e puérperas sem
comorbidades, com qualquer imunizante, e que a suspensão da vacinação – conquistada
mediante vasto embasamento técnico e grande esforço por parte de entidades de saúde -
configura patente violação aos direitos que protegem a vida, a dignidade da pessoa humana,
o direito à igualdade de gênero, o direito à saúde e o direito à maternidade das milhares de
mulheres grávidas que convivem com o receio de habitar o país com a maior letalidade da
Covid-19 para gestantes no mundo26, torna-se nítido o caráter elementar da presente ação
para sanar, de forma urgente, mencionadas violações.

4. MÉRITO

25
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental 76. Relator: Min.
Gilmar Mendes. Brasília, DF, 13 de fev. de 2006. Diário de Justiça da União, 20 fev. 2006. Disponível em:
<http://portal.stf.jus.br/processos/detalhe.asp?incidente=2311745>.
26
SOUZA, Alex Sandro Rolland; AMORIM, Melania Maria Ramos. Mortalidade materna pela COVID-19 no
Brasil. Rev. Bras. Saude Mater. Infant. vol.21 supl.1 Recife Feb. 2021. Epub Feb 24, 2021. Disponível em:
<https://www.scielo.br/pdf/rbsmi/v21s1/pt_1519-3829-rbsmi-21-s1-0253.pdf>.

16
4.1. Inconstitucionalidade por violação aos direitos à vida e à saúde de
mulheres grávidas e puérperas

É dever irrenunciável do Estado garantir o acesso à saúde,


através de “políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença
e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua
promoção, proteção e recuperação”, como previsto pelo art. 196 da Constituição Federal
de 1988. Trata-se de um direito que deve ser efetivado levando em consideração a forma
com que doenças afetam de maneira desproporcional determinados grupos de pessoas, seja
por razões biológicas, sociais, econômicas ou culturais. A capacidade de gestar é um desses
fatores que são levados em consideração ao ser conferida, por exemplo, especial proteção
ao direito à maternidade na Constituição Federal de 1988. Na perspectiva da saúde como
direito à cidadania, é dever do Estado brasileiro reconhecer as necessidades de saúde das
mulheres e atuar para evitar agravos que as afetem de forma particular.
Há décadas, a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece que
epidemias de doenças como a Covid-19 têm o potencial de impactar as mulheres de maneira
desproporcional, razão pela qual nesses cenários as políticas públicas devem adotar uma
perspectiva de gênero. Isso porque, durante a gestação, o corpo das mulheres passa por
mudanças que as tornam mais vulneráveis a doenças infecciosas. Logo no começo da
pandemia da Covid-19, as mulheres grávidas foram incluídas no grupo de risco para a
doença, o que significa que elas têm mais chances de serem internadas na unidade de terapia
intensiva, de precisarem de ventilação invasiva e até de morrerem.27 No entanto, apesar de
apresentar índices extremamente altos de mortalidade materna desde os primeiros meses
da pandemia, sendo reconhecido como o epicentro desses casos, o Brasil apenas incluiu
todas as mulheres grávidas e puérperas - isto é, inclusive as sem comorbidades - como
grupo prioritário para a vacinação em abril de 2021, três meses após começar a
imunização.28

27
ZAMBRANO, Laura D. et al. Update: Characteristics of Symptomatic Women of Reproductive Age with
Laboratory-Confirmed SARS-CoV-2 Infection by Pregnancy Status — United States, January 22–October 3,
2020. Morbidity and Mortality Weekly Report (MMWR). November 6, 2020 / 69(44);1641–1647. Disponível em:
<https://www.cdc.gov/mmwr/volumes/69/wr/mm6944e3.htm?s_cid=mm6944e3_w>.
28
BRASIL. Ministério da Saúde. NOTA TÉCNICA Nº 467/2021-CGPNI/DEIDT/SVS/MS. Trata das orientações
da vacinação dos grupos de pessoas com comorbidades, pessoas com deficiência permanente e gestantes e puérperas

17
Ocorre que, conforme narrado, no dia 11 de maio de 2021, o
Ministério da Saúde suspendeu a vacinação de gestantes e puérperas com a vacina
AstraZeneca/Oxford/Fiocruz, com base em um único evento adverso, considerado
extremamente raro, ocorrido no Rio de Janeiro. A despeito da inexistência de
orientação da Anvisa nesse sentido, e das inúmeras evidências científicas que
apontam para a necessidade de imunização deste grupo em particular, gestantes e
puérperas sem comorbidades foram excluídas do plano de imunização, sendo
impedidas de receber qualquer tipo de vacina.
Ou seja, o Ministério da Saúde utilizou um evento considerado
extremamente raro pela literatura médica até o momento para restringir
severamente a vacinação de mulheres gestantes e puérperas.
As próprias Notas Técnicas reconhecem que o número de mortes
maternas por Covid-19 é elevado no Brasil (“20 vezes superior ao risco de ocorrência da
TTS descrito na literatura médica”), e que a Organização Mundial da Saúde recomenda o
uso da vacina AstraZeneca/Oxford/Fiocruz em cenários nos quais os benefícios superem
os riscos. Não só isso: reconhece, explicitamente, que há grandes indícios de que é
altamente provável que o perfil de risco-benefício para as gestantes se mantenha favorável.
Vale destacar que embora a justificativa para a suspensão seja a ocorrência de 1 (um)
evento adverso no território nacional em uma mulher gestante que recebeu a
referida vacina, a Nota suspende não só a vacinação pelo imunizante
Astrazeneca/Oxford/Fiocruz para mulheres gestantes e puérperas, como também
a vacinação no geral para pessoas desses grupos sem outros fatores de risco para a
Covid-19, adotando solução absolutamente contrária às evidências vigentes sobre
os benefícios da vacina para esses grupos e os elevados riscos de mortalidade que
enfrentam no cenário brasileiro.
Diante desses fatos, o Poder Público, através da Nota Técnica em
questão, reduziu, de modo severo e sem justa causa, o direito dessas mulheres à vida, à
saúde, à dignidade e também à maternidade. Na citada Medida Cautelar na Arguição de
Descumprimento de Preceito Fundamental 489/DF, a Exma. Ministra Rosa Weber,
relatora da ação, ressaltou, expressamente, que o agente público não pode adotar

na Campanha Nacional de Vacinação contra a Covid-19, 2021. Disponível em:


<https://saude.rs.gov.br/upload/arquivos/202104/27181903-nota-tecnica-467-2021-cgpni-deidt-svs-ms.pdf>.

18
soluções que reduzam ou debilitem, sem justo motivo, a máxima eficácia dos
direitos fundamentais.
Esta Egrégia Corte já pontuou que o reconhecimento das
necessidades específicas de saúde das mulheres é fruto de anos de lutas sociais pela sua
proteção legal, constitucional e internacional. Colocar em risco a saúde e a vida das
mulheres com base no não reconhecimento dessas necessidades, como o fazem as Notas
Técnicas do Ministério da Saúde ao retroceder na vacinação de mulheres gestantes e
puérperas, para a qual os estados brasileiros já vinham se preparando, é um retrocesso
inadmissível em relação aos direitos fundamentais. Na ADI 5938/DF, a proteção
constitucional especial conferida à maternidade foi enquadrada como uma forma de
salvaguardar a igualdade de gênero. Em seu voto, a Exma. Ministra Rosa Weber cita
tratados internacionais dos quais o Brasil é signatário, bem como recomendações de
organismos internacionais, que impõem ao Estado brasilerio o dever de proteger a saúde
reprodutiva das mulheres.
Além disso, a supracitada decisão determina a aplicação do princípio
da precaução em questões relativas ao direito à saúde. Esse princípio requer a “predileção
por alternativas que aumentem a salvaguarda dos envolvidos”. As evidências disponíveis
apontam que a medida mais protetiva dos direitos das mulheres grávidas ou
puérperas é a ampla vacinação deste grupo, especialmente quando se considera o
contexto brasileiro. Dados de 2020 apontam que, de cada 10 (dez) óbitos maternos
por Covid-19 no mundo, 8 (oito) aconteceram no Brasil29. Em 2021, a taxa de
mortalidade materna pela doença dobrou.30
A Convenção sobre a Eliminação de todas as Formas de
Discriminação contra a Mulher, promulgada pelo Brasil através do Decreto de 4.377/2002,
impõe que a função reprodutiva não seja um fator de discriminação em nenhum âmbito.
Ou seja, a diferença das mulheres deve ser um fator de promoção de seus direitos, e não de
aniquilação. Políticas que reconhecem a particular vulnerabilidade de mulheres grávidas e

29
SOUZA, Alex Sandro Rolland; AMORIM, Melania Maria Ramos. Mortalidade materna pela COVID-19 no
Brasil. Rev. Bras. Saude Mater. Infant., Recife , v. 21, supl. 1, p. 253-256, Feb. 2021 . Available from
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1519-38292021000100253&lng=en&nrm=iso>. Epub
Feb 24, 2021. http://dx.doi.org/10.1590/1806-9304202100s100014.
30
MARQUES, Júlia; PERLEBERG, Jefferson. Taxa de morte materna pela covid no Brasil dobra em 2021; nº
de vítimas na pandemia é de 979. O estado de São Paulo. Publicado em 16/04/2021. Disponível em:
<https://saude.estadao.com.br/noticias/geral,taxa-de-morte-materna-pela-covid-no-brasil-dobra-em-2021-n-de-
vitimas-na-pandemia-e-de-960,70003684129>.

19
puérperas à Covid-19, promovendo, por exemplo, sua vacinação prioritária ou afastamento
do trabalho durante a pandemia, são formas de promover a igualdade de gênero. Em
menção ao Comentário Geral nº 22 do Comitê sobre Direitos Econômicos, Sociais e
Culturais das Nações Unidas, que monitora o cumprimento do Pacto Internacional sobre
Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (PIDESC), promulgado no Brasil pelo Decreto
591/1992, afirma que “o alcance da igualdade de gênero requer que as necessidades
específicas da saúde da mulher, naquilo que diferem daquelas dos homens, sejam
consideradas de forma a garantir providências adequadas ao seus ciclos de vida”.
Assim, como forma de proteger os direitos à vida e à saúde das
mulheres, e de promover a igualdade de gênero e seu direito à maternidade, a presente ação
deve ser julgada procedente, sendo retomada a vacinação da totalidade do grupo de
gestantes e puérperas contra a Covid-19, com os demais imunizantes constantes do
Programa Nacional de Imunizações.

4.2. Inconstitucionalidade por arbitrariedade do ato administrativo. Óbice


à máxima eficácia do direito à saúde sem justo motivo. Limites da
discricionariedade.

A margem que a Administração Pública possui para atuar com


discricionariedade está adstrita aos limites do conteúdo dos direitos fundamentais, como o
irrenunciável direito à saúde, ao qual o Poder Público está incumbido de dar a maior eficácia
possível. Como descreve Maria Sylvia Di Pietro, na presença de elementos objetivos
que apontem para uma solução legítima e que melhor atenda aos direitos
fundamentais, como o direito à saúde, o Administrador fica vinculado a essa
solução.31 Esse é o caso da ampla vacinação de mulheres gestantes e puérperas,
com ou sem comorbidades. Os elementos objetivos - reforçados pelo próprio Ministério
da Saúde em oportunidades anteriores - apontam que a decisão adotada pelo Ministério da
Saúde na Nota Técnica nº 627/2021-CGPNI/DEIDT/SVS/MS é ilegítima e incompatível
com a recomendação técnica da Anvisa.

31
DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Direito administrativo. 33. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2020.

20
Os elementos objetivos mostram que, sobretudo no contexto
brasileiro, a solução que melhor atende ao interesse público e aos direitos
constitucionalmente previstos é a ampla vacinação de mulheres grávidas e puérperas. Não
se trata de invadir a discricionariedade administrativa, mas de colocar a discricionariedade
em seus devidos limites. Assim, é possível impedir arbitrariedades como as contra as quais
a presente ação se insurge. Como previamente apontado, o Ministério da Saúde não está
autorizado pela Constituição a dispor do direito à saúde como o fez através das Notas
Técnicas nº 627/2021-CGPNI/DEIDT/SVS/MS e 651/2021-
CGPNI/DEIDT/SVS/MS.
Para a análise destes limites, Di Pietro indica teorias que têm sido
utilizadas, dentre as quais está a chamada “teoria dos motivos determinantes”. De acordo
com essa teoria, um ato administrativo é válido se os motivos que o ensejaram são
verdadeiros. Nesse caso, ao apreciar políticas públicas e as razões que levaram à sua edição,
o Judiciário não estará definindo esses motivos, mas, sim, apreciando se estes motivos são
verdadeiros, no intuito de controlar o uso abusivo do poder regulamentar.32
Esta é precisamente a análise que aqui se requer. Como será exposto
a seguir, a paralisação da imunização de TODAS as gestantes e puérperas sem
comorbidades, de forma a não fornecer-lhes a possibilidade de vacinação com
outros imunizantes contemplados pelo PNI, mostra-se não somente medida
atentatória aos direitos fundamentais à vida, à saúde, à dignidade da pessoa
humana, à maternidade e à igualdade de gênero (arts. 5º, caput, art. 1º, III; art. 3º,
IV; art. 6º, caput, e art. 196, caput, da Constituição Federal), mas também em
completa dissonância com a recomendação da Agência de Vigilância Sanitária e as
evidências técnico-científicas que a fundamentam. Ao distanciar-se de tais requisitos,
a Nota Técnica nº 627/2021-CGPNI/DEIDT/SVS/MS está também afastando-se do
entendimento desta Egrégia Corte, como será mais bem detalhado a seguir.

4.3. Da estrita observância a critérios técnico-científicos, ao Plano


Nacional de Operacionalização da Vacinação contra a Covid-19 e à
jurisprudência desta Suprema Corte

32
DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Direito administrativo. 33. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2020.

21
Como já bem explicitado, o caráter contraditório - e
consequentemente inconstitucional - das Notas Técnicas ora impugnadas advém de sua
falta de correspondência não só com a orientação fornecida pela Anvisa, mas também com
os próprios dados que teriam motivado a suspensão, de forma ampla, da vacinação de
grávidas e puérperas sem comorbidades no país. A decisão foi tomada a despeito do grande
número de evidências técnico-científicas que amparam a necessidade e a urgência de se
prosseguir com a imunização deste grupo, o que pode ser feito com as demais vacinas
ofertadas pelo PNI. Nesse sentido, cumpre rememorar que as vacinas CoronaVac e a
da fabricante Pfizer, ambas em uso no país, não se utilizam de adenovírus como
plataforma - fato que levou a Anvisa a recomendar unicamente a suspensão da
aplicação do imunizante fabricado pela AstraZeneca/Oxford/Fiocruz em
gestantes.33
No esteio do tópico anterior, não é excessivo lembrar que o PNI é
quem define os calendários e os grupos prioritários de vacinação, e que o faz levando em
consideração a situação epidemiológica, o risco, a vulnerabilidade e as especificidades
sociais, fornecendo orientações específicas para aqueles grupos que são considerados
especialmente vulneráveis. Foi com base nessa expertise - devida e extensivamente trazida ao
longo desta petição inicial - que decidiu-se pela inclusão de todas as gestantes e puérperas,
com ou sem comorbidades, como grupo prioritário para a vacinação contra a Covid-19.
Como também já exposto, tal recomendação consta da 6ª edição do Plano Nacional de
Operacionalização da Vacinação contra a Covid-19, atual instrumento que guia as ações de
imunização no país.
Levando-se em conta que o que aqui se almeja é simplesmente que
seja dado cumprimento ao disposto pelo Programa Nacional de Imunizações, e mais
especificamente pelo Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação contra a Covid-
19 (6ª edição), cumpre rememorar o posicionamento que tem sido adotado por esta Egrégia
Corte no tocante às políticas públicas de saúde, com especial atenção ao entendimento que
vem sendo consolidado nas ações judiciais relativas aos efeitos e consequências da

33
BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. COMUNICADO GGMON 005/2021. Recomendação sobre
a suspensão da vacinação de gestantes com a vacina Oxford/AstraZeneca/FioCruz contra Covid-19.
Disponível em: <https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/noticias-anvisa/2021/comunicado-suspensao-da-
vacina-da-astrazeneca-para-gestantes/comunicado_ggmon_005_2021.pdf>.

22
pandemia. Nestes termos, em apreciação às ADIs 6586 e 6587, que dizem respeito à
vacinação no país, o Exmo. Ministro Ricardo Lewandowski assentou o seguinte:
Reputo oportuno, ainda, ressaltar o recente acordão prolatado pelo
Plenário do STF no julgamento conjunto das ADIs 6.421-MC/DF, 6.422-
MC, 6.424-MC, 6.425-MC, 6.427- MC, 6.428-MC e 6.431-MC, todas de
relatoria do Ministro Roberto Barroso, no qual esta Suprema Corte
assentou que “decisões administrativas relacionadas à proteção à
vida, à saúde e ao meio ambiente devem observar standards, normas
e critérios científicos e técnicos, tal como estabelecidos por
organizações e entidades internacional e nacionalmente
reconhecidas”. Esses, com efeito, constituem parâmetros mínimos que
devem guiar o Poder Público na decisão de implementar eventual
obrigatoriedade de imunização, se e quando a vacina estiver disponível.

Nota-se, pois, que o entendimento deste Supremo Tribunal Federal


tem sido no sentido de conferir maior deferência a critérios técnicos e científicos no tocante
à apreciação e julgamento relativos a políticas públicas. Nesse sentido, tratando-se mais
especificamente de julgamentos referentes à vacinação contra a Covid-19, tem-se que o
Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação - documento este que se
pretende ver cumprido por meio desta ação - e seu constante aprimoramento
resultam, também, da incansável tutela desta Suprema Corte aos direitos
fundamentais. Exemplo de como esta Corte vem contribuindo para uma vacinação mais
justa, transparente e embasada em critérios científicos está na apreciação, pelo Exmo.
Ministro Ricardo Lewandowski, do segundo pedido de tutela provisória nos autos da ADPF
754. Na ocasião, o Eminente Relator, arrematou:

Assim, ao que parece, a pretensão de que sejam editados e publicados


critérios e subcritérios de vacinação por classes e subclasses no Plano de
Vacinação, assim como a ordem de preferência dentro de cada classe e
subclasse, encontra arrimo nos princípios da publicidade e da eficiência,
que regem a Administração Pública (art. 37, caput, da CF); no direito à
informação que assiste aos cidadãos em geral (art. 5°, XXXIII, e 37, § 2°,
II, da CF); na obrigação da União de “planejar e promover a defesa
permanente contra as calamidades públicas” (art. 21, XVII, CF); e no
dever incontornável cometido ao Estado de assegurar a inviolabilidade do
direito à vida (art. 5°, caput, da CF), traduzida por uma “existência digna”
(art. 170, caput, da CF), e no direito à saúde, este último, repita-se,
“garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução
do risco de doenças e outros agravos e ao acesso universal e igualitário às

23
ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação” (art. 6°,
caput, e 196, caput, da CF).

(...)

Isso posto, defiro parcialmente a cautelar requerida, ad referendum do


Plenário desta Suprema Corte, para determinar ao Governo Federal
que divulgue, no prazo de 5 (cinco) dias, com base em critérios
técnico científicos, a ordem de preferência entre os grupos
prioritários, especificando, com clareza, dentro dos respectivos grupos, a
ordem de precedência dos subgrupos nas distintas fases de imunização
contra a Covid-19.

Reconhecendo a escassez de imunizantes, e ainda atentando-se para


o fato de que a definição de grupos prioritários deve ser fruto de análise criteriosa pelas
autoridades competentes, o Exmo. Ministro relator, em decisão monocrática também nos
autos da ADPF 754, asseverou:

Entendo que não cabe a esta Suprema Corte definir a alteração da ordem
de prioridade dos grupos a serem vacinados, já que o atendimento da
demanda exigiria a prévia identificação e quantificação das pessoas
potencialmente atingidas pela medida, com o consequente
estabelecimento de novas prioridades, relativamente a outros grupos
identificados como preferenciais, já incluídos nos planos nacional e
estaduais de imunização contra o novo coronavírus, providências que
demandariam avaliações técnicas mais aprofundadas e estudos logísticos
de maior envergadura, incompatíveis com uma decisão de natureza
jurisdicional, especialmente de cunho cautelar.

Além disso, considerada a notória escassez de imunizantes no País - a qual,


aliás, está longe de ser superada -, não se pode excluir a hipótese de
que a alteração da ordem de preferências em favor de um grupo
prioritário, sem qualquer dúvida merecedor de particular proteção
estatal, ensejará o descenso, total ou parcial, de outros grupos,
presumivelmente escolhidos a partir de critérios técnicos e científicos
anteriormente definidos.

Nos termos das decisões ora colacionadas, resta claro que o


posicionamento desta Egrégia Corte tem sido no sentido de “levar em consideração, por
expresso mandamento legal, as evidências científicas e análises estratégicas em
saúde” e de compreender que “tal apreciação, sempre explícita e fundamentada,

24
compete exclusivamente às autoridades sanitárias, consideradas as situações
concretas que enfrentam e vierem a enfrentar”.34
Que dizer, então, da supressão, de forma absolutamente não
fundamentada, de um grupo ao qual se havia dado, com vasto embasamento
técnico-científico, e pela autoridade competente, prioridade na vacinação? A
inclusão da totalidade das gestantes e puérperas em grupo prioritário para imunização
consta expressamente do Plano Nacional de Operacionalização da Vacinação contra a
Covid-19 (6ª edição), documento editado pela máxima autoridade sanitária do país, com
amplo respaldo técnico e científico. A retirada dessa prerrogativa, mediante simples Nota
Técnica que mostra-se arbitrária, incongruente e sem qualquer embasamento técnico-
científico que seja minimamente coerente com o cenário que se vive configura não só uma
ilegalidade, mas uma afronta ao que vem sido entendido por este Supremo Tribunal Federal.
Nesse sentido, acatar a normativa ora impugnada é, também, permitir que se produza grave
insegurança jurídica - sem mencionar as possíveis e graves consequências que a interrupção
da imunização neste momento pode trazer a puérperas e gestantes.
Pelo exposto, compreende-se que garantir que o Plano Nacional de
Operacionalização da Vacinação contra a Covid-19, instrumento apto a reconhecer
eventuais prioridades na fila de vacinação, seja de fato cumprido é a medida a se concretizar.

4.3.1. Das evidências utilizadas como base para presente Arguição de


Descumprimento de Preceito Fundamental

Evidências apontam que a única solução correta a ser adotada


pelo Governo Federal é manter a inclusão de TODAS as mulheres grávidas e
puérperas no grupo prioritário de vacinação. A conduta do órgão de suspender não
apenas a vacinação com o imunizante da AstraZeneca/Oxford/Fiocruz, como também a
vacinação com os demais imunizantes disponíveis no Brasil para mulheres grávidas e
puérperas sem comorbidades não é amparada pela justificativa que levou à suspensão do
referido imunizante, mas consiste em disposição arbitrária e injustificada dos direitos à vida
e à saúde.

34
BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental 754. Relator: Min.
Ricardo Lewandowski. Brasília, DF, 28 de março de 2021. Disponível em:
<http://www.stf.jus.br/arquivo/cms/noticiaNoticiaStf/anexo/ADPF754.pdf>.

25
As Notas Técnicas apresentam como justificativa “evento adverso
grave em uma gestante após administração da vacina Covid-19
AstraZeneca/Oxford/Fiocruz. Trata-se de um evento ocorrido em uma gestante no estado
do Rio de Janeiro, suspeito para a Síndrome de Trombose com Trombocitopenia (TTS),
que apresenta possível associação causal com as vacinas de vetor viral não replicante” (p.1
do ato questionado). No entanto, as demais vacinas disponíveis no Brasil, CoronaVac
e a da fabricante Pfizer, não utilizam a mesma plataforma.35 A CoronaVac (Sinovac)
utiliza a plataforma clássica de vírus inativado. Já a vacina da Cominarty (Pfizer/BioNTech)
é baseada em RNA mensageiro (mRNA-1273).36
De acordo com dados preliminares de estudo publicado no
The New England Journal of Medicine em abril do presente ano, realizado com 35.691
mulheres gestantes entre 16 e 54 anos que receberam vacinas RNAm (Pfizer e
Moderna), constatou-se que a incidência de eventos adversos foi semelhante à de
estudos anteriores à pandemia.37 É importante destacar que as mulheres grávidas
tomam a vacina contra a influenza e contra a difteria, o tétano e a pertússis
(coqueluche) (dTpa) há anos, com bons registros de segurança. A vacina da
influenza, amplamente utilizada no Brasil em gestantes desde 2010 utilizam a
plataforma do vírus inativado.38
Portanto, há indícios da segurança de vacinas RNAm e com vírus
inativado para mulheres grávidas e puérperas. Estudo publicado em maio de 2021 no
Journal of Obstetrics and Gynaecology Canada sobre a segurança dos imunizantes
Pfizer/BioNTech, Astrazeneca/Oxford e Moderna para mulheres grávidas
concluiu que os possíveis riscos de mortalidade materna e morbidade fetal por

35
BRASIL. Ministério da Saúde. Agência Nacional de Vigilância Sanitária - Anvisa. Coronavírus. Informações sobre
vacinas. Vacinas: uso emergencial (Atualizado em 12/05/2021, 11h18). Disponível em:
<https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/paf/coronavirus/vacinas-covid/vacinas-uso-emergencial>;
BRASIL. Ministério da Saúde. Agência Nacional de Vigilância Sanitária - Anvisa. Coronavírus. Informações sobre
vacinas. Registros. Disponível em: <https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/paf/coronavirus/vacinas-
covid/registros>.
36
LIMA, Eduardo Jorge da Fonseca; ALMEIDA, Amalia Mapurunga; KFOURI, Renato de Ávila. Vacinas para
COVID-19 - o estado da arte. Rev. Bras. Saude Mater. Infant., Recife , v. 21, supl. 1, p. 13-19, Feb. 2021 . Available
from <https://www.scielo.br/pdf/rbsmi/v21s1/pt_1519-3829-rbsmi-21-s1-0013.pdf>.
https://doi.org/10.1590/1806-9304202100s100002.
37
SHIMABUKURO, Tom T. et al. Preliminary Findings of mRNA Covid-19 Vaccine Safety in Pregnant
Persons. NEJM, April 21, 2021. Disponível em: <https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa2104983>.
38
Sociedade Brasileira de Imunizações. Nota Técnica SBIm 08/04/2021. Vacinas influenza no Brasil em 2021.
Disponível em :<https://sbim.org.br/images/files/notas-tecnicas/nt-vacinas-influenza-brasil-2021-v2.pdf>.

26
COVID-19 superam em muito os riscos da vacinação contra a doença na gestação,
os quais são apontados como mínimos39 Nesse sentido, as recomendações de
organizações nacionais e internacionais têm girado em torno da necessidade de que decisões
tomadas pelos governos se baseiem na análise de risco-benefício da vacinação para
mulheres grávidas e puérperas.
A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP)40, aponta que as
sociedades científicas têm se posicionado pela vacinação de gestantes, devido ao
maior risco de complicações que estas apresentam. A SBP, bem como a Federação
Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia41 - esta última em posicionamento
sobre a suspensão da vacinação para gestantes e puérperas - ressaltam que gestantes já
tomam vacinas feitas por meio da plataforma de vírus inativado. A Febrasgo aponta,
ainda, que estudos têm demonstrado a segurança da vacina da Pfizer (RNAm).
Desde o início, tem sido evidenciada no contexto brasileiro a
urgência na inclusão de todas as mulheres gestantes e puérperas no grupo prioritário de
vacinação. As evidências supramencionadas são compatíveis com uma política pública que
garanta ampla vacinação nesses casos, considerando que os benefícios têm se mostrado
expressivamente superiores aos prováveis riscos. O já referido estudo publicado no
Obstetrics and Gynecology do Canadá aponta para o fato de que os riscos de
hospitalização e de possíveis mortes materna e fetal superam, e muito, quaisquer
riscos associados à vacinação. Concluem, especificamente, que a gravidez não
configura contraindicação para a vacinação com o imunizante da fabricante
AstraZeneca/Oxford/Fiocruz, e acaba por expressamente recomendar a sua
aplicação nesse grupo.42

39
MALINOWSKI, Ann Kinga et al. Expecto Patronum! Leveraging the positive force of COVID-19 Vaccines
for Pregnant and Lactating Individuals. JOGC - Journal of Obstetrics and Gynecology Canadá. Published:May
13, 2021.Disponível em: <https://www.jogc.com/action/showPdf?pii=S1701-2163%2821%2900373-X>.
https://doi.org/10.1016/j.jogc.2021.04.015
40
BRASIL. Sociedade Brasileiro de Pediatria. Departamento Científico de Imunizações (2019-2021). Guia Prático de
Atualização. Dúvidas Sobre Vacinas COVID-19 Perguntas e Respostas. 27 de janeiro de 2021. Disponível
em:<https://www.sbp.com.br/fileadmin/user_upload/22909c-GPA-Duvidas_sobre_Vacinas_COVID19.pdf>.
41
BRASIL. Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia. Comunicado Febrago. ANVISA e o
Programa Nacional de Imunização (PNI) orientam suspensão de vacina da Astrazeneca/Oxford para
gestantes. 12 de maio de 2021. Disponível em: <https://www.febrasgo.org.br/pt/noticias/item/1264-comunicado-
febrasgo?utm_campaign=Comunicados+FEBRASGO&utm_content=COMUNICADO+FEBRASGO+%284%29
&utm_medium=email&utm_source=EmailMarketing&utm_term=Suspensão+da+Vacina+em+Gestantes>.
42
MALINOWSKI, Ann Kinga et al. Expecto Patronum! Leveraging the positive force of COVID-19 Vaccines
for Pregnant and Lactating Individuals. JOGC - Journal of Obstetrics and Gynecology Canadá. Published:May 13,

27
Contudo, a decisão do governo brasileiro pela inclusão dessas
mulheres - já consideradas grupo de risco para a Covid-19, independente de
comorbidades - no grupo prioritário de vacinação não só veio tarde, como durou
pouco, haja vista a sua revogação da Nota Técnica questionada na presente ação.
Da análise dos dados disponíveis e indicados, paradoxalmente, pelo próprio Ministério da
Saúde nas Notas Técnicas que retrocedem na vacinação desse grupo, resta incontroversa a
inconstitucionalidade grave em que está incorrendo o Ministério.
Estudo publicado em julho de 2020 indicou que naquele
momento o Brasil era responsável por cerca de 77,5% das mortes maternas por
Covid-19 reportadas. Infectadas pela Covid-19, foi constatado que essas mulheres
enfrentavam barreiras para acessar cuidados de saúde.43 É possível que o quantitativo de
mortes esteja subnotificado, e que durante a pandemia da Covid-19 muitas mortes maternas
tenham sido registradas como Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) de causa
indeterminada. Tomando como base esse dado, um estudo publicado em fevereiro de 2021
projeta que a taxa de mortalidade materna por Covid-19 seja de 17.5 para cada 100 mil
mulheres ou mais alta.44
Assim, a falta de acesso à vacinação causa impactos
desproporcionais para a vida das mulheres. As chances de morte por Covid-19 são
17 (dezessete) vezes maiores, segundo estudo mencionado no início da ação, para
mulheres grávidas e puérperas. Publicada em 2021, a pesquisa foi realizada com dados
da Premier Healthcare Database referentes a internações registradas em 703 americanos
hospitais entre março e setembro de 2020.45 O mesmo estudo elenca outras complicações
graves associadas à infecção pela doença na gestação, como síndrome da insuficiência
respiratória aguda (34,4 vezes superior), sepse (13,6 vezes superior), necessidade de

2021.Disponível em: <https://www.jogc.com/action/showPdf?pii=S1701-2163%2821%2900373-X>.


https://doi.org/10.1016/j.jogc.2021.04.015
43
NAKAMURA-PEREIRA, Marcos et al. Worldwide maternal deaths due to COVID-19: A brief review.
International Journal of Gynecology and Obstetrics, 24 July 2020. Disponível em:
https://obgyn.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/ijgo.1332.
44
NAKAMURA-PEREIRA, Marcos et al. The impact of the COVID-19 pandemic on maternal mortality in
Brazil: 523 maternal deaths by acute respiratory distress syndrome potentially associated with SARS-CoV-2.
International Journal of Gynecology and Obstetrics, 11 February 2021. Disponivel em:
<https://obgyn.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/ijgo.13643>.
45
KO, Jean Y. et al. Adverse pregnancy outcomes, maternal complications, and severe illness among U.S.
delivery hospitalizations with and without a COVID-19 diagnosis. Oxford Academic. Publicado em 12/05/2021.
Disponível em: <https://academic.oup.com/cid/advance-article/doi/10.1093/cid/ciab344/6274300>.
https://doi.org/10.1093/cid/ciab344

28
ventilação mecânica (12,7 vezes superior), admissão à unidade de terapia intensiva (3,6
vezes superior), insuficiência renal aguda (3,5 vezes superior), doença tromboembólica (2,7
vezes superior), evento cardíaco adverso (2,2 vezes superior) e parto prematuro (1,2 vez
superior).
Relevante, também, evidenciar dados publicados pelo Grupo
Brasileiro de Estudos de Covid-19 e Gravidez que, em 08 de maio de 2021, após a análise
de 803 casos de morte materna em decorrência de infecção pelo novo coronavírus no país,
identificou que a taxa de mortalidade de gestantes em 2021 dobrou em relação ao ano
de 2020 (15.6% x 7.4%). O mesmo estudo verificou que 59% daquelas que vieram a
óbito no presente ano não apresentavam qualquer comorbidade. Em vista de tais
resultados, mostra-se pouco efetivo - e também desalinhado com o cenário atual e as mais
recentes evidências científicas - manter a imunização unicamente de gestantes e puérperas
que possuam alguma comorbidade, uma vez que dados apontam para altíssima taxa de
mortalidade naquelas que foram recentemente excluídas de qualquer possibilidade
de vacinação.46
As Notas Técnicas do Ministério da Saúde reconhecem que a decisão
inicial de incluir todas as mulheres gestantes e puérperas no grupo prioritário de vacinação
levou em consideração que “gestantes e puérperas (até 45 dias após o parto) estão sob risco
aumentado para desenvolver formas graves de covid-19 bem como de complicações
obstétricas dela decorrentes, tais como parto prematuro e óbito fetal (Rasmussen e
Jamieson, 2021)”; que “entre 01ºde janeiro de 2021 e 10 de maio de 2021, foram notificados
6.416 casos de síndrome respiratória aguda grave (SRAG) em gestantes (257,87 casos por
100.000 gestantes”; que “a gestação por si só é uma condição com risco aumentado de
eventos de trombose e sangramento”; que “o risco de morte por Covid-19 em gestantes no
Brasil em 2021 foi 20 vezes superior ao risco de ocorrência da TTS descrito na literatura
médica”.
Ou seja, o Ministério da Saúde tem conhecimento do cenário
grave de morte de mulheres gestantes e puérperas pela Covid-19 e, de posse de
dados que denotam a imprescindibilidade da vacinação, optou por agir de forma

46
TAKEMOTO, Maira L S et al. Higher case fatality rate among obstetric patients with COVID-19 in the
second year of pandemic in Brazil: do new genetic variants play a role? medRxiv preprint doi:
https://doi.org/10.1101/2021.05.06.21256651; posted May 8, 2021.

29
contrária e a potencialmente agravar este cenário. Ora, não pode o Ministério da Saúde
dispor do direito à vida e à saúde dessa forma. Resta incompreensível o fato de que o órgão
apresentou como único fundamento para a mudança na política então vigente um único
evento adverso relacionado a uma vacina específica (AstraZeneca/Oxford/Fiocruz).
Dessa forma, é evidente o abuso de poder manifestado pela
Nota Técnica. A inconstitucionalidade da decisão deve ser reconhecida por este
Supremo Tribunal Federal como forma de impedir que o direito à saúde - e, ainda
mais grave, o direito à vida de mulheres grávidas e puérperas - seja limitado sem
justa causa, e de assegurar que as políticas públicas de saúde protegidas pela
Constituição estejam se baseado no melhor interesse da sociedade, a partir das
evidências técnico-científicas e de recomendações de saúde de entidades
reconhecidas nacional e internacionalmente.

5. PEDIDOS

Por todo o exposto, o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL)


requer:
a) a concessão da medida cautelar, inaudita altera pars, e
preferencialmente a ser analisada monocraticamente ad referendum do
Plenário, face à evidência dos requisitos do fumus boni iuris e do
periculum in mora, previstos no art. 5º, §1º, da Lei n. 9.882/99, a fim
de que seja retomada a vacinação contra a Covid-19 na totalidade de
gestantes e puérperas, com e sem comorbidades, conforme Plano
Nacional de Operacionalização da Vacinação contra a Covid-19,
com imunizantes alternativos àquele da fabricante
AstraZeneca/Oxford/Fiocruz, em observância à recomendação
feita pela Agência de Vigilância Sanitária;
b) a notificação do Ministério da Saúde para que, querendo, como
órgão interessado, apresente manifestação;
c) a notificação da Exmo. Sr. Advogado-Geral da União para se
manifestar sobre a presente arguição, nos termos da exigência
constitucional do art. 103, § 3º e art. 5º, § 2º, da Lei no 9.882/99;

30
d) a notificação do Exmo. Sr. Procurador-Geral da República para que
emita o seu parecer, nos termos do art. 103, § 1º da Constituição
Federal e art. 5º, § 2º, da Lei no 9.882/99;
e) ao final, a procedência do pedido de mérito para que seja
reconhecida a incompatibilidade do ato do Ministério da Saúde
previsto nas Notas Técnicas nº 627/2021-
GCPNI/DEIDT/SVS/MS e 651/2021-
CGPNI/DEIDT/SVS/MS, com a Constituição Federal de 1988, a
fim de se preservar os preceitos fundamentais previstos nos arts. 5º,
caput, art. 1º, III; art. 3º, IV; art. 6º, caput, e art. 196, caput, que
protegem a vida, a dignidade da pessoa humana, o direito à igualdade
de gênero, o direito à saúde e o direito à maternidade.

Nestes termos, pede deferimento.

Brasília, 19 de maio de 2021.

Nome Gabriela Rondon Rossi Louzada


OAB/XX OAB/DF 43.231

Amanda Luize Nunes Santos Luciana Alves Rosário


OAB/DF 65.652 OAB/DF 58.775

31

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