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Temas em Psicologia

ISSN: 1413-389X
comissaoeditorial@sbponline.org.br
Sociedade Brasileira de Psicologia
Brasil

Ristum, Marilena
A violência doméstica contra crianças e as implicações da escola
Temas em Psicologia, vol. 18, núm. 1, junio, 2010, pp. 231-242
Sociedade Brasileira de Psicologia
Ribeirão Preto, Brasil

Disponível em: http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=513751435019

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ISSN 1413-389X Temas em Psicologia - 2010, Vol. 18, no 1, 231 – 242

A violência doméstica contra crianças e as implicações


da escola
Marilena Ristum
Universidade Federal da Bahia

Resumo
Este artigo faz uma incursão pelas principais questões conceituais referentes à violência
doméstica contra a criança, mostrando que, embora haja certa concordância em termos dos
rótulos que especificam as diferentes modalidades dessa violência, as ações sob os rótulos dão
margem a diferentes interpretações. São abordados os danos da violência doméstica relatados na
literatura e que se constituem em importantes indícios que permitiriam, aos profissionais da
escola, identificar as violências de que seus alunos são vítimas no âmbito doméstico. Os direitos
da criança são colocados em evidência, ressaltando a distância entre os preceitos do ECA
(Estatuto da Criança e do Adolescente) e a atuação da escola. Finaliza-se defendendo a
necessidade de que a escola assuma um papel mais efetivo na defesa dos direitos da criança,
construindo estratégias eficazes de enfrentamento da violência doméstica.
Palavras-chave: Violência Doméstica Contra Crianças, Sinais/Indícios de Violência, Papel
da Escola.

Violence against children: School implications

Abstract
This paper does an incursion into the main conceptual questions referring to the topic of
violence against children, showing that, although there is some agreement about labels that
specify different types of this type of violence, these labels give margin to different
interpretations. The paper focuses on the violence hindrances reported by the literature,
encompassing important signs which could allow school professionals to identify the violence
involving students in their homes. The rights of the child are evidenced, emphasizing
inconsistencies between ECA´s regulations (Brazilian Child & Adolescent Act), and the
school’s performance. Finally, this paper sustains that the school needs to assume a more
effective role in defending child and adolescent’s rights, building efficient strategies to curb
violence child maltreatment.
Keywords: Violence Against Children, Signs of Violence, School Role.

Como uma construção histórica, social seus papéis e “naturaliza” a submissão de


e cultural, o conceito de família, como uma crianças e mulheres ao pai ou ao “homem da
instituição social, tem passado por casa”, tornando-se um ambiente facilitador
constantes mudanças. No Brasil, as recentes para o surgimento da violência masculina,
estatísticas mostram importantes evidenciada nas estatísticas que apontam
modificações na estrutura familiar, por crianças, adolescentes e mulheres como as
exemplo, o grande aumento das famílias principais vítimas da violência doméstica e
monoparentais chefiadas por mulheres intrafamiliar (Narvaz, 2005).
(IBGE, 2000). Apesar disso, ainda Contrariando as expectativas sociais em
predomina o modelo burguês, patriarcal e relação ao seu papel de apoio e de proteção,
nuclear, no qual a autoridade paterna marca a casa e a família têm se configurado como
as relações familiares (Borges, 2004). Nessa cenário de violência para inúmeras crianças
família, o processo de socialização e de e adolescentes. Práticas educativas violentas,
educação de seus membros estabelece os soluções violentas para os conflitos
232 Ristum, M.

familiares, uso indiscriminado de poder baseia-se no poder disciplinador do adulto e


físico, social ou psicológico, violências na desigualdade adulto-criança” (Brasil,
sexuais de diversos tipos, negligência ou 1993, p. 11).
abandono da criança, privando-a de Violência sexual: “todo ato ou jogo
condições necessárias ao seu sexual, relação hetero ou homossexual, entre
desenvolvimento, ainda permanecem um ou mais adultos e uma criança ou
fortemente presentes no cotidiano familiar, adolescente, tendo por finalidade estimular
embora já possamos presenciar avanços sexualmente esta criança ou adolescente ou
importantes, tanto na legislação como na utilizá-los para obter uma estimulação
responsabilização da sociedade para sexual sobre sua pessoa ou de outra pessoa”
empreender ações que possam mudar esse (Azevedo & Guerra, 1988 citado por Brasil,
cenário. 1993, p. 13).
Violência psicológica: “evidencia-se
como a interferência negativa do adulto
Algumas questões conceituais sobre a criança e sua competência social,
Ristum e Bastos (2004) afirmam que, conformando um padrão de comportamento
na literatura, a violência é conceituada de destrutivo” (Brasil, 1993, p. 13).
diferentes formas, não havendo critério Negligência: omissão da família “em
quanto às rotulações e classificações, ou, prover as necessidades físicas e emocionais
quando se utilizam critérios, estes são de uma criança ou adolescente. Configura-se
confusos, dificultando seu uso por outros no comportamento dos pais ou responsáveis
pesquisadores. Embora a definição de quando falham em alimentar, vestir
violência doméstica, em princípio, pareça adequadamente seus filhos, medicar, educar e
óbvia, trata-se de um conceito polissêmico evitar acidentes” (Brasil, 1993, p. 14).
que envolve controvérsias. A questão que Mesmo com essa maior especificidade
subjaz às divergências conceituais é que,
nas definições, ainda permanecem algumas
para dimensionar, compreender e prevenir a
questões, como as que se referem aos limites
violência, é importante verificar sua
entre o que é e o que não é violência,
prevalência e incidência, o que depende,
relacionadas aos valores culturais de
obviamente, do uso conceitual do fenômeno
educação doméstica de crianças, vistas como
sob investigação.
seres em formação que seriam propriedade
Apesar das dificuldades conceituais,
de seus pais, e que, para educá-las, haveria
são encontradas, na literatura, algumas
caracterizações que, mesmo sendo bastante necessidade de puni-las quando erram ou se
gerais, permitiriam estabelecer alguns insubordinam. Mas essas definições
contornos. A publicação do Ministério da propostas pelo Ministério da Saúde (Brasil,
Saúde (Brasil, 1993) considera a violência 1993) são as que têm sido utilizadas na
doméstica contra a criança e o adolescente maioria dos trabalhos, algumas vezes com
como "uma violência interpessoal e algumas alterações, como se verifica no
intersubjetiva", "um abuso do poder trabalho de Marques et al. (1994), no qual se
disciplinar e coercitivo dos pais ou acrescentou a modalidade de abandono,
responsáveis", "um processo que pode se caracterizando-o como ausência do
prolongar por meses e até anos" (Brasil, responsável pela criança/adolescente e
1993, p. 11). Buscando-se uma maior dividindo-o em parcial e total. Considerou-
delimitação, a violência doméstica foi se abandono parcial a privação de afeto e o
configurada em quatro modalidades: a) atendimento parcial às necessidades das
violência física; b) violência sexual; c) crianças. O abandono total implicaria no
violência psicológica; e d) negligência. Para afastamento do grupo familiar: crianças sem
se obter uma maior precisão, as quatro habitação, desamparadas e sujeitas a perigos.
categorias foram assim definidas: Embora os autores tenham julgado
Violência física: “corresponde ao uso necessário incluir o abandono como uma
de força física no relacionamento com a outra modalidade de violência, podemos
criança ou o adolescente por parte de seus considerar que a categoria negligência é
pais ou por quem exerce autoridade no suficiente para incluir o abandono; além
âmbito familiar. Esta relação de força disso, deve-se considerar a importância de se
Violência doméstica contra crianças 233

ter, na literatura, categorias que permitam a e sim de uma tentativa de agrupamento, de


comparação entre diferentes estudos. acordo com categorias sociais e ordenações
Koller e De Antoni (2004, p. 297) institucionais, dos fatos que são percebidos e
utilizam o rótulo violência intrafamiliar qualificados como violência pelos próprios
para abarcar "todas as formas de violência atores sociais que os sofrem, que os
(abuso sexual, físico e emocional, abandono executam ou que deles são testemunhas.
e negligência) e todas as configurações Nossos estudos sobre violência e,
familiares possíveis (entre pais e filhos, especialmente, sobre a relação entre
casal, irmãos e filhos para com pais)". violência e escola, têm nos conduzido, cada
Conforme afirmam Emery e Laumann- vez mais, à adoção da proposta de
Billings (1998), a questão subjacente ao Debarbieux, já que buscamos uma
problema da definição é que a conceituação compreensão da construção social da
de violência é inerentemente dirigida pelo violência. Assim, nossas pesquisas não
julgamento social, e não por padrões sociais delimitam ou definem o fenômeno a priori,
imutáveis ou pela ciência empírica, o que mas buscam compreendê-lo a partir das
torna difícil a obtenção de consenso. Além significações dadas pelos atores que
disso, as definições têm importantes e compõem o cotidiano da escola.
variadas implicações em função de Também a terminologia encontrada na
diferentes propósitos. Por exemplo, os literatura é diversificada. É frequente a
pesquisadores que estudam a extensão e a utilização dos termos doméstica e familiar,
natureza da violência doméstica têm, ao adjetivando a violência, como sinônimos.
propor definições, objetivos que diferem Mas violência doméstica pode ser distinta da
daqueles dos órgãos de proteção à criança, familiar, como ocorre na proposta de Araújo
cujos profissionais devem decidir como e de (2002), que adota as seguintes
que forma intervir nas famílias em que se denominações: violência doméstica
apresenta a violência. Segundo os autores, (perpetrada no âmbito doméstico em que
fica clara a necessidade de definições reside a vítima, envolvendo familiares ou
precisas em contextos específicos, porém não familiares); violência intrafamiliar (as
isso não elimina a necessidade de definições pessoas envolvidas pertencem à mesma
consensuais, tanto para dar suporte às família, mas não necessariamente moram
intervenções, quanto para traçar o quadro da sob o mesmo teto); e violência extrafamiliar
epidemiologia da violência. (em que os agressores não têm vínculo
Por outro lado, de acordo com familiar com a vítima, nem residem na
Debarbieux, mesma casa).
há um erro fundamental, idealista e Pode-se depreender, a partir dessas
ahistórico em acreditar que definir a denominações, que a violência doméstica se
violência, ou qualquer outro caracteriza pelo espaço de moradia em que
vocábulo, consista em se aproximar o convivem as pessoas, geralmente
mais possível de um conceito pertencentes à mesma família, mas não
absoluto de violência, de uma “idéia” exclusivamente. Por outro lado, a violência
da violência que, de fato, tornaria familiar envolveria exclusivamente pessoas
adequados a palavra e a coisa ligadas por laços familiares, consanguíneos
(Debarbieux, 2001, p. 164). ou não. Assim, como as violências
doméstica e intrafamiliar não são
Assim, para Debarbieux (2001), definir excludentes, a violência doméstica pode ou
violência é, antes de tudo, mostrar como ela é não ser familiar.
socialmente construída e isso se refere, sem
dúvida, a um sistema de normas sociais e de
pensamento. “É mostrar como seu campo Os danos da violência doméstica
semântico se amplia a ponto de se tornar uma
representação social central” (p. 164).
e familiar
Debarbieux (2001, p. 177) considera Um levantamento de 600 trabalhos
que a violência é, inicialmente, “o que eu sobre violência doméstica, feito por
considero como tal”. Não se trata, segundo Reichenheim, Hasselmann e Moraes (1999),
ele, de uma posição subjetivista e solipsista, mostrou que os principais determinantes e
234 Ristum, M.

fatores de risco abordados foram: fatores O trabalho de Cardia (1997, p. 32),


pessoais/psicológicos dos indivíduos realizado com alunos de três escolas
envolvidos; história de violência em públicas, mostrou que "crianças que
gerações anteriores ou em idades precoces; testemunham a violência dentro de casa, e
fatores ambientais e sócio-econômico- que são agredidas pelos pais, tendem a ser
culturais das famílias; características agressivas e a ter comportamentos anti-
situacionais presentes no momento da sociais fora de casa, principalmente na
violência. Nos trabalhos analisados, houve o escola".
predomínio de fatores pessoais e dos sócio- Essa autora acrescenta, ainda, que
econômico-culturais presentes no ambiente crianças que são vítimas de violência
mais próximo dos indivíduos que praticam a doméstica têm seu julgamento sobre o que é
violência. justo e sobre o que é violência afetado por
Na mesma direção desses trabalhos, sua experiência com esse tipo de violência,
estão os resultados da investigação feita com prejudicando suas relações interpessoais.
jovens infratores e não infratores, realizada Mostrou também que os alunos que têm
por Assis e Souza (1999), os quais mais dúvidas sobre sua capacidade de
mostraram que os principais fatores de risco autocontrole em situações de conflito ou
relacionados aos infratores foram: consumo disputa são filhos de pais que utilizam o
de drogas, círculo de amigos, tipos de lazer, bater como forma de disciplina.
autoestima, posição entre os irmãos, Os efeitos nocivos da violência familiar
princípios éticos, vínculo afetivo com a são agravados quando se acrescentam os
escola ou os professores e violência dos seguintes fatores: más condições
pais. As autoras destacam a importância do econômicas e habitacionais, desemprego,
tipo de amigos e sua relação com o tipo de alcoolismo, uso de drogas, etc.
lazer e com o uso de drogas; destacam, De acordo com Beland (1996), cada vez
também, a influência da violência doméstica mais as crianças experienciam conflitos e
severa no desencadeamento da delinquência. uso de drogas na família, diminuindo a sua
A identificação de rede de interligações aproximação com os pais e tendo a televisão
entre os fatores é outro resultado que como sua principal fonte de entretenimento
mereceu a atenção especial das autoras, e de valores; como consequência, elas
assim exemplificada: apresentam comportamentos impulsivos e
violentos em casa, na escola e na
(...) uma relação familiar conflituosa comunidade.
pode facilitar o envolvimento do No trabalho de Ristum (2001) sobre o
adolescente com o uso de drogas que, conceito de violência de professoras do
por sua vez, estimula a entrada para o ensino fundamental, essas professoras
mundo infracional e também a fizeram referência à forma como são
associação entre a violência na resolvidas as questões familiares como algo
comunidade, as condições econômicas que traz prejuízos ao desempenho do aluno
da família, o possuir parentes presos na escola. O caso relatado por uma
por envolvimento na criminalidade e a professora de escola pública envolve a mãe e
utilização de drogas (Assis & Souza, um menino de 12 anos:
1999, p. 142). Eu tenho um aluno que é acorrentado
A seguir, faremos referência a alguns em casa. Você veja como é que vai
estudos que focalizam, mais de perto, a ser o reflexo desse aluno na escola...
relação entre ambiente familiar violento e pra ele não fazer coisas erradas, que
cotidiano escolar. Ao se referirem a ele já deve ter feito, a mãe acorrenta,
diferentes manifestações de violência que, deixa ele acorrentado. Quando ele
de forma direta ou indireta, ocorrem nas vem pra escola, ele vem disposto a
tudo. É um menino que é aviãozinho,
escolas brasileiras, Lucinda, Nascimento e
é viciado em maconha, é viciado em
Candau (1999) citam a violência familiar
crack (Ristum, 2001, p. 179).
que, apesar de estar sempre localizada fora
da escola, interfere significativamente no Em trabalhos mais recentes sobre a
seu cotidiano. violência doméstica e a ação da escola
Violência doméstica contra crianças 235

(Ristum & Moura, 2006; Ristum & a escola é parte do problema e também é
Vasconcelos, 2007), os resultados indicam parte da solução, descreve um
que os profissionais da escola (diretores,
círculo vicioso perverso: a violência
coordenadores, professores e funcionários)
doméstica e do meio-ambiente
relatam efeitos da violência doméstica sobre
aumentam a probabilidade de fracasso
comportamentos disciplinares e acadêmicos
escolar e de delinqüência – a
dos alunos. Quanto ao aspecto disciplinar,
delinqüência aumenta a violência na
apontam comportamentos agressivos ou
escola e as chances de fracasso
violentos, desobediência, dificuldade de
escolar e ambas reduzem o vínculo
relacionamento, tendência a se isolar ou a
entre os jovens e a escola (Cardia,
ser muito agitado. Quanto ao aspecto
1997, p. 51).
acadêmico, relatam que a maioria possui
baixo rendimento, dificuldade de É interessante observar que a violência
aprendizagem, são desinteressados e passa por um processo acelerado de
dispersos e/ou desatentos. banalização. A constância com que ocorrem
Em um trabalho com escolares, Assis as violências, amplamente divulgadas pela
(1991) relata que os pais que brigavam e se mídia, acaba por torná-las integradas ao
agrediam apresentavam uma maior cotidiano, anulando a característica
probabilidade de agredir os filhos. Os filhos episódica desses acontecimentos. Assim, os
que mais apanhavam dos pais eram os que limites entre o que é ou não violência
mais batiam nos irmãos, parecendo ser, a tornam-se tênues, com a tendência a
violência física, nessas famílias, utilizada restringir cada vez mais o conceito,
como instrumento de poder e dominação. excluindo formas de violência consideradas
Decorre daí também uma normalização da aceitáveis no contexto atual, especialmente
violência, tanto pelos pais quanto pelos quando contrastadas com formas físicas
filhos, que não consideram apanhar dos pais mais danosas. A fala de uma professora de
escola pública deixou clara sua relutância
uma forma de violência; a violência acaba
em classificar, sob o rótulo de violência, as
por integrar a linguagem cotidiana dessas
desavenças que ocorrem entre os alunos. A
famílias. A fala de uma professora
esse respeito, expressou-se da seguinte
exemplifica, de forma contundente, a
forma:
aceitação da violência paterna pelos filhos:
Eu acho essa palavra violência tão
(...) comentam muito, e os meninos forte pra gente relatar um episódio de
protegem os pais. Outro dia, um aluno um menino no recreio, um tapa, uma
me disse que tinha apanhado com um palavra mais agressiva; eu acho que
facão e eu perguntei se ele achava violência é assim muito forte pra...
certo. Ele disse que sim, porque só porque eu acho assim, violência é
assim ele deixou de ir para a rua assim quando tem sangue, tiro, faca.
(Ristum, 2001, p. 64). Então eu acho que é assim mais
desentendimento, eu colocaria assim
Nessa mesma direção apontam os (Ristum, 2001, p. 63).
resultados do trabalho de Cardia (1997),
mostrando que a violência doméstica e a Nesse mesmo trabalho, a observação
violência no bairro contribuem para a em uma sala de aula de segunda série de
normalização da agressão física na escola, escola pública registrou uma conversa entre
tornando alunos e professores menos dois alunos, a respeito de castigos dados
sensíveis a ela. Nas entrevistas, os pela professora, a propósito de uma
professores relataram simples indisciplina cometida por um terceiro aluno.
demonstrações de agressividade e agitação, Um dizia que a professora deveria puxar as
enquanto o relato dos alunos se referia a não duas orelhas, ao que o outro contestou
saber brincar e discutir. Entretanto, vistas dizendo que ela deveria dar “bolos”1 na mão
sob o prisma dos pesquisadores, as mesmas do aluno. Esse diálogo mostra uma total
entrevistas revelaram vários tipos de
violência, nos níveis estrutural e das relações 1
Dar “bolos” na mão é o mesmo que dar tapas
interpessoais (Cardia, 1997). Afirmando que na mão.
236 Ristum, M.

aceitação, por parte desses alunos, da Beland (1996) nos remetem a estudos sobre
legitimidade do castigo físico praticado por resiliência que apontam, entre outros, o
professores em sala de aula. No caso dessas vínculo da criança com a escola como um
crianças, com idade em torno de nove anos, importante fator protetivo e de superação
a escola parece ser vista como extensão do das adversidades (Sapienza & Pedromônico,
ambiente doméstico, no qual se considera 2005; Pesce, Assis, Santos & Oliveira, 2004;
natural a prática de bater para educar. Gil & Diniz, 2006).
Assim, na escola, a professora assumiria
autoridade e poder semelhantes aos
exercidos pelos pais, respaldando o uso das O papel da escola
mesmas práticas disciplinares por eles No Brasil, o Estado mostra-se incapaz
empregada no âmbito doméstico. de controlar a violência, tanto no seu
É, também, comum observar enfrentamento direto, como de forma
professores assumindo a aceitação do uso de indireta, pela promoção de um crescimento
agressão física como prática educativa econômico com uma melhor distribuição de
adotada pelos pais em relação a seus filhos, renda, pela adoção de uma política de
como se evidencia no comentário de uma geração de emprego, pela garantia do acesso
professora participante da pesquisa de a serviços públicos de qualidade,
Almeida, Santos e Rossi (2006, p. 281) ressaltando-se, aí, saúde e educação, enfim,
"bater faz parte (sem agressão)". Em uma desenvolvendo uma política de melhoria na
escola particular, observou-se um episódio qualidade de vida da população, com uma
ocorrido no pátio da escola, no horário do base menos assistencialista e mais voltada à
recreio, em que uma professora, diante de promoção do protagonismo cidadão.
uma briga em que os alunos se agrediam Nessas condições, a desigualdade
fisicamente, disse: "Vocês estão vendo social, bastante marcante na sociedade
algum pai por aqui, para um estar batendo brasileira, é mantida, enquanto a
no outro?" (Ristum, 2001, p. 107). Essa possibilidade de mobilidade social é
frase contém uma clara mensagem da grandemente reduzida. A escola, antes
professora para seus alunos, no sentido de depositária da esperança de escalada social,
que, se um deles fosse pai do outro, teria o cede cada vez mais espaço para formas
direito de bater. Episódios desse tipo acabam destrutivas de ascensão; o crime, diz
por constituir uma contribuição da escola, Pinheiro (1996), é um meio para a
por meio da explicitação conceitual impressa mobilidade social em uma sociedade
na prática cotidiana de seus professores, para desigual. Trata-se de uma sociedade na qual
a legitimação e banalização da violência o sucesso econômico, excessivamente
familiar. No entanto, parece difícil, para os exaltado, é a única trilha que conduz aos
professores, se dar conta do papel que direitos do cidadão (Minayo & Souza, 1999;
desempenham nesse processo. Cardia, 1997). Nesse sentido, a negligência
Também parece difícil que os do Estado para com as nossas escolas
professores se conscientizem de quão públicas denota o descaso para com a
importante pode ser o seu papel no sentido população que a frequenta, constituindo-se,
de prover condições de superação dos danos assim, em mais um indicativo da exclusão
da violência familiar. Vários estudos têm social a que está submetida essa importante
mostrado, conforme relatou Beland (1996), parcela da população.
que as crianças de alto risco que conseguem Segundo Cardia (1997), a literatura,
sobreviver e prosperar nas condições tanto nacional quanto internacional sobre
familiares adversas têm ligações com pelo violência, tem afirmado a impossibilidade de
menos um adulto significativo não se entender a violência isolada do tripé
pertencente a suas famílias. Com frequência, comunidade, família e escola. Crianças e
esses adultos são professores que, provendo adolescentes que vivem em locais em que a
uma base de amor e aceitação, podem ajudar violência é acentuada e o risco é constante
as crianças a desenvolver e utilizar estão sujeitas a um stress, cujos reflexos no
habilidades que constroem sua competência rendimento escolar são evidentes.
social, resultando em um aumento indireto Garbarino, Dubrow, Kostelny e Pardo
de sua autoestima. Essas considerações de (1992) referem-se a esse stress crônico
Violência doméstica contra crianças 237

como responsável por danos psicológicos do Adolescente (ECA), promulgado em


semelhantes aos vividos por crianças em julho de 1990, pela Lei Federal 8.069/90
zona de guerra. (Brasil, 1990). Esse estatuto garante à
Em um artigo sobre violência familiar população infanto-juvenil o respeito
contra a criança, Bastos (1995/1996) refere- enquanto pessoas em condição peculiar de
se a vários trabalhos que apontam a desenvolvimento.
importância da atuação junto à comunidade, O ECA regulamenta que
à família e à escola, tanto na prevenção
deixar o médico, professor, ou
quanto no apoio às crianças vitimadas.
responsável por estabelecimento de
Refere-se, ainda, ao crescimento, nos EUA,
atenção à saúde e de ensino
de programas de treinamento de educadores
fundamental, pré-escola ou creche,
para capacitá-los a identificar e utilizar
de comunicar à autoridade
recursos e desenvolver habilidades para
competente os casos de que tenha
trabalhar com as crianças, seus pais e
conhecimento, envolvendo suspeita
colegas. Esses programas, ao valorizar o
ou confirmação de maus-tratos contra
papel do professor e investir na sua
criança ou adolescente terá como
capacitação, concebem a escola como uma
pena o pagamento de uma multa de
instituição que detém um potencial
três a vinte salários mínimos de
promissor para a construção de estratégias
referência, aplicando-se o dobro em
de enfrentamento da violência.
caso de reincidência (ECA, Cap. II,
Uma posição mais pessimista é a artigo 245).
apresentada por Garbarino et al. (1992). Para
eles, o insucesso de muitos programas de Entretanto, deve-se considerar que,
intervenção precoce deve-se a pronunciados entre o preceito legal do ECA e a prática dos
problemas de base econômica, diversos profissionais que se deparam com
acrescentando que, na perspectiva ecológica, as evidências dos maus tratos, há ainda uma
as forças sociais que moldam a vida da distância a ser vencida, uma vez que nem
criança, desde o nascimento, tornam sempre os profissionais estão preparados
virtualmente impossível fazê-la emergir para assumir tais atribuições. Esse
incólume desse meio de alto risco. Afirmam distanciamento é evidenciado nos trabalhos
os autores que os problemas criados por de Brino e Williams (2003b), Almeida et al.
muitas famílias não podem ser resolvidos (2006) e Ristum e Vasconcelos (2007), cujos
por intervenções precoces, mas sim por resultados mostram tanto o desconhecimento
mudanças nos fatores básicos de dos preceitos do ECA quanto a quase
infraestrutura da sociedade. inexistência de ações de notificação de casos
Embora concordemos que essa posição que são identificados na escola.
tem o mérito de apontar para a importância O recrudescimento da violência, por
de políticas de melhor distribuição de renda outro lado, revela quão pouco
e de condições dignas de vida para a instrumentalizadas estão as instituições
população pobre, espera-se que afirmações sociais, dentre elas a escola, para
como a de Garbarino et al. (1992) não desenvolver estratégias eficazes de
sirvam para justificar o imobilismo e a enfrentamento, seja remediativa ou
omissão da escola frente à violência que preventivamente.
envolve crianças e adolescentes. De acordo com Azevedo (2005), um
obstáculo importante à prevenção da
violência é a precariedade de dados
Os direitos da criança e a ação da epidemiológicos que focalizam o problema,
o que dificulta enormemente o planejamento
escola
e o monitoramento das ações. A
No Brasil, na década de 1980, de subnotificação, especialmente no que se
acordo com Minayo (2002), surgem os refere à violência sexual, é bastante
primeiros diagnósticos de maus tratos e considerável e se constitui em um dos mais
propostas de intervenção que, importantes fatores que impedem a obtenção
posteriormente, contribuíram para o de índices mais fiéis à realidade. Apesar de
desenvolvimento do Estatuto da Criança e as estatísticas existentes representarem
238 Ristum, M.

apenas parte das ocorrências de violência A importância da escola no


sexual contra crianças e adolescentes no enfrentamento da violência doméstica e
Brasil, um estudo envolvendo 17 estados familiar fica ainda mais evidente quando se
computou 13.969 casos notificados entre considera que crianças e adolescentes têm
1996 e 2005 (Azevedo, 2005). contato diário e prolongado com ela e com
São relativamente recentes, no Brasil, os seus profissionais e quando se coloca que,
esforços para aumentar a comunicação e a em grande parte dos casos, ela se constitui
notificação da violência. As ações que vêm na única fonte de proteção, especialmente
sendo desenvolvidas vão desde o para as crianças e adolescentes que têm
esclarecimento e a orientação de profissionais familiares como agressores e não encontram,
de instituições que atendem vítimas de em outros membros da família, a confiança e
violência, até as questões legais aí o apoio necessários à revelação da violência.
envolvidas. Entretanto, os alvos principais Diante dessas considerações, concorda-
dessas ações têm sido as instituições de saúde se com Brino e Williams (2003) quando
e os profissionais que nelas atuam. As escolas referem que a escola pode e deve se colocar
raramente são lembradas como importantes como espaço ideal de revelação, suspeição,
instituições em que as identificações podem identificação e notificação da violência
ser feitas e de onde podem partir as sofrida por seus alunos. E é necessário ir
comunicações. De acordo com a literatura, além, posicionando-se como uma instituição
vários indícios nos comportamentos dos que, ao promover a cidadania, trabalha na
escolares podem ser denotadores da violência contramão da violência.
que sofrem. No entanto, trabalhos recentes No trabalho de Inoue e Ristum (2008)
mostram que os profissionais da escola têm foi possível verificar seis modos pelos quais
muito pouca informação a respeito da se deu a identificação da violência sexual
violência e das alterações que ela produz em pela escola: relato da vítima, presença de
suas vítimas e, dessa forma, não atentam para sinais físicos, faltas às aulas, alteração de
os indícios dados pelos alunos, não comportamento, comportamento sexual
inadequado e resposta a um questionário.
identificando, consequentemente, as
violências de que são vítimas no âmbito O relato verbal da violência foi o meio
doméstico ou da família. Acresce-se a isso o de identificação mais frequente, o que
fato de que desconhecem a legislação (ECA) contrasta com a afirmação de Williams
(2004) ao sugerir que, dentre as vítimas de
que os obriga à comunicação, mesmo que se
violência sexual, poucas relatariam a
trate apenas de suspeita e, ainda, o medo de
violência a outras pessoas, e, dentre estas,
se expor a consequências adversas que tal
uma parcela ainda menor relataria o fato às
comunicação pode acarretar, como as
autoridades.
retaliações por parte dos agressores (Ristum
Ainda quanto à questão dos indícios,
& Vasconcelos, 2007).
Vagostello, Oliveira, Silva, Donofrio e
Essas colocações estão evidenciadas Moreno (2003) consideram a importância de
nos resultados do trabalho de Inoue e Ristum observar o comportamento das crianças no
(2008) que focalizou a identificação, pelas ambiente escolar, uma vez que ele pode ser
escolas, da violência sexual sofrida pelos um indicador de que essa criança está sendo
seus alunos: dos 2522 casos analisados, vítima de violência doméstica ou
houve a participação da escola em apenas 22 intrafamiliar. Comportamentos como
casos, o que se agrava quando se considera ausência frequente, baixo rendimento, falta
que a grande maioria (73% do total) estava de atenção e de concentração, apatia e choro
na faixa etária de escolarização (até 18 devem chamar a atenção dos professores,
anos). Além disso, a identificação da diretores, coordenadores, enfim, dos
violência ocorreu, na maior parte das vezes, profissionais que trabalham na escola. Os
quando os indícios eram extremamente resultados de sua pesquisa com professores e
claros, como a presença de sinais físicos ou diretores de escolas públicas do ensino
o relato da vítima. Esses dados revelam que, fundamental mostraram como principais
quando a criança apresenta sinais mais sutis indícios utilizados para a identificação da
da sua vitimização, estes passam violência doméstica ou intrafamiliar: 1)
despercebidos pelos profissionais da escola. relato do aluno; 2) presença de marcas
Violência doméstica contra crianças 239

corporais; 3) alteração de comportamento do et al. (2006), é a que se encontra na grande


aluno; 4) faltas escolares; e 5) relato da maioria das escolas brasileiras. As
família, nessa ordem de frequência. estratégias resumem-se a encaminhamentos
Já no trabalho de Ristum e Moura no âmbito da própria instituição escolar,
(2006), os profissionais da escola (diretores, como mostraram os dados de Vagostello et
professores, funcionários e coordenadores) al. (2003), com a convocação dos pais para
relataram, preponderantemente, como orientação ou ameaça de denúncia, ou os
indícios, as marcas corporais, sendo dados de Almeida et al. (2006), com a ação
seguidas por comportamento retraído, dos professores na própria sala de aula ou
tendência ao isolamento, a serem arredios e encaminhamentos à orientação
comportamentos violentos ou agressivos. O psicopedagógica da escola. Os dados de
relato do aluno foi um indício pouco citado Ristum e Moura (2006) são semelhantes a
pelos entrevistados, divergindo, assim, dos esses; mostram que as ações dos professores,
resultados de Vagostello et al. (2003) e se em sua grande maioria, se referiam a
aproximando dos de Brino e Williams conversas com os pais ou responsáveis. As
(2003) sobre violência sexual. outras ações, menos frequentes, foram
Em um estudo que focalizou as conversar com a criança-vítima, comunicar à
representações sociais de professores de direção da escola e ameaçar o agressor de
ensino fundamental sobre a violência denunciar o caso aos órgãos competentes.
intrafamiliar (Almeida et al., 2006), um dos Apesar de se reconhecer alguma tentativa de
resultados mais interessantes refere-se ação da escola no enfrentamento da
violência doméstica e intrafamiliar, trata-se
à conclusão de que a representação de uma ação bastante incipiente e, muitas
social da violência intrafamiliar vezes, equivocada, que não contribui
contra crianças e adolescentes, para efetivamente para a consolidação dos
grande parte dos participantes preceitos do ECA. É importante esclarecer
pesquisados, ainda passa pela que não cabe à escola o papel de investigar a
consideração do poder da autoridade veracidade das informações ou se realmente
que dá direito aos pais de educar os as suspeitas têm fundamento, nem de punir
filhos como melhor lhe convier os agressores, mas, para que os órgãos
(Almeida et al., 2006, p. 285). competentes cumpram esse papel, é
Assim, parece predominar a ideia de que necessário que haja a comunicação por parte
o fenômeno pertence à esfera familiar da escola. E, para isso, o requisito básico é
privada, ao tempo em que o naturaliza, como que os profissionais da escola prestem
mostraram algumas falas dos professores atenção aos seus alunos e aos indícios que
entrevistados: "bater faz parte (sem eles apresentam.
agressão)"; "devemos educar nossos filhos à Fica, portanto, evidente que, embora
nossa maneira" (Almeida et al., 2006, p. 281). haja uma identificação, ou pelo menos uma
As implicações dessa concepção são suspeita, que poderíamos dizer quase
claras: a escola e os professores não têm corriqueira da violência doméstica nas
direito de se imiscuir em assuntos que dizem instituições escolares brasileiras, a denúncia
respeito à esfera privada da família. ainda está longe de ser uma prática frequente.
Portanto, denunciar aos órgãos competentes Se comparadas às denúncias advindas de
não deve fazer parte das ações da escola outras instituições, a proporção das denúncias
diante da violência doméstica/familiar. Essa provenientes de escolas é ínfima, como
postura dos professores contraria afirmam Vagostello et al. (2003). Essas
frontalmente todos os avanços da legislação autoras levantam três hipóteses para explicar
na área (Ver ECA, 1990) e na promoção de a omissão das escolas quanto às denúncias.
estratégias efetivas de enfrentamento da São elas: 1) as escolas não identificam
violência doméstica, incluindo a denúncia situações de violência porque não
aos órgãos competentes. conseguem; 2) as escolas identificam tais
Apesar de a literatura disponibilizar situações, mas se omitem; e 3) as escolas
poucos dados sobre esse assunto, os identificam, mas tentam resolver no âmbito
trabalhos existentes têm apontado que essa da própria escola, sem notificar aos órgãos
realidade, retratada no trabalho de Almeida competentes. No trabalho de Ristum e Moura
240 Ristum, M.

(2006), as escolas pesquisadas, em sua grande de atuação visando o bem estar da


maioria, agem de acordo com a hipótese 3. criança/adolescente. Aqui, são de
Entretanto, é interessante ressaltar que muitos fundamental importância o conhecimento
foram os professores que relataram nunca ter dos indícios relatados pela literatura e a
identificado vítimas de violência legislação pertinente, especialmente o ECA.
doméstica/intrafamiliar entre seus alunos, o Assim, a expectativa é de que a escola
que pode indicar que a hipótese um é possa cada vez mais utilizar os
pertinente. conhecimentos produzidos pelos estudos que
Almeida et al. (2006) consideram que vêm sendo realizados sobre a violência para
os dados de seu trabalho apontam para a modificar o cenário, já que, numa
falta de uma discussão qualificada sobre a perspectiva gramsciana, ela é uma
violência intrafamiliar, no âmbito da instituição que traz, em si, as contradições
formação inicial e continuada dos sociais em cujas brechas podem brotar as
professores, e que essa falta os tem transformações de uma realidade.
conduzido, muitas vezes, a trilhar caminhos
equivocados no enfrentamento do problema.
Concordamos com os autores; nossos Referências
trabalhos têm apontado para essa mesma Almeida, S. F. C., SANTOS, M. C. A. B., &
direção, mas propomos que, além dos ROSSI, T. M. F. (2006). Representações
professores, sejam incluídos todos os outros Sociais de professores do ensino
profissionais da escola (diretores, fundamental sobre violência
coordenadores e funcionários, especialmente intrafamiliar. Psicologia: Teoria e
aqueles que lidam diretamente com os Pesquisa, 22(3), 277-286.
alunos). Araujo, M. F. (2002). Violência e abuso
Nossa proposta, portanto, é de um sexual na família. Psicologia em Estudo,
programa que vise conscientizar e 7(2), 3-11.
sensibilizar os profissionais da escola para a
Assis, S. G. (1991). Quando Crescer é um
gravidade da violência doméstica e que
Desafio Social: Estudo Sócio-
promova sua instrumentalização para
Epidemiológico sobre Violência em
desenvolver estratégias de redução e de
Escolares em Duque de Caxias.
prevenção da violência.
Dissertação de Mestrado, Escola
Ao nos referirmos à conscientização, Nacional de Saúde Pública, Rio de
queremos dizer que o conhecimento sobre o Janeiro.
que é a violência doméstica, sobre quais são
os fatores causais e quais os principais danos Assis, S. G., & Souza, E. R. (1999). Criando
por ela produzidos é um requisito essencial, Caim e Abel – Pensando a Prevenção da
tanto para a identificação, como para a Infração Juvenil. Ciência e Saúde
decisão sobre como agir diante de casos Coletiva, 4(1), 131-144.
identificados. Azevedo, M. A. (2005). A ponta do iceberg
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dos profissionais a respeito da importância violência doméstica contra crianças e
de estarem sempre atentos aos seus alunos, adolescentes. Disponível em:
observando que, muitas vezes, alterações na <http://www.usp.br/ip/laboratorios/lacri/i
sua maneira de agir, dificuldades de ceberg.htm>. Acesso em: 1 jun. 2005.
aprendizagem e de um bom convívio e
Bastos, A. C. S. (1995/1996). Intervenção
interação social podem indicar que estão
Frente a Problemas Decorrentes da
sofrendo violência no âmbito doméstico e/ou
Violência Contra a Criança no Contexto
familiar.
Familiar. Revista de Psicologia, 13(1/2),
E, finalmente, a instrumentalização da 14(1/2), 77-87.
escola diz respeito à orientação dos
profissionais sobre as ações a serem Beland, K. R. (1996). A Schoolwide
empreendidas tanto no processo de Approach to Violence Prevention. In R.
suspeição e/ou identificação dos casos de L. Hampton, P. Jenkins & T. P. Gullotta
violência doméstica, como de quais os (Orgs.). Preventing Violence in America.
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Violência doméstica contra crianças 241

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