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MEDICINA DO ADOLESCENTE – 3º BIM

AULA 6 – GRAVIDEZ E DROGAS


CASO CLÍNICO

O que chamou a atenção nesse caso? Comportamento da filha por usar bebidas, drogas; a
mãe ser condescendente; a negação depois do resultado do exame; a descoberta tardia; o atraso
menstrual; o sexo sem penetração; o corrimento apresentado pela menina.

1) Após o resultado do exame, qual deve ser a conduta do médico?


Encaminhar para o obstetra; explicar os perigos do contato íntimo sem preservativo; realizar o
pré-natal; mudanças de hábito com relação a álcool e drogas; conversar com pai da criança; dar
apoio; orientar a usar preservativo nas próximas relações, porém isso é mais válido após nascer o
bebê; explicar a importância do pré-natal para essa menina e para o RN; explicar que existe a
possibilidade de engravidar mesmo sendo virgem (basta um contato sexual para isso acontecer). O
mais importante é a gente procurar tranquilizar a paciente e a mãe para ela poder saber como
conversar com o pai. Uma forma que eu uso é falar para mãe: “Mãe, você recebeu uma notícia que
vai ser avó, um filho significa vida. Hoje é triste para você, mas dependendo da forma que vocês
conduzirem, deixando a responsabilidade para a menina criar o filho,estimular para que ela não pare
de estudar, vai ajudar. Ela precisa de muito apoio, mas também precisa de tranquilidade. Entre uma
vida ou se eu tivesse te dado resultado de uma doença grave, o que você preferia?”.Então devemos
orientar a família, não criticar essa menina, compreender que se aconteceu isso ou foi falta de
informação, provavelmente, ou por algum outro fator que está na história e que ela não dava muita
importância, como a irregularidade menstrual. A menstruação não veio e ela não deu importância,
afinal ela tinha uma irregularidade menstrual. Essa menina de repente não sabe nem quem é o pai.
Sempre que temos uma adolescente grávida, precisamos encaminhar para um serviço
especializado de obstetrícia. A gravidez na adolescência já é de risco, e isso será pior se ela não fizer o
pré-natal, não tiver cuidados de higiene satisfatórios, ou quando tem mais de um parceiro que é a
promiscuidade. Isso tudo será o obstetra que estará orientando. É preciso cuidar com os
medicamentos que usa, com a alimentação. As de classe alta não comem porque não querem
engordar para que a barriga não apareça. Já as de classe baixa não comem porque não tem o que
comer ou, quando tem, a melhor parte da comida é para a menina que está grávida. Quando a
alimentação não é suficiente, pode gerar anemia, baixo peso.

2) Como você analisa a conduta do médico?


Foi correta, ele tentou conversar com a mãe e a menina individualmente, porém ela negou e
mesmo assim, ele pediu os exames para investigar. Quando há uma situação dessas, você pede uma
ecografia imediatamente, porque se não é uma gravidez é um tumor. Para não ir contra ao que a
menina está falando, ao invés de pedir um beta HCG, eu peço uma ecografia. O beta HCG dá o
diagnóstico da gravidez e se não estiver grávida, pode dar alguma alteração que ajude a corrigir a
irregularidade menstrual. Existem meninas que têm uma borda do hímen bem delgada ou tem
menina que nem tem nada. Isso se chama de hímen complacente, então quando elas têm relação
sexual não acontece nada. Na borda do útero tem uma secreção que aumenta no período fértil e
essa secreção atrai o espermatozoide, o qual pode passar pela roupa, pois só plástico consegue
barrá-lo. Existe um tropismo que atrai, sendo que o espermatozoide corre a 300km horário. O hímen
tem orifício, só tem um que é totalmente fechado que é por malformação. Nesse caso, faz cirurgia
para abri-lo e passar a menstruação. Sempre tem um orifício, virgem ou não, a não ser que tenha
essa malformação. Então aqui o médico teve um atendimento condizente com o caso.

3) Quais seriam as causas que levam uma adolescente a engravidar?


Desestrutura familiar; falta de informação, às vezes até tem a informação necessária, mas há a
questão da fantasia no adolescente de que “comigo não acontece”; falta de conhecimento corporal,
elas geralmente não sabem quando menstruaram e assim não sabem o período fértil; estupro; uso de
drogas e álcool; influência familiar (mãe e irmãs que também já engravidaram na adolescência);
influência de grupo (amigas ficam estimulando a transar). Não existe na adolescência gravidez
indesejável, existe gravidez inoportuna, que aconteceu em um momento que não podia. A mulher
nasce para ser mãe, então inconscientemente, a menina deseja a gravidez. Isso porque,
principalmente nas de classe mais baixa, gera liberdade, independência, status.

4) Quais as consequências?
As consequências da gravidez na adolescência são problemas sociais, abandono da escola,
aumento dos conflitos, risco de vida da mãe e para o bebê, principalmente quando tem pré-
eclâmpsia. Elas fazem muita hipertensão, hemorragia, infecção por falta de higiene ou falta do uso de
camisinha. A hipertensão está muito relacionada com os conflitos e estresse e a hemorragia
relacionada com a hipertensão, então uma coisa desencadeia a outra.

5) Que outras informações seriam necessárias?


Investigar quanto de álcool ela usa; qual era a frequência daquelas brincadeiras sexuais;
questão da religião, porque nesse momento a primeira coisa que passa na cabeça da adolescente é
aborto. Dependendo dos padrões morais e religiosos, ela vai pensar muito em aborto. O trauma
depois na mãe é muito grande, por isso, precisa pensar muito antes. Nós, como médicos, precisamos
levantar a seguinte questão: você está falando em aborto, mas não pensou em outras opções?
Entregar para adoção ou criar a criança.A decisão de abortar é da adolescente e do pai da criança.

6) Como deve ser a abordagem?


Orientação para mudança no estilo de vida, uso de preservativos, investigar doenças
associadas.

7) O que aconteceu com Julia?


Ocorreu entrada de esperma na vagina de Julia, mesmo que tenha tido sexo sem penetração.

8) A mãe de Julia quer que a filha faça aborto? Qual a conduta adequada? Em que situação é
permitido o aborto?
No caso da adolescência, o aborto é permitido em caso de estupro. As normas são: fazer
Boletim de Ocorrência, saber o tempo de gravidez (ecografia), Termo de Consentimento da paciente
e do responsável. Não precisa esperar o processo do juiz, porque demora muito. Se ela está com
medo ou foi ameaçada, entra na questão dos maus tratos e as condutas nessas situações é orientar a
fazer o BO, pedir proteção no Conselho Tutelar e denunciar quem fez o abuso ou está ameaçando.
Pode fazer aborto até 20-22 semanas. Nesse caso, não estou falando de malformação, gravidez de
risco, mesmo porque na adolescência sempre é de risco.

GRAVIDEZ, DROGAS E CONSEQUÊNCIAS

O uso de drogas é um problema de saúde pública, envolve um comprometimento do binômio


mãe e filho.
• Poucos estudos epidemiológicos relacionando gravidez com drogas
• Poucas modificações no comportamento das gestantes
• Diagnóstico na anamnese
• Atuam diretamente sobre o feto, causando lesões, desenvolvimento anormal e morte

Consequências: defeitos congênitos, alterações perceptíveis mais tarde, déficit de crescimento,


alterações funcionais, aborto espontâneo.

Mecanismos que induzem às malformações: ação celular germinativa, produzindo mutação genética
ou ação celular somática, produzindo malformação somática.

Perfil da gestante adolescente: sem adequadas informações sobre os efeitos das drogas, saúde
deficiente (baixo peso, desnutrido, outras doenças), insatisfeitas com sua qualidade de vida, fácil
acesso às drogas, personalidade deficientemente integrada. Importante a consulta frequente no
ambulatório para sempre estar orientando (intervalo de no máximo 6 meses).
O uso da droga atravessa a membrana placentária, principalmente cocaína, álcool, sedativo e
hipnóticos. Atravessando essa membrana, vai diretamente, através da circulação umbilical,
comprometer esse feto. Primeira causa que vai ocorrer é atravessar a barreira hematoencefálica, vai
direto para o cérebro sem ser metabolizadas. São drogas que têm peso molecular baixo, lipolíticas e
não são metabolizadas pelo fígado.
Esse gráfico abaixo é geral e não só para cocaína.
COCAÍNA

Pós parto: RN irritáveis, trêmulos, difíceis de consolar, frágeis, hiperexcitáveis, dificuldade de manter
um padrão de vigília de forma suave e sequencial. É a crise de abstinência. A criança não come, não
dorme,nada do que faça resolve a angústia da criança. Aí faz medicação para poder tranquilizar a
criança e ter o seu desenvolvimento. A gestação já não era algo desejado pela mãe, aí com esse
quadro, a mãe se desespera cada vez mais e acaba voltando ao uso das drogas e abandona a criança.
ÁLCOOL
O álcool é um depressor do sistema nervoso central, é absorvido na corrente sanguínea
afetando todos os tecidos do corpo.
Mãe: abortamento espontâneo(30ml de álcool absoluto/dia já é suficiente para ter essas alterações),
alterações funcionais.
Feto: alterações faciais,anomalias do sistema nervoso central, déficit de crescimento, baixo peso ao
nascer, prematuridade,defeitos cardíacos e oculares, malformações das orelhas, hipoplasia das
unhas, hemangiomas, Síndrome Alcoólica Fetal (SAF), óbito fetal, sinais de privação no RN,
inquietude, irritabilidade,tremores, hipotonia (controle psicomotor não funciona), hiperatividade.

• 1 lata de cerveja 5%/17g- 1,5


• 1 copo de chope 5%/10g- 1
• 1 dose de aguardente 50%/25g -2,5
• 1 copo de vinho 12%/10g- 1
• 1 dose de destilados 40-50%/20-25g- 2-2,5

Síndrome Alcoólica Fetal


A SAF advém da combinação do beber materno excessivo com diversas modalidades de
fatores de risco. A SAF pertence a um conjunto de síndromes caracterizadas pela presença de
defeitos congênitos ocasionados pelo consumo materno de álcool em grandes quantidades durante a
gravidez. Sintomas específicos: retardo no crescimento pré e pós-natal,efeitos sobre o sistema
nervoso central, como o retardo mental desde quando nasce ou pode aparecer mais tarde, anomalias
de face. Pode ocorrer no menino a hipospádia(malformação congênita da uretra anterior, na qual o
meato urinário fica localizado ectopicamente, em situação ventral ao pênis).
TABACO

Gestantes: aborto espontâneo, sofrimento fetal agudo, trabalho de parto prematuro,descolamento


prematuro de placenta,placenta prévia, sangramento vaginal.
As complicações mais comuns: diminuição do peso fetal, retardo no crescimento fetal, icterícia
neonatal, anóxia, síndrome da angústia respiratória, malformação congênita, óbito fetal. O peso dos
recém-nascidos de mães fumantes tem uma redução de 150 a 250g, que variam de acordo como
número de cigarros consumidos.

MACONHA
Mecanismo: atravessa rapidamente a barreira placentária sem sofrer metabolização, ação na
vascularização fetal, determinando vasoconstrição, fluxo sanguíneo uterino diminuído, insuficiência
útero-placentária, hipoxemia e acidose fetal, malformações, malformações urogenitais,
cardiovasculares e do sistema nervoso central.
Feto: retardo no crescimento intra-uterino, baixo peso ao nascer, aumenta a incidência da
prematuridade.Diminui o crescimento neonatal e pós-natal (tremores, hiperreflexia, problemas de
sono).
Gestante: parto pré-termo, presença de mecônio, descolamento de placenta, elevação dos níveis de
monóxido de carbono no sangue em até cinco vezes os teores de carboxiemoglobina, devido à
permanência da maconha nas vias aéreas, maconha torna a oxigenação do feto mais lenta, aumento
da frequência cardíaca e a tensão sanguínea da gestante, retardando o fluxo placentário.
Se o pai usa droga, o espermatozoide pode sofrer mutações e esse espermatozoide anormal
pode trazer malformação para a criança também.A exposição ao chumbo, a certos tipos de pesticida,
uso de maconha, cigarro, grandes quantidades de álcool e radiação pode resultar na produção de
espermatozoides anormais. Fumaça do cigarro do pai pode ser prejudicial tanto para a mãe quanto
para o bebê. Feto sob ação de níveis de pesticida corre um risco maior de ter autismo, assim como o
uso de antidepressivos durante a gravidez pode dobrar o risco do filho desenvolver autismo.

AMAMENTAÇÃO
Ocorre passagem da droga para o leite, eliminação pelo lactente é lenta, tendo um acúmulo da
droga. Portanto, a amamentação é contra indicada devido à alta toxicidade.

TRATAMENTO
Com relação ao álcool, maconha,cocaína, barbitúricos, interna para poder tirar ele da abstinência.
• Fenobarbital 3 a 5 mg/kg/dia, dividido 6 /6 h. Para criança pequena a dose é a metade.
Para heroína, usamos Metadona - 4 a 6 gotas/dia de 4/4 h, até que se consiga tirar da crise.

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