A Cigarra e a Formiga Como a cigarra o seu gosto É levar a temporada De Junho, Julho e Agosto Numa cantiga pegada, De Inverno

também se come, E então rapa frio e fome! Um Inverno a infeliz Chega-se à formiga e diz: - Venho pedir-lhe o favor De me emprestar mantimento, Matar-me a necessidade; Que em chegando a novidade, Até faço um juramento, Pago-lhe seja o que for. Mas pergunta-lhe a formiga: "Pois que fez durante o Estio?" - Eu, cantar ao desafio. "Ah cantar? Pois, minha amiga, Quem leva o Estio a cantar, Leva o Inverno a dançar!" A Enjeitadinha — De que choras tu, anjinho? "Tenho fome e tenho frio!" — E só por este caminho Como a ave que caiu Ainda implume do ninho!... A tua mãe já não vive?

Em se ela anuviando. . Andei sempre assim perdida.. em a não vendo. A vida é ai que mal soa. e ingénua e pura como os anjos do céu (se o não sonharam.."Nunca a vi em minha vida.. Que tive mãe e..) quis mostrar-me que o bem bem pouco dura! Não sei se me voou. olhos fitos na qual até contava ir os degraus do túmulo descendo. A Vida é o dia de Hoje A vida é o dia de hoje. despontava ela apenas. despontava logo em minha alma a luz que ia perdendo. A vida é sombra que foge. se ma levaram. nem saiba eu nunca a minha desventura contar aos que inda em vida não choraram . E mãe por certo não tive!" — És mais feliz do que eu. já se me a luz de tudo anuviava.. morreu! A Vida Foi-se-me pouco a pouco amortecendo a luz que nesta vida me guiava.. Alma gémea da minha.

. A vida é sopro suave. A vida é estrela cadente.pena caída Da asa da ave ferida De vale em vale impelida A vida o vento levou! Avarento Puxando um avarento de um pataco para pagar a tampa de um buraco que tinha já nas abas do casaco. numa loja de tabaco. Uma após outra lançou. Mais leve que o pensamento. A vida leva-a o vento. Onda que o vento nos mares.A vida é nuvem que voa. A vida . revira-os fulo e dá com um macaco defronte. vê o céu opaco. Voa mais leve que a ave: Nuvem que o vento nos ares. levanta os olhos. A vida é folha que cai! A vida é flor na corrente. A vida é sonho tão leve Que se desfaz como a neve E como o fumo se esvai: A vida dura um momento.

por ele. que são mais baratos! Boas Noites Estava uma lavadeira a lavar numa ribeira Quando chega um caçador: .. que escusa tanga. e até a mim.Há casaco melhor que aquela pele? Trocava o meu casaco por aquele. já não sofre tratos a calçar as botas. Tinha razão quanto a mim. Quem não tem coração.Boas tardes.que lhe fazia muito mal ao caco! Diz ele então na força da paixão: . escusa langotim.. Não me fazeis o favor De me dizer se a brejeira Passou aqui a ribeira? . a comprar sapatos. Viva nas tocas como os nossos ratos e coma cocos.. Vá para os matos. caçador! . lavadeira! .Sumiu-se a perdigueira Ali naquela ladeira.. quem não tem alma de satisfazer as niquices da civilização homem não deve ser: seja saguim.Boas tardes.

É escusado.Olhai que. E tudo só por amor De ver uma lavadeira Lavar roupa na ribeira.. lavadeira! Aqui na minha algibeira Trago dobrado valor. lavadeira! ... dessa maneira.. .Boas noites. caçador! Dia de Anos Com que então caiu na asneira De fazer na quinta-feira Vinte e seis anos! Que tolo! ..Que importa.....Talvez que fosse melhor. Assim eu fora senhor De levar a vida inteira Só a ver o meu amor Lavar roupa na ribeira! . Perdereis a caçadeira. Ver coser a costureira! Vir de ladeira em ladeira Apanhar esta canseira. Que ainda é perda maior. Até um dia.Boas noites. senhor! . senhor...

Que faz o mesmo? Coitado! Não faça tal: porque os anos Que nos trazem? Desenganos Que fazem a gente velho: Faça outra coisa: que em suma Não fazer coisa nenhuma... não caia nessa! Olhe que a gente começa Às vezes por brincadeira. Agora o que vem. Como lhe tomou o gosto.Ainda se os desfizesse. Também lhe não aconselho. Mas anos. E fá-los queira ou não queira! Estrela .. aposto. Já não tem vontade sua. Mas fazê-los não parece De quem tem muito miolo! Não sei quem foi que me disse Que fez a mesma tolice Aqui o ano passado.. Mas depois se se habitua.

. onde a nossa alma descansa a sua última esperança. Antes nascesses mais cedo.. já se me a luz de tudo anuviava. estrela da madrugada! Foi-se-me Pouco a Pouco Amortecendo Foi-se-me pouco a pouco amortecendo. em a não vendo. Que até no céu mete medo ver essa estrela isolada. e ingénua e pura . a luz que nesta vida me guiava. Alma gémea da minha. estrela da madrugada.. Em se ela anuviando. despontava logo em minha alma a luz que ia perdendo.Estrela que me nasceste quando a vista mal te alcança nessa abóbada celeste.. despontava ela apenas.. olhos fitos na qual até contava ir os degraus do túmulo descendo. e não já noite cerrada.. Estrela que me nasceste quando a vista mal te alcança! Antes nascesses mais cedo.

. Não sei se me voou.). se ma levaram..como os anjos do céu (se o não sonharam. Escreve razão com s. quis mostrar-me que o bem bem pouco dura. E em lyra põe i latino! E como a gente diz ceia Escreve sempre ceiar. Nem saiba eu nunca a minha desventura contar aos que inda em vida não choraram. Grammatica Rudimentar Aquelle Manuel do Rego É rapaz de tanto tino Que em lirio põe sempre y grego. Assim como de passeia Tira o verbo passeiar! Nunca diz senão peior Não só por ser mais bonito. Mas porque achou num auctor Que deriva de sanskrito. E escreve Brasil com z: Assim elle nos quizesse Dizer a razão porquê! .

Também como diz . E o Vieira latinorio! Hymno de Amor Andava um dia Em pequenino Nos arredores De Nazareth. Eis senão quando Vê num silvado Andar piando Arrepiado E esvoaçando Um rouxinol..eu soube Julga que eu poude é correcto: Temo que a morte nos roube Rapazinho tão discreto! É um gramático o Rego! É um purista o finorio. O Deus-Menino. O bom-Jesus. Em companhia De San José. Se Camões fallava grego.. Que uma serpente De olhar de luz .

Corre apressado. Sae do caminho. Que commovia O coração! Jesus caminha No seu passeio. E penetrante Como diamante. Quebra o encanto. Uma cadencia. .Resplandecente Como a do sol. De uma alegria. Tinha encantado. Rompe n'um canto Tão requebrado. doído Do desgraçado Do passarinho. Ou antes pranto Tão soluçado. E de repente O pobrezinho. Tinha attrahido. Jesus. Uma expansão. Salvo e contente. Foge a serpente. Tão repassado De gratidão. E a avesinha Continuando No seu gorgeio Em quanto o via.

Que noite e dia N'uma palmeira. (Era já certo) Ella lá estava A pobre ave Cantando o hymno Terno e suave Do seu amor Ao Salvador! . Que redobrava De melodia! Assim foi indo E foi seguindo De tal maneira. Que havia perto D'onde morava Nosso Senhor Em pequenino. Não afrouxava Nem repetia.De vez em quando Lá lhe passava À dianteira E mal poisava.

. Diz o filho: "Oh minha mãe. Tornam os pobres à estrada. A taes palavras do guia Sentiu-se reanimar.. Mas saltam dois cães de gado. Passe de largo!" Então ceguinha e filhinho.. que todo o dia Tinha levado a anadar. Ali no vão de uma porta Passava-se a noite bem!" . . Com effeito a sentinela: . Que eram como dois leões: Tinha-os à porta o morgado Para o guardar dos ladrões. E aonde haviam de ir dar? Ao palácio da tapada Onde el-rei ia caçar. À ceguinha meia morta Torna o filho: "Oh minha mãe."Quem vem lá?.Se os cães deixarem.Miséria Era já noite cerrada. (diz ella. Debaixo d'aquella arcada Passava-se a noite bem!" A cega. A triste n'um riso amargo)..

Deitaram-se no caminho Até romper a manhã!. Pede à madre abadessa do convento O favor de lhe ver uma figura. Era a imitação escrupulosa De um menino em tamanho natural Que pertencia a soror Anna Rosa. Tido em conta de um belo original! A soro costumava. . por decência Tê-lo com uma tanga pequenina. jovem de talento Na arte do desenho e da pintura.. Omissão Uma noviça..Vendo a sua esperança vã. Que lhe encobria aquela saliência Que distingue o menino da menina.

Assim como no mais. Vê a madre abadessa a maravilha. naquela parte Pintasse apenas o que tinha à vista Que é o preceito e o primor da arte. braços e tudo. Pobre criança! Que pena! O colorido. pois. que perfeito! Mas confesso. Confesso com tristeza. que enormíssimo defeito!" Perdão Seria o beijo . de esperar que a nossa artista. que beleza! Pernas. E não se cansa de a louvar! Mas lança A vista atenta àquele ponto: "Ai....Mas uma tanga tão apropriada No tecido e na cor.. filha. Que enorme. que na verdade A gente olhava e não lhe via nada Que desmentisse a naturalidade. Era.. Que falta essencial!..

Beijar? que disse! (Que indiscrição. Se o cometi. Sim..) Perdão! perdão! . por amor De quem?... Se o conseguisse. flor Que a mulher basta Que seja casta. Fiz-te algum mal? Pois bem: perdoa! É tão suave Ao coração Mesmo o perdão De ofensa grave! Se o alcançasse. Unicamente? Não basta tal: Cumpre ser boa. de ti! Tu pensas. Quisera então Beijar-te a mão.. Mas esse excesso. confesso..Que te pedi. a razão (outra não vejo) Por que perdi Tanta afeição? Fiz mal. Beijar-te a face. Foi por paixão. Ser indulgente. Dize..

Nunca te posso ver.Sempre Nem te vejo por entre a gelosia. e todavia. Nunca no teu olhar o meu repousa. Eu não vejo outra cousa! .

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