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DIREITO PENAL I – PARTE GERAL

DA APLICAÇÃO DA LEI PENAL NO TEMPO

• A formação das leis compreende três fases sucessivas:


1. Fase introdutória – É a iniciativa deferida a qualquer membro do Poder Legislativo Federal (Câmara
ou Senado) e/ou ao Chefe do Poder Executivo de apresentar um projeto de lei, no caso aqui, um projeto de
lei penal. A iniciativa de uma lei penal, portanto, é comum ou concorrente).

2. Fase Constitutiva – Na fase constitutiva realiza-se a deliberação parlamentar (discussão e votação em


cada uma das casas legislativas) e a deliberação executiva (sanção ou veto).

3. Fase complementar/integratória de eficácia – Depois de sancionada, a lei deve ser promulgada e


publicada. A promulgação e a publicação integram a fase complementar do procedimento de formação das
leis. o A promulgação confere executoriedade (aptidão para ser aplicada) e autenticidade (certeza de
existência) à lei. o A publicação confere a obrigatoriedade da lei, tendo-se presunção absoluta de sua
notoriedade. A partir da publicação da lei ninguém mais poderá alegar ignorância da lei.

❑ Nem sempre porém a lei entra em vigor na data de sua publicação, sendo que o silêncio acerca do início
de vigência de uma lei, significa dizer que ela começará a vigorar em todo o País 45 dias depois de
publicada (LICC, art. 1º).

❑ O período de tempo existente entre a data da publicação da lei e a data de sua efetiva entrada em vigor é
chamado de VACATIO LEGIS.
▪ Assim sendo temos que a vacatio legis é o lapso temporal entre a publicação e a entrada em vigor da
lei. ▪ Durante este período a nova lei, embora já publicada, não se reveste de obrigatoriedade ▪ Importante
reiterar que o prazo de 45 pode ser ampliado ou reduzido, para tanto basta que a lei traga em seu bojo uma
cláusula expressa que especifique a data de sua efetiva entrada em vigor.
▪ A finalidade da vacatio legis é possibilitar que os destinatários da lei possam conhecê-la.

“É possívelaplicar lei penal antes de consumadasuavacância? Cremosque não. Um texto normativo não
inova o ordenamento jurídico antes de sua entrada em vigor. Durante a vacância (ou vacatio), não há lei
nova, mas apenas expectativa de lei. ESTEFAN (2020, PDF)

2. REVOGAÇÃO DA LEI PENAL.

❑ A lei permanece em vigor até que outra lei a revogue (princípio da continuidade das leis)
▪ A lei também nasce, e se nasce, pode morrer.

❑ A revogação é a perda de vigência da lei.


▪ A revogação total da lei chama-se ab-rogação
▪ A revogação parcial da lei chama-se derrogação.

❑ Uma lei só pode ser revogada por outra lei (costumes, por mais arraigados que sejam, não revogam lei,
assim como decisão judicial declarando a inconstitucionalidade, ainda que seja oriunda do STF, também
não revoga lei, apenas cancela sua eficácia, isto é, a lei continua em vigor, mas sem produzir efeitos).

❑ As leis temporárias e excepcionais trazem no próprio texto o término de sua vigência (art. 3º do CP). ▪
Neste caso ocorre a autorrevogação, com a cessação do tempo de duração da lei.

❑ A revogação da lei ainda pode ser:

▪ Revogação expressa: neste caso a nova lei indica em seu próprio texto os dispositivos legais

revogados.

▪ Revogação tácita: neste caso a nova lei apresenta-se como sendo incompatível com a lei anterior.

▪ Revogação global (por assimilação ou por inteira regulação da matéria): neste caso a nova lei regula
inteiramente a matéria regulada na lei anterior. Ex. supondo-se que o legislador publique um documento
designando-o de Código Penal do ano 2021, não é o caso de estabelecer comparação entre o Código Penal
de 1940 e o novo Código Penal de 2021 visto que a simples publicação deste Código Penal já estaria a
indicar a substituição, ainda que não houvesse dispositivo expresso com os dizeres canônicos “Revoga-se
o Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940”.

3. CONFLITOS DE LEI PENAL NO TEMPO.

❑ O direito intertemporal é o conjunto de princípios e de normas que solucionam os conflitos de leis no


tempo.
▪ As normas de aplicação da lei penal são destinadas a regular as situações de conflito que se colocam a
partir da sucessão de leis penais no tempo.
❑ Ocorre sucessão de leis quando uma nova lei entra em vigor ab-rogando ou derrogando a lei anterior.

“Em tais casos, é de suma importância estabelecer-sequal lei deverá reger o caso concreto, se aquela
vigente ao tempo de sua prática, ou se outra, já revogada ou que lhe é posterior. O fenômeno pelo qual
uma lei se aplica a fatos ocorridos durante sua vigência denomina-se atividade (teoria da atividade, art. 4º
do CP). Quando uma lei for aplicada fora do seu período de vigência, ter-se-á aextra-atividade”.
ESTEFAN (2020, PDF).
➢ A extra-atividade: Chamamos de extra-atividade a capacidade que tem a lei penal de se movimentar
no tempo regulando fatos ocorridos durante sua vigência, mesmo depois de ter sido revogada, ou de
retroagir no tempo, a fim de regular situações ocorridas anteriormente à sua vigência. Este fenômeno
subdivide-se em:

1.Retroatividade - é, a aplicação da lei penal a fatos ocorridos antes de sua entrada em vigor e;
2.Ultra-atividade – é a aplicação de uma lei penal depois de sua revogação.
Fonte: Estefan,
2020

4. Novatio legis in mellius e abolitio criminis


❑ Pode ocorrer retroatividade da lei penal mais benéfica (lex mitior) em duas hipóteses, quais seja: (1)
novatio legis in mellius e (2) abolitio criminis.

❑ Em outras palavras.
– A lei penal benéfica (lex mitior) se divide em: abolitio criminis e novatio legis in mellius, e como já
explanado anteriormente, ambas retroagirão e serão aplicadas a fatos ocorridos sob sua vigência quando
revogadas por leis mais gravosas, situação que ocorre, repita-se, por serem leis mais benéficas ao agente.

1. Abolitio criminis (art. 2º, caput, CP): Ocorre quando a nova lei torna atípico o fato incriminador. •
Ex. A lei revogadora do delito de sedução (estava previsto no art. 217 do CP e foi revogado pela Lei n.
11.106/05). Nesse caso, o agente não pode ser punido, devendo ser decretada a extinção da punibilidade,
se houver inquérito policial ou processo em andamento (CP, art. 107, III – a abolitio criminis tem
natureza jurídica de causa extintiva da punibilidade, ou seja, o Estado perde o direito de aplicar pena ou
medida de segurança.

• A abolitio criminis atinge apenas a execução e os efeitos penais da sentença condenatória (que passa a
ser considerada inexistente), porém subsistirão as consequências de natureza civil da sentença penal
condenatória, de modo que o réu continua obrigado a reparar danos causados pelo delito (CP, art. 91, I).

• Assim a sentença condenatória transitada em julgado continua valendo com título executivo na esfera
cívil (art. 515, VI, do CPC/15).

• Se o processo estiver no tribunal, o próprio tribunal, de ofício deve declarar a extinta a punibilidade. •
Caso já haja sentença transitada em julgado, a declaração de extinção da punibilidade caberá ao juízo da
execução penal (art. 66, I da LEP e Súmula 611 do STF).

2. Novatio legis in mellius (parágrafo único do art. 2º do CP): Ocorre quando a lei posterior,
mantendo a incriminação do fato, torna menos grave a situação do réu.

• Ex. Lei que comina ou cria uma pena menos rigorosa; lei que comina circunstâncias atenuantes; lei que
facilita a causas extintivas da antijuridicidade, culpabilidade, e punibilidade; lei que facilita a obtenção do
sursis (arts. 77 a 82 do CP) ou livramento condicional (arts. 83 a 90 do CP), lei que transforma o crime
em uma contravenção penal (Decreto-Lei 3.688/41).

• Ex. Lei n. 9.268/96 proibiu a conversão de pena de multa em prisão. Antes dela, quem não pagasse a
multa criminal poderia ser preso; depois dela, o inadimplemento de tal sanção acarreta, tão somente, o
ajuizamento de uma ação de execução, sob pena de penhora de bens. A Lei n. 9.714/98 ampliou o rol de
penas alternativas e passou a admitir a substituição da pena privativa de liberdade por tais penas a um
número maior de infrações penais.

• DIFERENÇA ENTRE ABOLITIO CRIMINIS E NOVATIO LEGIS IN MELLIUS

❑ Na abolitio criminis ocorre uma revogação, total ou parcial da lei penal anterior, provocando a
atipicidade da conduta incriminada.

❑ Na novatio legis em mellius, ao inverso o fato continua sendo típico, ocorrendo apenas a inclusão de
circunstâncias favoráveis ao sujeito.

5. PRINCÍPIO DA CONTINUIDADE NORMATIVA OU CONTINUIDADE NORMATIVO-TÍPICA

❑ De acordo com este princípio, revogada uma lei penal, a tipicidade persiste quando o mesmo fato
criminoso enquadrar-se noutra lei penal.

▪ Ex. O crime de rapto violento, que era previsto no art. 219 do CP, foi revogado expressamente pela lei
11.106/05, entretanto, o fato caracteriza crime de sequestro qualificado, por força do art. 148, §1º, V do
mesmo CP.

▪ A lei 12.015/09 revogou expressamente o crime de atentado violento ao pudor, que era tipificado no art.
214 do CP, mas o fato passou a ser crime de estupro, posto que a lei ampliou a redação do art. 213 do CP
para também considerar estupro o constrangimento com violência ou grave ameaça para sujeitar a vítima a
outros atos libidinosos, e não apenas conjunção carnal.

6. COMBINAÇÃO DE LEIS – lex tertia ou terceira lei.


❑ Pode ocorrer que as duas leis em conflito apresentem pontos favoráveis e prejudiciais ao réu.

“ A sucessiva edição de leis penais, contendo aspectos favoráveis e desfavoráveis, em cada uma, pode gerar
um conflito complexo e difícil de resolver. Por isso há quem defenda a combinação de leis, aplicando-se
parte de uma lei e parcela de outra, com o objetivo de favorecer, de qualquer modo, o réu. Ilustrando: a Lei 1
possui pena menor, mas a Lei 2, com pena maior, possui causa de diminuição da pena. Qual é a mais
favorável Norma? A combinação de leis seria aplicar a pena da Lei 1 eacausa de diminuição da Lei 2. “
NUCCI, (2019, p. 24).

❑ Divide-se a doutrina e a jurisprudência quanto à possibilidade de conjugar leis em benefício do réu, ou


seja, considerar parte de cada lei em conflito (conflito de lei penal no tempo) para aplicar uma solução em
concreto mais vantajosa.

▪ Nelson Hungria, Aníbal Bruno e Heleno Fragoso, entendem não ser possível a combinação de lei anterior e
lei posterior no sentido de extrair de cada uma delas as partes mais benignas ao réu, porque, nesse caso, o
juiz estaria legislando.

▪ Basileu Garcia, Damásio de Jesus, etc. admitem a combinação de leis, sob o argumento de que o juiz, ao
combinar as leis, não estaria criando lei nova, mas apenas efetuando uma integração normativa
perfeitamente possível de ser realizado pelo magistrado (CF/88, art. 5º, XL e CP, art. 2º)

“[...] dizer que o juiz esta fazendo nova lei, [...] é argumento sem consistência, pois o julgador, em
obediência a princípios constitucionais , [...] esta apenas movimentando-se dentro dos quadros legais para
um tarefa de integração perfeitamente legítima”. CAPEZ (2019, p. 114, Apud Marques, p. 256).

❑ Em 1992 o STF examinou a matéria e decidiu pela possibilidade de conjugação de leis para beneficiar
o réu (HC 69.033-5, Rel. Min. Marco Aurélio, DJU, 13 mar. 1992, p. 2.925)
❑ Em outubro de 2013, em matéria acerca do tráfico de drogas, o STJ vedou a combinação de leis ,
autorizando o juiz a aplicar na íntegra a nova lei ou a lei anterior.
❑ A questão versava no fato de que a pena mínima para o crime de tráfico de drogas, prevista na lei
anterior (Lei n. 6.368/76) era menor que aquela estipulada pela nova lei (Lei n. 11.343/06).

❑ Por outro lado, a lei nova (11.343/06) possui uma causa de redução da pena (art. 33, §4º) que não
existia na antiga lei (Lei n. 6.3.68/76).

❑ Desse modo, a combinação de leis para benefício do réu, consistia em aplicar a pena mínima da lei
antiga e a causa de diminuição da lei nova.

❑ A partir da discussão acerca da combinação ou não da lei de drogas em benefício do réu, o STJ,
publicou a Súmula 501, a qual diz:

“É cabível a aplicação retroativa da lei n. 11.343/2006, desde que o resultado da incidência das duas
disposições, na íntegra, seja mais favorávelaoréu doqueoadvindo daaplicação da Lei n. 6.368/76, sendo
vedadaacombinação de leis”.

7. “NOVATIO LEGIS” INCRIMINADORA & “NOVATIO LEGIS IN PEJUS”

❑ O princípio da anterioridade impede a retroatividade de lex gravior, afinal, o tempus regit actum (art. 4º
do CP..

1. Ocorre novatio legis incriminadora quando uma nova lei considera crime fato até então atípico. ▪ A
“neocriminalização” somente pode atingir situações futuras – eficácia futura. ▪ Novatio Legis
incriminadora: Ocorre Novatio Legis Incriminadora quando surge uma nova lei que vem a tornar crime
um fato anteriormente não incriminado pelo direito penal, ou seja, tornar como fato típico uma situação até
então não atípica (não tipificada em lei, e portanto não incriminadora).
▪ A lei nova que incrimine o praticante de fato que ao tempo da prática não era típico, não poderá ser
aplicada, pois é irretroativa. Ao tempo da prática, determinado fato não era considerado crime pelo
Direito.
▪ Depreende-se disso, portanto, que a conduta até então não era socialmente nem legalmente reprovável.

2. Ocorre a novatio legis in pejus, quando a nova lei agrava as consequências jurídico penais do fato
criminoso existente, sem criar um novo tipo penal incriminador.

▪ O Novatio Legis in Pejus é um fenômeno jurídico ligado à lei penal no tempo. A expressão em latim
refere-se a uma lei mais nova e mais grave do que a existente anteriormente. ▪ Esse fenômeno jurídico não
se aplica na esfera penal brasileira, visto que no artigo 5º, inciso XL da CF/88 está explícito: XL – a lei
penal não retroagirá, salvo para beneficiar o réu. ▪ Ou seja, a lei não pode retroagir e colocar o réu em
uma situação pior, mais rigorosa ou mais grave do que a que ele se encontrava antes do início de sua
vigência.

▪ Ex. agravação da pena ou medida de segurança; exclusão de circunstâncias atenuantes ou de causas de


diminuição de pena; inclusão de agravantes, causas de aumento de pena e qualificadoras; aumento de
requisitos para a obtenção de sursis (CP, Arts. 77 A 82) ou livramento condicional (CP, arts. 83 a 90);
aumento do prazo de prescrição (CP, arts. 109 a 118); imposição de regime para cumprimento de pena
mais gravoso, etc.

▪ Repita-se: Por força do princípio da irretroatividade consagrado na CF/88, no seu art. 5º, XL, a lex
gravior não tem força retroativa
• IMPORTANTE:
• O PRINCÍPIO DE QUE A LEI NÃO PODE RETROAGIR (IRRETROATIVIDADE DA
LEI PENAL), SALVO SE FOR PARA BENEFICIAR O RÉU, RESTRINGE-SE ÁS
NORMAS DE CÁRATER PENAL.

8. PRINCÍPIO DA EXTRA-ATIVIDADE
❑ A extra-atividade da lei penal constitui exceção à regra geral de aplicação da lei vigente à época dos
fatos. ❑ Art. 4 teoria da atividade

❑ Como corolário do princípio da legalidade, aplica-se, em regra, a lei penal vigente ao tempo da
realização do fato criminoso (tempus regit actum – art. 4º, CP).

❑ A lei penal, para produzir efeitos no caso concreto, deve ser editada antes da prática da conduta que
busca incriminar. Excepcionalmente, no entanto, será permitida a retroatividade da lei penal para
alcançar fatos passados, desde que benéfica ao réu.

❑ A essa possibilidade conferida à lei de movimentar-se no tempo (para beneficiar o réu) dá-se o nome
de extra atividade.

❑ A extra-atividade deve ser compreendida como gênero do qual são espécies:

a) a retroatividade, capacidade que a lei penal tem de ser aplicada a fatos praticados antes da sua
vigência, ou seja, é a possibilidade de a lei penal retroagir no tempo a fim de regular fatos ocorridos antes
da sua entrada em vigor.

b) a ultra-atividade, que representa a possibilidade de aplicação da lei penal mesmo após a sua revogação
ou cessação de efeitos, ou seja, ocorre quando a lei, mesmo revogada, continua a regular fatos ocorridos
durante a sua vigência.

➢ O fundamental é reconhecer qual a lei mais favorável ao infrator e estabelecer uma comparação: 1.
Quando a lei revogadora (nova lei) é mais benéfica, será retroativa;
2. Quando a lei revogada (lei velha que não existe mais) é mais benéfica, ela terá ultra-atividade, aplicando
se aos fatos cometidos durante sua vigência.

Ver.
BITENCOURT, Cezar Roberto. Tratado de Direito Penal: parte geral. Vol. 1. 25ª ed. rev. e atual. São
Paulo: Saraiva 2019: V.1. Cap. IX – Lei Penal no Tempo (VIRTUAL).

9. LEIS TEMPORÁRIAS E EXCEPCIONAIS (art. 3º CP):

❑ Lei temporária é aquela que têm a vigência definida no seu texto. Ela tem “prazo de validade”. Ex.
Artigo 36 da Lei n. 12.663/12 – Lei da Copa do Mundo de 2014.
• Art. 36. da Lei n. 12.663/12: Os tipos penais previstos neste Capítulo terão vigência até o dia 31 de
dezembro de 2014.

❑ Lei Excepcional é a que tem vigência durante um período excepcional (anormalidade). Ex. Durante um
período de secas, criminalizar o desperdício de água. Passado esse período, a conduta deixará de ser crime.

• Art. 3º do CP - A lei excepcional ou temporária, embora decorrido o período de sua duração ou cessadas
as circunstâncias que a determinaram, aplica-se ao fato praticado durante sua vigência.

❑ Ambas possuem duas características essencias:

❑ Ultratividade da leis temporárias ou excepcionais.


▪ O art. 3º prevê a regra da ultratividade das leis temporárias e das leis excepcionais, o que significa a
aplicação das mesmas aos fatos praticados sob sua vigência, mesmo que o julgamento ocorra após as leis
não mais existirem.

❑ A ultratividade das leis temporárias ou excepcionais não derroga o princípio da retroatividade da lex
mitior - lei mais suave (art. 5º, XL, CF), pois o princípio da lei penal mais benéfica diz respeito sobre o
conflito de leis penais no tempo, ou seja, aplica-se o princípio da lei penal mais benéfica (lex mitior ou lei
mais suave), na hipótese de duas ou mais leis sucessivas no tempo versarem sobre o mesmo fato.

❑ No caso das leis temporárias ou excepcionais, não existe duas leis em conflito, e neste sentido o
problema não esta relacionado com o direito intertemporal, mas com a tipicidade (o tipo penal deixou de
existir no CP, mas o fato foi cometido quando ele ainda existia)

❑ Importante dizer que aqui (na temporária ou excepcional) não temos um abolitio criminis a partir da
autorrevogação das leis, pois os fatos (que dão origem às respectivas leis) não foram revogados, e neste
sentido não há que se falar em abolitio criminis.
▪ A autorrevogação tem efeito ex-nunc (a partir de agora; a partir do presente).
10. TEMPO DO CRIME

❑ A análise do âmbito temporal de aplicação da lei penal necessita da fixação do momento em que se
considera o delito cometido.

❑ A determinação do tempo em que se reputa praticado o delito tem relevância jurídica não somente
para fixar a lei que o vai reger, mas também para fixar a imputabilidade do sujeito.

❑ Além disso, é preciso fixar o momento da prática do delito para efeitos da apreciação de seus
elementos subjetivos, circunstâncias, prescrição, anistia, etc.

❑ Há três teorias acerca do tempo do crime: da atividade, do resultado e mista.

• CP, Art. 4º - Considera-se praticado o crime no momento da ação ou omissão, ainda que outro seja o
momento do resultado. (tempus regit actum)

– Teoria da ação ou da atividade: o crime é considerado praticado no momento da ação ou da omissão,


ainda que outro momento seja o do resultado. Esta é a teoria adotada pelo Código Penal.

– Teoria do resultado: o crime é considerado praticado no momento da consumação (resultado).

– Teoria mista (ou da ubiquidade): o crime é considerado praticado tanto no momento da ação quanto
no do resultado.

Assim sendo temos que:


❑ A regra geral para o tempo do crime, e que se encontra no CP brasileiro, considera o tempo do crime o
momento da ação ou omissão, ainda que o resultado tenha se dado em momento diverso (art.4° do CP –
teoria da atividade).
▪ Como consequência, a imputabilidade do agente deve aferida no momento em que o crime é praticado,
pouco importando a data em que o resultado venha a ocorrer.

❑ A exceções é a extratividade da lei penal, ou seja, a possibilidade de aplicação de uma lei a fatos
ocorridos fora do âmbito de sua vigência.
▪ O fenômeno da extratividade, no campo penal, realiza-se em dois ângulos:

1. Retroatividade, que é a aplicação da lei penal benéfica a fato criminoso acontecido antes do período da
sua vigência (art. 5.º, XL, CF);

2. Ultratividade, que significa a aplicação da lei penal benéfica, já revogada, a fato jurídico, como a
sentença, ocorrido após o período da sua vigência.
“Porém, convém deixar bem claro que a data do cometimento do delito é a base e o limite inicial para a
aplicação da extra-atividade. Ilustrando: crime cometido em 20 de março de 2015; lei posterior a essa data
torna a pena mais branda (retroatividade da lei à data do crime); lei posterior a essa data torna a pena mais
severa (ultratividade da lei vigenteà data do crime para ser aplicada à data da sentença, por ser mais
favorável ao réu). O Código Penal brasileiro, no art. 2.º, faz referência somente à retroatividade, porque
está analisando a aplicação da lei penal sob o ponto de vista da data do fato criminoso. Assim, ou se aplica
o princípio-regra (tempus regit actum), se for o mais benéfico, ou se aplica a lei penal posterior, se for a
mais benigna (retroatividade). Não se pode olvidar, no entanto, que, quando um juiz vai aplicar uma lei já
revogada, no instante da sentença, por ser a mais benéfica e por ser a vigente à época do crime, está
materializando o fenômeno da ultratividade, vale dizer, está ressuscitando lei morta. Melhor teria sido o
Código mencionar, também, a ultratividade, como fez o Código Penalargentino: “Sea lei vigenteaotempo
de se cometer o delito for distinta daque existaao pronunciar seasentençaou em período
intermediário,aplicar-se-áa maisbenéfica”.” NUCCI, (2020, PDF).

▪ A teoria da atividade considera que o crime é praticado ao tempo da ação ou da omissão do agente.
▪ Ou seja, a infração penal ocorre quando o indivíduo pratica a conduta, seja ela omissiva (um não fazer)
ou comissiva (um fazer).
▪ Deste modo, adotada esta teoria no caso do homicídio, por exemplo, o crime terá ocorrido quando o
indivíduo efetua os disparos de arma de fogo em direção à vítima, e não quando a vítima efetivamente
vem a falecer.

❑ Veja como o Código Penal traz o assunto:


CP - art. 4º - Considera-se praticado o crime no momento da ação ou omissão, ainda que outro seja o
momento do resultado.

❑ Portanto, Tempo do Crime se refere ao momento em que foi praticado o crime (momento da ação ou
da omissão).

TEMPO DO CRIME NO CP TEORIA DA ATIVIDADEMOMENTO DA CONDUTA


OMISSIVA OU COMISSIVA.
Art. 4º CP
❑ Ex: Uma pessoa com apelido de “picanha” resolve matar um amigo que não o convidou para um
churrasco de fim de ano. ▪ Para isso, no dia 31 de Dezembro de 2018, momento em que a Lei A está vigente,
desfere três tiros na vítima. ▪ No entanto, o amigo é socorrido e fica internado.

▪ Em 15 de Janeiro de 2019, entra em vigor uma nova lei (Lei B) que aumenta a pena do crime de homicídio.
▪ Em 20 de Janeiro de 2019, a vítima acaba falecendo.
✓ Pergunta: Qual o tempo do crime?

11. TEMPO DO CRIME NAS INFRAÇOES PENAIS PERMANENTES E CONTINUADAS

▪ CRIME PERMANENTE é aquele em que a execução se protrai no tempo por determinação do


sujeito ativo. Ou seja, é a modalidade de crime em que a ofensa ao bem jurídico se dá de maneira
constante e cessa de acordo com a vontade do agente. Por exemplo, a extorsão mediante sequestro.

• A relevância prática de se constatar a permanência é estabelecer o início da contagem do prazo


prescricional, que só ocorre após a cessação da ofensa ao bem jurídico (artigo 111, inciso III, do Código
Penal), além da possibilidade, em qualquer momento, da prisão em flagrante.

▪ CRIME CONTINUADO é uma conduta criminosa caracterizada pela prática de dois ou mais crimes.
Acontece quando os crimes são relacionados e fazem parte de uma mesma intenção de praticar um
delito.

• Para que se caracterize um crime continuado é preciso que exista a continuidade delitiva. Também é
preciso que exista uma relação entre o primeiro crime e os demais. Ou seja, apesar de serem praticados
diversos crimes, considera-se como se todos os atos fossem o mesmo crime.

• Ex: o funcionário responsável pelo recebimento de pagamentos dos clientes de uma empresa tem o
hábito retirar para si parte dos pagamentos feitos. Nessa situação, o funcionário comete um crime a cada
retirada de dinheiro. Porém, como se trata de uma conduta contínua e com o mesmo objetivo - obter
dinheiro da empresa para si mesmo - a conduta do funcionário deve ser enquadrada como crime
continuado.
❑ Nos crimes permanentes ou continuados aplicar-se-á a lei posterior em vigor, desde que ainda perdure
a permanência ou a continuidade, mas resulta impunível a continuidade dos atos precedentes à entrada
em vigor da lei.
Súmula 711 do STF – novatio legis in pejus “A lei penal mais grave aplica-se ao crime continuado ou
ao crime permanente, se a sua vigência é anterior à cessação da continuidade ou da permanência”

.❑ Então, se uma pessoa recebeu droga em 2006, quando estava em vigor a Lei n. 6.368/76, e a
guardava para posterior comércio, quando foi descoberta em 2007, época em que a Lei n. 11.343/2006
estava em vigor, sujeitar-se-á às sanções mais severas da mesma legislação, já que se trata de crime
permanente, sendo que o momento consumativo se iniciou na vigência da lei antiga, mas perdurou até a
nova lei.

“Aplica-se a eles regra especial. No caso do crime permanente, aconsumação se prolonga no tempo. É
considerado tempo do crime todo o período em que se desenvolver a atividade delituosa. Ilustrando:
durante um sequestro, pode ocorrer de um menor de 18anos completar a maioridade, sendo
considerado imputável para todos os fins penais.
A mesma regra deve ser aplicada ao crime continuado, uma ficção jurídica idealizada para beneficiar o
réu, mas que é considerada uma unidade delitiva. Segundo Jair Leonardo Lopes, “é aplicável a lei do
momento em que cessou a continuação (...), pois é uma unidade jurídica incindível” (Curso de direito
penal, p. 104). Quanto ao tempo, no entanto, há quem sustente que, por ser um benefício ao réu, não se
deve aplicar a mesma regra do crime permanente. Ensina Delmanto: “Também a norma penal nova
mais grave só deverá ter incidência na série de crimes ocorridos durante sua vigênciae não naanterior”
(Código Penal comentado, p. 10).
No tocante à imputabilidade penal, é preciso ressalvar, no caso de crime continuado, que as condutas
praticadas pelo menor de 18 anos devem ficar fora da unidade delitiva estabelecida pelo crime
continuado. Sendo este mera ficção para beneficiar o acusado, não deve sobrepor-se a norma
constitucional, afinal, o art. 228 da Constituição preceitua serem “penalmente inimputáveis os menores
de dezoito anos”. Assim, caso o agente de quatro furtos, por exemplo, possua 17 anos, quando do
cometimento dos dois primeiros, e 18, por ocasião da prática dos dois últimos, apenas estes dois éque
servirão para formar o crime continuado. Despreza-se oque foi cometido em estado de
inimputabilidade.Fora dessa hipótese, que é excepcional, ao crime continuado devem ser aplicadas as
mesmas regras regentes do crime permanente,quanto ao tempo de delito.
É o teor da Súmula 711 do STF: “A lei penal mais grave aplica-se ao crime continuado ou ao crime
permanente, se asuavigênciaéanterior àcessação dacontinuidade ou da permanência”” NUCCI, (2020,
PDF)

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