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QUESTÕES DA MONITORIA: INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO DIREITO I

Prova única – PAE II (13/05/2021)

Prof. Dr. Daniel N. Pêcego


Guilherme Cundari (monitor)

1) Defina virtude e relacione este conceito com a chamada “Ética das virtudes”.

2) Associe a prudência legislativa e a prudência jurídica com a frase de Santo Agostinho


abaixo transcrita, evidenciando, no processo, a diferença entre ambas as prudências.

“A prudência é o conhecimento das coisas a serem buscadas e evitadas.”


(De diversis quaestionibus octaginta tribus, q. 61)

3) Relacione a noção de prudência legislativa com lei natural.

4) Analise e explique os dois conceitos sublinhados na definição de justiça por Ulpiano por
expressa remissão e associação com o fragmento abaixo selecionado de Santo Tomás.

“Justiça é a vontade constante e perpétua de dar a cada um o que é seu.”


(D. 1, 1, 10, pr.)

“Pois, consideramos justa uma ação nossa, quando corresponde, segundo uma certa
igualdade, a uma ação de outro; assim, a paga da recompensa devida por um serviço
prestado. Por onde, chama-se justo o ato que, por assim dizer, implica a retidão da
justiça, e no qual termina a atividade desta, mesmo sem considerarmos de que
modo ela é feita pelo agente. Ao passo que, nas outras virtudes, um ato não é
considerado reto senão levando-se em conta o modo por que o pratica o agente. E,
por isso, a justiça, especialmente e de preferência às outras virtudes, tem o seu
objeto em si mesmo determinado, e que é chamado justo. E este certamente é o
direito. Por onde, é manifesto que o direito é o objeto da justiça.”
(S. Th., IIa IIae, q. 57, a. 1)
5) Disserte sobre a possibilidade lógico-jurídica de existir direitos injustos e leis injustas.

6) Assinale a única alternativa que traduz um ato de justiça.


a) Assinar um contrato de compra e venda.
b) A condenação, pronunciada pelo juiz, ao pagamento de certa quantia por alguém
que, de fato, devia esta quantia.
c) O reconhecimento, por parte do devedor, de que realmente deve pagar a quantia a
que se obrigou.
d) O leilão judicial forçado do carro do fiador para a quitação dos alugueres vencidos.

7) Assinale com V ou F as afirmativas abaixo. Justifique a(s) falsa(s).


1. A justiça legal também pode ser chamada de justiça geral, porque se trata da
adequação da ordem geral dos fatos à ordem justa ordenada pela lei. (__)
2. A justiça comutativa também pode ser chamada de corretiva porque é aquela
própria da coação e do direito penal. (__)
3. A equidade só pode existir, enquanto formulação precisa, no caso concreto, e nunca
em abstrato. (__)
4. A justiça distributiva é modelada pela igualdade aritmética, já que visa distribuir os
direitos e encargos aos cidadãos de maneira rigorosamente igual e justa. (__)

8) Aponte e explique dois critérios de distinção formal entre direito e moral.

9) Identifique e explique qual das três teorias abaixo ilustradas melhor representa a Teoria
do Mínimo Ético.

Moral

Direito Moral Direito Moral Direito

Círculos concêntricos Círculos secantes Círculos independentes


10) Identifique e explique, na situação noticiada no vídeo abaixo, os três elementos da
Teoria Tridimensional de Miguel Reale.

https://www.youtube.com/watch?v=Ool3dYLC_JM

11) Analise o caso concreto proposto e responda, à luz de seus conhecimentos sobre os ramos
do direito (público e privado) e seus princípios correlatos, se a decisão de Mévio foi correta.

“Tício, que litiga contra Caio na 4ª Vara Cível da Comarca do Rio de Janeiro, em
virtude de um contrato de prestação de serviços inadimplido (troca das chaves da
porta de sua casa), em determinado momento do processo, apresenta ao juízo
pedido de tutela provisória fundamentada na imoralidade. Argumenta Tício, em
seu pedido, que a não prestação indevida dos serviços de Caio é uma conduta
moralmente reprovável, e que merece imediata resposta para se evitar sua
disseminação e popularização. Ainda, Tício alega que embora o Código de
Processo Civil penas preveja tutela provisória fundada na urgência ou na evidência
(art. 294), nada impede que seja movido pedido desta tutela fundada na
imoralidade, porque o Código não a proibiu expressamente e se tratava de uma
Vara Cível julgando um caso de Direito Civil, que é um direito privado, cujo
princípio norteador é a autonomia da vontade por incidir menos interesse público,
isto é: o que a lei não proíbe, está permitido. Mévio, o juiz da vara, indefere o
pedido de Tício.”

12) Encontre a alternativa que corretamente qualifica os sistemas jurídicos mencionados.


a) A família ou o sistema jurídico romano-germânico tem este nome porque é baseado
no direito consuetudinário dos povos germânicos bárbaros.
b) A família ou o sistema jurídico anglo-saxão também é chamado de common law
porque é o sistema jurídico que privilegia a lei (law).
c) O sistema da civil law é o ramo da common law que disciplina o Direito Civil.
d) Atualmente, é possível observar uma aproximação entre os sistemas romano-
germânico e o anglo-saxão.

13) Relacione o conceito de bilateralidade atributiva de Miguel Reale com a teoria moderna
do direito subjetivo.
14) Comente o argumento de que a norma jurídica é essencialmente um ato de poder. A
seguir, apresente a melhor solução para a descrição da natureza da norma jurídica.

15) Relacione a seguinte afirmação com as notas constitutivas (conformidade com a lei
natural, bem comum, adaptabilidade às circunstâncias locais e origem na autoridade
legítima) da norma jurídica:

“Uma norma irracional não é verdadeiramente uma norma, e portanto não deve ser
obedecida.”

16) Identifique e explique, no trecho abaixo transcrito, a qual elemento constitutivo da norma
jurídica positiva Aristóteles se refere.

“Visto que as palavras constituição e governo significam a mesma coisa, visto que
o governo é autoridade suprema nos Estados e que forçosamente esta autoridade
suprema deve repousar nas mãos de um só, ou de vários, ou de uma multidão,
segue-se que desde que um só, ou vários, ou a multidão usem da autoridade com
vistas ao interesse geral, a constituição é pura e sã, forçosamente; ao contrário se
se governa com vistas ao interesse particular, isto é, ao interesse de um só, ou de
vários, ou da multidão, a constituição é viciada e corrompida; porque de duas coisas
uma: é preciso declarar que os cidadãos não participam do interesse geral, ou dele
participam.”
(Pol., 1279a26-34)

17) Segundo a doutrina moderna do direito subjetivo, a norma jurídica positiva precisa ser:
a) Bilateral, geral, abstrata, imperativa e coativa.
b) Bilateral, geral, concreta, imperativa e coativa.
c) Bilateral, geral, abstrata, imperativa e sancionatória.
d) Bilateral, geral, abstrata, imperativa e regulatória.

18) Marque com “L” as alternativas que apresentam normas legislativas (lato sensu); e com
“J” as normas jurisprudenciais.
1. Decreto-lei nº 3.688/41. (__)
2. Lei Complementar nº 173/20. (__)
3. Súmula Vinculante nº 24. (__)
4. Portaria Interministerial nº 424/16. (__)

19) Marque com “P” a alternativa que apresenta uma lei perfeita; com “I”, a lei imperfeita;
com “+P” a lei mais que perfeita; e com “-P” a lei menos que perfeita.
1. Art. 145 CC: “São os negócios jurídicos anuláveis por dolo, quando este for a sua
causa.” (__)
2. Art. 1.641 CC: “É obrigatório o regime da separação de bens no casamento: I - das
pessoas que o contraírem com inobservância das causas suspensivas da celebração
do casamento.” (__)
3. Art. 940 CC: “Aquele que demandar por dívida já paga, no todo ou em parte, sem
ressalvar as quantias recebidas (...) ficará obrigado a pagar ao devedor (...) o dobro
do que houver cobrado (...)” (__)
4. Art. 814 CC: “As dívidas de jogo ou de aposta não obrigam a pagamento (...)” (__)

20) De que maneira a existência de uma pluralidade de fontes de direito não fere a unicidade
do ordenamento jurídico conforme proposta por Bobbio? Dê um exemplo e justifique.

21) Entre duas leis contraditórias, sendo uma de hierarquia superior, mas geral, e outra de
hierarquia inferior, mas específica, qual será a verdadeira norma aplicável?

22) Com base em seus conhecimentos sobre a Teoria do Ordenamento Jurídico, analise a
procedência do argumento de Caio no caso apresentado abaixo.

“Caio, brasileiro nato, conheceu Isabelle em Paris, com quem veio a se casar
em 2007. O regime de bens escolhido foi um criado pelas partes (situação
autorizada pelo art. 1.387 do Código Civil francês) em que se concordou que
todos os bens seriam separados à exceção dos ganhos patrimoniais envolvendo
a venda de livros (ambos eram livreiros autônomos). Desta data até 2020, ambos
foram domiciliados na capital francesa, quando após desgastes no
relacionamento Caio decidiu retornar sozinho ao Brasil, constituindo novo
domicílio no Rio de Janeiro. Sem perspectivas de ver seu casamento dando
certo, decide divorciar-se de sua esposa, e dá entrada ao pedido de divórcio no
Brasil. Durante o processo, Isabelle alega que os ganhos envolvendo livros
deveriam ser dela, porque a sociedade livreira de ambos estava apenas em seu
nome, e a propriedade dos equipamentos de edição era sua e anterior ao
casamento. Caio prontamente apresentou ao juízo seu contrato de casamento
francês contendo o regime de bens original, alegando que, na França, os
nubentes podem inventar seu próprio regime de bens, ao invés de escolher
alguma opção legal já pré-formulada. O juiz, ao final, deu razão a Isabelle,
porque Caio falhou em provar o direito francês apresentando alguma lei,
devidamente traduzida, que comprove o alegado. Em sede recursal, Caio
argumenta que a decisão deve ser revista em virtude do princípio que veda a
negação da jurisdição (art. 4º da LINDB).”

23) É possível uma lacuna imprópria ser, ao mesmo tempo, objetiva e voluntária? Justifique.

24) Encontre a única alternativa que representa um critério de autointegração para solução
de lacunas do ordenamento.
a) Aplicação de costumes praeter legem.
b) Analogia.
c) Aplicação de súmula vinculante.
d) Aplicação de costumes secundum legem.

25) Disserte sobre qual método hermenêutico foi utilizado na seguinte tese transcrita da Ação
Direta de Inconstitucionalidade por Omissão nº 26, que em 2019 criminalizou a homofobia.

“O conceito de racismo, compreendido em sua dimensão social, projeta-se para


além de aspectos estritamente biológicos ou fenotípicos, pois resulta, enquanto
manifestação de poder, de uma construção de índole histórico-cultural motivada
pelo objetivo de justificar a desigualdade e destinada ao controle ideológico, à
dominação política, à subjugação social e à negação da alteridade, da dignidade e
da humanidade daqueles que, por integrarem grupo vulnerável (LGBTI+) e por não
pertencerem ao estamento que detém posição de hegemonia em uma dada estrutura
social, são considerados estranhos e diferentes, degradados à condição de
marginais do ordenamento jurídico, expostos, em consequência de odiosa
inferiorização e de perversa estigmatização, a uma injusta e lesiva situação de
exclusão do sistema geral de proteção do direito.”
(STF - ADO: 26 DF 9996923-64.2013.1.00.0000, Relator: CELSO DE MELLO,
Data de Julgamento: 13/06/2019, Tribunal Pleno, Data de Publicação:
06/10/2020)