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Das cores do silêncio foi primeiro lugar do Prêmio

Arquivo Nacional de Pesquisa no ano de 1993 e foi


publicado pelo Arquivo Nacional em 1995, com uma
segunda edição em 1998. O livro lançou novo olhar
sobre a trama e o drama da Abolição e do Pós-Abo-
lição, tendo por foco as aspirações de liberdade da
última geração de africanos escravizados nas lavouras
cafeeiras do Sudeste e de seus descendentes diretos.
As fronteiras fluidas entre escravidão e liberdade, exa­
minadas quase ao microscópio no trabalho, iluminam
um processo específico de racialização pelo avesso,
associado às primeiras definições do cidadão brasi­
leiro como portador de direitos civis e políticos. Das
cores do silêncio foi pioneiro em destacar o silêncio na
documentação pública sobre as cores dos brasileiros
livres afrodescendentes, prevalecente desde meados
do século XIX. A nova edição vem acrescida de um
posfácio, que busca refletir sobre a atualidade do livro
para as discussões em curso hoje, no Brasil, sobre es­
quecimento, silêncio e memória da escravidão.

www.editora.unicamp.br
Das cores do silêncio
a
Universidade Estadual de Campinas

Reitor
Marcelo Knobel

Coordenadora Geral da Universidade


Teresa Dib Zambon Atvars

Fí D l T O R A

Conselho Editorial

Presidente
Márcia Abreu
Ana Carolina Moura Delfim Maciel - Euclides de Mesquita Neto
de
Márcio Barreto ~ Marcos Stefani
Maria Inês Petrucci Rosa - Osvaldo Novais de Oliveira Jr.
Rodrigo Lanna Franco da Silveira - Vera Nisaka Solferini
Hebe Mattos

Das cores do silêncio


OS SIGNIFICADOS DA LIBERDADE
NO SUDESTE ESCRAVISTA — BRASIL,
SÉCULO XIX

EDIÇÃO REVISTA

IE D I TO R C A M P
FICHA CATALOGRÁFICA ELABORADA PELO
SISTEMA DE BIBLIOTECAS DA UNICAMP
DIRETORIA DE TRATAMENTO DA INFORMAÇÃO

C2.79CI Hebe Mattos,


Das cores do silêncio: os significados da liberdade no Sudeste escravista (Brasil, século
XIX) / Hebe Mattos. - 3a ed. rcv. - Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2013.

1. Escravidão - Brasil, Sudeste - Séc. XIX. 2. Liberdade - Aspectos sociais. 3. Ra-


cismo - Brasil, Sudeste - Séc. XIX. I. Título.
CDD3OI.4493O9815
323.44
ISBN 978-85-268-IO29-7 301.45109815

índices para catálogo sistemático:

1. Escravidão - Brasil, Sudeste - Séc. XIX 301.449309815


2. Liberdade - Aspectos sociais 323-44
3. Racismo - Brasil, Sudeste - Séc. XIX 301.45109815

Copyright © by Hebe Mattos


Copyright © 2013 by Editora da Unicamp

1* edição, 1995 Arquivo Nacional


2a edição, 1995 Editora Nova Fronteira
2a reimpressão, 2020

As opiniões, hipóteses, conclusões e recomendações expressas


neste material são de responsabilidade do(s) autor(es) e não
necessariamente refletem a visão da Editora da Unicamp.

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A Sérgio e André
Agradecimentos

Primeiro lugar no Prêmio Arquivo Nacional de Pesquisa 1993, uma pri­


meira edição deste livro foi publicada pelo Arquivo Nacional, em 1995. Nun­
ca é demais ressaltar o papel desta iniciativa para trazer a público toda uma
geração de historiadores.
Ainda antes de concorrer ao Prêmio, uma primeira versão deste texto foi
defendida como tese de doutoramento em história na Universidade Federal
Fluminense. Agradeço à minha orientadora, Maria Yedda Linhares — ami­
ga e eterna mestra —, e as diversas sugestões da banca examinadora da tese,
formada pelos professores Ciro Cardoso, Angela de Castro Gomes, Stuart
Schwartz e Gilberto Velho.
Diversos colegas de ofício contribuíram para este livro com leituras e
discussões das primeiras versões de suas partes, durante o longo desenvolvi­
mento da pesquisa. Correndo o risco de pecar por omissão, não posso deixar
de citar, no antigo Laboratório de História Social das Américas da UFF, a
importante contribuição de Sheila de Castro Faria, João Luís Fragoso, Ana
Maria Lugão Rios, Manolo Florentino, Nancy Naro e Martha Abreu e, na
linha de pesquisa sobre escravidão e trabalho livre da Unicamp, as proveito­
sas discussões com Robert Slenes, Sidney Chalhoub e Silvia Lara. Slenes e
Chalhoub se associaram a mim no projeto de trazer a público esta terceira
edição, o que me deixou imensamente feliz.
Diversos alunos me auxiliaram no levantamento dos dados. Agradeço a
todos, mas especialmente a Keila Grinberg, Robson Martins e Ana Tereza
Pinto Lima, hoje meus colegas de ofício, sem os quais este livro não teria sido
Sumário

Apresentação........................................................................................................... 15

Introdução............................................................................................................... 27

PRIMEIRA PARTE
Uma experiência de liberdade

1 - Uma experiência de liberdade.................................................................... 39


2 - Um homem móvel......................................................................................... 49
3 - Laços de família.............................................................................................. 65
4 - A potência da propriedade......................................................................... 83
5 - A cor inexistente............................................................................................ 101

SEGUNDA PARTE
Sob 0 jugo do cativeiro

1 - Sob 0 jugo do cativeiro.................................................................................. 115


2 - Conflito e coesão na comunidade escrava.............................................. 131
3 - Uma relação perigosa................................................................................... 157
4 - Sobre o poder moral dos senhores.............................................................. 177

TERCEIRA PARTE
O fantasma da desordem

1 - O fantasma da desordem............................................................................. 211


2 - Os terríveis paulistas.................................................................................... 221
3 - A generosidade dos senhores....................................................................... 235
4 - Expectativas sobre a liberdade.................................................................. 245
5 - A frustração senhorial.................................................................................. 259
QUARTA PARTE
“Nós tudo hoje é cidadão”

1 ~ “Nós tudo hoje é cidadão”.......................................................................... 281


2 - Negro não há mais não? (I)....................................................................... 297
3 - Negro não há mais não? (II)..................................................................... 311
4 - Negro não há mais não? (III).................................................................... 325
5 - A outra história............................................................................................. 339

Conclusão.............................................................................................................. 359

Posfácio................................................................................................................... 365

Bibliografia........................................................................................................... 371
Gráficos

1 - Censo de 1872: população por cor e condição.................................................. 69


2 - Inventários: lavradores segundo o estado civil................................................. 69
3 - Inventários: lavradores segundo o número de filhos........................................ 70
4 - Campos: valor médio dos invent. segundo a idade do primeiro filho.......... 73
5 - Baixada: valor médio dos invent. segundo a idade do primeiro filho........... 74
6 - Inventários: Campos (acesso à terra)................................................................ 92
7 - Inventários: Baixada (acesso à terra).................................................................. 92
8 - Filhos adultos segundo o estado civil................................................................ 96
9 - Filhos adultos (homens).................................................................................... 96
10 - Filhos adultos (mulheres)................................................................................ 97
11 - Inventários: Campos (acesso ao escravo)......................................................... 102
12 - Inventários: Baixada (acesso ao escravo)......................................................... 103
13 - Processos: testemunhas livres segundo a profissão.......................................... 104
14 - Processos: testemunhas livres segundo a cor................................................... 105
15 - Ações de liberdade: número por período........................................................ 192
16 - Ações de liberdade: sentenças por período..................................................... 192
17 - Ações de liberdade: distribuição regional por período................................. 192
18 - Ações de liberdade: tipo de alegação por período........................................ 193
19 - Ações de liberdade: tipo de alegação por região (até 1831)........................... 193
20 - Ações de liberdade: tipo de alegação por região (1832-1850)........................ 193
21 - Ações de liberdade: alegações por região (1851-1870)..................................... 194
22 - Ações de liberdade: Sudeste............................................................................. 194
23 - Ações de liberdade: relações familiares nos libelos iniciais............................ 194
24 - Ações de liberdade: escravos segundo a origem............................................. 195
DAS CORES DO SILÊNCIO

25 - Ações de liberdade: escravos segundo o sexo.................................................. 195


26 - Freguesia de Cachoeiras do Muriaé: total dos registros
civis (1891-1901)........................................................................................................... 299
27 - Freguesia de Cachoeiras do Muriaé: óbitos (1891-1901)................................ 301
28 - Freguesia de Cachoeiras do Muriaé: residentes em fazendas nos
registros de óbitos..................................................................................................... 301
29 - Freguesia de Cachoeiras do Muriaé: profissões nos registros
de óbitos.................................................................................................................... 302
30 - Freguesia de Cachoeiras do Muriaé: cor nos registros de óbitos (%)........... 305
31 - Freguesia de Cachoeiras do Muriaé: cor nos registros de
nascimentos (%)....................................................................................................... 306
32 - Freguesia de Cachoeiras do Muriaé: profissão dos pais nos registros
de nascimentos (1)......................................................................................................306
33 - Freguesia de Cachoeiras do Muriaé: profissão dos pais nos registros
de nascimentos (2)..................................................................................................... 307
34 - Freguesia de Cachoeiras do Muriaé:
crianças negras nos registros de nascimentos......................................................... 307
35 - Freguesia de Cachoeiras do Muriaé:
crianças pardas nos registros de nascimentos.......................................................... 307
36 -Freguesia de Cachoeiras do Muriaé:
pais lavradores nos registros de nascimentos (1)......................................................308
37 Freguesia de Cachoeiras do Muriaé: pais lavradores nos registros de
nascimentos (2)...................... 308
38 - Freguesia de São Gonçalo: população por cor............................................... 312
39 - Freguesia de São Gonçalo: profissões nos registros de óbitos....................... 313
40 - Freguesia de São Gonçalo: local de residência nos registros
de óbitos.................................................................................................................... 314
41 - Freguesia de São Gonçalo: adultos em fazendas, por cor, nos
registros de óbitos..................................................................................................... 314
42 - Freguesia de São Gonçalo: crianças negras nos registros de
nascimentos............................................................................................................... 317
43 - Freguesia de São Gonçalo: crianças pardas nos registros de
nascimentos............................................................................................................... 318
44 - Freguesia de São Gonçalo: filhos de lavradores nos registros de
nascimentos (1).......................................................................................................... 318

12
GRÁFICOS

45 - Freguesia de São Gonçalo: filhos de lavradores nos registros de


nascimentos (2).......................................................................................................... 318
46 - Freguesia de São Gonçalo: profissão dos pais nos registros de
nascimentos (1).......................................................................................................... 319
47 - Freguesia de São Gonçalo: profissão dos pais nos registros de
nascimentos (2).......................................................................................................... 319
48 - Freguesia de São Gonçalo: óbitos de adultos por cor.................................... 322
49 - Freguesia de São Gonçalo: óbitos de crianças por cor................................... 322
50 - Freguesia de São Gonçalo: registros de nascimentos por cor........................ 323
51 - Freguesia de Santa Rita: população por cor (%)............................................. 329
52 - Freguesia de Santa Rita: população por condição e cor (%)......................... 330
53 - Freguesia de Santa Rita: registros de óbitos - profissões............................... 331
54 - Freguesia de Santa Rita: profissão dos pais nos registros de nascimentos... 331
55 - Freguesia de Santa Rita: crianças negras nos registros de nascimentos........ 332
56 - Freguesia de Santa Rita: crianças pardas nos registros de nascimentos....... 332
57 - Freguesia de Santa Rita: filhos de lavradores nos registros de
nascimentos (1).......................................................................................................... 333
58 - Freguesia de Santa Rita: filhos de lavradores nos registros de
nascimentos (2)......................................................................................................... 333
59 - Freguesia de Santa Rita: população por cor nos registros
de óbitos.................................................................................................................... 334
60 - Freguesia de Santa Rita: população por cor nos registros de
nascimentos............................................................................................................... 334

13
Apresentação

Robert Slenes

Inspirando-me na sinestesia do título, quero falar das cores do estrondo deste


livro, tese de doutorado de 1993, publicado originalmente em 1995. Pois obra
clássica é isto: um show de som e luz que define, com maestria, um certo ‘es­
tilo” — um modo de conceber e fazer as coisas — em oposição a outros, an­
teriores. Nos termos do historiador da ciência Thomas Kuhn, é aquele traba­
lho que contribui de forma enfática a estabelecer um novo “paradigma”
teórico-metodológico dentro de um determinado campo de estudo1.
Nas grandes interpretações a respeito da escravidão e do sistema escravista
no Brasil, anteriores à de Mattos, os escravos, libertos e livres pobres pratica­
mente não têm voz nem vez. Os senhores e aplantation escravista dominam
tudo. Nas obras de Gilberto Freyre (em especial, Casa grande e senzala, de
1933), o patriarcalismo ordena todas as linhas de solidariedade social em sen­
tido vertical, convergindo na moradia senhorial2. Nos trabalhos de Caio
Prado Júnior (1942) e, depois, da Escola Paulista de Sociologia (décadas de
1960 e 1970), o peso do escravismo e da exploração senhorial leva os grupos
subordinados à alienação ou à anomia, deixando-os incapacitados para qual­
quer ação política consequente3. N’O escravismo colonial, de Jacob Gorender
(1985), um olímpico raciocínio senhorial, alheio a pressões vindas de baixo, é
o que faz o sistema “girar”4.
Em oposição a esses estudos, Mattos afirma, com base em resultados em­
píricos novos e convincentes, que livres pobres e escravos tinham, de fato, uma
significativa autonomia de cultura e ação; portanto, há que levá-los em conta
se o objetivo é explicar o movimento da história. Algumas colocações da au­
tora no capítulo 3 (“Laços de família”), chamando a atenção à importância,
para esses grupos subordinados, de linhas de sociabilidade “horizontais”, podem
ser lidas como o ponto de partida do livro. No mundo dos livres,
DAS CORES DO SILÊNCIO

a maneira culturalmente esperada de um migrante integrar-se numa nova área não era
pedindo emprego ou acolhida a um potentado local, mas travando relações duradouras
com os que ali viviam, baseados em relações costumeiras. Do ponto de vista do homem
livre, a solidariedade vertical [com um grande senhor] era, assim, herdada de relações
horizontais anteriores, antes que escolhida.

Da mesma forma, “do ponto de vista de um escravo recém-comprado [...],


os caminhos para conseguir [...] um espaço mínimo de sociabilidade passavam
por integrar-se à comunidade já existente de cativos, antes que buscar uma
difícil e improvável aproximação com seu senhor”. O resultado de tudo isso é
que “a estrutura [da sociedade brasileira] quase ‘clânica’, como a chamou Oli­
veira Viana, ou patriarcal’, como preferia Gilberto Freyre, não pode ser enten­
dida [...] como uma mera extensão da família senhorial”5.
Como o trecho citado deixa claro, Das cores do silêncio procura enfocar as
relações sociais ao rés do chão. O leitor logo verá, no entanto, que o livro
também empreende um voo de muito alcance, visando entender a sociedade
que se estrutura a partir dessas relações miúdas numa região extensa, e o
movimento dela ao longo de quase um século. De onde vem essa vontade de
pensar grande a partir do pequeno ? Na introdução à primeira edição do livro,
como nesta, Mattos nos dá a resposta, assinalando sua dívida para com a
“micro-história” italiana, assim como descrita por um de seus expoentes, Gio-
vanni Levi. É uma dívida contraída no Programa de Pós-Graduação em
História da Universidade Federal Fluminense, onde ela se formou no mestra­
do e no doutorado. Na década de 1980, momento de grande expansão e
profissionalização da pesquisa histórica no Brasil, a UFF era uma das mais
importantes encruzilhadas de novos caminhos historiográficos, estrangeiros
e brasileiros6.
Na Europa e nos Estados Unidos, entre a década de 1950 e a de 1970, vozes
vindas das “margens” — num mundo de movimentos anticoloniais, antirra-
cistas, feministas e contra o capitalismo selvagem — contribuíram de forma
decisiva para aproximar a história e a antropologia e transformá-las em disci­
plinas eminentemente “êmicas”, isto é, disciplinas convencidas de que não se
podem fazer análises consequentes, especialmente de “estruturas” sociais, sem
resgatar a visão de mundo e as “razões” dos diversos grupos envolvidos. A
revolução de perspectiva se deu, na verdade, com relação especialmente a
pessoas despossuídas, antes frequentemente vistas como portadoras de pato­
logias sociais, e gente colocada de escanteio por preconceitos étnicos, de sexo,
ou de gênero.

16
APRESENTAÇÃO

Algumas figuras-chave do início do século e seus intérpretes posteriores


evocam a transformação. Penso em Antônio Gramsci, que incentivava seus
correligionários italianos de esquerda a respeitar os camponeses do Sul sub­
desenvolvido como possíveis interlocutores e aliados da classe operária indus­
trial. Para ele, a vivência dos camponeses, peculiar às condições específicas de
sua subordinação, lhes teria possibilitado interpretações da ideologia domi­
nante que, em muitos aspectos, minavam esta por dentro, mesmo quando
pareciam espelhá-la7. Na década de 1950, Eric Hobsbawm apresenta a seus
colegas, historiadores marxistas ligados (originalmente) ao Partido Comu­
nista na Inglaterra, entre eles E. P. Thompson, as idéias de Gramsci sobre a
hegemonia cultural dos grupos dominantes e as possibilidades para uma
práxis contra-hegemônica de gente a eles subordinada. Surpreendentemente,
como Henrique Espada Lima chamou a atenção recentemente, Hobsbawm,
em artigo de impacto numa revista italiana de 1960, também faz Gramsci (ou
uma certa interpretação de Gramsci) chegar ao grupo de historiadores que
posteriormente daria origem à micro-história, entre eles Cario Ginzburg8.
Já no outro lado do Atlântico, a perspectiva de Gramsci tem um impacto
notável na historiografia norte-americana sobre a escravidão, através do livro
Roll, Jordan, Roll (1974), de Eugene Genovese, que aprendera a dar ouvidos
aos subalternos (termo Gramsciano) em seu longo diálogo com militantes e
pesquisadores negros9.
Diálogo este que tem em sua base as obras de dois intelectuais afro-ame-
ricanos, contemporâneos de Gramsci, W. E. B. Du Bois, dos Estados Unidos,
e C. L. R. James, de Trinidad e Tobago10. A defesa desses autores-militantes
da capacidade de o escravo e o negro livre raciocinarem e agirem “politicamen­
te” de forma consequente finalmente é acolhida e celebrada pela academia
norte-americana em livros de impacto de John Blassingame (1972), Herbert
Gutman (1976), Eric Foner (1988 [1a ed., 1983] e 1989) e outros, além de Ge­
novese. Gutman e Foner também foram influenciados pelos historiadores
marxistas ingleses, especialmente E. P. Thompson. O livro deste sobre o “for­
mar-se” da classe operária inglesa (1987 [1963]) e seus artigos subsequentes a
respeito das tensões e dos conflitos sociais no campo inglês do Setecentos
(antes visto como área e época de paz social) tiveram grande impacto na Eu­
ropa e nos Estados Unidos11. Os ensaios de Thompson foram bem acolhidos
pelos micro-historiadores italianos, que, aliás, mantiveram contatos estreitos
com o círculo desse autor12.
No que diz respeito à antropologia, pesquisadores da “escola de Manches­
ter” (Max Gluckman e outros), em parte como resultado de sua experiência

17
DAS CORES DO SILÊNCIO

de pesquisa em Rhodésia do Norte (Zâmbia) sobre africanos deslocados de


suas aldeias de origem para o trabalho na mineração e na indústria, como
também por causa de seu diálogo com historiadores da época pré-moderna e
moderna da Europa (Hobsbawm, em particular), começam a privilegiar o
enfoque no conflito, não apenas no consenso13. J. Van Velsen, colega de
Gluckman, propõe, em artigo seminal de 1967, que o pesquisador de campo
se concentre em analisar as disputas em processos judiciais, para observar o
conflito entre normas e, dessa forma, captar as razões de mudanças no tempo14.
Na mesma época (1966), Cario Ginzburg, do grupo da micro-história, publi­
ca seu primeiro trabalho de fôlego sobre as razões e visões cosmológicas de
camponeses, baseado em processos da Inquisição, e advoga uma aproximação
da história com a antropologia15. Também no final dos anos 1960, Thompson
aponta para as possibilidades de uma convergência entre as disciplinas —
provavelmente, suspeito, pensando na antropologia de Manchester16.
A antropologia norte-americana dá uma virada semelhante. Relevante aqui,
para nossos propósitos, é o influente livro de Sidney Mintz e Richard Price,
The Birth ofAfro-American Culture (1976)17, que insiste — numa interven­
ção crucial nos debates sobre a formação da cultura escrava nos Estados Uni­
dos — na necessidade de captar os diálogos e as negociações entre os diversos
agentes sociais (especialmente dentro da senzala) no dia a dia de cada micro-
lugar estudado, com sensibilidade para mudanças no tempo. O trabalho de
Mintz e Price, que circulava em manuscrito desde 1973, já marca fortemente
o livro de Gutman de 1976 sobre a família escrava, o qual — polemizando com
a obra de Genovese — enfatiza a relativa autonomia da cultura cativa, forma­
da em oposição à cultura dos senhores ao longo das gerações e a partir de
raízes africanas. De certa forma, a tensão entre as interpretações dos dois au­
tores lembra a vacilação de Gramsci, que ora atribuía mais autonomia cultural,
ora menos, aos camponeses18. Importantes, também, são os trabalhos de “an­
tropologia simbólica” de Clifford Geertz. A “thick description”, proposta por
Geertz (“descrição espessa” — metáfora inusitada, remetendo a sopa, malser-
vida, pelo adjetivo “densa” na tradução brasileira), lembra o lema dos micro-
-historiadores: “Por que simplificar quando se pode tornar as coisas mais com­
plexas?”. “Por que se contentar com uma sopa rala, quando é possível preparar
uma espessa?” — ou seja, fazer uma descrição que capte as sutilezas dos inter­
câmbios humanos (as razões das “piscadelas”), sem as quais é impossível tirar
conclusões (e levantar voos teóricos) convincentes sobre as relações sociais19.
As obras de todos esses autores circulavam e eram intensamente debatidas
na UFF a partir do final da década de 1970. Entraram num ambiente intelectual

18
APRESENTAÇÃO

sofisticado, fortemente influenciado pela escola dos Annales e por uma histo­
riografia marxista renovada, em que os docentes já insistiam na necessidade
da pesquisa empírica em pequena escala, para poder pensar o movimento dos
grandes sistemas socioeconômicos. O empenho dos professores da UFF (so­
bretudo de Maria Yedda Leite Linhares e Ciro Cardoso) e de seus orientandos
em investigar a história da agricultura no Brasil e em mapear a vertente brasi­
leira do “modo de produção escravista-colonial” (entendido como conceito
heurístico, não como “gabarito” a ser imposto no material empírico) resultou
numa série de monografias locais Brasil afora. Entre elas estava a dissertação
de mestrado de Mattos, publicada em 1987 como Ao sul da história1®. Era um
dos primeiros trabalhos a demonstrar a ubiquidade das pequenas posses de
cativos e a importância da produção escravista (realizada substancialmente
por posses pequenas e medianas) para o mercado interno. Junto com outros
estudos da época, mostrando que até bem entrado o século XIX uma minoria
expressiva de unidades domésticas livres no Brasil detinha escravos (não pou­
cas delas, chefiadas por afrodescendentes), enterrava-se de vez a ideia de
um escravismo apenas orientado para a exportação, que em todo momento
colocava o homem livre pobre à margem da economia de mercado e quase sem
chance para a ascensão social.
O contexto político no Brasil dos anos 1980 também influenciou a recep­
ção na UFF das novas correntes externas. De um lado, o processo de redemo-
cratização, com o renascimento dos movimentos operários e o surgimento de
novos movimentos sociais, chamou a atenção à importância de estudar o
“protagonismo” político das pessoas no âmbito local, para entender mudan­
ças mais amplas; de outro, a própria história da ditadura militar, que inter­
rompeu movimentos de renovação social e política no Brasil dos anos 1960,
semelhantes àqueles que estimularam a bibliografia europeia e norte-ameri­
cana vista acima, sugeria que o historiador também tinha que dar atenção a
processos políticos e “estruturas” maiores. Creio que foi nesse contexto aca­
dêmico e político que Mattos optou pela micro-história italiana, que insistia
explicitamente na pesquisa em escala reduzida (seja, por exemplo, enfocando
uma fazenda só, ou uma rede específica de negociantes de escravos ligando a
África ao Brasil) como passo necessário para raciocinar sobre a história em
escala maior.
São raros, no entanto, os pesquisadores que têm imaginação e fôlego para
realizar tal empreitada. E instrutivo ver o método que Mattos utiliza para che­
gar a seu objetivo. Consiste, normalmente, na aplicação de dois métodos
distintos ao processamento da mesma fonte ou na pesquisa em duas ou mais

19
DAS CORES DO SILÊNCIO

fontes diferentes, que se complementam. Em ambos os casos, o contraponto


entre os métodos e as fontes acaba “potencializando” cada um, aumentando
muito o rendimento deles e permitindo o pulo entre escalas de análise.
Nos dois primeiros capítulos do livro, por exemplo, a fonte principal da
narrativa — processos de homicídio envolvendo réus escravos, apreciados pela
Corte de Apelação no Rio de Janeiro — é abordada por Mattos de duas ma­
neiras. De um lado, ela faz uma densa análise de diversas “histórias” contadas
por réus e testemunhas, que deixaria Ginzburg e Levi impressionados. De
outro, ela sistematiza os dados sobre as testemunhas em toda a amostra de
processos, para produzir um “recenseamento” (com dados sobre condição
social, livre ou escrava, e sobre idade, estado civil e profissão) das pessoas mais
próximas aos conflitos retratados naquela fonte — portanto, supõe-se, mais
próximas à vivência e ao trabalho dos réus c das vítimas —, o que enriquece
enormemente a análise qualitativa dos conflitos. Ainda nessa parte do livro,
a autora estuda sistematicamente inventáriospost mortem de pequenos senho­
res de escravos em duas regiões fluminenses, e ações de liberdade processadas
na Corte de Apelação, integrando esses resultados também à análise dos
processos de homicídio. O resultado dessa “triangulação” de perspectivas é
uma visão surpreendentemente viva e convincente do processo de formação
de laços sociais horizontais (especialmente familiares) por parte de escravos
e gente livre pobre, das estratégias de ascensão social dessas pessoas, das po­
líticas de domínio dos senhores e dos embates e das negociações entre estes
e os grupos subalternos. Nos dois últimos capítulos do livro, Mattos faz uma
triangulação semelhante, utilizando jornais locais no Vale do Paraíba, uma sé­
rie de artigos em jornal descrevendo em grande detalhe a organização do
trabalho no pós-Abolição em diversos municípios do Rio de Janeiro, e dados
locais do registro civil de nascimentos, entre outros materiais, para analisar
as estratégias de senhores e (ex-) escravos no período da emancipação e nos
anos 1890.
Mais do que uma história do “contraponto” entre senhores e subalternos,
no entanto, o livro é uma profunda reflexão sobre os significados — para estes
últimos — da liberdade e da cor da pele, ao longo do século XIX. Mattos
transforma em problema de pesquisa o quase silêncio sobre a cor das pessoas
em sua amostra de processos (com réus cativos) na Corte de Apelação, nas
últimas décadas do escravismo. (Acima de 90% das testemunhas livres nesses
documentos têm a cor designada entre a Independência e 1845, comparados
a algo em torno de 20% em 1856-1865 e 5% em 1866-1888.) Para ela, “a noção
de ‘cor’, herdada do período colonial, não designava, preferencialmente, ma­

20
APRESENTAÇÃO

tizes de pigmentação ou níveis diferentes de mestiçagem, mas buscava definir


lugares sociais”, com “preto” e “negro”, quando usados para pessoa livre, assi­
nalando alguém socialmente próximo ao cativeiro, e “pardo” indicando alguém
mais distanciado dessa condição. Desta perspectiva,

a cor inexistente, antes de significar apenas [um processo cultural de] branqueamento,
era um signo de cidadania na sociedade imperial, para a qual apenas a liberdade
era precondição. Que este princípio se efetivasse nas práticas judiciárias, a partir de
meados dos Oitocentos, para além de sua afirmação genérica na Constituição Imperial,
reflete uma transformação social que dele se apropriava, tornando efetiva aquela
disposição legal21.

Mattos percebe essa transformação, creio, como algo que acontece princi­
palmente devido a pressões vindas de baixo para cima. Trabalhos recentes de
Sidney Chalhoub sobre a precariedade da liberdade no século XIX, especial­
mente no período do tráfico ilegal de escravos, mas não se limitando a essas
décadas, reforçam essa ideia. Chalhoub chama a atenção à resistência popular,
frequentemente bem-sucedida, aos esforços do governo de implantar reformas
visando conhecer e fiscalizar melhor a população — reformas amiúde vistas
pelo povo como estratégias para ampliar o recrutamento de homens para a
Guarda Nacional e o Exército, ou até para (re) escravizar pessoas livres22. (A
esse respeito, lembro meu espanto, anos atrás, ao encontrar, no final do rela­
tório sobre os resultados do recenseamento da cidade do Rio de Janeiro em
1906, a foto da pilha de cinzas à qual os formulários domiciliares haviam sido
reduzidos — algo exigido, descobri depois, pelo próprio decreto que autori­
zara a contagem.) Enfim, mesmo que o rápido sumiço da cor nos processos
judiciais também tenha refletido ordens vindas de cima — pode-se imaginar
o conselheiro negro Antônio Rebouças agindo para eliminar a racialização da
sociedade brasileira, ou os oponentes políticos dele procurando apenas esca­
moteá-la —, o desfecho muito provavelmente foi o resultado de um processo
dialético, em que os cidadãos afrodescendentes desempenharam um protago-
nismo importante. De fato, a fina análise feita por Mattos de como as pessoas
comuns utilizavam a cor em seu discurso (como também em fontes mais “frias”,
como nos registros de batismo do final do século) leva à conclusão de que
havia um forte anseio por parte dos pretos e pardos livres por um país sem
distinções raciais. Junto a isso, percebe-se um processo de aproximação iden-
titária entre os dois grupos, que não parece ter existido nas primeiras décadas
do século XIX23.

21
DAS CORES DO SILÊNCIO

Ambos os fenômenos certamente têm a ver com a considerável piora da


situação socioeconômica dos afrodescendentes livres no Sudeste entre c. 1830
e a Abolição, no bojo da enorme expansão do tráfico de escravos até meados
do século e o concomitante crescimento da concentração de cativos nasp/zzw-
tations, que continuava até 1888. (Das cores do silêncio demonstra que o acesso
de gente subalterna a escravos e a terras se torna cada vez mais difícil no de­
correr do século, algo também constatado por estudos posteriores24.) A dete­
rioração se aprofunda no século XX. Dentro desse contexto, como escrevi em
outra ocasião a respeito do significado deste livro, “apesar (ou por causa) do
visível declínio” da condição dos negros livres e libertos no Brasil no século
XIX, os afrodescendentes “no período pós-Abolição, muitos ainda se lembran­
do de uma época em que sua situação no setor livre era mais favorável, pres­
sionavam ativamente pela criação de uma sociedade não racializada. Ao fazer
isso, antecipavam, e até certo ponto influenciaram, a formulação de Freyre em
1933, porém com suas próprias metas em mente”25. Enfim, o livro de Mattos
é profundamente antifreyriano. Retrata, não uma visão celebratória, de cima
para baixo, de um país desde sempre com vocação (portuguesa na origem)
pela igualdade e a convivência harmoniosa entre as raças, mas a reivindicação
popular pela construção efetiva de tal país — ou melhor, pela realização plena
da promessa encerrada na constituição de 1824 de uma cidadania sem distin­
ções raciais.
Ao fazer isso, Das cores do silêncio não apenas tromba com a obra de Freyre,
mas solapa suas bases, pois torna visíveis os tons de certas reticências em Casa
grande esenzala. Como somos historiadores e temos memória viva (chamamos
de “historiografia”), nossos paradigmas anteriores não caem num silêncio
cinzento, como tende a acontecer em disciplinas que não têm consciência
(reflexiva) de sua ciência. Ao contrário, eles até adquirem novos sons à luz das
cintilações de seus sucessores. Parece-me que é o caso de um trecho em nota
de rodapé, inserida por Freyre na edição de 1946 de Casa grande, quando ele
é iluminado pelo estrondo do livro de Mattos ou, mais amplamente, da nova
bibliografia sobre a escravidão. Reagindo ao debate travado entre os pesqui­
sadores norte-americanos Franklin Frazier e Melville Herskovits alguns anos
antes, depois de suas respectivas visitas à Bahia — o primeiro argumentando
que a família negra não dava continuidade a valores e práticas africanas, nem
no Brasil nem nos Estados Unidos, o segundo insistindo que dava, sim, nos
dois casos —, Freyre escreve: “Temos que reconhecer o fato de que desde os
dias coloniais vêm se mantendo no Brasil, e condicionando sua formação,
formas de organizações de famílias extrapatriarcais, extracatólicas [‘várias

22
APRESENTAÇÃO

delas [...] o resultado de influência africana’], que o sociólogo não tem, entre­
tanto, o direito de confundir com prostituição ou promiscuidade”26. A citação
é surpreendente, à primeira vista; mas um pouco de reflexão deixa claro que
está de acordo com argumentos desenvolvidos no próprio texto de Casa
Grande. Freyre sabia, no íntimo, que a família patriarcal não engolia tudo a
seu redor; senão ele não poderia ter falado tão perceptivamente sobre a in­
fluência da mucama na formação do filho do senhor, algo sintetizado na frase
“na ternura, na mímica excessiva, no catolicismo em que se deliciam nossos
sentidos, na música, no andar, na fala, no canto de ninar menino pequeno, em
tudo que é expressão sincera de vida, trazemos quase todos a marca da influên­
cia negra”27. O projeto nacionalista de Freyre (que contrastava a extrema
violência dos linchamentos de afrodescendentes nos Estados Unidos, presen­
ciada por ele de perto em 1919 e no início dos anos 1920, com a experiência
negra no Brasil)28 e também o classista (sintomaticamente, os movimentos
operários em Pernambuco no final dos anos 1920 o incomodavam)29 levaram-
-no a carregar nas cores com relação à hegemonia dos senhores, silenciando-se
quase a respeito da práxis contra-hegemônica dos subalternos. Mas ele sabia
dessa práxis, ou pelo menos intuía sua existência.

Notas

1 Thomas Kuhn, A estrutura das revoluções científicas. São Paulo, Perspectiva, 1975 [1962]. “Esti­
lo” e “paradigma” não são tão distantes quanto poderíam parecer. Para Kuhn, a atividade artís­
tica em certos períodos — por exemplo, a pintura “realista” após a descoberta das leis de pers­
pectiva — pode se aproximar à “ciência”, se esta for definida como uma atividade cujos
praticantes aceitam o mesmo “paradigma”, ou sistema de regras teórico-metodológicas para a
produção de trabalhos e para a avaliação de resultados.
2 Freyre, 1989-1990 [1a ed., 1933]. (Cito de forma abreviada os autores e as edições que estão na
bibliografia deste livro.)
3 Caio Prado Jr., Formação do Brasil contemporâneo. Colônia. 18a ed. São Paulo, Brasiliense, 1983
(1942). Escola Paulista: ver Florestan Fernandes, 1978 (1965), Fernando Henrique Cardoso,
1977 0902), Octávio lanni, 1978, Maria Sylvia de Carvalho Franco, 1974 (1969). Para uma
síntese, ver Fernando Henrique Cardoso, “Classes sociais e história: considerações metodoló­
gicas”, 1973, in Autoritarismo e democratização. 2a ed. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1975, pp. 104-15.
4 Jacob Gorender, 0 escravismo colonial. 4a ed., revista e ampliada. São Paulo, Ática, 1985. Lembro
aqui, com “girar”, a crítica de Thompson ao marxismo estruturalista do tipo althusseriano: E.
P. Thompson, A miséria da teoria, ou um planetário de erros — Uma crítica ao pensamento de
Althusser. Rio de Janeiro, Zahar, 1978.
5 Ver p. 77 nesta edição. A crítica aqui é também a Caio Prado Jr., que interpretava a intensa
migração interna no período colonial como reflexo da impossibilidade de o homem livre pobre

23
DAS CORES DO SILÊNCIO

se fixar na terra, em decorrência da sua marginalização econômica pelo sistema escravista.


Importante para construir uma visão alternativa (a de que a migração resultava de possibilida­
des abertas em fronteiras econômicas, inclusive para a produção para o mercado) é o livro da
colega de pós-graduação de Mattos, Sheila de Castro Faria: A Colônia em movimento — For­
tuna, efamília no cotidiano colonial. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1998, antes tese de douto­
rado na UFF.
6
Acompanhei de perto a efervescência intelectual da UFF no início da década; fui professor no
Curso de Pós-Graduação em História dessa universidade entre o segundo semestre de 1979 e o
final de 1983.
7
Sobre Gramsci, ver especialmcnte Kate Crehan, Gramsci, Culture andAnthropology. Berkeley,
University of Califórnia Press, 2002.
8
Hobsbawm, "Por lo studio delle classi subalterne”, Società 16 (1960). Ver Henrique Espada
Lima,/f micro-história italiana — Escalas, indícios esingularidades. Rio de Janeiro, Civilização
Brasileira, 2006, pp. 73-5, 174, 292. Gramsci também teve grande influência no grupo dos
“Subaltern Studies” da índia (pouco conhecido no Brasil antes da década de 1990), como o
nome dessa “escola” indica: ver Vinayak Chaturvcdi, “Introduction”, e David Arnold, “Gramsci
and Peasant Subalternity in índia”, in Vinayak Chaturvedi {coorAfMappingSubaltern Studies
and the Postcolonial. Londres, Verso, 2000, respectivamente, pp. vii-xix e 50-71.
9
Genovese, Roll, Jordan, Roll — The World the Slaves Made. Nova York, Pantheon Books/
Random House, 1974. Apenas a primeira metade do livro foi traduzida para o português (Geno­
vese, 1988). Sobre os interlocutores de Genovese, ver August Meier e Elliot Rudwick, Black
History and the Historical Profession, 1915-1980. Urbana, University of Illinois Press, 1986,
pp. 258-65.
10
W. E. B. Du Bois, Black Reconstruction — An Essay toward a History ofthe Part ivhich Black
Folk Played in the Attempt to Reconstruct Democracy in América, 1860-1880. Nova York, Har-
court, Brace and Company, 1935; C. L. R. James, Osjacobinos negros — Toussaint 1’Ouverture
e a revolução de São Domingos. São Paulo, Boitempo, 2000 [1938].
11
Muitos dos ensaios de Thompson não demoraram a tornar-se conhecidos no Brasil, através de
uma edição em espanhol: Thompson (1979). Ver, mais recentemente, a coletânea: E. P. Thomp­
son, Costumes em comum — Estudos sobre a culturalpopular tradicional. São Paulo, Companhia
das Letras, 1998 [1993].
12
Lima, A micro-história italiana, p. 174.
13
Richard Brown, “Anthropology and Colonial Ruic: Godfrey Wilson and the Rhodes-Livings-
ton Institute, Northern Rhodesia”, in Talai Asad (org.), Anthropology andthe ColonialEncoun-
ter. Londres, Irhaca Press, 1973, pp. 173-97; Eric Hobsbawm, Primitive Rebels — Studies in
Archaic Forms of Social Movements in the Nineteenth and Twentieth Centuries. Nova York,
Praeger, 1959, p. v. (O livro de Hobsbawm é uma ampliação de três palestras dadas na Univer­
sidade de Manchester em 1956, a convite de Gluckman.)
14
J. Van Velsen, “A análise situacional e o método de estudo de caso detalhado” (1967), in Bela
Feldman-Bianco (org.), Antropologia das sociedades contemporâneas — Métodos. São Paulo,
Global, 1987, pp. 345-74.
15
Cario Ginzburg, Os andarilhos do bem — Feitiçaria e cultos agrários nos séculos XVI e XVII. São
Paulo, Companhia das Letras, 1988 [1966].
16
Ver os ensaios em Thompson (1979,1998 [1993]), publicados originalmente a partir do final
dos anos 1960; também, E. P. Thompson, “Folclore, antropologia e história social” (1977),
Antonio Luigi Negro e Sérgio Silva (orgs.), As peculiaridades dos ingleses e outros artigos. Cam­
pinas, Editora da Unicamp, 2001, pp. 227-67.

24
APRESENTAÇÃO

17 Traduzido no Brasil a partir da 2a ed. norte-americana, de 1992: Sidney Mintz c Richard Price,
O nascimento da cultura afro-americana — Uma perspectiva antropológica. Rio de Janeiro,
Palias, 2003.
18
Kate Crehan, Gramsci', ver também Arnold, “Gramsci and Peasant Subaltcrnity”, in Chatur-
vedi (coord.), Mapping Subaltern Studies, p. 31.
19
Clifford Geertz, “Uma descrição densa: por uma teoria interpretativa da cultura”, in Geertz,
1978 (1973)-
20
O livro foi reeditado recentemente: Hebe Mattos, Ao Sul da história — Lavradores pobres na
crise do trabalho escravo, 2a ed. (Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 2009).
21
Ver p. 105 (gráfico 14) nesta edição, pp. 106-7.
22
Sidney Chalhoub, A força da escravidão — Ilegalidade e costume no Brasil oitocentista. São
Paulo, Companhia das Letras, 2012, especialmente caps. 1 e 9.
23
Mattos também trata das identidades de pretos e pardos no período colonial e início
do século XIX em seu livro Escravidão e cidadania no Brasil monárquico. Rio de Janeiro, Zahar,
2000.
24
Ver, especialmente, Zephyr L. Frank, Dutras World — Wealth andFamily in Nineteenth-Cen-
tury Rio deJaneiro. Albuquerque, University of New México Press, 2004.
25
Robert W. Slenes, “A ‘Great Arch’ Descending: Manumission Rates, Subaltern Social Mobility,
and the Identities of Enslaved, Freeborn and Freed Blacks in Southeastern Brazil, 1791-1888”,
in John Gledhill and Patience A. Schell (orgs.), New Approaches to Resistance in Brazil and
México. Durham, Duke University Press, 2012, pp. 100-18.
26
Freyre, Casa grande e senzala, edição crítica. Guillermo Giucci, Enrique Rodríguez Larreta e
Edson Nery da Fonseca (coords.). São Paulo, ALLCAXX, 2002 [1933], p. 91, capítulo 1, n. 55.
Freyre não menciona Herskovits, mas abona um artigo de René Ribeiro, que comenta o deba­
te entre Frazier e Herskovits e dá ganho de causa a este. A referência de Freyre a trabalhos de
Frazier, a seguir, como se concordassem com Ribeiro, parece ser um lapso.
27
Freyre, Casa grande e senzala, ed. crítica, p. 301. Com “todos”, Freyre quer dizer “todos os
brasileiros”, mas nas frases seguintes (“Da escrava ou sinhama que nos embalou” etc.) percebe-
-se que sua perspectiva é senhorial e masculina.
28
Ver Robert W. Slenes, “O horror, o horror: o contexto da formação de identidades mestiças no
Rio de Janeiro dos anos 1920”. Apresentação ao livro de Tiago de Melo Gomes, Um espelho no
palco — Identidades sociais e massificação da cultura no teatro de revista dos anos 1920. Campinas,
Editora da Unicamp, 2005. Coleção Virías Histórias.
29
Jeffrey Needell, “Identity, Race, Gender, and Modernity in the Origins of Gilberto Freyres
CEuvre”. The American HistoricalReview, 100:1 (fev., 1995)» PP- 62-3; ver, também, a nostalgia
de Freyre pelas relações entre senhor e escravo (no banguê) e seu repúdio daquelas entre patrão
e empregado na usina, em Casa grande e senzala, ed. Crítica, p. 29.

25
Introdução1

O Brasil conheceu mais de 300 anos de escravidão. Segundo o Recenseamento


Geral de 1872 —16 anos antes da abolição definitiva do cativeiro — habitavam,
nas três maiores províncias escravistas do então Império do Brasil, 819.798
escravos e 2.890.154 homens e mulheres livres. Destes, 41% eram descendentes
de africanos. Na Bahia, quarta província em número de escravos (onde o
impacto da escravidão era, sem dúvida, mais antigo), os descendentes de afri­
canos já somavam 68,53% da população livre2. À época da finalização desta
pesquisa, entretanto, os significados da liberdade eram um tema quase ausen­
te da historiografia brasileira, para além da conhecida associação com a ideia
de não trabalho. Talvez porque fosse então profunda a convicção no país de
que, fora de uma restrita elite, a liberdade não tinha significado algum.
O presente livro surgiu da suspeita de que exatamente o contrário era
verdadeiro. Suspeita formada a partir de pesquisa anterior, que tomava como
tema central os chamados “homens livres pobres”, do ponto de vista socioeco-
nômico, na segunda metade do século XIX3. Não são eles, entretanto, os
principais protagonistas desta história. Ela fala, em sua maior parte, de escra­
vos e libertos. Ao longo da pesquisa, explorar os significados da liberdade
mostrou-se fundamental para compreender a experiência dos últimos africanos
e seus descendentes escravizados no Brasil, bem como para explicar sua inter­
ferência no processo de abolição e nas novas relações sociais que então se en­
gendraram. Ao pensar a inserção de escravizados e libertos no processo abo­
licionista e no pós-Abolição, o livro abriu também novas perspectivas para
entender a sociedade brasileira contemporânea, as quais vão abordadas no
posfácio.
Os significados da liberdade estão, ainda, no título do livro, por sugerirem
uma segunda questão a motivar a realização da pesquisa: a influência das ações
e motivações humanas na história, seus limites e condicionamentos. O texto
DAS CORES DO SILÊNCIO

foi escrito, concomitantemente, como crítica ao voluntarismo e ao sentido


teleológico, quase natural, críticas que tendiam a polarizar as análises do pro­
cesso de abolição do cativeiro no país4.
A discussão, implícita no texto, entre liberdade e determinação na história,
procurou fugir das dicotomias que classicamente acompanham o tratamento
do tema. Não se quis optar entre uma abordagem que privilegiava o reconhe­
cimento de agentes históricos, individuais ou coletivos, e suas motivações e
responsabilidades racionais e conscientes, e outra que priorizava os fenômenos
coletivos e as tendências de longo prazo, a limitarem e condicionarem a his­
tória humana5. Tentei pensar de forma integrada e relacionada a ambas as
questões. Tarefa levada a cabo, procurando evitar esquematismos ou excessos
de simplificações, inspirada na experiência italiana da micro-história. À época
da primeira edição do livro, a citação abaixo, de Giovanni Levi, recém-publi-
cado no Brasil, me pareceu exprimir o que eu tentara alcançar ao longo da
pesquisa.

[O trabalho da micro-história] tem sempre se centralizado na busca de uma descri­


ção mais realista do comportamento humano, empregando um modelo de ação e
conflito do comportamento do homem no mundo que reconhece sua — relativa —
liberdade além, mas não fora, das limitações dos sistemas prescritivos e opressivos.
Assim, toda ação social é vista como resultado de uma constante negociação, mani­
pulação, escolhas e decisões do indivíduo, diante de uma realidade normativa que,
embora difusa, não obstante oferece muitas possibilidades de interpretações e liberda­
des pessoais. A questão é, portanto, como definir as margens — por mais estreitas que
possam ser — da liberdade garantida a um indivíduo pelas brechas dos sistemas nor­
mativos que o governam. Em outras palavras, uma investigação da extensão e da natu­
reza da vontade livre dentro da estrutura geral da sociedade humana. Neste tipo de
investigação, o historiador não está simplesmente preocupado com a interpretação dos
significados, mas antes em definir as ambiguidades do mundo simbólico, a pluralidade
das possíveis interpretações desse mundo e a luta que ocorre em torno dos recursos
simbólicos e também dos recursos materiais6.

A abordagem, de fato, mostrou-se frutífera em inúmeras pesquisas relativas


a outras áreas escravistas das Américas. Para além das antigas dicotomias entre
continuidade e ruptura, estratégias sociais e determinações estruturais, o fim
da escravidão configurou, antes, um momento privilegiado para se discutirem
as relações entre esses polos. Apesar das especificidades de cada processo de
emancipação, as pesquisas convergem em perceber o fim da escravidão como
um momento de profunda mudança dos referenciais culturais norteadores

28
INTRODUÇÃO

das relações econômicas, da convivência social e das relações de poder nas áreas
escravistas das Américas. Naquele contexto, libertos, ex-senhores, os demais
homens e mulheres livres e o próprio Estado viram-se forçados a rever atitudes
e estratégias. Apesar das diferenças de recursos econômicos, políticos ou cul­
turais, a abolição da escravidão desencadeou processos profundos de mudan­
ça social que nenhum dos atores logrou efetivamente controlar.
Abordar o processo de abolição por essa perspectiva implicou, também,
recolocar uma questão essencial à própria prática historiográfica: o problema
das durações.
O reconhecimento teórico da dimensão social do tempo e, portanto, da
pluralidade das durações, ocupa há muito um lugar central numa teorização
especificamente histórica. A abordagem clássica de Braudel7, em relação à
duração, sobrepôs-se uma complexidade ainda maior, que evidencia, entre
outras, as distinções entre o tempo do vivido (privado e cotidiano) e o tempo
histórico tradicional, marcado por uma dimensão pública e política. Essa
fragmentação analítica da temporalidade resultou, frequentemente, numa
ênfase nas continuidades sobre as descontinuidades e na fragmentação analí­
tica sobre a síntese, enquanto abordagem histórica. Sem pretender aprofundar
mais a questão, sem dúvida complexa, tentei, no livro, uma abordagem inte­
grada, na qual o tempo longo das estruturas culturais e socioeconômicas se
encontra com a imprevisibilidade da política (em sentido amplo), ao se enfa­
tizar como problema o papel da experiência (e da liberdade) humana para o
entendimento da dinâmica histórica e social.
Até a década de 1990, a abolição da escravidão no Brasil foi muito mais
estudada do ponto de vista econômico e político do que de uma perspectiva
social ou cultural. Enquanto problema econômico, as abordagens tendiam a
privilegiar a questão da substituição do trabalho nas áreas mais prósperas da
cafeicultura paulista, principal região agroexportadora do país, e a substituição
quase absoluta do escravo de origem africana pelo imigrante europeu. Apa­
rentemente substituído o escravo pelo imigrante no Oeste Paulista e, em
parte, também na cidade de São Paulo, tendeu-se a generalizar a experiência
paulista para o conjunto do país. Sintomaticamente, os mais detalhados estu­
dos que tratam do liberto após a emancipação, de um ponto de vista sociocul-
tural, disponíveis quando da redação deste livro, diziam respeito a São Paulo,
desde o clássico de Florestan Fernandes, publicado na década de 196o8.
Evidentemente, entretanto, o caso paulista não podia ser considerado
isoladamente para se pensar a inserção social do liberto após a emancipação.
O vertiginoso crescimento, tanto da lavoura cafeeira paulista quanto da cidade

29
DAS CORES DO SILÊNCIO

de São Paulo após a abolição do cativeiro, demograficamente embasado na


imigração europeia subvencionada pelo Estado brasileiro, subverteu muito
rapidamente as relações de dependência entre ex-senhores e libertos. Permitiu,
fundamentalmente, que aqueles pudessem muito mais facilmente ignorar
as reivindicações colocadas por estes9. Além disso, apesar de contar com a
terceira população escrava do país, o impacto demográfico da escravidão, es­
pecialmente no Oeste Paulista, não tem paralelo com o das antigas áreas
escravistas do Nordeste ou com o das regiões vizinhas, no Rio de Janeiro, em
Minas Gerais e em outras áreas da própria província de São Paulo.
De fato, o papel estratégico da diferenciação do espaço social no mundo
escravista brasileiro constituiu um dos elementos-chave que se buscou consi­
derar na pesquisa. As migrações da população livre, o tráfico transatlântico e
a dinâmica do tráfico interno de cativos são elementos essenciais a uma com­
preensão histórica do processo abolicionista no Brasil, que recortes regionais
excessivamente rígidos impedem de considerar. Por outro lado, se a diversida­
de regional da sociedade escravista brasileira no século XIX guarda elementos
comuns, traz também especificidades fundamentais, passíveis de serem
abordadas em conjunto apenas sob o risco da superficialidade.
Buscando encontrar especialmente os últimos libertos e suas expectativas
e atitudes em relação à liberdade, concentrei a pesquisa no mundo rural do
Sudeste brasileiro, onde a escravidão, enquanto instituição, manteve até tar­
diamente sua vitalidade. Privilegiei, assim, de modo geral, as áreas produtoras
de cana-de-açúcar e café historicamente polarizadas pelo porto do Rio de Ja­
neiro, chamadas pelos geógrafos de Sudeste Velho (Minas Gerais, o Sul de
Minas e a Zona da Mata, o Vale do Paraíba, fluminense e paulista, a Baixada
e o Norte Fluminense), que sofreram fortemente o impacto do recrudesci­
mento do tráfico transatlântico, na primeira metade dos Oitocentos, e que
se mantiveram econômica e socialmente dependentes do braço escravo até
princípios de 1888. Por outro lado, dentro desse recorte, nas duas últimas
partes do livro, que focalizam o período pós-emancipação, tentei evitar não
somente as áreas de acelerado crescimento econômico e forte fluxo imigra­
tório da Europa, mas também as que conheceram uma regressão econômica
e demográfica rápida e acentuada após o fim do cativeiro. Em ambos os casos,
os libertos tendiam a desaparecer, por recrudescimento ou involução do
quadro demográfico. Nessas partes, portanto, não foram considerados nem
o novo Oeste Paulista, nem o Vale do Paraíba ocidental e, para o tratamento
de alguns temas, concentrei-me ainda mais especificamente no Norte Flumi­
nense, encarado como um laboratório das configurações sociais mais típicas

30
INTRODUÇÃO

da região, no período, desde que ali confluíam a nova fronteira do café, no


Rio de Janeiro e em Minas Gerais, a tradicional agroindústria do açúcar
campista e vastas áreas voltadas para a produção, em grande parte escravista,
de gêneros de subsistência para o mercado interno. Utilizei-me largamente,
entretanto, da historiografia sobre o período em relação à cidade do Rio de
Janeiro, ao velho Vale do Paraíba, ao Oeste Paulista e à Bahia, buscando,
sempre que possível, não só uma perspectiva comparativa, mas principalmente
não perder de vista o caráter central da mobilidade espacial no período — seja
no tráfico interno de cativos, seja nas repetidas migrações da população livre.
Por outro lado, desde que os libertos deixam de ter um estatuto jurídico
específico, nas antigas sociedades escravistas, torna-se bem mais difícil encon­
trá-los nas fontes de época. Essa é uma dificuldade geral nas pesquisas sobre a
experiência histórica pós-emancipação nas Américas. No Brasil, entretanto, é
especialmente acentuada, não apenas pela inexistência, desde a independência
política, de práticas legais baseadas em distinções de cor e raça, mas também
pela presença demograficamente expressiva, e mesmo majoritária, de negros
e mestiços livres, antes da Abolição e pelo desaparecimento, que se faz notar
desde meados do século XIX, da discriminação da cor de homens e mulheres
livres nos registros históricos disponíveis. Processos cíveis e criminais, registros
paroquiais de batismo, casamento e óbito, na maioria dos casos, não faziam
menção à cor e, mesmo nos registros civis, instituídos em 1888, em muitos
casos, ela se faz ausente.
Se se transforma, entretanto, essa dificuldade em problema histórico, pode-
-se começar a avançar na questão. Pensar culturalmente o pós-emancipação é,
antes de tudo, explorar os significados da liberdade, conforme escreveu Re-
becca Scott10. O silêncio sobre a cor, que antecede o fim da escravidão, sem
dúvida está relacionado a esses significados, assim como sua generalização
sugere que, por trás dele, se encontra mais que uma ideologia de branquea-
mento, construída e imposta de cima para baixo.
Assim, nas duas primeiras partes deste livro, a investigação se desenvolve
no sentido de tentar entender as matrizes culturais em relação aos significados
da liberdade — que emprestavam inteligibilidade às relações sociais no Brasil
escravista — e, a partir delas, compreender as estratégias, identidades e expec­
tativas sociais, desenvolvidas pelos escravos e pelo conjunto da população livre
em resposta às transformações socioeconômicas e à crescente perda de legiti­
midade da instituição escravista, na segunda metade do século XIX. Concen-
tramo-nos, basicamente, na coleção de processos cíveis e criminais do Tribunal
da Relação do Rio de Janeiro, cuja jurisdição, até 1872, englobava todo o

31
DAS CORES DO SILÊNCIO

Centro-Sul, reunido sob a rubrica “escravos” e “terras”, no Arquivo Nacional,


selecionados a partir daquele contexto regional antes considerado, e nos in­
ventários de proprietários rurais com menos de quatro escravos, localizados
nos cartórios de Campos (R.J), Silva Jardim (RJ — antiga Capivary) e no Ar­
quivo Nacional.
De modo geral, observa-se que toda a documentação reunida agregava um
conjunto extremamente rico de fragmentos de histórias de vida, filtradas pelo
formato jurídico específico e pelas mediações dele decorrentes, de inventários,
processos cíveis e processos criminais. Assim, em cada caso tentei considerar,
primeiramente, as evidências culturais produzidas por esse olhar, padronizado
pelo discurso jurídico, bem como suas ambiguidades e dilemas específicos ao
processo de construção dc um direito e de um Estado de matriz liberal, numa
sociedade escravista que percorre quase todo o século XIX. Por outro lado,
enfatizei especialmente as possibilidades abertas à compreensão das relações
sociais no período e de sua dinâmica específica, a partir da valorização desses
fragmentos de histórias de vida como eixo central da análise. Não rejeitei,
entretanto — nem poderia fazê-lo, ante a minha formação profissional —, as
possibilidades abertas a seu tratamento serial e quantitativo.
Nas duas últimas partes do livro, embasada nos referenciais socioeconô-
micos e culturais até então delineados, tento uma relcitura do processo histó­
rico específico à primeira década que se seguiu à abolição definitiva do cati­
veiro, nas antigas áreas escravistas do Sudeste. Procuro mostrar que, mesmo
estritamente contextualizados, do ponto de vista cultural, econômico, políti­
co e social, a dimensão surpreendente da dinâmica histórica daqueles curtos
anos e o comportamento e a inserção social dos libertos, em especial, são es­
senciais para a compreensão da reestruturação dos recursos e das relações de
poder (e de sua legitimidade) no mundo rural do Sudeste, após o fim do cati­
veiro, como também para a forma específica em que se desenvolveu no país
uma ideologia racial. Busco também reencontrar um outro final de século em
que, pelo menos do ponto de vista das áreas analisadas e dos agentes sociais
que nelas atuaram, tudo parecia possível e tudo parecia desmoronar.
Assim, na terceira parte (“O fantasma da desordem”), procurei trabalhar
com as expectativas senhoriais em relação à liberdade, no quadro restrito da
iminência da extinção do cativeiro, que se anuncia a partir de 1887. Uma aná­
lise do Jornal do Commercio e de algumas folhas interioranas selecionadas, que
tinha como objetivo inicial a perspectiva de discutir o impacto da liberdade
em termos conjunturais (década de 1890), acabou me seduzindo, como fonte
capaz de me introduzir nas expectativas, vividas pelos contemporâneos, de

32
INTRODUÇÃO

lima transformação que era percebida como surpreendente e fundamental.


Um mergulho naquela conjuntura de 1888, tentando resgatar as incertezas
que o período trazia, passou a ser meu objetivo, e os jornais, especialmente as
folhas locais, acabaram por mostrar-se uma ponte possível para esse intento.
Devo defender-me de fundadas acusações de ingenuidade, ao lidar com a
mídia interiorana. Os jornais de época, como os de hoje, refletem, na escolha
e no tratamento das notícias, posicionamentos específicos e múltiplos, cons­
tróem versões nem sempre unívocas, de difícil tratamento metodológico.
Escolhi trabalhar com algumas folhas que, apesar das muitas diferenças,
tinham em comum o tipo de inserção que possuíam nas comunidades em que
atuavam e as responsabilidades que assumiam perante o leitor que procuravam
atingir. São todas folhas de tradição nas comunidades em que são publicadas,
de larga aceitação pela “boa sociedade” local e de forte penetração nas elites
agrárias.
Dentro dessa unidade geral, consegui abarcar um leque bastante abrangen­
te de posicionamentos políticos. Trabalhei com um jornal republicano e com
fortes ligações com um abolicionismo mais radical: O Monitor Campista
(Campos-RJ); com outro, monárquico e sem ligações com os partidos cons­
titucionais, defensor de um abolicionismo mais moderado: 0 Monitor Sul-
-Mineiro (Campanha-MG); com um terceiro, conservador, que se colocava a
favor da concessão de alforrias condicionais em massa para o encaminhamen­
to da questão servil, em 1888: Gazeta Sul-Mineira (São João dei Rey-MG);
com o jornal conservador de Cantagalo-RJ {Correio de Cantagalo}, último
baluarte de defesa da instituição escravista até maio de 1888, e seu rival local,
o liberal O Voto Livre, abolicionista. Trabalhei, ainda, com o Jornal do Com­
mercio, especialmente com as Publicações a Pedido de fazendeiros fluminen­
ses e mineiros, após maio de 1888.
O uso que faço do material reunido a partir dessas publicações mostra-se,
entretanto, extremamente seletivo. Não tenho pretensões a uma análise do
lugar por elas ocupado na mídia nacional ou interiorana. Procurei reter, apenas,
um certo sentido de diálogo com a lavoura, que todas procuraram registrar,
especialmente a partir de janeiro de 1888. Privilegiei, assim, as leituras de
publicações a pedido de fazendeiros e lavradores, em muitos casos uma espé­
cie de “carta dos leitores”; outras correspondências de cunho particular sobre
o tema, publicadas por decisão editorial das folhas analisadas; as atas das reu­
niões de lavradores, parcial ou integralmente publicadas, que buscavam equa­
cionar coletivamente os problemas colocados pelo iminente fim do cativeiro;
e os artigos e editoriais que buscavam dirigir-se aos lavradores que ainda se

33
DAS CORES DO SILÊNCIO

utilizavam do trabalhador cativo, Com base nesse material, busquei resgatar


fundamentalmente as expectativas senhoriais sobre o impacto da liberdade,
os recursos e diagnósticos a que recorreram para formar essas expectativas, as
estratégias que buscaram desenvolver para responder às transformações em
curso e suas frustrações ante sua acelerada perda de influência política e as
surpreendentes atitudes de seus ex-escravos, subitamente transformados em
homens e mulheres livres.
Na última parte (“Nós tudo hoje é cidadão”), sob o pano de fundo da
primeira década republicana, concentro-me no Norte Fluminense, para reen­
contrar os ex-senhores e suas estratégias, os libertos e suas esperanças, os pobres
nascidos livres e seus temores, tentando mapear seus conflitos — fundadores
em inúmeros aspectos — em torno dos significados da liberdade recém-pro-
clamada.
Os jornais já arrolados informaram ainda aspectos do desenvolvimento
dessa parte. Considerou-se também um conjunto de 6o processos crimes da
comarca de Campos. O núcleo dessa quarta parte se constrói, entretanto, a
partir da análise dos registros civis de nascimento e óbito, de três freguesias da
área. Quanto a esses registros, antes de um tratamento demográfico, o que se
revelou extremamente problemático diante dos níveis de sub-registro presu­
midos, tentou-se uma abordagem social. Além disso, como todas as demais
fontes utilizadas, eles se tornaram fragmentos de histórias de vida extrema­
mente significativos para os resultados finais da pesquisa.
O mundo rural, que emerge no Sudeste escravista da abolição definitiva
do cativeiro, desapareceu, praticamente, há algumas décadas. Seu momento
de constituição, na última década do século passado, guarda, entretanto, não
apenas a gênese de relações sociais e étnicas mais abrangentes, profunda­
mente injustas e desiguais, com as quais ainda hoje convivemos, mas também
esperanças cotidianas — que guardam, às vezes, uma surpreendente atuali­
dade — de superar essas injustiças e desigualdades.

Notas

1 A tese de doutorado na qual se baseia o presente livro foi defendida em 1993 e foi ganhadora
do Prêmio Arquivo Nacional de Pesquisa, 1993, tendo sido integralmente publicada pelo Ar­
quivo Nacional, em 1995. Uma segunda edição, com a introdução revista, foi publicada em
1998, A presente edição teve o texto da introdução mais uma vez revisto e recebeu um novo
posfácio.

34
INTRODUÇÃO

2 IBGE. Recenseamento Geral de 1872.


3 Hebe Mattos, Ao Sul da história — Lavradores pobres na crise do trabalho escravo. Rio de Janei­
ro, FGV Editora, 2009 (1987).
4 Ciro E S. Cardoso (org.), Escravidão e Abolição no Brasil: novas perspectivas, 1988.
5 Isaiah Berlin, Inevitabilidade histórica, 1981, pp. 75-132.
6 Giovanni Levi, “Sobre a micro-história”, 1992, pp. 135-6.
7 Fernand Braudel, “La larga duración”, 1970, pp. 60-106.
8 Florestan Fernandes, A integração do negro na sociedade de classes, 1978.
9 G. Reid Andrew, “Black and white workers: São Paulo, Brazil, 1888-1928”, 1988, pp. 85-118.
10 Rebecca Scott, “Exploring the Meaning of Freedom: Postemancipation Societies in Compa-
rative Perspective”, in Rebeca J. Scott et al., lhe Abolition ofSlavery and the Afiermath of
Emancipation in Brazil, 1988, pp. 1-22.

35
PRIMEIRA PARTE
Uma experiência de liberdade
1

Uma experiência de liberdade

Domingos Vieira de Carvalho nasceu na Bahia, em finais do século XVII. Ali,


na forma do Sagrado Concilio Tridentino, casou-se com Maria Cardosa, com
quem teve dois filhos, que não sobreviveram à primeira infância. Viúvo, migrou
para o Espírito Santo, onde se casou com Ana Gomes. Deste casamento nas­
ceram seis filhos legítimos, segundo o pai, falecidos quando redigiu seu testa­
mento, já em Campos dos Goitacases, capitania da Paraíba do Sul, em 1704.
Nesse documento, Domingos não menciona o destino de Ana Gomes, mas
informa que ele deixara o Espírito Santo e se mudara para a vila de São Salva­
dor dos Campos dos Goitacases, onde se casara com Maria Nunes. Com esta
terceira esposa, Domingos teve mais quatro filhos. Em seu testamento, Do­
mingos afirma que uma escrava mulata, de nome Antônia e idade avançada,
era seu único bem. Sua viúva, Maria Nunes, pede à Justiça atestado de pobreza
para evitar a venda de Antônia para pagamento das dívidas do casal, no que é
atendida. As coisas se complicam para ela, entretanto, quando um filho de
Ana Gomes, nascido no Espírito Santo, tenta qualificar-se como herdeiro no
testamento alegando, ainda, que Domingos era bígamo, pois, além dele, sua
mãe também estaria viva. Alega também que, além da escrava, seu pai possuía
uma espingarda e um sítio, com roças de mandioca, onde residia, bens que não
haviam sido mencionados no testamento.
A história de Domingos1 foi escolhida para abertura deste trabalho por
ilustrar um ponto essencial da experiência de liberdade no período escravista,
que deita raízes no próprio processo de formação de uma ordem social mer­
cantil e escravista na Colônia portuguesa: o recurso à mobilidade espacial.
Não a mobilidade espacial do desbravador e do bandeirante, mas a que se fazia
no coração da ordem social escravista já constituída, que incluía, em qualquer
momento que for tomada, uma fronteira móvel e parcialmente ocupada.
DAS CORES DO SILÊNCIO

A representação da ordem social escravista, na Colônia ou no Império,


sempre qualificou diferentemente os homens livres, diferenciando uma elite
de “homens bons” e, posteriormente à emancipação política, de “cidadãos
ativos”. A historiografia brasileira sobre o período tem, em diversas oportuni­
dades, tentado dar conta dessa camada intermediária, formada por homens
livres pobres, e dos lugares que ocupavam na ordem social.
Quase todos os trabalhos que tentaram tratar dos “homens livres pobres”
na ordem escravista, entretanto, fizeram-no no contexto de estudos de caso,
apesar das marcantes diferenças da ênfase dada à singularização dos contextos
abordados2. E obviamente difícil fugir dessa limitação, pois os homens neces­
sariamente convivem e se relacionam em contextos específicos de tempo e
espaço. As tentativas de generalização, entretanto, a partir desses estudos,
tenderam a congelar momentos específicos de histórias de vida como catego­
rias estruturais, produzindo ora camponeses, ora homens socialmente anômi-
cos e desenraizados. O que a história de Domingos ressalta é que um mesmo
indivíduo podia ser as duas coisas, em épocas diferentes de sua história de vida,
e que a mobilidade espacial é uma variável que não pode ser tomada, num
mundo colonial em expansão, como indicador de ausência de padrões cultu­
rais norteadores das estratégias adotadas.
A contraface da mobilidade também está presente na história de Domin­
gos: a tentativa de fixação. Na Bahia, no Espírito Santo e em Campos, Do­
mingos casa-se e tem filhos. A formação de uma família, sancionada pela
Igreja Católica, implicava um certo tempo de permanência na área, convivên­
cia e aceitação por parte de outras famílias já existentes na região, formando
um leque de relações que tendia a se ampliar, através do batismo dos filhos e
das relações de parentesco ritual (compadrio) que gerava. A mobilidade em
liberdade representava, assim, uma potencialidade de romper o desenraiza-
mento e de reinserção social no restabelecimento da trama de relações pessoais
e familiares.
Esse papel central da família já o afirmara Kátia Mattoso, em relação à
sociedade baiana do Oitocentos: “Em torno da família devem ser buscados os
elementos para se compreender as complexas hierarquias sociais, pois a famí­
lia era o eixo a cuja volta giravam as relações sociais, com base nas quais as
hierarquias se faziam ou desfaziam”3.
A complementaridade entre família e mobilidade espacial é um aspecto
menos considerado, mas que se sobressai nas pesquisas que privilegiam áreas
rurais ainda em expansão. É o caso, por exemplo, da pesquisa de Alida Metcalf4
sobre Santana do Parnaíba, em São Paulo, no século XVIII. A autora mostra

40
UMA EXPERIÊNCIA DE LIBERDADE

que a migração era uma opção permanente nas estratégias de sobrevivência


das famílias da área, no que se refere às segundas gerações, à medida que a
concentração econômica e social, decorrente da expansão da produção mer-
cantil-escravista, estreitava as oportunidades na região. Especialmcnte os filhos
homens das famílias de lavradores escravistas tendiam a deixar o município
com alguns escravos e procurar estabelecer novos laços e lavouras em regiões
vizinhas, enquanto as filhas mulheres tendiam a permanecer na região e ali se
casarem, muitas vezes com recém-chegados. À filha mais velha cabia, em geral,
o melhor casamento e a este genro, a herança do status social e econômico de
seus sogros, utilizando o recurso do dote e da terça da herança.
Também entre as famílias que a autora considera como camponesas, des-
possuídas de terra e escravos, e dependentes basicamente do trabalho familiar,
muitas formadas por ex-escravos e seus descendentes, buscava-se a mobilidade
como estratégia recorrente para resolver os problemas das segundas gerações.
Em geral, dispersavam-se os filhos pelas regiões vizinhas, também em busca
de novos laços que lhes garantissem o acesso costumeiro à terra, ou de outras
formas de sobrevivência, nas vilas mais próximas, enquanto pelo menos uma
filha ou um filho casado permanecia na situação dos pais. Pesquisa de Sheila
Faria5 para o Norte Fluminense, no período colonial, encontrou o mesmo
padrão.
O recurso à mobilidade espacial era comum a “ricos” e “pobres”, mesmo
considerando-se as expressivas diferenças que a posse de alguns escravos ou
outros bens móveis podia representar nas oportunidades abertas de reinserção
social. Era um recurso da liberdade, primeira e fundamental marca de seu
exercício.
Não só processos de empobrecimento, porém, produziam o homem móvel.
A obtenção de alforrias também gerava continuamente novos livres, à procu­
ra de laços. A inserção social desses homens na sociedade colonial se fez, en­
tretanto, de maneira profundamente marcada por uma hierarquização racial,
que separava, até mesmo na prática religiosa, pretos, brancos e pardos6.
O que designavam, entretanto, esses qualificativos? Apesar de a literatura
sobre o tema utilizar, em geral, o significante “pardo” de um modo restrito e
pouco problematizado — como referência à pele mais clara (ou menos escura)
do mestiço, como sinônimo ou como nuance de cor do mulato —, a coleção
de processos cíveis e criminais com os quais tenho trabalhado me levou a
questionar essa correspondência. Na qualificação dos réus e das testemunhas,
nesses documentos, a cor era informação sempre presente até meados do sé­
culo XIX. Neles, todas as testemunhas nascidas livres foram qualificadas como

41
DAS CORES DO SILÊNCIO

brancas ou pardas. Deste modo, ao contrário do que usualmente se pensa, o


termo me parece que não era utilizado (no período colonial e mesmo no sé­
culo XIX, pelo menos para as áreas em questão) apenas como referência à cor
da pele mais clara do mestiço, para a qual se usava preferencialmente o signi-
ficante “mulato”. A designação de “pardo” era usada, antes, como forma de
registrar uma diferenciação social, variável conforme o caso, na condição mais
geral de não branco. Assim, todo escravo descendente de homem livre (bran­
co) tornava-se pardo, bem como todo homem nascido livre que trouxesse a
marca de sua ascendência africana — fosse mestiço ou não.
Grande parte dos testamentos de “pardos” libertos, localizados no muni­
cípio de Campos, para o século XVIII, era de filhos de casais africanos7. No
caso dos pardos nascidos livres, a maioria das testemunhas qualificadas como
“pardas” nos processos analisados, torna-se mais difícil provar retrospectivamente
que não se tratava necessariamente de mestiços, mas me parece pouco prová­
vel que, entre 755 testemunhas livres arroladas, nem um só negro nascido livre
tivesse sido chamado a depor. Por outro lado, como a historiografia já tem
assinalado8, os significantes “crioulo” e “preto” mostravam-se claramente reser­
vados aos escravos e aos forros recentes. A designação “crioulo” era exclusiva
de escravos e forros nascidos no Brasil e o significante “preto”, até a primeira
metade do século, referia-se preferencialmente aos africanos. A designação de
“negro” era mais rara e, sem dúvida, guardava uma componente racial quando
aparecia nos censos de época qualificando a população livre. Nos processos
analisados, entretanto, só aparece uma testemunha “negra”, sem especificação
de sua condição de liberto e, ao longo do documento, essa condição ficou
evidenciada. Reforçava-se, desta maneira, a liberdade como atributo específico
dos “brancos” e a escravidão, dos “negros”. Os “pardos”, fossem negros ou
mestiços, tornavam-se, nesta forma de enunciação, necessariamente exceções
controladas.
A representação social, que separava homens bons e escravos dos “outros”,
tendia, assim, a se superpor, pelo menos em termos ideais, a uma hierarquia
racial que reservava aos pardos livres, fossem ou não efetivamente mestiços,
essa inserção intermediária. Desta forma, o qualificativo “pardo” sintetizava,
como nenhum outro, a conjunção entre classificação racial e social no mundo
escravista. Para tornarem-se simplesmente “pardos”, os homens livres descen­
dentes de africanos dependiam de um reconhecimento social de sua condição
de livres, construído com base nas relações pessoais e comunitárias que esta­
beleciam. Mesmo que a prática, por diversas vezes, não correspondesse à re­
presentação, a cor da pele tendia a ser por si só um primeiro signo de status e

42
UMA EXPERIÊNCIA DE LIBERDADE

condição social para qualquer forasteiro. Limitava, assim, não só as possibili­


dades de mobilidade social, mas também de mobilidade espacial dos forros e
de seus descendentes, que permaneciam ameaçados pela possibilidade de
reescravização. Durante a maior parte do período colonial, portanto, a mais
elementar decorrência da liberdade — a capacidade de mover-se — esteve
violentamente restrita a grande parte dos libertos e de seus descendentes.
Domingos era branco. Se a mobilidade espacial não estava proibida aos
não brancos, libertos ou nascidos livres, dificilmente ela poderia ser exercida,
em áreas tão distantes, sem contestação da liberdade, ainda no século XVII.
Apesar disto, a mobilidade espacial se fazia preferencialmente entre áreas
próximas, frequentemente mesmo freguesias vizinhas, o que a tornava restrita,
mas não interditada aos não brancos livres, especialmente quando demogra-
ficamente deixavam de ser incomuns9.
Ao falecer, em Campos, Domingos possuía ainda, além de uma família,
uma escrava, uma espingarda e um sítio com roças de mandioca, onde morava.
Se sua história ilustra a precariedade desses bens, ilustra também que a
liberdade potencializava a propriedade. Domingos era considerado por seu
filho “proprietário” de um sítio com roças de mandioca, sem que, entretanto,
fosse considerado “proprietário” dos terrenos onde sua casa e roças se situavam.
Está-se, assim, diante de uma relação de propriedade facultada apenas por
relações pessoais e familiares na região, que lhe puderam garantir acesso estável
ao terreno explorado. Uma das dimensões mais perenes dos significados da
liberdade, construídos sob a escravidão, está ligada a essa noção de propriedade.
Antes de tudo, porém, Domingos era senhor de uma escrava. Diversos
estudos sobre o padrão de posse de escravos, em variadas regiões escravistas,
têm confirmado que pequenos senhores, como Domingos, formavam a maio­
ria dos proprietários de cativos em quase todas as áreas tocadas pelas relações
escravistas, no final do período colonial. Entre eles, inclusive, muitos ex-escra­
vos10. Depreende-se de sua história, mais que uma possibilidade socioeconô-
mica, um padrão cultural para enfrentar o desenraizamento em condição de
liberdade.
Até meados do século XIX, a pulverização e a acessibilidade da proprieda­
de cativa atingiam limites quase sempre surpreendentes. Até a década de 1820,
praticamente inexistem nos cartórios do Rio de Janeiro, onde tenho pesqui­
sado, seja em áreas cafeeiras, canavieiras ou de subsistência, inventários post
mortem de produtores rurais que não registrassem a posse de trabalhadores
cativos. Níveis mínimos de prosperidade, que justificassem a abertura de um
inventário, apareciam, então, invariavelmente ligados à propriedade cativa.

43
DAS CORES DO SILÊNCIO

Antônio Felipe de Oliveira, arrendatário em Mangaratiba em 1832, que vivia


com a família “mariscando cascas dbstras”, fazia-o com a ajuda de três escravas1 *.
Em 1824, Manuel do Rosário e Maria dos Santos, pretos forros, casados, sem
filhos, pescadores, eram senhores de Joaquina, de nação angola. No testamen­
to de Manuel, Joaquina aparece arrolada, juntamente com sua casa e sua canoa,
como garantia para o cumprimento de seu testamento, que previa várias
missas por sua alma e esmola aos pobres12.
É impossível apreender os conteúdos de tensão, legitimidade e violência
de que se revestiam as relações entre lavradores de roça e seus escravos que,
muitas vezes, sem senzalas, dividiam pequenas casas de palha ou sapé. Mas
sem dúvida ajudavam a legitimar a escravidão, enquanto instituição, ao mesmo
tempo oferecendo perspectivas concretas e factíveis de sobrevivência a ex-es­
cravos, que lhes permitiam negar de maneira global a situação anterior13.
Essa potência da propriedade escrava tendia, assim, a se sobrepor, em termos
de representação da liberdade, às diferenças econômicas e sociais entre os
homens livres que, recorrentemente, buscavam e frequentemente conseguiam
tornar-se senhores de escravos. Essa representação da liberdade, enquanto
perdurou o tráfico africano, tendeu não apenas a legitimar a propriedade es­
crava, até mesmo para muitos forros, como também a priorizar, nas represen­
tações sobre a liberdade, o ideal de não trabalho. De fato, todo homem livre
o era enquanto proprietário de escravos ou rentista em potencial, mesmo que
apenas uma minoria efetivamente o conseguisse. Com alguma regularidade,
nos inventários que arrolavam mais de dois escravos adultos, encontrou-se
uma correspondência exata entre o número de escravos adultos e o número de
enxadas, evidenciando que a família livre se retirava, sempre que possível,
de determinados tipos de trabalho. O simples aluguel desses cativos, quando
adultos e jovens, já garantia uma fonte de renda, em muitos dos casos capaz
de eximir a família livre do trabalho direto.
Muito já foi escrito a respeito desse sentido desqualificador da escravidão
sobre o trabalho, de maneira geral. Ser livre numa ordem escravista seria basi­
camente “não trabalhar” ou, mais especificamente, viver de rendas. A liberda­
de é pensada idealmente, portanto, como um atributo do homem branco e
potencializadora do não trabalho. Domingos, branco e senhor de uma escra­
va, por mais pobre que fosse, era sem sombra de dúvidas um homem livre.
Esse ideal de liberdade perpassa a qualificação dos homens livres na ordem
escravista até, pelo menos, a primeira metade do século XIX. Na qualificação
das testemunhas livres, nos processos cíveis e criminais que analisei para o
período, a cor era informação sempre presente, associada a uma forma bastan­

44
UMA EXPERIÊNCIA DE LIBERDADE

te específica de qualificação socioprofissional. Enquanto os escravos estavam


associados a algum tipo de ‘serviço” (“serviço de roça”, “serviço de carpinteiro”),
os homens livres “viviam de” alguma coisa. Em geral “de seus bens e lavouras”
mas também “de seu jornal”, “de seu ofício de carpinteiro” ou simplesmente
“de agências” De fato, está-se frequentemente diante de não brancos e de não
proprietários. Mas, ao registrar-se com precisão a cor, toda vez que se interro­
gava um negro ou um pardo, tornava-se necessário especificar sua condição
de livre ou liberto, como a se explicar a exceção. Do mesmo modo, a univer­
salização do “viver de” negava na forma o que frequentemente se estava a
afirmar no conteúdo. Nos processos considerados, o homem livre “vive sobre
si”, expressão sempre usada nas Ações de Liberdade14, identificando como livres
aqueles que “vivem de seus bens e lavouras” e os que “vivem de seu jornal” e
opondo-os aos cativos que, antes de tudo, “servem” a alguém.
A contínua produção de homens livres despossuídos, na ordem escravista,
coloca mais que problemas socioeconômicos relativos à sua possível funcio­
nalidade, em relação à ordem econômica e social. Sob esse ângulo, especial­
mente no que se refere à produção de alimentos, inclusive com o recurso
eventual ao trabalho escravo, em muito se tem alterado a visão de extrema
especialização que tradicionalmente se emprestava à ordem escravista15. Co­
loca, fundamentalmente, questões culturais quanto aos significados da liber­
dade nessa sociedade. Uma sociedade construída sobre a escravidão necessa­
riamente conferia significados específicos à noção de liberdade que orientava
as ações daqueles indivíduos desenraizados e despossuídos que constantemen­
te produzia, inclusive por concessão ou compra de alforria.
A liberdade era, a princípio, um atributo do “branco”, que potencializava
a inserção social e a propriedade. Durante a segunda metade do século XIX,
entretanto, essa representação da liberdade começa a ter as suas bases solapadas.
O crescimento demográfico de negros e mestiços, livres ou libertos, já não
permitia perceber os não brancos livres como exceções controladas. Em 1872,
no Rio de Janeiro e em Minas Gerais, à exceção do Vale do Paraíba fluminen­
se, negros e mestiços livres eram sempre superiores em número aos escravos e,
frequentemente, à população branca recenseada16. Também o acesso ao escra­
vo já não se fazia com a mesma facilidade após a extinção do tráfico atlântico.
Em meados do século XIX, começa a se reverter a pulverização da posse de
cativos que caracterizara o final do período colonial, num contexto em que as
áreas do Sudeste aqui consideradas drenavam para as maiores lavouras os ca­
tivos de pequenos senhores, das vilas e cidades e de outras regiões17. Neste
contexto, redefinem-se os significados emprestados à noção de liberdade, que

45
DAS CORES DO SILÊNCIO

continuam, entretanto, a se construir em oposição à escravidão e referenciados


estruturalmente ao padrão cultural anterior.
A historiografia sobre a escravidão, especialmente quando relativa ao Cen­
tro-Sul, não tem, em geral, contemplado essa diferenciação. Toma-se o século
XIX, no que se refere à questão (a liberdade), como uma simples continuida­
de do século anterior, que apenas o fim do cativeiro viria a quebrar. Em traba­
lho pioneiro e sempre citado, Maria Sylvia de Carvalho Franco enfatizou a
dependência pessoal como elo básico de inserção dos “homens livres pobres”
na ordem escravista18. Pode-se dizer que a própria expressão foi criada ou, pelo
menos, teve seu uso generalizado, a partir de seu trabalho. Consolidou também
uma abordagem genética, predominante nos estudos sobre São Paulo, no sé­
culo XVIII, em relação às origens das camadas assim constituídas, que os viam
como produtos do impacto da ordem comercial e escravista sobre áreas antes
isoladas da economia de mercado19. A aparente sobrevivência dos antigos
padrões de reprodução social se faria, no novo contexto, sob o signo da mar­
ginalidade econômica e da anomia social expressa na fragilidade das interme­
diações culturais e sociais nas relações pessoais e no consequente recurso à
violência para solução de situações de conflito, engendrando “o código do
sertão .
Se a dependência pessoal é, sem dúvida, um traço central da coesão social
no Brasil escravista, o sentido de sobrevivência social mutilada e a consequente
anomia social, daí decorrente, consolidariam outra abordagem interpretativa
que, mesmo de pontos de vista teóricos diversos do da autora e de uma pers­
pectiva muito mais generalizante, tenderam a reiterar o caráter economica­
mente prescindível, socialmente marginai e culturalmente anômico dos cha­
mados homens livres pobres na ordem escravista, percebendo-os estrutural­
mente como um teleológico “exército de reserva”, lentamente formado ao
longo de três séculos21.
Demograficamente, entretanto, sempre me pareceram problemáticas essas
interpretações, especialmente quando estendidas ao século XIX. Afinal, em
1872, em todo o Império contavam-se 4,2 milhões de negros e mestiços livres
e 3,8 milhões de brancos contra apenas 1,5 milhão de escravos22. Tendo em
vista o tamanho sabidamente reduzido da elite econômica ou política, dese-
nha-se, assim, uma não sociedade, em que milhões de pessoas, entre livres e
escravos, estariam em condições de desclassificação social, desajuste cultural
e marginalidade econômica.
Diversas pesquisas, entretanto, têm fornecido elementos para repensar a
questão23. Também neste trabalho, busco encarar a questão de outro ponto de

46
UMA EXPERIÊNCIA DE LIBERDADE

vista. Parece-me bem mais razoável supor que, na vigência da escravidão, as


expectativas de liberdade, que se abriam aos nascidos livres despossuídos e ao
sonho de liberdade dos escravizados, foram culturalmente construídas no
interior da sociedade escravista e estiveram a ela integradas. Deste modo, “livres
pobres” ou escravos (uma vez que socializados enquanto tais) agiam social­
mente a partir dos códigos culturais correntes naquela sociedade, mesmo que
reinterpretados a partir de suas posições sociais específicas. Ou seja, conside­
ro-me diante de uma sociedade estruturalmente desigual e baseada na pro­
priedade de seres humanos, mas passível de ser compreendida e capaz de
fornecer referenciais à ação de todos aqueles que a formavam e transformavam.
É a partir dessa premissa que tento recuperar os significados da liberdade na
vigência da escravidão, no contexto das transformações sociais que marcaram
o Sudeste escravista no século XIX.

Notas

1 Cartório do Primeiro Ofício de Notas de Campos, maço 1. Testamento de Domingos Vieira


de Carvalho, 1704, localizado e gentilmente cedido pela professora Sheila Siqueira de Castro
Faria, da linha de pesquisa em história agrária da UFF.
2 Cf., entre outros, Maria Sylvia de Carvalho Franco, Homens livres na ordem escravocrata, 1974;
Alida C. Metcalf, Families ofPanters, Peasants and Slaves — Strategiesfor survival in Santana
de Pamaíba, Brazil, 1720-1820, 1983; Laura de Mello e Souza, Desclassificados do ouro — A
pobreza mineira no século XVIII, 1986; Hebe Mattos, Ao Sul da história — Lavradores pobres na
crise do trabalho escravo, 2009 (1987).
3 Kátia M. de Queirós Mattoso, Bahia, século XIX — Uma província no Império, 1992.
4 Alida C. Metcalf, Families ofPanters, Peasants andSlaves,..
5 Sheila de Castro Faria, Casamento e escravidão nos séculos XVII, XVIII e XIX, 1992; Idem, A co­
lônia em movimento, fortuna efamília no cotidiano colonial, 1998.
6 As irmandades religiosas no Brasil colonial frequentemente se organizavam por critérios raciais
e mesmo por etnias africanas; cf., entre outros, A. J. R. Russel Wood, Fidalgos efilantropo — A
Santa Casa de Misericórdia da Bahia, 1550-1755,1981, cap. 6, pp. 89-110; Caio César Boschi, Os
leigos e 0 poder — Irmandades leigas e política organizadora em Minas Gerais, 1983, cap. 4, pp.
140-76; João José Reis, A morte é umafesta — Ritosfúnebres e revolta popular no Brasil do sécu­
lo XIX, 1991, cap. 2, pp. 49-72.
7 Sheila de Castro Faria, “Histórias esquecidas — Os andarilhos da sobrevivência”. Cap. II — A
colônia em movimento. Exame de qualificação. Curso de doutorado em história. Niterói, UFF,
dez., 1992.
8 João José Reis, Rebelião escrava no Brasil — A história do levante dos males, 1855,1986.
9 Cf., neste sentido, Alida C. Metcalf, Families ofPanters, Peasants and Slaves..., cap. IV.
10 Cf., entre outros, Iraci Costa, “Algumas características dos proprietários de escravos em Vila
Rica”, Estudos Econômicos II (3): 151-57. São Paulo, IPE-USP, 1981; Stuart B. Schwartz, “Padrões
de propriedade de escravos nas Américas: nova evidência para o Brasil”, Estudos Econômicos

47
DAS CORES DO SILÊNCIO

XIII, na 1,1983, pp. 259-87; Idem, “Peasants and slavery”, in Slaves, PeasantsandRebels — Recon­
sidering Brazilian Slavery, 1992; Hebe Maria Mattos de Castro, “A escravidão fora das grandes
unidades exportadoras”, in Ciro F. S. Cardoso, (org.), Escravidão e abolição no Brasil — Novas
perspectivas, 1988, pp. 32-45.
11 Documentação judiciária. Inventáriospost mortem, caixa 12.091, n3 268. Arquivo Nacional.
12 Cartório do Terceiro Ofício de Notas de Campos, 1824.
13 Quanto a este último aspecto, observação em sentido semelhante é feita por Kátia Mattoso, em
relação ao Recôncavo Baiano do século XIX. Cf. Kátia M. de Queirós Mattoso, Bahia, século
XIX..., p. 594.
14 Neste sentido, ver também Sidney Chalhoub, Visões da liberdade ■— Uma história das últimas
décadas da escravidão na Corte, 1990.
15 Cf., entre outros, Hebe Maria Mattos de Castro, “A escravidão fora das grandes unidades ex­
portadoras”, e Stuart B. Schwartz, Slaves, Peasants and Rebels...
16 IBGE. Recenseamento Geral de 1872.
1 Cf., neste sentido, Ismènia de Lima Martins, “Problemas da extinção do tráfico africano da
província do Rio de Janeiro”. Tese de doutorado. São Paulo, USP, 1973; Robert Slenes, “The
Demography and EconomicsofBrazilian Slavery, 1850-1888”. Ph.D. Stanford University, 1976;
Peter Eisenberg, Modernização sem mudança —A indústria açucareira em Pernambuco, 1840-
-1910,1977; Sheila de Castro Faria, “Terra e trabalho em Campos dos Goitacases, 1850-1920”.
Dissertação de mestrado. Niterói, ICHF, UFF, 1986; Hebe Mattos, Uo Sul da história...
18 Maria Sylvia de Carvalho Franco, Homens livres na ordem escravocrata..., caps. 1 e 2.
19 Neste sentido, cf., entre outros, Alida C. Metcalf, Families ofPanters, Peasants and Slaves...-,
Elizabeth A. Kusnesof, Household Economy and Urban Development, 1765-1836,1986.
20 Maria Sylvia de Carvalho Franco, Homens livres na ordem escravocrata...
21 Lúcio Kowarick, Trabalho e vadiagem — A origem do trabalho livre no Brasil, 1987.
22 IBGE. Recenseamento Geral de 1872.
23 Ciro F. S. Cardoso (org.), Escravidão e abolição no Brasil —- Novas perspectivas, 1988.

48
2

Um homem móvel

Quatro jornaleiros dormiam no engenho de Joaquim de Almeida, em São João


Príncipe, na madrugada de 23 de outubro de 1878. As quatro horas da manhã,
quando se levantavam para o trabalho, Januário Mina, preto forro de 50 anos,
agrediu com facadas o “súdito português” Antônio José da Silva, tendo-se
depois ferido na garganta. Socorreram a ambos seus companheiros de trabalho,
Isidoro Crioulo, também forro, de 25 anos, nascido em São José do Bom Jardim,
e Bento Alves Viana, de 12 anos, filho de João Alves Viana, lavrador “de roça”
nas vizinhanças.
Bento esclarece um pouco sobre a forma pela qual haviam sido recrutados:
“Disse que vindo na véspera do dia que se deu o fato a casa do senhor Antônio
Joaquim de Almeida procurar serviço e como chegasse tarde este disse-lhe que
fizesse o trabalho de meio dia, então à noite foi ele respondente pousar no
engenho junto com Isidoro, Januário e Antônio...”1.
Isidoro, Januário e Antônio, sem casa e sem família, já conviviam há mais
tempo naquelas terras, mas as testemunhas do processo pouco sabiam dizer
de suas relações pessoais e de seu passado. Não interessa aqui investigar as
motivações do crime. Januário refere-se a uma acusação de roubo que Antônio
lhe teria feito, mas, no momento de sua prisão, por lavradores da vizinhança,
encontrava-se ferido na garganta por seu próprio canivete, cantando e dan­
çando. Posteriormente, disse que tentara matar-se por encontrar-se “aborre­
cido da vida”. Na prisão, ao longo do processo, que se arrastou por três anos,
várias vezes tentou suicidar-se, atacando simultaneamente seus companheiros
de cela, que tentavam socorrê-lo. Foi, finalmente, após dois exames de sanidade,
considerado louco e recolhido à “casa de alienados”, na capital da província.
Deixo os exames de sanidade para os alienistas, mas a estranheza ante o
comportamento de Januário merece um pouco mais de atenção. Tentemos
acreditar nele. Do seu ponto de vista, a motivação de sua “loucura” era estar
DAS CORES DO SILÊNCIO

“aborrecido da vida”. Poderia ter vários motivos absolutamente desconhecidos


para isso, ligados a seu passado, desconhecidos tanto para o pesquisador como
para as pessoas que com ele então conviviam. Mas ele estava também nitida­
mente aborrecido com o seu presente e era isso que provocava estranheza.
A suspeição sobre a possível loucura de Januário se faz inicialmente com
base na impossibilidade, registrada no processo, de explicar racionalmente
suas atitudes. Sem dúvida, não era socialmente esperado que jornaleiros em­
pregados numa fazenda, fosse qual fosse o seu passado, matassem sem motivo
seus companheiros e tentassem suicidar-se, dançando e cantando, ou mesmo
que os presos, acusados de assassinato, repetidamente atentassem contra si
próprios, na prisão. Fora isso, seu comportamento parecia a juizes e advogados
absolutamente “normal”. A todas as testemunhas se perguntava por uma pos­
sível rixa entre ofendido e ofensor, que pudesse tornar inteligível a agressão, o
que todas diziam ignorar. Suspeitava-se da loucura de Januário, recorrendo-se
aos pareceres médicos, porque ele não agia como se poderia socialmente pre­
ver ou esperar.
E, no entanto, a situação de Januário era essencialmente diferente da de
seus companheiros de jornada. Isidoro tinha 25 anos. Era um ex-escravo que
exercitava plenamente o primeiro e único atributo que ganhara com a alforria:
a capacidade de mover-se em busca de novos laços que lhe permitissem afirmar
sua condição de livre, perante seu passado cativo. Bento tinha 12 anos e uma
família, com uma roça. Antônio, apesar de o processo não esclarecer precisa­
mente sobre sua idade, era jovem, português e recém-chegado. Sem dúvida,
tinha seus sonhos. Apenas para Januário, sem casa e sem família, aos 50 anos
de idade, num país ainda estrangeiro, que não entendia seu canto ou sua dan­
ça, aquela situação deixava de revestir-se do caráter de transitoriedade, neces­
sário para que fosse percebida como uma dádiva da liberdade.
Esse sentido transitório ou provisório da mobilidade espacial torna-se,
assim, essencial para uma percepção culturalmente integrada dos recorrentes
processos de desenraizamento dessa sociedade.
Trabalhando com 65 processos da Corte de Apelação, envolvendo escravos,
no século XIX, reuni 552 testemunhas livres. Entre essas pessoas, 63% viviam
e trabalhavam fora das regiões em que nasceram.
A configuração socioprofissional de homens e mulheres assim reunidos é
também impressionantemente semelhante para todo o século XIX e para as
mais diversas regiões. O maior subgrupo é formado por “lavradores”, entendi­
dos aqui, na acepção corrente na segunda metade do século XIX, como os que
viviam preferencialmente da exploração de lavouras próprias, sejam simples

50
UM HOMEM MÓVEL

roças de subsistência, em terra alheia, exploradas com trabalho familiar, sejam


importantes lavouras escravistas. Na amostra, predomina a primeira possi­
bilidade. Eles são 42% das testemunhas arroladas. Sem maior significação em
si mesmos, esses números sem dúvida ilustram o peso da mobilidade espacial
e a predominância da produção agrícola independente, em bases familiar
ou escravista, nas possibilidades abertas à garantia da sobrevivência para o
conjunto de homens livres.
Essas duas situações são, entretanto, aparentemente contraditórias. A
produção agrícola, escravista ou familiar, implica, por definição, fortes víncu­
los econômicos e sociais, estabelecidos em nível local, pouco compatíveis com
uma extrema mobilidade. E, de fato, os lavradores representam 60% das tes­
temunhas que viviam nas regiões em que nasceram e apenas 33% dos migran­
tes. A atividade agrícola, mesmo a simples roça de subsistência, pressupunha
pelo menos uma família constituída e o acesso costumeiro à terra. Para ambas
as condições, era necessário estabelecer laços na nova região, o que demandava
um tempo razoável de socialização e a permanência na área.
À exceção dos lavradores, entretanto, as demais ocupações socioprofissionais
da amostra aparecem fortemente marcadas pela mobilidade. Setenta e um por
cento (71%) dos negociantes, em geral proprietários de pequenas vendas de
secos e molhados, frequentemente cenário dos crimes investigados, 73% dos
que se dedicavam a ofícios especializados, nas vilas e fazendas, e 85% dos assa­
lariados agrícolas não haviam nascido nas localidades onde moravam.
Coincidência? Afinal, a fonte analisada, além de reunir uma amostra pe­
quena, não é imediatamente representativa de nenhum universo mensurável.
Apesar disso, esses números foram analisados em várias etapas, à medida que
se ampliava a coleta de dados nos processos, e as tendências encontradas,

Testemunhas arroladas segundo profissão e naturalidade

Naturais Migrantes Não menciona Total

Lavradores 89 114 28 231

Assalariados agrícolas 8 52 1 61

Ofício especializado 19 77 10 106

Negociantes 18 59 6 83
Outras 15 47 9 71
Total 149 349 54 552
2
Fonte: Corte de Apelação: escravos. Arquivo Nacional .

51
DAS CORES DO SILÊNCIO

apesar de uma óbvia variação dos números relativos, foram sempre reiteradas.
Uma primeira versão deste texto, com as mesmas conclusões, foi escrita antes
mesmo que se completasse a coleta de dados nos processos e, portanto, com
apenas parte das testemunhas que ao final foram computadas.
O que homogeneizava de tal forma os homens livres aqui reunidos? Não
foi, como poderia parecer, seu envolvimento com a Justiça, pois os réus, em
quase 100% dos casos, eram escravos. Foi, antes, parece-me, seu envolvimento
pessoal cotidiano (num sentido horizontal) com escravos. Desse ponto de
vista, as testemunhas aqui reunidas representam os grupos sociais menos fa­
vorecidos do mundo dos homens livres, com uma expressiva participação de
forros e seus descendentes, permitindo uma aproximação privilegiada com a
experiência da liberdade, como era percebida em contraponto e em relação
com a experiência da escravidão.
Desse ponto de vista, a mobilidade espacial se colocava claramente como
uma resposta necessária ao desenraizamento, que buscava, entretanto, objetivos
bastante específicos. Em qualquer caso, aparece fortemente marcada por um
sentido de temporaneidade, que não chega a ser alterado pelas transformações
específicas, iniciadas a partir de 1850. A tabela abaixo, que acrescenta à profis­
são informações sobre o estado civil das testemunhas arroladas, permite inte­
ressantes considerações nesse sentido, tomando-se o casamento como um
indicador de que os que não viviam onde nasceram já estariam efetivamente
fixados na nova região.

Testemunhas arroladas segundo profissão e estado civil

Lavradores Assalariados Ofícios Negociantes Outras


agrícolas especializados

casados/viúvos 163 3 51 46 39
solteiros 68 58 55 37 32
% casados/viúvos 71 5 48 55 55
Fonte: Corte de Apelação: escravos. Arquivo Nacional.

Configuram-se nesse quadro dois percursos possíveis, a partir da decisão


de migração. Por um lado, mesmo em face da rigidez rural predominante nas
áreas consideradas, os arraiais, as vilas e pequenas cidades possibilitavam a
reinserção social para os que possuíam algum capital para montar pequenos
negócios ou para os que dominavam ofícios especializados. Mais da metade
dos que exerciam essas ocupações eram legalmente casados, mesmo que mi­

52
UM HOMEM MÓVEL

grantes, em sua grande maioria. Tendo em vista a frequência de uniões con­


sensuais, especialmente nas camadas mais pobres da população livre, esses
números são bastante significativos. Por outro lado, no circuito rural-rural, a
mobilidade, associada ao assalariamento agrícola eventual, funcionava como
uma ponte provisória até o estabelecimento de novos laços que permitissem
reconstituir a situação anterior de lavrador independente, pressupondo ne­
cessariamente uma família legal ou informal. A amostra reunida registrou
apenas um jornaleiro casado, contra 75% de lavradores nessa mesma condição.
De todas as ocupações socioprofissionais dos homens livres, as de jorna­
leiros e camaradas, ou seja, as ligadas ao assalariamento agrícola não especia­
lizado, são as mais fortemente marcadas por esse sentido de transitoriedade.
Essa caracterização não implica considerar que, em cada caso individual, essa
situação seria superada, mas que o sentido social das ocupações só é atingido
plenamente quando se percebe o caráter eventual ou transitório com que era
encarada pelos que as realizavam. Eram essas as ocupações típicas do homem
móvel e desenraizado: ou apresentavam caráter complementar à exploração
de lavoura própria pela família ou não geravam laços sociais suficientemente
fortes para garantir sua permanência na região.
Fazendeiros e sitiantes não pareciam temer receber em suas terras, como
assalariados temporários, homens absolutamente desconhecidos. Especial­
mente na segunda metade do século, quando o aumento do número de negros
e mestiços livres j á começava a fazer com que acorda pele deixasse de ser uma
marca necessária ou provável da condição cativa, por diversas vezes o assalaria­
mento temporário, em sítios ou fazendas de regiões relativamente distantes
do local da fuga, serviu de esconderijo para escravos fugidos, que se passavam
por livres. Desta forma, o recurso à mobilidade espacial tornava-se cada vez
mais acessível a libertos e não brancos livres, solapando uma das bases do con­
trole social no mundo escravista: a cor da pele, como elemento de suspeição.
Na segunda metade do século, as fugas “para dentro” se faziam possíveis não
apenas em direção dos núcleos urbanos3, mas também no sentido rural-rural.
Esse foi, por exemplo, o caso de Antônio Ferreira, escravo em Bananal, São
Paulo, Vale do Paraíba, em 1864, que em suas várias fugas, que redundaram
em dois processos criminais, conseguira até sobrenome4. Apesar de cearense,
Antônio conhecia bem os caminhos de Minas e não tinha maiores dificulda­
des em conseguir trabalho, como jornaleiro ou camarada, nas fazendas da
região. Quando foi preso pela segunda vez, em Vila Cristina, no sul de Minas,
estava com outros camaradas livres, tomando café e “pausando” do serviço de
roça em casa do “amo” João Belo.

53
DAS CORES DO SILÊNCIO

Os recém-chegados não passavam, entretanto, em nenhum caso, desper­


cebidos numa região. Deviam rapidamente criar laços ou novamente partir,
pois chamavam a atenção e eram identificados como externos ao local. À
chegada da escolta que viria prender Antônio Ferreira, acusado de dois assas­
sinatos durante a fuga, o subdelegado da freguesia rapidamente pôde identi­
ficar, na descrição dos procurados, os novos camaradas de João Belo, que se
dispôs a facilitar o trabalho de captura.
Felício, baiano, também escravo fugido, teve um pouco mais de sorte5.
Vindo de Rio Claro, Rio de Janeiro, para o bairro de Buquira, na vizinha São
João Príncipe, ali permaneceu por seis anos, trabalhando, sem domicílio certo,
como jornaleiro e camarada, para sitiantes locais. Em 1861, sob o nome de
Ezequiel, já era bastante conhecido no bairro e encontrava-se amasiado com
uma mulher da região. Começava a estabelecer laços que, ao final, se perderam.
Se não se tivesse envolvido ruma rixa de vizinhos, que resultou no processo
analisado, talvez sua condição cativa jamais tivesse sido descoberta.
Na segunda metade do século XIX, a proximidade desses homens livres
com os escravos, mesmo de grandes fazendas, muitas vezes trabalhando lado
a lado, exercia um duplo papel na socialização da forma como era apreendida
essa vivência específica da liberdade. Reforçava, por um lado, seu sentido
eventual e transitório para os homens livres como forma de afirmação de sua
diferença do mundo dos cativos. Por outro, para os escravos, apresentava-se
como alternativa em caso de fuga ou alforria, especialmente quando não pos­
suíam laços familiares ou de patronagem mais sólidos, no cativeiro, o que a
generalização do tráfico interno tornava cada vez mais comum.
Como já foi considerado, a categoria dos assalariados agrícolas não espe­
cializados é o único subgrupo socioprofissional, nos processos analisados, em
que praticamente todos os arrolados (há apenas uma exceção) são solteiros ou
viúvos (dois casos). Na verdade, raramente (a não ser quando moravam ainda
com a família) tinham “casa” dormindo em locais improvisados, como Ezequiel,
Felício e Januário, com seus companheiros. Apenas os que, como Bento, so­
mente complementavam a renda familiar haviam nascido nas freguesias em
que trabalhavam. Na amostra, pude identificar basicamente três tipos de jor­
naleiros: o filho de família de lavradores de roça, que complementava a renda
familiar (como Bento); jovens migrantes sempre recém-chegados à região
(como Antônio e Isidoro), em muitos dos casos, como estes, forros ou portu­
gueses; e velhos ex-cativos, em geral africanos (como Januário). Apenas para
os últimos essa ocupação não estava marcada por um caráter eventual e com­
plementar ou temporário.

54
UM HOMEM MÓVEL

O chefe de família, lavrador de roça, que eventualmente se empregasse


como jornaleiro ou camarada, jamais seria assim identificado profissionalmente.
Nesses casos, prevalecia a situação de “lavrador”, mesmo que acompanhada da
adjetivação “de roça”, mesmo que em terra alheia, mesmo que em área de
plantation. Ser “lavrador” significava pelo menos ter uma casa, um cercado e
uma roça, ou seja, uma “situação” consensualmente sua, que pelo costume
podia alienar e deixar em herança. Isso os diferenciava não só dos escravos,
mas também do homem móvel e desenraizado.
Antônio Rodrigues Santiago (Itaguaí, 1878), 32 anos, viúvo, era (segundo
seu depoimento) “morador no lugar da Massomba onde é lavrador”6. Não era
proprietário de terras, mas possuía um escravo, de nome Domingos, de 25
anos, que “trabalhava nas roças de seu senhor” Isso não o impedia de “se achar
empregado na casa de Manuel Francisco Ramos” Ricardo Francisco da Cunha,
perguntado por sua profissão, também responde ser lavrador7. Viúvo e com
32 anos (Rio Claro, 1887), achava-se, porém, “a serviço de camarada”, ajudando
os escravos na capina do cafezal, na fazenda onde ocorreu o crime que deu
origem ao processo. Na autorrepresentação de ambos, eles são lavradores e
acham-se empregados ou a serviço de camarada.
A capacidade de mover-se para prover a subsistência traduzia-se na expres­
são “viver sobre si”, algo que a princípio estava vedado aos escravos. Nas Ações
de Liberdade, esse era um argumento fundamental, do ponto de vista dos
cativos e de seus curadores8. Mais factível nas vilas e cidades, mesmo em gran­
des fazendas os cativos conheciam de perto essa possibilidade e procuravam
exercitá-la nas tentativas de fuga e em muitos casos de alforria. Mas essa capa­
cidade de mover-se referia-se a um sentido específico de liberdade. Significava,
fundamentalmente, liberdade para escolher e estabelecer novos laços de
amizade, família ou patronagem, que conferissem ao homem livre um status
específico numa dada comunidade. Ser lavrador de roça significava que esses
laços preexistiam e, mesmo que negro ou mestiço, jamais seria confundido ou
tratado como um escravo.
Antônio Dias, africano, com 70 anos, era um “lavrador”9. Vivia em sua
situação com casa e roças, com sua filha Suzana, em Pati do Alferes, Vale do
Paraíba fluminense, em 1885. Sua neta, filha de Suzana, era casada com Joaquim
Francisco da Fraga, também “lavrador”, de 24 anos, que sabia ler e escrever.
A primeira pergunta que fazem a Januário, o louco, em seu auto de quali­
ficação, é se era escravo ou forro. Também velho e africano, não se faz a mesma
pergunta a Antônio Dias. Na verdade, sua situação de liberto e mesmo sua cor

55
DAS CORES DO SILÊNCIO

ou a dos outros membros de sua família só são presumidas pela discriminação


de sua nacionalidade.
O caráter essencialmente móvel do assalariamento agrícola, que se torna
praticamente monopólio de migrantes recentes, quando não assume um ca­
ráter eventual, e a tendência ao enraizamento do lavrador de roça, que fez com
que 71% dos que assim se qualificavam na amostra fossem legalmente casados
ou viúvos, são duas faces da mesma moeda. Compõem uma atitude perante a
liberdade, atitude que se referencia a arraigados padrões culturais que ainda
guardavam atualização na segunda metade do século XIX. Lembremos de
Domingos e do século XVII.
Entre a extrema precariedade e transitoriedade dessa situação e a estabili­
dade dos lavradores abria-se, entretanto, nas fazendas e vilas do interior, um
pequeno leque de ocupações, em que também predominavam os forros e
migrantes, mas que exigiam maior especialização e abriam caminho para si­
tuações mais estáveis.
No conjunto dos indivíduos com ofícios especializados desaparece o predo­
mínio absoluto dos solteiros, ao mesmo tempo em que se descobre uma diver­
sidade significativa, em relação tanto ao sexo quanto à idade. Esse conjunto
reflete, entretanto, duas realidades distintas.

Ofícios especializados segundo sexo, local e naturalidade

Vilas Fazendas

Homens Mulheres (Todos homens)

Naturais 20 6 3
Migrantes 33 7 36
Fonte: Corte de Apelação: escravos. Arquivo Nacional.

Num primeiro grupo, reúnem-se feitores, carpinteiros e pedreiros livres,


no interior de sítios e fazendas. Ali chegavam, em sua maioria, jovens e desco­
nhecidos na região, com um perfil em tudo semelhante ao de camaradas e
jornaleiros, como Benedito Alves da Silva e Marcolino José Pimenta, que tinham
pouco mais de 20 anos, em 1864, e trabalhavam como feitores em uma fazenda
de café, em Bananal, Vale do Paraíba paulista, recém-chegados de municípios
vizinhos, Queluz e Rio Claro. Nessa mesma fazenda, trabalhava também um
pedreiro português, de 23 anos. Eles teriam, entretanto, melhores chances que
os outros camaradas de fixarem-se como agregados em terras da fazenda, a
exemplo do carpinteiro e lavrador José Godoi Moreira, casado e com 50 anos

56
UM HOMEM MÓVEL

de idade, natural de Taubaté e havia alguns anos ali radicado10. Para o jovem,
migrante ou forro, apto ao trabalho de feitor ou capaz de exercer funções que
exigiam um certo nível de especialização, mais fáceis eram as condições de
acesso costumeiro à terra na condição de agregado. Os exemplos poderiam
multiplicar-se.
Mesmo que em sua maioria migrantes, os que exerciam ofícios especiali­
zados nas fazendas tendiam a estabelecer, com maior facilidade, na região de
chegada, vínculos mais duradouros. O domínio de um ofício tornava-se, assim,
um passaporte para o acesso à terra, na condição de agregado. Na totalidade
dos casos, entretanto, a estabilidade dessa permanência estava ligada à possi­
bilidade mais fácil desse acesso.
Especializadas ou não, na segunda metade do século XIX, as funções exer­
cidas por camaradas e jornaleiros nas fazendas, inclusive a de feitor, eram
concomitantemente exercidas por escravos11. O sentido de transitoriedade
(mobilidade) ou a situação de agregado (casa e roça próprias), além da ausên­
cia da coerção física, eram, assim, fundamentais para a afirmação da liberdade
ante a realidade da escravidão. O carpinteiro português Florêncio da Silva
Almada, viúvo, de 62 anos, empregado com casa e roçado em outra fazenda
de café, onde trabalhava ao lado de dois carpinteiros escravos (Barra Mansa,
1878), esclarece em seu depoimento que sua casa ficava longe das senzalas,
“longe como daqui à porteira’12.
Alguns cativos, entretanto, conseguiam aproximar-se bastante dessa situa­
ção. A ampliação do espaço de autonomia escrava no contexto das grandes
fazendas estava fortemente ligada à obtenção de casa e roça próprias, no inte­
rior das fazendas e, portanto, de uma aproximação desse modelo de exercício
da liberdade. A intensa valorização cultural das roças dos escravos, no inte­
rior das fazendas de café, na segunda metade do século XIX, deve ser discuti­
da dentro desse contexto. Voltarei a esse ponto13.
Dentro do quadro rural predominante na região analisada, os arraiais, vilas
e cidades ofereciam ainda um quadro de relativa abertura para aqueles que
dominavam ofícios especializados, conformando um grupo socioprofissional
relativamente distinto do anterior. Especialmente para as mulheres sós, repre­
sentava uma opção muito mais viável que a permanência nas áreas rurais.
Nem só de forras compunha-se o mundo das lavadeiras, quitandeiras e
costureiras nas vilas do interior, mas também de migrantes rurais, viúvas ou
solteiras, como Maria Laurinda, Feliciana Maria do Espírito Santo e Ana
Joaquina da Conceição, lavadeiras em Campanha, Minas Gerais, em 1870,
vindas de Resende, Pouso Alegre e Carmo da Escaramuça, respectivamente14.

57
DAS CORES DO SILÊNCIO

Perdidos todos os laços no mundo rural, pela viuvez, por abandono ou orfan-
dade, a mulher também podia tornar-se migrante.
Quando se observa o perfil das testemunhas com ocupações urbanas, é a
presença feminina, mesmo que minoritária, mas pela primeira vez relevante,
que fundamentalmente chama a atenção. Quando se leem os processos
em que aparecem, é o seu trânsito fácil no mundo dos homens (a rua, o traba­
lho e a venda) que mais se destaca15.
Nas últimas décadas da escravidão, alfaiates, carpinteiros, lavadeiras, qui-
tandeiras, costureiras travavam complexas relações pessoais nas vilas do interior,
envolvendo alguns escravos, mas principalmente libertos e livres, com larga
predominância de forros e de seus descendentes. Estabeleciam, assim, verda­
deiras comunidades, abertas aos recém-chegados, mas capazes de oferecer
alguma estabilidade a seus membros.
Algumas das relações de Paula, filha de Tomé, e Vicência — ambas escra­
vas — e seu filho José, chegados a Resende, Rio de Janeiro, como escravos e aí
alforriados em testamento, por seu senhor, exemplificam esse ponto16. No ano
de 1860, a “parda” Paula morava em Resende, onde “vivia de costuras” e tra­
vava relações de amizade com Josefa Maria de Sousa, “parda”, de 34 anos,
nascida em São Paulo, e Antônia Fortunata, também “parda”, de 30 anos, nas­
cida em Minas Gerais, ambas solteiras e “vivendo de costuras” Seu filho, “José
Pardo”, “vivia do seu ofício de alfaiate”, com a “preta forra Escolástica, sua
“caseira” (amásia)17, sem profissão. Eram vizinhos de Maria Bárbara Cândida
do Nascimento, “parda”, viúva, natural da província de Minas, de 43 anos,
que “vivia de quitandas”. José era ainda amigo do “crioulo” (forro) Severo, que
“vivia de seu ofício de alfaiate”, de 21 anos, de Geraldo Antônio da Costa,
“branco”, que “vivia de seu ofício de sapateiro”, e do “pardo” Manuel Franco­
lino, escravo e alfabetizado, que exercia o ofício de alfaiate em loja própria,
com dois aprendizes, pagando jornal a seu senhor.
Não se deve, entretanto, idealizar uma situação urbana, em que laços hori­
zontais substituiríam a tendência à verticalidade das relações rurais. A situa­
ção de lavrador de roça pressupunha fortes laços horizontais, especialmente
familiares, antes que a de um bom “padrinho”, como procurarei demonstrar.
Ao mesmo tempo, nas vilas do interior, um bom “padrinho” era, na maioria
dos casos, um recurso de sobrevivência absolutamente necessário. Segundo o
depoimento de Severo, Francolino aconselhara José, quando este se encon­
trava sob suspeita de ter cometido um assassinato: então eles lhe disseram
que não fugisse que aquilo não era nada, e então Francolino dizia a José que

58
UM HOMEM MÓVEL

fosse para a casa de José Dias Carneiro, ou do padre Manuel que o haviam de
»1Q
proteger .
A diferença fundamental entre os dois casos está no papel culturalmente
distinto que neles desempenhava a família nuclear, em sentido clássico. Viúvas,
mães solteiras, forros e escravos solteiros encontravam, mais facilmente, nas
vilas do interior, um lugar social. Em cada um desses casos, escravos, libertos
e migrantes, muitos deles descendentes de ex-escravos, conviviam próxima-
mente, criando laços que permitiam romper com o desenraizamento e com a
tendência à mobilidade.
Novamente Francolino ajuda-nos a esclarecer esse ponto. Perguntado se
era amigo de José, assim responde: “Amigos verdadeiramente não são, porque
amigos entendem-se aqueles que são criados juntos, comem juntos e dormem
• - ”19 .
juntos
Sua curiosa definição de amizade soa bastante intrigante para o pesqui­
sador. Pode tornar-se inteligível, entretanto, quando tomada como referência
à importância dos laços pessoais naquela sociedade e ao ônus que se pagava
pela migração, forçada ou voluntária: a perda do convívio com os que juntos
cresceram e se criaram, em última instância, com a “família”, num sentido
amplo. Francolino estaria afirmando, assim, o sentido substitutivo que as
relações comunitárias, estabelecidas nas vilas e cidades, apresentavam em re­
lação às situações de origem, que frequentemente haviam sido perdidas ou
abandonadas.
Essas relações tinham, entretanto, significados diferentes para livres e es­
cravos. Enquanto para os primeiros era condição para a sobrevivência em li­
berdade, para os segundos era, antes, uma tentativa de aproximar-se dessa
experiência.
O depoimento de Francolino, nesse sentido, também esclarece: “‘Dava-se’
(com José) [...] porque era o único rapaz da rua que por aqui havia com o qual
podia fazer união e passearem juntos, o que não podia fazer nem com negros,
e nem com brancos”20.
Essa resposta poderia ser tomada como evidência do peso da estratificação
racial na vila de Resende, em 1860, que separaria mesmo negros de pardos,
entendidos como mulatos ou mestiços. Essa interpretação não explicaria,
entretanto, suas relações de amizade com o “crioulo” Severo ou com o sapa­
teiro “branco” Geraldo Antônio da Costa.
A chave para a compreensão dessa declaração de Francolino encontra-se,
a meu ver, noutro ponto. Francolino, apesar de escravo, desfrutava de uma
situação privilegiada, mesmo se comparada com os outros alfaiates livres ou

59
DAS CORES DO SILÊNCIO

libertos. Vivia com dois aprendizes, numa casa de seu senhor, na cidade, sus­
tentada com seu trabalho e onde funcionava sua loja. Era ele quem fre­
quentemente conseguia trabalho para os forros Severo ejosé. Esteja até havia
sido, durante alguns meses, seu empregado. A seu senhor, que morava numa
fazenda, só pagava o jornal, enquanto economizava para comprar sua alforria
já acordada. Antes de ser vendido a esse proprietário, evitava encontrar-se com
seus ex-senhores, ao se recolher para dormir, para não ser obrigado a pedir-lhes
a bênção. Segundo um dos depoimentos, por esse motivo teria sido vendido.
Não se misturar com os negros, nesse contexto, marcava esse desejo de dife­
renciar-se dos demais escravos. Como regra geral, nos processos analisados,
“negro” e “escravo” eram utilizados como sinônimos, bem como a cor branca,
até meados do século, aparecia frequentemente como definidora isolada do
status social específico de uma condição de liberdade, que independia de
qualquer outra relação social para ser reconhecida. A Francolino só restava
aproximar-se do mundo da liberdade que dependia dessas outras relações
sociais, em que poderia diferenciar-se dos demais escravos e reiterar sua liber­
dade de fato, até que ela se tornasse um direito.
Na situação urbana, mais que no contexto rural, ao escravo tornava-se
possível “viver sobre si”, ou seja, aproximar-se quase à indiferenciação do
mundo dos livres, um mundo que era, então, predominantemente “pardo”.
Mais uma vez, aqui, a experiência de liberdade com que conviviam servia de
referencial, sempre contrastada com o modelo conhecido de cativeiro. Essa
situação não pode ser tomada, entretanto, como generalizada entre os escravos
urbanos. Francolino não pode ser tomado como um escravo “típico” das vilas
do interior. Esperava-se do escravo, nas vilas, que tomasse a bênção a seu senhor
e que lhe prestasse satisfações frequentes, coisas que Francolino não fazia, o
que é constantemente lembrado pelas testemunhas.
Outro escravo “urbano”, José Cabra, que, em 1847, no Serro, Minas Gerais,
conseguia liberdade de movimentação suficiente para sustentar uma casa para
sua amásia e frequentar batuques, à noite, com amigos livres, é acusado de
roubo em uma casa de negócios e alega, ao se defender: “Onde estava ao tem­
po que aconteceu o crime? Respondeu que na noite que se diz aconteceu o
roubo, estava na casa de seus senhores, para onde se recolheu às oito horas da
noite, pois dorme fechado”21.
Não se trata de saber se José Cabra dormia ou não verdadeiramente fecha­
do, o que de resto parece pouco provável, mas de perceber que, quando o es­
cravo, nas vilas e cidades, conseguia ampliar seu espaço de autonomia para
além do trabalho nas ruas, o fazia claramente em direção a um determinado

60
UM HOMEM MÓVEL

modelo de liberdade e em oposição a outro, igualmente bem estabelecido, de


cativeiro. Era perfeitamente plausível aos jurados que José Cabra efetivamen­
te tivesse uma hora para se recolher e dormisse fechado em casa de seu senhor.
No caso de Fortunato, marceneiro escravo em São Fidélis, em 1868, essa
aproximação torna-se verdadeiramente exemplar. Fortunato morava num
quarto alugado, com sua esposa, parteira e livre, com consentimento de seu
senhor e, nessa condição, segundo seu depoimento, “dirige à sua vontade a sua
casa, podendo dela sair e entrar quando bem lhe aprouver”22.
Possuía, como Francolino, um trato com seu senhor, a quem pagava um
jornal fixo, ao mesmo tempo em que juntava dinheiro para comprar sua alfor­
ria. Com esse intuito, além de seu trabalho de marceneiro, montava frequen­
temente uma venda, do outro lado do rio, em época de “festas e espetáculos”,
e estava decidido a deixar São Fidélis para tentar a vida na cidade de Campos.
Acusado de vender mercadorias roubadas, é absolvido, mesmo que o gosto de
alguns fosse: “Vê-lo açoitado na cadeia ou subir a uma forca, porque é um
negro muito malcriado e muito pimpão, e pensava saber que não devia andar
todo engravatado porque era escravo”23.
Nesse caso, a ampliação do espaço de autonomia no cativeiro chegara a
incluir a possibilidade de migração voluntária, que aparece na decisão de
Fortunato de trocar São Fidélis por Campos. Em todos os depoimentos, en­
tretanto, ressalta-se o contraste da situação de Fortunato com o modelo espe­
rado de “cativeiro” que informavam as testemunhas, associado a uma nem
sempre velada crítica à liberalidade de seu senhor.
Francolino era bastante respeitado e estimado na vila de Resende e tratara
casamento com a irmã de José Pardo, a quem tentavam alforriar. A concubina
de José Cabra era mãe da amásia de João Batista, ourives e livre. José Cabra
tornara-se, nessa condição, padrinho do filho recém-nascido de João Batista.
Fortunato era casado com uma mulher livre e bastante estimado “do outro
lado do rio”. Todos dependiam, obviamente, da boa vontade de seus senhores.
O rompimento com a transitoriedade da mobilidade e o alargamento do es­
paço de autonomia dos cativos eram na maioria dos casos tributários do esta­
belecimento de sólidas relações familiares e pessoais. Voltarei a esse ponto24.
Por ora, cabe reafirmar as possibilidades abertas ao exercício da liberdade
pela mobilidade espacial e o marcado sentido de temporariedade que trazia,
bem como a crescente indiferenciação prática que se estabelecia entre negros
e mestiços livres (“pardos”), brancos empobrecidos e mesmo alguns cativos
que logravam ampliar seu espaço de autonomia dentro do cativeiro. Numa
sociedade marcada pelas relações pessoais, estabelecer laços era essencial para

61
DAS CORES DO SILÊNCIO

a obtenção de um lugar, por mais obscuro que fosse, no mundo dos livres. Os
reiterados processos de desenraizamento faziam, entretanto, parte estrutural
desse mundo, e seus indivíduos possuíam recursos culturais suficientes —
fossem forros, viúvas, órfãos ou jovens à procura de um destino — para con­
viver com essa realidade e se reinserir na ordem social sem que se tornassem
socialmente anêmicos ou desclassificados. E os cativos, que buscavam aproxi­
mar-se da liberdade, sabiam disso.

Notas

1 Documentação judiciária. Corte de Apelação: Escravos. Processos criminais. Caixa 11.089,


n-1.636. Arquivo Nacional.
2 Os subgrupos profissionais aqui utilizados foram extraídos diretamente do contato empírico
com as fontes, agrupados, entretanto, em função de alguns critérios. Consideram-se, assim,
literalmente, “lavradores” e “negociantes”. “Jornaleiros”, “camaradas” e “trabalhadores de roça”
foram agrupados como “assalariados agrícolas”. “Carpinteiros”, “sapateiros”, “alfaiates”, “ferreiros”
“ourives”, “domadores”, “arrieiros” e outros assemelhados foram reunidos sob a rubrica “ofícios
especializados”. No grupo “outros” estão considerados os que viviam “de agências”, sem maiores
especificações, os que não mencionavam profissões, os feitores c administradores, médicos e
funcionários públicos.
3 Neste sentido, cf. Ademir Gebara, 0 mercado de trabalho livre no Brasil, 1871-1888,1986.
4 Documentação judiciária. Corte de Apelação: Escravos. Processos criminais. Maço 151, na 519.
Arquivo Nacional; Documentação judiciária. Corte de Apelação: escravos. Processos criminais.
Caixa 11.079, n“ 2-568. Arquivo Nacional.
5 Documentação judiciária. Corte de Apelação: Escravos. Processos criminais. Caixa 11.110,
na 650. Arquivo Nacional.
6 Documentação judiciária. Corte de Apelação: Escravos. Processos criminais. Caixa 11.105,
ne 847. Arquivo Nacional.
7 Documentação judiciária. Corte de Apelação: Escravos. Processos criminais. Caixa 11.069,
n91.467. Arquivo Nacional.
Cf., neste sentido, Sidney Chalhoub, Visões da liberdade — Uma história das últimas décadas
da escravidão na Corte, 1990, cap. 2.
9 Documentação judiciária. Corte de Apelação: Escravos. Caixa 11.016, n91.140. Arquivo Nacional.
10 Documentação judiciária. Corte de Apelação: Terras. Maço 151, na 519. Arquivo Nacional.
11 Nos processos analisados, encontram-se regiscrados escravos “pedreiros”, “carpinteiros”, “alfaia-
» «r - » «r ■ „
tes, reitores e ferreiros.
12 Documentação judiciária. Corte de Apelação: Terras. Caixa 12.003, n2 95. Arquivo Nacional.
13 Ver Segunda Parte: “Sob o jugo do cativeiro”, especialmente cap. 2.
14 Documentação judiciária. Corte de Apelação: Escravos. Maço 222, n2 2.161. Arquivo Nacional.
15 Cf., no mesmo sentido, entre outros, Maria Odila Leite da Silva Dias, Quotidiano epoder em
São Paulo no século XIX, 1984, e Donald Ramos, A mulher e a família em Vila Rica de Ouro
Preto, 1754-1838, in Maria Luiza Marcílio (org.), História epopulação — Estudos sobre a Amé­
rica Latina, 1990.

62
UM HOMEM MÓVEL

16 Documentação judiciária. Corte de Apelação: Escravos. Maço 139, n21.277. Arquivo Nacional.
17 CE Luiz Maria da Silva Pinto, Dicionário da língua brasileira, 1832.
18 Documentação judiciária. Corte de Apelação: Escravos. Maço 139, n21.277. Arquivo Nacional.
19 Ibidem.
20 Ibidem.
21 Documentação judiciária. Corte de Apelação: Escravos. Processos criminais. Caixa 10.984,
nc 2.321. Arquivo Nacional.
Documentação judiciária. Corte de Apelação: Escravos. Processos criminais. Caixa 3.700,
nB 6.166. Arquivo Nacional.
23 Ibidem.
24 Ver Segunda Parte: “Sob o jugo do cativeiro”, especialmentc cap. 2.

63
3

Laços de família

Desde Casa-grande e senzala, de Gilberto Freyre (1933), o modelo de família


patriarcal marcou um lugar definitivo no imaginário acadêmico sobre o Brasil
escravista. Mais recentemente, esse modelo tem sido contestado a partir de
estudos de base demográfica que fazem, de modo geral, uma associação direta
entre família extensa (entendida como morada comum de mais de uma gera­
ção da mesma família e seus agregados) e família patriarcal, em oposição à
predominância de famílias nucleares, encontrada na análise de listas nomina­
tivas de diversos recenseamentos locais, especialmente em São Paulo, e das
evidências em relação ao peso e à importância da família escrava1.
O conceito de “família patriarcal” de Gilberto Freyre, entretanto, como
bem assinalou Vainfas em trabalho recente2, abarca uma significação muito
mais ampla do que o de “família extensa”, à maneira do grupo de Cambridge,
estritamente associado à coabitação. Implica uma forma específica de organi­
zação do poder e das funções familiares dentro dos grupos de elite, além da
presunção de que escravos e dependentes livres construiríam sua identidade
familiar em relação à “casa grande” incapazes, eles próprios, de formar e re­
produzir culturalmente suas próprias famílias.
Para a realidade do Centro-Sul, Oliveira Viana3, ao formular a noção de
“clã”, já trabalhava em sentido semelhante. Para ele, a única solidariedade pos­
sível, na sociedade colonial, era a verticalmente construída a partir do “grande
domínio rural”, que reuniría, em torno do chefe familiar, seus filhos e genros,
dependentes livres e escravos. O elitismo explícito de Oliveira Viana expõe de
forma mais clara as consequências lógicas dessas formulações — a elimina­
ção da família escrava ou de dependentes livres como possíveis objetos de es­
tudo —, absorvidas e dissolvidas no interior do “clã” ou da “família patriarcal”.
Num e noutro, entretanto, o “clã” ou a “família patriarcal” são conceitos
complexos, que ultrapassam em muito a coabitação, tendo em vista que a
DAS CORES DO SILÊNCIO

maioria dos escravos habitava as senzalas, bem como os dependentes livres,


identificados como agregados, habitavam, em sua maioria, construções se­
paradas no interior das grandes propriedades. Além dessa maior abrangência,
ambos os autores, muito claramente, reportam-se às suas próprias experiên­
cias socioculturais ao realizar suas interpretações da sociedade escravista.
Falam de algo ainda bastante próximo, de solidariedades que sentem conhecer
de perto e que buscam interpretar à luz das ciências sociais. Na verdade, do
elitismo conservador de Oliveira Viana à democracia racial também conser­
vadora de Freyre e à engajada denúncia do racismo de seus críticos, na década
de 1960, Florestan Fernandes4 à frente, resta um substrato comum na identi­
ficação quase empírica da absorção cultural de escravos e dependentes livres
pela família senhorial. Essa absorção pôde ser lida como incapacidade eugê-
nica por Oliveira Viana, como locus de miscigenação racial e cultural por
Freyre, como massacre cultural dos mais eficientes para perpetuar a segregação
social ou racial por Florestan. Não se discute, porém, sua efetividade e a falta
de concretude de qualquer coisa que pudesse ser chamada de família entre os
escravos ou entre a “plebe rural”.
É razoável, entretanto, que os demógrafos se impressionem ao insisten­
temente encontrar a presença da família nuclear ou matrifocal nos núcleos
residenciais, ao ver agregados rurais contados como fogos separados em re-
censeamentos rurais, ao constatar cada vez mais incisivamente a presença da
família (nuclear) escrava. Esses complexos familiares dependentes já não eram,
entretanto, previsíveis, nos modelos citados? Já se chegou mesmo a explicita­
mente perguntar se, além de simples arranjos biológicos ou residenciais, me­
receríam eles culturalmente o nome de “família”5.
As respostas para as questões suscitadas pelas recentes pesquisas demográ­
ficas sobre a história da família livre ou escrava, diante do substrato comum
dos mais heterogêneos modelos interpretativos anteriormente propostos, têm
necessariamente que se debruçar sobre os significados culturais das associações
familiares (e aqui o plural é imperativo) na sociedade escravista e em seu papel
central no estabelecimento das hierarquias e relações sociais.
Numa sociedade em que os processos de desenraizamento e as relações
pessoais exerciam papéis estruturais, o acesso às relações familiares não pode
ser tomado como um dado natural, nem a mobilidade, como indicador de
anomia. Ambos os processos só encontram significação quando pensados em
conjunto, como faces de uma mesma moeda. A contradição entre a intensa
mobilidade espacial das testemunhas livres arroladas nos processos analisados
e a universalização das relações familiares entre os que se consideravam lavra­

66
LAÇOS DE FAMÍLIA

dores, nesse mesmo conjunto de testemunhas, é apenas aparente. Como


Domingos, no século XVII, um migrante, mesmo na situação de camarada ou
jornaleiro, podia lograr reinserir-se socialmente, através do casamento ou de
união consensual, numa família da nova região. Desse ponto de vista, a relação
familiar tornava-se potencializadora de propriedade, mesmo que apenas de
uma situação (lavouras e benfeitorias) em terra alheia e sem escravos.
Busquei reencontrar esses lavradores de roça, que lograram tornar-se pro­
prietários, em seus inventários post mortem, no momento de sua morte e da
partilha de seus poucos bens. Minha experiência anterior de pesquisa anima-
va-me quanto às possibilidades abertas por essa forma de aproximação. Tor-
nou-se necessário, entretanto, novamente refletir sobre o significado desses
documentos.
Filhos, roças, casas de sapé e mesmo escravos eram recursos profundamen­
te marcados pela precariedade. Os herdeiros de dona Maria do Rosário6 viram,
ao longo dos 20 anos em que correu o inventário de sua mãe, lavradora de
terras arrendadas em São João do Meriti, incendiarem-se as casas de palha
existentes em sua situação, inclusive aquela em que moravam; viram perderem-
-se numa inundação suas roças de mandioca e falecerem três de seus escravos
(entre eles um recém-nascido e sua mãe). Durante esse tempo, viveram todos,
três irmãs casadas e dois irmãos menores, em condomínio, na situação her­
dada de seus pais. Os dois filhos mais novos, ao atingirem a maioridade,
venderam os dois velhos escravos que lhes haviam cabido por herança, deixa­
ram a situação familiar para suas irmãs e seus cunhados e partiram definitiva­
mente da freguesia em que moravam.
Dentro desse quadro de precariedade, a generalização dessa prática jurídi­
ca, mesmo em vista de sua obrigatoriedade legal, quando da existência de filhos
menores, era necessariamente bastante limitada. Os inventários analisados,
antes que uma categoria social, espelharam um momento de diversas histórias
de vida. O lavrador de roça que chegou a legar alguns bens em herança para
seus filhos não é mais que a contraface de outros que migraram, órfãos, sol­
teiros, viúvos ou abandonando a família, que não mais podiam sustentar. Foi
esse momento que busquei encontrar na amostra de inventários reunidos. A
ponta de um iceberg de base bastante ampliada.
Fixar-se numa região significava estabelecer laços. O casamento ou mesmo
a relação consensual com uma caseira significava estabelecer relações com uma
família da região. Significava deixar de ser estrangeiro ou estranho à comuni­
dade. Empregar-se como camarada ou jornaleiro era colocar-se provisoriamen­
te sob a proteção de um sitiante ou fazendeiro, mas constituir família retirava

67
DAS CORES DO SILENCIO

o sentido de temporariedade daquela situação e abria as portas para o acesso


à roça de subsistência. O casamento e a formação de uma família nuclear es­
tável, ou outras formas de associação dc caráter familiar (como o condomínio
entre irmãos ou ex-escravos), tornavam-se, assim, precondição para a produção
independente. Desse modo, do conjunto de despossuídos, em suas diferentes
histórias de vida, que pressupunham, na maioria das vezes, migrações, enfren-
tamento de epidemias, pragas e “catástrofes” naturais — como incêndios, secas
e enchentes —, os que conquistavam relações familiares estáveis e que venciam
a difícil fase da primeira infância dos filhos é que chegavam a estabelecer re­
lações de continuidade com a posse da terra e relações de solidariedade hori­
zontal e vertical com a vizinhança, configurando-se, objetivamente, como
lavradores, mesmo quando não contavam com a propriedade legal da terra ou
com o recurso do trabalho escravo.
A diferenciação inter-regional no interior das áreas analisadas apresenta-se,
entretanto, expressamente relevante para a difusão dessa possibilidade e tam­
bém de sua influência sobre os padrões de posse de escravos vigentes.
Grosso modo, do ponto de vista da convivência entre livres e escravos, po-
dem-se definir três tipos de situações nas áreas analisadas. Com base nos dados
do recenseamento geral de 1872, definem-se três desenhos demográficos dos
quais se podem inferir algumas tendências gerais, associando-se o peso rela­
tivo da população livre com urna tendência a uma menor concentração da
propriedade escrava e a uma maior incidência da lavoura de roça como estra­
tégia de sobrevivência para a população livre, conforme o gráfico 1.
Essa possibilidade bem como a tendência à difusão da propriedade escrava
mostram-se, assim, claramente maiores nas áreas produtoras de alimentos,
como a Baixada Fluminense (Capivari) e o sul de Minas (Campanha) e, ainda,
bastante expressivas nas áreas cafeeiras (São Fidélis) e açucareiras (Campos)
do Norte Fluminense e na região cafeeira de Minas Gerais (Mar de Espanha).
Na segunda metade do século, apenas no Vale do Paraíba fluminense (Canta­
galo, Vassouras) se encontra algo próximo da clássica imagem do mundo di­
vidido entre uma elite de brancos livres e uma enorme massa de negros escra­
vos. O peso relativo da população branca nas três áreas apresenta-se,
entretanto, curiosamente semelhante (algo entre 30 e 40%). É a presença ex­
pressiva de uma população negra e mestiça livre que provoca a diferença dos
desenhos demográficos considerados. Em todos os casos, entretanto, a análise
dos inventários o comprova, a utilização da família como capital social para o
acesso à lavoura de roça fazia-se presente.

68
LAÇOS DE FAMÍLIA

Gráfico i - Censo de 1872: população por cor e condição

O conjunto de inventários post mortem, levantados para Campos, bem


como para Capivari e para o recôncavo da Guanabara, na Baixada Fluminense,
apesar de parcamente representativo, em termos estatísticos, configura, como
as testemunhas dos processos de escravos, uma impressionante identidade dos
perfis apresentados. O único critério adotado na seleção desses inventários foi
o número de escravos (sempre inferior a cinco) e a possibilidade de identifi­
cação, a partir da lista de bens, de uma situação rural (casa, lavouras e benfei­
torias). Em todos os casos, conforme os gráficos a seguir, apesar da expressiva
incidência da propriedade escrava, especialmente para as primeiras décadas
do século XIX, o casamento religioso e um elevado número de filhos mostra­
ram-se quase universais na amostra7.

Gráfico 2 - Inventários: lavradores segundo o estado civil

Fonte: Inventários post mortem, c. 1820, c. 1850, c. 1870.

69
DAS CORES DO SILÊNCIO

Gráfico 3 - Inventários: lavradores segundo o n- de filhos

Fonte: Inventários post mortem, c. 1820, c. 1850, c. 1870.

Esses índices estão, obviamente, referidos apenas como amostra, não tendo
qualquer significado em relação ao conjunto possível de lavradores de roça
existentes à época, em qualquer região. São, entretanto, valiosos indicadores
de que a família nuclear era precondição para a atividade agrícola indepen­
dente que não dispusesse de capital e que um elevado número de filhos era
sempre desejável nas relações matrimoniais. A frequência significativa de se­
gundas núpcias, especialmente nos inventários de lavradores, bem como de
filhos e filhas casadas, entre os herdeiros, muitos com o sobrenome “de tal”,
permitem, ainda, considerar que o casamento legal fosse largamente predo­
minante entre lavradores “de roça”, que atingiam um nível mínimo de prospe­
ridade, representando mesmo um símbolo de status e estabilidade. Apenas
para as áreas cafeeiras do Vale do Paraíba, não tive condições práticas de rea­
lizar o mesmo tipo de levantamento. O trabalho clássico de Stein8 e algumas
teses recentes parece-me que reiteram a presunção de que, mesmo minoritários,
os lavradores de roça também ali não eram incomuns e dependiam igualmen­
te do trabalho familiar.
Na cidade de Campos, onde pude detalhar qualitativamente a análise, se,
no conjunto de processos levantados, 85% dos inventariados eram casados ou
viúvos, essa proporção aumenta ainda mais, quando se levam em conta apenas
os inventários de mulheres. Em relação às mulheres, apenas cinco delas (10%)
eram solteiras, todas com família consensual (filhos).
Os inventários de mulheres solteiras, mesmo que de grupos abastados, não
configuravam, em geral, uma unidade produtiva. Não possuem casas ou la­
vouras, mas apenas bens móveis e escravos. São semelhantes ao inventário de
menores, que permaneciam sob a tutela de um pai ou uma mãe viúva. Nas

70
LAÇOS DE FAMÍLIA

partilhas, as mulheres solteiras e os filhos menores recebiam prioritariamente


pagamentos em dinheiro ou bens móveis. As viúvas, como meeiras do casal,
tendiam a manter o controle da situação agrícola, mas contavam, via de regra,
com um segundo casamento ou o apoio de um filho ou genro privilegiado9.
Aquelas cinco mulheres, provavelmente, apenas não abriram inventário
quando da morte de seus companheiros. A maioria das mulheres amasiadas,
mesmo com filhos, não se tornava herdeira legal ou coproprietária dos bens
de seu amásio. João de Sousa Oliveira10, filho natural de Rita Maria do Espí­
rito Santo, desquitado pelas leis canônicas, com divisão formal de bens, de Ma­
ria Inácia das Dores, com quem não tivera filhos, viveu por longos anos mari­
talmente com Maria Bernarda, com quem teve nove filhos (de 2 a 22 anos de
idade). Reconheceu-os e deixou-lhes todos os bens em testamento, um peque­
no sítio em terras próprias e um escravo, de 50 anos. Maria Bernarda apenas
foi citada no testamento como mãe de seus filhos e nada recebeu. José Joaquim
Caldas dAlvarenga11, na mesma situação, mas sem filhos, deixou seus bens em
usufruto para sua amásia Francelina Pereira de Sousa, com quem vivia havia
mais de dez anos. Após a morte desta, dois menores, seus afilhados, tornar-
-se-iam plenamente herdeiros.
Evidenciando a recorrência das práticas de amasiamento, os filhos naturais
não aparecem, na amostra, ligados a sinais claros de estigma social. O vigário
da paróquia de São Gonçalo e várias mulheres casadas, cujos nomes vinham
precedidos pelo título de “dona”, estavam entre os filhos nascidos da união
consensual entre o português Antônio Luís Ferreira Pinto e Maria da Silva
Leite, que viveram juntos e solteiros por mais de 30 anos, conforme o testa­
mento no inventário deste12. Entre os filhos e as filhas que o mesmo Antônio
teve com suas quatro escravas, libertos pelo pai, vários eram casados. Entre
todos os solteiros e as solteiras com filhos analisados, encontravam-se com
frequência herdeiros maiores (especialmente mulheres) casados. Josefa Maria
Francisca13 foi mãe solteira de Úrsula Maria da Conceição, casada à época do
inventário da mãe. Casou-se, após o nascimento da filha, com Quintiliano
Gomes dos Santos, deixando, ao falecer, dois escravos e uma pequena situação
agrícola. Os filhos naturais, e mesmo as mães solteiras, não se viam na prática
alijados do acesso à família legalmente constituída (casamento religioso) e do
convívio social14.
Do ponto de vista da herança de bens, apenas a ilegitimidade causava pe­
sados ônus. Maria Francisca dos Anjos15, viúva de Manuel Francisco Pires, que
a abandonara havia mais de 30 anos, tenta beneficiar, no testamento, seu filho
ilegítimo, que com ela residia. O irmão mais velho recorre e, filho legítimo,

71
DAS CORES DO SILÊNCIO

consegue o controle da pequena situação da mãe, pagando a terça ao irmão,


em bens móveis.
A importância das relações familiares reaparece, ainda, no papel estratégico
desempenhado pelos cunhados e pelas segundas núpcias. Em sete casos ana­
lisados, as viúvas, ao abrirem os inventários de seus finados maridos, após um
ou dois anos do falecimento, já apresentavam como inventariante seu novo
consorte, em dois dos processos denominado “sucessor” e irmão do falecido16.
Em mais cinco casos em que as mulheres são inventariadas, elas eram casadas
em segundas núpcias, todas com os filhos mais novos ainda crianças, menos
de sete anos, revelando a precocidade da viuvez e a precariedade até mesmo
física das famílias, que tinham de ser repetidamente recriadas17. A própria
difusão da prática de as mulheres não apresentarem sobrenomes, mas serem
identificadas por sua relação de filha ou esposa, reforça a dependência femi­
nina nessa sociedade e as dificuldades que se apresentavam às solteiras e viúvas
que não dispusessem de bens ou proteção. A difusão de fogos de mulheres
sós, reiteradamente registrados pelas pesquisas demográficas, parece-me que
responde por uma realidade essencialmente urbana e frequentemente asso­
ciada à migração, que se apresentava como a única opção para aquelas mulhe­
res que perdiam o respaldo familiar legal ou costumeiro, conforme capítulo
anterior18.
Como as viúvas jovens, os homens com filhos menores, sempre que possí­
vel, casavam-se de novo. José Pereira Barbosa teve seis filhos de dois casamen­
tos: Joaquim (11 anos) e Justino (9 anos) com Angélica de Tal, e Rita (7 anos),
Quitéria (5 anos), Maria (4 anos) c Júlia (3 anos) com Ana Maria de Jesus —
idades à época do inventário. A viuvez e o novo casamento não chegaram sequer
a interromper o intervalo regular de nascimento dos filhos. São oito os lavra­
dores casados em segundas núpcias, inventariados em Campos, com histórias
muito semelhantes à de José Barbosa19. Se o homem era sempre o “cabeça do
casal”, por força da lei e da prática, também não podia viver sem seu corpo. Os
poucos homens solteiros, proprietários de situações rurais com um ou dois
escravos, que tiveram seus bens inventariados, viviam, sem dúvida, situações
temporárias que a morte e o inventário acabaram por eternizar.
Essa predominância de casamentos legais (religiosos) é, entretanto, uma
clara distorção da amostra, em relação às práticas familiares da maioria dos
lavradores de roça. No Brasil escravista, o casamento legitimava os filhos nas­
cidos enquanto eram solteiros os pais20, de modo que não se pode concluir
desse dado que o casamento religioso necessariamente precedesse as uniões.
Mas certamente sua predominância nos inventários indica que a união reli­

72
LAÇOS DE FAMÍLIA

giosa legitimava o consórcio de interesses que se firmava ao se ter acesso está­


vel à produção familiar.
Aí, chega-se a um segundo ponto: os filhos como condição de prosperida­
de. Quanto mais filhos, mais braços. O acesso ao trabalho escravo ou à compra
de um pedaço de terra foi, em inúmeros casos, função dessa condição. O cál­
culo econômico do lavrador de roça tornava-se, assim, informado por uma
lógica quase chayanoviana1'. Despossuído de capital e dependente da mão de
obra familiar, dependia de equilibrar o número de produtores e consumidores
no interior de sua unidade doméstica, para poder aspirar à compra de um
escravo ou de um pedaço de terra.
Essa possibilidade não aparece tão claramente na amostra até 1850, em
função das facilidades de acesso ao trabalho escravo, que quase universalizava
essa propriedade, no conjunto de pessoas passíveis de se verem obrigadas à
abertura de inventário. Mesmo assim, para cada escravo arrolado nos inventá­
rios reunidos, para as duas primeiras décadas do século, contabilizaram-se 1,78
filhos, e as famílias com mais de quatro filhos vivos reuniram, em média, uma
fortuna cerca de um terço maior que as que possuíam prole menos numerosa,
nas duas áreas consideradas, conforme os gráficos que se seguem.

Gráfico 4 - Campos: valor médio dos invent. segundo a idade do primeiro filho

Fonte: Inventáriospost mortem. Campos-RJ.

A difusão do acesso à propriedade escrava, especialmente na primeira


metade do século, nem sempre levava a assumir uma lógica empresarial em
substituição ao cálculo chayanoviano. A dispersão precoce dos filhos tornava
os cativos, frequentemente, e em pouco tempo, simples substitutos daqueles.

73
DAS CORES DO SILÊNCIO

Como o mais valioso dos bens familiares, sua venda, no momento da partilha,
era quase inevitável, retomando o ciclo anterior. De qualquer maneira, com
muito maior frequência, então, superava-se a dependência do trabalho familiar.
Curiosamente, nesses casos, muitas vezes se transferia para a família escrava a
mesma lógica cbayanoviana. Era comum comprar-se um casal de escravos
africanos e contar com seus filhos, num futuro próximo. Sem senzalas, às vezes
ambas as famílias dividiam a mesma casa de sapé e poucos cômodos. Apesar
da predominância masculina (a maioria dos inventariados possuía apenas um
único escravo, em geral africano), 80% das mulheres cativas arroladas nos
inventários de Campos, no início do século, apresentavam relações familiares
no minúsculo plantei (marido e/ou filhos)22.

Gráfico 5 - Baixada: valor médio dos invent. segundo a idade do primeiro filho

Fonte: Inventários post morterm. Arq. Nacional, fórum de Silva Jardim-RJ.

Essa proximidade entre escravidão e relações familiares tornava cultural­


mente bastante complexas e específicas as relações desses senhores com seus
escravos, bem como emprestava uma dimensão inusitada à autoridade paterna,
enquanto condição de exploração do trabalho. Em Minas Novas, 1845, o
menino Vicente, de 12 anos, testemunha do violento assassinato de seu padri­
nho por um grupo de escravos, ameaçado pelos assassinos, fugira apavorado,
deixando cair um balaio de melancias. Quando chegava já praticamente à
porta de sua casa, decidiu voltar, por temer entrar em casa e enfrentar o pai
sem o balaio. Entre os assassinos — a lincharem o alferes Jerônimo — e seu
pai, Vicente não teve dúvidas sobre o que lhe parecia mais ameaçador23.

74
LAÇOS DE FAMÍLIA

Deste modo, da mesma forma que a mobilidade espacial, a família nuclear


e a rede de relações pessoais e familiares a ela ligada permanecem essenciais na
experiência dos homens livres por todo o século passado, como já haviam sido
no período colonial. Também para os escravos, a obtenção de maiores níveis
de autonomia dentro do cativeiro parece ter dependido, em grande parte, das
relações familiares e comunitárias que estabeleciam com outros escravos e
homens livres da região.
Mesmo para o estabelecimento de laços de solidariedade vertical mais
permanentes, a formação de uma família ou o pertencimento a uma já exis­
tente era precondição, na medida em que as relações de solidariedade vertical
culturalmente sólidas e não simplesmente táticas eram em geral estabelecidas
entre famílias e não entre indivíduos. Segundo o menino Vicente, o alferes
Jerônimo Soares de Souza fora assassinado em emboscada, por alguns escravos
e agregados de sua tia, dona Maria Soares. Na única versão apresentada no
processo como motivo do crime, ele foi considerado decisão dos próprios
executores, liderados por três irmãos escravos e incentivados pela mãe, também
cativa. A família não queria tornar-se propriedade da vítima. O alferes ques­
tionava judicialmente o testamento de seu tio, que deixara toda a família de
cativos para a esposa, Maria Soares. Os escravos contaram, na emboscada,
entretanto, com a ajuda de alguns homens livres e libertos, filhos de lavradores
de roça, na vizinhança das terras de dona Maria. Não se pode deixar de pensar
num provável envolvimento desta como mandante do crime, mas as descrições
pormenorizadas que os réus fazem da emboscada e das comemorações, na
senzala de sua mãe, do sucesso da empreitada, não deixam dúvidas de que os
implicados tinham um envolvimento pessoal em sua motivação.
O alferes Jerônimo Soares de Souza também tinha a sua gente. Considerado
“um verdadeiro pai de toda aquela pobreza da beira do rio”, segundo um dos
depoimentos, financiava e dirigia diretamente as obras de construção de uma
igreja no povoado e era compadre de vários dos lavradores de roça a deporem
no processo. Na verdade, os depoimentos sugerem uma divisão das testemunhas
entre dependentes, livres ou escravos, do sobrinho ou da tia. Claramente
travava-se uma luta por poder e influência, dentro da família Soares, que con­
trolava a região (referências a propriedades de outros membros da família são
constantemente feitas no depoimento, especialmente no que diz respeito às
descrições dos deslocamentos espaciais).
Em nenhum caso, entretanto, os assassinos poderíam ser reduzidos à con­
dição de simples capangas de dona Maria, ou os demais depoimentos, a simples
peças de encomenda da viúva do alferes. As relações de dependência, explíci­

75
DAS CORES DO SILÊNCIO

tas no processo, tinham um sentido mais profundo e não podem ser compa­
radas com os alinhamentos meramente táticos de um camarada ou jornaleiro,
contratado para segurança ou capanga.
No caso dos escravos, considerados os cabeças da emboscada, trata-se do
envolvimento de uma família inteira, três irmãos e sua mãe, viúva do escravo
Tomás de Tal. A família vivia toda junta, “na senzala de sua mãe”, onde se fi­
zeram as reuniões para planejar o crime, e mantinha estreitas relações com os
lavradores de roça da vizinhança. Foram ajudados por dois rapazes brancos,
primos em primeiro grau, Alexandre Manoel Pereira e Hipólito Manoel Pe­
reira, filhos de lavradores de roça na vizinhança, não se sabe se em terras de
dona Maria. Participou também da emboscada, no lugar do “Buriti”, João
Soares Pires — lavrador de roça e neto da escrava Marta Crioula —, com sua
mãe, a preta forra Bonifácia Soares. O sobrenome Soares, o mesmo de dona
Maria e Jerônimo, parece indicar a que família Bonifácia havia um dia per­
tencido, como escrava. Todos, escravos e livres, eram pessoas havia muito
conhecidas na região, inclusive no povoado, e residiam no interior ou nas
proximidades das terras de dona Maria.
Enquanto se esforçavam para negar o crime, tiveram a ajuda dos depoi­
mentos de Maria Rosa da Conceição, parda, casada, de 42 anos, “que vivia de
sua lavoura de roça” e em cuja casa haviam pernoitado no dia da emboscada.
Ela nega, no inquérito, que lhes tivesse dado pousada. Também José da Costa
Alecrim, “lavrador de roça”, pardo, casado, 22 anos, e seu sogro inicialmente
afirmam que, chegando, de canoa, no dia do crime, à fazenda de dona Maria
Soares, ali encontraram todos os escravos acusados, o que os impossibilitaria
de ter cometido o crime. Tão evidente quanto os laços de solidariedade verti­
cal que ligavam, todos eles, a dona Maria, é a complexidade das relações co­
munitárias e familiares que envolviam também a todos. A solidez dos laços
horizontais que estabeleciam tornava seus deveres de fidelidade para com sua
protetora uma questão de princípio e de sobrevivência coletiva. A causa dela
era também a deles.
Muitos choraram, entretanto, a morte do alferes, que claramente se esfor­
çava por consolidar sua influência pessoal entre os lavradores da vizinhança,
batizando filhos de lavradores de roça e empenhando-se pessoalmente na
construção da capela. Justiniano da Costa e Sousa, pardo, casado, lavrador de
roça e compadre do alferes, mandara seu filho, no dia do crime, levar melancias
para o padrinho. No caminho, o menino acaba por presenciar a emboscada e
o próprio crime. Seu depoimento levaria à prisão dos implicados. Outros la­
vradores de roça, sempre morando com a família e frequentando-se mutua­

76
LAÇOS DE FAMÍLIA

mente, alguns ainda trabalhando nas obras de construção da capela, depõem


no processo, repetindo o que lhes contara o menino, ou mesmo, antes da
prisão, alguns dos implicados. Ninguém, entretanto, em todo o processo, nem
mesmo a viúva e a mãe do falecido, sequer sugere um possível envolvimento
de dona Maria no acontecido.
Nem todos os lavradores de roça de Minas Novas haviam nascido na região,
mas todos, sem exceção, incluindo aí os escravos envolvidos, ali possuíam com­
plexas relações familiares e comunitárias, que acabavam por determinar tam­
bém suas relações de solidariedade vertical com os “grandes” da localidade. A
maneira culturalmente esperada de um migrante integrar-se numa nova área
não era pedindo emprego ou acolhida a um potentado local, mas travando
relações duradouras com os que ali viviam, baseados em relações costumeiras.
Do ponto de vista do homem livre, a solidariedade vertical era, assim, herda­
da de relações horizontais anteriores, antes que escolhida.
De forma paralela, do ponto de vista de um escravo recém-comprado para
o serviço de roça, os caminhos para conseguir no cativeiro um espaço mínimo
de sociabilidade passavam por integrar-se à comunidade já existente de cativos,
antes que buscar uma difícil e improvável aproximação com seu senhor. Florên-
cio, recém-chegado à fazenda de Esteves, em Paraíba do Sul, em 1866, morava
na senzala de Generosa e Francisco, africanos, e seus três filhos. Pagava regu­
larmente à Generosa para que esta lavasse sua roupa e pretendia casar-se com
a filha do casal24.
Essa estrutura quase “clânica”, como a chamou Oliveira Viana, ou “patriar­
cal”, como preferia Gilberto Freyre, não pode ser entendida, entretanto, como
uma mera extensão da família senhorial. Para os escravos envolvidos, depen­
dentes e despersonalizados por definição, surpreende exatamente o nível de
autonomia e estabilidade familiar que conseguiam, extremamente próximo
da experiência dos homens livres com os quais conviviam. Em Minas Novas,
o estereótipo da escravidão é inclusive explicitamente utilizado em sua defesa.
Segundo seu curador, eles não poderíam ter cometido o crime, pois naquele
dia, como se espera de qualquer escravo, se encontravam na fazenda de sua
senhora, ocupados no trabalho. Na versão inicialmente assumida por todos
no processo, inclusive e principalmente pelos próprios irmãos cativos, já se
acentua, ao contrário, sua aproximação com o estereótipo da liberdade. Teriam
sido eles, autonomamente, que acionaram suas relações familiares e de vizi­
nhança para impedir que Jerônimo se tornasse seu senhor e ameaçasse, nessa
condição, aquela autonomia e estabilidade.

77
DAS CORES DO SILÊNCIO

Para os homens livres, a família nuclear como unidade de produção e con­


sumo e a reciprocidade entre iguais eram a base econômica da sobrevivência.
Economicamente, dependiam pouco de Jerônimo ou de dona Maria. À soli­
dariedade vertical cabia, fundamentalmente, o papel de sustentar as condições
costumeiras que davam estabilidade a todo o sistema.
Também Eduardo, escravo de Joaquim da Silva Braga em Vila Cristina, em
187o25, era casado e possuía roças de milho, negociando regularmente os fru­
tos de sua colheita com dona Rita Fausta, velha senhora moradora no povoa­
do, a quem, segundo a acusação, teria assassinado, roubando-lhe ainda 500
mil-réis, que guardava para comprar um escravo. Filho de um casal de africanos
já falecidos, Eduardo teria se ausentado da casa de seus senhores, alegando que
iria a um mutirão (do qual participavam majoritariamente roceiros livres),
próximo à casa de dona Rita, onde não chegou a ser visto. Teria tido como
cúmplice seu compadre Luís, também escravo, de um terceiro senhor. Luís,
apesar de casado, andava fugido “desde a época das plantações de fumo” e
sustentava-se, no sertão, com lavouras de cana e mandioca. A única evidência
contra os dois são os depoimentos dos participantes do mutirão, que viram
dois negros fugindo da casa de dona Fausta e seguiram seus rastros até a casa
do senhor de Eduardo. Não foram, entretanto, propriamente reconhecidos e
negaram o crime até o final do julgamento, em que foram condenados. Luís
relata que voltara à Vila Cristina para apadrinhar-se com o comendador João
Carneiro, pedindo-lhe que intercedesse em seu favor junto a seu senhor, pois
estava “cansado de andar nas matas”. Provavelmente mentia, mas sabia que essa
explicação era previsível e aceitável. Ambos tinham irmãos na fazenda do
comendador e eram assíduos frequentadores de suas senzalas. Ali, segundo
alguns escravos, teriam confessado o crime ao preto velho André, que, entre­
tanto, não confirmou essa versão, preferindo narrar em juízo um sonho no
qual teria visto os verdadeiros culpados.
Repete-se, assim, o quadro geral de Minas Novas26. Todos os senhores de
escravos citados, que não depõem no processo, parecem ser parentes e herdei­
ros do pai do comendador. Com certeza são seus vizinhos. Sob sua influência,
orbitava um número considerável de lavradores de roça que, no momento do
crime, se encontravam no mutirão, entre eles um africano livre e um natural
de Santa Catarina. Em sua maioria, eram casados e possuíam lavouras próprias.
Dona Fausta e seu genro, presente no mutirão, também possuíam escravos.
Eduardo, com suas roças de milho, seus negócios com dona Fausta, assíduo
frequentador da venda do povoado e dos mutirões de lavradores livres, con­
seguia, em seu cativeiro, níveis de autonomia que muito o aproximavam da

78
LAÇOS DE FAMÍLIA

experiência de liberdade com a qual convivia. O assassinato e o roubo, se os


cometeu, teriam sido motivados, segundo as testemunhas, pelo desejo de
comprar sua alforria. A fuga de Luís também visara, por outros meios, a essa
mesma liberdade, para a qual se julgavam ambos culturalmente equipados.
A experiência de Eduardo, e de outros como ele, construíra-se, entretanto,
sobre um quadro que a recorrente vigência do tráfico africano ou interno não
tornava comum a qualquer cativo. Evidenciam-se no processo, no qual todos
os escravos que depõem são naturais da região e conheceram seus pais, inten­
sas relações, no interior da comunidade dos cativos, de parentesco (além da
mulher, escrava, os irmãos, na fazenda do comendador), compadrio (Eduardo
e Luís) e mesmo hierárquicas (a provável visita e confissão ao preto velho
André), que perpassavam os vários plantéis e integravam desigualmente os
cativos na comunidade dos livres. De formas diferenciadas e com objetivos
culturalmente distintos, eram as relações entre iguais que socializavam escra­
vos, livres pobres e senhores para uma convivência entre desiguais. Pode-se
falar assim, como Blassingame27, numa comunidade escrava (formada por
relações pessoais e familiares entre os cativos), mas também numa comunidade
de lavradores de roça (integrada pelas práticas de reciprocidade entre a vizi­
nhança e por estreitas relações familiares e pessoais entre seus membros) e
numa comunidade política, que controlava negócios e poder (o comendador
e seus familiares). Essas esferas diferentes de socialização encontravam-se in­
tegradas por um mesmo código cultural que reforçava o lugar social de cada
um e as formas legítimas ou possíveis (fuga) de transitar entre elas. Nesse
quadro, a escravidão era praticamente a única relação social efetivamente
institucionalizada. A estabilidade desse arranjo social não se construía apenas
sobre a violência e a desigualdade de recursos, mas principalmente sobre o
costume, que abria atalhos e previa recursos (sociais e culturais) para conviver
com a realidade da violência e da desigualdade.

Notas

1 Cf., entre outros, Donald Ramos, “City and country: the family in Minas Gerais, 1804-1838”,
Journal ofFamily History, 1978; Iraci dei Nero da Costa e Francisco Vidal Luna, “Vila Rica:
nota sobre casamento de escravos, 1727-1826”, África, na 4, São Paulo, 1981, pp. 105-9; Eni de
Mesquita Samara, “Os agregados: uma tipologia ao fim do período colonial, 1780-1830”,Estu­
dos Econômicos 11(3), São Paulo, 1981; idem, “Família e domicílios em sociedades escravistas”,
in Maria Luiza Marcílio (org.), História epopulação — Estudos sobre a América Latina, 1990,
pp. 175-85; Alida C. Metcalf, Families ofPanters, Peasants and Slaves — Strategiesfor survival

79
DAS CORES DO SILÊNCIO

in Santana de Parnaíba, Brazil, 1720-1820,1983; idem, “A família escrava no Brasil colonial:


um estudo de caso em São Paulo”, in Maria Luiza Marcílio (org.), História epopulação...,
pp. 205-12; Elizabeth A. Kuznesof, Household Economy and Urban Development, 1765-1836,
1986; Iraci dei Nero da Costa e Horácio Gutierres, “Notas sobre casamentos de escravos em
São Paulo e no Paraná, 1830”, História: Questões e Debates., ano 5, n2 9,1984, pp. 313-21; Iraci
dei Nero da Costa et al., “A família escrava em Lorena, 1801”, Estudos Econômicos 17(72), São
Paulo, 1987, pp. 245-95. João Luis R. Fragoso c Manolo Florentino, “Marcelino, filho de Ino­
cência Crioula, neto de Joana Cabinda: estudo sobre famílias escravas em Paraíba do Sul,
1835-1972”, Estudos Econômicos 17(2), São Paulo, 1987, pp. 151-73; Robert W. Slenes, “Lares
negros, olhares brancos: histórias da família escrava no século XIX”. Silvia Lara, (org.), Escra­
vidão. Revista Brasileira de História, vol. 8, nQ 16, São Paulo, mar.-ago., 1988; Stuart B. Schwartz,
Segredos internos — Engenhos e escravos na sociedade colonial, 1988, cap. 14; Hebe Maria Mattos
de Castro, “Trabalho familiar e escravidão: um ensaio de interpretação a partir de inventários
post mortem', Estudos sobre a Escravidão II. Cadernos do ICHF, n2 23, Niterói, ago., 1990;
Sheila de Castro Faria, “Escravidão e relações familiares no Rio de Janeiro”, Estudos sobre a
Escravidão II. Cadernos do ICHF, n2 23, Niterói, ago., 1990; Francisco Luna e Wilson Cano,
“Casamento de escravos em São Paulo: 1776-1804,1829”, in Maria Luiza Marcílio (org.), His­
tória epopulação..., pp. 226-37; Maria de Fátima Rodrigues das Neves, “Ampliando a família
escrava: compadrio de escravos em São Paulo do século XIX”, in idem, op. cit.; Ana Maria
Lugão Rios, Compadrio e casamento de escravos — Estratégias de vida e mudanças no tempo.
Cabo Frio, 1795 a 1885. Relatório apresentado ao Centro de Estudos Afro-Asiáticos, jul., 1991;
José Góes, “O cativeiro imperfeito”. Dissertação de mestrado. Niterói, UFF, 1992.
2
Ronaldo Vainfas, Trópico dos pecados — Moral, sexualidade e Inquisição no Brasil., 1989,
pp. 107-12.
3
Oliveira Vianna, Populações meridionais do Brasil. Vol. 1, 1987.
4
Florestan Fernandes, A integração do negro na sociedade de classes, 1978.
5
Jacob Gorender, A escravidão reabilitada, 1990, pp. 49-50.
6
Documentação judiciária. Inventáriospost mortem, 1808. Arquivo Nacional.
7
Foram utilizados 100 processos para Campos e 59 para a baixada fluminense.
8
Stanley J. Stein, Vassouras — Um município brasileiro do café, 1850-1900,1990.
9
Ana Teresa Pinto Lima e Virgínia Maria Ramos, “A situação da mulher na unidade produtiva
rural pobre em Campos dos Goitacases, século XIX”. Relatório de iniciação científica. CNPq,
1989.
10
Cartório do primeiro ofício de notas de Campos, 1874.
11
Cartório do terceiro ofício de notas de Campos, 1875.
12
Cartório do primeiro ofício de notas de Campos, 1875.
13
Cartório do primeiro ofício de notas de Campos, 1826.
14
Neste sentido, cf. também Kátia M. de Queirós Mattoso, Bahia, século XIX — Uma província
no Império, 1992, p. 207.
15
Cartório do segundo ofício de notas de Campos, 1875.
16
Cf. cartório do terceiro ofício de notas de Campos, maço 146 (Domingos Ferreira de Souza,
1825); maço 128 (José Ribeiro da Fonseca, 1822); maço 428 (Luís Antônio Martins do Nasci­
mento, 1853); maço 474 (Manoel Ribeiro do Rozário, 1850); maço 476 (Manoel da Silva Ris­
cado, 1854). Cartório do primeiro ofício de notas de Campos, maço 90 (Antônio Martins do
Amorim, 1820). Cartório do quarto ofício de notas de Campos, maço 193 (João Pessanha da
Silva, 1875).

80
LAÇOS DE FAMÍLIA

17 Cf. cartório do primeiro ofício de noras de Campos: inventários, maço 298 (Bernardina Maria
Francisca, 1854); maço 333 (Francisca Amália de Carvalho Pinto, 1874). Cartório do terceiro
ofício de notas de Campos: inventários, maço 119 (AnaCoutinho, 1823); maço 125 (Rita Maria
do Espírito Santo, 1824); maço 126 (Antônio Barreto de Alvarenga, 1825).
IS
Cf., também, neste sentido, entre outros, Donald Ramos, “A mulher e a família em Vila Rica
de Ouro Preto, 1754-1838”, in Maria Luiza Marcílio (org.), História e População...-, Elizabeth
Ann Kuznesof, “Ilegitimidade, raça e laços de família no Brasil do século XIX”, in idem, op. cit.,
pp. 164-74; Eni de Mesquita Samara, “Família e domicílios em sociedades escravistas”, in idem,
op. cit., pp. 175-85; Maria Odila Leite da Silva Dias, Quotidiano epoder em São Paulo no século
XIX, 1984.
19 Cartório do primeiro ofício de notas de Campos, maço 108 (Antônio Alves dc Azevedo, 1826);
maço 333 (Francisco da Silva e Souza, 1872); maço 428 (Luís Antônio Martins do Nascimento,
1853). Cartório do terceiro ofício de notas de Campos, maço 126 (Antônio Barreto de Alva­
renga, 1825); mapa 115 (José Pereira Barbosa, 1822); maço 412 (Gabriel da Silva Correia, 1853);
maço 443 (José Ribeiro de Oliveira, 1876); maço 443 (José Manhães de Azevedo, 1876).
20
Elizabeth Ann Kuznesof, “Ilegitimidade, raça e laços de família no Brasil do século XIX...”
21
A. V. Chayanov, La organización de la unidad econômica campesina, 1974.
22
Oitenta e cinco mulheres escravas aparecem arroladas nos 150 inventários trabalhados para o
município de Campos.
23
Documentação judiciária. Corte de Apelação: escravos, processos criminais. Caixa 143, na 1.608.
Arquivo Nacional.
24
Documentação judiciária. Corte de Apelação: escravos. Caixa 11.959,n<J 754- Arquivo Nacional.
25
Documentação judiciária. Corte de Apelação: escravos. Processos criminais. Maço 1.732,
n2 3.927. Arquivo Nacional.
26
A única e expressiva diferença é que, neste segundo caso, não mais se explicita a cor dos homens
livres, tendência que se generaliza na segunda metade do século e que será considerada na
conclusão desta parte.
2“
John Blassingame, Pie Slave Community, 1972.

81
4

A potência da propriedade

Diz o autor Joaquim Francisco Valverde, contra os réus citados, que ele, o autor, se pôs
de oito anos mais ou menos na posse de um terreno maninho denominado Coaragoa-
tá beira-mar da praia do Saco que se compõe de seiscentas braças de testada e fundos
ordinários, um mangai, fazendo lados por urna parte com o rio do mesmo Saco, e pelo
outro com terras do falecido José Veríssimo de Matos e hoje de sua mulher Angélica
Maria Teresa, e filhos, onde levantou o autor casa de moradia coberta de telha, fez
cercados e mais necessários para conter e criar seus animais vacum e cavalar, cabras e
porcos sem contradição de pessoa alguma.
Estando então pacífico, o autor no uso e posse do indicado terreno por espaço de
seis anos, se viu perturbado pelos réus que a pretexto de uma papeleta de arrendamen­
to que diz passara a viúva daquele Matos, entraram a dia do mês de março de 1831, a
picarem os gragoatás e cerca que existia ao nível do terreno que servia de tapume em
círculo das que o autor ocupava, e no interior levantaram uma coberta que levaram a
três lanços de casas de vivenda unidas em que moram com sua família mariscando
cascas dostras.
Com esta interrupção veio a ficar o autor em parte privado da posse, gozo e desfru­
te do terreno que não se achava ocupado por pessoa alguma, e por isso foi que no seu
ingresso teve de adquirir o irrevogável direito de propriedade sancionado por muitas
cartas régias e imperial, que as mandou respeitar independente de outro algum meio
de invento1.

Joaquim Francisco Valverde muito surpreendeu dona Angélica Teresa, ao


tomar a iniciativa de levar a pendência que havia entre ambos para a esfera
judicial. Ao fazê-lo, produziu-se um processo extremamente esclarecedor
sobre as ambiguidades das relações entre propriedade e acesso à terra, na pri­
meira metade do século XIX.
O sentido patrimonial da política de doação de sesmarias havia sempre
reforçado, em termos legais, a necessidade de revalidação da concessão, con­
DAS CORES DO SILÊNCIO

dicionada à efetiva ocupação, e o direito da Coroa de fazer as terras voltarem


a seu domínio, quando não cumprida esta última condição. Deste modo,
qualquer título de propriedade tornava-se inócuo, se contestado, se não se
provava a revalidação da sesmaria (o que raramente se fazia). Paralelamente,
a legislação colonial, através das Ordenações Filipinas, tradicionalmente con­
sagrara a posse efetiva como recurso legal para a obtenção de propriedade.
Após a emancipação política e a revogação do instituto das sesmarias, esta
segunda via se tornaria por algumas décadas a forma predominante de cons­
tituição da propriedade fundiária no país. A maior parte da expansão cafeeira
no vale do Paraíba fluminense far-se-ia nesta segunda condição. Neste contex­
to, desde a vigência da política de doações de sesmarias, mas especialmente
após sua revogação, a “efetiva ocupação” constituiu-se em eixo central da
apropriação fundiária no Sudeste, legalmente embasada na legislação portu­
guesa, privilegiada pelos diversos praxistas que se dedicaram ao tema2.
De fato, mesmo sob o domínio da Coroa portuguesa, sempre fora possível
vender ou passar em herança terrenos que jamais haviam sido oficialmente
doados. Essa prática se tornou regra após a emancipação política3. Deste modo,
uma situação de fato acabava por gerar atos jurídicos (compra, venda, inventá­
rios, arrendamentos) capazes de sancionar direitos de propriedade. Essas ações,
entretanto, só se tornavam possíveis quando reconhecidas como tais pelo
conjunto das pessoas envolvidas nas transações, especialmente vizinhos na
mesma região. Raras sesmarias foram revalidadas e demarcadas e isso porque
os processos de demarcação de terras, que teoricamente deveríam ser a última
instância no que se refere ao reconhecimento do direito de propriedade,
podiam tornar-se impraticáveis, se sofressem contestação de vizinhos que se
sentissem logrados em seus direitos. Em outras palavras, mesmo na existência
de títulos legais, o reconhecimento costumeiro e consensual do direito de
posse de alguém dependia, em última instância, de seu efetivo poder, cons­
truído em bases costumeiras, sobre as terras em questão. Como esse equilíbrio
era necessariamente instável, as propriedades podiam alargar-se ou reduzir-se,
no decorrer do tempo, na dependência dos recursos de poder de seus proprie­
tários legais.
Em termos jurídicos, portanto, as Ordenações Filipinas mostraram-se mais
relevantes que a política de doações de sesmarias para dar fundamento legal a
direitos de propriedade fundamentados no costume. Ao favorecer a posse,
aquelas serviam para arbitrar juridicamente as questões suscitadas pela fre­
quente quebra de situações de consenso. A maioria dos praxistas reconhecia
que as provas testemunhais podiam se sobrepor aos títulos nesses casos, espe­

84
A POTÊNCIA DA PROPRIEDADE

cialmente se deles não decorresse posse efetiva ou se não se conseguisse provar


referirem-se realmente ao lugar das questões (o que era frequente).
Os processos de força e manutenção de posse tinham precipuamente esse
papel. Eram processos sumários que, em qualquer caso, deveríam favorecer a
posse efetiva, de forma que o ocupante pudesse impedir judicialmente maio­
res danos a seus domínios, até que a ação competente de despejo ou demarca­
ção resolvesse definitivamente os conflitos. De uma maneira geral, esses pro­
cessos se referiam a conflitos entre vizinhos, em momentos de crise da
organização fundiária local, quando uns tendiam a avançar sobre terrenos
pretensamente da posse de outros. Os próprios limites nos títulos legais se
referiam apenas nominalmente a vizinhos conhecidos, de forma que, quando
estes morriam ou se desfaziam de suas terras, não se tinha mais que a memória
coletiva a demarcá-los4.
A ação de força velha, movida por Valverde, se colocava dentro desse con­
texto5. Ela se destacou, entretanto, do conjunto dos processos considerados,
por basear-se toda em provas testemunhais, sem que títulos legais tivessem
sido apresentados por qualquer das partes. Torna-se, assim, especialmente
elucidativo para o conhecimento de quais tipos de procedimento forjavam a
posse efetiva e podiam, de fato, constituir fundamento para o direito de pro­
priedade.
Segundo dona Angélica, João de Matos Oliveira havia sido

senhor e possuidor de uma sorte de terras tendo princípio a sua testada na praia do
Aipo correndo pela costa do mar e praia da restinga do Saco de Mangaratiba, até con­
testar com as terras que foram do falecido Pedro Alexandre Galvão, nas quais fez uma
fazenda em que morou, e possuiu pacificamente sem contradição de pessoa alguma por
mais de 30 anos, servindo a dita restinga de pastagem para seu gado, e animais alheios
que ali se apascentavam por seu consentimento6.

Segundo Angélica Maria Teresa, essas terras haviam passado, por herança,
a José Veríssimo de Matos, neto de João de Matos Oliveira, de quem era, então,
viúva, sem apresentar, entretanto, os formais de partilha do inventário.
A primeira parte do alegado por dona Angélica parece ser verdade, pois
todas a 18 testemunhas (nove do autor e nove de dona Angélica, como ré
opoente) reconhecem a efetiva posse de João de Matos Oliveira sobre as terras.
Seu filho teria mesmo chegado a plantar anil, onde, depois, se faria a taberna
de Valverde.

85
DAS CORES DO SILÊNCIO

Além de usar as terras, Matos sobre elas exercera incontestável domínio.


Os que então as utilizaram o fizeram com seu consentimento. José Custódio
Henrique, branco, de 51 anos, que “vivia de lavouras”, como testemunha do
autor, afirma que: “O pai dele testemunha, procurando o dito João de Matos
para lhe conceder licença a fim de abrir a barra ou o canal do dito rio para o
lugar denominado Furado, este não consentiu, e por isso o pai dele testemunha
desistiu da pretensão”7.
José Vieira de Oliveira, testemunha da ré opoente, pardo, casado, que
“vivia de lavouras”, diz que, no ano de 1808, “pediu licença e obteve para ter
na mencionada restinga 22 cabeças de gado vacum”8.
Ninguém, no processo, parece contestar o efetivo domínio de João de
Matos Oliveira sobre aquelas terras. Para usá-las, então, era necessário seu
consentimento. Joaquim da Veiga Cascarejo, ex-escravo de João de Matos
Oliveira, de 70 anos de idade, que vivia de “suas agências”, apesar de testemu­
nha de Valverde, afirma em seu depoimento que ele teria presenciado a compra
da fazenda por seu ex-senhor.
Se João de Matos comprara as terras em litígio, se exercera sobre elas efe­
tivo domínio e as passara em herança a seu filho, os fatos, em 1831, ocorriam
de modo diferente.
O neto de João de Matos é classificado pela própria viúva como “perdulá­
rio e desleixado”. A primeira casa, de palha, construída no terreno por Valver­
de foi incendiada, ao que tudo indica a mando de Angélica. Seu marido, en­
tretanto, parece ter gostado de contar com uma taberna nas proximidades de
sua fazenda. Valverde construiu, então, outra casa, dessa vez de telha, ali ins­
talando uma taberna, fazendo também um cercado, onde criava cavalos, vacas,
cabras e porcos. José Veríssimo, segundo as testemunhas da autora, era assíduo
frequentador da taberna de Valverde. A grande questão que se discute por todo
o processo é se Valverde contara com o consentimento de Veríssimo para se
instalar naquelas terras ou se o fizera à sua revelia e sem qualquer contestação,
precedente a partir do qual pretendería credenciar-se para disputar o domínio
sobre elas.
Para além do processo propriamente dito, portanto, duas estratégias esta­
vam, então, claramente delineadas. Valverde se aproveitava do enfraquecimento
do controle que o avô de Matos tivera sobre a área e procurava credenciar-se
a tornar-se proprietário da restinga, onde construíra sua casa e benfeitorias,
como afirmava na petição inicial. Para tanto, pedia indenização a Antônio
Felipe de Oliveira, que ali se instalara com o consentimento de dona Angélica,
e sua saída das terras. Já dona Angélica não contava com esse desdobramento

86
A POTÊNCIA DA PROPRIEDADE

judicial e procurava voltar a exercer atos possessórios sobre a área, começando


por conceder arrendamento a Antônio Felipe de Oliveira e sua mulher, for­
çando Valverde a não se expandir para além dos limites da taberna.
Ao mover o processo de força, Valverde busca reconhecer juridicamente
sua posse sobre a área circunvizinha à taberna, que alguns anos antes havia
cercado. Seu advogado considera que a existência do cercado por mais de seis
anos, sem qualquer contradição do marido de dona Angélica, era suficiente
para provar-lhe a posse e credenciá-lo a pretender o domínio, pois Angélica
não provava ser herdeira de João de Matos, primitivo possuidor.
Já os advogados de Angélica procuravam reduzir Valverde a simples arren­
datário, que usara de artifícios para não passar papel de arrendamento e que
no máximo poderia exigir do marido de dona Angélica indenização pelas
benfeitorias, mas jamais direitos de posse sobre o terreno ao redor. Apesar
disso, a sentença do juiz local é favorável a Valverde, considerando que não
havia dúvidas sobre sua posse atual da área e que a questão do domínio ou
propriedade — se devia ou não passar arrendamento a dona Angélica — não
poderia ser considerada na ação de força.
A contestação dos advogados de dona Angélica é violenta, alegando “pro­
teção e parcialidade” do juiz que proferira a sentença:

Ele deve saber muito bem que a posse jurídica supõe sempre título, ou ao menos
presunção de domínio e que sem esta qualidade não passa de uma simples detenção ou
retenção. Ele sabe muito bem que arrendatários, inquilinos, e quaisquer detentores por
título preciso de empréstimo não têm o que em Direito se chama posse. Sabe que
quaisquer agregados ou colonos dos terrenos não têm semelhante título de posse, nem
jamais o podem alegar: sabe muito bem tudo isso, porque não há entre nós, quem pela
simples prática dos contratos rurais, não tenha todo conhecimento da matéria9.

Sem dúvida, Valverde estabelecera importantes alianças locais e não era


tido como simples inquilino ou arrendatário, em Mangaratiba. A sentença é,
entretanto, também confirmada na Relação, em segunda instância, por dife­
rença de um voto, com base nas alegações de seu advogado de que, mesmo se
considerado um simples arrendatário ou colono (“o que não se concede”),
estaria garantido seu direito ao uso das terras até que fosse indenizado por suas
benfeitorias, pois “os colonos, sendo espoliados ou turbados pelo senhorio,
ou por terceiro, têm ação processória para serem restituídos ou manutenidos”10.
Ao saírem do fórum local, os advogados de Valverde cometem um erro, ao
trabalharem com a possibilidade de considerá-lo apenas um simples colono.

87
DAS CORES DO SILÊNCIO

Os advogados de dona Angélica mudam, então, o eixo de sua argumentação,


ao recorrerem à Corte de Apelação. A sentença desfavorável da Relação havia
sido formulada com base no pressuposto de que dona Angélica, mesmo se
proprietária legal das terras, não poderia passar arrendamento dos terrenos
ocupados por Valverde sem primeiro despejá-lo judicialmente, pagando-lhe
as benfeitorias que efetivamente possuía. Seus advogados, entretanto, desistem
de provar o domínio e a posse de dona Angélica sobre toda a restinga, para
considerarem, então, que o que Valverde pleiteava naquele processo não era
mais que a derrubada das benfeitorias de posse de Antônio Felipe, levantadas
havia mais de dois anos, sem qualquer impedimento, em terrenos desocupados
e que, nem mesmo a derrubada da cerca de gragoatás, sobre a qual talvez cou­
besse pedir indenização, se encontrava plenamente provada no processo, por
nenhuma das testemunhas.
A última sentença lhes é favorável, considerando que o alegado por Val­
verde (sua posse sobre os terrenos em que Antônio Felipe havia construído
sua casa) não se provava, mas apenas seu direito de detenção sobre os terrenos
onde efetivamente possuía culturas e benfeitorias (a taberna e suas cercanias).
A morte de Antônio Veríssimo e a determinação de sua viúva de recuperar
as prerrogativas de domínio sobre toda a restinga acabaram por frustrar os
planos de Valverde de se aproveitar do enfraquecimento da influência da fa­
mília Matos para apropriar-se legalmente da área. Ao optar pela instância
judicial, Valverde acabou sendo vítima de seu próprio argumento.
Está-se, assim, diante de dois tipos de “posse”, capazes de gerar direitos de
“domínio” e atos legais, como compra, venda ou partilhas: a posse de “culturas
e benfeitorias” com simples detenção ou a retenção da “posse” da terra pro­
priamente dita. A posse de benfeitorias e culturas gerava presunção de domí­
nio apenas sobre estas, que podiam, então, ser alienadas ou passadas em he­
rança. A posse sobre a terra gerava presunção de domínio sobre uma
determinada extensão de terreno, que podia então ser arrendado, alienado,
deixado em herança ou mesmo cedido por favor, a título de empréstimo. Sem
a revalidação de sesmarias, ambas as presunções de domínio se constituíam
primeiro de fato e somente depois de direito a partir de escrituras de compra
e venda ou formais de partilha. Na década de 1820, para Campos dos Goita-
cases e o Recôncavo da Guanabara, duas áreas onde o movimento legal de
apropriação das terras remontava aos séculos XVII e XVIII, na maioria abso­
luta dos inventários considerados, não se passavam em herança o domínio e a
posse dos terrenos ocupados. Apesar disso, os formais de partilha sancionavam
direitos de propriedade, ou seja, de posse e domínio, sobre culturas e benfei­

88
A POTÊNCIA DA PROPRIEDADE

torias, erigidas pelos inventariados e seus escravos ou, simplesmente, compra­


das de outros situantes. Esse intricado e tipicamente pré-capitalista sistema de
propriedade perpassava todas as camadas sociais do mundo rural. Era neces­
sário o reconhecimento de todos para que funcionasse: dos que pediam auto­
rização para usar a terra e dos que não questionavam as transações com ‘situa­
ções” (culturas e benfeitorias) no interior de suas “propriedades”. As
Ordenações Filipinas, enquanto código concebido no quadro de uma noção
não positiva ou natural (mas, antes, patrimonial, além de divina ou teológica)
de direito, coadunavam-se perfeitamente bem com esse espírito, limitando a
intervenção estatal às quebras do consenso entre as partes envolvidas, em nome
do bem comum.
Ao comprar uma “situação”, alguém adquiria, automaticamente, sem ne­
cessidade de consentimento do “dono” das terras, o direito de usá-la. Nas es­
crituras de compra e venda de “situação”, nos formais de partilha ou nos
contratos de hipoteca em que serviam de garantia, o proprietário legal das
terras, quando existia, não era sequer mencionado. De fato, portanto, o do­
mínio e a posse das terras, mesmo quando social e legalmente reconhecidos,
não facultavam aos proprietários o poder de escolher individualmente todos
os seus “agregados”. O domínio e a posse das terras engendravam apenas a fa­
culdade de escolher que áreas incultas em suas propriedades poderiam ser
cedidas por favor ou arrendadas. Assim, o estabelecimento de uma “situação”
em área inculta, legalmente apropriada, implicava, em geral, contrato de ar­
rendamento, aforamento ou permissão informal do proprietário das terras,
mas os que se tornavam proprietários de situação por compra ou herança e,
mesmo, por execução de hipoteca, não mais dependiam dessa intermediação.
Em caso de conflito de interesse entre o novo situante e o proprietário, este
poderia simplesmente despejar aquele, judicialmente ou de fato. Em ambos
os casos, entretanto, salvo em momentos de crise do sistema (especialmente
em áreas de fronteira), todos esperavam que se fizesse a necessária indenização.
Ora, as roças de subsistência eram precárias e móveis e também o eram os
arranjos de poder que, em última instância, determinavam quem eram real­
mente os senhores de terra, numa dada região. Desta forma, todas as “posses”
e as presunções de domínio, delas derivadas, eram também maleáveis às alte­
rações de fato, ocorridas em cada contexto local ou regional. Juridicamente,
as questões eram frequentemente insanáveis. Os Morais e os Breves digladia-
ram-se durante anos, em São João Príncipe, pelo domínio de uma sorte de
terra denominada Chico Carlos. O comendador Morais apresentava escritu­
ra de compra de terras a Francisco Carlos de Oliveira, que teria dado seu nome

89
DAS CORES DO SILÊNCIO

a elas. O comendador Breves alegava que as terras não eram tais, mas outras,
vizinhas, nas quais o mesmo Chico Carlos havia residido e possuído uma “si­
tuação”, pela qual fora indenizado, em processo de despejo, pelos proprietários
legais das terras, condôminos da sesmaria do Retiro, que posteriormente lhas
teriam vendido. A real localização do terreno, pelos títulos apresentados, é
virtualmente impossível. Apenas um acordo entre ambos, que possuíam várias
fazendas de café na região, com várias “situações” no seu interior, poderia pôr
fim à disputa11.
A prática frequente de compra e venda, registrada em cartório, de “situa­
ções”, inclusive por parte de pessoas abastadas12, e seus formais de partilha nos
inventáriospost mortem são fortes indicadores, entretanto, de que se reconhe­
cia estabilidade a esse tipo de propriedade, respeitadas determinadas regras.
Um despejo sem indenização seria, dessa perspectiva, um roubo e, em situação
de estabilidade, não se esperava isso dos “grandes” da região.
A vida do situante, fosse arrendatário ou morador, não se pautava, assim,
necessariamente, pela vida da fazenda. Nem sempre eram camaradas, raramen­
te se empregavam como jornaleiros ou capangas. Qualquer uma dessas funções,
exercidas por um longo período, podia torná-los situantes, mas a recíproca
não era obrigatoriamente verdadeira. A compra ou o casamento podiam tam­
bém, e mais facilmente, abrir-lhes essa possibilidade. Claro que não deviam
indispor-se com os poderosos, nem estavam propensos a isso. Quem protegeria
seus filhos do recrutamento? Quem lhes arranjaria advogado, se fossem apa­
nhados nas malhas da lei? Todos sabiam a quem recorrer, quando precisassem
de um “padrinho”. Esse “padrinho” não era, entretanto, necessariamente, o
proprietário das terras em que estavam, em alguns casos até desconhecido13.
Nas áreas mais antigas, os arrendamentos, mesmo quando sujeitos a reno­
vação, se concedidos sobre terras incultas, geravam os mesmos direitos de
posse e domínio sobre culturas e benfeitorias, como comprovam os inventários
de foreiros e arrendatários de Campos, na década de 1820. A dependência
pessoal não colocava ou não devia colocar em negociação o reconhecimento
desse direito: não era prerrogativa do “dono” da terra, mas sancionado social­
mente por todos os envolvidos em uma determinada estrutura fundiária.
A reiterada produção de dependentes, nessa sociedade, estava, assim, refe­
rida a todo um sistema cultural que, mesmo diferentemente apropriado por
dominantes e dominados, era comum a todos e informava suas expectativas
em relação à liberdade. Se do ponto de vista dos que, mais que terras, concen­
travam riqueza e poder, tal sistema era visto como uma das mais básicas con­
dições para o exercício desse poder — a capacidade de arregimentar gente, seja

90
A POTÊNCIA DA PROPRIEDADE

para a construção de uma capela, de uma estrada ou para ocupar terras disputa­
das com iguais —, para os “dependentes” era condição de estabilidade de seu
acesso à terra, à justiça e à própria ascensão social,
Especialmente em Campos, onde se pode fazer uma análise mais singula-
rizada das condições de acesso à terra, é interessante confrontar o marcado
sentido monetário que apresentava o secularmente estabelecido domínio sobre
as terras, generalizando a prática do arrendamento, com a segurança e a estabili­
dade decorrentes do domínio e da posse dos arrendatários sobre suas situações.
Em princípios do século XIX, o povoamento em Campos praticamente se
restringia à planície, onde as terras propícias ao cultivo da cana-de-açúcar e à
criação de gado se encontravam legalmente apropriadas, por doações de ses-
marias (em grande parte dos casos, já partilhadas ou vendidas), desde o sécu­
lo XVIII14. Na maioria dos inventários analisados, as famílias eram forciras ou
arrendatárias, nas paróquias de São Sebastião e São Gonçalo. Curiosamente,
o cultivo da cana, como atividade principal, aparecia apenas marginalmente
em suas unidades domésticas, predominando largamente as culturas de sub­
sistência, especialmente a produção de farinha de mandioca, ao lado da criação
doméstica em campos cercados, e do plantio de árvores frutíferas.
Interpretar essa maioria de não proprietários de terra como uma evidência
das condições precárias em que se desenvolvia a roça de subsistência é um erro,
frequentemente cometido nas análises sobre a estrutura fundiária colonial.
Ora, é sempre preciso levar em consideração o que representam esses inven­
tários. A maioria de seus titulares era paradoxalmente de senhores de escravos
africanos e jovens e, portanto, adquiridos no mercado. O conjunto de famílias
analisado representa, para cada momento considerado, como que uma cama­
da superior dos lavradores de roça, daí o grande número dos que contavam
com o trabalhador cativo. Se compravam escravos em vez de terra, faziam-no
em função de uma opção econômica e racional. Quando os preços dos cativos
tornaram-se proibitivos à maioria dos lavradores de roça e as práticas costu­
meiras de acesso à terra começaram a ser questionadas, os pecúlios excedentes
canalizaram-se, basicamente, para compra de terras na região, conforme pode
ser acompanhado nos gráficos na página a seguir.
Deste modo, não apenas a extinção do tráfico africano, mas também a
aprovação da lei de Terras, em 1850, sobrepondo-se às Ordenações Filipinas
até então vigentes, implicaram alterações nas estratégias adaptadas por arren­
datários, foreiros e situantes. Até que ponto, entretanto, essa nova ordenação
jurídica afetou efetivamente as práticas de acesso à terra, anteriormente ado­
tadas, é questão bastante controversa na historiografia.

91
DAS CORES DO SILÊNCIO

Gráfico 6 - Inventários: Campos (acesso à terra)

Fonte: Inventáriospost mortem. Campos-RJ.

Gráfico 7 - Inventários: Baixada (acesso à terra)

Fonte: Inventáriospost mortem. Arq. Nacional, fórum de Silva Jardim-RJ.

É fora de dúvida que, em intenção, a lei de Terras se fez estreitamente as­


sociada às perspectivas de declínio da escravidão, abertas pela extinção do
tráfico de africanos. Desde a publicação de O cativeiro da terra, de José de
Souza Martins, tem-se enfatizado a interpretação de que ao cativeiro do tra­
balhador seguiu-se o cativeiro da terra, tanto como forma de subordinação do
trabalhador rural ao capital quanto como meio de capitalização, na garantia
de financiamento para os produtores rurais, especialmente em São Paulo. A
clara inspiração de seus formuladores em Torrens e Wakefield15 não deixa
margem a dúvidas quanto a essas intenções e quanto ao projeto de moderni­
zação subjacente à proposta. O acompanhamento mais próximo das práticas
fundiárias antes e após a lei, bem como do jogo político que levou à sua apro­
vação, coloca, entretanto, uma série de questões históricas que não podem ser
respondidas com uma simples identificação superficial daquele projeto.

92
A POTÊNCIA DA PROPRIEDADE

A ferrenha oposição dos representantes rurais ao projeto da “lei agrária” —


proposto na década de 1830, coincidentemente após a primeira proibição
oficial do tráfico16 — e, mesmo, à lei, aprovada em 1850, é tópico bastante
controverso quando se enxerga na proposta apenas o intuito de submeter o
trabalhador livre, a princípio consensualmente, aos produtores rurais. José
Murilo de Carvalho17 acentua no livro Teatro de sombras essa oposição e insiste
que a lei aprovada, mesmo sem o polêmico imposto territorial, inicialmente
proposto, definitivamente “não pegou”.
Para entender, entretanto, a oposição ao projeto é preciso, antes, compreen­
der o alcance da proposta de modernização inicialmente formulada. A inspi­
ração em Torrens e Wakefield é profunda no projeto original. O objetivo a ser
alcançado, em última instância, era manter a produção agrícola de escala com
base no trabalho agrícola coletivizado e não familiar, sujeito a uma divisão de
trabalho o mais racional possível e administrado de forma centralizada. Se­
gundo Wakefield, apenas o assalariamento agrícola e a escravidão moderna
haviam conseguido esses objetivos. Do ponto de vista reformista, assumido
pelos formuladores da política de terras imperial, tomava-se como objetivo
garantir condições de continuidade, baseadas no trabalho escravo, para aque­
las empresas que logravam uma organização do trabalho e da produção quase
fabris. Esperava-se, ainda, com esse instrumento, ampliar o arco de ação desse
tipo de empresa para além da cafeicultura e de setores da agroindústria do
açúcar, através do cadastramento das terras e numa primeira versão do impos­
to territorial. Ou seja, buscava-se atingir o que hoje chamaríamos de “latifún­
dio improdutivo”. Mais ainda, ao permitir o acesso à terra devoluta somente
por compra, buscava-se criar incentivos econômicos ao trabalho assalariado
em substituição à coerção extraeconômica, institucionalmente estabelecida,
e criar condições de substituição do escravo como garantia de crédito para os
produtores rurais.
O imposto territorial já não aparecería na segunda versão finalmente apro­
vada, e o cadastramento das propriedades, apesar da realização dos registros
paroquiais de terra, permanecería letra morta, mantendo-se a confusão entre
terras públicas e privadas. Se a lei não pegou exatamente porque acabava por
atingir o poder costumeiro de expansão dos proprietários rurais, cabe então
perguntar: Qual o impacto real da Lei de Terras sobre as formas costumeiras
de acesso à terra até então prevalecentes e qual sua eficácia em relação à ques­
tão da substituição do trabalhador escravo ? Ao final, a hipoteca sobre os
frutos pendentes acabou por substituir a terra como garantia nos contratos
hipotecários18. Até mesmo a especulação com terras no Oeste Paulista, que

93
DAS CORES DO SILÊNCIO

precedeu a expansão geográfica dos cafeeiros, encontra precedentes, financei­


ramente menos organizados, em outros movimentos de expansão da agricul­
tura comercial. Na modesta região de Capivari, ocupada por um café de se­
gunda qualidade na primeira metade do século XIX, a maioria das terras,
praticamente desocupadas, havia sido adquirida por compra19. Num certo
sentido, a terra, na Colônia e no Império, havia sido sempre cativa e comercia-
lizável. Dessa perspectiva, o impacto da lei se reduziría a recriar uma base legal
para as propriedades formadas ao longo dos quase 30 anos que separavam a
revogação do instituto das sesmarias e a própria lei, especialmente no Sudeste.
O verdadeiro impacto social da Lei de Terras encontra-se além da intenção
do legislador e de suas limitações em realizá-lo. Com base no novo instituto
legal, que revogava de uma vez por todas o privilegiamento da posse, presente
nas Ordenações Filipinas, as relações costumeiras, que até então regiam a
prática fundiária, pelo menos no Sudeste, perdem seu substrato legal. A inter­
pretação da lei, construída nas práticas judiciárias e comerciais de proprietários,
advogados e juizes, pode ser resumida na expressão “o império do título”. Os
registros paroquiais, mesmo que inócuos, enquanto base para um futuro cadas-
tramento20, exerceríam um importante papel nesse sentido. Processos como o
de Valverde e dona Angélica não são mais possíveis após 1850. Neles, nem um
título sequer é apresentado e toda a argumentação da defesa ou acusação é
construída a partir de provas testemunhais. Não que estas tenham perdido seu
valor, especialmente nas ações de força e manutenção de posse, mas isso porque
a imprecisão dos limites e dos próprios títulos não chegava a ser alterada pela
tentativa de cadastramento. A partir desse quadro, lenta e desigualmente,
desenvolve-se um processo de fechamento do acesso ao título de propriedade
de situações para o conjunto dos lavradores de roça, tomando a estabilidade da
pequena produção agrícola, mesmo dos mais bem-sucedidos entre eles, depen­
dente única e exclusivamente de relações costumeiras, que não se faziam mais
juridicamente sancionadas, ou da compra de um pedaço de terra.
Na província fluminense, as pesquisas o têm demonstrado, o dinâmico
mercado de situações, que se identificava nos cartórios locais, praticamente
desaparece ao longo da segunda metade do século XIX, tendo sido acompa­
nhado por um expressivo recrudescimento dos negócios com pequenas exten­
sões de terra21. Todas as ações de força e manutenção de posse levantadas, após
a promulgação da lei, baseiam os direitos de posse em títulos de propriedade.
O direito de posse sobre lavouras e benfeitorias, mesmo que continue legal­
mente sancionado para os casos de despejos, na previsão de indenização,
apenas nos inventáriospostmortem continua a gerar títulos que o comprovem.

94
A POTÊNCIA DA PROPRIEDADE

Os títulos de propriedade nunca haviam sido, entretanto, uma garantia


que se sobrepusesse às relações de poder para os proprietários de “situação”.
Eles refletiam, antes, a face legal de práticas, consensualmente respeitadas
pelas elites agrárias e seus dependentes rurais. Essas práticas se construíam
com base em relações pessoais, que não se desfaziam apenas pelo desmorona­
mento de seu suporte legal. De fato, o “império do título” cria um instrumen­
to eficaz, mas não suficiente, para que começassem a se alterar as relações entre
proprietários e não proprietários de terra no mundo rural.
As consequências sociais desses ajustes, entretanto, não foram pequenas.
Do ponto de vista dos lavradores de roça, mesmo continuando baseados num
sistema agrário que tendia rapidamente a esgotar pequenas extensões de terra,
uma valorização da propriedade fundiária foi a primeira resposta a esse movi­
mento. Os que conseguiam alguma reserva de capital, agora compravam terra
e não escravos. Como já foi considerado, inversamente ao que acontece em
relação à propriedade cativa, em todas as áreas analisadas o número de pro­
prietários de terra, nos inventários de lavradores de roça, aumentou continua­
mente ao longo do século XIX.
Tendo em vista que esses inventários representam apenas aquela camada
dos mais bem-sucedidos entre eles, a ponta de um iceberg de base bastante
ampliada, percebe-se que os objetivos econômicos dos lavradores de roça
deslocavam-se, na segunda metade do século, da propriedade escrava para a
propriedade da terra. Isso implica uma valorização cultural do trabalho fami­
liar independente, mantendo-se as relações entre liberdade e propriedade, mas
enfraquecendo suas conotações de não trabalho.
Voltemos ao caso de Campos, que pude acompanhar mais de perto. Em
princípios do século, o acesso à terra ainda se fazia sem maiores dificuldades
nos Campos dos Goitacases. A grande maioria de pequenos produtores in­
ventariados, que não dispunha da propriedade legal dos terrenos que ocupava,
revela, paradoxalmente, que, apesar do monopólio legal da terra, secularmen­
te estabelecido, e da generalização da prática dos aforamentos e pequenos
arrendamentos nas áreas de planície, a posição relativa entre oferta e procura
de terras era, então, bastante favorável à reprodução da empresa familiar.
Tendo em vista as facilidades de acesso à terra e ao trabalho escravo, nos pro­
cessos da década de 1820 revelou-se uma forte tendência ao casamento e à
dispersão precoce dos filhos22. Entre os filhos herdeiros adultos, arrolados
naqueles inventários, a maioria é declarada casada e residindo fora da unidade
familiar. Os solteiros se constituíam, então, basicamente, de jovens com menos
de 21 anos de idade (ver tabela e gráficos).

95
DAS CORES DO SILENCIO

Filhos adultos* (herdeiros) por sexo e estado civil

Homens Mulheres

Solteiros Casados Total Solteiros Casados Total

1820 20 23 43 10 27 37

1850 4i 14 55 30 24 54

1870 51 31 82 31 49 80

Total 112 68 180 71 100 171

Fonte: Inventários post mortem, c. 1820, c. 1850, c. 1870. Campos-RJ.


* Foram considerados os filhos arrolados a partir de 18 anos.

Gráfico 8 - Filhos adultos segundo o estado civil

Fonte: Inventários post mortem. Campos-RJ.

Gráfico 9 - Filhos adultos (homens)

Fonte: Inventários post mortem. Campos-RJ.

96
A POTÊNCIA DA PROPRIEDADE

Gráfico 10 - Filhos adultos (mulheres)

Fonte: Inventários post mortem. Campos-RJ.

Essa situação se refletia nas partilhas, em que via de regra um herdeiro,


geralmente residente na situação dos pais, era claramente beneficiado. Desse
modo, em muitos desses processos, lograva-se retirar a família do trabalho
agrícola propriamente dito, reservando-o aos poucos escravos. As mulheres
também se afastavam de determinados trabalhos domésticos, sendo pessoal­
mente servidas por suas escravas. O acesso ao trabalhador cativo permitia,
assim, que a dispersão do grupo familiar para a formação de novas unidades
domésticas pudesse realizar-se precocemente, sem comprometer a reprodução
da família matriz, e produzia um forte comprometimento de todos os homens
livres com a continuidade da escravidão. A potência da propriedade engen­
drada pela liberdade era, então, em grande parte, uma potência para o não
trabalho, para uma situação de rentista em potencial.
Diante do encarecimento do preço do cativo, da concentração da produção
de açúcar e da ampliação das unidades canavieiras escravistas, presentes na
região, na década de 1850, essa solidariedade é violentamente quebrada. Nes­
se contexto, os laços de família são novamente acionados para reforçar a po­
tência da propriedade como definidora da liberdade, em oposição à escravidão,
que, paradoxalmente, era economicamente reforçada nos grandes empreen­
dimentos. As famílias analisadas tornam-se mais extensas, com uma tendência
ao retardamento da saída da unidade doméstica. Os casamentos dos filhos
passam a se fazer mais tardiamente, no período, pelo menos para os herdeiros
arrolados.
Em todas as décadas analisadas, a presença relativa de mulheres casadas na
amostra foi superior à de homens. Isso se explica em função de um padrão

97
DAS CORES DO SILÊNCIO

cultural, que permanece para todos os períodos, no qual os casamentos femi­


ninos se realizam mais precocementc que os masculinos. Não possuo elemen­
tos para determinar uma idade-padrâo de nupcialidade, mas, enquanto homens
com menos de 21 anos, casados, se apresentaram como exceção, o mesmo não
ocorria para as mulheres. Mesmo assim, na década de 1850, também o núme­
ro de filhas adultas solteiras apresentou-se maior do que o de casadas. O des­
locamento para as novas áreas de fronteira, que se abriam no sertão, parece
que ainda era evitado pelas famílias da planície, na medida em que implicava
romper e reelaborar laços de parentesco e vizinhança, fundamentais à repro­
dução da unidade familiar. Na década de 1820, a proximidade espacial da re­
sidência dos herdeiros revela-se um importante indicador, neste sentido.
Por outro lado, ao que tudo indica, os efeitos da Lei de Terras se fizeram
especialmente traumáticos na região, na medida em que coincidiram com as
transformações que se realizavam na área de concentração da produção de
açúcar. Foreiros e arrendatários campistas apressaram-se em declarar as terras
que ocupavam nos Registros Paroquiais de Terra, que regulamentaram a lei23.
Essa atitude, atípica, se considerarmos outros casos estudados, revela a exis­
tência de um padrão de estabilidade desse tipo de ocupação, que se via amea­
çado pelas transformações em curso, gerando uma situação de conflito entre
proprietários e arrendatários. Nesses registros, os declarantes não contestavam
a propriedade da terra, que reconheciam, mas sem dúvida buscavam apoio
legal para a estabilidade de seu usufruto, até então legalmente sancionado. De
qualquer maneira, já nesse momento, em função da expansão dos canaviais, a
solução para as segundas gerações encontrava-se basicamente na procura dos
sertões, que se revela na amostra, na grande incidência de lavradores proprie­
tários nas áreas cafeeiras e de produção de alimentos.
Em 1870, o desenvolvimento dos laços de solidariedade nas novas áreas já
configurava uma retomada dos casamentos ou de casamentos mais precoces,
principalmente em relação às mulheres. Nesse momento, pequenos proprie­
tários e situantes, nas áreas cafeeiras, ou de produção de alimentos, já se apre­
sentavam francamente majoritários em relação aos foreiros e arrendatários da
planície. Desta forma, apesar dos efeitos da Lei de Terras e da valorização
cultural da pequena propriedade fundiária, evidenciada na amostra, o acesso
informal à terra ainda se fazia presente fora do contexto de pressão específico,
que caracterizava as velhas áreas açucareiras da região.
Os pecúlios excedentes, quando existiam, eram agora canalizados para a
compra de pequenas extensões de terra, e a otimização da utilização do traba­
lho da família podia levar tanto ao assalariamento temporário de alguns de

98
A POTÊNCIA DA PROPRIEDADE

seus membros quanto à contratação de mão de obra auxiliar e temporária


pelas famílias mais bem-sucedidas. A ampliação do número de jornaleiros livres,
nos processos crimes analisados, parece-me que responde a essa situação24.
Os laços de família continuavam, portanto, a permitir a reprodução de uma
experiência de liberdade que se construía em oposição à escravidão, mesmo
que rapidamente se desfizessem as condições materiais em que se baseava a
construção de uma identidade senhorial entre os homens livres. No discurso
das elites, o lavrador de roça, transformado no “elemento nacional”, começou
a se identificar com a imagem do “vadio”25, antes dirigida especificamente para
sua outra face: o “homem móvel”.
Nas últimas décadas da escravidão, apesar da crescente precariedade legal
das formas costumeiras de acesso à terra e da monopolização social da pro­
priedade escrava pela grande fazenda, a mobilidade espacial, os laços de famí­
lia e o acesso costumeiro à terra ainda abriam perspectivas de diferenciação do
escravo e, mesmo, potencializavam a propriedade da terra para os mais bem-
-sucedidos entre os lavradores de roça.

Notas

1 Documentação judiciária. Corte de Apelação: Terras. Caixa 12.091, n- 268. Arquivo Nacional.
2 Cf. José Homem Corrêa Telles, Digestoportuguez ou tratado dos direitos... para servir de subsídio
ao novo código civil, 1841; Paulo Bessa Antunes, ‘A propriedade rural, estudo histórico e jurídi­
co”. Dissertação de mestrado. Rio de Janeiro, Departamento de Ciências Jurídicas, PUC, 1982;
Costa Porto, Formação territorial do Brasil, 1982; Rui Cirne Lima, Pequena história territorial
do Brasil — Sesmarias e terras devolutas, 1988; Roberto Smith, Propriedade da terra e transi­
ção — Estudo da formação da propriedade privada da terra e transição para o capitalismo no
Brasil, 1990.
3 Cf., neste sentido, Sheila de Castro Faria, “Terra e trabalho em Campos dos Goitacases, 1850-
-1920”. Dissertação de mestrado. Niterói, ICHF, UFF, 1986, pp. 111-215; Hebe Mattos, Ao Sul
da história — Lavradores pobres na crise do trabalho escravo, 2009 (1987), pp. 116-65.
4 Foram lidos e analisados para esta discussão 30 processos cíveis relativos a conflitos de terra
(ações de força, despejo e manutenção de posse) do arquivo da Corte de Apelação, no Arquivo
Nacional.
5 Documentação judiciária. Corte de Apelação: Terras. Caixa 12.091, n2 268. Arquivo Nacional.
6 Ibidem.
7 Ibidem.
8 Ibidem.
9 Ibidem.
10 Ibidem.
11 Documentação judiciária. Corte de Apelação: Terras. Caixa 562, ns 667. Arquivo Nacional.
Cf. também, neste sentido, Hebe Mattos,y/<? Sul da história...

99
DAS CORES DO SILÊNCIO

13 Este foi o caso de um dos processos considerados. Documentação judiciária. Corte de Apelação:
Terras. Caixa 574, n- 889. Arquivo Nacional.
14 Sheila de Castro Faria, "Terra e trabalho em Campos dos Goitacases...”.
15 Apud Roberto Smith, Propriedade da terra e transição..., pp. 237-338. A análise de Smith baseia-
-se, principalmente, em Robert Torrens,^ essay on theproduction ofwealth, 1821. Nova York,
August M. Kelley Publishers, 1965. Reprints of Economic Classics, e Edward Gibbon Wakefield,
A vietu ofthe art ofcolonization, 1849. Nova York, August M. Kelley Publishers, 1969. Reprints
of Economic Classics.
16 Roberto Smith, Propriedade da terra e transição..., pp. 284-339.
17 José Murilo de Carvalho, Teatro de sombras — A política imperial, 1988, cap. 3.
18 José de Souza Martins, 0 cativeiro da terra, 1979.
19 Hebe Mattos, Ao Sul da história...
20 Emília Viotti da Costa, “Política de terras no Brasil e nos Estados Unidos”, in Da Monarquia
à República — Momentos decisivos, 1979.
21 Hebe Mattos, Ao Sul da história...
22 Cf., no mesmo sentido, John W. Shaffer, Family and Farm, 1982.
23 Sheila de Castro Faria, “Terra e trabalho em Campos dos Goitacases...”, caps. 3 e 4.
24 Este pode ser o substrato do processo de proletarização, identificado por Douglas Libby, em
Minas Gerais, ao tomar comparativamente o recenseamento geral de 1872 e os demais levanta­
mentos demográficos, existentes para a província, no século XIX. A predominância de uma
ética de trabalho que privilegiava a autonomia e o trabalho familiar, como também encarava o
assalariamento com forte sentido de transitoriedade, talvez explique por que aquela proletari­
zação parece reverter-se após a abolição do cativeiro. Cf. Douglas Cole Libby, Transformação
e trabalho em uma economia escravista — Minas Gerais no século XIX, 1988. Ver também a
Parte IV deste trabalho.
25 Cf., sobre o discurso em relação à vadiagem, no período, Emília Viotti da Costa, Da senzala ã
Colônia, 1966, pp. 108-13, e Célia Marinho de Azevedo, Onda negra medo branco — 0 negro
no imaginário das elites. Século XIX, 1987, cap. 2.

1OO
5

A cor inexistente

[...] disse que ouviu do dito Ramos que tendo o finado Lisboa convidado ao dito Ramos
para almoçar ou jantar com ele em sua mesa e depois de terem comido disse a finada
Isabel Leme de Tal ao finado que o dito Ramos não conhecia o seu lugar pois sendo
um negro ia comer com os brancos na mesa e que isto contara ao dito Ramos o dito
escravo Ladislau do que ficou o dito Ramos muito apaixonado 1

Em 1850, no município de Rio Claro, província do Rio de Janeiro, Antônio


José Inácio Ramos foi processado pelo assassinato do negociante Feliciano
Antônio Lisboa e sua caseira, Isabel Leme de Tal. Todas as testemunhas que
contra ele depuseram no processo acreditavam que o motivo do crime fora
uma vingança, por Isabel tê-lo chamado de negro, após um jantar em sua casa.
Não interessa novamente se esse foi realmente o motivo de Ramos, ou mesmo
se ele realmente cometeu o crime que lhe imputavam. Essas perguntas não
teriam respostas, mesmo se eu contasse com o processo em que o referido
Ramos foi julgado. Na verdade, tive acesso apenas ao processo contra o escra­
vo Ladislau, de propriedade do negociante assassinado, que é condenado a
galés perpétuas, como cúmplice do crime, acusado de ter recebido dinheiro
de Ramos, para deixar a porta da casa da vítima aberta, para a entrada do as­
sassino. O que verdadeiramente interessa é que, nesse processo, apesar de
Ramos ser considerado um homem violento, sua indignação parece extrema­
mente compreensível para todos que nele depõem. Nenhuma das testemunhas
parece negar-lhe razão em sua indignação contra Isabel Leme de Tal que,
afinal, o recebera em sua casa, mesmo sem justificar seu ato extremo. É raro na
documentação analisada uma referência tão explícita ao sentido ofensivo e
pejorativo que a qualificação de “negro” possuía, então, no mundo dos livres.
DAS CORES DO SILÊNCIO

Gráfico 11 - Inventários: Campos (acesso ao escravo)

Fonte: Inventário post mortem. Campos-RJ.

Isso se evidencia, entretanto, indiretamente, nos demais processos, em que


a referência à cor, na qualificação das testemunhas, é generalizada. O uso das
expressões “negro” e “preto” referia-se então diretamente à condição escrava
atual ou passada (forro). Nem uma só vez encontrei na documentação anali­
sada a expressão “negro/preto livre”, os homens nascidos livres eram “brancos”
(sem qualquer qualificação) ou “pardos” (normalmcnte, duplamente qualifi­
cados como “pardo livre”, em oposição ao “pardo forro”).
Durante a segunda metade do século XIX, entretanto, alteram-se profun­
damente as condições sociais que permitiam o exercício desse padrão cultural.
O crescimento demográfico de negros e mestiços livres, que respondiam em
1872 por 43% da população total do Império, em grande parte tributário do
recrudescimento da prática de compra de alforrias2, já não permitia perceber
os não brancos livres como exceções controladas. Também a extinção do
tráfico atlântico de escravos e o encarecimento do preço do cativo que lhe
sucedeu não apenas inviabilizaram a aquisição de novos cativos para muitos
antigos senhores, como também frequentemente estes levaram a se desfazer
daqueles no quadro de intensificação do tráfico interno que sucedeu ao tráfi­
co atlântico. Diversas pesquisas têm demonstrado que o fenômeno de con­
centração regional da propriedade escrava, após a extinção do tráfico atlântico,
foi resultado não apenas de transferências inter-regionais, mas de uma inten­
sa concentração social da propriedade cativa3. Revertia-se, assim, o quadro de
pulverização que prevalecia no padrão anterior de posse de escravos. Pode-se
depreender, também, desse movimento, um recrudescimento do número de
brancos empobrecidos nas diversas situações rurais, locais e regionais.

102
A COR INEXISTENTE

E, de fato, o acesso ao escravo por lavradores de roça torna-se cada vez mais
restrito nos inventários levantados para todos os conjuntos analisados, con­
forme representam os gráficos n e 12.

Gráfico 12 - Inventários: Baixada (acesso ao escravo)

Fonte: Inventários post mor tem. Arq. Nacional, fórum de Silva Jardim-RJ.

Mais uma vez, os números da amostra não possuem em si maior significa­


ção, porém a tendência a encontrar um número cada vez maior de inventários
de lavradores sem escravos, à medida que se avança no século XIX, pode ser
igualmente identificada para ambas as áreas consideradas. Isso parece signifi­
car que, mesmo para aqueles mais bem-sucedidos 110 conjunto dos lavradores
de roça, a propriedade escrava já não se fazia mais acessível, como na primeira
metade do século.
Tem-se, assim, um contexto histórico e social em que se reforçava econo­
micamente o escravismo, num quadro de crescente perda de legitimidade da
escravidão, não só tributária das idéias do século, mas também decorrente
da crescente quebra de solidariedade no conjunto de homens livres em relação
à propriedade cativa e à sua identidade racial. A identidade “branca” entre os
homens livres, como senhores de escravos de fato ou em potencial, torna-se,
assim, progressivamente fragilizada.
Também a propriedade de lavouras e benfeitorias em terra alheia ou devo-
luta, legalmente sancionada pelas Ordenações Filipinas, perde, com a aprova­
ção da lei de Terras em 1850, seu substrato legal, deixando os proprietários de
casas e roças de cereais à mercê de práticas costumeiras, que não se faziam mais
juridicamente sancionadas.
Em consonância com esse processo, começa a perder sentido a identidade
socioprofissional dos homens livres, construída a partir da expressão “viver

103
DAS CORES DO SILÊNCIO

de” em oposição aos escravos que “serviam” a alguém. Progressivamente, no


decorrer do século, designações profissionais substantivas, como “lavradores”,
“jornaleiros” “carpinteiros” etc., tornam-se majoritárias nos processos anali­
sados. A qualificação socioprofissional começa a tornar-se designadora de
status social (além, obviamente, dos títulos honoríficos legais ou informais,
como “comendador”, patentes da Guarda Nacional, “dona” e outros), descons-
truindo-se a igualdade que o “viver de” emprestava.

Gráfico 13 - Processos: testemunhas livres segundo a profissão

Fonte: Corte de Apelação: Escravos (RJ, MG, SP). Arq. Nacional.

Confirmando a tendência a uma relativa proletarização, que a mudança de


designação sugere, a presença de jornaleiros livres, trabalhando muitas vezes
lado a lado com os escravos, nas plantações, especialmente nas grandes fazen­
das de café, torna-se cada vez mais comum, após 1860, nos processos de escra­
vos analisados4.
A esse processo socioeconômico5 corresponde, também, uma mudança de
significação da autorrepresentação do homem livre. Autonomia e trabalho
assalariado eventual começam a balizar as diferenças entre escravidão e liber­
dade, mais que trabalho e (potência do) não trabalho.
Em todo esse processo, o fato cultural mais significativo é, entretanto, o
desaparecimento da cor branca como critério cotidiano de diferenciação social.
Até meados do século, toda e qualquer pessoa, arrolada como testemunha
nos processos cíveis ou criminais considerados, definia-se, entre outras coisas,
por sua “cor”. A cor negra aparecia virtualmente como sinônimo de escravo
ou liberto (preto forro), bem como os pardos apareciam geralmente dupla­
mente qualificados como pardos cativos, forros ou livres. Apenas quando
qualificava forros e escravos, o termo “pardo” reduzia-se ao sentido de mulato
ou mestiço que frequentemente lhe é atribuído. Para os homens livres, ele

104
A COR INEXISTENTE

tomava uma acepção muito mais geral de “não branco” Ser classificado como
“branco” era, portanto, por si só, indicador da condição de liberdade.
O sumiço do registro da cor consiste num dos processos mais intrigantes
e irritantes ocorridos no século XIX, do ponto de vista do pesquisador. Todos
que tentaram trabalhar com a história do negro, após o fim do cativeiro, já se
decepcionaram com a quase impossibilidade de alcançá-los, seja trabalhando
com processos crimes e até mesmo com registros civis. Penso poder assegurar
com precisão que esse sumiço, no antigo Sudeste escravista, se deu ainda por
volta da metade do século XIX. Em relação às testemunhas livres, esse desapa­
recimento da cor é recorrente em todos os tipos de processo levantados (cri­
minais, cíveis de Ação de Liberdade e cíveis relativos a conflito de terra), de
modo ainda mais incisivo que o desaparecimento também da expressão “viver
de”, conforme se pode perceber no gráfico a seguir.

Gráfico 14 - Processos: testemunhas livres segundo a cor

Fonte: Corte de Apelação: Escravos (RJ, MG, SP). Arq. Nacional.

Num dos casos analisados, em que depõe o africano Antônio Dias, lavrador
em Pati do Alferes, em 1887, no qual também depõem sua filha e seu genro,
lavrador e alfabetizado, apenas na discriminação de sua nacionalidade o pes­
quisador se apercebe de que está diante da família de um liberto6.
Casos como este, de desaparecimento individual da menção da cor, já foram
várias vezes identificados, ainda no período colonial. Além disso, inventários,
testamentos ou escrituras públicas, com as quais tenho trabalhado, tradicio­
nalmente não a mencionavam7. A novidade aqui é a generalização dessa prá­
tica, numa documentação judiciária de caráter repressivo. Dessa generalização
se depreende que deixava de ser esclarecedor, para juizes e relatores que, no
Tribunal da Relação, apenas liam o processo, a identificação racial de quem
testemunhava. No caso dos processos considerados, o desaparecimento da

105
DAS CORES DO SILÊNCIO

menção sistemática da cor acontece concomitantemente, por volta das décadas


de 1850 e 1860, nos processos cíveis e criminais. A referência à cor, na qualifi­
cação de testemunhas livres, a partir da segunda metade do século, acontece
apenas como uma referência negativa. Em geral, calava-se sobre o item cor, a
não ser quando se tratava de um recém-liberto, em geral estranho e suspeito
na localidade onde corria o processo, quando então este se tornava o “preto
fulano” ou o “pardo sicrano”, “forro”. Apenas libertos, e não mais os brancos
ou os antigos “pardos livres” aparecem, agora, na qualificação de testemunhas
racialmente identificadas.
Desse modo, se as designações de “pardo” e “preto” continuam a ser utili­
zadas como marca do recém-liberto, o desaparecimento dos qualificativos
“branco” e “pardo livre” é praticamente absoluto. O crescimento demográfico
de negros e mestiços livres e também de brancos empobrecidos, no conjunto
das áreas analisadas, tendeu a esvaziar os significados da cor “branca” como
designador isolado de status social. Até mesmo os registros paroquiais de livres,
em Campos, deixam de mencionar a cor, na segunda metade do século. Cria-
-se a ausência de cor.
Claro que se pode argumentar que a ausência de cor está intimamente
associada a um processo cultural de branqueamento. Afinal, toda a literatura
sobre as populações negras está recheada da expressão “homens de cor”, e as
exceções se abriam sempre para “negros” e “pardos”. Parece-me, entretanto,
que o alcance dessa transformação é maior que a generalização social de um
ideal de branqueamento preexistente ou posteriormente elaborado. Tenho
trabalhado com a hipótese de que, quando a cor era mencionada por obriga­
toriedade (como no caso dos censos e, depois, dos registros civis), durante o
século XIX, isso ainda se fazia majoritariamente como referência à condição
cativa (presente e pretérita) e à marca que esta impunha à descendência. Pelo
menos, pareceram-me significativos os resultados a que cheguei, trabalhando
com registros civis, a partir dessa premissa, no último capítulo deste trabalho.
Considerar os censos do século XIX, sob essa perspectiva, talvez seja uma
possibilidade promissora, que não tive condições de desenvolver.
Tenro demonstrar que a noção de “cor”, herdada do período colonial, não
designava, preferencialmente, matizes de pigmentação ou níveis diferentes de
mestiçagem, mas buscava definir lugares sociais, nos quais etnia e condição
estavam indissociavelmente ligadas. Dessa perspectiva, a cor inexistente,
antes de significar apenas branqueamento, era um signo de cidadania na so­
ciedade imperial, para a qual apenas a liberdade era precondição8. Que esse
princípio se efetivasse nas práticas judiciárias, a partir de meados do Oitocen­

106
A COR INEXISTENTE

tos, para além de sua afirmação genérica na Constituição Imperial, reflete uma
transformação social que dele se apropriava, tornando efetiva aquela disposi­
ção legal.
O crescente processo de indiferenciação entre brancos pobres e negros e
mestiços livres teria levado, por motivos opostos, à perda da cor de ambos.
Não se trata necessariamente de branqueamento. Na maioria dos casos, trata-
-se simplesmente de silêncio. O sumiço da cor referencia-se, antes, a uma
crescente absorção de negros e mestiços no mundo dos livres, que não é mais
monopólio dos brancos, mesmo que o qualificativo “negro” continue sinô­
nimo de escravo, e também a uma desconstrução social do ideal de liberdade
herdado do período colonial, ou seja, a desconstrução social de uma noção de
liberdade construída com base na cor branca, associada àpotência da proprie­
dade escrava.
A experiência de liberdade continua, entretanto, definindo-se em oposição
à escravidão. A liberdade não era mais necessariamente “branca”, mas os escra­
vos, bem como grande parte dos forros recentes, continuavam “negros” Na
segunda metade do século, nos processos analisados, os significantes “negro/
preto” e “escravo” continuavam com significados equivalentes.
Preserva-se, assim, para a maioria dos homens livres, o caráter eventual e
temporário do assalariamento, em busca da autonomia capaz de afirmar, in­
dependentemente da origem étnica, a condição de liberdade.
Durante toda a segunda metade do século XIX, o trabalhador eventual
livre tornara-se abundante, mas as estratégias desenvolvidas pelas famílias livres
buscaram reforçar o antigo sentido de transitoriedade, valorizando cada vez
mais a autonomia e, se possível, buscando consolidá-la através da propriedade
da terra. Pressionados pela perda legal de substrato jurídico das práticas cos­
tumeiras de acesso à terra e pela impossibilidade de continuar a contar com o
trabalho escravo, os homens livres despossuídos vão tender a enfatizar aqueles
elementos da experiência de liberdade que ainda mantinham atualidade na
nova conjuntura: as solidariedades familiares, a autonomia da empresa e o
trabalho assalariado eventual. Sua identidade, enquanto homens livres, era
anteriormente construída, num primeiro momento, em oposição ao escravo
(mobilidade) e, posteriormente, enquanto identificação com os senhores
(propriedade). A partir de 1850, essa identificação não é mais possível, inician­
do-se a construção de uma identidade própria, que se fazia apenas em oposição
ao escravo (mobilidade-trabalho temporário/autonomia-trabalho familiar).
De fato, nesse contexto, a identidade que se constrói é basicamente defen­
siva. Trata-se de preservar socialmente sua diferença, em relação ao escravo,

107
DAS CORES DO SILÊNCIO

numa conjuntura em que as possibilidades de ascensão social, sempre limita­


das, se tornavam praticamente inexistentes.
Por outro lado, a valorização cultural, entre os cativos, de suas roças próprias,
guardava um evidente paralelismo com essa possibilidade. Da mesma forma,
o recurso, cada vez mais frequente entre as famílias livres, ao assalariamento
eventual, reforçava uma ambígua aproximação entre livres e escravos. Dentro
desse contexto, também no mundo rural, alguns cativos logravam ampliar seus
espaços de autonomia dentro do cativeiro, diferenciando-se do conjunto dos
demais escravos, aproximando-se dessa experiência de liberdade e ampliando
suas condições de acesso à compra da alforria.
Perpétua, em Minas Gerais9, costureira escrava do fazendeiro Manuel Gar­
cia de Matos, era casada com o lavrador português Francisco Antônio Pereira
Sales. Na situação do casal, moravam seus filhos, que não se sabe se eram forros
ou escravos, e um genro, Pedro Leite do Amaral, português, como o sogro.
Perpétua costurava para fora e pagava jornal a seu senhor. Todos os depoentes
no processo eram pessoas livres, da relação de Perpétua, suas vizinhas ou fre­
guesas, lavradores de roça com a família, em sua maioria. O crime de Perpétua,
a morte do próprio filho, torna-se muito mais inteligível quando referido à
relação de autoridade esperada entre pais e filhos livres do que se referido à sua
condição escrava. Tendo seu filho Antônio, de nove anos, desobedecido uma
ordem sua, a caminho da cidade, Perpétua ameaça castigá-lo fisicamente, ao
que o menino responde com um facão. Tentando desarmá-lo, Perpétua acaba
por matá-lo, entrando, desesperada, na casa de vários vizinhos, narrando o
acontecido, até, por final, entregar-se às autoridades, na vila de Muriaé. Não se
sabe se em atenção a ela própria ou à sua família, Perpétua em nenhum mo­
mento do processo é abandonada pelo senhor, mesmo que praticamente ine-
xistissem chances para ele de recuperá-la, visto que a tese da defesa é sua suposta
loucura, tese que, se vitoriosa, também implicaria a perda real da escrava.
Perpétua nunca deixara de pagar jornais a seu senhor, mas, fora isso, o
processo não fornece nenhuma outra informação de relações de dependência
econômica entre a família de Perpétua e Manuel Matos, nem mesmo sobre se
a casa e as roças de Perpétua se localizavam dentro das terras de seu senhor.
Seus vizinhos, arrolados como testemunhas, são todos lavradores e livres.
Alguns trabalhavam com a família na hora do crime (um consertava a cerca
de sua situação, com seu filho, outro cuidava de sua roça, com um irmão).
Perpétua ia à vila com o filho cobrar uma dívida por serviços de costura, pres­
tados a uma moradora e, depois, pretendia dirigir-se à fazenda do senhor, para
pagar por uma roupa comprada por ele para seu filho.

108
A COR INEXISTENTE

O que levara os dois portugueses a se casarem, legalmente, com Perpétua


e sua filha? A busca de acesso estável em terras de Manuel de Matos? O que
levara o dito Matos a consentir em tal arranjo? O interesse em atrair depen­
dentes livres ou nos filhos de suas escravas? Esses filhos, entretanto, residiam
na situação dos pais, não nas senzalas do senhor, e o provável interesse deste
em atrair dependentes livres não parece conter uma motivação econômica
imediata, redutível a necessidades de mão de obra. Talvez Perpétua e o status
de autonomia dentro do cativeiro, que havia conseguido ainda antes do casa­
mento, fossem a chave de tudo. Muitos senhores, diante de muitas Perpétuas,
Francolinos (Resende, 186o) e Fortunatos (Campos, 1878) assim se compor­
taram. Para eles, usufruir das rendas que esses escravos produziam enquanto
economizavam para comprar sua alforria, permitindo-lhes, guardadas essas
condições, que vivessem como se efetivamente pertencessem ao mundo dos
livres, talvez fosse a forma mais racional e produtiva de explorar as prerroga­
tivas da propriedade escrava, diante de cativos que, de outra forma, se mostra­
riam constantemente insubordinados.
Romana Bilas10 era escrava da fazenda do Colégio, onde teve três filhos, no
estado de solteira. Casou-se, ainda na condição de escrava, com Domingos
Bilas, com quem teve três filhos, todos escravos da fazenda do Colégio. Do­
mingos Bilas arrendava terras da fazenda, onde possuía uma situação com
casas, bardos, fruteiras e canas. Não se sabe se seus filhos residiam nas senzalas
da fazenda ou na situação do pai. Antes da morte de Romana, o casal contraiu
um empréstimo e comprou-lhe a liberdade, com a qual se tornou meeira dos
bens do marido. No inventário post mortem de Romana, seus filhos, ainda
escravos, não puderam, obviamente, herdar-lhe os bens. Um de seus filhos es­
cravos era, entretanto, casado com uma mulher livre. Assim, os netos de Ro­
mana eram livres. Mas também não puderam herdar-lhe os bens, de acordo
com o parecer do juiz, pois seu pai escravo teria de ter herdado antes, para que
eles se habilitassem. Por decisão judicial, seu viúvo, Domingos, fica com todos
os bens do casal, uma dívida de 700 mil-réis e sem herdeiros.
Estamos novamente diante da mesma situação. Um dos filhos de Romana
casara-se, entretanto, com uma mulher livre, o que parece sugerir que vivia na
situação dos pais e permite questionar se apenas o interesse senhorial na pro-
criação de suas escravas explicava os casamentos de Perpétua ou Romana com
homens livres. Nesse caso (um inventário), não pude saber mais sobre as
qualificações profissionais de Romana ou de seus filhos. A compra da alforria
de Romana parece sugerir um acordo entre senhor e escrava, nas bases de
outros, que a documentação de processos crimes tem evidenciado.

109
DAS CORES DO SILÊNCIO

Esses cativos, que levavam até senhores rurais de grandes fazendas a optar
por uma forma rentista de exploração, deviam, entretanto, viver isolados dos
demais escravos. Era do interesse senhorial que isso acontecesse, mas também
do próprio escravo, que concentrava seus esforços na busca da compra da al­
forria e em distinguir-se dos companheiros de cativeiro, integrando-se no
mundo dos livres. Lembremo-nos de Francolino, que não podia relacionar-se
“nem com negros, nem com brancos”. Nem um só escravo é chamado a depor
no processo que se moveu contra Perpétua pelo assassinato do filho. Um
processo em que todas as testemunhas, especialmente as de defesa, parecem
ter sido escolhidas por suas relações pessoais com a família da ré, o que lhes
permitia depor sobre as virtudes de mãe de família que, até aquela data, ela
apresentava.
Xico Rita, em Campanha, 187o11, era outro desses cativos que, com o
consentimento de seu senhor, vivia basicamente no mundo dos homens livres.
Vinha a ser mesmo o “puxador de reza” oficial das novenas no bairro rural
(onde criava seus porcos), realizadas nas casas de lavradores livres, quase todos
aparentados entre si, alguns deles pequenos proprietários de escravos.
Por mais que a potência da propriedade continuasse a afastar os homens
livres do mundo dos escravos, a crescente convivência entre livres pobres,
forros e cativos, próprios ou de outrem, aliada às crescentes pressões sobre as
possibilidades de ascensão social dos homens livres, na segunda metade do
século XIX, acabou por determinar uma intensa interação cultural dos dois
grupos, sobreposta, de fato, à identidade senhorial que até então se procurara
emprestar à liberdade.
Por outro lado, do ponto de vista dos escravos, mesmo ampliado o número
de negros e mestiços livres, reforçara-se um estereótipo da escravidão, que
implicava não só a “não mobilidade” e a “servidão” (no sentido de “servir” a
alguém), mas também um determinado tipo de disciplina no trabalho, a pre­
dominante nos grandes plantéis. E dentro destes que a maioria dos cativos
remanescentes, na segunda metade do século XIX, vai construir suas expecta­
tivas em relação à liberdade e seus recursos culturais para conquistá-la, ainda
assim influenciados pela experiência de liberdade possível com a qual conviviam
e que, cada vez mais, absorvia negros e mestiços libertos, já nascidos livres e,
em casos-limite, até mesmo escravos que, dentro do cativeiro, logravam apro­
ximar-se dessa experiência de liberdade.
Concluindo, a experiência campista permite, ainda, considerar que, mesmo
em situações adversas, o recurso a deslocamentos espaciais, as reordenações
das relações de solidariedade dentro da unidade doméstica ou a reelaboração,

110
A COR INEXISTENTE

com base em códigos costumeiros, das normas legais de partilha, abriam múl­
tiplas possibilidades à reprodução da roça de subsistência, agora valorizando
a propriedade da terra e o trabalho familiar como veículos de autonomia e
estabilidade. Nesse momento, ainda, pela primeira vez se cristaliza uma expe­
riência concreta, ligando a escravidão primordialmente à grande exploração
agrícola, quebrando a base socioeconômica sob a qual se construía a solida­
riedade do mundo dos livres, como um mundo de brancos e de senhores de
escravos (apesar dos vadios). Formam-se, assim, condições objetivas para que
se pudesse cristalizar culturalmente a valorização da autonomia como elemen­
to básico de definição de um sentido de liberdade alternativo à aspiração se­
nhorial e de uma ética do trabalho dissociada do estigma do cativeiro.

Notas

1 Documentação judiciária. Corte de Apelação: Escravos. Processos criminais. Depoimentos de


Manuel de Arruda Toledo. Caixa 3.709, n-1.091. Arquivo Nacional.
2 Peter L. Eisenberg, “Ficando livre: as alforrias em Campinas no século XIX”, in Homens esque­
cidos — Escravos e trabalhadores livres no Brasil, séculosXVIIIeXIX, 1989, e Kátia M. de Queirós
Mattoso, Bahia, século XIX— Uma província no Império, 1992, pp. 161-2.
3 Robert Slenes, “The Demography and Economics of Brazilian Slavery, 1850-1888”. Ph.D.
Stanford University 1976; Peter Eisenberg, Modernização sem mudança — A indústria açuca-
reira em Pernambuco, 1840-1910,1977; Sheila de Castro Faria, “Terra e trabalho em Campos
dos Goitacases, 1850-1920”. Dissertação de mestrado. Niterói, ICHF, UFF, 1986; Hebe Mattos,
Ao Sul da história — Lavradores pobres na crise do trabalho escravo, 2009 (1987).
4 78,12% dos assalariados agrícolas arrolados como testemunhas nos processos o são em fazendas
de café, após 1860.
5 Cf., também, Douglas Cole Libby, Transformação e trabalho em uma economia escravista —
Minas Gerais no século XIX, 1988.
6 Documentação judiciária. Corte de Apelação. Caixa 11.016, n2 1.140. Arquivo Nacional.
7 Segundo Kátia Mattoso, na Bahia, desde o período colonial, apenas registros paroquiais e re-
censeamentos faziam menção à cor. Cf. Kátia M. de Queirós Mattoso, Bahia, século XIX...,
p. 582.
8 Cf. Constituição de 1894, art. 6e e 7-.
9 Documentação judiciária. Corte de Apelação: Escravos. Processos criminais. Maço 1.732,
n2 2.920. Arquivo Nacional.
10 Cartório do Primeiro Ofício de Notas de Campos, 1858.
11 Documentação judiciária. Corte de Apelação. Caixa 1.679, n2 7.014. Arquivo Nacional.

lll
SEGUNDA PARTE
Sob ojugo do cativeiro
1

Sob o jugo do cativeiro

Em 1855, uma junta de 43 escravos, nominalmente de proprietários diversos


da província de Alagoas, era conduzida da Corte para o interior da província
do Rio de Janeiro pelo comerciante Geraldo da Silva Carneiro e três caixeiros1.
Na altura de Rio Preto, Geraldo Carneiro e um de seus auxiliares se adiantaram
e seguiram para a fazenda de Monte Cavalo, onde pretendiam negociar os
cativos.
Nessa noite, Martinho (filho de Pedro e Inácia, escravo de José Tomás de
Faria, 26 anos) e Querino (filho de Francisca, escravo de “um fulano Bexiga”),
ambos solteiros e naturais da província de Alagoas, dormiram próximos um
ao outro. Planejando fugir e temendo serem perseguidos, aproveitaram a
oportunidade que aguardavam já havia quatro dias, conforme seus próprios
depoimentos, para atacar os dois caixeiros que haviam permanecido com os
escravos.
Mataram Manuel Pereira Dias, ainda dormindo, a golpes de faca e bor­
doadas. O segundo caixeiro logrou reagir ao ataque com tiros de pistola.
Martinho foi ferido. Querino e todos os outros escravos se dispersaram na
confusão. À exceção de três cativos, entretanto, todos os demais foram recap­
turados alguns dias depois. Presos e processados criminalmente, Martinho
faleceu na prisão, em decorrência dos ferimentos, e Querino foi condenado a
galés perpétuas.
A data não é mero acessório na narrativa do caso acima. Estamos diante de
uma cena típica da segunda metade do século XIX.
A extinção do tráfico africano de escravos no Brasil, em 1850, determinou
uma profunda inflexão na experiência de cativeiro, como até então se apresen­
tava para os cativos aqui residentes, bem como para os que, em qualquer nível,
se viam envolvidos em administrar o controle social dos trabalhadores escravos.
Apesar do voto contrário dos representantes políticos das áreas cafeeiras2, a
DAS CORES DO SILÊNCIO

extinção do tráfico africano parece ter sido acompanhada por um sentimento


de alívio em boa parte das elites da época. Desde o início do século, o excesso
de escravos africanos em determinadas áreas em expansão econômica já se
havia mostrado bastante problemático, especialmente na província da Bahia3.
Por volta de 1850, Robert Slenes4 calcula que uma proporção de até 90% de
africanos bantos não era incomum nas plantações cafeeiras, em rápida expan­
são no Rio e em São Paulo, e que suas identidades culturais e linguísticas eram
bem maiores do que a pluralidade de nações africanas de origem parecia su­
gerir. Estudos recentes sugerem que a potencialidade explosiva dessa situação
não passava despercebida às autoridades e que, desse ponto de vista, a extinção
do tráfico africano foi muito bem recebida pelos responsáveis pela segurança
pública, pelo menos na cidade do Rio de Janeiro5.
Os cafezais continuaram, no entanto, a se expandir para Leste e para Oeste,
após 1850, e para isso precisavam adquirir escravos. De há muito é sabido que
o tráfico interno, antes que o crescimento natural, respondeu por essa conti­
nuada expansão.
O impacto demográfico dessa inflexão não foi pequeno. Se, no Vale do
Paraíba, se estima em até 90% a presença de africanos na primeira metade
do século, todos os estudos de composição de escravaria, anteriores a 1850,
para áreas de perfis econômicos distintos, reafirmam uma presença africana
sempre expressiva e frequentemente superior a 50% dos escravos arrolados6.
Nos inventários de Campos, essa proporção era de 49,67% no século XVIII,
para os proprietários com menos de 15 escravos, e de 55,49% para os que pos­
suíam um número maior7. Em 1820, nos inventários com menos de cinco es­
cravos, reunidos para esta pesquisa, na mesma região, a percentagem de afri­
canos somava 52% dos cativos arrolados.
Os 257 escravos, reunidos como réus e testemunhas informantes nos pro­
cessos crimes aqui considerados, não fogem a esse perfil mais geral. Até 1850,
os africanos respondem por 56% dos cativos arrolados nos processos. Após
1860, entretanto, já não são mais de um quinto dos escravos considerados
(19,23%). Ao mesmo tempo, os escravos crioulos, nascidos fora da região em
que serviam como cativos, que representavam inexpressivos 8% dos cativos
nos processos até 1850, tornam-se 35% após essa data, concentrados especial­
mente nas áreas cafeeiras ainda em expansão (no caso dos processos analisados,
especialmente Cantagalo e São Fidélis).
Os desequilíbrios regionais, provocados pelo tráfico interno, já foram
enfaticamente acentuados pela historiografia8. E exatamente um instantâneo
desse tráfico que aquela cena inicial, agora retomada, permite entrever.

116
SOB O JUGO DO CATIVEIRO

O tráfico interno possuía, entretanto, outras dimensões. Os 46 escravos a


caminho da fazenda Monte Cavalo não eram apenas naturais de Alagoas, mas
presumivelmente propriedade de pequenos senhores daquela província, como
se depreende da forma como um dos proprietários é designado: “um fulano
Bexiga”
Conforme foi considerado no capítulo anterior, mais que um movimento
no espaço “inter” ou “intraprovincial”, o tráfico interno significou um acen­
tuado processo de concentração social da propriedade cativa. O sentido mais
geral das vendas seria de pequenos para grandes proprietários, em todas as
áreas tocadas pelas relações escravistas, destacando-se entre estes, e impondo-
-se à concorrência, os das novas áreas cafeeiras. Os senhores de engenho do
Nordeste, em função da concorrência sulista, teriam se retraído como com­
pradores de cativos, mas não se tornaram vendedores líquidos destes9.
Uma ampla rede de intermediários, com seus principais revendedores si­
tuados na Corte, formou-se em substituição à antiga empresa negreira para
prover a demanda por cativos. Como no caso considerado, nessa rede de in­
termediações, o escravo frequentemente permanecia nominalmente de posse
de seu proprietário original10. Por um sistema de procurações e subprocurações
para a venda deles, burlava-se o imposto de transferência de propriedade e
criavam-se condições para que regiões antes distantes se articulassem, en­
gendrando pela primeira vez um mercado interno de cativos de dimensões
“nacionais”.
Todo esse processo não produziu apenas adaptações econômicas e um
crescente confinamento dos interesses escravistas nas grandes plantações do
Centro-Sul. Produziu alterações na vida cotidiana de senhores, livres pobres
e escravos.
Martinho e Querino, escravos de pequenos senhores, a quem nominalmente
ainda pertenciam, haviam passado por uma longa viagem e pela guarda e
posse de uma complexa rede de intermediários, até que seu destino final fosse
atingido. Traziam, assim, uma bagagem cultural muito diversa daquela antes
reiterada pelas sucessivas levas de africanos chegados aos portos do Império.
Antes de tudo, haviam nascido escravos e estavam a descobrir no penoso
percurso que havia muitas formas de sê-lo nos “Brasis”
Não é preciso um exercício de imaginação dos mais criativos para refletir
sobre os contrastes entre o universo conhecido da escravidão nas Alagoas —
onde os escravos haviam nascido e aprendido a sobreviver física e culturalmen­
te, apesar de sua condição de escravos, com os anos de viagem e estada na

117
DAS CORES DO SILÊNCIO

Corte — e o pânico que os movia para a ousada tentativa de fuga, ante a


iminência de seu destino final.
Alguns aspectos da vida cotidiana dos escravos são violentamente atingidos
por essa nova conjuntura. Querino e Martinho são inicialmente declarados
no processo como tendo filiação desconhecida. Nada mais natural para dois
escravos adultos, tão distantes de seu lugar de origem. As relações pessoais e
familiares que deixaram nas Alagoas revelam-se, entretanto, nas entrelinhas
do processo, quando se vê a “filiação desconhecida’, originalmente apontada
no inquérito, ser substituída por nomes bastante precisos, quando indagada
aos próprios acusados no julgamento. Para 65,22% dos nascidos nas áreas onde
viviam em cativeiro, nos processos analisados, puderam-se identificar relações
familiares nas áreas em questão, muitas vezes remontando a mais de uma ge­
ração. O mesmo pôde ser percebido para 82% dos réus crioulos (os únicos
perguntados diretamente sobre filiação), mesmo considerando que, na maio­
ria dos casos, como Querino e Martinho, não haviam nascido onde serviam
como cativos, no momento do processo11.
Isso nos remete a duas situações, quando se tem a experiência do cativeiro
na segunda metade do século XIX como referencial. Nas grandes fazendas do
Sudeste, formadas no século XVIII ou ainda na primeira metade do Oitocen­
tos, e não apenas nas áreas cafeeiras, a estabilidade possível na situação de ca­
tiveiro tendia a se ampliar, reforçando-se concomitantemente a integração
familiar e cultural dos cativos com o processo de crioulização das novas
aquisições, a partir de 1850. Pode-se considerar ainda, com alguma segurança,
que as novas aquisições nos empreendimentos que apenas repunham mão de
obra tenderam preferencialmente a se concentrar no mercado local, ou seja,
nas transferências de pequenos para grandes senhores. Ana Maria Lugão Rios12,
em pesquisa sobre Paraíba do Sul, conseguiu não apenas relacionar a antigui­
dade da montagem da fazenda escravista com a possibilidade de estabilidade
familiar entre os cativos por mais de uma geração, como também demonstrar
que a existência ampliada dessas relações foram determinantes naquela área
para a compreensão das decisões de migração ou permanência dos libertos,
após 1888.
Desse modo, as relações familiares e comunitárias entre os cativos dos
grandes plantéis, formados até a primeira metade do século XIX, forjaram um
dos eixos de sociabilidade básicos sobre o qual se construíram as expectativas
dos cativos em relação à liberdade nas últimas décadas da escravidão. Essa si­
tuação se viu amplamente retratada nos processos de escravos reunidos por
esta pesquisa, especialmente após 1860, em grande parte porque se tornara,

118
SOB O JUGO DO CATIVEIRO

com o recrudescimento da concentração social da propriedade cativa, locus


privilegiado onde se encontravam os escravos do Sudeste e, portanto, onde
poderíam ocorrer conflitos criminais e processos cíveis envolvendo escravos.
Por outro lado, para os cativos de pequenos e médios senhores das vilas
e idades, não apenas no Nordeste, mas também no Centro-Sul, após 1850,
uma componente essencial de suas vidas, a condição de mercadoria, a possibili­
dade de ser objeto de negócio, viu-se terrivelmente ampliada e teve suas bases
redefinidas.
Até então, para os escravos crioulos ou para os africanos residentes, as
execuções de hipotecas, as partilhas nos inventários ou a perda das boas graças
do senhor tendiam a concentrar os momentos mais comuns de tensão, pro­
duzidos pela condição de mercadoria que lhes era imposta. A condição jurí­
dica de coisa, ao se realizar na prática cotidiana da compra e venda de seres
humanos, tornava-se um negócio suigeneris, em que a coisa era frequentemente
partícipe da transação13. Enquanto se manteve constante a oferta de africanos,
em se tratando de escravos ladinos, os custos econômicos e sociais da aquisição
de um cativo insubmisso raramente compensavam. Em termos gerais, portan­
to, pesquisas mais recentes o têm demonstrado, os senhores desenvolviam uma
sofisticada economia política nas decisões de venda, hipoteca ou partilha de
escravos, a qual buscava garantir um mínimo de oposição por parte destes a
tais decisões.
A prática de respeitar os grupos familiares nas partilhas e vendas de cativos
pode ser registrada com alguma frequência, mesmo antes que se transformas­
se em imposição legal, em 186914. Situações em que os próprios cativos, recor­
rendo a fugas ou apadrinhamentos, praticamente “escolhiam” seus novos se­
nhores têm sido registradas como possibilidade por diversos pesquisadores15.
Essas possibilidades se restringiram após 1850, quando o mercado interno
de escravos se ampliou para tomar dimensões nacionais, e as decisões de ven­
da entre pequenos e médios proprietários tomaram uma amplitude antes
inexistente, ultrapassando em muito o tradicional momento de tensão, que se
estabelecia quando da partilha dos bens.
A concentração social da propriedade cativa que daí se originou não afetou
apenas os antes reais ou potenciais pequenos proprietários de escravos, aju­
dando a deslegitimar a escravidão. Afetou diretamente os cativos desses pe­
quenos e médios senhores.
Menos expressivos após 1850, os pequenos e médios planteis não
deixarão de existir. Nem todos os cativos nessa situação se viram transportados
para os sertões, mas todos passaram a viver com essa possibilidade. Contar a

119
DAS CORES DO SILÊNCIO

história de Justina e Maria Rosa é uma forma significativa de aproximação com


essa dimensão da experiência escrava na segunda metade do século XIX. Ca-
sos-limite, eles refletem exemplarmente o nível de violência da ameaça de
desenraizamento que significou a generalização do tráfico interno.
Justina e Maria Rosa cometeram aquele tipo de crime para o qual não se
encontra justificativa além da loucura e do desespero. Mataram cada uma seus
três filhos menores e depois tentaram, sem sucesso, o suicídio. Escravas, espe­
ra-se encontrar por trás de tal gesto uma cruel história de violência, tortura e
humilhação. Não é, entretanto, o que transparece dos depoimentos, inclusive
o delas próprias e de seus companheiros de cativeiro.
No caso de Justina, suas condições de vida na casa de seu senhor podem
ser reconstituídas com precisão. Trata-se de um pequeno ou médio senhor, na
dependência do referencial que se queira utilizar. Moravam em sua casa todos
os seus escravos, à exceção de um, na freguesia de São Sebastião, município de
Campos, 187816. Antônio Paes da Silva era solteiro e vivia com sua caseira, a
forra Bibiana, com quem tinha filhos. Num quarto próximo à cozinha, dor­
miam Justina e as três crianças: Ambrósio e Bernarda, seus filhos, e Lourença,
a quem Justina criava como filha, visto que sua mãe, a escrava Inácia, havia sido
vendida, sem a criança, a um irmão de Antônio que se mudara para o sertão.
Justina possuía a chave de seu quarto, que permanecia trancado por dentro
durante a noite. Na cozinha, dormiam dois outros escravos de Antônio: Fi­
délis, 25 anos, e Miguel, 18, este também filho de Justina. Em casa da forra Ana
Maria Paes, agregada em terras de Antônio, de quem havia sido escrava, dormia
seu filho Clemente, também escravo de Antônio, que todas as manhãs se
apresentava ao senhor para o trabalho. Antônio Paes não possuía feitor e, nos
depoimentos dos cativos, que narram o momento da descoberta do crime,
tem-se um rico relato da rotina de trabalho em sua casa.
Os escravos, após cumprirem suas tarefas de rotina pela manhã, apresen-
tavam-se a Antônio para dele pessoalmente receberem novas ordens. O relato
de Fidélis, bastante semelhante nesse ponto ao de Clemente e Miguel, merece
ser transcrito, inclusive para que se reflita sobre a diferença dos códigos que
regiam as relações entre senhores e escravos em pequenos e grandes plantéis.

Perguntado como se descobriram as crianças na ribanceira no tanque. Respondeu


que tendo ele interrogado ontem a noite ido a uma ladainha em casa de Bárbara de Tal,
e ao chegar em casa de seu senhor viu uma luz acesa no quarto de Justina, porém ele
interrogado não desconfiou de nada e foi dormir num quarto imediato, eao amanhecer
do dia de hoje foi para seu serviço em companhia dos outros parceiros, às sete horas da

120
SOB O JUGO DO CATIVEIRO

manhã vindo com os parceiros a receber novas ordens do seu senhor, cm casa soube que
não estavam as crianças em casa e que Justina tendo amanhecido em casa tinha se reti­
rado mandando seu senhor o interrogado para outro serviço e Clemente seu parceiro
para dar ração aos cavalos [...]17. (grifo nosso)

Em casa de Antônio Paes, todos pareciam conhecer suas obrigações. Não


conheciam feitor, frequentavam com naturalidade as ladainhas nas casas da
vizinhança e possuíam a chave de seus quartos, mas levantavam-se cedo, en­
quanto o senhor ainda dormia, para realizar suas tarefas de rotina, a tempo de
se apresentarem a ele, no horário esperado, em busca de novas ordens. Mesmo
Bibiana, apesar de forra e de sua posição de caseira, ocupava-se pessoalmcnte
dos trabalhos domésticos. Segundo seu próprio depoimento, ela também se
levantava mais cedo e preparava pessoalmente o café da manhã de seu amásio.
A principal tarefa de Justina, em casa de Antônio Paes, era ajudar Bibiana nos
serviços domésticos. Pode-se dizer que Antônio Paes era uma ilha, cercado
por escravos e forros por todos os lados.
No dia do crime, segundo seu depoimento, Bibiana estranhou exatamente
a negligência de Justina com suas obrigações. Enquanto ela preparava o café
da manhã, Justina permanecia trancada em seu quarto. Mesmo as crianças não
haviam ainda levantado, e Bernarda, a mais velha, era quem pajeava os filhos
de Bibiana, enquanto ela se ocupava dos trabalhos domésticos. Bibiana per­
guntou, então, por Bernarda, em voz alta, pedindo que esta viesse para olhar
seus filhos, que estavam chorando. De dentro do quarto, segundo Bibiana,
Justina respondera, com voz rouca, que havia mandado as crianças à casa de
um vizinho, Amaro da Silva Tavares. Os demais acontecimentos do dia são
narrados sempre da mesma forma por todos os moradores da casa de Antônio
Paes. Talvez a melhor forma de acompanhá-los seja seguindo o depoimento
de Fidélis, já parcialmente transcrito.

Veio Clemente dizer a seu senhor que estava na ribanceira do tanque uns panos e
mandando seu senhor por ele testemunha reconhecer o que ali estava encontrou as
crianças mortas e cobertas com panos. Tendo seu senhor mandado por ele testemunha
procurar Justina, seguiu ele testemunha pela vizinhança e encontrou em alguns lugares
de roças vestígios de sangue, ao chegar a casa de João Claudino ali soube que Justina
tinha dito que havia feito três mortes e que ela pedia ao dito João Claudino que lhe
desse um tiro pois que achando-se ferida na goela queria morrer, e seguindo ela teste­
munha à procura de Justina não a encontrou, e que ela também tinha dito a João
Claudino que para casa não vinha mais18.

121
DAS CORES DO SILÊNCIO

De acordo com os depoimentos no processo, inclusive o da própria acusa­


da, Justina, que dormia trancada por dentro num quarto, com as três crianças,
retirara-as à noite, pela janela, afogando-as no tanque perto da casa. Em se­
guida, voltara ao quarto e ali tentara matar-se, cortando a própria garganta.
Ferida, mas viva, Justina teria saído novamente pela janela, dirigindo-se à casa
de João Claudino, carpinteiro e sitiante, que se negou a matá-la e tentou con­
vencê-la a voltar para casa. Ela fugiu novamente e ficou embrenhada nos
matos por oito dias, quando, finalmente, foi presa, ainda com vida e com o
ferimento na garganta infeccionado. Justina viveu o suficiente para ser conde­
nada a 42 anos de prisão simples.
Por que Justina decidiu matar os filhos e a si própria? Em termos metodo­
lógicos, esta não é a pergunta correta a se fazer, quando se trabalha historica­
mente com processos criminais. A versão construída no processo produziu
um criminoso, Justina, e a pergunta acima pressupõe considerar essa versão
não apenas plausível, mas necessariamente verdadeira. No caso desse processo
específico, entretanto, enquanto o copiava, no Arquivo Nacional, era esta a
pergunta que não me saía da mente. Medeia me vinha constantemente à
imaginação. Teria sido Justina substituída por Bibiana, como caseira de Antô­
nio Paes? Seriam as crianças filhas de Antônio Paes? Nenhuma palavra nesse
sentido é transcrita nos depoimentos. A pergunta de por que Justina matara
os filhos, as respostas invariavelmente consideravam uma única razão: porque
ela estava convencida de que seria vendida pelo senhor, na viagem que, no dia
seguinte, fariam para o sertão do Morro do Coco. Ela própria, em seu pri­
meiro depoimento no inquérito, quando descreve detalhadamente os acon­
tecimentos daquela noite, só alega como justificativa “que havia sido atentada
pelo demônio”. No segundo, já orientada por advogados, fala em privação
dos sentidos e que não se lembrava do que havia feito. No julgamento, seu
curador alega que o senhor pretendia vendê-la no sertão, como castigo por
ela negar-se a manter tratos ilícitos com ele em consideração a Bibiana. Ne­
nhum dos depoimentos menciona esse possível conflito entre Justina e An­
tônio Paes. Consensual, nos depoimentos de todos os moradores da casa,
inclusive o do senhor, é a referência à convicção de Justina de que, à seme­
lhança do que acontecera com Inácia, cuja filha adotara, seria vendida no
sertão sem as suas crianças, apesar da lei de 1869. A viagem estava marcada
para o dia seguinte e as três crianças não acompanhariam Antônio Paes, Jus­
tina e Miguel.
Justina havia nascido em São Sebastião. Seus filhos formavam uma tercei­
ra geração de cativos na família Paes. Em função disso, Antônio Paes alega ter

122
SOB O JUGO DO CATIVEIRO

tentado demovê-la da ideia de que seria vendida. Justina chegara a lhe pedir,
segundo seu depoimento, que, pelo menos, a vendesse ali mesmo em São Se-,
bastião. Ao que Paes alega ter respondido que “não a vendia nem aqui nem no
sertão”. Mas Justina não acreditava nele. De forma direta, Antônio Paes, Bi-
biana, Miguel, Clemente e Fidélis associavam essa convicção de Justina, para
a qual não explicavam o motivo, à sua trágica decisão.
“A dor da gente não sai no jornal”, já dizia Chico Buarque, ao refletir sobre
a tragédia de Medeia. Verdadeira ou não a alegação das testemunhas, no mí­
nimo pode-se argumentar que se considerava essa versão suficiente para expli­
car o comportamento de Justina.
Maria Rosa, mucama de dentro de casa que, como Justina, alega jamais ter
apanhado de suas senhoras, num processo muito mais lacônico, confessa que
matara seus três filhos e depois tentara suicidar-se “porque Eva Macota a havia
intrigado com suas senhoras moças”19.
Quais as terríveis consequências que poderíam advir das “intrigas de Eva
Macota”? Pergunta sem resposta, não se pode deixar de especular que a sepa­
ração dos filhos, a perda da situação de mucama ou o abandono do sonho da
alforria por bons serviços prestados, aliado ao temor da venda no sertão, podiam
tornar-se formas de violência mais cruéis e eficientes para moldar o compor­
tamento do cativo do que o tronco e o bacalhau. Havia limites, entretanto,
que apenas perigosamente, do ponto de vista da segurança do senhor ou da
preservação de sua propriedade, poderíam ser ultrapassados.
Este segundo contexto estabeleceu tensões específicas à segunda metade
do século, que se consubstanciaram na resistência às novas condições em que
se desenvolvia o tráfico interno e, especialmente, a seu destino final, a grande
fazenda, em expansão nos “sertões”. Engendrou também, nesses estabeleci­
mentos, uma situação de concentração exacerbada de escravos homens, oriun­
dos de experiências de cativeiro bastante diversas, portadores de expectativas
sobre a relação senhor-escravo às vezes bastante distintas das que orientavam
a ação de seus novos senhores.
O percurso do tráfico interno, para os escravos vindos do Norte, em geral
previa uma estada, em muitos casos prolongada, na Corte, repleta de tensões
específicas, como bem desenvolve Sidney Chalhoub20, tendentes a evitar que
aquele destino final (a fazenda de café) se concretizasse. Nesse contexto, a
tentativa de fuga de Martinho e Querino mostra-se mais que um ato de deses­
pero, mesmo que inteiramente frustrada para ambos. Três dos 46 escravos não
foram recapturados, pelo menos enquanto decorreram o processo e o julga­
mento. A ampliação das possibilidades das “fugas para dentro”21, e não apenas

123
DAS CORES DO SILÊNCIO

em direção ao espaço urbano, oferecia possibilidades, mesmo que remotas, de


êxito a escravos ladinos, numa área onde os pretos do Norte, escravos ou for­
ros, já não eram mais incomuns.
Os senhores, cientes dos problemas que poderíam advir da aquisição de
cativos insubmissos ou imprestáveis, por condições outras para o trabalho,
recorriam, sempre que possível, a um período de experiência antes da concre­
tização definitiva do negócio, quando finalmente o cativo trocava de senhor22.
Eram provavelmente as condições dessa experiência um dos itens que Geraldo
Carneiro negociava em Monte Cavalo. Nesse período de experiência, o cativo
não era apenas avaliado. Ele frequentemente tentava influir sobre as condições
de seu novo cativeiro.
Esse foi o caso do “preto Roque”23, pernambucano, que, em 1866, se en­
contrava na fazenda de José de Souza Brandão, em Cantagalo, “a contento
para o comprar”, quando ocorreu o crime pelo qual foi preso e julgado. Após
um longo período na enfermaria, tratando-se de uma sífilis que trouxera de
sua estada de quatro anos na Corte, Roque finalmente havia sido conduzido
ao eito. Aí começaram seus desentendimentos com o feitor e os acontecimen­
tos que o levariam às barras da lei. Aí começaram também, no processo, as
versões conflitantes sobre as motivações de seu procedimento.
Dos acontecimentos da roça, temos as versões de Roque e do feitor, Pedro
de Oliveira. Este sustentava que Roque o desacatara no eito, recusando-se a
trabalhar e ameaçando-o com um canivete. Vendo-o armado, o feitor teria
desistido de tentar discipliná-lo. Roque teria, então, abandonado o eito, pro­
ferindo ameaças ávida do senhor, e se dirigido à casa de vivenda. Na versão de
Roque, ele não se negara ao trabalho, mas apenas “sentara um pouco para
descansar e chupar cana munido de seu canivete”, quando o feitor resolveu
“bater-lhe à toa”. Ele, então, teria se dirigido à casa de vivenda para reclamar
com o major Brandão do comportamento arbitrário do feitor.
Ameaçando ou não o senhor, o fato é que Roque realmente dirigiu-se à
casa da fazenda e interpelou o major Brandão para narrar-lhe o acontecido. O
feitor não fez maiores esforços para impedi-lo, chegando minutos após, sem
reforços, para contar a Brandão a sua versão do ocorrido.
A atitude de Roque, relatada em seu próprio depoimento, no do senhor e
também no do feitor, de procurar diretamente o major Brandão para reclamar
das atitudes do feitor Pedro Rodrigues, ilustra os esforços do mesmo Roque
para tentar influir nas condições de cativeiro que iria vivenciar. Parece indicar
também que, à semelhança da rotina encontrada na casa de Antônio Paes, sua
experiência de cativeiro anterior dispensara intermediários. E sob a autoridade

124
SOB O JUGO DO CATIVEIRO

do senhor que ele pretendia colocar-se. Ao menos, Roque esperava que o senhor
servisse como árbitro em suas relações com o feitor da roça.
No depoimento de Brandão, destaca-se sua surpresa diante da inusitada
atitude do escravo de dirigir-lhe diretamente a palavra, sem maiores cerimônias.

Respondeu que no domingo, 10 do corrente, estando ele almoçando chamou-lhe o


preto Roque escravo de Joaquim Jerônimo da Costa Machado, que há mês e meio
querendo vendê-lo deixou em seu poder dele respondente a contento para o comprar se lhe
agradasse e indo ele respondente ter com o dito preto Roque que o chamara, ele lhe
dissera que o feitor lhe quis bater à toa, e ele respondente ralhara com ele, e lhe dissera
que quando o feitor viesse saberia o que se tinha passado24, (grifo nosso)

O feitor chegou e o major Brandão ouviu-lhe a versão longe da presença


de Roque. Em seu depoimento, Brandão não menciona ter sido informado de
qualquer ameaça verbal de Roque à sua pessoa, mas apenas de sua recusa ao
trabalho. Em função disso, o promotor que indicia o escravo coloca em dúvi­
da aquela parte do depoimento do feitor, que pouco sentido fazia com as
demais atitudes de Roque, sempre tendentes a desqualificar a autoridade do
feitor, ao mesmo tempo que ele se mostrava disposto a acatar a do major.
Assim é que Roque, segundo novamente os depoimentos do feitor e do
major, não se acanhou novamente de interromper a conversa entre o major
Brandão e seu feitor, ao que o major respondeu com uma ordem para que ele
fosse levado ao tronco. Na narrativa do feitor (reiterada pelo major), Roque
então “pediu que queria ir com ele (o senhor) sozinho, que não queria que o
feitor o acompanhasse”. Segundo ainda o feitor, o major, avisado por ele, não
se deixou enganar pelo escravo.
Na verdade, a partir desse momento, Brandão teria passado a se sentir pes­
soalmente ameaçado, mesmo levando em conta que, durante todo esse tempo,
Roque estivera de posse do seu canivete e bastante próximo do major, sem que
dele se tivesse utilizado. A uma ordem sua o feitor é instado a prender o preto
Roque, dando-lhe “com o cabo do relho”. Só então, Roque puxou do canivete,
que usara para chupar cana, e, ferindo o feitor, conseguiu evitar a prisão.
A fuga e perseguição que se seguiram são harmonicamente narradas por
diversas testemunhas. Outros camaradas e mesmo escravos foram, então,
acionados para agarrar Roque, que conseguia livrar-se de todos que se apro­
ximavam, sempre usando seu canivete, em desabalada fuga em direção à
porteira. Um dos feridos viria a morrer alguns dias depois. Na fuga, Roque
acabou caindo, ou foi empurrado, de acordo com sua versão, de um “paredão

125
DAS CORES DO SILÊNCIO

com 15 palmos de alto”, quando, “debaixo de bordoadas”, foi finalmente leva­


do ao tronco. Após um mês de tratamento dos ferimentos, na enfermaria,
onde, segundo a versão do cativo, esteve o tempo todo acorrentado e sujeito
a novas “bordoadas”, Roque foi então entregue às autoridades por crime de
homicídio.
Apesar de o senhor declarar que se sentira ameaçado e de o feitor afirmar
em seu depoimento que Roque se vangloriara na roça de haver matado outros
senhores, em momento nenhum Brandão chegou a ser agredido. Todos os
ferimentos perpetrados por Roque, aos quais se seguiu uma morte, foram
feitos contra camaradas e escravos de Brandão, no momento em que tentavam
prendê-lo ou impedir sua fuga. Todas as suas atitudes anteriores foram no
sentido de referendar a autoridade do major e questionar a do feitor.
Segundo o promotor, Roque não poderia em qualquer caso ser enquadra­
do na lei de 1835, visto que não era escravo de Brandão, mas ali estava “a con­
tento”. Após sua feroz resistência à prisão, Brandão desiste de sua compra. A
acusação de assassinato fez também que seu proprietário preferisse desistir de
sua posse a defendê-lo na Justiça. Roque, agora forro, é condenado a galés
perpétuas. A compra de Roque decididamente não fora um bom negócio para
Joaquim Jerônimo da Costa Machado, negociante na praça do Rio de Janeiro.
Além de reforçar as evidências sobre a prática de um período de expe­
riência na venda de escravos, a diferença de expectativas sobre a relação
senhor-escravo, do ponto de vista de Roque e de seu pretendente a senhor,
merece especialmente ser ressaltada. Apesar de contraditórias em alguns
pontos, as três versões apresentadas (a de Roque, a de Pedro Rodrigues e a
do major Brandão) fazem sentido, quando se trabalha com a hipótese de
que foram formadas a partir de expectativas culturais em relação à interação
senhor-feitor-escravo, fundamentalmente distintas.
A insistência de Roque em desqualificar a autoridade do feitor e em reco­
nhecer a do major, até mesmo para levá-lo ao tronco injustamente, parece
sugerir que Roque conhecia bem as prerrogativas de violência do senhor sobre
o escravo, mas que ele estranhava que esta fosse delegada a terceiros. Pode-se
especular que essa expectativa se coadunaria perfeitamente bem com a vivên­
cia de um escravo, antes propriedade de um pequeno senhor. Esse estranha­
mento fica evidenciado na primeira fuga do eito de Roque, quando, de seu
ponto de vista, apanhara “à toa”, em busca da Justiça senhorial, mas também
na segunda, conforme aparece num dos seus depoimentos no processo (que
não menciona, entretanto, o “pedido” para que fosse levado ao tronco direta­
mente pelo senhor):

126
SOB O JUGO DO CATIVEIRO

[...] que logo após veio o feitor da roça e depois de ter falado com Brandão foi com
diversos camaradas onde estava ele respondente e aí lhe deram as pancadas que já refe­
riu, que vendo-se ele respondente ensanguentado por causa dessas pancadas tratou de
fugir quando sendo perseguido pelos ditos camaradas foi por eles lançado de uma
ponte abaixo, sobre um riacho25.

Esta segunda fuga quase suicida, em meio aos camaradas da fazenda, revela
antes de tudo atordoamento e surpresa diante da agressão. Não é a violência
propriamente dita que o surpreende, mas as condições sob as quais ela se
exerce. Ao ir-se à casa da fazenda, ao interromper o senhor em seu almoço, Ro­
que encontrava-se completamente seguro de suas razões e da justiça senhorial,
tanto que se anima a interpelá-lo por duas vezes. O major, entretanto, prudente
e pedagogicamente, insistira em usar seus prepostos para discipliná-lo.
Para o senhor, todo o comportamento de Roque aparece também como
suspeito e ameaçador. Ele ousa dirigir-lhe diretamente a palavra, interrompen­
do-o durante o almoço, e ainda se queixa diretamente do comportamento do
feitor. E bastante provável que não tenha ocorrido a Brandão que talvez esse
comportamento fosse o que Roque até então julgasse adequado para tratar
com seus amos. Apesar de suas reiteradas afirmações de reconhecimento da
autoridade senhorial, dispondo-se inclusive a ser conduzido ao tronco pelo
senhor, pessoalmente, para Brandão, provocação e ameaça estariam subjacen­
tes a essas atitudes.
Até mesmo o depoimento do feitor, que, segundo o promotor, tendia a
exagerar as ameaças verbais de Roque na roça, talvez estivesse estritamente
preso à verdade dos fatos, vistos por sua ótica. Afinal, Roque confirmara que
se recusara a trabalhar. O que para Roque é relatado como uma atitude corri­
queira (um pequeno descanso para chupar cana, munido de um canivete),
muito provavelmente pareceu ao feitor, responsável pela disciplina e pelo
ritmo de trabalho no eito, um supremo desafio à sua autoridade. E provável,
ainda, que Roque, desacatando o feitor, tenha respondido a possíveis consi­
derações deste sobre suas ilusões em relação à justiça senhorial, com algumas
bravatas sobre o que mereciam os senhores que, do seu ponto de vista, não
sabiam comportar-se como tais. O sentido geral das transações, no mercado
interno de escravos de pequenos para grandes senhores, de áreas antigas para
novas, provocou tensões específicas nas últimas décadas da escravidão. Esses
escravos traziam para seu novo cativeiro determinadas expectativas sobre as
relações senhor-escravo, que nem sempre correspondiam à nova realidade.
Os escravos crioulos, que viviam fora das áreas em que haviam nascido, mi­

127
DAS CORES DO SILÊNCIO

grantes forçados no tráfico interno, têm uma presença estatisticamente rele­


vante nos processos crimes analisados, não apenas por se tornarem, a partir de
1850, demograficamente cada vez mais comuns, mas também porque tenderam
a protagonizar prioritariamente os crimes contra outros escravos, senhores e
feitores, registrados a partir de 1860, nos processos da Corte de Apelação.
Tem-se, assim, um contexto que tendia a reforçar e cristalizar os laços co­
munitários entre os cativos nas áreas mais antigas, em função da própria di­
minuição do ritmo de chegada dos africanos e da crescente concentração de
escravos em grandes fazendas. Ao mesmo tempo, em termos gerais, cresciam
as possibilidades de desenraizamento, em função do desenvolvimento de um
mercado de cativos internamente ampliado. Nesse contexto, a sociabilidade
escrava, no período, esteve profundamente marcada por estas duas compo­
nentes: o reforço das relações familiares no suceder de gerações nascidas sob
o cativeiro e a experiência ampliada da desestruturação dessa rede, imposta
pela condição de mercadoria, num quadro de ampliação sem precedentes do
mercado interno de escravos. Essas duas componentes se desenvolviam, ainda,
num quadro social e político tendente a deslegitimar progressivamente a es­
cravidão e a ampliar as alternativas dos cativos de acesso à alforria, especial­
mente após 1870.
Mais de 300 processos cíveis de Ações de Liberdade foram localizados na
Corte de Apelação, ao longo desta pesquisa, por todo o século XIX. É um
número de todo surpreendente. A análise do perfil dos cativos que
tiveram acesso a esse procedimento jurídico, e dos seus fundamentos e resul­
tados finais, permite de forma privilegiada que essa dimensão específica da
experiência do cativeiro no século XIX — sua crescente deslegitimação —
possa também ser considerada.
Nesta parte do trabalho, tenta-se analisar as expectativas em relação à li­
berdade, formadas pelos últimos cativos do Sudeste, nesse contexto específico.
Para tanto, também nos demais capítulos, a análise vai se concentrar em de­
terminadas situações de tensão, que ficaram registradas nos processos crimes
e cíveis reunidos. Tenho consciência de que estou trabalhando todo o tempo
com situações-Iimite e, principalmente em relação aos processos criminais,
sem condições de responder a uma questão fundamental por eles colocada: a
do peso específico do aparelho judiciário (e do Estado, num sentido mais
amplo), no controle social da criminalidade escrava. Os processos poderíam
ter sido analisados por esse ângulo, mas não foi essa a opção adotada. Desse
ponto de vista, outra tipologia, não tanto de conflitos, mas propriamente de

128
SOB O JUGO DO CATIVEIRO

“crimes” teria que ser adotada, na qual o contexto urbano, nas vilas e cidades
do interior, ganharia maior relevo.
Os processos crimes, selecionados para serem tratados nos capítulos desta
parte, o foram por se mostrarem aqueles nos quais um maior número de cati­
vos falava, não apenas como réus, mas como testemunhas-informantes26,
permitindo penetrar, para além dos conflitos, no espaço de sociabilidade es­
crava que maior número de cativos concentrava nas últimas décadas da escra­
vidão : a grande fazenda. Nesses processos, dois contextos básicos já delineados
pela historiografia, as fazendas antigas e novas, a comunidade escrava e o
tráfico interno, emergiram com vida e cores que nenhum cálculo demográfico
pode substituir.

Notas

1 Documentação judiciária. Corte de Apelação: Escravos. Processos criminais. Caixa 3.700, n9


1.904. Arquivo Nacional.
2 José Murilo de Carvalho, A construção da ordem — A elite política imperial, 1980.
5 Stuart B. Schwartz, Segredos internos — Engenhos e escravos na sociedade colonial, 1988,
cap. 17; João José Reis, “O levante dos malês: Uma interpretação política”, in J. J. Reis
e Eduardo Silva, Negociação e conflito — A resistência negra no Brasil escravista, 1989,
pp. 99-122.
4 Robert W. Slenes, “‘Malungu, ngoma vem 1’ África coberta e descoberta no Brasil”, Revista USP,
n212, dez./jan./fev., 1991/1992.
5 Sidney Chalhoub, Visões da liberdade — Uma história das últimas décadas da escravidão na
Corte, 1990, cap. 1.
6 Cf. Manolo Florentino, “Em costas negras: um estudo sobre o tráfico atlântico de escravos para
o porto do Rio de Janeiro, 1790-1830”. Tese de doutorado. Niterói. UFF, 1991; e Robert W.
Slenes, “The Demography and Economics of Brazilian Slavery, 1850-1888”. Ph.D. Stanford
University, 1976.
7 Sheila de Castro Faria, “Escravidão e relações familiares no Rio de Janeiro”, Estudos Sobre a
Escravidão II. Niterói, Cadernos do ICHF, ns 23, ago., 1990.
8 Emília V. da Costa, Da senzala à Colônia, 1966; Ismênia de Lima Martins, “Problemas da ex­
tinção do tráfico africano na província do Rio de Janeiro”. Tese de doutorado. São Paulo, USP,
1973.
9 Robert Slenes, “The Demography and Economics of Brazilian Slavery...”; Peter Eisenberg,
Modernização sem mudança —A indústria açucareira em Pernambuco, 1840-1910,1977.
10 Robert Slenes, “The Demography and Economics of Brazilian Slavery...”
11 Entre os 257 escravos considerados, contaram-se 67 réus crioulos efetivamente interrogados.
12 Ana Maria Lugão Rios, “Família e transição. Famílias negras em Paraíba do Sul, 1872-1920”.
Dissertação de mestrado. Niterói, UFF, 1990.
13 Silvia H. Lara, Campos da violência — Escravos e senhores na capitania do Rio de Janeiro, 1750-
-1808,1988, cap. 7; Sidney Chalhoub, Visões da liberdade..., cap. 1.

129
DAS CORES DO SILÊNCIO

14 João Luiz R. Fragoso e Manolo Florentino, “Marcelino, filho de Inocência Crioula, neto de
Joana Cabinda: estudos sobre famílias escravas em Paraíba do Sul, 1835-1972”, Estudos Econô­
micos, 17(2), São Paulo, IPE-USP, 1987, pp. 151-73-
15 Ademir Gcbara, 0 mercado de trabalho livre no Brasil, 1871-1888,1986, cap. 3; Silvia H. Lara,
Campos da violência..., cap. 10.
16 Documentação judiciária. Corte de Apelação: Escravos. Processos criminais. Caixa 1.185, n" 9-
Arquivo Nacional.
17 Ibidem.
IS Ibidem.
19 Documentação judiciária. Corte de Apelação: Escravos. Processos criminais. Caixa 11.053’
nfi 859, Arquivo Nacional.
20 Sidney Chalhoub, Bisões da liberdade..., cap. 1.
21 Ademir Gebara, O mercado de trabalho livre no Brasil..., cap. 3.
22 Ver também, neste sentido, Sidney Chalhoub, Bisões da liberdade..., cap. 1.
23 Documentação judiciária. Corte de Apelação: Escravos. Processos criminais. Maço 172, n2i.l22-
Arquivo Nacional.
24 Ibidem.
25 Ibidem.
2^ Os escravos, tendo em vista sua condição civil, depunham nos processos na qualidade de
formantes”, como os menores e os parentes livres das vítimas ou dos réus.

130
2

Conflito e coesão na comunidade escrava

[...] que no dia nove do corrente mês pelas sete horas da manhã mais ou menos, foi
achado na mata que vem da fazenda do Carrapato para a fazenda da Pedra de Francis­
co Ferreira Franco, o escravo do mesmo, por nome Anselmo, de nação, seu feitor, ati­
rado em um buraco, muito ferido que mal podia falar e dizendo que o autor de seme­
lhante crime era seu parceiro de nome Joaquim Félix [...]1

Além desse pequeno traslado, pouco ou nada sabemos das circunstâncias


que levaram Joaquim Félix a matar Anselmo, nas matas da fazenda do Carra­
pato, situada em Barra Mansa, na província do Rio de Janeiro, por volta de
1867. Tornou-se fundamental para o destino de Joaquim Félix, entretanto, que
se decidisse quem ele havia matado: se seu feitor (o que o levaria a ser conde­
nado até mesmo à morte, pela rigorosa lei de 1835) ou seu parceiro (que pode­
ría ser punido, dependendo das circunstâncias do crime, “apenas” com a pena
de açoite)2. Todo o esforço do curador de Joaquim Félix se fez no sentido de
marcar as distâncias entre livres e escravos que, em sua concepção, a lei de 1835
buscava reafirmar. De seu ponto de vista, a potência da propriedade separava
essencialmente livres e escravos. Nas palavras do curador: “A expressão feitor,
segundo os nossos lexicólogos, significa aquele que administra fazenda alheia,
dando a entender que se refere a quem pode ter bens próprios, a homem livre”0.
(grifo nosso)
A utilização da palavra “feitor” para um escravo era, portanto, um engano
semântico. Manuel era, antes, “parceiro” de Joaquim Félix, em função da
condição cativa que os igualava em seus “gostos e dissabores”. Um “feitor” livre,
“o verdadeiro feitor”, era antes de tudo “um representante do senhor, que in­
fundia respeito”. Um “feitor escravo” seria apenas “a máquina que castiga sem
vontade própria” e apenas “infundia medo”. Sua única relação com o senhor
era a de “submissão”, a mesma dos demais escravos. Já o feitor livre teria uma
DAS CORES DO SILÊNCIO

relação com o senhor de “esmerada cortesia” e “mútua confiança” que o eleva­


ria, “de fato, ao nível da família senhorial”. Como elevar o feitor escravo a esse
nível? Perguntava o curador. Estaria sua mulher, uma simples escrava, como a
esposa do feitor livre, amparada pela mesma lei ? O curador concluía, afirmando:
“Não será isto desvios do pensamento que o preocupou (o legislador) na
confecção da lei e que era a separação das duas classes, confundindo-as por
uma incoerência indesculpável, justamente quando se tratava de separá-las,
pela gravidade da punição?”4.
Apesar de toda essa retórica, Joaquim Félix foi condenado, de acordo com
a lei de 1835, e o curador teve seu último recurso negado pela Corte de Ape­
lação, em 13 de dezembro de 1867.
Por todo o século XIX, os processos cíveis e criminais que responsabilizavam
criminalmente e ouviam como testemunhas-informantes os que, a princípio,
deveríam ser reduzidos a meros instrumentos vocales, revelam-se, efetivamen­
te, reiteradas “incoerências indesculpáveis”, produzidas pelas ambiguidades da
ideologia liberal-escravista vigente no Império. Abrem, exatamente em função
disso, pequenas frestas pelas quais é possível penetrar na experiência histórica
do cativeiro.
Feitor ou parceiro? Essa pergunta, colocada em termos extremos, sinaliza
com precisão para as tensões específicas que vão permear as imagens sobre a
escravidão presentes nos documentos. Na segunda metade do século XIX, a
própria condição cativa, reforçada pela hegemonia da vida coletiva nos gran­
des plantéis, tendería a reforçar as solidariedades horizontais entre os escravos
e as próprias possibilidades da construção de uma comunidade cativa dotada
de especificidade e autonomia cultural perante os demais segmentos da socie­
dade. Por outro lado, as próprias condições que criavam essa possibilidade
eram essencialmente frutos da violência do cativeiro. Desde que houvesse
condições para tanto, afirmar-se enquanto pessoa no interior da condição
cativa significava também diferenciar-se na homogeneidade artificialmente
construída pela escravidão.
A noção de comunidade escrava tem sido recuperada pela historiografia
sobre a escravidão no Brasil, a partir de uma clara influência da literatura sobre
a escravidão no sul dos Estados Unidos. Especialmente o livro de Herbert
Gutman5, sobre a família negra no sul escravista, revolucionou completamen­
te as noções que lá, como aqui, até então se formavam sobre a desestruturação
da família escrava, baseadas antes em pressupostos “lógicos” do que em pes­
quisas empíricas minimamente confiáveis. Da simples identificação demográ­
fica da família escrava ter-se-ia evoluído para a noção de comunidade escrava,

132
CONFLITO E COESÃO NA COMUNIDADE ESCRAVA

construída sobre as bases institucionais da família e da religião, no interior da


plantation, onde as relações entre “casa-grande e senzala” se faziam preservan­
do uma forte dose de autonomia (ou distanciamento),
Na historiografia estadunidense sobre o tema, as discussões se centram no
sentido específico dessa autonomia. Uns acentuando, como Genovese6, que
senhores e escravos foram, enquanto agentes sociais, produtos dessa relação
de dominação e do sentido paternalista que a legitimava, mesmo que a inter­
pretassem de forma, às vezes, radicalmente distinta, enquanto outros, como
Gutman, acentuam a autonomia cultural da comunidade negra, formada na
vigência do cativeiro, ante o universo senhorial7. Numa e noutra versão, en­
tretanto, identificam-se, na experiência do cativeiro, as bases da formação de
relações comunitárias, no sentido antropológico, isto é, baseadas em relações
pessoais, como a convivência coletiva naplantation, as relações familiares ali
estabelecidas ou as práticas específicas do protestantismo negro, sobre as quais
se erigiu uma identidade especificamente negra no país, com um verdadeiro
sentido protonacional.
A transposição da discussão para o Brasil escravista é pertinente e tem se
fortalecido com os resultados encontrados pelas pesquisas demográficas re­
centes sobre a família escrava. Essas pesquisas já demonstram com alguma
segurança que, pelo menos em áreas e períodos em que eram correntes os ca­
samentos de cativos legalmente sancionados pela Igreja Católica, a família
escrava nuclear e estável, capaz de estabelecer linhagens por várias gerações,
foi uma possibilidade majoritariamente realizada pelas mulheres cativas, que
viveram em plantéis com mais de dez escravos8. Um estudo recente sobre a
família escrava na antiga capitania do Rio de Janeiro, em áreas onde o casa­
mento formal perante a Igreja Católica era bastante difundido entre os escra­
vos, mostrou que, se os índices de legitimidade escrava caíam nas escravarias
menores, isso não significava ausência de relações familiares estáveis para as
mulheres cativas nas pequenas propriedades. O intervalo regular de nascimen­
to dos filhos e a prática de os párocos registrarem, à revelia, o nome dos pais
das crianças, no século XVII, evidenciaram que relações estáveis entre escravos
de propriedades diferentes eram não somente comuns como frequentes, mes­
mo que mais raramente sancionadas pela Igreja9. A conclusões semelhantes
têm chegado os estudos em que o casamento católico dos cativos não era
frequente, mesmo em grandes fazendas10. Além disso, a valorização da memó­
ria geracional, com a constituição de linhagens, na maioria dos casos femininas,
bem como das relações de compadrio, reforça o peso das relações familiares
para os cativos, mesmo na ausência da figura paterna11.

133
DAS CORES DO SILÊNCIO

Como no caso do trabalho de Gutman, nos Estados Unidos, essas consta­


tações são em si suficientes para fazer caírem por terra aquelas interpretações
que insistem cm ver a ausência de padrões familiares como uma decorrência
lógica da violência da escravidão. Para além disso, entretanto, as discussões
sobre os significados culturais das relações comunitárias entre os cativos no
Brasil têm que seguir por rumos diferentes.
É sobre a mulher cativa e seus filhos crioulos (nascidos no Brasil) que se
constrói a possibilidade da família escrava. Não obstante, em seu lado mais
visível, o da expansão do sistema na ampliação recorrente da fronteira agrícola,
a escravidão no Brasil foi antes de tudo masculina e africana. No Brasil, tráfi­
co e escravidão foram sinônimos, mesmo após a extinção do comércio atlân­
tico de cativos, em 1850, quando o tráfico interno tomou proporções até então
desconhecidas. Seu impacto sobre as relações comunitárias entre os cativos
não se encontra, como era usual afirmar, apenas em seu potencial de separação
de casais e seus filhos. Pelo contrário, na vigência do tráfico africano, é de supor
que fosse muito mais fácil preservar as relações familiares entre os cativos,
tendo em vista que a fonte de novos braços para a expansão do sistema não
estava no crescimento natural desses cativos. O desequilíbrio por sexo dos
planteis, mesmo em fazendas antigas, realimentado pelo constante ingresso
dc recém-chegados, não impossibilitava as relações familiares, mas fazia da
família e dos recursos que comumente a ela estiveram associados, como a roça
do escravo, possibilidades abertas, mas não acessíveis a todos os cativos.
Desse modo, apesar da pulverização da posse de escravos, dominante
até meados do Oitocentos, a plantation, com o trabalho coletivo, predomi­
nantemente masculino e africano, mostrou-se sempre a face mais visível do
cativeiro.
Neste sentido, relações comunitárias, forjadas sobre a base da família e da
memória geracional, antes que conformar uma identidade escrava comum,
engendraram para alguns (os grupos mais antigos no plantei) a possibilidade
de se distinguirem ante o estereótipo mais comumente associado à escravidão
(a falta de laços, o celibato, os castigos físicos e o trabalho coletivo).
As distinções que parecem ter sido tão marcantes, pelo menos na Bahia,
entre africanos e crioulos, inclusive no que se refere a movimentos de rebeldia12,
possivelmente estiveram atreladas, entre outros fatores, à antiguidade na fa­
zenda ou na região e aos vínculos a partir daí estabelecidos. Os recém-chega­
dos do tráfico interno, mesmo tendo nascido escravos, conviveram com uma
distinção semelhante em relação aos que possuíam, no local do cativeiro, re­
ferências geracionais.

134
CONFLITO E COESÃO NA COMUNIDADE ESCRAVA

O que procuro demonstrar é que a gestação de relações comunitárias entre


os escravos, no Brasil, significou mais uma aproximação com uma determina­
da visão de liberdade que lhes era próxima e que podia, pelo menos em teoria,
ser atingida através da alforria, do que a formação de uma identidade étnica a
partir da experiência do cativeiro. A família e a comunidade escrava não se
afirmaram como matrizes de uma identidade negra alternativa ao cativeiro,
mas em paralelo com a liberdade.
Tem-se, assim, duas possibilidades demográficas, no interior das grandes
fazendas do Sudeste na segunda metade do século XIX: plantéis antigos, em
que a lógica demográfica da família escrava já se teria sobreposto à lógica de­
mográfica daplantation (maioria de homens adultos), e plantéis novos, onde
a lógica da plantation se faria absoluta com a especificidade de, ao invés de
africanos, se reunirem agora, majoritariamente, escravos adquiridos no tráfico
interno13. No primeiro caso, a contínua chegada de novas aquisições, mesmo
quando minoritárias em relação à comunidade escrava já estabelecida, tende­
ría a reforçar as tensões inerentes à absorção desses cativos pelos grupos mais
antigos e a eles reservar as condições de vida culturalmente identificadas com
o cativeiro. Esses processos de integração geravam tensões específicas no inte­
rior da experiência do cativeiro.
Em dois crimes ocorridos em Valença, Vale do Paraíba fluminense (1866,
1883), no interior das tradicionais senzalas em quadrado, com cubículos indi­
viduais ou coletivos e trancadas por fora, chama a atenção, nas minuciosas
descrições das cenas dos crimes e dos moradores das senzalas, a ausência de
crianças.
Em 1866, o feitor livre Joaquim Pereira Leal, português, teria ouvido gritos
na senzala, tendo, então, “ido buscar a chave para abri-la”14. Dormiam na
senzala, num mesmo quarto, Lúcio, 32 anos, de nação Cabinda, João, o escra­
vo assassinado, sem maior identificação, e Simpliciano, 40 anos, também es­
cravo de nação. Em outros quartos na mesma senzala dormiam ainda Marti-
niano, “crioulo de Minas”, “vinte e tantos anos”, Daniel, também “crioulo de
Minas”, “22 anos”, Manuel, “crioulo de Pernambuco”, “vinte e tantos anos” e
Manuel, “crioulo de Minas”, “45 anos”. Não se sabe se outros escravos habitavam
a senzala. Todo os depoentes no processo são homens, adultos e nascidos na
África ou em outras regiões do Império. Trata-se, ao que tudo indica, de uma
senzala exclusivamente masculina.
Simpliciano acusava Lúcio de ter matado João no quarto em que dormiam,
por este ter dito que ele havia “dado raízes para uma escrava abortar”. Os
quartos eram suficientemente próximos para os cativos que não dormiam com

135
DAS CORES DO SILÊNCIO

Lúcio e João poderem afirmar que ouviram de ‘suas senzalas” os gritos de João
e que correram para acudi-lo, encontrando-o já morto.
Está-se aqui diante da imagem clássica da escravidão, clássica na histo­
riografia e na visão que os contemporâneos dela guardaram: os sexos separa­
dos, a maioria de homens, e o aborto para impedir o nascimento de um filho
escravo.
Já em 1883, na mesma Valença, essa imagem se reforça15. De novo a senza­
la trancada, dessa vez com cubículos que acomodavam, separados, mas com
trânsito entre si, homens e mulheres. Nenhuma criança. A maioria, cativos
adultos e adquiridos no tráfico interno. Antônio Ivo, 25 anos, natural de Per­
nambuco; Félix, 60 anos, natural de Pernambuco; Maria Maceió, 35 anos,
solteira, natural do Piauí; Romana, a vítima, 30 anos, também natural de
Pernambuco. Ainda dormiam na mesma senzala Basílio, de 40 anos, e Lauria-
no, 30 anos, solteiros, naturais de Valença. Como no primeiro caso, os gritos
de Romana foram ouvidos pelo feitor, de fora da senzala, que pegou as chaves
e a abriu. Nesse caso, entretanto, o feitor era o escravo Silvério, natural de
Valença que, “como feitor, não dorme na mesma senzala que os outros”. Quem
mais, com Silvério e além de Silvério, dormiría fora das senzalas trancadas?
Os demais conflitos envolvendo escravos, que ficaram registrados nos autos
da Corte de Apelação, parecem sugerir que os cativos, entre os quais frequen­
temente se recrutavam os feitores dos eitos e das senzalas, não foram nem
“feitores” nem “parceiros”, na perspectiva que o curador de Joaquim Félix
propugnava. Tanto a homogeneidade quanto a diferenciação foram imagens
acionadas, de forma politicamente distinta, pelos próprios escravos e pela
burocracia judiciária ao longo dos processos. Conformaram campos de luta
privilegiados em torno dos significados da experiência do cativeiro nas últi­
mas décadas da escravidão. Não custa repetir que o recrudescimento do tráfico
interno e a crescente perda de legitimidade da escravidão na sociedade abran­
gente constituem os dois componentes essenciais na determinação desse
contexto.
Comecemos pelas designações “parceiro” e “preto”. Não há termos mais
recorrentes nas perguntas e transcrições de respostas de réus e informantes
escravos nos processos considerados. O significante “preto” era mesmo usado
de forma muito mais frequente que seus equivalentes “escravo” ou “cativo” (o
“preto” Roque, o “preto” Félix, a “preta” Romana etc.). Constrói-se, assim, na
própria nomeação e enunciação das relações entre os envolvidos em cada
conflito, a noção de uma comunidade escrava formada por “parceiros pretos”,
ou seja, uma comunidade de iguais por sua condição de propriedade de um

136
CONFLITO E COESÃO NA COMUNIDADE ESCRAVA

mesmo senhor e por sua situação racial. Esta, entretanto, é uma construção do
discurso jurídico nos processos, não dos escravos neles envolvidos. A igualda­
de entre os cativos, enquanto “parceiros” (escravos de um mesmo senhor) e
“pretos”, é primeiramente reconhecida nas próprias denúncias e na enunciação
das perguntas nos interrogatórios, conforme os exemplos que se seguem (Pa­
raíba do Sul, 1867):

Tendo Florentino Martins Esteves participado verbalmente a este juízo que uma
escrava sua tivesse sido assassinada a golpes de foice por um seu parceiro, proceda-se a
corpo delito (sumário de culpa). Sendo perguntado se não sabe o motivo pelo qual o
preto matou a sua parceira, respondeu... (pergunta a João Francisco da Cruz)16.

Esta é, portanto, uma identidade construída de fora da experiência do ca­


tiveiro e imposta ao conjunto dos cativos. Nas respostas dos escravos inter­
rogados como réus ou informantes, os termos “preto” e “parceiro”, mesmo
considerando a provável influência do escrivão judicial na transcrição dos
depoimentos, perdem sua abrangência original. Como nesse depoimento de
Francisco, escravo viúvo da “preta” assassinada, no processo considerado: “Dis­
se que estando na roça com doisfilhos eseusparceiros e também com seu senhor,
chegava seufilho menor de nome Ernesto que trouxe a notícia da morte de sua
mulher, assassinada pelo preto Antônio com uma foice”17, (grifo nosso)
Nesse depoimento, os demais escravos, que trabalhavam na roça junto com
o informante, são referidos como seus parceiros, mas seus dois filhos, que
também trabalhavam na roça, estão designados em separado. São mais que
simplesmente parceiros. Do mesmo modo, seu filho menor chama-se simples­
mente Ernesto, mas o assassino é o “preto” Antônio.
Apesar do filtro da transcrição judicial, em muitos trechos dos depoimen­
tos a distinção entre a lógica do informante e a narração do escrivão faz-se
evidente, especialmente quando se alteram as formas de identificação dos
personagens envolvidos nos acontecimentos narrados. Desse ponto de vista,
o qualificativo “preto” se restringe drasticamente, em sua abrangência, nos
momentos em que a lógica do informante escravo predomina sobre a trans­
crição judicial. Só permanecem como o “preto” Fulano ou Beltrano, nesses
momentos, aqueles cativos que não participavam da intimidade pessoal ou
familiar do informante, como no caso do depoimento de Francisco. Mesmo
quando se trabalha com os poucos depoimentos senhoriais, o mesmo fenô­
meno se repete, ainda que em sentido contrário. Em outro processo, Pedrinho
e seu irmão Manuel Pardo são assim reconhecidos pela família senhorial, até

137
DAS CORES DO SILÊNCIO

se tornarem suspeitos do assassinato do senhor moço, quando passam a ser


identificados como o “preto Pedro” e o “preto forro Manuel”, nos depoimen­
tos da família senhorial18.
Pode-se concluir, portanto, que o significante “preto” guardasse para se­
nhores ou escravos um forte sentido de desindividualizaçâo. Em momento
algum ele é positivamente acionado na construção de uma identidade étnica.
É sinônimo de escravo. Busca essencialmente caracterizar, na identificação dos
personagens envolvidos nos conflitos, essa condição, em todos os discursos
em que é utilizado.
O substantivo “parceiro”, entretanto, possuía significações mais ambíguas.
Utilizado pela máquina judicial, tendia a reforçar, no relacionamento entre os
personagens, a mesma identidade negativa que isoladamente o “preto”, asso­
ciado ao prenome, conferia.
Mais ainda, tendia a reforçar uma identidade escrava (preta), construída
em relação a um proprietário comum. Ou seja, o “preto” João matou sua “par­
ceira” (conclui-se: tão “preta” ou escrava quanto ele e, ainda, pertencendo ao
mesmo senhor). Ao dele se utilizarem, os escravos frequentemente faziam o
mesmo tipo de ressalva com que utilizavam a designação “preto” Todos os
cativos do mesmo senhor eram seus “parceiros”, à exceção de seus irmãos, filhos,
esposo, esposa, amásio, amásia, compadre, comadre, amigos etc. Em outros
casos, entretanto, o substantivo “parceiro” perdia seu caráter generalizador
(todos os escravos do mesmo senhor), para se referir mais especificamente aos
companheiros de trabalho ou de infortúnio. E o caso das menções aos presen­
tes no eito (sempre qualificados de parceiros) no momento dos crimes, dos
companheiros de fuga (sempre considerados parceiros e não apenas no início
dos depoimentos), como também da especificação de relações hierárquicas e
conflituosas dentro do cativeiro, como no depoimento a seguir (Bananal,
1864): “Respondeu que trabalhando ele réu acorrentado com o finado Antô­
nio José, seu parceiro, e sendo vigiados e acompanhados pelos escravos Bene­
dito e Pedro, por ordem de seu senhor major Cândido Ribeiro Barbosa”19.
Nesse depoimento, Antônio Ivo considera seu “parceiro” apenas seu com­
panheiro de trabalho e infortúnio. Trabalhavam ambos acorrentados, sob a
vigilância dos “escravos” (do mesmo senhor) Benedito e Pedro. Apesar de
escravos do mesmo senhor, nesse caso específico Antônio Ivo não os arrola
como “parceiros”
Ante a homogeneização artificialmente imposta pelo discurso judicial —
“pretos” (escravos), “parceiros” (identificados por um senhor comum), os
cativos respondiam criando outras identidades positivamente construídas,

138
CONFLITO E COESÃO NA COMUNIDADE ESCRAVA

como os laços de família e a solidariedade das atividades (da fuga ao trabalho)


efetivamente partilhadas.
Nesse contexto, se a grande plantation se constituiu, como tem afirmado
a historiografia sobre o tema, no Brasil e em outras áreas escravistas das Amé­
ricas, como o locus privilegiado para a formação de uma comunidade escrava,
a diferenciação interna dessa comunidade era fator essencial de sua constitui­
ção, mecanismo de afirmação da dignidade humana dos escravizados. Qualquer
identidade construída apenas com base na homogeneidade conferida pela
condição cativa não ultrapassava a visão senhorial que lhes era imposta.
Por outro lado, voltando à argumentação inicial do curador de Joaquim
Félix, a lógica irreparável de sua argumentação não se fez suficiente para de­
mover nem os juizes locais, nem a Corte de Apelação, da convicção de que as
relações hierárquicas entre feitor e escravo deveriam prevalecer no enquadra­
mento criminal do acusado. Desse modo, a identidade potencialmente cons­
truída através das noções de “parceiro” e “preto” e o nível de individuação
pessoal ou coletiva que se podia construir, sob as condições de cativeiro, reve­
lam-se campos de luta, em torno dos quais senhores e escravos teciam signifi­
cações politicamente distintas.
Explico-me melhor. Sem dúvida, por diversas vezes os senhores investiram
na diferenciação interna da experiência do cativeiro, enquanto estratégia ex­
plícita de controle social de seus escravos. Era socialmente interessante que
“africanos” disputassem com “crioulos”, que cativos se esforçassem para se
tornar “feitores” ou ter acesso privilegiado às roças de subsistência. Este tem
sido o viés mais clássico pelo qual a historiografia tem analisado a questão. Um
acompanhamento um pouco mais próximo das desventuras de Antônio Ivo e
Antônio José evidencia melhor essa estratégia20.
Os dois Antônios, fujões contumazes, trabalhavam havia mais de um ano
acorrentados um ao outro, numa grande fazenda de café, em Bananal (SP).
Nos fins de semana, supervisionados por Pedro, trabalhavam nas roças do
escravo Benedito, a mando do senhor. Sintetizemos o quadro. Benedito era
um cativo antigo na fazenda, já idoso e que tinha uma roça. A sua não era a
única, pois, nos depoimentos, faz-se referência às roças de outros escravos, nas
proximidades. Pedro, pernambucano, solteiro, havia apenas alguns anos na
fazenda, não tinha sua própria roça e encontrava-se de fato moralmente acor­
rentado aos dois Antônios, responsável que era por sua supervisão. Os três se
uniram para dar cabo da vida de Benedito e tentar uma fuga que, por algumas
semanas, aterrorizaria toda a região As diferenciações entre Benedito, Pedro
e os Antônios não são frutos apenas da diferenciação social da comunidade

139
DAS CORES DO SILÊNCIO

escrava no interior da fazenda (escravos antigos e novos), mas também de uma


interação dessas diferenciações com as estratégias de controle senhoriais (es­
cravos merecedores de regalias/escravos merecedores de castigo). É a mando
do senhor que os dois acorrentados trabalhavam no domingo, na roça de
Benedito, e é ainda a mando do senhor que Pedro perdia seu dia livre a vigiá-los.
A falha da estratégia senhorial parece ter sido exatamente Pedro, que se tor­
nara escravo de confiança sem que isso correspondesse a um lugar socialmen­
te estabelecido na comunidade escrava preexistente (era recém-chegado, não
tinha família, nem roça própria). Nessa fazenda, conforme vários depoimentos,
todos os feitores de roça (havia mais de um) eram também escravos. Chega-se,
assim, ao “feitor”. Essa é uma diferenciação em todos os casos construída a
partir da autoridade senhorial. Espera-se do escravo feitor que sua solidarie­
dade aos interesses senhoriais se sobreponha à possível identidade com seus
parceiros. Conferem-se-lhe privilégios (até mesmo o porte de armas). E espe­
ra-se, ainda, que consiga, na sua condição de feitor, obter a colaboração e o
respeito dos demais escravos, o que pressupõe que não apenas a vontade do
senhor, mas também as diferenciações internas dentro das escravarias atuaram
na seleção desses cativos especiais.
Em plena década de 186o, quando o recrutamento de homens livres para
o trabalho de feitoria não apresentava maiores dificuldades, a opção generali­
zada em muitos estabelecimentos por feitores escravos, nas roças e nas senza­
las, estava sem dúvida ligada à maior eficiência destes para obter a colaboração
e o respeito de seus subordinados.
Temos, assim, um quadro oposto ao inicialmente esboçado. Sobre uma
comunidade cativa previamente construída e relativamente diferenciada, cria-
-se, de fora, uma hierarquia que busca atender aos interesses senhoriais. O
resultado desse procedimento — pode-se supor — foi, em geral, maior efi­
ciência dos serviços. Do contrário, não se justificaria essa opção. Em seu po­
tencial de conflito, entretanto, nem sempre o que prevaleceu foram as dissi­
dências entre os cativos hierarquicamente separados.

(...) o feitor os castigava demasiadamente, não os deixando comer e nem beber se não
duas vezes por dia; que os castigava sempre que ia a roça, e que finalmente porque eles
desesperados por verem mortos nos castigos um moleque de nome João, e uma preta
de nome Maria, e esperando cada um deles a mesma sorte todos os dias, quiseram
matá-lo para se verem livres dele, do que continuarem nos mesmos padecimentos21.
[...] onde estavas quando diz fizestes o delito, no terreiro de casa recolhendo milho,
de meu parceiro José de Nação e aí o meu parceiro atirou-me, digo meu parceiro e
feitor, jogou-me uma espiga de milho, e me ralhou, ameaçando-me, e por que eu esta­

140
CONFLITO E COESÃO NA COMUNIDADE ESCRAVA

va quente, por o outro meu parceiro dono do milho que recolhia me ter dado uma
pinga de aguardente, de que estava meio tonto, e lhe respondí com algumas palavras,
ele veio e me deu com um pedaço de pau, então foi quando lhe dei com a faca para me
desviar dele e só dei uma vez e fui — digo — e vendo que eu o tinha ferido, e fui para
minha senzala, e ele me acompanhou e caiu, foi então que meus parceiros me pegaram,
eu vi botarem tição de fogo na mão dele e morreu [...]22

Meados da década de 1840: os dois autos acima reunidos relatam duas


cenas típicas da escravidão, quase literalmente africana, experimentada no
Centro-Sul do país na primeira metade do século XIX. Nascidos livres na
África, Manuel Novo e João Congo tornaram-se criminosos escravos no Bra­
sil. Os dois relatos parecem, entretanto, referir-se a formas de relações comu­
nitárias diametralmente opostas.
No caso de Manuel Novo, reforça-se inicialmente o sentido comunitário
das relações entre os cativos nas grandes fazendas e a solidariedade escrava
diante da violência do cativeiro. Segundo a versão de Manuel Novo, após o
feitor ter castigado a ele e à sua mulher, também africana, por não lhe terem
dado “louvado” enquanto estavam na roça arrancando feijão, ele e todos os
outros escravos que estavam na roça o haviam matado, enterrando o corpo
sem que ninguém mais tomasse conhecimento do crime. Temos, então, nessa
primeira versão do crime, a família (Manuel Novo e sua mulher), a solidarie­
dade da ação de rebeldia coletiva e o isolamento da vida no eito e nas senzalas,
potencializando a identidade comunitária. O desaparecimento do feitor só é
notado muitos dias depois do crime. A primeira leitura que emerge da narra­
tiva é a da solidariedade comunitária que reunira os parceiros na explosão de
violência contra o feitor e na estratégia adotada para ocultar o crime.
Após a descoberta do corpo e o interrogatório dos cativos, entretanto,
apenas Manuel Novo e um outro cativo, de nome José Maria, foram incrimi­
nados. Os demais cativos envolvidos, claramente intimidados, negam qualquer
participação no crime, bem como os possíveis maus-tratos do feitor, e assumem
que haviam escondido o fato e ajudado a ocultar o cadáver apenas com medo
de serem castigados. Os próprios acusados assumem essa versão no segundo
interrogatório. Reforça-se, assim, a face essencialmente violenta da dominação
escravista, explicitada não só na motivação da rebeldia, mas também na inti­
midação dos depoimentos, bem como no temor dos castigos alegados pelos
demais cativos para justificar legalmente sua conivência.
Alguns pontos da narrativa são, entretanto, recorrentes em todos os depoi­
mentos dos cativos envolvidos: a liderança de Manuel Novo e José Maria; o

141
DAS CORES DO SILENCIO

fato de ter Manuel Novo proposto que todos se entregassem juntos à Justiça,
ao que José Maria se haveria oposto; que Manuel Novo cantara e dançara
canções de sua terra (África) após o assassinato; que José Maria teria dito que
aquele não era seu primeiro crime e que “por bom é que não fora vendido para
esta terra” (José Maria era baiano).
Começam a diferenciar-se os escravos que, juntos, trabalhavam no eito,
quando da morte do feitor. Se o crime provavelmente se fez coletivamente,
emergem duas lideranças, que foram criminalmente responsabilizadas: Manuel
Novo e José Maria. Este, por si só diferente, pois era um escravo baiano em
meio a tantos africanos.
José Maria era solteiro e recém-chegado na fazenda. Em todos os depoi­
mentos, percebe-se uma marcada diferenciação no tipo de liderança que
Manuel Novo e José Maria exerceram sobre seus parceiros no episódio da
morte do feitor. Pode-se especular que foi Manuel Novo quem emprestou
legitimidade à decisão perante os demais escravos, inclusive sugerindo que
todos se entregassem depois à Justiça e ainda cantando e dançando músicas
de sua terra (e dos outros escravos). Foi, entretanto, José Maria — que, por
“não ser bom”, foi vendido da Bahia — quem trouxe para o plantei novas
medidas para julgar os excessos do feitor. Foi sua a sugestão de ocultar o cadá­
ver, que, ao final, prevaleceu.
Não chega a ser propriamente surpreendente a qualificação do réu Manuel
Novo. Casado, de nação benguela, trabalhava “em todo o serviço com seus
parceiros e feitoriza a estes na falta do feitor Joaquim...” Revistadas as senzalas,
descobriram-se, ainda, entre os pertences de Manuel Novo, 20 mil-réis, que
alega ter obtido da “venda de suas quitandinhas” e que se destinavam à compra
de um cobertor. Não foi encontrado dinheiro com nenhum dos demais escra­
vos. Como nenhum dos outros depoimentos fala em ter sido o feitor roubado
após o crime, é de supor que aquela quantia efetivamente pertencesse a Manuel
Novo e que fosse mais acessível a ele que aos outros cativos. Manuel Novo era
casado, feitorizava seus parceiros na ausência de Joaquim e possuía uma roça.
A posição relativa dos cativos na comunidade escrava era um dado essencial
no recrutamento dos feitores cativos. Não foi, com certeza, por acaso, que um
escravo casado, com filhos já crescidos e, portanto, com uma permanência
relativamente prolongada na fazenda, fosse, ao mesmo tempo, feitor de seus
parceiros e líder da explosão de violência que deu fim à vida do feitor Joaquim.
No segundo caso, é antes o grau de diferenciação das relações entre os ca­
tivos envolvidos que primeiro sobressai. No cerne da cena, tem-se um escravo
que recolhe o milho pertencente a outro escravo, mediante alguma forma de

142
CONFLITO E COESÃO NA COMUNIDADE ESCRAVA

retribuição (pelo menos o fornecimento de cachaça, como nos mutirões de


homens livres). Como terceiro elemento, um escravo-feitor, que parece querer
usar sua autoridade, conferida pelo senhor, numa situação em que prevaleciam
as relações entre os escravos (tratava-se do milho de um parceiro). A resolução
do conflito foi, entretanto, toda ela mediada por uma narrativa que privilegia­
va a solidariedade e a ação comunitária. São os demais parceiros que prendem,
sem resistência, o acusado, quebram-lhe a faca e colocam “tição de fogo” nas
mãos do agredido na hora da morte.
O tempo era variável essencial na gestação da comunidade escrava nas
grandes fazendas, mas a contínua chegada de novos braços, primeiro africanos
e depois crioulos, através do tráfico interno, bem como a recorrente formação
de novas propriedades, com planteis majoritariamente masculinos, na expan­
são da fronteira, faziam da violência, do celibato e do castigo físico a face mais
visível e identificável da escravidão. A comunidade escrava, que, assim, através
das gerações, se consolidava no tempo, o fazia de forma diferenciada. Nesse
contexto, tanto os fatores de homogeneidade como os de diferenciação podiam
ser priorizados pelos cativos ou por seus senhores, emprestando-lhes signifi­
cações politicamente distintas. Os momentos de tensão e rebeldia coletiva
tendiam a ressignificar a noção de parceiro (e os elementos de homogeneida­
de) na experiência dos cativos. O cotidiano no cativeiro tendia, entretanto, a
valorizar a construção de identidades sociais outras que não aquelas impostas
pela condição cativa.
Slenes23, a partir de uma leitura crítica dos viajantes, reuniu numerosos
indícios de acesso a um espaço de moradia, separado das senzalas coletivas,
por parte dos escravos “casados” (legal ou consensualmente), nas áreas escra­
vistas do Sudeste e, também, em razão das características nitidamente africanas
(bantos), que tomavam essas construções e as formas de sociabilidade que
implicavam. Os processos aqui analisados sugeriram ainda mais fortemente
que, além de um espaço de moradia privativo, em muitos casos separado das
senzalas coletivas, o “casamento” (legal ou consensual) potencializava o aces­
so dos cativos à exploração de roças próprias24. Estudos sobre o compadrio em
escravarias antigas colocaram em evidência, por outro lado, a formação de
extensas redes comunitárias e a importância de uma memória geracional como
indicador de prestígio25, o que a análise das Ações de liberdade, consideradas
ainda nesta parte, veio reforçar.
Todos esses elementos parecem estar presentes na história de Francisco e
sua esposa, Generosa, ambos africanos, e seus quatro filhos adolescentes;
moravam todos numa senzala separada dos demais escravos e contígua a suas

143
DAS CORES DO SILÊNCIO

roças, numa fazenda de café em Paraíba do Sul, em 186726. A identidade fami­


liar, o espaço doméstico em separado e a roça da família emprestavam a Fran­
cisco e Generosa, escravos do eito, uma referência de pertencimento a um
grupo familiar, possivelmente com ramificações de compadrio entre outras
famílias da fazenda, que os fazia, como já vimos nos depoimentos de Francis­
co, mais que simplesmente parceiros (escravos de um mesmo senhor) em re­
lação aos demais cativos.
Antônio, carpinteiro, também africano, mas solteiro, havia algum tempo
vivia na “casa” da família de Francisco e Generosa. Talvez esse arranjo tivesse
sido determinado pelo senhor, mas não é isso o que se depreende dos depoi­
mentos nos autos do processo:

Disse que há muito tempo que (Antônio) vivia em sua casa e que sua mulher lava­
va e arremendava e que em recompensa disto (Antônio) dava-lhe alguns lenços ou
outros presentes, bem como a uma sua filha que terá idade 15 anos ou 16 e que ele
sempre supôs que era em remuneração desses serviços que sua mulher lhe prestava assim
como emprestou a quantia de vinte mil-réis em ocasião que ele respondente tinha
precisão27.

Francisco, como já vimos, era extremamente sutil na utilização das palavras.


Em seu depoimento, seus familiares deixavam de ser “pretos” e “parceiros”,
para serem identificados por suas relações de parentesco. Mas Francisco ia mais
longe: sua “senzala” (assim caracterizada no libelo e nas perguntas que lhe são
feitas no processo) transformava-se em sua “casa” em seu depoimento. Na
visão de Francisco, a hospedagem de Antônio tinha um sentido eminente­
mente econômico e excluira qualquer mediação senhorial. Antônio, que, como
carpinteiro, possuía maior acesso a remunerações em dinheiro, livrava-se da
senzala coletiva, beneficiava-se com os serviços domésticos da mulher e da
filha e, em troca, dava-lhes alguns presentes e ajuda monetária eventual. Nos
depoimentos de Antônio, o acordo pareceu também restringir-se a um arran­
jo entre os cativos. Seu ponto de vista, no entanto, era outro. Para ele, a hos­
pedagem na casa de Francisco e os presentes e empréstimos que fazia tinham
como objetivo um futuro casamento com a filha do casal.
Quando Antônio esclareceu suas intenções a Francisco e Generosa, eles se
opuseram ao casamento. O senhor declara no processo que ele próprio nada
opunha à união. A essa recusa, Antônio atribui seu ato de violência contra
Generosa, matando-a a foiçadas na beira do rio enquanto lavava roupa. Nada
mais distante das recorrentes imagens sobre a promiscuidade nas senzalas que

144
CONFLITO E COESÃO NA COMUNIDADE ESCRAVA

as dificuldades de Antônio para se unir com a moça de 16 anos, que vivia com
a família, sob o mesmo teto que ele.
Quais as razões de Francisco e Generosa para se oporem àquela união?
Antônio tinha mais dinheiro que os outros escravos e foi com base nessa dife­
rença que foi aceito na casa de Francisco. Os serviços de sua mulher e filha
pareciam a este estar sendo remunerados. Mas Antônio não era bom o sufi­
ciente para se casar com a moça. Por quê? Quais relações de rivalidade e di­
ferenciação interna estariam impedindo que os planos de Antônio se concre­
tizassem?
Antônio era africano, como Francisco e Generosa, mas não se tem infor­
mação sobre as diferenças étnicas entre eles, que, talvez, explicassem a inter­
dição28, nem sobre seu tempo de permanência na fazenda. De fato, a oposição
de Francisco e Generosa se colocara como um obstáculo aparentemente in­
transponível às pretensões de Antônio .
A tentativa de passagem de Antônio do mundo coletivo e masculino das
senzalas para a vida familiar e personalizada de Francisco, Generosa e seus
filhos ilustra que o tempo, aliado à recorrência do tráfico, criava experiências
distintas de cativeiro, mesmo nas grandes fazendas. A mulher cativa era a
ponte entre essas experiências. O gesto de Antônio, assassinando Generosa,
nesse contexto, tem um sentido simbólico mais profundo que um simples
acesso de ódio ou inveja. Em seu casamento com Generosa, Francisco conquis­
tara, como no mundo da liberdade, o capital social básico para se diferenciar
da experiência mais comum do cativeiro. A capacidade de Antônio de reunir
pequenos pecúlios nada significava, se não conseguisse também uma esposa.
No Brasil, o aprofundamento das relações comunitárias entre os escravos
foi quase sempre um exercício de aproximação da experiência de liberdade
com a qual conviviam. Como no mundo dos livres, a família e a autonomia
escrava foram os dois eixos básicos sobre os quais se podia constituir uma
comunidade diferenciada dentro da experiência mais evidente de desenraiza-
mento do cativeiro29. A mulher escrava ocupava, portanto, um papel crucial.
Nesse contexto, os crimes passionais entre escravos tiveram frequentemente
um sentido mais profundo do que seus similares entre os livres30.
Luís, 52 anos, era escravo na fazenda Volta Redonda31. Baiano, filho de pai
livre e mãe escrava, estava havia muitos anos na fazenda, onde, na condição de
carpinteiro, recebia do senhor, frequentemente, gratificações em dinheiro.
Fora amasiado durante anos com a escrava Augusta, com quem tivera dois
filhos. A duras penas, Luís parecia estar reconstituindo as relações familiares
que perdera com sua vinda da Bahia para o Vale do Paraíba. Até que um es­

145
DAS CORES DO SILÊNCIO

cravo de roça, com pouco mais de 20 anos, “seduz” e “engravida” (as expressões
estão no depoimento do réu) sua amásia Augusta que, então, o abandona, para
viver com o jovem João. Pouco depois seu filho mais novo morre e Luís atribui
o fato a beberagens que João havia dado ao rapaz. João, ainda, segundo o
ponto de vista de Luís, o impedia de visitar seu outro filho e de ajudar com
dinheiro sua ex-amásia Augusta, o que parece indicar que João passara efeti­
vamente a coabitar com Augusta e seus filhos.
No dia 10 de setembro de 1878, às dez horas da manhã, enquanto Luís
trabalhava no terreiro da fazenda, em seu ofício de carpinteiro, João passou a
caminho da roça. Trocaram desafios. João teria dito: “Praga de urubu não mata
cavalo” e Luís, respondido: “Não mata quando não é com razão”. João, então,
o teria mandado “à puta que o pariu”. Diante de tal ofensa, Luís, “cego de
raiva”, o agrediu com a juntoura com a qual trabalhava, acabando por matá-lo.
Havia mais de três anos Augusta trocara Luís pelo jovem João. Luís, em
seu depoimento, não atribui a esse fato, isoladamente, sua explosão de raiva,
que culminara no assassinato de João. Ele não lhe tomara apenas a amásia, mas
lentamente também os filhos (não permitindo que o pai os visitasse ou os
ajudasse financeiramente) e o prestígio perante os demais escravos (Luís se
queixa de se encontrar cada vez mais isolado ante seus parceiros, que teriam
inveja das gratificações em dinheiro que recebia do senhor e dariam ouvidos
às maledicências de João). Por fim, João tentara intrigá-lo até mesmo com o
senhor, acusando-o de roubar café para vender. Desse modo, na versão do
acusado, sua relação privilegiada com o senhor, decorrente de seu ofício de
carpinteiro, pouco lhe adiantava, quando não estava associada a uma situação
de prestígio na comunidade cativa, na qual o acesso a relações familiares era
ponte essencial. Como no caso de Antônio, em Paraíba do Sul, sem Augusta
e seus filhos, o acesso ao pecúlio que possuía reforçava apenas sua dependência
da boa vontade senhorial e não a construção de um espaço de autonomia no
cativeiro. O prestígio dentro da comunidade cativa era corolário dessa possi­
bilidade de autonomia, familiar e cultural antes que econômica, muito mais
do que do acesso aos mil-réis que recebia de gratificação.
A comunidade escrava, consolidada no tempo, se por um lado permitia ao
escravo a ampliação de seus espaços de autonomia dentro do cativeiro e uma
aproximação da experiência de liberdade, por outro parece ter significado
uma expressiva diminuição dos custos senhoriais com a vigilância e a segu­
rança dos cativos. O aglomerado de escravos, advindos do tráfico interno ou
externo, foi uma situação que exigiu sempre altos índices de vigilância e vio­
lência na manutenção da ordem e disciplina no cativeiro32.

146
CONFLITO E COESÃO NA COMUNIDADE ESCRAVA

Os custos diferenciados da manutenção da disciplina entre escravos antigos


e novos, no interior dos grandes planteis, ficam ainda evidenciados em dois
outros casos. Em Valença, 1870, Félix e Domingos, com pouco mais de 16 anos,
recém-chegados da Corte e da Bahia, respectivamente, assassinaram João,
escravo idoso e antigo na fazenda, que os surpreendeu roubando milho para
vender33.
João era um escravo idoso e respeitado por seus parceiros, que teria amea­
çado Félix e Domingos de contar sobre o roubo ao senhor. Além disso, segun­
do o depoimento de outros cativos, João devia a Félix o pagamento por um
dia de serviço em sua roça. Félix afirma em seu depoimento que não foi por
isso que matara João, mas unicamente “por medo de ser castigado” pelo roubo
do milho.
Inicialmente, ambos os acusados tentaram incriminar “uns pretos desco­
nhecidos, provavelmente da fazenda vizinha”. Posteriormente, assumiram a
tentativa de roubo e o flagrante de João. Domingos passou, então, a alegar que
fugira, após a repreensão de João, deixando-o sozinho com Félix. Este acaba
sendo responsabilizado isoladamente pela morte do parceiro, possivelmente
um recurso dos proprietários para diminuir a perda inevitável, com a conde­
nação de apenas um dos dois escravos. É interessante que seja o nascido na
Corte e, portanto, menos habituado aos trabalhos rurais, o escolhido para ser
responsabilizado.
Félix e Domingos, recém-chegados, roubavam milho para vender e temiam
os castigos senhoriais, aponto de se decidirem pelo assassinato. João, “escravo
antigo e respeitado”, possuía uma roça, contratava eventualmente os serviços
de seus parceiros para tratar dela e zelava pela propriedade senhorial. Em
ambos os casos, a economia autônoma do escravo é uma realidade, mas com
sentidos bastante distintos.
Os recursos de Félix e Domingos advinham do eventual roubo de milho e
de serviços de jornaleiro, que prestavam inclusive a parceiros escravos que
possuíam roças próprias. Os recursos de João provinham, ao que tudo indica,
basicamente de sua roça e eram suficientes para que ele utilizasse, eventual­
mente, em seu serviço, mão de obra auxiliar remunerada. Félix e Domingos
moravam na “fazenda de cima”, chamada “Chacrinha”, recém-formada, e João,
“na de baixo” ou “Fazenda Velha”.
Também em Vassouras, 1862, em pleno serviço da roça, Vicente, 50 anos,
nascido no Rio Grande do Sul, filho de Vicente (note-se a identidade de nome
entre pai e filho) e Laura, era recém-chegado à fazenda. Nela predominavam,
na turma em que trabalhava, pelo menos de acordo com os depoimentos, es­

147
DAS CORES DO SILÊNCIO

cravos africanos, chegados antes de 1850, e jovens crioulos (menos de 16 anos),


nascidos na fazenda34. Ou seja, cativos que conviviam havia pelo menos 12
anos na fazenda e ligados por laços familiares já com uma segunda geração
crioula ali nascida. Nesse contexto, Eufrásia, de 16 anos, que também traba­
lhava na roça, afirma que todo dia Vicente brigava com alguém, estando
sempre “batendo boca no serviço”. No dia do crime, ele se desentendera com
Carolina, porque esta denunciara à senhora que ele havia roubado cana para
vender. Por esse motivo, segundo seu próprio depoimento, Vicente a matara
na frente dos demais companheiros de serviço. Patente em todos os depoi­
mentos é o virtual desajustamento de Vicente em meio à sua turma de serviço.
As ressalvas em alguns depoimentos de que “eu mesma nada tinha contra ele”,
ou ainda, “eu tratava dele e lhe dava de comer”35, feitas por duas escravas, re­
forçam ainda mais essa inadequação (elas estão reconhecendo que seriam
exceções) e a diferença de recursos de Vicente em relação aos demais escravos.
Vicente afirmara ainda, em seu segundo depoimento, quando tentou negar o
crime, que confessara “por medo e terror do cativeiro, pois seu senhor não é
de brinquedo”.
A mesma dualidade é restabelecida: o papel do temor e da violência
na disciplinarização dos recém-chegados e suas dificuldades de integração na
comunidade já estabelecida e o zelo desta em relação aos interesses senhoriais,
pelo menos com os que não a integravam.
Num paralelo por demais evidente com a experiência dos livres, a família
e a autonomia mediavam o trânsito entre as duas possibilidades. Um espaço
para a economia própria do escravo, especialmente em seus dias e horas de
folga, parece ter sido uma prática acessível à totalidade dos cativos, indepen­
dentemente de sua antiguidade na fazenda. Se mesmo escravos jovens e recém-
-chegados, dormindo em senzalas trancadas, roubavam milho “para vender”,
é porque tinham acesso às vendas da vizinhança. Os recursos disponíveis a
serem explorados nesse tempo eram, entretanto, diferenciados.
Chegaria a ficar cansativo arrolar todas as referências diretas, nos depoi­
mentos, a essas possibilidades. Em praticamente todos os processos, em gran­
des fazendas, esse tipo de referência se fez presente, sempre assinalada com
naturalidade pelo informante ou pelos interrogadores. Em geral, referiam-se
ao acesso e à realização de negócios, pelos escravos, nas vendas da vizinhança,
ou a seu assalariamento, como jornaleiro, nos dias de folga. Como caso exem­
plar, pode-se citar um único processo em que a relação escravos-venda ocu­
pava o cerne dos conflitos narrados.

148
CONFLITO E COESÃO NA COMUNIDADE ESCRAVA

Trata-se do assassinato de um vendeiro, em Vassouras, 1868, em que são


acusados dois escravos a quem o negociante devia dinheiro, em função de uma
troca desigual de “café, milho e outros produtos de sua lavoura” (dos escravos)
por “sabão, fumo e outras miudezas”36. Ambos eram escravos de um mesmo
senhor numa típicaplantation da região. O álibi de um dos cativos acusados,
ao final absolvido, é que, na hora do crime, se encontrava no terreiro da fa­
zenda, tocando tambor para que os parceiros dançassem o Caxambu. O outro
cativo, Rodrigo, condenado ao final pelo crime, assume que realmente esti­
vera na venda para cobrar a dívida, mas alega que já encontrara o negociante
morto. Diz, ainda, que tentara envolver Gabriel no crime por ele ter sido
“amante” de sua “amásia”, a escrava Helena.
Vários dos escravos da fazenda estiveram na venda naquele dia, segundo
seus depoimentos, “para comprar fumo e aguardente”, “com licença do feitor”,
“entre o serviço e a forma”37. Ou seja, o caso ilustra a movimentação dos escra­
vos e suas transações comerciais na venda do povoado, bem como suas práticas
de lazer e as distinções de estabilidade de suas relações amorosas (amante/
amásia), numa rigidamente disciplinada fazenda de café de Vassouras, na dé­
cada de 1860.
Os recursos dos escravos a serem utilizados nesse tempo livre estavam,
entretanto, sujeitos a inúmeras gradações. Evidencia-se, em primeiro lugar, nas
diversas narrativas, uma divisão dos trabalhos por sexo. Há mais de uma refe­
rência à prática de as mulheres, algumas trabalhadoras de roça como os homens,
lavarem e passarem as roupas de seus maridos ou amásios, ou receberem por
isso de outros homens do plantei. Evidencia-se também uma diferenciação
socioeconômica. Há descrições de áreas inteiras reservadas à roça dos escravos,
concomitantemente a referências a outros cativos que recebiam para ajudar
seus “parceiros” nessas roças. O caso de Bananal, onde dois cativos acorrenta­
dos eram obrigados a isso, configura-se como um caso isolado. A antiguidade
na fazenda e a estabilidade das relações familiares mostraram-se os mais fre­
quentes parâmetros a definir um e outro tipo de cativo (o “roceiro” e o “jor-
naleiro”). Um dos casos acima analisados sugere, ainda, a prática do “mutirão”
na época da colheita do milho na roça dos escravos.
Fazem-se, ainda, múltiplas referências a gratificações em dinheiro, recebi­
das por escravos que exerciam, nas fazendas, ofícios especializados, bem como
ao trabalho de cativos como jornaleiros , em seus dias livres, em vendas ou
sítios vizinhos. São comuns, ainda, os registros de participação de escravos em
mutirões e ladainhas realizados pelos roceiros livres da vizinhança. E, claro,
em todos os casos, registram-se roubos de milho, cana e café, para vender.

149
DAS CORES DO SILÊNCIO

Todas essas relações aparecem nos depoimentos como referência secunda-


ria à narrativa principal. Compõem o contexto dos conflitos que se busca
narrar, trazendo, portanto, um forte sentido de rotina e previsibilidade na
forma com que são referidos. Isso vale especialmente para as referências às
transações comerciais nas vendas vizinhas às fazendas e às relações de troca de
serviços entre os cativos.
Por outro lado, com o mesmo sentido de rotina e previsibilidade, também
contextualizam as narrativas referências muito precisas às rígidas condições
de disciplina da vida coletiva naplantation-. a forma, antes e depois dos servi­
ços; o alinhamento no eito; a violenta supervisão do feitor, sempre munido
do cabo do relho; o castigo exemplar; as senzalas trancadas. Condições de vida
e trabalho que se distinguem radicalmente da experiência de cativos domés­
ticos, de pequenos senhores, ou daqueles que viviam nas vilas e povoados.
Da superposição desses dois contextos emerge paradoxalmente uma co­
munidade escrava que, quanto mais aprofundava suas relações familiares, mais
potencializava seu acesso a espaços econômicos e familiares de autonomia,
distinguindo-se, em maior ou menor grau, dos cativos recém-chegados e dos
aspectos mais rigidamente restritivos da vida naplantation. Este, o contínuo
movimento da vida coletiva nas grandes fazendas do Sudeste, ante o ininter­
rupto impacto do tráfico.
Esboça-se, assim, uma política de domínio, que se escora, por um lado,
quase que totalmente no terror e na violência para disciplinar os escravos re­
cém-chegados, especialmente nos casos de abertura de novas fazendas. Em
estabelecimentos antigos, o mesmo não deixava de prevalecer, mas, sem dúvi­
da, a comunidade preexistente exercia algum tipo de papel nesse processo de
adequação do cativo à nova realidade daplantation. Tendencialmente preva­
lecia, entretanto, uma sobra de homens sobre as mulheres. São elas que cons­
tituíam o núcleo de uma elite na comunidade cativa, a que se aproximava,
através da família, da roça e do próprio distanciamento físico das senzalas
coletivas, da experiência de liberdade que lhes era próxima.
É a essa comunidade, que se constitui não apenas através da família, mas
no decorrer de gerações, que o paternalismo — entendido como um código
de dominação pessoalizado, passível de leituras distintas por senhores e escra­
vos e, por isso, apto a administrar, dentro de certos limites, os conflitos ine­
rentes à relação senhor-escravo — aparece como eixo principal das relações
de dominação.
É nesse contexto, também, que a possibilidade de alforria e do pecúlio do
cativo, combinando autonomia escrava e autoridade senhorial, conforme

150
CONFLITO E COESÃO NA COMUNIDADE ESCRAVA

desenvolveu Manoela Carneiro da Cunha38, completa o círculo de uma polí­


tica de domínio que buscava legitimar a escravidão entre os próprios escravos,
enquanto abria perspectivas concretas de negar-se como cativo no interior do
próprio cativeiro.
É necessário, porém, precisar que em momento algum a comunidade ca­
tiva na plantation foi unia comunidade dual. O trânsito entre as situações
esboçadas constituiu, na verdade, o elemento central de todo o sistema. Tanto
a experiência da escravidão como a da liberdade só podem ser teoricamente
apreendidas, tendo como base histórias de vida e não categorias estanques de
classificação social. A mobilidade social limitada (o acesso à elite permanece­
rá sempre vedado), possibilitada pelo estabelecimento de relações pessoais e
familiares horizontais, no interior do cativeiro, do cativeiro à liberdade, do
desenraizamento à propriedade, mas sempre tributária de relações hierárqui­
cas, que lhe conferiam estabilidade, foi a chave das políticas de domínio que,
não sem contestações, conferiam estabilidade às relações de poder no Brasil
escravista.
As raízes ibéricas e, mais especificamente, portuguesas, conforme as tem
tratado classicamente a historiografia, são facilmente identificadas nessa pro­
posição39. O caráter plástico e flexível das hierarquias sociais, desde o período
colonial, e as lealdades verticais que engendrava, sempre retornam às análises
sobre a sociedade brasileira tradicional. Tentei mostrar, entretanto, que esse
movimento, para livres ou escravos, não dependia apenas de seu sentido ver­
tical, não se esgotava na incorporação, por dependentes ou escravos, de códi­
gos exclusivamente senhoriais ou brancos. Sua plasticidade lhe permitia
apropriações diversas. Apropriações que dependiam de coesões horizontais e
as potencializavam, daí sua força e efetividade.
As clássicas comparações entre a escravidão no Brasil e nos Estados Unidos
oscilaram sempre entre percepções radicalmente opostas. Ora a alforria fazia
da escravidão ibérica um jugo suave e patriarcal perante a sociedade sulista,
ora sua dependência do tráfico e incapacidade de reprodução natural transfe­
riam o patriarcalismo para o norte do Equador40. Não se trata de retomar,
nesse nível, as abordagens comparativas. Não há escravidão “suave” ou “cruel”,
ela dispensa adjetivos. Tento argumentar, entretanto, que uma compreensão
integrada da dinâmica social da escravidão, na antiga América portuguesa,
deve considerar como essenciais ambos os aspectos que tendiam a ser tomados
de modo isolado: o tráfico e a alforria.
De fato, o tráfico africano representou o principal limite da escravidão no
Brasil. Não se pode entender, porém, essa dependência sem levar em conta

151
DAS CORES DO SILÊNCIO

também o papel central da possibilidade da alforria na reprodução cultural da


sociedade escravista brasileira. Obviamente, não se trata de propor que o
tráfico substituísse a mão de obra alforriada. Os dois processos (tráfico e al­
forrias) não guardam a mesma relação de ordem de grandeza, sendo o primei­
ro infinitamente superior ao segundo. O tráfico africano foi sempre preferen­
cialmente masculino e consumia vidas em ritmo alarmante41. Nesse processo,
entretanto, a miragem da alforria não foi apenas uma arma de cooptação da
lógica senhorial, mas também o resultado da pressão de uma comunidade
cativa que se organizava apesar dela. Nesse contexto, redefinir as condições de
legitimidade da dominação escravista, prescindindo do tráfico de escravos,
mostrou-se algo infinitamente complexo. Este, como tentarei demonstrar, foi
o principal eixo das tensões específicas das últimas décadas da escravidão nas
áreas escravistas do Sudeste.
Parece-me lícito propor, antes, pelo menos como hipótese para futuras
investigações, que esse referencial, que informava (mesmo que diferentemen­
te apropriado) senhores e escravos, possuía também uma matriz africana — o
que talvez explique melhor suas múltiplas apropriações, bem como sua difusão
e efetividade.
E fato sabido que muito pouca coisa existiu em comum entre a escravidão
nas sociedades africanas tradicionais e a escravidão moderna nas Américas.
Usa-se, entretanto, nos dois casos, o mesmo conceito (escravo) e isso não se
faz por acaso. O conceito de escravo, comum a essas sociedades, pressupõe,
pelo menos na origem, uma espécie de morte social, um rompimento violen­
to de todas as relações definidoras de inserção e personalidade social do indi­
víduo capturado ou reduzido à escravidão, que ressurge como escravo em
outra sociedade, sem qualquer direito, identidade ou prerrogativa, a não ser
as que lhe fossem atribuídas pela vontade do senhor. A possibilidade de ab­
sorção social, própria ou de seus descendentes, na nova sociedade, que parece
ter sido generalizada em várias sociedades africanas, não eliminava o aniqui­
lamento de sua pretérita personalidade social42. O fato de a inserção social do
escravo nas sociedades tradicionais africanas apresentar-se completamente
distinta de sua inserção no contexto da escravidão americana não elimina o
fato fundamental de que o africano, de qualquer procedência, estava cultural­
mente equipado para entender o que lhe acontecia, após a traumática expe­
riência do tráfico e para enfrentá-lo com algumas expectativas.
Tornar-se escravo africano na América foi uma experiência dolorosa de
ressocialização em condições adversas, que já há algum tempo tem merecido
a atenção da historiografia'*3. Pôde produzir, por vezes, a descoberta ou cons­

152
CONFLITO E COESÃO NA COMUNIDADE ESCRAVA

trução de uma identidade africana impossível e impensável na própria África


(unindo malês e iorubas, na Bahia)44 ou permitindo a autodescoberta de uma
identidade linguística e cultural entre os bantos no Rio de Janeiro45. No nível
individual, entretanto, o que parece ter prevalecido é a mediação da comuni­
dade escrava já estabelecida na ressocialização, como escravo, do recém-che­
gado. José Roberto Góes46 demonstrou que a apropriação, pelos cativos, do
batismo cristão e as relações de compadrio jogaram papel fundamental na
conformação de relações comunitárias entre os escravos, majoritariamente
africanos bantos, no Rio de Janeiro da primeira metade do século XIX. Tentei
mostrar que essa integração comunitária se intensificava com o tempo e as
gerações e produzia ganhos diferenciais, que tornavam menos remota a pos­
sibilidade da alforria. Era, entretanto, no espaço desses ganhos diferenciais
que, prioritariamente, se criavam condições para preservar ou ressignificar
grande parte da herança cultural africana, como os padrões de moradia, as
práticas religiosas, as noções de família-linhagem ou de família extensa4/.
Considero frutífero, para entender a configuração específica desse movi­
mento no Sudeste escravista, que se leve em conta a possibilidade de uma
leitura ou de uma matriz também africana (provavelmente banto) dele. O
processo de reconstituição de uma identidade comunitária (ressignificando a
família extensa e também uma noção de linhagem, especialmente matrilinear)'*8
como caminho para a liberdade fazia dos cativos com alianças familiares, como
Francisco e Generosa, superiores em recursos sociais a escravos com ofícios
especializados e muito mais acesso a remunerações em dinheiro. Esse pro­
cesso, parece-me, guarda paralelos — que precisam ser mais bem considera­
dos — com o processo de absorção dos descendentes de “escravos” pelas so­
ciedades de linhagem na África. Se se leva em frente essa hipótese, a
experiência de liberdade, considerada no primeiro capítulo, e principalmente
suas transformações na segunda metade do Oitocentos (a cor inexistente)
começam a possuir sentidos bem mais profundos que um ideal generalizado
de branqueamento. Voltarei a esse ponto na conclusão do trabalho.
Meu objetivo, ao enfocar o tema da comunidade escrava, foi mais que
mapear o engendramento de relações comunitárias, combinando “acomodação”
e resistência49 na vivência específica dos escravos nas grandes fazendas
do Sudeste, nas últimas décadas da escravidão. Procurei demonstrar que as
fronteiras entre acomodação e resistência tenderam a ser definidas por um
claro objetivo de negar, individual ou coletivamente, no interior mesmo da
experiência do cativeiro, uma imagem socialmente generalizada de escravo e
escravidão.

153
DAS CORES DO SILÊNCIO

As “confusões indesculpáveis” entre escravidão e liberdade, a que o curador


de Joaquim Félix aludia em sua apelação, eram fruto não apenas de estratégias
senhoriais, mas de um esforço concreto dos cativos que, na conjuntura espe­
cífica da segunda metade do século XIX, tomaram um sentido eminentemen­
te político. Antes de forjarem uma identidade étnica a partir da vivência do
cativeiro, formaram uma visão de liberdade a nortear a ação e a autorrepresen-
tação dos últimos cativos da América.

Notas

1 Documentação judiciária. Corte de Apelação: Escravos. Processos criminais. Maço 11.010,


n2 738. Arquivo Nacional.
2 Sobre a lei de 1835, cf. Maria Helena P. T. Machado, Crime e escravidão — Trabalho, luta e re­
sistência nas lavouras paulistas, 1830-1888,1987.
3 Documentação judiciária. Corte de Apelação: Escravos. Processos criminais. Maço 11.010,
n2 738. Arquivo Nacional.
4 Ibidem.
5 Herbert Gutman, The Black Family in Slavery and Freedom, 1750-1925,1976.
6 Eugene D. Genovese, zí terra prometida — 0 mundo que os escravos criaram, 1988.
7 Herbert Gutman, The Black Family..., e Lawrence W. Levine, Black Culture and Black
Consciousness — Afro American Folk Thoughtfrom Slavery to Freedom, 1977.
8 Robert W. Slenes, “Lares negros, olhares brancos: histórias da família escrava no século XIX”,
Revista Brasileira de História, v. 8, n216. Escravidão. Org. por Silvia Lara. São Paulo, mar./-ago.,
1988.
9 Sheila de Castro Faria, “Escravidão e relações familiares no Rio de Janeiro”, Estudos Sobre a
Escravidão II. Niterói, Cadernos do ICHF, n2 23, ago., 1990.
10 Stuart B. Schwartz, Segredos internos — Engenhos e escravos na sociedade colonial, 1988, cap. 14.
11 Cf., entre outros, João Luiz R. Fragoso e Manolo Florentino, “Marcelino, filho de Inocência
Crioula, neto de Joana Cabinda: estudos sobre famílias escravas em Paraíba do Sul, 1835-1972”,
Estudos Econômicos 17 (2), pp. 151-73, IPE-USP, 1987; Ana Maria Lugão Rios, “Família e transi­
ção. Famílias negras em Paraíba do Sul, 1872-1920”. Dissertação de mestrado. Niterói, 1990;
Stuart B. Schwartz, “Opening the Family Circle: Godparentage in Brazilian Slavery”, in Slaves,
Peasants and Rebels — Reconsidering Brazilian Slavery, 1992; José Góes, “O cativeiro imper­
feito”. Dissertação de mestrado. Niterói, UFF, 1992.
12 João José Reis, “O levante dos malês: uma interpretação política”, in J. J. Reis e Eduardo Silva,
Negociação e conflito — A resistência negra no Brasil escravista, 1989, pp. 99-122; João José Reis,
“O jogo duro do Dois de Julho: o partido negro’ na independência da Bahia”, in J. J. Reis e
Eduardo Silva, Negociação e conflito..., pp. 79-98; Kátia M. de Queirós Mattoso, Bahia, século
XIX — Uma província no Império, 1992, livro III.
13 João Luiz R. Fragoso e Manolo Florentino, “Marcelino, filho de Inocência Crioula...”; Ana
Maria Lugão Rios, “Família e transição...”
14 Documentação judiciária. Corte de Apelação: Escravos. Processos criminais. Caixa 3.709,
nfi 2. Arquivo Nacional.

154
CONFLITO E COESÃO NA COMUNIDADE ESCRAVA

15 Documentação judiciária. Corte de Apelação: Escravos. Processos criminais. Caixa 11.144,


na 655. Arquivo Nacional.
16 Documentação judiciária. Corte de Apelação: Escravos. Processos criminais. Caixa 11.959,
n2 754. Arquivo Nacional.
17 Ibidem.
18 Documentação judiciária. Corte de Apelação: Escravos. Processos criminais. Caixa 3.682,
nH 5.906. Arquivo Nacional.
19 Documentação judiciária. Corte de Apelação: Escravos. Processos criminais. Caixa 11.079,
n“ 2.568. Arquivo Nacional.
20 Esse episódio resultou em dois processos crimes, localizados separadamente nos arquivos da
Corte de Apelação: caixa 11.079, nH 2.568, e maço 151, n2 518 do Arquivo Nacional.
21 Documentação judiciária. Corte de Apelação: Escravos. Processos criminais. Depoimento
de Manuel Novo, 1846, Piraí. Caixa 3.678, ne 502. Arquivo Nacional.
22 Documentação judiciária. Corte de Apelação: Escravos. Processos criminais. Depoimento de
João Congo, 1845, Campanha. Caixa 3.678, n2 322. Arquivo Nacional.
23 Robert W. Slenes, Na senzala, umaflor — Esperanças e recordações naformação dafamília es­
crava. 2a ed. Campinas, Editora da Unicamp, 2011.
24 Fica difícil, aqui, arrolar todos os processos em que pude notar esse tipo de referência. Confor­
me venho tentando enfatizar, em todos os casos em que havia menção às roças dos escravos,
estas apareceram ligadas à Antiguidade e às relações familiares na fazenda. Quanto ao espaço
de moradia em separado para os escravos "casados”, há três casos em que essa prática é explícita:
Paraíba do Sul, 1867, caixa 11.959, nD 754; Minas Novas, 1845, caixa 143, n21.608, e Lambari,
1866, caixa 3.682, n- 5.906. Processos criminais. Arquivo Nacional.
25 Ana Maria Lugão Rios, “Família e transição...”; José Góes, “O cativeiro imperfeito”.
26 Documentação judiciária. Corte de Apelação: Escravos. Processos criminais. Caixa 11.059,
ne 754. Arquivo Nacional.
27 Ibidem.
28 Em relação à Bahia, os estudos têm enfatizado a tendência à endogamia dos libertos africanos
que, pode-se supor, foi herdada da experiência do cativeiro. Cf. Kátia M. de Queirós Mattoso,
Bahia, século XIX..., cap. 10.
29 Robert W. Slenes, Na senzala, umaflor...
30 Neste sentido, cf. também José Góes, “O cativeiro imperfeito”.
31 Documentação judiciária. Corte de Apelação: Escravos. Processos criminais. Caixa 12.003,
na 95. Arquivo Nacional.
32 Cf. cap. 3 da Segunda parte.
33 Documentação judiciária. Corte de Apelação: Escravos. Processos criminais. Caixa 3.669,
n2 6.831. Arquivo Nacional.
34 Documentação judiciária. Corte de Apelação: Escravos. Processos criminais. Caixa 3.668,
n2 4.092. Arquivo Nacional.
35 Respectivamente, depoimentos das escravas Maria ejustina.
J Documentação judiciária. Corte de Apelação: Escravos. Processos criminais. Caixa 3.688,
n2 6.207. Arquivo Nacional.
37 As citações são do depoimento do escravo de nome Jorge.
38 Manoela Carneiro da Cunha, “Sobre os silêncios da lei. Lei costumeira e positiva nas alforrias
de escravos no Brasil do século XIX”, in Antropologia do Brasil — Mito, história, etnicidade,
1986.

155
DAS CORES DO SILÊNCIO

39 CE, entre outros, Stuart B. Schwartz, Segredos internos..., cap. 9, e Kátia M. de Queirós Matto-
so, Bahia, século XIX... cap. 30.
40
Balanço crítico desta discussão pode ser encontrado em Emília Viotti da Costa, “Da escravidão
ao trabalho livre”, in Da Monarquia à República — Momentos decisivos, 1979, pp. 209-26.
41
Manolo Florcntino, “Em costas negras: um estudo sobre o tráfico atlântico de escravos para o
porto do Rio de Janeiro, 1790-1830”. Tese de doutorado. Niterói, UFF, 1991.
42 Claude Meillassoux (org.), DEsclavage en Afriqueprécoloniale, 1975. Introdução.
43 CE, entre outros, Kátia M. de Queirós Mattoso, Família e sociedade na Bahia do século XIX,
1988; José Góes, “O cativeiro imperfeito”; John Blassingame, The Slave Community, 1972.
44 João José Reis, Rebelião escrava no Brasil — A história do levante dos males, 1835,1986.
45 Robert W. Slenes, ‘“Malungu ngoma vem!’ África coberta e descoberta no Brasil”, Revista da

USP, n212, dez.-jan.-fev., 1991-1992.


46
José Góes, “O cativeiro imperfeito”
47
Robert W. Slenes, Na senzala, umaflor...
48
Quanto à linhagem matrilinear, cf. cap. 4, Segunda parte, especialmente a análise das Ações de
liberdade. Ver também caps. 3,4 e 5 da Quarta parte.
49
Eduardo Silva, “Entre Zumbi e Pai João, o escravo que negocia”, in J. J. Reis e Eduardo Silva,
Negociação e conflito, pp. 13-21.

156
3

Uma relação perigosa

Por mais de três séculos, a escravidão no Brasil reproduziu-se com base na


recorrência da escravização de africanos nascidos livres. A resistência a esse
processo era uma variável esperada e previsível. Uma elaborada pedagogia de
terror engendrava a submissão do cativo africano e continha as fugas, dentro
de limites que não comprometessem o sistema, apesar do caráter endêmico
das fugas e rebeliões. O comprometimento dos demais homens livres com a
legitimidade do sistema era a outra face da violência escravista. Além dos ca­
pitães do mato, ainda na década de 1850, ficou registrado, nos processos
analisados, o contínuo engajamento de lavradores e de seus filhos nas escoltas
que buscavam escravos fugidos, escondidos nas paragens em que viviam. Não
se tratava de agregados ou dependentes do senhor do cativo fugido, mas de
engajamento dos chamados “homens válidos” de municípios, às vezes distan­
tes, encarado como tarefa necessária e natural1.
Após a cessação do tráfico atlântico, a continuidade do tráfico interno
redefiniu aquele problema fundamental. Se não se tratava mais de escravização,
tratava-se de adaptar um cativo, arrancado de sua comunidade de origem, a
uma disciplina de cativeiro, às vezes, bastante distinta2.
O registro de fugas, nas fontes com que tenho trabalhado, é pequeno. Só
eram mencionadas quando acompanhavam roubos ou redundavam em assas­
sinatos. Mesmo assim, não deixa de ser significativo que dos 23 fugitivos
mencionados naqueles processos, 18 (78%) fossem nascidos na África ou em
províncias distantes daquelas nas quais se encontravam cativos. Essa precária
imagem estatística fica mais sugestiva quando se percebe que há diferença
qualitativa nas fugas das 18 vítimas do tráfico e dos cinco cativos que viviam
nas áreas ou mesmo nas fazendas em que haviam nascido escravos. Os primei­
ros 18 eram fugitivos contumazes, que apenas a um custo altíssimo de vigilân­
cia e castigos mantinham ainda alguma produtividade, como no exemplo já
DAS CORES DO SILÊNCIO

conhecido dos dois Antônios, que havia mais de dois anos viviam acorrentados
e sob vigilância ininterrupta de um outro escravo. Na maioria absoluta dos
casos, suas histórias foram parar nos autos de processos crimes por mortes
cometidas no ato de resistir à recaptura, às vezes em lugares e períodos distan­
tes daquele da fuga.
Os outros cinco casos são de fugitivos que não foram capturados, nem se
mencionam escoltas a procurá-los. Voltaram espontaneamente à casa de um
padrinho, levando reivindicações para evitar uma venda que não lhes agrada­
va, para forçar uma outra a um senhor que lhes interessava, ou para forçar a
compra de sua alforria a herdeiros que, a princípio, a isso se opunham. Nesses
casos, as fugas não eram uma estratégia direta para a liberdade de fato, ou seja,
eles não buscavam sumir definitivamente da vista do senhor, mas simplesmen­
te colocar-se em posição melhor para influenciar seus próprios destinos,
postos em xeque por ameaças de venda ou por morte do senhor. São, por isso
mesmo, referências indiretas nos processos. A questão central dos crimes in­
vestigados não passa por suas fugas, elas simplesmente ocorreram na ocasião
dos crimes e, em função disso, são indiretamente referidas. Nos 18 primeiros
casos, ao contrário, os crimes são sempre em decorrência das fugas. É porque
resistiram violentamente à tentativa — também violenta — de recaptura e,
para desgosto de seus senhores, na maioria dos casos, ao invés de serem levados
de volta às senzalas, o foram para as barras da lei.
Outra distinção pode ainda ser feita entre as fugas dos nove africanos e dos
nove crioulos registradas, a de serem todos reincidentes e terem reagido vio­
lentamente à recaptura. Trata-se da maior facilidade com que se registram, em
especial após a década de 1860, cativos, especialmente crioulos, que se passavam
por livres, conseguindo trabalho como jornaleiros em municípios vizinhos.
Os três casos de fuga, na década de 1850, ainda faziam das “matas” das redon­
dezas o percurso privilegiado pelos fugitivos. Quando saíam dos matos e
procuravam uma venda, para comprar ou roubar mantimentos, é que eram
recapturados. Após 1860, os fugitivos eram recapturados, trabalhando como
camaradas, com passaportes falsificados, negociando mantimentos de suas
roças, situações que implicam condições de se passarem por homens livres ou
relações de amizade com estes. Os casos de Ezequiel e Felício e o dos dois
Antônios3 são, em todos os sentidos, exemplares, quanto a essa possibilidade.
Ao terror senhorial, que procurava submeter as recorrentes levas de recém-
-chegados, correspondeu um profundo temor da possibilidade de uma ação
coletiva por parte dos escravizados. Esse imaginário de temor foi de certa
forma fomentado pelos acontecimentos do Haiti em finais do século XVIII,

158
UMA RELAÇÃO PERIGOSA

mas também pelos levantes de escravos da Bahia4 e pelas ameaças de insurrei­


ção no Rio de Janeiro5, por toda a primeira metade do século XIX. O curador
de Joaquim Félix, que procurava provar que seu representado matara não seu
feitor, mas um simples parceiro6, refere-se ao “terror e pânico” que se apode­
rara dos espíritos quando da elaboração da rigorosa lei de 1835, que punia com
a pena de morte os crimes contra senhores e feitores cometidos por escravos.
As rebeliões na Bahia provaram que o acúmulo de africanos, ou seja, de uma
primeira geração de escravizados, era mais perigoso que o simples acúmulo de
escravos, simplesmente porque, nesses casos, a pedagogia da violência tomava
um papel quase absoluto na manutenção da ordem. Nesses casos, a legitimi­
dade da escravidão engendrava-se fora da relação senhor-escravo, no reconhe­
cimento do caráter legítimo da violência escravista pela população livre.
Esse quadro se inverte, entretanto, a partir de meados do século, em espe­
cial após a década de 1860. Africanos, havia pelo menos dez anos vivendo como
escravos, crioulos nascidos no local do cativeiro ou comprados no tráfico in­
terno, iriam então responder pela maioria dos cativos. Cessara, desde 1850, o
fluxo até então ininterrupto de novos escravizados. Concomitantemente, a
solidariedade da população livre com a instituição escravista começara a per­
der suas bases de sustentação. Para as elites, a continuidade do cativeiro só
podia ser defendida com base numa argumentação pragmática que procurava
antes retardar do que impedir o desmoronamento do sistema. Concomi­
tantemente, cada vez menos livres conseguiam acesso à propriedade cativa e
se faziam solidários com sua manutenção. Apesar disso, o sistema, especial­
mente a agroexportação cafeeira, continuava a expandir-se com base no tráfico,
agora interno, do braço escravo.
A historiografia, especialmente em relação a São Paulo, tem em vários
trabalhos enfatizado a insegurança gerada por esse acúmulo de cativos criou­
los. Os casos que passarei a analisar, e que não dizem respeito a São Paulo,
reforçam os argumentos que outros autores têm levantado em relação às
tensões específicas à relação escravista na grande plantation em expansão, na
segunda metade do século XIX. O fato, porém, de poder contar com a produ­
ção anterior e de me beneficiar de um espectro regional mais amplo e diversi­
ficado me permite colocar algumas questões novas à análise.
Para tanto, o paralelo com os africanos recém-chegados do tráfico negrei-
ro é fundamental. Num caso e noutro, a face violenta da moeda escravista toma
dimensões desproporcionais. A instituição da face paternalista do sistema
pressupunha tempo de convivência entre os cativos e destes com seus senhores.
Os cativos comprados no tráfico interno, entretanto, traziam de sua experiên­

159
DAS CORES DO SILÊNCIO

cia anterior, à diferença dos africanos, a vivência de códigos costumeiros, que


buscavam, no mínimo, ver reatualizados. Ao buscarem essa reatualização, eles
redefiniam, entretanto, seu próprio sentido.
O segredo do código paternalista de dominação escravista estava no poder
senhorial de transformar em concessão toda e qualquer ampliação do espaço
de autonomia dentro do cativeiro. A violência era ainda parte integrante do
sistema, mas passava a responder a certas regras ou expectativas que acabavam
por legitimá-la perante os próprios escravos. Até mesmo a compra da alforria
pelo cativo podia ser lida como concessão senhorial, desde a doação do tempo
e das condições para formar o pecúlio e a concessão do reconhecimento da­
quela propriedade, até a concordância com a alforria, mediante indenização.
A família escrava tornava-se também uma concessão senhorial, conforme se
lê em parecer do Conselho de Estado, quando se julgava sobre a comutação
da pena de morte de um cativo, condenado pela lei de 1835.

Porém (a comutação da pena) não pode ser atendida, porque o réu é escravo e o
escravo, apesar de casado pela mesma forma que o é o homem livre, isto é, segundo o
Concilio de Trento, somente tem aqueles direitos, pátrio poder e outros direitos de
família, que o senhor lhe quer permitir. A lei não lhe dá meio algum para os fazer valer7.

Mesmo que a abrangência da instituição familiar entre os cativos, do pe­


cúlio do escravo e da própria prática das alforrias remuneradas sugira muito
fortemente que estes foram movimentos que os senhores não seriam capazes
de conter, mas tão somente de tentar disciplinar; a manutenção de tais práti­
cas, no espaço do costumeiro, ou seja, em tese, na dependência do arbítrio
senhorial, permitia que grande parte do esforço cativo para transformar suas
condições de cativeiro e, mesmo, para dele se libertar fosse passível de uma
leitura que reforçava, em última análise, a autoridade senhorial. O africano
recém-chegado vinha sem família, sem pecúlio, sem tempo livre, sem qualquer
“direito”, a não ser o que a boa vontade senhorial resolvesse lhe conceder8.
Já o escravo crioulo negociado no tráfico interno, reduzido à mesma con­
dição, traria para uma relação que se deveria definir a partir de uma total au­
sência de prerrogativas, no momento inicial, toda uma bagagem de práticas
costumeiras sancionadas na fazenda ou na região em que antes habitara. Tinha
concepções preestabelecidas de castigo justo ou injusto, de ritmos de trabalho
aceitáveis ou inaceitáveis, de quais as condições que deveriam dar acesso ao
pecúlio e à alforria, que poderiam ser e provavelmente foram bastante distin­
tas das que encontraram nas fazendas de café do Sudeste, para onde majori-

160
UMA RELAÇÃO PERIGOSA

tariamente se dirigiram. Essas condições, até então, podiam, no máximo,


obter uma abrangência regional. Em muitos casos, nas maiores plantations,
cada fazenda, no decorrer do tempo e das gerações, engendrava seus próprios
padrões, nos quais, além da pressão da comunidade cativa, a personalidade do
senhor desempenhava um papel fundamental. Dentro do quadro de violência
necessária da escravidão, existiram sempre “os senhores cruéis”. O tráfico in­
terno traria consigo a possibilidade de generalizar uma concepção de “cativeiro
justo”, que apenas aparentemente reforçaria a legitimidade da dominação
escravista.
A noção de um “cativeiro justo” ou do “bom senhor” em primeira análise
está reconhecendo a própria legitimidade da instituição escravista. Trata-se
de discutir as condições de seu funcionamento e não o direito de propriedade
sobre seres humanos em si. Apenas, tais noções só têm esse papel se são cons­
truídas reconhecendo na figura senhorial a primazia de estabelecer seus termos.
Ou seja, se em uma determinada região a maioria dos senhores tem um deter­
minado tipo de comportamento, pode-se distinguir o senhor “cruel”, capaz de
causar repugnância a seus próprios pares. Mesmo que a ação dos cativos tenha
tido um papel fundamental na construção desse tipo de padrão do comporta­
mento senhorial, é seu reconhecimento pela maioria dos senhores que lhe
empresta o poder de distinguir o mau senhor. A universalização de um padrão
de comportamento senhorial pressuporia o reconhecimento de direitos (tam­
bém universais) aos escravos, algo que em si é incompatível com a dominação
escravista9. Os escravos negociados no tráfico interno, ao propugnarem a efe­
tivação de práticas costumeiras vigentes em suas regiões de origem, questio­
navam o poder de reinterpretar, como concessão seletiva do arbítrio senhorial,
o acesso a recursos que permitissem maior espaço de autonomia no cativeiro
e perspectivas, mesmo que remotas, de acesso à liberdade. Ao fazê-lo, colocavam
em xeque, de fato, as próprias bases de reprodução da dominação escravista.
Como resposta, aos senhores cabia, certamente, o recurso da violência. A
imagem dos Antônios, acorrentados durante dois anos, “fujões contumazes”,
tem uma força simbólica que ultrapassa o caso analisado. Maria Helena Ma­
chado e Célia Azevedo10 encontraram evidências de que o custo da vigilância
e disciplinarização dos cativos se tomara extremamente elevado, especialmen­
te no Oeste Paulista, após 1850. Pode-se argumentar, em relação ao trabalho
de Célia Azevedo, que ele sobrevaloriza o efeito causai do “medo branco”, na
opção imigrantista paulista, e que não chega a provar que esse medo tivesse
uma base real. Rejeitando, entretanto, uma leitura unicausal de seus argumen­
tos, as preocupações de senhores e de autoridades policiais paulistas ganham

161
DAS CORES DO SILÊNCIO

base concreta, quando confrontadas com alguns casos de assassinatos de fei­


tores e senhores, analisados por Maria Helena Machado, especialmente em
Campinas. Novamente, pode-se argumentar que nada permite inferir que
esses casos não fossem excepcionais. Não é, entretanto, o número de atentados
violentos a senhores e feitores que deve ser contabilizado, o que, de resto,
sempre existiu, como o comprova a aprovação da lei especial de 1835, mas o
tipo de discurso que os cativos apresentaram nessas ocasiões e sua possível
generalização, para além de momentos extremos dc tensão, como o do assas­
sinato de senhores ou feitores.
Além das fugas, três casos de assassinatos coletivos de senhores e feitores,
acontecidos após 1850, que pude localizar nos processos crimes da Corte de
Apelação, tiveram como autores os cativos comprados no tráfico interno.
Mesmo no caso mais lacônico11, em que seis escravos são acusados de assassinar
o feitor em seu quarto e depois arrastá-lo até o terreno da fazenda, sem que se
possam precisar as motivações mais imediatas do crime, a qualificação dos réus
é verdadeiramente impressionante, na força com que sinaliza para a existência
de referências anteriores na concepção de cativeiro dos réus. Considerados
todos inicialmente de filiação desconhecida, sua qualificação no julgamento
ficou assim delimitada:

José, filho de Maria, 29 anos, solteiro, roceiro, natural da Província da Paraíba do


Norte.
Antônio, filho de Maria Manoeía, 20 anos, solteiro, roceiro, natural da Província
do Ceará.
Francisco, filho de Hilária, 50 anos, viúvo, roceiro, natural da Província do Sergipe.
Felizardo, filho de Joaquina, 20 anos, solteiro, roceiro, natural de Campo Grande,
Província do Rio de Janeiro.
Justino, 28 anos, roceiro, natural do Congo (costa da África)12.

De apenas poucos casos não se pode tirar nenhuma inferência de que os


cativos comprados no tráfico interno tivessem uma propensão ao assassinato
de senhores e feitores maior ou menor do que os outros escravos (dez dos 16
processos, referentes à lei de 1835, têm como réus escravos negociados no
tráfico interno). Parece-me mais lógico supor que a agressão violenta aos se­
nhores, e especialmente aos feitores, permaneceu sempre uma possibilidade
inerente à própria violência estrutural da dominação escravista, contida, entre­
tanto, em limites suportáveis. O que se destaca é o caráter específico que to­
mavam as agressões aos feitores e senhores, quando escravos que conheceram
outras experiências de cativeiro eram os seus autores.

162
UMA RELAÇÃO PERIGOSA

Em primeiro lugar, esses eram crimes que, majoritariamente, quando não


executados coletivamente, pressupunham uma cumplicidade mais ampla
dentro do plantei; eram praticados em fazendas novas, em áreas de expansão
da fronteira do café (Vale do Paraíba oriental e Norte Fluminense): Cantagalo,
em 1857, São Fidélis, em 187213, Madalena, em 188614. Em segundo lugar, os
cativos apresentavam articuladamente um verdadeiro arrolamento de direitos
que deveríam ter e que não estavam sendo cumpridos pelo feitor ou senhor.
Não se trata, portanto, de saber até que ponto se tornaram mais frequentes
as agressões aos senhores e, principalmente, aos feitores. Muito provavelmen­
te elas não se tornaram mais comuns, apenas mais ameaçadoras. Trata-se de
perceber que, nesse novo contexto, as demandas dos cativos passavam a ganhar
um conteúdo universal que homogeneizava as queixas desses cativos, onde
quer que estivessem, em Campinas ou em São Fidélis, vindos de Pernambuco,
do Ceará, da Paraíba do Norte ou da Corte, especialmente quando em fazen­
das novas, onde uma comunidade cativa preexistente não oferecia alternativas
já estabelecidas de ampliação dos espaços de autonomia e sociabilidade dentro
do cativeiro que preservassem, ao mesmo tempo, o arbítrio senhorial.
Em 1876, em Campinas, Benedito, João, Anísio e Emiliano, provenientes
todos de províncias do Nordeste e residentes na fazenda em que serviam como
cativos, de três a seis anos, justificaram o assassinato coletivo do senhor, pre­
viamente combinado, alegando um “cativeiro muito rigoroso”, precisando que,
por isso, entendiam os excessos de castigos e principalmente do ritmo de
trabalho15. Ainda em Campinas, e no mesmo ano, Gregório matara sua mulher
e tentara suicidar-se, alegando não mais suportar “tão mau cativeiro”, e Ana,
Benedito, Martinho, João e Caetano teriam assassinado seu senhor, alegando
que “o senhor era mau, fazia-os trabalhar domingos e dias santos sem paga­
mentos”16. Em 1871, ainda em Campinas, um outro assassinato coletivo do
senhor era assim justificado:

respondeu que o senhor era mau: que só lhe dava uma muda de roupa por ano, que só
dava almoço e jantar, e isto em pouca quantidade que não lhes permitia plantar nem
criar que proibindo-os ultimamente de trabalhar para vizinhos lhes remunerava muito
mal o trabalho dos domingos pagando por exemplo duas patacas por braças de volta e
quatro vinténs para rebocar17.

Esses casos encontram-se todos citados por Maria Helena Machado, no


livro Crime e escravidão. Apenas no primeiro caso, entretanto, a autora espe­
cifica a naturalidade dos cativos envolvidos ou a data de seu ingresso nas fa­

163
DAS CORES DO SILÊNCIO

zendas em questão. De todo modo, sua argumentação correlaciona diretamen­


te a formulação desse tipo de demanda com a conjuntura histórica específica
da segunda metade do século XIX18.
Impressiona, na argumentação de Machado, especialmente, como as mes­
mas medidas propostas por diversos fazendeiros, como meios de estimular a
melhor eficiência do trabalhador escravo, fossem repetidas por seus escravos,
transformadas em cobranças de obrigações senhoriais. Entendidas como
prêmios, do ponto de vista dos senhores, essas medidas se tornariam deveres
senhoriais, reinterpretados pelos cativos paulistas, nas últimas décadas da es­
cravidão. Mais ainda, tornar-se-iam parâmetros de um “bom cativeiro” — em
que se reconhecería legitimidade à autoridade senhorial —, contraposto a um
“mau cativeiro”, que justificaria a desobediência e até mesmo o crime.
A relação genérica desse tipo de procedimento com as últimas décadas do
cativeiro, caracterizadas pela perda de legitimidade da escravidão na sociedade
abrangente, pode ser mais bem precisada quando se alarga o arco de observa­
ção do ponto de vista cronológico e espacial. Uma certa visão contratualista
da escravidão, de reciprocidade entre desiguais, sempre esteve presente nas
tentativas de legitimação do cativeiro no Brasil, desde Benci e Antonil19. Essa
face paternalista não se opunha à violência necessária da instituição escravista,
ao contrário, só se fazia possível em contraponto à pedagogia da violência, que
instituía a desigualdade essencial sobre a qual as relações pessoais poderíam
desenvolver-se. Diversas pesquisas, centradas em períodos anteriores à extinção
do tráfico, têm enfatizado que, além de rebeldes e vítimas, os cativos frequen­
temente souberam reinterpretar e reverter a seu favor as estratégias senhoriais20.
Onde está, então, a novidade do discurso cativo acima referido?
A reprodução de um documento, já clássico em relação à pressão escrava
por maior espaço de autonomia dentro da lógica do cativeiro, permite melhor
responder à questão. No famoso “Tratado proposto a Manuel da Silva Ferrei­
ra pelos seus escravos durante o tempo em que se conservaram levantados”21,
chama a atenção não apenas a demanda dos cativos por maior autonomia
econômica, direito ao lazer e à escolha dos feitores, mas determinados trechos
que distinguem enquanto comunidade os cativos levantados de outros escra­
vos do plantei. Lê-se nesse documento:

Não nos há de obrigar a fazer camboas, nem a mariscar, e quando quiser fazer
camboas e mariscar mande os seus pretos Minas.
Para o seu sustento tenha lancha de pescaria ou canoas do alto, e quando quiser
comer mariscos mande os seus pretos Minas22.

164
UMA RELAÇÃO PERIGOSA

Ou seja, reivindicam-se privilégios e não direitos. Lograr espaços de auto­


nomia ampliados dentro do cativeiro significava, antes de mais nada, afastar-
-se daquela condição primeira que definiría o escravo: a total ausência de
prerrogativas. Mesmo na visão cristã de Benci e Antonil, os deveres senhoriais
eram decorrências de exigências morais de sua consciência cristã e também da
busca de otimizar a produtividade e o tempo de vida útil do cativo, e não de
qualquer prerrogativa ou direito do escravo que se definiría exatamente pela
ausência desses atributos.
Com direitos não há escravos e tento mostrar neste trabalho que não ape­
nas os senhores, mas também os que se encontravam sob o jugo do cativeiro,
sabiam disso. Antes da extinção do tráfico, os cativos de maiores recursos
comunitários pressionaram mais por privilégios que por direitos. E verdade
que, de uma forma geral, eles leram as “concessões senhoriais” e as práticas
costumeiramente sancionadas como “direitos pessoais” que os faziam, entre­
tanto, do seu ponto de vista, um pouco menos escravos que os outros. A ori­
ginalidade da argumentação daqueles cativos paulistas, nas últimas décadas
da escravidão, está exatamente no sentido genérico que atribuíam ao “mau
cativeiro” e na positividade que emprestavam ao “bom cativeiro”, sem o qual
o senhor não merecia que o obedecessem. Essa generalização e positividade
podem estar apenas sugeridas pelos depoimentos encontrados nos autos de
Campinas, em confronto com os depoimentos senhoriais que incentivavam
aquelas mesmas práticas reivindicadas como direitos pelos escravos. Não
obstante, em São Fidélis e em Cantagalo, onde também se expandia a fron­
teira da cafeicultura nas últimas décadas da escravidão, em grande parte na
dependência do tráfico interno, o mesmo sentido genérico de “mau cativeiro”
e a mesma positividade de práticas, que os senhores deveríam respeitar, voltam
a se manifestar.
Bernardino, escravo em São Fidélis, em 1872, que se identificava como filho
de Jacinto e Felizarda, escravos de Francisco Xavier Bezerra, que viviam em
Pernambuco, onde ele próprio havia nascido, tinha 30 anos de idade e cerca
de seis anos na fazenda. Era amásio de Ana, também escrava e assim responde,
quando perguntado pelos motivos que o levaram a assassinar seu senhor:

perguntado qual o motivo porque tinha assassinado seu senhor, respondeu que sendo
o falecido senhor dito João Pereira de Souza mau senhor, tirando tanto a ele interro­
gado e seus parceiros os domingos e dias santos, maltratando de comida, vestuário,
resolveu na madrugada do dia 26 do mês e ano próximo passado acabar com o dito seu
senhor [...]23.

165
DAS CORES DO SILÊNCIO

Não se pode deixar de relacionar a referência precisa que Bernardino faz


do nome de seus pais e de seu antigo senhor em Pernambuco, com quem
aqueles ainda viviam, com seu arrolamento, também preciso, das obrigações
senhoriais não cumpridas pelo senhor que ele havia assassinado: comida,
vestuário, dias livres aos domingos e dias santos.
Essas reivindicações tornam-se ainda mais específicas em outros depoimen­
tos no processo, expressamente associadas ainda à expressão “mau cativeiro”.
Manuel Inácio da Silva Passos, negociante na freguesia, a quem Bernardi­
no procurara para se entregar à polícia, informa que o réu lhe teria dito que
fora forçado ao crime “pelo mau cativeiro em que vivia” e porque o senhor lhe
havia “roubado os domingos e dias santos”.
Nesse depoimento, o negociante sugere que o cativo teria usado a expressão
“roubado” para caracterizar a decisão senhorial de fazê-lo trabalhar aos do­
mingos e dias santos. E duvidoso precisar se a palavra “roubo”, que remete à
ideia de propriedade, fora realmente usada por Bernardino, pelo comerciante
em seu depoimento, traduzindo o que Bernardino lhe dissera, ou ainda pelo
escrivão. De qualquer forma, alguém em São Fidélis, 1872, utilizou a palavra
“roubo” para caracterizar o sentimento de Bernardino ante a proibição de
dispor livremente dos domingos e feriados.
Um outro negociante, sócio de Passos, também se propondo a reproduzir
o que lhe dissera o cativo, quando o procurara para se entregar à Justiça, enfa­
tiza ainda mais a associação entre dias livres e propriedade para o escravo,
negada pelo comportamento senhorial, referindo-se diretamente à roça que
Bernardino cultivava em seus dias livres.

Disse que sabe de ouvir do réu ter sido ele quem assassinara seu senhor João Pe­
reira de Souza a olho de machado, pelo mau cativeiro que vivia (ilegível) ter roubado
os domingos e dias santos e mesmo a roça que nas horas vagas fazia, seu senhor a
comprava e nunca pagava (depoimento de João Evangelista Andrade, negociante na
freguesia)24.

Também ao oficial de justiça que o prendera, Bernardino teria falado do


“mau cativeiro em que vivia” (depoimento de Francisco Souza Tavares).
As reclamações de Bernardino são ainda confirmadas, no mesmo tom, por
diversos outros cativos da fazenda, com um perfil em tudo semelhante ao do
réu. Antônio, feitor de roça, 20 anos, natural da Corte, disse “ser verdade que
seu senhor maltratava os escravos, de comida, de roupa, castigos e serviço,
tomando os domingos e dias santos”25.

166
UMA RELAÇÃO PERIGOSA

Justino, 20 anos, natural de Itaboraí, reafirmaria: “Todos os escravos da


fazenda são todos maltratados, de comida, vestuário e castigo, mesmo até lhes
foi tomado os domingos e dias santos”26.
O crime não era a única forma ou sequer a mais provável de manifestação
desse sentimento de ilegitimidade do cativeiro. Antes do dia de Natal, em que
decidiu matar seu senhor, Bernardino havia fugido e se apadrinhado com
um sitiante vizinho (íorro), que tentara comprá-lo, mas seu proprietário se
recusara a vendê-lo, alegando que estava hipotecado. Esse sentimento de ile­
gitimidade, que de certa forma pareceu ser compartilhado com os demais
escravos da fazenda, levava necessariamente a que se reforçasse a pedagogia da
violência, para manter a ordem e a disciplina, e impedia que se engendrassem
nas novas fazendas, além do temor, o outro pilar básico sobre o qual se susten­
tava a dominação escravista: o poder moral dos senhores e sua capacidade de
sancionar privilegiadamente o acesso àqueles recursos agora universalmente
requisitados.
Ainda em São Fidélis, no mesmo ano, toda uma turma de escravos homens,
liderados pelo próprio feitor da roça, também escravo, decidira eliminar o
administrador da fazenda, repetindo os mesmos conhecidos argumentos para
justificar seus atos, após terem organizadamente se apresentado à Justiça27. E
o feitor de roça dessa turma de trabalho, de nome André, 26 anos, nascido em
Sapucaia, quem explica inicialmente a decisão do crime: “[...] o administrador
da fazenda era um homem mau, que os maltratava, não lhes dando comida
suficiente nem vestuário, em virtude dos maus tratos, e de não terem sido
atendidos por seu senhor a quem tinham se queixado do administrador eles
três resolveram matá-lo [,..]”28.
Além da insuficiência da comida e vestuário e dos maus-tratos, outro dos
acusados, africano de 35 anos, que já trabalhara em outras regiões da província,
acrescenta que o administrador não lhes dava “nem mesmo folga, pois os
próprios domingos e dias santos convertera em dias de serviço”29.
Tibúrcio, também africano, 50 anos, o mais antigo dos escravos na fazenda
(15 anos), completa a já longa lista, afirmando que o administrador teria “até
ficado com uns carros de milho do seu trabalho”30.
Nesse caso, são nove os cativos envolvidos que se entregaram todos juntos
à polícia e assumiram, de início coletivamente, o crime, declarando que ele
havia sido premeditado pelos motivos alegados acima. No decorrer do pro­
cesso, apenas três cativos foram penalizados e o curador procurou desmanchar
a hipótese da intencionalidade, alegando que os cativos teriam confessado e
se entregado coletivamente à polícia com medo dos castigos que porventura

167
DAS CORES DO SILÊNCIO

viessem a merecer na fazenda. Dos nove acusados, quatro eram brasileiros,


“com nome do pai e da mãe” declarados no interrogatório, um natural
de Sergipe e três outros, de municípios do Rio de Janeiro. Os cinco africanos
já haviam trabalhado em outras regiões. O mais antigo cativo naquela fazenda
ali se encontrava havia 16 anos (e é o único que menciona a exploração de
uma roça).
O caráter de expansão econômica da cafeicultura na região, a identidade
de reivindicações e o perfil dos cativos que a manifestam levam-nos de volta
ao jogo das coincidências. O número de casos, aqui como em Campinas, é
necessariamente exíguo. Como já foi dito, entretanto, não se trata de postular
que o assassinato de senhores ou feitores se tivesse tornado mais comum, mas
apenas que esse desenlace-limite das tensões cotidianas, na fazenda escravista
das áreas em expansão, agora se justificava em bases diferentes. Apenas a coin­
cidência poderia explicar discursos, atores e práticas tão semelhantes, em áreas
tão distantes quanto São Fidélis e Campinas ?
A generalização do tráfico interno, a troca de experiências de cativeiro,
especialmente no contexto de fazendas novas, onde tudo ainda estava para ser
estabelecido, tendia a levar os escravos a propor de forma até então inusitada
um código geral de direitos dos cativos. Se admitido nesses termos pelos se­
nhores, esfacelava-se a própria essência da dominação escravista, que se encon­
trava exatamente na capacidade de transformar em privilégio toda e qualquer
concessão à ausência absoluta de prerrogativas que, em termos legais ou ideais,
definia o escravo. A atuação do próprio Estado, a partir do final da década de
186o, no sentido de reconhecer legalmente alguns desses direitos (a não sepa­
ração de famílias e o direito ao pecúlio c à autocompra, especialmente), con­
feria um caráter cada vez mais político — no sentido em que se pressionava
por direitos universais e não por privilégios ou “direitos” pessoais — às ações
cotidianas dos cativos, especialmente daqueles negociados no tráfico interno.
Essa pressão constante no cotidiano das relações sociais Ázplantation, espe­
cialmente nas fazendas novas, não pode ser tomada como elemento único ou
central no acelerado desmanchar das condições políticas e morais que davam
sustentação à dominação escravista, mas não se pode subestimar a força de
aceleração desse processo num contexto, externo àplantation, de crescente
perda de legitimidade da escravidão.
É impressionante constatar como determinada vertente da legislação, liga­
da ao projeto de emancipação gradual do Estado imperial, tendeu a transfor­
mar em “direitos universais dos escravos” determinadas prerrogativas antes
comuns às comunidades mais estruturadas de cativos nas grandes fazendas,

168
UMA RELAÇÃO PERIGOSA

que se transformavam em reivindicações, também universais, nos discursos


dos cativos negociados no tráfico interno. Cito, especialmente, a proibição de
separação de famílias (1869), o direito ao pecúlio e à compra da alforria (1871)
e a proibição do açoite (1886)31. De fato, a legislação golpeava de morte o pi­
lar fundamental sobre qual se construía a legitimidade da dominação escra­
vista, ou, melhor dizendo, a ascendência moral dos senhores sobre seus cativos,
que combinava a pedagogia da violência e a capacidade de concessão de privi­
légios, associadas à figura senhorial. Se os privilégios (ou direitos pessoais) se
tornavam universalmente direitos dos cativos, se a violência se tornava legal­
mente restrita, toda a “economia moral”32 da grande fazenda se desarticulava.
Essa politização da ação cotidiana do escravo, negociado no tráfico interno,
apenas tardiamente, entretanto, no contexto das fugas em massa de 1887 e
1888, tendeu a questionar em termos gerais o princípio da legitimidade da
propriedade escrava. A pressão que se estabeleceu foi inicialmente no sentido
de universalizar e retirar do arbítrio senhorial os canais costumeiramente
instituídos de acesso a um certo nível de estabilidade e autonomia que potencia­
lizasse, pelo menos enquanto possibilidade, o acesso ao pecúlio e, finalmente,
à liberdade, através da compra de alforria. A nenhum grupo de cativos a pos­
sibilidade de alforria, seja por autocompra ou gratidão senhorial, parecia tão
distante quanto para aqueles negociados no tráfico interno. Negava-se, assim,
uma determinada experiência de cativeiro, ao mesmo tempo que se afirmava,
contradito riamente, uma visão de liberdade que só fazia sentido, do ponto de
vista senhorial, quando referida àquela experiência que se procurava negar.
É preciso considerar, portanto, o papel central que a possibilidade da al­
forria desempenhara na política de domínio escravista, na forma específica
como se desenvolveu no Brasil. Ela representava não somente o principal re­
curso moral dos senhores na efetivação da dominação escravista, como de­
terminava o eixo a partir do qual se engendrava a diferenciação social, in­
ternamente à experiência do cativeiro. E em torno da redefinição de seus sig­
nificados que se estabeleceu um campo de luta, específico à experiência do
cativeiro nas últimas décadas da escravidão, em que os cativos negociados no
tráfico interno tiveram um papel singular e primordial. Pressionar por “direi­
tos” inerentes aos escravos, para que fossem cumpridas universalmente de­
terminadas “obrigações senhoriais”, representava, em última instância, arguir
a universalização das condições dentro do cativeiro, que poderiam potencia­
lizar o acesso à alforria.
Mesmo quando essas condições eram concedidas pelos senhores, o que
devia ser a regra, dadas as possibilidades de revolta quando as condições mí­

169
DAS CORES DO SILÊNCIO

nimas eram negadas, o acesso à roça e à família, no contexto das novas fazen­
das de café, gerava uma comunidade escrava muito mais homogeneizada, que
apenas o suceder das gerações e a continuidade do tráfico tenderíam novamen­
te a desequilibrar. A escravidão não durou tanto e o temor que acompanhara
a concentração de africanos ressurgiría com novas feições.
Em 1859, Paraíba do Sul, ocorrera aparentemente um atentado a tiros a
Domingos José de Santana, senhor de muitos escravos e proprietário de uma
próspera fazenda de café33. Domingos nada sofrerá, mas imediatamente des­
confiara de que o autor do atentado fosse “um seu escravo de nome Antônio
Crioulo”. Procurou, então, um lavrador vizinho, pois “temia que chegando em
casa fizessem algum levante”. Juntos, seguiram as pegadas dos possíveis ati­
radores e “descobriram” que se tratava de “um preto, descalço, que ora corria,
ora andava”. O fato de as pegadas corresponderem a um homem descalço, uma
das mais fortes marcas dos escravos, num mundo onde os descendentes de
africanos livres já não eram mais incomuns, fez com que ambos tivessem
a certeza de que se tratava efetivamente de um atentado cometido por um
“preto” (ou seja, por um escravo). Domingos reuniu, então, um grupo de vi­
zinhos livres, capaz de garantir sua segurança, dirigindo-se somente então às
senzalas e ordenando que seus escravos formassem.
Desde o primeiro momento, entretanto, Domingos desconfiara de Antô­
nio Crioulo, que se qualificou no processo como “filho de João e Lucrécia,
natural da província de Santa Catarina”. Segundo o senhor, esse cativo, que,
como os demais a deporem no processo, havia sido adquirido no tráfico inter­
no, era especialmente perverso e isso porque, segundo relatara a seus vizinhos:
“Tendo naqueles dias castigado a uma preta, o mesmo Antônio mostrara-se
apaixonado” (depoimento de Joaquim Manuel dos Santos)34.
Nessa ocasião, Antônio teria dito: “Antes de muitos dias [...] hei de dar-lhe
um tiro nos ouvidos, e havemos de descansar” (depoimento de Justiniano José
da Rocha)35.
Além de tudo, Domingos parece que considerava Antônio “um pouco
mágico” (depoimento de Joaquim Ferreira Xavier) e, por isso mesmo, espe­
cialmente perigoso.
Antônio não era, entretanto, perigoso sozinho. Domingos não voltara
imediatamente à fazenda após o tiro, buscando, antes, reforços, temendo que
“fizessem algum levante”.
Após a forma, houve uma busca na senzala e foi encontrado muito dinheiro
no quarto de Antônio. Segundo um dos vizinhos, Domingas considerava que
Antônio “gastava muito dinheiro com uma parceira, e que a maior quantia

170
UMA RELAÇÃO PERIGOSA

que já recebeu por seus mantimentos era de 40 mil-réis (depoimento de José


Luiz Pegado)”36.
Diante dessas evidências, o senhor mandou que se amarrasse Antônio no
tronco e que ele fosse açoitado, segundo uma das testemunhas, recomendan­
do: “Que o segurassem bem para que não fugisse pois era um pouco mágico”
(depoimento de Joaquim Ferreira Xavier)37.
A mesma testemunha, um carpinteiro livre, teriacontinuado: “Não tendo
o crioulo dito até então coisa alguma, e só nessa ocasião disse que, se ia para o
tronco, era por ser escravo”38.
Evidentemente, mesmo com o poder de amarrar e açoitar o escravo por
cerca de duas horas (“uma surra regular”, segundo depoimento do escravo
Manuel, capataz da fazenda), esse senhor não se sentia seguro com a continui­
dade da presença do escravo na fazenda. Poderia simplesmente tê-lo vendido,
mas preferiu entregá-lo à Justiça por tentativa de assassinato. Talvez o próprio
exagerado temor senhorial desse escravo “um pouco mágico” o tivesse tomado
invendível, pelo menos naquela região.
O monopólio da violência pelo senhor não se mostrou capaz nesse proces­
so, como foi comum em outros casos, nem mesmo de influenciar o depoimen­
to dos demais cativos. É surpreendente, no processo, que os depoimentos dos
demais escravos tenham concorrido todos para inocentar o acusado. O dinhei­
ro, mais de 4 contos de réis, havia sido “achado no chão”, “perdido por um
francês”, o que é confirmado pelos demais escravos, especialmente por Manuel,
52 anos, filho de Marcos e Quitéria, natural da Bahia e capataz da fazenda, que
possuía as chaves da senzala. Ele ainda diz que, na hora do crime, fora com
os escravos Antônio, Inácio (melhor amigo de Antônio e acusado como cúm­
plice, filho de Mateus e Rosa, natural de Pernambuco), Galdino (filho de
Reginaldo e Efigênia, natural de Maripicu) e João (africano) levar milho para
o Moinho. Depois, Antônio e Inácio teriam ido à “roça de Antônio mexer
café”. Manuel e Galdino concluem seus depoimentos afirmando que “não dava
tempo para Antônio ter dado o tiro”.
Antônio devia ser mesmo um pouco mágico, pois foi absolvido no proces­
so por falta de provas, e ainda comprou sua alforria, bem como a de sua amá-
sia Maria, ama de leite da casa de Domingos e de seus dois filhos, por 4 contos
e 500 mil-réis, de “uma quantia que havia ganho na loteria”.
Se Antônio não era mágico e as incríveis histórias do francês e da loteria
estão mal contadas, não estaria na presumida (pelo senhor) liderança dele
(Antônio) sobre os demais cativos e em suas redes de solidariedade o segredo
da absolvição e da compra de alforria de sua família? Nesse caso, o acesso à

171
DAS CORES DO SILÊNCIO

família e à roça não se cristalizavam como privilégio, mas como recurso comum
aos cativos, combinado com estrita disciplina e vigilância. Não há “poder
moral” do senhor e sim uma combinação de violência e concessões claramen­
te ditadas pelo medo. O senhor, que se impunha ao escravo pelo tráfico inter­
no, não conseguia resgatar os laços de dependência que podia lograr com as
“crias da fazenda”. De forma diferente, mas paralela às concentrações de afri­
canos recém-chegados, o senhor de uma fazenda nova convivia com estranhos
e precisava subordiná-los.
Nesse contexto, as situações de tensão, dentro das fazendas das áreas em
expansão do sistema, tenderam a evoluir para um questionamento cada vez
mais geral da autoridade senhorial e de seu direito de propriedade, que apenas
o recurso à pedagogia da violência poderia reverter. A medida que desapare­
ciam — seja em virtude do movimento abolicionista, seja em função da cres­
cente indiferença dos demais homens livres à continuidade da escravidão —
as condições externas que garantissem o uso da violência para além dos limites
da fazenda, a exteriorização dessa pressão, especialmente no movimento de
fugas coletivas, surgia explicitamente como uma variável a que os senhores, o
movimento abolicionista e o Estado imperial não podiam deixar de responder.
Nos processos analisados, ficou registrada uma cena típica do esgotamen­
to do recurso da violência como forma de subordinação do cativo, nos últimos
anos da escravidão. Trata-se de mais um crime coletivo de escravos contra o
feitor de uma fazenda cafeeira, em área de expansão (Madalena, 1886)39. Os
réus são, novamente, cativos negociados no tráfico interno: Laudegário, filho
de Maria, 30 anos, trabalhador de roça, natural de Niterói; Manuel Caboclo,
filho de Francisco e Angélica, 40 anos, trabalhador de roça, natural da Paraí­
ba do Norte; Manuel Crioulo, filho de Domingos e Emerenciana, 40 anos,
trabalhador de roça, natural de São Sebastião do Alto. Todos já viviam na
fazenda havia alguns anos e afirmam mesmo que eram bem tratados pelo
feitor e pelo senhor. Segundo seus depoimentos, nenhum deles havia sido
jamais açoitado. Sigamos a narrativa de Manuel Caboclo dos acontecimentos
que antecederam a agressão coletiva ao feitor:

Respondeu que hoje pelas quatro horas da manhã, saiu em companhia de seus
companheiros de senzala e foram amolar as foices para o trabalho, nesta ocasião o
feitor chamou por eles e mandou-os formar no terreiro e os queria castigar pela demo­
ra que tiveram em acudirem o seu chamado ao que desobedeceram com especialidade
ele respondente, Manuel Crioulo e Laudegário, dizendo este que não apanhava por não
ter dado motivo para tal, ouvindo esta altercação, seu senhor que ainda se achava dei­

172
UMA RELAÇÃO PERIGOSA

tado, levantou-se e ordenou ao feitor que os castigasse ouvindo eles tal ordem quiseram
fugir mas não o fizeram porque o feitor vendo-os resolvidos a não obedecerem armou-
-se de uma espingarda e seu senhor lhe dera ordem para os matar, então visto isto vol­
taram. Laudegário aproximando-se dele feitor deu-lhe uma foiçada a qual não acertou,
vendo ele respondente que o feitor se atracara com Laudegário e Manuel Crioulo que
também tomou parte do crime, aproveitou a ocasião e deu-lhes nas costas com a foice,
o feitor assim que recebeu esta pancada, largou seus dois companheiros e correu indo
eles três em sua perseguição, mas adiante depois de pular uma cerca o feitor caiu foi
quando eles lhes deram muitas foiçadas sendo que o que deu a princípio foi Laudegário,ü.

Especialmente o questionamento direto da punição pela desobediência,


assumida no depoimento (“e os queria castigar pela demora que tiveram em
acudirem o seu chamado ao que desobedeceram com especialidade
ele respondente, Manuel Crioulo e Laudegário, dizendo este que não apanhava
por não ter dado motivo para tal”), e a interferência senhorial, dando ordem
para matá-los, se fosse necessário, emprestam a esse caso uma singularidade
em relação aos demais até aqui analisados. Ele narrou um confronto direto,
inicíalmente verbal, entre o grupo de cativos, o feitor e o senhor da fazenda.
Houve um desafio verbal direto à autoridade do feitor para castigá-los fisica­
mente e uma interferência senhorial também direta, verbalmente articulada
e extrema: obediência ou morte. Segundo os depoimentos, não havia nenhum
outro homem livre na fazenda. Os escravos rebelados, após agredirem o feitor
e pensando tê-lo matado, fugiram da fazenda e, ao invés de se embrenharem
nos matos ou continuarem algum tipo de vindita, entregaram-se à policia.
Na verdade, Antônio Rola sobrevivería aos ferimentos. Os escravos rebe­
lados, apesar de negociados no tráfico interno, estavam todos havia mais de
dez anos na fazenda. Era com os demais cativos da fazenda que o senhor
contava para buscar ajuda, junto a seus filhos e aos demais proprietários da
vizinhança, para localizar o feitor ferido e os escravos fugidos, que jamais
voltariam às senzalas. No processo, estes foram abandonados pelo senhor e
condenados a oito anos de prisão com trabalho, acatada a alegação do curador
de que Antônio Rola devia ser considerado apenas camarada da fazenda e não
feitor e que a lei de 1835 “está hoje sem execução pela civilização”.
Sem punição exemplar, pela vontade senhorial ou pela Justiça; julgados
como homens livres, uma vez revogada, em 1886, a pena de açoites e descar­
tado o enquadramento na lei de 1835; que condições, exceto talvez o recurso
à alforria condicional e coletiva, mantinha esse senhor de continuar a garantir
a disciplina e o ritmo de trabalho em sua propriedade?

173
DAS CORES DO SILÊNCIO

Assim, pode-se considerar que é apropria ação dos cativos, nas novas áreas
cafeeiras, que principalmente golpeia o poder moral dos senhores, que se veem
sem recursos para readquiri-lo, uma vez perdidas as condições externas que
legitimavam o recurso à violência. Nesse contexto, as alforrias coletivas, mesmo
quando acionadas, já não terão condições de ser percebidas pelos cativos como
concessão do arbítrio senhorial. Os escravos negociados no tráfico interno
conheciam não apenas a vida e os recursos dos livres, como também mais de
uma experiência de cativeiro e se esforçaram para adequar suas perspectivas,
enquanto cativos, à possibilidade da liberdade, mesmo quando reduzidos ao
trabalho no eito nas grandesplantations. Como tentarei acompanhar na ter­
ceira parte, sem a percepção desse processo não se pode compreender a forma
específica pela qual se encaminhou, finalmente, no caso brasileiro, a resolução
da chamada “questão servil”.

Notas

1 Cf. especialmente, caixa 3.669, n° 2.587. Arquivo Nacional; maço 151, n2 519. Arquivo Nacional;
maço 120, nc 864. Arquivo Nacional e caixa 3.699, n2 1.592, Arquivo Nacional.
2 Cf. cap. 1 da Segunda Parte.
3 Cf. cap. 2 da Primeira Parte.
4 João José Reis, Rebelião escrava no Brasil — A história do levante dos malês, 1835,1986; Stuart
B. Schxvartz, Segredos internos — Engenhos e escravos na sociedade colonial, 1988, cap. 17.
5 Robert W. Slenes, “‘Malungu, ngoma vem!’ África coberta e descoberta no Brasil”, Revista da
USP, n2 12, dez./jan./fev., 1991-1992.
6 Cf. cap. 2 da Segunda Parte.
7 Apud José Antônio Soares de Souza, “Os escravos e a pena de morte no Império”, Revista do
Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Rio de Janeiro, 313, pp. 5-19, out.-dez., 1976. Parecer
do Visconde do Uruguai em 6 de novembro de 1854.
8 Cf., neste sentido, Manoela Carneiro da Cunha, “Sobre os silêncios da lei. Lei costumeira e
positiva nas alforrias de escravos no Brasil do século XIX”, in Antropologia do Brasil — Mito,
história, etnicidade, 1986.
9 Moses Finley, Escravidão antiga e ideologia moderna, 1991.
10 Maria Helena P. T. Machado, Crime e escravidão — Trabalho, luta e resistência nas lavouras
paulistas, 1830-1888, 1987, e Célia Marinho de Azevedo, Onda negra medo branco —
O negro no imaginário das elites. Século XIX, 1987.
11 Documentação judiciária. Corte de Apelação: Escravos. Processos criminais. Caixa 3.682,
n2 2.576. Arquivo Nacional.
12 Ibidem.
13 Documentação judiciária. Corte de Apelação: Escravos. Processos criminais. Caixa 11.103,
n2 88. Arquivo Nacional.
14 Documentação judiciária. Corte de Apelação: Escravos. Caixa 11.041, n2 99. Arquivo Nacional.
15 Apud Maria Helena P. T. Machado, Crime e escravidão..., p. 93.

174
UMA RELAÇÃO PERIGOSA

16
Apud idem, op. cit., p. 118.
17
Apud, idem, op. cit., p. 121.
18
Idem, op. cit., p. 114.
19
Cf., neste sentido, Ronaldo Ideologia e escravidão — Os letrados e a sociedade escravista
no Brasil colonial, 1986, e Célia Marinho de Azevedo, Onda negra medo branco...
20
Cf., entre outros, Silvia H. Lara, Campos da violência — Escravos esenhores na capitania Rio de
Janeiro, 1750-1808,1988, e Stuart B. Schwartz, Segredos internos...
21
O documento foi localizado e analisado pela primeira vez por Stuart Schwartz. Cf. Stuart B.
Schwartz, “Resistence and Accomodation in Eighteenth-Century Brazil: the Slaves ‘ View of
Slavery’”, Hispanic American HistoricalReview, v. 57, n21, Duke University Press, 1977.
22
Apud Eduardo Silva, “Entre Zumbi e Pai João, o escravo que negocia”, in J. J. Reis e Eduardo
Silva, Negociação e conflito — A resistência escrava no Brasil, 1989, p. 123.
23
Documentação judiciária. Corte de Apelação: Escravos. Processos criminais. Caixa 8.598,
n2 3.933. Arquivo Nacional.
24
Ibidem.
25
Ibidem.
26
Ibidem.
27
Documentação judiciária. Corte de Apelação: Escravos. Processos criminais. Caixa 11.103,
n° 88. Arquivo Nacional.
28
Ibidem.
29
Ibidem.
30
Ibidem.
31
Cf. Robert Conrad, Os últimos anos da escravatura no Brasil, 1850-1888,1978.
32
E. P. Thompson, “La economia ‘moral’ de la multitud en la Inglaterra dei siglo XVIII”, in
Tradición, revuelta e consciência de clase — Estúdios sobre la crisis de la sociedad preindustrial,
W79-
33
Documentação judiciária. Corte de Apelação: Escravos. Processos criminais. Caixa 3.700,
n- 3.216. Arquivo Nacional.
34
Ibidem.
35
Ibidem.
36
Ibidem.
37
Ibidem.
38
Ibidem.
39
Documentação judiciária. Corte de Apelação: Escravos. Processos criminais. Caixa 11.041,
na 99. Arquivo Nacional.
40
Ibidem.

175
4

Sobre o poder moral dos senhores

Diz Ana Francisca crioula forra, por cabeça de seu filho José Pedreiro crioulo, que ela
quer fazer citar aos herdeiros do falecido def. Juliao Batista de Sousa Cabral [...] para
na primeira audiência deste juízo falarem aos termos de um libelo civil, em que a supli­
cante pretende mostrar que seu referido filho é forro e liberto, e não deve estar no ca­
tiveiro, em que se acha, dos ditos herdeiros [...] (Campos, 27 de agosto de 1835.)
Pelo que pertence ao agravo de f. 74 ele é merecedor de toda atenção; porquanto se
a qualquer que se pretende dizer forro fosse dado subtrair-se da casa de seu senhor sem
que ao menos prestasse fiança aos jornais, que deixava de prestar, então nada haveria de
mais desmoralizador para a paz e tranquilidade das famílias; pois o exemplo e o bom
sucesso de uns animaria a outros, e afinal em breves audiências nenhum senhor poderia
estar tranquilo sobre a sujeição e obediência dos seus escravos, porque quando se quer
para tudo se encontrara pretextos (agosto de 1838).

Estes são trechos de uma extensa Ação de Liberdade, iniciada em Campos,


no ano de 1835 \ Diante deles, somos tomados de surpresa e dúvida. Surpresa
com o recurso à Justiça, em 1835, por alguém que — segundo os réus — “havia
sido descrita, avaliada e partilhada como cativa” em mais de um inventário,
intitulando-se forra por uma carta de alforria de 1789 e ainda pedindo a liber­
dade de seu filho, que estaria “injustamente reduzido ao cativeiro” Dúvidas
diante da constatação de que, se tal ação era legalmente possível, como se teriam
forjado as condições objetivas para que ela se concretizasse?
Ana Francisca embasava as alegações a favor da liberdade de seu filho numa
carta de alforria, datada de 2 de fevereiro de 1789, na qual havia sido libertada
ainda criança, juntamente com os cativos João e Mariana, casados, e uma se­
gunda criança, chamada Romão, por um dos herdeiros (neto) de seu senhor,
mediante a dedução de seus valores da legítima do libertante. Os demais
herdeiros contestaram na época, entretanto, as avaliações inventariais das duas
crianças (Romão e Ana). Foi registrado em cartório, então, um segundo do­
DAS CORES DO SILÊNCIO

cumento, no qual todos os herdeiros reconheciam a alforria de João e Maria­


na. Quanto às crianças, interpuseram um agravo sobre a liberdade delas, que
foi parar na Suplicação de Lisboa. Segundo Ana, esse agravo teria saído a seu
favor e de Romão, mas os herdeiros nunca o haviam divulgado.
Ana teria continuado a viver, “por costume” e “por ser muito criança”, com
a avó do libertante. Após as segundas núpcias da avó e de seu falecimento, Ana
fora descrita, avaliada e partilhada como cativa, bem como seus filhos, Severo,
Maria e José, nascidos todos após a concessão da carta de alforria alegada e,
portanto, legalmente forros, segundo o libelo cível apresentado por Ana à
Justiça, em 1835. Como Ana, de cativa partilhada, se tornara forra sem contes­
tações? Como, mesmo enquanto forra, conseguira acesso à pessoalizada e
intricada administração judiciária local, impetrando recursos até a Corte de
Apelação?
As alegações interpostas por autores e réus (os herdeiros de Julião Cabral)
esclarecem sobre as alianças tecidas por Ana para ver reconhecida sua posição
de forra e para ter acesso à instância judicial. Já quando da primeira partilha,
na morte da avó do libertante, em 1810, Ana entrara com uma primeira Ação
de Liberdade, por si e seus três filhos, na qual foram todos considerados cati­
vos. Teriam contado, segundo os herdeiros de Julião Cabral, com o apoio de
Joaquim José Nunes, irmão do autor da carta de alforria original. Apesar da
sentença desfavorável, os novos proprietários de Ana e Romão não teriam
conseguido, de fato, reduzi-los ao cativeiro. Ambos morariam, efetivamente
como forros, na fazenda de Joaquim José Nunes, e Romão teria sido, até mes­
mo, nomeado avaliador de obras pela Câmara Municipal. Segundo os réus,
entretanto, se Ana e Romão viviam como livres, era porque seus proprietários
desistiram deles e não os reclamavam como cativos, fosse através da força ou
da competente Ação de Escravidão.
Os filhos de Ana não tiveram a mesma sorte. Dois, pelo menos, estavam
ainda vivos e reduzidos ao cativeiro, em 1835: José e sua irmã Geralda. Há
outra Ação de Liberdade, do mesmo ano, em nome da escrava Geralda, repre­
sentada por seu marido, Amaro Ribeiro, forro e lavrador de roça, também
alegando a condição de liberta de sua sogra, Ana Francisca2. Em ambos
os processos, tanto o juízo local quanto a Corte de Apelação consideraram os
autores escravos, em função das sucessivas avaliações inventariais e da não
apresentação do resultado do agravo a Lisboa, condenando seus representan­
tes (Amaro Ribeiro e Ana Francisca) às respectivas custas.
Esse processo é uma das 380 Ações de Escravidão ou Liberdade que, por
todo o século XIX, pude reunir nas caixas referentes à Corte de Apelação, no

178
SOBRE O PODER MORAL DOS SENHORES

Arquivo Nacional. Eles foram tomados, inicialmente, como os processos


criminais, a partir dos fichários do Arquivo, privilegiando as províncias do Rio
de Janeiro, de São Paulo e de Minas Gerais, procedimento a partir do qual
foram transcritas 11 dessas ações. Num segundo momento da pesquisa, resolvi
completar o levantamento conferindo as caixas que contemplavam maior
número de processos crimes. Esse procedimento, além de enriquecer a coleção
de processos inicialmente reunida para as áreas priorizadas, surpreendeu com
a revelação de um número de todo inusitado de Ações de Liberdade. A partir
desse momento, todas as caixas foram conferidas e todas as Ações de Liber­
dade tiveram um fichamento sumário de seu conteúdo e resultado, bem como
do perfil dos cativos envolvidos.
Como eram as alegações de curadores, advogados e juizes que faziam a
riqueza qualitativa desses documentos, sendo exíguos os depoimentos dos
próprios cativos e de suas testemunhas, percebi que o aprofundamento do
tratamento qualitativo do material me levaria quase a uma nova investigação
(tão longa quanto a primeira). Decidi, então, por hora, limitar-me ao trata­
mento do material nesse nível inicial de agregação. Procurei, entretanto, pelo
menos tentar mapear algumas questões, evidenciadas pelo simples manuseio
daqueles surpreendentes processos. Desse ponto de vista, eles permitiram
formular importantes questões em torno da experiência do cativeiro no sécu­
lo XIX, especialmente em relação às condições objetivas em que se realizava a
autoridade senhorial e também às possibilidades de trânsito da escravidão
à liberdade.
Descobre-se com eles que, pelo menos desde o final do período colonial,
cabia à Justiça, ao menos teoricamente, arbitrar as dúvidas em relação à con­
dição livre ou escrava. Nesse período e até meados do século XIX, como em
quase todos os procedimentos cíveis sob as Ordenações Filipinas3, os fatos
jurídicos que conformavam a condição livre ou cativa eram produzidos, pri­
mariamente, com base em relações costumeiras (socialmente reconhecidas),
sempre tributárias das relações de poder pessoal e de seu equilíbrio. Foi esse
princípio que prevaleceu, tanto na avaliação do inventário de Ana e Romão,
em 1810, quanto no reconhecimento da liberdade de ambos, implícito na
nomeação dele para avaliador da Câmara e na aceitação dela como curadora
de seu filho. No contexto das Ordenações Filipinas, a arbitragem estatal pro­
curava repor o equilíbrio entre as relações de poder, quando estas não se
mostravam em harmonia para definir costumeiramente se alguém era livre ou
escravo. Um remoto alvará, de 10 de março de 1682, não citado no presente
processo, mas retomado com certo impacto na polêmica jurídica sobre escra­

179
DAS CORES DO SILÊNCIO

vidão e liberdade após 1870, quando se tenta (numa clara deformação de seu
sentido) aplicá-lo a escravos fugidos, reconhece explicitamente este fato:

Estando de fato livre o que por direito deve ser escravo, poderá ser demandado pelo
senhor por tempo de cinco anos somente, contado do dia em foi tornado à minha
obediência (isto é, contados da data em que a posse da liberdade houvesse se tornado
pacífica); no fim de qual tempo se entenderá prescrita a ação, por não ser conveniente
ao governo político do dito meu Estado do Brasil, que, por mais do dito tempo, esteja
incerta a liberdade nos que a possuem, não devendo o descuido e a negligência fora
dele aproveitar aos senhores4.

Para ser escravo ou livre era preciso reconhecer-se e ser reconhecido como
tal. Sem o consenso social requerido para vivenciar ambas as condições, os
títulos e documentos faziam-se então necessários, bem como a arbitragem
jurídica da Coroa.
Percebe-se, ainda, que uma família de cativos podia ser sucessivamente
partilhada através das gerações, sem que se rompessem os laços de parentesco
e a rede de ajuda mútua que geravam. Que Ana e Romão fossem filhos de
João e Mariana é uma suposição plausível, reforçada pela informação de que,
à época da alforria, os escravos beneficiados haviam dado “dinheiro por suas
liberdades” ao herdeiro libertante. É difícil imaginar que as duas crianças
dispusessem, sozinhas, desse dinheiro. Ana Francisca teve, ela própria, seus
filhos distribuídos entre vários herdeiros. Desse modo, se a reescravização de
forros, especialmente dos que não deixavam a família de seus ex-senhores,
através do simples procedimento de fazer com que fossem avaliados no in­
ventário, parece ter sido uma prática bastante comum, a memória da ilegiti­
midade do cativeiro mantinha-se, sendo transmitida de geração a geração.
Evidencia-se, ainda, que, também para os escravos, especialmente para os
nascidos no Brasil, relações pessoais horizontais e dependência pessoal se
justapunham e se interinfluenciavam, para possibilitar o trânsito entre escra­
vidão e liberdade.
Numa primeira leitura, a trajetória de Ana e Romão pode parecer um
simples reflexo das desavenças na família senhorial. Sem dúvida, para ela, foram
fundamentais tanto a carta de alforria de um dos netos do senhor quanto,
posteriormente, a proteção de um irmão deste. Esta não parece ter sido, entre­
tanto, uma decisão puramente senhorial. Fossem quais fossem as ocupações
de João e Mariana, eles haviam sido alforriados, ao que tudo indica juntamente
com seus filhos, mediante o pagamento de seu valor a um dos herdeiros do
falecido senhor. Desse modo, a decisão da alforria não pode ser creditada, a

180
SOBRE O PODER MORAL DOS SENHORES

não ser sob o ângulo senhorial, apenas à proximidade com esse herdeiro em
especial, mas também à capacidade dos cativos de pagar o seu valor conforme
a avaliação do inventário.
O acesso à família e essa capacidade não eram variáveis desconexas. Os
estudos sobre cartas de alforria têm evidenciado que os cativos crioulos (nas­
cidos no Brasil) e as mulheres e crianças, em especial, foram majoritariamen­
te seus beneficiários, ao mesmo tempo que afirmam um peso variável, mas
sempre expressivo, das alforrias condicionais e remuneradas5. Também em
relação às Ações de liberdade analisadas, a preeminência dos crioulos sobre os
africanos se evidencia. Eles são 86% dos escravos com a nacionalidade decla­
rada no libelo inicial6. Se há um equilíbrio entre homens e mulheres, enquan­
to autores das Ações, é a necessária menção a uma mulher (mãe, avó ou mesmo
bisavó) que teria sido alforriada, como substrato de muitas das Ações, que
permitiu, em grande parte, que as relações familiares dos cativos ficassem
evidenciadas, ainda no libelo inicial, em 46% dos processos, nomeando 890
pessoas. Desses casos, quando tomados qualitativamente, emerge, com clareza,
que o acesso a relações familiares (mais acessíveis aos crioulos, de uma ma­
neira geral, e às mulheres, em particular) constituía variável tão fundamental
quanto a proximidade com a família senhorial para o acesso à alforria e, fre­
quentemente, se revelava precondição para ela.
E desse modo que ganha sentido a alegada proteção de Joaquim Nunes a
Ana e Romão. Tal proteção se estabelecera por iniciativa de ambos (Ana e
Romão), que, à época do segundo inventário, teriam procurado Joaquim
Nunes para que este garantisse a vontade do irmão. Ana e Romão instalaram-
-se, desde então, nas terras de Joaquim Nunes, onde viveram como pessoas
livres. O casamento da filha de Ana, cativa, com um forro, lavrador de roça
(onde? Em terras de Joaquim Nunes?), reforça ainda mais os elos horizontais
que os colocavam todos sob a proteção do fazendeiro. Sob a proteção de Joa­
quim, eles conseguiram o reconhecimento público de sua condição de forros,
de forma que a Justiça local aceitasse que Ana fosse curadora de seu filho no
processo analisado e que a Câmara Municipal nomeasse o pedreiro Romão
como avaliador de obras.
O recurso da força, a maioria de africanos, a utilização de marcas ou o
isolamento rural predominante fizeram com que esses conflitos, na esfera ju­
rídica, fossem aparentemente raros antes da primeira lei de extinção do tráfico,
que coincide com o fim do Primeiro Reinado. Apenas 32 ações foram locali­
zadas nos arquivos da Corte de Apelação, iniciadas antes de 1831, período no
qual a jurisdição do Tribunal da Relação no Rio de Janeiro abrangia todo o

181
DAS CORES DO SILÊNCIO

Centro-Sul, discutindo a liberdade de 90 cativos. Nessas ações, os cativos


envolvidos eram quase que unanimemente crioulos (3,45% de africanos),
majoritariamente residentes em vilas ou centros urbanos, num amplo raio
geográfico.
Em sua maioria, as ações reclamavam o não cumprimento de alforrias re­
muneradas ou discutiam o valor dos cativos no inventário, para o pagamento
da alforria, conforme havia ocorrido com Ana e Romão, em 1789. Em 16 casos
as ações tomavam, já no libelo, um caráter explicitamente familiar. Especial­
mente nas poucas ações que ocorreram em áreas rurais de Minas Gerais, de
São Paulo e do Rio Grande do Sul, esses processos contam também incríveis
sagas familiares, algumas passando por várias gerações, em que se mantém a
memória do cativeiro ilegítimo de uma mãe, avó ou mesmo bisavó.
Como Felizarda, que, em seu nome e no de seus filhos — Iria, Cosme,
Jacinta e Pizarro —, alega que seus pais, Antônio Bernardo e Ana Crioula,
haviam sido alforriados antes do seu nascimento, na fazenda das Lajes, em São
João dei Rei, onde continuaram a viver. Após a morte dos pais e do alforrian-
te, Felizarda havia sido vendida como escrava. A sentença, confirmada na
Corte de Apelação, considerou escravos Felizarda e seus filhos7. Ou ainda,
Floriano e João, filhos de Isabel Crioula e netos de Euzébia, que, juntamente
com Felizardo e Cornélio, filhos de Maria crioula e netos de Custódia, todos
moradores na fazenda do Sangue, também em São João dei Rei, alegam que,
tendo nascidos quando suas mães, libertas, já haviam cumprido a condição de
prestar serviços por mais dez anos, não poderíam ter sido batizados como
escravos. Em 1838, a Corte de Apelação, reformando a sentença original,
concedeu liberdade aos apelantes8. Ou ainda, José Preto e Gertrudes, que, por
si, seus filhos e netos, alegam em Santo Antônio da Patrulha, no Rio Grande
do Sul, que eram libertos condicionais (até a morte do senhor) desde 1786, e
seus filhos, livres. Com a morte do alforriante, em 1799, sua filha teria tomado
posse dos bens, deixando de respeitar a carta de alforria. Já haviam entrado
com uma ação em 1816, julgada favoravelmente, mas a ré apelou e nunca se
soube o resultado final. Neste segundo processo, em 1819, finalmente toda a
família tem sua liberdade reconhecida pela Corte de Apelação9. Há ainda o
caso dos seis irmãos que, numa fazenda em Itu (São Paulo), alegam ser bisne­
tos de Teresa da Conceição, índia goianá, e de Joaquim Moreira, português.
Alegam, ainda, que sua avó se casara com um escravo africano e que o senhor
de seu avô havia batizado sua mãe, bem como eles próprios, ilegalmente, como
escravos. A sentença, reafirmando a condição cativa, é confirmada na Corte
de Apelação10. Ainda, Cecília crioula, liberta sob a condição de servir por 12

182
SOBRE O PODER MORAL DOS SENHORES

anos ao viúvo de sua ex-senhora, questiona judicialmente a continuidade de


seu cativeiro após o prazo estipulado, bem como a escravização ilegal de seus
filhos e netos. Viva e de posse de sua carta de alforria, Cecília é vitoriosa em
primeira instância e na Corte de Apelação11.
Nem sempre, nos processos, ficam evidenciadas as condições favoráveis
que permitiram a esses cativos o acesso a um advogado e a um processo na
Justiça, como no caso de Ana Francisca. As relações entre laços familiares
horizontais no cativeiro c o acesso a essas alianças, porém, parecem-me sobe-
jamente sugeridas, pelo menos em relação ao mundo rural. As sentenças finais,
favoráveis ou não às aspirações de liberdade dos cativos, parecem ter se pau­
tado, antes de tudo, pela capacidade das partes de produzir documentos em
relação a suas alegações. Uma carta de alforria nunca questionada ou revogada
podia ser decisiva no Tribunal da Relação, bem como uma sucessão, por mais
de uma geração, de batismos como escravos de um mesmo senhor. As decisões
nos tribunais locais parecem ter sido mais permeáveis às pressões dos réus e
patronos dos autores, tendo em vista o número de casos com a sentença mo­
dificada na Corte de Apelação (25,26%). Em termos gerais, as ações anteriores
a 1831 decidiram-se, em segunda instância, favoravelmente à liberdade em dois
terços dos casos arrolados. Durante o processo, que durava longos anos, os
cativos ficavam depositados com um curador e, portanto, fora do poder de
seus senhores. Mesmo com sentenças desfavoráveis e o recurso à violência, o
restabelecimento da autoridade senhorial tornava-se difícil nesse contexto.
As condições de tecer essas alianças eram estruturalmente limitadas na
primeira metade do século XIX, e é difícil precisar até que ponto a conturba­
da conjuntura da emancipação política interagiu com a possibilidade desses
processos, ou se eles são apenas a continuidade de uma prática, sem dúvida
restrita, mas que remonta ao período colonial. Os 32 processos que chegaram
à segunda instância e foram conservados nos arquivos da Corte dc Apelação
fazem emergir, porém, uma situação necessariamente mais comum que as
condições objetivas de se desdobrarem em procedimentos legais: o trânsito
da escravidão à liberdade. Iluminam, em especial, as tensões entre arbítrio e
legitimidade do poder senhorial para os cativos nascidos no Brasil e/ou com
vastas redes de relações familiares e comunitárias no cativeiro e, frequente­
mente, também fora dele.
Apesar das abundantes evidências da prática de escravização ilegal, é o
trânsito da escravidão à liberdade e não o contrário que sugere uma especifi­
cidade do período analisado. Isso porque, em nenhum caso, os autores haviam,
de fato, nascido ou vivido como livres até o recurso à Justiça, mesmo que

183
DAS CORES DO SILÊNCIO

alegassem que sua bisavó o fizera. Ana Francisca, que vivia como livre, era
curadora de seu filho, ele sim autor no processo analisado, e não teve em ne­
nhum momento sua condição em julgamento.
O peso dos laços familiares horizontais, como capital social básico para
que se forjassem condições para o acesso à Justiça e para a manutenção da
memória familiar da escravidão ilegal, emerge com força da leitura das ações
do período, desde os primeiros parágrafos do libelo cível, como no trecho a
seguir, que abria o libelo de um processo em que dez cativos pediam por sua
liberdade, em Vitória (ES), 1830: “Dizem os autores serem descendentes (ne­
tos, bisnetos e tataranetos) de Patrícia, livre, exposta em casa de Simão do
Couto, e batizada como tal”12.
Após 1830, com a estruturação legal da rede judiciária imperial, numa
conjuntura extremamente desfavorável aos cativos, com a aprovação da
lei de 1835, as Ações de Liberdade mais que duplicam seu número na Corte
de Apelação. Apesar de se manter no período a jurisdição do Tribunal da
Relação, a cidade do Rio de Janeiro e as vilas e cidades das províncias escravis­
tas do Sudeste (especialmente Rio de Janeiro e Minas Gerais) são agora seu
locus privilegiado. Entre 1831 e 1850, foram localizadas 77 ações nos arquivos
da Corte de Apelação, envolvendo 161 cativos.
O perfil dessas ações continuou basicamente o mesmo do período anterior.
Os autores continuavam majoritariamente crioulos (80%). Trinta e cinco
processos mencionavam relações familiares no libelo inicial. Dentre eles, oito
pleiteavam a liberdade de 31 cativos residentes em áreas rurais (menção a fa­
zendas ou sírios). Os demais indicadores da amostra parecem apontar, entre­
tanto, para uma conjuntura desfavorável às aspirações dos escravos envolvidos,
em relação ao período anterior. O aumento do número de ações pode ser ex­
plicado não só pelo crescimento muito mais incisivo do número de escravos
na região; torna-se também menos significativo, quando se descobre que 21%
desses processos configuravam, antes, “Ações de escravidão”, que procuravam
recuperar para o cativeiro indivíduos que até então viviam efetivamente como
livres. É significativo que se precisasse, mesmo que em tão poucos casos, re­
correr à Justiça para tanto, mas a tendência geral do período (do ponto de
vista jurídico) parece ter sido de privilegiar a noção de "direito de propriedade”,
fundamental para a prática jurídica do novo Estado que se tentava fundar em
termos positivos. Este é o único período em que as sentenças finais no Tribu­
nal da Relação se fazem majoritariamente (61,29%) contrárias à liberdade.
Entre 1850 e a aprovação da lei do Ventre Livre, os números da amostra
quase triplicam (194 processos), num momento em que decrescia em todo o

184
SOBRE O PODER MORAL DOS SENHORES

Império o número de escravos, envolvendo agora 736 cativos. Esse cresci­


mento pode ser creditado a uma progressiva participação de escravos rurais
nos processos. Pleiteia-se a liberdade de cativos rurais (residentes em sítios
ou fazendas) em 68,97% dos processos nas províncias do Rio de Janeiro, de
Minas Gerais e de São Paulo. Cento e duas ações mencionaram relações fa­
miliares nos libelos iniciais e apenas 8,05% dos autores foram identificados
como africanos.
Não importa que os números ainda sejam pequenos, mas antes o impres­
sionante alargamento do arco geográfico das ações, principalmente em direção
aos municípios rurais do Vale do Paraíba, no Rio de Janeiro como em São
Paulo. Pela primeira vez os escravos rurais se fazem majoritários na amostra
levantada. Configura-se também um acentuado equilíbrio entre as sentenças
finais de escravidão e liberdade, com leve predomínio da segunda (55,8%).
As ações individuais resultantes da iniciativa dos próprios cativos — que
fugiam ou acionavam suas relações pessoais com os homens livres para darem
entrada na Ação de liberdade— continuaram concentradas nas vilas e cidades,
especialmente na Corte.
As ações familiares e agora também as coletivas predominavam no mundo
rural, revelando contextos distintos. Por um lado, a antiga situação de trân­
sito familiar da escravidão à liberdade voltava a produzir recursos sociais para
questionar as frequentes reescravizações ilegais que acompanhavam o proces­
so. Predominavam, agora, entretanto, nas áreas rurais, processos de “manu­
tenção de liberdade”, majoritariamente de caráter familiar, sugerindo que a
iniciativa legal não apenas alcançava no período um questionamento a poste-
riori da escravização ilegal (como nas primeiras décadas do século), mas
também se habilitava a tentar resistir contemporaneamente a ela. Por outro
lado, especialmente nos casos das ações coletivas, a crescente deslegitimação
da instituição escravista e seus desdobramentos na consciência jurídica do
período parecem ter facilitado o acesso (ou até mesmo o assédio) de curadores
aptos a defender as vítimas do cativeiro ilegal. Em 1870, uma Ação de liber­
dade, alegando carta de alforria condicional dos 298 escravos do comendador
Manuel Joaquim Ferreira Neto, em várias fazendas em Campinas e Amparo
(SP), tinha por curador o abolicionista Luís Gama13. Num exemplo menos
contundentemente abolicionista, 32 escravos de eito, em Barra Mansa, forma­
dos basicamente por casais de africanos e seus filhos, para os quais seu senhor,
sem herdeiros diretos, passara uma carta de alforria condicional, posterior­
mente anulada em testamento, tiveram uma Ação de liberdade iniciada (e
vencida), em 1869, pelo empenho de um desafeto político daqueles que, após

185
DAS CORES DO SILENCIO

a morte do alforriante, em pagamento das dívidas do inventário, se tornaram


seu senhores14.
A retórica jurídica nas Ações de liberdade confundia-se com o costume e
com as próprias relações de poder nas primeiras décadas do século. Concedia-
-se, teoricamente, um enorme poder arbitrai às instâncias judiciárias, especial­
mente diante do princípio mais geral atinente à questão, presente nas Orde­
nações Filipinas, que afirmava serem maiores as razões da liberdade sobre a
escravidão15. Na dúvida, vencería a liberdade, num contexto, entretanto, em
que as dúvidas eram raras. A legislação colonial previa, para arbitrar essas
questões, além das Ordenações, também o Direito Romano, nos casos omissos.
No plano teórico, entretanto (mesmo que já relativamente alterado em finais
do século XVIII e, especialmente, nas primeiras décadas do século XIX), o
arcabouço ideológico sobre o qual essas possibilidades se abriam não previa
como direito absoluto ou natural nem a liberdade nem a propriedade.
Na fase de consolidação política do novo Estado, baseado num arcabouço
jurídico liberal, a liberdade e a propriedade, entendidas como direitos naturais,
se tornariam de forma definitiva o substrato teórico que embasaria, daí por
diante, a resolução jurídica da questão16. A tendência progressiva nas peças
jurídicas (argumentos de curadores, advogados dos réus e juizes) é por uma
extensa garimpagem nas ordenações, nos alvarás régios e principalmente no
Direito Romano, que passariam a ser lidos dentro daquelas diretrizes fixadas
pela Constituição, em busca de um quadro positivo que norteasse a atuação
judicial.
E o caso do processo a seguir, no qual o curador, para defender o princípio
de que os cativos teriam se tornado livres no momento de concessão da carta
de alforria que, mesmo condicional, não poderia mais ser revogada, afirma:

O indivíduo, pois, a quem foi concedida a liberdade, não pode mais voltar à escra­
vidão. Pela manumissão torna-se cidadão, e o cidadão não pode perder, em face do
artigo 7 da Constituição este direito, senão nos três seguintes casos: l2 naturalização
empais estrangeiro; 22 aceitação sem licença do Imperador de emprego, condecoração
ou pensão de qualquer governo estrangeiro; 32 banimento por sentença.
Fora destes 3 casos não se pode mais perder este direito uma vez adquirido. É, pois,
certo que a Constituição não admite que o liberto tornado cidadão, possa voltar ao
cativeiro17.

Esta era uma argumentação ousada, que se apoiava, entretanto, em duas


longas controvérsias entre os mais eminentes juristas do tempo.

186
SOBRE O PODER MORAL DOS SENHORES

Tanto as Ordenações Filipinas quanto o Direito Romano previam a pos­


sibilidade de revogação das alforrias por ingratidão. Ou seja, neles a relação
entre o senhor e o escravo era mais que uma simples relação de propriedade —
que se desfazia com a abdicação ou indenização desta. Pressupunha deveres
de fidelidade e lealdade pessoais, que se perpetuavam mesmo após a alforria,
ainda que tais sentimentos fossem incondicionais e onerosos. Talvez devesse
ser óbvio, desde o momento em que a Constituição consagrou a liberdade
como um direito natural, só tolerando a escravidão enquanto uma herança do
período anterior em nome do direito de propriedade, que essa concepção da
relação senhor-escravo ficasse imediatamente revogada. Não foi.
É verdade que, na década de 186o, o prestígio jurídico de Perdigão Malhei-
ros sustentava sua revogação18. Teixeira de Freitas, entretanto, só a considera­
va correta em relação aos crioulos, mas não aos africanos, que não se tornavam
cidadãos brasileiros19. Antônio Pereira Rebouças argumentava que, se os li­
bertos ganhavam a condição de cidadãos com a alforria, perdiam-na, quando
legalmente perdiam também “a indispensável qualidade de liberto, e por
causa de qualificada ingratidão com seu libertante”20. Trigo de Loureiro já
argumentava que Perdigão Malheiros estava correto em relação aos crioulos
(que se tornavam cidadãos brasileiros) e aos africanos (uma vez que o Código
Criminal previa como crime reduzir à escravidão pessoa livre), mas não em
relação aos libertos imperfeitos (ou condicionais), que só se tornariam livres
após cumprida a condição21. Exatamente esse era o caso de nosso processo e
aqui estava uma segunda polêmica a ser enfrentada.
Novamente, na década de 186o, encontravam-se divididos os juristas.
Teixeira de Freitas considerava que, durante a vigência da condição, o escravo
continuava o que sempre fora: um escravo. Não pensava assim, entretanto,
quase a unanimidade dos membros do Instituto dos Advogados Brasileiros,
em 1859, os quais, ao assumirem institucionalmente a doutrina oposta, levaram
à renúncia o autor da Consolidação das leis civis. Mesmo assim, estavam ain­
da (em sua maioria) divididos. Viam todos a “condição” de modo análogo às
obrigações de prestação de serviços por um colono. Ela adiaria o gozo da li­
berdade, mas não a suprimiría. Faziam ainda reviver do Direito Romano a
figura do statuliber e seus “direitos” na fase cristã do Império. Mas o filho da
cativa statuliber era também statuliber e, portanto, também obrigado aos
serviços da mãe ? Ou já nasceria livre de qualquer ônus ou serviço ? Esta segun­
da posição foi majoritária e seria encampada por Perdigão Malheiros, em seu
ensaio histórico-jurídico sobre a escravidão no Brasil.

187
DAS CORES DO SILÊNCIO

Perdidos nos labirintos dessa retórica jurídica, parece improvável que tão
bizarra discussão pudesse afetar de fato a vida de qualquer escravo. Mas, se
voltarmos a Barra Mansa, em 1869, perceberemos que o Direito de Proprie­
dade, a Ordenação L. 4, Tit. 63 (das Doações e alforria, que se podem revogar
por causa de ingratidãoJ e a doutrina de Teixeira de Freitas sobre a liberdade
condicional estão todas lá, nos argumentos dos advogados dos réus. Desco­
brimos que o juiz de primeira instância acatou apenas em parte os argumentos
do curador (sobre a irrevogabilidade da liberdade) e proferiu sua sentença
segundo a posição minoritária do Instituto dos Advogados (considerando
livres apenas os cativos diretamente alforriados e seus filhos nascidos após o
cumprimento da condição — a morte do senhor). E que a Relação do Rio de
Janeiro em segunda e última instância (foi negado o pedido de revista civil)
libertou também os filhos dos libertos, nascidos entre a data da carta da alfor­
ria e a morte do senhor, seguindo parecer do relator do processo, o próprio
Perdigão Malheiros.
De fato, toda essa retórica fez com que cerca de cinco famílias de cativos,
adquiridos havia oito anos como parte integrante da fazenda em que tra­
balhavam, por pagamento de dívidas do espólio do ex-senhor, pela firma
Oliveira & Irmão, se tornassem livres de pleno direito.
Nesse processo, o monopólio da fala é todo da Justiça, pelo curador, pelo
advogado dos réus e pelos juizes do processo. O interrogatório dos cativos é
limitado a algumas perguntas, feitas pelo curador, sobre o destino dos alfor­
riados e os maus-tratos do administrador, e outras, formuladas pelo advogado
dos réus, sobre um suposto levante dos escravos, que teria motivado a revoga­
ção da carta de alforria no testamento. Apenas Quinto, casado com Joaquina
Benguela, e pai de quatro filhos, dois dos quais eram vivos, e que se apresenta
como líder do grupo, se estende em seu depoimento, fornecendo informações
precisas ao juiz, que permitiram localizar todos os forros sobreviventes, bem
como seus filhos, nas várias fazendas da firma Oliveira & Irmão.
Algumas constantes nos depoimentos dos cativos, entretanto, merecem
relevo. Perguntados diretamente sobre um possível “mau tratamento” por
parte do novo administrador, respondiam todos, afirmando que não lhes
faltavam roupa, comida ou hospital e que nenhum deles havia morrido por
excesso de castigos. A partir daí narravam, cada um à sua maneira, as mudan­
ças em sua rotina na fazenda, após a venda dela, ou desde que, com seu senhor
ainda vivo, o padre Tomaz lhes contara que haviam sido alforriados. As mães
declaram que vários de seus filhos haviam falecido por moléstias, como “febres”
e “sarampos”, uns antes, outros depois da morte do senhor. Ressalvavam, en­

188
SOBRE O PODER MORAL DOS SENHORES

tretanto, que o novo administrador as castigava com açoites ou palmatória a


cada filho que perdiam, suspeitando de envenenamento ou negligência22.
Outros declararam que só eram surrados quando não cumpriam suas cotas
nos cafezais. Ao mesmo tempo, esclareciam que quase nunca o faziam23.
Quinto enfatizou a retirada dos dias santos e do serão aos domingos — que
prejudicara suas roças —, bem como a quebra de suas espingardas para caçar
passarinhos, ainda pelo antigo senhor, após as inconfidências do padre Tomaz.
Podemos pensar que seus depoimentos teriam sido instruídos, visto que se
encontravam todos os depoentes depositados com o curador. Este, entretanto,
pareceu querer sugerir em suas perguntas que as mortes das crianças teriam
sido causadas pelo tratamento que lhes era dispensado pelo administrador.
Todos os cativos frustram esse intento, garantindo que nenhum deles morre­
ra por excesso de castigos, que a morte das crianças não se concentrava no
período posterior à venda da fazenda e, mesmo, que o administrador nunca
agira além das prerrogativas inerentes à sua condição de representante senho­
rial. Dava-lhes comida e roupa e garantia-lhes hospital nas enfermidades. É
impressionante a clareza com que negam o “mau tratamento”, baseados numa
estrita concepção de cativeiro e das obrigações senhoriais que, mais frequen­
temente, apareciam nos processos defendidos pelo advogados dos réus:

O escravo é um ente privado dos direitos civis; não tem o de propriedade, o de li­
berdade individual, o de honra e reputação; todo o seu direito como criatura humana
reduz-se ao da conservação da vida e da integridade do seu corpo; e só quando o senhor
atenta quanto este direito é que incorre em crime punível. Não há crime sem violação
de um direito24.

Antes que contraditórios, seus depoimentos parecem enfatizar que, desde


que se descobriram alforriados, haviam sido tratados única e integralmente
como escravos, perdendo todos os espaços de autonomia que antes, a duras
penas, haviam conquistado. Suas queixas não se reportavam a um “mau cati­
veiro”, mas a um cativeiro ilegítimo. Ao final, seu grau de participação para o
deslanche de todo o processo permanece bastante ambíguo. Não deixa de ser
sugestiva, entretanto, uma das respostas de Quinto:

Perguntado mais o que fizeram eles após a vinda de seu senhor de Portugal, e se
não tinham sabido por ouvir dizer a alguém, que estavam outra vez cativos, respondeu
que se conservaram quietos, não só por ignorarem isto, como porque estavam con­
vencidos de sua liberdade, e esperavam que alguém um dia os ajudasse a realizá-la.

189
DAS CORES DO SILÊNCIO

Na verdade, desde o período de emancipação política, certas ondas de Ações


de liberdade, com sentenças contraditórias, forçaram instâncias superiores a
emitir pareceres que criassem jurisprudência que pudesse balizar seus resulta­
dos finais.
Manoela Carneiro da Cunha25, em levantamento da legislação existente
sobre um possível direito do escravo à alforria remunerada, identifica uma
conjuntura favorável à liberdade em alguns avisos do Ministério da Justiça,
dos anos de 1830 e 1831, depois revertida, nos anos 1850, por outro aviso da
Sessão de Justiça do Conselho de Estado (nfi 388,1855), que negava o direito
de alforria ao cativo, mesmo remunerada, em nome do direito de propriedade.
A autora focaliza a polêmica jurídica, para dela concluir que seus efeitos
sociais eram nulos e que nunca existiu, antes de 1871, uma lei que expressa­
mente afirmasse esse direito ao escravo, ao contrário do que por longo tempo
se afirmara, baseado em observações de Henry Koster26.
Se é verdade que uma lei assim explícita não existiu antes de 1871, é verda­
de também que as Ordenações Filipinas, em seu espírito, permitiam sancionar
práticas costumeiras em nome “das mais fortes razões da liberdade”. Princi­
palmente, porém, na primeira metade do século XIX, os resultados sociais
dessa polêmica podem ter sido restritos, mas não nulos. As Ações de liber­
dade, alegando pecúlio para compra de alforria, são uma constante na amostra
considerada até 1870, respondendo por cerca de 10% delas em cada período
considerado, com uma tendência de queda desde o final do Primeiro Reinado
(13% até 1831,10% entre 1831 e 1850, 9% entre 1850 e 1871). Prevaleceram, no
primeiro período, antecedendo os avisos de 1830 e 1831, julgamentos em se­
gunda instância favoráveis à liberdade, que se faziam em nome do costume e
das “mais fortes razões da liberdade”, previstas “em lei”. Posteriormente a esses
avisos, apesar de sua vigência, as sentenças contrárias à liberdade tenderam a
se avolumar, até prevalecerem definitivamente após o aviso de 1855. Não se
pode esquecer que esse foi um dos pontos mais polêmicos da lei do Ventre
Livre, colocando-se contra ele o próprio Perdigão Malheiros27.
Na segunda metade do século XIX, essa estranha aproximação entre advo­
gados e escravos, aproveitando-se de brechas da jurisprudência em vigor, se
faz ainda mais incisiva. Esse foi o caso das ações que alegavam a liberdade
dos cativos, levados por seus senhores ao Estado do Uruguai, especialmente
em Jaguarão (Rio Grande do Sul), na década de 1850, baseadas na lei de ex­
tinção do tráfico de 1831, que declarava livres os escravos vindos do estran­
geiro ao Brasil a partir daquela data. As sentenças contraditórias foram mi­
noradas com a aprovação do aviso 188, do ministro da Justiça, em 10 de maio

190
SOBRE O PODER MORAL DOS SENHORES

de 1856, favorável à liberdade, tendo em vista a lei de 1831 e os tratados inter­


nacionais com o Uruguai, que tendeu a partir daí a predominar, pelo menos,
em segunda instância28.
Segundo Nequete29, um surto quantitativamente mais expressivo aconteceu
na Corte, já após a lei de 1871, em que cerca de 1.600 processos se basearam
no Direito Romano para postular livres as cativas levadas à prostituição por
seus senhores. Seus resultados contraditórios, na dependência dos juizes que
os consideravam (729 casos com resultados favoráveis à liberdade, em primeira
instância), levou o Supremo Tribunal de Justiça a firmar jurisprudência em
nome do direito de propriedade e da improcedência das ações. Essas ações
teriam, ainda, se disseminado a partir de uma série de artigos publicados
no Jornal do Commercio por um advogado sem maior notoriedade no movi­
mento abolicionista dos anos posteriores, o doutor Peçanha Póvoa. As pri­
meiras ações e sentenças favoráveis são, entretanto, anteriores a seus artigos30.
Essas possibilidades jurídicas de alforria foram obviamente produtos de
uma consciência antiescravagista, que precede o movimento abolicionista
propriamente dito c que se preocupava em garimpar c embasar juridicamente
essas possibilidades, bem como se dispunha a representar os cativos contem­
plados. Parece-me significativa sua concentração em determinados períodos
e áreas geográficas. Podemos arrolar aqui também a concentração dè “manu­
tenções de liberdade” no mundo rural do Sudeste, após 1850, que causaram,
entretanto, menos polêmica jurídica, por se aterem, estritamente, à indefen­
sável escravidão ilegal.
Não se pode deixar de relacionar tais surtos também a uma resposta rápida
e ativa dos próprios escravos às novas possibilidades de aliança e de perspec­
tivas de alforria que se apresentavam.
Deixo de comentar mais detidamente as ações posteriores à lei do Ventre
Livre, visto que, na década de 1870, a jurisdição da Relação da Corte se res­
tringe praticamente à província do Rio de Janeiro31 e as Ações de Liberdade
se tornam sumárias, por força de lei, com apelação compulsória apenas nos
casos de sentenças desfavoráveis à liberdade32. Isso as tornou mais raras na
Corte de Apelação e majoritariamente referidas a sentenças contrárias à liber­
dade, em primeira instância, o que se evidencia, na amostra, na brusca dimi­
nuição do número de ações e na volta da tendência de as sentenças se firmarem
contrariamente à liberdade (ver gráficos a seguir). Das 1.604 ações referentes
à prostituição escrava na Corte de que se tem notícia, somente dez se fizeram
representar nos documentos da Corte de Segunda Instância. Mesmo que se
possa argumentar que boa parte dos processos julgados pela Relação do Rio

191
DAS CORES DO SILÊNCIO

de Janeiro provavelmente tenha se perdido ou extraviado antes de ser reco­


lhida ao Arquivo Nacional, devem-se considerar esses números como um
parâmetro aproximado daquela defasagem.

Gráfico 15 - Ações de liberdade: número por período

Gráfico 16 - Ações de liberdade: sentenças por período

Gráfico 17 - Ações de liberdade: distribuição regional por período

192
SOBRE O PODER MORAL DOS SENHORES

Gráfico 18 - Ações de liberdade: tipo de alegação por período

a** carta alf


■ man esc
■ man lib
■ asc livre
□ pecúlio
outras

até 1831

Gráfico 19 - Ações de liberdade: tipo de alegação por região (até 1831)

Gráfico 20 - Ações de liberdade: tipo de alegação por região (1832-1850)

193
DAS CORES DO SILENCIO

Gráfico 21 - Ações de liberdade: alegações por região (1851-1870)

Gráfico 22 - Ações de liberdade: Sudeste

□ SE: vila/cidades

Gráfico 23 - Ações de liberdade: relações familiares nos libelos iniciais

194
SOBRE O PODER MORAL DOS SENHORES

Gráfico 24 - Ações de liberdade: escravos segundo a origem

Gráfico 25 - Ações de liberdade: escravos segundo o sexo

4
Total: 1.206 escravos
| homens: 52,62%
H I mulheres: 46,38%

Chalhoub33 colocou pioneiramente em relevo a importância das Ações de


Liberdade para a compreensão do papel do Estado imperial e dos próprios
cativos no comprometimento da política de domínio que, até então, conferia
legitimidade à dominação escravista. Tomadas as Ações de Liberdade de uma
perspectiva cronológica e espacial mais ampla, parece confirmar-se o ponto
central de seu argumento, mesmo que a proliferação de advogados, dispostos
a atuar como curadores nos processos até em recônditas áreas rurais, esteja a
merecer uma investigação mais aprofundada34. Na segunda metade do século
XIX, a pressão tradicional pelo trânsito da escravidão à liberdade extravasava
os limites do poder privado dos senhores e se fazia presente nos tribunais,
questionando judicialmente os limites e a legitimidade daquele poder. Como

195
DAS CORES DO SILÊNCIO

o recurso à violência por parte dos senhores, essa possibilidade não precisava
ser generalizada, bastava seu caráter exemplar para comprometer na medula
o exercício daquela autoridade.
Uma aproximação com a experiência da liberdade, no interior do cativeiro,
e a miragem da alforria foram moedas sabiamente administradas pelos senho­
res no reforço de sua ascendência moral sobre os cativos. Os limites dessa
administração podiam revelar-se, entretanto, bastante perigosos. E tornaram-
-se cada vez mais estreitos ao longo da segunda metade do século XIX.
As Ações de Liberdade do arquivo da Corte de Apelação, examinadas em
conjunto, colocam dois tipos de questão ao historiador. Em geral com poucas
testemunhas arroladas, curadores, advogados e juizes são os principais agentes
a “falar” nos processos. Discutem as fronteiras legais entre escravidão e liber­
dade e, portanto, o arcabouço jurídico que emprestava legitimidade à escra­
vidão, como também as prerrogativas da liberdade. Sinalizam para um campo
na relação senhor-escravo aberto à interferência estatal desde, pelo menos, o
final do período colonial. Sua análise, bem como a do arcabouço legal em
que as partes buscavam apoiar-se, desenha como que um roteiro dos conflitos
e das contradições cm que se debateu o Estado imperial em sua pretensão
de gerar um direito positivo e constituir uma noção de direitos civis, reco­
nhecidos a toda a população livre na Constituição imperial, numa sociedade
escravista.
No final do período colonial, mesmo que de fato a incidência dos proces­
sos fosse quase inexpressiva, a inexistência de uma concepção plena de pro­
priedade permitia um nível de interferência da Coroa na relação senhor-es­
cravo bastante ampliado, que se fazia em nome do costume. Dois processos,
julgados antes de 1824, dão bem a medida da possibilidade teórica dessa inter­
ferência. Nos dois, os escravos alegam excesso de castigos, pedindo, num deles,
a liberdade e, no outro, a escolha de um novo senhor. Nessa ação de “escolha
de cativeiro”, o senhor é obrigado a vender o escravo suplicante (Salvador,
1824)35. No segundo caso, o cativo consegue, em primeira instância, sentença
favorável à liberdade — depois modificada no Tribunal da Relação —, que
obriga, entretanto, o senhor a vendê-lo (Vitória, 1823)36. Em sentido contrário,
a possibilidade da revogação das alforrias por ingratidão, mesmo quando in­
condicionais, respondem ao mesmo princípio básico, que não percebia nem
a liberdade nem a propriedade como direitos absolutos, mas condicionava-os
aos costumes e ao arbítrio da Coroa, numa sociedade entendida como “natu­
ralmente”. desigual, sobre a qual o rei deveria garantir a ordem e o bem comum.

196
SOBRE O PODER MORAL DOS SENHORES

No contexto jurídico e cultural das Ordenações Filipinas, a liberdade não


era um direito natural, mesmo que suas razões fossem sempre superiores, mas,
antes, resultado da interferência direta da Coroa sobre relações costumeiras
de poder. Nesse contexto, não cabem distinções estanques entre costumes e
lei (positiva)37. A lei escrita existia para arbitrar relações costumeiras (ou de
poder) conflituosas. Na ausência de conflito, não se cogitava sobre a aplicação
da lei. As Ordenações Filipinas, em seu espírito, não são regras gerais a nortear
ou regular o funcionamento da sociedade, mas um conjunto de normas que
possibilitasse a arbitragem real em prol “do bem comum”. Eram um conjunto
de normas escritas, mas não positivas, no sentido iluminista ou liberal. Não
visavam ordenar a realidade, mas apenas produzir meios à Coroa para arbitrar-
-lhes os conflitos, a partir de uma lógica patrimonial. Toda propriedade, posse,
poder ou direito era, em última instância, uma outorga da autoridade real.
As pretensões liberais da Constituição imperial, garantindo o direito de
propriedade e os direitos civis de todos os cidadãos, sem sequer mencionar a
existência de escravos, traria uma tendência progressiva a estabelecer, na forma
do direito positivo, tanto os direitos de propriedade dos senhores de escravos
como as condições legais de trânsito entre a escravidão e a liberdade, entendi­
da agora como direito “natural”, que a herança colonial e o princípio do direi­
to de propriedade (também natural) impediam de se realizar.
Seu primeiro efeito, de fato, foi limitar teoricamente a área de interferência
possível da Coroa na relação senhor-escravo, ao mesmo tempo que as possi­
bilidades de efetivação dessa interferência se ampliavam. É em resposta a esse
crescente dilema que surge, na década de 186o, um intenso debate jurídico
sobre a escravidão, do qual o estudo histórico-jurídico de Perdigão Malheiros
emerge como a maior expressão. Buscam-se avidamente jurisprudências defi­
nidas para questões cruciais a ambos os temas (a liberdade e a propriedade),
como a situação civil do filho da liberta condicional (que acaba definida a
favor da liberdade) ou o direito do escravo ao pecúlio e à compra de sua própria
liberdade à revelia da vontade do senhor, definido na década de 1850 contra o
direito do escravo, em nome do direito de propriedade, até a lei do Ventre
Livre defini-lo positivamente como direito (para o escravo). Até que se firmas­
sem essas jurisprudências ou novas leis fossem promulgadas, as decisões judi­
ciais eram extremamente variadas, no que se refere a ambas as questões.
A escravidão foi um regime social que se coadunava bem com o espírito
patrimonial e tradicional das Ordenações Filipinas e muito mal com uma
tendência progressiva à positivização da lei. As questões jurídicas se tornam
cruciais para as elites imperiais, não apenas pelo torturante conflito entre dois

197
DAS CORES DO SILÊNCIO

direitos agora entendidos como naturais (a propriedade e a liberdade). As


tensões tradicionais entre senhores e seus escravos, que tendiam a se resolver
no campo do costumeiro (e, portanto, de relações privadas de poder), trans­
bordavam de forma progressiva para a esfera do poder público, num contexto
ideológico que não tornava mais possível a tradicional e limitada arbitragem
em nome do bem comum.
Os cativos, especialmente os nascidos no Brasil, possuíam um largo apren­
dizado de uma política de negociação, desenvolvida no campo dos costumes
e do poder privado dos senhores. Se, em linhas gerais, a possibilidade dessa
política representou para os senhores uma forma de produzir fidelidades e
potencializar sua autoridade entre os cativos, para os escravos ela buscou pri­
mordialmente a miragem da alforria. Os níveis de frustração dessas expecta­
tivas que os senhores podiam produzir estiveram condicionados a um cálculo
dos riscos de insubordinação que aquela frustração poderia gerar. Do ponto
de vista senhorial, entretanto, a pressão por esse trânsito deveria estar muito
bem regulada, o que, de certa maneira, era facilitado pelo constante incremen­
to de novos cativos africanos até a extinção do tráfico e pelas limitações à
mobilidade espacial dos libertos em diversos contextos, transformando-os em
dependentes e sujeitando seus descendentes frequentemente à reescravização.
Esse aprendizado de negociação e pressão dos cativos, no contexto da segunda
metade do Oitocentos, começa a tornar-se explosivo. Não há mais novos es­
cravos vindos da África; teoricamente, isso devia levar a uma redução dos
níveis de alforria, mas isso não acontece. Ao contrário, eles tendem a crescer,
de acordo com os estudos disponíveis38. A margem de manobra senhorial em
relação aos cativos que se habilitavam a comprar suas alforrias torna-se cada
vez mais reduzida. Os acordos para que os cativos trabalhassem por conta
própria nas vilas e cidades, mediante um pagamento fixo ao senhor para a
compra da liberdade, multiplicam-se39. Estratagemas senhoriais para continuar
explorando o trabalho cativo ? Talvez. Mas estratagema de uma autoridade
senhorial em crise.
Mesmo no mundo rural, as interferências senhoriais em práticas de am­
pliação da autonomia sancionadas pelo costume tornam-se ainda mais explo­
sivas do que sempre foram, na medida em que começam a ser diretamente
questionadas em sua legitimidade. Os escravos que movem Ações de Liberda­
de contra seus pretensos senhores são apenas a ponta de um movimento
muito maior de pressão pela alforria, de aceleração do trânsito entre escravidão
e liberdade e de erosão do poder moral dos senhores. Estes vão tentar, até os
últimos anos da vigência do cativeiro, controlar esse trânsito, enfatizando a

198
SOBRE O PODER MORAL DOS SENHORES

componente senhorial dessa possibilidade. Ou seja, em quaisquer circunstân­


cias, a alforria devia ser percebida como uma concessão senhorial, que gerava
uma dívida de gratidão a que o liberto sempre se manteria ligado. Não foi
outro o sentido da patética explosão das alforrias em massa, nos primeiros
meses de 1888, tantas vezes citada pela historiografia. A frustração e a surpre­
sa senhorial residirão no fato de que, na maioria dos casos, essa acepção não
se fazia mais eficaz40. Os cativos “de confiança” escancaravam as válvulas de
escape do sistema, percebiam o Estado imperial, que positivava direitos, como
aliado e ganhavam condições de questionar, de uma maneira geral (e não do
ponto de vista de direitos ou privilégios pessoais), a legitimidade do arbítrio
senhorial.
E dentro desse contexto que os discursos jurídicos sobre o trânsito possível
entre escravidão e liberdade, os direitos civis dos libertos e a própria definição
jurídica de escravo e seus possíveis direitos (mas com direitos, mesmo que li­
mitados, eles continuam escravos?) ganham uma dimensão maior que as já
clássicas discussões sobre a ambiguidade e o ecletismo do liberalismo das elites
imperiais. Essas discussões interagiram (no sentido de que influenciaram e
foram influenciadas), para além do movimento abolicionista e, mais do que
se imaginava, com as esperanças e os esforços não só daqueles cativos que lo­
graram mover processos de Ação de Liberdade contra seus senhores, mas
também com as concepções de escravidão e liberdade — bem como de sua
legitimidade — vigentes entre senhores, escravos, forros e nascidos livres.
Nem todos os cativos, nos últimos anos da escravidão, foram negociados
no tráfico interno, mas mesmo a relação dos senhores com as “crias da casa” se
tornavam especialmente perigosas, em meados do Oitocentos. Sem a entrada
maciça de africanos, ante a crescente pressão dos cativos recém-chegados pela
generalização de um certo padrão de “bom cativeiro” intensificaram-se também
as pressões dos cativos possuidores de maiores recursos comunitários pela
aceleração do trânsito para a liberdade. Ao contrário do que se poderia esperar
num contexto de escassez de mão de obra, as alforrias se multiplicaram ao
longo da segunda metade do século XIX. Não apenas a progressiva perda de
legitimidade da instituição escravista é responsável por esse movimento. Antes
que a consciência culpada dos senhores, é a percepção de que se tornava extre­
mamente perigoso frustrar as expectativas daquele trânsito que, parece-me,
determinou o processo.
Para os escravos, pelo menos no meio rural, a família quase sempre foi
pressuposto básico dessa possibilidade. Nesse sentido, raramente o objetivo
da alforria aparecia como um projeto puramente individual. Na verdade, o

199
DAS CORES DO SILENCIO

trânsito só se fazia completo quando todo o grupo perdesse a ligação com o


cativeiro. E assim que nos processos crimes analisados, bem como nas Ações
de Liberdade, se encontram inúmeros grupos familiares a meio caminho entre
a escravidão e a liberdade. Essa situação, do ponto de vista senhorial, se bem
administrada, podia engendrar cativos “de confiança” e dependentes leais.
Pesquisa em andamento sobre o século XVIII tem demonstrado que os forros
migravam mais comumente do que se poderia supor, sempre que lhes era
possível fazê-lo41. Filhos, irmãos e netos no cativeiro prendiam os dependentes
forros a seus ex-senhores muito mais que possíveis sentimentos de gratidão e
lealdade (que sem dúvida existiam). Nesses casos, como se viu, a reescravização
não chegava a ser incomum. Nas últimas décadas do cativeiro, porém, frustrar
as expectativas desse trânsito na sua dimensão familiar podia tornar-se sur­
preendentemente perigoso.
Pedrinho, filho de Pedro e Marcelina, era casado, carapina, arreador e de
serviço de roça, nascido e criado na fazenda do Sertãozinho, na freguesia
de Lambari, em Minas Gerais42. Cativo de confiança, dispunha de uma li­
berdade de movimentação extremamente ampliada pela função de arreador e
pela constante condução de tropas e correspondência entre a fazenda e a casa
da família senhorial, na cidade de Campanha. Habitava uma casa em separado,
com sua mulher Custódia, onde, além de roça própria, possuía um cavalo.
Era irmão de Manuel Marcelino, forro, que vivia no bairro rural de Várzea
Grande, não muito longe das terras do Sertãozinho, com casa, roça e sua fa­
mília. Era ainda amásio de Candinha, moça livre, de 16 anos, afilhada de
Bernardo, homem livre e amásio de uma afilhada livre do mesmo Pedrinho.
Três de seus irmãos eram ainda cativos como ele: Marciana, escrava da ma­
triarca da família senhorial; Manuel, como o próprio Pedrinho, cativo de
Francisco Gomes Nogueira; e José, ex-escravo do mesmo senhor, que havia
sido vendido por este, segundo as palavras de Pedrinho, “a quem não queria
servir” e que, por isso, andava fugido. Sem dúvida, havia-se realizado uma
partilha recente dos bens da família Nogueira. Francisco Gomes é ainda cha­
mado de “senhor moço”, e a venda de José parece ter-se resolvido ao longo
do inventário. Todos moravam, entretanto, em propriedades próximas, de
forma que a partilha não significara a perda de contato entre a família escrava
e mesmo com seus parentes e compadres livres. O lento trânsito da família
de Pedrinho, da escravidão à liberdade, incluindo aí a vivência de espaços de
autonomia ampliados na condição de cativeiro, parecia ocorrer firmemente
alicerçado na ascendência moral da família senhorial sobre os cativos “privi­
legiados”, bem como sobre os agregados libertos ou livres a estes ligados. Pelo

200
SOBRE O PODER MORAL DOS SENHORES

menos, o senhor moço Francisco Gomes, talvez por inexperiência, agia fir­
memente convencido de que apenas à boa vontade senhorial se devia aquela
situação. A intimidade e confiança da família senhorial em relação a Pedrinho
transparece na própria enunciação de seu nome, um diminutivo que revelava
intimidade. A medida que as evidências de que Pedrinho fora o autor do as­
sassinato de seu senhor se tornam mais fortes no processo, em alguns de­
poimentos de familiares, Pedrinho transforma-se no “preto Pedro”,« seu
irmão forro, antes simplesmente o “pardo” Manuel Marcelino, torna-se o
“preto forro Manuel”43. A intimidade da família com o cativo extravasa, en­
tretanto, de todos os depoimentos. Toma contornos de cena de filme, em alguns
casos, como no depoimento de Marciana, que, enquanto lavava a camisa de
seu irmão Pedrinho, tinha por testemunha sua senhora e mãe do assassinado.
O tom vermelho da água suja que saía da camisa, identificado como sangue
pela matriarca, tê-la-ia feito chorar convulsivamente, enquanto afirmava que
“foi Pedrinho quem matou o meu filho”
Francisco Gomes não parecia temer essa possibilidade. Vendera José “a
quem não queria servir” e não se mostrava preocupado com isso. Considerara
como roubo a venda que Pedrinho fizera de um cavalo que, de fato, sempre
havia estado sob o usufruto do escravo e de sua esposa. Até mesmo um irmão
do assassinado declara, aparentemente sem perceber a contradição da própria
frase, que, no dia do crime, seu irmão havia saído para buscar um cavalo que
“pertencia ao preto Pedro” e que este havia “vendido sem autorização do se­
nhor”44. Francisco Nogueira repreendera Pedrinho duramente pela venda e
declarara que ia buscar o cavalo em casa de Manuel Marcelino, irmão do
acusado (forro). Caso este não fosse devolvido, entregaria o caso à polícia.
Pedrinho negou o crime até o fim, alegando que seu irmão José, “que andava
fugido por haver sido vendido a quem não queria servir”, fora o provável as­
sassino. Alegava como álibi que realmente se separara de seu irmão Manuel
na condução da tropa à cidade de Campanha, ali chegando apenas no dia
seguinte, porque fora pernoitar na casa de sua amásia Candinha, como sempre
fazia nesses casos. Candinha não negava o fato, mas alegava que a camisa de
Pedrinho tinha manchas de sangue, as mesmas que Marciana diz que sua se­
nhora identificara. Além disso, Pedrinho tentara vender um rosário de ouro
em um mutirão da redondeza e fora visto com um maço de notas. Dinheiro e
um rosário de ouro haviam sido roubados no momento do crime.
José ou Pedrinho? Importa-nos pouco o resultado da investigação policial,
mas, antes, a percepção de que, apesar da confiança do “senhor moço” em sua
autoridade moral, avisando diretamente a Pedrinho que ia buscar o cavalo, no

201
DAS CORES DO SILÊNCIO

fomento mesmo em que o animal reaparece, sem cavaleiro, na casa de Custó­


dia e Pedrinho, todos concluem que Francisco Gomes havia sido assassinado
e que Pedrinho era o principal suspeito. Da família senhorial aos demais
cativos, havia a convicção de que a atitude do novo senhor, negando a Pedri­
nho o direito de dispor do cavalo, havia gerado sérios ressentimentos. Pedrinho
defende-se, sugerindo um ressentimento mais grave, o de seu irmão José, que
já havia fugido por se negar a aceitar sua venda “a quem não queria servir”. A
plausibilidade das suspeitas sobre Pedrinho e da acusação sobre o irmão fugi­
do, levantada por ele, encontrava-se na consciência de todos de que Francisco
Nogueira assumira riscos ao impor sua autoridade senhorial por sobre certos
limites consensualmente esperados pelos escravos.
Com menos intimidade, mas com igual confiança, Antônio Homem
Abranches Brandão, viúvo da ex-senhora de Paula, mantinha-a como depen­
dente, em Resende, 1860, dando-se ao luxo de viver de seus jornais, porque
continuava senhor de seus três filhos menores e de seu irmão João Batista45.
Paula e seu filho mais velho, José, haviam sido alforriados pelo primeiro ma­
rido da esposa de Brandão, com a condição de servi-la até sua morte. Após seu
segundo casamento José teria ido ao cartório, para saber se já podia gozar de
sua liberdade, pois a senhora queria obrigá-lo a chamar de nhonhô o novo
esposo, ao que ele se negava. Após a morte desta, José, alfaiate, imediatamen­
te deixara a casa senhorial. Paula, porém, continuara a viver na casa de Brandão,
na vila de Resende, pois seu irmão por parte de pai, de nome João Batista, um
casal de filhos menores e uma filha adotiva continuavam cativos dele. Paula,
José e nosso já conhecido Francolino46, que pretendia casar-se com a filha
adolescente de Paula, esforçavam-se para conseguir dinheiro suficiente para
libertar o resto da família. Brandão, que era servido a contragosto por seus
escravos, ultrapassa os limites que mantinham Paula, apesar de liberta, sob seu
jugo, quando a faz sentir-se impotente para proteger seus próprios filhos, na
casa em que vivia e que sustentava. Diante da decisão de Brandão de forçar a
jovem Francelina a “manter relações ilícitas com ele”, Paula, José, Francolino
e João Batista se unem num bem urdido e complexo plano para dar cabo da
vida do senhor, mantendo-se fora de suspeita.
Interrogado, João Batista cairia em contradições e acabaria confessando
em minúcias o crime. José logrou fugir, ao ter notícia do depoimento de João
Batista. Paula, presa e pressionada pelas revelações de João Batista, acaba por
confirmar-lhe a versão, enriquecendo-a de mais detalhes. Francolino nega sua
participação até o fim. Em que pese o provável clima de coação em que se
procedeu ao inquérito e à produção jurídica dos culpados, este é sem dúvida

202
SOBRE O PODER MORAL DOS SENHORES

o mais cinematográfico dos processos que tive oportunidade de ler, no qual a


versão final se constrói com riqueza de detalhes, a partir dos próprios depoi­
mentos dos réus, o que permitiría uma reconstituição quase que cenográfica
da ambientação e do movimento dos atores na hora do crime.
Ambos os casos ocorreram na década de 1860, em famílias que tinham
membros divididos entre a escravidão e a liberdade. Casos-Iimite, sem dúvida,
não apenas por seus desfechos violentos, como também por terem se conver­
tido em minuciosos processos criminais. Esses casos, entretanto, permitem,
melhor do que uma inexistente “média” perceber os limites das possibilidades
de eficácia da ascendência senhorial, que utilizava como moeda a miragem da
alforria, em qualquer tempo. Pedrinho ou Paula não arguem por “direitos
gerais dos cativos”, não falam em “mau cativeiro”; questionam o descumpri-
mento de prerrogativas pessoais.
Num certo sentido, entretanto, esses processos mostram-se também espe­
cíficos da segunda metade do Oitocentos. Se Pedrinho ou Paula e seus com­
panheiros cometeram realmente o crime que lhes imputaram, e esta é, sem
dúvida, pelo menos uma hipótese plausível, não o fizeram num acesso de fúria
ou raiva. Em ambos os casos houve uma preocupação explícita em construir
um álibi e uma motivação racional. Antes que uma vingança, tratava-se de
tentar superar a autoridade senhorial, enquanto obstáculo ao objetivo da al­
forria, o qual começava a mostrar-se insuperável dentro dos parâmetros que
até então os havia norteado. Abranches Brandão e Francisco Nogueira desres­
peitavam práticas costumeiras sem qualquer medo. Pedrinho e Paula eram
“crias da casa”, “gente da família”. Consideravam sua autoridade e seu poder
senhorial para fazer o bem ou o mal uma verdade inquestionável e tacitamen-
te aceita por quem dependia exclusivamente deles para alcançar a liberdade
própria ou de seus filhos. Pode-se presumir que, se desconfiassem que ambos
pudessem tomar a atitude que tomaram, agiriam diferente, como aquele outro
senhor que, diante de escravos estranhos, comprados no tráfico interno, vivia
permanentemente sob o temor de um atentado ou de um levante. Nas últimas
décadas da escravidão, ante a crescente perda de legitimidade do cativeiro e a
progressiva interferência do Estado na relação senhor-escravo, foi talvez essa
mudança, quase imperceptível e sempre surpreendente de comportamento
dos cativos de confiança, que forçou mais contundentemente a ampliação do
número de alforrias, até sua explosão, nos primeiros meses de 1888.
Não apenas a crescente pressão pelo acesso à alforria daqueles cativos com
maiores recursos comunitários ou as tensões nas fazendas novas erodiam por
dentro o poder moral dos senhores. Se, como argumenta José Góes47, o apren­

203
DAS CORES DO SILÊNCIO

dizado do cativeiro era em grande parte um exercício de autocontrole e pa­


ciência, moldado pela pedagogia da violência e do paternalismo, podemos
também argumentar que os limites tradicionais dessa “paciência” estavam
sendo radicalmente alterados ao longo da segunda metade do século. Termino
esta parte com a reconstituição possível de uma cena que, não por acaso, pa­
rece-me, teria acontecido em 188748.

Rio Claro, Câmara Municipal, dia 19/7/1887


Auto de Perguntas feito ao indiciado Bento, escravo do capitão Antônio Avelino
de Souza Matos.
Perguntado qual seu nome, idade, estado, filiação e profissão, responde chamar-se
Bento, de 26 anos de idade pouco mais ou menos, solteiro, filho de Salvador e Antônia
Cabinda, ambos falecidos, natural deste termo e residente na fazenda de Monte Alegre
de propriedade do capitão Antônio Avelino de Souza Matos de quem ele respondente
é escravo ocupado no serviço de lavoura da mesma fazenda49.

Bento era filho de um casal de africanos, nascido não apenas naquele termo
de Rio Claro, como também na própria fazenda de Monte Alegre, como se
depreende do depoimento de seus dois irmãos, no mesmo processo:

Perguntado como se tinha passado o fato criminoso de que trata a portaria do


delegado que lhe foi lida disse que ontem — dezoito do mês vigente, pouco depois
do almoço, no cafezal da dita fazenda achava-se ele respondente e os mais escravos
trabalhando na limpa de café e tendo-se desencabado a enxada de sua parceira e com­
panheira também de eito, de nome Manuela, ele respondente a encabou de novo, que
passando por ele seu senhor moço Juvêncio de Souza Matos administrador da referida
fazenda e filho de seu senhor disse-lhe que descesse do eito onde já estava para limpar
umas raízes de sapé ou tocas que ele respondente havia deixado, e que depois de cum­
prida aquela ordem enfileirou-se no eito [...]50.

Nessa primeira parte de seu depoimento, Bento, ao narrar de forma con­


secutiva a ajuda que prestara a Manuela e a reclamação de Juvêncio sobre as
raízes de sapé que não limpara direito, de certa forma busca explicar as razões
pelas quais o sapé teria ficado mal-arrancado, que não teriam sido levadas em
consideração pelo senhor. O restante da transcrição do depoimento de Bento
virá acompanhado do possível diálogo que travou com Juvêncio ao longo do
conflito, conforme depoimento dos cativos que se encontravam mais próximos
de Bento, no alinhamento do eito, na hora do crime: “que então seu senhor
moço dito Juvêncio lhe observou que aquilo era desaforo, dando-lhe nesta
ocasião duas pancadas com o cabo do relho que consigo trazia; — Estou fa­

204
SOBRE O PODER MORAL DOS SENHORES

lando com este negro e ele não obedece (depoimento de Amâncio, 35, irmão
de Bento)”51.
Nas palavras de Bento ou na narrativa de Amâncio, Juvêncio tomara a
atitude de Bento — a forma como executara o trabalho — como um desafio
à sua autoridade. Outros escravos, em seus depoimentos, afirmariam que
Bento efetivamente teria cumprido a ordem com “displicência” ou “pouco
caso”:

que depois ele respondente ponderaria ao referido Juvêncio que aquele fato de ter-lhe
escapado o cabo da enxada não constituía um crime para o castigo que lhe acabava de
ser infligido, então seu senhor moço desatando a tranca do relho deu-lhe algumas re-
Ihadas;
— Juvêncio lhe havia infligido sem nenhuma razão aquele castigo (frase de Bento,
segundo o depoimento de Ludgero, 20).
— Pois agora você vai apanhar deveras (frase de Juvêncio, segundo o depoimento
de Ludgero, 20)52.

Tanto a iniciativa de questionamento de Bento quanto a reação indignada


de Juvêncio sinalizam vigorosamente para uma relação de “intimidade hie­
rárquica” entre senhor e escravo. Bento arrisca-se a questionar diretamente a
decisão senhorial, mas também Juvêncio não teme castigar diretamente,
completamente cercado de escravos (até o feitor do eito o era), aquele atre­
vimento:

[...] que nessa ocasião ele respondente servindo-se da enxada com que estava trabalhan­
do, descarregou sobre o mesmo uma pancada na cabeça, caindo Juvêncio mortalmente
ferido; que repetindo ele respondente a pancada matou-o, sendo que esta segunda
pancada fora por ele empregada receando que a primeira fosse suficiente para matá-lo
[sic]. Disse que depois do que sem [ilegível] o feitor, então, preto, de nome Paulo o
mandou prender e conduziu-o para a fazenda pelo camarada Ricardo e Eduardo, este
escravo também da fazenda.
— Ai, Bento. (Frase de Juvêncio, após a primeira enxadada segundo depoimento
de Anastácio, 20.)
— Oh! Diabo. Oh! Diabo. (Frase de Bento durante a segunda enxadada, segundo
depoimento de Anastácio, 20.)
— Aqui estou. Já matei, estou entregue ou façam de mim o que quiserem (frase de
Bento após o crime, segundo depoimento de Anastácio, Onofre, Roque. Ainda segun­
do todos os demais depoentes, inclusive o feitor escravo Paulo e o camarada Eduardo,
Bento não resistira a prisão nem tentara fugir)53.

205
DAS CORES DO SILÊNCIO

Insinuam-se, na narrativa, mas principalmente no diálogo sugerido, sur­


presa e novamente intimidade hierárquica, principalmente na expressão “Ai,
Bento”, que Anastácio, o mais próximo cativo, no eito em relação a Bento,
afirma que Juvêncio teria dito. A falta de reação em defesa do senhor moço,
de escravos tão próximos, a ponto de serem capazes de reproduzir o diálogo
travado entre Bento e Juvêncio, insinua não apenas uma cumplicidade, mas
principalmente um erro de avaliação de Juvêncio, em relação à sua força moral
com os cativos do eito. “Perguntado se Juvêncio era mau e maltratava os escra­
vos da fazenda? Respondeu que não era muito mau, mas é certo que não
gostava dele depoente”54.
E como nada mais disse nem lhe foi perguntado...

Notas

1 Documentação judiciária. Corte de Apelação: Escravos. Ações de Liberdade. Caixa 2.685,


na 4. Arquivo Nacional.
2 Documentação judiciária. Corte de Apelação: Escravos. Ações de Liberdade. Caixa 3.694,
n2 41. Arquivo Nacional.
Cf. cap. 4 da Primeira parte.
4 Apud Lenine Nequete, O escravo na jurisprudência brasileira — Magistratura, e ideologia no
Segundo Reinado, 1988.
5 Stuart B. Schwartz, “A manumissão dos escravos no Brasil Colônia: Bahia, 1684-1785”, in Anais
de História, ano VI. Publicação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis, 1974,
pp. 70-114; Peter L. Eisenberg, “Ficando livre: as alforrias em Campinas no século XIX”, in
Homens esquecidos — Escravos e trabalhadores livres no Brasil, séculos XVIII e XIX, 1989; Kátia
M. de Queirós Mattoso, Bahia, século XIX — Uma província no Império, 1992, pp. 161-5.
6 Essa proporção deve estar ainda subestimada, pois a declaração de procedência torna-se cada
vez mais rara nos libelos posteriores a 1850. Os africanos representam, no total, 10,02% dos
cativos da amostra, mas não se pode ter certeza de que fossem nascidos no Brasil os que não
declaravam filiação nem eram identificados como crioulos.
7 Documentação judiciária. Corte de Apelação: Escravos. Ações de Liberdade. Caixa 3.688,
n2 4. Arquivo Nacional.
8 Documentação judiciária. Corte de Apelação: Escravos. Ações de Liberdade. Caixa 3.679,
n2 2.048. Arquivo Nacional.
9 Documentação judiciária. Corte de Apelação: Escravos. Ações de Liberdade. Caixa 2.690,
n2 6. Arquivo Nacional.
10 Documentação judiciária. Corte de Apelação: Escravos. Ações de Liberdade. Caixa 3.685,
n2 2. Arquivo Nacional.
11 Documentação judiciária. Corte de Apelação: Escravos. Ações de Liberdade. Caixa 3.684,
n2 64. Arquivo Nacional.
12 Documentação judiciária. Corte de Apelação: Escravos. Caixa 3.687, n2 5. Arquivo Nacional.

206
SOBRE O PODER MORAL DOS SENHORES

13 Documentação judiciária. Corte de Apelação: Escravos. Ações de Liberdade. Caixa 3.681,


n- 3.768. Arquivo Nacional.
14
Documentação judiciária. Corte de Apelação: Escravos. Ações de Liberdade. Caixa 3.691,
n- 7.388. Arquivo Nacional.
15
Cf. Ord. liv. 4- Tit. 11. Par. 4. “E porque em favor da liberdade, são muitas coisas outorgadas
contra as regras gerais”. Cf., também, lei nQ 1, de abril de 1860. “São mais fortes e de maior
consideração as razões que há a favor da liberdade do que as que podem fazer justo cativeiro.”
16
Ver também, neste sentido, Sidney Chalhoub, Visões da liberdade — Uma história das últimas
décadas da escravidão na Corte, 1990, cap. 2.
17
Documentação judiciária. Corte de Apelação: Escravos. Ações de Liberdade. Caixa 3.691,
nQ 7.388. Arquivo Nacional.
18
Cf. Perdigão Malheiros, A escravidão no Brasil — Ensaio histórico, jurídico, social. Vol. 2,1976,
pp. 135-9. Apud Lcnine Nequete, O escravo na jurisprudência brasileira..., p. 175.
19
Cf. Teixeira de Freitas, Consolidação das leis civis, 1885 (3a ed., 1896), comentário ao artigo 421.
Apud Lenine Nequete, O escravo najurisprudência brasileira..., p. 177.
20
Antônio Pereira Rebouças, A consolidação das leis civis, 1867, obs. ao artigo 421 da Consolidação
de Teixeira de Freitas, 2â ed. Apud Lenine Nequete, O escravo na jurisprudência brasileira...,
p. 176.
21
Lourenço Trigo de Loureiro, Instituições de Direito Civil Brasileiro... (1a ed., 1851; 2a ed., 1857;
3a ed., 1861; 5a ed., 1884), I, Tit. ie, par. 9-. Apud Lenine Nequete, O escravo na jurisprudência
brasileira..., p. 178.
22
Depoimentos de Feliciana Crioula, Maria Crioula, Tereza Benguela e Francisca Benguela.
23
Entre outros, ver depoimentos de Manuel Pagem.
24
Recurso apresentado à Relação do Maranhão, em 1874, por Raimundo José Lamagner Viana
por seu advogado Francisco de Melo Coutinho Vilhena, publicado em O Direito, 7 (1875),
pp. 341-54. Apud Lenine Nequete, O escravo na jurisprudência brasileira..., p. 76.
25
Manoela Carneiro da Cunha, “Sobre os silêncios da lei. Lei costumeira e positiva nas alforrias
de escravos no Brasil do século XIX”, in Antropologia do Brasil — Mito, história, etnicidade,
1986.
26
Apud idem, op. cit., pp. 128-9.
27
Sobre a questão, ver também Sidney Chalhoub, Visões da liberdade..., cap. 2, e Keila Grinberg,
Liberata — A lei da ambiguidade, 1994.
28
Nos processos reunidos para esta pesquisa contaram-se seis dessas ações, concentradas no
período 1867-1869, com resultados favoráveis à liberdade. Nesse sentido, ver também idem,
op. cit.
29
Lenine Nequete, O escravo najurisprudência brasileira..., cap. 9.
30
Idem, op. cit., p. 88.
31 Até 1874, os Tribunais de Apelação resumiam-se à Relação da Bahia, do Rio de Janeiro, do
Maranhão e de Pernambuco. Em 1874, são instauradas as Relações de Porto Alegre, Ouro
Preto, São Paulo, Goiás, Mato Grosso, Belém e Fortaleza. Cf. idem, op. cit., Introdução.
32
Idem, op. cit., p. 291.
33
Sidney Chalhoub, Visões da liberdade..., cap. 2.
34
Nesse sentido, ver também, Keila Grinberg, Liberata...
35
Documentação judiciária. Corte de Apelação: Escravos. Ações de Liberdade Caixa 3.685, nQ 5.
Arquivo Nacional.

207
DAS CORES DO SILÊNCIO

36 Documentação judiciária. Corte de Apelação: Escravos. Ações de Liberdade Caixa 3.694»


n2 160. Arquivo Nacional.
37 Minha discordância, neste ponto, com Manoela Carneiro da Cunha, restringe-se à aplicação
do conceito de lei positiva, antes do século XIX e especialmente da promulgação da Consti­
tuição do Império, como um inibidor da interferência do Estado na relação senhor-escravo.
Nesse sentido, vem também Keila Grinberg, Liberata...
38 Cf Peter L. Eisenberg, “Ficando livre...”, e Kátia M. de Queirós Mattoso, Bahia, século XIX...,
pp. 161-5.
39 Peter L. Eisenberg, “Ficando livre...”
40 Nesse sentido, ver também, Terceira parte: O fantasma da desordem.
41 Sheila de Castro Faria, A Colônia em movimento — Fortuna efamília no cotidiano colonial, 1998,
cap. 2.
42 Documentação judiciária. Corte de Apelação: Escravos. Ações de Liberdade. Caixa 3.682,
n2 5.906. Arquivo Nacional.
43 Cf., no processo, os dois depoimentos de Pedro Gomes Nogueira, irmão do assassinado.
44 Segundo depoimento de Pedro Gomes Nogueira.
45 Documentação judiciária. Corre de Apelação: Escravos. Ações de Liberdade. Maço 139,
n21.277. Arquivo Nacional.
46 Cativo alfaiate, que contava com dois aprendizes em sua loja, na vila de Resende, onde econo­
mizava para pagar sua alforria. Cf. cap. 2, Terceira parte.
47 José Góes, “O cativeiro imperfeito”, 1992. Dissertação de mestrado.
48 Documentação judiciária. Corte de Apelação: Escravos. Processos criminais. Maço 127,
n2 11.069. Arquivo Nacional.
49 Ibidem.
50 Ibidem.
51 Ibidem.
52 Ibidem.
53 Ibidem.
54 Ibidem.

208
TERCEIRA PARTE
O fantasma da desordem
1

O fantasma da desordem

[A lei de treze de maio] limitou-se a reconhecer e confirmar um fato preexistente,


evitando com esse reconhecimento as maiores perturbações e desordens, senão terríveis
calamidades. A emancipação estava feita no dia em que os ex-escravos recusaram mar­
char para o eito e começaram o êxodo das fazendas. A lei confirmou-a, deu-lhe sanção
dos poderes públicos, mas sem a lei não deixaria de ser um fato que se impunha contra
todas as resistências1.

A avaliação acima, publicada noJornal do Commercio, em outubro de 1888,


não representa manifestação isolada. Consiste, de fato, em interpretação bas­
tante difundida na época, que por toda a década de 1890 continuou a frequen­
tar as discussões sobre os efeitos, para a lavoura, da lei de 13 de maio. Em maio
de 1891, juízo semelhante é proferido em O Monitor Campista, por ocasião do
terceiro aniversário da abolição definitiva do cativeiro e já em plena eferves­
cência republicana. Considerava-se, então, aquela lei como “um caso fatal,
tinha que ser aprovada pois do contrário seria a anarquia, uma desorganização
ainda mais completa do trabalho; o triunfo do negro sobre o branco, a vitória
do escravo sobre o senhor”2, (grifo nosso)
Outras citações com o mesmo teor poderiam ser aqui arroladas, mas essas
duas parecem-me suficientemente enfáticas, tendo em vista o espaço de tempo
decorrido entre elas e a diferença das folhas em que foram veiculadas. Enunciam
uma interpretação que se apresenta bastante intrigante para o observador do
final do século XX. A lei que abolira definitivamente a escravidão no país teria
sido feita, pelo menos na interpretação de alguns contemporâneos, para evitar
uma “vitória do negro sobre o branco”, “do escravo sobre o senhor”, ou seja,
para libertar os brancos de perigosas perturbações e desordens, “senão de
terríveis calamidades”. Nessa perspectiva, a libertação do senhor branco — e
DAS CORES DO SfLÊNCIO

não do negro cativo — teria sido seu objetivo, pois a lei teria se limitado a
reconhecer “um fato consumado”.
A formulação de uma lei de abolição da escravidão, que vinha libertar o
branco do fantasma da desordem e da anarquia, não é o único paradoxo que
integra esse tipo de avaliação. Cada vez que é formulada, ela se insere num
discurso mais abrangente, que tem como premissa o caráter traumático do
fim da escravidão da forma como foi estabelecido, especialmente para a lavoura
do Rio de Janeiro e de Minas Gerais. Discute-se, no fundo, em 1888 ou em
1891, se a abolição do cativeiro, no tempo e na forma em que se realizara, havia
sido realmente inevitável. É peça central da argumentação favorável à lei uma
hipótese contrafactual no melhor estilo: apesar dos efeitos negativos, oriundos
do despreparo da lavoura para substituir integralmente o escravo pelo trabalho
livre, na ausência da medida legal, as consequências seriam, aí sim, verdadei­
ramente devastadoras: a vitória do escravo sobre o senhor. Não faltaram os
que previram mesmo uma guerra civil.
Trata-se, portanto, de uma formulação de sentido francamente senhorial.
É nesse campo que ela ganha plenamente significação, como resposta ao incon-
formismo de outros setores senhoriais com a abolição incondicional e seus
corolários. Corresponde, sem dúvida, ao tipo de argumentação sobre a qual
se fundamentava o gabinete conservador que propôs a medida legal e foi,
mesmo, inicialmente formulada por seus defensores contra aqueles ex-senho­
res que se inclinavam por uma revanche republicana. Subsiste, entretanto, após
a queda do Império.
O segundo paradoxo se coloca dentro desse contexto. Combinam-se, na
interpretação, um sentido de surpresa e imprevisibilidade com que o fim do
cativeiro é encarado — o que produz efeitos traumáticos ao encontrar a anti­
ga lavoura escravista ainda despreparada para a transformação e a ideia do fato
consumado e irreversível, mas há muito anunciado. A lenta agonia da domi­
nação escravista teria culminado na total perda de controle do elemento es­
cravo. Portanto, para que a afirmação faça algum sentido, é preciso considerar
possível que o fato consumado — a total falta de controle sobre os cativos, seja
na esfera pública ou privada — tenha se apresentado aos ex-senhores como
uma variável absolutamente surpreendente no desenrolar do processo, para a
qual não haviam se preparado.
A historiografia sobre a escravidão, com raras exceções, não tem levado
muito a sério as interpretações de época, desqualificando-as como ideoló­
gicas, quando não como simplesmente cínicas. Especialmente o caráter
traumático, frequentemente alegado pelos antigos interesses senhoriais flu­

212
O FANTASMA DA DESORDEM

minenses e mineiros, é encarado como simples peça de retórica a escamotear


uma crise que teria outras e mais profundas origens. Afinal, o fim do cativeiro
havia sido longamente preparado por uma série de medidas legais, de caráter
gradual, e por uma crescente e notória perda de legitimidade da instituição
escravista.
Ideológica, sem dúvida, às vezes cínica, o fato é que aquela leitura se mos­
trou convincente e plausível o suficiente para subsistir tanto tempo quanto
persistiu, nas áreas rurais tradicionais do Sudeste, o inconformismo com o fim
do cativeiro. Para mim, isso é motivo suficiente para que a levemos a sério. A
explicação, mesmo paradoxal, reportava a experiências concretas, ou à com­
preensão que tinham delas aqueles a quem se dirigia. A desqualificação daquela
leitura não responde à questão fundamental que, parece-me, deve ser colocada:
como uma formulação, que combina duas afirmações aparentemente contra­
ditórias (a imprevisibilidade e o fato irreversível), pode apresentar-se como
uma versão convincente e difundida do fim da escravidão e de seus efeitos no
mundo rural dela dependente?
Um primeiro aspecto chama a atenção na presente versão. Ela coloca o
ex-escravo no centro do processo. E o êxodo das senzalas, extinguindo de fato
a relação senhor-escravo e produzindo o fantasma da desordem e da indisci­
plina, que teria dado origem à medida legal na forma e no tempo em que
ocorreu. Não se responsabiliza o movimento abolicionista pelas perigosas
consequências desse fato (as fugas em massa) — o movimento, antes, teria
colaborado no sentido de orientar libertos e senhores para a solução do pro­
blema —•, nem se atribuíam maiores glórias à regente ou ao Ministério João
Alfredo pelo avanço social que, todos concordavam, havia sido alcançado, pois
não teriam feito mais do que sancionar um fato consumado. Isso permite que
mesmo órgãos de imprensa, que haviam se engajado na causa abolicionista e
republicana, a adotem como explicação. A versão francamente reacionária, no
contexto da época, encampada por aqueles setores que se opuseram até o final
à medida legal, encontrou suas bases sociais nas áreas produtoras que lograram
manter o controle sobre os escravos — ou seja, conseguiram manter a insti­
tuição funcionando — até maio de 1888. Nessa versão, a irresponsabilidade
política do gabinete conservador de 10 de março e o movimento abolicionista
são os vilões ou heróis da história. Ela repete praticamente, com sinais trocados,
a versão abolicionista que prevaleceu na memória pública do processo. Uma
versão que produz vencedores (o movimento abolicionista) e vencidos (os
interesses senhoriais). Manteve, entretanto, uma sobrevida muito mais curta
na memória social, não resistindo à entrada em cena do regime republicano,

213
DAS CORES DO SILENCIO

pelo menos de forma associada a uma avaliação negativa do impacto da me­


dida legal para o mundo rural.
Na verdade, a unidade alcançada em torno da questão abolicionista em
princípios de 1888, se construiu sobre aquela primeira versão. Ela se realizava
em nome da ordem e identificava e se propunha a controlar, com o reconhe­
cimento legal da liberdade, o elemento básico da desordem e desorganização:
o escravo transformado em homem livre.
Por mais que todo o processo que levou à extinção do cativeiro pareça
previsível ao historiador que o toma de uma perspectiva mais ampla, sem
dúvida ele surpreendeu os contemporâneos. Esse sentido de surpresa e impro­
visação é o que de mais evidente se apresenta a qualquer pesquisador atento
ao espírito da época3.
Em 1886, no jornal 0 Monitor Campista, publicado em Campos, no Nor­
te Fluminense, palco de um dos mais acirrados movimentos abolicionistas da
província e, ele próprio, moderadamente alinhado à causa abolicionista e re­
publicana, proliferavam, ainda, os anúncios de compra e venda de escravos,
bem como os que ofereciam gratificações no caso de fuga de cativos. O jornal
registrava com regularidade e algum destaque as manumissões voluntárias,
mas, nos “Precisa-se” e “Aluga-se”, o trabalho cativo era a mercadoria mais
procurada. Se as compras de escravos para serviço de roça predominavam,
eram bastante comuns anúncios que buscavam comprar ou alugar escravas
para o serviço doméstico.
As fugas eram apresentadas de modo bastante individualizado, quase
sempre ligando, sutilmente, a ação de fugir a traços específicos da personalidade
do cativo procurado. Procurava-se o mulato claro, que se dizia comendador
e candidato à Assembléia Geral; a escrava Fausta “faladeira e malcriada”, se­
parada do marido e que deixara filhos pequenos; o escravo Joaquim, da fa­
zenda Bananal, que gostava de cantar e dançar fados e inúmeros outros,
“muito conhecidos na cidade”, por haverem sido de ganho4. As fugas apareciam,
assim, referidas a casos que se procurava caracterizar como específicos ou
excepcionais5. Além disso, a continuidade de um mercado de cativos, mesmo
nas cidades, parecia sugerir uma certa tranquilidade no que se refere à conti­
nuidade da escravidão nas práticas cotidianas.
Pouco mais de um ano depois, em ifi de janeiro de 1888, o mesmo jornal,
já sem anúncios relacionados à propriedade escrava, mudara sua forma de
abordagem. Considerava, no retrospecto de 1887, que, diante das agitações
nas senzalas e da dança de posicionamento dos conservadores em São Paulo,

214
O FANTASMA DA DESORDEM

podia-se prever com segurança que 1888 não terminaria sem deixar resolvida,
de uma vez por todas, a chamada “questão servil”6.
Mesmo em São Paulo, onde aparentemente primeiro se deu a ruptura, o
jornal A Redenção, porta-voz do mais radical movimento abolicionista
da província, apenas em outubro de 1887 assumiu unitariamente a defesa da
abolição incondicional, precedendo em poucos meses os próprios fazendeiros
da região7. Apesar da acirrada luta política entre abolicionistas e antiabolicio-
nistas em 1887, o ato legislativo final do 13 de Maio — capitaneado por um
gabinete conservador, cujos membros, um ano antes, em boa parte estavam
engajados no antiabolicionismo — não se faz destacando vencidos ou vence­
dores, mas em clima de impressionante unanimidade8.
Essa rápida mudança de expectativa em relação à questão abolicionista tem
sido pouco enfatizada em termos interpretativos. Numa perspectiva estrutural,
minimiza-se mesmo a conjuntura de radicalização do movimento abolicio­
nista na segunda metade dos anos 1880. Nas análises mais propriamente po­
líticas, os “louros” são entregues ao movimento abolicionista, ligado a setores
modernos e/ou urbanos, fortemente ancorado na ideologia imigrantista. Em
ambas as perspectivas, muitas vezes associadas, aceita-se consensualmente que
a escravidão “caíra de madura”, sem provocar maiores alterações na ordem
econômica e social, apesar de uma certa gritaria conservadora que se seguiu
ao 13 de Maio9.
A historiografia sobre a crise da escravidão e a emergência do trabalho livre
no Brasil recebeu, na década de 1980, uma expressiva concentração de estudos
e pesquisas. Com um forte sentido revisionista, polêmica em inúmeros aspec­
tos, essa produção trouxe à tona, em seu conjunto, novas evidências, que
permitem avançar no sentido de se estabelecerem novos referenciais à discus­
são, a partir de uma apreensão mais complexa e menos esquemática do tema.
Uma importante ampliação dos referenciais de análise se fez, a meu ver, ao
privilegiar-se a diferenciação dos agentes históricos e a multiplicidade de
projetos e estratégias, nas tentativas de controle político do processo de “trans­
formação do trabalho”. Esse tipo de enfoque, a despeito das diferenças de
ênfase entre os autores, repõe, ou permite repor, sobre o leque de projetos e
possibilidades em choque, um certo sentido de surpresa e improvisação, que
acompanhou, especialmente nas décadas de 1880 e 1890, o desenrolar do
processo.
No Brasil, durante a segunda metade do século XIX, foram raras ou ine­
xistentes as vozes que se levantaram em defesa da escravidão enquanto insti­
tuição. Desde 1850 e especialmente após a promulgação da Lei do Ventre

/ 215
DAS CORES DO SILENCIO

Livre, políticas públicas e estratégias privadas tentavam encaminhar de ma­


neira segura a chamada transformação do trabalho.
Por parte dos cidadãos ativos envolvidos no processo, seja como agentes
econômicos (fazendeiros escravistas), seja como atores políticos, os esforços
se concentraram na busca de controlar a transformação, no sentido de evitar
a desorganização da produção. A imagem do caos era, sem dúvida, muito mais
útil aos interesses escravistas, mas a busca de evitar a desordem e a desagre­
gação social era peça importante na argumentação emancipacionista e aboli­
cionista. Argumentações semelhantes serviram para justificar tanto o retarda­
mento como a aceleração do processo de libertação dos escravos10.
O encaminhamento legal da questão seguiu, de maneira geral, critérios
bastante precisos que informaram, prioritariamente, o cálculo econômico dos
agentes escravistas, durante as décadas em que, apesar de legal, a escravidão
perdia aceleradamente legitimidade. O projeto emancipacionista oficial, enca­
minhado desde meados do século pela política imperial, baseou-se: 1) no es­
tabelecimento de expectativas no tempo de continuidade da escravidão —
permitindo, assim, que os agentes econômicos as levassem em conta em suas
previsões; 2) numa forte tendência à intervenção legal nas formas de organi­
zação e controle da força de trabalho livre; e 3) no princípio de respeito ao
direito de propriedade, referenciado a uma política de indenização11.
A extinção do tráfico atlântico, associada à votação da lei de Terras, em
1850, já se definia dentro daquelas balizas, mas foi a chamada lei do Ventre
Livre que sintetizou mais exemplarmente a orientação geral. Seu maior im­
pacto foi, sem dúvida, o de levar os agentes econômicos a trabalhar com a
certeza do fim da escravidão, num prazo que, se não era curto, pela primeira
vez podia ser mensurado. Isso implicava, necessariamente, uma mudança de
atitudes e expectativas em relação ao uso da força de trabalho escrava. Além
disso, com a nova lei, se pela primeira vez o poder público interferia direta­
mente na relação senhor-escravo, fazia-o de maneira fortemente vinculada à
garantia do direito de propriedade. O trabalho do liberto até os 21 anos, ou
uma indenização paga pelo Estado, quando o ingênuo completasse oito anos,
bem como a implantação do fundo de emancipação para a libertação gradual
dos cativos, eram partes essenciais da medida legal.
A lei de 1871 esteve, ainda, fortemente ligada a um projeto de controle le­
gal da força de trabalho livre. Procurou regulamentar, com a obrigatoriedade
de contratos longos de trabalho e severas punições à “vadiagem”, o trabalho
do liberto. Deu origem, em seguida, a uma ampla discussão sobre o controle
e disciplinarização da força de trabalho livre, de maneira geral, que resultou

216
O FANTASMA DA DESORDEM

na aprovação, em 1879, de Lei de Locação de Serviços voltada para esse fim,


que contemplava a obrigatoriedade dos contratos, punições à “vadiagem” e
dispositivos antigreve12.
Pode-se, entretanto, tentar ler o encaminhamento oficial da questão por
outros referenciais. Especialmente, por uma tendência em reconhecer, como
direitos legais dos cativos, certas práticas costumeiras, estabelecidas no coti­
diano das relações escravistas. A proibição legal da separação de famílias es­
cravas (1869), o reconhecimento do direito ao pecúlio para obtenção da liber­
dade (1871) e a própria proibição do açoite (1886) significaram golpes expressivos
nos fundamentos sobre os quais se construía a dominação senhorial13.
Até princípios da década de 1880, entretanto, no que se refere às expectativas
dos agentes escravistas, aqueles parâmetros mais gerais mantiveram-se em vigor.
Mesmo em 1884, numa conjuntura política já diferenciada, o projeto Dantas,
que previa a libertação dos sexagenários sem indenização e a criação de um
imposto sobre a propriedade escrava para custear o fundo de emancipação,
provocou rejeição quase unânime no Parlamento, causando a derrubada do
Ministério. A lei de libertação dos sexagenários, que substituiu o projeto (Sa­
raiva-Cotejipe), repôs, mais uma vez, as balizas fundamentais que informavam
as expectativas dos agentes econômicos: o direito à indenização, o estabele­
cimento informal de um prazo para a libertação definitiva pelo fundo de
emancipação (13 anos), associando-se, ainda, a um severo código de repressão
à fuga de escravos e ao movimento abolicionista14.
Em 1888, o padrão foi subitamente quebrado. Tradicionalmente, à radica­
lização do movimento abolicionista, de cunho fortemente urbano, tem-se
creditado essa inflexão, facilitada pela imigração subvencionada no Oeste
Paulista e pela própria desvalorização de mercado do preço do escravo, após a
lei de 1884. Alguns trabalhos mais recentes têm se esforçado, entretanto, por
resgatar o papel das massas escravizadas, reconhecendo em sua ação talvez o
principal elemento de aceleração e mudança de rumos do processo.
Especialmente em relação à província de São Paulo, alguns autores
têm se detido em analisar as resultantes sociais da concentração de escravos
ladinos na região, a partir da extinção do tráfico, principalmente no que se
refere à quebra dos padrões preexistentes de controle social do cativo15. Essa
quebra teria determinado a urgência em estabelecer restrições ao tráfico inter-
provincial numa região ávida por mão de obra, acelerando a opção política
imigrantista na província e, em seu momento de maior radicalização, apropria
mudança de posicionamento político dos fazendeiros paulistas em relação à
questão abolicionista.

217
DAS CORES DO SILÊNCIO

Os riscos de uma explicação romântica e unicausal que transforma


os escravos nos únicos e principais agentes de sua própria libertação precisam,
entretanto, ser evitados. Obviamente eles não foram nem uma coisa nem
outra. Do ponto de vista deste trabalho, suas ações representaram o vetor que
produziu mais fortemente as dimensões de surpresa e imprevisibilidade de
todo o processo: uma das chaves, senão a principal, para desvendarmos o
aparente paradoxo daquela interpretação inicialmente proposta.
Outro risco a ser evitado é a excessiva ênfase na singularidade do caso
paulista, que acabaria levando de roldão as demais áreas escravistas do Sudeste,
como explicação fácil para o outro lado do paradoxo: seu aspecto traumático.
O fato consumado teria se dado em São Paulo e o trauma, em Minas e no Rio.
Com essa divisão geográfica o paradoxo estaria definitivamente resolvido.
Por mais que as diferenças regionais e intrarregionais consistam efeti­
vamente em outro vetor fundamental para uma compreensão mais plural e
dinâmica de todo o processo, a questão é muito mais ampla e se veria igual­
mente reduzida, se apenas por esse ângulo fosse considerada. Além disso, a
argumentação sobre o fato consumado jamais faria qualquer sentido para um
público fluminense ou mineiro, se os fazendeiros do Rio de Janeiro e de
Minas Gerais não tivessem também conhecido o temor das “perturbações e
desordens”.
Muitas pesquisas têm enfatizado as clivagens regionais, especialmente a
progressiva defasagem do encaminhamento oficial em relação às expectativas
dos produtores do Oeste Paulista, no que se refere ao incremento da imigração,
que pouco se coadunavam com a tendência intervencionista preconizada
pelas demais regiões para as relações de trabalho16. Mesmo dessa perspectiva,
o prevalecimento dos interesses do Oeste Novo sobre as demais áreas escra­
vistas do Sudeste não explicaria a decisão pela extinção definitiva do cativeiro,
mas apenas o abandono da tendência a legislar sobre a obrigatoriedade do
trabalho.
A despeito da diversidade de encaminhamentos, no que se refere à organi­
zação do trabalho livre, as diversas zonas da lavoura paulista e também os
complexos escravistas do Rio, de Minas e mesmo do Nordeste mantiveram-se
unidos na defesa da continuidade da escravidão até 1887.
O que procuro argumentar é que a melhor forma de avaliar a contribuição
da historiografia das décadas de 1980 e 1990 sobre o processo abolicionista é
tomá-la em conjunto e também em relação com a produção que a antecedeu.
Dessa perspectiva, para além da divergência de ênfase entre os autores, com­
põe-se um quadro bem mais complexo e dinâmico do processo em questão.

218
O FANTASMA DA DESORDEM

Busquei mostrar, no capítulo anterior, que a crescente autonomização de


movimentos dos escravos, na segunda metade do Oitocentos, só pode ser
apreendida dentro do contexto de acelerada perda de legitimidade da insti­
tuição escravista que marca o período. Da mesma forma, a radicalização do
movimento abolicionista pode ser muito mais bem apreendida quando se leva
em conta, também, a temível possibilidade de uma ação autônoma das senza­
las, bem como as múltiplas clivagens regionais, sempre determinantes para a
compreensão das articulações políticas do período.
Ampliando o arco de atores aptos a influenciar os rumos do processo,
torna-se mais fácil compreender e mesmo acreditar que a quebra, em finais da
década de 1880, das balizas que até então norteavam o processo emancipa-
cionista tenha surpreendido a grande maioria dos contemporâneos. Em 1886,
qualquer pessoa no Império do Brasil sabia que a escravidão estava condenada
e que tinha uma sobrevida contada em anos (11), na avaliação dos elaborado-
res da lei Saraiva-Cotegipe, e, provavelmente menos ainda, se dependesse do
empenho do movimento abolicionista. Mas poucos, muito poucos poderíam
imaginar que havería condições políticas para que ela fosse extinta, sem qual­
quer condição e sem qualquer regulamentação em relação ao trabalho livre,
apenas dois anos depois.
Apesar disso, no seu momento final, não foram libertados mais que 500
mil escravos nas áreas mais afetadas (Sudeste), se não contarmos os ingênuos
e, aparentemente, a liberdade conformava condição suficiente para que se
eliminasse o fantasma da desordem, como rapidamente perceberam os fazen­
deiros paulistas.
E o trauma? Mera fantasia? Para algumas áreas paulistas, em situação de
mercado privilegiada, que as tornava as principais beneficiárias do prodigioso
aumento da imigração europeia após 1887, talvez. Nas palavras de Warren
Dean17, em 1888, após o sucesso do primeiro contrato de subsídio completo,
“os fazendeiros consideravam-se salvos pela providência”. A parcial substitui­
ção física do ex-escravo lhes permitia não somente resolver seus problemas
econômicos de demanda de mão de obra, viabilizando finalmente a continui­
dade da expansão do setor cafeeiro, mas também alterar pouco ou muito
lentamente as relações que, tradicionalmente, mantinham com os demais
homens livres.
Uma análise mais detida daquele ano de 1888 e da década de 1890 permite,
entretanto, perceber que, para as demais áreas rurais do Sudeste, inclusive o
Vale do Paraíba paulista, o fantasma da desordem continuou a se materializar
poderoso, na pele de milhares de ex-escravos e milhões de outros nascidos livres,

219
DAS CORES DO SILÊNCIO

que se recusavam a agir conforme os papéis previamente a eles atribuídos. Não


apenas a questão econômica da substituição dos braços e da mudança das
formas de trabalho estava em jogo, mas todo o edifício tradicional da domi­
nação no mundo rural que, ainda em 1888, tinha na figura do escravo seu
principal ponto de inflexão.

Notas

1 Jornal do Commercio, 17 out., 1888.


2 0 Monitor Campista, 17 maio, 1881.
3 Está presente, por exemplo, na maioria dos trabalhos que se detêm na conjuntura dos anos de
1887 e 1888. Cf., entre outros, Robert Conrad, Os últimos anos da escravatura no Brasil, 1850-
-1888,1978; Warren Dean, Rio Claro — Um sistema brasileiro de grande lavoura, 1820-1920,
1977.
4 O Monitor Campista, 10 jan. e 26 fev., 1886 .
5 No mesmo sentido, ver Lilia M. Schwartz, Retrato em branco e negro —Jornais, escravos e cida­
dãos em São Paulo noJinal do século XIX, 1987.
6 0 Monitor Campista, 1a jan., 1888. Sobre as fugas em massa e o movimento abolicionista em
Campos, cf. Donald Cleveland, Jr., "Slavery and Abolition in Campos, Brazil, 1830-1888”.
Ph.D. History Modern, Ithaca, NY, Cornell University, 1973; Lana L. da Gama Lima, Rebeldia
negra e abolicionismo, 1981.
7 Célia Marinho de Azevedo, Onda negra, medo branco — O negro no imaginário das elites. Sécu­
lo XIX, 1987, cap. 4.
8 Cf., entre outros, Emília V. da Costa, Da senzala ã Colônia, 1966; José Murilo de Carvalho,
Teatro de sombras — A política imperial, 1988; Robert Conrad, Os últimos anos da escravatura
no Brasil...
9 Cf, entre outros, Emília V. da Costa, Da senzala à Colônia, e Paula Beiguelman, A crise do es-
cravismo e a grande imigração, 1978.
10 Entre outros exemplos, ver as argumentações dos jornais 0 Voto Livre e o Correio de Cantaga­
lo, analisadas nesta parte.
11 Ademir Gebara, 0 mercado de trabalho livre no Brasil, 1871-1888,1986, cap. 1.
12 Maria Lúcia Lamounier, Da escravidão ao trabalho livre — A lei de locação de serviços de 1879,
1988.
13 Sobre o tema e, especialmente, sobre o direito ao pecúlio, ver Sidney Chalhoub, Visões da li­
berdade — Uma história das últimas décadas da escravidão na Corte, 1990, cap. 2.
14 Cf., neste sentido, Robert Conrad, Os últimos anos da escravatura no Brasil...
15 Maria Helena P. T. Machado, Crime e escravidão — Trabalho, luta e resistência nas lavouras
paulistas, 1830-1888,1987, e Célia Marinho de Azevedo, Onda negra medo branco...
16 Cf., entre outros, Maria Lúcia Lamounier, Da escravidão ao trabalho livre...
17 Warren Dean, Rio Claro — Um sistema brasileiro de grande lavoura..., p. 153.

220
2

Os terríveis paulistas

Por falta de unidade o partido conservador com intuitos diversos se divide na solução
do problema servil, e o próprio partido que fez da lei Saraiva o derradeiro marco
legislativo, já pediu revisão da lei para por termo quanto antes a escravidão. [...]
E quando parecia que eram os fazendeiros paulistas que ditavam a coparticipação
do Sr. Prado na confecção da lei Saraiva, eis que, um ano depois, esses terríveis paulistas
são justamente os mais adiantados abolicionistas, e vão libertando seus escravos sem
medo das profecias do chefe fluminense [...]
De sorte que o ano de 1888 começa podendo-se vaticinar que não chegará ao seu
termo sem deixar resolvida de uma vez a questão servil1.

A entrada explícita do escravo na cena política, abandonando em massa as


senzalas e recusando-se ao trabalho cativo, produziu, por toda a parte por onde
ocorreu, um estranho encontro entre abolicionistas e antigos lavradores escra­
vistas, no interesse comum de organizar o trabalho. A província de São Paulo
foi o palco inicial desse encontro que, entretanto, não ficou confinado a seus
limites geográficos. Apesar disso, não se pode desprezar o impacto da expe­
riência paulista como a principal fonte geradora de uma mudança de expec­
tativa em relação ao desenlace do processo emancipacionista no país e de di­
fusão de uma interpretação sobre o comportamento do escravo, transformado
em homem livre, capaz de nortear as ações da antiga camada senhorial de
outras regiões.
Não pretendo aqui enfatizar o movimento popular no contexto urbano,
que tem sido bastante privilegiado pela historiografia sobre o abolicionismo,
nem o peso do sucesso da imigração subvencionada a partir de 1887. Sem
pretender polemizar, considero que os milhares de alforrias, inicialmente
condicionais e depois incondicionais, concedidas nos últimos meses da insti­
tuição escravista, prática que pioneiramente se generalizou em São Paulo e em
DAS CORES DO SILÊNCIO

algumas províncias do Sul, como resposta às insubordinações das senzalas,


para além do evidente cinismo senhorial que encobriam, prepararam o solo
sobre o qual se produziu aquele encontro.
Em finais de abril de 1888, o órgão de imprensa do partido conservador
em Cantagalo, reduto do chefe político fluminense — conselheiro Paulino —
e último baluarte de defesa da escravidão até o 13 de Maio, considerava a ten­
dência à generalização das concessões de alforrias como a principal responsá­
vel por seu dramático isolamento e a diagnosticava como simples capitulação
do senhor perante o escravo, que causava, ao invés de evitar, ainda maiores
desordens. De janeiro a abril de 1888, o Correio de Cantagalo tentaria pateti­
camente evitar que a experiência se disseminasse nas terras fluminenses, pro­
curando argumentar sobre seus efeitos devastadores para a autoridade moral
dos senhores e a organização do trabalho na lavoura paulista. Domesticamente,
tentaria ainda ignorar ou minimizar as deserções e alforrias em massa, insis­
tindo em publicar anúncios de fazendeiros, oferecendo recompensas pela
recaptura de grupos de escravos fugidos, que apenas em final de abril deixariam
as páginas do jornal. Para seu desespero, entretanto, desde março as alforrias
coletivas já ocorriam também em Cantagalo, veiculadas com destaque pelo
jornal do partido liberal.
Nos demais jornais interioranos consultados, as concessões em massa de
alforrias na província de São Paulo tornaram-se, desde janeiro, o principal
tema de divulgação e análise. O fantasma da desordem era também aqui
esgrimido como argumento, só que agora em sentido inverso. A liberdade
passava a ser condição para a ordem, e a experiência paulista era acompanhada
com entusiasmo ou interesse, na dependência do maior ou menor engajamento
da publicação na causa abolicionista2.
Vale a pena, antes de acompanharmos como os eventos e as atitudes pau­
listas refletiram na imprensa interiorana fluminense e mineira, realizar uma
rápida recapitulação da velocidade das mudanças de expectativas em relação
à questão nas plagas paulistas.
Em São Paulo, desde o início da década de 1880 a “transformação do tra­
balho” parecia já definitivamente encaminhada, com a introdução do impos­
to sobre o tráfico interprovincial — que praticamente barrou a entrada de
novos cativos na província — e o encaminhamento da questão imigrantista,
através da subvenção pelos cofres provinciais. Apesar disso, ainda em 1884, a
totalidade das câmaras municipais se colocava contrária à ideia da abolição
imediata da escravidão e pouco se preocupava com o movimento abolicionista.
A inquietação das senzalas, que sinalizava para um questionamento das próprias

222
OS TERRÍVEIS PAULISTAS

bases da relação senhor-escravo pelos próprios cativos, conformava, entretanto,


antiga e crescente preocupação dos fazendeiros, agravada pela proibição do
açoite, em 18863.
Entre 1885 e princípios de 1887, Warren Dean estima as fugas de escravos
no município de Rio Claro em 10% do conjunto da população cativa, sem que
um movimento propriamente abolicionista tivesse deixado maiores registros
na vida do município. Em outubro, explodem várias revoltas localizadas, com
o abandono coletivo das senzalas, e a população do núcleo de fugitivos em
Santos cresce de dois para dez mil. Coincidentemente, é nesse mês que o
jornal A Redenção assume unitariamente, pela primeira vez, a defesa da abo­
lição incondicional e imediata. Diante do agravamento da situação, em de­
zembro, os representantes conservadores dos “terríveis” fazendeiros paulistas
aproximam-se finalmente da causa da liberdade, liderados por Antônio Prado,
propondo a concessão particular de alforrias condicionais, estabelecendo um
prazo de três anos para a libertação final da província. As libertações condi­
cionais de fazendas inteiras precederam mesmo a resolução e se acentuam nos
meses de dezembro e janeiro. Ao invés de restabelecerem a ordem, entretanto,
fazem com que, já em fevereiro, a desorganização do trabalho se torne abso­
luta. Entre fevereiro e março a quase totalidade dos fazendeiros paulistas tinha
se convertido — como os articulistas de A Redenção — à ideia da alforria
incondicional e à defesa da abolição imediata como a única forma de restabe­
lecer a ordem e salvar a safra de 18884.
E exatamente a partir de dezembro de 1887 que os eventos paulistas come­
çam a ser tratados com destaque na imprensa interiorana do Rio e de Minas.
Havia se quebrado a solidariedade entre as três maiores províncias escravistas
e esse era por si só um fato político da maior repercussão. As fugas de 1887 e
a radicalização do movimento abolicionista em São Paulo não chegaram a
merecer grande repercussão nas folhas analisadas, englobadas numa discussão
mais ampla sobre as táticas a serem utilizadas pelo movimento abolicionista
e a vaga repressiva do movimento, patrocinada pelo Ministério Cotejipe. A
maior parte mesmo das folhas abolicionistas achava muito perigoso insuflar
as senzalas e evitava divulgar o tema, temendo não apenas o próprio escravo,
como também um efeito contraproducente que os isolasse politicamente
nas localidades em que atuavam. Afinal, o epíteto de fomentadores da desor­
dem e do caos era o principal argumento que se esgrimia contra os abolicio­
nistas. A mudança de posicionamento do conselheiro Prado, diluindo a tensão
ideológica, faria das alforrias, concedidas aos milhares, um fato jornalístico
irrecusável.

223
DAS CORES DO SILÊNCIO

Em janeiro, as listas divulgando o nome dos senhores (quase sempre pau­


listas) que concediam alforrias condicionais e incondicionais em massa tor-
nam-se a matéria de presença mais constante nos jornais analisados5. Sucedem-
-se também os editoriais, comentando a mudança de posição dos conservadores
paulistas, que tornava previsível uma divagem no encaminhamento oficial da
questão6.
O tratamento que as folhas locais atribuíram a essas duas questões variou
conforme seus diferentes posicionamentos políticos. 0 Monitor Sul-Mineiro,
tradicional folha de Campanha, em Minas Gerais, portador de um moderado
abolicionismo monárquico, que não se alinhava com quaisquer dos partidos
constitucionais, procurava ressaltar o humanitarismo e o espírito de despren­
dimento dos proprietários paulistas, que deveria ser seguido pelos mineiros.
A liberdade era obra da generosidade dos senhores: essa foi uma versão que
muitos, na época, além d’0 Monitor Sul-Mineiro, se empenharam inicial­
mente em difundir. De todos os jornais analisados, esse foi o único que se
ateve primordialmente a essa versão, esforçando-se até o fim por ignorar o
tema das deserções em massa. Não pôde deixar, entretanto, de abrir algumas
exceções em dois editoriais, publicados entre março e abril, em que relacionava
diretamente os dois temas, nos quais, curiosamente, se propunha a ‘Talar
francamente”7.
A Gazeta Sul-Mineiro, de São João dei Rei, de forte influência conserva­
dora, imobilizada pela divisão do partido, limitou-se a princípio a publicar as
listas de manumissões, sem maiores comentários, e a exortar os proprietários
mineiros a que acelerassem as providências para incrementar a imigração.
Desde janeiro, entretanto, mostrava uma discreta simpatia pela estratégia de
concessão de alforrias condicionais, como forma de fixar o liberto “pela gra­
tidão e o interesse”. Isso os forçou, contraditoriamente, a dar destaque, antes
mesmo que alguns jornais abolicionistas, às deserções em massa e a enfocar as
concessões de alforria como uma resposta preventiva a essa tendência, que
merecia, pelo menos, ser examinada pelos proprietários mineiros, num mo­
mento em que começavam a viver experiência semelhante8.
Apenas 0 Monitor Campista, com fortes ligações, ao mesmo tempo, com
as classes produtoras do Norte Fluminense e com um abolicionismo mais
radical, e o Correio de Cantagalo, baluarte da resistência escravista, associaram
desde o início as libertações com as deserções em massa de escravos.
0 Monitor procurava alertar os fazendeiros campistas para o fato de que
precisavam antecipar-se à desordem e que não havia mais condições políticas
para reprimir a insubordinação das senzalas que, em Campos, já aparecia como

224
OS TERRÍVEIS PAULISTAS

uma realidade. Uma série de editoriais foi publicada com os títulos “É tempo”,
“Aos que dormem”, repetindo à exaustão o argumento da “necessidade” de
encaminhar a libertação dos escravos antes que eles próprios ou o Estado o
fizessem9. O raciocínio era simples e bastante óbvio: a quebra da disciplina nas
senzalas paulistas teria acabado por quebrar a própria solidariedade dos se­
nhores na defesa da continuidade da escravidão e do direito de propriedade,
que lhe era inerente. Não havia mais como reprimir pela força as deserções.
Os escravos de Campos pareciam seguir a passos largos o exemplo de seus
parceiros paulistas. A seus senhores restava tentar antecipar-se à desagregação
definitiva do poder senhorial, para preservar sua autoridade moral e a organi­
zação do trabalho, como faziam os proprietários paulistas.
O Correio de Cantagalo procurava, sem o mesmo êxito, trabalhar com a
argumentação inversa. A estratégia de concessão de alforrias adotada pelos
paulistas para conter a insubordinação nas senzalas tinha se revelado um
completo fracasso, uma vergonhosa capitulação do senhor perante o escravo,
que ampliara ainda mais o alcance da desorganização do trabalho na região.
Em fevereiro, esforçaram-se por traçar um quadro aterrador da desorganização
da lavoura paulista, responsabilizando a estratégia de concessão de alforrias
condicionais em massa pela situação de caos. Numa série de quatro editoriais,
por todo o mês de fevereiro10, O Correio se esforçou por convencer os senho­
res locais do caráter suicida daquela estratégia. O mais convincente consistiu
em transcrição de um editorial, publicado no Jornal do Commercio, que pro­
curava apoiar-se no prestígio da publicação. O artigo considerava melindrosa
a situação da “nossa zona”, formada pelas províncias do Rio, de Minas Gerais,
do Espírito Santo e do norte de São Paulo e argumentava que:

Suspensa a exportação da nossa zona, desorganizada a lavoura e as indústrias, como


no Rio Grande do Sul e no Oeste de São Paulo, a circulação das vias férreas, o movi­
mento das alfândegas, as vendas das casas importadoras e das de atacado, tudo cessará.
A prova vê-se já na imensa redução das rendas das alfândegas rio-grandenses e na
descida à metade da renda provincial de São Paulo, fatos que se tem procurado ocultar,
mas que existem e ocioso será disfarçá-los1 ’.

Para os redatores do Correio, os proprietários de escravos deviam mostrar-


-se fortes na defesa de sua autoridade moral perante os escravos, e de seus di­
reitos de propriedade ante o movimento abolicionista, enquanto aceleravam
providências para o recebimento de imigrantes.

225
DAS CORES DO SILÊNCIO

As deserções em massa foram, assim, primeiramente consideradas pelos


mais conservadores e pelo abolicionismo radical. As alforrias coletivas mere­
ceram uma divulgação mais ampla e imediata. Em todos os casos, entretanto,
acabou-se por relacionar diretamente os dois fenômenos, e a experiência
paulista de concessão de alforria em massa foi avaliada pela imprensa interio-
rana, independentemente de suas posições políticas, em função de sua maior
ou menor adequação para restabelecer a ordem e devolver o processo eman-
cipacionista à órbita do controle senhorial.
Para o cada vez mais isolado grupo conservador fluminense, as alforrias
não eram solução, mas antes agravante do problema colocado pela insubordi­
nação das senzalas. De seu ponto de vista, o único encaminhamento seguro
para a questão colocava-se, ainda, nas bases de 1884, apenas acrescido de uma
redução na sobrevida prevista para a instituição: evitar que a crescente perda
de legitimidade da escravidão na “boa sociedade” influísse na organização das
senzalas, respeitando o direito de propriedade e o comando senhorial do
processo de transformação do trabalho. Isso era um consenso nas hostes
conservadoras até finais de 1887, com amplo respaldo nos grupos de produ­
tores rurais que as apoiavam. Diante das deserções em massa, os proprietários
paulistas romperam com essa unidade. A onda de alforrias em massa consistiu,
na verdade, numa estratégia de abandonar o cronograma de 1884 e, posterior­
mente, até a defesa do direito de propriedade, na tentativa de recuperar o
controle senhorial do processo. A essa estratégia, desenvolvida inicialmente
em São Paulo, apenas o grupo conservador fluminense se opôs até o final.
Uma carta de um conhecido fazendeiro e político conservador paulista,
publicada em 0 País e em vários jornais interioranos, procurava fazer com que
seus colegas de outras províncias percebessem a necessidade e o alcance dessa
mudança tática. É importante notar que a carta do político e fazendeiro pau­
lista Paula Sousa ao também político e fazendeiro baiano César Zama, escrita
em março, só foi divulgada em abril em O País e daí transcrita em várias outras
publicações, ou seja, quando as fugas em massa já haviam deixado havia mui­
to de ser um problema exclusivamente paulista e quando o fantasma da desor­
dem parecia ter dali se afastado, por obra da liberdade12.
A carta aponta para vários dos componentes da estratégia senhorial para
evitar a ameaça da desordem. A divulgação da experiência paulista nas folhas
interioranas fluminenses e mineiras, nesse e em outros casos, serviu para so­
cializar uma consciência senhorial dos trunfos com que contavam para enfren­
tar a situação.

226
OS TERRÍVEIS PAULISTAS

Em primeiro lugar, ela define um objetivo e reforça uma tese para alcançá-
-lo. Ambos tendem rapidamente a se generalizar entre os antigos senhores. O
objetivo seria a permanência dos escravos após a liberdade, e haveria apenas
dois fatores capazes de conservá-los na própria fazenda após a libertação. Em
primeiro lugar, ela já deveria ser concedida incondicionalmente pelo senhor,
antes que aquela fazenda tivesse sido tomada pela indisciplina e pelas fugas
em massa. Deveria ser uma concessão e não uma conquista. Em segundo lugar,
mesmo nesse contexto, os cativos somente permaneceríam se possuíssem re­
lações afetivas e familiares estáveis no local do antigo cativeiro.
Foi exatamente o que alega ter experimentado o fazendeiro Paula Sousa,
recém-convertido à causa da liberdade:

Desde primeiro de janeiro não possuo um só escravo! Libertei todos, e liguei-os à


casa por um contrato igual ao que tinha com os colonos estrangeiros e que terei com
os que de novo ajustar. Bem vês que o meu escravismo é tolerante e suportável. [...]
Dei-lhes liberdade completa, incondicional, e no pequeno discurso que lhes fiz ao
distribuir as cartas falei-lhes dos graves deveres que a liberdade lhes impunha, e disse-
-Ihes algumas palavras inspiradas no coração, muito diversas aliás daquelas que com
antecedência havia preparado. No ponto de vista literário, fiz um fiasco completo
porque chorei também. Concluí dando-lhes uma semana para procurarem o cômodo
que melhor lhes parecesse, e declarando-lhes ao mesmo tempo que minha casa conti­
nuaria sempre aberta para os que quisessem trabalhar e proceder bem.
A exceção de três, que foram procurar suas irmãs em São Paulo, e dois, um dos
quais — ingênuo — que foram ter com o pai, libertado por mim, há dez anos, todos
ficaram comigo, e são os que me rodeiam, e junto dos quais me sinto feliz e contente,
como acima te disse13.

Socializar esse saber senhorial sobre o comportamento do liberto foi uma


das principais tarefas a que se propuseram as folhas interioranas. A carta do
conselheiro Paula Sousa é publicada na Gazeta Sul-Mineira e em O Monitor
Campista. O Monitor Sul-Mineiro, que insistia em apresentar as levas de alfor­
rias condicionais e incondicionais como manifestação da generosidade dos
senhores, diante da força avassaladora da ideia de liberdade no país, exaspera-
-se com seus conterrâneos e decide-se a “falar francamente”, em editorial de
abril de 1888:

Os paulistas teriam decidido pela libertação em massa não por terem sentimentos
humanitários maiores que os demais brasileiros, mas por bom senso, convencidos da
inevitabilidade da extinção da escravidão, para evitar a desorganização do trabalho. [...]

227
DAS CORES DO SILÊNCIO

Nas mesmas condições de Minas se acha a província do Rio de Janeiro, e se houves­


se verdadeira compreensão do que tanto nos interessa ainda era tempo de impedir — pela
concessão da liberdade, as consideráveis fugas de escravos, que tanto agravam a situação
em que vivemos. [...]
[...] liberdade sem ônus aos escravizados — e os infelizes que fogem em busca de
ventura, volverão aos nossos vales e montanhas, a que os prendem os costumes, os laços
de sangue e talvez mesmo alguma recordação ao coração1^. (grifo nosso)

Mesmo a Gazeta Sul-Mineira, que de forma alguma pode ser considerada


uma folha abolicionista (no seu primeiro número, após o 13 de Maio, o único
comentário sobre a lei é uma transcrição na íntegra do discurso de protesto do
barão de Cotejipe, em 12 de maio, no Senado), em 13 de janeiro já doutrinava:

E indispensável lançar mão do meio mais seguro de fixar, pela gratidão e pelo inte­
resse, o escravo à fazenda onde tem trabalhado. Se a condição deste mudar-se de um
dia para o outro, só por disposição de lei, difícil será conservá-lo aí, ou só depois de
muito tempo poderia conseguir-se, dando-se neste intervalo perturbações econômicas
de maior vulto15.

Percebe-se, assim, que a defesa da alforria em massa, condicional ou mesmo


incondicional, não se confundia necessariamente com a defesa da abolição
imediata e incondicional por medida legislativa. Era proposta como uma
medida preventiva, que preservasse a autoridade moral dos senhores na passa­
gem para a liberdade, que se percebia inevitável, ante os sucessos paulistas. Era
pensada como condição para a retomada do controle senhorial do processo.
A carta do fazendeiro Paula Sousa procurava falar diretamente à sensibili­
dade dos senhores e ao sentimento de perda inerente à concessão de alforria.
As lágrimas e a felicidade em continuar rodeado por “sua gente” calavam
fundo na frustração senhorial perante a crescente perda de controle sobre
“seus” cativos.
Sua carta procurava, também, tranquilizar os que não tivessem a fortuna
de conservar seus escravos, antecipando-se à deserção. Advertia, porém, que,
para os que não se antecipassem, ou tentassem “meias liberdades”, com a alfor­
ria condicional, o abandono das fazendas seria inevitável. Novamente repor­
tando-se à experiência paulista, considerava:

[...] durante o mês de fevereiro passamos na província horas de amargura e terror,


vendo a mais completa desorganização do trabalho que se pode imaginar.

228
OS TERRÍVEIS PAULISTAS

Todo o corpo de trabalhadores desertou das fazendas, que ficaram quase abando­
nadas. Não exagero dizendo que sobre cem, 8o ficaram desertas, procurando os negros
as cidades ou aliciadores malévolos. Que será de todos nós ? pensávamos tristemente.
Pouco a pouco eles cansaram da vadiação, e a seu turno os aliciadores cansaram de
sustentá-los sem proveito, e hoje, março, já estão todos mais ou menos arrumados [...]16.

Veicula-se aqui um outro conceito senhorial sobre o comportamento do


liberto que os jornais abolicionistas e os fazendeiros convertidos à causa da
liberdade, como condição para a ordem, empenharam-se em difundir antes
do 13 de Maio e mesmo depois. Nessa versão, o escravo, uma vez liberto à re­
velia do senhor, resistiría a continuar a servir na mesma casa onde havia sido
cativo. Não se recusaria, porém, ao trabalho, limitando-se a trocar de fazenda,
em pouco tempo voltando ao eito. Esse processo era doloroso, mas não fatal
à estrutura produtiva e à manutenção do controle social no mundo rural.
Essa mesma sensação de terror, agonia e alívio é veiculada em outra carta
paulista, publicada em O Monitor Campista em 21 de fevereiro, desta feita
redigida por um antigo militante da causa abolicionista, referindo-se às deser­
ções em massa em Araras, ainda em outubro de 1887:

Imagine quem quiser e perante as idéias terroristas, qual seria a posição


de Araras diante desses dois ou três mil pretos que num momento dado se congregaram,
e de enxada no ombro, declararam a uma voz, que não trabalhariam mais sem salário.
Acrescente a tudo isso que toda essa marcha de gente convergiu para a pequena
povoação, firme e resoluta.
Diante da minha frágil cabeça passavafm] repentinamente todas as visões dantescas!
Vi num momento o interior da África e a selvageria dos régulos que por lá governam,
a contragosto da civilização e banquetes canibalescos a completar o pavoroso quadro.
Esta visão durou pouco.
Foi assim que no dia seguinte da debandada dos pretos de Araras nem um só va-
diava, mas nem um só ficava por gosto com o seu antigo senhor.
Alguns tentavam deter a retirada de seus trabalhadores oferecendo-lhes boas van­
tagens.
Baldado intento.
Tudo, menos ficar diante da senzala que longo tempo os abrigou.
Passado o primeiro momento da crise, eis a síntese de algumas conversas que ob­
servei em Araras.
— Como vai de gente? dizia um.
— Bem. Tenho quatro dos teus, dois do Chico, seis do Barão e alguns não sei de
quem. E você como se arranjou?
— Tenho uma parte dos vossos e muitos não sei de quem, ao todo uns quarenta.

229
DAS CORES DO SILÊNCIO

— Vão bem?
— Trabalham perfeitamente17.

E esta promessa de que após a tempestade viria a bonança, de que apenas


a liberdade poderia reintroduzir a ordem, de que o escravo liberto, premido
pela necessidade, se limitava a trocar de fazenda, continuando mesmo a ser
identificado pelo nome de seu antigo senhor, que aproximava abolicionistas
e senhores que começavam a experimentar a perda de controle sobre seus es­
cravos. Para estes, a experiência paulista surgia como advertência e bússola.
Os trechos citados da carta de Paula Sousa ainda nos oferecem um tercei­
ro ponto de reflexão: a identidade que se busca construir entre os fazendeiros
paulistas recém-convertidos à causa da liberdade e os senhores de outras regiões.
O discurso improvisado e as lágrimas são essenciais para essa construção, bem
como a felicidade de continuar rodeado por “sua gente”. O concurso do imi­
grante estrangeiro é mesmo minimizado em toda a missiva, buscando diluir
as diferenças e enfatizar a solidariedade senhorial. Da perspectiva proposta
por Paula Sousa, é menos no imigrantismo e antes nas dificuldades específicas
de manutenção do domínio sobre o cativo, em São Paulo mais acentuadas do
que em outras regiões, que residiría a chave do pioneirismo da conversão à
liberdade do fazendeiro paulista. Profeticamente, antecipava que, mais cedo
ou mais tarde, Bahia, Minas Gerais e Rio de Janeiro viveríam a mesma expe­
riência, se já não estavam vivendo, e a isso oferecia uma versão tranquilizado-
ra da experiência paulista.
“Não hesitem, libertem em massa e contratem” era seu conselho. Procura­
va para isso afastar ainda outros temores. O primeiro deles se referia à provável
dificuldade de conseguir trabalhadores. Quanto a esse ponto, argumentava:

Deves lembrar-te que o meu grande argumento de escravista era — o corpo do


escravo era o único com que podíamos contar para o trabalho constante e indispensá­
vel ao agricultor, e que se este pudesse contar sempre com trabalhadores livres, de boa
vontade sacrificaria o escravo.
Quem argumentava assim, podia ser considerado um pessimista, mas não um em­
perrado.
Pois bem: os teus patrícios que percam este receio. Trabalhadores não faltam a quem
os sabe procurar. Primeiramente temos os próprios escravos, que não se derretem nem
desaparecem, e que precisam de viver e de alimentar-se, e, portanto, de trabalhar, coisa
que eles compreendem em breve prazo.
Depois temos um corpo enorme de trabalhadores, com que não contávamos. Não
aludo “ao emigrante, que felizmente hoje nos procura em abundância: aludo ao brasi­

230
OS TERRÍVEIS PAULISTAS

leiro, preguiçoso ontem e vivendo das aparas do serviço do escravo e da benevolência


do proprietário rural, ao qual fazia a corte na qualidade de agregado-capanga, ou outra
qualquer coisa.
Este brasileiro lança-se hoje valentemente ao trabalho, ou porque este se nobilitasse
com a liberdade, ou porque lhes tivesse[m]faltado aqueles recursos anteriores. E o que aqui
estamos vendo.
Quanto a mim, tenho recolhido muitos, receoso de que no regime atual não esteja
suficientemente suprido de trabalhadores.
Muita gente, que vivia de quatro pés de feijão e uma quarta de milho, entra hoje no
serviço do cafezal e do terreiro com satisfação, e os que tenho recebido acomodam-se
perfeitamente nas antigas senzalas dos escravos. As minhas são, na verdade, boas, mas
foram feitas em forma de quadrado — forma repugnante até aqui.
Continua a mesma forma, posto que sem fechadura, e eles hoje até acham preferível
o quadrado, porque nele recolhem os seus mantimentos sem receio de dano dos animais.
Meu quadrado é um grande pátio cercado de casas brancas e limpas, cujas portas pre­
tendo agora abrir para o lado de fora18, (grifo nosso)

A liberdade, desse modo, não só reintroduziria a ordem como facilitaria


o suprimento de trabalhadores. Nobilitado o trabalho, melhorariam as con­
dições não só para a atração de imigrantes como também para a utilização
dos brasileiros nascidos livres. Se isso não fosse suficiente, para que lhes fal­
tassem os “recursos anteriores”, bastaria que, para isso, concorresse a vontade
dos fazendeiros que os mantinham como agregados. Nem mesmo casas de
colonos precisariam ser imediatamente construídas. As antigas senzalas,
mesmo quando construídas em forma de quadrado, poderíam continuar a
ser utilizadas, bastando que se abrissem para fora as suas portas.
Mesmo no que se refere aos gastos dos lavradores, a liberdade só traria
vantagens, na versão de Paula Sousa:

É também preciso que seus patrícios saibam que o trabalho livre não é tão caro
como a princípio parece. Este ponto foi a minha maior surpresa na transformação por
que passamos.
Como te disse, tenho com os meus escravos o mesmo contrato que tinha com os
colonos.
Nada lhes dou; tudo lhes vendo, inclusive um vintém de couve ou de leite!
Compreendes que só faço isso para moralizar o trabalho, e para que eles compreen­
dam que só podem contar consigo, e jamais por ganância, porquanto só uma visita do
médico, sou eu quem paga, custa-me muito mais do que todas as couves que tenho, e
que todo o leite das minhas vacas.

231
DAS CORES DO SILÊNCIO

Pois bem: esse vintém de couves e de leite, o gado que mato, a fazenda que compro
por atacado, e que lhes vendo a retalho, e mais barato que nas cidades, dá quase para o
pagamento do trabalhador.
Tudo isso passava desapercebido no regime da escravidão19.

Completa-se a argumentação. Nem mesmo o temor do desembolso mo­


netário se justificava, bastava levá-los a fazer no interior da fazenda os gastos
que de outra maneira fariam fora! A liberdade se tornava, assim, no caráter
exemplar que se procurava tirar da experiência de Paula Sousa, a palavra má­
gica para a reintrodução da ordem, disciplina e prosperidade na grande lavou­
ra, mesmo quando as deserções em massa não pudessem ser evitadas.
A extensa reprodução dessa carta se justifica, por ela resumir, num relato
que se procura o tempo todo referenciar a situações concretas, todas as van­
tagens que, em inúmeros outros artigos, as folhas interioranas analisadas, à
exceção do Correio de Cantagalo, procuraram extrair da experiência paulista
e difundir entre os senhores do Rio e de Minas Gerais. Especialmente o suces­
so de Paula Sousa em reter seus ex-cativos na fazenda exercia verdadeiro fascí­
nio sobre os senhores fluminenses e mineiros.
O Correio de Cantagalo procurava atacar essa argumentação em seus dois
pilares de sustentação. Por um lado, procurava mostrar, sempre que possível
referenciado também a situações concretas, que à concessão de alforria seguir-
-se-iam sempre a ingratidão e o abandono da lavoura. Prova disso seria o esta­
do da lavoura paulista, em janeiro e fevereiro, como era reconhecido pelo
próprio Paula Sousa. Por outro, considerava que a luta de cada lavrador por
atrair o maior número possível de trabalhadores, “receoso que no regime atual
não [estivesse] suficientemente suprido” deles, acabaria por inviabilizar os
produtores menos prósperos e mesmo regiões inteiras que se encontrassem
em situação desvantajosa.
Desde janeiro, entretanto, havia antigos escravistas que estavam convictos
de que: “[...] a escravidão já não mais existe, pois não há lei que garantisse a
permanência dos escravos nas fazendas, desde que eles não quisessem mais
ficar. No dia que o escravo não quiser mais trabalhar, não trabalha”20.
Foi diante dessa convicção que a concessão de alforria incondicional se
mostrou uma estratégia fundamental para reverter o controle do processo em
favor dos proprietários. A crise dizia respeito diretamente à força moral dos
senhores sobre “seus” cativos. Acreditava-se que esta ainda era capaz de pro­
duzir dividendos de gratidão por parte dos libertos, se acionada a tempo para
a concessão da liberdade. A insubordinação das senzalas não se resumia, assim,

232
OS TERRÍVEIS PAULISTAS

às deserções em massa; estas simplesmente culminavam um processo anterior


de desagregação da dominação escravista no interior das fazendas que, com a
concessão de alforrias, se procurava evitar.

Notas

1 0 Monitor Campista, 12 jan, 1888.


2 Os jornais analisados neste capítulo são: Correio de Cantagalo, Cantagalo, RJ. O Voto Livre,
Cantagalo, RJ; 0 Monitor Sul-Mineiro, Campanha, MG; Gazeta Sul-Mineira, MG; O Monitor
Campista, Campos, RJ.
3 Warren Dean, Rio Claro — Um sistema brasileiro de grande lavoura, 1850-1888, 1978,
caps. 4 e 5.
4 Ibidem; Célia Marinho de Azevedo, Onda negra medo branco — 0 negro no imaginário das
elites. Século XIX, 1987, cap. 4; Paula Sousa, Carta ao senhor César Zama, mar., 1888.
5 Entre janeiro e abril, não se registra um só número das folhas analisadas que não faça menção
às manumissões, com a exceção do Correio de Cantagalo.
6 Além do já citado editorial de O Monitor Campista, 0 Voto Livre publica editorial nesse senti­
do em 19 fev., 1888, A Gazeta Sul-Mineira, em 13 jan., 1888, e O Monitor Campista,
em 29 jan., 1888.
7 0 Monitor Sul-Mineiro, 18 mar. e 12 abr., 1888.
8 A Gazeta Sul-Mineira, 13 jan. e 19 abr., 1888.
9 Cf. O Monitor Campista, 17 jan., 14 jan., 2 fev., 4 fev., 5 fev., 19 fev, 23 fev., 24 fev. e 25 fev., 1888.
10 Publicados nos dias 5,9,16 e 19 de fevereiro em 0 Monitor Campista.
11 Correio de Cantagalo, 19 fev., 1888.
12 A Gazeta Sul-Mineira, 19 abr., 1888; 0 Monitor Campista, 5 abr., 1888; Jornal do Commercio,
s.d.; O País, 10 abr., 1888.
13 Paula Sousa, Carta ao senhor César Zama, mar., 1888.
14 0 Monitor Sul-Mineiro, 12 abr., 1888.
15 A Gazeta Sul-Mineira ,i3jan.,i888.
16 Paula Sousa, Carta ao senhor César Zama, mar., 1888.
17 Carta publicada em 0 Monitor Campista, 21 fev., 1888.
18 Paula Sousa, Carta ao senhor César Zama, mar., 1888.
19 Ibidem.
20 0 Monitor Campista, 11 jan., 1888.

233
3

A generosidade dos senhores


GRATIDÃO
Do fundo dalma agradeço aos meus ex-senhores Rodrigo Alves Ri­
beiro Guimarães e d. Francisca dc Sousa Guimarães o aro meritório
que praticaram concedendo-me, espontaneamente, liberdade.
Reconhecida, jamais olvidarei este benefício, desejando que Deus
lhes conceda venturosa existência.
Campos, 19 de março de 1888
Maria Francisca das Dores1

A versão que se procurou difundir dos efeitos profiláticos da liberdade para a


crescente desagregação do poder senhorial no interior das propriedades rurais,
a partir da experiência paulista, em pouco tempo começou a repercutir também
no Rio e em Minas. A percepção que os senhores tinham do problema era
pautada, entretanto, pela experiência privada que possuíam das dificuldades
de manter o controle sobre seus cativos.
A “generosidade dos senhores”, a despeito de toda a campanha realizada na
imprensa, respondeu sempre, de uma maneira direta, às desordens em suas
próprias senzalas. Em janeiro e fevereiro ainda se anunciavam escravos para
venda em Cantagalo, e as fugas, apesar de coletivas, ainda cabiam nos anúncios
de “procura-se” do jornal2. Onde e enquanto se manteve a disciplina nas sen­
zalas, os abolicionistas pregaram no vazio sobre a generosidade paulista. Seu
discurso só se fez eficaz onde e quando passava a apontar para o risco iminen­
te e concreto de desordens.
Esse foi o caminho percorrido por 0 Monitor Sul-Mineiro que, em feve­
reiro considerava que “não tem felizmente diminuído o número de manumis-
sões de escravos, graças à generosidade e filantropia de seus ex-senhores. Espe­
cialmente em São Paulo, o número de libertações tem sido verdadeiramente
notável”3, para em abril reconhecer que não apenas sentimentos humanitários
haviam determinado a generosidade paulista e que as deserções já atingiam o
interior de Minas. Curiosamente, foi justamente nesse mês que o jornal pôde
noticiar, em suas extensas listas de manumissões, alforrias incondicionais
concedidas no município de Campanha.
Também em abril a conservadora Gazeta Sul-Mineira veicula a defesa da
alforria incondicional, contida na expressiva carta de Paula Sousa, e publica
suas primeiras listas locais de manumissões sem condição.
DAS CORES DO SILÊNCIO

Em Campos, no Norte Fluminense, onde rebeldia negra e abolicionismo


interagiram de forma mais próxima ao caso paulista4, já em fevereiro alguns
dos articulistas de O Monitor ousavam afirmar que “nenhum fazendeiro pode
dizer que tem escravos”5. Como resposta, as listas de alforrias incondicionais,
desde janeiro, mostravam-se ali expressivas. Em princípios de março, as deser­
ções se generalizaram, produzindo o mesmo consenso mágico ocorrido em
São Paulo, entre a elite branca local, unindo, em diversos encontros de lavra­
dores, antigos líderes escravistas com abolicionistas radicais6.
Mesmo o Correio de Cantagalo, que passara o mês de abril tentando mini­
mizar a importância das ondas de alforrias locais e contestar sua eficácia para
reintroduzir a disciplina nas senzalas, reconhecidamente abalada, em três de
maio é forçado a reconhecer a amplitude do movimento, mesmo que lhe va-
ticinando consequências catastróficas: “A continuar o desvario dos possuido­
res de escravos, dentro de 30 a 60 dias, teremos o desmantelamento das fazen­
das, a perda quase total da colheita, a cidade ameaçada por hordas de
maltrapilhos esfaimados, as estradas frequentadas por numerosas quadrilhas
de salteadores”7.
São essas alforrias de março e abril, e não as que lhes antecederam, em São
Paulo ou em Campos, que se costuma atribuir apenas ao despeito e ao cinismo.
Tenta-se referenciá-las apenas à queda do Gabinete Cotejipe e à subida do
gabinete conservador abolicionista, liderado por João Alfredo, com forte
influência paulista, e que sinalizava para uma solução definitiva da “questão
servil”. Costumam ser vistas apenas como uma tentativa desesperada de alguns
setores senhoriais de fazer serem um ato que o governo se preparava para
realizar com data marcada (maio).
A questão, entretanto, não é tão simples assim. Não foram poucos os “em­
perrados” que, mesmo com seus escravos transformados totalmente em reti­
rantes, se negaram a alforriá-los, na esperança de futura indenização. Diante
da importância política do tema nos últimos meses do Império, talvez tenham
sido a maioria. Além disso, a simples disposição abolicionista do gabinete e
da regente não era por si só suficiente para extinguir, sem quaisquer ressalvas,
a escravidão. Dependería sempre da aprovação do parlamento, que era o mes­
mo que havia derrubado em 1884 o Gabinete Dantas e aprovado a lei Saraiva-
-Cotejipe. Em oito de abril, o Correio de Cantagalo ainda se animava a publicar:

A lei de 28 de setembro de 1885 ainda não foi revogada e só poderá sê-lo pelo poder
legislativo, único competente para isso.
Enquanto vigorarem suas disposições nossos direitos estarão garantidos.

236
A GENEROSIDADE DOS SENHORES

Não os enfraqueçamos pois.


Repilamos para bem longe esses exemplos de covardia, que nos vieram de São
Paulo [...]
Mantenhamo-nos firmes na sustentação dos nossos direitos.
As autoridades constituídas têm por principal dever no-los garantir.
E, se por ventura houvesse um governo tão desleal e torpe, que a esse dever se recu­
sasse, pondo em perigo não só nossas propriedades como as nossas vidas, não faltariafm]
aos nossos concidadãos valor e patriotismo para manter o império da lei e assegurar à
sociedade as garantias a que ela tem jus, a sua defesa8.

O 10 de março não significou também nenhum novo alento de radicaliza­


ção ao movimento abolicionista, no sentido de uma maior atuação nas senza­
las. Pelo contrário, marcou o momento de sua maior aproximação com os
proprietários de cativos, a estimular a concessão de alforrias como caminho
para a reconstrução da ordem e a pedir calma aos libertos9. De fato, o novo
gabinete representava a materialização no poder público dessa tendência de
aproximação.
Em Campos, a mudança do gabinete se fez em meio aos preparativos do I
Congresso Agrícola, convocado em conjunto por todas as lideranças políticas
locais, em acordo com os líderes abolicionistas. Nilo Peçanha, convocando os
lavradores para o Congresso, publicou:

[...] no momento atual em que a convulsão aparece nas fazendas, com a fuga dos
escravizados em massa, a ideia do prazo não é mais aceitável nem pode ser admitida.
[...] libertem os escravos imediatamente, porque não só terão os trabalhadores amigos e
agradecidos, bem como as simpatias e o apoio dos in temer atos soldados do abolicio­
nismo. [...]
O abolicionismo não deve ser o privilégio de uns, deve ser o apanágio de todos10,
(grifo nosso)

Do lado da lavoura, que, até bem pouco antes, combatera com violência as
lideranças abolicionistas, também se publicam justificativas ao gesto de apro­
ximação:

Há outro meio de manter os escravos na fazenda?


Ninguém hoje pode crer em tal, e seria uma temeridade das mais cheias de risco e
perigos tentar o emprego da força para isso. 0 bom senso prático da classe agrícola de
Campos vê melhor isso, do que os avisados de fora do município, que não podem julgar
de longe das condições em que nos achamos [...] (grifo nosso)

237
DAS CORES DO SILÊNCIO

Pensar em adiar a libertação seria prejudicar a safra deste ano, seria pôr cm risco o
governo geral, seria ameaçar-nos com a anarquia11.

Essas considerações se fazem entre 10 e 13 de março e é difícil conceber que


tenham sido ditadas pela troca de gabinete, já que a decisão de realizar o con­
gresso é anterior à queda de Cotejipe.
Em março, manter os libertos nos trabalhos agrícolas e restaurar a ordem
no mundo rural através da concessão da liberdade já passara a ser um objetivo
compartilhado por muitos ex-senhores e líderes abolicionistas, mesmo fora
da província paulista.
Numa correspondência entre abolicionistas de São Fidélis e Cantagalo,
procurava-se ressaltar esse fato, que mereceu publicação por 0 Voto Livre:

Pela gazeta da Comarca de hoje, poderão ver que os abolicionistas procuram favo­
recer o movimento libertador sem prejudicar a organização do trabalho agrícola e que
estão dispostos a auxiliar a autoridade no sentido de reprimir todos os elementos
subversivos e perniciosos à solução pacífica do momentoso problema da extinção servil.
Há, no encanto, receio da fuga em massa dos escravizados para a cidade
de Campos, em vista da má conduta e emperramento de alguns possuidores de escravos.
E, além disso, por aqui fala-se na vinda de retirantes de Cantagalo e Madalena para
Campos.
Quem nos dera que por aí seguissem o nosso exemplo, evitando as fugas por meio
da liberdade aos pretos12.

O que estou procurando argumentar é que se a preponderância do ponto


de vista paulista sobre a questão servil no gabinete teve alguma influência nas
concessões de alforrias de março e abril, foi principalmente ao dissipar as últi­
mas esperanças de combater pela força a indisciplina nas senzalas. Essa mu­
dança de expectativa repercutiu também entre os cativos, ampliando o alcance
e a profundidade da insubordinação. Do ponto de vista dos senhores, as alfor­
rias se fizeram como uma resposta à crescente desagregação de seu poder.
Tal desagregação dizia respeito, entretanto, não apenas à perda de condições
externas de reprimir as fugas e deserções, mas especialmente à quebra da as­
cendência moral do senhor sobre seus cativos, no dia a dia das plantações, o
que tornava cada vez mais provável a opção pela deserção. Quem concedia
alforria, à exceção de casos-limite em que se procurava apenas legalizar uma
situação de deserção generalizada, facilitando, assim, a contratação de traba­
lhadores, em geral, ainda contava fisicamente com seus escravos. Se todos os
escravos não desertaram em todos os lugares, antes do 13 de Maio e mesmo

238
A GENEROSIDADE DOS SENHORES

depois, isso só prova que a ascendência moral dos senhores, construída por
uma pedagogia de terror e paternalismo, era o pilar central da ordem social
no mundo rural e se diluía mais lentamente que as condições externas que a
viabilizaram. O grande desafio dos senhores era, portanto, transitar para a
liberdade sem que essa ordem se visse irremediavelmente abalada.
A confiança na força dessa ascendência moral tornou surpreendente, para
muitos, a capacidade dos cativos de refletir, em suas ações, as mudanças
de orientação política no governo, personificado na regente, bem como as
divisões, no mundo dos brancos, no que se referia à escravidão e à liberdade.
Surpreendeu aos senhores que os cativos pudessem transformar, com suas
ações, uma simples troca de gabinete e um movimento de opinião, por si só
significativos, num fato consumado de proporções muito maiores. Ao forçarem
até o limite a nova situação política que lhes era favorável, os escravos provoca­
ram a contracstratégia dos senhores e sua aproximação com o movimento
abolicionista — a concessão de alforrias como forma de preservar a autoridade
moral e garantir, pelo menos em termos imediatos, o suprimento de trabalho.
Naquele momento, a publicação da carta de Paula Sousa pelas folhas inte-
rioranas fazia muito, muito sentido, em qualquer área do Sudeste cafeeiro. A
percepção que os senhores tinham do comportamento dos escravos, mesmo
dos que não desertavam (ou, talvez, especialmente dos que não desertavam),
tornava por demais plausível a afirmativa de que, quem não libertasse ficaria
sem trabalhadores em plena colheita da safra c perderia por completo a ascen­
dência moral que porventura ainda tivesse sobre os cativos. E em busca dessa
miragem que se encontram abolicionistas e senhores alforriantes e que se
produz o consenso que possibilita o 13 de Maio. A troca de gabinete, por si só,
não anunciava uma solução necessariamente tão simples e radical para a ques­
tão servil.
Os senhores, em geral, acreditavam piamente em sua ascendência moral
sobre os cativos e, onde a mantiveram, tenderam a resistir à concessão de al­
forrias, fiando-se, ao menos, na ilusão da indenização. Surpreendentemente,
na experiência de grande parte deles, foi a ação concreta de “seus” escravos que
acabou por desmanchar a dominação escravista, levando-os à concessão de
alforrias e mesmo a pressionar o gabinete por uma solução definitiva para a
questão. Segundo O Voto Livre, em 25 de março:

Mesmo para a província do Rio de Janeiro já não há mais problema servil: a questão
está se desmanchando e quando as câmaras se reunirem em maio já não terão tempo
de discutir projeto algum, salvo a votá-lo por aclamação.

239
DAS CORES DO SILÊNCIO

Neste reduto de escravidão c em menos de dois meses podemos contar no municí­


pio mais de mil escravos libertos espontaneamente por seus senhores.

Depois do exemplo que os municípios de Campos e São Fidélis acabam de dar


cumpre-nos fazer alguma coisa ou pelo menos mostrar que não fomos os últimos a
compreender nossos verdadeiros interesses.
Dizemos — interesses — na acepção própria desta palavra, porquanto o lavrador
que não prender ao eito os atuais escravos pela gratidão, ficará sem eles antes mesmo
da próxima colheita de julho, porque o deixarão como estão fazendo em Campos e São
Fidélis e como fizeram em São Paulo13.

Claramente, em março e abril, a insubordinação nas senzalas (a quebra do


poder moral do senhor) já se fazia uma realidade, até mesmo em Cantagalo,
apenas às vezes seguida pelas deserções. Isso era reconhecido mesmo pelos que,
até no final, resistiram à concessão de alforrias e à libertação.
Os redatores do Correio de Cantagalo pretendiam-se representantes diretos
dos interesses da lavoura, declarando-se mais de uma vez dispostos a defender
seus direitos de propriedade em qualquer terreno, o que frequentemente foi
interpretado como um convite à resistência armada dos senhores. Desde mar­
ço, entretanto, é como se sua base social se diluísse e seu discurso se perdesse
no vazio. É evidente, no próprio jornal, que a cada dia mais senhores de Canta­
galo concediam alforria e entravam para a lista de beneméritos do concorrente
liberal O Voto Livre, e que o grupo conservador perdia, mesmo que momenta­
neamente, seu papel de liderança sobre os lavradores locais, esvaziando-se as
possibilidades de uma resistência armada, como em dado momento chegaram
a antever. No final de abril, os principais fazendeiros da região, como os viscon­
des de Nova Friburgo e São Clemente, haviam concedido alforria incondicio­
nal a seus escravos, e muitos “retirantes” de outras fazendas locais os procuravam,
em busca de trabalho. Ainda assim, o Correio continuava a se opor às conces­
sões de alforria, por considerar que elas apenas facilitavam as coisas para o
governo, legitimando o fato consumado, que ainda procuravam contestar. Em
apoio a suas posições, o jornal publicou, em 6 de maio, um ineditorial, assinado
por “Os lavradores sensatos e que não tiveram herança”, que dá bem a medida
da amplitude de seu isolamento político, às vésperas da aprovação da lei:

Provocariam riso se não causassem nojo os filantropos libertadores da última hora.


Aquilo que por tibieza sua não podem conservar, dão ao Diabo pelo amor de Deus, (grifo
nosso)

240
A GENEROSIDADE DOS SENHORES

Beócios não veem que estão sendo instrumentos inconscientes do governo, que nos
rouba o que é nosso e que compramos com todas as garantias da lei ? [...]
Destes liberdade a quemjá a tinha defato (grifo nosso), complete a obra [,„]A

“Destes liberdade a quem já a tinha de fato”, “aquilo que por tibieza sua não
puderam conservar” — a mesma constatação dos pregadores abolicionistas
com sinais invertidos: a questão servil se desmanchava. A insubordinação das
senzalas e a perda do poder moral dos senhores é um fato reconhecido, mesmo
pelos últimos escravagistas.
A guerra de versões entre o Correio de Cantagalo e 0 Voto Livre sobre o
comportamento dos cativos alforriados ilustra a crescente aproximação entre
abolicionistas e interesses senhoriais, mesmo onde, aparentemente, se manti­
veram, até o final, em campos estritamente separados.
Segundo o Correio, em algumas fazendas de Cantagalo, os senhores, ao
alforriarem seus escravos com a cláusula de realizarem a colheita, tiveram como
resposta que estes não aceitavam semelhante favor, pois preferiam esperar a
lei, que em breve deveria aparecer. Tiveram, ainda, que ouvir de outros, que
se retiravam após o benefício, que não ficavam agradecidos pela liberdade,
porque seu senhor apenas se antecipara de poucos dias à lei ou, ainda, que
quem de fato os libertava era “Sá Isabel”15. Já O Voto Livre anunciava com
alarde as listas de libertadores, em cujas fazendas existiria “trabalho e ordem
como nunca” e que em muitos casos havia por parte dos libertos “desistência
de salários na primeira colheita”!16. Os parâmetros que uns e outros utilizavam
para avaliar as consequências da liberdade eram, assim, rigorosamente os
mesmos: sua eficácia para manutenção da ordem e trabalho e os dividendos,
auferidos da gratidão dos libertos, que poderiam chegar legitimamente, da
perspectiva do Voto Livre, à desistência de salários.
Alguns dos conceitos, então emitidos por alguns abolicionistas, chegavam
mesmo a assustar aqueles mais convictamente liberais. Laurindo Pita, desta­
cado chefe abolicionista em São Fidélis, não se acanhava em propor, para o
controle social do liberto, fórmulas de clara procedência escravista e senhorial:

O que é um liberto ? É o fruto podre da escravidão. Ele traz consigo todos os vícios
do servilismo, e precisará de muito tempo para adquirir algumas das virtudes da li­
berdade.
Entre os males ganhos no tempo da escravidão está a humildade, pacientemente
formada por uma série nunca interrompida de intimidações. Aproveitemos este mal
cm benefício do liberto. O temor será o grande meio de conseguirmos fazer do liberto
um cidadão moralizado e trabalhador.

241
DAS CORES DO SILÊNCIO

[...]
Não quero dizer que haja uma repressão geral ou uma severidade insuportável. [...]
Evite-se o castigo infligido por chicote, não só porque repugna o espírito geral da épo­
ca, como por surtir efeito contrário ao que se quer, que é a permanência do trabalhador.
Eu aconselho até que se faça compreender ao liberto que ele não será mais punido com
chicote.
Há um instrumento de castigo que eu julgo não ser considerado aviltante pelo li­
berto — é o tronco, porque todos eles sabem que tem sido este o modo de conservarem-
-se presos os homens livres onde não há cadeia17.

Outros, mais atentos às exigências do ideário liberal e da modernidade, já


propunham uma visão mais clara das diferenças entre senhor e patrão, mas
voltavam-se para o mesmo objetivo: engendrar condições para que essa tran­
sição se fizesse sem que se quebrasse por completo a ascendência e autoridade
senhorial.

Para que comece bem a organização do trabalho rural, sob o novo regime que os
acontecimentos impõem, é indispensável aos proprietários agrícolas [...] colocarem os
ex-escravos nas condições exatas de trabalhador livre, caso desejem a permanência
deles nos seus estabelecimentos.
[...] As concessões gradativamentefeitas por estes, sem que lhes sejam impostas por
quaisquer eventualidades, determinarão da parte dos libertos a estima para com os ex-
-senhores, não diminuindo em coisa alguma o respeito que por eles tenham adquirido.
[...]
Isto será, contudo, irrealizável, desde que o lavrador não se resolva a abdicar de moto
próprio e gradualmente à sua autoridade de senhor para assumir a de simples patrão,
que acabe por despedir aqueles que não trabalhem e sejam de maus costumes, substi­
tuindo-lhes por outros, mas que de modo algum lhes infligem castigos corporais, de­
gradando-os e aviltando-os18, (grifo nosso)

Minimizar a importância histórica e cultural dessas súbitas conversões à


causa da liberdade implica não perceber duas ordens de fatores: foi essa vaga
de concessões de alforrias que minou a força de resistência política dos escra­
vocratas, levando a divisão dos interesses senhoriais a penetrar mesmo nos
redutos dos ultraconservadores. Foi essa vaga, também, que estreitou o campo
para uma radicalização democrática do movimento abolicionista, tendente a
colocar em causa a questão da cidadania negra. O comprometimento dos
abolicionistas de Campos com os antigos interesses senhoriais, visando garan­
tir a continuidade de sua supremacia econômica e moral, ainda em março de
1888, é emblemático neste sentido.

242
A GENEROSIDADE DOS SENHORES

A onda de concessões de alforria de março e abril representou principal­


mente uma última e desesperada estratégia de promover a transição para a
liberdade, sob controle dos antigos senhores, buscando reafirmar a prerroga­
tiva senhorial de concessão da liberdade e os corolários de dependência e
gratidão que tradicionalmente implicavam. Significou, assim, uma tentativa
de retomar o controle do processo, a partir de um determinado “saber” senho­
rial sobre o liberto, em grande parte produzido a partir de uma determinada
versão da experiência paulista e da própria confiança senhorial em sua ascen­
dência moral sobre os cativos. Procurou fundamentalmente evitar que estes
percebessem a liberdade como uma conquista (caso das alforrias postfactum)
ou como uma concessão de “Sá Isabel”. Neste segundo ponto, entretanto, foram
menores os êxitos.

Notas

I 0 Monitor Campista, 22 mar., 1888.


O último anúncio, procurando escravos fugidos, em 27 dc outubro de 1887, foi publicado em
22 de abril de 1888, no Correio do Cantagalo. Desde março, entretanto, apenas este anúncio
continuou a aparecer nos classificados do jornal, contra vários outros referidos a fugas mais
recentes e também coletivas, publicados em janeiro e fevereiro.
? 0 Monitor Sul-Mineiro, 15 jan., 1888.
4 Cf. Cleveland Donald Jr., “Slavery and Abolition in Campos, Brazil, 1830-1888”. Cornell
University, Ph.D., History Modern, 1973; Lana L. da Gama. Lima, Rebeldia negra eabolicionis­
mo, 1981.
5 0 Monitor Campista, 2 fev., 1888.
6 As referências destas reuniões encontram-se no capítulo 4 da Terceira parte — Expectativas
sobre a liberdade.
7 Correio de Cantagalo, 3 mar., 1888.
8 Correio de Cantagalo, 8 abr., 1888.
9 Cf. Cleveland Donald Jr., “Slavery and Abolition in Campos...”; Lana L. da Gama Lima, Re­
beldia negra e abolicionismo, e Célia Marinho de Azevedo, Onda negra medo branco — 0 negro
no imaginário das elites. Século XIX, 1987.
10 O Monitor Campista, 10 mar., 1888.
II 0 Monitor Campista, 13 jan., 1888.
12 0 Voto Livre, 25 mar., 1888.
13 Ibidem.
14 Correio de Cantagalo, 6 maio, 1888.
15 Correio de Cantagalo, “Frutos de abolicionismo triunfante”, 3, 6 e 10 maio, 1888.
16 O Voto Livre, “A abolição triunfante”, 22 abr., 1888.
17 O Monitor Campista, 28 abr., 1888.
18
O Monitor Campista, 1~j jan., 1888, apud Diário de Campinas, 11 jan., 1888.

243
4

Expectativas sobre a liberdade

Não apenas através das concessões de alforrias os ex-senhores tentaram res­


ponder e se antecipar ao acelerado desmonte da ordem escravista. Desde ja­
neiro, mas especialmente entre março e maio de 1888, sucederam-se reuniões
de fazendeiros por quase todas as freguesias rurais das zonas afetadas, buscan­
do uma solução coletiva para a questão. Abolicionistas e senhores convertidos
à causa da liberdade não estavam menos conscientes que os redatores do
Correio de Cantagalo sobre os perigos da competição pela mão de obra liberta,
para aqueles que não se encontravam na situação privilegiada dos lavradores
do Oeste Paulista. As reuniões de lavradores vieram em resposta a esse temor.
As atas de algumas delas, publicadas nos jornais locais, merecem atenção es­
pecial, por se mostrarem extremamente reveladoras das expectativas, apreen­
sões e incertezas dos senhores em relação à liberdade, especialmente no que
se refere à movimentação dos libertos, que apenas alguns mais afortunados —
com a concessão de alforria — conseguiríam evitar.
A libertação dos escravos no município de Campos, Rio de Janeiro, tornou-
-se uma realidade a partir de março de 1888. Em Campos, como em quase toda
parte, os conflitos entre abolicionistas e escravistas, que tinham tomado con­
tornos dramáticos em 1887, a partir de março praticamente deixam de existir.
A libertação estava feita de fato, tratava-se agora de legalizá-la e de organizar
com urgência o trabalho livre. Assim, conjugaram-se os esforços das elites
locais, reunindo, para esse fim, antigos adversários.
Em 18 de março, realizou-se uma primeira reunião sobre os interesses da
lavoura campista, denominada “Congresso Agrícola”1. Convocado por lide­
ranças de todos os partidos, foram os abolicionistas históricos Francisco
Portela, Nilo Peçanha e Cândido de Lacerda os nomeados para presidir
a reunião2. Nesse encontro, são formadas comissões para legalizar, mediante
concessão de carta de alforria sem condições e baixa na matrícula de escravos,
DAS CORES DO SILÊNCIO

a situação dos cativos, muitos deles já transformados em “retirantes”, nos vários


distritos. Esse primeiro congresso discutiu, ainda, o estabelecimento de um
padrão comum a ser adotado pelos ex-senhores, que garantisse condições de
fixação ou colocação estável dos libertos, bem como o regime a estabelecer
para isso, compreendendo serviços, salários e obrigações pessoais.
Líderes abolicionistas e ex-senhores estavam de acordo em que estes deviam
tentar agir solidariamente, de modo a evitar que concorressem entre si pela
força de trabalho, inviabilizando, por esse meio, alguns dos segmentos de
proprietários. As lideranças abolicionistas consideravam, porém, que a simples
concessão de alforria não seria suficiente para impedir a livre movimentação
dos libertos, que já se fazia acentuada e tendia a aumentar. Para eles, somente
o pagamento de salários garantiría a colheita de 1888 e apenas a parceria com
trabalho familiar fixaria não só o imigrante, mas também o liberto.
Não é essa, entretanto, a opinião da maioria dos fazendeiros presentes à
reunião. Naquele momento, os que ainda contavam com seus já agora ex-ca-
tivos tentavam efetivar um sistema de parceria “a eito” para o ano de 1888, que
deveria persistir até que o alargamento do crédito rural e a concorrência do
imigrante lhes permitissem estabelecer outras relações mais duradouras. Cla­
ramente, nesse primeiro momento, a expectativa de muitos dos ex-senhores
que concediam liberdade era a de criar condições para uma continuidade dos
serviços e das relações sociais, em bases bastante próximas às do regime ante­
rior. A parceria “a eito” propunha que o trabalho agrícola prosseguisse sendo
feito coletivamente, sob a direção do feitor, com a promessa de que metade da
colheita pertencería coletivamente aos trabalhadores, após a comercialização
da safra. Segundo os fazendeiros, o pagamento de salários, em 1888, significa­
ria ruína para a lavoura. Especialmente se fosse estabelecida a concorrência
entre os proprietários pelo trabalhador incerto. Para 1889, recapitalizados,
com o esperado reforço dos imigrantes e com base em leis que regulassem o
trabalho, pensariam, então, em mudar a organização da produção3.
Não apenas em Campos, a parceria “a eito” foi tentada para finalizar a
colheita de 1888, quase sempre redundando em estrondoso fracasso4. É signi­
ficativo, entretanto, que a primeira proposta dos antigos senhores tentasse
transferir para depois da colheita qualquer transformação na organização da
produção no interior das fazendas. Ao não conseguirem realizar esta expecta­
tiva, já se produz a primeira frustração senhorial com a potencialidade de recriar
a ordem a partir da concessão da liberdade.
Em Campos, enquanto se discutia como reorganizar o trabalho e se pro­
curava legalizar a situação dos retirantes, acirrava-se de fato a competição

246
EXPECTATIVAS SOBRE A LIBERDADE

entre os lavradores pela mão de obra. Em 0 Monitor Campista fazendeiros e


abolicionistas preocupavam-se com a ação de empreiteiros, que se organizavam,
agenciando o trabalho dos libertos. Para o jornal, estariam fazendo “uma es­
pécie de tráfico com os retirantes das fazendas”5, alertando para o perigo da
vagabundagem. O jornal chega mesmo a refletir, através de algumas publica­
ções, sobre o atordoamento senhorial diante da crescente participação dos
libertos no processo de sua própria libertação e sobre os reflexos disso no
mercado de trabalho e na nova ordem social que se inaugurava. Em todas as
interpretações propostas para o comportamento dos libertos, reitera-se um
certo sentido de surpresa diante da capacidade dos cativos de reagir no dia a
dia à radicalização do panorama político. Uma poesia satírica, publicada em
março, procurava refletir a nova situação:

Vou morar para a cidade


Meu caro amigo e parente:
Este mundo na verdade
Procura zombar da gente
Não sei o que fazer agora.
— Os negros foram-se embora:
Mas como tudo mudou-se!
Já não é mais como dantes,
— Fugido — são retirantes,
Louvado seja — acabou-se6.

A poesia, escrita do ponto de vista de um ex-senhor, não se sabe se de fato


ou como recurso do poeta, começa por constatar a quebra do consenso bran­
co sobre a legitimidade do cativeiro e a resposta dos negros a essa nova situação:
“Os negros foram-se embora”, mas não são mais fugitivos, apenas “retirantes”.
Diante dessa mudança, o ex-senhor sentia-se atordoado, mas também aliviado:
“Louvado seja — acabou-se”.

Encontrei-me na estação
Com meu moleque Crispim,
— Pediu-me fogo o ladrão —
Eu fiquei fora de mim;
— Oh! Cachorro, te arrebento,
Aqui mesmo te acorrento
Seu patife cachaçudo!
[...] Depois desta sarambada

247
DAS CORES DO SILÊNCIO

Me disse olhando de banda;


— Comitê— libertou tudo!

E raspou-se assobiando
Uma cantiga de roça,
Me deixando tiritando
De paixão. Dou-lhe uma coça.
Metê-lo-ei nos serões
Assim que o pilhar em casa.
Desaforo! Esses branquinhos
O que fazem aos negrinhos
É somente dar-lhes asa7.

Através dessas duas estrofes, o poeta assinala criticamente a transformação


de atitude dos ex-cativos diante da nova situação. O gesto de pedir fogo ao
ex-senhor ilustraria a nova atitude com a qual o respeito e o temor teriam
deixado de nortear as relações de subordinação social e racial. Os versos res­
saltam, ainda, a consciência dos libertos das divisões no mundo dos brancos
que legitimavam sua nova situação — “comitê libertou tudo” — numa refe­
rência às resoluções do Congresso Agrícola recém-realizado. Desse modo, a
decisão pelas alforrias coletivas, ao invés de reintroduzir a ordem, estaria
“dando asas aos negrinhos” e deteriorando ainda mais a antiga ascendência
senhorial, provocando nostalgia dos recursos oferecidos pela antiga ordem.
Aí apenas começavam as preocupações senhoriais, que se alargariam, quando
tentassem conseguir trabalhadores com base no novo regime.

Bandalheira! Cachorrada!
Acabar com a escravidão!
Já parece caçoada
Ou forte especulação!
Eu sou emancipador
Mas não sou conspirador
Nem também senhor feroz.
Sabe uma coisa, parente,
Estamos sem nossa gente,
Não sei o que será de nós.
Fui ver pretos na cidade
Que quisessem se alugar.
Falei com esta humildade:

248
EXPECTATIVAS SOBRE A LIBERDADE

— Negros, querem trabalhar?


Olharam-me de soslaio,
E um deles, feio, cambaio,
Respondeu-me arfando o peito:
— Negro, não há mais, não:
Nós tudo hoje é cidadão.
O branco que vá pro eito8.

Reflete-se, então, como na carta de Paula Sousa, a frustração pela perda de


“nossa gente”, mas principalmente o temor da convivência com os libertos,
num mercado de trabalho que percebiam como desvantajoso aos interesses
dos antigos senhores, bem como a ideia distorcida, do seu ponto de vista, de
que os libertos (“negros”) fariam da liberdade e da cidadania que lhes eram
oferecidas um “não trabalho” Essa estrofe é, ainda, especialmente significativa,
quando lida por outra ótica, que não a senhorial. Nesse sentido, ela será reto­
mada na próxima parte. Para concluir, a consciência dos libertos da conjun­
tura política que lhes era favorável é novamente referida quando o ex-senhor
procura “se distrair”, assistindo a mais uma conferência abolicionista:

Procurei me distrair
Do cansaço da jornada
Indo ao teatro assistir
A conferência levada.
Mas fiquei bem amolado,
De um constante — apoiado —
Que davam por trás de mim;
Quero ver quem era o tipo...
Quase tenho um faniquito:
Era o moleque Crispim9.

Essa poesia, publicada n O Monitor Campista, dá bem a medida das incer­


tezas que se seguiram à generosidade dos senhores, em grande parte compar­
tilhadas pelos líderes abolicionistas, mesmo que sejam bastante ambíguas as
razões dos editores do jornal para publicá-la. A leitura da poesia, de fato, pode
levar a sentimentos de solidariedade com o ex-senhor ou com o moleque
Crispim. Os congressos que se seguiram, entretanto, contando todos com a
participação e marcada influência dos líderes abolicionistas, iriam eleger a
questão da disciplinarização do mercado de trabalho como tema principal.
Em 11 de abril realizou-se novo encontro, dessa feita em São Benedito
(freguesia de Campos), na casa do capitão Manuel Carneiro Leão, para discu­

249
DAS CORES DO SILÊNCIO

tir “regras que tornem uniforme o modus vivendi com os trabalhadores, jor-
naleiro e parceiros, já em relação aos respectivos salários e vantagens [...] e a
polícia interna das fazendas”10.
As atas do congresso foram publicadas na íntegra pelo jornal. Alguns dos
presentes acharam prematura a discussão, preferindo aguardar a promulgação
de leis que regulassem as novas relações de trabalho. Em Campos, onde a es­
cravidão já se encontrava extinta de fato, a expectativa senhorial por uma
atuação legislativa que definitivamente extinguisse o cativeiro estava fortemen­
te vinculada à votação de leis que regulassem o trabalho livre e garantissem as
indenizações, inclusive por parte de muitos segmentos históricos do movi­
mento abolicionista. Mesmo assim, os presentes discutiram e aprovaram um
extenso projeto para a regularização do trabalho na freguesia.
Segundo o projeto, “por três sistemas poderão ser contratados trabalhadores
nesta freguesia: por empreitada, parceria e jornal”. O projeto não se preocupava
em determinar qual desses sistemas deveria predominar, mas em regulamentar
de modo uniforme o procedimento dos fazendeiros, em cada caso.
Quanto à empreitada, não se estabeleciam maiores regulamentações. Esta
deveria ficar ao arbítrio das partes.
A parceria já ensejava maiores preocupações e, mesmo, algumas divergên­
cias. Muitos dos presentes queriam que ela recaísse não só sobre as canas, mas
também sobre os cereais. Novamente, como no primeiro Congresso Agrícola,
foram os editores d’(9Monitor Campista, presentes à reunião, que ponderaram
que as expectativas dos libertos tinham forçosamente de ser consideradas e
que estes não aceitariam tal condição, já que, enquanto escravos, usufruíam
integralmente das roças que cultivavam em seu tempo livre. Tal exigência
acabaria determinando um êxodo ainda maior dos libertos para outras fregue­
sias que não adotavam esse procedimento.
A posição do jornal foi vitoriosa e a parceria foi regulamentada, prevendo-
-se que “0 parceiroficaria obrigado, em caso de necessidade, a prestar serviços ao
proprietário por 600 réis diários, podendo ser despedido a qualquer tempo,
desde que indenizado pelo proprietário por suas benfeitorias”, (grifo nosso)
Em relação aos jornaleiros, propunha-se um código ainda mais rigoroso.
Dez horas de serviço por dia (“da aurora à Ave Maria”), com repouso e almo­
ço das uh às 13b. Desconto por atraso ou falta, frisando que “aquele que não
trabalhar todo o dia por desídia sofrerá desconto de toda a diária”. Os descon­
tos e as multas seriam revertidos aos “assíduos ou ao tratamento de doentes”.
O pagamento seria mensal ou semanal, em dinheiro ou víveres, e seria livre a
estipulação do valor da jornada. Seriam respeitados como dias santos todas as

250
EXPECTATIVAS SOBRE A LIBERDADE

festas fixas e móveis marcadas no calendário “com referência à província e ao


bispado do Rio de Janeiro”. As canas porventura plantadas nos dias santos e
feriados teriam de ser divididas a meia com o proprietário. Os cereais planta­
dos nesses dias pertenceríam integralmente aos jornaleiros. Alcm disso, seria
“lícito [a] a cada jornaleiro a criação de um ou mais porcos, devendo, entretan­
to, fazê-lo em chiqueiro”. Os parágrafos nove e dez merecem ser transcritos
integralmente:

§ 9 Os fados e batuques ficam proibidos e ninguém permitirá nas suas fazendas


ajuntamento de pessoas estranhas, salvo em um e outro caso, havendo licença do pro­
prietário.
§ 10 O trabalhador, residente na freguesia, que procurar serviço em qualquer fazen­
da ou situação, deverá exibir certificado que lhe abone a conduta, passado pelo proprietá­
rio, de cuja casa se despedira. Os trabalhadores defora dafreguesia poderão ser engajados
sem apresentação de certificadou. (grifo nosso)

Percebe-se, assim, que, em ambos os regulamentos, procurava-se levar em


conta um determinado saber senhorial sobre as principais demandas dos li­
bertos, conforme vinham se manifestando desde meados do século. O direito
integral às roças de subsistência e o respeito ao calendário religioso estão no
cerne dos “direitos” reivindicados pelos cativos no novo contexto, pois eram
práticas tradicionalmente acessíveis aos que possuíam maiores recursos comu­
nitários12. Configuravam-se como práticas que se haviam generalizado, ainda
no regime anterior, e que se julgava perigoso ou contraproducente modificar.
Além disso, apesar de preverem a parceria e a empreitada, claramente se iden­
tifica, na regulamentação do trabalho do jornaleiro, o principal sentido prá­
tico do documento. Desaparece nesse item um certo caráter formal, presente
no restante da regulamentação. É nesse ponto que a “polícia das fazendas”,
uma das principais preocupações dos congressistas, aparece como eixo dos
artigos propostos. Tenta-se regular o horário de trabalho, o lazer (“batuques
e fados”), as roças plantadas nos domingos e dias santos e a criação de porcos.
Procura-se, ainda, garantir uma ação corporativa dos fazendeiros da freguesia,
no sentido de controlar e disciplinar a movimentação de trabalhadores no seu
interior.
E interessante ressaltar que, como no primeiro congresso, a parceria, que
predominava na experiência da maioria das demais áreas americanas que co­
nheceram a escravidão, é encarada como alternativa provável, entretanto sem
maiores entusiasmos. Bem analisado, percebe-se que o regulamento proposto

251
DAS CORES DO SILÊNCIO

pelos congressistas institui dois cenários possíveis e incompatíveis das futuras


relações de trabalho. A parceria e o trabalho a jornal ou não deveríam coexis­
tir, predominando um sobre o outro, ou não se destinavam aos mesmos tra­
balhadores.
A parceria é a alternativa que envolve concessões e que estaria sendo pen­
sada ou adotada como forma de fixar o trabalhador, se, para isso, concessões
fossem necessárias. Nela, regulam-se direitos e deveres. No modelo idealizado
pelos plantadores de São Benedito, percebe-se que a situação oferecida se
apresentava francamente favorável ao proprietário. Com a obrigatoriedade do
trabalho eventual, ele não perdia a capacidade de realizar uma administração
centralizada da fazenda — o maior risco colocado por esse regime de trabalho.
Previa-se, ainda, o monopólio dos carros de boi e dos instrumentos de tra­
balho pelos proprietários, o que lhes oferecería amplas possibilidades de
controlar as decisões de produção do parceiro, através do financiamento e do
endividamento.
Apesar disso, a própria ideia da parceria pressupunha concessões, especial­
mente no que se refere à administração do tempo e do ritmo de trabalho do
parceiro. Idealmente, como proposto no projeto, a parceria só apresentaria
desvantagens em relação à utilização de jornaleiros residentes, do ponto de
vista dos fazendeiros. Mesmo as possíveis dificuldades para arcar com o paga­
mento de salários eram dribladas no projeto, quando se previa que eles seriam
mensais ou semanais, pagos em dinheiro ou víveres. A parceria só é entendida,
nesse momento, em nível prático, pelo fazendeiro, como concessão não dese­
jada, mas necessária para fixar o trabalhador liberto ou imigrante. Não me
parece muito enganoso supor que, nessa estratégia inicial, aos imigrantes es­
trangeiros se imaginasse reservar a parceria, enquanto as colônias de jornalei­
ros seriam formadas por libertos e nacionais, como seria explicitado mais
tarde, em reuniões de lavradores realizadas em outras áreas.
Em 14 de abril, uma nova reunião de fazendeiros é realizada no Norte
Fluminense, dessa feita em São Fidélis. Os objetivos são “estabelecer um pro­
cedimento comum aos fazendeiros da região para a libertação dos escravos,
para evitar a retirada dos cativos e para 0 recebimento de escravos retirados de
outras regiões'^. (grifo nosso)
A preocupação fundamental de todas as reuniões, capitaneadas direta­
mente por destacados líderes abolicionistas, era, assim, evitar que o mercado
de trabalho recém-estabelecido incidisse desvantajosamente sobre os ex-se-
nhores. Buscaram, para isso, uniformizar os procedimentos dos lavradores em
relação aos novos trabalhadores, do ponto de vista da remuneração e das rela­

252
EXPECTATIVAS SOBRE A LIBERDADE

ções disciplinares. Acordados entre si sobre esses pontos, eles teriam como
impor suas condições aos libertos, até que chegassem os esperados imigrantes,
revertendo a relação que percebiam desvantajosa entre oferta e procura da
força de trabalho, agora livre. Não se tratava, porém, de impor apenas condi­
ções econômicas, mas também de forjar condições morais, através da unifor­
mização dos procedimentos, e de impor normas disciplinares.
Surpreendidos pela velocidade dos acontecimentos, os fazendeiros do
Norte Fluminense (antigos produtores de cana ou novos e prósperos produ­
tores de café) tentaram rapidamente se organizar, em função de seus núcleos
de vizinhança, procurando desenvolver e socializar estratégias para o controle
da força de trabalho na nova situação. Contraditoriamente, entretanto, a
concorrência entre as regiões pelo trabalhador “retirado” está claramente
declarada. Os lavradores de São Benedito não exigem referência para os
trabalhadores que venham de fora da freguesia. Em São Fidélis, buscava-se
evitar a retirada dos escravos, mas também definir uma estratégia para atrair
e receber os retirantes de outras regiões. Desse modo, a ambição inicial de
interferir solidariamente para a constituição das novas relações de trabalho
tendia também a se frustrar, na medida em que prevalecesse uma situação de
concorrência.
Em 27 de abril foi publicado parecer, aprovado no Congresso Agrícola
realizado na freguesia de São Gonçalo, também do município de Campos, que
sinalizava em sentido semelhante, aprovando ainda uma tabela de salários.
Este último parecer, o mais claramente intervencionista de todos, na medida
em que procurava uniformizar até mesmo o valor dos salários a serem ofere­
cidos aos libertos, foi posteriormente adotado também em São Sebastião14.
O Congresso de São Gonçalo deliberou pela parceria e pela empreitada
com trabalhadores imigrantes. Considerava, porém, que os libertos e o sistema
de salários seriam a realidade de 1888. Estes deveriam, portanto, ser uniformi­
zados, de maneira a evitar a especulação e o comprometimento dos lavradores
mais fracos. Os lavradores, reunidos em São Gonçalo, consideraram, ainda,
que o policiamento interno dos estabelecimentos deveria ficar a cargo de cada
lavrador, mas sugeriram que os trabalhadores da freguesia fossem cadastrados
pelo inspetor de quarteirão e que as autoridades policiais do distrito ficassem
responsáveis por evitar que eles se dispersassem à noite, entregando-se a “jogo,
orgias e embriaguez”, inutilizando-se, assim, para o trabalho. O parecer apro­
vado em São Gonçalo ilustra, assim, os recursos externos com os quais os ex-
-senhores esperavam contar para que suas expectativas, em relação ao poder
disciplinador da liberdade, se confirmassem.

253
DAS CORES DO SILÊNCIO

De uma forma ou de outra, em março, a abolição em Campos já estava


feita. Eis uma região onde tal avaliação, publicada em outubro, no Jornal do
Commercio, parece aplicar-se com precisão. Em março e abril, conscientes das
dificuldades de implementar os acordos que vinham firmando e de convencer
os últimos “emperrados”, que se negavam a dar baixa na matrícula dos escravos
retirados, os fazendeiros campistas esperavam ansiosos por uma medida im­
perial que desse amparo legal à situação dos retirantes e que regulasse pelo alto
as novas relações de trabalho.
As regiões que precisaram da lei Áurea para se tornar livres prescindiram
da liderança direta dos abolicionistas para reorganizar o trabalho, mas também
realizaram reuniões de lavradores. Afora a decisão de centralizar o movimen­
to de baixas das matrículas a partir das alforrias incondicionais, apresentaram
preocupações e iniciativas extremamente semelhantes às dos lavradores do
Norte Fluminense.
Em Angustura, freguesia de Além Paraíba, em Minas Gerais, o Clube da
Lavoura local — organização formada quando da resistência à aprovação
da lei do Ventre Livre — reuniu-se, ainda em dezembro de 1887, com um
único objetivo: domesticar o mercado de trabalho que se delineava. Para
tanto, seus integrantes propuseram-se a tomar medidas urgentes para acelerar
a entrada de imigrantes na freguesia (para os quais se previa a construção de
casas apropriadas e o regime de parceria) e a fixar, por acordo, o salário a ser
pago aos libertos, até a vinda dos esperados imigrantes. Consideravam que:

E óbvia a necessidade de uniformizar esses salários, que a mercê da vontade de cada


um poderia dar lugar a uma verdadeira anarquia. Uniformizados e generalizados, é
possível que se possa organizar os serviços dos libertos, rodeando-os dos cuidados que
merecem e que se deve à gente que não sabe dirigir-se15.

Em Cantagalo, após a promulgação da lei Áurea, o grupo conservador


convoca reunião para o mesmo fim, em que se decide pela exigência de reco­
mendação do último patrão para a aceitação de trabalhadores, como em São
Benedito; por uma tabela de salários que evitasse a “especulação”, como em
São Gonçalo e Angustura; e pela uniformização das normas disciplinares no
interior dos estabelecimentos. As fazendas, a princípio, deveríam manter o
toque de recolher, a proibição de saída à noite, a separação por sexo dos tra­
balhadores solteiros e a prece religiosa comum “sem a qual o regímen patriar­
cal de tais aglomerações de gente degeneraria na mais censurável brutalidade”16.

254
EXPECTATIVAS SOBRE A LIBERDADE

Dificilmente, entretanto, as expectativas de um encaminhamento senhorial


coletivo das novas relações de trabalho poderiam atingir os resultados espera­
dos. Em plena colheita da safra, numa situação de forte deslocamento de
trabalhadores, não seria economicamente racional desistir de atrair o maior
número possível de braços, mesmo em detrimento de vizinhos mais fracos,
como bem assinalava o Correio de Cantagalo. Segundo o jornal, muitos dos
recém-libertos e “retirantes” do município estavam a procurar os maiores fa­
zendeiros locais que haviam concedido alforria incondicional, em busca de
melhor remuneração17.
As resoluções dos Congressos de Lavradores, ao se limitarem a seus núcleos
de vizinhança, reforçavam, contraditoriamente, a importância de atrair os
libertos de outras regiões.
Após maio de 1888, o governo imperial liberou as passagens ferroviárias
para facilitar os deslocamentos de trabalhadores. Aparentemente destinada a
facilitar o recebimento de imigrantes, os trabalhadores libertos foram os
grandes usuários da franquia18. Desse modo, a movimentação inicial dos li­
bertos era, ao mesmo tempo, temida e necessária. Todos queriam manter seus
trabalhadores, mas todos queriam mais ainda atrair novos trabalhadores. Com
a liberação das passagens, os representantes dos fazendeiros ultrapassavam as
fronteiras municipais, e mesmo provinciais, na luta por concluir a colheita.
Em Cantagalo, o Correio considerava, em julho, confirmando suas sombrias
previsões:

Raríssimas são as fazendas onde ainda existe metade do antigo pessoal, estabeleci­
mentos que continham mais de cem pessoas, estão hoje reduzidos a dez e vinte indiví­
duos. [...]
Os recém-libertos retiram-se do município escoando-se para as províncias de São
Paulo, Minas e Espírito Santo donde chegam emissários que animam-se a ir até os eitos
fazer ofertas aos trabalhadores. Para que se possa bem avaliar as proporções do êxodo
dos libertos, e as consequências desse afastamento de braços em época tão crítica como
seja a da colheita, bastará assinalar que somente pelo Porto Novo do Cunha tem pas­
sado mais de 1.500 ex-escravos, abandonando este município. [...]
Exploradores de sua imbecilidade, alguns indivíduos seduzem-nos em seus antigos
municípios, arregimentam-nos e levam-nos para outras fazendas dentro ou fora do
município, onde tratam por empreitada ou a meia a apanhação da colheita, ditando
sem consciência, exageradas imposições aos lavradores que assim se veem entre a espa­
da e a parede. O egoísmo, por seu turno, ergue-se em toda a hediondez, fazendo emu­
decer a voz da amizade, do parentesco, da vizinhança, do espírito de classe; sem liber­
dade para raciocinar, dominado pela suprema lei do interesse, há lavrador que não
trepida ante consideração alguma de ordem moral para salvar parte de sua colheita19.

255
DAS CORES DO SILÊNCIO

Movendo-se sob a contradição de manter a solidariedade do antigo grupo


senhorial, como forma de manter o controle econômico e moral da trans­
formação do trabalho, e a acirrada competição por sobreviver à crise econô­
mica que se delineava, a antiga lavoura escravista procura inicialmente manter-
-se na ofensiva inclusive quando concede, solidariamente (como em Campos
e São Fidélis) ou competitivamente (como em Cantagalo), alforria incondi­
cional. Os detalhados regulamentos aprovados em São Benedito e Cantagalo,
produzidos sob influências tão diversas, dão bem a medida do controle sobre
a organização e disciplina do trabalho nas fazendas que se esperava manter
sob as novas relações. O regulamento sobre o trabalho a jornal, aprovado em
São Benedito, sob influência direta do movimento abolicionista, e as resoluções
da União dos Lavradores de Cantagalo mostram que ainda estava viva a ex­
pectativa de que, em termos práticos, pouca coisa mudasse na organização das
fazendas, pelo menos em termos imediatos.
Essa expectativa, entretanto, vê-se rapidamente frustrada. Apesar de uma
consciência generalizada de que deviam agir uniformemente para organizar
as relações de trabalho, de fato o aliciamento de trabalhadores prevaleceu,
reforçando a tendência aos deslocamentos constantes dos libertos. Além dis­
so, por todo o ano de 1888, a atuação das forças policiais careceu de uniformi­
dade, oscilando conforme o posicionamento político de delegados e subdele-
gados. Produziam-se, assim, as primeiras frustrações senhoriais sobre os efeitos
disciplinadores da liberdade.

Notas

1 0 Monitor Campista, 20 mar., 1888.


2 A ata do congresso foi publicada integralmente n 0Monitor Campista em 20 de março de 1888.
E em seu texto que se baseia a análise apresentada.
3 Referências mais detalhadas a esta discussão são também encontradas em 0 Monitor Campista
de 22 de março de 1888.
4 Jornal do Commercio, “Itaguaí”, 20 jun., 1888.
5 O Monitor Campista, mar., 1888.
6 O Monitor Campista, 28 mar., 1888.
7 Ibidem.
8 Ibidem.
9 Ibidem.
10 0 Monitor Campista, 11 abr., 1888.
11 Ibidem.
12 Cf. Capítulos 2 e 3 da Segunda parte.
13 0 Monitor Campista, 11 abr., 1888.

256
EXPECTATIVAS SOBRE A LIBERDADE

14 0 Monitor Campista, 9 maio, 1888.


15 Ata publicada no Correio de Cantagalo em 2 de fevereiro de 1888.
16 Ata da União dos Lavradores publicada no Correio de Cantagalo em 20 de maio de 1888.
17 “Não vem fora de propósito desejar saber qual a atitude que em idênticos casos assumiram os
grandes proprietários como ss. exs.; convém liquidar se estão dispostos a sacrificar os agricul­
tores de menores recursos, aceitando-lhes os trabalhadores fugitivos Cf Correio de Can­
tagalo, “Frutos do abolicionismo triunfante”, 3 maio, 1888.
18 Aviso do ministro da Agricultura, Antônio Prado, ao diretor da Estrada de Ferro Dom Pedro
II, com validade por todo o ano de 1888: “Providencie V. Sa. para que tenham transporte gra­
tuito na Estrada de Ferro Dom Pedro II, da estação da Corte para todas as outras que fiquem
além da Barra do Pirahy, e bem assim entre quaisquer das estações não situadas na 1a e na 2a
seções dessa estrada, os trabalhadores que se destinarem a serviço da lavoura quando se apre­
sentarem em número não inferior a cinco publicado no Monitor Sul-Mineiro em 14 de
abril de 1888, e referido no Jornal do Commercio e no Correio de Cantagalo, quanto à sua utili­
zação preferencialmente por libertos, em 18 ago., 1888 e 5 ago., 1888, respectivamente.
19 Correio de Cantagalo, Desorganização do trabalho agrícola, 5 jul., 1888. Há várias outras refe­
rências a emissários de fazendeiros paulistas, enviados a Barra Mansa e a Piraí para recrutar
trabalhadores (Correio de Cantagalo, 17 jun., 1888 e 18 out., 1888).

257
5

A frustração senhorial

Vou tentar voltar, agora, ao paradoxo da interpretação considerada no início


desta parte. Tentei demonstrar, através do emaranhado de versões das folhas
interioranas para os acontecimentos que imediatamente antecederam o fim
do cativeiro, como foi que a dimensão de imprevisibilidade e aceleração da
conjuntura política favorável à liberdade, produzida pela quebra da disciplina
nas senzalas, resultou no “desmanchar” do poder senhorial. Procurei mostrar
também que essa dimensão de imprevisibilidade produziu um significativo
encontro entre antigos interesses escravistas e abolicionismo, consubstanciado
nas ondas de concessão de alforrias e nas reuniões de lavradores, que procu­
ravam organizar o trabalho livre. Desse modo, o caráter surpreendente da si­
tuação vivida não foi capaz de imobilizar os ex-senhores, que nutriam expec­
tativas crescentes de retomar o controle da situação, com a concessão de
alforrias e/ou com atitudes corporativas em relação ao mercado de trabalho.
Complementarmente, eram muito grandes as expectativas de que, juntamente
com a liberdade, se estabelecessem leis que regulassem o trabalho dos libertos
e incrementassem a entrada de imigrantes.
O movimento abolicionista e os senhores recém-convertidos à causa da
liberdade tinham, além disso, a partir da experiência paulista, tentado difun­
dir todo um saber próprio sobre o comportamento do liberto, que julgavam
poder acionar para disciplinar sua movimentação. Contavam com a gratidão,
no caso dos alforriados, e com a retomada do consenso no mundo dos brancos
para restabelecer sua força moral; com o apelo dos laços comunitários estabe­
lecidos ainda sob o cativeiro para retê-los, senão nas fazendas, pelo menos nas
proximidades de onde serviam como escravos; e com as dificuldades na luta
pela sobrevivência para devolvê-los ao eito sem maiores perturbações na vida
rural. O sentido traumático do 13 de Maio se produz não pela simples apro­
vação da lei, previamente anunciada, mas pela frustração daquelas expectativas
DAS CORES DO SILÊNCIO

que, em pouco tempo, num sentido inverso, aproximou antigos abolicionistas


de “emperrados” escravocratas.
Da perspectiva do Jornal do Commercio, por muitos anos reiterada, a abo­
lição da escravidão se fez no sentido de legalizar uma situação de fato, que
sinalizava perigosamente para um conflito civil e, portanto, no interesse da
lavoura e do comércio. Em 13 de maio, em editorial intitulado “Nova Era”, o
jornal resumiría sua expectativa: “A nação espera que o governo adote medidas
para acelerar a imigração e uma lei que obrigue a todos a trabalhar sem ofensas
à liberdade individual”1.
Assim, mesmo na perspectiva otimista do Jornal do Commercio, esperava-
-se, complementarmente à lei, medidas que “obrigassem” todos a trabalhar,
além do incremento da imigração. Uma nova era, nem tão nova assim. Ne­
nhuma dessas expectativas, entretanto, se realizou. A lei de locação de serviços,
aprovada após longos debates, em 1879, foi revogada, ainda em 1888, no inte­
resse da imigração2 e, logo, fluminenses e mineiros perceberam que não seria
tão fácil como imaginavam atrair os esperados imigrantes, diante da concor­
rência paulista3.
Em outros termos, para muitos dos setores mais conservadores favoráveis
à lei, o fantasma da desordem só seria plenamente afastado anulando-se a
tendência a que os ex-senhores competissem entre si pela mão de obra liberta.
Tendência esta que acabava por anular os trunfos de que dispunham para
administrar solidariamente as novas relações de trabalho. Houve mesmo quem
esperasse um recrutamento agrário para concluir a colheita de 18884.
Tentando esboçar um quadro assustador das desordens causadas pela li­
berdade, como forma de desestimular a “generosidade” dos senhores de Can­
tagalo, o Correio de Cantagalo publicava, em maio, a sessão “Frutos do Aboli­
cionismo Triunfante”. Já ali, em sua versão mais arraigadamente escravista,
explicitava-se o temor à convivência com o liberto, numa situação de mercado
que lhes era de início claramente vantajosa. Para o Correio, a maior ingratidão
do liberto era exatamente esta, a de procurar melhores condições de trabalho.
Horrorizados, os redatores da folha relataram, ao tentar emprestar dimensão
concreta ao terrível quadro de desordem e caos que vaticinavam:

Os [libertos] do sr. Manuel Cabral fixando-lhes este uma gratificação pelo trabalho
da colheita responderam-lhe que só eles eram competentes para pôr preço a seu traba­
lho e que não aceitavam “imposições” de ninguém por que eram tão bons como qualquer.
Anteontem cerca de trinta libertos recentes abandonaram as fazendas do sr. Hegger-
son, em procura de trabalho mais “vantajosamente” remunerado; alguns deles estiveram

260
A FRUSTRAÇÃO SENHORIAL

nesta cidade procurando entender-se com o sr. Borell, a fim de se empregarem na Aldeia;
disseram-nos mais que estiveram no Gavião com o sr. conde de Friburgo que os dirigiu
a seu administrador.
Os ex-escravos do sr. Antônio van-Erven aceitaram o preço que lhes foi oferecido
por alqueire de café, declarando que assim procediam porque era mais vantajoso do
que o dado pelo dr. Elias Moreira na fazenda vizinha5.

Na perspectiva dos redatores do Correio, esses fatos eram suficientemente


ilustrativos da “indisciplina e petulância” dos libertos, para conter a onda de
alforrias que começava a se espraiar em Cantagalo.
De outro ponto de vista, em 6 de junho, o Jornal do Commercio informava
que a lavoura vinha se organizando de modo sereno após a abolição, prova
disso seria uma informação do Banco do Brasil, segundo a qual a maioria dos
agricultores havia respeitado seus compromissos. Só faltaria o crédito em
condições especiais para que a lavoura prosperasse. O crédito em condições
especiais, na perspectiva do artigo, destinava-se a engendrar condições, para
os lavradores, de pagar “os salários exigidos pelos libertos”6.
Deixar que os libertos determinassem as condições em que se daria conti­
nuidade aos trabalhos agrícolas não era, entretanto, uma solução facilmente
assimilável por muitos dos leitores do jornal. Casimiro Rios, de Espírito
Santo do Pinhal, escreve ao jornal, com o título “A Grande Lavoura. Salve-se
quem puder!”, que “a falta de leis que obriguem ao trabalho sujeitam os fazen­
deiros a contratos insustentáveis com os libertos”7. Na voga do neorrepubli-
canismo mineiro, o doutor F. A. Pereira de Andrade considerava:

Nós lavradores estamos sofrendo os rigores da situação aflitiva criada pelo ato di­
tatorial do treze de maio. Não temos dinheiro para pagar os altos salários exigidos
pelos libertos, não temos recursos para alojamentos e manter imigrantes, nem sequer
crédito porque o valor de nossas propriedades foi completamente aniquilado, vivemos
à mercê de bandos de libertos que transformaram as fazendas em congadas permanen­
tes [...]8.

Legalizada a libertação em meio à colheita do ano de 1888, claramente se


configura como suporte do “desespero da lavoura” uma situação de mercado,
aparentemente favorável aos recém-libertos e capaz de comprometer seria­
mente aqueles antigos produtores escravistas menos prósperos ou capitalizados.
Mesmo em Pernambuco, onde, segundo carta particular, publicada no Jornal
do Commercio, “[...] é preciso ver o que o matuto nacional tem feito de 1884
para cá, em plantações novas, fábricas e estradas para fazer justiça à gente do

261
DAS CORES DO SILÊNCIO

norte”, pedem-se urgentemente novos créditos para a lavoura, pois “os jorna­
leiros, libertos e livres são tão exigentes que não querem esperar pelo frete
depois do sábado, e vão para quem lhes paga melhor”9.
Aliás, essa percepção não escapa à Revista das Províncias, do Jornal do
Commercio, que, em julho, novamente publica uma versão bem menos dra­
mática da crise:

Os trabalhos agrícolas nas províncias de nossa zona ativaram-se bastante durante


o mês findo [...] Não só a população liberta não imigrou do interior para as capitais
como na corte, pelo menos, está diminuindo a quantidade de trabalhadores dessa
origem, parecendo que um certo número tem-se alistado em companhias de jornaleiro
que contratam nas fazendas os serviços de colheita e outros. Ao mesmo tempo noticiam
algumas folhas dessas províncias que uma certa deslocação de libertos tem se operado
nas antigas fazendas, ficando algumas sem trabalhadores e outras mais providas que no
tempo do trabalho forçado10.

Apesar disso, o significado do trabalho livre e da livre concorrência não era


estranho para os ex-senhores, nem mesmo para os ultraescravocratas de Can­
tagalo, e eles haviam tentado preparar-se para a situação, mesmo na ausência
de medidas legais que regulassem as relações de trabalho. Sobre o tema, o
Correio de Cantagalo, respondendo ao concorrente liberal, argumentava:

Os libertos estavam no seu direito procurando quem melhor retribuísse o seu tra­
balho, nunca contestamos isso, porque perfeitamente sabemos o que é a liberdade.
Sabemos, sabem todos, o que é o valor, assim como todos conhecemos a lei da
oferta e da procura.

Ora o que vemos entre nós é o inverso do que determinou em outros países, como
em França e Inglaterra, a preponderância das teorias que o Voto Livre tanto aplaude e
quer aplicar entre nós.
Aqui nota-se desproporção considerável entre o trabalho, que é muito e os traba­
lhadores que são poucos; lá era o contrário que se dava, o aumento da população não
estava em relação com o trabalho, era-lhe muito superior.
O que se pretende fazer com a União [dos Lavradores] é exatamente impedir a ti­
rania do operário1 !.

Desse modo, nessa guerra inicial de versões sobre o comportamento liber­


to, desenha-se inicialmente um perfil econômico e racional para este, mani­
pulado com sinais invertidos pelos que defendiam a compulsoriedade dos
contratos de trabalho e pelos que advogavam o prevalecimento de relações de

262
A FRUSTRAÇÃO SENHORIAL

mercado. Numa e noutra interpretação, os libertos limitar-se-iam a procurar


melhores condições de trabalho, na estrita acepção liberal da expressão. Mes­
mo esse perfil, entretanto, já era capaz de começar a diluir o consenso que
permitira a festiva aprovação da liberdade. Desfazia-se nessa leitura a miragem
da gratidão do liberto esperada por amplos setores abolicionistas nos meses
anteriores. Lembremos que O Voto Livre, que polemizava com o Correio sobre
a lei da oferta e da procura, saudara com entusiasmo a desistência de salários,
na colheita de 1888, por alguns dos ex-escravos alforriados entre março e abril.
O fracasso das tentativas de interferir corporativamente nas novas relações de
trabalho fazia com que essa “racionalidade econômica” do liberto se mostras­
se fatal para muitos setores da antiga lavoura escravista.
Esse aspecto é ressaltado em artigo publicado na seção A Pedido, noJornal
do Commercio, em 28 de setembro de 1888.
O artigo, dramaticamente assinado por “Os desgraçados fazendeiros”,
mostra-se especialmente elucidativo. Estabelece uma diferenciação entre os
antigos senhores escravistas e, segundo o texto, é na agricultura de alimentos
que estoura a crise. O próprio título do artigo já é significativo da diferencia­
ção estabelecida — “Imigração e os lavradores pobres”. De sua perspectiva, a
lavoura de cereais, em Minas e no Rio, que se organizava em bases escravistas,
não estaria conseguindo concorrer com as lavouras mais rentáveis com traba­
lhador liberto. Via, em função disso, desvanecerem-se suas esperanças de
conseguir no ano seguinte atrair imigrantes. Em termos práticos, portanto, a
dificuldade de realizar a colheita de 1888 estaria atingindo diferentemente os
diversos setores da antiga lavoura escravista (agricultura de alimentos, de ex­
portação, zonas novas, antigas etc.).
O artigo chamava a atenção, ainda, para um aspecto central da crise que se
delineava: a opção pelas “roças de crioulo forro”, que permitia aos libertos
repetir o padrão de exercício da liberdade com o qual, até então, mais pro-
ximamente conviviam. Segundo o artigo, “os libertos não querem decidida­
mente fazer roças de milho este ano” fora daquelas condições (as roças
de crioulo forro), e o Brasil estaria se degenerando “num país de selvagens
independentes”.
Aqui, as expectativas geradas pela experiência paulista novamente se frus­
travam. Fazer com que as antigas condições em que vivia o roceiro nacional
deixassem de existir não era tão fácil como parecia sugerir a carta de Paula
Sousa. Sem o concurso do imigrante, implicava implodir todo o edifício hie­
rárquico da vida rural tradicional, levando de roldão arraigadas práticas cos­
tumeiras. A reelaboração do controle social no mundo rural tradicional afe­

263
DAS CORES DO SILÊNCIO

taria, necessariamente, não apenas libertos e senhores, multiplicando as tensões


daí decorrentes.
Este é um dos pontos-chave para a apreensão do sentido traumático da
liberdade no mundo rural tradicional do Sudeste. Ao desmanchar do poder
senhorial não correspondeu uma imediata identificação do retirante e, mesmo
depois, do liberto, com os papéis tradicionalmente desempenhados pelos livres
despossuídos do mundo rural. Em 1888, e mesmo em 1889, no Rio e Minas,
do ponto de vista senhorial, um liberto era apenas um ex-escravo, de quem se
esperava que retornasse às funções produtivas que desempenhava quando
cativo. A conjunção no discurso dos ex-senhores entre libertos e nascidos livres
só começou a se fazer algum tempo depois.
Nesse contexto, a imigração europeia — e mesmo a asiática — era encara­
da como panaceia, capaz de inverter a correlação de forças que parecia aos
fazendeiros extremamente desfavorável. Para alguns, somente a imigração
poderia estabelecer “a concorrência no mercado de trabalho” e fazer “cessar as
exigências dos libertos e caboclos”12.
Logo, entretanto, o comportamento do liberto começou a ensejar inter­
pretações mais complexas, que questionavam sua racionalidade econômica.
Em discurso proferido em 7 de agosto, na Câmara dos Deputados, o pau­
lista Antônio Prado, ministro da Agricultura, considerava que, “se não houve
substituição de braços [na província do Rio de Janeiro], e o café tem entrado
em abundância [no porto do Rio de Janeiro], é claro que os libertos estão
efetivamente empregados nos trabalhos rurais”13.
Indignado, Lacerda Werneck, deputado fluminense, respondeu à afirma­
tiva, na sessão de 20 de agosto:

[...] os pequenos, e direi mesmo a generalidade dos nossos lavradores, precisam de di­
nheiro para pagar os libertos que não querem permanecer sem que haja pontualidade
no pagamento.
Daí a necessidade de fazer dinheiro por todos os meios, suportando todos os pre­
juízos e vexames.
Não é, portanto, o trabalho regular do liberto que tem produzido esse resultado: é
coisa muito diferente.
[...] Contra a opinião do nobre ministro oponho a de muitos lavradores de São
Paulo, e entre eles a de um paulista, o sr. marquês de Três Rios, lavrador muito impor­
tante de São Paulo. Sua Excia., declarou-me que um terço pelo menos da lavoura de São
Paulo está sacrificada, que há cafezais que não foram capinados, que os libertos não
apanham o café do chão, que não querem sujeitar-se a certos serviços de terreiro, etc.
E isto não me espanta porque aqui dá-se a mesma coisa, entendendo estes cidadãos que

264
A FRUSTRAÇÃO SENHORIAL

certos trabalhos são incompatíveis com sua dignidade, ainda mesmo percebendo salá­
rios. Tudo lhes repugna, menos o abuso de sua liberdade14.

Reforçando iniciaimente a racionalidade econômica dos libertos “que não


querem permanecer sem que haja pontualidade nos pagamentos”, o deputado
fluminense desvia em seguida o eixo da discussão, dirigindo-a para as dificul­
dades de controlar, sem a compulsoriedade, a qualidade dos trabalhos por eles
realizados. Numa perspectiva ideológica, apenas se repetiría aqui a conhecida
versão do despreparo do ex-escravo para a liberdade, entendida como não
trabalho. Lido fora desse referencial, entretanto, o relato de Lacerda Werneck
parece sugerir que algo mais profundo esteve em jogo na colheita de 1888.
Após séculos de trabalho coletivo, rigidamente disciplinado, uma luta surda
começava a se travar em torno de quem efetivamente controlava o ritmo e a
organização do trabalho.
Levando em conta as estimativas do Correio de Cantagalo, não mais de 10%
dos escravos deixaram as fazendas imediatamente após a obtenção da liber­
dade. Os senhores não estavam totalmente enganados ao apostar, ainda, na
gratidão dos libertos e na força dos laços estabelecidos, dentro da fazenda,
entre eles e “sua gente”.
Apesar da muito alardeada tendência ao abandono dos locais onde serviam
como escravos, muitos libertos optaram inicialmente por permanecer, tentan­
do negociar novas relações de trabalho com o antigo senhor. Estabelecer novas
relações não era, entretanto, fácil, para nenhuma das partes. A tendência ao
deslocamento se estabeleceu, em grande parte dos casos, dado o fracasso da
tentativa.
Em seu assumido reacionarismo e nenhuma disposição para ceder às ex­
pectativas dos libertos, o Correio de Cantagalo apresentava uma profunda
percepção do fato:

Na vila do Carmo, na fazenda da Conceição, o sr. tenente-cel. Augusto de Sousa


Araújo libertou os seus escravos e sabemos que houve festas admiráveis por ocasião
do fato. Houve até coroação dos senhores pelos escravos e enterro da palmatória e do
vergalho. O ex-senhor não se lembrava consentindo em semelhantes fatos, que era se­
pultado nessas festas o seu poder, a sua força moral. Assim é que no dia seguinte,
convidados a trabalhar na sua fazenda os libertos, muito hão de pasmar os nossos
amigos com o que sucedeu então.
Os tais libertos impuseram a seu ex-senhor para ficarem trabalhando, a condição
de expulsar o administrador em continente, e isso não conseguindo, abandonaram a

265
DAS CORES DO SILÊNCIO

casa do ex-senhor que na véspera haviam festejado, e que hoje possui uma importante
fazenda cheia de cafezais e sem braços para tratá-los15.

Decidir ficar não implicava concordar em manter as mesmas condições de


trabalho do regime anterior, acrescidas de algum ganho monetário. No míni­
mo, esperavam-se mudanças significativas nas condições disciplinares em que
se realizavam os serviços. Enterrar a palmatória e o vergalho poderia fazer
pouco sentido para os ex-escravos, se não se substituísse também o adminis­
trador que os usava.
O caso citado não parece ter sido incomum, nem tanto pelo abandono da
fazenda, mas principalmente pelo estabelecimento de algumas condições para
sua permanência, por parte dos libertos. São numerosos os casos registrados
nas seções Frutos do Abolicionismo Triunfante e A Pedido, publicados nos
jornais interioranos, nesse sentido, muitas vezes atendidos pelos ex-senhores.
Muitos libertos, sem experiência de se dirigirem diretamente a seus ex-senho-
res como homens livres, teriam procurado intermediários para explicitar os
termos em que estariam dispostos a continuar nas fazendas. Em Cantagalo,
as autoridades policiais e o vigário de Duas Barras foram várias vezes acionados
para esse fim16, servindo de porta-vozes das reivindicações dos libertos a seus
antigos senhores.
Os libertos do sr. Lima Thompson, dois dias depois de serem alforriados,
dirigiram-se às autoridades policiais, reclamando contra “providências dadas
pelo proprietário”; alegavam, segundo o Correio de Cantagalo*. “Dirigiam-se
às autoridades porque ele [o ex-senhor] talvez recebesse mal as suas observações,
quisesse castigá-los e desejavam evitar o caso de processar o seu ex-senhor”17.
Em outro caso, os libertos teriam procurado “o respeitável vigário da fre­
guesia da Conceição de Duas Barras” e lhe comunicado que “se seu ex-senhor
não mudasse o tratamento que lhes dava retirar-se-iam da fazenda”18.
Se, para os recém-libertos, era difícil o relacionamento com os ex-senhores,
para estes não era menos delicada a questão.
Joaquim de Sousa Breves, com mais de 20 fazendas controladas por admi­
nistradores, esteve a braço com essa dificuldade e fez publicar no Jornal do
Commercio cartas de seu administrador da fazenda da Floresta, em Itaguaí.
Eugênio de Sousa Breves, “afilhado, criado e obrigado” do comendador, reve­
la um total atordoamento para lidar com a nova situação:

limo. Sr. comendador Joaquim José de Sousa Breves. Fazenda da Floresta, 16 de


maio de 1888.

266
A FRUSTRAÇÃO SENHORIAL

Certo das ordens de sua respeitável carta de 13 do andante mês respondo-a que, em
presença de seus ex-escravos foi lida e explicada [sic] as condições das vantagens que V.
Sa. lhes oferece, e do que eles disseram tomei nota que junto remeto-lhe, e juntamente
a nota dos que já daqui saíram em número de 42. Veja que com tal acontecimento o
prejuízo é inaudito: tem esta fazenda os milhos para quebrar, 40 alqueires de feijão
sofrível para arrancar e que não se pode adiar a colheita [...]
Com respeito e obediência, sou de V Sa. afilhado, criado e obrigado — Eugênio de
Sousa Breves.
Depois que esta escrevi, vejo que até o café colhido será difícil acabar de secar para
socar: os pretos querem já impor os serviços que hão de fazer, a hora e tudo mais que
entendem — ESB19.

Esta fazenda, portanto, que aparentemente se manteve funcionando até o


13 de Maio, perde de saída 42 trabalhadores e vê seu administrador às voltas
com a tarefa nunca antes realizada de negociar novas condições de trabalho
com os que até então administrara como escravos. O despreparo do admi­
nistrador é evidente. Na sequência de sua correspondência, o comendador
diz-lhe que deve tratar bem os libertos e procurar conquistá-los para o traba­
lho. Eugênio Breves não parece, entretanto, talhado para a tarefa.

Ilmo. Sr. Com. J. J. S. B.,


Fazenda da Floresta, 18 de maio de 1888.
Matarei o boi como ordena, amanhã. [...] eu já matei um segunda-feira, a fim de ver
se os agradando e aconselhando, obtinha algum trabalho, mas nem assim, nada tenho
conseguido. Além dos que comuniquei terem saído, têm saído mais alguns; enquanto
ao trabalho, não tem correspondido à comida; dias há em que nenhum se abala: dias
há que saem 10 ou 12 de 8 horas e voltam às 4 da tarde e nada fazem; enfim, expondo
isto, tenho exposto tudo; há três dias que não há quem soque café e faça azeite (de
mamona). As roças perdem-se, o feijão está passando do ponto de arrancar, o milho
está por quebrar, os cafezais estão sendo devorados, colhido até de noite; pelo amanhe­
cer ontem, furaram o engenho e tiraram cerca de 8 a 10 arrobas de café despolpado:
tomei a deliberação e pus três homens brancos e um preto que tem se comportado bem,
a rodar a fazenda, dando tiro toda a noite, a fim de ver se lhe salvo o café que está co­
lhido [...] Se fosse possível V. S. mandar mesmo daí 2 ou 3 homens brancos para ron­
darem seria bom: eu ajudo, porém não posso passar sempre sem dormir.
Com respeito de V Sa., afilhado e obrigado. ESB20.

Temos, assim, projetada a imagem de um administrador ridiculamente


empenhado em agradar os ex-escravos, a matar bois e dar conselhos, sem con­
seguir com isso maior regularidade nos trabalhos. Apesar disso, os libertos que

267
DAS CORES DO SILÊNCIO

permaneceram na fazenda ainda se consideravam seus trabalhadores, pois, se


“há dias que nenhum se abala’ há de haver outros em que “se abalem”, se há
três dias não há ninguém para socar o café, há quatro deveria haver. Se há pre­
tos que se têm “comportado bem”, é porque de algum modo a rotina na fazenda
tem sido continuada. Não se pode, ainda, perder de vista que estas duas pri­
meiras cartas foram escritas a menos de uma semana da promulgação da lei de
13 de Maio, o que pode dar uma dimensão conjuntural ao comportamento
dos libertos, que ainda estariam festejando a liberdade, e ao atordoamento do
administrador.
Mas as dificuldades perduravam. Nos trechos publicados, em hora nenhu­
ma se mencionou a contratação de novos trabalhadores em substituição aos
que saem. Por ordem do comendador, entretanto, começaram a despedir os
indisciplinados. Nem isso, porém, era fácil para o bom Eugênio, quando já
quase se completava um mês do fim do cativeiro.

Ilmo. Sr. Com. J. J. S. B.,


Fazenda da Floresta, 8 de junho de 1888.
[...] os poucos que se acham aqui pouco fazem porque vão tarde, às 8 e 9 horas para
o trabalho e das duas em diante nada querem fazer. Alguns que despeço, conforme a
sua ordem, opõem-se a retirar-se e alguns retiram-se e ficam nas vizinhanças com o fim
de roubar, isto apesar de os ter tratado como de costume, com carne, açúcar, feijão,
arroz, aguardente, além dos bois que tenho lhes dado para os festejos da liberdade.
Inclusa lhe remeto a relação dos que tem saído, isto tudo apesar de lhes ter explicado
que pertencem a eles a metade dos cafés colhidos21.

Nesta última carta, revela-se pela primeira vez o tipo de remuneração pro­
posta aos libertos: a eles pertenceria coletivamente a metade dos cafés colhidos.
Também em Campos, a parceria “a eito” foi tentada após as alforrias incondi­
cionais de março. Ali, com certeza, foi um grande fracasso. Representou, en­
tretanto, uma tentativa, ao que parece bastante generalizada, de nada alterar
em termos imediatos na organização coletiva, centralizada e não imediata­
mente remunerada do trabalho. Suas chances de êxito implicavam contar com
os antigos escravos de cada estabelecimento, que deveríam, portanto, perma­
necer na fazenda. Nessas bases, como contratar novos trabalhadores em meio
aos serviços? Obviamente, tal iniciativa estava fadada ao fracasso, numa
conjuntura de alta rotatividade dos trabalhadores, como aquela em que se fez
a colheita de 1888. Breves havia decidido, unilateralmente, por esse tipo de
remuneração. Aceitando-a, os libertos se propuseram, também, a fixar os
serviços e as horas de tudo que deviam fazer, conforme relato do próprio ad­

268
A FRUSTRAÇÃO SENHORIAL

ministrador na primeira carta. Não é de surpreender, portanto, que o admi­


nistrador convivesse, numa conjuntura de acirrada competição pelo trabalho
dos libertos, com frequentes deserções, com uma jornada de trabalho de seis
horas diárias e com a desmoralização de sua autoridade.
Que imagem esse relato procurava fazer dos libertos ? Certamente, procu-
rava-se responder ao “saber” — produzido por abolicionistas e senhores
convertidos à causa da liberdade — que os libertos permaneceríam nas fazen­
das ou no máximo trocariam de local de trabalho. O comendador procurava
mostrar que a permanência nas fazendas não significava, necessariamente, a
continuidade dos serviços. Para qualquer observador um pouco menos enre­
dado na lógica do trabalho compulsório, entretanto, o que se destaca é o
atordoamento do administrador em controlar a nova situação, bem como sua
falta de argumentos e meios para fazer valerem suas decisões.
Os libertos que permaneceram emergem do relato, sem dúvida, ainda se
considerando trabalhadores do comendador. Haveria, mesmo, aqueles que
têm “se comportado bem”, como o preto colocado para fazer a ronda e a liber­
ta “Margarida” — portadora de uma das missivas. Mesmo os outros, parece
terem concluído que a liberdade lhes dava condições para decidir sobre o modo
por que se devia organizar o trabalho na fazenda, tornando totalmente dis­
pensável a figura de um administrador. Esse comportamento aparece, nas
cartas, genericamente referido a uma opção coletiva pelo ócio. Apenas “alguns”,
entretanto, foram despedidos, sugerindo uma diferenciação de comportamen­
tos e a existência de um padrão de continuidade dos serviços, construído pelos
próprios libertos, mesmo que claramente insuficiente, do ponto de vista an­
terior. Os libertos do comendador, que permaneceram na fazenda, parece
terem privilegiado o controle do tempo de trabalho que ali vinham conseguin­
do, sobre o maior ganho monetário que porventura pudessem auferir no pe­
ríodo da colheita em outras fazendas ou regiões. Ao agirem assim, estavam,
sem dúvida, embasados por expectativas de liberdade, construídas ainda sob
o cativeiro. Expectativas tão racionais e factíveis, em face da atitude do admi­
nistrador, quanto as dos que partiam em busca da melhor remuneração.
Em junho, o comendador, desiludido da possibilidade de concluir a co­
lheita, já cogitava expulsá-los todos, com auxílio de seus inúmeros agregados.
Uma primeira tentativa nesse sentido, noutra fazenda, em Marambaia, tinha,
entretanto, fracassado. Para poder contar com os agregados, Breves não podia
modificar, pelo menos em termos imediatos, “os recursos anteriores” com que
estes contavam. Ao apostar na permanência dos libertos, o comendador se
enredara numa armadilha de difícil solução.

269
DAS CORES DO SILÊNCIO

A experiência do comendador Breves pode ser considerada atípica, seja por


seu absenteísmo, seja por seu “emperramento”, que o fez esperar pela Lei de 13
de Maio para tentar organizar o trabalho livre nas mais de 20 fazendas que
controlava. Outros retardatários tiveram, entretanto, mais sucesso, mas não
necessariamente menores dificuldades. Manter coletivamente os ex-escravos
na fazenda mostrou-se quase sempre problemático aos ex-senhores. Virgílio
E. de Faria, de Cantagalo, um dos beneficiados pela “desistência” de salários
durante a colheita , viu-se na contingência de defender-se, nos jornais, da
acusação de continuar usufruindo de trabalho gratuito dos libertos. Em 25 de
outubro de 1888, publica na seção A Pedido do Correio de Cantagalo:

Aos meus amigos.


Promulgada a lei de 13 de maio reuni meus escravos para lhes declarar que eram
livres e quais as condições sob que ficariam. Tive em resposta que nenhum contrato
fariam comigo e continuariam trabalhando como até então, sem remuneração alguma
a não ser pelo trabalho que prestassem nos dia feriados, até que eu pagasse a dívida que
a pedido deles tinha contraído pela compra da fazenda.

Não cabem aqui especulações sobre a veracidade do oferecimento dos li­


bertos, bem como de sua alegada motivação, sem dúvida inusitada. E interes­
sante, entretanto, registrar que podia soar plausível aos possíveis leitores da
publicação “A Pedido” que os escravos da fazenda houvessem interferido di­
retamente na venda que, com certeza, incluira a eles próprios. Uma certa ca­
pacidade de negociação dos próprios interesses, enquanto escravos, era assim
tacitamente reconhecida nessa primeira afirmação, embasando sua possível
credibilidade.
O missivista continua o relato:

Admirou-me como a todos que de tal souberam este modo de proceder. Principia­
ram a trabalhar e a aparecer também os pedidos de dinheiro e gêneros, e eu para não
ver o estabelecimento despovoado, como alguns outros, fui-lhes fazendo suprimentos
embora reduzindo os pedidos, elogiando-os, animando-os e finalmente fazendo tudo
quanto faria quem se achasse nas minhas condições. Foram-se correndo os dias, e, como
em toda parte, o serviço ia se fazendo com morosidade; e, receando eu que viessem as
chuvas sem concluir a colheita tive de admitir 36 trabalhadores, porque os da fazenda
voltavam já da roça à uma e duas horas da tarde, sem quererem mais trabalhar com
raras exceções, prejudicando-me assim com o exemplo que davam a seus novos com­
panheiros.
A FRUSTRAÇÃO SENHORIAL

Na versão que apresentou, o ex-senhor viu-se, assim, subitamente transfor­


mado em devedor de seus antigos escravos. Os libertos, sem nenhum contra­
to, trabalhavam praticamente por favor ou por uma dívida moral, não deixan­
do ao fazendeiro maiores argumentos para determinar o seu ritmo de trabalho.
Impressiona a semelhança das práticas adotadas por Faria para incentivar o
trabalho dos libertos com aquelas recomendadas pelo comendador Breves a
seu administrador — “agradá-los e animá-los” —, bem como a coincidência do
término da jornada, livremente estipulado pelos ex-escravos, em ambos os
estabelecimentos. Nessas condições, no mínimo desconfortáveis a um antigo
senhor, o fazendeiro alega ter conseguido concluir a colheita. Novamente não
cabe indagar aqui da veracidade do depoimento, mas de sua possível credi­
bilidade. Nem senhor, nem patrão — obviamente aquela situação não podia
continuar indefinidamente.

Felizmente concluí a colheita, chamei-os novamente propondo-lhes dar: aos pretos


io$ooo mensais e às pretas 8$000, dois dias na semana para tratarem de suas pequenas
lavouras, comida, médico, botica, duas mudas de roupa grossa para o serviço e facul­
dade para manter criações e porcos em cercados: não aceitaram e cada um quis sua la­
voura. Dei-lhes terras e fiz um regulamento, do qual, depois de impresso, colei um
exemplar em cada caderneta que a eles entreguei com suas contas.
Foram esses pobres ignorantes de léo em léo a consultar com alguns que talvez por
índole inferior a deles, disseram-lhes que os regulamentos me tinham sido enviados
por um parente meu de Santa Catarina (onde eu não os tenho) e que era feito por letra
da imprensa para os poder escravizar, que eles eram obrigados a matar todos os formi­
gueiros existentes na fazenda, e outras asneiras iguais que não constam do referido
contrato [...] e que fossem à justiça, porque me podiam processar (por terem trabalhado
de graça), chegando até a oferecerem-se para seus advogados.
Para provar a meus amigos que os libertos da fazenda — S. Damazo — não traba­
lharam de graça, apresento as importâncias abaixo, que somam em 3.86o$32O, [...] não
incluindo a importância de 520$070, que lhes paguei por milho e rapaduras que lhes
comprei, produtos de suas pequenas lavouras, que com meu consentimento continua­
ram a ter na fazenda, como em tempo de meu antecessor. Já veem os meus amigos que
remunerei regularmente aqueles que se propuseram a trabalhar de graça.
Tenho-lhes feito outras propostas com grandes vantagens; mas, os conselheiros os
têm feito não aceitarem-nas, prejudicando-os com isto, que nunca foi o meu fito, para
com trabalhador algum, e na sua condição de escravos sempre os tratei como amigos,
o que eles próprios bem poderão atestar.

Coerente com sua versão e com a reconhecida capacidade de negociar que,


desde o início, atribuira aos ex-cativos, o fazendeiro fez uma proposta, bus­

271
DAS CORES DO SILÊNCIO

cando manter o caráter coletivo e centralizado dos trabalhos na lavoura de


café, procurando ceder em pontos importantes para a experiência dos cativos,
garantindo e ampliando o tempo para se dedicarem às suas roças. Estes, entre­
tanto, rejeitaram o oferecimento e pediram que cada um tivesse sua lavoura.
Não fica claro, aqui, o conteúdo da contraproposta dos libertos, mas fica su­
gerido que cada um teria preferido tratar, provavelmente com a ajuda da fa­
mília, de uma parte do cafezal, determinando autonomamente o tempo que
dedicariam a este e às suas lavouras próprias.
Vendo que sua contraproposta, aparentemente atendida pelo fazendeiro,
era regulamentada por escrito, teriam buscado a ajuda de terceiros, reforçando-
-se, assim, mais uma vez, a capacidade de negociação dos libertos, na versão
aqui apresentada. Esses terceiros evidentemente não aprovaram o conteúdo
do regulamento e ainda propuseram que os libertos processassem o ex-senhor,
pela utilização de seus serviços por seis meses, sem qualquer remuneração
formalmente acordada. Esse é, sem dúvida, o ponto mais obscuro de toda a
argumentação de Virgílio de Faria. Ele não revela o conteúdo do referido re­
gulamento, nem explicita qual a atitude dos libertos após as consultas realiza­
das. Depreende-se do final de sua carta que os libertos não o processaram, nem
deixaram a fazenda, mas continuavam negociando e procurando, sempre que
julgavam necessário, orientação fora da órbita de influência do ex-senhor.
Constrói-se, assim, involuntariamente, o perfil de um grupo de libertos
organizado e articulado na negociação com o ex-senhor. Libertos capazes de
reelaborar as influências que lhes vinham do mundo dos brancos — tanto a
possível ascendência do ex-senhor (que os teria levado a trabalhar de graça)
quanto a dos grupos a que recorriam quando em confronto com aquele (que
os teria levado a recusar o regulamento). Entre uma e outra influência, sur­
preendiam, por se pautarem por uma ética e expectativa próprias e pela capa­
cidade de potencializar os recursos que as divisões no mundo dos ex-senhores
ainda lhes proporcionavam.
A crise de 1888 tem, assim, duas dimensões. Uma primeira é conjuntural.
A abolição da escravidão surpreendeu grande parte dos produtores escravistas
em meio à colheita de café e cereais. Nesse contexto, estabeleceu-se uma acir­
rada concorrência pelo trabalho do liberto, ampliada em suas consequências
pela franquia das passagens de trem, que atingiu mais diretamente os produ­
tores menos capitalizados, especialmente os produtores escravistas de cercais.
Para esses lavradores, as previsões são de grandes prejuízos. A quebra da safra
de milho e mandioca, por falta de trabalhadores, é veiculada em vários artigos

272
A FRUSTRAÇÃO SENHORIAL

e em publicações “A Pedido”22, antevendo-se escassez e carestia para o ano


vindouro (o que efetivamente ocorreu).
O caráter transitório da situação não passou despercebido aos antigos se­
nhores.

Hoje os grandes salários provocados pela carência súbita de mão de obra na ocasião
de uma grande colheita de café e de abundantes colheitas de cereais, atraem esta popu­
lação e a tem feito abandonar as casas onde habita, trocando-as pelos ranchos dos
empreiteiros de trabalho, sem refletir que os grandes salários vão acabar e que ficará
exposta a ser despedida sem alimento e sem teto23.

A outra dimensão é mais grave e aponta para as dificuldades de reestrutu­


ração das relações não só de trabalho, mas de dominação social, em sentido
mais amplo, nas áreas agrícolas tradicionais. Reflete o atordoamento senhorial
em conviver com a constatação de que, perdendo o argumento da força, di­
luíam-se também as bases de sua ascendência moral, que muitos julgavam
estar estabelecida em referenciais mais sólidos. A liberdade de movimentação
dos libertos colocava em questão o controle do ritmo e da organização do
trabalho, bem como as relações de convivência, costumeiramente estabelecidas
no interior da fazenda escravista e entre esta e a roça de subsistência.
As demandas e expectativas dos libertos nem sempre eram estritamente
econômicas. Nesse momento inicial, a utilização do liberto, sem dúvida ma­
joritária, quase sempre significou uma quebra expressiva na capacidade do
produtor rural de controlar e organizar sua produção. Frustrando as expecta­
tivas da maior parte dos senhores e líderes abolicionistas, a liberdade não
havia sido condição suficiente para que se estabelecesse o controle da antiga
camada senhorial sobre as condições de produção e controle social no mundo
rural. A reação ao 13 de Maio é, por isso, muito maior que as bases de apoio
que os ultraescravocratas conseguiam reunir quando da aprovação da lei. Aps
poucos, mesmo o otimismo das folhas interioranas, que formavam no aboli­
cionismo e haviam incentivado e embasado a generosidade dos senhores, se
arrefece. Cada vez mais, suas colocações sobre os efeitos da liberdade e o
comportamento dos libertos aproximam-se daquelas desde sempre defendidas
pelo Correio de Cantagalo,
Em 27 de janeiro de 1889, O Voto Livre publica: “A extinção da escravidão
foi um mal, não há negar. Cumpria, consequentemente, ao ministério que a
extinguiu, mais do que a qualquer outro, desenvolver um plano de reformas
correlatas
DAS CORES DO SILÊNCIO

E, ainda, em 12 de maio do mesmo ano: “É certo que a vida e o trabalho


que traziam a animação às nossas fazendas, perderam aquela intensidade
pressurosa de sua circulação anterior e que ao bulício das senzalas sucedeu o
silêncio e o quase abandono
Já em 9 de agosto, 0 Monitor Campista criticava artigo publicado em O
País, que, a exemplo do conselheiro Prado, tomava as cifras de entrada do café
no porto do Rio de Janeiro para comprovar o trabalho dos libertos. Declaran-
do-se historicamente abolicionista, diz-se forçado a reconhecer que a situação
era crítica e que o café que entrava no porto já estava colhido24. Em seu retros­
pecto anual, publicado em 26/1/1889, abandona definitivamente o otimismo
que apresentara até meados de 1888. Considera que o Monitor, “enquanto
progredia o movimento abolicionista”, sempre procurara “alertar os fazendei­
ros da região pedindo que se organizasse o trabalho livre”, o que só tardiamen­
te foi feito, de forma que “até hoje se vê desordem no serviço” Para o jornal,
“a crise torna-se maior a cada dia” “se por lei não se impõe o trabalho, re-
prima-se a vadiagem, o que é um bem para o indivíduo e para a sociedade”.
O Monitor Sul-Mineiro, de Campanha, em 22 de julho de 1888, também
abandonava sua euforia inicial:

Por mais que se queira dissimular é excessivamente grave a situação do país nos
tempos que correm.
Achamo-nos em uma época de transição de usos e costumes seculares para novas
práticas, que são a consequência inevitável da grande lei votada pelo parlamento nos
dias soleníssimos de maio do corrente ano; e da reforma que se decretou originou-se
para a lavoura os sérios e penosos embaraços, que a colocam na crise mais apreensiva
que jamais a assoberbou.

Na assembléia provincial do Rio de Janeiro, em 1891, discutia-se o aumen­


to dos efetivos policiais das povoações e a criação de milícias rurais, direta­
mente referidas à questão do controle da mão de obra25. A eficácia dessas
medidas para a organização do trabalho era questão controversa na Assembléia,
mas o diagnóstico da desordem era bastante consensual26. De fato, indepen­
dentemente do aumento ou não dos efetivos, delegados e subdelegados locais
frequentemente usaram a autoridade policial para expulsar das povoações os
libertos recém-chegados e, mesmo, forçaram-nos a contratar seu trabalho27.
De acordo também com 0 Monitor Campista, guardas particulares, subsidia­
das pelos fazendeiros, tornaram-se uma prática comum após a Abolição.
Ainda em 1888, também se generalizaram, nas fazendas, as vendas voltadas
para os trabalhadores e, durante a colheita de 1888, muitos fazendeiros ofere­

274
A FRUSTRAÇÃO SENHORIAL

ceram salários mais altos aos libertos, com a obrigação de comprarem tudo
nas casas de negócio que passaram a manter em suas fazendas28. Os conselhos
de Paula Sousa, sem dúvida, frutificaram.
A desigualdade de recursos entre os contendores era evidente, mas as ex­
pectativas e estratégias dos libertos foram capazes de influir profundamente
no curso do processo, frustrando, mais uma vez, as expectativas senhoriais.
Em 1889, o Engenho Central do Limão publicou um curioso anúncio nas
páginas de O Monitor®.0 anúncio pedia “lavradores, colonos e trabalhadores”
que quisessem tomar terras para cultivar, no Engenho Central do Limão. “Da
sua lavoura o lavrador será obrigado a dar metade do milho e do feijão, a cana
pertence-lhe com a condição de venda exclusiva ao Engenho do Limão.” O
artigo/anúncio conclui, considerando: “A parceria desapareceu do programa
apresentado. O lavrador cultiva como se fosse ele o proprietário e por isso
faria com amor. O proprietário do Engenho do Limão continua sua missão:
transformar equitativamente o trabalho agrícola”
A indústria açucareira campista começava a desistir das condições ideali­
zadas nas reuniões de lavradores de 1888, concedendo parceria aos libertos e
ainda em condições especialmente vantajosas.
Por outro ângulo, o mesmo ponto se evidencia: durante alguns anos, tra­
vou-se uma verdadeira guerra pelo controle da organização e produtividade
do trabalho. O aumento da repressão pública e privada (guardas rurais) e as
tentativas, como a acima descrita, de desviar a atenção dos colonos da roça de
subsistência, aumentando a produtividade da lavoura de cana, essencial para
o funcionamento da usina, são faces de uma mesma moeda. São estratégias
diferenciadas perante o inimigo que, teimosamente, agia, escolhia e se movi­
mentava em função de suas próprias expectativas e preferências.
A movimentação autônoma dos libertos era uma variável de difícil assimi­
lação pelos antigos produtores escravistas. Suas expectativas e valores, mesmo
que atuantes na experiência prática das relações escravistas, nunca haviam
influenciado tão fortemente as condições de organização do trabalho e da
produção. As relações de estratificação social entre os livres e as práticas costu­
meiras de acesso à terra desmoronavam diante da nova situação.
Em termos estritamente econômicos, a crise era localizada e diferencial.
Inexistiu em São Paulo, que atraiu os imigrantes europeus. Apesar de todas as
alegadas dificuldades, garantiu bons lucros, durante a década de 1890, aos
produtores de café da Mata Mineira e do Norte Fluminense. Comprometeu
a lavoura de cana campista, menos lucrativa que a cafeicultura, e aniquilou os
antigos produtores escravistas de alimentos. Em São João da Barra, área de

275
DAS CORES DO SILÊNCIO

produção de cereais, segundo crônica publicada no Jornal do Commercio, em


1894, a grande lavoura havia simplesmente se desarticulado, substituída am­
plamente por uma generalização da produção familiar30. A confiar no relato,
repetiu-se ali o mesmo fenômeno que havíamos detectado em Capivari, em
pesquisa anterior31. Naquele caso, pôde-se comprovar que grande parte dos
produtores familiares recém-instalados no município era composta por famí­
lias negras ou mestiças.
Frustradas as expectativas gestadas nas reuniões de lavradores, nos rasgos
de generosidade, na solidez patriarcal e nas ilusões imigrantistas, restou a
percepção de que a reconstrução da ordem social e econômica do mundo
rural não se faria sem resistências e perdas por parte das antigas elites escravis­
tas. Os ex-senhores poderiam acionar novos recursos de poder, mas isso seria
impossível sem incorporar algo dos valores culturais e das expectativas de
exercício da liberdade dos recém-libertos e da população livre preexistente.
A gramática comum que unificava os códigos culturais desses grupos este­
ve até 1888 fortemente ancorada na realidade escravista. Sem ela, todos os
antigos códigos e práticas costumeiras entravam em crise. Uma nova elabora­
ção era precondição para qualquer situação de estabilidade, num mundo rural
onde as regras do mercado se confundiam com desordem e anarquia. A com­
preensão plena do processo implica, portanto, recuperar esse embate, em que
as expectativas em relação à liberdade, alimentadas por libertos e nascidos livres,
construídas ainda sob a vigência da escravidão, são referenciais primordiais.

Notas

1 Jornal do Commercio, 13 maio, 1888.


2 Maria Lúcia Lamounier, Da escravidão ao trabalho livre — A lei de locação de serviços de 1879,
1988.
3 0 Monitor Campista, “O encantamento paulista”, 14 out., 1888.
4 Jornal do Commercio, “K crise I”, 7 jun., 1888.
5 Correio de Cantagalo, “Frutos do abolicionismo triunfante”, 3 maio, 1888.
6 Jornal do Commercio, 6 jun., 1888.
7 Jornal do Commercio, 19 jun., 1888.
8 Jornal do Commercio, 10 jul., 1888.
9 Jornal do Commercio, 19 ago., 1888.
10 Jornal do Commercio, “Revista das Províncias”, jul., 1888.
11 Correio de Cantagalo, 17 jun., 1888.
12 Jornal do Commercio, 25 fev., 1889.
13 Jornal do Commercio, 12 ago., 1888.
14 Jornal do Commercio, 12 set., 1888.

276
A FRUSTRAÇÃO SENHORIAL

15
Correio de Cantagalo, “Frutos do Abolicionismo Triunfante”, 6 maio, 1888.
16
Correio de Cantagalo, “Frutos do Abolicionismo Triunfante”, 3, 6,10 maio, 1888; “Noticiário”,
9 set., 1888.
17
Correio de Cantagalo, “Frutos do Abolicionismo Triunfante” 3 maio, 1888.
18
Correio de Cantagalo, “Frutos do Abolicionismo Triunfante” 5 maio, 1888.
19
Jornal do Commercio, “Itaguaí”, 20 jun., 1888.
20
Ibidem.
21
Ibidem.
22
Correio de Cantagalo, 15 jul., 1888, e Jornal do Commercio, 28 set., 1888 e 2 mar., 1889.
23
Jornal do Commercio, 24 ago., 1888.
24
O Monitor Campista, 9 ago., 1888.
25
O Monitor Campista, 13 set., 1889.
26
Neste sentido, ver também, Ana Maria dos Santos e Sônia Regina Mendonça, “Representações
sobre o trabalho livre na crise do escravismo fluminense, 1870-1903”, Revista Brasileira de His­
tória. São Paulo, set./fev., 1985, 6 (11), pp. 85-9.
27
O Monitor Campista, 29 e 30 mar., 1889 e 13 set., 1891.
28
A prática aparece registrada especialmente em artigos pedindo isenção de impostos às casas de
negócios das fazendas; tais casas eram consideradas “necessárias” para evitar o deslocamento
de trabalhadores para as povoações e também para evitar o desembolso monetário dos fa­
zendeiros. Cf. Correio de Cantagalo, “Chronica geral”, 5 jul., 1888 e 30 ago., 1888; A Pedido, 18
ago., 1888; O Monitor Campista, Tópicos da Atualidade, 22 set., 1888 (ass. O Sertanejo).
29
O Monitor Campista, 10 abr., 1889.
30
“A lavoura no estado do Rio”, série de 12 artigos, assinados por Arrigo de Zetirry e publicados
no Jornal do Commercio entre 28 jun. e 21 out., 1894. A referência a São João da Barra se faz no
artigo de n2 12. Os cinco primeiros referem-se à cafeicultura do norte fluminense e os seis res­
tantes, à lavoura canavieira campista. Estes últimos encontram-se analisados em Sheila de
Castro Faria, “Terra e trabalho em Campos dos Goitacases, 1850-1920”. Dissertação de mestra­
do. Niterói: ICHF, UFF, 1986.
31 Hebe Mattos, Ao Sul da história — Lavradores pobres na crise do trabalho escravo, 2009 (1987).

277
QUARTA PARTE
“Nós tudo hoje é cidadão”
1

“Nós tudo hoje é cidadão”


O senhor Cândido de Oliveira (o interrompe):
— Não há mais libertos, são cidadãos brasileiros.
O sr. barão de Cotejipe:
— São libertos, mas direi, se quiser, até que são ingleses (risadas).
Eu uso o termo próprio1.

Com o fim do cativeiro, as categorias e identidades socioculturais, que cons­


truíam a ordem no mundo rural do Sudeste, subitamente deixaram de fazer
sentido. Senhores, escravos e homens “nascidos” ou tornados livres historica­
mente não mais existiam. Nos primeiros meses de 1888, dcsestruturaram-se,
por completo e repentinamente, as bases em que se assentava a dominação
social. Novas identidades sociais precisariam ser construídas. Nesse contexto,
aqui como em toda a afro-América, os significados da liberdade tornaram-se
o campo de luta privilegiado, a partir do qual se reestruturariam as novas re­
lações de poder.
Os ex-senhores do Sudeste, fora do segmento em expansão da cafeicultu-
ra paulista, convertidos ou não ao abolicionismo, defenderam como primeiro
projeto, em suas propostas políticas e em sua ação privada, uma tutela direta
sobre a “liberdade” do liberto. As folhas locais, ligadas aos interesses da lavou­
ra, mesmo quando historicamente abolicionistas, não se cansaram de cobrar
do Gabinete João Alfredo “leis que obrigassem os libertos a tomarem contra­
tos de trabalho”, conforme o modelo até então seguido pela política emanci-
pacionista imperial. Rapidamente a argumentação conservadora do Correio
de Cantagalo tornou-se consenso. Em condições de mercado, apenas os seto­
res mais dinâmicos da lavoura se beneficiariam do incremento da imigração.
Assim mesmo, ainda que a esperança de uma intervenção direta nas relações
de trabalho não se tenha dissipado de todo, ainda nos primeiros anos da Repú­
blica2, já no governo João Alfredo se tornou claro, para os mais lúcidos repre­
sentantes dos antigos interesses senhoriais, que a ênfase na solução imigran-
tista para a lavoura paulista, uma solução de mercado, era incompatível com
qualquer ação legal restritiva à liberdade, entendida nos moldes liberais. Se não
se obriga ao trabalho, reprima-se a vadiagem, gritaram então as folhas locais,
ainda em 1888. Esta seria a máxima do liberalismo oligárquico republicano.
DAS CORES DO SILÊNCIO

Naquele momento os “vadios”, no mundo rural do Sudeste, confundiam-se


com os libertos e sua movimentação. Nesse contexto, a repressão à vadiagem
facilmente se transfigurava em coerção à liberdade dos cativos emancipados.
Nos últimos meses do Império e na primeira década republicana, justaposições,
ambiguidades e desentendimentos entre poder público e privado marcariam
a experiência de ex-senhores e libertos.
Como foi visto, o 13 de Maio levaria ao proscênio das discussões entre as
elites agrárias a figura do liberto. Ainda em 18 de maio, “o exmo. sr. dr. Levin-
do Ferreira Lopes, ilustre chefe de polícia da província” (de Minas Gerais),
expediu circular aos delegados da província; em seu primeiro parágrafo, in­
formava e mandava dar cumprimento à lei de 13 de Maio. No segundo, entre­
tanto, já fazia uma curiosa interpretação da ausência de cláusulas da referida
lei. Considerava, então:

Abolida a escravidão sem nenhuma cláusula, tem aqui inteira aplicação e vigor o
decretado no artigo 3-, par. 4®, da lei 3.270 de 28 de setembro de 1885, relativa aos ser­
viços prestados, como condição de liberdade, e aos que foram estatuídos na lei ne 2.040
de 28 de setembro de 1871, acerca dos filhos livres de mulheres escravasJ.

Na circular, o chefe de polícia fazia uma estranha avaliação da lei, que


considerava uma “solução radical”. Propunha que os delegados e subdelegados
de polícia não medissem esforços para fazer com que os libertos “se dediquem
ao trabalho, único fator de felicidade dos povos, isto por meio de contratos
com seus ex-senhores ou com outros
Para esse desideratum, invocava que as autoridades policiais usassem todos
os seus esforços, bem como de “seus amigos”, enquadrando os recalcitrantes
no artigo 12 do Código de Processo Criminal.
A Gazeta Sul-Mineira daria publicidade ao curioso edital, ainda em 4 de
junho de 1888. Um dia antes, entretanto, O Monitor Sul-Mineiro, da cidade
de Campanha, publicara outro edital com interpretação distinta, dessa feita
da Câmara de Vereadores local. Mandava também que se desse cumprimento
à lei de 13 de Maio, mas esclarecia que a referida lei havia abolido qualquer
condição anteriormente prevista (“seja por alforria condicional ou trabalho
de ingênuos”). Pelo menos no sul de Minas, nem mesmo o caráter incondi­
cional da lei fora, a princípio, consensual.
A atuação policial, no sentido de forçar os libertos a tomar contrato de
trabalho, entendida como “repressão à vadiagem”, era consenso entre as folhas
consideradas, independentemente de sua posição em face do processo eman-

282
“nós tudo hoje é cidadão

cipacionista. Em 27 de maio, o abolicionista Monitor Sul-Mineiro elogiaria


em noticiário a atuação da polícia de campanha em relação aos libertos, espe­
cialmente o caráter "enérgico” das primeiras providências, as ”mais proveitosas,
não só para a sociedade como para os próprios faltosos”.
Os limites entre essa “repressão” e o cerceamento da liberdade dos eman­
cipados mostraram-se, entretanto, muitas vezes conflituosos. Não era por
acaso que a Gazeta Sul-Mineira dava publicidade à interpretação do chefe de
polícia da província de Minas Gerais, em relação à ausência de cláusulas da
chamada “Lei Áurea”, um dia após a veiculação, em O Monitor Sul-Mineiro,
do edital da Câmara de Vereadores, com interpretação oposta. Ambas as pu­
blicações se fizeram no contexto do episódio conhecido como “As desordens
de Campanha” que, em junho de 1888, traria triste notoriedade à cidade.
As desordens começaram com a invasão da residência e a tentativa de
prisão do abolicionista Bráulio de Lion, em 4 de junho, dia da publicação
do edital do chefe de polícia na Gazeta Sul-Mineira, pelo subdelegado de
polícia de Lambari e diversos capangas. Bráulio estaria denunciando a manu­
tenção do cativeiro, feita com o concurso das autoridades policiais, em várias
fazendas da área, entre elas a do fazendeiro e subdelegado de Lambari, Ernesto
Carneiro de Santiago. Um dia antes, O Monitor Sul-Mineiro traria, além do
edital da Câmara de Vereadores, dois “ineditoriais”, assinados por Santiago e
outros fazendeiros, negando que mantivessem os “negros escravizados” após
o 13 de Maio.
Bráulio de Lion foi retirado de casa e levado para a estação de Três Corações
do Rio Verde. Segundo O Monitor Sul-Mineiro, que, sem negar espaço a Santia­
go, tomou o partido do abolicionista preso: "A população verdadeiramente
indignada e precedida pela polícia, partiu em busca do conterrâneo”'1.
Em outra versão, publicada no Jornal do Commercio, teria sido “um desor­
deiro, ajudado pela negraria” quem teria impedido a prisão e expulsado da
cidade o juiz municipal5. De fato, segundo a versão do próprio O Monitor
Sul-Mineiro, houve luta e a morte de um “capanga” de Santiago, bem como a
tentativa de linchar o juiz municipal e o capitão João Inácio da Silva Araújo,
suspeitos de serem coniventes com o episódio. O linchamento só teria sido
impedido pela intervenção do delegado de polícia e do juiz de direito da ci­
dade. Ao final dos conflitos, tanto o juiz agredido como Bráulio de Lion se
viram forçados, por questões de segurança, a deixar a cidade (este, rumo a São
Paulo, onde é recebido por Antônio Bento). Santiago foi processado, julgado
e absolvido por júri popular, em setembro do mesmo ano6. Desde então, a

283
DAS CORES DO SILÊNCIO

sequência de nomeações e exonerações nas delegacias e subdelegacias do mu­


nicípio, por todo o final do Império, mostrou-se, no mínimo, impressionante.
Se, por um lado, as “desordens de Campanha” evidenciavam uma tentativa
pronta de acionar a força policial, no sentido de forçar os libertos a tomar
contrato de trabalho, e mesmo de interpretar condicionalmente o alcance
da lei, por outro, demonstravam que essas tentativas produziram prontas
reações de remanescentes do abolicionismo, também respaldados por auto­
ridades policiais ou judiciárias (como o delegado de polícia e o juiz de direito
da cidade).
No Rio de Janeiro, mesmo sem “desordens” que repercutissem nacional­
mente, a atuação policial em relação aos libertos também se pautou pela am­
biguidade. O Monitor Campista e O Monitor Sul-Mineiro divulgavam, ao
mesmo tempo, propostas para que todos os libertos fossem imediatamente
recrutados e denúncias, de teor político oposto, sobre autoridades para as quais
“os novos cidadãos da lei de 13 de maio são criminosos... pelo simples fato de
não trabalharem de graça ou não tomarem o costumado sôs cristo!”7.
Desse modo, as folhas que apoiaram o 13 de Maio abriam espaço tanto para
a crítica ao comportamento dos libertos quanto para a denúncia dos excessos
da autoridade, tentando equilibrar-se na defesa de uma ação enérgica, mas
dentro da lei. É novamente o Correio de Cantagalo, entretanto, em sua radical
oposição à medida legal, que permite perceber como, nos últimos meses do
Império, algumas autoridades policiais se tornaram imediatamente braço dos
ex-senhores ou de seus próprios interesses para condicionar o comportamen­
to do liberto, enquanto outras continuaram a cumprir o papel de instância
limitadora do poder de coersão, gerando conflitos responsáveis por boa parte
das tensões políticas do período, no âmbito municipal.
Nos primeiros meses após o 13 de Maio, os redatores do Correio estavam
bastante satisfeitos com a atuação da autoridade policial. Em agosto, por ordem
do ministro da Justiça (conservador) Ferreira Viana, fora nomeado novo de­
legado de polícia para o termo. Em protesto, todos os subdelegados e demais
autoridades policiais pedem exoneração8. A rejeição ao nome passava, com
certeza, por seu alinhamento à causa abolicionista nos meses anteriores, tendo
sido um dos organizadores das festas pela lei Áurea no município. Membro
do Partido Conservador e alinhado com o Gabinete João Alfredo, conseguia
desagradar também aos liberais. O fato é que, a partir dessa data, o Correio
moverá intensa campanha contra o delegado, toda ela baseada em denúncias
de condescendência policial com os libertos da região, no que parece contar
com o apoio também da oposição liberal do município: “Estamos de acordo

284
“nós tudo hoje é cidadão”

com o órgão da oposição liberal do município, negando qualquer apoio ao


atual delegado e às demais autoridades policiais”9.
A violência racial do jornal em relação aos libertos, nesse contexto, é mes­
mo surpreendente, ante a crônica de harmonia social que frequentava as
versões oficiais. Publicou o Correio'.

Presenciaram hoje os moradores desta cidade um espetáculo verdadeiramente


contristador.
Um homem de cor branca, ensanguentado, amarrado, era conduzido por dois negros,
portadores de uma carta dirigida ao senhor delegado de polícia10.

Diante do administrador de uma fazenda, processado por atirar em um


liberto que o havia agredido verbalmente, temeroso de que os outros libertos
pudessem “aliar-se ao desordeiro”, os redatores do jornal consideraram:

O que nos falta agora, é vermo-nos sujeitos a responder processos semelhantes, que
hão de repetir-se a cada momento.
Soltaram milhares de feras contra os cidadãos e os deixaram na dura e tristíssima
alternativa, ou de serem vítimas de bandidos; ou se tiverem energia em se defender
deles serem processados1'.

Em sucessivos casos de “tentativas” de roubo ou de invasão de fazendas,


repelidas pelos fazendeiros e seus agregados, os redatores comentam: “Para
que temos esse simulacro de polícia? O melhor é acabar-se com essa fantas-
magoria, e cada um policiar o que é seu, fazendo justiça por suas próprias
maos”12 .
Ao narrar a entrada clandestina de um liberto na fazenda Batatal e os con­
flitos que terminaram com o ferimento do fazendeiro, o jornal conclamou:
“Olho por olho! Dente por dente!”13.
No mesmo dia, os jornais saudaram ainda um fazendeiro que, em sua
versão, tendo seu quarto invadido, à noite, por um liberto, matou-o com uma
garrucha, sem indagar suas intenções.
Em 14 de outubro, narrando o confronto entre colonos e libertos, em
outra fazenda, reafirmaram que os fazendeiros precisavam armar-se para en­
frentar a situação. Poucos dias depois, em editorial ainda sobre os aconteci­
mentos da fazenda Batatal, reafirmaram:

Achamo-nos em um período no qual cada um deve cuidar de seus interesses, nada


há de se esperar do sr. João Alfredo e dos seus sequazes; os fazendeiros policiem os seus

285
DAS CORES DO SILÊNCIO

estabelecimentos agrícolas e, com as armas na mão, procedam como o cap. Luís Vieira
de Carvalho, que teve necessidade de assim fazer, morando em uma freguesia onde
diz-se que há autoridades policiais. Cada um por si14.

Ao mesmo tempo que o Correio de Cantagalo incentivava a formação de


guardas particulares nas fazendas (ao que tudo indica, uma realidade já na
primeira década republicana)15, cobrava com energia que se proibisse o uso de
arma de fogo aos libertos16.
Ficaria demasiado longo, se eu tentasse reproduzir a multiplicidade de
casos de rebeldia ou insubordinação dos libertos — que os jornais buscavam
com lupas, não só na experiência local, mas em diversos jornais de outros
municípios, bem como de Minas e de São Paulo —, associando-os à necessi­
dade de atuação mais enérgica das autoridades policiais. É preciso, apenas,
mais uma vez enfatizar que se buscava construir a imagem do liberto não só
como um elemento perigoso, mas também como despreparado para a liber­
dade e, mesmo, não muito humano17. Os casamentos em massa e os nomes
que adotavam eram ridicularizados não apenas no Correio, mas em diversos
outros jornais da região18.
Em maior ou menor grau, portanto, os significados que os ex-senhores
emprestavam à liberdade, recém-adquirida pelo liberto, não pressupunham
qualquer equiparação imediata com o livre pobre no regime anterior. Os re­
cém-libertos não deviam tornar-se nem mesmo cidadãos de segunda classe,
como aqueles. Urgia que continuassem apenas libertos.
A ação dos libertos, entretanto, fez-se pautada por uma noção muito clara
de liberdade que, nos quadros da sociedade imperial, confundia-se com o
próprio direito de cidadania. Não a cidadania política, negada à maioria dos
homens livres, durante o Império e ainda na República, mas uma noção de
liberdade (e cidadania) civil, que deitava raízes na tradição imperial e que,
durante os últimos meses da Monarquia, encontrou acolhida em pelo menos
parte das autoridades constituídas.
A discussão da questão da cidadania, no final do Império e principalmen­
te no advento da República, tem-se concentrado na acepção política do termo.
Denuncia-se, em geral, o caráter excludente dessa prerrogativa, seja pelo cri­
tério censitário do período monárquico, seja pela exigência de alfabetização
na experiência republicana. O dilema do liberalismo, imperial ou republicano,
em relação à representatividade política dos cidadãos era, entretanto, mais
profundo que a tentativa legal de limitar o acesso à cidadania política. A prá­
tica política representativa mostrou-se uma impossibilidade no Império, bem

286
“nós tudo hoje é cidadão”

como ao longo da Primeira República. O grande dilema político da primeira


década republicana foi, antes, encontrar um sucedâneo para o poder modera­
dor como verdadeiro eleitor privilegiado nas disputas interelites19. Nem
mesmo a reforma eleitoral de 1881, que instituiu a eleição direta com censo
alto, reduzindo o eleitorado a 1% da população, ou a exigência de alfabetização
pela República, que o elevou para não mais de 2%20, conseguiram embasar um
sistema eleitoral representativo, capaz de emprestar estabilidade institucional
às disputas interelites, no que se refere à composição política responsável pelo
Estado. O sucedâneo do poder moderador acabaria sendo encontrado por
Campos Sales, na política dos governadores que, como no Império, transfor­
mava em farsa a prática eleitoral21. De fato, portanto, nem mesmo para as mais
privilegiadas elites agrárias a cidadania política, enquanto prática de um sis­
tema representativo, mesmo que elitizado, se fez possível, ainda que a questão
tenha sido exaustivamente debatida, no final do Império e na primeira década
republicana, e que tenham sido adotadas algumas medidas para implementá-la
(a reforma eleitoral de 1881 e a primeira Constituição republicana)22.
A cidadania, reclamada para os libertos por lideranças abolicionistas no
parlamento, por parte do pensamento jurídico ou pelos poetas anônimos
nos jornais, era, entretanto, mais que um exercício de retórica nos últimos
anos do Império. Era mesmo uma questão já antiga, que acompanhara a
política de emancipação gradual levada a cabo pelo governo monárquico até
1888. Nela, em 1871 como em 1885, os libertos ficavam sujeitos a uma legis­
lação de exceção, especialmente no que se refere à obrigatoriedade de tomar
contrato de trabalho, que continuava a distingui-los dos homens e mulheres
nascidos livres, os “cidadãos brasileiros”. Os direitos de cidadania dos libertos,
por todo o Império, dividiram a consciência jurídica da época, que operava
dentro de um código teoricamente liberal. Em nome do direito de propriedade,
admitia-se uma legislação especial para os escravos. Concomitantemente,
entretanto, reconhecia-se, formalmente, uma série de direitos civis à popu­
lação livre (os cidadãos brasileiros). O que fazer em relação à condição civil
do liberto?
Esse dilema teórico produzia, com frequência, problemas práticos. O que
fazer, por exemplo, com o cativo condenado à pena de açoites — pela lei es­
pecial de 1835 (uma lei que só recaía sobre os escravos) —, que se visse liberto
por abandono ou alforria, antes da execução da pena? A Constituição políti­
ca do Império, que regia a população livre, solenemente proclamava, em seu
artigo 179, n- XIX: “Desde já ficam abolidos os açoites, a tortura, a marca de
ferro quente, e todas as mais penas cruéis”.

287
DAS CORES DO SILÊNCIO

A pena de açoite foi, pelo menos teoricamente, por todo o período mo­
nárquico, exclusiva dos escravos. No caso da lei de 1835, entretanto, não havia
pena equivalente aplicável a pessoa livre na mesma situação, em que aquela do
açoite pudesse ser transformada, visto tratar-se de uma lei que recaía apenas
sobre os cativos. A polêmica jurídica foi acirrada por todo o Império, mas a
maioria dos pareceres foi favorável à simples suspensão da pena, não sem que,
na maior parte dos casos, ressalvassem:

Faremos, ainda, uma reflexão, e é que, pela proposta, parece haver quem entenda
que o escravo manumitido fica logo sendo cidadão brasileiro, desde o momento da
alforria. Isto nos parece um erro, ao menos olhando a proposição em sua generalidade.
Como, porém, a proposta não exige, particularmente, a solução desta espécie, a omiti­
mos por esta ocasião. Tal é o meu parecer, salvo o dos sábios, (a) A.G.d’A.23.

Por toda a política emancipacionista imperial, à exceção da lei de maio de


1888, desde os africanos livres pela extinção do tráfico em 1831 até os ingênuos
(1871), idosos (1885) e manumitidos, por alforria ou pelo fundo de emancipa­
ção, manteve-se a tutela estatal ou privada sobre os libertos, privando-os da
cidadania brasileira, conforme era reconhecida aos nascidos livres24.
O que significava, entretanto, essa cidadania? Quais os significados da li­
berdade? Politicamente, ela era uma farsa, mesmo para os “cidadãos ativos”.
Em termos civis, garantia as liberdades clássicas (de ir e vir, de propriedade
etc.), bem como a liberdade de opinião e a integridade física, quando proibia
a tortura ou o castigo infamante. Qual, entretanto, o significado real dessas
garantias para os “cidadãos passivos”, em face do poder privado dos potentados
rurais ?
Abri o livro discutindo exatamente essa experiência de liberdade ao longo
do século XIX. É hora de retomá-la para perceber como os seus pilares básicos
(mobilidade, família e propriedade) possuíam significações profundas tanto
no quadro tradicional, hierárquico e integrativo, que a sociedade rural apre­
sentava desde o período colonial, como no quadro das prerrogativas da liber­
dade civil, pensada nos moldes liberais. Isso porque, em ambos os referenciais,
esses direitos — ou potencialidades — se construíram em oposição à expe­
riência histórica servidão, num sentido amplo.
Na ordem colonial, o direito de ir e vir era exercido em busca de laços, a
família era constituída com base na Igreja (e não no Estado), que respondia
também pela separação de bens em caso de divórcio, e a propriedade era en­
tendida em termos parcelários (direitos de propriedade superpostos) e se es-

288
NÓS TUDO HOJE É CIDADÃO”

tendia até os escravos. Essa experiência de liberdade, entretanto, ao ser trans­


formada em direitos civis no Império, pela Constituição monárquica, teve
seus sentidos em grande parte redefinidos. Especialmente a ideia de uma
igualdade formal na liberdade foi progressivamente reforçada, em relação
às concepções hierárquicas dos indivíduos nascidos livres, antes legalmente
vigentes.
De forma geral, durante o Império, tendeu-se a preservar o sentido hierár­
quico das relações pessoais, transformando-as, entretanto, em fiadoras da
igualdade formalmente reconhecida pelo Estado imperial. As alianças (pessoais
e hierárquicas) tecidas em torno do número crescente de ações de liberdade,
na segunda metade do século, ou o desaparecimento da cor como indicativo
de posição social nos processos criminais são provas disso.
Se, no que se refere à propriedade, a legislação imperial tendeu a deslegiti-
mar as concepções parcelárias ainda vigentes, reforçando a dependência pessoal
para os que não reuniam condições para a aquisição legal de terras, ao mesmo
tempo em que afirmava um dos pilares básicos da ideologia liberal, em relação
aos escravos essa equação se invertia. Desde 1850, a tendência da legislação
imperial foi transformar o costume em direito, mesmo que mantendo uma
condição civil especial para o liberto.
Foi o Estado imperial que garantiu o fim do tráfico, que reconheceu para
os cativos o direito à família, proibindo as separações de casais e seus filhos,
que transformou em direito a prática do pecúlio e o acesso à alforria, que, em
1886, proibiu o açoite. Como busquei acompanhar na segunda parte do tra­
balho, os significados de cada uma dessas medidas legais para a força moral
dos senhores, para a própria viabilidade da dominação escravista, foram bem
mensurados pelos contemporâneos, mesmo que frequentemente negligencia­
dos pelos historiadores. O que esteve, portanto, em discussão, desde pelo
menos 1850, como se procurou demonstrar no tratamento dado às ações de
liberdade, foi a possibilidade de se atribuírem “direitos civis” aos escravos, bem
como “cidadania” aos libertos, nos quadros da sociedade imperial. Foi, por­
tanto, a cidadania dos libertos, nos termos em que era compreendida e garan­
tida a liberdade na ordem imperial, que esteve primeiramente em jogo após
maio de 1888.
A igualdade entre os cidadãos brasileiros era, então, percebida fundamen­
talmente pela perda da marca da escravidão. Se, até a primeira metade do sé­
culo XIX, a população livre se dividia, à maneira colonial, em brancos e pardos,
a vivência da liberdade, na segunda metade — se bem que continuasse fun­
damentalmente hierarquizada — já não incorporava a diferenciação racial

289
DAS CORES DO SILÊNCIO

ao controle social dos livres pobres, inclusive em termos policiais e criminais.


O desaparecimento da marca racial dos registros policiais não foi uma inven­
ção republicana, mas uma prática já plenamente vigente, em relação aos nas­
cidos livres nas últimas décadas da escravidão, nas áreas analisadas. Perder o
estigma do cativeiro era deixar de ser reconhecido não só como liberto (cate­
goria necessariamente provisória), mas como “preto” ou “negro”, até então
sinônimos de escravo ou ex-escravo e, portanto, referentes a seu caráter de não
cidadãos.
Nos últimos meses da monarquia e ainda na primeira década republicana,
os ex-senhores continuaram a tentar acionar sua ascendência sobre os homens
nascidos livres, seus dependentes, bem como sua influência sobre as autorida­
des locais, para forçar os libertos a tomar contrato de trabalho.
Os inquéritos policiais da década de 1890, da comarca de Campos, no
Norte Fluminense, são registros eloquentes dessa tentativa. Eram frequentes
a superposição dos papéis de fazendeiro e subdelegado e o uso dessa prerroga­
tiva para forçar os libertos — ou, na expressão da época, os “treze de maio” —
a tomar contrato de trabalho nos termos impostos por eles próprios ou por
seus amigos. A primeira novidade republicana, nas áreas consideradas, parece
ter sido a conquista do silêncio dos que ainda defendiam a igualdade dos li­
bertos com os nascidos livres, nos últimos meses do Império. Após novembro
de 1889, cessam subitamente, nos jornais locais consultados, tanto as denúncias
em relação à atuação arbitrária das autoridades contra os libertos como as
reclamações quanto a uma atuação em sentido oposto.
As condições do mercado de trabalho limitavam, entretanto, a eficácia
dessa atuação. Um caso, especialmente, ilustra os dois termos da equação: a
tentativa de usar a repressão policial em nome dos interesses privados dos ex-
-senhores e a concorrência entre eles pelo trabalhador liberto como elemento
limitador do expediente. Trata-se de uma queixa por crime de desacato e de­
sobediência à autoridade, apresentada pelo 9- Distrito, em 1894, às autoridades
judiciais da comarca de Campos, no estado do Rio de Janeiro, nos termos que
se seguem:

No domingo 18 do corrente, às 11 horas do dia mais ou menos, o suplicante, na


qualidade de subdelegado de polícia do 9- Distrito deste município tendo ido à casa
do suplicado, aí foi por este desacatado e desobedecido na presença de testemunhas,
pelo fato de querer fazer vir à sua presença uma mulher que era acusada de crime de
roubo pelo cidadão José Francisco Nunes de Azevedo25, (grifo nosso)

290
“nós tudo hoie é cidadão”

Uma primeira peculiaridade dos inquéritos policiais da fase republicana é


a utilização sistemática do termo “cidadão” como designador de status social.
Nos inquéritos, são chamados a depor “homens”, “mulheres” e “cidadãos” (em
geral, proprietários e residentes numa fazenda do distrito). Neste, confrontam-
-se o “cidadão” Manuel Antônio Ribeiro de Castro, subdelegado do 9a Dis­
trito, também proprietário e fazendeiro na região, mais conhecido como
Maneco Castro, e o “cidadão” Joaquim José Araújo da Silva, proprietário da
fazenda Santo Antônio e nela residente. O pomo da discórdia entre os dois
fazendeiros, até então vizinhos e amigos, é a “mulher”, acusada de roubo na
fazenda do terceiro “cidadão” — citado na queixa-crime —, que, ao longo do
inquérito, é preferencialmentc identificada como a “preta Matilde”.
A versão do queixoso pode ser assim resumida: A “preta Matilde” havia
sido acusada de roubo na fazenda onde trabalhava. Dali saíra e se empregara
nas terras do acusado. O subdelegado mandara buscá-la para averiguações e o
acusado se negara a entregá-la a seus representantes. O subdelegado teria,
então, ido pessoalmente à casa do acusado buscar a suspeita, tendo sido ali
desacatado pelo proprietário da fazenda Santo Antônio.
Na versão do acusado, Maneco Castro (o subdelegado) mandara três de
seus “trabalhadores”, um dos quais estaria bêbado, à sua fazenda, dizendo que,
por ordem de seu patrão, “vinham buscar a preta Matilde”. O acusado, então,
“receando fazer entrega da pobre preta a homens desconhecidos, um dos quais
embriagado”, escrevera um bilhete a Maneco Castro, pedindo-lhe que viesse
pessoalmente conversar sobre a questão. Este teria chegado à fazenda de modo
violento e cercado de “capangas”; o queixoso, então, convidou Maneco Castro
a se retirar de sua casa. O ponto básico da defesa é que em nenhum momento
foi apresentado um mandado de prisão contra a “preta” e nem Maneco Castro
ali se apresentara como subdelegado.
Mais interessantes que a disputa entre os fazendeiros em torno da “preta
Matilde”, assim reconhecida seis anos após a abolição do cativeiro, são os de­
poimentos das testemunhas do réu e do queixoso, em torno da troca de agres­
sões verbais entre eles.
Os depoimentos da defesa, com pequenas variações de forma, ressaltavam
que Araújo teria dito a Maneco Castro “que nunca matou nem mandou matar
ninguém, nem esbordoava quem quer que fosse por cobrar salários devidos”
(declaração do próprio Araújo, por seu procurador).
A defesa ressaltava, também, os depoimentos produzidos pela acusação,
que afirmavam: “Que não lhe consta que o acusado alicia colonos ou oculte
criminosos e desordeiros” (depoimento de Luís Pessanha Batista).

291
DAS CORES DO SILÊNCIO

Afirmava-se, ainda, que Maneco Castro, indagado por um mandado de


prisão, respondera (com pequenas variações de forma): “Qual lei qual nada
estamos em estado de sítio, podemos fazer o que muito bem quiser” (depoi­
mento de Valentim Francisco dos Santos).
Nesta última versão, desenham-se claramente duas estratégias em confron­
to, ao mesmo tempo que todo o teor da possível discussão informa sobre a
centralidade que a questão de obtenção de mão de obra, preferencialmente
liberta (preta), mantinha em Guarulhos, distrito de Campos, em 1894. Ma­
neco Castro, em aliança com outros fazendeiros, procurava, no exercício da
autoridade policial, manter os libertos nas fazendas, forjando acusações con­
tra os que se retiravam e “matando ou esbordoando” quem tentasse discutir
as condições de remuneração oferecidas. Araújo Silva, utilizando-se de um
código de proteção e paternalismo bem conhecido da experiência de liberda­
de até então prevalecente, colocava-se como alternativa para os libertos e pa­
recia estar tendo sucesso em seu intento.
Os testemunhos favoráveis a Maneco Castro alegam que este teria ido à
fazenda Santo Antônio buscar Matilde, então acusada de furto, e que seu
proprietário teria dito (com pequenas variações de forma nos depoimentos):

[...] que não lhe entregava para não desmoralizar a fazenda (depoimento de Luís
Pessanha).
[...] que ele era uma autoridade que ignorava a lei e burro (idem). Que o acusado
nesta ocasião disse que o queixoso exercia o cargo de subdelegado para ter empregados
baratos e tinha a casa cheia de capangas (depoimento de Jerônimo Gomes Batista).
Que dizendo o queixoso ao acusado se ele o queria matar, este respondeu-lhe que
se o quisesse matar, ele mesmo o mataria, não mandaria, e que o filho da puta que bo­
tasse os pés das suas portas para dentro ele daria um tiro (idem).

Ou seja, os depoimentos favoráveis ao subdelegado configuram o mesmo


confronto e a mesma centralidade da disputa pela mão de obra liberta. Há,
entretanto, diferenças entre as alegações da defesa e as da acusação, além da
tentativa de caracterizar a condição de autoridade em exercício do subdelega­
do na discussão e as agressões diretas à sua pessoa. Na versão da defesa, é o
subdelegado que abusa de suas funções públicas, em nome de interesses pri­
vados, e tenta proceder a prisões sem o amparo da lei. Na versão do queixoso,
é o réu que coloca sua autoridade sobre suas terras acima da lei para “não des­
moralizar a fazenda”. Ambos fazem um discurso para o poder judiciário, no
qual a ficção da existência separada dessas duas esferas (o público e o privado)

292
“nós tudo hoje é cidadão”

deveria prevalecer. O promotor da cidade de Campos indefere a queixa e


condena Maneco Castro às custas. Se combinarmos os dois discursos, consta­
tamos que relações costumeiras de tipo tradicional (“não desmoralizar a fa­
zenda”) continuavam sendo a única garantia aos direitos de cidadania confe­
ridos pela liberdade (tendo impedido a prisão arbitrária e ilegal de Matilde).
Costuma-se alegar que aos libertos nada foi concedido além da liberdade.
Nem terras, nem instrução, nem qualquer reparação ou compensação pelos
anos de cativeiro. Foram entregues à própria sorte, o que podia ser especial­
mente dramático para idosos e órfãos, como, aliás, não deixava de lembrar o
Correio de Cantagalo. No contexto da época, entretanto, salvo a remota pos­
sibilidade de uma distribuição de terras, que causou forte pânico entre os
proprietários, a legislação especial que se esperava tinha como base a ideia de
tutela do liberto pelo Estado, forçando-o a continuar v&plantation cm con­
dições cujos termos deviam ser definidos pelos ex-senhores. Não por acaso,
foi exatamente o Correio de Cantagalo a folha que mais fortemente denunciou
as condições de abandono em que se encontravam velhos e órfãos após a
aprovação da lei. Foi a tentativa, muitas vezes violenta, de forçar os libertos a
se manterem não como “negros escravos”, mas como “negros libertos”, de
mantê-los numa condição civil de fato diferenciada que os libertos tiveram
imediatamente que enfrentar, na sua vivência cotidiana, após o 13 de Maio.

Fui ver pretos na cidade


Que quisessem se alugar.
Falei com essa humildade,
Negros, querem trabalhar?
Olharam-me de soslaio
e um deles, feio, cambaio
Respondcu-me arfando o peito:
— Negro, não há mais não
Nós tudo hoje é cidadão,
o branco que vá p’ro eito.

Nesses versos, já considerados na parte anterior, como em outros discursos


da época, “negro” aparece como sinônimo de escravo ou ex-escravo e “cidadão”,
de livre. O ex-senhor desiludido da poesia pretendia, entretanto, que o ex-es­
cravo se mantivesse como tal, ou seja, “negro” ou “liberto” A pergunta “Negros,
querem trabalhar?”, o “negro feio e cambaio” teria ainda respondido, renegan­
do a qualificação: “Negro não há mais não”, para depois afirmar-se, em oposi­
ção, como cidadão (livre). Ao mostrar o ex-escravo, negando-se como negro,

293
DAS CORES DO SILÊNCIO

afirmando-se como cidadão e reconhecendo sua diferença dos brancos (que


deveríam ir para o eito), o poeta, a despeito de suas intenções, que permanecem
bastante ambíguas, revela-se bastante sintonizado com o campo em que se
desenrolavam os principais conflitos entre as visões de liberdade de ex-senho­
res e libertos.

Notas

1 Transcrição do discurso do barão de Cotejipe no Senado em 12 de maio de 1888, publicado pela


Gazeta Sul-Mineira, em seu primeiro número após a Abolição, em 4 de junho de 1888.
2 Cf. Maria Lúcia Lamounier, Da escravidão ao trabalho livre — A lei de locação de serviços de
1879,1988; Ana Maria dos Santos e Sônia Regina Mendonça, “Representações sobre o trabalho
livre na crise do escravismo fluminense, 1870-1903”, Revista Brasileira de História, 6 (11). São
Paulo, set., 1984-fev., 1985, pp. 85-9.
3 Gazeta Sul-Mineira, 4 maio, 1888. Esta foi a primeira edição do jornal após o 13 de Maio. Dela
se transcreve também o discurso de Cotejipe, citado na epígrafe. O jornal (ligado ao partido
conservador) deixou de ser publicado por quase um mês após o 13 de Maio.
4 0 Monitor Sul-Mineiro, 15 jun., 1888.
5 Jornal do Comniercio, “As desordens de campanha”, 15 jun., 1888.
6 O Monitor Sul-Mineiro, 23 set., 1888.
' O Monitor Campista, O sertanejo, 26 set., 1888; Tópicos da Atualidade, 1° dez., 1888.
R Correio de Cantagalo, 26 ago., 1888.
9 Correio de Cantagalo, 30 ago., 1888.
10 Correio de Cantagalo, 16 set., 1888.
11 Ibidem.
12 Ibidem.
13 Correio de Cantagalo, 11 dez., 1888.
14 Correio de Cantagalo, 18 out„ 1888.
15 Em 13 de setembro de 1889, O Monitor Campista fala da necessidade de aumentar os efetivos
policiais nas povoações, que se somariam às “guardas particulares” existentes nas fazendas. Cf.
0 Monitor Campista, 13 set., 1889.
16 Correio de Cantagalo, 25 out., 1888.
17 Entre pérolas do gênero, em 5 de agosto de 1888, a “Chronica geral”, do Correio de Cantagalo,
publicaria a notícia do filho de uma liberta, nascido morto, com quatro dentes na boca.
18 Cf. Correio de Pádua, apud Correio de Cantagalo, 16 ago., 1888; Correio de Cantagalo, 16 set.,
1888 (“Engraçado”, “Alea jacta est"J, 0 Monitor Fidelense, apud Correio de Cantagalo.
19 Renato Lessa, A invenção republicana, 1988.
20 José Murilo de Carvalho, Os bestializados — 0 Rio deJaneiro e a República que nãofoi, 1987.
21 Lessa, Renato, A invenção republicana.
22 Sobre sufrágio e cidadania política no Império e na Primeira República, revisitei alguns casos
originalmente aqui estudados à luz da bibliografia desenvolvida após 1995, em Hebe Mattos,
“A vida política (Além do voto: cidadania e participação política na Primeira República brasi­
leira)”, in Lilia Schwarcz (dir. e org.), História do Brasil nação: 1808-2010. Vol. 3 — A abertura
para o mundo, 1889-1930. Madri, Fundação Mapfre; Rio de Janeiro, Objetiva, 2012, pp. 85-132.

294
“nós tudo hoje é cidadão”

23 Apud Lenine Nequete, O escravo na jurisprudência brasileira — Magistratura e ideologia no


Segundo Reinado, 1988.
24 CE Ademir Gebara, 0 mercado de trabalho livre no Brasil, 1871-1888,1986; Robert Conrad,
Os últimos anos da escravatura no Brasil, 1850-1888,1978.
25 Cartório do Terceiro Ofício de Campos, processos criminais, 1894, maço 317, Sumário de
culpa por crime de desacato e desobediência contra Joaquim José de Araújo Silva, petição
inicial.

295
2

Negro não há mais não? (I)

Em 1894,12 artigos foram publicados no Jornal do Commercio com o título


“A lavoura no estado do Rio”, assinados por Arrigo de Zetirry1. Não consegui
indicações biográficas sobre o autor, mas ele viajou pelo Norte Fluminense,
com vistas a analisar as condições de organização do trabalho na lavoura da
região, após experiência semelhante no Oeste Paulista. Seis anos após a extin­
ção do cativeiro, num quadro conturbado pelas instabilidades políticas da
República nascente, libertos e ex-senhores já não mais frequentavam com a
mesma assiduidade as páginas dos jornais. As crônicas de Zetirry, entretanto,
singularizam-se não só por se deterem em análises individualizadas das fazen­
das visitadas, como também por enfocarem especificamente as condições de
aproveitamento dos libertos nessas fazendas. Seu objetivo precípuo era, num
contexto de atração de mão de obra que ainda se mostrava crítico na região,
divulgar a experiência das fazendas que estavam conseguindo sobreviver na
nova conjuntura. As crônicas permitem, assim, que se reencontrem os emba­
tes entre expectativas de liberdade de libertos e ex-senhores, num momento
no qual já se tinha ultrapassado o contexto da primeira reação senhorial à
emancipação definitiva e incondicional de seus escravos.
O percurso geográfico realizado permite interessantes conclusões. Zetirry
caminhou de Itaperuna, recém-desmembrada de Campos, nova e próspera
região produtora de café, para São João da Barra, município onde predomina­
va a cultura da cana para produção de aguardente e o cultivo de cereais, pas­
sando também pela área canavieira campista. Tem-se, assim, para além de
quaisquer considerações regionais, a possibilidade de acompanhar as condições
diferenciadas com que as áreas agrícolas tradicionais do Sudeste enfrentaram
a chamada “transformação do trabalho” Paralelamente, são consideradas tam­
bém as informações fornecidas pelos registros de nascimento e óbito de três
DAS CORES DO SILÊNCIO

freguesias da região, com as mesmas características das áreas visitadas.Tendo


em vista o papel crucial representado pela mobilidade nas estradas de sobre­
vivência dos libertos e o caráter fortemente diferencial da situação de mercado
que se estabelecera em 1888, apenas com essa visão integrada se pode realmente
acompanhar a pluralidade de estratégias e alternativas efetivamente acionadas
por libertos e ex-senhores.
A primeira fazenda visitada chamava-se Três Barras e estava localizada na
divisa dos municípios de Itaperuna e Campos. Com 700 alqueires de terra e
500 mil pés de café plantados, era trabalhada por colonos nacionais — livres
e libertos — e estrangeiros. Formavam ao todo 123 famílias, assim divididas:
38 famílias de colonos nacionais livres; 42 ditas de colonos libertos que foram
escravos da fazenda; 11 ditas de colonos libertos que foram escravos de outras
fazendas; 23 ditas de colonos europeus; e 9 ditas empregadas na atual colhei­
ta de café2.
Chama a atenção, de imediato, que todo o conjunto de trabalhadores da
fazenda se encontrasse agrupado e contado em função de sua organização
familiar. Isso contradiz frontalmente a opinião, hoje já bastante questionada,
de que a experiência da escravidão tivesse determinado um quadro de desor­
ganização ou ausência de padrão familiar entre os escravos, bem como a de
que os ex-cativos tivessem sido rapidamente alijados das fazendas mais produ­
tivas. Das 123 famílias, 42 eram ex-escravas, e haviam sido libertadas, em
conjunto, na própria fazenda. Zetirry também mantém, nessa classificação
inicial, uma clara diferenciação entre libertos que continuaram na fazenda
(enfatizando, assim, que as condições oferecidas por esse fazendeiro consegui­
ram reter pelo menos parte dos antigos... escravos) e libertos de outras fazen­
das (capacidade de atrair libertos de outros senhores), colonos nascidos livres
(sem qualquer especificação racial) e imigrantes. A classificação sugere que
ainda se mantinha forte, para os recém-libertos, a marca da escravidão e, ao
mesmo tempo, que ainda eram o esteio da força de trabalho regularmente em­
pregada nas fazendas cafeeiras da região (mais de 40% das famílias arroladas).
E, de fato, os dados do Registro Civil de Óbito, para a década de 1890, na
freguesia de Cachoeiras do Muriaé, pertencente ao município de Campos e
vizinha à área visitada, confirmam essa perspectiva3.
A freguesia de Nossa Senhora das Cachoeiras do Muriaé foi criada em 1873,
desmembrada da freguesia de Guarulhos, do município de Campos. Sua cria­
ção está ligada a um movimento mais amplo de surgimento de novos municí­
pios e freguesias no Norte Fluminense, em grande parte desmembrados do
município de Campos (como Itaperuna), no rastro da expansão cafeeira na

298
NEGRO NÃO HÁ MAIS NÃO? (i)

região. Surgida em 1891, não foi recenseada em separado no Censo Geral de


1890. Guarulhos, em 1890, contava, segundo o censo, com 64,61% de negros
e pardos, num total de 13.414 pessoas. A população de Cachoeiras do Muriaé
era com certeza bastante inferior, visto constituir-se em área de fronteira
agrícola que surgia na renovada febre de expansão cafeeira.
Tão novos quanto a freguesia eram os registros civis, instituídos, após
muitas controvérsias, em 1888. Se mesmo os registros paroquiais, especialmente
de casamento e óbitos, se mostram extremamente precários do ponto de vista
da representatividade da população rural do Brasil, no Oitocentos, é de supor
que os registros civis atingissem uma porção ainda menor dessas populações.
Já na segunda metade do século XIX, entretanto, os registros paroquiais de
Campos não declaravam a “cor”, nem mesmo das crianças livres levadas a
batismo.
A declaração de cor era uma prática bastante generalizada nos registros
civis consultados. Os 356 óbitos e 1.116 nascimentos, registrados no cartório
de registro civil da freguesia de Nossa Senhora das Cachoeiras do Muriaé
entre 1891 e 1901, são números com certeza inferiores aos totais de nascimen­
tos e óbitos na nova freguesia. Tanto os registros de nascimento quanto os de
óbito apresentaram, entretanto, proporções extremamente semelhantes em
relação a brancos e não brancos, revelando não só uma coerência entre ambos
os registros, mas também proporções compatíveis com as expectativas que se
podem desenvolver a partir da análise dos recenseamentos disponíveis para
Guarulhos (Gráfico 26).

Gráfico 26 - Freguesia de Cachoeiras do Muriaé: total dos registros civis (1891-1901)

Fonte: Registros civis. Italva-RJ.

Se os registros se mostram precários para uma análise propriamente demo­


gráfica, mostraram-se bastante significativos do ponto de vista da análise social,

299
DAS CORES DO SILÊNCIO

possibilitada pela rara referência sistemática à “cor”, ao local de residência


(óbitos), à profissão dos pais (nascimentos) e às relações familiares.
Desenha-se, a partir desses dados, o perfil de uma área de fronteira em que
os não brancos somavam cerca de 70% da população presente nos registros
civis e onde a razão de masculinidade entre a população registrada nos óbitos
era de 1,94 para os brancos adultos (mais de 15 anos) e 1,51 para os negros e
pardos.
A menção da cor nos registros de óbito de adultos na década de 1890, em
Cachoeiras do Muriaé, como nas outras freguesias trabalhadas, mostrou-se
claramente informada por uma concepção da designação “negro” numa refe­
rência ainda à passada experiência escrava. As referências explícitas, em alguns
casos, à condição de liberto (“negro africano” ou “negro crioulo”) e a ausência
de sobrenomes, especialmente nos primeiros anos, são fortes indicadores
nesse sentido, reforçados pelo perfil social específico, apresentado pelo grupo
“negro” naqueles registros. A relação dos nomes de negros, brancos e pardos,
em 1889, nos registros de óbito da freguesia de São Gonçalo4, marcada por
uma total ausência de sobrenomes para os negros (característica dos escravos),
uma incidência significativa entre os pardos (caracterizando os “nascidos livres”)
e sua universalidade entre os brancos ilustram o quanto, naqueles primeiros
anos, a “cor” ainda era referência de um passado cativo próximo ou remoto.
Em Cachoeiras do Muriaé, os “negros” adultos, nos registros de óbito,
identificados muitas vezes como “africanos”, “crioulos” ou simplesmente “li­
bertos”, residiam majoritariamente em “fazendas” (62,99%), contra apenas
26,26% dos brancos e 43,30% dos pardos, Se a maioria dos “negros” (libertos)
residia nas fazendas, também a maioria dos residentes em “fazendas”, de acor­
do com os registros de óbito, era formada por trabalhadores “negros” (54,05%),
numa proporção ainda mais alta que a encontrada por Zetirry em Três Barras.
Esses “negros”, que majoritariamente moravam em “fazendas” e que forma­
vam a maioria da população residente em “fazendas” da área, quando tiveram
sua profissão declarada (43,51% dos casos), revelaram-se “lavradores” ou “jor-,
naleiros”, em 80% dos registros considerados. Entre os restantes 20%, contam-
-se os poucos artistas, operários (na Estrada de Ferro) e empregados domésti­
cos, que tiveram suas ocupações assinaladas nos registros de óbito, bem como
quatro velhos libertos, considerados “indigentes”.
As opções profissionais mostraram-se ainda menos diversificadas para
brancos e pardos, quase universalmente qualificados profissionalmente como
“lavradores”. A predominância de ocupações agrícolas, nos registros de óbito,
evidencia mais uma vez o caráter de fronteira da área e o atrofiamento de

300
NEGRO NÃO HÁ MAIS NÃO? (l)

qualquer função urbana na região. A estrutura ocupacional da freguesia po­


derá ser mais bem considerada, entretanto, a partir dos registros de nascimen­
to, quando a ocupação pelos pais se fez presente em 77,46% dos casos.
A identificação profissional nos óbitos de adultos, nos quais a identidade
entre “negros” e “libertos” se faz muito mais acentuada, deve também ser
considerada, por mostrar-se especialmente reveladora. Demonstra que os
“brancos” e os “pardos”, apesar de “lavradores”, o eram, majoritariamente,
enquanto posseiros ou pequenos proprietários fora das fazendas da área. A
predominância de jornaleiros “negros” e também de lavradores “negros” den­
tro das fazendas da região confirma o quadro esboçado por Zetirry de depen­
dência da mão de obra liberta (como colonos ou jornaleiros), nas maiores
fazendas de café das zonas em expansão. Quase não são arrolados estrangeiros
nos registros analisados — 7,07% da minoria branca registrada (Gráficos 27,
28 e 29).

Gráfico 27 - Freguesia de Cachoeiras do Muriaé: óbitos (1891-1901)

Fonte: Registro de óbitos. Jtalva-RJ.

Gráfico 28 - Freguesia de Cachoeiras do Muriaé:


residentes em “fazendas” nos registros de óbitos

301
DAS CORES DO SILÊNCIO

Gráfico 29 - Freguesia de Cachoeiras do Muriaé:


profissões nos registros de óbitos

O recurso a imigrantes estrangeiros, entretanto, especialmente portugue­


ses e espanhóis, mesmo que minoritário, ainda dava esperanças a Alves
de Brito, proprietário em Três Barras, de que em breve aumentasse a oferta de
trabalho, permitindo-lhe substituir o sistema de parceria, adotar o de salários
e diminuir sua dependência dos recém-libertos, segundo seu próprio depoi­
mento a Arrigo de Zetirry. Em discordância com o ponto de vista de Zetirry,
o sistema de parceria adotado em sua fazenda não o entusiasmava nem mesmo
no que se refere aos colonos europeus, especialmente pela perda de influência
do proprietário sobre o ritmo e as prioridades da produção. Em busca desse
mesmo objetivo, em outra fazenda da área, propriedade de dona Aurélia Go­
mes, os parceiros libertos conviviam com trabalhadores assalariados chineses,
contratados por quatro anos5. Para desaponto de Zetirry, ardente defensor da
parceria com colonos europeus para as áreas cafeeiras do estado, dona Aurélia
se mostrava entusiasmada com os chins, que, do seu ponto de vista, “não se
recusavam aos trabalhos mais árduos, como os europeus”, nem faziam as “ab­
surdas exigências dos libertos”. A imigração europeia permaneceu, entretanto,
sempre limitada na região, e a importação de trabalhadores chineses nunca
chegou a ter maior expressão na área considerada.
As condições de trabalho em Três Barras, descritas por Zetirry, podem
fornecer um parâmetro para conhecermos as condições de vida e trabalho da
maioria negra residente nas fazendas da área. Além das 123 famílias inicial­
mente descritas, Três Barras contratava ainda 58 camaradas, empregados no
trabalho de beneficiar café, mediante salário (três mil-réis diários a seco). As
famílias dos colonos somavam 542 pessoas, com uma média de 4,2 indivíduos
cada uma. Parte dessas famílias (o autor não esclarece quantas) era empreiteira

302
NEGRO NÃO HÁ MAIS NÃO? (i)

e estava empregada na formação de novos cafezais. Contratavam-se por quatro


anos, com direito a plantar e colher cereais, bem como aos frutos dos cafeeiros,
plantados no terceiro e quarto ano. Recebiam, além disso (como em São Paulo),
cem réis por mil pés de café plantado. Possivelmente, seriam formadas pelos
“colonos nacionais nascidos livres” que, segundo o autor, no Rio de Janeiro
como em São Paulo, tinham uma clara preferência por esse tipo de trabalho,
chegando mesmo a “vender” ou repassar contratos de parceria para assumir
tal situação.
A maior parte das famílias de colonos achava-se empregada, entretanto,
no trabalho de tratar os cafezais já formados, “de capinar quantas vezes por
ano puder e de colher o café na época oportuna”. A retribuição era a metade
da colheita de café e das roças de milho e feijão que tivessem plantado.
Zetirry considerava essas condições especialmente vantajosas aos colonos,
especialmente se comparadas com as oferecidas pelos lavradores paulistas do
Oeste. Para ele, essa seria a maior prova ou “a medida mais evidente” da crise
de trabalho por que passava o estado. Para obter mão de obra suficiente aos
trabalhos da fazenda, o lavrador fluminense via-se obrigado a “submeter-se a
condições de parceria” que, segundo o autor, horrorizavam os fazendeiros
paulistas.
Zetirry tenta explicar, ainda, que o problema não é propriamente de nú­
mero de trabalhadores (542 pessoas não é pouca coisa, reconhece). Em termos
de braços para os cafezais, entretanto, esse número, de fato, seria muito menor,
pois as famílias de libertos, do seu ponto de vista, não potencializavam, como
o imigrante em São Paulo, o trabalho familiar. Segundo Zetirry, nas famílias
de libertos, privilegiavam-se as roças de mantimentos; as mulheres recusavam-
-se a trabalhar nos cafezais; os filhos começavam tarde a ajudar na lavoura e,
ainda por cima, casavam-se cedo. Como nas famílias dos “nacionais nascidos
livres” os dias de trabalho reduziam-se a quatro na semana, devido à multipli­
cidade de festas religiosas de que nunca deixavam de participar. Em condições
de parceria, os proprietários não possuíam meios de modificar este quadro.
Não faltavam jornaleiros assalariados, mas estes saíam ainda mais caros, aos
níveis dos salários então vigentes, do que os meeiros e, principalmente, mais
incertos.
Desse modo, ao arrolar as restrições que ele e os proprietários visitados
faziam ao trabalho dos libertos em condição de parceria, Zetirry indiretamen­
te nos informa sobre as expectativas dos ex-escravos cm relação à liberdade
que os aproximava dos padrões culturais tradicionalmente adotados pelos

303
DAS CORES DO SILÊNCIO

roceiros livres, ainda na vigência da escravidão, bem como sobre sua capaci­
dade de corná-las efetivas na nova conjuntura.
Seis anos após a abolição do cativeiro, as condições de mercado para atra­
ção de trabalhadores na lavoura fluminense ainda eram percebidas pelo ana­
lista como claramente desvantajosas aos proprietários, forçando-os a adotar a
parceria para fixar o trabalho do liberto.
Apesar de sua propalada insatisfação com as condições de fixação da mão
de obra e, especialmente, de sua situação de dependência em relação às exigên­
cias dos recém-libertos, os cafeicultores do Norte Fluminense conseguiam
bons lucros com o sistema de parceria, de acordo com a avaliação do autor,
bem como os parceiros que nela trabalhavam. Com o sistema adotado, apenas
as fazendas menos produtivas, com cafezais velhos e cansados, tinham proble­
mas para obtenção de mão de obra. Já haveria mesmo um mercado informal
de “situações” entre os parceiros, como o que havia muito funcionava para as
situações agrícolas de arrendatários e agregados livres. O preço pago, entre­
tanto, pelos ex-senhores pela estabilidade do trabalhador implicava abrir mão
até mesmo do poder de escolher as famílias contratadas, mesmo que conser­
vassem, obviamente, o poder de vetar as transações acordadas.
Também a análise das informações obtidas a partir dos registros de nas­
cimento parece coadunar-se e mesmo complementar o quadro traçado por
Zetirry. No caso da discriminação da cor das crianças, nesses registros, a cor­
respondência entre “negros” e descendentes de libertos não se faz mais de
forma universal, como nos óbitos. Nos primeiros anos, era ainda comum
a designação dos pais como “negros crioulos” e de alguns avós como “negros
africanos”, mas, desde meados da década, apenas a cor das crianças era referida.
Os critérios utilizados para tanto eram bastante obscuros e serão discutidos
adiante, mas cabe ressaltar desde agora que se pôde registrar, para as demais
freguesias consideradas, não ser incomum que um mesmo casal tivesse filhos
registrados, ora como “negros”, ora como “pardos”. Certo é que as uniões entre
os recém-libertos e seus filhos não ficaram restritas ao grupo “negro”, e os
descendentes de libertos foram registrados como “negros”, tanto como “pardos”.
Em Cachoeiras do Muriaé, foram considerados “pardos” todos os cinco
netos de Jacinta Lopes e Vicente Lopes, ambos africanos, nascidos de suas duas
filhas, Libânia e Marcolina, reconhecidos pelos pais, lavradores, que com elas
residiam. Já os três netos de Maria Rita e Procópio, também africanos, filhos
de Engrácia Maria Rita, filha do casal, e seu marido, Manuel Paulo, filho de
Rosária, foram todos registrados como negros. É duvidoso se houve efetiva­
mente “miscigenação” no primeiro caso, mas é certo que, no segundo, não

304
NEGRO NÃO HÁ MAIS NÃO? (i)

somente a mãe era filha de africanos, como o pai era liberto (ausência de so­
brenome). As duas filhas de Sabina Rita, jornaleira africana, tiveram filhos
pardos, enquanto Júlia Elisária, filha de Elisária Maria e Manuel Congo, re­
gistrou um único filho negro, em 1892, reconhecido pelo pai, jornaleiro,
Hermógenes dos Santos, filho de Dursulina Maria do Espírito Santo e Fran­
cisco dos Santos. Penso poder afirmar, e o quadro geral a partir da análise dos
registros o confirma, que, mesmo de maneira mais difusa, as crianças registra­
das como “negras”, pelo menos até meados da década, eram aquelas de pais
ainda reconhecidos como ex-cativos. Isso explica, em grande parte, por que a
maioria dos casos de casais com filhos negros e pardos, identificados nas outras
freguesias consideradas, tenham tido os filhos registrados como “pardos” até
meados da década de 1890, transformados em negros já no final do século.
Antes que um processo de branqueamento, parece delinear-se um processo de
apagamento da memória do cativeiro, no registro da cor, tornando “negros”
os filhos dos nascidos livres que não trouxessem traços evidentes de misci­
genação. Em Cachoeiras do Muriaé, essa distinção parece ter sido mais dura­
doura, talvez pela maioria de libertos na população adulta da região, conforme
o registro de óbitos. Em 1894, Zetirry teve muito mais facilidade em separar
nascidos livres de libertos nas áreas cafeeiras do que nas descrições das regiões
mais antigas e de população mais densa dedicadas à produção do açúcar ou ao
cultivo de mantimentos. Nos registros de nascimento de Cachoeiras do Muriaé,
a designação de “pardo” pareceu representar, principalmente, a perda do
estigma do cativeiro. Desse modo, para uma proporção semelhante de “bran­
cos”, nos óbitos e nos nascimentos, invertia-se a correlação entre “negros” e
“pardos” nos 70% de não brancos (Gráficos 30 e 31).

Gráfico 30 - Freguesia de Cachoeiras do Muriaé: cor nos registros de óbitos (%)

305
DAS CORES DO SILÊNCIO

Gráfico 31 - Freguesia de Cachoeiras do Muriaé:


cor nos registros de nascimentos (%)

■ brancos: 30,80%
negros: 29,80%
■ pardos: 39,40%

Nascimentos

Fonte (Gr. 30 e 31): Registros civis, 1891-1901. Italva-RJ.

A análise mais pormenorizada dos registros de crianças negras e pardas na


freguesia, num total de 781, parece confirmar a hipótese de que as crianças
registradas como negras foram aquelas cujas famílias ainda eram prioritaria­
mente identificadas com um passado cativo. Sem a declaração da “cor” dos
pais torna-se difícil atribuir o processo de “empardecimento” das crianças
apenas à miscigenação, principalmente quando não se altera a proporção de
brancos, nos dois casos considerados (óbitos e nascimentos). Os dois grupos
(crianças negras e pardas) têm um perfil profissional bastante semelhante,
exceto no que se refere à ocupação de “jornaleiro”, exercida principalmente
pelos pais de crianças “negras”. Conforme enfatizará Zetirry, a mobilidade era
uma das principais características então atribuídas aos libertos. O acesso a
outras ocupações não agrícolas, mesmo que restrito, se fazia mais fácil para os
pardos ou tornava pardos os filhos dos libertos, conforme os gráficos a seguir.

Gráfico 32 - Freguesia de Cachoeiras do Muriaé:


profissão dos pais nos registros de nascimentos (1)

306
NEGRO NÃO HÁ MAIS NÃO? (l)

Gráfico 33 - Freguesia de Cachoeiras do Muriaé:


profissão dos pais nos registros de nascimentos (2)

■ lavradores: 55,42%
outras: 4,33%
■ serviço doméstico: 16,10%
jornaleiros: 24,15%

Pardos

Fonte (Gr. 32 e 33): Registros de nascimentos, 1891-1901. Iralva-RJ.

Gráfico 34 - Freguesia de Cachoeiras do Muriaé:


crianças “negras” nos registros de nascimentos

Gráfico 35 - Freguesia de Cachoeiras do Muriaé:


crianças ‘pardas’ nos reg. de nascimentos

Fonte (Gr. 34 e 35): Registros de nascimentos, 1891-1901. Italva-RJ.

307
DAS CORES DO SILENCIO

A legitimidade das crianças registradas era extremamente baixa nos dois


grupos, porém mais elevada entre os “pardos” (27,10% e 38,24%). Mesmo as­
sim, as famílias consensuais, catalogadas pela identificação da mãe como “ca­
seira” ou “amásia” do declarante e deste como o pai da criança, mostraram-se
significativas nos dois grupos, mais incisivamente para os “pardos” (35,16% e
47,51%). Mais de 97% das crianças registradas tiveram referida a avó materna,
evidenciando que uma referência geracional em linha materna não era exclu­
siva de nenhum grupo social. Isso também prevalecia, em menor grau, em
relação às avós paternas, quando os pais eram mencionados (83,16% e 93,50%),
o que reforçava a solidez das uniões consensuais na área, visto que, em outras
freguesias, não foi comum registrar-se o nome dos avós paternos dos filhos
naturais, mesmo quando reconhecidos por seus pais. Apenas as menções ao
avô paterno se mostraram inferiores aos índices de legitimidade encontrados.

Gráfico 36 -Freguesia de Cachoeiras do Muriaé:


pais “lavradores” nos registros de nascimentos (1)

140

total legítimo reconhe- avó avô avó avô


cido materna materno paterna paterno

Gráfico 37 Freguesia de Cachoeiras do Muriaé:


pais “lavradores” nos registros de nascimentos (2)

Fonte (Gr. 36 e 37): Registros de nascimentos, 1891-1901. Italva-RJ.

308
NEGRO NÃO HÁ MAIS NÃO? (i)

Entre os “lavradores” entendidos como os que tinham acesso à produção


familiar, como colonos, posseiros ou pequenos proprietários, elevam-se sig­
nificativamente os níveis de legitimidade (52,34% e 63,28%) e as uniões con­
sensuais identificadas (65,92% e 77,09%), sempre com índices mais elevados
para as crianças pardas. No restante dos casos, ou o avô materno é “lavrador”
e declarante ou o declarante é “lavrador”, como a mãe da criança registrada,
sem que se explicite, entretanto, a relação de amasiamento e paternidade
(Gráficos 36 e 37).
Desse modo, se os registros de óbito confirmam que a maioria dos “negros”
(libertos) se encontrava residindo nas fazendas cafeeiras da região, os registros
de nascimento reiteram as relações estabelecidas por Zetirry entre família
nuclear e acesso à parceria, reproduzindo as antigas correlações entre laços de
família e acesso à terra que caracterizavam a experiência de liberdade no pe­
ríodo anterior. Parecem indicar, ainda, que os libertos, ao realizarem uniões
familiares com os “nascidos livres”, tendiam a perder também a marca do ca­
tiveiro. Os índices mais elevados de legitimidade e de pais declarados para as
crianças “pardas” em relação às “negras” revelam, pelo menos, que não era das
uniões fortuitas entre ex-senhores brancos e suas dependentes não brancas que
crescia o número das crianças pardas. Sugerem, além disso, que uma progres­
siva indiferenciação com os “nascidos livres”, independentemente de um
processo real de miscigenação, tornava “pardos” os filhos e netos de libertos,
na freguesia de Nossa Senhora das Cachoeiras do Muriaé, na última década
do século XIX.

Notas

1 Os sete artigos desta série referente à lavoura canavieira campista foram discutidos e analisados
em Sheila de Castro Faria, “Terra e trabalho em Campos dos Goitacases, 1850-1920”. Disserta­
ção de mestrado. Niterói, ICHF, UFF, 1986, especialmente o capítulo “O mercado de trabalho”.
A dissertação em questão foi referência fundamentai para a escolha do norte fluminense para
o levantamento de fontes locais com vistas a esta pesquisa.
2 Jornal do Commercio, “A lavoura no estado do Rio II”, 28 jun., 1894.
3 Foram levantados para a freguesia de Nossa Senhora das Cachoeiras do Muriaé, atual municí­
pio de Italva-RJ, todos os registros de óbito para a década de 1890 (356) e a totalidade dos re­
gistros de nascimento, no que se refere a negros e pardos, para o mesmo período (781), tendo
sido apenas contados os brancos, num total de 335.
4 Usam-se, aqui, os dados da freguesia de São Gonçalo, também do município de Campos,
tendo em vista que os registros de Cachoeiras do Muriaé se iniciam apenas em 1891.
5 Cf. Jornal do Commercio, “A lavoura no estado do Rio III e IV”, 5 e 10 jul., 1894.

309
3

Negro não há mais não? (II)

Se Zetirry considerava deficiente a oferta de mão de obra nas áreas cafeeiras


do norte do estado, nas zonas açucareiras de Campos, onde “o lucro se apre­
sentava significativamente menor e os trabalhos agrícolas mais árduos e peno­
sos, não se podendo contar, mesmo em escala reduzida, com o colono estran­
geiro”, o cronista vai considerar dramática a situação.
Ele o afirma baseado em suas impressões, mas também nos níveis de remes­
sa de açúcar da região, confirmados pela pesquisa acadêmica. As remessas de
açúcar para a praça do Rio de Janeiro vinham diminuindo progressivamente
desde 1888 e tendiam, em 1894, a ser ainda menores1.
Novamente aqui se confirma a persistência, por toda a década de 1890, de
uma situação de mercado diferencialmente desfavorável aos fazendeiros. Na
nova fronteira de expansão do café no Norte Fluminense, apesar da rarefação
demográfica inicial, as condições de oferta de mão de obra eram superiores à
lavoura canavieira que, mesmo condensando em seu hinterland uma enorme
massa de libertos e nacionais livres, se via obrigada a conceder condições de
trabalho ainda mais favoráveis às aspirações de autonomia dos trabalhadores.
Para fixar o liberto, a lavoura de cana não só adotara a parceria, como o
fizera em condições bem mais favoráveis aos colonos do que as vigentes na
lavoura do café. Segundo Zetirry, a parceria na lavoura de cana, em 1894, não
impunha meação às lavouras de milho e feijão, não cobrava aluguel pelo trans­
porte das canas e dos cereais, bem como pelo uso de instrumentos aratórios
dos proprietários. Tudo isso havia sido projetado nos congressos agrícolas da
região, que procuraram regulamentar a lavoura de cana, como forma de atrair
o imigrante europeu. Mesmo assim, segundo o autor: “Estão longe de deixar
os bons lucros que percebem estes (os parceiros no café)”.
Em função disso, ainda segundo o cronista: “O transtorno produzido pela
humanitária lei da abolição é visivelmente desolador e parece até incrível o
DAS CORES DO SILÊNCIO

número das fazendas abandonadas, considerável o das maltratadas, raro o das


prósperas!”2.
Visitando e descrevendo as condições de trabalho nas fazendas prósperas
(todas as anexas às grandes usinas), Zetirry nos permite perceber, nas entreli­
nhas de sua descrição, os atrativos oferecidos por essas fazendas para a fixação
de seu pessoal e, por oposição, as demandas dos libertos, que os fizeram optar
por permanecer na lavoura de cana.
Apesar de sua ênfase sobre a situação do liberto em cada caso considerado,
em praticamente todas as fazendas visitadas os colonos se compunham não só
de libertos, mas também de “nacionais nascidos livres”. Zetirry preocupa-se
menos, nas áreas açucareiras, em analisar separadamente os dois grupos. A
própria expressão por ele utilizada, “nascidos livres”, sugere tratar-se majorita-
riamente de “pardos”, no sentido em que o qualificativo ainda era empregado
em finais do século XIX. Os “brancos” não precisariam dessa qualificação.
Os dados levantados nos registros civis de nascimento e óbito para São
Gonçalo, tradicional freguesia açucareira da região, confirmam o quadro.
São Gonçalo possuía, segundo o Recenseamento Geral de 1890, uma popu­
lação de 6.875 habitantes. Esses números contêm um elevado sub-registro,
comum ao recenseamento em questão, tendo em vista o expressivo decréscimo
da população em relação ao Recenseamento Geral de 1872 (10.998), como
também os números de óbitos (3.227) e nascimentos (5.633) registrados na
freguesia, entre 1889 e 19013.

Gráfico 38 - Freguesia de São Gonçalo:


população por cor

Fonte: Recenseamento Geral do Brasil, 1872,1890.


Registros civis, 1889-190L Campos-RJ.

O peso proporcional de brancos e de não brancos nos registros de óbitos,


de nascimentos e nos censos de 1872 e 1890 apresenta-se, entretanto, bastante

312
NEGRO NÃO HÁ MAIS NÃO? (li)

semelhante (cerca de 35% de brancos). Se o censo de 1890 apresenta um sub'


-registro generalizado, com certeza os registros aqui considerados, tendo em
vista seu volume, se também se apresentam generalizados, fazem-no de ma­
neira muito menos acentuada que os analisados para Cachoeiras do Muriaé.
Ao que tudo indica, nessa freguesia, antiga e densamente povoada, os registros
civis foram muito mais procurados pelo conjunto da população rural.
Em São Gonçalo, onde negros e pardos somavam também cerca de dois
terços da população presente nos registros, a razão de masculinidade nos re­
gistros de óbitos era a mesma para brancos e não brancos (0,96). Ela é, entre­
tanto, mais alta entre os “negros”, claramente identificados como “libertos”
(1,11) e bastante inferior entre os “pardos” (0,72), o que parece estar referen­
ciado a um padrão de alforria preferencialmente feminino nos anos anteriores.
Nos registros de óbitos da freguesia, apenas 28,47% informaram a profissão.
Mesmo assim, esses dados devem ser considerados em relação à identidade
entre “negros” e “libertos”, característica apenas dos óbitos de adultos na dé­
cada em questão. A preponderância das ocupações agrícolas é novamente
reiterada, sugerindo, entretanto, maior diversificação profissional, em face dos
números de Cachoeiras do Muriaé, menos expressivos para os recém-libertos.
Estes estiveram claramente confinados, num primeiro momento, às fazendas
ou à migração. Como na freguesia cafeeira considerada, os jornaleiros de São
Gonçalo da última década do século passado eram majoritariamente recruta­
dos entre os “negros” e a maioria absoluta dos “negros” adultos que tiveram
seus óbitos registrados vivia nas “fazendas” da região. Desse modo, antes que
a marginalização dos libertos dos setores mais produtivos da antiga fazenda
escravista, era sua falta de acesso imediato às antigas condições que dava esta­
bilidade aos roceiros livres, o que se evidencia, primeiramente, da análise dos
registros civis.

Gráfico 39 - Freguesia de São Gonçalo:


profissões nos registros de óbitos

100
□ lavradores
jornaleiros
outras
BO
Ui
o
S I

J
■o 60
■C

JL
o 40

’5>
20 --
i
0
nascimentos óbitos recens. 1872 recens. 1890

313
DAS CORES DO SILÊNCIO

Gráfico 40 - Freguesia de Sâo Gonçalo:


local de residência nos registros de óbitos

fazenda
fora das fazendas

Fonte (Gr. 39 e 40): Registros de óbitos, 1889-1901. Campos-RJ.

Sem que as condições de estabilidade dos “nascidos livres” se alterassem


imediatamente, os libertos ganhavam condições de influir nos rumos tomados
pelas novas relações de trabalho. Em São Gonçalo, os libertos formavam a
maioria dos trabalhadores adultos (jornaleiros e colonos) nas fazendas. Nesse
caso, porém, mostra-se mais expressivo o número de colonos brancos e pardos
nas fazendas, em comparação aos números encontrados em Cachoeiras do Mu-
riaé. Ante a concorrência das áreas cafeeiras, e a despeito das muitas reuniões de
lavradores, as condições de autonomia oferecidas pela parceria nas zonas açu-
careiras tiveram que se mostrar atraentes não só para parte dos libertos (sem
acesso à terra na região), mas também para as segundas gerações de arrenda­
tários e situantes “nascidos livres”, conforme Zetirry desoladamente relatara.
Zetirry se opunha à parceria para os libertos, baseando-se no argumento
de que estes não permitiam que suas mulheres e filhas trabalhassem nas plan­
tações, preferindo contratar jornaleiros (em sua maioria também recém-liber­
tos) nas épocas de maior acúmulo de trabalho.

Gráfico 41 - Freguesia de São Gonçalo:


adultos em fazendas, por cor, nos registros de óbitos

□ brancos ad: 26,48%


■ negros ad: 42,68%
■ pardos ad: 30,84%

Registros de óbitos

Fonte: Registros de óbitos, 1889-1901. Campos-RJ.

314
NEGRO NÃO HÁ MAIS NÃO? (li)

Segundo o autor, interrogados a esse respeito, respondiam: “Nossas mu­


lheres têm mais o que fazer em casa do que nós na roça. Quem cuida dos pe­
quenos, quem lava a roupa, quem arruma a casa, quem prepara a comida, quem
pensa a criação de porcos, galinhas, perus, etc. etc.?”4.
E claro que nosso autor não acreditava nessa argumentação e atribuía a
decisão à indolência e ao despreparo. Entretanto, nas fazendas visitadas nas
áreas açucareiras, encontrara exceções à regra, que não se furtou a descrever.
Em Campos, a maioria das libertas ajudava o marido no canavial, e as libertas,
mulheres de jornaleiros, eventualmente também se assalariavam.
Zetirry, parece-me que bastante consistentemente, atribui a especificidade
ao grande nível de autonomia em relação à administração geral da fazenda,
desfrutada pelo parceiro de cana em relação ao de café, inclusive com o parce­
lamento da área tratada por cada família. No caso do café, uma cultura per­
manente, os cafezais continuavam plantados em fila, como ao tempo do cati­
veiro. Além disso, na maioria dos casos, era o colono parceiro o principal
empregador de jornaleiros na época da colheita. Para uns e outros, portanto,
o trabalho da mulher no canavial não chegava a configurar um sentido de
continuidade com a experiência da escravidão.
Em qualquer dos casos analisados, os níveis de autonomia das famílias
produtoras de cana eram bem maiores do que na lavoura do café, especialmen­
te no que se refere à roça de mantimentos. Ainda segundo Zetirry:

A metade ou mais da safra da cana que o colono plantou, tratou e cortou, não é
única sua fonte de renda. Ele planta milho, feijão, mandioca e fica proprietário exclu­
sivo das respectivas colheitas. Engorda porcos, cria animais de toda espécie, quando é
mais industrioso e, em casos mais seletos, até negocia com animais5.

A valorização da lavoura de subsistência era tão forte entre os colonos que


o Engenho Central do Limão, em 1894, com 60 famílias de colonos nacio­
nais — entre nascidos livres e libertos —, mantinha desde 1889 a meação
sobre os cereais e o controle integral da lavoura de cana pelos colonos, como
forma de atrair trabalhadores e aumentar a produtividade e a qualidade da
produção canavieira que alimentava o engenho. Segundo Zetirry: “O colono,
que é só proprietário da metade da cana, descuida frequentemente a lavoura
desta para dedicar mais tempo à dos cereais que são exclusiva propriedade dele.
E isto é natural. Um carro de milho vale hoje 16$ e a metade de um carro de
cana efetivo, entregue no engenho, vale 10$, 11$ ou I2$ooo”6.
Em contradição com o que tantas vezes afirmava — da falta de racionali­
dade econômica do liberto, na maioria das vezes estendida aos colonos nacio­

315
DAS CORES DO SILÊNCIO

nais nascidos livres —, concluía: “O colono faz bem seus cálculos, nem há
maneira de impedir sem despertar suscetibilidade, que ele cuide mais dos cereais
do que da cana” .
Apenas em raros casos, segundo o autor, as fazendas das grandes usinas
lograram manter quase integralmente seus antigos trabalhadores escravos. A
Fazenda do Colégio seria uma dessas expressivas exceções. Dos 68 escravos e
8o escravas da fazenda em 1888, apenas cinco homens e três mulheres a haviam
abandonado após a abolição para não mais voltar.
As condições oferecidas pela Fazenda do Colégio ainda teriam atraído um
número considerável de libertos de outras propriedades e de homens e mu­
lheres nascidos livres. A época da visita de Zetirry, o pessoal completo do
Colégio era o seguinte8:

Ex-escravos 55
Ex-escravas 73
Ex-escravos de outros proprietários 37
Ex-escravas 31
Homens nascidos livres 28
Mulheres nascidas livres 18

Apesar de esse pessoal estar também organizado com base no trabalho


familiar, a própria apresentação dos trabalhadores da fazenda enquanto indi­
víduos — e não como famílias — é reveladora do nível de controle da dispo­
nibilidade de mão de obra que a administração da fazenda ainda mantinha
sobre seu pessoal.
O autor não aprofunda as razões desse quadro, que considera em tudo
excepcional. Ressalta, entretanto, a força dos laços comunitários estabelecidos
entre os escravos da fazenda, ao longo do tempo. No Colégio, os colonos liber­
tos mais idosos ainda chamavam o proprietário de ‘senhor moço”.
Esse tipo de controle social dos trabalhadores, baseado na tradição e na
antiga organização da fazenda escravista, parece ter sido a exceção e não a
regra. Nas descrições das demais colônias de “libertos e nascidos livres”, visi­
tadas por Zetirry, a ênfase no “carinho” das relações familiares entre eles bem
como o seu apego “irracional” à lavoura de cana parecem sugerir que, para além
das condições mais vantajosas da autonomia que a lavoura de cana campista
inicialmente oferecia, o verdadeiro segredo das mais bem-sucedidas fazendas
da região consistira numa combinação de atendimento às demandas de auto­
nomia com um contexto de fortes laços afetivos e familiares por parte de li-

316
NEGRO NÂO HÁ MAIS NÃO? (li)

berros na região. Laços afetivos entre si, com os vizinhos nascidos livres, algu­
mas vezes até mesmo com os ex-senhores (como no caso da Fazenda do
Colégio) e com a própria cultura da cana, em particular.
Mais uma vez, os dados dos registros civis e a historiografia sobre a escra­
vidão nas áreas açucareiras campistas reforçam essa hipótese. São áreas tradi­
cionais, em que o impacto da escravidão data do século XVII e onde as pes­
quisas demográficas sobre família escrava têm encontrado números
verdadeiramente impressionantes9.
Do ponto de vista das relações familiares, que podem ser inferidas dos
registros de nascimento, os dados de São Gonçalo repetem as tendências gerais
já analisadas para Cachoeiras do Muriaé, com pequenas discrepâncias. A um
menor índice de legitimidade em São Gonçalo, em relação a Cachoeiras do
Muriaé, correspondeu, por exemplo, uma maior proporção de uniões consen­
suais identificadas.
Em geral, nos registros de nascimento, tanto em Cachoeiras do Muriaé
quanto em São Gonçalo, a relação de paternidade não era declarada no prin­
cípio do registro, mas apenas quando da identificação do declarante. Enquan­
to em Muriaé, nesses casos, se mencionava, então, via de regra, pelo menos a
avó paterna, em São Gonçalo, alguns escrivães, em determinados períodos,
sistematicamente deixaram de fazê-lo, registrando apenas a declaração de
paternidade. Também mais frequentemente nessa freguesia, administradores
das fazendas apareciam como declarantes nos registros que, nesses casos,
mesmo em se tratando de “lavradoras”, raramente informavam além do nome
da mãe. Mesmo assim, a relação entre família nuclear e a posição de “lavrador”
voltou a se confirmar, como pode ser acompanhado nos seguintes gráficos.

Gráfico 42 - Freguesia de São Gonçalo:


crianças negras nos registros de nascimentos

317
DAS CORES DO SILENCIO

Gráfico 43 - Freguesia de São Gonçalo:


crianças pardas nos registros de nascimentos

Gráfico 44 - Freguesia de Sao Gonçalo:


filhos de lavradores nos registros de nascimentos (1)

Gráfico 45 - Freguesia de São Gonçalo:


filhos de lavradores nos registros de nascimentos (2)

Fonte: Registros de nascimentos, 1889-1901. Campos-RJ.

318
NEGRO NÃO HÁ MAIS NÃO? (li)

Os pais de filhos negros e pardos, também em São Gonçalo, encontravam-


-se majoritariamente ocupados em atividades agrícolas. A proporção de jor­
naleiros negros é, entretanto, bastante inferior à de Muriaé, evidenciando que
a opção de mobilidade se fazia preferentemente em direção às freguesias ca­
feeiras. Também a elevada concentração de mães de crianças “pardas” (20%)
ocupadas no serviço doméstico é peculiar a São Gonçalo, o que claramente
está referido à mestiçagem, entendida no sentido tradicional (filhos ilegítimos).
Encontra-se, nesse grupo, o menor índice de legitimidade (0,72%) e filhos
reconhecidos (12,47%) de todos os grupos profissionais e de cor considerados.
Mesmo expressivo, esse grupo mostrou-se francamente minoritário, e os per­
fis semelhantes para “negros” e “pardos”, no que se refere a relações familiares,
especialmente entre os lavradores, com indicadores mais favoráveis aos segun­
dos, também se confirmaram.

Gráfico 46 - Freguesia de São Gonçalo: profissão dos pais nos registros de nascimentos (1)

■ lavradores: 71,69%
■ outras: 6,31%
i serviço doméstico: 10,43%
■ jornaleiros: 11,66%

Negros

Gráfico 47 - Freguesia de São Gonçalo: profissão dos pais nos registros de nascimentos (2)

Fontes (Gr. 46 e 47): Registros de nascimentos, 1889-1901. Campos-RJ.

319
DAS CORES DO SILÊNCIO

As evidências de maior enraizamento na região que, segundo Zetirry teria


em grande parte determinado a decisão de permanência na área, em face das
promessas de maiores lucros das novas áreas cafeeiras, não se produzem, en­
tretanto, a partir desse quadro geral, mas principalmente pela repetição do
nome das mães e, em especial, das avós maternas, no conjunto dos registros
de negros e pardos.
Em Muriaé, 570 mães registraram 781 crianças (72,98%), sendo que 74,74%
dessas mães só uma vez registraram o nascimento de um filho na freguesia. As
mães que registraram mais de um filho, ao longo da década, fizeram-no numa
média de 2,77 crianças cada. Em pouquíssimos casos — alguns deles, já mencio­
nados no capítulo anterior —, pode-se identificar uma avó com mais de um
neto sendo registrado na freguesia. Esses números se coadunam bem com o
perfil de área de fronteira traçado para a região. A maioria das famílias com
filhos “negros” e “pardos” havia chegado recentemente à região, o que explica a
falta de “tios” e “primos”, detectada na total diferenciação das avós, bem como
a maioria de mães com apenas um filho registrado, mesmo que seja pequeno
o período considerado.
Já em São Gonçalo, 1.858 mães registraram 3.637 crianças (51,09%), sendo
que apenas 58,99% das mães registraram apenas um filho ao longo da dé­
cada. As mães que registraram mais de um filho, fizeram-no numa média de
3,33 cada.
Se foi fácil separar as mães que mais de uma vez compareceram aos registros
de suas muitas homônimas (quase todas as mulheres tinham “sobrenomes”
comuns como “de Jesus” ou “do Espírito Santo”), em função da quase univer­
sal menção ao nome das avós maternas, foi bem mais difícil identificar as avós
que tinham mais de uma filha como mãe nos registros. Tal só foi possível
quando o avô materno era também declarado, o que em São Gonçalo se fez
em apenas 35,21% dos casos. Para 20% dessas crianças, puderam-se identificar
tios e primos na freguesia. Em geral, nesses casos, o grupo familiar se concen­
trava numa mesma fazenda ou região.
Ambrosina de Barros Carneiro e Domingos Ribeiro Moço eram avós dos
filhos de Maria Domingas das Dores e de Rita Maria do Espírito Santo, todos
residentes na Fazenda do Saco. Nessa mesma fazenda, Alexandrina Maria
de Santana era casada com Julião Cordeiro Moço, provavelmente irmão de
Domingos, e avó dos filhos de Maria Rosa da Conceição, de Maria Paula
Rodrigues Moço, de Isabel Maria dos Santos e de Rosa Maria da Conceição,
todas, como suas primas, casadas ou com união consensual referida nos regis­
tros, lavradoras e moradoras na Fazenda do Saco. Ainda na mesma fazenda,

320
NEGRO NÃO HÁ MAIS NÃO? (ll)

Ana Ferreira de Jesus e Francisco Antônio de Sousa eram avós dos filhos de
Benedita Francisca de Sousa Gomes e de Maria Francisca Paula. Maria Fran-
cisca Paula vivia consensualmente com João Bernardo dos Reis na mesma
fazenda, pai de seus filhos e filho de Eufêmia e Bernardo dos Reis, lavradores,
residentes na Fazenda do Saco, avós dos filhos de Mariana Benedita dos Reis
e de Bernarda dos Reis, esta, caseira de José Caetano Moço, também na Fa­
zenda do Saco.
Em alguns casos, em que pode ser certo tratar-se de recém-libertos, pode-
-se fazer a mesma reconstituição, como no caso de Joana Caçula e Manuel
Ciriaco, pais de Salustina Caçula, de Sofia Caçula, de Francisca, de Paula,
de Jesuína Maria dos Passos e de Trajano Francisco Gonçalves, este, casado
com Basília Rita Pinto, filha de Rita Angélica, também mais de uma vez men­
cionada como avó nos registros, todos lavradores na Fazenda do Saco. Os li­
bertos Maria Clara e Deolindo tiveram duas filhas, registrando o nascimento
de seus netos na Fazenda da Tocaia. Os filhos de uma delas chamavam-se, como
os avós, Deolindo e Maria Clara. Maria da Penha e Henrique Africano, que
depois se torna Henrique Braga, viram suas filhas, Honória Braga, Eulália
Braga e Ema Maria da Penha, registrarem seus netos, todos nascidos na fazen­
da Velha. Zelinda das Dores e José Gonçalves, também declarados libertos,
no primeiro registro de seus netos, eram avós dos filhos de Laudêmia France-
lina dos Reis e de Olímpia Luiza do Espírito Santo, a primeira, casada, e a
segunda, vivendo com o pai de seus filhos, lavradores, como os avós, na Fazenda
do Colégio.
Comprova-se, assim, em São Gonçalo, como percebera Zetirry e diversas
pesquisas têm demonstrado, que a complexidade e antiguidade dos laços fa­
miliares herdados do cativeiro influíram diretamente nas decisões de migração
ou permanência dos libertos10.
Apesar das repetidas generalizações sobre a mobilidade do liberto, a im­
portância social dos laços familiares e pessoais para a inserção social no mun­
do rural do Sudeste, em finais do século XIX, fez com que, como previram em
parte os ex-senhores, os que estavam aptos a acionar esse tipo de relações
privilegiassem estratégias de permanência, sem que estas possuíssem, entre­
tanto, os sentidos que os antigos senhores esperavam.
Na verdade, apesar da permanência de muitos libertos, até mesmo nas fa­
zendas onde antes haviam servido como escravos, desapareciam mais rapi­
damente, em São Gonçalo, os indicadores que separavam seus descendentes
dos chamados “nacionais nascidos livres”. Ali, as crianças registradas, tanto
nos óbitos como nos nascimentos, tendiam a ser majoritariamente identifica­

321
DAS CORES DO SILÊNCIO

das como “pardas”. Para uma proporção muito semelhante de “brancos”, o peso
relativo de “negros” e “pardos” nos registros altera-se radicalmente, quando
se consideram separadamente adultos (registros de óbitos) e crianças (registros
de óbitos e nascimentos). Parece-me difícil explicar tão abrupta transforma­
ção, pensando num sub-registro diferenciado ou num processo “natural” de
mestiçagem.
Se os óbitos e os nascimentos de crianças negras eram menos registrados,
por que aumentava proporcionalmente apenas o grupo dos “pardos”? A mis­
cigenação, como tradicionalmente é compreendida, a partir de uniões reali­
zadas prefercncialmente entre brancos e mestiços ou entre negros e mestiços,
também implicaria um decréscimo relativo do grupo “branco”. Além disso,

Gráfico 48 - Freguesia de São Gonçalo: óbitos de adultos por cor

brancos: 32,94%
■ negros: 37,04%
■ pardos: 30,01%

(Mais de 15 anos)

Gráfico 49 - Freguesia de São Gonçalo: óbitos de crianças por cor

L : brancos: 34,45%
■ pardos: 45,41%
■ negros: 20,14%

(Menos de 15 anos)

Fonte (Gr. 48 c 49): Registros de óbitos, 1889-1901. Campos-RJ.

322
NEGRO NÃO HÁ MAIS NÃO? (li)

Gráfico 50 - Freguesia de São Gonçalo: registros de nascimentos por cor

brancos: 35,64%
■ pardos: 47,17%
■ negros: 17,19%

Fonte: Registros de nascimentos, 1889-1901. Campos-RJ.

não se pode esquecer a impressionante regularidade da proporção geral entre


brancos e não brancos nos dois registros e nos censos de 1872 e 1890. O “bran-
queamento” social mostrava-se, com certeza, um horizonte distante da maio­
ria de colonos e arrendatários que formavam a população da região. Mais
aceleradamente ali, onde era intensa a convivência entre “libertos” e “nascidos
livres”, fossem “pardos” ou “brancos pobres”, os libertos pareciam perder o
estigma do cativeiro, como, aliás, já indicava a referência a colônias de “liber­
tos e nascidos livres”, feita por Zetirry.
Se as evidências de relações familiares mais complexas e enraizadas no
passado da região diferenciavam São Gonçalo das zonas cafeeiras do municí­
pio, também ali, como foi visto, os recém-libertos (adultos negros, nos registros
de óbitos) encontravam-se não apenas restritos ao trabalho agrícola, mas
também majoritariamente residindo nas maiores fazendas, na última década
do século XIX. A opção pela produção familiar, desvinculada das antigas fa­
zendas, não se fazia, portanto, facilmente acessível aos recém-libertos, fosse
nas áreas cafeeiras ou canavieiras. Por outro lado, da perspectiva dos ex-senho-
res, também as condições de atração do antigo roceiro nascido livre, que im­
plicava transformar as relações costumeiras que lhe davam estabilidade, não
haviam feito, por toda a década de 1890, com que “brancos” e “nascidos livres”,
mesmo em São Gonçalo, se tornassem maioria dentro das fazendas da região,
conforme se evidencia da análise dos óbitos, de modo a reverter sua forte
dependência em relação aos recém-libertos, delineada ainda em 1888. Nesse
contexto, uma crescente indiferenciação entre “libertos” e “nascidos livres”
refletia-se nos registros considerados. Neles, os filhos dos libertos estavam
progressivamente perdendo a marca do cativeiro.

323
DAS CORES DO SILÊNCIO

Desse modo, as repetidas generalizações de que os libertos teriam sido


alijados ou que teriam se recusado a permanecer nas fazendas mais produtivas
não parecem confirmar-se. Na última década do século XIX, pelo menos nas
áreas analisadas, as condições de atração dos colonos nascidos livres para o
trabalho na lavoura canavieira ou cafeeira ainda eram bastante precárias, e o
trabalhador imigrante tornava-se uma esperança cada vez mais distante, trans­
formando o liberto (negro) em principal força de trabalho por toda a década
de 1890. Dessa forma, era a dependência do liberto, transformado em traba­
lhador livre, que causava a “escassez de braços" e não a sua recusa ao trabalho
nas fazendas. Mesmo que as condições de acesso autônomo à situação de
pequeno produtor independente se fizessem cada vez mais difíceis, consegui­
ram força de pressão suficiente para moldar as novas relações de trabalho nas
fazendas às suas expectativas de liberdade e autonomia.

Notas

1 As remessas de açúcar campista à praça do Rio de Janeiro reduziram-se a praticamenre zero, em


meados da década de 1890. Zetirry refere-se a este quadro, estatisticamente comprovado por
Sheila de Castro Faria, “Terra e trabalho em Campos dos Goitacases, 1850-1920”. Dissertação
de mestrado. Niterói, ICHF, UFF, 1986.
2 Jornal do Commercio, “A lavoura no estado do Rio VII”, 3 ago., 1894.
3 Deste total, foram integralmente coletados para a pesquisa os óbitos de 1889,1895 e 1901; um
em cada cinco registros de óbito dos anos de 1890 a 1894, e de 1896 a 1900; e todos os registros
de crianças “negras” e “pardas” para os anos em questão (1889-1901).
4 Jornal do Commercio, “A lavoura no estado do Rio VIII”, 4 ago., 1894.
5 Ibidem.
6 Ibidem.
7 Jornal do Commercio, “A lavoura no estado do Rio X”, 18 ago., 1894.
8 Jornal do Commercio, “A lavoura no estado do Rio VUI”, 4 ago., 1894.
9 Cf., entre outros, Sheila de Castro Faria, “Escravidão e relações familiares no Rio de Janeiro”.
Estudos sobre a Escravidão II, nQ 23, Niterói, Cadernos do ICHF, ago., 1990.
10 Evidências neste mesmo sentido, também trabalhando com registros civis, foram encontradas
por Ana Maria Lugão Rios, “Família e transição. Famílias negras em Paraíba do Sul, 1872-1920”.
Dissertação de mestrado. Niterói, UFF, 1990.

324
4

Negro não há mais não? (III)

Na narrativa de Zetirry, apesar da maioria de libertos em todas as fazendas por


ele visitadas, repete-se com frequência a imagem de uma verdadeira multidão
de jornaleiros, formada essencialmente por recém-libertos, envolvida num
processo contínuo de migrações sazonais em busca das épocas de colheita,
quando os salários se elevavam. Em suas palavras:

Efetivamente este pessoal flutuante adventício, menos raras exceções de localidades,


menos prósperas ou mais retiradas dos centros de população, abunda no Estado e
constitui-se quase exclusivamente de libertos. [...] De libertos solteiros ? objetará alguém.
Não perguntem isso. Só uns 10% dos libertos são casados: 90% são solteiros e casados
ao mesmo tempo e para eles a família, pois que efetivamente a tem uma, apesar de um
tanto dispersa e de obscuro estado civil, não constitui o menor impedimento às pere­
grinações que ele faz de fazenda em fazenda, de município em município1.

Zetirry, como observador, consegue identificar a família do liberto sem,


entretanto, alcançar seu significado e, mesmo, suas diferenciações. Tendo em
vista o impacto do tráfico interno nas últimas décadas da escravidão, obvia­
mente os cativos não possuíam o mesmo grau de integração familiar e comu­
nitária no lugar onde foram libertos da condição cativa. Ora, “mobilidade” e
“autonomia” consistiam nos dois mais fortes signos a identificar a experiência
de liberdade vigente ainda sob a escravidão. Para os libertos, como para o
conjunto dos nascidos livres despossuídos, antes de 1888, a opção pela mobi­
lidade frequentemente foi uma ponte para uma situação de autonomia, basea­
da no trabalho familiar, quase sempre mediada por relações pessoais e fami­
liares preexistentes ou em elaboração.
Como jornaleiros ou parceiros, os libertos estavam fundamentalmente nas
fazendas. Mas, para que nelas se fixassem, era preciso que se lhes abrissem
DAS CORES DO SILÊNCIO

condições em que o ideal de autonomia pudesse ser realizado. Formava-se,


assim, basicamente, uma situação de mercado, na qual, entretanto, as relações
pessoais não deixavam de interferir. Zetirry chega perto de entender esse
mecanismo, quando se lhe depara a preferência pela autonomia oferecida pela
parceria na lavoura de cana, combinada a estreitas relações comunitárias, em
detrimento da maior rentabilidade da lavoura do café, ou quando considera
que os colonos parceiros eram os principais empregadores dos jornaleiros li­
bertos nas épocas de colheita. Um jornaleiro liberto, empregado por um co­
lono parceiro, não apenas se assalariava na época da colheita, como abria
possibilidades de relações pessoais que pudessem forjar condições onde se
fizesse cultural e economicamente interessante a fixação na região.
Mesmo o acesso à parceria, nas novas lavouras de café, dependia muitas
vezes de relações entre iguais que não eram mediadas apenas pelo mercado.
Como no caso das roças de subsistência, a decisão de “vender” uma “situação”
a alguém fazia-se no mais das vezes com base em relações não só econômicas
como familiares (transações entre cunhados, sogro e genro etc.), mediadas
ainda pelo necessário aceite do proprietário. Fixar-se como parceiro era, por­
tanto, uma opção fortemente mediada por relações pessoais, nas quais espe­
cialmente as condições de rentabilidade e autonomia (não necessariamente
nessa ordem), em relação à situação de mobilidade, eram pesadas.
As profissões declaradas nos registros de óbito de adultos, tanto em Ca­
choeiras do Muriaé quanto em São Gonçalo, tenderam a confirmar a predo­
minância de libertos (“negros”) entre os jornaleiros, seja nas áreas cafeeiras ou
açucareiras, na década de 1890. Alguns casos nos registros de nascimento,
tomados qualitativamente, ilustraram o sentido de transitoriedade que ainda
se emprestava a esta opção.
Em São Gonçalo, Constância Maria Sebastiana era filha de Sebastiana
Maria Xavier e João Cabinda, lavradores na Fazenda Velha. Eles têm um pri­
meiro filho natural, registrado como “negro” em 1891, quando também a mãe
é descrita como “negra”. O declarante, nesse primeiro registro, é Lourenço Luís
dos Santos, jornaleiro, que não se reconhece como pai. Em 1894, Constância
registra um segundo filho. A “cor” de Constância não é mais mencionada e a
criança é considerada “parda”. Um outro “jornaleiro”, que também não se re­
conhece como pai, é agora o declarante, de nome Epifânio Braga. Em 1897,
1898 e 1900, mais três filhos de Constância seriam registrados, todos tendo
como declarante e se reconhecendo como pai o “lavrador” Epifânio Braga.
Curiosamente, apenas o filho registrado em 1897 manteria a cor “parda” do
provável primeiro filho do casal Constância e Epifânio, nascido em 1894. Em

326
NEGRO NÃO HÁ MAIS NÃO? (lll)

1898 e 1900, quando o casal já não mais reside na Fazenda Velha, as crianças
foram registradas como “negras”.
Vemos, assim, nesse caso, que não se mostra único, o “jornaleiro” Lourenço
Luís dos Santos, provavelmente pai do primeiro filho de Constância (que,
porém, não se reconhece como tal), desaparecer de todos os demais registros,
seja como “pai” ou “declarante”. Vemos também, entretanto, o “jornaleiro”
Epifânio Braga tornar-se “lavrador”, ao mesmo tempo em que passa a reco­
nhecer os filhos que nasciam de sua união com Constância, filha de lavradores.
A mobilidade de Lourenço e a fixação de Epifânio, bem como sua transfor-
mação em “lavrador”, mostraram-se, assim, diretamente relacionadas com a
estabilidade de suas relações com Constância.
Ainda em São Gonçalo, em 1891, na Fazenda São José, o lavrador, casado,
Vicente Ferreira Gomes, agrediu o jornaleiro Domingos da Mota, “de cor
parda”, segundo o corpo de delito do inquérito policial que então se procedeu,
amásio de sua filha, que com ela discutia. O agredido, entretanto, retirou a
queixa, “não querendo que fosse considerado criminoso seu futuro sogro”2.
O caráter exemplar da história de Epifânio e Constância não se limita a
esse aspecto. Os registros revelam que os filhos do casal (ela, filha de africanos,
ele, com o sobrenome “Braga”, adotado pelas três filhas de Henrique Braga,
africano, e Maria da Penha, na mesma Fazenda Velha), registrados como “par­
dos” em 1894 e 1897, tornaram-se “negros” em 1898, quando a família deixou
a fazenda. Nas áreas cafeeiras e açucareiras, como procurarei acompanhar no
próximo capítulo, se, dentro das fazendas, os libertos perdiam a marca da es­
cravidão, fora delas, em situação de mobilidade, o estigma racial continuava a
ser acionado como marca de suspeição, numa reafirmação da prática vigente
nas últimas décadas do cativeiro.
Fora da mobilidade sazonal dos jornaleiros, fortemente estigmatizada como
“negra” (liberta), a busca dos sertões com vistas à pequena produção indepen­
dente não se mostrou imediatamente factível aos recém-libertos. A predomi­
nância de libertos nas “fazendas”, em São Gonçalo e Cachoeiras do Muriaé,
sugere uma conjuntura de crescente pressão sobre as práticas costumeiras que
antes lhes emprestavam estabilidade. Concomitantemente, porém, as condições
de atração de mão de obra dos antigos proprietários escravistas das áreas menos
rentáveis de produção de cereais mostraram-se drasticamente comprometidas
após a extinção do cativeiro.
Em São João da Barra, área de produção de cereais, última área a ser visi­
tada por Arrigo de Zetirry, em 1894, a grande lavoura havia simplesmente se
desarticulado, segundo sua narrativa, substituída amplamente por uma gene­

327
DAS CORES DO SILÊNCIO

ralização da produção familiar. Conforme já considerado, a confiar no relato


do articulista, repete-se ali o mesmo fenômeno que se havia detectado em
Capivari (Baixada Fluminense) em pesquisa anterior3.
Também em Santa Rita, freguesia de Campos, com as mesmas características4,
o fenômeno parece repetir-se. Numa freguesia onde cerca de um quarto da
população era escrava, em 1872, praticamente ninguém residia em “fazendas”,
de acordo com os registros civis, na última década do século XIX. Os piores
temores dos lavradores escravistas da área parecem ter-se realizado.
Se a desarticulação da antiga fazenda escravista de cereais parece ter sido
um fenômeno geral no período, as condições de atração da população liberta,
nas áreas produtoras, mostraram-se, entretanto, bastante diferenciadas. Em
zonas de ocupação recente, beneficiadas pela expansão das linhas férreas no
último quartel do século XIX, como Capivari e Rio Bonito, o crescimento da
população não branca, de acordo com os recenseamentos disponíveis, apre­
senta fortes indicadores de um imediato movimento de libertos para a região.
O acesso à terra na condição de situante mostrava-se rapidamente compro­
metido, mas a inserção ali, como jornaleiros ou meeiros, mais facilmente po­
tencializava a aquisição de pequenas propriedades5. Em áreas de povoamento
mais antigo, porém, que se mantiveram isoladas das novas condições de
transporte, a atração não se confirma.
A freguesia de Santa Rita da Lagoa de Cima, ao sul do município de Cam­
pos, como Guarulhos, ao norte, possuía grandes extensões de terras fisicamen­
te livres na segunda metade do século XIX. Segundo Sheila Faria, foi a fregue­
sia que mais cresceu em termos populacionais no município, atraindo
principalmente população livre, até 1872. Já nessa data, havia sido desmem­
brada em três novas freguesias de perfil socioeconômico semelhante, uma
delas com o mesmo nome. Então, uma dinâmica área de produção de café e
cereais, com base na pequena produção escravista, ali se delineava, principal
responsável pelo abastecimento da cidade de Campos. Longe das áreas açuca-
reiras e da nova rota de expansão do café para exportação, Santa Rita não foi
tocada pelo traçado da estrada de ferro que, após aquela data, passou a cortar
o norte fluminense. Conheceu, então, mesmo levando-se em conta as evidên­
cias de um sub-registro generalizado para o censo de 1890, um refreamento
de seu crescimento demográfico.
Para uma população, provavelmente subestimada, de 3.759 habitantes no
Censo de 189o6, foram registrados 1.415 óbitos e 2.050 nascimentos nos car­
tórios da freguesia, na última década do século XIX. Esses números, tomados
em termos absolutos, não parecem indicar taxas elevadas de sub-registro nos

328
NEGRO NÃO HÁ MAIS NÃO? (lll)

nascimentos e óbitos na região. Desse conjunto, foram levantados integral­


mente para a pesquisa um em cada cinco óbitos, num total de 283, e todos os
registros de nascimento de crianças negras e pardas.
Nos registros de óbitos pesquisados para a freguesia de Santa Rita, os “ne­
gros” não somaram sequer 10% da população, na última década do século
(1889-1901). Foi a única freguesia analisada onde a representação proporcional
entre brancos e não brancos não acompanhou as tendências indicadas nos
recenseamentos nacionais de 1872 e 1890. Apesar disso, os dados do recensea-
mento e dos registros civis revelam uma expressiva identidade em termos
proporcionais, conforme pode ser acompanhado no gráfico a seguir.

Gráfico 51 - Freguesia de Santa Rita: população por “cor” (%)

Fontes: Recenseamento Geral do Brasil, 1872,1890.


Registros civis, 1889-1901. Campos-RJ.

Em Santa Rita, parece ter havido um abandono em massa da freguesia por


parte dos libertos, após 1890, fazendo com que os 55% de negros e mestiços,
recenseados em 1872 e 1890, respondessem apenas por cerca de 35% dos regis­
tros levantados.
Pode-se considerar, com alguma segurança, que os recém-libertos respon­
dessem pela maior parte do decréscimo da população não branca em Santa
Rita (daí a quase inexistência de “negros”). A proporção de “pardos” registrada
nos óbitos mostrou-se extremamente semelhante à de “negros” (forros?) e
“pardos”’ livres recenseada em 1872 (29,33% e 31,99%, respectivamente), sina­
lizando na mesma direção. Também o crescimento proporcional da partici­
pação dos “brancos” nos registros de óbitos é significativamente próximo do
decréscimo proporcional dos “escravos” recenseados em 1872, em relação aos
“negros” com óbitos registrados na década de 1890 — 12,11% e 13,35%, respec­
tivamente (IBGE).

329
DAS CORES DO SILÊNCIO

Gráfico 52 - Freguesia de Santa Rita: população por condição e “cor” (%)

□ brancos
■ n. br. liv./pardos
■ escravos/negros

óbitos censo 1872

Fontes: Recenseamento Geral do Brasil, 1872.


Registros de óbitos, 1889-1901. Campos-RJ.

O desaparecimento dos recém-libertos de Santa Rita dá bem a medida das


dificuldades enfrentadas pelos antigos produtores escravistas de cereais. Evi­
dencia também que o acesso à terra, na condição de situante, mostrou-se
imediatamente comprometido já na última década do século XIX. Como se
planejara desde a lei de Terras, para os libertos as alternativas eram empregar-
-se nas antigas propriedades escravistas ou reunir condições para a aquisição
de pequenas propriedades.
Em Santa Rita, a denominação “fazenda” havia praticamente deixado de
existir na última década do século. Mesmo que o padrão de propriedade da
terra, na freguesia, tivesse sempre privilegiado a pequena produção, as maiores
propriedades da região eram assim designadas. A incipiente elite local havia-,
sem dúvida, se desarticulado com a perda dos antigos escravos.
Na última década do Oitocentos, as atividades agrícolas e, minoritariamen-
te, o serviço doméstico respondiam pela quase totalidade das ocupações
profissionais declaradas nos registros civis, inclusive no que se refere aos regis­
tros de óbitos de adultos brancos. Mais de dois terços (77,65%) dos registros
de óbito de adultos, na freguesia, mencionaram a profissão do registrado, e o
mesmo se fez para 91,78% dos pais nos registros de nascimento. Nos registros
de óbito de adultos, onde se pode ter mais segurança da identidade entre negros
e libertos, novamente a predominância de jornaleiros libertos parece confir­
mar-se. Ao mesmo tempo, a estrutura social menos estratificada também é
reiterada, no perfil socioprofissional semelhante de brancos e pardos.
Já nos registros de nascimento, os perfis socioprofissionais dos pais de
crianças “pardas” e “negras” apresentam-se bastante aproximados, ao mesmo

330
NEGRO NÃO HÁ MAIS NÃO? (lll)

tempo em que a proporção de crianças “negras” registradas se mostra compa­


tível com aquela identificada nos óbitos para o grupo “negro”. Se essas crianças
são, preferencialmente, filhas ou netas de recém-libertos que permaneceram
na freguesia, isso parece indicar que os que o fizeram, basearam-se largamente
em recursos familiares pretéritos. Ao permanecerem na região, lograram uma
crescente indiferenciação social, não só com os antigos “lavradores pardos”,
como também com os produtores familiares brancos presentes nos registros
de óbito.

Gráfico 53 - Freguesia de Santa Rita: registros de óbitos - profissões

Gráfico 54 - Freguesia de Santa Rita: profissão dos pais nos registros de nascimentos

Fonte (Gr. 53 e 54): Registros civis, 1889-1901. Campos-RJ.

Após a abolição do cativeiro, a produção familiar tornou-se a base econô­


mica da freguesia, e a minoria não branca presente nos registros se caracterizou
exatamente pela força e antiguidade dos laços familiares que deles se podem
inferir. Como em São Gonçalo e Muriaé, para a quase totalidade das crianças
“negras” e “pardas”, arroladas nos registros de nascimento, citava-se pelo menos

331
DAS CORES DO SILENCIO

a avó materna (9632% e 98,96%, respectivamente). Numa comunidade onde


predominava, entretanto, a produção familiar, os índices de legitimidade
(35ó8% e 40,79%) e de uniões consensuais (57,06% e 58,18%) mostraram-se
bem mais elevados. Tomando-se apenas os filhos de lavradores pardos e negros
(cerca de 60% dos registros com profissão dos pais mencionada), os índices
elevam-se para 54,26% e 61,90% de legitimidade para as crianças “negras” e
“pardas”, respectivamente, e mais de 85% (88,3% e 85,37%) de famílias consen­
suais identificadas, pela primeira vez, com números mais favoráveis às crianças
“negras”. Desenha-se, assim, um perfil familiar, a exemplo do socioprofissional,
bastante semelhante para crianças “negras” e “pardas”. Apenas as referências
familiares em relação ao avô, materno ou paterno, mostraram-se signi­
ficativamente distintas para os dois grupos, com maiores referências para os
“pardos”, o que parece reforçar a ascendência cativa da maioria das crianças
registradas como “negras” (ver gráficos a seguir).

Gráfico 55 - Freguesia de Santa Rita: crianças “negras” nos registros de nascimentos

Fonte: Registros de nascimentos, 1889-1901. Campos-RJ.

Gráfico 56 - Freguesia de Santa Rita: crianças “pardas” nos registros de nascimentos

332
NEGRO NÃO HÁ MAIS NÃO? (ill)

Gráfico 57 - Freguesia de Santa Rita:


filhos de lavradores nos registros de nascimentos (1)

■ negros

legítimos reconhe- avó avô avó avô total


cidos materna materno paterna paterno

Gráfico 58 - Freguesia de Santa Rita:


filhos de lavradores nos registros de nascimentos (2)

■ pardos

legítimos reconhe- avó avô avó avó total


cidos materna materno paterna paterno

Fonte (Gr. 56-58): Registros de nascimentos, 1889-1901. Campos-RJ.

Cerca dc 40% das crianças nascidas e registradas entre 1889 e 1894, em


Santa Rita, não tiveram a cor mencionada em seus registros de nascimento.
Tentando fugir do silêncio sobre a cor, através dos registros civis, eis que ele
insidiosamente reaparece.
A representação proporcional entre brancos, pardos e negros, nos registros,
entre 1889 e 1894, desconsiderando os casos que não mencionam a cor, bem
como entre 1895 e 1901, quando a ausência da informação já não acontece,
mantém-se, entretanto, rigorosamente a mesma7. O silêncio sobre a cor,
em Santa Rita, não se mostra, portanto, específico dos que, ao menos social­
mente, podiam ser considerados brancos. Também não se refere aos que, libe­
rados do cativeiro, não mais queriam ser identificados como “negros”. A ne­
gligência desse escrivão específico incidiu indiferentemente sobre as crianças
brancas, pardas, ou mesmo filhas de recém-libertos (negras).
Apesar disso, a comparação do peso relativo do registro da cor, nos nasci­
mentos e nos óbitos da freguesia, apresentou características distintas das demais
áreas analisadas. Em primeiro lugar, destacam-se as proporções extremamen­

333
DAS CORES DO SILENCIO

te próximas de óbitos de adultos ou crianças “negras”, bem como do nascimen­


to de crianças assim consideradas, quando não se computa o silêncio sobre a
cor. Teria a marca do liberto, por sua posição minoritária, sido mais forte em
Santa Rita? Por outro lado, mesmo que em índices pouco expressivos, dada a
heterogeneidade dos dois conjuntos analisados, os gráficos de Santa Rita po­
deríam ainda sugerir um processo de branqueamento, com a proporção de
brancos aumentando nos nascimentos em relação aos óbitos, enquanto se
reduzia a dos “pardos” e se mantinha razoavelmente constante a dos “negros”
(ver gráficos a seguir).

Gráfico 59 - Freguesia de Santa Rita:


população por “cor” nos registros de óbitos

Fonte: Registros de nascimentos, 1889-1901. Campos-RJ.

Gráfico 60 - Freguesia de Santa Rita:


população por “cor” nos registros de nascimentos

Fonte: Registros de nascimentos, 1889-1901. Campos-RJ.

Mesmo que estas sejam hipóteses possíveis, não parecem as mais prováveis.
As semelhanças de perfis socioprofissionais entre brancos, negros e pardos, a
partir dos registros de nascimento, a rede familiar identificada para as crianças
negras e os índices de “ausência de cor” computados dificilmente se coadunam

334
NEGRO NÃO HÁ MAIS NÃO? (ill)

com a representação de uma sociedade racial ou socialmente estratificada, a


ponto de tornar mais difícil a incorporação dos libertos. O peso relativo ele­
vado de brancos e “nascidos livres”, em condições sociais semelhantes, poderia,
é claro, favorecer um processo de branqueamento social. A omissão da “cor”,
numa proporção expressiva dos casos, até 1894, parece-me, entretanto, mais
significativa.
A tentativa de reconstituição de famílias, a partir do nome dos avós, refor­
ça a possibilidade. Crianças “negras” e “pardas” tiveram frequentemente os
mesmos avós, como os muitos netos, tidos pelos três filhos do casal Serafina
Francisca Ribeiro e Francisco Ribeiro Gonçalves. Em Santa Rita, foi extrema­
mente difícil identificar os recém-libertos, pela ausência de sobrenome, mesmo
em 1889, o que parece reforçar a hipótese de que apenas aqueles com maiores
raízes na comunidade, provavelmente com laços familiares anteriores com os
livres da freguesia, permaneceram na região. A rede de tios e primos que pôde
ser identificada, em grande parte comum a ambos os grupos, mostrou-se bas­
tante expressiva, e talvez se ampliasse se, nesse caso, tivéssemos também co­
piado integralmente os registros das crianças consideradas “brancas” ou da­
quelas cuja “cor” não se mencionava. Ao contrário do que foi detectado nas
áreas açucareiras e cafeeiras, é o conteúdo social genérico das categorias que
parece perder a eficácia em Santa Rita.
Lucinda Maria de Azevedo era filha de Edvirges Maria de Azevedo e Cons-
tantino Barbosa dos Santos. Seus pais eram jornaleiros, uma ocupação quase
exclusiva dos recém-libertos, como se depreende dos registros de óbito. Seus
três filhos, todos legítimos, são registrados, o primeiro como “pardo”, em 1889,
o segundo, “sem cor”, em 1898, e o terceiro, como “negro”, em 1900. Não seria
o qualificativo “pardo”, no primeiro registro, a afirmação da liberdade da
criança, filha legítima de um “lavrador nascido livre”, tão desnecessária que
esquecida em 1898, tornando-se mesmo hipócrita em 1900? Esse não é um
caso único. Em mais seis casos em que se puderam identificar mudanças de
“cor” dos filhos de um mesmo casal, na freguesia de Santa Rita, essa mudança
se fez do primogênito “pardo”, nascido ainda nos primeiros anos após o fim
do cativeiro, para seus irmãos “negros”, nascidos no final da década. Num
desses casos, estão envolvidas duas das maiores famílias identificadas para a
freguesia. Antônio Gomes Barroso e Maria Inácia do Espírito Santo tornaram-
-se consogros de Manuel Joaquim Correia e Maria Inácia do Espírito Santo,
pelo casamento de seus filhos Belquior Pereira de Carvalho e Maria Benedita
da Conceição, filha dos segundos. A extrema variedade de sobrenomes não
deve pôr em dúvida o parentesco enunciado, em face da precisa menção aos

335
DAS CORES DO SILÊNCIO

pais de ambos, nos registros de nascimento de seus três filhos. Todos os netos
dos dois casais, não apenas os filhos de Belquior e Benedita, mas também os
do irmão dele e os de dois irmãos dela, foram considerados “pardos” até 1898.
Em 1899, entretanto, Belquior e Benedita tiveram um filho “negro”.
A percentagem elevada de esquecimento da menção da cor, na primeira
metade da década de 1890, sinaliza vigorosamente para uma resistência social
à utilização dessa categoria na identificação dos indivíduos na freguesia, se­
guida de um lento esvaziamento do seu significado social anterior, ante a in­
tegração social e familiar dos descendentes de recém-libertos que permanece­
ram na região. Se verdadeira essa hipótese, a ausência da menção da cor
representaria, ainda, aquela zona de indiferenciação entre brancos pobres e
pardos livres que se construíra na segunda metade do século XIX, a que tam­
bém agora se somavam os recém-libertos que haviam logrado integrar-se na
comunidade de pequenos produtores livres de Santa Rita.
Enquanto nos inquéritos policiais das áreas deplantation a menção da cor
se tornava progressivamente ausente das fazendas, sendo, porém, reatualizada
fora delas, como indicadora de suspeição, os inquéritos policiais que foram
localizados ao longo da pesquisa para a freguesia de Santa Rita e áreas vizinhas
(especialmente São Benedito e Dores do Macabu), em nenhum caso fizeram
menção da cor dos envolvidos ou de uma pretérita condição cativa, mesmo
quando neles se viram envolvidos migrantes e jornaleiros. A extensa discussão
sobre a miserabilidade de dona Rosa Maria da Conceição, num processo
movido por ela contra Valentim das Chagas Pinto por defloramento de uma
sua filha, é ilustrativa nesse sentido. Ilumina também a predominância do
trabalho familiar e, mais uma vez, as possibilidades de relações pessoais entre
jornaleiros e seus empregadores, quando meeiros ou pequenos proprietários:

A requerimento do justificante, respondeu que conhece d. Rosa de quem a teste­


munha é vizinho e sabe que é viúva há três anos, mais ou menos, e que entre os filhos
de seu casal tem um que lhe parece ter 18 anos. Que o sítio tem 200 braças de testada
e 500 de fundos. Que não sabe se d. Rosa fez inventário dos bens por morte do marido.
Que julga valer somente o sítio 800 mil-réis. Que d. Rosa trabalha no sítio de comum
acordo com seus filhos solteiros. [...] Que não só d. Rosa como seus filhos e filhas tra­
balham na enxada no mesmo sítio. Que além da casa onde mora d. Rosa, há mais três
casas no mesmo sítio, sendo uma de José Correia casado com uma filha de d. Rosa,
outra de uma filha e outro de um filho também casado. Que acredita que d. Rosa pos­
sa fazer despesas com advogado e escrivão porque tem muita lavoura de mandioca e
algum feijão e milho. Que Joaquim Custódio esteve para se casar com a menor Maria
Francisca e que Joaquim Custódio lhe dissera que não casaria mais com Maria Fernan­

336
NEGRO NÃO HÁ MAIS NÃO? (lll)

da por não estar ela capaz. Que o dito Joaquim Custódio pediu Maria Fernanda em
casamento antes do exame e quando morava em companhia da família da referida
menor8.

A dependência do trabalho dos filhos adultos e solteiros, as dificuldades


de acesso à terra (situação que mantinha ainda nas terras paternas os filhos
casados), os laços pessoais (que o trabalho de jornaleiro entre pequenos sitian­
tes ou meeiros potencializava) estão todos presentes no depoimento. Maria
Fernanda não chegou a se casar com Joaquim Custódio, jornaleiro em terras
da sua mãe, porque se perdeu de amores por Valentim das Chagas. Este, en­
tretanto, antes que se concluísse o processo, casou-se com outra moça da fre­
guesia. Seus filhos foram registrados como “pardos” nos registros de nasci­
mento levantados.
As dificuldades de acesso à terra para as segundas gerações, na nova con­
juntura, podem também ser inferidas desse quadro. Ângelo José Pereira Pes-
sanha, que sabemos filho de Eufrásia Maria do Espírito Santo e José Pereira
Pessanha, lavradores, com mais dois irmãos, como ele legalmente casados, foi
lavrador em Santa Rita até 1899. Em 1903 havia deixado, com a família, a fre­
guesia. Encontrava-se vivendo de agências e se viu na contingência de ser
preso por roubo de mandioca, junto com um de seus filhos, segundo ele “por
necessidade de alimentar os seus porcos”9.
Para os últimos cativos, era fundamental afirmarem-se como “livres” e não
mais como “libertos” e não foi com facilidade que conquistaram essa indife-
renciação. Ainda em 1894, apesar da destruição oficial das listas de matrícula
dos ex-escravos e da maioria de “pardos” livres preexistente, a categoria “liber­
to” mostrou-se a chave com a qual Arrigo de Zetirry procurou analisar os
problemas de atração de mão de obra no estado do Rio. Numa perspectiva
inversa, a categoria “negro” continuou eficiente para localizar os recém-liber-
tos nos registros de óbito e, num primeiro momento, grande parte de seus
filhos e netos, nos registros de nascimento, apesar de a negritude, de fato,
havia muito não se caracterizar como traço exclusivo da escravidão.
Da análise dos registros das freguesias consideradas, bem como das crôni­
cas de Zetirry, depreende-se que os últimos libertos simplesmente procuraram
afirmar, num mundo que não era mais escravista, a experiência de liberdade
que se abria aos livres despossuídos, nas últimas décadas de cativeiro. Mobili­
dade e autonomia eram os signos mais fortes a identificar essa experiência, que
se fazia, entretanto, estreitamente associada a relações costumeiras, de forte
cunho pessoal e, muitas vezes, hierárquico. Se essas relações não se mostraram

337
DAS CORES DO SILÊNCIO

imediatamente acessíveis aos libertos, também não se desfizeram imediata­


mente, forjando um mercado de trabalho que, se na sua ponta mais lucrativa
marginalizava o ex-escravo, em função da concorrência do imigrante, deixava
também os produtores menos capitalizados literalmente sem trabalhadores.
Os últimos cativos souberam aproveitar-se desse quadro, pelo menos nas áreas
consideradas, influindo diretamente nas formas adotadas pelas novas relações
de trabalho nas fazendas em que se fixaram. Ao lograrem plenamente a indi-
ferenciação com os “nacionais nascidos livres”, entretanto, o que no discurso
de Arrigo de Zetirry, bem como nos registros analisados, já começava a se
esboçar, a experiência de liberdade que os norteava deixava também de existir.
As estratégias eficazes para controlar a desvantajosa situação de mercado
com que os ex-senhores das áreas consideradas conviveram, por toda a década
de 1890, foram as que tiveram como alvo não os libertos e seus esforços de
integração no mundo da liberdade, mas as antigas práticas costumeiras que
davam estabilidade à reprodução social dos roceiros livres. Essa, entretanto, é
uma outra história.

Notas

1 Jornal do Commercio, “A lavoura no estado do Rio XI”, 18 ago., 1874.


Cartório do Terceiro Ofício de Campos. Processos criminais (1888-1903), cf. maço 28, Inqué­
rito policial por ferimentos em Domingos da Mota, 1891.
3 Hebe Mattos, Ao Sul da história — Lavradores pobres na crise do trabalho escravo, 2009 (1987).
4 Sheila de Castro Faria, “Terra e trabalho em Campos dos Goitacases, 1850-1920”. Dissertação
de mestrado. Niterói, UFF, 1986.
5 Entre 1872 e 1890, de acordo com os dados dos recenseamentos nacionais então realizados, a
população negra e mestiça de Capivari e Rio Bonito cresceu 50,9% e 26,8%, respectivamente,
num movimento absolutamente atípico, em relação aos demais municípios do estado. O cres­
cimento demográfico da região manteve-se expressivo até a década de 1820, predominando, no
mercado local de terras, a aquisição de pequenas propriedades. Cf. Hebe Mattos, Ao Sul da
história... Mais tardiamente, também no Espírito Santo, fontes qualitativas parecem indicar,
em algumas áreas, movimentos semelhantes. Nesse sentido, ver próximo capítulo.
6 Foram recenseados 5.377 habitantes em 1872 (IBGE, 1872).
7 Até 1894: 65,49% brancos, 25,60% pardos e 8,91% negros. Após 1895: 65,73% brancos, 25,75%
pardos e 8,53% negros. Cf. registro civil de nascimento — Santa Rita da Lagoa de Cima —1889-
-1901.
8 Cartório do Terceiro Ofício de Campos. Processos criminais. Maço 328, A Justiça contra Va-
lentim das Chagas Pinto, 1893.
9 Cartório do Terceiro Ofício de Campos. Processos criminais. Maço 318, Auto flagrante delito
contra Ângelo José Pereira Pessanha, 1903.

338
5

A outra história

É, ele foi cativo sim, com vinte anos, falecido meu pai.
Como é que ele conseguiu ficar livre?
Oh! O cativo acabou.
E depois ele arrumou emprego ?
Não. Nessa fazenda mesmo.
Qual fazenda?
Fazenda da Presa. [...]
É, depois que acabou o cativeiro ele ficou tocando lavoura é, lavourona rapaz.
Por que o pessoal deu terra para ele ficar lá?
Deu lavoura a ele, lavoura de café e tudo.
E como era? Tinha mais negros lá junto com ele?
Tinha muitos rapaz. A fazenda era uma montanha. Ele repartiu a fazenda. Ela era
muitos mil alqueires de terreno. Então eles repartiram para aquele pessoal todo. La­
voura de café. Tocar café a meia. Compreende rapaz?
Compreendo. Compreendo.
A cada um eles deram lavoura, lavoura para eles tocarem.
Como vocês viviam lá na fazenda da Presa? Com este outro pessoal tocando lavoura?
Meu pai que botava a gente, botava empregados, moça até moça trabalhava naque­
le tempo. Todo mundo pegava na enxada.
E era o dia todo?
É, era a mesma coisa para moço, moça mulher, todo mundo ia pro trabalho pegar
na enxada. Na hora do almoço descia todo mundo para lanchar, descansar e depois
voltava para o trabalho outra vez.
Mas quem dizia isto, comandava tudo, era o seu pai ou o dono da fazenda?
Era o meu pai que dizia tudo isto, a lavoura era dele. Você sabe quanto ele pagava a
esses empregados? Quinhentos réis por dia.
Ah! Ele pagava os empregados?
É. Ele que pagava os empregados.
Tinha brancos trabalhando para ele também ou era só pretos?
DAS CORES DO SILÊNCIO

Tinha mulher, tinha moça, tinha tudo.


Mas tinha brancos também ou era só pretos?
Tinha qualquer pessoa, tinha branco, mulato e tudo.
Trabalhando para ele?
É. E tinha cada branca bonita! Eu era criança, coitadinho. Fazenda da Presa!
Mas os brancos eram de lá mesmo?
E. Eram do lugar e tinha branco, tinha preto e tinha tudo.
E os imigrantes. Espanhóis, italianos?
Imigrantes?
E, os que vieram de fora.
Tinha. Fazenda da Presa não era coisinha não. Era uma montanha. Muitos milhão
de alqueires de terra.
Era a maior fazenda de lá?
E era uma fazenda que sumia. Tinha cachaça, tinha usina de cachaça, usina de
açúcar, pilação de café, tinha tudo meu filho nessa fazenda. Fazenda da Presa! (...)
E vocês se davam bem com o pessoal que veio de fora, com os imigrantes?
Esses brancos, esse pessoal, era da mesma fazenda. Mesmo tempo dos velhos que
eram do tempo do cativeiro lá. Então a fazenda repartiu lavoura de café para eles. Tinha
branco, tinha preto, tinha tudo. [...]
E por que vocês saíram de lá (da fazenda da Presa) ?
Nós saímos de lá porque meu pai comprou um terreno para cá.
Comprou um terreno onde?
He, eu esqueci onde ele comprou o terreno.
Como vocês foram parar em Vala de Sousa?
Ah! Ele vendeu lá e comprou em Vala de Sousa.
Então, antes de Vala de Sousa, ele comprou outro terreno?
Comprou. [...]
E, então, a gente vivia comprando terreno e vendendo e viemos para Vala de Sousa.
Em Vala de Sousa, vocês faziam o que lá?
Ué, tocar lavoura. Plantava milho pra daná, colhia café, plantava arroz, criava vaca
de leite.
E vocês faziam o que com o café ?
Ué, vendia.
Vendia pro turco ?
É, pra ele só não. Vendia pro Zeca Fortunato.
Quem era Zeca Fortunato?
Era um delegado que tinha em Sabino Pessoa.
Ele comprava as coisas que vocês faziam?
É. Ele comprava tudo. Ele tinha máquina de pilar café. Tinha tudo.
E quem era Constantino Azul, o Turco?
Ah! O Turco? — É.

340
A OUTRA HISTÓRIA

O Turco era em Mimoso do Sul, Constantino Azul. Ele fornecia [a] meu pai os
mantimentos.
Ele fornecia?
É. Ele conhecia meu pai há uma pá de anos e tudo que meu pai precisava ia lá no
Turco, para com a colheita do café pagar1.

Esses são trechos do depoimento de Paulo Vicente Machado, nascido em


1910, filho caçula de Vicente Machado, ex-cativo, que transformou seu nome
em sobrenome de toda a família. A esposa de Paulo, trabalhador aposentado
da Estrada de Ferro Leopoldina e morador em São Gonçalo, no estado do Rio,
chama-se Ana Cândida Vicente Machado. As entrevistas com Paulo Vicente
e sua esposa ainda estão sendo complementadas, no âmbito de um projeto em
história oral, sobre as famílias de libertos, que se tornaram sitiantes em Vala
de Sousa, no município de Alegre, no Espírito Santo. A história de Vicente
Machado, conforme nos é contada nos depoimentos de seu filho, mostra-se,
entretanto, especialmente ilustrativa para concluir esta parte do trabalho.
Vicente Machado aparece nesse depoimento como o “velho Vicente”, que
contava histórias sobre “o tempo do cativeiro” e como o pai todo-poderoso,
que comandava a família e eventuais auxiliares nos serviços de roça. Decidia
também as mudanças de domicílio e os casamentos dos filhos. Paulo Vicente
se casou aos 15 anos, por ordem do pai, com dona Ana Cândida, filha de um
sitiante vizinho, em Vala de Sousa. Segundo seu depoimento, ele dera para sair
com um “valentão”, de nome Pedro Merenciano. Com ele, Paulo corria as
festas dos lugarejos e mesmo de municípios vizinhos, tocando sanfona. Seu
pai não gostou da companhia ou da inclinação e o obrigou a casar-se aos 15
anos, para espanto do juiz de paz, que só realizou o casamento com autoriza­
ção expressa do velho Vicente.
Segundo seu filho, Vicente teria nascido cativo em Minas Gerais, onde
citava especialmente a mãe e onde Paulo ainda conheceu um tio “valentão”.
Foi vendido como escravo que Vicente chegara à Fazenda da Presa, na divisa
entre Minas Gerais, o Norte Fluminense e o Espírito Santo, onde então se
expandia a lavoura do café. A ser correto o depoimento, depreende-se que
Vicente não perdera o contato com a família em Minas, apesar da venda,
ainda criança e nas últimas décadas do cativeiro, para o Espírito Santo. Segun­
do Paulo Vicente, também dona Moculina Umbelina de Jesus, esposa de Vi­
cente, que “não alcançou o cativeiro”, era natural de Minas Gerais.
De qualquer modo, a experiência do tráfico interno só apareceu no depoi­
mento de Paulo Vicente quando lhe foi diretamente perguntado, numa se­

341
DAS CORES DO SILÊNCIO

gunda entrevista, por que seu pai saíra de Minas para o Espírito Santo . Em
resposta, Paulo Vicente nos explicou que, “nos tempos do cativeiro”, as pessoas
podiam ser compradas e vendidas. O que seu pai parecia valorizar ao falar de
Minas não e