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BOLETIM KULTRUN | ISSN 2763-5066

UNIVERSIDADE FEDERAL DA INTEGRAÇÃO LATINO-AMERICANA

BOLETIM KULTRUN
VOL. 3, N°1, ABRIL DE 2021

Revolução das plantas

© BOLETIM KULTRUN 2021


BOLETIM KULTRUN | ISSN 2763-5066
UNIVERSIDADE FEDERAL DA INTEGRAÇÃO LATINO-AMERICANA

VOL. 3, N°1, ABRIL DE 2021

Angelene Lazzareti – Organização e edição


Miguel Ahumada Cristi – Desenho e edição
Eduardo Fava Rubio – Edição
Alessandra Mawu Oliveira – Website e edição
Gabriela Canale Miola – Entrevista e edição
Fabio Salvatti – Edição e podcast
Patrícia Regina Queiroz – Edição
Federico Zurita Hecht – Edição
Flavia Lages – Edição

Revolução das plantas

Revolução das plantas


BOLETIM KULTRUN | ISSN 2763-5066
VOL. 3, N° 1, ABRIL DE 2021

Editorial

O Boletim Kultrun é um espaço de divulgação de expressões culturais


focalizadas nas Artes e nas Letras. Adotando um caráter inclusivo e
democrático, o Boletim está aberto para que qualquer pessoa, de qualquer
lugar, principalmente da América Latina e do Caribe, possa ter acesso e/ou
participar com colaborações. A edição do Boletim é bilíngue, visto que inclui as
duas línguas mais comuns da UNILA —e da América—, o espanhol e o
português, mas são extremamente valorizadas outras línguas, em especial as
indígenas e de origem africano.

Esta primeira edição temática de 2021, Revolução das plantas, está tecida
de trabalhos sensíveis que perpassam o campo das artes visuais, intervenção
urbana, literatura e poesia. Algumas criações abordam o modo como as plantas
constituem os espaços urbanos, resistindo ao concreto como ervas daninhas,
que vingam, crescem e alastram-se. Há trabalhos de singular delicadeza, que
lançam olhar à natureza como integrante do cotidiano em seus mais ínfimos
detalhes. Outras contribuições, envolvendo pesquisa, reflexão crítica e criação
artística, remetem-nos à compreensão de que, como vidas humanas, somos
parte da natureza. Logo, os processos de violenta exploração e dizimação de
florestas em prol do “progresso”, são refletidos em manifestos poéticos que
reivindicam o lugar das raízes ancestrais, dos inços, das sementes crioulas, das
vegetações nativas, das águas e dos animais. Os ciclos da natureza como
habitantes dos corpos também são abordados em algumas colaborações que
chamam à escuta dos movimentos de vida e morte presentes em diversas
experiências, de formas visíveis e invisíveis. A edição reúne, ainda, trabalhos
que relacionam plantas e saúde, ritos e cura, e folhas e saberes indígenas.

Em tempos de pandemia, a equipe do Boletim Kultrun, com os trabalhos


reunidos nessa edição, convida a todos e todas para um momento de respiro,
fruição e reflexão sobre, com e a partir da Revolução das Plantas!

EQUIPE DE DIREÇÃO E EDIÇÃO


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VOL. 3, N° 1, ABRIL DE 2021

SUMARIO

Graffiti Musgo. Joana Amora........................................................................... 6

Tela Mineral. Julliane Ferreira Sachi .............................................................. 15

Brotos. Núria Manresa..................................................................................... 20

Maria e o pé de feijão. Camila Huhn............................................................... 25

Raízes: onde ensaio minhas firmezas. Carinne Lira........................................ 28

Supressão. Fábio Florentino De Almeida .......................................................... 39

La fuerza de la delicadeza y Siembra roja. Sara Beltrán................................. 44

Biomemórias y Ensaio para um exoesqueleto. Francisco Aurélio Pereira ....... 47

Wabi-Sabi. Marcos Martins............................................................................... 52

Natureza morta-viva. Lara Sorbille................................................................... 54

Biopoética do infravisual. Stephanny Lotus.................................................... 57

Vazio demográfico: o interior é o centro. Coletivo Inço ................................... 64

Os alimentos da roça para uma boa recuperação da saúde. Silvio Barreto....... 67

Álgebra Yonqui. Matías Ezequiel Tilocca.......................................................... 75

Entrevista a Bruno Oliveira............................................................................. 77

BOLETIM KULTRUN | ISSN: 2763-5066


PERIODICIDADE: trimestral
INSTITUIÇÃO: Universidade Federal da Integração Latino-Americana
E-MAIL: boletimkultrun@gmail.com
ENDEREÇO: Av. Tarquínio Joslin dos Santos, 1000
Lot. Universitario das Américas, Foz do Iguaçu, Paraná, Brasil.
CEP: 85870-650
TELEFONE: +55 (45) 3576-7375 / 3576-7307
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JOANA AMORA
Artista-jardineira e pesquisadora multimídia

Joana Amora é artista-jardineira e pesquisadora multimídia. Trabalha com materiais


naturais e vivos, se relacionando com o trabalho co-criado através de um olhar
pesquisador bem humorado. Seus trabalhos refletem sobre sustentabilidade e sistemas
complexos. Se interessa pela transdisciplinaridade e busca aprender sobre os jardins
da vida, o cultivo e o cuidado de realidades. "Acredito em cultivarmos as realidades que
queremos". Se encantou pela alegoria dos Jardins, a partir da leitura de "A Invenção Da
Paisagem" de Anne Cauquelin, na mesma época que se reconheceu na Agroecologia,
Permacultura e Escultura, em 2018.

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Grafite-Musgo, por Joana Amora

‹‹ Grafite-Musgo é uma pesquisa bio-pictórica iniciada no


começo de 2020. Deu origem também às pinturas de
musgo. Aplicação de musgo sobre superfícies. Pinturas
que fazem fotossíntese.
Obs.: as vezes é necessário borrifar ››

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Experimentação de Grafite Musgo

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Geométrico de Musgo

Grafite Musgo sobre Muro do Parque Lage (1)

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Grafite Musgo sobre Muro do Parque Lage (2)

Grafite Musgo sobre Muro do Parque Lage (3)


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Busco co-criar trabalhos que estimulem uma plena consciência do viver. E propor
uma reaproximação lúdica humano-natureza e humano-si-mesmo como natureza.
Semeando modos de vida sustentáveis a partir do cuidado.

Joana Amora
Email: joanaptostes@gmail.com
Fone: + 55 (21) 9 9442 2413
Website (1): amora.cargo.site
Website (2): www.behance.net/amoramamora
Instagram: @amoramamora

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JULLIANE FERREIRA SACHI


Tela Mineral

Sou Julliane Ferreira Sachi, estudante, desde 2017, do curso de Letras Artes e
Mediação Cultural na UNILA. Dentro da universidade meus principais temas de
pesquisa são teatro político, corpo e sexualidade. Nasci no entorno do Distrito Federal
e vivi, quando criança, no sul de Minas Gerais, em Cambuquira. Atualmente, devido à
pandemia, estou em São Thomé das Letras. São Thomé é uma cidade que desperta
em mim sentimentos profundos da minha infância. Com o passar dos anos, fica mais
nítido o descaso político com a cidade e com a população, mesmo diante da devastação
desenfreada da biodiversidade. É gritante o desmatamento que a região vem sofrendo.
Hoje se vê outra paisagem e, consequentemente, o agravamento de questões como
saúde pública, escassez hídrica, poluição do solo e desequilíbrio climático.

E-mail: jupiter.caju@gmail.com

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Memorial descritivo
TELA MINERAL, por Julliane Ferreira

A obra é uma colagem em quartzito plaqueado com folhas recolhidas do chão.


O quartzito foi encontrado no quintal da minha casa, em Minas.

A maior mobilização para compor esta colagem foi o incômodo com a perda das
paisagens naturais de São Thomé das Letras, devido ao processo massante de
extração mineral que persegue há séculos Minas Gerais. A destruição da montanha não
é a única consequência que o lugar vem sofrendo ao longo dos muitos anos de extração
mineral, as águas também ficam contaminadas.

A pedra quartzito plaqueada, conhecida popularmente como pedra São Thomé,


é o motivo de tantas empresas ocuparem a região, pois, junto ao turismo, a exportação
desta pedra é a principal atividade econômica. Isto é bem contraditório, levando em
conta o fato de que a exploração dos recursos minerais está acabando
progressivamente com os principais pontos turísticos da região. De fato, por ser uma
região de vegetação abundante, o turismo que predomina é o turismo ecológico. Muitas
pessoas visitam a cidade com o intuito de apreciar a natureza.

As pedras de quartzito plaqueadas, evidentemente, são encontradas em


grandes quantidades na região. Está presente tanto nos montes como nas estradas da
roça de São Thomé. A pedra também é o principal material de construção de casas e
estabelecimentos locais.

A escolha do material, como tela de composição da colagem, faz jus ao cerne


da questão: a própria pedra de São Thomé. A escolha das folhas, que acompanham a
pedra, não foi aleatória: optei por compor um mosaico de cores quentes que vão do
amarelo ao vermelho, centralizadas pela cor verde. Isto, com o fim de metaforizar
nuestras montanhas, que são serpenteadas pelas labaredas do fogo das explosões que
os dinamites provocam, quase diariamente.

Infelizmente, considerando a lógica económica das sociedades capitalistas de


América Latina, há um longo caminho para percorrer até que possamos garantir políticas
que visam fazer justiça ambiental e justiça social para combater às diversas matrizes de
exploração aos recursos naturais.

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La Minería

Em São Thomé Das Letras a montanha é entendida como uma entidade. É a


representação da grandeza que permite a conexão com o sagrado.

Nas manhãs ensolaradas, majestosamente, raios circenses vão ao encontro de


um mar de folhas e rochas que circundam a magnitude que compõe este ser:

O topo.

No cume, não há nada, nem ninguém, além da própria natureza. De vez em


quando as nuvens encobrem a paisagem montanhosa, tão perto e tão impactante.

O pôr-do-sol desperta, para quem é daqui, o ritual de agradecimento por mais


um dia de vida. Nesses momentos, a energia da eternidade, que o tempo expressa,
vibra.

O principal apoio da economia colonial foi a mineração, e até hoje Minas Gerais
é explorada pela ganância extrativista. Aqueles que comem nuestras montanhas, e
vendem as riquezas da terra, em grande parte das vezes atuam de forma ilegal. É cruel
sentir, quase diariamente, o estrondo de dentro das montanhas, que as dinamites
provocam. El sonido afeta os trabalhadores que ali convivem com o barulho. E também
e afetada a vegetação, que é atingida com a destruição, em parcela, da sua mata viva:
os animais, rios e as árvores contorcidas do cerrado e mata atlântica.

Até quando? Quando o verde que preenche as estradas desapareça? Berramos,


até quando? Até quando os rios não forem mais bebíveis? Até quando essa morte lenta?
Até quando morrermos em prol do avanço? Avanço do quê? Da vida sem gente, sem
bixo, nem água, nem ar? Pois então estamos a caminho do progresso:
progressivamente-mortos.

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NÚRIA MANRESA

Brotos

Núria Manresa é natural de Belo Horizonte. É mãe, arquiteta, jardineira e


professora. Trabalha em projetos que envolvem educação, jardinagem e
produção do espaço. Co-fundadora da Brotos Oficina, onde experimentou em
escolas e quintais processos relacionados à produção do espaço pela
comunidade escolar e por famílias. Se interessa por processos relacionados ao
ciclo de produção e descarte de coisas e alimentos. Integra grupo de estudos
em Pedagogia sócio-espacial. Foi por 6 anos arte-educadora nos projetos
Caput e Desembola na Ideia, que combinavam atenção psicossocial e arte
junto a adolescentes em vulnerabilidade social e psíquica. Formou-se em
Arquitetura e Urbanismo na UFMG e fez parte dos estudos na Universidad
Nacional del Litoral com bolsa do programa de intercâmbio Espacio Académico
Común Ampliado Latinoamericano. É pós-graduanda em Reabilitação
Ambiental e Sustentável Arquitetônica e Urbanística pela UNB. É professora
substituta no IFMG Santa Luzia, lecionou nos cursos de Arquitetura e
Urbanismo, Engenharia Civil, Paisagismo e Design de Interiores.

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Brotos, por Núria Manresa


Quando a casa vira o mundo um olhar para o micro
Para Rita

Bougainvillea

Uma vez por semana, ao findar da tarde, Rita dá


uma volta com a avó no quarteirão de nosso
bairro. Um breve respiro para fora em meio ao
confinamento. Neste passeio observam a flora
micro local e a medida que andam colhem flores,
formando um colorido buquê.
Enquanto isso, aproveito para respirar em casa.
Sempre no fim do meu descanso recebo das
mãos pequeninas o buquê colorido.
-Para você, mãe.
O passeio das flores como elas batizaram,
acontece há meses, uma vez por semana. Da
minha mesa de trabalho, as flores são guardadas
em um lata antiga de biscoitos, com tampa.
Entre os estratos de flores vai se formando uma
fina camada de pó branco. Uma poeirinha viva
com cheiro de mofo e que marca o tempo da
rotina desta casa.

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Cucurbita

Quando me deparei com as texturas aveludadas


que cobriam a superfície esférica verde escura
me assustei.

Como pude esquecer por tanto tempo na fruteira


um vegetal tão grande e delicioso em uma
cozinha tão pequena?

No entanto me deparei com uma questão:

O esquecimento não era a morte.

O esquecimento deu espaço para outras vidas


naquela superfície. Silenciosas, microscópicas,
coloridas e aveludadas, aglomeradas em um
canto úmido e com pouca luz da minúscula
cozinha da minha casa.

- Filha, estes são os fungos.

- O que são fungos, mãe?

- São essas coisinhas pequeninas coloridas aqui.


O que acha deles?

- Parece que gostam de ficar juntos.

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Brunfelsia

Em Março de 2020 ao explicar sobre a quarentena para minha filha de 3 anos


contei que ficaríamos em casa, quietinhos, como um casulo. Contei a ela aquela
história da metamorfose da lagarta usando as mãos e dedos. Entre março de 2020
e março de 2021 nos mudamos do apartamento para uma casa com quintal com
um manacá de cheiro plantado.

Manacás atraem lagartinhas, as Methona themisto.

São pretas com listras alaranjadas. Elegantes e amigáveis.

Agora, ao invés de contar a história sobre a metamorfose usando os dedos, eu a


escuto contando e inventando histórias da sua relação com as lagartas, os casulos
e as borboletas.

Na empolgação diária em catar e manusear as lagartas quase todas as manhãs,


algo terrível aos olhos da menina aconteceu.

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Ao presenciar a gosma verde saindo e a lagarta


perdendo os movimentos não houve dúvidas,
estava morta.

E agora, mãe? Perguntou aos prantos. Vamos


enterrá-la? Sugeri.

Fez a cova com os dedos Pequeninos. Cobriu o


corpo mole com a terra do jardim.

- Lagartas quando morrem viram terra, mãe?

Respondi que sim.

- Nós quando morremos viramos terra?

Respondi que sim outra vez.

- Esta terra que plantamos a sálvia, a hortelã , a


erva-cidreira, a onze-horas, o manjericão, o
alecrim e onde vive o manacá é feita por pessoas
e bichos que já morreram? Como sua avó e o avô
do papai?

- De certa forma, sim. São nossos antepassados


que nutrem as plantas e que formam a terra.

Em seguida, aproveitamos o dia de São José e


fomos semear as sementes de milho no jardim.
Esperamos colher no São João.

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CAMILA HUHN

Maria e o pé de feijão

Camila Huhn. Vitória ES. Artista visual, fotógrafa e designer. Graduanda no curso de
Artes Visuais pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e Arquitetura e
Urbanismo pela Faculdade Multivix Vitória. Aborda em sua pesquisa artística a relação
entre o ecofeminismo e a arte, bem como a inserção entre o corpo e arquitetura, por
meio da performance, intervenção urbana e instalações.

E-mail: camilahuhn@gmail.com
Instagram: camilahuhn

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Maria e o pé de feijão, por Camila Huhn


2020
29,7 x 42 cm
Foto performance

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CARINNE LIRA

Raízes: onde ensaio minhas firmezas

Carinne Lira, paraibana de nascença e carioca de criação, transita entre Rio de Janeiro,
Rj e Foz do Iguaçu, PR. Mulher periférica, feminista, artista-pesquisadora. Investiga as
relações entre arte, natureza e ancestralidade, por uma cosmovisão decolonial, desde
o íntimo. Experimentando uma escuta sensível que implica o horizonte do ser, na busca
tanto de si e suas múltiplas formas, como de outres. Por meio das linguagens da
fotografia, da colagem e da fotoperfomance, manifesta-se seu acontecer poético.

Estudante de Letras, Artes e Mediação Cultural na Universidade Federal da Integração


Latino-americana - UNILA, recentemente aprofunda suas investigações da ser-
corpanatureza no Projeto de Pesquisa ‘Arte e Natureza: Poéticas e Pedagogias da Mãe
Terra’, na mesma instituição.

E-mail: carinne_lira@hotmail.com

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A série Raízes: onde ensaio minhas firmezas faz parte central em minha
pesquisa em arte e natureza. Onde investigo minha corpa-planta, através de colagens
feitas com fotografias minhas e fotografias de família.
Registros de raízes das plantas penetram minhas memórias de família,
inaugurando novas lembranças de minha história. Dentro dessa possibilidade, em unir
imagens de diferentes trajetórias, interferidas, sobrepostas, gerando outras imagens.
Raízes, são onde ensaio as minhas firmezas, e foi ao longo do processo que isso me
foi revelado. E nessa imersão à minha história, ao meu passado, experimento a força
geradora pulsante, e a potência que o resgate à minha ancestralidade provoca. Essa
movimentação me sustenta, traz fúria ao meu devir, evidenciando a urgência em me-
ser. Na medida em que rememoro minha história, para antes da minha própria
existência. Percebo então, através dessa experiência, que passado, presente e futuro
coexistem, me revelando, que para ser árvore, preciso ser raiz.

Raiz.1 - LA MATRIARCA

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Raiz.2 – LA MADRE RAIZ

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Raiz.3 – LA FUERZA

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Raiz.4 – A GRANDE MÃE

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RaIz.5 – BAMBINA RAIZ

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Raiz.6 – SEM TÍTULO

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Raiz.7 – SEM TÍTULO

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Raiz.8 – MARIA DE FARIA

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Raiz.9 – MARIDO DE MARIA, HERMENEGILDO

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Raiz.10 – A ÚLTIMA FILHA

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FÁBIO FLORENTINO DE ALMEIDA


Supressão

Fábio Florentino. Sorocaba, 1982. Vive em Iperó. Trabalha em Iperó e Sorocaba/SP.


Seus trabalhos analisam os meandros do misticismo vinculados às relações de
coexistência entre o ser humano e o meio natural, lançando luz nas tensões ambientais
decorrentes da presença humana, articulando arte e biologia. Suas investigações
transitam, por vezes, sobre o terreno híbrido das imagens e palavras. Visita com
frequência os efeitos da temporalidade, propondo reflexões sobre o efêmero e a
transitoriedade da matéria. A cor assume papel de destaque em seu trabalho,
estabelecendo uma relação entre o corpóreo e o vibracional. Atualmente tem se
dedicado ao experimento do desenho ambidestro de grande dimensão, pensando o
gestualizar, o próprio corpo como ferramenta articuladora de desestabilização.

E-mail: fabioflorentinp@hotmail.com
Instagram: @fabio.florentino

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Supressão, por Fábio Florentino


38 x 28,5 cm
Carvão e acrílica sobre papel

Em 2020 as queimadas criminosas aumentaram vertiginosamente na Amazônia,


comprovando o descaso do governo em lidar com uma crise ambiental, culpabilizando
aqueles que agem como parceiros da floresta e negando a destruição de vidas humanas
e não humanas em relação às consequências imediatas para a saúde da população
local e as consequências a longo prazo, que afetarão na mudança climática global.

Essa série é um desdobramento de uma instalação que fiz numa galeria no ano
passado. Pensando num formato que remete ao desenho científico, selecionei três
espécies botânicas regionais para simbolizar o bioma devastado pelos incêndios: o
Murici, a Andiroba e a Jeniparana, que vêm acompanhadas das estruturas cristalinas
do carbono, do hidrogênio e do oxigênio, componentes do carvão vegetal.

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Murici

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Andiroba

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Jeniparana

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SARA BELTRÁN

La fuerza de la delicadeza y Siembra roja

Sara Beltrán. Nacida en 1998 en la mal llamada Bogotá, criada en Techotiba, Bachiller
y Técnico en Diseño Industrial del glorioso Inem Francisco de Paula Santander,
actualmente es estudiante de Letras, Artes y Mediación Cultural – LAMC, en la
Universidad de Integración Latinoamericana y Caribeña.

E-mail: sariibel9@gmail.com

Instagram: guaranheira

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La fuerza de la delicadeza

El humo y la contaminación, que como humanos hemos


venido generando en el aire, ponen a prueba la fuerza de
las plantas y el equilibrio del planeta.

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Siembra roja

Obra hecha durante el primer año de pandemia.


Este dibujo casi que es un eco de los estudios
corporales en los que tuve la oportunidad de
participar en la UNILA

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FRANCISCO AURÉLIO DE SOUZA PEREIRA

Biomemórias e Ensaio para um exoesqueleto

Desde meu nascimento eu habito na zona rural de Barbalha-CE. E atualmente estou


cursando Licenciatura em Artes Visuais na Universidade Regional do Cariri - URCA.
Assim, me situo entre a urbanidade própria do Crajubar (triangulação Crato-Juazeiro-
Barbalha) e o convívio com os seres animais e vegetais da Chapada do Araripe. Nesse
caso, não é por acaso que aquilo que venho produzindo se relaciona com essa
intersecção entre a condição semi-urbano e semi-florestal. Minhas últimas
experimentações poéticas (as quais podem ser conferidas no perfil de instagram
@franxisco.aurelio) surgem da convergência de duas investigações, uma sobre a
paisagem rural do Sítio Espinhaço e outra a respeito dos meus parentes e de suas
histórias sobre esse mesmo local. Além de uma pesquisa sobre o conflito/aproximação
espaço-corpo, levo em conta ainda o uso de memórias para a instauração de uma
poética cuja potência se encontra na diluição dos limites entre verdade e ficção e entre
natureza e sujeito.

E-mail: franciscoaurelio@outlook.com
Instagram: @franxisco.aurelio

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Biomemórias (2021), por Francisco Aurélio de Souza Pereira

Pesquisa em processo. Trata sobre uma relação de retrocomposição entre meus


parentes mortos e o lugar que hoje habito. Da mesma forma que modificaram a
paisagem em sua juventude, esses mesmos parentes tiveram nesse espaço suas
subjetividades desenhadas. Além disso, seus corpos mortos alimentaram a mesma terra
que hoje nos alimenta. Há um ciclo de retroalimentação que necessário à continuidade
de ambos: humano e paisagem.

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Ss

Zé França

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VOL. 3, N° 1, ABRIL DE 2021

Ensaio para um exoesqueleto (2021), por Francisco Aurélio de Souza Pereira

Pesquisa em processo. Trata-se de pensar uma


composição do corpo humano ao lado de outros corpos
naturais, vivos ou não. Uma proposta de reinserção e
convivência do humano com os corpos vivos e mortos que
compõem a dinâmica própria da natureza.

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VOL. 3, N° 1, ABRIL DE 2021

MARCOS MARTINS
Wabi-Sabi

Marcos Martins. Nasceu em Fortaleza (1974), vive e trabalha em Vitoria. Artista-etc,


arquiteto, pesquisador, aborda em seus processos prático-teóricos a humanização das
arquiteturas, dos displays urbanos e das paisagens, atuando nas fronteiras porosas dos
corpos e suas espacializações por meio das Performances, Intervenções Urbanas e
Instalações. É Doutor em Poéticas Visuais pela ECA/USP e professor de Escultura e de
Performance na UFES.

E-mail: marcosmartins.urbe@gmail.com

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Wabi-Sabi (2019), por Marcos Martins.


80x120cm
Fotografia fineart em papel algodão

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LARA SORBILLE

Natureza morta-viva

Lara Sorbille, ou Lara Vic ou Victoria Lara, etc., é


graduanda de Cinema e Audiovisual da Universidade
Federal da Integração Latino-Americana, diretora do
documentário Proyecto M – Patriarcado, e do curta-
metragem Santa Nena e os Lobos. Também atua
como performer virtual, roteirista, montadora, artista
sonora, ilustradora, escutadora e contadora de
histórias.

E-mail: laravsorbille@gmail.com

Natureza morta-viva, por Lara Sorbille.

Dorsal

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Mel

Muda
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Sonho

Voar
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STEPH LOTUS
Biopoética do infravisual

Steph Lotus, nasceu no interior de Pernambuco, por onde traz sua descendência
indígena Xukurus. Atua como artista visual e fotógrafa na pesquisa em Arte e Educação.
Procura por vida poética Infravisual na invenção de novos modos de ler e escrever com
a vida. Mestre em Educação pela Faculdade de Educação da Universidade Federal do
Rio Grande do Sul - UFRGS. Licenciada em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da
mesma instituição. Pesquisa com a mistura de peles humanas-não humanas,
macerando-as em pleno Sol do meio dia. Trabalha com fotografia na arte e
comercialmente. Realiza editorações textuais; criações em ambiente real e virtual;
ministra cursos; publica artigos e participa de exposições, na sua maioria coletivas.
Atualmente investiga o campo da biopoética para criar uma alterpoética, uma poética
própria da alteridade. Seus trabalhos mais recentes misturam arte fotográfica e literária,
colocando-as em contato e contágio. Passa pela literatura de Virginia Woolf, por onde
se encontra com verdadeiras poesias fotográficas. Além da poesia, pesquisa
interlocuções com outros saberes, como a antropologia e a filosofia, a fim de
pensar/inventar novos processos artísticos que contemplem estados humanos e não
humanos integralizados.
E-mail: stephannylotus@gmail.com
Website: https://fotografialotus.46graus.com/
Instagram: @stephlotus

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Biopoética do Infravisual, por Stephanny Lotus

Este ensaio visual faz parte da pesquisa de mestrado em Educação realizada na


Faculdade de Educação da UFRGS - Universidade do Rio Grande do Sul. Defendida
em 30 de outubro de 2020, a dissertação teve como invenção artística a Biopoética do
Infravisual1. Com objetivo de semear estudos ao lado do fazer experimental da
fotografia, a pesquisa se conjuga com a biopoética. Pensamento que movimenta
existências de vidas ultrassensíveis pela sublime arte da mimese, no fazer [fanérico do
grego phanerós, manifesto] e no desfazer a própria natureza [críptico ou enigmático, do
grego kryotòs, escondido].2

Nesse sentido, as páginas abertas deste ensaio fotográfico-literário sensibilizam


o verbo vegetar3. Ou seja, entram como arte de revelar qualidades de uma alterpoética,
uma poética da alteridade. Mesmo que visualizado de modo virtual, o ensaio traduz a
sensação com o papel vegetal de modo a nos dar acesso a uma infrassensibilidade.4 E,
com esse estado de arte, deslinda interlocuções entre saberes.

Diante disso, as fotografias feitas a mãos de escrita demandou uma investigação


com a literatura da escritora Virginia Woolf (1882-1941), iluminando algumas passagens
de seus contos e romances como verdadeiras poesias fotográficas. Como podemos ver-
ler por esse belíssimo trecho:
[...] viam uma gota de chuva na sebe, pendente mas sem
cair, com a imagem de uma casa inteira contida dentro
dela, e os olmos altos como torres; ou, então,
contemplando de frente o sol, seus olhos tornavam-se
grãos de ouro. (WOOLF, 2011, P.77) 5

Enquanto flores transparecem renascidas nas páginas fotográficas, essa arte


parece encarnar na pele de papel onde as palavras estão brotadas. Esse fenômeno
visual-fotográfico é denominado na pesquisa como Infravisual. Ou seja, diz da arte

1 LOTUS. Steph. Biopoética do Infravisual: experimentar uma escrileitura fotográfica na Educação.


Porto Alegre, 2020, 111 Pág. Dissertação [mestrado em Educação] Orient. Prof. Dr. Máximo Daniel Lamela
Adó. Programa de Pós- -Graduação em Educação, PPEDU-FACED Faculdade de Educação –
Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Disponível em:
https://lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/218460/001123057.pdf?sequence=1&isAllowed=y
2 MANCUSO. S. Revolução das plantas: um novo modelo para o futuro. Tradução de Regina Silva. Ubu

Editora: São Paulo, 2019.


3 OLIVEIRA. Joana Cabral de. Vozes Vegetais: diversidade, resistência e histórias da floresta. Ubu

Editora: São Paulo. 2020.


4 COCCIA. Emanuele. A vida sensível. Tradução de Diego Cervelin. Florianópolis: Cultura e Barbárie,

2010.
5
WOOLF, Virginia. As ondas. Tradução de Lya Luft. São Paulo: Novo século, 2011.

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fotográfica enraizada na arte da escrita (da poesia), pela dimensão do infra (do
sensível), categoria já experimentada por Marcel Duchamp (1887-1968).6

Por um recorte expressivo, um trecho da dissertação-obra em questão,


apresenta a concepção dessa biopoiesis, ao lado do escritor Stefano Mancuso:

Escre-ver por excesso de vida. Leitura explorada de maneira


experimental que vai para além do próprio corpo humano que
passa os olhos por cima de palavras. Leitura como exercício de
pensamento vivo que se dá no infracotidiano, em contato com a
superfície de objetos até o mais profundo refletido na película
vítrea dos olhos de outrem. Escre-ver por excesso de luz como
que por um processo de inteligência não humano fotográfico.
Escre-ver pelo infravisual do fototropismo das plantas. Pela
capacidade visual nas células convexas da epiderme que
parecem funcionar como microlentes, ou como ocelos [olhos
primitivos] focalizando imagens na camada celular subjacente.
Basta pensarmos nas fotografias produzidas usando a epiderme
foliar de diferentes espécies (MANCUSO, 2019). Escrever pela
capacidade de medir a intensidade e a cor da luz por meio de
diferentes fotorreceptores. Medir sua própria posição em relação
a uma fonte luz, como fazem certas cyanobactérias, permitindo
que a imagem entre pela membrana convexa da célula e se
projete sobre sua face oposta, desencadeando um movimento
de distanciamento (MANCUSO, 2019). Escre-ver com essa alma
vegetal. Se a fotografia tem alma, como diz nossos povos
originários, seria por relação simbiótica? Escre-ver por mimese,
manusear espiritualmente a vida, seja pela arte ou pelo sensível
a alma das coisas coexistem. (LOTUS, 2020, P. 87)

É na pele de uma professora artista que a pesquisa em educação trabalha com


a arte fotográfica e a arte literária em contato-contágio. Por isso, sonha em criar casulos,
novas peles no mundo sensível, liquefazendo um corpo em misturas, como uma lagarta
que digere a si mesma. (LOTUS, 2020)

6 DUCHAMP. Marcel. Notas. Tradução de Dolores Díaz Vaillagou. Madrid: Tecnos, 1989.
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Por fim, desse estudo fractal nasceu o livro de artista: Incidentes Visuais7

Nesse desdobramento, a obra experimenta um corpo áudiovisual,


sincronizando uma mostra de efeitos que essas artes podem efetuar ao se
apresentarem como vídeo-poesia. Dessa forma, pode-se apreciar também o
trabalho manual com a fotografia e com a literatura por uma potência ótica de
mistura. Confeccionado à mão, e impresso em papel vegetal, o caderno do artista
acomodou a composição de uma produção biopoética de imagens e notas
fotográficas. São macrografias analógicas; cianotipias impressas em papel
vegetal; flores secas e a mistura dessas técnicas e suportes.

Todas essas veias poéticas de leitura e escrita deslizam em confluência


ao fazer experimental da fotografia. Assim, revelam uma natureza de obra de
arte na pesquisa e compõem um modo de pensar, a educação, através da lente
da arte fotográfica em contato-contágio com a arte da escrita poética. Pois, por
cada cocriação dessas notas e imagens fotográficas, o pensamento é
experimentado em vegetação com o fazer tátil da fotografia.

7 https://www.youtube.com/watch?v=GlMsPdvrwiw&feature=youtu.be - acesso em: 01/04/2021

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COLETIVO INÇO
Vazio demográfico: o interior é o centro.

O COLETIVO INÇO é formado por Audrian


Cassanelli e Diana Chiodelli, que são
Professores e Artistas Visuais. Desde 2017
realiza ações no interior dos estados de
Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Com
participação em exposições, salões de arte
e rodas de mate. Destaque para a Bienal
Internacional de Curitiba-Polo SC (2019).

Instagram: coletivo.inco
E-mail: dianachiodelli@unochapeco.edu.br

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Vazio demográfico: o interior é o centro.

Soja. Rio represado. Soja. Asfalto. Soja. Fumaça. Soja. Agroindústria. Soja. Trigo.
Soja. Porco. Soja. Gado. Soja. Fumo. Soja.

Progresso.

Inço. Nascente. Inço. Estrada de terra. Inço. Árvore. Inço. Agricultura familiar. Inço.
Semente crioula. Inço. Biodiversidade. Inço.

Peste.

Progresso aqui no Oeste Catarinense tem cheiro de bosta de porco e frango vindo dos
caminhões que abastecem a agroindústria. Progresso já foi o som das árvores nativas
caindo e as toras sendo transportadas por balseiros rio abaixo. Teve som de bala e grito,
daqueles que ao chegar, expulsaram caboclos e indígenas dessa terra. Progresso por
aqui é morte.

Peste, erva daninha ou inço, nascem espontaneamente. Ocupando para retomar


espaço, nas grandes lavouras a serviço do progresso. Precedem o surgimento das
lavouras.

Lavouras são espaços de cultivo à serviço da monocultura. Museus podem ser lavouras.
Galerias podem ser lavouras. Escolas também podem ser, quando descartam as
sementes crioulas ao definir um só tipo de grão para o plantio. A arte antecede o
surgimento desse formato de lavoura. Arte é inço.

Na cidade do progresso, capital da agroindústria, os inços se alastram através das


fendas para retomar espaço de que fora deles. Afinal o interior é anterior. Anterior ao
processo de colonização e segregação dos territórios de nossa região, as terras foram
chamadas de vazio demográfico - anulando a presença de comunidades indígenas e
caboclas, justificando a ocupação e marginalização desses grupos através da falsa
ausência populacional. Anterior ao crescimento industrial que mancha a terra e o corpo
indígena e caboclo. Anterior ao discurso que descentraliza esses corpos a favor das
máquinas. Anterior ao canteiro de flor comprada das rótulas no meio do asfalto.

É anterior porque se cavar fundo, ali, no meio da praça do progresso, numa cova funda,
dá pra ver a raiz firme dos inços procurando as rachaduras no asfalto pra crescer.
Porque, assim como aqui, os interiores deste país são os centros de tudo.

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Por tudo isso é que, aqui, como em tantos cantos desse Brasil fundo - em que os
interiores são postos à margem do progresso que procura, através do concreto,
inviabilizá-los - os inços retomam os centros.

O Coletivo Inço nasce com a vontade de retomar esses espaços que hoje são das
monoculturas. Fazer brotar e ver vingar um jeito outro de se entender como gente do
interior. Valorizando a coletividade e o trabalho das comunidades. Criado por
professores-artistas, busca compreender os espaços onde brotam inços, sejam nas
paisagens das salas de aula, das periferias e interiores, dos fazeres manuais e olhares
multiculturais para os espaços entre arte e meio ambiente.

Sabemos que o cenário atual nos traz dúvidas e nos chama para resistir às podas, às
queimas, à monocultura, ao extrativismo, aos cortes e tudo o que pode nos arrancar de
forma definitiva de nossos contextos. Mas inço é uma peste dessas que resistem. E
resistir é preciso em tempos como os nossos.

Quantas formas de falar de arte e meio ambiente existem, em tempos de resistência?

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SILVIO SANCHES BARRETO

Wesekãhase do’âtira ba’â masasehé


Os alimentos da roça para uma boa recuperação da saúde
Los alimentos del campo para una buena recuperación de la salud

Silvio Sánches Barreto, é licenciado em Filosofia pela Faculdade


Salesiana Dom Bosco, Manaus. Mestre e Doutorando em Antropologia
Social pela UFAM. Pesquisador que busca entender a partir do
universo dos Kumuá (categoria de especialista: Kumû, Bayá, Yaî e
Basedor) para ter uma boa saúde. E-mail:
barasilviosb@gmail.com

Os alimentos da roça para uma boa recuperação da saúde

Resumo: o presente artigo apresenta as narrativas de experiências da especialista de narrar


as histórias antigas e a prática do pajé sobre cogumelos de espécies comestíveis, os
elementos da maniua e das maniwaras. Os alimentos da roça são para uma boa recuperação
da saúde. A arte culinária da mulher do Tronco linguístico Tukano Oriental passa pela assepsia
alimentar. A forma de abordagem metodológica foi construída com as perguntas semiestruturas
e fechadas na língua Tukano segundo costume local no Alto rio Negro, AM.

Palavras-chave: cogumelos – xamanismo - doença – saúde.

Los alimentos de la granja para una buena recuperación de la salud

Resumen: este artículo presenta las narrativas de las experiencias del especialista al narrar los
antiguos y la práctica del chamán sobre los hongos de especies comestibles, los elementos de
maniua y maniuaras. Los alimentos del campo son para una buena recuperación de la salud. El
arte culinario de la mujer del Tronco Lingüístico Tukano Oriental pasa por la asepsia alimentar.
El enfoque metodológico se construyó con preguntas semiestructuradas y se cerró en el idioma
tukano según la costumbre local en el Alto Rio Negro, Amazonas.

Palabras clave: hongos – chamanismo – enfermedad – salud.

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 Colaboradores da Pesquisa

Umupô: nome de benzimento do Senhor Benedito Meireles Dias, 86 anos,


basegi/benzedor, do povo Miriti tapuia. Especialista no conjunto de benzimento para
proteção, recuperação e curas de doenças do universo indígena. Nascido na antiga
Comunidade Península Bem-Ti-Vi no médio do rio Tiquié, afluente do rio Uaupés do
Distrito de Taracuá, Município de São Gabriel da Cachoeira/AM.

Yosokamô: nome de benzimento da Dona Francisca Sanches, 70 anos, do


povo Tuyuka. Parteira e especialista em narrar as histórias antigas. Nascida na
Comunidad Trinidad, rio Tiquié/Colômbia, natural de Pari Cachoeira, no Município de
São Gabriel da Cachoeira, AM.

 Formas de abordagem

Na cozinha do sítio Itaiaçu (na língua neenhagatú significa “Casa das


Queixadas”) à noite1 se reuniu para uúkũse na’iose/ para uma roda de conversa
familiar. Nesta roda de conversa noturna estava presente Senhor Benedito Meireles
Dias, Dona Francisca Sanches e, eu, Silvio Bará. Eles estavam sentados nas suas
redes, eu estava sentado no banco com gravador para registros das narrativas. À luz
do fogo de jirau dos peixes nos iluminava nossa roda de conversa e lá, no fundo,
também se ouvia os grilos noturnos e sapos coaxarem no igarapé próximo de casa.

Foi necessário acompanhar o cotidiano e a disponibilidade, às vezes, eles


ficavam doentes e cansados dos trabalhos da roça. E, juntos fizemos o exercício da
construção de dados sobre conhecimentos dos antepassados. Para abrir a roda de
conversa noturna foi necessário formular perguntas semiestruturadas e fechadas na
língua tukano: Quais narrativas que narram os cuidados para uma boa recuperação da
saúde? Quais são alimentos que ajudam para uma boa recuperação? Existe a
narrativa específica que narra as origens das doenças e os males sociais?

Houve exercício redobrado para armazenar na memória, às vezes no meio do


conto eu me perdia ficando para trás. Uma coisa difícil para os velhos são para
recontar a história. Na hora da narrativa não se pode haver questionamento. Quando
há alguma intervenção, os velhos nem gostam e afirmam dizer que: se já sabe, porque
me perguntas? Por esta razão, levaram alguns dias de gravação. À noite, as crianças
dormiam um pouco cedo e assim nos permitiam para nossa roda de conversa de kití
werê na’iose (conversa noturna) e, até ficávamos em altas horas da noite. Portanto, as

1 A pesquisa foi realizada no período de 27/12/2019 a 06/02/2020, no Sitio Itaiaçu, médio rio
Tiquié, Município de São Gabriel da Cachoeira, noroeste amazônico, Estado do Amazonas.

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pesquisas de doutorado foram respondidas em forma de narrativas de experiências


sobre cogumelos, folhas verdes e secas da maniua, a tapioca, a massa torrada e
caldo extraído da mandioca e das maniuaras. Às vezes, as narrativas foram contadas
de forma descontraída para não cair no sono.

 Os cogumelos de espécies comestíveis e iesehé, os elementos


comestíveis de maniua e maniwara (Dona Francisca).

Ditî o’ôri e I’esehé/Cogumelos de espécies comestíveis. Os velhos se


alimentavam dos cogumelos de espécies comestíveis e iesehé se encontram na roça
nova e na antiga: Wã’rôpĩ ditî/cogumelo-mutum; Ki’má ditî/cogumelo-verão; Wa’î
ditî/cogumelo-peixe; Ãyâ ditî/cogumelo-jararaca. A esposa ou mãe do doente ia à roça
nova em busca dos cogumelos. Os cogumelos são alimentos das dietas ao período da
recuperação. O doente que for marido, pai ou filho que estivesse doença de: Wahâ
pĩhi doatisehé/dores agudas; Wakari doatisehé/dores pontadas (dores insuportáveis
no corpo) e Ẽhô doatirã/doente da gripe.

A mãe ou esposa vai à roça nova em busca dos cogumelos. Agora Ãyâ
ditî/cogumelo-jararaca encontra-se na roça antiga, e, kima-ditî/cogumelo-verão se
encontra na roça nova da mata virgem. A roça que tem muitos alimentos.
Antigamente, ao invés de oferecer peixes para doente, a esposa ou mãe oferecia os
cogumelos para uma boa recuperação da saúde.

O modo de preparo. Os cogumelos são colhidos e preparados a gosto: a)


Cozido com sal, apenas só para tomar caldo; b) Assado e, c) A pupeca de cogumelos.
A esposa ou mãe se mantém sua dieta alimentar junto do doente. Quando vê a
melhora da saúde nem alimentos fazendo mal param de dar de comer dos cogumelos.
Só se oferece os alimentos apimentados, quando doente estivesse melhorado da
saúde. Quando doente disser que ele está melhor, quando uma criança estivesse
recuperada da saúde. Os cogumelos de espécies comestíveis são consumidos,
enquanto, o doente estivesse recebendo os cuidados dos pajés pela eficácia simbólica
de basese (conjunto de benzimento).

 Meká/Maniuaras

Quando não tiver cogumelos, as maniuaras são ingredientes das dietas


alimentares, as quais são apanhadas no caminho ou próximo da roça. As maniuaras
frescas ou torradas são consumidas pelas crianças e dos velhos. Quando uma pessoa

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estivesse doente de wahapĩ, wakari, ehêri põ’ra purise/a dor no coração. Durante ao
período de resguardo, a mãe da criança recém-nascida/ a jovem de menarca,
neoformação da categoria de especialista (kumuá/pajés) se alimentam das maniuaras
com tapioquinha.

O modo de apanhar as maniuaras na galeria. A mãe ou esposa vai ao caminho


da roça levando consigo uma haste nova da arumã para apanhar as maniuaras.
Então, com um pedaço da vara se finca por aqui e por acolá na terra até encontrar o
caminho das maniuaras. Quando descobre que é a galeria das maniuaras limpa o
chão para se sentar e assim apanhá-los. A haste nova da arumã tem de ser partido ao
meio para ser enfiada na galeria. Quando mordem muitas maniuaras na haste da
arumã enche-se rapidinho no pequeno aturá. Porém, quando, as maniuaras não
estiverem mordendo tem de defumar com as folhas secas na galeria. Mas também
tem de ter muito cuidado para não levar mordidas até sangrá-los.

O modo de preparo. Já em casa as maniuaras têm de ser lavadas no rio ou no


recipiente maior, secadas e levadas para o fogo: torrar no forno ou na panela de
cerâmica e socar no pilão; consumir bem fresquinhas com beiju e acompanhado do
xibé (farinha molhada), tem de fazer uma quinha-maniuara (pimenta e maniuara). A
maniuara é prato mais favorito da família tukana. Quando, a mulher tem apreço pelo
seu marido faz a dieta alimentar junto com seu marido doente ou junto de seu filho e
se não amasse não faria isto, até, porque poderia comer qualquer alimento. Quando, a
esposa quebra os tabus alimentares e, assim, quer que a pessoa morra.

 Kĩi pũú/Caldo extraído das folhas secas de maniua.

O kĩi pũú, um dos alimentos não é tão apreciado pelo povo tukano. Mas, é um
dos alimentos raramente consumidos pelas famílias da região do Alto Rio Negro. O
caldo extraído das folhas secas de maniua/semelhante o tucupi preto.

O modo da extração do kĩi pũú koó. Quando estiver arrancando a mandioca-


brava na roça, as folhas verdes são colhidas para serem secadas ao sol, mas, são
cobertas com as folhas de embaúba, as quais são deixadas por três dias na roça. Já
no quarto dia, as folhas secas são recolhidas para o processo de extração do caldo e
já em casa é friccionada com mãos acionado com um pouco d’água e deixa-se para
dissolvê-lo e sentar por uma noite e, de manhã bem cedo coa-se, cozinha-se para
consumo, ou guarda, quando tiver peixe adiciona-se um pouco para cozinhar, um dos
alimentos para pessoa já recuperada da saúde.

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Wa’î pẽ’êke/Mujica. A mujica é o alimento para pessoas já recuperadas da


saúde, porque se prepara com muita pimenta. O marupiara/bom pescador traz peixe
para alimentação de sua família, a qual, a esposa se prepara para refeição coletiva,
mas que, percebe-se que, o peixe é muito pouco tem de multiplicá-lo. A mujica é
multiplicação dos peixes para todos os membros da Casa Coletiva.

O modo do preparo da mujica de peixe. A esposa enche água na panela da


cerâmica colocando alguns peixes, sal e pimenta a gosto e, cozinha-se quase uma
hora e meia, depois dissolve na cuia um pouco da goma. A mujica é uma multiplicação
dos peixes. Antigamente, na quinhapira matinal da aldeia, a esposa do pescador leva
e oferece a mujica de peixes e com beiju fresquinho para seu marido e demais da
Casa Coletiva. As crianças só se comiam dos peixes pequenos e nada dos peixes
grandes, jamais comiam juntos dos adultos, mas, as crianças ficavam nos
compartimentos dos pais.

 Diki pũri/ Maniçoba

Na roça as folhas novas de maniua são apanhadas para maniçoba. Primeiro


cozinha-se massa das folhas depois se coloca os peixes na panela fervida. O cardápio
do antepassado acompanhava o ciclo anual de fartura.

O modo de preparo da maniçoba. As folhas novas de manivas são apanhadas


na roça. Em casa as folhas são raladas no ralo, assim, a massa é cozida por três
horas no fogo alto, tirando espuma da fervura para o processo de decocção para dar
cheiro bem gostoso. Quando tiver peixes ou peixes moqueados tem de acrescentar
nesta panela de maniçoba. No último caso se tiver escamas dos peixes moqueados
guardados encima do jirau, melhor ainda, até, as maniuaras são ingredientes. As
pessoas comiam isto, não por falta dos peixes, por falta da caça, das lagartas
comestíveis, das formigas ou do cupim grande. Porque eram os alimentos desde seus
antepassados.

 Yama-pũri/caruru

É uma árvore arbusto, cuja folha é comestível que se encontra na roça nova.
Este sim que é alimento vegetal. Existem vários os tipos de Yama-pũrí/caruru: Wa’î
Yama-pũrí/caruru-peixe e Ĩroyã Yama-pũrí/caruru-carajiru.

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O modo de preparo do caruru. As folhas novas de caruru são apanhadas nas


roças novas. Então, primeiro cozem-se peixes. Já na panela pré-aquecida, as folhas
de caruru são despejadas para serem cozidas. O Caruru nem precisa outros
ingredientes, só caruru é bem gostoso. As folhas já passadas são duras e amargas
nem servem para consumo. O Caruru é um dos alimentos mais saudáveis. Os antigos
se alimentavam para ter uma boa saúde. Por esta razão, os velhos não possuíam a
gordura no corpo.

Yõkâ-pieri/Tucupi preto solúvel. O alimento para ser acionado na quinhapira, na


mojica e na caldeirada de peixe. Antigamente, os antepassados comiam yõkâ pieri,
porque eles não consumiam sal. Antes, os velhos não consumiam sal mineral e sim
comiam do yõkâ pieri.

O modo da extração de yõkâ-pieri. O tucupi é extração da massa puba da


mandioca, a qual é cozida por longas horas até para ficar bem preto. Os velhos se
alimentavam do tucupi preto solúvel porque era sal natural e vegetal. Um dos
alimentos imprescindíveis dos pratos tradicionais do povo indígena Bará e Tuyuka, etc.
“Antigamente, os nossos antepassados se alimentavam desses alimentos, pois, eram
muitos saudáveis, atualmente, com os padres comemos sal e óleo de cozinha. Com
consumo do sal e do óleo ficamos muito doentes e temos gordura em nosso corpo,
sentimos cansaço, fraqueza e dores em nosso corpo. Nós, hoje em dias, deixamos de
lado os alimentos de nossos antepassados”, disse Dona Francisca.

Pu’tí pẽ’êke/mujica da massa. A massa da mandioca é torrada no forno para


ser adicionada na panela de peixes. E, assim que estiver pronta é servida para
refeição coletiva.

O modo de preparo da mujica da massa. A mandioca é ralada no ralo e


exprimida no cumatá só para tirar um pouco da goma. A massa é espremida no tipiti
para ser desembocada para ser peneirada. Enquanto isto, o forno já fica pré-aquecida.
A massa torrada é colocada no wuhû bati/balaio. Enquanto isto, a panela de peixes
fervendo no fogo. A mujica da massa é semelhante à mujica da farinha. Quanto, a
mujica da massa é esquentada por várias vezes fica mais gostoso. Existe mãe que
cuida bem de seus alimentos que fica esquentando por várias vezes e, assim fica mais
cheiroso e fica bem gostoso e, eram assim alimentação em outros tempos. Os
alimentos da roça eram consumidos pelos antepassados para ter uma boa fluidez de
pensamento metafísico referente ao conjunto de benzimento, basamori/rituais de
danças, úkũse/discursos ritualizados.

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 Assepsia alimentar para Senhor Benedito

Para Senhor Benedito todos os alimentos são consumíveis sim, mas, desde
que sejam todos assepsiados pelo pajé para ter uma boa saúde. Os nossos pais não
se alimentavam quaisquer alimentos naturais ou vegetais sem antes da assepsia do
basegi (pajé). Os cogumelos de espécies comestíveis e iese, os elementos
comestíveis de maniua e da maniuara, o pajé faz a assepsia alimentar. Todos estes
alimentos têm os seus bikîrã (insetos): joaninhas, moscas, formigas, lagartinhas,
insetos, borboletas, cabas e minhocas que se encontram na roça. Na metáfora dos
pajés, estes têm de serem mortos, os dentes têm de ser arrancados e purificados de
suas penugens, porque possuem certas doenças que contamina os cogumelos, as
folhas de maniua. As maniuas se alimentam das folhas secas que possuem ka’use e
kãstisehe/tem o ácido acético nos caldos extraídos das folhas e na massa puba da
mandioca é neutralizada ou transmutada no leite e espuma de buiuiu. Sem
descontaminação dos alimentos feita pelo Kumú (pajé), a pessoa adoece tendo a dor
de cabeça, tonteira, mal-estar, vômito, calafrio, febre, vertigens, diarreia, etc.,
Também, as maniuaras são neutralizadas para não haver certas manchas no corpo da
criança recém-nascida ou a da jovem de menarca. Quando aparece alguma mancha
no corpo os bikîrã estão consumindo da pessoa. Contudo, todos estes alimentos
referidos neste artigo são alimentos das dietas para uma boa recuperação da saúde.

Consideração final

A narrativa de experiência trouxe a experiência da cuidadora, da plantadora de


maniuas, coletora dos cogumelos de espécies comestíveis e das maniuaras e prática
do assepsiador dos alimentos. Antes de quaisquer alimentos para os consumos são
descontaminados para se tornem bons alimentos para uma boa saúde, enquanto
estiver recebendo o cuidado do pajé. Para a mãe da criança recém-nascida e a da
jovem de menarca envolvem ao conjunto de basese (benzimento). Esses mesmos
alimentos da roça causam certas doenças, quando não são descontaminados dá a dor
de barriga, a diarreia, tonteira, dor de cabeça, febre, vertigens, vômito e impinge com
fungos nos pés, porque fungos estão consumidos no corpo da pessoa. As folhas
verdes, secas de maniuas, caldo extraído da massa da mandioca contém ácido
cianídrico. A roça é a casa dos Wai-masa (seres não humanos). As árvores que se
encontram no caminho da roça são consideradas como masá (pessoas) os seres não-

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humanas da floresta, capazes de roubar ou trocar pela alma da criança. As árvores


transformam pessoa para ter a relação íntima com a jovem que está de resguardo de
menarca. Todos os alimentos devem ser descontaminados e acionados pelo pajé são
transmutados no leite e espuma de buiuiu no corpo da pessoa. A arte culinária
indígena do Alto rio Negro passa pela assepsia alimentar para que se tenha uma boa
saúde.

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MATÍAS EZEQUIEL TILOCCA

Álgebra Yonqui

Cursé el primer año en Periodismo y Comunicación Social en mi ciudad natal: ciudad


de La Plata, Argentina. De allí me vine a la UNILA y ahora soy formando en Letras, Artes
y Mediación Cultural – LAMC. Es donde inicié el camino científico en crítica literaria. A
la vez me apasiona la poesía, la cocina y el autocultivo. Quisiera combinar estas
pasiones en la escritura y la comunicación.

Álgebra Yonqui

William Burroughs escribe Yonqui (1953) una década después de su iniciación,


en el contexto de la Segunda Guerra Mundial, en las drogas duras. Formula un itinerario
autobiográfico de los entramados de la adicción anunciando un porqué inquietante para
el sentido común: “He aprendido la ecuación de la droga. La droga no es, como el
alcohol o la hierba, un medio para incrementar el disfrute de la vida, la droga no es un
estimulante. Es un modo de vivir”. Ese modo de vivir aunque destructivo está cargado
de positividad.

Burroughs carga en su botiquín mental un arsenal de respuestas complejas para


preguntas que más que existenciales ya podemos ubicarlas en el orden de los
formularios triviales. Por qué un hombre se convierte en drogadicto, pregunta en el
prólogo y responde: “Normalmente no es algo que uno se propone”, atribuyéndole a la

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adquisición del hábito y sus constitutivos síntomas de carencia el demarcador esencial


para decretarse el estado de drogadicción. De la primera inyección, bastaron seis meses
para asumirse capturado por el vicio.

Da otras explicaciones para dar inteligibilidad a la conversión al modo de vida


que es la droga: por carecer de otras “motivaciones fuertes”; porque la droga “se impone
por defecto”; o en su caso Burroughs afirma: “Yo empecé por una cuestión de
seguridad”. El origen de la adicción es difícil descifrar, dice, porque justamente no es
por convicción o proyección totalmente consciente sino que, y muy por el contrario, “una
mañana uno se despierta enfermo y ya es adicto”.

No se debe leer Yonqui con el prejuicio hacia el exceso, la destrucción interior,


la perdición de vidas enajenadas de una moral ciudadana de supuestas reglas claras y
bienintencionadas. Burroughs no lamenta ni un miligramo su experiencia con las drogas,
y cree que su salud ha sido mejor que si no fuera adicto. Distinto a las limitaciones que
se suele adjudicarle al drogón o drogona, Burroughs no escrupula al decir: “Un adicto
nunca deja de crecer”. En otras páginas del prólogo, cuenta cuando el psicoanalista lo
consideró un “perfecto destructivo” y que el resultado del analista lo dejó muy contento,
seguramente porque lo que para el saber científico es destrucción para Burroughs es
crecimiento.

Burroughs inyecta argumentaciones que los usuarios de drogas en general


comparten, no las instituciones médicas, ni represivas ni eclesiásticas: “La droga es una
ecuación celular que enseña a los usuarios hechos de validez general”, la droga como
mecanismo de enseñanza sobre la percepción del tiempo, el placer del alivio, la agonía
de la privación, la química corporal propia, la experiencia de compartir la enfermedad y
la quietud de la miseria con otros yonquis. El saber en la marginalidad, los obstáculos
en la vincularidad y la reacción afectiva. Porque droga (heroína, codeína) no es sinónimo
de estimulantes como el faso y el alcohol, sino un modo de vida. Una ecuación de difícil
acceso para quien no conoce la subterraneidad hecha cuerpo.

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Texto elaborado a partir de: BURROUGHS, William. Yonqui.


Traducción de Martín Lendínez. 3a edición. Barcelona: Bruguera,
1984.

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BRUNO OLIVEIRA

Entrevista

Para debater Arte e Natureza em tempos de pandemia o Boletim Kultrun entrevistou a


Bruno Oliveira, artista, educador e pesquisador. Bruno é Mestre pela UNILA em
Estudos Interdisciplinares Latino-Americanos com a pesquisa "Variantes sin contenido:
geopolítica, especulação estética e visualidade decolonial na América Latina" e está
cursando o Doutorado em Artes Visuais pela Universidade Federal de Minas Gerais –
UFMG. Investiga e atua no campo das artes contemporâneas desde perspectivas
decoloniais.

Nessa entrevista concedida por escrito à professora da UNILA, Gabriela Canale Miola,
o artista aponta os desafios sociais, epistemológicos, políticos e culturais da atualidade,
além de nos presentear com observações precisas sobre as artes nesse contexto.

Você acha que a pandemia atual tornou inescapável revisitarmos o locus


biológico da nossa espécie?

Termino a entrevista respondendo esta pergunta, já no dia 19 de abril. Recorro


novamente ao número de mortes divulgado pelo consórcio de veículos de imprensa,
que já contabiliza a morte de aproximadamente 373.442 pessoas devido à pandemia de
coronavírus (e, evidentemente, ao descaso sistemático do governo federal com a
questão). Ainda que de forma imprecisa, as estatísticas, gráficos e médias móveis que
nos acompanham durante este período tentam desenhar um chão, simular algo de
controle que muito rapidamente se torna insustentável. Podemos evocar ainda outros
dados para esta soma: publicada este ano, uma pesquisa da Rede Brasileira de
Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional afirmou que cerca de 19
milhões de brasileiros passaram fome nos últimos meses de 2020; a Pesquisa Nacional
por Amostra de Domicílios, publicada pelo IBGE em março, contabilizou 14,272 milhões
de pessoas em situação de desemprego; em pesquisa de 2020, o Instituto de Pesquisa

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Econômica Aplicada (IPEA) estimou cerca de 222 mil pessoas em situação de rua no
país. Todos apontam para o mesmo esgotamento de um modelo, de um sistema de
produção e de consumo, especulação e espetáculo. Voltamos para a outra questão:
como disputar a construção e operação de outras gramáticas de mundo? Como
imaginar outros futuros?

Será que já é possível perceber o impacto da pandemia de covid-19 no campo das


Artes e Culturas?

Começo a responder a entrevista hoje, dia 18 de abril, há uns tantos dias do seu envio
- e pelo atraso na resposta peço desculpas à Gabriela Canale, que fez esta proposição,
e às pessoas leitoras do boletim. Opto por começar a resposta por esta pergunta, muito
por reconhecer a importância dela para tecer esta entrevista. Segundo os dados
divulgados hoje por um consórcio de veículos de imprensa, contabilizamos hoje mais de
372 e tantos mil pessoas mortas pelo coronavirus. Talvez já seja possível encontrar este
impacto nas ausências… De toda forma, como mensurar a perda, o desperdício de
todas estas experiências? Como ponderar a amplitude dos impactos do isolamento, de
filas nos hospitais, das valas abertas, dos lutos não vividos?

Você consegue observar entre artistas o interesse pela flora e pela fauna?
Destacaria alguma/algum artista?

São muitas as obras de artistas que lidam com a flora e a fauna, com o ambiente e
natureza como tema ou mesmo de maneira incidental - seja por abordar determinado
sistema ou mesmo utilizar como matéria. Talvez o impossível seja não tangenciar este
debate, considerando a preponderância da reflexão, hoje, sobre os sistemas de
produção e circulação da arte, suas técnicas, materiais e processos. Durante a
faculdade de arte lembro de acessar as intersecções possíveis a partir do trabalho de
Andy Goldsworthy e, por outras vias, o trabalho de Gordon Matta-Clark, Ana Mendieta,
Victor Grippo, Ines Linke e Louise Ganz e do próprio Helio Oiticica. Talvez um dos
trabalhos que tenha me mobilizado de forma mais contundente, em especial quando
comecei as minhas próprias investigações, é o “Wheatfield - a confrontation”, da
estadunidense Agnes Denes. A obra é de 1982, mas o campo de trigo criado em um
aterro em plena Manhattan, nas proximidades das Torres Gêmeas, ainda segue potente,
abordando as questões da produção e consumo, do sistema financeiro e a fome -
questão que, aliás, segue urgente.

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Como foi o seu processo de criar obras de arte sobre plantas?

A mudança para Foz do Iguaçu durante o mestrado produziu um deslocamento físico e


subjetivo importante para a reflexão sobre a paisagem. Os trabalhos anteriores -
enxertias de roseiras, gravuras com mato e mofo e mesmo o trabalho fotográfico -
atravessavam questões de maneira mais dispersa. Investigar a paisagem através das
daninhas, do inço, das pragas no oeste paranaense tomou outra proporção e sentido -
a Itaipu, os campos de soja, a terra vermelha, o mato. Foi preciso, inclusive, para decifrar
aquela nova paisagem, e reconhecer a síndrome de Estocolmo do concreto de São
Paulo.

Você percebe algum impacto das ideias de Buen Vivir dos povos originários no
campo da Arte?

Talvez este impacto não seja reconhecível objetivamente, pois escapa às categorias do
que compreendemos ser o campo da arte (ou Arte, como colocado na pergunta). Como
não conceber como produções de sentido potentes as constituições da Bolívia e
Equador ou as disputas mais recentes da constituição chilena? Articulações
comunitárias, de solidariedade e partilha. A ética como elemento de beleza e sentido -
talvez justamente nestas reverberações podemos encontrar os ecos do Buen Vivir.

O sistema mundo que construiu a história canônica da arte ganha críticas


poderosas. Seu trabalho é um excelente exemplo disso. Seja por dissolver a ideia
de artista como gênio. Seja por dar conta de diferentes materialidades até pouco
tempo externas ao que se convencionou chamar de arte. Seja por abordar temas
historicamente invisibilizados como gênero. Nesse grande cosmos que compõe
seu trabalho é possível dizer que há espaço para a crítica ao sistema mundo que
aniquila material e simbolicamente as formas de vida não humana como as
plantas?

A pergunta me levou para um outro lugar: há seguramente esse debate crítico, mas fico
pensando também no exercício de encontrar instabilidades nas categorias, nas
palavras, e nelas a possibilidade de manuseio e criação de uma outra gramática,
mesclada — como o ch’ixi de Cusicanqui — e talvez estruturalmente transitória,
incompleta, amorfa, latente. Profanar os verbetes monolíticos — arte, artista, gênio,
matéria, sistema, etc. — e agenciar outras práticas. Lembrei de Agambem: a profanação
do improfanável é a tarefa política da geração que vem.

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Sobre o entrevistado

Bruno Oliveira é um artista visual e educador. Doutorando em Artes


Visuais pela Universidade Federal de Minas Gerais/UFMG, Mestre em
Estudos Interdisciplinares Latino-Americanos com a pesquisa
"Variantes sin contenido: geopolítica, especulação estética e visualidade
decolonial na América Latina", especialista em Arte Contemporânea
(Universidade Estadual de Minas Gerais) / UEMG). Participou de
exposições como a OsloBiennalen (Oslo/Noruega, 2019) BienalSur
(Tucumán/Argentina, 2017); Estação do Projeto (Paço das Artes, São
Paulo/Brasil, 2016); Programa de Exposição MARP (Ribeirão
Preto/Brasil, 2015 e 2016) e Impressões e Contaminações (Belo
Horizonte/Brasil, 2014). É pesquisador do MALOCA (Grupo de Estudos
Multidisciplinares em Urbanismo e Arquiteturas do Sul) e é atualmente
o coordenador da Casa 1 (São Paulo/Brasil), um abrigo para pessoas
LGBT expulsas de casa por serem quem são, e um centro cultural aberto
a todos, e também o coordenador, junto com Mônica Nador e Thais
Scabio, do JAMAC (São Paulo / Brasil).

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Gabriela Canale Miola é professora da área Artes no Instituto de Latino-
Americano de Arte, Cultura e História da UNILA.

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BOLETIM KULTRUN
ISSN: 2763-5066
PERIODICIDADE: trimestral
INSTITUIÇÃO: Universidade Federal da Integração Latino-Americana
E-MAIL: boletimkultrun@gmail.com
ENDEREÇO: Av. Tarquínio Joslin dos Santos, 1000
Lot. Universitário das Américas, Foz do Iguaçu, Paraná, Brasil. CEP: 85870-650
TELEFONE: +55 (45) 3576-7375 / 3576-7307

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