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UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA-UFBA

FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS-FFCH


PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS SOCIAIS - PPGCS

CARLA GALVÃO PEREIRA

RENOVAÇÃO COMO ESTRATÉGIA DE PRESERVAÇÃO:


ACM NETO E A TRADIÇÃO CARLISTA

SALVADOR
2014
CARLA GALVÃO PEREIRA

RENOVAÇÃO COMO ESTRATÉGIA DE PRESERVAÇÃO:


ACM NETO E A TRADIÇÃO CARLISTA

Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em


Ciências Sociais da Faculdade de Filosofia e
Ciências Humanas da Universidade Federal da
Bahia, como requisito parcial para a obtenção do
título de Doutora em Ciências Sociais.

Orientador: Prof. Dr. Paulo Fábio Dantas Neto

SALVADOR
2014
CARLA GALVÃO PEREIRA

TÍTULO: RENOVAÇÃO COMO ESTRATÉGIA DE PRESERVAÇÃO: ACM NETO E


A TRADIÇÃO CARLISTA

Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais


da Faculdade de Filosofia e Ciência Humanas da Universidade Federal da Bahia,
como requisito parcial para a obtenção do título de Doutora em Ciências Sociais.

Data de aprovação:

_____/_____/_____

Banca Examinadora:

_________________________________________
Prof. Dr. Paulo Fábio Dantas Neto (orientador)
(PPGCS/FFCH/ UFBA)

________________________________________
Prof.(a) Dra. Maria de Fátima Anastasia
(Programa de Pós Graduação em Relações Internacionais- PUC-MINAS)

________________________________________
Prof. Dr. Washington Luis de Sousa Bonfim
( Programas de Pós Graduação em Políticas Públicas e Sociologia - UFPI)

________________________________________
Prof. Dr. Alvino Oliveira Sanches Filho
(PPGCS/FFCH/ UFBA)

________________________________________
Prof. Dr. Valdemar Ferreira de Araújo Filho
(PPGCS/FFCH/ UFBA)
AGRADECIMENTOS

À FAPESB que me contemplou com uma bolsa de estudos para a realização da pesquisa de
doutorado durante três anos.

Ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais por toda minha formação durante os


últimos dez anos.

À Dôra, por sua competência. Sempre disposta a ajudar com sua infinita paciência. Todo meu
carinho e gratidão para você querida!

Aos funcionários do CRH, pela contribuição durante todo o trabalho.

Aos Funcionários da Câmara de Deputados, principalmente do setor de arquivos e taquigrafia


pela disponibilidade, apoio e competência que muito ajudaram na coleta dos dados.

Ao Chile e aos ares andinos, que nos últimos sessenta dias de muito frio, contribuíram para a
concentração e a inspiração necessárias para a conclusão deste trabalho.

A Danilo Moraes, que me ajudou com a pesquisa de campo, sobretudo com as fontes
jornalísticas.

À Professora Fátima Anastasia que, para além de ser referência teórica deste trabalho, aceitou
com muita gentileza e disponibilidade fazer parte da Banca Examinadora e seguramente terá
muito a contribuir com as discussões contidas nesta tese.

Ao Professor Washington Bonfim por também se colocar disponível em fazer parte da Banca
Examinadora da tese, de modo que certamente contribuirá com uma discussão sobre as elites
políticas estaduais no nosso Nordeste.

Ao professor Valdemar Araújo pelas sugestões dadas na Banca de Qualificação, pela


confiança depositada e pelos incentivos constantes, além de, claro, aceitar fazer parte da
Banca Examinadora dessa tese.
Ao professor Alvino Sanches, pelas ricas discussões no âmbito do grupo de pesquisa, por
aceitar fazer parte da Banca de Qualificação contribuindo muito com as sugestões para o
andamento do trabalho e, claro, por aceitar fazer parte da banca examinadora da tese. Ao
professor, agradeço ainda, pelos grandes ensinamentos durante a disciplina Análise de
Políticas Públicas, cuja bibliografia é parte importante da discussão de literatura apresentada
neste trabalho. Por fim, agradeço muito pelo acompanhamento de todo processo burocrático
relativo aos prazos e a vinda dos membros da Banca junto ao PPGCS-UFBA. Por tudo isso
Alvino, todo meu reconhecimento e gratidão. Muito obrigada!

Aos integrantes do Grupo de Pesquisa Instituições Políticas Subnacionais, pelas discussões e


trocas de conhecimento, professora Celina Souza, Paulo Fábio, Alvino Sanches, Valdemar
Araújo, Waneska Cunha, Priscila Caires, Mariana Carvalho, Iris Gomes e em especial aos
hoje mais que colegas, aos amigos queridos, Henrique Oliveira e Sara Fadigas. A você
Sarinha, obrigada pela disponibilidade de sempre, os vários favores, o carinho e incentivo
constantes.

Aos colegas de turma do doutorado, pelas discussões ao longo do curso. Em especial a


Antônio Mateus pela torcida e incentivo para à conclusão desse trabalho..

Ao colega de Graduação e Doutorado, hoje amigo, Theo, por toda aprendizagem na


convivência durante esses 15 anos, e especialmente pela emoção proporcionada durante a
defesa de sua tese, o que me deu muita força para continuar os trabalhos e acreditar que valia
a pena!

A todos meus alunos por terem suportado durante os últimos anos todos os meus exemplos
sobre ACM Neto e, sobretudo, pela curiosidade motivante e entusiasmada sobre este tema.

Às grandes amigas Carla Pellegrino, Luciana Luttigards, Tatiana Vanderlei, e Helga


Pellegrino, pelas vibrações positivas, o incentivo constante, a compreensão por minhas
ausências e pela ―torcida organizada‖ para a conclusão deste trabalho.

A toda a minha família, meus queridos avós, tios e primos, pelo incentivo e pelo carinho de
sempre. Em especial a minha querida avó pelas infinitas orações e a meu tio e amigo Mateus,
interlocutor muito importante deste trabalho, não só por sua grande admiração pelo objeto
empírico analisado nesta pesquisa, mas por sua inteligência e curiosidade instigante sobre o
tema.

Ao meu amado irmão-gêmeo Lúcio, literalmente pedaço de mim, que mesmo de longe, à sua
maneira, torceu muito para a conclusão deste trabalho. E com ele, agradeço à minha cunhada
querida Kátia Mendes pelo carinho, disponibilidade e incentivos constantes.

À minha sogrinha querida, Valdete Aguiar, pela preocupação carinhosa, pelos vários favores,
o apoio e a torcida cotidiana para a conclusão deste trabalho.

À companheira e madrinha Waneska, o que dizer? Mil vezes te agradeço. Obrigada por
durante todo esse período suportar minhas angústias, medos, por saber me ouvir e me dar
força sempre. Obrigada por acompanhar com paciência e atenção todas as mudanças que essa
investigação passou sempre acreditando que um dia eu conseguiria concluí-la! Nossas
discussões no grupo de pesquisa e principalmente fora dele me ajudaram muito. Sua
confiança, alegria e apoio foram fundamentais para que esse momento, enfim, chegasse. Só
nós duas sabemos os desafios desse espinhoso caminho! E além de tudo isso, ainda me ajudou
muito na fase final imprimindo a tese, encadernando, depositando as cópias nos Correios,
fotografando para me enviar, me acalmando e matando minha curiosidade!Enfim, minha
amiga, muito obrigada por tudo!

À minha amiga e também madrinha, Soraia Brito, pelo companheirismo de sempre. Esteve
comigo desde os estudos de francês aos árduos textos de Habermas para a seleção do
doutorado, assim como nos momentos mais difíceis de todo esse processo de elaboração da
tese. Mesmo que nos últimos tempos mais de longe, te agradeço por partilhar comigo as
dúvidas, o desânimo, a falta de confiança. Sei que sem você, sem suas cobranças, sua
confiança e principalmente sua força e sua energia tudo seria mais difícil ainda. E ainda leu
capítulo, corrigiu, sugeriu mudanças. Hoje, repito com mais certeza e amor, o que te disse
nos agradecimentos da monografia e depois da dissertação: Juntas somos mais fortes! Muito
obrigada por tudo minha Nêga!

Por fim, agradeço de maneira especial a três pessoas:


A Paulo Fábio, que além de fonte bibliográfica indispensável para esta pesquisa, devo grande
parte da minha formação acadêmica desde a graduação, com o PIBIC, até a orientação no
doutorado. Minha Eterna Gratidão! Apesar de todas as dificuldades do processo de
orientação, agradeço por todo tempo dispensado, pelo rigor, as ótimas sugestões e pela
revisão criteriosa do trabalho. Como um mestre, você será sempre um grande exemplo para
mim! Para, além disso, o que mais importa e que me orgulha muito, é a amizade de mais de
15 anos que construímos!

À minha mãe, que plagiando meu amigo Luis Flávio, sempre foi meu ―mai‖, mãe, pai e meu
maior alicerce. Obrigada pelo apoio constante, pelo carinho, pelas cobranças, e
principalmente por sempre acreditar em mim. Essa tese foi feita com o intuito de te retribuir,
pelo menos um pouquinho, tudo o que fez por mim ao longo da vida! Sei o quanto ela é
importante para você! Obrigada pelas orações e pela fé no Mestre Yogananda, que tanto me
influenciaram e ajudaram. Enfim, você é meu exemplo, minha principal fonte de inspiração e
orgulho! Amo você mãe!

A meu marido e companheiro, Rafael Arantes. Obrigada por ter dividido comigo durante estes
cinco anos essa enorme obrigação que era ter que fazer uma tese. Só nós dois sabemos o
quanto essa obrigação acabou ―pesando‖ em nossas vidas! E você foi compreensivo e me
ajudou muito na tessitura desse trabalho! Obrigada pelas infinitas cobranças, pelos puxões de
orelha, pelo exemplo de foco e disciplina, pela paciência, pela eterna confiança, por suportar
todas as minhas crises, desabafos, pelo incentivo de sempre, pela solidariedade. Mais
objetivamente, obrigada pela ajuda com as tabelas, os mapas, os quadros, as formatações, as
diversas leituras, as correções, traduções, ideias, discussões, enfim! E o mais importante de
tudo, obrigada pelo carinho, pelo colo, pelo Reiki, e pelas infinitas provas de amor e
companheirismo neste momento tão difícil. Com certeza essa tese não teria saído sem você,
por isso ela também é sua! Muito obrigada por tudo MEU AMOR!
RESUMO

O estudo trata da estratégia política de ACM Neto - atual prefeito de Salvador, Bahia -
durante os dez anos (2002-2012) anteriores à sua chegada à Prefeitura, quando por três vezes
exerceu o mandato de Deputado Federal pelo PFL, posteriormente, DEM. Vincula-se
teoricamente ao estudo da relação entre elites e instituições políticas em democracias
contemporâneas. Seu objetivo central foi responder à seguinte questão: em que a estratégia
política de ACM Neto se vincula e/ou se afasta da tradição do carlismo? Este vem a ser a
facção da elite política da Bahia de onde o personagem proveio, a qual deixava a posição de
elite governante estadual coetaneamente ao início da sua carreira política. Os focos de análise
são o perfil geográfico das votações de ACM Neto, as características de suas alianças políticas
e do campo político nacional em que se inserem e o repertório simbólico acionado na
construção de imagem e na formulação do discurso do ator em questão. A comparação se dá
com análogos elementos, previamente atribuídos, da tradição carlista. Buscou-se, assim,
compreender se a atuação de ACM Neto, virtualmente ligada ao seu êxito eleitoral e político,
importou numa apropriação do espólio eleitoral da facção da elite política baiana da qual
provém, numa continuidade das suas estratégias e alianças e numa mobilização do seu
repertório simbólico ou se, em lugar disso, ele protagonizou uma atuação política distinta. A
conclusão é a de que a estratégia política renova a tradição como forma de preservá-la.

Palavras Chave: ACM Neto; carlismo; estratégia política; tradição; elites; instituições
políticas; geografia do voto; alianças políticas e repertório simbólico.

ABSTRACT

The study analyses the political strategy of ACM Neto - current mayor of Salvador, Bahia -
during the ten years (2002-2012) before his arrival at City Hall, when has exercised for three
times the mandate as a federal deputy by PFL, subsequently, DEM. It binds theoretically to
the study the relationship between elites and political institutions in contemporary
democracies. Its main objective was to answer the following question: in which aspects the
political strategy ACM Neto binds and / or got away from the tradition of carlismo? This
group is the faction of the political elite of Bahia where the character came from, which lost
the position of elite at the state government concomitantly to the beginning of his political
career. The foci of analysis are: the geographic profile of voting in ACM Neto, the
characteristics of his political alliances and the national political field in which they operate
and, also, the symbolic repertoire triggered in image building and in the formulation of the
speech of this actor. A comparison is made with similar elements, previously assigned, of the
Carlist tradition. We sought to, therefore, understand if the role of ACM Neto, virtually linked
to his electoral and political success, was based on an appropriation of the electoral estate of
this political elite, on a continuation of its strategies and alliances and, also, on mobilization
of its symbolic repertoire or if, instead, he starred in a distinct political action. The conclusion
is that the political strategy renews the tradition as a way to preserve it.

Keywords: ACM Neto; carlismo; political strategy; tradition; elites; political institutions;
geography of the vote; political alliances and symbolic repertoire.
LISTA DE TABELAS

Tabela I: Deputados Federais Eleitos - Bahia, 1994................................................................. 58


Tabela II: Deputados Federais Eleitos – Bahia, 1998 ............................................................ 60
Tabela III: Quantidade de votos e percentual sobre os votos válidos dos votos nominais nos
deputados federais eleitos na Bahia em 1994 e 1998 (Carlismo e Oposições) ....................... 61
Tabela IV: Deputados Federais Eleitos – Bahia, 2002 .......................................................... 63
Tabela V: Municípios que mais contribuíram para a votação total de ACM Neto, 2002 ........ 70
Tabela VI: Deputados Federais Eleitos – Bahia, 2006 .......................................................... 80
Tabela VII: Municípios que mais contribuíram para votação total de ACM Neto, 2006 ........ 85
Tabela VIII: Deputados Federais Eleitos – Bahia, 2010 ...................................................... 923
Tabela IX: Municípios que mais contribuíram para a votação total de ACM Neto, 2010 .... 102
Tabela X: Evolução da votação no PFL-DEM, 2002-2010 ................................................. 104
Tabela XI: Temas de Pronunciamentos de ACM NETO em Plenário (2003-
2006).......................................................................................................................................113

Tabela XII: Temas de Pronunciamentos de ACM Neto em Plenário (2007-2010)................129


Tabela XIII: Temas de Pronunciamentos de ACM Neto em Plenário (2011-2012) ............. 137
Tabela XIV: ACM Neto – Discursos em Plenário, por
mandato................................................................................................................................. 144

Tabela XV: Emendas de ACM Neto à LOA por setor de Execução (2004-2013)................ 152
Tabela XVI: Distribuição de Emendas ao Orçamento propostas por ACM Neto (2007-2010)
pelos municípios onde se concentrou sua votação em 2006 e em
2010..................................................................................................................................... 162

Tabela XVII: Emendas Orçamentárias (2007-2010) e Municípios que não contribuíram com
mais de 1% para a votação de ACM Neto em 2002, 2006 e
2010.........................................................................................................................................168
LISTA DE QUADROS

Quadro I: Candidatos eleitos pelo PFL nas eleições de 1994-1998-2002, por ordem
decrescente de votação ......................................................................................................... 73
Quadro II: Mudanças e Permanência na Base Eleitoral de ACM Neto, 2002-2006 ............... 87

Quadro III: Candidatos eleitos pelo PFL nas eleições de 2002-2006, por ordem decrescente de
votação ................................................................................................................................ 88

Quadro IV: Candidatos eleitos pelo PFL/DEM nas eleições de 2006-2010, por ordem
decrescente de votação ......................................................................................................... 95

Quadro V: Mudanças e Permanências de municípios no grupo de concentração de votos na


Base Eleitoral de ACM Neto, 2006-2010 ........................................................................... 103

Quadro VI: Temas dos Discursos em plenário do Deputado ACM Neto, 2003-2012
.................................................................................................................................................112
LISTA DE MAPAS

Mapa 1: Geografia do Voto de ACM Neto, 2002 - Votos Nominais ..................................... 65


Mapa 2: Geografia do Voto de ACM Neto, 2002 – Dominância ........................................... 67

Mapa 3: Municípios que mais contribuíram para votação total de ACM NETO, 2002 .......... 69

Mapa 4: Geografia do Voto de ACM Neto, 2006 - Votos Nominais .................................... 82

Mapa 5: Geografia do Voto de ACM Neto, 2006 - Dominância ........................................... 83

Mapa 6: Municípios que mais contribuíram para votação total de ACM NETO, 2006 ......... 84

Mapa 7: Geografia do Voto de ACM Neto, 2010 - Votos Nominais .................................... 98

Mapa 8: Geografia do Voto de ACM Neto, 2010 – Dominância ........................................... 99

Mapa 9: Municípios que mais contribuíram para votação total de ACM NETO, 2010 ........ 101
SUMÁRIO

INTRODUÇÃO .................................................................................................................. 14
Contextualização do Objeto e Justificativa ......................................................................... 15
A Problemática de Investigação .......................................................................................... 19
A estratégia de pesquisa - variáveis e procedimentos metodológicos.....................................30

A estrutura da tese............................................................................................................... 32
CAPÍTULO 1: O ―CARLISMO‖: DE UMA BREVE PERSPECTIVA HISTÓRICA À
SÍNTESE DE SUAS PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS ............................................. 34
1.1 Carlismo e sua gênese histórica .................................................................................... 35
1.2 Carlismo como de fazer política........................................................................................47

CAPÍTULO 2: PERFIL ELEITORAL DE ACM NETO (2002-2010) ............................ 55


2.1 O desempenho eleitoral do carlismo nas eleições de 1994 e 1998 ................................. 56
2.2 O desempenho do carlismo e do PFL: o contexto político das eleições de 2002 ............ 62
2.3. Caracterização do perfil eleitoral de ACM Neto em 2002 ............................................ 66
2.4 Caracterização do perfil eleitoral de ACM Neto em 2006 ............................................. 79
2.5. Caracterização do perfil eleitoral de ACM Neto em 2010 ............................................ 91
2.6. Considerações finais sobre o Perfil eleitoral de ACM Neto 2002-2010 ...................... 104
CAPÍTULO 3: ESTRATÉGIA POLÍTICA DE ACM NETO NA CÂMARA DOS
DEPUTADOS (2003-2012) .............................................................................................. 109
3.1 Atuação Parlamentar – discursos em plenário ............................................................ 110
3.1.1 Pronunciamentos em Plenário (2003-2006) ............................................................. 113
3.1.2 Pronunciamentos em Plenário (2007-2010) ............................................................. 128
3.1.3 Pronunciamentos em Plenário (2011-2012) ............................................................. 136
3.1.4 Características gerais dos pronunciamentos em plenário de ACM Neto, nos três
mandatos ........................................................................................................................... 144
3.2 Atuação parlamentar – apresentação de emendas ao orçamento ................................ 150
3.2.1 Perfil geográfico da votação e proposição de Emendas Orçamentárias ................... 160
3.3. Sentido da estratégia política na Câmara dos Deputados (2003-2012)....................... 170
CAPÍTULO 4: ESTRATÉGIA POLÍTICA DE ACM NETO EM CAMPANHAS
ELEITORAIS (2002-2012) .............................................................................................. 174
4.1 As campanhas para Deputado Federal (2002, 2006 e 2012) ................................... 18577
4.2 As campanhas de ACM Neto para Prefeito de Salvador (2008 e 2012) ....................... 185
4.2.1. A campanha de 2008 ............................................................................................... 185
4.2.2. A campanha de 2012 ............................................................................................... 196
4.3 Breve síntese da construção de imagem e dos apelos e discursos de ACM Neto (2002-
2012) ................................................................................................................................. 205
CONSIDERAÇÕES FINAIS ........................................................................................... 208
ANEXO 1: DISCURSO DE DESPEDIDA DE ACM NETO DA CÂMARA DOS
DEPUTADOS, 2012 ......................................................................................................... 219
ANEXO 2: DISCURSO DE POSSE DE ACM NETO COMO PREFEITO DE
SALVADOR, 2013 ........................................................................................................... 225
REFERÊNCIAS ............................................................................................................... 230
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INTRODUÇÃO
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Este trabalho analisa as estratégias de um ator político no cenário baiano e nacional,


Antônio Carlos Peixoto de Magalhães Neto (ACM Neto), e sua relação com a tradição do
grupo que se constituiu por muitos anos em elite política dominante no Estado da Bahia,
comandada pelo forte poder pessoal de seu avô, Antônio Carlos Magalhães (ACM).

Considerando o peso dessa tradição, o presente trabalho tem como objetivo central
analisar em que aspectos a estratégia política de ACM Neto - estudada sistematicamente (mas
não exclusivamente) a partir de suas campanhas para deputado federal nas eleições de 2002,
2006 e 2010 e nos três respectivos mandatos que exerceu a partir delas – se vincula e/ou se
afasta das características do grupo político carlista, em termos da utilização do seu repertório
simbólico, da manutenção das suas alianças políticas e da apropriação do seu espólio eleitoral.
Sob este pano de fundo analítico este trabalho tem como objetivos específicos: a) reconstruir
historicamente a trajetória de ACM Neto; b) caracterizar o padrão da sua votação nas
referidas eleições; c) analisar a sua atuação parlamentar nos três mandatos; e d) verificar a
formulação de discurso e seus principais apelos de campanhas nas eleições de 2002, 2006 e
2010 para Deputado Federal e nas de 2008 e 2012 para a Prefeito de Salvador1.

Contextualização do Objeto e Justificativa

―Carlismo‖ é um termo utilizado para designar o grupo formado


no Estado da Bahia em torno da forte liderança de Antônio Carlos Magalhães (1997-2007)
que, durante algumas décadas, foi o político mais importante do Estado e um dos mais
influentes do Brasil. Segundo Dantas Neto (2006), deve-se pensar o carlismo não apenas
como um grupo político, mas como uma ―política‖, ou um modo de fazer política. Em sua
interpretação, o carlismo constituiu-se como a versão baiana da modernização conservadora
brasileira, isto é, uma versão regional de um mix de modernização econômica e
conservadorismo político que, embora com variações de estilo e nas suas bases sociais, foi
uma fórmula hegemônica na maior parte da história republicana brasileira, sob diferentes
regimes políticos.

1
Utilizou-se complementarmente discursos e apelos das campanhas de ACM Neto para o Executivo Municipal
de Salvador porque nas campanhas majoritárias os aspectos da estratégia aqui analisados sobressaem e ganham
mais relevância midiática tornando mais fartas as fontes de pesquisa.
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Através da análise dos discursos de ACM enquanto Governador da Bahia em dois


períodos distintos (entre 1971 e 1975, regime militar, e entre 1991 e 1995, já no período
democrático), feita por essa autora em outra oportunidade, identificou-se que um dos marcos
da estratégia de modernização conservadora do carlismo foi a combinação de práticas
clientelistas com o uso da gramática política do insulamento burocrático (NUNES, 1997).
Consistiu também em um discurso regionalista que sempre esteve presente na estratégia
política de ACM enquanto instrumento de construção de sua imagem pessoal de político
defensor dos interesses do Nordeste e, sobretudo, da Bahia. Assim, tanto no autoritarismo
quanto na democracia, ACM utilizou o discurso regionalista, vinculando-o a um requerimento
de modernização, conforme visto no trabalho mencionado.

Em função desses elementos, o desenvolvimento das instituições políticas


democráticas, nos anos 90, não anulou o papel protagonista dessa elite na Bahia, mas passou a
redefinir sua atuação. Neste momento em que, teoricamente, o papel dos partidos deveria ser
maior, na Bahia mantinha-se o protagonismo da elite carlista, adaptado às novas regras.

Levando em consideração a importância da tradição carlista – a ser adiante


apresentada em suas principais características - na política baiana, acredita-se que analisar a
trajetória e as estratégias políticas de ACM Neto significa também buscar compreender o
processo de transformação/adaptação desta elite política na Bahia, agora em um novo
contexto das correlações de força da política regional e nacional.

Em 2002, quando se elegeu pela primeira vez deputado federal, ACM Neto tinha
apenas três anos de vida política, vividos como assessor do Secretário Estadual de Educação.
Nesse momento, segundo Dantas Neto (2007), o carlismo já estava em processo de declínio,
pois desde 2001 ACM não comandava mais o seu próprio grupo de modo unipessoal. As
decisões mais importantes do grupo carlista já eram tomadas mediante tensões, conflitos e
acordos políticos em sua cúpula. E se, nos últimos anos do regime militar e durante os anos
90 o carlismo era, por assim dizer, a elite política estadual e o grupo ocupava todo o espaço
dessa elite dentro e fora do governo, desde ao menos o ano de 2001, que, na Bahia, já havia
um formato bipolar de competição política, tendo já despontado o PT (Partido dos
Trabalhadores) como núcleo partidário aglutinador de um heterogêneo campo anti-carlista.
Também já fazia parte do passado o tempo em que os segmentos sociais de influência sobre o
poder político na Bahia estavam quase todos articulados exclusivamente aos carlistas. Tempo
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em que o senador ACM dirigia o grupo verticalmente, hierarquicamente, concentradamente,


personificadamente, apenas com a parceria do seu filho, Luiz Eduardo Magalhães. Nos anos
2000, mesmo quando afinal fazia prevalecer suas posições, ACM ao menos teve que passar a
considerar as posições de outros integrantes do grupo como Paulo Souto, Antonio Imbassahy
e José Carlos Aleluia.

Embora em processo de declínio, em 2002 o carlismo ainda se constituía como uma


forte facção da elite regional, fato exemplificado pela vitória dos seus candidatos a
governador e para as duas vagas no Senado nas eleições daquele ano, quando ACM Neto, em
sua primeira candidatura, foi eleito como o deputado federal mais votado do Estado.

Em 2006, o declínio do carlismo tem um momento crucial marcado pela derrota do


seu candidato ao Governo do Estado (surpreendente, já que este liderava com folga as
pesquisas de intenção de voto) e ao Senado. Houve, nesse sentido, uma reconfiguração do
arranjo das forças políticas na Bahia formando-se um novo cenário de competição política
com a crescente influência de Luiz Inácio Lula da Silva, eleito presidente em 2002, e do PT
na política baiana. Mesmo diante desse contexto, ACM Neto foi reeleito deputado federal e
mais uma vez como o mais votado no Estado.

Em 2007, o carlismo perdeu seu líder mais importante. Lembra Dantas Neto (2007),
que Antonio Carlos Magalhães morreu já fora do poder — em Brasília e na Bahia — e que
seu espólio político passara a ser parcialmente gerenciado por seus correligionários ainda com
ele vivo. A despeito desse refluxo do grupo, em 2008, nas eleições municipais para Prefeitura
de Salvador, ACM Neto liderou boa parte das eleições e foi o terceiro candidato mais votado,
obtendo cerca de 27% dos votos válidos, o que correspondeu a 346.881 mil votos. Nesta
eleição, o seu discurso de pré-lançamento de campanha evidencia de forma bastante
ilustrativa marcos importantes do modo de fazer política do carlismo, como a defesa da
modernização, do choque de gestão e da moralização da máquina pública:

Agir no presente de olho no futuro para que, em médio prazo, tenhamos em


Salvador uma cidade referência na América Latina. Referência em qualidade de
vida, em saúde, em segurança e em investimentos públicos e privados que
requalifiquem a nossa Capital [...] Salvador não encontrará o caminho da
modernidade caso se limite, nessas eleições, a um debate entre o presente e o
passado. É preciso olhar para frente, garantir o futuro, e fazer renascer a
esperança para as futuras gerações. [...] Para governar a cidade será preciso,
portanto, visão moderna. Será preciso capacidade e ousadia para fazer uma
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verdadeira revolução no modo de administrar. Quero, nesse sentido, fazer uma


convocação especial aos jovens como eu, de todos os recantos da cidade, para que
venham participar desse projeto, que fortaleçam a nossa caminhada com sua
ousadia, sua capacidade de questionar e com seu desejo de crescer construindo a
Salvador do futuro. [...] Mas para que Salvador volte à sua vocação natural de cidade
do mundo, precisamos pôr ordem na casa. Primeiro, é necessário um choque de
gestão. Isso significa restabelecer a credibilidade e autoridade da Prefeitura.
Organizar as contas públicas. Adequar a máquina administrativa às reais condições
financeiras do município [...] Nesse momento, tratando do futuro da nossa cidade, eu
quero fazer uma homenagem especial ao meu avô, Antonio Carlos Magalhães. A ele
que não por acaso se tornou o ―Prefeito do Século‖ de Salvador. Ganhou esse título,
sobretudo, porque revolucionou o traçado urbano de nossa cidade, abrindo as
avenidas de vale ao implantar, na segunda metade dos anos 60, o Plano Mário Leal
Ferreira. É do ímpeto revolucionário do prefeito ACM que precisamos – e com
certeza iremos nos inspirar para transformar a Salvador do século 21. Para isso, é
preciso pensar a cidade de forma diferente, como ele pensou. (Discurso de ACM
Neto no Lançamento da Pré-Candidatura à Prefeito de Salvador, em 20 de março de
2008).

Ainda que fazendo referência direta à figura do seu avô nesse pré-lançamento, para
além de temas tradicionalmente caros ao carlismo, durante a campanha, ao ser apontado pelos
adversários como herdeiro desse modo de fazer política, ACM Neto mobilizou a tradição
desse grupo político com bastante cautela, afirmando que ele estava em processo de
transformação, que havia marcas importantes do grupo que deviam ser preservadas e servir de
exemplo, mas que não se poderia esperar que fosse naquele momento o que fora no passado.

Vários veículos de comunicação, inclusive, avaliaram que naquelas eleições ACM


Neto tentou dissociar sua imagem pública do carlismo e mesmo de práticas políticas de seu
avô. Ao longo dos últimos dois anos anteriores, políticos carlistas haviam migrado para a base
do governo estadual, de modo que as eleições de 2008 foram disputadas em um contexto no
qual circulava entre políticos e na mídia especializada o questionamento sobre ―o fim do
carlismo‖. A despeito dessas especulações, o resultado das eleições municipais de 2008 na
Bahia apontou para a conformação de uma tripolarização política, conformada pelas seguintes
forças: o PT (ascendente desde 2002 e agora no Governo), o PFL, uma força tradicional,
embora com peso abalado e o PMDB, polarizado pela influência do então ministro da
Integração Nacional Geddel Vieira Lima. (DANTAS NETO, 2010)2.

Os resultados das eleições de 2010 não confirmaram, para a política estadual, a


tripolarização apontada pelas eleições municipais de 2008. Ao contrário, os resultados

2
Foi nesse período que surgiu a primeira motivação para empreender essa pesquisa, que ao longo do seu
processo ainda acompanhou a atuação de ACM Neto nas eleições de 2010 para a Câmara dos Deputados e 2012
novamente para a Prefeitura de Salvador, da qual saiu como prefeito eleito da cidade para o mandato 2013-2016.
P á g i n a | 19

apontavam para a consolidação de nova situação dominante na política baiana, agora


conformada em torno do PT (DANTAS NETO, 2010). Nesse contexto de consolidação da
força política de Lula e do PT no Brasil e na Bahia (com a reeleição do governador e a vitória
dos dois candidatos a senador da coligação, além da eleição de Dilma Roussef, sucessora de
Lula), ACM Neto, embora tenha perdido cerca de 100 mil votos, foi mais uma vez o deputado
federal mais votado do Estado.

Já com a presente pesquisa iniciada, ACM Neto candidatou-se novamente, em 2012,


a prefeito de Salvador, colocando-se como oposição ao governador Jaques Wagner, em um
momento em que a gestão do PT no Estado era mal avaliada pelos soteropolitanos. Elegeu-se
com esse mote principal e também por fatores outros a serem comentados no capítulo 4.

Em suma, a observação do desempenho ascendente de ACM Neto nas eleições de


2002, 2006 e 2010, levando em consideração o momento em que vivia o grupo político
carlista, gerou grande interesse em estudar as estratégias políticas deste ator, convertendo-se
na principal justificativa para o estudo desse fenômeno em sua relação com a tradição carlista.
As suas estratégias nas eleições de 2008 e, sobretudo, sua vitória em 2012, só fortaleceram o
interesse e importância deste trabalho.

A Problemática de Investigação

Além das questões de ordem empírica e de trajetória, o presente trabalho está


vinculado teoricamente ao estudo da relação entre elites e instituições políticas nas
democracias contemporâneas.

Peres (2008), ao analisar o desenvolvimento da Ciência Política desde os primeiros


decênios do século XX, aponta questões centrais na demarcação teórica dessa ciência: o
comportamento dos atores é determinado por alguma racionalidade endógena ou, de maneira
inversa, por algum tipo de restrição exógena, configurada pelo arranjo institucional que
delimita o contexto de decisão? Em outras palavras, as decisões políticas são resultados de
que? Apenas de indivíduos que agem isoladamente e de forma egoísta, ou são processos que
são determinados por instituições que regulam as escolhas? Ao apresentar as respostas
existentes na literatura quanto a tais questões, o autor interpreta que o paradigma então
hegemônico da Ciência Política, o ―neo-institucionalismo‖ reduz radicalmente as variáveis
P á g i n a | 20

explicativas fundamentais, concentrando-se quase que exclusivamente no desenho


constitucional e nas regras que presidem o jogo político. Conforme argumenta:

[...] a ideia básica que serve de núcleo epistemológico e metodológico das análises
atuais acerca dos fenômenos políticos é a de que os atores respondem estratégica e
moralmente a um conjunto de regras formais ou informais que são circunscritas às
instituições. Estas moldam, condicionam ou induzem os atores a agirem e a
decidirem de determinada maneira e acabam, assim, explicando grande parte do que
ocorre na dinâmica da política. (PERES, 2008, p.5)

De acordo com Hall e Taylor (2003), pode-se falar, atualmente, do institucionalismo


histórico, do institucionalismo da escolha racional e do institucionalismo sociológico. Essas
versões buscam explicar o papel desempenhado pelas instituições na determinação de
resultados sociais e políticos. Destaca-se, para os objetivos deste trabalho, a compreensão do
institucionalismo histórico.

Como se sabe, essa perspectiva define instituição como procedimentos, protocolos,


normas e convenções oficiais e oficiosas inerentes à estrutura organizacional da comunidade
política ou da economia política, associando as instituições às organizações e às regras ou
convenções editadas pelas organizações formais. Dando importância às relações de poder
assimétricas e o modo como as instituições repartem o poder, os autores do institucionalismo
histórico também compartilham de uma concepção particular do desenvolvimento histórico,
ao se tornarem fortes defensores de uma causalidade social dependente da trajetória
percorrida (path dependency) que permite mostrar como a situação política anterior interfere
na nova condição. Nesse caso, as instituições aparecem como integrantes relativamente
permanentes da paisagem da história assim como um dos principais fatores que mantém o
desenvolvimento histórico sobre um conjunto de trajetos. Em geral, é raro que esta corrente
afirme que as instituições são o único fator que influencia a vida política, pois busca situá-las
numa cadeia causal que deixa também espaço para outros fatores, em particular os
desenvolvimentos socioeconômicos e a difusão de ideias (HALL E TAYLOR, 2003).

Ainda que esta compreensão das instituições seja fundamental, outros elementos
também se colocam como relevantes. Ao também analisar o objeto de investigação da Ciência
Política, Marenco (2008) aponta que o estudo das elites políticas configurou-se como a
preocupação central desta ciência do século XX, mas não tem feito mais parte das suas das
P á g i n a | 21

principais discussões, que, como aponta Peres (2008), atualmente tem focado suas análises no
peso das instituições.

De acordo com Perissinoto e Codato (2008) uma das razões que esteve na origem do
desinteresse pelo tema das elites políticas está no surgimento de novas perspectivas teóricas e
novos programas empíricos de pesquisa, cujas indagações não mais conferiam às elites
políticas e sociais um lugar central. Os autores apontam que o arrefecimento da preocupação
dos cientistas sociais pelo tema das elites deve-se, em essência, às críticas formuladas a partir
de três perspectivas bem distintas: o estruturalismo marxista, o institucionalismo de escolha
racional e a sociologia relacional de Pierre Bourdieu. Segundo eles, tais críticas são
contundentes e, não raro, convincentes. Os autores não acreditam, porém, que aceitar essas
perspectivas implique necessariamente o abandono das elites políticas como objeto de estudo
importante para a Ciência Política e a Sociologia Política.

Nesse aspecto, pode-se destacar algumas produções bibliográficas no âmbito do


estudo das elites políticas, como as de Bachrach (1980), Grynszpan (1996), Heinz (2006),
Codatto (2008) e Perissinotto (2009) entre outras, que buscam compreender a dinâmica e a
configuração das elites nas instituições poliárquicas contemporâneas. Segundo Gryszpan:

[...] o elitismo, em que pese às especificidades dos autores reconhecidos como seus
principais formuladores — os italianos Gaetano Mosca e Vilfredo Pareto —, seu
argumento central, apresentado como descoberta científica, era o de que em
qualquer sociedade, em qualquer grupo, em qualquer época ou lugar, havia sempre
uma minoria, uma elite que, por seus dons, e sua competência e seus recursos, se
destacava e detinha o poder, dirigindo a maioria. Esta era uma lei sociológica
inexorável, que nem mesmo o mecanismo do sufrágio universal era capaz de
romper. Pelo contrário, o que a adoção do sufrágio universal e a crença nos
princípios sobre os quais se apoiava — os da igualdade entre os homens e da
soberania popular — produziam era a legitimação do mando da minoria, cujos
desígnios passavam a ser aceitos como expressão da vontade autônoma das amplas
maiorias. Do século XIX aos dias de hoje, a teoria das elites experimentou diversas
mudanças, foi alvo de sucessivas reinterpretações, foi apropriada de maneiras
distintas. (GRYSZPAN, 1996, p.11-12)

A despeito dessa diversidade presente na que ficou conhecida como ―teoria das
elites‖, os diferentes autores convergiram para a compreensão de que se conformou enquanto
uma regularidade histórica a situação em que uma minoria governa e a maioria é governada.
Compreendendo-as como premissa analítica e mesmo como lei sociológica, esta teoria
considera a supremacia das elites como diagnóstico da política real.
P á g i n a | 22

Ao longo do século XX, a discussão sobre a teoria das elites deu lugar à crítica da
teoria da democracia clássica. Joseph Schumpeter foi um ator importante nesse contexto, já
que partiu da premissa da existência do domínio das elites e ―mesclou‖ com a
institucionalização da democracia, como ele diz, enquanto sistema político onde o que existe
de fato é um ―mercado‖, onde os eleitores são chamados a escolher suas elites dirigentes.
Configurou-se assim o chamado elitismo competitivo, que na contemporaneidade é uma
junção (empírica) entre o realismo da existência das elites políticas e as regras do jogo
democrático. Assim como Shumpeter, Giovanni Sartori e Robert Dahl também são autores
que ―atualizaram‖ a teoria das elites, o primeiro com a ideia da democracia vertical e este
último com a compreensão de poliarquia. Sobre a poliarquia, Dahl, partindo do suposto de
que nenhuma sociedade poderia ser plenamente democrática formalmente, propôs um método
procedimental que avaliasse os graus e níveis de democratização. Ou seja, há a ideia de que
vários grupos influenciam o poder e, assim, institucionalmente faz-se necessário uma
compatibilidade de interesses entre os vários grupos, e isso dependerá do grau de conflito,
numa sociedade competitiva e inclusiva politicamente.

Partindo da discussão sobre o estudo das elites, Marenco (2008) se questiona sobre
qual teria sido a razão da ―perda de audiência‖ deste tema no âmbito da Ciência Política; se
em função do esgotamento dos debates canônicos, dos impasses de cunho metodológico ou
em função das análises da composição e recrutamento de elites políticas terem pouco a
oferecer para a compreensão da dinâmica social, estabilidade e mudança das instituições. De
forma bem resumida, ele conclui que os estudos sobre elites políticas entraram num ―beco
sem saída‖ por centrarem seus esforços quase que exclusivamente na conclusão de que as
minorias governam, mesmo em democracias contemporâneas.

Diante desta discussão, o autor propõe explorar o enfoque analítico dos estudos das
elites políticas para enfrentar o desafio posto pela teoria de instituições à teoria
institucionalista3. Dessa forma, o autor salienta que os estudos da composição, recrutamento e

3
De acordo Diermeier e Krehbiel (2003 apud Marenco, 2008), a teoria de instituições, diferentemente do que
chamam de teoria institucionalista, procura oferecer uma solução ao desafio de explicar a formação institucional.
Enquanto a teoria institucionalista deduz comportamentos e resultados a partir dos constrangimentos fixados por
uma determinada configuração institucional, a teoria de instituições enfatiza a explicação do motivo pelo qual
algumas configurações institucionais são formadas e mantidas, enquanto outras não existem ou são instáveis. A
solução deste dilema é a compreensão da origem das estruturas institucionais, ou seja, como instituições se
tornam instituições.
P á g i n a | 23

circulação do interior de elites políticas oferecem bons indicadores para se compreender como
as ―instituições tornam-se instituições‖ (MARENCO, 2008, p. 20).

Perissinoto (2009) também ressalta a importância dos estudos sobre as elites


políticas. De acordo com o autor, as características das elites importam para a explicação das
decisões políticas. Ele salienta ainda a relevância do estudo das elites para a compreensão dos
momentos de mudança histórica:

Em momentos de mudança substancial das estruturas sociais, as elites políticas são


fundamentais para explicar o processo de construção de novas instituições, de novos
modelos de acumulação econômica, enfim, para explicar as escolhas que afetarão,
por muito tempo, os destinos de uma nação. [...] Pesquisar as elites políticas pode
ser importante também para o entendimento das mudanças na estrutura social ao
longo da história de uma comunidade.(PERISSINOTO, 2009, p.196)

Em convergência com os argumentos de Marenco (2008) e Perissinoto (2009), este


trabalho considera importante o estudo da relação entre elites e instituições e nesse sentido
busca compreender como um ator, membro/herdeiro de uma elite política longeva numa
unidade subnacional se move diante das regras do jogo democrático em diferentes contextos
das correlações de força (situação/oposição) dentro do cenário político estadual e federal.
Interessa ao trabalho analisar dois aspectos que podem ter contribuído para seu desempenho
eleitoral: o peso da sua incorporação à elite carlista e sua ação institucional enquanto
deputado federal, tomando também como referência a sua relação com os partidos políticos.

Com a colaboração de Abraham Kaplan, em sua obra Poder e Sociedade Lasswell


(1984) define as elites políticas como pessoas, partidos, grupos que estão no comando ou que
têm influência sobre instâncias decisórias da política. Este trabalho, dessa forma, trata da
compreensão sobre elites de uma maneira ampla, ou seja, constituem não só o pessoal de
governo, mas as lideranças políticas e os grupos de influência, ou seja, são aqueles que, em
alguma medida, interferem na agenda política.

Relaciona-se, portanto, neste trabalho essa compreensão sobre elites políticas com a
perspectiva do institucionalismo histórico, em especial a sua compreensão de instituições, o
peso das regras nas decisões dos atores políticos e a causalidade social dependente da
trajetória percorrida. No que se refere à trajetória do ator político ACM Neto enquanto parte
de uma elite regional, pode-se discutir mais especificamente sobre como algumas instituições
P á g i n a | 24

podem ter influenciado suas ações. Destacam-se aqui como relevantes as regras de
funcionamento do Legislativo em sua relação com o Executivo e as regras dos sistemas
eleitoral e partidário. Esses focos são a seguir ressaltados ao se visitar, de modo breve e
seletivo, a literatura que lhes corresponde porque, no presente trabalho, a estratégia de um ator
está sendo analisada justamente em suas dimensões parlamentar (no plano federal) e eleitoral.

No âmbito das relações entre Executivo e Legislativo, no plano federal, ressalta um


presidencialismo muito forte, em termos legislativos, administrativos e distributivos.
Interferem nesse processo uma forma federativa de Estado, um sistema pluripartidário e um
sistema eleitoral com voto proporcional. A despeito de uma perspectiva mais tradicional na
literatura, que considerava como derivado dessas características gerais do sistema político
brasileiro um padrão conflitivo entre os poderes e uma ingovernabilidade causada pela
existência de múltiplos (e indisciplinados) partidos, autores revisionistas, como Palermo
(2000), Limongi e Figueiredo (1998) afirmam que o Brasil é governável, pois tem a
concentração de poder decisório no Executivo e os instrumentos do legislativo à disposição do
Presidente. Estes elementos devem ser entendidos como incentivo para alterar a disposição
dos congressistas fazendo-os cooperar para os interesses do Executivo ajustando seus passos
ao poder de agenda do presidente. Neste contexto institucional, o presidente conta com os
meios para induzir os parlamentares à cooperação. Da mesma forma, a melhor estratégia para
os parlamentares obterem recursos visando retornos eleitorais é votar disciplinadamente. Sob
este arranjo, há um alto grau de aprovação de agenda do governo o que sinaliza a sua forte
preponderância sobre um Congresso que é cooperativo e disciplinado.

Como pensar, então, o espaço de atuação de um parlamentar federal de oposição,


como foi ACM Neto? Restaria ter uma conduta reativa e defensiva tendo como horizonte a
mera sobrevivência de sua carreira parlamentar? Ou sua condição de parlamentar
oposicionista num Congresso que coopera fortemente com o Executivo pode ser conciliada
inclusive com projetos políticos majoritários a nível subnacional? Essas interrogações nos
remetem à continuidade do argumento de Figueiredo e Limongi (1998), agora quando
enfocam o papel dos partidos, argumento pelo qual se sugere que não estaria disponível ao
ator político ACM Neto a opção estratégica (que um dia foi a do seu avô) de colocar-se,
enquanto quadro de destaque de uma elite estadual, acima ou à parte de um enquadramento
partidário nacional .
P á g i n a | 25

Sob a perspectiva dos autores citados os partidos cumprem um papel relevante de


ponte entre o Executivo e o Legislativo no Brasil. Haveria uma importante disciplina
partidária no Congresso Nacional, os atores seriam mais sólidos e com maior capacidade tanto
para vetar quanto para negociar. Segundo eles a disciplina partidária contribui para dar
previsibilidade ao processo de produção legislativa. O Executivo domina o processo
legislativo porque tem poder de agenda e esta agenda é processada e votada por Legislativo
organizado de forma altamente centralizada em torno de regras que distribuem direitos
parlamentares de acordo com princípios partidários.

O desempenho do governo – medido pelo sucesso do Executivo na aprovação de


seus projetos e a sua dominância na produção legal – aumentou consideravelmente
com a centralização do processo decisório após 1988. Por outro lado, o
comportamento dos partidos em plenário também mudou consideravelmente. Hoje,
a coesão partidária e o padrão de formação de coalizões são mais consistentes. Além
disso, os governos atuais contam com o apoio disciplinado dos partidos à sua agenda
legislativa. (FIGUEIREDO e LIMONGI, 2007, p.3)

Pela linha de raciocínio exposta acima e solidamente amparada na literatura, a


ocupação por ACM Neto, em nome do DEM, de importantes postos na Câmara dos
Deputados coloca-o na condição de um ator para o qual o Legislativo Nacional pode se tornar
elemento positivo de projeção política e de acesso a instrumentos institucionais, na medida
em que o ator adote uma atitude convergente com o princípio da disciplina partidária. No
entanto, um desdobramento mais recente de reflexões de Limongi sobre o tema parece
restringir a eficácia imediata dessa condição institucional, no caso de parlamentares de
oposição. Senão vejamos que ao analisar o presidencialismo mais recentemente Limongi
(2007) reafirma a perspectiva anteriormente descrita e destaca ainda o que ―resta‖, por assim
dizer, de agência aos legisladores dentro do sistema brasileiro:

Coalizões obedecem e são regidas pelo princípio partidário. Não há paralisa ou


síndrome a contornar. A estrutura institucional adotada pelo texto constitucional de
1988 é diversa da que consta do texto de 1946. O Presidente teve seu poder
institucional reforçado. Para todos os efeitos, a constituição confere ao Presidente o
monopólio sobre a iniciativa do Executivo. Entende-se assim que possa organizar
seu apoio com base em coalizões montadas com critérios estritamente partidários.
Para influenciar a política pública é preciso estar alinhado com o Presidente. Assim,
restam aos parlamentares, basicamente, duas alternativas: fazer parte da coalizão
presidencial na legislatura em curso, ou cerrar fileiras coma oposição esperando
chegar à Presidência no próximo termo (LIMONGI, 2007, p.40-41).

Assim, Limongi (2007) aponta que são as regras institucionais que vão, em alguma
medida, determinar a habilidade destes atores, tanto o Presidente quanto os líderes das
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bancadas. O presidente com as Medidas Provisórias e os lideres com poder regimental, fazem
com que a coesão seja assegurada. Seguindo nessa perspectiva, Limongi e Figueiredo (2007)
afirmam que o sucesso do Executivo sobre a agenda legislativa é uma consequência da
estrutura institucional. Por isto não varia com o tamanho da bancada do partido do presidente
ou de suas qualidades como negociador. O Executivo controla, portanto, a agenda legislativa
do País, cabendo à Presidência da República propor alterações do status quo. Dessa forma, do
ponto de vista legal, o que muda no país, muda por iniciativa do Executivo.

Aproxima-se dessa linha de análise o argumento de Anastasia e Inácio (2010), que


aponta que a capacidade do Legislativo de empreender o encadeamento das agendas
legislativas e a articulação das ações fiscalizadoras das casas legislativas em diferentes níveis
de governo mantém-se residual. Segundo as autoras, o Poder Legislativo não está
devidamente capacitado para exercer suas funções de monitoramento e avaliação das políticas
públicas. Tal fragilidade pode ser observada tanto no nível de governo, quanto na operação de
uma rede federativa de responsabilização política dos executivos.

Uma perspectiva menos drástica pode ser encontrada, por exemplo, em reflexões de
Vicente Palermo. Aludindo a outra forma de analisar o presidencialismo brasileiro, Palermo
(2000) ressalta autores que demonstram a associação desse presidencialismo com um sistema
eleitoral proporcional, com o federalismo e o multipartidarismo, como um obstáculo a um
partido obter maioria no Legislativo, o que obriga o Presidente da República à formação de
coalizões de apoio não só dentro dos partidos. O que ficou conhecido como presidencialismo
de coalizão (Abranches, 1988) que faz referência ao fato de que no Brasil o Poder Executivo é
provido de fortes instrumentos para a formulação de políticas públicas, mas ao mesmo tempo
dependente da negociação com o Poder Legislativo para que este possibilite a implementação
dessas políticas.

Por isso, Palermo (2000), em contrapartida a Limongi, aponta que há vários atores no
sistema multipartidário que tem capacidade de condicionar e eventualmente vetar a disciplina
das bancadas e de não assegurar por si só a efetividade de um governo de coalizão,
principalmente se o número de partidos expressivos for alto. Dessa forma, o Executivo como
pivô do Sistema Político deve negociar a formulação e implementação de suas iniciativas
políticas requerendo ou não o respaldo parlamentar. Isso deve ser discutido levando em
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consideração questões como o poder pró-ativo ou autônomo da Presidência, ou seja, a


capacidade e a qualidade da elite para além das regras institucionais.

Ainda que divirjam quanto aos determinantes da governabilidade no Brasil, as duas


perspectivas defendem a ideia de que o Brasil tem um arranjo constitucional que garante a
governabilidade baseada no Executivo, seja pelo poder constitucional e a atuação previsível
do Colégio de Líderes ou pela intervenção estratégica do Presidente da República. De todo
modo, tomando como referência essa recíproca compreensão da força do Executivo, pode-se
depreender que o Poder Legislativo no Brasil não possui grande autonomia. A perspectiva
menos drástica de Palermo abre o leque das opções, mas não a ponto de incluir um
parlamentar destacado do DEM entre aqueles que podem, conforme as regras do jogo, influir
em decisões de Governo. Logo, por essa perspectiva da literatura, restariam, como opções, ao
ator aqui estudado, estratégias reativas e defensivas, assim como de acumulação de forças
para futuras mudanças no status quo via arena eleitoral.

Fabiano Santos (2006), em análises sobre a organização do processo legislativo no


presidencialismo, observa que o próprio Congresso no Brasil tem como característica central
um papel ―reativo‖, ou seja, delega a iniciativa das proposições legais mais importantes ao
Executivo, assim como a definição da agenda, que é negociada com os parlamentares que
lideram a coalizão legislativa majoritária. Sobre esse processo, afirma:

O legislativo brasileiro é reativo. Em um trabalho recente, Amorim Neto e Santos


(2002) observaram que, em um universo de mais de duas mil leis aprovadas entre
1985 e 1999, apenas 336 foram de iniciativa parlamentar. Ademais, se constatou que
ainda quando essas leis eram relevantes para certos grupos e setores da sociedade,
elas não afetavam o status quo econômico e social do país, tratando-se pelo
contrário de intervenções tópicas em questões concernentes à vida do cidadão
comum. Igualmente, o processo orçamentário é controlado pelo Executivo e
organizado para favorecer prioridades estabelecidas pelas coalizões de partidos que
dominam o governo, sendo a intervenção dos parlamentares apenas marginal
(Figueiredo & Limongi, 2002). (SANTOS, 2006, p. 76, livre tradução nossa)

Em consequência disso, os políticos não dariam prioridade à carreira legislativa e


buscariam através do voto ou de nominação, alçar-se a postos no governo a nível nacional ou
local. Assim, o parlamento se torna um espaço que oferece quadros para as secretarias e
ministérios, o que é a verdadeira ambição política dos legisladores (SANTOS, 2006). Para
além da distribuição de postos na burocracia estatal, a atuação parlamentar não oferece muitas
alternativas. Pois, ainda segundo Santos (2006), nos parlamentos de tipo ―reativo‖ não há
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benefícios diretos de se estar na oposição. Soma-se a isso o fato de que, em um país onde a
representação política está fundamentada fortemente na figura individual do político, o espaço
de atuação individual do parlamentar no Congresso é ainda mais reduzido, restando
basicamente, emendas ao orçamento, que não deixam, no entanto, de ser relevantes como
parte de estratégias políticas. Com isso podemos completar uma moldura de referência
conceitual para entender o papel dos mandatos de Deputado Federal na estratégia política de
ACM Neto, tema específico do capítulo 3.

Já no que diz respeito à atuação de ACM Neto na política estadual - com ênfase no
seu perfil eleitoral a ser discutido no capítulo 2 - o marco conceitual remete (além das já
aludidas referências à teoria das elites e a estudos sobre ligações entre elites e instituições)
também a uma discussão sobre partidos e sistemas partidários, sendo o referencial básico a
compreensão de Sartori (1982). Diferente de Duverger (1980), ele propõe uma tipologia para
classificação dos sistemas partidários que não se concentra apenas no critério numérico, mas
também no poder de influência, utilizando para tanto a noção de partido relevante. De acordo
com essa perspectiva, duas regras são utilizadas para considerar um partido relevante. A
primeira regra é o potencial de coalizão, na qual um partido menor pode ser excluído como
irrelevante sempre que continua, no decorrer do tempo, sendo supérfluo, no sentido de não ser
nunca necessário ou integrado em qualquer coalizão majoritária possível. Em perspectiva
contrária, o partido deve ser considerado relevante quando tem condições de determinar ao
longo do tempo pelo menos uma possível maioria parlamentar. A segunda regra é o potencial
de chantagem, relativo à capacidade que um partido tem de alterar a direção da competição
dos partidos orientados para o governo. Já um partido predominante é aquele que supera num
cenário político todos os outros (em contextos em que partidos têm permissão para existir e
existem como competidores legítimos). A existência deste tipo de situação caracteriza a noção
de sistema partidário predominante (Sartori, 1982), que, neste trabalho, se mostrou bastante
relevante, assim como o de sistema bipartidário, na compreensão de contextos eleitorais
analisados na Bahia, antes e após 2002.

Limongi (2010) aponta, em convergência com seus outros trabalhos, alguns aqui já
comentados, que os partidos políticos são os elementos estruturadores do poder decisório. No
entanto, leva-se em conta aqui também o papel do partido político no sentido colocado por
Kinzo (2005), ou seja, como instrumento das elites para realizar seus objetivos no mercado
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eleitoral no que se refere ao seu impacto sobre o eleitor. Este impacto não é outro senão
aquele das estratégias eleitorais utilizadas pelas elites partidariamente organizadas.

Em reforço a esse aspecto, uma visão de certo modo predominante na literatura


compreendia, até bem pouco tempo, o sistema partidário brasileiro como fraco e fragmentado,
bem como caracterizado por uma legislação eleitoral extremamente permissiva que
favoreceria os candidatos em detrimento do partido político, conforme destaca Ames (2001).
Nesse sentido, uma repercussão dessas condições no âmbito do sistema eleitoral e da
competição política seria a personalização do processo político (LEONI, PEREIRA e
RENNÓ, 2003).

Articulado, portanto, com os processos políticos descritos anteriormente, tendo como


pano de fundo teórico as questões colocadas pela relação entre elites e instituições, pode-se
dizer que no período estudado a elite política carlista estava num processo de declínio, uma
vez que perdera sua influência no Governo Federal e seus postos na burocracia do governo do
Estado, assim como seu partido deixou de ser predominante na Bahia. No que se refere a
ACM Neto, iniciado na política como parte desta elite, ao longo deste período ―restou‖
basicamente a ele uma atuação no Legislativo Federal, de modo que cabe se questionar como
ele mobilizou suas estratégias frente a esse novo contexto, ou seja, como problema central
deste trabalho vale perguntar:

A tradição carlista influenciou de modo relevante a estratégia política de


ACM Neto e o seu perfil eleitoral? Sua atuação (virtualmente ligada ao seu êxito)
expressa a continuidade das estratégias e das alianças dessa elite e da mobilização
eleitoral do seu repertório simbólico ou ele protagoniza uma atuação política distinta?

Balizado por esse problema, esse estudo trabalhou inicialmente com a hipótese de
que a tradição carlista influenciou de maneira relevante tanto a estratégia política quanto o
perfil eleitoral de ACM Neto nas eleições em estudo. No entanto, o seu êxito ao longo dos
últimos anos em contextos políticos distintos não poderia ser explicado somente pelo peso da
tradição carlista, pois com a aceleração do declínio deste grupo político, sobretudo a partir de
2006, levantava-se a necessidade de questionar sobre que outros elementos ligados à sua
atuação parlamentar, e à formulação de discursos e apelos políticos-eleitorais, poderiam
contribuir para a explicação do processo de ascensão de ACM Neto.
P á g i n a | 30

A estratégia de pesquisa – variáveis e procedimentos metodológicos

Ao se observar o objetivo desta pesquisa mais atentamente, percebe-se que ele


articula três variáveis importantes, a tradição carlista, como variável independente, e como
variáveis dependentes, o perfil eleitoral e a estratégia política de ACM Neto.

A possível influência da tradição carlista sobre o perfil eleitoral e as estratégias


políticas de ACM Neto pode se dar em três dimensões: o seu espólio eleitoral (perfil eleitoral
do grupo conformado pelos seus principais redutos, com capacidade de transferência de votos
entre eleições específicas), seu repertório simbólico (conjunto de posicionamentos, discursos
e apelos característicos) e sua orientação político-partidária (campo ideológico e apoios e
coligações partidárias). Essas três dimensões foram estudadas, principalmente, a partir da
revisão de literatura disponível sobre as características desta elite política, além de pesquisas
da própria autora realizadas anteriormente. Não obstante, as análises do espólio eleitoral, para
além de sua caracterização geral, foram realizadas de maneira mais direta nas eleições de
1998 para deputado federal, de modo a comparar a possível transferência de votos para ACM
Neto nas eleições de 2002. Para tanto, contou também com uma pesquisa na base de dados do
Tribunal Superior Eleitoral (TSE) no que se refere a esses anos.

Considerando as variáveis dependentes, analisou-se o perfil eleitoral de ACM Neto


através da sua geografia do voto no Estado da Bahia nas eleições para deputado federal em
2002, 2006 e 2010, através da coleta de dados secundários do TSE. Inspirando-se na tipologia
de Barry Ames (2001), que analisa bases eleitorais a partir de indicadores como
dispersão/concentração e dominância/compartilhamento, este trabalho desenvolveu uma
metodologia específica4 para a análise do perfil eleitoral de ACM Neto, identificando os
municípios que mais contribuíram para sua votação nos respectivos anos. Como parte das
análises, esses municípios foram georreferenciados e apresentados na forma de mapas, como

4
Cada capítulo deste trabalho começa com uma descrição detalhada sobre os procedimentos metodológicos
utilizados para a análise dos indicadores, de modo que esta seção produz apenas uma apresentação geral desses
procedimentos, como modo de orientar a leitura. Adotou-se essa estratégia como modo de vincular mais
diretamente a perspectiva metodológica adotada a cada indicador empírico analisado.
P á g i n a | 31

modo de averiguar se a base eleitoral de ACM Neto provinha de regiões específicas do


Estado.

A estratégia política de ACM Neto, por sua vez, foi analisada através da sua atuação
parlamentar e alianças político-partidárias e da formulação de seus discursos e principais
apelos de campanha. Na análise da atuação parlamentar e alianças político-partidárias, o
trabalho centrou-se nos discursos em plenário e da apresentação de emendas ao orçamento.
Foram analisados 1.071 discursos proferidos por ACM Neto e 156 emendas entre os anos de
2003-2012, quando ACM Neto se desliga do cargo para assumir Prefeitura de Salvador. Para
tanto, foram coletados dados primários disponíveis no sítio oficial da Câmara dos Deputados,
que, por sua vez, foram classificados a partir de blocos temáticos elaborados a partir da
análise empírica dos temas com maior recorrência e dos indicadores derivados da análise da
tradição carlista. Além de passar por uma análise temática, as emendas, por sua vez, foram
relacionadas com os municípios e/ou grupos sociais aos quais se direcionavam, permitindo
assim uma verificação dos seus vínculos com o perfil eleitoral do deputado.

Já a formulação de discursos e os apelos de campanha foram estudados a partir da


análise de cinco campanhas eleitorais, quais sejam as de 2002, 2006 e 2010 para deputado
federal e as de 2008 e 2012 para prefeito de Salvador que, embora não fossem, a princípio,
objeto de análise desse trabalho foram incorporadas conforme justificativa já apresentada.

Com isso buscou-se analisar a construção da imagem de ACM Neto, calcada em


elementos simbólicos, a formulação de um discurso político a partir de uma seleção de temas
e posicionamentos e uma análise dos principais apoios (buscados e/ou conquistados) dentro e
fora do partido, além das suas definições em termos de política de alianças e prioridades.

Os comentários aos discursos, tanto os de plenário, quanto os de campanha, têm


como fundamento teórico-metodológico a compreensão de que, enquanto homem público, as
suas posições, valores e alinhamentos ideológicos podem ser identificados por seus
pronunciamentos, que conferem maior visibilidade às posições deste ator político. Assim, os
discursos são utilizados como um recurso empírico para compreender preferências, alianças e
posições do sujeito político em questão.
P á g i n a | 32

A discussão sobre os discursos e principais apelos de campanha fundamentou-se em


fontes secundárias, mais especificamente jornalísticas, portais de notícias, jornais e revistas
locais e nacionais, além de peças publicitárias e do sítio oficial de ACM Neto. Para Duverger
(1981), a imprensa constitui uma fonte de documentação essencial. Grande número de fatos
políticos só é acessível através dela. Segundo este autor ―os jornais fornecem a base essencial
da documentação, para o período histórico onde os arquivos não são acessíveis: mesmo para
períodos anteriores, aliás, é, segundo eles, que se pode fixar melhor a trama geral dos
acontecimentos.‖ (DUVERGER, 1981, p. 88).

A estrutura da tese

A tese foi organizada em quatro capítulos, que seguem essa introdução, além das
considerações finais. Na introdução contextualizamos o objeto de pesquisa, justificando a sua
escolha, discutimos a problemática teórica que subjaz o argumento do trabalho, colocando o
problema de pesquisa e a hipótese de trabalho. Por fim, apresentamos as variáveis de pesquisa
e os procedimentos metodológicos.

No primeiro capítulo, intitulado “O „Carlismo‟: de uma breve retrospectiva histórica


à síntese de suas principais características” tratou-se da caracterização da variável
independente, isto é, do carlismo como modo de fazer política, buscando compreender os
elementos que constituem seu repertório simbólico, as orientações político-partidárias e o seu
espólio eleitoral. Tal análise se fundamentou em trabalhos anteriores da autora, mas
fundamentalmente em pesquisa bibliográfica, baseada em estudos de Dantas Neto (2003;
2006; 2010a; 2010b; 2010c; 2012), além de Borges (2008) e Souza (2007, 2009 e 2011).

O segundo capítulo, intitulado “Perfil Eleitoral de ACM Neto (2002-2010)” discute


o perfil eleitoral de ACM Neto que emerge das eleições de 2002, 2006 e 2010. A partir da
caracterização do voto, analisa comparativamente os resultados de 2002 com os de 1994 e
1998 com o objetivo de identificar semelhanças e ou diferenças com o tipo de voto de outros
parlamentares carlistas, dando ênfase ao voto de Luis Eduardo Magalhães. Analisa também a
relevância das candidaturas deste último e de ACM Neto para o partido, discutindo o peso
eleitoral de ambos enquanto atores políticos, como ilustração da relação entre elite e partido.
A seção analisa ainda os redutos eleitorais de ACM Neto e as condições sociais e econômicas
dos municípios que contribuíram mais significativamente para a sua vitória nas três eleições.
P á g i n a | 33

Esse capítulo apresenta também o contexto e a correlação das principais forças políticas das
três eleições estudadas. Conclui discutindo se o perfil eleitoral de ACM Neto se aproxima ou
não do da tradição carlista.

O terceiro capítulo, intitulado “Estratégia Política de ACM Neto na Câmara dos


Deputados (2003-2012)” trata de compreender parte da estratégia política de ACM Neto,
precisamente a que se expressa em sua atuação parlamentar. O estudo foi feito através da
leitura plena e discussão seletiva do sentido dos seus discursos em plenário e das emendas
apresentadas, identificando os principais temas tratados, o posicionamento frente a um
conjunto de questões, as relações com os Governos Estadual e Federal, assim como o caráter
das emendas apresentadas ao orçamento, grupos sociais e municípios contemplados, tentando,
assim, fazer uma relação com os seus redutos eleitorais, estudados no capítulo anterior.

O quarto capítulo, intitulado “Estratégia política de ACM Neto em Campanhas


(2002-2012)” também versou sobre as estratégias política de ACM Neto, mas teve como foco
de pesquisa a formulação de discurso e de seus principais apelos de campanha. Esta seção
identificou fundamentalmente as características e a tônica das campanhas proporcionais para
deputado federal (2002, 2006, 2010) e majoritárias para Prefeito de Salvador (2008 e 2012),
discutindo como ACM Neto se relacionou com o grupo carlista e sua tradição, sobretudo em
termos do seu repertório simbólico.

As considerações finais discutem os principais achados do trabalho, dialogando com


a questão e a hipótese de pesquisa. Tentam ainda articular os três capítulos empíricos entre si
com o capítulo sobre a variável independente, dando conta de analisar a relação entre a
estratégia de ACM Neto e seu perfil eleitoral, de um lado, com a tradição carlista de outro.
P á g i n a | 34

CAPÍTULO 1

O ―CARLISMO‖:
DE UMA BREVE RETROSPECTIVA HISTÓRICA À
SÍNTESE DE SUAS PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS
P á g i n a | 35

1.1 Carlismo e sua gênese histórica

O objetivo desse capítulo é traçar uma breve caracterização do chamado ―carlismo‖


buscando compreender os elementos que constituem o seu repertório simbólico, as suas
orientações político-partidárias e o seu espólio eleitoral.

―Carlismo‖ é um termo utilizado para designar o grupo político formado,


no Estado da Bahia, no início da década dos 70, em torno da forte liderança de Antônio Carlos
Magalhães (ACM). Foi durante décadas o grupo político mais importante do estado e um dos
mais influentes do Brasil.

Diferentemente das representações comuns sobre o carlismo, este trabalho considera


que ele só pode ser compreendido dentro do contexto político da modernização que ocorria no
Brasil. Portanto, a natureza do domínio da elite política carlista difere da dominação
tradicional oligárquica, pois esteve desde sempre vinculado a uma perspectiva modernizante
do tipo consagrado na literatura como ―modernização conservadora‖.

Segundo Barrington Moore (1983), a modernização conservadora é um tipo peculiar


de ―transformação pelo alto‖, no qual na medida em que se prossegue com a modernização,
tenta-se preservar a estrutura social inicial, com a aplicação de grandes seções dessa estrutura
no edifício novo, sempre que possível (MOORE, 1983, p. 432). O autor, no contexto
argumentativo em que formula o conceito, afirma que há certas formas de transformação
capitalista que podem ter êxito econômico, gerar altos lucros, mas manter, por exemplo, o
trabalho escravo como forma de produção de excedente, ou seja, processos de renovação que
se assentam numa conciliação entre o arcaico e o moderno. Segundo Moore (1983, p. 432)
―os resultados tinham certa semelhança com as casas vitorianas, com modernas cozinhas
elétricas mas com banheiros suficientes e canos rotos decorosamente escondidos por trás de
paredes recém-estucadas‖. Moore aponta, ainda, que um traço distintivo desse tipo de
modernização refere-se a uma série de medidas de racionalização da ordem política.
Enquanto a literatura sobre modernização assumiu lugar teórico importante na sociologia
histórica, a perspectiva de Moore foi fortemente aceita como referência conceitual para o tipo
de modernização que empiricamente se deu no Brasil, daí o seu uso nesse trabalho.
P á g i n a | 36

A modernização brasileira caracterizou-se como processo que possibilitou alto grau


de desenvolvimento econômico e burocratização do aparelho estatal e, com isso, uma
mudança na esfera institucional e na estrutural social. No entanto, historicamente, no Brasil se
encontrou soluções modernizantes que excluíam as grandes massas do processo político,
servindo a interesses mais restritos.

De acordo com Nogueira (1998), a ausência de participação das classes subalternas


no processo de modernização brasileiro teria impedido a efetivação de um projeto nacional
hegemônico, no qual a integração social dessas mesmas classes figurasse como questão
central. Essa interdição revelaria a face excludente de uma sociedade que conheceria a
cidadania apenas de forma parcial e incompleta. Houve um processo de mudança social sem
ocorrer intervenções populares mais relevantes. Em lugar disso, uma modificação gradual
onde o moderno e o tradicional se ajustaram. Quando transformações políticas foram
necessárias, se as fez ―pelo alto‖, através de conciliações e concessões, sem que o povo
participasse das decisões e impusesse organicamente a sua vontade coletiva (NOGUEIRA,
1998).

Seguindo a mesma linha de raciocínio, para Coutinho (1984) uma das consequências
da modernização conservadora no Brasil foi o excessivo peso assumido pelo Estado, em
particular pelas burocracias ligadas ao Poder Executivo, que se iam ―engrossando‖, na medida
em que sucessivas ―revoluções passivas‖ punham em prática mecanismos ―transformistas‖ de
cooptação. Ainda de acordo com este autor, todas as opções concretas enfrentadas pelo Brasil,
ligadas à transição para o capitalismo, encontraram uma solução ―pelo alto 5‖, ou seja, elitista
e antipopular. A conversão, por exemplo, do Brasil em um país industrial moderno, com uma
alta taxa de urbanização e uma complexa estrutura social, se concretizou a partir do
incremento da ação do Estado:

Ao invés de ser o resultado de movimentos populares, ou seja, de um processo


dirigido pela burguesia revolucionária que arrastasse consigo as massas camponesas
e os trabalhadores urbanos, a transformação capitalista teve lugar graças ao acordo
entre as frações economicamente dominantes, com a exclusão das forças populares e

5
Este termo tem aqui o mesmo sentido que o conceito gramsciano de revolução passiva, ―um processo que, ao
contrário de uma revolução popular, realizada a partir ‗de baixo‘, jacobina, implica sempre a presença de dois
momentos: o da ‗restauração‘ (na medida em que é uma reação à possibilidade de uma transformação efetiva e
radical ‗de baixo para cima‘) e o da ‗renovação‘ (na medida em muitas demandas populares são assimiladas e
postas em prática pelas velhas camadas dominantes)‖ (COUTINHO, 1992, p. 122).
P á g i n a | 37

a utilização permanente dos aparelhos repressivos e de intervenção econômica do


Estado (COUTINHO, 1992, p. 121).

Numa outra perspectiva de interpretação da ―revolução passiva‖ brasileira, Werneck


Vianna (1997) caracteriza a natureza da nossa revolução burguesa, autocrática e lenta, de
forma em que o novo não cancelou a antiga ordem social, sendo, ao contrário, resultado de
elites políticas reformadoras que deflagraram um programa de transformações restritivas com
o objetivo de ―conservar-mudando‖, isto é, sob a condição de que tais transformações
confirmassem e atualizassem o seu domínio. Dessa forma, em diversas estações do longo
processo de modernização brasileira, se pôde constatar a ―complexa fusão‖ entre o ―gênio
político da Ibéria e a imposição de rumos americanos à sociedade brasileira‖, convergência
tensa encenada por elites de distinta origem social e cultural, porém empenhadas, em comum,
na adequação do Brasil ao ―tempo‖ do Ocidente moderno. Assim, segundo o autor:

Havia um esforço agonístico de aceleração do desenvolvimento econômico


garantido através de um comportamento típico da tradição do autoritarismo
brasileiro. O regime militar conseguiu realizar esta estratégia pela via do
pragmatismo mantendo intacto o bloco agrárioindustrial induzindo a conversão dos
latifúndios em empresas capitalistas e consagrando o processo de criação de uma
sociedade industrial de massas à americana (VIANNA, 1997, p.96).

Nesse contexto, o carlismo se apresentou primeiro como um grupo seguidor de um


chefe autocrático, depois como uma elite regional condutora da modernização da Bahia, com
liderança forte, vertical, embora não mais apenas pessoal, mas sempre em convergência com a
modernização conservadora brasileira e adotando práticas de gestão institucional e de
intermediação de interesses aderentes ao que Nunes (1997) aludiu como ―combinação‖ de
gramáticas políticas.

Em sua análise sobre as ―Gramáticas Políticas do Brasil‖, Nunes (1997) opõe aquelas
consideradas tradicionais às modernas e racionais. Suas considerações mostram-se úteis para
a compreensão das estratégias de modernização conservadora e, portanto, da política carlista.
O clientelismo é a gramática política tradicional, marcada por uma troca generalizada que
configura laços de dependência econômica e extraeconômica permanente entre atores sociais,
sob a base de relações pessoais características de sociedades camponesas. Essas práticas são
transferidas para as associações, partidos políticos e instituições ―modernas‖, daí o
personalismo ter impregnado e engessado muitas dessas instituições. As três gramáticas
―modernas‖ que fazem contraponto ao clientelismo no Brasil seriam o universalismo de
P á g i n a | 38

procedimentos (que se baseia em normas impessoais e direitos iguais perante a lei para refrear
e desafiar os favores pessoais), o insulamento burocrático (processo de proteção de núcleos
técnicos do Estado contra a interferência do ―público‖, ou seja, o Poder Legislativo ou
organizações intermediárias) e o corporativismo, contraponto herdado da Era Vargas e que
pretende fixar a participação corporativa de algumas classes nas decisões públicas como
complemento e mesmo alternativa ao sistema representativo. O autor considera que no Brasil
houve sucesso político na gestão governamental e na intermediação de interesses quando
ocorreu uma combinação dessas gramáticas, do clientelismo ao insulamento burocrático.

No caso do carlismo, conforme Dantas Neto (2006), uma elite condutora da


modernização mobilizou a gramática política do insulamento burocrático e, ao mesmo tempo
e subsidiariamente, a do clientelismo. Outro elemento conservador que acompanha a
modernização – nesse caso um elemento específico do carlismo e usado com mais força que o
próprio clientelismo - é o regionalismo político, nele compreendido tanto pela defesa dos
―interesses da Bahia‖, quanto pelo culto às ―tradições baianas‖ (PEREIRA, 2007).

Vale insistir nesse ponto: é fundamental para se compreender o carlismo a ideia de


que esse grupo político se converteu numa elite política regional que esteve desde então
associada às características mais amplas da modernização brasileira, marcada por um caráter
politicamente conservador, de união entre tradicional e moderno.

Considerando este arcabouço interpretativo, já discutido em detalhes em outra


oportunidade (Pereira, 2007), pode-se traçar uma breve retrospectiva histórica desse grupo
político e da sua relação com a política nacional, principalmente através da trajetória do seu
principal líder, ACM. É importante ressaltar que não é objetivo da retrospectiva factual desse
capítulo fazer uma discussão detalhada da gênese do carlismo 6, mas ajudar a caracterizar a
natureza da dominação carlista na Bahia, sobretudo quanto aos indicadores escolhidos para
avaliar a estratégia política de ACM Neto, em comparação com a do carlismo: repertório
simbólico, campo de alianças político-partidárias e espólio eleitoral.

Antônio Carlos Magalhães começou sua carreira política em 1955 como Deputado
Estadual pela UDN (União Democrática Nacional). Foi eleito Deputado Federal em 1958,

6
Ela foi feita por DANTAS NETO (2006).
P á g i n a | 39

reeleito em 1962, pelo mesmo partido, e também em 1966, já pela ARENA (Aliança
Renovadora Nacional), nessa última ocasião como o segundo candidato mais votado no
Estado. Nesse sentido, a ideia mais comum de que Antônio Carlos Magalhães foi um político
―criado‖ pelo regime militar não é verdadeira, tendo em vista que antes de ser indicado
prefeito de Salvador pelos militares, ele havia cumprido tais mandatos eletivos e obtinha
relativo destaque no cenário político estadual, exercendo a presidência regional da UDN e
depois da Arena. Ao analisar o grande êxito eleitoral de Antônio Carlos nas eleições de 1966,
Dantas Neto (2006) afirma:

[em razão dos] exercícios das presidências regionais da UDN, depois da Arena e sua ação
na desestabilização do governo Jango e na implantação de um novo regime, em ambos
momentos adotando postura agressiva, com boa exposição e repercussão na mídia
jornalística. [...] Antônio Carlos já era, entre 1962 e 1966, um quadro político que atraía
votos de opinião, de modo especial em Salvador, onde disputou com o ex-prefeito Heitor
Dias a condição de arenista mais votado para Câmara [...] credencial que pode ter coroado
sua escolha, poucas semanas após o pleito, para o cargo de prefeito da capital baiana
(DANTAS NETO, 2006, p. 188).

Em 1967, ACM foi nomeado prefeito de Salvador pelo então governador Luis Viana
Filho. Uma vez no cargo, ele conduziu, com grande velocidade e por vezes com recurso à
truculência, a modernização capitalista da cidade desbloqueando a antiga estrutura fundiária
pré-capitalista e dando vida aos principais vetores de expansão urbana da Salvador moderna.

Por conta desse feito Antônio Carlos Magalhães, quando ainda no cargo, recebeu da
Câmara Municipal de Salvador o diploma de ―Prefeito do Século 7‖. Sua administração
contribuiu também para a sua indicação, pelo então Presidente Militar, mediante apoio
majoritário da representação regional da Arena, à eleição indireta para o Governo do Estado
da Bahia para o quatriênio 1971-1975. Sobre este último fato e algumas características da sua
estratégia política, assinala Dantas Neto:

A Prefeitura de Salvador (1967-1970) serviu de vitrine administrativa e trampolim


político e o esforço prosseguiu durante o primeiro mandato de governador de ACM
(1971-1975). Ao tempo em que mantinha a sociedade civil baiana sob forte
constrição autoritária, investia contra bases político-eleitorais de grupos
conservadores rivais, no intuito, em parte consumado, de neutralizá-los, ou
pulverizá-los (DANTAS NETO 2003, p.225).

7
―No seu mandato como prefeito, já era visível uma forte ênfase na sua imagem como político de estilo arrojado,
empreendedor e modernizante, símbolos que marcam a construção da sua imagem como líder carismático‖
(DANTAS NETO, 2006, p. 474).
P á g i n a | 40

A atuação de Antônio Carlos Magalhães no seu primeiro governo centrou-se na


necessidade da aceleração do crescimento e da modernização econômica, voltando suas
atenções de forma prioritária à indústria. Nesse âmbito, a mineração e a área energética foram
setores estratégicos instrumentais ao fortalecimento da indústria. A esse respeito, Guerra e
Gonzalez (2001) afirmam:

A partir dos anos 1970, com a consolidação do processo de industrialização que se


iniciou nos anos 50, com a refinaria Landulfo Alves, e prosseguiu com as plantas
petroquímicas e metalúrgicas, a estrutura produtiva local começou a ter sua feição
agroexportadora modificada. A participação relativa do setor primário no PIB
baiano diminuiu de 40% em 1960 para 16,4% em 1980. O setor secundário, por sua
vez, elevou sua participação de 12% para 31,6%, no mesmo período. Essas
alterações estruturais na economia baiana incrementaram fortemente seu produto
interno (GUERRA e GONZALEZ, 2001, p.309).

Essa modernização econômica centrada na indústria modificou substancialmente a


estrutura produtiva do Estado. Já na esfera administrativa a modernização se realizou com
uma ênfase no planejamento e na modernização pautada numa racionalização administrativa
do aparelho estatal.

Devido ao seu alinhamento com a política nacional, Antônio Carlos Magalhães teve,
no âmbito estadual, a liberdade de ação necessária para o exercício do seu domínio pessoal.
Tal liberdade, entretanto, era relativa, tendo em vista o seu comprometimento com o poder
central ser permanentemente regulado pelo regime militar. Seu sucesso político, de um lado,
proveio de virtudes políticas, pois soube garantir o poder no Estado enquadrando-se
incondicionalmente na defesa do regime político nacional sem, por outro lado, perder a
condição de manejar diretamente, com visível autonomia, no âmbito estadual, recursos
governamentais e partidários disponíveis e recebendo, do regime militar, toda a estrutura
material e o aparato de autoridade que lhe permitiram conduzir, sem maiores entraves, a
modernização da Bahia e a reprodução da facção política que criara e que com o tempo
passaria a praticamente coincidir com o universo da elite política estadual.

É possível dizer, dessa forma, que se a indicação de seu nome para o Governo
Estadual esteve ligada ao seu bom desempenho na Prefeitura de Salvador, ela também foi
influenciada pela adesão da elite baiana aos interesses do Golpe de 1964. De acordo com
Dantas Neto (2006), ACM venceu o ex Governador Lomanto Jr. na disputa interna pela
sucessão do Governador Luís Viana Filho, em 1970, porque aliou, ao apoio militar, o da
P á g i n a | 41

sociedade política baiana. Teve uma estratégia de forte articulação política junto à Arena
estadual, deputados e prefeitos, de modo que seu nome chegou a Brasília já com amplo
respaldo político. E se por um lado ACM reconhecia a importância que teve o apoio do
presidente Médici para sua investidura no Governo do Estado, por outro lado não deixou de
evidenciar seu próprio mérito, quando afirmou que devia ―a ninguém, senão a mim mesmo, a
minha escolha [...] Só tenho compromisso com o Estado e com a minha consciência” (Jornal
da Bahia em 03 de agosto de 1971). Como se nota, ACM, como fez sempre, dá ênfase à
construção de uma imagem pessoal de líder.

Com o apoio do regime militar, ACM se mostrou um político de estilo centralizador


e personalista, fato ilustrado pelo seu discurso de posse, em 1971:

Só acredito [...] em governo de equipe, mas só acredito em equipe que tenha chefe.
No meu governo eu serei o único chefe da minha equipe. A Bahia estará comigo
dizendo sim a Revolução e com palavras ao Criador por nos ter dado forças para
conseguir empreender todas as obras que o país necessita (Discurso de posse de
ACM na Assembleia Legislativa do Estado, em 05 de outubro de 1971).

Antônio Carlos tinha posições autoritárias do tipo instrumental8 que apontavam os


dispositivos do regime militar como necessários para acabar com a corrupção e acelerar o
desenvolvimento econômico do País e do Estado. As metas estabelecidas eram o progresso, a
modernização. Para seu alcance o autoritarismo era meio necessário, mas passageiro. Sob a
inspiração dessa abordagem de Santos (1998), assim, o autoritarismo de ACM não será
tratado aqui sob uma perspectiva ideológica, mas pragmática.

8
Wanderley Guilherme dos Santos considera conveniente distinguir os vários tipos de autoritarismo que
influenciaram as opções políticas dos tomadores de decisão no Brasil. ―O autoritarismo instrumental se
caracteriza por uma atitude em favor do uso pragmático dos mecanismos institucionais autoritários, como meio
provisório e necessário, para realização de certos objetivos, em geral econômicos. Os autoritários instrumentais
[...] creem que as sociedades não apresentam uma forma natural de desenvolvimento, seguindo antes os
caminhos definidos e orientados pelos tomadores de decisão. E desta presunção deriva facilmente a da inevitável
intromissão do Estado nos assuntos da sociedade a fim de assegurar que as metas decididas pelos representantes
dessa sociedade sejam alcançadas. Nesta medida, é legítimo e adequado que o Estado regule e administre
amplamente a vida social. [...] Afirmam que o exercício autoritário do poder é a maneira mais rápida de se
conseguir edificar uma sociedade liberal, após o que o caráter autoritário do Estado pode ser questionado e
abolido. A percepção do autoritarismo como um formato político transitório estabelece a linha divisória entre o
autoritarismo instrumental e as outras propostas políticas não democráticas.” (SANTOS, 1998, p.45-46). A partir
dessa concepção, é possível compreender práticas autoritárias tanto em regimes autoritários como na
democracia. Os autoritários instrumentais podem conviver com instituições liberais, mesmo que haja na
sociedade a manutenção de instituições atrasadas.
P á g i n a | 42

Em suma, ACM foi o condutor da modernização conservadora baiana, marcada pela


defesa da indústria, da aceleração do desenvolvimento econômico 9, pelo constrangimento
daqueles considerados ―fora da ordem‖ e pela defesa constante do protagonismo das elites na
política, ou seja, as mudanças relativas à modernização tinham que estar sempre sob o
comando ―de cima‖, no caso, o governador Antônio Carlos Magalhães.

Outro aspecto ainda muito importante relacionado com a condução da modernização


de natureza conservadora por ACM na Bahia foi a adoção do planejamento como um
procedimento de gestão capaz de dar eficiência e racionalização administrativa ao aparelho do
Estado, escolha que evidencia a conexão do primeiro carlismo com a gramática política que
Nunes (1997) denominou de insulamento burocrático. Ênfase no planejamento, na capacidade
técnica de gerenciamento da maquina pública e na competência de equipe eram, ademais,
elementos constantes também nos discursos de ACM.

Durante o seu governo, Antônio Carlos Magalhães manteve subordinadas à sua


orientação a Prefeitura de Salvador e a grande maioria das prefeituras do interior do Estado.
Desde esta época prevalece na Bahia um princípio de que um município só pode ter uma boa
administração se seu prefeito estiver de acordo com a política do governador. Esse princípio
fica evidente no seguinte discurso:

Tratarei os municípios, é claro, equidistante da política. Mas na parte política,


evidentemente, os que não estiverem com o partido do governo estarão contra ele,
porque não haverá meio termo. Esse é o ponto que desejo salientar, porque assim
como digo que na administração a política não interfere, digo com a mesma
sinceridade que os postos políticos serão exercidos politicamente. (Jornal da Bahia
em 22 de julho de 1972)

De acordo com Dantas Neto (2006):

O script que fazia descer aos municípios era o da unanimidade na política estadual,
comandada pelo governador. A centralização do comando era condição que lhe
permitia administrar o Estado com sucesso, auferindo, com o mínimo de custo
político [...] ao gosto do Gel. Médici, a aclamação das elites e do povo pela obra

9
Segundo Cardoso (1973), o ―modelo político brasileiro‖ vigente no início dos anos 70 foi uma combinação de
modelo econômico associado ao capital internacional com um estado forte, resultando em dominação
autocrática, sob controle burocrático-militar e assentada em bases econômicas dinâmicas. O regime expressava
uma rearticulação política que se baseou em alterações no modelo social e econômico de desenvolvimento que
prevalecia anteriormente. Dessa forma, tratou-se de uma opção ―liberal‖ política, nas condições em que o
liberalismo opera em países subdesenvolvidos, isto é, sob a égide de um conservantismo moderno, mantendo
socialmente aberta uma sociedade politicamente fechada, baseada na empresa capitalista, pública ou privada.
P á g i n a | 43

modernizante e, com isso, apresentar-se em Brasília como eficaz quadro político da


―Revolução” (DANTAS NETO, 2006, p.373).

Tal estratégia servia ainda, de acordo com o mesmo autor, para impedir contestações,
controlar o partido da situação, influir no partido da oposição, eleger numerosas bancadas de
deputados e, principalmente, mantê-los sob ―rédea curta‖, pela importância, para suas
carreiras, do apoio das bases municipais submetidas ao comando centralizado do governador.

Durante seu primeiro mandato como governador da Bahia, Antônio Carlos


Magalhães configurou as principais características da política carlista: alinhamento com a
política nacional como condutor local da modernização conservadora, associação entre
gramáticas políticas tradicionais e modernas, autoritarismo instrumental, centralização,
controle da oposição e dos partidos governamentais e discurso carismático/personalista.

O primeiro governo de ACM configurou-se como um momento de importantes


conquistas para o desenvolvimento econômico do estado, como é possível observar sobretudo
com a implantação do Polo Petroquímico na Bahia, em contraposição aos interesses paulistas,
e do Centro Industrial de Aratu. Entretanto, como aponta Dantas Neto (2006), ao findar seu
primeiro governo, ACM amargou duas derrotas: a venda 10 do Banco da Bahia ao Bradesco em
1973 e o insucesso, em 1974, na indicação do seu sucessor, impedida por articulação reativa
dos demais grupos arenistas, que levou Roberto Santos ao governo (1975-1979).

Em 1975, com o final do seu governo, ACM assumiu a presidência da Eletrobrás,


onde permaneceu até 1979. Segundo Dantas Neto (2006), nesse período ACM fez suas
primeiras incursões na burocracia central do Estado brasileiro e estabeleceu importantes
relações com segmentos do empresariado nacional. Também em 1979, ACM foi novamente
empossado governador da Bahia, por indicação do regime, permanecendo no cargo até 1982.
Esse seu segundo governo foi marcado pela utilização do poder que lhe fora concedido por
um acordo interno celebrado na Arena baiana 11 para ―anular‖ os grupos rivais e confirmar a
consolidação da dominação carlista.

10
O episódio do Banco da Bahia marcou a derrota de Antônio Carlos Magalhães inclusive frente ao Governo
Federal e, sobretudo, frente aos interesses de São Paulo, pois ele defendia a permanência deste Banco na Bahia,
enquanto base de sustentação para economia do Estado, para juntá-lo ao Banco Econômico em articulação com
Ângelo Sá, seu proprietário. (PEREIRA, 2007)
11
“Um amplo acordo arenista garantiu, em 1978, o retorno de ACM ao governo do Estado, revelando, sem
meios termos, o quanto as posições políticas dos vários grupos arenistas eram condicionadas por uma
P á g i n a | 44

Ao fim de mais um governo, ACM elegeu seu sucessor. Seu candidato seria
Cleriston Andrade, que, entretanto, morrera em acidente de avião em plena campanha
eleitoral. ACM lançou, então, João Durval Carneiro, ex-prefeito de Feira de Santana, segunda
maior cidade do Estado, que se elegeu (já em eleições diretas) derrotando o ex-governador
Roberto Santos, candidato do PMDB (Partido do Movimento Democrático Brasileiro).

Sem dúvida, mais um mandato no governo estadual representou um passo importante


para a elevação do poder pessoal de Antonio Carlos Magalhães no plano local e também no
cenário nacional, tendo em vista que após o mandato de Presidente da Eletrobrás ACM já
havia iniciado a consolidação de sua política baianonacional (DANTAS NETO, 2006). Tal
expressão refere-se à ideia de que a partir de meados dos anos 70 a estratégia de ACM deixou
de se reportar apenas aos objetivos no âmbito estadual, como ocorrera durante no seu primeiro
mandato como governador.

Em 1986, o carlismo teve sua primeira derrota eleitoral no Estado. Waldir Pires,
candidato do PMDB, foi eleito governador, interrompendo, por breve período, o domínio
carlista. No entanto, Waldir renunciou ao cargo dois anos depois para ser candidato à vice-
presidente na chapa de Ulisses Guimarães. Nilo Coelho, seu vice, assumiu o governo. Durante
esse período a bancada da Bahia na Câmara de Deputados, em sua maioria sob o comando de
ACM, era a mais unida de todas as representações estaduais. ACM continuava, portanto, com
um poder centralizado e vertical em âmbito nacional, pois era marca da sua política a
exigência de lealdade.

Fora do governo da Bahia, de 1985 a 1990 ACM ocupou o Ministério das


Comunicações, sendo nesse período um importante aliado do Presidente José Sarney. Nesse
cargo, em 1987, conquistou para a TV Bahia, inaugurada em março de 1985 por sua família, o
direito de retransmitir a programação da Rede Globo de Televisão, tornando-se rapidamente a
emissora líder de audiência no estado. Nesse âmbito, embora seja necessário reconhecer que a
inserção de ACM e do carlismo no espaço midiático tenha favorecido o fortalecimento da

convergência de fundo da elite à qual eles se reportavam, em torno da liderança carlista. Acirradas rivalidades
pessoais passavam a plano secundário, desautorizando interpretações de que o ―personalismo‖ impedia o
exercício da ―grande política‖. Ao contrário, o poder pessoal a viabilizava em contexto político autoritário,
garantindo aos ―interesses baianos‖, situados nos vértices entre política, administração pública e mercado, a
continuidade de um tratamento diferenciado, por parte do Estado nacional, pacto do qual ACM era o fiador.‖
(DANTAS NETO, 2006, p.228).
P á g i n a | 45

construção de sua imagem pessoal e de sua predominância na Bahia, a mídia não foi a única,
nem tampouco a principal, estratégia adaptativa (DANTAS NETO, 2006) de ACM para sua
continuidade no poder no regime democrático, sobretudo no período de 1991-1995. Outros
elementos devem ser buscados para explicar a manutenção do seu poder.

ACM voltou ao governo da Bahia em 1991 12 dessa vez pelo voto e como candidato
do PFL13. Na década de 1990 evidenciou-se na estratégia política de ACM o respeito às regras
do jogo democrático, o cumprimento das obrigações constitucionais (vinculando-as de modo
especial a um severo ajuste fiscal) e defesa do uso da força da lei igualmente para todos.

Entretanto, na relação com os seus opositores Antonio Carlos Magalhães não tinha a
prática de estabelecer diálogos ou construir consensos, mantendo seus arroubos autoritários.
Além disso, seguiu praticando coação e cooptação14 de atores sociais e políticos de oposição.

Nesse novo contexto democrático, o carlismo se tornou novamente predominante na


Bahia, mantendo diversas das suas características centrais. Segundo Dantas Neto (2003):

A supremacia carlista nos anos de 1990 se baseou em um tripé: o seu prestígio


eleitoral, seus recursos extraeleitorais de poder (influência sobre o empresariado, a
mídia, poderes municipais, movimentos sociais, legislativo, judiciário e no tribunal

12
Mantendo seu traço de dominação carismática, ACM assumiu o Governo num clima de ―Salvar a Bahia‖, de
―limpar‖ a política baiana, que para ele estava suja pela ação dos seus dois antecessores da oposição. Neste
período, fez inúmeras denúncias de irregularidades e se mostrava contrário à impunidade, tendo assumido um
discurso em favor da Moralização da Política e da Racionalização Administrativa. Criou a Procuradoria
Especializada de Combate a Atos de Corrupção e Improbidade e a Delegacia de Crimes Econômicos contra a
Administração Pública. Quanto a este aspecto, Dantas Neto aponta: ―Em sua performance de fênix, o carlismo
reforçou a dimensão paroquial de seu discurso, usando a imagem de maus baianos para estigmatizar os
adversários vencidos, apelando para os brios de uma baianidade ferida por fracassos administrativos e
anunciando uma nova era de reconstrução e progresso (ação, competência e moralidade) para a Bahia, que
passaria a ser uma virtual ilha de prosperidade num país tomado pela recessão e por uma crise de credibilidade
política‖ (DANTAS NETO, 2003, p.77).

13
O Partido da Frente Liberal foi fundado em 1984 como dissidência do PDS, partido que sucedeu à Aliança
Reformadora Nacional (Arena) na reforma partidária de 1979. O surgimento do PFL, denominado então somente
como ―Frente Liberal‖, foi decisivo para derrota do candidato do PDS, Paulo Maluf, no Colégio Eleitoral de
1984 e para assegurar a vitória de Tancredo Neves, do PMDB (CORBELLINI, 2005). Nas eleições de 1985 os
pefelistas elegeram 25 prefeitos embora não tenham triunfado em nenhuma capital de estado. Em 1986,
Antônio Carlos Magalhães se filiou ao PFL.
.
14
Uma estratégia política marcada pelo que Gramsci denomina de Transformismo, ou seja, pela cooptação de
lideranças individuais da oposição ou de grupos sociais inteiros. A prática do transformismo no Brasil fez com
que a sociedade não se auto-organizasse e esse processo obrigou o Estado a sempre intermediar os interesses
particulares que ele acabou por representar.
P á g i n a | 46

de contas do estado) e a sua aura de infalibilidade e onipotência que transmitia


sensação de poder (DANTAS NETO, 2003, p.18).

A partir da década de 1990, a política baianonacional permaneceu, agora não sob a


égide do desenvolvimentismo, mas sob a ênfase nos ajustes fiscais. ACM esteve em seu
governo em sintonia com as tendências neoliberais do Estado brasileiro, através da tentativa
de enxugamento da máquina do Estado, da preocupação de que a Bahia tivesse credibilidade
junto aos organismos financiadores internacionais, a crítica à inflação e a ênfase na
necessidade do Brasil conquistar estabilidade econômica. Como aponta Dantas Neto (2006), a
práxis carlista nos 90 caracterizou-se por uma reciclagem neoliberal. De acordo com Souza
(2006), a Bahia sob o comando de ACM adotou com rigor a política nacional de ajuste fiscal
e foi um dos estados pioneiros na renegociação de suas dívidas com a União, além de ter se
empenhado nas privatizações e na reforma do sistema previdenciário estadual.

Em 1994, ACM elegeu seu sucessor, Paulo Souto, que teve sua gestão bastante
facilitada pela situação econômica que o Brasil passou a viver no primeiro governo de FHC.
Nesse período o carlismo passou por uma expansão hegemônica 15 sob o comando de ACM e
de Luis Eduardo Magalhães. Filho de ACM, ele foi eleito deputado federal três vezes e se
tornou líder do Governo FHC no Congresso, quando se firmou como uma liderança,
principalmente em função da sua interlocução com o governo federal. A sua morte súbita em
1998 freou o que seria o apogeu do carlismo na Bahia, pois o grupo deixou de ter seu
candidato ―natural‖ à sucessão do governo e perdeu seu principal articulador em nível
nacional. Assim, a sucessão de Paulo Souto por Cesar Borges marcou o início da
administração da crise do carlismo.

Segundo Dantas Neto (2006), juntamente com a morte de Luis Eduardo, a conduta
política pouco virtuosa de ACM naquela quadra foi um marco da erosão do poderio carlista.
Parte dessa conduta pode ser notada principalmente com atos considerados antirrepublicanos,
como aconteceu com a violação do Painel do Senado, em 2001. Além desses dois fatores
havia uma crise interna à aliança governista que levou à perda de espaço do PFL. Após oito
anos de aliança eleitoral com o PSDB, foi preterido em favor do PMDB na chapa para eleição
presidencial em 2002. Sobre esse contexto, afirma ainda o autor:
15
Exemplo dessa expansão pode ser constatado com a vitória de Antônio Imbassahy para a prefeitura de
Salvador em 1996 e sua reeleição em 2000. Tal expansão poderá, ainda, ser melhor observada no capítulo 3 onde
serão analisados os resultados das eleições de 1994 e 1998 para a Câmara de Deputados, com ampla vitória dos
candidatos carlistas.
P á g i n a | 47

[...] à medida em que refluía seu peso em Brasília, começou a perder também o
controle sobre importantes recursos de poder na Bahia: rompimento do PMDB;
defecção de deputados; confronto com o movimento estudantil; greve radical das
polícias estaduais; oposição de A Tarde, principal órgão da imprensa escrita baiana;
limitação, pela Rede Globo, do uso político da sua repetidora na Bahia, propriedade
da família Magalhães, e perda do controle sobre o TRE e a cúpula judiciária do
Estado, tudo isso formando uma cadeia de eventos erosivos, que se precipitaria
sobre o cenário eleitoral de 2002 (DANTAS NETO, 2006, p.239).

Mesmo com a vitória para o governo do Estado em 2002, o cenário político


pós-eleições refletiu a diminuição do poderio carlista, com a derrota das eleições em Salvador
e nas maiores cidades baianas. Além disso, houve um aumento do poder da oposição de
esquerda em todo o Estado. Em nível partidário, o carlismo foi se resumindo ao PFL. Partidos
como PTB, PL e PP, que faziam parte de um grande partido carlista, foram se desligando do
grupo. O governo, novamente de Paulo Souto, de 2002-2006 foi marcado pela continuidade
das gestões passadas, tendo como marco o perfil gerencial e a orientação para o mercado.

Nesse âmbito, entra em declínio o poder pessoal de ACM motivando alteração no


padrão de comando do grupo carlista, que não se baseava mais apenas no poder unipessoal de
ACM, em razão da perda de força aglutinadora em relação aos partidos e do crescimento da
oposição de esquerda. É nesse contexto de crise e declínio do poder político do grupo carlista
que ACM Neto surge como ator político importante, conforme se verá melhor no capítulo 2.

1.2 O carlismo como um modo de fazer política

Após essa breve recapitulação histórica do carlismo, sobretudo a partir da figura do


seu líder principal, ACM, é preciso ressaltar que este trabalho não compreende o carlismo
como uma construção apenas do poder pessoal de ACM. Isso quer dizer que, embora a partir
de 2003 a Bahia já vivesse um contexto de declínio do carlismo, a maneira carlista de fazer
política não acabou nem ali, nem sequer quando ACM morreu.

Deve-se pensar o carlismo não apenas como um grupo político, mas como um modo
de fazer política que envolve uma combinação de discurso e prática modernizantes com
discurso e prática conservadores. Em termos políticos, o apelo modernizante refere-se a uma
atitude política de associar-se, em cada momento, aos movimentos de ponta do capitalismo,
influentes sobre o governo nacional. Desde o final dos anos 50 a elite baiana não alimentou
P á g i n a | 48

tensões com o governo nacional e, dessa forma, utilizou-se de tal sintonia para beneficiar o
Estado, no sentido da modernização capitalista. Não há, assim, sob a perspectiva
modernizadora, nenhuma orientação ideológica ou programática.

Quanto à face conservadora, tal discurso e prática envolve uma concepção vertical da
política, que cultua o protagonismo da elite governante. Envolve ainda um tratamento da
cidadania como restrita ao âmbito eleitoral, bem como um modelo aclamativo de legitimação
da política que bloqueia o pluralismo e estigmatiza como maléficos os conflitos e
divergências.

A partir da compreensão acima apresentada é que se procederá a uma caracterização


do carlismo para fazer as vezes de variável independente, considerando as três dimensões
utilizadas para analisar possíveis influências da herança política do grupo sobre as estratégias
políticas de ACM Neto. Essas três dimensões, como já antes mencionado, são: o perfil
eleitoral (no sentido da geografia do voto), as alianças político-partidárias e o repertório
simbólico.

No que se refere à caracterização do perfil eleitoral do carlismo, como já foi


mencionado anteriormente, o grupo carlista exercia um comando político vertical e
centralizador frente às bancadas e bases municipais. Assim, sua política mostrava grande
capacidade de fazer alianças, cooptar e se reconciliar com inimigos potenciais.

A análise da geografia do voto carlista para Deputado Federal nas eleições de 1994 e
1998, feita no próximo capítulo para efeito de comparação com a geografia do voto em ACM
Neto, permitiu observar ainda que o voto dos candidatos carlistas era disperso e com
formação de dominância alta em alguns municípios, considerados redutos eleitorais. De
acordo com a tipologia de Ames (2003), o voto dos candidatos carlistas seria mais próximo do
tipo disperso-dominante, ou seja, um padrão que corresponde a dois tipos de candidatos: os
que fazem alianças com líderes políticos locais e os que já ocuparam cargos na administração
estadual como o de Secretário da Educação, por exemplo, posto de grande potencial de
distribuição de benefícios eleitorais.

Os estudos de Ames (2003) e Borges (2011) apontam para a influência dos gastos
com políticas públicas sociais (como saúde, abastecimento de água e educação) em
P á g i n a | 49

determinados municípios e sua relação direta com o aumento do voto em determinados


candidatos. Os programas sociais, principalmente na Educação, são instrumentos centrais na
estratégia de sobrevivência da máquina política.

A capital, Salvador, foi anticarlista eleitoralmente pelo menos da década de 1970 a


meados da década de 1990. Em 1996, com a expansão hegemônica do carlismo, a cidade
elegeu um prefeito deste grupo. Sobre esse contexto, analisa Dantas Neto (2003):

Como nas eleições de 90, quando ACM retomou o controle do Governo do Estado
concentrando-se na denúncia da ―destruição‖ da Bahia durante o quadriênio peemedebista e
na promessa de restabelecera prosperidade anterior, o alvo dos ataques na campanha em
Salvador foi a gestão de esquerda que findava imersa em dificuldades administrativas e
desavenças políticas e o cenário alternativo pintado foi a reedição da revolução urbana
operada por ACM nos anos 60. Mas o apelo principal da campanha, que polarizou a eleição
de Imbassahy, foi o convencimento dos cidadãos soteropolitanos - face à experiência
concreta de asfixia da gestão municipal findante por um embargo financeiro e um
implacável cerco político, nos planos federal e estadual - de que obras públicas, serviços
razoáveis e a própria solvência da Prefeitura dependiam da eleição de um prefeito carlista
(DANTAS NETO, 2003, p.26).

É importante ainda ressaltar, no que se refere ao perfil eleitoral carlista, que a


expressão do carlismo nas urnas nunca foi tão ampla quanto sua predominância política.
Houve na maior parte das vezes uma vitória, mas nunca muito ampla em termos quantitativos.
Um dos elementos importantes, nesse aspecto, refere-se à alta taxa de alienação eleitoral
(abstenção mais votos nulos e em branco). Como já foi analisado por Silva Neto (2001), o
patamar de votação do carlismo nunca foi além de um terço do eleitorado baiano nem mesmo
no período do auge de sua predominância, nos meados da década dos 1990.

Serão tratados agora os elementos que caracterizam o campo das alianças político-
partidárias do carlismo. Conforme observado, historicamente o grupo construiu sua
predominância aliando o fortalecimento de sua base eleitoral ao apoio/inserção no cenário
nacional. Desde o regime militar costurou as alianças necessárias para inserir a Bahia no
processo de modernização brasileira e nesse ponto as alianças não estavam subordinadas a
espectro ideológico, valendo mais a lógica pragmática de aliar-se aos grupos detentores do
poder federal. Se assim foi no período militar, continuou a sê-lo no período democrático. Na
década dos 90 foi destaque a aliança com o governo do PSDB, que ao projetar fortemente
quadros carlistas no cenário nacional, como, além do próprio ACM, Luis Eduardo Magalhães,
muito contribuiu à consolidação da hegemonia do grupo na Bahia.
P á g i n a | 50

No âmbito da competição partidária estadual o carlismo consolidou-se


organizacionalmente, no período democrático, como um ―metapartido‖ (Dantas Neto, 2006)
que agregava, além do PFL, vários partidos médios, como PTB, PL e PPB e outros chamados
nanicos num só campo político. Mais do que isso, submetia as seções estaduais dessas
legendas ao comando centralizado do então Senador ACM. Na verdade não se tratava de
legendas aliadas, mas de agregações de comandados. O comando da elite carlista definia, em
relação a esses partidos, a composição dos diretórios, das chapas eleitorais, a política de
coligações e a conduta parlamentar no Legislativo Estadual, como se todas essas legendas e
seus respectivos candidatos e deputados formassem um partido só.

Como aponta Souza (2009) a estratégia eleitoral de ACM sempre foi o de disseminar
seus aliados mais estreitos entre vários partidos. Isso não significa que as coalizões para
governar eram amplas, mas sim que os filiados a outros partidos eram de fato ligados ao
partido tradicional e mais fiéis, pois eram seguidores que foram enviados a outros partidos
para acomodar as lutas políticas em nível local. Uma vez que esta estratégia fora
implementada, o PFL passara a ter o controle de partidos como o PL, PTB, PP, PPB, PMN,
PPR e outros menores, os chamados ―partidos satélites‖.

A dinâmica de meta partido, segundo Dantas Neto (2006), era factível em boa parte
porque o grupo carlista usava suas posições na esfera federal para distribuir compensações às
direções nacionais dos partidos auxiliares do PFL no Estado, em troca das quais as direções
omitiam-se em dirigir as seções baianas que, sob comando de ACM, por vezes praticavam
alianças na contramão da posição nacional do partido. Para além das legendas satelitizadas, o
grupo logrou, em meados da década dos 90, incorporar ao ―grande carlismo‖ até mesmo o
PMDB, que era até então o seu mais tradicional adversário na política baiana. Essa
articulação, obra do Deputado Luís Eduardo, que retrocedeu após sua morte, foi um grande
passo do carlismo na tentativa de unificar a elite política estadual, resumindo-a à elite
governante.

Por fim, no âmbito das relações com as bases locais, é também Dantas Neto (2006)
quem encontra evidências do padrão vertical do comando político do carlismo. Como já dito
anteriormente, Antônio Carlos Magalhães mantinha as prefeituras em situação de dependência
e nisso consistia o foco da sua política municipal. Nela não havia lugar para lealdades
ideológicas, programáticas, ou mesmo para as grupais, próprias do varejo político tradicional.
P á g i n a | 51

O carlismo trabalhava no interior da Bahia com o material humano que ocupava as Prefeituras
e Câmaras pela via eleitoral. Não importava quem fossem os vencedores de eleições
municipais. Importava, sim, que, qualquer que fosse sua filiação política, atual ou pregressa,
os vencedores (e de preferência também os perdedores) se pusessem em sintonia com a facção
governante da elite política estadual.

As alianças no âmbito da sociedade civil guardavam coerência com a face


politicamente conservadora do grupo. Abarcavam faixas do empresariado, mas eram
irrelevantes, senão nulas, no plano dos trabalhadores organizados. Alcançava, porém,
associações de bairro e atores do mundo da cultura e das religiões. A visão do grupo sobre
participação política era despótica, manipulando as instâncias de controle político e cidadania.
Nesse contexto não buscava diálogo com organizações críticas da sociedade civil, nem sequer
cooptar suas lideranças.

Ainda que o espólio eleitoral carlista, assim como o perfil das suas alianças na
sociedade política e na sociedade civil, tenha sido bastante influenciado pela ocupação quase
hegemônica da máquina pública por esse grupo, é importante considerar que parte do seu
espólio político deriva justamente do carisma do seu chefe e do repertório simbólico que
caracterizava um dado discurso político e cultural do grupo. Nesse sentido, em termos
eleitorais, sua influência se dava pela máquina estatal, pelo voto pragmático/racional daqueles
que tinham seus interesses representados pelo processo de modernização, mas também pela
mobilização de símbolos de regionalismo e de modernização, assim como de ideias de
eficiência e moralidade.

No que se refere ao repertório simbólico 16, é possível identificar como elementos o


impulso modernizante, o carisma despótico (Dantas Neto, 2006), e uma marca fundamental
do carlismo: a ênfase no regionalismo político. Um elemento constitutivo fundamental de
toda estratégia política de ACM se referia à defesa da Bahia no âmbito nacional, à valorização
dos elementos culturais do estado, suas festas populares, a diversidade de suas crenças
religiosas. Nessa perspectiva, Cordeiro aponta que:

16
A compreensão aqui empregada ao repertorio simbólico não envolve apenas os significados, já que vários
temas mobilizados pelos discursos carlistas faziam parte das suas estratégias políticas concreto/materiais.
P á g i n a | 52

Os políticos ―frutos da intervenção federal‖ no Estado vão guardar semelhanças de


comportamento, das quais se destacam o autoritarismo, o livre trânsito com o
governo central, o fato de se tornarem ―porta-voz‖ da Bahia, a incorporação em suas
práticas políticas dos símbolos baianos. Assim mantêm relação intensa com a cultura
baiana, com seu forte sentimento religioso, com a sua miscigenação, com o caráter
festivo e cordial da população. Antônio Carlos realiza esta associação com a cultura
baiana, com o simbolismo da terra e com a defesa da Bahia com muita competência
(CORDEIRO, 1997, p.25).

Neste mesmo caminho, Martins (1993) afirma que a discussão sobre a região
aconteceu no Brasil no mesmo momento em que o Estado era centralizador, autoritário e a
questão regional, nesse sentido, representava nada mais do que uma estratégia criada pelas
elites brasileiras para a reprodução de seu poder no âmbito estadual.

No período democrático o discurso regionalista também constituiu elemento


importante nas estratégias carlistas, sobretudo na tentativa de colocar a Bahia como exemplo
para outros estados. Faz-se necessário, neste âmbito, diferenciar dois tipos de discursos
regionalistas utilizados por ACM. No plano local, o discurso regionalista estava atrelado a um
contexto de "reordenamento‖ do Estado, sobretudo no governo de 1990 a 1994, pois de
acordo com ACM era preciso restabelecer a ordem para que a Bahia recuperasse a
credibilidade no cenário nacional e voltasse a seu lugar de destaque, tornando-se assim um
exemplo de desenvolvimento para os outros estados da União. No plano nacional, o discurso
regionalista pautava-se na cobrança junto ao Governo Federal da eliminação do que
considerava ser uma discriminação para com o Nordeste.

Com forte apelo em defesa da Bahia buscou criar identidades coletivas


tentando construir um ―nós‖, que seriam os baianos, contra ―eles‖ que corresponderiam
àqueles de outras regiões do país. A construção do slogan ―Orgulho de Ser Baiano‖ demonstra
bem essa estratégia que sempre foi marca do seu discurso (PEREIRA, 2004).

Em diferentes contextos político-econômicos, o grupo carlista e seu chefe sempre


fizeram questão de deixar evidente sua vinculação com os interesses da Bahia. Tal defesa foi
construída, dessa forma, tanto em torno da exaltação das singularidades culturais baianas
quanto em termos das necessidades de eliminação das disparidades regionais. Tal repertório
em alguma medida foi responsável pela criação da imagem pessoal de ACM enquanto um
defensor aguerrido da Bahia, ou seja, enquanto um líder carismático personalista que defende
P á g i n a | 53

o seu ―povo‖. Assim, tanto no autoritarismo quanto na democracia, ACM utilizou o discurso
regionalista carismático enquanto estratégia de modernização.

Assim, é importante destacar que o regionalismo político não só é um elemento


marcante do repertório simbólico do carlismo, como também uma marca indissociável de sua
estratégia modernizante, do ponto de vista econômico, ou seja, sob esse viés, a modernização
conservadora deve ser realizada em ―função‖ dos interesses da Bahia.

Mas o elemento mais forte da dimensão modernizadora do carisma de ACM é a


valorização da eficiência o que sintoniza o discurso carlista com a gramática política do
insulamento burocrático. O carlismo tem como uma de suas marcas fundamentais o ideal
tecnocrático, a defesa de que os cargos sejam ocupados por técnicos; a junção de competência
e moralidade na administração pública. Nesse sentido, o modelo de gestão tecnocrática seria o
meio de realização da modernização. Tal elemento se evidencia no discurso a seguir:

[...] não organizei, por isso, um secretariado e uma equipe de assessoramento à base
de injunções políticas ou simpatias pessoais, mas essencialmente avaliando
competência, capacidade funcional e integridade moral. Escolhi entre os mais
capazes para os cargos, não entre os mais próximos ou os que se arrogavam direitos.
(Declaração de ACM no Jornal A TARDE em 17 março de 1972).

Sobre este aspecto, analisa Ames (2003):

A extraordinária influência de ACM na Bahia e em todo país deve muito à imagem


tecnocrática e desenvolvimentista que ele conseguiu construir. Um aspecto crucial
de seu estilo tecnocrático era o administrativo. Durante o período militar, a Bahia
levou a cabo uma reorganização administrativa comparável às reformas
empreendidas pelo regime e, muitos anos antes, pelo governo de Juscelino
Kubitschek. Nessa reorganização, ACM pôs a salvo do clientelismo os órgãos
burocráticos dedicados a planejamento, orçamentos e programas econômicos, mas
reservou a critérios partidários e à concessão de favores pessoais as áreas de serviços
sociais (AMES, 2003, p.171).

Outra dimensão importante do carisma de ACM, e que também é parte do seu


repertório simbólico, refere-se ao seu caráter despótico. Como salienta Dantas Neto (2006) ele
instiga a busca pelo poder pessoal e concentra-se na ideia do líder que usa qualquer que seja o
método em termos de truculência e autoritarismo para alcançar seus objetivos. Nesse aspecto,
ACM não usava de cerimônias para utilização desses métodos quando se tratava de defender a
Bahia. Sabia, ainda, usar tanto dessa truculência quanto da esperteza para derrotar seus
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adversários. Embora essa característica contrarie a boas regras do jogo democrático, costumou
ter efeito eleitoral positivo na Bahia, até um certo momento, provavelmente em razão de uma
cultura política simpática à proeminência de personalidades fortes. Assim, o repertório
simbólico do carlismo conforma-se pelo regionalismo político, com slogan modernizante,
associado ao carisma despótico.

Considerando a trajetória histórica e o carlismo como modo de fazer política (perfil


eleitoral, padrão de alianças e repertório simbólico), parece inegável a ―importância do senso
de oportunidade política de ACM‖ (AMES, 2003, p. 175) e ―a capacidade de ACM de extrair
vantagens de situações agonísticas dos governos que apoia‖ (DANTAS NETO, 2003, p. 20).
Nesse jogo de utilização adequada das oportunidades, construiu um grupo político que deixou
marcas significativas e profundas na política baiana e nacional.

. Dessa forma, é importante considerar que para além dos arranjos institucionais,
ditadura ou democracia, o que interessa a este trabalho é observar em que aspectos a
estratégia política de ACM Neto é marcada por esse modo de fazer política, ou em que seu
discurso e prática política mostram mudanças em relação ao discurso e à prática do grupo que
lhe serviu de berço político. O ponto de partida, assim, é o contexto de predominância
carlista na década de 90, em perspectiva analítico-comparativa com esse ator que entra em
cena na política baiana a partir de 2002.
P á g i n a | 55

CAPÍTULO 2

PERFIL ELEITORAL DE ACM NETO (2002-2010)


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Este capítulo tem por objetivo apresentar o perfil eleitoral de ACM Neto nas eleições
para deputado federal de 2002, 2006 e 2010 e cotejá-lo com certas regularidades que se
verificavam em eleições anteriores, no caso de outros deputados federais do grupo carlista.
Através de uma análise mais ampla sobre a conjuntura política de cada eleição, das alianças
político-partidárias construídas ao longo desse período e do desempenho eleitoral do seu
campo político, o capítulo pretende desvelar as características do voto em ACM Neto: seus
redutos eleitorais, o perfil do seu voto em termos de dispersão/concentração e
dominância/compartilhamento (Ames, 2003) e algumas características relevantes dos
municípios que mais contribuíram a para sua votação.

Uma vez conhecidos os principais traços do padrão de sua votação, será possível
tanto compreender de maneira mais aprofundada as vinculações do seu perfil eleitoral com a
tradição carlista quanto orientar a análise sobre as suas estratégias políticas, especialmente sua
atuação parlamentar nesse período, foco do capítulo seguinte deste trabalho.

2.1 O desempenho eleitoral do carlismo nas eleições de 1994 e 1998

Conforme Pereira (2007), na década dos 90 o carlismo conseguiu se readaptar a um


novo contexto político, agora democrático, tornando-se facção predominante da elite política
estadual17, fato perceptível na supremacia eleitoral do grupo nas eleições de 1994 e 1998:

Se nos anos 70, durante o regime militar, [o carlismo] utilizou-se do discurso


autoritário enquanto instrumento necessário ao desenvolvimento e modernização da
Bahia, nos anos 90 substitui sua estratégia caracterizada por um autoritarismo de
tipo instrumental e soube adaptar-se às regras do jogo democrático liberal. [...] A
estratégia política de ACM para se manter no poder no regime democrático,
inclusive tendo aumentado sua influência no cenário nacional, refere-se ao
atendimento dos requerimentos da ordem econômica vigente no país. Nesse sentido,
atendeu a tais pré-requisitos através de uma articulação baiano/nacional sabendo se
articular a uma elite econômica e o comando político nacional. (PEREIRA, 2007, p.
117-118)

Nas eleições de 1994 Fernando Henrique Cardoso (PSDB) foi o candidato mais
votado para Presidente na Bahia, com apoio do PFL e do seu líder Antônio Carlos Magalhães.

17
A partir da consideração do carlismo como um ―meta partido‖ (Dantas Neto, 2006), é possível emprestar à
competição partidária na Bahia, no contexto dos anos 90, uma conotação equivalente à que assume, na tipologia
de Sartori, um sistema competitivo de partido predominante, ou seja, uma configuração de poder em que um
partido governa só e, embora formalmente sujeito a alternância, obtém sempre maioria absoluta
(SARTORI,1982, p.161).
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Paulo Souto, candidato carlista, venceu as eleições para Governador, enquanto Waldeck
Ornelas e o próprio ACM elegeram-se senadores. A vitória do carlismo foi ampla nas várias
modalidades de pleitos travados na ocasião, mas é preciso qualificá-la do ponto de vista
partidário, pois o carlismo era bem maior que o PFL, seu principal partido. As notórias
disciplina e unidade de ação da facção carlista da elite política baiana acoplavam-se a uma
organização eleitoral que cortava transversalmente um conjunto embaralhado de legendas
partidárias.

Como aponta Dantas Neto (2003), o PFL, o PL e o PTB configuravam o que o autor
denominou de ―carlismo nuclear‖. Segundo ele, ao longo dos anos 90 as seções estaduais
dessas legendas comportavam-se, sob qualquer ângulo que se observe, como um só partido
(ou como um ―meta partido 18‖) estadual, muitas vezes na contramão da orientação e das
alianças dessas mesmas legendas no plano nacional. Ao carlismo nuclear chegaria também o
PPB, a partir de 1998. Em 1994, o PP (Partido Progressista) e o PPR (Partido Progressista
Renovador), os antecessores do PPB19, ainda não haviam chegado a essa condição, guardando
uma autonomia maior na sua dinâmica interna e, por vezes, na política de alianças. Mas não
deixavam de integrar o campo político carlista mais amplo, através de acordos pontuais. Esse
era o caso também de outras legendas menores, além das já mencionadas, que estavam
representadas na AL, embora não na Câmara dos Deputados. Dessa forma, na Assembleia
Legislativa o carlismo nuclear ocupou 30 cadeiras, sendo 19 do PFL, mas tinha ainda mais 4
deputados eleitos pelo PP e o PPR (dois de cada partido) que integravam o campo político
mais amplo do carlismo, somando 34 cadeiras entre os 63 eleitos.

Quanto ao pleito para Deputado Federal (que aqui interessa mais diretamente), é
possível observar, na Tabela I, a seguir, que 16 dos 39 deputados eleitos pela Bahia em 1994
foram candidatos pelo PFL. Considerando o conjunto do ―carlismo nuclear‖ chega-se a 19
eleitos e mais dois integram partidos próximos ao carlismo na política estadual. Entre os 12
deputados federais mais votados do Estado 11 são carlistas e o outro, um aliado. Destacam-se
políticos tradicionais como: Luis Eduardo Magalhães, Benito Gama, Eraldo Tinoco e José

18
Conforme o autor citado, evidências de comando político único, centralizado e indistinto dos quatro partidos
são inúmeras, na composição de direções, exposição à mídia, coesão e disciplina nas atividades parlamentares e
formação de chapas para eleições proporcionais.
19
O PP (Partido Progressista) em 1995 uniu-se ao PPR (Partido Progressista Renovador) e formou o PPB
(Partido Progressista Brasileiro). Em 1998, esse partido disputou eleições já como parte do carlismo nuclear. Em
2003 o PPB se tornou o atual PP ( Partido Progressista) e com esse nome manteve-se no carlismo nucelar até
2006.
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Carlos Aleluia. Luis Eduardo Magalhães foi o mais votado, com 138.084 votos, o que
representou 4,75% dos votos válidos e cerca de 15,84% dos votos dos candidatos do PFL.

Tabela I: Deputados Federais Eleitos - Bahia, 1994


Votos % Votos
Candidato Partidos Colocação
nominais válidos
Carlismo Nuclear PFL, PL E PTB
LUIS EDUARDO MAGALHAES PFL 138084 0,0475 1
JOSE ALVES PFL 71903 0,0247 3
ROLAND LAVIGNE PL 70999 0,0244 4
BENITO DA GAMA PFL 69540 0,0239 5
FELIX MENDONÇA PTB 66645 0,0229 6
EUJACIO SIMOES PL 60122 0,0207 7
ERALDO TINOCO PFL 56318 0,0194 8
JOSE CARLOS ALELUIA PFL 54236 0,0187 9
JORGE KHOURY PFL 53852 0,0185 10
JAIRO AZI PFL 51615 0,0178 11
JONIVAL LUCAS PFL 47388 0,0163 12
JAIRO CARNEIRO PFL 42247 0,0145 17
LUIZ MOREIRA DA SILVA PFL 42070 0,0145 19
AROLDO CEDRAZ PFL 41452 0,0143 20
MANOEL CASTRO PFL 41423 0,0142 21
CLAUDIO CAJADO PFL 38678 0,0133 23
LEUR LOMANTO PFL 38093 0,0131 24
LUIZ FERNANDO LUZ BRAGA PFL 33997 0,0117 28
URSICINO PINTO DE QUEIROZ PFL 33754 0,0116 31
Carlismo (não nuclear)
MARCOS MEDRADO PP 82065 0,0282 2
PRISCO VIANA PPR 42377 0,0146 16
Outras Coligações (oposição)
ROBERTO SANTOS PSDB 45885 0,0158 13
PEDRO IRUJO PMDB 44229 0,0152 14
SIMARA ELLERY PMDB 43285 0,0149 15
DOMINGOS LEONELLI PSDB 42218 0,0145 18
HAROLDO LIMA PC DO B 39043 0,0134 22
UBALDINO JUNIOR PSB 37690 0,013 25
CORIOLANO SALES PDT 35997 0,0124 26
GEDDEL VIEIRA LIMA PMDB 34770 0,012 27
SERGIO CARNEIRO PDT 33988 0,0117 29
NESTOR DUARTE PMDB 33916 0,0117 30
ALCIDES MODESTO PT 30511 0,0105 32
JAQUES WAGNER PT 30039 0,0103 33
JOAO ALMEIDA PMDB 29904 0,0103 34
JOAO LEAO PSDB 29135 0,01 35
MARIO NEGROMONTE PSDB 28966 0,01 36
FERNANDO GOMES PMDB 26865 0,0092 37
ADALBERTO LELIS PSB 24395 0,0084 38
SEVERIANO ALVES PDT 22222 0,0076 39
Fonte: Elaboração própria. Dados: TSE, 2013
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Note-se ainda que num cenário em que os deputados eleitos tiveram - nominalmente
somados - cerca de 62% dos votos válidos apurados para Deputado Federal (considerando-se
nesse universo também os votos nominais conferidos a candidatos derrotados e os votos de
legenda), os votos nominais nos 21 carlistas ou aliados eleitos (55% da bancada baiana)
representam cerca de 40% do total dos votos válidos, enquanto os votos dos 18 eleitos pelos
partidos de oposição (45% da bancada) estão em torno de 20% do mesmo universo de votos
válidos. Isso mostra a representatividade da bancada carlista em relação ao conjunto do
eleitorado, para além da maioria relativamente estreita de governistas na bancada federal
baiana.
Nas eleições de 1998 mantém-se, como se pode ver adiante na Tabela II, a
predominância do carlismo em todos os pleitos. Novamente Fernando Henrique Cardoso foi
vitorioso na Bahia, para o governo estadual foi eleito César Borges logo no primeiro turno e o
ex-governador Paulo Souto para o Senado. O ―carlismo nuclear‖ ampliou sua representação,
elegendo 38 dos seus candidatos à Assembleia Legislativa. E nesse intervalo, em 1996, o
carlismo conseguiu eleger seu candidato a prefeito de Salvador, Antonio Imbassahy.

No pleito para deputado federal ampliou-se também a representação carlista. O PFL


elegeu 20 deputados e o ―carlismo nuclear‖ (que neste pleito, como já dito, passou a englobar
também o PPB) elegeu, ao todo, 23, ou seja, cerca de 59% da bancada. Mais significativo,
porém, que o percentual foi o fato de que os 23 eleitos pelo campo carlista (todos do carlismo
nuclear) capturaram 48% do total de votos válidos, dos quase 41,8% foram conquistados
pelos 20 deputados eleitos pelo PFL. Mais uma vez restou à bancada eleita pela oposição
cerca de 20% do total de votos válidos na eleição. Em outras palavras, se após o pleito de
1998 o número de deputados federais eleitos pela Bahia que faziam oposição ao carlismo
representava dois terços do número de carlistas, o seu peso eleitoral representava menos de
um terço do peso eleitoral dos deputados carlistas.

Por outro lado, em 1998, quatro oposicionistas (Geddel Vieira Lima, Nelson
Pelegrino, Pedro Irujo e Waldir Pires) já aparecem entre os doze deputados federais mais
votados do estado. Dentre os nove carlistas nesse topo destacam-se políticos como Paulo
Magalhães (o mais votado), Eraldo Tinoco, José Ronaldo, José Carlos Aleluia e Jairo Azi. É
importante lembrar que, que nessas eleições, Luis Eduardo Magalhães seria o candidato ao
governo estadual, mas faleceu no mês de abril. Paulo Sérgio Paranhos de Magalhães, o mais
votado, obteve 9,85% dos votos dados a todos os candidatos do PFL.
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Tabela II: Deputados Federais Eleitos –Bahia, 1998


Candidato Partido Votos nominais Votos válidos Colocação
PFL, PL,
Carlismo Nuclear
PTB e PPB
PAULO PARANHOS PFL 192515 4,64 1
ERALDO TINOCO PFL 150195 3,62 2
JOSE RONALDO PFL 149640 3,6 3
JAIRO AZI PFL 114128 2,75 5
FELIX MENDONCA PTB 113685 2,74 6
JOSE CARLOS ALELUIA PFL 102874 2,48 8
JOSE ALVES PFL 93391 2,25 9
BENITO DA GAMA PFL 92409 2,23 11
CLAUDIO CAJADO PFL 83114 2 13
JORGE KHOURY PFL 82349 1,98 14
EUJACIO SIMOES PL 72942 1,76 16
AROLDO CEDRAZ PFL 71720 1,73 17
LUIZ MOREIRA DA SILVA PFL 71289 1,72 18
JONIVAL LUCAS PPB 71172 1,71 19
LEUR LOMANTO PFL 70020 1,69 20
URSICINO PINTO DE QUEIROZ PFL 68702 1,66 21
JAIRO CARNEIRO PFL 62905 1,52 23
ROLAND LAVIGNE PFL 58450 1,41 24
PAULO BRAGA PFL 58326 1,41 25
GERSON GABRIELLI PFL 57354 1,38 26
MANOEL CASTRO PFL 53218 1,28 27
JOSE LOURENCO PFL 51010 1,23 30
JAIME FERNANDES FILHO PFL 42148 1,02 37
Outras Coligações (Oposições)
GEDDEL VIEIRA LIMA PMDB 118.880 2,86 4
NELSON PELLEGRINO PT 109628 2,64 7
PEDRO IRUJO PMDB 92819 2,24 10
WALDIR PIRES PT 84031 2,02 12
NILO COELHO PSDB 74273 1,79 15
JOAO LEAO PSDB 64740 1,56 22
FRANCISTONIO PINTO PMDB 52452 1,26 28
JAQUES WAGNER PT 51156 1,23 29
JUTAHY MAGALHAES JUNIOR PSDB 46804 1,13 31
JOAO ALMEIDA PSDB 46011 1,11 32
MARIO NEGROMONTE PSDB 45762 1,1 33
WALTER PINHEIRO PT 45595 1,1 34
HAROLDO LIMA PC do B 44497 1,07 35
GERALDO SIMOES PT 42556 1,03 36
CORIOLANO SALES PDT 41457 1 38
SAULO PEDROSA PSDB 37569 0,91 39
Fonte: Elaboração Própria. Dados: TSE, 2013
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Conforme se observa, houve um grande aumento no número de votos no PFL em


1998 em relação a 1994. Mas esse aumento não se concentrou em um só candidato. Ampliou-
se também o número de candidatos eleitos com votação mais expressiva. Cinco dos 20
candidatos eleitos por esse partido obtiveram mais de 100 mil votos, diferentemente de 1994
quando apenas Luis Eduardo Magalhães foi eleito com uma votação mias significativa,
enquanto todos os outros eleitos tiveram votação bem menor, entre 30 a 60 mil votos. Fica
evidente, dessa forma, que nas eleições de 1998, com a saída de Luis Eduardo Magalhães da
disputa, seus votos foram divididos entre outros candidatos do partido, havendo assim um
compartilhamento do seu espólio eleitoral.

A Tabela III consolida as informações discutidas acima permitindo uma


comparação entre os resultados dos dois pleitos no que concerne aos aspectos aqui tratados,
ou seja, a distribuição interna de votos dentro do campo carlista e seu cotejamento com as
oposições:

Tabela III: Quantidade de votos e percentual sobre os votos válidos dos votos nominais
nos deputados federais eleitos na Bahia em 1994 e 1998 (Carlismo e Oposições)
1994 1998
Partido / campo Votos %Votos Votos %Votos
Nominais válidos Nominais válidos
PFL 854650 29,39 1725757 41,56
Demais Partidos do Carlismo
197766 6,80 257799 6,21
Nuclear

Total do Carlismo Nuclear 1052416 36,19 1983556 47,77

PFL/Carlismo Nuclear 81,21 0,00 87,00 0,00

Outros Carlistas 124442 4,28 - -

Total do Campo Carlista 1176858 40,47 1983556 47,77

Oposições 613058 21,08 998230 24,04


TOTAL 1789916 61,55 2981786 71,82
Fonte: Elaboração própria. Dados do TSE, 2014.

Conforme se pode observar na Tabela III, houve um aumento do peso eleitoral do


PFL entre 1994 e 1998, bem como um aumento do peso relativo do PFL frente ao carlismo
entre essas duas eleições. É possível notar, ainda, que o peso eleitoral dos carlistas aumentou
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e dos oposicionistas também, embora tenha diminuído o número de deputados oposicionistas


eleitos, que em 1998 foi de 18 deputados eleitos e em 1994, 16 eleitos. A despeito disso, a
vantagem eleitoral do carlismo, isso não se refletiu em predominância equivalente em termo
das bancadas. Em 1994 foram 21 deputados carlistas eleitos e 18 oposicionistas. Já em 1998,
fora 23 deputados carlistas eleitos e 16 oposicionistas. Fica claro, assim, a caracterização do
sistema competitivo predominante (Sartori,1982) apenas na eleição majoritária e não eleições
legislativas.

2.2 O desempenho do carlismo e do PFL: o contexto político das eleições de 2002

Nas eleições de 2002, como aponta Dantas Neto (2003), começa a se revelar uma
inflexão na trajetória do carlismo, que se concluirá em 2006. Segundo o autor:

A situação dominante que reinava em 1998 revogava-se graças ao estancamento da


expansão do carlismo e ao avanço da esquerda sobre o espólio da outra banda da
oposição e sobre o saldo da marcante queda da alienação eleitoral historicamente
alta na Bahia carlista, notoriamente a dos votos em branco. [...] das eleições de 2002
emergiu a ideia da transição pós carlista. (DANTAS NETO, 2003, p.273)

Nas eleições para Governador quase houve segundo turno, o que seria uma situação
muito difícil levando em conta a ―onda Lula‖ que se instaurara neste contexto, mas os
carlistas venceram novamente as eleições para o Governo do Estado, elegendo Paulo Souto.
Ocuparam também as duas vagas no Senado, com Antônio Carlos Magalhães e César Borges.
Para a Assembleia Legislativa, dos 63 deputados estaduais o ―carlismo nuclear‖ elegeu 31,
sendo 16 deles do PFL. Essas vitórias em 2002 já haviam sido precedidas, nas eleições
municipais de 2000, pela reeleição de Antonio Imbassahy a prefeito de Salvador.

Como se pode ver na Tabela IV, nas eleições para deputado federal, em 2002, dos
39 candidatos eleitos, 22 eram do carlismo nuclear (19 do PFL, 2 do PPB, um do PTB). Outra
vez os partidos menores que compunham a base carlista na Assembleia Legislativa ficaram
sem representação na Câmara dos Deputados e agora o mesmo ocorria com o PL, que não
alcançou o quociente eleitoral mínimo para eleger representante. Era o aprofundamento da
―pefelização‖ da representação federal do grupo carlista, que já ocorria desde 1998.

Como aponta Dantas Neto (2003), nas eleições legislativas de 2002 as vitórias do
carlismo tiveram, quando muito, sabor de sobrevivência, em função da diminuição, em
P á g i n a | 63

relação ao pleito de 1998, tanto da bancada federal quanto da estadual do campo carlista mais
amplo, bem como o crescimento da representação eleitoral oposicionista. O declínio nas
eleições proporcionais não foi muito perceptível primeiro por causa das vitórias obtidas nas
majoritárias e depois porque o declínio não afetou diretamente o PFL naquele instante.
Expressou-se mais no descolamento do PMDB, acompanhado de alguns partidos menores do
campo carlista mais amplo, indicadores de uma perda de capacidade de coalizão do próprio
PFL, partido principal do carlismo e do poder de chantagem dos seus antes incondicionais
aliados. Na própria AL a maioria governista se tornou menos tranquila e mais dependente de
acordos pontuais com deputados.

Tabela IV: Deputados Federais Eleitos – Bahia, 2002


Candidato Partido Votos nominais Votos válidos Colocação
PFL, PTB
Coligação do Carlismo Nuclear PPB, PTN E
PST
ACM NETO PFL 400275 6,72 1
FÁBIO SOUTO PFL 236067 3,963 3
PAULO MAGALHÃES PFL 191619 3,217 4
FELIX MENDONÇA PTB 156695 2,631 6
LUIZ FERNANDES ARAÚJO LIMA PFL 150545 2,528 7
JOSÉ CARLOS ALELUIA PFL 125836 2,113 9
LUIZ CARREIRA PFL 113509 1,906 12
GERSON GABRIELLI PFL 110863 1,861 13
JOSÉ ROCHA PFL 100514 1,688 15
JOÃO LEÃO PPB 97448 1,636 18
JORGE KHOURY PFL 97829 1,642 17
AROLDO CEDRAZ PFL 97224 1,632 19
CLÁUDIO CAJADO PFL 95480 1,603 20
MÁRIO NEGROMONTE PPB 88916 1,493 22
ROBÉRIO NUNES PFL 76092 1,278 23
JAIRO CARNEIRO PFL 65782 1,104 27
REGINALDO GERMANO PFL 65607 1,102 28
JOSÉ CARLOS ARAUJO PFL 61455 1,032 30
MARCELO GUIMARÃES FILHO PFL 52389 0,88 33
ZELINDA NOVAES PFL 51196 0,86 34
PEDRO IRUJO PFL 47905 0,804 35
MILTON BARBOSA PFL 47661 0,8 36
Outras Coligações
NELSON PELLEGRINO PT 257438 4,322 2
WALTER PINHEIRO PT 183916 3,088 5
GEDDEL VIEIRA LIMA PMDB 149606 2,512 8
ALICE PORTUGAL PC do B 121043 2,032 10
ZEZÉU RIBEIRO PT 115656 1,942 11
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Candidato Partido Votos nominais Votos válidos Colocação


JUTAHY MAGALHÃES JÚNIOR PSDB 102748 1,725 14
GUILHERME MENEZES PT 100041 1,68 16
DANIEL ALMEIDA PC do B 95485 1,603 21
JOÃO ALMEIDA PSDB 76098 1,278 24
LUIZ BASSUMA PT 75600 1,269 25
JOSIAS GOMES PT 75338 1,265 26
LUIZ ALBERTO PT 62322 1,046 29
JONIVAL LUCAS PMDB 60095 1,009 31
COLBERT MARTINS PPS 59704 1,002 32
CORIOLANO SALES PMDB 56041 0,941 32
SEVERIANO ALVES PDT 43328 0,727 37
EDSON DUARTE PV 39401 0,662 38
Fonte:Elaboração Própria.Dados: TSE,2013

Nesse contexto de declínio relativo da força do seu grupo político, ACM Neto
tornou-se o deputado federal mais votado da Bahia com 400.275 votos de um total de
5.956.123 votos válidos, representando 6,72% destes votos e cerca de 16% dos votos totais do
PFL. Nesse pleito, do qual participaram 134 candidatos a deputado federal competindo pelo
voto de 8.568.602 de eleitores aptos a votar, ACM Neto obteve votos em 410 dos 417
municípios do Estado. A sua votação foi superior em mais de 60% às do segundo mais
votado, Nelson Pelegrino (PT), e segundo candidato mais votado do PFL, Fábio Souto, filho
do Governador.

Nas eleições de 2002, assim como em 1994, houve uma grande concentração de
votos em poucos candidatos, como é o caso de ACM Neto mais evidentemente e o de Fábio
Souto. Apesar desses resultados, a partir de 2002 o carlismo não mostrava mais ser na eleição
majoritária uma facção da elite política com força equivalente a de um partido predominante,
ao molde de Sartori (1982). Já havia se instaurado uma competição política bipolar, com o
crescimento da força política do PT. Àquela altura a competição política na Bahia já era mais
aderente ao tipicamente chamado sistema bipartidário, no qual dois partidos tem condições
de competir com a possibilidade real de alternância do poder (SARTORI,1982).

Compreendido o contexto, pode-se agora apresentar o perfil da votação de ACM


Neto naquelas eleições tendo em conta, no seu posterior cotejamento com um virtual perfil
eleitoral padrão do carlismo que lhe antecedeu, as alterações acima assinaladas no formato da
P á g i n a | 65

competição política estadual. É bom considerar esse ponto inclusive para despir a análise de
uma expectativa de que se tivesse, com Neto, a mera e simples reiteração do perfil tradicional.

A distribuição da votação de ACM Neto pelo conjunto do Estado em 2002 fica


visível no Mapa 1, que se segue. Conforme se observa, o candidato obteve votos em quase
todos os municípios do Estado, ainda que em geral com um número pequeno de votos. Nota-
se, portanto, certa concentração da parte mais significativa da sua votação, conforme será
melhor analisado mais adiante.

Mapa 1- Geografia do Voto de ACM Neto, 2002 - Votos Nominais

Fonte: Elaboração própria. Dados do TSE, 2013.


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2.3. Caracterização do perfil eleitoral de ACM Neto em 2002

De acordo com Ames (2003), o sistema eleitoral brasileiro dá ampla liberdade aos
parlamentares para formarem coligações bem sucedidas, ao mesmo tempo as regras eleitorais
dão margem a uma enorme ambiguidade da recomposição das alianças após as eleições.

Os eleitores votam em candidatos individuais, mas do ponto de vista formal, os eleitores


representam todo o estado, como membro de bancadas plurinominais. As eleições
legislativas posteriores geralmente têm pouca relação com as questões políticas que haviam
definido a coligação anterior, e muitos pleitos jogam os membros da aliança uns contra os
outros. (AMES, 2003, p. 61)

A partir dessa compreensão geral o autor propõe uma tipologia das diferentes bases
eleitorais que os deputados cultivam. Entende que no sistema de representação de lista aberta
as estratégias eleitorais refletem um tipo singular de competição, que pode ser representado
com base em duas dimensões: a) uma que varia de acordo com a inserção política do
candidato em cada município ou conjunto de municípios, medida pelo total de votos do
candidato em relação à totalidade de votos do município, que informa a sua dominância
naquele espaço; b) outra que depende da distribuição geográfica dos municípios onde o
candidato obteve votação e revela o grau de concentração ou dispersão de sua base eleitoral.

Os tipos de votação que se configuram como concentrados-dominantes são, segundo


Ames(2003), os clássicos redutos eleitorais brasileiros, onde há domínio da votação de um
deputado em um grupo de municípios contíguos. De acordo com o autor, este tipo de base
eleitoral tenderia a refletir as relações tradicionais de empreguismo e clientelismo das regiões
mais atrasadas e teria como representantes típicos ex-prefeitos e membros de famílias
tradicionais.

As bases com tipo de votação concentradas-compartilhadas referem-se à


concentração de votos em regiões urbanas, megacidades ou cidades vizinhas, que são espaços
onde é maior a população e há também um maior compartilhamento dos votos com muitos
outros candidatos, em função da sua complexidade.

As bases dispersas-compartilhadas têm votos em setores de eleitores numericamente


pouco expressivos e dispersos em qualquer município. Por fim, o tipo disperso-dominante é
um padrão que corresponderia a deputados que, em função da ocupação de postos na
P á g i n a | 67

burocracia estatal ou da disponibilidade de recursos financeiros, seriam capazes de estabelecer


acordos com líderes políticos locais nos mais diversos cantos do estado. O Mapa 2, a seguir,
é uma primeira visualização do modo pelo qual o perfil da votação de ACM Neto em 2002
pode ser discutido na perspectiva dessa tipologia.

Mapa 2- Geografia do Voto de ACM Neto, 2002 – Dominância

Fonte: Elaboração própria. Dados : TSE, 2013.


P á g i n a | 68

Ter-se-á em conta, na análise, que de acordo com Ames (2003, p.73), os deputados
brasileiros têm enorme flexibilidade na construção de coalizões de eleitores suficientemente
numerosos para elegê-los. Nesse sentido, embora existam vários fatores que contribuam para
caracterização do padrão de votação de cada deputado, como os fatores econômicos e
demográficos, em sua interpretação os fatores políticos dos municípios, como por exemplo a
relação que se estabelece com o prefeito, são muito mais importantes.

Analisando o perfil eleitoral de ACM Neto com base 20 na tipologia de Ames (2003),
na dimensão da dominância/compartilhamento de votos, através do Mapa 2, que apresenta a
distribuição geográfica da votação do referido candidato em função desse primeiro indicador,
observou-se que em 80 dos 410 municípios onde foi votado, ACM Neto obteve pelo menos
10%21 dos votos válidos sendo que sua dominância chegou a alcançar 58,89% dos votos
válidos do município de Barrocas.

Quanto à outra dimensão de Ames (2003) - a que analisa dispersão/concentração dos


votos de um candidato num grupo de municípios e que considera a contribuição dos
municípios na votação total do candidato, é possível dizer que neste pleito 21 municípios

20
Embora este trabalho tenha se inspirado na tipologia de Ames (2003), a abordagem aqui utilizada não
reproduziu na sua totalidade os seus procedimentos metodológicos (a análise da dominância a partir de uma
ponderação matemática e o cálculo da concentração definido em função de uma constante estatística denominada
de Moran I), pois compreende que esta sofisticação metodológica não era necessária para alcançar os objetivos
aqui propostos. No que se refere a dimensão da dominância/compartilhamento, a presente análise considerou a
dominância a partir do percentual de votos válidos do candidato em cada município. Isso não permitirá afirmar
categoricamente se o voto de ACM Neto corresponde a um tipo dominante ou compartilhado, mas permite
identificar os municípios que se configuram redutos eleitorais do candidato comparando esse perfil com os de
outros candidatos carlistas em eleições passadas, esse sim um objetivo deste trabalho. Da mesma forma, não será
possível afirmar se o perfil do seu voto é concentrado ou disperso nos moldes de Ames, pois isso exigiria fazer
uma comparação com a votação de outros candidatos em um mesmo pleito utilizando a constante estatística
acima referida. No entanto, a análise do perfil dos seus votos permitiu identificar os municípios que mais
contribuíram para a sua eleição, possibilitando assim uma comparação com suas estratégias políticas,
especialmente no que tange à sua atuação parlamentar e às suas emendas ao orçamento. A despeito das
diferenças metodológicas, ao fim da análise da trajetória de ACM Neto nas três eleições – 2002, 2006 e 2010,
será possível analisar em perspectiva a tendência de transformação do seu padrão de votação, em que direção
caminha em termos de dispersão-concentração e dominância-compartilhamento.

21
Neste trabalho toma-se como critério de análise da dominância um mínimo de 10% dos votos válidos de um
determinado município. Claro está que este critério é arbitrário, mas considera-se que serve como indicador de
um determinado grau relevante de dominância visto que, como salientado, neste ano houve 134 candidatos
disputando o pleito para deputado federal. Nesse sentido, obter 10% dos votos válidos em 80 municípios
considera-se importante numa eleição proporcional e indica uma maior dominância da disputa em detrimento de
um maior compartilhamento. No entanto é importante considerar também nessa análise o tamanho dos
municípios, ainda que definir essas características especificas não seja propriamente o objetivo deste trabalho.
P á g i n a | 69

(onde o voto em ACM Neto representou pelo menos 1% do total dos seus votos22)
representaram 56% de toda votação de ACM Neto, conforme apresentado no Mapa 3 e na
Tabela V, que se seguem:

Mapa 3 – Municípios que mais contribuíram para votação total de ACM NETO, 2002

Fonte: Elaboração própria. Dados: TSE, 2013.


22
Tomou-se como critério para a seleção dos principais municípios responsáveis pela votação do candidato, em
um universo de 410 municípios onde ele foi votado, um mínimo de 1% de contribuição dos votos do candidato
neste município para o total de votos dele. Mais uma vez, o critério é arbitrário, mas, em função dos resultados
gerados, considera-se que se conseguiu selecionar uma amostra bastante relevante no que concerne ao perfil
eleitoral de ACM Neto. A amostra, portanto, foi definida em função da dimensão dispersão/concentração dos
votos na tipologia de Ames (2003). No entanto, a outra dimensão, dominância/compartilhamento, não deixou ser
contemplada por ela, uma vez que dentro da amostra quase todos os municípios possuíam uma dominância
elevada (maior que 10%) e nela estava incluído o município de maior dominância.
P á g i n a | 70

Tabela V: Municípios que mais contribuíram para a votação total de ACM Neto, 2002
CONTRIBUIÇÃO
PERCENTUAL
ÍNDICE DE
DE CADA ÍNDICE DE RANKING RANKING
DENVOLVIMENTO
MUNICÍPIO VOTOS NOMINAIS VOTOS VÁLIDOS (%) MUNICÍPIO DENVOLVIMENTO NO NO
ECONÔMICO -
PARA O VOTO SOCIAL - 2002 ESTADO ESTADO
2002
TOTAL DO
CANDIDATO
SALVADOR 104152 9,35 26,02 5.326,59 1º 6.659,57 1º
JEQUIÉ 12037 18,99 3,01 5.142,62 11º 5.040,00 17º
MARAGOGIPE 8652 43,99 2,16 4.976,31 255º 4.992,45 103º
CANDEIAS 8591 22,37 2,15 5.090,50 34º 5.074,09 11º
SANTO ANTÔNIO DE JESUS 8211 21,91 2,05 5.112,65 20º 5.020,72 22º
BARREIRAS 8162 16,06 2,04 5.258,81 3º 5.065,09 12º
BRUMADO 6915 23,02 1,73 5.082,77 40º 5.016,36 25º
PORTO SEGURO 6419 20,28 1,60 5.082,68 41º 5.028,31 19º
QUINJINGUE 6113 43,90 1,53 4.931,27 387º 4.989,63 173º
SÃO DESIDÉRIO 5693 56,70 1,42 4.996,32 178º 5.006,56 33º
JEREMOABO 5574 33,73 1,39 5.000,57 161º 4.992,42 105º
INHAMBUPE 5228 33,96 1,31 4.996,76 177º 4.992,08 110º
ALAGOINHAS 5152 8,50 1,29 5.177,31 5º 5.043,26 14º
SÃO GABRIEL 4821 50,06 1,20 4.964,61 308º 4.987,63 305º
EUNÁPOLIS 4620 14,61 1,15 5.139,29 14º 5.024,15 21º
IGUAÍ 4457 41,34 1,11 4.969,61 287º 4.989,93 156º
LAJE 4409 41,32 1,10 4.980,14 237º 4.989,71 168º
BARROCAS 4270 58,89 1,07 4.901,11 410º 4.986,84 377º
RAFAEL JAMBEIRO 4255 42,64 1,06 4.934,28 380º 4.988,79 209º
AMARGOSA 4155 27,29 1,04 5.055,49 57º 4.994,42 77º
SENTO SÉ 4082 25,97 1,02 4.991,83 194º 4.993,59 86º
TOTAL 225968 - 56,45
Fonte: Elaboração própria. Dados: TSE, 2012/ SEI, 2013
P á g i n a | 71

Conforme se pode observar, Salvador foi o município que mais contribuiu para a
votação do candidato, com 104.152 votos que corresponderam a cerca de 26% dos votos de
ACM Neto. Os demais municípios dividem o restante da contribuição para o voto total do
candidato. Claro está que a capital e maior município do estado teve um peso relevante na sua
votação e na conformação da contribuição desses 21 municípios. No entanto, mesmo sendo
retirada a capital da distribuição, os 20 municípios restantes continuariam representando cerca
de 30% dos votos de ACM Neto, dado relevante sobre o seu perfil eleitoral. Os municípios
onde o voto se concentrou são bastante heterogêneos em termos demográficos, na medida em
que fazem parte desse grupo desde municípios maiores e mais importantes como Salvador,
Jequié, Candeias, Santo Antônio de Jesus, Barreiras, entre outros, a municípios menores,
como Barrocas, Quinjingue e Sento sé, por exemplo. Também são heterogêneos em termos de
localização no estado. Há municípios da Região Metropolitana, do Recôncavo Baiano, do
Baixo Sul, do Sertão, do Oeste e da Região Sul.

Para qualificar mais a informação sobre esses municípios foram utilizados os Índices
de Desenvolvimento Econômico (IDE) e de Desenvolvimento Social (IDS) apurados pela SEI
(Superintendência de Estudo Econômicos e Sociais da Bahia 23). Daqueles 21 municípios, 11
estão situados entre os 20% mais bem situados no ranking do IDE no Estado. Apenas um
(Barrocas) está entre os 20% piores do mesmo ranking. Ali ACM Neto obteve a sua maior
dominância de votos (58,9% dos votos válidos). Constata-se ainda que o candidato teve a
maior parte dos seus votos em municípios situados entre posições intermediárias e superiores
no ranking do IDE no contexto da Bahia, mostrando que seu voto não provém principalmente
de uma base formadas pelos municípios mais pobres do estado.

No que se refere ao Índice de Desenvolvimento Social (IDS) - mais amplo porque


considera a renda dos chefes de família e o acesso aos serviços públicos – 10 dos 21

23
―A metodologia de cálculo dos Indicadores Econômicos e Sociais dos municípios baianos envolve uma série
de variáveis econômicas, sociais e de infraestrutura cujo agrupamento, de acordo com as suas naturezas, gera o
que se define neste trabalho como Índice de Desenvolvimento Econômico e Índice de Desenvolvimento Social.‖
(SEI, 2013). As variáveis que dão origem ao Índice de Desenvolvimento Econômico envolvem os índices de
infraestrutura, qualificação da mão de obra e produto do município. Já o Índice de Desenvolvimento Social é
formado pelos índices do nível de saúde, do nível de educação, da oferta de serviços básicos e da renda média
dos chefes de família. Disponível em:
<http://www.sei.ba.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=99&Itemid=173>.
P á g i n a | 72

municípios referidos estão entre os 20% melhor situados nesse ranking, incluindo Salvador, o
primeiro colocado, e Barreiras, o terceiro. Oito desses municípios estão situados entre os 40%
piores no ranking e três deles entre os 20% piores do Estado. Este é novamente o caso de
Barrocas, que, aliás, é o pior município em IDS na Bahia.

Diferentemente do que é possível inferir a partir da análise do IDE, o voto de ACM


Neto se concentrou em municípios bastante heterogêneos do ponto de vista do IDS. No
entanto, nota-se certa polarização entre municípios com melhores índices e aqueles com os
piores índices ou pelo menos de nível intermediário mais próximo da base da pirâmide social.
Vale ressaltar que o índice de desenvolvimento social, por avaliar as condições de serviços no
município, pode, em alguma medida, servir de base para entender melhor os redutos eleitorais
criados a partir de uma rede clientelista, pois nesses municípios as políticas públicas
distributivas, como as de educação, entre outras, têm um impacto bastante acentuado.

É interessante salientar que em todos estes municípios, nas eleições anteriores, os


candidatos carlistas a governador, César Borges, e a senador, Paulo Souto, foram vitoriosos.
Quanto a Fernando Henrique Cardoso, candidato à Presidência da República com o apoio do
PFL e de ACM, apenas em dois desses municípios (Salvador e Alagoinhas) ele não teve o
maior número de votos.

Quanto à votação para deputado federal nesses mesmos municípios em eleições


anteriores, é considerável a votação dos candidatos do PFL Em quase todos os municípios 24,
os candidatos carlistas foram os mais bem votados, destacando-se entre eles o peso da votação
dos deputados eleitos em 1998, como por exemplo: Leur Lomanto em Jequié; Roland Lavigne
em Porto Seguro e Eunápolis; Jairo Aziz em São Gabriel, Quinjigue, Jeremoabo e
Inhambupe; Paulo Roberto Luz Braga, em São Desidério e Barreiras; e por fim Eraldo
Tinoco, em Santo Antônio de Jesus e Iguaí. Tais municípios, dessa forma, se configuraram
como verdadeiras bases eleitorais dos candidatos do PFL.

24
Somente não foram analisados os resultados das eleições de 1998 no município de Barrocas já que este foi
fundado em 2000. Antigo distrito do município de Serrinha, Barrocas se emancipou politicamente através da Lei
estadual nº 7.620, de 30 de março de 2000.
P á g i n a | 73

Eis a seguir, no Quadro I, as listagens dos pefelistas eleitos em 2002 e nas duas
eleições anteriores, apresentadas para se ter uma visão do quadro precedente onde se
encaixou, em 2002, o neófito ACM Neto:

Quadro I - Candidatos eleitos pelo PFL nas eleições de 1994-1998-2002, por ordem
decrescente de votação
1994 1998 2002

LUIS EDUARDO PAULO MAGALHAES ACM NETO


JOSE ROCHA ERALDO TINOCO FÁBIO SOUTO
BENITO GAMA JOSE RONALDO PAULO MAGALHÃES
JAIRO AZI LUIZ FERNANDES A.
ERALDO TINOCO LIMA
JOSE CARLOS JOSE CARLOS JOSÉ CARLOS
ALELUIA ALELUIA ALELUIA
JORGE KHOURY JOSE ROCHA LUIZ CARREIRA
JAIRO AZI BENITO GAMA GERSON GABRIELLI
JONIVAL LUCAS CLAUDIO CAJADO JOSÉ ROCHA
JAIRO CARNEIRO JORGE KHOURY JORGE KHOURY
LUIZ MOREIRA AROLDO CEDRAZ AROLDO CEDRAZ
AROLDO CEDRAZ LUIZ MOREIRA CLÁUDIO CAJADO
MANOEL CASTRO LEUR LOMANTO ROBÉRIO NUNES
CLAUDIO CAJADO URSICINO QUEIROZ JAIRO CARNEIRO
REGINALDO
LEUR LOMANTO JAIRO CARNEIRO GERMANO
JOSÉ CARLOS
LUIZ BRAGA ROLAND LAVIGNE ARAUJO
MARCELO
URSICINO QUEIROZ PAULO BRAGA GUIMARÃES Fº
GERSON GABRIELLI ZELINDA NOVAES
MANOEL CASTRO PEDRO IRUJO
JOSE LOURENCO MILTON BARBOSA
JAIME FERNANDES
Fonte: Elaboração própria. Dados: TSE, 2013

Sobre quais nomes do quadro acima pode haver indícios de que tiveram votações
suas, ou mesmo redutos, transferidos, direta ou indiretamente, para ACM Neto em 2002? Por
eliminação se chegará aqui a um subconjunto de nomes que merecem ter seus redutos em
1994 e 1998 cotejados com o perfil eleitoral inicial de ACM Neto.
P á g i n a | 74

Foram seis os candidatos que se elegeram, consecutivamente, nas três ocasiões.


Observando suas posições nas listas, conforme suas votações a cada eleição, José Rocha tem
uma trajetória descendente ao longo de todo o período, do topo até uma posição intermediária;
Jairo Carneiro e Jorge Khoury caem de posição em 1998 e se estabilizam em 2002, perto do
meio da lista; Aroldo Cedraz e Cláudio Cajado têm trajetória ascendente entre 1994 e 1998,
sendo que o primeiro mantém sua colocação em 2002, enquanto o segundo cai, porém
discretamente. Por fim, José Carlos Aleluia se mantém estável nas três eleições, sempre perto
do topo, como o quarto mais votado do PFL. Logo, não há indícios de que algum desses seis
deputados mencionados – nem mesmo Cajado, que teve queda discreta de sua posição na lista
em 2002 - possa ter sofrido deslocamento de seus redutos em razão da primeira candidatura
de ACM Neto.

Noutro grupo, de sete candidatos eleitos em 1994 e 1998, mas não em 2002, podem
mais possivelmente estar virtuais casos de transferências de votos a Neto. São eles:

 Eraldo Tinoco (foi o candidato do partido a vice-governador em 2002, sendo


eleito);
 Benito Gama (migrou para o PMDB em 2001, se recandidatou pelo novo
partido e ficou como suplente);
 Manoel Castro (renunciou em 1999 para ser Conselheiro do Tribunal de
Contas);
 Leur Lomanto (migrou para o PMDB, se recandidatou pelo novo partido e
ficou como suplente);
 Jairo Azi (Faleceu em 2000);
 Luiz Moreira (candidatou-se em 2002 pelo próprio PFL e ficou como
suplente);
 Ursicino Queiroz (renunciou em 2002 para ser Conselheiro do Tribunal de
Contas).

Probabilidade análoga de se encontrar transferências está num grupo de cinco


candidatos que se reelegeram a primeira vez em 1998, mas não se reelegeram em 2002:

 José Ronaldo (Elegeu-se prefeito de Feira de Santana em 2000, pelo PFL);


P á g i n a | 75

 Roland Lavigne (migrou para o PMDB e foi reeleito por esse partido);
 Paulo Braga (não se candidatou em 2002);
 José Lourenço (migrou para o PMDB, se recandidatou pelo novo partido e
ficou como suplente);
 Jaime Fernandes Filho (candidatou-se em 2002 pelo próprio PFL; ficou como
suplente).

Metade dos doze candidatos que integram os dois subgrupos acima disputou a
reeleição, não havendo por isso motivos para supor que seus redutos tenham sido ―passados‖
a ACM Neto, especialmente Luiz Moreira e Jaime Fernandes, que se mantiveram no PFL. Os
quatro que disputaram a eleição pelo PMDB podem ter tido seus redutos alcançados por Neto
ou outros pefelistas, mas não se deve supor que tenham sido transferidos.

A outra metade, ou seja, os seis deputados eleitos em 1998 que não concorreram às
eleições em 2002 são os que mais merecem ter seus redutos em 1994 e 1998 cotejados com o
perfil eleitoral de ACM Neto em 2002. São eles: Eraldo Tinoco, Manoel Castro, Jairo Azi,
Ursicino Queiróz, José Ronaldo e Paulo Braga.

Antes mesmo de pesquisar a geografia do voto de cada um dos seis deputados acima
mencionados, destaca-se, de saída, o caso de Eraldo Tinoco, tendo em vista que ACM Neto
foi seu assessor na Secretaria de Educação do Estado, no período anterior às eleições de 2002.
Analisando sistematicamente o gasto social da Secretaria de Educação da Bahia no período
1999-2002, Borges (2009) afirma que Tinoco, o secretário e então deputado federal licenciado
buscou recompensar a sua base eleitoral25 com a realização de obras de recuperação,
ampliação e construção de escolas. O resultado eleitoral disso em termos de afetação do perfil
eleitoral de ACM Neto pode ser facilmente conferido na geografia do voto de Tinoco, como
na dos demais.

25
Essa prática também foi constatada em outros políticos do partido. Conforme salienta SOUZA (2009 apud
BORGES, 2011), foi constatada a influência da alocação de recurso da Secretaria de Planejamento através do
Programa Produzir para a eleição do deputado Luiz Carreira em 2006. Segundo a autora, as decisões de alocação
de serviços desse programa eram fortemente condicionadas por influências político-eleitorais. Isso sugere, como
afirma Rennó (2003), que a ocupação de posições institucionais é relevante para a tomada de decisão quanto às
escolhas de carreiras na Câmara de Deputados do Brasil, em detrimento de outras carreiras, frente aos riscos do
processo eleitoral.
P á g i n a | 76

Conforme explicitado anteriormente, o estudo dos candidatos acima referidos foi


realizado com objetivo de se observar os seus perfis eleitorais nas eleições de 1994 e 1998 e
comparar com a geografia do voto de ACM Neto em 2002. Como se trata de políticos
tradicionalmente ligados ao grupo carlista, a finalidade maior foi analisar a possibilidade de
transferências de votos entre eles, o que significaria a importância do espólio eleitoral carlista
para primeira eleição de ACM Neto como deputado federal.

O candidato Eraldo Tinoco obteve 150.195 votos em 356 municípios em 1998.


Utilizando o mesmo critério adotado para análise dos votos de ACM Neto, ou seja, os
municípios que contribuíram com mais de 1% para o total de votos do candidato,
encontramos 38 municípios dos quais Salvador, Santo Antonio de Jesus e Iguai, que também
contribuíram com esse percentual para eleição de ACM Neto em 2002.

No caso de Eraldo Tinoco, como já mencionado anteriormente, os estudos de Borges


(2009) e o fato de ACM Neto ter sido seu assessor na Secretaria de Educação do Estado
apontam para que tenha fortes indícios de transferência de votos. Na época, inclusive, foi
amplamente divulgado na imprensa que ACM Neto ocupava a mesma sala do secretário
Tinoco e recebia muitos prefeitos e lideranças municipais, sendo difícil diferenciar as suas
atividades como assessor daquelas como candidato a deputado.

O deputado Jairo Azi obteve 114.091 votos em 314 municípios, dos quais 39
contribuíram com mais de 1% para sua eleição. Destacam-se entre eles os municípios de São
Gabriel, Quinjingue, Inhambupe, Salvador, Alagoinhas, Jeremoabo e Amargosa que também
contribuíram com esse percentual para eleição de ACM Neto em 2002. Neste caso, o
deputado faleceu em 2000, mas independente disso ele sempre foi conhecido como um
carlista ortodoxo no município de Alagoinhas e por isso também há uma forte evidência de
transferência de votos para ACM Neto através de cabos eleitorais.

José Ronaldo obteve 149.634 votos em 288 municípios, dos quais 29 contribuíram
com mais de 1% para sua eleição, entre eles Salvador e Inhambupe, que também fazem parte
dos principais municípios que contribuíram para a eleição de ACM Neto em 2002. No caso de
José Ronaldo é sabido que ele é muito próximo de Paulo Souto e como seu filho, Fabio Souto,
também foi candidato a deputado federal, foi ele o alvo da transferência de votos. Além disso,
José Ronaldo é de Feira de Santana uma grande cidade, a segunda do estado, o que torna mais
P á g i n a | 77

difícil atribuir transferência de votos para ACM Neto nesta cidade, ainda mais por Feira de
Santana não estar entre os 21 municípios que mais contribuíram para eleição de ACM Neto
em 2002.

Manoel Castro obteve 53.218 votos em 297 municípios e apenas 11 municípios


contribuíram com mais de 1% para sua eleição, assim como apenas Salvador fez parte dos
principais municípios que contribuíram para eleição de ACM Neto. No caso de Manoel
Castro, sua votação foi mais concentrada em Salvador, já que foi ex-prefeito da cidade e
presidente da Bahiatursa. Ele sempre foi um carlista mais ligado pessoalmente a ACM e a
Luis Eduardo Magalhães. E durante um período considerado o político carlista municipal,
presidiu o Instituto de Estudos do PFL e em 2012 se tornou o coordenador da campanha de
ACM Neto para Prefeito de Salvador. Nesse sentido, nesse caso, é mais possível falar em
voto de opinião, não só por ser em Salvador, uma grande cidade, onde há um maior
compartilhamento de votos, e por isso não é possível falar em reduto eleitoral, mas também
pela proximidade de Manoel Castro do repertório simbólico mais tradicional do carlismo.

No caso de Ursicino Queiroz, ele obteve 68.702 votos em 315 municípios, dos quais
25 contribuíram com mais de 1% para sua eleição, entre eles Salvador, Santo Antônio de
Jesus e Amargosa, municípios que também contribuíram com pelo menos esse percentual para
eleição de ACM Neto em 2002. Ursicino não era considerado um carlista ―orgânico‖, teve sua
origem no grupo de Luis Viana e depois ficou mais próximo de Paulo Souto. Nesse sentido,
assim como o caso de José Ronaldo, há uma maior possibilidade de que a transferência de
votos dele de Santo Antônio de Jesus e Amargosa tenha se dado para Fábio Souto e não para
ACM Neto.

Por fim, Paulo Braga, obteve 58.450 mil votos em 354 municípios, dos quais 23
contribuíram com mais de 1% para sua eleição, entre eles, Barreiras, São Desidério, Salvador
e Jeremoabo, são municípios que também estão nas listas dos municípios mais importantes
para eleição de ACM Neto. Nesse caso, não se obteve maiores informações sobre o deputado,
já que ele só de candidatou no ano de 1998, mas é possível dizer que há indícios de
transferência de votos sobretudo nos municípios de Barreiras, que ele teve 11.052 votos e São
Desidério, que ele teve 3.378 votos, configurando verdadeiros redutos eleitorais do candidato.
No caso de Jeremoabo o candidato teve apenas 588 votos e Salvador 1.808 votos, mas como
P á g i n a | 78

já foi mencionado não é possível caracterizar a capital do estado com reduto eleitoral desse ou
daquele candidato.

Nota-se, dessa forma, que dos 21 municípios que contribuíram com mais de 1% para
o total de votos de ACM Neto, 10 se constituíram enquanto redutos eleitorais destes
deputados federais que não se candidataram em 2002. Tal constatação é muito relevante pois
sugere que grande parte da explicação do êxito de ACM Neto, em 2002, fundamentou-se no
espólio eleitoral carlista. Somando-se a estas 10 cidades, temos ainda Salvador em que a
maioria dos candidatos teve boa votação, mas que por sua dimensão e características não pode
ser considerada um reduto eleitoral carlista. Nesse caso, é mais conveniente considerar o
fenômeno do voto de opinião tendo em vista a força do repertório simbólico carlista no estado
e também na capital.

A respeito disso, portanto, há forte indícios de que tenha havido uma transferência
significativa de votos no caso de Eraldo Tinoco, sobretudo em dois municípios Santo Antônio
de Jesus e Iguaí, onde teve uma importante votação; no caso de Jairo Azzi nos municípios de
São Gabriel, Quinjingue, Inhambupe, Jeremoabo, Amargosa e em especial em Alagoinhas
que teve expressiva votação; e no caso de Paulo Braga principalmente nos municípios de
Barreiras e São Desidério, todos esses municípios fazem parte daqueles 21 que mais
contribuíram para a votação total de ACM Neto.

Tendo esses elementos em questão, é possível considerar, também, a semelhança


entre o perfil eleitoral de ACM Neto e o desses deputados no que se refere a uma votação em
grande parte dos municípios do estado, embora com uma concentração em apenas alguns
deles, os chamados redutos eleitorais.

Torna-se importante ressaltar, ainda, os limites desta investigação. Claro está, que a
lista de deputados que se candidataram em 1994 e 1998 e não se candidataram em 2002 é
apenas uma das fontes onde poderia se procurar evidências de transferência de votos e redutos
eleitorais. Muitas outras transferências para ACM Neto podem ter vindo de redutos de
candidatos que não haviam sido eleitos em, 1994, 1998, suplentes, etc., e isso não foi
analisado nesse trabalho.
P á g i n a | 79

Em síntese, de maneira geral, no que se refere ao perfil eleitoral de ACM Neto em


2002, em termos de geografia do voto, é possível afirmar que o voto de ACM Neto tende a ser
dominante, uma vez que a sua votação assumiu uma proporção dos votos válidos maior do
que 10% em 80 municípios, entre os quais alguns municípios grandes como Barreiras e
Jequié. Em Salvador, por exemplo, a votação não alcançou uma proporção de 10%, mas ficou
em 9,35% dos votos, o que traz uma votação maciça para o total do candidato. É importante
destacar, no entanto, que 80 municípios representam apenas cerca de 20% do estado da Bahia,
o que não permite afirmar que o voto em ACM Neto seja dominante em todo o estado e sim
nos municípios mais significativos para sua votação.

Quanto à dimensão da fragmentação/concentração, a análise do seu perfil se torna


mais complexa, porque o candidato obteve votos em todos os municípios do estado, mas 56%
do total da sua votação estão concentradas em apenas 21 deles que, por sua vez, apresentam
uma alta dominância. Esses municípios, todavia, não são contíguos, já que estão localizados
em várias partes do estado, o que inviabiliza a interpretação de uma concentração de votos em
uma determinada região somente.

2.4 Caracterização do perfil eleitoral de ACM Neto em 2006

Nas eleições de 2006, o carlismo teve a sua derrota mais significativa. Após os
quatro anos do primeiro governo Lula, que possuía altos índices de aprovação, sobretudo no
Nordeste, surpreendentemente o candidato do PT, Jaques Wagner, a partir do forte apoio do
presidente e de transferência de boa parte de seus votos, foi eleito governador da Bahia no
primeiro turno de uma eleição para a qual todas as pesquisas indicavam a reeleição do
Governador carlista Paulo Souto, em primeiro turno. Para Dantas Neto (2010, p. 17) ―o PT foi
o grande beneficiário da erosão dos recursos extraeleitorais do carlismo principalmente após a
vitória de Lula em 2002, fato que lhe permitiu avançar sobre áreas de alienação eleitoral e, em
2006, sobre os próprios redutos carlistas‖.

No pleito para o Senado, o candidato carlista, Rodolpho Tourinho, também foi


derrotado pelo candidato da oposição, João Durval Carneiro do PDT, em aliança com o PT,
que não lançou candidato ao Senado em troca do apoio do PDT a Jaques Wagner. Um dado à
parte foi a candidatura de Antônio Imbasshay ao Senado, pelo PSDB. Conforme já comentado
P á g i n a | 80

no capítulo anterior, tratou-se de uma dissidência eleitoralmente mal sucedida do carlismo que
no entanto foi suficiente para dividir os votos desse grupo.

Apesar das derrotas nas eleições majoritárias, para a Assembleia Legislativa o PFL
manteve suas 16 cadeiras que, somadas às conquistadas pelos demais partidos coligados a
Paulo Souto ensejariam uma bancada de oposição bastante robusta, abrangendo cerca de 50%
das cadeiras do Legislativo Estadual. Contudo, já por ocasião da posse do governador petista
surgiam os primeiros sinais de que seria grande a discrepância entre a coligação eleitoral
vitoriosa e a coalizão governamental. Daí em diante os processos de adesão e cooptação ao
governo de parlamentares oriundos do carlismo e da sua periferia só fez aumentar, a ponto de
quatro anos depois o governo petista ostentar uma base de 49 parlamentares na AL. Já a
composição partidária da bancada de deputados federais segue na Tabela VI:

Tabela VI: Deputados Federais Eleitos – Bahia, 2006


Votos Votos
Candidato Partido Colocação
nominais válidos
PFL, PL, PP, PHS E
Carlismo
PTC
ACM NETO PFL 436966 6,65 1
FÁBIO SOUTO PFL 297061 4,521 2
FERNANDO DE FABINHO PFL 161750 2,462 7
JOSÉ CARLOS ALELUIA PFL 136847 2,083 9
JOSÉ ROCHA PFL 115777 1,762 10
PAULO MAGALHAES PFL 113199 1,723 11
MÁRIO NEGROMONTE PP 103277 1,572 12
JOÃO LEÃO PP 103222 1,571 13
FELIX MENDONÇA PFL 101642 1,547 14
JUSMARI OLIVEIRA PFL 100416 1,528 15
MARCELO GUIMARÃES FILHO PFL 93253 1,419 16
LUIZ CARREIRA PFL 90290 1,374 18
JOSE CARLOS ARAÚJO PL 88104 1,341 20
ROBERTO BRITTO PP 87452 1,331 21
CLAUDIO CAJADO PFL 86773 1,321 24
JORGE KHOURY PFL 81095 1,234 25
MAURICIO TRINDADE PL 78115 1,189 27
TONHÁ MAGALHÃES PFL 78034 1,188 29
JOÃO PAOLILO BACELAR PL 77902 1,186 30
Outros partidos e coligações
(oposições)
GEDDEL VIEIRA LIMA PMDB 287393 4,374 3
WALTER PINHEIRO PT 200894 3,057 4
LÍDICE DA MATA PSB 188927 2,875 5
NELSON PELLEGRINO PT 171129 2,604 6
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Votos Votos
Candidato Partido Colocação
nominais válidos
JUTAHY MAGALHÃES JÚNIOR PSDB 147193 2,24 8
ZEZEU RIBEIRO PT 92327 1,405 17
GERALDO SIMOES PT 88796 1,351 19
GUILHERME MENEZES PT 87010 1,324 22
DANIEL ALMEIDA PC do B 86881 1,322 23
JOÃO ALMEIDA PSDB 81034 1,233 26
ALICE PORTUGAL PC do B 78031 1,188 28
COLBERT MARTINS PPS 74264 1,13 31
SERGIO CARNEIRO PT 70348 1,071 32
LUIZ BASSUMA PT 65714 1 33
SEVERIANO ALVES PDT 61054 0,929 34
LUIZ ALBERTO PT 60950 0,928 35
SERGIO BRITO PDT 46950 0,715 36
MARCOS MEDRADO PDT 46291 0,704 37
RAYMUNDO VELOSO SILVA PPS 31279 0,476 38
EDSON DUARTE PV 27729 0,422 39
Fonte: Elaboração Própria.Dados: TSE, 2013

Como se vê na Tabela VI, dos 39 eleitos somente 13 (exatamente um terço) são do


PFL e a representação das coligações carlistas chega a 19 deputados com a adição de três do
PL e três do PP, o sucedâneo do PPB. Isso denota uma reversão da pefelização do carlismo no
plano da sua representação federal. Contrastando com a conservação do peso do PFL na AL,
no nível da representação federal o partido encolheu antes mesmo do teste das urnas.
Mostrando que com a perda dos seus espaços no Governo Federal a elite carlista passou a ter
menos capacidade de coalizão, o PFL teve de reduzir drasticamente a 20 o número total de
candidatos da sua chapa própria para possibilitar as alianças e dobradinhas com os demais
partidos e deputados da base governista. Com isso, enquanto a bancada federal baiana do PFL
encolheu em mais de 30% (de 19 para 13 deputados), entre 2002 e 2006, o total de deputados
dos outros partidos do carlismo nuclear dobra (de 3 para 6) e o saldo líquido negativo do
conjunto do carlismo nuclear (que reflui de 22 para 19 deputados) é todo debitado na conta do
PFL.
O fato mais relevante de tudo isso para o objeto desse trabalho é o de que embora o
PFL tenha diminuído sua votação e o número deputados eleitos, destacou-se a expressiva
votação de ACM Neto, que novamente foi o mais votado no Estado, com 436.966 votos,
distribuídos por 416 dos 417 municípios da Bahia, representando 6,65% do total dos votos
válidos e 19,09% dos votos no PFL. Ampliando sua votação absoluta e concentrando parte
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bem maior dos votos do PFL num momento em que o partido diminuía sua representação, ele
se tornou uma liderança política mais forte e imprescindível àquele partido.

A distribuição geográfica da votação de ACM Neto pelo conjunto do Estado em


2006 pode ser visualizada no Mapa 4. Ali se observa que o candidato novamente obtém votos
na quase totalidade dos municípios do Estado, ainda que, em geral as votações por município
sejam moderadas. Nota-se, assim como em 2002, uma concentração em poucos municípios da
parte mais significativa da sua votação, conforme será melhor analisado mais adiante.

Analisando esse perfil eleitoral a partir da dimensão da


dominância/compartilhamento de votos, é possível dizer que a votação em ACM Neto no ano
de 2006 continuou seguindo o mesmo padrão de forte dominância em alguns municípios,
assim como no ano de 2002, ainda que da mesma forma esses municípios continuem
representando cerca de 20% do Estado. Em 2006 ele obteve mais de 10% dos votos em 81
municípios, chegando ao pico de dominância em Firmino Alves, com 58,4% dos votos,
conforme o Mapa 5, que sucede imediatamente o Mapa 4, já indicado.

Mapa 4 - Geografia do Voto de ACM Neto, 2006 - Votos Nominais

Fonte: Elaboração própria. Dados: TSE, 2013.


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Mapa 5- Geografia do Voto de ACM Neto, 2006 - Dominância

Fonte: Elaboração própria. Dados: TSE, 2013.

No que se refere à outra dimensão do perfil eleitoral - a da


fragmentação/concentração dos votos de um candidato em um grupo de municípios -
novamente 21 municípios concentraram agora 55,69% dos seus votos, conforme mostram o
Mapa 6 e a Tabela VII.
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Mais uma vez, os municípios são bastante heterogêneos e provenientes de regiões


diversas do estado. Salvador representou a maior parte dos seus votos (106.293 ou 24% do
seu total). No entanto, assim como em 2002, sem a contribuição de Salvador os demais 20
municípios continuariam representando 31% do total de votos do candidato, um indicador
relevante na concentração do seu voto.

Mapa 6 – Municípios que mais contribuíram para votação total de ACM NETO, 2006

Fonte: Elaboração própria. Dados: TSE, 2013.


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Tabela VII: Municípios que mais contribuíram para votação total de ACM Neto, 2006
CONTRIBUIÇÃO
PERCENTUAL DE ÍNDICE DE RANKIN ÍNDICE DE RANKING
VOTOS VOTOS
MUNICÍPIO CADA MUNICÍPIO NO DENVOLVIMEN G NO DENVOLVIMENT NO
NOMINAIS VÁLIDOS (%)
TOTAL DE VOTOS DO TO SOCIAL ESTADO O ECONÔMICO ESTADO
CANDIDATO
SALVADOR 106293 8,79 24,33 5276,69 2 5678,1 1
VITÓRIA DA CONQUISTA 17114 12,81 3,92 5157,98 4 5100,7 15
BRUMADO 10273 31,80 2,35 5.070,29 43 5.051,38 37
ALAGOINHAS 10012 15,26 2,29 5.123,88 14 5.057,29 33
ITABUNA 9894 9,52 2,26 5153,08 5 5110,21 13
CAMAÇARI 9379 11,13 2,15 5134,4 11 5401,84 2
ILHÉUS 7037 8,24 1,61 5097,93 23 5081,78 18
SANTO A. DE JESUS 6354 15,39 1,45 5084,45 32 5067,08 25
SENTO SÉ 6343 33,41 1,45 4998,24 177 4971,93 309
TUCANO 6207 25,10 1,42 4965,64 311 4976,85 278
QUINJINGUE 5741 38,53 1,31 4940,99 375 4972,14 308
ITABELA 5319 41,37 1,22 5015,4 125 5010,63 101
FEIRA DE SANTANA 5228 2,12 1,20 5135,77 10 5152,89 9
MARACÁS 5210 43,02 1,19 4941,45 371 4964,2 358
POJUCA 5087 32,27 1,16 5100,44 21 5198,43 6
JEREMOABO 4853 26,99 1,11 5013,65 128 4983,16 242
ESPLANADA 4767 36,51 1,09 5036,21 88 5024,97 58
CACULÉ 4611 42,91 1,06 5007,02 151 5021,66 64
CRUZ DAS ALMAS 4599 15,58 1,05 5102,85 20 5052,25 36
INHAMBUPE 4561 26,60 1,04 5019,69 114 4993,8 167
MACAÚBAS 4451 22,13 1,02 4952,2 353 4968,17 330
TOTAL 243333 - 55,69
Fonte: Elaboração própria. Dados: TSE, 2012/ SEI, 2013
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Como se pode observar, no que se refere ao IDE, do total desses 21 municípios, 13


estão situados entre os 20% melhores no ranking do IDE no estado. Entre esses municípios,
somente um deles está posicionado entre os 20% piores no IDE, o município de Maracás.
Curiosamente, nesse município ACM Neto obteve a maior dominância de votos dentre
aqueles que compõem este grupo.

Em relação ao índice de desenvolvimento social, dos 21 municípios, 11 estão


situados entre os 20% melhores no ranking de IDS do estado. Apenas três municípios estão
posicionados entre os 20% piores. Novamente, esses municípios se apresentam entre os
maiores em termos de dominância de votos em ACM Neto do grupo, como é o caso de
Maracás (cerca de 43%) e Quinjingue (cerca de 38%). Assim como em 2002, os dados
demonstram que a maior parte dos votos em ACM Neto não está concentrada nos municípios
de menor desenvolvimento social e econômico, embora sua dominância seja bastante elevada
em alguns dos municípios de menor desenvolvimento da Bahia.

Diferentemente de 2002, quando houve certa diferenciação entre municípios de


maior e menor índice de desenvolvimento social no estado, incluindo aqueles intermediários
mais próximos da base da pirâmide, em 2006 a sua votação se concentrou em municípios
melhor colocados nos dois rankings. Para além dos índices, é importante observar uma
mudança no perfil eleitoral de ACM Neto, conforme apresenta o Quadro II.

Passa a integrar o grupo dos que mais contribuíram para a votação de ACM Neto
municípios como Vitória da Conquista, Feira de Santana, Ilhéus, Camaçari e Itabuna, alguns
dos maiores e mais importante municípios do estado, inclusive no que se refere à sua elevada
posição nos ranking de IDE e IDS. Assim como é possível observar que, com exceção de
Brumado e Sento Sé, os outros municípios que permanecem no grupo já eram redutos de
outros deputados carlistas nas eleições anteriores, conforme analisado anteriormente, o que
significa que ACM Neto ―recebeu‖ tais redutos em 2002 e conservou sua expressiva votação
neles em 2006.
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Quadro II – Mudanças e Permanência na Base Eleitoral de ACM Neto, 2002-2006

Passam a integrar o Grupo Deixam o Grupo Permanecem no Grupo

VITÓRIA DA CONQUISTA JEQUIÉ SALVADOR


ITABUNA CANDEIAS BRUMADO
CAMAÇARI MARAGOGIPE SANTO ANTÔNIO DE JESUS
ILHÉUS BARREIRAS QUINJINGUE
FEIRA DE SANTANA PORTO SEGURO JEREMOABO
TUCANO SÃO DESIDÉRIO INHAMBUPE
ITABELA SÃO GABRIEL ALAGOINHAS
MARACÁS EUNÁPOLIS SENTO SÉ
POJUCA IGUAÍ
ESPLANADA LAJE
CACULÉ RAFAEL JAMBEIRO
CRUZ DAS ALMAS AMARGOSA
MACAÚBAS BARROCAS
Fonte: Elaboração própria. Dados: TSE, 2012

É importante considerar que nesta eleição de 2006, ainda que tenha perdido o pleito
para governador, o carlismo passara os últimos 16 anos como situação na Bahia, incluindo os
últimos quatro anos (2002-2006). Borges (2011) aponta que os partidos posicionados na
situação frente ao governo estadual e federal apresentam padrão de votação mais disperso
territorialmente, além de garantir mais penetração nas regiões metropolitanas. Além disso,
esses partidos apresentam maior capacidade de mobilizar o eleitorado governista e redes
clientelistas locais, bem como apresentam maior capacidade de construir coalizões eleitorais
amplas e difusas territorialmente. Dessa forma, os parlamentares situacionistas apresentam
índices médios de dominância e fragmentação bem mais elevados que os demais.

Porém, mesmo o grupo político de ACM Neto estando na situação neste período e
embora este candidato tenha conquistado votos em quase todos os municípios do Estado,
observou-se uma votação bastante concentrada em um conjunto de 21 municípios, bastante
heterogêneos em termos demográficos e regionais, mas vários deles correspondendo às
maiores cidades do Estado, de melhor índice de desenvolvimento econômico e social.

Ademais, alguns deputados eleitos com boa votação, em 2002, nos municípios de
votação concentrada de ACM Neto, em 2006 não voltaram a se candidatar. Claro que durante
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esses quatro anos pode ter havido outros remanejamentos e acordos políticos. Ainda assim, há
novamente a possibilidade de transferência de votos desses deputados para ACM Neto, por
isso este trabalho utilizará a mesma metodologia utilizada para investigar as transferências de
votos entre 1994-1998-2002, para analisar tal possibilidade entre 2002-2006. Eis a seguir, no
Quadro III, as listagens dos pefelistas eleitos em 2002 e 2006:

Quadro III - Candidatos eleitos pelo PFL nas eleições de 2002-2006, por ordem
decrescente de votação

2002 2006

ACM NETO ACM NETO


FÁBIO SOUTO FÁBIO SOUTO
FERNANDO DE
PAULO MAGALHÃES FABINHO
FERNANDO DE JOSÉ CARLOS
FABINHO ALELUIA
JOSÉ CARLOS
JOSÉ ALVES
ALELUIA
LUIZ CARREIRA PAULO MAGALHAES
GERSON GABRIELLI FELIX MENDONÇA
JOSÉ ROCHA JUSMARI OLIVEIRA
MARCELO
JORGE KHOURY GUIMARÃES FILHO
AROLDO CEDRAZ LUIZ CARREIRA
JOSE CARLOS
CLÁUDIO CAJADO ARAÚJO
ROBÉRIO NUNES CLAUDIO CAJADO
JAIRO CARNEIRO JORGE KHOURY
REGINALDO
TONHÁ MAGALHÃES
GERMANO
JOSÉ CARLOS
ARAUJO
MARCELO
GUIMARÃES FILHO
ZELINDA NOVAES
PEDRO IRUJO
MILTON BARBOSA
Fonte: Elaboração própria. Dados: TSE, 2013

Assim como foi questionado na análise do perfil eleitoral de ACM Neto em 2002,
cabe perguntar sobre a possibilidade de transferência direta ou indireta de votos de redutos
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desses nomes para ACM Neto em 2006. Por eliminação se chegará aqui a um subconjunto de
nomes que merecem ter seus redutos em 2002 cotejados para que se possa comparar com o
conjunto de municípios que mais contribuíram para eleição de Neto em 2006.

Foram onze os candidatos que se elegeram, consecutivamente, nas duas eleições,


ACM Neto, Fabio Souto, Fernando Fabinho, José Carlos Aleluia, José Rocha, Paulo
Magalhães, Marcelo Guimarães Filho, Luiz Carreira, José Carlos Araújo, Cláudio Cajado e
Jorge Khoury.

Noutro grupo, há três candidatos eleitos em 2002 que se candidataram em 2006 mas
não conseguiram a reeleição e ficaram como suplentes. É o caso de Gerson Gabrielli, Aroldo
Cedraz e Jairo Carneiro. Conforme se observará mais adiante (Tabela X), ACM Neto sempre
teve frente a outros candidatos carlistas uma maior concentração de votos, por isso é possível
que tenha havido alguma transferência de votos desses três candidatos para ele. Mas, é preciso
levar em consideração também que, entre os anos de 2002 e 2006, o PFL perdeu cerca de 12%
do total de votos (Tabela X), além de ter perdido a eleição para o Governo do estado, fatos
que também podem ter contribuído para o resultado eleitoral desses candidatos.

Outros três candidatos foram eleitos em 2002 e não eleitos em 2006. São eles:
Reginaldo Romano (migrou para o PP, se recandidatou e ficou como suplente); Milton
Barbosa (migrou para o PSC, se recandidatou e ficou como suplente); e Pedro Irujo (migrou
para o PMDB e se aposentou em 2007). Há, ainda, três novos deputados eleitos pelo PFL em
2006, que não foram deputados em 2002, como é o caso dos deputados Félix Mendonça,
Jusmari de Oliveira e Tonhá Magalhães.

Noutro grupo, o que mais interessa a esse trabalho, se encontram dois candidatos que
foram eleitos em 2002 e não se candidataram em 2006, e por isso podem representar virtuais
casos de transferências de votos a Neto. É o caso de Zelinda Novaes e Robério Nunes. Para
esses dois candidatos realizou-se a geografia do voto com o intuito de identificar os
municípios que contribuíram com mais de 1% para sua eleição em 2002.

No caso de Zelinda Novaes, ela obteve um total de 51.196 votos em 321 municípios.
Doze desses municípios contribuíram com mais de 1% para sua eleição, dentre eles 5
compõem o rol dos 21 municípios que mais contribuíram para eleição de ACM Neto em
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2006: Camaçari, Vitória da Conquista, Santo Antônio de Jesus, Cruz das Almas e Salvador.
Chama atenção sua expressiva votação na capital, cerca de 28.210 votos (55% do total de sua
votação). Claro que não é possível caracterizar tal cidade como reduto, pelas razões já
mencionadas anteriormente, mas embora não seja possível demonstrar, existe uma
probabilidade de que parte dessa expressiva votação seja de algum grupo social específico, ou
bairro, que possa ter sido transferido em parte para Neto, até mesmo por sua característica
enquanto um político conhecido e referência do grupo. No caso das outras cidades, três delas,
Camaçari, Vitória da Conquista e Cruz das Almas, passam a integrar os municípios que mais
contribuíram para eleição de Neto em 2006, o que pode marcar um indício importante de
transferência de votos dessa candidata.

Já Robério Nunes obteve 76.092 votos em 321 municípios. No caso do deputado, 28


deles contribuíram com mais de 1% para sua eleição. Dentre estes, somente dois fazem parte
dos 21 municípios que mais contribuíram para eleição de ACM Neto, Salvador e Macaúbas.
Chama atenção a expressiva votação do deputado em Macaúbas, 11.082 votos, ainda mais que
esse município passou a integrar o rol dos municípios mais importantes para eleição de Neto
em 2006, o que denota um forte indício de transferência de votos.

Em síntese, considerando esses dois deputados, seis municípios que contribuíram


significativamente para sua eleição estiveram no grupo dos que mais contribuíram para a
votação em Neto em 2006. Salvador, Camaçari e Vitória da Conquista, por sua dimensão e
complexidade, não podem ser considerados redutos, ainda que a votação desses candidatos
possa ter sido transferida para Neto, ao menos em parte, já que ele é uma liderança expressiva,
captadora de votos de opinião. Santo Antônio de Jesus, por sua vez, já compunha o rol destes
municípios importantes para a eleição de ACM Neto desde 2002; por isso, não pode ser
considerado uma transferência de reduto, o que também não impede a possibilidade de
transferência de votos. Sobram, assim, Cruz das Almas e Macaúbas que, por passarem a fazer
parte deste grupo somente em 2006, indicam a possibilidade da referida transferência.

Por fim, percebe-se que o perfil eleitoral de ACM Neto em 2006 caracteriza-se pela
permanência de alguns municípios enquanto redutos eleitorais, como é o caso de Santo
Antônio de Jesus, Quinjingue, Alagoinhas, Jeremoabo e Inhambupe. Mas, além disso, há o
aumento da sua votação nos maiores municípios do estado, como é o caso de Vitória da
Conquista, Ilhéus, Feira de Santana e Itabuna, que passam nesta eleição a compor o grupo dos
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municípios mais importantes na sua votação. Dessa forma, é possível dizer que, além do
espólio carlista, a atuação parlamentar de ACM Neto passa a ser um outro elemento
importante, enquanto estratégia política, para conformar o seu perfil eleitoral como se verá
adiante.

2.5. Caracterização do perfil eleitoral de ACM Neto em 2010

Em 2010, com o carlismo na oposição tanto no âmbito federal quanto no âmbito


estadual e com o grande prestígio eleitoral do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, houve
uma diminuição do número de candidatos carlistas eleitos em todos os pleitos. Nas eleições
presidenciais, a indicada de Lula, Dilma Roussef, saiu vitoriosa no segundo turno. No âmbito
estadual, o governador Jaques Wagner foi reeleito no primeiro turno com ampla vantagem.

Para a Assembleia Legislativa o DEM não teve coligação na proporcional e ocupou


apenas cinco cadeiras, que somadas as duas conquistadas pelo PSDB (que também não teve
coligação na proporcional), a coligação de Paulo Souto ficou com sete deputados eleitos. O
PV, sem coligação para governador, elegeu apenas um deputado. A coligação de Geddel
Vieira Lima (PMDB, PSC, PR, PTN, PRP e PT do B) elegeu 22 deputados. A coligação de
Jaques Wagner (PT, PP, PDT, PRB, PSL, PSB e PC do B) elegeu 33 deputados. Conforme se
pode observar, a bancada governista obteve 52,4% das cadeiras da Assembleia Legislativa e
os dois campos oposicionistas obtiveram juntos 46% das cadeiras, sendo que 34,9%
conquistados por partidos ligados à candidatura do PMDB a governador e apenas 11,1% pelos
partidos ligados à candidatura do DEM. A cadeira conquistada pelo PV representa 1,6%
restante da composição da AL.

Segundo Dantas Neto (2010), nessas eleições o PT situou-se em patamar


diferenciado na AL (22%). Embora distante da maioria legislativa, o peso relativo da bancada
do partido foi grande, pois nenhum outro partido elegeu representação igual ou superior a
10% das cadeiras e somente seis partidos (PMDB, PP, DEM, PDT, PSC e PR) obtiveram
mais de 5%.

Nas eleições para deputado federal, a diminuição da força dos candidatos carlistas
ficou ainda mais evidente. O antigo PFL, agora denominado DEM (Democratas), lançou 16
candidatos e apenas seis foram eleitos. É interessante notar que nessas eleições o DEM
P á g i n a | 92

mostrou um sintoma de estrutura partidária e capacidade de articulação muito baixas no


espectro político baiano, se comparado, por exemplo, ao PMDB. O DEM nessas eleições não
mostrou nenhuma estratégia partidária visível, articulada. A única estratégia parece ter sido a
de absorver em prol da liderança pessoal de Neto, o potencial eleitoral de parte da antiga elite
política do carlismo (DANTAS NETO, 2010).

Ficou bastante visível na eleição como o próprio ACM Neto não se empenhou em
participar do pleito majoritário estadual, assim como também não se furtou em fazer
coligações com candidatos de outros partidos não pertencentes à sua coligação formal, como
foi o caso da sua relação com a candidata a deputada estadual Maria Luiza Carneiro (PSC), na
época esposa do então prefeito João Henrique Carneiro, cuja gestão contava com a
participação do DEM. Esses elementos revelam que ACM Neto adotou uma estratégia
própria, uma ―campanha solo‖, diferentemente da estratégia adotada pelo PT, que se
fundamentou numa articulação de todos os pleitos em torno do jargão ―Time de Lula‖, ACM
Neto pouco apareceu na campanha juntamente com os candidatos a outros postos. Embora,
seja possível dizer que Paulo Souto é o candidato a governador devido ao bom desempenho
do DEM nas eleições municipais de Salvador em 2008. Por outro lado, as alianças e
dobradinha do DEM de 2008 não ficaram intactas, e a consequência disso, apareceu nos
resultados eleitorais de 2010.

Mas, mesmo nesse contexto, na oposição estadual e federal, o deputado federal ACM
Neto se reelegeu, mais uma vez sendo o mais votado na Bahia, embora tenha perdido cerca de
100 mil votos. Neste pleito, pela primeira vez foi o mais votado também na capital do estado.
ACM Neto obteve neste pleito 328.450 votos, o que representou 4,91% do total dos votos
válidos e 33,91% dos votos totais do DEM. A sua votação total neste pleito e toda a
transformação do cenário político-eleitoral baiano descrita acima, está expressa na Tabela
VIII, a seguir.
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Tabela VIII: Deputados Federais Eleitos – Bahia, 2010

Votos % Votos
Candidato Partido Colocação
nominais válidos
Carlismo DEM
ACM NETO DEM 328450 4,91 1
FERNANDO TORRES DEM 79204 1,18 19
FABIO SOUTO DEM 65985 0,99 34
CLAUDIO CAJADO DEM 72098 1,08 25
JOSÉ NUNES DEM 70483 1,05 27
PAULO MAGALHÃES DEM 53620 0,80 38
Aliados do DEM na Oposição PSDB e PRP
ANTONIO JOSE IMBASSAHY PSDB 112630 1,69 12
JUTAHY MAGALHÃES
PSDB 110268 1,65 13
JÚNIOR
JANIO NATAL PRP 41585 0,62 39
Bloco do PMDB e Independentes PMDB, PR, PSC, PTB
LUCIO VIEIRA LIMA PMDB 221616 3,32 2
MAURICIO TRINDADE PR 77335 1,16 20
JOAO CARLOS P. BACELAR PR 75327 1,13 22
ARTHUR MAIA PMDB 74134 1,11 23
JOSE ROCHA PR 73935 1,11 24
SERGIO BRITO PSC 71889 1,08 26
ANTONIO BRITO PTB 70209 1,05 28
ERIVELTON SANTANA PSC 69765 1,04 29
PT, PSB, PCdoB, PP, PDT
Governistas
e PRB
RUI COSTA PT 212157 3,17 3
JOÃO LEÃO PP 203604 3,05 4
NELSON PELLEGRINO PT 202798 3,03 5
MÁRIO NEGROMONTE PP 169209 2,53 6
MÁRCIO MARINHO PRB 157917 2,36 7
FELIX MENDONÇA JUNIOR PDT 148885 2,23 8
AFONSO FLORENCE PT 143795 2,15 9
DANIEL ALMEIDA PC DO B 135817 2,03 10
VALMIR ASSUNÇÃO PT 132999 1,99 11
ZEZÉU RIBEIRO PT 109109 1,63 14
EDSON PIMENTA PC DO B 103940 1,56 15
ALICE PORTUGAL PC DO B 101588 1,52 16
WALDENOR PEREIRA PT 87930 1,32 17
OZIEL OLIVEIRA PDT 81811 1,22 18
GERALDO SIMÕES PT 75977 1,14 21
JOSIAS GOMES PT 69619 1,04 30
JOSE CARLOS LEÃO ARAUJO PDT 69564 1,04 31
MARCOS MEDRADO PDT 68216 1,02 32
LUIZ ARGÔLO PP 68025 1,02 33
ROBERTO BRITTO PP 64126 0,96 35
P á g i n a | 94

Votos % Votos
Candidato Partido Colocação
nominais válidos
AMAURI TEIXEIRA PT 63729 0,95 36
LUIZ ALBERTO PT 63686 0,95 37
Fonte: Elaboração própria. Dados: TSE, 2013

O deputado ACM Neto, dessa vez, consolidou ainda mais a sua importância político-
eleitoral dentro de um partido que dava claros sinais de esgotamento, não apenas na Bahia
mas também em outros estados. Destaca-se a grande diminuição do número de votos dos
outros eleitos pelo DEM, em especial a do deputado Fábio Souto que cai em mais de 60%, de
191.619 em 2006 para 65.985 votos em 2010; e a do deputado Paulo Magalhães, que cai a
menos da metade (113.199 em 2006 e 53.620 em 2010). Consequentemente, aumenta muito a
concentração dos votos do DEM em ACM Neto.

Conforme se pode observar, os deputados do PT e de partidos aliados passaram a


ocupar quase todas as posições no topo da classificação, logo após de ACM Neto, ou seja,
ocorreu uma inversão de papéis entre o antigo PFL (atual DEM) e o PT. Em alguma medida,
essa situação denota que os candidatos mais votados estão sempre entre os governistas seja de
que partido for o governo.

Outro aspecto relevante nessas eleições, é o aumento do número de partidos com


representação da Câmara dos Deputados (11 em 2006 e 13 em 2010), essa dispersão de
representação somada à inversão dos pesos relativos do PT e do DEM, abre uma maior
possibilidade de repertórios nas estratégias políticas de ACM Neto em sua atividade
parlamentar, o que será melhor discutido no capítulo 3 desse trabalho.

Embora se acredite que a tendência a transferência de votos tenha cada vez menos
importância para eleição de ACM Neto, se comparado a que teve na origem de sua trajetória
em 2002, é necessário demonstrar seus possíveis indícios também nessas eleições. Para tanto,
assim como foi feito para as eleições anteriores, o Quadro IV que se segue compara o
candidatos eleitos do PFL/DEM em 2006 e 2010.
P á g i n a | 95

Quadro IV - Candidatos eleitos pelo PFL/DEM nas eleições de 2006-2010, por ordem
decrescente de votação

2006 2010
PFL DEM
ACM NETO ACM NETO
FÁBIO SOUTO FERNANDO TORRES
FERNANDO
FABIO SOUTO
DEFABINHO
JOSÉ CARLOS
CLAUDIO CAJADO
ALELUIA
JOSÉ ROCHA JOSÉ NUNES
PAULO MAGALHAES PAULO MAGALHÃES
FELIX MENDONÇA
JUSMARI OLIVEIRA
MARCELO
GUIMARÃES FILHO
LUIZ CARREIRA
JOSE CARLOS
ARAÚJO
CLAUDIO CAJADO
JORGE KHOURY
TONHÁ MAGALHÃES
Fonte: Elaboração própria. Dados do TSE, 2013

Mais uma vez, é relevante questionar sobre possíveis transferências diretas ou


indiretas de votos dos deputados que não se candidataram em 2010 para ACM Neto. Por
eliminação se chegará aqui a um subconjunto de nomes que merecem ter seus redutos em
2006 cotejados e comparados com o perfil eleitoral de ACM Neto em 2010.

Primeiramente, dos 14 deputados eleitos pelo PFL em 2006 apenas 4 se


recandidataram e se reelegeram, são eles: ACM Neto, Fábio Souto, Paulo Magalhães e
Cláudio Cajado. O quinto deputado do DEM eleito, Fernando Dantas Torres, não havia se
candidatado em 2006.

No caso do deputado Fernando Torres, é evangélico, foi vereador de Feira de


Santana pelo PTB em 2001-2004, foi eleito deputado estadual pelo PRTB de 2007-2010. É
empresário do ramo de materiais de construção em Feira de Santana e membro do Sindicato
dos donos de Postos de Gasolina em Salvador. Não tem boas relações políticas com José
P á g i n a | 96

Ronaldo. Foi eleito pelo DEM em 2010 e em 2011 migrou para o PSD. Devido às constantes
mudanças de filiação partidária foi citado pela mídia como ―deputado camaleão‖.

Os candidatos Luiz Carreira, Jorge Khoury e Marcelo Guimarães Filho se


candidataram, mas não conseguiram se reeleger ficando apenas como suplentes. Tonhá
Magalhães migrou para o PR, se recandidatou, mas ficou apenas como suplente.

Noutro grupo estão José Rocha que migrou para o PR e se reelegeu, e José Carlos
Araújo que migrou para o PDT e também se reelegeu.

Por fim, há quatro candidatos que compõe o grupo que mais nos interessa: aqueles
que se candidataram em 2006 e não se candidataram em 2010. São eles:

 Fernando Fabinho, que rompeu com o grupo carlista nas eleições de 2008 por não
ter sido o candidato do grupo para disputar as eleições municipais para Prefeitura
de Feira de Santana. O candidato escolhido e eleito pelo grupo foi Tarcízio
Pimenta. Depois desse episódio migrou para o grupo de Wagner, tendo inclusive
participado de sua campanha em 2010. Depois de 2010 se afastou da vida política.
Isso indica que é improvável a possibilidade de transferência de voto para ACM
Neto;

 Félix Mendonça. Mesmo não tendo se candidatado, seu filho o fez pelo PDT e se
elegeu. Isso indica que também é improvável que tenha havido transferência de
voto para ACM Neto, sendo mais razoável que tal transferência tenha se dado para
seu filho;

 José Carlos Aleluia, carlista tradicional, de consistente base eleitoral, que se


candidatou ao senado e deixou aberta a possibilidade de transferência de votos para
ACM Neto.

 Jusmari Oliveira que foi eleita deputada em 2006, mas só cumpriu mandato até
2008, quando foi eleita prefeita do município de Barreiras.
P á g i n a | 97

Em relação a Aleluia, ele obteve em 2006 136.847 votos em 371 municípios do


Estado. Dentre eles, 30 contribuíram com mais de 1% para sua eleição. Entre esses
municípios apenas dois fazem parte do rol dos municípios que mais contribuíram para eleição
de Neto em 2010, Caculé e Salvador. O primeiro município já fazia parte da base eleitoral de
ACM Neto em 2006, de modo que resta só Salvador, o que impossibilita a hipótese de uma
transferência direta de votos via reduto eleitoral. Entretanto, é possível dizer que a influência
de Aleluia em Salvador pode ter contribuído para votação de Neto, já que ambos são quadros
do grupo carlista e importantes ―puxadores‖ de votos.

No caso de Jusmari Oliveira, ela teve um total de 100.416 votos em 374 municípios
do estado. Dentre eles, 29 contribuíram com mais de 1% para sua eleição em 2006, sendo o
mais importante, claro, o município de Barreiras. Desses 19 municípios apenas dois fazem
parte do rol dos municípios que mais contribuíram para eleição de Neto em 2010, Salvador e
São Desidério, onde a deputada teve uma expressiva votação. Ademais, este município fez
parte dos municípios que mais contribuíram para eleição de Neto em 2002, saiu deste rol de
municípios em 2006 e voltou a fazer parte dele em 2010. A expressiva votação da deputada,
somada a sua não candidatura em 2010 e a volta desse município para o rol dos municípios
que mais contribuíram para eleição de Neto em 2010, pode indicar a possibilidade de
transferências de votos da deputada para Neto.

Conforme se pode observar, nas eleições de 2010, após dois mandatos de Neto como
deputado, a possibilidade de explicação de seu êxito eleitoral via transferência de voto do
espólio carlista fica cada vez mais remota, o que demonstra que a partir de 2006 e sobretudo
2010 a sua atuação parlamentar, inclusive através das emendas orçamentárias, passa a ser o
campo de investigação para a compreensão de suas estratégias políticas e consequentemente
do seu êxito eleitoral.

Assim, o estudo da atuação parlamentar de Neto tanto em plenário quanto via


apresentação de emendas ao orçamento passa a ser também um o campo de investigação para
compreensão de suas estratégias políticas e consequentemente do seu êxito eleitoral.
P á g i n a | 98

Mapa 7 - Geografia do Voto de ACM Neto, 2010 - Votos Nominais

Fonte: Elaboração própria. Dados do TSE, 2013.

O Mapa 7 mostra, acima, a distribuição geral do votos de ACM Neto no Estado, em


2010. Mais especificamente, no que se refere à dimensão dominação/ compartilhamento do
seu perfil eleitoral, ele obteve votos nos 416 municípios do Estado, considerando a
competição eleitoral entre 245 candidatos a deputado federal disputando um total de
9.550.989 eleitores. Nessa eleição, diferentemente de 2002 e 2006, ele teve mais de 10% em
apenas 36 municípios. Essa diminuição fica bastante visível no Mapa 8, que se segue,
principalmente em comparação com os Mapas 2 e 4. Por outro lado, é preciso ver que Neto
alcançou índices bastante altos em alguns, como é novamente o caso de Barrocas, onde
obteve 47,5% dos votos.
P á g i n a | 99

Mapa 8- Geografia do Voto de ACM Neto, 2010 – Dominância

Fonte: Elaboração própria. Dados do TSE, 2013.

Por outro lado, conforme se observará melhor mais adiante, o deputado conquistou
uma alta dominância nas maiores cidades do Estado, o que garantiu a sua eleição em primeiro
lugar mesmo frente a um contexto eleitoral adverso ao seu partido. ACM Neto obteve
134.360 votos em Salvador, o que representou dessa vez cerca de 41% dos total dos seus
votos. Não é demasiado lembrar que dois anos antes ele foi candidato bastante competitivo à
Prefeitura da capital, alcançando 26,68% dos votos válidos. Esse fator decerto contribuiu para
o desempenho eleitoral de 2010 em Salvador.
P á g i n a | 100

A redução do número de municípios onde ACM Neto obteve mais de 10% dos votos
válidos é um indicador da diminuição da sua dominância e, consequentemente, da ampliação
do compartilhamento das suas bases com outros candidatos e outros partidos. Isso se deveu,
principalmente, à derrocada do carlismo que levou à ampliação da competição partidária na
Bahia, com o delineamento de três candidaturas a princípio competitivas no pleito majoritário
principal (Wagner pelo PT, Paulo Souto pelo DEM e Geddel Vieira Lima, pelo PMDB) que
correspondiam e procuravam responder a um cenário de tripolarização eleitoral que havia se
insinuado nas eleições municipais de 2008 (Dantas Neto, 2010) em razão de que à tradição do
DEM e à nova força governista do PT tenha se somado, neste pleito, a importância do PMDB,
que tinha Geddel como Ministro da Integração Nacional. Dessa forma, se não se pode
concluir que o voto de ACM Neto se tornou claramente compartilhado, ao menos pode se
dizer que se submeteu a um compreensível e crescente processo de compartilhamento.

Já no que se refere à dimensão da dispersão/concentração, novamente ACM Neto


obteve votos em todos os municípios do Estado, mas, diferentemente das duas eleições
anteriores, 66,84% da sua votação se concentrou agora em 15 municípios. Isto fica visível no
Mapa 9, que se segue.

A votação de ACM Neto em 2010 se concentrou tendo vista a diminuição do número


de municípios que contribuíram com mais de 1% para o total de seus votos e o aumento da
contribuição destes para o total de votos do deputado (21 municípios concentravam 56% em
2002, novamente 21 concentravam 55,69% em 2006, e em 2010 15 municípios concentram
66,84% em 2010). Desta vez, conforme a Tabela IX, o candidato concentra a maior parte de
seus votos nas cinco maiores cidades do estado, Salvador, Feira de Santana, Vitória da
Conquista, Camaçari e Itabuna.
P á g i n a | 101

Mapa 9 – Municípios que mais contribuíram para votação total de ACM NETO, 2010

Fonte: Elaboração própria. Dados do TSE, 2013.

.
P á g i n a | 102

Tabela IX: Municípios que mais contribuíram para a votação total de ACM Neto, 2010

CONTRIBUIÇÃO PERCENTUAL DE ÍNDICE DE RANKING


VOTOS
MUNICÍPIO VOTOS CADA MUNICÍPIO PARA O TOTAL DESENVOLVIMENTO NO
VÁLIDOS (%)
NOMINAIS DE VOTOS HUMANO – IDHM 201026 ESTADO
SALVADOR 134.360 10,67 40,91 0,759 1º
ITABUNA 12.544 13,138 3,82 0,712 5º
CAMAÇARI 12.462 12,911 3,79 0,694 10º
VITÓRIA DA CONQUISTA 10.755 7,367 3,27 0,678 16º
FEIRA DE SANTANA 7.432 2,798 2,26 0,712 5º
CACULÉ 4.863 45,934 1,48 0,637 52º
LAURO DE FREITAS 4.812 6,938 1,47 0,754 2º
CRUZ DAS ALMAS 4.647 16,022 1,41 0,699 9º
SÃO DESIDÉRIO 4.573 34,15 1,39 0,579 253º
ILHÉUS 4.501 5,336 1,37 0,690 13º
ALAGOINHAS 4.123 6,305 1,26 0,683 15º
BARROCAS 3.907 47,525 1,19 0,610 120º
SANTO ANTÔNIO DE JESUS 3.661 8,484 1,11 0,700 8º
POJUCA 3.594 21,44 1,09 0,666 30º
IRARÁ 3.293 22,745 1,00 0,620 88º
TOTAL 219.527 - 66,84 - -
Fonte:Elaboração própria.Dados: TSE, 2012

26
Nesta eleição, o ranking dos municípios foi elaborado a partir do IDHM – 2010 do PNUD – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, pois a Superintendência
de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI) não mais disponibilizou os cálculos do IDE e IDS depois de 2006. Ainda que não se possa, portanto, fazer uma comparação
precisa, o uso do IDHM permitirá ainda assim uma comparação entre os municípios baianos. Segundo o PNUD (2014), os dados do IDHM foram calculados a partir do Censo
Demográfico 2010 com base nas mesmas dimensões do IDH global, ou seja, longevidade, educação e renda. Disponível em < http://www.atlasbrasil.org.br/2013/pt/>
P á g i n a | 103

Conforme se observou na Tabela IX, neste pleito altera-se um padrão apresentado


nos anos de 2002 e 2006. O número de votos do candidato diminui, assim com sua votação
proporcional; da mesma forma, a concentração de seus votos se ampliou, evoluindo para uma
grande concentração, de aproximadamente 2/3 dos seus votos em apenas 15 municípios.

Desde o primeiro pleito, o voto em ACM Neto tende a ser relevante em grandes
cidades. Em 2002, por exemplo, Barreiras, Jequié, Santo Antônio de Jesus, Porto Seguro e
Alagoinhas; em 2006 integram cidades como Vitória da Conquista, Ilhéus, Itabuna, Camaçari
e Feira de Santana e, em 2010, se associam a elas Lauro de Freitas, conforme se notou no
Quadro V, a seguir. Isso explica o fato de que nesta eleição, considerando o perfil desses
municípios em função do seu IDHM, 12 entre os 15 estavam situados entre os 20% melhor
colocados no ranking do estado da Bahia. Neste pleito, nenhum município situado entre os
40% piores do estado compuseram o grupo dos que mais contribuíram para a votação de
ACM Neto. É interessante notar também que neste pleito deixam de integrar o grupo
municípios menores e piores ranqueados no estado, como Quinjingue, Jeremoabo e
Inhambupe, antigos redutos eleitorais de deputados carlistas nas eleições de 1994 e 1998,
conservados por ACM Neto nas eleições de 2002 e 2006. Isso pode ser explicado pela sua
situação de oposição de ACM Neto frente a máquina pública estadual e, portanto, pela
diminuição da possibilidade de distribuição de recursos de base clientelista, o que indica,
como será melhor analisado mais adiante, que o clientelismo não pode ser considerado causa
suficiente para explicar o seu perfil eleitoral.

Quadro V - Mudanças e Permanências de municípios no grupo de concentração de votos


na Base Eleitoral de ACM Neto, 2006-2010
Permanecem no Grupo em 2006
Passam a integrar Grupo em 2010 Deixam o Grupo em 2010
e 2010
LAURO DE FREITAS BRUMADO SALVADOR
SÃO DESIDÉRIO SENTO SÉ VITÓRIA DA CONQUISTA
BARROCAS TUCANO ITABUNA
IRARÁ QUINJINGUE CAMAÇARI
ITABELA FEIRA DE SANTANA
MARACÁS SANTO ANTÔNIO DE JESUS
JEREMOABO ILHÉUS
ESPLANADA ALAGOINHAS
INHAMBUPE CRUZ DAS ALMAS
MACAÚBAS POJUCA
CACULÉ
Fonte: Elaboração própria, dados do TSE, 2012.
P á g i n a | 104

2.6. Considerações finais sobre o Perfil eleitoral de ACM Neto 2002-2010

À guisa de conclusão desse capítulo é possível identificar algumas características do


perfil eleitoral de ACM Neto 2002-2010. Em primeiro lugar é possível dizer que ACM Neto
mantém uma característica tradicional do carlismo, que é a presença de alguém da família
Magalhães numa posição de clara proeminência frente ao partido, como fica evidente na
comparação do peso da votação de Luis Eduardo Magalhães nas eleições de 1994 frente ao
partido com o de ACM Neto nas eleições de 2002, 2006 e 2010, conforme expresso na Tabela
síntese que se segue. Essa situação somente não ocorre em 1998, pois como não houve a
candidatura de Luis Eduardo Magalhães se configurou uma situação atípica. Conforme se
pode notar na tabela, a tendência de concentração dos votos do partido no candidato central se
amplia, de um modo geral, entre as eleições de 1994 e 2010. No caso de Neto a
preponderância interna ao partido de sua votação pessoal cresce a cada pleito.

Tabela X: Evolução da votação no PFL-DEM, 2002-2010


1994 1998 2002 2006 2010

Total de votos válidos 2.907.869 4.152.035 5.956.123 6.570.872 6.684.011

Total de votos em candidatos do


871.483 1.953.584 2.488.818 2.288.295 968.553
PFL-DEM para deputado federal

Proporção do PFL em relação ao


29,9% 47% 41,7% 34,8% 14,4%
total de votos válidos
Luis
Proporção do candidato mais Paulo ACM ACM ACM
Eduardo
votado do estado em relação ao Magalhães Neto Neto Neto
4,7%
numero total de votos válidos 4,6% 6,7% 6,6% 4,9%
Luis Paulo ACM ACM ACM
Proporção candidato mais
Eduardo Magalhães Neto Neto Neto
votado do PFL-DEM em relação
ao partido
15,8% 9,8% 16% 19% 33,9%
Fonte: Elaboração própria, dados TSE, 2013

Conforme se observa, em 1994, o PFL obteve quase 30% do total de votos válidos e
Luis Eduardo Magalhães, obteve um pouco mais de 15,8% do total de votos do partido. Isso
sugere que o candidato era uma liderança que tinha posição privilegiada na elite política
carlista. Já em 1998, auge da predominância carlista, o PFL obteve quase 50% total de votos
P á g i n a | 105

válidos, mas o candidato que obteve maior número de votos (Paulo Magalhães, sobrinho de
ACM) diminuiu a predominância do primeiro colocado em relação ao partido frente à
trajetória carlista de 1994 – 2010. Com a morte repentina de Luis Eduardo os votos do
carlismo foram mais compartilhados entre todos os candidatos do grupo. O que sugere que
Paulo Magalhães não ocupava uma posição tão central no grupo, indicando que não era
suficiente ser da família para ter posição privilegiada na elite carlista.

Como já dito, entre 2002 e 2010, observa-se que, na medida em que o número de
votos no PFL em relação ao total de votos válidos diminuía, houve um aumento significativo
da predominância do seu candidato mais votado, no caso ACM Neto, em relação ao partido.
Em 2010, essa concentração alcança o seu máximo, quando ACM Neto obteve quase 34%
total de votos do partido.

No que tange a relação entre elites e partidos, ainda que não possamos caracterizar
rigorosamente o voto de ACM Neto através das categorias de Ames (2001), foi possível
perceber dois elementos importantes do seu perfil eleitoral neste período. Em primeiro lugar,
parece bastante razoável considerar seu voto como concentrado em 2002, 2006 e, ainda mais,
em 2010. A sua passagem à condição de oposicionista em âmbito estadual e federal ampliou
sensivelmente a tendência de concentração do seu voto, associada à diminuição de cerca de
25% da sua votação, face a pleitos anteriores.

Vale salientar que a concentração de votos de ACM Neto não se deu em uma região
contígua, mas nos maiores municípios do estado. Tal tendência parece resultar de uma
estratégia deliberada do candidato, já que tais municípios parecem ser mais sensíveis ao
discurso de oposição, diferentemente dos municípios menores que são mais dependentes da
máquina estatal. Por isso mesmo, sua votação em 2010 diminui em municípios menores que
já eram redutos eleitorais do carlismo que ele mantém nas eleições de 2006 e 2010. Da mesma
forma, para candidatos que tem maior visibilidade e mais recursos eleitorais, mesmo estando
na oposição, como é o caso de ACM Neto, as grande cidades parecem se constituir lócus com
maior possibilidade de bons resultados em termos de custo x benefício.

Outro elemento identificado no seu perfil eleitoral diz respeito à questão da


dominância/compartilhamento. Como observado ao logo do capítulo, em todos os pleitos
ACM Neto teve dominância considerável em um número específico de municípios. Entre
P á g i n a | 106

eles, alguns também se destacaram como parte do grupo dos que mais contribuíram para sua
votação total em termos absolutos, no entanto, em geral o conjunto dos municípios onde a
dominância foi maior que 10% sempre representou uma parte pequena do universo total de
municípios do Estado. Em 2002, 80 municípios se enquadravam nesse conjunto e em 2006,
81 municípios, representando, nos dois casos, cerca de 20% dos municípios do estado; Em
2010, os 36 municípios com dominância representavam bem menos ainda (9%) em relação ao
universo total de municípios. Pode-se estar, portanto, diante de uma tendência a um crescente
compartilhamento de votos, em prejuízo do tipo dominante.

Em termos mais diretos, a concentração da sua votação nos maiores municípios


parece ser uma razão da ampliação do compartilhamento. Mas essa diminuição se deu
também, em grande medida, pelo crescimento da base eleitoral petista.

Tal caracterização não significa que ACM Neto compartilha os votos da mesma
forma em todos os municípios. As tabelas que apresentam os municípios que contribuíram
com mais de 1% para sua votação total demonstram que nesses lugares sua dominância
assume um patamar considerável. É possível apenas inferir que ao logo do período 2002-2010
o voto de ACM Neto parece sair de um padrão relativamente mais próximo de um tipo de
voto disperso-dominante para um tipo de voto relativamente mais próximo do concentrado-
compartilhado27.

Assim, sobretudo em 2002, o voto de ACM Neto se aproximava mais de um ―[...]


padrão [que] corresponde a dois tipos de candidatos: os que fazem acordo com líderes
políticos locais [...] e os que já ocuparam cargos na administração estadual como secretários
de educação, posto de grande potencial de distribuição de programas de alcance clientelista‖
(AMES, 2001, p.72). Esse padrão mais disperso e mais dominante representa a força de uma
elite política ocupando cargos no executivo estadual como é o caso de ACM Neto neste
período enquanto assessor do secretário de educação.

27
É importante considerar que se trata de um processo que envolve dois ―tipos ideais‖ de padrão de votação. Em
2002, a votação de ACM Neto já era 56% concentrada em 21 municípios, no entanto ele obteve votos em
praticamente todos os outros municípios do estado, aproveitando-se do peso do espólio eleitoral carlista.
Comparado a 2010, esse padrão representa um tipo mais disperso e mais dominante, já que neste ano cerca de
67% de sua votação se concentrou em apenas 15 municípios do estado.
P á g i n a | 107

Isso demonstra a importância do peso do carlismo na máquina estatal para a primeira


eleição de ACM Neto, ainda que não se possa afirmar que o espólio eleitoral carlista tenha
sido o único responsável pela sua eleição já que conforme visto ao longo do capítulo, dos 21
municípios mais importantes para eleição de ACM Neto, apenas 10 deles eram evidentemente
redutos eleitoras de candidatos carlistas em 1994 e 1998. Isso tampouco anula a importância
desse espólio, pois ele poderia estar disperso pelos demais municípios onde ACM Neto
obteve votação em 2002, que embora não analisados neste trabalho, representavam cerca de
44% dos votos do candidato neste pleito. Portanto, o perfil eleitoral de ACM Neto foi se
alterando para um padrão mais concentrado e mais compartilhado.

É importante ressaltar, entretanto, que a hipótese do clientelismo como fator


explicativo central do padrão de votação inicialmente mais disperso e dominante pode não ser
suficiente para explicar, em toda a sua complexidade, o perfil eleitoral de ACM Neto. Nessa
mesma perspectiva aponta Souza (2009):

A Bahia é um estado em que o clientelismo e a política tradicional sozinha não


podem explicar a longevidade de uma elite autoritária. [...] Se isso fosse verdadeiro,
seria de se esperar que em municípios menos urbanizados, com menor receita
pública per capita e menor Índices de Desenvolvimento Humano (IDH), o eleitorado
fosse mais sensível ou mais propenso a depender de clientelismo e tenderia a rejeitar
as políticas tais como o controle fiscal [...] a Bahia é um estado que sofreu ajuste
fiscal severo, o que, claro, restringe a despesa pública. Se a hipótese do clientelismo
estivesse correta, o ajuste fiscal vivido na Bahia e em outros estados menos
desenvolvidos levaria ao desastre eleitoral, uma vez que as práticas clientelistas e
eleitoreiras são mantidas por recursos públicos [...] o clientelismo não desapareceu,
mas ele não é a única razão ou condição política para explicar as preferências
partidárias, ou os votos [...] o DEM tem equilibrado, desde seus primeiros dias, a
prestação de ambos bens, públicos e privados. [...] não é uma negação da existência
de relações patrão-cliente, mas sim uma defesa que a relação patrão-cliente não é o
único jogo no estado e que tem coexistido com a provisão de bens públicos,
portanto, o argumento de que a política estadual no Brasil é conduzido por mais do
que uma base racional. (SOUZA, 2009, p.26, livre tradução nossa)

Nesse sentido, há a possibilidade de explicar a votação de ACM Neto ainda, ao


menos em parte, levando em consideração outros elementos, como por exemplo, o chamado
―voto de opinião‖. Expressão controversa, quer aqui se referir a um tipo de voto obtido de
forma difusa, sendo disperso sem no entanto resultar do uso dos mecanismos clássicos que
levam a conquista de redutos. Nesse sentido, o voto de opinião pode ter algo de ―ideológico‖,
em alguns casos, ou programático, pela identificação com diversos posicionamentos políticos;
pode ser mais ―pragmático‖, quando se vincula a temas em cujo tratamento ocorre a defesa de
P á g i n a | 108

interesses específicos; ou até em função do peso da tradição, do carisma e de outros elementos


com que levaríamos a explicação ao campo da cultura política28.

Vai nessa mesma direção, outro resultado relevante deste capítulo. Os municípios
que mais contribuíram para as vitórias eleitorais de ACM Neto não têm o mesmo perfil
socioeconômico e nem se localizam numa região contígua. Ademais, ao contrário do que em
princípio poderia se imaginar em função de sua vinculação com uma elite política de um
estado pobre do Nordeste do Brasil (e em consonância com o esperado pela sua prolongada
atuação oposicionista), os municípios onde se concentram os seus votos estão em geral entre
aqueles melhor ranqueados em termos de desenvolvimento econômico-social, ainda que os
municípios onde obteve as maiores dominâncias tenham sido os mais pobres.

Em síntese, os estudos sobre o perfil eleitoral de ACM Neto no período 2002-2010


permitem apontar a ideia de que o espólio eleitoral carlista contribuiu para o seu êxito
eleitoral, sobretudo nas eleições de 2002. No entanto, a partir de 2006, com o crescente
declínio do poder do carlismo na Bahia, novos elementos devem ser considerados para
explicar o seu relativo sucesso. Por isso, a necessidade de estudar a sua atuação parlamentar, a
sua visibilidade nacional, além de novos apelos políticos-eleitorais. Nesse âmbito, um entre os
demais capítulos desta tese se deterá na análise da atuação parlamentar de ACM Neto de
2002-2010.

Como discutem Anastasia, Castro e Nunes (2010), o estudo da conformação da base


eleitoral dos deputados é relevante para a compreensão dos determinantes do tipo de
comportamento dos deputados. Dessa forma, os achados desse capítulo sobre o perfil eleitoral
de ACM Neto são um passo para a compreensão da sua atuação parlamentar e, mais
especificamente, das suas estratégias político-eleitorais mais amplas, pois, como afirma os
autores, a ambição dos parlamentares brasileiros envolve diferentes trajetos e percursos, mas
tem como fim maximizar as chances de sucesso político nas diferentes arenas.

28
Outros candidatos na política baiana em diversos momentos, podem ter o voto de opinião como constituinte do
seu perfil eleitoral. Eliana Kertész (1982), Gilberto Gil(1988), Leo Krett (2008) para vereador em Salvador;
Waldir Pires(1990) para deputado federal; Lídice da Mata em Salvador (em 2002 e 2006), respectivamente para
Deputado Estadual e Federal. Em nenhum desses casos estiveram presentes os dois fatores mencionados por
Ames (2003).
P á g i n a | 109

CAPÍTULO 3
ESTRATÉGIA POLÍTICA DE ACM NETO NA CÂMARA
DOS DEPUTADOS (2003-2012)
P á g i n a | 110

Este capítulo analisa algumas dimensões da estratégia política de ACM Neto, mais
precisamente as que se vinculam à sua atuação parlamentar nos mandatos de deputado
federal. Pretende-se compreender essa estratégia observando o repertório simbólico presente
nos seus discursos em plenário e - através desses mesmos discursos e das emendas que
apresentou às sucessivas leis orçamentárias - indicações sobre eventual orientação
programática de alianças político-partidárias celebradas por ele, de modo a comparar esses
achados tanto com o repertório simbólico quanto com o padrão de alianças que marcaram a
tradição carlista. Ao cabo da análise será possível também relacionar a estratégia política de
ACM Neto com o seu perfil eleitoral, examinado no capítulo anterior, buscando averiguar em
que aspectos a sua atuação parlamentar esteve diretamente associada a demandas decorrentes
daquele perfil geográfico de votação nas três eleições para deputado federal que disputou.

O capítulo está estruturado em duas seções. A primeira apresenta uma análise dos
discursos do deputado em plenário. A segunda terá como foco as Emendas apresentadas por
ele às leis anuais sobre o Orçamento da União.

3.1 Atuação Parlamentar – discursos em plenário

ACM Neto foi eleito três vezes deputado federal, e exerceu mandatos de 2003 a
2012, renunciando à metade do terceiro mandato para assumir a Prefeitura Municipal de
Salvador, em janeiro de 2013. Durante esse período, participou de várias comissões regulares
na Câmara de Deputados, além de comissões parlamentares de inquérito (CPIs); foi e foi
eleito 2º. Vice Presidente e Corregedor da Câmara de Deputados. Também foi líder do PFL e,
posteriormente, do DEM; apresentou diversas Emendas ao Orçamento e alguns Projetos de
Lei, atuando sempre com uma postura de oposição decidida ao Governo Federal, além de ter
um discurso enfático em defesa dos ―interesses da Bahia‖. Como já anunciado, ao tratar da
atividade parlamentar de ACM Neto e da sua relação com a tradição carlista, a análise se
deterá nos seus discursos em plenário e das emendas orçamentárias que apresentou29.

29
Ao longo dos mandatos apresentou também 14 Projetos de Lei, um de Lei Complementar e um de Emenda
Constitucional. Como todos eles, exceto um, foram amplamente discutidos/defendidos em plenário, optou-se por
tratar deles através dos discursos e não como atividade parlamentar em separado. É o caso do PEC 213/2003
que proíbe a edição de MP para criação e majoração de impostos, tema frequente do deputado; ou o PL
1233/2003 que dispõe sobre isenção do IPI na aquisição de automóveis para utilização no transporte autônomo
de passageiros, de pessoas portadoras de deficiência física e os destinados ao transporte escolar.
P á g i n a | 111

Durante o período 2003-2012 foram encontrados 1071 ―discursos em plenário‖ de


ACM Neto, taquigrafados e disponibilizados pela Câmara dos Deputados. Tais
pronunciamentos ocorreram em diversas modalidades de sessões: ordinárias, extraordinárias,
não deliberativas, etc. A análise a seguir engloba todas essas modalidades.

A sistematização dos pronunciamentos foi feita a partir de recorrências temáticas. Os


temas mais frequentes nos pronunciamentos foram listados e posteriormente agrupados. O
agrupamento dos itens em blocos combinou esse critério de regularidades com interesses da
própria pesquisa, ou seja, levou em consideração também os temas recorrentes da tradição
carlista, conforme analisado por Dantas Neto (2006). Os temas possuem profunda relação
entre si, de modo que muitas vezes temas de blocos diferentes estiveram vinculados na fala do
deputado e na sua própria atuação.

Dessa forma, o conteúdo dos 1071 pronunciamentos foi examinado e posteriormente


sistematizado em doze itens temáticos que, por sua vez, foram agregados em dois grandes
blocos, conforme apresentado no Quadro VI, a seguir. Ao ser feito o agrupamento, alguns
pronunciamentos tiveram que ser alocados simultaneamente em dois ou mais itens já que
muitos discursos abordavam mais de um tema. Por isso, embora tenham sido coletados e
estudados 1071 pronunciamentos, o universo total compõe-se de 1386 ―eventos de fala‖, isto
é, a abordagem de um tema num pronunciamento. Logo, um mesmo pronunciamento pode
conter mais de um tema e alocado, enquanto evento de fala, em mais de um bloco temático.

Parte destes 1386 eventos de fala, entretanto, versa sobre encaminhamentos do


processo legislativo interno, como por exemplo questões regimentais, pedidos de destaques,
encaminhamento da ordem do dia, requerimento de adiamento de urgência de votação,
inversão de pauta do dia e, até por sua condição de deputado de oposição, a estratégia de
obstrução de voto. Sempre que tais encaminhamentos fizeram menção a determinado tema,
foram alocados, nos seus respectivos itens temáticos sem constituir um item à parte. Todavia,
246 deles não se remetem a qualquer tema específico que não a própria atividade legislativa.
Como o objetivo deste trabalho não era fazer uma análise específica da atuação de ACM Neto
em plenário e sim dar conta do conteúdo temático dos seus pronunciamentos, esses 246
P á g i n a | 112

eventos de falas foram suprimidos das tabelas e da análise, vez que influenciavam no
resultado final da análise sobre o grau de incidência de cada tema e/ou bloco temático 30.

Dessa forma, o universo total das análises passou a ser de 1140 ―eventos de fala‖,
facilitando e tornando mais clara a comparação da estratégia política de ACM Neto com a
tradição carlista, em suas alusões a temas nacionais/gerais e regionais/estaduais/locais.

Quadro VI - Temas dos discursos em plenário do Deputado ACM Neto, 2003-2012

I – Temas Gerais/Nacionais

1. Funcionamento das Instituições (Pacto Federativo e Relação entre os três Poderes)


2. Corrupção e Ética Pública
3. Gestão e Administração Pública Federal
4. Temas Econômicos, Fiscais e Tributários (inclusive Reforma Tributária)
5. Outras Reformas (Previdenciária e Política)
6. Políticas Públicas (Educação, Saúde, Segurança, Transporte, Infraestrutura, Salário
Mínimo, etc.)
7. Outros (Homenagens, Questões Internacionais, Questões ligadas à juventude e outras
categorias, etc.)

II- Temas Estaduais/Regionais

1. Defesa do modelo de gestão carlista


2. Demanda por recursos do Governo Federal (Nordeste e Bahia)
3. Críticas à gestão petista na Bahia
4. Referências a municípios baianos
5. História/cultura baiana
Fonte: Elaboração própria. Dados Câmara dos Deputados, 2014

A partir dessa seleção de temas que, como explicado, obedeceu a critérios prévios da
pesquisa, mas também reflete a incidência empiricamente verificada nos mesmos, os
pronunciamentos de ACM Neto no plenário da Câmara dos Deputados serão analisados, nessa
seção, em ordem temporal, por tópicos correspondentes a cada um dos seus três mandatos.

30
Após uma primeira análise que contabilizou esses encaminhamentos, percebeu-se que com a sua retirada
ficariam mais claras as observações quanto as incidência temáticas mais presentes na atuação parlamentar do
deputado. Com a inclusão dos itens ―encaminhamentos legislativos‖, notou-se um enviesamento da distribuição
dos temas no total das unidades de falas.
P á g i n a | 113

3.1.1 Pronunciamentos em Plenário (2003-2006)

A Tabela XI, mais abaixo, apresenta a distribuição temática dos eventos de fala de
ACM Neto durante o seu primeiro mandato, entre 2003 e 2006.

Tabela XI – Temas de Pronunciamento de ACM NETO em Plenário (2003-2006)



2003 2004 2005 2006
Mandato
TEMAS
N % N % N % N % N %

I - Temas Gerais/Nacionais 127 84,11 92 74,80 51 77,27 8 72,73 278 79,20

Funcionamento das Instituições (Pacto


18 11,92 10 8,13 12 18,18 2 18,18 42 11,97
Federativo e Relação entre os três Poderes)

Corrupção e Ética Pública 7 4,64 1 0,81 13 19,70 3 27,27 24 6,84

Gestão e Administração Pública Federal 27 17,88 13 10,57 7 10,61 1 9,09 48 13,68

Temas Econômicos, Fiscais e Tributários


34 22,52 45 36,59 6 9,09 0 0,00 85 24,22
(inclusive Reforma Tributária)

Outras Reformas (Previdenciária e Política) 2 1,32 7 5,69 2 3,03 1 9,09 12 3,42

Políticas Públicas (Educação, Saúde,


Segurança, Transporte, Infraestrutura, 29 19,21 16 13,01 9 13,64 0 0,00 54 15,38
Salário Mínimo, etc.)
Outros (Homenagens, Questões
Internacionais, questões ligadas à 10 6,62 0 0,00 2 3,03 1 9,09 13 3,70
juventude, outras categorias etc.)
II - Temas Estaduais/Regionais 24 15,89 31 25,20 15 22,73 3 27,27 73 20,80

Defesa do modelo de gestão/política carlista 10 6,62 5 4,07 3 4,55 1 9,09 19 5,41


Demanda por recursos do Governo Federal
8 5,30 15 12,20 7 10,61 0 0,00 30 8,55
(NE/BA)

Referência a municípios baianos 3 1,99 11 8,94 4 6,06 1 9,09 19 5,41

História/cultura baiana 3 1,99 0 0,00 1 1,52 1 9,09 5 1,42

TOTAL DE EVENTOS DE FALA 151 100,00 123 100,00 66 100,00 11 100,00 351 100,00
Fonte: Elaboração Própria. Dados: Câmara dos Deputados, 2014.

Como já dito, no seu primeiro mandato ACM Neto esteve na oposição no âmbito
nacional. Em âmbito estadual integrava o grupo político do Governador da Bahia, Paulo
P á g i n a | 114

Souto, e, até 2004, também o do prefeito de Salvador, Antônio Imbassahy. Tal situação
diferenciou sua atuação parlamentar nesse primeiro mandato dos outros dois, nos quais esteve
na oposição em todos os níveis. Nos seus discursos, os principais temas mobilizados pelo
deputado referem-se ao Bloco I, relativos a questões nacionais/gerais, que tiveram maior
incidência, 79,20% dos seus eventos de fala. Quatro temas específicos se destacaram entre os
nacionais: Temas Econômicos, Política Fiscal e Tributária (24,22%), Políticas Públicas
(15,38%), Gestão e Administração Pública Federal (13,68%) e Funcionamento das
Instituições (11,97%).

Durante este período (primeiro Governo Lula), uma das questões que mobilizou
fortemente o Congresso Nacional foi o projeto do Executivo de prorrogação da CPMF
(Contribuição Provisória sobre Movimentação ou Transmissão de Valores e de Créditos e de
Natureza Financeira). Enquanto representante da oposição (PFL), e em conjunto com o
PSDB, ACM Neto colocou-se contra os projetos do Governo. Seu discurso criticava não só o
mérito, ou seja, a CPMF enquanto mais uma forma de tributo, mas também a mudança de
postura do Governo e do PT, que na oposição eram contrários à contribuição e na condição de
Governo colocaram-se favoravelmente à sua prorrogação. Em tema correlato, o deputado teve
também postura contrária ao projeto de Reforma Tributária do Governo Federal:

Sr. Presidente [...] A reforma prometia simplificar o sistema nacional; estimular


a produção; reduzir a carga tributária; realizar a justiça fiscal; combater as
desigualdades regionais; e repensar o pacto federativo [...] [Mas] vimos que o
Governo tinha apenas três reais interesses: a prorrogação da CPMF e da DRU
e a instituição da contribuição sobre as importações. [...] Mas como ficam os
Estados, os Municípios e os contribuintes? A resposta também é clara:
esquecidos, abandonados, sem nenhum acalento, desguardados de qualquer
proteção que o Governo poderia conceder. Estamos diante de uma reforma
tributária que vai promover o desequilíbrio entre os Estados brasileiros,
piorando a condição de pobreza dos já mais pobres e retirando a autonomia
dos Governadores, uma reforma que terá como consequência direta a
dependência dos Governadores de Estado dos benefícios que possam receber do
Governo Federal. No início, falou-se num Fundo de Desenvolvimento Regional,
que seria criado para alcançar as regiões mais pobres, mais necessitadas. [...]
Como ficam os Prefeitos, que tanto reivindicaram um mínimo de atenção? [...]
O que conseguiram? Absolutamente nada. E o contribuinte brasileiro, o que
esperava? Esperava pagar menos imposto, acreditava que a reforma diminuísse
a carga tributária, que já é absurda, especialmente quando comparada com a
eficiência do serviço público prestado. Pois muito bem. O que o contribuinte vai
ganhar com a aprovação desta reforma? [...] É melhor não fazer a reforma, se a
opção é esta que está aí. Não temos outro caminho senão votar contra. (Discurso do
deputado ACM Neto em plenário em 25 de setembro de 2003).
P á g i n a | 115

No que tange às políticas públicas, discursou sobre algumas temáticas, como a defesa
da criação do Sistema Único de Segurança Pública, o Pacto pela Educação e a defesa do
Ensino Superior; no âmbito social, a defesa dos Programas Sociais de Combate a Pobreza.
Importante ressaltar, nesse último ponto, a tentativa frequente de atribuir a ACM a
responsabilidade, e, portanto o bônus, de ter criado o ―germe‖ do Programa do Governo
Federal de Transferência de Renda, o Bolsa Família, fazendo alusão positiva ao Fundo de
Combate à Pobreza, como se evidencia no discurso abaixo:

Sr. Presidente, [...] fala-se muito da Bahia [...] Já se trabalha no combate à


pobreza há muitos anos em nosso Estado, desde 1991, quando retornou ao
Governo o nosso líder e hoje Senador Antonio Carlos Magalhães. Vejo que se
perde muito tempo discutindo-se universalização e focalização, enquanto que a
defesa deve ser a da existência de uma ampla rede de proteção social para o
pobre e para o carente em nosso país. É isso que faz a Bahia: identifica as
diversas formas de pobreza e busca soluções distintas para cada uma delas. [...]
preocupo-me quando ouço que o Governo quer promover a unificação dos
programas sociais. Não interessa que os unifique, tudo bem, admitimos que o
Governo os unifique, mas não os subtraia; focalize-os, mas não os retire. Essa é
uma bandeira nossa, a de um partido que tem como seu principal patrimônio social o
Fundo Constitucional de Combate à Pobreza. Foi ideia de um baiano, às vezes,
criticado, mas que deu contribuições a este País da maior valia. Estão lá,
previstos no Orçamento da União, 5 bilhões de reais para serem aplicados no
Fundo de Combate à Pobreza. [...] (Discurso de ACM Neto em plenário em 12 de
maio de 2003).

Já aqui é possível notar uma forte confluência da perspectiva de ACM Neto com a
tradição carlista, para além da referência pessoal ao Senador ACM e aos governos do seu
grupo na Bahia, que, na sua visão, foram pioneiros e eficientes no tratamento da questão da
pobreza. Quando afirma que não se deve perder tempo discutindo universalização ou
focalização, fica patente a defesa de um tipo de política mais pragmática e instrumental, que
deve ser voltada aos fins e aos resultados, nesse caso a criação de uma ―rede de proteção
social para o pobre e para o carente‖, uma das características relevantes da tradição carlista.
Além disso, a aceitação de que a política de transferência de renda fosse focalizada, já que o
que importava era a sua existência em detrimento de uma compreensão sobre a necessidade
da sua universalização (IVO, 2008), o localiza também como parte de um grupo que
compreende que o Estado, ainda que mantenha políticas sociais, deve reservar para este fim
somente parte do orçamento, de modo a não ampliar impostos; elementos coerentes com suas
críticas anteriormente analisadas à volta da CPMF e a proposta de Reforma Tributária, assim
como com as alianças políticas estabelecidas pelo carlismo ao longo da década de 1990 em
torno do campo político que advogava a necessidade do ajuste fiscal.
P á g i n a | 116

Mantendo-se fiel aos posicionamentos desse campo político, exerceu desde o


princípio do mandato um papel destacado de oposição, voltando suas críticas à administração
pública federal no que concerne a um conjunto de questões, como cortes ao orçamento para a
área de infraestrutura, criação de cargos públicos e ao que chamou de ―aparelhamento da
máquina pública‖ pelo PT, conforme se evidencia no discurso abaixo:

Sr. Presidente [...] [uma matéria de jornal dessa semana] traz com grande destaque a
seguinte reportagem: "Lula quase dobrou quadro de servidores não concursados. O
contingente de funcionários sem vínculo com o serviço público federal saltou de
18.040, em 2002, último ano de Fernando Henrique Cardoso, para 33.204, em
2004". [...] É evidente e notório que estamos vivendo a maior época na
democracia de aparelhamento da máquina pública. Escancararam-se as portas
do Governo Federal para colocar os apaniguados do PT, os derrotados das
eleições, os aliados e pobres companheiros do Presidente da República! [...]
também precisaríamos acabar com o "nepetismo", o desrespeito ao concurso público
[...] a livre indicação de militantes do Partido dos trabalhadores feita pelo
companheiro Lula. O pior é a obrigação compulsória da contribuição de cada um
desses ocupantes de cargos comissionados. [...] Vejam os senhores o que diz essa
mesma matéria: "Petistas com cargos no Governo passam a sonegar o dízimo.” [...]
(Discurso do deputado ACM Neto em plenário em 20 de abril de 2005).

O pronunciamento acima aproxima a atuação do deputado de uma característica


importante do tradicional discurso carlista, qual seja a defesa de que os cargos políticos sejam
ocupados por quadros técnicos e não por indicações ideológicas ou partidárias.

Em outro tema relevante nos eventos de fala do Bloco Temático I estão discursos
ligados ao Funcionamento das Instituições (11,97%), tanto àqueles ligados ao pacto
federativo, quanto àqueles ligados à relação entre os três poderes. Um exemplo da
preocupação marcante do deputado referente à necessidade de se repensar o pacto federativo e
à defesa da autonomia dos municípios fica evidente no discurso que se segue:

[...] Vários Municípios brasileiros não possuem arrecadação própria. Não


conseguem sustentar-se. É verdade que a grande responsabilidade por essa situação
está no fato de que até a Constituição de 1988 muitos Municípios foram
emancipados sem condições para tanto. Há, porém, um outro fator, esse permanente:
hoje há desigualdade na distribuição das receitas tributárias em nosso País, além de
uma concentração por parte do Governo Federal, o que contribui para o
empobrecimento de Estados e Municípios. E é claro, Sr. Presidente, que precisamos,
até como alternativa para melhorar a saúde financeira da maioria dos 5 mil
Municípios brasileiros, trazer rapidamente ao Plenário a reforma tributária e garantir
o compromisso que o Governo assumiu de aumentar em 1% a parcela de repasse do
FPM, porque isso vai ajudar nossos Municípios. [...] (Discurso do deputado ACM
Neto em plenário em 28 de outubro de 2004).
P á g i n a | 117

Conforme se observa, essa questão quanto à autonomia dos municípios perpassa à


estrutura tributária do país que, na acepção do deputado, favorece em termos de arrecadação a
União. Há uma discussão muito presente nas falas deste mandato quanto à necessidade de se
repensar o pacto federativo, pois, segundo o deputado, a Constituição de 1988 outorgou aos
municípios a responsabilidade de formulação e implementação de um conjunto de políticas
públicas, como a atenção básica de saúde e a educação de nível infantil e fundamental, sem,
no entanto, dotá-los de instrumentos fiscais suficientes para tal, de modo que ele enxerga o
município como o ente mais prejudicado em termos de autonomia financeira. Por isso, está
presente nas suas falas uma forte defesa da necessidade de que parte da arrecadação tributária
seja destinada a uma recomposição tanto do Fundo de Participação dos Municípios quanto do
Fundo de Desenvolvimento Regional31.

Observa-se na leitura dos discursos sobre o funcionamento das instituições e sobre o


que considerava desequilíbrio do pacto federativo uma marca de forte oposição política ao
Governo Lula, utilizando-se desses e de outros temas institucionais como pretextos para fazer,
no varejo político, duras críticas de caráter conjuntural ao que chamava de ―Governo do PT‖.
Nesse ponto adotava postura tática semelhante àquela que, conforme Dantas Neto (2006), seu
avô ACM, quando deputado federal, adotava em suas performances aguerridas em plenário,
entre meados de 1963 e março de 1964, na fase final do Governo do Presidente João Goulart.

No que diz respeito ao tema da relação entre os Poderes, para além de críticas ao que
considerava interferências do Judiciário na seara legislativa, há diversas falas sobre as
relações Executivo/Legislativo, denunciando o modo com que o Executivo lidava com o
Congresso Nacional, especialmente pelo excesso de Medidas Provisórias editadas. A crítica
dirige-se, nas palavras de ACM Neto, à ―usurpação das atribuições do Poder Legislativo 32‖:

31
O Fundo de Participação dos Municípios é uma transferência constitucional (CF, Art. 159, I, b) da União para
os municípios, composto de 22,5% da arrecadação do Imposto de Renda (IR) e do Imposto sobre Produtos
Industrializados (IPI). Já os Fundos de Desenvolvimento da Amazônia (FDA), do Nordeste (FDNE) e do Centro-
Oeste (FDCO) são instrumentos de promoção do desenvolvimento regional no Brasil. O FDA e o FDNE, criados
em 2001, e o FDCO, em 2009, têm por finalidade assegurar recursos para a realização de investimentos nas áreas
de atuação das Superintendências do Desenvolvimento da Amazônia, do Nordeste e do Centro-Oeste (SUDENE,
SUDAM e SUDECO) em infraestrutura, serviços públicos e em empreendimentos produtivos.

32
De acordo com Limongi (2010), o controle presidencial sobre a agenda legislativa está na raiz do
funcionamento da base de apoio do governo. O alto número de MP(s) é suficiente para se concluir que o
Executivo recorre ao poder de decreto para legislar sobre matérias corriqueiras e ordinárias, violando a condição
expressa pela Constituição. Nesse sentido, para uma série de autores e analistas, o Executivo estaria
extrapolando seus poderes ao assumir a posição reservada ao Legislativo. Embora seja essa a crítica de ACM
P á g i n a | 118

É evidente que precisamos fazer uma crítica à quantidade exagerada de medidas


provisórias que vêm sendo editadas por este Governo. Na verdade, há supressão
do Poder Legislativo, e o Poder Executivo acaba se sobrepondo e legislando.
Estamos com a pauta trancada pelo excesso de medidas provisórias. Vejo a
angústia do Presidente João Paulo Cunha em querer votar o projeto de parceria
público-privada. Com razão. O projeto é importante para o País. No entanto, não
pôde ser votado justamente porque as medidas provisórias estão trancando a pauta.
(Discurso do deputado ACM Neto em plenário em 17 de março de 2004).

Ainda no Bloco I, neste primeiro mandato também apareceram eventos de fala sobre
o tema da corrupção e da ética pública, com 6,8% de incidência. Além de proferir vários
discursos em plenário sobre esses assuntos. ACM Neto foi também membro titular da CPMI
dos Correios representando o PFL e sub-relator da CPMI dos Fundos de Pensão. A CPMI dos
Correios foi criada em maio de 2005 com o objetivo de investigar as denúncias de corrupção
nas estatais, mais especificamente na Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos. Seu foco,
no entanto, foi deslocado pouco depois para a investigação da existência do "Mensalão", o
pagamento mensal a parlamentares da base aliada pelo governo 33. Por isso, o grau de
incidência desses assuntos, sobre o conjunto das falas, não apresenta regularidade ao longo
desse mandato. A tabela deixa claro que só adquirem relevância a partir de 2005 e isso se
deve, centralmente, ao escândalo do mensalão. O discurso abaixo ilustra o tom das críticas:

Sr. Presidente [...] quero manifestar minha profunda indignação com o discurso
proferido hoje pelo Sr. Presidente Luiz Inácio Lula da Silva. [...] S.Exa. acusa os
Deputados de[...] terem partido para uma onda de denuncismo, levado ao
conhecimento da Nação brasileira atos muito graves de corrupção e até agora não
terem efetivamente provado esses atos. [...] No jornal Folha de S. Paulo de hoje, o
Presidente da CPMI dos Correios, Senador Delcidio Amaral, reconhece que a
provável origem dos recursos movimentados pelo empresário Marcos Valério pelo
esquema do PT são de contas que esse partido possui no exterior. Pergunto: o
Senador Delcidio Amaral é um Parlamentar da Oposição? Certamente não. É do
Partido dos Trabalhadores. [...] o ex-Secretário-Geral do PT, Sr. Sílvio Pereira,
reconhece que todo o Diretório do partido tinha conhecimento da existência da
prática do caixa 2. Eu pergunto: o Sr. Sílvio Pereira, por acaso, é filiado a algum

Neto ao governo Lula, é importante considerar que em comparação com FHC que editou 6,8MP(s) por mês, Lula
em seu primeiro mandato editou 4,97 MP(s) ao mês. Dessa forma, enquanto parlamentar do campo da oposição,
ACM Neto faz crítica ao uso de MP(s) exatamente porque a edição de MP(s) seria uma forma usada pelo
Executivo para contornar e até superar a oposição no Congresso. Isso quer dizer que isso se configura como
estratégia pragmática dada pela sua condição de parlamentar de oposição e não necessariamente à defesa de
princípios republicanos de separação dos três poderes.

33
De acordo com reportagem da Folha Online de 01/09/2005, os titulares da comissão defenderam a ampliação
do foco das investigações pela tese de que o dinheiro de corrupção das estatais seria a fonte dos recursos do
hipotético "Mensalão". Com a criação da CPMI do Mensalão, a CPMI dos Correios focou suas investigações nos
fornecedores de recursos para investigar fundos de pensão de estatais. Em cerca de 10 meses de trabalho, a
CPMI dos Correios apresentou o relatório final em 10/04/2006 que denunciava o pretenso esquema de
distribuição de recursos a parlamentares para cobrir as despesas de campanhas eleitorais, apelidado pela
imprensa de "valerioduto", devido ao nome de seu operador, o empresário Marcos Valério Fernandes de Souza.
P á g i n a | 119

partido de oposição, ou até poucos dias era um importante dirigente do PT?


Portanto, o Presidente Lula precisa acordar para a realidade; precisa sair dos seus
delírios; precisa colocar os pés no chão; precisa ter humildade; e, sobretudo precisa
se envergonhar diante do maior esquema de corrupção construído em toda história
do Brasil [...] Afinal de contas, a corrupção grassa no coração do Governo de que ele
é o chefe. [...] as CPMIs precisam começar a mostrar resultados concretos e
objetivos. Já temos dados, já temos informações, já temos um manancial de
depoimentos que nos permitem mostrar de fato onde houve a corrupção e quem
foram aqueles que agiram de forma corrupta. Temos que afunilar as investigações
para mostrar ao Brasil de onde saiu cada centavo do esquema movimentado pelo Sr.
Marcos Valério. E aí, Sr. Presidente, acho que é justa a cobrança da imprensa e da
sociedade em geral para que as CPMIs reoxigenem suas atividades. É justa a
cobrança das pessoas nas ruas, questionando se isso tudo não vai dar em pizza. É
importante que haja esse sentimento de desconfiança. Só assim estaremos protegidos
contra qualquer manobra que eventualmente a base do Governo, a serviço do Sr.
Presidente Lula, queira orquestrar para impedir as investigações das CPMIs. Espero
que esse discurso errático, inconsequente, transloucado, do Sr. Luiz Inácio Lula da
Silva sirva de alerta aos Srs. Deputados e Senadores da base do Governo. Sabem por
quê? Porque, ao final de tudo isso, o Presidente Lula vai querer mais uma vez
assumir a posição vestal de paladino da moralidade e vai querer deixar a conta
integralmente para o Congresso Nacional. Ele vai sair dizendo que, se existe
corrupção, é porque o Congresso é corrupto. Ele vai querer proteger seu Governo
transferindo a responsabilidade, pelos erros que ele mesmo cometeu para Deputados
e Senadores. [...] Peço ao Presidente Aldo Rebelo [...] que seja neste momento o
harmonizador desses conflitos. [...] que não vai ser o chefe da pizzaria, Acho que
S.Exa. não vai assumir esse papel. Mas tem que demonstrar isso resolvendo
imediatamente esse impasse entre o Conselho de Ética e a Corregedoria[...] Não
queremos prejulgar absolutamente ninguém, não queremos a condenação sumária de
ninguém, mas o local de se processar essa avaliação é o Conselho de Ética. [...]
chegou a hora de o Congresso dar a sua resposta colocando as CPMIs para
funcionar, chegando à conclusão de onde houve corrupção e, sobretudo cumprindo
seu dever [...].( Discurso de ACM Neto em Plenário em 04 de outubro de 2005)

Por fim, neste Bloco I estiveram ainda presentes pronunciamentos sobre um conjunto
de temas dispersos, que foram alocados no item ―outros‖. Neste mandato, esse conjunto de
temas representou 3,70% dos eventos de fala. Ainda que não sejam quantitativamente tão
relevantes comparados aos demais, esses ―outros‖ podem expressar elementos interessantes.
Por exemplo, discursos em defesa da isenção do IPI para aquisição de táxis, para pessoas com
deficiência física e transporte escolar; defesa da criação do ―Parlamento Jovem‖ brasileiro
para aproximar os jovens do Congresso Nacional; defesa da criação e transformação de cargos
nos quadros de pessoal dos tribunais regionais eleitorais; defesa da proteção dos direitos das
empregadas domésticas. Nesse ponto, qualitativamente é possível sugerir que tais
pronunciamentos conformam uma estratégia do deputado de ―costurar‖ apoios na sociedade
civil, criando certos ―nichos eleitorais específicos‖ como é o caso dos deficientes físicos, dos
jovens, e dos taxistas, por exemplo. Seria uma redundância salientar esse aspecto para tratá-lo
como traço peculiar ao mandato de ACM Neto. Ele serve mais para mostrar a sintonia do
deputado com a tática dos nichos, hoje uma prática disseminada entre os políticos de variadas
vertentes.
P á g i n a | 120

Ainda no item ―outros‖ há um discurso muito polêmico, que ficou famoso na mídia e
foi amplamente utilizado contra ACM Neto em campanhas eleitorais. Trata-se do discurso em
que reclama sobre uma investigação supostamente feita pela Agência Brasileira de
Inteligência (ABIN) e dirigida a parlamentares oposicionistas que estavam investigando as
denúncias de corrupção no Governo Federal. Seguem trechos do referido discurso:

Sr. Presidente[...] é com muita preocupação que trago ao conhecimento desta Casa
informações que dão conta de que alguns parlamentares, sobretudo aqueles da
Oposição, que participam mais ativamente do processo de investigação das graves
denúncias de corrupção que imperam no Governo do Presidente Lula, estariam
sendo monitorados, de manhã, de tarde e de noite, pelo Serviço de Inteligência do
Governo, patrocinado pela ABIN[...] Particularmente, sinto-me envolvido nesse
episódio, porque obtive informações concretas de que não apenas eu, mas toda
minha família estaria sendo monitorada. Entendo que vivemos num Estado
Democrático de Direito [...] Quero dizer que não vou me intimidar, não vou baixar a
cabeça. Não tenho medo nem do PT, nem do Governo do Presidente Lula, muito
menos da ABIN. [...] Logo no início desse processo de investigação, ofereci
voluntariamente a transferência dos meus sigilos bancário, fiscal e telefônico, para
que qualquer Deputado ou Senador pudesse fazer uma devassa e investigasse minha
vida. Mas não posso aceitar esse tipo de atitude. Informo que estou me dirigindo ao
Ministro da Justiça[...] para comunicar-lhe o fato e pedir que, por meio da Polícia
Federal, sejam instaurados os procedimentos adequados para que se investigue a
participação da ABIN nesses atos de espionagem. [...] E digo mais, ao associar-me
às palavras do Senador Arthur Virgílio: "Sou capaz de dar uma surra". Senador
Arthur Virgílio, V.Exa. não dará uma surra sozinho, mas terá um aliado,
porque não tenho medo. Repito, não tenho medo. Não me acovardo. Não me
intimido. Não me intimido por ninguém. Vou até o fim na investigação.
Continuarei mostrando que o PT construiu o maior esquema de corrupção já visto na
história do Brasil. Vou continuar mostrando que o Presidente Lula tem
responsabilidade direta em tudo o que está acontecendo; vou continuar
mostrando as mazelas desse Governo, que cai, de podre; que apodrece aos olhos
da sociedade brasileira. [...] preparem-se, porque o enquadramento dessa atividade
é justamente crime de responsabilidade, que pode ser e é tão grave quanto todos os
outros que foram cometidos pelo Governo e pelo Partido dos Trabalhadores. As
informações de que disponho são consistentes, e estarei pronto para mostrá-las no
momento adequado. Vou até o fim. O Presidente da República, ou qualquer um
dos seus, que tiver coragem de se meter na minha frente, assim como disse o
Senador Arthur Virgílio, tomará uma surra. Não me intimido [...] Não mexam
com os meus, nem comigo, porque estou pronto para me defender. (Discurso de
ACM Neto em Plenário em 02 de novembro de 2005) (grifos nossos)

O pronunciamento acima é muito emblemático por apresentar semelhanças entre o


estilo político pessoal de ACM e o de ACM Neto, um discurso agressivo, muito enfático,
embora fique claro na transcrição que, diferentemente do que veicularam as acusações que lhe
foram dirigidas em campanhas eleitorais na Bahia, ele não tomou a iniciativa de usar a
retórica truculenta, tendo antes acompanhado uma iniciativa de outro deputado. De todo
modo, quando procura demonstrar que não se intimida diante dos adversários mostra-se
também o brio do deputado como uma herança do avô.
P á g i n a | 121

O Bloco Temático II, referente aos temas estaduais e regionais, representou 20,80%
dos eventos de fala neste mandato. De saída, essa incidência relativamente baixa revela que
ele foi um deputado bastante absorvido por temas nacionais, sem correr risco de se tornar um
parlamentar paroquial. Mas, por outro lado, constatar que em meio a esses temas nacionais em
momento de efervescência e em face das responsabilidades de representação da bancada que
ele assumiu, o fato de dedicar uma a cada cinco falas suas a temas regionais e estaduais
mostra que tampouco foi um deputado desconectado dos problemas da base geográfica de sua
votação. Ainda que menos mobilizados, os temas do Bloco II são relevantes uma vez que a
questão do desenvolvimento regional, sendo, conforme se observará adiante, uma marca
qualitativa forte de seus discursos, é uma das que mais permitem identificar conexões entre a
estratégia política de ACM Neto e o repertório discursivo da tradição carlista.

Nesse Bloco destacaram-se eventos de falas que demandaram mais recursos do


Governo Federal para a Bahia, em especial para o metrô de Salvador (8,55%), e aquelas que
enfatizaram a gestão carlista na Bahia como um exemplo a ser seguido (com ênfases tanto na
de Paulo Souto, Governador, quanto na de Imbassahy, prefeito de Salvador – 5,41%),
tomando a defesa de políticos carlistas em geral e do tipo de política que praticam.

No que se refere à demanda por recursos, o discurso do deputado utilizou, como


tática argumentativa, um mote que sempre foi muito caro à tradição carlista: o de que essa luta
não deveria envolver ideologia ou partido, visto ser um pleito pelos interesses da Bahia.
Assim, buscou, por mais de uma vez, ―convocar‖ para a ―luta‖ não só os políticos do seu
grupo como os da oposição, como era o caso do deputado Nelson Pellegrino, adversário
derrotado por Imbassahy em duas eleições (1996 e 2000) para a Prefeitura de Salvador. Na
questão de demanda por recursos, manteve-se fiel à tradição carlista na sua defesa do
desenvolvimento regional, principalmente via SUDENE, conforme se observa no discurso
abaixo:
[...] O Nordeste clama pela industrialização, da qual, mais uma vez, a Bahia é
paradigma e referência. Hoje, há os polos calçadista, agroindustrial e
automobilístico. Imaginem só um Estado do Nordeste com a maior fábrica da Ford
em todo o mundo! A Bahia exporta seus carros para diversos países da América
Latina. E, na semana que passou, celebramos a assinatura do convênio de
ratificação para a implantação no Estado da indústria de celulose Veracel, cujos
investimentos superarão a casa de 1,2 bilhão de dólares. Estamos aguardando
providências do Governo Federal para que autorize o Ministro da Integração
Nacional, Ciro Gomes, a imediatamente determinar a recriação da SUDENE e
aí, é claro, com o apoio de todos os Parlamentares da Região Nordeste com
assento nesta Casa, discutiremos os bons projetos, os meios viáveis de
P á g i n a | 122

promoção do desenvolvimento da região [...]. (Discurso de ACM Neto em


plenário em 12 de maio de 2003).

Essa fala ilustra muito bem o peso estratégico que tem o regionalismo político no
perfil de ACM Neto. O alinhamento programático que em vários momentos ele demonstra ter
para com uma perspectiva liberal quando se trata de discutir o tamanho e o papel do Estado na
economia não é obstáculo para que ele defenda a recriação da SUDENE, um ícone do período
nacional desenvolvimentista que teve um final infeliz durante as reformas orientadas ao
mercado dos anos 90. Assim como na tradição carlista, convicções programáticas cedem a
motivações pragmáticas quando estão em jogo os ―interesses baianos‖. Se bem que no caso da
transcrição acima esses interesses aparecem meio dissimulados pelo discurso ―nordestino‖
que lhe serve de biombo. No fundo, o Nordeste nunca foi objeto nobre do desejo carlista, mas
seu simbolismo foi, em muitos momentos, instrumentalizado, por carlistas governistas, para
obter do Governo Federal, um ―tratamento vip‖ para a Bahia, assim como é instrumentalizado
agora, pelo Deputado ACM Neto, na condição de oposicionista, no plano federal para
reivindicar esse tratamento em nome do Estado que a facção da elite a que pertence
governava. Em outros momentos, como também ocorria com o discurso político do seu avô, o
biombo é posto de lado e a Bahia aparece claramente como o endereço do discurso, inclusive
numa relação competitiva e excludente com os estados vizinhos da região. É o caso, que
adiante se verá, de outros discursos em que o já então oposicionista também a nível estadual
critica a ―incompetência‖ da elite governante adversária no seu Estado para obter o tal
tratamento vip, numa comparação negativa com o que estaria sendo dispensado, por exemplo,
a Pernambuco.

O tema de fundo do tratamento da Bahia pelo Governo Federal também pode ser
percebido nas falas explicitamente elogiosas de ACM Neto ao seu grupo político. Muitas
delas, além de se referirem à qualidade das gestões carlistas na Bahia, faziam alusão a
políticos carlistas, pessoalmente, bem como a seus projetos, com ênfase na defesa de seus
pleitos em favor do Estado. Além dos já citados Paulo Souto e Imbasshay, que são lembrados
sempre como gestores que ―fazem a sua parte‖, discursos apoiaram também, por exemplo, o
deputado José Carlos Aleluia, ou o Senador César Borges, em suas críticas à ―discriminação‖
(no sentido negativo) da Bahia pelo Governo Federal face a outros Estados federados, por
exemplo, na execução orçamentária. É o que fica claro no trecho de discurso a seguir:
P á g i n a | 123

Sr. Presidente, [...] mais uma vez ocupo com tristeza esta tribuna para falar do Metrô
de Salvador. [...] Ontem, o Senador César Borges, do PFL da Bahia, apresentou um
documento do Ministério da Fazenda, [...] Nesse documento o Governo Federal
comunica que vai cancelar o financiamento de 32 milhões de dólares para o projeto
do Metrô de Salvador. [...] priorizando inicialmente o Metrô de Belo Horizonte e em
seguida o de Recife. Em nenhum momento, o Presidente foi a público, ou
recorreu à imprensa, para priorizar o Metrô de Salvador, para garantir que os
recursos seriam liberados. [...] O Governo do Estado da Bahia e a Prefeitura
Municipal de Salvador continuam cumprindo seu papel, ou seja, vêm liberando
recursos, e já aportaram mais de 30% do total de recursos para a conclusão da
obra. Sr. Presidente, ao encerrar, quero anunciar que hoje a Executiva
Nacional do PFL tomou a decisão de fazer um protesto público contra a
providência adotada pelo Ministério da Fazenda. Trago também, neste momento,
o protesto do PFL, destinado sobretudo aos Parlamentares da base de sustentação do
Governo Federal votados em Salvador. Que eles se juntem a nós nesse esforço de
liberação de recursos, senão serão corresponsáveis pela não conclusão dessa
importante obra. (Discurso do Deputado ACM Neto em plenário, 12 março 2004).

Outros discursos também se referem ao trabalho de César Borges no Senado e,


especialmente, ao do Senador Antônio Carlos Magalhães 34. No caso deste último há muitas
falas que se referem favoravelmente a propostas do senador, como a do orçamento impositivo
e aumento do salário mínimo. Essas alusões ao senador Antônio Carlos enfatizam sua imagem
de líder que atua com ―decência e ética pública‖ e, sobretudo, a de um político que lutou
contra a discriminação da Bahia e do Nordeste pelo Governo Federal, sendo responsável por
grandes ―feitos‖ para o desenvolvimento do Estado. Em todos esses momentos evidencia-se,
em pronunciamentos do deputado, elementos importantes do repertório simbólico carlista para
além do regionalismo político, como na defesa do papel preponderante do líder na política.

Ainda quanto às ações políticas do carlismo, é exemplo a referência à ―coerência do


deputado Luis Eduardo Magalhães em defesa da Reforma da Previdência em 1998‖,
reconhecimento que foi estendido ao conjunto dos deputados do PFL, como fica evidente no
discurso de que são parte os trechos abaixo:

Sr. Presidente [...] O então Líder do Governo, o saudoso e inesquecível Deputado do


PFL Luis Eduardo Magalhães[...] defendia com unhas e dentes a aprovação da
reforma da Previdência. Mostrava o quanto era importante para o País a
transformação completa do sistema de previdência pública. Alertava os
partidos de oposição da época — Situação hoje — para o fato de que eles

34
Em pronunciamento no Grande Expediente da Câmara dos Deputados em 16/06/2003, por exemplo, ACM
Neto ao tratar da questão da segurança pública no Brasil faz alusão ao Senado Federal e afirma: ―A Comissão de
Constituição e Justiça daquela Corte criou Subcomissão que tem a prerrogativa especial de tratar dos temas de
segurança pública. E um dos Senadores que a compõem é César Borges, do PFL da Bahia, que deu entrada ao
projeto de lei complementar defendendo a inserção das Forças Armadas no combate ao crime e à violência.
Aliás, bandeira essa que também já havia sido defendida por outro grande baiano, o Senador Antonio Carlos
Magalhães‖.
P á g i n a | 124

precisavam colaborar. [...] findo o processo de votação do texto [...] percebe-se


que quase 50% do PFL votou favoravelmente à reforma. [...] os Deputados que
votaram favoravelmente à reforma, respeitando os que votaram contra, estão
coerentes com a posição sempre adotada pelo Partido da Frente Liberal. Por
isso, faço questão de prestar homenagem ao Deputado Luis Eduardo, que, sem
dúvida alguma, foi o maior reformador de todos os tempos neste Congresso
Nacional. Se alguém tem que pagar o preço, é a base do Governo, porque
naquela época não aceitou a transformação do País. Os Deputados da base do
atual Governo precisam reconhecer que estavam errados. Por isso, tiveram que
mudar de posição. [...] (Discurso do deputado ACM Neto em plenário em 06 de
agosto de 2003).

Conforme se pode observar através dos pronunciamentos acima e pela forma com
que ACM Neto se comportou frente às ações e às gestões estaduais dos políticos carlistas,
nota-se que no primeiro mandato o deputado se colocou claramente como parte de um grupo
político. Essa autovalorização da elite estadual é um traço relevante da tradição carlista e um
elemento que às vezes se mostra mais expressivo da identidade de ACM Neto do que o
pertencimento ao seu partido. É o que se evidencia no trecho do discurso abaixo, onde a
autoconfiança é tanta, ao comentar um vitória eleitoral do grupo obtida no ano anterior, que
obscurece, nas considerações do deputado, o realismo que seria útil para detectar, ao lado da
vitória eleitoral do carlismo, o agravamento, naquele exato momento – como apontava Dantas
Neto (2003) -, do desgaste no prestígio do seu maior líder, dando sequencia à perda de
substância que já em 1998 decorrera da morte repentina de Luis Eduardo Magalhães:

A Bahia deu [...] um recado nas urnas no ano passado: elegeu o Senador Antonio
Carlos Magalhães com 3 milhões de votos, a maior votação que um Senador já teve
naquele Estado; elegeu também César Borges, seu companheiro de chapa; elegeu o
Governador já no primeiro turno; e elegeu uma bancada de 23 Deputados Federais
do PFL que dão sustentação ao Governo do Estado, além de 39 Deputados
Estaduais, dos 63 que têm assento naquela Casa legislativa. Essa é a Bahia do
Senador Antonio Carlos Magalhães, a Bahia do nosso grupo, a Bahia que
cresce, se desenvolve e orgulha o Brasil inteiro. (Discurso de ACM Neto em
plenário em 12 de maio de 2003)

Dentro das questões regionais, ACM Neto também dedicou pronunciamentos tanto
para fazer, em 5,41% dos eventos de fala, homenagens a municípios da Bahia (referências a
políticos locais, aniversário de municípios, entre outros), quanto, em 1,42% dos eventos de
fala, para destacar a história e a cultura do estado.

Exemplo desse último tema – que aqui se registra menos pela magnitude numérica da
incidência em si e mais pela sua relevância no repertório simbólico tradicional do carlismo –
foi o discurso sobre os 180 anos da Independência da Bahia, cuja epígrafe foi um trecho de
―Ao Dois de Julho‖, poema de Castro Alves que mais tarde seria incorporado aos anais do
P á g i n a | 125

Senado Federal, na Sessão de 09/08/2007, como se fosse a inscrição mais própria ao epitáfio
de Antonio Carlos Magalhães, então homenageado pela Casa, vinte dias após sua morte.

Eis alguns trechos do discurso de ACM Neto na Câmara, quatro anos antes:

Diz o poeta:

"É hoje, senhores, o dia da pátria.


Que d'alma - os Baianos - conservam no fundo,
Saudemos o dia que ergueu-nos do lodo...
Que marca um progresso na vida do mundo.”
...
[...] Não é apenas por meio dos versos de Castro Alves que podemos aferir a
dimensão da epopeia do 2 de Julho para a alma do povo baiano.[...]. Antes de
proclamar que não toleramos o despotismo, porque com tiranos os corações
brasileiros não combinam, o hino dedicado a esta data inigualável na história
nacional diz que o Sol do 2 de Julho brilha mais, como sinal irrefutável de que o
universo, o próprio Cosmo, celebra a Nação brasileira. O Sol do 2 de Julho[...] é o
tributo que a Bahia oferece ao Brasil, terra mater que regou a terra com seu sangue,
que, antes mesmo de empreender lutas heroicas contra as tropas portuguesas, já se
havia antecipado ao próprio grito de independência do País e se colocado na
vanguarda das lutas que desembocariam no surgimento desta grande Nação das
Américas. [...] afirmo que o 2 de Julho foi complementar e importante, porque aí
efetivamente o Brasil pôde dizer-se livre. Na página heroica da independência do
nosso País[...] o Brasil é livre hoje, e a Bahia tornou-se independente sobretudo pelo
trabalho, pela força, pelo suor e pelo sangue derramado pelo povo mais humilde da
nossa cidade: o negro, o índio, o caboclo e a cabocla. Sim, os humildes, que se
tornaram os verdadeiros símbolos da luta libertária. [...] Em nome do PFL, meu
partido, ao qual agradeço, desejo solidarizar-me com o povo e o Governo baianos,
que ontem reeditaram o caminho percorrido pelo Exército libertador ao entrar em
nossa antiga, querida e amada cidade de Salvador. [...] E a caminhada deste ano foi
encabeçada pelo Governador da Bahia, Sr. Paulo Souto, pelo Prefeito de
Salvador, Antonio Imbassahy, e pelo Senador Antonio Carlos Magalhães. Sr.
Presidente, quero ainda afirmar que a Bahia não se limita a reverenciar seus
heróis e seu passado quando comemora o 2 de Julho. Conforme assinalou o
poeta, nossa terra reverencia o presente e também o porvir, dando sua
contribuição inestimável ao Brasil na formação de uma sociedade
democraticamente avançada, economicamente desenvolvida e socialmente
justa. O orgulho de ser baiano vem das lutas do passado, que se renova nas
lutas do presente, dos homens públicos que se uniram para tornar a Bahia
destaque e paradigma no cenário nacional. Os avanços são incontestáveis. A
Bahia é respeitada como um dos grandes Estados desta nossa Nação. Sim,
homens públicos do presente dedicam sua vida ao ideal de seu povo, mas é
inegável dizer que os avanços ainda representam pouco e que precisamos de
mais.[...]Vamos todos elevar a bandeira da Bahia ao primeiro plano. Não vamos
tornar esta sessão disputa por atos que não são dignos da Câmara dos Deputados.
Esta Casa é soberana, agiu democraticamente emprestando ao aeroporto de
Salvador o nome do Deputado Luis Eduardo Magalhães, que muito honrou esta
Casa e o Brasil. [...]. Que a bandeira da Bahia seja o símbolo dos Deputados de
todos os partidos, que nos unamos em sua defesa, porque as novas gerações e o
nosso povo vão nos agradecer. Viva a Bahia! Viva o 2 de Julho! Viva o Brasil.
(Discurso do deputado de ACM Neto em plenário em 04 de julho de 2003)

Conforme se pode observar, o pronunciamento de ACM Neto sobre o 2 de julho, e o


enaltecimento da história da Bahia, parece que foi politicamente vinculado à defesa da nova
P á g i n a | 126

denominação do Aeroporto35 adotada pouco tempo antes em homenagem póstuma a Luis


Eduardo Magalhães. O argumento de Neto tenta mostrar com esse discurso que a história de
Luis Eduardo e sua honra são um reforço – e não insulto - à memória do 2 de julho na Bahia.

Sem o mesmo tom épico usado na homenagem ao 2 de Julho, mas com igual carga
simbólica, a auto referência cultural está presente também no pronunciamento abaixo, feito
durante a passagem do 456º aniversário de Salvador:

Sr. Presidente [..] hoje é dia de festa e de grande alegria para Salvador. A cidade
comemora 456 anos. Foi a primeira Capital do Brasil. Trata-se de uma cidade
encantadora para aqueles que nela vivem e para os milhares de brasileiros e
estrangeiros que a visitam todos os anos. Seu povo é especial, tem capacidade
única de conviver com as diferenças, de enfrentar as dificuldades, de acreditar
em seus sonhos e, sobretudo, de lutar pelo seu futuro. Realmente, nossa cidade
é diferente [...] (Discurso do deputado ACM Neto em plenário em 30 de março de
2005)

Esteve presente no primeiro mandato de ACM Neto, como se evidencia nos


dois últimos pronunciamentos, um elemento muito relevante do repertório simbólico da
tradição carlista, pautado no enaltecimento da história da Bahia, na valorização dos seus
elementos culturais, de suas festas populares, da diversidade de suas crenças religiosas, ou
seja, uma ênfase discursiva na singularidade da cultura baiana.

Foi possível notar que também nas falas em defesa do padrão de gestão
governamental praticado por seu grupo político, a atuação parlamentar de ACM Neto
aproxima-se bastante da tradição carlista, chegando, em algumas dessas falas, a valorizar o
papel da elite estadual, acima do papel do partido. Na mesma direção (de sintonia com a
tradição carlista) apontaram também as falas do deputado em defesa da autonomia dos
municípios, inclusive quando conclamava os prefeitos baianos a ocuparem o plenário da
Câmara para assistirem a discussão e votação da Reforma Tributária. Nesse caso, evidencia-
se, como tática, a criação de uma relação de representação das demandas dos prefeitos
baianos. Dessa forma, estaria em jogo a ―construção‖ de uma moeda de troca para as futuras
disputas eleitorais na Bahia.

35
Que antes se chamava Aeroporto Internacional 2 de Julho e agora se chama Aeroporto Internacional Deputado
Luis Eduardo Magalhães.
P á g i n a | 127

À guisa de conclusão da análise sobre os pronunciamentos do primeiro mandato de


ACM Neto pode-se qualificar melhor a proporção de 79,2% dos eventos de fala referentes a
temas nacionais/gerais e 20,8% relacionados a questões regionais/estaduais. À primeira vista
o ano inicial do mandato (2003) destoa dos demais pela menor incidência, então verificada,
em termos relativos, de falas ligadas ao Bloco Temático II (dos temas estaduais/regionais).
Uma maior relevância relativa desse bloco vai se mostrar a partir do ano seguinte graças à
maior incidência dos itens temáticos ―demanda por recursos do Governo Federal‖ e
―referência a municípios baianos‖. Não há explicação para isso, podendo ser só contingência,
mas a importância de buscar essa explicação diminui quando se observa o número absoluto de
falas. Aí o ano destoante para menos não é 2003 e sim 2006, quando há apenas três
pronunciamentos de ACM Neto sobre questões estaduais/regionais. Assim, o importante é
entender a discrepância de resultados entre as análises dos números absolutos e relativos.

Um esclarecimento está no fato de que houve uma diminuição notável do número


total de eventos de fala de ACM Neto nos dois últimos anos do seu primeiro mandato, em que
o esse número chegou a 77, em contraposição a 274 nos dois primeiros anos do mandato.
Mais gritante ainda é a comparação entre os exíguos 11 eventos de fala verificados em 2006
(dos quais, como já dito, apenas 3 voltados a temas estaduais) com a média anual, dez vezes
maior, de 113 eventos de fala, alcançada nos demais anos, incluído aí 2005, quando houve
uma frequência relativamente fraca. Esse dado é muito sugestivo, pois em 2006 travava-se na
Bahia a batalha eleitoral que terminaria pondo fim ao período de domínio carlista no Estado.
É no mínimo estranho que justo nesse momento a política baiana ou a gestão do seu grupo
político na Bahia tenham sido tema de só três visitas de ACM Neto à tribuna parlamentar. É
um dado que permite inferir que ele secundarizou Brasília para cuidar da sua própria
reeleição, como deputado e/ou que evitava, de modo especial, os temas estaduais. Vale
observar que as duas hipóteses não são excludentes. Portanto, combinando esse achado com
as reflexões de Dantas Neto (2006) acerca do advento, naquela época, de um carlismo pós
carlista ao qual se vinculava o próprio governador Paulo Souto, é possível inferir também que
o ardor com que ACM Neto defendeu a elite governante da Bahia em 2003 e 2004 e combateu
a elite petista depois de 2006, não se mostrou naquela específica conjuntura pré eleitoral.
P á g i n a | 128

3.1.2 Pronunciamentos em Plenário (2007-2010)

O segundo mandato de ACM Neto transcorre após a perda do governo da Bahia pelo grupo
carlista, nas eleições de 2006. Apesar da derrota do seu grupo, naquelas mesmas eleições Neto
foi reeleito e, uma vez mais, foi o candidato a deputado federal mais votado no Estado.
Assim, a partir de 2007, ele exerceu sua atividade parlamentar como um deputado de
oposição em todos os níveis, uma vez que até mesmo a Prefeitura de Salvador já não estava
em mãos do grupo carlista desde 2004. Essa situação nova altera a estratégia política de ACM
Neto, agregando-se à análise um novo item temático componente do Bloco II: os
pronunciamentos críticos à gestão petista na Bahia.

Nesse segundo mandato ACM Neto tornou-se, em 2008, o líder do DEM


(Democratas), tendo, essa posição, contribuído para que naquele ano ele tenha se pronunciado
em plenário muito mais do que em qualquer outro ano dos seus três mandatos. O dado
referente a 2008 (315 eventos de fala) representa quase o triplo da média anual nos seus dez
anos de mandatos (114 eventos de fala) e, se excluído o ano de 2008, mais do que o triplo da
média nos outros nove anos (92 eventos de fala). Evidencia-se, portanto, um viés de natureza
quantitativa que deve nos chamar a atenção sempre, ao examinar a Tabela XII, a seguir, para
a importância dos números absolutos e para a interpretação prudente (que a análise qualitativa
pode propiciar), das oscilações no peso relativo dos itens temáticos, quando se considerar os
números totais do segundo mandato.

Antes de analisar a tabela vale lembrar que a conduta de Neto em plenário, em


termos do perfil temático das suas falas, foi afetada pela condição de líder de bancada, o que
obriga a análise a considerar que, ao menos uma parte das mudanças notadas e a seguir
apontadas em relação à conduta observada no primeiro mandato pode não traduzir mudanças
na estratégia política do deputado face à política baiana, embora, naturalmente, o exercício de
liderança afete sua posição e a do seu grupo, na correlação de forças da competição política
estadual.

Talvez uma medida daquilo que pensava o Deputado ACM Neto sobre o papel
estratégico que o exercício da liderança do seu partido na Câmara poderia exercer sobre seu
futuro político na Bahia esteja dada no seguinte trecho do primeiro discurso que proferiu, em
19.02.2008, após assumir o cargo: ―se algo me espelha no exercício da Liderança do
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Democratas é o exemplo deixado nesta Casa e neste País pelo inesquecível Líder Luis
Eduardo Magalhães”. A ausência de menção à Bahia nesse trecho não deve iludir a análise,
pois o exemplo prático de Luis Eduardo, em termos estratégicos, foi o de que a Câmara dos
Deputados era degrau eficaz para alcançar o poder político no Estado, posição que ele deveria
assumir a partir da eleição de 1998, que disputava quando saiu prematuramente de cena.

Tabela XII – Temas de Pronunciamentos de ACM Neto em Plenário (2007-2010)



2007 2008 2009 2010 Mandato
TEMAS N % N % N % N % N %
I - Temas Gerais/Nacionais 91 86,67 292 92,70 76 79,17 27 61,36 486 86,79

Funcionamento das Instituições (Pacto


Federativo e Relação entre os três Poderes)
14 13,33 88 27,94 20 20,83 8 18,18 130 23,21
Corrupção e Ética Pública 7 6,67 23 7,30 2 2,08 0 0,00 32 5,71
Gestão e Administração Pública Federal 25 23,81 66 20,95 14 14,58 8 18,18 113 20,18

Temas Econômicos, Fiscais e Tributários


(inclusive Reforma Tributária)
28 26,67 53 16,83 4 4,17 0 0,00 85 15,18

Outras Reformas (Previdenciária e Política)


8 7,62 10 3,17 21 21,88 0 0,00 39 6,96
Políticas Públicas (Educação, Saúde,
Segurança, Transporte, Infraestrutura,
Salário Mínimo, etc.) 8 7,62 45 14,29 3 3,13 1 2,27 57 10,18
Outros (Homenagens, Questões
Internacionais, questões ligadas à
juventude, outras categorias etc.) 1 0,95 7 2,22 12 12,50 10 22,73 30 5,36
II - Questões regionais/baianas 14 13,33 23 7,30 20 20,83 17 38,64 74 13,21
Defesa do modelo de gestão carlista 0 0,00 0 0,00 0 0,00 1 2,27 1 0,18
Demanda por recursos do Governo Federal
para NE/BA 4 3,81 17 5,40 5 5,21 0 0,00 26 4,64
Crítica à gestão petista na Bahia 7 6,67 3 0,95 8 8,33 6 13,64 24 4,29

Referência à municípios baianos 3 2,86 3 0,95 6 6,25 9 20,45 21 3,75

História/cultura baiana 0 0,00 0 0,00 1 1,04 1 2,27 2 0,36


TOTAL DE EVENTOS DE FALA 105 100,00 315 100,00 96 100,00 44 100,00 560 100,00
Fonte: Elaboração Própria. Dados Câmara dos Deputados, 2014.
P á g i n a | 130

Assim como no primeiro mandato, destacam-se as falas alocadas no Bloco I (86,8%).


Agora, entre os temas nacionais/gerais desse bloco os mais presentes nas falas de ACM Neto
foram os ligados ao item ―funcionamento das instituições‖, com 23,2% de incidência sobre o
total dos eventos de fala daquele mandato. Dentro desse item permanece relevante o tema do
pacto federativo, relacionado à necessidade de se repensar os deveres e obrigações dos entes
federados e mais especificamente à defesa da autonomia dos municípios. Mas dessa vez a
maioria das 130 falas agrupadas nesse item temático versou sobre a relação entre os três
poderes. Por certo em virtude da sua nova condição de líder do DEM, centrou fogo na
acusação de que o Executivo tentava rebaixar o papel do Poder Legislativo. É o que fica claro
nos seguintes trechos de um discurso:

[...] O Presidente do Congresso Nacional tem a prerrogativa constitucional de


não aceitar o recebimento no Poder Legislativo de uma proposta que seja
flagrantemente inconstitucional. Mas há uma segunda alternativa, talvez até que
eleve ainda mais o conjunto desta Casa e do Senado Federal, que é a constituição
imediata da Comissão Especial que vai avaliar essa medida provisória. [...] Esse o
único caminho para reafirmar a independência, a autonomia e - vou além - a
moralidade do Congresso Nacional. Não podemos mais aceitar o que está
acontecendo de braços cruzados. Viramos motivo de chacota no País inteiro. Somos
motivo da pior análise que se pode fazer com relação ao homem público [...] tenho
absoluta certeza de que nenhum cidadão de bem deste País aceitaria que o
Congresso Nacional baixasse a cabeça, fechasse a boca, tapasse os ouvidos, fechasse
os olhos e fingisse que nada está acontecendo. [...] O Governo faz de conta que
respeita o Congresso e o Congresso faz de conta que é respeitado pelo Governo.
Vamos acabar com o faz-de-conta! [...] (Discurso do deputado ACM Neto em
plenário em 27 de março de 2008)

O item temático do Bloco I que aparece com o segundo lugar em incidência (20,2%)
sobre o conjunto dos eventos de fala é o da Gestão e Administração Pública Federal. Como
líder do DEM o deputado colocou-se de forma mais incisiva e destacada como voz da
oposição, tecendo muitas críticas ao governo do PT, sobretudo no que tange à criação de
novos cargos e aos altos gastos públicos, mantendo nisso elementos importantes da tradição
carlista, conforme observado anteriormente. Nesse âmbito, defendia a estruturação do Plano
de Cargos e Carreiras além da organização das estruturas remuneratórias da Administração
Pública Federal. Em vários momentos ao longo do mandato criticou a ―falta de autoridade de
Lula‖ no que tange à resolução de alguns problemas públicos, como foi o caso da crise do
tráfego aéreo em 2007. Quanto a esse episódio afirmou o deputado:

Sr. Presidente [..] Não há notícias, após a promulgação da Constituição de 1988, de


[...] um episódio como esse, que trouxe tantos transtornos ao povo e diante do qual o
Governo tenha se posicionado de forma absolutamente prostrada, aceitando a
sublevação de seus subordinados. [...] o Ministro da Defesa já não merece o respeito
P á g i n a | 131

de seus subordinados. [...] o problema não está nos controladores, mas nos seus
superiores, no Comando da Aeronáutica, no Comando do Ministério da Defesa,
principalmente com o Sr. Presidente da República [...] o máximo que o
Presidente Lula fez foi reunir novamente sua equipe. S. Exa. não foi capaz de
demitir ninguém. [...] Trata-se de um momento em que não mais se pode confiar no
Governo, em que as autoridades constituídas não mais transmitem à população a
confiança necessária sobre questões em áreas estratégicas, [...] Este Governo deve
cuidar para que tenha a seu serviço pessoas que mereçam confiança e crédito, que
imponham respeito, que tenham noção de hierarquia, que saibam comandar e dar
ordens, que saibam emitir claras determinações a seus subordinados. [...] No
entanto, o Presidente da República, mais uma vez, não toma as decisões que
teria de tomar [...] (Discurso do deputado ACM Neto em plenário em 03 de abril
de 2007).

O pronunciamento acima, além de evidenciar a crítica à gestão petista, deixa muito


claro que o deputado compreende o exercício da política como algo vertical, cultuando o
protagonismo da elite governante e evidenciando a importância da hierarquia e da autoridade
do líder. Assim o fazendo, ACM Neto mantém elementos que são parte da tradição carlista
presentes na sua atuação parlamentar.

Os temas econômicos fiscais e tributários incidiram em 15,18% dos eventos de fala


de ACM Neto neste mandato, o que representa uma queda forte em relação ao peso relativo
desse item no primeiro mandato, que fora de 24,2%. No entanto é preciso ver que em números
absolutos houve um incremento de 30% nesse item temático (85 falas no primeiro e 113 do
segundo mandato), sendo que mais da metade dessas falas ocorreu em 2008, no exercício da
liderança do DEM, o que permite dizer que esse item, apesar da queda do seu peso relativo no
conjunto das falas, incluiu temas prioritários para ACM Neto, no exercício da liderança.

Destacam-se nesse item temático algumas falas sobre a necessidade de redução das
taxas de juro como condição necessária para retomada do crescimento econômico e da
geração de empregos no Brasil. Entretanto, em sua maioria, nesse item temático permanecem
os discursos críticos à Reforma Tributária e à prorrogação da CPMF. Sobre essa questão,
ACM Neto afirmou que ―por mérito do DEM e dos partidos de oposição‖ ocorreu ―a maior
vitória que o Congresso ofereceu ao Brasil, a não prorrogação da CPMF” e em 20 de
setembro de 2007 demonstrou também uma posição bastante pragmática e não ideológica da
política, aproximando-se da tradição carlista, ao pedir que parlamentares endurecessem o jogo
na negociação com o governo, de modo a serem mais respeitados, valorizados e terem ―mais
peso‖ e mais força na barganha. Reconhecendo o papel subsidiário do Poder Legislativo
frente ao Executivo, ACM Neto, dessa forma, esforçou-se para ir além de um parlamentar
P á g i n a | 132

com papel meramente reativo (Santos, 2006), mobilizando os recursos disponíveis para
exercer suas estratégias de oposição. Como fica claro no discurso abaixo:

Sr. Presidente [...] qual é a agenda que o Governo do PT tem para esse País? A
CPMF. [...] o Governo, para os próximos 3 anos e 4 meses, não terá mais nenhum
tema que lhe interesse, o que deve servir de alerta à base, porque agora as
autoridades do Poder Executivo podem prometer mundos e fundos - cargos,
emendas, favores -, tudo em troca da aprovação da CPMF. Aí [...] pergunto: o que
sobrará para depois? Nada. V. Exas. vão valer muito menos depois da aprovação da
CPMF, sobretudo se a derem ao Governo esta semana. V. Exas., Parlamentares
inteligentes, sabem que devem endurecer o jogo mais um pouquinho para serem
respeitados, valorizados e terem mais peso perante um Governo que pouco se
importa com o Congresso Nacional, com os Deputados Federais e com os partidos
aliados, que quer o "venha a nós" e nada "ao vosso reino". [...] O Governo não
esperava que nós, da Oposição, conseguíssemos mobilizar a sociedade trazendo
importantes organismos de representação social para esse movimento, a fim de
explicar ao brasileiro o que é a CPMF. [...] Nós conseguimos mostrar ao Brasil a
imoralidade da cobrança desses 40 bilhões de reais, o quanto isso compromete o
desenvolvimento do País. [...]. Vamos continuar na trincheira para rejeitar a CPMF.

No que concerne ao item ―políticas públicas‖, com incidência de 10,2% sobre o


conjunto das falas, a maior parte dos discursos neste mandato referia-se à defesa da Emenda
Constitucional n. 29, de 13/9/2000, que versava sobre a necessidade de se assegurar recursos
mínimos para o financiamento das ações e serviços públicos de saúde. Na questão das
reformas (6,96%), tratou basicamente da Reforma Política. Já os pronunciamentos sobre
Corrupção e Ética Pública (5,71%) se referiam, em sua maioria, ao que o deputado chamou de
―escândalos de corrupção no Governo Lula‖. Nesse âmbito, inclusive em 2009, ocupou o
cargo de Corregedor da Câmara dos Deputados assim como no Conselho de Ética e teve um
destaque em plenário nos discursos referentes a essas discussões. Seguindo a tradição carlista,
o repertório simbólico a favor da ética e da moralidade na vida pública compôs desde sempre
parte importante da atuação parlamentar do deputado.

Encerrando as menções ao Bloco Temático I, os temas alocados no item ―Outros‖


representaram 5,36% do total de eventos de fala do segundo mandato. Destacam-se discursos
36
sobre o reconhecimento da profissão de bombeiro civil e da PEC da Juventude . Assim,

36
Projeto de Emenda Constitucional n.65 que inclui a Juventude no capítulo que trata da Família, da Criança, do
Adolescente e do Idoso. A emenda dispõe que ―é dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança,
ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao
lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária,
além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e
opressão". Importante considerar que embora a PEC da Juventude tenha autoria de um deputado do PT, o
deputado ACM Neto votou favorável a sua aprovação. A votação da PEC teve grande repercussão nacional,
ademais de acordo com o Jornal O Estudante de 15 de julho de 2010 a votação foi acompanhada por
representantes de diversas entidades de jovens e de estudantes, entre elas UBES, UJS, CTB e UNE, que lotaram
P á g i n a | 133

como no primeiro mandato, nota-se uma tática política do deputado de tentar construir apoios
na sociedade civil com grupos sociais específicos, que podem se tornar futuros ―nichos
eleitorais‖ (mais uma vez a juventude e agora bombeiros civis).

No Bloco Temático II, que representou 13,21% do total dos eventos de fala no
segundo mandato, apareceu com maior percentual (4,6%) o item temático referente à
demanda de recursos para Bahia e para o desenvolvimento do Nordeste. Nesse aspecto,
destacou-se novamente a defesa de que o Governo Federal enviasse recursos para a obra do
Metrô de Salvador, persistência que guarda uma evidente relação com a candidatura do
deputado a prefeito da capital baiana nas eleições municipais de 2008. Apareceu novamente
também o ―apelo‖ de que essa reivindicação não se resumisse à demanda de um partido ou a
uma questão ideológica, mas que fosse uma ―briga em defesa da Bahia‖, mais uma entre
várias evidências de presença, nas falas de ACM Neto, do viés regionalista forte da tradição
carlista. Aliás, esse mesmo apelo à convergência em nome da Bahia corta transversalmente a
classificação temática dos eventos de fala e se encontra até em falas como a que trata da
estruturação de um plano de cargos e carreira e de reorganização/simplificação das
estruturações remuneratórias dos funcionários da CEPLAC 37.

Como já foi dito anteriormente, o segundo mandato se diferencia do primeiro por


ACM Neto passar a ser oposição também no âmbito estadual e por isso encontram-se muitos
pronunciamentos críticos à gestão do Governador Jaques Wagner. Assim, o tema ―Críticas à
gestão petista estadual‖ incidiu em 4,3% dos eventos de fala, que ao todo são 24, a maior
parte deles na segunda metade do mandato, mais proximamente às eleições de 2010. Segundo
o deputado, ―o governador é menor do que nosso estado e do que nosso povo‖. Sua crítica
principal se referia ao fato de que com Wagner a Bahia ―perdeu seu lugar de protagonista do
Nordeste‖. Nesse aspecto, seus pronunciamentos acusavam o então governador de falta de
autoridade e omissão frente a problemas públicos, como foi o caso da ―crise da Segurança
Publica‖, em 2010, bem como sua ―falta de trato‖ com os municípios e suas demandas. No

as galerias do Plenário e comemoraram o resultado. Nesse âmbito, importante considerar que embora nos
pronunciamentos em plenário a temática da juventude não tenha aparecido com muita frequência, em seus
discursos e apelos de campanha a categoria recebeu sempre tratamento especial, como será visto no capítulo 5.
37
CEPLAC- Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira- é um órgão do Ministério da Agricultura,
Pecuária e Abastecimento que tem como objetivo promover a competitividade e sustentabilidade dos segmentos
agropecuários, agroflorestal e agroindustrial para o desenvolvimento das regiões produtoras de cacau. Atua em
seis estados do Brasil: Bahia, Espírito Santo, Pará, Amazonas, Rondônia e Mato Grosso. Na Bahia, tem forte
atuação da região cacaueira, principalmente nos municípios de Ilhéus e Itabuna.
P á g i n a | 134

âmbito dessas críticas, claro que se torna importante ressaltar a alusão feita em muitos
pronunciamentos à experiência positiva de ACM na gestão do Estado, assim como a
referência a um homem público que sempre ―lutou pelos interesses da Bahia‖ e ―estava de
olho na história, entendendo o presente e sempre projetando o futuro‖. Destacam-se também
falas de ACM Neto criticando a falta de competência de Wagner, que mesmo sendo amigo do
presidente Lula, não havia conseguido trazer benefícios para Bahia. Tais críticas mostram-se
bastante evidentes no pronunciamento abaixo:

Sr. Presidente[...] o que vem ocorrendo é que a Bahia está perdendo posições no
Norte e Nordeste, essa Bahia que sempre foi responsável pela vanguarda do
crescimento do Nordeste; Bahia que se posicionou com lugar de destaque no
mapa brasileiro pelas grandes transformações que realizou e pela diferenciação
que obteve, ao longo da década de 90, dos demais Estados nordestinos. Hoje,
esse protagonismo está sendo usurpado por outros Estados que fazem o seu dever,
enquanto a Bahia fica de braços cruzados. Vejam que, de 2006 a 2009, ela registrou
o pior crescimento de ICMS de todo o Norte e Nordeste brasileiro. Investimentos
públicos e privados, antes canalizados para nosso Estado, gerando emprego e renda,
passam pelos ares da Bahia e vão para Pernambuco, Ceará e outros Estados
nordestinos. Infelizmente, não procuram mais a Bahia, porque lá não encontram um
Governo sério, que tenha palavra e que, sobretudo, saiba mobilizar as iniciativas
pública e privada para gerar crescimento e desenvolvimento. [...] Vejam que,
mesmo sendo o Presidente Lula do PT e amigo pessoal do Governador Jaques
Wagner, não resulta em benefícios diretos para nosso Estado, que, infelizmente,
não tem grandes projetos em execução. [...] (Discurso do deputado ACM Neto em
plenário em 17 de março de 2010)

No discurso acima fica evidente a aproximação de ACM Neto com elementos muito
importantes da tradição carlista. De um lado, o regionalismo político, que defende os
―interesses da Bahia‖ e o fim da sua discriminação negativa frente até mesmo a outros estados
nordestinos; de outro lado, a perspectiva carlista sobre a importância pragmática de ser
governo no plano federal para conseguir recursos e investimentos para a Bahia. Segundo
Neto, mesmo nessa condição, o governador da Bahia não alcançou bons resultados pela sua
incompetência e falta de autoridade. Essa mesma lógica se expressa no pronunciamento do
deputado cobrando ―coordenação‖ e uma posição mais ―arrojada‖ do governador frente ao
processo de defesa da economia baiana frente a São Paulo:

Sr. Presidente[...] Vejam, por exemplo, a Toyota, indústria automobilística


multinacional, estava por definir onde iria instalar uma unidade de montagem de
automóveis nacionais. [...] o executivo da Toyota comunicou ao Presidente Lula a
sua opção por instalar a indústria na cidade de Sorocaba, no Estado de São Paulo,
em detrimento da Bahia [...] Ora, Sr. Presidente, quero chamar a atenção do
Governador Jaques Wagner, do Partido dos Trabalhadores, para que possa
utilizar do seu prestígio, da sua amizade pessoal e do seu livre acesso ao
Presidente da Republica, para corrigir, reparar essa injustiça que aconteceu
com a Bahia. [...] Percebo que é preciso postura mais arrojada, mais agressiva
P á g i n a | 135

do ponto de vista do Governador poder se movimentar e se utilizar da relação


tão próxima, de tanto prestígio que tem com o Presidente da República, para
que a Bahia, assim como aconteceu no passado, quando pudemos implantar
naquele Estado um pólo automobilístico da Ford, [...] Peço, sem qualquer questão
partidária ou ideológica, que o Governador Jaques Wagner abra o olho, fique atento
e se movimente para defender a economia do nosso Estado, porque, para isso,
contará com o nosso apoio, nossa colaboração e luta, assim como com a nossa
palavra sempre vigilante para reclamar os interesses da Bahia. (Discurso de ACM
Neto em plenário em 17 de Julho de 2008).

Mantiveram-se também neste mandato referências a municípios baianos (3,75%),


como as falas em defesa da aprovação da PEC 495 que criava (regulamentava) alguns
municípios no Brasil e mais especificamente na Bahia os municípios de Barrocas e Luis
Eduardo Magalhães. Interessante ressaltar nesse aspecto que Barrocas figurou entre os
municípios que mais contribuíram para a votação de ACM Neto em 2002 e 2010, inclusive
com dominâncias bastante altas. Destaca-se ainda entre esses temas, um pronunciamento
(assistido na plenária por vereadores do município) apoiando a construção do Aeroporto de
Vitória da Conquista, município que passou a fazer parte do grupo dos que mais contribuíram
para a sua votação na eleição de 2006 e que permaneceu na eleição de 2010.

Se comparado ao que se verificou no primeiro mandato, o tratamento dos temas


estaduais/regionais teve seu peso relativo diminuído de 20,8% para 13,2%. Parece evidente
que esse é um dos impactos do exercício da liderança da bancada desde 2008. Uma vez mais,
porém, não se pode perder de vista os números absolutos de eventos de fala, onde tal redução
não se verificou, pois foram 73 falas no primeiro e 74 no segundo mandato. Além disso, é
possível notar que a diminuição do peso relativo do Bloco II já ocorria desde 2007, antes
portanto do exercício da liderança da bancada do DEM. Pode-se inferir que nesse primeiro
ano do seu segundo mandato, ACM Neto ainda metabolizava os efeitos da derrota eleitoral,
daí que, mesmo que já estivesse então saindo daquela ―submersão‖ de 2006 (a já comentada
abstinência de plenário), a ―reemersão‖, em 2007, ainda se dava lentamente.

Embora o peso relativo do Bloco II haja aumentado no final do mandato, é bom


ressaltar que o tema Gestão e Administração Pública Federal, alocado no Bloco I também teve
seu peso relativo aumentado, entre 2009 e 2010, de 14,6 para 18,2%. Tal incremento,
sobretudo em ano eleitoral, se deveu também às diversas críticas feitas pelo deputado ACM
Neto à gestão petista federal, o que parece se conformar como mais uma estratégia política
eleitoral presente na sua atuação parlamentar.
P á g i n a | 136

Ao longo do segundo mandato a proporção entre os pesos dos dois blocos temáticos
variou consideravelmente. É possível dizer que ACM Neto mobilizou sua atuação
parlamentar tendo, entre suas referências, os momentos eleitorais de 2008 e 2010. No entanto,
a disputa para prefeito parece ter afetado menos sua atuação parlamentar do que a campanha à
reeleição para deputado federal em 2010. A Bahia parece ser mais valorizada enquanto base
geográfica de votação do que como referência simbólica passível de uso do pleito municipal.

Em 2008, por exemplo, ano da primeira candidatura a prefeito de Salvador, ainda


que tenha aumentado o número absoluto de eventos de falas sobre a questão estadual (em
parte por causa do tema do metrô da capital), em termos percentuais diminuiu seu peso em
relação ao Bloco I, alcançando somente 7,3%. do total das falas. Em contrapartida, entre os
anos de 2009 e 2010, findo o período de exercício da liderança da bancada, os temas estaduais
voltaram a ter peso relativo bem mais significativo, passando a 20,8% em 2009 e chegando a
38,6% em 2010. Claro que a aproximação das eleições estaduais de 2010 tornam racional o
aumento do peso relativo do Bloco Estadual/Regional desde 2009 e principalmente no próprio
ano na eleição, quando esse peso supera os verificados em qualquer momento dos outros
mandatos. Mas o entendimento de como a grande discrepância entre os pesos relativos dos
dois blocos em 2007 e 2008 (respectivamente 86,7 x 13,37 e 92,7 x 7,3) evoluiu para quase
um equilíbrio relativo em 2010 (61,4 x 38,6) não pode ser simplesmente o de que ACM Neto
ignorou a Bahia no começo do mandato para mergulhar nela no final. Para matizar essa
análise, mais uma vez é preciso recorrer aos números absolutos de falas do Bloco Temático II.
Em 2008, ano do exercício da liderança da banca do DEM na Câmara e da candidatura a
prefeito, esse número aumenta em relação a 2007 (de 14 a 23) e oscila para baixo em 2009
(são 20 falas) e no ano eleitoral de 2010, quando atinge 17.

Ao longo do segundo mandato a proporção entre os pesos dos dois blocos temáticos
variou consideravelmente. É possível dizer que ACM Neto mobilizou sua atuação
parlamentar tendo, entre suas referências, os momentos eleitorais de 2008 e 2010. No entanto,
a disputa para prefeito parece ter afetado menos sua atuação parlamentar do que a campanha à
reeleição para deputado federal em 2010. A Bahia parece ser mais valorizada enquanto base
geográfica de votação do que como referência simbólica passível de uso do pleito municipal.

3.1.3 Pronunciamentos em Plenário (2011-2012)


P á g i n a | 137

Como já foi mais bem analisado no capítulo 2, o contexto político de 2010 se


caracteriza no âmbito estadual por uma diminuição significativa do número de candidatos
carlistas apresentados a todos os pleitos, o que já era um reflexo antecipado do recuo do teto
eleitoral do grupo, afinal confirmado pelas urnas pela diminuição também significativa no
número de eleitos pelo DEM e aliados. Nesse cenário, muitos políticos carlistas migraram
para o campo governista e embora tenha sido mais uma vez o candidato a deputado federal
mais votado na Bahia, ACM Neto perdeu cerca de 100 mil votos ao comparar-se sua votação
com a obtida em 2006.

Nesse terceiro mandato – que, como informado, ele exerceu pela metade tendo
renunciado em 31.12.2012, para assumir o cargo de prefeito de Salvador, para o qual fora
eleito no final de 2012 – o deputado ACM Neto colocou-se, uma vez mais, como oposição
nas esferas federal e estadual, com atuação parlamentar bastante contundente na crítica aos
dois níveis de governo. Voltou, inclusive, à liderança da bancada do DEM, por dois anos, a
partir de fevereiro de 2011 até o último dia em que esteve na Câmara. Portanto toda a análise
dos seus pronunciamentos se referirá a um período em que ocupou esse cargo parlamentar.

A Tabela XIII, a seguir, contém - com referência ao terceiro mandato e a exemplo


do que se fez para os dois mandatos anteriores - uma síntese da distribuição dos eventos de
fala do deputado pelos vários blocos e itens temáticos, permitindo, ao visualizar os números,
interpretar as prioridades da sua estratégia política nos dois últimos anos em que compôs a
Câmara dos Deputados, vividos sob a circunstância de uma nova candidatura a prefeito de
Salvador, já em condições competitivas bem superiores às de 2008.

Tabela XIII– Temas de Pronunciamentos de ACM Neto em Plenário (2011-2012)

2011 2012 3° Mandato

TEMAS N % N % N %

I - Temas Gerais/Nacionais 169 89,89 31 75,61 200 87,34


Funcionamento das Instituições
(Pacto Federativo e Relação entre
os três Poderes) 13 6,91 4 9,76 17 7,42

Corrupção e Ética Pública


22 11,70 4 9,76 26 11,35
Gestão e Administração Pública
Federal 46 24,47 10 24,39 56 24,45
P á g i n a | 138

Temas Econômicos, Fiscais e


Tributários (inclusive Reforma
Tributária) 29 15,43 6 14,63 35 15,28
Outras Reformas (Previdenciária e
Política) 1 0,53 4 9,76 5 2,18
Políticas Públicas (Educação,
Saúde, Segurança, Transporte,
Infraestrutura, Salário Mínimo,
etc.) 43 22,87 2 4,88 45 19,65
Outros (Homenagens, Questões
Internacionais, questões ligadas à
juventude, outras categorias etc.) 15 7,98 1 2,44 16 6,99

II - Questões regionais/ baianas 19 10,11 10 24,39 29 12,66


Defesa do modelo de gestão
carlista 1 0,53 0 0,00 1 0,44
Demanda por recursos do Governo
Federal para NE/BA 5 2,66 1 2,44 6 2,62

Crítica à gestão petista na Bahia 6 3,19 6 14,63 12 5,24

Referência a municípios baianos 6 3,19 3 7,32 9 3,93

História/cultura baiana 1 0,53 0 0,00 1 0,44


TOTAL DE EVENTOS DE
FALA 188 100,00 41 100,00 229 100,00
Fonte: Elaboração Própria. Dados Câmara dos Deputados, 2014.

Assim como nos dois primeiros mandatos, os temas que aparecem com maior
incidência são os do Bloco I (87,34%), mas agora sobretudo (com 24,5%) aqueles que se
referem o item ―gestão e administração pública federal‖, que supera o patamar já significativo
de 20,2%, alcançado no mandato anterior, enquanto o item ―funcionamento das instituições‖
(incluídos aí os temas do pacto federativo e o da relação entre os poderes) que liderara
naquele mandato, com 23,2%, recua agora para 7,4% do eventos de fala. Foi o item temático
que mais peso relativo perdeu, seguido do item ―outras reformas‖, onde se inclui o da reforma
política, que caiu de 7% para 2,2%. Enquanto isso, os pesos relativos dos itens ―políticas
públicas e ―corrupção e ética pública‖ saltaram, respectivamente, de 10,2 % e 5,7% do total
de eventos de fala no segundo mandato para, também respectivamente, 19,7 % e 11,3% no
terceiro. Portanto, seus pesos relativos praticamente dobraram nesse terceiro mandato,
enquanto os dois temas mais institucionais desse bloco, antes citados, tiveram a soma dos seus
reduzida a um terço do que representaram no mandato anterior. Embora possa se atribuir essa
inflexão ao exercício continuado da liderança da bancada de um partido de oposição, ela
também expressa um claro trânsito pragmático do deputado do mundo da polity (das
P á g i n a | 139

instituições) para o da politics (onde ressalta o tema da ética) e policies. Essa é uma primeira e
abrangente observação, a indicar que no terceiro mandato a estratégia política de ACM Neto
aproximou-se como nunca do perfil pragmático da tradição carlista.

Novamente, estão presentes muitos discursos com acusações de falta de coerência,


incompetência e inoperância do governo federal, como no caso da Copa do Mundo de 2014,
como fica evidente no discurso que se segue:

Sr. Presidente, [...] a Medida Provisória nº 527, que estamos votando hoje, é mais
um exemplo da incompetência e da ineficiência do Governo do PT. [...] O Brasil foi
escolhido como sede da Copa do Mundo, no ano de 2007, portanto, há quase quatro
anos. [...] o Governo do PT não fez o que tinha que ter feito. [...] os dados que
mostram a total incompetência e a total ineficiência do Governo do PT, da
Presidente Dilma Rousseff e do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva. [...] o PT,
ao votar esta medida provisória, vai ter a oportunidade de se redimir de um grave
erro que cometeu no passado. O PT, ao colocar a sua digital a favor desta medida
provisória, vai pagar o pecado de ter demonizado os processos de privatização no
Brasil, porque esta medida provisória é que abre portas para a presença da iniciativa
privada na exploração dos aeroportos. Portanto, aprovando a MP 527, vamos ter
efetivamente a privatização dos aeroportos. [...] Nós não temos nenhum receio
de dizer que somos a favor da presença de grupos privados na exploração dos
aeroportos, porque, lamentavelmente, o Governo Federal viabiliza que os
aeroportos hoje, no Brasil, tenham a pior qualidade do mundo em prestação de
serviços [...] Vejo, ali, alguns Deputados dizendo que não vão votar. É bom! Eu
quero ver! Não votem! Enfrentem a Presidente! Enfrentem o Governo de vocês!
Mantenham a coerência histórica! Porque nós vamos manter a coerência e,
sobretudo, a consciência do que é melhor para o Brasil. [...] (Discurso do
deputado ACM Neto em plenário em 16 de junho de 2011).

É interessante notar no pronunciamento acima, além de toda a crítica ao que o


deputado considera falta de eficiência, competência e agilidade da administração pública
petista no caso das obras de infraestrutura para Copa do Mundo e mais especificamente na
ampliação e reestruturação dos aeroportos, toda uma acusação de Neto em relação ao que ele
considera uma incoerência do PT no que se refere à sua posição em relação as privatizações.
Segundo o deputado, com a aprovação dessa medida provisória o PT estaria ―se redimindo de
um erro histórico‖, já que o partido, quando na oposição, sempre se posicionou contra as
privatizações. Nesse aspecto, o deputado mostra claramente que é a favor das privatizações
tendo como justificativa a ideia de que o que importa é a melhoria da qualidade do serviço
prestado, nesse caso se referindo aos aeroportos. Tal discurso evidencia a proximidade da
atuação parlamentar de ACM Neto com uma certa tradição carlista, não a dos tempos iniciais,
do regime militar, quando preconizava presença forte do Estado no processo da modernização
econômica, mas a tradição adaptada ao neo liberalismo da década dos 90 quando o carlismo
celebrou suas alianças político-programáticas com um campo que defendia a modernização do
P á g i n a | 140

capitalismo e do Estado brasileiro a partir de um conjunto de medidas como, para além das
privatizações, a abertura da economia, o ajuste fiscal, uma reestruturação da indústria
nacional, a diminuição dos gastos públicos, enfim, o recuo da participação do Estado.

Encontram-se também no bloco dos temas nacionais/gerais os pronunciamentos


sobre políticas públicas (19,7% das falas, como já antecipado), como, por exemplo, aqueles
em favor da Emenda Constitucional 29, que assegurava recursos para saúde e, no âmbito da
educação tecnológica, o apoio ao PRONATEC (Programa Nacional de Acesso ao Ensino
Técnico e Emprego). No que se refere a este último programa, mais uma vez há uma
preocupação com o desenvolvimento regional do Norte e Nordeste como se expressa do
discurso abaixo, mantendo um traço característico do repertório simbólico carlista, o
regionalismo político, a defesa dos interesses da Bahia e do Nordeste e do fim das
desigualdades entre essas regiões e as demais do país:

É exatamente um destaque do Democratas que propõe que pelo menos 30% do


que vai ser investido na ampliação dos cursos técnicos e profissionalizantes
possam ser destinados às Regiões Norte e Nordeste do Brasil. [...] Nós
queremos, com isso, apenas fazer justiça social, focar o nosso olhar numa
região que é bem mais pobre, que é bem mais carente, que padece de problemas
sociais graves, que precisa de mais atenção por parte do poder público e que,
portanto, pode ter, na oportunidade do ensino técnico e profissionalizante, o
surgimento de uma vida nova e de esperança para os pobres que,
lamentavelmente, estão mais concentrados, no Brasil, nas Regiões Norte e
Nordeste. [...] Vamos aproveitar este projeto para fazer justiça social. Eu sei que os
milhares de pobres do Norte e Nordeste brasileiros vão aplaudir a Câmara dos
Deputados. [...]Eu sei que há uma orientação do Governo pelo voto contrário ao
nosso destaque, mas este não é um assunto de Governo ou Oposição. [...] Eu
concluo fazendo um apelo de verdade não só aos Deputados do Norte e Nordeste
[...] eu faço um apelo a todos os Deputados do nosso Brasil para que nos ajudem
neste destaque, que é importante para os mais pobres do nosso País. (Discurso do
deputado ACM Neto em 1º. de setembro de 2011).

Quanto a temas econômicos, fiscais e tributários, o peso desse item manteve-se


estável em relação ao mandato anterior. Em 15,3 % das suas falas neste mandato o deputado
defendeu com destaque a criação de empregos, com a diminuição de impostos a partir da
defesa da Lei Complementar 123/2006, o chamado Super Simples 38, que em sua acepção
“iria assegurar mais dinamização na economia com geração de emprego e de renda”.

38
O Simples Nacional estabelece normas gerais relativas ao tratamento tributário diferenciado e favorecido a ser
dispensado às microempresas e empresas de pequeno porte no âmbito da União, dos Estados, do Distrito Federal
e dos Municípios, mediante regime único de arrecadação, inclusive obrigações acessórias.
P á g i n a | 141

Alocadas também no Bloco I estão falas do item temático ―corrupção e ética pública‖
que, como já dito, aumenta seu peso relativo para 11,3% do universo de fala do terceiro
mandato. Elas mais uma vez se concentraram em acusações de corrupção e irregularidades na
gestão petista. Eis o trecho de um pronunciamento:

[...] não me convence a tese de que a Presidente da República não sabia, não
participava ou não aceitava. [...]. Daí por que tenho a coragem de afirmar que, se
há uma grande responsável pelo que está acontecendo, é a Presidente Dilma
Rousseff; [...] O Governo está podre! Qual é o balanço dos seis meses do Governo
da Presidente Dilma? São os escândalos, os problemas envolvendo os Ministros, a
deterioração da base política nesta Casa. [...] O problema central está na falta de
comando, está na forma de seleção dos cargos públicos, que, aliás, repito, não é
deste Governo, vem lá de trás, do ex-Presidente da República, que, em vez de
procurar construir uma relação institucional respeitosa e de independência
com esta Casa, prefere optar pelo "toma lá, dá cá", pela negociação. [...]Quem
era a mãe do PAC, batizada pelo então Presidente Lula? [...] A mãe do PAC vai
deixar o seu filho ter problemas sem que ela os conheça? [...] A descrença da
sociedade neste Governo, na Presidente da República é total. O sentimento de
impunidade é total. Nós estamos aqui para mostrar, na defesa da ética e da
moralidade com a coisa pública, que este Governo está viciado[...] (Discurso do
deputado ACM Neto em plenário em 07 de julho de 2011).

Além das denúncias de corrupção, esse pronunciamento revela mais dois aspectos
relevantes que aproximam o discurso de ACM Neto da tradição carlista, a defesa de que é
preciso ter comando na política, autoridade, ou seja, uma visão vertical da política e a
perspectiva de que a ocupação dos cargos públicos seja feita a partir de critérios institucionais,
o que parece demonstrar que Neto está defendo a primazia dos técnicos na gestão
governamental e criticando a prática do PT de seleção dos cargos públicos através do que ele
chama de ―toma lá dá cá‖, ou seja, a partir de critérios político-partidários e não técnicos.

No que restou de importante, no terceiro mandato, no item temático ―funcionamento


das instituições‖ (7,4% do total das falas), destacam-se falas que aludem, recorrentemente, à
necessidade de se repensar o pacto federativo e defender a autonomia municipal e à urgência
do que chamou de ―reavaliação da sistemática‖, na elaboração do Orçamento Geral da União.
Nesse ponto defende, basicamente, o orçamento impositivo.

No item ―outros‖ (7% dos eventos de fala), destacou-se seu posicionamento como
líder do DEM, em defesa da aprovação do Novo Código Florestal39. O partido que liderava foi

39
Proveniente do Projeto de Lei nº 1.876/99 o novo código florestal Lei n.12.651/2012 é a lei brasileira que
dispõe sobre a proteção da vegetação nativa, tendo revogado o Código Florestal Brasileiro de 1965. Desde a
década de 1990, a proposta de reforma do Código Florestal suscitou polêmica entre ruralistas e ambientalistas. O
P á g i n a | 142

fundamental para a sua aprovação, inclusive por ter um dos mais importantes líderes ruralistas
do Congresso, vice líder do DEM, o deputado Ronaldo Caiado (DEM-GO). Nesse aspecto,
ACM Neto foi um importante negociador, favorecendo a interpretação de que não se
contentou com uma posição somente ―reativa‖ no parlamento – que ademais seria imprópria e
contraditória para um líder de bancada –, buscando articular medidas possíveis, dentro da sua
condição de oposição, conforme se observa no discurso abaixo:

Sr. Presidente, [...] qual é a posição dos Democratas com referência a [...] a Lei
Geral da Copa? Nós somos a favor de que ela seja votada. [...] Assim como também
defendemos e ressaltamos a importância da deliberação e da aprovação do Código
Florestal. O Código Florestal está sendo debatido pelo Parlamento brasileiro há
muito mais tempo do que a Lei Geral da Copa[...] o que queremos é defender a
apreciação das duas matérias: da Lei Geral da Copa e do Código Florestal. [...] Acho
até legítimo que o Governo apresente suas pretensões e suas prioridades ao
Congresso Nacional. É legítimo. [..] Que a Presidente diga que quer ver aprovada
esta ou aquela matéria, tudo bem, mas ela não tem o direito de impedir que esta Casa
vote o Código Florestal. E é isso que está em jogo no dia de hoje. [...] eu tenho
esperança de que hoje, aprovando o requerimento e tirando a Lei Geral da Copa de
apreciação[...] V. Exa. possa definir uma data de votação para o Código Florestal.
[...] Por isso nós hoje vamos trabalhar para não votar a Lei da Copa. [...] V. Exa.[...]
pode nos trazer aqui a proposta de uma data de votação do Código. E aí estaremos
prontos para votar a Lei Geral da Copa [...] (Discurso do deputado ACM Neto em
plenário em 22 de março de 2012).

Entre as demais falas alocadas no item ―outros‖, destacam-se um pronunciamento


sobre a defesa, pelo DEM, a aprovação da proposta de ementa constitucional sobre o confisco
de terras escravagistas; a defesa da PEC 270, que versava sobre a garantia do recebimento de
proventos integrais com paridade pelo servidor público aposentado por invalidez permanente
e, de modo especial, a sua defesa do PEC 30040, que trata do piso salarial dos policiais
militares. Nesse último caso, a posição de líder de bancada poderá ter lhe levado a abraça a
causa, tornando por isso imprudente concluir que se trata de uma evidência de uma estratégia
política também de caráter eleitoral, como é possível enquadrar os outros casos específicos, de
segmentos que mereceram seu empenho antes do exercício da liderança.

projeto que resultou no texto atual tramitou por 12 anos na Câmara dos Deputados e foi elaborado pelo deputado
Sérgio Carvalho (PSDB de Rondônia). Em 2009, o deputado Aldo Rebelo do PCdoB foi designado relator do
projeto, tendo emitido um relatório favorável à lei em 2010. A Câmara dos Deputados aprovou o projeto pela
primeira vez em 2011. No Senado, o projeto adquiriu o nome de Lei da Câmara nº 30 de 2011. No dia 25 de abril
de 2012, a Câmara aprovou uma versão alterada da lei ainda mais favorável aos ruralistas. Em maio de 2012, a
presidente Dilma Rousseff vetou 12 pontos da lei e propôs a alteração de 32 outros artigos.

40
A PEC 300 prevê que a remuneração dos Policiais Militares dos estados não poderá ser inferior à da Polícia
Militar do Distrito Federal, aplicando-se também aos integrantes do Corpo de Bombeiros Militar e aos inativos.
P á g i n a | 143

À exemplo do que foi feito em relação ao Bloco I, antes de comentar as falas ligadas
ao Bloco temático II e para além da menção ao peso relativo (12,7%) desse bloco no conjunto
das falas, vale uma consideração sobre a distribuição, interna ao bloco, desse peso pelos
vários itens temáticos que o constituem, numa perspectiva de comparação com essa mesma
distribuição, no mandato anterior. Vale como alerta a lembrança de que é uma comparação
entre um mandato inteiro (em que houve no total 560 eventos de fala, em 4 anos) e metade de
outro, em que os eventos de fala chegaram a 229, em 2011 e 2012, número expressivo pois
nesses dois anos o mandato foi exercido, como já dito, também como líder de bancada.

Ao contrário do que ocorreu com o Bloco I (no qual itens temáticos apresentaram
avanços ou recuos às vezes drásticos), nesse Bloco II, na comparação entre os dois mandatos,
a estabilidade dos pesos foi a regra. Nota-se apenas um discreto avanço (de 4,3% para 5,2%)
do item ―crítica à gestão petista na Bahia‖ e um recuo um pouco mais acentuado (4,6 para
2,6%), do peso relativo do item ―demanda de recursos federais para a Bahia e o Nordeste‖.
Mas se for considerado que tais variações se deram quando o número total de falas do terceiro
mandato representa apenas 40% do total verificado no segundo, o avanço relativo em críticas
à gestão petista significa, em números absolutos, 12 falas com esse sentido, em lugar de 24,
enquanto o recuo relativo do item demandas de recursos federais expressa a queda de 26 para
6 falas com esse outro sentido, em termos absolutos, demonstrando-se, também por aí, a
maior relevância do segundo fenômeno em relação à do primeiro.
De todo o modo, o item de maior peso relativo (5,2%) foi o da ―crítica à gestão
petista na Bahia‖. Nesse âmbito, as falas apontam para a necessidade de que Wagner ―tenha
mais amor pela Bahia‖ e novamente faz a acusação de que lhe faltam competência e
autoridade, opondo a situação atual do Estado àquela vivida no passado, quando era
governado por seu grupo político. Isso fica evidente no discurso que se segue sobre a questão
da segurança pública na Bahia em 2011:

Sr. Presidente, [...] Lamentavelmente, a Bahia continua sendo palco do aumento da


violência e da criminalidade. E tudo isso sob os olhares complacentes do
Governador Jaques Wagner, que foi incapaz, nos seus quatro anos e meio de
Governo, de adotar providências enérgicas e eficientes para conter a elevação
da violência e da criminalidade na Bahia. [...] E as autoridades de segurança
culpam o fato de estar havendo uma migração de bandidos do eixo Rio-São Paulo
para a Bahia. [...] [se] os bandidos acabam indo para a Bahia é porque lá eles
enxergam que o aparelhamento da segurança pública, que as autoridades da
segurança pública não estão cumprindo com o seu papel, não estão
desempenhando a sua função corretamente. [...]Lamentavelmente [o governador]
continua na sua morosidade, na sua lentidão, na sua comodidade. E a Bahia,
perdendo importância no cenário nacional, perdendo capacidade competitiva e
P á g i n a | 144

sobretudo ocupando as páginas policiais. [...] quem se lembra da Bahia do


passado, com a sua riqueza cultural, com a sua beleza, com a sua pujança, com
a força do seu povo, e vê a Bahia de hoje, entregue ao crime, ao banditismo,
entregue à ação dos criminosos, com a violência lamentavelmente tomando
conta do dia a dia do cidadão, só pode lamentar. [...] (Discurso do deputado
ACM Neto em plenário em 08 de julho de 2011).

O regionalismo político e o ―amor pela Bahia‖, típicos da tradição carlista, expressam-


se novamente associados às críticas à gestão petista na Bahia e a referência à perda da
importância do Estado no Brasil, mesmo nas condições favoráveis do governo do estado ser
do mesmo grupo político do governo federal, condição extremamente valorizada pela prática
carlista ao longo dos anos.

Um último e importante aspecto merece um comentário ao se findar o presente


tópico do trabalho. É que embora a incidência de temas estaduais/regionais, agregados no
Bloco Temático II tenha se mantido estável no segundo (13,2%) e no terceiro mandatos
(12,7%), agora, diferentemente do que ocorreu no período próximo às eleições municipais de
2008 (em que o peso relativo dos temas estaduais foi bem menos relevante), entre os anos de
2011 e 2012 esse peso aumentou de 10,1% para 24,4% do total de falas de cada ano. Parece
que dessa vez o fato se liga às eleições municipais de 2012, sobretudo se considerado o
incremento, no mesmo período, da incidência do item temático ―crítica à gestão petista na
Bahia‖, que saltou de 3,2% para 14,6% e o de 3,2% para 7,3% do item temático ―referência a
municípios baianos‖, onde várias dessas falas se remetiam a Salvador. Isso demonstra, na
atuação parlamentar de ACM Neto, uma estratégia política claramente voltada para ao pleito
municipal da capital. Tal estratégia se evidenciará também na apresentação de emendas ao
Orçamento da União, como se verá na próxima seção desse capítulo, que sucederá ao último
tópico da presente seção, que pretende resumir os principais achados nela contidos.

3.1.4 Características gerais dos pronunciamentos em plenário de ACM Neto, nos três
mandatos

É possível observar comparativamente o padrão temático dos discursos de ACM


Neto em plenário nos três mandatos na Tabela XIV, a seguir:

Tabela XIV – ACM Neto – Discursos em Plenário, por mandato


TEMAS 1° Mandato 2° Mandato 3° Mandato
P á g i n a | 145

(até 2012)
N % N % N %

I - Temas
278 79,2 486 86,8 200 87,3
Gerais/Nacionais

II - Temas
73 20,8 74 13,2 29 12,7
Estaduais/Regionais

TOTAL DE
EVENTOS DE 351 100 560 100 229 100
FALA
Fonte: Elaboração Própria. Dados Câmara dos Deputados, 2014

Conforme se observa na tabela síntese, a predominância de temas Nacionais /Gerais


sobre questões Regionais/Baianas na atuação parlamentar de ACM Neto é uma constante nos
três mandatos, mas é menos expressiva no primeiro do que nos dois seguintes.

A despeito da manutenção desse padrão geral entre os três mandatos, algumas


alterações se mostraram relevantes, especialmente a diminuição proporcional do peso da
questão regional e, por conseguinte, a ampliação da mobilização de temas relativos à questão
nacional. Ainda que os temas sobre a Bahia tenham permanecido, assim como a ênfase
discursiva dada a esta questão nos pronunciamentos, gradativamente o deputado ganha espaço
nacional dentro do seu partido e no próprio Congresso. Ao longo deste período, ACM Neto se
tornou líder do DEM e referência nacional da oposição, mantendo a tradição do carlismo de
não se configurar apenas como uma elite local, mas com profundos vínculos nacionais.

Dessa forma, não é algo surpreendente que os temas Nacionais/Gerais sejam o bloco
de incidência mais frequente entre os discursos de ACM Neto, o que não significou que o
deputado tenha deixado de mobilizar discursos ligados aos temas estaduais e regionais. Sua
ênfase na defesa dos interesses da Bahia não deixa de caracterizá-lo sempre, mas, foi apenas
parte de sua atuação/estratégia parlamentar, não a resumindo.

Em considerações anteriores, feitas no tópico referente ao primeiro mandato, foi dito


que a incidência relativamente baixa dos temas regionais revela a absorção de ACM Neto por
temas nacionais e exclui a possibilidade de identificá-lo como um parlamentar paroquial, mas
o patamar de 20% alcançado pelo Bloco II indicava, ao mesmo tempo, que ele não estava
desconectado dos problemas da base geográfica de sua votação.
P á g i n a | 146

Essa avaliação pode ser mantida para o conjunto dos três mandatos, mesmo diante da
discrepância mais acentuada entre as incidências dos dois Blocos Temáticos nos dois
mandatos posteriores. O aumento do peso relativo do Bloco I nesses dois mandatos não
significa subestimação da base política estadual, como deixam ver os números absolutos, na
mesma tabela. Entre o primeiro e o segundo mandatos, ambos cumpridos integralmente, o
número de falas alocadas no Bloco II é praticamente idêntico, mostrando que não houve recuo
na frequência de tratamento de temas estaduais. O peso relativo maior do Bloco I decorre de
que esse bloco foi o destino do incremento de cerca de 60% no total de falas, ocorrido no
segundo mandato, em comparação ao primeiro. E isso é facilmente explicado pelo fato de que
durante o ano de 2008 (um quarto do tempo desse segundo mandato), ACM Neto exerceu o
cargo de líder da bancada do DEM na Câmara.

Durante o terceiro mandato houve, sim, queda também nos números absolutos. No
Bloco II foram apenas 29 falas em dois anos (média anual de 14,5), contra 74 falas nos quatro
anos do mandato anterior (média anual de 18,5 falas). Mas a situação é a mesma no Bloco I,
apesar do exercício, por todo o tempo, da liderança da bancada. Comparando-se o número de
200 falas alocadas nesse bloco na metade cumprida do terceiro mandato com as 486 do
segundo mandato, vê-se que a média anual também caiu, de 123 para 100 falas, queda
proporcional à ocorrida no Bloco II. É possível dizer então que ACM Neto exerceu a
liderança da bancada no período 2001/2012 com menos intensidade do que em 2008. Naquele
ano, como mostrou a Tabela XIII, registram-se 292 eventos de fala, alocados ao Bloco I,
número superior em quase 50% à soma dos eventos de fala alocados no mesmo Bloco em
2011 e 2012, dois anos em que exerceu a liderança, durante seu terceiro mandato. A
explicação é de certo modo, óbvia: no ano de 2012 ACM Neto acumulou o cargo de líder com
as atribuições de candidato a prefeito de Salvador e, por isso, a mesma Tabela XIII mostrava
um total de apenas 41 eventos de fala, 31 dos quais alocados no Bloco I e 10 no Bloco II.
Logo, naquele ano de idas menos frequentes à tribuna da Câmara, o peso relativo de falas
sobre política baiana chegou a 25%, bem mais que o patamar atingido no conjunto do período.

Esse último dado ajuda ainda mais a confirmar a avaliação feita sobre o primeiro
mandato de ACM Neto, de que a maior incidência de falas no Bloco Temático I não impedia
que ele fosse um deputado conectado às demandas da sua base geográfica de votação. Do
mesmo modo que a outra avaliação sobre aquele primeiro mandato – a de que nele ACM Neto
P á g i n a | 147

esteve longe de ser um deputado paroquial - é confirmada, nos outros mandatos, pelo próprio
exercício da liderança da bancada do DEM.

Essa combinação entre dois planos (o nacional e o estadual) igualmente importantes


da atuação de ACM Neto, como deputado federal, é um dos nexos mais fortes entre a sua
estratégia política e a tradição carlista. Foi essa combinação, efetivada quase sempre com
êxito, tanto em tempos de ditadura, quanto de democracia, que Dantas Neto (2006) apontou
como principal fator da longevidade da liderança pessoal de ACM e da hegemonia carlista
sobre a política baiana, por isso nomeando a fase mais longa da trajetória do carlismo (que se
estendeu da segunda metade dos anos 70 até o final dos 90) de ―carlismo baiano-nacional‖.

Um segundo ponto a salientar é o destacado papel de ACM Neto na oposição ao


governo federal nos três mandatos e também ao governo estadual, nos últimos dois. Como se
viu, suas críticas versaram sobre muitos temas, desde administração pública (caracterizando
as administrações petistas como incompetentes e ineficientes), questões fiscais e tributárias
(defendendo a redução de tributos e uma maior autonomia financeira dos municípios), relação
entre os poderes da república (fundamentalmente criticando a quantidade de medidas
provisórias enviadas ao congresso pelo executivo federal), os ―escândalos‖ de corrupção,
entre outros. Ao mesmo tempo em que criticava a administração petista, especialmente na
Bahia, colocava o modelo de gestão carlista como exemplo, defendendo-o, através de
referências a políticos do grupo como Antônio Carlos Magalhães, Luis Eduardo Magalhães,
Paulo Souto, Antônio Imbassahy e José Carlos Aleluia e apresentando esse grupo como
referência de competência, autoridade, eficiência e moralidade pública. Ademais, parte
importante de suas falas esteve voltada à questão regional, ao desenvolvimento do Nordeste e
da Bahia, através de cobrança de recursos do Governo Federal e de referências a municípios.

Como foi apontado na seção que ora se conclui esse impulso oposicionista contrasta
com a ―vocação‖ governista que caracterizava o carlismo, especialmente em sua fase ―baiano
nacional‖ quando manejava com habilidade os fluxos de recursos materiais e políticos que por
sua influência partiam do centro político do País para a Bahia e, em contrapartida, garantia a
esse centro político o conforto do apoio de uma elite estadual altamente estabilizada.

Em síntese, a análise dos pronunciamentos parlamentares de ACM Neto nos três


mandatos permitiu observar proximidade, em vários aspectos, da sua estratégia política com a
P á g i n a | 148

tradição carlista, sobretudo em vários elementos do seu repertório simbólico e no campo de


suas alianças. Mas também apontou significativas diferenças em relação àquela tradição.

Uma proximidade notável se dá quando ACM Neto se mantém, na política nacional,


no mesmo campo político em que o carlismo, tendo a frente ACM e Luis Eduardo, construiu
suas alianças na década dos 90. Os pronunciamentos em plenário mostram que o deputado
manteve, como combativo oposicionista, o alinhamento a esse campo político liberal, que
quando era governo defendeu e promoveu o ajuste fiscal, a reforma da previdência, as
privatizações e um tipo de política social focalizada. Em razão da opção majoritária do
eleitorado brasileiro em favor do PT, ACM Neto se viu numa curiosa situação: para manter o
alinhamento ao mesmo campo político de seu avô e tio ele precisou romper com outra forte
tradição carlista: a de procurar sempre seguir uma linha política governista, no plano federal.

Ao lado dessa constante que foi o tipo de alinhamento político, foi possível observar
aspectos variáveis, a cada um dos mandatos, variações que se davam conforme distintos
contextos e suaves inflexões em sua estratégia.

No primeiro mandato evidenciou-se, de maneira especial, um traço importante da


tradição carlista: a valorização por assim dizer, ideológica, da elite estadual, colocando-a num
patamar político acima do partido nacional, assim como o elogio do padrão de gestão
administrativa praticado por essa elite. Foi possível ver como essa atitude diminui ao final do
primeiro mandato e durante o segundo - quando ainda não havia assumido a liderança
incontestável do seu grupo, que passara à oposição na Bahia - para ser retomada no terceiro
mandato, após a consolidação dessa liderança. Por outro lado, é relevante considerar que
desde o primeiro mandato, e não é diferente nos outros dois, ACM Neto se desvincula de um
elemento importante da tradição carlista, o impulso governista, sobretudo, no plano federal.
Desse modo, o deputado permaneceu durante toda sua trajetória na Câmara, mesmo quando
seu grupo ainda era elite governante estadual, na posição de oposição à gestão petista federal
e depois de 2006, estadual.

No segundo mandato, apesar de não poder ele mesmo, como constante oposicionista
que foi, praticar a estratégia carlista de assumir a posição pragmática de ser governo no plano
federal para conseguir obter benefícios para a Bahia, ACM Neto cobrou essa postura do
Governador Jaques Wagner e dos petistas baianos. Foi sob essa perspectiva, como se viu, que
P á g i n a | 149

ele lhes teceu diversas críticas, considerando incompetência de Wagner ser “amigo do
presidente Lula” e não conseguir converter essa amizade política e pessoal em vantagens para
o Estado. Em contrapartida, nesse mesmo segundo mandato, entra em cena, como traço que o
diferencia da tradição carlista, a defesa intransigente do seu partido a nível nacional,
utilizando a liderança no DEM na Câmara como importante estratégia para galgar visibilidade
fora da Bahia. Conforme já observado, é desse segundo mandato a diminuição do seu afã em
se vincular diretamente ao carlismo, fato ilustrado também pelo menor peso relativo de falas
em defesa do modo de gestão carlista. Desde esse mandato também, ACM Neto se esforçou
para se colocar num papel de negociador relevante das demandas da oposição, assim como
havia feito, à sua época e como governista, o seu tio, Luis Eduardo Magalhães. Como já
comentado, essa tática ficou evidente no encaminhamento da votação de modificações no
Código Florestal, assim como ocorreria, já no terceiro mandato, na aprovação da Lei da Copa.

No terceiro mandato, ainda que ACM Neto, voltando a ser líder do DEM, tenha
continuado a focalizar as demandas do partido e da oposição em geral, foi quando houve mais
aproximação da sua atuação parlamentar com a tradição carlista, mais ainda do que no
primeiro mandato. Tal identificação se mostrou não só na diminuição significativa do peso
relativo de temas nacionais referentes ao funcionamento das instituições, como também no
aumento expressivo (quando comparado ao segundo mandato) do número de falas sobre
políticas públicas e sobre o tema da corrupção e da ética pública, tendo como foco, em ambos
os itens, críticas à gestões petistas, federal e estadual, postura que, como visto, se tornava
mais assertiva à medida em que se aproximavam as eleições de 2012. Este mandato, portanto,
caracterizou-se por uma atuação em plenário mais pragmática, ao estilo da tradição carlista.

Também quanto ao repertório simbólico acionado, vimos que nos três mandatos se
destacaram, nos discursos, elementos similares ao repertório da tradição carlista, quase todos
eles fundados no regionalismo político, que se traduzia na evocação dos ―interesses da Bahia‖
a partir das suas particularidades sociais, históricas, culturais, verdadeiras usinas de ícones a
serem cultuados para além de posições partidárias ou ideológicas, por quem ―ama a Bahia‖. O
mesmo regionalismo também transparecia – e evocando ícones parecidos - na denúncia de
supostas discriminações da Bahia (e aí também do Nordeste), pelo Governo Federal.

Um apelo modernizante também esteve claro na atuação de ACM Neto, através da


defesa da competência e da ocupação de cargos públicos por critérios técnicos e não políticos
P á g i n a | 150

e nesse ponto ACM, o avô, era o próprio símbolo. Por essa imagem do líder realizador que,
além de amante da sua terra e da sua cultura, valoriza a competência técnica, passavam outros
conceitos caros à tradição carlista, como o protagonismo da elite governante e a importância
da autoridade na solução, pelo líder, dos problemas da política. Sobre esses quatro pontos
(amor pela Bahia, gestão competente, protagonismo da elite governante e autoridade do líder)
é importante relembrar o que se destacou ao longo dessa seção: que neles se concentrou boa
parte das críticas às gestões petistas, tanto a nível federal quanto a estadual. Por fim, elemento
clássico da tradição carlista, esteve muito presente a crítica da corrupção, associada não tanto
a uma ética de vida pública, mas à ―moralidade‖ do homem público, no que, mais uma vez, se
mostra a defesa prática do protagonismo da elite governante, de cuja qualidade a prosperidade
do Pais e a felicidade do povo dependem mais do que do formato das instituições. Tiveram
esse viés a sua participação na CPMI dos Correios e vários dos seus pronunciamentos sobre o
mensalão, nos quais defendia a necessidade de ―varrer‖ a corrupção do Pais.

O prosseguimento da análise da atuação parlamentar de ACM Neto, enfocando, na


próxima seção do presente capítulo, as emendas apresentadas por ele ao orçamento da União,
assim como a discussão, no capitulo seguinte, de aspectos de suas campanhas eleitorais,
permitirão compreender melhor se as proximidades significam identidade com o que foi o
carlismo ou se são mais alusões, por apelo e inspiração; e se as diferenças expressam escolhas
estratégicas realmente diversas, ou se são ditadas por um novo contexto que requer adoção de
novas táticas para preservar uma estratégia que é, no essencial, convergente com a tradição.

3.2 Atuação parlamentar – apresentação de emendas ao orçamento

A elaboração e execução da LOA (Lei Orçamentária Anual) da União é um momento


privilegiado de exercício da política que permite examinar as relações que vinculam os seus
profissionais-políticos nos distintos espaços de autoridade da política (BEZERRA, 2001).
Realizado a partir dessa compreensão, o estudo das Emendas apresentadas ao orçamento por
ACM Neto esclareceu aspectos importantes de sua estratégia política, surgindo evidências do
papel que elas cumpriram na montagem e conservação de sua rede de relações políticas.

Num primeiro momento desta seção serão analisadas as Emendas ao orçamento


apresentadas por ACM Neto e, compreendendo-as como parte da sua estratégia política, se
buscará identificar os setores e municípios beneficiados e seu lugar nessa estratégia. Num
P á g i n a | 151

segundo momento, num tópico específico, o estudo das Emendas será relacionado com
achados discutidos no capítulo 2, acerca do perfil geográfico da votação do deputado. Como
naquele capítulo foi constatado que, após a derrota eleitoral do carlismo, em 2006, o perfil
eleitoral de ACM Neto passou a não depender apenas do espólio eleitoral do grupo, um dos
sentidos desse tópico específico é verificar se os municípios que mais contribuíram para a
eleição de ACM Neto em 2006 e 2010 41 foram contemplados com apresentação de emendas
orçamentárias e, desse modo, avaliar se esses municípios passaram a ter destaque no perfil
eleitoral modificado em função da atuação parlamentar. Na análise dos casos específicos
desses municípios destacados no perfil eleitoral, essa possibilidade foi sempre considerada.
Quando o beneficiamento legislativo não se confirma e se o município não era parte destacada
do espólio eleitoral do grupo herdado pelo deputado, abre-se espaço, a depender do porte do
município, para a consideração alternativa de que sua presença entre os destaques na
geografia do voto em ACM Neto deva-se à incidência do chamado ―voto de opinião‖, seja por
efeito da tradição política que ele carrega no sobrenome, seja por sua própria atuação política.

Como esperado, as emendas orçamentárias apresentadas por ACM Neto ao longo dos
seus mandatos, quando especificavam os municípios beneficiados destinaram-se, quase em
sua totalidade, a municípios da Bahia. Conforme Bezerra (2001), ao se examinar a
intervenção dos parlamentares nas diversas etapas de elaboração do orçamento nota-se que
prevalece a preocupação com a destinação de recursos para os municípios e regiões aos quais
estão politicamente vinculados. Segundo o autor,

Do ponto de vista legal, nada impede que o parlamentar, através de suas emendas
individuais, destine recursos para estados ou municípios pelos quais ele não foi eleito,
intervindo na área de um concorrente. Essa, no entanto, é uma prática pouco comum.
Quando isso ocorre e é levado ao conhecimento público, o parlamentar é frequentemente
alvo de suspeitas ou acusações por parte de seus pares e da imprensa. Suspeita de corrupção
por estar favorecendo empresas que realizam obras em outros estados ou acusações de
opositores e aliados de estar destinando recursos federais para outras regiões, em
detrimento do próprio estado e municípios pelo qual o parlamentar é eleito. (BEZERRA,
2001, p.189)

Mas a maior parte das emendas, especialmente no primeiro mandato, não


especificava o municípios beneficiados, constando no texto apenas que se destinava a
municípios da Bahia, frequentemente com uma justificativa genérica. Uma análise dessas
41
A análise versa sempre sobre como as estratégias político-eleitorais de ACM Neto podem ter contribuído para
gerar e/ou manter bases eleitorais. Por isso, seus redutos em 2002 foram analisados a partir do espólio carlista e
da sua atuação como assessor do Secretário de Educação da Bahia. Assim, os redutos eleitorais de 2006 e 2010
serão analisados pela sua atuação parlamentar nos períodos anteriores (2003-2006; 2007-2010).
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justificativas permitiu identificar, em alguns casos, as regiões às quais se direcionavam, caso


das executadas pela CODEVASF – Companhia de Desenvolvimento do Vale do São Francisco
e Parnaíba. Outras emendas previam transferência direta de recursos da União a organizações
da sociedade civil sem fins lucrativos, casos mais frequentes entre emendas dedicadas aos
setores da saúde e da assistência social. Dessas últimas somente duas não foram destinadas à
Bahia e foram direcionadas a instituições de saúde de São Paulo e do Distrito Federal. O perfil
das emendas apresentadas por ACM Neto nos três mandatos, por setor de execução
orçamentária, pode ser conferido, em números absolutos e relativos, na Tabela XV.

Tabela XV – Emendas de ACM Neto à LOA por setor de Execução (2004-2013)42

TOTAL
1° Mandato 2° Mandato 3° Mandato
Setor de Execução Orçamentária N % N % N % N %
12 30,0 19 21,1 9 34,7
Saúde 40 25,6
6 15,0 20 22,2 5 19,2
Fazenda e Desenvolvimento/Turismo 31 19,9
Educação, Cultura, Esporte, Ciência,
9 22,5 14 15,6 5 19,2
Tecnologia 28 18,0
8 20,0 15 16,7 2 7,7
Planejamento/ Desenvolvimento Urbano 25 16,0
Trabalho, Previdência e Assistência
1 2,5 13 14,5 1 3,8
Social 15 9,6
4 10,0 4 4,4 0 0
Integração Nacional e Meio Ambiente 08 5,1
0 0 3 3,3 2 7,7
Agricultura e Desenvolvimento Agrário 05 3,2
0 0 2 2,2 2 7,7
Justiça e Defesa/Segurança Pública 04 2,6

42
A LOA é elaborada no ano anterior à sua execução. Assim não houve emendas ao orçamento de 2003
elaboradas por ACM Neto, pois ele ainda não era deputado em 2002. No primeiro mandato (2003-2006) ele
apresentou emendas executadas de 2004 a 2007, no segundo, apresentação entre 2007 e 2010 e a execução entre
2008 e2011 refere-se ao terceiro. Assim, a apresentação em 2011 e 2012, foi executada em 2012 e 2013.
P á g i n a | 153

TOTAL
1° Mandato 2° Mandato 3° Mandato
Setor de Execução Orçamentária N % N % N % N %
TOTAL DE EMENDAS 40 100 90 100 26 100 156 100
Fonte: Elaboração Própria- Dados: Câmara dos Deputados, 2013.

Para facilitar a visualização da distribuição das Emendas propostas por ACM Neto,
por setor de execução orçamentária, esses setores estão dispostos, na tabela, em ordem
decrescente quanto ao número total de emendas destinado a cada um deles, nos três mandatos.
Assim, fica claro que quatro dos oito setores destacam-se, cada qual recebendo entre 15 e
25% do total das Emendas; dois estão em posição intermediária (entre 5 e 10% do mesmo
total), enquanto dois outros abrigam, cada um, menos de 5% das Emendas propostas.

O grupo conformado pelos quatro setores mais relevantes para o deputado concentra
cerca de 80% das Emendas apresentadas (124 em números absolutos), chegando a uma
concentração ainda mais alta (quase 90%) no primeiro mandato. O carro chefe é o setor da
Saúde, em geral valorizado pelos deputados não só por seu apelo social como pelo montante
de recursos orçamentários garantidos ao setor, que aumenta chances de execução das
Emendas. Em seguida vem o setor de Educação Cultura, Esportes e Ciência & Tecnologia e o
da Fazenda e Desenvolvimento/Turismo, que inclusive lidera a recepção de Emendas
propostas durante o segundo mandato. O quarto setor desse grupo – Planejamento e
Desenvolvimento Urbano – tem relevância também, embora sempre decrescente, desde o
primeiro até o terceiro mandato.

Os dois setores do grupo intermediário abrigam juntos 23 Emendas, pouco menos de


15% do total e aí se destacam as quantidades de Emendas voltadas aos subsetores da
Assistência Social e do Meio Ambiente, no primeiro caso todas concentradas no segundo
mandato enquanto as de Meio Ambiente se distribuem entre os dois primeiros mandatos. Por
essa razão esse grupo intermediário praticamente desaparece no terceiro mandato.

Por fim, nos dois setores menos contemplados, o da Agricultura e Desenvolvimento


Agrário e o da Justiça e Defesa/Segurança Pública, dirigiram-se nove Emendas (pouco mais
de 5% do total), a maioria no terceiro mandato e todas a partir do segundo, pois no primeiro
os dois setores não foram contemplados.
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Observando a distribuição das Emendas ao longo do tempo percebe-se, no primeiro


mandato, maior concentração em menos setores, com os dois já citados não sendo
contemplados; maior diversificação setorial no segundo mandato, com todos os setores
contemplados, o que é coerente com o fato do número de Emendas ter dobrado em relação ao
primeiro mandato, facilitando a diversificação; e concentração intermediária no terceiro
mandato, quando só não foi contemplado o setor de Integração Nacional/Meio Ambiente.
Apesar de aí o número de Emendas ser menor (foram, como se sabe apenas a dois anos de
mandato) contempla-se mais setores que no primeiro mandato. Daí se deduz que a ocupação
da Liderança do DEM no segundo e terceiro mandatos pode ter induzido uma maior
diversificação setorial das Emendas, enquanto no primeiro mandato a destinação parece ter se
cingido mais às exigências da base eleitoral do Deputado.

Considerando mais detalhadamente as Emendas por mandato, como se observa na


Tabela XV, das 40 emendas apresentadas por ACM Neto em seu primeiro mandato 35
voltam-se aos quatro setores já mencionados, com destaque para Saúde, Educação (Mais
especificamente o sub setor de Esporte) e Planejamento Urbano.

No âmbito da Saúde (30%) houve emendas com diversas aplicações específicas.


Frequentemente, ao longo dos anos, houve destinação de verbas ao aparelhamento de
unidades de saúde e aquisição de unidades móveis em municípios do estado. Conforme
discutido anteriormente, esses municípios em geral não foram especificados. Também com
bastante regularidade, houve emendas direcionadas a entidades da sociedade civil sem fins
lucrativos, com atuação na área de saúde especializada, como a Associação das Pioneiras
Sociais, mantenedora da Rede Sarah de Hospitais (para a qual ACM Neto direcionou uma
emenda por ano, neste e nos demais mandatos), a APAE – Associação dos Pais e Amigos dos
Excepcionais – de Salvador e a Santa Casa de Misericórdia de Vitória da Conquista. No caso
da emenda para a Associação das Pioneiras Sociais, no ano de 2002 a verba destinava-se ao
Hospital Sarah de Salvador, informação que deixou de ser mencionada nos anos seguintes.
Ainda no setor orçamentário da saúde houve emendas direcionadas para melhorias sanitárias
em domicílios de municípios não especificados da Bahia.

No setor orçamentário da Educação, cultura, esporte, ciência e tecnologia (22,5%),


vale mencionar emendas voltadas à construção de quadras de esportes e de financiamento de
projetos de inclusão digital em municípios não especificados do estado. Nas justificativas
P á g i n a | 155

dessas emendas estava presente a preocupação com os jovens, sua formação educacional e o
acesso ao mercado de trabalho. Ainda neste setor houve emendas ligadas à área da cultura
também destinadas a organizações da sociedade civil, como a União das Organizações
Sociais e Culturais de Camaçari e a Ação Fraternal de Itabuna para reconstrução do teatro
do município, mantido por ela. Não houve neste mandato nenhuma emenda especificamente
voltada para a área da educação.

No setor do Planejamento e Desenvolvimento Urbano (20%) destacam-se emendas


voltadas a construção de habitação social em municípios de baixa renda e em municípios de
até 200 mil habitantes, melhoria da infraestrutura urbana de municípios de até 100 mil
habitantes, revitalização de áreas urbanas centrais e apoio a projetos de corredores estruturais
de transporte coletivo urbano e adequação de vias urbanas. É interessante notar neste setor
uma clara distinção entre emendas voltadas a cidades menores e às maiores cidades do estado,
justamente aquelas que passaram a fazer parte da base eleitoral do deputado a partir de 2006.

Na área de turismo (15%) destacaram-se emendas que destinaram recursos para a


divulgação de festas regionais e ampliação do fluxo turístico em municípios do Estado. Na
área de Integração Nacional, as emendas voltaram-se à construção de adutoras e infraestrutura
hídrica em municípios do estado, notadamente no Vale do São Francisco, uma vez que a
execução ficara sob responsabilidade da CODEVASF. Por fim, houve uma emenda destinada
a área da assistência social para a ―construção, ampliação e modernização de centros para o
atendimento das pessoas portadoras de deficiência‖, cujas verbas foram destinadas a uma
instituição privada sem especificação.

Passando ao segundo mandato, a mesma Tabela XV mostra que é o único em que o


setor da Saúde, embora continue sendo muito relevante, não lidera, sendo superado pelo setor
Fazenda e Desenvolvimento/Turismo. Um pouco atrás estão o setor de Planejamento e
Desenvolvimento e, novamente, o de Educação, Cultura, Esporte e Ciência e Tecnologia.
Além de nesse mandato a quantidade de emendas mais que duplicar, amplia-se o montante
dos recursos mobilizados, de 17 para 43 milhões de reais, um incremento que pode estar
vinculado à maior experiência do deputado e ao seu maior poder de articulação nacional,
decorrente de ter, em 2008, se tornado o líder do DEM na Câmara dos Deputados.
P á g i n a | 156

O setor líder nesse mandato deve essa posição a emendas especificamente voltadas
ao turismo (22,2%): apoio de infraestrutura turística nos municípios de Conceição de Feira,
Irará, Itabela, Santo Antônio de Jesus, Água Fria, Aporá, Inhambupe e Quijingue e para a
promoção de eventos de divulgação de turismo interno em Candido Sales, Inhambupe, Santo
Antônio de Jesus e Sátiro Dias, além de outros municípios não especificados da Bahia. É
interessante notar que esses municípios não têm uma tradição turística no Estado.

No setor de saúde (21,1%), mantém-se o padrão do mandato anterior: emendas


direcionadas a municípios e a entidades da sociedade civil. No que se refere às emendas aos
municípios, destacam-se aquelas que destinavam verbas à construção de hospitais municipais
(sem especificação do município), à atenção básica (em Salvador e Brejolândia) e a melhorias
sanitárias domiciliares em Ibititá e em outros municípios não especificados. Neste mandato,
foram também contempladas inúmeras entidades que prestam serviços de saúde, em geral
localizadas em Salvador, como os hospitais Martagão Gesteira, Santa Izabel e São Rafael,
Hospital da Cidade, Obras Sociais Irmã Dulce – Hospital Santo Antônio, o Núcleo de Apoio
à Criança com Paralisia Cerebral, o Instituto Sócrates Guanais, a Associação Pioneiras
Sociais – Hospital Sarah e a APAE, propondo também uma emenda para beneficiar o Instituto
Zerbine – INCOR, em São Paulo. A extensão da lista e mais do que ela, a relevância das
instituições comtempladas são uma medida do novo patamar de articulação social alcançado
por ACM Neto nesse segundo mandato.

Na área de planejamento e desenvolvimento urbano (16,7%) destacaram-se emendas


voltadas à melhoria da infraestrutura urbana, calçamento e pavimentação em municípios do
Estado; habitação social em São Miguel das Matas; desenvolvimento urbano em Salvador,
Itabuna, São Desidério, Barrocas, Caculé e Ubatã. Houve ainda uma emenda para obras
preventivas de desastres em Salvador, provavelmente relacionada à contenção de encostas.

No setor de Educação, Cultura, Esporte, Ciência e Tecnologia (15,6%) novamente as


emendas voltadas para a área do esporte foram as mais frequentes, como a construção do
complexo esportivo de Rio do Antônio, infraestrutura de lazer e esporte em Ibititá, reforma de
campo de futebol em Vitória da Conquista, construção de quadra poliesportiva em Alagoinhas
e Jeremoabo, reforma da praça pública de São Felipe, além de verbas para a construção de
áreas de lazer em municípios diversos. Entre todas, destaca-se uma emenda para a construção
da Praça da Juventude em Salvador, obra do Ministério dos Esportes, que o deputado utilizou
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em discursos de campanha para prefeito desta cidade em 2012. Nesse grupo, houve ainda uma
emenda para a construção da Biblioteca Pública Maria Feijó em Alagoinhas e de uma creche
em Muniz Ferreira. Por fim, também estavam presentes emendas voltadas para a construção
de centros de inclusão digital para a ―população carente‖ em municípios não especificados.

Ao setor de Trabalho, Previdência e Assistência Social (14,5%) novamente


direcionou emendas a entidades privadas da sociedade civil, como é o caso da ONG Via
Láctea em Camaçari, PAI – Programa de Assistência à Adolescência e Infância, ACID –
Associação Conquistense de Integração do Deficiente em Vitória da Conquista, AIAM –
Associação dos Ilheenses de Assistência a Menores em Ilhéus, ABRE – Associação Bahiana
de Recuperação do Excepcional, Associação de Promoção e Apoio Integral ao Indivíduo –
Ebenezer em Salvador, ION – Instituto de Organização Neurológico da Bahia e APADA –
Associação de Pais e Amigos dos Deficientes Auditivos em Salvador. Assim como no setor da
Saúde, verifica-se no da Assistência Social uma ampliação relevante do raio de ação de ACM
Neto.

Em Integração Nacional e Meio Ambiente (4,4%) houve emendas para a construção


de uma adutora em Jaguaripe e de estradas vicinais em Ibititá. Em Agricultura e
Desenvolvimento Agrário (3,3%), destacam-se desde uma emenda para a compra de um
simples trator para uma associação de um povoado de Vitória da Conquista, até uma destinada
a apoiar um projeto para o setor agropecuário em Quijingue, passando pela reforma do
Mercado de produtos agropecuários de Alagoinhas. Por fim, em Justiça e Defesa/Segurança
Pública (2,2%), uma emenda destinou recursos para a construção da subseção de Justiça em
Guanambi e a outra para o aparelhamento, equipamento e compra de materiais diversos para a
guarda municipal de Salvador. Essa emenda, especificamente, foi apresentada para o
orçamento de 2011, quando o DEM, após obter boa votação nas eleições de 2008, integrou a
Prefeitura de Salvador, por conta de uma aliança com o PMDB no 2º turno daquelas eleições.

Já no terceiro mandato, interrompido, como se sabe, para assumir o cargo de Prefeito


de Salvador, ACM Neto apresentou um número menor de emendas totais, a uma média anual
maior que a do primeiro mandato, mas bem menor que a do segundo. Quanto ao montante de
recursos, porém - que no total chegou a 15 milhões de reais - várias emendas do terceiro
mandato foram, isoladamente, superiores às dos demais anos. Esse dado mostra que deputado
seguiu adquirindo expertise e emprestando crescente relevância s suas iniciativas nessa área,
P á g i n a | 158

mas não deixa de revelar, por outro lado, a bem menor intensidade de sua atividade
parlamentar nesse mandato, se comparada à do mandato anterior. Ocorre, portanto, com a
apresentação de emendas ao orçamento o mesmo que já havia sido constatado, na seção
anterior, quanto às suas atividades de plenário.

No que se refere aos setores, retorna a liderança ao da Saúde (25,6%), seguida pelo
Turismo (19,9%) e pelo setor Educação, Cultura, Esporte, Ciência e Tecnologia (18%),
notadamente o subsetor de Esporte com a apresentação de emendas semelhantes às anteriores,
nessas e nas demais áreas, em todas se verificando uma grande constância dos beneficiários.
Isso aponta para a consistência e sustentabilidade das relações do Deputado, supostamente
levando à estabilidade dos apoios eleitorais a nível geográfico e em termos de segmentos
sociais. As Emendas permanecem, em geral, sem especificação dos municípios destinatários,
com exceção da infraestrutura de Esporte e Lazer em Livramento de Nossa Senhora e
Valença, recuperação de estradas vicinais em Igaporã, infraestrutura turística em Entre Rios e
Conde, além de recursos para a construção do edifício da sede da subseção judiciária de
Barreiras. Na saúde, para além das entidades sem fins lucrativos pontuadas anteriormente,
quase todas conservadas, somam-se a Liga Baiana contra o Câncer – Hospital Aristides
Maltez e o GACC – Grupo de Apoio à Criança com Câncer. Nesse mandato, houve ainda
emenda específica para o Ana Nery, que é um hospital público de Salvador e para atenção
básica à saúde no município de Brejolândia. Na área da Assistência Social (19,6%), novas
instituições foram também beneficiadas, incorporando-se à lista. Foram os casos do CEIFAR
– Centro de Integração Familiar, EVOLUÇÃO; da Associação de Pais e Amigos das
Crianças e Adolescentes com Distúrbios de Comportamento e do Instituto de Cegos, todos em
Salvador. Mais uma vez sobressaiu o caráter cumulativo dessa rede de beneficiários e virtuais
apoiadores.

Para encerrar esse relato mais pormenorizado das Emendas por mandato, cujo
objetivo foi qualificar a informação quantitativa proporcionada pela Tabela XV, vale tratar
com especial atenção as Emendas apresentadas por ACM Neto, em 2012, seu último ano de
mandato, com respeito ao Orçamento para 2013. Como o sistema foi disponibilizado aos
deputados para apresentação de Emendas a partir do dia 20 de novembro, ACM Neto já
propôs as suas depois de eleito prefeito de Salvador. Há nisso certamente uma relação com o
fato de 11.9 dos 15 milhões de reais a que montaram as Emendas nesse terceiro mandato
terem sido destinados a Salvador, em boa parte nesse último ano. As destinações variaram
P á g i n a | 159

desde o aparelhamento da guarda municipal, para a atenção básica à saúde, a infraestrutura


esportiva (Praça da Juventude), à construção de duas creches, à infraestrutura turística e à
melhoria do fluxo de transporte.

À guisa de uma conclusão preliminar sobre esta análise temática (já que a relação
com o seu perfil eleitoral será feita mais adiante), é possível identificar alguns padrões
setoriais interessantes no que se refere às emendas apresentadas por ACM Neto. Pode-se dizer
que, em geral, elas se configuraram, de um lado, em torno da área ―social‖ (saúde, habitação e
assistência social), e do outro, em relação a obras (construção de praças e equipamentos
esportivos, pavimentação, contenção de encostas, corredores de transporte urbano, adutoras e
infraestrutura turística), duas áreas sensíveis eleitoralmente. Muitas dessas obras foram
destinadas a grandes cidades que, como observado, se tornaram importantes para votação de
ACM Neto a partir de 2006. Esta questão das obras é relevante porque a política carlista
sempre utilizou em seus discursos a ênfase na sua competência para realizá-las.

No que tange a áreas específicas, ainda que a Saúde tenha sido a mais contemplada,
as emendas em grande parte foram direcionadas a instituições sem fins lucrativos que prestam
serviços ao SUS. É interessante notar que não foram destinadas a hospitais públicos
administrados pelo Estado da Bahia, que durante a maior parte deste período foi governado
pelo PT. Também importa destacar que a maior parte das instituições tem sede em Salvador,
onde o deputado tornou-se prefeito. Da mesma forma que nas emendas para a Assistência
Social, aqui elas são fundamentalmente direcionadas a instituições filantrópicas, que atendem
a grupos específicos, virtuais fontes de apoio na sociedade civil, ademais de eleitores.

Ao lado da Saúde, destaca-se, entre as áreas destinatárias de Emendas, a forte


presença da do Turismo, que talvez se relacione, em parte, à ênfase que lhe foi dada, pelo
carlismo, como estratégia para o desenvolvimento da Bahia, desde a década de 1990. No
entanto, muito mais que a isso é preciso ligar esse fato ao de que, a partir de 2009, a empresa
municipal de turismo de Salvador passou a ser gerida por um quadro do DEM, indicado por
ACM Neto em razão do acordo celebrado para apoiar a reeleição do prefeito João Henrique
no ano anterior. Justamente no segundo mandato de Neto esse setor passou a ser relevante na
proposição de emendas ao Orçamento. Fortalece esse argumento o fato de que nas LOAs de
2009 a 2012, embora todas as outras emendas destinadas ao setor de turismo tenham indicado
o município de destino, é curioso notar que em seis emendas, não por acaso as de maior valor,
P á g i n a | 160

não houve essa identificação. Estas emendas somaram um montante de 7 milhões e 600 mil
para esse setor e contemplaram a capital e mais importante destino turístico do estado,
Salvador. Fica assim demonstrada uma estreita conexão entre a atividade parlamentar do
deputado e a busca de fortalecimento do seu grupo político na Bahia, situação ainda mais
clara considerando que o gestor em questão, hoje vereador da base do prefeito ACM Neto na
Câmara de Salvador, é filho do falecido deputado Eraldo Tinoco, o secretário da Educação de
quem Neto foi assessor durante os primeiros passos de sua carreira política e de quem herdou,
como visto no capítulo 2, boa parte do espólio eleitoral. Então, retribuição ao passado e
investimento político para o futuro combinaram-se, estrategicamente, para incluir o turismo
entre as prioridades do Deputado ACM Neto ao propor suas Emendas.

Por fim, cabe frisar a baixa prioridade concedida por ACM Neto à área da Educação
na proposição de emendas ao orçamento. Como já dito, o peso forte que tem o setor de
execução que essa área comanda não se deve a emendas a ela dirigidas e sim, principalmente,
à área de esportes. Trata-se de flagrante incoerência com o fato da Educação ter sido crucial
na primeira eleição de ACM Neto, pelo trabalho político realizado por ele, como assessor da
secretaria estadual respectiva. Sem poder oferecer uma explicação para o fato, cabe, no
entanto, registrar, talvez como exceção, essa desconexão pontual entre as arenas eleitoral e
parlamentar, na estratégia política de ACM Neto.

Concluído o detalhamento qualitativo das emendas passa-se agora, no próximo


tópico desta seção, a relacionar, como previsto, os municípios a que se destinam essas
emendas ao perfil geográfico das votações de ACM Neto.

3.2.1 Perfil geográfico da votação e proposição de Emendas Orçamentárias

As análises desse tópico têm um caráter aproximativo, na medida em que a maior


parte das emendas apresentadas por ACM Neto ao longo dos seus mandatos não indica
explicitamente os municípios aos quais as verbas são destinadas, especialmente no primeiro
mandato. Após a leitura detalhada das 156 emendas foi possível, muitas vezes por associação
de informações, identificá-los (ou a região, como no caso da CODEVASF já citado) em 90
delas. Logo, ficaram sem análise sobre destinação 66 emendas.
P á g i n a | 161

No primeiro mandato (2003-2006) só foram encontradas oito emendas direcionadas a


municípios específicos: 5 para Salvador e, para Vitória da Conquista, Itabuna e Camaçari uma
emenda cada. Como já analisado no capítulo 2, esses três importantes municípios não
compuseram a base eleitoral de ACM Neto em 2002, mas se tornaram parte dela a partir de
2006. Esse indicador sugere que as emendas podem ter contribuído na conquista de novas
bases eleitorais. No entanto, houve ainda dez novos municípios ―conquistados‖ nessas
eleições em relação aos quais não foi possível identificar emendas. Comparando-se todas as
eleições, é nesse período que ACM Neto mais conquista novas bases. Como o seu grupo
político ainda era situação no âmbito estadual, essas novas bases podem ter sido alcançadas
pela influência desse grupo, através da capitalização política da gestão de recursos postos à
disposição pelo Poder Executivo, sem descartar ainda a possibilidade da presença de voto de
opinião em alguns desses municípios, devido ao seu porte, embora as evidências, também
discutidas no capítulo 2, sejam de que esse tipo de voto se tornou mais relevante para ACM
Neto a partir do momento em que ele passou à oposição estadual.

Ainda no primeiro mandato houve, a cada ano, uma emenda referente a infraestrutura
hídrica, a ser executada pela CODEVASF, no Vale do São Francisco. Não é possível dizer
para qual, ou quais, municípios se direcionou, mas vale ressaltar que o de Sento Sé faz parte
da Mesorregião do Vale São-Franciscano da Bahia e compôs o grupo seleto dos que mais
contribuíram para a votação de ACM Neto em 2002, nele permanecendo em 2006.

No segundo mandato (2007-2010) foi bem mais frequente as emendas indicarem


especificamente os municípios destinatários, o que permite uma análise mais consistente.

A Tabela XVI associa 43 das 59 emendas do segundo mandato de ACM Neto cuja
destinação municipal pôde ser identificada, com o perfil geográfico da sua votação na eleição
seguinte (2010), organizando os dados a partir de três situações ―típicas‖: A) a de municípios
que integravam o grupo de concentração (mais de 1% da votação de ACM Neto) em 2006 e
não mais em 2010; B) a dos que integravam o grupo de concentração em 2006 e nele
permanecem em 2010; C) a dos que passam a integrar o grupo de concentração só em 2010
ou que o integravam em 2002 e retornam em 2010, depois de terem ficado de fora em 2006.
Ficam fora da Tabela XVI, para posterior análise em separado, as 16 emendas cuja
destinação foi municípios não integrantes do grupo de concentração da votação de ACM
Neto.
P á g i n a | 162

Quanto aos municípios que se encontram na situação A, busca-se evidenciar, dentre


eles, casos em que uma emenda ―recompensa‖ a base eleitoral sem garantir a conservação do
peso relativo dessa base na eleição seguinte; com relação a municípios da situação B busca-se
evidências de ―recompensa eficaz‖, isto é, casos de bases eleitorais cujo peso relativo na
votação do deputado é conservado com a ajuda de uma emenda ao orçamento; e entre os
municípios da situação C discute-se a possibilidade de que uma emenda ajude na ―conquista‖
de uma nova base eleitoral ou, no mínimo, a elevar o peso relativo de uma base pré existente
em níveis que a façam ingressar no seleto grupo em que se concentra a votação do deputado.

Tabela XVI - Distribuição de Emendas ao Orçamento propostas por ACM Neto (2007-
2010) pelos municípios onde se concentrou sua votação em 2006 e em 2010

SITUAÇÃO A SITUAÇÃO B SITUAÇÃO C


Municípios do Emendas Municípios do Emendas Municípios do
Emendas
Grupo de (2007- Grupo de (2007- Grupo de
(2007-2010)
concentração só 2010) concentração 2010) concentração
em 2006 em 2006 e 2010 só em 2010

BRUMADO ALAGOINHAS 3 BARROCAS 1


C. DAS
SENTO SÉ IRARÁ 1
ALMAS
TUCANO CACULÉ 1 L. FREITAS
QUINJINGUE 3 CAMAÇARI 1 S. DESIDÉRIO 1
ITABELA 1 F. SANTANA
MARACÁS ILHÉUS 1
JEREMOABO 1 ITABUNA 2
ESPLANADA POJUCA
INHAMBUPE 2 SALVADOR 18
Sto. ANT.
MACAÚBAS 2
JESUS
V.
5
CONQUISTA
P á g i n a | 163

10 07 11 33 04 03
Fonte: Elaboração Própria. Dados Tribunal Superior Eleitoral, 2013/Câmara dos
Deputados, 2013

Vê-se pela tabela que quatro dos dez municípios que estão na Situação A, Quijingue,
Itabela, Jeremoabo e Inhampube, foram contemplados por emendas, no mandato de 2007-
2010 de ACM Neto. A ausência desses municípios (assim como dos outros seis que se
colocavam da situação A) no grupo em que se concentrou a votação do deputado em 2010 não
necessariamente significa que essas bases eleitorais foram perdidas nem sequer que neles
houve retração da votação de Neto. Pode ser que não tenham entrado no grupo em virtude do
ponto de corte determinado pelo recorte metodológico, mas podem ter ficado próximos desse
ponto. Porém, é possível afirmar que independentemente da sua eficácia como contribuição
eleitoral, as emendas propostas mostram uma correlação explícita entre a arena eleitoral e a
parlamentar, no sentido de serem elas uma recompensa do mandato ao apoio recebido nas
eleições. E como dos quatro municípios contemplados com emendas, apenas Itabela não fazia
parte do grupo de concentração da votação de ACM Neto desde 2002, pode-se dizer que pelo
menos nos casos de Quinjingue, Jeremoabo e Inhampube, a recompensa destinou-se a
manutenção de bases eleitorais tradicionais do carlismo, herdadas pelo deputado antes mesmo
de iniciar sua trajetória eleitoral. Quinjingue, apesar de seu eleitorado (à época com menos de
20 mil eleitores) não estar entre os cem maiores do Estado, foi contemplado com três emendas
específicas e Inhambupe (com eleitorado um pouco acima dos 20 mil) com duas. São, por
isso, municípios emblemáticos de reduto carlista tradicional recompensado de modo
privilegiado pelo mandato de Neto. A eficácia eleitoral desse tratamento é discutível, já que
além dos dois municípios deixarem de estar no grupo de concentração da votação do deputado
em 2010, já nas eleições municipais de 2008 ambos passaram a ser dirigidos por prefeitos
petistas. Mas mesmo discutindo a eficácia eleitoral das emendas, é razoável não duvidar de
que essa parte do espólio da tradição carlista foi estrategicamente valorizada por ACM Neto.

Recompensas eficazes para manutenção de bases eleitorais podem ser mais


facilmente evidenciadas em casos de municípios da Situação B. Conforme a Tabela XVI,
esses municípios, que se mantiveram no grupo de concentração da votação tanto em 2006
como em 2010, foram, em seu conjunto, também os mais contemplados com emendas. O caso
de Salvador é um ponto fora da curva porque à capital se dirigiu mais da metade das emendas
que contemplam esse grupo. Mas além de Salvador, há a presença nessa situação de alguns
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dos maiores municípios do estado, como Vitória da Conquista (com 5 emendas), Itabuna
(duas emendas) e Camaçari. Só que os três, assim como a capital, recebiam emendas desde o
primeiro mandato (2003-2006), mas só passaram a integrar o grupo de concentração (que a
capital já integrava) na eleição de 2006. Portanto, em vez de ilustrarem o uso eleitoralmente
eficaz de emendas, são prováveis casos em que emendas foram usadas, não no segundo, que
ora se enfoca, mas já no primeiro mandato, para ajudar na conquista de novas bases eleitorais.

Mas outros grandes municípios também situados em B receberam emenda pela


primeira vez. É o caso de Ilhéus, que, no entanto, já integrava o grupo de concentração de
votação de ACM Neto em 2006, mesmo sem ter sido contemplado no primeiro mandato.
Casos também de Alagoinhas e Santo Antônio de Jesus, cuja presença no grupo é ainda mais
antiga, reportando-se à primeira eleição de Neto, em 2002. Logo, fazem parte (assim como
aqueles três municípios de A, antes citados) do espólio da tradição carlista, cuja estabilidade,
como base eleitoral de ACM Neto, as evidências mostram que, no caso desses municípios,
não depende de emendas ao orçamento. Mas é razoável incluir Alagoinhas e Santo Antônio de
Jesus entre os exemplos de bases eleitorais da tradição carlista (em eleições para a Câmara),
que são valorizadas pelo mandato de Neto. Diferentemente de Quinjingue, Inhambupe, ou
Jeremoabo, elas não podem, pelo seu porte maior, ser qualificadas como ―redutos‖. Mas a sua
manutenção no grupo de concentração de votos do deputado em 2010 indica que houve,
nesses dois municípios maiores – assim como em Ilhéus - mais eficácia eleitoral (das emendas
e/ou do voto de opinião) do que naqueles casos passíveis de qualificação como ―redutos‖.

É possível dizer, com isso, que a apresentação de emendas ao orçamento, por se


constituir em momento privilegiado de exercício da política, foi, no segundo mandato de
ACM Neto, uma importante tática eleitoral, no âmbito de sua estratégia política, sobretudo
porque o deputado se encontrava na situação de oposição na esfera estadual e, por isso,
precisava centrar mais esforços para manter as antigas bases eleitorais e para conquistar
novas. Mas se municípios do porte de Feira de Santana (segunda cidade da Bahia e a maior do
interior do Estado), e outros de porte médio, como Cruz das Almas e Pojuca, mantiveram-se
no grupo de concentração em 2010, mesmo não tendo sido contemplados com emendas,
como mostra a tabela, pode-se dizer, por outro lado, que a conservação e ampliação das bases
eleitorais de ACM Neto nas eleições daquele ano têm a ver com sua visibilidade oposicionista
e também com a tradição carlista enquanto símbolo, mais do que enquanto espólio eleitoral.
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Ambos os fatores relativizam a importância de emendas como recompensas eleitoralmente


eficazes às bases do deputado e permitem vê-lo como um receptor de ―votos de opinião‖.

Por fim pode-se observar, na mesma Tabela XVI, que dos quatro municípios
alocados em C por terem ingressado, só em 2010, no grupo no qual se concentrava a votação
de ACM Neto, três (São Desidério, Barrocas e Irará) foram contemplados por emendas no
período imediatamente anterior, de 2007 a 2010. Mas é importante considerar que os dois
primeiros citados eram, já em 2002, ano da primeira eleição de Neto, redutos eleitorais
integrantes do grupo de concentração de sua votação. Por algum motivo (talvez também de
recorte metodológico) deixaram de entrar no grupo de concentração em 2006, mas de todo o
modo, por não serem estreantes nesse seleto grupo, não se pode considerá-los, a rigor, como
novas bases eleitorais conquistadas por emendas, sendo mais razoável tratar seus casos
também como manutenção de bases tradicionais carlistas. Irará, sim, pode ser visto como uma
nova base, caso típico da situação C. Quanto a Lauro de Freitas, também alocado na tabela na
situação C, parece ficar, seja por seu porte (é um dos 15 maiores municípios da Bahia) ou por
não ter sido contemplado com emenda - como mais um caso ―suspeito‖ de voto de opinião.

Para resumir as considerações sobre as três situações típicas pode-se, após a análise
qualitativa, fazer alguns complementos ao que a Tabela XVI mostra diretamente. Dos 25
municípios que estiveram nos grupos de concentração de votação de ACM Neto em suas duas
últimas eleições para Deputado Federal (2006 e 2010) e que por isso aparecem na tabela, 11
faziam parte também do grupo de 21 municípios nos quais se concentrou a votação de Neto
na sua primeira eleição, em 2002. Então, pode-se dizer, grosso modo, que mais de 50%, pelo
menos, das bases de concentração de sua votação herdadas do carlismo, foram conservadas
nessa condição de bases de concentração. Dizendo o mesmo pelo caminho inverso: no
máximo, a metade das bases originais de concentração deixou essa condição, após o exercício
de dois mandatos. Então, dos 25 municípios que constam da tabela XVI, 11 (pouco mais da
metade do grupo de concentração de 2002) expressam a tradição eleitoral do carlismo para
deputado federal e os outros 14 não a expressam. É esse o patamar inicial de raciocínio que a
análise feita no capitulo 2 desse trabalho transmite à discussão que virá a seguir.

Dos 25 municípios integrantes da tabela, 15 receberam pelo menos uma das 43


emendas específicas a eles dirigidas. Como a capital foi o destino isolado de 18 dessas
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emendas, será considerada à parte. Excluída, nesse momento da análise, assim como suas
emendas, tem-se que 14 municípios dividiram a destinação de 25 emendas.

Desses 14 contemplados, oito podem ser considerados bases eleitorais da tradição


carlista em eleições para Deputado Federal. O critério para esse enquadramento é terem
pertencido ao grupo de municípios que, como discutido no capítulo 2, concentrou a votação
de ACM Neto em 2002, a primeira eleição, na qual, por suposto, recebeu do grupo essas bases
como ―dote‖ para trabalhar e alavancar sua carreira. Esse dado é desde logo um indicativo de
sintonia entre a tradição carlista e a estratégia política de ACM Neto.

Cinco dessas oito bases municipais acima aludidas podem, pelo porte (de médio a
pequeno) do seu eleitorado e por sua história eleitoral, ser consideradas não apenas bases, mas
―redutos‖ carlistas tradicionais, em eleições para Deputado Federal. São eles: Quinjingue,
Inhambupe, Jeremoabo, Barrocas e São Desidério. As outras três (Ilhéus, Alagoinhas e Santo
Antonio de Jesus), sendo municípios maiores, constituem o espólio inicial herdado por Neto
já em outra condição, isto é, também como locais de incidência provável de voto de opinião.
Daí resulta que a sintonia entre tradição carlista e estratégia do ator, acima apontada ao se
constatar a proposição de emendas como recompensa por apoio eleitoral, desdobra-se em
diversas modalidades de discurso e ação política, não só as voltadas à conservação de redutos.

O êxito eleitoral de cada uma dessas modalidades é discussão à parte. Os oito


municípios vinculados à tradição carlista e contemplados por emendas estão alocados nas três
diferentes situações consideradas na Tabela. É sugestivo que os três maiores municípios
estejam na situação B (na qual é provável que tenha havido eficácia eleitoral das emendas) e
os cinco supostos como redutos se distribuam nas outras duas situações. Se Barrocas e São
Desidério estão em C porque podem ter tido sua relevância recuperada como redutos em 2010
com a ajuda de emendas no segundo mandato de Neto, sobre Quinjingue e Inhambupe,
certamente e, de algum modo, sobre Jeremoabo também, há, como já visto, evidências de que
ocorreu o contrário. Em resumo, a partir da proposição de emendas ao orçamento, os sinais de
sintonia da estratégia de ACM Neto com a tradição carlista são muitos, mas há indicações de
que a eficácia eleitoral da estratégia foi maior onde se requer modalidades de ação e discurso
mais próprias de atores políticos que conservam/conquistam bases buscando votos de opinião.
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Essa discussão sobre eficácia eleitoral é lateral, não se incluindo no foco principal do
presente trabalho, ao qual basta evidenciar aproximações e afastamentos da estratégia política
de ACM Neto em relação ao que aqui está sendo chamado de tradição carlista. Conforme o
que até aqui foi discutido, no que diz respeito a conexões entre perfil geográfico do voto e
proposição de emendas ao orçamento, as evidências têm sido mais de aproximações.

Isso se vê também olhando para os dez municípios que estiveram nos grupos de
concentração da votação de ACM Neto em 2006 e/ou 2010 e não receberam emendas
orçamentárias no mandato exercido entre essas duas eleições. Ao contrario do ocorrido com
aqueles quinze municípios desses seletos grupos que foram contemplados com emendas,
desses dez não contemplados apenas dois (Brumado e Sento Sé) figuravam no grupo de
concentração de 2002, marco zero da trajetória de ACM Neto. Em resumo, dentre os
municípios em que se concentram as votações de ACM Neto em 2006 e 2010, os
eleitoralmente vinculados à tradição carlista são dois terços (se se inclui Salvador) ou ao
menos a maioria entre os contemplados com emendas e são só 20% dos não contemplados.

Demonstra-se, por caminhos inversos, a valorização do espólio carlista na política de


ACM Neto ao propor emendas ao orçamento da União destinadas a municípios da Bahia. E se
supera, pela análise qualitativa, a expectativa de ―metade tradição, metade não‖, do patamar
de raciocínio inicial da análise quantitativa, quando se observava os 25 municípios da Tabela
XVI sob o critério de pertencerem, ou não, ao grupo de concentração da votação de 2002.

Para encerrar esse ponto de discussão é preciso dizer algo sobre os 14 municípios
incluídos nos grupos de concentração da votação de ACM Neto que não podem ser
considerados, pelo critério da discussão do capítulo 2, como bases tradicionais do carlismo em
eleições para Deputado Federal, por não terem integrado o grupo de 21 municípios em que se
concentrou a votação de Neto em 2002. Dos 14 apenas 6 receberam Emendas durante o
mandato iniciado em 2007: Vitória da Conquista, Itabuna, Camaçari, Caculé, Itabela e Irará.
Os quatro primeiros estão na situação B, isto é, firmaram-se, depois das emendas, no grupo de
concentração de 2010. Com Itabela ocorreu o oposto, daí sua alocação na situação A e Irará,
na situação C (ingressa no grupo de concentração apenas em 2010) é, como já dito, o único
entre os 25 municípios analisados que pode ser com certeza considerado um caso de conquista
de nova base eleitoral com provável ajuda de emenda ao orçamento.
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Os 8 municípios restantes - dentre os 14 da tabela sem vinculo expresso com o que


aqui é chamado de tradição carlista em eleições a deputado federal - não foram contemplados
com emendas. Quatro deles (Esplanada, Macaúbas, Maracás e Tucano) estão na situação A
mas não se pode ir além das cogitação de que sua não contemplação do emendas seja motivo
relevante para terem deixado o grupo de concentração na votação de ACM Neto em 2010. Na
situação B estão Feira de Santana, Cruz das Almas e Pojuca e na C, Lauro de Freitas, todos
eles municípios de porte médio ou grande. Por estarem presentes no grupo de concentração de
votação em 2010 sem terem sido contemplados com emendas, já foram qualificados como
novas bases (os três primeiros desde 2006, Lauro em 2010), assim como Irará, mas colocados
(ao contrário de Irará), como ―suspeitos‖ de serem sedes de votos de opinião para ACM Neto.

Como ponto de análise final desta seção, serão abordadas agora as 16 emendas
destinadas, durante o mandato de 2007 a 2010, a municípios que não fizeram parte do grupo
dos que contribuíram com mais de 1% para a votação de ACM Neto em qualquer das três
eleições. Se os achados para as 43 emendas voltadas a municípios de concentração de votação
já problematizaram, como se acabou de ver, uma relação direta entre apresentação de
emendas orçamentárias e manutenção/conquista de novas bases eleitorais, a existência dessas
outras 16 emendas já de saída contesta essa lógica relação de causa e efeito, ao menos para o
caso da hipótese de que sirvam à manutenção de bases.

O que se expõe na Tabela XVII, a seguir, é importante porque, ainda que na análise
do perfil eleitoral realizada no capítulo 2 tenha sido levantada a hipótese de que na eleição de
2010, em função da sua condição de oposição estadual, o deputado tenha concentrando seus
esforços em municípios maiores e que isso tenha se mostrado também na análise da tabela
anterior, continua fazendo parte de suas estratégias o foco também em pequenos municípios
do Estado, corroborando achados sobre uma face de dispersão do seu perfil eleitoral. São
desse tipo quase todos os municípios destinatários das 16 emendas, integrantes da Tabela
XVII.

Tabela XVII – Emendas Orçamentárias (2007-2010) e Municípios que não contribuíram


com mais de 1% para a votação de ACM Neto em 2002, 2006 e 2010
Municípios Emendas
Ibititá 3
Jaguaripe 1
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São Miguel das Matas 1


Rio do Antônio 1
Muniz Ferreira 1
Água Fria 1
Aporá 1
Guanambi 1
Cândido Sales 1
Satiro Dias 1
São Felipe 1
Ubatã 1
Brejolândia 1
Conceição de Feira 1
TOTAL 16
Fonte: Elaboração Própria. Dados Tribunal Superior Eleitoral, 2013/Câmara dos Deputados, 2013

No que tange ao tempo de exercício do terceiro mandato (2011-2012), não cabe


analisar se ACM Neto utilizou emendas para conservar ou conquistar novas bases municipais,
pois sua estratégia nesse período não se voltou para a reeleição à Câmara e sim para sua
eleição à Prefeitura de Salvador. Com esse objetivo ACM Neto soube mobilizar as emendas.

Entre os anos de 2011 e 2012, o deputado apresentou 26 emendas ao orçamento, no


total de R$ 15 milhões. Dessas, 12 foram direcionadas ao município de Salvador (no valor de
R$ 11.9 milhões – 80% dos recursos), especialmente voltadas para o primeiro ano do seu
mandato como prefeito. Conforme será analisado no próximo capítulo, várias dessas emendas
foram utilizadas em seus discursos como candidato. No último mandato, assim como no
primeiro, poucas emendas especificaram o município para o qual a verba seria destinada.
Nenhuma das emendas apresentadas direcionou-se a municípios que compuseram o grupo dos
que mais contribuíram para sua votação entre 2002 e 2010, com exceção de Barreiras e
Salvador. Outras emendas foram destinadas aos seguintes municípios: Brejolândia, Barreiras,
Igaporã, Livramento de Nossa Senhora, Valença, Conde e Entre Rios.

Ao cabo da análise procedida nessa seção, pode-se dizer que a estratégia política de
ACM Neto, no que se refere à apresentação de emendas ao orçamento, mobilizou de maneira
muito clara atenção aos municípios que fazem parte de sua base eleitoral, para além da busca
de aquisição de novos. Nesse sentido, como aponta Bezerra (2001), a obtenção de recursos e
benefícios para as localidades que representam é considerada pelas lideranças locais como
uma das atribuições essenciais dos parlamentares. Parte da força do parlamentar em relação
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aos prefeitos, nesse aspecto, reside na possibilidade de propiciar vínculos dos prefeitos aos
recursos e às autoridades governamentais. Os parlamentares, assim, são concebidos como um
―elo‖ de ligação com os governos estadual e federal. Nesse aspecto afirma o autor:

As solicitações de verbas dirigidas aos parlamentares são geralmente designadas como


―pleitos‖. Para encaminhar seus ―pleitos‖, os prefeitos procuram, preferencialmente, os
parlamentares tidos como mais comprometidos com os municípios: ―deputados amigos‖,
―deputados que têm contato‖, deputados com ―compromisso maior, um maior número de
votos do município‖, ―deputados que foram eleitos aqui com a participação do nosso
município‖. [...] É junto a esses que os prefeitos têm maior força, devido aos laços do
parlamentar com as redes políticas locais e a votação. (BEZERRA, 2001, p. 192)

Em suma, o poder do deputado estaria fundado não só no reconhecimento pelos


líderes locais e pelo eleitorado de sua capacidade de atuar para assegurar recursos às
localidades e seus habitantes, mas também na função mediadora de demandas locais e
interesses relacionados às suas redes. Assim, a partir dessa compreensão é possível entender
de forma bem visível as ações de ACM Neto frente à busca de recursos para determinados
municípios através da apresentação de emendas ao orçamento. Está claro que se constituem
estratégias que buscam cultivar seus laços e vínculos políticos, bem como garantir seu sucesso
eleitoral.
Mas no cotejamento disso tudo com o perfil geográfico do seu voto, limitações
metodológicas já indicadas não permitem afirmar que seu padrão de votação está refletido de
modo relevante no mandato, por intermédio das emendas. De fato, o deputado, pelo seu
pertencimento a uma facção tradicional da elite estadual, assim como pela sua destacada
atuação no legislativo federal através da defesa de um conjunto de posicionamentos, mobiliza
uma série de motivações de voto. Elas podem estar relacionadas ao atendimento de bases ou
mesmo de clientelas eleitorais, mas por outro lado também à força da tradição, do carisma
pessoal ou de um discurso político que expresse um determinado campo de alianças, estadual
ou nacional. Tudo isso pode gerar, ao lado da conservação/renovação de bases e redutos por
meios mais tradicionais, também votos de opinião, mais livres, especialmente nos maiores
municípios, que passam a concentrar parte importante da sua votação a partir de 2006.

3.3. Sentido da estratégia política na Câmara dos Deputados (2003-2012)

O Legislativo no Brasil é caracterizado, por uma parte da literatura da Ciência


Política, conforme discutido na introdução, como uma instituição reativa e frágil, quando
comparada ao poder do Executivo, que controla a agenda política através das medidas
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provisórias e projetos de lei. Em geral, as principais atividades legislativas acabam sendo


apenas de ―cooperação‖ com o Executivo e ficam nas mãos das coalizões da situação, de
modo que ao parlamentar de oposição restam poucas alternativas de atuação. Frente a esse
contexto, é possível questionar que características teve a atuação parlamentar43 de ACM Neto,
se configurou mais próxima a uma conduta reativa e defensiva, mantendo como horizonte
somente a mera sobrevivência na carreira legislativa, ou se esta atuação também pôde ser
conciliada com projetos majoritários a nível subnacional. Transversalmente a essa questão, ou
como plano de fundo analítico, poderia se perguntar em que aspectos essa atuação
parlamentar foi influenciada pelas características da tradição carlista em termos de repertório
simbólico e alianças político-partidárias.

Diante das regras do jogo institucional, na condição de oposição, ACM Neto pautou
suas estratégias produzindo inúmeras críticas à submissão do Legislativo ao Executivo,
principalmente no que se refere ao excesso de medidas provisórias, colocando-se em posição
de negociador, vide o caso do Código Florestal e o da Lei da Copa, utilizando os recursos
disponíveis para um parlamentar de oposição, como os encaminhamentos de votação,
obstrução de voto, etc. Assim, pode-se dizer que nessa condição conseguiu jogar com as
regras, ao buscar reconhecimento e destaque nacional através da participação em CPIs
importantes e do posicionamento enquanto líder de partido. Além disso, buscou apoios em
grupos específicos da sociedade e manejou estrategicamente emendas orçamentárias como
forma de recompensar e conquistar novas bases eleitorais, através da defesa pública dos
interesses de alguns grupos sociais como policiais militares, bombeiros civis, taxistas,
operadores de transporte escolar, deficientes físicos, familiares de beneficiários da
previdência social por invalidez, jovens, para além de um conjunto extenso de entidades de
Assistência Social e Prestadores de Saúde. Exceto os policiais, esses possíveis apoios na
sociedade civil são bastante fragmentados e em alguma medida não representam nenhum
grande grupo de interesse ―clássico‖ da política brasileira.

O resultado das eleições municipais de 2012 em Salvador mostra que essa estratégia,
em seu conjunto, foi condição necessária, embora não suficiente, para lhe permitir alcançar,
conforme será analisado no próximo capítulo, um posto eletivo majoritário, na capital da

43
Parte da sua atuação parlamentar, especialmente o repertório simbólico mobilizado, ficou ilustrada no seu
discurso de despedida da Câmara dos Deputados, quando ACM Neto fez um balanço da sua atuação dos seus dez
anos como deputado federal. Esse discurso está disponibilizado na íntegra no Anexo 1 desse trabalho.
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Bahia. Como pano de fundo da atuação bem-sucedida, ACM Neto mobilizou fortemente
traços da tradição carlista, em termos de repertório simbólico e alianças político-partidárias.

Desde a década de 1990, o carlismo faz parte um campo político conformado


fundamentalmente pelo PFL e o PSDB, que defendeu e liderou um processo de ajuste fiscal,
privatizações e reformas, como a da previdência, em âmbito nacional. ACM Neto situou-se
durante os três mandatos como um quadro desse campo político, de oposição ao governo
federal, ligado ao campo político liderado pelo PT. Percebe-se, nesse sentido, que toda a
atuação parlamentar de ACM Neto esteve fortemente pautada por este papel oposicionista
frente à administração federal, o que de alguma forma produz uma inflexão quanto ao
posicionamento pragmático do carlismo, que tinha como tradição associar-se a grupos
dominantes no plano federal como a melhor forma de se beneficiar na política local.
Paradoxalmente, então, ACM Neto mantém-se próximo da tradição carlista junto ao campo
político liberal mas dela se diferencia quando permanece durante dez anos como oposição ao
Executivo Nacional, sem realizar qualquer movimento de ―adaptação/aproximação‖ ao novo
campo político governista, mas, ao contrário, realizando fortes críticas a ele.

As principais críticas à gestão petista referiram-se à política fiscal, sobretudo em


termos da necessidade de diminuição de tributos, acompanhado assim o discurso político do
carlismo desde a década de 1990. Além disso, em diversos momentos se situa a favor de
questões como as privatizações e a reforma da previdência. Nessa perspectiva foi possível
observar também na atuação de ACM Neto uma forte crítica ao que chama de aparelhamento
da máquina pública, que, em sua análise, a ―incha‖ e onera. Mantém-se, portanto, em seu
discurso uma ênfase típica do carlismo da necessidade de eficiência administrativa.

Em consonância com esse ponto está a defesa sempre presente no repertório carlista
da competência e da autoridade do homem público. Nesse aspecto, ACM Neto pontua muitas
críticas não só à administração pública federal como também à estadual, no caso do
governador Jaques Wagner, pelo que chama de falta de autoridade e competência para
resolver os problemas políticos. Frente a isto, ACM Neto coloca o seu grupo político,
principalmente no primeiro mandato, como exemplo de capacidade de gestão, apresentando-
se também como uma autoridade capaz de resolver os problemas da Bahia. Está presente aqui
uma característica importante do carlismo, uma concepção vertical da política, que cultua de
modo quase absoluto a ―autoridade‖ e a ―competência‖ da elite política governante.
P á g i n a | 173

Outro aspecto muito relevante de sua atuação parlamentar foi a defesa da Bahia e do
desenvolvimento do Nordeste para além da questão ideológica ou partidária, uma
característica fundamental do carlismo, a defesa dos interesses regionais independentemente
de alinhamentos ideológicos, ou a abordagem da Bahia como uma inspiração ideológica.
Interessante nesse aspecto é o seu discurso crítico à gestão petista estadual por não estar
―aproveitando‖ a ―amizade‖ com Lula para conseguir ganhos para a Bahia. A falta de
―competência‖ do governador, acarretando a perda de prestígio da Bahia no cenário nacional.
Nesse contexto, diferentemente do que ocorreu nas eleições majoritárias, conforme se verá
mais adiante, retorna, pelo lado negativo, da crítica, a proximidade com a tese carlista da
aliança política pragmática com as forças ocupantes do governo federal.

Em suma, os achados deste capítulo permitem afirmar que a atuação parlamentar de


ACM Neto esteve, durante os três mandatos analisados, profundamente influenciada pela
tradição carlista, inclusive no alinhamento constante e fiel ao campo político liberal
organizado em torno do PFL e PSDB. Para fazer isso, contudo, ele precisou se consolidar na
condição de oposição e assim ser ―infiel‖ à tradição governista do carlismo. Uma
―infidelidade‖ como contingência da história, não como objetivo político de uma estratégia.
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CAPÍTULO 4

ESTRATÉGIA POLÍTICA DE ACM NETO EM


CAMPANHAS ELEITORAIS (2002-2012)
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Este capítulo dá continuidade à exposição e interpretação da estratégia política de


ACM Neto, agora tendo como foco as campanhas eleitorais de que participou como
candidato, entre 2002 e 2012. Compreende, além das suas três candidaturas a Deputado
Federal (2002, 2006 e 2010), as duas candidaturas e Prefeito de Salvador, em 2008 (quando
ficou em terceiro lugar) e em 2012, quando se elegeu.

Embora também se pretenda apontar elementos que, nessas campanhas, indiquem


uma política de alianças, a abordagem central desse capítulo será a do repertório simbólico de
ACM Neto - mobilizado em seus discursos e declarações de campanha, bem como em peças
publicitárias - para analisá-lo em perspectiva de comparação com o da tradição carlista. O
intuito é analisar: a) a construção de imagem; b) a formulação de um discurso político; c) uma
agenda de decisões que leva a apoios dentro e fora do partido e à definição de políticas de
alianças, apoios e alianças esses que se refletem em prioridades de campanha.

A ideia inicial era a de se ater ao recorte metodológico da trajetória política de ACM


Neto adotado nos capítulos anteriores, isto é, manter o foco nas eleições legislativas de 2002,
2006 e 2010. No entanto, para a inclusão das eleições para prefeito, de 2008 e 2012,
contaram, em primeiro lugar, dificuldades objetivas de acesso a materiais daquelas outras três
campanhas44 e a escassez do noticiário jornalístico sobre elas, problema que costuma afetar as
campanhas de candidatos a eleições proporcionais – mesmo os mais notórios, como é o caso
de ACM Neto – pelo fato delas se realizarem concomitantemente a pleitos majoritários,
detentores de interesse bem maior, por parte da mídia e do eleitorado. Além disso, (ou em
consonância com isso), os materiais das campanhas de ACM Neto à Prefeitura revelaram-se
muito mais ricos em evidências interessantes aos eixos de análise adotados nesse trabalho do

44
Quanto aos programas do Horário Político Eleitoral Gratuito (HPEG), fomos informados no setor de arquivos
e programação do Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia - IRDERB que, segundo a legislação eleitoral,
os arquivos dos programas só podem ser mantidos durante um período de até seis meses após cada eleição. Em
relação às entrevistas, as diversas tentativas de entrevistar os responsáveis pelas campanhas publicitárias de
2002, 2006, 2010 não foram bem-sucedidas.
P á g i n a | 176

que os parcos materiais que se pôde coletar sobre as suas campanhas à Câmara dos
Deputados. Ignorar, portanto, os pleitos municipais seria empobrecer a análise ao privá-la
dessas evidências.

Por se tratar de eleições majoritárias e, sobretudo, travadas na capital do Estado, foi


possível, no caso das eleições para Prefeito de Salvador, coletar quantidade maior de material,
principalmente em fontes jornalísticas 45. Naturalmente, a inclusão das falas e peças de
campanha não significa analisar aquelas eleições propriamente, as correlações de forças que
estiveram nelas implicadas, nem os resultados eleitorais. O intuito segue sendo, como já dito,
mostrar como ACM Neto construiu suas alianças eleitorais e a sua imagem, identificando os
principais discursos e os apelos de campanha que constituem seu repertório simbólico. Além
disso, será possível, adicionalmente, avaliar, ao cotejar-se esse capítulo com o anterior, se a
estratégia política (discurso/símbolos e alianças) desse ator político é uniforme ou diversa em
eleições proporcionais e majoritárias, enriquecendo com mais nuances a discussão dos seus
possíveis vínculos com a tradição carlista.

Será adotado, como método de exposição, analisar, a princípio, as campanhas


legislativas e, posteriormente, as voltadas ao Executivo Municipal. Conforme se observará
mais adiante, diferenças entre discursos e apelos de campanha, assim como entre apoios e
alianças neles refletidos fundamentam-se mais nas diferentes características de eleições
majoritárias e proporcionais do que numa lógica temporal que possa indicar inflexões de
trajetória. Assim, por exemplo, será mais fácil encontrar semelhanças entre as estratégias de
ACM Neto em 2006 e 2010, do que entre 2008 e 2010 e assim por diante.

4.1 As campanhas para Deputado Federal (2002, 2006 e 2010)

No escassíssimo material jornalístico encontrado sobre as eleições de 2002 46, foi


possível perceber que a campanha de ACM Neto foi marcada, por assim dizer, como uma

45
As fontes utilizadas neste capítulo foram o Jornal A TARDE, Portal Ibahia, Jornal Folha de São Paulo, Revista
Isto É, Portal UOL Notícias, Site Oficial de ACM Neto, Jornal Tribuna da Bahia, Revista Muito (disponibilizada
junto ao Jornal A TARDE). Essas fontes foram pesquisadas nos anos eleitorais, mais especificamente entres os
meses de abril e outubro.

46
A escassez ainda maior no caso específico desse pleito talvez se relacione ao fato de que se tratava ainda de
um político desconhecido, sem expressão própria. Conforme se observará mais adiante, não raro ACM Neto foi
P á g i n a | 177

―iniciação‖ na política eleitoral, uma espécie de ―apresentação‖ sua, aos prefeitos e outras
lideranças locais. O modus operandi predominante na campanha foram visitas do candidato a
diversos municípios, ao lado - e secundando - lideranças do carlismo, como ACM, Paulo
Souto, César Borges, Eraldo Tinoco e Antônio Imbassahy. Destacam-se suas visitas a
municípios que eram redutos eleitorais carlistas, acompanhadas por representantes mais
proeminentes de cada local, como Santo Antônio de Jesus, por Eraldo Tinoco e Jequié, por
César Borges, entre outros. Esses municípios viriam a ser parte do grupo de concentração da
sua votação, conforme analisado no Capítulo 2. Além das visitas ao interior, os comícios em
Salvador eram sempre frequentados em companhia de outros candidatos carlistas.

Ao longo dessa eleição, ficou claro o forte investimento do grupo carlista para
eleição de ACM Neto. Inclusive a imprensa comentava a grande quantidade de material de
campanha. Segundo matéria do Jornal A Tarde de 25 de agosto de 2002, em um evento de
campanha realizada com integrantes da Chapa majoritária em Salvador, nos bairros do Curuzu
e da Liberdade, notava-se que “o campeão da propaganda é o candidato a deputado federal
ACM Neto. Impossível quantificar os cartazes, camisetas e adesivos que levam o seu nome
durante um evento como este”. Matéria do mesmo jornal de 04 de outubro de 2002 cujo título
foi ―Política na Bahia é feita de pai para filho‖ critica o grande número de candidatos filhos
de políticos. Ricardo Holanda destaca o quanto essas campanhas são milionárias e prioritárias.
Afirma ainda o jornalista: “herdeiros voam em busca de um lugar ao sol, ao lado do pai,
avô...”. Essa questão teve grande repercussão na imprensa local, motivando um conjunto de
outras matérias.

Para além da discussão entre família e política, que não é objeto desse trabalho,
o que vale ressaltar é que na campanha de 2002 a imagem de ACM Neto aparece ainda muito
vinculada não somente a ACM, como ao próprio grupo carlista. Na realidade o que importa
nesse trabalho não é a relação de parentesco entre ACM e ACM Neto, mas em que a
estratégia política do segundo é influenciada por práticas da elite carlista, explicitadas no
capítulo 1, entendendo carlismo como uma ―política‖.

Após seu primeiro mandato como deputado federal nas eleições de 2006 ACM Neto
já se apresentava como um candidato com mais autonomia nas decisões sobre alianças

apresentado como ―mais um‖ familiar de político tradicional que seguia sua trajetória, utilizando-se do espólio
político.
P á g i n a | 178

eleitorais e com posicionamentos mais firmes, o que não impediu, de outro lado, que
continuasse ―se promovendo‖ junto ao grupo carlista, como se verá mais adiante. A
autonomia e a firmeza, por assim dizer, ficam claras no seu posicionamento quanto às
alianças entre o PFL e o PSDB, a nível nacional e estadual. Projetando as futuras eleições
para prefeito de Salvador em 2008, como parte das negociações com vistas à aliança entre os
partidos para a disputa do Governo do Estado em 2006, ACM Neto afirma: ―a composição do
PFL com o PSDB baiano pode até se repetir na Bahia, mas certamente não aceitaremos o
nome do ex-prefeito‖. Fazendo referência a Antônio Imbassahy, que saíra do PFL e havia
migrado para o PSDB47. Nessa ocasião, o TSE decidiu pela chamada ―verticalização‖ das
coligações, impedindo a construção, em nível estadual, de alianças diferentes da nacional.
Ainda durante os entendimentos da pré campanha ACM Neto, em linha com o pensamento do
seu avô, defendeu o adiamento da convenção nacional do partido para dar tempo aos cálculos
políticos necessários. Em nível nacional o PFL acabou apoiando Geraldo Alkmin, do PSDB e,
a nível estadual, não houve a aliança muito em razão da posição do senador ACM. O PFL
lançou Paulo Souto ao governo e o PSDB somente Imbasshay ao Senado, dividindo-se quanto
ao pleito para o Executivo.

A campanha de Geraldo Alckmin na Bahia foi criticada por ACM e pefelistas


baianos por não se colocar como ―autêntica‖ antítese ao Presidente Lula. Além disso, segundo
ACM, por ter apostado na construção de uma imagem de ―bonzinho‖, Alckmin não teria
conseguido polarizar o embate político. Chamando o governo de ladrão, ACM, em
concordância com FHC, enfatizou a necessidade de fazer ataques a Lula. Mais uma vez ACM
Neto se colocou ―do lado‖ do avô e passou a encarar as eleições como uma ―guerra‖,
afirmando: ―É o caminho para mobilizar a tropa48‖.

Nessa mesma linha, numa matéria publicada em A TARDE, edição de 14 de


setembro de 2006, sob o título ―Candidatos usam ‗muletas‘ na luta por votos‖ afirmava que
líderes tradicionais e até personalidades da sociedade funcionavam como chamariz para
turbinar campanhas. No caso de ACM Neto, segundo a matéria, ele não ―desgrudava‖ da
imagem do avô. A figura de ACM foi utilizada como um suporte como uma liderança com
possibilidade de transferir votos para aqueles que apoiava. Conforme observado
anteriormente, ACM Neto não mais era visto apenas como familiar de um político tradicional,

47
Matéria publicada em 03 de abril de 2006 no Jornal A TARDE.
48
Jornal A TARDE 30 de agosto de 2006
P á g i n a | 179

mas se apresentava explicitamente como parte de uma elite política e assim já era
considerado. Essa sua posição fica bastante evidenciada na derrota do candidato carlista,
Paulo Souto, ao governo do Estado. ACM Neto mais uma vez se mostrou enquanto parte de
um grupo e evidenciou seu papel na oposição estadual, conforme fica claro no discurso
abaixo:
O PFL vai continuar trabalhando forte pelo Estado, na Câmara, na Assembleia,
temos dois senadores, elegemos deputados federais e estaduais. Temos ainda um
grande número de prefeitos na Bahia. O partido não vai desanimar, pelo contrário,
agora é que colocamos em prática a capacidade de reagir [...] não torço pelo
insucesso do novo governador, mas nós exerceremos oposição ao governo da Bahia,
coisa que venho ―treinando‖ em Brasília. O fato de sermos oposição no plano
nacional facilita, agora temos know-how de oposição, seremos uma oposição
responsável mas fiscalizadora. (A TARDE em 31 de outubro de 2006)

As táticas publicitárias que compunham a estratégia de ACM Neto, entretanto, não se


resumiam a proclamar seu vínculo direto com o grupo. Em uma das poucas peças publicitárias
encontradas da sua campanha nas eleições de 2006, o texto enaltecia três elementos
importantes de seu primeiro mandato: a ―moralidade e a ética‖, a atuação nos temas nacionais
e a defesa da Bahia. Segue a íntegra do texto da referida peça:

Muita gente no Brasil gostaria de votar nele. Aproveite que você pode. ACM Neto
conquistou o coração de baianos e brasileiros. Em seu primeiro mandato, por quatro
anos consecutivos, foi escolhido pelo Departamento Intersindical de Assessoria
Parlamentar (DIAP)49 como um dos 100 parlamentares mais importantes do
Congresso Nacional. Não é para menos. ACM Neto é um político sério que defende
a ética e a moralidade. Sua atuação firme no combate à corrupção mostrou para os
brasileiros a existência do Mensalão e do Valerioduto. Articulador atuante e
influente na Câmara dos Deputados, ACM Neto defendeu com coragem os
interesses da Bahia, além de participar dos debates dos grandes temas nacionais. É
um político que possui o verdadeiro espírito público, que trabalha pelo cidadão e
pela sociedade, com dignidade e profissionalismo a serviço do nosso estado. Um
político que orgulha o povo da Bahia. (Jornal A TARDE, 10 de setembro de 2006)

Assim, ao longo do período eleitoral de 2006, ACM Neto seguiu construindo sua
imagem ligada ao grupo carlista, mas agora com maior autonomia tendo em vista, também e,
sobretudo, sua experiência na Câmara dos Deputados. O seu primeiro mandato rendeu-lhe
posicionamentos mais firmes frentes as alianças do PFL, assim como uma voz bastante crítica
à gestão do PT, como foi detalhado no capítulo 3. Ademais, a experiência do primeiro
mandato permitiu que expusesse em apelos de campanha os seus ―feitos‖ no primeiro
mandato, como por exemplo, a crítica à prorrogação da CPMF e a Reforma Tributária, com
forte apoio a autonomia dos municípios, a ―luta‖ contra corrupção do governo petista e ao

49
Organização não governamental composta por representantes de 900 entidades sindicais do país.
P á g i n a | 180

aparelhamento da máquina pública, a defesa do Bolsa Família ( que, segundo o deputado,


teve sua origem no Fundo de Combate à Pobreza criado por ACM ) e sobretudo a defesa dos
interesses da Bahia.

ACM Neto, ao longo deste período, também apareceu na mídia se posicionando


sobre determinados temas relevantes, como por exemplo uma manifestação do MLST (
Movimento para Libertação dos Sem Terra). Embora não se trate de um tema especificamente
ligado às eleições, é importante pontuar seu posicionamento frente a tal movimento social.
Segundo matéria do Jornal A TARDE intitulada ―Sem terra depredam Câmara‖ de 07 junho
de 2006, o movimento reivindicava a revogação da lei que proíbe vistorias em terras
ocupadas, a votação imediata da PEC que permite a expropriação de propriedades
identificadas com trabalho escravo para serem destinadas à reforma
agrária, a atualização imediata do índice de produtividade de terras e a
desapropriação de propriedades que estejam em débito com a União. Para tanto, o movimento
utilizou como estratégia a ocupação da Câmara dos Deputados, que segundo a fonte
jornalística teria sido depedrada. Ressalta-se, a seguir, a posição do deputado ACM Neto não
só frente a este movimento social e ao Presidente da República:

Primeiro, a falta de limites do movimento dos sem-terra depois a falta de força da


própria Câmara dos Deputados. Quero dizer neste instante aos comandantes
militares, não ao ministro da Defesa, que reajam enquanto é tempo, antes que o
Brasil caia na desgraça de uma ditadura sindical presidida pelo homem mais
corrupto que já chegou ao governo da República. (Jornal A TARDE em 07 de junho
de 2006)

A posição do deputado é bastante crítica às estratégias do MLST. Tal


posicionamento, em alguma medida, aproxima ACM Neto de uma característica bastante
importante do carlismo, qual seja, o tratamento da cidadania como restrita ao âmbito eleitoral,
bem como um modelo de legitimação da política que tem uma forte resistência ao
protagonismo dos movimentos sociais.

Ao longo do período 2006-2010, algumas mudanças alteraram o panorama político


nacional e estadual: o carlismo perdeu o governo do Estado em 2006. Bastante em função
desse resultado, para além da morte de ACM em 2007 e das críticas à gestão do PT no
governo estadual, a tônica da campanha eleitoral de 2010 foi pautada na volta ou não do
carlismo.
P á g i n a | 181

Em matéria intitulada ―O renascer do carlismo‖ no Jornal A TARDE de 11 de abril


de 2010, ACM Neto, diz estar se preparando para entrar firme na campanha com um discurso
bem definido: a defesa do legado do avô, o ex-senador Antônio Carlos Magalhães. Segundo a
matéria, ACM Neto estava estudando e reunindo informações para ir a campo fazer o resgate
do carlismo e dar uma resposta aos que dizem que ele morreu. Diante dessa estratégia, afirma
o deputado: ―Vamos fazer o comparativo entre o que foi a Bahia no tempo de ACM e o que é
hoje nos dia de Wagner. E vamos ganhar‖.
Em 20 de abril de 2010, o próprio ACM Neto escreveu uma matéria no Jornal A
TARDE intitulada ―A Bahia do presente sente falta de ACM‖, que revela muito sobre esse
mesmo cenário. Segue abaixo parte do texto:

[...] Antônio Carlos Magalhães criou o carlismo por suas características


pessoais e com as virtudes de líder, de grande político e administrador público,
de homem visionário, à frente do seu tempo, que modernizou a Bahia em todos
os aspectos. As características pessoais se foram com sua morte. [...] Já as
características do administrador, do político de envergadura nacional, [...]
permanecem mais vivos do que nunca. O homem se foi, mas seus ideais ainda
nos inspiram. Até sua morte, ACM carregou a bandeira da luta incansável pela
Bahia, do amor sem limites pelo povo de sua terra, da seriedade no trato com o
dinheiro público, do pulso firme no combate à criminalidade, do olhar sempre
atento e vigilante aos mais pobres, além de formar os melhores quadros da
política baiana. [...]. Se esses ideais estão vivos em todas as pessoas que querem
uma Bahia melhor, então, o carlismo vive bem. O carlismo está mais forte do
que nunca porque a fraqueza e a incompetência do governo Wagner só
aumentam as saudades de ACM. Wagner é tão condescendente com os outros
estados nordestinos na disputa por empregos e desenvolvimento que hoje,
certamente, é mais ―importante‖ para Pernambuco do que para a Bahia,
porque sua omissão fez a Bahia perder o protagonismo do desenvolvimento do
Nordeste. [...] como era ACM, um político que mostrava os dentes pela Bahia.
Wagner [...] é amigo do presidente, mas não tem prestígio para conseguir
verbas necessárias ao desenvolvimento da Bahia. Então, pergunto: como não
sentir saudade daquele que colocava a Bahia como a razão de sua vida? ACM
está no coração de todos os baianos que perderam as esperanças, [...]O PT não
conseguirá matar o carlismo porque a Bahia é livre. Livre para tudo. Inclusive
para amar sem patrulhamento seus filhos preferidos, como Mãe Menininha,
João Ubaldo, Caetano, ACM, Jorge Amado, Irmã Dulce [...] Ajudou no
processo de redemocratização que levou Tancredo Neves ao poder- um ato de
coragem. E contribuiu muito na eleição de Fernando Henrique Cardoso. [...]Como
neto de Antônio Carlos Magalhães, posso dizer que aprendi muito. Esse
aprendizado ajuda em minha trajetória política em todos os momentos. Mas
recebi dele também uma benção hereditária, uma ―herança bendita‖; vem do
berço o meu amor pela Bahia e a força para lutar pelo meu Estado. ACM viveu
um verdadeiro caso de amor com os baianos. Melhor, viveu um casamento
próspero, apaixonado, um casamento eterno.

Na matéria acima, ACM Neto apresenta elementos importantes do repertório


simbólico da política carlista, como, por exemplo, sua face modernizadora, seu perfil de
P á g i n a | 182

liderança e de administrador, sua envergadura nacional, sua defesa do desenvolvimento


regional, o enaltecimento cultural através do amor e do culto a seus filhos ilustres e o mais
evidente, o amor pela Bahia. Mais que isso, a sua ―luta incansável‖ pelos interesses da Bahia,
pela qual, como diz o deputado, ele era capaz de ―mostrar os dentes‖.

Ademais nota-se nesse discurso a acusação de ―condescendência‖ de Wagner para


com os outros estados nordestinos o que exprime a percepção clássica do carlismo dos anos
80 e 90 de que a Bahia se diferencia do Nordeste. Nesse aspecto, o carlismo usava
instrumentalmente o discurso nordestino quando precisava de apoio na região para algum
pleito junto ao Governo Federal, mas no fundo via os estados vizinhos como concorrentes, já
que buscava sempre o destaque da Bahia no cenário nacional.

Também em proximidade com a tradição carlista, encontram-se nesse discurso do


deputado, a alusão a uma preocupação simultânea com os pobres e com a capacidade da elite
carlista de formar quadros políticos qualificados, o que remete a uma característica
amplamente defendida pelo grupo, o insulamento burocrático.(NUNES, 1997)

Tal pronunciamento evidencia, ainda, a partir do enaltecimento das características


atribuídas a ACM, que o deputado utiliza como apelo de campanha a ideia de que a Bahia
governada por Wagner sente falta desses elementos. Dessa forma, afirma que, como neto do
senador, aprendeu muito e se coloca como alternativa enquanto político sobretudo como
defensor da Bahia e afirmando que o baiano é livre para escolher qual das ―duas Bahias‖ é
melhor, se a de ACM ou a de Wagner. Conforme se observa, fica claro nessa campanha que
ACM Neto se utiliza desse repertório simbólico mobilizando toda a base tradicional carlista,
além daqueles eleitores que estavam insatisfeitos com a gestão petista de Wagner.

Assim como na campanha de 2006, outra tática utilizada pelo deputado, nessa
campanha, foi divulgar sua atuação na Câmara. Como exemplo, a publicação do Jornal A
TARDE de 02 de junho de 2010 sobre a sua escolha pelo DIAP como o deputado mais
influente do Congresso Nacional. Segundo a reportagem, o DIAP destacou suas qualidades de
articulador, boa oratória e forte convicção liberal. Nesse último ponto há certamente uma
diferença para com o perfil ideologicamente ambíguo e pragmático do senador ACM,
ambiguidade e pragmatismo que sempre tornaram controversa a consideração de sua inserção
no campo político liberal brasileiro. Embora operasse sempre dentro ou ao lado desse campo,
P á g i n a | 183

ACM nem sempre compartilhou algumas posturas programáticas ali predominantes. Esse é
um dos pontos em que a postura de ACM Neto encontra mais sintonia com a do seu tio, Luis
Eduardo Magalhães do que com a do avô.

Na seguinte peça publicitária, também fica claro o enaltecimento das suas atividades
na Câmara, além de novamente a ênfase na defesa da Bahia:

ACM Neto 2526- Para defender a Bahia

Um dos campeões da liberação de recursos federais para a Bahia. Ao lado de


Aleluia, é o único deputado baiano que esteve entre os mais influentes do Congresso
desde sua posse. Como líder do Democratas, lutou contra a volta da CPMF. Como
vice- presidente da Câmara, teve participação decisiva na aprovação de Projeto
Ficha Limpa.( Jornal A TARDE em 05 de setembro de 2010)

Outro ponto importante da estratégia da campanha eleitoral de 2010 foi o que o


deputado chamou de ―sincretismo político‖, isto é, os apoios que deu/recebeu de candidatos
ao Legislativo estadual, cujos partidos, em vários casos, compunham outras coligações para as
eleições majoritárias. Esse foi o caso de Bruno Reis (PRP), de João Carlos Bacellar (PTN),
Leo Kret (PMDB), Maria Luiza Carneiro (PSC) e Elmar Nascimento (PR). É preciso entender
essas dobradinhas não apenas como táticas de otimização pragmática de votos para ACM
Neto. Foram isso também, mas um outro aspecto não pode ser esquecido: o de que essas
dobradinhas representavam não só apoios à sua candidatura a deputado federal, como muitas
vezes a situação inversa, isto é, o apoio de ACM Neto, enquanto personalidade política, a
candidatos a deputado estadual que lhe permitem estabelecer relações políticas para o futuro,
capazes de cortar transversalmente vários partidos quando ACM Neto necessitasse de apoio
para pretensões a cargos majoritários. Como efeito colateral dessa ampliação da sua base
esteve o enfraquecimento eleitoral de quadros tradicionais do PFL/DEM na Assembleia
Legislativa, cujos redutos passaram a serem visitados por candidatos estranhos ao partido,
para lá levados por Neto. Esse último manteve, além disso, razoável distância das campanhas
dos candidatos majoritários do DEM para se dedicar à sua própria. Tanto essa tática como a
das dobradinhas heterodoxas tornaram-se elementos agravantes da perda de substância
eleitoral do DEM. Dantas Neto (2010) salienta que três dos cinco deputados estaduais eleitos
pelo partido o foram pela primeira vez.
P á g i n a | 184

Isso não implica em responsabilizar ACM Neto pelo insucesso eleitoral do seu
partido nas eleições de 2010, hipótese que poderia ser levantada a partir, inclusive, de
considerações feitas no capítulo 2, quando se abordou o fato dele se fortalecer pessoalmente
na contramão do declínio do seu partido. Segundo Dantas Neto (2010), naquelas eleições,
noves fora Neto, o campo do DEM se apresentou, em linhas gerais, desarticulado nas eleições
majoritárias e um tanto esgarçado nas eleições proporcionais. No primeiro caso os candidatos
do partido ao Governo (Paulo Souto) e ao Senado (José Carlos Aleluia e José Ronaldo)
desenvolveram suas campanhas de modo disperso, cada qual isoladamente e a aliança com o
PSDB para o pleito presidencial também não se desenvolveu com fluência. Cada partido agiu
por si, sendo que nenhum dispunha de estrutura, recursos e candidatos competitivos em
número suficiente para, nas eleições legislativas, atingir um quociente partidário capaz de
eleger os seus quadros mais destacados no Estado. Em última instância, como aponta o
mesmo autor citado, a campanha do DEM careceu de qualquer articulação e de discurso,
assim como de estratégia. Seus candidatos fizeram voos solos, mas nenhum teve expressão
sequer comparável à de ACM Neto. Nesse sentido, a única estratégia visível não foi a do
partido e sim a individual de Neto, que absorveu em torno de sua liderança pessoal o potencial
eleitoral da parte remanescente da antiga elite política carlista50.

Considerando que se podia então falar numa tripolarização da política na Bahia pelos
campos do PT, do DEM e do PMDB (Dantas Neto, 2008), e sobretudo diante do fato de que
parte da antiga elite carlista se aliou ao campo governista do PT, é possível compreender a
estratégia eleitoral de ACM Neto em 2010 como, por um lado, um resgate do carlismo, ao
buscar manter parte dos seus eleitores mais tradicionais a salvo dos efeitos da cooptação de
quadros ex carlistas pelo governo petista, e, por outro, um voo solo, com o qual agregou novas
parcelas do eleitorado ao seu perfil eleitoral, por meio de um discurso renovado e de
dobradinhas heterodoxas. Essa combinação talvez possa explicar a grande votação de ACM
Neto, reeleito mais uma vez como o mais votado do Estado. E significa que, se o DEM já não
tinha grande estrutura partidária e passou a ter uma menor ainda após aquelas eleições, por
outro lado, passou a contar, além desse espólio eleitoral enfraquecido da elite carlista, com a
liderança forte de ACM Neto.

50
A relação entre a votação de ACM Neto e a do DEM nas eleições de 2010 está melhor detalhada no capítulo 2.
P á g i n a | 185

4.2 As campanhas de ACM Neto para Prefeito de Salvador (2008 e 2012)


4.2.1. A campanha de 2008

Como já foi mencionado no início do capítulo, o objetivo aqui não é analisar as


eleições de 2008, suas correlações de forças e resultados e sim analisar a estratégia de ACM
Neto, abrangendo a formulação de discursos, os temas mais abordados, o posicionamento
frente a algumas questões, os principais compromissos de campanha e sobretudo os apelos ao
repertório simbólico do carlismo.

Nas eleições para Prefeitura de Salvador em 2008 foram candidatos João Henrique
(PMDB), que tentava a reeleição, ACM Neto (DEM), Antônio Imbasshay (PSDB), Walter
Pinheiro (PT) e Hilton Coelho (PSOL). Como a gestão de João Henrique estava muito mal
avaliada nas pesquisas, foram temas da campanha o legado dessa gestão e polêmicas em torno
de quem a teria apoiado e contribuído para o suposto fracasso. Como o PT tinha feito parte do
governo de João Henrique até pouco tempo antes do início da campanha, ACM Neto utilizou
esse elemento como uma crítica. Segundo o candidato, “O PT se afasta da prefeitura aos 45
minutos do segundo tempo e será cobrado pelos equívocos dessa administração assim como
todos os partidos que integraram a aliança51”. Para Neto, a cisão entre PT e PMDB , daria
liberdade para o DEM conversar com todas as legendas exceto com o PT, claro, devido à
―grande diferença programática‖ entre os dois partidos52. Dessa forma, o deputado admite que
tal mudança no cenário político permite que o diálogo entre o DEM e o PMDB venha a ser
incrementado. Afirmando: ―O que aconteceu altera o quadro de tal forma que estabelece
liberdade para conversas entre democratas e peemedebistas 53‖.

Em toda a eleição ACM Neto se colocou como o único candidato realmente de


oposição, fazendo sempre críticas de um lado à gestão do PT no Estado (por exemplo no que
toca à violência e à alta criminalidade em Salvador54) e, de outro, à gestão do PMDB na

51
Jornal A TARDE em 10 de abril de 2008.
52
Jornal A TARDE em 03 de abril de 2008
53
Jornal A TARDE em 10 de abril de 2008.
54
Em matéria no Jornal A TARDE de 24 de abril de 2008 intitulada O Cidadão de Salvador e a Violência, de
autoria de ACM Neto, o deputado comenta o aumento da violência em Salvador e a necessidade da participação
do poder local por meio de políticas sociais integradas para o seu combate. Nesse sentido ele ressalta a
importância do papel do prefeito nesse processo enquanto um líder para organizar o que ele chama de política de
segurança cidadã, que será melhor detalhada ao longo do capítulo.
P á g i n a | 186

Prefeitura, a quem dirigia critica semelhante à dedicada à elite estadual petista, por sua
incapacidade de converter proximidade política do poder com benefícios administrativos:

Ele não sabe trabalhar com liderança, planejamento e bons projetos, o que acaba
inviabilizando a destinação de recursos federais e estaduais para a cidade. O atual
prefeito tem alinhamento político com o governador e o presidente e, mesmo assim,
não consegue trazer investimentos importantes para Salvador. (Jornal A TARDE em
24 de julho de 2008)

Quanto as críticas à João Henrique, ACM Neto o acusava de ter feito alianças muito
heterogêneas, o que chamou de ―pecado da administração de João Henrique 55‖, e segundo o
deputado isso tornou impossível administrar a cidade, pois a única preocupação do prefeito
era compartilhar cargos da máquina pública municipal. Segundo o ACM Neto, a sua aliança
teria que ser ―mais homogênea, em torno de um pacto de trabalho pela cidade e de um
programa de governo‖.

A aliança que apoiou ACM Neto em 2008 foi composta por oito partidos: DEM, PR,
PRB, PT do B, PRP, PTN, PTC e PSDC. A coligação, cujo slogan era ―A Voz do Povo‖, teve
como vice o bispo Márcio Marinho (PRB). O curioso era que o PR e o PRB eram partidos da
base de Lula, embora apoiassem ACM Neto; os demais partidos faziam parte direta ou
indiretamente da política carlista. Além desses partidos, é importante apontar o apoio do
radialista, comunicador e apresentador Raimundo Varela, muito popular em Salvador e que
chegou a ser cogitado como candidato.

Embora fazendo críticas ao PT e à administração de João Henrique, a estratégia


dessa campanha claramente se evidenciou pelo que a mídia chamou de ―Neto paz e amor 56‖.
A fala a seguir confirma esse posicionamento:

O que pode motivar tantas pessoas a estarem juntas contra um só? Estão
preocupados com o crescimento de minha candidatura. [...] Não vou gastar nenhum
minuto com brigas. Somos adversários mas não me considero inimigo do
governador57.

O deputado partia da premissa de que os problemas de Salvador não eram de uma


única gestão e com isso esperava obter ganhos e também queria deixar as portas abertas, no

55
Jornal A TARDE em 02 de maio de 2008
56
Jornal A TARDE em 11 de junho de 2008
57
Jornal A TARDE em 02 de julho de 2008
P á g i n a | 187

caso de um eventual segundo turno, para o PMDB de Geddel Vieira Lima e João Henrique.
Nesse âmbito, em vários momentos da campanha, disse que não iria perder tempo para
responder as críticas; a estratégia então era não revidar e sim ―trabalhar‖, acreditando que com
bons projetos poderia ter uma boa relação institucional seja com o governo estadual, seja com
o governo federal, ambos do PT. Isto fica evidente nos trechos abaixo:

Pretendo estabelecer relações institucionais com os governos federais e estaduais. A


primeira coisa que farei, se for eleito, é sentar para dialogar com o governador
Jaques Wagner e com o presidente Lula. Tenho certeza que com projetos bons, e
contando com o espírito democrático do governador e do presidente, eles não
deixarão de atender Salvador58.

Somos da oposição, mas, uma vez eleitos, procuraremos o diálogo e a parceria com
o presidente Lula e o governo do Estado para uma relação institucional civilizada,
inteligente e, de preferência, de resultados59.

Vou procurar o presidente Lula e o governador Jaques Wagner mesmo ambos sendo
de partidos opostos ao meu. Dialogaremos, sim, porque levarei a eles o melhor
cartão de visitas: um bom governo60.

Com esse discurso, ACM Neto buscava mostrar aos eleitores a viabilidade da sua
candidatura e da possível administração, ainda que fosse oposição aos governos estadual e
federal. A viabilidade era oferecida a partir da sua competência, capacidade de administração
e de diálogo. Aparentemente, sua estratégia estava surtindo efeito, já que desde junho daquele
ano as pesquisas mostravam ACM Neto como o primeiro na intenção de votos.

A construção das coligações proporcionais 61, além de contar com a força de ACM
Neto, os partidos apostaram também em candidatos com importantes patrimônios eleitorais,
como Tia Eron (17 mil votos em 2004), Andréa Mendonça (apoiada pelo vereador Agenor
Gordilho, que desistiu da reeleição – 10 mil votos em 2004), além da ex- primeira dama do
Estado Tércia Borges, que apostava na popularidade do seu trabalho à frente das Voluntárias
Sociais e no prestígio do marido.

Em termos de compromissos de campanha, o deputado expressou a necessidade que


os candidatos tivessem que estar preocupados com as demandas locais do eleitor, e que o
prefeito tivesse que ter pulso para lidar com os problemas dos cidadãos. Nesse aspecto ele
afirma, ―Salvador quer um prefeito de pulso firme. As responsabilidades de resolver os

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Jornal A TARDE em 24 de julho de 2008
59
Jornal A TARDE em 19 de junho de 2008
60
Jornal A TARDE em 20 de junho de 2008
61
Jornal A TARDE em 13 de junho de 2008
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problemas da cidade são do prefeito, e eu não vou transferir essa responsabilidade pra
ninguém62‖. Esse compromisso demonstra de forma muita clara a forma de exercer política
carlista: de uma maneira vertical, como um chefe que manda e assume para si as
responsabilidades, além da ideia do protagonismo da elite governante.

Outro compromisso assumido por Neto foi o de que a ―máquina‖ de seu governo
seria ―enxuta‖63, defendendo, assim, o chamado choque de gestão. Disse que, se eleito, sua
primeira providência administrativa, para evitar o desperdício de dinheiro público, seria
reduzir, a dez, o número de secretarias da prefeitura, que na gestão de João Henrique era de
18. Na edição do Jornal A TARDE de 22 de julho de 2008 uma matéria aponta para outros
fortes apelos de campanha do deputado: as mulheres e os jovens. Segundo tal reprtagem,
Neto começou a sua militância no PFL Jovem e era o mais novo dos candidatos, fatos que
poderiam facilitar seu acesso a essa parte do eleitorado. Já como estratégia para atrair o
eleitorado feminino, a matéria enfatizava como a coordenadora operacional da campanha,
Rosário Magalhães, mãe de ACM Neto, havia organizado eventos em conjunto com Sheila,
Mulher de Raimundo Varela, e Ana, mulher do Bispo Marinho. Segundo a reportagem, a
campanha apostava na capacidade da mulher de mobilizar e influenciar o voto, sobretudo a
família.

Como estratégia para atrair os jovens, o seu programa de governo dava atenção
especial à segurança e à educação, pontos que interessam diretamente a esse público. No
âmbito da educação, a principal proposta era a Escola em Tempo Integral. Para o ―combate à
violência‖, ele propôs mudanças na área de Segurança Pública, como o Projeto que ficou
conhecido como ―BBB‖ em referência ao Programa Televisivo Big Brother Brasil, que
segundo explicações do candidato dadas ao Jornal A TARDE de 02 de agosto de 2008 seria:

O Projeto BBB é um sistema de monitoramento do crime por meio de câmeras de


vigilância que seriam instaladas nos bairros. São recursos próprios do município, do
Programa de Nacional de Segurança Pública com Cidadania (Pronasci) e do Fundo
Nacional de Segurança Pública. São recursos que estão disponíveis mas não estão
sendo utilizados . Ainda sobre segurança pública, Neto ressaltou que pretende
ampliar a atuação da guarda municipal, armando os agentes. ―Não podemos
promover ações de segurança sem oferecer condições para isso‖.

62
Jornal A TARDE em 20 de junho de 2008
63
Jornal A TARDE em 12 de julho de 2008
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Ainda quanto à questão da Juventude, ACM Neto lançou o Programa Força Jovem,
que assim era justificado:

[...] os jovens até os 35 anos representam quase um terço do eleitorado do País.


Formamos um segmento importante, formador de opinião e que, portanto, se faz
necessário políticas públicas direcionadas para a juventude. Há hoje o lançamento
também do Cidade Digital que irá disponibilizar em algumas áreas da cidade o
sistema de acesso gratuito à internet sem fio (wireless). Vamos começar pelos
bairros mais pobres e locais de concentração de pessoas. Tão grave quanto o
analfabetismo, é o desconhecimento dos recursos e ferramentas digitais64.

Ficou explicitado como estratégia de Neto, que ele centrou grande parte de seus
esforços de campanha no Subúrbio Ferroviário, sabendo que essa área da cidade era reduto
eleitoral de João Henrique. ACM Neto prometeu criar um subcentro regional, uma proposta
de desenvolvimento econômico a partir da integração do subúrbio aos bairros do miolo da
cidade e às Ilhas. A ideia seria implantar na área empresas de atacado, logística e indústrias de
médio porte. Segundo o deputado: “O subúrbio com sua concentração de pobreza, elevado
desemprego, violência, ausência dos serviços de saúde e educação não recebeu, nos últimos
anos, os investimentos que deveria‖65.

Outro aspecto relevante dessa campanha refere-se ao tema da a religião. Talvez pelo
fato do vice de ACM Neto ser o bispo Marinho, por mais de uma vez ACM Neto visitou
Terreiros de Candomblé. Tais visitas causaram muita polêmica, já que o bispo (evangélico)
não o acompanhou e por isso o ―povo de santo‖ o questionou sobre sua posição, se fosse
eleito prefeito, frente ao candomblé. Respondendo ao questionamento, ACM Neto proferiu
alguns discursos, como o que se segue:

A relação da Prefeitura com os terreiros de candomblé deve ser de respeito e diálogo, pelo
papel social dos terreiros. Já visitei o Ilê Axé Opô Afonjá e asseguro que no meu programa
de governo vai constar o respeito a todas as crenças. Todas as religiões devem conviver
harmonicamente. Acho que esse é o espírito de Salvador, a capital da diversidade. A
diversidade religiosa nos faz ser uma cidade única: cultural, musical e artística. A relação
da Prefeitura com os terreiros deve ser primeiro de respeito. Depois, de diálogo
permanente, porque terreiros têm papel social importante na nossa cidade e muitos deles
fazem trabalho de educação, inclusão e qualificação66.

Sobre a polêmica em relação ao candidato a vice-prefeito, ele afirmou: Não posso


exigir dele que repense a sua doutrina, da mesma forma como ele respeita minhas

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Jornal A TARDE em 26 de julho de 2008
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Jornal A TARDE em 25 de julho de 2008
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Jornal A TARDE em 18 de agosto de 2008
P á g i n a | 190

convicções. Não vejo problema dele não estar aqui. O pensamento de prefeito, caso eleito
seja, é o pensamento da diversidade 67. Quando foi questionado por outro Ogã, que afirmou
que esperava a presença do vice-prefeito e que isto era contraditório à diversidade, de acordo
com a matéria citada, ACM Neto discordou alegando que toda a expectativa tem de girar em
torno do prefeito, que é quem decide. Quando o deputado profere essa frase deixa mais uma
vez evidente a perspectiva política vertical da compreensão carlista da política. Fica evidente
ainda, no discurso de ACM Neto, outro elemento constitutivo fundamental da tradição
carlista: a valorização dos elementos culturais da Bahia, a diversidade de suas crenças
religiosas enquanto forma de tornar a Bahia singular. Tal característica foi responsável pela
criação de um do slogan mais marcantes do carlismo: ―Orgulho de ser baiano‖.

Ainda no que tange à religião, episódio interessante nessa campanha foi o uso da
imagem do papa João Paulo II e do arcebispo primaz do Brasil, Dom Geraldo Majella Agnelo,
num panfleto do candidato. Na polêmica peça eleitoral, ACM Neto, menino, recebia hóstia do
papa e beijava a mão do arcebispo. Essa peça publicitária levou a Arquidiocese a divulgar
uma nota de repúdio. Tal estratégia política de ACM Neto pode estar relacionada com
resultado de pesquisas que mostravam que ele era o preferido entre os católicos. Nota-se
como, nesta campanha, ACM Neto buscou mobilizar os eleitores de diversas religiões, do
candomblé, os católicos e, claro, os evangélicos, por conta do apoio de seu vice o bispo
Márcio Marinho.

Outro posicionamento polêmico e importante mobilizado na campanha do deputado


refere-se ao apoio aos homossexuais. Segundo ACM Neto, caso fosse eleito, pretendia
estender aos parceiros homossexuais de funcionários municipais os mesmos direitos e
benefícios previdenciários e demais vantagens trabalhistas atribuídas aos casais
heterossexuais. Nesse contexto, disse ainda que não estaria preocupado com eventuais
prejuízos junto ao eleitorado conservador, nem mesmo com os adeptos da IURD (Igreja
Universal do Reino de Deus), cuja posição é tradicionalmente contrária à homossexualidade.
O deputado Marinho também pregou a tolerância, o diálogo e a convivência com todos os
segmentos sociais, incluindo os gays. Sobre esse tema, ACM Neto afirmou: Respeito muito as
posturas dos companheiros da Igreja Universal, assim como eles respeitam as minhas.

67
Jornal A TARDE em 25 de agosto de 2008
P á g i n a | 191

[Minha] religião também não concorda, mas acredito não ser possível misturar as coisas.
Isso não passa por um discurso religioso, é uma questão de cidadania68.

Considerando a ênfase do carlismo nos elementos de singularidade da Bahia,


também fizeram parte dos principais apelos de campanha de ACM Neto em 2008 a cultura e o
turismo enquanto vetores de desenvolvimento da cidade. O projeto para atrair turistas e
mantê-los mais tempo em Salvador passava pela recuperação da parte antiga da cidade, como
obras de revitalização do Pelourinho, que deveria aderir a um novo modelo de gestão. Mas o
aspecto fundamental seria reforçar a divulgação da cultura de Salvador para o Brasil e para o
mundo como forma de atrair visitantes. Exemplos desses projetos seria a promoção dos 100
anos do escritor Jorge Amado, o apoio ao turismo náutico, com promoção de eventos
competitivos e oferta de melhores condições de chegada de cruzeiros. A Emtursa (Empresa de
Turismo Salvador), segundo o deputado, também deveria ser reformulada, ampliando sua
atuação para além da organização do Carnaval.

Nesse aspecto, fica evidenciado uma relação muito forte entre ACM Neto e a
tradição carlista. A cultura que, habitualmente, nos organogramas da administração pública
brasileira quando não tem órgão próprio no primeiro escalão, costuma ser vinculada à
educação. Já nos governos de ACM, a cultura fora sempre tratada juntamente com o turismo,
numa mesma secretaria, na qual o turismo costumava ser sempre o carro chefe.

A maneira como ACM Neto se relacionou diretamente com a política carlista nessa
campanha foi bastante peculiar e bem diferente do que ocorreu em eleições proporcionais.
Apontado criticamente pelos adversários, sobretudo por Jaques Wagner e Geddel Vieira
Lima, como o herdeiro do carlismo, nessa primeira eleição depois da morte de ACM, ele teve
uma postura cuidadosa ao falar do avô e do grupo político. Logo no início da campanha
frisou: Quanto ao espólio carlista, o grupo passa por grande processo de transformação.
Existem marcas importantes desse grupo que devem ser preservadas e servem de exemplo, o
que não quer dizer que se espere do momento de hoje o que foi o passado 69. Uma coisa,
porém, era o discurso racional do candidato, outra era a sua interação prática com o
eleitorado, nos eventos de rua.

68
Jornal A TARDE em 14 de agosto de 2008
69
Jornal A TARDE em 19 de junho de 2008.
P á g i n a | 192

A matéria do Jornal A TARDE, de 03.07.08, que repercutiu o desfile cívico do Dois


de Julho (Independência da Bahia), intitulou-se ―Lembrando o avô” e destacou que, por mais
que ACM Neto quisesse se descolar do universo estrito do carlismo, em público “ele era a
cara do avô”, pelo aparato em volta e pelas reações que gerou durante o desfile. Segundo a
matéria, a cena era: fortes seguranças, abraços efusivos, palmas e eventuais vaias, além de
demonstrações explícitas de apoio ao carlismo, como cartazes que ostentavam dizeres como:
―Sempre ACM‖ e ―Saudades, meu velho‖.

Também falando da relação do carlismo e do legado de ACM no cenário das eleições


70
de 2008 , o ex governador Paulo Souto comentou:

O principal legado de ACM foi ter formado um grupo político com propostas bem
definidas, que trabalha em prol do partido e da Bahia. Somos o partido mais coeso,
sempre seremos referência para a população em épocas de crise, como aconteceu por
duas vezes no passado recente [Referindo-se ao Pós Waldir Pires em 1992 no estado
e ao pós Lídice da Mata na Prefeitura em 1992].

Nessa mesma ocasião, ACM Neto declarou: Não acho justo usar a memória do meu
avô de forma exagerada. As pessoas sabem do meu respeito, carinho e admiração por ACM,
mas, por outro lado, compreendem que estamos vivendo um momento novo. Para ele, o avô,
como sua forma de fazer política e peculiaridade, determinou uma dinâmica no Estado que
só era possível com sua presença física.

Conforme é possível se observar, a estratégia do deputado foi de, um lado, não deixar
de considerar o que o grupo fez de importante, e de outro, colocar-se como algo novo, distante
do passado, porque ―os tempos são outros‖ e porque a política feita pelo seu avô não poderia
mais ser feita por ele da mesma forma. Ou seja, claramente ele utiliza como estratégia de
campanha o afastamento do lugar de herdeiro do carlismo e se coloca como político jovem.

No primeiro dia do HPGE de ACM Neto na TV ele utilizou uma declaração do


senador que dissera que ele, o candidato, entrara na Câmara como seu neto e passara, com a
sua atuação a uma nova condição, de modo que ACM passara a ser conhecido como o avô de
ACM Neto, invertendo a referência. O objetivo dessa fala foi buscar no senador uma
declaração que valorizasse o candidato como político e não o contrário.

70
Jornal A TARDE em 20 de julho de 2008
P á g i n a | 193

A partir dessa perspectiva é que ACM Neto respondeu às comparações ao


temperamento de ACM e as críticas em relação ao episódio da ABIN (Agência Brasileira de
Inteligência) em que, num discurso no plenário da Câmara disse que se precisasse daria uma
―surra‖ no Presidente Lula. O deputado se disse mais amadurecido e fez o mea culpa sobre o
episódio na Câmara em que admitiu a possibilidade de dar uma ―surra‖ em Lula. No
momento, afirmou que “condenados devem ser aqueles que não têm humildade de dizer que
erraram. Com o passar do tempo, o ímpeto da juventude dá lugar a ideias e atitudes políticas
corretas, mas jamais irei perder a garra dos jovens71‖.

Avaliando as eleições de 2006, ACM Neto continua mobilizando essa mesma


estratégia, de um político jovem, mas experiente, que se distancia em parte do carlismo. Em A
Tarde, de 20.08.08 uma matéria traz falas do candidato a esse respeito:

A derrota em 2006 para o PT foi provocada pelo ―desgaste do modelo‖ de governo


do seu grupo. ACM Neto negou o ressurgimento do carlismo enquanto força
política. ―Isso ficou claro na eleição de 2006. Se o governo tivesse feito uma
reformulação de seus quadros, talvez não tivesse sido derrotado. Em alguns
aspectos o senador ACM conseguiu ser vanguarda ao aplicar, por exemplo, os
conceitos de responsabilidade fiscal quando o País nem pensava nisso. Mas o
momento é outro e uma derrota, às vezes, é muito mais pedagógica que a vitória‖.
Neto disse que pretende montar um governo moderno, de vanguarda e deu a
entender que não terão assento na sua administração figuras tradicionalmente ligadas
ao carlismo e que tiveram seus nomes , direta ou indiretamente, envolvidos em
escândalos. O DEM não abrirá mão, porém, da ―experiência testada e comprovada‖
dos ex-governadores da Bahia Paulo Souto e César Borges.

Conforme se observa ainda, estão presentes no discurso de ACM Neto dois


elementos fundamentais do carlismo, em 2006, ao admitir o desgaste do grupo, salienta a
valorização da formação de quadros, ou seja, de técnicos com competência para exercerem os
cargos políticos.Já em 2008, faz questão de negar o ressurgimento do carlismo, embora,
enfatize a exigência, clássica do repertório simbólico carlista, da moralidade e da ética como
atributos do agente público.

Como reforço da ideia de que houve uma estratégia de desvinculação de sua imagem
do carlismo, é importante ressaltar que, em todo o material coletado, apenas em dois temas da
campanha ACM Neto citou a importância do avô. O primeiro foi a valorização da tradição das
religiões de matrizes africanas, o candomblé: ACM construiu uma forte amizade com Mãe
Carmem, que era filha de sangue de Mãe Menininha. Essa história que o senador começou

71
Jornal ATARDE em 20 de junho de 2008
P á g i n a | 194

com Mãe Menininha e se estendeu ao longo da vida dele precisa ser mantida. Quando se tem
uma história tão rica, de tantas coisas construídas conjuntamente, vale a pena resgatar e
manter72. E em outro momento bastante importante e polêmico durante a campanha, quando o
deputado foi acusado ser contra o Bolsa Família, ele se defendeu e lembrou o avô: “Sempre
fomos a favor do Bolsa Família. O programa está na criação do partido. Foi o Senador
Antônio Carlos Magalhães que criou o Fundo de Combate à Pobreza 73‖.

Quanto à votação, propriamente, ACM Neto ficou em terceiro lugar na eleição com
cerca de 27% dos votos e no segundo turno apoiou João Henrique (PMDB), mesmo sendo ele
aliado de Geddel Vieira Lima Viera Lima, antigo adversário histórico de ACM. Quanto a essa
questão Neto disse que sempre manteve diálogo com ele, mesmo quando seu avô era vivo,
destacando suas diferenças: ―As minhas relações são as minhas relações. Eu entendo que o
senador ACM marcou a política da Bahia. Mas o momento hoje é de diálogo entre várias
correntes74”. Importante lembrar, nesse aspecto, que a relação de Geddel e do PMDB com a
base carlista foi construída através de Luis Eduardo Magalhães em meados dos anos 90,
continuou quando ele morreu e o novo rompimento só se deu por volta dos anos 2000. Desse
modo, o diálogo com Geddel nessas eleições, não se configurou como algo que se contrapôs
de modo tão claro à tradição do carlismo.

De acordo com o prefeito eleito João Henrique, o apoio do DEM no segundo turno
foi propositivo e baseado em alguns pré-requisitos como a criação da Secretaria de Prevenção
à Violência, Escolas em Tempo Integral, Adoção do Projeto Agenda da Família e Ações em
Saúde, voltadas especialmente para idosos, mulheres e crianças 75.

O Apoio de ACM Neto foi extremamente importante para a reeleição de João


Henrique. Segundo pesquisa do DataFolha divulgada no Jornal A TARDE de 23 de outubro
de 2008 intitulada: ACM Neto desempatou o jogo, 51% dos eleitores de ACM Neto votaram
naquele candidato, de modo que esse ―espólio‖ foi considerado como o fiel da balança no
segundo turno entre João Henrique e Walter Pinheiro. Considerando esses elementos, é
possível sintetizar algumas características da construção da imagem, do repertório simbólico e
dos apelos e discursos de ACM Neto em 2008. Mantém-se como marca dos seus discursos a

72
Jornal A TARDE em 18 de agosto de 2008
73
Jornal A TARDE em 06 de maio de 2008
74
Jornal A TARDE em 04 de outubro de 2008
75
Jornal A TARDE em 27 de outubro de 2008
P á g i n a | 195

ênfase em alguns elementos tradicionais do carlismo, como a valorização da competência, da


moralidade e ética pública, a importância da liderança e do protagonismo das elites, além da
valorização dos elementos culturais da Bahia.

Não obstante, quando indagado diretamente, ACM Neto se mostrou cauteloso frente
ao que naquele momento se assemelhava a certo ―estigma‖ de ser herdeiro do carlismo.
Conforme se apresentou, sua estratégia nessa campanha foi a de reconhecer o legado do
carlismo, mas se afastando dele. Em seus discursos, fica evidente a ideia do carlismo como
algo datado, que deveria ser superado (mantendo seus elementos positivos). Para essa
superação, ACM Neto se coloca como um político que, sendo jovem, mas experiente, é capaz
de realizá-la. Essa estratégia se desenvolveu diante de um contexto em que o carlismo se
encontrava bastante enfraquecido, no qual as máquinas estadual e federal estavam apoiando
outros candidatos, além da presença neste pleito do candidato Antônio Imbassahy (ex-carlista
que poderia dividir os votos dos carlistas tradicionais). Soma-se a isso o fato de que se tratava
da primeira eleição após a perda do Governo do estado pelo carlismo depois de 16 anos e após
a morte de ACM, principal líder do grupo. Também pode ter contribuído para esta estratégia o
fato de Salvador ser considerado historicamente um município ―anti-carlista‖, o que exigiu do
candidato fazer uma campanha mobilizando diversos setores da sociedade.

Aqui, vale lembrar que essa estratégia de campanha está em sintonia com a atuação
parlamentar de ACM Neto, como discutido no capítulo 3, já que nos seu segundo mandato,
mais especificamente nos anos de 2007 e 2008 houve a diminuição da sua vinculação
diretamente ao carlismo, fato ilustrado pela menor proporção de pronunciamentos ligados aos
Temas Estaduais em especial ao menor peso relativo de falas em defesa do modo de gestão
carlista.

Voltando à campanha, entre os setores mobilizados, destacaram-se aqueles públicos


religiosos, homossexuais, além dos jovens, mulheres e moradores de áreas populares,
especificamente do subúrbio ferroviário. Parece claro que o candidato tentou construir a
imagem de um político pluralista, em termos civis e religiosos, e em termos políticos, quando
afirmou que, se eleito, teria boas relações com o governador e com o presidente, para além da
defesa do diálogo como uma das características necessárias aos novos tempos da política.
P á g i n a | 196

4.2.2. A campanha de 2012

Diferentemente das eleições de 2008, quando ACM Neto teve a postura alcunhada de
―paz e amor‖, as eleições de 2012 foram marcadas por uma polarização muito evidente,
caracterizada por troca agressiva de críticas, entre ACM Neto e o candidato do PT, Nelson
Pelegrino. Além desses dois, disputaram essas eleições os candidatos Mário Kertész (PMDB),
Márcio Marinho (PRB) e Hamilton Assis (PSOL).

Se considerados os dois turnos em seu conjunto, as duas tônicas centrais imprimidas


por ACM Neto nessa campanha foram a constatação de que a cidade de Salvador estava
―abandonada‖ (predominante no primeiro turno) e uma crítica muito forte à gestão de Jaques
Wagner no Governo do Estado, que se acentuou no segundo turno. Ao longo da campanha
todos os candidatos fizeram duras críticas à situação da cidade do Salvador e à gestão do
então Prefeito João Henrique. Nesse aspecto, ACM Neto adotou postura de reconhecimento
dos problemas sem, no entanto, personalizar as suas causas (ainda que personalizando a sua
resolução, sempre tomando para si a responsabilidade de resolver os problemas da cidade),
principalmente porque, segundo foi insistentemente frisado pelo PT, seu partido compunha a
gestão municipal. Essa estratégia fica clara quando, numa caminhada de campanha ele afirma
que tenho escutado muitas reclamações. Não vou ficar procurando culpados; vamos
trabalhar para tentar melhorar a situação porque no meu governo quero trazer a
responsabilidade para mim76.

ACM Neto se colocou mais como candidato da oposição ao governo estadual e


menos como de oposição ao prefeito, tendo como apelo central ser do grupo contrário a
Jaques Wagner e a seu candidato, Nelson Pelegrino. Nesse aspecto, em relação ao DEM, o
argumento de Neto é que não tinha vereadores e por isso não podia se responsabilizar por
desastres como nas votações da LOUOS (Lei de Ordenamento do Uso e Ocupação do Solo) e
do PDDU (Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano) quando o PT se dividiu na votação na
Câmara.

Esses elementos são importantes porque ACM Neto conseguiu vencer o pleito
municipal porque sobrepujou o PT na construção de uma imagem de mudança na Prefeitura,

76
Publicada em Portal Ibahia em 19 de junho de 2012 às 17:25h
P á g i n a | 197

na medida em que se firmou como oposição a ―tudo o que ai está‖. O que o PT não conseguiu
fazer, em virtude do seu discurso pelo alinhamento político total, entre os governos Federal,
Estadual e Municipal, como se a cidade não tivesse qualquer autonomia.

Como já dito, durante a campanha, ACM Neto fez duras críticas ao governo do
Estado e à estratégia da campanha do candidato do PT. Dentre elas, destacaram-se questões
ligadas à relação do governador com os professores da rede estadual, que durante aquele ano
permaneceram em greve durante mais de três meses, tendo seus pontos cortados a partir de
determinado momento. No que tange à campanha do seu adversário principal, queixou-se da
sua estratégia de apresentá-lo como o único capaz de governar a cidade por ser do ―mesmo
time‖ do governador e do presidente. Na realidade, essa crítica de Neto foi o foco principal da
campanha, em especial no segundo turno, quando se apresentou como defensor da autonomia
política da cidade. Nesse ponto, é importante ressaltar que a estratégia de ACM Neto está na
contramão da tradição carlista, que ao colocar em primeiro plano o protagonismo da elite
governante estadual pretendia para ela uma legitimação aclamativa, que evitava o pluralismo
e por isso excluía também a autonomia política do poder municipal e do prefeito. Essa
tradição foi marcada sempre pelo intento de submeter a cidade à política estadual. A história
registra várias passagens de prefeitos carlistas - Cleriston Andrade (1970-75), Mário Kertesz
em seu primeiro mandato (1979-81), Manoel Castro (1983-85) e Antônio Imbasshay (1997-
2004), deles, o único eleito – ou anti-carlistas, como a também eleita Lídice da Mata (1993-
96), em atitudes de conflito ou de subordinação. Em todos esses contextos a elite estadual
comandada por ACM atuou como vetor de bloqueio da autonomia política da capital77.

Na campanha de 2012, ACM Neto afastou-se profundamente de toda esta tradição e


assumiu um discurso enfático de autonomia, enquanto a ideia de alinhamento completo,
própria da tradição carlista, compôs o centro do discurso do PT.

77
Por bloqueio da autonomia política entenda-se a incapacidade historicamente constatável de forças políticas
(lideranças, partidos, grupos) atuantes na capital da Bahia de darem conta, através da representação política e/ou
da gestão do Poder Executivo Municipal, de um contencioso latente em torno de interesses, valores e práticas
(estratégias),vinculado à configuração urbana da cidade moderna. Questão, portanto, de práxis local e também
de forte condicionamento da sociedade política de Salvador pelo protagonismo da elite política estadual, que
tinha na capital ao mesmo tempo um campo de intervenção privilegiado e uma vitrine de justificação do seu
domínio sobre o conjunto do Estado. Justificação que se operava através de interesses, valores e estratégias
próprios de uma peculiar tradição política estadual, portanto, diferentes daqueles requeridos pelo novo urbano
emergente. ( DANTAS NETO, 2008, p.90)
P á g i n a | 198

Sob esse prisma, ACM Neto trabalhou fortemente como um dos seus apelos de
campanha contra o que chamou de ―chantagem‖ da estratégia petista que afirmava que
Salvador não possuía recursos próprios e que, portanto, precisaria de um prefeito alinhado
com os governos estadual e federal. Frente a isso, ACM Neto buscou destacar que ―a cidade
poderia caminhar com as próprias pernas‖, desde que tivesse um prefeito competente e que
chamasse a responsabilidade para si, construindo bons projetos e tendo relações ―cordiais‖
com o governador e o presidente. Para tanto, se de um lado se afastou da tradição carlista
defendendo a autonomia municipal, de outro, se aproximou de tal tradição utilizando como
estratégia de campanha o discurso da competência administrativa.

Em um comício, utilizou depoimentos do prefeito eleito em primeiro turno de


Aracaju/SE João Alves (DEM), que afirmou, segundo reportagem do Portal Ibahia de 26 de
outubro de 2012, que a tese do alinhamento automático com os governos federal e estadual
―não engana mais ninguém‖ e continua dizendo que: ―O que a população quer é um prefeito
competente, que tenha liderança para cobrar as verbas. Não adianta ter um prefeito submisso.
Com bons projetos e parcerias importantes, como a do PMDB, ACM Neto vai conseguir
verbas para as obras que Salvador precisa‖. Ainda nessa questão, segundo reportagem da
Folha de São Paulo de 27 de agosto de 2012, ACM Neto utilizou Beto Richa, governador do
Paraná e ex-prefeito de Curitiba pelo PSDB, para ―neutralizar campanha do PT em Salvador‖.
De acordo com esta reportagem, o discurso da campanha petista buscava enfatizar que o
melhor prefeito para Salvador seria alguém alinhado ao presidente e ao governador, mas
ACM Neto utilizou depoimento gravado de Beto Richa afirmando:

Na época da campanha diziam que seu fosse eleito a cidade [Curitiba] seria
boicotada e que não haveria dinheiro para nada. Pois bem, a população da cidade
decidiu não aceitar este tipo de chantagem e me elegeu. Resultado: fui eleito o
melhor prefeito do Brasil. Portanto, um prefeito só precisa trabalhar com afinco, ter
bons projetos e determinação para liderar a cidade78.

Defendendo essa perspectiva, ACM Neto se apresentou na campanha com um


político competente e capaz de desenvolver esta liderança. Assim, afirmou ser o candidato
mais preparado para governar Salvador: Vou resgatar o brilho dessa cidade. Nesse momento,
sou eu que reúno as melhores condições para fazer um governo competente e valorizando o

78
Jornal Folha de São Paulo em 27 de agosto de 2012
P á g i n a | 199

mérito, sem loteamento político de cargos e ao lado dos melhores. O compromisso do PT é


outro, é com seus dezessete partidos aliados, e não com a cidade79.

Mais uma vez, percebe-se sua aproximação com a tradição carlista no que se refere à
sua ênfase na competência administrativa, no papel protagonista do líder e no insulamento
burocrático, ou seja, a ideia de um núcleo do governo baseado no mérito, em habilidades
técnicas, e não em premissas políticas. Assim, ACM Neto apresentou-se nesta campanha
também como aquele líder jovem e ao mesmo tempo experiente que iria ―arrumar a casa‖,
começando com a organização das contas do município. Nesse ponto, diferente da tradição
carlista, defendendo a autonomia municipal.

Além disso, assim também como fizera em seus discursos em plenário, utilizou-se de
muitas críticas ao PT por conta do mensalão, que acabara de ser julgado pelo Supremo
Tribunal Federal e estava em grande repercussão na mídia, defendendo assim mais vez uma a
moralidade e a ética do homem público, aspecto que também o aproxima do repertório
simbólico carlista.

O tema da segurança pública foi um dos mais mobilizados por ACM Neto nesta
campanha. Segundo seus discursos, o índice de criminalidade havia crescido durante o
governo de Jaques Wagner, o que explicaria a sensação de insegurança da população na
capital. As críticas feitas à segurança também responsabilizavam o candidato Nelson
Pelegrino, que foi secretário de Justiça e Direitos Humanos da Bahia. Assim como havia feito
como deputado federal em seus discursos em plenário, ACM Neto em seus programas
eleitorais criticou os casos de ataque do crime organizado a policiais em 2009 80. Esse tema
também mobilizou boa parte das suas propostas de governo, como a criação da Secretaria da
Ordem Pública e Prevenção da Violência, além da ampliação da estrutura e da abrangência da
guarda municipal, entre outras propostas que eram vinculadas a essa questão. Esta ênfase fica
ilustrada pelos discursos do deputado abaixo:

Essa secretaria [de Ordem Pública e Prevenção à Violência] funcionará com dois
braços. O primeiro será fortalecer a Guarda Municipal para defender a ordem e o
patrimônio da cidade. Também criaremos a central de gestão para mapear as áreas

79
Publicado no Portal Ibahia em 28 de Outubro de 2012, às 9:07h.
80
Publicado no site do Uol em 26 de outubro de 2012 às 17:42h.
P á g i n a | 200

mais violentas. Assim poderemos definir políticas públicas para diminuir a violência
em locais críticos81.

O esporte será uma de nossas armas contra a violência. Vamos focar esse trabalho
principalmente nos mais jovens, que são as maiores vítima do tráfico de drogas82.

Conforme a Reportagem do Portal Ibahia intitulada Propaganda na TV recomeçou


com tiroteio entre candidatos do DEM e do PT, em razão do desgaste político do governo
com os professores estaduais, ACM Neto exibiu em um dos seus programas eleitorais o
depoimento de uma professora que relatou a tristeza com a greve das escolas e a decepção
com o PT. Outra professora também apareceu lembrando da greve da rede estadual e
afirmando que o PT tratou a paralisação de 115 dias de maneira ―humilhante‖. Ela ainda
finalizou o seu depoimento com uma canção popular usada durante o movimento dos
professores grevistas em referência ao governador, e que ACM Neto utilizou com um dos
apelos centrais da sua campanha, nas críticas à gestão petista: ―você pagou com traição a
quem sempre lhe deu a mão‖ 83.

Nesse mesmo contexto de embate com o PT, o candidato reagiu fortemente às


insinuações da campanha de Nelson Pelegrino de que, caso eleito, iria acabar com o Bolsa
Família. Por mais inverossímil que fosse sua presença numa campanha municipal, esse foi um
tema bastante recorrente, muito debatido. ACM Neto, novamente, assim como em 2008,
afirmou que o Fundo de Combate à Pobreza tinha sido criado por Antônio Carlos Magalhães
e se ―defendeu‖ dizendo: Eles dizem que vou acabar com o Bolsa Família. É mentira84.

Frente ao que considerou ataques de seu adversário que tentava gerar um medo na
população, ACM Neto utilizou a mesma expressão utilizada pelo então candidato à
presidência da República em 2002, Luís Inácio Lula da Silva, ainda que sem citá-lo. Segundo
reportagem do próprio site oficial de ACM Neto, de 30 de setembro de 2012, ele afirmou que
queria construir uma nova cidade ―junto com um povo lutador e que não vai deixar o medo
vencer a esperança‖. Mais de uma vez o deputado utilizou esta expressão. Ainda frente a essa
estratégia do ―medo‖, ACM Neto a contrapôs buscando afirmar-se como um político
experiente e competente, que já vinha realizando obras para ―ajudar‖ Salvador via sua atuação
parlamentar. Os discursos mais abaixo ilustram claramente este posicionamento:

81
Publicado no Portal Ibahia em 19 de junho de 2012, às 15:35h.
82
Publicado no site oficial de ACM Neto em 09 de setembro de 2012 às 17:46h.
83
Publicado no Portal Ibahia em 16 de outubro de 2012, às 20:33h.
84
Publicado no Portal Ibahia em 16 de outubro de 2012 às 08h33.
P á g i n a | 201

Eu me preparei a vida toda para esse momento. Uma coisa eu garanto a vocês: eu
não vou errar. Eu sei o tamanho da responsabilidade. [...] Não se deixe intimidar
pelo medo e ameaça que foi a tônica da campanha do nosso adversário. Você é
livre85. Obras de infraestrutura nós realizamos, com emendas minhas [...] Vários
hospitais, inclusive o de Irmã Dulce, o Hospital Santo Antônio. Coloquei R$ 1
milhão para equipar a Guarda Municipal. Coloquei meu mandato para ajudar a
Bahia e o Brasil.

É interessante notar que ACM Neto foi ao longo de toda campanha, mas
principalmente no segundo turno realizado entre ele e Nelson Pelegrino 86, associado ao grupo
carlista e aos dezesseis anos de governo desse grupo no estado. No entanto, comparada a sua
incidência com a que se dera nas eleições de 2008, a temática sobre a volta ou não do
carlismo não se configurou como tema central dessa campanha, mesmo sendo mobilizado por
diversas peças publicitárias do PT e mesmo tendo sido um dos eixos do lançamento da
campanha do próprio ACM Neto. Uma reportagem da Revista Isto É de 24 de Agosto de 2012
destacou as diferenças desta campanha para a de 2008 no que se refere à relação com ACM e
o próprio carlismo. Segundo as informações, no lançamento da sua pré-candidatura ACM
Neto e seus correligionários fizeram diversas citações a ACM. Nessa oportunidade, ACM
Neto leu, com voz embargada, uma carta de Jorge Amado endereçada ao seu avô em 1969 e
afirmou que se lançou à disputa à sucessão municipal ―por amor à Salvador‖, destacando que
estava ―[...] diante do maior desafio da sua vida‖.

Ainda que tenha mobilizado este legado ao longo da campanha, ACM Neto buscou
distanciar sua imagem pública de práticas carlistas muito criticadas, como o suposto
autoritarismo e intolerância do seu avô. Conforme se observa, ainda que declarando mais
abertamente esta relação, mantém-se de certa forma a estratégia de 2008 de ―renovar‖ o
carlismo. Em 2012, a estratégia de retomar mais diretamente o legado carlista parece ter sido
utilizada por conta do contexto político, já que tanto o governo municipal quanto o estadual
estavam mal avaliados, de modo que isto pode explicar o que a matéria da Revista Isto É, já
citada classificou como uma ―certa nostalgia dos tempos em que o grupo de Antônio Carlos
Magalhães comandava a política local‖.

85
Publicado no Portal Ibahia em 27 de outubro de 2012 às 00h04.
86
No segundo turno, os candidatos Mário Kertész (que se desfilou do PMDB) e Márcio Marinho (PRB)
apoiaram Nelson Pelegrino e Nestor Neto (PMDB), candidato a vice-prefeito na chapa do PMDB, assim como
outras lideranças deste partido como Geddel Vieira Lima, apoiaram ACM Neto.
P á g i n a | 202

Tentando dar ênfase a esta renovação, ACM Neto construiu sua coligação ―É hora de
Defender Salvador‖ com, além do próprio DEM, PSDB, PPS e PTN, o Partido Verde,
histórico opositor ao carlismo, tendo como candidata a vice-prefeita a ativista negra e
professora Célia Sacramento. Pode-se considerar esta coligação como algo heterodoxo dentro
da tradição carlista e parece ter sido uma estratégia do candidato para agregar novos eleitores
além dos carlistas tradicionais. Justificando a coligação, o deputado federal do DEM José
Carlos Aleluia, no dia da convenção do partido, afirmou: “Precisávamos de uma chapa que
representasse esta diversidade que é Salvador. Por isso a vinda de Célia foi tão
importante‖87. Para a mesma reportagem, ACM Neto afirmou que Célia Sacramento é a
síntese da mulher baiana e que vinha para agregar, apontando ainda que: “Política é a soma
de diferentes. É a soma de trajetórias distintas. Na campanha quero dialogar com todos os
seguimentos da sociedade, incluindo sindicatos e movimentos sociais: quero ser o governo da
pluralidade”. Ao longo da campanha ACM Neto também buscou apoio do ex-prefeito
Antônio Imbasshay, que era considerado um importante apoio por ser um político formador
de opinião, além de ter conseguido também o apoio do líder do governo João Henrique na
Câmara de Vereadores, o vereador Téo Senna (que na época estava em seu segundo mandato
e que nas eleições de 2004 obteve 9.961 votos), embora seu partido, PTC, tenha declarado
apoio ao candidato do PT Nelson Pelegrino.

Respondendo àqueles que acharam estranha a união do DEM com o PV, ACM Neto
lembrou que em 2002 o PT, que tinha Lula 88 como pré-candidato à presidência, buscou o PR,
de José de Alencar, para construir uma aliança que saiu vitoriosa e depois teve êxito no
governo brasileiro. Em suas palavras, “é com esse mesmo espírito que estamos aqui hoje‖89.

Conforme se observa, há nessa coligação, além da busca de diversos apoios políticos,


claramente uma estratégia de alcançar outras parcelas do eleitorado soteropolitano, como por
exemplo, os negros, que representam a maioria da população da cidade. Ademais, parece
ainda que essa estratégia de aliança com PV buscou mobilizar um público ligado à causa
ambientalista. No que tange à população negra, um posicionamento importante de ACM Neto
foi sobre a questão das Cotas Raciais nas Universidades. O candidato Nelson Pelegrino
87
Publicado pelo Portal Ibahia em 19 de Junho de 2012, às 8:05h.
88
Ainda que nesta campanha ACM Neto tenha criticado mais diretamente o PT, de forma agressiva muitas
vezes, as críticas se voltaram quase exclusivamente ao Governo do Estado, ao mensalão e ao candidato Nelson
Pelegrino. Assim como 2008, por sua vez, o candidato pareceu evitar estrategicamente críticas diretas ao
presidente Lula, que permanecia bem avaliado no estado e em Salvador.
89
Jornal A Tarde em 15 de Junho de 2012.
P á g i n a | 203

acusou o deputado de ser de um partido que votou contra as cotas e ACM Neto conseguiu um
direito de resposta na Justiça Eleitoral, que utilizou para manifestar sua posição quanto a esse
tema:
Sempre fui a favor das Cotas Raciais, durante toda a minha vida política deixei clara
minha posição em entrevistas e pronunciamentos. Cale lembrar que a primeira
Universidade Brasileira a implantar o Sistema de Cotas foi a Universidade do Estado
da Bahia - UNEB, e isso aconteceu no governo de Paulo Souto do meu partido.
Além disso, assinei com o PV da minha vice Célia Sacramento o compromisso de
implantar em Salvador o Estatuto da Igualdade Racial. Portanto, sempre fui a favor
das cotas e como prefeito sempre vou lutar por uma cidade mais igual para todos.

No que concerne ainda à questão racial, assim como na campanha de 2008, ACM Neto
fez visitas a terreiros de candomblé e assumiu a importância dessa religião como parte da
tradição da diversidade da Bahia. Também permaneceu como um apelo de campanha do
deputado a importância da juventude e do desenvolvimento de programas específicos para ela.
Destaca-se no seu programa de governo a proposta de construir praças para a juventude, para
a qual, inclusive, conforme visto no capítulo anterior, o deputado destinou mais de uma
emenda orçamentária.

Ao longo desta campanha, parte dos apelos de ACM Neto se dirigiu para setores
específicos da cidade, especialmente bairros e regiões periféricas de perfil popular, que
concentram boa parte do eleitorado da cidade. Para o que chamava de aproximar a prefeitura
da população, o candidato propôs o Projeto ―Prefeitura nos Bairros‖. Em relação a
bairros/regiões específicas, ACM Neto priorizou o Subúrbio e Cajazeiras. No Subúrbio
Ferroviário fez comício em conjunto com o ex-prefeito Antônio Imbassahy, que afirmou ter
governado Salvador em parceria com as emendas enviadas à cidade pelo deputado ACM
Neto. Em contrapartida, garantiu que, caso ACM Neto fosse eleito, seria a hora de retribuir
ajudando-o na sua gestão agora como deputado federal90. Na região de Cajazeiras, o candidato
também concentrou uma atenção especial na cobrança, ao governo estadual e ao programa de
governo de Nelson Pelegrino, de que o metrô chegasse primeiro a esta região antes de se
expandir para a região da Avenida Paralela em direção ao aeroporto. Essa discussão do metrô
também foi um dos temas recorrentes desta eleição, assim como o Projeto de ―Requalificação
da Orla‖ de Salvador, que ACM Neto prometeu realizar, mais uma vez destacando o que
considerava o ―absurdo‖ de Salvador ter sido ultrapassada por outras capitais do Nordeste. No
trecho de discurso a seguir demonstra mais uma vez sua preocupação com a indústria do

90
Publicado no Portal Ibahia em 30 de setembro de 2012 às 15:33h.
P á g i n a | 204

turismo e sua perspectiva de ―vender [a imagem] Salvador no Brasil e no exterior 91‖: Por que
a orla de Salvador não pode ser tão boa ou melhor que as de outras capitais do Nordeste,
como Maceió e Aracaju? Salvador tem potencial enorme para o turismo de sol e praia.
Precisa só de um prefeito com capacidade de articulação com outros organismos da
sociedade, competência, boa equipe e projetos para fazer92.
Conforme se observa, mais uma vez está presente no discurso de ACM Neto a
preocupação com a posição de Salvador e da Bahia frente a outras regiões, assim como a ideia
de competência, características típicas do carlismo. Em contrapartida, ficou claro nessa
campanha também, um elemento que distanciou bastante ACM Neto da tradição carlista, qual
seja, sua defesa na autonomia municipal de Salvador, em diferença à máxima carlista de que o
município sempre tinha que está alinhado ao Estado.

Ao fim desta campanha, ACM Neto sagrou-se o novo prefeito eleito de Salvador.
Seu forte posicionamento contra o governo estadual e foi um elemento central para a sua
vitória, uma vez que a gestão de Wagner estava bastante mal avaliado em Salvador 93. A
estratégia de construir sua imagem enquanto uma alternativa de mudança para Salvador
parece ter cativado os eleitores. De alguma forma, ACM Neto conseguiu se apresentar como
um candidato novo, que iria resgatar a autoestima do povo de Salvador, um político que seria
capaz de ―renovar‖ o carlismo através do diálogo, da defesa da diversidade e da autonomia
municipal.

Essas duas perspectivas foram, de alguma forma, confirmadas logo após o resultado
das eleições. Ao fim da apuração, seus correligionários comemoraram e carregaram o prefeito
eleito no seu comitê aos gritos de: ―Ô, ACM voltou... ACM voltou‖, além de muitas fotos do
senador. ACM Neto chorou e dedicou a vitória ao seu avô: "Agora eu sei que onde quer que
ele esteja, está tão feliz quando qualquer um de nós". No entanto, nas suas primeiras
entrevistas como prefeito eleito, frisou que "A disputa acaba hoje94‖ e que pretenderia manter
uma relação "extremamente harmônica" com os governos estadual e federal. Sobre isto, e a
relação com a oposição, afirmou ainda:

91
Publicado no Jornal A Tarde de 03 de setembro 2012.
92
Publicado no Site Oficial de ACM Neto em 23 de setembro de 2012 às 17:10h

93
De acordo com o publicado no Site da Revista ISTO É de 24 de agosto de 2012 às 21:00h, naquele mês
somente 16% dos eleitores de Salvador considerava a gestão estadual como ótimo ou boa.
94
Publicado no Portal Ibahia em 28 de outubro de 2012 às 22:21h.
P á g i n a | 205

Soube que Dilma declarou que irá dar um tratamento correto as todos os prefeitos,
independente de partido, e é o que a gente espera dela. Ela é presidente de todos os
soteropolitanos e eu serei o prefeito de todos os soteropolitanos, então nessa
perspectiva acabou a disputa, acabou o palanque. Quero ser parceiro do governo
estadual e federal e saberei reconhecer e dar os devidos créditos para tudo que o
governo federal e estadual fizerem em Salvador. [...] Vou dialogar com a oposição.
Muitas pessoas vão até se assustar com isso, mas vou fazer sim. Não acredito que
políticos como Waldir Pires (PT) e Edvaldo Brito (PTB) vão querer prejudicar
Salvador.

O interessante desse episódio, Para além das proximidades entre a estratégia política
de ACM Neto e a tradição carlista identificadas nessa campanha, é que ACM Neto foi
vitorioso ao gritos de ―ACM voltou‖, no momento em que derrotara um elemento clássico da
tradição carlista, o discurso de alinhamento e da submissão do município, no caso Salvador, à
elite governante estadual, que naquela eleição foi protagonizada pelo PT.

4.3 Breve síntese da construção de imagem e dos apelos e discursos de ACM Neto (2002-
2012)

Ao longo das análises das campanhas de ACM Neto para deputado federal em 2002,
2006 e 2010 e para prefeito de Salvador em 2008 e 2012 foi possível perceber que a imagem
construída foi fortemente influenciada tanto pelos contextos político-eleitorais de cada ano
quanto pelo tipo específico de eleição, proporcional ou majoritária. Para além das diferenças
influenciadas por esses elementos, alguns atributos da sua imagem, assim como alguns apelos
e discursos, permaneceram homogêneos, pelo menos de 2006 a 2012.

Conforme observado, as eleições de 2002 foram o momento da iniciação de ACM


Neto na política eleitoral, de modo que sua imagem esteve fortemente atrelada a de seu avô e
ao grupo carlista. Já em 2006, após um mandato como deputado federal, ACM Neto começou
a construir uma trajetória mais independente. A construção de sua imagem, portanto,
mesclava a sua vinculação com este grupo, mas já enfatizava a sua atuação parlamentar. É
interessante notar que esta atuação, assim como a construção da imagem e dos apelos de
campanha, fundamentava-se em vários traços característicos da política carlista, como a
competência e moralidade do ―homem público‖, a defesa dos interesses da Bahia, entre
outros. A eleição de 2010 representou a consolidação da sua trajetória própria enquanto
político. ACM Neto havia conquistado certo prestígio nacional, apresentou-se nas eleições de
maneira bastante autônoma frente ao seu partido e às coligações, e sentia-se muito mais à
P á g i n a | 206

vontade para falar abertamente do carlismo, uma vez que seu avô falecera e ele tornara-se, no
mínimo, um dos políticos mais importantes do grupo.

Nas eleições majoritárias de 2008 e 2012, ACM Neto mantém certos discursos e
apelos utilizados nas outras campanhas, principalmente a imagem de eficiência administrativa
e a ênfase na liderança. No entanto, nas eleições para prefeito de Salvador, ACM Neto
mobilizou a herança carlista de maneira diferente do que nas eleições proporcionais. Parte
disso decorre dos diferentes contextos políticos, o que também explica o distinto modo que
ACM Neto recorreu ao carlismo em 2008 e 2012.

Em primeiro lugar, percebeu-se uma diferença na construção da relação de ACM


Neto com o carlismo, em torno da sua imagem e dos seus apelos, nas eleições proporcionais e
nas majoritárias. Naquelas eleições, parece que ACM Neto se sentia mais à vontade para se
relacionar mais diretamente com o legado do seu grupo político. Sendo a eleição
proporcional, ser carlista configurava parte importante do seu capital político. É verdade
também que os contextos contribuíram fortemente para isto, pois em 2002 ele estava se
iniciando na carreira política e contou com parte do espólio eleitoral do grupo e da estrutura
de campanha e em 2006 o carlismo ainda estava no governo do estado, podendo, portanto,
mobilizar a máquina para ajudar na sua reeleição. Já em 2010, em função do evidente
processo de erosão do grupo carlista, ACM Neto lançou mão de uma estratégia de se colocar
contra a gestão do PT ao governo do Estado, que já sofria algumas críticas, relembrando a
―Bahia de ACM‖, se colocando como o político capaz de ―renovar‖ o carlismo, mantendo as
características de ACM enquanto homem público, já que as características pessoais se foram
com ele. Isso fica claro, inclusive, na sua estratégia de campanha, que foi muito mais focada
na sua liderança pessoal do que no grupo carlista.

Nas eleições majoritárias, a imagem do carlismo apareceu com muito menos ênfase,
tanto em função da tentativa de construção do ―carlismo renovado‖ quanto em função da
natureza da própria eleição, que requer a construção de mais alianças. Dessa forma, desde
2008 ACM Neto já se esforçava por afirmar que as características positivas da política carlista
deveriam ser mantidas, mas que os tempos eram outros e que, portanto, era necessário mudar.
Assim, nessa eleição já defendia a necessidade de produzir diálogos, o que se mantém em
2012 com a sua defesa da diversidade política, consolidando assim esta imagem de ―carlismo
renovado‖. Assim, ACM Neto passou a dialogar com ativistas da questão racial, ambiental, da
P á g i n a | 207

diversidade sexual, questões de gênero, jovens, além de dialogar com políticos de diversas
correntes, inclusive adversários históricos do seu avô.

É importante considerar que essa imagem mais flexibilizada do carlismo deveu-se


bastante aos contextos políticos. Enquanto nas eleições de 2008, primeiro pleito após a derrota
de 2006 e a morte de ACM, o tema do carlismo foi evitado pelo candidato, de modo que foi
mobilizado em geral em função de perguntas dos jornalistas ou de acusações dos adversários,
em 2012, em função da má avaliação do governo do PT, ACM Neto fez muitas críticas à
gestão petista e manteve , em parte, sua vinculação ao carlismo no que se refere ao discurso
da competência administrativa, do resgate da autoridade e da importância do líder, dessa vez
jovem, embora o foco principal da campanha tenha se pautado na autonomia municipal de
Salvador, elemento que o distancia bastante da tradição carlista.

Em suma, na construção da sua imagem e nos seus apelos de campanha, ACM Neto
mobilizou, de um lado, o tradicional repertório simbólico do carlismo, defendendo a
manutenção dos seus legados, ao mesmo tempo em que, ao longo do período, passou a
defender, pelo menos em seus discursos e a representar na construção midiática da sua
imagem, pressionado pelo contexto político adverso, a necessidade de renovação da política
do grupo. O maior exemplo desse processo, sem dúvida, se encontra na defesa da autonomia
municipal na campanha de 2012. Agindo dessa forma, é importante dizer que ACM Neto se
afina, mais uma vez, com uma das principais características da política carlista, a sua
capacidade de se adaptar aos distintos contextos, o que Dantas Neto (2006) chamou de
estratégias adaptativas.
P á g i n a | 208

CONSIDERAÇÕES FINAIS
P á g i n a | 209

Este trabalho teve como objetivo analisar em que a estratégia política de ACM Neto
se vincula e/ou se afasta da tradição do carlismo, tendo como focos de análise - tanto da
estratégia do ator, quanto da tradição do grupo - o perfil geográfico das votações obtidas para
deputado federal, um padrão de alianças políticas e o repertório simbólico acionado na
construção de imagem e na formulação do discurso político. Em outras palavras, buscou-se
compreender se a atuação de ACM Neto (virtualmente ligada ao seu êxito eleitoral e político)
importou numa apropriação do espólio eleitoral da facção da elite política baiana da qual
provém, numa continuidade das suas estratégias e alianças e numa mobilização do seu
repertório simbólico ou se, em lugar disso, ele protagonizou uma atuação política distinta,
nesses aspectos. Enquanto a apresentação da tradição carlista foi feita no primeiro capítulo, ao
longo dos três seguintes abordou-se a estratégia política de ACM Neto em torno da geografia
da sua votação nas eleições de 2002, 2006 e 2010 (em que se elegeu deputado federal), do
exercício de seus mandatos na Câmara dos Deputados, entre 2003 e 2012, e das campanhas
que empreendeu: as três para deputado federal e as de 2008 e 2012, para prefeito de Salvador.

A hipótese que norteou esse trabalho foi a de que a tradição carlista havia
influenciado de maneira relevante tanto o perfil eleitoral quanto a estratégia política de ACM
Neto, ainda que as primeiras análises já sugerissem que seu êxito não poderia ser explicado
somente pela tradição carlista. Ressaltou-se, desde logo, uma aparente contradição - sugerida,
inclusive, por hipóteses firmadas na literatura quanto à racionalidade de uma postura
governista por parte de legisladores - entre as ambições políticas iniciais de construção de
uma carreira a partir de acesso privilegiado a recursos acessíveis a políticos governistas e o
contexto de declínio do seu grupo político, que o empurraria para a oposição. A percepção
dessa questão reforçou a necessidade de investigar que outros elementos podem ter
contribuído para inflexionar a estratégia do ator, abrindo caminho para sua ascensão, mesmo
sob as circunstâncias adversas.

Conforme se observou no capítulo 1, a tradição carlista tem como características


fundamentais um arranjo entre discursos e práticas modernizantes e politicamente
conservadoras. Do ponto de vista da modernização, sempre se colocou como defensor das
grandes linhas de desenvolvimento do capitalismo nacional, valorizando a gestão tecnocrática
P á g i n a | 210

como meio de realização da estratégia modernizante. Já na perspectiva conservadora tem uma


compreensão de que a política deve ser exercida de maneira vertical, com a exaltação da
necessidade de competência e da centralização da elite protagonista, evitando-se assim os
conflitos típicos do pluralismo político. Atrelado a esta estratégia mais prática, por assim
dizer, o carlismo também se utilizou de elementos que compuseram um repertório simbólico
muito específico, combinando a defesa da modernização - que conecta a elite estadual ao
plano nacional –, a uma forte ênfase no regionalismo político, por meio de um discurso de
defesa dos ―interesses da Bahia‖. Assim, o carlismo historicamente construiu suas alianças
político-partidárias de modo a fortalecer sua base local pela sua inserção no cenário nacional,
geralmente alinhada à elite política governante. Além disso, foi central em sua política a força
de um carisma não só modernizante (do líder realizador) como autocrático, do líder que sabe
comandar, chamando a si, de modo vertical, a responsabilidade de direção política.

Partindo dos objetivos de pesquisa e dessa caracterização do carlismo, os achados


dessa investigação apontam para uma complexidade que poderia dar lugar a afirmar tanto que
houve uma proximidade mais ou menos ―automática‖, porque genética, entre as estratégias
políticas de ACM Neto e da tradição carlista, como que, ao contrário, a estratégia de um novo
ator se construiu a partir do – e resultando no – seu distanciamento em relação à tradição. A
pesquisa mostrou, no entanto, que é preciso compreender tais possibilidades de interpretação
e, ao mesmo tempo, oferecer opções alternativas a estas configurações polares, a partir não só
das três dimensões analíticas propostas para o cotejamento da tradição carlista, como também
através de uma análise das nuances da trajetória de ACM Neto nos diversos contextos
políticos do período. Revisemos os elementos centrais dessa trajetória, articulando-os,
logicamente, em busca de lhes dar um sentido.

Ao longo da campanha eleitoral de 2002 a imagem de ACM Neto foi, como relatado
no capítulo 4, fortemente atrelada à de seu avô e a sua estratégia eleitoral, abordada também
no capítulo 2, muito vinculada aos recursos políticos disponíveis, ao grupo carlista, naquele
momento de sua iniciação na vida político-eleitoral. Embora o contexto já fosse de relativo
declínio do carlismo, viu-se que naquelas eleições de 2002 ACM Neto foi eleito deputado
graças, em boa parte, ao espólio eleitoral de ex-deputados carlistas, inclusive o do seu tio,
Luis Eduardo Magalhães, morto quatro anos antes. Os achados da pesquisa incluem indícios
de transferência de votos de redutos carlistas em pelo menos dez municípios, dentre aqueles
que mais contribuíram para sua votação, para além do fato de que parte da sua votação pode
P á g i n a | 211

ser explicada tanto pelo repertório simbólico do seu grupo político quanto pela presença deste
na máquina governamental estadual. Notou-se também que o perfil eleitoral do deputado
naquele ano foi muito semelhante ao de vários outros deputados carlistas, ou seja, com uma
votação dispersa-dominante, segundo a tipologia de Ames (2003). Esse perfil caracteriza-se
pela votação dispersa por quase todos os municípios do Estado, com alta dominância em
municípios específicos, os chamados redutos eleitorais.

Em termos das alianças políticas, no capítulo 3 ficou claro que durante sua atuação
parlamentar, entre 2003-2006, o deputado colocou-se como oposição no nível federal,
permanecendo alinhado ao mesmo campo de alianças do carlismo durante a década de 90, em
especial o PSDB, embora a condição de oposição nítida e persistente represente em si mesma
um importante ponto de afastamento do deputado da tradição carlista, para a qual governismo
em nível nacional sempre foi no mínimo, uma meta, na maior parte do tempo, realizada.

Foi visto também no capítulo 3 que no primeiro mandato o repertório simbólico


mobilizado por ACM Neto caracterizou-se por uma vinculação à tradição do carlismo
principalmente no que se refere à defesa da moralidade do ―homem público‖ à manutenção do
clássico regionalismo político carlista, assim como ao enaltecimento dos elementos culturais
da Bahia, sua diversidade, ícones e singularidade. Como no plano estadual o seu grupo ainda
era governo, defendeu de forma bastante enfática o padrão de gestão carlista, baseado na
competência, no papel do líder, na importância da autoridade e no protagonismo da elite
governante estadual, inclusive frente ao partido nacional, bem como na defesa de que os
cargos políticos fossem ocupados por critérios técnicos e não político-partidários. Em termos
de apresentação de emendas ao orçamento neste primeiro mandato, não foi possível fazer uma
análise mais densa pela exiguidade dos dados, mas se observou que suas emendas estiveram
bastante concentradas em um grupo de temas, tendo a saúde como carro chefe, assim como
foi possível notar que o deputado direcionou verbas para os maiores e mais importantes
municípios do Estado, os quais acabaram por se tornar a parte mais relevante da sua base
eleitoral em 2006. Isso sugere que ACM Neto utilizou emendas para conquistar novas bases,
produzindo um vínculo entre a esfera da sua atuação parlamentar e a arena eleitoral.

Na campanha eleitoral de 2006, já após um mandato como deputado federal, ACM


Neto começou a praticar estratégia mais independente, como ficou evidente no capítulo 4. Na
construção de sua imagem, mesclou a vinculação ao grupo carlista à ênfase em sua atuação
P á g i n a | 212

parlamentar. Foi interessante notar que a construção da imagem e dos apelos naquela
campanha baseou-se, realmente, em traços característicos do repertório simbólico carlista,
como o elogio da competência técnica, da moralidade do ―homem‖ público, assim como a
defesa dos interesses da Bahia. A autonomia de Neto nessa campanha se evidenciou pois ele
fez questão de mostrar seus ―feitos‖ na Câmara, como a defesa da Bahia, a votação contra a
CPMF, entre outros.

O resultado dessas eleições desalojou o carlismo do governo da Bahia, de modo que


ACM Neto, eleito novamente, passou a atuar na oposição nos níveis municipal (Salvador),
estadual e federal. Em termos do seu perfil eleitoral, comparado ao de 2002, no capítulo 2
ficou claro que o peso que nele teve o espólio carlista diminuiu significativamente. Só há
indícios claros de transferência direta de votos de redutos carlistas em dois municípios, entre
os principais da sua votação. Pelos próprios resultados comparativamente desfavoráveis ao
carlismo nessas eleições, não é possível afirmar que a expressiva votação de ACM Neto esteja
vinculada somente à tradição desse grupo. Embora tenha mantido alguns redutos eleitorais, já
aí houve um aumento importante da sua votação nos maiores municípios do estado, o que
pode ser explicado pela sua atuação parlamentar em termos de apresentação de emendas ao
orçamento, assim como por possíveis votos de opinião.

Quanto às alianças, se viu no capítulo 3 que o segundo mandato de ACM Neto na


Câmara foi marcado pelo seu alinhamento ao mesmo campo político, agora com bem mais
vigor. Não obstante ter permanecido seu vínculo estreito ao repertório simbólico tradicional e
aos temas centrais do carlismo, ele estreitou laços com o campo político oposicionista
nacional, galgando posições de mais importância e responsabilidade na Câmara a ponto de
inverter a postura usual dos líderes políticos da tradição carlista, de dar mais valor aos
vínculos da sua facção na elite política estadual do que às lealdades partidárias nacionais.
Desde 2008, o deputado utilizou a liderança no DEM na Câmara como importante estratégia
para galgar visibilidade fora da Bahia. Nesse sentido, mesmo antes e desde os dois primeiros
anos do mandato, aumentou, em seus discursos, a proporção de temas nacionais em relação
aos estaduais, assim como foram bem menos frequentes e eloquentes, do que no primeiro
mandato, as referências ao seu grupo político estadual. De alguma forma, isso evidencia uma
tática de se vincular menos a este grupo, em processo acentuado de declínio, principalmente
após a derrota no pleito de 2006 e a subsequente morte de seu principal líder, ACM, em 2007.
P á g i n a | 213

Como também visto no capítulo 3, entre os anos de 2009 e 2010, findo o exercício da
liderança da bancada, aumenta, significativamente, a proporção de temas estaduais/regionais
frente aos temas nacionais/gerais nos seus eventos de fala, quando comparado esse período ao
dos dois primeiros anos do mandato. Essa mudança coincidiu também com a proximidade das
eleições de 2010, evidenciando a tática de tratar temas ligados à Bahia, com fins eleitorais.

No mesmo capítulo mostrou-se que as emendas apresentadas ao orçamento


diversificaram-se tematicamente, mas observou-se, dessa vez, uma estratégia de manutenção
de bases eleitorais, via emendas como recompensas por apoios em 2006, mais do que a de
conquista de novas bases. Isso ficou de certa forma visível no caso dos maiores municípios do
estado, conquistados em 2006 e que permaneceram na sua base eleitoral em 2010. Embora
essa conexão de sentido entre emendas e manutenção de bases seja apenas especulativa, não
tendo poder explicativo, na medida em que outros fatores, não mensuráveis, podem ter
concorrido para esse êxito, dentre os quais assoma, também especulativamente, o voto de
opinião, em razão do porte desses municípios.

Entre os anos finais do segundo mandato e os iniciais do terceiro, o tema do turismo


teve, como mostra o mesmo capítulo 3, destaque na apresentação de emendas. Não por acaso,
nesse período, um liderado político de ACM Neto presidia a Empresa de Turismo de
Salvador. Vê-se por aí que enquanto aprofundava sua inserção nacional e estreitava vínculos
com seu partido a esse nível - e, para tanto, refluía na abordagem do tema carlismo, ACM
Neto não descuidava da conexão prática da sua atividade parlamentar com a facção carlista da
elite estadual, buscando assim usar o mandato para reconstruir sua força no estado.

No meio desse mandato, em 2008, candidatou-se a prefeito de Salvador. Nessa


campanha relacionou-se à política carlista de maneira bastante peculiar. Num contexto
adverso, o tema carlismo foi evitado pelo candidato, em geral só sendo tratado em função de
perguntas de jornalistas ou acusações de adversários. ACM Neto esforçou-se em afirmar que
as características positivas da política carlista deveriam ser mantidas, mas que os tempos eram
outros, de modo que era necessário mudar. Esta estratégia discursiva foi chamada ao longo do
trabalho de ―carlismo renovado‖. ACM Neto não foi eleito, mas conseguiu votação
relativamente surpreendente tendo em vista o contexto desfavorável do grupo. O resultado lhe
garantiu papel relevante no segundo turno das eleições e uma participação política, através da
indicação de um nome no governo do prefeito reeleito de Salvador.
P á g i n a | 214

Já na campanha de 2010, pela sua reeleição à Câmara, ACM Neto lançou mão, como
se viu também no capítulo 4, da tática de se colocar contra a gestão do PT no Governo
Estadual. Fez isso relembrando a ―Bahia de ACM‖. Essa ainda incipiente retomada de uma
identificação maior com o carlismo foi combinada com um apelo publicitário à juventude do
candidato e, aos daí decorrentes, dinamismo e modernidade. A estratégia de campanha do
deputado parecia já querer ensaiar uma campanha majoritária estadual, pois foi construída em
torno da seguinte questão: ―Vamos comparar a Bahia de ACM e a Bahia de Wagner, para
saber qual é a melhor!”. Embora tal tônica tenha sido colocada na campanha, foi mostrado no
referido capítulo que a proposta de ACM Neto se pautou na afirmação de legados positivos do
carlismo, propondo a renovação de outros elementos, ―já que as características pessoais de
ACM tinham ido com ele”. Nesse sentido, sua campanha enfocou fortemente a construção de
sua imagem enquanto liderança jovem, capaz de ―renovar‖. Evidenciou-se também, em peças
de campanha comentadas no capítulo 4, a consolidação de sua trajetória política, haja vista o
uso, como apelo, da sua experiência de deputado, após dois mandatos em que conquistou,
inclusive, certo prestígio nacional. Assim, apresentou-se de maneira autônoma frente ao seu
partido e às coligações, sentindo-se mais à vontade para falar abertamente do carlismo, uma
vez que seu avô falecera e ele se tornara, no mínimo, um dos políticos mais importantes do
grupo, mesmo que não tivesse ainda conquistado a liderança inconteste desse mesmo grupo.

Mas ao mesmo tempo, o capítulo 2 evidenciou que nessas eleições de 2010, ACM
Neto perdeu cerca de 100 mil votos e a diminuição da força dos candidatos carlistas ficou
ainda mais evidente. Apesar, ou por causa disso, ele consolidou ainda mais a sua importância
político-eleitoral relativa, dentro do partido. Em termos do perfil geográfico de sua votação,
ele passa a ter um voto mais concentrado-compartilhado, em parte por conta do seu
crescimento eleitoral nos maiores municípios do Estado. Ademais, não tendo feito parte do
Governo Estadual no período anterior à eleição e após o exercício de dois mandatos como
deputado de oposição nacional, a possibilidade de explicação de seu êxito eleitoral via
transferência de votos do espólio carlista fica cada vez mais remota. Agora só houve indícios
de transferência de votos de outros políticos carlistas em um município, entre aqueles
principais. A atuação parlamentar de Neto, tanto em plenário, como Líder do DEM, quanto
através das Emendas ao Orçamento, apresenta-se, cada vez mais, como provável elemento
importantes no seu êxito eleitoral.
P á g i n a | 215

Nos dois anos em que permaneceu na Câmara, no seu terceiro mandato, a atuação de
ACM Neto, conforme argumentado no capítulo 3, se aproximou, mais do que em qualquer
outro instante, do pragmatismo característico da política carlista tradicional. Seu alinhamento
político permaneceu no campo político de articulação do carlismo nos anos 90, bem como se
reiteraram os traços típicos do repertório carlista, como, por exemplo, as denúncias de
corrupção e do comando vertical da política pela autoridade, entre outros elementos. Houve
peso relativo maior de temas relacionados à questão regional e a manutenção de críticas às
gestões petistas, tanto a federal como a estadual. A atuação do deputado em relação às
Emendas ao Orçamento já mostrava uma estratégia clara voltada às eleições municipais de
2012, em Salvador, além da recompensa de tradicionais redutos carlistas.

A trajetória examinada se conclui na campanha para a Prefeitura de Salvador em


2012, abordada no capítulo 4. Tirando proveito da soma de dez anos de experiência de
atuação na Câmara com a sua visibilidade nacional de líder do DEM – cargo que exercia pela
segunda vez – e a má avaliação do governo do PT, ACM Neto sentiu-se mais à vontade para
deixar clara a sua vinculação ao carlismo e à política do seu avô, ainda que levada a cabo,
como em 2010, ―por um político jovem e moderno”. Demonstrando essa ―renovação‖ do
carlismo, Neto se coligou a antigos adversários políticos e se aproximou discursivamente, ao
longo da campanha, de grupos que não eram parte do campo tradicional de alianças do
carlismo, construindo uma política mais diversa no exato momento em que mobilizava com
mais frequência, ênfase e desenvoltura, o repertório simbólico da sua tradição. Nesses termos,
defendia o valor da competência, da liderança, da autoridade, para resolver os problemas da
cidade. Em contrapartida, por uma exigência do contexto, afastou-se taticamente da tradição
carlista no que tange a ideia de necessidade da aliança pragmática com o governo federal.
Afastando-se dessa máxima carlista, contrapôs-se ao que chamou de ―chantagem do PT‖ em
relação à necessidade do alinhamento entre município, estado e União, usando como
argumento um elemento também clássico da tradição carlista, qual seja, a competência
administrativa. Segundo Neto, com bons projetos, a Bahia não deixaria de ser beneficiada.

O contexto de hegemonia do PT ensejou ao deputado promover uma descontinuidade


em relação ao impulso governista típico do carlismo, fazendo assim com que se distanciasse
da tradição do seu grupo, deixando ao PT o discurso e o papel que antes foram do carlismo,
de negar e constranger a autonomia política da capital ao estado.
P á g i n a | 216

Essa postura de defesa, nas eleições de 2012, da autonomia política da capital e de


uma atitude politicamente pluralista nas relações entre prefeitura e governos estadual e federal
foi talvez o momento mais forte de afastamento de ACM Neto da tradição carlista. Nessa
mesma direção e com a mesma relevância apresentou-se, como bem salientado no capítulo 3,
a condição, absolutamente inédita e impensável, para um carlista convencional, de se manter
durante seis anos como um político de oposição em todos os níveis.

Mas, por outro lado, não se pode perder de vista que foi através de uma atuação
parlamentar marcada, como também demonstrado no capítulo 3, por forte mobilização do
repertório simbólico carlista e por um alinhamento ao mesmo campo político de seus
predecessores que ACM Neto obteve visibilidade nacional, podendo ampliar sua base
eleitoral para além do espólio carlista, utilizar a estratégia discursiva do ―carlismo renovado‖
e tornar-se governo no Executivo municipal de Salvador, ao lado de se configurar como o
principal líder da oposição na Bahia.

A trajetória política de ACM Neto permite traçar uma discussão sobre a relação entre
elites e instituições, já que nesse período este ator político mobilizou suas estratégias frente a
regras do jogo de diferentes instituições da perspectiva de uma elite estadual tradicional.
Seguindo Marenco (2008), não se trata de concluir simplesmente, como se viu, que minorias
governam nem que as instituições moldam as ações dos atores políticos e fixam seus
resultados a partir de determinados constrangimentos, mas sim de compreender como
instituições tornam-se instituições, como se formam e são mantidas, saindo da teoria
institucionalista para a teoria de instituições. Nesse aspecto, o estudo da composição,
recrutamento e circulação das elites contribuem para explicar esse processo.

Desse modo, faz-se importante analisar a relação das estratégias políticas de ACM
Neto com os sistemas partidários e eleitorais. O deputado iniciou sua trajetória política, em
2002, quando na Bahia vigorava um subsistema estadual competitivo com características
bipartidárias, porém integrando uma facção da elite política que exercera até bem pouco
tempo antes (2000, 2001) um domínio em situação de sistema competitivo com partido
predominante (Sartori,1982). Essa mudança do formato institucional da competição eleitoral
exigia, por parte da facção da elite, a produção de estratégias adaptativas, e nesse sentido, a
estratégia de ACM Neto é um exemplo emblemático, pois ele construiu sua trajetória política
em um contexto de maior competição político-eleitoral e, mesmo estando na oposição,
P á g i n a | 217

conseguiu êxito nesse novo cenário, principalmente através da única arena política que lhe
sobrara, a atuação parlamentar na Câmara dos Deputados.

O Legislativo brasileiro, no entanto, é caracterizado por uma parte relevante da


literatura, conforme discutido na introdução, como uma instituição reativa e frágil (Santos,
2006), quando comparada ao poder do Executivo, que controla a agenda política através das
medidas provisórias e projetos de lei, contando com a disciplina partidária decorrente do
arranjo institucional (Figueiredo e Limongi, 2007). Assim, o legislativo federal não tem a
capacidade de empreender o encadeamento da agenda legislativa, de modo que suas ações
fiscalizadoras se tornam residuais (Anastasia e Inácio, 2010). Em geral, portanto, as principais
atividades legislativas acabam sendo apenas de ―cooperação‖ com o Executivo e ficam nas
mãos das coalizões da situação, de modo que ao parlamentar de oposição restam poucas
alternativas de atuação. Mesmo em uma interpretação mais matizada, como a de Palermo
(2000) que leva em consideração a capacidade das elites nesse processo, o cerne das
negociações permanecem centralizadas no Executivo, especialmente através da ação do
presidente. Mesmo frente a este arranjo institucional, enquanto deputado de oposição, ACM
Neto não teve uma atuação parlamentar meramente reativa nem ficou esperando passivamente
pela eleição seguinte para se tornar situação. No plano subnacional, ainda que isto não
contradiga a literatura, sua atuação parlamentar destacada em termos da construção do seu
papel de liderança política de oposição, assim como das emendas apresentadas ao orçamento,
permitiram ao deputado alcançar um posto majoritário na capital do estado. Para a base
estadual, portanto, esteve longe de ser insignificante o papel da sua atuação parlamentar,
posto que permitiu alcançar outros horizontes na carreira, além de assumir algum cargo no
governo federal. Esse processo demonstrou a capacidade de atuação de uma elite política
estadual tradicional de alcançar alguns de seus objetivos, mesmo premidas pelas instituições e
regras do jogo.

Enfim, no que se refere especificamente à relação entre elites e partidos nesta arena
de atuação política, fica clara na trajetória de ACM Neto o peso variável que, em diferentes
momentos, sua estratégia confere às condições de representante e líder da facção da elite
estadual ou do partido nacional ao qual representa. No primeiro mandato houve um maior
dilema, por assim dizer, frente a esta relação, já que houve uma primazia da elite estadual,
uma vez que seu grupo estava na situação no executivo do estado, ainda que, na condição de
oposição, o deputado tenha necessitado se colocar dentro da lógica dos partidos na Câmara.
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No segundo mandato, esse dilema diminui e o partido passou a ter primazia nas estratégias
políticas de ACM Neto, posto que se tornara líder, mas também muito influenciado pelo
contexto de enfraquecimento da elite estadual. No último mandato, o partido ganha, mais uma
vez, um lugar importante, posto que o deputado se utiliza da sua condição de líder para
construir um forte discurso oposicionista ao governo federal e estadual, sem contudo se
desvincular da elite do estado, acumulando forças para as eleições de 2012. Esse processo,
portanto, evidencia que as estratégias políticas de ACM Neto foram marcadas por uma
sintonia no manejo do seu papel enquanto líder de uma facção da elite estadual tradicional e
como líder do partido que representava em âmbito nacional.

Diante de tal trajetória, do diálogo com a literatura e, sobretudo, dos achados da


pesquisa, ficou claro que a estratégia de ACM Neto buscou a renovação da tradição carlista.
Depois do caminho percorrido pela análise, vale perguntar mais precisamente: o sentido mais
geral desse processo de renovação é preservar a tradição carlista como podem sugerir os
momentos de mais proximidade de ACM Neto com essa tradição? Ou o sentido mais geral
desse processo de renovação é o de reformular essa tradição como podem sugerir os contextos
específicos de maior afastamento do ator face à tradição?

Defende-se aqui que esse processo de renovação teve como sentido a preservação da
tradição carlista. Tal tese não se deve a uma avaliação que levou em conta apenas os
momentos em que se manteve fiel a tal tradição contabilizando-os quantitativamente por
assim dizer, ou mesmo a uma interpretação que considerou somente o significado isolado dos
aspectos que o afastaram da tradição carlista.

A compreensão aqui defendida se fundamenta na consideração de que os momentos


de renovação estiveram vinculados a uma lógica mais profunda, ligada a um novo contexto
político e de correlações de forças, assim como a determinadas regras do jogo, que impuseram
maiores dificuldades ou se apresentaram como desfavoráveis ao ator político. Além disso, a
renovação tem um sentido de preservação também porque muitas vezes as ―alternativas‖
encontradas para enfrentar estes contextos foram buscadas em dimensões relevantes da
própria tradição.
P á g i n a | 219

Dessa forma, portanto, a construção dessa renovação se configurou como mais uma
estratégia adaptativa desse ator político que teve como resultado do processo um sentido de
preservação da tradição carlista.

ANEXO 1
DISCURSO DE DESPEDIDA DE ACM NETO DA
CÂMARA DOS DEPUTADOS, 2012
P á g i n a | 220

Discurso de despedida do deputado ACM Neto da Câmara de Deputados em razão de


sua eleição para o cargo de Prefeito do Município de Salvador- BA em 13 de dezembro
de 2012. (Grifos Nossos)

Obrigado, Sr. Presidente Marco Maia, Srs. Deputados, Sras. Deputadas, funcionários desta
Casa, funcionários do Democratas, funcionários do meu gabinete. Em especial, trago aqui
uma saudação a todo o povo baiano que acompanha o pronunciamento que faço neste dia.
Confesso, Presidente Marco Maia, que um dia eu imaginei que o meu primeiro
pronunciamento nesta Casa, a primeira vez em que ocupei a tribuna desta Casa, o que
aconteceu em fevereiro de 2003 - e aí já se vão quase 10 anos -, aquele eu imaginei que teria
sido o dia de maior ansiedade, de maior nervosismo e de maior emoção. No entanto, quero
confessar que hoje a minha emoção, a minha ansiedade, o meu nervosismo é muito maior.
Afinal de contas, nesses quase 10 anos, dediquei a minha vida, dediquei a minha capacidade
de trabalho, dediquei o meu tempo e a minha energia para corresponder à confiança que
recebi três vezes do povo baiano nas urnas, tendo sido, pelas três vezes, o mais votado
Deputado Federal do meu Estado. Quero dizer a todos os senhores e senhoras que este
plenário, na verdade, virou uma parte da minha vida. Todos sabem o quanto eu me realizei,
nesses quase 10 anos, encaminhando votações, debatendo matérias, falando pela Liderança.
Todos sabem que aqui, juntos, e tenho muitos colegas que começaram comigo no ano de
2003, nós escrevemos história nesse período. Vivemos momentos absolutamente
inesquecíveis - alguns de vitória no painel, a maioria deles de derrota no painel, porque foram
três mandatos exercidos na Oposição. No entanto, todos foram de vitória na consciência do
exercício democrático. É engraçado e quero revelar isso porque, às vezes, eu saía daqui de
madrugada, quando as sessões avançavam para depois da meia-noite, e, ao chegar em casa,
mesmo tendo perdido no painel e mesmo sabendo que, no dia seguinte, eu voltaria a este
plenário para, mais uma vez, perder no painel, eu me sentia recompensado e vitorioso
exatamente por ter aquele sentimento do dever cumprido, da consciência cívica, do espírito
democrático. Se hoje eu tenho muito a agradecer ao povo de Salvador por ter confiado
em mim no último 28 de outubro e ter-me concedido o direito de ser seu Prefeito, eu
quero dividir esta alegria com a Casa, porque, muito do que aprendi na política, aprendi
aqui dentro. A Câmara dos Deputados do Brasil foi, para mim, uma universidade da
política. Aprendi como Deputado Federal e homem público, aprendi como cidadão e
aprendi como ser humano. E talvez tenha sido o aprendizado como ser humano aquele que
mais me enriqueceu e que mais fez com que hoje eu fosse uma pessoa mais experiente e mais
preparada do que quando assumi o meu primeiro mandato nesta Casa. Eu confesso aos
senhores e senhoras que, de ontem para cá, quando iniciei a preparação de alguns rabiscos
para falar nesta noite, eu tentei trazer à memória alguns temas, alguns momentos, algumas
passagens que eu considero que foram marcantes e inesquecíveis - e, evidentemente, essas
passagens têm muito a ver com o que eu fiz neste Parlamento em quase 10 anos: a luta por um
salário mínimo mais justo. Hoje temos que reconhecer que o salário mínimo no Brasil é muito
mais compatível com as necessidades dos trabalhadores do que era em 2003, e muito se deve
à nossa luta e ao nosso esforço, defendendo, enquanto bandeira partidária, um salário mínimo
P á g i n a | 221

justo para o povo brasileiro. A defesa permanente das bandeiras sociais, das políticas de
inclusão social e de distribuição de renda. A defesa da educação pública gratuita e de
qualidade. Aliás, eu, antes de ser Deputado, trazia a vivência de ter trabalhado na Assessoria
da Secretaria de Educação do Estado da Bahia e tive, naquela oportunidade, a chance de
reconhecer na educação a verdadeira mola de transformação da nossa sociedade. Também a
luta pela inclusão dos portadores de deficiência. Essa foi uma luta notadamente presente no
meu primeiro mandato e que acompanhou os dois mandatos seguintes. A luta por mais
recursos para a Região Nordeste. Há uma série de pronunciamentos que eu fiz aqui,
mostrando as graves desigualdades sociais e econômicas que ainda existem no Brasil.
Aos poucos, o Nordeste vem superando essas desigualdades. Mas eu quero deixar
registrado que ainda há muito que se fazer, em termos de políticas públicas, para que o
Nordeste brasileiro possa ser mais bem assistido, sobretudo na transferência de recursos
federais e na garantia de investimentos para a nossa Região. A luta sempre presente no meu
partido contra a carga tributária, defendendo a redução de impostos, sendo que aí nós
tivemos uma vitória não só no debate político, mas uma vitória também no painel,
porque conseguimos acabar com a CPMF. Depois, no ano seguinte, já como Líder,
travei aqui uma frente que se opôs à reedição da CPMF, naquele momento denominada
CSS, sempre olhando para o contribuinte, sempre olhando para a necessidade de abrir espaço
para mais investimentos e para que a economia brasileira possa ser cada vez mais dinâmica. A
defesa, nesta Casa, de uma reforma tributária que permitisse maior igualdade entre os
entes da Federação. E eu quero deixar esse debate para que o Congresso possa
continuar fazendo a necessidade de reequilibrar os entes federativos brasileiros. E aí
chamo a atenção para a situação atual dos Municípios - Salvador não foge a ela - e dos
Estados, que precisam de mais solidez nas suas finanças e de mais capacidade de investir
com recursos próprios. E eu faço um apelo a esta Casa e ao Poder Executivo, no sentido de
que deem sequência, mesmo que de maneira fatiada, à aprovação de medidas tributárias que
permitam melhor equalização dos entes federativos. A defesa de mais recursos para a saúde
pública. Aí, como Líder, também tive a oportunidade de garantir e construir, no conjunto dos
Líderes desta Casa e com o apoio do Presidente, a aprovação da Emenda nº 29, que garantiu
um novo marco regulatório de aplicação de recursos para a saúde pública brasileira. Chamo
atenção para a postura sempre responsável que nós da Oposição adotamos diante das crises
econômicas que abateram o Brasil neste período de quase 10 anos. Nós nunca nesta Casa
apostamos na lógica do "quanto pior, melhor". Pelo contrário, tivemos uma postura
responsável, decente, uma postura de abertura ao diálogo, uma postura de pensar
primeiro no Brasil e nos efeitos que qualquer decisão aqui poderia ter em cada um dos
cidadãos brasileiros. Por isso mesmo, fomos colaborativos e estendemos a mão ao Governo
para aprovar as medidas que permitiram a superação da crise econômica. Quantos projetos
discutimos e votamos nesse período para garantir a redução da violência e da criminalidade
no Brasil, inclusive aperfeiçoando e melhorando a legislação penal do nosso País? Isso para
não falar da defesa sempre apaixonada que fiz, desta tribuna, do meu Estado, a minha
querida Bahia, chamando a atenção, às vezes, para temas que eram locais, mas que
precisavam ganhar relevo e destaque no plano nacional, e sempre, sempre, mas sempre
pedindo a atenção do Governo, dos governantes e desta Casa para as necessidades da
minha querida Bahia. A minha luta e a minha defesa sempre presentes no combate à
corrupção. Aí eu chamo a atenção para a participação que tive como membro e Sub-
Relator da mais importante Comissão Parlamentar de Inquérito da história recente
deste País: a CPMI dos Correios, que foi um marco na história deste País e que mostrou
ao Brasil, agora corroborada pela decisão do Supremo Tribunal Federal, que a
impunidade não prevalece neste País (palmas) e que há um avanço permanente das
instituições democráticas, isso tudo garantindo os pilares para que o Brasil seja um país
P á g i n a | 222

de instituições fortes e respeitadas pelo cidadão. Quero dizer, Sr. Presidente, que sou muito
grato a esse conjunto de Deputados e Deputadas que confiaram em mim e me elegeram no
ano de 2009 Vice-Presidente e Corregedor desta Casa. Foi um dos momentos marcantes. Tive
mais de 400 votos, num momento crítico. E todos aqui sabem o cuidado que tive no exercício
daquela função, jamais procurando agir de maneira persecutória com nenhum dos colegas,
porém dando o exemplo de que esta Casa, quando precisa, corta na própria carne, quando
precisa, responde aos desejos, aos anseios e aos reclamos da sociedade. Quero me dirigir neste
momento, de maneira muito especial, aos meus colegas do Democratas - o agradecimento eu
faço daqui a pouco -, a esses colegas que me fizeram três vezes Líder da minha bancada, o
Líder mais jovem da história do partido, o Líder que teve a confiança de renovar o seu
mandato duas vezes, chegando, portanto, a ocupar por três oportunidades a Liderança.
Qualquer um de vocês poderia ter sido Líder desta bancada, no entanto eu tive o prazer, o
orgulho de ocupar a Liderança. Espero que eu tenha correspondido à altura a confiança que
cada um de vocês depositou em mim. Tenham a certeza de que vocês hoje são muito mais do
que colegas e companheiros de partido, vocês são meus irmãos, são meus amigos de coração.
(Palmas.) Quero, Sr. Presidente, dizer que deixo esta Casa com alguns sonhos. Vou deixar, a
partir do dia 31 de dezembro, de ser Deputado, mas sempre levarei a passagem por esta Casa
no meu coração e sempre direi com orgulho que fui Deputado e que tenho orgulho do
Parlamento. Mas tenho o sonho de ver que um dia a sociedade brasileira vai poder
acompanhar de maneira mais presente o que fazemos nesta Casa. Às vezes, a Câmara dos
Deputados e o Parlamento são injustiçados por falta de informação; às vezes, as pessoas têm
uma visão distorcida do trabalho parlamentar. E eu quero dizer que me orgulho de ser
Deputado Federal, que me orgulho desta Casa e que esta Casa, na sua grande maioria, é
composta por homens e mulheres honrados, que merecem estar aqui e que orgulham o povo
brasileiro. E quero dizer, Sr. Presidente, que nenhum Deputado deve ter vergonha de chegar a
qualquer canto deste País e dizer que é Deputado Federal, porque esta Casa é honrada e
merece o respeito do povo brasileiro. Mas tenho o sonho de ver que um dia esta Casa vai tirar
do papel a aprovação da reforma política. As distorções do sistema político brasileiro saltam
cada vez de maneira mais nítida aos olhos de nós políticos. E a maior vítima desse sistema
somos nós políticos. E eu deixo aqui um apelo a esta Casa: que não deixe morrer a
possibilidade de discussão e votação de uma reforma política ampla, de uma reforma política
que altere profundamente o sistema político nacional. E, para provocação, eu quero dizer: não
se preocupem com o curto prazo. Vamos aprovar uma reforma política que mude o sistema
para daqui a 10 anos, afastando os interesses imediatos, mas que seja profunda e que faça as
transformações necessárias para garantir maior blindagem ao sistema político brasileiro. Vou
pedir mais algum tempo, Sr. Presidente, porque agora chego à fase final e inicio os meus
agradecimentos. Eu quero agradecer, inicialmente, a cada um dos colegas, colegas que me
receberam aqui quando eu tinha 24 anos de idade, há quase 10, colegas que me estenderam as
mãos. Naquele momento, eu, inexperiente, começando a minha ação lá na Comissão de
Constituição e Justiça, não fui tratado com preconceito nem com distinção por nenhum dos
colegas. Pelo contrário, pessoas inclusive que tinham divergências com o Senador Antonio
Carlos estenderam as mãos e construíram comigo aqui uma relação de fraterna amizade.
Quero agradecer ao meu partido, ao Democratas. Hoje, se sou Prefeito de Salvador, eu
tenho que reconhecer o papel e a importância que teve o Democratas no suporte que me
deu nessa campanha eleitoral. Quero dizer a cada um dos meus colegas de partido que
me orgulho muito de vocês, que sou grato pelo apoio que recebi não só aqui, mas em
todas as disputas que tive na minha vida política. E quero dizer a vocês que nós ainda
vamos construir muito da história do País juntos. Portanto, tenho muito orgulho desse
partido e tenho muito orgulho de todos vocês. (Palmas.) Quero agradecer aos funcionários
da Câmara dos Deputados do Brasil, porque, se nós somos o que somos, se esta Casa produz o
P á g i n a | 223

que produz, se temos esse volume tão importante de aprovação de projetos e de debates para o
Brasil, nós devemos muito disso aos funcionários desta Casa. A vocês o meu respeito, a
minha admiração, o meu carinho e, acima de tudo, o meu reconhecimento, porque são pessoas
que estão no serviço público, mas que se dedicam, que vestem a camisa, que abraçam a causa,
pessoas que orgulham o Brasil. Se esta Câmara é forte é porque tem funcionários da mais
elevada grandeza, que merecem o nosso apoio e o nosso aplauso. Obrigado aos funcionários
da Câmara. (Palmas.) Obrigado aos meus funcionários do Democratas e do meu gabinete. Eu
não seria nada sem vocês. Vocês estão aqui hoje neste plenário, vocês sabem quantas
dificuldades já enfrentamos e vocês sabem que, mesmo às vezes sendo duro e cobrando, eu
sempre procurei valorizá-los. Aqui fica a minha palavra de gratidão eterna, porque, se pude
desempenhar três vezes a Liderança e se pude fazer um trabalho decente como Deputado, eu
agradeço muito a vocês. Quero agradecer à minha família, aqui representada na figura de meu
pai, que está emocionado neste momento. (Palmas prolongadas.) Quero agradecer aos meus
pais e às minhas filhas, que devem estar muito felizes, porque depois de anos elas vão ter o
seu pai todos os dias em Salvador, trabalhando com uma carga pesadíssima, mas ao lado
delas, na cidade onde elas nasceram, onde elas vão viver e vão se constituir como meninas
maravilhosas e mulheres também extraordinárias. Quero agradecer à minha família, porque
sem ela eu não conseguiria ter sido Deputado, não conseguiria ter sido três vezes o Deputado
mais votado, e hoje Prefeito. Tudo o que eu tenho eu devo a vocês, mas, sobretudo, minha
educação e os princípios que eu trouxe para a vida pública. Muito obrigado, meu pai, em seu
nome eu homenageio todos. Aliás, minha família, Presidente Marco Maia, iniciou a sua
atuação na Câmara dos Deputados do Brasil com Francisco Peixoto de Magalhães Neto,
constituinte em 1934, meu bisavô. Ele era um homem diferente, porque era um médico e
poeta. Foi Parlamentar por pouco tempo, mas um homem de uma honradez incrível. Meu tio,
Luis Eduardo Magalhães, Deputado Federal, Líder e Presidente desta Casa. (Palmas.)
Quando eu cheguei aqui - é impressionante -, da pessoa que servia cafezinho ao
Presidente da Casa, todos falavam dele. Passagens memoráveis, momentos históricos.
Luis deixou algumas marcas que para sempre vão ficar presentes nesta Casa, que a sua
passagem tão repentina jamais vão apagar: a marca do diálogo, a capacidade de
construir entendimentos e, sobretudo, a capacidade de separar a política das relações
pessoais. Isso, eu procurei exercer aqui. Quantos debates intensos, duros e às vezes até
exagerados eu tive nesta Casa com Líderes de partidos da base do Governo? A gente se
engalfinhava, mas saia daqui e todo mundo se abraçava e confraternizava. Acho que é
isso. Nós podemos exercer atividade política defendendo as nossas convicções, sendo leal
aos nossos princípios, mas respeitando as pessoas e o ser humano. E Luis Eduardo foi
um exemplo disso na Câmara dos Deputados. Em homenagem ao Senador Antonio
Carlos Magalhães. (Palmas.) O Senador Antonio Carlos Magalhães foi Presidente do
Congresso Nacional e Deputado Federal. E é interessante observar que ACM deixou a
Câmara dos Deputados para, aos 39 anos de idade, assumir o cargo de Prefeito de
Salvador. O destino às vezes reserva para a gente algumas surpresas, algumas
coincidências. Eu deixo a Câmara dos Deputados agora também para assumir o meu
primeiro cargo no Executivo, a Prefeitura de Salvador. Com ACM aprendi algumas
coisas. Quero chamar a atenção para duas coisas: primeiro o seu amor pela Bahia, o seu
amor pelo povo baiano, a sua luta apaixonada na defesa dos interesses do seu Estado. Às
vezes ele brigava, mas como ninguém ele soube incorporar o espírito do baiano e fazia
daquilo a sua razão de vida. E ACM, mesmo sendo uma pessoa que despertava amores
e, do outro lado, contestações, era uma pessoa de muito espírito público e que exerceu os
seus mandatos pensando na sociedade, pensando no cidadão, pensando no Brasil. Onde
quer que ele esteja - eu já fiz isso no dia em que fui eleito e comemorei a minha vitória -,
quero dizer a ele que essa vitória também é dele. E vou encerrar, Presidente Marco Maia,
P á g i n a | 224

tendo agradecido a sua benevolência, para dizer o seguinte: daqui a 4 anos, quando o meu
mandato de Prefeito tiver fim, eu só peço...
O SR. PRESIDENTE (Marco Maia) - Deputado ACM, antes que V.Exa. encerre as suas
palavras, este Presidente precisa sair, porque já me informaram que o Presidente Michel
Temer está se deslocando para a Base Aérea, mas queria, na verdade, desejar a V.Exa. muita
sorte. Que V.Exa. possa levar toda a garra, toda a determinação, toda a competência com que
exerceu os seus mandatos como Deputado Federal, sendo oposição, mas sendo uma oposição
firme, uma oposição competente e, ao mesmo tempo, sábia, o que propiciou que se
produzissem aqui bons debates acerca dos principais temas do País, mas, ao mesmo tempo,
votando e aprovando todas as matérias que interessavam ao povo brasileiro, à sociedade
brasileira. Tenho certeza de que, apesar das divergências, apesar dos debates, todos têm em
V.Exa. um Parlamentar de muita competência, de muita sabedoria, que orgulha todos nós e o
Parlamento brasileiro. Quero deixar essa homenagem a V.Exa. e lhe dizer que leve o apoio, a
força e a garra do Parlamento brasileiro para essa nova tarefa que V.Exa. vai desempenhar. E
quero pedir a vocês todos uma salva de palmas ao Deputado ACM, pelo seu trabalho e pela
nova tarefa que ele está para executar. (Palmas.)
Muito obrigado.

O SR. ANTONIO CARLOS MAGALHÃES NETO - Eu agradeço, Presidente Marco Maia,


e faço questão de registrar que essa convivência com V.Exa. foi extraordinária, primeiro, na
Mesa, quando fomos colegas e, agora, 2 anos como Líder da minha bancada. Quero lhe dizer
que V.Exa. demonstrou seu espírito público, seu compromisso com o País, a sua
independência e a sua capacidade de liderar o Parlamento brasileiro. V.Exa. cresceu na
Presidência da Câmara, tem o nosso respeito e o respeito dos brasileiros pelo grande trabalho
que realizou como chefe deste Poder. Vice-Presidenta Rose de Freitas, eu vou encerrar o meu
pronunciamento dizendo que daqui a 4 anos, quando eu estiver concluindo o meu mandato de
Prefeito de Salvador, eu peço a Deus só uma coisa: que eu possa concluí-lo com a consciência
tão tranquila como estou concluindo hoje um período de quase 10 anos na Câmara dos
Deputados. Eu quero encerrar o meu mandato de Prefeito com o sentimento que encerro agora
neste mês o meu mandato de Deputado Federal. Primeiro, é o sentimento do dever cumprido;
depois, a consciência de que dei o meu melhor; nem sempre acertei, cometi erros, inclusive,
da tribuna desta Casa. No entanto, a busca sempre foi a de defender os mais elevados
interesses do Brasil. Eu vou assumir uma tarefa dificílima. Salvador, minha querida cidade,
vive um dos momentos mais complicados da sua história. Nós não vamos conseguir resolver
tudo da noite para o dia, mas eu sei que, com determinação, com trabalho, com perseverança,
com compromisso público e, sobretudo, com a paixão pela política, chegaremos lá. Vou
encerrar, finalmente, Presidenta Rose, dizendo o seguinte: eu, pensando aqui em um trecho
final do meu pronunciamento, resolvi pedir licença aos baianos, pedir licença a Gil, a
Caetano, a Dorival, a Jorge Amado e a tantos baianos para, com as bênçãos não do
nosso Senhor do Bonfim, mas as benções da mineira, recorrer a um trecho de uma canção
que, para mim, é o hino nacional da amizade e que reflete de verdade, de coração, tudo o que
eu vivi nesta Casa. Milton Nascimento, esse grande brasileiro, diz assim:

"Amigo é coisa para se guardar debaixo de sete chaves, dentro do coração (...)
Amigo é coisa para se guardar no lado esquerdo do peito, mesmo que o tempo e à distância
digam "não" (...)
Pois seja o que vier, venha o que vier, qualquer dia, amigo, eu volto a te encontrar (...)"
P á g i n a | 225

Todos os dias, meus amigos, nós vamos nos encontrar.


Eu amo esta Casa. Sou grato a ela. E espero que os meus colegas de todos os partidos, de
todos os Estados do Brasil possam me visitar em Salvador.
Um grande abraço.

Muito obrigado. (Palmas prolongadas.)

ANEXO 2
DISCURSO DE POSSE DE ACM NETO COMO PREFEITO
DE SALVADOR, 2013
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Discurso de Posse de ACM Neto na Prefeitura de Salvador


01 de janeiro de 2013 (Grifos Nossos)

Estou aqui neste primeiro dia do ano, sinceramente grato pela confiança desse maravilhoso
povo de Salvador, consciente dos grandes desafios que tenho pela frente e da enorme
responsabilidade de resgatar o brilho e a alegria da nossa cidade. Agradeço a todos pelo
apoio, incentivo e carinho que recebi durante toda essa caminhada. Daqui de onde estou sei
que me contemplam séculos de história. Dessas paredes ecoam as vozes de muitos que por
aqui passaram. Thomé de Souza, primeiro governador-geral do Brasil, já esteve nesse mesmo
Paço, onde estou hoje e decidiu que aqui seria construída a primeira capital do país. Foi
preciso o esforço e o suor de muitos para erguer essas colunas. Para construir essas ruas. Para
levantar, bloco por bloco, as mais belas igrejas e catedrais, as mais graciosas praças, as mais
sinuosas ruas… A fundação do país começou aqui nessa singular península que a Baía de
Todos os Santos carinhosamente abraça. Com toda essa história e beleza natural
caminhando juntas, não é à toa que Salvador tenha recebido o título de Patrimônio
Cultural da Humanidade. Uma cidade que nasceu para ser importante, para ter uma
posição central no desenvolvimento do nosso país. Uma cidade que, desde a sua
fundação, foi cantada em verso e prosa, retratada das mais diversas formas. De
Gregório de Matos a Jorge Amado, de Dorival Caymmi a Caetano Veloso, de Caribé a
Pierre Verger, passando por Vinícius de Moraes, Raul Seixas, João Ubaldo, Antônio
Risério, Mário Cravo, Daniela Mercury, Ivete Sangalo, Márcio Vitor, Pitty, Mariela
Santiago, Lucas Santana, Ronei Jorge, Fred Dantas, Letieris Leite, Sérgio Machado, e
tantos, tantos outros escritores, poetas, compositores, artistas plásticos, fotógrafos e
cineastas, daqui e de todos os cantos, que se encantaram por essa terra. Que ficaram
fascinados com a nossa arquitetura, com as nossas belezas naturais e com a alegria e
simpatia da nossa gente. Que ajudaram a tornar Salvador conhecida e admirada no
mundo todo. O soteropolitano tem muitos motivos para se orgulhar da sua cidade.
Salvador não é um simples aglomerado urbano. E, por isso, não pode ser tratada de qualquer
jeito. O prefeito dessa cidade precisa saber respeitar essa história. Precisa saber
modernizar seu funcionamento, mas sem ferir suas tradições. Precisa compreender que
essa cidade é um patrimônio que tem de ser preservado para as futuras gerações. Mas, ao
mesmo tempo, não podemos esquecer que Salvador é uma cidade viva, dinâmica e que não
para de se transformar. Tenho exata noção da minha responsabilidade neste momento. A
partir de hoje minha dedicação à nossa querida Salvador será total. Vou trabalhar
incansavelmente para cumprir os compromissos que assumi com a população. Sei que não vai
ser fácil. Mas, uma coisa posso garantir a vocês, não tenho medo de desafios. Aliás, tenho
convicção de que são os desafios que nos fazem avançar. Mas não estou aqui para iludir
ninguém. Não vou prometer soluções milagrosas ou criar falsas expectativas. Os problemas
da cidade não serão resolvidos da noite para o dia. As conquistas – nós sabemos – não caem
do céu… não são servidas em bandeja de prata. As conquistas, para acontecerem, precisam de
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muito trabalho, muito planejamento, muita dedicação… e, também, de algum sacrifício. Não
vou deixar de tomar medidas duras, mas que são necessárias para tirar a nossa cidade da
situação que ela se encontra. Algumas vezes é preciso tomar um remédio amargo agora para
trazer resultados no futuro.

Então, quero dizer a vocês que tudo tem o seu devido tempo. Quem tira seu sustento da terra
sabe que existe um tempo de arar… um tempo de plantar… tempo de regar… e aí sim vem o
tempo de colher. Os primeiros meses da minha gestão vão ser de muito trabalho duro, de
medidas austeras, mas ainda de pouco para colher. É preciso ter alguma paciência. Não
podemos atropelar as etapas que, necessariamente, precisamos percorrer. Quero ser cobrado
pelo que fiz em meu mandato, não pelo que fiz em 100 dias, seis meses ou um ano. Mas,
reafirmo, em seu tempo, meus compromissos assumidos serão cumpridos. E para avançar de
verdade, para colocar a nossa cidade de novo no eixo, vou precisar do apoio de todos
vocês. Ninguém faz nada sozinho, muito menos administrar uma cidade do tamanho e
da complexidade de Salvador. Precisamos fazer um amplo pacto pela reconstrução de
Salvador. Um pacto que consiga unir partidos, ideologias, classes sociais, setores
produtivos e crenças. E nesse pacto, o exemplo tem de vir primeiro de nós, políticos. A
eleição acabou. É hora de descer do palanque. Não vou governar fazendo política partidária,
pensando nas próximas eleições. Não vou admitir que se negocie o futuro da nossa cidade em
troca de favores e vantagens políticas. Não. Podem ter certeza, em meu governo os interesses
de Salvador vão estar sempre em primeiro lugar. Quero fazer um governo da pluralidade, da
inclusão, da transparência. Não vou governar olhando para a cor da camisa de ninguém. O
fisiologismo está proibido na prefeitura. Esta história nefasta do toma lá dá cá não pode
e não vai ser aceito neste governo. No novo secretariado da prefeitura, procurei escolher
os melhores, os mais capazes, os mais comprometidos com o trabalho. Vamos implantar
uma prática de gestão moderna e eficiente, estabelecendo metas claras e,
principalmente, cobrando resultados. Todos os meus secretários assinaram uma carta de
princípios que deverão seguir à risca. Não vou tolerar, em hipótese alguma, a corrupção.
Pré-requisito número um para fazer parte dessa administração é ser ficha limpa. Meu
compromisso é com a transparência, com a ética, com a austeridade. Quem fizer diferente
disso será exonerado, investigado e responderá na justiça pelos seus atos. Sem dúvida, a
nossa primeira grande tarefa vai ser colocar ordem na casa, cuidando dos problemas
imediatos… problemas que nós vamos enfrentar um por um a partir de agora. Muitas vezes,
são problemas simples, mas que, somados, estão transformando a nossa cidade num
verdadeiro caos. São sinaleiras desreguladas. É o lixo nas ruas. São os buracos no asfalto. É o
posto de saúde que não funciona. E eu poderia ficar aqui enumerando ainda diversos
problemas que estão se acumulando e dificultando a vida das pessoas. Então a primeira coisa
é enfrentar essas questões e resolvê-las. Arrumar a casa é o nosso compromisso número um.
Mas precisamos ir além disso. Um prefeito não pode se contentar apenas em ser um mero
síndico… ser um simples cumpridor de tarefas que vai resolvendo os problemas cotidianos à
medida que eles vão surgindo. Não podemos nos esquecer também do dia de amanhã. É
preciso planejar a nossa cidade, projetá-la para o século 21. Plantar sementes hoje que
possam dar frutos no futuro. Daqui a quatro anos, quero ser cobrado pelos meus
compromissos assumidos com a população. Quero uma cidade que não traga tanto
desconforto no trânsito, que tenha um transporte público mais estruturado, com estações mais
bem cuidadas, com ônibus novos e mais confortáveis. Daqui a quatro anos, queremos uma
administração muito mais próxima da população, com a implantação das prefeituras-bairro.
Não podemos aceitar como normal que a prefeitura leve semanas, às vezes meses, para
resolver pequenos problemas que tanto atrapalha o dia a dia do cidadão. Daqui a quatro anos
quero que a saúde pública de Salvador seja vista com outros olhos por seus usuários. Vamos
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começar pelo básico, que é fazer com que as unidades de saúde que já existem voltem a
funcionar de forma decente. Que tenham médicos, medicamentos e aparelhos funcionando. A
partir daí, vamos voltar a investir na instalação de novas unidades de saúde, como os
Multicentros Salvador, começando pelos bairros mais carentes da cidade. Daqui a quatro
anos, queremos uma educação que seja exemplo para outras grandes cidades brasileiras.
A educação precisa cumprir o seu papel de preparar as nossas crianças e jovens para o
futuro.E principalmente quero que, daqui a quatro anos, Salvador seja uma cidade muito mais
justa. Infelizmente, a nossa cidade ainda é uma das capitais mais desiguais do país. A taxa de
desemprego é uma das mais altas. Nosso déficit habitacional é um dos maiores. Nossa
renda per capta é uma das menores. E o mais grave é que ainda temos bairros inteiros
vivendo na pobreza extrema. Alguns exemplos emblemáticos do que estou falando são a
Cidade de Plástico em Periperi, a Baixa do Petróleo em Massaranduba, o Areal em Coutos, e
muitos outros. Esses são alguns locais onde estive pessoalmente, onde conversei com as
pessoas, onde pude testemunhar condições de vida inaceitáveis. Quero novamente reafirmar
aqui que nossa prioridade vai ser melhorar a vida dessas pessoas. Já nesta semana, eu e uma
equipe de secretários e técnicos, vamos visitar alguns desses bairros para identificar
tudo o que pode ser feito emergencialmente e planejar ações futuras. Não estou
prometendo resolver o problema dessas pessoas de uma hora para outra. Mas enfrentar essa
situação com a seriedade e o compromisso que merece. Tenho certeza que, em seu tempo,
vamos alcançar grandes conquistas. A primeira grande mudança que desejo implementar
na nossa prefeitura é no jeito de governar. Precisamos agir com profundo respeito pelo
cidadão. Trabalhar com compromisso e dedicação. Hoje uma das grandes queixas do morador
é que ele simplesmente não tem a quem recorrer. Há um sentimento de desamparo nas
pessoas. Quero que a população de Salvador saiba que a partir de hoje tem um prefeito
que vai chegar junto, que vai estar ali… presente, fazendo tudo que estiver ao seu
alcance pra cuidar da cidade. Todos nós sabemos que Salvador passa hoje por uma
grave crise financeira. Mas isso não pode ser motivo de paralisia. Isso não pode ser
motivo para que a prefeitura fique parada. Precisamos nos mexer e, sem dúvida, um dos
primeiros objetivos é enfrentar o problema da falta de recursos. Vamos apertar os
cintos. Nós não temos o direito de desperdiçar um centavo sequer do dinheiro da
prefeitura. Nós vamos gastar sim. Mas vamos gastar com aquilo que é necessário.
Precisamos gastar menos com a estrutura da prefeitura e mais prestando um serviço
decente ao cidadão de nossa cidade. Vamos também trabalhar para aumentar a
arrecadação. Precisamos fazer a nossa economia crescer atraindo novas empresas.
Quero ter uma relação cordial com o governo estadual e o governo federal, buscando novas
parcerias onde a gente tiver de buscar e também exigindo aquilo que Salvador merece e tem
direito.A terceira maior cidade do país vai receber um tratamento digno de sua importância
para a nação. E com bons projetos, com uma administração comprometida de verdade com as
melhores práticas de governança, a nossa cidade vai conseguir captar muito mais
investimentos. Claro… não podemos nos esquecer que nos próximos anos Salvador será
palco de grandes eventos esportivos. Eu vejo aqui uma excelente oportunidade para que
a nossa cidade dê um salto no seu desenvolvimento e cure de vez essa ferida na nossa
autoestima. Precisamos aproveitar da melhor forma possível estes eventos. Não
queremos apenas que o visitante saia daqui encantado com a nossa terra. Não.
Queremos muito mais do que isso. Queremos que estes eventos tragam benefícios reais
para os moradores daqui. Vamos trabalhar para que Salvador seja orgulho de todos nós
soteropolitanos, baianos, brasileiros e estrangeiros. Vamos trabalhar para que a nossa
população esteja preparada para os empregos que vão surgir durante as copas. Não podemos
aceitar que a nossa gente perca oportunidade de emprego e renda por simples falta de
treinamento e qualificação.Calcula-se que, em 2011, o setor de turismo foi responsável por
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mais 98 milhões de empregos diretos e 255 milhões indiretos, em todo o mundo. Isso é mais
do que o número de empregos gerados pela indústria de automóveis. O turismo tem
potencial para ser o motor da nossa economia. Salvador tem tudo pra ser a capital da
diversidade cultural e do turismo na América Latina. Só precisamos nos preparar para
isso.Na nossa prefeitura, vamos dar atenção especial à geração de empregos. Não há dúvida
de que essa é a melhor forma para combater as desigualdades sociais. Mas vamos também
trabalhar para que os programas sociais, como o Bolsa Família, sejam ampliados em nossa
cidade.Vamos apoiar e valorizar o servidor público para que ele desempenhe com orgulho e
eficiência a sua função. Vamos implantar sistemas de gestão que incentivem o aumento da
produtividade, premiando aqueles que têm melhor desempenho. Eu quero que a alegria volte a
tomar a conta da nossa cidade. Não uma alegria passageira de uma festa que tem dia e hora
para acabar. Mas uma alegria verdadeira, de quem tem uma vida decente e vê adiante um
futuro promissor. E para que essa alegria tome conta da gente, nosso governo tem de ser sério,
tem de respeitar o cidadão, tratá-lo como ele merece. Não poderia deixar de lembrar aqui
do senador Antonio Carlos Magalhães, que tanto fez pela Bahia e, especialmente, por
essa cidade. Certa vez, conversando com meu avô, ele me confessou que, como político,
nunca se sentiu tão realizado do que quando ele foi prefeito de Salvador. Ninguém pode
negar… Antonio Carlos Magalhães fez uma administração que foi um marco na história
da nossa cidade. Como disse Jorge Amado, ele colocou sua paixão a serviço de Salvador.
É isso que nosso governo precisa fazer. Trabalhar com paixão para trazer o brilho de
volta a nossa cidade. Com os vereadores que compõem essa Câmara Legislativa, quero
construir uma relação de trabalho, harmonia e respeito. Tenho a convicção de que
compartilhamos objetivos comuns para o bem de Salvador. E estes objetivos comuns hão de
nos unir na defesa da nossa cidade. Não faremos um governo olhando para o retrovisor. Não
vou ficar me lamentando da herança maldita, ou procurando culpados. Se aceitei este desafio
é porque acredito que é possível fazer mais e fazer melhor. Já sabia que não ia ser fácil. O que
importa é que pra onde quer que olhemos, existe trabalho a ser feito. O que importa mesmo
são os desafios que temos pela frente. Sei que a maioria dos soteropolitanos compartilha
comigo a fé de que Salvador irá cumprir o seu destino. A nossa cidade traz consigo quase
500 anos de história. Histórias de luta e superação. A primeira capital do País merece
voltar a ser querida e admirada por todos, moradores e visitantes. Juntos, vamos
construir a Salvador que todos nós queremos. Eu me atrevo a dizer que Salvador é a cidade
do coração de muitos brasileiros. Sempre fomos conhecidos pela receptividade e alegria. Sei
que o desafio é grande, mas devo lhes dizer que precisamos voltar a sonhar. Um sonho
coletivo de uma cidade com qualidade de vida melhor, de tranquilidade, de perspectiva de
futuro.As pessoas costumam dizer que crises trazem também oportunidades. Temos de
encarar a crise que a cidade vive hoje, como uma oportunidade. Uma oportunidade para virar
o jogo e alcançar grandes conquistas. Uma oportunidade para redescobrir a Salvador que tanto
amamos.Agora chegou a hora em que as palavras terão um valor fundamental, pois a
administração pública não pode ser exercida sem o diálogo. Mas acima de tudo, agora é a
hora da ação. É hora de arregaçar as mangas e colocar o discurso em prática. É hora de
trabalhar duro. É hora de tornar o sonho possível. Foi uma longa caminhada até aqui. Uma
caminhada que começou nas ruas. Nasceu do diálogo com o povo de Salvador. E, apesar de
reconhecer o tamanho das dificuldades, eu percebi também que as pessoas tinham esperança
no coração. Não posso e não vou decepcionar essas pessoas. Amo essa cidade. Nasci aqui e
quero morrer aqui. E quero oferecer os próximos quatro anos da minha vida a serviço
de Salvador. Eu prometo a vocês que serei um prefeito comprometido, um prefeito que vai
suar a camisa, que vai fazer tudo o que é possível, para devolver a essa cidade o brilho e o
respeito que ela merece. Muito obrigado e que Deus nos abençoe a todos.
P á g i n a | 230

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P á g i n a | 231

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