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EMANUELE COCCIA 

A V ID A D A S P L A N T A S
UMA METAFÍSICA DA MISTURA 
Matteo
tteo Coccia
Coccia (1976-2001
(1976-2001))
in memoria
iam
 Dos catorze ao aos dezenove ananos, fui
fui aluno de
um colé
olégio agrícola
ola do inte
nterio
rior, isolado nos campos
ampos
da Itál
Itáliia central. Estav
tava ali
ali para
para aprender um
“verdade
dadeiro ofí
ofício”. As
A ssim, em vez de me me dedic
dedicar ao
estudo
studo das línguas cláss
ássicas,
as, da li
literatura,
ratura, da históri
história
a
e da mate
matemáti
mática como todostodos os meus amig
amigos, passe
passei
minha ado
adollescência lendo li
livros
vros debotâni
tânic
ca, pat
patolog
ologia
vegetal
tal, quím
química agrária,
rária, horti
horticult
ultura e entomologia.
 As plantas, suas ne necessidades e su suas do
doenças eram
os obje
objetos pri
privil
vilegiados de estudo
studo nessa escola.
ola. Essa
exposição cotidi
otidia
ana eprolong
prolongada a seres ini
inic
cialm
almentente
tão afastados
afastados de mim marc arcou de maneira definifinittiva
meu olhar
olhar sobre
sobre o mundo. Este livro é a te tentati
ntativava
de ressuscitar as ide
ideias nasc
nascidas desses cinco anos
anos de
conte
ontempla
plação de sua nature
natureza, deseu sil
silêncio, desua
apare
aparente
nte indif
ndiferença a tudo aquil
aquilo a que chamam
hamam
cultura.
 É evideidente que há somente uma
subst
substânci
ância, que é comum náo náo some
somente
nte a
todos
odos os corpos,
orpos, mas ta também a todas as
alm
almas e espí
spíritos
ritos,, e que
que elã náo é outra
utra
coisa senão De
Deus. A subst
substânci
ância de
de onde
vêm todos
todos os corpos
orpos se chama
hama matéria;
a substânci
substância de
de onde vem tod toda
a al
alma se
chama razão
razãoou esp
espíírito.
rito. E éevide
vident
nte
eque
 Deus é a rarazão de todos os espíritos e a
matéria detodos
odos osos corpos.
rpos.
David de Dinant

This is a blue
blue plane
planet,
t, but it is a gree
reen
world.
Karl J. Niklas
1

Das plantas,
ou da
da ori
origem
gem do noss
nosso o mundo
mundo

Pouco
Pouco fa falamos delas e mal sabe sabemos
mos se seus nomes.
nomes. A filoso ilosoffia
as negl
negligencio
genciou desde sempre,sempre, com
com desprezo
sprezo maimais do que que por
por
distraçã
distração o.1S
.1 São o ornam
ornamento
ento cósm
cósmicoico,, o acidente inesseinessencial
ncial e
colo
colorido
rido relegado às ma margens
rgens do
do campo
campo cog cogniti
nitivo
vo.. As
As metrópoles
etrópoles
contemporâne
contemporânea as as consid
considera
eram os bibelôs
bibelôs supérf
supérfluos
luos da decora-
ção
ção urbana
urbana.. Fora dos dos muros
muros da cidade,
cidade, são paraparasitas
sitas —ervas
ervas dani-
ani-
nhas —ou objetos
objetos de produção
produção em ma massa. As As plantas
plantas são a ferida
ferida
sempre
sempre aberta
aberta do esnobismo
esnobismo metaf
metafísi
ísico
co que defin
define e nossa
nossa cultura.
cultura.
O reto
retorno
rno do recarecalcado,
lcado, de que é necenecessá
ssário nos li livrarmos
rarmos para
nos considera
considerarmosrmos dife
diferentes:
rentes: home
homens, ns, racio
racionais,
nais, sere
seres espiri
espiritu-
tu-
ais. Ela
Elas sãsão o tumor
tumor có cósmico
smico do humanismo
humanismo,, os dejetos que
o espíri
espírito
to absoluto
bsoluto não conse
conseg gue eli
eliminar.
minar. As ciências da vida vida
também as negl negligenci
genciam.
am. “A bio
biologia
logia atual, concebi
concebida da com base
no que sa sabemos
bemos sobre
sobre o animal,
animal, praticame
praticament nte
e não leva em em conta
conta
as plantas”;2“a
plantas”;2“a literatura
teratura evo
evoluci
lucion
onista
ista padrão
drão é zoo
zoocêntrica”.
cêntrica”. E
os manuais de bio biologia abordam
bordam “de má má vontade as plantas
plantas como
como
ornamento
rnamentos s sobre a árvore
rvore da vida, maimais do que comocomo as formas
que permi
permiti tiram
ram a essassa árvore
rvore sobreviver
sobreviver e cresce
crescer”
r”.3
.3

EMANUELE COCCIA  11
Não se trata simplesmente
simplesmente de uma insuf insufiiciência
ciência epiepistemol
stemoló ó-
gica: “enquanto
“enquanto anima nimais,
is, nos identif
identificam
icamos os muito
muito mais ime imedidia a-
tamente
tamente co com os outros
outros animais do que com as as plantas”.4
plantas”.4A Assim,
os cienti
cientistas,
stas, a ecolo
ecologia radical e a socieda
sociedade civ civil estão
stão engajados
jados
há década
cadas s na
na libera
liberação
ção dos animai
animais, s,55e a denúnci
denúncia a da separa
paraçãoção
entre homem
homem e animal (a máquina máquina antropontropoló lóggica dede que fala a
filosof
ilosofia
ia)6se
)6setornou
tornou um lugarlugar comum do do mundo intelectua
intelectual. l. Mas
parec
parece e que
que ninguém
ninguém jamai amais quis contestar
contestar asuperiorid
superioridade ade da vida
animal sobre a vida vida vegeta
vegetall e o direito
direito de vida e de mo morte da pri-
meira sobre a segunda: vi vida sem
sem personali
personalidade dade e semsem dignid
dignidade,
ade,
esta não
não merecerece nenhuma
nenhuma empatia
empatia benevo
benevolente lente nem o exercício
exercício
do morali
moralismo
smo que os seres vivos vivos superio
superiore ress conseg
conseguem mobi mobilli-
zar.
zar. Nosso chauvini
chauvinismo smo animali
animalist sta8se
a8se recusa
recusa a ir alémalém de “uma
linguagem
nguagem de ani animais
mais que não se presta ao relato de uma verdade verdade
 ve
 vegetal”.9Nesse sentido, o animalismo antiespecista não passa de
um antropocentrismo
antropocentrismo que interio interioriz
rizo
ou o darwini
darwinismo smo estende
estendendo
ndo
o narcisi
narcisism
smo o huma
humano no ao reino
reino anima
nimal. l.
Mas
Mas elas nãonão se deixam
deixam abalar
abalar por
por essa
essa prol
prolongada
ngada negligê
negligên-n-
cia: demonstram
demonstram uma indif ndiferença
erença sobe
soberana pelo pelo mundo hu-
mano
mano,, pela cultcultura dosdos povo
povos, s, pela
pela alternânci
alternância a dos reireinos
nos e das
épocas.
épocas. AsAs plantas
plantas parece
parecem m ausentes, como como que extravi extraviadaadass num
long
longo o e surdo
surdo sonho quími químico co.. Não têm se sentidos,
ntidos, mas não não estã
estãoo
trancadas
trancadas em si, longe longe disso: nenhum outro outro vi vivente adere mais
do que elas ao mundo circundante.
circundante. Não têm olhos olhos nem
nem ouvidos
ouvidos
que lhes permitam disti distingui
nguirr as form
forma as dodo mundo e multi multiplpliicar
sua imagem
imagem na iri iridescência
descência de corecores s e sons que atri atribuí
buímomos s a ele.1
ele.10
Participam
Participam da da totali
totalidade
dade do mundo em tudo que enco encontram.
ntram. As
plantas
plantas não
não corre
correm, m, não
não podem
podem voa voar: não são capa capazeszes de pri
privi-
legi
egiar um lugalugarr espec
específífico
ico em relação ao resto resto do espaço,
spaço, devem
devem
permanecer
permanecer onde estão. estão. O espaç
espaço,o, para elas, náo se esmigal esmigalha
num tabuleiro
tabuleiro heterogêneo
heterogêneo de de dif
difer
erença
ençass geog
geográ
ráfficas; o mundo
se condensa
condensa no pedaço de chão chão e de céucéu que ocupam
ocupam.. Diferente
iferente
mente
mente da maimaioriaria dos
dos anima
animaiis superio
superioresres,, elas
elas não
não têm nenhuma
relação
relação seleti
seletivva com
com o que as rodeia: rodeia: estão
estão, e só podem
podem estar estar,,
constantemente
constantemente expo expostastass ao
ao mundo que as circunda.
circunda. A vida veg vege
tal
tal éavida
vida enqua
enquantonto exposiçã
xposição o integ
integra
ral,l, em conti
continui
nuidade
dade absolu
bsolu
ta eem comunhão global lobal com
com o ambient
ambiente. e. É com o fim fim de aderir
aderir
o máx
máximo possíve
possível ao mundo que desenvol desenvolvem vem um corpo corpo que
privil
privileg
egia
ia a superf
superfíciície
e ao vol
volum
ume:e: “A proporçã
proporção o muito
muito elevada
elevada da
superfíc
superfíciie emem rela
relação
ção ao vo volume nas nas plantas
plantas é um de seus seus traços
traços
mais
mais cara
característi
cterísticos.
cos. É através
através dessa
dessa vasta superf
superfíci
ície,
e, literalmente
literalmente
espalhada pelo ambient
ambiente, e, que as plantas abso absorvrvem
em os recurecursos
rsos di
di
fusos
usos no espaço
espaço necessá
necessáriorioss a seu
seu cresciment
crescimento o”.11Sua ausênci
ausência a de
movi
movimento é apenas penas o revers
reverso o de sua
sua adesão
desão integra
ntegrall ao que lhes
acontece
contece e a seu
seu ambient
ambiente. e. Não se pode separar
separar —nemfisi fisic
cament nte
e
nem metafsic sicament ntee —a planta
planta do mundo
mundo que a acolhe. colhe. Elã é a
form
rmaa mai
mais intensa,
intensa, maimais radical, mai mais paradi
paradigmá
gmáti tica
ca do esta
estar-
r-
no-mu
no-mundo.ndo. Interroga
nterrogar as as plantas é compreender
compreender o que signifi signifi
ca estar-no-mundo. A planta encarna o laço mais íntimo e mais
elementar
elementar que a vida pode estabe estabelecer
lecer com o mundo.
mundo. O inve inverso
também
também é verdadeiro
erdadeiro:: elã é o obse observatóri
rvatório o mais
mais puro para con con
templar o mundo
mundo em sua totali totalidade
dade.. Sob o soi ou ou sob as nuvens,
nuvens,
misturando-se
misturando-se à água água e ao vento,
vento, sua vida é uma interminável
interminável
contem
contempl pla
ação
ção cósmica
cósmica,, semsem dissociar
dissociar os objetos
objetos e as as substâncias
substâncias,,
ou, dit
dito
o de outra
outra forma,
orma, aceitando
ceitando toda
todass asas nuances,
nuances, até se fundirundir
com o mundo, até coin coincid
cidiir com suasua substânc
substância. ia. Nunca podere
podere
mos compreende
compreenderr uma plant plantaa sem
sem ter compreendid
compreendido o o que é o
mundo.

EMANUELE COCCIA  13
2
 A extensão do domínio da vida

Ela
Elas vive
vivem a distâ
distâncias siderais
siderais do mundo humanohumano,, como a
quase
quase tot
totalidade
alidade dos outro
outross vivent
viventes.
es. Essa segreg
segrega ação
ção ná
náo é uma
simples
simples ilusão cultcultural,
ural, é de natureza mais
mais pro
proffunda. Sua rairaiz se
encontra no metabolismo.
 A sobrevivência da quase totalidade dos seres vivos pressupõe a
existência
existência de outros
outros viv
viveentes:
ntes: toda
toda form
formaa de vida exiexig
ge que
que já haj
haja
 vi
 vida no mu mundo. Os ho homens pr precisam da vida produzida pelos
animais
animais e pelas plantas.
plantas. E os ani
animais
mais superio
superioreress náo
náo sobrevi
sobrevivveriam
sem
sem a vida que troc trocaam recipro
reciprocam
camente
ente gra
graça
çass ao
ao processo
processo de ali
ali-
mentaçã
mentação. o. Vive
iver é essenci
ssenciaalmente viver
viver da vida
ida de outrem:
utrem: viver
viver
na e através
través da vida
vida que outros
outros soube
soubera
ram
m construi
construirr ou inve
inventar.
Há uma
uma espé
espécie
cie de para
parasit
sitismo
ismo,, de canib
canibaalismo unive
universal,
rsal, própria
própria
ao domín
domínio io do vivente:
vivente: ele se alimenta
alimenta de si mesm
mesmo o, só contem
contem--
pla
pla a si mesm
mesmo, o, precisa disso para outras
outras forma
formass e outros
outros modos
de ex
existência
stência. CoComomo se a vida em em sua
suas fo
form
rma as mai
mais complexa
complexass
e articul
articuladas
adas nunca
nunca pa passasse de uma imensa tauto tautologia
logia cósmica:
elã pressupõ
pressupõe e a si mesma,
mesma, só pro produz
duz a si mesma.
mesma. É por por isso que
que a
 vi
 vida parece só poder se explicar a partir de si me mesma. As plantas
repres
represe entam a única
única brecha na autorre
utorrefferenci
erenciali
alidade
dade do viv
viveente.
Nesse
Nesse sentido
sentido,, a vida superior
superior pare
parecece nunca ter tidotido relaç
relações
ões
imediatas com
com o mundo sem sem vida: o primeiro ambi ambiente
ente de todo
 vi
 vivente é o do
dos indivíduos de sua espécie e de outras espécies.
 A vi
vida parece dever
dever ser seu própri
próprioo meio, seu própri
próprio o lug
lugar. Só
ar. Só as
plantas contra
contravvêm a essa regra topo
topológ
lógica de autoin
autoinclusão.
clusão. Náo
precisam da mediação de outros
outros sere
seres vivo
vivos
s para
para sobre
sobrev viver.
iver. Nem
Nem
a desejam. Tud
Tudo o o que exige
exigem é o mundo
mundo,, a realidade
realidade em seus
compo
componentes
nentes mais elelementares:
ementares: pedras,
pedras, água, ar, luz. luz. Vee eem
mo
mundo antes que ele seja habitadobitado por
por forma
formas de vida superio
superio
res,
res, veem o rea
real em suas forma
formas s mais
mais ancestrais. Ou, antes, en
contra
contramm vida
vida lá onde nenhum outro outro org
organismo
anismo conse
conseg gue isso.
isso.
Transf
ransfo
ormam
rmam tudo
tudo o que tocam em vida, fa fazem da matéri
matéria,
a, do
ar, da luz sol
solar o que será para o resto
resto dos seres
seres vivos
vos um espaço
espaço
de habit
habita
ação,
ção, um mundo. A autotrofutotrofia - é o nome
nome dado dado a esse
poder de Midas
Midas que permite
permite transf
transformar em alimento
alimento tudo o
que se toca
toca e tudo o que se é —não é simplesment
simplesmente e uma fo forma
radical
radical de autono
autonomia
mia al
alimentar,
imentar, é sobretudo a capacid
capacida ade que
que
elas têm de transfo
transformar
rmar a energia solar
solar dispersa
dispersa pelo
pelo cosmos em
corpo vivo
vivo,, a matéria
matéria disfo
disforme e dispara
disparatada
tada do mundo em reali reali
dade
dade coerente, ordenada
ordenada e unitári
unitária.
a.
Se é às plantas
plantas que devemos
devemos perguntar
perguntar o que é o mundomundo,, é
porque
porque são elaselas que “fa
“fazem mundo
mundo”. O mundo
mundo é, para a grande
grande
maio
maioria
ria dos organismos,
rganismos, o produto
produto da vida vegetal,
vegetal, o produto
produto da
coloni
colonizaçã
zação do plane
planeta
ta pelas
pelas plantas, desde
desde tempos
tempos imemoriais.
Não apenas “o org organismo
anismo animal
animal é inteiram
nteiramente
ente consti
constituí
tuído
do pelas
pelas
substânc
substâncias
ias orgânicas
orgânicas produzi
produzidadas
s pelas
pelas plantas”,
plantas”,1co
1comomo também
também
“as
“as plantas superiores
superiores represent
representa am 90% da bioma
biomassassa eucariot
eucariota
do planeta”.2
planeta”.2O O conjunto
conjunto dos obje
objetos e dos uten
utensíli
sílios
os que nos
nos
cerca
cercam vem das plantas (os ali alimento
mentos,
s, o mobi
mobililiário
ário,, as roupas,
roupas, o
combustív
combustível, el, os medicam
medicamento entos),
s), mas, sobretudo, a totali totalidade
dade da
 vi
 vida animal superior (que tem caráter aeróbico) se se alimenta das
troca
trocass org
orgânicas
ânicas gagasosas
sosas desse sses se
seres (o oxigê
xigênio
nio). Noss
Nosso o mundo
mundo
é um fafato veg
vegetal antes de se ser um fa fato anima
animall.
O aristotelismo
ristotelismo foi foi o primeiro alevar em conta conta aposição
posição li limi
mi
nar das plantas, descre
descrevendo-
vendo-a as como um pri princí
ncípi
pio
o de animanimaçã çãoo
e de psiqui
psiquismo
smo univ
universa
ersal.
l. A vida vegevegetativa
tativa (psychétro trophik
phikê) nãonão
erasimplesm
simplesmente, ente, para
para o aristo
aristoteli
telismo
smo daAnti ntiguidade e da Ida Idade
de
Média,
Média, uma clas classe
se disti
distint
nta a de fo
forma
rmas de vida espe específ
cífica
icass ou
ou uma
unidade
unidade taxonô
taxonômic mica a separa
separada da das outras
outras,, e sim um luga lugarr par
tilh
tilha
ado por todostodos os se seres vivos,
vivos, indif
indifer
erente
entememente
nte da distidistinçã
nçãoo
entre plantas, animais e home homens. ns. Um princíprincípipio
o através
través do do qual
“a vida pertence
pertence a todos”
todos”.3 .3
Pela
Pe lass pla
plantas,
ntas, a vida
vida se def define
ine inici
nicialment
almente e como
como circulação
dos seres vivos
vivos e, por
por causa
causadisso,
disso, seconst
constiitui na dissem
dissemiinação
nação das
formas,
ormas, na dif diferença
erença das espécies,
spécies, dos reinos,
reinos, dos modo
modos s de vida
vida..
Cont
Contudo
udo,, elas náo são intermeintermedi diário
ários,
s, agentes do li limiar
miar cósmi
cósmi
co entre vivo
vivo e não
não-vivoivo, espí
espírit
ritoo e matéria. Sua cheg chega ada à terra
terra
firme e suasua mult
multip ipli
lica
caçã
çãoo permitira
permitiram m produzir
produzir a quanti
quantidadedade de de
matéria
matéria e de massa orgâni rgânicaca de que a vida superior
superior se compõecompõe e
se alimenta.
alimenta. Mas Mas também, e sobre sobrettudo,
udo, elas
elas transfo
transformara
rmaram m para
para
sempre
sempre o rosto do nosso planeta: planeta: foi foi através da fotossíntese
tossíntese que
nossa atmosf
tmosferaera passou
passou a ter ter mais oxigê xigêni
nio
o;4 é aindanda graças ças às
às
plantas
plantas e a sua vida que os organi organismos
smos anima
animais is superi
superio ores podem
produz
produziir a energia
energia necessá
necessáriaria a sua sobrevivênci
sobrevivência a. E por
por e através
través
del
delas que nosso pl planeta produz
produz sua atmosf tmosfera
era e faz respirar
respirar os
seres que cobrem sua pele. A vida das plantas plantas é uma cosmogoni
cosmogonia a
em ato,
to, a gênese constconsta ante de nosso cosm cosmos.os. A botâni
botânica, ca, nesse
sse
senti
sentido
do,, deveria
deveria reenco
reencontrar
ntrar um tom tom hesió
hesiódico
dico e descr
descre ever todas
todas
as forma
formas de vida capazespazes de fotossíntese
otossíntese como div divin
indade
dades s inu
inu
mana
manas s e materiais,
materiais, titãs
titãs doméstico
domésticos s que náo precisam
precisam de violên
cia para
para fundar novos mundos.
Desse ponto
ponto de vista, as plantas
plantas abalam um dos pilare pilaress da
bio
biolog
logia edas
das ciências naturais
naturais dos último
últimos s sécu
séculolos:
s: a prima
primaz zia do
meio
meio sobre o viv vivente, do mundo sobre a vida, do espa espaço
ço sobre
sobre o
sujeito.
sujeito. As
As plantas,
plantas, sua
sua história,
história, sua evoluçã
volução, prova
provam que os vi vi
 ve
 ventes produzem o meio em que vivem, em vez de simplesmente
serem obrigado
obrigados s a se adaptar
adaptar a ele. Ela
Elas modi
modifficaram para sem
pre a estrutura meta
metaffísica
ísica do mundo.
mundo. ConvConvididam
am--nos
nos a pensar o
mundo
mundo físico como o conjuntoconjunto de todos os objetos,
objetos, o espaço que
compreende a totali
totalidade
dade de de tudo o que foi,
oi, é e será
será: o horiz
horizont
onte
e
definiti
definitivo
vo que já náo tolera
tolera nenhuma
nenhuma exteriorida
exterioridade,de, o conti
continente
nente
absoluto.
bsoluto. Tornando possível
possível o mundo de que são parte e con
teúdo,
teúdo, as plantas
plantas destroem a hierarqui
hierarquia a topo
topolólógica
gica que parece
parece
reinar
reinar sobre o cosmos. Demonstramemonstram que a vida é uma ruptura
da assimetria
assimetria entre conti
continente
nente e conteúd
conteúdo o. Quando
uando há vida, o
continente
continente jaz no conteú
conteúdo do (e é, porta
portanto
nto,, contido
contido por ele) ele) e
 vi
 vice-ve
-versa. O paradigma dessa imbricação re recíproca é o que os
antig
ntigos já
já nome
nomea avam sopro (pneumà). So  Soprar,
prar, respirar,
respirar, significa
significa
de fato fazer esta
esta experiência:
periência: o que nos contém,
contém, o ar, se torna torna
conteúdo
conteúdo em nós, e, inv inversa
ersamente,
mente, o que estava
estava conti
contido
do em nós nós
se torna
torna o que nos contém
contém.. Respira
Respirarr significa
significa estar
estar imerso
imerso num
meio
meio que nos penetra com a mesma mesma intensi
ntensidade
dade com que nós
o penetram
penetramos.os. As plantas
plantas transfo
transformara
rmaram m o mundo na reali realidade
dade
de um
um sopro, e é a parti
partir dessa
dessa estrutura topo
topolólóggica que a vida ida
deu ao cosm
cosmos que
que tentaremo
tentaremos, neste
neste liv
livro, descrever
descrever a noção de
mundo.

17
3
Das plantas,
plantas, ou da vida
vida do espíri
espíritto

Ela
Elas náo
náo têm mámáos para manejar o mundomundo,, e, no entanto
entanto,, se
se
ria difícil encontrar agentes mais hábeis na construção de formas.
 As
 As plantas náo sáo apenas os artesáos mais fin finos de nosso cosmos,
sáo
sáo também as as espécies
espécies que abri
abriram
ram para a vida o mundo
mundo das das for
for
mas, a forma de vida vida que fez do mundo o lugar da figura figurabil
bilid
idade
ade
inf
infinita.
nita. Foi através das das plantas
plantas super
superio
iore
ress que a terra firme
firme se
afirmou como o espaço e o laboratório cósmico de invenção de
formas e de modelagem da matéria.1
 A auausência de mãos não assinala uma fal falta, ma
mas antes a con
sequência
sequência de uma imersão
imersão sem
sem resto
resto na própri
própria a matéri
matéria,
a, que elas
elas
modelam
modelam incessanteme
incessantemente.nte. As plantas
plantas coin
coincid
cidem
em com
com as formas
ormas
que inv
inventam:
entam: todas
todas as foformas
rmas são para
para elas declinaçõ
declinaçõeses do ser e
não
não apenas
apenas do fa fazer e do agir. Criar
riar uma forma signif
significa
ica atraves-
traves-
sá-l
sá-la co
com todo
todo seu
seu ser,
ser, como
como se atravravessam
essam idades
idades ou etapas da
própri
própria a exi
existência.
stência. À abstração
bstração da criação
criação e da técnica
técnica —que são
capa
capazes
zes de transfo
transformar
rmar asas forma
formass sob a condi
condiçãoção de ex
exclui
cluirr o cria
cria
dor
dor e o produto
produtorr do process
processoo de transf
transforma
ormaçã çãoo - a planta
planta opõe a
imediatez
imediatez da da metam
metamorf orfo
ose:
se: engendrar
engendrar significa
significa sempre
sempre se trans-
trans-

18  A VIDA DAS PLAN TAS : UM A META FÍSICA DA MISTU RA 


formar.
ormar. Aos paraparadoxos
doxos da co consciência que só só sabe
sabe figura
figurarr forma
formas
sob a condi
condição
ção de dist
distiingui-
ngui-las de si mesma
mesma e da realidade de que
são os modelo
modelos, s, a planta
planta opõe
opõe a inti
ntimidade
midade absolut
bsoluta a entre sujeito
sujeito,
mat
matéria e imaginação:nação: imaginar
maginar é se tornar
tornar o que se imagi magina.
Não se trata exclusiv
xclusivam amente
ente de intintimidade
midade e de imediatez: a
gênese
nese das forma
formas atinge
atinge nas plant
plantasas uma intensi
intensidade
dade inacessív
inacessível
el
a qualquer
qualquer outro viv vive ente. Dife
iferentem
rentementeente dos anianima
maisis superio
superio
res, cujo
cujo desenvo
desenvolv lvimento
imento se interr
interroompe assim que o indi indiv
víduo
chega
chega a sua maturi
maturidade sexual,
sexual, as plantas
plantas nã não param de se desendesen
 vo
 volver e crescer, ma mas, so sobretudo, nã não param de construir novos
órgã
órgãos e nova
novas partes
partes de seuseu próprio
próprio corpo (fo (folhas, flores,
ores, parte
do tron
tronco,
co, etc.) de que foramforam priv
privadas
das ouou de que elas
elas própri
própriasas se
li
liv
vrara
raram.
m. Seus corpos sã são uma indústri
indústria a morfo
morfogenéti
enéticaca inint
ninter
er
rupta.
rupta. A vida vegeta
vegetatitivva é o alambique
alambique cósmico
cósmico da me metamorf
tamorfo ose
univ
universal, a potênci
potência a que permite
permite a todatoda forma
forma nasce
nascerr (se cons
titui
tituirr a partir de indiindiv víduos
duos que têm uma forma dif diferente),
erente), se
dese
desenvolv
nvolveer (modif
(modificar
icar sua própria
própria forma
forma no tempo),
tempo), se reprodu
zir
zir dife
diferenciand
renciando- o-se
se (multip
(multiplilicar
car o exi
existe
stente
nte sob a condiçã
condição o de o
modifica
modificar) r) emorrer
morrer (deixar
(deixar o dife
diferente
rente triunfa
triunfar sobre
sobre o idêntico
idêntico).
).
 A planta é um transdutor que transfor forma o fato biológico do ser
 vi
 vivo em problema estético e faz desses problemas uma questão de
 vi
 vida e de morte.
E por iss
issoo também
também que, que, antes da moderni
modernidadedade cartesiana
que reduzi
reduziuu o espírito
espírito a sua sombra antropo ntropomórf
mórficicaa, as pla
plantas
foram
oram consi
considera
deradas por por séculos comocomo a forma paradigmá
paradigmáti tica
ca da
existênc
istênciia da rarazão.
zão. De um espírit spírito
o que se exerce na modelagem
desi mesmo. A medidamedida dessa coin coincicidênci
dência a era a semente.
semente. Na se
mente, de fa fato,
to, a vida vegeta
vegetati
tiv
va demonstra toda toda sua raciracio
onali
nali
dade:
de: a produçã
produção o de uma determin
determinada ada reali
realidade
dade ocorre
ocorre a parti
partir
de um modelo formal rmal e sem sem o meno menorr erro. erro.22 Trata-
rata-se de uma
racionali
racionalidade
dade anál
análoga à da prá práxi
xiss ou da produção. Poré Porém,m, mais
mais
prof
profunda e radical,
radical, pois
pois concer
concerne ne aoao cosmos
cosmos em sua totali totalidade
dade e
náo
náo exclusivamente
exclusivamente a um indi indivvíduo vivo:vivo: é a racioracionali
nalida
dade
de que
que
engaj
engaja o mundo no dev devir de um viventevivente singular. Em Em outros ter
mos, na seme
semente,
nte, a raci
racioonali
nalidade náo náo é ma mais uma simples
simples funçã
função o
do psiquismo
psiquismo (seja ele ani animal
mal ou humanohumano)) ou o atributo atributo de um
único
único ente, mas mas um fa fato cósmico
cósmico.. É o modo de ser ser e a reali
realidade
dade
material
material do cosmos.
cosmos. ParaPara exi
existi
stir,
r, a planta
planta devedeve sese conf
confundi
undirr com
o mundo
mundo,, e só pode fa fazer isso
isso na fo forma da sementsemente: e: o espaço
espaço em
que o ato
ato da razão
razão coabit
coabita a com o devi devirr da matéria.
matéria.
Essa ideia
deia estoi
stoica se torno
tornou, u, através
través das das medi
mediaç açõões de Plo-Plo-
tino
tino e de Agostinho,
stinho, um dos dos pila
pilares
res da filofilosof
sofia
ia da nature
natureza za no
no
Renascime
Renascimento nto.. “O intelecto univer universa sal”
l”,, escr
escre evia Giorda
iordanono Bru
no, “preenche
“preenche tudo, ilumina umina o unive universo e conduz conduz a natureza
natureza a
produz
produzir ir suas
suas espéc
espécies
ies como conv convém ém;; e é para a produção das das
coisa
coisass naturais o que nosso int intelecto
electo é para a produçãoprodução ordenada
ordenada
das
das espécies
spécies racio
raciona
nais
is [...
[...].
]. Os Mag Magos o dizem fecu fecundíssi
ndíssimomo em
sementes,
sementes, ou mesmo mesmo o semeado
semeador, r, porque
porque é ele que impregna impregna a
matéria
matéria de todatodas asas fo
formas
rmas e, e, segundo
segundo a razão razão e condi
condição ção destas,
 ve
 vem a fig
figurá-la-la, for
formá-la-la, entretecê-la -la em ordens tão admiráveis
que não
não se pode
pode atribuí
atribuí--las nem ao ao acaso
caso nemnem a qualqualquer prin prin
cípio
cípio que nãonão saiba
saiba disti
distinguir
nguir e ordenardenarr [...[...].
]. Plo
Plotino
tino o diz pai pai e
proge
progeninito
tor,
r, po
porque dist
distri
ribu
buii as seme
sementesntes no campo
campo da natureznatureza ae
é o mai
mais próxi
próximo mo dispensador
dispensador de formas. ormas. Para nós, ele é o artista artista
interno
interno,, porque
porque forma a matéri matéria a e a conf
configura
igura do int interio
erior,
r, assim
como do interio
nteriorr do germe
germe ou da raiz raiz faz sair
sair e dese
desenvonvolvlvee o tron
tron
co, do tronco,
tronco, os primeiros galho galhos, s, dos ga galhos
lhos princip
principa ais, os deri
deri
 va
 vados, destes, os botões; do interior, ele for forma, config figura, inerva,
de algum modo,
modo, as folhas, as as flore
flores,s, os frutos; e, e, do interio
interior,r, em
determinadas
determinadas épo épocacas,
s, traz de voltalta se
seus humores das fol folha
hass e dos
frutos aos
aos galho
galhoss derivados, dos ga galhos
lhos derivados aos prime primeiro
iross
galhos, destes ao tronco, do tronco à raiz.”3
Náo basta
basta reconhece
reconhecer, r, como fez a tradição aristo aristotélica,
télica, que a
s-
razáo
razáo é o lugar
lugar das
das formas
formas (lócusformarum), o depósito de todas
as forma
formass que o mundomundo pode pode abri
abrigagar.r. Elã também é sua causa causa
formal
rmal e ef eficien
iciente.
te. Se exiexiste
ste uma razáorazáo é a que defi define a gênese
de cada
cada uma das das forma
formass de que o mundo se compõe. compõe. Inversa
nversa
mente,
mente, uma seme sementente é o exato
exato oposto
oposto da da simples
simples exiexistênci
stênciaa vir
tual de uma forma com a qual qual é freq
frequentem
uentementeente conf
confundi
undida.
da. O
grão
rão é o espaç
espaçoo metaf
metafísiísico
co onde a forma já náo náo defin
define e uma pura
aparência
aparência ou o objeto
objeto de uma visã visão o, nem o simples aci acidente
dente de
uma substância,
substância, mas um destino:destino: ao mesmomesmo tempo o horizo horizonte
nte
específ
specífico
ico —mas int integ
egral
ral e abso
absoluto
luto —da existência
existência de taltal ou qual
indi
indivvíduo
íduo e o que permite compre compreende enderr sua
sua exi
existência
stência e todos
todos
os acontecimento
acontecimentoss de que el elã se compõe
compõe como fatos tos cósmic
ósmicos e
náo
náo puramente
puramente subj subjetiv
etivos.
os. Imaginar
maginar náo náo signif
significa
ica colo
colocar uma
image
imagem m inerte
inerte e imaterial diantediante dos olhos,olhos, mas contemplar
contemplar a
força que permite
permite transfo
transformar
rmar o mundo e uma porção de sua sua
matéria em uma vida ular. Imag
vida singular.  Imagin inando
ando,, a semente
semente torna
torna ne
ne
cessá
cessária uma vida, deixadeixa seu
seu corpo seemparelhar com o curso do
mundo. A semente é o lugar onde a forma não é um conteúdo do
mundo, mas o ser ser do mundo,
mundo, sua forma de vida. vida. A rarazáo é uma
semente, pois, dif
diferente
rentemente
ntedo que
quea moderni
rnidade
dadeseobstinou
obstinou em
pensar, não é o espa
espaço
ço da
da contempl
contemplaçã
ação
o estéril,
estéril, não
não é o espaço
espaço
da existência intenci
intencio onal das
das forma
formas, s, mas a força
força que faz exiexistir
stir
umaimagem
imagem como destino especespecífífico
ico de tal ou
ou qual
qual ind
indiv
ivíd
íduo
uo ou
ou
objeto.
objeto. A razão
razão é o que permite
permite a umauma imagem
imagem se ser um destino
destino,
espa
spaço de vida
ida total,
total, horizo
horizonte
nte espacial
espacial e tempo
temporaral.l. É necessida
necessidade
de
cósmica e não capricho individual.

E M A N I H E C OC
OC CI
CI A   21
4

Por uma
uma fi
filosofi
osofia da natureza
natureza

Estelilivro
vro pretende rea reabri
brirr aquestão
questão do mundo apartir partir davida
vida
das planta
plantas. s. Fazer
Fazer isso
isso signif
significa reatar
reatar co
com uma tradição antigaantiga.
 Aqu
 Aquilo a que, de de maneira mais ou menos arbitrária, ch chamamos
fililoso
osoffia nasce
nasceu u e se compreendia,
compreendia, na na origem,
rigem, como uma uma inter-
nter-
rogação sobre a natureza do mund mundo o, como um discurso sobre a
física (feri têsphys
sphyse
eôs) ou sobre o cosmos (peri kosmou). E u). Essa
ssaesco-
esco-
lha nada tinh tinha a de casua
casual:l: fazerda natureza e do do cosmos
cosmos os os objetos
objetos
privil
privilegegiados do pensapensamento
mento significava
significava afirmar
irmar implici
implicitame
tamentnte
e
que o pensam
pensamentoento só sese torna
torna fil
filoso
osoffia ao seconf
confro
rontar
ntar com ess
esses
objeto
bjetos.
s. E em face do mundomundo e da natureza que o homem homem podepode
 ve
 verdadeiramente pensar. Essaidentidade entre mundo e natureza
está longe
longe de ser banal.
banal. Pois
Pois natureza designava
natureza designava náo náo o que pre-
cede
cede a ativ tivida
idade do
do espírito
espírito humano
humano,, nem nem o oposto
oposto da cultura,
mas o que permite a tudo nasce nascerr e devir,
devir, o princí
princípi
pio
o e a força
respo
responsánsáveis
veis pela
pela gênese
ênese e pela
pela transfo
transformaçãoção de todo
todo e qualquer
qualquer
objeto,
objeto, coisa,
coisa, entidade
entidade ou ideiaideia que existe e existirá
existirá.. Identificar
dentificar
natureza e cosmos signif significica
a antes
ntes de tudo
tudo fazer da natureza
natureza náo
náo
um princí
princípi pioo separa
separado,
do, mas aqui aquilo
lo que se exprime
prime em tudo o

22  A VID A DAS p l a n t a s : UMA METAFÍSICA DA MISTURA 


que é. Inve
nversamente,
mente, o mundo náo é o conj conjunto
unto lóg
lógico de todos
todos
os objetos,
objetos, nem uma total
totaliidade meta
metaffísica
ísica dos seres,
res, mas
mas a força
física
sica que atravessa
atravessa tudo
tudo o que se engendra e se transfo
transforma.
rma. Náo
há nenhuma
nenhuma sepa
separa
ração
ção entre a matéri
matériaa eo imaterial,
material, a histó
históri
ria
a ea
física.
ísica. Num plano mais
mais microscópico,
microscópico, a natureza
natureza éo que permite
estar
estar no mundo
mundo,, e, inv
inversa
ersamente, tudo
tudo o que liga
liga uma co coisa ao
mundo faz parte de sua na natureza
tureza..
Há vários
vários séculos,
culos, salvo raras exceç
exceções,
ões, a fililoso
osoffia náo con-
templa
templa mais
mais a natureza: o direit
direitoo de tratar
tratar e de falar do mundo
das coisa
coisas e dos sere
seres vivo
vivoss náo huma
humano noss cabe
cabe princi
principalment
palmente e
e exclusiv
xclusiva amente
mente a outras discipli
disciplinas.
nas. Planta
Plantas,s, anima
animais, is, fenôme
nôme-
nos atmosf
tmosféricos
éricos comuns
comuns ou ou ext
extraordi
raordinário
nários,
s, os elemento
elementos s e suas
combin
combinações,
ações, as coconstelações,
nstelações, os planetas e as estrela strelas foforam
ram de-
finit
initiv
iva
amente
mente expulsos
expulsos do catálogo
catálogo imaimaginário
ginário de seusseus objetos de
estudo
studo priv
privil
ileg
egiados.1A
iados.1A partir do século culo XI
XIX, uma imensaimensa parte
parte
da experiência de cadacada indi
indivvíduo
íduo se torno
tornou u objeto
objeto de uma certa certa
censura
censura: desde
desde o ideali
idealismo
smo alemão, tudo tudo o que é chamado de
ciências humanas
anas foi
 foi um esfo
esforç
rçoo po
poli
licial,
cial, ao mesmo
smo tempo
tempo deses-ses-
perant
perante e e desesper
desesperado,
ado, para fa fazer desaparecer
parecer o que prov provém do
natura
naturall do domíni
domínio o do cognosc
cognoscív íve
el.
O “fisio
“fisiocídio
cídio” ” —para
para usa
usar apalavra
palavra forja
orjada por
por Ia Iain Hamilto
miltonn
Grant2
rant2—teve
—teve consequênci
consequência as mais
mais nefastas
nefastas que a simples
simples divisão
divisão
dos conhecimentos
conhecimentos entre as as difer
diferentes
entes corpo
corporarações
ções de estudiosos.
studiosos.
Hoje
Hoje é muito
muito natural para alguém lguém que se se pretende filósof
ilósofoo co-
nhecer
nhecer os mais insi
insignif
gnific
ica
antes
ntes aco
acontecimento
ntecimentos s do passado de sua
nação enquant
enquanto o ignora
gnora os nome
nomes,
s, avida
vida ou a histó
históri
ria
a das
das espé
espécies
cies
anima
nimais
is e vegetais
etais de quesealiment
alimentaa coti
cotidi
dianame
anament nte.3Mas,
e.3Mas, além
desse
sse analfabeti
nalfabetismo
smo por
por desuso,
desuso, a recusa de reco
reconhecer
nhecer qualquer
dignidade
dignidade fililosó
osóffica à natureza e ao cosm
cosmosos produz
produz um estranho
estranho

EMANUELE COCCIA  23
bova
bovarismo: a fil iloso
osoffia busca
busca a todo custo custo ser humana e huma
nist
nista,
a, ser incl
ncluída
uída entr
entree as ciências
ciências humanas e sociaisociais,
s, ser uma
ciênci
ciênciaa —mais ainda, uma ciênci ciênciaa normal —como como todas
todas as outras.
outras.
Misturand
Misturando o fa
falsos pres
pressupostos,
supostos, veleidade
veleidades s superf
superfici
icia
ais e um mo-
mo-
rali
ralismo
smo repugnante,
repugnante, os fil filósof
ósofosos se transfo
transformara
rmaramm em adeadepto
ptoss
radicais do credo protag
 protagórico
rico: “O homehomem m é a medida
medida de toda
todass as
cois
coisas.”4
as.”4Pri
Priv
vada de seus objobjetos supremos,
supremos, amea ameaçada
çada por
por outra
outrass
forma
rmas de sa saber (pouco
(pouco impo
import rta
a que sese trate das ciências
ciências so
sociais
ou das
das ciências naturai
naturais), a fililosof
osofia
ia se
se transf
transformou
ormou numa espéespécie
de Dom Quixotuixote e dos
dos conhecimento
conhecimentos s contemporâne
contemporâneos, os, enga
engajada
numa lutauta imagi
maginária
nária contra
contra proj
projeeções do seuseu espírito
espírito;; ou
ou num
Narciso fecha
echado nos espeespectros
ctros do seu
seu passa
passado, transfo
transformados dos em
em
suvenires vazios
vazios de museu prov provinciano.
nciano. Forçada a náo náo tratar
tratar do
do
mundo,
mundo, mas das das ima
imagegens
ns mais ouou menos
menos arbit
arbitrárias dele que os
home
homensns produz
produzir ira
am no passad
passado,
o, elã se se torno
tornou u uma forma de ce ce
ticism
ticismo,
o, amiúde
amiúde morali
moralizado
zado e ref
reformista.5
 As
 As consequências vão ma mais lo
longe. Foram principalmente as
ciências
ciências ditas
ditas “naturais” que sofresofrera
ramm com esse sse exíli
exílio. Reduzindo
Reduzindo
a natureza
natureza unicame
unicament ntee ao que é anterio
nteriorr ao espírito
espírito (que,
que, assim,
é quali
qualifficado de humano) e que náo náo parti
particicipa
pa de maneir
maneira a alguma
de sua
suas propri
propriedaedades,
des, essa
essas disci
discipl
pliinas se obriga
brigaram
ram a transfo
transfor
má-
má-la num objeto
objeto purament
puramente e residual, opo oposici
sicio
onal, para
para semsempre
incapaz de ocupar a posição posição de sujeit
sujeito o. Natureza seria o espa espaço
 va
 vazio e incoerente de tudo o que precede a emergência do espírito
e se segue
segue ao bigbigbang, a noi noite sem luz e se sem verbo que impedi
impediri ria
a
qualquer
qualquer cinti
cintillação
ação e qualquer proje
projeção.
ção.
Esseimpasseéo resultado
resultado de um recalc
recalca amento obstibstinado:
nado: o do
 vi
 vivente, e do fato de que todo conhecimento é já uma expressão
do ser da vida. Nunca pode
podemos
mos interroga
interrogarr e compreender
compreender o
mundo de modo
modo imediato,
imediato, pois o mundomundo é o sopro
sopro dos viventes.
viventes.
I odo conhecimento cósmico é umpont ponto vida (e náo apenas um
o de vida
ponto
pont vista), to
o de vista),  toda verdade é o mundomundo no espaço de medi mediaçã
ação
do vivente.
vivente. Nunca se sepoder
poderá áconhecero mundo enquanto tal tal sem
passa
passar pela media
mediaçã çãoo de um vivente
vivente.. AoAo contrário
contrário,, encontrá
encontrá--lo,
lo,
conhecê-lo
conhecê-lo,, enunciá
enunciá-lo significa
significa sempr
sempre eviver
viver de
de acordo com
com cer
certa
ta
forma
rma, a parti
partirr de certo
certo esti
estilo
lo.. Para conhecer o mundo é preciso preciso
escolher em que grau davida, em que al altura
tura eaparti
partir de que fo
forma
se quer
quer olhá
olhá-lo e, portanto
portanto,, vivê-
vivê-lolo.. Precisa
Precisammos de um me mediador,
um olh
olha
ar capaz dede ver e viver
viver o mundo lá onde não não conseguimos
conseguimos
chegar. A física
ísica cont
contempo
emporânea
rânea não não esca
escapa dessa
dessa evidência:
evidência:
seus
seus medi
mediado
adores
res são as máquinas
máquinas que elã erigiu erigiu em posiçã
posiçãoo de
sujeitos
sujeitos suplementare
suplementares s e prot
protéticos
éticos para
para imediatament
mediatamente e ocultá-
ocultá-
los,
los, recusa
recusando reconhecê
reconhecê--los
los como a proj projeç
eçã
ão dos olhos
olhos da física
ísica,
capazes, portanto
portanto,, de observ
observar o mundo tão some somentente de uma
única perspe
perspectiv
ctiva
a.6O
.6 Os microscó
microscópio
pios,
s, os telescópio
telescópios,
s, os satélit
satélites
es,,
os acelera
celeradores
dores de partículas
partículas são olho
olhoss inani
inanimados
mados e materi
materiais
ais
que lhe
lhe permit
permitem
em observar
observar o mundo,
mundo, ter um olhar sobre
sobre ele. Mas
as máqui
máquinas
nas de que a física
sica faz uso são
são mediado
mediadores
res que sofre
sofrem m
de uma presbit
presbitia, estão
estão sempre atrasa
atrasadas
das e afastadas
stadas demais das
profundeza
profundezas s do cosmos: nãonão vee
veemm a vida que as habita,
habita, o oIho
oIho
cósmico
cósmico que elas
elas própria
próprias encarnam
encarnam.. A fil iloso
osoffia, aliás, sempre
sempre
escolheu
escolheu medi
mediado
adores
res míopes,
míopes, capa
capazes
zes apenas de se se concent
concentrar
rar
unica
unicame
mente
nte sobre a porção
porção de mundo imediata
imediatamente
mente limít
limítro
roffe.
Perguntar
Perguntar ao home
homem m o que significa
significa estar-
estar-no
no--mundo —co —como fe fez
Heidegger7
er7e toda a filosof
filosofia
ia do
do século
culo XX —significa
significa reproduzi
reproduzirr
uma imagem
imagem extremamente
extremamente parcial do cosmos.
cosmos. Tampouco
ampouco bastabasta
(como
(como nos ensino
ensinouu Uexküll
Uexküll)8)8 deslocar
deslocar o olhar
olhar para
para as form
forma as
mais el
elementares da vida ani animal:
mal: o carrapato
carrapato,, o cacho
cachorro
rro e a

EMANUEIE COCOA  25
águia
uia têm já abaixo
baixo deles
deles uma inf infinid
inidade
ade de outros
outros observa
observadores
dores
do mundo.
mundo. As plantaplantas são os verdadeiro
verdadeiros s medi
mediadores:
adores: sáo os
prime
primeiriro
os olho
olhoss que se colo
colocacara
ramm e abrira
briramm para o mundo
mundo,, são o
olhar queconseg
consegue percebê-
percebê-lo em toda todas as suas fo
forma
rmas. O mundo
é antes
ntes de tudo o que as as plantas
plantas soubera
souberam m fa
fazer del
dele. Fora
Foram m elelas
que fiz eram nosso mundo
 fize mundo,, ainda
ainda que o estatuto dess desse
e fa
fazer sej
seja
bem
bem difer
diferente
ente do de qual
qualquer outra
outra ativi
tivida
dade
de dos
dos vivente
viventes.s. E,
pois,
pois, às plantas que este
este livro
livro vai colo
colocar
car a questão
questão dada natureza do do
mundo,
mundo, da sua sua extensão
xtensão e da sua consist
consistência.
ência. Assim
Assim tatambém, a
tentativa
tentativa dede ref
refundar
undar uma cosmolo
cosmologia —a única única fo
forma
rma de
de fil
filosof
osofia
ia
que pode ser ser consi
considera
derada
da co
como legí egítima
tima —devdeverá come
começa çarr por
uma exploraçã
xploração da vida vegetal etal. Postulare
Postularemosmos que o mundo
tem a consi
consistên
stênci
cia
a de uma atmosftmosferaera, e que sã são as fo
folhas
has que
podem
podem atestar
atestar iss
isso.
o. Pedirem
Pediremo os às raízes para expl
explicar a verdadei
erdadeira
naturez
natureza da Terra.
erra. Finalrnent
Finalrnente, e, é a flor
lor que nos ensinará
ensinará o que é
a raci
racioonalidade
nalidade,, defin
definiida náo
náo mais
mais como capaci
capacidade
dade ou potênci
potência a
univers
universa al, mas como força cósmica.
cósmica.
Il
TEORIA DA FOLHA

 AATMOSF
 AATMOSFERA
ERA DO M UNDO
5

Folhas

Firme, imóvel,
imóvel, exposta
xposta aos fen fenôme
ômenos
nos atmosf
atmosfé éricos
ricos a ponto
de se conf
confundi
undirr com eles.eles. Suspensa no ar sem nenhum esforço, esforço,
sem preci
precisar
sar cont
contrair
rair um só múscul
músculo o. Ser pássaro sem
sem poder
poder voar.
 A fo
folha é a primeira grande reação à conquista da terra fir firme, o
princi
principal
pal resultado
resultado da terrestri
terrestrizzação
ção das plantas,
plantas, a expressã
expressão de
sua paixã
paixão pela
pela vida aérea.
Tudo concorre para sua existência, xistência, da estrutura anatôanatômica
mica
do tronco à fisioisiolog
logia geral da planta,
planta, passa
passando porpor sua
sua histó
história,
a de todas
todas as escolha
escolhas s da evoluçã
evolução ao lo longo
ngo dos milênio
milênios. s. Tudo
está pressu
pressuposto
posto e teleolo
teleologicame
gicamentente conti
contido
do ness
nessa
a supe
superfrfíci
ície
e ver-
de que sese abre para o céu. A chegada chegada ao ao espaço aéreo obrigobrigouu as
plantas
plantas a uma bricobricolagem
lagem infinfini
inita de forma
formas, de estruturas
estruturas e de
soluç
soluções
ões evolut
volutiv iva
as. A estrutura
estrutura baseada num tro tronco
nco é antes de
tudo a invençã
invenção de um “mezanino“mezanino” que permite vencer a força
gravita
itacio
cional sem perder
perder a relaçã
relaçãoo com o solo
solo e com a umidade
umidade
terre
terrestre.
stre. A exposiçã
xposição o direta
direta e consta
constante ao ao ar e ao soi tornou
tornou
necessá
necessária
ria a const
construção
rução de uma est estrut
rutura
ura resi
resistente
stente e permeável.

EMANUELE COCCIA  29
É sobre as folhfolha as que reporepousa
usa náo
náo apenas
penas a vida do do indiv
ndivíduo
a que elas pertencem, mas mas também a vida do reino de que sã são a
expre
expressão
ssão mais típi típica,
ca, e mesm
mesmo o de toda
toda a bio biosf
sfer
era
a. “O mundo
inteiro
nteiro dos se seres
res vivos,
vivos, sej
sejam plantas
plantas ou animais,
animais, se sustenta e
está rigidamente condicionado pela energia que os plastídios
arranca
arrancam m do soi para para construi
construirr as as lig
ligaçõ
ações que mantêm uni unida
a molécula
molécula de glucoselucose.. A vida sobre sobre a terra
terra —a vida, autônoautônoma ma,,
do mundo veg vegetal
etal náo
náo menos
menos que aquela,
aquela, parasit
parasitária,
ária, do mundo
animal —é — é, portanto,
portanto, torna tornada da possív
possíve el pela exi existência
stência e pela
capacida
capacidade de operató
operatória ria dos plastídios
plastídios cloro
cloroffilianos”
ilianos”1pre
1presesente
ntess nas
nas
folha
olhas.
s. As
As folfolha
hass impusera
impuseram m à grande maio maioria ria dos sere
seress vivos
vivos um
mei
meio único
único: a atmosfe
tmosfera. ra.
Costumam
Co stumamo os identi
identifficar as plantas com as as flo
flore
res,
s, sua
suas expre
expres- s-
sões
sões mais
mais fa fastuosa
stuosas; s; ou
ou aoao tronco
tronco das árvo
árvore res,
s, sua for
forma
mação
ção mai
mais
sóli
sólida.
da. Mas
Mas a planta
planta é antes e acima de tudo fo folha.2“As
ha.2 “As folfolhahass
não
não são simpl
simplesmesmente
ente a parte
parte princi
principal
pal da planta.
planta. AsAs fol
folha
hass são a
planta:
planta: tronco
tronco e ra raiz são partes
partes da folha,
folha, a base
base da folha
olha,, o simple
simples
prolo
prolonga
ngamementonto por meio meio do qual as as folhas
folhas,, permane
permanecendocendo altas
no ar, se sustentam
sustentam e se abastece bastecemm do alimento
alimento do solo. solo. [...
[...]] A
planta
planta inteira
inteira se se identif
identifica na fol folha
ha,, de que os outros órg órgãos não não
passa
passam m de apêndices: são são as fol
folhas
has que fo formam
rmam a flor, lor, as sépa
sépallas,
as pétalas,
pétalas, os estame
estames, s, os pisti
pistilos; e cabe
cabe também às às fol
folha
hass fo
formar
rmar
o fruto
fruto.”3
.”3A Apreend
preender er o mistério das das plantas
plantas signif
significa
ica co
compreen-
mpreen-
der —de todo todoss os ponto
pontoss de vista e não apenas apenas das das perspectiv
perspectiva as
genét
genétiica e evolu
evolutitivva—as fo folhas. Nelas
Nelas se sedesvela o seg segredo daqui
daqui-
lo a que chama
chamamos:mos: clima.
clima.
O clima não é o conjunto dos gases que envolvem o globo
terre
terrestre
stre.. É a essência
ssência da flui fluide
dezz cósm
cósmica,
ica, o rosto mai mais profundo
profundo
do nosso
nosso mundo, o rosto que o revela revela como a infi infinita
nita mistura de
toda
todass asas coi
coisa
sas,
s, presentes,
presentes, passa passadadas,
s, futuras. O cli clima é o nome nome
da estrutura
estrutura metaf
metafísi ísica
ca da mistura. Para que haj haja clima,
clima, todos
todos os
elementos no interior de um espaço devem a um só tempo estar
mistura
misturado doss e ser
ser reconh
reconhecív ecíveis
eis —uni
—unidodoss náo
náo pela substância, pela
forma,
rma, pela cont
contiiguidade,
guidade, mas mas por uma mesma mesma “atmosf
“atmosfera era”.
”. Se o
mundo é uno, náo náo o é porpor haver
haver uma única única substância
substância ou morfo-
morfo-
log
logia univ
unive ersal.
rsal. No âmbito climá climáti tico
co,, tudo
tudo o que é e foi constit
constituiui
um  mundo. Um cl clima é o ser ser da unidade
unidade cósmica. Em Em todo
clima
clima a relaçã
relaçãoo entre conteúdo e conti continente
nente é constantemente
constantemente
revers
reversívível:
el: o que é lugar se se torna
torna conteúdo,
conteúdo, o que é conteúdo conteúdo se
torna
torna lugar.
lugar. O meiomeio se faz suj sujeito
ito e o sujsujeito
ito meio
meio.. Todoodo clima
clima
pressu
pressupõepõe ess
essa
a inver
inversãsão
o topo
topoló lógica
gica constante,
constante, essa ssa oscilaç
scilação
ão que
desfa
desfazz os contornos
contornos entre sujeito e meio meio,, que inverinvertete os papéis.
papéis.
 A mistura náo é simplesmente a composição dos elementos, mas
essa
ssa relação
relação de trocatroca topo
topológica.
lógica. É el elã que defin
define e o estado
estado de
fluidez.
luidez. Um fluido
fluido náo náo é um espa espaço ou um corpo corpo defini
definidodo pela
pela
ausênci
ausência a de resi
resistência
stência. Náo tem tem nada a ver com com os estado
estadoss de
agrega
regaçãçãoo da matéri
matéria: a: os só sólidos
lidos também podem podem ser ser fluido
luidos,s, sem
sem
precisar
precisar passa
passarr ao
ao estado
estado gasoso
gasoso ou ou líqui
líquido
do.. Flui
Fluida da é a estrutura
da circulação
circulação univer
universa sal,l, o luga
lugarr onde tudo vem ao contato contato de
tudo,
tudo, e semistur
mistura a sem
sem perder sua sua forma
formae suasubstância
substância própri
própria.a.
 A fol
folha é a forforma paradigmática da abertura: a vida capaz de
ser
ser atravessa
atravessadada pelo mundo
mundo sem ser ser destruí
destruídada por
por elele. Mas é tam-tam-
bém
bém o laboratório
laboratório cli climáti
mático co por
por excelência,
excelência, a retort
retortaa que fabrica
e libera
libera no espaespaço o oxig xigênio,
ênio, o elemento
elemento que torna torna possíveis
possíveis a
 vi
 vida, a presença e a mistura de uma variedade infin finita de sujeitos,
corpos,
corpos, histó
histórias
rias e existências mundanas. mundanas. Os Os peque
pequenosnos limbos
limbos
 ve
 verdes que povoam o planeta e capturam a energia do so solo são
o tecido
tecido conec
conecti tivo
vo cósmico que, há mil milhõ
hões
es de anos, permite
permite às

EMANURE COCCIA  31
 vi
 vidas mais diversas se entrecruzar e se misturar sem se fun fundir re
cipr
ciproocament
camente e uma
umas nas outras
outras..
 A origem do nosso mundo náo está num acontecimento, infi fi
nitamente
nitamente distadistante no tempo
tempo e no espa espaço,
ço, a milhões
milhões de anos-
nos-luz
luz
de nós —e tampotampouco uco num espaço
espaço de que já náo náo tem
temo os mais
mais ne
nhum ves vestí
tíg
gio.
io. Elã está
está aqui, agora. A origem
rigem do mundo é sazo
nal
nal, rítmica,
rítmica, int
intermitent
ermitente e como tudo o que existe. Ne Nem substân
substân
cia
cia nem fund
fundameament nto
o, náo está
está nem no chão chão nem no céu; masmas à
meia-di
meia-distânci
stância a entre um e outro.
utro. Nossa
Nossa origem náonáo está em nós
- in inte riore homine - mas fora
interio fora de nós,nós, ao ar
ar livre.
livre. Não é algo
de está
estável
vel ou de ancestral,
ncestral, um astro
astro de dimensõ
dimensõeses desmesura
desmesuradas,
das,
um deus,
deus, um tit titã
ã. Náo é úniúnica
ca.. A orig
origem dodo nosso mundo são
as fol
folha
has:
s: frá
fráge
geis,
is, vuln
vulnerá
eráveis e,
e, no entanto
entanto, capa
capazes
zes de volta
ltar e
reviv
reviver após terem atravessado a má estação.
6

Tiktaalik
Tiktaalik rosea e

Em 2004, uma equipe


equipe de paleontó
paleontólog
logos estaduni
estadunidenses
denses desdes
cobre, numa rocha formada por sedimen sedimento tos
s do devoniano
devoniano na
ilha
ilha de Ell
Elles
esme
mere,
re, os restos,
restos, com algo entre 375 e 380 milhõmilhõeses de
anos, de uma espécie de peixepeixe ósseo
ósseo da clas
classe dos sarcopt
sarcopterígio
erígios,
s,
um animal que tem a aparência de um híbri híbrido
do entre o peixe
peixe e
o jacaré.
jacaré. Esse animal, cujo nomenome científ
científico é Tiktaali
taalik
k roesae,'
associa ef
efetivam
etivamente as característi
cterísticas
cas anatô
anatômicas
micas de um peixe
e as dos tetrápodes,
tetrápodes, e pode
pode ser consi
considerado
derado uma das provas
provas da
origem
origem marinha da vida vida ani
animal
mal sobre a Terra. A maiomaiori
ria,
a, senáo a
totali
totalidade,
dade, dos
dos se
seres vivos
vivos superiores
superiores é result
resultante
ante de um proces
processo
so
de adaptaçã
adaptação o a partir
partir de um
um meio
meio fluido
luido..
Desde
sde a célebre
célebre e controversa
controversa experiência de Mi Millller-
er-U
Urey em
1953
19 53,2
,2a
a ideia
ideia de que o meio
meio primo
primordi
rdial
al de toda forma
forma de vida
vida
seja
seja o mar
mar —ou,
—ou, de acordo com a fórmula
fórmula habitual,
habitual, uma “sopa
primordial”3-
primordial”3- pare
parece
ce ter se imposto.
imposto. Ainda
inda que a verdade bio
bio
lóg
lógica e zool
zoológica
ógica dessa hipó
hipótese náo tenha sido prov
provada, vale
vale a
pena fazer
zer dela o objeto
objeto de uma experiência
experiência metafísi
tafísica.
ca. Um
Um bre
 ve
 ve Gedanke riment prolo
dankenexperim prolonga
ngando aquil
aquiloo que,
que, por
por enqua
enquanto
nto,,

EMANUELE COCCIA  33
náo
náo passa
passa de uma simples simples hipótese
hipótese biobiológica
lógica numa experiência
experiência
da imaginação
maginação fil filosó
osóffica. O result
resultad
adoo provavel
provavelme mente
nte estará mais
próximo
próximo de uma escrit escritaa mit
mitoográf
ráfica do que de um tratado tratado cien
cien
tífico
tífico de cosmolo
cosmologia. Mas Mas o mundo físico só pode ser visto visto e por
por
 ve
 vezes compreendido através de um esforço de imaginação como
esse.
Tomemos
memos a sé sério essa
ssa hipó
hipótese
tese,, ao menos
menos por por um instante,
instante,
a fi
fim de a radicalizar, trata-setrata-se de transfo
transformar
rmar o que se se apresenta
como uma simples co constataçã
nstatação empí
empírica
rica sobre um elo elo signif
significati
icati
 vo
 vo, mas contingente, entre vida e meioflui fluido
do num
 numa a relação
relação cosmo-
lógica necessári
ssária.4 Suponhamos,
uponhamos, então, que a vida vida surgiu
surgiu de um
meio físi
físico
co flui
fluido
do (pouc
(pouco o import
importa a aqui seu conteúdo,
conteúdo, moléc oléculas
ulas
de água ou de amoníaco
amoníaco)) não por por um simples
simples acaso e sim sim porque
porque
a vida é umum fefenôm
nômeno possível exclusiv xclusiva amente
mente em em memeios
ios fluidos.
fluidos.
 A passagem dos seres vivos do mar à terra firme deveria então ser
interpretada
interpretada não não comocomo uma transfotransformaçã
rmação o radi
radical,
cal, nem como
uma revo
revollução
ução da natureza
natureza da vida e de sua relaçã relação com
com o meio
meio
que a aloj
aloja, mas como como uma mudança
mudança de grau grau de densidade
densidade e de
estado
estado de agrega
gregação de um mes mesmomo meio flui luido (a matéria) que
pode assumir conf configuriguraç
açõões dife
diferentes.
rentes. Nesse
Nesse sentido
sentido,, fazer da
relaçã
relaçãoo entre fo forma
rmas (no plural)
plural) de vida
vida e meio fluido uma nece neces
s
sidade significa
significa postul
postula ar duas
duas hipó
hipótes
teses
es princip
principa ais. Uma, conce
concerr
nente à real
realidade do mundo e da matéria, matéria, a outra, à do vivente.
vivente.
Trata-se
rata-se em em primeiro
primeiro lugar
ugar de reconh
reconhe ecer
cer que do ponto ponto de
vista do vive
vivente
nte, e independentemente
independentemente de sua natureza objetiv bjetiva
a,
a matéria, que const constiitui o mundo habitado,
habitado, apesa pesar da dife
diferença
de seus elemento
elementos s eda descont
descontin inuid
uidade
ade físi
física
ca,, é ontolo
ntologgicam
icamente
ente
unitá
unitáriria
a e homo
homogênea, e que essa uni unidade
dade consi
consistste
e em sua na na
tureza flu
 fluid
idaa.  A fluiluidez náo é um estado estado de ag agregação da ma
téria:
téria: é a maneira
maneira pela qual qual o mundo se consti constitui
tui no vivvivente
ente e
em face dele. Flui Fluida
da é toda
toda matéria que, independent
ndependenteme ement ntee de
de
seu
seu esta
estado
do sóli
sólido, lí
líqui
quidodo ou gagasoso, prolo
prolonga sua suas form
forma as numa
imagem
imagem de si; si; seja
seja sob a for
forma
made uma percepção
percepção ou ou de uma con con
tinui
tinuidade
dade física. SeSe todo
todo vivente
vivente só pode existir
existir no interio
interiorr de um
meio fluido,
luido, é porqu
porque e a vida
vida contribui
contribui para para consti
constituituirr o mundo
mundo
como
como tal, sempre
sempre instável, semp sempre re tomado
tomado por por um mov movimento
imento
de multi
multiplicação
plicação e difere
diferenciaçã
nciaçãoo de si.
si.
O peixe
peixe é, a partir
partir de então,
então, náo apenas uma das etapas da
evoluçã
evolução dos sere seres vivos,
vivos, mas o par paradi
adigma de vivo. As
de todo ser vivo.
sim como
como o mar, que que já nãonão deve ser ser considera
considerado unicamen
unicamen
te como um ambiente
ambiente específ
específico
ico a certos
certos sere
seress vivos,
vivos, mas como
uma
uma metáfora
táfora do próprio mundo. O estar- estar-no
no--mundo de todo ser
 vi
 vivo precisaria então ser compreendido a partir da experiência de
mundo do peixe. Ess Esse estar-
estar-no
no--mundo, que é, port porta anto,
nto, também
o nosso,
nosso, é semp
sempre re um estar-
estar-no
no--mar-
mar-dodo--mundo. E uma forma de
imersão.
Se a vida sempre
sempre é e só pode pode ser
ser imersão
imersão, a maioria ria dos con
con
ceito
ceitoss edivisõ
divisõeses que aplicam
aplicamo os à descrição
descrição da da anatomi
anatomia a e da fisio
fisio
log
logia, assim como o exercício
exercício ativo
ativo das potências
potências co corporais que
nos permitem
permitem viver —em suma, a fenome enomeno nolo
logia
gia da existência
existência
concreta de todo ser vivo vivo - mereceerece ser reesc
reescrit
rita.
a. Para todotodo ser
imerso,
imerso, a oposição
oposição entre moviment
movimento o e repouso não existe existe mamais; o
repouso
pouso é um dos resultados dos movimento movimentos s e o moviment
movimento o é,
como para uma águia guia que plana,
plana, uma
uma consequênc
consequência ia do repouso.
repouso.
Todo ser que já não não pode
pode separar rar repouso
repouso e moviment
movimento o tam
bém
bém nã não pode
pode opor contempl
contemplaçã ação e ação.ção. A contempl
contemplaçã ação pres
pres
supõe
supõe o repouso;
repouso; é somente postul postulando
ando um mundomundo fixo, ixo, estável,
estável,
sólido,
sólido, que se se encontra
encontra diante
diante de um sujeit sujeito
o em re repouso, que que sese

[MANUELE COCCIA  35
pode falar de objeto, e, e, po
portanto
rtanto, de um pensame
pensamento nto ou de uma
 vi
 visão. Ao contrário, o mundo para um ser imerso —o mundo em
imersão
imersão —, propri
propriameamentnte
e falando,
falando, não
não contém
contém verdadedadeiros obje
bjetos.
Tudo é fluido nele, tudo nele existe em movimento, com, con
tra ou dentro do sujeitosujeito. Esse
Esse mundo se def define como eleme
elemento
ou fluxo que se se aproxi
proxima
ma,, se afasta ou aco acompanha
mpanha o ser vivo vivo,,
ele me
mesmo
smo fluxo
fluxo ou parte
parte de um fluxo.
fluxo. É umum universo, propri
propriaa
mente falando, sem coisas oisas, um enorme
enorme campo
campo de aco aconteci
ntecimento
mentoss
de intensi
intensidade
dade variável. Assim,
Assim, se o estar-
estar-no
no--mundo é imersão,
pensar e agir
agir,, trabalhar
rabalhar e respirar,
respirar, se mexer,
mexer, criar,
criar, sent
sentiir serã
serãoo
inseparáv
inseparáveis, pois
pois um ser ser imerso
imerso tem uma relaçã relaçãoo com
com o mundo
não
não calcada na que um sujeit sujeitoo mantém com um objeto objeto,, mas
mas na
que uma água-
água-vviva
iva mant
mantém
ém com o mar mar que lhe lhe permite
permite ser
ser o que
elã é. Ná
Náo há nenhuma
nenhuma distdistin
inção
ção material entre nós e o resto resto do
mundo.
O mundo da imersã imersão é uma extensão
xtensão infinfinita
nita de matéri
matéria a flui
lui
da em
em gra
graus
us de velocid
elocidade
ade e de lentidão
entidão variáveis,
variáveis, mas tamtambém,
bém,
e sobre
sobretudo
tudo,, de resistência
resistência ou de permeabili
permeabilidadedade.. Pois,
Pois, no mov
movi
ment
mento o, tudo visavisa a penetrar o mundo e a ser ser penetrado
penetrado porpor ele.
ele.
Permeabi
Permeabililidade
dade é a palavra-chave:
palavra-chave: neste mundo,mundo, tudo está em
tudo.
tudo. A água
água de que o mar é const constit
ituíd
uídoo não
não está apenas
penas dian
dian
te do peixe-sujeit
peixe-sujeito o, mas nele, atravessa
 atravessando-
ndo-o,o, entrando e saindo
saindo
del
dele. Essa
Essa interpenetração
interpenetração do mundo e do sujeito sujeito confe
confere ao es
paço uma geo geometria
metria compl
complexaexa em mutação perpétua.
perpétua.
Essa maneira
maneira de abo abordar
rdar o mundo
mundo como
como ime imersão
rsão pa
parece um
modelo cosm
cosmol oló
ógico surreal;
surreal; contudo
contudo,, fafazemos
zemos a experiência
xperiência dis
dis
so com maio
maiorr freq
frequência
uência do que se se imagin
imagina. a. De fato, revi
revivem
vemos os
a experiên
experiênci ciaa do peixe
peixe a cada vez que escutamos
escutamos música.
música. Se, em
 ve
 vez de desenhar o universo que nos rodeia a partir da porção de
reali
realidade
dade a que a visãvisão nos dá ace acesso, deduzíssem
deduzíssemos a estrutura strutura
do mundo
mundo comcom base em nossa experiênci
experiência a musical,
musical, deveríamos
deveríamos
descre
descrevê-
vê-lo
lo como
como algo que se compõe compõe náo náo de obj objetos,
etos, mas de
fluxos que nos penetram eque penetram penetramo os, ondas de intensidade
intensidade
 va
 variável e em perpétuo movimento.
Imagine
magine ser fe
feito
ito da mesmasubstância que o mundo que o ro
deia. Ser da mesma
mesma naturez
natureza a que a músic
música, a, uma série
série de vibra
vibraçõções
es
do ar, como
como uma
uma água-gua-viva
iva que náo pas passasa de um espessespessa amento
da água.
gua. Vo
Você teria
teria assim umauma imagem muito muito precisa do que que é a
imersão. Se escutar música
música num espaçespaço o exclusi
exclusiv vamente
amente def definid
inidoo
para essa
ssa ativ
atividade (co(como
mo uma discot
discoteca
eca) nos dá tanto prazer, prazer,
é porque
porque isso nos permite
permite capt
captarar a estrutura mais prof profunda do do
mundo,
mundo, aquel
aquela que os olhos,
olhos, por
por veze
vezes,s, nos impedem
impedem de de perce
rce
ber.
ber. A vida
vida enquant
enquanto o imersão
imersão é a vida
vida emem que nossosnossos olhos
olhos sãosão
ouvi
ouvidos.
dos. Sent
Sentiir é sempre tocar
tocar a umum só
só tem
tempo po em si mesmo e no
universo que nosnos rodeia.
Um mundo onde ação ção e contemplaçã
contemplação o já
já não se disti
distinguem
nguem
é també
também m um mundo onde matéria matéria e sensibi
sensibili lidade
dade - oIhooIho e luz
—se amalgamam
gamam perfeit
perfeitam
amente.
ente. Corpo
Corpos s eórgãos
órgãos de sensibil
sensibilid idade
ade
 já
 já não podem ser separados. Já náo sentiríamos com uma única
parte
parte do nosso corpo
corpo,, mas com a totali
totalidade
dade do nosso ser. Sería ría
mos um imenso órg órgãoão de sentidos
ntidos que seconf confunde
unde com o objeto objeto
percebido
percebido.. Um ouviouvidodo que é o som que escuta, escuta, um oIho oIho que se
banha constantem
constantemente ente na luz que lhe dá vida vida..
Se a vida está indisso
ndissoluv
luvelmente
elmente liga
ligada
da aos meios flui fluidos
dos é
porque
porque a relaçã
relaçãoo entre vivent
vivente e e mundo nuncanunca podepode se ser reduzi
reduzida da
nem
nem à oposi
oposiçã
ção
o (ou
(ou objetiv
objetivaação) nem à incorpoincorpora raçã
ção o (que ex ex
perimentamos na alimentaçã
alimentação o). A relaçã
relação o mais origin
originária
ária entre
 vi
 vivente e mundo é a da projeção recíproca: um um movimento gra-

EMANUELE COCCIA  37
ças ao qual o viv
vivente delega ao mundo o que que ele deveria
deveria rea
realiza
izar
com seseu própri
próprio o corpo e,e, ao contrá
contrário
rio,, em que o mundo conf confiaia
ao vi
vivente a realização
zação de um mov movimento que deveria ser exterio xteriorr
Aquillo a que se chama técnic
a ele. Aqui nica é um movimento
movimento desse sse tipo.
tipo.
Graças
ças a elã o espír
espírit
ito
o viv
vivee fora
fora do corpo do viv vivente
ente e se faz alma
do mundo;
mundo; invinver
ersa
same
mente,
nte, um movimento
movimento natural
natural encontra
encontra sua sua
orig
origem e sua forma últi última
ma numa ideiaideia do
do viv
vive
ente. Essa
Essa proje
projeção
ção
recípro
recíproca
ca ocorre também
também porque
porque o viv vivente se identi
identiffica com o
mundo no qua quall está imerso.
imerso. Todo lar é fruto desse desse movime
movimento nto..
Proj
Projetamo-
etamo-nonoss no espaço
espaço mais
mais pró
próximo
ximo de nós
nós e fazemos
zemos dessa
porçã
porção de espa
espaço
ço algo de ínti
ntimo,
mo, uma porçã
porçãoo de mundo que tem
uma relação particul
articular
ar com
com nosso
nosso corpo
corpo,, uma espécie deextensão
mundana e materi
material
al do nosso
nosso corpo. A rel relação
ção com nosso
nosso lar
é justame
ustamentntee a de uma imersã
imersão o: não
não estamos diant
diante e del
dele como
como
diante
diante de um objeto,
objeto, viv
vive
emos nele
nele co
como um peixpeixee no mar,
mar, como
como
as moléculas
moléculas orgânicas
rgânicas origin
originárias
árias em sua sopa primo primordi
rdial.
al. Na
 ve
 verdade, nunca deixamos de ser peixes. Tiktaalik lik roseae é apenas
uma das forma
formas s que dese
desenv
nvol
olv
vemos para transf
transfoormar
rmar o universo
universo
num mar onde nos imergir.
n

 Ao
 Ao ar livre:
ontologia da atmosfera

 A vida nunca abandonou o espaço flu fluido. Qua


Quando, num tem
po ime
imemori
morial,
al, elã deixo
deixou u o mar,
mar, encontrou
ncontrou e crio
criou
u ao
ao redor dela
dela
um fluido
luido de cara
característi
cterística
cas
s —consistência,
consistência, composi
composiçã
ção,
o, natureza
natureza
—dife
diferentes
rentes.. Co
Com a coloniz
coloniza ação
ção do mundo terrestre,1
terrestre,1ffora do
meio
meio marin
marinhoho,, o mundo seco se se transfo
transformou num ime imenso
nso cor
cor
po fluido
fluido que permit
permitee à grande
rande maioria
maioria dos vive
viventes vive
viver numa
relaç
relaçãão de troca
troca recíproca
recíproca entre sujeito
sujeito e meio
meio.. Não som
somos habi
habi
tantes
tantes da terra; habitamo
habitamos s a atmosf
tmosfera
era.. A terra fifirme é apenas
penas o
li
limite
mite ext
extre
remo
mo dess
desse
e fluido cósmico
cósmico no se seio do qual tudo
tudo comu
comu
nica,
nica, tudo se toca
toca e tudo se estende
estende.. Sua conqui
conquistasta foi
foi,, antes e
acima de tudo,
tudo, a fabricaçã
abricação desse
desse fluido.2
uido.2
Centenas
Centenas de milhõ
milhões
es de anos atrás,
atrás, num lapso
lapso de tempo
tempo com
preendido entre o fim do cambriano e o início do ordoviciano,
grupos de organi
organismos
smos saíram do mar e deixaram
deixaram na terra os pri ri
meiros vestígios
vestígios de vida ani
animal
mal de que temostemos testemu
testemunho
nho:: tra-
ta-
ta-se, com toda probabil
probabilididade
ade,, de artrópodes homopo
homopodes des,3,3isto
isto
é, sere
seres equip
equipados
ados de patas
patas e de um apêndice
apêndice caudal po pontudo
ntudo

EMANU ELE COCCIA 


COCCIA  39
—o télso
télson.
n. Sua presença na terra é ain
ainda ef efêmera e experiment
experimental:
al:
apare
aparecem
cem no meio aéreo
éreo para
para buscar comid
comida a ou se reproduz
reproduziir.4
O mundo que se abre diante
diante deles
deles foi
foi modelado por por outros
outros seres
 vi
 vivos. O universo que habitamos é fruto de uma catástrofe de po
luiçã
luiçãoo conhecida como
como grande oxida
oxidaçã
ção,
o, holoca
holocausto
usto do oxigê
oxigênio
nio
ou catástrof
catástrofe e do ox
oxigêni
gênioo.5Causa
.5 Causas ge
geológ
lógicas e bioló
biológ
gicas pare
pare
cem
cem ter sese associa
ssociado e alt
altera
erado
do defi
definiti
nitivvament
amente e a face do plane
planeta.
ta.
O dese
desenvo
nvolvlvimento
imento dos primeiros
primeiros organismos capa
capazes
zes de fotos-
síntese —as cianobac
cianobactérias
térias —e o fluxo de hidrog
hidrogênio proveniente
proveniente
da super
superffície
ície da Terra provo
provocara
caram
m a acumulação
cumulação de oxigê
oxigênio
nio,,
num primeiro momento imediatame
imediatament ntee oxidado
oxidado pelo
peloss elemen
elemen
tos presentes
presentes nas
nas águas marinhas
marinhas ou na
na superfí
superfície
cie terrestre (o fe
fer
ro, por
por exem
exemploplo,, ou as
as rochas
rochas calcárias
calcárias).
). Com
Com o dese
desenvo
nvolv
lvime
imento
nto
e a difusã
difusão
o das plantas
plantas vasculares,
vasculares, a atmosf
tmosfe era se estabi
estabillizo
izou: a
quantidade
quantidade de oxig xigênio livre
livre ultrapassou
ultrapassou o li limiar
miar de oxidaçã
oxidação oe
se acumulo
acumulou em fo forma livre.
livre. Por
Por sua vez,
vez, a presença
presença maciça de
oxig
xigênio acarretou
rretou a extinção
extinção de um grande
grande número de organiorganiss
mos anaeróbi
anaeróbicos
cos que pov
povoavam a terra e o mar, em prove proveito de
formas
ormas de vida aeróbic
eróbicas.6
as.6
 A instalação sedentária e defin finitiva dos seseres vivos na
na terra
firme coin
coinci
cidi
diuu com
com a transforma
transformaçã ção
o radical
radical do espaço aé aéreo
reo que
rodeia
rodeia eenvol
nvolve
ve a crosta terrestre
terrestre:: aquilo
aquilo a que, a partir
partir do século
século
XVII, chama
chamamos atmosf
atmosfe eramudou de composiçã
composição o interna.7G
interna.7Gra ra
ças às
às planta
plantas,
s, a Terra setorna
torna def
definiti
nitiv
vamente
amente o espa
espaço
ço metafísi
metafísi
co do sopro. Os primeiros a cocoloniz
loniza
ar e a tornar a terra
terra habitável
foram
ram os organi
organismos
smos capa
capazes
zes de fotossíntese
tossíntese: os primeiro
primeiross seres
 vi
 vivos integralmente terrestres são os maiores transfor
formadores da
atmosfera
tmosfera. Inve
nversame
rsamente,
nte, a fotossíntese
tossíntese é um grande labora
laborató
tório
rio
atmosf
tmosféérico
rico no qual a energia solar
solar é transformada em matéria
transformada
viva. De ce
certo ponto
ponto de vista
vista,, as plantas nunca a
abandon
bandona
aram
ram o
mar: trouxera
trouxeram-no
m-no para onde eleele náo
náo existia.
existia. Tra
Transf
nsfoormara
rmarammo
unive
universo numnum ime
imenso mar
mar atmosf
atmosfé érico e transmi
transmiti
tiram
ram a todos
os se
seres se
seus hábi
hábito
tos
s marin
marinho
hos.
s. A fotossíntese
tossíntese náo
náo é outra
outra coisa
coisa
senã
senãoo o proce
processo
sso cósm
cósmico
ico de fluidif
luidificaçã
icação do universo,
universo, um dos
dos
movimentos através dos quais o fluido do mundo se constitui:
o que fa faz o mundo
mundo respirar
respirar e o mant
mantém ém num estado de tensão
dinâmica.
 As
 As plantas nos fazem compreender assim que a imersão nã não
é uma simpl
simples
es determinação
determinação espacial:
espacial: estar imerso nã não se reduz
reduz
a se encont
encontrar
rar dentro de alguma co coisa que nos rodeia
rodeia e que nosnos
penetra.
penetra. A imersã
imersão, como vimos,
vimos, é em primeiro lugar uma ação
de compene
compenetraçã
tração recíproca
recíproca entre sujeito
sujeito e ambiente,
mbiente, corpo e
espaço, vi
vida e meio
meio;; uma impossib
impossibiilida
lidade
de de os disti
distinguir
nguir físi
física
ca e
espacialmente:
espacialmente: para que haja haja imersão
imersão, sujeito
sujeito e ambiente
ambiente devem
se inte
nterpenetrar ativamente-,  caso
rar ati caso co
contrário,
ntrário, falaríamo
laríamos simples
mente
mente de justapo
ustaposição
sição ou
ou de conti
contiguidade entre dois corpos que
se tocam
tocam em suas ex extremidades.
tremidades. O sujeit
sujeitoo e o ambient
ambiente e agem um
sobre o outro
outro e sedefin
definem
em a parti
partir dessa
dessaação recí
recíproca
proca.. Observ
bserva
da ex part
partee subje ti, essa
ubjecti, essa simul
simultanei
taneidade
dade sese traduz pela
pela identi
dentidade
formal entre
entre passiv
passividade
idade e ativi
atividade: penetrar o meio
meio ambi
ambiente
ente é
ser penetrado
penetrado por
por ele. Portanto
Portanto,, em todo espaço
espaço de imersão
imersão, fa
 fazer 
esofrer, agir e padecer se conf
confundem
undem segundo a forma. Fazemos
Fazemos a
experiênci
experiênciaa disso,
disso, por
por exempl
exemplo o, a cadavez que nadamo
damos.
Mas
Mas o estado
estado de imersã
imersãoo é sobretudo o lugar
lugar metaf
metafísísic
icoo de
uma identi
identidade
dade mamais radical,
radical, a identi
identidade
dade entre
entre o ser/
ser/ estar e o
fazer. Nã
Não se pode
pode estar  num espa
espaço flui
fluido
do sem modificar
modificar ipso
 facto a reali
 fa realidade
dade e a forma do ambiente
ambiente que nos rodei
rodeiaa. A vivida
das
das plantas
plantas const
constiitui a evidência
evidência mais marcante disso,
disso, dadas
dadas as

EMANUELE COCCIA  41
consequências cosmogônic ônicas que
 que elas
elas tiv
tiveram sobre nosso mundo.mundo.
 A ex
existência das plantas é por si mesma uma modific ficação global
do meio cósmico,
cósmico, isto é, do mundo que elas penetram penetram epelopelo qual
qual
são
são penetradas.
penetradas. E simplesme
simplesment ntee por existire
stirem que asas plantas
plantas mo
dific
dificam
am glglobalmente
balmente o mundo
mundo, sem sem seque
sequerr se
se me
mexerem,
xerem, sem
sem nem
mesmo
mesmo co começare
meçarem m a agir.
agir. Ser signi
signiffica para elas fa zer mundo, e,
 fazer
inver
inversasame
mente,
nte, construi
construirr (noss
(nosso) o) mundo, fazer mundo não não pass
passaa
de um
um sinô
sinônimo
nimo do ser.
ser. As
As plantas
plantas nãonão são
são os únicos
únicos sere
seress vivo
vivoss a
experimentar
experimentar essacoi coincidênci
ncidência: a: outro
outross organismos
organismos a mani maniffestam
estam
de maneira ai ainda
nda mai
mais ev
evidente.
idente. É preciso,
preciso, pois,
pois, genera
generallizar
izar essa
ssa
constatação e concluir que a existência de de todo ser vivivo é necessa-
riamententeumato cosmogônic ônico, e que um mundo é sempre sempre simul
simultta
neame
neamente nte uma condiçã
condiçãoo de possibi
possibillidade e um produto
produto da vida vida
que ele aloj
aloja. To
Todo organismo
rganismo é a invenção
invenção de uma maneira de de
produzir o mundo {awayofi ayofivo vorl
rldm
dmakakiing, para retoma
retomar, r, desvia
desvian-
do-
do-a, a expressã
xpressão de Nelson
Nelson Go Goodman)
dman),, e o mundo é semp sempre re
espa
spaço de vidavida,, mundo-da-
mundo-da-vi vida
da..
Dessa perspecti
perspectivva, podem
podemos os avali
avaliarar os limit
limites
es das
das noções
noções de
meio ou de ambiente que continuam a representar a relação entre
ser
ser vivo
vivo e mundo
mundo exclusi
exclusivvamente
amente sob o aspec aspectoto da contiguidade
e da ju
 justaposição e a pensá-los como ontológica e formalmente
autôno
autônomos em relação relação ao
ao org
organismo
anismo viv vivoo que os habita.
habita. Se todo
todo
 vi
 vivente é um ser/ estar no mundo, todo ambiente é um ser/ estar-
nos-se
nos-sereress vivo
vivos.
s. Mundo
Mundo e ser ser vivo
vivo não
não passa
passam de um halo, halo, um
eco da relação que que os une.
Nunca poder
poderem
emos
os estar materi
materialment
almente e sepa
separa
rados
dos da matéri
matéria
a
do mundo
mundo:: todo
todo ser vivo
vivo se constró
constróii a parti
partir dessa
dessa mesma
mesma ma
téria
téria que desenha as
as mont
montanhas
anhas e as nuvens. A imersão
mersão é uma
coincidência material, que come
começa
ça deba
debaiixo da nossa pele. É por
por
isso que os orga
organismo
nismos s náo preci
precisam
sam sair de si mesmos parapara rede
senhar o rosto
rosto do mundo;
mundo; náo náo precisa
precisam agir,
agir, nem se voltar para
seu
seu “ambient
“ambiente”,
e”, nem
nem percebê-
percebê-llo: é pelo simples
simples ato de estar
estar que
que
modelam já o cosmos. Estar-star-no
no--mundo signif
significa neces
necessa
sariam
riamente
ente
 fa
 fazer
zer mundo: toda ativid
ividaade dos seres
res vivo
vivoss é um ato
ato de design n
design naa
carne
carne viva
viva do mundo.
mundo. E, invers
inversa
amente,
mente, papara construi
construirr o mundo,
mundo,
náo
náo há
há nenhuma necessidade
necessidade de fafabrica
bricarr um objeto
objeto dif
diferente de
si (derra
(derrama
mando
ndo matéria
matéria fora
fora de sua pele) nem de percebe
perceber,r, de re
conhece
conhecer, de visa
isar direta
direta e consci
conscientemente
entemente uma uma porção
porção do mun
mun
do e querer  mudá
 mudá--lo.
lo. A imersã
imersão é uma
uma re
relação mais prof
profunda que
a ação
ção e a consci
consciênci
ênciaa —que apráxis
práxis e o pensame
pensament
nto
o. Um design
design
silencioso, mudo, ontológico. E
ontológico. E essa
essa “plasmabi
“plasmabillidade”,
dade”, que náo
náo é
outra coisa
coisa senã
senão
o a ausência
usência de resist
resistência
ência à vida, essa
essa fa
 facil
ilid
ida
ade
da matéri
matéria
a cósmica
cósmica de se metamorf
metamorfoosear em sujeito
sujeito vivo
vivo,, de devir
devir
corpo atual
atual de al
alguns orga
organismo
nismos
s (sem sequer
sequer precisar
precisar chegar
chegar ao
ato de englo
englobam
bamento
ento repre
represe
sentad
ntadoo pela nutriçã
nutrição). Nisso
Nisso as plan
plan
tas
tas nos dão a ver a forma mais radical do estar- estar-no
no--mundo. Ade
rem a ele intei
inteira
ramente,
mente, sem
sem passividade
ssividade.. Ao contrário
contrário,, exerce
xercem
m
sobre o mundo,
mundo, que nós todotodos vivem
vivemosos por
por nosso
nosso simples ato de
ser/ estar, a inf
influênci
luência
a ma
mais intensa
intensa e mais
mais rica
rica de consequê
consequênci
ncia
as,
e isso numa escala glo
global,
bal, e náo
náo lo
local
cal: mudam o mundo,
mundo, não
não ape
ape
nas
nas seu
seu meio
meio ou seu nicho ecoló
cológico. Pensar as plantas significa
significa
pensar um estar-no-mundo que é imediat diatame
amente
nte cosmogônic
ônico. A
o. A
fotossíntese
otossíntese - um dos principais fe fenômenos cosmogônicos,
cosmogônicos, que
seconf
confunde
unde com
com o própri
próprio
o ser
ser das plantas
plantas —não é nem da ordem
da contemplação
contemplação nemnem da ordem da ação (como (como po poderia ser
ser a
construçã
construção de um dique
dique por um ca castor).
stor). Assim,
Assim, asas plantas
plantas im
im
põem à bio
biolog
logia, à ecolo
cologia, mas também
também à fil iloso
osoffia, repen
repensa
sarr do
do
zero as
as relações
relações entre mundo
mundo e ser vivo.
vivo.

EMANUELE COCCIA  43
De fato,
to, náo
náo é possíve
possível interpr
interpretar
etar a rel
relação
ção das plantas com
o mundo utilizando o modelo, profundamente idealista, con-
cebido
cebido pelo
pelo naturali
naturalista sta alemão Ja Jakob
kob von
von UeUexküll.
küll. Seguindo o
ensinam
ensinamentoento de Kant, e afirmando que a todo todo animal
animal deve ser
reco
reconhecido o estatuto
estatuto de sujeit
sujeito
o sober
soberananoo sobre
sobre seus
seus órgãos,8
rgãos,8
Uexkül
Uexkülll conce
concebe be o mundo
mundo como “uma espé espécie
cie de bolh
bolha a de sabã
sabão o
[cheia]
[cheia] de toda
todas s as cara
característi
cterísticas acessíveis
cessíveis ao sujeit
sujeito
o”:9
”:9 “P
“Pude-
ude-
mos const
constata
atarr co
com KanKantt que não há um espaço spaço absolut
absoluto o sobre o
qual nosso sujeit
sujeitoo nánáo possa
possa exercer
xercer uma influnfluência,
ência, pois
pois a maté-
maté-
ria
ria específ
specífica
ica do espa
espaço,
ço, isto
isto é, signo
signoss de lugar
ugar esignos de direção
direção,
assim como sua forma, orma, é um produto subjetivo.
subjetivo. Sem as qualida-
qualida-
des espaciais
espaciais e sua
sua síntese em em foforma uni
univ versal produz
produzid idaa através
través
da apercepção, não não haveria
haveria espaço,
espaço, mas apenas
apenas um amont monto oado
de qualidades
qualidades sensori
sensoriais ais como cores,
cores, sons, cheiros,
cheiros, etc., que te-
riam
riam sua
suas fo
formas específ
específicas
icas e suas leis,
leis, mas aos quais faltaria
altaria um
lugar
ugar de encont
encontro ro.”.”1
10Isso
sso porque
porque “todo
“todo sujeito
sujeito tece
tece, como
como teiasteias
de aranh
aranha,
a, suas relações
relações com certas característ
característiicas das
das coisa
coisas se
as entrelaça
entrelaça para fa fazer uma rede que sustentasustenta sua exi existênci
stência”.
a”.111
O meio é, pois, “um “um produto psíquico (psychoidal hoidalees Erzrze nis) e
eugnis)
não
não pode
pode ser deduzi
deduzido do a partir
partir de fatores físicos ou fisioló
isiológ gicos.
icos.
Todo meio é sustentado
sustentado por por um quadro espac espacial
ial e temporal que
consi
consiste
ste numa
numa série
série de caracteres percepti
perceptivo voss e de si
signos
nos de or-
dem”.
dem”.12Esse
2Essemodelo é insufi insuficiente
ciente por aoao menos
enos duas ra razõe
zões. Em
primeiro
primeiro luga
lugar, concebe a re relação
lação com o mundomundo sob a forma da
cognição
cognição e da açã açãoo: o acesso ao mundomundo só se dariadaria por
por esse
sses dois
dois
canais,
canais, como seo “re “resto da vida” de um indi indivvíduo estives
stivesse
se fecha-
cha-
do em
em si mesmo,
mesmo, e não não, também ele, jog jogado no mundo,
mundo, exposto
exposto
a ele, obriga
brigado a se aliment
alimentar ar del
dele, a se const
construi
ruirr a parti
partir de se seus
eleme
elementos.
ntos. Além
Além disso,
disso, mas se trata de uma consequência
consequência dessa dessa
limit
limitaçã
ação princi
principal,
pal, o modelo de Uexküll
Uexküll prevê
prevê que o acesso
sso ao
ao
mundo seja de de naturez
naturezaa orgânica,
orgânica, iisto
sto é, que ocorra
ocorra num órgão
órgão e
através dele (po
(pouco impo
importa
rta que se trate de um órgã órgão cogniti
cognitiv
vo
ou práti
prático
co)). As pl
plantas náo apenas
apenas não agemagem enão percebem —ao
menos
nos não de manei
maneira orgânica,, iisto
raorgânica sto é, aparti
partir de partes
partes do corpo
especificamente consagrada
radass a ess
essee fim
fim - como também não não se
expõem
expõem ao mundo
mundo no seio
seio de um órgão específ
específico
ico.. E com a tota
tota
lidade
lidade do seu corpo e do seu ser,
ser, sem
sem disti
distinção
nção de forma nem de de
função
unção, que as plantas
plantas se abrem para
para o mundo e se se fundem nele.
Tampo
ampouco
uco é possível
possível concebe
conceberr a relação
relação das
das plantas
plantas com o
mundo pela teoria
teoria da construção
construção dos nichos.
nichos. Essa teoria,
teoria, cuja
cuja
formulaç
ormulaçãão mais detalh
detalhada
ada devem
devemos a John Odling-
dling-SSmee,
mee, Kevin
N. Laland e Ma
Marcus W.
W. Feldman,1
Feldman,13a3affirma que
que em
em vez
vez de se
se limi
mi
tarem a sofre
sofrerr a pressão ambi
ambiental,
ental, os orga
organismo
nismos
s são capazes de
modif
modificar seu
seu próprio
próprio nicho de existência
existência ou o dos outros atra
através
de seu
seu meta
metabobolilismo
smo e de sua ativ
atividade.1
dade.14A ideia
deia de uma ação
ção do
ser vivo
vivo sobre o meio
meio ambiente remonta
remonta ao último
último liv
livro
ro publi
publi
cado
cado em vida por por Charles Darwin,
Darwin,1 15no qual, à contra
contracorrente
corrente
de suas tese
teses
s sobre
sobre a seleção natural
natural,, demonst
demonstrara que “as minho
minho
cas desempenhara
desempenharam um papel papel na histó
história
ria do mundo muito
muito mais
importante
importante dodo que a mai
maioria
ria das pessoa
ssoas
s pode imaginar.
inar. [...
[...]] A
cada ano,
no, tonel
tonelada
adas
s de terra
terra seca passam
passam através de seus corpos
corpos e
são trazidas
trazidas dede novo
novo à superfíc
superfíciie”:
e”:1
16sua ação é, portanto
portanto,, decisiva
decisiva
para a desagreg
gregação das rochas,
rochas, a erosão do sol
solo, a co
conservaçã
nservação
das
das ant
antiigas
gas ruí
ruínas1
nas17 e a preparação
preparação do solo
solo com
com vistas
vistas ao cres
cimento
cimento das plant
plantas.1
as.18“P
“Praticamente
raticamente desprov
desprovid
ida
as de órgãos dos
sentidos”
sentidos” e,e, portanto
portanto,, incapa
incapazes dede aprender
prender do mundo exteri
exterior,
elas
elas demonstr
demonstra am uma grande
grande períci
perícia
a na construçã
construção o de galerias
lerias e,
sobretudo
sobretudo,, “dã
“dãoo prova
provas claras de certo
certo grau de intel
inteliigência,
gência, em

EMANUEIE COCCIA  45
 ve
 vez de
de simples impulso in instintivo, na
na maneira como ta tampam a
entrada
entrada de suas galerias”.
alerias”.119As modif dificações
icações que “essa
“essas criaturas
criaturas
tão pouco
pouco orga
organiz
nizadas”
adas” produze
produzem nos estraestrato
tos
s superio
superiore
res
s do glo
glo
bo náo
náo se limit
limitam
am a inf
influir navida
ida dos outros seseres vivos
vivos (anima
(animaisis
e plantas),
plantas), mas também no estado estado de se seu própri
próprioo habitat,
habitat, que é
modif
modificado de manei
maneira ra vantajo
vantajosasa para as gerações
rações futura
futuras.
s. A teo
ria
ria da construçã
construção dos nicho
nichoss retoma
retoma as constata
constatações
ções darwiniana
darwinianas s
para subl
sublinhar
nhar como
como os seres vivovivos,
s, mesmo os mais
mais elementares,
não
não são simpl
simplesme
esmente
nte víti
vítimas
mas da seseleção natural,
natural, e como a adap
tação
tação ao meio não é seu seu único
único desti
destino:2
no:20também são capazes de
modif
modificar o espa
espaço que os rodeia
rodeia e de transmiti
transmitirr o novo
novo mundo
às gera
erações que
que os sucede
sucedem. m. Nesse
Nessesentido
sentido, produz
produzinindo
do modif
modifica
ica
ções permanentes
permanentes e transmis
transmissísív
veis de geração
eração em geração,
geração, os seres
 vivos produzem cultura,21que, portanto
 vi portanto,, não
não é uma prerrogati
prerrogativa va
humana
humana esim, sim, antes,
ntes, uma espécie de herança não não anatô
anatômica
mica mamas
ecoló
ecológica,22uma hera herança
nça exossomátic
xossomática.2 a.23No
3No entanto
entanto, embo
embora ra te
te
nha permitid
permitido o superar os dualismos
dualismos própri
própriosos à teoria
teoria clássica
clássica da
evolução,
evolução, a teoria
teoria da construçã
construção dos
dos nichos
nichos não
não permit
permite e pensa
pensarr a
inti
intimid
midade
ade próprópria à imersã
imersão. Pois
Pois o conceito de nicho é oper opera a
dor
dor de umadupl duplaa sepa
separaç
ração.
ão. Elabora
laborado
do para expressa
expressarr a realidade
realidade
do princíp
princípioio de exclusã
xclusão compe
competi titi
tiva
va (ou
(ou princípio
princípio de Ga Gause),2),24
isto
isto é, a tendência
tendência de duas populações
populações que divid dividem
em o mesmo smo
espa
espaço
ço a elimi
eliminar
nar a outra
outra para gozaozar plename
plenament nte
e dos recurs
recursos
os
presentes
presentes,, o conceit
conceitoo parece considera
considerarr a relaçã
relaçãoo entre mundo e
ser
ser vivo
vivo em termos
termos exclusivos:
exclusivos: o mundo é, ao menos tendencial-
tendencial-
mente,
mente, o espa
espaço ço de uma única
única espé
espécie,
cie, o habi
habitat
tat de uma fo formade
 vi
 vida específic
fica (como era o caso também para Uexküll). Aco Acontece
que estar
star no mundo significa
significa se
se encontra
encontrarr na impossibi
impossibili lidade
dade dede
não
não div
dividir
dir o espaço ambiente
ambiente com outras fforma ormas de vida, de não não

46  A VIDA DAS p l a n t a s : u m a m e t a f í s i c a d a m is
is t u r a
estar
star exposto à vida vida dos
dos outros. Como
Como já já vimos,
vimos, o mundo é por
def
definiçã
iniçãoo a vida
vida dos outros:
outros: o conjun
conjunto to dos outros
outros se seres vivos.
vivos. O
mistério
mistério que deve deve ser expli
explicado é assim o da incl inclusão
usão de todos
num mesmmesmo o mundo,
mundo, e náo náo a exclusáo
xclusáo dos outros
outros se seres vivos
vivos -
que é sempre
sempre instá
instável, ilusó
lusóriria
a e efêmera
efêmera.. AlAlém disso,
disso, através
través dodo
conceito de nicho,
nicho, limita-
imita-sese a esfera
sfera de infl
influênci
uência a e de existênc
xistênciaia
mundana ao espa espaço lilimítro
mítroffe ou ao ao conj
conjunt
untoo dos
dos fafatore
tores ou dos
recursos imediatamenteem relaçã relação com
com o sujeito
sujeito viv
vivo.
o. Reco
Reconhe
cer
cer que o mundo é um um espa
espaçoço de imersã
imersão significa,
significa, ao contrário
contrário,,
reconhecer que não não existem
existem fro frontei
nteiraras
s estáve
estáveiis ou reais:
reais: o mundo
é o espaço que que nunca
nunca se deix
deixa reduzi
reduzir a uma casa, ao pró própri
prio
o, ao
lar,
lar, ao
ao imediato
imediato.. Esta
Estar-r-no
no--mundo
mundo significa
significa,, pois,
pois, exer
exercecerr inf
influên
cias sobretudo fora do lar, fora de seu seu próprio
próprio habitat,
habitat, fora de seu
próprio
próprio nicho
nicho.. Sempre
empre se habita
habita a totali
totalidade
dade dodo mundo,
mundo, que é e
sempre
sempre seráserá infestada
infestada pelos
pelos outro
outros.s.
Finalrnente,
Finalrnente, a inflinfluência
uência25de todo
todo serser vivo
vivo sobre seu meio meio não
pode
pode serser medida
medida simpl
simplesme
esment nte
e pelos ef efeitos
eitos que sua existênci
existência a
produz
produz no exterior
exterior de si: a própri
própria a existência
xistência —na medi medida da em
em
que nãonão é outra
utra cocoisa senã
senão o uma modelag
modelagem em inéd
inédiita da ma matéria
téria
anôni
nônima ma do mundo
mundo —é a inf influência maior ior do serser vivo sobre
sobre o
mei
meio. Se o meio não come começa ça além da pele pele do ser vivo
vivo,, é porque
porque
o mundo
mundo já já está
está dentro del dele. Nesse
Nesse senti
sentido
do,, a ação
ção do ser vivovivo
sobre o mundo não não pode
pode ser
ser consid
consideraerada como
como uma fo forma de
engenharia
engenharia de de ecossistema.2
ecossistema.26
“Os
“Os vegetais”
vegetais”,, escre
escreveu
veu Cha
Charles Bonnet,
Bonnet, “estã
“estão
o plantado
plantadoss no
ar mai
mais ou
ou menos
nos como
como estão
estão plantado
plantadoss na
na terra”:27a atmosfera
tmosfera,
mais do que o sol
solo,
o, é seu primeiro
primeiro meio
meio,, seu mundo.
mundo. A fotos-
síntes
síntese
e é então a expressã
expressão mais radical
radical de seu
seu estar-no
estar-no--mundo.
mundo.
 An
 Antes de ser reconhecida como o mecanismo pr principal da
da pro-
duçã
dução de energ
energia
ia vital,
vital, a fotossíntes
otossíntese
e foi compree
compreendindida
da como um
dispositivo natural de air-conditioning. “P “Posso
osso me gabar”
gabar”,, escre
escre
 ve
 veu Joseph Priestley em 1772, “de ter inventado acidentalmente
um méto
métododo para
para a restaura
restauração do ar polpoluído
uído pela
pela co
combustão de
uma vela, e de ter descoberto
descoberto que ao menos nos um dos disposit
dispositiv
ivo
os
reconsti
reconstitui
tuint
ntes
es empreg
empregadosdos pela
pela natureza com es esse
se fim é a vege
vege-
taçao
taçao .
Teólo
eólogo unitari
unitarist
sta,
a, célebre por
por suas pesquisas
pesquisas sobre a eletri
eletri
cida
cidade, Priestley
Priestley colocou
colocou um pé de menta dentro dentro de uma
uma redo
redo
ma de vidro
vidro contendo
contendo ar oriundo
oriundo da co combustão
mbustão de uma uma vela.
vela.
E observ
observou que, vinte
nte e sete
sete dias
dias depois,
depois, outra vela já era
era cacapaz
paz
de queimar
queimar perfeit
perfeitam
amente
ente al
ali dentr
dentroo.29Segundo Priestl
Priestley,
ey, iss
issoo se
expl
explica pelo fato de que as plantas
plantas sese embebem
embebem dos gases
ses produz
produzi i
dos pela respiraçã
respiraçãoo e pela putrefaç
putrefação
ão animal
animal (a matéria
matéria flog
logísti
ística,
ca,
na linguage
linguagemm da
da época).
época). Ela
Elas os absorv
bsorvem
em e os inco
incorpo
rporam
ram a sua
própria
própria substância.3
substância.30 Essa descober
descoberta
ta o levou
levou à fo formulaçã
rmulação o do
princí
princípi
pio
o de complementaridade
complementaridade entre mundo
mundo veg vegetal
etal e mundo
mundo
animal:
animal: “Em
“Em vez de af
afetar
etar o ar da mesma
mesma maneira
maneira que a respira
respira
ção animal,
animal, as plantas
plantas invertem
invertem os efeitos do sopro
sopro e tendem
tendem a
manter sua
suave e salubre a atmosf
tmosfera
era, que, do contrário
contrário,, tenderia
tenderia
a se tornar
tornar tóx
tóxica por
por causa da vida, da respiraç
respiração
ão ou
ou da morte
morte e
da putref
putrefação
ção dos animais que vivem
vivem nela.”31O estar-
estar-no
no--mundo
das
das plantas
plantas reside em
em sua capacidade
capacidade de (re)c
(re)cri
riar
ar a atmosf
tmosfera
era.. De
um certo
certo ponto
ponto de vista,
vista, o próprio
próprio ser vivo
vivo - quai
quaisquer que sejam
sejam
a ordem e o reino
reino a que pertence —é consi considera
derado
do em função do
tipo de atmosfe
tmosfera que
que produz,
produz, como
como se estar
estar--no-
no-mundo sig
signifi
nifi
casse
sse sobre
sobretudo
tudo “fa
“fazer atmosfera
atmosfera”, e nãonão o contrário
contrário..
 Alg
 Alguns anos de depois, um
um médico ho holandês, JanJan Ing
Ingenhousz,
prolo
prolonga
ngando a intui
ntuição
ção de Priestl
Priestley
ey,, descobri
descobriu u que a capac
capacidade
idade
das
das plantas
plantas de “purif
“purificar
icar o arar ruim
ruim e melhomelhorar
rar o ar bom”3
bom”32 era
devida
devida exclusiv
exclusivamente
amente às folha olhas.
s. “U“Umm dos grandes
randes laboratório
laboratórios
da natureza
natureza para limpar e purifi purificar o ar ar da nossa atmosfer
atmosfera”, a”, es
creve, “está situado
situado na substância das das fol
folha
hass e é acionado
cionado pela
inf
influência
luência do do soi;
soi; o ar ass
assim
im purificado,
purificado, mas, nes nesse estado,
stado, nocivo
para a planta,
planta, é lançado
lançado em grandegrande parte pelo pelos
s canais
canais excretórios,
excretórios,
situa
situadodos s princi
principalment
palmente, e, ao menos na maiori maioria a das
das plantas,
plantas, na
face infinferio
eriorr da folha”.3
lha”.33
Ingenhousz
nhousz desco
descobribriuu verdadeirame
verdadeirament ntee a fotossí
otossíntes
ntese e (e náo
unicamente
unicamente seus efeito efeitos)s) quando compreendeu
compreendeu que esse sse trabalho
trabalho
de purificaçã
purificação o e de air-conditioning estava estava inti
ntimament
mamente e lig
ligado
à presença
presença da luz sola solar. “As plantas
plantas produzem
produzem ar ar deflo
deflogisti
gisticacado
do
somente sob a luz do di dia ou aoao crepúsculo,
crepúsculo, e come começamçam suasua ope
raçã
ração o após terem si sido prepa
preparada
radas s de certa maneira
maneira pela
pela infl
influên
cia
cia dess
dessa a mesma
mesma luz”.uz”. 34Mergul
Mergulhando
hando as plantas num recip recipiente
iente
cheio
cheio de água, Ingenhousz nhousz constata
constata que o ar ar “prepa
“prepara rado
do nas fo fo
lhas pela infl nfluência
uência da luz do soi log logo aparece sobre
sobre a superf
superfíciície
e
das
das folfolhas
has,, em forma
rmas difdiferentes,
erentes, mais geralmente
geralmente sob a forma de
bolha
bolhas s redondas que,que, aumentando
aumentando de dimensão gradualment gradualmente, e, e
sesepara
separando das fol folha
has,
s, sobem
sobem e seposiciposicioonam no fundo
fundo oposto
do recipi
recipiente;
ente; são seguidas
uidas por
por novas bol bolhas, até que as folha olhass
que nãonão pudera
puderam m obter
obter novo
novo ar atmosf
atmosfér érico
ico ficam ext
extenua
enuadas”.
das”.335
O fato de se encontrar
encontrar debaixo d água náo náo tem nada de anti ntina-
tural:
tural: “P “Pooder-se-
der-se-ia
ia objetar
objetar que as folha olhas
s da
das plantas nunca
nunca estão
num estadoestado natural quando se encontra encontram m env
envoolvid
lvidaas pela água
corrente,
corrente, e que, que, dessa
dessa maneira, poderia
poderia hav haver elemento
elementos s de incer
incer
teza quanto
quanto a se a mesma mesma opera
operação das fol folhas
has oco
ocorreria em em sua
situaçã
situação o natural.
natural. Mas não posso consi considerar
derar que as plantas
plantas postas
debaixo ixo d’ág
d’água
ua estejam
estejam numa situa situaçãoção cont
contrária
rária a sua natureza
natureza a

EMANUELE COCCIA  49
ponto
ponto de perturbar sua sua opera
operação
ção habitual.
habitual. A água náo náo é nociva
nociva
para as plantas se o contato
contato náonáo durar muitomuito tempo. A água se
limita
mita a cocortar a comunicaçã
comunicação o com o ar ext exterio
erior”.
r”.336
 As
 As experiências e descobertas de Priestley e Ing Ingenhousz (s (se
guidas
guidas pelas
pelas de Jean Seneb
Senebiier37, Ni Nicol
colas Théo
Théodo dorere de Saussure38,
 Jul
 Julius Robert Mayer39e Robin Hil Hill40, para citar apenas os maio
res
res cienti
cientistas que estão
estão na
na origem
rigem da desco
descoberta
berta da verdadeira
erdadeira na
tureza do
do processo
processo de fotossí
otossíntese
ntese) foram important
importantes es náo
náo apena
apenas s
porque
porque permiti
permitiramram dar um eno enorme
rme pass
passoo à frente
rente nana compree
compreen n
são da fifisiolo
siologgia vegetal,
vegetal, mas porque
porque impuseram
mpuseram uma mudança mudança
radical
radical de nosso ol olhar sobre a atmosf tmosferera.
a. O ar que respiram
respiramosos
não é uma realirealidade
dade puramente
puramente geo geológica
lógica ou mineral
mineral —não —não está
está
simplesmente
simplesmente al ali, náo
náo é um ef efeito da Terra enquanto
enquanto tal - mas
sim o sopro de outros
outros seres vivos.
vivos. Ele
Ele é um subpro
subprodutoduto da “vida
“vida
dos outros”. No No sopro - o primeiro
primeiro,, o mais
mais bana
banall e inconscie
inconscientente
ato de vida para uma imensa imensa quanti
quantidade de organismo
organismos s —, de
pende
pendemos
mos da vida dos outros. Mas, Mas, sobretudo, a vida de outrem utrem
e suas manifnifestaçõ
estaçõeses são a pró
própria
pria realidade,
realidade, o corpo
corpo e a matéria
daquilo
daquilo a que chamachamamos mundo ou meio meio.. O sopro é, já, já, uma
prime
primeira
ira forma
forma de canibalismo
canibalismo:: alimelimentam
ntamo o-nos
nos diadiariamente
riamente
da excreçã
excreção o gaso
gasosa sa dos vegetai
vegetais,s, só podem
podemo os viv
viver da vida dos
outros.
outros. Inver
nversasame
mente,
nte, todo
todo ser vivo
vivo é em primeiro luga lugarr o que
torna
torna possível
possível a vidavida dos outros, produz vida vida transitiv
transitiva capaz paz de
circular
circular por toda
toda parte,
parte, de seser respirada
respirada por outrem
outrem.. O ser vivo vivo
não se cont
contenta
enta em dar dar vida
vida à porção restrita
restrita de matéri
matéria a a que
chamamo
chamamos s seu
seu corpo,
corpo, mas também,
também, e sobretudo
sobretudo,, ao espaço
espaço que
o rodeia.
rodeia. AíAí está a imersã
imersão o, o fa
fato de avida ser sempresempre ambiente
ambiente
de si mesma
mesma e, po por isso, de circul
circularar de corpo em corpo, de sujeito sujeito
em sujeito
sujeito,, de lugar em lugar.
lugar.
Por outro
outro lado,
do, a fotossíntese
fotossíntese demo
demonstra que,que, sea obser
observam
vamos
numa escal
scala global,
global, a relaç
relaçã
ão fundam
undamental
ental entre vida e mundo é
muito
muito mais complexa
complexa do que a que imaginimaginam amo os através
através do con
con
ceito de adaptaçã
daptaçãoo. “A adaptaçã
daptaçãoo é uma noção
noção duvido
duvidosasa,, pois
pois o
ambiente
ambiente ao qual os organi
organismos
smos se adapt
adaptam am é determinado
determinado pe
las ativ
tivida
idades de seus vizin
izinho
hoss mais do que exclusiv
clusivamente
amente pelas
forças
orças ceg
cegas da quími
químicaca e da física. [...
[...]] O ar que respi
respira
ramos,
mos, os
oceanos e as rochas sã são todos
todos produto
produtos s diretos
diretos de organismos
organismos
 vi
 vivos e for
foram massivamente modific ficados por sua presença”.41Em 1Em
 ve
 vez de
de se revelar cocomo o es espaço da
da competição e da exclusão
recí
recíproca
proca, o mundo
mundo se abre neles como o espaço espaço metafísi
metafísico
co da
forma mais
mais radical dada mistura,
mistura, a que permite
permite a coexi
coexistênci
stênciaa do
incompossív
incompossíve
el, um labora
laborató
tório
rio alquímico
lquímico em que tudo parec
parece
e
poder
poder mudar de natureza,
natureza, passa
passar do orgâ
orgânico
nico ao ino
inorgâ
rgânico
nico e
 vi
 vice-ve
-versa. A imersão torna possíveis a simbiose e a simbiogênese:
se os org
organismos
anismos chega
chegam a def
definir
nir sua ident
identiidade gra
graça
ças
s à vida
vida de
outros
outros sere
seres vivos,
vivos, é porque todo
todo ser vivo
vivo viv
vive já, desde
desde sem
sempre,
pre,
na vida dos outro
outros.42
 As
 As plantas são a sopa primordial da Te
Terrra que permite à ma
téria se tornar
tornar vida e à vida volt
volta
ar a se
se transf
transfo
ormar em “matéria
“matéria
brut
bruta”.
a”. Chama
Chamaremos
remos de atmosf
tmosfera
era essa mistu
mistura
ra radi
radical
cal que fa
faz
tudo coexi
coexisti
stirr num mesmo
mesmo luga
lugarr sem
sem sacrif
sacrificar
icar forma
formas
s nem subs
subs
tâncias.
Mais que uma parte do mundo,
mundo, a atmosf
tmosferaera é um lugar me
me
taf
tafísico em que tudo depende
depende de todo o resto,
resto, a quintessência
quintessência do
do
mundo compreendido
compreendido como espaespaço onde
onde a vida de cada
cada um está
está
misturada
misturada àvida dosdos outro
outros.
s. O espa
espaço
ço em que
que vivemos
vivemos náo é um
simples
simples cont
contiinente
nente ao qual deveríam
deveríamoos nos adaptar.
adaptar. Sua forma e
sua existênci
existência
a são inseparáveis
veis das
das forma
formass de vida
vida que el
ele alb
alberg
erga

EMANUELE COCOA  51
e torna
torna possíveis. O ar que resrespiram
piramos,
os, a natureza
natureza do solo,
solo, as li
li
nhas da superfí
superfície
cie terrestre, as fo
formas
rmas que se desenham no céu,4 céu,43
a cor de tudo que nos
nos rodeia
rodeia sáo os efefeitos ime
imedi
diaatos
tos da vida, no
mesmo
mesmo sentido
sentido e com
com a mesm
mesma a intens
intensiidade que são
são seus
seus princ
princíí
pios.
pios. O mundo náonáo é umaentidade
entidade autô
autôno
noma
ma e independente da
 vi
 vida, é a natureza flu
fluida de todo meio: clima, atmosfera.
Elã nos
nos rodeia
rodeia e nos penetra,
penetra, mas mal mal temos
temos consci
consciência
ência dela.
dela.
Náo é um espaço:
spaço: é um corpo suti sutill, transparente, quase imper
ceptív
ceptível para o tato
tato ou
ou para a vista.
vista. Mas
Mas é desse
desse fluido que tudo
envolve,
envolve, tudo
tudo penetra epor por tudo é penetrado, que temos temos as as cores
cores,,
as form
rmaas, os cheiro
cheiros,
s, os
os gostos
ostos dodo mundo.
mundo. Nesse Nesse mesmo
mesmo flui fluido,
do,
podem
podemos os encont
encontrar
rar as coisas
coisas e nos deixar
deixar tocar por tudo tudo o que
existe e náo
náo existe.
existe. É o flui
fluido
do que nos fa faz pensar
pensar,, é o flui
fluido
do que
nos fa
faz viver
viver e amar.
mar. A atmosfer
tmosfera a é nosso
nosso primeiro
primeiro mundo,
mundo, o
mei
meio no qual
qual estamos
stamos integra
integrallmente ime imersos:
rsos: a esfesfera do sopro.
sopro.
Elã é o médium absoluto
 absoluto,, aquil
aquilo em que que e através
través do que o mun mun
do se dá; aquil
aquilo em que e através do que nos da damos
mos ao mundo.
mundo.
Mais
Mais que o conti
continente
nente abso
absoluto
luto,, é o rem
remexer-
exer-sese de tudo, a maté
maté
ria, o espa
espaçoço e a força da infinfinit
nita e univ
universal
rsal compene
compenetraçãtração o das
das
coisa
coisas.
s. A atmosfe
atmosfera não
não é apenas
penas a parte do do mundo dist distiinta
nta e se
se
parada
parada das
das outras
outras,, mas o princ
princíípio
pio através
través do qual o mundomundo sefaz
habitável,
habitável, se abre a nosso sopro, torna- torna-sese ele própri
próprio o o sopro dasdas
coisa
coisas.
s. A gente estáestá sem
sempre
pre de maneira atmo atmosf sférica
érica no mundo,
mundo,
pois
pois o mundo existexiste como atmo tmosfe
sfera.
ra.
O termo
termo atmosfer
atmosfera a é moderno. E um neo neologlogismo
smo inventa
inventadodo
no século
século XVTI
XVTI para dar um aspe aspecto
cto clássico à expressã
expressão o ho
holan
desa dampcloot, elã própria tradução do latim vaporum vaporum sphae
sphaera,
ra,
expressã
expressãoo que designava em em Gali
Galilleu a regione vaporosa,
vaporosa, a região
 va
 vaporosa.44Ma4Mas antes de ser a região aérea imediatamente supe
rio
rior à crosta
crosta terre
terrestre,
stre, quente por
por causa
causa da reflexã
reflexão da luz solar
solar e
úmida
úmida por
por causa
causa dos
dos vapo
vapores
res que se exalam da terra, a atmosf
tmosfera
era
também foi foi por
por séc
século
uloss o espa
espaço
ço de circulaçã
circulaçãoo dos el
elemento
ementos se
das fo
forma
rmas, o espaço metafísi
tafísico
co de sua
sua conj
conjunção
unção,, a unidade
unidade de
toda
todass as coi
coisa
sas, aferida
aferida pela coi
coincidênci
ncidênciaa do sopro e não
não da subs
subs
tância
tância e da forma
forma..
Os estoicos
stoicos fo
foram os prime
primeiro
iros
s a pensar a unidade
unidade do mun
mun
do em termos
termos atmosfér
atmosférico
icos.
s. Interrogando
nterrogando--se sobre as difer
diferentes
entes
formas que a unidade
unidade pode
pode revestir
revestir e sob
sobre
re a forma de unidade
unidade
própri
própria
a ao mundo
mundo em suasua totalidade,
totalidade, o estoicismo
estoicismo desen
desenvo
volv
lve
eu
seu
seu conceito
conceito de mistura tota
total. Pode-se
Pode-se imagin
imaginar
ar,, de fato,
to, três
formas de união
união produzi
produzidas
das pela interação
nteração de difer
diferentes
entes subs
subs
tâncias ou objetos:
objetos: a simples
simples justaposição {parathesis),
{parathesis), em que
as dif
diferentes
erentes coi
coisas
sas compõ
compõem em uma únicaúnica massa mas conservam
os limit
limites
es de seu
seus corpos sem parti partilhar nada,
nada, como é o ca caso de
um mont
monte e de grãos; a fusão (sugchysis)
(sugchysis), em que a qualidade
qualidade de
cada uma das das componentes
componentes é destruída
destruída para produz
produzir ir um novo
novo
objeto
bjeto,, que tem uma natureza e uma qualidade qualidade difdiferentes
erentes dadas
dos elelementos
ementos origin
originário
ários,
s, como acontece
acontece com
com os perfperfume
umes; e,e,
finalrnente,
inalrnente, a mistura total (krásis,
krásis, di'holôn antiparektasis),
antiparektasis), em
que corpos ocupam
ocupam o luga lugarr um do outro
outro,, mas preservam sua sua
qualidade
qualidade e sua indi
indiv
viduali
idualidade.4
dade.45Ora, ra, aquilo a que chama
chamamos
mundo não não pode
pode ser pensa
pensado
do como
como simples amo amonto
ntoado
ado de ob
 je
 jetos sem outra relação além de um contato de de superfícfície, ne
nem
como a fusfusã
ão integra
integrall dos corpos que dá lugar a um hipero hiperobj bjeto
eto446
disti
distinto
nto por essê
essência
ncia e qualidade
qualidade dos
dos componentes
componentes originár
originárioios.
s.
“Algum
“A lguma as misturas”, escre
screve Alexandre de Afrodísias
rodísias,, resumindo
resumindo
a doutri
doutrinana de Crísip
Crísipoo, “se produzem por justaposiç
justaposiçã ão, quando
duas
duas substâncias ou ou mesmo
mesmo mais são adicio adicionadas entre si e justa-

EMANUELE COCCIA  53
postas umas
umas às outras, como ele diz,
diz, ‘por
‘por ajunt
ajuntamento
amento’, cada uma
del
delas conse
conservan
rvando
do em seu conto
contorno,
rno, quando
quando dess
dessa
a justaposição,
a substância e a qualidade
qualidade que lhe são
são própri
própria
as, como no caso
caso de
favas
vas ou grãos de trigo,
trigo, quando justapost
justaposto os uns aos outros;
outros; outra
outras
s
misturas
misturas se produz
produzemem por
por fusã
fusão
o, quando
quando de parte em em part
parte
e as
própri
próprias
as substânci
substâncias
as,, assim como
como asas quali
qualidades
dades que estão
estão nelas,
são recipro
reciprocamente
camente cocodestruídas, como
como acon
acontece
tece,, diz ele,
ele, no caso
caso
das
das droga
drogass medicinais
medicinais por
por codestruição
codestruição dos
dos ingr
ingrediente
edientes s mistura
mistura
dos, outro corpo
corpo sendo
sendo engendrado
engendrado a parti
partir deles; há ai
ainda
nda outras
mistura
misturas,
s, diz ele, que se se produz
produzemem quando de parteparte em parte
certas
certas substânci
substâncias,
as, assim como
como suas qual
qualidades, se coestendem
coestendem
umas às outr
outras,
as, mas preservam
preservam nessa mist
mistura
ura as substânci
substânciasas e as
qualidades
qualidades do iní
iníci
cio
o, e é esta,
esta, entre
entre as mis
misturas,
turas, que ele diz
diz ser a
mescla
mescla propri
propriam
amente
ente didita.”47
Pensar
Pensar a atmosf
tmosfera
era como espaço
spaço da mistura
mistura signif
significa
ica ir além
da ideia
ideia de composição
composição e de fusã usão. Há entre os elemento
elementos s do
mesmo
smo mundo uma cumpli cumplicidade
cidade e uma inti ntimidade
midade muito
muito mais
prof
profundas
undas do que as pro produzidas
duzidas pela cont
contiguid
iguida ade físi
física
ca;; além
disso,
disso, essa ligação
gação não se identi
dentiffica a um amálamálgama
gama nem a uma
redução
redução da variedade das das substâncias,
substâncias, dasdas cores,
cores, das fo formas ou
das espé
espécies
cies numa unidade
unidade mono
monolílíti
tica.
ca. Se as coi
coisa
sas fo
formam um
mundo,
mundo, é porque
porque elas
elas se mist
misturam
uram sem perder
perder sua identi
identidade.
dade.
 A ununidade da mistura, po por sua vez, na nada tem de mecânica:
“Uma
Uma substância
substância é unif
unificada porque
porque é inteiramente
nteiramente atravessada
vessada
por cecerto sopro por meio
meio do qual
qual o todo
todo é manti
mantidodo junt
junto o, per
per
manece
nece junto
unto e pode estar
estar em simpatia
simpatia consigo
consigo mesmo”
mesmo”.. Mistu-
Mistu-
rar-
rar-se
se sem
sem se fundi
undir signific
significaa parti
partilhar o mes
mesm mo sopro.
sopro. E preciso
preciso
prestar atenção à uniunidade de um corpo vivo vivo:: os órgãos náonáo estão
simplesm
simplesmenteente justaposto
justapostos, nem materialmente
materialmente liquefliquefeito
eitoss uns
uns
nos outros. Se consti
constituem
tuem um corpo orpo é porque
porque partil
partilham o mesmmesmo o
sopro. O mesmoesmo acontece
acontece com o cosmos:
cosmos: estar no mundo
mundo si signi-
gni-
fica sempre
sempre parti
partilhar náo
náo uma identi
identidade,
dade, mas um mesmo mesmo sopro
(pneuma). “Há “Há um sopro que move a si mesmo mesmo rumo a si mesm mesmo o
e por
por si
si mesmo”
mesmo”:4 :48essa é a dinâmi
dinâmica ca do
do mundo,
mundo, seu seu ritmo
ritmo ima-
nente. O sopro é aarte da mi mistura, o que permit
permite e a todo
todo objeto
objeto se
mistu
misturarrar ao resto das
das coisas, se imergir nele. A atmosfera, a esfera esfera
do sopro, seuseu horiz
horizonte
onte extremo,
extremo, é essassa forma de inti
intimi
midade
dade e de
unidade que se define náo pela homogeneidade da substância ou
da forma,
rma, mas pela partil
partilha do mesmesmo
mo sopro,
sopro, de um ar  de  de fa
família
mília
a propó
propósit
sito
o de uma coleçã
coleção o de elelemento
ementoss que náo é a simples simples
combinaçã
combinação o de objetos
objetos dispa
dispararatados.
tados. A atmosfera
tmosfera,, o cli
clima,
ma, é essa
ssa
unidade que náo precisa de redução à unidade de qualidades e
formas.
O que confere unidade confere também forma, visibilidade,
consi
consistênci
stência.
a. É esse
esse mesmo
mesmo ar de famíli amília que nos permite
permite reco-
reco-
nhecer a realreal ident
identiidade de uma coleçã coleção, e é a atmosf
tmosfera
era que
torna
torna para
para nós um lugalugarr visív
visíveel em sua totali
totalidade,
dade, papara além
além dos
objetos
objetos que o ocupam. O sopro não é apenas penas ar
ar em
em momovimento
imento: é
clarão,
clarão, desvelame
desvelamento nto,, mei
meio de revelaçã
revelação.o. Se o mundo é unificado
unificado
por
por um sopro comumcomum e univ universal
ersal é porque
porque o sopro é a essência
essência
origin
riginária
ária do que os os greg
regos denomin
denominavamavam logos, linguagem ou
razão. É, portanto, o logos que produz a mistura mistura universa
universal,l, ele é o
que permite
permite a tudo se mistu
misturarrar na extensão
extensão com todatoda outra
utra coisa
coisa
sem
sem perder
perder sua própri
própria a identi
identidade.
dade. Se o sopro dá uma unidade unidade
ao mundo é porqueporque eleele consti
constitui
tui também
também a raiz raiz últi
última
ma de sua
 vi
 visibilidade e de sua racionalidade: o sopro é o verdadeiro logosdo
mundo,
mundo, sua linguagem,
nguagem, sua fala, o órgão órgão de sua revelaçã
revelação.

EMANUELE COCCIA 
O mundo é a matéria, a forma, o espa
espaço
ço e a real
realidade do so
pro. As
As plantas sã
são o sopro detodos osseres vivos,
vivos, o mundo
mundo enq
nqua
uan-
n-
to sopro. Inve
nversamente,
mente, todo
todo sopro é a evidência
evidência dodo fato de que
estar-no
star-no--mundo é uma experiência de imersão. Respirar significa
significa
estar mergulh
mergulhado
ado num meio que nos penetra do mesmo mesmo modo e
com a mesma
mesma intensi
ntensidade
dade co
com que o penetramo
penetramos. Todo ser é um
ser mundano se está imergido no que se se imerge
merge nele. A planta
planta é
assim
ssim o paradigma
paradigma da ime
imersão
rsão.
8

0 sopro do mundo

Ele
Ele está no fundo de toda todass as
as nossas
nossas exp
experiênci
eriências.
as. Náo é uma
substância:
substância: nánáo encerra em si a naturez
natureza a das
das coisa
coisas.
s. Também
Também náo
é um eco
eco tardio que se seacrescenta uma vez consumada
consumada aexperiên
experiên
cia. É um
um movimento
movimento ritma ritmado
do,, regular
regular e incansá
incansável,
vel, uma onda
sem
sem ruído que vai vai até o extremo
extremo do horiz
horizo onte e volt
voltaa a nós para
para
se quebrar sobre
sobre nossos corpos e ex explo
plodir
dir em nossos pulmões.
pulmões.
Sem ele,
ele, nada seria
seria possível em nossa vida. da. Tudo o que nos
acontece
contece deve
deve se mist
misturar
urar aele, ter lugar em seu seu recinto
recinto. O sopro
é a primeira
primeira ativi
atividade de todo ser vivovivo superio
superior,r, a única
única que pode
pretender
pretender sese conf
confundi
undirr com o se ser. É o único
único trabalh
trabalho o que náo
náo
nos ca
cansa,
nsa, o único
único movimento
movimento que náo náo tem outro fim se senão
não ele
mesmo.
smo. Nossa
Nossavida co começa
meça com um (pri (primeiro
meiro)) sopro e termina
termina
com um (úl(últi
timo
mo)) sopro. Viveriver é: respi
respira
rarr e abarca
abarcarr em
em seu
seu pró
prio sopro toda a matéria do mundo.
Ele
Ele náo
náo é apenas
penas o moviment
movimento o mai
mais elementar de todo todo corpo
humano,
humano, é também o primeiro primeiro e o maimais simples
simples dos
dos ato
atoss do ser
ser
 vi
 vivo. Se
Seu paradigma, su sua forma transcendental. O so sopro é sim
plesmente o primeiro nome do estar-no-mundo. A intelecção é

EMANUELE COCOA  57
sopro: a ideia,
ideia, o conceito
conceito,, e aquilo
aquilo que desdedesde a escol
escolá ástica
sticachama
chama
mos de forma
forma intenci
ntencio onal náo
náo sáo
sáo maimais que parceparcelas de mundo
no espíri
spírito
to,, até que o verbo, o desenho
desenho ou a açã açãoo restituam
restituam ess essa
as
intensid
intensida ades ao ao cosm
cosmos.os. A visã
visãoo é respira
respiraçã ção
o: acolh
colherer aluz, as co
res
res do mund
mundo o, ter a forçade se se de dei
deixar trespassar
trespassar por
por suabeleza,
de escol
scolher uma porçã porção o, e uma porçãporção o unicamente,
unicamente, para criar
uma form
forma a, para inici
niciar
ar uma vida a partir do que arra arrancam
ncamo os ao
ao
continuum do mundo.
Tudo no ser ser vivo
vivo não
não passa
passa de articulaçã
rticulação o do sopro: da per per
cepçã
cepção o à digestão,
digestão, do pensa
pensamemento
nto ao gozo,ozo, da fa fala à locomoção.
locomoção.
Tudo é repetição,
repetição, intensif
intensificaçã
icação o, variação
variação do que tem luga lugarr no
no
sopro. É por por isso que os sabe sabere
ress mai
mais diversos,
diversos, da medi medici cina
na à
teolog
teologia, da cosmolog
cosmologia à filosof
ilosofiaia,, fizeram
izeram deledele o nome próprio
próprio
da vida, em sua suas mais
mais dif
diferentes
erentes forma
formas, s, nas
nas mai
mais dive
diversas
rsas lín
língua
guass
ritus, pneuma, Geist). Para reco
(spiritus reconhecer
nhecer seu seu estatuto
estatuto,, fez-se
z-se del
dele
uma substância
substância separa
separadada das
das outras,
outras, pelapela forma,
rma, pela
pela matéri
matéria ae
pelo
pelo ser
ser —o espírito
espírito. Mas
Mas o primeiro
primeiro e ma mais parado
paradoxalxal atributo
atributo do
sopro é sua insub
insubstanc
stanciialidade:
alidade: ele não não é um obj objeto separa
separado do dos
outros,
outros, mas a vibração
bração pela
pela qual
qual toda
todass asas coisa
coisass se abrem
abrem à vida
e se misturam
misturam com com o resto
resto dos objeto
objetos, s, a oscilaç
scilação
ão que, porpor um
instante,
instante, anima
anima a matéria do mundo. mundo.
Ele é uma vibraçã
vibração o que toca
toca simul
simultaneame
taneament ntee o ser
ser vivo
vivo e
o mundo que o cerca cerca.. No sopro, pelo pelo tempo
tempo de um instante,
instante, o
animal
animal e o cosmos se reúnem e sel selam uma uni unidade difere
diferente
nte da
que o ser
ser ou a fo forma marcam
marcam.. E, no entant entanto o, com
com e nesse
nesse mes
mes
mo movimento
movimento que viv vivente e mundo consag consagra ram
m sua sepasepararaçã
ção.
o.
 Aqu
 Aquilo a que chamamos vida é precisamente esse gesto at através
do qual uma porçã porção o da matéri
matéria a se dist
distiingue do mundomundo com a
mesma
mesma força que util utiliza para seconf
confundiundirr com ele.ele. Soprar éfazer
mundo,
mundo, se fundiundir nele, e desenhar
desenhar de novo novo nossa
nossa forma num
exercício
exercício perpétuo. Respira
Respirarr é conhece
conhecer o mundo,
mundo, penetrá-
penetrá-lo e se
fazer penetrar por
por ele
ele e por
por seu
seu espíri
espírito
to.. Atravessá
travessá--lo e se tornar
tornar
por
por um instant
instante,
e, com
com essesse mesmo elã, o luga lugarr onde
onde o mundo
se faz experiência indi
indivvidua
idual.
l. Essa
Essa operação nunca é def definiti
initiva:
va:
o mundo,
mundo, assim co como o ser ser vivo
vivo,, não é mamais que o retoretorno
rno do
sopro e de sua possibi
possibillidade.
idade. Espírito.
Espírito.
O sopro
sopro não se limita
mita à ativ
tividade do serser vivo
vivo:: def
define também
também,,
e sobretudo
sobretudo,, a coconsistênci
nsistência a do mundo.
mundo. O espa espaço
ço que ele traça
coin
coincide
cide com
com os limites
mites do mundo de que po podemos
demos ter ter a expe
riência.
riência. Chegamosmos até
até onde
onde cheg
chegaa nosso sopro. Invers
nversa amente,
mente,
um mundo sem sem sopro
sopro não
não passa
passaria
ria de um amon
amonto toaado confuso
confuso
de objeto
bjetoss em decompo
decomposi sição.
ção. Se é graças a ele que estamos
estamos no
mundo,
mundo, é nele
nele que o conhe
conhecemos
cemos e manejamos.
manejamos. E é ao sopro que
devem
devemosos perg
pergunt
untar
ar pela natureza
natureza do mundo:
mundo: é nele que o mundo
se revela, é nele que o mundomundo existe
existe para nós.
Das forma
formas infinfini
initas
tas do sopro, os seres inumeráveis
inumeráveis que po po
 vo
 voam o cosmos, as co coisas mamais díspares, mais incomparáveis,
os instant
instantes
es e os espaços
spaços maismais dis
distant
tantes,
es, as reali
realidades
dades ma
mais in
in
compa
compatí tív
veis ex
extraem
traem sua unidade.
unidade. Ela
Elass se
se fundem num mundomundo..
Enquanto
nquanto unidade
unidade supe superio
riorr de tudo o que é difer
diferente,
ente, unidade
unidade
suprema e insuperá
insuperáv vel do que é e do que que náo
náo é, ele só
só existe
existe no e
enquanto sopro.
O espa
espaço
ço metaf
metafísico
ísico do sopro
sopro é anterior
anterior a toda
toda contradição:
contradição: a
respiraçã
respiração preced
precede e qualq
qualqueruer distin
distinção
ção entre
entre al
alma e cocorpo, entre
espírit
espírito
o e objeto,
bjeto, entre ideali
idealidade
dade e reali
realida
dade.
de. Não basta
basta procla
procla
mar a facticidade
acticidade do sentido
sentido e seuseu primado
primado sobre a existência.
existência.
Sentido
entido e existênci
existência a viv
vivem semsempre como e no sopro:
sopro: não
não passa
passam
de vibra
vibraçõ
çõees espe
específ
cíficas
icas do sopro.
sopro. O mundo é sopro e tudo o

EMANUELE COCCIA  59
que existe
xiste nele
nele exi
existe
ste co
como tal. A existência
istência do
do mundo náonáo é um
um
fato de ordem lóg
lógica:
ica: é uma
uma questão
questão pneuma
pneumato toló
lógica.
gica. Só o sopro
pode toca
tocarr eexperimentar o mundo,
mundo, dardar existência
existência a ele. O mun
do só pode
pode ser respi
respirado.
rado.
Os Antig
ntigos náonáo foforam osos único
únicos s a ter feito do soprosopro a uni
uni
dade transcendental
transcendental do mundo e a prova prova de que ele é, enquanto
enquanto
tal, uma realida
lidade
de viva.
viva. Num
Num fra fraggmento inédito
inédito,, Isaac NewNewtonton
escrevia:
escrevia: “Ess
“Essa a Terra se se parece
parece co com um grande
grande animal
animal,, ou antes
antes
uma planta
planta inani
nanimada que toma toma seu sopro etér etéreo
eo como
como renov
renova a
ção
ção e fe
fermento
rmento vital,tal, e que expira
expira com grandes ex exalações.”
lações.”11
Mas será
será preciso
preciso esperar
esperar o debate, mais recente,recente, em torno
torno da
hipó
hipótese
tese de Gaia
Gaia para reconreconhece
hecerr à atmosf
tmosferaera a unidade
unidade viva
viva do
do
mundo,
mundo, a prova
prova de que o planeplaneta ta é determinado pela pela vida
vida.. Uma
de sua
suas primeiras fo formulações,
rmulações, a do artigoartigo que Lovelo
Lovelockck e Mar-
gulis
gulis publi
publicaram
caram em em 1974 na revi revista
sta Icarus, afirma
afirma que a própria
própria
exist
existênci
ênciaa da atmo
atmosf sfera
era é a evidênci
evidência a de uma “home “homeostase em
escala planetária”,2
planetária”,2pelo pelo fato de que “a vida vida determino
determinou u o fluxo
fluxo
de energia
energia e de massa sobre a superfíci
superfície e planetári
planetária”. a”.3A
3A atmosfer
tmosfera a
é o sopro vivital que anianima
ma a Terra em sua sua totali
totalidade
dade..
 A ideia é muito antiga. Lamarck foi foi provavelmente o pr pri
meiro a defin
definiir o espa
espaço atmo
atmosfé sférico e climá
climáti tico
co como o lugarlugar
dinâmic
dinâmico o de intercon
interconexão
exão entre matéria e vida, vida, entre mundo e
subjetiv
subjetividade. O tratado
tratado consagrado rado à ciência
ciência de desse
sse espaço lilimi
mi
nar, que ele chama de hidrogeologia, se abre com esta pergunta: pergunta:
“Qual
“Qual é a inflinfluência
uência dos dos corpos vivovivos s sobre as matérias
matérias que se
encontram
encontram na superf superfíci
ície
e do gloglobo
bo terre
terrestre e que compõcompõem em a
crosta
crosta de que ele está está revestido
revestido,, e quais são os resultados
resultados gerais
gerais
dessa
dessa inf
influência?
uência?”4 ”4A A possib
possibililid
idade
ade de pensar
pensar a camada
camada de maté
ria
ria mais superfici
superficialal da
da crosta
crosta terre
terrestre
stre e o conj
conjunt
unto o das
das matérias
matérias
gasosas e líqui
líquidas
das que pairam
pairam sobre o pl planeta como um ime imenso
fluido
luido de circulação do ser ser é motiv
motivadaada pela descob
descoberta
erta de que
“as
“a s matérias
térias minerais
minerais compostas
compostas de todo todoss os gêneros
êneros e de todostodos
os tipo
tipos que compõem
compõem a crostacrosta externa do glo globobo terrestre,
terrestre, que
 ve
 vemos nela como amontoados isolados, filões, camadas paralelas,
etc., e que aí fo formam planíci
planícies,
es, costas, vales e mo montanhas, são são
exclusiv
exclusivamente
amente o produto
produto dos ani anima
maiis e dos vegetais
etais que viv vive
ram
ram sobre essa ssas partes
partes da superf
superfíci
ície
e do globo
globo” ”.5Essa
.5 Essa unidade
unidade é
engendrada,
engendrada, segundo Lamarck, rck, pelo estado de agregação, e as
formas de toda toda a matéria superf
superfici
icial
al têm
têm por causa
causa direta
direta ou inin
diret
direta a de sua existexistênci
ênciaa as fafaculdade
culdades s orgâ
orgânicas
nicas dos seres res vivo
vivos. s.
Como
Como já já tinha
tinha escrito
escrito em sua suas Me
 Memórias, “todos
“todos os compostos
compostos
que observam
observamos sobre nosso globo lobo são devidos,
devidos, direta
direta ou indiindi
retamente,
retamente, às fac faculdades
uldades orgâni
orgânicas
cas dos se
seres dotados
dotados de vi vida. De
fato,
to, esse
sses seres
res fo
formam todos
todos os materiais
materiais do glglobo,
bo, tendo a fa
culdade
culdade de compo comporr eles
eles mesm
mesmos sua própriprópriaa substância,
substância, e para a
compor,
compor, uma parte deles deles (os veg
vegetais)
etais) têm a faculdade
culdade de forma
formar
combina
combinações ções primeiras
primeiras que assimil
ssimilam a sua substância.
substância.”6 ”6NNão se
trata simplesmente
simplesmente da inf influência sobre
sobre a co
composição
mposição química.
química. A
presença dos sere seres vivo
vivoss não se limitmita a determi
determinar nar a agregação
da mamatéria,
téria, mas
mas defin
definee também seu estatuto
estatuto.. O mundo só existe xiste
ali onde há ser vivo. vivo. E a presença
presença da vida transfo
transforma a própria
própria
natureza do espa espaço.
ço.
Trata-
rata-se de um movimento
movimento que opera de maneira maneira oposta
oposta ao
descrit
descrito o por
por Lam
Lama arck em suasua Fi
 Filosofia zoológica-, náo
 náo cabe mais ao
 vi
 vivente se adaptar às circunstâncias ambientais, as circumfusa d circumfusa da a
medici
medicina neohip
neohipo ocrática, e sim ao ambientembiente em sua total totaliidade
torna
tornar- r-se
se eco,
eco, halo,
halo, auréo
auréola da massa dos vivos.vivos. Sua atmosfera
tmosfera.

EMANUELE COCCIA  61
O invers
inverso o também éverdadeir
erdadeiro o: seestam
estamos os atmosf
atmosfericamente
ericamente
conectados ao que nos rodeia, rodeia, é porque
porque aatmosf tmosfe era é aquilo
aquilo que,
que,
const
constantemente,
antemente, engend
engendra ra o vivo
vivo.. É a essa ssa concl
conclusão
usão que cheg
chega a
uma dasdas pri
primeiras
meiras análises
análises das
das relações quími químicascas entre
entre os sere
seress
 vi
 vivos e o ambiente, o Ens  Ensaiodeestática química de Dumas umas e Bou-
ssinga
ssingaulultt publi
publicado em 1844. Os autore utoress partem
partem da consta
constataçã
tação o
de que as plantas
plantas funcio
funcionamnam “ponto
“ponto por ponto ponto de uma maneiramaneira
inve
inversa à dos ani animais”:
mais”: “S“Se o reino anima nimall consti
constitui
tui um imenso
imenso
apare
parelho
lho de combustão,
combustão, o reino veg vegetaetal,l, por sua vez,
vez, constit
constitui,
ui,
pois,
pois, um imenso
imenso aparelh
aparelho o de redução.
redução.”” Sua Sua perfeita
perfeita integ
integra
raçãçãoo
não
não é o simples
simples efeito
efeito supranumerário
supranumerário de uma harmo harmoni niaa prees
prees
tabelecida, nem o result resultado
ado do gov gove erno div divino
ino que se exprime
na eco
econo
nomia
mia natural,
natural, mas a consequênci
consequência a do fato de que a vida
das
das plantas
plantas e dos animais
animais depende intei inteirame
rament ntee da atmosf
atmosfe era:
ra:
“O que uns uns dão
dão ao ar, os outros
outros retoma
retomam m do ar, de sorte qu que,e,
considerando
considerando esse esses fatos do ponto
ponto de vista mais mais elevado
elevado dada física
ísica
do globo
globo,, seria
seria preciso diz
dizer que, no que tange a seus seus el
elemento
ementoss
 ve
 verdadeiramente orgânicos, as as plantas e os animais derivam do
ar, não são
são senão
senão ar condensado.
nsado. [...
[...]] As
As plantas
plantas e os animais vêm, vêm,
pois,
pois, do ar e a ele retornam;
retornam; sãosão verda
verdadeiras
deiras dependências
dependências da at
mosfe
mosfera.ra. As
As plantas
plantas reto
retomamam,
m, pois,
pois, incessantem
ncessantemente ente ao
ao ar o que
os ani
anima
maiis fo
fornecem
rnecem a ele.”8
ele.”8N Não habi
habitamos
tamos a terra,
terra, habita
habitamos o
ar através
através da atmosf
tmosfera
era.. Estamos
stamos imersos
imersos nele nele exatament
exatamente e como
o peixe
peixe está
está imerso
imerso no mar. E aqui aquillo a que chama chamamosmos respi
respiraç
raçã ão
não é senã
senão o a agri
agricu
culltura da atmo
atmosf sfera
era..
Tentar conj
conjug
ugaar os dois
dois movimentos
movimentos —o —o que vai dos dos seseres
res
 vi
 vivos ao ambiente e o que vai do ambiente aos seres vivos —sig
nif
nifica
ica pensar
pensar a atmosf
tmosfera
era como
como um sistem sistema a ou um espa
espaçoço de cir
cir
culação de vida, de matéria
matéria e de energenergia.ia. É a abordag
abordagem em radical

62  A VIDA DAS PLANT AS: UM A METAFÍS ICA DA MISTU RA 


do natura
naturalilista
sta ru
russo
sso Vl
V ladimi
adimirr VerVernads
nadski.ki. Ele
Ele reconhece
reconhece que “a
atmosf
tmosfe era náo
náo é uma reg região independente de vida”,9 da”,9 mas sim
uma expressã
expressão o da
da vida. De fato, to, as plantas
plantas verdes criara
criaram m um
novo médium dium transparent
 transparente e para
para a vida, a atmosf atmosferaera:1
:10 “A vida
vida
cria
cria o oxi
oxiggênio livre
livre sobre a crosta terre terrestre
stre,, mas tam
tambémbém o ozô-ozô-
nio que pro protege
tege a biosf
biosfer
eraa da radiaçã
radiação o nociv
nociva a de onda curta dos
corpos celestes
celestes””.11 Inve
nversame
rsamente,
nte, a vida se const constiitui a parti
partirr da
atmosfer
tmosfera: a: “A matéria viva constrói
constrói os corpos dos orga organismos
nismos a
partir dos ga gases
ses atmosféricos
atmosféricos com como o oxi oxiggênio, o dióxi
dióxido do de car-
car-
bono e a água,
água, junto
junto com compostos de nitro nitrog gênio e de enxofre
enxofre,,
conv
convertendo
ertendo esseesses gases
ses em
em líqui
líquido
doss e sóli
sólidos combustí
combustívveis que
reco
recolhem
lhem a energia
energia cósmica
cósmica do Soi”. Soi”.1 12Vernadski
2Vernadski chama de bios-
fera
era “a camada
camada ext exterio
eriorr da Terra”,
Terra”, consid
consideraerada
da não
não apenas
penas como
uma reg região materi
material,al, mas sobretudo como como “uma
“uma regregião de ener-
gia e uma fonte de transf transfoormaçã
rmação o do planeta
planeta.. As força
forçass cósmicas
cósmicas
modelam
modelam o rosto da da Terra e, como resultado,
resultado, a biosf
biosferera
a dife
difere
histo
historic
ricam
amente
ente das
das outras
outras partes
partes do pl planeta”.1
aneta”.13
 A fonte principal de dessa região é a que Ver Vernadski ch chama de
matéria
matéria vivaviva: o conj
conjunto
unto dos organ
organismos
ismos e dosdos corpos vivos,
vivos, res-
res-
ponsáveis
ponsáveis pelapela criaç
criaçãoão de novos
novos compost
compostos1 os14e capa
capazes
zes de “per-
turbar poderosa
poderosa e contin
continuauamente
mente a inércia quí quími
mica
ca na supe
superfrfíci
ície
e
do plplaneta”.
aneta”. É a matéria
matéria viva
viva que “cria “cria as cores e as formas
formas da
natureza, as associ
associaações dos
dos animais
animais e das das plantas,
plantas, como
como o traba-
traba-
lho criativo da humanidade civilizada, e nisso se torna uma parte
dos processosssos químico
químicoss da superf
superfície
ície terre
terrestre.
stre. Não
Não há equilí
equilíbrio
brio
substancial quími
químico co sobre a crosta em em que a infl nfluência
uência da vida vida
náo
náo sej
seja evidente
evidente e em em que a quími
química ca não
não mostre o traba trabalhlhoo da
 vi
 vida. A vida, ne nesse sentido, nã não é um fen fenômeno exterior ou aci-
dental da superf
superfíciície
e terres
terrestre.
tre. Está estreitamente liga ligadada à estru-
estru-

EMANUELE COCOA  63
tura
tura da crosta,
crosta, é uma parte de sseu eu meca
mecaninismo
smo e cumpre
cumpre funç funções
ões
de import
mportânciância
a primári
primáriaa para
para a exist
existência
ência desse
desse mecanismo.
nismo. Sem
a vida, o mecanis
mecanismomo da
da superf
superfície
ície terrestre
terrestre náo existi
existiri
ria”.
a”.115Nes
sa massa viva, as as plantas
plantas desempenham
desempenham um papel ffundament undamental: al:
“Toda
“T oda a matéria
matéria viva
viva pode ser
ser vista
vista como
como uma única ent entid
idaade no
mecanismo
mecanismo da biosfbiosfera
era, mas apenas
apenas uma parte da vida, a vegeta egeta
ção verde,
verde, os portadores de clorofclorofil
ila,
a, fa
faz uso
uso direto
direto da radiaçã
radiação
o
sola
solar [..
[...]
.].. O mundo vivovivo em sua totali
totalidade
dade está lilig
gado a essassa
parte
parte verde da vidaida por um laço
laço direto e indisso
indissolúv
lúvel.
el.””

 A atmosfe ferra náo é algo que se acrescentaria ao mundo: elã é o


mundo enquant
enquanto o reali
realidade
dade da mist
mistura
ura dentro da da qual tudo
tudo respi
respi
ra. Se as ciências
ciências naturais têm dif dificul
iculdade
dade em pensar
pensar a imersá
mersáo o ea
mistura
mistura como a verdadeira natureza
natureza do cosm cosmos,
os, as ciências huma
huma
nas,
nas, por
por suavez, se obstin
bstinam
am emem compreender
compreender aatmosf tmosfera
era,, assim
como o clima
clima,, de um ladolado como
como um fato purame puramente nte natural,
natural, e,
port
portant
anto,
o, excluído
uído do seu dom
domínio,
nio, de
 de outro,
utro, como
como uma realirealidade
dade
puramente humana
humana ou um fa fato exclusiv
exclusivamente
amente estético,
stético, que nánáo
tem, pois,
pois, nenhuma
nenhuma relaçã
relação com
com tudo o que provém provém do mundo
não
não-humano
humano.. Assim,
Assim, a parti
partirr do célebre
célebre escrito
scrito de Hipócra
Hipócrates,
tes,
 Are
 Ares, ág
águas, lugares,16se desenvo
desenvollveu uma vasta tradição que vai
de Aristótele
ristóteless a Mont
Montesquieu,
esquieu,1 17 de Vitrúvi
itrúvio
o a Herder,1
Herder,18 e que
aliment
alimentará
ará a geograf
rafia polí
políti
tica
ca de
de Ratz
Ratzelel ou
ou a geografia meta
metaffísica
ísica
de Watsuji
Watsuji Tetsurô.1
etsurô.19 Na extrema
extrema diverdiversidade
sidade dadas abordag
bordagens,
das doutri
doutrinas
nas e dos contextos
contextos histó
histórico
ricos,
s, essa
essa tradição seconcen
concen
tra
tra em duas
duas ideias.
ideias. Trata
Trata--se, em primeiro lugar, de reconhecereconhecer, r,
como
como escreverá
escreverá o abade Dubo Dubos, s, que “a máquina
máquina humana
humana náo é
meno
menos s dependente
dependente das quali qualidades
dades do ar de uma região região,, das
das va
riações que sobrevêm
sobrevêm nessa
nessass qualidades,
qualidades, numanuma palpalavra, de todas
as mudanças que po podem
dem atrapalhar
atrapalhar ou ou fafavorecer
orecer as assim
assim cha
cha

64  A VID A DAS PLA NTA S: UM A METAF ÍSICA DA MISTU RA 


madas operaçõ
operações es da natureza,
natureza, do que que o são os própri
próprio os fruto
frutos”
s”.2
.20
O clima
clima é aqui sinônisinônimo mo de não- não-hum
huma ano. A esferasfera humana
humana -
a cultura
cultura,, a histó
história,
ria, a vida do espírito —nã —não o é autô
autônonomama,, tem
tem
um fundam
fundamento ento no não-huma
não-humano no;; os eleme
elementontos s apare
aparentem
ntemente
ente
não
não espirituais
espirituais —o ar, ar, a água,
gua, a luz, os ventos
ventos —não—não engendra
engendram m
espíri
espíritoto,, mas podem inf influenciar
luenciar o home
homem, m, seus
seus compo
comportamrtamen
en
tos, sua
suas atitudes
atitudes e sua suas ideias.
ideias. Os climas
climas engendram
engendram e fundam a
plurali
pluralidade
dade dos homens e em
m seu
seu aspecto
specto fífísico,
sico, e ainda
ainda mais
mais em
seus
seus costumes.
costumes. Como Como escreve screve Edme Guyot, uyot, “a natureza
natureza da terra
terra,
a qualidade
qualidade de seus seus fruto
rutos s e a difere
diferença
nça dos climas
climas contri
contribuí
buíram
ram
para a variedade das core cores s e para a diversid
diversidadeade das fi figuras
uras e dos
temperam
temperamento entos s de todos
todos os homens”.
homens”.2 21O não-humano
não- humano é a causa causa
da multi
multipl pliicidade
cidade das formaformas de vida, não não apena
apenas s no espaço,
espaço, mas
também
também no tem tempopo e na história,
história,
Radicali
Radicaliz zando a abordag
bordagem herderiana, que faz da histó história,
como dirá dirá KaKant, uma espécie spécie de “climato
“climatolo logia
gia das
das fafaculdade
culdades s in
in
telectuais e sensívsensíve eis da humanidade”,
humanidade”, a socio sociologia de Simmel
fará do conceito
conceito de atmosf tmosfer a o médium
era dium absoluto
 absoluto da perce percepçã
pção o
soci
social:
al: a percepção
percepção da da “atmosfera
“atmosfera de alguém
alguém é a percepção
percepção mais
ínti
ntima de sua sua pessoa
pessoa””.22A ideia ideia da atmosf
atmosfe era como dinamdinamismo
ismo
originário
riginário de toda toda socializ
socializa ação
ção terá um gragrande
nde sucess
cesso.
o. Por exem
exem
plo
plo, Peter Sloterd
Sloterdjjik concebe a atmosf tmosfe era a um só só tempo como
como o
produto originário da co coexistência humana e como como o paradi
paradigm
gma a
de toda
toda vida
vida cultcultura
urall enqua
enquanto nto tal.
tal. “A clima
climatiztizaaçáo
çáo simbólica
simbólica do
espaço
spaço comum
comum é a produçã
produção o origin
riginária
ária de toda
toda socieda
sociedade.de. Os ho
mens”, escreve
escreve Sloterd
Sloterdjjik, “são“são as
as criaturas
criaturas vivas
vivas que se se atribu
atribuemem
por
por meta
meta [..[...]
.] estar
estar liga
ligadas
das aambiências
mbiências partil
partilhadas e a presspressupos
upos
tos comuns.”2
comuns.”23 Ess Esse meio
meio partilhado
partilhado é o que Sloterdji terdjik nome
nomeia ia
esfera, a figura
figura geo
geométrica da interio nteriori
ridade
dade absolut
bsoluta. a. “Esta
“Estarr nas

EMANUELE COCCIA  65
esferas consti
constitui
tui parao home
homem m asitua
situaçã
çãoo fundament
undamental al [atal
tal pon-
pon-
to que]
que] os home
homens ns nunca
nunca ainda
ainda vivera
iveram numa relaçãrelaçãoo imedi
imediataata
com
com o que chamamos natureza natureza e, sobretudo
sobretudo,, suas
suas culturas
culturas nunca
nunca
pisara
pisaram o chã
chão dos chamado
chamados s fa
fatos
tos brutos:
brutos: eles
eles levara
levaram sempre
sempre e
exclusiv
exclusivamente
mente sua existência
existência num espa espaço insuf
insuflado,
lado, partilhado,
partilhado,
aberto e restaurado.”
restaurado.”2 24 Os homens “só prospera
prosperam na estufa estufa de
sua atmosfe
tmosfera autóge
utógena”.
na”. Viv
Viver
er em socieda
sociedade significa
significa partici
partici--
par da const
construção
rução dessa
dessas atmosf
tmosfera
eras. Inversa
nversamente, a atmosf tmosferaera é
sempre
sempreum fa fato cultur
cultural.
al. E ma
mais: elã encarna
encarna aimpossib
impossibiilida idade de
um estado
stado de natureza:
natureza: climatiz
climatiza ação, para
para Sloterdi
Sloterdijjk, signif
significa
ica a
impossibil
impossibilidade
idade dede um mundo
mundo natural.
natural. As plantas
plantas demdemo onstram,
nstram,
pelo
pelo contrário,
contrário, que a climaclimatiz
tiza
ação
ção, o air-designing é o ato mais
simples
simples de existênci
existência a do ser vivo
vivo,, sua natureza mais element
elementar. ar.
O reducio
reducionismo
nismo cultura
culturall é próprio
próprio a uma longa
longa tradiçã
tradição o que
faz da atmosfe
tmosfera “o conceito
conceito fundamental de uma nova nova estética”.
 Atm
 Atmosfera seria “a realidade comum entre aquele que percebe e
o que eleele percebe,
percebe, a realidade
realidade dodo percebido enquanto
enquanto esf esfera de
suapresença ea realidade
realidade daquele
daquele que percebe na medida
medida em que
está presente
presente de uma certa manei maneira”.
ra”.2
25 Essa interpr
interpretaçã
etaçãoo, que
remo
remonta a Léon Daudet, faz da atmosfe tmosfera “o conhecimento
 conhecimento da
pele,
pele, tangencial
tangencial como o conhec
conhecimento
imento do espíri
espírito
to,, e que utili
utiliz
za
as célul
célula as do epitélio
epitélio da mesmesma
ma maneir
maneira a que o conhecimento
conhecimento
do espírito
espírito util
utiliza as raíze
ízes dos vocá
vocábulo
bulos”.
s”.2
26 Essa
Essa faculdade de de
conhecimento
conhecimento sintético
sintético “englo
“englobaba o espa
espaço e o tempo, emanaemana ao
mesmo
mesmo tem tempo
po do univ
universo e de nós; e estáestá em nós, consciênci
consciência as,
pess
pessoa
oass e povos,
povos, como
como uma
uma inclusã
inclusãoo do univ
universa
ersal, como o algoalgo
que reúne
reúne após ter espec
especifificado,
icado, que não
não é nem
nem quantitati
quantitativvo nem
qual
qualitativ
tativo e que partici
participa
pa dos dois de uma só vez, e que tem, tem,
na vida
vida,, uma vida ida própria,
própria, dissimulada
dissimulada,, entretanto
entretanto revelá
revelável,
vel,

66 DAS S: METAFÍSIC MISTU


análo
análogga à do rádio
rádio,, ou das ondas,
ondas, no seio
seio cripto
criptoid
ide
e da nature
natureza
za
inani
nanimada”.
mada”.2 27Essa emanação, “a um só tempo tempo moral
moral e orgâni
rgânica,
ca,
ligada
gada ao conj
conjunt
untoo do ser
ser sob
sob seu aspecto
specto moral, e aos tecidos,
tecidos,
epiteli
epitelial
al e endo
endoteli
telial,
al, sob seu aspe
aspecto
cto org
orgânico
ânico”2
”28se funda num
acordo cósm
cósmico
ico.. “T
“Tooda a superf
superfíci
ície
e cutânea faz de nós
nós os parti
parti--
cipantes do equilíb
equilíbrio
rio univer
universa
sal,
l, os adaptados
daptados do fora ao dentro
{adaequati
quatio re
rei et sensus) .”
.”29
Essa
Essa redu
reduçã
ção
o psico
psicollógica e gnose
noseoológico
lógico da atmo
atmosf sfera
era parec
parece
e
esquecer que aatmosfera
atmosferaé fundamentalment
fundamentalmente e um fafato ontológico
que concerne
concerne ao estatuto e ao modo de ser dasdas coisas
coisas e não à ma-
neira
neira como elas sã
são percebidas. Se todo ato de conhecimento
conhecimento é,
em si
si mesmo, um fafato atmosfé
atmosférico,
rico, já
já que é um ato
ato de mistura
mistura de
um sujeito com um objeto,
bjeto, a extensã
xtensão do domín
domínioio atmosfé
tmosférico
 va
 vai bem além de todo e qualquer ato de conhecimento.

EMANUELE COCOA  67
9
Tudo está em tudo
udo

Se viver é respirar
respirar é porque
porque nossa relação
relação com
com o mundo
mundo náo náo
é a do estar-
estar-llançado
nçado ou do estar-
estar-dentro-do-
dentro-do-mundo,
mundo, nem nem me mesmo
smo
a do domíni
domínio o de um
um sujeito
sujeito sobre
sobre um objeto
objeto que está está dia
diante
del
dele: estar-
estar-no
no--mundo signif
significa
ica fa
fazer
zer a experiência de uma imer
são
são transcendental. A imersã
imersão —de
—de que o sopro é a dinâmica dinâmica
originári
rigináriaa —se define
define como uma inerência
inerência ou uma imbricaimbricaçãção
o
recíproca
recíproca.. Estamos
stamos em al alguma coisa
coisa com a mesm
mesma a intensi
intensidade
dade
e a mesma força com com que elã está
está emem nós. É a recip
reciprorocicidade
dade da
inerência que
que faz do
do sopro uma condiçã
condição o sem saí
saída:
da: impossível
impossível
seliberar
liberar do
do mei
meio no qual seestá
está imerso,
imerso, impossív
impossível el purif
purificicar
ar esse
sse
mesmo
mesmo meio de nossa presença
presença..
Inspir
nspirar
ar é fazer o mundo
mundo entrar
entrar em nós —o mundo mundo está está em
em
nós - e expira
xpirarr é se projeta
projetarr no mundo que somos somos.. Estar-
Estar-no-
no-
mundo náo náo é simplesme
simplesmentente se encontra
encontrarr dentro de um horizonte
últi
último
mo que contém
contém tudo o que podemos
podemos e poderemos
poderemos perce percebe
ber,
r,
 vi
 viver ou sonhar. DesDesde que começamos a viver, pensar, perceber,
sonha
sonhar, respirar,
respirar, o mundo em seu seuss detalhes
detalhes inf
infin
init
ito
os está
está em nós,
penetra material
material e espiri
espiritualment
tualmente e nosso
nosso corpo
corpo e nossa
nossa alma,
alma, e dá

68  A VID A DAS PLAN TAS! UM A METAFÍS ICA DA MISTU RA 


forma,
orma, consist
consistência
ência e real
realidade
idade a tudo o que somos. somos. O mundo
náo
náo é um luga lugar; r; é um estado
estado de ime imersãrsãoo de
de toda
toda coisa
coisa em todatoda
outra coi coisa
sa,, a mist
mistura
ura que inverte
inverte instantaneamente
instantaneamente a relaçã relaçãoo de
inerência topológica.
 Ana
 Anaxágoras foi foi o primeiro a defin finir com rigor a mistura como
a forma própria
própria do do mundo: tudo está em tudo {part en pa pant
ntii).
 A im imersão nã não é a condição te temporária de um corpo em outro
corpo.
corpo. Também náo náo é uma relaçã
relação o entre
entre dois
dois corpos. Para que
a imersã
imersão sej seja possível,
possível, tudo d deeve estar tudo. Por um lado,
star em tudo.
como já já vimos,
vimos, estar
estar imerso é fa fazer a experiência
experiência de estar
estar em al
guma coisacoisa,, que por sua vez está está em nós.
nós. Por outro
outro lado,
do, segundo
 An
 Anaxágoras, es essa mistura absoluta e recíproca que pa parece fa fazer
de toda
toda coisa
coisa o luga
lugarr de toda
toda outra coisa
coisa náo
náo é uma condição
condição
limitada
mitada no espaço e no no tempo, mas a forma rma do mundo e de todo
estar
estar--no-mu
no-mundo.ndo. PaPara
ra que haja mundo,
mundo, o particular
particular e o univer
univer
sal,
sal, o singul
singular ar e a total
totaliidade devem
devem se se compenetrar
compenetrar recípro
recíproca ca e
totalmente:
totalmente: o mundo é o espa espaço da mistura univ universa
ersal, onde toda
toda
coisa
coisa contém
contém todatoda outra
outra coisa
coisa e é cont
contiida emem toda outra
 outra coisa.
coisa.
Inve
nversame
rsamente,
nte, a interi
interiooridade
ridade (o estar
estar dentro de algo,algo, o inesse) é
a relaçã
relação o que liga
liga toda
toda coisa
coisa a toda outra
 outra coi
coisa
sa,, que def
define o serser
das coi
coisas
sas mundanas.'
Dize
izer que tudo está está em tudo e, portanto
portanto,, que a imersã
imersão o éa
forma eterna
eterna e a condição de possib possibil ilidade
idade dodo mundo,
mundo, signifi
signifi
ca em primeiro lugar af afirmar
irmar queque todo acontecimento
contecimento físicoísico se
se
produz
produz como como imeimersã
rsãoo e a parti
partir da imersão. Assim,
Assim, a luz que me
permite
permite ver a páginapágina que escreescrevo é o marmar em que me banho banho.. Elã
está
está no intinterrupto
erruptor, r, no cabo que a liga àlumináriuminária a e- de mane
maneiraira
embrio
embrionárianária—em minha minha mão que o acio aciona.
na. E, po
por suavez, a mã mão
que aciono
cionou u o interrupt
interrupto or está conti
contidada na luz que agora a ilumi- lumi-

EMA NUEIE COCCIA 


COCCIA  69
r r 

na.
na. Tudo está em tudo. tudo. Essa
Essa mistura
mistura faz do mundo e do espa spaço
a reali
realidade
dade de uma uma transmissibil
transmissibilid ida
ade e de uma traduti
tradutibi billidade
idade
universa
universal das formaformas. s. Mas
Mas o que que chama
chamamos
mos de transmissão
transmissão náo
é ma
mais que o eco eco dessa
dessa inerênci
inerência a recí
recípro
proca
ca de toda
toda co coisa emem toda
toda
outra coisa
coisa: o mundo
mundo é um contágiocontágio perpétuo
perpétuo..
Se tudo está em tudo é porque porque no no mundo
mundo tudo deve deve poder
circular, se transmitir,
transmitir, se traduzi
traduzir.r. A impenetrabilid
impenetrabilida ade que
que frere
quentemente
quentemente se imagino maginou ser ser a forma paradigmá
paradigmáti tica
ca do espa
espaço
náo passa
passa de uma ilusã ilusãoo: ali onde há um obstáculo
obstáculo à transmissão
transmissão
e à interpenetraçã
nterpenetração o, produz-se
produz-se um um novo plano que permite permite aos
corpos reverter
reverter a inerência
nerência de um ao outro numa numa interpenetraçã
interpenetração o
recíproca
recíproca.. Tudo no mundo produz mistura mistura ese produz na mistu
ra. Tudo entra e sai de toda toda parte:
parte: o mundo é abertura,
abertura, liberda
liberdade de
de circulaçã
circulação o absoluta,
bsoluta, não não la
lado a lado, mas através dos corpos
e dos outros. Viv Vive
er, experienciar
experienciar ou estar estar--no-
no-mundo, signif significa
ica
também se fazer atravessatravessarr por
por toda
toda coisa
coisa.. Sai
Sair de si si é sempre
sempre
entrar
entrar emem alguma
alguma coicoisa de outro
outro,, em sua
suas fo
formas e em sua sua aura;
aura;
 vo
 voltar para dentro de si signific fica sempre se preparar para encon
trar todo
todo tipo
tipo de formas, de objetos,
objetos, de image
magens,
ns, as mesmesmamas que
 Ago
 Agostinho se espantava de encontrar na memória, pr produtora de
mistura
mistura e esplêndida
esplêndida ev evidência
idência dessassa compe
compenetra
netraçã
ção o total.
total.2 2
 A ciência e a filosofia fia se dedicaram a classific ficar e defin finir a
essência
essência das coisa
coisas
s e do vi vivente, sua
suas forma
formas e sua
sua ativtividade, mas
permanecem cega cegas quant
quanto o à sua
sua mundanidade, isto  isto é, sua nature-
 za, que consiste
 za consiste na capacid
capacidadeade dede ent
entrar
rar em toda
toda outra
outra coisa
coisa e de
serem
serem atravessa
travessadodoss por
por el
elã.
O mesmo
mesmo sedá com a matéri
matéria:
a: elã não
não é o que
que sepa
separa
ra edist
distiin
gue as coisa
coisas, mas
mas o que permite
permite seu encontro
encontro e sua mistura.
mistura. Elã
Elã
não se reduz simplesment
simplesmentee ao espaço da inerênci
inerência
a de uma forma
forma

0
no mundo.
mundo. Atra Atravésvés dela,
dela, iss
isso sim, tudo está em tudo, tudo, nada pode
se separar
separar do destino
destino do resto resto,, e tudo
tudo se deixdeixa atravravessar pelo
pelo
mundo e pode,pode, pois,
pois, o atravess
atravessa ar.
Fazer do mundmundo o a realilidade
dade dessa reversã
reversão o perpétu
perpétua a da ine
ine
rência de tudo em tudo signif significica
a fazer do
do espaço náo o nome nome da
exterio
exteriorid
ridade
ade genera
generallizada
izada, mas
mas o da interio
nteriori ridade
dade universa
universal: teter
emsi tudo
tudo o que nos co contém. A extensã
extensão, a corpo
corporeidade,
reidade, não
não é o
espa
espaço
ço onde o ser ser é exterio
exterior a todatoda outra
outra coisa
coisa[[partesextraparte partes)
com uma intensidade
intensidade que coincid coincidee com seu conat onatus sese conser-
vandv, o espa
espaçoço é, ao cont
contrário
rário,, aexperiência
experiência em que toda toda cocoisa se
expõe
expõe a ser
ser atr
atraavessada
essada por
por toda
toda out
outrara coisa
coisa e sese esfo
esforça para atra
 ve
 vessar o mundo, em em todas suas formas, su suas consistências, su suas
cores, seus
seus cheiros.
cheiros. O espaço e a extensão são, são, port
portanto
anto,, as força
forças
que permitem
permitem a toda toda coisa
coisa respirar, seestender e seentremi entremist sturar
urar
no sopro:
sopro: respirar
respirar é se deixar
deixar penetrar
penetrar pelo
pelo mundo para fazer do
mundo algo que é feito ito também do
também do nosso nosso sopro. Tudo Tudo respira
respira e
tudo é sopro,
sopro, já que tudo secompenetracompenetra..
Uma novanova geogeometria deve,deve, poportanto,
rtanto, ser pensada
pensada,, pois
pois o cos
cos
mos náo
náo desenha mais nem uma esf esfera nem um plano. plano. O cosmos
enquanto
enquanto natureza
natureza não não é um horizo horizonte que inclui nclui em si si todos
todos
os seres (a(a esfera
sfera), não é tampouco a total totaliidade das coisa
coisas (ta
pantd), o
pantd), ou u uma total
totaliidade transcendente
transcendente a seus seus elementosntos (o(o Um
Um
ou Deus
Deus). ). Mas
Mas negar sua transcendência
transcendência para para fazer deldele a potên
potên
cia originária, o fu  fundamento ou a raiz (groundo (ground ou Grand), como
Grand), como
imagin
imagino ou uma tradição
tradição que culmino
culminou u no idea
idealilismo
smo alemã
alemão, náo
basta.
basta. Assim
Assim comocomo nã não basta
basta pensar
pensar esse
sse fundamento como sem sem
fundamento (U (Ungrund).3Afirmar
rund).3Afirmar que tudo udo estástá em tud
tudoo {pan en
panti) não
não significa
significa simplesmente
simplesmente imag imaginar
inar a existência
existência de tudo
num substra
substrato único. O cosmos - isto é, é, a natureza -
natureza - não é a

EMANUEIE COCCIA  71
fundação
undação das coisacoisas,s, é sua mistu
mistura,
ra, sua respi
respiraçã
ração o, o mov
movimento
imento
que anima sua compenetra
compenetraçã ção.
o. Dito de outro modo, o conceito
de imanênci
manência não basta para para pensar
pensar a exist
existência
ência do mundomundo, nem
para radicalizá-la fazendo coincidir Deus e mundo —como pôde
fazer o panteísmo
panteísmo —, imag imagiinando
nando a inerênci
inerência de toda toda cocoisa emem
Deus
eus (e pensa
pensando
ndo sua coinci
coincidênci
dência a somente
somente atra através
vés de de De
Deus). A
 ve
 verdadeira imanência é a que faz existir toda coisa no interior de
toda
toda outra coicoisa
sa:: tudo está em tudo signif significa
ica que tudo é imanen
te em
em tudo.
tudo. A imanênci
manência já não é a relaçã relaçãoo entre uma coisa coisa e o
mundo
mundo, é a relação que que liga
liga as coi
coisas
sas entre
entre si.
si. É essa relação elã
própria que
que constitui
constitui o mundo.
 Ass
 Assim, a totalidade defin fine uma relação de interioridade radi
cal
cal e abso
absolut
luta,
a, que torna
torna caduca
caduca qualquer distin distinção
ção entre con
teúdo e conti
continente.
nente. Pois,
Pois, se tudo estáestá em
em tudo,
tudo, nãonão apena
apenass toda
toda
coisa
coisa cont
contém ém toda
toda outrautra coisa
coisa,, mas uma coisacoisa deve
deve se encont
encontrar rar
em qualq
qualqueruer outra
outra e, e, mais,
mais, naquelas
naquelas que que elã co contém. O fato de
estar
star conti
ontido em alg oisa coexiste
alguma coisa  coexiste com o fa fato de conter
conter essessa
a
mesm
mesma a coisa
coisa.. O contcontininente
ente é também
também o conteúdo
conteúdo do que ele ele
contém.
contém. Es Essa identi
identidade
dade náonáo é lóg
lógica, é topo
topoló lóg
gica e dinâmica.
dinâmica.
Todo objeto
objeto é um lugar lugar para
para todo
todo outro
outro objeto
objeto e, inversa
inversame mente,
nte,
ser
ser um lugar
lugar é achar seu seu mundo em toda toda outra
utra coisa
coisa.. De uma
certa manei
maneira, ra, toda
toda coisa
coisa éum mundo onde o mundo mundo não não é ma mais
o horiz
horizo onte últi
último inalcançá
inalcançávvel que se dá unicame
unicament ntee no fim
fim dos
tempos
tempos e na ext extrem
remidade
idade do espaço,
spaço, mas a identiidentidade
dade intensiv
intensiva a
com qualquer de seus seus objeto
objetos.s. Estar-no
star-no--mundo
mundo já já náo
náo é sese achar
char
num espa
espaçoço inf
infinit
inito
o que cocontém todatoda outra coi coisa
sa,, mas não
não poder
poder
mai
mais fa
fazer a experi
experiênci
ência a de estar num lugarlugar semsem reencont
reencontrar rar ess
esse
e
lugar
ugar em
em sisi mesmo
mesmo e se tornar,
tornar, port
portanto
anto,, o luga
lugarr de nosso lug lugar.
O mundo é essa essa força que reverte toda toda inerênci
inerência a emem seu
seu con-

72
trário
trário,, transf
transfoorma todo
todo ingrediente
ngrediente em em lugar,
lugar, e todo
todo lug
lugar
ar num
elemento do mesmo composto.
 A cosmologia da mistura se fun funda, portanto, numa ontologia
difere
diferente
nte da ensinada pela pela tradição. PoisPois toda
toda ação
ção é intera
interaçã
ção o,
ou melhor, interpe
interpenetra
netraçã
çãoo e influência
influência recíproca
recíproca.. A física —a
ciênci
ciênciaa da natureza
natureza —deveria,
—deveria, portanto
portanto,, ser
ser inteiramente
inteiramente reescri-
reescri-
ta. Se o mundo
mundo está em em todos
todos seseus entes,
entes, isso signif
signifiica que todo
todo
ente é capa
capazz de transfo
transformar
rmar radi
radicalmente
calmente o mundo.mundo. A mistu-mistu-
ra universal encarna o fato de que o mundo é constantemente
exposto à transfo
transformaçã
rmação o operada
perada por seus
seus componentes.
componentes. Nã Não é
preciso espera
esperarr o antro
antropopoceno
ceno para se se depara
depararr com
com ess
esse
eparado
paradoxoxo::
são as plantas
plantas que,
que, há milhõ
milhõeses de anos, transfo
transformara
rmaram m o mun-
mun-
do produzindo
produzindo as condições
condições de possibil
possibilidade
idade da vida animal. O
“fitoceno”4é a prova mais evidente de que o mundo é mistura,
e de que todo
todo ser mundano
mundano está no mundo mundo com a mesm mesma a in-
in-
tensidade
tensidade com que o mundo está está nele.
nele. Na mistura
mistura univer
universasal,l, o
efeito
efeito é sempre
sempre capaz
capaz de modi
modifficar suacausa,
causa, que sempre
sempre jaz nele
próprio
próprio.. Nesse
Nesse sentido,
sentido, a imersã
imersão é a destruição do sentido
sentido único
que antepõe a totalidade ao indivíduo, o anterior ao posterior. A
causali
causalidade
dade na mistura
mistura é sempre
sempre bidirecio
bidirecional:
nal: a mistura
mistura é sempr
sempre e
um hysteronproteron.
proteron. A retroação, que foi considerada como uma
propri
proprieda
edade
de da vida,
vida, é o ritmo
ritmo próprio
próprio do sopro,
sopro, a respiraç
respiraçãoão da
mist
mistura.
ura. É também po por essa
essa razão que as noções
noções de mei meio e de
mundo ambiente
ambiente dev devem ser
ser rejeitada
rejeitadas:s: o ser
ser vivo
vivo é um meio para
o mundo
mundo, do mesm mesmo o modo que o resto resto das
das coisas
coisas do mundo
mundo é
o meio do indivíduo vivo. As influências vão sempre nas duas
direções.
direções. A retroação
retroação é um ef efeito da imersão,
imersão, e a imersão
mersão é um
fato cósm
cósmico
ico:: elã consti
constitui
tui a forma e a condiçã
condição o de possibil
possibilida-
ida-
de do cosm
cosmos,
os, não o efeito
efeito de algumas
algumas ações
ações humanas. A noção noção

EMANUEIE COCCIA  73
de amropo
mropoceno tra transf
nsfoorma o que define
define a própria
própria existência
xistência do
mundo numanuma ação
ção única,
única, hist
histó
órica e nega
negativ
tiva: faz da natureza
natureza
uma exceçã
xceção cul
culttural5e
ural5e do homem
homem uma causa
causa extra
extranatura
natural.l. Ne
gligencia, sobretudo,
sobretudo, o fato de queque o mundo é sempre
sempre a rea
realida
lidade
de
do sopro
sopro dos sere
seress vivos.
vivos.
 A co
cosmologia, nenesse sentido, é uma pneumatologia, ou ou me
lhor,
lhor, é sua
sua forma suprema
suprema.. Conhecer
Conhecer o mundo é respirá-
respirá-lolo,, já

que todo sopro é uma produção do mundo: mundo: o que parece
parece estar
estar
separa
separado se reúne numa unidade
unidade dinâmi
dinâmica.
ca. Respirar
Respirar signif
significa
ica sa
sa
borear
borear o mundo.
mundo. E o mundo é para todo todo ser vivo
vivo e para todo
objeto
bjeto o que se
se dá através do e graça
raças
s ao sopro.
sopro. O mundo tem
o sabor do sopro. Se todotodo espírito
espírito faz mundo é porque
porque todo
todo ato
de respi
respira
raçã
ção
o não
não é a simples
simples sobreviv
sobrevivência
ência do animal
animal que
que está
está
em nós, mas a fo forma e a consi
consistênci
stência
a do
do mundo de que somossomos a
pulsação.
Essa
Essa coin
coincid
cidência
ência entre pneuma
pneumato tolo
logia
gia e cosmol
cosmoloogia não tem
nada de metaf
metafóri
órica
ca ou arbi
arbitrária.
trária. Interrogar
nterrogar o mundo,
mundo, sua for
ma,
ma, seus lilimi
mites
tes e sua consi
consistênci
stênciaa diretament
diretamente e no sopro
sopro que nos
nos
permite
permite conhecê-
conhecê-lo e aderir
aderir a ele torna possível
possível encontra
encontrarr uma
evidência
evidência que toda a cosmolog
cosmologia clássica
clássica nunca poderá
poderá obter
obter.. Na
imanênci
manência a do sopro,
sopro, o mundo se revela
revela algo de mais
mais próxi
próximo
mo e
de extrem
extremam amente
ente difere
diferente
nte do que imag
imagina
inamos. E o rosto inédito
inédito
que as plantas
plantas nos permitem
permitem contemplar.
contemplar.

74  A VID A DAS PLA NTA S: UM A META FÍSIC A DA MISTURA 


TEORIA DA RAIZ
10

Raízes

 In
 In Sneffels Yoculiscrateremkemdelibat umbra ScartarisJu
Jullii intra
cale
alendas descende, audas viator,
viator, et te
terre
rrestre
strecent
ntru
rum
matti
atting
nges. Kodfe
odfeci.
 Am
 A meSaknussemm
 Jú
 Júlio Verne

Ela
Elas estã
estão
o escondidas
escondidas e invisí
invisíveis
veis para a grande
grande maiori
maioria a dos
dos
organismos animais que disputam
disputam o prota
protagonismo no palco da
terra firme.
irme. Fincada
Fincadas
s num mundo separaseparado e crípt
críptic
icoo, passa
passam
a vida sem
sem sequer
sequer suspeit
suspeitar da explosão
explosão dede fo
formas e de acont
conte
e
cimento
cimentos s que borbu
borbulh
lham
am ent
entre
re a terra e o céu. As
As raíz
raíze
es são as
as
formas mais enigmáticas
enigmáticas do mundo vegetaletal. Frequentemente sseueu
corpo é infinitamente maior, infinitamente mais complexo que
seu
seu gêm
gêmeoeo aéreo, aquele que
que as plant
plantas
as deixam
deixam aparecer
aparecer à luz
luz do
dia: a superf
superfíci
ície
e total
total do sistema radicular
radicular de uma planta
planta de cen
cen
teio pode
pode chegar
chegar a quatro
quatrocento
centos s metros
tros quadrado
quadrados, s, isto é, uma
superf
superfíci
ície
e cento
cento e tri
trinta
nta vezes maio
maiorr que a de seu
seu corpo aéaéreo
reo..1
Na histó
história
ria davida vegetal
etal, chega
chegaram relativam
relativamente
ente tarde:
tarde: por
milhões
milhões de anos, as plantas prescindira
prescindiramm delas
delas - tanto no mar

EMANUELE COCCIA  77
como na terra.2 Pri  Primum vegetari de dein
indde radiçarr. a vida
vida vegetal
vegetal
parece
pareceria
ria náo
náo precisar
precisar de raíze ízes para
para se defi
definir
nir ou existi
existir,
r, ou, ao
menos,
nos, sobrevi
sobreviver.
ver. Sua origerigemm éobscura e náonáo é fá
fácil
cil desti
destilar sua
suas
forma
ormas. O prime
primeiroiro testemunho
testemunho fóss fóssil
il remo
remonta a 390 milhões
milhões de
anos. Como
Como todatodas s as forma
formas s de vida desti
destinada
nadas a perdurar mil milê
nios,
nios, sua orig
origem deriv
deriva a mais da inv
invenção fortuita
rtuita e da bricolag
bricolagemem
que da elaboraçã
elaboração metódi
metódica ca e consci
consciente:
ente: as primeir
primeiras
as forma
formas s de
de
raíze
ízes sã
são modificaç
modificaçõesões funcio
funcionanais
is do tronco
tronco ou rizo
rizommas horiz
horizon
tais
tais despr
desprov
ovidos
idos de fo folhas.3
Sua momorfo
rfologia
logia e sua fisiolo
siologgia sã
são extrema
extremamente variávei
variáveis:
sua
suas funções
funções mudaram
mudaram com com o tempo e náo náo podem
podem lhes ser at atri
ri
buída
buídas de maneira unív unívo oca;
ca; por
por veze
vezes
s —como é o caso das das micor-
micor-
riz
rizas —sã
—são delega
delegadas a outrosutros orga
organi
nismo
smos s que entram
entram em em relação
relação
simbió
simbiótica
tica com a plaplanta.
Parecem
Parecem viver sepasepararada
das
s da multi
multiplpliicidade
cidade dos sere seress vivo
vivos;
s; no
entant
entanto o, é graças
raças a elas que as plantas
plantas chega
chegam a ser conscientes
conscientes
do que se passa
passa ao seu redoredor.
r. Platã
Platãoo já
já tinh
tinha a comparado nossa
cabeça,
cabeça, e port
portanto
anto a razão,
razão, a uma “raiz”
“raiz”: o homem
homem,, escreve
screve ele, é
“pl
“planta
anta do céu e não
não da terra”, comcom as raízes no al alto,
to, uma espécie
espécie
de planta inv
invertida.4
ertida.4MaMas s a versã
versão que se tornarátornará canô
canônic
nicaa foi
elaborada por
por Aristó
ristóteles em se seu Tratado
ratado sobre a alm alma\  “O
 “O alto
lto e
o baixo
baixo não
não são idênt
idêntiicos
cos para todos
todos os seres res e para o univ
universo: o
que a cabeça
cabeça épara os animai
animais,
s, as raízes o são para para as plant
plantas,
as, se é
pelas
pelas funções que sedeve deve disti
distinguir ou ou identif
identificar
icar os órgã
rgãos.”5“A
os.”5“A
ação
ção dos dois”,
dois”, glo
glosasará
rá Averrói
verróis,s, “é
“é idênti
idêntica.”6
ca.”6A A analo
analogiagia entre
cabeça
cabeça e raiz funda a entre
entre homem
homem e planta,
planta, que teráterá um sucesucesso
sso
extraordinár
extraordinárioio na tradição
tradição filosóf
ilosófica
ica e teoló
teológica medieval,
medieval, até a
modernidade
modernidade (Francis
(Francis Bacon
Bacon ainda
ainda a util utiliza
izará).
rá). Assi
ssim, em se seu
tratado
tratado de filosof
ilosofia,
ia, detalhando
detalhando esse sse para
paraleli
lelism
smo o, Gui
G uilllla
aume de
Conches expli
Conches explica
ca que “as
“as árvo
árvoreress enfi
enfiam sua
sua raiz
raiz,, que é sua suacabeça
cabeça,,
para bai
baixo,
xo, na terra
terra,, de onde
onde tiram
tiram seuseu ali
alimento
mento.. O homem homem,, ao
contrário
contrário,, exibe sua cabeç
cabeça a, que é como sua ra raiz,
iz, no ar, poispois vive
vive
de seu espírito.”7Lineu8inverterá o sentido da analogia e falará
da plant
planta
a como de um ani animal
mal de cabeça
cabeçapara baix baixo o. Mas
Mas o adág adágio
quemadmod
admodum um caput est animanimalialibus ita
ita radic
radices planplantitiss (“a
 (“a raiz é
para as plant
plantas
as o que a cabeça
cabeça é para os animai
animais” s”)) parece nuncanunca
ter perdido sua eficácia.
icácia. Assim,
Assim, na conclconclusã
usão o de se seu livro
livro sobre a
faculdade motriz
motriz nas plantas,
plantas, Darwiarwin escrevi
escrevia a que “mal
“mal cheg chega aa
ser
ser exag
exagero dizer
dizer que a pontponta a radicular,
radicular, [...
[...]] possuindo
possuindo o poder poder
de diri
dirigir
gir as
as partes
partes vizi
vizinh
nhas,
as, age
age como o cérebro
cérebro de de um ani animal
mal
inf
inferior: de fato, essesse órgã
órgão, situa
situadodo na parte
parte ant anterio
eriorr do do corpo,
recebe
recebe as impressões dos órg órgã ãos dos
dos sent
sentiidos
dos e diridirige
ge os divers
diversosos
movime
movimento ntos”.9
s”.9TTambém Frantisek Baluska Baluska,, Stefano Mancuso Mancuso e
 Ant
 Antony Tr Treewavas10pr 0prolongam essa intuição co com pesquisas em
torno do conceito
conceito de int inteli
eligê
gênci
nciaa vegeta
vegetall e tentam demonstrar
demonstrar
que a rai
raiz corresponde
corresponde perfeit
perfeitam
amente
ente ao
ao que o cérebro
cérebro é nos ani- ani-
mai
mais: ambos têm têm as mesma
mesmass capaci
capacidades.
dades. É, de de fafato,
to, através do do
sistema radicular
radicular que uma planta obté obtém a ma maioria ria das inf infoorma-
rma-
ções sobre
sobre seu estado
estado e o do meio em que está está imersa
imersa;; é ainda
ainda
através das
das raíz
raíze
es que el elã entra
entra em contato
contato com os outros outros in indi-
di-
 ví
 víduos limítrofesfes e gere coletivamente os riscos e dific ficuldades da
 vi
 vida subterrânea.11As raízes fazem do solo e do mundo subterrâ-
neo
neo um espa
espaço
ço de comunic
comunicaçã açãoo espir
espirit
itual.
ual. A parte
parte mai
mais sólisólida da
terra se transf
transfoorma então,
então, graças
raças a elas, num
num imenso cérebro cérebro pl pla-
netário
netário112onde circul
circulam
am a matéria
matéria e as informações
informações sobre a iden- iden-
tidade
tidade e o estado
estado dos orga
organi
nismos
smos que povoam
povoam o meio ambi ambiente.
ente.
Como
Co mo sea noit
noitee eterna,
eterna, em que imagiimaginamos mergulh mergulhada adass asas pro-
fundezas
undezas da terra,
terra, fosse
osse tudo menos
menos um longo longo e surdosurdo sono.
sono. Na

EMANUELE C0CC1A  79
imensa e silencio
silenciosa
sa reto
retorta
rta do subsolo
subsolo, a noite
noite é uma
uma perce
percepçã
pçãoo
sem órgãos,
órgãos, sem
sem olho
olhos s e se
sem ouvi
ouvidos,
dos, uma percepçã
percepção o que se faz
com o corpo intei
inteiro
ro.. A intel
inteliigênci
gência,
a, gra
graças
ças às ra
raíze
ízes, existe
existe sob
uma forma
rma mimineral,
neral, num mundo
mundo semsem soi e sem
sem mo
movime
vimento
nto..

Tanto na lingua
linguag gem comum
comum co como na literatura
literatura e nas nas arte
artes,
s,
as raíz
raízees são muit
muitas vezes
vezes o emblema e a alegori alegoria a de tudo o que
há de mais fu  fundamental e originário,
originário, do que é obstin bstinada
adamente
mente
estável
stável e sólido
sólido,, nece
necessário
ssário.. São o órg
órgã
ão vegeta
vegetall por
por excelência. E,
no entanto
entanto,, seria
seria difí
difícil encontrar uma forma rma mais ambíambíg gua entre
as que
que avida cri crioou e adoto
adotou ao ao lo
longo de suasua histó
história.
ria. Ela
Elas não
não são
são
mais necess
necessá árias àsobrevi
sobreviv vência do indiv
ndivíduo que as outra outras s partes
partes
do organismo
organismo;; de um ponto de vista vista estritamente
estritamente evo evoluti
lutivo
vo,, não
estão
stão na origem
origem do do produto
produto veg vegetal - como está está a função fotos-
sint
sintéti
ética.
ca. As vantagens
antagens que trazem
trazem são as as do netioorkinge
netioorkinge não não as
do isolame
isolamentonto e da distinção
distinção.. Mas
Mas seria
seria ingênuo
ingênuo conside
considerá rá--las
por
por isso
isso como um apêndice
apêndice secundário
secundário e deco decorarati
tivo
vo.. As
As raíze
ízes
não são o que se acredit
acreditou queque eram,
eram, mas expressam e encarnam encarnam
mesmo assim uma da dass caracterí
característi
sticas
cas mais marcantes
marcantes da existexistên
ên
cia veg
vegetal: a ambi
ambig guidade
uidade,, a hibridez,
hibridez, o cará
caráter anf
anfíb
íbio
io edúplice.
dúplice.
Trata-
rata-se em primeiro lugar de uma uma hibridez
hibridez ecológica
ecológica.. Graças
a elas, úni
única
ca entre todos
todos os organismos
organismos vivovivos,s, a plant
planta a vascular
habita simultaneamente dois dois meios,
ios, radic
radica almente
mente difediferentes
rentes por
sua textura,
textura, sua estrutura,
estrutura, sua organiz
rganizaçã
ação o e a natureza
natureza da vida
que al
ali habita:
habita: a terra e o ar,
ar, o solo
solo e o céu.
céu. AsAs plantas
plantas não
não se con
con
tentam
tentam em roçá roçá-los, fincam-se
ncam-se em cada um deles co com a mesma
obsti
bstinação
nação, a mesma capacidade
capacidade de imaginar
maginar e de modelarmodelar seu seu
corpo comcom as fo formas mais inesperadas.
inesperadas. Mediadores
Mediadores cósmico
cósmicos, s, as
plant
plantasas são seres ontolog
ontologicamente nte anfí
anfíbi
bios
os::13cone
onectam
ctam os meios, os
espaços,
espaços, mostrando
mostrando que a rel relação
ação entre ser vivovivo e mei
meio não pode pode
ser
ser concebi
concebida da em
em termos exclusivousivos (os da teoria dos nichos ou os
de Uexkül
Uexkülll), mas sempre
sempre inclusiv
inclusivos.os. A vi
vida é sempre
sempre cósmica
cósmica e
náo uma questão de nicho; nunca está isolada num único meio,
mas irradi
irradia a em todos
todos os meimeios; fa faz dos me meios
ios um mundo, um
cosmos cuja
cuja unidade
unidade é atmosf
tmosférica.
érica.
Essa dupl
duplicidade
cidade eco
ecoló
lógica
gica é acompanhada, e como como que des des
dobrada
dobrada,, por
por umadupliduplici
cidade
dade dinâmica
dinâmica eestrutural.
estrutural. Embora em
comunic
comunicaçã ação o e compenetra
compenetração ção recíproca
recíproca—como tudo no cosmos
—os dois
dois meio
meioss não estã
estãoo apenas
apenas justaposto
ustapostos um ao ao outro
outro,, mas
se estruturam
estruturam de manei maneira
ra especular
especular e oposta.
oposta. Co Comomo se as plan
plan
tas vivesse
vivessemm simul
simulttaneamente duas vidas: idas: uma aére aérea,
a, banhada
banhada
e imersa na luz, feita de visibi sibilidade
lidade e de uma intensa intensa interaçã
interação o
interespe
interespecíf
cífica
ica com
com outra
outrass plantas,
plantas, outros animais
animais - de todos os
tamanhos; outra ctônica, mineral, latente, ontologicamente no
turna,
turna, ci
cinzelada
nzelada na carnecarne de pedra do planeta,planeta, em comunhão
sinérgic
sinérgicaa com
com todas
todas as formas
formas de vida que a pov povoam. Essas duas duas
 vi
 vidas não se alternam, nã não se excluem: sã são o ser de um mesmo
indi
indivvíduo,
duo, o único
único que chegachega a reunir
reunir em em seu
seu cocorpo e em em sua
sua
experiên
experiênciciaa a terra e o céu, a pedra e a luz luz, a água
água e o soi,
soi, a se
ser
imagem
imagem do do mundo em sua sua totali
totalidade
dade.. É já no corpo da planta
que tudo está
está em
em tudo:
tudo: o céu está
está na terra
terra, a terra é impeli
impelidada para
o céu, o ar se faz corpo e extensão, a extensão extensão é um laborató
laboratóri rio
o
atmosférico.
 As
 As plantas são seres ecológica e estruturalmente duplos: mas é
antes de tudo
tudo seuseu corpo que éana anatomicament nteegemina do. A rai
minado. raiz é
como um seg segundo corpo,
corpo, secre
secretoto,, esot
esotér
érico
ico,, latente:
latente: um antiantico
cor
r
po, uma ant
antiimatéria anatô
anatômic
mica a queinver
inverte
te de maneira espe especula
cular,r,
ponto
ponto por ponto,
ponto, tudo o que o outro corpo corpo fa faz; e que
que impele a
planta
planta numa
numa direçã
direção o exatament
exatamente e contrári
contrária a àquela para onde vão

EMANUELE COCOA  81
todos
todos os seseus esf
esforços
orços na superf
superfíci
ície.
e. Imag
magine
ine que para
para cada
cadamovi
movi
ment
mento o do seu
seu corpo haja
haja um outro em sentido
sentido inverso;
inverso; imagine
magine
que se
seus braços,
braços, sua boca
boca, seus
seus olhos
olhos tenham um correspon
correspondente
dente
antitético numa matéria perfeitamente especular àquela que defi
ne a textura
textura dodo seu mundo:
mundo: você
você teria
teria uma ideia, ainda
ainda quevaga
vaga,
do que signif
significa
ica ter raíz
raíze
es. Foi isso o que Juliulius Sachs
Sachs chamou
chamou de
anisotropia
nisotropia do do corpo
corpo vege
vegetal
tal - dito de outro modo, a antitropntitropia
ia
própri
própriaa a suas
suas extremi
extremidades1
dades14. Co
Como mo se o corpo
corpo das
das plantas
plantas esti
esti
 ve
 vesse dividido em dois. Cada uma de suas partes se estruturando
de acordo
cordo comcom uma força e uma textura textura radi
radicalmen
calmentete oposta
opostass
uma à outra. A raiz raiz é um
um aparelho
aparelho de desconst
desconstruçã
rução
o minucio
minuciosa
das
das fo
form
rmaas e das
das geomet
geometririas
as da superfí
superfície
cie terrestre, a come
começar
çar
pela força
força que parec
parecee determinar
determinar inteiramente
inteiramente nossa vida, a dos
animais
animais móveis:
móveis: a gravidade.
gravidade.1 15
“Faremos
“Faremos uma idei ideia
a ma
mais exata dedesse órgão
rgão”, escrevi
escreviaa Augus-
ugus-
tin
tin Pyra
Pyramumuss de Candol
Candolle no sécuséculo
lo XI
XIX, “dize
“dizendo que a rai raiz é
essaparte da plant
plantaa que, desde o seu nasci
nascimento
mento,, tende
tende a descer
descer
rumo ao centro da Terra com mais ou ou menos
menos energia.
energia. É a essaca
racteríst
racterístiica domi
dominante
nante das
das raíz
raíze
es que alguns
alguns naturalistas
naturalistas aludiram
aludiram
quando designaram a ra raiz de uma
uma manei
maneirara geral
geral sob o nome
nome de de
descensus.”.”'6Ela
Elas são
são a essê
essênci
nciaa da desci
descida:
da: o caminho
caminho parabaixo,
baixo,
o mergulho
mergulho geolóeológico da vida. Sua existência
xistência - como se fosse ossem
Ottos
ttos Lidenbrock,
Lidenbrock, ou melhor, Arne Arness SaSaknussemm
knussemm não não huma
nos —é uma perpétua via viagem
gem ao ao centro
centro da Terra
Terra,, uma tentativ
tentativa
de se confundir
confundir comcom ele.
ele. Thom
Thoma as Andrew Knight, no início início do
século
século XI
XIX, já tinha
tinha constatado
constatado que “não
“não pode esca
escapa
parr a nenhum
observador,
observador, mesm
mesmo o o mais desatento
desatento,, que emem qualquer
qualquer posição
posição
que se
se a col
coloque, a semente,
semente, para engendrar
engendrar sua raraiz, fará invaria
nvaria
 ve
 velmente o esforforço de descer rumo ao centro da Ter Terra, ao passo

82  A VID A DAS PIA NTA SI UM A META FÍSICA DA MIST URA 


que o germegerme alonga
alongado do tomará
tomará a direção
direção exatame
exatament ntee oposta”.
oposta”.1 17
Prolongando as pesquisas de Julius Sachs,18Charles Darwin, com
seu
seu filfilho
ho Franci
Francis,s, situa
situa a orige
origem
m dessa
dessa força na extremidade
extremidade da das
raí
raízes: “É “É na extremid
extremidade ade que se localiz
caliza a faculdade de sofre sofrerr a
ação
ção dada grav
gravidade. [..[...] As
As divers
diversaas partes
partes do mesmo
mesmo veg vegetal,
etal, e as
diversa
diversass espécies
espécies de plantas”
plantas”,, escreve
escreve elele, “são afeta
afetadas
das pela gra-
gra-
 vi
 vitação de maneiras bem difer ferentes e em diversos graus. Al Alguns
órgãos
órgãos e al algumas
gumas pl plantas mostram
mostram apenas
apenas vestígio
vestígioss dessa ação.
ção.
[...
[...]] No que concerne às radíc radículas
ulas de mui
muitas
tas seme
sementes,
ntes, e prova
prova-
 ve
 velmente de todas, a sensibilidade à gravitação está localizada na
extremidade, que transmite a influência recebida à parte imedia-
tamente
tamente superior,
superior, e determina
determina seu seu encurvamento
encurvamento para para o centro
centro
da Terra.”
erra.”119
Seri
Seriaa um erro
erro ver
ver nesse
nesse amo
amor pela terra o simples
simples ef efeito
eito da
da
grav
gravidade: a rai raiz não se limilimitta a perceber
perceber e sofre
sofrerr passivam
passivamen- en-
te a força gravitacio
ravitacional,
nal, como fa faz todo corpo na superf superfíci
ície
e dada
Terra. Por Por certo
certo,, a grav
gravidade
idade é “a força mai mais const
constante
ante e mamais
permanente entre todas as forças ambientais que agem sobre as
plant
plantas” as”,,20 mas
mas sua reação
reação à gravidade
gravidade não é a mesma que en-
contra
contramos mos nos corpos animais. Não é simplesme simplesmente nte o ef
efeito do
peso,
peso, é uma uma atração
tração difere
diferente,
nte, uma força de crescimento
crescimento diridirigid
gidaa
para
para o centro
centro do plane
planeta.
ta. Darwrwin
in observo
observou u isso:
isso: “O geotropi
otropismsmo o
[..
[...] determina
determina o encurv
encurvam amento
ento da radí
radícul
culaa para
para baix
baixo;
o; mas essessaa
força,
orça, muito
muito pouco considerável,
considerável, é insufici
insuficiente
ente para
para perfurar
perfurar a
terra.
terra. Essa
Essapenetração
penetração seefetua
efetua porque
porque aextremid
extremidade ade afiada (pro-
(pro-
tegida pela pilorri
pilorriza)
za) é pressionada
pressionada para bai baixo em consequênci
consequência a
da expansão longitudinal ou do crescimento da porção terminal
rígida; esta última se vê ainda ajudada pelo crescimento transver-
sal,
sal, e a ação ção cumulati
cumulativva das das duas
duas força
forçass é considerá
considerávvel.”2
el.”21Co
Comomo

83
se a rai
raiz redobrasse
redobrasse a fraca fo força de gravi
gravidade
dade que a impele
impele para
bai
baixo.
xo. CoComo mo se a planta,
planta, em sua sua totali
totalidade,
dade, empreg
empregasse todos todos
os seus
seus meio
meioss para vencer a resist
resistênci
ência a a sua descida
descida —com uma
intensi
ntensidade
dade igual à que o talotalo emprega
emprega para se elevar.
Sería
ríamos tentados a ver na na raiz
raiz a mais
mais perfeit
perfeita a rea
realliza
ização do
programa do amo fati  nietzschia
amor fati  nietzschiano no:: “Eu os conjuro,
conjuro, meus ir
mão
mãos, permaneçam
permaneçam fiéis fiéis à Terra e nãonão creiam naqueles
naqueles que lhes lhes
falam de espera
esperanças
nças alalém da Terra!”2
erra!”22A rai raiz não é simpl
simplesmente
esmente
uma basebase sobre a qual se fundaria
undaria o corpo corpo superior
superior do tron tronco,
co,
é a inve
inversão
rsão si
simultânea
multânea do do impulso
impulso para para o alto
alto e para o soi que
anima
anima a planta:
planta: elã
elã encarna “o senti
sentidodo da Terra”,
erra”, um amo amorr aoao
solo intrí
intrínsec
nsecoo a todo serser vegeta
vegetal.l. Já no DepD ntis pseudoaristo-
télico
télico se faziazia do ví
vínculo
nculo com a terra um dos elemento elementoss esseessenciais
nciais
da natureza
natureza das plantas:
plantas: “a planta
planta jaz
 jaz na te terra, está co como que
presa nela”;
nela”; é a razão
razão pela
pela qual
qual “não
não precisa dormidormir” r”.2
.23Mas issoisso
seria apenas
apenas uma parte da verdade e equiv equivaleria
aleria a ignorar
gnorar o que
a ra
raiz traz
traz a toda
toda planta:
planta: seu
seu cará
caráter
ter híbri
híbrido
do e anfíbi
nfíbio o. A raiz
raiz é
só a metade
metade do corpocorpo geminado
geminado da da plant
plantaa —a relarelaçã
çãoo com a
terra é apenas uma das das duas vidas
vidas de todotodo organi
rganismo
smo vegvegetal.
etal. E
só pode
pode serser compreend
compreendid ida
a em relaçã
relação o com
com sua outra utra met
metade: o
geo
geotropi
tropismo
smo é apenas
apenas uma das das direções
direções deum elã elã que tem outros
outros
objetivo
objetivoss além
além da fidelidade
delidade à Terra.
erra. É um um efefeito e um resultado
resultado
do heli
helio ocentrismo que def define a própria
própria essêessência
ncia da vida vegeta
vegetal.l.
Se é prec
preciso
iso se enfi
enfiar nono corpo
corpo mineral
mineral da Terra,
Terra, é para melh melho or
conectá-lo
conectá-lo ao fogo ogo que decide
decide inteiramente
inteiramente as as forma
formass e os mo movi
mentos da planta.
11

0 mais
ais prof
profun
undo
do são
são os astr
astros
os

Mal conseguimos
conseguimos imaginar seu seu ambi
ambiente.
ente. A luz quase náo
chega aqui.
qui. Os sons
sons e o ba
barulho do mundo superior sáo sáo um tre
mor surdo
surdo e contí
contínuo
nuo.. Quase
uase tudo que se se pass
passaa no alto
alto, ali
liás
ás,,
existe
existe e se traduz debaixo
debaixo da terra em em sismos
sismos e estremecimecimento
ntos.s.
 A água se infilfiltra, como todo líquido que provém do mundo de
cima
cima,, e, como
como tudotudo aqui,
aqui, se esf
esforça para descer
descer rumo ao centro.
Tudo está
está em contato
contato com tudo,
tudo, e uma lentalenta circulação
circulação das ma
ma
térias e dos sumos
sumos permit
permitee a todos
todos viver
viver bem além dos limit limites
es de
seus corpos. Tudo respira,
respira, mas de maneira difere diferente
nte do mundo
aéreo.
éreo. O sopro dos corpos,
corpos, aliás,
aliás, ná
náo precisa
precisa passar
passar por
por pulmões
—nem porpor órgã
órgãos: todo corpo é def definido
inido por
por se
seu sopro,
sopro, todo cor
cor
po é um porto aberto à circulação
circulação da matéri
matéria a - dentro e fora
fora de
si. O organismo
rganismo náo náo é mais
mais que a invençã
nvenção de uma maneira nova nova
de se mistu
misturar
rar com o mundo
mundo e de permiti
permitirr ao mundo se misturar
misturar
dentro de
dele. Respirar aqui embaix
embaixo o significa
significa dar a si mesm esmo um
corpo tentacul
tentacular,ar, capaz
capaz de abri
abrirr uma passa
passagem ali onde o cami
nho está barrado pela pedra,pedra, multi
multiplpliicar seus apêndi
apêndices
ces e seus
braços
braços para
para abarcar
abarcar o máxmáximo de terra possívelpossível,, expor-se
expor-se a elã
como a folha
lha ao céu.

EMANUELE C0CCIA  85
Mas se se as raízes sáo órgãos
órgãos ativotivoss da mist
mistura cósmica,
cósmica, náo é
apenas porque
porque colocolocam
cam em comunicação
comunicação os dif diferentes elemento
ementos s
da bio
biosf
sfeera pedoló
pedológica —o mundo subterrâ subterrâneneoo que habi
habitam
tam —
ou os outros
outros orgorgaanismos veg vegetais. Ao Ao contrário
contrário,, sua função é de
ordem cósmica
cósmica —seu—seu sopro impli mplica náonáo some
somentente as substâncias
substâncias
col
coloidais
idais a que aderem e a fauna que ali vive, vive, mas também
também as re re
lações entre a Terra e o soi. soi. “A plant
planta”,
a”, escrevia
escrevia um dos dos maioreioress
botânico
botânicos s do século
século passa
passado,
do, “desempenha
“desempenha o papel papel de mediador
mediador
entre o soi e o mundo animal. A planta, planta, ou
ou antes
antes,, seu
seu órgã
órgão mais
típi
típico
co,, o cloroplas
cloroplasto to,, é o elo
elo que une aativi tivida
dade
de de
de todo o mundo
orgâni
rgânicoco —tudo aquilaquilo a que chamachamamos mos vivida —ao centro de ener
gia de nosso sistema
sistema solasolar: essa
ssa é a funçã
função cósmica
cósmica da plant planta.”
a.”1
1
 A raiz é o que permite à planta implicar nessa mediação cósmica
a Terra em sua dim dimensão planeplanetári
tária. 
a.  Se elã gira fi fisicame
sicamentente aoao
redor
redor do Soi, é nas plantas plantas egraças
egraças à  às plant
plantas
as que essesse elo produz
produz
 vi
 vida, mamatéria que existe sempre em formas inéditas. As As plantas
são a transfigura
transfiguração ção metaf
metafísica
ísica da rota
rotação
ção do planeta
planeta aoao redor
redor do
Soi, a solei
soleira
ra que transfo
transforma um fenômeno enômeno puramente me mecâni
cânicoco
em acont
contecimento
ecimento metafísi tafísico
co.. E mamais: elas fazem o So Soi morar
morar
na Terra
erra: transforma
transformam o sopro sopro do Soi - sua energ energia,
ia, sua
sua luz,
seus raiosios —nos
—nos própri
próprio os corpos que habit habitam
am o plplaneta,
aneta, fazem da
carne
carne viva
viva de todos
todos os org organismo
anismos s te
terrestre
rrestress uma matéria
matéria solar.
solar.
Graça
raçass às plantas,
plantas, o Soi se tornatorna a pele daTerra, sua camada ma mais
superfic
superficiial, e a Terra se se torna
torna um astro que se se aliment
alimenta a de Soi,
se constrói
constrói com sua luz. luz. Ela
Elas metamorf
metamorfo osei
seiam a luz em substân
cia
cia orgânica
rgânica e fazem da vida um fato princi principalmente
palmente solar. “A
natureza atr atriibui
buiu a si si mesma
mesma a tarefa”,
tarefa”, escre
escreveu
veu Juli
ulius Mayer na
metade
metade do séculoséculo XIX, “de capturar
capturar em em pleno ar a luz que abun abun
da sobre a Terra e guardar guardar a ma mais móvel das força forças s após
após fixáixá-la
numa form
forma a sóli
sólida.
da. Para obter
obter esse fim, cobriu
cobriu a superf
superfíci
ície
e ter-
ter-
restre
restre com organismos
organismos que tomamtomam a luz sola solar em
em si e, util
utiliz
izando
ando
essa
ssa força,
orça, produzem
produzem uma soma soma cont
contíínua de dif
diferenças
erenças químicas.
químicas.
Ess
Esses organismos
rganismos são as as plantas. O mundo vegetalvegetal const
constiitui um
reser
reservatóri
vatório o em que os voláteis
voláteis raio
raios
s sol
sola
ares
res são habi
habillmente
mente fix
fixaa-
dos e depositados para todo todo uso.”2
uso.”2DDe certa
certa ma
maneira, por
por cacausa
das plantas, o heli
heliocent
ocentrismo
rismo se transf
transforma de problem
problema a erudito
e especulati
especulativovo em questão
questão de vida:
vida: por
por conta
conta delas,
delas, a vida é tão
tão
somente
somente a forma rma porpor excelência do heliocentri
heliocentrismo.
smo. Não é uma uma
questão
questão de opin
opinião
ião ou verda
verdade:
de: to
todo ser vivo
vivo é apenas
penas o efeito
efeito e a
express
xpressãão do helio
heliocentrismo,
centrismo, do fato de que tudo na Terra existe xiste
graça
raçass ao
ao Soi. A raiz permite
permite ao ao Soi —e à vida —penetrar até a
moela do planeta,
planeta, levar a inf
influênci
luênciaa do Soi
Soi até sua
suas cama
camadas ma mais
profunda
profundas, s, inf
infil
iltrar
trar o corpo
corpo metamorf
tamorfosea
oseadodo da estrela
estrela que
que nos
nos
engendra
engendra até o centro da Terra. erra.

“Houv
“Houve e um tempo em que a blas blasffêmia
êmia cont
contra
ra Deu
Deus s era a
maio
maiorr blasfêm
blasfêmia, ia, mas Deus
Deus está
está mort
mortoo e mort
mortos
os com
com ele todos
todos
os se
seus sac
sacril
rilég
égios.
ios. O mais terrív
terrível
el agora
agora é blasfem
blasfemarar cont
contrara a
Terra e situ
situarar ma
mais alalto que o senti
sentido
do da Terra as entranhas
entranhas do
inexplo
inexplorárável!”3Se
vel!”3Seria ria dif
difícil encontra
encontrarr palavra
palavrass que resum
resuma am, com
com
maio
maiorr prec
precisão,
isão, o espíri
espírito
to da nova religião que define
define o mundo
mundo
contempo
contemporâ râneo.
neo. O apego à Terra —em sua dimensão pl planetá-
ria e ambiental
ambiental —nã —não o é apenas
penas o fundamento
fundamento da maioria ria das
práticas
práticas e dasdas teori
teorias
as da deep ecolog
ology: é também
 também o espíri
espírito
to que
anima
anima a nova
nova polípolíti
tica
ca glo
global
bal que se
se delinei
delineiaa há algumas
lgumas décadas.das.
 A Te
Terrra é a única ins
única instânc
tânciia suprema, em nome da qual volt voltaa a ser
ser
possível
possível af
afirma
irmarr decisões
decisões universais,
universais, que nánáo concernem
concernem apenas
apenas a
uma naçã
naçãoo específi
específica ou a um povo, povo, mas ao gênero humano
humano em
sua totali
totalidade
dade —tanto no presente presente quanto no futuro.
futuro. Esse culto,
culto,

EMANUELE COCCIA  87
assim como a fid
fideli
elidade
dade à Terra invo
invocacada
da por
por Nietzsche,
Nietzsche, é bem
bem
menos novo que se imag magina:
ina: substi
substitui
tuirr a div
divindade
indade pessoa
ssoall das
reli
relig
giõe
iões anti
antiga
gas
s do Mediterrâneo
Mediterrâneo pelo planeplaneta
ta Terra significa,
significa,
mais
mais uma vez, esquecer
squecer o que há de literalment
teralmente e mais evidente,
idente,
claro,
claro, luminoso
luminoso:: o Soi.
oi. O helioce
heliocentrismo
ntrismo defdefine há muito tem
po a auto
autoco
consciênci
nsciência a declarada
declarada da
das ciências naturais;
naturais; no entanto,
entanto,
está longe
longe de ter marcado
marcado a consci
consciência
ência comum.
comum.
 Ape
 Apesar das numerosas celebrações e inúmeras declarações de
conve
conversão,
rsão, a filosof
losofia,
ia, assim
assim como nosso sesenso comum, pare parecece
nunca ter abandonado
bandonado a fé no geogeocentri
centrismo.
smo. Nunca fomos
fomos real
real
mente
mente heliocêntrico
heliocêntricos:s: o geo
geocentrismo
centrismo éa alma mais prof
profunda dos dos
sabe
sabere
res ocid
ocidentais.
entais.4
4A prova disso é a exclusão
xclusão que a astrolo
strolog gia
sofre
sofreuu desde o Renascimento
Renascimento:: a modernidade se se identif
identifico
icouu ao
ao
chamado
chamado da Terra
Terra e ao esquecimento dos astros,
astros, com
com a af afir
irma
ma
ção ainda
ainda ma
mais prof
profunda da Terra como o horizo
horizonte
nte def
definitiv
initivoo
de nossa
nossa existência
existência e de todo conhecime
conhecimento
nto.. Antes de tudo,
tudo, es-
tar-no-mundo é estar-na-
estar-na-TTerra, medir
medir tudo o que é e acontece
contece a
parti
partir de forma
formass e fig
figuras
uras própri
própria
as ao
ao planeta
planeta que se
se supõe dever
dever
nos abri
abriga
gar. A Terra se torna
torna assim o espa
espaço
ço métrico
métrico definitivo-.
a ciênci
ciência
a do lugar
lugar e do espaço
spaço se chama geo geometria, medida
medida da
Terra.
erra. A Terra é o lugar últi
último onde tudo deve deve fig
figurar.
urar. Só existe
aquil
aquilo que assum
assume e aformados elemento
elementos s presente
presentes
s nes
neste
te plane
planeta.
ta.
Essa
Essaobsessã
ssão geo
geométri
métrica
ca fica
fica ex
explíc
plícit
ita
a na fenomenol
fenomenolo ogia hus
serliana
serliana.. Num célebre fragragmento
mento em que tenta
tenta inverter
inverter os resul
resul
tados
tados de Copérnico
Copérnico,, Husserl
Husserl mostra como
como a Terra não não é nem
nem
pode ser
ser o objeto
objeto da exp
experiência
eriência por
por ser
ser sua estrutura fundame
fundamen n
tal: todo
todo corpo “está antes de tudo ref referido
erido ao chão de todos os
corpos-
corpos-chã
chãoos rela
relativ
tivos
os à Terra-
erra-chão”.
chão”.5A
5Antes
ntes de ser
ser um corpo, elã
é o fa
fato mesmo de que hajahaja um chão
chão, uma base
base,, aquilo
aquilo a parti
partir do
que sepode represe
 representar
ntar o mundo,
mundo, os corpos,
corpos, seuseu mov
movimento e se seu
repouso:
repouso: “A pró própri
priaa Terra,
erra, na forma
formaoriginári
riginária a de repre
represe
sentaç
ntaçãão,
náo se move
move nem está em repo repouso;
uso; é em relação a elã elã que mov
movi
mento e repouso ganham sentido.”6E o geocentrismo ocidental
parece
parece ter a ver com uma estranha nostal nostalgia
gia pelo
pelo mundo
mundo da raiz. iz.
 A Ter
Terra náo é e não pode ser um astro, deve antes de tudo ser o
chão: “Mas, para todos todos nós,
nós, a Terra é chão e não corpo em sen sen
tido pleno.”7É, aliás, graças à possib possibililid
idaade de considerar
considerar a Ter
ra como chão, como raiz raiz, orig
origem, base unive rsal, que é possível
universal, possível
afirmar
irmar a unidade da humani humanidade
dade.. Todo objetoobjeto da experiência
experiência
só pode serser “relati
“relativvo ao arco
arco Terra
Terra--chão, à ‘esfera
‘esfera--Terra’
erra’, a nós,
homens terrestre
terrestres,s, e a objetiv
objetivid
ida
ade se refrefere
ere à humanidade
humanidade uni uni
 ve
 versal”.8É exclusivamente porque “a Ter Terra é para todos a mesma
Terra, [porque
[porque]] sobre elã, nela,nela, acima dela dela reinam
reinam os mes mesmos
mos
corpos, ‘sobre elã’,
elã’, etc., os mesmos
esmos sujeito
sujeitos encar
encarnados,
nados, sujeito
sujeitoss
de carne que para todos e num sentido modificado são corpos”
que “a totali
totalidade
dade de nós, dos home homens, ns, dos ‘animais’
‘animais’ é, ness
nesse e sen
tido
tido,, terrestre”:9
terrestre”:9“N“Nã ão há mais
mais que uma humanidade
humanidade e que uma
Terra —a el elã pertencem todostodos os fra
fragm
gmento
entoss que estão
estão ou
ou sempre
sempre
estiv
estiveram
eram separados.
separados.””10
Continuamos a nos conceber pelo prisma de um modelo fal
samente radical, conticontinuamos
nuamos a pensapensar o ser ser vivo
vivo e sua cultura
cultura
a parti
partir de uma falsa imagemimagem das das raíz
raízes
es (poi
(poiss isol
isola
adas
das do resto).
resto).
Como
Co mo se,se, à força de pensar
pensar a raiz
raiz como
como razão,
razão, tivésse
tivéssemos
mos trans
formado a própri
própria a ra
razão e o pensamento
pensamento numa força força cega
cega de
enraiz
enraiza amento, na facu faculdade
ldade da construçã
construção o de um laço laço cósm
cósmicoico
com aTerra.
erra. Nesse
Nesse sentido,
sentido, a substitui
substituição
ção do modelo do sistema
radicular
radicularclássico
clássico pelo modelo do riz rizoma
oma nãonão representa
representa umaver
dadeira mudança
mudança de paradigma
paradigma:: o pensamento
pensamento cont contin
inua
ua sendo
sendo

EMANUELE COCCIA  89
o que nos permite
permite pensa
pensarr a Terra,
erra, e unicame
unicament ntee a Terra,
erra, como
chão e afirmar: “a Terra náo é um el elemento
emento entre os outros, outros, elã
reúne todo
todos s os elemento
elementos num num mesmo
mesmo enlace,
enlace, mas seserve serve de um
ou de outro
outro para
para desterrito
desterritorializ
rializar o territó
territóri
rioo”11. A fidelidade
idelidade à
Terra,
erra, o geo
geotropismo
tropismo extrem
xtremo o de nossa
nossacultur
cultura,a, sua vontade e sua sua
mania de “radicali
radicalidade”
dade” tem um preço enorme: signif significa
ica fa
fadar-se
r-se
à noit
noite,
e, escol
escolher
her pensa
pensar se sem soi
soi.. A filosof
ilosofia
ia parece
rece ter
ter escolhido
scolhido,,
faz alguns século
séculos,s, a via da escurid
escuridã ão.
O geocentrismo
eocentrismo é o engodo da falsa imanência: imanência: náo náo há Terra
autôno
utônomama.. A Terra é insepará
inseparáv vel do soi. Ir em em direção
direção à terra,
afundar-
afundar-sese em seu seioseio signif
significa
ica sempre
sempre se elevar em direçã direção
o ao
soi. Ess
Esse duplo tropismo
tropismo é o próprio sopro do do nosso mundo,
seu
seu dinam
dinamiismo primário
primário.. E ess esse mesmo smo tropi
tropismsmo o que anima
anima e
estrutura a vida das pla plantas e a exi
existência
stência dos astros:
astros: náo
náo há Terra
Terra
que não esteja, int intri
rinsecame
nsecament nte,
e, li
ligada
gada ao So Soi, não
não há Soi que
não
não esteja torna
tornando possíve
possível a anima
nimação ção superfici
superficia al e profunda
profunda da da
Terra. Ao
Ao reali
realism
smo o lunar
lunar e noturno
noturno da filo filosof
sofia
ia moderna e pós-
moderna seria
seria preciso
preciso opor
opor um novo heliocentrismo;
heliocentrismo; ou, ainda inda
melh
melho or, uma extrem
xtremiz iza
ação
ção da astrolo
strolog gia. Não se trata, ao menos menos
não
não simplesmente,
simplesmente, de a affirmar que os os astros nos inf influenci
luencia am, que
eles governam nossa vida, mas de aceitar aceitar isso acrescentand
acrescentando o que
nós també
também m inf
influenciamos
luenciamos os astros, pois pois a Terra,
erra, elã própria,
própria,
não
não passa
passa de um astro entre os outros, outros, e tudo o que vive vive sobre
elã (e em seu interi
interioor) é de naturez
natureza a astral. O que há é céu, por por
toda
toda parte,
parte, e aTerra é uma uma porçã
porção o dele, um estado de de agregação
parcial.

“No meio de tudo jaz o Soi.


oi. Quem
Q uem,, de fato, poderia
poderia colocá
colocá-
lo em outro lugar ou numa
numa posição
posição melh
melho or de onde ele
ele possa
possa
iluminar
uminar tudo de uma só vez?
vez? E ma
mais, ele foi
foi chama
chamado de luz ou
espíri
espírito
to ou go
governado
vernadorr do mundo.
mundo. Trismeg
Trismegististo
o o chama de deus deus
 vi
 visível, Só
Sófoc
focles de luz qu que tudo vê
vê. Co
Como se se estivesse sentado
no trono rég
régio o Soi reina sobre a famíliamília dos astros
astros que giram
giram
em torno dele. [...[...]] A Terra é fecundada
ecundada e concebida
concebida pelopelo Soi
através
através de um parto anual. Sob esta ordenação rdenação encont
encontraramos
mos
uma admirável simetria
simetria e um vínculo nculo de harmoni
harmonia a estável
stável
entre o mov
movimento e a grandeza ndeza dos orbe
orbes s que náonáo podem
podem se ser
encontra
ncontrados de outro modo modo”.1
”.12
Foi com ess
essa
as pal
palavras que Copérnico
Copérnico tentou
tentou rev revoluci
lucionar a
maneira como nos relacionam
relacionamo os com o mundo.
mundo. O que estava stava em
 jo
 jogo pa
para Copérnico ná náo er
era simplesmente a afir firmação da da cen-
tralidade
tralidade do Soi
Soi.. Pôr o SoiSoi no meio de tudo
tudo é levar a cabo
cabo vários
vários
deslocamentos cognitivos e metafísicos.
Postular
Postular que no no centro do Universo
Universo está
está o Soi signif
signific
ica,
a, em
primeiro lugar, unive
universali ovimento. A Terra tem necessida
rsalizar o movi ssida--
rar ao redo
de degirar  redorr do So Soi para poder
poder existir:
existir: toda
toda sua reali
realidade
dade
deve
deve ser compreendi
compreendida da e obse
observada
rvada a partir
partir dess
dessa
a fonte
onte inf
infin
init
ita
a
de luz e de energ
energia.
ia. O núcleo de nosso
nosso mundo
mundo nãonão é um ponto
estável
estável e fi
fixado para sempre,
sempre, é algo que tem a natureza de uma
efervescê
efervescênci
nciaa cont
contíínua
nua de energia e a que temos acess
acesso
o some
somente
nte
através
través do mov
movimento,
imento, de que
que o próprio
próprio Soi é a caus
causa
a. Tudo exis-
xis-
te graças
raças a essa fonte. Inversa
nversamente, nosso
nosso corpo,
corpo, os rochedos,
rochedos, as
pedra
pedras, os anianimais
mais são o ponto
ponto extre
xtremo
mo do céu.
céu. Nosso coraçã
coração
mundano
mundano é o Soi, um golf olfo cósmico
cósmico que produz e exala aquil
aquiloo de
que nossos
nossos corpos
corpos são a um só temtempo
po os capt
captadores,
adores, os arquiv
arquivos
os
e os espe
espelho
lhos.s. Comer
Comer já é reconhecer
reconhecer,, com nossos
nossos ato
atos,
s, a centrali
centrali-
dade do Soi e de sua energia,
energia, procurar
procurar sobre a Terra uma relação
relação
indi
indireta
reta com ele:ele: todo co
  composto orgânico
rgânico é, de maneira
maneira direta
direta
ou indi
indireta
reta,, o resultado
resultado da influência
influência da energ
energia
ia solar capturada
capturada

EMANUELE COCCIA  91
pelas
pelas pl
plantas etransfo
transformadaem massaorgâni rgânica,
ca, em matéri
matéria a viva
viva.
Cada vez que comemos,
comemos, tentam tentamo os compensar nossa incapaincapaci cidade
dade
de absorver
absorver imediatame
mediatament nte e ess
essa
a energi
energia que as plantas
plantas exexplo
ploram.
ram.
Noss
Nosso o corpo náo náo pass
passa a do
do arquivo
rquivo do que o Soi ofe oferece
rece à Terra.
erra.
 Afi
 Afirmar que a Te Terrra gira ao re redor do Soi signific fica, ta
também,
negar
negar a sepa
separa raçã
çãoo onto
ntológica ent entre
re o espa
espaço terrestre,
terrestre, humano,
humano,
e o espa
espaço celeste,
celeste, náo náo humano,
humano, e portanto
portanto transfo
transformar a pró
pria ideia de céu. O céu náo náo é ma
mais uma atmosf
tmosfera
era acident
acidentalal que
envolv
nvolve e o chão, é a única única substância
substância do univ
universo, a natureza
natureza de de
tudo o que exi existe.
ste. O céu náo é o que está está no alto
alto. O céu está em
toda
toda parte:
parte: é o espaço e a real realidade da mistura
mistura e do movimento
movimento,,
o horiz
horizont
ontee def
definit
initiv
ivoo a partir do qualqual tudo deve
deve se dese
desenha
nhar.r. Só
há céu, por
por toda
toda parte; e tudo, tudo, mesmo nosso planetaplaneta e o que el ele
alberga
alberga, náo passa de uma porção porção cond
condensada
ensada dessa
dessa matéria
matéria ce
leste
leste infin
infinit
ita
a e univer
universa sal.
l. Tudo o que ocorre é um acontecime
contecimento nto
cel
celeste,
este, tudo o que se se passa
passaé um feito
feito div
divino
ino. Deus
eus náo
náo está mais
alhures, ele coi
coincide
ncide com a rea realidade das fo forma
rmas e dos aciacidentes.
dentes.
 As
 As plantas fizfizeram da vida um devotamento perpétuo ao céu, ao
que aco
acontntece
ece aliali, sem deix
deixarem
arem de estar bem enraiza
enraizadas na terra.
Isso
sso quer diz
dizer que graça raças s às
às plantas
plantas a vida náo é um fa fato pura-
pura-
mente químico,
químico, mas também, e so sobretudo,
bretudo, astrológico.
 Afi
 Afirmar uma cont ontinuidade materialentr
material entre e a Terra e o resto
resto do
universo
universo significa
significa alt alter
era
ar a própria ideia de Terra. A Terraé corpo corpo
cel
celeste,
este, e tudo é céu céu nela.1
nela.13O mundo humano náo náo é aexceçã
exceção de
um univer
universoso náo humano
humano;; nossa existênci
existência,a, nossos gesto
estos,
s, noss
nossa a
cultu
cultura,
ra, nossa linguag
linguagem, em, nossas aparê
aparênci
nciaas são celestes de
celestes de ponta
ponta
a pont
ponta.a. Recon
Reconhecerhecer a naturezaastral
natureza astralda da Terra
Terra é fazer
fazer da astro
astrololo
gia - a ciência
ciência dos dos astros
astros —náo
—náo uma ciência
ciência loca
local,
l, mas a ciciência
global
obal e unive
universalpara
rsal para melho
melhor revirá-
revirá-lla: náo
náo se trata
trata mais
mais de com-
preender a domi
dominação
nação dos astros sobre sobre nós —seu
—seu governoerno —mas
de compree
compreender
nder o céu como espaço dos fluxo fluxos s e das
das inf
influências.
luências.
Náo apenas a biolo biologia,
gia, a geologia
logia e a teolo
teologia náo são mais que
ramos
ramos da astro
strologia,
logia, mas a astro strologia
logia se torna
torna por sua vez uma
ciência da conti
contingêngência,
ncia, da irregularidade,
irregularidade, do imprevi
imprevisto.sto. O céu
céu
náo
náo é o lug
lugar
ar do reto
retorno
rno do idêntico
idêntico..
O universali
universalismsmo o astrológ
strológico implic
implica a assim
ssim a destruição
destruição da
própri
própria a ideia
deia dede uma imanência
imanência absoluta
absoluta e a afirmação
irmação de al algo
como
como uma flutuaçã
lutuação inf infinit
inita
a em que todo corpo e todo todo ser
ser já não
sedeixa
deixa ancorar
ancorar em lugar algum, em que, de fato, to, não existe
existe mais
chão,
chão, base estável, ground. A
ground. A fonte últi última
ma de nossa
nossa existência
xistência é o
céu.
céu. A Terra e sua extensão
extensão não não são a base, se, o substrato universa
universal
de nossa
nossa existência,
existência, mas sim a superf superfíciície
ee ext
xtrem
rema, a, a tela últi
última
e menos substancial
substancial do univers universo o do rea
real: a prof
profundidade
undidade sã são os
astros;
stros; a Terra e o céu sã são a extensã
xtensão infi nfinita
nita de nossa pele. Essa Essa
destruição da ideiideia a tradi
tradicicio
onal do chão perm permit ite
e também
também superasuperar
o horizont
horizontee ordinário da ecol ecologia.
ogia. Desde sua origem, rigem, a ecolecologia
ogia
consi
considera
dera sempre e exclusi
exclusiv vamente
amente o ambient
ambiente e em termos
termos de ha
bitat,
bitat, de chão
chão que alberga
alberga e acolhecolhe:: elã fafaz do mundo
mundo a univer
univer
salizaçã
lização da
da ideia
deia de habitabi
habitabillidade. Reduz o grande grande espaespaço,
ço, o
univer
universoso do céu
céu a terra habitável.
habitável. E é por por causa
causa da concepção
concepção do
mundo como chão, chão, espa spaço de acolhcolhimento
imento,, habit
habitabil
abilid
idade
ade,, que
elã pode
pode co
considera
nsiderar a coa coabitaçã
bitação o dos seres vivo vivoss como conj conjun
un
to ordenado e
ordenado e normatizado. Reconhecer ou to tomar
mar consciência
consciência de
que a Terra é um um espaço
espaço astral,
stral, que elã não passa de uma porção
condensada
condensada do céu, é reconhecer que há inabitável, qu inabitável, que e o espa
ço nunca poderá
poderá ser habitado
habitado de maneiramaneira defidefiniti
nitivva.14A gente
atravessa,
travessa, penetra
penetra um espaço, spaço, se mistu
mistura ra ao mundo
mundo,, mas nunca nunca
poderá
poderá se estabe
estabelecer
lecer aí. Toda habitaçã
habitação tende a se tornar tornar inabi-
inabi-

EMANUELE COCCIA  93
tável,
tável, a ser
ser céu e náo
náo casa
casa.. É o que a rai
raiz dem
demoonstra - elã que
que a
lingua
linguage
gemm ordi
ordinári
nária
a consid
considera
era como o exemplo
exemplo mais
mais acabado
cabado de
habitaçã
habitação o: a rai
raiz é a extremidade de uma máquimáquina
na de conj
conjunção
unção
da Terra
Terra ao
ao céu, a astúcia
astúcia que permit
permitee transfo
transformar
rmar a Terra em em
astro celeste at
até em
em seu
seu centro.
centro.
Fazer
Fazer da Terra um corpo celeste
celeste é tornar
tornar novam
novamente
ente cont
contiin
gente o fa
fato de queelã represe
represent
ntaa nosso
nosso habitat.
habitat. Elã náo
náo é habitá
habitá
 ve
 vel por defin
finição, assim como a maioria dos astros. O cosmos não
é o habitável em si - não
não é um oikos—, é um um ouranos: a eco
ecolo
logia
gia é
uma recusa
recusa da uranolo
uranologia.
gia.
12

Flores

Fixar
Fixar--se na superfíc
superfíciie da Terra para melh melho or penetrar o ar ar e o
chão.
chão. Amarra
marrar-r-se
se a um ponto
ponto aleatório
tório para depo depoisis se expor
xpor e se
abrir
brir a tudo o que estáestá no mundo circundante,
circundante, sem sem distinção
distinção de
forma
rma ou de natureza.
natureza. Nunca se desl desloocar
car para
para melho
melhorr permiti
permitirr
ao mundo se engoengolfa
lfar em
em seu
seu seio.
io. Nunca
unca sese can
cansa
sarr de construi
construirr
canai
canais, abrir
abrir buraco
buracos s para que o mundo possa cair, cair, esco
escorre
rreggar,
se insi
nsinuar
nuar em si. Para seres res sésse
sésseis, o encont
encontro ro com
com o outro
outro —
indif
indifer
erentem
entemente
ente da quali
qualifficação
icação desse sse outro —nunca pode poderia
ria
ser
ser uma simples
simples questão de esperaespera e de acaso.
caso. Ali onde nenhumnenhum
movimento
movimento,, nenhuma
nenhuma ação ção, nenhuma
nenhuma escolhascolha são possíve
possíveis, en
contrar
contrar alguém
alguém ou ou alalgo é possív
possíve el exclusiv
xclusivamamenteente atravé
atravéss da me
me
tamorfo
rfose de si. E sósó no interio
nteriorr de si que o ser ser se
sem momovimento
pode
pode encontrar
encontrar o mundo.
mundo. Não há geograf rafia, não
não há espaço
spaço int
inter
er
mediário que possa
possa acolh
colher
er o corpo
corpo de um e de outro e tornar tornar
possíve
possível o encontro
encontro.. Todo ser ser sé
séssil
ssil deve
deve sese fazer mundo para o
mundo,
mundo, const
construi
ruirr em sisi o lugar
ugar para
paradodoxal
xal de um meio para o
mundo. Além disso, diante diante de um um ser séss
séssil
il,, o mundo não não se dá
a conhece
conhecer como uma multi multipli
plicidade
cidade de substâncias sepa separarada
dass
por contorno
contornoss que poderíam
poderíamos os toca
tocarr ou percorrer
percorrer co com o oIho,
oIho,
há apena
apenass uma substânci
substância a de intensi
ntensidade
dade e densidade
densidade variáveis.
variáveis.
Distinguir significa filtrar, destilar esse fluxo contínuo da essên
cia
cia das
das coisas,
coisas, abreviá-
breviá-llo numa imagem imagem.. Perceber  o mundo em
profundidade é ser tocado e penetrado a ponto de ser alterado,
modif
modificado porpor ele.
ele. Para um ser ser séssil,
séssil, conhece
conhecerr o mundo coi coin
cide
cide com uma variação
variação de sua própri
própria a fo
forma—uma metam metamorf orfoose
provo
provocada
cada pelo exterio
exterior.r. É isto
isto o que chamamos
chamamos de sexo: sexo: a forma
suprema
suprema da sensibi
sensibilidade, aquela que permite permite conceber
conceber o outro
outro
no mesm
mesmo o mome
momento nto em que o outro modif modifica ica nosso modo
modo de
ser
ser e nos obri
obriga
ga a ir, a mudar, a devir vir outro. A flor é o apêndice
que permite
permite às plantas
plantas —ou,
—ou, maismais precisam
precisamente ente às às plantas
plantas mamais
evol
evoluídas,
uídas, as angio
angiosperma
spermass —l —levar
evar a cabo
cabo essesse processo
processo de abso
absorr
ção
ção e de
de captura
captura do mundo
mundo. Elã é um atra atrattor cósmico, um corpo
efêmero,
mero, instável, que permitepermite perce
percebe berr —isto é, absorver
bsorver - o
mundo e filtrar
ltrar suas fo form
rma as mma ais precio
preciosa sass para serser mo
modif
dificado
por
por el
elas, para prolo
prolonga
ngarr seu
seu estar-
estar-aíaí lá ao
aonde sua forma náo náo po
po
deria conduzi-lo.1
Elã é, antes de tudo
tudo, um atrator. em vez vez de ir ir em direção
direção ao
mundo,
mundo, atrai o mundo para si. Graça raçass às flo
flore
res,
s, a vida vegetaletal
se torna
torna o luga
lugarr de uma explosáo
explosáo inédinédiita de cores
cores e de forma
formas, s, e
de conquista
conquista do domín
domínio io das
das apa
aparêrências
ncias.. Na flor,
flor, sexo,
sexo, forma
ormas
e aparênc
aparênciias sese conf
confund
undem.em. Assi
Assim m também as as foformas
rmas e as apa
apa
rências
rências sã
são libera
liberadas
das de toda
toda lóg
lógica
ica expre
expressiva
ssiva ou identi
dentitária:
tária: elas
náo
náo devem
devem expre
expressa
ssarr uma verdade
verdade ind indiividual, nem defin definiir uma
natureza nem
nem comuni
comunicar car uma essênc
essênciia. “O modo de estrut estrutura
ura
da planta
planta tem também algo de puramente demo demonstrati
nstrativvo [e] náo
náo
tem nenhuma relação com sua utilidade.”2As formas e as apa
rências
rências náo
náo devem
devem comuni
comunicar car senti
sentidodo ou um conteúdoconteúdo,, devem
devem
pôr
pôr em comunicaçã
comunicação o sere
seres s difere
diferentes
ntes —difere
—diferentes
ntes náonáo apenas
penas em
número (o macho macho e a fêmea da mesma mesma espécie),
espécie), mas na na espécie,
espécie,
no reino
reino,, no domínio
domínio onto ontoló lóggico (planta
(plantas s com insetos,
insetos, cachor
cachor
ros, homens...).
homens...). Na flor, a form forma a é o laborató
laboratóriorio da conjunçã
conjunção, o, o
espa
espaçoço da mistu
misturara do díspa
díspar.
Entre os modos odos de multip
multipli licaçã
cação o de si, a reproduçã
reprodução o sexua
sexuall é
aquele que transftransforma
orma um proceprocess sso o de divisão
divisão e multip
multipli licaçã
cação o de
um só indi indiv víduo
íduo num process
processo o coletiv
coletivo o de invençã
invenção e variaçãvariação
de form
forma as. Na flor,
flor, a reproduçã
reprodução o deixa de ser instrumento
instrumento do
narcisismo
narcisismo indi indivvidual ou ou espe
específ
cífico
ico papara se tornar
tornar uma uma ecolecologia
ogia
da condensaçã
condensação o e da mistura
mistura,, já já que
que o indi
indiv
víduo
íduo fa faz  mundo
 mundo e o
mundo inteiro
inteiro dá à luz o novo indiví indivíduo.
duo. A rela
relaçã
ção o entre indiví
indiví
duos
duos da mesma espécie deve pas passar
sar através
através da relação co com m outros
outros
indiv
indivíduo
íduos s de outros
outros reino
reinos.s. Não apenas nas náo
náo há nada de priva
do ouou de oculto culto no ato sexual (é o que se expressa expressa no conceito
conceito
de fane
faneróga
rógamo)
mo) como também, para consumar consumar um um atoato sexual,
sexual, é
preciso
preciso passa
passar pelo mundo:
mundo: o sexo sexo é o que há de m ma ais mundano
mundano
e cósmico.
cósmico. O encont encontro ro com
com o outro é sempre sempre necessa
necessariamente
riamente
união com o mundo mundo, em sua divers diversidade
idade de formas, de estatu
to, de substância.
substância. Impossível fec fechahar-r-se
se numa identid
identidadeade,, seja dede
gênero, seja de espécie, spécie, seja de reino reino.. O sexo
sexo é, aliás,
aliás, a práti
prática
ca
originária de descontração da identidade.
Nesse
Nesse sentido
sentido, a pres
presença
ença e a importânci
importância a bio
biológica
lógica e ecoló
coló
gica das
das flore
floress torna
tornam m imimpossível qualquer discurso discurso que li limite
mite a
função cósmica
cósmica das das plantas
plantas a uma simples simples questão
questão de produçãprodução o
de energia ou de transfo transformação
rmação de energia em massa. A esco esco
lha evo
evoluti
lutivava da via
via flora
florall é a escol
escolha ha do primado da forma forma e de
suas variações sobre sobre todo
todo o resto.3
resto.3A A cosmol
cosmolo ogia é sempre uma
cosméti
cosmética ca,, e só pode
pode se se const
constititui
uirr atra
através
vés de uma
uma plurali
pluralidade
dade de

EMANUELE COCOA 
form
rmaas:4o equil
equilíbrio
brio e os fluxos
fluxos de energia
energia náonáo bastam
bastam para
para cons
tit
tituir
uir um cosmos. A misturamistura —de queo sexo sexo é talvez a fo forma mais
mais
univer
universasall para
para o ser vivo
vivo —é sempre
sempre uma uma força
força dede multipl
multipliicação
cação
e de variação das formas rmas e não um um mecanismo
mecanismo para sua redução. redução.
Elã
Elã é o instrume
instrumento nto ativotivo da mistura:
mistura: todo encontro e toda
união com outros indi indivvíduos
íduos se se fazem por meio meio deldela. Mas
Mas uma
flor não
não é, propri
propriameamentntee falando,
alando, um órgão: órgão: elã
elã é um agagrega
regado de
dife
diferentes
rentes órgã
órgãos modif
modificado
icadoss para
para torna
tornar possível a reproduçã
reprodução o.
Há um víncul
vínculo o prof
profundo entre o aspe aspecto
cto efêm
efême ero e instável dessa
dessa
formação e o da superação do horizonte propriamente “orgâni
co”
co”. Enquanto
Enquanto espa espaçoço de elaboraçã
elaboração o, de produçã
produção o e de engen
engen
dramento de novas identidades individuais e específicas, a flor
é um dispositivo que inverte a lógica do organismo individual:
elã é o últi
último
mo limiar
miar emem que o indi indivvíduo e a espécie
spécie se abrem
brem
aos possíveis da mutação,
mutação, da transf transformaçã
rmação o, da morte. No seio seio
da flor,
flor, a total
totaliidade do org organismo
anismo e a totalitotalidade
dade da espécie
espécie são
a um só só tempo
tempo decompostas
decompostas e recomposta
recompostas através
através do proces
so meiótico. As flores são por isso um lugar fora da totalidade,
para além do todo todoss por
por um. É o que se se expressa também
também em seu seu
número: enquanto
enquanto os ani animais
mais superio
superioresres dispõ
dispõemem de órgãos
órgãos re
produto
produtoresres estáveis
estáveis e único
únicos, s, a planta
planta constró
constróii seus
seus apêndices de
reprodução em massa inumerável e logo logo se desf
desfaaz deles.
deles. Por
Por causa
causa
desse
desse excesso
xcesso —que,
—que, por por sua vez, causa causa outro:
outro: o das legiõlegiões
es de
poliniz
poliniza adores
dores (animados
(animados ou inanima inanimados) dos) - , seria
seria difíci
difícill reduzir
reduzir
o sexo
sexo veg
vegetal
etal a uma simpl
simples es estratégia
estratégia de dupli
duplicação
cação de si. MasMas
há outros
outros eleme
elementontoss ai
ainda
nda que impedem de ver no instrumento instrumento
princi
principal
pal da repro
reproduçã
dução o vevegetal umasimplessimples emaemanaçã
nação o subjetiva
subjetiva.
Os estoicos
stoicos imagi
imaginavam que, que, imedi
imediatame
atament nte
e após o nascimento
nascimento,,
todo
todo ser
ser vivo
vivo percebe
percebe a si mesmo mesmo e, com com base
base nessa
nessa percepção,
percepção,

10 0 A V I D A d a s p l a n t a s : u m a m e t a f í s i c a d a m is
is t u r a
se apropri
apropria a de si,
si, se acostuma
acostuma a si si. Chamavam
Chamavam esse esse processo
processo de
apropriação
apropriação e de familiari
amiliarizzação
ação de si:si: oikeiosis —um devi devirrpróprio,
próprio,
vivo. “D
seu, do ser vivo.  “Deve-se
ve-se saber
saber””, escre
escrevivia
a Hiérocl
Hiérocles,
es, “que
“que um ani ani
mal, desde
desde que nasce,
nasce, percebe
percebe a sisi mesmo
mesmo”5e ”5e “uma
“uma vez que rece rece
beu a primeira
primeira perce
percepçãpçãoo de si, torna
torna--se imediatame
mediatament nte
e famili
amiliar
a si mesm
mesmo o e a sua própria
própria estrut
estrutura”.6
ura”.6A A flor
lor mostra com gra grande
nde
frequência
requência um mecanismo
mecanismo inve inverso: o da da desapro
desapropriaçã
priaçãoo de si, do
devir estranho
estranho a si mesmo. É o que acontece contece co com a fertili
rtilizaçã
zação o:
a maiori
maioria a das
das flores
flores herma
hermaffroditas
roditas dese
desenvo
nvolvlve
e um sistema de au- au-
toimuni
toimunizzação
ação para
para evitar
evitar a autofertil
autofertiliização
ação, uma def defesa
esa contra
contra si
mesma
mesmass que lhes permite
permite melho
melhor se abrir
abrir aoao mun
mundo do..7
Se uma flor
flor não pode
pode ser
ser considerada
consideradacomo um simples simples órgã
órgão
é princi
principal
palmente
mente porque
porque elã é o lugalugarr da produçã
produção o do org
organismo
anismo
futuro e, portanto
portanto,, da total
totaliidade dos órgãórgãos de que um corpo corpo se
compõe. Repetindo ad nause nauseam que
 que os seres
seres viv
vivos são
são seres
seres orgâ-
nicos, frequentem
requentemente ente se
se esquece
squece que todo todo organi
organismo
smo participa
participa
também
também de um horizo horizonte metaorgâ
metaorgâni nico
co,, aquel
aquele que permite
permite a
construção de todos os órgãos de que ele se compõe. A flor (junto
com
com a semente)
semente) é, desse
desse pont
ponto o de vista,
vista, o órgão
órgão dos órgãos,
órgãos, nãonão
apenas porque instala o canteiro de obras originário a partir do
qual a construção org orgânica
ânica é concebida
concebida e executada,
executada, comocomo tamtam
bém porque, para para fazer isso,
isso, elã deve
deve reduzir a identi
identidade
dade atual
atual
do org
organismo
anismo a um simples
simples código,
código, um esboço
esboço abrev
abreviado e re-
manej
manejado, reduzi
reduzidodo à metade
metade,, uma imagem
imagem ativaativa que contém
contém o
conjunto dos procedimentos técnicos e materiais necessários para
produz
produzirir outros
outros indi
indivvíduo
íduos.
s. Elã
Elã é em si si a expre
expressã
ssão perfeit
perfeita a da
coinci
coincidência
dência abso
absoluta entre vida vida e técnica,
técnica, matéria
matéria e imag
imagina
inação
ção,
espírito e extensão.

EMANUELE COCCIA  101


13
 A razão é o sexo

Por
Por sécu
século
los,
s, as
as plantas fo
foram
ram considera
consideradas co
como o lugalugarr onde
a matéria
matéria estava
estava animada
animada porpor uma espécie
espécie de imagin
maginaçã açãoo trans-
cendental: mais
mais que de uma faculdade
faculdade pessoal,
pessoal, capa
capaz z de dar
dar for-
for-
ma à reali
realidade
dade impalp
mpalpá ável do psiquismo,
psiquismo, estar
estaríam
íamoos diante
diante de
uma potência
potência elelástica
stica que mo
modelaria imediatame
imediatament nte
e a matéria
matéria do
mundo.
mundo. A “alma vegetativ
vegetativa”
a” náo
náo seria
seria uma vida sem fa faculdade
imaginativ
imaginativa, mas a vida cuja ima imag ginaç
inação
ão produz efeitos
itos sobre a
totali
totalidade
dade do corpo
corpo do org
orgaanismo —a ponto
ponto de lhe
lhe dar
dar fo
forma—e
cuja
cuja matéri
matériaa é um sonho sem sem coconsciência,
nsciência, uma fantasia
fantasia que náo
náo
precisa de órgã
órgãos ou de sujeito
sujeitoss para
para se consuma
consumar.r.
Toda planta
planta pare
parece
ce inv
inventar e abrir um plano có cósm
smico
ico onde
náo
náo há
há oposição
oposição entre matéri
matéria
a e fantasia, imag
imaginaçã
inação
o e desenvol
desenvol--
 vi
 vimento de
de si. A ideia de uma esfera de coincidência absoluta
entre corpo e conhecimento
conhecimento,, entre imag
imagem e matéria,
matéria, nunca
nunca foi
estranha
estranha à bio
biolog
logia. De fato,
to, a noção de gene é sua formulação
rmulação
moderna
moderna.1E
.1Elã
lã era muito difundi
difundida
da na filosof
ilosofia
ia e na medici
medicina
na do
do
Renascimento.
Renascimento. Em sua forma mais radi radical,
cal, inspi
inspiro
rou
u as reflexões
lexões
de William Harvey sobre
sobre a geração do ser vivo
vivo,, assim como as de
 Jan
 Jan Marek Marci de Kro Kronland2ou de Peder Soerensen3sobre os
semina e as de Franci Francis s Gl
Glisson
isson sobre a percepção
percepção naturnatural.al.44Para
expressa
expressarr issoisso por
por meio
meio de uma analogia
analogia relativ
relativamente
amente comum,
comum,
trata-se
trata-se de pensar
pensar o processo
processo de engendramento
engendramento dos seres seres vivos
vivos
(a concepçã
concepção do ser vivo vivo que ocorre no útero, a concept ptiio ute
uteri)
ri)
como perfeitame
perfeitamente nte isomorf
isomorfo o à maneira como o cére cérebro
bro opera
(iconcept brt)-. a matéria do
ptiio cerebrt)- do mundo se torna torna na planta
planta (ou(ou na
 vi
 vida vegetativa de todo ser vivo) um um cérebro, on onde opera como
tal.
al.5Em outras palavras, ras, há
há um cére cérebro
bro material e não não nervoso,
nervoso,
um espíri
espírito
to imanente à matéria
matéria orgâni
orgânicaca enquant
enquanto o tal. Por meiomeio
da vida, a matéri
matéria a pode sese tornar
tornar espírito
espírito —começa
—começando ndo a viver.
viver. A
mani
maniffestação
estação maimais evevidente
idente dessa
dessa forma elementar
elementar de “cerebrali
“cerebrali--
dade” é encarnada pela pela semente.
semente. As operações de que a semente semente
é capaz só se deix deixam explexplicar sese apressupomos equi equipad
pada a de uma
forma de sabe saber, um conheci
conhecimento
mento,, um progra
programa para para a ação,ção,
umpattern que não não existe
existe à maneira
maneira da consci
consciênci
ência,a, mas que lhe
permite
permite realiza izar tudo o que faz faz sem erros.6
erros.6S Se no homem
homem ou no
animal o conhecimento
conhecimento é um um fa fato acidental
acidental e efêmer
efêmero, o, na sem
semen
en
te (e sese poderia
poderia diz dizer
er no
no códig
código genéti
genético)
co) o saber
saber coin
coincicide
de com
com
a essênc
essência,
ia, a vida, a potênc
potência ia e a própri
própria a ação.7O
.7 Os genes são os
cére
cérebros
bros da matéri
matéria,a, seu
seu espírito
espírito.. Se um grã grãoo pode ser consi
considera
dera
do como
como um cérebrocérebro é porque
porque esteeste é uma forma de sem semente.
ente. O
interesse dessa
dessas especulações analó analógicas
gicas resid
residee na possi
possibibillidade
idade de
chegar
chegar a uma defini inição não anatômi
anatômica ca do cérebro:
cérebro: o cérebro
cérebro nãonão
é um órgão
órgão humano
humano,, não é sequer um órgão, mas um segme segment ntoo
da matéri
matéria a que detém saber e conhecime
conhecimento nto.. Trata-
rata-se,
se, no fundo,
de ampl
ampliiar o senti
sentido
do das
das noções
noções de saber
saber e depensamento
pensamento,, numa
direçã
direção oposta
oposta à do aristotelism
aristotelismo. o. Não fa fazer
zer do intelec
intelectoto um ór
gão separa
separado do e sim fa fazê-lo
zê-lo coi
coincidi
ncidirr co
com a matéri
matéria. a.

EMANUELE COCCIA  103


Francis Gli
Gliss
sson
on foi o prime
primeiro
iro a formula
formularr essessa
a hipótes
hipótese e da
manei
maneira ra mais radi
radical,
cal, a ponto
ponto de postular
postular a animação
animação de todo o
unive
universo. Segundo Gli lisson,
sson, a própri
própria a matéri
matéria a deve
deve ser
ser defi
definida
nida a
partir
partir de uma espécie
spécie de afetivid
etividaade natural (perceptio ptio naturali
naturalis)
e origin
riginária,
ária, separada
separada e dif diferente da sensa
sensação
ção ou
ou da exp
experiênci
eriência,
a,
pois
pois incapa
incapaz de erro. Essa afetivid etividaade radical é a ação ção imediata
mediata
da vida substancial
substancial (immediat diatam
am acti
actione
onem vitavitae stantialiis). O
esubstantial
que a matéri
matéria a percebe
percebe é, portanto
portanto,, a forma do própripróprio o ser vivo
vivo..
O exempl
exemplo o dessa
dessasensibi
sensibillidade
idade elementar
elementar é o de um grão rão de trigo
capa
capaz z de perceber
perceber a forma da plant plantaa que se desenvol
senvolverá a part
partir
ir
dele.8
dele.8CoComo
mo se, graça
raçass à semente,
semente, o serser vivo
vivo conseg
conseguisse
uisse perceber
perceber
a si mesmo. Nesse
Nesse sentido
sentido,, a imagin
maginaçãação o não defin
definee um espaço
de so
soberania: nãonão é possív
possíve el se desvi
desviaar do objobjeto
eto que el elã con
con
templa, a percepç
percepçã ão natural é uma uma afetivid
etivida ade sem soberania.9A
forma do orga
organinismo
smo que é objeto bjeto de percepçã
percepção não não se apresenta
presenta
na indif
indiferença
erença da escolha
scolha ou do jul julga
gamento:
mento: a perce
percepçã
pçãoo natural
natural
não
não escolhe seus
seus objetos,
objetos, não
não delibera
delibera. Na imanência
imanência da semesemente,
nte,
toda
toda forma deixdeixa de ser um fa fato estético
estético ou material e se torna torna
o testemunho
testemunho de um psiquismo psiquismo subterrâneo, de uma psicol psicologia
inconsciente
inconsciente e material.
material. Onde há uma forma, há há um espíri
espírito
to que
estrutura a matéria;
matéria; vavale diz
dizer que a mamatéria
téria exi
existe
ste evive
vive enquan
enquan
to espírito.
spírito. A vida vegeta
vegetall nunca
nunca é um um fa fato puramente
puramente bioló
biológico:
ico:
elã é o luga
lugarr de indif
indiferença
erença entre o biobiológlógico e o cultural,
cultural, o ma
terial e o cul
cultural,
tural, o logos
logos e a extensã
extensão.
“Se quisermos
quisermos compara
compararr a flor —para além da relação
relação sexual
sexual
—com um órgão no animal”
animal”,, escre
escrevi
via
a Lore
Lorenz
nz Oken
Oken em
em seseu mo
numental Man
 Manual defilo “é só co
ilosofia natural, “é com o órgão nervo
so ma
mais impo
importante
rtante que podemos fa fazê-lo
zê-lo.. A flor
lor é o cére
cérebro
bro das
das
plantas,
plantas, o que correspon
corresponde
de à luz,
luz, que perma
permanece
nece aqui no plano
plano
do sexo. Pode-
Pode-se se dizer
dizer que o que
que é sexo na planta
planta é cérebr
cérebro o para
o animal,
animal, ou que o cére cérebro
bro é o se
sexo do animal
animal.”.”1
10A opinião
pinião de
Oken, discípul
discípulo o genial de Schell
Schellin
ingg e de Goethe, estáestá long
longe e de
de
ser
ser parado
paradoxal
xal;; pode-
pode-sese dizer
dizer que éapenas ageneraliz
neralização e a radi
radi
caliz
calização da
da anti
antiga tese estoi
estoica segundo a qual a razão {Lo Logos) t
) tem
em
a forma
forma da semente.
mente. Pensar a razão como semente semente permiti
permitia a libe-
libe-
rá-
rá-la da silhueta
silhueta humana e transformá
transformá-la em em fa
faculdade cósmica e
cósmica e
natural (que existexiste no mundo físico e nã não no corpo do homem,homem,
e que coinc
coincididee com
com o curso natural
natural das coisa
coisas) de mo
modelagem
delagem da
matéri
matéria:a: a ra
razão é o que dá fo forma a tudo
tudo o que existe; seguindo
regras
ras preestabelecida
preestabelecidas, elã é o que go governa o mundo
mundo e seu devir devir
do interior.
rior. Pensar a razão zão como
como floflorr —ou,
—ou, inversa
nversamente,
mente, pensa
pensarr
a flor
lor como forma paradigmática
paradigmática de existênci
existênciaa da ra
razão
zão - leva a
conceber
conceber esta como como a faculd
faculdade
ade cósmica
cósmica da variaçã
variação das
das fo
forma
rmas.
O pensamento,
pensamento, assim, ssim, não
não é mais a força que dá ao real uma
identid
identidade
ade que
que determina o destino de uma vez por toda todas,s, mas,
ao contrár
contrárioio,, o ponto
ponto de encontro com o resto do cosmos, cosmos, o
espaço metaf
metafísiísico
co onde eleele próprio
próprio se mistura
mistura com o mundo e
se deixa
deixa afetar
etar pela mistura,
mistura, a força de desvi
desvio
o que transfo
transforma
a identi
identidade
dade ma
mais prof
profunda de um seser. A razão
zão - a flor do cos
mos —é uma força de multip multiplilica
caçã
ção
o do mundo.
mundo. Nunca resti restitui
tui
o existente
existente a si mesmo
mesmo, a sua unidade
unidade numérica, a sua histó
história,
ria, a
sua genea
enealog
logia, antes multi
multipl
pliica os corpos, renov
renovaa o possível,
possível, faz
faz
tábul
tábula rasa
rasa do passa
passado, abre o espaespaço a um futuro
futuro inco
inconcebív
ncebível.
el.
 A razão-fl-flor, finalrnente, não reconduz o múltiplo da experiência
a um eu eu único
único, não
não reduz
reduz a difere
diferença
nça de opini
pinião
ão à unici
unicidade
dade dede
um sujsujeito;
eito; elã multi
multipl
pliica e difere
diferencia
ncia os sujeitos,
sujeitos, torna
torna as expe
riências
riências incompa
incomparáveis
ráveis e incompossí
incompossíveiveis.
s. A razão não
não é mais a
reali
lida
dade
de do idênti
idêntico
co,, do imutável
imutável,, do mesmo;
mesmo; é a força e a estru
estru

EMANUELE COCCIA  105


tura
tura que obri
obrigaga todas
todas as coisa
coisas s a semistu
misturarem
rarem a seus
seus semelhant
semelhantes es
pela via
via do dessemelhante,
dessemelhante, para mudar mudar seu rosto:
rosto: é a força que
deixa
deixa ao mundo
mundo e aos encontro
encontros s casua
casuais o cui
cuidado
dado de rede
redesenha
senharr
do int
interio
eriorr o rosto de seus compone
componentes.
ntes.
 A rarazão é umaflor lor. ná
 náo foi
foi preciso espera
esperar o homem,
homem, nem nem os
animais superiores,
superiores, para que a força técnica técnica de mo modelagem
delagem da
matéria se tornas
tornasse
se uma faculdade
faculdade indi
indiv vidual. Foram as planta
plantas s
que domara
domaram m essa
essa força para fazê-lazê-la vibrar no próprio
próprio ritmo
ritmo da
 vi
 vida e de suas gerações. Foi graças a elas que avida se fez o espaço
por
por exexcelência
celência da rarazão; é pelas
pelas plantas que mundo e vida coin coin
cidem
cidem semsem resto.
 A razão é umaflor lor: poderíamos
 poderíamos expressa
xpressar essa
ssa equivalênc
equivalênciia di
di
zendo que tudo o que é racio cional é sexua
sexual e tudo o que que é sexual
sexual é
raci
racioonal. A racional
racionaliidade é uma questão stão de forma
formas,s, mas a forma
ésempre
sempre o resultado
resultado dada agitaçã
itaçãoo de uma
uma mistura
mistura que produz
produz uma
 va
 variação, uma mudança. In Inversamente, a sexualidade não é mais
a esfe
sfera mórbi
mórbida da do infinfrarra
rarracio
cional,
nal, o luga
lugarr dos afafetos turvos e
nebuloso
nebulosos. s. E aestrutura e o conj conjunt
untoo dos encont
encontros
ros com o munmun
do que permitem
permitem a cada coisa coisa sese deixar toca
tocarr por
por outra,
outra, prog
progre
dir
dir em
em sua
sua evoluçã
evolução,o, se reinventa
reinventar, r, torna
tornar-se
r-se outra no corpo
corpo da
seme
semelhança
hança.. A sexuali
sexualidade
dade nãonão é um fato puramente
puramente bio biológ
lógico,
ico,
um elelã da vida enquant
enquantoo tal, mas um movime
movimento do cosmos em  em
sua totali
totalidade:
dade: não
não é uma técnica
técnica melho
melhora
rada
da de reproduçã
reprodução o do
ser vivo
vivo,, mas a evevidência
dência de que a vida
vida não é senã
senão
o o process
processo o
através do qual
qual o mundo
mundo pode
pode prolo
prolongar e renovar
renovar sua existênci
existênciaa
unicam
unicamente
ente reno
renovando
vando e inv
inventando
entando novas fórmulas
fórmulas de mist
mistura
ura..
Na sex
sexualidade,
ualidade, os sere
seres
s vivo
vivoss se fazem agentes
ntes de mesti
mestiçag
çagemem
cósmic
cósmica a, e a mist
mistura
ura se torn
tornaa um meio de de renovaçã
renovação dos sere
seres
se
das identid
identidade
ades.
s.
 A ra lor. a razão
razão é umaflor razão náo é nem nunc
nunca
a poderá
poderá ser
ser um
órgão
órgão de foform
rma as bem defdefini
inidas,
das, estáveis.
stáveis. É uma corpora
corporaçã
çãoo de
órgão
órgãos, uma
uma est estrut
rutura
ura de apêndice,
apêndice, que
que recolo
recoloca em discussão
discussão
o org
orgaanismo inteiro
inteiro e sua lóglógica. Elã é, princi
principalmente,
palmente, uma es-
trutu
trutura
ra ef
efêmer
êmera a, sazo
sazona
nall, cuj
cuja a existência
existência depende
depende do clim
clima,
a, da
atmosfer
tmosfera,
a, do mundo em que se está. stá. É risco, invenção,
invenção, experi-
mentação.
 A flor é a fo forma paparadigmática da da raracionalidade: pensar é
sempre se impl
mplicar na na esfera
esfera das
das aparênc
aparênciias, náo para
para expressar
expressar
sua interio
nteriori
ridade
dade oculta,
oculta, nem para falar, diz dizer alguma coisa
coisa,, mas
para pôr
pôr em comunic
comunicaçã açãoo sere
seress dife
diferentes.
rentes. A razão
razão não
não é mamais
que essa
essa plural
pluraliidade das estrut
estruturas
uras de atatração
ração cósmicas
cósmicas que per-
mitem
mitem aos
aos sere
seress perceber
perceber e absorver
bsorver o mund
mundo o, e ao
ao mundo
mundo estar
estar
inteiramente
nteiramente em em todos
todos os orgarganismos
nismos que o habitam.
habitam.

107
EPÍLOGO
14

Da autotrofia especulativa

Há algum tempo, na república república das ciências, reina uma eti eti
queta muito
muito severa
severa: essa regra de ouro náo náo escrita
escrita impõe
impõe uma, e
apenas uma, disci
discipl
pliina apro
apropri
priada
ada para cada objeto de conheci
conheci
mento
mento e, invinversam
ersamente
ente,, afirma queque cada disci
discipl
pliina tem um nú
mero definido e limitado de objetos objetos e de ques
questõtões
es que convém
conhecer.
conhecer. Como
Como toda
toda formarma de disci
discipl
pliina, essa
ssa etiqueta
etiqueta també
também m
tem uma natureza
natureza e, sobretudo, uma fin finali
alidade
dade especificam
specificamente
ente
moraise náonáo gnoseoló
gnoseológicas:cas: serve para limi
limitar
tar a vontade
vontade de saber
saber,,
castigar seus
seus excessos, refreá
refreá-los
los náo do exterio
exterior,
r, mas dodo int
interio
eriorr
do sujeito.
sujeito. Aqui
A quilo
lo a que se chama especialismo compree  compreendende um
trabal
tra ho sobre si,  uma educa
balho educaçã ção
o cogniti
cognitiv va e sentime
sentimental
ntal oculta
culta
ou, no mais
mais das
das vezes,
vezes, esquecid
esquecida a e recalcada.
recalcada. Essaascesescesecognit
cognitiv
ivaa
náo
náo tem nada
nada de natural; pelo pelo contrário
contrário,, é o resultado instável e
incerto de longos e penosos
penosos esfesforços, o fruto envenenado
envenenado de um
exercício
exercício espiritual
espiritual praticado
praticado sobre si mesm
mesmo, o, de uma
uma prolo
prolongada
castra
castraçã
çãoo da própri
própria a curiosidade.
curiosidade. O especialismo não não define
define um
excesso
xcesso de sabe
saber,
r, mas uma renúnci
renúncia a consci
consciente
ente e voluntária
untária ao
ao
saber
saber dos “outro
“outros”s”.. Náo
Náo é aexpressã
expressão de uma curiosid
curiosidade
ade desme-

EMANUELE COCCIA  111


dida
dida por
por um objeto,
objeto, mas o respe
respeito
ito timo
timorato
rato e escrupu
escrupulloso de umum
tabu
tabu cognitiv
cognitivo. E todo convite
convite a considera
considerar os diversos
diversos conhe
cimentos humanos como ontológica e
ontológica e categoricamente separados dos
em disci
discipl
pliinas é a expressã
expressão de um verdadeiro
verdadeiro kashrut co
kashrut cog gnitivo:
nitivo:
“Considera
“Considerareisreis impuro todo conhec
conhecimento
imento que náo proviprovierer do
mesmo
smo objeto
objeto e do mesmo smo méto
método do que o voss
vossoo.”
Esse
Esses tabus
tabus náo têmtêm nada de nov novo1nem de especif
especific
ica
ament
mente e
moderno. Impusera
mpuseram-m-se
se há séculos,
séculos, já já com a fundaçã
undação o da uni
uni
 ve
 versidade na Ida Idade Média. Ali Aliás, rerepresentam a própria essência
da insti
institui
tuiçã
çãoo univer
universitária
sitária.. Contra
Contra o ideal
ideal de uma cultura
cultura globa
lobal,
l,
multidisciplinar, enciclopédica (a enkyk nkykllospai
spaide
deia dos Antigos),2
a universid
universidadeade nasceu
nasceu para afirma
irmarr a necessidade
necessidade de acoacompanhar
mpanhar
as arte
artes
s lib
libera
erais - as técnicas de liberda
liberdades herdadas das dos Anti
Antigos
gos e
 ju
 julgadas insufic ficientes - de outros saberes, especialmente o direi
to,
to, a medici
medicina na e, sobretudo
sobretudo,, a teologia.
teologia. EsseEsses sa
saberes
beresjá náo visa
visam
à totali
totalidade
dade e náo
náo se co
compõem mais numa estrutura ha harmon
rmonio iosa
sa
e unitária.
unitária. Separa
eparamm as discip
disciplilinas
nas em percu
percursos
rsos existenciais
existenciais di
di
ferentes
rentes e inco
incompa
mpatítívei
veis:
s: o juri
jurista
sta náo
náo poderá ser teólog
teólogo, e ao
teólo
teólogo está vedado
vedado serser jurista.
urista. Por
Por muito tempo, o gestoesto sobe
sobe
rano
rano por
por excelência
excelência do estudioso
estudioso era era o de reuni
reunir em si os sabere
beres
mais díspares
díspares e medir
medir sua unidade
unidade no sopro de sua consci
consciência:
ência: o
sujeito
sujeito do saber
ber —a
—aquele que diz eu no  no cogito —
cogito —sempre
sempre prevaleci
prevalecia a
sobre os limit
limites
es das discip
disciplilinas,
nas, sendo
sendo sempre
sempre capa
capazz de irir com
seu olhar
olhar muito
muito mais lo longe do que qual qualquer uma deladelas.
s. Com
Com a
univ
universid
ersidaade, o sujeito
sujeito do sabe
saberr e do pensame
pensamentonto (o eu do cogito)
é intima
intimado
do a fazer
fazer coin
coincid
cidir
ir sua subjetividade
subjetividade cognitiv
cognitiva —se
—seu ser
intelectual, sua res cogitans—ns —com os limites
limites de uma discip
disciplilina
na ou
de um objeto.
objeto.
Essa
Essa limitaçã
mitação epistemoló
epistemológica ica corresponde a uma limitlimitaçã
açãoo
de natureza
natureza social ou sociol
sociológica
ógica.. O nascime
nascimento
nto da univ
univer
ersida
sidade
de

112
não
não corre
correspo
sponde
nde ao nascimento de novos novos saberes ou de uma nova
organização
rganização dos conh conheciment
ecimento os, mas ao estabelecimento
estabelecimento de uma
nova organi studiosos. Com
anização dos estudios Com as universidade
universidades s medievais,
medievais,
pela
pela pri
primeira
meira vez, a produção
produção e a transmissão dos saberes res são
o fruto
fruto de uma corpora
corporaçã o: universitas é o termo
ção: termo técnico
técnico para
nomea
nomear uma corporação. Assim  Assim também,
também, pela primeira
primeira vez, uma
corporaçã
corporação o nã
não é mais uma associa ssociação
ção li
ligada a um ofí ofício,
cio, a uma
meta pol
política, a uma orige origem m étnica,
étnica, e sim a um saber: saber: elã reúne
reúne
pessoa
pessoas em torno
torno do mesmo mesmo saber;
saber; trata-se,
trata-se, port
portanto
anto,, de uma
corporação epistem
epistemo ológ
lógica. Conhecer
Conhecer é pertencer a uma co corpo
ração. Dessesse modo, o ato cognitivo
cognitivo é fundafundado do por
por um vínculo
 ju
 jurídico e um pertencimento político, o ideal do bios bios tbeoretik
tikos
é imediata
mediata e necessariamente partil partilhado com os socii. A relaçã relação
entre os
os dife
diferentes
rentes objetos
objetos de conhecimento
conhecimento é assim defin definiida a
partir
partir da relaç
relaçã ão jurí
jurídi
dica
ca e social entre as diferediferentes
ntes corporações
corporações
de estudiosos.
studiosos. E os limit
limiteses cognitiv
cognitivos de uma disci discipl
pliina são os da
autocon
utoconsciênci
sciência a da corporação: a identi identidade,
dade, a reali
realidade
dade,, a uni
uni
dade e a autono
autonomi mia a epistemoló
epistemológ gica
icas dessa
dessa disci
disciplpliina não
não passa
passam m
de efeitos secundá
secundário rios s da distin
distinçã
çãoo, da uniunidade
dade e do poder poder do
collegium dos estudio
estudiosos sos que a contro
controlam.
lam. A especia
especiali lizaçã
zaçãoo éa
tradução epistemoló
epistemológ gica de um ideal corporativ
corporativist istaa do saber
saber- da
fundaçã
undação o dos estudiosos
studiosos em em comuni
comunidadedade juridi
uridicamente
camente fec fecha
ha
da.
da. As
As cham
chama adas
das discip
disciplilinas
nas ou ciência
ciências s (no
(no plural
plural)) não são são mais
mais
que as sombras proj projeta
etada
dass pelas
pelas corpora
corporações univ universitárias.3
ersitárias.3E Ea
epistemolo
epistemolog gia é tão
tão some
somente nte o esf
esforço - necessa
necessariame
riamente
nte fa
fadado
ao fra
fracasso
casso —de traduzir
traduzir em termos ci científ
entífico
icos um sistem
sistema a de
interdi
interdittos cuja
cuja origem é puramente social e de
de naturez
natureza
a moral.
 As
 As coisas e as ideias são muito menos disciplinadas que os ho
mens:
mens: misturam-
misturam-sese umas com
com as outras
outras sem se preocupar
preocupar com os

EMANUELE COCCIA  113


interdit
interditoos ou
ou com as as eti
etiqueta
quetas;s; circul
circula am li livremente
remente sem sem espera
sperar
a autori
utorizzação
ção dos pares;
pares; estruturam-
estruturam-se se seg
segundo forma rmas e forças
que jamais correspond
correspondem em àquel
quelas que modelam
modelam o corpo socia social.
Seria vão esper
espera ar o contrário
contrário.. Ali liá
ás, é essa
ssa autono
autonomi mia a que
que torna
torna
possíve
possível aquilo
aquilo que,
que, há séculos,
séculos, é chama
chamado de fil ilosof
osofia:
ia: uma rela
ção com as as ideias
ideias ecomcom os conheci
conhecimento
mentos s que não
não é mediatiz
mediatizada ada
por
por nenhuma disci disciplpliina ou norma
norma, e não não tem outra outra base senão não
um desejo
sejo ceg
cego, desordena
desordenado, do, sem discernimento
discernimento.. Se a filo filosof
sofia
ia
pode
pode reivi
reivindi
ndicar uma rela relação
ção pri
privvilegi
egiada com com averdade,
verdade, seé esse
desejo
sejo —e
—e não um méto método,
do, uma discip
discipli lina,
na, um protocol
protocolo, o, um
procedimento
procedimento —que —que poderápoderá nos conduz
conduzir ir o mais
mais perto possível
possível
da realidade, é porque
porque o mundo
mundo é o espaço onde onde coisa
coisas e ideiaideias
estão misturada
misturadas s de maneira heterogê
heterogênea,
nea, dispara
disparatada,
tada, imprevi
imprevisí sí
 ve
 vel. Uma troca sináptica jaz no próprio espaço acontecimental de
um poema
poema que está está sendo
sendo escrito
escrito, de uma brisa brisa,, de uma formiga
procurando
procurando o cam camiinhonho de casa, de uma guerra guerra que começacomeça,, e
tudo está ligado a tudo, tudo, sem que haja haja uma unidadeunidade superio
superiorr à
da mist
mistura,
ura, sem
sem que as causas usas e os ef efeito
eitos estejam
estejam ordenados
rdenados se se
gundo o critério da homogeneida
homogeneidade de form
forma al ou
ou do isomorfism
isomorfismo. o.
Náo é ligando entre si exclusi vamente os fenômenos
usivam fenômenos que têm têm a
mesma
mesma natureza ou a mesm mesma a forma (os fenômenos
fenômenos fí físicos a ou
tros fe
fenômenos
nômenos físi físicos,
cos, os fa
fatos sociais a outros
outros fa fatos sosociais, etc.)
que conseguiremo
uiremos compre
compreende
enderr o mundo
mundo. Não é reca recalcando
lcando
a natureza
natureza dessemel
dessemelhantehante de seus compocomponent nenteses que poderemo
poderemos
apreender
preender o que tornatorna possível a vida vida de todos. O mundo não não é
um espa
espaçoço defin
definiido pela ordem das das causa
causas, mas antes antes pelo climaclima
das inf
influências,
luências, a meteo
meteoro rolo
loggia da
das atmosfe
tmosferas. Vida e mundo
são apenas
apenas nome
nomes da mistumisturara universa
universal, do cli clima, da unidade
unidade que que
não
não compo
comporta
rta a fusão da
da substância e da forma
forma..
Compreender
Compreender um cl cliima é apreender uma atmosfera
tmosfera.
 As
 Assim, a planta e sua estrutura podem ser muito me melhor ex
plic
plicaadas
das pela cosmol
cosmolo ogia dodo que pela botânica.
botânica. Assim
Assim também
também,,
a antropo
antropolo loggia tem muito
muito mais a aprender da estrutura de uma
flor
lor do
do que da autoconsci
utoconsciência
ência li linguísti
nguística
ca dos sujeito
sujeitos s huma
humanos nos
para compree
compreender nder a natureza
natureza daquilo
daquilo a que se se chama racionali
racionali
dade.
dade. Issosso porque
porque toda
toda verdade está ligada gada a toda
toda outra
utra verdade,
verdade,
assim como toda toda cocoisa está liga
ligada a toda outra
outra coisa
coisa. Essa
Essaligligação,
ação,
essa conspi
conspiraçração
ão uni
universal dasdas ideias,
ideias, das verdades
verdades e das coi coisas,
é, al
aliás, aquil
aquilo a que chamachamamos mundo mundo:: o que atravessamos e
o que
que nos atravessa
atravessa a cada instante,
instante, cada vez que respiramos. Se
os conhecimento
conhecimentos s querem perma
permanecer mundanos, conhe hecimento tose
saberes deste te mundndo, deverã
deverão respeitar
respeitar suasua estrutura. No mundo, mundo,
tudo está
está mis
misturado
turado com
com tudo,
tudo, nada está está ontolo
ntolog gica
icamente
mente sepa sepa
rado do resto.
resto. O mesmo ocorre ocorre com os conhecimento
conhecimentos s e com as
ideias. No
No mar do pensamepensamento, nto, tudo
tudo comuni
comunica ca com tudo,
tudo, cada
saber penetra e é penetrado
penetrado por todos todos os outros.
outros. Todo e qualquer
objeto
objeto pode
pode ser conhecido por toda toda e qual
qualquer discip
discipli lina;
na; todo
todo e
qualquer conhecimento
conhecimento pode dar acesso sso a todo
todo e qual
qualquer objeto.
objeto.
No fundo, o verda verdadeiro
deiro conhecimento
conhecimento do mundo só pode
ser
ser uma forma de autotro utotroffia especulati
especulativ va: em vez de se alimentar
alimentar
sempre
sempre e exclusi
exclusiv vamente
amente das ideias
ideias e das
das verdades já sancisancio onadas
nadas
por tal
tal ou
ou qual
qual discipl
disciplin
inaa em suahistórihistóriaa (incluí
(incluídada aí a fililosof
osofiaia),
),
em vez
vez de querer
querer se construi
construirr a parti
partirr de eleme
elementontos s cog
cognitiv
nitivo os já
estruturados,
struturados, ordenado
ordenados, s, estabe
stabelecido
lecidos,s, o conhecimento
conhecimento deveria deveria
transf
transformar
ormar em ideiaideia qualquer matéria,
matéria, objeto
objeto ou aco acontecimen
ntecimen
to,
to, exatamente como as plantas
plantas sã
são capazes de transfo
transformar em
 vi
 vida qualquer pedaço de terra, dede ar e de luz. Es
Essa seria a for
forma
mais radical
radical da ativi
tividade
dade especulativ
speculativa
a, uma cosmolo
cosmologia pro
protei-
forme e liminar,
minar, indif
ndiferente aos lugares,
lugares, às
às forma
formas, às maneiras
como é praticada
praticada..

EMANUELE COCCIA  115


15
Como uma atm
atmosfera
osfera

 A emergência da fil filosofia


fianáo deve ser considerada um aconte-
cime
cimento
nto histó
histórico
rico que teve
teve lugar de umauma vez por toda
todas.s. Mais que
uma discip
discipli
lina
na reconhecível por seu seu objeto,
objeto, seu méto
método,
do, que
questões
e objetivo
objetivoss univer
universa salmente
lmente partil
partilhados
hados no espaço e no tempo, a
filoso
ilosoffia é uma espécie
espécie de condi
condição
ção atmosférica
atmosférica que pode surgir surgir
subitamente
subitamente —em qualquerqualquer lugar e em qualquerqualquer momomento
mento.. ElãElã
pode
pode rein
reinar
ar sobre os co conhecimentos
nhecimentos humano
humanos s por algum tempo
tempo,,
mas também desaparecer parecer abrabrupt
uptame
amentnte,
e, por
por razõe
zões amiúde
amiúde mis-
teriosas
teriosas,, exatamente como como a suavidade
suavidade de um dia dia de primavera
primavera
ou uma tempestade podem podem desvanecer
desvanecer bruscamente.
bruscamente. Nessesenti- senti-
do,
do, a ideia
ideia de uma
uma histó
história
ria progres
progressiv
sivaa, ou mesmo
smo náo
náo lilinear, do
pensame
pensamento nto,, assim como a da existência
existência de um arquiv
arquivo o, de umum
cânone
cânone ou de um patrimôni
patrimônio o de obras
obras ou de textos filo filosóf
sóficos,
icos,
são ilusões:
ilusões: há
há tão some
somente nte uma meteoro
meteorolo logia
gia do pensame
pensamento
no sentido
ntido originário
originário,, aristotéli
aristotélico,
co, do termo:
termo: uma ciência
ciência consa-
consa-
grada à longa
longa lista
lista de fefenômenos naturais “que se produzem produzem de
aco
acordo comcom leis
leis naturai
naturais”s”,, mas “em condi
condiçõ
ções
es menos reg regulares
que as do elemento
elemento primeiro
primeiro dos corpos”,
corpos”, como
como “os ventos e os

116  A VID A DAS PLANT AS! UM A METAF ÍSICA DA MISTU RA 


tremores de terra”,
terra”, ou
ou “a queda do rai raio, os fura
furacões,
cões, as tempesta
des”.
des”. As ideias eos conceito
conceitoss “fil
“filosóf
osóficos”
icos” náonáo sáo conhe
conhecimentos
cimentos
espec
especííficos que se sobrepõem
sobrepõem a outra outrass forma
formass de conheci
conhecimento
mento
ou de ideias, mas mas uma espécie
espécie de mo movimento que concerne ao ao
elemento
elemento próprio
próprio da razão
razão e do conhecimento
conhecimento,, um certo certo cli
clima,
ma,
uma configuração instável e no entanto potente dos conheci
mento
mentoss atuai
atuais,
s, assim
ssim como o vento vento,, as nuvens e a chuva chuva nã não são
elementos
elementos que se acrescentam aos que existem existem no mundomundo, mas
simplesmente sua modificação contingente ou a manifestação de
suapotênci
potência a e de sua infl
nfluência
uência sobre nós. Do mesmo mesmo modo que
uma certa temperatura
temperatura,, uma certa certa luz e todatoda nova
nova configura
configuraçãção
o
dos elementos
elementos naturais podem podem al alterar
erar o aspecto
aspecto dede um lugar e
decidir sua habitabilidade, assim também todo acontecimento
filosóf
ilosófico
ico modifica
modifica a configu
configura raçã
çãoo dos conhecimento
conhecimentoss e dos sa sabe
be
res
res de
de um contexto
contexto histó
histórico
rico,, paramudar radi radicalmente
calmente seuseu modo
modo
de existência.
existência. Trata
Trata--se em primeiro
primeiro lugar de uma uma evidência
evidência epis
temoló
temológica:
gica: a filoso
ilosoffia éatmosf
tmosférica
érica,, pois
pois a verdade
verdade exiexiste
ste sempre
sempre
sob a forma de atmo atmosf sfera
era.. É unicamente
unicamente em sua sua mist
mistura
ura co
com o
resto
resto dos elementos
elementos que cada cada coisa encontra
encontra sua identi identidade:
dade: a
atmosf
tmosferaera é mais
mais verdadeira
verdadeira que a essênci essência a. Inversa
nversamente,
mente, se a
filosof
losofiia prefere
prefere a atmosf
tmosfera era à essência,
essência, é porque
porque elãelã é a forma
extrema da total
totaliidade dos el elemento
mentos. s. Nesse
Nesse sentido
sentido,, a natureza
natureza
atmosférica do conhecimento filosófico se manifesta em sua for
ma e na impossibilidade de reduzi-la a um saber definido por um
objeto,
objeto, um mé método
todo ouou um esti estilo
lo espec
específífico
ico que excluiri
excluiriaa outros.
Se é impossíve
impossível, portanto,
portanto, reduzir
reduzir a filosof
ilosofiaia a um
um objeto
objeto espe
espe
cífico, a um domínio de investigação “homogêneo” e unívoco, é
porque
porque el elã está
está em
em toda
toda parte.
parte. Long
Longe e de se oporopor às outras
outras forma
formass
de conhecimento
conhecimento —a —a física
ísica,, a literatura, a inf info
ormáti
rmática,
ca, a arte —,

EMANUELE COCCIA  117


ela coin
coinci
cide
de co
com os lilimi
mites
tes do cognoscí
cognoscívelvel e do nome
nomeá ável. Nada
é originariamente f
originariamente fil
ilosóf
osófico,
ico, e qualquer
qualquer objeto
objeto —incl
—inclusiv
usive
e aqueles
que náo
náo existem
existem e nunca
nunca poderão
poderão existi
existirr —po
—podede e deve
deve se tornar
tornar
objeto da filosofia.
Da mesma
mesma maneira, é estritamente
estritamente impossí
impossível
vel reconhecer
qualquer
qualquer conti
continuidade
nuidade estil
estilísti
ística
ca de um livro filosófi
ilosófico
co aoutro. A
filosof
ilosofia
ia prati
pratico
cou,
u, ao long
longoo de suasua história,
história, todos os gêneros
neros lite-
lite-
rários
rios disponív
disponíveis,
eis, do roma
romance ao poempoema a, do tra
tratado aoao af
aforism
orismo, o,
do conto
conto à fórmula matemá
matemáti tica.
ca. De
De acordo com o costume,
costume, toda
toda
forma simbólica é ipsofacto filo  filosóf
sófica
ica,, e nenhuma tem o direito
de reivin
reivindi
dicar
car uma capacidade superio superiorr de alcançar a verdade;
nenhum esti estilo
lo de escrit
escrita
a é mais apro
apropriado
priado à fililosof
osofia
ia que outro.
outro.
Desse
sse ponto
ponto de vista,
vista, o fetichi
fetichismo
smo aca
acadêm
dêmiico contemporâne
contemporâneo o
pelo
pelo incerto
incerto vo
volapuque do ensaio com notas notas de rodapé náo náo tem
nenhum
nenhuma a razão
zão dede ser. Um
Um fil filme
me,, uma escul
escultur
tura,
a, uma canção
nção
pop, mas tambémtambém uma pedrinha,
pedrinha, uma nuvem, um co coggumelo
umelo
pode
pode ser fil
 filo
osófico com a mesmamesma intensi
ntensidade
dade que um tratado de
geolog
logia, a Crítirític
ca da razão
razãopura ou
pura ou um adág dágio pronunci
pronunciado
ado com
a falsa negligê
negligêncnciia do dândi.
dândi.
Impossível, fina finalrnente
lrnente,, destila
destilar um um mémétodo único;
único; o único
méto
método do é um amor mor extrema
extremamente
mente intenso
intenso pelo saber,
saber, uma pai-pai-
xão
xão selvage
selvagem, bruta bruta e indó
indóci
cill pelo
pelo conhecimento
conhecimento sob todas as
sua
suas form
forma as e em todos
todos seus objetos.
objetos. A fil ilosof
osofiaia é o conhecimento
conhecimento
sob o império
império de Eros, o mais mais indi
indisci
scipl
plin
inaado e o mais rude
rude de de to-
to-
dos os deus
deuse es. Nunca poderá ser uma discip disciplilina:
na: é, ao contrário
contrário,,
o que o saber humanohumano se tornatorna uma vez reconheci
reconhecido do o fafato de
que não
não há nenhuma disci discipl
pliina possív
possíveel, nem moral
moral nem epi episte-
ste-
mológ
mológica.ica. Afirmar
irmar o contrário,
contrário, vin
vincular
cular a filosof
ilosofia
ia a uma série de de
que
questões já fix fixa
adas,
das, a problem
problema as que lhe seria
seriamm próprio
próprios,s, signif
significa
ica
confundi-
confundi-la la com
com uma doutri
doutrina
na escolástica.'
scolástica.' É por isso
isso que uma
uma
ideia
deia nunca poderá se se encont
encontra
rarr em
em arquiv
arquivoos: elã
elã encarna
encarna o pon
pon
to de clivagem de toda tradição, o clinam namen no interior de toda
disci
discipl
pliina, que permite
permite a um saber
saber espec
específífico
ico vi
virar
rar paradi
paradigm
gma,a,
exemplo
xemplo.. É o ideai
ideai oposto à atopia
atopia socrática:
socrática: o pensame
pensamentonto filo
ilo
sófico
sófico náo está em nenhuma
nenhuma parte,
parte, mas por tudo tudo quanto é lado.
Como
Co mo uma atmosfera
tmosfera.

EMANUELE COCCIA  119


Tive
ive a ideia
ideia deste
deste li livro
vro em Kio
Kioto,
to, durante
durante uma
 vi
 visitaao templo de Fushimi Ina Inari, em março de 2009,
com Da Davide
vide Stimi
timillllii e Shinobu
hinobu Is
Iso. Mas
Mas foifoi pre
preciso
espera
esperar minh
minha a estadia de de um ano na Ital
Italiian Acade
Academymy
for Advance
dvanced d Studies
Studies in Ame America
rica,, da Columb
Columbia ia
Universit
University y de Nova
Nova York, para para poder levá-la
levá-la adiante
adiante
e dispo
disporr do tempo necessánecessário para sua redaçáo çáo.
Gostaria de agra agradecer
decer a Da David Freedberg
Freedberg e
Barbara Faedda,
Faedda, que me acolheram acolheram calcalorosa
rosame
ment
ntee
e, com
com atenção
tenção e amiz amizade,
ade, estabeleceram
estabeleceram comigo
comigo
numerosa
rosass trocas
trocas humanas
humanas e cientícientíffica
icas. Sem a
conversa e o apo apoio io coti
cotidi
dianos
anos de Fabián Luduena
Luduena
Roma
Romandi ndini
ni,, nada
nada teria sido possível.
possível. Caterina Za Zanfi
nfi
desem
desempenhou
penhou um papel de primeira primeira importânci
importância a
na gênese
ênese desse
desse livlivro:
ro: agradeço-lh
deço-lhe e profimdame
profimdament nte.
e.
 A Gui
Guido Gig Giglioni devo a descoberta da longa
tradição
tradição natural
naturalista
ista nono Renascimento
Renascimento e na primeira
primeira
modernidade.
Nora Phil
Philiippe leu
leu e comentou
comentou uma versã versão
prel
preliiminar
minar do manuscrit
manuscrito
o: sua
suas crític
críticas
as e sug
sugestões
foram decisi
decisivas.
vas.
 As
 As conversas entre Paris e Nova Yor York com
Frédé
Frédériqu
rique e Aít-
ít-Touati,
uati, Emmammanuel
nuel Allo
Alloaa, Marcell
rcelloo
Bariso
Barison,n, Chi
Chiara
ara Bott
Bottici
ici,, Cammy
Cammy BrotheBrothers, Barba
Barbara ra
Carneva
Carnevali li,, Dorothée Charles,
Charles, Ema Emanuele
nuele Clariz
Clarizioio,,
Michela Coccia, Emanuele Dattilo, Chiara
Franceschini,
nceschini, Daniela Gandorfer, Donatien Donatien Gra Grau,
Peter Goodrich, Camille Henrot, Noreen Khawaja,
 Ali
 Alice Leroy, Henriette Michaud, Philippe-Ala -Alain
Michaud, ChristiChristinene Rebet, bet, OliO livi
vier
er Souchard,
ouchard,
Michele
Michele Spanò,
Spanò, Just
Justin
in Steinberg,
teinberg, Pe Peter
ter Szendy e
Lucas Zwirner fora foram fundam
fundamentais.
entais. Lidia
idia Breda
apoio
poiou e acompanho
companhou u o projeto
projeto desd
desde e o iníci
inícioo,
com
com a amiamizade e a força de que só só elã
elã é capaz
capaz -
agradeço-
radeço-lh lhe
e inf
infinitamente.
nitamente. Fin Fina alrnente,
lrnente, agrade
radeçoço a
Renaud
Renaud Paquett
Paquette e que
que elelimino
iminou u qualquer resqu
resquício
ício
de tartamudei
tartamudeio em meu fra francês
ncês e permiti
permitiu u aoao
manuscrit
manuscrito o respirar.
respirar.
Este liliv
vro é dedicado à memóri memória a de meu
meu irmã
irmão
gêmeo
êmeo Matteo:
Matteo: foi jun junto
to com ele ele e ao lado
lado dele queque
come
comeceicei a respi
respira
rar.
r.

122  A VIDA DAS PLAN TAS : UM A METAF ÍSICA DA MISTU RA 


Notas

1 . Das plantas, ou da origem


origem do nosso
nosso mund
mu ndo
o

1. A única
única grande exceção na na modernidade
dernidade é a obra-pri
bra-primma de Gustav
Fechner, Na
 Nanna oder überdasSeelenleben der Pflanzen, Leipzig  Leipzig, L. Voss
Voss,
1848. Diante desse sil silêncio,
êncio, com
começaa se erguer avoz voz de um pequeno
número de pesquisadores eintel ntelectuais
ectuais aponto
ponto de alguns fa falaremnum
plant
plant tum.  Elaine
Elaine P. Mi Miller, The V egetativ tive Soul: From Phil
Philosophy of 
 Na
 Naturetoeto Subjectivity in theFeminine, New New York, State Univers
University
ity of
NewYork Press, 2002; Matthew thewHall
Hall, Pl
 PlantsasPersons: A Philosophical
 Bo
 Botany, NewYork, State University
University ofof NewYork Press, 2011; Eduardo
Kohn, Ho
Kohn, HowForests Think: TowardanA nthropologyBeyondtheHuman,
Berkeley, Calif
Californi
orniaa Universit
University y Pre
Presss, 2013; Michae
Michael Marder, P
rder, Pllant
Thinking:A Philo
hilosophyof of V egetal Life, NewYork,ork, Col
Columbi
umbia aUniversity
Presss, 2013; Id.Id.,, ThePhilhilosopher’s Plant:
Plant: An
An Intellectual
tual He
Herbarium
arium,
New York, Columbi
Columbia a Universi
Universityty Press, 2014
2014;; Jeff
Jeffrey
rey Nea
Nealon,  Pl
 Plant
Theory: Biopower and and V egetableLife, New York, Col Columbi
umbia a Univers
Universiity
Press, 2015. Com
Com raras exceções, esses autoresutores se obsti
bstinam em buscar
na lit
literatura puramente fnte fiilosófica  ou
ou antropo
antropollógica
ógica uma verdade
sobre as plantas,
plantas, sem entrar
ntrar em comunicação co comm a reflexã
reflexão bot
botâ ânica
nica
contem
contemporâporâneaque, pel
pelo contrário
contrário,, produzi
produziu u notáveis obras-pri
obras-prim
mas de
filosof
osofiada natureza.
ureza. Paramencio ncionar apenas as que mais memarcaram:
 Ag
 Agnès Ar Arber, The Naturalatural Ph
Philosophy of of Plant FoForm,  Cam
Cambridge
bridge,
Cambridg
bridge Universi
Universityty Press, 1950; David erling, The Emerald
vid Beerling rald
 Pl
 Planet. HowPlants ChangedEarthsHistory, Oxf  Oxford
ord,, Oxf
Oxford
ordUnivers
University
ity
Press, 2007; Da Daniel Chamovi tz, What a Pl
ovitz, Plant Know
Knows: A Field Guide
Guide
to the
the Senses, New
NewYork, Scientific
cientific Am
American/Fa
n/ Farrar, Straus & Giroux,
Giroux,
2012; Erdr
Erdred John HenryHenry Corner, The Life ife of Pla
Plants,  Cleve
Cleveland,
World,
World, 1964; Ka Nildas, Pl
Karl J. Nilda  Plant Evo
Evolution. An An introduction to the
 Hi
 Historyof Li
 Life, Chica
 Chicago, The Universi
University
ty of
of Chica
Chicago Press, 2016; Sergio
Stefano
tefano Tonz ig, Letturedi biologia vegetale, Mila
Tonzig, ilano,
no, Mondadori
Mondadori,, 1975;
Hallé, Élo
François Hallé,  Éloge de la plante. Pour une nouvelle biologie,  Paris,
Seuil, 1999; Stefatefano Mancuso e Alessandra Viola ola, Verde brill
rillante
ante.
Sensibi
nsibillità e intel
ntelligenza
nza nel mondo vegetale ale,  Firenze
Firenze, Giunti, 2013 13..
O interesse pelas plantas
plantas também se torno
tornouu central na antropo
antropollogia
norte-
norte-aamericana
ericana cont
contem
emporâ
porânea a partirtir da ful
fulm
minante
nte obra
obra-prima
(centra
(centrada, naverdade, emum cogumelo) elo) deAnna Low Lowenhaupt Tsi Tsing,
ng,
The
TheMus
Mushroom at the End of the World: On the Pos Possibility of Life in
Capi
Capitali
talist Ruins,  Prince
Princeto
ton,
n, Prince
Princeton
ton Universit
University
y Press, 2015; e dos
traba
trabalhos
hos de Natasha
Natasha Myers, que também está preparando um livro livro
sobre o assunto.
ssunto. Ver especialm
specialmente Natasha Myers e Carla
Carla Hustak,
“Invo
“Involuti
lutionary
onary Momentum: Af Affective Ecologies
Ecologies and the Sciences of
Encounters”, Dif
Plant/ Insect Encounters”,  Differences: A Jou
Journal of Feminist Cultural
Studies, 23
 23 (3),
(3), 2012, p. 74-117
74-117.
2. Françoi
nçois
s Hallé, Élo
Hallé, Élogedelaplante, op. cit., p. 321. Ao la
lado de Karl J.
Nikl
Nikla
as, François
nçois Hall
Hallé
é éo botânico
botânico que mais seesforçou para fazer da
contem
contempla
plação da vida das planta
plantas um objeto
objeto pro
propri
priam
amente metafísico.
sico.
Niklas, Pl
3. KarlJ. Niklas,  Plant Evo
Evolution: AnInt
Introduction totheHistoryof Li
 Life,
op. cit.,
t., p. VIII.
4. W. Marshall DaDarley
rley, “The Essence of ‘Plantness’”, The
‘Plantness’”, TheA meric
rican
 Bi
 Biology Te
Teacher,  vol.
vol. 52, no 6, sept. 1990, p. 356: “As anim
animals,
als, we
identi
ntify muc
much moreimmediat
diate
ely with otheranim
animals
als than withplants.
plants. ”
5. Entre ver Peter Singer, La
Entre as mais célebres, ver  La Li
Libbération animale,
Paris, Payot, coleçã
coleção “Petite
“Petite Bibli
Bibliothè
othèqu
que Payot”,
yot”, 201
2012; 2; e Jonathan
onathan
Safran Foer, Fa
 Faut-il manger lesanimaux ?, Paris, L’O
L’Olilivi
vie
er, 2011.
2011. Mas

124  A VID A DAS p l a n t a s : u m a m et


et a f í s i c a d a m is
is t u r a
o debate émuit
muito antigo:
antigo: ver as duas grandes obras daAnti ntiguidade,
guidade, ade
Plutarco Ma
 Manger la chair, Paris,
ris, Riva
Rivages, col
coleção “Petite
“Petite Bibli
Bibliothèq
othèque
Ravages”, 2002; e a de Porfí rio, De
Porfírio,  De1’abstinence, 3 vol
vol., Paris,
ris, Les Belles
Lettres
Lettres, 1977-1975. Sobre a histó históri
ria
a do debate, ver Renan Larue,
 Le
 Le V égétarismeet
eet ses ennemis. V ingt-cinq siècles de débats, Paris,
ris, PUF,
2015. O debate animnimalist
alista,
a, que está fortemente impregnado por por um
morali
oralismo extremamente superfi rficia
cial, pareceesquecer que aheterotrof
heterotrofiia
pressupõe amatançade outrooutros seres vivo
vivoss como umadim
dimensão natural
natural
e necessária
riade todo
todo ser vivo.
vivo.
ben,  L'O
6. Giorgio Agamben,  L'Ouvert. De 1’homme et de 1animal,
a
’ nimal,  Paris,
ris,
Riva
Rivages, cole
coleção “Peti
“Petite
te Bibl
Bibliiothèq
othèqueRivag
Rivages”, 2006.
7. O debate sobre os direit direitos
os das pla
planta
ntas existe
existe de maneira
neira bastante
minori
noritári
tária
aao menos desdeo célebrecapítul pítulo
o XX
XXVIIVII do li
livro deSamuel
Butler, Ere
 Erewhon ou DelDelautrecôtédes montagnes, Paris, ris, Ga
Gallimard, 1981
(intitulado TheVTheViews ofofan Erewhonian
nian Prop
Prophe
het concerni
rningtheRi
heRigghts of 
of 
Vegetable
ables),
s), até o já
já clássico artig
artigo de Christo
Christopher
pher D. Stone,
tone, “S
“Should
hould
TreeshaveStanding
tanding?Towa
TowardLegal Rightsfor forNatural Objec ts”,Southern
bjects”,
Cali
CaliforniaLawRe awReview, 45, 1972, p. 450-
450-501.
501. Sobre
obreessas questões,
stões, ver o
útil
útil resumo dos debates fi osóficos em Michael Marder, Pl
filosófi  Plant-Thinking,
op. cit.-,
t.-, eaposiçã
posição de Matthew Hall, Pl
atthewHall,  PlantsasPersons, op. cit.
8. W. Marshall Darlerley, “The Essence of ‘Plantne
‘Plantness’”,
ss’”, art.
art. cit.
cit.,, p. 356.
 Ve
 Ver tambémJ.L. Arbor, “Animal Chauvinism, Plant-R -Reegarding Ethics
 And TheTorture OfTrees” Aus
 An  ,Australianjournal ofphilosophy, vol. 64, no
3, sept. 1986, p. 335-369.
335-369.
nçois Hallé, Él
9. François  Élogedelaplante, op. cit., p. 325.
dos sentidos das plantas
10. Sobre a questão dos plantas,, ver Da
Daniel
niel Chamoviovitz,
tz,
What a PlPlant Knows, op. cit.-,
t.-,  Richa
Richard Karban,  Pl
rd Ka  Plant Se
Sensing and
Communication, Chica
Chicago, The Universit
University
y of Chica
Chicago Press, 20 2015
15.
Cont
Contudo
udo,, o li
limit
mite dessas pesquisas reside na obsti
obstinação em querer
“encont
“encontrar”
rar” órgãos “aná
“análogos” aos que tornam a percepção possív possível
el
entre
entreos anima
animais, semseesforçarparaimaginar,
ginar, aparti
partir das plantas
plantas ede
sua morfol
orfologi
ogia,
a, uma outra forma
forma possível
possível de existênci
existência
a da perce
percepçã
pção,
umaoutra
utra maneira
neira de pensar
pensar a relação
relação entre
entre sensação
ção e corpo.
11. W. Marsha
Marshalll Da
Darley, “The Esse
Essenceo f‘Plantness’”,
Plantness’”, art.
art. cit.
cit.,, p. 354.
354.
 A questão da superfície de exposição ao mundo é central em Gustav
Fechner, N
Fechner, Na anna oder über das Seelenleben der Pflanzen, op. cit.-, e em
François Hallé,
Hallé, Él
 Élo
ogede
ede la plante, op. cit. Sobre
 Sobre a questão
questão da relação
com o mundo,
mundo, ver o belo
belo livro
ivro de Mi
Michael
chael Marder,
arder, P
 Pllant-lh
-lhinkin
king, op.
cit., a
cit., a obra fi
filosófi
osófica mais prof
profunda que
que conheço
conheço sobre a natureza
natureza da
 vi
 vida vegetal.

2. A extensão do domínio da vida


1. Jul
Juliius Sachs,
chs, V orle
rlesungen über Pflanz
flanze
en-P
n-Physiol
siolog
ogie, Le
 Leipzig,
ipzig, Ver
Verlag
lag
Wil
Wilhelm EngEngeelmann, 1882
1882,, p. 733.
733.
2. Anthony
nthonyTrew
rewavas,
vas, “Aspects of Pla
Plant Intell
Intellige
igence
nce”,”, Ann
 AnnalsofBotany,
92 (1),
(1), 2003, p. 1-20
1-20,, p. 16 para
para a cita
citação.
ção. Ver também sua sua obra-
obra-
prima, P
prima, Pllant Behaviour and Int
Intelligence,  Oxf
Oxford
ord,, Oxf
Oxford
ord Univers
University
ity
Press, 2014.
2014.
3. Aristóteles, De
Aristóteles, Dea
anima 4l4a 25.
4. T.M.
T.M. Lenton
Lenton,, T.W.
T.W. Dahl, S.J. .J. Daine
Daines, B.J.W.
B.J.W. Mills,
Mills, K. Ozaki,
Ozaki, M.R.
M.R.
Saltzm
tzman e P. Porada,
Porada, “Ea
“Earlies
rliestt land
land plants
plants created modern levei
leveis of
atmospheric oxyg
oxygen”,
en”, P
 Prroceedings of theNat
National A cademy of Sciences,
113 (35) 2016, p. 9704-
9704-9709.

3. Das plantas, ou da vida do espírito

1. É por essa
essa razão que as plantas
plantas são uma impor
importtante font
fontee de
inspiraçã
nspiraçãoo para o design.
design. Ver
Ver o livro
livro de Rena
Renato
to Bruni,
Bruni, Er
 Erba Volant.
 Imparare Pinnovazione dalle piante,  Turin, Códice Edizioni, 2015.
Sobre
obre a engenhari
engenharia a e a física
sica vegetal,
etal, ver as obras
obras fundam
fundamentai
entaiss de
Karl
Karl J. Niklas,
Niklas, P
 Pllant Biomechanics. AnAn Eng
EngineeringA pproach to Plant
 Fo
 Forman
mand Function, Chicag
 Chicago, The University
University of
of Chicago
Chicago Press
Press,, 1992;
92;
Id., P
Id., Pllant A llometry. The Scaling of Form and Process,  Chica
Chicag
go, The

126  A VIDA DAS PLAN TAS : UM A METAFÍSIC A DA MISTURA 


Unive
University
rsity of Chicag
Chicago Pre
Press, 1994
1994;; Ka
Karl J. Niklas
Niklas e Hanns-Christ
Hanns-Christof
of
Spatz, Pl
 PlantPhysics, Chica
 Chicag
go, TheUniv
University
ersity of Chica
Chicag
go Press,
ss, 2012.
2. Sobre
obre a noção de semente na fifilosofi
osofia da natureza da modernidade
dernidade,,
 ve
 ver o belíssimo lilivro de
de Hiro Hi
Hirai, LeC
 Le Concept de semence dans les
théorie
oriesdela mati
atièreà la
la Renais
naissance. DeMarsi
eMarsilleFicin à Pi
Pierre
rreGassendi,
Turnout, Bre
Brepols, 2005
2005..
3. Giordano Bruno,  De la causa, principio et uno, Giovanni
 Aqu
 Aquilecchia (ed.), Tur
Turin, Einaudi 191973, p. 67-68
-68; tr. fr. in Giordano
Bruno, Cause, pr
príncipe unité, tra
ncipe et unité  traduzi
duzido
do por
por Émil
Émile e Namer,er, Paris,
Paris,
PUF, 1982
1982,, p. 89-91.
89-91.

4 . Por uma filosofia da natureza

1. Pode-se
Pode-se obj
objetar que
que essa náo foi a prime
primeira vez.
vez. De acordo com a
tradição, foi Sócrates o primei
primeiro a imporpor à fil
filosof
osofiia que neg
negligencias
igenciasse
se
“a nat
natureza em sua totalidade
alidade [pa
[para
ra]] se ocupar de questõesstões morais
orais
(peri ta ethika)"  (Aristóteles, Me
 Metafísica, 987b 2).
2). Foi graça
raças a ele que
Platã
Platão
o teve a força
força de “mandar a filosofosofia desce
descerr dos céu
céus e colocá-
colocá-lla
nas cidades, intro
ntroduz
duzii-la nas cacasas [pa
[para] investi
nvestiga
gar sobre a vida
vida,, os
costumes
costumes,, o bem e o malmal” (Cí
(Cícero,
cero, Tusculane sY, IV
ulanesY,  IV 10).
10). Ver tam
também
 A cadêmica I, IV,
 Ac IV, 15.
2. Ve
Ver, por
por exemplo,
plo, Iain Hamilto
ilton
n Gra
Grant, “Eve
“Everythingis Prim
Primai Germ
Germ
or Nothi
Nothing
ngis: The
TheDeep Fie
Field Log
Logic
ic of
of Nature”,
Nature”, Symposium
sium: Canadian
anadian
 Journal ofContinental Philosophy, 19 (1), 2015, p. 106-
106-12
124.
4.
3. A instauraçã
nstauração o do especial
especialiismo nas univers
universiidade
dadess é co
construí
nstruída
da sobre
umdisposi
disposititivo
vo deignorância
gnorânciarecípro
recíproca
ca:: serumespecial
especialiista nã
não sig
signif
nifica
dispo
disporr de mais conheci
conhecimmento sobre um assunto,
ssunto, mas ter obedeci
obedecido
do à
obrig
obrigação
ção jurí
jurídi
dica
ca de ignorar
ignorar as outras
outras discipl
discipliinas.
nas.
4. Ma
Mario
rio Untersteiner,  I Sofisti. Testimonianze e Frammenti,  vol. I,
Flore
Florence
nce, La Nuova
Nuova Itali
talia, 1949
1949,, p. 148, B2.
B2.
5.As
Asadmadmiirávei
ráveisstenta
tentatitivas
vasdaantropol
ntropolo ogiaderepatriartriarex-postanatureza
no int
interio
eriorr das ciê
ciência
ncias huma
humanas, esprei
espreitando qualquer mov moviimento
que perm
permitisse
tisse humanizá-nizá-lla de
de novo ou socializá-la  parecemparecem nesse
sentido
sentido a expressã
xpressão mais ingênua
ngênua do esprit alier. Poi
rit d’escali  Poiss emtodas essas
tentati
entativas, a natureza
naturezapermaneceo espaço do não-humano, semque que seja
seja
especi
specifficado
cado nem do que o humano humano seria
seria o nom
nome (com
(como ter certeza
disso depois
depois de DarwDarwin?), nem em que o não- não-hum
humano
ano se opor
oporiia ao
hom
homem (a ra razão? o verbo?
verbo? o espírito
espírito?).
?). O não
não hum
humanoano é ent
então
ão apen
apena as
um novo ovo nome,
nome, mais sofi sofistica
sticado, para as mais velha velhass ressonânc
ressonânciias:
“besta
“bestas”,
s”, “irracional”,
“irracional”, “améns”. Pla Platão jájá tinha
tinha alalertado
ertado contra
contra essassa
repartição (Político, 263d):
 263d): “Sehá, entre os outrosoutros anim
animais, umqueseja
dota
dotado de int inteli
elig
gência, como
como parecerece ser o grou
grou ou algum outro bicho
do mesm
mesmo gênero, eseestegrou dist distri
ribuí
buísse
sse os nom
nomes como você vocêacaba
de fa
fazer, ele provavel
provavelm mente oporoporiia os grous como
como uma espéci spécie
e à parte
parte
aos outros
outros anima
animais, honrando
honrando assim ssim a si mesmo e agrupando todo todo o
resto
resto,, inclusi
nclusivve os hom
homens, numa mesma cla classe,
sse, e provavel
provavelm mente lhes
dando o nom nome de bestas.” O pressu pressuposto
posto protag
protagó órico
rico parec
parecee info
nformrmaar
e inspirar
nspirar também o mo movimento oposto
oposto de assim ssimilação, aquele
aquele que
se obsti
bstina em assimil
assimilar os animanimais ao homem
homem, em que os atr atriibutos
butos
conside
consideradrados
os como especifi
especificamente humanos pertenceriam a outras
espécies anim
animais. Também nesse caso, decidi decidiram
ram-se previam
previamente os
contorno
contornoss do humano e seconsi considerou
derou o natural co commo seu resto
resto,, ainda
ainda
que depoi
depoiss se negue essa mesma parti partilha dialét
dialétiica. Co
Com mo então
então “nos
precavermos cont contrara todas
todas as fafaltas dessegênero”
nero”?
6. É um
um dos gra grandes
ndes ensinam
nsinamentos
entos da obra de Bruno
Bruno Latour,
Latour, a part
partiir
de suas obras-
obras-pri
prim
mas La
 La Scienceen action (Paris
 (Paris,, La Découverte,
couverte, 1989)
e No ’ vonsjamais étémodernes (Paris, La Découverte, 1991
 Nous navons
a 1991). Sobre a
questã
stão da da mediação técnica
técnica de um pont
ponto
o de vist
vistaa também moral,
oral, ver o
belo lilivro de Peter-
Peter-Pa
Paul Verb
Verbe
eek,
ek, Mo
 Moralizing Technology: UnUnderstanding
and
andDesig signingt
ningthe
heMorali of Things, Chicag
ralityof Chicago, The Univ
Unive
ersity
rsity of Chi
Chicago
Press, 2011.
7. Sobre essa questão,
questão, ver o clássico de Walt
Walter Biem
Biemel, LeC
 LeCo oncept de
monde chez Heidegger, Paris/
 Paris/ Louvain, Vrin/
Vrin/ Nauw
Nauwelaerts,
laerts, 1950. Sobre
a noçáo de mundo em filosofi
osofia, ver a obra-pri
bra-prim
ma de Rémy Brague, La La
Sagessedu monde. Histoire
stoirede
de 1’expérie
rience humaine de 1’unive
univers, Par
rs, Paris,
Fayard, 1999.
8. Jakob von Uexküll, M
xküll, Miilieu animal et milieu humain, Paris, Riva
Rivages,
cole
coleção “Bibl
“Bibliiothèq
othèqueRivag
Rivages”, 2010.

5. Folhas

1. Sergio Stefano Tonz


Tonziig, Sull
Sull’evoluzi
uzione biologica. (R
(Ruminazioni e
masticature), m
masticature), manuscrito
crito priva
ivado (propr. Gi
Giova
ovanni Tonz
Tonzig),
ig), p. 18.
2. Trata-se
rata-se de uma ideia deia que remonta nta a Goethe
Goethe e a seu Eeu Es ssai sur la
métamorphosede
rphosedesplan
planttes, S
s, Stuttgart,
tuttgart, Cott
Cottaa, 1831, p. 97: “Que
“Quer aplanta
planta
cresça, floresçaou dê fruto
frutos,s, são, no entanto
entanto, sempre os mesmos órgãos
que realiz
alizam a intenção
intenção da da Natureza
Natureza com
com destinações
stinações divers
diversas e sob
formas freq
frequentemente muito muito modif odificadas. O mesmo órg órgão que se
estendeu sobre o talo talo sob o estado de fo  folha e assumiu
ssumiu as mais diversas
diversas
formas secont
contrai
rai a seguir num cálice, seampli plia nova
novamente em pétalas,
se cont
contrai
rai para produzi
produzirr o estame e por por fi
fim se dil
dilata uma últi
última vez
parapassarao estadodefrut fruta.”
a.”Ver
VertambémLorenzOken, Oken, Le Lehrbuchder 
 Na
 Naturphilosophie, Dri Dritter Theil. Erstesundzweites Stück, Pneumatologie.
VomGanzen im imEinzelnen, Frommann, I ann, Ién
éna, 1810, p. 72: “Uma folha olha
é uma planta
planta int
inteir
eira
a com todos
todos os sistemas e formações, com as fi fibras,
as células, os talos, os nós, os ram ramos, o córtex.
córtex.”” Sobre a histó
históri
ria
a desse
debate, ver o cláclássico de Agnès Arber, TheNatural Phil Philosophy ofof Plan
Plant
 Fo
 Form, op. cit.-, e seus ensaiosios “The
“TheInterpretation
tation of
of Lea
Leaf and Root
Root in the
 An
 Angiosperms”, Bi  Biological Review, vol. vol. 16, 1941, p. 81-105;
81-105; e“G “Goethe
oethe’s
Botany”, Chronic nica Botanic
Botanica, vol
a, vol.. 10, n. 2, p. 63-
63-126.
126. Ver
Ver também o
texto
texto de H. Uitt
Uittiien, “Histoi
“Histoire re du problème de la feuill uille”, R
e”, Re ecueil des
travaux botani
tanique
ques néerlandai
rlandais, s, vol.
 vol. 36, n. 2, 1940, p. 460-472. Para
uma discussã
discussão mais moderna da questão, ver Axi  Axioms and Principles of 
 Pl
 Plant Construction. Proceedingsofa Symposiumhe umheldat theInternation
rnational
 Bo
 Botanical CoCongress, Sydney, Aus Australia, AuA ugust 1981,  R. Sa Sattler
ttler (org
(org.),
Dordrecht,
ordrecht, Spring
pringer, 1982; Neelim Neelima R. Sinha, “L “Lea
eaf De
Developm
velopment in in

EMANUELE C0CCIA  129


 An
 Angiosperms”, An A nnual Review Plant Physiology and Molecular Biology,
n. 50, 1999, p. 419419--446; e Hiroka
Hirokazu Tsukaya, “Comparative tive Leaf
Developm
lopment in in Angiospe
Angiosperms”, Current OpOpinion inin Pl
Plant Bi
Bioology , n.
17, 2014, p. 103-109. Para uma sínte
síntese sobre a biol
biolo
ogia da fol
folha
ha, ver
o belíssim
líssimo livro
livro de Steven Vogel, The Lifeife of a L eaf  Chicag
  Chicago, The
Universit
Universityy of Chica
Chicago Press, 2012.
3.  Ib
 Ibid., p. 31.

6. Tiktdãlilr rosede

1. A equipe era compostaposta por Edward B. Daeschler, Farish rish A.


 Je
 Jenkins e Neil H. Shubin. Ver Per Erik Ahlberg eJennifer A. Clack,
“Palaeontol
ontology:
ogy: A Firm
Firm Step from
fromWater to Land”,
Land”, Na
 Nature, 440.7085,
440.7085,
2006, p. 747-749
747-749; E.B. Daeschler, N.H.
N.H. Shubin e F.A. Jenkins,
Jenkins, “A
Devonian Tetrapod-li
pod-like
ke Fish
Fish and
and the Evolution of thethe Tetrapod
Body Plan”, Na Nature440.7085,
440.7085, 2006, p.p. 757-
757-763;
763; N.H.
N.H. Shubin,
Shubin, E.B.
Daeschler
schler e F.A. Jenkins,
Jenkins, “The Pectoral Fin of
of Tikt aalik roseaeand the
Tikta the
Origin of
of theTetra
etrapod Limb”,
Limb”, Na
 Nature440.7085,
440.7085,2006,
2006, p.764-
p.764-77
771;Neil
H. Shubin,
Shubin, YourInner FisFish: TheAm
eA mazingD
azingDiiscoveryofour375-
375-mmilli
llion-
 ye
 y Ancestor, London,
ear-oldAnc  London, Penguin Books, 2009.
2. Stanley L. Mil
Miller e Harold
rold Clayto Urey, “Org“Organic Compound
Synthesis
ynthesis on the Prim
Primitive
tive Earth”, Scie
ience,  vol. 130, n. 3370, 1959,
p. 245-
245-251.
251. A experiência
xperiência confi
onfirmou a tese abioge
abiogenética aventada por
Oparin e Hal
Haldane.
3. A ideia
deia da sopa primordi
primordialal aparece pela prime
primeira vez numa carta de
Darwin ao botânico
botânico Joseph
Joseph D.D. Hooke
Hooker de Io Io de fevereiro de 1871,
que fa
fala de um “pequeno lago quente”,
quente”, e reaparece nos escrito
scritos
s de
Oparin e deHaldane,
Haldane, que sereferema uma “sopaquente dil diluída”
uída” (hot
dil
dilutesoup) como prim
ute primeiro meio da vida
vida. Ver
VerJohn
ohn B.S
B.S. Haldane, “T“The
he
Origin of
of Life
Life”, Ra Annual, 148, 1929, p. 3-10;
 Rationalist Ann 3-10; e Aleksandr
I. Opa
Oparin, TheOrig Life, NewYork, Macmil
Origin ofLife Macmilllan Com
Company, 1938.
Sobre essa questão, ver Antoni
ntonio o La
Lazcano, “Histo
“Histori
rical
cal Deve
Development of of
Origins
rigins Research”, Cold Spring
SpringF Flarbor Pe
Perspective
tives in Biology, 2 (11):
in Bi

130  A VID A DAS PIA NTA S: UM A META FÍSICA DA MISTU RA 


a002089doi
doi: 10.1101/ cshperspect.a
ct.a002089; Iris
Iris Fry, TheEmergenceof 
 Lif
 Lifeon Earth: A HistoricalandScientificOverview, NewBrunswick, NJ
Rutgers Universi
Universitty Press, 2000.
4. E essaa autênti
têntica sig
signif
nificação fil
filosóf
osófica
ica do livro de René Quintouinton,
n,
 L Eau de mer en milieu organique. Constancedu edu milieu marin originei
commemilieu vit vital des cellule
ules, à trave
travers la
la série
rieanim
animale
ale, Paris, Masson
1904. Verp. V: “Este
“Estelivro vai estabelecersucessivassivamenteosdois oispontos
pontos
seguintes:
uintes: 1) A vi
vida anima
nimal, no estado de célula,
célula, apareceu nos mares.
2) Através da série
rie zool
zoológica, a vida anim
animal sempre tendeu a manter
as células
ulas que com
compõem
põem cada organism nismo num meio marinho rinho,, de sorte
que, salvo algumas exceções presentemente negligenciáveis,enciáveis, que, aliás,
parecem se referi
referirr a espécie
cies inf
inferio
eriores
res e degradadas, todo
todo orga
organism
nismo
anim
animal é umverdadeiro aquário rio marinho
marinho,, onde cont
contiinuam aviver,
viver, nas
condições
condições aquáticas das origorigens, as células queo const
constiituem.”
tuem.”

7 . Ao ar
ar livre:
livre: ontologia da
da atmosfe
atmosfera
ra

1. Sobre essa questão, a bibl bibliiografi


ografia é imensa. Ver
Ver Patrici
Patricia
a G. Gensel
e DiDianne Edwards (orgs.)(orgs.),,  Pl
 Plants Inv
Invade the LaLan nd —Evolutionary 
& Environm
nvironmental
ntal Perspective
tives, 
s,  New
New York, Col Columbia bia Unive
niversity
rsity
Press, 2001; M. Vec Vecoli
oli, G. Clém
Clément e B. Meyer-Berthau
yer-Berthaud (org (orgs.),
s.),
The Terrestriali
strializatio
ation Pro
Process: Modelling Complex Interactio tions at the
 Bi
 Biosphere-geosphere Interface, London,
 London, TheThe Geologica
ological Society,
ociety, 2010;
2010;
 Jo
 Joseph E. Armstrong, Ho  HowtheEarth TurnedGreen:A Brief3.8-Billion-
YearHistoryof Pl  Plants, Chicago, The Uni Universit
versity
y of
of Chica
Chicago Pre
Press, 20
201414..
 Ve
 Ver tambémos manuais de história evolutiva das plantas: entre outros,
Kathy
thy J. Willis,
Willis, TheEvolutio tion of Pla
Plants, Oxf
 Oxfordord, Oxf
Oxford
ord Univ
Unive ersity
rsity
Press, 2002, sobretudotudo os capítulos
pítulos II e III; eT.N.
.N. Taylor,
ylor, E.L. Taylor,
ylor,
M. Kring
Krings, P
s, Paaleobotany: The Biology and Evolution of of Fossil Plants,
Burling
rlington/ London/ San Die Diego/ New York, ork, Else
Elsevie
vier/Aca
r/ Academic PrePress,
2009. Entre
Entre os estudos mais recentes, ver J.A. Raven, “Com “Comparative tive
Physio
Physiolo log
gy of
of Pla
Plant and Arthropod Land Land adaptati
ptation”,
on”, P Phhilosophical
Transactiotionsof
ofthe
theRoyal Society ofLo London, B
n, B 309, 1985, p. 273-288;
273-288;
Paul Ken
Kenrick e Peter R. Crane,
Crane, “The Origin
rigin and
and Early
Early Evoluti
Evolution
on of
Pla
Plants on Land”, Na
 Nature, 389 (6646),
(6646), 1997, p. 33-39;
33-39; Martin
rtin Gibl
Gibliing
e Neil
Neil Davie
vies, “Paleozoi
“Paleozoicc Landscapes Shapes by Pla
Plants Evol
Evoluti
ution”
on”,,
 Na eGeosciences, 3, 2012,
 NatureGe 2012, p. 99-
99-105
105.
2. Com
Como escreveuKarl J. J. Nikl
Niklas,
as, a afirmação da
davidavegetal foi
foi mais uma
invasão do ar do que da terra. Ver sua obraobra magistral
gistral TheEvolutionary 
 Plants, Chica
 Biiologyof Pl
 B  Chicago, Univers
University ofof Chicago Press, 1997.
3. R.B.
R.B. MacNaug
cNaughton,
hton, J.-M. Cole,
Cole, R.W.
R.W. Dalrymple,
lrymple, S.J Braddy,
D.E.G
.E.G.. Briggs, T.D
T.D.. Lukie, “First
“First Stepson Land:
Land: Arthropod
ArthropodTrackways
in Cambria
brian-O
n-Ordovi
rdovician Eolian
Eolian Sandstone,
ndstone, Southeastern Onta
Ontario,
rio,
Canada”, Geolo logy, vol.
 vol. 30, 2002,
2002, p. 391-394.
4. Simon J. Braddy, “Eurypterid
“Eurypterid Palaeoecolog
oecology: Palaeobiol
obiologica
ogical,
Ichnologica
chnologicall and Comparative
tive Evide
Evidence
nce for a ‘Mass-moult
ss-moult--mate’
hypothesis”,  Pa
 Palaeogeography, Palaeoclimatology, Palaeoecology,  172,
2001, p. 115-132.
5. Sobre essaquestão,
stão, abibl
bibliiografiatambémé imensa. Ver as intui intuiçõ
ções
es
fundamentais de Preston ton E. ClCloud, “A “Atmospheric
tmospheric and Hydrospheric
Evolution
Evolution on the Primiti itive Earth”, Science, 160, 1972, p. 729-736;
729-736; ede
HeinrichD. D. Holl
Holland, “Early
“EarlyProterozoicAtmosphe
AtmosphericChange”,nge”,in
in E
 Ea
arly 
 Lifeon Earth, Stefa
 Lif tefan Bengston (org.)
(org.),, NewYork, Co Columbia Univers
Universiity
Press, 1994, p. 237-237-244;
244; Id.,
Id., “The Oxygenation tion of
of the Atmosphere
and Ocea
Oceans”, Ph Philosophical Transactions of theRoyal Society: Biological
Sciences, vol. 361
361,,200
2006,
6, p. 903-915
903-915; Id.Id.,, “Why theAtmospherebecame
Oxygenated: A Proposal
Proposal”, Geochim himica et Cosmochim Acta, 73, 2009,
himica Ac 2009,
p. 5241-
5241-525255.
55. O belílíssssimo
imo livro
livro de
de Donal
onald E. Canf
Canfield,
ield, Oxy
xygen. A
 Fo
 F our Billion YearHistory, Prince
 Princeton,
ton, Prince
Princeton
ton Univers
Universiity Pre
Press, 2014,
fornece uma orienta
orientação. Para umaexplicaexplicação do grande acontecime
contecimento
oxi
oxidativo
tivo a partir
rtir de causas geológica
ológicas, ver, entre outros,
outros, M. Wi Wille,
 J.
 J.D. Kr
Kramers, T.F. Na Nagler, N.N.J. BeBeukes, S. Schroder, T. Meisel, J.P.
Lacassie,
ssie, A.
A.R. Voeg
Voegeli
elin,
n, “Evi
“Evidedence
nce for a Gradual Rise of Oxyg Oxygen
between 2.62.6 and 2.52.5 Ga
Ga from Mo Isotopes and Re-PG Re-PGE E Signatures
in Shales”, Geochimhimica et Cosmochim Acta, 71, 2007,
himica Ac 2007, p. 2417-2435
2417-2435.

132
132  A VIDA DAS PLA NTAS : U MA METAFÍSIC A DA MISTUR A 
Paraumaexplixplicação biol
biológica
ógica, verentreoutros: T.
T.J. Algeo, R