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FICHA DE AVALIAÇÃO 6

GRUPO I
A. Lê o seguinte texto.
Este dia pareceu belo a Dâmaso como se fosse feito de azul e oiro. Mas melhor ainda foi a
manhã em que Carlos, um pouco incomodado e ainda deitado, o recebeu no quarto, como
entre rapazes… daí datava a sua intimidade: começou a tratar Carlos por você. Depois, nessa
semana, revelou aptidões úteis. Foi despachar à Alfândega (Vilaça achava-se no Alentejo) um
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caixote de roupa para Carlos. Tendo aparecido num momento em que Carlos copiava um
artigo para a Gazeta Medica ofereceu a sua boa letra, letra prodigiosa, de uma beleza
litográfica; e daí por diante passava horas à banca de Carlos, aplicado e vermelho, com a
ponta da língua de fora, o olho redondo, copiando apontamentos, transcrições de Revistas,
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materiais para o livro… Tanta dedicação merecia um tu de familiaridade. Carlos deu-lho.
Dâmaso, no entanto, imitava o Maia com uma minuciosidade inquieta, desde a barba que
começava agora a deixar crescer até à forma dos sapatos. Lançara-se no bric-à-brac. Trazia
sempre o coupé cheio de lixos arqueológicos, ferragens velhas, um bocado de tijolo, a asa
15 rachada de um bule… (…)
Nesta intimidade de rosas havia todavia para Dâmaso horas pesadas. Não era divertido
assistir em silêncio, do fundo duma poltrona, às infindáveis discussões de Carlos e de Craft
sobre arte e sobre ciência. E, como ele confessou depois, chegara a encavacar um pouco
20 quando o levaram ao laboratório para fazer no seu corpo experiências de eletricidade… –
“Pareciam dois demónios engalfinhados em mim, disse ele à Sr.ª condessa de Gouvarinho; e
eu então que embirro com o espiritismo!…”– Mas tudo isto ficava regiamente compensado,
quando à noite, num sofá do Grémio, ou ao chá numa casa amiga, ele podia dizer, correndo a
25 mão pelo cabelo: – Passei hoje um dia divino com o Maia. Fizemos armas, bric-à-brac,
discutimos… Um dia, chique! (…)
Dâmaso era interminável, torrencial, inundante a falar das «suas conquistas», naquela
sólida satisfação em que vivia de que todas as mulheres, desgraçadas delas, sofriam a
fascinação da sua pessoa e da sua toilette. (…) Conhecia-se também a sua ligação com a
viscondessa da Gafanha, uma carcaça esgalgada, caiada, rebocada, gasta por todos os
homens válidos do país: ia nos cinquenta anos, quando chegou a vez do Dâmaso (…) [até]
que a decrépita criatura, farta, enojada já, teve de o enxotar à força e com desfeitas. Depois
gozou uma tragédia: uma atriz do Príncipe Real, uma montanha de carne, apaixonada por
ele, numa noite de ciúme e de genebra, engoliu uma caixa de fósforos; naturalmente daí a
horas estava boa, tendo vomitado abominavelmente sobre o colete do Dâmaso que chorava
ao lado – mas desde então este homem de amor julgou-se fatal! (…)
Eça de Queirós, Os Maias, Porto: Porto Editora (cap. VII), 2014, pp. 190-191.

Educação Literária
1. Partindo do excerto, traça um retrato de Dâmaso Salcede.
2. O narrador não esconde a sua antipatia pela figura de Dâmaso. Indica os recursos expressivos utilizados
para o efeito.
3. Atenta no excerto selecionado, indica a modalidade de discurso presente, explicita as suas marcas
específicas e o seu valor expressivo: “E, como ele confessou depois, chegara a encavacar um pouco quando o
levaram ao laboratório para fazer no seu corpo experiências de eletricidade…” (ll. 16-17).
4. Relaciona a vida de Dâmaso com a do Portugal da Regeneração.
B. Lê o seguinte texto.
Entra logo Inês Pereira, e finge que está lavrando Vem a Mãe e diz:
só, em casa, e canta esta cantiga: Mãe Logo eu adivinhei
lá na missa onde eu estava
Canta Inês como a minha Inês lavrava
Quien con veros pena y muere 45 a tarefa que lhe dei.
Que hará quando no os viere?1 Acaba esse travesseiro.
E nasceu-te algum unheiro
(Falando) ou cuidas que é dia santo?
5 Inês Renego deste lavrar Inês Praza a Deos que algum quebranto7
E do primeiro que o usou 50 me tire do cativeiro.
‘o diabo que o eu dou, Mãe Toda tu estás aquela.
que tão mao é d'aturar. Choram-te os filhos por pão?
Oh Jesu! que enfadamento Inês Prouvesse a Deus que já é rezão
10 e que raiva e que tormento de eu não estar tão singela.
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que cegueira e que canseira. Mãe Olhade ali o mau pesar8
Eu hei de buscar maneira como queres tu casar
d'algum outro aviamento.2 com fama de preguiçosa?
Inês Mas eu, mãe, sam aguçosa9
Coitada, assi hei d’ estar e vós dais-vos de vagar.
15 encerrada nesta casa 60
como panela sem asa, Mãe Ora espera assi, vejamos.
que sempre está num lugar. Inês Quem já visse esse prazer!
E assi hão de ser logrados3 Mãe Cal-te, que poderá ser
dous dias amargurados, que ante a páscoa vem os ramos.
20 que eu possa durar viva 65 Não t’ apresses tu, Inês.
e assi hei d’ estar cativa maior é o ano que o mês
em poder de desfiados.4 Quando te não precatares,
virão maridos a pares
Comendo-me eu logo ó demo e filhos de três em três.
s’eu mais lavro nem pontada
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25 Já tenho a vida cansada Inês Quero-m'ora alevantar.
de jazer sempre dum cabo.5 Folgo mais de falar nisso,
Todas folgam, e eu não assi me dê Deos o paraíso
todas vem e todas vão mil vezes que não lavrar.
onde querem, senão eu. 75 Isto não sei que o faz
30 Hui! e que pecado é o meu Mãe Aqui vem Lianor Vaz.
ou que dor de coração? Inês E ela vem-se benzendo.

Esta vida mais que morta.


sam eu coruja ou corujo, Gil Vicente, Farsa de Inês Pereira
ou sam algum caramujo 1
quem com ver-vos pena e morre, que fará quando vos não vir?
2
35 ocupação
que não sai senão à porta? 3
aproveitados
E quando me dão algum dia 4
travesseiros de franjas
licença, como a bugia,6 5

6
de estar sempre no mesmo sítio
macaca
que possa estar à janela, 7
feitiço
é já mais que a Madanela 8
que desgraça
40
quando achou a aleluia. 9
ativa

5. Identifica o estado de espírito inicial de Inês, indicando os motivos do mesmo.


6. Explicita as causas da tensão entre mãe e filha.
Grupo II

Uma volta pelo Delta do Nilo


Há, a partir de Alexandria, uma excursão imprescindível. O nosso Eça fê-la, há mais de uma
centena de anos, por ocasião da sua visita ao Egito, estava-se por esses dias a postos para a
inauguração do Canal do Suez.
Se chegarmos a Alexandria pela via ferroviária, partindo do Cairo, ou se nos dirigirmos a Port
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Said, na saída mediterrânica do Canal do Suez, ficamos já com uma ideia dos panoramas da
região: campos de arroz orlados por filas e filas de palmeiras, casario modesto – se não casebres
– e canais por toda a parte. Eça começou por ver o Delta assim e a descrição desse espaço que é
celeiro, pomar e horta do povo egípcio adquiriu na sua pena, por vezes, traços algo idílicos:
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“Vemos até ao largo horizonte os descampados frescos, cheios ainda do Nilo. A paisagem é uma
grande planície verde, marejada de água. Não há paisagem mais serena, tão humana, tão
docemente fecunda.”1
Havia, claro, outras realidades além dessa que a distância do narrador retratava – ou
15 engendrava. Para se estar mais próximo delas – não necessariamente para as conhecer
cabalmente, já que o tempo da viagem se tornou nos dias que correm aragem cada vez mais
passageira –, tem o viajante de dispor-se a mergulhar um pouco no tempo egípcio, nesse torpor de
relógio sábio que o cairota Albert Cossery tão admiravelmente descreveu nos seus romances
20 mordazes.
Pode começar-se por apanhar um transporte público na Praça Saad Zaghoul, no centro de
Alexandria. O miniautocarro ziguezagueará entre o trânsito da marginal até Mammoura e aí se fará
o transbordo para outra carripana, que continuará até Rachid, nas margens do braço ocidental do
25 Nilo.
Rachid, ou Roseta, é também nome de pedra, pedra arrancada à muralha de uma fortaleza
vizinha do Nilo, cujos caracteres decifrados permitiram descobrir os segredos da escrita
hieroglífica. É uma pequena urbe calmíssima, (quase) sem outra gente que camponeses e
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comerciantes simples, imersos nos seus afazeres, mas com sorrisos e saudações (sempre em
árabe, que poucas ou nenhumas falas há por ali noutras línguas) de boas-vindas aos
escassíssimos viajantes que por lá põem os pés.
A pé, justamente, será como o forasteiro melhor desencantará cenas da vida rural no Delta, ali
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mesmo, nas imediações de Roseta e ao longo do Nilo. Não enxergará, porventura, as mesmas
cenas que Eça presenciou, mas a existência dura dos camponeses curvados ao sol na faina da
ceifa desenrolar-se-á diante dos seus olhos em cores mais vivas do que as produzidas pela mais
rebuscada tecnologia digital.
Dramas humanos à parte, segue o viajante para a visita turística, completada com uma
passagem pelo bem provido mercado e com a visita minuciosa do melhor património de Roseta, as
notáveis casas otomanas restauradas e transformadas, algumas, em museus que contam histórias
do tempo em que o comércio fez medrar a burguesia local. No regresso a Alexandria,
atravessando os campos verdes do Delta, os olhos retêm os sinais que ajudarão mais tarde a
achar sentidos nas linhas que Eça dedicou ao Delta: “Tudo largo, liso, imenso e coberto de luz
(…). Aquelas longas linhas, aquela transparência de cores, a serenidade daqueles horizontes, tudo
faz pensar num mundo que se desprendeu das contradições da vida, e entrou, se fixou, na
imortalidade.”1
Humberto Lopes, Público, Suplemento “Fugas”, 13 de outubro de 2012, p. 3 (adaptado).

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Citações do livro O Egito: Notas de Viagem, de Eça de Queirós.
Leitura / Gramática
1. Para responderes a cada um dos itens de 1.1. a 1.5., seleciona a única opção que permite obter uma
afirmação correta.
1.1. De acordo com a perspetiva expressa pelo autor nos três primeiros parágrafos do texto, a descrição que Eça
fez do Delta do Nilo
A. exclui um olhar subjetivo sobre a paisagem.
B. omite a intervenção humana na paisagem.
C. cruza a paisagem real com a paisagem imaginada.
D. enfatiza os aspetos mais sombrios da paisagem.
1.2. O uso do futuro do indicativo nos quarto e sexto parágrafos tem o valor de
A. possibilidade. C. obrigação.
B. improbabilidade. D. permissão.
1.3. Da leitura do último parágrafo, conclui-se que a viagem de regresso a Alexandria permitirá ao viajante
A. questionar o ponto de vista de Eça.
B. identificar-se com a descrição de Eça.
C. criar uma opinião diferente da de Eça.
D. admirar a beleza da prosa de Eça.
1.4. Alexandria e Cairo estabelecem com Egito uma relação de
A. todo-parte. C. hiponímia-hiperonímia.
B. meronímia-holonímia. D. semelhança-oposição.
1.5. Em “No regresso a Alexandria, (…) os olhos retêm os sinais que ajudarão mais tarde a achar sentidos nas
linhas que Eça dedicou ao Delta” (ll. 36-38) estão presentes
A. três orações: subordinante, subordinada substantiva completiva, subordinada adjetiva relativa restritiva.
B. três orações: subordinante, subordinada substantiva completiva, subordinada adjetiva relativa
explicativa.
C. três orações: subordinante, subordinada adjetiva relativa restritiva, subordinada substantiva completiva.
D. três orações: subordinante, subordinada adjetiva relativa restritiva, subordinada adjetiva relativa
restritiva.
2. Responde de forma correta aos itens apresentados.
2.1. Transcreve a oração subordinada adjetiva relativa presente no excerto “(…) mas com sorrisos e saudações
(sempre em árabe, que poucas ou nenhumas falas há por ali noutras línguas) de boas-vindas aos escassíssimos
viajantes que por lá põem os pés.” (ll. 25-27).
2.2. Indica a função sintática desempenhada pela expressão “o viajante” (l. 33).
2.3. Identifica o antecedente do pronome indefinido “algumas” (l. 35).

Grupo III
Os espaços, reais ou imaginados, podem ser vividos como locais de refúgio, de liberdade ou
opressão, de felicidade ou de angústia…

Num texto bem estruturado, com um mínimo de 180 e um máximo de 210 palavras, apresenta uma
reflexão pessoal sobre a relação do ser humano com determinados espaços.
Para fundamentares o teu ponto de vista, recorre a dois argumentos, ilustrando cada um deles com um
exemplo concreto e significativo.

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