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O objeto do processo penal será a verificação de ocorrência ou não dos

pressupostos alegados pela acusação e que, verificando-se, levarão ao exercício


do poder punitivo do Estado, através dos tribunais (caso não se verifiquem, o
tribunal declarará que não há lugar ao exercício do poder punitivo).
A função do processo penal prende-se com a decisão sobre a existência, ou não,
de um crime e, em caso afirmativo, com a aplicação das respetivas consequências
jurídicas. Por isso, cabe-lhe a fase que se segue à notícia do crime até à respetiva
decisão tomada no âmbito do processo, compreendendo as fases de inquérito,
instrução e julgamento, a fase da execução da sentença e a fase dos recursos o
objeto do processo será a verificação de ocorrência ou não dos pressupostos
alegados pela acusação e que, verificando-se, levarão ao exercício do poder
punitivo do Estado, através dos tribunais (caso não se verifiquem, o tribunal
declarará que não há lugar ao exercício do poder punitivo).
O fim do processo penal será a aplicação da lei penal aos casos concretos, que
nenhum responsável passe sem punição nem nenhum inocente seja condenado.
Deste modo, conclui-se que a finalidade atribuída ao processo penal é a da
realização da justiça, que passa pelo apuramento da verdade dos factos alegados
e o restabelecimento da paz jurídica.
E com a verdade, o que se quer dizer é que o tribunal tem a certeza jurídica de
que os factos alegados ocorreram e que, por isso, tem legitimidade para poder a
aplicar a sanção se corresponde aos factos provados determinadas pela lei penal.

O modelo acusatório, vertido no 32º 5 CRP, é o reflexo de um Estado de Direito


Democrático, que repugna medidas autocráticas que atentem contra os direitos
fundamentais das pessoas. Daí que os princípios fundamentais pelos quais se rege
e que são inerentes à estrutura processual sejam:

Princípio da Jurisdição - ao abrigo dos 29º, 202º, 203º e 211º CRP, é reservada
aos tribunais judiciais a competência para reprimir a violação da legalidade
democrática e a aplicação coerciva da lei criminal.
O direito processual penal visa, pois, tutelar os direitos, liberdades e garantias e
desempenha três funções: a jurídica - enquanto instrumento para realização do
direito; política - como garantia do arguido; social - deve contribuir para paz
social.

Princípio do Processo Justo – as partes devem situar-se numa posição de


igualdade no decurso do processo, e que lhes sejam concedidas as mesmas
garantias de defesa – nomeadamente, através do contraditório -, para que dessa
forma se consiga alcançar uma decisão justa.
Segundo a jurisprudência norte-americana, um processo justo é assegurado pelo
respeito a três exigências: adequate notice – o acusado deve ser devidamente
informado acerca da natureza e dos motivos da acusação, para que dela se possa
defender; fair hearing – um procedimento leal, sem influências externas na
formulação do juízo; juiz imparcial – o juiz deve ser imparcial, concedendo a
ambas as partes o mesmo tratamento.
No nosso ordenamento jurídico, o 32º CRP é fundamental para a prossecução
deste princípio, estabelecendo todas as garantias de defesa ao arguido.
Finalmente, importa referir que este princípio não deve ser colocado numa
posição paralela aos demais. Deve antes, ter-se como um imperativo que irá ser
garantido pela concretização de todos os outros princípios; sendo necessária a
intervenção de todos os outros para que se consiga garantir um “processo justo”e
alcançar a justiça no âmbito do processo penal.

Princípio do Juíz Legal - conforme resulta dos 209º 4/ e 213º CRP, uma vez
assegurada a jurisdição em matéria criminal dos tribunais judiciais, importa
garantia a imparcialidade dos juízes. Ora, nesse sentido, só a lei institui poder na
figura do juiz, e tal garantia de imparcialidade face ao objecto do processo é dada
pela fixação antecipada do juiz e da sua competência, por meio de critérios
objetivos.

Princípio da Separação de Valores - o poder jurisdicional deve distanciar-se dos


poderes executivo e legislativo, encontrando-se o seu poder limitado e
subordinado ao Direito, não devendo ceder a pressões de terceiros.

Princípio da Separação de Poderes - o que se pretende é evitar que o acusador –


pessoa portadora e preconceitos face ao arguido -, julgue. Procura-se a isenção e
a imparcialidade de quem julga e impõe-se que o objeto do processo seja idêntico
nas diversas fases processuais. O arguido será julgado pelos factos de que foi
acusado, sendo condenado ou absolvido em função destes.

Princípio da Presunção de Inocência (in dubio pro reo) - encontra-se consagrado


no 32º 2/ CRP, pelo qual presume-se que o arguido será inocente até que seja
condenado por uma sentença transitada em julgado; tendo ainda princípio
consequências na estrutura processual, na medida em que esta presunção torna
excepcional e subsidiária a aplicação de medidas cautelares e privativas da
liberdade ao arguido, conforme decorre do 18º 2/ CRP.

Princípio da Igualdade de Armas - o Ministério Público e o arguido encontram-se


numa mesma posição processual, sendo o processo, em todas as suas fases, à
partida, público.

Princípio do Caso Julgado Material (ne bis in idem) - é que o arguido, uma vez
condenado, não volta a ser julgado pelo mesmo facto, por força do 29º 5/ CRP. Ou
seja, tudo o que poderia ter sido decidido em processo anterior não pode ser
repetido.

Princípio da Investigação: é este princípio que não permite a plenitude do


modelo acusatório, pois apesar de existir uma separação entre quem acusa e
quem julga, temos que o tribunal de julgamento não é um mero árbitro de um
litígio entre as partes, tendo poderes de indagação; o tribunal não está numa
posição passiva a assistir a um litígio entre a acusação e a defesa, tendo
competências e poderes próprios de indagação por forma a apurar a verdade
material dentro daquilo que é apresentado pela acusação.

Princípio da Oficialidade – significa que a iniciativa e a prossecução processuais pertencem ao


Estado. No entanto, este princípio tem limites: quando o procedimento criminal dependa de queixa
é necessário que o titular do direito de queixa a apresente ao Ministério Público para que este
promova a abertura do processo conforme os 49º e 50º CPP.

Princípio da Legalidade – o Ministério Público deverá proceder à abertura do processo, sempre


que se verifiquem os pressupostos jurídico-factuais da incriminação e processuais da ação penal,
conforme os 262º 2/ e 283º CPP).
Isto não quer dizer que a abertura do processo esteja sujeita à discricionariedade do
Ministério Público. Após a notícia do crime, o Ministério Público deverá investigar os
indícios, averiguando se se verificam, efetivamente, os pressupostos da ação penal.
Posteriormente, fará juízos – por forma a apurar se os factos se subsumem na previsão de uma
qualquer norma.
Verificados os pressupostos, o Ministério Público não poderá deixar de proceder à abertura do
processo, sob pena de ilegalidade, o que pode mesmo constituir um crime nos termos do 369º CP.

O nosso modelo é um de estrutura acusatória, complementado pelo Princípio da Investigação15.


Em primeiro lugar, o nosso Código de Processo Penal faz depender a sujeição de alguém a
julgamento de uma acusação – acusação é condição processual. O objeto do processo é definido
pela acusação; este deverá manter-se idêntico em todas as fases processuais, conforme o
preceituado pelos 379º e 309º CPP.
Em segundo lugar, afasta a ideia de que, entre nós, vigora um modelo acusatório puro. Na verdade, a
igualdade de armas entre acusação e defesa só se verifica nas fases de instrução e de julgamento. O
inquérito é dominado pelo Ministério Público, pelo que esta fase tem uma natureza
predominantemente inquisitória (fase do inquérito) – artigos 267º; 86º, nº2 e nº3; 276º CPP.
Ao longo do processo, outras são as manifestações que limitam o acusatório: na fase de instrução
domina o princípio do inquisitório (artigo 289º, nº2 CPP) e, na fase de julgamento, o próprio
acusatório encontra-se temperado pelo princípio da investigação judicial (artigo 340º CPP). No
entanto, não se pense que estamos perante um inquisitório ilimitado (v.g., o que resulta do artigo
126º CPP).

COMPETÊNCIA DOS TRIBUNAIS

Quanto à hierarquia:

O código trata das competências material e formal nos arts. 10º a 18º, ainda que
não as trate como um só.
A competência funcional delimita a jurisdição dos diferentes tribunais
materialmente competentes dentro do mesmo processo e segundo as fases ou
graus e para a prática de determinados atos dentro de cada fase ou grau de
jurisdição. A competência funcional abarca a competência em razão da hierarquia
conforme o 137º LOSJº, ou seja, a regra é a de que os Tribunais que julgam são os
de 1ª Instância, exceptuando-se as hipóteses previstas nos 12º 2/3/ e 12º 2/3/.

A competência material delimita a jurisdição penal em função da gravidade da


pena aplicável, da natureza dos crimes ou da qualidade dos arguidos. Quando a
tarefa seja a de se determinar a competência em 1ª Instância, devemos atentar a
dois critérios: um quantitativo, que atente à gravidade da pena aplicável ao crime
e encontra consagração nos 14º 2/ b) e 16º 2/ b); e outro qualitativo, que, por sua
vez, atende à espécie do crime ou à natureza de algum dos seus elementos que o
integram e encontra consagração nos 14º 1/,2/ a) e 16º 2/ a) CPP.
Abstractamente, e segundo as normas que consagram o critério quantitativo,
serão competentes para os crimes em que não se deva aplicar uma pena máxima
superior a cinco anos – os tribunais singulares (16º 2/ b)); para os crimes em que
se deva aplicar uma pena máxima superior a cinco anos – os tribunais coletivos
(14º 2/ b)); e para os crimes em que se deva aplicar uma pena máxima superior a
oito anos – o tribunal de júri (13º 2/). Portanto, o critério é o da pena máxima
abstractamente aplicável.
Relativamente ao critério qualitativo, vem o 14º 1/,2/ a) estabelecer um conjunto
de crimes que, independentemente da pena máxima
abstratamente aplicável, devem ser julgados pelo tribunal coletivo: o 1/ refere-se,
nomeadamente, aos crimes compreendidos entre os 240º a 246º CP e os 308º a
346º CP; o 2/ a) refere-se aos crimes que, não devendo ser julgados pelo tribunal
singular nos termos do 16º,
2/ a), sejam dolosos (donde, de fora do escopo desta previsão normativa estão os
negligentes) ou agravados pelo resultado e desde que o elemento morte integre o
tipo; e, o 16º 2/ a) estabelece os crimes que, devem ser julgados pelo tribunal
singular os crimes compreendidos entre os 347º a 358º CP.
O 13º 1/ estabelece que o tribunal de júri é competente para conhecer e julgar
um determinado crime a que se refer o 14º 1/ mas que só funciona mediante
requerimento do Ministério Público, do assistente ou do arguido, ainda que seja
material e funcionalmente competente para conhecer e julgar um determinado
crime.

Dito isto, temos que o critério quantitativo sucumbe perante o critério qualitativo.
Vale por isso dizer que, atendendo à natureza especial do critério qualitativo, este
prevalecerá (quando, eventualmente exista um qualquer conflito de competência)
sobre o critério quantitativo. Na verdade, parece-nos que o legislador não se
bastou com a atribuição da competência em função de um critério quantitativo
(atento apenas à gravidade da pena abstratamente aplicável), entendendo que,
em razão dos elementos qualificativos de alguns tipos, a competência para o seu
julgamento e conhecimento deveria ser atribuída através de um critério
qualitativo, que atendesse a tais circunstâncias qualificativas.
Quanto à prerrogativa do artigo 16º 3/ CPP, o Ministério Público só poderá
socorrer-se
dela, atribuindo competência ao tribunal singular se, quanto aos crimes previstos
no artigo 14º 2/ b), entender que quanto a estes, concretamente, não será
aplicável uma pena superior a cinco anos (ainda que abstratamente lhes
corresponda uma pena máxima superior a cinco anos). E, por isso, uma vez
exercida esta possibilidade, o tribunal singular não poderá aplicar uma pena
superior a essa por força do 4/ do mesmo artigo.

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